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FELICIDADE

UM TRABALHO
INTERIOR

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CONTEÚDO

MINHA HIPÓTESE

A felicidade é uma condição natural.

PRÁTICA 1

Precisamos nos aceitar como somos.

PRÁTICA 2

Precisamos assumir total responsabilidade por nossa vida.

PRÁTICA 3

Precisamos satisfazer nossas necessidades de relaxamento, exercício e nutrição.

PRÁTICA 4

Precisamos fazer de nossa vida um ato de amor.

PRÁTICA 5

Precisamos nos expandir, saindo de nossas zonas de conforto.

PRÁTICA 6

Precisamos aprender a ser bons descobridores.

PRÁTICA 7

Precisamos buscar o crescimento, não a perfeição.

PRÁTICA 8

Precisamos aprender a nos comunicar de maneira efetiva.

PRÁTICA 9

Precisamos aprender a desfrutar as boas coisas da vida.

PRÁTICA 10

Precisamos incluir a oração no nosso dia-a-dia.

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MINHA HIPÓTESE

A Felicidade é uma condição natural.


1. Gostaria de começar com uma hipótese que você vai querer examinar com cuidado. Pode ser que
você discorde. De qualquer modo, estou considerando nessas páginas que a condição natural do ser
humano é ser feliz. Tenho a certeza de que todos nós fomos criados por Deus para sermos felizes,
nesse mundo e também no outro, eternamente. A lógica, para mim, é a seguinte: se uma pessoa está
sempre infeliz, alguma coisa está errada. Alguma coisa está faltando. Com certeza, não é sua culpa
ou sua escolha. Ainda assim, continuo pensando que alguma coisa está faltando. Vou lhe pedir que
seja paciente comigo enquanto tento explicar minha hipótese nas páginas seguintes.

O desejo Inato - Uma história de frustração.

2. Acredito que todos nós sentimos um desejo persistente e inato de sermos felizes. No entanto,
infelizmente fomos frustrados nesse desejo algumas vezes. Nossos sonhos de felicidade não se
concretizaram.

3. Como eu, você deve se lembrar das ocasiões em que criou expectativas apenas para vê-las dar
em nada. Quando criança, por exemplo, sonhamos com uma bicicleta nos esperando na árvore de
Natal e imaginamos que a vida seria para sempre maravilhosa depois disso. Até que numa manhã de
Natal, lá estava a bicicleta, nova e reluzente, ao pé da árvore. Ficamos em êxtase. Mas com o passar
dos dias, a pintura começou a descascar, o guidom entortou e o eixo começou a ranger. O sonho
acabou morrendo, lentamente, quase sem dor. Mas, então, já tínhamos começado a sonhar outros
sonhos. Um a um, todos pareciam ter a duração de um meteoro e depois morriam. Nossa esperança
de alcançar uma felicidade duradoura acabou se perdendo ao longo do caminho.

Expectativa e felicidade

4. É lógico que as expectativas têm muito a ver com nossa felicidade. Esta é uma das lições de vida
mais difíceis, de se aprender. Na medida em que, esperamos que nossa felicidade, venha de coisas
externas ou de outras pessoas, nossos sonhos estarão condenados à morte. A verdadeira fórmula é
esta: F = TI. A felicidade é um trabalho interior.

5. Muitos de nós somos românticos incuráveis. E, o que é uma pena, a esperança romântica não
morre facilmente. Continuamos sonhando nossos sonhos irreais. Mitificamos a realidade com
expectativas coloridas. Construímos castelos no ar. É como se a vida e a felicidade fossem o
segredo de um cofre.

6. Quando descobrimos a combinação correta, tudo está resolvido. Mas a frustração estará sempre
presente enquanto colocarmos nossa felicidade nas coisas externas e nas mãos de outras pessoas.

7. Há alguns anos, um advogado especialista em divórcios afirmou que a maioria das separações se
deve a expectativas românticas. João imagina que estar casado com Maria vai ser o paraíso na terra.
Ele a chama de “querida”, “meu amor'”, e canta-lhe canções de amor. Ela é a mulher de seus
sonhos. Mas logo que os sinos do casamento param de tocar, surge à verdade: ela tem um gênio
difícil, aumento de peso, deixa a comida queimar, põe rolinhos no cabelo, às vezes tem mau hálito e
odores desagradáveis no corpo. João começa a se perguntar, silenciosamente, como é que entrou
numa situação como esta. Também começa a pensar que Maria o enganou. Ele investiu toda a sua
felicidade nesse relacionamento e aparentemente perdeu.
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8. Por outro lado, antes do casamento, o coração de Maria bate mais forte toda vez que pensa em
João. Vai ser tão maravilhoso estar casada com ele! Mais tarde, serão três no paraíso: João, ela e o
filho que virá. Então começam as cinzas dos cigarros, o vício nos programas esportivos da TV, as
roupas jogadas pela casa, o dentifrício sem tampa, a maçaneta que ele prometeu consertar e ainda
está quebrada – pequenas, mas dolorosas negligências. Como na história, seu príncipe encantado
transforma-se em sapo. Maria chora muito e procura um terapeuta de casais. João a seduziu,
prometendo-lhe um mar de rosas, mas depois do casamento, ela vive um verdadeiro inferno.

9. Cinquenta por cento dos casamentos termina em divórcio. Sessenta e cinco por cento dos
segundos casamentos termina da mesma maneira traumática. Há sempre desilusão quando
esperamos que nossa felicidade, venha de alguém ou de alguma coisa. Essas expectativas são como
um piquenique que termina em chuva. Não existe um paraíso, nem uma pessoa, perfeita para nós.
No início do dia, as expectativas nos parecem deslumbrantes, mas são logo engolidas pela escuridão
e decepção da noite. Nosso erro começa quando esperamos que outras pessoas e coisas externas,
assumam a responsabilidade por nossa felicidade. Uma vez, vi uma charge em que uma mulher
enorme, ao lado de um marido minúsculo, exigia: “Faça-me feliz!”. Era uma caricatura, feita para
provocar o riso. Era uma distorção da realidade, e por isso, engraçada. Na verdade, ninguém pode
nos fazer felizes ou infelizes.

A triste estatística

10. Suponho que todos nós sejamos capazes de adquirir o “hábito da felicidade”. Certa vez, o
filósofo Thoreau disse que a maioria das pessoas “leva uma vida de silencioso desespero”, tendo
desistido de alcançar uma felicidade verdadeira e duradoura. As evidências em nossos dias são tão
assustadoras, que Thoreau parece estar certo. A cada dia, aumenta o número de divórcios, os casos
de abuso de crianças e de cônjuges, a dependência do álcool e das drogas. Há uma explosão de
gravidez na adolescência. As gangues invadem nossas ruas. A polícia patrulha os corredores dos
colégios. As prisões se multiplicam. As nuvens de um conflito mundial pairam no horizonte. Muitas
pessoas acham que isto explica nossa infelicidade crônica.

11. Até o ar que respiramos está poluído. A chuva que molha nossos frutos é “chuva ácida”. Os
alimentos que ingerimos contêm muitos agentes cancerígenos. Há o pesadelo da AIDS, que promete
fazer milhões de vítimas nos próximos anos. Num panorama como este, é difícil escapar-se da
depressão. Em outras palavras, se você não se sente mal com tudo isso, é porque não deve estar
atento ao que se passa à sua volta. Ou, como disse Walter Oronkite certa vez: “Se você acha que as
coisas vão bem, é melhor mandar consertar sua televisão”.

12. Não é de se admirar que a Organização Mundial de Saúde tenha apontado a depressão como a
doença mais comum no mundo. Um terço, dos americanos acorda deprimidos todos os dias.
Profissionais estimam que apenas dez a quinze por cento dos americanos se consideram felizes. O
maior índice de suicídio entre profissionais está no grupo dos psiquiatras. Aparentemente, nem
mesmo a Psiquiatria oferece a combinação certa para o segredo do cofre.

13. Como consequência, há muita descrença sobre a felicidade. Como a busca nessa direção tem
sido muito mal sucedida para a maioria de nós, muitos desistiram, partindo para as drogas, comendo
demais, bebendo demais e tentando parecer felizes. “Você luta pela vida”, disse alguém, “e depois
morre”. Para muitas pessoas, a promessa da verdadeira felicidade é apenas uma mentira cruel. E
como o pote de ouro no fim do arco-íris que as faz correr cada vez mais rápido, cada vez com mais
esforço - sem nenhum resultado.

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A felicidade anunciada

14. Mesmo com toda essa desilusão que experimentamos buscando coisas fora de nós, nunca
olhamos para dentro na tentativa de encontrar o que estamos buscando. Talvez Dag Hammarskjöld
esteja certo quando diz que somos muito capazes de explorar o espaço exterior, mas muito
incapazes de explorar o espaço interior. Talvez tenhamos sido levados para o caminho errado pela
onda de propaganda que nos rodeia. Alguns nos garantem que seremos felizes se usarmos este ou
aquele produto. Vamos ter uma boa aparência, um perfume agradável, um bom desempenho.
Vamos seguir confiantes, felizes e relaxados pelos caminhos da vida. Essas mensagens publicitárias
querem fazer-nos acreditar que a felicidade é simplesmente a multiplicação de prazeres.

15. Assim, fazemos dívidas e consumimos todos os artigos que possam trazer a felicidade, mas
continuamos “a levar uma vida de silencioso desespero”. Não conseguimos alcançar a felicidade
prometida pela propaganda. Há uma história sobre a moça que vendia perfumes numa loja. No
balcão havia um grande cartaz: “ESSE PERFUME LHE DÁ A GARANTIA DE ARRANJAR UM
HOMEM!”. Uma velha solteirona aproximou-se do balcão e delicadamente perguntou à vendedora:
“Este perfume dá mesmo a garantia de se arranjar um homem?” Respondeu a vendedora: “Se fosse
realmente garantido, você acha que eu estaria aqui de pé, atrás desse balcão oito horas por dia,
vendendo perfume?”.

16. Será que o problema é querermos “dar um passo maior que as pernas” em matéria de
felicidade? Será apenas um caso de expectativas irreais? Não creio que essa questão seja assim tão
simples. Acredito que estamos buscando a felicidade nos lugares errados. Colocamos nossas
esperanças em coisas e pessoas que simplesmente não podem realizá-las. Como um lembrete para
mim, coloquei este cartaz no espelho do meu banheiro: “Você está vendo a pessoa que é
responsável pela sua felicidade”. A cada dia, acredito mais e mais, nessa afirmação.

As fitas gravadas dos pais

17. Uma das razões pelas quais a maioria das pessoas confunde as fontes da felicidade são as
chamadas fitas gravadas dos pais. Estas são as mensagens daqueles que mais nos influenciaram
durante a nossa infância. Chegamos à este mundo cheios de perguntas, e as respostas que
recebemos, desde muito cedo, ficam gravadas em nossa memória. Essas fitas tocam dentro de nós o
dia inteiro e a noite toda, mesmo quando dormimos.

18. Uma das perguntas que mais nos fazemos é: “O que vai me fazer feliz?” A maioria das
respostas que recebemos quando crianças não foram transmitidas a nível verbal, mas a nível não-
verbal: Aprendemos mais através do que vemos, não do que escutamos. Se, observamos nossos pais
se preocupando, aprendemos a nos preocupar. Se os escutamos brigando por causa de dinheiro,
aprendemos que este é essencial à felicidade.

19. Se, percebemos por suas palavras, por sua linguagem corporal e expressão facial uma super
dependência das outras pessoas, concluímos que estas podem nos fazer felizes. Se, ouvimos
acusações do tipo “você me deixa louco!”, concluímos que os outros podem também nos deixar
loucos. Aparentemente, eles podem nos fazer, felizes ou infelizes, tristes ou alegres seguros ou
inseguros. Ou talvez tenhamos assimilado o velho ditado: “Se você tem saúde, tem tudo”. Houve
um tempo em que eu me julgava um pensador independente. Mas, à medida que envelheço, percebo
o quanto essas fitas gravadas de meus pais fazem parte de mim e de minha vida. Tenho que estar
sempre, revendo-as e reformulando-as.

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As armadilhas da competição e da comparação

20. Uma das fitas que mais toca dentro de nós é a da comparação. Desde o momento em que fomos
apresentados ao público, começamos a ser comparados. “Ele se parece com o pai”. “Ela é
igualzinha à mãe”. Os pontos mais comuns de comparação são estes:

Aparência
Inteligência
Comportamento e
Realizações.

21. Naturalmente, há sempre alguém mais bonito, mais esperto, mais bem comportado e mais
eficiente do que nós. Nossos pais ou professores não deixam de mencioná-los. “Por que você não
pode ser como ele?”. “Por que você não se sai tão bem quanto seu irmão?” “Se pentear o cabelo
para baixo, as pessoas não vão perceber sua testa grande. Ficará mais apresentável”. Assim, fomos
ensinados a nos comparar com os outros. E quanto a isto, todos os profissionais concordam: a
comparação é a morte da verdadeira autoestima.

22. A armadilha da competição é um pouco diferente. Tanto dentro como fora da escola, as pessoas
são instigadas contra os outros. Competimos por notas, por sobressair nos esportes, por
popularidade, por participar dos grupos que “estão na onda”. Infelizmente, os resultados dessas
lutas e competições precoces deixam cicatrizes duradouras em muitos de nós. Ainda assim,
continuamos competindo pela vida afora. Mais tarde, apenas os símbolos de status são trocados.
Ainda ficamos deslumbrados com a visão e os sons do esplendor. Dentro de nós, o monstro da
inveja se queixa: “Se eu me parecesse com ... se eu soubesse dizer coisas inteligentes assim ... se eu
tivesse uma casa dessas... se eu ganhasse tanto dinheiro...”. Mas nem mesmo chegamos perto dos
“ses” e, afinal, no jogo da competição, todos perdem.

Minha própria experiência e conclusão

23. Minhas próprias vivências me colocaram em contato com pessoas em vários caminhos da vida.
Muitas compartilharam comigo suas lutas e sucessos pessoais. Através dos anos de envolvimento
com elas, fiz minhas anotações mentais sobre os possíveis caminhos para a felicidade. Além do
envolvimento profissional, há ainda minha busca pessoal da felicidade. Guardo nítidas lembranças
de meus próprios sucessos e fracassos. Há alguns becos sem saída que parecem atraentes, mas não
leva a lugar algum. Há montanhas para se escalar, um passo de cada vez. Há armadilhas nas quais
caímos com facilidade.

24. Quando me ocorrem todas essas lembranças, fico convencido de que a felicidade está ao
alcance de todos. O único problema é que, se tentarmos alcançá-la pelo lado de fora, estaremos na
direção errada. A felicidade é, e sempre foi, um trabalho interior.

25. Esta é outra conclusão importante: a felicidade é também um subproduto – o resultado de outro
tipo de ação. Como uma borboleta arisca, a felicidade não pode ser perseguida diretamente. Todas
as tentativas nesse sentido estão condenadas ao fracasso. Quase tudo o mais pode ser procurado e
adquirido de maneira direta: alimento, abrigo, saber. O mesmo não acontece com a felicidade, que é
alcançada através de outros caminhos.

26. Mas, que outros caminhos são estes? Depois de muita reflexão sobre minhas próprias
experiências, estou convencido de que estes outros caminhos podem ser condensados em dez tarefas

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ou práticas de vida. Talvez outras pessoas discordem ou façam acréscimos à lista das dez práticas
que estou propondo. Sinta-se livre para isto. De qualquer maneira, estes são os requisitos que
acredito serem necessários para alcançarmos a verdadeira felicidade. A explicação de cada um será
o conteúdo deste livro. Através destas páginas, venho trazer meu amor a você Espero que tome o
livro com mãos gentis e o leia com a mente aberta

Uma palavra final

27. Os caminhos para a felicidade são práticas de vida. Não são coisas simples que possam ser
feitas de uma só vez e para sempre. Não é como colocar moedas numa máquina da felicidade e
ganhar, de repente, o prêmio máximo! Isso seria como vender um produto falsificado. Seria como
um impostor prometendo felicidade instantânea. A vida é um processo gradual de crescimento, só
podemos praticar nossos exercícios pouco a pouco. O caminho da felicidade é uma ponte que se
atravessa devagar, não uma curva fechada que se faz de uma só Vez.

28. Já que a felicidade é um subproduto, quanto mais praticarmos os dez exercícios de vida, mais
próximos estaremos da satisfação pessoal e da paz interior. Quanto mais buscarmos nossa felicidade
dentro de nós mesmos e não nas coisas e pessoas, mais iremos experimentar um sentido de direção
e significado em nossas vidas. Lembre-se, não é uma questão de “tudo ou nada”, mas de “cada vez
mais”. Viver é crescer, e o crescimento é sempre gradual.

29. A palavra latina beatus significa “feliz”. A beatitude é um desafio e uma realização. Ela oferece
(indiretamente) a verdadeira felicidade a quem assume o desafio e consegue vencê-lo pouco a
pouco.

Estas são minhas “beatitudes”.

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PRÁTICA 1

Precisamos nos aceitar como somos.


1. Tendemos a nos agarrar às coisas, inclusive às ideias. Relutamos em abandonar algumas delas,
como o conceito que temos a nosso respeito. Ainda assim, abandonar algumas ideias antigas é
essencial para o nosso crescimento. Preciso aprender a me livrar da imagem estática que tenho de
mim mesmo. Se, quero crescer, preciso me desvencilhar de meu passado. Preciso compreender que
sou uma pessoa única em meio a um processo - sempre aprendendo, mudando, crescendo. A única
coisa realmente importante é quem eu sou agora. Não sou a pessoa a qual fui antes, no passado. Não
sou ainda a pessoa que serei no futuro. Acima de tudo, preciso saber que sou quem devo ser, e que
tenho todo o potencial para fazer o que for necessário da minha vida.

Os sinais da auto aceitação

2. Antes, de mais nada a auto aceitação implica satisfação e alegria por eu ser quem sou. Estar
apenas conformado por ser eu mesmo é uma aceitação do tipo “podia ser pior”, nada animador. Se,
quero me tornai- uma pessoa feliz, preciso aprender a ser feliz por ser quem sou. Mas esta não é
uma questão simples. Todos nós temos um nível mental “inconsciente”, um esconderijo onde
enterramos coisas com as quais não queremos nos defrontar ou conviver. A triste verdade é que não
conseguimos realmente enterrá-las. Elas continuam a nos influenciar, sem percebermos que
interferem em nossos pensamentos, palavras e ações.

3. Assim, não é fácil confrontar-me com essas questões: Será que me aceito realmente? Gosto de
ser quem sou? Encontro, significado e satisfação em ser, quem tenho sido? Não se pode confiar
inteiramente nas respostas que surgem de maneira fácil e rápida. Contudo, há sinais confiáveis, ou
sintomas da verdade.

4. Esses sinais de auto aceitação se tornam aparentes no meu dia-a-dia. Gostaria de mencionar aqui
dez sinais que me parecem visíveis naqueles que se aceitam de verdade como são com alegria.

1. As pessoas que se aceitam são pessoas felizes. Pode parecer estranho, mas o primeiro sinal da
verdadeira auto aceitação é a própria felicidade - como um círculo vicioso. As pessoas que gostam
de ser quem são, de verdade, estão sempre em boa companhia. Estão com alguém de quem gostam
vinte e quatro horas por dia. Seja nos bons ou maus momentos, aquela pessoa agradável e familiar
está sempre lá. Poucas coisas as deixam infelizes. Se os outros forem críticos ou hostis, aqueles que
realmente se amam vão acreditar que houve um problema de comunicação. Se não for este o caso,
há ainda a possibilidade de a pessoa crítica ou hostil ter um problema pessoal. Vão sentir pesar, e
não raiva da pessoa.

2. As pessoas que se aceitam vão ao encontro das outras com facilidade. Quanto mais aceitamo-
nos como somos, mais esperamos que os outros gostem de nós também. Antecipando sua aceitação,
vamos gostar de estar com outras pessoas. Vamos entrar numa sala cheia de estranhos de maneira
confiante, sem dificuldade de nos apresentarmos a elas. Vamos nos considerar como um presente a
ser ofertado através de nossa abertura, e considerar os outros como presentes que temos a receber,
gentilmente e com gratidão. No entanto, se nos amarmos de verdade, vamos também desfrutar os
momentos de solidão. Para aquele que se aceita com alegria, estar sozinho é um momento de grande
paz. Para aquele que não se aceita, estar sozinho pode significar uma dolorosa solidão; a
experiência de estar só é um vácuo que precisa ser preenchido com distrações - um jornal, uma
xícara de café, um rádio no último volume.
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3. As pessoas que se aceitam estão sempre prontas a receber amor e elogios. Se me aceito de
verdade e gosto de ser eu mesmo, vou achar natural que os outros também me amem. Vou ser capaz
de receber seu amor com gratidão. Não vou dizer para mim, secretamente: “Se você me conhecesse
de verdade, não gostaria de mim”. Também vou ser capaz de aceitar e assimilar comentários
favoráveis e elogios. Vou me sentir confortável com esses cumprimentos, sem desconfiar dos
motivos pelos quais alguém me cumprimenta: “O que você quer dizer com isto?” ou “O que você
quer de mim?” Não vou dizer para mim mesmo: “É claro que ele não está falando sério”.

4. As pessoas que se aceitam são autênticas. Se me aceito como sou, vou ser capaz de uma
autenticidade que surge apenas da auto aceitação genuína. Em outras palavras, preciso me aceitar
para poder ser eu mesmo, para poder ser autêntico. Quando me sentir magoado, vou poder expressar
minha tristeza sem reservas. Quando amar e admirar outra pessoa, vou poder ser honesto e aberto
para compartilhar com ela meu amor e minha admiração. Não vou me preocupar com a
possibilidade de ser mal compreendido ou mal interpretado, nem com a reciprocidade dos
sentimentos da outra pessoa. Enfim, estarei livre para ser eu mesmo. Essa autenticidade significa
que não vou ter que carregar comigo uma coleção de máscaras, como se fosse uma bagagem
permanente. Terei que enfrentar esse fato com honestidade: não tenho que agradar você, somente
tenho que ser eu mesmo. Você alcança aquilo que vê. Este sou eu, uma pessoa única entre todas as
demais, um ser original, feito por Deus. Não há cópias em nenhum lugar. A maioria de nós usa
máscaras e representa papéis há tanto tempo, que não sabe onde termina a representação e onde
começa a realidade. Mas temos um instinto visceral em relação à autenticidade, uma sensação de
alívio e honestidade quando conseguimos ser nós mesmos.

5. As pessoas que se aceitam convivem consigo mesmas como estão no presente. O “eu” de
ontem é história. O “eu” de amanhã é desconhecido. Livrar-me de meu passado e não antecipar o
futuro não são tarefas simples ou fáceis. Mas o foco da verdadeira auto aceitação é o meu eu de
agora. Existe um verso antigo que diz: “Não importa o que você foi, mas só o que você é agora”.
O que fui, incluindo todos os erros que cometi, não importa realmente, como não importa o que
serei no futuro. O que importa mesmo é quem sou agora. Se eu amar ou permitir que outros amem
apenas meu eu potencial, esse amor será inútil, até destrutivo. Não será incondicional, característica
essencial do amor verdadeiro. Segundo o amor condicional, “Só vou amar você se...”. Como disse
Charlie Brown certa vez, “o maior sofrimento na vida é ter apenas um grande potencial”.

6. As pessoas que se aceitam são capazes de rir de si mesmas, com frequência. Levar-se a sério
demais é quase sempre um sinal de insegurança. Um velho ditado chinês diz: “Abençoados aqueles
que conseguem rir de si mesmos. Jamais deixarão de se divertir”. Ser capaz de admitir e rir de sua
própria fragilidade requer uma segurança interior que se encontra apenas na auto aceitação. Só
posso admitir minhas limitações quando me considero uma pessoa essencialmente boa. Consigo rir
até mesmo quando essas limitações aparecem e são reconhecidas por outros. “Nunca lhe prometi
um jardim de rosas...”.

7. As pessoas que se aceitam têm a habilidade de reconhecer e atender suas próprias


necessidades. Em primeiro lugar, as pessoas que se aceitam estão em contato com suas próprias
necessidades - físicas, emocionais, intelectuais, sociais e espirituais. Em segundo lugar, é verdade
que a caridade nesse contexto começa em casa. Se eu não me amar; certamente não vou poder amar
ninguém. Ignorar nossas próprias necessidades é um caminho suicida. Devo amar meu próximo
como a mim mesmo. No entanto, só posso amar meu próximo com espontaneidade se me amar de
verdade. As pessoas que se aceitam, procuram levar uma vida equilibrada na qual suas necessidades
são satisfeitas. Geralmente descansam relaxam, se exercitam e se alimentam bem. Evitam excessos
e hábitos destrutivos como beber demais, comer demais, fumar e usar drogas. São também capazes

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de contrabalançar suas próprias necessidades com as demandas e exigências do outro. Ficam atentos
às necessidades das outras pessoas e procuram atendê-las com compaixão. No entanto, sabem dizer
“não” sem se sentirem culpadas ou arrependidas. Conhecem suas próprias necessidades e
limitações.

8. As pessoas que se aceitam são pessoas autodeterminadas. Os caminhos verdadeiros são


traçados a partir de uma orientação interna, não externa. Se me aceito de verdade, vou fazer o que
considero adequado, não o que os outros dizem ou pensam que devo fazer. A auto- aceitação me
torna imune a pressões psicológicas ou espirituais. Perco o medo de nadar contra a maré, se for
necessário. Como disse Fritz Perls, “Não vim a este mundo para corresponder a suas expectativas, e
você não veio para corresponder às minhas”.

9. As pessoas que se aceitam têm um bom contato com a realidade. Podemos compreender
melhor o que é um bom contato com a realidade se pensarmos no oposto: sonhar acordado,
imaginar-se em outra vida ou como outra pessoa. Convivo com a minha pessoa real e com os outros
como realmente são. Não perco minha energia me lamentando por não ser diferente. Desfruto e
vivo a vida como ela é realmente. Não fico divagando sobre o que poderia ser.

10. As pessoas que se aceitam são assertivas. O último sinal de auto aceitação é o que chamamos
de assertividade. Como uma pessoa que se aceita, reivindico meu direito de ser levado a sério, de ter
minhas próprias opiniões e fazer minhas próprias escolhas. Só entro nas relações em situação de
igualdade. Não quero ser o “coitado” nem o eterno ajudador dos desamparados. Reivindico também
meu direito de errar. Muitos evitam a verdadeira assertividade com medo de estarem errados;
escondem suas opiniões e não mostram suas preferências. A auto aceitação nos desafia a sermos
assertivos a nos respeitarmos, a nos expressarmos aberta e honestamente.

Será a auto aceitação apenas egoísmo disfarçado?

5. Há um instinto que nos torna constrangidos quando nos dizem que devemos nos amar. Sentimos
medo do egoísmo. Não sei se ainda se fala dos “pecados capitais”, mas bem no princípio da antiga
lista estava o orgulho. O surpreendente é que o egoísmo ou narcisismo é resultado do ódio e não do
amor por si mesmo. A pessoa autocentrada sente-se vazia e tenta preencher esse vazio doloroso se
promovendo, competindo, tentando sempre vencer os outros. Na pessoa que se gosta, a guerra civil
da auto aceitação já acabou. As armas estão guardadas, a escuridão terminou. A dor que atraía toda
a atenção para o eu diminuiu e finalmente há paz. Há uma nova liberdade para sair de si mesmo e se
voltar para os outros. Só as pessoas que se aceitam de verdade podem se esquecer de si mesmas
para amar e cuidar do outro.

6. É neste contexto que Carl Jung, o grande psiquiatra, escreveu: “Todos sabemos o que disse
Jesus sobre o modo como tratamos o mais humilde de nossos irmãos. Mas, e se descobrirmos
que o mais humilde, o mais necessitado desses irmãos somos nós mesmos?”. Com muita
frequência, pessoas boas e honestas pensam que é saudável estarem decepcionadas consigo
mesmas. O que pensam ser uma benção, na verdade é uma tentação. “Espero ser melhor do que
sou” é um pensamento desencorajador, que dificulta a percepção do amor que Deus tem por nós.
Embora a auto decepção possa parecer muito humilde e objetiva, na verdade sabota a minha
sensação de ser amado e desqualifica qualquer comentário positivo feito a meu respeito ou a
respeito das minhas realizações. A auto decepção vai me roubar, silenciosamente, a felicidade para
a qual fui criado.

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7. Em minha opinião a vaidade e a humildade começam do mesmo modo: percebendo e apreciando
nossa própria bondade e nossos talentos. Nesse ponto, a virtude e o vício se separam. A vaidade
considera essa bondade e os talentos como realização pessoal, esperando aplausos e aprovação;
torna- se solitária sem o reconhecimento e a recompensa. A humildade sabe, em silêncio, que só
tem aquilo que lhe foi ofertado. A humildade é grata, e não ávida.

Os obstáculos à auto aceitação

8. Alguém disse, com bastante propriedade, que antes de procurarmos uma solução adequada,
precisamos definir o problema com clareza. A questão é saber por que a maioria das pessoas tem
tanta dificuldade com a auto aceitação. Acredito que a resposta está no fato de que todos nós temos
algum complexo de inferioridade. Aqueles que parecem não ter tal complexo, estão apenas
simulando.

9. Chegamos a este mundo fazendo perguntas para as quais não temos respostas. A mais óbvia
delas é “Quem sou eu?” Do nascimento até os cinco anos de idade, recebemos muitas mensagens
negativas todos os dias. “Desça daí”. “Não, você é muito pequeno”. “Me dá isto! Você pode se
machucar”. “Oh, você fez bagunça outra vez”. “Fica quieto, por favor; Tive um dia difícil”. Um
amigo meu conta que até os oito anos pensava que seu nome fosse “Fred-Não-Não”. Sem dúvida,
essa primeira impressão de inadequação permanece em nós.

10. É também verdade que os obstáculos à auto aceitação são tão únicos em cada um de nós quanto
nossas histórias pessoais. As causas e razões pelas quais não gosto de ser eu mesmo são um pouco
diferentes das causas e razões pelas quais você não gosta de ser quem é. Para definir o problema
com mais clareza, vamos começar com cinco categorias gerais. O que é mais difícil aceitar em você
mesmo? O que é mais fácil? Avalie as categorias, colocando-as em ordem de acordo com suas
dificuldades. Ordene-as do obstáculo mais sério até o menos sério.

Meu corpo
Minha mente
Meus erros
Meus sentimentos ou emoções
Minha personalidade

Eu Aceito Meu Corpo?

11. A aparência física é provavelmente o primeiro aspecto, e também o mais frequente, em torno
do qual são feitos comentários e comparações. Como consequência, torna-se um sério obstáculo à
auto aceitação para muitos de nós. Muitos psicólogos acreditam que a aparência física é o fator mais
importante para a autoestima da pessoa. Quase todos gostariam de mudar pelo menos um ponto em
seu aspecto físico. Gostaríamos de ser mais alto ou mais baixo, ter mais cabelos ou um nariz menor.
Li certa vez sobre um teste de autoestima que pedia ao leitor que ficasse de pé em frente a um
espelho de corpo inteiro. Eram estas as instruções: “Vire-se de todos os lados, examinando sua
aparência com um olho crítico. Então se olhe no espelho e se pergunte: gosto de ter o corpo que
tenho?”. Às vezes, mesmo pessoas bonitas não gostam de sua aparência. Preciso me perguntar
como minha aparência afeta minha autoestima. Qualquer coisa que não for uma resposta honesta é
um péssimo começo.

12. A maioria dos cirurgiões plásticos afirma que a correção de uma anormalidade física é quase
sempre seguida por uma mudança psicológica no paciente. A pessoa de boa aparência torna-se mais

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comunicativa, mais feliz e confiante. Um ortopedista me disse, certa vez, que pede a suas clientes
mais velhas que usem maquiagem e arrumem o cabelo, e que faz também sugestões semelhantes
aos clientes do sexo masculino. Diz ele que se surpreende ao perceber o quanto a melhora na
aparência levanta o ânimo dos pacientes.

13. Outro aspecto da auto aceitação do corpo refere-se à nossa saúde. Nem sempre as pessoas
fortes têm um físico saudável. Por razões genéticas ou outras, muitos de nós temos de viver com
algum incômodo físico – problemas na visão ou nos pulmões, no intestino ou no estômago,
problemas de pele, epilepsia ou diabete. Temos que ter a coragem de nos perguntar como essas
limitações físicas afetam nossa auto aceitação. Também aqui o único ponto de partida construtivo é
a total honestidade. Somente a verdade pode nos libertar.

Eu Aceito Minha Mente?

14. Em quase todas as situações na escola e no trabalho, a ênfase é colocada na inteligência. Em


nossas relações pessoais, enfrentamos com frequência uma competição intelectual com as pessoas.
Muitos carregam lembranças dolorosas de situações sociais ou dos tempos de escola em que se
sentiram embaraçados ou ridicularizados; lembranças de terem sido criticados por alguma pergunta,
comentário, ou comportamento.

15. Assim, devemos nos perguntar se nos sentimos confortáveis com a quantidade ou qualidade da
inteligência com a qual fomos dotados. Tenho a tendência a me comparar com os outros nesse
aspecto? Fico intimidado pelas pessoas que parecem ter o raciocínio mais rápido ou ser mais bem
informadas do que eu? Minha autoestima e, como consequência minha felicidade, podem estar
seriamente afetadas por essas perguntas e suas respostas.

Eu Aceito Meus Erros?

16. A condição humana é de fraqueza. Todos nós cometemos erros, e é por isso que existem
borrachas. Deus equipou os animais e os pássaros com instintos infalíveis, mas os seres humanos
têm que aprender a maioria das coisas por ensaio e erro. Um velho sábio disse certa vez “Tente
aprender com os erros dos outros, assim você não vai ter que cometê-los novamente”. Quem não
comete erros, não faz também descobertas. Na verdade, o único erro verdadeiro é aquele com o qual
nada se aprende. Os erros são experiências de aprendizagem. Portanto, bem-vindo ao time dos que
erram!

17. Como a maioria das virtudes, o espírito de compreensão e tolerância começa em casa. Por
alguma razão, só quando chegamos ao desespero é que aprendemos a nos oferecer compreensão e
empatia. Precisamos chegar ao fundo do poço para começarmos a subida.

18. Portanto, devo me perguntar: Onde estou? Consigo aceitar meus erros passados? Já superei
meus sentimentos de vergonha diante de falhas e remorsos? Sinto-me em paz ao dizer,
honestamente, “esta é a pessoa que eu era no passado, meu antigo eu. Não é a pessoa que sou agora,
o novo eu”? Nem sempre percebemos o quanto aprendemos com nossos erros passados e o quanto
superamos nossa imaturidade. Nem sempre percebemos o quanto nosso velho eu ensina ao novo.

19. A armadilha aqui é me identificar com o lado sombrio de minha pessoa e com os erros do
passado. É pensar em mim como eu era antigamente. É como alguém que foi gordo na infância, mas
se tornou um adulto esbelto. A questão é como me vejo agora – gordo ou magro? Está claro que o
crescimento requer mudança, e mudança significa ficar livre de tudo o que me aprisiona. Quão

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difícil ou fácil isso é para você? Lembre-se, temos que começar com honestidade, total ou nunca
saberemos a verdade. E sem a verdade não há crescimento nem alegria.

Eu Aceito Meus Sentimentos e Emoções?

20. Experimentamos flutuações de humor naturais em nosso dia-a-dia. Num momento nos sentimos
“para cima”, no outro nos sentimos “para baixo”. No entanto, alguns sentimentos são banidos da
consciência pela nossa programação precoce. Por exemplo, sempre tive dificuldade em admitir meu
medo, pois meu pai insistia que “um homem não tem medo de ninguém nem de nada”. Algumas
pessoas reprimem qualquer sentimento de ciúme ou de autossatisfação. Alguém lhes ensinou que
tais sentimentos não são permitidos. Um sentimento válido, mas que é condenado universalmente, é
o de pena por você mesmo. Já ouvimos ou fizemos a acusação: “Você só está sentindo pena de si
mesmo”.

21. Lidamos com as emoções de acordo com o que pensamos sobre elas. Assim, devemos nos
perguntar se há emoções em nós que impedem nossa auto aceitação. Posso sentir medo, mágoa,
raiva, ciúme, ressentimento, satisfação ou pena de mim mesmo sem me condenar e criticar por isto?
Existem sentimentos que eu gostaria de esconder, esperando que desaparecessem?

Eu Aceito Minha Personalidade?

22. Sem entrar em detalhes, posso dizer que há vários tipos de personalidade. Estes são
determinados em parte pela genética, em parte por uma programação precoce. Naturalmente, dentro
de cada tipo de personalidade há indivíduos saudáveis e não-saudáveis. Apesar de haver sempre
espaço para o crescimento, há também um tipo básico entranhado dentro de cada pessoa. Algumas
são extrovertidas, outras introvertidas. Algumas já nascem líderes, outras são engraçadas, outras
nem sabem ler uma piada. Algumas são duras, outras sensíveis. Mas cada uma é única, diferente de
todas as outras. Nossas qualidades nos distinguem e nossas limitações nos definem. Até onde
conheço minha personalidade, e sou feliz por ser quem sou? Sinto atração ou rejeição pela pessoa
que sou?

23. Para compreender melhor minha personalidade, posso fazer uma lista de cinco qualidades que
me definem: quieto, simples, diplomático, engraçado, falador, emotivo, ligado, solitário, alegre,
preocupado e assim por diante. Depois posso pedir a um amigo, íntimo e muito honesto, para fazer
também uma lista das qualidades que melhor me descrevem, que captam minha personalidade.
Colocar as duas listas lado a lado pode ser um ponto de partida. Minha personalidade se expressa
através de minhas ações. Gosto do que vejo, ou estou decepcionado comigo mesmo? Gostaria de
mudar minha personalidade radicalmente ou estou satisfeito com minha maneira de ser? Escolheria
alguém como eu para ser meu amigo íntimo?

Programação e auto aceitação

24. Alguém já disse, brincando, que a coisa mais sábia que uma criança pode fazer é escolher
adequadamente seus pais. Uma auto aceitação tranquila tem suas raízes mais profundas na infância.
Nós, seres humanos, somos semelhantes aos computadores. Tudo que já vimos, ouvimos ou
vivenciamos permanece arquivado para sempre em nossa mente. O cérebro humano médio pesa
apenas um quilo e meio. Dizem os neurologistas, no entanto, que se fôssemos construir um
computador que pudesse armazenar a mesma quantidade de mensagens do cérebro humano, este
precisaria ter dez andares de altura e cobriria o estado do Texas. Rudolf Dreikurs, um psiquiatra
adleriano, acredita que o importante não é o que nos foi dito, mas aquilo que escutamos (captamos).

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E o problema é que nem sempre escutamos ou captamos coisas positivas, que nos façam sentir
pessoas valiosas, com potencial para nos tornarmos seres humanos plenos.

25. Uma professora de uma escola montessoriana me contou uma história que não chegou a me
surpreender. A escola envia uma ficha de matrícula aos pais de alunos candidatos à escola. Uma das
perguntas é: “Há algo que devemos saber sobre o seu filho antes que as aulas comecem?”. Alguns
deles costumam responder: “Nosso filho é maravilhoso. Vocês vão gostar muito dele”. E a
professora acrescentou: “Aprendemos a esperar um excelente desempenho desses alunos. São
autoconfiantes, assertivos e parecem gostar de si mesmos”. Por outro lado, muitos pais escrevem
que seus filhos são agitados, fazem birras e choram facilmente. A professora terminou o relato com
tristeza: “Eles manifestam suas inseguranças como foi previsto. Acabam se tornando como as
profecias de seus pais”.

26. É importante saber que podemos reformular as fitas gravadas por nossos pais. Como adultos,
podemos “gravar por cima” das mensagens negativas. É claro que vamos querer manter as que são
saudáveis e positivas. A mente humana é como um jardim. Se quisermos flores, vamos ter que
arrancar as ervas daninhas. Podemos começar esse processo fazendo uma lista das mensagens que
nos transmitiram, dividindo-as em duas categorias: de um lado, as positivas e saudáveis; de outro,
as negativas e não saudáveis. Devemos também fazer uma lista de nossas qualidades e talentos
pessoais, para que as flores possam aparecer. Isto nos torna mais conscientes de nossos dons e de
nossos pontos positivos. A beleza, pouco a pouco, toma o lugar das dificuldades que nos limitam.

O ponto central: sou exatamente a pessoa que devo ser!

27. Qualquer que seja nossa preferência religiosa, esta é uma verdade sobre Deus e sua criação:
nem a sua história, nem a minha, começaram no dia em que viemos a este mundo. Desde a
eternidade, Deus nos valoriza e nos ama. Ele poderia ter-nos feito, diferentes. Poderíamos ter
recebido outros dons, outros genes. Mas então não seriamos quem, somos. E Deus nos queria
exatamente como somos. Outros mundos poderiam ter sido criados. Mas esta é uma das razões,
pelas quais Deus escolheu este para criar porque você é você e eu sou eu.

28. Segundo uma velha tradição judaico-cristã, Deus envia cada um a este mundo para transmitir
uma mensagem especial e para viver um ato de amor especial. Sua mensagem e seu ato de amor são
confiados a você, os meus a mim. Deus é quem decide se esta mensagem irá alcançar umas poucas
pessoas numa cidade pequena ou todas as pessoas, o mundo inteiro. A única certeza importante é
que cada um de nós está totalmente equipado. Você tem exatamente os dons necessários para
transmitir sua mensagem, eu tenho os dons escolhidos para transmitir a minha.

29. Uma parte especial da verdade de Deus foi colocada em suas mãos, e Ele pediu que a
compartilhasse com os outros. O mesmo se aplica a mim. E como você é único, sua verdade é dada
somente a você. Ninguém mais pode levar ao mundo sua verdade ou oferecer aos outros seu ato de
amor. Só você tem todos os atributos para ser e fazer o que é necessário. Só eu tenho o potencial
para executar a tarefa que me trouxe a este mundo.

30. Seria uma tolice eu querer me comparar a você. Cada um de nós é único. Não temos xerox ou
clones de nossa pessoa. Essa comparação seria a morte da auto aceitação. Olhe para sua mão seus
dedos não são iguais. Se fossem, você não poderia segurar um bastão de beisebol ou agulhas de
tricô. Da mesma maneira, algumas pessoas são altas, outras são baixas. Algumas possuem certos
talentos, outras possuem dons diferentes. Você foi feito sob medida para fazer o que lhe foi
reservado. Eu, para fazer a minha parte. Assim, você não é eu, e eu não sou você. E isto é muito

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bom. Devemos não só aceitar, mas também celebrar nossas diferenças. O mundo guarda os
originais como tesouros, e cada um de nós é um original criado por Deus.

Elaborando essas ideias sobre auto aceitação

31. Qualquer pessoa que tenha o hábito de falar em público, sabe como é importante pedir à
audiência que elabore as ideias apresentadas. O mesmo se aplica à palavra escrita. Deve-se solicitar
ao leitor que faça alguma coisa para elaborar as ideias apresentadas. Palavras escritas ou faladas que
apenas passam por nós, não se tornam parte de nossa vida. Só quando trabalhamos com as ideias e
as comparamos com a nossa própria experiência, nós as tornamos parte de nossa vida. Quando isso
acontece, nós mudamos. Assim, no final de cada prática apresentada nesse livro, estão incluídas
sugestões para que você possa elaborar suas ideias. Estes exercícios vão estimular mais motivação e
mudanças do que as palavras que você leu. E uma atividade que vai lhe trazer um novo entusiasmo.
Tente fazer os exercícios seguintes:

32. Escreva sobre sua auto percepção. Tente perceber quais desses aspectos são mais difíceis de
aceitar:

a. Seu corpo
b. Sua mente
c. Suas falhas
d. Seus sentimentos e emoções
e. Sua personalidade.

33. Sente-se e reflita. Explore seus espaços internos. Tente descrever o que você acha mais difícil
de aceitai' em você mesmo e por que.

34. O que você diria a alguém que tenha um problema de auto aceitação como o seu?

35. Faça a fantasia da cadeira vazia. Sente-se num lugar tranquilo, de preferência sozinho.
Escolha uma posição confortável e feche os olhos. Tente relaxar-se inspirando profundamente, sem
fazer força. Expire completamente. Esvazie seus pulmões de modo a preenchê-los com um
suprimento de oxigênio fresco na próxima inalação. Enquanto você respira, tente imaginar a rede
completa de músculos do seu corpo. Veja seus nervos e músculos tão esticados como tiras de
borracha. Então imagine que eles estão se afrouxando, se relaxando. Sinta-se entrando lentamente
numa onda de paz e tranquilidade.

36. Agora imagine uma cadeira vazia à sua frente, a uns três metros de distância, com todos os
detalhes. Qual é o formato da cadeira? E a cor? Ela parece confortável? Tem almofadas? Focalize-a
com nitidez. Imagine agora alguém que você conhece muito bem – pode ser um colega de escola,
de trabalho, uma pessoa da família. Imagine essa pessoa entrando em cena e sentando-se na cadeira,
olhando para você. Será que ela se sente confortável com você? Ao devolver-lhe o olhar, torne-se
consciente pouco a pouco da sensação que você experimenta com ela. Lembre-se das suas
experiências com essa pessoa, os sentimentos que ela lhe evoca, os julgamentos que você faz a seu
respeito - tudo isto vai dar forma à sua sensação. Depois que você senti-la com bastante clareza,
escolha alguma coisa para lhe dizer. O que você mais gostaria de lhe comunicar ou perguntar? Seja
o que for, diga a ela e veja-a se levantando e saindo.

37. Faça o mesmo com uma segunda pessoa que você conhece muito bem. Torne-se consciente da
maneira como ela olha para você e da sua sensação diante dela, diferente daquela que você

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experimentou com a primeira pessoa. Quando sua sensação ficar bem clara, diga-lhe alguma coisa.
Depois veja- a se levantando e indo embora também.

38. A terceira pessoa a entrar em cena é você. Veja a sua própria imagem sentada na cadeira,
olhando para você. Veja a expressão de seu rosto. Pouco a pouco, torne-se consciente da sensação
que sua imagem lhe provoca. Sinta o quanto você se gosta ou desgosta, e por que. Perceba detalhes
em sua imagem - expressões fisionômicas, a postura corporal. Diga qualquer coisa que estiver em
seu coração para você mesmo. Observe-se levantando da cadeira devagar e saindo.

39. Abra seus olhos agora. Escreva suas reações diante de sua própria pessoa. Como você percebeu
sua imagem? Você gostou dela? Você escolheria esta pessoa como sua amiga? Você se sentiu
pesaroso ou satisfeito com ela? Como ela lhe pareceu - cansada ou cheia de energia? Você gostou
de sua aparência? O que você lhe disse? Escreva as coisas mais importantes.

40. Faça duas listas. Faça primeiro uma lista de todos os seus dons e habilidades - qualidades
especiais, atributos físicos, talentos, etc. Este será um exercício permanente. À medida que você
descobrir novas qualidades acrescente-as à lista.

41. Em segundo lugar, faça uma lista das limitações e falhas que mais lhe incomodam. Esta lista
tem a função de uma faxina em casa. A verdadeira auto aceitação deve começar com uma avaliação
honesta. Não precisamos negar nossas limitações, nem ficar desencorajados com elas. Não
celebramos nossas dificuldades nem nos congratulamos por nossas neuroses, mas a verdadeira auto
aceitação significa acolher algumas verdades dolorosas a nosso respeito. Somos todos seres
humanos limitados. Se não aceitarmos essa verdade, estaremos vivendo num mundo de ilusão e
fantasia. Só, aceitando e encarando de frente, às nossas limitações, seremos capazes de ver com
clareza a direção de nosso desenvolvimento e crescimento no futuro.

42. Seria interessante mostrar as duas listas a um amigo e confidente. Tendo feito esse inventário
de seus pontos fortes e fracos, você estará pronto para começar “o primeiro dia do resto de sua
vida”. Será o começo de uma autoestima verdadeira e de uma celebração eterna da pessoa única que
você é!

Lembre-se

Cada um de nós é um original criado por Deus. Não há cópias - carbono em nenhum lugar.

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PRATICA 2

Precisamos assumir total responsabilidade por nossa vida.


1. Aceitar total responsabilidade por todas as nossas ações, incluindo nossas emoções e
comportamentos diante de todas as situações da vida, é o passo definitivo em direção à maturidade.
No entanto, a tendência a culpar outras coisas e pessoas por nossas atitudes é tão antiga quanto a
raça humana. Muitos de nós crescemos como acusadores. Defendemos nossos comportamentos
menos aceitáveis. “Você me provocou”. “Você sempre faz isto comigo”. “Estou lhe dando uma
dose de seu próprio remédio”. Aprendemos a justificar nossos fracassos dizendo que nos faltou o
material necessário, ou que “a conjunção dos astros não estava favorável; a lua não estava no ponto
certo”. A triste verdade é que os acusadores não estão em contato com a realidade e por isso, não se
conhecem, não crescem, não amadurecem. Este é um fato da vida: O crescimento começa onde as
acusações terminam. A atitude inversa é aceitarmos plena responsabilidade por nossa vida, nos
tornarmos autores de nossos atos e não acusadores. Os autores sabem que são os fatores internos
que explicam suas respostas emocionais e seus comportamentos diante da vida. E este o passo
definitivo para alcançarmos a maturidade como pessoas. É a responsabilidade que garante o nosso
crescimento.

O que é responsabilidade total?

2. Todos sabemos, através de nossa própria experiência, que não somos inteiramente livres. Há
ocasiões em que nossas reações escapam por completo ao nosso autocontrole. Não podemos abrir e
fechar nossas emoções como se fossem torneiras. Há ocasiões em que simplesmente não
conseguimos ser, fazer ou dizer tudo o que queremos. Às vezes somos prisioneiros de nossos
hábitos, que nos parecem incorrigíveis. Nosso passado determina nosso presente, que por sua vez
determina nosso futuro. Choramos quando poderíamos estar rindo; comemos ou bebemos demais
mesmo sabendo que isto não nos faz bem; fechamo-nos quando deveríamos dialogar. Portanto, o
que significa exatamente aceitar “total responsabilidade”?

3. Sem dúvida, não somos inteiramente livres. Recebemos uma programação na infância que limita
nossa liberdade. Além disso, repetimos nossos hábitos há muito tempo e com muito empenho. Estes
também diminuem nossa liberdade de escolha; às vezes, apenas a velha inércia humana nos domina.
Concordo com a afirmação de São Paulo: “Vejo o que é certo, e pretendo praticá-lo, mas faço
exatamente o contrário. Existe outra lei lutando dentro de mim”.

4. Naturalmente, responsabilidade total não implica liberdade total. Nesse contexto,


responsabilidade total significa que há algo em mim que determina minhas ações e reações aos
estímulos da vida. Pode ser minha carga genética, minha programação ou a força de meus próprios
hábitos. De qualquer maneira, é sempre alguma coisa dentro de mim e preciso assumir total
responsabilidade por isto. Faço o que faço e digo o que digo por causa de alguma coisa que é
minha. Outras pessoas e situações podem estimular uma resposta, mas a natureza dessa resposta
será sempre determinada por algo em mim.

5. Primeiro, Vamos ver qual é o significado de total responsabilidade por minhas ações. Uma das
melhores ilustrações para isso é uma história bem conhecida de Sidney Harris, falecido
recentemente. Acompanhando um amigo à uma banca de jornais Harris notou que o jornaleiro se
dirigia a eles com grosseria e hostilidade. Notou também que seu amigo o tratava de maneira afável
e cordial. Quando se afastaram, Harris perguntou: “Ele é sempre assim, tão intratável?” “Sim,

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infelizmente”, respondeu o amigo. Harris insistiu: “E você é sempre tão amável com ele?” “Sim, é
claro”, respondeu o amigo. Então Harris fez a pergunta que o intrigava desde o início: “Por quê?”
6. O amigo de Harris pensou um pouco antes de responder, embora a resposta parecesse óbvia.
“Porque não quero que ele ou qualquer outra pessoa decida como devo me comportar. Sou eu que
decido como vou agir. Sou um ator, não um reator. Sidney Harris foi embora dizendo para si
mesmo: “Esta é uma das mais importantes conquistas da vida: agir e não reagir”.

Responsabilidade total e análise transacional

7. Eric Berne e Thomas Harris são dois psiquiatras que criaram e divulgaram a Análise
Transacional. De uma forma mais elaborada, dizem o mesmo que o amigo de Sidney Harris. A
teoria da Análise Transacional nos diz que há três componentes em todos nós: o pai, o adulto e a
criança. O pai é uma coleção de todas as mensagens e programas que foram gravados nos primeiros
anos de nossa vida. O adulto é nossa própria mente e vontade, que nos permite pensar e escolher por
nós mesmos. A criança é o depósito de todos os nossos sentimentos e reações emocionais. Os
psiquiatras da A. T. afirmam que os sentimentos mais intensos que experimentamos até os cinco
anos de idade, tendem a serem os mais marcantes para o resto de nossa vida.

8. Segundo a teoria da A.T., podemos analisar nossas relações com os outros dizendo qual dos
componentes predominou na interação - o pai, o adulto ou a criança. Ainda de acordo com essa
teoria, a maturidade é alcançada quando o adulto se torna responsável pela tomada de decisões.
Devemos ouvir e reformular as fitas gravadas por nossos pais, como devemos experimentar todos
os nossos sentimentos de modo inteiramente livre. No entanto, nunca devemos deixar que esses
sentimentos, tomem decisões por nós. Não podemos deixar que os programas de nossos pais ou
nossos sentimentos decidam como vamos agir. Devemos pensar por nós mesmos e decidir como
vamos agir de maneira amadurecida.

9. Portanto, aceitar total responsabilidade não significa ser completamente livre. Não significa
também um controle total e completo de meu adulto sobre mim. Significa que reconheço
honestamente que algo em mim determina e controla todas as minhas ações e reações. Este “algo
em mim” pode ser a programação de meus pais dominando minha mente. Pode ser uma explosão de
emoções que, em parte, me priva de minha liberdade. Assim, mesmo quando reajo em vez de agir,
ainda é alguma coisa em mim que determina minha reação.

10. A maioria das pessoas se lembra de ocasiões em que a criança ou o pai prevaleceu em suas
reações. Mais tarde, percebem que seu adulto teria agido de maneira diferente. Talvez, tenham
permitido que alguma mensagem dos pais os calasse quando deveriam ter se manifestado. Talvez
tenham se recusado infantilmente a pedir desculpas quando isso era necessário. Seu adulto teria se
desculpado. Reconhecemos bem a diferença. Quando meu adulto está no controle, penso de maneira
independente e tomo decisões, racionais, usando dados que estão dentro de mim. Não permito que
outros decidam como vou agir. Em qualquer situação, preciso reconhecer e assumir toda a
responsabilidade pelo pai o adulto e criança que trago dentro de mim. Mesmo quando permito que o
pai ou a criança decidam como vou agir, ainda sou guiado por algo que é meu. É minha
responsabilidade.

Responsabilidade total e nossas emoções

11. Vamos abordar agora um assunto mais difícil: assumir a responsabilidade total por nossas
emoções e sentimentos. Muitas vezes, crescemos com o mito de que não somos responsáveis por
nossos sentimentos. Isto pode ser verdade para nossa fase de bebês e crianças. Não tínhamos ainda

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um adulto dentro de nós que selecionasse mensagens e emoções. Num certo sentido, estávamos à
mercê dos adultos à nossa volta. Mas isso não é verdade em nossa fase adulta. Temos ainda
emoções que explodem súbita e espontaneamente em nós. No entanto, como adultos responsáveis,
podemos experimentá-las livremente e então decidir como vamos expressá-las de modo construtivo
e maduro. Mais tarde, talvez num momento de reflexão, possamos descobrir as raízes de nossos
sentimentos. Por que reagi desse modo?

12. Por definição, uma emoção é uma percepção que se expressa através de uma reação física. E
por ser a emoção uma percepção e uma consequente reação física àquela percepção, não
poderíamos ter emoções se não tivéssemos mentes e corpos. Por exemplo, se eu percebo você,
como meu amigo sentirei uma reação física agradável e relaxada diante de você. No nível
emocional fico feliz ao ver você.

13. Mas, se vejo em você um inimigo, minha reação será de luta ou de fuga. Meus músculos
ficarão tensos e meu coração, acelerado. Sentirei medo de você e do que possa estar planejando
dizer ou fazer comigo.

14. Embora essa reação emocional não esteja sob meu controle, sei que ela é causada por algo em
mim: a percepção que tenho de você. Essa percepção pode estar certa ou errada. Pode estar
contaminada por outras experiências, mas, com certeza, é algo em mim que provoca essa resposta
emocional.

15. Isto é facilmente ilustrado por uma situação de sala de aula. Coloco esta questão com
frequência aos meus alunos: “Imagine que um de vocês saia no meio da aula, aborrecido comigo e
expressando insatisfação com a minha pessoa e com minha capacidade de ensinar. Como eu me
sentiria?” No geral, meus alunos são rápidos para responder: “Você ficaria com raiva. Você diria ao
aluno que sabe o nome dele e lhe pediria seu número de registro”. Outro discorda: “Não, você se
sentiria magoado. Você se esforça muito para ser um bom professor e ficaria triste por seus esforços
terem sido em vão”. Um terceiro dá outra opinião: “Acho que você se sentiria culpado. Você pediria
ao aluno que voltasse e lhe desse outra chance. Você poderia até tentar se desculpar”. Quase sempre
aparece alguém que dá uma resposta compadecida: “Você se sentiria pesaroso pelo aluno. Você
pensaria que há, sem dúvida, outros problemas que o estão preocupando”.

16. No final da discussão, foram dadas de dez a onze sugestões, sobre minha possível resposta
emocional à situação. (Suponho, secretamente, que cada um deles projeta em mim sua própria
reação emocional). De qualquer modo, digo a eles que poderia reagir de qualquer uma das maneiras
sugeridas. Então acrescento enfaticamente: “Prestem bastante atenção a isto - há realmente muitas
respostas que eu poderia dar nessa situação. Não estou certo de qual delas escolheria. Mas este
ponto é certo: minha reação emocional seria causada por alguma coisa dentro de mim e não pelo
aluno que saiu. Ele pode apenas estimular uma reação. Algo em mim vai determinar a reação
emocional exata ao estímulo. O que penso sobre a minha pessoa, meu desempenho como professor,
a importância que dou à matéria que estou apresentando - todos esses fatores dentro de mim vão
determinar minha exata reação emocional. Devo assumir total responsabilidade por ela. É a isto que
chamo de aceitar total responsabilidade por minhas emoções.

17. Muitas das minhas respostas emocionais são boas. Outras tendem a ser autodestrutivas. Assim,
quando reflito sobre minha reação emocional a determinada situação, saio em busca da percepção a
partir da qual tudo começou. Posso questionar ampliar ou mesmo alterar essa percepção. Talvez
deva reformular alguma coisa. Numa situação de embaraço, por exemplo, a outra pessoa pode
apenas estar sendo simpática, sem pensar em me deixar constrangido. Talvez eu me perceba como

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uma pessoa inferior, e em vez de admitir isso, tento esconder esse sentimento através da minha
arrogância. De uma coisa estou certo: se eu questionar e até mudar minha percepção, minha
resposta emocional também mudará.

Autores versus acusadores

18. Ao tentar explicar nossos comportamentos e emoções, temos apenas duas opções. Ou somos os
“donos” de nossas reações ou culpamos alguém ou alguma coisa por elas. Mas esta não é uma
escolha simples, sem consequências. Enquanto minha honestidade me coloca no caminho da
maturidade, minha racionalização me afasta da realidade. Se me considero autor de minhas ações e
assumo a responsabilidade por minhas emoções e comportamentos, vou me conhecer melhor e
crescerei. Se eu explico as minhas ações e sentimentos jogando a responsabilidade em outras
pessoas ou situações, nunca chegarei a conhecer meu verdadeiro “eu”. Vou retardar meu
crescimento pessoal enquanto não conseguir reconhecer minha responsabilidade. Lembre-se: o
crescimento começa onde as acusações terminam.

19. Observe como as pessoas reagem de modos diferentes à mesma pessoa ou situação. Examine,
por exemplo, o caso de uma pessoa grosseira e agressiva. Enquanto sentimos raiva dela,
descobrimos que outra pessoa sente pena. Tudo depende da percepção pessoal. Se a vejo como
deliberadamente má, minha resposta emocional pode ser de raiva ou ressentimento. Meu
comportamento diante dela pode ser de sarcasmo. Mas, se a vejo como carente ou infeliz, minha
reação provavelmente será de compaixão.

20. Quando revemos nossas percepções e atitudes habituais, reformulamos também nossas
respostas emocionais. É importante lembrar que a percepção está sempre no núcleo de cada
emoção. É esta percepção que vai determinar sua natureza e intensidade. E provável que muitas das
minhas emoções sejam saudáveis e construtivas. Contudo, se meus padrões emocionais são
destrutivos e me afastam das pessoas, é importante examinar melhor as percepções ou atitudes com
as quais escrevo o roteiro de minha vida. Isto é certamente uma parte de minha “total
responsabilidade”.

Assumir responsabilidade total, nos torna realmente mais feliz?

21. Esta é uma boa questão, além de óbvia. Minha própria resposta é: “Não de maneira automática
ou imediata”. Você já deve ter ouvido que a verdade o liberta, mas antes o deixa infeliz. Nosso
presente depende muito de nosso passado, infelizmente. Nossos hábitos estão profundamente
arraigados e limitam nossa liberdade de resposta, ainda que temporariamente. Dizer que tenho
“estopim curto” ou “sangue quente” é apenas passar a culpa adiante. O problema não é este, mas de
um hábito arraigado. Provavelmente aprendemos nossas respostas com outras pessoas, no passado.
Aqueles que vivem se preocupando com tudo, geram outros que se preocupam da mesma forma.
“Estopins curtos” costumam aparecer aos montes, na mesma família. No entanto, a repetição dessas
respostas tende a criar hábitos até que estes se tornem reações automáticas. Apertamos o botão e
damos a resposta. Tornamo-nos escravos de nossos hábitos. Somos como “animais treinados" os
hábitos são como “arcos de fogo” pelos quais atravessamos. E fácil continuar reagindo mal a
determinadas situações, perdendo o autocontrole. Se, permitimos que isso, venha a tornar-se um
hábito insubstituível, tendemos a ficar estáticos ou presos nesse ponto de nosso crescimento
pessoal. Quando isso acontece, culpamos outras pessoas ou situações por nossas respostas. Ficamos
presos na armadilha desse círculo vicioso e assim permanecemos, sofrendo com isso.

20
22. Se, no entanto, assumirmos total responsabilidade por nossas respostas, estaremos livres, para
reconhecê-las e reformulá-las. Este é certamente o caminho para a paz e a felicidade. Não posso
mudar o mundo para adaptá-lo a mim, mas posso mudar minhas reações para adaptar-me a ele.
Posso mudar a mim mesmo. A felicidade é um trabalho interior.

Autores, acusadores e autoconhecimento

23. A cultura ancestral insiste que o autoconhecimento é o ápice da sabedoria. Infelizmente,


quando culpo os outros por minhas ações e sentimentos, nada aprendo sobre mim. O infeliz
acusador delega sempre a responsabilidade a outras pessoas, outros lugares ou outras coisas. “Você
me fez ficar com raiva”. “Este lugar me aborrece”. “Sua prova me dá medo”. “Ele me faz sentir tão
pequeno”. O pobre acusador fica repetindo fatos hipotéticos, num clássico mecanismo de defesa do
ego chamado projeção. Uma vez preso nesse ponto, o acusador perde o contato com a realidade.
Não há possibilidade de crescimento. O potencial de uma vida plena fica perdido até que o acusador
se transforme num autor. O crescimento começa onde as acusações terminam.

24. O autor faz a única pergunta que e construtiva: “O que há comigo? Por que escolhi fazer ou
sentir desse modo?” O autor não tenta justificar condutas obviamente inadequadas por parte de
outros. Ele pode apenas considerá-las lamentáveis ou destrutivas, mas sabe que só pode mudar a si
mesmo. Ele pode até se sentir inclinado a ajudar a pessoa que o está agredindo, mas seu interesse
maior é por suas próprias reações. Quando tem algum problema no trânsito, pergunta-se mais ou
menos o seguinte: “Por que buzino tanto quando levo uma ‘fechada’? Por que fico tão nervoso e
lanço olhares de reprovação ao outro motorista no sinal seguinte? Qual percepção, hábito ou atitude
provoca em mim essa reação? Será que percebo o outro motorista como grosseiro e perigoso? Já me
ocorreu a ideia de que ele pode estar correndo para o hospital com uma criança doente? E se ele
estiver correndo por outras razões, por que não posso ter pena dele?” Se nos colocarmos tais
questões, certamente vamos aprender muito a nosso respeito.

25. Naturalmente, não sou sempre o autor que gostaria de ser. Como muitos outros, também
recorro a acusações e jogo a responsabilidade por minhas ações sobre os outros. Mas gostaria de
ilustrar essa questão com uma história verdadeira sobre uma ocasião em que fui realmente “autor” e
pude aprender muito sobre a minha pessoa.

26. Certo dia depois da aula, dois alunos me disseram como que brincando: “Você sabia que
algumas pessoas acham você hipócrita?” Senti a raiva tomar conta de mim, mas comecei a “contar
até dez”. Sou bastante controlado nesse ponto. Assim, com a frieza de um cirurgião lidando com o
bisturi, perguntei: “E mesmo? E o que significa ser hipócrita?” Eles protestaram dizendo que não
concordavam com isso. Tentaram se desculpar, mas fui inflexível. “Compreendo o que vocês estão
dizendo, mas de qualquer maneira gostaria de saber o significado da palavra hipócrita’’.
Eventualmente levei-os a responder o que eu queria: “Suponho que significa que você não pratica o
que prega”.

27. Assumindo uma postura humilde, imediatamente me declarei culpado. “Oh, nesse caso, sou
mesmo um hipócrita. Meus ideais são altos demais para mim”. Citei até São Paulo sobre uma “outra
lei lutando comigo” (ainda acho graça quando me lembro que fiz tudo isso). Então, apliquei-lhes o
golpe final, procurando o melhor ponto para lhes atingir. “Há outro significado, para hipócrita,
meus amigos. E quando não acredito naquilo que prego. Quanto a isso, estou inocente. Realmente
acredito no que prego. Apenas não consigo praticá-lo tão bem quanto gostaria”. Depois que todos
ficaram bastante constrangidos, despedi-me e fui embora.

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28. O acusador dentro de mim diria que dou a vida pelos meus alunos, sem compreender porque
eles às vezes são tão ingratos. Provavelmente, o acusador teria também se queixado aos outros
desses dois “adolescentes atrevidos”. Teria ainda produzido um bocado de suco gástrico e
aumentado bastante minha pressão sanguínea, tudo compatível com o nível de ressentimento. Dessa
forma, cavaria um buraco cada vez maior para mim mesmo. De início, senti-me tentado a fazer isso.
Mas, felizmente, não permaneci durante muito tempo como acusador. Logo me tornei um autor. Fui
para meu quarto e lá fiquei sozinho com meus pensamentos. “Por que fiquei tão zangado?”
Examinei de perto minha raiva para encontrar a percepção que a alimentava. Depois de vinte
minutos de autoexame, ela se tornou clara. Fiquei com raiva porque sou hipócrita no segundo
sentido. Vieram-me à mente muitas ocasiões em que disse certas coisas nas quais nem sempre
acreditava. Lembrei-me de ter dado, certa vez, um grande sermão sobre a morte. “O que temos a
temer? Por que nos atormentamos com essa ideia?” No meio da minha representação teatral, senti
uma pontada aguda no peito. Meu estômago se contraiu. O medo subia e descia por minha espinha
dorsal. O pânico crescia nas profundezas de meu ser. “Isto pode ser um ataque cardíaco”, pensei.
Mas minha boca continuou a dizer o sermão tranquilamente.

29. Naturalmente, a dor logo passou. Mais tarde, quando ninguém podia me ver, sorri e brinquei
comigo mesmo: “Puxa, meu estômago está tão perto de minha boca, mas durante o sermão não
houve qualquer coerência entre eles”. Achei graça e disse para mim mesmo: É realmente difícil
conviver com você depois de um sermão em que sua boca diz uma coisa, e o estômago sente outra.

30. Muitas outras lembranças vieram-me à memória. Mas este foi meu grande ganho: eu sabia por
que estava zangado. Meus alunos tinham “colocado o dedo na ferida”. Às vezes me sinto dividido.
Parte de mim acredita no que digo, parte de mim dúvida. Mais tarde, apesar de seus protestos,
chamei os dois alunos; desculpei-me, expliquei-lhes porque tinha tido tanta raiva e contei-lhes o que
tinha aprendido sobre mim.

A acusação é como o alcoolismo

31. Nos últimos dez anos de minha vida, acho que aprendi mais com a Associação dos Alcoólicos
Anônimos do que com qualquer outra fonte. Não sou um alcoolista, e me considero uma pessoa de
sorte por não ser. De certa forma, participo da experiência sem ter que pagar o alto preço por isso.
Uma das coisas que aprendi é que os dependentes de álcool ou drogas não amadurecem enquanto
estiverem bebendo ou se drogando. Estar em contato com a realidade é uma condição indispensável
para o crescimento. Quando o álcool ou as drogas afastam a pessoa da realidade, ela não consegue
mais perceber as coisas como realmente são e fica estacionada em determinado ponto de seu
desenvolvimento. Um de meus alunos, que foi alcoolista por cinco ou seis anos até parar de beber,
me disse que era como se não tivesse passado pela adolescência. Ele teve que “juntar seus pedaços”
para começar a crescer novamente depois do período em que viveu no nevoeiro alcoólico.

32. O mesmo acontece com o acusador. Quando se recusa a assumir a responsabilidade por sua
vida e por suas reações, ele cria uma barreira que o separa da realidade. Essa barreira é feita de
projeção e racionalização, e funciona como o nevoeiro das defesas do ego. Iludir-se e enganar-se,
tornam-se válvulas de escape. O acusador, como o alcoolista, não consegue crescer, pois constrói
seu próprio mundo cheio de névoa. Ambos só se sentem em paz quando se fecham nesse mundo. Os
acusadores criam um mundo de explicações falsas para fatos verdadeiros; procuram a paz jogando
sobre outras pessoas a responsabilidade por suas vidas e por sua felicidade.

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Isto se aplica a todos?

33. O que estamos dizendo sobre total responsabilidade aplica-se a todos os seres humanos, mas
em diferentes níveis. Quando crianças, somos como argila macia, prontos para sermos modelados.
Nascemos com uma “fita virgem” dentro de nós, que começa a ser gravada na infância.
Aprendemos a maior parte de nossas percepções e reações emocionais através da influência dos
adultos à nossa volta. No mínimo, as interpretações que fazemos da realidade são aprendidas com
esses adultos. Do mesmo modo que as crianças precisam ganhar liberdade pouco a pouco para
pensar e escolher por si mesmas, precisamos aprender a assumir total responsabilidade por nossa
vida e nossa felicidade passo a passo. Esta é uma parte importante do processo de crescimento e
desenvolvimento. Sabemos o que aconteceria se os pais insistissem em tomar todas as decisões por
seus filhos até que completassem vinte e um anos de idade. O resultado seria uma pessoa atingindo
a maioridade inteiramente imatura. Sabemos também o que aconteceria se as crianças aprendessem,
através de exemplos, a delegar a responsabilidade por suas vidas a outras pessoas. Permaneceriam
crianças por toda a vida.

34. Portanto, responsabilidade total é responsabilidade adulta; deve ser ensinada às crianças desde
cedo e assumida gradualmente à medida que crescem. A penalidade para quem se recusa a assumi-
la é ficar preso a uma infância eterna.

35. Estou tentando praticar o que prego. Às vezes sou bem sucedido, às vezes falho. No entanto,
estou me esforçando para assumir total responsabilidade por minha vida e por minha felicidade.
Mencionei anteriormente o cartaz que leio todas as manhãs no meu espelho:

VOCÊ ESTÁ VENDO A PESSOA QUE É RESPONSÁVEL PELA SUA FELICIDADE!

36. A vida é um processo permanente. Estamos todos participando de uma viagem em direção à
plenitude da vida. Fomos feitos para apreciar essa viagem. Estou certo de que as duas bases dessa
caminhada são os dois pontos apresentados aqui: (1) uma auto aceitação total - a valorização de
nossa pessoa como um ser único, e (2) a disposição para assumirmos total responsabilidade por
todos os passos (inclusive os maus) que damos ao longo do caminho.

Elaborando essas ideias sobre responsabilidade total

37. Escreva uma carta pedindo desculpas. Escreva uma carta para seus “acusados” preferidos (uma
carta para todos). Essa carta deve incluir não apenas outras pessoas, mas também grupos, situações
e mesmo coisas inanimadas. Diga-lhes o quanto você lamenta por tê-los transformado em “válvulas
de escape”. Admita que foi um grande erro delegar-lhes a responsabilidade por suas ações. Garanta-
lhes que a partir de agora você será um autor. Lembre-se que isso não significa que os outros não
tenham falhas ou imperfeições ou que certas situações não sejam realmente difíceis. Significa
apenas que, mesmo lidando com pessoas e situações difíceis, ainda somos responsáveis por nossas
reações; significa também que é algo dentro de nós que determina nossas respostas. Quando estas
forem inadequadas, devemos encontrar esse “algo dentro de nós” e lidar com ele. Nosso adulto deve
tomar conta de nossas vidas.

38. Faça uma lista das pessoas, situações e coisas difíceis com as quais você pode ter que se
confrontar. Usando a técnica da imaginação positiva, tente visualizar essas imagens bem vivas no
cenário costumeiro. Tente responder da maneira que você gostaria. Veja e ouça você mesmo
respondendo como autor e não como acusador. Coloque seu adulto não seu pai ou criança, no
controle de todas as respostas. Se essa prática for repetida com sucesso algumas vezes, você será

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capaz de responder dessa maneira quando a situação for real. Você vai se tornar inteiramente
responsável, como a pessoa que você imaginou em seu exercício.

39. Faça um registro de modelos. Quem são os modelos de pessoas totalmente responsáveis em sua
vida? Lembre-se de algumas pessoas que você conhece e que assumem toda a responsabilidade por
suas vidas. Como cada uma delas expressa essa responsabilidade nos relacionamentos? Escreva
sobre isso.
Lembre-se

O crescimento começa onde as acusações terminam.

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PRÁTICA 3

Precisamos satisfazer nossas necessidades de relaxamento, exercício e nutrição.


1. Como seres humanos, não fomos feitos da mesma massa dos anjos, nem somos seres puramente
espirituais. Também não somos seres meramente materiais. A questão não é assim tão simples. Na
verdade, somos estruturas únicas e magníficas, compostas de três partes interligadas: corpo mente e
espírito. Essa interligação se torna confusa às vezes. Queremos descomplicar esse imenso mistério
humano. Não gostamos dessa inter-relação de partes. Relutamos em admitir que nosso corpo possa
influenciar nosso pensamento e nossas escolhas. Relutamos também em admitir que a mente e o
espírito possam expressar intuitos secretos através de nosso pobre corpo. Às vezes negamos esse
tipo de unicidade e essa inter-relação.

2. Ainda assim, é verdade que a mente confusa e o espírito carente podem nos deixar doentes
fisicamente. Achamos estranha a ideia de que uma simples dor de cabeça possa ser o resultado de
uma preocupação “negada” ou de uma ideia irracional de nossa mente. Mas, gostemos ou não, é
verdade que somos seres únicos com três partes intimamente ligadas. O corpo afeta a mente e o
espírito. A mente afeta o espírito e o corpo, E o espírito afeta o corpo e a mente. Quando cuidamos
de nosso corpo, estamos cuidando indiretamente da mente e do espírito. Esse cuidado será sempre
necessário para uma vida plena e feliz.

A história da separação

3. Ao abordarmos esse tema, nos deparamos naturalmente com nossos preconceitos. A negação da
inter-relação entre nossos componentes remonta aos antigos filósofos gregos. Platão foi o primeiro a
dividir a natureza humana em categorias distintas. Ele considerava a mente (“eu pensante") como a
parte superior da estrutura humana e a concebia como separada do corpo. Segundo ele, o corpo não
influenciava a mente e vice-versa. Os agostinianos, a civilização ocidental e os pensadores cristãos
deram também sua contribuição a essa teoria. Finalmente, o filósofo René Descartes colocou uma
linha de separação total entre alma e corpo. Descartes queria tomar a natureza humana tão clara
quanto sua amada geometria. Este “dualismo cartesiano” (alma-corpo) durou até os nossos dias.
Corpo é corpo e alma é alma. Não se considerou o indivíduo como a conjunção de fatores mente –
corpo - espírito.

4. Nosso passado pode ter-nos levado a pensar de maneira errada. Espírito e matéria não são como
água e óleo. Querendo ou não, somos uma unicidade misteriosa. Corpo mente e espírito são partes
intimamente interligadas dessa unicidade. Nada acontece em uma dessas partes sem afetar de algum
modo as outras duas.

5. Durante anos confiamos nosso corpo aos médicos, nossa mente aos psiquiatras e nossa alma aos
teólogos. Mas, não é possível continuarmos mantendo essa divisão. Nossos médicos nos dizem, às
vezes, que nossos males e dores não são puramente físicos - são psicossomáticos. Em outras
palavras, nossas dores estão em nosso corpo, mas são induzidas psicologicamente. Por outro lado,
nossos psiquiatras nos informam, às vezes, que nossa depressão resulta de uma condição puramente
física, como um desequilíbrio químico ou uma deficiência de vitamina. E os teólogos podem nos
dizer, também, que nossos sofrimentos não são provações divinas, mas o resultado de ideias
distorcidas sobre o significado das coisas que vivemos. Nossos orientadores espirituais podem ter
que lidar com nossa programação psicológica da infância, uma vez que pode estar aí a fonte de
nossos problemas espirituais.

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6. A conexão entre corpo mente e espírito significa que um problema que se origina numa parte
pode também aparecer em outra. Uma percepção distorcida pode causar uma dor de cabeça. A
condição física resultante da nutrição inadequada pode causar uma depressão psicológica. E os
desejos não satisfeitos do espírito humano podem muito bem aparecer nas doenças do corpo e da
mente.

7. Para alcançarmos a felicidade, é necessário que cuidemos dos três aspectos. Ninguém pode estar
realmente feliz, a menos que tenha atendido as necessidades de todos três. Nessa terceira prática,
estamos falando principalmente do corpo e de suas necessidades de relaxamento, exercício e
nutrição. No entanto, por causa dessa interligação, quando falamos das necessidades do corpo, está
implícita a preocupação com a mente e o espírito.

Estresse

8. Já dissemos que um problema físico pode ser a causa de problemas mentais e espirituais. E
também verdade que quando atendemos as nossas necessidades físicas, facilitamos o funcionamento
da mente e do espírito. Um dos problemas que mais nos aflige atualmente é o estresse. De início,
aparecem sinais de cansaço, tensão ou perda temporária de harmonia interior. Por fim, o estresse
rompe nosso senso de equilíbrio. E um fato que faz parte de vida, não temos como evitá-lo. Os
eventos ou situações que o provocam podem ser tanto positivos e aparentemente agradáveis, como
também negativos. Qualquer novo desafio requer alguma adaptação, e isso já é suficiente para
produzir estresse. Embora os seres humanos lutem para crescer, desejam também viver na
segurança, no equilíbrio e na serenidade de um estado imutável. Assim, a chegada de um filho na
família pode causar tanta tensão como a morte de um de seus membros. Apaixonar-se pode ser tão
estressante quanto romper um relacionamento. Tendo origem em um estímulo agradável ou
doloroso, o estresse pode nos tornar multo infelizes.

As quatro fontes básicas de estresse são:

Nosso meio ambiente


Nosso corpo
Nosso espírito
Nossa mente.

9. O ambiente requer sempre certa adaptação. Somos obrigados a suportar frio e calor, barulho,
aglomeração, a convivência com outras pessoas, obrigações com hora marcada, ameaças à
segurança pessoal e à autoestima. Nosso corpo nos coloca muitos desafios que resultam em
estresse: o rápido desenvolvimento na adolescência, o envelhecimento gradual, as doenças,
acidentes, distúrbios do sono e da alimentação. Também a mente, com suas várias percepções, pode
nos levar a esse estado. Por exemplo, podemos nos perceber como inadequados ou não amados;
como inferiores ou sem valor. Vemos nossos fracassos como catástrofe e interpretamos a realidade
como ameaçadora. Em todos esses casos, o resultado é sempre o mesmo: estresse.

10. E, além de tudo isso, um espírito carente pode nos causar grande desconforto. Às vezes
dispensamos a segurança e o conforto da fé e de sua direção. Mas, sem esse apoio, acabamos
experimentando uma dolorosa solidão, muita ansiedade, um estado de confusão e depressão.
Queremos saber de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos. O espírito entra
em estado de tensão quando não vemos significado na vida. Não gostamos de nos perceber como
meros mortais, levando uma vida sem sentido. Assim como o corpo fica doente e nos leva ao
estresse, também o espírito pode ficar em falta e nos levar a um vácuo cheio de tensão.

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11. Assim que o estresse toma conta de nós, qualquer que seja sua fonte desencadeia mudanças
bioquímicas imediatas em nosso corpo. Sentimos que estamos num ponto-limite, nossa mente
percebe o perigo e a ameaça. Nossos centros reguladores enviam informações imediatas para todo o
corpo. As substâncias químicas que levam essa mensagem dizem ao corpo para acelerar seus
processos orgânicos e glandulares que nos preparam para lidar com a ameaça ou para fugir dela.
Nos últimos vinte anos, a ciência médica descobriu a existência dos mensageiros químicos
conhecidos como neurotransmissores. Seus efeitos incluem dilatar as pupilas para vermos melhor,
aumentar a acuidade auditiva e tensionar os músculos para podermos lidar com a nova ameaça
percebida. O ritmo do coração e a frequência respiratória aumentam. O sangue deixa as
extremidades e se concentra no tronco e na cabeça, fazendo com que as mãos e os pés fiquem frios
e suados.

12. Se o estresse se prolongar, essas condições físicas se tornam crônicas. Psicologicamente, nesse
estado tudo aumenta de tamanho. Coisas que normalmente não nos incomodam se tornam
torturantes. Sentimos dificuldade de concentração, o sono e o apetite ficam afetados. Podemos nos
adaptar comendo e dormindo demais, às vezes de menos.

13. Eventualmente, o estresse crônico ou repetido esgota o corpo. É um fato comprovado que,
nesse caso, ocorre uma baixa no sistema imunológico. A pessoa estressada fica doente e, às vezes,
chega a morrer. Um exemplo disso é a ocorrência de pressão alta ou hipertensão. Estima-se que
vinte e cinco milhões de americanos sofrem de hipertensão, embora metade dessas pessoas nem
mesmo saiba que tem esse problema. O estresse é apontado como a maior causa de infecções
respiratórias, artrite, colite, diarreia, asma, disritmia cardíaca, problemas sexuais, circulatórios e até
mesmo câncer. Os médicos da Academia Americana de Medicina Psicossomática, fundada em
1953, acreditam que setenta e cinco a noventa por cento de todas as doenças conhecidas são, em
parte, atribuídas ao estresse. As três drogas mais receitadas nos Estados Unidos são:
Benzodiazepínico como tranquilizante, Propanolol para pressão alta e Cimetidine para úlcera. Os
líderes da indústria estimam que cinquenta a setenta e cinco bilhões de dólares são gastos todo ano
com sintomas relacionados ao estresse. É como se estivéssemos apenas esperando o melhor
momento para explodir.

“Mens sana in corpore sano”

14. O antigo adágio latino e receita para a felicidade era “uma mente sã em um corpo são”. A
ciência moderna, que descreve o estresse tão claramente, também afirma que podemos vencê-lo. O
círculo vicioso pode ser quebrado. Mas, para isso, precisamos aprender a relaxar, a exercitar, e a
seguir uma dieta equilibrada. Os antigos tinham razão: um corpo sadio contribui, e muito, para uma
mente sadia e um espírito feliz. Não podemos nos esquecer que estes componentes são intimamente
interligados.

15. Para convencer-se da importância do aspecto físico, lembre-se de como você reagiu a
determinado estímulo quando estava relaxado. Então lembre-se de como reagiu ao mesmo estímulo
quando estava tenso, cansado ou com fome. Muitas vezes, não são as grandes coisas que causam
tensão e estresse. E o cadarço do sapato que arrebenta quando você não tem tempo para procurar
outro, e o sinal fechado quando está com pressa. A ansiedade e a tensão aumentam todas as
pequenas coisas que nos irritam. Na verdade, a maioria dos problemas não são assim tão sérios; a
tensão que de maneira telescópica faz com que tudo nos pareça muito aumentado.

16. O corpo reage imediatamente a qualquer estímulo estressante, seja qual for sua fonte. Excesso
de trabalho, perda de emprego, morte ou divórcio podem facilmente causar um estresse crônico.

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Mas pequenas coisas como um horário apertado, uma simples discussão ou um aparelho que não
funciona, podem nos fazer perder o controle. Essas situações emitem mensagens levadas
imediatamente pelos neurônios, que por sua vez estimulam o aumento de produção das substâncias
químicas produtoras de tensão. Os efeitos são quase imediatos. Quando o corpo se torna tenso, as
funções da mente e do espírito diminuem seu ritmo.

Relaxamento

17. O primeiro passo para se combater o estresse é relaxar. E o primeiro passo para relaxar é
reconhecer os estímulos que nos tensionam. Na primeira oportunidade, faça uma lista das pessoas,
atividades c situações que podem lhe causar tensão. Além disso, a maioria de nós tem o que é
conhecido como "órgão de choque”. Se você puder identificá-lo, será mais fácil detectar o início do
processo. Algumas pessoas têm dor de cabeça, outras sentem dor nas costas; algumas são
perturbadas por problemas digestivos, outras por erupções cutâneas. O meu problema é a sinusite.
Quando começo a sentir pressão nos seios da face, sei que é hora de diminuir a marcha. O mais
difícil para mim é detectar o estresse quando ele surge. Apesar de me considerar uma pessoa muito
determinada e cheia de energia, quando consigo reconhecê-lo, o estresse já ganhou a força de um
furacão em mim.

18. Alguns estímulos estressantes parecem nos ajudar; outros tendem a nos enfraquecer. O estresse
em nossa vida pode ser comparado à fricção em um arco de violino. Quando esta não existe, não
pode haver música. Quando existe em demasia, há apenas um terrível ruído. O estresse positivo nos
leva ao movimento nos excita e nos energiza. Entrar numa sala para dar aula é um fator estressante
positivo para mim. Essa perspectiva sempre me estimula.

Relaxando através da transformação dos estímulos estressantes

19. Alguns fatores estressantes destrutivos podem se tornar construtivos. Por exemplo, a maioria
das pessoas sente um estresse destrutivo quando guarda ressentimento. Tendemos a julgar com rigor
aqueles com quem estamos ressentidos e tentamos evitá-los, se possível. Se for necessário nos
aproximarmos, tentamos esconder nosso ressentimento, mas isso nos desgasta. Se quisermos ser
escravos de alguma pessoa, basta guardarmos ressentimento em relação a ela. Sua sombra vai nos
acompanhar o dia inteiro, da manhã à noite. Ela vai comer conosco e estragar nossa digestão; vai
destruir nossa capacidade de concentração, estragar os bons momentos e arruinar nossa paz e
alegria.

20. Como posso transformar o ressentimento em um estímulo construtivo? Uma coisa que me
ajuda muito é compreender que, quando guardo mágoa de alguém, coloco minha felicidade em suas
mãos. Dou-lhe um verdadeiro poder sobre mim. A mudança de um estímulo negativo para um
positivo acontece quando assumo a responsabilidade por minha felicidade. Isso significa que
preciso perdoar a pessoa que me magoou. Preciso libertá-la da dívida real ou imaginária que
contraiu comigo, assim como preciso me libertar do alto preço de um ressentimento prolongado.

21. Acredito que um perdão completo e verdadeiro depende desse insight: existe sempre uma razão
interior para as pessoas fazerem o que fazem. Há sempre coisas que desconheço e jamais conhecerei
sobre as pessoas que me magoaram. Para compreendê-las, teria que conhecer seus genes, sua
família, sua educação, suas experiências, o ambiente em que vivem e assim por diante. Como foi
mencionado antes, o cérebro humano pesa mais de um quilo e meio. Mas ele armazena mais
mensagens do que o mais sofisticado dos computadores. Quando um ser humano age, todas as
mensagens arquivadas no cérebro são ativadas. Todas participam de suas ações e reações. Portanto,

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nunca estou certo do quanto aquela pessoa realmente precisa de perdão. Talvez, se eu conhecesse
todas as mensagens recebidas e arquivadas em seu cérebro, pudesse compreendê-la ao invés de
criticá-la. O importante é admitir que realmente não o conheço.

22. Preciso estar sempre ciente de minha ignorância. E, na medida em que a pessoa precisa de
perdão, eu a perdoo. Eu mesmo preciso, tantas vezes, receber o perdão que agora devo oferecer. Se
conseguir perdoar, ao invés de sentir raiva, vou me sentir pesaroso pela pessoa que me ofendeu.
Vou ficar em paz por ter libertado a mim e a ela da prisão do ressentimento. Terei assumido a
responsabilidade por minha própria felicidade. À medida que alcanço esse estado, meu estresse
negativo é transformado em positivo.

23. Para dar outro exemplo, alguns professores perdem o controle quando um aluno discorda de
seu ponto de vista. Eu mesmo já caí muitas vezes nessa armadilha. Existe aqui outro insight
importante: em uma discussão para ver quem perde ou ganha, todos perdem. No entanto, pedir ao
aluno para explicar seu ponto de vista pode levar a um entendimento mútuo. Compartilhando, todos
ganham. Mas, para isso, é preciso abdicar da posição de dono da verdade, o que nem sempre é
muito fácil. Se, apesar de tudo isso, o aluno continua desagradável ou arrogante, é bom lembrar que
a pessoa agressiva é uma pessoa infeliz. Esses insights podem nos transformar positivamente
quando lidamos com o estresse.

24. O mesmo tipo de transformação pode ser aplicado à expressão dos sentimentos. Primeiro,
precisamos compreender que os sentimentos não são, em termos morais, bons ou maus. Depois
precisamos compreender que é sempre bom podermos sentir e expressar livremente todos os nossos
sentimentos significativos. Caso contrário, o estômago vai contar o número de vezes que
reprimimos nossas emoções - até que estas se tornem destrutivas, até fatais. Nossos segredos nos
deixam doentes. Naturalmente, os sentimentos têm que ser expressos através do pronome “eu”, não
“você”. Por exemplo, “eu fiquei com raiva” ao invés de “você me fez ficar com raiva". Alguns
insights e pequenas habilidades podem produzir o milagre da transformação. O estresse negativo se
torna positivo, a tranquilidade substitui a tensão.

25. Portanto, em primeiro lugar, precisamos aprender a identificar nossos estímulos de tensão. A
transformação dos estímulos negativos em positivos é como a realização de um milagre. O que
causava sofrimento torna-se fator de crescimento. É mais fácil operarmos essa transformação
quando conversamos sobre isso com outra pessoa, especialmente se ela também já viveu essa
experiência.

Relaxando através de técnicas

26. É claro que nem todo estresse negativo pode ser convertido em positivo. A morte de um ente
querido, por exemplo, significa que vamos passar necessariamente pelo processo de luto. Não há
como evitar essa tristeza. Não há como tornar o luto agradável Nesses casos, só podemos tentar
encontrar algumas maneiras de aliviar a tensão. Seja ela o resultado de uma grande perda ou do
estresse do dia-a-dia, todos precisamos aprender técnicas de relaxamento. Há muitas delas, e cada
pessoa deve escolher aquela que mais lhe convier.

27. Uma técnica comum é reservar algum tempo, todos os dias, para algum hobby que tenha efeito
tranquilizador e relaxante. No meu caso, por exemplo, gosto de tocar piano e relaxar no final do dia,
apesar de não ser um bom pianista. Com certeza, minha música não é própria para relaxar alguém
que conhece e gosta de piano, mas certamente me relaxa. Outros hobbies que podem relaxar são:

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cozinhar, fazer coleções, cuidar do jardim, ler, conversar, ouvir música, folhear álbuns de
fotografia, escrever e assim por diante.

28. Ainda outra técnica popular é marcar um encontro diário com você mesmo. Nesse encontro,
tente apreciar a paz de não fazer nada. Recoste-se e feche os olhos. Respire e expire profundamente.
Imagine se num lugar calmo e agradável que você tenha visitado ou que exista apenas na
imaginação. Sinta seus músculos se afrouxando. Relaxe e aproveite esse encontro com você mesmo.
E mais barato e melhor que Valium.

Algumas sugestões finais para relaxar:

 Encontre um confidente com quem você possa se abrir totalmente, com quem se sinta seguro
Não pense que é impossível encontrar-se essa pessoa, desde que seja alguém com boas intenções.
Fale de todas as suas experiências significativas e carregadas de emoção. Não se esqueça de
escutar seu confidente também. Ninguém quer ser apenas um depósito de lixo para os restos
emocionais do outro.

 Faça um passeio pela natureza. Dê-se um tempo para admirar e cheirar as flores. Observe e
ouça as ondas do mar ou do lago. Olhe para cima e admire as estrelas.

 Releia um livro ou poema favorito.

 Escreva sobre sua crise mais recente, sem se esquecer de acrescentar o que você aprendeu
com a experiência. Há sempre um lado positivo em toda crise.

 Escreva um diário que inclua seus pensamentos, sentimentos e necessidades.

 Lembre-se de suas piadas preferidas e ria. O humor pode curar.

Exercícios físicos

29. A fórmula tradicional da tensão é: uma mente hiperativa num corpo inativo. Exercícios diários
vigorosos restauram o equilíbrio e aliviam a tensão. O exercício físico elimina as substâncias
químicas da tensão de nosso cérebro e da corrente circulatória, de promover a produção e o fluxo
daquelas que nos trazem paz e relaxamento, como as endorfinas. É difícil ficarmos deprimidos
depois de uma sessão de exercício. As pessoas que praticam corrida experimentam um sentimento
de exaltação, chamado de “estado do corredor”. Fisicamente, trata-se de uma mudança
neuroquímica provocada pelo exercício.

30. Especialistas na crise da meia-idade recomendam, acima de tudo, uma ginástica diária
vigorosa. Com frequência, necessidades espirituais e psicológicas se evidenciam na meia-idade. O
resultado é o aparecimento do estresse, velho conhecido, e de um círculo vicioso que parece nos
deixar sem saída. Entramos nesse círculo quando nossas necessidades produzem tensão, e esta faz
com que nossas necessidades pareçam maiores. O resultado gera mais tensão. A maneira mais
rápida de sair do círculo é o exercício diário, vigoroso. Correr, nadar, caminhar rapidamente,
qualquer coisa.

31. Há mais de quinze anos atrás, submeti-me a um exame do coração chamado teste de estresse,
que acabou me trazendo benefícios. Caminhei na esteira rolante enquanto meu coração era
monitorado pelo médico. Estava certo de que o teste seria apenas uma rotina, sem qualquer
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problema. No entanto, depois de seis ou sete minutos, o médico parou a máquina, pediu-me para
sentar com os pés para cima e passou a ouvir atentamente as batidas do meu coração com o
estetoscópio. Finalmente, disse que tudo havia voltado ao normal, depois de meu coração ter
começado a “palpitar” - ele estava trabalhando muito e alcançando pouco. Sugeriu-me que isso era
devido, provavelmente, à falta de exercício.

32. E este foi o início da minha carreira como corredor. Comecei correndo bem devagar uma
pequena distância. (Velhos que levavam seus cachorros para passear muitas vezes me
ultrapassavam). Então eu caminhava até conseguir correr novamente. Aos poucos minha capacidade
aumentou, e agora corro quatro ou cinco quilômetros diariamente. O dia em que comecei a correr
foi sem dúvida “o primeiro dia do resto da minha vida”. O cardiologista Dr. George Sheehan disse
que a corrida pode não aumentar o tempo de vida, mas certamente melhora sua qualidade. Sem
dúvida, foi isto o que aconteceu comigo quando comecei a correr.

33. O corpo humano é uma máquina estranha - desgasta-se por falta de uso. Por estranho que
pareça, nossa energia surge à medida que usamos nosso corpo e nos exercitamos. Como
consequência, a boa forma física contribui muito para produzir a energia de que precisamos para o
gasto. Muitas vezes, o melhor remédio para o cansaço ou esgotamento é fazermos meia hora de
ginástica aeróbica. À inatividade nos enfraquece. Não é possível estocar-se energia, pois, quanto
mais se gasta, mais se tem. É claro que o descanso adequado é essencial, mas se não for
acompanhado de atividade física, pode nos deprimir. A energia que não usamos como o potencial,
pode se tornar uma força destrutiva. Todos nós podemos nos beneficiar da atividade física, que
aumenta nosso suprimento de energia.

34. Desde que os pesquisadores começaram a examinar seus efeitos, os benefícios resultantes dos
exercícios físicos se tornaram bem conhecidos. As taxas de mortalidade que têm como causa
doenças do coração e câncer são muito mais altas nas pessoas que levam vida sedentária e vice-
versa. (Citado em The Healing Family por Stephanie Matthews Simonton e Robert L. Shook,
Bantam Books, 1984)

35. Naturalmente, nem todo mundo quer ou pode correr. Mas quase todos pode fazer caminhada
em um ritmo acelerado, que apresentam os mesmo benefícios do exercício vigoroso. Como a
corrida e a natação, as caminhadas aumentam o metabolismo e queimam as calorias em um ritmo
mais rápido; melhoram o tônus muscular e a capacidade do coração. Descobriu-se também que o
exercício evita a formação de placas nas artérias, abaixa a pressão e retarda o processo de
envelhecimento. Com tantos benefícios, a atividade física deve ser considerada como um fator
essencial à felicidade das pessoas.

36. O estresse e a tensão também diminuem, e muito, com o exercício físico regular. Como
resultado, aqueles que se exercitam conseguem viver mais em paz, vendo o mundo nas devidas
proporções; têm uma perspectiva mais saudável, pensam com mais clareza, têm boa memória, são
mais alegres, agradáveis e otimistas. Naturalmente, o mais difícil é começar. Mas as recompensas
são muitas.

Nutrição: O motor não funciona a menos que seja abastecido

37. Para sermos felizes e vivermos em plenitude, a boa nutrição é absolutamente essencial. Manter
a forma através de uma alimentação adequada é muito importante. A máquina humana não funciona
bem se não for bem abastecida. Pode parecer muito dramático relacionar nossos males sociais à
nutrição e, no entanto, essa ligação existe - desde o crime e a insanidade até o divórcio e o uso de

31
drogas são ocorrências ligadas à nutrição. Adelle Davis, já falecida, uma das nutricionistas mais
respeitadas de nosso tempo, afirmou: “Podemos esperar que todos esses problemas sociais
aumentem e afetem uma porcentagem cada vez maior da população, a menos que nossa nutrição
seja drasticamente modificada. Não estou querendo dizer que a nutrição inadequada seja a única
causa dos males sociais... mas ela é, ainda, um fator vital que não tem recebido como Margaret
Mead afirmou, “a devida atenção” (Let’s Eat Right to Keep Fit, Harcourt Brace Jovanovich,
1970, pág. 248).

38. O corpo é, obviamente, o instrumento através do qual a mente e o espírito funcionam. Pode-se
dar um exemplo dramático dessa afirmação através de uma lesão no cérebro. São a mente e o
espírito que têm o poder de conhecer e escolher. Mas se o cérebro estiver lesado, como no caso das
vítimas de acidentes ou de boxeadores atingidos no cérebro, os poderes da mente e do espírito
podem ficar bastante limitados. Da mesma maneira, o cérebro subnutrido apresenta,
proporcionalmente, os mesmos efeitos. Em caso de alcoolismo prolongado, o cérebro torna-se cada
vez mais limitado. Outro exemplo: a vitamina B6 é necessária para o funcionamento normal do
cérebro. Quando é suprimida na dieta, como parte de um tratamento contra o câncer, ocorrem
convulsões em crianças e adultos.

Uma parábola oriental

39. Há uma parábola oriental sobre um cavalo uma carruagem e um cocheiro, que ilustra bem a
condição humana e suas várias correlações. A carruagem representa o corpo humano, o cavalo
representa as emoções e cocheiro representa a mente. Se o sistema não funciona bem, deve-se
checar, em primeiro lugar, as condições da carruagem. Se esta não estiver bem lubrificada, alguns
de seus componentes podem estar enferrujados ou estragados. A manutenção pode estar precária, e
a falta de cuidado e de uso pode ter criado um dano ainda maior. Essa carruagem tem um sistema
próprio de auto lubrificação. As irregularidades do terreno deveriam ativar esse sistema, mas se ela
não for bem cuidada e usada regularmente, muitas dessas juntas tomam-se emperradas ou corroídas.
Até sua aparência pode se tornar desagradável, pouco atraente. Obviamente, para fazer uma viagem
eficaz e segura, a carruagem precisa de boa manutenção.

40. Sendo assim, muitos psicoterapeutas recomendam um programa de relaxamento, nutrição e


atividade física como ponto de partida. Se a viagem pela vida se torna desconfortável, o primeiro
aspecto a ser checado é a manutenção da carruagem (corpo). Talvez esteja aí o problema. Se o
desconforto persistir, um bom psicoterapeuta pode ser recomendado para examinar o cavalo
(emoções) e o cocheiro (mente). Ainda assim problemas aparentemente graves podem desaparecer
depois de um programa de relaxamento nutrição e exercício para o corpo.

Conclusão

41. Temos preconceitos históricos que nos levam a negar a interação de corpo, mente e espírito. No
entanto, a inter-relação entre os três aspectos é evidente em nosso dia-a-dia. Quando estamos sobre
carregados fisicamente, ficamos irritados. Quando não nos exercitamos fisicamente, ficamos
deprimidos emocionalmente e perdemos a capacidade de pensar claramente. Sob estresse
prolongado, até o espírito torna-se embotado. É essencial atendermos nossas necessidades físicas de
relaxamento, exercício e nutrição. Sem esse cuidado, a qualidade de vida fica muito comprometida.
O mundo deixa de fazer sentido e a vida torna-se monótona. Começamos a nos perguntar: “Afinal,
qual é o sentido de tudo isso?”.

32
Elaborando essas ideias sobre a satisfação de nossas necessidades físicas

1. Faça uma lista. Descreva as coisas que você fez na semana passada para cuidar de seu
corpo. Use as categorias de relaxamento, exercício e nutrição. Atribua a você mesmo uma
nota pelos seus cuidados. A - excelente; B = muito bom; C = razoável; D = ruim; E =
péssimo.

2. Escolha um parceiro confiável. Um amigo íntimo ficará feliz em acompanhá-lo nesse


processo. Combine com ele de fazerem uma avaliação a inter¬valos regulares. Estabeleça
três objetivos, um para cada item: relaxamento, exercício e nutrição. Compartilhe-os com
seu companheiro, conversando sobre seus sucessos e fracassos. Escreva bilhetes para
lembrar a você de seus objetivos. Coloque-os em seu espelho, nos marcadores de livro ou
em sua agenda. Certamente isso lhe exigirá muita perseverança. Mas lembre-se de que os
programas só funcionam quando estamos dispostos a levá-los adiante.

3. Localize seus sinais de estresse. Na lista abaixo, verifique os sinais de estresse que você
experimenta regularmente. Alguns são físicos, outros são emocionais. Todos são sinais
que lhe dizem alguma coisa sobre relaxamento, exercício e nutrição.

Tensão muscular / Dores de cabeça


Problemas de pele / Dores no peito
Extremidades frias (mãos e pés)
Hábitos anormais de alimentação
Tremores / Tonteiras / Taquicardias
Problemas respiratórios
Doenças psicossomáticas (hipertensão, úlcera, resfriados frequentes, urticária)
Cansaço frequente apesar de sono adequado
Insônia
Nervosismo
Irritabilidade, crises de raiva frequentes
Sentimento de esgotamento ou de desgaste
Exaustão: “Não aguento mais”
Incapacidade de diminuir o ritmo
Incapacidade de rir e se divertir
Sentimento constante de estar preso
Ansiedade frequente, medo, preocupação
Incapacidade de se concentrar
Inquietação
Dificuldade de lidar com os outros
Sonhar acordado
Desejo de evitar situações que se repetem
Falta ou excesso de apetite

42. Depois de estabelecer um programa de relaxamento, exercício e nutrição, verifique outra vez os
sintomas dessa lista. Note que eles diminuíram ou desapareceram.

Lembre-se

É difícil ser feliz quando você viaja pela vida em uma carruagem velha e gasta. Portanto,
comece a mudar. Tudo o mais vai ficar mais fácil.

33
PRÁTICA 4

Precisamos fazer de nossa vida um ato de amor.


1. Para as pessoas que não amaram, a velhice é um inverno de solidão. Elas guardaram consigo o
maior dos dons - o amor - para não perdê-lo, e no fim, perderam tudo. Envelhecem sozinhas, sem
cuidado, sem amor, numa espera solitária pela morte.

2. Para aqueles que amaram, a velhice é o tempo da colheita. As sementes de amor, plantadas com
cuidado ao longo da vida, amadurecem com o tempo. Tendo amado, a pessoa é cercada pelo
carinho e cuidado dos outros no entardecer da vida. Para se colher, basta plantar. O que foi dado
com espontaneidade e alegria retorna aumentado.

O que é o amor?

3. Não conheço outra palavra tão mal empregada como a palavra amor. A maioria das pessoas,
jovens ou velhas, define o amor como um sentimento. Quando nós o experimentamos, dizemos que
“estamos apaixonados”. Quando o sentimento desaparece, o amor se torna apenas parte de nossa
história. Está acabado. Uma paixão ou uma atração temporária podem ser facilmente confundidas
com amor.

4. Além disso, algumas vezes confundimos necessidade com amor. Quando outra pessoa aparece e
satisfaz nossas necessidades, somos tentados a dizer: “Eu te amo”. A expressão clássica de amor
verdadeiro “Preciso de você porque te amo” é muito diferente de “Eu te amo porque preciso de
você” Não posso dizer que sinto amor só porque você preenche meu vazio e minhas necessidades.
Meu amor deve ser sempre um presente que lhe ofereço espontaneamente.

5. Estou certo de que o amor verdadeiro é uma decisão e um compromisso. Antes que eu possa
amar alguém de verdade, preciso me comprometer com aquilo que for melhor para a pessoa que
amo. O amor me leva a dizer, a fazer e a ser o que a pessoa amada necessita que eu diga faça, ou
seja. O amor pode exigir que eu seja duro ou condescendente, terno ou exigente; que confronte a
pessoa amada, ou que a console. Mas primeiro preciso dizer sim ao amor. Preciso tomar uma
decisão e assumir um compromisso. Devo estar pronto para fazer o que o amor me pede. Nos
momentos de escolha, devo me perguntar apenas: “O que é melhor para o amor?”

6. Será que isto é possível? Apesar de nada ser perfeito na vida, esse princípio pode ser visto como
um ideal a ser alcançado. De fato, este é o único princípio de vida que pode nos trazer felicidade. A
todo o momento, estamos nos fazendo uma pergunta fundamental. Essa pergunta reflete nosso
princípio de vida. Posso estar me perguntando: “Como posso ganhar mais dinheiro?” ou “Onde
posso me divertir mais?”. A pessoa que decidiu fazer de sua vida um ato de amor, não busca
primariamente o prazer ou o aplauso. Seu desejo básico é simplesmente se tornar um ser humano
que ama. Sua questão básica é: “O que posso fazer por amor?”. Esta é a decisão do amor e o
compromisso com o amor.

Amor em níveis diferentes

7. Naturalmente o amor pode existir em muitos níveis. Algumas pessoas em minha vida são mais
importantes que outras. O nível de compromisso é maior em certos casos, como no casamento e na
família. Há estranhos, conhecidos, inimigos, colegas, sócios, amigos, vizinhos, pessoas íntimas,
irmãos, pais, parceiros e filhos. Uma pessoa que ama tenta reconhecer e atender as necessidades de
34
todos, na medida do possível. No entanto, como há vários graus de intimidade, haverá também
diferentes níveis de compromisso. Há uma ordem de prioridade que corresponde ao nível de
compromisso. A família vem antes dos amigos. Estes vêm antes dos estranhos, e assim por diante.

Amor por si mesmo e amor pelos outros

8. Não podemos falar de amor pelos outros sem nos lembrarmos que o amor começa em casa.
Precisamos começar amando a nós mesmos. Harry Stack Sullivan, psiquiatra que trata das relações
interpessoais, diz que “quando a felicidade, segurança e bem-estar de outra pessoa é tão importante
ou mais importante para você do que a sua própria, você ama essa pessoa”. O pressuposto óbvio é
que minha própria felicidade, segurança e bem-estar são importantes para mim. Se eu falhar ao me
amar, vou falhar ao amar o outro.

9. Se eu quiser ser uma pessoa que ama, devo valorizar igualmente minha felicidade, segurança e
bem estar e a felicidade, segurança e bem estar do outro. Preciso valorizar minhas necessidades e as
necessidades das pessoas que amo. Por exemplo, se estou com muita fome ou muito sono e você me
diz que precisa conversar comigo, posso lhe perguntar qual é a urgência da conversa para você. Se
for assunto de menor importância, posso marcar um encontro para amanhã. Minhas necessidades
terão prioridade sobre as suas. No entanto, se você está passando por um momento difícil (tendo
perdido alguém, por exemplo, ou pensando em suicídio), meu jantar e meu descanso podem esperar.
Suas necessidades terão prioridade sobre as minhas. Uma pessoa que ama é chamada a tomar
muitas decisões difíceis, e estabelecer prioridades é certamente uma delas.

10. A maioria das outras decisões de quem ama tem a ver com o que é bom e saudável para o ser
amado. Este nem sempre escolhe o que é melhor para si. Por exemplo, meu parceiro, que está
ficando alcoolizado, me pede outra dose. Ou me pede para ser seu cúmplice em uma mentira ou
fraude. Do mesmo modo, pode ser uma pessoa tímida e me pedir que o ignore. Devo dizer não a
todos esses pedidos. Outro exemplo seria o do parceiro tirano, que pode querer me dominar ou
abusar de mim. Ou do parceiro que tenta me manipular com sua raiva ou com seu choro. Nesses
casos, agir com amor significa não ceder um só centímetro. O amor me proíbe de ser a “válvula de
escape” do outro. Por amor, posso ter que confrontar meu parceiro ou afastar-me dele. Portanto, não
importa o que mais possamos dizer sobre o amor, este não é, definitivamente, para aqueles que
seguem a “lei do menor esforço”, mas, para aqueles que querem ser felizes.

11. Um professor meu amigo me confessou que foi alcoolista durante vinte anos. Nesse período,
tanto a família quanto os amigos inventavam desculpas para justificar seu vício, permitindo que
continuasse bebendo. Outros o substituíam na escola quando ele estava bêbado demais ou com
“ressaca” demais para dar aula. E assim, seu processo de autodestruição continuou por muitos anos,
até que encontrou, segundo suas próprias palavras, alguém que o amou de verdade; alguém que o
amou o suficiente para confrontá-lo, prometendo deixá-lo se ele não buscasse ajuda. “Ela me disse
que eu estava doente”, continuou meu amigo, “e que precisava de ajuda. Disse-me também que me
amava demais para permitir que eu me destruísse. Foi aí que resolvi mudar e buscar ajuda”.

12. A história de meu amigo, que foi amado de verdade, lembrou-me algo que ouvi certa vez: se a
pessoa amada chega em casa completamente embriagada e cai no jardim, a coisa mais gentil e
amorosa que se pode fazer é deixá-la ficar lá. Faz parte de sua “chegada ao fundo do poço”. A
pessoa só inicia seu processo de mudança quando permitimos que a mesma, sinta o impacto total da
dor, e sofra as consequências da bebida. A coisa mais cruel a ser feita seria abrir o irrigador do
jardim.

35
O terceiro objeto do amor: Deus

13. Há um terceiro objeto de meu amor - Deus. Além de amar eu mesmo e o outro, devo amar meu
Deus e Senhor com todo meu coração, mente e vontade. Amar a Deus acrescenta uma nova
dimensão ao amor. Apesar de acreditarmos no contrário, o fato é que não podemos dar nada a Deus
que Ele já não tenha. Deus não precisa de nós como precisamos um do outro. Apenas as pessoas
carentes sentem necessidades, e Deus não é carente. Contudo, Deus nos pede para amarmos uns aos
outros. E nos promete que tudo o que fizermos para o mais humilde de seus filhos, será como se
tivéssemos feito para Ele.

14. E, é lógico, Deus nos pede para aceitarmos e cumprirmos sua vontade. De acordo com a minha
visão, o importante para seguir sua vontade, seria colocar-me essas questões: faço meus próprios
planos e então peço a Deus para apoiá-los? Ou pergunto a Deus quais são seus planos, e então
procuro saber qual é minha participação nesses planos? Como um lembrete, tenho mais um bilhete
no espelho agradecendo a Deus por me amar, e com esta pergunta: “Quais são seus planos para
hoje? Gostaria de fazer parte deles”.

15. Naturalmente, a vontade de Deus é quase sempre misteriosa. Mas, uma coisa é certa: Deus quer
que usemos, em sua totalidade, as dádivas que nos oferece. No século II, Santo Irineu escreveu que
“a glória de Deus é uma pessoa que vive em plenitude”. Você já deu um presente a alguém que
nunca quis usá-lo? Você não teve vontade de lhe perguntar: “Por que não usa o presente que lhe
dei? Será que não gostou?” Talvez Deus queira nos perguntar sobre as dádivas que nos deu. Quando
dizemos no Pai Nosso “Seja feita a sua vontade”, estou certo que parte dessa vontade de Deus é que
eu desenvolva meus sentidos emoções mente vontade e coração tanto quanto possível. “A glória de
Deus é uma pessoa que vive em plenitude”.

16. Algo me diz que nosso amor por Deus é avaliado pela nossa disposição para fazer duas coisas:
amar o próximo como a nós mesmos, e cumprir sua vontade em tudo.

Os três elementos do amor ao próximo

17. Diz-se, com razão, que existem três elementos no amor que devemos dar ao próximo: bondade,
incentivo e desafio. Somente o coração e a mente que amam, sabem quando cada um desses fatores
é necessário para a pessoa amada. E é nessa ordem que eles são oferecidos. Se eu amar você, de
fato, devo deixar claro meu apoio e meu interesse pela sua pessoa em todas as circunstâncias. Meu
compromisso é com você. Esta é a mensagem da bondade. Uma vez que isso esteja claro, preciso
encorajá-lo a acreditar em si mesmo. Deixar que você dependa de mim ou se aproveite da minha
força não é amar você. E alimentar sua fraqueza e dependência. Preciso ajudá-lo a usar sua própria
força, estimulando-o a pensar e a fazer suas escolhas sozinho. Essa é a tarefa do incentivo. E,
finalmente, depois de lhe oferecer bondade e estímulo, devo desafiá-lo a usar seus talentos e seu
potencial. Você já sabe que me importo com você, que acredito em você e que estou certo de sua
capacidade. Agora é hora de lhe dizer: “Faça. Vá em frente e faça o que deve ser feito”. É o
momento do desafio.

18. Erich Fromm, com muita propriedade, considerou o amor como uma arte. Nas ciências, como
nas receitas, há medidas exatas e orientação cuidadosa sobre como proceder. Não é assim no amor.
Devo decidir, com arte, o momento em que o outro precisa da bondade, do incentivo e quando ela
está pronta para o desafio. Não há manuais de instrução nem respostas corretas, apenas minha
avaliação. E às vezes posso errar no julgamento. Mas posso sempre me desculpar por meu fracasso
c esperar que o outro aceite minhas boas intenções, mesmo quando erro.

36
O verdadeiro amor é incondicional

19. Um dos requisitos para o verdadeiro amor é que seja incondicional. Seu oposto, o amor
condicional, não é amor de verdade. É apenas uma troca. “Vou amar você desde que... até... se
você...”. O contrato pode ser preenchido com uma letra bonita, mas o outro, a quem se oferece esse
amor, é solicitado a aceitar todas as condições. Se não for assim, o contrato fica sem efeito. O amor
condicional é ameaçador, Pode ser retirado por qualquer passo em falso. O amor condicional é
como os pratos da balança. “Se você puser sua contribuição em um dos pratos, vou colocar a minha
no outro. Mas não tente me enganar. Estou sempre atento. Se você não colocar o valor devido, faço
o mesmo que você”. Naturalmente, tal “amor” é falso, não pode sobreviver.

20. Acredito que muito da agressividade que vemos no mundo é o resultado desse amor
condicional. No fundo, nos ressentimos com a pessoa que nos “amou” dessa maneira nos sentimos
usados. E protestamos: “Você amou meu rosto bonito só enquanto fui jovem. Você amou minhas
roupas limpas e exigiu que estivessem sempre limpas. Você amou minhas notas boas e deixou claro
que eu nunca poderia fracassar. Você amou minhas habilidades. Mas você nunca me amou. Sempre
tive que pisar em cima de ovos com você. Sabia que se falhasse ao atender suas exigências, você
faria comigo o que o fumante faz com seus cigarros - pega, fuma e joga fora”.

Amor e deslealdade

21. Assim, o amor é incondicional por natureza. Mas, o que acontece se dedico meu amor a alguém
que é sempre desleal comigo? Será que, amando incondicionalmente, vou ter que perdoar toda vez e
continuar amando? Esta é uma boa pergunta que preciso me colocar, mas a resposta não é fácil. O
amor certamente não me pede que seja tolo ou ingênuo. Preciso avaliar, tanto quanto possível, qual
a coisa mais amorosa a fazer, a ser, a dizer. O perdão não está em questão aqui. Naturalmente, eu o
perdoo. O amor não coloca limites ao perdão. A questão verdadeira é: “O que é melhor para mim e
para você?” E isto que devo fazer.

22. Preciso tentar equilibrar meu amor por mim e meu amor por você. Preciso me perguntar:
“Como posso preservar minha autoestima e ajudar você ao mesmo tempo?”. O amor é, sem dúvida,
uma arte e não uma ciência. Não há respostas claras e óbvias. O amor não nos promete um jardim
de rosas.

23. Naturalmente, abandonar você porque me decepcionou, seria uma forma mal disfarçada de
amor condicional. Por outro lado, continuar confiando em você depois de tudo, não seria amor.
Seria apenas permitir sua fraqueza. Não seria, também amar a mim mesmo. Isso iria apenas minar
meu auto respeito. Assim, tenho que me fazer esta pergunta difícil: considerando todas as
circunstâncias, qual seria a melhor coisa a fazer e a dizer, para você e para mim? Em determinado
momento, talvez tivesse que lhe pedir para escolher entre continuar comigo, sendo leal, ou
continuai- desleal, sem mim.

O amor inclui... O amor excluí ...

24. Algumas vezes é angustiante responder às questões que o amor coloca. Talvez seja útil
considerar primeiro esta questão: o que o amor incluí e o que o amor excluí? São Paulo, em sua
Primeira Carta aos Coríntios, nos dá algumas sugestões:

O amor de que falo custa a perder a paciência. Sempre procura um modo de ser construtivo. O
amor não é possessivo. Não fica ansioso para impressionar, nem alimenta ideias grandiosas de

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sua própria importância. O amor tem boas maneiras, e não procura vantagens egoístas. O amor
não é vulnerável ou frágil. Não contabiliza os pontos negativos, nem se vangloria com a
fragilidade do outro. Por outro lado, o amor fica feliz com todas as pessoas boas e sempre que a
verdade prevalece. O amor não abandona as pessoas. O amor não perde a confiança, nem a
esperança. O amor sobrevive a tudo. O amor é, na verdade, a única coisa que permanece quando
tudo mais cai por terra. Paráfrase I Coríntios 13: 4- 8.

Minha própria lista inclui o seguinte:

25. O QUE É O AMOR

ACEITAR você de qualquer maneira; RECONHECER seus pontos positivos e seus talentos;
IMPORTAR-SE com você, gostar de saber que você está bem; DESAFIAR você para que realize
todo o seu potencial; TER EMPATIA por você - saber como é ser você; INCENTIVAR você a
acreditar em si mesmo; SER SUAVE ao lidar com você; GUARDAR SEGREDO de suas coisas;
SER GENTIL - estar sempre a seu lado; ACHAR GRAÇA, não de você, mas com você;
PROCURAR coisas boas em você e as encontrar; FAZER com que você se sinta feliz por ser você
mesmo; PASSAR por cima de suas tolas vaidades e fraquezas humanas; ORAR por você e por seu
crescimento; VER coisas boas em você em que os outros nunca viram; COMPARTILHAR meu
Intimo e me abrir com você; DEFENDER você quando necessário; SER HABILIDOSO quando
confrontar você; ASSUMIR RESPONSABILIDADE por meu próprio comportamento; FALAR
sempre a verdade e ser honesto com você; PENSAR em você e em suas necessidades; SER DURO
OU SUAVE, dependendo de suas necessidades; COMPREENDER seus altos e baixos, aceitar suas
fases ruins.

26. O QUE NÃO É O AMOR

ABUSAR de você e considerar você como objeto; PEDIR que você caminhe num ritmo que não é o
seu; ACUSAR você com ódio; AMEAÇAR você com raiva, gritos ou lágrimas; PROMOVER
DISCUSSÕES para saber quem está certo e quem está errado; OFERECER conselhos que não
foram pedidos; JULGAR você e avaliar todos os seus problemas; SUPORTAR você como se
fizesse um favor; TESTAR você o tempo todo; PRECISAR estar sempre certo e ter todas as
respostas; FECHAR-ME e me recusar a conversar com você; CASTIGAR você e me vingar
quando você erra; LEMBRAR-ME de tudo que você fez de errado; CHAMAR sempre a atenção
para a minha pessoa; ESTAR SEMPRE querendo me sobressair, mostrando-lhe “o seu lugar”;
MINAR sua autoconfiança; USAR você para meus próprios objetivos e então dispensar você;
JOGAR minhas emoções em cima de você como num depósito de lixo; ABANDONAR você
quando não atende minhas exigências; (Os aspectos mencionados aqui podem ajudar como ponto de
partida. Você está livre para acrescentar, retirar, alterar e tomar emprestado. Sua própria lista será a
mais significativa para você).

Duas dádivas para todos os momentos

27. Uma das questões mais dolorosas que o amor coloca é: “De que você precisa?” As respostas
vão variar a cada dia, dependendo de sua disposição e situação de vida. Acredito, no entanto, que
duas dádivas são sempre necessárias: uma auto revelação honesta e uma valorização sincera. Ser
aberto e totalmente honesto é como oferecer ao próximo uma hospitalidade cordial. “Por favor,
entre e fique à vontade comigo”. A maioria das pessoas tem medo da opinião dos outros. Temos
medo de que nossa abertura nos custe caro. Os outros podem usar isso mais tarde de maneira hostil.

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Naturalmente, tentamos racionalizar nossos temores. Construímos muralhas de autoproteção,
dizendo que “boas cercas fazem bons vizinhos”.

28. Um homem cheio de problemas confessou ao terapeuta que não havia dito à mulher como se
sentia, pois ela andava deprimida ultimamente e ele não queria aumentar sua tristeza. Na semana
seguinte, contou que ainda não havia dito nada porque ela estava se sentindo melhor e ele não
queria dizer nada que pudesse aborrecê-la. O terapeuta confrontou-o, dizendo: “Você tem um
problema neste ponto. Acho que você tem medo de lhe falar sobre seus sentimentos e usa qualquer
desculpa para não ter que lidar com isso”.

29. O amor é honesto e aberto. Mas o amor é também bondoso e cheio de tato. Seria trágico se as
pessoas passassem umas pelas outras como um navio passa pelo outro na escuridão da noite. Mas
também seria trágico se nos chocássemos e destruíssemos uns aos outros. A comunicação é,
realmente, o segredo das relações de amor bem sucedidas. (Sugeri algumas dicas úteis para a
comunicação em outro livro, que escrevi junto com a terapeuta Loretta Brady, denominado Will the
Real Me Please Stand Up?). * Arrancar Máscaras Abandonar Papéis.

30. A segunda dádiva do amor, sempre necessária, é a valorização sincera. O reconhecimento é


aquela ação pela qual ajudamos o outro a apreciar suas qualidades e seus talentos. Reconhecemos
sua importância como pessoa e seu senso de valor. Na primeira prática proposta neste livro,
dissemos que a auto aceitação é absolutamente necessária para a verdadeira felicidade. No entanto,
ninguém pode manter essa auto aceitação sem o reconhecimento dos outros. Não posso acreditar
que sou realmente um bom professor se minhas aulas mostram o contrário. Muitas pessoas ficam
aprisionadas atrás de paredes e máscaras com medo de sua própria inadequação. Ninguém pode
acreditar em seu próprio valor a menos que haja um reconhecimento desse valor por parte dos
outros. Quando as pessoas são valorizadas, enfrentam a vida como uma flor que acabou de ser
regada. Acredito, há muito tempo, que a maior contribuição que o amor pode dar é essa valorização
sincera. Ela pode transformar a vida; pode transformar até o mundo.

31. Talvez você se lembre da história que o humorista Art Buchwald escreveu sobre a valorização,
intitulada: “Meu amigo, o motorista de táxi e a cidade de Nova York”. Parece que o amigo de Art
estava determinado a mudar o mundo, começando com a cidade de Nova York. O simples meio
através do qual ele pretendia fazer isso era usando o elogio e a valorização. Assim, depois de
fazerem uma corrida de táxi frenética, o amigo de Art cumprimentou o motorista ao descer: “Você é
um dos melhores motoristas que já vi. Você quase bateu em vários outros carros, mas conseguiu
escapar. E é por isso que o estou cumprimentando”. O motorista ficou espantado e perguntou:
“Você é doido ou o que?” Mas o amigo de Buchwald insistiu que falava sério. O motorista partiu
com um largo sorriso. Mais tarde, os dois andavam pela rua e Art viu seu amigo piscando para uma
mulher que passava. Quando Art lhe perguntou porque tinha feito isso, o amigo respondeu: “É parte
do programa. Se ela for professora, sua turma vai ter uma ótima aula, hoje”.

32. Naturalmente, a valorização que estamos propondo deve ser honesta e sincera. As pessoas
percebem quando é falsa. Ainda assim, todos nós encontramos o que estamos buscando. Há muitas
qualidades e talentos nas pessoas que estão à nossa volta, nem sempre valorizados. E essas pessoas
podem estar precisando desesperadamente de algum de reconhecimento e valorização.

O maior obstáculo ao amor é uma palavra de dez letras: sofrimento

33. Lembro-me de uma jovem que me procurou certa vez, pensando em fazer um aborto. Ela
estava grávida de três meses. Lembro-me de ter-lhe descrito as condições da criança nessa fase da

39
gestação. Disse- lhe que o bebê já tinha um coração que batia ondas cerebrais e todos os sistemas
físicos funcionando. Prometi-lhe toda a ajuda necessária caso ela desse ao bebê uma chance.
Lembro-me de como ela levantou os olhos do chão, com uma dúvida estampada no rosto, e me fez
uma pergunta que eu precisava muito de ouvir. “Eu sei que você ama meu bebê. Mas você me ama
também?”. Neste momento tive um insight. Ela não tinha nenhum amor para dar ao bebê, a menos
que alguém a amasse e se importasse com ela. Seu próprio sofrimento e seus medos tinham minado
sua capacidade de amar outra pessoa.

34. Sempre que penso nela, lembro-me da conversa que tive com um amigo psiquiatra. Perguntei-
lhe por que amar é tão difícil. Ele sorriu, com o sorriso que os psiquiatras reservam aos celibatários.
Concordou comigo que fomos feitos para amar, do mesmo modo que fomos feitos para crescer
fisicamente. Mas, assim como as doenças podem impedir o crescimento, algum obstáculo pode
impedir a aprendizagem do amor. O psiquiatra me perguntou; “Você já teve dor de dente?”. Disse-
lhe que sim. “Em quem você pensou enquanto seu dente doía?”. "Apenas em mim mesmo”,
respondi, “Aí está a resposta”, sugeriu ele. “Nossa dor atrai toda a atenção para nós mesmos. Uma
dor física, uma preocupação, um fracasso, uma mágoa ou um remorso - tudo isto é doloroso e nos
rouba a capacidade de amar. Quando a dor se torna um estilo de vida, a pessoa se torna muito
centrada em si mesma.”

35. Nos períodos de sofrimento, é muito difícil fazermos de nossa vida um ato de amor. A dor
parece atrair toda a nossa atenção, absorver todas as nossas energias. Não resta qualquer espaço
para o amor. A fonte seca. Quando as pessoas sofrem, conhecem apenas uma realidade: sua dor. Só
quando aprendem a lidar com ela ou a superam, tornam-se capazes de amar novamente, a si mesmas
e aos outros. É importante compreendermos isso. Identificar o problema nos ajuda a lidar com ele
de maneira efetiva.

O fracasso no amor leva à infelicidade crônica

36. A fonte da infelicidade crônica, na maioria das vezes, é o fracasso de amar. Todos os grandes
psiquiatras - Freud, Adler, Jung, Frankl - disseram isso. Essa suposição, no entanto, não significa
que o fracasso ocorre por culpa ou negligência da pessoa. Talvez a programação a que foi
submetida na infância e suas próprias experiências não a incentivaram a amar a si mesma, ao
próximo ou a Deus. E o preço a pagar por esse fracasso é alto. Pode ser que ela esteja apenas
seguindo sua programação ou reagindo a suas experiências passadas. Ela pode estar fracassando por
causa das mensagens que recebeu de outras pessoas ao longo de sua história.

37. Naturalmente, não podemos julgar a responsabilidade alheia. Mas podemos dizer, com certeza,
que se uma pessoa não consegue se amar terá muitos problemas pela frente. Se ela aprendeu, desde
cedo, a não confiar nos outros, será impossível amar alguém. Nessas condições, não há qualquer
esperança de felicidade. Essa pessoa vai habitar um mundo triste e limitado, com uma população de
um único habitante. Além disso, o espírito humano fica seriamente carente quando não se relaciona
com um Deus amoroso. Como escreveu o autor francês Leon Bloy: “Somente os santos são
verdadeiramente felizes”.

O amor e o laboratório da vida

38. Lembro-me do ódio que senti certa vez por uma pessoa. Foi como uma gota de fel em meio a
coisas doces. Muito depois, desta pessoa, ter saído da minha vida sua lembrança perturbadora
permaneceu. Nessa época, fiquei feliz com a visita de um psicólogo meu amigo. Segundo ele, se
algo nos perturba, é porque não exploramos inteiramente a causa de nossa infelicidade. A causa de

40
nosso problema não é o que pensamos. Se fosse, não ficaríamos tão perturbados. Assim, contei-lhe
sobre meu problema e ele me aplicou um teste. Comecei fechando os olhos e relaxando. Depois,
eliminei todos os pensamentos de minha mente e passei por uma porta imaginária. Levei apenas a
pessoa que me causava problemas e minhas péssimas lembranças para a sala que ficava atrás da
porta. Em poucos minutos, meu corpo começou a reagir. Seguindo as instruções de meu amigo,
iniciei um diálogo com minhas reações físicas. Que sentimento guardei dentro de mim e que se
manifestou através de uma reação física? Descobri que, bem no fundo, eu sentia culpa, e não raiva.
Quando relaxei meus ombros e deixei escapar um suspiro de alívio, meu amigo sabia que eu tinha
descoberto a verdadeira causa de meu problema.

39. Descobri que a razão para a minha inquietude interior era nunca ter sentido amor por aquela
pessoa, apenas ressentimento. Jamais senti qualquer pesar por ela, nem tentei ajudá-la. Bem no
fundo, sei que as pessoas desagradáveis são pessoas que sofrem. Mas, não tive compaixão por seu
sofrimento. Gastei todas as minhas energias ressentido com suas características negativas. Mas
estou aprendendo. Sei agora que o ressentimento é uma forma de escravidão. Sei também que o
preço para tornar minha vida um ato de amor significa reformular muitos de meus hábitos e valores.
É uma meta difícil, mas caso não seja alcançada, o que me espera é uma vida insatisfatória e uma
velhice de solidão.

Amor: um presente que Deus nos oferece e que também lhe oferecemos

40. Há dois aspectos referentes a Deus e ao amor que gostaria de mencionar. Sei que em nossa
sociedade pluralista, ambos serão veementemente questionados. No entanto, acredito que essa
discussão sobre uma vida de amor seria incompleta sem a inclusão desses dois aspectos nos quais
acredito: (1) o amor é uma dádiva de Deus, e (2) quando amamos, Deus se manifesta. O amor é,
realmente, uma dádiva de Deus

41. Aceito a Bíblia como a palavra de Deus. É nela que procuro respostas às questões como as que
estou colocando agora. Acho que a Bíblia é muito clara neste ponto. O amor é, de fato, uma dádiva
de Deus. São Paulo fala sobre essas três dádivas - esperança, fé e amor - e proclama que a maior
delas é o amor. Paulo diz que Deus nos oferece muitas dádivas, mas é o amor que devemos lhe
pedir, acima de tudo. (Veja I Coríntios capítulo 13 e 14).

42. São João é até mesmo mais explícito. Ele simplesmente diz: “Devemos amar uns aos outros
porque o amor vem de Deus. Quem ama é filho de Deus e O conhece”. (I João 4:7).

43. Acho que posso antecipar sua próxima pergunta: se o amor é uma dádiva de Deus, aqueles que
não acreditam em Deus podem amar realmente? Seriam necessários muito mais tempo e espaço do
que temos neste livro para responder a essa pergunta de forma adequada. Vou responder
simplesmente: sim, naturalmente as pessoas sem fé podem amar. Deus acredita em muitas pessoas
que não acreditam nele. Em alguns casos, Ele nos oferece um presente, como o poder de amar, que
é um prelúdio ao dom da fé. Outras vezes, Deus simplesmente ilumina os descrentes para que façam
suas escolhas amorosas e assumam compromissos de amor. Um grande teólogo, Karl Rahner,
referiu-se certa vez a essas pessoas como os “cristãos anônimos”. E o grande Tomás de Aquino
afirmou que “Deus não é limitado em suas dádivas - Ele não as oferece apenas a quem se une a ele
pelos sacramentos”.

44. Parafraseando Jesus, “Deus deixa que a chuva caia sobre as plantações dos crentes e dos não
crentes. Deus deixa o sol brilhar sobre os campos dos crentes e também dos não-crentes”. Se isto é
verdade, qual o valor da fé? Para os que creem, a fé possibilita uma relação de amor com Deus. Ela

41
nos permite ver a origem de nossas dádivas. E, naturalmente, a fé nos traz outras dádivas, como
aprendemos na história da mulher que tinha uma hemorragia. Jesus disse a ela e a muitos outros que
conheceram seus milagres: “Sua fé tornou isto possível”. Não há sentido no poder de Deus se ele
não for reconhecido. E está claro para mim que é a fé que nos permite reconhecer um milagre.
Houve muitos milagres que Jesus não pode realizar porque não havia fé naqueles que o cercavam.
Deus é como uma tomada elétrica. Há muito poder a ser liberado, mas apenas se houver a ligação
correta. E esta ligação é a fé, que libera o poder de Deus.

45. Quando sabemos que o amor é um dom que vem de Deus e não apenas de nossos próprios
poderes, garantimos o recebimento dessa dádiva. A maioria das pessoas começa tentando usar suas
próprias fórmulas nas relações de amor. Depois chegam a um ponto chamado “desespero do ego”. É
o momento em que admitem; que não se alcança; sucesso sozinho. Precisamos dirigir nossa vida
com a luz e a força divina. Devemos pedir a Deus que nos torne canais de seu amor, que preencha
nossa fonte para que possamos dar de beber ao próximo.

Quando amamos, Deus se manifesta

46. Esta é a minha segunda crença sobre Deus e o amor. Nem sempre acreditei que quando
amamos, Deus se manifesta. Agora acredito. De início, pensava que minhas ações mudavam as
coisas. Se defendesse a verdade, alimentasse os famintos e proclamasse a verdade que me fora
transmitida, tudo mudaria. O mundo inteiro acabaria contagiado pela minha verdade, compaixão e
virtude. Estas eram minhas ideias no “período messiânico”, o período em que eu brincava de Deus.
Agora acredito que, quando amamos, a graça de Deus flui para este mundo através do canal do
nosso amor: curando-o, endireitando suas linhas tortuosas, colando o que está fragmentado,
iluminando sua escuridão. Somos apenas instrumentos de Deus.

47. Estou certo de que, quando você e eu aceitamos a graça do amor e a usamos, estamos
preparando as condições para recebermos os atos de Deus. Nosso amor é o canal através do qual Ele
poderá curar e ajudar. A maioria de nós não tem grandes talentos, mas todos podem fazer pequenas
coisas com muito amor. E é isso que é essencial. A mãe amorosa que cuida dos filhos, o monge
silencioso que reza em um monastério distante, o velho cuja visão está enfraquecendo, o
adolescente que se preocupa com as espinhas - são todos capazes de aceitar e colocar cm prática o
dom de amar. E quando o fazem, Deus se manifesta. Por causa daqueles que amam, Deus mudará o
mundo.

Podemos realmente amar todas as pessoas? Mesmo nossos inimigos?

48. Lembro-me de uma discussão que tive uma vez com quinze pessoas, a respeito de uma vida
cheia de amor. Estava claro que eles não acreditavam no que eu dizia. Era como se eu estivesse
nadando contra a correnteza aquela noite. Meus amigos, ao discordarem de mim, estavam liberando
um bocado de raiva reprimida. É tão fácil transformar uma discussão numa guerra! Ficamos
cansados das pessoas que mentem, que distorcem nossas palavras, deformam a verdade e falsificam
os fatos. Acabamos com ódio e vontade de brigar. Meus amigos ilustraram isso bem. Contaram uma
história atrás de outra - todos casos sem esperança. E foi esta a conclusão a que chegaram: “É
impossível amar certas pessoas”. Acredito que estivessem confundindo amar com gostar. Talvez eu
não tenha sido claro ao definir o amor e suas muitas faces.

49. Sejam quais forem as nossas tendências, somos chamados a amar. Apesar de todas as nossas
discussões, a figura dominante de Cristo paira sobre nossas vidas e sobre toda a história do homem.
Ele diz: “Amar apenas os amigos? Ora, mesmo os pagãos fazem isso. Estou pedindo que vocês

42
amem também os inimigos”. E nesses momentos que enfrentamos os difíceis desafios e as
consequências de uma vida de amor. Acabamos acreditando que esse tipo de amor só pode ser uma
graça ou um dom de Deus. Ele não nos pediria para amar as pessoas de quem não gostamos, a
menos que esteja disposto a nos ajudar e a nos dar tal poder. Acabamos compreendendo, também,
que nosso amor é um dom de Deus e ao mesmo tempo a condição para que Ele se manifeste. “Isto é
tudo que ordeno a vocês... eu farei o resto”.

A grande questão: o amor nos faz felizes?

50. Na Última Ceia, quando Jesus começa a lavar os pés dos apóstolos, Pedro protesta: “Oh, não,
você não vai lavar meus pés”. Mas Pedro, a quem chamavam de “Rocha”, tinha suas fraquezas. Um
anfitrião só lavava os pés dos convidados que queria honrar. Depois do protesto de Pedro, Jesus fala
da verdade sobre a qual estava sempre explicando e vivendo. Ele deixa claro que todo cristão deve
fazer de sua vida um ato de amor; reconhece sua condição de Senhor, mas insiste que veio paia
servir, não para ser servido. Jesus explica aos apóstolos a importância de se ver toda autoridade a
serviço do amor. Então Ele diz a Pedro: “Se você não compreende isto, Pedro, você não me
compreende também. E se você não me compreende, não pode ser meu parceiro no reino dos
Céus”. Portanto, compreendendo ou não, Pedro implora a Jesus que lave sua cabeça e suas mãos
também.

51. No Evangelho de São João, Jesus conclui com essa linha: “Agora que vocês conhecem essa
verdade, como ficarão felizes de colocá-la em prática!” João 13:17.

52. A felicidade como subproduto do amor só pode ser aprendida através da experiência. Essa
alegria pode apenas ser descrita aos que não amam, que a consideram, sem dúvida, como um conto
de fadas, A vida como um ato de amor só pode ser sugerida nessa base: “Tente, você pode gostar”.
Mas a alternativa é clara. Se uma vida de amor é um conto de fadas, o inverso é um pesadelo.

53. As pessoas que não amam não se importam; com ninguém. Guardam seus ressentimentos,
rotulando-os e estocando-os num banco de memória. Não confiam nos outros. Sentem-se seguros
atrás de máscaras e escolhem cada uma de acordo com a situação e as pessoas presentes. Os outros
nunca passam em seus testes de inspeção. E as pessoas que estão dispostas a se relacionar com elas,
são, da mesma forma, desconfiadas, falsas e autocentradas. E uma vida de prisão, com celas e
barras. A solidão pode tornar-se às vezes muito dolorosa, mas há sempre alguma distração, alguns
estímulos e sensações mais fortes. Mas, num dado momento, a pessoa que não ama irá se perguntar:
“O que mais existem além disso?".

O amor é a verdade que nos liberta

54. Já contei esta história muitas vezes e em muitos lugares. Foi um desses momentos reveladores
na minha vida. E tem tudo a ver com o que estou colocando aqui. Foi minha descoberta pessoal dos
efeitos libertadores do amor.

55. Fui o último a falar em um painel de três conferencistas. Estava muito ansioso para
impressionar a audiência, que era minha própria comunidade religiosa. Meus companheiros nunca
tinham me ouvido falar antes e eu queria mostrar a pérola que havia entre eles. Estava me sentindo
o próprio Super-Homem. Por já ter feito isso centenas de vezes, raramente fico nervoso antes de
falar em público. Mas naquela noite minha boca estava seca e minhas mãos frias. Estava ansioso.
Então rezei em silêncio enquanto esperava meu momento de glória. Mas minha oração não deu
resultado. Continuava ansioso.

43
56. Então rezei de novo, lembrando a Deus sua promessa de que tudo que pedíssemos em seu nome
nos seria concedido. Mas naquela noite não era bem assim. Minha boca ainda estava seca. Minhas
mãos continuavam geladas. Então me lembrei do conselho de um velho sábio. Ele dizia: “Se você
fizer várias vezes a mesma pergunta a Deus e não receber resposta, tente outra pergunta”. Resolvi,
então, perguntar a Deus: “Por que estou tão nervoso? Por que você não faz nada a respeito? Você
está tentando me dizer alguma coisa?”.

57. Não tenho qualquer dificuldade em acreditar em um Deus amoroso que interage e se comunica
conosco. De fato, este é o único Deus em que acredito. De qualquer modo, naquela noite, sentado
diante de cento e vinte irmãos jesuítas, sei que Deus falou comigo. Sei que recebi uma graça de
Deus. Bem dentro de mim, ouvi uma voz que me dizia: “Você está se preparando para outra
apresentação. E eu não preciso de qualquer apresentação sua, só de atos de amor. Você quer se
apresentar para seus irmãos para que saibam como você é bom. Eles não precisam disso, Eles
precisam que você os ame, para que saibam como são bons”.

58. Sei que não inventei essa mensagem. Sei que veio de Deus, e que mudou profundamente minha
pessoa e minha vida. Depois de ouvir essas palavras, olhei para os membros de minha comunidade.
Olhei paia os mais velhos, aposentados, e que se preparavam para a aposentadoria da morte.
Estando ainda jovem e cheio de energia, me perguntei: “Como é ser velho? Como nos sentimos
quando a vida passa por nós, como um torvelinho? Quando ninguém pergunta por nós? Como será
esta sensação?” Depois olhei para os que estavam doentes, cronicamente. Alguns se levantavam
toda manhã com uma dor terrível no estômago, porque tinham úlcera, ou com uma dor terrível nos
ossos, porque tinham artrite. Tendo sido saudável a maior parte de minha vida, me perguntei,
“Como é estar doente o tempo todo? Como é deitar-se à noite com dor e acordar com dor pela
manhã?”.

59. Então olhei para os quatro ou cinco companheiros que eram membros dos Alcóolatras
Anônimos, e me perguntei: “Como se sentem? Como é ser viciado? Como é lutar para manter a
sobriedade, um dia de cada vez? Qual é a sensação de uma pessoa que se levanta numa reunião e
diz: Meu nome é ..., e sou um alcóolatra?”. Então olhei para os homens que não alcançaram sucesso
em seu trabalho. Para ser sincero, Deus me abençoou com mais sucesso do que jamais sonhei,
mesmo em meus sonhos coloridos. Perguntei, em silêncio, aos meus irmãos que não tiveram
sucesso: “Vocês se sentem fracassados? Vocês têm inveja ou ressentimento com o sucesso dos
outros? Vocês se perguntam por que tudo parece dar errado para vocês e certo para os outros?”

60. Colocar-se na pele de outra pessoa não é fácil, li um trabalho virtuoso que se chama empatia.
Tenho a certeza de que a empatia é o prelúdio essencial para se amar o próximo. Depois de minha
torrente de perguntas empáticas, senti vergonha do meu desejo egoísta de impressionar aquelas
pessoas. Eu estava rezando pela graça de lhes mostrar como eu era bom, quando deveria ter pedido
pela, graça de amá-los.

61. Mas Deus não tinha ainda terminado comigo aquela noite. Em outro momento de graça,
lembrei- me de Mary Martin, a cantora e animadora de auditório. Ouvi certa vez que é difícil sentar-
se no auditório de Mary e imaginar que o público a ama mais do que ela ama seu público. De
qualquer modo, diz Mary que ela nunca entra no palco sem primeiro espiar pela fresta das cortinas e
murmurar para o público: “Eu amo vocês! Eu amo vocês!”. Mary afirma que a pessoa não fica
ansiosa quando ama de verdade e quando se preocupa com o bem- estar do outro. A pessoa só fica
ansiosa quando está autocentrada e preocupada com o próprio desempenho. Quando perguntamos.
"Como vai você?”, e não “Como estou me saindo?”, quebramos a fixação que temos em nós
mesmos.

44
62. Assim, olhei para minha comunidade naquela noite memorável e me prometi: “Não sei se
amava vocês antes, mas agora vou amá-los e amá-los", Como se uma varinha de condão tivesse me
tocado, todo o nervosismo e tensão me abandonaram. A saliva voltou a molhar minha boca, e o
sangue correu novamente em minhas mãos.

63. Era uma lição que eu já tinha aprendido antes, e que teria que reaprender muitas vezes ainda.
Talvez me torne, algum dia, inteiramente receptivo a seu significado. O amor é libertação, o amor
suaviza a vida e a torna mais fácil. O amor quebra a tensão e a preocupação que temos com nós
mesmos. O amor nos liberta para uma vida de paz. O amor nos dá a única esperança concreta de
felicidade duradoura.

Elaborando essas ideias sobre o amor

Escreva sua própria versão de “o que é o amor” e “o que não é o amor”. Faça uma lista de coisas
que você acha que o amor incluí e outra que o amor excluí. Baseado nesta lista, o que você acha que
o amor lhe pede para fazer e para evitar fazer?

Faça uma lista e compare. Escreva os nomes de dez pessoas que você conhece melhor. Depois
coloque-os em ordem de acordo com sua capacidade de amar. Coloque a pessoa que mais ama (em
seu julgamento) no alto da lista e a que menos ama no final. Depois faça nova lista, das mesmas dez
pessoas, de acordo com sua aparente felicidade, paz e contentamento. De novo, coloque as mais
felizes (em sua opinião) no início e as menos felizes no final. Agora compare as duas listas. Qual é
sua conclusão? As pessoas mais felizes são também as mais amorosas? Amar realmente nos faz
felizes? O que você acha?

Tente exercitar sua empatia. Escolha uma pessoa da família ou um amigo íntimo e escreva como
você acha que é ser essa pessoa. Inclua tantos detalhes quanto possível. Então apresente sua
descrição à pessoa escolhida e pergunte humildemente: “Você é realmente assim? Será que percebi
bem, ou não?”.

Escreva um diário. Por fim, faça uma pequena lista de problemas que você tenha tido
recentemente. Inclua preocupações antigas, pessoas difíceis, problemas de saúde, obrigações
penosas, e assim por diante. Depois de cada “problema”, lembre-se do quanto esse problema
absorveu suas energias e diminuiu sua capacidade de amar. Enquanto você estava vivendo o
problema, ainda lhe restava alguma energia para se preocupar com o próximo? Como você tratava
os outros enquanto o problema estava no auge? O que estava se passando em seu interior naqueles
momentos?

64. Os insights que você teve com essa auto exploração lhe ajudaram a compreender os outros?
Você concluiria que o sofrimento, visível externamente ou não, diminui a capacidade de amar?

Lembre-se

O amor é um mau matemático. Não faz conta do que foi feito. Apenas continua fazendo...
sorrindo

45
PRÁTICA 5

Precisamos nos expandir, saindo de nossas zonas de conforto.


1. Somos todos peregrinos, pessoas num processo dinâmico. Cada um de nós deve marchar
corajosamente seguindo seu próprio ritmo, escalar suas próprias montanhas, lutar por um destino
que é só seu. Eu sou eu, você é você. À vezes, parece-nos mais seguro continuar na velha e
conhecida trilha ou ser parte de um rebanho. A estrada menos trilhada parece ser a mais arriscada.
No entanto, somos todos peregrinos, cada um a caminho do próprio destino. A estrada não é igual
para todos.) Cada um de nós é dotado de um potencial imenso e único. No entanto, em nosso
encontro com o destino, temos de nos aventurar, correr riscos, sermos rejeitados e magoados, cair e
levantar de novo. Temos de aprender a superar as derrotas. E um caminho agressivo, amedrontador,
desafiante.

2. Presume-se que os peregrinos a caminho da terra prometida sejam, acima de tudo, corajosos e
persistentes. Às vezes, é como se apenas a determinação nos levasse a prosseguir. E muito tentador
encontrar um lugar ao sol e lá permanecer. A imaginação fértil é capaz de inventar mil
racionalizações. “Eu não sou bem assim”, “Dá tudo na mesma”, "Por que me aventurar?”. Podemos
emitir milhares de pequenos sinais de desespero. Corações sensíveis irão vê-los e correr em nosso
socorro. Também nossos salvadores encontrarão logo desculpas para nós; afirmarão que nos amam
tal como somos, que não precisamos mudar.

3. Assim, somos condenados a permanecer no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas que sempre
fizemos. Nossas ações e reações tornam-se previsíveis. Alguns nos consideram confiáveis, outros
percebem que estamos paralisados pelos nossos medos. Tornamo-nos estagnados e sufocados.
Cada, dia é uma cópia-carbono do dia anterior. Cada ano fica mais parecido com o que passou.
Nossos ossos doem um pouco mais, novas rugas marcam nossa face, a energia diminui a cada dia.
Mas, sob outros aspectos, continuamos exatamente a mesma pessoa que sempre fomos, vivendo
num mundo sem desafios ou mudanças.

Definição de termo

4. Cada um de nós vive, a maior parte do tempo, dentro dos limites seguros de nossas zonas de
conforto. Enquanto permanecemos nessa área, nos sentimos seguros e sabemos o que fazer; estamos
habituados às coisas dentro desse círculo. Expressamos com facilidade certas emoções que nos são
familiares. Algumas estão fora de nossa zona de conforto e outras, ainda, nos parecem infinitamente
distantes. Algumas ações surgem de maneira fácil e tranquila; podemos executá-las “de olhos
fechados”. Outras, no entanto, nos amedrontam; ficamos assustados só de pensar nelas. Nossas
zonas de conforto incluem até nosso vestuário. Ficamos à vontade usando determinadas roupas e
cores, mas outras nos parecem berrantes demais ou simples demais e nos deixam constrangidos.

5. Nossa tendência a racionalizar essas zonas de conforto é um obstáculo ao nosso crescimento.


Uma racionalização bem sucedida sempre começa com uma “seleção” de nossa linguagem;
escolhemos as palavras exatas. Assim, dizemos: “Eu não sou assim”. “Isso não faz meu gênero”.
“Eu não me sinto bem fazendo isso”. A melhor racionalização é simplesmente dizer: “Eu não
consigo”. Isso tem um objetivo. Se dissermos, “Eu não quero”, as outras pessoas podem nos
perguntar “Por que?”. Mas, quando dizemos “Não consigo”, nos deixam em paz. Se você não
consegue, você não consegue e pronto. Enfim só, na minha tranquila zona de conforto!

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6. A saída deliberada para fora das nossas zonas de conforto é o que chamamos de expansão. No
entanto, é muito importante que se faça uma ressalva. Expandimos quando tentamos algo que seja
certo e razoável. Não nos despimos em público, não ferimos ou perturbamos alguém só para
expandir. A expansão nos desafia a fazer aquilo que nos parece certo e razoável, e que nunca
fizemos por medo. Por exemplo, gostaria de falar em público ou expressar meus verdadeiros
sentimentos, mas, por inibição, não consigo fazê-lo. Essa seria uma boa área paia expandir.

7. Certamente, todo crescimento envolve alguma expansão. Preciso tentar coisas novas se pretendo
mudar. A princípio, talvez me sinta inábil, desajeitado e preocupado com o meu próprio
desempenho. Mas, cada vez que tentar me expandir, vou me sentir um pouco mais confortável.
Finalmente, aquilo que estava fora da minha zona de conforto, estará dentro dela. A expansão
repetida vai me levar a um mundo novo, mais amplo, onde estarei mais livre. Desenvolverei uma
“mentalidade de expansão”, e passarei a desfrutar coisas novas. Os velhos medos e as inibições que
um dia me obrigaram a uma existência limitada, vão me parecer ridículos. Vou até me questionar
por ter permitido que monstros de papel me assustassem.

8. A expansão pode ser comparada ao ato de nascer. Você já assistiu a um parto? O recém-nascido
parece querer voltar ao útero aconchegante de onde saiu. No entanto, ali ele estava confinado e
tinha que estar sempre junto da mãe. Agora ele vive num mundo novo e maior. Com o tempo e a
prática, o bebê estará apto a explorar esse mundo mais amplo. A pessoa que decide expandir é, pela
força de sua decisão, introduzida num mundo maior; lá ela poderá, então, explorar toda a amplidão
e magnitude desse mundo: Os limites repressores da zona de conforto gradualmente dão lugar a
uma vida mais plena e mais feliz.

9. Podemos sempre pensar e transformar esse pensamento em ação. Por exemplo, se me considero
uma pessoa competente, sinto-me capaz de experimentar coisas cada vez mais difíceis. No entanto,
expandir envolve um processo inverso. Expandir que dizer agir primeiro e, a partir dessa ação,
pensar de maneira diferente. Por exemplo, não me considero capaz de falar em público; segundo
minha autoimagem, essa habilidade não faz parte do meu repertório. Então, um dia começo a me
expandir. Falo em público e todos acham que me saí muito bem. Aos poucos, passo a me considerar
um bom orador. Através de uma nova ação, começo a pensar de modo diferente. Acredito que todos
nós já vivenciamos experiências semelhantes. Você se lembra da primeira vez que conseguiu nadar
sem auxílio de alguém? “Eu sei nadar!”, você gritou para todo mundo. O mesmo aconteceu quando
você fez seu primeiro bolo ou marcou seu primeiro gol. Você conseguiu fazer alguma coisa nova e
seu autoconceito mudou. Antes, você estava convencido de que não era capaz, agora você se sente
competente. Outra vitória da expansão.

Áreas de expansão

10. As possibilidades de expansão são tão grandes quanto o mundo em que a pessoa quer viver.
Para muitos, entretanto, há certas áreas que parecem demandar especial atenção. A primeira delas é
a expressão das emoções. Tem sido demonstrado repetidas vezes que a repressão de nossos
sentimentos é autodestrutiva. Não conseguimos nos livrar desses sentimentos. Quando não os
expressamos abertamente, acabamos por extravasá-los de alguma maneira - tendo dores de cabeça e
úlcera, por exemplo, ou descontando em pessoas inocentes que nada têm a ver com o problema, ou
remoendo mágoas e ressentimentos que, aos poucos, nos envenenam. De qualquer forma, não
escapamos de nossos sentimentos reprimidos. Precisamos dizer às pessoas como realmente nos
sentimos. A punição pela recusa é a infelicidade. A expansão nessa área exige a expressão madura,
correta e razoável de nossos sentimentos (veja a prática 8 deste livro, sobre comunicação e suas

47
respectivas técnicas, ou para um estudo mais completo, meu livro anterior Arrancar Máscaras!
Abandonar Papéis!).

11. Uma área apropriada para a expansão poderia ter o título de: "Coisas que sempre quis fazer,
mas sempre tive medo de tentar'”. Todos nós, em algum momento, sonhamos alcançar as estrelas.
Mas, nossos medos, principalmente o medo do fracasso, nos impedem de alcançá-las.
Naturalmente, nossos temores são bastante subjetivos e pessoais. Aquilo que alguns têm medo de
tentar, outros acham muito fácil e natural. Estes são alguns desafios típicos: falar em público,
expressar nossa gratidão, discordar de um professor ou um chefe, velejar, voar, aprender a tocar um
instrumento musical, falar quando calar é mais fácil, aprender a dançar, escrever uma carta de
elogio ou de protesto para ser publicada. O que você sempre quis fazer mas teve medo de tentar?

12. Certamente, a autenticidade estaria incluída nas áreas de expansão. Tal autenticidade exige que
escutemos e estejamos atentos ao que está acontecendo dentro de nós. Se estou me sentindo
inseguro, é importante que admita minha insegurança. Se não entendo alguma coisa, tenho que
admitir que realmente não entendo. Quando sei que tenho habilidade para fazer alguma coisa e essa
habilidade é necessária em alguma situação, devo me oferecer para usá-la. E importante que
manifeste sempre, de maneira madura, minhas necessidades. Não devo ter medo de pedir favores.
Se alguma coisa me ferir, devo dizer um audível “ai!”. Finalmente, preciso ser capaz de retirar
minhas máscaras e pretextos; preciso ser honesto, aberto e verdadeiro. Nada serei, se não for
verdadeiro. Todos estes são não apenas meus direitos, mas metas saudáveis que preciso alcançar.

13. Outra área para expansão seria a dos relacionamentos, essenciais para uma vida plena e feliz.
Para muitos é difícil iniciar um relacionamento, quando é necessário que se apresentem ao outro.
“Gostaria de conhecer você”. Isso nos amedronta, mas precisamos nos aproximar do outro, de
qualquer maneira. Além disso, um relacionamento inclui também compartilhar segredos e fazer
coisas juntos. Quando nos expandimos para iniciar um relacionamento, estamos diante de muitos
desafios - nos abrirmos, revelarmos segredos, fazermos convites, arriscarmos rejeições, nos
aventurarmos.

14. Naturalmente, há inúmeras pequenas expansões que todos nós devemos experimentar e que não
nos custam sofrimentos e lutas interiores. Você certamente conhece o provérbio: “Quem não arrisca
não petisca”. Assim, você se pergunta: Para que tentar essas coisas novas, se são tão pequenas? É
verdade que essas expansões menores podem nos parecer insignificantes; no entanto, se exercitadas
regularmente, nos instigam a sair de nossa velha rotina. E é exatamente um pequeno movimento
que pode provocar grandes mudanças e crescimento. Aos poucos, passamos de uma pessoa que
apenas tenta se expandir para alguém que está em permanente expansão, que se aventura.
Gradualmente, descobrimos que estamos num mundo maior e mais excitante, vivendo intensamente
cada momento.

15. Estas são algumas pequenas expansões que podemos experimentar: tirar um cochilo num dia de
chuva; marcar um horário para relaxarmos e refletirmos; fazer uma lista das coisas a serem feitas
num dia determinado e cumpri-las; prestar um serviço a alguém, anonimamente; escrever uma
canção ou um poema; cumprimentar, com sinceridade, alguém que nunca nos cumprimenta; dizer
não a um pedido sem nos sentirmos culpados; gastar algum tempo conversando com uma criança;
segurar a mão de alguém: tentar alguma coisa que pode falhar; ir devagar quando estivermos com
pressa; abrir mão de alguma coisa a que estamos apegados. Vamos, é hora de tentar!

16. Estudiosos da natureza humana estimam que a média das pessoas realiza apenas dez por cento
do seu potencial. Os noventa por cento restantes são frustrados devido aos nossos medos e

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inibições. A expansão nos ajuda a melhorar esse índice. Se não nos expandirmos, estaremos
perdendo noventa por cento da beleza e da dádiva que é a vida. Levaremos para o túmulo noventa
por cento de nosso potencial sem uso. Não é triste, tanta potencialidade lacrada em nossos caixões
com nossos restos mortais?

Expandir: alcançando o novo, abandonando o velho

17. É fácil fazer o que nos traz gratificação e reforço imediatos. Infelizmente, na maioria dos casos
a expansão requer tempo e repetição. Não matamos os dragões dos nossos medos com um só golpe
de espada. Entretanto, se perseverarmos, fazendo o que nunca fizemos antes, sentiremos uma
crescente sensação de paz e tranquilidade.

18. Guardo nítidas lembranças de minha timidez infantil. Felizmente, fui desafiado por pessoas
boas e afetivas, e acabei participando de debates e concursos de oratória no colégio. A primeira vez
que subi num palco, pensei que fosse morrer, ou no mínimo, desmaiar de vergonha. Com o passar
do tempo e com uma dose de perseverança, a timidez começou a desaparecer. Agora já não resta
quase nada (de vez em quando, percebo um garotinho tímido dentro de mim, que se pergunta se
tudo isto é real). Mas, não se esqueça: o crescimento é sempre um processo gradual, uma ponte que
se atravessa devagar, não uma curva fechada que se faz de uma só vez.

19. Lembro-me de ter lido sobre a libertação dos campos de concentração nazistas pelas Forças
Aliadas, ao final da Segunda Guerra Mundial. Muitos dos prisioneiros saíam hesitantes das
barracas, piscando à luz do sol para então voltar, lentamente, para dentro das barracas outra vez. Por
um longo tempo, aquele foi o único lugar que conheceram. Estavam acostumados a ser prisioneiros
e não podiam se imaginar livres, agindo como pessoas livres. Acredito que, de alguma maneira,
todos nós temos essa tendência, que é tão humana. Por muito tempo, prisioneiros de nossos medos,
vivemos num canto pequeno porém seguro, usando, infelizmente, apenas dez por cento de nosso
potencial. Somos, então, desafiados a nos expandir - a dar o primeiro passo desajeitado para fora de
nossa prisão pessoal. Piscamos à luz do sol e desejamos voltar, em silêncio, para as coisas
conhecidas, para nossas zonas de conforto limitadas, mas familiares.

20. Uma das leis inflexíveis da condição humana é que, quando abrimos mão de um prazer,
precisamos ser compensados com um novo, se possível, maior do que o anterior. A natureza
humana abomina o vazio. Quando nos expandimos, o prazer do qual abrimos mão é a segurança.
Ao ultrapassarmos as cercas e trincheiras de nossas inibições, estamos abandonando o. “nosso lugar
ao sol”. Estamos abandonando a segurança de nossas zonas de conforto, que sempre nos ofereceram
uma existência segura, sem desafios. O prazer que ganhamos com a expansão é a liberdade.
Tornamo-nos livres. Lutamos contra os medos que nos limitam, e isto é libertador.

21. Antes de nos expandir, usamos dez por cento de nossos dons - os dons dos sentidos, das
emoções, da mente e do coração. Quando nos expandimos, saímos pouco a pouco da escuridão em
direção à luz, da solidão para o amor, de uma vida limitada para uma vida plena.

22. Tenho a certeza de que não existe em nós uma vontade forte ou fraca; é nossa motivação para a
ação que é forte ou fraca. E o combustível do desejo que nos movimenta. É óbvio que nossa
motivação para expandir está relacionada, de alguma maneira, à nossa crescente liberdade,
satisfação e auto realização. Todos nós desejamos a recompensa certa e segura de uma vida mais
plena e de uma liberdade maior. Quanto mais nos expandimos, mais forte se torna nossa motivação.

49
Motivando as pessoas acomodadas

23. Em toda escola há sempre um grupo de alunos acomodados que não se saem bem. Têm tudo
que é necessário, exceto a motivação e o estímulo para usar seu potencial. E, em quase todas as
escolas, há também uma classe especial para esses alunos. Uma coisa é geralmente sugerida nessas
classes: “Faça alguma coisa você mesmo. Tente estimular seu próprio interesse. Leia um livro.
Ofereça-se como voluntário para fazer algum trabalho”. A maioria dos acomodados senta-se atrás,
na última fila da sala, esperando que o professor os estimule. No entanto, três entre quatro
professores não conseguem motivá-los. É a lei das médias. O acomodado típico se acostuma a se
sentar na última fila da vida, vivendo crises sucessivas de identidade. Ele está sempre se
perguntando: “Quem sou eu? Qual é o meu valor? Quem se importa comigo?”. É como ficar
sentado numa cadeira de balanço. Não nos leva a lugar algum, mas, é alguma coisa para se fazer.

24. Até que o acomodado seja persuadido a se expandir, continuará nesse limbo de uma existência
pela metade. Mas, ao se expandir, experimenta um entusiasmo que se desenvolve por si mesmo.
Quando nos envolvemos em alguma coisa, nossa própria atividade gera mais entusiasmo, que se
auto alimenta, aumentando e se multiplicando naturalmente. A expansão vence nossa inércia e, a
partir daí, nos tornamos, gradualmente, auto motivadores.

Elaborando essas ideias sobre expansão

25. Já falamos sobre áreas que podemos expandir. Para ser mais específico, tente se expandir em
alguma coisa cada dia. Faça uma lista de itens e pratique-os em ordem até terminar a lista. Depois
comece a repeti-la. Veja como cada expansão o liberta do pequeno e solitário mundo das zonas de
conforto. Experimente a libertação de agir contra os seus medos e inibições dolorosas. Lembre-se,
um dia de cada vez, uma expansão cada dia

1. Uma emoção que nunca compartilhei. Hoje, vou dividi-la com alguém.
2. Um risco que nunca corri. Vou correr esse risco, hoje
3. Uma tarefa que nunca tentei. Vou tentar fazê-la hoje.
4. Uma rejeição que nunca arrisquei. Hoje, vou correr o risco.
5. Uma carência que nunca admiti a ninguém Hoje, vou admiti-la.
6. Um pedido de desculpa que nunca fui capaz fazer. Vou pedir desculpas, hoje.
7. Uma afirmação que nunca fiz. Hoje, vou fazê-la.
8. Um segredo que nunca compartilhei. Hoje vou compartilhá-lo com alguém.
9. Uma mágoa que nunca revelei. Hoje, vou revelá-la.
10. Um sentimento de amor que nunca expressei. Hoje, vou dizer a alguém “eu te amo”.

Lembre-se

Um mundo maior e uma vida mais plena esperam por você. Mas, para alcançá-los, é
necessário expandir. Vá em frente! Lute por isto! Ganhe seu dia!

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PRÁTICA 6

PRECISAMOS APRENDER A SER "BONS DESCOBRIDORES. ”


1. Num certo sentido, a maior parte das buscas humanas é bem sucedida. Parece que sempre
encontramos aquilo que buscamos. O objeto de nossas expectativas parece ter estado sempre lá,
esperando para ser descoberto. Desde a infância, algumas pessoas parecem destinadas às desilusões.
Naturalmente, é só isto que encontram, e em abundância. A vida se torna um cenário de desilusões e
sonhos desfeitos. Seus heróis parecem ter os pés de barro e desmoronam. O que é para sair errado,
sai errado sempre. Depois de perambular por todos os caminhos da vida, encontram-se num beco
sem saída.

2. Outros, no entanto, parecem guiados por uma bússola diferente, percorrendo caminhos mais
acertados. O cenário é belo e as pessoas que encontram são afáveis. Parecem estar cercados de
bondade e boa sorte. Dias sombrios surgem ocasionalmente, mas no final tudo parece dar certo.
Sabemos, por experiência própria, o que o Senhor Deus quis dizer quando olhou para sua criação e
disse: “Está tudo muito bom!”.

O denominador comum da felicidade

3. Há anos atrás, alguns pesquisadores decidiram estudar a felicidade de uma maneira puramente
científica. Para isto, procuraram cem pessoas felizes e bem sucedidas e as entrevistaram. Todas as
informações obtidas foram cuidadosamente colocadas em um computador. A esperança dos
pesquisadores era descobrir pontos comuns a essas pessoas – denominador comum da felicidade.

4. A princípio, a busca científica por esse denominador mostrou-se bastante desanimador. Essas
pessoas felizes e bem sucedidas não pareciam ter qualquer coisa em comum, nem mesmo a
educação ou o ambiente em que foram criadas. Algumas tinham deixado a escola prematuramente,
enquanto outras tinham feito cursos de pós-graduação. Umas vinham de famílias ricas, enquanto
outras tiveram que se erguer da pobreza na qual haviam nascido. De todas as categorias, o fator
mais próximo de um denominador comum era que setenta entre as cem pessoas entrevistadas
procediam de pequenas cidades, com população inferior a quinze mil habitantes. No entanto, no
cômputo final, a busca foi coroada de sucesso, terminando com uma descoberta surpreendente. Os
cientistas constataram que cada um dos cem indivíduos era um bom descobridor – uma expressão
que teve que ser criada pai a descrever esse traço comum.

Definição cio bom descobridor

5. Gomo definição, um bom descobridor é aquele que procura e encontra pontos positivos em si
mesmo, nos outros e em todas as situações da vida. É verdade que, no geral, encontramos tudo
aquilo que procuramos. Se nos propomos a encontrar o mal, vamos encontrá-lo, e muito. Por outro
lado, se nós propomos descobrir o bem, há também muito a ser descoberto. Se procurarmos
imperfeições em nós e nos outros, a busca será certamente bem sucedida. No entanto, se olharmos
além das coisas tolas e frágeis, procurando as coisas boas e belas que ninguém jamais encontrou,
nossa busca será coroada de sucesso. Tudo vai depender daquilo que estivermos buscando. “Dois
homens olhavam pelas grades da prisão. Um via lama, o outro via estrelas”.

6. Um velho pároco do interior disse certa vez: “As pessoas estão sempre tentando explicar o mal, e
há na verdade, muito mal a ser explicado. Mas existe um outro problema. Como explicar todo o
bem que há no mundo?” O pároco estava certo. Como explicar as pessoas que são fiéis a suas
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promessas? Como explicai' a dedicação humana, uma vida a serviço dos outros? Como explicar o
heroísmo? Há muita bondade no mundo, e muitas vezes a encontramos onde menos esperamos.

7. Realmente, encontramos tudo aquilo que procuramos. Imagino o que aconteceria se um padre,
um poeta e um político estivessem caminhando, juntos, pela mesma rua. Cada um deles procuraria e
encontraria algo diferente. O padre pensaria nas pessoas que vivem ali, em suas vidas e no que Deus
está lhes reservando. Talvez se fizesse perguntas difíceis sobre a Divina Providência. Enquanto isso,
o poeta estaria absorto pela beleza das árvores, com seus ramos se entrelaçando e formando um
verdadeiro túnel de galhos; perceberia a nuance das sombras e vibraria com a festa das cores. Ele
continuaria sua caminhada, em êxtase. Os olhos do político perscrutariam os mesmos lugares, e ele
calcularia mentalmente: “Há muitos votos por aqui”. Ele se perguntaria sobre o líder da região e se
já haveria alguém tentando arregimentar todos aqueles eleitores. Todos os três - padre, poeta e
político – procurariam e encontrariam algo diferente, na mesma experiência.

Buscando meus pontos positivos

8. Vocês se recordam do exercício da cadeira vazia, usado para processar as ideias propostas na
Prática. Usei-os certa vez com os participantes de um seminário sobre atitudes. Um ano depois,
recebi esta carta: “O programa do seminário dizia que seus participantes deveriam ser pessoas
emocionalmente estáveis, mas resolvi participar assim mesmo. Tenho vivido, em quase todos os
meus vinte e nove anos de vida, num estado de permanente confusão mental. No entanto, depois
do exercício da cadeira vazia, senti que meus problemas haviam terminado. O meu eu que veio se
sentar na cadeira era um traste. Parecia uma boneca de pano surrada pronta para receber mais
pancadas. O triste é que eu sabia quem lhe havia surrado. Fora eu mesma. Eu havia me
desmoralizado completamente com críticas constantes. Toda vez que me olhava no espelho, não
via o sorriso bonito, os dentes brancos perfeitos ou os olhos brilhantes. Via apenas os cravos e as
espinhas. Quando escrevia alguma coisa, procurava apenas as palavras erradas e mal
empregadas. Fui muito bem sucedida em destruir minha própria imagem. Quando, durante o
exercício, tivemos que dizer alguma coisa para o nosso ego imaginário, só pude me desculpar
pelo que havia feito a mim mesma. 'Me desculpe. Sinto muito pelo que fiz a você. Eu lhe prometo
solenemente que, de agora em diante, serei sempre sua amiga. Vou lhe dar muito apoio e a maior
força. Vou lhe fazer apenas elogios e críticas positivas. Vou ficar atenta às coisas boas que você
tem. Prometo que vou tentar'. Um ano já se passou. Fui fiel às promessas que me fiz. E a cada
dia, tenho mais certeza de que meus problemas terminaram. Deixei de fazer terapia. Meu
terapeuta concordou que não preciso mais dele, pelo menos por agora. Foi como começar outra
vez, uma segunda chance na vida. Tornei-me minha amiga. Comecei a focalizar minhas coisas
boas. Isso fez uma enorme diferença. Tornei-me, pelo menos, uma pessoa razoavelmente feliz e
saudável”.

9. Procurar qualidades em nós mesmos não é, de forma alguma, um ato de presunção ou vaidade.
Essa busca pode e deve ser acompanhada de humildade e gratidão. Procurar o que há de bom em
mim é a única coisa razoável a ser feita se quero ser feliz. Bernard de Clairvaux disse, certa vez, que
a perfeita expressão da verdadeira humildade no Novo Testamento é o “Magnificat” de Maria, mãe
de Jesus. Talvez vocês se lembrem de como Maria revela a sua prima Isabel que está muito feliz:
“Minha alma se alegra em Deus, meu Salvador. De hoje em diante, todo aquele que realmente me
conhece saberá, também, como fui abençoada”. A humildade não nega, pelo contrário, se alegra
com as dádivas de Deus – é grata às suas bênçãos.

10. Para ser um bom descobridor, preciso perceber em mim as dádivas que Deus me deu. Preciso
fazer, com cuidado e amor, uma avaliação de meus dons. Preciso procurar e encontrar todas as

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bênçãos e dádivas com as quais Deus me abençoou. Preciso aceitar o fato óbvio de que tudo que
tenho, me foi dado por Deus – e sentir-me feliz e grato por essas dádivas, que são parte de mim.

Buscando os pontos positivos dos outros

11. As pessoas fazem lembrar as flores silvestres. Sua bondade e beleza podem facilmente passar
despercebidas ou não ser valorizadas. Todos nós deveríamos colher, pelo menos uma vez, uma flor
silvestre e estudá-la, com cuidado. Há veias delicadas em suas folhas. Suas pétalas são tão frágeis, e
os botões tão lindos! Observe a flor ao sol e perceba sua simetria especial - ela tem uma beleza
única. Nas palavras de Roy Croft: “Eu te amo... por você não dar importância às tolices e fraquezas
que há em mim, e por trazer à luz as coisas boas que ninguém chegou perto o bastante para
perceber”.

12. As pessoas também precisam ser observadas de perto. Precisamos olhar para além das
fraquezas e limitações que encobrem suas qualidades. Precisamos ir em busca da beleza que
ninguém procurou o bastante para encontrar. No entanto, é bom que os descobridores saibam que
podem ser considerados ingênuos e inocentes por causa dessa busca. O mundo não acredita
facilmente em seu otimismo.

13. Ocorre-me com frequência que uma crise num relacionamento é, na verdade, um desafio. As
pessoas parecem se relacionar durante um certo tempo, num oásis de paz. Então, inicia-se a
tempestade ou o silêncio de uma crise. Talvez esta se inicie com o medo de intimidade, com o
simples tédio, ou com uma luta pelo poder. Qualquer que seja a causa ou a natureza do conflito,
desencadeia-se a crise. Como dizem os chineses, uma crise representa, ao mesmo tempo, perigo e
oportunidade.

14. Acredito que, na maior parte das vezes, as crises sejam um sinal de alerta, indicando aos
parceiros que devem aprofundar seu relacionamento. Talvez você tenha vivido essa experiência em
algum momento de sua vida um momento em que se sentiu distante de alguém a quem amava e em
que você chegou a pensar que o amor tinha acabado. Talvez tenha havido uma troca de palavras
violentas, sentimentos feridos e um longo período de ressentimento. Então, em meio a tudo isso,
você fica sabendo que o outro está doente ou gravemente ferido. Todo o conflito e a distância
desaparecem. Você se lança em direção à outra pessoa e, de seu íntimo, brotam sentimentos que
você nem sabia que existiam. Nesse momento, foi criado um novo elo, mais profundo. O simples
metal do amor superficial transformou-se em puro ouro. Vocês se encontraram num nível mais
profundo e iniciou-se um novo ciclo no relacionamento.

Encontrando os pontos positivos em todas as circunstâncias da vida

15. Dizem que as maiores oportunidades aparecem em nossa vida disfarçadas em problemas. Esses
problemas têm o poder de nos desafiar, de fazer brotar nossas potencialidades escondidas, das quais
nem tínhamos consciência. Eles nos forçam a sair de nossa rotina e nos mostram uma vida de novas
possibilidades. Em última análise, provavelmente tiramos mais proveito do sofrimento do que do
sucesso. Mas, com certeza, a extensão dos benefícios resultantes vai depender da nossa disposição.
Precisamos estar prontos para procurar e encontrar o lado bom em qualquer circunstância da vida.

16. Fiquei sabendo, há algum tempo, que uma amiga foi presa por causa de uma pequena infração
de trânsito quando se dirigia a um Shopping Center nos arredores de Chicago. Trata-se de uma
pessoa muito gentil e querida, mãe de cinco filhos. Um enorme e sisudo guarda de trânsito a seguiu
e lhe pediu a carteira de motorista, alegando que ela havia feito uma conversão em lugar errado

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antes de chegar ao Shopping. Quando ela, então, lhe perguntou se estava brincando, o guarda
simplesmente a prendeu. Ao algemá-la, ele virou-lhe o braço para trás e este o atingiu. Ele, então,
acrescentou à ocorrência: “Bater num policial”. Por incrível que pareça, ele pediu reforço. Minha
amiga foi levada para a delegacia onde a revistaram, tiraram suas impressões digitais e a colocaram
numa cela.

17. Fiquei sabendo de todos esses detalhes antes de me encontrar com ela. Quando contei a história
a um advogado amigo, ele comentou: “Este caso é o sonho de qualquer advogado, uma verdadeira
mina”. E quis saber se a pessoa em questão já tinha aberto um processo.

18. Depois tive a oportunidade de ouvir toda a história diretamente, contada por minha amiga. Ela
me garantiu que aquela havia sido uma das experiências mais significativas de toda a sua vida. “Eu
disse aos guardas que finalmente entendia como Jesus deveria ter se sentido. E lhes garanti que, nos
próximos anos, quando comemorássemos a Semana Santa, eu compreenderia seu sofrimento melhor
do que nunca. Os guardas continuaram insistindo: Nós só estamos cumprindo ordens, madame’. E
eu continuei tranquilizando-os e lhes agradecendo"

19. A propósito, perguntei-lhe se pretendia registrar a queixa contra o município ou, talvez, contra
o guarda que a tinha prendido. Ela respondeu: “Não, de maneira nenhuma, o guarda que me
prendeu é apenas um pobre menino que se excedeu. Ele continuou me chamando de madame, mas,
uma vez se distraiu e me chamou de mãe. Acredito que ele estivesse realmente procurando uma
mãe”.

20. É importante reavaliarmos nossas experiências difíceis para podermos encontrar seus pontos
positivos. É como reavaliar uma pintura. A reavaliação da obra realça alguns detalhes que de outro
modo teriam passado desapercebidos. Quando reavaliamos uma experiência, voltamos atrás para
examiná-la, procurando um raio de luz em meio à escuridão, focalizando as vantagens e
aprendizagens resultantes do problema. Muitos psicoterapeutas pedem aos clientes que contem de
novo um episódio desagradável que viveram, focalizando os pontos positivos. Por exemplo, o pintor
James Whistler queria seguir a carreira militar até que foi reprovado na Academia de West Point.
Ele ficou tão deprimido com o fracasso, que começou a pintar como uma forma de terapia. O cantor
Julio Iglesias queria ser jogador de futebol até ser seriamente contundido e ter que ficar sem andar
por algum tempo. Foi quando uma enfermeira lhe trouxe um violão para ajudá-lo a passar o tempo.
Parece que quando uma porta se fecha, outra se abre. O importante é ser um bom descobridor.

Deus, o maior de todos os descobridores

21. Na época de Jesus, o mundo era insensível e cruel. Os ricos passavam o tempo em orgias
intermináveis, enquanto os pobres viviam em eterna miséria. Dois terços da população daquela
época viviam como escravos em condições desumanas. O esporte favorito era a luta de dois
gladiadores, até que um deles caísse ferido ou exausto. O gladiador vitorioso olhava para os
espectadores, aguardando suas instruções. Estes, então, seguravam em uma das mãos dinheiro ou
joias, enquanto com o dedo polegar da outra mão apontavam para cima ou para baixo. O polegar
para cima significava: “Este dinheiro e estas joias serão seus se você poupá-lo, ele é um competidor
violento e voltará paia nos entreter novamente”. O polegar para baixo era um sinal que instigava o
vencedor: “Mate-o. Ele é um lutador pouco interessante. Corte seu pescoço com a espada”.

22. Historiadores da época contam que quando o vencedor penetrava a espada na vítima caída,
elevava-se um grito de celebração tão forte que abalava toda a cidade. Era como se um time de
futebol local tivesse ganho a Copa do Mundo em nossos dias.

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23. Era este o mundo de que nos falam as Escrituras: “Deus amou tanto o mundo que mandou seu
filho único a esse mundo, a fim de que aqueles que creem Nele não morressem, mas, tivessem vida
eterna. Deus enviou seu Filho ao mundo não para julgar ou condenar, mas, para amar”. (João 3:16-
17). A vinda de Jesus a este mundo foi o supremo ato de um bom descobridor. O mundo que Deus
achou “muito bom” durante a criação era, apesar de todas as suas misérias, ainda muito bom. No
âmago de cada coração humano está Deus, que reconhece todos os dons e os talentos que lá
permanecem escondidos.

24. Nós, que somos feitos à sua imagem e semelhança, compartilhamos de sua felicidade na
medida em que nós tomamos bons descobridores.

Elaborando essas ideias sobre as descobertas

1. Escreva sobre você. Descreva, em vários parágrafos, suas três qualidades principais. Este pode
ser o início de uma contabilidade amorosa de suas dádivas pessoais.

2. Escreva sobre outra pessoa. Pense em alguém de quem você não gosta. Descreva suas três
maiores qualidades.

3. Reavalie uma experiência de crise recente em sua vida. Conte a um amigo ou confidente a
história de um trauma ou de um sofrimento recente, mas enfocando suas oportunidades e vantagens.

25. Lembre-se do que você aprendeu com essa experiência. Repita-a, descrevendo os resultados
positivos e o proveito que você tirou da situação.

Lembre-se

Muitas das maiores oportunidades na vida aparecem disfarçados em problemas.

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PRÁTICA 7

Precisamos buscar o crescimento, não a perfeição.


1. Tudo parecia tão nobre, tão generoso, e por assim dizer, tão santo: “Alcance o máximo. Dê o
melhor de si. Não se contente com o segundo lugar”. A própria retórica do meu fervor em fazer o
melhor, em ser o melhor, esquentava o sangue em minhas veias. Mas a retórica traía a realidade, ela
própria era irreal. Nada é perfeito, nunca. O meu melhor era sempre imperfeito. O meu fervor pela
perfeição deixava um gosto amargo na boca. Bem dentro de mim havia um lamento, suave embora
intenso: “Mas eu me esforcei tanto! Dei tudo o que tinha. Foi minha última cartada”. Frustrado,
batia com os punhos na terra e brandia-os aos céus. Mas de nada adiantou. Fui obrigado a admitir
que sou imperfeito. Sou um “fazedor de erros”. A condição humana de ensaio-e-erro é minha
também. Tentei encobri-la e negá-la a todo custo, como se tivesse o controle de tudo. Mas apesar da
minha simulação e pretensão, sabia o tempo todo que jamais conseguiria casar meus sonhos à
realidade. Eu jamais seria perfeito.

As raízes do perfeccionismo

2. Em Psiquiatria, o diagnóstico “obsessivo-compulsivo” refere-se a dois tipos de problema - o


primeiro está ligado ao pensamento, o segundo à ação. O termo obsessivo está relacionado à mente.
Uma pessoa obsessiva pensa e repensa constantemente sobre sua obsessão, qualquer que seja ela. O
termo compulsivo refere-se à conduta ou ao “fazer”. Uma pessoa compulsiva tem que fazer ... fazer
... e fazer; é capaz de lavar as mãos vinte vezes ao dia.

3. A verdade é que muitas pessoas são obsessivo-compulsivas quanto à perfeição – eu diria que há
um pouco disso em cada um de nós. Até mesmo aqueles que insistem em dizer que não são
perfeccionistas, ficam incomodados quando cometem erros. Falam horas a fio de como aceitam sua
imperfeição, mas seu discurso termina quando cometem um erro. Quanto mais nos tornamos
obsessivos e compulsivos quanto à perfeição, mais sofremos. Não é surpresa saber que a maior
incidência de depressão entre as pessoas pertence aos perfeccionistas.

4. Como todas as nossas tendências, o perfeccionismo tem raízes muito profundas e escondidas e,
às vezes, revela um medo oculto. Por exemplo, posso pensar, inconscientemente, que se for
imperfeito, as pessoas não vão confiar em mim, ou jamais terei sucesso na vida. Pode ser, também,
que eu tenha uma lógica inconsciente do “tudo ou nada”: se não sou perfeito, sou um verdadeiro
fracasso. As vezes penso, sem querer admitir, que se eu fracassar, as pessoas vão me criticar. Ou
pode ser que uma voz do meu passado pergunte baixinho: Se eu não fizer tudo direitinho, o que
mamãe e papai vão dizer?”. Talvez a minha fixação pela perfeição seja, simplesmente, a minha
necessidade de aprovação que começou na infância, com papai e mamãe.

5. Cedo na vida, muitos de nós somos programados para pensar dessa maneira. Essas mensagens
podem ter sido transmitidas por pais muito exigentes. Eles nos programaram para sermos
perfeccionistas, tentando eles próprias serem perfeitos. É possível, ainda, que essa inclinação para o
perfeccionismo tenha sido induzida por pessoas que queriam “pegar carona” em nosso desempenho
perfeito. A pressão de nosso grupo social pode ser outro fator importante. Quando, por exemplo
somos alvo de deboche por termos errado, decidimos intimamente nunca mais cometer um erro em
público. As penalidades costumam ser quase sempre dolorosas e constrangedoras. Se sou muito
exigente comigo, é provável que tenham levantado expectativas em relação à minha pessoa que
podem se tornar muito dolorosas no futuro. Pode ser, ainda, que tudo isso seja apenas fruto de uma

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interpretação errada da minha parte. Mas, de qualquer maneira, não é o que é dito, mas o que é
ouvido que influencia as pessoas — pessoas como eu e você.
O alto preço do perfeccionismo

6. O caminho do perfeccionismo nunca acaba bem; no final, resta apenas o fracasso. As coisas
nunca saem exatamente como planejamos, e o resultado é o desânimo. Quase sempre nossas
esperanças frustradas se transformam em raiva e desapontamento, que expressamos de maneira
desagradável e escondemos sob nossa presunção, para que os outros de nada suspeitem.

7. Esse trajeto autodestrutivo da luta pela perfeição tem se repetido na vida de muitas pessoas. Uma
jovem que conheci há anos atrás admitiu, em nosso primeiro encontro, que havia tentado o suicídio
duas vezes. No entanto, ela me garantiu que o diploma de enfermeira preencheria, definitivamente,
sua dolorosa sensação de vazio. É evidente que mesmo depois de se formar, continuou tão infeliz
quanto antes. Nessa época, estava certa de que o casamento era tudo de que precisava. Logo
apareceu um bom rapaz, com quem se casou. Mas, pouco depois, a depressão que a havia
perseguido por toda a vida voltou a aparecer como uma nuvem sobre sua cabeça. Então, ela
começou a pensar que os filhos resolveriam todos os problemas. Eles a fariam, definitivamente,
feliz. Algum tempo depois, tornou- se mãe de três filhos. Mas o céu azul não durou muito. Ela não
tardou a me contar, chorando, que os filhos a odiavam. O filho adolescente chegava a agredi-la
fisicamente. Sugeri que procurasse uma terapia de família, com urgência, para saber por que os
filhos a tratavam assim. Acho que jamais seguiu minha sugestão.

8. Ha alguns anos atrás, recebi uma ligação interurbana de seu marido: “Jean morreu. E o mais
triste é que ela se suicidou. Guardou o carro na garagem, ligou o motor e esperou a morte. Deixou
um bilhete na mesa da cozinha. Suas últimas palavras foram: “Não fiquem tristes. Vocês tentaram”.
Enquanto conversávamos, o corpo de Jean estava sendo velado na Funerária de onde ele me ligava.
Fiquei surpreso com a objetividade de sua dor. Como ele sabia que Jean me telefonava de vez em
quando, perguntou: “Alguma vez ela mencionou que nossos filhos a odiavam?”. “Sim”, admiti, “ela
falou-me sobre isso”. “Realmente a odiavam. Enquanto eles a velam na sala ao lado, posso perceber
o alívio que sentem com sua morte”. E continuou: “Ela tinha toda a boa vontade do mundo. Tentou
de tudo para abstrair-se de sua dor mas, na realidade, nunca entendeu bem de onde ela vinha. Era
uma perfeccionista. Declarou guerra a todas as formas de imperfeição e se rendeu
incondicionalmente à perfeição. Perseguiu as crianças até que elas a odiassem. Odiavam o som de
sua voz e o dedo em riste que ela lhes apontava. Estava exaurida, física e emocionalmente. Isso
durou trinta e nove anos. Então, morreu com uma simples despedida: “Não fiquem tristes. Vocês
tentaram”.

9. O pobre homem admitiu que sentia muita pena dela, como sentia pena de todas as pessoas que
lutavam contra o demônio do perfeccionismo. “A cada dia, elas morrem um pouco, como a minha
Jeanie; mesmo sem morrer fisicamente, perdem todo o gosto pela vida; rastejam para um beco sem
saída e lá esperam a morte, para dizer no final: acabou”. O perfeccionismo é, realmente, um
caminho suicida.

A negação do demônio

10. A maioria das pessoas que conheço relutam em admitir que são dominadas pelo demônio do
perfeccionismo. Apressam-se em lembrar algum hábito de relaxamento, contrário à sua tendência
perfeccionista. Mas, no entanto, sentem-se mal com seus erros e faltas. Eu mesmo admito que não
me sinto à vontade com meu erros, embora não seja um perfeccionista completo. As pessoas são tão
intolerantes com os erros e faltas dos outros quanto são com os seus. Não conseguem achar graça

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em seu erros e fraquezas. Não se aceitam como pessoas falíveis, como não aceitam os outros nessa
mesma condição. Pode não ser a forma mais virulenta de perfeccionismo, mas é o bastante para
diminuir a nossa alegria de viver e a dos que nos rodeiam.
11. É evidente que qualquer forma ou grau de perfeccionismo é irreal. Até a sua negação é um
sintoma da doença. Quando admitimos que o perfeccionismo é um comportamento obsessivo-
compulsivo, implicitamente estamos admitindo que ele é, em si mesmo, uma forma de imperfeição
com a qual não conseguimos conviver. O certo é que o perfeccionista verdadeiro não pode admitir
que esperanças e expectativas irreais o atormentem. Isso faria com que seu disfarce fosse pelos ares.

A anatomia do perfeccionismo

12. O perfeccionismo é doentio. A diferença entre a pessoa saudável e o perfeccionista é que a


primeira controla sua vida, enquanto a segunda é controlada por sua compulsão. A pessoa saudável
é livre e escolhe livremente. O perfeccionista não é livre. Precisa ser bem sucedido, ser perfeito. É
uma escravidão, um aprisionamento do espírito.

13. O perfeccionismo começa com uma crença: as pessoas com essa tendência acreditam que seu
valor é medido por seu desempenho e que os erros diminuem seu valor pessoal. Elas acreditam,
também, que a única maneira de impressionar os outros é através de seu desempenho perfeito; num
certo sentido, elas se veem como seres únicos, não como parte de um grupo – são concorrentes de si
mesmas. Disso resultam emoções óbvias, como o medo e o pânico. Elas têm medo do desagrado e
da punição; acreditam que, de algum modo, terão que pagar por possíveis imperfeições e renunciar
ao respeito dos outros. Esse turbilhão emocional resulta em solidão, tristeza e depressão.

14. Porque as emoções são parcialmente físicas por natureza, existem sintomas físicos ligados ao
perfeccionismo que variam de acordo com a pessoa e o seu “órgão de choque”. Com certeza
aparecerão sintomas de estresse que afetam o sono e o apetite, e causam tensão emocional. Aparece,
então, um tipo de comportamento com o qual o perfeccionista reforça a crença original que deu
início ao processo: a tentativa de agradar e corresponder às expectativas de todas as pessoas. Ele se
promete mais do que é capaz de cumprir; estabelece padrões e expectativas irreais; não gosta de
pedir ajuda porque isso seria uma concessão e o reconhecimento de sua incapacidade. Os
perfeccionistas acreditam que serão aceitos pelos outros por aquilo que realizarem. Acreditam ainda
que terão sucesso se atuarem bem e não por serem simplesmente quem são. O desempenho e a
responsabilidade são sempre mais importantes que seus sentimentos e necessidades. O castigo para
o fracasso é a ausência do amor dos outros e a perda da autoestima.

15. Além disso, não se aceitam incondicionalmente e não esperam que outros o façam. Não se dão
o direito de falhar e por isso ficam nervosos e ansiosos antes de qualquer ação. Não veem os outros
como pessoas que possam apoiá-los ou encorajá-los, mas como pessoas prontas a avaliá-los e julgá-
los.

A aceitação pacifica da condição humana

16. É evidente que não há reversão nem cura paia essa obsessão pela perfeição, a não ser que a
pessoa se torne consciente das consequências desse cativeiro. O perfeccionismo é, na verdade,
como um senhor de escravos. Colocar nossa felicidade nas mãos desse senhor é uma tolice. A
fraqueza faz parte da condição humana e isso nos leva a viver situações de ensaio-e-erro e a
cometer enganos. Os animais e aves foram dotados de instintos perfeitos: agem como se fossem
guiados por um manual de instruções. O pardal de plumagem branca constrói seu ninho com
perfeição, desde a primeira vez. Mas nós, pobres humanos, dotados de instintos limitados e do

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precioso dom da inteligência, temos de prosseguir com as experiências de ensaio-e-erro. Somos
propensos a fazer cálculos errados. Nossa maturação é um processo gradual. Nossas mais aguçadas
inteligências projetam cápsulas espaciais que explodem no ar. Nossos melhores trens descarrilham
nos trilhos. Nossos aviões se espatifam em pleno voo. Nossos carros são recolhidos por falhas
mecânicas que podem ser fatais.

17. É verdade que a mente humana colocou o homem na Lua e construiu edifícios que se elevam a
alturas estonteantes. Mas, para cada sucesso, há milhares de derrotas. Para cada experiência bem
sucedida, um monte de entulho resultante dos fracassos é deixado no chão do laboratório. No
entanto, continuamos nossos esforços conjuntos paia melhorar. Ao mesmo tempo, negar a verdade
da condição humana é um convite à dor e à frustração.

18. A felicidade exige que encaremos e aceitemos a verdade. Muitas vezes nos enganamos e
aprendemos por ensaio-e-erro. Esse erro não deve ser considerado como o fracasso absoluto e
definitivo, mas apenas como uma experiência de aprendizagem. O único fracasso verdadeiro é
aquele com o qual nada se aprende. Todos os erros são educativos. Assim como a confissão é boa
para a alma, também a aceitação de nossa própria insensatez e fragilidade nos faz bem ao espírito.
De acordo com um velho provérbio, “Se aprendermos a rir de nós mesmos, nunca deixaremos de
nos divertir”. As possibilidades são infinitas.

19. Um corolário dessa verdade básica é que somos colaboradores e não competidores. Estamos
todos juntos nesse processo e cada um de nós deveria aprender com a experiência do outro. Você
não precisa repetir minhas experiências fracassadas. Tudo isso faz parte do sábio conselho:
“Aprenda com os erros dos outros. Você não terá tempo de repeti-los, a todos”. Quando Henry Ford
produziu o primeiro modelo de carro, sabia que outros aperfeiçoariam seu projeto. Cada geração
ultrapassa a passada, exatamente porque se apoia nas experiências da anterior.

Buscando o crescimento

20. Enquanto a perfeição é um ideal torturante, crescer é o processo inverso. O crescimento faz
parte de um processo de vida no qual as habilidades são desenvolvidas pouco a pouco. Aprender a
tocar piano começa com exercícios incessantes de escalas monótonas. Mais tarde evoluímos para
melodias, e essas se tornam cada vez mais elaboradas à medida que nossa competência aumenta.
Enquanto o perfeccionismo busca resultados imediatos, o crescimento sabe que mesmo uma
caminhada de mil milhas começa com um simples passo. O tempo e a prática são fatores essenciais.
Na verdade, uma vez vencidas as primeiras dificuldades, o crescimento gradual é muito mais
interessante do que o resultado imediato.

21. Se pedíssemos às pessoas para escolherem entre a perfeição instantânea e o crescimento


gradual, acredito que muito poucas escolheriam a primeira. Quando escolhemos a perfeição, a
estrada termina antes de começar. Nada nos resta. Quando, por outro lado, escolhemos o
crescimento, experimentamos a alegria de nos desenvolvermos pouco a pouco num processo que
pode durar a vida toda. Vamos viver os pequenos sucessos do crescimento, e não o grande fracasso
do perfeccionismo.

22. Quando escolhemos o crescimento, estamos escolhendo desfrutar, e não alcançar a perfeição.
Enquanto escrevo essas palavras pela primeira vez, tento seguir meu próprio conselho. Sei que há
uma maneira melhor de escrever tudo isso; deve haver até uma maneira perfeita de fazê-lo. Mas,
não vou escrever sete ou oito rascunhos e jogá-los para cima, em desespero, só porque não são
perfeitos. Prefiro desfrutar essa experiência, compartilhando-a com você. Releio o que escrevi, risco

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aqui e ali, acrescento algumas palavras lá e cá. Então, penso: “Pronto, assim ficou claro. Está
melhor do que o que escrevi nas tentativas anteriores. Pode ser que isso ajude alguém”. Este é um
pensamento que me consola.

23. E, agora, vem a surpresa final. Se você decidiu desfrutar, você vai fazer, sem dúvida, um
trabalho melhor do que se tivesse decidido pela perfeição. (Talvez, você não acredite nisso ainda,
mas, um dia acreditará). Se você estiver na escola, decida que vai aproveitai' as aulas o melhor que
puder. Aposto que os resultados serão surpreendentes. Se você estiver trabalhando, tente tornar seu
trabalho o mais agradável possível. Você vai perceber uma melhora no seu desempenho. Se, ao
contrário, você decidir alcançar a perfeição, vai se perceber tenso e desapontado. O resultado final
será, com certeza, desanimador - e o desânimo conduz à desistência.

Alguns antídotos para o perfeccionismo

24. Distrair-se de um hábito obsessivo-compulsivo pode ajudá-lo a se libertar desse hábito. Assim,
da próxima vez que você se perceber “rangendo os dentes” na tentativa de ser perfeito, direcione
todos os seus pensamentos no sentido de tornar agradável o que você estiver fazendo. Seja feliz ao
invés de tentar ser perfeito. Isso criará um novo traçado para suas ondas cerebrais. Distraindo-se ou
rejeitando sua mania de perfeição, você estará dizendo à sua compulsão obsessiva: “Você não
manda em mim. Declaro- me livre de sua tirania. Sou dono de mim mesmo, não sou seu escravo”.
Você pode alcançar a mesma independência adiando a sua compulsão. Se você acha que deve fazer
alguma coisa nesse exato momento, é bom adiá-la por uma hora ou até por um dia. Não se deixe
impressionar com os fracassos da imperfeição. Discuta sobre eles, ache graça e aceite suas falhas e
enganos. Desse modo, você vai aprender a se sentir mais à vontade com sua condição humana.
Tenho a certeza de que você vai descobrir, também, que os outros gostam mais e se identificam
melhor com você. Às vezes pensamos que impressionamos as pessoas com nosso desempenho
perfeito – achamos que elas esperam que sejamos perfeitos. Assim, tentamos parecer bons, mesmo
quando não somos. O fato é que as pessoas que vivem a mesma condição humana de fraqueza, terão
mais afinidades conosco se souberem que somos também frágeis e limitados. Quando admitimos
essa condição, o mundo nos aplaude.

Elaborando essas ideias sobre perfeccionismo

1. Faça duas listas. Na primeira enumere as vantagens do perfeccionismo; na segunda, as


desvantagens.

2. Escreva um diário para manter contato consigo mesmo. Escreva sobre você mesmo tudo
aquilo que lhe vier à cabeça. Em que consiste seu valor como pessoa? Você já experimentou as
emoções e os sintomas físicos do perfeccionista? Você está consciente de alguma ideia distorcida
que você tem sobre sua pessoa, sua atuação, seus erros, sua solidão? O que você perderia se falhasse
em algum aspecto importante? Qual seria a pior coisa a acontecer se fracassasse?

3. Faça uma lista. Mencione todas as habilidades que você adquiriu gradualmente e de maneira
agradável. Por exemplo, tocar um instrumento musical; praticar um esporte, como golfe, tênis,
futebol; aprender a cozinhar. Lembre-se que foram habilidades adquiridas num processo onde não
houve sucesso imediato.

4. Escreva um diário. Escreva sobre você como alguém à procura do crescimento, não da
perfeição. Seja você um estudante, um vendedor, uma dona-de-casa ou qualquer outra coisa,

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descreva-se enfocando o crescimento e não a perfeição. Será que o crescimento é melhor e mais
proveitoso para você? Escreva os prós e os contras.

Lembre-se

Os fracassos são apenas experiências de aprendizagem. O único fracasso verdadeiro e aquele


com o qual nada se aprende.

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PRÁTICA 8

Precisamos aprender a nos comunicar de maneira efetiva.


1. A condição humana tem sido comparada à situação de uma pessoa presa num poço profundo e
seco. Seus pedidos de socorro ficam sem resposta; parecem levados para longe pelo vento que
sopra lá fora. A esperança se esvai, um pouco cada dia; quando parece agonizar, uma voz soa do
alto do poço: “Nós sabemos que você está aí. Estamos chegando com socorro para salvar você”.
Há uma explosão de alegria no coração da pessoa presa. “Graças a Deus! Finalmente alguém sabe
que estou aqui”.

2. O mesmo acontece nos processos de comunicação verdadeira. A pessoa que se abre à outra e é
ouvida sente a mesma sensação de alívio e alegria. “Graças a Deus! Finalmente alguém sabe como
me sinto”.

Nossos segredos nos deixam doentes

3. Os segredos que guardamos dentro de nós se transformam num veneno que nos intoxica e, a
longo prazo, nos destrói. O poeta laureado John Berryman, que se suicidou do alto de uma ponte,
escreveu: “Tornamo-nos doentes na medida em que guardamos nossos segredos”. Só ele
conheceu os demônios que o levaram à morte. Mas, suas palavras, sua vida e sua própria morte
são um importante legado de advertência. Através de estranha fermentação, aquilo que guardamos
dentro de nós transforma-se em veneno. Ainda assim, muitos de nós escondemos nossos segredos
fatais porque não queremos correr o risco da rejeição, do ridículo e da condenação.

4. No mais recôndito de meu ser, meus segredos parecem fumaça. As coisas que escondo, com
medo de compartilhar, se dispersam perdendo sua forma – já não sei mais o que são, onde
começam nem onde terminam. Se ao menos pudesse colocá-las para fora como peças de um
quebra-cabeça, talvez fizessem sentido. É verdade que o primeiro obstáculo à comunicação está
dentro de mim. Não posso lhe dizer aquilo que não consigo dizer a mim mesmo. E ainda que
tivesse a coragem de me abrir, não sei ao certo o que diria.

5. Um bom começo seria entrar em contato com os medos que me assombram e me aprisionam. O
que aconteceria se eu retirasse a máscara e expusesse meu íntimo à luz do dia? E se dissesse às
pessoas quem sou eu? Será que me compreenderiam? Uma série de dúvidas e perguntas me
persegue. Perderia minha reputação? Os outros poderiam me ridicularizar ou me rejeitar? Seria
punido pela minha honestidade? As pessoas poderiam usá-la contra mim mais tarde? Ficariam
chocadas comigo? Seria acusado de mentiroso? Eu sei que fui falso, mas será que me acusariam
por isso? Sinto-me perdido entre tantas dúvidas e questões; sei que são reais. Apesar disso,
continuo simulando, na esperança de vencer mais um dia sem ser descoberto. Submeto-me à
pressão das pessoas, cedo à opinião dos outros. Assim, coloco a máscara e descubro um modo de
viver nesse mundo ameaçador.

Comunicação

6. Comunicação é uma palavra que soa bem. Todos parecem ser a seu favor, como são a favor do
amor e da paz. A comunicação tem sido considerada a energia vital do amor. No seu significado
original, refere-se ao ato de compartilhar. Implica que duas ou mais pessoas têm alguma coisa em
comum por terem partilhado seus problemas. No sentido mais profundo, é o compartilhar do
próprio íntimo das pessoas. Através da comunicação, você pode me conhecer e eu posso conhecer
62
você. Temos algo em comum: nós mesmos. É claro que este não é um processo indolor ou
tranquilo. Se quero que você me conheça, preciso estar disposto a dividir todos os meus
sentimentos escondidos, em ebulição dentro de mim. Preciso lhe dizer dos medos que parecem me
humilhai' e me diminuir; da inveja que às vezes se interpõe entre nós. Preciso resistir à tentação de
entrar numa luta de perde-e-ganha e de tentar vencer você. Preciso estar certo de que você está tão
empenhado em ser honesto e aberto quanto eu, e de que não vai usar minha abertura como
pretexto para me rejeitar ou me abandonar. Preciso também garantir que jamais usarei sua abertura
contra você. E, finalmente, preciso estar disposto a deixar de lado minha agenda e meus
compromissos para escutar e descobrir quem é você.

O medo da intimidade

7. Quando nos comprometemos com a comunicação, a intimidade entre nós é inevitável. Nós a
tememos e, como consequência, tememos a comunicação. Acontece que nossos medos são tão
individuais quanto nossas impressões digitais. Seu medo da intimidade tem nuances diferentes do
meu. Alguns temem a separação. “Não quero me apegar muito porque você pode me deixar um
dia - pode morrer ou querer se separar de mim. E mais seguro não amar do que perder a pessoa
amada”. Outros têm medo da fusão. Se compartilhar tudo com você, o que vai sobrar de mim?
Continuarei tendo meu canto, um lugar onde possa estar só? Não quero ser como cera, derretido e
misturado a você. Odeio relacionamentos simbióticos nos quais nunca se sabe onde acaba uma
pessoa e começa a outra. Isso é mistura, não intimidade”.

8. Alguns, ainda, temem a rejeição. “Se você me conhecer de verdade, não vai gostar de mim. Vai
perder o interesse à medida que descobrir tudo a meu respeito. Vai encontrar um pretexto para se
afastar e buscar outra pessoa”. O meu próximo medo parece ser o medo da responsabilidade. Se
me aproximo muito de alguém, me sinto obrigado a estar a seu lado nos momentos de
necessidade. Mas quase sempre me sinto super envolvido, e não quero me comprometer demais.
Além disso, sinto um medo profundo de expor minhas fraquezas, mágoas e limitações. Como
represento o papel de uma pessoa sem problemas, tenho muita dificuldade em revelar-me por
inteiro. Não quero que as pessoas saibam como sou limitado – este é o peso do meu
perfeccionismo.

9. Muitas vezes, as pessoas cortam a intimidade de um relacionamento antes que criem raízes
profundas. Arranjar uma briga, emburrar, ficar de mau humor e guardar rancor são excelentes
estratégias para evitar a intimidade. E o maior problema da estratégia é que ela acaba convencendo
a própria pessoa de que é real. Não admitimos nem para nós mesmos que temos medo da
intimidade. Nós o camuflamos com a raiva e o ressentimento, e isto é o suficiente para manter os
outros à distância. Afinal, ninguém gosta de encostar num porco-espinho... Mas o que nos assusta
é, realmente, a intimidade.

A comunicação como um ato de amor

10. Há dois pré-requisitos essenciais para a comunicação no amor. O primeiro é nos


considerarmos como um presente a ser ofertado. O segundo é considerarmos o outro como um
presente que (às vezes, tímido e hesitante) nos é oferecido. E a troca desses presentes que
chamamos de comunicação – um gesto de afável hospitalidade ao acolhermos o outro em nosso
íntimo. O mesmo acontece com o outro que nos acolhe no lugar em que vive e trabalha, na sua
intimidade. Mas isso só poderá acontecer se a comunicação for considerada como um ato de amor.
O único presente de valor que tenho a lhe oferecer é a minha própria pessoa. O único presente de
valor que você pode me oferecer é você mesmo, através da auto revelação. Se não estivermos

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dispostos a correr os riscos envolvidos nessa troca de presentes, não estaremos trocando coisa
alguma. Nossa relação será baseada apenas na necessidade, não no amor. Se quisermos que nosso
amor sobreviva, precisamos fazer da comunicação uma necessidade, não um episódio ocasional.

11. Se um de nós usar a comunicação como um jogo, nossa relação estará perdida. Não devo me
comunicar paia me sentir melhor, mas para que você me conheça melhor; nem devo me comunicar
para que você reaja da maneira que espero. Não devo compartilhar minha intimidade esperando
que você se sinta responsável por mim, resolva meus problemas ou se sinta culpado. Eu me abro
com você simplesmente para que me conheça e saiba exatamente quem sou. Peço-lhe apenas que
seja sensível e gentil diante das coisas que compartilho com você. Nada tenho a esconder, faça
com elas o que quiser. E meu presente para você.

12. Não devemos nos enganar pensando que a comunicação transforma duas pessoas em uma
única. Você deve manter sempre sua identidade e eu, a minha. Você é você e eu sou eu. Cada um
de nós tem os seus próprios pensamentos, preferências e escolhas (e concessões, quando
necessário). Foi assim no princípio, é agora e será sempre. Não quero me olhar no espelho e ver o
seu rosto quando me comunico com você, nem quero que ande no meu ritmo. A beleza de nossa
comunicação está na celebração de nossas diferenças. Cada um de nós é único. O que é “ser eu”
não é o que é “ser você”. No entanto, se você me aceitar em seu mundo e compartilhá-lo comigo,
certamente ficarei enriquecido com isso. E se eu acolher você no meu, também você será uma
pessoa mais rica por ter me conhecido.

O falar na comunicação

13. Há uma infinidade de coisas para compartilhar com você. Há o meu passado – não uma
simples declaração de dados biográficos, mas meus risos e minhas lágrimas, meus sucessos e
fracassos. Preciso lhe contar minhas lembranças, aquelas que modelaram e orientaram minha vida.
Deus nos deu as lembranças para termos flores no inverno. Algumas delas são cheias de luz,
outras estão carregadas de sombras e de tristes melodias. Preciso lhe contar sobre minha visão
única da realidade, sobre como vejo as coisas: eu mesmo, os outros em minha vida, o mundo à
minha volta e o Deus a quem amo e a quem dirijo minhas orações. Preciso compartilhar, também,
meus segredos mais íntimos, minhas esperanças, meus valores.

14. Mas, acima de tudo, preciso lhe falar dos meus sentimentos. Alguns são leves, outros são
sombrios; alguns são belos, outros me parecem desagradáveis; mas são todos meus. Não posso
justificá-los, apenas descrevê-los. Sei que minhas raízes são muitas, e emaranhadas – são elas que
nutrem muitos de meus sentimentos. Estes vêm de lugares e experiências guardadas tão
profundamente, que nunca os explorei. Mas, de uma coisa estou certo: esses sentimentos são meus
e, quando os compartilho com você, sinto que estou dividindo minha parte mais sensível. Meus
sentimentos encenam toda a minha história e as experiências que modelaram minha visão da vida.
Eles dependem, também, de minhas condições físicas, de minha alimentação e de meu sono. E,
embora usemos rótulos comuns como a raiva e o afeto, ninguém jamais sentiu o que sinto. De
certa forma sei que, quando compartilho meus sentimentos com você, estou compartilhando meu
mais profundo ser, único e exclusivo.

15. E ainda um aspecto que quero deixar bem claro, para que você nunca se esqueça: assumo
inteira responsabilidade por esses sentimentos. Quando me comunico, sei que preciso ser o
“possuidor” de meus sentimentos, não o acusador. A acusação é um jogo que me afasta da
realidade; é, em essência, uma maneira de transferir a responsabilidade e manter o poder sobre os
outros. O acusador quer crucificar suas vítimas. Os toxicômanos, por exemplo, tentam depositar

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todos os seus problemas nas costas de seus pais, alegando que não foram compreendidos ou
amados o bastante. A acusação é um jogo inútil que serve como desculpa para racionalizar o que
não consigo aceitar a meu respeito. Quando acuso, transfiro meus próprios sentimentos de culpa e
vergonha para o outro. “Eu estaria bem se pelo menos...”. Na verdade, não importa quem está
“certo” e quem está “errado” nos relacionamentos. Na acusação todos perdem. O “vencedor” pode
se sentir bem por um instante, mas o perdedor só está à espera de uma oportunidade para se
vingai'. O acusador perde contato com a realidade, enquanto o acusado se sente como um monte
de lixo. O jogo da acusação é apenas um dos jogos que as pessoas usam como um substituto para
o relacionamento. Quanta verdade há na afirmação de que “o crescimento começa onde a acusação
acaba”.

16. É fácil perceber-se a diferença entre o possuidor e o acusador. O primeiro faz sempre
afirmações com o pronome “eu”, enquanto o segundo faz afirmações com o pronome “você”. “Eu
fiquei com raiva” é uma declaração do “eu”, do possuidor que sabe que sua raiva foi causada por
alguma coisa nele próprio. “Você me fez ficar com raiva” é a declaração de um acusador. O outro
torna-se a “válvula de escape”, para quem o acusador transfere a responsabilidade de sua raiva. O
possuidor passa por um processo de autoconhecimento e amadurece. O acusador vive num mundo
amargo de “faz-de-conta”. Afastado da realidade por suas acusações, nunca chega a se conhecer
realmente, nem aos outros, e jamais amadurece.

17. Ao me abrir com você, sou tentado a encobrir minhas áreas vulneráveis. Tento fechar os
compartimentos onde guardo minhas fraquezas secretas. E tão fácil lhe mostrar os meus sucessos,
mas não quero que perceba as cicatrizes de meus fracassos. Mas, se escondo minha
vulnerabilidade, meus limites e fraquezas, não estarei compartilhando meu verdadeiro eu com
você. Vou estar lhe mostrando apenas o que quero que veja. É provável que você perceba isso e
faça o mesmo. Mas, se eu lhe mostrar o meu eu por inteiro, com todas as minhas limitações, isso
significa que confiei em você. Os atos das pessoas são contagiantes – você vai querer fazer o
mesmo. Como o amor, a comunicação é uma decisão e um compromisso.

18. Por último, enquanto escuto, devo ser cuidadoso para não julgar você. Preciso aprender a
perceber o mistério de cada ser humano, a complexidade de cada cérebro humano, mais
sofisticado que o mais sofisticado dos computadores, e lembrar que as milhares de experiências
nele registradas são ativadas a cada ato ou palavra nossa. Preciso saber que existe sempre um
sentido psicológico naquilo que você diz, mesmo quando não há um sentido lógico. Preciso saber
que, se tivesse os seus genes e a sua família; se tivesse crescido no seu bairro e frequentado as
escolas que frequentou, talvez fosse mais igual a você do que sou agora. Preciso admitir aqui,
agora e para sempre, que não tenho olhos de Raio X. Se dou a impressão de ver através de você, é
somente uma pretensão minha ou, talvez, uma projeção do meu eu sobre você. Preciso respeitar o
mistério que é “ser você” e o mistério que é “ser eu”.

O ouvir na comunicação

19. Saber ouvir com empada é um talento pouco desenvolvido. Seria surpreendente se
encontrássemos cinco bons ouvintes em toda a nossa vida. Em primeiro lugar, preciso ouvir
porque quero saber, de verdade, o que é “ser você”. Isto significa que preciso ouvir muito mais do
que suas palavras. Preciso ouvir as emoções que vibram em sua voz; preciso ver as expressões do
seu rosto e a linguagem do corpo que acompanham suas palavras, sem estar preparando respostas
aos seus argumentos. E provável que eu apenas consinta com a cabeça e lhe agradeça no final; que
eu lhe diga da gratidão pelo presente que recebi e lhe prometa guardai- suas confidências com
carinho.

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20. Embora Deus nos tenha dado dois ouvidos e apenas uma boca, a maioria de nós não sabe
escutar. Mal escutamos o outro e logo oferecemos um pequeno conselho, contamos uma anedota
ou alguma história de nossa própria vida. Às vezes, assumimos o papel de quem resolve todos os
problemas ou dominamos a conversa oferecendo nossa própria experiência; ou mostramos nossa
inabilidade interrompendo o outro, bocejando, nos distraindo, fazendo perguntas não pertinentes
ou simplesmente mudando de assunto. Algumas pessoas têm dificuldades com o silêncio e se
apressam em preencher o vazio.

21. O bom ouvinte é aquele que também precisou de falar no passado, e sabe como é difícil se
abrir; só interrompe para pedir algum esclarecimento ou detalhe importante sobre o que o outro
está falando, nunca para desviar o assunto. Prepara o ambiente propício de que o outro precisa
para lhe oferecer seu presente. Tornar-se um bom ouvinte requer empenho e prática; mas, acima
de tudo, é necessário paciência, uma empatia verdadeira e o desejo de saber como é ser, realmente,
a outra pessoa.

22. “Ouvir com a cabeça e o coração” é uma expressão que nos soa familiar. Ser lógico e
trabalhar somente com as ideias é ouvir apenas com a cabeça, o que pode ser desanimador para a
pessoa que fala. Outra expressão familiar é “ouça o que não estou dizendo”. Quase todo mundo
tem uma compreensão instintiva do que isto significa. Há ocasiões em que não encontramos as
palavras certas ou não temos a coragem de dizê-las. Então ficamos na esperança de que o coração
de quem nos ouve possa suprir essa falta. Na verdade, o menos importante na comunicação são as
palavras em si mesmas. A alegria e a tristeza, a afeição e o desamparo, a esperança e o desespero
são transmitidos de muitas maneiras não verbais. Esses sentimentos só podem ser captados pelo
coração, mas apenas pelo coração comprometido com o amor.

Semântica e outros problemas da comunicação

23. As palavras são sinais. Infelizmente, a realidade simbolizada pelo mesmo sinal-palavra pode
ser interpretada de maneira diferente por pessoas diferentes. Uma pessoa pode se sentir feliz ao ser
chamada de “querida”, enquanto outra pode se sentir desconfortável ao ouvir essa palavra. Quem
já falou para um grupo sabe que cada pessoa na plateia ouve uma mensagem ligeiramente
diferente. Por exemplo. “Fico ansioso quando penso na segunda-feira” pode significar várias
coisas. Ansioso pode significar “receoso” ou “aflito” ou até mesmo “excitado”.

24. Tanto o que fala quanto o que escuta deve estar ciente desse problema. O exercício a que
chamamos “significado partilhado” pode oferecer uma compreensão maior. O que fala pede ao
que escuta paia relatar o que ouviu. Assim, os dois podem garantir que a mensagem recebida é a
mesma que foi emitida.

25. Há ainda o problema do preconceito. Todos temos inúmeras ideias pré-concebidas. Por
exemplo, os nomes que nos agradam são provavelmente de pessoas de quem gostamos no
passado, e vice-versa. Temos preconceitos em relação a quase tudo, incluindo alimentos, cores,
estilos, raças e religiões. O preconceito é um julgamento prematuro, pois se baseia em provas
incompletas ou falhas. A mente faz o julgamento sem possuir todos os fatos. E isso acontece
devido às forças emocionais, conscientes e inconscientes.

26. É óbvio que o preconceito invade e mina a comunicação. Se tenho uma lista de ideias pré-
concebidas durante as nossas conversas, fico atento para ver se você concorda comigo e
corresponde à lista. Em vez de escutar para saber como é “ser você”, fico preso à lista para saber
se você é uma “pessoa do meu time”. Além disso, o preconceito pode me bloquear para todas as

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suas coisas boas por causa de alguma coisa que você me disse um dia e me desagradou. Posso ter-
lhe dado uma cortada por isso, e agora me recuso a reconsiderar a questão. Pode ser, também, que
haja algo em você que não me agrada – sua aparência, seus gestos ou sua convicção política. Se
essa aversão se tornar um empecilho para eu me abrir com você, serei mais uma vítima do
preconceito.

27. Outro obstáculo à comunicação é a imaginação. Se alguma coisa não é dita de maneira
explícita, a imaginação tende a preencher todos os detalhes que faltam. Por exemplo, você pode
ter um problema de visão e por isso olhar para as pessoas franzindo a testa na tentativa de
enxergar melhor. Se você não me disser que gosta de mim, provavelmente vou imaginar o
contrário por causa da maneira como você me olha. Quando a imaginação substitui a
comunicação, o desentendimento é inevitável. Estará criado um problema, tanto para quem fala
quanto para quem escuta. Quem fala deve tentai' não deixar brechas para a imaginação da pessoa
que escuta. Esta, por sua vez, deve sempre checar suas interpretações. Acho que você está
aborrecido comigo. É verdade ou apenas minha imaginação?”.

A tentação de desistir

28. Estou certo de que todos conhecem o lema “Os vencedores nunca desistem. Os que desistem
nunca vencem”. Essa verdade se aplica à comunicação. Há momentos em que os canais de
comunicação se fecham em meio à tempestade. Um desentendimento, uma discussão, um
julgamento precipitado podem interromper o fluxo de uma boa comunicação. Acredito que isso
acontece de vez em quando com todo mundo.

29. A crise é um teste para a determinação das pessoas envolvidas. É também o momento de elas
se afirmarem como possuidoras, não como acusadoras. O acusador sempre divide as coisas e
pessoas em boas e más, certas e erradas; quer sempre determinar quem tem problemas e por que.
Nenhuma dessas categorias se aplica aqui. Se desisto de me comunicar, tenho que assumir inteira
responsabilidade por isso; tenho que admitir que desisti de compreender você por algum motivo
que é só meu. E possível que um de nós (ou ambos) esteja com a visão distorcida ou tenha feito
um falso julgamento. Mas isso não é razão para se ficar mal humorado ou se exigir desculpas. O
amor não pode ser mesquinho, e a comunicação, se não for um ato de amor, nada será. A decisão
de perseverar e de continuar tentando, faz parte do compromisso com o amor.

30. Um relacionamento é sempre fortalecido quando sobrevive a uma crise. É como um osso
quebrado – a natureza lança mais cálcio em volta da fratura e o osso se torna mais forte depois que
se recupera. Às vezes somos tentados a abandonar, a desistir, a acusar, a buscar consolo e
compreensão de outra pessoa. No entanto, é essencial reabrir os canais de comunicação e
continuar tentando. O relacionamento será cada vez mais forte e duradouro por causa desse
empenho e desse compromisso.

Elaborando essas ideias sobre a comunicação

1. Descubra seu medo maior na comunicação. Um medo muito grande de um objeto ou de uma
atividade é, no geral, uma consequência da antecipação de coisas catastróficas. Tente entrar em
contato com seus próprios medos relativos à comunicação. O que pode acontecer de pior se você
for aberto e honesto com todas as pessoas? (É óbvio que isso não implica que você deva contar
todos os seus segredos para todo mundo). O que pode acontecer de pior se você for um ouvinte
atento e empático? Qual é o aspecto da intimidade que mais o amedronta?

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2. Escreva uma página sobre como é “ser você”. Coloque o seu eu mais profundo no papel.
Depois dê esse papel ao seu companheiro e lhe pergunte se o que está escrito corresponde à
imagem que você projeta. A maioria de nós tem uma “pessoa particular” e uma “pessoa pública”.
As suas duas pessoas são iguais? Você acha que as pessoas realmente o conhecem? No caso de
uma resposta negativa, isso seria por você não ter se aberto ou por não ter sido escutado pelos
outros?

31. Escreva, numa outra página, o que é “ser o outro”, descrevendo outra pessoa. Tente
descrever seu amigo, confidente ou parceiro num nível mais profundo. Considere sua descrição
apenas como uma tentativa, resultado apenas de suas impressões. Não podemos afirmar o que o
outro disse, apenas o que escutamos. Você pode compartilhar o que observou e como interpretou
sua observação. Faça isso e então, pergunte ao parceiro: ‘Será que fui um bom ouvinte? Você
poderia dizer que finalmente foi compreendido por alguém?”.

Lembre-se

“Nossos segredos nos deixam doentes”.

Quanto mais nos doarmos, com liberdade, e mais recebermos, com gratidão, mais saudáveis
nos tornaremos.

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PRÁTICA 9

‘Precisamos aprender a desfrutar as boas coisas da vida.

1. O Talmude é um livro de sabedoria judaica que remonta à época de Cristo. Um de seus trechos
me chama particularmente a atenção: “Todos nós teremos que prestar contas dos prazeres legítimos
que não desfrutamos”. Acho que a maioria das pessoas nunca pensa nisso. E vontade de Deus que
desfrutemos todas as coisas boas que Ele nos oferece.

2. Somos peregrinos a caminho de um lugar sagrado e feliz: a casa de nosso Pai. Quando penso
nisso, lembro-me dos peregrinos que um dia aportaram na costa leste da América. Poderíamos
imaginá-los partindo, determinados, rumo à Califórnia. Imaginem se eles tivessem se mantido
cabisbaixos, olhos fixos no chão, reclamando e resmungando o tempo todo: “Temos que chegar à
Califórnia!” Quantas coisas bonitas teriam deixado de ver! O céu e os lagos, o nascer e o pôr-do-
sol, a mudança das estações - da primavera ao verão, do outono à brancura do inverno. Como teriam
sido tolos aqueles peregrinos de olhos baixos em sua melancólica determinação!

3. Muitas vezes agimos como tolos peregrinos. Independentemente do que queremos fazer ou do
lugar onde queremos chegar, ficamos tão preocupados, que perdemos muito da beleza ao longo do
caminho. Perdemos a arte de desfrutar. Concordo com o Talmude quando diz: “O prazer é uma arte
que Deus nos deu para cultivarmos”.

“Um coração alegre serve de remédio, mas um espírito abatido seca os ossos”. Provérbio 17:22.

Aprender a desfrutar também é um trabalho interior

4. Assim como a felicidade, a capacidade de desfrutar vem de uma fonte interior. Como dizia o
filósofo Epíteto a seus contemporâneos, “tudo depende da maneira como você vê as coisas’'. Isso
nos lembra os dois homens que olhavam pelas grades da prisão - um via lama, o outro via estrelas.
Realmente, a possibilidade de desfrutar depende mais do estado de espírito do que das
circunstâncias; é mais uma escolha que uma oportunidade. Sabemos que umas pessoas aproveitam
mais a vida do que outras; sabemos, também, que as primeiras não são, necessariamente, mais
afortunadas ou dotadas do que as outras. É apenas uma questão de decidir aproveitar a vida, ao
invés de lutar contra ela.

5. A predisposição para desfrutar a vida é uma dessas atitudes ou estados de espírito que nos
acompanha desde a infância. Há uma pergunta que fazemos quando chegamos a este mundo: “Para
que serve a vida?” De algum modo, obtemos a resposta e tiramos nossas próprias conclusões. É
claro que não sabemos aonde e de quem a obtivemos, o importante é que temos uma resposta. E
possível não termos escutado exatamente o que foi dito, mas à medida que escutamos, formamos a
resposta. Foi ela que determinou nossas expectativas, dizendo-nos o que esperar a cada momento. A
partir daí, nossa vida se tornou simplesmente urna realização da nossa própria profecia (profecia
auto cumprida).

6. Aos poucos, aprendemos a ver a realidade e a própria vida através das lentes de nosso estado de
espírito. Aprendemos a esperar que a vida seja prazerosa ou muito difícil. Acordamos a cada dia
com nossa disposição particular, que colore esse dia e tudo o que vivemos; Nem sempre admitimos,
mas é através dessa disposição que modelamos e determinamos nossas próprias experiências.
Somos nós que fazemos com que nossa vida seja alegre ou triste. Nossas atitudes básicas foram
programadas bem cedo na vida; foram o resultado das sugestões dos outros e da maneira como
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interpretamos essas sugestões. De qualquer modo, tornaram-se pouco a pouco parte de nós,
orientando nossa mente para a luta ou paia o prazer, ou para algum ponto entre os dois.

Filhos de alcóolatras e a programação na Infância

7. Um dos movimentos mais recentes na recuperação de alcóolatras é liderado pelo grupo ACOA
(Adult Children of Alcoholics), Adultos Filhos de Alcóolatras. Dois estudantes universitários, filhos
de alcóolatras, me ajudaram a entender o que acontece com essas pessoas. Em ambos os casos, os
pais deixaram de beber quando os filhos estavam no início da adolescência. No entanto, as
mensagens do pai alcóolatra já tinham sido registradas: “Não toque... não fale... não se aproxime de
ninguém... não se permita sentir... não permita que o toquem... esteja sempre alerta... espere sempre
o imprevisível e se adapte a ele”.

8. É claro que cada filho de pai alcóolatra reage de uma maneira diferente, mas, em geral, são
pessoas de vida sem cor e sem brilho, entorpecidas emocionalmente, com medo de se relacionai',
desconfiadas das próprias reações. Às vezes, parece que o mundo é um grande piquenique para o
qual não foram convidadas. Permanecem solitárias, olhando com tristeza de trás da cerca.

9. Como todos nós, essas pessoas precisam reajustar e reformular suas vidas. Para isto, é necessário
desaprender velhos hábitos e praticar novos; é necessário tomar novas decisões. Podemos decidir,
neste momento, que vamos desfrutar. Podemos decidir que vamos apreciar as coisas boas de cada
momento e tirar proveito das oportunidades que nos são oferecidas. Toda vez que fazemos isso,
estamos cultivando o hábito de desfrutar. Depois de algum tempo, esse hábito vai se tornar um
estado de espírito.

10. Certa vez tive uma aluna muito talentosa, inteligente, bonita e esportista. No entanto, sua
fisionomia parecia sempre tensa e sofrida. Quando veio conversar comigo, disse-lhe que a
expressão de seu rosto não correspondia à sua graça e talento; ela me respondeu que tinha
consciência disso: “Fui adotada, mas meus pais adotivos nunca comentaram esse fato comigo.
Sempre pensei que, se algum dia os desagradasse, teria que voltar para o orfanato. Estava sempre
pisando em ovos, sem acreditai- que pudesse ser amada por alguém”.

11. E assim ela continuou pela vida afora, pisando em ovos para não desagradar ninguém, sempre
com medo de ser mandada de volta para o orfanato. Sua história ilustra bem o caso de uma visão
herdada e que necessitava ser reformulada. Felizmente, essa reformulação está em andamento e a
minha aluna está, pouco a pouco, se transformando numa pessoa feliz, capaz de desfrutar a vida.

12. De acordo com os membros da ACOA, permitir que alguém prive a pessoa da felicidade é
considerado um “sacrilégio”. Passamos a vida nos preocupando com todas as coisas erradas, nos
desgastando por ninharias, nos afligindo com prazos e decisões. Permitimos que outras pessoas e
coisas nos impeçam de desfrutar a vida; e é vontade de Deus que nós a desfrutemos.

Uma moça chamada Betty e um rapaz chamado Frank

13. Uma antiga aluna minha, pessoa calma e reservada, veio me ver. Conversamos um pouco e lhe
perguntei se estava trabalhando como enfermeira. “Não”, ela respondeu “estou morrendo. Tenho
leucemia em fase terminal”. Fiquei perplexo. Quando me recobrei do choque, perguntei-lhe como
era isso. “Como é ter vinte e quatro anos, pensar que se tem a vida inteira pela frente e, de repente,
estar contando os dias que faltam para a morte?” Na sua maneira reservada e calma, ela explicou:
“Não sei se posso explicar, mas esses têm sido os dias mais felizes de minha vida. Quando você

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pensa que tem muitos anos pela frente, é tão fácil adiar as coisas. Você diz a si mesma: ‘vou deixar
para sentir o perfume das flores na próxima primavera’. Mas, quando você sabe que seus dias estão
contados, você tem que sentir o perfume das flores e o calor do sol, hoje. Por causa da doença, tive
que fazer diversas punções na espinha. E um procedimento doloroso, mas meu namorado segura
minha mão. Acho que estou mais ligada na mão dele do que na agulha introduzida na espinha”.

14. Conversamos muito tempo sobre a morte e sobre como ela traz perspectivas de uma vida plena.
Sempre ouvi dizer que ninguém pode viver plenamente a não ser que tenha consciência da finitude
da vida. Betty me ajudou a compreender essa verdade. Enfim, a leucemia lhe tirou a vida, mas Betty
me deixou com uma compreensão profunda da necessidade de desfrutarmos todas as coisas boas
que temos. É como se, através dela, Deus estivesse me dizendo: “Você é um peregrino em meio à
viagem, aproveite tudo o que ela lhe oferece”.

15. Outra pessoa que me ajudou a compreender a importância de desfrutar foi um homem chamado
Frank. Todo mundo gostava dele; era amável e caloroso, sempre sorrindo. Gostava de pessoas e de
coisas simples. De repente, morreu. Embora tivesse sido rico numa certa época, não deixou um
grande patrimônio. Mas, como Betty, Frank me deixou um último legado – duas páginas de uma
“Lista de Meus Prazeres Especiais”. Ele cultivou intensamente sua capacidade de desfrutar, fazendo
uma lista de suas alegrias diárias; viveu toda a sua fase adulta decidido a aproveitar o máximo –
toda a graça, os arco-íris e as borboletas da vida. De acordo com sua lista, Frank aproveitou muitas
coisas durante seus dias na terra, incluindo passeios pitorescos, o amanhecer, escrever cartas de
congratulações, o voo dos pássaros, álbuns de retrato, assistir a orquestras e ouvir música em frente
a lareira. Os últimos quatro itens em sua extensa lista eram “sorvete, sorvete, sorvete e sorvete”.
Estou certo de que Frank teve seus episódios de sofrimento, mas, apesar deles, sempre conseguiu
aproveitar as boas coisas da vida. Por isso, será sempre um modelo importante para mim.

Evocando os demônios

16. A decisão de desfrutar a vida não pode ser um mero disfarce usado para encobrir desalento e
luta. Isto seria colocar uma máscara sobre a outra. Precisamos, antes de mais nada, conhecer as
razões que nos impedem de desfrutar. Os psicólogos exploram bastante esse aspecto. Há inúmeras
razões que podem diminuir nossa capacidade de desfrutar. Cada um deve explorar seu espaço
interior para exorcizar seus próprios demônios. Em The Screwtape Letters, C. S. Lewis descreve as
instruções do “demônio-chefe” para seus auxiliares. “Tente essa pessoa dessa maneira, mas, com
essa outra, não empregue a mesma tática, seria perda de tempo. Use outra técnica”. Estou certo de
que cada um de nós é tentado por obstáculos únicos, feitos sob medida, que se opõem ao prazer.

17. Algumas pessoas recebem mensagens diretas da infância, segundo as quais a vida não é para
ser desfrutada. Isso pode não ter sido dito claramente, mas deduzido a partir do que vimos e
experimentamos. Mensagens mórbidas ouvidas e registradas em nossa infância prevalecem por toda
a vida, a não ser que possamos identificá-las e rejeitá-las. Podemos ter ouvido coisas como “a vida é
uma luta sem tréguas; o mundo é frio e cruel, espere e verá”.

18. Outras pessoas são autopunitivas. Lembram-se de todos os seus erros, nos mínimos detalhes;
guardam um enorme arquivo de seus pecados. Um grande psiquiatra disse: “Talvez haja um Deus
no céu que perdoa nossas faltas, mas ainda assim, relutamos em nos perdoar”. É como se
tivéssemos julgado a nós mesmos e registrado todos os nosso fracassos em cada músculo, fibra e
célula de nosso ser. O complexo de culpa é, certamente, um dos fatores que mais impedem o
desfrutar, e com o qual a maioria das pessoas precisa se confrontar.

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19. Já falamos sobre o terrível ônus do perfeccionismo, uma tendência que consideramos “suicida”
porque nos impede de viver plenamente. Como não somos perfeitos e nada do que fazemos é
perfeito, caminhamos inevitavelmente para o fracasso. E quando o fracasso se torna a tônica de
nossa vida, o desânimo e a depressão logo se apossam de nós.

20. Todos temos um certo complexo de inferioridade. Aqueles que dizem o contrário estão apenas
se enganando. Todos nós temos áreas de insegurança. A inferioridade é um termo relativo, inverso à
superioridade, que sempre implica comparação – eu me comparo aos outros: eles são mais espertos,
mais bonitos, mais capazes e mais virtuosos que eu. A comparação faz surgir os sentimentos de
inferioridade. E é quase impossível gostar de qualquer outra coisa quando não gosto de mim.

21. Também o pensamento “tudo ou nada” pode nos impedir de desfrutar. Posso pensar, por
exemplo, que por não ser tudo o que queria ser, nada sou; ou por não ser inteiramente honesto, sou
um impostor. Precisamos de algum tempo e muita reflexão para nos aceitarmos como fração, pois é
isso o que todos somos. Uma parte em nós é boa e bela, mas uma outra é o inverso; uma parte em
nós é clara, outra é escura; uma acredita, a outra dúvida. Uma parte é amável, a outra é egoísta. O
pensamento “tudo ou nada” não admite frações, não aceita a área cinzenta entre o preto e o branco;
nem mesmo conhece a palavra processo, muito menos a realidade. É óbvio que não admite também
o crescimento gradual e as mudanças, por que o pensamento “tudo ou nada” é absoluto, sem
sombras ou nuances. Tem uma enorme capacidade de diminuir e negar a felicidade. Tudo tem que
estar muito bem, a conquista e a convicção devem ser totais, a nota tem que ser sempre dez, caso
contrário, a alma estará condenada à escuridão.

22. Finalmente, precisamos avaliar nossas crenças. Alguns constroem suas vidas a partir de ideias
irracionais. Por exemplo, “não consigo desfrutar quando estou sozinho”. Essas ideias irracionais
tendem a se transformar em profecias auto cumpridas. A pessoa que acredita que não há felicidade
na solidão, nunca será feliz sozinha. E aquela que acredita que são as outras pessoas e coisas que a
fazem feliz, acabará sempre decepcionada. Talvez a mais fatal das convicções seja “eu sou assim e
nada posso fazer”. Lembro-me de ter tido longas conversas corri um homem que se achava
condenado à infelicidade por ter tido uma infância infeliz. Sempre que lhe sugeria alguma mudança,
ele se queixava que eu não o estava escutando. Foi muito difícil mudar, suas convicções.

Exorcizando os demônios

23. Os teóricos da modificação de comportamento afirmam que podemos mudar sem compreender,
exatamente, como aprendemos a negar o prazer. A única coisa que importa é mudar, e isso pode ser
feito através de um sistema de recompensas e castigos. Suponhamos, por exemplo, que seu demônio
pessoal, qualquer que seja ele, surja à sua frente. Se você conseguir vencê-lo, desfrutando alguma
coisa, dê a si mesmo uma recompensa. Se ele vencer, inflija a você mesmo um pequeno castigo.

24. Acredito que isso vai nos ajudar a compreender a natureza de nosso problema. Se, durante uma
noite agradável, permito que um pequeno incidente estrague tudo, devo tentar compreender porque
permito que isso aconteça. Se vou a um jantai- agradável, assisto a um show maravilhoso e volto
para casa infeliz porque tive que pagar alguns cruzeiros para estacionar o carro, devo me questionar.
Suponhamos que eu fiquei aborrecido porque uma das pessoas num grupo parece não gostar de
mim, apesar de todas as outras gostarem. Esta seria uma boa situação paia ser investigada. Alguém
já disse que se você chama o demônio, você o domina. Assim, é muito bom quando chamamos o
demônio que nos impede de desfrutai' e o identificamos. Segundo um psiquiatra, “todos sabemos
que podemos ser felizes mas há sempre um grande se e um grande mas. Já é tempo de acabarmos

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com eles”. E quais são os “ses” e os “mas” que limitam nosso prazer de viver? Algumas vezes, se o
insight vem com bastante força e clareza, pode ter um poder transformador em nossa vida.
25. Certa vez fiz uma longa lista das máscaras que as pessoas usam. Apelidei-as de Elmer
Geniozinho, Patty Bajuladora, Dennis Capacho, Polly Porco-Espinho, etc. Tinha esperança que
cada um de nós identificasse sua máscara e pudesse retirá-la. Muitos amigos me disseram que viam
um pouco de si em todas as minhas descrições; tive que concordar com eles. Também eu via um
pouco de mim em cada uma delas. Acho que representava vários papéis, de acordo com as
circunstâncias. Mas um deles, “Harry o Ajudador”, sempre me perseguia. Percebi que assumia mais
vezes este papel do que os outros. Não podia ser totalmente honesto a meu respeito porque os
outros iam querer me ajudar, e isso me deixaria confuso. Sem precisar usar palavras, transmitia esta
mensagem para as pessoas: “Eu sou o ajudador e você o ajudado. Por favor, entenda isso e
represente o seu papel”.

26. Quando examino os demônios que se opõem ao prazer, percebo que todos me incomodam, de
tempos em tempos. Mas um deles, o perfeccionismo, parece ser o meu maior problema, junto com a
minha tendência a ser o “salvador do mundo”. Estou trabalhando com ambos. Sei que a mudança
deve ser gradual, desaprendendo hábitos antigos e substituindo-os por outros, mais novos e
estimulantes. Tento ser paciente, mas isso é difícil para os perfeccionistas. Para ser honesto,
reconheço que cada pequena vitória parece clarear o céu do meu mundo e ampliar minha
capacidade de desfrutar a vida em toda a sua plenitude. Com o passar do tempo, aproveito cada vez
mais minha viagem.

Elaborando essas ideias sobre desfrutar as coisas boas da vida

1. Evoque seu demônio. Qual dos demônios citados parece perseguir suas convicções e minar sua
capacidade de desfrutar?

a. Mensagens familiares (as mensagens que continuam se repetindo dentro de você): quais são
essas mensagens?
b. Complexo de culpa: Você se considera uma pessoa autopunitiva? Você se odeia pelos seus
erros? Você reformula seus remorsos?
c. Perfeccionismo: você só se valoriza pelo que produz? Acredita que deve ser perfeito? É
importante impressionar e agradar os outros? Você se desencoraja com o fracasso?
d. Complexo de inferioridade: Você se sente inferiorizado em relação aos outros? Como você
mede o seu valor? Você acha que é quem deveria ser, e está perfeitamente apto a fazer o que deve?
e. Pensamento “tudo ou nada”: Você realmente acredita num processo lento de crescimento?
Para você, existem zonas cinzentas entre o preto e o branco? Se você fala a verdade em cem
situações e mente em uma, você se considera um mentiroso?
f. Atitudes irracionais: Você tem atitudes de oposição ao prazer? Você acredita, realmente, que
fomos todos feitos para sermos felizes?

2. Faça uma lista de suas “Coisas Favoritas”. Esse é um processo contínuo. Mantenha sua lista
em expansão. Às vezes é bom revê-la e se perguntar: “Deixo, às vezes, de desfrutar essas coisas
boas?” Ao final de cada dia, escreva o que lhe deu prazer neste dia. A partir disso, surge algum
padrão que lhe revela algo a seu respeito? (Descobri que “ajudar os outros” aparece com frequência
em minha lista. Lembre se que sou o bom e velho Harry, o ajudador).

Lembre-se
Algum dia, você será chamado a prestar contas por todos os prazeres legítimos que deixou de
desfrutar. Assim, peregrino, vá em frente e aproveite a viagem!

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PRÁTICA 10

Devemos fazer da oração parte de nosso dia-a-dia.


1. Antigamente, o noviciado dos jesuítas era espartano. Conversávamos em latim e nos
cumprimentávamos com a palavra Carissime, que quer dizer “muito amado”. O supervisor dos
seminaristas nos dizia que tínhamos sido chamados a viver fora deste mundo e, é claro,
acreditávamos nele. Certa vez, um dos seminaristas disse a um chofer de ônibus que estava surpreso
com o aumento da passagem, e acrescentou: “Quando eu estava neste mundo, era apenas cinquenta
centavos". Aquilo despertou a curiosidade do motorista que perguntou, sobrancelhas levantadas:
“Perdão, companheiro, onde você pensa que está?”

2. Para mim, a parte mais intrigante da experiência do noviciado era a oração, extremamente árida.
Quando o nosso supervisor me perguntou se eu ficava com sono durante a meditação da manhã,
assegurei-lhe prontamente que não. A maior tortura era observar os seminaristas mais adiantados
rezando na capela. Gostaria de lhes perguntar: “Vocês sabem alguma coisa que eu não sei? Como
vocês conseguiram chegar até aqui?” Mas como não era permitido questionar ou compartilhar,
continuava com minhas dúvidas.

3. Eu me identificava com a pobre mariposa que, do lado de fora do meu quarto, tentava chegar à
lâmpada do abajur através da tela da janela. O pobre inseto batia com a cabeça na tela, tentando
sempre chegar ao alvo, sem jamais alcançá-lo.

4. Então, chegou “o dia D”. Estava certo que era tudo um grande engano, não acreditava em nada
daquilo. Mas o supervisor me pedia que fosse paciente, embora eu não soubesse para que devia ter
paciência. Acho que me esqueci de perguntar o que devia esperar.

5. Então, certa noite no início da primavera, Deus me tocou. Senti-me repleto de sua inegável
presença. Lembro-me de ter pensado, “Se isto é felicidade, então nunca fui feliz antes. É como
tomar vinho pela primeira vez”. Lembro-me de ter chorado lágrimas de alívio. Havia, realmente,
um Deus. E ele tinha estado dentro de mim o tempo todo.

A pergunta crucial

6. Talvez esta seja uma das perguntas que mais divide os que creem: será que Deus interage
conosco de verdade? Dizem que Thomas Jefferson, que se considerava um homem religioso, não
acreditava que Deus interagisse com as pessoas. Dizem que ele até mesmo riscou de sua Bíblia
todas as passagens que descrevem Deus entrando na história da Humanidade e dialogando com os
homens. Alguns teólogos também negam esse envolvimento de Deus conosco. E, muitas pessoas,
mesmo imaginando um Deus que se envolve, nem sempre conseguem vê-lo dessa maneira. As
vezes o vemos como um ser distante e silencioso. De vez em quando, lançamos nossas orações por
cima da muralha que nos separa dele. Esperamos que nos ouça mas não esperamos resposta.

7. Essa questão é crucial porque os relacionamentos só florescem através da comunicação. Mesmo


a nível humano, não pode haver relacionamento sem comunicação. O mesmo acontece no nosso
relacionamento com Deus, só que nesse caso, a comunicação tem um nome especial: oração.

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A barreira à comunicação: as máscaras que usamos

8. Nem sempre a comunicação é fácil. Infelizmente, a maioria das pessoas coloca máscaras, veste a
fantasia do papel que desempenha e recita textos decorados. O problema é que as máscaras, as
fantasias e os textos não são nossos; são, no geral, nossa forma de nos adaptar à realidade. São,
também, barreiras ao compartilhar verdadeiro e ao diálogo honesto. Todos nós sabemos disso, pelo
menos em teoria. Se represento um papel, não importa qual seja, você não pode interagir comigo
porque não lhe mostro a pessoa real que sou. Assim, tentamos nos encontrar em algum lugar no
palco e recitamos, um ao outro, o texto decorado. Acredito que Deus só pode interagir conosco na
medida em que formos autênticos. E isso não é fácil. Ser autêntico, totalmente aberto e honesto,
requer um longo tempo.

9. É evidente que há muitos tipos de oração, como há muitas maneiras de se comunicar. Mas, na
essência, há sempre alguma forma de diálogo na oração. Pode não ser um diálogo de palavras,
embora essas sempre acabem aparecendo nesse processo. Os seres humanos, em geral, dizem muito
mais um ao outro através de um sorriso ou de um abraço do que através das palavras. Mas os gestos
e expressões faciais podem ser mal interpretados se não forem acompanhados de uma explicação.
Qualquer que seja o tipo de oração, a essência da comunicação será sempre o compartilhar honesto
do próprio eu.

O desejo sincero de orar

10. É certo que as vezes rezamos sem palavras. Mas, há uma coisa sem a qual simplesmente não
conseguimos orar – o desejo sincero de fazê-lo. Em princípio não queremos admiti-lo, mas temos
medo de chegar muito perto de Deus. Milhares de dúvidas e perguntas nos invadem à simples ideia
da aproximação com o Senhor. O que Ele me dirá? O que irá me pedir? Para onde me levará? O
desconhecido é sempre um pouco amedrontador e, nesse caso, os desafios são grandes, pois é minha
vida que está em jogo. Deus pode abalar todos os meus construtos e reformular todos os meus
valores.

11. Além disso, estabeleço diálogos com outras pessoas de igual para igual. Minhas ideias são tão
boas quanto as suas. As escolhas são minhas, e você não tem o direito de interferir. Não vim a este
mundo para corresponder às suas expectativas, nem você veio para corresponder às minhas. Mas é
bem diferente num diálogo com Deus, que nos diz: “Esteja sereno e saiba que Eu sou Deus”. Como
disse certa vez Albert Einstein, “Quando me aproximo desse Deus, devo tirar meus sapatos e pisar
de leve, pois estou em solo sagrado”.

O alto preço da oração: a renúncia

12. Outra condição essencial paia uma oração bem sucedida é a renúncia: A própria palavra nos
atemoriza, mas, o fato é que a renúncia é uma condição inegociável para a oração. Lembro-me de
ter lido uma história escrita por uma mulher que nunca cheguei a conhecer. Em seu artigo, ela
descreve sua origem humilde. Morava numa água-furtada, economizando dinheiro para comer. Um
dia, conheceu aquele que viria a ser seu marido. Ele era a personificação de seu príncipe encantado.
Ela mal acreditou quando foi pedida em casamento. Entre outras coisas, ele tinha algumas posses, o
que permitiu que se mudassem para um bairro melhor, onde havia água quente, amplas janelas,
verdes gramados e flores no verão. Os filhos não tardaram a chegar, e ela tinha tudo com o que
sonhara.

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13. Então, ela começou a se sentir doente. Consultou um médico que a internou num hospital para
exames. Ela não estava preparada para ouvir que seu fígado tinha parado de funcionar. Teve
vontade de gritar: “Você está me dizendo que estou morrendo?” De olhos baixos, o médico
respondeu: “Fizemos o que foi possível”. Voltou-se e saiu do quarto em silêncio.

14. Ela sentiu uma raiva profunda. Na sua fúria, teve vontade de acusar Deus. Vestida com a
camisola do hospital, correu pelo corredor em direção à capela. Seria um encontro cara a cara.
Sentia-se muito fraca e tinha que se apoiar nas paredes para caminhar. Quando entrou na capela,
estava tudo escuro e não havia ninguém. Pela nave central, foi caminhando até o altar. Durante o
trajeto do quarto à capela, que lhe parecera infindável, havia preparado seu discurso. “Oh, Deus,
você é uma fraude, um verdadeiro impostor. Você vem passando mensagens de amor nos últimos
dois mil anos, mas sempre que alguém encontra a felicidade, você puxa o tapete. Quero que saiba
que já chega! Conheço o seu jogo!”

15. Ela caiu no centro da nave. Estava tão fraca que mal conseguia enxergar. Seus olhos mal
podiam ver o que estava gravado no tapete da escada do santuário. Com dificuldade leu e repetiu as
palavras: “SENHOR, TENDE PIEDADE DE MIM, UM PECADOR”. De repente, toda a raiva e a
vontade de insultar Deus passaram. Tudo o que restou foi: “Senhor, tende piedade de mim, um
pecador”. Então, encostou a cabeça enfraquecida nos braços e ouviu bem dentro dela: “Tudo isso é
um simples convite para que você me entregue sua vida. Você sabe que nunca fez isso antes. Os
médicos fizeram o que foi possível, mas somente eu posso curá-la”.

16. No silêncio e escuridão daquela noite, ela entregou sua vida a Deus. Assinou um cheque em
branco e lhe ofereceu para que Ele o preenchesse. Era a hora de Deus. Era o momento da renúncia.

17. Voltando para o quarto, mergulhou num sono profundo. No dia seguinte, depois dos exames de
sangue e urina, o médico lhe deu a boa notícia: “Seu fígado parece estar funcionando novamente”.
Como Jó, no Antigo Testamento, Deus a tinha levado até a beira do abismo, apenas para convidá-la
à renúncia, pré-requisito essencial para a comunicação na oração. “Seja feita a vossa vontade” é
uma concessão enorme e amedrontadora, pois nos deixa vulneráveis e indefesos. Nada de máscaras
ou barreiras protetoras, apenas isto: “Esteja sereno e saiba que Eu sou Deus”.

O poder da oração e nosso conceito de Deus

18. Cada um de nós tem uma ideia de Deus. Talvez, intelectualmente, alguns definam Deus
empregando as mesmas palavras. Mas, somos mais que simples intelectos e não podemos dizer com
segurança de onde vem nossa ideia de Deus. Porém, ela existe e provoca em nós emoções bem
definidas. Dependendo desse conceito, evoluímos ou regredimos. De onde veio nossa ideia de
Deus? As mensagens de nossos pais, os primeiros ensinamentos religiosos, nossas experiências,
nossa imaginação e mesmo nossas reações programadas às figuras de autoridade, ajudaram-nos a
formular esse conceito. O livro do Gênesis nos diz que somos feitos à imagem e semelhança de
Deus, mas é inegável que formulamos nosso conceito de Deus também à nossa imagem humana e
semelhança. Fazemos de Deus “um dos nossos”. Projetamos nele a nossa impaciência, e o
imaginamos nos abandonando; pensamos coisas inconcebíveis. Mas, de acordo com as Escrituras,
Deus é amor. A natureza de Deus é amor. É claro que o amor divino é muito maior do que podemos
imaginar, mas uma coisa é certa: tudo o que Deus faz, Ele o faz por amor.

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A experiência de Deus e os Alcoólicos Anônimos

19. Os membros da Sociedade dos Alcóolicos Anônimos são pessoas que acreditam nesse Deus de
amor. Um dos fundadores desse movimento e coautor do famoso programa dos Doze Passos,
William G. “Bill” Wilson, manteve correspondência com o psiquiatra Carl Jung e teve suas cartas
publicadas. No início da correspondência, Bill Wilson escreveu a Jung agradecendo seu importante
papel na fundação dos Alcóolicos Anônimos. Parece que Jung tratou de um certo Roland H. (Os
membros dos Alcóolicos Anônimos protegiam seu anonimato designando-se apenas pelo primeiro
nome).

20. Depois de repetidos tratamentos, Jung disse a seu cliente que ele era um alcóolatra
irrecuperável. Wilson afirma que o diagnóstico de Jung sobre a impossibilidade de recuperação de
Roland H. foi a pedra fundamental dos Alcóolicos Anônimos. O primeiro dos famosos Doze Passos
é admitir a impotência pessoal e a incapacidade de conduzir a própria vida. Depois, quando Rolland
perguntou a Jung se havia alguma esperança, Jung respondeu que poderia haver, desde que ele
vivenciasse uma experiência espiritual ou religiosa — em resumo, uma autêntica conversão. Wilson
agradece efusivamente a Jung por mostrar como tal experiência pode dar a motivação necessária
quando não há mais esperança. Foi essa sugestão que deu origem ao segundo e terceiro passos:
acreditar num Deus de amor e misericórdia e entregar a vida a esse Deus.

21. Parece que na mesma época, o próprio Wilson estava profundamente viciado no álcool e seu
médico, Dr. Silkworth, também o havia dado como caso perdido. Em sua correspondência com
Jung, Wilson admite que suplicou a Deus o seu auxílio e reconhece que, imediatamente, “veio a ele
uma luz de grande dimensão e impacto”. Bill Wilson sentiu que jamais poderia descrever com
exatidão aquele momento. Soube, apenas, que a sua libertação do álcool foi imediata. “De repente
senti que era um homem livre”.

22. Wilson confessou a Jung ter tido também um grande insight com o livro “Varieties of Religious
Experience”, de William James. Ele escreveu ao psiquiatra que esse livro lhe deu a consciência de
que a maioria das experiências de conversão têm, no âmago, um denominador comum, chamado o
“colapso do ego”. Esse colapso é a rendição total do próprio eu e do poder pessoal.

23. No despertar de sua experiência espiritual, Wilson teve a visão de uma sociedade de alcóolicos.
Ele imaginou que, se cada um transmitisse a novos membros as informações sobre a
impossibilidade de cura do alcoolismo, esse conhecimento deixaria a pessoa mais aberta a uma
experiência espiritual transformadora. Foi esse conceito que tornou a sociedade dos Alcóolicos
Anônimos um sucesso ao longo dos anos.

24. Não me surpreende, portanto, que a sociedade tenha um programa espiritual explícito. Dos tão
conhecidos “Doze Passos”, apenas o primeiro menciona o álcool; todos os outros, de maneira direta
ou indireta, mencionam Deus. Mas são os três primeiros passos que nos interessam, aqui e agora. O
primeiro passo é encarar a incapacidade de conduzir a própria vida. Embora eu não seja um
alcóolico ou um membro dos Alcóolicos Anônimos, aprendi muito com a sabedoria desse
movimento. Cheguei a reconhecer que existem muitas áreas na minha vida permeadas de
irracionalidade. Meu perfeccionismo, minha hipersensibilidade, minha imaturidade quando as
coisas não saem do meu jeito, meu desejo de punir e censurar os outros tudo isso me confronta com
o fato de que estas são áreas com as quais não consigo lidar. Na verdade, minha vida se tomou
incontrolável. Tenho tentado mudar, mas reconheço agora que não consigo, se não tiver ajuda. O
segundo passo é crer num Deus que me ama e quer me ajudar. Preciso acreditar que esse Deus
gentil e carinhoso me ajudará, se eu consentir (esse passo é o mais difícil para as pessoas que, como

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eu, desempenham sempre o papel de ajudadores). Essa abertura para receber a ajuda de Deus faz
parte do terceiro passo, que é entregar minha vida a Ele. Como dizem os A.A.: “Deixe as coisas
acontecerem e entregue-se a Deus”.

25. Ninguém precisa convencer os membros dos A. A. que a prece é necessária. São pessoas que
precisaram tirar todas as máscaras de falsidade e simulação. São pessoas que passaram a acreditar
num Deus de amor e bondade, num “poder maior” que conserta o que está quebrado, endireita o que
está torto, ilumina o que está escuro e faz renascer o que está morto em nós. São pessoas que
entregaram suas vidas a esse poder maior. A renúncia e essa visão de Deus são requisitos
importantes à oração.

Fazendo as pazes com minhas fraquezas

26. Muitas pessoas têm um medo instintivo de Deus, despertado por sua própria fraqueza. Algumas
têm medo até daqueles que parecem ver seu íntimo. Somos, realmente, “fabricantes de erros” cujo
preço às vezes é alto, para nós e para os outros. Ou aceitamos essa condição humana ou a negamos,
escondendo-nos atrás de nossa pretensão. Não estou sugerindo que devemos nos submeter ou nos
render à fraqueza humana. Estou sugerindo apenas que devemos aprender a nos aceitar como seres
imperfeitos. Todos pecamos e ainda vamos pecar. Para mim, é muito importante ver Jesus como o
Médico Divino que atende a domicílio os que estão doentes; é importante para mim ver Jesus como
o pastor de Deus. Estou sempre me lembrando que Ele procura por nós, ovelhas desgarradas, e se
alegra quando nos encontra.

27. Muitas vezes tenho lido e relido a parábola do filho pródigo. Eu sou esse filho pródigo, que,
ingrato, esbanjou seus dons em tantas vaidades e imaturidades, e sente um profundo remorso por
isso. Com cuidado e temor, digo: “Não posso pedir que me aceite de volta como filho, apenas como
servo. Mas, por favor, aceite-me de volta”. Fortalecido com o meu ato de contrição, nascido da
solidão e da necessidade, começo o regresso à casa. Meus passos são inseguros e incertos, mas meu
Aba-Pai me vê chegando e vem ao meu encontro. Toma-me em seus braços e respira, aliviado:
“Você está de volta e isso é tudo o que queria. Você está em casa, outra vez”. Nessa parábola, Jesus
me assegura que sou bem vindo à casa do Pai. Tive que ler e reler essa parábola repetidamente e
percorrer o longo caminho de volta várias vezes. Vou conhecendo, aos poucos, o amor gentil e a
misericórdia de Deus.

O mundo do espírito

28. Há algum tempo, um amigo me contou a história de dois peixes que nadavam no oceano. O
peixe menor se dirigiu ao peixe maior e perguntou: “Por favor, onde fica o oceano?” O maior
respondeu: “Você está dentro dele”. O peixinho não entendeu e perguntou outra vez: “Quero saber
como posso chegar ao oceano”. O peixe maior respondeu novamente: “Você já está nele”. O
peixinho foi embora à procura de alguém que pudesse responder sua pergunta.

29. Meu amigo compara a história do pequeno peixe com as pessoas que perguntam: “O que é
espiritualidade? Onde fica o mundo do espírito?” Ele faz como o peixe maior e responde “Você está
nele”. Viktor Frankl, o psiquiatra vienense, diz que a psicologia moderna passou os últimos
cinquenta anos concentrada na mente e no corpo, negligenciando o espírito humano e o mundo
espiritual.

30. Mas, na verdade, não temos escolha. Somos mente, corpo e espírito. Já “estamos nele”. Quando
o corpo adoece, vamos ao médico; quando a mente adoece, vamos ao psiquiatra. Mas também o

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espírito adoece e fica carente, e necessita nutrição consistente e exercícios regulares, como o corpo.
Quais são os sintomas de um espírito doente? Alimentamos o rancor, ficamos indignados com os
outros, encontramos pouco significado na vida e na atividade humana, não conseguimos desfrutai-.
Ficamos fracos quando precisamos de nossa força, reclamamos e acusamos. Ficamos destituídos do
que as Escrituras chamam de “os dons do Espírito Santo”:- amor, caridade, felicidade, paz,
paciência, amizade, bondade, lealdade, gentileza e autocontrole.

31. Alguém disse que Deus nos criou como queijos suíços, cheios de buracos que só Ele pode
preencher. Se não lhe pedirmos para preencher nossos vazios, tentaremos fazê-lo sozinhos,
inutilmente.

32. Contamos vantagens, mentimos, bisbilhotamos, colecionamos troféus, falamos palavrões, nos
exibimos, competimos, tentamos dominar os outros, buscamos prazeres sensuais. Mas, no final,
ficamos com o doloroso vazio que só Deus pode preencher.

33. Os anos da Faculdade são, no geral, um período de riscos e revisões. Assim, não fiquei surpreso
quando um antigo aluno me procurou para me contar uma experiência que tinha vivido. Ao final do
curso, como ainda tivesse dúvidas sobre a sua fé, resolveu passar uma semana como se Deus não
existisse. Absteve-se de rezar, de ir à igreja e de praticar qualquer coisa ordenada pela fé. Na
semana seguinte, vivenciou o inverso, com muita oração e tudo o que faz parte de uma vida plena
de fé. Quando terminou seu relato, sorriu e acrescentou: “Que diferença! Se algum dia viesse a
negar a importância da fé e da oração, teria que negar minha própria experiência. Eu jamais
conseguiria fazer isso”.

A hora de Deus

34. A palavra hora costuma ter um significado neutro, indicando apenas o tempo. No entanto, nas
Escrituras a “hora de Deus” tem um significado religioso especial – indica um momento decisivo na
vida de alguém ou na história da Humanidade, através da intervenção especial de Deus. O Senhor
nos pede que estejamos atentos e preparados, porque não sabemos com antecedência quando será a
“hora de Deus”. Considero-me agora velho e sábio o suficiente para saber que não posso pedir ou
fazer com que essa “hora” aconteça. Deus virá até nós à sua maneira e a seu tempo. Às vezes,
tendemos a proceder como domadores de circo, arco em punho. Mostramos o arco a Deus e
esperamos que Ele pule, imediatamente. Mas acabamos descobrindo, com tristeza, que Deus não é
um animal amestrado. Ele escolhe seu momento, usa seus próprios meios. Precisamos apenas estar
prontos para esse momento especial. Às vezes, a “hora de Deus” parece chegar quando estamos no
limite de nossa resistência. Mesmo assim, confiamos que Ele virá, no melhor momento e da melhor
maneira possível. Devo deixar que você seja você, e você deve deixar que eu seja eu. E devemos
deixar que Deus seja Deus.

35. É muito bom podermos compartilhar com outras pessoas a nossa “hora de Deus”. É claro que
não acreditamos ingenuamente em todas as pessoas que nos contam histórias de sua experiência
pessoal. Há o “teste do tempo”, que nos diz se a experiência teve efeitos duradouros. Há, também, o
“teste da realidade”, que nos diz se a experiência fortaleceu ou enfraqueceu o contato da pessoa
com a realidade. E, finalmente, há o “teste do amor ou da caridade”, que avalia se a experiência
aprofundou ou não a decisão pessoal e o compromisso com o amor.

36. Há alguns anos atrás, escrevi sobre minhas próprias horas de Deus num pequeno livro
intitulado He Touched Me: My Pilgrimage of Prayer (Ele Me Tocou: Minha Peregrinação de
Oração). Eu o escrevi a pedido de um sacerdote meu amigo. No livro, admiti minhas inúmeras

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fraquezas e limitações pessoais, mas falei, também, das graças que Deus me concedeu. Porém,
quando acabei o manuscrito, percebi que “todo mundo” ia saber o quanto eu tinha sido falso. Então,
acrescentei ao texto: Não sei ao certo se minha história teve algum valor para você. Pode ser que
você esteja muito além de mim, muito mais avançado no diálogo da oração. Admitir certas coisas
nessas páginas foi muito difícil para mim, especialmente aquelas referentes às minhas fraquezas
e infidelidades. Sinto um aperto no coração quando penso que vou torná-las públicas e
impressas. Mas quero fazer isso por você. O verdadeiro presente do amor é a auto revelação.
Enquanto não fizermos isso, nada teremos feito. Espero que você aceite este presente da maneira
como pretendo oferecê-lo: como um ato de amor.'

37. Este pequeno livro de apenas cem páginas, levou muitas pessoas a compartilharem comigo suas
histórias de fé. Durante dois anos, recebi quatro a cinco cartas por semana de centenas de pessoas
que foram também tocadas pelo mesmo Deus de amor e quiseram compartilhar suas experiências
comigo. Uma dessas cartas era de uma jovem do sudeste dos Estados Unidos, que admitia ter
vivido, por muitos anos, uma vida voltada paia o mal. Paia ela, o suicídio parecia ser a única saída
para o lamaçal onde vivia atolada. Estranhamente, queria morrer afogada. Ela via o mar como uma
grande e suave mãe que a acalentaria para sempre nos braços de suas ondas.

38. No dia marcado para executar seus planos, ela percebeu o mar não como uma mãe delicada e
amorosa, mas como um monstro ameaçador. O dia estava cinzento, e o mar estava bravo. Mas ela
disse para si mesma: “Embalada nos braços das ondas ou devorada pelo monstro, sei que devo
morrer. Preciso me entregar a essas águas”. Assim, continuou andando tranquilamente ao longo da
praia deserta, como se estivesse dizendo adeus a este mundo. Então ela ouviu uma voz nítida e clara
lhe dizer: “Pare, vire-se e olhe para baixo”. Tudo o que ela podia ver eram suas pegadas na areia e,
em seguida, as ondas se precipitando na praia e apagando as marcas dos pés. E, mais uma vez,
ouviu a voz: “Assim como as ondas do mar apagam seus passos na areia, meu amor e minha
misericórdia apagaram todo o seu passado. Estou chamando você para a vida e para o amor, não
para a morte”. Instintivamente, sabia que aquela era a voz de Deus.

39. Ela começou a se afastar do mar, sentindo uma nova força vinda daquele Deus que havia lhe
falado na praia cinzenta e deserta. É como se ela tivesse, finalmente, encontrado a felicidade e um
sentido para a vida. Depois, acrescentou: “Muitos anos se passaram desde aquele memorável dia,
mas nunca contei isso a ninguém. Primeiro, por considerar esse episódio muito pessoal; além disso,
minha vida foi construída a partir daquele momento – não gostaria que me ridicularizassem ou me
considerassem uma ingênua por isso. Não gostaria que achassem graça e me dissessem: “Na
verdade, você não queria morrer, por isso inventou essa voz.” Assim, nunca contei esse fato a
ninguém. Mas, quero contar a você, para que saiba como foi a “hora de Deus” para mim. Este é
meu ato de amor por você. Receba-o com mãos gentis.”

40. Escrevi-lhe uma carta expressando minha gratidão, e nunca mais nos correspondemos. No
entanto, guardo esse tesouro até hoje em “mãos gentis”. Estou certo de que sua disposição para
compartilhar comigo a graça recebida de Deus, reacendeu em mim o espírito de abertura e
fortaleceu meu desejo de maior intimidade com Deus. Serei eternamente grato a essa pessoa.

Uma sugestão para a oração

41. Já dissemos que há várias maneiras de rezar. Recentemente aprendi uma forma de oração que
não conhecia. Olhando um quadro com uma cena qualquer, deixo que me desperte pensamentos e
desejos místicos. Essa prática integra a fé à vida. Observo um quadro com uma flor e lembro-me
que as flores simbolizam o amor; observo um quadro com uma casa e lembro-me que algum dia

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estaremos todos reunidos na casa do Pai. A partir daí, meu coração e minha mente desenvolvem
mais pensamentos e imagens espirituais.

42. Gostaria de sugerir uma prática semelhante. Comece dizendo a Deus quem você é nesse
momento. Todas as vezes que pensamos, verbalizamos nosso pensamentos mentalmente. Assim,
verbalize para Deus quem você é. Faça um esforço para pintar esse retrato verbal. No início vai ser
difícil, mas aprofundando cada vez mais no nosso íntimo, estaremos fazendo um exercício muito
útil de autoconhecimento e, ao mesmo tempo, de oração. Sendo tudo, na realidade, uma dádiva de
Deus, devemos começar com uma oração pedindo a graça de orar bem. “Ajuda-me, meu Deus, a me
conhecer e a conhecer você. Ajuda-me a compreender nosso relacionamento. Ilumina-me e dá-me
forças. Obrigado”. Depois prossiga com perguntas de reflexão: Quem sou eu? Como estou me
sentindo hoje? Quais os pensamentos e sentimentos que me assaltaram nas últimas vinte e quatro
horas? O que foi mais importante para mim? Qual a pessoa que teve mais significado para mim? O
que desfrutei? O que me magoou? Tive pessoas que desempenharam um papel importante na minha
vida nesses últimos tempos? O que me motivou a agir? O que, na realidade, quis alcançar, ganhar,
evitar? Em resumo; o que estou fazendo da minha vida? E isso mesmo que quero?

43. Percebo que quando me forço a verbalizar respostas a perguntas desse tipo, consigo me
conhecer melhor. A cada dia as respostas se modificam, à medida que me aprofundo em mim
mesmo e me vejo sob novos ângulos. Minha disposição também muda. Há dias em que me sinto
cansado de tudo, em outros sou capaz de mover montanhas. Costumo deixar aberta a porta do
diálogo com Deus. Temos muitas portas por onde Ele pode entrar paia dialogar conosco. Temos
nossa mente onde Deus pode colocar novas ideias, insights e perspectivas. Temos nosso coração,
onde ele pode implantar desejos e colocar sua força. Temos emoções, através das quais Deus pode
confortar-nos nas horas de aflição ou afligir-nos no nosso conforto. Ele pode nos atingir com paz ou
com desafio. Temos também nossa imaginação, onde Deus pode nos sugerir palavras e imagens. Na
peça de Bernard Shaw, Saint Joan, quando Robert pergunta a Joana D'Arc: “Você ouve mesmo a
voz de Deus ou é a voz da sua imaginação?” Joana responde: “Ambas, pois essa é a maneira como
Deus nos fala, através de nossa imaginação”. Temos também uma memória, e Deus pode avivar as
lembranças na oração. Ele pode, ainda, curar nossas recordações dolorosas ou transformá-las em
reminiscências que possam nos ajudar. Em resumo, há essas cinco portas por onde Deus pode entrar
em nossas orações. O importante é saber que nossos limites são as oportunidades de Deus.

44. Ao final da oração, faço meus pedidos: “Ilumina-me para que eu veja as coisas boas e dá-me
força para praticar o bem no dia de hoje. Enche o vazio da minha alma com seu amor para que
possa transmiti-lo aos outros”. Menciono, então, o nome das pessoas por quem prometi rezar e peço
a Deus que as abençoe. Rezo por aqueles a quem ofendi, consciente ou inconscientemente (às vezes
estou tão absorvido comigo mesmo que posso magoar alguém sem perceber). Agradeço a Deus por
me amar. Pergunto- lhe quais são seus planos para hoje, pois gostaria muito de fazer parte deles”.

Elaborando essas ideias sobre a oração em nosso dia-a-dia

1. Escreva um testemunho de graça. Tente descrever em poucas palavras a situação e a


experiência. Se for possível, compartilhe isso com outra pessoa. É seu testemunho pessoal da graça
de Deus.

2. Escreva o Quinto Evangelho. A palavra evangelho significa “boa nova”. Escrevendo o


evangelho, os primeiros cristãos estavam tentando compartilhai- a “boa nova” com todas as
gerações vindouras. Escreva um evangelho sobre você e sobre sua vida. Dê o título de “As graças

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que Deus me concedeu”. Mesmo que você não compartilhe essa história de fé com outra pessoa, o
simples fato de escrever irá ajudá-lo a ficar mais ciente das graças que Deus lhe concedeu.

3. Avalie seu relacionamento com Deus. Na falta de palavras mais adequadas, vou denominar as
pessoas de “superdependentes” e “super independentes”. Podemos estar na primeira ou na segunda
categoria, quando nos relacionamos. Alguns de nós somos superdependentes e estamos sempre lhe
pedindo coisas, em vez de pedir que Ele nos ilumine para que possamos fazê-las. Outros são
superindependentes e continuam fazendo seus planos e sonhando seus próprios sonhos. Têm certeza
que sabem o que é melhor para eles, e pedem a Deus apenas que apoie seus planos. Ficam
aborrecidas quando Ele não lhes concede o que pedem. O ideal é pedir a Deus que nos ilumine e
nos dê forças paia conhecermos e realizarmos a missão para a qual fomos enviados a este mundo.
Escreva uma resposta a esta pergunta: Qual a minha tendência - ser superdependente,
superindependente ou equilibra-me entre as duas?

Espero que estes pensamentos sobre a oração, assim como


todas as outras “beatitudes” apresentadas neste livro,
venham a ajudar você, de alguma forma, na sua caminhada
em direção a uma felicidade ainda maior. Estas páginas
foram meu ato de amor por você. Agradeço por sua mente
aberta e por suas mãos gentis. Lembre-se de mim como
alguém que ama você.

John Powell, S.J.

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