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CASO URSO BRANCO: UMA ABORDAGEM MINIMALISTA

GARANTISTA

Natasha Karenina de Sousa Rego

RESUMO: As violações aos direitos humanos à vida e à integridade ocorridos no


Presídio Urso Branco ensejaram a emissão de medidas provisórias pela Corte
Interamericana de Direitos Humanos para evitar danos irreparáveis aos detentos. O
objetivo deste trabalho é analisar a relação existente entre a posição da Corte
Interamericana no Caso Urso Branco e o garantismo penal. O garantismo para a
Corte funciona como um conjunto de obrigações vinculantes aos Estados para
garantir os direitos humanos dos presos normatizados na Constituição e nos
tratados internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil. A pesquisa é
importante por aproximar teoricamente a Criminologia Crítica do Direito Internacional
dos Direitos Humanos e estimular mais pesquisas neste diapasão no Brasil e do
continente americano.

PALAVRAS-CHAVE: Urso Branco; garantismo penal; minimalismo penal; Corte


Interamericana de Direitos Humanos

ABSTRACT: The violations of human rights to life and integrity occured in the Urso
Branco Prison legitimates the issuance of provisional measures by the Inter-
American Court of Human Rights to prevent irreparable harm to the detainees. The
objective of this study is to analyze the relationship between the Inter-American Court
position in case Urso Branco and criminal guarantism. The guarantism to the Court
functions as a set of binding obligations on states to guarantee human rights of
prisoners standardized in the Constitution and in international human rights treaties
ratified by Brazil. The research is important because theoretically approach the
Critical Criminology of international human rights law and stimulate further research
on this pitch in Brazil and the Americas.

KEYWORDS: Urso Branco, criminal guarantism; minimal criminal law; Inter-


American Court of Human Rights

1. INTRODUÇÃO
Há pouco mais de 20 anos, o Brasil se submetia voluntariamente à jurisdição
contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos (HUNEEUS, 2011,
p.108), doravante Corte ou Corte Interamericana, o que permite que este Tribunal
investigue e responsabilize o Estado Brasileiro em virtude de violações de direitos
humanos previstas na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, doravante
CADH ou Convenção, e em outros tratados do Sistema Interamericano de Proteção
dos Direitos Humanos. Em que pese a subutilização deste mecanismo coletivo, a
sociedade civil tem provocado o Sistema Interamericano a produzir sentenças ou
medidas provisórias contra o Brasil e o enxergado como um importante garantidor
dos direitos humanos no país e no continente americano.
As violações de direitos humanos que, até agora, ensejaram condenações
do Estado Brasileiro são variadas, mas dos onze casos que receberam sentença ou
medida provisória, seis dizem respeito a violações aos direitos à vida e à integridade
física de pessoas privadas de liberdade, quais sejam: Urso Branco, Complexo de
Tatuapé, Penitenciária de Araraquara, Fundação Centro de Atendimento Sócio-
Educativo ao Adolescente, Complexo Penitenciário de Curado e Complexo
Penitenciário de Pedrinhas.
Tais números refletem as preocupações da sociedade civil, organizações
internacionais e ONGs nacionais e internacionais com o sistema prisional brasileiro,
que tem sido denunciado pelas inúmeras violações de direitos humanos,
especialmente dos direitos à vida, à integridade pessoal, à liberdade pessoa, às
garantias processuais, à proteção judicial, dentre outros, das pessoas privadas de
liberdade.
O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária e outras entidades
estatais e não-governamentais denunciam constantemente as violações de direitos
humanos ocorridas em todo o sistema prisional brasileiro. A realidade prisional de
Urso Branco infelizmente não é exclusividade sua e a falta de atenção e de cuidado
as demais unidades prisionais não se resume a falta de conhecimento ou de boa
vontade, uma vez que humanizar as prisões não só implicaria vontade política, como
também vontade para investir (ANIYAR DE CASTRO, 2010, p. 94).
Estima-se que o crescimento da população carcerária nos últimos 23 anos
(1990-2013) foi de 511%. Nesse mesmo período, o número de presos provisórios
cresceu 1.334% enquanto o de presos comuns 330% 1. Além disso, teve um
crescimento na taxa de detenção para cada cem mil habitantes de 137, em 2000,
para 260, em 2010. 2 A taxa de superlotação baixou de 171 detidos para cada 100
vagas, em 2003, para 166, em 2010, porém o número de estabelecimentos quase
dobrou em um período menor – 1.006, em 2005, para 1.857, em 2010 (BRASIL,

1 Dados atualizados até junho de 2012 pelo DEPEN/MJ


2 Dados construídos a partir dos dados fornecidos pelo InfoPen e IBGE
2010). Se a função essencial da prisão é encarcerar, os números não mentem: é um
investimento de sucesso.
Ao ser analisada a curva do aumento da população carcerária, nota-se que a
opção político de recrudescimento dos aparelhos do sistema penal se mantém e tem
obtido êxito na implementação de um conjunto de medidas legislativas e de práticas
nas instituições de internação e reclusão articuladas com políticas penais cada vez
mais severas (TEIXEIRA et al, 2007, p.238).
O caso Urso Branco infelizmente, aparece como um caso isolado de relativo
e parcial sucesso, mas que pode servir de referência e estímulo para que questões
de crise sejam evitadas. A pressão interna e internacional e a influência exercida
pela Corte permitiram a mudança relativa do quadro de violência de Urso Branco.
Nesse sentido, pergunta-se: qual a relação existente entre a posição da Corte
Interamericana no Caso Urso Branco e o garantismo penal? A hipótese testada é a
de que, o conteúdo das medidas provisórias do Caso não destoa da postura
garantista seguida por este Tribunal, na medida em não questiona a pena privativa
de liberdade e a prisão e obriga o Estado Brasileiro a adotar todas as medidas
necessárias para adequar a Penitenciária às normativas nacionais e internacionais
de cumprimento da pena.
O garantismo, nesse sentido, para a Corte funciona como um conjunto de
obrigações vinculantes aos Estados para garantir os direitos humanos dos presos
normatizados na Constituição e nos tratados internacionais de Direitos Humanos
ratificados pelo Brasil. A pesquisa é importante por aproximar teoricamente a
Criminologia Crítica do Direito Internacional dos Direitos Humanos e estimular mais
pesquisas neste diapasão no Brasil e do continente americano.

2. O CASO URSO BRANCO NO SISTEMA INTERAMERICANO DE PROTEÇÃO


DE DIREITOS HUMANOS
Conhecido por ter sido palco de um dos grandes massacre em unidades
prisionais no país, Urso Branco não é uma exceção e não destoa da realidade de
violação dos direitos humanos das pessoas privadas de liberdade no Brasil. Sofreu
intervenções estaduais, federais e internacionais para impedir que a situação
periclitante se agravasse e que os direitos humanos dos detentos fossem ainda mais
violados. A solicitação de medidas cautelares à Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, doravante Comissão ou CIDH, marca a entrada do caso no Sistema
Interamericano de Direitos Humanos e o levantamento consensual no âmbito da
Corte Interamericana de Direitos Humanos a sua saída.
O presídio estadual e masculino Urso Branco é a maior unidade prisional da
Região Norte do país. Como a maior parte dos homens detidos na capital
rondoniense e nos municípios adjacentes era encaminhada inicialmente para esta
unidade prisional e depois realocada, Urso Branco passou a ser considerada a porta
de entrada do sistema prisional de Porto Velho, Rondônia. A superlotação subsistia:
integrava o cotidiano dos presos e dos agentes penitenciários. O descumprimento
dos mandamentos constitucionais e internacionais 3 em Urso Branco era percebido
em relação a muitos direitos e garantias dos presos.
Ao longo dos anos, contabilizaram-se mais de cem mortes e dezenas de
lesões corporais, frutos de motins e rebeliões entre presos e torturas perpetradas
por agentes penitenciários, os quais deveriam zelar pela segurança e ordem no
ambiente. Os crimes ocorreram em situações de violência extremada, quando
presos degolaram e mutilaram os próprios companheiros de cela, em rebeliões e
brigas de grupos rivais.
O ponto fulcral para a solicitação de medidas cautelares à Comissão
Interamericana se deu na passagem de 2001 para 2002. O remanejamento dos
presos, para atender uma ordem judicial da Vara de Execuções Penais4, feito de
forma imprudente e mal planejada pela Direção do Presídio, teria sido o elemento
catalisador para a rebelião e subsequentes mortes, uma vez que misturou os presos
ameaçados de morte com presos de alta periculosidade.
O massacre de janeiro de 2002, as insustentáveis situações de insegurança

3 Dentre as normas jurídicas internacionais para a proteção das pessoas privadas de liberdade destacam-se:
Declaração Universal dos Direitos Humanos; Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos; Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos; Convenção Americana sobre Direitos Humanos; Convenções de
Genebra, de 12 agosto de 1949, e seus dois Protocolos Adicionais, de 1977; Convenção contra a Tortura e
outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes; Declaração sobre a Proteção de Todas as
Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados; Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado
de Pessoas; Princípios e Boas Práticas para a Proteção das Pessoas Privadas de Liberdade nas Américas.
4 Em dezembro de 2001, o Juiz da Vara de Execuções Penais, Arlen Silva de Souza, ordenou ao então diretor
do presídio, Weber Jordiano Silva, que todos os apenados da dita “cela livre” – presos que sofriam risco de
morte - fossem recolhidos nas celas, sob pena de responsabilidade. Em 31 de dezembro de 2001, o referido
diretor e representantes do Poder Público foram ao presídio para executar a ordem de recolhimento dos
“celas livres”: decidiu-se pela retirada dos presos considerados mais perigosos dos pavilhões - “os
matadores” - uma vez que havia o temor de que estes colocassem em risco a vida dos presos encarcerados no
"seguro". In: MAIA, Luciano Mariz. O Brasil antes e depois do Pacto de San José. Boletim Científico,
Brasília, ano I, n. 4, jul./set., 2002. Disponível em:
<http://boletimcientifico.escola.mpu.mp.br/boletins/boletim-cientifico-n.-4-2013-julho-setembro-de-2002/o-
brasil-antes-e-depois-do-pacto-de-san-jose/at_download/file>. Acesso em: 03 jun. 2014. p. 91.
e insalubridade que se desenrolou em Urso Branco a partir do início dos anos 2000
e incapacidade do Estado Brasileiro em remediar a situação ensejaram que
organizações da sociedade civil defensoras de direitos humanos acionassem a
Comissão Interamericana, com o objetivo de impedir que novos assassinatos
ocorressem e responsabilizar internacionalmente o Estado Brasileiro por sua postura
violadora de direitos humanos.
Em 5 de março de 2002, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Porto
Velho e a Justiça Global solicitaram à Comissão Interamericana medidas cautelares
para proteção à vida e integridade pessoal dos detentos de Urso Branco, em virtude
das disputas entre grupos rivais, e da ausência do Estado no interior da unidade que
ocasionou a chacina de 1º de janeiro de 2002. Segundo os peticionários, os fatos
denunciados caracterizavam violações a direitos humanos garantidos pela
Convenção Americana de Direitos Humanos.
O Sistema Interamericano possui um sistema de medidas de urgência para
proteção da vida e integridade pessoal de indivíduos que se encontrem em
situações de extrema gravidade e urgência, com possibilidade de sofrerem danos
irreparáveis 5. Comissão e Corte disponibilizam, respectivamente, medidas
cautelares e provisórias, que não gozam do mesmo grau de obrigatoriedade 6,
apesar de terem a mesma finalidade e podem ser solicitadas nas mesmas
circunstâncias – ambas se tratam de uma resposta institucional urgente a uma
violação ou ameaça de violação de direitos, cujos danos podem ser irreversíveis.
O acompanhamento das medidas cautelas e provisórias é realizado pela
Comissão e pela Corte, respectivamente, que realizam uma supervisão do
cumprimento de tais medidas por meio de comunicações escritas entre tais órgãos,
os beneficiários e o respectivo Estado e por meio de audiências.
Em 14 de março, a CIDH outorgou as medidas cautelares requeridas e
solicitou ao Estado brasileiro que estabelecesse todas as medidas necessárias para
proteção da vida e integridade pessoal dos presos em Urso Branco ameaçados de

5 A existência de uma situação grave e urgente em curso e a potencialidade de um dano irreparável a uma
pessoa vir a ocorrer em face dessa situação são dois requisitos que autorizam a adoção das medidas
cautelares e provisórias. In: GARCÍA RAMÍREZ, Sérgio. La jurisprudencia de la Corte Interamericana de
Derechos Humanos en materia de reparaciones. CORTE INTERAMERICANA DE DERECHOS
HUMANOS. La Corte Interamericana de Derechos Humanos: un cuarto de siglo (1979-2004). San José:
CIDH, 2005. p. 130.
6 Mesmo sem a obrigatoriedade, as medidas cautelares gozam de caráter vinculante, que advem do poder que
tem a Comissão Interamericana de aplicar a CADH e de preservar o objeto de litígio ou os direitos tutelados
no tratado, e da obrigação de cumprir de boa fé as decisões da Comissão Interamericana.
morte. A solução amigável buscada pela CIDH não ocorreu da maneira esperada: a
solicitação de medidas cautelares não produziu os efeitos de proteção necessários
para evitar ocorrência de mais danos irreparáveis. O Estado brasileiro ficou inerte 7 e
não realizou ações efetivas para evitar novos assassinatos, que ocorreram nos
meses de março, abril e maio de 2002.
Em 5 de junho de 2002, a CIDH solicitou medidas provisórias a Corte
Interamericana de Direitos Humanos e, a requerimento dos peticionários, abriu o
caso, em conformidade com o artigo 25 de seu Regulamento. As informações
pertinentes foram enviadas ao Estado e ambas as partes apresentaram documentos
probatórios de suas posições, os quais foram transladados a cada uma das partes.
Frisa-se que a solicitação pela Comissão Interamericana da adoção de medidas
provisórias faz com que a Corte Interamericana exerça sua competência preventiva.
Em 18 de junho de 2002, o pedido resultou na outorga de medidas
provisórias – em forma de resolução - a favor do internos de Urso Branco pela Corte
IDH que requereu medidas similares às anteriormente solicitadas em relação ao
sistema prisional, como a adoção de todas as medidas que sejam necessárias para
proteger a vida e integridade de todas as pessoas reclusas no presídio Urso Branco
(REIS, 2007).
Assim, a Penitenciária Urso Branco tornou-se alvo de determinações da
Corte Interamericana para que o Estado brasileiro garantisse a vida e integridade
pessoal de todos os internos, adequasse as condições da unidade a padrões dignos
de cumprimento da pena, e investigasse e responsabilizasse judicialmente os
responsáveis pelos assassinatos ocorridos. Esta foi a primeira medida provisória
autorizada pela Corte Interamericana voltada ao Brasil, desde que o país acolheu
expressamente a jurisdição deste tribunal em 1998.
Entre 2002 e 2011, a Corte Interamericana emitiu dez resoluções sobre o
caso Urso Branco. Dentre as determinações ao Estado Brasileiro, para fins deste
estudo, duas podem ser destacadas por terem sido reiteradas em quase todas as
resoluções e apontar a postura da própria Corte ao condenar o Brasil: a adoção de

7 O efeito legal das medidas cautelares é obrigar o Estado a evitar a ocorrência de uma situação específica
com relação a um assunto que está sendo investigado pela Comissão. A inação do Estado em evitar ou cessar
uma situação de dano irreparável pode colocá-lo numa posição desfavorável em relação à Comissão e à
comunidade internacional. In: RODRÍGUEZ-PINZÓN, Diego. La Comisión Interamericana de Derechos
Humanos. Cf: AYALA CORAO, Carlos; MARTIN, Claudia; RODRÍGUEZ-PINZÓN, Diego. Manual sobre
Derecho Internacional de los Derechos Humanos: Teoría y Práctica. Venezuela, 2008. Disponível em:
<http://www.wcl.american.edu/humright/hracademy/documents/Clase2Lectura1-DiegoRodriguez-
LaComisionInteramericanadeDerechosHumanos.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2014. p. 190-191.
todas as medidas que sejam necessárias para proteger a vida e integridade pessoal
dos detentos e a adequação do Presídio às normas internacionais de proteção dos
direitos humanos às pessoas privadas de liberdade.
Em 25 de agosto de 2011, a Corte emitiu sua décima e última resolução
sobre o caso Urso Branco e resolveu levantar as medidas provisórias ordenadas
pela própria Corte em 18 de junho de 2002 e ratificadas posteriormente. Frisou,
contudo, que nos termos do artigo 1.1 da Convenção Americana, o levantamento
das medidas provisórias não implica que o Estado esteja dispensado de suas
obrigações convencionais de proteção. Ao resolver pela manutenção ou pelo
levantamento das medidas vigentes, a Corte avalia o êxito ou o fracasso das
medidas implementadas pelo Estado tendentes a investigar e sanar os responsáveis
pela ameaça.
A Corte destacou em sua resolução que desde dezembro de 2007 não foram
registradas mortes violentas ou motins no Presídio Urso Branco. Além disso, a
população carcerária diminuiu a aproximadamente 700 internos em 2009, e desde
então o número de internos tem permanecido sem maiores variações.
Adicionalmente, o Estado encontra-se investigando as denúncias de violência ou
maus tratos apresentadas pelos representantes, e inclusive alguns processos penais
foram resolvidos em primeira instância, tais como os relacionados com os fatos
ocorridos em janeiro de 2002 que deram origem às presentes medidas provisórias.

3. GARANTISMO PENAL E O CASO URSO BRANCO

A apresentação do caso Urso Branco pode situar o leitor e a leitora de sua


recepção pelo Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos, bem
como traçar um breve sumário do desenrolar do caso, do início das rebeliões
ocorridas no presídio em 2002 ao levantamento das medidas provisórias em 2011
pela Corte Interamericana por entender que não subsistia a ensejadora situação
grave e urgente em curso e a potencialidade de um dano irreparável às pessoas
privadas de liberdade em Urso Branco. Os esforços empreendidos pelo Estado
brasileiro em cumprir as determinações internacionais também foram pontuadas.
O Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos e
especialmente a Corte Interamericana cumprem um forte e importante papel político
de proteção dos direitos humanos no continente americano na medida em que
avaliam violações a estes direitos a partir dos tratados regionais sobre a matéria e
condenam os Estados membros da CADH em sentenças de força jurídica caráter
definitivo, vinculante e auto-executável que os obrigam à reparação das vítimas e a
fazer cessar as consequências dessa violação.
Enquanto juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida
competência em matéria de direitos humanos, de acordo com o artigo 52 da CADH,
os magistrados da Corte produzem decisões e opiniões consultivas consoantes com
a Convenção Americana de Direitos Humanos e com os demais tratados de direitos
humanos do continente não apenas com seu saberes técnicos. A luta pelos direitos
humanos no continente exige que os juízes sejam proativos, criativos e engajados,
na medida em que as decisões e interpretações inovadoras devem ter embasamento
legal e não serem descoladas da realidade.
As determinações emanadas pela Corte em forma de medidas provisórias
no caso Urso Branco foram importantes por conseguir minorar as violações de
direito à vida e à integridade física das pessoas privadas de liberdade ainda que em
nenhum momento tenha sido criticada a pena privativa de liberdade ou as funções
que legitimam sua existência. A partir da prisão enquanto fato acabado e
incontestável, os juízes buscaram formas de, em seus julgados, fazer com que o
cumprimento da pena privativa de liberdade ou das penas processuais estivesse
adequado à Convenção Americana sobre Direitos Humanos, à Constituição Federal
e às normativas internas e internacionais que versam sobre a matéria. Nesse
sentido, o Estado Brasileiro foi chamado compulsoriamente a adotar todas as
medidas necessárias para adequar a Penitenciária às normativas nacionais e
internacionais de cumprimento da pena.
Dentro esta postura da Corte se adéqua aos modelos minimalistas penais,
que estão às voltas com a limitação da violência punitiva, com a máxima contração
do sistema penal e com a construção alternativa dos problemas sociais (ANDRADE,
2006, p.174). As visões minimalistas prescrevem que não se deva recorrer ao Direito
Penal e à pena privativa de liberdade se existir a possibilidade de garantir proteção
suficiente por meio de outros instrumentos jurídicos não-penais e que caso seja
escolhida a prisão, as pessoas privadas de liberdade devem cumpri-la sem que seus
direitos humanos sejam violados, salvo a própria liberdade de ir e vir.
Afinal, para ser titular de direitos fundamentais e desfrutar de suas garantias
não é necessário que o indivíduo em uma ação penal e seja preso de forma
provisória ou não. Os direitos e suas garantias também protegem todos aqueles que
não estejam envolvidos em uma tal ou qual relação jurídica (FELDENS, 2010,
p.259). A proteção, nesse sentido é anterior a qualquer situação violadora de direitos
humanos – mesmo quando este direito ainda não está positivado em um
ordenamento jurídico.
Nesse sentido, o conceito de direitos humanos assume uma dupla função:
uma função negativa e uma positiva. A primeira diz respeito aos limites da
intervenção penal e a segunda a respeito da definição do objeto, possível, porém
não necessário, da tutela por meio do direito penal (BARATTA, 1987, p.4). Ao
mesmo tempo que os direitos humanos funcionam com uma barreira à atuação do
Estado perante à vida e à integridade física dos indivíduos, principalmente, também
indicam quais condutas e quais sujeitos devem ser controlados pelo Estado pela via
penal. Assim, se estabelece o paradoxo de um Direito Penal que,
concomitantemente, protege e ameaça os direitos humanos, enquanto que os
direitos humanos permitem, concomitantemente, uma redução e um alargamento do
direito penal (MARTIN-CHENUT, 2013).
De acordo com o ordenamento jurídico pátrio, de inspiração liberal e pautado
formalmente nos direitos humanos, a pena privativa de liberdade é a intervenção
mais radical na liberdade do indivíduo permitida e o Direito Penal deve ter sua
atuação reduzida a um número absolutamente essencial de condutas
particularmente danosas. Formalmente, a pena de prisão é legalmente prevista e
desincentivada – ainda que na prática o Brasil seja um dos países com a maior cifra
de aprisionados.
Almeja-se nesse sentido um Direito Penal maximamente condicionado e
maximamente limitado (FERRAJOLI, 2006, p.112), limitado às situações de absoluta
necessidade cuja pena adequada consiga balancear o máximo grau de tutela de
liberdade dos cidadãos e das cidadãs frente ao ius puniendi do Estado. O modelo
minimalista proposto por Ferrajoli – o garantismo penal - advém a um ideal de
racionalidade e de certeza, que repudia a intervenção penal que tenha pressupostos
incertos ou indeterminados, e se dirige à tutela dos direitos fundamentais dos
cidadãos contra as agressões de outros associados.
O modelo minimalista garantista parte da deslegitimação do sistema penal, e
acredita que ele possa ser relegitimado. Apresenta-se enquanto um fim em si
mesmo – um Direito Penal mínimo para uma sociedade futura legitimado pela
necessidade de proteger, a um só tempo, as garantias dos “desviantes” e
“nãodesviantes” (ANDRADE, 2006, p.175). Nesse sentido, a legitimidade do Direito
Penal deve ser apenas percebida na exclusiva proteção de bens jurídicos primários
A abordagem do chamado Direito Penal mínimo pode ser resumida por meio
da limitação da órbita e da intensidade da justiça penal. São incentivadas a
diminuição de comportamentos tipificados como penalizado e o aumento de sanções
alternativas à pena privativa de liberdade, como a mediação, reparação e
responsabilização do indivíduo infrator com obrigações perante a comunidade
(BERDET, 2013, p.389)
Ao pensar o garantismo penal junto das garantias constitucionais e
convencionais, não se pode esquecer os direitos fundamentais e humanos,
positivados nestes documentos, criam, nacional e internacionalmente, uma esfera do
inegociável, ou seja, matérias sobre as quais a maioria, sequer a unanimidade, pode
deliberar ou deixar de deliberar. Estes direitos adicionam à tradicional função de
direitos negativos a função positiva de imperativos de tutela, passam a exigir
proteção por meio do Estado e redimensionam, em paralelo, o próprio paradigma
garantista, o qual se integralizará na medida da realização das proteções
constitucional e internacionalmente exigidas (FELDENS, 2010, p.263).
Nesse sentido, o garantismo deve ser como técnica de limitação do poder
público e traço estrutural e substancial mais característico da democracia, uma vez
que garantias expressam os direitos fundamentais do cidadão frente aos poderes do
Estado, os interesses dos mais fracos e vulneráveis em relação aos mais fortes
(STRECK, 1996, p.44).
Nesse sentido, pode-se dizer que a atuação da Corte ao emitir sentenças e
medidas provisórias, especialmente no caso em comento, se alinha perfeitamente ao
garantismo enquanto técnica, uma vez que os juízes procuram forçar os Estados
membros a cumprir as normativas nacionais e internacionais de proteção aos
direitos humanos, escolhendo, na relação Estado-cidadão, o lado mais fraco, mais
vulnerável, ou seja, o da vítima que teve seus direitos humanos violados em virtude
de ação ou omissão estatal.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem funcionado como um


importante mecanismo de garantia dos direitos humanos ao condenar os Estados
membros a empreender todos os esforços necessários para, em cada caso
específico, garantir a reparação integral das vítimas e a não-repetição daquela
violação a nenhuma pessoa. Os direitos das pessoas privadas de liberdade podem
ser destacados nestes esforços de proteção uma vez que as denúncias feitas pelos
peticionários em todo o continente têm tornado visíveis os problemas sofridos pelos
detentos e por seus familiares.
Frisa-se que Corte tem se apoiado na ideia do Direito Penal mínimo e
condenado o Estado brasileiro, conforme o caso em comento, na adoção de todas
as medidas necessárias para que o cumprimento da pena se desse dentro das
condições previstas nas legislações doméstica e internacional. Tal entendimento é
importante para que o Estado garanta que todos os direitos das pessoas privadas de
liberdade sejam respeitados durante o cumprimento da pena pelo fato de cada uma
delas ser um ser humano cuja dignidade é intrínseca. A privação de liberdade coloca
o próprio Estado na condição de garante destes direitos - todos os momentos da
vida do detento se passam diretamente sob o olhar estatal e todas as suas
necessidades básicas devem ser atendidas pelo Estado e por seus agentes.
O modelo minimalista garantista explica bem a atuação da Corte no caso
Urso Branco. Em nenhuma das resoluções, a pena privativa de liberdade em si
contestada e sua deslegitimação apresentada. Nenhum juízo de valor foi feito sobre
a pena, onde ela é cumprida ou as condições que levam à superlotação ou a outras
violações de direitos humanos. Procurou-se pensar, a partir de uma situação dada,
que medidas podiam ser tomadas pelo Estado brasileiro para garantir os direitos das
pessoas privadas de liberdade, a partir da Constituição Federal e dos tratados
internacionais sobre a matéria, para que as condições de cumprimento da pena
fossem dignas e adequadas.
É preciso repensar contudo de a condenação dos países, especialmente do
Brasil, em medidas que visem, de forma ampla, a adequação do ordenamento
jurídico brasileiro à normativas internacionais sobre a matéria é suficiente para que a
importante tarefa de não-repetição seja cumprida.
Em 2013, duas novas medidas cautelares foram emitidas pela Comissão
Interamericana de Direitos Humanos sobre novas violações de direitos humanos
ocorridas em unidades prisionais brasileiras. O compromisso do Estado em garantir
os direitos à vida e à integridade física dos detentos não se restringe apenas aos
daqueles beneficiados por medidas de urgência. Todos os detentos e todas as
detentas que estão em unidades prisionais brasileiras devem, enquanto ser
humanos, ter seus direitos protegidos. O que o Estado brasileiro não tem feito para
garantir os direitos dos detentos? É possível reformar o sistema prisional brasileiro e
fazer dele mais humano? Essas são provocações que podem alimentar debates
posteriores.
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