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HISTORIA

DOS ÍNDIOS
NO BRASIL

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HISTORIA DOS ÍNDIOS NO BRASIL
MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (ORG.)
FRANCISCO M. SALZANO
NIÉDE GUIDON
ANNA CURTENIUS ROOSEVELT
GREG URBAN
BERTA G. RIBEIRO
LÚCIA H. VAN VELTHEM
BEATRIZ PERRONE-MOISÉS
ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA LIMA
ANTÓNIO PORRO
FRANCE-MARIE RENARD-CASEVITZ
ANNE CHRISTINE TAYLOR
PHILIPPE ERIKSON
ROBIN M. WRIGHT
NÁDIA FARAGE
PAULO SANTILLI
MIGUEL A. MENÉNDEZ
MARTA ROSA AMOROSO
TERENCE TURNER
BRUNA FRANCHETTO
ARACY LOPES DA SILVA
CARLOS FAUSTO
MARY KARASCH
MARIA HILDA B. PARAÍSO
BEATRIZ G. DANTAS
JOSÉ AUGUSTO L. SAMPAIO
MARIA ROSÁRIO G. DE CARVALHO
SILVIA M.SCHMUZIGER CARVALHO
JOHN MANUEL MONTEIRO
SÓNIA FERRARO DORTA

HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
2? edição

FaPESP
Fundação DE AMPARO Á Pesquisa
^fefe. _SMC
y, -T^ i i ltlUsicir«i o! Ti in s
DO ESTADO Dt SÃO PAuuí COMHAN H A DaS
I LiriRAS iD... JL1"l>.. 1 ..,
C:op>rinht © 1992 hy os Autores

Projeto editorial:
NrCIS.O DF. HISTÓRIA INDÍGF^A E DO INDIGENISMO

Capa e projeto gráfico:


Motmd CMvakanti

Assistência editorial:
Mjrta Rosa Amoroso

Edição de texto:

Otanlío Fernando Nunes Jr.

Mapas:
Alíàa Roíla
Tuca Capelossi

Mapa das etnias:


Clame CA)hn

FJmundo Peggion

índices:
Beatriz Perrvne- Moisés
Clame C^hn
Edgar Theodoro da Cunha
Edmundo Peggion

Sandra Cristina da Silva

Pesquisa iconográfica:
Manuela Cimeiro da Cunha
Marta Rosa Amoroso
Oscar Cuilávia Saéz
Beatriz Calderari de Miranda

Revisão:
Cármen Simões da Costa
FJiana Antonioli

1^ edição 1992

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (iip)

(Câmara Brasileira do Lixro, sp. Brasil)

História dos índios no Brasil / organização Manuela Carneiro

da Cunha. —São Paulo Companhia das letras


:
Se-
AL BR
cretaria Municipal de Cultura f*pf.sp. 1992 :

Bibliografia
F2519
ISBN S5-7164-260-5
.H57
1998x
1. índios da América do Sul
— Brasil — História 1

Cunha. Manuela Carneiro da.

(Di>-980.41
921393

índices para catálogo sistemático


1 Brasil índios História 980 41

1998

Todos os direitos desta edição leservados à


KDl rC)R.\ St:H\\ARt J'. l.Tlí.V

Rua Bandeira Paulista. 702, cj. 72


04532-002 — São Paulo — SP

Telefone: (011) 86tU)801


Fiix: (011) 8t)tU)814
e-niail: ct)leiiasiííinleiiu't.sp. ioin.br
índice

<^^

Introdução a uma história indígena — Manuela Carneiro da


Cunha 9

FONTES DA HISTORIA INDÍGENA

O velho e o novo: antropologia física e história indígena — Francisco


Aí. Salzano 27
As ocupações pré-históricas do Brasil (excetuando a Amazónia) —
Niéde Guidon 37
Arqueologia amazônica —
Anna Curtenius Roosevelt 53
A da cultura
história brasileira segundo as línguas nativas — Greg
Urban 87
Coleçóes etnográficas: documentos materiais para a história indígena
e a etnologia — Berta G. Ribeiro e Lúcia H. van Velthem .... 103

POLITICA E LEGISLAÇÃO INDIGENISTA

índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indige-


nista do período colonial (séculos XVI a XVIII) — Beatriz Per-
rone-Moisés 115
Política indigenista no século XIX — Manuela Carneiro da
Cunha 133
O governo dos índios sob a gestão do SPI — António Carlos de Sou-
za Lima 155

A ALTA AMAZÓNIA

História indígena do alto e médio Amazonas: séculos XVI a XVIII —


António Porro 175
História kampa, memória ashaninca — France-Marie Renard-Ca-
sevitz 197
História pós-colombiana da alta Amazónia — Anne Christine
Taylor 213
Uma singular pluralidade: a etno-história pano — Philippe Erik-
son 239
História indígena do noroeste da Amazónia: hipóteses, questões e
perspectivas — Robin M. Wright 253
Estado de sítio: territórios e identidades no vale do rio Branco —
Nádia Famge e Paulo Santilli 267

AMAZÓNIA MERIDIONAL

A área Madeira-Tapajós: situação de contato e relações entre colo-


nizador e indígenas — Miguel A. Menéndez 281
Corsários no caminho fluviiil: os Mura do rio Madeira — Marta
Rosa Amowso 297
Os Mebengokre Kayapó: história e mudança social, de comunida-
des autónomas para a coexistência interétnica — Terence
Tumer 311
"O aparecimento dos caraíba": para uma história kuikuro e alto-
xinguana —
Bnina Franchetto 339
Dois séculos e meio de história xavante — Aracy Lopes da
Silva 357

NORDESTE, LESTE E SUL

Fragmentos de história e cultura tupinambá: da etnologia como


instrumento crítico de conhecimento etno-histórico — Carlos
Fausto 381
Catequese e cativeiro: Política indigenista em Goiás, 1780-1889 —
Manj Karasch 397
Os Botocudos e sua trajetória histórica — Maria Hilda B. Pa-
raíso 413
Os povos indígenas no Nordeste brasileiro: umesboço histórico —
Beatriz G. Dantas, José Augusto L. Sampaio, Maria Rosário G.
de Carvalho 431
Chaco: encruzilhada de povos e "melting pot" cultural, suas
relações com a bacia do Paraná e o Sul mato-grossense —
SilviaM. Schmuziger Carvalho 457
Os Guarani e a história do Brasil meridional: séculos XVl-XVII —
John Manuel Monteiro 475

ANEXOS

Coleções etnográficas: 1650-1955 —


Sónia Ferraro Dorta 501
índice de coletores e colecionadores 522
índice de instituições 525
índice de grupos étnicos 526
índice de áreas geográficas 527
Inventário da legislação indigenista: 1500-1800 — Beatriz Perro-
ne-Moisés 529
índice temático 558
índice por grupo étnico 562
índice geográfico 563
Abreviaturas utilizadas 566
Bibliografia 567
Sobre os autores 601
Créditos de ilustrações 603
índice remissivo 605
HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
1. Charrua 81. Maraguá
2. Minuano 82 Tupinambá
3. Guarani 83. Mawé
4. Xokleng 84. Tapajós
6 Cari|ó (Guarani) 85.Conduris
6. Kaingang 86.Wayana-Apaiai
7 Tupiniquim 87 Jurunas
6.Abipones (Guaykuru) 88. Mekranoti
9. Chané 89. Mentuktire
10. Chiriguano 90. Gorotire
11 Piiagã 91. Xikrin
12 Mokovi 92. Kayapó
13.Toba 93. Krahô
14 Payaguá (Guaykuru) 94. Tremembé
15. Terena 95. Apinayé
16. Layana 96. Nambikwara
17. Kinikinao 97 Karajá
18. Exoarana (Echoaiadi) 98. Akroá
19 Guaná 99. Arinos
20. Mbayá (Guaykuru) 100. Kayabi
21 Kadiwéu 101. Bakairi
22 Ofayé 102. Kabixi
23. TamoK) 103. Suyá
24 Botocudos 104. Kuikuro
25. Goitacá 105. Kaiapalo
26. Aimoré 106. Xavante
27. Nakneunuk. Nakrehé, Et\wet, Takruk, 107. Canoeiros
Krak. Nep-Nep. Gutkrak, Nak-nhapma, 108. Xerente
Mifiagreum (Botocudos) 109. Kayapó meridionais
28. Guató 110. Caeté
29 Bororó 111. Potiguar
30 Krenak 112. Tapuia
31 Pataxó 113. Tupinaié
32. Maxakali 114 Amoipira
33. Machiguenga 115.Tupiná
34 Ashaninca 116.Karapotó
35 Amuesha 117 Payaya
36. Kaxinawa 118. Dzubukuá
37 Yaminawa 119 Peoká 8 Pankaraú
38. Chacobo 120. Okren
39 Cashibo (Pano) 121. Arayó, Anapurú, Aranhú
40. Shipibo 122. Janduí
41 Conibo 123. Paiku
42 Shetebo 123. Paraku
43. Piro 124. Fuiniô
44. Katukina (Pano) 125. Pankararu e Xukuru
45. Marubo 126. Kiriri

46. Matis
47. Matsés
48. Chamas
49. Jivaro
50. Candoa
51. Quichua-Canelos
52. Zaparo
53. Aparia
54. Omágua
55. Ticuna
56. Maku
57. Tukano
58. Tanana
59. Baré
60. Boaupés
61 Curripaco
62. Baniwa
63. Piapoco
64. Macuxi
65 Ingancó
66. Taurepang
67. Wapixana
68. Yanomami
69. Manao
70. Aisuari
71. Mura
72. Kawahiwa
73. Torazes
74. Paríntinlin
75. Arara
76. Caxarari
77. Canpuna
78. Munduruku
79. Aplaká
80. Abacaxis
Principais etnias citadas
INTRODUÇÃO A UMA HISTORIA INDÍGENA

Como eram e são tão bárbaros, e vitórias e perdas de Batalhas, e todo


destituídos da razão, não trataram de o memorável com que a fortuna
Escritura, ou de outros monumentos em e a política vão sempre, com os séculos,
que recomendassem à posteridade as suas acrescentando às Histórias das
Histórias para que dela víssemos os seus Monarquias. Por esta Cauzxi, ignoramos
Principados, alianças, Pazes, e discórdias o que se conhece de todas as outras
de soberanos, sucessos de Estados, Nações do Mundo [...]

conquistas de Provindas, defensas de (Ignácio Barboza Machado,


Praças, admirássemos Exercícios de Marte, 1725, foi. 90.)

Manuela Carneiro da Cunha

chegarem às costas brasileiras, os na- certa maneira, desta forma, o Brasil foi simbo-

Ao vegadores pensaram que haviam atin-


gido o paraíso terreal: uma região de
licamente criado. Assim, apenas nomeando-o,
se tomou posse dele, como se fora virgem (To-
eterna primavera, onde se vivia comu- dorov, 1983).
mente por mais de cem anos em perpétua ino- Assim também a História do Brasil, a ca-
cência. Deste paraíso assim descoberto, os por- nónica, começa invariavelmente pelo "desco-
tugueses eram o novo Adão. A cada lugar con- brimento". São os "descobridores" que a inau-
feriram um nome — atividade propriamente guram e conferem aos gentios uma entrada —
adâmica — e a sucessão de nomes era tam- de ser\iço — no grande curso da História.
bém a crónica de uma génese que se confun- Por sua vez, a história da metrópole não é
dia com a mesma viagem. A cada lugar, o no- mais a mesma após 1492. A insuspeitada pre-
me do santo do dia: Todos os Santos, São Se- sença desses outros homens (e rapidamente
bastião, Monte Pascoal. Antes de se batizarem se concorda, e o papa reitera em 1537, que são
os gentios, bati/ou-sc a terra encontrada. 10c lioinciis) desencadeia uma refonni" '
ilas .<

A história canónica
do Brasil começa
com o
"Descobrimento".
Nesta cena,
Américo Vespucio
desperta a
América,
representada
por uma índia
Tupinambá, deitada
na rede. Rede,
tacape e cenas de
antropofagia, que
se vêem ao fundo,
são emblemáticas
dos Tupinambá.
Desenho de Jan
van der Straet
(também chamado
Stradanus),
gravura de
Theodor Galle
(1589).
10 UISTOKIV 1X>S INOIC^S NO BKVMl

ideias recebidas: conu) en(]uadrar por e.xeni- Sul do Mundo, ou talvez as correntes marinhas
plo essa parcela da humanidade, deixada por tivessem trazido esses homens à deri\ a. Ques-
tanto tempoà margem da Boa No\a, na histó- tões que, debatidas porexemplo pelo jesuíta
ria genil do género humano? Se todos os ho- José d'Acosta em
1590 (Acosta, 1940 [1590]),
mens descendem de Noé, e se Noé te\'e ape- continuam colocadas hoje e não se encontram
nas três filhos, Cam, Jiifet e Sem, de qual des- completamente resolvidas, conforme se verá
ses filhos proviriam os homens do Mundo neste volume (Salzano, Guidon;' ver também
Nono? Seriam descendentes daqueles merca- Salzano, 1985, e Salzano e Callegari-Jacques,
dores que ao tempo do rei Salomão singra\am 1988:2). Haveria múltiplas origens e rotas de
o mar para trazerem ouro de Ofir —
que po- penetração do homem americano? Teria ele
deria ser o Peru —
ou das dez tribos perdi-
,
\indo,como se cré em geral, pelo estreito de
das de Israel que, reinando Salmanasai", se afas- Bering e somente por ele? Quando se teria da-
taram dos assírios para resguardar em sua pu- do essa migração?
rezii seus ritos e sua fé? E mais, admitindo c^ue
ORIGENS
se soubesse isso, restaria descobrir porque
meios teriam cruzado os oceanos antes que os Sabe-se que entre de uns 35 mil a cerca de
descobridores tixessem domesticado os mares. uns 12 mil anos atrás, uma glaciação teria, por
Tal\ez as terras do No\o Mundo
e do Antigo inter\ aios, feito o mar descer a uns 50 m abai-
comunicassem, ou tivessem comunicado em xo do nível atual. A faixa de terra chamada Be-
tempos piíssados, por iilguma região ainda des- ríngia teria assim aflorado em vários momen-

conhecida do e.xtremo Norte ou do extremo tos deste período e permitido a passagem a pé


da Ásia para a América. Em outros momen-
Em 1612, seis tos, como no intervalo entre 15 mil e 19 mil
índios do anos atrás, o excesso de frio teria provocado
Maranhão foram
a coalescência de geleiras ao norte da Améri-
levados pelos
capuchinhos ca do Norte, impedindo a passagem de ho-
franceses para a mens. Sobre o período anterior a 35 mil anos,
Corte do jovem
nada se sabe. De 12 mil anos para cá, uma tem-
Luís XIII para
conseguir apoio peratura mais amena teria interposto o mar en-
financeiro e politico tre os dois continentes. Em vista dista é tra-
para a Colónia. dicionalmente aceita a hipótese de uma mi-
Três morreram
quase ao chegar gração terrestre \inda do nordeste da Ásia e
(entre os quais se espraiando de norte a sul pelo continente
Francisco Caripira), americano, que poderia ter ocorrido entre 14
três outros
mil e 12 mil anos atrás. No entantcx há t;un-
sobreviveram.
foram batizados bém possibilidades de entrada nuirítima no
com o nome de continente, pelo estreito de Bering: se é ver-
Luís e voltaram
dade que a Austrália foi alcançada há uns 50
para o Maranhão
com esposas mil anos por homens que, \ indos da .\sia, atra-
francesas e vessaram uns 60 km de mar, nada impediria
cobertos de
que outros \ iessem para a América, por na\^i^
honrarias. Vèem-se
em Francisco gação costeira (Meltzer, 1989:474).
Caripira (figura à Há consideráNel contro\érsia sobre as da-
direita) as
tas dessa migiiição e sobre ser ela ou não a úni-
tatuagens que.
entre os
ca fonte de po\c)amento das .\mericas. Quan-
Tupinambá, to à antiguidade do po\oiunenta as estimati-
celebravam o \as tradicionais falam de 12 mil anos, mas
número de
muitos iu-queólogos afirmam a existência de sí-
inimigos
ritualmente tios arqueológicos no Nmo Mundo anteriores
abatidos (Claude a essas datas: são particularmente importan-
d'Abbeville, Histoire
tes neste sentido as pesiiuisas feitas no sudes-
da la mission des
pères capucins..., te do Piauí por Niéde Guidon (cf. neste wlu-
1614). para os quais se ivi\indioam as
ine). C^s sítios
mais antigas datas estariam —
ooniplicadoí
INTRODUÇÃO A UMA HISTÓRIA INDÍGENA 11

adicional — antes a do que a norte do con-


sul tória, por ouvirmos falar, sem entender-lhe o
tinente, contrariando a hipótese de uma des- sentido ou o alcance, em sociedades "frias",
cida em que a América do Sul teria sido po- sem história, porque há um tropo propriamen-
voada após a do Norte. Não há consenso so- te antropológico que é o chamado "presente
bre o assunto, no entanto, na comunidade etnográfico", eporque nos agrada a ilusão de
arqueológica (Lynch, 1990). Mas, recentemen- sociedades virgens, somos tentados a pensar
te, uma linguista (Nichols, 1990 e 1992), com que as sociedades indígenas de agora são a
base no tempo médio de diferenciação de es- imagem do que foi o Brasil pré-cabralino, e
toques linguísticos, fez suas próprias avaliações que, como dizia Varnhagen por razões diferen-
e afirmou um povoamento da América que ter- tes, sua história se reduz estritamente à sua
se-ia iniciado há 30 mil-35 mil anos. Mais con- etnografia.
servadora quanto à profundidade temporal é Na realidade, a história está onipresente.
a estimativa de outro linguista, Greenberg Está presente, primeiro, moldando unidades
(1987), que mantém os fatídicos 12 mil anos e culturas novas, cuja homogeneidade reside
mas estabelece a existência de três grandes lín- em grande parte numa trajetória compartilha-
guas colonizadoras que teriam entrado no con- da: é o caso, por exemplo, do conglomerado
tinente em vagas sucessivas (Urban). Tudo is- piro/conibo/cambeba, que forma uma cultura
to põe em causa a hipótese de uma migração ribeirinha do Ucayali, apesar de seus compo-
única de população siberiana pelo interior da nentes pertencerem a três famílias lingiiísti-
Beríngia. A possibilidade de outras fontes po- cas diversas (Arawak, Pano e Tupi), e que se
pulacionais e de rotas alternativas se soman- contrapõe às culturas do interflúvio (Erikson);
do à do interior da Beríngia não está portanto
descartada.

PRESENÇA DA
HISTÓRIA INDÍGENA
Sabe-se pouco da história indígena: nem a ori-
gem, nem as cifras de população são seguras,
muito menos o que realmente aconteceu. Mas
progrediu-se, no entanto: hoje está mais cla-
ra, pelo menos, a extensão do que não se sa-

be. Os estudos de casos contidos neste volu-


me são fragmentos de conhecimento que per-
mitem imaginar mas não preencher as lacunas
de um quadro que gostaríamos fosse global.
Permitem também, e isto é importante, não in-
correr em certas armadilhas.
A maior dessas armadilhas é talvez a ilusão
de primitivismo. Na segunda metade do século
XIX, essa época de triunfo do evolucionismo,
prosperou a ideia de que certas sociedades te-
riam ficado na estaca zero da evolução, e que
eram portanto algo como fósseis vivos que tes-
temunhavam do passado das sociedades oci-
dentais. P^oi quando as sociedades sem Esta-
do se tornaram, na teoria ocidental, socieda-
des "primitivas", condenadas a uma eterna
infância. E porque tinham assim parado no
tempo, não cabia procurar-lhes a história. Co-
mo dizia Varnhagen, "de tais povos na infân-
cia não liá história: há só etnografia" (Varnha-
gen, 1978 [1854]:30).
I loje ainda, por lhes desconhecermos a his-
12 msTORiv ni>s ivnios \c> ukvsu.

é o caso tuinhéni das fusões Arawuk-Tukano do igualitárias e de população diminuta. Duran-


alto rio Negro (WVijiht), das culturas ueo- te os últimos cjuarenta anos, muita tinta cor-
ribeiriuhas do Auia/.onas (Porro), das socieda- reu para explicar essas características. Uns
des indígenas que laylor chama apropriada- acharam que as sociedades indígenas tinham,
mente de coloniais porque geradas pela situa- embutido em seu ser, um antídoto à emergên-
«;ão coloniiil. cia do Estado. Outros, principalmente norte-
Está presente a história ainda na medida americanos, acreditaram que a razão dessa li-
em que muitas das sociedades indígenas ditas mitação demográfica se fundava numa limita-
"isoladas" são descendentes de "refratários", ção ambiental, e um acalorado debate se tra-

foragidos de missões ou do seniço de colonos vou quanto à natureza última dessa limitação:
c}ue se "retribalizaram" ou aderiram a grupos a pobreza dos solos, do potencial agrícola ou
independentes, como os \hira. Os Mura, aliás, de proteínas animais. A pesquisa arqueológi-
provavelmente se "agigantaram" na Amazónia ca (Roosevelt) veio no entanto corroborar o
(Amoroso) porque reuniam trânsfugas de ou- que os cronistas contavam (Porro): a .\mazô-
tras etnias. Os Xa\ ante dos quais se conta aqui nia, não só na sua várzea mas em v árias áreas

a história (Lopes da Silva) também foram mais de terra firme, foi povoada durante longo tem-
de uma vez contactados e mais de uma vez fu- po por populosas sociedades, sedentárias e
giram. A ideia de isolamento deve ser usada possivelmente estratificadas, e essas socieda-
com cautela em qualcjuer hipótese, pois há um des são autóctones, ou seja, não se explicam
contato mediatizado por objetos, machados, como o resultado da difusão de culturas andi-
miçangas, capazes de percorrerem imensas ex- nas mais "avançadas". As sociedades indígenas
tensões, mediante comércio e guerra, e de ge- de hoje não são portanto o produto da natu-
rarem uma dependência à distância (Turner, reza, antes suas relações com o meio ambien-
Erikson): objetos manufaturados e microorga- te são mediatizadas pela história.
nismos imadiram o Novo Mundo numa velo-
MORTANDADE E CRISTANDADE
cidade muito superior à dos homens que os
trouxeram. Pov os e povos indígenas desapareceram da fa-

Está presente a história também no fracio- ce da terra como consequência do que hoje
namento étnico para o qual Taylor chama a se chama, num eufemismo envergonhada "o
atenção e que \ai de par, paradoxalmente, com encontro" de sociedades do Antigo e do Novo
uma homogeneização cultural: perda de diver- Mundo. Esse morticínio nunca v isto foi truto
sidade cultural e acentuação das microdiferen- de um processo complexo cujos agentes foram
ças que definem a identidade étnica. É pro- homens e microorganismos mas cujos moto-
que as unidades sociais que conhe-
vável assim res últimos poderiam ser reduzidos a dois: ga-

cemos hoje sejam o resultado de um processo nância e ambição, formas culturais da expan-
de atomização cujos mecanismos podem ser são do que se com encionou chaniiu- o capita-

percebidos em estudos de caso como o de Tur- lismo mercantil. Motivos mesquinhos e não
ner sobre os Kavapó, e de reagrupamentos de uma deliberada política de extermínio conse-
grupos lingiiisticamente diversos em unidades guiram esse resultado espantoso de reduzir
ao mesmo tempo culturalmente semelhantes uma população cjue estav a na casa dos milhões
e etnicamente diversas, cujos exemplos mais em 1500 aos parcos 200 mil mdios que hoje
notórios são o do alto Xingu e o do alto rio Ne- habitam o Brasil.
gro (vide Franchetto e Wnght). E notável (lue .\s epidemias são normalmente tidas como

apenas os grupos de língua Jê pareçam ter fi- o principal agente da dopopulaçJio indígena
cado imunes a esses conglomerados multilin- (ver, por exempla Borali. 1964). A Ixvrreira epi-

giiísticos. Em suma, o que é hoje o Brasil in- demiológica era, com efeita favorável aos eu-
dígena são fragmentos de um tecido sociiU cuja ropeus, na .América, e era-lhos ilesf av onív el na
trama, muito mais complexa e abrangente, co- Mrica. Na Africa, os europeus morriam iH>mo
bria provavelmente o território como um todo. moscas: aqui eram (vs u\dios que morriam:
Mas está presente sobretudo a história na agentes patogènicos da varíola, do saram^xv da
própria relação dos homens com a natureza. co(iueluche, da catapora. do tifa da difteria.
As sociedades indígenas contemporâneas da da gripe, da peste bubònica. possivelmente a
Amazónia são, como se apregoou, sociedades malária, provocaram no Novo Mundo o que
A

INTRODUÇÃO A UMA HISTÓRIA INDIGF.N 13

Dobyns chamou de "um dos maiores cataclis- lume), ficaram associados no espírito dos Tu- Os índios
brasileiros fizeram
mos biológicos do mundo". No entanto, é im- pinambá: é elucidativo que um dos milagres
grande sucesso na
portante enfatizar que a falta de imunidade, atribuídos ao suave Anchieta fosse o de res- Corte francesa. A
de\ ido ao seu isolamento, da população abo- suscitar por alguns instantes a indiozinhos nobreza toda os
rígine, não basta para explicar a mortandade, mortos para lhes poder dar o batismo. Os al- convidava para
jantares, embora
mesmo quando ela foi de origem patogênica. deamentos religiosos ou civis jamais consegui- torcesse o nariz
Outros fatores, tanto ecológicos quanto sociais, ram se auto-reproduzir biologicamente. Repro- para as suas
tais como a altitude, o clima, a densidade de duziam-se, isso sim, predatoriamente, na me- esposas francesas.
Um músico da
população e o relativo isolamento, pesaram de- dida em que índios das aldeias eram compul- Corte, Gaultier,
cisivamente. Em suma, os microorganismos soriamente alistados nas tropas de resgates pa- chegou a compor
não incidiram num vácuo social e político, e ra descer dos sertões novas levasde índios, que uma sarabanda em
que os Tupinambá
sim num mundo socialmente ordenado. Par- continuamente vinham preencher as lacunas tocavam com seus
ticularmente nefasta foi a política de concen- deixadas por seus predecessores. maracás, conforme
se vê nesta
tração da população praticada por missioná- Mas não foram só os microorganismos os
gravura.
rios e pelos órgãos oficiais, pois a alta densi- responsáveis pela catástrofe demográfica da
dade dos aldeamentos favoreceu as epidemias, América. O exacerbamento da guerra indíge-
sem no entanto garantir o aprovisionamento. na provocado pela sede de escravos, as guer-
O sarampo e a varíola (jue, entre 1562 e 1564, ras de concjuista e de apresamento em cjue os
assolaram as aldeias da Bahia fizeram os ín- índios de aldeia eram alistados contra os ín-
dios morrerem tanto das doenças (quanto de dios ditos hostis, as grandes fomes que tradi-
fome, a tal ponto (iiie os sobreviventes prefe- cionalmente acompanhavam as guerras, a de-
riam vender-se como escravos do (}ue morrer sestrutuiação social, a fuga para novas regiões
à míngua (Carneiro da (Junha, 1986). Batis- das (juais se desconheciam os recursos ou se
mo e doença, como lembra Fausto (neste vo- tinha de enfrentar os habitantes (vide, por
14 mSTOKlV DOS INOUIS Mi BKASIl.

exemplo, Friinchetto e Wright), a exploração ca teria uma densidade de 17 habitantes/km-


do trabalho indígena, tndo isto pesou decisi- (Braudel, 1979:42).
\amente na dizimação dos índios. Há poucos Como se vê no quadro, as estimativas va-
estudos demogriíficos que nos possam escla- riam de 1 a 8,5 milhões de habitantes para as
recer sobre o peso relativo desses fatores, mas terras baixas da x\mérica do Sul. Diga-se de
um deles, recente, é elucidativo. Maeder (1990) passagem, sabe-se ainda menos da população
analisa a população das reduções guarani após da Europa ou da Ásia na mesma época: a Amé-
o término das expedições dos paulistas apre- rica é até bem servida desde os trabalhos de

sadores de índios, e cobre o período de 1641 demografia histórica da chamada escola de


a 1807. Resulta dos dados, abundantes entre Berkeley, cujos expoentes principais foram

essas datas, que os períodos de descenso e Cook e Borah. Imagina-se, só como base de
mesmo de colapso populacional são aqueles comparação, que a Europa teria, do Atlântico
em que houxe maior mobilização de homens aos Urais, de 60 a 80 milhões de habitantes

pelos poderes coloniais, com a conseqiiente em 1500 (Borah apud Denevan, 1976:5). Se as-

desestruturação do trabalho agrícola nos al-


sim tiver sido realmente, então um continen-

deamentos e seus corolários de fome e de pes- te teria logrado a triste façanha de, com pu-

te: desses dados quantitativos emerge uma si-


nhados de colonos, despovoar um continente
muito mais habitado.
tuação semelhante àquela de que sempre se
Estas estimativ as díspares resultam sobre-
queixavam os religiosos administradores de al-
tudo de uma avaliação diferente do impacto
deamentos indígenas.
da depopulação indígena. Os historiadores pa-
A AMÉRICA INVADIDA recem concordar com um mínimo de popula-
ção indígena para o continente situado por vol-
As estimativas de população aborígine em
ta de 1650: diferem quanto à magnitude da ca-
1492 ainda são assunto de grande controvér-
tástrofe. Alguns, como Rosenblat, avaliam que
sia. Para que se tenha uma ideia das cifras
de 1492 a esse nadir (1650), a América per-
avançadas, adapto aqui um
quadro de Dene-
deu um quarto de sua população; outros, co-
van (1976:3), que por sua vez adapta e com-
mo Dobyns, acham que a depopulação foi da
pleta Steward (1949:656) (tabela abaixo).
ordem de 95% a 96% (Sánchez-.AJbomoz,
Quanto às regiões que nos ocupam mais de
1973).
perto, Rosenblat (1954:316) dá 1 milhão para
Seja como for, as estimativas da população
o Brasil como um todo, Moran (1974:137) dá aborígine e da magnitude do genocídio ten-
uns modestos 500 mil para a Amazónia, ao dem portanto ecom poucas exceções a ser
passo que Denevan (1976:230) avalia em 6,8 mais desde os anos 60. Um dos residta-
altas
milhões a população aborígine da Amazónia, dos laterais desta tendência é o crédito cres-
Brasil central e costa nordeste, com a altíssi- cente de que passam a gozar os testemunhos
ma densidade de 14,6 habitantes/km- na área dos cronistas. Ora, para a v árzea amazônica e
da várzea amazônica e apenas 0,2 habitan- para a costa brasileira, os cronistas são com
te/km- para o interflúvio. Como cifra de com- efeito unânimes em íiúivr de densiis populações
paração, a península ibérica pela mesma épo- e de indescritíveis mortandades (^v ide Porro e
Fausto).
Se a população aborígine tinha, realmente,
Números para Terras baixas Total América
(em milhões) da Am. do Sul
a densidade que hoje se lhe atribui, esv^^ii-se

a imagem tradicional (aparentemente conso-


Sapper (1924) 3 a 5 37 a 48,5
lidada no século \IX), de um continente pou-
Kroeber (1939:166) 1 8,4
Rosenblat (1954:102) 2,03 13,38
co habitado a ser ocupado pelos euivpeus,-
Steward (1949:666) 2,90 (1,1 no 15,49 Como foi dito com força por Jennings (^1975).
Brasil) a .\mérica não foi descoberta, foi inv^uiida.
Borah (1964) 100
Dobyns (1966:415) 9 a 11,25 90,04 a 112.55
POIJTICA INDIGENISTA
Chaunu (1969:382) 80 a 100
Denevan (1976:230, Como se deu. esquematiciunente, esse pnxvs-
291) na
8,5 (5,1 57,300 Diuanto o primeiro meio-seouUv os mdios
S(V?
Amazónia)
tbiam sobretudo parceiu>s comeiviais dos eu-
INTRODUÇÃO A UMA HISTÓRIA INDÍGKN \ 15

ropeus, trocando por foices, machados e facas

o pau-brasil para tintura de tecidos e curiosi-


dades exóticas como papagaios e macacos, em
feitorias costeiras (Marchant, 1980). Com o
primeiro governo geral do Brasil, a Colónia se
instalou enquanto tal e as relaçóes alteraram-
se, tensionadas pelos interesses em jogo que,
do lado europeu, envolviam colonos, governo
e missionários, mantendo entre si, como assi-
nala Taylor, uma complexa relação feita de con-
flito e de simbiose.
Não eram mais parceiros para escambo que
desejavam os colonos, mas mão-de-obra para
as empresas coloniais que incluíam a própria
reprodução da mão-de-obra, na forma de ca-
noeiros e soldados para o apresamento de mais
índios:problema estrutural e não de alguma
índole ibérica.Quem melhor o expressou foi
aquele velho índio Tupinambá do Maranhão
que, por volta de 1610, teria feito o seguinte
discurso aos franceses que ensaiavam o esta-
belecimento de uma colónia:
"Vi a chegada dos peró [portugueses] em
Pernambuco e Potiú; e começaram eles como
vós, franceses, fazeis agora. De início, os peró
não faziam senão traficar sem pretenderem fi-

xar residência [...] Mais tarde, disseram que nos


devíamos acostumar a eles e que precisavam
construir fortalezas, para se defenderem, e ci-
dades, para morarem conosco [...] Mais tarde
afirmaram que nem eles nem os pai [padres]
podiam viver sem escravos para os servirem
e por eles trabalharem. Mas não satisfeitos com
os escravos capturados na guerra, quiseram
também acabaram es-
os filhos dos nossos e
cravizando toda a nação Assim aconteceu
[...]

com os franceses. Da primeira vez que vies-


tes aqui, vós o fizeste somente para traficar [...] A Coroa tinha seus próprios interesses, fis- Painéis de carvalho
Nessa época não faláveis em aqui vos fixar; cais e estratégicos acima de tudo: queria de- da "Ilha do Brasil"
que decoravam
apenas vos contentáveis com visitar-nos uma certo ver prosperar a Colónia, mas queria tam- uma casa em
vez por ano [...] Regressáveis então a vosso país, bém garanti-la politicamente. Para tanto, Rouen (c. 1500-14).
levando nossos géneros para trocá-los com interessavam-lhe aliados índios nas suas lutas Representam
o escambo de
aquilo de que carecíamos. Agora já nos falais com franceses, holandeses e espanhóis, seus pau-brasil praticado
de vos estabelecerdes aqui, de construirdes competidores internos, enquanto para garan- com os índios
fortalezas para defender-nos contra os nossos brasileiros:
tir seus limites externos desejava "fronteiras
vêem-se índios
inimigos. Para isso, trouxestes um Morubixa- vivas", formadas por grupos indígenas aliados abatendo as árvores
ba e vários Pai. Em verdade, estamos satisfei- (Farage, 1991). Ocasionalmente também, co- e embarcando-as

mesmo Como no navio francês.


tos, mas os peró fizeram o [...] mo no caso do rio Madeira na década de 1730,
estes, vós não queríeis escravos, a princípio; convinha-lhe a presença de um grupo indíge-
agora os pedis e os quereis como eles no fim na hostil para obstruir uma rota fluvial e im-
[...]" (Abbeville, trad. Sérgio Milliet, 1975 pedir o contrabando (Amoroso). Em épocas
[1614]:115-6). mais tardias, principalmente na do manjuês de
16 IIISRIKIV 1H>S ÍNDIOS M) BKVSll

de "religiões" no século \\ O sistema do II.

|)adroado, em que
de Portugal, por dele-
o rei

gação papal, exercia várias das atribuições da


Iiierarquia religiosa e arca\a também com as
suas despesas, conferia um
poder excepcional
à Coroa em matéria religiosa. Por outro lado,
o padroado se justificava pela obrigação im-
posta à Coroa de e\angelizar suas colónias, e
era a base da partilha entre as duas potências
ibéricas que o papa Alexandre \ I ha\ia feito
do Novo Mundo em 1493 e contra a qual ou-
tros países se insurgiam. Se o padroado criava
obrigações para a Coroa, ele também lhe su-
Apenas os jesuítas, talxez pela
jeitava o clero.
sua ligação direta com Roma, talvez pela in-
dependência financeira que adquiriram, logra-
ram ter uma política independente, e entra-
ram em choque ocasionalmente com o goxer-
no e regularmente com os moradores como —
atestam suas expulsões de São Paulo em 1640,
do Nhiranhão e Pará em 1661-2 e do Maranlião
em 1684, desta \ez por influência tanto dos
colonos quanto das outras ordens religiosas.
Em todas as ocasiões, o pomo da discórdia
sempre foi o controle do trabalho indígena nos
aldeamentos, e as disputas centra\am-se tan-
to na legislação quanto nos postos-chaves co-
l)içados: a direção das aldeias e a autoridade
para repartir os índios para o trabalho fora dos
aldeamentos.
De meados do século XMI a meados do sé-
culo XVIII, quando Portugal estava interessa-
do em ocupar a Amazónia, os jesuítas talha-
ram para si um enorme território missioniírio.
Foi o seu século de ouro, iniciado pela foniii-

fl "./„ 1» r:,n/:^,t
dável influência junto a d. João I\" e ao papa
que \'ieira, nosso maior escritor, logrou obter.
A conversão dos Pombal, a Coroa pretendia enfim, numa visão A partir da expulsão dos jesuítas por Pombal,
índios passava pelo
mais ampla, promo\ er a emergência de um po- em 1759, e sobretudo a partir da chegada de
Estado português
(representado aqui \o brasileiro li\ re, substrato de um Estado con- d. João \ I ao Brasil, em ISOS, a politica indi-
pelo seu escudo sistente (Perrone): índios e brancos formariam genista \ iu sua arena reduzida e sua naturez;i
em que se refletem este povo enquanto os negros continuariam es- modificada: não ha\ ia mais \ozes dissonantes
os raios da fé) e
justificava as cra\os. quando se trata\a de escraxizar mdios e de
concessões Os interesses particulares dos colonos e os ocupcU- suas teniis (Ciu-neiro da Cimha). A piur-
que o
territoriais
da Coroa podiam portanto eventualmente com
es- tir de meados dt) século \1\, efeita a otv
papa fizera, em
1493, na América. tar em na época coloniiil: um terceiro
conflito bica se desloca do trabalho para as ternis in-
Este frontispício à ator, importante, complicava ainda a situação, dígenas (Farage e lin sé<.nilo nuiis feu*-
Santilli).
obra de frei João
a saber, a Igreja, ou mais precisamente uma de, deslocar-se-á noxamente: do soUx pass;mi
José de Santa
Thereza, Istoria dei ordem religiosa, a jesuítica. A Igreja, com efei- para o subsolo indígena.
Regno de Brasile, to, não era monolítica, longe disso. A tradicio- O início do século \\ \era um inoximonlo
de 1698, é uma nal oposição entre clero secuKu" e clero regular, de opinião dos mais importantes, que culmi-
perfeita alegoria do
sistema do acrescenta\a-se a ri\ alidade entre as diwrsas nará na criação di^ Sen iço lio Pivttxão aos Ín-
padroado. ordens, que significati\amente eriun chamailas dios (Sri). em 1910 (^Souz;i Lima). O sn e.xtin-
A

INTRODUÇÃO A UMA IIISTÓKIA INDÍGKN

Os índios como
"guardiães das
fronteiras", no
limite entre o Brasil
e a Guiana
francesa. Ao lado
de Rondon, um
índio segura a
bandeira brasileira
enquanto outro
empunha a
bandeira francesa.

gue-se melancolicamente em 1966 em meio sertões" (Farage, 1991), garantindo as frontei-


a acusaçõesde corrupção e é substituído em ras brasileiras, fossem agora vistos como amea-
1967 pela Fundação Nacional do índio (Fu- ças a essas mesmas fronteiras.
nai): a política indigenista continua atrelada ao No fim da década de 70 multiplicam-se as
Estado e a suas prioridades. Os anos 70 são organizações não governamentais de apoio aos
os do "milagre", dos investimentos em infra- índios, e no início da década de 80, pela pri-
estrutura e em prospecção mineral — é a épo- meira vez, se organiza um movimento indíge-
ca da Transamazônica, da barragem de Tucu- na de âmbito nacional. Essa mobilização ex-
ruí e da de Balbina, do Projeto Carajás. Tudo plica as grandes novidades obtidas na Consti-
cedia ante a hegemonia do "progresso", dian- tuição de 1988, que abandona as metas e o
te do qual os índios eram empecilhos: forçava- jargão assimilacionistas e reconhece os direi-
se o contato com grupos isolados para que os tos originários dos índios, seus direitos histó-
tratores pudessem abrir estradas e realocavam- ricos, à posse da terra de que foram os primei-
se os índios mais de uma vez, primeiro para ros senhores.
afastá-los da estrada, depois para afastá-los do
lago da i)arragem (}ue inundava suas terras. É
POLÍTICA INDÍGENA
o caso, paradigmático, dos Parakanã, do Pará. Por má consciência e boas intenções, imperou
Flste período, crucial, mas que não vem trata- durante muito tempo a noção de que os ín-
do neste livro, desembocou na militarização dios foram apenas vítimas do sistema mundial,
da (juestão indígena, a partir do início dos anos vítimas de uma política e de práticas que lhes
80: de empecilhos, os índios passaram a ser eram externas e que os destruíram. Essa vi-
riscos à segurança nacional. Sua presença nas são, além de seu fundamento moral, tinha ou-
fronteiras era agora um potencial perigo. E iró- tro, teórico: é que a história, mo\ ida pela me-

nico (jue índios de Roraima, que haviam sido trópole, pelo capital, só teria nexo em seu epi-
no século WIII usados como "muralhas dos c-entro. .\ periferia do capital era também o lixo
18 UISTÓKIA nos (NDIOS NO BHASH.

da história. O rosultado paradoxal dessa pos- mente indígena: no século .\\ II, grupos Coni-
tura "politicamente correta" foi somar à eli- bo (Pano) querem aliados espanhóis (missio-
minação física e étnica dos índios sua elimi- nários) para contestar o monopólio piro (ara-
nação como sujeitos históricos.'^ wak) das rotas comerciais com os Andes (Erik-
Ora, não liá dií\ ida de que os índios foram son). A coalizão de Karajá, Xerente e Xavante
atores poh'ticos importantes de sua própria his- em Goiás, que em 1812 destruiu o recém-
tória e de que, nos interstícios da política in- fundado presídio de Santa Maria no Araguaia
digenista, se \ islimíbra iilgo do que foi a polí- (Karasch), é um exemplo da amplitude que po-
tica indígena. Sabe-se que as potências metro- dia alcançar a política indígena em seu con-
politanas perceberam desde cedo as poten- fronto com os recém-chegados.
ciiilidades estratégicas das inimizades entre Coalizões deste porte, no entanto, foram ex-
grupos indígenas: no século XVI, os franceses cepcionais. Ao contrário, o efeito geral dessa
e os portugueses em guerra aliaram-se respec- imbricação da política indigenista com a polí-
ti\amente aos Tamoio e aos Tupiniquins (Faus- tica indígena foi antes o fracionamento étnico
to); e no século X\II os holandeses pela pri- (Taylor, Erikson). Faltam no entanto estudos
meira vez se aliaram a grupos "tapuias" contra de caso desses processos de fracionamento.
os portugueses (Dantas, Sampaio e Carvalho). Por isso é particularmente valiosa a descrição
índio Guajajara (à \o século .\I\, os Munduruku foram usados feita por Turner de um processo desse tipo,
direita) e índio
para "desinfestar" o Madeira de grupos hos- mostrando a articulação da política externa
Urubu-Kaapor (à
esquerda) tis e os Krahô, no Tocantins, para combater ou- com a política interna dos grupos kayapó ao
fotografados por tras etnias Jé. longo de várias décadas: corrida armamentis-
Charles Wagley no Essa política metropolitana requer a exis- ta, fissão ao longo de clivagens já inscritas na
Maranhão (1942): a
penetração da tência de uma Tamoio e
política indígena: os sociedade (metades, sociedades masculinas),
influência edas os Tupiniquins tinham seus próprios motivos tornam-se inteligíveis à luz da estrutura social
mercadorias para se aliarem aos franceses ou aos portugue- kayapó. E, reciprocamente, é essa história et-
trazidas pelos
ses. Os Tapuia de Janduí tinham os seus para nográfica que ilumina a estrutura social kaya-
europeus fez-se
muitas vezes aceitarem apoiar a Maurício de Nassau. Se pó. A história local é portanto, como ad\oga.
através de grupos nesses casos não é certo a quem cabe a ini- entre outros, Marshall Sahlins (1992), elemento
indígenas
ciativa, em outros a iniciativa é comprovada- importante de conhecimento etnográfico.
intermediários.

OS ÍNDIOS COMO AGENTES

r^
IP DE SUA HISTÓRIA
A percepção de uma política e de uma cons-
ciência histórica em que os índios são sujei-

tos e não apenas vítimas, só é nova eventual-


mente para nós. Para os índios, ela parece ser
costumeira. E signiticati\o que dois e\entos
fundamentais — a génese do homem branco
e a iniciati\a do contato — sejiun freqiiente-
mente apreendidos nas sociedades indígenas
como o produto de sua própria ação ou \on-
tade.
A génese do homem branco nas mitologias
indígenas difere em genil da génese de outros
"estrangeiros" ou inimigos porque introduz,
iilém da simples iilteridade, o tema da desigxud-
dade no potler e na tecnologia. C^ liomem
branco é nuiitas \ezes, no mitix um nuitante
indígena.^ alguém que sui"giu do grupa Fit^
ciiientemente também, a desigualdade teontv
lógica, o monopólio de niachados, espiugaulas

-^•••t^A e objetos mamifaturados em geral, que toi da-


do aos brancos, deri\ a. no mita de uma escw
INTRODUÇÃO A UMA IIISTÍJRTA INDIGKNA 19

^y^r?^

lha que foi dada aos índios. Eles poderiam ter


escolhido ou se apropriado desses recursos,
mas fizeram uma escolha equivocada. Os
1 Tri [f

Krahô e os Canela, por exemplo, quando lhes


foi dada a opção, preferiram o arco e a cuia
à espingarda e ao prato.Os exemplos dessa mi-
tologia são legião: lembro apenas, além dos já
citados, os Waurá que não conseguem mane-
jar a espingarda que lhes é oferecida em pri-
meiro lugar pelo Sol (Ireland, 1988:166), os Tu-
pinambá do Maranhão cujos an-
setecentistas
tepassados teriam a espada de
escolhido
madeira em vez da espada de ferro (Abbevil- tevolume) ou até como uma empresa de "pa- Planta de aldeia jê
e planta de
le, 1975 [1612]: 60-1). Para os Kawahiwa, os cificação dos brancos", como é o caso por
aldeamento oficial
brancos são os que aceitaram se banhar na pa- exemplo dos Cinta-Larga de Rondônia (Dal pombalino, ambas
nela fervente de Bahira: permaneceram índios Poz, 1991). O que isto indica é que as socie- do século XVIII.
os que recusaram (Menéndez, 1989). O tema dades indígenas pensaram o que lhes aconte-
recorrente que saliento é que a opção, no mi- cia em seus próprios termos, reconstruíram
to, foi oferecida aos índios, que não são víti- uma história do mundo em que elas pesa-
mas de uma fatalidade mas agentes de seu des- vam e em (jue suas escolhas tinham conse-
tino. Talvez escolheram mal. Mas Pica salva a (jiiências.

dignidade de terem moldado a própria


história.
O Ksc;()PO

Assim também a etno-história do contato DESTE LIVRO


ó amiúde contada como uma iniciativa que Alguns esclarecimentos finais cabem aqui. Es-
parte dos índios (vide Turner e Franchetto nes- te livro transborda as fronteiras brasileiras, e
,

20 IIISTORIV IH»N l\nU)S M> BKVSll

pictóricas de primeira mão cedem o passo


^rw\^^-^_ a estereótipos, e informam assim talvez mais
sobre a Europa e sua reflexão moral do que so-
bre os índios no Brasil.
Data do fim do século X\III a primeira, úni-
ca e valiosíssima expedição de um naturalista
português ao Brasil, Alexandre Rodrigues Fer-
reira: inaugura-se com ele uma tradição cien-
tífica que florescerá no século .XIX com natu-
ralistas e viajantes de outros países (alemães,

russos, franceses, suíços, americanos...), pro-


duzindo uma ampla documentação iconográ-
fica,que contrasta singularmente com a exal-
tação de um índio genericamente Tupi (ou
Guarani) orquestrada pelo indianismo tupini-
quim. Há portanto dois índios totalmente di-
ferentes no século XIX: o bom índio Tupi-
Guarani (convenientemente, um índio morto)
que é símbolo da nacionalidade, e um índio
\ i\o que é objeto de uma ciência incipiente,

A 1 ° de outubro de isto por três inoti\os. Primeiro, porque as fron- a antropologia.


1550. a cidade teiras coloniais, como se sabe, não coincidem A partir da popularização da fotografia e das
normanda de
Rouen. que fabrica
com as de hoje, e parte do
de hoje era
Brasil \'iagens exóticas, multiplicam-se as imagens:
tecidos e comercia possessão espanhola. Segundo, porque apesar resta saber se elas nos re\ elam os índios ou se
regularmente em da diferença sempre mantida entre institui- revelam nossos antigos fantasmas.
pau-brasil. oferece.
para convencê-lo a
ções portuguesas e espanholas — inclusive du-
rante o período de União das duas Coroas — A HISTÓRIA DOS ÍNDIOS
investir dinheiro da
Coroa e estabelecer os atores e processos são semelhantes: a ex- Na realidade, essa mesma questão ultrapassa
uma Colónia, uma
ao
festa brasileira
pansão jesuítica espanhola em Mojos, Maynas, o problema da iconografia, que apenas a dei-
rei da França nos Llanos de \enezuela dá-se com caracte- xa mais patente: uma história propriamente in-
Henrique e a sua
II
rísticas semelhantes à e.xpansão jesuítica no dígena ainda está por ser feita. Não é só o obs-
mulher. Catarina
de Mediei. O rei e
Amazonas. Terceiro, porque as redes de comu- táculo, real, e que a epígrafe destaca, da au-
a rainha são nicação unem, sobretudo nos séculos X\I e sência de escrita e portanto da autoria de
recepcionados por X\ II, a população amazônica como um todo, textos, não é só a fragilidade dos testemunhos
trezentos índios
articulando desde os Arawak subandinos às et- materiais dessa civilização a que Berta Ribei-
tupis, dos quais
uns cinquenta nias ribeirinhas do Solimões, do médio Ama- ro chamou, com acerto, de ci\ ilização da pvi-
autênticos, e os zonas e provaxelmente do rio Branco: truncar Iha, mas é também a dificuldade de adotiunnos
outros marinheiros
estas vastas redes seria truncar a compreen- esse ponto de vista outro sobre uma trajetória
franceses falantes
de tupi e são desses processos históricos. de que fiizemos parte.
prostitutas, todos Os nossos li\ TOS de história se iniciam em
despidos para a INUGENS 1500. Isso não é só desN^antagem: em outros
ocasião e que
encenam, na Foi dada, neste 1í\to, grande importância à ico- países da .\mérica I.atina, o culto a uma an-
margem esquerda nografia, e tentamos mostrar documentos pou- cestnilidade pré-colombiana passa em geral
do Sena. a vida
tupinambá: amor
co conhecidos ou inéditos. Nos séculos XVI e poruma \ asta mistificaçãa que dissoKv o plis-
na rede, caça, XVII, o que talvez mais chame a atenção é a sado e portanto a identidade indígenaem um
venda de pau-brasil, ausência de iconografia portuguesa (os portu- magma geral. Ter uma identidade e ter uma
guerra.
gueses parecem muito mais fiíscinados, na épo- memória própria. Por isso a rtvuperaçâo da
ca, pelo Oriente), que contrasta com a sua im- própria história é um direito fundamental das
portância na França, na Holanda e, subsidia- sociedades. K também, pela atual (.A>íistitui-

riamente, na .\lemanha. É a época em (jue está ção, o fundamento ilos diivitos territoriais in-

mais viva a especulação sobre o significado dígena.s, e particularnuMitc da garantia de su.ui

dessa nova humanidade, a um tempo inocen- terras.


te e antropófaga, liapidamente, as descrições Sobre esto pontu ha porem «.juo ,se euten-
INTRODUÇÃO A LMA ÍIISTOHIA INDÍGI \ \ 21

O índio no
imaginário
europeu. Ao lado,
a primeira gravura
conhecida, de
Johann Froschauer,
que representa a
antropofagia
brasileira. No meio,
à esquerda,
imagem da cidade
mítica do Eldorado
ou Manoa. Abaixo,
à esquerda,
gravura do século
XIX mostrando um
canibalismo
"selvagem" que
jamais existiu.
Abaixo, à direita, a
primeira gravura
representando as
Amazonas: um
marinheiro enviado
em terra para
seduzi-las é
atacado para ser
devorado.
, ,

ãS IIISTOKIV IX^S I\nU>S \l) BKVSll

der. Os direitos especiais que os índios têm so-


bre suas terras derivam de que eles foram, nas
palavras do Alvará Régio de 1680, "seus pri-
mários e naturais senhores", ou seja,derivam
de uma situação histórica (Carneiro da Cunha,
1987). Isso não significa que caiba provar a
ocupação indígena com os documentos escri-
tos, que não só são lacunares, mas cujos auto-

res tinham também interesses, no mais das ve-


zes,antagónicos aos dos índios. Ao contrário,
cabe restabelecer a importância da memória
indígena, transmitida por tradição oral, reco-
Ihendo-a, dando-lhe voz e legitimidade em jus-
tiça. A história dos índios não se subsume na
história indigenista.
Durante quase cinco séculos, os índios fo-
ram pensados como seres efémeros, em tran-
o índio do
imaginário dos V lè , (...
<* -

:,- ^icr-r.t-e . l, , ;
erar li! íi sição: transição para a cristandade, a cixiliza-
antropólogos é o \ ^ct» re t,ranecl t LI tido a .-alni V ;
i-.iai. ,
ção, a assimilação, o desaparecimento. Hoje se
índio tradicional.
íí ocjectos a tiglcoE ;(Ier.t,ro un cal Alnhh.
iJ» alnhí. alo alrelt^; & c&rvLltíb e a pln- sabe que as sociedades indígenas são parte de
Acima, o grande -írh ellc ht íirii.ob recebeu do plí.netó
i^ue
antropólogo l ter e ^ae poabuea u t-jr>:a. de 1 jipedlr nosso futuro e não só de nosso passado. A nos-
— este livro o ilustra —
,!

Nimuendaju ,
jfc u« ecllF BC Bolar se prolonga Inflnl- sa história comum foi
posando nu em •.
.i.nte.
1937, no meio de
.: wrt. foi collocadfa por alui e a l„pSl'í-- um rosário de iniqiiidades cometidas contra
;;•;• -J3 ncr. Ino ini;i- ,
elas. Resta esperar que as relações que com elas
um ritual Xerente.
1 < t
'. ".
í-ov iut.r.clí'
Abaixo, fotos de se estabeleçam a partir de agora sejam mais
índios Canela
justas: e talvez o se.xto centenário do desco-
de Nimuendaju.
brimento da América tenha algo a celebrar.

AGRADECIMENTOS
Este livro foi elaborado graças ao projeto es-
pecial sobre "História Indígena e do Indige-
nismo" aprovado pela F.\PESP (88/2564-5) e
como parte das atividades do Núcleo de Pes-
quisa em História Indígena e do Indigenisma
da Universidade de São Paulo. A maioria dos
capítulos deste livro foi encomendada desde
1989. A intenção era aviíliiU" o estado atu;il do
conhecimento sobre história indígena e indi-
car direções promissoras para no\ as pestiuis^is.
Em agosto de 1991, na l SP. foi realizado um
seminário para uma discussão dos textos, an-
tecedendo a publicação. Para sua re;ilizaçãa
também contamos com o apoio oruoiiil da FA-
PKSP (91/1669-0). Após o seminiiricx Greg Ur-
ban aceitou tratar da contribuição da lingiiís-
tica e Sônia Dorta reiílizou um extenso cata-
logo de coleções etnográficas, aqui publicado
em iuiexo. Dois capítulos que ivputo essenciviis
para um li\ro tjue trata de Historia dos IVws
Intlígenas, encomendados desde o início do
projeta nimca chegaram a ser escritos; um di-
zia respeito à situação atual dos po\os indigt^
nas. outro aos seus pn^spectos do tutujw
INTRODUÇÃO A UMA IIISTÓKIA INDICIA \ 23

O índio no
imaginário. Ao lado,
casal de índios do
Parque Nacional
do Xingu: imagem
de índios inocentes
no jardim do Éden.
Abaixo, os índios
como senhores da
terra: Adhemar de
Barros entrega
solenemente a
dois índios Carajás
perplexos uma
caixa contendo
terrado morro
do Jaraguá.

A pesquisa iconográfica ficou a meu cargo,


auxiliada por Oscar Calavia Saéz e posterior-
mente por Marta Amoroso. Beneficiou-se mui-
to dos recursos da Newherry Library; de CJhi-
cago, que me concedeu uma bolsa de pesqui-
sador em junho de 1990 e da acolhida, na
Universidade de Coimbra, do professor Ma-
nuel Laranjeira Rodrigues de Areia e do fotó-
grafo C'arl()s Barata, (]ue cederam fotos da ex-
traordinária coleção de Alexandre Rodrigues
Ferreira. Muitos outros acervos permitiram
(jue usássemos suas imagens: sua lista vem no
24 MISTORIV 1H>S INOIOS M) BKVSll

tiniil do \ olunie e a todos queremos agradecer. Queremos prestar, por fim, neste prefá-
Cabem no entanto especiais agradecimentos cio, uma homenagem a Miguel Menéndez,
à tlunilia de Hércules Florence, à Boscli do Bra- um dos primeiros antropólogos a se inte-
sil e à Biblioteca Mário de Andrade. Agradeço ressar por pesquisas de história indígena,
tiunbém a re\ isão dos textos de arqueologia rea- e que faleceu prematuramente em novem-
lizada pela professora SíK ia Maranca, do Mu- bro de 1991. Membro do projeto e do Nú-
seu de Arqueologia e Etnologia da USP. cleo de História Indígena da USP desde
A publicação deste volume só se tornou suas primeiras horas, o capítulo que produ-
possúel graças ao apoio da Secretaria Muni- ziu e que publicamos neste volume, sobre
cipal de Cultura de São Paulo e da FAPESP a história do rio Madeira, é seu último tra-
(Proc. 91/4450-0). balho.

NOTAS entre os quais Marshall Sahlins, insurgiram-se contra


o esvaziamento da história local. Vide na mesma di-

(1) Citaremos apenas o nome do autor, sem a data, reção J. Hill (1988:2).
quando nos referirmos a artigos neste \olume. (4) Penso por exemplo na mitologia Timbira em ge-
(2) O grande historiador Varnhagen, cujo precon- ral(Nimuendaju, 1946; DaMatta, 1970; Carneiro da
ceito contra os índios era notório, foi um dos princi- Cunha, 1973), na mitologia dos grupos de língua Ka-
pais apóstolos dessa visão: estima em menos de 1 yapó (Vidal, 1977; Turner, 1988), na mitologia de al-
milhão a população indígena. E curioso perceber guns grupos de língua Tupi como os KaNvahi%\"a (Me-
que as notas que Capistrano de .\breu, seu editor, néndez, 1989) e na de grupos Pano do interflmio (Kie-
acrescenta à monumental História geral do Brasil fenheim e Deshayes, 1982). Em grupos Pano ribeiri-
de \'arnhagen desmentem as estimativas do autor nhos, como os Shipibo, a história é diferente: os ho-
(Varnhagen, vol. 1:23). mens são criados do barro pelo Inca, que os molda
(3) não é grande novidade: a partir de meados
Isto e assa. Os brancos são assados de menos; os negros,
dos anos 80, após a \oga a\assaladora do modelo de assados demais; finalmente são feitos os índios, assa-
sistema mundial de Wallerstein, \ ários antropólogos, dos a contento (Roe, 1988).
FONTES DA HISTORIA INDÍGENA
o VELHO E O NOVO
Antropologia física e história indígena

Francisco M. Sahnw

antropologia física tem um passado tural dos hominídeos, refere-se não somente
Na verdade Comas ao exame comparativo das peculiaridades

A
longo e respeitável. fí-

(1966) inicia sua revisão sobre os an- sicas, como também da psique
à investigação
tecedentes históricos dessa disciplina humana, no marco das culturas que foram por
com textos que apareceram centenas de anos elas criadas".
antes do nascimento de Cristo. A. J. F. Blu-
Faltou acrescentar que, idealmente, os es-
menbach (1753-1840) é considerado por mui- tudos envolvendo a nossa espécie deveriam ge-
tos como o "pai" da antropologia física. Na ter-
ralmente ser de caráter interdisciplinar. A in-
ceira edição de seu livro De generis hwnani
vestigação isolada de nossa biologia ou cultu-
varieta nativa, publicado em 1795, ele utili-
ra naturalmente pode fornecer dados valiosos,
zou pela primeira vez o termo antropologia no
mas o esclarecimento de determinadas ques-
sentido em que ele
é ainda hoje usado na Eu-
tões só pode ser feito mediante enfoques in-
ropa, como sinónimo de antropologia física. tegrados.
Mas foi somente na segunda metade do sécu-
lo XIX que o interesse nessa ciência tornou- Em seu início a antropologia física era ba-

se mais generalizado, resultando na fundação sicamente uma ciência morfológica. Com o

de sociedades antropológicas em diversos paí-


progresso dos instrumentos de pesquisa foram

ses europeus.
sendo incorporadas outras técnicas, e no mo-
mento a atenção vem se concentrando priori-
Há alguns anos Comas et alii (1971), após tariamente ao nível molecular. Como a ponte
comunicação com 78 pesquisadores de 25 na- entre as gerações é constituída pelo ADN (áci-
ções (entre os quais eu estava incluído), anali- do desoxirribonucleico, o material genético),
saram as relações entre a antropologia física é do maior interesse estudá-lo diretamente, em
e a biologia humana, bem como os conceitos vez de seus produtos (as proteínas). Note-se,
que definiriam essas duas áreas, consideran- inclusive, que o ADN é muito estável, o que
do que a definição mais representativa e cor- vem permitindo avaliações de sua constituição
reta da antropologia física seria a dada por em organismos que viveram há milhões de
R. Martin e complementada por K. Saller anos.
(Martin e Saller, 1957):
Essa tendência reducionista da biologia
"A antropologia foi definida por Martin co- atual deve ser considerada no contexto do que
rno a história natural dos homiiu'deos no tem- foi salientado anteriormente.Há fenómenos
po e no espaço. Devido a uma característica que dependem, para sua expressão, de toda
peculiar da natureza humana isto inclui tam- uma estrutura hierárquica, e que só são expli-
bém o desenvolvimento cultural. Deste mo- cáveis pela análise de todo um sistema (Salza-
do a antropologia moderna, como história na- no, 1989).
2S insTOKiA DOS índios no bkasii.

Página seguinte: ANTROPOLOGIA FÍSICA seção). Questões controversas são: a) a natu-


Exame da variação E HISTÓRIA INDÍGENA reza desses estoques parentais (quantos gru-
observada em 58
grupos indígenas pos eram, e a representatividade dos mesmos
PONTOS DE CONTATO
sul-americanos com relação às populações originais); e b) a
considerando-se De que maneira a antropologia física pode época de sua entrada.
simultaneamente
contribuir para o estudo da história indígena Neves e Pucciarelli (1989), após compara-
sete sistemas
genéticos. Isto é no Brasil? .\ tabela abaixo lista sete pontos de rem a morfologia craniana de três séries pa-
obtido através da contato entre essas duas áreas, e não preten- leoíndias e do arcaico inferior da Bolívia e do
técnica estatística
de ser exaustiva. O estudo biológico tanto de Brasil, contrastando-a com a encontrada em
da análise de
componentes remanescentes ósseos e de múmias como de dezessete outras séries de diversas regiões do
principais. Ela indivíduos e populações atuais pode iluminar mundo, concluíram por uma clara afinidade
permite verificar
diferentes aspectos do passado indígena. Ca- biológica entre esses primeiros habitantes do
quanto dessa
variação está da mn dos pontos indicados poderia ser exem- nosso continente e grupos do Sul do Pacífico.
relacionada entre plificado com casos reais. Por motivos de es- Sugeriram, então, que esses colonizadores de-
si. agrupando-a em
paço, no entanto, irei limitar-me ao exame mais vem ter chegado aqui antes do estabelecimen-
conjuntos
(componentes), detalhado de apenas algumas daquelas re- to, nas populações asiáticas, da morfologia
que são resumidos lações. mongolóide típica, e portanto antes dos 13 mil
através de escores.
Os números da anos aceitos pela maioria dos investigadores
A ORIGEM DO HOMEM AMERICANO
mostram a
figura norte-americanos como data da entrada des-
variação obtida nos Este tema clássico tem sido abordado freqiien- grupos no continente. Por outro lada a aná-
ses
escores do primeiro
temente por autores os mais diversos, utilizan- lise do ADN de uma organela citoplasmática
componente, que
resume 23% da do enfoques variados. Estes incluem tanto a (a mitocôndria) de populações atuais mostra
variabilidade antropologia física (morfologia e característi- considerável variabilidade, que de\e ter sur-
observada. De
cas genéticas que se expressam no nível da gido 40 mil anos atrás (Páábo et alii, 1990).
maneira geral os
escores aumentam proteína ou do próprio ADN) como a arqueo- A possibilidade de estudo do AD\ do próprio
do noroeste do logia, a lingiiística, ou a antropologia cultural. material paleoantropológico, ósseo ou mumi-
continente em
Salzano e Callegari-Jacques (1988) revisaram ficado (ver, por exemplo, Rogan e Sal\a
direção ao sul,
atingindo os os estudos anteriores a 1988, porém daquela 1990a, b) promete abrir novos horizontes no
valores mais altos data para cá novas evidências surgiram, que esclarecimento do problema.
no norte do Chile e
de\em ser objeto de reflexão. Enquanto isso, as evidências arqueológicas
no Chaco. Esses
gradientes são O único ponto sobre o qual há concordân- e linguísticas continuam a ser discutidas (Mo-
compatíveis com cia generalizada é o de que a principal rota de rell, 1990; Marshall, 1990; Dillehay. 1991). Seja
rotas de
entrada no continente ocorreu através do es- qual for o consenso eventuiilmente iílcançada
movimentos pré-
dessas
históricos treito de Bering, e que esses grupos formado- ele sem dúvida será importante pãrà interpre-
populações. res provieram da Ásia (ver, porém, a próxima tações relativas à história indígena.

Relações entre a antropologia física e a história indígena

Pesquisas em antropologia física Reflexos no estudo da história indígena

1. Análises de remanescentes ósseos e múmias do 1. Informações sobre modos de vida e padrões de


ponto de vista morfológico, fisiológico e bioquímico. doença de populações pré-históricas e históricas.
2. Investigação de marcadores genéticos neste mate- 2. Indicações sobre migrações do passado.
rial paleoantropológico em diferentes sítios arqueo-
lógicos.
3. Estudos sobre a mobilidade, mortalidade e fertilida- 3. Inferências sobre tais parâmetros em gerações arv
de de populações atuais. teriores.
4. Avaliações sobre padrões geográficos de doenças 4. Evidências sobre a ocorrência de tais doenças em
em populações do presente. populações pré-históricas e históricas,
5. Pesquisas sobre a morfologia de populações atuais. 5. Análises sobre a influência de práticas culturais na
morfologia de grupos do passado.
6. Determinação da distribuição geográfica de marca- 6. Indicações sobre migrações do passado.
dores genéticos em grupos contemporâneos.
7. Construção de dendrogramas, distâncias genéticas, 7. Reconstruções de populações parentais e inferên-
e aplicação de outros instrumentos de análise filo- cias sobre sua diversificação.
genética.
o VELFIO E O N0\'0 29

DOENÇAS PRÉ-HISTÓRICAS gundo ele, há alta probabilidade de que os dois


mais famosos padres catequistas do Brasil, Ma-
Uma discussão antiga refere-se à ocorrência
nuel da Nóbrega e José de Anchieta, fossem
da sífilis, da tuberculose e da doença de Cha-
tuberculosos. Teriam sido eles responsáveis,
gas em populações ameríndias pré-colombia-
portanto, por muitas mortes devidas a essa
nas. Quanto à sífilis, Baker e Armelagos (1988),
doença entre os indígenas com os quais eles
após uma revisão em profiindidade dos dados
estiveram em contato.
disponíveis, chegaram à conclusão de que há
Há indicações de que o tamanho popula-
evidência esquelética abundante indicando a
cional relativamente grande, a sedentarieda-
presença de uma forma não venérea de infec-
de, o tipo de construção de casas e o hábito
ção treponêmica no continente antes de 1492.
de criar preás domesticamente favoreceram a
Nesse caso as evidências paleoantropológicas
endemicidade da doença de Chagas entre os
para a América do Sul foram encontradas prin-
indígenas dos Andes muito antes da chegada
cipalmente no Peru, mas os estudos de Lee dos europeus. Já entre os indígenas brasilei-
et alii (1978) em populações atuais indicam ros não ocorreram tais condições, determinan-
que elas também são válidas para o Brasil. do a ausência da doença em grupos não acul-
Pesquisas sistemáticas especialmente de turados (Rothhammer e cols., 1985; Coimbra,
Noel Nutels e J. A. N. Miranda demonstraram 1988).
a inexistência da forma típica do bacilo da tu-
berculose em populações indígenas brasilei-
ras não-aculturadas (Nutels et alii, 1967; Nu-
tels, 1968; Miranda, 1985). Observações pa-
leoantropológicas em ameríndios fora do
Brasil, revisadas por Clark et alii (1987), no en-
tanto, indicam que aquelas populações devem
ter sido expostas a diferentes formas de doen-
Çcis microbacterianas. Esses autores sugeriram
que a aparente maior susceptibilidade
de ha-
bitantes de reservas indígenas àdoença pode-
ria ser devida à exposição a uma linhagem es-

pecialmente virulenta de Mycobacteria tuber-


culosis. Nutels (1968), por outro lado, sur-

preendeu-se quanto aos aspectos clínico-


radiológicos e epidemiológicos da tuberculo-
se que ele encontrou em populações "virgens"
para a doença, comoSuyá e Txukahamãe.
os
Ele teria esperado quadros agudos e graves,
como os dos soldados senegaleses, observados
na Primeira Guerra Mundial. Ao contrário, o
que ele constatou foi uma manifestação benig-
na,como a de pessoas que tivessem já tido
uma longa experiência com o bacilo. Isso po-
de ser interpretado de diferentes maneiras. Por
exemplo, a linhagem em questão seria menos
virulenta que a comum; ou indivíduos dessa
tribo poderiam ter desenvolvido resistência
pela exposição a um bacilo semelhante, que
teria desencadeado a resistência por imunida-
de cruzada.
Um aspecto inusitado do desenvolvimento
da tuberculose em populações indígenas bra-
sileiras foi comentado por Miranda (1985). Se-
*

30 MisTxiRiv nos i\nu)s \i) bk\sii

vés do estreito de Bering (Araiíjo et alii, 198S;


Coníalonieri et alii, 1991).

O IMP.\CTO DA CONQUISTA
Tendo-se examinado algumas das doenças que
poderiam ter existido entre nossos indígenas
antes da conquista, pode-se agora avaliar, em-
bora de maneira rápida, o impacto causado pe-
las enfermidades que vieram com os conquis-

tadores. O problema não é fácil, porque de-


pende de estimati\as populacionais desses
grupos antes de 1500. Para isso, partindo-se de
SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA fontes históricas e estabelecendo-se inferên-

GABINETE DE INVESTIGAÇÕES cias sobre o processo que ocorreu após o con-


SERVIÇO DE IDENTIFICAÇÃO tato, pode-se chegar a \alores aproximados. Pa-
ra se ter uma ideiado grau de incerteza des-
sas estimatix as, porém, basta lembrar que, para
Nome : il/La. ÍíÍajU^A^.: _._ _ _ N.«. o Brasil, os números relati\os a esses habitan-
Made: 2.^ anos. Sexo: iAA,ãA<MMuÇ Data: Vfí^/t-'..H L tesque aqui viviam antes da chegada de Pe-
Rrgião «!a Iribu : Tq^»aá P .xLg i l fi^A.fl
- -^^t^trua.^. dro Alvares Cabral \ariam de 1 a 5 milhões
Tribu: -y*rXiAítIt-c^- Tribu dos pais: ~pQ-^»gaf /_ (referências em Salzano e Callegari-Jacques,

Cor da pele XACU 1988).


: <U<L<ruc. Cõr dos cabelos':

hi^uAJT*
O curso dos eventos que são desencadea-
Còr dos olhos : Forma dos cabelos K-*-^-(~^
dos após o contato são monotonamente iguais
Forma da cabeça: cníTvoÍAit__
em qualquer região do continente. Há uma
mudança dramática na vida indígena, com a
Peso: X. Q. — Estatura:.
4-P Altura da face: I2.H,^ deterioração de suas condições sanitárias,
instalando-se epidemias devastadoras e altas
Altura nasal: ..'* ...fi^. Largura nasal:-yr+r v Bizigomático:_4-^-
taxas de mortalidade. A recuperação quanto
Ânteroposterior do crânio: luV Transverso do crânio: Í..Q.ÍJ!....
a esse estado de coisas é graduíil, e depende
Biacromial: ^LÇ^^-/;^ Biiliaco: 'illMC-Perimetro torácico: .ÍjÍ^^'Í<?7
tanto do tamanho do grupo original como de
OBSERVAÇÕES: l. - _ '..._
outras condições, entre as quais se incluem os
(DocrcTcr «Boauliu, deale*. mancbaa e ludo qaanie chamar a alcsfia)
benefícios da medicina moderna (detalhes em
Salzano, 1985).
Análises detalhadas recentes sobre o que
c^aaA^ ,^ LaA^^ra (J^&jl2AJ — ocorreu em diferentes regiões do continente
são: a)para o Guiana Francesa a segimda edi-
--.ieJlrC^-A4-<a,t,<o..* ção (publicada em 1989) do li\ ro de Hurault;
b) quanto às missões jesuíticas guarani, o arti-
go de Maeder (1990); e c) para o Peru e a No-
va Espanha, o estudo de .\ssadouri;m (1990).
Por outro lado, Thornton et ;ilii (^19911 consi-
deriU"iun os índios iunericanos em geriU e o im-
Mensuração
Já a presença de Ancylostoma duodenale e pacto causado por epidemias de v.u-íola entre
realizada através
de instrumentos Trichuris trichiura em material arqiieolósíico os mesmos, desenxolwndo uma série de simu-
especializados da América do Sul mas não da América do lações por computador para tentar compitHMí-
entre os índios
Norte, e a necessidade, no ciclo vitiil desses der os diferentes fatores cjue podem influir no
Javaé de Goiás. A
utilização de parasitas intestinais, de uma passagem obriga- processo de depopulação subsequente.
dados... tória pelo solo a temperaturas amenas indicam Independentemente de (.U^talhes ivgionai.^i,
a possibilidade de introdução dos mesmos por o cjue se pode estabelecer em lermos gtM-ais
colonizadores pré-históricos que teriam utili- é que o material genético ameríndio ^HMina-
zado a rota transpacífica ou transoceânica, em nece caracttMÍ/ando \astas poi\ões de nosso
vez daquela geralmente aceita, isto é, atra- continente. .Vpos o impacto tem ha\ ido a re^
: . —

o VEI.IIO K O \0\() 31

cuperação pelo menos de grupos maiores. E


o processo de miscigenação, que é universal,
contribui para a manutenção dos genes de ori-
gem indígena. Infelizmente, durante o proces-
so, que está havendo é a perda da variabili-
o
dade biológica e cultural (pela extinção de tri-
bos menores). Além disso, o processo é res-
ponsável por morte e sofrimento que, caso fos-

sem tomadas medidas acauteladoras, poderiam


ter sido evitados, pelo menos em tempos mo-
dernos. Resta saber se há interesse nessa so-
brevivência. Há toda uma história de extermí-
nio proposital de grupos indígenas, inclusive
SECRETARIA DA SEGURANÇA POBLICA
por infecções intencionais (embora tais casos
GAniNETE DE INVESTIGAÇÕES
sejam difíceis de documentar). SERVIÇO DE IDENTIFICAÇÃO
-cn-
MIGRAÇÕES PRÉ-HISTÓRICAS
Esta questão abordada por Salzano e
foi Nome: ..iL£LAAÍ^J.a<£^.jaA^. N.».

Callegari-Jacques (1988) mediante a conside- Idade: JhLíP.. anos. Sexo: UUMj>^uJLua Dnta: Ir. 8._t .. jLCu. Íti5
ração simultânea de sete sítios genéricos in- Região d;i tribu Q,M>*^CUUyi^ -.._
vestigados em 58 grupos indígenas da Améri- Tribu ..X>^^'-<U
:
Tribu dos pais:.
ca do Sul, com a utilização da técnica estatís-
Cúr dos cabelos
Côr da pele : ÍJLouí«Cb -.;>LuaA*« : -i'

tica da análise de componentes principais. O


Côr dos olhos : )ftJ^^«*íO. Forma dos cabelos: fi/r-yVS
Mapa mostra o que se obtém quando se plo-
tam os escores relativos ao primeiro compo- -. — ~ Forma da cabeça: . |l l-iA-fri*í2LC.

nente no mapa da América do Sul. Os esco-


res foram transformados para evitar valores ne- Peso: .(fi..Q Estatura: .J.C5" Altur;i da face: _
j,í f.
gativos e fracionários; as áreas delineadas
agrupam os valores em dezenas.
Altura nasal: 'í J. Largura nasal: t) O Bizigomático: — 4.14?

Anteroposterior do crânio: ioj Transverso do crânio: i^o


Este primeiro componente é dominado pe-
do sistema ílh de grupos sangiiíneos,
los alelos
Biacromial: *t Xj/í Biiliaco: ~va Perimetro torácico: B.&y'L-yA
e representa 23% da variância observada. De OBSERVAÇÕES: . .-
(Descrever anomaUat, dentes, imincbat e ludo quanto rhacnar a aientle)

uma maneira geral os escores aumentam do


Icuux-cjLo -: C/UAVHA/tgac ^ ta**» oL^ -iO' ^^
noroeste do continente em direção ao sul, atin-
gindo os valores mais altos no Norte do Chile iXÀ/íkl>MLvvrtUt^.C . A.
e no Chaco, onde ocorrem "picos". Há tam-
bém um gradiente que se inicia na Colômbia iMAje. cLl xAxíl*É^-
e aumenta na direção leste (Guianas e Ama-
pá), diminuindo ligeiramente no centro-leste
.(x}^^'tr<^<xjJU,<OL»!oLo^.^ - _.

do Brasil. Existe, porém, uma zona de valores


médios em parte da Colômbia e Venezuela, in-
serida na área de escores baixos.
Esse padrão é compatível com uma rota ao
longo da costa do Pacífico e outra para o nor- ca do Sul poderia ter ocorrido seguindo três ...antropométricos

uma alcançou seu


te da região amazônica. Há também concor- direções principais: paralela à costa do
apogeu no final do
dância com o possível papel do Nordeste bra- Pacífico, outra ao longo da costa atlântica, e século passado e
sileiro como um centro de dispersão, mas in- uma terceira na direção do centro do conti- início do atual,
levando inclusive a
felizmente as observações nessa área são nente (mais especificamente do Planalto Cen-
muitos exageros.
escassas. \ região do Chaco é identificada co- Mas a essas deve ser adiciona-
tral brasileiro).

mo um núcleo de dispersão (ou convergência). do o núcleo do Chaco anteriormente mencio-


\ distribuição dos escores no mapa está nado. A plotagem dos escores do segundo
também de acordo com a sugestão de Ward componente ((jue explica mais 17% da varia-
et alii (1975), de (jue o povoamento da .\méri- ção) sugere também a importância do C^aribe
T

msTOKlV 1X>S l\DU>S M) BHVMl

como um pólo de dispersão, em concordân- e na discussão que se seguiu (Chagnon, 1990;


cia com suiíestões de que migra(j"ões secundá- .\lbert, 1990). Albert criticou os critérios de
rias podem ter ocorrido das ilhas dessa região Chagnon de avaliação da "violência" dos Ya-
para o norte da América do Sul. nomami, e argumentou que a mortalidade de
Naturalmente, as ohsenayões feitas com re- homens adultos de\ ido à guerra era maior en-
lação a essa aniílise devem ser consideradas tre os Achuara (59%) e Waoroni (61%), duas
com cuidado, pois os gradientes ol)ser\ados outras tribos amazônicas, do que entre os Ya-
podem estar \ inculados a outros íatores geo- nomami (30%). Ele também acredita que o
griíficos, bem como ao ambiente físico e bio- subgrupo a partir do qual Chagnon retirou a
lógica e não a essas migrações antigas. Estu- maioria de suas conclusões poderia ser não
dos adicionais poderão esclarecer esse ponto. representati\o da tribo como um todo; e afir-
ma que a caracterização de Chagnon da so-
ANTROPOLOGIA FÍSICA E INDIGENISMO ciedade >anomami revela uma projeção dos
preconceitos tradicionais do mundo ociden-
ESTEREÓTIPOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS tal com relação ao Outro.
A antropologia física do passado foi muito in- Essa situação não é nova; muitos outros pes-
fluenciada pelo conceito de "tipo". A partir de quisadores já foram acusados de apresentar da-
obser\ações em uma população chega\a-se a dos que poderiam ser usados para prejudicar
uma abstração, constituída pelo que o pesqui- segmentos específicos de nossa espécie. Em-
sador considera\a como a melhor (ou ideal) re- bora deva-se separar claramente os fatos em
presentação da mesma. Tal conceito foi subs- side sua boa ou má aplicação, o cientista tem
tituído pelo da avaliação estatística fornecida o dever de acompanhar o uso de seus resulta-
pela genética de populações, que le\ a em con- dos e tomar uma posição firme contra aplica-
sideração a variabilidade intrapopulacional, a ções perversas ou erróneas. A assertiva de
qual é, inclusive, uma das características mar- Chagnon (1988) de que "a violência pode ser
cantes de nossa espécie. a principal força dirigente por trás da evolu-
O que foi mencionado acima é verdadeiro ção da cultura" é muito discutível, e pode ser
não só para características físicas como tam- usada para justificar comportamentos agres-
bém para traços do comportamento. Esses úl- sivos não éticos e guerras, como a que recen-
timos, especialmente, são condicionados por temente ocorreu no Golfo Pérsico. Por outro
uma interação complexa entre fatores bioló- lado, sua caracterização dos índios Yanomami
gicos e culturais, de difícil identificação (Sal- lembra os erróneos conceitos tipológicos do
zano, 1991). passado, que foram aplicados a uma caracte-
Essas considerações são úteis quando se rística difícil de ser delineada e com causiis
examina a controvérsia relacionada ao artigo múltiplas.
de Chagnon (1988) sobre os Yanomami. Essa
e outras publicações desse autor estabelece-
O QUE É UM ÍNDIO?
ram esses índios, na literatura antropológica O problema de como tratar minorias étnicas
internacional, como o paradigma de um gru- que \ ivem dentro de um território nacional é
po violento "primitivo". Esse tral)alho de 1980 complexo. No caso especifico dos mdios das
foi amplamente disseminado pela imprensa Américas existem \ iírias tendências, desde as
brasileira, justamente na ocasião em que as que propõem conseiA á-los no mesmo estágio
terras desses índios eram imadidas de forma cultural em cjue toram encontrados pela siv
massiva por garimpeiros. Diversos antropólo- ciedade envolvente, até aquelas que preconi-
gos brasileiros argumentaram (jue a imagem zam sua absorção total nessa sociedade.
negati\a desses índios apresentada na impren- Até agora não tói (.lescoberta uma tormula
sa poderia ser usada como arma por aqueles mágica que estabeleça uma transição menos
que se opõem à criação do Parque Indígena brusca e menos traumática para tais grupos,
Yanomami, uma rei\indicação que data de cujos membros, muitas vezes, saem de um
1978, quando foi criada uma comissão especi- meio em (jue a subsistência é assegin-ada me-
ficamente com esse objeti\o. diante a caça-recoleta. para um coutato diiv-
Maiores informações sobre essa contro\ ér- to com a sociedade industrial. O que se tem
sia podem ser encontradas em Albert (1989) notadií. em geral, e uma ruptura do evjuihlMio

i±^
o VELHO E O N0\0 33

normalmente harmonioso dos grupos não foram discutidos por Carneiro da Cunha
aculturados com seu meio ambiente, para uma (1986), que concluiu ser a identidade étnica
situação de extrema dependência com relação uma questão que deve estar vinculada à auto-
à sociedade envolvente. O seu modo de vida identificação do grupo e à identificação deste
se altera dramaticamente, levando a uma de- pela sociedade envolvente. Essa posição já ti-

terioração das condiçõesde saúde e muitas ve- nha sido adotada por Ribeiro (1957), que de-
zes à morte de parcela considerável da popu- fine: "índio é todo indivíduo reconhecido co-
lação. A recuperação é lenta, e em geral os gru- mo membro por uma comunidade de origem
pos aculturados são absorvidos na camada pré-colombiana que se identifica como etni-
mais pobre de nossa paupérrima população camente diversa da nacional e é considerada
rural. indígena pela população brasileira com que es-
A política indigenista brasileira foi revisa- tá em contato". É essa, também, a posição ge-

da em detalhe por Ribeiro (1962, 1970), ou- ralmente adotada pelos antropólogos brasi-
tras avaliações podendo ser encontradas em leiros.

Cardoso de Oliveira (1978, 1988). Uma ques- Seja como for, minha opinião é a de que
tão considerada como essencial por todos qualquer processo de identificação étnica
aqueles que se interessam por esses proble- que tenha por fim assegurar algum direito à
mas é a da garantia aos indígenas da posse das posse de terras está mal colocado. Isso porque,
terras em que vivem. O problema dos Yano- pelo menos idealmente, todos deveriam ter es-
mami para conservá-las já foi mencionado bre- se direito.
vemente na subseção anterior. Mas é genera-
lizada, em todo o país, a cobiça para a usurpa-
HISTÓRIA INDÍGENA
ção de territórios tribais. Há também o pro-
E ANTROPOLOGIA FÍSICA
blema oposto. Grupos que já perderam quase Pode-se fazer a pergunta complementar à fei-

totalmente as suas características étnicas e que ta anteriormente, isto de que maneira a his-
é,

procuram, após esse processo, obter o direito tória indígena pode contribuir para o estudo
a um pedaço de terra que possam utilizar pa- da antropologia física? Creio que essa contri-
ra sua subsistência. buição relaciona-se a três aspectos principais:
Dadas essas circunstâncias, não seria de es- a) tamanho dos grupos fundadores; b) dinâmi-
tranhar que a pergunta formulada no início ca demográfica; e c) contatos e migrações es-
desta subseção fosse levantada: "O que é um pecíficas.
índio?". Como identificar uma comunidade in- Com relação ao primeiro ponto, deve-se no-
dígena? A questão já não é puramente acadé- tar que a variabilidade genética de uma po-
mica, podendo envolver o destino económico pulação depende originalmente da natureza de
de muitos indivíduos e populações. seus grupos formadores. Em geral, outros fa-
A ideia da caracterização biológica de um tores permanecendo constantes, quanto maior
indivíduo como indígena ou não-indígena es- for o tamanho desses grupos, maior será a di-
tá vinculada à noção errónea, já comentada, versidade esperada. Por exemplo, o número de
de "tipo". Estabelecido, na cabeça do pesqui- iilelos (formas idternativas de um gene) em três
sador, o tipo indígena ideal, procurar-se-ia, seja regiões específicas do sistema HLA de histo-
mediante características morfológicas ou ou- compatibilidade é muito menor em indígenas
tras, que se manifestam especialmente no san- sul-americanos do que em caucasóides, as
gue, estabelecer se ele estaria ou não confor- combinações dessas formas entre si sendo tam-
me à norma adotada. Critério equivalente foi bém em menor número. A explicação mais
utilizado nos KUA, onde um indivíduo, para ser usual para esse fato é a de que os grupos que
incluído no registro tribal, deve possuir uma originalmente colonizaram o continente se-
determinada porção (avaliada genealogica- riam de tamanho reduzido; ou, alternativa-
mente) de ancestralidade indígena. Note-se mente, poderiam ser relativamente grandes,
(jue o critério genealógico, muito difundido mas teriam sofrido reduções periódicas de lui-
nos KUA, pode levar ao absurdo de classificar- niero, issoocasionando o chamado "efeito de
secomo "negra" uma pessoa de pele impeca- gargalo de garrafa" (apenas um grupo reduzi-
velmente alva! do de sobreviventes teria dado origem a seg-
liuito o critério l)i()l(')gico como o c iiltnral mentos específicos desses ameríndios; \('ja-se.
34 UISTOKU DOS INOUIS \(> |ÍU\SI1

Algumas inferências causais que podem ser estabelecidas no estudo dos índios sul-americanos

Processo Consequência
1. Poucos pontos de entrada original no continente; 1. Homogeneidade genética relativa.
apenas um estoque parental principal.
2. Tipo fissão-fusào de estrutura populacional. 2. Diversos "polimorfismos privados" únicos.
3. Isolamento geográfico e cultural. 3. Diferenças escalonadas entre grupos; gradientes em
traços morfológicos e nos condicionados por um
gene.
4. Estilos de vida únicos, estresse ambiental, diferen- 4. Padrões fisiológicos normais e patológicos únicos.
ças genéticas.
5. Aculturação,* mistura racial. 5. Depopulação, perda da identidade genética.

O Neste capitulo utiliza-se este termo apenas para evitar expressões mais longas e elaboradas. Que fique claro ter eu
consciência de que o processo assim rotulado é complexo, podendo ser enfocado de diferentes maneiras e mais especifi-
camente dentro do contexto da fricção interétnica (Cardoso de Oliveira, 1964, 1988, Schaden, 1965: Cardoso de Oliveira e
Castro Faria, 1971). Fonte: Salzano e Callegari-Jacques (1968).

por exemplo, Black e Salzano, 1981). É da dos resultados genéticos observados em indí-
maior importância, portanto, o conhecimento genas brasileiros. Em uma investigação relati-
pré-histórico e histórico dessas populações, pa- vamente recente (Black et alii, 1988), estuda-
m o estabelecimento de hipóteses e.xplicativas mos 34 sistemas genéticos em quatro popula-
plausíveis. ções de três tribos Tupi: Asurini (duas
Obviamente, além dos grupos fundadores, localidades), Urubu-Kaapor e Parakanã. Pois
o destino e\olutivo de uma população irá de- bem, os Asurini dessas duas lociílidades (Tro-
pender, também, de sua dinâmica demográfi- cará e Koatinemo) diferiam tanto entre si
ca. O seu grau de mol)ilidade, os contatos que quanto com relação às populações das outras
estabeleceu com outros grupos, a fertilidade duas tribos, e essa diferenciação foi confirma-
de seus componentes e os padrões de morta- da quando fizemos uma comparação incluin-
lidade irão todos interagir de maneira comple- do também os Sateré-Mawé, \\'aiápi, Emeril-
xa, condicionando graus de variabilidade di- lon e Sirionó. Claramente, embora os habitan-
ferentes, e a manutenção e sobrevivência di- tes de Trocará e Koatinemo falem a mesma
ferenciais de variantes. língua, eles de\"em estar separados há muito
Muitas vezes eventos pouco prováveis ocor- tempo e não foi detectado parentesco entre os
rem. Exemplifico com um caso de rapto de membros das duas comunidades, o que expli-
uma criança branca, efetuado pelos Mekranoti, caria as diferenças encontradas.
um grupo kayapó do sul do Pará. A criança Em outra imestigação (Salzano et iilii,

cresceu e se desenvolveu dentro da tribo, e 1988), analisamos 31 sistemas genéticos nos


culturalmente é sem dúvida indígena, tendo Apiilai-\\'a>ana, um grupo indígena cjue se ori-

inclusive liderado ataques contra populações ginou pela fusão dessas duas tribos KiunK ixx^r-

neobrasileiras da região. Pois bem, sua cons- rida no do século passado na região do
fiuiil

tituição genética no sistema ABO é A,B, genó- rio Paru do Leste no extremo Norte do Brasil.

tipo muito raro mesmo em caucasóides e au- A comparação dos resultados obtidos com
sente em indígenas brasileiros, que são quase aqueles encontrados entre os \\"a>una da Guia-
exclusivamente do grupo O. Na época de nosso na Francesa e Suriname, bem como os de se-
estudo eleja tinha tido três filhos com sua es- te outras tribos KariK demonstwu que a tu-

posa indígena (que era O), dois deles tendo são deu como resultado uma di\ ei-gència bas-
o grupo sangiiíneo B e o outro sendo A,. Ti- tante acentuada entre a constituição genética
vemos a oportimidade, portanto, de testenui- dos .\palai-\\'a\ana t^ a das populações Waxu-
nhar o ingresso de genes alienígenas nessa co- na daqueles dois paist^s \ i/inhos. No\amente.
munidade pela combinação de dois eventos in- a hisliMia explica os dados biológici^s.
comuns: o rapto e a adoção da criança, e a
presença, nela, de uma constituição genética
proc:esso k conskqí ènci.v
rara (Salzano et alii, 1972). .\ e\olução é um proct^sso eminentemente his-
Dois exemplos deMnonstrani a importância tiMico; t^ por interuícdio (\o que ooonvu no

do conhecimento da história na comprtHMísão passailo qut^ se poile interpivtar o pívsenlo e


o VKI.MO K O NOVO 35

prever o futuro.A tabela ao lado lista algumas


inferênciasque podem ser estabelecidas quan-
do se consideram as microevoluções dos indí-
genas sul-americanos. Alguns dos aspectos ali
indicados já foram considerados anteriormen-
te. Irei comentar aqui, especificamente, o item
2 da tabela.
Alguns anos atrás (Neel e Salzano, 1967),
propusemos que as populações de caçadores-
coletores apresentavam um tipo de estrutura
denominado de fissão-fusão. Em um momen-
to dado, os bandos que compõem esses gru-
pos podem parecer endógamos. No entanto,
à medida que as tensões sociais se acumu-
lam há uma fissão. Essas fissões geralmente
ocorrem ao longo de linhas de parentesco,
condicionando um efeito migratório muito di-
ferenciado, não casual. O produto menor des-
sa fissão, de cerca de quarenta a sessenta pes-
soas, pode reunir-se à população de uma ou-
tra aldeia, voltar a fundir-se com a original
após algum tempo, ou formar uma nova al-
deia. Em geral, a fusão de grupos resulta na
união de membros de diferentes bandos. Es-
ses eventos condicionam: a) que a unidade
de difusão seja um grupo de indivíduos rela-
cionados, não indivíduos simples; b) como
tais populações são nómades, que as distân-
que as separam em um mo-
cias geográficas
mento dado não sejam muito importantes; População
e c) que ao longo de um período de várias neo-indígena
gerações haja troca suficiente entre os gru- fotografada em
estúdio. Através de
pos de maneira a que toda a tribo, e não fotos padronizadas
a população local, deva ser considerada co- surgiram tentativas
mo a unidade de cruzamento. de sistematizar a
variabilidade
As conseqiiências genético-matemáticas
humana através de
desse tipo de estrutura foram consideradas por "tipos", abstrações
Thompson (1979), Smouse et alii (1981) e Fix que muitas vezes
só existiram na
(1982). Sem entrar em detalhes, foi verificado
cabeça de seus
que ela favoreceria a ocorrência de "polimor- idealizadores.
fismos privados", isto é, variantes genéticas Atualmente a ênfase
que, em uma tribo ou diversas tribos adjacen- é dada à variabilidade
existente dentro
atingem frequências maiores
tes relacionadas,
de uma população,
do que 1%, estando totalmente ausentes nas seja em nível
demais. Elssa estrutura favorece, portanto, a for- macroscópico,
microscópico ou
mação de constelações únicas de genes, as
molecular
(juais, por sua vez, podem condicionar padrõ(^s Fotografia da
fisiológicos normais e patológicos únicos. mesma mulher
obtida em Manaus
FONTES por Louis Agassiz
(1807-73), durante a
A história da biologia humana (e portanto da visita que realizou
antropologia física; para mim esses termos são ao Brasil em 1865,
com o apoio de
ess(MiciaInu'nto sinónimos, ver Sal/ano, 1973) ...úWàU d. Pedro II.
36 llISTOtU \ nos INOlDs \l> HK VMl

no recentemente objeto de peque-


Brasil toi rithers (1990) e Ingold (1990). Uma discussão
na Nela são apre-
niDnoiíratui (Sal/ano, 1990). aprofundada sobre o tema, acjui, ficaria fora de
sentadas as principais fases do desen\ol\ inien- lugar Basta salientar que muitas das similari-
to dessa ciência no país, indicadas algumas re- dades são artificiais. Por exemplo, na evolução
ferências básicas e fornecidos endereços das cultural há possibilidade da ino\ação com um
pessoas e instituições que se dedicam a essa propósito, o que não ocorre na e\olução bio-
área de estudos no Brasil. Também é forneci- lógica. Em termos de cultura, não está claro:
da a localização geogríifica e a bibliografia cjue a) qual seria aunidade evolucionária; b) se
descre\e as pesquisas redizadas em 42 gru- ocorre sempre a sobrev ivência do mais adap-
pos indígenas pela equipe de Porto Alegre, em tado ou se também é importante a sobrevivên-
colaboração com uma extensa série de indi\ í- cia do medíocre (Hallpike, 1988); c) qual se-
duos e instituições brasileiras e não brasilei- ria a fonte das causas das mudanças (externa
ras. Para uma \ isão geral das primeiras in\es- ou interna?); d) que escala das mudanças de-
tigações sobre antropologia física no país o tra- veria ser considerada (micro ou macroníveis?);
balho de Castro Fiu^ia (1952) constitui referên- e e) se a direção das mudanças seria uni ou
cia indispensá\el. Salzano e Callegari-Jacques multilinear.
(1988), por outro lado, revisaram as pesquisas Subjacente a ambas as evoluções encontra-
sobre os indígenas sul-americanos de uma ma- se a questão mais ampla da relação dialética
neira abrangente, fornecendo extensa biblio- liberdade/organização. Ela está presente, tam-
grafia sobre: a) paleantropologia; b) popula- bém, em toda a política indigenista do Brasil
ções históricas; c) estrutura populacional, de- e de outros países. Tutela até quando, e exer-
mografia; d) ecologia, nutrição e adaptação cida de que maneira? Se a tutela tem um ca-
fisiológica; e) padrões de doenças; /) morfolo- ráter meramente estratégico (Cardoso de Oli-
gia; e g) \ ariabilidade genética descontínua dos veira, 1988), quem irá definir essa estratégia?

indígenas brasileiros. Qual é o papel dos indigenismos não oficiais


nesse processo? Independentemente das res-
LIBERDADE E ORGANIZAÇÃO
postas a essas questões, é prov áv el que em de-
De que maneira as relações apresentadas até terminado momento as próprias lidenmças in-
agora podem ser integradas dentro de um con- dígenas irão estabelecer os rumos que dese-
texto mais geral? A característica histórica do jam independentemente "dos outros".
trilhar,
processo evolutivo já foi salientada anterior- Quando opções terão de
isso ocorrer outras
mente. Mas quais são as semelhanças e desse- ser examinadas: isolamento ou integração à so-
melhanças entre a evolução biológica e a evo- ciedade naciouiil? Unidade ou plunilismo cul-
lução cultural? Esse problema tem sido am- tural? Esperemos (lue, sejam quius torem es-
plamente debatido, sendo uma amostra de sas opções, elas contribuam para que se esta-
avaliações recentes as contribuições de Hall- beleça entre eles um sistema de v ida saudável
pike (1988), Salzano (1988), Scott (1989), Car- e compatível com a dignidade humana.
AS OCUPAÇÕES PRE-HISTORICAS DO BRASIL
(EXCETUANDO A AMAZÓNIA)

Niéde Guidon

hoje é impossível fornecer um Nesse contexto, existem alguns autores que


Ainda
quadro sintético coerente da pré-his- apresentaram propostas de sínteses sobre a
tória brasileira. pré-história do país, mas nenhuma delas é sa-
As causas dessa impossibilidade tisfatória. Analisadas em detalhe, é possí\ el \ e-

remontam às origens e ao desenvolvimento rificar nelas a existência de contradições e a


dessa disciplina no país. Seu ponto de partida falta de embasamento fatual para muitas afir-

são trabalhos de amadores, estudiosos das an- mações. Essa situação deve-se fundamental-
tigiiidades, colecionadores, que forneceram as mente à falta de um contexto teórico que de-
primeiras explicações sobre o passado pré- termine certas exigências de método, possibi-
histórico do Brasil, e que foram tomadas co- litando combinar em uma síntese resultados
mo uma primeira referência. Como é natural, e informações de uma mesma qualidade.
seus interesses e procedimentos de trabalho A falta de construção científica é tendên-
distam muito dos praticados em uma discipli- cia dominante. São mantidos modelos propos-
na Arqueólogos estrangeiros
científica. parti- tos há décadas, sem que os mesmos tenham
ciparam também da implantação dessa disci- sido adaptados às novas correntes e às desco-
plina,mediante a realização de suas próprias bertas mais recentes.
pesquisas, às quais integraram interessados na
arqueologia para a realização de tarefas mui-
CAÇADORES-COLETORES
to precisas, mas sem fornecer uma real forma-
DO PLEISTOCENO
ção sistemática. Uma fiação da comunidade científica é, atual-
Essa origem resultou em uma heterogenei- mente, reticente a aceitar o fato de que o Ho-
dade no plano das contribuições, das finali- mem penetrou no continente americano há
dades da pesquisa arcjueológica, das aborda- mais de 30 mil anos, já que sua chegada à
gens e dos métodos de trabalho. Porém, as pri- América do Sul não poderia ser mais antiga
meiras classificações feitas sobre a cultura do que 12 mil anos. Esse ceticismo resulta de
material — estudada de maneira fragmenta- uma posição em favor de uma linha explicati-
da (cerâmica, registros iiipestres) — são
lítico, \a proposta na década de 50. Segundo tal teo-
ainda hoje consideradas, apesar da di\ersida- ria as migrações pré-históricas somente pode-

de dos critérios tipológicos utilizados. Xestí- riam ser feitas por teira. Assim, para poxoar
gios materiais trabalhados de maneira isola- a América o Homem teria passado da .\sia,
da, classificações baseadas em diferentes cri- através da Beríngia, para o .\lasca. Essa pas-
térios de divisão, sistemas de coleta sem re- sagem seria possível em momentos em que o
gistro são alguns dos procedimentos das pri- mar tivesse alcançado cotas mais baixas (jue
meiras explicações sobre a pré-história bra- a atual, deixando a descoberto a \asta planí-
sileira. cie (jue constitui o huulo do mar de Bering.
3S lusTOKU nos índios no UUVMI

Esses grupos teriam ficaclo no Alasca até que vado, com uma face de gorila deslumbrado por
o degelo permitisse cjue descessem para o sul estar conseguindo se manter de pé. Sabe-se
da América do Norte e daí para a América que o Homem é o único animal terrestre que
Centnil e a do Sul. Por essa suposição axio- conseguiu se dispersar por todo o mundo. Sua
mática toda datação da presença humana no presença é antiga em todos os continentes, até
continente americano de\e ser mais antiga no na .\ustrália. O exemplo desse país é edifican-
hemisfério Norte e, portanto, quiilquer data- te. Até os anos 70 não se admitia que o Ho-

ção mais antiga do que a data limite dos 12 mem aí tivesse penetrado antes de 7 mil anos.
mil anos não pode ser \ãlida para a América pois esse continente, durante todo o Pleisto-
do Sul. ceno e o Holoceno, nunca foi ligado à Ásia.
Porém e.vistem tatos, descobertas e pesqui- Mesmo em épocas de nível baixo do mar, mes-
sas que estão acumulando luna importante ba- mo na cota mais bai.xa atingida pelos oceanos,
se de dados que permite afirmar que o conti- existem braços de mar que separam a Austrá-
nente sul-americano foi po\oado antes, ou ao lia da Ásia. Com o progresso das pesquisas fo-

mesmo tempo que o norte-americano. Como ram descobertos sítios que demonstraram que
é possíxel tal situação e como podemos ex- o Homem já estava na Austrália há pelo me-
plicá-la? nos 50 mil anos, o que nos obriga a admitir
QuiUido da elaboração da velha teoria so- que o Homem pré-histórico dominava a téc-
bre o povoamento da América os conhecimen- nica da navegação.
tos disponneis sobre os homens pré-históricos O pressuposto de que o Homem teria \in-
eram mais limitados e sofriam do preconceito do unicamente a pé. atra\essando a Beríngia
de que o Homem de Cro-Magnon, o primei- atrás dos rebanhos de animais que migra\am,
ro de nossa espécie, teria aparecido há ape- não faz justiça à capacidade intelectual huma-
nas 35 mil-40 mil anos e que seria um ser meio na, reduzindo o Homem americano a um des-
macaco, meio homem. Suas capacidades inte- cendente de um aniniiil não mais capaz que
lectuais eram portanto muito mais reduzidas os camelos, mastodontes e bisões que migra-
e sua tecnologia não poderia alcançar mais do \am para a América.
que umdeterminado desenvolvimento. Hoje Para migrar atra\ és da Beríngia os grupos
o avanço da paleontologia humana recuou de humanos teriam tido que se adaptar ao fiio in-
Instrumentos de
muito a data de aparição do primeiro Homo tenso que reina\a nessa planície gelada. Seria
pedra lascada sapiens e as técnicas de moldagem do endo- mais fácil criar uma tecnologia para o frio do
(raspadores de crânio permitem afirmar que a estrutura ce- que uma para navegar? .\lém do mais, duran-
quartzo). Santana
rebral era a mesma. Ninguém mais acredita te épocas de nvãr baixa os rosiúios de ilhas que
do Riacho (entre
7000 e 8000 AP). no mito do Cro-Magnon peludo e meio cur- existem no Pacífico deviam ser mais extensos,
o que facilitaria a na\egação de grupos que
a\ançiuiiuii coloniziuido ilha por ilha. Não pm-
pomos um modelo de na\egadores piutinda
tal Colombo, à procura de no\as temis, nuis
nada impede de pensar na existência de pe-
quenas embarcações para na\egação costeira
que poderiam, por causas natur.iis como tu-
fões ou tempestades, se desgarrar e ir dar a
uma ilha. O grupo povoaria a ilha e aí \ i\ eria
durante séculos ou milénios ate que um no\o
acidente o le\asse um pouco mais adi;uite. Rv
dcríamos inuiginar grupos dissidentes que mi-
grariam ou também mo\ imentos messiànicos,
.\ gama de modelos permitida pela cap;icida-
de do cérebro do Homo sapuns é tal que e
frustrante continuarmos techados dentiv da
solução única de um bando convndo atn\,s da
caça atiaxes iK^ tmla a Hermgia e do .Vlasca à
Terra do Fogo.
\S ()( rPXÇÕES FUÉ-mSTÓRICAS DO BRASIL 39

A descoberta no Piauí do Ancilostoma duo- Em Minas Gerais existem indícios de pre-


denalis (Ferreira, Araújo e Confalonieri, 1988), sença humana no Pleistoceno. A Laming-Em-
do Homem que exige de-
parasita intestinal peraire dirigiu, entre 1971 e 1976, escavações
terminada temperatura para que a larva pos- no abrigo Lapa Vfermelha I\", na região de La-
sa se desenvolver e se tornar infestante, de- goa Santa em Minas Gerais, tendo obtido da-
monstra que tudo deve ser repensado, e no- tações entre 25 mil e 12 mil anos (Laming-Em-
vos modelosdevem ser propostos. Esse achado peraire, 1979). Os sedimentos desse abrigo es-
tem uma data comprovada de 7750 anos an- tavam parcialmente perturbados, o que resul-
tes do presente (AP). Uma população vinda tou em uma inversão das camadas, e também
por Bering não teria podido trazer o parasita a escavação não foi terminada. Mesmo assim
até a América porque o mesmo teria desapa- algumas lascas e raspadores mais antigos do
recido durante a passagem pela Beríngia e o que 15300 anos foram seguramente encontra-
Alasca. A menos que se admita que tal passa- dos (Prous, 1986). Não existiam estruturas e
gem se fez muito rapidamente, em uma só ge- o número de peças líticas era pequeno.

ração. A existência do parasita no Piauí há mais O de Alice Boér, perto de Rio Claro,
sítio

de 7 mil anos demonstra que um povo vindo no estado de São Paulo, forneceu uma data-
de um país quente, por rotas de clima quente, ção de 14200 anos AP, associada a um raspa-
portanto vias marítimas, chegou até aí nessa dor unifacial, uma lasca e duas pontas pedun-
Calculando a distância que separa São
data. culadas (Beltrão, 1966; Biyan e Beltrão, 1978;
Raimundo Nonato, o local do achado, do mar Hurt, 1986; Guidon e Delibrias, 1985). Segim-
podemos propor que esses grupos navegavam do Beltrão (1982) o sítio conteria indústrias de
até à América entre 9 mil-10 mil anos, no 20 mil e 40 mil anos. Tratando-se de um sítio
mínimo. localizado em umterraço fluvial, parcialmen-
Refletimos sobre diversas possibilidades, e te erodido, e não tendo sido encontradas es-
hoje é válido propor como hipótese de traba- truturas, alguns autores não aceitaram sua co-
lho que diversos grupos humanos chegaram à locação no Pleistoceno final; outros du\idani
América, por diferentes vias de acesso, tanto da origem antrópica das peças dos níveis in-

marítimas como terrestres. Pode-se também feriores.


propor que os primeiros grupos chegaram até Uma data da ordem de 43 mil anos obtida
o continente há pelo menos 70 mil anos. no Morro Furado (norte de Goiás) foi divul-
Os sítios nos quais foram encontrados ves- gada na imprensa (Barbosa, 1976), mas não
tígios datados do Pleistoceno final são raros na confirmada. No Abrigo do Sol, Miller (1983)
América, mas no Brasil temos alguns para os obteve uma datação de cerca de 12 mil anos
quais a quantidade e a qualidade dos vestígios AP, ligada a uma bela indústria de sílex e a gra-
encontrados e o número de datações 14^ ob- vuras rupestres da tradição Itacoatiaras de
tidas são excepcionais e nos permitem afirmar Oeste.
que o Homem colonizou as terras do conti- No sudeste do Piam", na área arqueológica
nente bem antes da data admitida pela teoria de São Raimundo Nonato, escavações e son-
clássica. dagens pernútiram a descoberta de três sítios
Na região de Central, na Bahia, Maria C. que forneceram amostras de cai"vão cujas da-
M. C. Beltrão indica a existência de ossos fos- tações 14* mostram indubitáveis provas da
silizados de animais da megafauna que teriam presença humana durante o Pleistoceno final.

marcas feitas pelo homem e que forneceram As camadas pleistocênicas desses sítios forne-

datações da ordem de 300 mil anos .\P. Tais ceram de origem antrópica; são eles
\estígios
datações, feitas por uma técnica que conside- a Toca do Boqueirão do Sítio da Pedra Fura-
ra outros elementos c^ue não o carbono radioa- da, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do C>al-
ti\o, têm uma importante margem de erro, o deirão dos Rodrigues I. Os dois últimos foram
(jue tem levado certos autores a não aceitar tais unicamente sondados, ao passo que o primei-
resultados. Considerando o enorme hiato (jue ro foi objeto de uma ampla esca\ação quv du-
separa essas datações das outras obtidas no rou dez anos.
mesmo sítio e das de outros sítios pleistocê- A Toca do Bocjueirão do Sítio da Ptnlra Fu-
incos do Brasil, achamos prudente aguardar rada é um grande abrigo rochoso, situado no
no\os achados. sopé da cuesfa arenítica, fazendo face à planí-
40 IllMOKU 1X)S INUIDS NO UUVMI

cie pré-canibriana. A partnle do fundo é co- vam então seixos de quartzo e de quartzito.
berta por mais de mil fíii;uras pintadas, (lue são existentes nas v izinhanças do sítio. Os artefa-
os resciuíciosde pinturas nuiito mais abundan- tos retocados intencionalmente constituem de
tes. Diferentes processos naturais de destrui- 11% a 6,35% das peças no Pleistoceno (dimi-
ção causam descamavões e quedas de blocos, nuindo no Holoceno). Durante a fase Pedra
tendo já destruído cerca de 40% das pinturas Furada o retoque é limitado unicamente às
pré-lnstóricas. margens dos bordos; o tipo mais comum de
A inclinarão do paredão, com 150 m de al- ferramentas são os raspadores, de formas mui-
tura, cria um amplo espaço abrigado da chu- to variadas. O conjunto de artefatos das cama-
\a. O abrigo está a cerca de 19 macima do das pleistocênicas é dicotômico: ao lado de pe-
núel do \ale e domina do alto a desemboca- ças maciças, grandes e pesadas {core-tools e
dura do boqueirão da Pedra Furada. pebble-tools), existe um conjunto menor de pe-
As esca\ações, iniciadas em 1978, demons- ças leves, feitas sobre lascas. As primeiras são
traram que o abrigo foi utilizado pelo homem usualmente relacionadas com a quebra de os-
pré-liistórico, pelo menos desde há cerca de sos enquanto as lascas são normalmente asso-
50 mil anos (Guidon e Delibrias, 1986). As pri- ciadas com as atividades de cortar a caça e ou-
meiras ocupações, reduzidas, utilizaram par- tros materiais (Toth, 1985). Fragmentos utili-
te da base rochosa próxima ã parede do fun- zados, com marcas de uso nos bordos, são os
do. O local era então protegido do vale por um componentes mais comuns do complexo líti-
amontoado de blocos caídos. A medida que o co Pedra Furada. Os subprodutos dessa indús-
tempo passaxa a erosão fazia com que sedi- tria são, principalmente, lascas corticais e sub-
mentos desprendidos da parede, em curso de corticais (Guidon, Parenti e Pellerin, 1990).
desagregação, cobrissem aos poucos os vestí- A análise fina da coleção de peçiis líticiís co-
gios humanos que aí eram depositados de ma- letadas durante esses dez anos de escavação
neira intermitente. Desse modo formaram-se está em curso (F Parenti) e seu resultado per-
camadas que refletem quinze fases de ocupa- mitirá conhecer outros detalhes sobre a vida
ção, as quais podem ser agrupadas em três fa- desses povos.
ses culturais: uma primeira. Pedra Furada, que Os resultados das escavações peniiitem iifir-
compreende os grupos do Pleistoceno; a fase mar que esses grupos caçadores-coletores vi-
Serra Talhada, que corresponde às populações viam explorando de maneira equilibrada as
que freqiientaram o abrigo desde o início do múltiplas potencialidades dos diversos ecos-
Holoceno, de 12 mil anos atrás até cerca de sistemas da área. O relevo, a disposição das
—7 mil/ —6 mil anos; e finalmente uma ter- fontes de água, a riqueza da fauna (demons-
ceira. Agreste, que parece corresponder à che- trada pelas escavações de sítios paleontológi-
gada de um novo grupo à região. cos) faziam dessa região, atuiilmente miserá-
Esse abrigo parece ter ser\ido no início co- vel e quase que inteiramente desprovida de
mo um refúgio temporário, sendo o abasteci- caça, um local ideal para a instalação de gru-
mento de água garantido por um caldeirão de pos de economia extrativ ista e de tecnologia
cerca de 7 mil litros de capacidade que se en- simples.
contra no próprio sítio; subsequentemente ele .\ pesíjuisa está em fase de coleta de dados
passou a servir como um sítio cerimonial ca- visando um
estuda detalhado dos padrões de
racterizado pela prática intensiva da pintura, ocupação do espaço e dv manejo dos recur-
por um uso intermitente e pelo trabalho oca- sos naturais. O levantamento dos sítios ivupa-
sional de lascamento da pedra para obter fer- dos pelas populações pleistocênicas, a identi-
ramentas. fk-ação da função desses sítios, suas relações
Durante a fase cultural mais antiga. Pedra topográficas com do relevo e as
os acidtMitt>s
Furada, foram construídos grandes fogões cir- fontes de iígiia permitirão uma an;ilise da intor-
culares graças à utilização de blocos caídos, ar- relação entre o homem e o moio ambiente no
rumados de modo a circunscrever a fogueira. primeiro período da a\entura humana n.i
No interior desses fogões encontramos abun- região).

dante quantidade de carv ão. .\ indústria lítica .\s primeiras manifestações de ivgistix» ru-
se concentrava especialmente nas v izinhanças pestres eucontram-se em pedaços de paivde
desses fogões; os homens pré-lnstóricos lasca- caídos, uos quais se notam ainda leves mau-
AS OCIPAÇÕES PRK-IIISTÓKICAS DO BKASll 41

chas de pigmento vermelho (Pessis, 1987).


Carvões recolhidos em fogões descobertos na
mesma camada em que foram encontrados es-
ses blocos puderam ser datados; assim sabe-
mos que por volta de 32 mil anos atrás essas
populações já aplica\am pigmentos sobre as
paredes do abrigo. Um bloco, encontrado ao
lado de um fogão datado de 17 mil anos, mos-
trava duas retas paralelas de pintura \ ermelha,
sendo essa a primeira manifestação segura da
prática da arte rupestre na área.
As sondagens praticadas nos dois outros sí-

Toca do Sítio do Meio e Toca do


tios citados,
Caldeirão dos Rodrigues I, completam e con-
firmam essa seqiiência cronocultural. Um con-
junto de datas 14*^ situa cronologicamente
a
fase Pedra Furada. As datações obtidas na To-
ca do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada vão
de 14 mil até 48 mil AP.
No Sítio do Meio as datações corresponden-
tes à camadas do Pleistoceno vão de 12 mil
a 14 mil AP.
Uma data pleistocênica de 18600 anos AP
foi obtida graças a amostras obtidas em uma
pequena sondagem realizada na Toca do Cal-
deirão dos Rodrigues.
Considerando-se que até um metro abaixo
da camada datada de 48 mil anos ainda havia
material arqueológico, pode-se afirmar que a A
evolução da tecnologia lítica, a existên- Sítio Alice Boèr.
área arqueológica de São Raimundo Nonato cia de certos tipos de ferramentas que perdu- Pontas de flechas
foliáceas e com
foi ocupada pelo Homemdesde há cerca de ram desde as primeiras ocupações até o Ho-
pedúnculo
60 mil anos. Os primeiros grupos parecem ter loceno, a semelhança entre os tipos de fogões A ponta
(projéteis).
se instalado no sopé da cuesta, mas foram en- e a manutenção do mesmo modelo de ocupa- com pedúnculo
foi datada pelo
contrados vestígios de suas incursões no inte- ção de espaço intra-sítio fundamentam essa hi-
método do 14^ em
rior do sistema de canona do relevo interno do pótese. Não se \erificam mudanças bruscas, 14200 + 1150 anos.
maciço sedimentar. Na planície pré-cambriana que caracterizariam a chegada de um novo Os números (de 7
a 10) referem-se ao
aparecem vestígios de aldeias que podem ter grupo.
nível arqueológico
sido o habitat permanente desses povos. Em síntese pode-se admitir que, penetran- (7 corresponde
Os grupos pleistocênicos desenvolveram -se do no país por uma \ia ainda desconhecida, a 60,7 cm:
10 corresponde
muito lentamente, evoluindo in sitti, parecen- grupos humanos chegaram até o sudeste do
a 90,1 cm).
do não terem sido perturbados por invasões Piauí há cerca de 60 mil anos. O
de Minas sul
ou outras levas populacionais. Suas origens são Cerais estaria povoado por volta de 30 mil anos
completamente ignoradas e é urgente que uma atrás, e no Sul do Brasil grupos humanos es-
pesquisa em nível regional seja realizada, pa- tariam estabelecidos há pelo menos 15 mil
ra seobterem dados que permitam defnnr a anos. Deveremos encontrar sítios ainda mais
direção da migração dessas etnias que desco- antigos (jue os de São Raimundo Nonato nas
briram e colonizaram a área. Somente então regiões pelas quais entraram esses primeiros
poder-se-ào levantar hipóteses sobre as origens povoadores: Oeste, se optarmos por uma ori-
dos grupos humanos mais antigos. Segundo gem asiática, como parece indicar a indústria
uma das hipóteses de tral)alho (|ue orientam lítica dosdo Piauí, nuiito próxima das
sítios
nosso programa, esses grupos pleistocênicos de Choukoutien, sítio próxi-
australianas e da
são os mesmos ({uv perduraram na área até o mo a Pequim, ou Leste se escolhermos optar
im'cio do Iloloceno. como \ia de penetração o oceano .Vtlântico.
42 MisTORU ixí> i\nii>s \i> nKvsii

( AÇADORKS-Í OLKTORKS dada etnia a (piai em seguida declina e cede.


IH) HOIAHKNO em face da pressão de outro grupo, até então
minoritário e marginal.
Apesar da abundância de sítios conliecidos não
podemos propor unia síntese para o território
O HOLOCENO NO NORDESTE
nacional porc}nc os ilados disponí\eis são mui-
E NO PLANALTO CENTRAL
to tracionados. Ate hoje a maior parte das pu-
blicações sobre a arqueologia brasileira trata
Na área arqueológica de São Raimundo Nona-
to os sítios representativ os de ocupações mais
essencialmente de Mesmo sí-
sítios isolados.
recentes do que 12 mil anos AP são numerosos,
tios que se encontram em uma mesma região
principalmente os que se alinham dentro de
não são correlacionados. Não se pratica uma
uma faixa cronológica da ordem de 12 miJ-7 mil
iucjueologia de ilrea, essencial para que se pos-
anos AP. Isso demonstra o sucesso adaptativo
sa oferecer uma reconstituição coerente da
das primeiras populações que chegaram à re-
e\olução dos po\os pré-históricos e sua disper-
gião, colonizaram-na, adaptaram sua economia
são, dando origem às diferentes famílias indí-
e vida social às condições ambientais locais e
genas aqui encontradas pelo colonizador.
conseguiram explorar com sucesso todos os
As raras sínteses propostas pecam pela fal-
ecossistemas, criando um sistema de vida equi-
ta de crítica dos dados considerados para sua
librado e próspero, o que podemos notar pelo
rciíliziíção. Elas não flizem face aos problemas,
estudo da tecnologia, mas sobretudo das pin-
mas os ignoram efornecem ao leitor uma re-
turas rupestres dos grupos do Holoceno.
constituição que nada mais é do que uma
Um dos mais importantes sítios para o es-
construção literária, sem bases científicas. As-
tudo dessas populações, que correspondem à
sim temos reconstituições do clima baseadas
fase cultural Serra Talhada, foi a Toca do Bai-
em extrapolações de teorias antigas, definição
xão do Perna I, escavada durante os anos de
de tradições culturais, considerando parâme-
1987 e 1988. Uma sucessão de seis níveis mos-
tros limitados ao invés de contextos globais, a
tra uma ocupação humana contínua, tendo o
definição de indústrias líticas pelos tipos mais
sítio serv ido de acampamento de miuieira se-
bem trabalhados, bonitos e minoritários etc.
mipermanente desde há pelo menos cerca de
Essas deficiências são discutidas em recente
12 mil anos até 3500 anos atrás.
publicação (Guidon e Arnaud, 1991). Uma grande quantidade de fogões caracte-
Assim, somente podemos oferecer uma sé- rizava todos esses nív eis. No solo, junto a eles.
rie de informações, sem chegarmos a uma vi- existia grande quantidade de pedra lascada e
são geral do po\oamento holocênico do Brasil. de vestígios da caça cine aí foi assada: tatus,
No período de transição entre o Pleistoce- preás, mocós, aves. veados, roedores diversos.
no e o Holoceno, por volta de 12 mil anos atrás, Restos de frutos e de folhas demonstravam a
toda a América do Sul estava povoada, desde utilização de recursos vegetais: um fragmen-
o ponto mais setentrional até a Terra do Fogo. to de estipe de caule de carnaúba niostrxiu cjue
O número de sítios é importante e no Brasil, o grau de umidade deveria ter sido mais im-
a partir dessa época, dispomos de grande portante, pois atualmente não existem carnaú-
quantidade de informações e datações sobre bas no vale em (juestão; outra possível expli-
os grupos pré-históricos. cação seria cjue os homens pré-histórioi">s o
.\lguns autores dividem, sem entretanto in- trouxeram de outra área.
dicar quais os critérios adotados, os grupos do .\ indústria lítica, de boa tecnologia, apiv-

Holoceno em Arcaico (entre 12 mil e 8500/8 senta uma certa amplitude mortológica, com
mil anos AP) e Arcaico recente, que termina- tipos variados, demonstrando iiue os grupos
riaquando do aparecimento dos grupos agri- ocupantes do abrigo exerciam uma ativ idade
cultores e/ou ceramistas. Os resultados que ob- div ersificada no interior do mesma l^isc;is rt^
tivemos no sudeste do Piauí não nos permi- tocadas, raspadtnes de v ários tipt>s. lesmas, ta-
tem seguir essa divisão cronológica, pois desde ças, pontas, furacK>res, além de restos de las-

há cerca de 11 mil anos vários grupos ocupam canitMito (percutores, núcleos, lascas e trag-
a região. A hegemonia desses grupos varia no menttis). constituem o essencial da colt\\uv
tempo, o que resulta, momentos, em
em certos .\ tlescoberta mais importante teita nes.se
um número mais importante de sítios de uma sítio tóram dois painéis pintado.s, encontrados
\S OCUPAÇOKS PKl".-inSTORK:AS DO BKASII 43

cobertos pelas camadas arqueológicas; as fi- mesmo na fase Serra Talhada a quantidade de
guras mais baixas desses painéis estavam no trabalho investida no preparo das ferramentas
nível dos sedimentos da camada datada de líticas não é No que concerne ao
significativa.
— 10500 anos, o que que essas figu-
significa tamanho das peças observa-se que existe uma
ras foram pintadas no mínimo nessa época. tendência à diminuição quando se passa da fa-
Como é pouco plausível que os homens pré- se Pedra Furada para a fase Serra Talhada; na
históricos se deitassem no solo para pintar, po- tradição Agreste as peças líticas aumentam no-
demos de que essas figu-
levantar a hipótese vamente de tamanho. Na fase Serra Talhada di-
ras foram feitas pelos primeiros ocupantes do minui o número de fragmentos utilizados; o
abrigo, há 12 mil anos. Essa hipótese é supor- aumento da taxa de lascamento, por sua vez,
tada pelo fato de que sob a fogueira datada de e o fato de se ter encontrado matéria-prima
10 500 anos foi encontrada outra estrutura de exógena lascada dentro dos sítios indicariam
combustão, contendo carvões e restos de ocre que os mesmos teriam sido acampamentos de
da mesma cor das pinturas; pela espessura da uso mais prolongado do que durante o Pleis-
camada que as separava e considerando a ta- toceno.
xa média de deposição do sítio pode-se calcu- A quantidade de fogueiras grandes exis-
lar que a fogueira inferior teria uma idade de tentes no Pleistoceno diminui no Holoceno,
12 mil anos. As datações, em curso, testarão mantendo entretanto mesma forma com-
a hipótese. posição.
a e
I
Grande quantidade de pigmento vermelho A variedade tipológica é maior durante o
e restos de parede caída portando figuras pin- Holoceno: perduram os pehhle-tools e percu-
tadas demonstram a prática constante de ati- mas aparecem muitos tipos feitos sobre
tores,
vidades picturais. lascas: raspadores laterais e terminais, lesmas,

As camadas superiores da Toca do Boquei- lascas retocadas, facas, furadores, raclettes. As


rão do Sítio da Pedra Furada forneceram abun- peças típicas de Serra Talhada são sobretudo
dantes vestígios ligados a grupos que aí vive- as lesmas e um raspador lateral côncavo-con-
ram durante o Holoceno. Os registros gráficos vexo. Uma única ponta pedunculada, de cris-
e a indústria da pedra atingem o máximo da talde quartzo, bifacial, de uma excelente téc-
perfeição técnica e da diversificação por volta nica foi encontrada nas camadas de cerca de

de 9 mil-8 mil anos atrás. Os povos holocêni- 7500 anos AP (Guidon, Parenti e Pellerin,
cos utilizavam não somente as rochas locais co- 1990).
mo matéria-prima, mas iam também procurar Nessa fase de máximo desenvolvimento, por
em áreas vizinhas ou mesmo distantes o sílex volta de —8500/ — 8 mil anos, os fogões tor-
e a calcedônia, matérias extremamente favo- nam-se mais abundantes e sua estrutura, mais
ráveis ao trabalho do lascamento. Uma das fon- diversificada. Encontramos grande quantidade
tes de sílex para os povos Serra Talhada desse de ocre nesse nível, o (|ue indica que a práti-
sítio encontra-se no Serrote do Sansão, aflora- ca rupestre deve ter sido uma atividade im-
mento calcário situado a cerca de 2 km do portante durante esse período.
mesmo, mas outros tipos de sílex teriam sido Sondagens e coletas de superfície feitas em
coletados até à distância de 50 km. O sílex era mais de vinte sítios demonstram a expansão
levado para osítio com aspecto de uma pré- notável desses povos do Holoceno, a riqueza
forma de núcleo e existe uma evidente eco- e o equilíbrio dessa sociedade (|ue dominava,
nomia em sua utilização. praticamente só, toda a área. Algumas figuras
Todos os indícios convergem para o levan- desenhadas no interior dos painéis pintados
tamento da hipótese de (|ue os povos Serra Ta- por esses povos, de tradição Nordeste, mostram
lhada nada mais são do (|ue o resultado da evo- entretanto (jue já por volta de —10500 anos
lução iii situ dos grupos Pedra Furada; por es- outros povos ocupavai') os territórios v izinhos.
,sa razão os dois grupos sociais têm uma mesma O Holoceno corresponde |)ortant() ao imcio do
origem cultural que chamamos tradição Nor- aumento demográfico, o cjne possivt>Iinenti>
deste. O número relativo de lascas do comple- gerou os primeiros atritos interétiúcos e um
xo líticoaumenta progressivamente durante o aumento da pressão sobre os ecossistemas.
Pleistoceno, sendo moderadamente maior du- A base ecouônúca conlinuava sendo a ca-
rante o Holoceno. Apesar dessa tendência, ça, a coleta i' a pesca; as pinturas rupestres re-
44 msTOKlV IX>S IMllDS \H HK\slI

tratam com detalhes a e\olu(;ão sociocultural registros, as gra\ uras, pois já se dispõe de um
desses s;nipi)s durante pelo menos 6 mil anos, referencial gráfico claramente identificado e
o que constitui um tios mais longos e impor- associado aos outros dados arqueológicos.
tantes tirqui\os \ isuais sobre a Humanidade Existem abundantes vestígios da ati\ idade
disponúel, hoje, no mundo. gráfica do homem pré-histórico em todo o
C) mudado de maneira ra-
clima parece ter país, mas na região Nordeste eles aparecem
dical; os dados paleontológicos evidenciam a em maior número e são mais diversificados.
instalação do regime semi-árido e o desapa- Na área arqueológica de São Riiimundo No-
recimento dos grandes animais, sobretudo de nato esses registros foram estudados em um
animais que \ i\ iam em giupos. Atualmente es- conjunto de mais de duzentos sítios, o que per-
tão sendo feitas as aniílises em lal)oratório das mite que se chegue a conclusões seguras.
amostras coletadas, principalmente de pólen Os po\os das fases culturais Pedra Furada
ióssil, para poder identificar de maneira pre- e Serra Talhada, da tradição Nordeste, são os
cisa as mudanças na vegetação, que são em autores das pinturas rupestres que cobrem as
menor escala um excelente indicador das mu- paredes de um grande número de na
sítios

danças climáticas. área de São Raimundo Nonato, e também no


Pode-se entretanto supor que houve uma Seridó e nas proximidades da cidade de Passa
aridificação marcada, com modificação de e Fica (Rio Grande do Norte) (Pessis. 1990).
uma grande parte dos recursos naturais. Isso Elas são caracterizadas pela presença de gra-
teria tornado os ecossistemas mais frágeis e fismos reconhecíveis (figuras humanas, ani-
com pouca capacidade para suportar um ex- mais, plantas e objetos) e de grafismos puros,
trati\ismo intenso. os quais não podem ser identificados. Essas fi-
O fato de que durante o Holoceno outros guras são, muitas \ezes, dispostas de modo a
grupos ocuparam os espaços \izinhos à área representar ações, cujo tema é, às \ezes, re-
demonstra que a população do continente já conhecível (Pessis, 1987). Os grafismos que
era densa e que se espalhava por todo o terri- não representam elementos conhecidos do
tório sul-americano. A área não era mais uni- mundo sensíxel são nitidamente minoritários.
camente a terra dos po\os de tradição Nordes- As figuras humanas e animais aparecem em
te, já ha\ia uma "internacionalização" e, sem proporções iguais e são mais numerosas que
dúvida, usos e costumes sofreram modifica- as representações de objetos e de figiiras fito-
ções profundas em razão dessa coabitação. Os morfas. Algumas representações humanas são
padrões de ocupação do espaço e o manejo apresentadas rexestidas de atributos culturais,
dos recursos naturais se adaptaram às novas tais como enfeites de cabeça, objetos cerimo-

condições. O posicionamento de sítios dos po- niais nas mãos etc. As composições de grafis-
vos de tradição Nordeste e o imbricamento mos representando ações ligadas seja à \ida
com de etnias pertencentes a outras tra-
sítios de todos os dias, seja a cerimoniais são abun-
dições são uma fonte preciosa de dados para dantes e constituem a especificidade da tra-
o estudo desses novos padrões. dição Nordeste. Quatro temas principais apa-
O estudo dos registros gráficos rupestres se recem din-ante os 6 mil anos. atestados, de
desenvoKe conjuntamente com as pesquisas existência dessa tradição: dança, praticas se-
feitas em outras áreas da pré-história. Assim, xuais, caça e manifestações rituais em torno
todas as conclusões que podem ser obtidas e de uma ánore. São também fi-eqúentes as
as sínteses preliminares que são propostas re- composições gráficas representando ações
sultam de um trabalho conjunto, em que os identificá\eis mas cujo tema não podeinos re-
dados interdisciplinares servem para confirniiir conhecer; um exemplo desse c;u;o é uma cx^m-
ou refutar que são le\an-
as distintas hipóteses posição na c|ual \ árias figin-as human;is apart^
tadas a partir das análises dos painéis de pin- cem dispostas umas sobre os ombivs d;is ou-
tura. Até hoje os trabalhos de pesquisa se con- tras,formando uma pinimide humana, o que
centraram particularmente sobre os registros faz evocar uma representação acn^bática. Ou-

gráficos picturais, de\ ido ao \alor (jue os te- tro tipo de composição gráfica, que se acl\a
mas reconhecí\eis tinham para o trabalho de com fretiiiència eju todas as sul>tradiçòt"s da
antropologia pré-histórica. Mas dacjui para o tradição Nordeste, é dt^signada como com^w
futuro as pesíjuisas \ão se orientar para outros siçiui emblemática. Trata-se de tig\u-;is dispo<-
AS OCUPAÇÕES PRÉ-IIISTÓRICAS DO BUASII 45

tasde maneira típica, com posturas e gestos


de pouca complexidade gráfica mas que se re-
petem sistematicamente. Uma das composi-
ções emblemáticas dessa tradição representa
duas figuras humanas colocadas costas contra
costas e frequentemente acompanhadas de um
grafismo não reconhecível.
Essa tradição revela uma pintura figurativa
mas não realista; a maioria das figuras é reco-
nhecível mas representada segundo um códi-
go gráfico convencional muito afastado da rea-
lidade natural (Pessis, 1987). Ela associa a pin-
tura figurativa a um tipo de representações
gráficas — grafismos puros — que são as uni-
dades de um código do qual somente os auto-
respossuíam a chave. Ela existe em outros es-
tados do Nordeste onde foi datada de 9 mil
anos AP (Martin Ávila, 1988), chegando, no es-
tado do Rio Grande do Norte, até a 50 km do
mar. Já foram descritos sítios com pinturas
apresentando as características da tradição
Nordeste em Minas Gerais, Goiás e Mato Gros-
so,mas seu foco de origem parece ser a área
de São Raimundo Nonato, particularmente em
razão de sua antigiiidade, do número de sítios
e da diversificação estilística.
Graças à abundância de sítios e à sua larga
distribuição espacial e temporal pudemos clas-

sificá-la em subtradições e Atualmen-


estilos.

te conhecemos a subtradição Várzea Grande,


no sudeste do Piauí (Guidon, 1984) e a sub-
tradição Seridó, no Rio Grande do Norte (Mar-
tin Ávila, 1988).

A subtradição Várzea Grande, a mais bem


estudada e representada, está dividida em es-
tilos que se sucedem no tempo: Serra da Ca-
pivara, o mais antigo, complexo estilístico Ser-
ra Talhada e Serra Branca, estilo final dessa
subtradição na área de São Raimundo Nonato.
O estilo Serra da Capivara apresenta figu-
ras cujos contornos são completamente fecha-
dos, desenhados por traços contínuos e uma
boa técnica gráfica. Na maioria das vezes, so-
bretudo (juando o tamanho o permite, as fi- Sítio Alice Boèr,
guras são pintadas inteiramente com tinta li- camada III, nível 8

sa.As representações humanas são pequenas, (70 a 80 cm).


Raspador "lesma'
geralmente menores (|ue as figuras animais.
tamanho natural.
Estas liltinias são em geral colocadas em um
local visível e dominam o conjunto das com- ou por traçados geométricos cuidadosamente
posições; a cor mais utilizada é o xcrinciho. executados. Freciíientemeute os animais são
O estilo Serra Branca apresenta figuras hu- desenhados por uma linha de contorno abiM-
manas com uma forma nuiito particular do ta; alguns têm o corpo preenchido por tinta

corpo, o (|ual loi decorado por linhas vcrtic-ais lisa, mas a maioria apresenta um picenelii-
46 HisTOKi V nos i\nios \o hkxsii

mento geométrico semelhante àquele dos se- gos das três tradições acima citadas mostram
res humanos. que outros grupos atravessavam de maneira es-
O complexo estilístico Serra TaUuuUi é mui- porádica a região: são os grupos responsáveis
to mais iieterogèneo e possui diversas carac- pelas manifestações gráficas da tradição Geo-
terísticas classificatórias que nem sempre es- métrica. Outra hipótese plausível é que as ma-
tão presentes em todos os sítios pertencentes nifestações rupestres das tradições Itacoatia-
à classe, mas quando uma falta outra está re- ras de Leste e Geométrica, ligadas a indústrias
presentada. A classe se caracteriza pelas sé- de técnica semelhante, mesmo se existem di-
ries de figuras humanas dispostas em linha e ferenças moríológicas entre os tipos presen-
a utilização de \ árias cores (vermelho, bran- tes, são o testemunho de situações distintas na
ca cinza, marrom, amarelo), sendo comuns as \ ida de uma única sociedade. Nesse caso as
tiguras bicromáticas ou tricromáticas. Apare- diferenças verificadas no complexo técnico se-
cem também figuras com características grá- riam o resultado de diferenças funcionais en-
ficas muito peculiares, por exemplo figuras hu- tre os sítios. Somente a realização de escava-
manas que apresentam as extremidades exa- ções extensivas poderá testar essas hipóteses.
geradamente compridas; abundam também as A fase cultural Agreste tem uma indústria
figinas extremamente pequenas. A técnica de lítica de má qualidade técnica; o sílex deixa
pintura do corpo das figuras se diferencia: de ser tão abundante e volta-se a utilizar em
iilém da tinta lisa e dos traçados gráficos com- grande escala, os seixos de quartzo e de quart-
plexos aparecem outros tipos tais como pon- zito que se encontram facilmente em tomo dos

tos ou zonas reservadas. sítios. O retoque é raro e de má qualidade; pre-


Os dados atualmente disponíveis permiti- dominam as ferramentas de tipo chopper e
ram propor uma explicação segundo a qual es- chopping-tools e as lascas sem retoques; os ras-

sa sucessão de estilos não representa diferen- padores laterais completam a coleção.


tes unidades estilísticas perfeitamente distin- Pessis (1990) fornece uma descrição das
tas e segregáveis, mas sim reflete uma evolução pinturas dessa fase:
lenta e contínua que durante cerca de 6 mil "Os povos de tradição Agreste deixaram
anos introduziu micromodificações no estilo inúmeros testemunhos giilficos Uiis paredes ro-
básico Serra da Capivara. Isso levou a um de- chosas dos abrigos do Nordeste. Essa tradição
senvolvimento contínuo da subtradição Vár- de pintura se caracteriza pela predominância
zea Grande, sendo o complexo Serra Talhada de grafismos reconhecíveis, piu-ticularmente
resultado desse processo evolutivo que acumu- da classe das figuras humanas, sendo raros os
lou microdiferenças, as quais redundaram no animais. Nunca aparecem representações de
estilo final, Serra Branca (Pessis, 1987). objetos, nem de figuras titomorfas. Os gnifis-
Talvez em razão da diminuição dos recur- mos representando ações são raros e retratam
sos naturais, e pressionados por povos que unicamente caçadas. .\o contrário da tradição
mesmo tendo uma tecnologia e uma prática Nordeste as figuras são representadas parad.is:
rupestre menos perfeitas dominavam a arte da não há nem mov imento nem dinamismo. Os
guerra, os povos de tradição Nordeste abando- grafismos puros, minto mais abundantes cjue
naram a área. Por volta de —6 mil anos desa- na tradição Nordeste, apresentam uma morfo-
parecem todos os vestígios desses hábeis ar- logia bem diferente e diversificada.
tesãos pré-históricos. Em seu lugar, podemos Com freqiiència as figuras Agf\'Af<" toauii
propor como uma hipótese, dominam agora realizadas no interior de painéis Nonicste. o
vários grupos, acantonados dentro de limites (jue dificultou os trabalhos an;ilíticos na segit^
definidos: nas serras, nas antigas posses dos po- gação das tradições. E também muito comum
vos Nordeste, situam-se os povos de tradição achar os grafismos desta tradição super^iostos
Agreste; na planície pré-cambriana encontra- a grafismos lU^ outras trailiç«.Vs. C) estiuU> deste
mos manifestações de um povo ligado a uma procedimento de supeiposiçào permitiu iden-
tradição que tem uma vasta distribuição geo- tificar a existência de um critério de e.scollui

gráfica em todo o Nordeste: a tradição Uacoa- do espaço pictorial que e próprio da tradição
tiarasde Leste; este último parece ter aí se ins- A^vste quando ela partilha um espaço mate-
talado desde há mais tempo, taKez cerca de rial com a tracliçào \onlt'stt\ \ técnica de dt^

8 mil anos. Algumas figuras pintadas em abri- senho e de pintura e de ma qualidade, os di^
AS OCIFAÇÕES PKÉ-IIISTÓKICAS DO BKASIl

senhos são canhestros e não permitem, na extremamente escura. A observação desse pai-
maioria dos casos, a identificação das espécies nel coberto pelos sedimentos mostra que as
animais. O tratamento da figura é Hmitado e figuras Nordeste são de tamanlio pequeno, pró-

de péssima feição. prio das figuras humanas do estilo mais anti-


A repartição espacial da tradição Agreste é, go da tradição {Serra da Capivara). Em outros
grosso modo, a mesma da tradição \ordeste. sítios Nordeste, com figuras apresentando ca-

Entretanto há regiões do norte e do centro do racterísticas estilísticas mais próximas ao es-


Piauí e do sudoeste de Pernambuco (Aguiar, tilo final. Serra Branca, as figuras da tradição

1982) onde aparecem sítios com pinturas de Nordeste são maiores, e as de Agreste que apa-
tradição Agreste e onde nunca se encontram recem nos mesmos sítios são ainda maiores,
pinturas Nordeste. Trata-se de uma tradição com um preenchimento sempre em vermelho
gráfica que tem sido ainda pouco estudada, em muito escuro, e com características técnicas
particular nesta região, devido ao escasso ca- cada vez menos cuidadas. Portanto pode-se
ráter narrativo das composições gráficas com- afirmar que ao maior tamanho de figuras Nor-
paradas às da tradição Nordeste. Este fator deste corresponde maior tamanho de desenhos Sítio arqueológico
Xique-Xique I,
constitui um traço dé grande importância pa- Agreste. Este fenómeno se constata unicamen-
localizado em
ra as reconstituições pré-históricas. te para a área arqueológica de São Raimundo
Carnaúba dos
Na área arqueológica de São Raimundo No- Nonato". Dantas, RN.

nato, a tradição Agreste apresenta diversidades


estilísticas manifestas que levaram, numa pri-

meira instância analítica, à proposição de sub-


classes para esta região. Os estudos sobre esta
tradição são porém ainda pouco desenvolvi-
dos para que se possa ser mais preciso. Pode-
mos entretanto afirmar a existência de duas
modalidades estilísticas que variam tanto na
técnica utilizada como nas temáticas grafica-
mente representadas. Uma classe incluiria as
pinturas cujas características são as típicas da
de maneira grosseira, de grande
classe, feitas
tamanho, sem preocupação com a delineação
da figura, e com um preenchimento realizado
de maneira negligente mas cobrindo exten-
sas superfícies. Outra modalidade da tradição
Agre.ste que poderia constituir outra classe in-
cluiria as figuras que são de menor tamanho
— mas sempre maiores que as da tradição
Nordeate —
feitas com maior cuidado, com um
,

preenchimento mais controlado e cuja tinta es-


correu menos. Esta última, segundo os dados
disponíveis, seria a mais antiga.
Porém as manifestações gráficas de Agres-
te coexistem com Nordeste no mínimo desde

há —10 mil anos. A evolução destas duas tra-


dições apresenta algumas similitudes. No pai-
nel enterrado, achado no sítio Toca do Perna
I, existem certas figuras hinnanas (|ue apresen-
a.
tam uma morfologia (}ue contrasta, nitidamen-
te, com as figuras humanas próprias de Nor-
deste. São de maior tamanho, e estão realiza-
das com uma técnica de realização diferente
das de Nordeste. O preenchimento é muito
abundante e de uma tonalidade de vtMinelho
48 msTORiv oos ixnms \i) musii

Não se conhece até agora o toco de origem Leste temos resultados de prospecções e son-
da tradição. No sudeste do estado do Piauí ela dagens que demonstram que ela está ligada a
se encontra associada a unia indústria lítica povos caçadores-coletores. Itaeoatiaras de Les-
mais grosseira, de técnica pouco aprimorada te é uma tradição típica de todo o Nordeste
e que utiliza como matéria-prima, principal- brasileiro e seus painéis ornam as margens e
mente, quartzo e quartzito. Mas essa indústria leitos rochosos de rios e riachos do sertão, mar-
lítica é posterior à dos povos autores da tradi- cando cachoeiras ou pontos nos quais a água
ção \onicste. Isso significa que existe uma tec- persiste mesmo durante a época da seca.
nologia lítica própria de um dos grupos esti- Em síntese pode-se afirmar que o estudo
lísticos identificados dentro da tradição Agres- dos registros gráficos rupestres confirma a evo-
te, mas para o outro, o mais antigo, não foi lução demonstrada pelo estudo da indústria
identificada nenhuma técnica lítica caracte- lítica e permite que se conheçam detalhes da
rística. vida material e cerimonial dos grupos pré-
Na zona de São Raimundo Nonato a tradi- históricos em questão. As primeiras manifes-
ção Agreste é periférica e suas manifestações tações gráficas abundantes, reconhecíveis e da-
são limitadas entre 10 500 e 6 mil anos (Cui- tadas (12 mil anos), pertencem à tradição \or-
dou, 1989); com o desaparecimento dos po- deste, e mostram uma arte muito narrativu, lú-
vos de tradição \ordeste ela se torna dominan- dica, que trata de temas ligados seja à v ida de
te e passa a ocupar a zona nuclear por volta todos os dias, seja a ativ idades rituais. É uma
de — 5 mil anos. Parece ter desaparecido en- arte alegre e liv re. A medida que o grupo evo-
tre 4 mil e 3 mil anos AP. lui,modifica sua tecnologia, seu padrão de
Até hoje não foi realizada nenhuma esca- ocupação do espaço e, quando a densidade de
vação, unicamente algumas sondagens, em sí- população aumenta, vemos mudar as caracte-
tios pertencentes às outras tradições de regis- rísticas das manifestações gráficas, que se tor-
tros gráficos da área de São Raimundo Nona- nam cada vez mais formais, mais ricas, mais
to. Desse modo pouco se pode adiantar sobre minuciosamente trabalhadas, dominando de
o complexo arqueológico ao qual elas perten- maneira perfeita as técnicas de desenho e de
ceriam. Pessis (1990) fornece uma descrição pintura.
sumária: Quando os povos da tradição Nordeste atin-
"A tradição Geométrica é caracterizada por gem seu apogeu tecnológico, suas representa-
pinturas que representam uma maioria de gra- ções gráficas apresentam as primeiras ceniis
fismos puros e algumas mãos, pés, figuras hu- de violência: execuções, lutas individuais e ba-
manas e de répteis extremamente simples e talhas coletivas; as cenas sexuais inicialmente
esquematizadas. Esta tradição de pintura, se- simples e envolv endo duas ou três pessoas se
gundo informações ainda pouco abundantes, transformam também: grupos numerosos de
pareceria ser originária do nordeste do estado indivíduos de ambos os sexos praticiuu con-
do Piauí. É na serra de Ibiapaba, limite com juntamente atividades sexuais. As ações de ca-
o Ceará, onde existe a maior concentração até ça, que representavam a caça indiv idual de pe-
agora conhecida. O Parque Nacional de Sete quenos animais, passam a representar caças
Cidades é portador de sítios com pinturas per- coletivas com inúmeros guerreiros atacando
tencentes a esta tradição de pinturas. Na área animais perigosos, como a onça (Pessis, 19871
de São Raimundo Nonato, esta tradição apa- Quando a técnica lítica muda, por volta de —6
rece isolada em um único sítio na planície pré- mil/ —5 muda também: torna-
mil anos. a arte
cambriana, mas aparece também como intru- se pobre, de técnica imperfeita, representan-
são gráfica em outros sítios, pois alguns gra- do algumas figuras animais e humanas sem
fismos foram feitos sobre painéis em sítios das movimenta rígidas. Termina Wmieste e ci>nu^
tradições \ordeste e Agreste. Ainda não se dis- ça o apogeu da tradição -AgnvNfr. ela tamlnMU
põe de dados suficientes para poder inserir es- muito conuun no Nordeste do Bnisil.
ta tradição de pintura num contexto de natu- Alguns autores, entre os iiuais Schmit/
reza cultural. E necessário que estas pesqui- (1987), atribuem a uma cluunada tradição Ita-
sas sejam realizadas nas áreas que aparente- pariea um conjunto de indústrias htic;is situa-
mente seriam seu foco de origem". das cronoIi>gicanuMite entiv 11 núl e 85lXÍ anos
Para a tradição de gravuras Itaeoatiaras de AP e ijue têm uma vasta vlistribuição es{XUMaI,
AS OCUPAÇÕES PKÉ-inSTÓRIOAS DO BHASII 49

Segundo Schmitz (op. cit.), "é caracterizada dunculadas em cristal de rocha e machados
por uma economia caçadora-coletora genera- lascados com a borda polida".
lizada que explorava nichos variados. Em um Entre 8500 e 6500 anos se situaria, segun-
extremo está o cerrado, a caatinga ou a sava- do Schmitz (op. cit.), o período de transição.
na; no outro extremo está a floresta. Tipos de Durante essa época teria aumentado o consu-
vegetação intermediários e transicionais in- mo de frutos e de moluscos terrestres, tendo
cluem o semideserto ('agreste') e o cerrado "declinado a caça generalizada. Simultanea-
denso. Foram encontradas ocupações huma- mente, os instrumentos bem constituídos do
nas em cavernas ou abrigos em Minas Gerais, período anterior foram substituídos por imple-
Goiás, Pernambuco e Piauí e em topos de co- mentos menores e menos elaborados produ-
linas em Goiás, Bahia e Pernambuco. Alguns zidos por uma técnica diferente. Conchas e os-
sítios parecem permanentes, como no sudoes- sos se tornam matérias-primas importantes. Sí-
te e no centro de Goiás, onde os recursos de- tios abertos não eram ocupados em Goiás,

vem ter sido abundantes, mas a maioria eram embora seu uso continuasse em Pernambuco
acampamentos temporários". e na Bahia" (Schmitz, 1980).
Segundo esse autor os mais importantes e Segundo o mesmo autor essa situação se re-
frequentes tipos líticos da tradição Itaparica pete em Minas Gerais (Prous, 1981b; Prous et
são as lascas, raspadores, furadores, facas, chop- alii, 1984; Dias, 1981c). Pontas foliáceas bifa-
pers e percutores. As pontas de projéteis são em quartzo cristalino, aparecem em Per-
ciais,

muito raras. nambuco, mas em pequena escala, ao contrá-


Prous (1986) trata de um horizonte antigo, rio do que acontece em São Paulo e Minas

às vezes denominado paleoíndio, que no pla- Gerais.


nalto Central e no Nordeste se caracterizaria Prous (1986) classifica como Arcaico mais
pelo retoque unifacial de lascas de quartzito, recente o período após 7 mil anos, e o carac-
cristal de rocha ou sílex visando a obtenção teriza pelo abandono quase total do retoque
de "artefatos rústicos plano-convexos: raspa- da pedra, utilizada então sob a forma de las-
dores carenados, lesmas [...]. Perto de Lagoa cas brutas. Aparece uma indústria que usa
Santa já se encontram pontas de projétil pe- conchas como matéria-prima e constrói caba-

Raspadores
longos,
característicos da
tradição Itaparica,
de populações que
ocupavam áreas
de cerrado no
centro do Brasil,
entre 9 mil e
6500 anos.
50 msTOKiv oos ivmos \c> hiumi

Ibicuí: artetatos pouco elaborados a partir de


núcleos de basalto e de plaquetas de arenito
metamóriíco e que mostram traços de uso. Es-
se material apareceu associado à megafauna
fóssil. Datações 14* situam cronologicamen-
te essa fase: 12 700-12 690 anos AP.
Peíjuenas pontas de projétil pedunculadas
e aitefatos lascados e retocados (facas bifaciais.
raspadores terminais e laterais e bifaces lan-
ceoladas) encontrados em dezesseis sítios lo-
calizados na barranca do rio Uruguai consti-
tuem a fase Uruguai, com datações 14' que
vão de 555 a 8640 anos AP.
11

Entre 8500 e 6500 anos AP existiriam al-

guns sítios em Santa Catarina e no Rio Gran-


de do Sul (Rohr, 1966; Miller, 1969a; Schmitz.
1985) com equipamento lítico diferenciado do
Restos de cinco nas. Segundo esse autor, por \olta de 4 mil anterior. \o Paraná, Chm>7: (1978; 1979; 1980;
indivíduos da raça anos .\P o milho já era cultivado. Em Minas 1981a, b; 1982) estabeleceu a fase Vinitu com
de Lagoa Santa.
Cemitério de
Gerais nessa época existiriam duas tradições um complexo lítico composto de lascas, facas,

Santana do Riacho de pinturas: a \ordeste (com as mesmas ca- raspadores, plainas, machadinhas, bifaces e
(entre 8000 e racterísticas com que aparece no Piauí) e a Pla- pontas de flecha foliáceas ou pedunculadas.
8500 AP). Os corpos
nnais recentes
nalto. Esta última é ciu"acterizada por "um pre- Entre -6500 e -2000 anos, de São Paulo
perturbaram os domínio de animais monocromáticos, geral- ao Rio Grande do Sul, aparece a tradição que
enterramentos mente cerNÍdeos, e menos frequentemente alguns autores chamam de Humaita (Schmitz.
mais antigos.
peixes, pássaros, tatus e tamanduás, cuja fre- 1987), caracterizada pela ausência de pontas
quência varia segundo as regiões e os pe- de flecha e por uma indústria composta de bi-
ríodos". faces, cJioppers e chopping-tooh. griuides picks,
Algumas pinturas teriam mais de 7 mil raspadores, furadores, ferramentas pontiagu-
anos. Ao fim desse período apareceria no \ ale das e lascas. Os sítios são geralmente ao ar li-

do rio São Francisco uma tradição de pintu- \Te, nas barrancas de grandes rios e seus tri-

ras de mesmo nome (que nos parece aparen- butários, raramente em abrigos. A existência
tada à tradição Geométrica do Piauí) na qual em alguns sítios Humaitá de zoólitos (Ribeiro
"os seres \ i\os estão quase completamente au- etalii, 1977), esculturas em forma de animais,

sentes, ao mesmo tempo que os signos geo- normalmente encontradas nos sambaquis da
métricos mono ou policromáticos recobrem a costa sul, fez com que iilgims autores presu-
parte inferior dos abrigos. Essa tradição se pro- missem que ha\ ia contato entre os po\os Hu-
longa até o período ceramista, no curso da qual maitá e os habitantes litorâneos. Sítios do rio
os signos se tornam espetaculares". Paranapanema (Morais, 1983. Xiiilou. 19S3-4)
Uma tendência é portanto nítida: a uma in- pertenceriam (Schmitz. 1987) a essa tradição
dústria lítica de bela técnica, uso maior do re- de caçadores-coletores das florestas twpicais
toque e com grande variedade tipológica su- úmidas. Em algims sítios Humaitá apiuvivm
cede um complexo técnico menos a\ançado gra\uras rupestres (Brochado e Schmit/.
tecnicamente e mais restrito. 1976). .\s datas obtidas para essa tradição \ão
de 7020 a 1920 anos AP.
O HOLOCENO NO SUL Ocupando tiunbém t>s estados do Sul. a tra-
^ Nos estados do Sul a tradição mais antiga (en-
tre 13 mil e 8500 anos .\P) é a que Miller
dição l'mhu. representada em cerca de iiua-
trocentos sítios, é earacteri/adu pela presen-
(1976a, b) definiu graças aos trabalhos cjue de- ça de pontas de projéteis. Em algvnnas ártMs

^^W semolveu na bacia do


rial lítico
rio Uruguai.
mostra duas tendências, definidas co-
C) mate- ela tli\itle o
tá. Seus
territiMÍi>

sítios, ao ar
com
li\rt^
a tradição llunuii-
ou em ahrigi^s, a^xi-
'<<í f mo fases pelo autor Em dois sítios ele encon- recem nas bordas do planalta mas tamlvm
trou material lítico que catalogou como fase nos cerrito.s, ele\ações artificiais construídas
AS OCUPAÇÕES PKK-IIISTÓKIC.AS DO BKASII. 51

na planície. Praticavam a caça de pequenos e na borda de mangues ou lagunas. Em vez de


médios animais, coletavam tartarugas e frutos moluscos marinhos teria havido maior utiliza-
(Schorr, 1975; Schmitz, 1976). No estado de ção de peixes, mamíferos, vegetais e moluscos
São Paulo, em sítios atribuídos por alguns au- de água doce. Alguns autores aventaram a hi-
tores (Schmitz, 1987) a essa tradição, foram en- pótese de que essa tradição teria uma agricul-
contrados fogões associados com lascamento tura incipiente (Turner e Machado, 1983). A
de pedra e sepultamentos (Pallestrini, 1975, tradição Itaipu iria de —4 mil até —1475 anos
1977; Pallestrini et alii, 1981-2; Morais, 1979, (Perota, 1971, 1974; Car\alho, 1984; Dias,
1983; Caldarelli, 1983). Essa atribuição não é 1976-7, 1981a; Dias e Carvalho, 1983; Macha-
aceita por todos,sendo proposta uma filiação do, 1983).
com de Minas Gerais, também por-
os grupos
tadores de pontas. O complexo lítico é com-
AGRICULTORES E/OU CERAMISTAS
posto por machados, bolas, lascas, raras lâmi- Não existem no país trabalhos direcionados es-
nas, facas bifaciais, raspadores, buris, bifaces pecialmente ao estudo do aparecimento da
e as pontas de flecha, triangulares ou foliáceas. agricultura. Essa informação é sempre aces-
Gravuras rupestres do Rio Grande do Sul es- sória.Na área arqueológica de São Raimundo
tariam ligadas a essa tradição (Brochado e Nonato, os primeiros indícios de cultivo de
Schmitz, 1976; Schmitz e Brochado, 1982; Ri- amendoim, feijão e cabaça foram datados pe-
beiro, 1978). Umbu, segundo alguns autores, lo 14' em 2090 anos AP. Em Minas Gerais
poderia ter derivado da fase Uruguai. As da- (Dias, 1981c; Prous, 1981b) o aparecimento de
tas disponíveis situam a tradição entre 5950 plantas cultivadas seria mais antigo, entre —4 Ao lado:
e 290 anos AP. mil e —3500 anos. Artefatos típicos da
tradição Humaitá,
O HOLOCENO NO LITORAL de populações que
ocupavam as
Os sítios mais conhecidos do litoral são os sam- matas ao longo
baquis, colinas formadas por conchas de mo- dos rios Uruguai e
Paraná (6000
luscos que foram consumidos por populações a.C— 1000 d.C).
pré-históricas.Os sambaquis existem desde o Abaixo:
do Nordeste (onde são raros) até o Rio
litoral Pontas de projéteis
típicos da tradição
Grande do Sul. Neles são encontrados sepul- Umbu, de
tamentos, restos de comida, uma indústria lí- populações que
tica lascada rudimentar, peças líticas polidas, ocupavam áreas
mais abertas do
além de uma abundante indústria sobre ossos, Sul do Brasil e do
dentes e conchas. No litoral sul, de Cananéia Uruguai (9000
até Torres, aparecem esculturas zoomórficas, a.C— 1000 d.C).
os zoólitos (Prous e Piazza, 1977).
Em razão da subida do nível do mar, nos
últimos 6 mil anos, os sambaquis mais antigos
estão sob as águas; somente subsistem os sí-

tiosde menos de 6 mil anos. A bibliografia so-


bre esses sítios é abundante (líurt, 1974, 1980,
1983; Prous, 1976; Prous e Piazza, 1977; Gar-
cia, 1972; Rauth, 1967-8; Fairbridge, 1976;
Hurt e Blasi, 1960; Bigarella, 1950-1; Beck,
1969; Beltrão et alii, 1978; Bryan, 1977; Em-
peraire e Laming, 1956; (iarica e Uchoa,
1980).
Gontemporaneamente à formação dos sam-
ocupada pela tradição Itai-
ba(iuis, a costa é
pu, (jue se diferenciaria
da cultura dos sam-
bacjuis pela tecnologia,
padrões de subsistên-
cia e de enterramento. Os sítios se situam iiViH|iin[nii|[íí(|iiii|iiii|iiii|nii|íiii|iiii|iiii|iiii|iiij^^

sobre dunas ou ficam mais afastados da costa.


mSTOKU IHVS l\OU)S NO BK\M1

\a síntese mais recente sobre a pré-história ção Tupi-guarani, mas essa classificação me-
do Brasil (Prous, 19S6), o aparecimento da ce- rece uma revisão.
râmica, tora da região ama/.ònica, é conside- E necessário que o conjunto das tradições
rado recente (as mais antigas são sitnadas en- ceramistas seja reconsiderado para que se pos-
tre —3 mil e —2
mil). As \ariá\eis classiíica- sam estabelecer relações \ álidas entre esses

tórias são mal definidas e não hierarquizadas povos e os grupos indígenas encontrados pe-
e as fases propostas não parecem correspon- los colonizadores. C. A. de Oliveira (1990) faz
der a uma realidade étnica. uma excelente crítica e propõe novos rumos
Segundo Prous (op. cit.) no Snl do país a ao estudo da cerâmica no país, fornecendo
cerâmica teria aparecido nos cerritos, no iní- também ampla bibliografia.
cio de nossa era, constituiria a tradição
Taquara-ltararé, associada às casas subterrâ-
CONCLUSÕES
neas e às construções funerárias, e praticaria O Brasil foi, portanto, colonizado desde épo-
a agricultura. Xo centro do país a tradição Vna cas bastante remotas. Todo o país já estava ocu-
teria aparecido desde antes de nossa era. Ela pado desde há 12 mil anos. A população era
é encontrada em abrigos e praticava uma agri- densa, pelo menos na região Nordeste, a par-
cultura \ ariada. O mesmo autor afirma que a tir de 8 mil anos.
partir de 500 anos AF teriam aparecido tradi- A agricultura apareceu entre —4 mil e — 3
ções tardias que não teriam eliminado os gru- mil, sendo praticada em todo o território na-
pos "tradicionais"; essas tradições seriam a cional desde — 2 mil anos, mesmo que de uma
Tupi-guaraiú, que "ocupa as florestas de gale- maneira restrita.

ria dos baixos vales do sul do Brasil e do Para- A técnica de fabricação de vasilhas em ce-
guai e em seguida se estende, depois de 900 râmica, fora da Amazónia, parece ter sido cor-
AP, ao longo do litoral brasileiro e até o rio da rente a partir de —3 menos na
mil anos, pelo
Prata ao sul". área arqueológica de São Raimundo Nonata
Sempre segundo Prous, nos cerrados do no Piauí.
Brasil central teria aparecido a tradição Aratu- Durante todo o Holoceno, grandes famílias
Sapucaí, a qual teria atingido, às vezes, o lito- lingiiísticas deviam dominar \ astas áreas, mas

ral, onde se chocou com a tradição Tupi- as guerras intertribais que imtecedenun a che-
guarani. gada do colonizador branco embiu^alharam a
Na área arqueológica de São Raimundo No- situação, tornando difícil o correlacionamen-
nato uma datação de 3320 anos AP está asso- to entre as culturas pré-históricas e as tribos
ciada auma cerâmica de técnica aprimorada: indígenas da época do contato.
paredes finas, pasta bem cozida, decorações Um projeto de âmbito naciouiil deveria ser
variadas (plásticas e pintadas). Cerâmicas da criado para pesquisar, de modo intensivo e es-
região, datadas entre 1600 e 1200 anos, foram truturado, as origens pré-históriciLs dos grupos
atribuídas (Meggers e Maranca, 1980) à tradi- indígenas brasileiros.
ARQUEOLOGIA AMAZÒNICA

Anna Curtenius Roosevelt

Tradução: John Manuel Monteiro

Amazónia tem sido há muito tempo fo- isotópica das amostras biológicas pré-histó-
um

A
co de debate a respeito do impac- ricas permite datações precisas e fornece in-

to do ambiente úmido tropical sobre formações quantitativas sobre o modo de sub-


o desenvolvimento das culturas indí- sistência e o meio ambiente antigos. A análise
genas. Muitos vêem a Amazónia como um am- osteológica dos refugos humanos gera infor-
biente pobre para o homem, um "falso paraí- mações sobre padrões de dieta, saúde e ativi-

so" que inibiu o crescimento populacional e dade. O estudo dos artefatos revela significa-
o desenvolvimento cultural, em comparação tivos padrões tecnológicos, iconográficos e es-
com as áreas áridas montanhosas e costeiras tilísticos. Estes estudos têm fornecido novas
do oeste da América do Sul. Do mesmo mo- informações importantes sobre as caracterís-
do, suas culturas pré-históricas têm sido asso- ticas das seqiiências culturais e das ocupações
ciadas a influências, migrações e invasões pro- na Amazónia indígena.
venientes do exterior. Apenas raramente a Os novos trabalhos oferecem evidências de
Amazónia é como um ambiente rico pa-
vista uma longa e substancial seqiiência de desen-
ra a adaptação humana e fonte de inovação e volvimento indígena na Amazónia, muito mais
difusão de cultura pré-histórica. Não é fácil es- complexa, e menos produto de influências
tabelecer qual o ponto de vista mais correto, externas, do que se pensava. Isto sugere, ao
dada a parcimónia de informação arqueológi- que
contrário das interiDretaçóes precedentes,
ca básica. as terras baixasda Grande Amazónia podem
Uma nova visão da pré-história amazónica ter sido ocupadas muito cedo, sendo o lugar
começa a emergir do trabalho de campo re- de origem de alguns importantes desenvolvi-
cente e da reavaliação do trabalho de campo mentos culturais para as Américas. A sequên-
anterior. As novas pesquisas revelam imi rico cia preliminar abrange, em primeiro lugar,
patrimônio arqueológico, mais bem presena- a difusão da ocupação de caçadores-coletores
do e mais substancial do que antes se imagi- nómades, tanto nas várzeas (juanto em áreas
nava. Para a exploração deste património, têm mais altas, no final do Pleistoceno; em segui-
sido transpostas fronteiras disciplinares, uma da, algumas das primeiras manifestações de
ve/ (jue muitas questões arqueológicas reíjue- ocupação sedentária, horticultura e cerâmi-
reni resjjostas das áreas das ciências biológi- ca do Novo Mundo, nas várzeas, durante o
O scnsoriamento
cas, ge()(juímicas e geofísicas. Iloloceno; e, finalmente, as sociedadt^s indí-
remoto produz informações sobre o arranjo de genas de tamanho e complexidade cultural
sítios V as escavações estratigráficas re\(>lam consideráveis no período pré-hist()ric<) tardio.
estruturas e construções; o cuidadoso penei- \a culnunância da ocupaçãt) pré-hist(')rica,
ranicnto do solo traz à tona uma abundância entre os séculos \' e W , a densidade da po-
de obietos diversos. \ análise laxionómica e puhição nativa atingiu uma magnitu(l(> não
54 IIISU^KU 1H>S INOIOS \l) UlxVSll

^ reconhooida aiittMionnonto. A maior parte da


extensão das \ ár/eas dos principais rios pare-
ce ter estado repleta de assentamentos hnma-
guidade,
agrícolas,
foram interpretadas como
ou as datas foram contestadas ou ig-
noradas (Evans e Meggers, 1968; Rouse e A\-
não-

nos, e consideriheis sistemas de terraplenagem laire, 1978; Meggers e Evans, 1978, 1983; Roo-
l' í
lA
v<
foram elaborados tanto nas \ ár/.eas (juanto nas sevelt, 1978, 1980, 1989b, 1991a; Roosevelt et

r^^ áreas intertln\ iais. Este rico e complexo qua-


dro da Amazónia pré-histórica contradiz an-
alii,

1981).
1991; Simões, 1981; \argas, 1981; Williams.
Quando, em meados deste século, as pri-
tigos pontos de \ ista baseados na ideia da po- meiras pesquisas profissionais revelaram a exis-
breza ambiental. tência de culturas construtoras de sambaquis
Inovação cultural e desenvolvimento não nas várzeas da Grande Amazónia, estas foram
eram esperados na "floresta ilmida tropical", geralmente atribuídas a influências externas.
considerada nniito densa para o deslocamen- .\s sofisticadas culturas de origem andina fo-
to fácil, muito pobre em recursos animais e ve- ram consideradas como tendo decaído sob a
getais comestí\eis para manter caçadores- influência do ambiente tropical, sendo suas
coletores, por demais uniforme em termos cli- populações dizimadas pelos rigores ambien-
máticos para suscitar a irrigação e com solos tais (Meggers, 1954; Meggers e Evans, 1957).

muito empobrecidos para a agricultura inten- Contudo, novos resultados de testes radio-
siva (.\ltenfelder Silva e Meggers, 1963; Lviich, carbónicos mostram que as terras baixas tive-
1978; 1983; Meggers, 1954, 1971; Sanders e ram prioridade cronológica sobre as áreas
Price, 1968; Stevvard, 1949). Sem a possibili- montanhosas no desenvolv imento da cerâmi-
dade da agricultura intensiva, pensava-se que ca e das ocupações sedentárias. Existe um con-
o crescimento populacional dos indígenas te- senso em torno das evidências recentes que
ria sido limitado e o desenvolvimento cultu- confirmam a hipótese de que a influência pro-
ral local restrito a sequências relativamente veniente das terras baixas tropicais contribuiu
curtas e simples. para o desenvolvimento da agricultura e da
As maiores inovações culturais pré-histó- complexidade cultural nos .\ndes (Burger,
ricas na América do Sul —
agricultura, cerâ- 1984, 1989; Sauer, 1952; Lathrap, 1970. 1971.
mica e complexidade cultural eram consi- — 1974, 1977; Tovvle. 1961; Lanning. 1967; Sto-
deradas como provenientes dos Andes, domí- ne, ed., 1984). Nos Andes centrais, tanto a ce-
nio do Império Inca, e portanto seu desenvol- râmica quanto as grandes e permanentes con-
V imento na Amazónia foi geralmente atribuí- centrações populacionais apareceram muito
do a influências externas. A seqiiência das cul- mais tarde que nas terras baixas.
turas locais na Amazónia foi interpretada co- .\s mais antigas culturas complexas conhe-
mo produto de uma série de invasóes e migra- cidas na .\mérica do Sul ainda parecem ter se
ções andinas. O padrão de vida característico desenvolvido na área andina no período pré-
da Amazónia indígena na atualidade peque- — cerâmico tardio, cerca de 2500-1000 a.C. mui-
nos grupos vivendo em bandos independen- to antes que na .Amazónia, onde elas parecem
tes e igualitários e aldeias com modo de sub- ter surgido pela primeira vez no primeiro mi-
sistência baseado em agricultura itinerante, lénio a.C. Entretanto, apesar de as sociedades
caça e pesca — foi projetado nos tempos pré- complexas da .\miuónia aparecei^em niiiis tiir-
históricos como produto da degeneração das de que as primeiras andinas, não é niiiis pos-
culturas andinas no pobre ambiente tropical sível tratá-las como provenientes dos .\ndes.

úmido. Está claro que os "cacicados" na .Xnuizònia


A teoria "ambiental", quando primeiramen- prov ieram diretamente de culturas cerâmicas
te aplicada às terras baixas tropicais enquan- anteriores da .\miizònia oriental, bem distan-
to orientação para a pesquisa de campo, te dos .\ndes. A mais antig-a delas foi encon-
tornou-se uma espécie de profecia auto-expli- trada no baixo Anuuonas e sua intluèjicia
cativa,que evitava as evidências que não se difundiu-se, a partir d;u, em diriH;ão às v ;úv.e;is

coadunavam. Indícios de ocupações pré-cerà- pré-audinas, e não o contrário. Muitas das so-
micas aparentemente precoces têm sido con- ciedatlos complexas das torras baixas paixvom
testados ou ignorados; e quando as ocupações duração que, ao in-
ter sido culturas dt^ longa
cerâmicas nas terras baixas produziram rt>sul- vés de terem dccaulo no ambiente tn^pical.
tados radiocarbónicos indicativos de sua anti- autos croscorauí em escala o sofisticação ao
VKQIEOLOGIA AMAZOMCX

longo do tempo, e muitos dos seus sítios carac- floresta tropical úmida com solos ácidos po-
terizam-se como urbanos em tamanho e com- bres, incapazes de proporcionar aos caçadores-
plexidade. coletores uma abundância de animais e plan-
Entretanto, resta explicar por que os An- tas comestíveis e inadequados para a adoção
des tiveram as primeiras sociedades comple- da agricultura intensiv a. Esta limitação na pro-
xas e por que as amazônicas surgiram quando dutividade do modo de subsistência foi vista,
surgiram. A resposta parece repousar tanto em por seu turno, como fator que constrangia o
aspectos ambientais quanto na demografia his- aumento da densidade populacional e a per-
tórica. A ascensão de precoces culturas com- manência dos assentamentos e, em conse-
plexas nos Andes parece estar relacionada com quência, as possibilidades de desenvolvimen-
o aumento da densidade populacional e da to autóctone de culturas complexas.
competição num território ecológica e topo- Entretanto, as várzeas amazônicas, locais
graficamente circunscrito. Apesar de os ricos onde a grande maioria das pessoas viveu nos
recursos de fauna e flora dos rios e estuários tempos arcaicos, divergem de modo conside-
amazônicos fomentarem, desde cedo, grandes rável deste quadro de ambiente de floresta tro-
assentamentos permanentes, o aumento da pical úmida. A maior parte destas áreas pos-
densidade populacional regional parece ter ne- sui ricos solos aluviais e um clima sazonal ca-
cessitado de muito mais tempo nas vastas ex- racterístico do cerrado, com floresta tropical
tensões da Amazónia que nos Andes, e as mais seca e vegetação de savana. A área apresenta
antigas sociedades complexas amazônicas co- vantagens no suporte dos grupos humanos em
nhecidas apareceram mais de mil anos após relação à região andina, onde se destacam cli-
as primeiras andinas. Parece que as vastas ex- mas muito áridos, solos freqiientemente pou-
tensões da Amazónia foram mais capazes de co vantajosos, temperaturas diminutas e bai-
absorver a expansão populacional que os cir- xa biomassa. As várzeas da Amazónia, com
cunscritos vales dos z\ndes. A emergência de precipitações relativamente abundantes, for-
culturas complexas naAmazónia parece ter tes radiações solares e solos ricos, oferecem
ocorrido apenas quando a intensificação do alta quantidade de biomassa aproveitável e ex-
crescimento populacional ao longo das várzeas celentes recursos para o cultivo de plantas.
dos rios provocou uma competição pelas ricas A Amazónia é freqiientemente considera-
áreas agriculturáveis e de pesca (Carneiro, da como um ecossistema pobre em nutrien-
1970; Lathrap, 1970, 1974). tes,embora a disponibilidade destes varie
Assim, a seqiiência pré-histórica que está enormemente em função da geologia (Stallard,
emergindo para a ^Amazónia não sustenta a vi- 1980, 1982; Nordin e Meade, 1985; Hartt,
são de uma ocupação pré-histórica prejudica- 1874). Nas chapadas pré-cambrianas e nas pla-
da por um meio ambiente pobre em recursos. nícies terciárias, encontram-se florestas tropi-
Ao invés de sequências culturais curtas e de- cais e savanas pobres; por outro lado, em alu-
rivadas, e de ocupações ligeiras, temos agora viões recentes e em terrenos calcários carbo-
evidências de uma seqiiência longa e comple- níferos e cretáceos no alto e no baixo Amazo-
xa, de ocupações substanciais de prolongada nas, encontram-se ricas florestas tropicais e sa-
duração, de sociedades complexas de larga es- vanas. O potencial agrícola do Amazonas foi

cala e de consideráveis inovações e influências considerado como típico dos solos de terra fir-

partindo da Amazónia para outras áreas. me da floresta tropical úmida, os oxissolos e


ultissolos. Mas as rochas sedimentares alcali-
OS AMBIENTES AMAZÔNICOS nas ou as rochas ígneas máficas enriquecem
A do desenvolvimento cultu-
teoria ambiental de vastas áreas da Amazónia, particu-
os solos
ral da Amazónia não previu corretamente a larmente ao longo da base das montanhas an-
história indígena da região devido, em parte, dinas e das altas planír-ies do baixo .\mazonas.
ao nosso pouco acurado conhecimento das ca- A importância dos solos ricos em nutrientes
racterísticas do ambiente para a adaptação hu- nestas formações rochosas não foi reconheci-
mana, (jue fornecia, assim, implicações erra- da primeiramente ponjue o sistema de classi-
das sobre o possível caráter e exti-nsão da ocu- ficação mais adotado para os solos do sistema
pação humana. O habitat básico dos povos tropical usava o termo latossolo indistintamen-
pré-históricos foi caracterizado como densa te para todos os solos tropicais de terra firme.
o

56 iiisTOKiv mis iNnuis \t> niivsii

sem atentar se estes tornia\ ain os ricos altisso- pré-histórico. Os dados apresentados pelo ra-
los de terra roxa ou os notaxelniente pobres dar rastreador têm re\elado grandes áreas com
oxissolos e ultissolos. Os alíissolos tèin demons- padrões de erosão típicos de \egetação aber-
trado iim alto potencial para o cultivo, sendo ta, sugerindo a existência de desflorestamen-
usados na agricultura comercial intensi\a em to mesmo sob os climas mais áridos do passa-
ili\ do mundo, como para o cultix
ersas partes do; ademais, os padrões de variação biogeo-
da cana e do abacaxi no Havaí e do arroz seco gráfica das espécies, a geomorfologia do
no sudeste da Ásia (Roose\elt, 1980). passado e o pólen paleontológico, todos suge-
Não foram seriamente consideradas, igual- rem (jue o clima sazonal de sa\ana foi ainda
mente, as \ astas extensões dos ricos solos alu- mais generalizado que no presente (Ab'saber.
\ iais das \ amazônicas (jue se desenxol-
ár/.eas 1977, 1980; Abs>-, 1979; Kronberg et alii. 1991:
\ eram a partirde sedimentos erodidos dos An- Campbell e Fraile); 1984; Prance, org., 1982:
des. Estes solos, abrangendo os molissolos, Tricart, 1974).
\ertissolos, inceptissolos e entissolos, configu- Embora se tenha pensado que a formação
nmi um conjunto \ iilorizado mundialmente por da floresta seca e da \egetação de sa\ana era
seu potenciiil para o cultivo intensivo tanto de produto de exploração predatória recente des-
culturas anuais de grãos, como o milho e o ar- tas áreas (Sioli, org., 1984), as e\idências ar-
roz,quanto de culturas industriais, como o al- queobotânicas proxenientes das no\as esca\a-
godão e a juta. Estes solos são característicos ções aí realizadas (Garson, 1980; Roose\elt.
de áreas de iilta produtividade como as bacias 1980; Roosevelt, 1989b, 1990a. 1990b, 1991a:
dos rios Nilo e Ganges e o cinturão do milho Smith e Roosevelt, s.d.) demonstram que es-
da América do Norte. Na Amazónia, as áreas tes tipos de \ egetação têm se apresentado nes-
mais extensas destes solos encontram-se no in- tas áreas de forma generalizada há muitos mi-
terior e nos deltas dos rios costeiros, como os lhares de anos. Se eles são produto da explo-
lhanos da Amazónia boli\ iana, as planícies da ração humana, então ela começou há milhiu-es
ilha de Marajó, a planície costeira da Guiana e de anos. Botânicos e geógrafos têm encontra-
o delta do rio Apure, no médio Orinoco, áreas do evidências de repetidas queimadas na flo-
estas nas quais se localizavam as principais so- resta realizadas há mais de mil anos, tendo iil-
ciedades complexas pré-históricas tardias, tais gumas áreas sido retomadas pela floresta alta
como as culturas Moxos, Chiquitos e Marajoa- após a dizimação das populações nativas pela
ra (Brochado, 1980; Roosevelt, 1980, 1991a). Pa- conquista europeia (Bush et iilii, 1989; G.
ra alcançar alta produtividade estas terras re- Prance, A. Anderson, P. Fearnside e C. l hl.
querem \ários beneficiamentos tais como a sul- comunicação pessoal; dados Geochron de ra-
cagem para ventilação, canais para drenagem, diocarbono G.\-12513. 12514).
capinação constante e a construção de canais Diferentemente da floresta úmida tropiciíl
e aterros para o transporte, mas estas são ati\ i- madiua, as áreas de xegetação rasteira, iis ma-
dades que demandam investimentos de traba- tas de savana, a floresta seca e a floresta se-

lho em larga escala que as sociedades comple- cundária oferecem uma maior quantidade de
xas normalmente empreendem. biomassa apro\eitá\el para a caça e coleta, e
O clima da maior parte da Amazónia (Gal- seus solos presenam melhor seus nutrientes.
vão, 1969; Nimer, 1979; Segnif/lBGE, 1977) .Assim, é possí\el que a .\m;izónia tenha sido
tem sido igualmente mal interpretado, sendo ainda niiiis propícia à ocupação hunuma no pe-
geralmente caracterizado como unifonnemen- ríodo pré-histórico do cjue é em nossos dias.
te de floresta tropical De fato, grandes
úmida. Entretanto, a relação entre mudanças ambien-
áreas da Amazónia possuem um clima sazo- tais específicas e a ocupação lunnana pré-
nal de savana (clima A\v do sistema de Koep- histórica não está ainda seg\n~amente estaln^
pen), com precipitações relati\amente baixas lecida. tle\ ido à tlitk uldade do entnvru/a-

e sazonais e vegetação de floresta de galeria, nu nto das e\idências paleontologicas bnitas


floresta seca e savana. O desfolhamento inten- com as poucas seqiièncias arqueológicas e\is-

sivo que ocorre nestas áreas, nos meses de se- tentt^s. O estabeK\Mmento de seqiièncias ar-

ca,aparece nas imagens do Landsat. A Ama- (jueológicas mais regionali/ada.s, a coleta do


zónia foi, da mesma forma, ainda menos dtMi- rt>stivs arcpu^ologiciís de plantas e anim.iis o a
samente recoberta de florestas no período datação mais precisa do y^o\c\\ \xAo acvlerador
ARQUEOLOGIA AMA/ÓNKA

de massa espectrométrica de radiocarbono po- plificado as populaçóes esparsas, a agricultu-


derão colaborar na elucidação do problema. ra simples e a organização política e social ru-
A disponibilidade de nutrientes na Amazó- dimentar que se esperaria encontrar nas flo-
nia proporciona uma das chaves para o enten- restas tropicais úmidas. Este quadro era, por-
dimento da abundância de recursos para a ex- tanto, projetado para os tempos pré-históricos

ploração humana, assim como a disponibilida- como característico da adaptação ao ambien-


de de água, sol e tecnologia. x\reas interflu\ iais te amazónico. Entretanto, parece agora pro\ á-
de baixos nutrientes não são ricas em caça, velque os índios da Amazónia atual represen-
pesca ou plantas comestíveis, e possivelmen- tem remanescentes geograficamente marginais
teteriam sido pouco propícias à vida antes do dos povos que sobreviveram à dizimação ocor-
desenvolvimento do cultivo de plantas comes- rida nas várzeas durante a conquista europeia.
tíveis. Em contraposição, as várzeas dos rios As nov as evidências arqueológicas provenien-
formadas de áreas geológicas ricas em elemen- tes das várzeas sugerem terem aí existido, por

tos apresentam concentraçóes de pesca e ca- mais de mil anos, sociedades complexas po-
ça que poderiam ter sustentado populaçóes de pulosas vivendo em assentamentos de escala
caçadores-coletores. Entretanto, as flutuações urbana, com elaborados sistemas de agricul-
sazonais dos rios e os baixos níveis de fotos- tura intensiva e de produção de artesanato e
síntese limitavam a produtividade calórica e com rituais e ideologias hoje ausentes entre
proteica da fauna e da \egetação natural das os índios da Amazónia. De fato, os índios da
várzeas, que permanecia muito abaixo dos ní- atualidade (Hames e Vickers, orgs., 1983) pa-
veis que a agricultura intensiva das várzeas recem mais próximos, em termos da adapta-
proporcionaria. Assim, as populações que cul- ção ecológico-cultural, dos mais antigos hor-
tivaxam plantas domésticas poderiam ter se es- ticultores e cultiv adores de raízes, de cerca de
tabelecido de forma mais densa, permanente 2800 a.C, do que dos povos pré-históricos
e sobre áreas maiores da Amazónia do que tardios.
aquelas que persistiram apenas na exploração É evidente que algo aconteceu desde os
dos recursos naturais do meio ambiente. tempos pré-históricos para íilterar a adaptação
Desta forma, enquanto habitat da ocupação nativa. O atual modo de vida dos índios pare-
humana pré-histórica, a Amazónia surge co- ce ter sido fortemente influenciado por diver-
mo mais rica, complexa e variada do que pen- sas mudanças importantes que ocorreram no
sávamos. Mais significativo para a compreen- decorrer da conquista da Amazónia pelos eu-
são dos padrões da adaptação nativa e desen- ropeus. Em primeiro lugar, houve uma dramá-
volvimento cultural é, provavelmente, o fato de ticaqueda da densidade populacional, a qual
que existiram determinadas áreas nas quais a essencialmente eliminou a necessidade ou a
abundância de recursos sustentava populações possibilidade da exploração intensiva do solo.
caçadoras-coletoras, horticultoras e agriculto- Em segundo lugar, os conquistadores se apo-
ras durante longos períodos, e que nestas áreas deraram das áreas de melhores recursos da
se desenvolveram grandes populações indíge- Amazónia, afastando a maior parte dos índios
nas. E importante, para a consideração do fu- para as áreas interfluv iais pobres em recursos.
turo da Amazónia, o fato de o habitat ter su- Em terceiro lugar, os conquistadores desarti-
portado determinados tipos de exploração in- cularam os complexos político e militar dos na-
tensiva por longos períodos. Estes métodos tivos, substituindo-os pelos seus, com os (juais
nativos de produção sustentada, com uso in- foram capazes de organizar a exploração dos
tensivo do solo, podem ser modelos mais apro- recursos em bases nacionais. Portanto, a adap-
priados para a exploração futura da .Amazónia tação etnográfica deve ser considerada, em
do que o sistema indígena da coivara e da ca- parte, como uma adaptação às conseqiiências
ça ou os sistemas de exploração industrial das da concjuista, e não apenas às características
sociedades modernas. do ambiente amazónico.
A interjiretação convencional do quadro et-
projp:ç.\() etnográfica na amazónia nográfico atual da .Amazónia apresentava pro-
o ambiente e a pré-história da Amazónia têm blemas para a artiueologia. pois pressupunha
sido mal interpretados também em função de que o padrão básico do modo de vida indíge-
seu cpiadro etnográfico, pois este tem exem- na não hav ia mudado desde ant(>s da conquis-
58 msTOKiv nos ivnios vo hiumi

ta, projetaiulo-se assim o presente etiiogiúti- se Arcaica da cerâmica incipiente. Existem al-
co para a pré-história. Ao cx)ntrário, estamos guns indícios de que aqui, como possivelmente
descobrindo que as sociedades indígenas pós- em outras partes da América do Sul, houve
conquista dixeriíem em mnitos aspectos das uma se(iiiência tecnológica começando com
sociedades pré-históricas cjiie as precederam. os líticos rudimentares lascados por percussãa
Neste sentidci. a artjneologia pode vir a desem- passando para os líticos lascados por pressão
penhar nm importante papel nos futnros es- e retornando às pedras rudimentares lascadas
tudos amazònicos, elucidando a ocupação in- por percussão. Dadas as limitações, o que se
dígena antes da conquista europeia e forne- pode concluir é que esta seqiiência de artefa-
cendo informações comparativas para a tos parece indicar a ocupação de caçadores-
interpretação etnognífica das sociedades atuais coletores nómades dedicados à caça de gran-
(Roose\elt, 19S91)). Assim, a etno-arqueologia des animais seguida pela ocupação mais se-
da Amazónia precisa ir além das projeções re- dentária de caçadores-coletores mantidos pelo
trospecti\as para testar suposições arqueoló- apresamento intensivo de pequenas espécies
gicas a respeito dos atuais índios amazónicos. e, possivelmente, pela horticultura incipiente.
Para compreender as transformações que
ocorreram desde a conquista, faz-se necessá- COMPLEXOS PALEOIXDÍGENAS
rio forjar laços teóricos e empíricos entre a ar-
E PROTO-ARCAICOS
queologia, a etno-história e a etnografia des- As evidências provenientes das ocupações
tes povos. paleoindígenas e da primeira fase arcaica na
Grande Amazónia são as que seguem.
OS PRIMEIROS CAÇADORES-COLETORES Diversos conjuntos de artefatos líticos las-
cados por percussão foram identificados nas
INTRODUÇÃO terras altas ao norte do Orenoco e ao sul do
Existem evidências dispersas de ocupação hu- Amazonas. Um destes conjuntos foi encontra-
mana antiga disseminada ao longo da bacia do no Abrigo do Sol no rio Galera, no sudoes-
amazônica e regiões adjacentes no decorrer te do estado do Mato Grosso, no sul da bacia
do Pleistoceno tardio e no início do Holoce- amazônica (Miller, 1987; Puttkamer, 1979). Es-
no. Estas evidências consistem na localização te abrigo arenítico com arte rupestre apresenta
de artefatos líticos na superfície, alguns pou- artefatos líticos lascados por percussão em ní-
cos abrigos com depósitos pré-cerâmicos e nu- veis estratigráficos inferiores, bem como ma-
(<
merosos sambaquis pré-cerâmicos e em está- teriiU cerâmico nos níveis superiores. Suas ca-
gio inicial de cerâmica. As primeiras fases de madas pré-cerâmicas produziram divers;is da-
(<
ocupação de coletores na Amazónia não foram tações radiocarbònicas na faixa de cerca de

(<
bem estudadas porque nós, arqueólogos, te- 10000-7000 a.C. Uma outra data. de 12500
mos estado mais interessados nas ocupações a.C., foi registrada anoniiilamente no ciu^ão

(< cerâmicas mais recentes. Muitos pesquisado- dos níveis mais altos da estratigrafia. Os uten-
res não aceitavam a existência de ocupações sílios provenientes do abrigo incluem niacha-
c< muito antigas ou consideravam impossível re- dinhas toscas, núcleos, lascas e raspadores de
colher evidências a respeito de tais ocupações, superfície plana, aparentemente piu-a a con-
(<
devido à carência de materiais líticos para a fecção de gravuras rupestres. Estas, por seu
confecção de utensílios e à impossibilidade da turno, abrangem círculos rajados, faces huma-
i localização de restos biológicos antigos. Porém, nas estilizadas ou mascaras, triângulos púbi-
(< existem muitas áreas com recursos líticos na cos femininos, motivos baseados nos pés hu-
Amazónia e restos biológicos arqueológicos manos, ciuadrúpedes. motivos geométricos
i são comumente preservados nos trópicos pe- sombreados e cav idades para trituramonto e
la carbonização, pelas condições anaeróbicas raspagem. .\ cobertura de pedra que pwtogo
i
ou nos solos argilosos. este importante sítio presenou n\stos disse-
i Sem dúvida, mesmo os escassos achados cados de vegetais comestíveis, cascas de cara-
i oferecem evidências para uma seíiiiència an- cóis, ossos e fragmentos ile aivos o fltx^hus;
tiga de considerável extensão e complexida- mas, suas posições estratigi-âticiís e assiviuções
i de, compreendendo uma Fase Paleoindígena, não foram ainda clarificadas. O pouco contn>-
<< uma Fase Arcaica da pré-ceràmica e uma Fa- \c estratigráfico durante a escavação o os gran-
VHQUF.OI.OGIA AMAZONK A 59

des distúrbios ocorridos no sítio fazem com dem ter sido usadas para encastoar lanças ou
que a associação entre datas, evidências líti- dardos e os raspadores devem ter sido utiliza-

cas e atividade humana permaneça nebulosa. dos para a preparação das peles de animais ex-
No de Goiás, diversos sítios pré-cerâ-
sul tintos que pastavam na savana.
micos foram localizados em grutas com arte No sítio padrão de Taima Taima no norte

rupestre (Schmitz, 1987). As ocupações mais da Venezuela, os arqueólogos encontraram


antigas datam do período entre 8000 e 6000 pontas do tipo Jobo deste complexo associa-
a.C. e são caracterizadas pela variedade de das aos ossos de um mastodonte sul-americano
utensílios unifaciais de quartzo lascados por extinto, encontrado com uma ponta de projé-
percussão e, notavelmente, grandes utensílios til na cavidade do corpo, produzindo uma sé-

unifaciais de lâminas com fortes marcas de uso rie de datas radiocarbónicas entre 12000 e

em uma das extremidades. A abundância de 10000 a.G., a partir dos ossos, associados ao
ossos de animais e restos de plantas achados carvão e galhos de madeira retirados do estô-
que o clima era ligeiramen-
nestes sítios indica mago do mastodonte (Bryan, 1983; Brxan et
te mais que a subsistência humana era
frio e alii, 1978). Alguns levantaram dúvidas a res-
baseada na caça de grandes animais e em ár- peito deste sítio devido a seu caráter úmido
vores frutíferas. Peixes, mariscos e caça de pe- (Lynch, 1983), mas as datações radiocarbóni-
queno porte também apareceram nestes sítios. cas de diferentes materiais são consistentes e
No período de 6000 a 4000 a.C, a dieta pas- o depósito estava selado por camadas estéreis
sou a destacar espécies menores; pontas de datadas de 8000 a.G.
projéteis com pedúnculos e aletas, bem como Também no escudo das Guianas foram des-
uma grande variedade de outros tipos de uten- em forma de
cobertas várias pontas bifaciais
sílios começaram a ser utilizados. por percussão ou por pressão,
folhas, lascadas
No norte da Amazónia, diversos complexos grandes e pequenas, semelhantes aos artefa-
de líticos lascados por percussão foram encon- tos líticos das ocupações paleoindígenas em
trados nas savanas e nas florestas do escudo outras regiões do Novo Mundo. Estes sítios
das Guianas, o divisor entre os rios Amazonas abrangem o rio Ireng no distrito de Rupununni
e Orenoco, localizado na Venezuela e na Guia- e o rio Guyuni no distrito de Mazaruna, am-
na. Várias pontas bifaciais de jaspe calcedô- bos localizados na província de Essequibo na
nio foram encontradas por garimpeiros na Guiana; Ganaima e o rio Paragua no estado de
Grande Savana e no rio Paraguai, na Venezue- Boli\ar na Venezuela (ver referência abaixo);
la; utensílios rústicos de basalto foram acha- e o complexo Sipaliwini das terras altas do Su-
dos em Tupuken, na serra da Nutria, também riname (Boomert, 1980a). Feitas de uma va-
na Venezuela; e diversos instrumentos de lâ- riedade de materiais como quartzo, calcedó-
minas sílicas e felsíticas surgiram em Tabatin- nia, jaspe e sílex, as pontas medem de cerca

ga e na savana Rupununni da Guiana (Boo-


mert, 1980a; Rouse e Allaire, 1978; Rouse e
de 5 cm e 19 cm e abrangem imia variedade
de formas: lanceoladas, estriadas, acintunidas,
i
Gruxent, 1963; Gruxent e Rouse, 1958-9; farpadas e com pedúnculo. O lascamento é,
Evans e Meggers, 1960; DuPouy, 1956, 1960). algumas vezes, delicado e bem controlado e
Apesar de rusticamente lascados, os líticos a maioria dos utensílios é mais fina que acjue-
de jaspe escavados por mineiros na profundi- les lascados por percussão acima menciona-
dade de um a três metros certamente são ar- dos. As formas e o tamanho relativamente
tefatos. Nestes, as lascas foram remo\ idas em grande dos utensílios parecem consistentes
faixas paralelas e percebe-se um retoque ser- com o seu uso para encastoar flechas ou dar-
rilhado nas suas bordas. As formas destes uten- dos. Havia, igualmente, em Ganaima, raspado-
sílios incluem pontas triangulares com pedún- res plano-convexos, choppers, utensílios em
culo, pontas lanceoladas em forma de folhas forma de facas e machados. Não existem as-
e raspadores plano-convexos. Os líticos de sí- sociações anjueológicas para estas pontas e,

lex de Tabatinga apresentam superfícies den- portanto, não se sabe se elas datam de épocas
tadas ao longo de suas bordas. Todos os uten- nas (juais a fauna de grande porte freqiienta-
sílios nos conjuntos de líticos lascados por per- va as savanas. Desconhecem-se totalmente os
cussão mostram-se relativamente grossos, sítios dos (juais elas são provenientes.
variando entre 7 cm e 20 cm. .As pontas po- Outro possível estilo paleoindígena ou pio-
t>0 lllSTOKl\ nos INOIOS \t) BK\.SII

to-arciíico, de artetatos líticos lascados por analógicos às sequências de outros lugares, e


pressão da tase Kiioine, toi encontrado na pró- estas mudanças podem refletir a troca no uso
pria Amazónia, na região do baixo Ama/.onas de lanças para dardos tipo ataltl na caça.
^Simões, 1976; Sniith, 1879; Roosevelt. 1989a Mantém-se incerta, para esta área, a relação
e b). Relati\aniente grandes (6 cm a 13 cm), entre os de pressão e os líticos de per-
líticos

feitas de qiuu-tzo on sílex mnito tino, estas pon- cussão, apesar de exemplos de ambos os tipos
tas triangulares têm bases pednncnlares on ba- terem sido achados no mesmo sítio, como na-
\'/ ses cònca\as atinadas pela remcx^-ão de nma quele do rio Paragua na Xénezuela. Até surgi-
grande lasca de nm dos lados (Roosexelt, rem sítios mais bem documentados, permane-
19S9a). Estes ntensílios são tão bem lascados ce a dificuldade de se a\aliarem os significa-
quanto os iU"tetatos lascados por pressão do es- dos dos diferentes estilos de lascamento. Uma
tilo piíleoindígena do escndo das Gnianas, po- importante questão a ser sublinhada é que os
rém, eles são mnito mais largos e finos em re- primeiros complexos líticos nas terras baixas
lação a sen comprimento. A largura e os tra- são ecológica e tecnologicamente muito mais
ços de uso em seus lados sugerem que alguns \ariados do que as expectativas arqueológicas
foram usados tanto como facas quanto como supunham, baseadas em analogias com os
projéteis. O grande tamanho e as extremida- complexos paleoindígenas exteriores à bacia.
des pontudas das pontas bitaciais pro\enien-
tesdo Pará sugerem seu uso como arpões em COLETORES INTENSHOS DO PERÍODO
caçadas de animais de grande porte. Um exem-
ARCAICO: COMPLEXOS PRÉ-CER.\MICO
plar relati\amente similar, de quartzo branco
E CERÂMICO INCIPIENTE
com foi encontrado em uma das
pedúnculo, Diversos complexos pré-cerâmicos, possivel-
ilhas da \ árzea da Baixa Amazónia, perto de mente do período Arcaico tardio, têm sido
Belém (Museu Goeldi) e constitui uma e\ idên- identificados e podem ilustrar a transição da
cia da existência de embarcações ao tempo da subsistência baseada na caça e coleta para a
manufatura dos utensílios. Como nenhum des- agricultura incipiente, e do estágio pré-cerà-
tes líticos foi recuperado no seu contexto ar- mico ao cerâmico.
queológico, suas posições cronológicas e seu Diversos abrigos rochosos parecem possuir
contexto no sítio permanecem desconhecidos. depósitos líticos pré-cerâmicos tardios. Arte-
Do ponto de vista estilístico, eles datam pro- tatos de ametista e Ciílcedónia, lascados por
\a\elmente de 8000 a 4000 a.C. (Simões, 1976; percussão, foram encontrados na ca\erna dos
VV. Hurt, comunicação pessoal). Nas proximi- Ga\ iões e em outras caxernas de componen-
dades dos locais onde algumas destas pontas tes múltiplos, na área de CiU^ajás, ao sul de Be-
foram encontradas existem sítios com extensa lém (Museu Goeldi, Grupo de Siil\"tUiiento. co-
e policrómica arte rupestre, mas estes não fo- municação pessoal). Quatro datações entre
ram datados. cerca de 6000 e 4000 a.C. (Geochron
Parece lógico considerar que estes estilos G.\-12509, 12510, 12511; Teled>iie 1-14. 912) tlv
de pontas lascadas por percussão e por pres- ram verificadas nos restos de plantas carboni-
são pertencem ao mesmo período geral das zadas pro\enientes dos níxeis pré-cerâmicos
culturas paleoindígenas de outras iegiões, de da ca\ erna citada. Os bem presen ados restos
cerca de 12000 a 7000 a.C, isto porque alguns de plantas ciu-bonizadas e de aniniiiis estão
de seus estilos correspondem aos complexos presentemente em estudo nas ca\erniis. Estes
líticos paleoindígenas documentados e data- abrangem sementes de palmeiras, anores tni-
dos para outras áreas da América do Sul tíferas, conchas de moluscos e ossos.

(Schmitz, org., 1981-4; Schmitz, 1987; Lynch. Artetatos líticos lascados por percussão to-
1978, 1983; Br>an, 1978, 1983; Br>an et alii, rain recolhidos também na C^ue\a de El Elt^
1978). Ademais, nenhum artefato de estilo si- fante ao norte do estado de Bolívar no Oivuiv
milar foi encontrado nas bem estudadas ocu- CO \ene/,nelano. Neste sitiix cerâmicas e data-
pações da Grande Amazónia de períodos mais ções radiocarbònicas da era cristã toram
recentes. Maiores e com um acabamento mais associadas aos objetos liticivs, nuis. pcira os vh\s-

fino, as pontas lanceoladas e com pedúnculos ijuisadores, a estratigrafia indica\a que a as-

podem ser anteriores às toscas pontas de pe- sociação deri\;i\a mais da mistura do que da
dúnculos menores, se consideradas em termos contemporaneidade dos objetos ^\ai\[;is e Sa-
\KQl KOI.OGIA A\l AZÓNÍf \ 61

noja, 1970). A maneira pela qual os abrigos Hurt e Blasi, 1960; Laming e Emperaire, 1957;
rochosos e cavernas pré-cerâmicas estão rela- Bryan, 1983). Muitos dos sambaquis, localiza-
cionados com os sítios abertos mantém-se in- dos estratigraficamente embaixo dos compo-
certa, mas eles podem ter representado ocu- nentes de estágios cerâmicos posteriores, têm
pações sazonais ou esporádicas provenientes uma relação topográfica com as característi-
de outros sítios mais permanentes. Outro pos- cas geológicas provenientes das mudanças do
sível conjunto do Arcaico tardio consiste em nível da água, ocorridas no período entre cer-
abundantes fragmentos líticos lascados por ca de 6000 e 4000 a.C. (Irion in Sioli, 1984).
percussão, recolhidos na superfície terrestre Ao que parece, o período em que o nível do
do escoadouro do Tocantins, perto da represa mar era mais alto resultou no desenvolvimen-
de Tucuruí, no Brasil (Araújo Costa, 1983). to de condições lacustres e de estuário em tor-
Ainda não se identificou nenhum sítio de as- no do baixo Amazonas e de outros rios que de-
sentamento associado a este conjunto. sembocam no Atlântico.
Outro conjunto de artefatos líticos toscos A estratigrafia cultural e natural dos sam-
lascados por percussão foi identificado em baquis é interessante. Muitos deles têm cama-
grandes e numerosos sambaquis, ao longo do das inferiores pré-cerâmicas, mas nas cama-
baixo Amazonas e em sua foz, nas costas da das superiores aparecem raros exemplares de
Guiana e na foz do Orenoco (Nimuendaju, cerâmica simples, com tempero de areia oxi-
1949; Hartt, 1883, 1885; Hilbert, 1959a; Har- dada ou conchas. Os sambaquis da Guiana e
ris, 1973; Smith, 1879; Monteiro de Noronha, do baixo Amazonas estão frequentemente co-
1862; Ferreira Penna, 1876; Osgood, 1946; bertos com amontoados de terra contendo ce-
Evans e Meggers, 1960; Simões, 1981). O com- râmica pré-histórica mais recente e machados
plexo parece representar a transição do arte- de pedra polida. Ossadas humanas também
sanato do estágio pré-cerâmico ao cerâmico são comuns nos sambaquis, mas não foram ain-
inicial. O material inclui núcleos lascados por da analisadas. Como alguns sambaquis arcai-
percussão, alisadores, raspadores, cinzéis, lâ- cos de outras partes, muitos destes amontoa-
minas e facas de gume de sílex ou sílex impu- dos abrangem diversos hectares de largura e
ro, como também utensílios de pedras comuns muitos metros de profundidade, indicando as-
para corte, trituração, raspagem e percussão. sentamentos relativamente grandes e perma-
Os utensílios costumam da frente pa-
se afinar nentes. A sequência sugere a transição de uma
ra trás, e a maior parte deles é menor que os fase pré-cerâmica de coleta intensiva de ma-
utensílios do provável complexo paleoindíge- riscos para outra de coleta intensiva de plan-
na descrito acima. Líticos parecidos foram en- tas e de cultivo incipiente, com cerâmica. Nes-

contrados no período pré-cerâmico tardio, em te sentido, este estágio parece representar uma
sítios temporários do período cerâmico inicial, fase de intensificação da subsistência e do
e em sambaquis na costa caribenha da Colôm- crescimento populacional similar àquela do
bia (Reichel-Dolmatoff, 1965a e b, 1985), ain- Mesolítico no Velho Mundo.
da que esta similaridade não tenha sido ainda Extensivamente explorado por investigado-
registrada pela literatura. res do século XIX e do início do século XX
Até recentemente, poucos destes conjun- (Verril, 1918), mas não investigado intensiva-

tos receberam alguma datação radiocarbôni- mente mais recentemente, este estágio de ocu-
ca. Devido à suposição de que as sociedades pação nas terras baixas da América do Sul foi
das terras baixas tropicais teriam sofrido um descrito por arqueólogos profissionais apenas
retardamento cultural, estes conjuntos inicial- em 1945, com referência à planície costeira da
mente foram considerados como provenientes Guiana (Osgood, 1946). Mais tarde, a fase dos
do período pré-histórico tardio. Porém, data- samba(juis da Guiana foi batizada Alaka (Evans
ções radiocarbônicas realizadas em diversos e Meggers, 1960). Esta fase niainfesta-se em
sambaciuis apontaram datas do sexto ao quin- numerosos sambaqui.<> nas antigas praias e nos
to milénio a.C>. (Hoosexeit et alii, 1991; Simões, mangues pantanosos da plainVie costeira da
1981; .\r(|ui\()s Snnthsoiúan, Registros de Ha- (íuiana. Estes amontoados têm uma abundân-
diocarbono; Williams, 1981), indicando uma cia de artefatos líticos rudimentares ou lasca-
antiguidade sinúlar às fases do litoral, ao sul dos por percussão, e nos níveis mais altos
da foz do Amazonas (llurt, 1968, 1974, 1986; encontram-se, além dos líticos, algumas raras
IIISTOKIX nos INOIDS \t) HKVSll

Fazenda Tapennha, cerâmicas oxidadas e teniptrachis com saibro sição tecnológica da subsistência de coleta pa-
região de
ou conchas. Os \asos eram, em sua maior par- ra a agricultura. No entanto, aparentemente
Santarém, Pará.
Vista de uma
te, simples cuias sem decoração. houve também, com o passar do tempo, uma
fazenda de açúcar Entre os restos biolójíicos dos sambaquis da mudança ambiental do ní\el do mar. que
do século XIX, e o Fase Alaka, predominam os moluscos, mas tornou-se mais bai.xo.
rio Ituki.
existem também raros vertebrados, tanto aquá- Por algum motivo, apenas recentemente es-
ticos quanto terrestres, além de numerosas se- te importante complexo foi datado com radio-
pulturas humanas. Restos de plantas estão pre- carbono, apesar da abundante presença de car-
embora ainda não tenham sido siste-
sentes, vão e ossos adequados para o teste. Quando
maticamente coletados ou identificados. Da definida a fase, pensa\ a-se que era de data bas-
camada inferior para a superior nos sítios da tante recente, sendo interpretada como uma
.\laka, parece existir uma mudança dos mo- fase pré-cerâmica tardia que perdurou até o
luscos de águas mais salobras para os adapta- primeiro milénio d.C. A introdução da cerâ-
dos à água doce. A mudança dos moluscos e mica nesta fase foi inteipretada como pro\e-
dos líticos bem como o aparecimento da ce- niente dos Andes. Entretanto, a posição estra-
Sambaqui de
Taperinha. 5000
râmica foram originalmente interpretados co- da Alaka corresponde a uma posição
tigráfica
anos a.C, 1989. mo sendo primordialmente produto da tran- cronokSgica mais antiga. No topo de muitos
sambaquis encontram-se di\ersas camadiís de
amontoados de terra contendo cerâmica de-
corada das fases arqueológicas posteriores na
área. No sambaqui de Barambina. três data-
ções radiocarbônicas, realizadas nas ciuiiadas
contendo cerâmica incipiente, produzinun re-

sultados entre 4000 e 3000 a.C. ^\\ illiams,

1981), muito antigas para esta cenimica ser de-


rivada da tradição andina, tiue se iniciou mais
de 2 mil anos depois. Os conjuntos pre-
cerâmicos nas camadas mais baixas dos sam-
baquis podem, consetiiientemente, ser ainda
mais antigos.
Há mais de cem anos os cientistas notaram
a presença de muitos sambaquis simiUuvs ao
longo do estuário ama/ònic«.\ ao norte do Ri-
rá, um ptHíco a sudtvste da to/ do .\m;uonas

(Monteiro de Noronlia. 1S62; Fenvira IVnna.


ISTfS). Esca\ações ivcentes ivali/adas em di-

\ersos (.lestes sambaquis (Siíuõe.s, U)Sn mos-


\KyiEOLOGIA AMAZÓN"!C:\ 63

traram-nos como sendo do estágio cerâmico base arredondada e bordas cónicas, arredon-
inicial. O
complexo é chamado de Mina pois dadas ou quadradas, e cerca de 3% da cerâ- gfàS)
os sambaquis têm sido explorados para obten- mica apresentou incisóes curvilíneas e retilí-
ção de cal. As datas radiocarbônicas publica- neas nas bordas. O uso culinário da cerâmica
>.©
das variam entre 3000 e 2000 ou 1500 a.C, é comprovado pelos resíduos de cinzas no ex-
dependendo de como cada um defina o fim terior dos vasos. O componente cerâmico ini-
da fase, e um registro de 3500 a.C. inexplica- cial foi denominado Taperinha, em referência

velmente não foi publicado pelos pesquisado- ao sítio (Roosevelt, 1989a e b; Roosevelt et alii,

res (Arquivos da Smithsonian, Washington 1991). A idade deste sambaqui cerâmico foi es-

D. Clifford Evans). Os artefatos do


C, arquivo tabelecida entre 5000 e 4000 a.C, tendo sido
sítioeram abundantes, incluindo cerâmica, lí- baseada em doze dataçóes radiocarbônicas
ticos lascados por percussão, pedras não tra- realizadas em carvão, conchas e carbono pro-
balhadas, e utensílios e ornamentos tanto de veniente da cerâmica, sendo também realiza-
ossos quanto de conchas. Os líticos lascados da uma datação da cerâmica por termolumi-
incluíam possíveis raspadores e facas, e as pe- nescência. Já os sedimentos lacustres associa-
dras da região foram utilizadas para martelar dos ao sistema de terraço dorio no qual o sítio

e quebrar nozes, ou como pilões e machados foi localizado provêm de entre 8000 e 6000
rústicos. A cerâmica apresentou rude tempe- Meticulosamen-
a.C. (Irion in Sioli, org., 1984).

ro de conchas ou, raramente, de saibro, sendo da mais antiga cerâmica co-


te datada, trata-se

a decoração limitada ao corrugado raspado e nhecida das Américas, achado este que não se
à pintura vermelha. A forma principal destas coaduna com as expectativas dos antropólogos
cerâmicas era a de cuias abertas. Entre os res- ambientalistas que enfatizam a transitorieda-
tos da fauna, destaca\a-se o bivalve Anomalo- de dos assentamentos indígenas e o retarda-
cardia brasiliana, mas não foram coletados res- mento cultural da região.
tos de plantas para identificação. Restos ósseos Os restos de subsistência dos sambaquis
foram recolhidos, porém não analisados osteo- consistem principalmente em mariscos, sen-
logicamente até o momento. Os pesquisado- do também identificados alguns peixes bem
res não coletaram sistematicamente restos de preservados e raros ossos de mamíferos e rép-
plantas, e portanto reconstruíram o modo de Instrumentos líticos

subsistência como sendo baseado apenas na da região de


Santarém: ponta
coleta marinha. Porém, a presença de utensí- lascada por
lios para o processamento de plantas sugere pressão (9,5 cm),
que também estas podem ter sido utilizadas do rio Tapajós, Pará.

intensivamente.
Uma no baixo Amazonas foi
fase paralela
identificada mais de cem anos
atrás no sam-
baqui de Taperinha, perto de Santarém, na
borda de um terraço ribeirinho do Pleistoce-
no tardio (Hartt, 1874, 1883, 1885; Roosevelt,
1989a e b; Roosevelt et alii, 1991; Smith, 1879).
O sambaqui é bastante extenso, apresentando
em torno de 6,5 m
de profundidade e diver-
sos hectares de Os líticos lascados do sí-
área.
tio compõem-se de toscos artefatos de sílex lo-

cal, laminados por percussão. Estes incluem

lascas utilizadas, raspadores, gumes, cinzéis e


outros utensílios. O conjunto encontrado no
sítio também contém machados, pedras de

(juebrar nozes, moedores, alisadores e utensí-


lios de ossos e chifres.

O sambaíiui também apresentou rara cerâ-


mica avermelhada com tempero de saibro. .-Vs

únicas formas resumem-se a cuias abertas, de


64 msTóKiA DOS Índios no brasil

sões ao oeste e sul do .\mazonas brasileiro e


i
nas áreas leste e sudeste da ilha de Marajó. Po-
dem existir ainda outros tipos de sítios de ocu-

pação do estágio Arcaico no interior de Mara-


jó, pois os mapas de Radam brasileiros da ilha
revelam um extenso sistema de paleocanais de
período hidrográfico mais antigo, estimado em
cerca de 8000-3000 a.C. (J. S. Lourenço e W.
Saulk, comunicação pessoal; Roose\elt, 1991a).
As evidências existentes sugerem que as fu-
turas pesquisas e escaxações estratigráficas do
baixo Amazonas poderão re\elar um extenso
horizonte mais antigo de ocupações humanas
sedentárias baseadas na coleta intensiva de
fauna e plantas aquáticas e, tal\ez, também na
agricultura incipiente.

RESUMO
Assim, em resumo, parece possível que tenha
existido tanto uma ocupação pré-cerâmica em
múltiplos estágios quanto um estágio de ocu-
pação cerâmica incipiente na Amazónia.
Restos de fauna do
sambaqui Sugere-se uma possível seqiiência lítica, na
teis. Sepulturas humanas também foram acha-
Taperinha, qual os complexos de artefatos lascados por
Santarém: mexilhão das no sambaqui. Encontraram-se poucos res-
percussão precedem uma de grandes ar-
fase
perolado de água tos de plantas, mas havia a presença de car-
doce (Castalia tefatos lascados por pressão, seguida por ou-
\ ão e de pro\á\eis utensílios processadores de
ambígua). tra fase de artefatos lascados por percussão. As
plantas. Mexilhões aperolados de água doce,
pontas aparentemente manifestam-se ao lon-
tais como a Castalia, eram predominantes
go de toda a sequência. Esta sequência possi-
(Hartt, 1883, 1885; Roosevelt et alii, 1991).
velmente de\e representar diversas fases de
Taperinha não é o único sambaqui do pe-
subsistência: dois estágios de caça de grande
ríodo .\rcaico nas imediações de Santarém. Pa-
porte de fauna extinta e moderna, uma tran-
ricatuba, a oeste de Santarém, também pos-
sição para a coleta intensiva de fauna de pe-
sui um em torno do
e existem vários outros
queno porte e plantas e, então, possi\elmen-
lago Grande de Vila Franca, a oeste da foz do
te, o aparecimento do culti\o de pUuitas.
Tapajós. Existem também vários outros sítios
Escassamente conhecidos, os rehigos ar-
de sambaquis similares ao longo do baixo Ama-
zonas, estendendo-se de Manaus até a foz (Fer-
queológicos ainda não permitem a reconstni-

reira Penna, 1876; Hartt, 1883, 1885; Ximuen-


ção dos sistemas de assentamento e subsistên-

daju, s.d.; Monteiro de Noronha, 1862). cia nem a confinnação de sequên-


nnús antigos
A Fase Castalia de cerâmica temperada cias de desenvolvimento. E inipossÍNel. neste
com conchas, conhecida a partir dos samba- momento, assegunu" se o estilo lítico p^Ueoin-
quis localizados perto de .\lenquer, na margem dígena está relacionado ou não a caça de ani-
esquerda do baixo Amazonas, em frente a San- niiiis de grande porte, pois nenhum dos sítios

tarém (Hilbert, 1959a; Hilbert e Hilbert, encontrados foi adequadamente descrito ou


1980), tem sido considerada muito niiiis recen- testado, .\lguns destes líticos poderiam. pa>-
te que aquelas datas encontradas para Mina \avelmente, ter sido pontas para ai^pòes. lan-
ou Taperinha, mas estas conclusões se basea- ças e propulsores de lança — todos objetos
ram em análises de conjuntos com componen- presumi\elmente usados para a caça de gi-an-
tes múltiplos recolhidos atra\ és de métodos de de porte, .\lguns líticos do estilo .\ivaico ini-
escavação que combinam material arqueoló- cial parecem mais ser utensílios para o aKUe

gico recente com o mais antigo. Existem ou- de animais e para a coiífecção de outtvs obje-
tros sambaquis do período .Vrcaico nas exten- tos (jue não os projeteis. .\ nossa interpivta-
\HyUKOLOGIA AMAZÓNICA 65

ção, no entanto, esbarra na falta de um com- Finalmente, uma outra orientação para as
plexo de utensílios associado, sem falar na ca- futuras pesquisas dos coletores amazônicos re-
rência de restos biológicos. sidiria em uma comparação interpretativa crí-
Os líticos do estilo Arcaico tardio, pelo me- tica entre aqueles antigos e os modernos. Um
nos, são provenientes de sítios mais bem do- número considerável de antropólogos têm es-
cumentados, porém poucos trabalhos até agora tudado os atuais povos da Amazónia como —
têm analisado e relacionado as características os de língua Siriono (Holmberg, 1969) e Gua-
específicas dos sítios e dos restos biológicos jibo (Hurtado e Hill, 1991) —
como exemplos
associados. O tamanho e a profundidade dos da adaptação ecológica cultural do Paleolíti-
sítios, bem como a abundância da flora e da co. Entretanto, estes povos coletores atuais di-
fauna encontradas nos sambaquis, são suges- ferem em vários aspectos importantes das po-
tivos da existência de um sistema de subsis- pulações antigas conhecidas, particularmen-
tência de coleta intensiva e, possivelmente, de te em termos de sua tecnologia, que manifesta
agricultura. Os restos de plantas presentes nos a ausência de lítico lascado utilizável por lan-
sítios ainda não foram sistematicamente cole- ceiros, e em termos de sua subsistência, o que
tados e identificados para apurar a existência inclui, invariavelmente, plantas cultivadas. O
de alguma espécie de planta cultivada. Está fato de os acampamentos dos "coletores" mo-
claro que os mariscos são muito mais eviden- dernos estarem freqiientemente situados no
tes que todos os outros tipos de restos de fau- topo de grandes amontoados artificiais pré-
na, mas os moluscos produzem uma alta pro- históricos, repletos de cerâmica elaborada, de
porção de refugos, comparados a outros tipos milho e de restos de consideráveis estruturas
de fauna comestível, e por isto podem ter si- permanentes, é o principal indício de que es-
do menos importantes do que aparentam tes não são os descendentes diretos dos anti-
(Wing e Brown, 1979). Na ausência de amos- gos caçadores-coletores (Roosevelt, 1991c).
tras vertebrais coletadas sistematicamente e de

dados isotópicos e osteológicos provenientes


ESTILOS DE HORIZONTES ANTIGOS
dos ossos humanos, permanece impossível es- Em algum momento após cerca de 3000 a.C,
timar quantitativamente a composição da die- surgiu, ao longo das várzeas dos rios em di-
ta. Estudos das concentrações isotópicas nos versas partes da Grande Amazónia, um modo
ossos e das doenças dentárias são particular- de vida que parece ter sido bastante similar
mente necessários para a apuração das propor- àquele dos atuais índios amazônicos. Ele coin-
ções dos alimentos animais e vegetais. E pos- cide com o aparecimento dos mais antigos
sívelque o cultivo incipiente de plantas assim complexos conhecidos de cerâmicas elabora-
como a produção de cerâmica tenham come- damente decoradas, os "horizontes" Hachu-
çado durante a ocupação dos sambaquis, fa- rado Zonado e Saldóide-Barrancóide. Estes
vorecidos pelo assentamento sedentário que complexos são comumente chamados de "for-
se baseava na coleta dos luxuriantes recursos mativos", termo que se refere às antigas cul-
aquáticos (Sauer, 1952), ou é possível ainda turas de aldeias de agricultores sedentários,
que a coleta intensiva de plantas ou o cultivo embora estas culturas não aparentem ter sido
tenham conduzido ao sedentarismo (Osborne, totalmente agrícolas na Amazónia. Elas pare-
1977). A investigação destas possibilidades irá cem representar o estabelecimento generali-
requerer evidências biológicas que os arqueó- zado nas terras baixas de aldeias de horticul-
logos apenas começam a coletar na região. O tores de raízes.
bom estado de preservação dos restos huma- Com o surgimento do novo modo de vida,
nos em todos os sambaquis e em muitas ca- houve uma proliferação de assentamentos e
vernas e grutas tornará possível no futuro es- parece ter aumentado a comunicação entre re-
tudos osteológicos e dentais para investigar as giões, aparecendo nas terras baixas uma série
mudanças na dieta, nos padrões genéticos e de estilos de horizontes supra-regionais, com
nos níveis de atividade através do tempo. Tais motivos geométricos e zoomórficos (Meggers
estudos deverão ajudar a determinar o papel e Evans, 1961, 1978; Lathrap, 1970; Cruxent
das migrações nas unidanças culturais e a re- e House, 1958-9; Howard, 1947). Estes estilos
lação entre a sui)sistência e o grau de seden- representam, em cada área, a mais antiga ce-
tarismo. râmica cotn decoração b(Mn elaborada já co-
86 IIISTOUIV nos IMMOS M) liKVSll.

iihecida. As tlises da cerâmica decorada são ca- recem estar confinados ao Orenoco, Guianas,
racterizadas por alças zoomorfas modeladas Antilhas e baixo Amazonas, porém os estilos
por incisões geométricas nas paredes dos \a- Barrancóide são encontrá\eis no Amazonas,
sos abaixo da borda e, às vezes, por pintura ver- Orenoco, Guianas e, possivelmente, também
melha ou \ermelha e branca. Característico na Colômbia caribenha.
dos adornos dos estilos mais antigos é o uso Estes primeiros estilos decorados são basi-
de formas arredondadas modeladas definidas camente estilos "animalísticos", uma vez que
por estrias nas inflexões. A forma predominan- a maioria das representações reconhecíveis é
te dos \ asos é a da cuia aberta, o\al ou circu- de animais. Os adornos das bordas são princi-
lar, apesar de também estarem presentes nes- palmente zoomórficos e mesmo os desenhos
ses estilos assadeiras, garrafas com elaboradas geométricos, localizados nos lados dos vasos,
composições de silhuetas, cachimbos e outras representam características e marcas de ani-
fornias. O tempero é bastante variado, incluin- mais. As raras formas humanas reconhecíveis
do conchas, saibro, cacos, espículas de espon- são, geralmente, animais antropomorfizados.
jas e, raramente, cariapê obtido de cinzas de com focinhos, bigodes e orelhas pontiagudas.
cascas de árvore. As conchas, o saibro e os ca- Esta iconogriífia pode estar relacionada a uma
cos para o tempero parecem ter entrado em subsistência baseada em cultivo de raízes co-
uso mais cedo que a esponja e o cariapê. mestíveis e na proteína animal. \a Amazónia
Apesar das tentativas de agrupar os estilos atual, este tipo de iconografia está associada
em termos de horizontes, na medida em que a uma cosmologia que correlaciona a abundân-
o conhecimento tem se avolumado, também cia de animais e a fertilidade humana a ritos
têm crescido a variedade e complexidade dos xamanísticos que buscam aplacar os Mestres"
estilos, rompendo os agrupamentos estilísticos espirituais dos animais caçados —
espécies de
anteriormente definidos. Em alguns dos esti- seres sobrenaturais talvez representados na an-
los, como o da Fase Tutishcainyo do Amazo- tiga iconografia pelos raros exemplares de ãiú-
nas peruano e a Fase Ananatuba da ilha de Ma- mais humanizados. Este tipo de complexo ri-
rajó, incisões hachuradas são importantes, en- tual seria adequado para sociedades cujo su-
quanto adornos modelados incisos aparecem primento de proteína estava baseado princi-
com certa raridade. Em outros estilos, como palmente em animais (Ross, 1978). .\lém des-
os de La Gruta e Ronquin, incisões de linhas tes aspectos iconográficos, o complexo ritu;il
largas, modelagem e entalhamento são co- é escassamente conhecido. Poucas sepulturas
muns, e há uma decoração complexa de pin- ou outros elementos cerimoniais foram es-
tura vermelha e branca. O primeiro grupo de cavados.
estilos é chamado de Horizonte Hachurado Os primeiros "horizontes" de cerâmica de-
Zonado e o segundo de Horizonte Saldóide- corada são horizontes que apresentam uma
Barrancóide. Os estilos que têm incisões, mo- considerável sobreposição geogiiifica e tem-
delagem e pinturas em vermelho e branco são poral. Muita confusão tem surgido nas tenta-
comumente chamados de Saldóide. Algims es- tivas de tratá-los como horizonte "autênticos"
tilos Saldóide, como o Saladero do baixo Ore- cujos estilos regionais podem ser datados em
noco ou Jauari, perto de Alenquer, no baixo correlação com as nmdanças sincrònicas de
Amazonas, ou, ainda, Wonotobo do Suriname, seus atributos específicos.
combinam incisões hachuradas em zonas, es- Até agora, os estilos Saldóide são os mais
triamento, adornos de modelados-incisos e luitigos estilos datutlos, tendo apaivcido inici;il-

pintura vermelha e branca. Os estilos mais an- mente na baixa e média bacia do Oivuihhx en-
tigos das séries Saldóide-Barrancóide freqiien- tre cerca de 2800-800 e 1000-500 a.C, ivs-
temente não apresentam a pintura \ermelha ptx'tivamente em La Gruta e em Suladetv
e branca do Saladero. Eles são, assim, conm- (Koust> t^ Allairt\ 197S; Uoosevelt. UrS, 1980.
mente chamados de Barrancóide. Os estilos U)91b), permanc(.'cndo no C^rtMioco e nas
que privilegiam o Hachurado Zonado em re- Cíuianas diviM^os séculos após o advetito da era
lação a outras decorações encontram-se difun- cristã. C)s t^stilos Barrancóide substitun^am os
didos em toda a Amazónia, e provável nuMitc estiU>s Siildóide, no baixo (.^ivuivo e \uis CUiia-
existem alguns estilos correlatos ao nortt\ na nas. aproximaiKuutMítt^ entrt^ o advento da era
Colômbia caribenha. Os estilos Saldóide pa- cristã e 500 d.c:.
\Kyri;()i,()(;i \ \\i \zomc \ 67

O mais antigo estilo do Horizonte Hachu-


rado Zonado, o Tutishcainyo antigo, ainda não
foi datado radiometricamente. Acredita-se que
ele tenha começado cerca de 2000 a.C, e em
torno de 800 a.C. o estilo Hachurado Zonado
desaparece da sequência peruana. Ele é se-

guido pelo estilo Barrancóide, que permane-


ce até cerca de 500 d.C. (Lathrap, 1962, 1970;
Lathrap e Brochado, s.d.). Ananatuba, o pri-

meiro de hachura datado no Amazonas,


estilo

parece começar em torno de 1500 a.C. e é


substituído por estilos vagamente Barrancói-
de em cerca de 500 a.C. (Simões, 1969; Meg-
gers, 1985; Meggers e Evans, 1957, 1978; Hil-
f/////
Cerâmica
bert, 1968). pré-histórica da
No baixo e médio Amazonas, complexos região de Santarém.

com hachuras zonadas e ponteados parecem Cacos cerâmicos


da fase inicial de
ter sido substituídos por estilos Barrancóide, Taperinha. O maior
como os complexos de estilo globular da área tem 5 cm de
comprimento.
de Oriximina (Hilbert, 1955, 1968; Hilbert e
Hilbert, 1980). Estespossuem o estriamento
e a modelagem zoomórfica característicos do
Barrancóide e, algumas vezes, a pintura Sal-
dóide. Com tempero de esponja, o estilo Jaua-
ri, proveniente das proximidades de Alenquer,
na margem esquerda do baixo Amazonas, tem
a maioria dos motivos de todos os horizontes
combinados: Hachurado Zonado e ponteado,
estriamento, complexos adornos zoomórficos
e pintura vermelha e branca. O estilo talvez
possa ser datado desde 1300 a.C, mas as rela-
ções estratigráficas e as associações das datas
são incertas (Hilbert e Hilbert, 1980), pois a
coleção tem a aparência de um conjunto mul- Caco da fase
Aldeia de
ticomponente criado pela mistura estrati-
Santarém. O maior
gráfica. tem 20 cm de
Nas proximidades de Santarém, na foz do comprimento.

no baixo Amazonas, a cerâmica do


rio Tapajós,

lago Grande, com ponteado zonado, como a


de Poço e a da cerâmica Aldeia Barrancóide,
permanece ainda sem datação. Estilos Barran-
cóide têm também sido achados na bacia do
Xingu, mas também ainda não foram datados
(Dole, 1961-2). A periodização do surgimento
e desaparecimento dos estilos Hachurado Zo-
nado e Barrancóide-Saldóide no médio e bai-
xo Amazonas é pouco conhecida, mas acredita-
se que o Horizonte Policrômico tardio da i)a-
ciaamazônica se desenvolveu independente-
mente deles (Lathrap, 1970; Lathrap e Brocha-
do, 1980; Meggers e Evans, 1983).
Uma vez (nie o número de sítios com estas
68 iiisTcMUv Pos i\nu>s NO HlUSIl.

ocupações que tèni sido datados é tão peque- SUBSISTÊNCIA E PONOAMENTO


ucx é possí\el que trahiilhos futuros re\eleni NOS PRIMEIROS COMPLEXOS CEIL\MICOS
fases niiiis autigas de cerànuca decorada na Ao tempo do surgimento dos primeiros esti-
Aniiizônia. O conhecimento permanece tão es- los de horizonte, as economias de subsistên-
casso cjue seria difícil pre\er em cjue região
cia da Amazónia parecem ter substituído os
das terras baixas estes estilos apareceram ini-
mariscos, aparentemente pelo cultixo de raí-
ciiilmente. Está claro, entretanto, que a pri-
zes e pela caça e pesca. Não se sabe, ainda,
meira cerâmica da Amazónia antecedeu a
se isto foi apenas uma mudança económica ou
primeira dos Andes, e as primeiras cerâmicas
refletia mudanças no clima e na hidrografia.
decoradas das terras baixas não se parecem
ou mesmo uma combinação de ambas. Com
muito com aciuelas andinas nem em estilo nem certeza, as espécies de mariscos de estuário
em iconografia. Os primeiros estudiosos a fa-
presentes nos sambaquis mais antigos desapa-
zer comparações entre as terras baixas e os An-
recem nos amontoados, e mesmo as espécies
des afirmaram que os estilos das terras baixas
de água doce tornaram-se raras ou ausentes.
de\ iam ser derixados daqueles das terras al-
Os sítios desta fase são mais orientados para
tas, que não
e procuraram achar similaridades
asmargens dos rios atuais e \arzeas dos lagos
se sustentam mais. Os primeiros estilos de ce-
do que para os antigos aspectos hidrológicos
râmica decorada na Amazónia parecem ser ni-
associados aos primeiros sambaquis, sugerin-
tidamente das terras baixas em termos da for-
do uma reorientação ecológica correlaciona-
ma, iconografia e estilo, com cuias de adornos
da, ao menos em parte, a mudanças ambien-
o\ais ou redondos e decoração característica
tais. Apesar de o tamanho dos sítios continuar
nas bordas e paredes dos \ asos. Nenhum esti-
a variar de um a diversos hectares, a acumu-
lo aproximadamente similar foi identificado
lação de refugos diminuiu, e parecem ter si-
nas áreas montanhosas andinas. A área mais
do menos comuns os sítios muito grandes. Tal-
pro\ á\el de origem destes estilos das terras
vez os modos de subsistência e os ambientes
baixas é, portanto, a própria região; na costa
mais antigos tenham permitido uma explora-
caribenha da Colômbia, estilos com hachuras
zonadas, estriamento, incisões e raros adornos
ção mais intensiva em certas localidades favo-
modelados estão datados entre 3500 e 1000
recidas e, com a transformação da base de re-
cursos, de\ido a mudanças ambientais e/ou
1965a e b, 1985). Es-
a.C. (Reichel-Dolmatoff,
económicas, estas grandes concentrações
tes podem representar estilos ancestrais dis-
tantes tanto do Hachurado Zonado quanto do
tornaram-se inviáveis. Pode ser também que
Horizonte Saldóide-Barrancóide. o desem oKimento de uma no\ a economia ba-
Como são poucas as regiões das terras bai-
seada numa agricultura mais eficiente tenha

xas que têm sido prospectadas à procura de ocasionado a expansão de assentamentos per-

sítios, não sabemos se as novas culturas se de-


manentes numa área mais extensa do que era
senvolveram a partir de complexos anteriores possí\el anteriormente, propicianda por al-

pela própria população local em cada região gum tempo, um padrão de assentiuiientos m;iis

ou se os novos padrões se difundiram de gru- numerosos porém de menor tamanho.


po a grupo ou, ainda, se cada cultura foi des- Poucos sítios destas primeiras cKnipaçôes ti>-

locada pelas migrações em massa, substituin- liimdocumentados, muitos pemiiuiecendo Ci>-


do aquelas das populações locais. No passa- bertos por mais de 1 m de sedimentos mais

do, os arqueólogos geralmente acredita\am recentes. .\ maioria tem sido achada ao longi^
que os desenvolvimentos culturais eram espa- das várzeas dos rios, mas as áreas interilux iais

lhados pela difusão ou migração, mas a possi- da .\mazónia têm sido objeto de um reiH^nhe-
bilidade de desenvolvimentos locais paralelos cimento apenas incipiente. Os princip;us srtios
também precisa ser considerada. O aprofun- deste tipo foram localizados na bacia do loa-
damento da pesquisa poderá tornar possível >uli,no alto .\miizonas peruano (I^ithnip.
a comparação das mudanças na genética e fi- 1970),no médio e baixo Oivuíxh^ da \enezuela
siologia osteológica e dental com os padrões (Howaixl. 194o; Kouse e C^ruxent, 1963; C"ru-
de mudança cultural através do tempo, com xtnit t^ Koust\ 1958-9; Sanoja. 1979; Rix^sexelt.
objetivo de testar a utilidade das diferentes ex- 1978. 1980; \ai-gas Arenas, 1981; \at>ras Ait^
planações. nas e Sanoja. 1970; /ucchi e lUrble, 1984\ no
AKQUEOI.OGIA AMAZÔNK;a 69

baixo e médio Amazonas (Hilbert, 1959a, Artefatos da fase


Santarém. Acima,
1968; Hilbert e Hilbert, 1980), e na ilha de
à esqueda: Garrafa
Marajó (Meggers e Evans, 1957; Simões, 1969). em cerâmica pintada
Sítios de antigas aldeias também foram acha- de preto, com
decorações incisas e
dos nas Guianas (Boomert, 1983). A extensão
modeladas (18 cm).
média dos sítios ribeirinhos é de cerca de Acima, à direita:
1 ha, frequentemente com mais de 1 m de pro- Esfinge feminina
em cerâmica
fundidade, indicando que o assentamento pos-
policromada
suía tamanho e estabilidade consideráveis. (30 cm).Ao lado:
Existem também sítios menores em lugares su- Machado de pedra
com 7,2 cm.
jeitos a enchentes sazonais, que possivelmen-
te serviam de acampamentos temporários pa-
ra a pesca, utilizados apenas nas estações
secas.
O sistema de subsistência desta fase de ocu-
pação permanece parcamente documentado, sílfx de 7-9 nnn e numerosas assadeiras de ce-
uma vez que apenas recentemente os ar{}ueó- râmica grossa, como as usadas para gratinar
logos começaram a empregar métodos de pa- e cozinhar mandioca na Amazónia atual. Ape-
leodieta nas terras baixas tropicais. O padrão sar de muitas frutas de árvores terem sido
de subsistência das fases da Tradição La (iru- IdentifRadas nas amostras de solo, não havia
ta, evidenciado nos sítios de La Gruta e Ron- sementes de espécies cultiváveis como milho
quin no médio Orenoco na Venezuela, pode e feijão. C>om base nisso, acredita-se (jue a sub-
servir, a título de experiência, como modelo sistência estava baseada no cultivo de raízes,
para o período. Nesta fase, a subsistência é um na caça e na pesca. As raras pontas triangula-
pouco mais bem conhecida (jue nas outras fa- res de projéteis de quartzo com pedúnculo en-
ses deste estágio ponjue o solo foi bem penei- contradas em La (íruta são consideradas co-
rado e a água foi retirada durante a escavação. mo sendo pontas de flechas, porém, apesar das
O solo do sítio continha muitos estilhaços de precárias condições de preseiAação dos restos
msTouiv nos índios \o huvsii

da tauna apresentadas pelo solo arenoso, sur- zônia atual. Os pontos de encontro incluem
i^inun traunientos de espinhas de peixe (Pinie- a importância do cultivo de raízes sobre o de
lodiddc e Xcniato^iwtlii), als^niis raros mamí- sementes, a importância da proteína animal,
feros aquáticos, incluindo peixes-hoi {Trichc- a ênfase na arte de estilos representati\os de
chiis sp.) e botos {PJiocacnidac), tartarugas e animais e o padrão de assentamento em al-

;ilgims poucos roedores e manuTeros terrestres deias modestas e dispersas. Mas há uma gran-
não identificados. Os resultados da análise de de descontinuidade entre as \ersões pré-
isótopo está\el no colágeno dos ossos huma- histórica e etnográfica atual deste modo de \i-
nos, pro\enientes do sítio de C>oro/.al e repre- da. O estilo simples de \ ida das aldeias essen-
sentando o fim deste estágio no médio Ore- cialmente desapareceu nas várzeas dos rios
noco, apontam para uma dieta — embora não principais da Amazónia durante o primeiro mi-
se limite a esta — de pesca, caça e mandioca, lénio a.C. com
o surgimento do cultivo inten-
porém indicando um quadro distinto daquele sivo de plantas de sementes, com a expansão
esperado para comedores de milho. Os restos das populaçóes humanas e com o desenvoKi-
carbonizados de plantas de La Gruta e Ron- mento de culturas complexas. Assim, de cer-
quin incluem sementes e fintas de árvores de ta maneira, a cultura dos índios dos dias atuais
florestasde galeria e fragmentos de madeira representa um modo de \ ida arcaico que vol-
(Smith e Roose\elt, s. d.). As espécies identi- tou a ser importante devido aos deslocamen-
ficadas incluem Cordia, Byrsonima, Hymenea, tos e perdas demográficas ocorridas durante
Stercidia apetala e raras palmeiras. Nenhuma a conquista europeia. Talvez a história deste
delas pode ser considerada como alimento bá- modo de vida na Amazónia forneça uma cha-
sico, mas acredita-se representarem a vegeta- ve para o esclarecimento das condiçóes que
ção do sítio. o tornaram possível: a baixa densidade popu-
Se as assadeiras indicam que a mandioca lacional e a ausência de competição pela ter-
já era culti\ada no médio Orenoco no decor- ra e seus recursos. Enquanto complexo adap-
rer deste estágio, então sua presença nas ter- tativo, a importância deste sistema de subsis-

precede em muito a introdução da


ras baixas tência parece ter sido a de produzir uma fonte
mandioca na costa peruana em cerca de 1000 de calorias para permitir a melhor administra-
a.C. (Towle, 1961; Lathrap, 1977; Lanning, ção dos escassos recursos animais para suprir
1967). Assim, parece provável que o sistema as proteínas necessárias. Seu desaparecimen-
produtivo da floresta tropical nas terras bai- to das várzeas durante o período da exp;msão
xas, caracterizado pela coivara da mandioca, populacional nos tempos históricos tardios po-
a pesca e a caça, tenha tomado forma na gran- de estar relacionado ã incapacidade deste
de .\mazônia antes que hou\esse qualquer evi- comple.xo horticultor piua explorar os nutrien-
dência de cultivo em qualquer outro lugar. En- tes das várzeas para a produção de proteíniis
tretanto, são fracas as evidências provenientes pro\enientes de plantas com um nível trótlco
dos artefatos referentes à presença da mandio- inferior. Para tanto, o complexo te\e que subs-
ca, uma vez que assadeiras e grelhas podem tituir o culti\ o de nuzes pelo culti\ o de semen-
ser usadas por muitos outros tipos de alimen- tes. Uma vez que o culti\o de plantas anuais
tos, sendo possível confirmar a hipótese a par- exige um padrão de trab;ilho intensi\a não é
tir de outras evidências mais diretas. A eco- surpreendente que, quando as populações da
nomia de subsistência deste importante está- .\mazônia indígena fonun dizimadas depois da
gio de desenvolvimento na Amazónia precisa coníjuista, a subsistência tenha \ oltado a se ba-
ser elucidada em trabalhos futuros. O exame sear no culti\o de raízes.
pelo microscópio de elétrons das abundantes
madeiras carbonizadas pode re\elar a presen- SOCIKDADKS INDK.KN AS COMFl.KXAS
ça do caule da Euphorbiaceae, da família da DA AMAZÓNIA
mandioca.
IMUOIHÇ.U)
RESUMO Durante o primeiro milénio antes e o primei-
Km muitos sentidos, a fase das primeiras al- vo milénio tlepois da era cristã ooorriM-am nas
deias horticultoras da ocupação prt^-histtnica \ar/eas da Amazónia nmdanças signitK\Ui\us
se parece com a ocupação indígena da .\ma- nas ati\ idades, t\»;v aUi t^ i>i^ani/.;ição das SiVii^
XRQIEOLOGIA AMAZÓMCA

dades indígenas. Grandes mudanças ocorre- sos locais de crescimento demográfico e eco-
ram na produção artesanal, na economia, na nómico e de competição pelos recursos e pe-
demografia e na organização social e política. lo trabalho.

Existem, em suma, evidências do surgimen-


REL.\TOS ETNO-HISTÓRICOS
to, ao longo dos principais braços e deltas dos
rios, do que os antropólogos denominam ca-
SOBRE O CACICADO .\.\IAZÒ.MCO
cicados complexos. Os dados sobre o período da conquista na
A arqueologia pré-histórica antiga e os da- Amazónia, da metade do século X\ ao sécu- I

dos históricos mais recentes elam a presen-


re\ lo .XVIII, provenientes de comentários publi-

ça destas sociedades complexas, todas ao lon- cados, transcrições, fac-símiles e traduções


go das \ árzeas dos rios Amazonas e Orenoco (por exemplo, Bettendorf, 1910; De Heriarte,
e nos contrafortes das costas andinas e cari- 1964; Daniel, 1840-1; Palmatar>-, 1950, 1960; /

benhas. Estes extensos domínios abrangiam Markliam, 1869; M>-ers, 1973, 1974; Rowe, org.,

dezenas de milhares de quilómetros quadra- 1952; Denevan, 1966, 1976; Meggers, 1971;
dos, sendo alguns unificados sob chefes supre- Lathrap, 1970; Acuiia, 1891; Gumilla, 1955;
mos. Os cacicados eram belicosos e expansio- Medina, org., 1934; Canajal. 1892; Castella-
nistas, com uma organização social hierárqui- nos, 1955; Bezerra de Menezes, 1972; Morey,
ca, mantida por tributos e por um modo de 1975; Porro, 1989; e outras referências resu-
subsistência baseada na colheita intensiva de midas por Roosevelt, 1980, 1987b) recons-
roças e fauna aquática. O artesanato era alta- troem a história das sociedades complexas no
mente desenvolvido para cerimoniais e comér- período pré-histórico tardio e inícios do his-
cio, manifestando estilos artísticos bastante di- tórico.
fundidos, baseados em imagens humanas, além De acordo com estes dados, os índios esta-
dos motivos mais antigos de animais e formas vam densamente assentados ao longo das mar-
geométricas. Havia um igualmente bem difun- gens e várzeas dos principais rios. Embora as
dido culto de urnas funerárias e adoração dos estimativas quantitativas variem, parece claro
corpos e ídolos dos ancestrais dos chefes. A que, ao longo da maior parte do Amazonas, os
população era densamente agregada ao longo assentamentos eram contínuos e permanentes,
eram ocupados por
das várzeas e alguns sítios havendo que comportavam muitos mi-
sítios

muitos milhares de pessoas. Havia obras de lhares a dezenasde milhares de indivíduos,


terraplenagem em larga escala para o contro- não sendo improv ável que existissem outros
le da água, agricultura, habitação, transporte ainda mais populosos. Estes assentamentos pa-
e defesa. Em um
ou dois séculos de conquis- recem ter estado integrados a grandes terri-

ta, entretanto, as sociedades complexas e suas tórios culturais e políticos, go\ emados por che-
populações desapareceram completamente da fes supremos cuja autoridade baseava-se na
maior parte das várzeas, e nada, mesmo remo- crença na origem divina. A organização social
tamente parecido, pode ser encontrado nas dos cacicados parece, na maior parte dos ca-
atuais sociedades indígenas da Amazónia. sos, ter sido estabelecida ou estratificada em
A ausência de sociedades complexas entre hierarquias sócio-políticas compostas por che-
as sociedades indígenas atuais le\ou, em pri- fes supremos, nobres, plebeus, ser\ os e escra-
meiro que muitos estudiosos não re-
lugar, a vos cativos. As sociedades engaja\am-se na
conhecessem sua existência no passado (Ste- conquista militar de seus vizinhos e alguns dos
ward, 1949). Quando evidências irrefutáveis primeiros conquistadores europeus tiveram di-

foram mais tarde reunidas a partir de achados ficuldades consideráveis em atravessar os ter-
arqueológicos e documentos etno-históricos, ritórios dos cacicados dev ido aos repetidos ata-
a presença destas sociedades na "floresta tro- ques de extensas flotilhas de grandes canoas.
pical" foi atribuída à influência dos .\ndes. En- Um chefe supremo, reiUmente entrevistado
tretanto, o resultadodo trabalho de datação por cronistas durante suas campanhas no mé-
não sustenta a origem externa destas socieda- dio Orenoco, disse que suas batalhas eram ani-
des, cujas formas mais precoces encontram- madas pelo desejo de se apoderarde mais ter-
se nas terras baixas, no leste brasileiro, e não ras tanto agriculturáveis quanto abundantes
perto da Cordilheira dos .\ndes. Suas origens, em pesca, além de mais catixos para trabalhá-
desta fornia, de\em ser procuradas em proces- las. O padrão de conflito não era o dos assaltos
fl

mSTOlUV 1H»S INOIOS M> HlxVSIl.

ospiíiiulicos do \ intíUM^a ou captura de nuillic- nientes dos altos estratos sociais em posição
les. tal como uos dias de hoje, mas existia uma de chefia e especialistas em rituais. As fontes
estrutura de guerra em larga escala orgauiza- também mencionam o que parece ser o cos-
da para defesa e couquista. tume generalizado da genealogia matrilinear
Ao contrário daquelas da Ama/.ônia indígt>- e citam também o uso da endogamia para as
na atuiil, as economias destas sociedades eram mulheres pertencentes à camada da chefia.
complexas e de Ku-ga esciíla, englobando a pro- Em várias sociedades observadas pelo conta-
dução intensi\a de plantas de
e de semen-raiz. to, rapazes e moças eram sujeitos a rituais e
te em campos de
ou monoculturas, a ca-
poli provaçóes de iniciação.
ça e pesca intensiva, o amplo processamento Pela sua natureza, os relatos etno-históricos
de alimentos e a armazenagem por longos pe- não fornecem e\ idências definiti\ as sobre a or-
ríodos. Ha\ia inxestimentos consideráveis em ganização política e social ou informações
estruturas substanciais e permanentes ligadas quantitativas seguras sobre a subsistência ou
à produção, tais como viveiros de tartarugas, a demografia; mesmo assim, as fontes da gran-
represas com pesca, campos agrícolas perma- de Amazónia contêm evidências indiscutíveis
nentes, entre outras. A agricultura baseava-se de sociedades de grande escala, muito popu-
mais na limpeza dos terrenos e nas culturas losas, comparáxeis ao cacicado complexo e aos

anuais do que na derrubada e queimada, o pequenos Estados conhecidos em outras par-


principal método utilizado hoje em dia. Em tes do mundo.
muitos dos cacicados das várzeas, o milho,
mais do que a mandioca, era o principal gé-
CULTURAS DOS HORIZONTES
nero alimentício, e os europeus puderam se
DO PERÍODO PRÉ-HISTÓRICO TARDIO
alimentar de grandes quantidades de milho Os dados arqueológicos sobre a Amazónia
quando viajavam pelos cacicados amazônicos. também oferecem e\ idências da existência de
Os artefatos eram produzidos em larga escala sociedades complexas, localizadas ao longo das
e quantidades de tecidos e cerâmicas decora- várzeas no período pré-histórico tardio. O mi-
das de alta qualidade, assim como diversos lénio anterior à conquista se caracteriza pela
utensílios, alimentos e matérias-primas, eram difusão de estilos de horizonte autênticos, tiús

comercializadas através de grandes distâncias. como o Horizonte Policrómico e o Horizonte


Parece ter havido locais que funcionaram co- Inciso Ponteado. O Horizonte Policrómico
mo mercados, onde o comércio intensivo era caracterizou-se principiílmente pela cerâmica
realizado periodicamente. Correntes com con- decorada com elaborados desenhos geométri-
tas de disco, geralmente de conchas, eram uti- cos estilizados executados com pintunis ^prin-
lizadas como meio circulante tanto no Oreno- cipalmente vermelha, preta e branca) e com
co quanto no Amazonas. incisões, excisões e modelagem. Exemplos de
Havia, regularmente, cerimónias religiosas estilos policrónncos locais são o Marajoara da
comunitárias com cerveja de milho fornecida foz do Amazonas (Meggei^s e Exans, 1957; Rí.x>-
por meio da tributação do dízimo, acompanha- sevelt, 1991a), o Guiuita no médio Amiizonas

das de música e danças. No baixo Amazonas, (Hilbert, 1968), ambos brasileiros, o Caimito
diversas grandes unidades políticas possuíam da alta Aniiizónia peruiuia (Lathrap. 1970; \\"e-

ideologias religiosas legitimadoras da posição ber, 1975), o Napo do iilto Amazonas equato-
das por meio da adoração e deificação
elites, riano (Evans e Meggers. 1968) e o Araracuara
de seus ancestrais. As múmias e as imagens de Caquetá na Amazónia colombiana ^Henv-
pintadas dos ancestrais dos chefes eram guar- ra et alii, 1983; Éden et alii. 1984). O estilo

dadas, em estruturas especiais, junto com ima- de cerâmica do Horizonte Inciso Ponteado
gens de pedra de divindades e com a parafer- apresenta modelagem abundante de ornameti-
sendo especialmente preparadas
nália ritual, tos e incisões profumlas e dtM\sas, idem de ^xmi-

para circular durante as cerimónias periódi- teação. Os motixos plásticos sàix em sua maio-
cas. Existiam especialistas (jue cuida\am das ria, rudes e mal acalxidos, apesar de existiivm
casas religiosas e das cerimónias, bem como exemplos dt> ciMànnca mais tuia e cuidadosa-
adivinhos e curandeiros. Apesar de as nmlhe- uu ntt^ elaborada. .\s fases do Hori/.onte Inci-
res não serem autorizadas a presenciar certas so Ponteado ocorreram em Santarém no lv«-
cerimónias, são mencionadas mulheres pro\e- xo .Vnui/onas ^^Pahnatar\, 1960; Ue/erra do
AKQIK.OI.OGIA AMAZONICA

Menezes, 1972), em no médio Ama-


Itacoatiara tipode influência cultural, ou de verdadeiras
zonas (Hilbert, 1959b, 1968), ambos no Bra- migrações em massa. Os conhecimentos exis-
sil, surgindo também no decorrer da cultura tentes a respeito das sociedades expansionis-
pré-histórica tardia de Faldas de Sanga\' na tas, como as dos Incas gregos e romanos, su-
Amazónia equatoriana (Athens, 1989; Porras, gerem que muitas das mudanças decorrentes
1987), em Camoruco e Arauquin no médio de suas difusões davam-se mais na forma de
Orenoco (Petrullo, 1939; Roosevelt, 1980, aculturação do que por meio de migrações em
1991b) e em Valência na serra marítima cari- massa e da substituição demográfica das po-
benha (Kidder, 1944), todos estes na Venezue- pulações conquistadas. Em vez de se extingui-
la. Ambos os horizontes são relacionados aos rem, as populações locais persistiram, tornan-
primeiros horizontes Hachurado Zonado e do-se filiadas culturalmente aos conquistado-
Saldóide-Barrancóide, mantendo-se o padrão res. Istonão significa que o genocídio não te-
antigo das ten-as baixas de cuias de bordas com nha existido durante as conquistas, mas este
incisões e adornos. Ambos introduziram im- não foi o principal processo causador da difu-
portantes formas e temas novos, tais como as são dos horizontes culturais pré-industriais.
urnas funerárias e as pequenas e grandes efí- Mudanças culturais, ocasionadas pela influên-
gies humanas. cia e interação, conquista e aculturação, apre-
Estes estilos difundiram-se rapidamente em sentam-se como um modelo mais realístico do
territórios comparáveis em tamanho àqueles que a migração para explicar a difusão dos ca-
dos cacicados descritos nos relatos etno-his- cicados pré-históricos tardios.
tóricos. Os estilos de horizonte com as carac- Os arqueólogos têm se preocupado em as-
terísticas temporais e espaciais dos estilos pro- sociar a dispersão dos horizontes às migrações
venientes da Amazónia pré-histórica tardia são das populações de certos grupos lingiiísticos
tradicionalmente interpretados pelos antro- (Lathrap, 1970; Evans e Meggers, 1968). Os
pólogos como evidência da expansão da con- Horizontes Saldóide-Barrancóide têm sido re-
quista dos cacicados ou estados. Antes deste lacionados aos povos de língua Arawak, o Ho-
período, porém, existiam apenas horizontes rizonte Policrômico aos povos de língua Tupi
declinantes — a generalizada série Saldói- e o Horizonte Inciso Ponteado aos povos de
de-Barrancóide e o Horizonte Hachurado Zo- língua Karib. Esta equação monolítica de lin-

nado — os quais são interpretados como pro- guagem, população e cultura material parece
dutos da expansão da antiga horticultura de pouco realista, e os estudos etnográficos não
raízes na Amazónia. Estes horizontes difundi- confirmam estas hipóteses (Black et alii, 1983).
ram-se apenas lentamente no decorrer de mui- Os relatos etno-históricos documentam mui-
tos milénios. Os estilos de horizontes preco- tos cacicados de diversas línguas, e os estilos
ces e tardios parecem ter representado pro- de horizonte da Amazónia atual não estão res-
cessos de interação inter-regionais bem di- tritos a nenhum grupo linguístico particular.
ferentes. Os estilos regionais de horizontes de- Por exemplo, o estilo policrômico amazônico
clinantes apresentam uma relação muito es- do presente é compartilhado por diversos po-
treita entre si e parecem ter tido uma origem vos de diferentes grupos lingiiísticos (T. Myers,
comum, embora não sofram mudanças esti- comunicação pessoal); assim, parece haver
Entre os horizontes au-
lísticas sincrónicas. pouca justificativa para pressupor que os esti-
tênticos, parece ter havido comunicações los policrômicos antigos representam um úni-
estilísticas inter-regionais contínuas, durante co grupo lingiiístico. Igualmente, nenhum sí-
a maior partedo período pré-histórico tardio. tio com cerâmica Siildóide-Barrancóide foi re-

Uma possível explicação para esta comunica- lacionado historicamente aos povos de língua
ção pode ser a existência de redes de alian- Arawak, porque estes estilos desapareceram
ças, casamentos e guerra entre as elites das muito antes que se fizesse qualcjuer obser\a-
culturas regionais dos cacicados. ção sobre as línguas nativas. De (}vuil(juer ma-
.\s primeiras interpretações dos estilos de neira, parece mais prová\el (jue os estilos de
horizonte explicavam-nos em função de migra- horizonte abranjam populações nuiltiétnicas,
ções ou invasões maciças. Evidências estilís- estando ligados a processos sócio-políticos e
ticas, entretanto, não podem revelar se a difu- económicos mais complexos do (jue a uwvd in-
são dos horizontes se deu por meio de algum vasão e migração em massa.
«n

insTOKiv noN índios no bhvsii

O HABITAT DOS KST11X)S DE suíam sistemas de subsistência de agricultura


HORIZONTE PRE-HISTÓRICO TARDIO intensiva, baseados no cultivo de plantas e se-
mentes como fontes básicas tanto de proteína
As fases arqueológicas dos estilos de hori/.on-
{}uanto de amido.
te pré-histórieo tardio parecem ter ocorrido
Apesar de
as imestigações anteriores terem
em de biomas. Muitas das
tipos característicos
enfocado quase exclusivamente os restos líti-
fases tèm sido ideutificadas ao longo dos ban-
cos, barragens e deltas das principais \ árzeas
cos e cerâmicos, existe uma notá\ el abundân-
cia de xariedades de restos biológicos nos sí-
dos rios que contêm sedimentos erodidos dos
tios antigos. Xos casos em que estes restos fo-
Andes. Os maiores complexos de sambaqui
ram coletados para a investigação da
encontram-se em giundes extensões de duvião
subsistência e do ambiente antigos, estes sí-
recente, nas planícies daAmazónia boliviana,
tios produziram milhares de restos de ossos de
no delta do Apiue do médio Orenoco, nas pla-
animais e plantas identificáveis (Roosevelt,
nícies costeiras da Guiana e na ilha de Mara-
1980, 19S4, 1989a e b; Wing. Garson e Simons,
jó, na foz do Amazonas. As fases arqueológi-
s. d.; Garson, 1980; Smith e Roosevelt. s. d.).
cas das áreas interflu\ de baixos recursos
iais
Estes restos têm revelado informações signi-
parecem carecer da complexidade cultural e
ficatixas sobre a subsistência no decorrer do
da magnitude das fases das várzeas.
desen\ oKimento das sociedades complexas.
As únicas exceções são as regiões interflu-
As colheitas de sementes, como o milha pa-
viais que se diferenciam pelos depósitos geo-
recem ter penetrado nos sistemas de subsis-
lógicos que enriqueceram os solos locais com II
tência das \ árzeas da Grande Amazónia du-
nutrientes, como as extensões da costa cari-
rante o primeiro milénio a.C. Xeste períoda
benha da \'enezuela, o alto e médio Xingu, no
hou\e um aumento muito rápido da popula-
Brasil, o sopé andino no iilto .\mazonas e o oes-
ção indígena, a julgar pelo considerável cres-
te do Orenoco. Poucas imestigações foram rea-
cimento no número e no tamanho dos sítios
lizadas nas áreas interfluviaisde baixos recur-
arqueológicos. A presumível vantagem das se-
sos. É, entretanto, admissível que os antropó-
mentes parece ter sido a de permitir a explo-
logos tenham achado restos arqueológicos
ração intensiva dos ricos solos, comparáveis
mais substanciais ao longo dos rios principais
aos da várzea do Xilo. Com as sementes, podia-
e contrafortes andinos simplesmente porque se produzir e estocar uma maior quantidade
estas áreas são mais acessíveis à pesquisa. Xa de amidos e proteínas do que com as roças de
avaliação do papel dos fatores ambientais no raízes e a coleta da flora e da fauna nativas.
desem oKimento das sociedades das terras bai- Em algimias áreas, como nas do Marajó, é pos-
xas, tornar-se-á importante no futuro compa- sível que o cultivo de gramas e quenopódios
rar a ocupação pré-histórica das regiões geo- das várzeas tenha precedido a adoção do mi-
logicamente portadoras de baixos nutrientes lho (Brochado. 1980; Roosevelt. 1991a).
com aquelas regiões de ricos recursos nutri- A julgar pelos resultados do estudo de isó-
cionais. topos estáv eis e de patologias dentáriiis de in-
divíduos do período pré-histórico tiuxlia iis co-
AS ECONOMUS PRÉ-HISTÓRICAS T\RDL\S
lheitas de sementes parecem ter se tomado
Durante muito tempo, os antropólogos acre- bastante importantes no primeiro milénio d.C.
ditaram que a mandioca, a pesca e a caça, pa- período no qual as populações e sítios pn^li-
drão da subsistência dos índios de hoje, tam- feraram. Pelo cjue se sabe deste períoda min-
bém constituíam o principal sistema de todo tas das V lír/eas possuíam densid;ule jx>pulacii>-
o período pré-histórico. Entretanto, este pres- nal extremamente alta; e os relatos dos primei-

suposto se basea\ a em duas ideias agora tidas ros exploradores, os resultados das |">esquis;is
como que o padrão etnognífko
incorretas: aujueobotànicas e estuilos de i.sotoixvs est;ivvis

atual é representativo do padrão antigo; e que de restos ósseos nativos na alta .\miizònia pe-
o ambiente amazônico era muito pobre para ruana e no médio C^renoco venezuelano do-
sistemas agrícolas de tipo mais intensi\o. O cunuMitani a fi>rto éntase no núlho enquanto
que algumas das novas descobertas arqueoló- fonte dv alimento proteica e enei-gética. .\
gicas mostram é (jue muitas das sociedades zooartjueologia e a química dos ossos huma-
pré-históricas das várzeas amazònicas pos- nos ilemonstram que a pi\)tema animal toi
ARQUEOLOGIA AMAZOMCA

mantida em caráter suplementar, com a forte período final da fase, o colágeno dos ossos dos Sítios na ilha de
predominância dos restos de fauna aquática Marajó. Vista aérea
indivíduos pré-históricos apresentou as por-
do grupo Monte
sobre a terrestre, presumivelmente devido a centagens mais baixas de carbono estável e as Carmelo, rio
sua alta biomassa e alto ritmo de reprodução mais altasde isótopo de nitrogénio, caracte- Anajás.
dos peixes neste habitat, em comparação com rísticas dos comedores de milho.

os dos animais terrestres. Embora ainda não tenham sido realizados


As mais antigas evidências arqueobotânicas trabalhos arqueobotânicos no alto Amazonas,
do cultivo de milho foram achadas na Fase Co- os estudos de isótopos estáveis de restos ós-
rozal da região de Parmana, no médio Oreno- seos do primeiro e inícios do segundo milé-
co, sendo esta uma fase de transição entre as nio d.C, provenientes das escavações de Yari-
fases iniciais Saldóide-Barrancóide e o Hori- nacocha na várzea do Ucayali, no Peru, docu-
zonte Inciso Ponteado do período pré-histó- mentam a mesma mudança de um possível
rico tardio (Roosevelt, 1980, 1991b; Van der padrão de mandioca, pesca e caça para o
Merwe, Roosevelt e Vogel, 1981). Aí, uma es- padrão básico de milho (Roosevelt, 1989a).
pécie de milho bastante primitivo, parecido Significativamente, os atuais índios Shipibo
com o tipo Pollo dos Andes setentrionais, en- da comunidade de Yarinacocha consomem a
trou na seíiiiência cerca de 800 a.C, ou seja, mandioca como principal fonte de caloria, re-
nos inícios da fase. Ao tempo do advento da velando que uma importante mudança na sub-
era cristã este havia sido substituído por dois sistência teve lugar entre os tempos pré-his-
tipos mais modernos, especialmente a(iuele se- tóricos e os dias atuais. Mas nenhum estudo
melhante ao tipo Chandelle da região caribe- ecológico do modo de subsistência dos Shipi-
nha. Em c(Tca de 400 d.C]., nesta região, no bo esclarece^ ou e\plic-a as razões p(^las (|uais
msTctiuv PDS i\nu>s no luusii.

a adapta(;ão indígena ao meio ambiente dife- mais recentes do que se havia pensado. Os
reneion-se tanto entre os períodos anteriores estudos químicos dos ossos em toda a Amé-
e posteriores à conqnista. rica sugerem que o milho não se tornou ali-
Existem evidências etno-históricas de que mento básico muito antes do advento da era
a transição da subsistência pré-histórica para cristã (Price, org., 1989; Burger e \an der Mer-
o milho também ocorreu no baixo Ama/.onas, \\e, 1990). .Ademais, existem evidências pro-
pois os primeiros missionários portugueses in- venientes de cavernas secas na Argentina (Fer-
formaram, a respeito dos cacicados do Tapa- nández Distei, 1975) e no Brasil (Miller. 1987;
jós, nas \ izinlianças de Santarém, que estes de- Schmitz, 1987; Schmitz, org., 1981-4; Puttka-
pendiam fortemente do cultivo de milho, em mer, 1979) destacando o precoce cultivo do
vez de mandioca, para sua alimentação (He- milho, sugerindo que o pressuposto da origem
riarte, 1964). Relatos posteriores demonstram setentrional do milho pode ser simplesmente
que houve um retorno à dependência da man- um produto da ausência de indícios provenien-
dioca durante o período colonial (Smith, 1879), tesde outras áreas. Não são conclusivas as evi-
uma \ez que as populações das várzeas foram dências de uma possível dieta de plantas de
dizimadas. Porém, ainda não foram realizados sementes pré-milho; mesmo assim, seguindo
trabalhos arqueobotânicos ou de isótopos pa- a analogiada antiga economia indígena pré-
ra \erificar os relatos etno-históricos. do sudeste dos Estados Unidos, ba-
histórica
O cultivo de sementes deve ter começado seada em plantas de semente, esta economia
logo depois do advento da era cristã, na ilha deve ter sido um desenvolvimento local, ao in-

de Marajó, onde existem grandes extensões de vés de uma economia de difusão.


ricos solos de várzea, mais adequados ao cul- Como foi explicado acima, a arqueobotàni-
tivo de plantas de sementes do que de man- ca e os estudos químicos dos ossos até agora
dioca. Restos ósseos pré-históricas da Fase Ma- realizados indicam que o período de expan-
rajoara, de cerca de 400-1300 d.C, têm pato- são das populações e de desenvolvimento
logias dentárias indicativas de uma base sócio-político acompanhou um crescimento na
alimentar de cereais de sementes duras (Gree- dependência das colheitas de sementes ali-
ne, 1986). O milho, entretanto, não parece ter mentares, como o milho, e o decréscimo do
sido o principal alimento, já que trinta espé- consumo de amidos, provenientes de raízes
cimes de ossos marajoaras produziram evidên- tropicais, e da fauna, padrão característico da
cias isotópicas de consumo de milho em ní- ocupação origiuiil da .\miizônia por ;ildeões se-
veis em torno de apenas 20% a 30% (Roose- dentários, durantes os primeiros dois milénios
velt, 1991a: Tab. 6.7). E possível que cereais a.C. Este padrão demudança para a depen-
nativos ou quenopódios, como o arroz da fa- dência de plantas de sementes como tonte de
mília Leersia hexandra, fizessem parte da die- calorias e proteínas acompanha o processo
ta (Brochado, 1980; Roosevelt, 1991a). A prin- económico que ocorreu durante o período
cipal fonte de proteína animal no Marajó, co- pré-histórico tardio na América do Norte e em
mo em Parmana, era o peixe, e as espécies muitas partes do \élho Munda no decorrer do
representadas pelos ossos animais indicam que estágio Neolítico (Cohen e .\rmelagos, orgs..
em sua maioria estas eram constituídas de pe- 1984).
quenos peixes apanhados mediante o envene- Os padrões antigos contrastam com os pa-
namento de águas nas estações secas. Nos dias drões etnogriíficos de subsistência da Amazó-
de hoje, no Marajó, a alimentação se constitui nia atual, os (juais se baseiam em raízes ami-
de amido de mandioca e carne seca, padrão doadas, suplementadas com pesca e caça ^^Ha-
apropriado à economia predominante de pe- mes e N^ickei-s, oi-gs.. 1983). O desenvxilvimentv^
cuária comercial, e os peixes pccjuenos são ho- da agricultura intensiva tempos pré-
tu>s

je considerados como sem utilidade. histcJricos partx^e ter estado convlacionado à


No passado, supôs-se que o milho havia rápida expansãi> das populações das sixntxla-
chegado às terras baixas, provenient(> da Mc- des compU^xas. Sugestivamente, os desloca-
soamérica, pelo norte dos .\ndes. Entretanto, mentos i> o ilespovoamento do período histó-
as amostras mais antigas de milho do Peru e tutMam com que estas
rico apariMíttMmMitt'
da Mesoamérica têm rece^bido nov as dataçõt^s, txHmomias rt^tornassem aos padrões de culti-
sendo consideradas nmitos milhares de anos vo menos intensivo de raízes e à captura de
\HyiEOLOGIA AMAZÓMCA

animais, próprios às economias do período áreas específicas de artesanato, áreas cerimo-


pré-histórico inicial. Os padrões etnográficos niais, aterros defensivos, cemitérios e amon-
da subsistência indígena de cultivo itineran- toados, além de substanciais restos de estru-
te, a caça e a pesca parecem, assim, represen- turas domésticas e utilitárias, como habitações
tar um retorno a um modo de vida que existia e fornos. Nenhum destes grandes sítios com-
na Amazónia antes do desemolvimento das plexos foi ainda totalmente imestigado. Ape-

economias intensivas dos populosos cacicados. sar de a maior parte das fontes se referir aos
O reconhecimento de evidências específi- assentamentos arqueológicos da Amazónia no
cas de importantes mudanças na subsistência pré-histórico tardio como não urbanos, os sí-
e na demografia é algo novo na antropologia tios arqueológicos e as grandes obras de ter-

da Amazónia. As novas informações sobre a raplenagem na Amazónia do pré-histórico tar-


química dos ossos humanos pré-históricos, os dio são surpreendentemente substanciais e
animais comestíveis e as plantasdocumentam complexos.
a sequência de mudanças tecno-ambientais e As culturas construtoras de sambaquis em
tecno-económicas com muito mais complexi- larga escala desenvolveram-se em muitas áreas
dade do que antes havíamos pensado. As ev i- da Grande Amazónia: nos Llanos de Mojos e
dências de que muitos dos primeiros desen- Chiquitos da Amazónia boliviana (Erickson.
volvimentos culturais —como a cerâmica ini- 1980; Nordenskiõld, 1913, 1916, 1924a e b; De-
cial, o sedentarismo e a agricultura —
devem nevan, 1966), na ilha de Marajó na foz do Ama-
ter ocorrido mais cedo na Grande Amazónia zonas (Derby, 1879; Meggers e Evans, 1957;
do que nas terras altas, tendem a sustentar a Roosevelt, 1991a), nas planícies costeiras das
hipótese de que nossas noções anteriores acer- Guianas (Boomert, 1976, 1980b) e no médio
ca da existência de centros geográficos de ino- Orenoco (Castellanos, 1955; Cruxent e Rou-
vação e influência de culturas orientadoras na se, 1958-9; Denevan e Zucchi, 1978). Estas re-
z\mérica do Sul, no período pré-histórico, pre- giões foram denominadas "florestas úmidas
cisam ser revistas. Ademais, a conclusão de que tropicais", porém todas possuem zonas de v ár-
o desenvolvimento das culturas complexas zea com climas sazonais de sa\ana e com ex-
no período pré-histórico tardio na Amazónia tensões sujeitas a alagamentos sazonais que
está associado a mudanças significativas na deixam ricos sedimentos aluviais. As obras de
demografia e na subsistência prepara o cami- terraplenagem nestas áreas incluem áreas
nho para a compreensão destas culturas co- de cultivo elevadas e com \ alas, diques, canais,
mo produtos da adaptação local à ecologia da poços, açudes, calçamentos, estradas e sam-
Amazónia. baquis para habitação e enterramento. Os
sambaquis de ocupação foram construídos por
PADRÕES DE ASSENTAMENTOS meio do empilhamento de grossas camadas de
PRÉ-HISTÓRICOS TARDIOS solo escavadas de poços localizados em torno
Associado à difusão dos estilos de horizonte dos sítios, ou ainda pela acumulação gradual
do período pré-histórico tardio, ocorre o cres- de restos e ruínas de construções de adobe. Os
cimento em tamanho, número e complexida- habitats das culturas dos sambaquis sofrem
de dos sítios de ocupação humana, no perío- profundos alagamentos sazonais, portanto os
do imediatamente posterior ao adxento da era assentamentos permanentes precisavam ser
cristã. Os sítios ocupados neste período fre- anualmente elevados para locais secos. Entre-
qiientemente ocupam vários quilómetros e tanto, muitos dos samba(iuis pré-históricos fo-

apresentam uma considerá\el densidade de ram aparentemente construídos bem acima do


restos culturais e biológicos, com vários me- invel da água nos períodos alagadiços, o que
tros de profundidade. Muitos sítios de ocupa- sugere que estes de\ em ter sido ele\ ados para
ção das várzeas são amontoados de terra arti- a defesa ou a ostentação. Apenas algumas pros-
ficiais, similares aos "tells" do Oriente Próxi- pecções sistemáticas das obras de terraplena-
mo, compostos de sucessivos estágios de gem foram realizadas, e muitas destas constru-
construção e ruínas de construções de terra. ções nas várzeas foram cobertas pela sedimen-
Apesar da existência de numerosos sítios sim- tação. Além dos sítios de ocupação e das obras
ples e pe(|uenos, diversos sítios parecem ser de terraplenagem, podem ser trabalhadas al-
depósitos complexos e multifuncionais, com gumas áreas de depósito de pedras, como acjue-
HisTOKi V nos i\nios \t) bk\sii

la da parte oriental do escudo das Ciiiiauas e de de extensos solos negros ao longo de mui-
da região de C^urajás, ao sul da to/ do Amazo- tos quilómetros (Sternberg, 1960; Hilbert,
nas, que possuem extensos alinliamentos de 1968; Smith, 1980). Os sítios de solos negros,
(K\ans e Mesigers, 1960; Jo-
roclias monolíticas ao longo das margens do baixo Amazonas, são
sé Seixas Lourenço, comunicação pessoal). contínuos por muitos quilómetros. No Brasil,
A escala e a extensão das obras de terraple- estes depósitos são tão extensos, profundos e
nagem da Amazónia são extraordinárias. Em ricos em minerais que são classificados como
muit;is iíieas das \ ár/eas, as construções de ter- recursos agronómicos de grande importância
ra e os sítios se transformaram nas expressões económica, as chamadas "Terras Pretas Indí-
mais proeminentes da topografia, e os siste- genas" (Falesi, 1974). Em regiões como a de
mas de campos de culti\o ele\ ados estendem- Santarém, os sítios arqueológicos tomaram-se
se por muitas centenas de quilómetros qua- o principal recursoem termos de solo para o
drados. Nas extensas várzeas da savana úmi- desenvolvimento da agricultura monocultora
da, praticamente as únicas formas topogrilíl- comercial, durante o século XIX (Hartt, 1885:
cas que se projetam acima das \ árzeas são os Smith, 1879; Steere, 1927).
numerosos amontoados de habitações e cemi- Os maciços sítios de habitação indicam a
térios. Estes sambaquis mantêm uma floresta existência de uma ocupação pré-histórica mui-
antropogênica rica em trutas de árvores. Mui- to mais substancial e sedentária do que a ocu-
tos destes sambaquis possuem de 3 a 10 m de pação fraca e nómade visualizada pelos primei-
altura, mas deve-se considerar que esta altura ros investigadores da Amazónia. Os sítios de
foi reduzida desde os tempos pré-históricos grande ocupação não podem ser ex-plicados
pela erosão e pelo aumento da sedimentação como produto da acumulação proveniente de
nas \ árzeas. Um típico amontoado artificial nos longos períodos de habitações esparsas e iti-

Llanos bolivianos de Mojos é Casarabe, que nerantes, uma V ez que a cronologia indica que
possui mais de 16 m de altura e 20 ha de área eles aumentaram rapidamente, sendo docu-
(Doughertv e Calandra, 1981-2). Outro sítio de mentados, em muitos casos, períodos de cen-
amontoados múltiplos na Amazónia equatoria- tenas de anos, ev idenciados por diversos me-
na tem cerca de 12 km- de área (Forras, tros de refugos. Em muitas regiões, estes sí-
1987), e alguns sítios de sambaquis múltiplos tios representam as populações pré-históricas

na ilha de Marajó têm mais de 10 km- de que aparentemente eram muito mais nume-
área, contendo de 20 a 40 sambaquis indi\ i- rosas em 1500 d.C. que as populações aniiizò-
duais (W. Farabee, notas de campo; Hilbert, nicas atuais. .\ partir da quantidade de fogos
1952). Áreas como as de Llanos de Mojos e e das evidências comparativas em nível mun-
Marajó têm centenas de grandes sítios de sam- dial referentes à razão entre a área dos sítios

baquis e muitos outros ainda não com- e suas respectivas populações, pode-se con-
provados. cluir que um número não pequeno de sítios

Mesmo os sítios arqueológicos produzidos amazónicos abrigav a populações de muitos mi-


pelo mero acúmulo de refugos orgânicos co- lhares de pessoas, sendo alguns suficientemen-
brem uma considerável extensão da superfí- te grandes para terem comportado pelo me-
cie ao longo das margens dos rios Amazonas nos dezenas de milhiires de pessoas.
e Orenoco. Estes massivos depósitos arqueo- Diversos griuvdes cemitérios com centeiuis
lógicos do pré-histórico tardio aparecem fre- de sepulturas foram achados em sítios de
quentemente de forma contínua por vários habitação e em sambai-iuis. De fata nas pros-
quilómetros, com 4 a 6 m de depósitos densa- pecções já realizadas, o número de sítios de
mente atulhados com restos arqueológicos e cemitério supera o dos sítios de liabitaçãa pnv
manchas escuras provenientes dos restos car- vavelmente portiue a maioria dos pesqui,sadi>-
bonizados de plantas. Por exemplo, os sítios de res estava mais interessada nos ricos cemitt^
ocupação de solos negros em Corozal, no mé- rios e não considerou importante levuntur os
dio Orenoco, da Fase Camoruco (cerca de depósitos de habitação. Km sua maioria eles
400-1500 d.C), têm cerca de 4 m de profun- são cemitérios de uruits concentradvis es^xici^il-

didade e mais de 16 ha de área (Koosevelt, nuMite, porém algumas tumbas de covas fun-
1980, 1991b). Na região de Manaus e perto de tlas. cobertas de pedras, ctmtinham, igualmen-
.\ltamira existem sítios de grande protundiíla- te, urnas funerárias ^^CH)oldi. l900^. Nos cerni-
AKyUEOLOGIA AMAZÔMCA

térios, as sepulturas são muito variadas em ter-

mos de tipos e iconografia das urnas, tratamen-


to dos corpos e acessórios. Os variados e ela-
borados conjuntos fianerários são tidos como
representativos de diferenças significativas en-
tre pessoas de distintos níveis sociais. Devido
à proteção que recobre as urnas e ao pH qua-
se neutro do solo nestas áreas, as ossadas hu-
manas estão normalmente muito bem preser-
vadas (Greene, 1986). Apenas alguns destes
restos esqueletais foram levantados ou anali-
sados, mas aqueles conservados em museus e
em coleções particulares ilustram uma popu-
lação fortemente diferenciada em termos de
idade, sexo, doenças, condições fisiológicas,
conteúdo isotópico e robustez. A despeito das
Cerâmica da fase
ricas informações sócio-econômicas que estes
Marajoara. Jarro
vastos cemitérios podem vir a produzir, ne- inciso de Monte
nhum cemitério pré-histórico da Amazónia foi Carmelo, Rancho
até o presente sistematicamente estudado pela
Campo Limpo.
antropologia física.

Assim, a escala e a complexidade dos as-


sentamentos e construções das sociedades do
Grande Amazónia apro-
pré-histórico tardio na
ximam-nas mais das sociedades identificadas,
em outras partes, como cacicados complexos
e estados, do que dos assentamentos da Ama-
zónia indígena atual. A existência desses sítios

e dessas estruturas monumentais permanece,


em termos gerais, pouco reconhecida na lite-
ratura arqueológica das Américas e, ademais,

não é considerada nas caracterizações dos de-


senvolvimentos culturais nativos em termos
hemisféricos.

ARTEFATOS DO ESTILO
DE HORIZONTE:
FUNÇÃO E ICONOGRAFIA
Os extensos e numerosos sítios de ocupação
dos cacicados amazônicos contêm uma abun-
dância de artefatos e de outros restos. Os ar-
tefatosmais numerosos são os cacos de cerâ-
mica e vasos do estilo de horizonte (Howard,
1947; Rouse e Cruxent, 1963; Nordenskióld, Urna funerária com
1924a, 1930; Lathrap, 1970; Meggers, 1947; esfinge policromada
de fvionte Carmelo,
Meggers e Evans, 1957, 1961, 1978; Hilbert, Rancho
1968; Palmatary, 1950, 1960; Roosevelt, 1980, das evidências etno-históricas a respeito da in- Campo Limpo.
1991a e b). Deve ter existido aí uma enorme tensiva produção e comércio artesanal.
produção de alguns artefatos do estilo de ho- A cultura material nos cacicados parece tei-

rizonte, os quais, apesar da pequena quanti- sido muito complexa, tendo sido achada uma
dade de escavações já realizadas, foram reco- grande variedade de tipos de artefatos, incluin-
lhidos aos milhares. A magnitude da produção do cerâmicas, vasos, efígies, estatuetas, prová-
de artefatos arcjueológicos vem ao encontro veis candeeiros, parafernália de drogas, ins-
so IIISTOKIV nos IMMOS Nlí lílUSlI.

truiuentos nuisicais. rocas, selos, tamboretes, c]uais eram veneradas como objetos de culto
de cortar pedras, aniola-
iilisadores, utensílios nos cacicados etno-históricos.A importância
dores de setas, moedores, pilões, raspadores da imagem humana pode, assim, deri\ar do
e orjiamentos de jade e de outras pedras se- emprego da arte para sustentação das preten-
mipreciosas. Existem também muitos objetos sões genealógicas das elites ao poder e prestí-
complexos cujas tuuções são desconhecidas. gio.Imagens masculinas, que são mais raras
A presença nas bacias sedimentares de nume- que as femininas, são representadas principal-
rosos itens de rochas (çneas aponta para o co- mente como xamãs ou chefes. Elas aparecem
mércio de longa distância de líticos. Diversos sentadas em tamboretes, portando chocalhos,
sítios arqueológicos no Orenoco revelam líti- \ estindo chapéus especiais e bolsas a tiracola
cos com características de manufatura, indi- parecendo como figuras alter ego que susten-
cando (jue, em alguns casos, rochas foram im- tam outra pessoa ou animal em seus ombros.
portadas de fora para a manufatura de utensí- A figura alter ego é vista como representação
lios e ornamentos (Roose\elt, 1980). Estudos da transformação do xamã em seu espírito au-
dos elementos e isótopos dos materiais são ne- xiliar durante o transe induzido por drogas.
cessários para traçar a extensão e a história do Existe também a possibilidade de estas repre-
comércio de longa distância dos líticos e ce- sentarem o conceito de hierarquia e subordi-
râmicas. Rocas aparecem com maior freqiiên- nação entre os grupos humanos, sendo as es-
cia e em diferentes tipos depois do advento da tatuetas representati\as de pequenas figuras
era cristã, sugerindo a intensificação e a cres- ligadas a outras maiores que funcionariam co-
cente complexidade da produção têxtil. As ter- mo suportes ou sustentáculos. Nas imagens,
ras ocupadas pelos cacicados são freqiiente- excetuando-se aquelas dos chefes xamãs, as fi-

mente argilosas, de pH alto, consideradas boas guras masculinas raramente aparecem nas re-
para o plantio de algodão, e a produção desta presentações artísticas, com exceção de repre-
tibra pode ter se tornado uma indústria im- sentações genitais apartadas do corpo, como
portante. nas figuras femininas em que os corpos e ca-
A iconografia dos estilos de horizonte po- beças têm formas fálicas.

de oferecer evidências adicionais das caracte- O


que nos interessa é o fato de que na arte
rísticas da organização social, económica e re- antiga as mulheres também são representadas
ligiosa das culturas antigas. A arte dos estilos sentadas em tamboretes, portando súnbolos
de horizonte do período pré-histórico tardio xamanísticos e interagindo como figuras alter
enfatiza a figura humana, característica não ego (Nordenskiõld, 1930). Isto apesar de as
manifesta nos períodos anteriores ou posterio- mulheres xamãs serem raras entre os po\os
res. .\inda que a representação de animais per- atuais e serem proibidas de sentiu^ em tiun-
maneça comum, a humana é normalmente a boretes rituais, considerados como prerrog"ati-
figura maior e mais central, os animais sendo \as do que
chefe, mostram apenas pa-
neles se
freqíientemente apenas acessórios decorativos ra fazer importantes prommciamentos. São
da imagem humana. As figuras animais devem ainda prerrogati\a do xamã, que neles se as-
ter se tornado menos centrais na arte do pré- senta durante os rituais adi\ inhatórios ou de
histórico tardio porque neste período haviam cura. Esta iconografia sugere a possibilidade
deixado de ser o recurso proteico essencial e, de ter existido, nos tempos pré-históricos, uma
em conseqiiência, devem ter passado a ter um maior proeminência religiosa e politica dos pa-
papel ritual menor. A figura humana pode ter péis femininos, fato este que foi conceituado
se tornado mais importante quando a agricul- geralmente pela etno-historia e pela etnogra-
tura intensiva tornou o trabalho e a terra \a- fia como o "inito da mulher anuizònica", da

liosos, e seu controle um fator a demandar jus- um dia go\ernado a .\nuizònia


(inal se diz ter
tificativas ideológicas. Estas figuras encontram- mediante o apresamento do poder xamanisti-
se freqíientemente em contextos mortuários co pela posse das tlautas sagi-adas. A predomi-
e podem estar relacionadas a cultos mortuá- nància das mulheres nas tases da arte da Kiixa
rios de \eneração das elites ancestrais, a exem- Amazónia como nas de Santarém e Manijiura
plo daqueles mencionados pelos conciuistado- (70%-90'r) pode alternatixuinente eshir ivla-
res. A estilização de algumas imagens aproxi- cionada ao reconhecimento da descendência
ma-as das múmias e de seus acessíirios, as lia linhaiícm do chete de niulheivs míticas an-
VKQUEOLOGIA A\IAZÒNK;\ 81

Existem igualmente numerosas pe-


cestrais.
quenas estatuetas pré-históricas representan-
do figuras femininas, ilustrando vários aspec-
tos da reprodução e sexualidade humana, ti-
po de representação que pode ter estado
conectado à organização sócio-política e de-
mográfica dos cacicados (Roosevelt, 1987a). A
análise do papel feminino na arte da Amazó-
nia pré-histórica através do tempo sugere ter
ocorrido uma mudança na ideologia relativa
às prerrogativas dos sexos e, possivelmente, dos
papéis sexuais. Foi principalmente nas primei-
ras sociedades complexas, como a Marajoara
ou Maracá, da foz do Amazonas, que as mu-
lheres foram mostradas em papéis xamanísti-
cos ou de chefia. A mudança iconográfica po-
de refletir oincremento da estratificação so-
cial e política e a perda do poder pelas
mulheres. Esta transformação é vista como ca-
racterísticada transição da sociedade de es-
tamentos a estados, transição que deve ter
ocorrido nas várzeas da Amazónia no período
pré-histórico tardio. muito diferente, e para compreender as razoes Cerâmica da fase
destas características distintivas precisamos Marajoara.
RESUMO conhecer e explicar estas diferenças.
Tanga policromada,
14 cm.
A diferença mais considerável existente entre
o modo de vida indígena do pré-histórico tar-
O SIGNIFICADO HISTÓRICO
dio e o dos dias de hoje foi considerada ape- DAS CULTURAS COMPLEXAS DA AMAZÓNIA
nas raramente pelos estudos etnográficos mo- Até o presente, nenhum dos cacicados ama-
mudanças nos
dernos. Indicativo das drásticas zónicos foi investigado arqueologicamente em
modos de vida indígena produzidas pela con- termos exaustivos, tornando-se, desta forma,
quista é o fato de que os antigos amontoados difícil a avaliação das características e origens
da Amazónia são agora habitados por indiví- destas sociedades. A partir dos antigos pres-
duos que pouco se parecem com os antigos supostos sobre as deficiências ambientais da
habitantes. Em muitas áreas da Amazónia, co- floresta tropical como habitat para o desenvol-
mo na de Marajó, os sambaquis são habi-
ilha vimento cultural e demográfico, o que se es-
tados por colonos de origem europeia ou afri- perava originalmente era que estas culturas
cana. Algims dos maiores amontoados do mun- fossem inferiores em escala e complexidade às
do, localizados na Amazónia boliviana, são, de "altas culturas" dos Andes e da Mesoaméri-
fato, habitados pelos Siriono, ditos coletores ca, sendo seu desenvolvimento inspirado no
primordiais (Holmberg, 1969), porém ignoran- estímulo, senão nas invasóes, provenientes de
tesda maior parte da cultura dos sambaquis. fora. Mas se o meio ambiente tropical não se

Muitos dos antigos sítios têm depósitos de re- constitui como limitação ao desenvolvimento
fugos em profundidade, grandes estruturas de cultural indígena, então estas consideraçóes
terra — de barro cozido para
inclusive áreas não são válidas. De fato, existe uma abmulân-
cozinhar —
objetos cerâmicos monumentais
, cia de evidências indicando que estas socie-
e milho abundante. Contudo, estes mesmos as- dades eram de origem local e que atingiram
pectos raramente são encontrados nas cultu- uma escala significativa e um alto ní\el de
ras etnográficas, que arqueologicamente exi- complexidade. Seu surgimento, no decorrer do
bem depósitos de solo de pouca profundida- último milénio antes do acKento da era cristã,
de e estratigrafia amorfa (Meggers, 1971). E é posterior ao nascimento de sociedades simi-
evidente que a adaptação cultural e ecológica lares nos Andes, em cerca de 2000 a.C. Toda-
dos povos antigos e modernos da .Amazónia é \ia, elas não se inspiraram necessariamen-
S2 niMouiv m>s índios no bkvsii

te nos contatos com us tenus iiltus, pois um dos guia inteipretativo dos cacicados. transferin-
primeiros cacicados, o Marajoara da Tradição do o ónus da investigação para a arqueologia.
Polieròniica, localiza-se na mariíem oriental da Mais importante que a questão da origem
Amazónia, e sua elaborada arte é, em termos dos cacicados amazônicos, há o problema da
de origem geográliea, indiscuti\elmente ania- natureza de sua organização. As sociedades
zònica e não das áreas montanhosas. A julgar amazônicas parecem ser, em termos da exten-
pelos estilos de horizonte e pelo comércio in- são dos domínios do chefe e do tamanho dos
tensixo, os cacicados amazônicos empreende- assentamentos, comparáveis a muitos cacica-
ram contatos de longa distância, mas a exten- dos estratificados ou pequenos estados pré-
são dos primeiros cacicados parece ter se li- históricos, anteriores ou imediatamente pos-
mitado às terras baixas tropicais do norte e do teriores ao advento da escrita. Os territórios
sul. Os cacicados do pré-histórico tardio, do de alguns dos estilos de horizonte amazônicos
Horizonte Inciso Ponteado, como o de Santa- são comparáveis aos de muitas outras socie-
rém, possuem relação estilística com a região dades que foram classificadas como estados,
do Orenoco e a região caribenha da Colôm- tais como a civilização do \'ale do Indus, as ci-

bia e da Venezuela, mas não está claro, devi- vilizações minóica e micênica e os estados afri-
do à carência de cronologias detalhadas, qual canos do período anterior à escrita, como
destas áreas era a doadora. Ashanti e Benim. Certamente, alguns dos sí-

Como do período
os dados arqueológicos tios de ocupação e sistemas de terraplenagem
mais antigo da ocupação pré-histórica antes do dos cacicados amazônicos são mais extensos
advento da era cristã não parecem ser igual- do que os de muitos estados arqueológicos, e
mente substanciais e complexos e não apre- muitos dos sítios das terras baixas parecem ter
sentam os estilos de horizonte autênticos, as- sido tão grandes, tão densamente habitados e
sentamentos e obras de terraplenagem subs- funcionalmente tão complexos quanto os cen-
tanciais, complexos de urnas funerárias e tros urbanos arqueológicos em outros lugares.
artesanato elaborado, parece que as socieda- Apesar de se ter acreditado durante muito
des complexas eram, a exemplo da América tempo que nem cidades nem estados ti\essem
do Norte, raras na .\mazónia até pouco antes se desenvolvido no Amazonas e no Orenoca
do advento da era cristã. Estudos cronológi- em contraste com os Andes e a Mesoamérica,
cos e prospecções regionais dos assentamen- este desenvolvimento pode ter ocorrido mas
tos tornam-se, assim, prioridade máxima das não ter sido reconhecido de\ ido à naturezii de
futuras investigações, necessárias para o for- suas evidências, com a ausência de templos de
necimento de evidências da história dos pa- pedra e\ identes cjue atnussem a atenção. Se
drões arqueológicos que são atribuídos aos ca- os assentamentos, o uso da terra e a organiza-
cicados pré-históricos. ção destes domínios são característicos ou não
O surgimento dos cacicados pré-históricos daquilo que os antropólogos consideram co-
do Horizonte Inciso Ponteado corresponde, mo sociedade urbana e estado é uma questão
em certas áreas, à difusão do cultivo do milho impossível de responder até que suas carac-
nas terras baixas. Porém, não está clara a ma- terísticas possam ser in\estigadiis sistematica-
neira pela qual a mudança económica está re- mente. A aplicabilidade de diferentes nuxie-
lacionada ao desenvolvimento dos cacicados. los teóricos do surgimento da sociedade com-
A compreensão da evolução da sociedade plexa pode ser testada arqueologicamente na
complexa na Amazónia complica-se pela de- Amazónia, mas, piua tanta será necessária a
sintegração dos cacicados nativos no século coleta e a análise de dados especi;ilizados.
XVII. Os sobreviventes retiraram-se para o in-
terior eformaram sociedades de aldeias inde- CONCLUSÕES
pendentes. Muitos aspectos de seus estilos de
vida parecem um retorno a padrões que ante-
A PESQllS.V Fl Tl KA
cedem o surgimento dos cacicados, tais como A história dos pmos das terras baixas tivpicais
a subsistência baseada em plantas amidoadas da Ama/.ònia c nuiito mal diKnnnentada. (.)
e proteína animal e os estilos artísticos prin- pouco que SC sabe sugere a existência de uma
cipalmente zoomórficos. Ksta descontinuida- longa e complexa seqiiència de ivuiviçàiv n\,is,

de cria problemas para a etnografia eminanto apesar da importância dos tropicv>s na lnsti>-
\KguEOLOGiA ama'/onic:a 83

ria da adaptação humana, os detalhes das in-

terações ecológicas e sociais das populações


humanas pré-históricas são completamente
desconhecidos. Com vistas a responder as
questões mais prementes sobre a trajetória das
terras baixas, necessitamos de uma nova estra-
tégia de pesquisa, pois os escassos e disper-
sos dados disponíveis atualmente são inade-
quados para a tarefa. Os antropólogos identi-
ficaram algumas questões significativas sobre
a ocupação humana pré-histórica da Amazó-
nia. As questões mais óbvias relacionam-se às

origens destas sociedades, suas histórias e a na-


tureza de seus sistemas sócio-econômicos, po-
líticos, rituais e ideológicos. Porém, nenhum
destes aspectos foi até o momento investiga-
do sistematicamente com dados arqueológicos,
apesar de existirem numerosos sítios de ocu-
pação pré-histórica bem preservados. Com o
objetivo de compreender melhor as socieda-
des antigas, precisamos considerar quais tipos
de dados específicos são necessários para ava-
liar as teorias. Além disso, para entender as

semelhanças e diferenças das sociedades ama-


zônicas em relação a outras, é importante in-
cluir em nossas pesquisas categorias e medi-
das que permitam a comparação através do
tempo e do espaço, em escala global.
As sociedades amazônicas pré-históricas
compõem um significativo corpo de evidên-
cias para a teoria antropológica, na medida em
que elas parecem contradizer as teorias am-
bientais correntes sobre a natureza do desen-
volvimento cultural indígena nas terras baixas
tropicais. O rápido desenvolvimento dos tró-
picos da América do Sul ameaça destruir es-
tas evidências antes que elas possam ser estu- sárias para a definição das cronologias, das Em cima:
Crânio pré-histórico
dadas. Existe, assim, certa urgência para a in- áreas de atividade e das estruturas internas aos
tardio com forte
vestigação dos recursos de uma
a partir sítios e para coletar restos biológicos e de ar- perda dentária
abordagem compreensiva, rápida e económi- tefatos num contexto comportamental. A aná- e reabsorção
alveolar
ca para a coleta e análise dos dados. Para in- lise dos objetos precisa ser ampliada para in-
Encontrado
vestigar estas sociedades em
termos compa- cluir aspectos microcronológicos, técnicos, nas proximidades
rativos, necessitamos desenvolver estratégias químicos, funcionais e iconográficos dos arte- de Manaus.
Embaixo:
de pesquisa mais adequadas do que as pros- fatos, como também íispectos ecológicos e eco- Calavarium
pecções informais, as escavações experimen- nómicos da flora e da fauna e, finalmente, as- indígena do
século XIX com
tais e as análises tipológicas das variedades de pectos demográficos, fisiológicos e genéticos
grande lesào
cerâmicas tradicionalmente empregadas nas dos conjuntos de esqueletos humanos. de l-liperosteosis
terras baixas. Os assentamentos regionais e os Muitas técnicas práticas foram desenvoK i- porotica. uma
sistemas de uso da terra terão (jue ser siste-
patologia com
das desde cerca de 1950 para coletar informa-
desordens
maticamente investigados, e os sítios e estru- ções detalhadas sobre as características cultu- anêmicas
turas individuais, intensivamente mapeados e rais e biológicas dos povos pré-históricos. Por generalizadas.
Encontrado
testados por amostragem. Prospecções deta- meio das prospecções geofísicas, as estruturas nas proximidades
lhadas e escavações estratigráficas são neces- e áreas de ati\ idade podem ser rapidainenle de Belém.
S4 msroiuv nos imíU)s no iíuvsii.

inapoadas, do tonna econòniita o não destrii- numerosos artefatos e restos biológicos pré-
ti\a, torneceiuU) intonnações substanciais so- históricos. Nossas investigações nos sítios, ar-

bre a composição dos sítios (Lyons e Scovill, (juivos e coleções sistematizadas demonstram
1978; Morain e Bndjíe, 1978; Roose\elt, 1991a; que estes restos estão preserx ados na maioria
Wynn, org., 1986). Esca\ayões estratigráficas dos sítios de toda a Amazónia. Antigos esque-
re\ elani a natureza das sequências, atividades letos amazônicos, restos animais e de plantas
e estruturas por meio do resgate de objetos na- estão preservados em grandes quantidades e
turais e culturais em contextos deposicionais podem ser analisados por métodos osteológi-
e comportamentais (Roosexelt, 1991a e b). A cos, arqueobotânicos e zooarqueológicos con-
coleta de amostras do solo e sua análise reve- vencionais (Garson, 1980; Roosevelt, 1980,
lam a natureza dos depósitos (Eidt, 1984). As 1984, 1989a e b, 1991a; Greene, 1986; Smith
técnicas de peneiramento de grandes quantias e Roosevelt, s. d.; Van der Merwe et alii. 1981;
de solo e a conservação dos objetos podem re- Wing et alii, s. d.). Além disso, em decorrên-
cuperar numerosos artefatos, ossos e restos de cia da extrema sazonalidade da maior parte das
plantas pré-históricos (Pearsall, 1989; Roose- várzeas amazônicas, numerosos organismos
velt, 1984; Wing e Brown, 1979) — dados bá- apresentam anéis anuais que podem ser usa-
sicos para as reconstruções luniiano-ecológicas dos para o estabelecimento de cronologias ar-
e sócio-políticas. A espectrometria de massa queológicas assim como para reconstruções
acelerada permite a datação direta de objetos paleoambientais (por exemplo, Worbes, 1985;
significati\os ao reduzir a quantidade de ma- Worbes e Leuschner, 1986). Os sítios arqueo-
terial orgânico necessário para a análise (Hed- lógicos não só são numerosos como freqiien-
ges e Gowlett, 1986). A análise osteológica de temente de grandes proporções, apresentan-
esqueletos humanos (Cohen e Armelagos, do problemas para a prospecção da superfí-
1984) produz dados detalhados sobre carac- cie mediante métodos convencionais, porém
terísticas demográficas, fisiológicas e genéti- dispõe-se para esta exploração dos métodos
cas das antigas populações. Comparações en- geofísicos de sensoriamento remoto. Apesiir da
tre padrões culturais de enterramentos generalizada existência de opiniões contnírias.
(Brown, org., 1971) produzem informações so- não se conhece nenhum impedimento para a
bre a natureza das diferenciações socio- utilização do sensoriamento remoto ou do mé-
económicas. A química isotópica de ossos an- todo geofísico nas terras baixas, e eles têm se
tigos humanos e animais oferece informações mostrado altamente eficiízes na prospecção de
quantitativas sobre a dieta e o meio ambiente sítios arqueológicos tropicais (.\l\es e Louren-
(Price, org., 1989; Van der Merwe et alii, 1981; ço, 1981; Be\an. 1986; Roosexelt. 19S9K 1990b.
Wing e Brown, 1979), e as adaptações ambien- 1991a). Os futuros trabiilhos iuqueológicos que
tais da flora e da fauna antigas produzem va- explorarem algumas destas técnicas certiunen-
liosas informações cronológicas e ecológicas. te tornar-se-ão extremamente frutíferos em
As várias análises não são muito dispendiosas termos da produção de informações sobre a
nem muito demoradas quando se considera a Amazónia pré-histórica.
grande quantidade de informação detalhada
que elas podem oferecer. SIGNIFICADO DA
Até o momento poucas destas técnicas fo-
PRÉ-HISTÓRIA AMAZÒMCA
ram aplicadas extensivamente na Amazónia. A região amazònica pode produzir significati-

Tradicionalmente, a arqueologia da Amazónia \as informações arciueológicas sobre a histó-


tem sido voltada para a recuperação de cerâ- ria dos poxos e culturas indígenas. Seus restos
micas com vistas a estabelecer comparações arcjueológicos abundantes e bem pi-esen^vidos
estilísticas regionais. Outros restos não são pro- representam uma longa e ino\ adora trajetoria
curados porque acredita-se que o clima teria de deseuNoK imento indígena: dos primeitvs
destruído restos orgânicos e estratigráficos, e caçadores-coletoivs nómades a coletoivs mais
porque o modo de vida da "floresta tropical" stHlcntários, à produção de cerâmica, à agri-

é visto como muito simples para ter deixado cultura e ao sui^gimeuto de sociedades com-
restos estruturais substanciais. Todavia, exis- plexas. Seus sambaquis são os mais antigos sí-
tem abundantes padrões estratigráficos e es- tios da idade cerâmica ja descobertos nas
truturais nos sítios pré-históricos. assim como Américas, e iilguns dos seus centivs do pix^
ARQUEOLOGIA AMAZONICA

histórico tardio, com grandes obras de terra- século XX a existência de sambaquis do perío-
plenagem, estão entre os maiores do Novo do Arcaico na ilha de Marajó, apesar de estes
Mundo. Antigos restos biológicos estão preser- serem citados em pelo menos duas fontes mais
vados na maioria dos sítios e contêm impor- antigas (Penna, 1876; Monteiro de Noronha,
tantes informações económicas e ecológicas. 1862). Além disso, alguns trabalhos realizados
A padronização e distribuição das estruturas, por arqueólogos ou etnólogos amadores con-
instalações e sepulturas e a abundante e so- têm importantes informações arqueológicas
fisticada cerâmica pré-histórica revelam pa- não encontradas nos trabalhos de arqueólogos
drões pré-históricos de economia, demogra- profissionais. Por exemplo, o primeiro sítio ce-

fia, ideologia e organização. râmico de Taperinha foi descrito em fontes do


O fato de a Amazónia ainda ser ocupada por século XIX (Hartt 1885; Penna 1876; Smitli
numerosos povos indígenas enriquece as pos- 1879), mas neste século só foi mencionado em
sibilidades de interpretação antropológica. O publicações por um arqueólogo amador (Pal-

reconhecimento das com ulsi\as mudanças nos matery, 1960). O que parece ter acontecido é
modos de vida indígenas ocorridas na época que os pontos de vista fortemente teóricos e
da conquista europeia oferece à arqueologia cientificistas dos arqueólogos de meados do sé-

histórica e à etnoarqueologia um potencial culo -XX restringiram severamente sua sensi-


único para a produção de informações causais bilidade às fontes.
de alcance geral, inclusive fora da Amazónia. A maior parte da literatura atual sobre a ar-
Devido à disponibilidade de informações so- queologia amazônica carece do tipo de infor-
bre as populações e culturas indígenas da pré- mação necessária para a interpretação segura
história ao período etnográfico, aAmazónia dos achados. Por exemplo, muito poucas obras
pode tornar-se um laboratório para a com- expõem os métodos de escavação e peneira-
preensão das causas da mudança na história mento do solo que foram utilizados pelos ar-
humana. queólogos. E muito poucas obras incluem se-
O que os trabalhos recentes estão desco- quer esboços ou plantas estratigráficas, e as
brindo na Amazónia coloca em dúvida algu- unidades e camadas nas quais o material foi
mas interpretações aceitas sobre o desenvol- coletado raramente são relacionadas à estra-
vimento cultural indígena no Novo Mundo. O tigrafia. Ambos os tipos de informação são ab-
que nós podemos descobrir sobre a evolução solutamente necessários para a interpretação
da sociedade na Amazónia pode ter importan- dos achados.
tes implicações para nossa compreensão do Ademais, a maior parte das evidências ar-
processo em outras partes do mundo. O regis- queológicas recuperadas nos sítios amazôni-
tro arqueológico da ocupação pré-histórica da cos não é divulgada, permanecendo nas cole-
Amazónia possui, igualmente, relevância fora ções de museus. A documentação referente ao
do campo da antropologia, uma vez que esta contexto do material e a associação deste com
exemplifica uma bem-sucedida adaptação de outros artefatos, quando preservada, jaz nos ar-
longa duração dos povos indígenas ao ambien- quivos fotográficos e documentais dos museus.
te tropical, cuja evolução e duradoura estabi- As principais coleções de materiais sobre a
lidade é de grande interesse geral. Amazónia encontram-se nos seguintes mu-
seus: Museu Nacional de Antropologia e Ar-
FONTES queologia de Lima, Museu Nacional do Rio de
Embora e.xtensa, a bibliografia referente à ar- Janeiro, Museu de Etnologia e .\rqueologia da
queologia amazônica é fragmentada e de qua- Universidade de São Paulo, Museu Paulista,
lidade desigual. Em sua maioria, os arqueólo- Museu Paraense Emílio Goeldi, Museu Wal-
gos profissionais têm ignorado as fontes dos sé- ther Roth, Nhiseu do índio .\mericano, em No-
culos W III e .\I.\ pois, segutido eles, estas va York, Museu .\mericano de História Natu-
seriam representativas de registros e pesqui- ral, em Nova York, Museu Peabody de Histó-
sas realizados de maneira não científica e as- ria Natural,na l'niversidade de Yale em New
sistemática. Entretanto, muitos dos trabalhos Haven, Museu Peabody de .Vrqueologia e Et-
antigos contêm importantes informações au- nologia da Universidade de Harvard, Museu
sentes nas fontes mais modernas. Por exem- do Homem, em Paris, e Museu Etnográfico de
plo, não foi mencionada em nenhuma fonte do (Gotemburgo, na Suécia. Os maiores arcjuivos
S6 msTOixiv nos índios \o bk\sii

encontram-so nestes museus, e existem ainda publicadas, pro\enientes de sítios da Amazó-


diversos arqui\os especializados, como os Ar- nia.Algumas coleções se perderam, como aque-
quivos de Antropologia da Instituição Smith- la composta de fotografias em chapas de \idro

sonian em Washiniíton, os (juais contêm gran- da Comissão Geológica Imperial, comandada,


de número de datações radiocarbônicas não na década de 1870, por C. Frederick Hartt.

Revisão técnica:
Maranca e
Sílvia
Wladimir Araújo
A HISTORIA DA CULTURA BRASILEIRA
SEGUNDO AS LÍNGUAS NATIVAS

Greg Irban

Tradução: Beatriz Perrone-Moisés

que podemos aprender acerca da his- elas, com rigor, o método de reconstrução de-

O tória pré-colombiana do Brasil pelo


estudo de línguas ameríndias histo-
ricamente documentadas? Podemos
potencialmente aprender muito sobre o perío-
do a partir de 4000-5000 a.C. até hoje, vendo
senvolvido na lingijística comparativa.
dade, possuímos bons dados linguísticos para
apenas
e o
te
uma fração
método da reconstrução
aplicado apenas
das línguas documentadas

em
foi
Na ver-

adequadamen-
alguns casos, e ainda
cada vez com mais clareza e certeza à medida assim com sucesso variável. Estamos começan-
que nos aproximamos do presente. Podemos do a conhecer suficientemente as línguas Tu-
formular hipóteses sobre a localização dos po- pi, e nosso conhecimento das línguas Arawak

vos indígenas em diversos momentos do pas- está avançando bastante. Temos menos certe-
sado — este capítulo desenvolverá, especifi- zas quanto às línguas Jê e nosso conhecimen-
camente, uma hipótese da periferia ou regiões to da família Karib é apenas rudimentar.
de cabeceiras. E podemos testar modelos de Devemos ainda enfatizar que o método da
seqiienciamento cultural histórico que situam reconstrução é o único que temos para atin-
a linguagem e a comunicação em relação às gir um grau razoável de certeza quanto à his-
forças materiais, económicas e políticas. tória. Ainda que seja possível formular e —
Contudo, deve ficar claro desde o início que costumam ser formuladas — hipóteses a par-
a pesquisa sobre as línguas indígenas do Bra- tir de um exame
superficial de vocabulários,
sil está muito aquém do necessário para uma estas não têm meios de distinguir semelhan-
reconstrução. A história da cultura brasileira, ças devidas ao empréstimo daquelas decorren-
apreendida por meio das línguas nativas, ain- tes de origem histórica comum. A virtude do
da está envolta no mais negro mistério, a pon- método da reconstrução é justamente
to de ser mais adequado falar em graus relati- permitir-nos fazer tal distinção e determinar
vos de incerteza do que de certeza. O cjuadro as relações genéticas^ entre as línguas, ou se-
aqui traçado corre o risco de ser claro demais, ja, relações derivadas de origem histórica co-
o que implica a possibilidade de mascarar a nnim para duas ou mais línguas faladas
complexidade de nossos dados e o caráter pre- atualmente.
liminar de nossa hipótese. O defeito da técnica da reconstrução \em
.\o afirmar (|ue podemos aprender poten- de Jemorada, além de sua
ela ser trabalhosa e
cialmente muito sol)re a história da cultura (jualidade depender diretamente da dos dados
brasileira por meio das línguas queremos dizer lingiiísticos a que se aplica. Eml)ora não pos-
(jue isso é possível, em primeiro lugar, se pos- samos demonstrar a técnica a(iui.- esta envol-
suirmos gramáticas, fonologias e vocabulários ve: 1) juntar longas listas de pala\ ras foneini-
organizados e detalhados para todas as línguas zadas das línguas a serem comparadas; 2) iso-
e, em segundo lugar, se tivermos aplicado a lar correspondências de som. isto é, dt^-
ss UlSTl>KI\ nos INHIOS M> BK\S11

monstriir cjue ciuaiulo um som ("p digamos) . que um grupo de línguas modernas deri\a de
ocorre na líniíua A, ocorreum som correspon- uma ancestral comum, como também quais
dente (**r", digamos) no mesmo lugar em cada línguas estão mais pró.ximas entre si, dentro
palavra na língua B com o mesmo significado; desse grupo, e quais mais distantes. Desse mo-
3) reconstruir a partir das correspondências do é possí\el construir uma stammbaum ou ár-

sonoras uma protolonologia, ou seja, uma fo- vore genealógica de uma família linguística, in-

nologia da língua ancestnil das línguas que es- dicando em termos relatixos quando as línguas
tão sendo comparadas; 4) estabelecer um pro- de uma família se diferenciaram umas das ou-
toléxico ou protoNocalnilário; e 5) mostrar co- tras.Sabemos, por exemplo, que as línguas Jê
mo as piila\ ras das línguas "filhas" podem ser do têm uma origem histórica comum,
Brasil
deri\adas do protoléxico atra\"és da aplicação mas também sabemos que o ramo mais meri-
de regras de transformação sonora a este. As dional da família, representado atualmente pe-
assim derlN adas são chamadas de cog-
pala\'ras lo Kaingang e pelo Xokleng, separou-se mui-
natos. Quando as palavras nas línguas A e B to antes de ocorrer a diferenciação entre os
são as mesmas ou muito semelhantes, mas não outros membros da família. Sabemos ainda
podem ser derivadas desse modo, são consi- que as línguas Xavante e Xerente são muito
deradas como invenções ou produtos de em- mais próximas uma da outra do que o são do
préstimo. Kayapó, do Suyá ou do Krahô, estas bastante
O método da reconstrução não só nos diz ligadas umas às outras.
Uma questão que surge em relação à re-
Línguas Macro-Jé construção que é especialmen-
lingiiística, e

te importante para a história da cultura, é a


da profundidade cronológica. E possível saber
quando duas línguas se diferenciaram de uma
ancestral comum? O linguista Morris Swadesh
(1950, 1952; Gudschinsky, 1964) desenvolveu
um método para estimar a profundidade cro-
nológica. Esse método, conhecido como glo-
tocronologia, requer que se determine primei-
ramente, a partir de um \ocabulário básico de
cem ou duzentos termos conums. quiiis são os

verdadeiros cognatos, isto é. quais as pala\ ras


que se pode demonstrar serem deri\adas de
uma única pala\ ra ancestnil. O método da re-

construção deve ser utilizado para distinguir


verdadeiros cognatos de empréstimos. A piu"-

tirdo percentual de cognatos, pode-se estimar


a profundidade cronológica. Uma taxa de 81 'y
de cognatos indicaria cinco séculos desde que
as duas línguas se sepiU-anuu; 36^ indic;u-i;un

aproximadamente 2500 anos de sepiu^ação;


12%^, uns 5 mil anos.
Por causa das dificuldades de aplicação do
método, especiiilmente de se fazer uma bus-
ca suficientemente exausti\a de coguatos. não
consideramos mais a datação glotocronologi-
ca como precisa. Mesmo sem
ela, contuda

Xerente Jé Dialelos Kayapú Dialetos Timtxra


pode-se ter uma do tempo enwKido
ideia
Kxafi UacrcKlè Kl Kubenkrankeo T1 Caneta
comparando os graus de semelhança entre as
BflfOT possivelmente MacrtKJé K2 Kutwnkranoti T2 Knnkaii

t K3 UekraAoli T3 Pukoòyé línguas em iiuestão com os encontrados no ca-


praiKamenie extinta
K4 Kokraimoro T4 Kren|«
/ laintade Inguas
K5 GorWire T5 Gaviio
so indo-europeu, cujo materi;il liistorico po-

anda duvidosa
Ke Xiknn T6 Krahd de corroborar as datas absolutas enwK idas i\a
K7 Txukahamie
diferenciação lingiustica. Assim, se as huguas
\ IIISTOKIX DA t:lITl'RA BKASII.KIKA S9

de uma família apresentam, mais ou menos, com um grau razoável de certeza que os po-
a semelhança que existe entre as línguas da vos Tupi que foram os primeiros a ser encon-
família românica da Europa (francês, espanhol, trados pelos portugueses ao longo da costa bra-
romeno etc), pode-se su-
português, italiano, sileiratinham migrado recentemente para a
por que tenham começado a se diferenciar há região, e pode-se supor a rota dessa migração
uns 2 ou 3 mil anos. É o caso, por exemplo, desde a área Brasil/Bolívia passando pelo Pa-
do núcleo da família Tupi-Guarani (Guarani, raguai e subindo a costa do Brasil. Essa supo-
Kokama, Oiampi, Tapirapé, Tenetehara etc). sição baseia-se no fato de as línguas faladas ao
Relações mais distantes indicam, de modo cor- longo dessa rota, incluindo o Chiriguano, o

relato, uma maior profundidade cronológica de Guarani e o Tupinambá, serem tão próximas
divergência (de 4 a 6 mil anos). Além desse umas das outras quanto dialetos de uma úni-
nível "macro" ou de "stock" (por oposição ao ca língua.
de família), nossa certeza quanto à filiação ge- Poderíamos aprender ainda muito mais. O
nética diminui drasticamente, embora ainda método comparativo permite reconstruir mui-
seja possível, em alguns casos, reunir dados tas das palavras que faziam parte do vocabu-

utilizando a técnica da reconstrução.Con- lário de línguas faladas há 2 ou 3 mil anos, ou

tudo, não se deve esperarque tais métodos até antes. Por exemplo, temos uma certeza
permitam ir muito além de 4000 a.C. Nesse considerável de que a palavra men ou algo
ponto, as imagens tornam-se embaralhadas muito parecido era utilizada para "mel" por
demais.
Línguas Macro-Tupi
Por essa razão, Joseph Greenberg (1987),
em seu recente trabalho Language in the Amé-
ricas, tentou desenvolver uma abordagem al-
^-<^^n!2Ví
r^lr- *^'
^ < X
ternativa para a comparação, baseada na ins-
^^
-/ -'

peção de grandes quantidades de material le-


-
'"X 1
/

-rx
xical e gramático de várias línguas. Greenberg
espera, assim, detectar antigas ligações gené- y syií\^^ '*-- -aQ.YA(iPi\

ticas, remontando para além do horizonte do 1

— »,
1

método comparativo corrente, isto é, para além


de 6 mil anos atrás. Contudo, no caso brasi-
/ fTeS
Tel^^

" /"
'OMAGUA jy^UUNDURUKU r^^ S^Te3 Tu5^^^-~-^
( KOKJ^MÁ
leiro, algumas de suas classificações parecem C4' juruna}=^'^ /J
chocar-se com pesquisas em andamento que -'Ka A^ S >
/Tal/ ) Tu4 » ) ,

utilizam este último método. Sua classificação


A P T Ke ..,.^= / / /
/ Tu4t p/
(1987:384-5) situa, por exemplo, as línguas Tu-
pi no mesmo "phylum" que as Arawak, distin-
'AUSERNÀ; / J^è'/ /
SIRIONO\ Tu4'f
guindo-as de um
"phylum" que conteria as lín- \(
1

guas Jê, Pano e Karib. O trabalho de Rodri- "íí Tui ,---


y-y J
^
1
/Tu2
1

gues (1985a) sugere, ao contrário, que as ^v


Tu4'
línguas Tupi estariam provavelmente associa- >''"^'"V. f
i
VTue /-N XETÁ
^y^^
das às línguas Karib e possivelmente também 1 1
GU «AKI^

momen-
l

rrlif"/ '^'^y'
às línguas Jê, e que não se tem até o / 1
/

to indicações seguras de uma relação entre ne- J


í /'
i
(

/ "^^
.
y^
nhuma das três. /
Vy
\ \

De qualquer modo, se nos permitem re-


í
^
)
/
\

/
1

1
^
r í c.
construir as relações cronológicas entre gru- Tupi^uaram Dialelos Tapvapé Abreviaçães
Aptiki Tupi^uarani Dialelos

pos sociais (comunidades linguísticas), os mé- Uawé Macro-Tupi Tui Chinguano Tai Tapirapé A Arara

t extinta ou Tu2 Tapielê Ta2 ParaKanâ Au Arui


todos linguísticos também nos fornecem al- quase extinia
Tu3 Guarayo Ta3 Asunni Ka Kantiana

Tupinamba Ta4 Arawei« Ke Kepliinwai


guns dados quanto à distribuição espacial. Tu4
Tu5 Poliguara Ma Makurap
Situando as línguas historicamente relaciona- Tu6 Guarani
Dialetos Tenetehara
Mo Monde
Tu7 Kaingwá P Punjbora
das num mapa, pode-se desenvolver hipóteses Tet Tembe
S Surui
Te2 Guatá
das línguas no passado re-
(luaiito à localização Te3 Amanayí
T Tupart

moto e migrações que levaram à sua atual


às T»4 UrubuKaapor
TeS Anambe
distribuição. Pode-se, por exemplo, afirmar
90 lllSVltKlV IH)S IXmoS \l) UK\S1I.

taUmtes do Brasil centnil, \i\eiKlo em algum ticas e, na verdade, foram


feitas muito poucas
lugar entre os rios São Francisco e Tocantins, tentativas de aplicação rigorosa do método
há uns 2 ou 3 mil anos. Podemos reconstruir comparativo a esses casos.
essa pala\ ra através das línguas Jè atuais, cuja Temos muito mais certezas quanto à famí-
distribuição sugere uma origem naquela re- lia Jê propriamente dita, em grande parte gra-

gião. Com trahiilho suficiente, poderíamos re- ças à reconstrução inicial de Da\ is (1966). Mas
construir as palavras para plantas e animais, também neste caso ainda é preciso muito tra-
o que nos permitiria saber algo sobre o meio balho para que se possa afirmar com mais se-
ambiente em que a protolíngua floresceu. Po- gurança a estrutura proposta da ár\ore. Feliz-
deríamos reconstruir aspectos do parentesco, mente, temos agora à disposição informação
organização social e \ ida política, como foi fei- gramatical básica suficiente para permitir uma
to em relação ãs línguas indo-européias.~^ Mas reconstrução mais detalhada.
nossa pesquisa sobre as línguas brasileiras ain- Pelo Mapa 1, percebe-se que toda a rede
da não está tão a\ançada. de línguas geneticamente filiadas ao tronco
Existem no Brasil quatro grandes grupos Macro-Jê está concentrada na parte oriental
linguísticos com numerosos membros espalha- e central do planalto brasileiro. O grupo cen-
dos por \ astas áreas: Arawak, Karib, Tupi e Jê. tral dos Jê, cuja radiação supomos ter-se ini-

Neste breve ensaio, considero cada um des- ciado há uns 3 mil anos, está localizado entre
ses grupos separadamente, com alguns comen- populações com relações mais afastadas a les-
tários quanto às suas possíveis inter-relações. te e a oeste. Da distribuição depreende-se que
E.xistem ainda vários grupos lingiiísticos me- esse grupo de Jê propriamente dito teria se ori-
nores, com menor número de línguas e distri- ginado em algum lugar entre as nascentes dos
buição mais compacta no mapa: Chapacura, rios São Francisco e Araguaia, possixelmente
Gua>kuru, Katukina, Maku, Mura, Nambikwa- nas proximidades do grupo Jê Central atual-
ra, Pano, Tukano e Yanomami. Considerarei es- mente extinto, conhecido como Xiikriabá.
ses grupos em conjunto, sem me referir às suas A primeira separação teria ocorrido entre
histórias culturais internas, embora cada um os Jê meridionais (Kaingang e Xokleng) e o res-
deles mereça um estudo detalhado. Além dis- to. Estes teriam iniciado sua migração em di-

so, há línguas isoladas, desligadas de famílias, reção ao sul nesse momento, há uns 3 mil anos,
A^ das quais tratarei numa seção. Estas são im- mas não se tem ideia de quando teriimi che-
portantes, pois sua distribuição pode informar gado à região que atualmente ocup;un no sul
sobre a história cultural mais remota do Brasil. do Brasil. Tampouco se sabe por que migra-
ram, embora um estudo do relevo geognifico
JÊ mostre que se dirigiram a uma região de pla-

\ E comum atualmente fazer-se


entre a família Jê propriamente dita e o cha-
uma distinção nalto semelhante ao seu habitat originiirio.
Uma segimda cisão ocorreu entre os nunos
mado Macro-Jê. Se imaginarmos uma árvore, central e setentrional; o grupo setentrional se
a família Jè representaria um
ramo relativa- dirigiu à bacia amazônica e toi-se expandindo
mente recente, que se separou há uns 3 mil gradualmente também para o oeste. Tlxxs de
anos ou mais, a julgar pelas semelhanças in- cognatos entre os ramos centnil e setentrio-
ternas entre as línguas Jê atualmente encon- nal sugerem uma idade entre 1 e 2 mil anos
tradas. As línguas Jê parecem ser mais diver- para essa separação. A diferenciação interna
sificadas internamente do que as da família ro- dos grupos central e setentrion;il ocon-eu pnv
mânica do indo-europeu. Mas foi demonstrado \a\ehnente durante os últimos mil anos. Ja as
que todas as línguas Jê estão ligadas (Davis, diferenciações internas entre os diiUetos Tim-
1966, 1968). bira orientais (Canela. Krinkati. Pukob\è,
\o caso do Macro-Jê (incluindo Kamakã, Kranjé, Cia\ião e Krahò) e entre os \arios dia-
Maxakali, Botocudo, Pataxó, Puri, Kariri, Ofaié, (Kubenkranken. Kubenkranoti,
letos Kax^apó
Jeikó, Rikbaktsá, Guató e, possix cimente. Bo- Mekranoli, Kokraimoro, Cu>n>tire, Xikrin o
roró e Fulniô), trata-se de relações mais dis- Txukahamãe) teriam pro\a\ehnente ocorrido
tantes, datando provavelmente de uns 5 ou 6 nos últimos cjuinhentos anos.
mil anos pelo menos. Conse(iiientementt\ O habitat das populaçO»es Jè era o planalto
sabe-se menos quanto às suas filiações gené- brasileiro, e se olharmos para a itnie mais ani-
\ IIISTOKIA DA CULTURA BKASII.KIIU 91

pia dos povos Macro-Jê, veremos que esse pa- ser a zona de origem do Macro-Jê, uma espe-
drão de adaptação ao meio se manteve. Nesse culação que poderia ser iluminada por recons-
que não tenhamos mais
sentido, é lastimável truções das relações internas entre as famílias
trabalhosaprohmdados acerca das relações in- Macro-Jê nessa área (Maxakali, Botocudo, Puri
ternas dentro do grupo mais amplo, que tal- e Kamakã). Se forem apenas remotamente re-
vez nos permitissem apontar mais precisamen- lacionadas umas às outras, esta seria uma área
te o foco de dispersão. O que sabemos é que de grande diversidade lingiiística para o gru-
duas das línguas Macro-Jê — o Karajá, locali- po Jê e, assim, um possível local de dispersão
zado próximo do Xavante, Jê Central, e o Ma- ocorrida há 5 ou 6 mil anos.
xakali, localizado no Brasil oriental, a leste e Antes de deixarmos os Jê, é importante no-
ao sul do Xakriabá, também
Jê Central
— tar que o Macro-Jê está possivelmente relacio-

apresentam taxas de cognatos em relação a ou- nado ao Tupi e talvez também ao Karib. Davis
tros membros da família Jê que sugerem uma (1968) apontou alguns possíveis cognatos e Ro-
separação de mais de 3 mil anos. drigues (1985a) avançou com um estudo im-
Se considerarmos as línguas Macro-Jê em portante que o confirma. O interessante é que.
conjunto, veremos que formam um anel em ao contrário de especulações iniciais, nenhum
torno do Brasil central-oriental. O limite se- desses grupos lingiiísticos parece estar dire-
tentrional da área é definido por uma linha tamente relacionado ao Pano nem ao Arawak.
que vai dos Fulniô no extremo leste do Bra- Voltaremos a esse problema após uma discus-
sil, junto à foz do rio São Francisco, aos Rik- são das línguas Tupi e Karib, já que a história
baktsá, localizados ao longodo rio Juruena. Is- mais antiga da cultura do Brasil exigirá prova-
so corrobora a hipótese de que a penetração velmente que se relacionem as famílias Tupi,
Kayapó e Timbira em direção ao norte é re- Jê e Karib.
cente, e de que suas regiões de origem se en-
contrariam mais ao sul. E interessante a su-
TUPI
gestão de um estudo de Joan Boswood A filiação genética entre as línguas do grupo
(1973:71), de que a língua Rikbaktsá é prova- Macro-Tupi é mais conhecida do que as filia-

velmente mais próxima do Jê propriamente di- ções no grupo Macro-Jê. Isso se deve em gran-
to do que o Karajá ou o Maxakali. Ela indica de parte ao trabalho comparativo do grande
uma taxa de cognatos de 38% entre o Rok- Aryon DallTgna Rodrigues
lingiiista brasileiro

baktsá e o proto-Jê, mas não sabemos quais são (1958, 1964, 1985a, 1985b, 1986). Dispomos
as taxas de cognatos para relações entre as vá- ainda de uma reconstrução detalhada da fa-

rias línguas Jê. A necessidade de mais estu- mília principal dentro do grupo Macro-Tupi,
dos nesse sentido fica evidente. conhecida como Tupi-Guarani (Lemle, 1971).
O limite ocidental da expansão Macro-Jê é Restam poucas dúvidas quanto às ligações ge-
definido por uma linha entre os Rikbaktsá ao néticas entre as línguas Tupi-Guarani e temos
norte, passando pelos Bororó e Guató, que se uma segurança considerável no que diz respei-
dirige para o sudeste até os Ofaié. A posição to às línguas Macro-Tupi, embora as posições
do Bororó no Macro-Jê continua duvidosa, dentro da árvore provavelmente sejam revis-
apesar dos primeiros materiais reunidos por tas no futuro, à medida que a pesquisa prossiga.
Guérios (1939), e a posição do Ofaié requer O principal grupo Tupi, o Tupi-Guarani, é
estudos mais aprofundados, embora Gud- análogo ao Jê dentro do Macro-Jê, embora suas
chinsky (1971) tenha feito uma primeira ten- línguas sejam provavelmente mais próximas
tativa. umas das outras. Ar\'on Rodrigues (1986:29 ss.)

O limite meridional vai dos Ofaié para o les- o compara ao grupo românico dentro do indo-
te até os Puri, no extremo leste do Brasil, europeu. As diferenças parecem ser da mes-
cuja língua está atualmente extinta. Esse limite ma ordem de magnitude, o que sugeriria pelo
confirma a hipótese de (jue os Jê meridionais menos 2 mil anos de divergência.
teriam se deslocado para suas áreas atuais vin- O Mapa 2 mostra a distribuição dos povos
dos do norte. K interessante o fato de ter ocor- Tupi-(íuarani, (jue — e isso é interessante —
rido, historicamente, uma tal concentração de estão mais espalhados do qiw o grupo de fa-
línguas Macro-Jê na parte leste do Brasil, des- nulias mais afastadas Macro-Tupi. Os Macro-
de o Kio de Janeiro até a Bahia. Essa poderia Tupi, e\cetuando-se os Tupi-Guarani. estão
92 msTOKiv ix>s iNnu>s \i) hkvsii

oonctMitnulos muna área no Brasil centro-oeste terelacionado de falantes Tupi, que inclui os
entre o rio Madeira a oeste e o rio Xingu a les- Pauserna e Kawahib a oeste, os Kajabi e Ka-
te. Estendeni-se até o Amazonas, mas apresen- mayurá ao longo do Xingu, os Xetá, que se di-
tam uma concentração e di\ersidade maiores rigiram para o extremo sul do Brasil, e os Ta-
no estado de Rondônia. A área geral de dis- pirapé e Tenetehara, que partiram em direção
persão dos po\os Macro-Tupi, que teria ocor- nordeste, atravessando o Xingu e o Tocantins,
rido entre 3 e 5 mil anos atrás, situa-se prova- até próximo da foz do Amazonas. Os 0>ampi
velmente entre o Madeira e o Xingu, ao que também faziam parte dessa dispersão, tendo
tudo indica mais próximo das áreas de cabe- talvez se deslocado na frente dos Tapirapé e
ceira do que das várzeas dos grandes rios. Tenetehara, atravessando o Amazonas e che-
Se assim for, os fiilantes de Macro-Tupi teriam gando até ao norte do Brasil e às Guianas.
tido originariamente um padrão de adaptação A dispersão final teria ocorrido após o ano
ecológica semelhante aos de Macro-Jê numa 1000, já que há dados indicando que várias lín-
data aniíloga. Teriam estado nas terras mais al- guas seriam, então, uma única língua, reuni-
tas, os Jè a leste e ao sul, os Tupi mais a oeste das sob o nome de "Tupi-Guarani", que não
e ao norte. Isso situaria os Jê nas cabeceiras deve ser confundido com a famúia mais am-
das bacias do São Francisco, .\raguaia-Tocan- pla. Essa língua era falada pelos Chiriguano
tins e Paraguai, e os Tupi nas redondezas dos e Guarayo na Bolí\ia, pelos Tapieté e Guarani
tributários orientais do Madeira, nas cabecei- no Paraguai, pelos Kaingxva na região entre o
ras do Tapajós e do Xingu. Paraguai, a Argentina e o Brasil e por grupos
No caso Jê, é importante notar o caráter in- que ocupa\am a costa do Brasil até a foz do
completo de nossos conhecimentos. Loukot- Amazonas: os Tupinambá, Tupiniquins e Po-
ka (1968) lista uma série de línguas extintas no tiguara.
nordeste brasileiro. Se fossem ligadas ao As línguas Tupi, considerando o atual esta-
Macro-Jê, isso poderia indicar uma origem do do conhecimento, parecem se distinguir
mais a nordeste, ainda em região alta. Não te- das línguas Jê em seus padrões de dispersão
mos o mesmo problema no que se refere às geográfica. Entre os Jê, a distância geográfica
populações Tupi, já que as línguas atualmen- parece corresponder, grosso modo, à distância
te extintas faladas antigamente ao longo da cos- histórica. Línguas mais próximas tendem a se
ta pertencem todas à família Tupi-Guarani e manter juntas, como se a língua se reprodu-
são, provavelmente, dialetos de uma única lín- zisse segundo um processo de ramificação em
gua, que havia se deslocado recentemente para que no\os galhos empurram os Nelhos galhos
a região. mais para longe. Não é exatamente isso o que
De fato, a grande expansão geográfica das ocorre, especialmente no que diz respeito ao
línguas Tupi não está associada à antiga dis- núcleo Jê a ao deslocamento dos Jê meridio-
persão Macro-Tupi, e sim à explosão que ocor- nais para o extremo sul do Brasil. Miis é de mo-
reu com a expansão da família Tupi-Guarani. do geral \erdadeiro em compiíração com os
Esta teria ocorrido há uns 2 ou 3 mil anos, e Tupi.
não há 4 ou 6 mil anos, e parte da dispersão Entre os Tupi, em vez de ramificações, en-
é provavelmente muito recente. contramos um padrão de explosões e radiações
Supondo-se que os grupos Tupi-Guarani te- a partirde centros. Conseqiientemente, lín-
nham começado a se diferenciar de outros guas muito distiuites acabiun se rewlando nnii-
Macro-Tupi em algum lugar entre o Madeira to relacionadas. .\ relação entre o Chirig\iano
e o Xingu, parece e\idente que os Kokama e na Bolí\ ia e o Potiguara na costa líorte do Bra-
os Omágua se deslocaram para cima em dire- sil exemplo mais eloquente. Mas
talvez seja o
ção ao .\mazonas. Faziam parte da primeira se nos distanciarmos no tempa teremos os
cisão do grupo Tupi-Guarani. Pela mesma épo- C)\ampi ao norte do .\mazonas e os Xeta no
ca, os Guaiaki teriam se deslocado para o sul, sul do Brasil. Remanescentes de uma e\pK>-
atingindo a região do atual Paraguai, e os Xi- são ainda mais atUiga são os Kokama no nor-
rionó teriam se dirigido para o sudoeste, pe- deste do Peru e os CUiaiaki no Paraguai.
netrando na Bolívia. No seu extrato mais antigvx as tlumlias
Essa fase de separação e dispersão foi se- Macro-Tupi. o padrão geogrâtKH^ não e tão di-
guida pela do grupo central mais proxiuiamen- ferente do dos Jò. (.)s Maciv-lupi tèm uma dis-
A HISTORIA DA CULTUKA BRASII.KIKA 93

tribuição compacta. Tem-se no entanto a sen- todas bastante próximas, no nível, digamos, da
sação de que, ao longo do tempo, a mobilida- família Tupi-Guarani. Isso indicaria uma dis-

de tornou-se um traço mais central das comu- persão ocorrida há uns 2 ou 3 mil anos. Villa-
nidades linguísticas. Os dados linguísticos não lón (1991:88) estima a idade máxima da famí-
nos permitem saber se isso representa uma lia em 3290 anos. Entretanto, ainda não
Karib
mudança na adaptação ecológica ou em ou- dispomos de uma boa noção da subclassifica-
tros aspectos das culturas. No momento em ção dessas línguas. Durbin (1986) propôs uma
que se chega à língua Tupi-Guarani propria- distinção entre Karib setentrionais e meridio-

mente dita, a mobilidade geográfica é um tra- nais, contestada por Villalón (1991), que pro-

ço essencial. Em suma, os grupos Tupi, a ca- pôs, em vez disso, uma distinção geral les-
te-oeste.
da diferenciação sucessiva, parecem se tornar
mais migratórios, menos presos a espaços fí-
O mapa abaixo mostra a distribuição geo-

sicos. As línguas e (se pudermos passar da lín-


gráfica da família Karib. Segundo Villalón, es-

gua para a cultura) as culturas se tornam cada sa família originou-se provavelmenteem algum
ponto das cabeceiras guianenses, entre a Ve-
vez mais móveis.
nezuela e as Guianas. Para ela, a primeira ra-
Faria sentido que os Macro-Tupi, durante
mificação da família seria a migração dos Yuk-
a fasede dispersão (talvez 4-6 mil anos atrás),
pa (seus Makoita) para o leste, em direção ao
se parecessem mais com os Macro-Jê. A hi-
nordeste da Colômbia. A segunda ramificação
pótese avançada por Rodrigues (1985a), assim
como por Davis (1968), é de que os Jê e Tupi Línguas Karib
estão relacionados a distância. Se existe real-
mente uma relação, essa só pode ser, eviden-
J^^-^-^
Cil'^
r-^-^v
uma
temente, distante. Atribuir à conexão
profundidade cronológica mínima (digamos
-f^t^
^ V~ \oponet "\,'/MapPan.
v" ^K-
Yav. Yek.
_
de 5 a 7 mil anos) acrescenta pouco à nossa 1
^ --* \
t'\

compreensão, e apenas indica nossa incerteza. Pauish.A, )Hv^'^~^' \

KARIB
/ Kanjona ^
1
Sf V^oanan*
Sal.

War
ti.

^J^^j
J

Em comparação com os Jê e com os Tupi, não


houve nenhuma tentativa de aplicação rigorosa
do método comparativo às línguas Karib. Os
trabalhos mais recentes são o de Durbin
Palmela-'

(1985), que na verdade é um levantamento pre- -., _Apiakái-BaKal„


^Nahukwí
liminar, preparatório para uma análise compa- Txlkâo

de Villalón (1991), basea-


rativa completa, e o
do numa comparação lexical feita sem a apli-
cação do método comparativo. Conseqiien-
temente, nosso conhecimento dessa família
ainda é rudimentar, e pode-se imaginar o
quanto resta a descobrir a partir de trabalhos
futuros, que devem envolver a aplicação da
verdadeira técnica comparativa. Rodrigues
(1985a), por exemplo, fornece alguns dados va-
liosos quanto à ligação genética entre línguas
Karib e Tupi. Isso poderia significar cjue as lín-

guas Karib, Tupi e Jê derivam todas de um an-


cestral comum no passado remoto. Mas não se
pode fa/er muito até que novas pesquisas se-
eximias ou Abreviações
jam realizadas. pralicanienie eximias Aka Akawáio Wai Waiwai

Embora nosso conhecimento dos Karib ain- Mak Makuxi War Warikyana
Pan Panare Way Wayana
da esteja baseado em comparações superfi- Pêdl. Pemông Y»v Yivirani
Sal Salumt Yek Yakuôna
ciais, parece evidente (jue as línguas Karib são
94 IllSTOKlV nos INOIOS \l) HKVSll

seria a dos Karijonaiiulo para o suclostf da CÀ)- tarde um contato de tipo constante que possa
lònibia. tendo os Bakairi niiurado para o Bra- produzir empréstimos. Esse padrão, com re-
sil central mais tarde. des de intercâmbio entre comunidades rela-
Não se pode superestimar nossa incerteza ti\amente subdesenvoK idas, é provavelmente
quanto à subclassiticação até que tenha sido o padrão mais antigo no Brasil.
teita uma reconstruirão geral. Esta é especial- Um aspecto curioso da família Karib, em re-
mente importante na medida em que há ev i- lação aos Jê e Tupi, é que não tenha sido pos-
dèncias de um consideráxel empréstimo lexi- sível até o momento identificar um grupo mais

cal dentro do núcleo das línguas Karih das amplo de "Macro-Karib", análogo ao Macro-
Guianas e da Venezuela. Também existem em- Jê e ao Macro-Tupi. Ou seja, parece que não
préstimos, de dois tipos diferentes, entre lín- existem outras famílias menores, com laços
guas Tupi e Karib. Rodrigues (1985a) fornece mais distantes com a família Karib, que pode-
que sugerem uma fase mais antiga
e\ idèncias riam ajudar-nos a identificar um local de ori-
de empréstimos entre a família Tupi-Guarani gem karib. As relações mais próximas até agora
(sem incluir as outras famílias Macro-Tupi) e identificadas não se encontram, entretanta ao
as línguas Karib setentrionais (sem incluir as norte do Amazonas, e sim ao sul. Rodrigues
línguas Karib ao sul do Amazonas). (1985a) forneceu exidências extremamente su-
É que haja tanto emprésti-
interessante gestivas — na forma de cem possíveis cogna-
mo entre os grupos Karib, já que isso não ocorre tos — de uma ligação entre os troncos Karib
entre os grupos Jê e, no caso dos grupos Tupi, e Tupi. Além disso, propôs uma distinção en-
os empréstimos parecem ser do Tupi para o tre esses cognatos, que indicariam uma origem
Karib, e não o inverso. Costuma-se associar o histórica comum para esses grupos, e os em-
empréstimo ao tipo de contato envolvido no préstimos, que indicariam contato mais tardio.
comércio e na troca. \'illalón (1991:86) chega A conexão Tupi-Karib ainda não passa de
a uma conclusão semelhante, afirmando que uma hipótese, em meio a tantas outras, mas
os "dados considerados confirmam a existên- parece cada vez mais provável. Se essa rela-
cia de redes regionais pré-colombianas de lon- ção for confirmada, poderemos estar diante de
go alcance que se estenderam graças a uma um passado bastante remoto (mais de 6 mil
vasta rede de rios navegáveis capaz de man- anos),quando a família Karib ter-se-ia desli-
ter um intenso tráfico de pessoas e bens". Pa- gado do tronco Tupi. Dada a também possível
ra se compreender a história da cultura da ligação histórica entre Tupi e Jè, tratar-se-ia
América do Sul pré-colombiana, será preciso de um grupo genético de Jê, Tupi e Karib. Os
determinar quando essas redes se expandiram, dados de que dispomos atualmente são sem
o que requer reconstruções detalhadas. Até dihida muito mais sugesti\os do que tudo o
que isso seja feito, só podemos especular. No que já se tinha \ isto.

momento, inclinamo-nos a pensar que o con- Se essa relação for confirmada, seria niiiis

tato extensivo, do tipo que produz interações pro\ ável que as populações ancestrais desses
contínuas e regulares e requer alguma forma grandes grupos se encontrassem ao sul do
de código de comunicação compartilhado (bi- .\mazonas do que ao norte. Trata-se de um pe-
linguismo, línguas francas, línguas de comér- ríodo remoto em que Tupi e Karib ainda não
cio etc), não tem mais do que 2 ou 3 mil anos, se distinguiam, embora as populações Macn>-
e talvez seja bem mais recente. Nessa data re- Jê prova\elmente já ti\essem se deslig-ado.
cuada, o principal papel mediador era prova- Não sabemos, e\ identemente, onde ;is po-
\elmente desempenhado pelas populações pulações ancestrais do conjunto Tupi-Karib
Karib. poderiam ter \ i\ ido. Pelo menos não temos
As populações Jê, assim como as antigas po- nenhuma loc;ilização precisa. Mas podemos
pulações Tupi, tanto quanto se pode afirmar imaginar, a essa altura, ijue seria algiun lug;u
atualmente a partir da reconstrução, parecem na área do Brasil centnil-ocident;il. perto da
ter-se aproximado mais do tipo clássico de co- zona de origem dos grupos Macu>-Tupi. lina
munidade isolada. Nessas sociedades, o con- reconstrução solida do proto-Karib não se —
tato lingiiístico costuma se restringir aos mem- pode exiigerar demais a sua neivssidade —
bros do grupo local, e quando os grupos se di- poderá, espora-se. lançar lu/os sobiv a ques-
videm, aparentemente não retomam mais tão.
\ IIISTOHIA DA (UI.TIRA BRASILEIRA 95

ARAWAK partir de uma área mais a sudoeste, algo co-

Na termo Maipure é uti-


literatura recente, o
mo o centro ou o norte do Peru?

lizado para caracterizarum conjunto seme- O trabalho recente de Payne lança algumas
luzes sobre essa questão. Das cinco grandes
lhante ao Jê (não ao Macro-Jê) ou à família
subdivisões dos Maipure, duas (ocidental e
Tupi-Guarani (não ao tronco Tupi). Graças ao
meridional) têm representantes na área
excelente trabalho de David Payne (1991) pos-
centro-norte do Peru. Algumas das línguas se-
suímos agora um grau relati\amente alto de
tentrionais também não se encontram geogra-
certeza quanto às filiações genéticas entre as
ficamente muito distantes dessa área, sendo
línguas Maipure, ainda que as subclassificações
o Resígaro talvez a mais próxima. Partindo da
específicas estejam sujeitas a revisão. As lín-
regra de que a área geográfica que contém a
guas Maipure são relativamente próximas.
maior diversidade linguística é provavelmen-
Pode-se supor uma profundidade cronológica
te a zona de origem, a área peruana se apre-
para a família de uns 3 mil anos.
senta como o possível local de dispersão do
O termo Arawak refere-se a um grupo ge-
ramo Maipure dos Arawak.
neticamente mais abrangente, sobre cujos
Isso é confirmado pelas línguas setentrio-
membros temos menos certezas, menos do
nais. Desde o oeste da região amazônica, atra-
que nos casos Macro-Jê ou Tupi. Na verdade,
vessando todo o norte da América do Sul atra-
atualmente apenas fazemos suposições quan-
\és das Guianas e até as Antilhas, encontra-
to às filiações nesse caso. As outras famílias ge-
ralmente incluídas no Arauak são as línguas
Línguas Arawak
Aruan da região do sudoeste amazônico Gua

(Kulina, Paumari, Yamamadi e Deni), a língua


Puquina falada nas redondezas do lago Titicaca
na Bolívia e as línguas To>'eri ou Harakmbet

faladas próximo a Cuzco, no Peru.


As semelhanças entre as línguas Maipure
e as línguas Guahibo da Colômbia e Venezuela
(Guahibo, Guayavero, Cuiha) "costumam ser
atualmente consideradas como emprestadas"
(Payne, 1991:363). O empréstimo também não
pode ser descartado em outros casos, como
uma característica marcante dentro do gru-
po Maipure. M. R. Wise (citado em Payne,
1991:372) resume as opiniões quanto à exten-
•são dos empréstimos no caso Amuesha, con-
cluindo que se pode pensar que o Amuesha
tenha sido "substituído pelo Quêchua".
De qualquer modo, as línguas Maipure fo-
ram organizadas por Payne em cinco subdivi-
sões: setentrional, oriental, central, meridio-
nal e ocidental. Esses grandes grupos são mos-
trados no Mapa 4. Não existe consenso na
quanto à origem geogriífica do tron-
literatura
co Maipure, embora fique claro que em rela-
Waurá central Abreviações Nào-Maipure
ção aos Tupi, Jê e Karib os Maipure apresen-
Acha selenlnonal

tam uma distribuição genericamente ociden- Terena mendional


Achagua Lok Lokono
Denr
Acha Kul- Kulina
Amu ocidenlal 1
tal. Localizá-los com mais exatidão tem sido, [Pil oriental
Amu Amuesha Mach Machiguenga < Pau- Pauman
Ap Apunná Pa Palikur
Arawak Yam- Yamamadi
entretanto, Teriam se originado ao lon-
difícil. Cul '

nAo-Maipure Ash Ashaninca Pia Piapoco

go de um trecho do curso principal do Ama- Cab


Cham
Cabiyari

Chamicuro
Res
Ta
Resígaro
Tanano
. Cuiba

3 Guay Guayavero
zonas, como afirma Lathrap (1970:74)? Teriam Cur Cumpaco Wap Wapiiana Guah Guahibo
Gua Guajiro Yav Yavitero
uma origem mais setentrional, na região do al-
ig Ignaciano Yuc Yucuna Puq- Puquina
Har- Harakmbet
to Vaupés, digamos? Teriam se dispersado a
96 IIISTOKIV r><.)S INOmS NO BRVSIl

luos um único nimo da tainília no qual ocor- ras que teriam le\ado o ramo central (Waurá
reu, entretanto, uma notá\eI proliferação, que e Pareci) aos seus locais atuais de habitação
sunere algum no\o tipo de adaptação. nas cabeceiras brasileiras. É possíxel, como ar-
Esta última hipótese ganha credibilidade gumenta Lathrap, que tenham seguido os cur-
quando se examinam as característiciLs geográ- sos dos rios, mas se o fizeram, procuraram re-
ficas de outros grandes subgrupos de Maipu- giões de nascentes, com altitudes maiores. Não
re. O ramo ocidental, incluindo Amuesha e é inconcebível, contudo, e pode até ser pro-
Cluunicura encontra-se numa área montiuiho- \ á\ el, que tenham seguido uma rota terrestre

sa de transição para as terras baixas. O ramo até suas localizações atuais.


Waurá, por sua vez, encontra-
central. Pareci e Dentro desse quadro geral, é difi'ci] imagi-
se decididamente no planalto. Os Waurá es- nar como os Palicur poderiam ter atingido o
tão nas nascentes do Xingu e os Pareci basi- nordeste do Brasil. Tal\ez fossem um destaca-
camente na chapada dos Parecis, com altitu- mento a\ançado dos Maipure setentrionais.
des entre 500 e 1000 m. O ramo meridional, entrando pela periferia setentrional do Ama-
lúiguas Bauré e Ignaciano, se localiza em tor- zonas. Ou tal\ez tenham \ indo pelo planalto
no dos Lianos de Mojos, com altitudes entre oriental do Brasil, adiante dos Maipure cen-
200 e 500 m e numa região de nascentes. Os trais, mas precisariam ter cruzado o .amazo-

Terena, linguisticamente bem pró.ximos, nas perto de sua foz. Ou talvez tenham desci-
mudaram-se para o planalto oriental brasilei- do o próprio Amazonas.
ra na área ao longo do alto Paraná. Os Piro, De qualquer modo, esses subgrupos não
Matsiguenga e Ashaninca-Campa estão todos apresentam bases para se afirmar que os Mai-
numa região alta de nascentes do centro-leste pure se originaram em terras baixas ao longo
do Peru. A e.xceção aqui é a língua Apurinã, do curso principal do Amazonas, como suge-
localizada numa região realmente de terras re Lathrap (1970:74). Seu ponto de dispersãa
baixas (altitude de menos de 200 m) ao longo há taKez 3 mil anos ou mais. foi mais prova-
do rio Purus no sudoeste do Brasil. O princi- \elmente uma área periférica de cabeceiras,
pal subgrupo localizado em região de terras não muito diversa das regiões ocupadas pelos
baixas é o ramo setentrional, que apresenta, ancestrais dos Jê. Tupi e Karib. Embora os
como \1mos, uma
grande proliferação. Maipure-Arawak tenham feito a maior pene-
Um problema interessante desse ponto de tração nas \erdadeiras terras baixas, ao norte
\ista é o Palicur, localizado junto à costa Adán- do Amazonas, tal penetração foi realizada por
tica ao norte da foz do Amazonas, numa re- apenas um dos grandes ramos da família e tal-

gião em de pequena altitude com terras


geral \ ez represente uma no\ a adaptação ecológica.
mais altas em redor. Pa>iie não quis, até o mo- Nesse ponto, poderíamos conjeturar que o
mento, considerar o Palicur como mais próxi- curso principiíl do .\mazoniis não foi a princi-
mo do ramo setentrional ou do meridional. pal rota de dispersão .\rawak. Ao contrária pa-
Consequentemente, colocou-o num grupo rece pro\ á\el que os Maipure tenham migra-
oriental separado. Mas isso torna difícil a re- do pela periferia da bacia ;miazònica, tanto pe-
construção da migração que poderia tê-los le- lo norte como pelo sul, a partir da área
\ado a essa área. peruana, estabelecendo-se apeniis mais t;ude
Se o Peru for a zona de origem dos Maipu- em regiões de terras baix;is ;uniizònic;is.
re, pode-se dizer que o ramo ocidental não se Especulações quanto à rede mais ampla dt
deslocou muito, estando próximo do ponto de línguas .\ra\\ak ainda são nunto embrionári;i>
origem há 3 mil anos ou mais. O grupo meri- para cjue se possa iifirnnu" qiudquer coisa em
dional teria passado por uma dispersão, com relação à zona de origem .\raNvak. Se aceitar-
os Ignaciano e Bauré acabando nos Lianos de mos cjue iis semelhançiis entre M.úpure e Gua-
Mojos e os Terena continuando em direção ao hibo se de\em a empréstimos, xs outnis su|X>s-
leste, atingindo finalmente o planalto brasilei- tas línguas .\ra\\ak (f;uníli;is .\riian e H;u~akm-
ro. Os Machiguenga. .\shaninca-Campa e Pi- bet, assim como Puquina'* est.io tixlas ao sul
ro teriam pemianecido próximo de sua origem e a oeste do .\ma/onas. Puquina o Harakm-
geográfica, e os Apurinã teriam penetrado pe- bet estão em regiões Ixistante ele\»uiiis. Nesse
las terras baixas do rio Purus. Pode-se imagi- sentida a fanulia Aruan pareiv distingxúr-se
nar rotas basicamente de regiões de cabecei- por ocupar em giM-al atvas de terras Ivúxas,
\ [1IST()IU\ I)\ (II.TUKA BKASILEIKA 97

com altitude de menos de 200 m, estendendo- Famílias menores


se às vezes para terras mais altas. Contudo,
mesmo a família Aruan tende a se localizar em /^/^ --^^^
regiões de nascentes e montantes, confirman- ^v^-^ S'^—^.^/^""^
A-^-~^r\
do a hipótese de que os Arawak eram perifé- h5x; c. ^—^^ v.
ricos em relação ao curso principal do ) ^'^x C'^\."''~ '
''

/ Puinaveyi ^^vL Yanomami ',


^'' /

Amazonas.

FAMÍLIAS MENORES
—"V^ /^x^_
As famílias linguísticas menores tendem a ser
geograficamente mais compactas. Não apre-
í<y] y
(^'''r^r^^X^
,
^/j^^^lukinaV^-

/&' \
A
T ^~^\ / }
X^^\ ( Pa'no\
J
^ \

sentam, assim, tantos problemas para a recons- {

trução das regiões de origem e dos padrões de


dispersão. Além disso, para muitas dessas
mílias menores, as profundidades cronológi-
fa-
\
\
\
^^—^^ Ç\
V
fralíanal
VjTTxapakura
\^^^~\
\ ^"^^i^-^
^/\
C Nambikwara
f

/
)

Jl j
í 1 Í7
/
cas não são provavelmente muito grandes, e
^N. V tV
o grau de distância entre as línguas sobrevi- .-P\ /^~^J /
^J
11
K 1 Guaykuru
ventes é comparável ao grupo românico das \ ' 1 /

línguas indo-européias, o que sugere datas de


separação de não mais de 3 mil anos. Mas não
S
/"""yrY
1
/^^^ iGuaykuru )

se pode generalizar demais. Isso provavelmen-


não é verdadeiro em relação às famílias Tu-
V f
te
kano e Pano-Takana, mas é certamente verda- /
deiro no caso Yanomami.
P ^lV
Os menores agrupamentos genéticos no
Brasil são as famílias Pano,
bikwara, Chapkura, Mura
Guaykuru, Nam-
e Katukina ao sul do
V
vi
J^
<J^^^
amazonas, e as famílias Puinave e Yanomami
ao norte. Sua distribuição aproximada está in-
ufi r
dicada no mapa ao lado. J' c
A Pano é a maior delas ao sul do
família
a)
Amazonas. Graças ao trabalho de Shell (1965),
% J
possuímos uma reconstrução básica da famí-
lia, que está mais ou menos concentrada no
\i ^
oeste do Brasil e no Peru, assim como na Bo- lado, e a família Yanomami do norte do Brasil
lívia. Encontram-se nas cabeceiras e altos cur- (Roraima) e Venezuela, do outro. Se essa hi-

sos dos rios Juruá, Purus e Javari. Key (1968) pótese for verificada, poderemos estar diante
e Girard (1971) demonstraram que a família Pa- de evidências de uma origem meridional tam-
no está relacionada à família Takana da Bolí- bém para os Yanomami. Estes têm uma dis-
via, o que confirma a origem dessas famílias tribuição compacta e uma relação próxima, e
no canto sudoeste da bacia amazônica. Pode- assim, de qualquer modo, não se espera uma
se supor profundidades cronológicas para am- grande profundidade cronológica para essa fa-
bas as famílias por volta de 2 a 3 mil anos, ten- mília, que tem provavelmente menos de 2 mil
do a língua ancestral de ambas (proto-Pano- anos.
Takana) uma idade de vários milhares de anos. k área de origem dos falantes de proto-
Especulações acerca da rede mais ampla de Pano-Takana se encontra provavelmente entre
filiações para Pano e Takana nos levam mais as cabeceiras dos rios Madre de Diós e
para o sul (Suarez, 1973), incluindo Moseten, Ucayali, inna área com 200 e
altitudes entre
uma língua encontrada ao longo das cabecei- 1000 in.

ras do rio Mamoré (Madeira-(íuaporé) na Bo- família (iua\kuru tem um representan-


/;) .\

lívia, e até a língua Tehuelche da Patagônia. teremanescente no Brasil, o Kadiwéu, locali-


Contudo, Milgia/.za e Campbell (1988) propu- zado ao longo da fronteira entre o Brasil e o
.serain uma ligação entre Pano e Takana, de um Paraguai e estendendo-se para o norte até a
98 llISTl^KlV 1H)S IMMOS \() líUVSU

iiuK^ão com a Bolnia. O grosso das línguas parecem ser muito próximos uns dos outros.
C^iKiN kiiru no norte da Argentina
se encontra Mas isso talvez se de\a ao extremo desemol-
o do Paraguai. A tannlia inclui Gua\knru, Pi- vimento do multilingiiismo nessa área (Soren-
laga, Toba, Mocoví e Aibipón, além de algu- sen, 1967; Jackson, 1974, 1983; Crimes, 1985).
mas línguas extintas. Tem-se a impressão de que essa área envolve
A tannlia se encontra totalmente fora da ba- constante interação e comunicação, num grau
cia amazònica, no sistema Paraná- Paraguai. As talvez até maior do que entre os Karib. Qual-
áreas ocupadas são em geral de baixa altitude (juer afirmação quanto à influência desse mul-
(no máximo 200 m), consistindo em extensas tilingiiismo nos empréstimos lexicais e mor-
planícies com \erões em geral muito secos e fológicos terá, contudo, de aguardar uma re-
quentes. construção.
(') A família Niunbikwiua é formada por três Os Tukano orientais, embora periféricos em
línguas concentradas na região do oeste do relação ao curso principal do Amazonas,
Mato Grosso e Rondònia, entre a chapada dos deslocaram-se para os \ales dos rios, e as áreas
Parecis e a serra do Norte, uma região mais que ocupam não passam dos 200 m de altitu-
alta, com altitudes entre 200 e mais de 500 m. de. Contudo, a profundidade cronológica pa-
d) A fanu'lia Chapacura se encontra ao lon- ra esse grupo não é pro\ a\elmente grande, e
go do rio Madeira e pro\avelmente originou- quando os agrupamos aos Tukano ocidentais,
se no atual estado de Rondònia, nas redonde- com uma profundidade cronológica maior, tal-

zas da serra dos Pacaás Novos, uma região de vez de 3 a 4 mil anos, emerge um padrão dife-
altitudes de mais de 500 m, embora os Cha- rente. Os grupos ocidentais ocupam em geral
pacura se estendam à bacia do Madeira. terras mais altas (200-500 m). nas regiões de
e) A família Mura, atualmente representa- cabeceiras.E muito pro\ável que os Tukano
da por apenas duas línguas. Mura e Piraliã, está tenham surgido mais a oeste do que a área dos
localizada ao longo dos cursos médio e baixo Tukano orientais sugere. Isso situaria sua ori-
do rio Madeira, basicamente na margem di- gem numa região de altitudes mais ele\"adas,
reita. Rodrigues (1986:78) propõe que sua pri- talvez ainda mais periférica em relação às ver-
meira localização tenha sido entre os rios Ma- dadeiras terras baixas amazõnicas.
nicoré e Maici, afluentes do Madeira. De qual- h) Os Puinave (Maku) são povos de cal)e-
quer modo, há poucas dúvidas de que se trata do
ceiras e interflúx ios nas regiões iiíastadas
de uma região genuinamente de terras baixas. noroeste amazônico, com no entiui-
altitudes,
A profundidade cronológica não é certamen- to, raramente acima de 200 m. Entre as lín-

te grande, talvez nem chegue a 2 mil anos. E guas sobreviventes dessa família estão Hupda,
se agruparmos Mura, Pirahã e Matanawi, es- Nadob, Wariva, Puinave e Makusa.
taremos possivelmente deslocando sua área de /) Os Yanomami são povos de cabeceiras,

origem para mais a montante. que ocupam a serra Parima no norte de Ro-
f) Pouco se sabe da família Katukina, que raima e Venezuela, região de iiltitudes entre
se encontra no extremo oeste do Brasil, entre 500 e mais de 1000 m. Considera-se em genil
os altos cursos dos rios Juruá e Javari. Os Ka- que a família Yanomami é formada por quatn^
tukina são povos claramente de terras baixas, línguasmutuamente ininteligíveis mas próxi-
ocupando áreas com menos de 200 m de alti- mas umas das outras: Yanám (ou Ninam\ Sa-
tude. Ao mesmo tempo, é possível que a pro- numá, Yanomám (ou Yainomá) e Yanom;iini. .\
fundidade cronológica da família não seja profundidade cronológica da separação dessas
grande. línguas não deve ultrapassar os 2 mil anos, o

g) O outro grande grupo é o dos Tukano, já mencionamos cjue o Yanomami ptxle ser ge-
com duas localizações geográficas principais: ralmente relacionado às línguas Pano o Taka-
oriental, na região do alto rio Negro e Naupés, na ao sul do Ama/onas.
no noroeste da Amazónia, e ocidental, nas ca- O mapa tia pagina 9~ mostra que as famí-
beceiras dos rios Caquetá-Putumaxo no sul da lias menores tendem a se locali/ar na poritt^
Colômbia e Equador Não temos certeza (}uan- ria da bacia ama/ònica, e não em seu curso
to ao grau de diversidade entre as di\'isões principal. As duas prij\cipais exivçnVs são as
oriental e ocidental, já que não dispomos de fanulias Katukina e Nhu-a, ambas de |Hnos int^
uma reconstrução sólida. Os grupos orientais cjuiv luamente de terras IviiXvis. Contudo, a piw
^

A IIISTOKIA DA CULTUKA BKASII.EIKA 99

fundidade cronológica destas duas famílias não na e da Venezuela, mas esse não parece ser
deve ser grande. Estudos mais aprofundados um grande foco.
são necessários para que se possa saber com O estudo das línguas isoladas confirma a hi-
mais segurança há quanto tempo estariam em pótese indicada pelo estudo das grandes famí-
suas regiões atuais. A dispersão Macro-Jê pode ter
lias lingiiísticas.

estado ligada a um foco de dispersão antigo


LÍNGUAS ISOLADAS no Nordeste do Brasil. A aglomeração de lín-
Muitas línguas sul-americanas são isoladas, isto guas isoladas nessa área sugere que numa da-
é, não possuem ligação conhecida com outras ta muito remota os ancestrais dos Macro-Jê po-
línguas ou famílias linguísticas. A primeira vis- dem ter estado em algum lugar do planalto en-

ta, tais línguas não parecem poder ajudar do tre as bacias do São Francisco e do Tocantins.
ponto de vista da história da cultura, já que Do mesmo modo, as populações Macro-Tupi
não é possível traçar suas origens no tempo ou estariam provavelmente ligadas a um antigo fo-
seus movimentos no espaço. Mas são na ver- co de dispersão no oeste do Brasil, e os gru-

dade muito importantes para se compreende- pos Arawak à dispersão no norte do Peru e
rem as fases mais antigas da história da cultu- Equador. As grandes áreas não nos ajudam a
ra — datas além do alcance da técnica com- localizar essas famílias com maior precisão.
parativa, ou seja, anteriores a 4000-5000 a.C. Apenas confirmam que estavam li-
as famílias
Como isso é possível? Podemos usar as lín- gadas a sítios distintos de ocupação antiga.
guas isoladas como ferramentas para entender
Línguas isoladas e famílias reduzidas
as fases mais antigas da cultura brasileira es-
tendendo o princípio básico utilizado para de-
terminar o ponto de dispersão de uma família
^~<f>V__r^
^ / ' (j Warao^S

lingiiística. O princípio nesse caso é o de que


\_/j'-\.^\ç ' /-''— ^ N.

H> \ '^"~\,'/'^^ ('"' ^^


a área geográfica na qual estão concentrados í Piaipa — ^\ *"
'
" >>-

^--^^^
^^ »*_- ^
)
Yuri.t i *

os membros mais divergentes de uma família


^
> ,y \ Maku 1 Taru. /
/
/ \
\
/^ y'' \.^*~- *^
>v r^r/^\
é provavelmente a área de origem. Supõe-se C ^^^^^ r—^

que outras comunidades lingiiísticas tenham


migrado do local de diversidade. Estendendo
tal princípio às línguas isoladas, já que estas
í Coiàfl ^- V And
/ Sab.?^/Au.t-^^
\.
J
/
( Mur
^y )^
*^

,--, Vuri>
JTffur»»
^"" \^^
A
^^^^_,^--^~~7^
/
ior- ^V-v-___^
Gam.^ , V
não possuem filiação genética conhecida, di- \ l llu. / /^ Kanrit/ v

^\ \""" ', ) Mat.f Um.t


ShuA
)
ríamos que áreas em que encontramos con-
VV '^^-^'1
,.'-|
J?^ c.O
centrações de línguas isoladas são provavel-
\ Tuyonèr7\ V " (
^Tr S
Kal7>^

/
1

mente focos de dispersões muito antigas. Teo- \ \ Ca,ría-n--^fKo^- ) )


ricamente, as línguas isoladas poderiam estar V C, '

iLeco
Mol
""U
"0 1
V
Hu? /
/
J
J 1

distribuídas num mapa de modo uniforme. Na (

realidade, no caso sul-americano apresentam \ \ -" -^ \y


/ 1
/]
J
//
\ \ >' \

o efeito de aglomeração. '^


\''~^^'
.1 (-. -Kuk? /
O mapa ao lado mostra isso claramente.
1
'
\
^^
\
\
1
/ /
Utilizando a definição de Kaufman (s. d.) dos j\
grandes agrupamentos genéticos na América
do Sul, esse mapa mostra as línguas isoladas
/;
-
t/
/ /
^_

e as famílias muito peciuenas.


pa, fica claro
A partir do ma-
que existem três áreas princi- \\ nL ^^
"^ F
1

pais de concentração e, consequentemente,


três focos prováveis de antiga dispersão. São
t exllnia ou
h
s 1

Abreviações
)
y Ito llonama N. Natú
eles: 1) a área do Nordeste brasileiro onde, praticamente extinta llu llucale OlTlU Omurano

infelizmente, todas as línguas em questão es- / lamilia And


Au
Andoque
Auishin
Jab.
Kan
Jabuli

Kanichana
Pan
Sab
Pankarunj
Sabela
tão extintas; 2) o planalto a oeste do Brasil Cay Cayuvava Kap Kapuana' Tar Tarainú

Chiquito Kai Katembn Taru Tarurrw


e na vizinha Bolívia, em torno da chapada
ChK).

C Choco Ko Koaia Tr Trumai

dos Parecis e da serra dos Pacaás Novos; e Gam Gamela Kuk Kukurá Tu TusM

3) norte do Peru e Equador. F^xistem algu-


Gor Gorgoloki Mo Movima Um UmAn ll
Hu Huan Mun Munichi Yur Yuracare

mas línguas isoladas nas cabeceiras da (iuia- Ir Iranixe Mur Muralo Yun Yunmangui
100 iiisTi^Ki \ nos i\mc)s vo bhvsii.

l ina tainília permanece tora desse (luadro, ções. O


que deve ser lembrado em relação a
a taimlia Karilx As poucas línguas isoladas na essas famílias menores é que a profundidade
área \ enezuelana não fornecem e\ idèncias se- cronológica que é possí\el reconstruir para
leiras de utn toco antigo. Além disso, sabemos elas nunca é muito grande —
na faixa de 2 a
(lue a profundidade cronolótíica da família Ka- 3 mil anos no máximo. Conseqiientemente, as
rib não é tão grande como a do Macro-Tupi, regiões de origem encontradas não correspon-
Macro-Jè e Arawak. E cresce a probabilidade dem às posições que ocupaxam seus ancestrais
de (jue o Karib esteja geneticamente relacio- há 5 ou 6 mil anos. Nos casos em que se pode
nado ao grupo Tupi. .\ distribuição das línguas recuar mais no tempo, como acontece em re-
isoladas confirma que a região guiano- lação aos Tukano e aos Pano, a hipótese cabe-
vene/uelana pode não ter sido o foco de anti- ceiras/periferia torna-se mais proxável. De
gos deseuNoK imentos culturais e teria sido, ao qualquer modo, a hipótese funciona bem tam-
contrário, um
de dispersão secundária,
local bém para os outros grupos lingiiísticos. Não
para onde teriam migrado po\ os vindos de fo- há famílias lingiu'sticas com profundidades cro-
cos mais antigos. nológicas superiores a 1000 a.C. cujas zonas
de origem se encontrem basicamente no mé-
A HIPÓTESE DAS CABECEIRAS dio e baixo Amazonas. De fato, não há nenhu-
Ol PER1FERL\ ma zona de origem fora das áreas periféricas.
Quando localizamos as prováveis áreas de ori- Atra\ és das línguas, com o auxílio da téc-
gem dos ancestrais históricos das famílias Jê, nica de reconstrução, começamos a perceber
Tupi e Karib, emerge um fato notá\'el. Todas uma possível seqiiência da história cultural.
essas áreas são de cabeceiras: o planalto a les- Por volta de 4000 a.C. e possivelmente até
te do Brasil, junto ao alto São Francisco, no 1000 a.C, a distribuição das famílias sugere
caso Jê; a área mais extensa entre as cabecei- uma localização periférica em relação ao cur-
ras dos rios Madeira e Tapajós, no caso Tupi; so principal Amazonas e geralmente em
do rio

e os altiplanos guianenses ou venezuelanos no terras altas. Os dados de que dispomos atual-


caso Karib. Por volta de 4000 a.C. e tahez até mente sugerem que o mo\imento para as re-
muito depois (ano 1000 ou mais), as comuni- giões mais baixas foi muito mais recente. Em-
dades linguísticas ancestrais dessas famílias bora áreas de baixas altitudes possam ter sido
ocupavam cabeceiras, com altitudes entre 200 anteriormente ocupadas, a área de ocupação
e 1000 m (e geralmente acima de 500 m), e era periférica ao rio Amazonas e geralmente
não penetraram nos baixos cursos do Amazo- em regiões de cabeceiras.
nas ou de seus afluentes. O estudo das línguas isoladas fornece tal-

Um padrão semelhante se esboça no caso \ez a mais clara confirmação da hipótese ca-
da família Arawak, se seus ancestrais realmente beceiras/periferia, já que os aglomerados em
se originaram no norte-centro do Peru. E ain- questão representam pro\a\elmente fcx-os de
da que não fosse esse o seu local de origem, dispersão muito recuada no tempa provax^el-
parece certo que se localizavam nas cabecei- mente anterior a 4000 a.C. Em todos os ca- I

ras amazônicas —
contrariamente à hipótese SOS, trata-se de cabeceiras. No Nordeste bra-
de Lathrap (1970:74), de que teriam surgido sileiro, temos um planalto elevado com ;iltitu-

ao longo do curso principal do Amazonas, na des bem acima de 200 m e em muitiis p;utes •

região de sua junção com o rio Negro. Os Ara- acima de 500 m. O mesmo ocorre na ;irea de
wak podem ter sido os primeiros a mudarem- cabeceiras no oeste do Brasil e na Boh\ ia, em
se para regiões mais baixas, como indica o ra- torno da chapada dos Parecis e da serra dos
mo setentrional da família Maipure, mas pa- Pacaás Novos. No Peru, trata-se da l>eira dos
recem seguir um
padrão de distribuição peri- .\ndes, com altitudes \ariando entrt^ nuM\os de
férico aos principais cursos dágua. ou seja, 200 m e mais (.le 1000 m. Mesmo no caso de
mais próximo das cabeceiras do que das \ ár- — os
nossa área secundária de dispei-são .ilti-

zeas. Trata-se de altitudes entre 200 e 1000 m, planos guiano-xenezuelanos — encontramos


como nos outros casos. altitutles compara\eis.
Nosso breve resumo das outras famílias Se ha\ ia ocupaçãi> permanente ao lougi^ do
mais importantes rexelou certa conformidade curso principal do Xuía/onas, isso não se iv-

com esse padrão periférico, e algumas exce- tlete nas Imguas sobiwix entes dvHnuuenhidas
A IIISTOKIA DA C:lI.Tl'KA BKASIl.KIK \ 101

Podem-se facilmente imaginar outros padrões dem considerar o papel ativo que a língua po-
de dispersão —
famílias principais cujas loca- de desempenhar em tais integrações de larga
lizações indicam origens basicamente ao lon- escala. Segundo um modelo de desenvolvi-
go do curso principal do rio Amazonas mas — mento cultural brasileiro, as fases mais anti-
isso não parece ter ocorrido. Se essas áreas fo- gas caracterizar-se-iam pelo contato limitado
ram ocupadas entre 4000 e 1000 a.C, seus entre membros de comunidades lingiiísticas

ocupantes não deixaram descendentes. Teriam distintas. As divergências entre as línguas se-
sido empurrados por outros povos vindos de riam atribuídas às divergências entre essas co-
áreas periféricas e de cabeceiras. munidades, as quais, uma vez separadas, ten-
A história da cultura do Brasil durante es- deriam a permanecer separadas. Os Macro-Jê
sa fase remota provavelmente envolveu pa- e outros povos ligados ao foco de dispersão do
drões adaptativos bastante distintos daqueles Nordeste brasileiro refletem mais perfeitamen-
descritos para as tribos genuinamente de ter- te esse modelo de processo social uma lín-

ras baixas durante o período histórico. O de- gua/uma comunidade, a que provavelmente se
senvolvimento cultural-histórico refletido na conformam também de modo geral os Macro-
língua sugere um movimento gradual para re- Tupi e outros grupos dentro da área maior de
giões de menores altitudes, correspondendo dispersão do oeste do Brasil.
a padrões diferentes de adaptação. A verdadei- É no norte e no oeste da região amazônica
ra invasão dessa região não teria provavelmente que se desenvolvem diferentes padrões lingiiís-
ocorrido antes de 1000 a.C. e pode ter estado ticos. Já apontamos para o papel do emprésti-

ligada à maior importância adquirida pela agri- mo no caso das línguas Karib e também em
cultura em relação à coleta. De qualquer mo- algumas línguas Maipure-Arawak. Que tipos
do, parece suficientemente confirmado que o de contato teriam levado a esses empréstimos?
movimento deu de zonas de altitudes mais
se Tratar-se-ia de um multilingiiismo difundido?
elevadas (200 a 1000m) para zonas de altitu- Línguas de comércio teriam se formado nes-
des mais baixas (menos de 200 m). Ainda há sa área em tempos pré-colombianos? Qual a
muito a fazer para reconstruir as trajetórias e idade desses padrões? Essas são algumas das
cronologias específicas desses movimentos. questões que é preciso abordar em relação ao
papel da língua. No caso Tukano oriental, o
O PAPEL DA LÍNGUA NO multilingiiismo tem sido a norma, constituin-
DESENVOLV LMENTO HISTÓRICO-CULTURAL do a base para uma integração social e cultu-
Costuma-se pensar que a língua reflete passi- ral mais ampla numa grande região, apesar de

vamente desenvolvimentos em outros aspec- diferenças lingiiísticas. Precisamos saber mais


tos da cultura. Mas é importante considerar acerca do papel do multilingiiismo, línguas de
mudança no caráter sociolinguístico das
(jue a comércio etc. em relação às áreas do norte do
comunidades pode ser uma força atuante em Peru e Equador.
desenvolvimentos culturais mais amplos. Es- Suspeita-se que tais desen\oKimentos so-
sa é uma área que merece investigação cuida- ciolinguísticos constituem a base de uma pos-
dosa de especialistas em linguística histórica. terior integração social e política. Em vez de
Xa maior parte do tempo, os lingiiistas es- apenas refletirem desemoKimentos socio-
tão interessados em saber quais palav ras foram políticos, as mudanças sociolingiiísticas podem

emprestadas de outra língua para poderem desempenhar um papel central. Estudos mos-
eliminá-las de suas reconstruções. As recons- traram, por exemplo, (}ue o Quêchua se difun-
truções fornecem informações de origem ge- diu no Equador antes da ascensão do impé-
nética e dispersões, como foi indicado na pre- rio Inca (Stark, 1985, baseado em Torero, 1964
sente discussão. Mas o estudo dos emprésti- e Parker, 1963). Deveríamos ao menos consi-
mos também pode ser elucidativo dos contatos derar a possibilidade di' fenómenos sociolin-
entre grupos, e estes podem ser cruciais para giiísticos conduzirem, em vez de apenas se-
se entenderem estágios posteriores de desen- guirem, outros aos (|uais normalmente os as-

volvimento histórico-cultural, (juando se for- sociamo.s, especialmente sistiMuas de comércio


mam alianças políticas e se constituem forma- e troca, de um lado. e integração política em
ções sociais de escala mais ampla. larga escala, de outro, .\tlnal. o comércio prcs-
Nesse sentido, historiadores da cultura jx)- sttf)õ(' alguma forma inniima de comunicação.
lOi msTOKK DOS i\nK>s \o musii.

e é apenas uma espécie de tuneionalisino te- troncos lingiiísticos (Jé, Tupi e .\ra\vak), cada
leológico que nos torça a concluir que o nuil- cjual associado a um foco em cabeceiras e/ou
tilini^iiisnux línguas francas etc. desenvol- periférico (planalto oriental do Brasil, região
\eni-se de modo d facilitar o comércio, em \ ez da chapada dos Parecis no oeste do Brasil e
de este se desen\ol\er porque já foi estabele- na Bolívia, e centro-norte do Peru, respecti-
cida uma relação social. CÀ)nforme cresce nos- vamente). Essas áreas geográficas são também
so conhecimento de linguística comparati\a, de aglomeração de línguas isoladas,
os locais
deNeríamos ter mais meios de testar \ árias hi- sugerindo áreas de dispersão lingiiística mui-
póteses sobre as relações entre a sociolinguís- to antiga. Uma quarta área, os altiplanos
tica e a origem desses outros padrões. guiano-venezuelanos, área das línguas Karib,
parece ser um foco secundário de dispersãa
CONCLUSÕES mais recente do que os outros três.
Enquanto não são feitos os trabalhos básicos As distribuições sugerem que a ocupação
tão necessários — tanto análises que utilizem das terras bai.\as propriamente ditas se fez mais
rigorosamente o método comparati\o como, tarde, embora possa ha\ er ocorrido incursões
em alguns casos, descrições gramaticais bási- temporárias nessas zonas, com migrações re-
cas — , podemos começar a a\iiliar a contribui- gulares ou ocasionais de po\os das cabeceiras
ção da lingiiística comparati\ a para a teoria de e regiões periféricas. De acordo com esse qua-
médio prazo, isto é, para o período de dro, a ocupação permanente das terras baixas
4000-5000 a.C. até o presente. Podemos re- é provavelmente posterior a 1000 a.C.
cuar ainda mais através do estudo da distri- Precisamos de mais pesquisas para eluci-
buição das línguas isoladas, mas nosso conhe- dar o empréstimo lingiiístico. Os dados de
cimento se torna mais cristalino à medida que que dispomos atualmente indicam situações
nos aproximamos do presente. Xo atual está- de intenso contato, multilingiiismo, línguas
gio de desemolvimento das técnicas linguís- de comércio etc. para uma região que \ai
ticas, não se deve esperar que estudos de lín- do extremo oeste da bacia Amazônica para
gua possam resolver questões ligadas à origem o norte e em seguida para o leste, cruzando
dos povos sul-americanos. E claro que qual- toda a América do Sul ao norte do Amazo-
quer tentativa de classificação que tente re- nas. O centro e o oeste do Brasil, ao contrá-
duzir a di\ ersidade empírica das línguas indí- rio, parecem ser áreas nas quais a hipótese

genas sul-americanas a três ou quatro grandes tradicional uma língua/uma cultura^um pONO
agrupamentos genéticos é pouco mais, no mo- tem maior credibilidade. Se esse padrão for
mento, do que uma suposição. Mas essas es- confirmado por pesquisas tuturas. pode se
peculações podem le\ar a novas descobertas rexelar \alioso para des\endar os segredos
muito importantes e a novos dados sobre re- da história da cultura ameríndia bnisileira.
lações cronologicamente remotas. Somente então poderemos rciílmente recu-
O que se vê mais claramente, e com um perar o passado remoto do Bnisil, com uma
grau maior de certeza, atualmente, é um pa- \ isão V iva de movimentos, adaptações e trans-

drão de ocupação antiga no Brasil (4000-5000 formações cjue deram origem ao grande tlo-
a.C.) periférico ao curso principal do Amazo- rescimento cultiuiil encontrado no No\o Mun-
nas, o que pode refletir uma adaptação a ca- do no século XIX pelos primeiros explorado-
beceiras. E podem-se localizar três grandes res europeus.

NOTAS (1972). O trabalho clássico no assunto é Nieillet ^1937


[1912]).

(1) Genética, nesse sentido, não tem nada a \er com (3) Por Kmile Benxeniste em seu trabalho intitulado
biologia ou genes. Refere-se a processos históricos nos Liníiiia t' s^H'U'(^(ul^• itu!í>-vuwfH'iíts. (.>utn> tniKilho

quais, ao longo do tempo, uma língua se diferencia interessante é a tentatixa de Paul Fritnlerich ^^197lV
em dialetos e, finalmente, em línguas deri\adas de reconstruir os nomes para as árv\>res pn»ti>-indi>-
distintas. \ partir destas últimas, a língua-mãe pode européias (PnUL>-liuU>-EuivfX'an Ihrs). Não ^xi^sunuo}.
ser reconstruída. nada de comparáxel para a história da cultura
(2) .\cerca do método de reconstrução, \er Antilla biasili-ira.
COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS
Documentos materiais para a história indígena e a etnologia

Berta Q. Ribeiro e Lúcia H. van Velthem

coleções de um museu são frequen- COLEÇÃO: DAS CURIOSIDADES


As temente compreendidas como "coisas
fora da vida" e, nesse sentido, as reser-
À COLEÇÃO ETNOGRÁFICA

O ato de recolher objetos e materiais diver-


vas técnicas são encaradas como cemi-
sos pode ser compreendido como uma neces-
térios de objetos ou, em hipóteses mais alen-
sidade de classificação do mundo exterior, vi-
tadoras, como cavernas que guardam tesouros
sando nele inserir-se mediante sua compreen-
resplandecentes (Clifford, 1988:231). Metáfo- são e domínio. Uma coleção retrata, por isso,
ras à parte, as coleções museológicas represen- a história de uma parte do mundo e, conco-
tam, na realidade, documentos que se parti- mitantemente, a história e a realidade do co-
cularizam por serem materiais. lecionador e da sociedade que a formou. Para
A chamada História Nova (Le Goff (ed.), Clifford (1988:219), o colecionamento se apre-

1990) conduziu à renovação das disciplinas senta como uma "arte de viver intimamente
históricas, refletindo a preocupação de resga- associada à memória, à obsessão, à salvação da

tar, justamente, a contribuição oculta, o traba- ordem contra a desordem".

lho anónimo que tornou possível a opulência O recolhimento de elementos materiais das
e o brilho da oligarquia política e económica culturas ameríndias teve início com a desco-
de cada nação. berta do Novo Mundo. Esses artefatos torna-
No espaço aberto por essa disciplina, rede- ram-se conhecidos na Europa por meio das
fme-se o papel social dos museus etnográficos crónicas orais e escritas, gravuras, desenhos e
por si próprios. Eram apreciados, na época,
como repositórios das expressões materiais das
culturas indígenas. Repensar o desempenho muito mais por seu exotismo e pela raridade
dos materiais constituintes do que por suas
dos museus etnográficos confere um novo sen-
qualidades estéticas (cf. Surtevant, 1976). In-
tido às coleções e ao colecionamento e fomen-
tegravam os "gabinetes de curiosidades", pre-
ta o seu estudo.
cursores dos atuais museus, dentre os quais so-
O presente capítulo pretende explorar as bressaía o dos Mediei, de Florença (Suano,
potencialidades dos estudos de coleções etno- 1986:16). A esses gabinetes eram incorporados
documentos que exprimem
gráficas eníiuanto os materiais mais heterogéneos: pedras, vege-
a realidade material de uma cultura. Rese- tais, animais empalhados v objetos dos po\os
nhando parcela da documentação secundária americanos, sendo os adornos plumários os
sobre o assunto, procura ainda eíjuacionar as mais re(juisitados. .\s coifas e mantos de plu-
relações entre esses dociunentos e as discipli- mas dos Tupinambá da costa brasileira são um
nas e instituições afins tais como a história, a exemplo desse género de acervo. Vários exem-
etnologia, museus e universidades. plares encontrani-sc nos nniseus de Berlim,
104 MISTOKIV 1X>S l\l)ll>S \() HU\SU.

Frankfurt, Paris, Basileia e Florença. No Mu- \ ilegiando os aspectos formais e tuncionais dos
seu de C Copenhague, esses ornatos, provenien- objetos, numa perspectiva evolucionista con-
tesda Kunstkaninwr do rei, são datados de servadora; a outra se empenharia numa orde-
1690 e de\eni ter sido doados pelo príncipe nação contextual, conservando a multiplicida-
Maurício de Nassau (Métraux, 1928:140). de funcional dos objetos e procurando atingir
Niajantes e naturalistas europeus estiveram um relativismo liberal.
nas Américas desde a segunda metade do sé- Outro importante conceito antropológico
culo WIIl até tins do século \I\, pesquisan- está conectado ao estudo de coleções. Trata-
do e recolhendo elementos de história natu- se de um critério classificatório conhecido co-
ral com objeti\os classificatórios e taxonômi- mo "área cultural", o qual procura explicar a
cos. Paralelamente, coleta\am objetos artesa- similaridade tecnológica e estilística de deter-
nais, in\aria\elmente conduzidos para a Eu- minada região geográfica. Sua formulação de-
ropa e depositados em instituições públicas, rivou em grande parte de observações sobre
onde se transforma\am em fontes de informa- a variabilidade (estilística e tecnológica) dos
ção, integradas ao unixerso do homem oci- objetos encontrados em acervos museológicos
dental. (Roosevelt, 1987:2).
O colecionismo do
thuil do século XIX bus- Posteriormente, as análises de coleções atra-
ca\a perda
e\ itar a não só da cultma dos po- vessaram longo período de esquecimento,
vos indígenas, na época compreendidos como quando muitos cientistas consideraram que es-
fadados ã extinção, como também do que se tas não representav am um frutífero caiupo pa-
poderia encontrar nesses artefatos sobre a ori- ra as pesquisas em antropologia social ou ain-
gem e a evolução do homem. Assim, em gran- da que os estudos de cultura material e de co-
de parte, o \alor atribuído a esses objetos era leções etnográficas não eram mais importantes
a sua capacidade de testemunhar a respeito para as pesquisas antropológicas.
de estágios primitivos da cultura humana, as- Nos últimos trinta anos registrou-se um va-
sim como de um passado comum que confir- zio bibliogníficono que tange a esses estudos,
mava o triunfo e a superioridade europeia e a respectiva temática não se beneficiou com
(Clifford, 1988:288). os desenvolv imentos teóricos ocorridos no pe-
A coleta intensiva dessa época reproduz em ríodo. Os antropólogos que exerciam seu ofi-
sua dinâmica tanto a história do contato entre cio na universidade passaram então a ignorar
índios e brancos, como
da ciência
a história esse ramo de sua disciplina. A cultura mate-
antropológica e, em do gosto
parte, a história rial e os estudos museológicos se tornaram o

estético vigente (Dominguez, 1986:547). Ade- domínio dos arqueólogos e dos curadores de
mais, o despojo sistemático do patrimônio cul- museu (Rev iiolds e Stott, 1987:1-2). A propó-
turalde povos não europeus configurava uma sito assinala Fenton (1974:15):
apropriação de conquista, ou uma captura ".\ maioria dos antropólogos norte-ameri-
de herança alheia. Como enfatiza Ribeiro canos nunca coletou para um nuiseu ou tra-

(1989b:110), essa captura representa, na reali- balhou com espécimes museológicos. Não obs-
dade, "parte do colonialismo, exercido primei- tante, os estudos sobre cultura materi;il não de-
ramente pelas metrópoles e depois pelos es- sapareceram de todo, e um número suipre-
tados nacionais em relação às suas populações endente aparece sob rubricas tais como tec-
aborígines" . nologia, arte prinútiva e cognição".
Xa virada do século, a antropologia envidou O crescente interesse pelo simbolismo c
esforços interpretativos e classificatórios cen- seu rico campo de pesquisa levou nuútos an-
tralizados nos artefatos encontrados em nui- tropólogos a se V oltiutMU novumente para a cul-
seus. Esses eram reunidos sob categorias que tura materi;il e para os estudos nuiseologi«.\^s
consideravam o meio ambiente, a técnica e a e assim apreciarem seu potencial como meio
forma, e nas quais os aspectos sociais e sim- de conunúcação v isu;il. .\s tx>UN;õt\s de museus
bólicos, referentes aos objetos, eram obscure- tornaram-se então importantes ;iliadas nos
cidos. Stocking (1985:8) afirma que é possível esforços acadènúcos de traçar o desenv\>lvi-
discernir, nesse período, duas formas de mento das ideias estéticas e das formas ;uiis-
apreensão teórica no arranjo das coleções mu- ticas atrav és do tempix de nuxlo a seivm apn^

seológicas: uma as ordenaria linearmente, pri- ciadas sob uma perspectiva liistorica ^Pri«.v o
- <

c:oi.Kçoi:s et.\ografic:as 10.:

f- v^
i

^
— • — Machadinha
semilunar {abaixo),
característicados
i

grupos jê, que está


1 na coleção da
Bibliothèque
Sainte-Geneviève
desde pelo menos
1697, data da
í
gravura {ao lado)
que a representa,
em exposição na
chaminé, ao lado
de outros objetos
exóticos, no que
era então o
Gabinete de
Curiosidades,
*^^**^tv criado em 1675
pelo padre Claude
Price, 1980:8). Ademais, a análise da mudan- du Molinet.
ça artística, enquanto resposta aos agentes de
contato, tornou-se um assunto fundamental pa-
ra a pesquisa antropológica recente, e nesse
quadro a formação e o estudo de coleções et-

nográficas revelam-se promissores meios de in-

formação.

COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS:
torno de cada elemento individual de uma cul-
CONTEXTUALIZAR E
tura material"; ou, mais precisamente, um con-
DESVENDAR SIGNIFICADOS
junto de objetos e as ideias a eles associadas,
Paralelamente à informação escrita, á icono- entre os quais existe um alto, porém variado,
grafia, as coleções etnográficas constituem grau de interação.
também matéria-prima para o trabalho do Na busca dessa inter-relação, ou melhor,
etno-historiador, do historiador da arte, do an- dessa contextualização, os elementos de uma
tropólogo e do curador de museu interessados coleção, compreendidos enquanto artefatos-
nas expressões materiais da atividade humana. documentos, só contribuem para uma histó-
A análise e contextualização de um acervo ria social total se não forem isolados dos de-
etnográfico depende do uso do esquema con- mais documentos aos quais estão conectados.
ceituai da antropologia, de referências de cam- Entretanto, a maioria dos acervos museológi-
po e de pescjuisa bibliográfica, bem como de cos, obtida por doações feitas por não-espe-
técnicas documentais oriundas da museologia. cialistas, é desigual, mal documentada ou não
Estudos académicos de acervos de museus documentada, embora existam exceções de ex-
deverão focalizar os sistemas materiais das di- trema importância.
versas populações indígenas ou de estratos ru- O fato de determinadas coleções serem mal
rais ou urbanos da população brasileira. Por documentadas não deve, contudo, constituii"
"sistema material" Reynolds (1987:157) enten- um obstáculo ao seu estudo. .\ esse respeito,
de "a complexa unidade interatuante de com- a clássica defníição estabelecida por Mc Feat
portamentos, ideias (' objetos iiolarizada em (1967:93): objeto -t- doctunento = espécime.
106 msroHiv ix)s i\nu>s \o uu\su.

dos etnográficos de campo, as informações bi-


bliográficas, a iconografia e outras referências
audioN isuais. A propósito dessa abordagem, es-
creve Nason (1987:58):
"Este tipo de pesquisa pode focali2:ar uma
de aspectos, partindo de implicações
vasta área
de mudança tecnológica e de matérias-primas
em uma dada cultura ou área cultural, a pro-
blemas escudados em questões económicas,
de estrutura social, religiosa ou outras. Para
pesquisas deste tipo necessitaríamos contar,
idealmente, com a mais ampla documentação,
uma vez que os espécimes são usados como
a evidência material que diagnostica proces-
Tacape não pode ser descartada eiu^uanto elemento sos e fatos culturais complexos".
lupinambá de de decisão na escolha do objeto de análise. En- A forma de comunicar toda a trama de in-
madeira com o
tretanto, de acordo com Brasser (1975:54), a terações que cerca um item da cultura mate-
qual se abatiam
prisioneiros de utilização de maior número de artefatos e a rial é contextualizá-lo. Com isso se entende a
guerra,
acumulação de dados iconográficos e outros explicitação não só dos processos de manula-
provavelmente
levado para a escritos a respeito pode alterar a definição, tura, dos modos de uso, dos materiais consti-
França pelo colocando-a nos seguintes termos: objetos + tuintes, mas também das ideias e comporta-
cronista Thevet:
documentos = espécimes. O resultado dessa mentos associados. Trata-se de sistemas nos
talvez seja o
mesmo que ele abordagem é a possibilidade de articular en- quais o objeto é parte integrante mas extra%"a-
recebeu de tre si referências fragmentadas e espúrias, tan- sa sua dimensão física. \o caso das culturas
presente pelo
to documentais como artefatuais, e de ampliar indígenas, essa contextualização só se torna
grande morubixaba
Cunhambebe. por consideravelmente o leque de possibilidades possívelquando o objeto considerado é al\o
volta de 1555. de estudo. de estudo no campo e mediante consulta bi-
Thevet foi curador
Outro aspecto relevante diz respeito à pró- bliográfica. Isso também ocorre com relação
durante muitos
anos do Gabinete pria constituição do acervo. Assim, como ocor- a itens da cultura material nas sociedades com-
de Curiosidades re nas pesquisas etno-históricas e arqueológi- plexas. Dessa forma, o artefato ajuda a com-
do rei.
preender a sociedade e a cultura como um to-
cas, em que se trabalha com registros espar-
sos e fragmentários, o estudo de coleções do, ou um determinado momento do conti-
etnográficas também compartilha essa carac- nuum cultural. Exemplos de estudos de
terística. Entretanto, mesmo incompletas, as coleções de grupos étnicos ou lingiiísticos para
coleções constituem evidências para a com- complementar e\ idências obtid;\s em trab.illio
preensão do passado e podem representar, co- de campo são os de Newton (1971) p;ira os
mo no caso da fonte individual, o único docu- Timbira, o de Dorta (1981) piíra os Borora os
mento objetivo de que dispomos sobre a rea- de Van Velthem (1984) pimi os \\a\una-
lidade etnográfica de determinada época (cf Apalai' e os de Ribeiro (1980, 1985, 19S8) e
T. Hartmann, 1982). Ribeiro e Ribeiro (1986) para estudos tipoló-
A pesquisa com coleções etnográficas se gicos, tecnológicos e de pescjuisa de materias-
desdobra em diferentes itinerários. Metodolo- primas.
gicamente podem ser estudadas por grupo ét- Dispersos pelos relatos de \ iageni e mono-
nico ou área cultural, mas também podem se- grafias etnográficas, principalmente as mais
lo por categoria artesanal (plumária, trançados, antigas, encontram-se dados para estudos oi^n-
tecidos, cerâmica etc). Nason (1987:57) argu- textualizados de coleções etnográtioas.- Essa
menta que, cruzando referências e artefatos. consulta é indispensa\el para a conípiwnsào
as coleções seriam passíveis de pesquisas con- de aspectos funcionais dos objetos e p;u-a a sua
textuais, tipológicas, referenciais e simbólico- classificaçãi> tipológica segiu\do a mortologi.i

estéticas,além daquelas necessárias para fins e a túução. De\em ser levados em conta fato-

de exposição e referência. i"es temporais: a sinorcínia ou diacrmiia diis fi^n-


. /
A pesíjuisa contextual pressupõe uma pro- te.s. tanto docunuM\tais quanto ailofatuais. a fitn

,/í^ funda análise que associe às coleções os da- de não ptMiler do \ ista tatoivs de nuidança.
COI.KÇÕKS KTNOGRAFICAS 107

Ademais, como indica Newton (1986:19), o de- se enfoque recai sobre os elementos de uma
talhamento dos dados contextuais não deve ser mesma categoria artesanal ou os que são cons-
dissociado da descrição física do artefato. tituídospor matérias-primas similares. Procura
Cabe assinalar que o colecionador, a épo- igualmente examiná-los comparativamente
ca e forma de colecionamento apresentam im- dentro de uma área determinada ou entre uni-
portância crucial na contextualização das co- dades culturais diferentes.
leções, porque revelam sua relação com o cam- A determinação tipológica de coleções et-
po intelectual que a produziu. E essa asso- nográficas é tão importante para a arqueolo-
ciação que permite que se pensem não ape- gia quanto para a etnologia, sobretudo
porque
nas as peças que constituem a coleção, mas os exames detalhados a que as peças devem
também as instituições que as recolhem e con- se submeter proporcionam subsídios que po-
servam. Esse estudo é significativo na medi- dem ser direcionados para outros ramos de in-
da em que recupera, por meio das coleções, vestigação, como as análises estéticas e os es-
a própria história da produção das primeiras tudos de ecologia. Nesse tipo de enfoque, as
fontes de conhecimento sobre povos indígenas. amostragens diversificadas, tais como as que
Na pesquisa referencial, as coleções esco- geralmente estão disponíveis em coleções de
lhidas são asque possuem valor intrínseco em museus, permitem o tratamento estatístico da
virtude de suas estreitas relações com dados ocorrência de características tecnológicas es-
documentais, como o são algumas coleções et- pecíficas, notadamente no campo da micro-
nográficas de natureza histórica. Alguns exem- tecnologia, como as pesquisas desenvolvidas
plos seriam as coleções de Spix e Martius, por Newton (1981).
Koch-Griinberg, Curt Nimuendaju ou as do O estudo de coleções do ponto de vista es-
marechal Rondon. Essas coleções são extre- tético e simbólico só poderá ser empreendi-
mamente importantes para a etnologia e a his- do se for associado a dados etnográficos de
tória indígena brasileira, por permitirem aná- campo, porque nessa abordagem busca-se
lises diacrônicas que auxiliam a compreensão compreender, na peça, o sistema de represen-
das relações de contato. São igualmente sig- tações subjacente. Por seu caráter de auto-
nificativas para as pesquisas de etnobotânica representação, o objeto exprime igualmente o
e etnozoologia, uma vez que informam sobre estilo artístico, identificador de uma etnia ou
Exposição
as matérias-primas usadas na sua confecção e de uma comunidade específica. Na definição antropológica de
as áreas ecológicas em que viviam os grupos de Nason (1987:60), a pesquisa simbólica ou 1882 no Museu
indígenas que as produziram. Neste, como em estética "refere-se aos variados projetos que Nacional do Rio de
Janeiro, durante a
outros casos, deve-se levar em conta o campo examinam uma ampla gama de dados cultu- gestão de Ladislau
intelectual do coletor, os interesses principais rais, ideologicamente importantes, represen- Netto.

e os subsidiários que, em conjunto, influencia-


ram o critério e a seleção dos artefatos coleta-
dos. A grande maioria das coleções de cunho
histórico foi distribuída entre diferentes mu-
seus, tanto pelo coletor como por trocas efe-
tuadas entre os museus. Assim, a coleção es-
tudada deve ser comparada com outras de
mesma procedência e com a respectiva docu-
mentação, levando-se em conta a discrepân-
cia cronológica entre as informações contidas
em fontes bibliográficas e museográficas,
cuja defasagem é às vezes de décadas.
A análise tipológica tem por objetivo prin-
cipal focalizar os aspectos morfológicos, fun-
cionais e tecnológicos da cultura material. Co-
mo enfatiza Na.son (1985:53), es.sa análise é
"especialmente interessante em investigações
que abordam as adaptações tecnológicas pro-
cessadas ao longo do tempo ou do espaço". E.s-
lOS mvriMUv ix>s i\nu)s nd hhvmi.

nogriíficas para os grupos indígenas que as pro-


duziram. Trata-se de uma "nova coleta" ou de
uma "recontextualização", como sugere Nason
(1987:50), na qual indivíduos confrontados
com objetos pro\enientes de sua etnia, reuni-
dos sob a forma de coleção museológica, pro-
tagonizam um encontro específico, em que se
misturam a história familiar e a memória ét-
nica.^
Um outro aspecto foi apontado por Gallois
(1989:140) ao salientar que nos últimos anos
"d produção de \enda represen-
artefatos para
tou, para os índios, novos valores: por um la-
do porque muitos grupos têm encontrado na
\enda de 'artesanato' uma apreciá\ el fonte de
renda e, por outro lado, porque a manutenção
de uma cultura material diferenciada ser\e de
marca ao mo\"imento de resistência étnica, co-
mo sinal de autonomia a ser reconquistada ".

Efetivamente, a chamada "estética da mu-


dança", que compreende \ariadas formas de
reelaboração do sistema de objetos, correspon-
de a um mecanismo legítimo de atuação pelo
qual os grupos indígenas redefinem sua pró-
pria cultura para resistir, sociiil e politicimien-
Travessa de barro tados em ou por objetos". O autor faz referên- te, aos impactos sofridos (cf. Grabum. 1976).
com decoração cia aelementos decorativos e estruturais pre- É justamente nesse âmbito que estudiosos, co-
geométrica e
figurativa
sentes nos objetos e ao significado que lhes é leções e os próprios museus têm um impor-
elaborada com atribuído pelas sociedades que os produziram. tante papel político a desempenhar.
tinta vermelha de Os estudos etnológicos das artes iconográ- Nesse sentido, coloca-se a necessidade de
urucu.
ficas indígenas'comportam seja a sua apre- se estabelecerem formas de intercâmbio en-
sentação em suportes tradicionais como a — tre museus etnográficos e sociedades indíge-
cerâmica, o trançado, os tecidos e, com maior nas. Ao elaborar o projeto conceituai de um
ênfase, a própria pele — , sejam os chamados possí\el futuro Museu do índio em Brasília.
"desenhos espontâneos", coletados por antro- Ribeiro propôs como sua tarefa inicial 'recu-
pólogos em trabalho de campo. perar o patrimônio histórico-cultural mileniu-
O crescente interesse da antropologia por do índio, a ser de\ol\ ido. prioritariamente, a
questões ligadas ao simbolismo e à semiolo- ele próprio" (Ribeiro, 1987:84).
gia tem contribuído para reavivar os estudos Um dos passos a serem dados consiste em
de cultura material, segundo uma abordagem considerar os representantes indígenas en-
que os analisa como vetores de comunicação quanto especialistas, habilitados a realizar, no
visual. O desenvolvimento dessas pesquisas âmbito dos museus, trab;illios de identificaçãix

depende, em grande parte, da comunicação montagem e restauração de artetatos, l>em co-


entre profissionais que lidam com coleções e mo a reconte\tuali/.ar e resgatar, para seu usa
historiadores, antropólogos, sociólogos e his- 1'ma das formas de de-
materiiil di\ ersificado.
toriadores da arte, tendo em \ ista a elabora- \olução às sociedades indígenas de informa-
ção de um esquema conceituai para o seu ções sobre seu aceito artefatual consiste
estudo. em elaborar "cartilhas artesanais" (Kil>ein\
1983:19). Cartilhas artesanais foram ptvpara-
AS COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS das por Siijueira para os Kadiw eu. oontei\do
E A "NOVA COLETA" os elencos de seu riquíssimo ivpertório gráti-
O estudo dos acerxos museológicos não pode t'o e por Cwupioni para os Boa>tx> ^C^allois,

negligenciar o papel político das coleçõt\s et- 1989:142).


( oi.KçoES ktnogkafic:as 109

A atividade curatorial acima mencionada já cernimento dos acervos etnográficos, com-


vem sendo exercitada por um curador indíge- preendem tanto o histórico como a composi-
na Karipuna no Museu Goeldi de Belém com ção das coleções dos museus. No Brasil, são
relação às coleções do rio Oiapoque. O acer- conhecidos os catálogos do Museu Emílio
vo Wayana-Apalai desse museu foi analisado Goeldi, do Museu Paulista e do Acervo Plinio
por Van Velthem com o auxílio de membros Ayrosa. As peças podem estar elencadas tanto
desse grupo indígena. As coleções Bororó do por coletor como por etnia ou por área geo-
Xluseu Paulista e do Acervo Plinio AvTosa, am- gráfica (cf Rodrigues e Figueredo, 1982; Damy
bos da Universidade de São Paulo, foram da e Hartmann, 1986; Gallois et alii, 1986). Re-
mesma forma analisadas por Dorta e Grupioni. ferências suplementares sobre os museus
Uma outra faceta desse intercâmbio pode Goeldi e Paulista incluem descrições detalha-
da iniciativa do lí-
ser exemplificada a partir das e reproduções fotográficas das peças, po-
der indígena Tolamãn Kenhíri (Luiz Lana) de dendo ser encontradas em coletâneas sobre
clã Desana homónimo, que está erguendo uma museus brasileiros (cf Funarte, 1981; Paiva,
Vlaloca-Museu.^ Ela conterá as linhas arqui- 1984; La Penha, 1986).
tetônicas e os materiais tradicionais, sendo Os catálogos de exposições são mais nume-
equipada de todos os implementos de traba- rosos, mas variam grandemente com relação
lho masculinos e femininos, dos objetos de ao aprofundamento com que os temas são tra-
conforto doméstico, dos artefatos rituais e da tados. Concebidos para fornecer dados adicio-
paramentália cerimonial. Conterá ainda a re- nais a uma determinada exposição temporá-
construção do ambiente natural e plantado e ria, esses catálogos contêm o inventário das pe-
uma mostra das técnicas ligadas à navegação ças expostas com sua respectiva identificação
e à pesca. No que se refere à reconstrução dos e descrição. Entretanto, como muitos apresen-
objetos, o projeto se apoiará ocasionalmente tam textos etnográficos e reproduções fotográ-
em fotografias de peças de coleções antigas. ficas policromadas, esse conjunto referencial
Esse projeto tem como um de seus objeti- pode servir efetivamente para a documenta-
vos tornar a Maloca-Museu "uma lição viva", ção de coleções (cf Camêu, 1979; Schoepf,
ou uma "universidade aberta que instrua as 1979, 1986; Vasconcelos, 1980; Dorta e Vau
novas gerações sobre o contexto cultural em Velthem, 1980; Ribeiro et alii, 1983; Carmi-
que a casa comunal e os objetos materiais ne- chael et alii, 1985; Perez, 1986). O pioneiro
la contidos funcionavam" (Lana e Ribeiro, dos catálogos foi elaborado para a exposição
1991, ms.). Experiência semelhante vem sen- antropológica de 1882, realizada no Rio de Ja-
do desenvolvida pelo projeto Maguta dirigido neiro (cf. Netto, 1882).
por João Pacheco de Oliveira e Jussara Gru- Instrumentos bibliográficos de determina-
ber que criaram, em Benjamim Constant, ção tecnológica, taxonômica e de documen-
Amazonas, a "Casa da Cultura dos índios Tu- tação geral de coleções são encontrados nos
kuna". ensaios tipológicos. Textos imprescindíveis
concentram-se na Stima etnológica brasileira,
COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS: volumes 2 e 3 (Ribeiro e Ribeiro, 1986) e no
FONTES Dicionário de artesanato indígena (Ribeiro,
Uma avaliação da bibliografia relativa ao es- 1988), que contém dados tipológicos dos vá-
tudo de coleções etnográficas das terras bai- rios campos em que, tradicionalmente, se di-
xas sul-americanas'' permite constatar a sua vide a cultura material indígena. Referências
relativa escassez, e inclusão em estudos mais pormenorizadas sobre esse mesmo assunto
amplos de antropologia material. Muito em- encontram-se nos estudos de antropologia ma- Escultura
antropomorfa
bora possam ser encontradas referências me- terial e em Ribeiro (1985). de madeira
todológicas, constata-se a ausência de obras de Os estudos específicos de coleções podem "muirapiranga'
caráter teórico. ser subdivididos em três grupos. Inicialmen- Brinquedo de
criança.
As obras (jue tratam desse assunto podem te temos as referências metodológicas ao es-
ser englobadas sob os seguintes títulos: catá- tudo de coleções etnográficas disseminadas
logos de acervo, catálogos de exposições, en- em artigos (}ue discorrem sobre cultura ma-
saios tipológicos e estudos específicos. terial indígena no âmbito da antropologia (cf.

Os catálogos de coleções, úteis para o dis- Newton, 1976, 1986; Ribeiro, 1986, 1990). A
110 HISTÓRIA rXXS INOIOS \() BK\SII

que as condições físicas dos museus desenco-


rajam o colecionamento, os estudos das cole-
ções e, conseqiientemente, a problemática que
lhes diz respeito. As deficiências são a norma
na maioria das instituições do género, como
as sedes que geralmente são edifi'cios antigos,
construídos para outros fins, que têm de ser
restaurados e higienizados. Reconhecer e en-
frentar essas tarefas prévias é a prioridade
maior para que se possa fazer qualquer reno-
vação museológica de caráter científico.
Tratando-se especificamente dos registros
documentais, os museus não desenvolveram
até o presente métodos de coleta de coleções
etnográficas em
consonância com seus obje-
tivos de documentação científica e difusão cul-
tural. Em outras palavras, inexistem normas de

aquisição claramente definidas e, em conse-


qiiência, não há uma política de pesquisa ar-
quiv ística que pennita o melhor aproveitamen-
to do acervo existente do ponto de v ista cien-
tífico e como subsídio a exposições museo-

lógicas. Ou seja, o acervo não é usado como


produtor e difusor de conhecimento, .\demais,
Cestos-cargueiros. seguir encontramos os estudos que se basea-
a aquisição desordenada acarreta problemas
Da esquerda para ram em coleções etnográficas depositadas em
a direita: kabísiana de acondicionamento e de identificação de
e nambikwara. museus e que, além de dados metodológicos, acervos, que resultam mal documentados. Ou-
fornecem uma ampla gama documental tanto tro aspecto dessa problemática é a expansão
para outras análises de coleções, como para os das reservas técnicas e do pessoal encarreiz..-
estudos de antropologia material (cí. Blixen,
do da curadoria.
1968; Schoepf, 1971; Hartmann, 1973;' Zer- Nason (1987:62-3) calcula em cerca de 4,5
ries, 1973, 1980; Kensinger et alii, 1975; Van milhões o número de artefatos insuficiente-
Velthem, 1975; Ribeiro, B., 1980; Newton, mente documentados que se encontram em
1981; Hartmann, 1982; Grupioni, 1989). museus de todo o nunido. .\ maior piuie foi
O último grupo compreende trabalhos de trazida por não-especialistas, por isso sua do-
etnologia indígena que contêm referências e cumentação é ambígua, inexata e, nuiitas ve-
descrições sobre peças etnográficas, acompa- zes, totalmente inexistente.'' .\ impossibilida-
nhadas de ilustrações, que permitem compa- de de reversão desse quadro ocorre em gran-
rações e identificações tanto em nível diacró- de parte pelo fato de o pessoal técnicivcien-
nico como sincrônico. Esses trabalhos combi- tífico não ser orientado piU\i estudos de cul-
nam geralmente o estudo de acervos de tura material ou arte étnica e não ter. em fun-
museus, de coleções particulares ou objetos ção disso, um comprometimento intelectmil e
analisados em campo (cf Ribeiro e Ribeiro, afetiv o com as coleções. Esses perciílços anu-
1957; Yde, 1965; Roth, 1970; Frikel, 1973; Wil- liun as potenciíJidades de extrair informações,
bert, 1975; Muller e Henley, 1978; Ribeiro, às vezes iinicas, dos acervos artetatuais arma-
1989a; Dorta, 1981; Taveira, 1982; Van Vel- zenados nos museus, principalmente para seus
diem, 1984; La Salvia e Brochado, 1989; Mul- produtores.
ler, 1990). Ao resgatar testenuuíiios do numdo indigt^
na e do pré-industrial. os tnuseus etnogi\vti*.\>s
NOTAS FINAIS: memorizam estilos de v ida e de punlução de
PROBLEMAS E PERSPECTIVAS bens cjue se peixleriíun pela falta de ivgistrvKs

O que representa, hoje, o estudo de coleções escritos e a deterioração desses testemvuíhos


etnográficas? Inicialmente cabe considerar .\ fiilha na sua docinuentaçào e a não-tormu-
Homem e mulher Tupi, homem e mulher Tapuia.
Óleos do grande pintor holandês Albert Ekhout, da corte de Maurício de Nassau,
pintados em 1641 (as duas nnulheres) e 1643 (os dois homens).
Estes quadros, os mais fiéis de que se dispõe até j advento da fotografia,
encerram uma alegoria baseada no senso comum da época: a "domesticação"
possível dos Tupi e a ferocidade irredutível dos Tapuia.
Assim o homem e a mulher Tupi são aqui mostrados com sua produção (redes e cestos),
trabalhando para os estabelecimentos coloniais,
enquanto os Tapuia (que não eram, contrariamente aos Tupi. canibais)
aparecem carregando pés e mãos decepados,
e ladeados de animais peçonhentos.
Adoração dos magos. São raríssimas as representações de índios enn Por-
tugal. Neste quadro do século XVI, de autoria de Vasco Fernandes, um dos
reis magos é um índio brasileiro.
As potências europeias usaram os índios em suas
guerras na colónia; reciprocamente, os índios usaram as
rivalidades europeias em favor de seus próprios
interesses políticos.
Combate entre holandeses e portugueses, óleo, c. 1640,
de autoria de Gilles Peeters,
um dos pintores da corte de Maurício de Nassau.
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Aldeamento de índios de São Pedro de Alcântara, no


Paraná. Aquarela de J. H. Elliot, 1859.

Leque feito na China sob encomenda, representando


o imperador sendo coroado por um índio. O índio foi
símbolo canónico do Brasil (por oposição a Portugal)
desde o fim do século XVlll.
Mapas etnográficos de 1631, de autoria de
João Albernaz I, o maior cartógrafo português da época.
As aldeias de índios eram distribuídas próximo às povoações.
Vêem-se as "Províncias" das diversas etnias.
Fabricação de uma canoa em algum ponto do alto Amazonas.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera,
chefe da comissão espanhola de limites da Amazónia,
1778-85.

>^
Funcionários espanhóis da comissão de limites
interpelam dois Omagua no rio Mesay, bacia do Japurá.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera.

A missão jesuítica espanhola de San Joaquim de Omaguas


(Província de Maynas), no alto Amazonas peruano,
entre os rios Tigre e Nanay.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera.
o Botocudo Quack, de quem o príncipe
Maximiliano Wied-Neuwied
ficou amigo em 1815, e que foi levado para Alemanha.
onde passou o resto de sua vida. Foi retratado por vários artistas,
dentre eles o irmão do príncipe Maximiliano,
autor deste óleo de 1830, no qual se percebem os furos
dos botoques que outrora usara nas orelhas.
Quack morreu em 1832, no palácio do príncipe.
C OLEÇÕES ETNOGIUFICAS 111

lação de problemas a investigar influi até mes- locais. Seu estudo exige o concurso de outras
mo na sua conservação. O reconhecimento do disciplinas, principalmente a ecologia cultu-
valor explanatório dessas coleções encorajaria ral e a etno-história, as quais permitem equa-
a sua conservação, organização e descrição, cionar as variáveis responsáveis pela constru-
tornando-as mais uma ferramenta a serviço do ção dos substratos físicos e as vicissitudes his-
conhecimento. tóricas concomitantes. Segundo, o sistema
Outra tarefa é a de colocar a instituição mu- simbólico, presente nos objetos de uso coti-
seu/documento a serviço do público: abri-la ao diano e ritual que devem ser compreendidos
usufruto de uma clientela generalizada, para em seus diversos contextos, pois essa articu-
que sirva de complemento da educação for- lação revela o conteúdo semântico dos artefa-
mal e, sem pretender substitui-la, consti- tos, relacionando-os com a mitologia, a cosmo-
tuir, efetivamente, um local de lazer intelec- logia e a etno-estética que contribuem para a

tual. reprodução social e a identidade étnica.


Simultaneamente, tornar o acervo passível O que parece evidente, e este artigo enfa-
de estudo por especialistas, seja do quadro do tiza, é a necessidade de se inserir a temática

museu ou de outras instituições, assim como da cultura material num contexto mais amplo
dos grupos indígenas interessados. que a simples análise do artefato. Buscando a
Buscando compreender o museu como um contextualização, esses estudos colocam como
centro privilegiado para a documentação e a pano de fundo o ambiente ecológico e a orga-
conseqiiente divulgação das coleções, sugeri- nização sócio-econômica, e os enriquecem
mos o desenvolvimento dos seguintes projetos: com os conteúdos estéticos e simbólicos que
1) Em interação com a Universidade local, os objetos trazem embutidos. Dessa forma,
o acervo artefatual, arquivístico e da bibliote- mesmo aquele solitário artefato ganha vida e índio kayapó
ca deverá ser colocado ao alcance dos estu- significado. tecendo um cesto.
dantes de ciências humanas e cursos afins. Es-
ses estudantes poderiam colaborar nas tarefas
do museu, notadamente na documentação ta-
xonômica e tecnológica.
2) Priorizar a publicação de catálogos de
acervo ou de exposições, pois constituem ele-
mentos indispensáveis na documentação de fu-
turos estudos com coleções.
do curador visitante que,
3) Instituir a figura
à maneira do professor visitante, preste asses-
soria no levantamento de coleções que exijam
um conhecimento especializado em determi-
nado campo do saber O curador indígena vi-
sitante colaborará sobremodo na identificação
e restauração do acervo artefatual relativo ao
seu grupo.
Referindo-se à linha de pesquisa de que tra-
ta este artigo, Jean-Marie Pesez (1990:184) afir-

ma: "a história da cultura material continua


procurando se encontrar, ela ainda não soube
forjar seus conceitos, nem desenvolver todas
as suas implicações". Na medida em (jue maior
número de estudos tiver essa abordagem, se-
rá possível atingir-se o refinamento metodo-
lógico e teórico em que convém dividir as pes-
quisas nessa área do conhecimento.
Primeiro, o sistema tecno-econômico que
reflete os recursos naturais disponíveis para a
subsistência e o seu manejo pelas populações
112 IIISTOKIA IX>S INOUíS \c) BK\sll.

NOTAS (4) Esse tipo de "recontextualizaçâo" pôde ser


obserxado na reser\a técnica do Museu Goeldi. Seu
(1) Nos estudos dos trançados \\'a\ana-Apalai, o protagonista,um V\'a\ana, ata\iou-se com os antigos
repertório completo só toi passí\el de ser in\ entariado adornos, que obser\ ara quando jo\em serem usados
e estudado por meio da associação pesquisa de cam- por seu pai, lembrando fatos e personagens a eles
po/documentação de coleções. Se a pesquisa se conectados, como parte integrante e essencial do
limitasse a um único desses campos, re\elaria um processo de identificação dos artefatos.
repertório incompleto (cf. Van Velthem, 1984). (5) .\ldeia São João, no rio Tiquié, alto rio Negro,

(2) A bibliografia a esse respeito é resenhada em um estado do Amazonas.


item específico. (6) Cf Grupioni (1989) para uma a\ aliação semelhante.

(3) Os primeiros estudos de


antropologia estética entre (7) Dada a escassez do material, é pertinente englobar
os grupos indígenas brasileiros comparecem em nessa resenha algumas referências de análise de
moiiognifias e artigos cjue concluem, maioritariamen- coleções depositadas em museus europeus, assim
te,que a estética permite refletir e reforçar a estrutura como de estudos realizados em países limítrofes,
social.As análises sobre a estética corporal compre- sobretudo porque muitos grupos indígenas habitam
endem o tema mais estudado até o presente, uma \ez os dois lados da fronteira.
que é nesse domínio que mais facilmente sobressaem (8) G. Hartmann publicou mais de uma dezena de
os aspectos cogniti\os importantes, como a noção de artigos sobre o estudo de coleções. Veja essas refe-

pessoa. rências em Hartmann (1977).


POLÍTICA E LEGISLAÇÃO INDIGENISTA
1^
índios livres e índios escravos
Os princípios da legislação indigenista

do periodo colonial (séculos XVI a XVIII)

Beatriz Perrone-Moisés

Contraditória, oscilante, hipócrita: são dúvidas quanto à escravidão indígena que Var-
esses os adjetivos empregados, de for- nhagen (1981:336) atribui o início do incre-
ma unânime, para qualificar a legis- mento à importação de escravos africanos à di-
lação e a política da Coroa portugue- ficuldade que encontravam os moradores em
sa em relação aos povos indígenas do Brasil co- legitimar a posse dos índios. A profusa legis-
lonial. Desde o trabalho pioneiro de João Fran- lação indigenista e a farta correspondência tro-
cisco Lisboa (1852), as análises da situação le- cada entre a metrópole e a colónia acerca dos
gal dos índios durante os três séculos de colo- problemas colocados pela relação com os po-
nização reafirmaram o caráter ineficaz ou vos indígenas comprovam a preocupação e re-
fi-ancamente negativo das leis.
fletem o debate. O conjunto das ideias expres-
As leis coloniais relativas aos índios pare- sas ou subjacentes à questão ainda é um cam-
cem constituir o locus de um debate que en-
po a ser explorado.
volve as principais forças políticas da colónia.
A dificuldade de acesso aos documentos, ja-
No Brasil colonial, a questão da liberdade dos
mais compilados (para uma primeira tentati-
índios ocupa um lugar central: João Francis-
va de compilação e organização dos documen-
co Lisboa caracteriza-a como "questão abra-
tos, verAnexo "Legislação indigenista", pp;
sadora" do período (a expressão tornou-se cé-
531-65), aliada à ideia de que Portugal teria
lebre, e é retomada por vários autores) e Stuart
dado pouco interesse à questão jurídica colo-
Schwartz apresenta-a como responsável pela
nial e, principalmente, a ideia de que o estu-
transformação do Brasil num "caldeirão de in-
do das leis, demasiado formal, pouco teria a
teresses conflitantes" (1979:108), para citar
revelar, fizeram com que os estudos de legis-
apenas dois exemplos, distantes no tempo, mas
lação indigenista colonial privilegiassem o as-
semelhantes na imagem. Como eles, todos os
autores que se dedicam, com interesses e
pecto político-económico da questão em de-
trimento de seu aspecto propriamente jurídico.
abordagens diversas, ao estudo do período co-
lonial reconhecem na questão da liberdade As ideias subjacentes às velhas legislação e

dos índios o "motor" da história colonial. política indigenistas são em geral deixadas de
Embora em geral se considere que o deba- lado, pelo parti pris da cedendo lu-
hipocrisia,

te jurídico colonial português foi muito me- gar a uma análise que vê nas mero reflexo
leis

nos elaborado do que na Espanha (opinião ex- de pressões políticas exercidas junto à Coroa
pressa já desde o século XVII, em Ferreira pelos dois grandes grupos de atores na ques-

(1693), entre outros, e igualmente em Otávio tão indígena colonial: jesuítas e colonizadores

(1946) e Thomas (1982)), a "questão abrasa- (chamados, na época, moradores). Os primei-


dora" não podia deixar de envolver discussões ros são elogiados por conduzirem a Coroa no
em Portugal. No Brasil, eram de tal porte as reto caminho cristão dajustiça, de que a des-
UG IIISTOKIV IX)S INOIOS Ml BK\SII.

\ iam os moradores, "arrastando-a, a seu pesar", políticas em


de determinados interesses,
favor
como diz Malheiro (1866:225). a concessões. principalmente económicos. Se, por um lado,
Fonte primária dessa legislação incoeren- são inegáveis as pressóes económicas ligadas
te, a Coroa oscilava, segundo essas aniílises, ao à questão indígena, é preciso, por outro lado,
tentar conciliou- projetos incompatíveis, embo- resgatar o aspecto jurídico da colonização,
ra igiuilmente importantes para os seus inte- aprofundando nosso conhecimento acerca dos
resses. Os gentios cuja conversão justificava a princípios invocados e manipulados pelos ato-
própria presença europeia na América eram res políticos em presença, através de estudos
a mão-de-obra sem a i^ual não se podia culti- mais detalhados dos próprios textos legais e
var a terra, detendè-la de ataques de inimigos de inúmeros documentos conexos (cartas, pa-
tanto europeus cjuanto indígenas, enfim, sem receres, propostas) que refletem e influenciam
a quiil o projeto colonial era in\ iãvel. Os mis- a legislação.
sionários, principalmente jesuítas, defendiam Neste artigo, procurarei descrever em ter-

a liberdade dos índios, mas eram acusados pe- mos gerais as ideias fundamentais da política
los colonos de quererem apenas garantir o seu indigenista portuguesa no Brasil, expressas na
controle absoluto sobre a mão-de-obra e legislação. Estarei, aqui, privilegiando um as-
impedi-los de utilizá-la para permitir o flores- pecto que tem sido deixado de lado e, justa-
cimento da colónia. Os jesuítas defendiam mente por isso, só será possível traçar um qua-
e, além disso,
princípios religiosos e morais dro amplo que possa servir de referência a es-
mantinham os índios aldeados e sob controle, tudos que, aprofundando o conhecimento de
garantindo a paz na colónia.Os colonos garan- situaçóes históricas dadas a partir de uma
tiam o rendimento económico da colónia, ab- abordagem tanto económica quanto histórica
solutamente vital para Portugal, desde que a e jurídica, nos permitam compreender melhor
decadência do comércio com a índia tornara as relaçóes entre brancos e índios no período
o Brasil a principal fonte de renda da metró- colonial. Entre o projeto colonial expresso nas
pole. Di\ idida e pressionada de ambos os la- leis e a prática há, nem é preciso dizer, uma
dos, concluem tais análises, a Coroa teria pro- grande distância. A outros caberá falar sobre
duzido uma legislação indigenista contraditó- o que dele efetivamente resultou.
ria, oscilante e hipócrita. Não existiu um direito colonial brasileiro in-
As "pretendidas e subentendidas regras de dependente do direito português. O Brasil era
direito" de que fala Malheiro (1866:206) não regido basicamente pelas mesniiis leis que a
são, de modo geral, explicitadas e analisadas; metrópole (compiladas nas Ordenações Ma-
são consideradas secundárias porque não de- nuelinas e, a partir de 1603, nas Ordenações
senvolvidas em Portugal (cujos teóricos não te- Filipinas), acrescidas de legislação específica
riam criado um
pensamento original nesse para questões locais. Na colónia, o prinoip;il
campo, apenas repetindo o que se dizia na Es- documento legal eram os Regimentos dos go-
panha) e, mais do que isso, porque subordina- V ernadores gerais. O rei os iissinava, assim co-
das a interesses económicos. Mas o sistema ju- mo às Cartas Régias, Leis, .\lv"iU'iís em fonnu
rídico é um dos fundamentos das açóes dos de lei e Provisões Régias, auxiliado por cor-
homens. As ideias nele contidas são muito pos consultiv os dedicados a questões coloniiús,
mais do que mera retórica destinada a permi- O primeiro desses conselhos foi a Mesa de
tir a realização da vontade de um ou outro gru- Consciência e Ordens, criado em 1532. Segiii-
po político. \os momentos críticos, em que as ram-se o Conselho da índia (1603) e seu su-
leis são discutidas, colonos e jesuítas recorrem cessor, oConselho Ultramarino (^1643). Estes
a princípios comuns, pertencentes a uma mes- emitiiun piU"eceres que pcxliiun, e tx^stiunavam
ma tradição jurídica. ser, sancionados pelo rei, passando a ter v ulor

Ainda resta muito a fazer para que se pos- legal. Na colónia, os governadores gorais emi-
sa entender melhor as relaçóes entre índios tiam Decretos, .\lvarás e Bandos, aplicando a
e colonizadores no Brasil. É preciso (jue se legislação emitida pela Coroa. Para o exame
prossiga o esforço, já iniciado, de, mediante de ciuestões especifuMS que e\igi»un oonluvi-
análises pontuais, aprofundar o conhecimen- mentos locais de que a metrópole não dispu-
to de situaçóes históricas definidas, em (}ue um nha, o rei ordtMi.wa a formação do lunt;is \^».\n«-
conjunto de ideias específicas molda atuaçõt^s pivstas do autoridades oc^loniais o ivligio,s»is\
índios livkes e índios escravos ir

entre as quais a mais importante era a Junta dutível entre "índios amigos" e "gentio bra-
das Missões, cujas decisões deviam ser-lhe en- vo" corresponde um corte na legislação e po-
viadas para apreciação e eventual aprovação. lítica indigenistas que, encaradas sob esse pris-
O que mais chama a atenção nos documentos ma, já não aparecem como uma linha tortuo-
legais relativos à questão indígena é o fato de sa crivada de contradições, e sim duas, com
disposições emanadas diretamente da Coroa oscilações menos fundamentais. Nesse senti-
referirem-se em muitos casos a questões bas- do, pode-se seguir uma linha de política indi-
tante específicas e locais tanto quanto os atos genista que se aplica aos índios aldeados e alia-
administrativos coloniais. dos e uma outra, relativa aos inimigos, cujos
Tomada em conjunto, a legislação indige- princípios se mantêm
ao longo da colonização.
nista é tradicionalmente considerada como Nas grandes de liberdade, a distinção en-
leis

contraditória e oscilante por declarar a liber- tre aliados e inimigos é anulada e as duas po-

dade com restrições do cativeiro a alguns ca- líticas se sobrepõem.

sos determinados, abolir totalmente tais casos


legaisde cativeiro (nas três grandes leis de li-
ÍNDIOS LIVRES; ALDEADOS E ALIADOS
berdade absoluta: 1609, 1680 e 1755), e em Aos índios aldeados e aliados, é garantida a li-
seguida restaurá-los. Quando se olha mais de- berdade ao longo de toda a colonização. Afir-
talhadamente as disposições legais, percebe- ma-se, desde o início, que, livres, são senho-
se,porém, que ao tomá-las em conjunto, as- res de suas terras nas aldeias, passíveis de se-
sim como aos "índios" a que se refere, sim- rem requisitados para trabalharem para os
plifica-se bastante o quadro. O próprio modo moradores mediante pagamento de salário e
como Malheiro (1866), por exemplo, glosa os devem ser muito bem tratados. Deles depen-
textos legais opera generalizações que acen- dem reconhecidamente o sustento e defesa da
tuam a imagem de contradição: nele, assim co- colónia. Se não se alteram os princípios bási-
mo naqueles que se fundamentam em seu tra- cos, vão-se modificando, por outro lado, as po-
balho, fala-se de "liberdade dos índios" e "es- líticas efetivas destinadas a garanti-los: quem
cravização dos índios" como se, em ambos os administra as aldeias, como serão regulamen-
casos, as leis se referissem a todos os indíge- tados o seu trabalho e seus salários, quem e
nas do Brasil, indistintamente. como lhes administrará a justiça. É evidente
Havia, no Brasil colonial, índios aldeados que os efeitos, por exemplo, da passagem da
e aliados dos portugueses, e índios inimigos administração das aldeias dos jesuítas para os
espalhados pelos "sertões". A diferença irre- capitães de aldeia, de que falaremos abaixo.

S. Luís do
Maranhão no
século XVII. Carta
onde se vê a
localização de
aldeamentos
indígenas próximos
às povoações
..•.•.»**" coloniais.

V->,
HS nisTouu oi>s i\nu)s no i?k\sii.

são acentuados, e esse é uni tema que ainda de 26/7/1596, Carta Régia de 21/10/1653, Re-
está à espera de aprofundamento. gimento das Missóes, de 1686), ora pelos ad-
A politica para esses "índios de pazes", "ín- ministradores seculares das aldeias (Lei de
dios das iildeias" ou "índios amigos" segue o 1611), ora permitidos a moradores.' Mas a
seguinte itinerário ideal: em primeiro lugar, presença de missionários é sempre exigida, le-

devem de suas
ser "descidos", isto é, trazidos vando inclusi\ e a distorções quando estes, por
aldeias no interior ("sertão") para junto das po- sua presença, davam aval a ilegalidades.
\oações portuguesas: lá de\eni ser catequiza- Os métodos recomendados são invariavel-
dos e ci\ ili/.ailos, de modo a tornarem-se "vas- mente a persuasão e a brandura: os padres de-
salos úteis", como dirão documentos do sécu- \em convencer os índios a acompanhá-los es-
lo WIII. Deles dependerá o sustento dos pontaneamente, dizendo-lhes que serão lixres.

moradores, tanto no trabalho das roças, pro- senhores de suas terras nas aldeias, e que es-
duzindo géneros de primeira necessidade, tarão melhor nas aldeias do que no sertão, "de
quanto no trabalho nas plantações dos colo- tal modo [diz o Abará de 26/7/1596] que não

nizadores. Serão eles os elementos principais possa o gentio dizer, que o fazem descer da
de novos descimentos, tanto pelos conheci- serra por engano, nem contra a sua vontade".
mentos que possuem da terra e da língua Os que não forem assim convencidos não de-
quanto pelo exemplo que podem dar. Serão vem em hipótese alguma ser forçados a des-
eles, também, os principais defensores da co- cer, como dizem expressamente a Lei de

lónia, constituindo o grosso dos contingentes 10/9/1611 e o Regimento das Missões, de


de tropas de guerra contra inimigos tanto in- 21/12/1686. A ilegalidade da coação ao desci-
dígenas quanto europeus. mento continuará sendo afirmada até o sécu-
lo XVIII.- Mesmo em caso de entradas de
DESCIMENTOS guerra, é possí\el aos bárbaros \oluntariamen-
Constantes e incentivados ao longo da colo- te aceitar a sujeição e, assim, serem descidos
nização (desde o Regimento de Tomé de Sou- e aldeados. Possibilidade que não se estende,
sa de 1547 até o Diretório Pombalino de 1757), porém, como \eremos abaixo, aos po\"OS ini-
os descimentos são concebidos como desloca- migos autores de hostilidades.
mentos de povos inteiros para novas aldeias Tal "convencimento" inclui a celebração de
próximas aos estabelecimentos portugueses. pactos em que se garante aos índios a liberda-
De\ em resultar da persuasão exercida por tro- de nas aldeias, a posse de suas terras, os bons
pas de descimento lideradas ou acompanha- tratos e o trabalho assalariado para os mora-
das por um sem qualquer tipo de
missionário, dores e para a Coroa. ^ A proibição categóri-
de
violência. Trata-se convencer os índios do ca de violar tais pactos é alirmada em MÍrios
"sertão" de que é de seu interesse aldear-se documentos, como a Carta Régia de 3/2A701
junto aos portugueses, para sua própria pro- sobre o descimento de Aruans no Manuihão.
teção e bem-estar. que manda guardar "iin iola\ elmente tod;is as

A obrigatoriedade da presença de missio- promessas, que se lhe fizeram, e pactos com


nários junto às tropas de descimento é expres- que desceram".
samente estabelecida desde a Lei de 24/2/1587
e reafirmada mesmo quando lhes é tirada a ex-
ALDE.WIENTC)
clusividade na condução dos descimentos (Lei A lociíliziíção dos iildeiuuentos olHH.4ece a con-
de 1611, por exemplo). Oque go-
respeito de siderações de \ árias ordens. Para incenti\"ar o
zam junto aos gentios, o conhecimento da lín- contato com os portugueses, tacilitando ;Lssini

gua e o fato de o principal intento do desci- tanto a civilização dos índios qu;uito a utihiui-
mento ser a conversão explicam a importân- ção de seus sen iços, são em geral situados
cia atribuída à presença de missionários, próximo das po\oações coloniais ^^AKara de
exclusivamente jesuítas, em vários momen- 21/8/1582 e ProN isão Régia de I 41680. entrt^
tos,ou outros, como na Lei de 1()/9A611. As outros). Na Lei (\c 1611 serão expressamente
disputas entre jesuítas e moradores tarão com situadiis a uma distância sutuMcntcmcnte si^
que os descimentos devam ser feitos ora ex- gura de núcleos dt> poxoamento brantH>s piíra

clusivamente pelos primeiros (Lei de 1587, Re- qut> uns não possam prejudicar aos outivs. O
gimento do go\ ernador geral de 1588, AK ará iildeamcnto em locais estratégicos distantes
'

índios livres k índios kscravos 19

das povoações coloniais, com vistas à defesa, do governador geral do Maranhão e Grão-Pará
é disposto em Cartas Régias de 6/12/1647 e de 14/4/1655, reiterado no Regimento das Mis-
6/3/1694 e aconselhado pelo Conselho Ultra- sões de 1686, e ainda o Diretório de 1757 e
marino em Consultas de 2/12/1679 e 16/2/1694. a Direção de 1759.
O Regimento das Missões, de 1686, dispõe que Para que as aldeias possam ser transferidas
sejam deixados em suas terras os índios que para locais melhores, ou em que serão mais
não quiserem descer, em primeiro lugar por- úteis ou de doutrinar, é preciso, como
fáceis
que não podem ser obrigados a fazê-lo no — para o descimento, insistir no convencimento
que retoma recomendações anteriores e, — e obter a anuência dos índios (Provisão Régia
além disso, por ser interessante que "as aldeias de 1/4/1680 para o Maranhão; Carta Régia de
se dilatem pelos sertões". Em alguns casos, 18/10/1690 para o Rio de Janeiro; Cartas Ré-
além dessas considerações, leva-se expressa- gias de 19/1/1701 para o estado do Brasil e de
mente em conta a qualidade das terras que se 3/2/1701 para o Maranhão).
propõe aos índios para se aldearem, como na
Carta Régia de 27/9/1707, aprovando um local
ADMINISTRAÇÃO DAS ALDEIAS
em que há "bastantes terras para [os índios] Da administração das aldeias são inicialmen-
lavrarem suas lavouras, e rio com abundância te encarregados os jesuítas, responsáveis, por-
de peixe". tanto, não apenas pela catequese ("governo es-
As terras das aldeias são garantidas aos ín- piritual") como também pela organização das
dios desde o início. A expressão "senhores das aldeias e repartição dos trabalhadores indíge-
terras das aldeias, como o são na serra", de- nas pelos serviços, tanto da aldeia, quanto pa-
claração dessa garantia, aparece pela primei- ra moradores e para a Coroa ("governo tem-
ra vez no Alvará de 26/7/1596 e será retomada poral"). A Lei de 1611 mantém a jurisdição es-
nas Leis de 1609 e 1611.^ Várias Provisões tra- piritual dos jesuítas, estabelecendo, porém, a
tam da demarcação (presente desde o Alvará criação de um capitão de aldeia, morador, en-
de 26/7/1596) e garantia de posse dessas ter- carregado do governo temporal. A Lei de
ras (p. ex.: Provisão de 8/7/1604, Carta Régia 9/4/1655 para o estado do Maranhão proíbe ex-
de 17/1/1691, Diretório de 1757, pars. 19, 80). pressamente que se ponham capitães nas al-
De modo geral, nas aldeias devem viver deias, que devem ser governadas pelos missio-
apenas os índios e os missionários, a não ser nários e chefes indígenas, ou "principais de
quando as leis instituem a administração lei- sua nação". Os principais serão encarregados
ga (vide abaixo). A política pombalina, procu- da administração temporal também em Pro-
rando assimilar definitivamente os índios al- visão de 17/10/1653 e na Lei de 12/9/1663, fi-
deados, incentiva a presença de brancos nas cando os missionários com a administração es-
aldeias para acabar com a "odiosa separação, piritual unicamente. O mesmo declara a Lei
entre uns e outros" (Diretório de 1757 para de 1755, mas o Diretório de 1757 e a Direção
o Maranhão e Grão-Pará, pars. 80-8; Direção de 1759, considerando os índios incapazes de
18/5/1759 para Pernambuco e capitanias ane- se autogovernarem, instituirão os diretores das
xas, pars. 84-90). A reunião de tribos diferen- povoações de índios. O governo temporal vol-
tes nas aldeias está expressamente condicio- tará às mãos dos jesuítas (juando se entende
nada à vontade dos índios em questão e as al- que a conversão, intento primordial do aldea-
deias devem preferencialmente ser formadas mento, só pode ser feita desse modo (Cartas
por indivíduos da mesma "nação", de modo Régias de 6/12/1647 e 26/8/1680 para o estado
que o horror da convivência com inimigos não do Brasil, Carta Régia de 2/9/1684 para o es-
leve os índios a fugirem de suas aldeias, retor- tado do Maranhão, Regimento das Missões de
nando à barbárie (Regimento das Missões de 1686). E será dada aos moradores (juando es-
1686; Carta Régia de 1/2/1701, citada no Di- tes, reclamando junto à Coroa da falta de bra-
retório de 1757 (par. 77) e na Direção de ços para a lavoura, dada a resistência dos mis-
18/5/1759 (par. 81), (^ue a reiteram). A neces- sionários em fornecê-los, alegam que, idem dis-
sidade de se fazerem aldeias grandes, para fa- so, haviMão de encarregar-se da ci\ ilização dos

cilitar o trabalho de conversão e também au- índios tão bem (juanto os primeiros, ou talvez
mentar sua "utilidade" aparece em vários do- até melhor. Em (fartas Régias de 17/1/1691 e
cninentos,como a Lei de 1611, o Regimento 13/5/1691 proíbein-se as administrações secu-
120 inSTORU IX>s l\nK)S \o bkasii.

e Grão-Pará de 14/4/1655, no Diretório de


1757, para citar apenas os documentos mais
importantes. Disposições quanto a ta.\a e for-
ma de pagamento se encontram na Lei de
1611, no Regimento do go\ernador geral de
1655. Pro\isão Régia de 12/7/1656. Regimen-
to das Missões de 1686, Regimento das Aldeias

de São Paulo de 1734, Diretório de 1757 e Di-


reção de 1759, entre outros. Muitos desses do-
cumentos mencionam o fato de os índios das
iildeias (|ue trabalham para particulares por sa-

lário fazerem-no "\oluntariamente" ou '"de


bom grado".''
A repartição da mão-de-obra de\e ser feita
de modo a que as aldeias possam prosperar e
prevê-se, assim, a permanência constante de
uma parte dos aldeados para cuidar de sua
própria sobrevi\ ência. Em alguns momentos
estabelece-se uma repartição da 'terça parte":
índios de aldeia, liires das aldeias. Em alguns momentos con- um terço permanece na aldeia, um terço ser-
representados i\em administrações por particulares, por câ-
\ ve à Coroa (guerra, descimentos). o restante
basicamente como
Tupis — com rede. maras, por missionários, aldeias dos missioná- é repartido entre os moradores (Proxisão Ré-
maraca, e rios, aldeias da Coroa, aldeias de repartição. gia de 1/4/1680; Carta Régia de 21/4/1702; Or-
praticando o
A administração das aldeias é objeto de mui- dem Régia de 12/10/1718). Noutros momentos
canibalismo
(este um topos tas discussões e um dos pontos em que se en- é a metade do contingente das aldeias que de-
obrigatório) versus contra, realmente, uma grande oscilação. Na ve ser repartida pelos moradores, sempre pa-
índios Tapuia, nus.
pessoa dos administradores diis aldeias, encon- ra trabalho remunerado e temporário (Regi-
sem animais
domésticos. tram-se investidos os dois grandes moti\ os de mento das Missões, de 1686; Diretório de
pintados toda a colonização, marcados, na prática, pela 1757; Direção de 1759). O tempo de ser\iço
grosseiramente...
contradição: a conversão e civilização dos ín- é igualmente regulamentado de modo a que
dios e sua utilização como mão-de-obra es- os índios "de repartição" possam cuidiU" de seu
sencial. próprio sustento nas roças das aldeias: dois
meses (Abará de 26/7/1596: Lei de L416S0\
TR.\BALHO seis meses por ano no máxima em periodos

O aldeamento é a realização do projeto colo- alternados de dois meses (Regimento do giv


nial, pois garante a comersão, a ocupação do \ernador geral do Maranhão e Grão-Pará de
território, sua defesa e uma constante reser\a 14/4/1655). seis meses no Pará e ciuatro no Ma-
de mão-de-obra para o desenvoK imento eco- ranhão, já que os dois meses pre\istos não Ixis-
nómico da colónia. Como diz o Regimento das tam para os trabalhos de coleta nessas regiões
Missões de 1686, é preciso "que haja nas di- (Regimento das Missões de 1686).
tas aldeias índios, que possam ser bastantes, São muitos os documentos que tratam da
tanto para a segurança do Estado, e defensas repartição dos índios das ;ildeias "pelos servi-
das cidades, como para o trato e serv iço dos ços",reafirmando tempos e salários, dispon-
moradores, e entradas dos sertões". do quanto ao sistema de repartiçãa nomean-
O trabalho dos índios das aldeias é, desde do repartidore.s, instituindo a obrigatoriedade
o início, remunerado, já que são homens li\ res. de licenças para retirar índios das vildeias etc.
Sejam as aldeias administradas por missioná- (Pro\ isão Régia de 4 12 1677. C^uta Regia do
rios ou por moradores, as leis prevêem o esta- 3m/1679, Cartas Régias de 30 e 31/3/16811 Car-
belecimento de uma taxa, os modos de paga- tas Régias de 17 e 19^11681. Carta Regia de

mento e o tempo de ser\ iço. O pagamento de 9/9/1684). Preocupação cjue não suqtitHMule.
salário é afirmado desde a Lei de 1587, reafir- datla a importância \ ital dessa mãi>-dt^>bra,
mado no .\l\ará de 1.596, na Lei de 1611, no reconluvida tMU \ ários diXMunentos, e o difun-
Regimento do governador geral do Maranhão dido desrespeiti> às ni>rmas ile sua ivpartição
ÍNDIOS I l\Ki;S K índios KSf:K\\OS 21

e utilização, por parte de moradores que, co-


mo foi mencionado acima, tentam manter ín-
dios das aldeias como escravos. A liberdade é
violada, o prazo estipulado desobedecido e os
salários não são pagos; há vários indícios de
que os índios das aldeias acabavam ficando em
situação pior do que os escravos: sobrecarre-
gados, explorados, mandados de um lado pa-
ra outro sem que sua "vontade", exigida pelas
leis, fosse considerada.
O bom tratamento dos índios repartidos é
sempre recomendado (Regimento das Minas
de 8/8/1618 e Carta Régia de 1/2/1701, por
exemplo), não apenas porque são homens li-
vres, mas, principalmente, porque dele depen-
de a sua conversão e civilização. Nesse senti-
do, para evitar que os índios recém-descidos
repugnem o aldeamento e a civilização devi-
do ao trabalho, são dispensados dele durante
os dois primeiros anos de aldeamento (Regi- sistena amizade dos índios", como diz a Car- ...É curioso notar
Régia de 24/02/1686, é preciso manter essa o aspecto
mento das Missões; Diretório de 1757). ta
estacionário dos
amizade, evitando qualquer tipo de agressão índios de aldeia
ALIADOS e providenciando recompensas para selá-la. contrastando com
Uma das principais funções atribuídas aos ín- a ideia de
JUSTIÇA movimento e
dios aldeados é a de lutar nas guerras mo\i- nomadismo que
das pelos portugueses contra índios hostis e Dada a evidente tendência dos colonizadores marca a gravura
Além dos sobre os Tapuia.
estrangeiros. índios das aldeias, são a desrespeitar as condições de utilização da
Estas gravuras são
também chamadas a lutar nessas guerras "na- mão-de-obra aldeada, um procurador dos ín- rearranjos dos
ções aliadas" cuja aliança deve ser reafirma- dios é nomeado já em assento de 1566. Men- quadros de Ekhout
(ver caderno em
da nos momentos em que há necessidade de cionado sempre como alguém encarregado de
cores, entre as
grandes contingentes de guerreiros, o que nem requerer a justiça por quem não a pode refjue- pp. 110 e 111).
sempre podiam fornecer (Carta do
as aldeias rer por deve ser, e alguns documentos di-
si,

governador geral do Brasil de 1/10/1654, por zem-no expressamente, alguém que não pos-
exemplo). Presente desde o Regimento de To- sua nenhmna espécie de interesse a ser pro-
mé de Sousa de 1548, o incentivo à obtenção tegido, para que isso não interfira em seu jul-
e manutenção de alianças também se revela gamento. O procurador dos índios é mencio-
nos vários títulos honoríficos e recompensas nado no Abará de 26/7/1596, na Lei de
dados aos aliados (Carta Régia de 17/9/1630, 9/4/1655 e no Regimento das Missões de 1686.
Carta do governador geral do Brasil de Na tentativa de garantir a observância das leis
16/10/1654, Carta Régia de 11/4/1702). um desses procuradores
favoráveis aos índios,
Praticamente todas as vezes em que se fala chega a ser perseguido e preso no Maranhão
de guerra, fala-se também na necessidade de e uma Ordem Régia (5/7/1701) é enviada ao go-
convocar os "índios das aldeias" ou "tapuias vernador geral do estado para (}ue seja respei-
amigos". Os aldeados e aliados são encarrega- tado e tratado "conforme o lugar (lue ocupa".
dos de defender as vilas e plantações dos ata- Além dos procuradores, os ou\ idores gerais são
(jues do gentio e as fronteiras dos atacjues dos chamados a \ erificar se todas as ordens relati-

inimigos europeus. Povos estratégicos, são as vas aos índios estão sendo respeitadas (Alvará
"muralhas dos sertões", barreira viva à pene- de 21/8/1587, Lei de 1/4/1680). Os casos de ca-
tração de inimigos de todo tipo. tiveiro são julgados pelas já mencionadas jun-
CJomo os aldeados, os aliados são homens tas (Lei de 9/4/1655, entre outros), (jue tam-
livres (jue devem ser bem "K porcjue
tratados. bém são encarregadas de fiscalizar a legisla-
a segurança dos sertões e das mesmas povoa- ção trabalhista (CJarta Régia tle 3/2/1701).

ções do Nhiranhão e de toda a .-Vinérica con- O luiuionainento desse sistema jiode ser
122 mSTOUI\ IX>S INPKíS NO BK\S11

aptMuis entrevisto em docuineutos legais que pacífico dos índios aldeados baseia-se, até o
tratam de escra\ ização, garantia de terras, pa- início do século X\ III, em razões de ordem re-
gamento de saliíiios. de\ olii(;ão de índios às al- ligiosa: a comersão, objeti\o primeiro da co-
deias. Cartas de Sesmaria de 7/9/1562 e de lonização, só poderia ser conseguida com bran-
31/10/1580 apresentam petições feitas pelos dura, e só seria efeti\a se os cristãos dessem
próprios índios, apresentadas por um repre- aos índios o bom exemplo de seu próprio com-
sentante não especificado. O Alvará de portamento. Tais motivos se enconti-am expres-
6/2/1691 pre\ è que "sendo os mesmos índios sos desde o Regimento do goxemador geral de
que demmciem a injustiça de seus cati\eiros 1548, apesar de os próprios jesuítas terem, em
(como podem fazer)", receberão a metade da iilguns momentos, advogado a força como úni-
multa paga por quem os catixar. A Carta Ré- co meio de converter e civilizar. A partir do
gia de 13/3/1697 considera queixas apresenta- início do século .\\ III, além da civilização dos
das pelos índios contra um missionário, cujo índios serão invocados os interesses económi-
mérito não é julgado por "não justificarem [os cos da colónia sempre que se trata de reco-
índios] a mesma quei.xa com documentos ju- mendar brandura no tratamento com os índios,
rídicos". A Pro\isão Régia de 10/4/1658, rea- evitando a todo o custo "vexá-los" com maus-
firmando leis anteriores quanto aos casos de tratos que podem esvaziar as aldeias e preju-
cati\eiro lícito, dispõe "que os índios que se dicar o projeto colonial como um todo.
ti\erem por livres, e que são injustamente ca- A catequese e a civilização são os princí-
ti\os possam tratar de sua liberdade na forma pios centrais de todo esse projeto, reafirma-
da Lei de 653, dando para isso as provas ne- dos ao longo de toda a colonização: justificam
cessárias, e justificando-o diante das pessoas o próprio aldeamento, a localização das aldeias,
para isso deputadas". É um dos pontos mais as regras de repartição da mão-de-obra aldea-
ricos para desenvoKimento, a partir dos do- da, tanto a administração jesuítica quiuito a se-
cumentos judiciários, como os que tratam do cular, escravização e o uso da torça em alguns
julgamento de cativeiros e requerimentos de casos.Todo o projeto baseia-se na crença de
^ liberdade, de que podem ser citados como que o que se oferece aos indígenas realmente
exemplos a "Carta de Alforria de Paula Índia representa um bem piua eles. No século X\ III.

de gentio pitigoar" de 11/11/1628 e os docu- o \alor máximo que até então era a salvação
mentos analisados por Sweet (1981) e Cunha da alma será substituído pela ideia de felici-
(1985). dade inerente à \ ida ci\ ilizada e sujeita a leis
positivas. De qualquer moda trata-se de tra-
BONS TR.\TOS zer os índios àquilo que é considerada pelos
Como foi mencionado, o tratamento "bondo- europeus, como um bem niiiior.

so e pacífico" é recomendado para todos os A política para aldeados-aliados se mantém,


índios aldeados e aliados. O tratamento pre- e em certos momentos se estende aos inimi-
ferencial é recomendado para trazer os índios gos, porque os primeiros são tratados ct>mo ini-
à conversão e aldeamento, e para garantir as migos. Os moradores desrespeitam ;is leis re-
alianças.As razões apontadas para justificiu^ os lati\as à utiliziíção da mão-de-obra inimig-a. fa-

bons desde os mais


tratos são variadas, indo zem guerras e resgates ilegais, em smna.
básicos princípios de direito até uma alegada tratam aliados (efeti\os ou potenciiiis) como
inconstância dos índios, que pode levá-los a inimigos. Diante dissa a Coaxi Hiz cessiir a dis-
retornar aos matos e à "gentilidade", se forem tinçãa estendendo a libenlade a tcxlos |xmi ga-
maltratados. Xiolência e desrespeito podem re- rantir a dos altleados-aliado.s, a quem ela ja-
sultar no abandono das aldeias, altamente pre- mais foi negada. Isso se depreende clanunen-
judicial para "o bem comum", e muitos docu- te dos textos das "grandes leis de lil^eulade".
mentos declaram expressamente a necessi- Os "priN ilégios dos uulios das aldei;Ls '. ex-
dade de se manterem os índios aldeados con- pressão pivsente nos próprios textos legiiis. são
fiantes e satisfeitos (Regimento do go\ernador reatírmailos no fato de índií^s escravos de ní«.>-

geral do Maranhão e Cirão-Pará de 14/4/1655, radores muitas \ezes se ivtugiaivíu nas »ildei.i.s

Lei de 1/4/1680, Carta Régia de imOA707, Di- para se libertarem. Inui atitude que gt^ra \"á-

retório de 1757 e Direção de 1759). rios tipt>s lie ».lisposições; dependendo da loi

A recomendação de tratamento bondoso e \igente quanto ai> catixeiní licita esses tora-
índios mvres e índios escravos 123

gidos serão ou mantidos nas aldeias, ou devol- índios escr-Wos; os inimigos


\ (Regimento das Aldeias
idos a seus senhores E os CATnOS DOS ÍNDIOS
de São Paulo, 10/5/1734), coisa que os missio- Se a liberdade é sempre garantida aos aliados
nários, de modo geral, se recusam a fazer A
e aldeados, a escravidão é, por outro lado, o
identificação entre aldeamento e liberdade
destino dos índios inimigos. Os direitos de
também fica clara quando se estabelece que guerra são objeto de grande elaboração, reco-
os moradores culpados de escravização ilícita
nhecidos mesmo momentos em que se de-
nos
serão punidos, entre outros, com o envio de
clara a liberdade de homens que, segundo
"seus" índios às aldeias, isto é, sua libertação
princípios assentes de direito, seriam justa-
Câmara de São Paulo de 28/5/1635,
(Quartel da
mente escrav izados. Nesses momentos (Leis
Regimento das Missões, Bando do governador
de 1609, 1680 e 1755), as leis expressamente
do Rio de Janeiro de 14/8/1696). E, ainda,
consideram o direito de guerra secundário
quando os próprios índios das aldeias são pas-
diante da importância da salvação das almas,
síveis de escravização se as abandonarem. Os
civ ilização ou defesa da liberdade natural dos
moradores, por sua vez, usam de todos os
índios, constantemente ameaçadas pelos des-
meios para manter os índios das aldeias de que
respeitos dos colonos às leis.
podem se ser\ ir temporariamente contra pa-
As "justas razões de direito" para a escra-
gamento de salário como escravos. O expe-
vização dos indígenas, de que fala por exem-
diente mais comum é o casamento desses ín-
plo a Lei de 1680, são basicamente duas: a
dios com escravas, contra o qual dispõem mui-
guerra justa e o resgate.
tos documentos (Regimento das Missões,
Alvará de 23/3/1688 para o estado do Mara- GUERRA JUSTA
nhão, Carta Régia de 30/11/1698 para a capita-
nia do Rio de Janeiro); outro, mais simples, é
O principal caso reconhecido de escravização
legal é o que procede da guerra justa. Con-
a não-devolução dos índios às aldeias após o
ceito já antigo, a guerra justa é motivo de muita
prazo estipulado, que as leis tentam igualmen-
discussão a partir do século .\\'I, quando de-
te, repetidas vezes, coibir (Provisão Régia de
ve ser aplicada a povos que, não tendo conhe-
1/4/1680 para o estadodo Maranhão, Carta Ré-
cimento prévio da fé, não podem ser tratados
gia de 26/8/1680 para o estado do Brasil, Car-
ta Régia de 13/1/1734 para a capitania de São
como infiéis.

As causas legítimas de guerra justa seriam


Paulo).
de liberdade, os mo- a recusa à conversão ou o impedimento da pro-
Para reagirem às leis

radores não apelam apenas para a premente


pagação da Fé, a prática de hostilidades con-
tra V assalos e aliados dos portugueses (espe-
necessidade de braços sem os quais a colónia
cialmente a V iolência contra pregadores, liga-
não sobreviverá. Invocando os próprios prin-
cípios básicos dessas leis, a saber, a salvação da à primeira causa) e a quebra de pactos
das almas e a civilização dos índios, afirmam celebrados. Como precursor da doutrina da

a impossibilidade de realizá-los através da li-


guerra justa em Portugal é sempre citado o

berdade, dada a barbárie em que se encontram franciscano Álvaro Pais que, no século .\I\', a

os gentios. Só o cativeiro, dirão, permitirá rea- havia definido em função de vários fatores: só

lizar a conversão e civilização dos índios e por haveria guerra justa se preexistisse uma injus-
isso, principalmente, deve ser legitimado. Ale- tiça do adversário, se fosse conduzida com
gam também que os missionários encarrega- boas intenções (não seria justa a guerra movi-
dos das aldeias não cumprem sua parte, da por ambição, ódio ou v ingança), se fosse de-
recusando-se a fornecer índios aos moradores clarada por uma autoridade competente (um
e, aciui também, movem-se no universo jurídico. príncipe ou a Igreja) (cf Merea, 1917:351-3).
Em alguns casos, porém, trata-se de gente A mera recusa à aceitação da fé não pare-
tão feroz, bárbara e violenta, que meio algum ce ter sido reconhecida legalmente como mo-
existe de realizar nela o grande projeto da co- tivo de guerra chega a ser explicita-
justa, e

lonização, e sua própria existência coloca em mente negada, por exemplo, no parecer de um
risco a possibilidade de continuação de tal pro- deseml)íu^ador sobre guerra e escraviziíção de
jeto: em relação a eles, resta apenas a saída — prisioiuMios, datado de 160.5, e na Lei de
legal — da guerra. 9/4/1655 para o estado do Maranhão (jue afir-
IIA lll>TOKI\ 1H)> INOIDS \l> UKVSII

ma não poderem os índios "ser constraniíidos tra infiéis (in Costa Brochado, 1949:44-5),
«.'om armas a aceitá-lo e crè-lo [o E\angellu)]'". apóiam-se na argumentação de que, sendo
lais iilinnações contonnam-se à doutrina do uma ofensa à lei natural, é passível de justifi-
jesuíta Luís de Molina, professor em Coimbra, car uma guerra. Igualmente favorável ao pa-
ijue em 1593 atirma\a não poderem ser os in- recer de que a antropofagia justifica uma guer-
fiéis obrigados a abraçiir o cristianismo, em- ra é Molina,mas por outras razões: suas viti-
bora tossem ol)rigados a permitir sua pregação. mas são "inocentes", e a defesa de inocentes
O impedimento à pregação é apontado co- não só a guerra, como também a es-
justifica
mo causa justificada de guerra já em 1596, em A questão pode, portanto, ser en-
cra\ ização.''
Consulta da Mesa de Consciência e Ordens carada sob dois aspectos: o direito/de\er de se
que reconhece ao rei o direito de punir e cas- impedir o canibalismo enquanto tal, e uma su-
tigar todos aqueles que pusessem obstáculo à posta obrigação que teriam os cristãos de sal-
propagação da fé, na Pro\ isão de 17/10/1653, var os inocentes que seriam sacrificados ou co-
na Lei de 9/4/1655 e no Abará Régio de midos. Mas o tratado a que me referi acima,
2S/4A688. por exemplo, afirma, como Francisco de \ i-
As hostilidades cometidas, consideradas co- tória, que essa justificativa não pode ser acei-

mo justa razão de guerra por todos os teólogos- ta; pois, se nem os cristãos que cometem pe-

juristas são, como \eremos, a causa apontada cados mortais podem ser legitimamente pri-
por todos os documentos que a requerem, jus- vados do "domínio do que têm", quanto mais
tificam ou reconhecem como justa. A quebra os gentios... A julgar pelo que os documentos
de pactos celebrados, reconhecida como jus- afirmam, não parece que a antropofagia fosse
ta causa de guerra no parecer de 1605 men- considerada causa suficiente para uma guer-
cionado acima, reaparece na Provisão Régia ra, mas apenas uma agravante, quando a prin-
de 17/10/1653 e em vários outros documentos. cipal causa, esta sim juridicamente fundamen-
Dois outros motivos aparecem nas discus- tada de modo claro e inconteste, seria a exis-
sões sobre a guerra justa: a saKação das almas tência de hostilidades prév ias por parte dos
e a antropofagia. Embora os próprios jesuítas indígenas, mencionada acima. Apenas a Pro-
defendessem em certos momentos a violência documento que estabele-
visão de 17/10/1653,
como único meio de converter, o Regimento ce o maior número de causas de guerra justa,
de Tomé de Sousa já considerava a violência aponta como uma dessas causas a antropofa-
como prejudicial à conversão, e foi sempre a gia, isoladamente, mas quando praticada por
comprovada existência de hostilidades o mo- "súditos" do rei, o que complica ainda mais
ti\ o apontado para a guerra. Outra dúvida na a discussão.
doutrina da guerra justa é a questão de saber Sendo a guerra justa possibilidade indiscu-
se a salvação da alma justificaria a guerra. Os tívelde escravização lícita, pode-se imaginar
próprios documentos dão margem a discus- o interesse que sua declaração tinha piU~a os
sões, pois se, em geral, os textos legais não de- colonizadores. Para ev itar que se mo\;un guer-
fendem esse ponto de vista, há outros docu- ras injustas e se escravizem seus prisioneiros,
mentos, como cartas de Anchieta e Nóbrega os reis \ ão limitando cada vez m;ús a possibi-
(in Leite, 1940 e 1956), que defendem a guerra lidade de declará-las. chegando a estal>elecer
e a sujeição como único meio de converter os que serão justas apenas as guerras que o rei.
indígenas. Essas dúvidas relati\as à doutrina de próprio punho, declarar tais ^Lei de
da guerra justa ser\em para dar uma ideia das 11/11/1597; Lei de 9/4/1655) e exigindo invaria-

dificuldades jurídicas enfrentadas na coloni- velmente testemunhos, documentos e piuvoe-


zação, e do de esclarecimento (jue se po-
tipo res (lue comprovem as causiLs vilt^adas para tal

de esperar dos documentos da época. declaração. Diante desses documentos, os rt^is

A antropofagia constitui uma questão mais chegam a declarar injustas guerras já movid;u>
complicada e controxersa, mas não parece cjue e liv res seus prisioneiros ^^como acontece, ^H^r
tenha jamais constituído causa suficiente de exempla nas C^artas Regias de 22 9 1605 e
guerra. As opiniões fa\ oráveis à justificatixB da 17A/1691 e na Consulta do CAinselho lUraiua-
antropofagia, segundo um tratado português rino de 27/4/1731).'' Os ivis, em geral, itxxv

anónimo de meados do século .\\ intitulado 1 nuMulam ijue se tente a paciticaçào antes de
Por que causas se pode mover guerra justa con- cjualquer guerra, pois, se o ;ildeamento è a rtw-
índios i.ivkks k índios i;sc;havos 125

lização do projeto colonial, a guerra é, ao con- têm de provar a inimizade dos po\os a quem
trário, sua negação. pretendem mover guerra. Para tanto, descre-
É inegável que houve guerras movidas por vem longamente a "fereza", "crueldade" e
necessidade económica e para as quais foram "barbaridade" dos contrários, que nada nem
encontradas justificativas a posteriori. Mas é ninguém pode trazer à razão ou à civilização.
igualmente inegável c^ue tais guerras se faziam Nos documentos relativos às guerras, trata-se
no contexto de uma discussão acalorada acer- sempre de provar a presença de um inimigo
ca dos fundamentos teológicos e jurídicos da real. Tudo leva a crer que muitos desses ini-
justiça das guerras contra os indígenas brasi- migos foram construídos pelos colonizadores
leiros, que a questão preocupava bastante a
e cobiçosos de obter braços escravos para suas
Coroa, permanecendo um ponto controverso fazendas e indústrias. Com essa suspeita, a Co-
(cf. Carneiro da Cunha, 1986:152 ss.). roa chegou a proibir totalmente as guerras e es-

HOSTILIDADES E GUERRA JUSX\


A •.-S^i^^?''*!^!,^
preexistência de hostilidades por parte do
inimigo será, sempre, a principal justificativa
de guerra. Hostilidades são invocadas por to- ^'1 .
^N
Y
í>-
dos os documentos que se referem a guerras
contra os índios, desde o Regimento de Tomé
de Sousa (15/12/1548). A Lei de 16U limita cla-
ramente a guerra justa aos casos em que o gen-
tio se mostrasse hostil, movendo "guerra, re-
^ ^^^'^h^
_J^
''^^'^

belião e levantamento". A Carta Régia de


11/10/1707 para o Maranhão considera "muito
conveniente que se faça guerra ao Gentio do
Corço que tem feito tantas mortes e extorsóes".
Cartas do vice-rei do Brasil de 1723 e 1726 pe-
dem índios das aldeias "para fazer uma cam-
panha ao gentio bárbaro que hostiliza aos vas-
salos de sua majestade", e os exemplos pode-
riam ser multiplicados. vi*-"

Para justificar esse que é considerado pela


Coroa como último recurso, os colonizadores iJt

=-?^^;zj Detalhes
da aquarela
representando o
ataque à aldeia
grande dos índios
Barbados (6 de
de 1726),
janeiro
onde aparecem
índios aliados e
aldeados, cercando
a aldeia de índios
inimigos.

[iiaLLLÍ'jjJ-jT!Gij'
126 msroKiv nt>s inhu^s \o hkvsii

ora\ i/avões tio iiulíiítMuis, "soininclo a porta aos mesma guerra, o governador geral do Brasil re-
pretextos, simulações e dolo com que a malí- comenda que os inimigos sejam seguidos "até
cia, abusando dos casos em que os cativeiros lhes queimarem, e destruírem as aldeias, e eles
são justos, introduz os injustos", como diz a Lei ficarem totalmente debelados, e resultar da sua
de 1/4/1680, um dos momentos de declaração extinção, não só a memória, e temor de seu
de liberdade de todos os indígenas do Brasil. castigo, mas a tranqiiilidade, e segurança com
De modo a contiginar o bárbaro inimigo, que sua majestade quer que vivam, e se con-
a Carta Régia de 2/3/1686 afunia (jue os gen- servem seus vassalos". Uma Carta Régia de
tios fazem "iileivosias e extorsões" aos mora- 25/10/1707 ordena se faça guerra ao Gentio do
dores "sem mais causa que a sua ruim incli- Corço no Maranhão "procurando fazè-la crua-
nação"; uma Carta do go\"ernador geral do es- mente ao tal gentio que se matem e cativem
tado do Brasil de 14/3A688 espera "(lue tiquem todos os que se entende'" podem ser danosís-
as lu-mas de sua majestade mais gloriosas na simos a essas terras, para que o temor desse
destruição dos bárbaros do que seus \assalos destroço amoderente os mais a que se abste-
foram ofendidos nas insolências de sua fero- nham de os assaltarem". L'ma Carta do \ ice-
cidade"; a Resolução de 6/10/1688 fala em "ter- rei do Brasil de 30/6/1721 diz que tendo o "gen-

ror do inumerá\el poder dos bárbaros", o que tio bárbaro" atacado, "é preciso procurar
faz pensar na construção, mencionada acima, e.xtingui-los, fazendo-se-lhes veemente guer-
de um inimigo especialmente poderoso. A ra".As recomendações de destruição total dos
Carta Régia de 25/10/1707 menciona docu- inimigos são numerosas no século Wii e iní-
mentos recebidos da colónia que comprovam cio do X\III, e os documentos falam de guer-
"os grandes e atrozes delitos e horríveis extor- ra "rigorosa", "total", "veemente", a ser mo\i-

sões [sic]" dos gentios, declarando-lhes guer- da "cruamente", fazendo aos inimigos "todo
ra. E os exemplos poderiam se multiplicar o dano possível", de preferência até a sua "ex-
tinção total".
GL'ERR.\ TOTAL AO GENTIO BÁRB.VRO
Uma vez estabelecida a hostilidade e configu- ESCRWTZAÇÃO DECORRENTE DE GUERR.\
rado o bárbaro inimigo, é preciso "conter a fe- O principal caso de escravização lícita é. co-
reza dos contrários" e a guerra justaque se mo foi dito acima, o decorrente de guerra jus-
lhes pode mover é arrasadora. Já o Regimen- ta. Afirmam o cativeiro lícito neste caso a Lei
to Tomé de Sousa, em 1548, recomenda que de 20/3/1570 e a de ll/U/1595, que ilustnuu as
os Tupinambá, que atacaram portugueses "e constantes tentativas da Coroa de conter os
fizeram guerra [sejam] castigados com muito "abusos" e escrav izações ilícitas limitando ca-
rigor [...] destruindo-lhes suas aldeias e povoa- da \ ez mais o poder de declará-his; na primei-
ções e matando e cativando aquela parte de- ra, este é restrito ao rei e ao governador geral

que vos parecer que basta para seu castigo


les mas, como os abusos prosseguem, na segim-
e exemplo".O Regimento de 24/12/1654, de da o rei declara escravos legítimos unic;unen-
uma entrada a ser feita na Bahia para castigar te "aqueles que se cativarem na guerra que
o gentio bárbaro por suas "insolências", reco- contra eles eu houver por bem que se taça, a
menda "desbaratar", queimar e destruir totiil- qual se fiuá somente por Prov isão minha para
mente aldeias inimigas, escravizando a todos esse particuliu" por mim assinada". A Lei de
e matando a quem de algum modo resistir. 30/6/1609 declarará a libenlade de tixios os m-
Uma Carta do governador geral do Brasil so- diosdo Brasil, sem exceções, para. como toi

bre a assim chamada Guerra dos Bárbaros na mencionado acima, coibir as escrav i/.;\ções ilí-

capitania do Rio Grande, de 14/3/1688, reco- citas. Como os índios cometem hostilidades,
menda a um dos capitães-mores que "dirija a a Lei de 10/9/1611 restaura a escrav idão dos ín-

entrada e guerra que há de fazer aos bárbaros dios capturados em gxierra justa, julgada t;il jx^
como bem entender que possa ser mais ofen- lo rei. Considerando que a demora dess;i au-

siva degolando-os, e seguindo-os até os extin- torização possa piM' em risci> os colonos, estu-
guir,de maneira que fique exemplo desse cas- bt^lece (.lue se possa fazer guerra seni ela; os
tigo a todas as mais nações que confederadas escravos assim obtidos não pixien\ix txMitudix
com eles não temiam as armas de sua majes- ser V endidos até que o jvi apiw e a justiça da
tade". Em .\Kará de 4/3/1690. relativo a essa guerra t\ ixMlantu seu cativeiív "e oontu-man-
índios livres e índios escr.\vos 127

do-o eu, poderão fazer deles o que lhes bem tabelece que do montante obtido com a ven-
estiver, como seus cativos, que ficarão sendo da dos escravos se pague a despesa feita na
livremente, e não o confirmando, se cumprirá guerra, os impostos "quintos" que tocam à Co-
o que sobre isso mandar". Na Lei de 9/4/1655 roa "e sobrando alguma coisa, se há de dar jóia
essa distinção entre guerras declaradas pelo ao governador e o mais repartido pelos cabos,
rei e guerras declaradas pelo governador, a se- oficiais e soldados". Se os participantes da
rem julgadas, reaparece sob o nome de "guerra guerra podem apenas esperar alguma sobra,
ofensiva" e "guerra defensiva", com os mesmos é de imaginar o interesse que teriam em apri-

resultados quanto aos prisioneiros: são escra- sionar o maior número de índios possível! Do
\os definitivamente os de guerra ofensiva e mesmo modo, de 25/5/1624 previa
a Provisão
provisoriamente os de guerra defensiva, até que se pagasse o quinto das "peças" trazidas
que o rei envie sua decisão quanto à justiça do sertão, incentivando a escravização em larga
da guerra em questão. O Alvará de 28/4/1688 escala.
Ao longo do
estabelece que em caso de guerra justa "po- século XVIII vão se
RESGATES
derão ser cativos os índios no tempo que
infiéis tornando cada vez
A escravidão não é apenas para os bár- mais frequentes as
durar o conflito das guerras, e fora deles se não lícita
tabelas de
poderão fazer as ditas guerras, nem se pode- baros hostis. Também podem ser escravos ho-
população indígena
rão admitir os ditos cativeiros". A especifica- mens que não são inimigos, mas sendo cati- aldeada, algumas
vos dos índios forem comprados, ou "resgata- delas incluindo,
ção "índios infiéis" é aqui importante, pois re-
como esta, o
mete a casos em que prisioneiros de guerra, dos", para serem salvos. O "resgate" é, como número de índios
sendo não serão escravizados, mas tra-
cristãos, a guerra justa, um caso de escravização fun- "descidos".

tados "como o são os que são tomados nas


guerras da Europa", como acontece na Carta 5^ ass
Régia de 17/10/1680 que trata de guerra aos ín-

dios das missões jesuíticas espanholas.


Quando os inimigos são autores comprova-
dos de violências e atrocidades a guerra é jul-
gada justa. Mesmo que se rendam, o máximo
que podem esperar é que se lhes poupem as
mmm^^:^^^^^^^
vidas, em cativeiro: "não só se hão de matar
todos os índios que na dita guerra resistirem,
mas cativar aos que se renderem e que estes
cativos se hão de vender em praça pública"
(Carta Régia de 25/10/1707), formulação que
se apresenta idêntica em vários documentos
desse período (final do século XVII, início do
XVIII). E, em geral, só podem esperar isso as
mulheres e crianças, já que os homens, capa-
zes de se rebelar novamente, devem ser mor-
tos. A Carta do governador geral do Brasil de

14/3/1688, já mencionada, diz que tendo o go-


vernador declarado que os prisioneiros de
guerra seriam escravos daqueles que os cati-
vassem, como "estímulo para o gosto dos sol-
dados", é preciso que o capitão dessa entrada
cuide "em não consentir que deixem de de-
golar os bárbaros grandes só por os cativarem,
o que principalmente farão aos pequenos, e
às mulheres, de quem não pode haver perigo,
que ou fujam, ou se levantem".
Tais escravos de guerra poderão ficar nas
mãos dos vencedores, ou ser vendidos. A Car-
ta Régia de 25/10/1707, mencionada acima, es-
128 mSTÒKlV IXÍS INOUW NO IMUSIl

daiuentadi) por regras de direito correntes, deradas injustas, diz a Lei de 9/4/1655 que "se
sendo siui liceidade aceita até mesmo pelo pa- poderão contudo os ditos índios resgatar para
dre Meira (cf. Carta de 20/5/1653 in Vieira, se servirem deles por espaço de cinco anos
1948). Esses indi\ íduos "presos à corda", co- que o direito limita por bastante para satisfa-
mo dizem os documentos, são cativos legíti- ção do preço que por eles se deu e passados
mos expressamente desde a Lei de 1587, e o os cinco anos serão postos nas aldeias dos li-

princípio do resgate como justificativa de es- vres sem encargo algum, advertindo que isto
cravização retomado em Regimento de não terá lugar havendo resistência da parte dos
21/2/1603. na Lei de 1611, na Provisão Régia índios, porque havendo-a e sendo resgatado
de 17/10/1653, no Alvará de 28/4/1688 e em sem embargo dela ficará livre e sem obriga-
muitos outros momentos. O Regimento de ção alguma da sua parte".
25/5/1624 declara que só poderão ser escravi- A obrigatoriedade da anuência do "resga-
zados "os que estiverem em cordas". São as- também no .\ssento
tado", presente nessa lei (e
sim resgatados indivíduos que seriam comidos, de 1574, entre outros), faz com que se possa
para que se lhes salve a vida, e a alma. pensar o resgate como uma modalidade da
Aqueles que os resgatam podem servir-se venda de si mesmo, caso também reconheci-
deles contanto que os convertam e civilizem, do de cativeiro legal, igualmente motivo de
e os tratem bem. O cativeiro decorrente de debate (ver Carneiro da Cunha, 19S5a), po-
resgate não é, aliás, ilimitado: uma vez pago rém menos recorrente na legislação.
em trabalho o preço do resgate, o cativo será
livre, a não ser em alguns momentos em que
CONCLUSÃO
se considera que tendo sido pago um preço Várias questões relativas à legislação e políti-
acima do estipulado, o comprador possa valer- ca indigenistas deixaram de ser abordadas ou
se dos serviços do resgatado pelo resto de sua aprofundadas aqui, em primeiro lugar porque
vida. \a Lei de 10/9/1611, o tempo definido é uma exposição mais detalhada dos v ários iis-

de dez anos para que os "resgatados" fiquem pectos e instituições não caberia nos limites
livres, a não ser que o preço pago por eles se- deste capítulo. Questões como a "administra-
ja superior ao declarado pelo "governador e ção de particulares" precisam ser aprofunda-
os adjuntos". Porque é o preço o que define das à luz de novos documentos, inclusive no
se um indivíduo resgatado será escravo por al- que diz respeito à sua comparação com iis "en-
guns anos ou pelo resto de sua vida, as pró- comiendas" da .\mérica Espanhola (explícita
prias transações de venda têm de ser regula- numa Consulta do Conselho L^ltramarino de
mentadas, como, por exemplo, na Carta Ré- 9/6/1687). A efetiva reiílização (ou não) das de-
gia de 16/2/1691. De qualquer modo, o resgate terminações legais quanto aos indígenas em
é estabelecido pela salvação da vida dos pri- casos específicos será, certamente, abordada
sioneiros dos índios e o cativeiro permitido noutros capítulos deste livro. Os documentos
porque, como o dizem claramente certos do- mencionados como exemplo sãcx do mesmo
cumentos (entre os quais a Lei de 1611), se os modo, apenas uma iunostra do enoniie corpus
moradores não encontrarem nisso nenhuma legislativ o sobre a questão, tendo sido escolhi-
\antagem não hão de querer pagar pelos cati- dos emfunção de sua importância na hienir-
vos dos índios, que não poderão ser salvos. As quia legislativ a e/ou representativ idade quan-
transgressões a essas disposições legais são, to a datas e regiões.
aqui também, muitas, e só no ano de 1707 o A luz dos documentos, compreende-se que
rei envia duas Cartas Régias ao governador do as assim chamadas "exceções" cjue teriam j>er-
Maranhão sobre punição de excessos cometi- mitido a escravização indiscriminada mesmo
dos por tropas de resgate. quando se declarava a liberdade são mais do
Podem também ou "resga-
ser comprados, que exceções: não se aplicam aos indigeuvis do
tados", prisioneiros dos índios tomados em Brasil como um todo e constituem, ao ct>ntrá-
guerras intertribais consideradas justas, apa- rio, principieis fundamentais de diivito e da It^

rentemente segundo os mesmos princípios gislaçâo iiuligcnista. tanto quanto a lilHMxlade.


aplicáveis ao julgamento das guerras movidas Resgate e guerra just.i serãa ao longi^ de tixla

por portugueses contra os índios. Nesse caso, a colonização, os dois casos ivconhecidos de
porém, mesmo que tais guerras sejam consi- cativ tMn> legal. au\bos fundamentados em ptin-
ÍNDIOS LIVRES E ÍNDIOS ESCKAVOS 129

cípios que não modificam (ao lado deles


se
aparecerá às vezes a venda de si mesmo). No

caso do resgate, a salvação da vida se antepõe (<*///'^í/'fj^^/'^r-(^r^ rrtci-f/^o t/juj:ílír «y><^/Vf^ yy/^ ,/'^^r/»rr^'^/'-r

a tudo. Já no caso da guerra, trata-se de toda


uma elaboração jurídica relativa ao relaciona-
^T^iU^^^, <4^^>! e^e^y y^^j^^^rt-^ yy,a,^i^ r^J-^y '-^'^ ' ^
mento com povos inimigos. É porque os mo- //ír^rjt^i^'
.AyJcy>
^^fn*rt^^ ^M^/>
radores procuram, o tempo todo, enquadrar ,.i>*^x;^— ^Z-*-*"
nesses casos juridicamente legítimos de cati-
(^^^fd> T^^'UI>''^-^
veiro todos os índios, alegando resgates onde
há mera violência, construindo inimigos on-
de não os há e às vezes simplesmente violan-
do os direitos dos aldeados, que a Coroa de- re^^t f^'s.
clara a liberdade irrestrita de todos os indíge-
nas do Brasil, estendendo a todos a política
aplicada aos aldeados e aliados. Quando volta
a instituir a possibilidadeda escravização de
prisioneiros de guerra, é porque, dada a exis-
tência de inimigos, torna-se "dificultosíssimo
e quase impossível de praticar dar-se liberda-
de a todos sem distinção", como explica a Pro-
^
visão Régia de 17/10/1653. Se não se pode tra-
des coloniais pedir o descimento e aldeamento Nesta Carta Régia,
tar a todos os indígenas do Brasil do mesmo exemplar típico no
de seus povos. Outros, sem abandonarem seus
modo, é porque eles não reagem à coloniza- género, datada de
territórios ou se aldearem, uniram-se aos por- 19 de junho de
ção do mesmo modo.
tugueses ou a seus inimigos europeus em suas 1760, o governador
É preciso aprofiindar e refinar a análise da-
guerras; firmaram tratados de paz e tornaram-
da capitania do
quilo que chamamos aqui de duas políticas in- Maranhão é
se nações aliadas. Outros ainda resistiram a to- instruído a tentar
digenistas básicas, aquela para os índios
do e qualquer tipo de relação com os coloni- todos os meios
aldeados-aliados e aquela para o gentio bár- persuasivos para
zadores, movendo-lhes guerra até sua extinção
baro inimigo. E é também preciso considerar a pacificação dos
total; incorrigíveis, foram massacrados e escra- Timbiras, antes de
que a existência de duas linhas de política in-
prosseguir contra
vizados. Os mesmos povos podem ter modifi-
digenista está provavelmente relacionada às eles na guerra.
cado sua posição ao longo do tempo.
duas reações básicas à dominação colonial por-
Ao responder a realidades políticas diver-
tuguesa: a aceitação do sistema ou a resistên-
cia. Se, por um lado, faz-se necessário apro-
sas, efetivas ou construídas" —
já que não se
pode esquecer que o interesse económico dos
fundar o conhecimento de todas as discussões
colonizadores os terá feito, muitas vezes, for-
legais e princípios nela presentes para se en-
jar realidades para obter da Coroa leis que lhes
tender em
maior profundidade, para além da
mera necessidade económica, o que era, para fossem favoráveis — , a legislação não oscila em
seus princípios tanto quanto podia parecer. São
os portugueses, o projeto de colonização, é
também necessário ultrapassar, nesse sentido,
diferentes os princípios aplicáveis a cada uma
uma ótica puramente colonizadora, e dar lu- das situações: aldeamento, aliança, guerra. A
gar aos povos indígenas como atores dessa co- política indigenista não é mera aplicação de
lonização.Sem, no entanto, esquecer de mo- um projeto a uma massa indiferenciada de ha-
do ingénuo que a força aplicada para a reali- bitantes da terra. É, como toda política, um
zação do projeto colonial fazia a balança processo vivo formado por uma interação en-

pender indiscutivelmente para o lado europeu. tre vários atores, inclusixe indígenas, várias si-

Ao considerar em bloco as populações in- tuações criadas por essa interação e um cons-
dígenas e também as disposições legais a elas tante diálogo com valores culturais. A legislação
referidas, perdem-se de vista especificidades do mesmo modo. é muito mais
(jue a define,

históricas e culturais dos povos em contato. Al- do (}ue mero projeto de dominação mascara-
guns povos indígenas se aldearam pacifica- do em discussão jurídica, e merece ser olhada
mente, por assim dizer, e os documentos men- com outros olhos, para (}ue dela se possa tirar
cionam muitos chefes (jue vieram às autorida- toda a informação (pie ela pode nos fornecer.
130 mSTORl\ 1X>S IMIIOS \t> BK\Sll

Mapa manuscrito FONTES documentos relati\os a índios, mas encontram-


do Tapajós, de
se, de modo geral, exauridas, .\lgumas publi-
meados do século Os documentos aqui mencionados encontram-
XVIII. Governo e
se listados e indexados por tema, etnia e área
cações periódicas são especialmente ricas em
jesuítas documentos relativos à questão indígena, en-
controlavam as geográfica em Perrone-Moisés (1990a), em que
tre as quais citaremos os Documentos históri-
tx>cas dos rios: se encontram indicadas as fontes, permitindo
estabelecimentos, cos e os Anais da Biblioteca Nacional do Rio
o acesso do pesquisador aos próprios textos
fortalezas e de Janeiro, os Documentos interessantes e Do-
aldeamentos dos documentos. As principais fontes manus-
cumentos avulsos do -ArquiNO do Estado de São
reunindo índios critas ali presentes são códices do Arquivo Na-
que iam sendo Paulo e a Revista do Instituto Histórico e Geo-
cional do Rio de Janeiro, alguns códices do
"descidos" dos gráfico Brasileiro.
altos nos e dos Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e
afluentes. Aqui se
Alémdestas, algumas obras fornecem tex-
da Biblioteca Nacional de Lisboa. Fontes ma-
vêem cinco aldeias tos dos documentos nelas mencionados ou
na
jesuíticas
nuscritas inéditas a serem exploradas se en-
analisados, entre as quais citaremos Studart
embocadura do contram na Biblioteca Nacional do Rio de Ja-
Tho-
(1904-21), Dias (1921-4), Leite (1937-49).
Tapajós à sombra
neiro e nos arquixos dos estados. Os arquixos como
de uma fortaleza. mas (1982) e Beozzo (1983). Obras de as
A língua geral era portugueses (Biblioteca Nacional de Lisboa,
Lisboa (1852) e Malheiro (1866) apresentam
um veículo de Torre do Tombo, Arquivo Histórico Ultrama-
alguns trechos dos textos a que se referem, e
homogeneização
dessas etnias:
nem é preciso dizer, contêm igual-
rino etc),
em geral apenas glosam os documentos.
porém, acima das mente documentos a serem explorados. Para O primeiro esforço de síntese da legislação
primeiras alguns desses arquivos, existem inventários de e política indigenista coloniais foi feito pelo
cachoeiras, a
diversidade étnica
documentos que em muito podem auxiliar a "pioneiro" João Francisco Lisboa, em seu 71-
se mantinha. pesquisa, como é o caso de Sousa (s.d.), Simões mon maranhense, publicado em 1S52 ^^incluí-
de Paula (1952) e Pereira (1955). Os proces- do na publicação de suas Obras). Em sua aná-
sos jurídicos, que se encontram em geral nos lise detalhada da política indigenista colonial
arquivos dos estados, são, como foi menciona- portuguesa, Lisboa transcreve trechos ou gkv
do, uma rica fonte a ser explorada. sa os principais documentos. Nesse clássico se
Entre as fontes de documentos publicadas, encontram a caracterização da legislação in-
as mais importantes compilações de documen- digenista coloniiil como oscilante, hipix^rita e
tos legais referentes especificamente à ques- contraditória e o elogio da ptilítica pomlxili-
tão indígena são Naud. 1970 e 1971, os Docu- na. cjue serão i-etomados a p,uiir de entua .\iíi-

mentos para a história do açúcar, o Livw ipxisso da em meados do século \l.\. Pealigão Ma-
do Maranhão publicado nos Anais da Biblio- lheiro escre\erá o outa> gnuide cUissicv^: A €"3?-

teca Nacional, n?' 66-7. Compilações de leis cnnulão no Bnisil. Ensaii^ históru\>-fti''uik\>-

gerais, como a de Sil\a (1865), contêm ulgmis six^ial. um irruule painel da escnnidão nt^pii
ÍNDIOS LIVRES E ÍNDIOS ESCRAVOS 131

em duas partes (a segun-


e indígena, dividido O resgate do aspecto jurídico da coloniza-
da dedicada
parte, à escravidão indígena, foi ção, abrindo possibilidades para um novo en-
publicada em 1867). Malheiro utiliza Lisboa foque da legislação, encontra-se em Carneiro
como principal fonte de informações para a le- da Cunha (1985a, 1985b, 1986, 1987).
gislação; através dele, Lisboa constituirá a ba- Outros trabalhos importantes dedicados à
se de quase todas as análises subseqiientes. de Kiemen
política indigenista colonial são os
Entre o final do século XIX e o início do XX, (1948, 1954), Alden (1983) e Arnaud (1984,
vários autores abordam a legislação indigenista 1985) para a região amazônica (estado do Ma-
colonial em textos de caráter político, para pro- ranhão), e Thomas (1982) para o estado do Bra-
por novas e positivas leis indigenistas. Basea- sil. Sumários da legislação indigenista para o

dos em Malheiro, seguem basicamente o seu estado do Brasil podem ser encontrados em
itinerário e sua análise. Entre eles Pitanga Hemming (1978) e Alden (1969). Interessan-
(1899), Souza (1910), Miranda e Bandeira tes discussões sobre a política indigenista e a
(1911). Em 1946, Rodrigo Otávio escreve uma escravização encontram-se em Dean (1984),
obra intitulada Os selvagens americanos peran- Farage (1991), Marchant (1980), Monteiro
te o direito, na qual a legislação indigenista co- (1988, 1989), Schwartz (1979) e Sweet (1974).
lonial portuguesa continua sendo considera- Para as muitas outras obras que contêm da-
da contraditória e hipócrita. No Brasil, painéis dos importantes acerca da questão indígena,
gerais da política indigenista só reapareceriam inclusive no tocante à aplicação da política in-
bem mais tarde, nos trabalhos de César (1985) digenista, remeto aos valiosos guias bibliográ-
e Bellotto (1982). ficos de Monteiro e Moscoso (1990).

NOTAS què, além de serem "naturalmente insolentes e atre-


vidos", não têm razão alguma para "aceitar pazes com
(1)Os pedidos de descimentos feitos por moradores lhes oferecerem terras fronteiras de que eles são se-
são amplamente debatidos na legislação do início do nhores assim pelas suas setas como pela sua nature-
século XVIII. Quando a Coroa os permite, insistirá za". O mesmo poder-se-ia dizer da posse garantida das
sempre que "não há de ser a título de administrador", terras nas aldeias e da liberdade prometida para aque-
ou seja, que o morador não poderá ter tais índios sob les que concordam em descer e se aldearem...
seu controle, como se fossem escravos, mas deverá (4) E interessante notar que a política para as aldeias
entregá-los para que sejam aldeados de acordo com se mantém inalterada na Lei de 1611 que restabelece
as diretrizes correntes para os aldeamentos (catequese, a possibilidade de escravização, em relação à de 1609,
salários, tempo de serviço), e que "o prémio que se que declara a liberdade de todos os índios do Brasil,
há de dar às pessoas que os descerem à sua custa se- por serem essas duas leis apontadas como um dos ca-
rá o de se repartirem só com elas durante a sua \ ida". sos flagrantes de contradição e oscilação.
Várias Cartas Régias nesse sentido, com textos prati- (5) Contrariando tais determinações, uma ordem do
camente idênticos, são enviadas tanto para o estado governador da Bahia de 1/8/1682 manda reunir duas
do Brasil quanto para o do Maranhão e Grão-Pará en- aldeias, mesmo que os índios não queiram, pelo bem
tre 1702 e 1707. Tais termos de concessão de desci- da catequese, mais importante que tudo. Do mesmo
mentos a particulares parecem ter sido reafirmados modo, várias determinações de autoridades coloniais
na década de 1780 (cf MacLachlan, 1973:213). colocam a proteção às aldeias e aos jesuítas (que lhes
(2) A Ordem Régia de 9/3/1718 para o estado do Ma-