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Análise crítica interpretativa da obra A metamorfose, de Franz Kafka

O início do século XX foi marcado por duas das maiores guerras digladiadas pelo
homem, pela depressão do capitalismo, concomitantemente pela ascensão do movimento
socialista ao redor do mundo e, sobretudo, pela figura de grandes governantes cujo poder era
quase senão total. Por causa disso, muitos escritores pintaram [escritores pintam?] retratos
desta época. Isso tanto como fuga quanto como revolta contra o momento de desespero de toda
a humanidade. Um desses representantes mais singulares foi Franz Kafka (1883 – 1924),
literato de língua alemã natural de Praga, cuja [uso do “cujo” ta meio estranho, talvez seria
melhor “cuja obra, A metamorfose”)A metamorfose (Companhia das Letras, 2016) traduz em
texto o autoritarismo a partir da relação entre o protagonista Gregor Samsa, povo oprimido, e
seu pai e o gerente, governante autoritário, na obra. No tocante à obra, é narrado, em síntese, o
momento no qual Gregor vira fisicamente um inseto e aos poucos vai sendo contaminado e
tragado gradativamente por isso. [parte grifada ficou um pouco esparsa, colocar uma outra
oração que explique essa relação entre o inseto e o povo. Para você que leu o livro pode
não parecer, mas para o leitor sim]
Antes da Primeira Guerra de 1914, em 1912, foi escrita a maior novela de Franz Kafka
A metamorfose. Essa obra foi afetada pelo momento em que a Europa borbulhava quase a
extravasar toda a explosão e lamúria. Esse momento precede a ruína da humanidade — a[s]
guerra[s] — e a construção de uma figura autoritária [e a consolidação de várias figuras
autoritárias ao redor do mundo]. Essa figura é manifestada na novela no ambiente familiar
do protagonista, representando além [como “além dele mesmo” depois da morte,
metonimicamente, explique melhor] dele mesmo já que, por um lado, o pai muitas vezes
assume traços de um Estado autoritário.
A narrativa se inicia em um momento inesperado, pois Samsa acorda em um dia
qualquer metamorfoseado em um inseto: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de
sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”
(KAFKA, 2016, p. 7). Nesse momento, após uma noite de pesadelos, há uma mudança súbita
na natureza de sua estrutura humana. Ele se torna abruptamente — de fato, do dia para noite —
um inseto.
Esse é momento no qual o protagonista, de súbito, depara-se com uma realidade. Ela o
condena e o vence, pois essa situação é feita por meio de algo externo que ele não governa, uma
espécie de acaso do qual o protagonista é vítima. Esse detalhe, que estabelece uma lógica nos
demais escritos do tcheco, também afeta A metamorfose. Dessa maneira, o rumo narrativo
depende dessa situação, cuja causa nós não temos um conhecimento de fato, apenas deduções.
Assim, o inseto é um fator que vai afetar todo o personagem e, consequentemente, toda a
narrativa.
Nesse híbrido entre humano e inseto a sua condição física, que é exterior a consciência,
é o exoesqueleto de um Gregor, o protagonista, com “suas costas duras como uma couraça”,
“seu ventre abaulado, marrom dividido por nervuras arqueadas”, “Suas numerosas pernas”
(KAFKA, 2016, p. 7). Mas a parte humana permanece, no que diz respeito à sua consciência,
intacta e fechada dentro desse esqueleto externo que sustenta tais pequenos invertebrados. Isso
pois, apesar de ele estar revestido por essa carcaça, ainda questiona a sua situação súbita por
dentro dela “— O que aconteceu comigo? — pensou” (KAFKA, 2016, p. 7).
Nesse momento, o protagonista da narrativa está no seu quarto, acordando aos poucos.
Um quarto pequeno de quatro paredes, cujas aberturas era(m) apenas a janela e a porta. Fora da
janela, está tudo turvo com chuva, que ainda fazia barulho no telhado, produzindo um tom
sentimental melancólico nesse espaço. O turvo, janela à fora, revela a ideia do seguro do quarto,
mas que se projeta também dentro do quarto, já que a janela é transparente, assim como a chuva
que bate nos telhados de zinco, que, naturalmente, produzem muito e constante barulho. Daí,
então, o tom melancólico resulta do quarto escuro, barulhento e apertado no momento em que
a forma do espaço é projetada no conteúdo da própria situação de Gregor ao acordar como um
inseto (KAFKA, 2016, p. 7-8).
Em seguida, ainda nesse processo de acordar e tentar levantar-se, sentia a dor que o
incomodava parou. Mas, o curioso é que, mesmo que estivesse metamorfoseado e com dores,
pensou na sua profissão. Ele trabalhava como caixeiro-viajante, um vendedor para uma
empresa. Enquanto ele viaja, faz negócios. No entanto, constantes viagens que são necessárias
para tal função, são muito cansativas, podemos dizer física e psicologicamente, para o
personagem, pois “[...] é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens,
as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que sempre, jamais perdura, nunca se
torna caloroso” (KAFKA, 2016, p. 8).
Quando Hugo Friedrich traça quase matematicamente uma linha temporal até a lírica
moderna. Podemos notar nela a reflexão do autor sobre a relação da historicidade da estética
literária moderna. Os românticos lavraram o terreno das pragas, no sentido do decante da
literatura, que seriam terrenos férteis para os seus sucessores: os modernistas. A juventude
iludida dos românticos pelo mito de Napoleão não encontra uma sustentação no mundo real e
se desmorona por si só. Com eles “A alegria e a serenidade desapareceram da literatura”
(FRIEDRICH, 1948, p. 30-34).
Eco que se expressa no artista da modernidade “[n]a capacidade de ver no deserto da
metrópole não só a decadência do homem, mas também de pressentir uma beleza misteriosa
não descoberta até então” (FRIEDRICH, 1948, p. 35; colchetes nosso). As duas questões, a
cidade em geral e o belo são importantíssimas para a hermenêutica deste nosso escrito.
O ambiente construído por Kafka é um ambiente moderno, como podemos interpretar o
espaço do quarto apertado tinha vista para um edifício cinzento e negro que lhe fechava a vista.
Gregor, apesar de tratar de apenas um eu, revela o indivíduo da modernidade, cuja consciência
humana é apaga(apagada) para apenas restar a sua função social-econômica de caixeiro-viajante
enfrentando o caos e a velocidade citadino; isso fica claro no seu cansaço, nas péssimas
refeições, na preocupação com tempo do trem, na vida noturna. O mundo moderno e também
cinzento – isso por causa da poluição, dos metais, do asfalto que o cobrem. A vida noturna
possibilitada pela eletricidade e o progresso incessante não só fazem com que as cidades se
lotem de pessoas e desse cinza, mas também, apesar disso, causam a solidão do indivíduo
(FRIEDRICH, 1948, p. 43). Mas isso fica mais claro, sobretudo, no calor humano.
Essa solidão está expressa na novela no indivíduo que se esconde por baixo dessa
couraça ou dentro do quarto, e na forma sufocante em que isso é construído, então. A prova de
que Samsa corresponde apenas a sua função está na questão de apenas se preocupar com o seu
trabalho e, disso, com sustento de sua família, deixando de lado questionamentos profundos e
pormenorizados sobre essa questão. Quando ele se torna um inseto, perde toda a sua função,
pois torna-se, obviamente, impossível de realizá-la. Para nós leitores, o inseto quase impotente
nos obriga a olhar para a consciência do homem que fora esvaziada pela modernidade.
“Era uma criatura do chefe sem espinha dorsal nem discernimento” (KAFKA, 2016, p.
10), além de ser uma alusão clara do inseto, que é invertebrado, é uma oração feita por intrusão
do narrador cuja metáfora corrobora com a questão do vazio do personagem, pois “espinha
dorsal” é o sustentáculo do corpo para que ele consiga ficar em pé sozinho. Dessa forma, ficar
sem ela significa a ideia de que Gregor tem a necessidade de que alguém o sustente e,
logicamente, não é independente. Esse último dado é reforçado pela sua falta de discernimento
de alguém que, assim, não compreende as situações com clareza precisa ser governado.
Com ele Gregor estava preocupado enquanto aos poucos acordava e tentava levantar-
se, mas não conseguia, pois, como em alguns insetos, o seu esqueleto com as costas convexas
não permite que ele se levante com facilidade. Juntamente com o atrasado cada vez maior, tudo
isso, a perda dos trens e a chegada de seu gerente, cria-se nele uma ansiedade. Então, “o gerente
em pessoa” (KAFKA, 2016, p. 16 chega na casa do seu subordinado para fazer ele(fazê-lo) ir
ao trabalho. Todavia, o narrador intruso nos revela os questionamentos do personagem sobre
essa situação, cito:

Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se
levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção
vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora
deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco
de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama? Não bastava realmente
mandar um aprendiz ir perguntar – se é que havia necessidade desse interrogatório?
Tinha de vir o próprio gerente, era preciso mostrar como isso à família inteira – inocente
– que a investigação desse caso suspeito só podia ser confiada à razão do gerente.
(KAFKA, 2016, p. 16)

Na firma, onde o protagonista é governado, tudo parece vigiado e desconfiado,


sobretudo, os funcionários. Isso fica claro na narrativa por esse caixeiro-viajante especial cuja
história é narrada, pois, se por apenas um atraso causa tanto alvoroço, não é possível que algum,
um dia, tenha ficado impossibilitado? Essa questão reflete o esquizofrênico no racional da obra,
porque o que na verdade é um mecanismo para controle da firma e de seus funcionários, acaba
“enlouquecendo”, no sentido de perder as rédeas, paradoxalmente, da razão. Afinal, o indivíduo
não está certo até que ele prove o contrário, ao invés de estar certo até que provem o contrário,
como dirá a matemática da, já gasta, democracia. De qualquer forma, após os questionamentos,
Gregor ainda se levanta, como o faria um bom subordinado.
Adiante, mesmo quando o gerente chega a sua casa, Gregor ainda não consegue
levantar-se. Apesar termos conhecimento da situação desse personagem, o gerente o dirá a sua
“incompreensível obstinação” o deixa perplexo porque ele “Acreditava conhecê-lo como um
homem calmo e sensato e agora o senhor me parece querer de repente começar a ostentar
estranhos caprichos”. Isso quer dizer, na curiosa absurdez de tudo isso, que toda essa briga trata
apenas de um simples atraso. Como se toda essa sensatez se diluísse apenas porque ele se
atrasou um pouco para uma de suas viagens e ainda são tratadas como um persistência irracional
e incompreensível (KAFKA, 2016, p. 19). Reiterado no fato de seu gerente justificar a falha
ainda mais por causa da sua falta de rendimento. Isso quer dizer que a pela sua recente falta
com a empresa, ele se tornou insatisfatório e, por causa disso, descartável.
Finalmente, o inseto consegue levantar-se da cama e abrir a porta, não sem dor. Nesse
momento, há uma mudança no espaço da narrativa, a chuva forte e o céu turvo abrem espaço
para a pouca chuva e para a imagem do hospital. E ainda a porta do quarto aberta revela o
restante do interior da casa. Concomitantemente, lá se elabora mudança do melancólico para,
por fora da janela, o pétreo da forma do hospital – no sentido de insensível e inflexível --, e, por
fora da porta, mostra a vida comum da louça de café da manhã e o passado orgulhoso dele como
tenente com “a mão na espada, o sorriso despreocupado, exigindo respeito pela postura e pelo
uniforme”.
Tal espaço e ambiente corroboram com a situação do momento narrado. Vemos o
passado, talvez até venturoso, que contrasta com a situação atual de inseto. A imagem rude do
hospital trabalhara na forma como, sobretudo a família, lidará com a situação escatológica do
filho Samsa. Até porque, nesse ínterim, o gerente reage com um susto, um “ ‘oh’ alto” enquanto
colocava a mão sobre a boca; já “O pai cerrou o punho com expressão hostil, como se quisesse
fazer Gregor recuar para dentro do quarto” (KAFKA, 2016, p. 24).
Pois bem, o gerente foge desesperadamente, a mãe se esconde nos braços do pai e ele
empurrou seu filho de volta para o quarto. Essa volta era feita com diversas ameaças com uma
bengala de “golpes mortais nas costas ou na cabeça” e “ordenando com uma voz que não soava
como a de um pai apenas”. No fim dessa volta para o quarto, o inseto, que estava sendo
ameaçado pelo seu pai, teve que passar por cima de obstáculos e, por causa disso se feriu. Ainda
mais que seu pai desferiu um dos golpes da bengala, ele voa de volta para o quarto enquanto
sangra (KAFKA, 2016, p. 30).
No segundo capítulo dessa narrativa, Gregor, após esse confronto com o pai que lhe
dera uma cicatriz e que o fizeram mancar, desperta de sono “semelhante a um desmaio” em um
espaço, dado o crepúsculo, à meia luz. Lá, “O brilho das lâmpadas elétricas da rua se refletia
lívido, aqui e ali, sobre o teto e as partes mais altas dos móveis, mas embaixo, junto a Gregor,
estava escuro”, portanto, esse momento elabora a mesma cisão entra claro e escuro que separa
a lucidez, a compreensão ainda humana, e o escuro, a sua animalidade (KAFKA, 2016, p. 33).
Adiante, durante uma noite, Gregor quase foi visitado por alguém. De alguma forma,
esse alguém chegou perto da porta e, com dúvida, hesitou. Sobre isso, Gregor esperou sem êxito
rente à porta, pois não foi aberta. Podemos dizer que esse trecho trata da diferença entre Samsa
de outrora e de agora. Mas também podemos dizer que enquanto Gregor era um caixeiro-
viajante que trabalha arduamente e que sustentava a sua família, “Antes, quando as portas
estavam fechadas, todos queriam entrar para vê-lo, agora que ele havia aberto uma e as outras
evidentemente tinham sido abertas durante o dia, ninguém mais vinha e as chaves estavam na
fechadura também do outro lado de fora” (KAFKA, 2016, p. 35). A imagem da porta se
fechando ante o personagem é recorrente e autentica do romance de Franz Kafka, como n’O
Castelo e n’O processo que simbolizam a burocracia que se fecha ao K. e se torna inatingível,
ou em Carta ao pai quando Kafka, o protagonista da obra, é trancando para fora da casa pelo
seu pai.
Assim a porta não só barra Gregor Samsa, mas nos mostra, a partir disso, que enquanto
ele era útil sócio-economicamente para os seus, ele era um homem amado e necessário. Mas
agora com esse fardo de ter de carregar o casco de inseto fez com que sua família se distanciasse
e com que ele ficasse sozinho.
Também podemos esmiuçar esse excerto dizendo que a mesma situação de inutilidade
foi vivida pelos seus pais anteriormente, porque viveram confortavelmente as custas de seu
primogênito. No entanto, o recolhimento não espontâneo coube apenas no caso do último, já
que, no seu caso, o seu pai o empurrou para dentro por meio de bengaladas. Sendo assim, o pai
não respeitava apenas as leis, ou melhor, ou as respeitavam quando lhe convinha ou elas
serviam apenas para o filho. De qualquer forma, de onde o seu pai governava, as leis serviam
apenas para seu filho. Haviam, portanto, três mundos: onde a família habitava e de onde o pai
governava, o restante da casa; onde os outros habitavam, o externo a casa; e onde Gregor era
governado, o seu quarto.
Com o estado de Samsa, a narração nos elabora dos pares de quadros opostos da família:
a situação anterior da família enquanto o seu primogênito não trabalha, por um lado, e, por
outro, a situação posterior a ela. Sobre o primeiro:

Ora, o pai era na verdade um homem saudável, porém velho, que não trabalhava fazia cinco
anos e que, seja lá como for, não podia se exceder; nesses cinco anos, que foram as primeira
férias da sua vida estafante e no entanto malograda, ele havia engordado muito e com isso se
tornado bastante moroso. E a velha mãe, que sofria de asma, a quem uma caminhada pelo
apartamento já era um esforço, e que, dia sim dia não, passava o dia no sofá, junto à janela
aberta, com dificuldades de respiração — deveria ela agora, por acaso, ganhar dinheiro? E
deveria ganhar dinheiro a irmã, que com dezessete anos era ainda uma criança e cujo estilo de
vida ate agora dava gosto de ver, consistindo em vestir roupas bonitas, dormir bastante ,
ajudar na casa, participar de algumas diversões modestas e acima de tudo tocar violino?
(KAFKA, 2016, p. 44)
De qualquer forma, com o tempo, Gregor adquiriu alguns dos hábitos de um inseto como
o de ziguezaguear pelas paredes e pelo teto do quarto. Por causa disso, a sua irmã, juntamente
com a sua mãe decidiram mudar os móveis de lugar. Mas a mãe discordava disso, pois esvaziar
o quarto significa borrar a própria existência de Gregor ou, mais importante do que isso, até
quem ele foi. Isso pode, talvez, significar que para ele mesmo que Gregor foi borrado e, aos
poucos foi preferindo “arrastar um imperturbado em todas as direções, ao preço contudo do
esquecimento simultâneo, rápido e total do seu passado humano?” (KAFKA, 2016, 50).
Portanto, querer mudar o seu quarto não mostra apenas um esquecimento do passado, mas, na
verdade, mostra que o seu lado animal prevalece cada vez mais.
No desfecho dessa cena “Elas lhes esvaziaram o quarto; privaram-no de tudo que lhe
era caro [...]” (KAFKA, 2016, p. 52); portanto, de tudo o que resta de Gregor, ficou apenas a
consciência (não toda).
Mas, enquanto ele tentava salvar algo, rastejou até um quadro que havia no quarto e
nesse momento, deu de frente com a sua mãe, que desmaiou em seguida. Os episódios que
decorrerão a partir desse último se elaboram de forma ambígua. Por exemplo, quando Grete se
assustou no momento em que foi buscar alguns fracos com alguma essência na tentativa de
acordar a sua mãe. Quando o vidro quebrou, parte do estilhaço atingiu a face do inseto. Pouco
tempo depois o pai chega e ouve as palavras assustadas e dúbias de sua filha. Toda essa série
de desastres o pai não interpretou como acaso, como tinha acontecido, porém, interpretou como
um ato violento de seu filho. O que piorou quando ele se ergueu em direção ao pai para
argumentar, mas essa ação foi vista apenas como uma ameaça. Mas o que devemos salientar é
o momento seguinte, quando o pai tenta atingi-lo.
Devemos salientar(“salientar” de novo ?) o desenvolvimento de alguns dos personagens
secundários dessa obra: o pai, a mãe, a filha e o gerente da empresa. A mãe tinha a voz suave e
seu discurso é delicado com o filho “Você não queria partir” (KAFKA, 2016, p. 11), que se
preocupa com o filho desde o momento em que ele tem dificuldades para acordar “Ele não está
bem, acredite em mim, senhor gerente. Senão como Gregor perderia um trem?” (KAFKA, 2016,
p. 17) até o momento em que ele, já artrópode, brada “—Deixem-me ver Gregor, ele é o meu
filho infeliz! Vocês não entendem que eu preciso vê-lo?”. Mas, apesar disso, ela ainda é tratada
como frágil e ainda é subordinada ao pai. A irmã, Grete, que ainda tem 17 anos, era,
anteriormente, uma menina cuja vida era somente vestir roupas bonitas e fazer tarefas banais,
mas agora tem o dever e a qualidade de preocupar-se com o irmão. É ela quem leva comida
para Gregor e quem o visita.
A sua figura desleixada e doente de seu pai de quando Gregor trabalhava havia sumido,
“Agora porém ele estava muito ereto, vestido com um uniforme azul justo, de botões dourados,
como usam os contínuos de instituições bancárias; sobre o colarinho alto e duro do casaco se
desdobrava o forte queixo duplo” (KAFKA, 2016, p. 56). Essas indumentárias lhe dão um
aspecto mais formal e firme, fato que reitera quando o pai levanta os pés para tentar esmagar
com eles o seu filho-inseto. O pai, portanto, assume um aspecto gigantesco frente ao filho. No
fim disso, o pai lhe dispara maçãs até que uma lhe penetre nas costas. Por pouco o pai não lhe
tira a vida. Ele fez isso apenas por que a mãe lhe pediu isso desesperadamente.
Esse herói, ou anti-héroi, é decadente beirando o escatológico. Simboliza um mundo
decadente de um herói diferente do clássico homérico cujo espirito é pouco. No caso ele é um
inseto monstruoso por onde se esconde o espírito do homem, no entanto, esse homem possui
pouca bravura, não passa de um caixeiro-viajante, afinal. Enquanto está metamorfoseado em
um inseto ainda se preocupa em ir trabalhar e ajudar a sua família. É um indivíduo que
subitamente se depara com a sua própria condição e ela o aniquila. Ele é uma espécie de David
desarmado que batalha contra um pai gigantesco, que no fim, esmaga-o. É a questão entre pai-
filho elaborada desde Urano e Cronos que, no entanto, é impotente e não tem a sua foice.
Mais tarde, quando quarto já está completamente escuro. Lá está Samsa, por cuja família
já não mais cuidado com ele. Tamanha sujeira era acumulada lá, como as “Estrias de sujeira
percorriam as paredes, aqui e ali havia novelos de pó”, o que enche o protagonista de ódio, mas
ele o aguenta calado. Na casa, por causa da falta de dinheiro, adquiriram três inquilinos.
(KAFKA, 2016, p. 62-70)
No entanto, no instante em que sua irmã começa a tocar seu violino no jantar para os
três ao lado de seus pais, o que não cativava nenhum dos três homens, cativou o inseto. Ele saiu
de baixo do pó de onde estava para ouvir a Grete, que de fato tocava com muita beleza
(KAFKA, 2016, p. 71).
Assim, “Gregor rastejou mais um trecho à frente, mantendo o corpo rente ao chão, para
se possível captar os seus olhos. Era ele o animal, já que a música o comovia tanto?” (KAFKA,
2016, p. 71). Tal inversão de quem é humano evoca a questão central da obra. Isso pois podemos
questionar que a metamorfose seja uma morte, ou uma doença, ou uma loucura. Mas, enquanto
Édipos, devemos chegar a esfinge nuclear da obra: o que é o inseto?
É o homem amputado da humanidade cartesiana. É um diagnóstico da modernidade e
racionalidade do homem que também foi questionada por Freud, Nietzsche, etc. (“entre outros”
não ficaria melhor? Esse ponto do “etc.” e logo em seguida o “que” parece estranho)que faziam
com que nós voltássemos para a própria animalidade no âmago dele. O homem passou,
portanto, a olhar para seus instintos, para as pulsões. O questionamento dessa ordem é colocado
a partir do escatológico da narrativa, pois, o feio do inseto fantástico nos suspende da realidade
e nos obriga a dois movimentos: questionar o belo e o humano dos outros personagens tidos
como humanos e olhar para a consciência do indivíduo.
Porque, quando o Gregor perde a sua função como caixeiro-viajante, perde apenas a
ela e o seu predicado social, pois correspondia apenas a sua função e o sustento de sua
família, deixando a profundidade do homem de lado. Esse homem, paradoxalmente, deixa de
ser como uma espécie de inseto que apenas vive em função de trabalho e de sua família e
como a ser um alguém pensante para se tornar um indivíduo complexo. Há uma
desumanização para uma humanização.
O cavaleiro inexistente cria a mesma conclusão. Isso porque o cavaleiro inexiste existe
apenas para função enquanto não existe a sua consciência humana. Já Gregor Samsa, ele existe
sem a sua função, para que o olhemos para a sua consciência humana. Esse mundo fantástico
kafkiano faz com que suspendamos para que, ao debruçar sobre o inseto, reflitamos o Eu no
Nada da modernidade.
Salientamos a modernidade da obra. Dissemos que trata do individuo na modernidade,
mas, as obras e Kafka trabalham com símbolos e personagens que representam para além deles
mesmo. Isso fica claro quando olhamos o Gregor com um sujeito oprimido pelo autoritarismo.
Contudo, podemos pensar nesse diálogo entre individuo e modernidade que Gregor é o
individou na modernidade e a modernidade no individuo. Até porque Franz Kafka era um autor
judeu, que como sabemos foram das maiores, se não a maior, vítimas do fascismo dos militantes
da suástica. Ele nasceu em Praga, então no Império Austro-Húngaro, que era uma das grandes
potências europeias da época. O nosso objeto de estudo foi escrito em 1912, logo, dois anos
antes da Primeira Guerra (HOBSBAWM, 1996, p. 30). Essa nação fazia parte das chamadas
“Potências Centrais”, juntamente com a Alemanha (e depois com o Japão) . Dessa forma, o
nosso viés interpretativo do inseto ser, na verdade, uma representação do homem na
modernidade é totalmente cabível.
Precisa ser governado justamente porque ele é um indivíduo vazio, pelo menos até
então. Quem o governa? Se ele vive, nesse momento, apenas para a sua função, podemos dizer
que quem o governa é a figura de seu pai.
O inseto é um homem medíocre. Sua função são de homens totalmente ordinários, fiéis
à moral comum, mas seus desejos e seu intelecto beiram o necessário para a ordem. É alguém
pequeno e frágil de baixo da sola de um sapato que faz parte do rebanho. A narrativa nos mostra
um homem esse homem pequeno, um herói do pouco, que foi abatido por uma realidade e por
um pai enormes. Gregor, em suma,, ao ver os obstáculos, não os enfrenta mesmo fracassando
ou não; ele se recolhe se escondendo no seu quarto e no seu esqueleto de quitina.
Em seguida, podemos nos debruçar em mais uma questão que sustentará a perpectiva
de leitura d’A metamorfose como uma alegoria da autoritarismo: a fala. A fala é uma das
habilidades que a homem-inseto narrado perde, não ficando mais do que pouco além de uma
“voz de animal”, como diz a descreve ( diz a descreve?) quando Gregor a pronuncia. Apesar
disso, esse mesmo personagem ainda pensa, raciocina, como um animal racional, mas, como
veremos mais além nesta análise, aos poucos, a sua consciência humana vai sendo contaminada
e vai sendo borrada pelo selvagem. Pelo fato de a língua é(ser) um traço essencialmente e
somente humano. O que os insetos possuem não passa de instinto, como por exemplo a ciranda
das abelhas que funcionam com um aviso não passa de um instinto que oriundo de seu material
genético para avisar sobre alimentos.
Com isso, podemos dizer que todo o traço humano da fala, do pensamento e da língua
é afetado na narrativa. O texto tem um início súbito, como se a narração se iniciasse no meio,
quando o sujeito já está metamorfoseado, assim, não sabemos a razão dela. Porém, podemos
deduzir a partir dessas pistas que ajudarão a nossa investigação. (não seria melhor uma vírgula?)
Se seguíssemos a rota da alegoria do autoritarismo.
A liberdade na fala (é?) um detalhe que precisa ser pormenorizado para que se entenda
o autoritarismo, pelo menos no Brasil. Aí, a liberdade de imprensa foi assinada por D. Pedro I
em 28 de agosto de 1821, porém, em 6 de setembro de 1972, o decreto de D. Pedro foi
censurado pelo Departamento da Polícia Federal, com o seguinte ditame aos jornais do país:
"Está proibida a publicação do decreto de D. Pedro I, datado do século passado, abolindo a
Censura no Brasil. Também está proibido qualquer comentário a respeito". (SOARES, Gláucio,
A censura durante o regime autoritário, 1989)
Jarbas passarinho, coronel brasileiro, quando elabora uma imagem da sociedade
brasileira às margens da guerra civil, colocava no rol de inimigo interno os que se opunham a
ditadura e ainda afirmava eles eram capazes de multiplicar seu convencimento, se mantida livre.
Todavia, a censura no Brasil foi "imperativo reclamado pela segurança do Estado numa guerra
civil não declarada", frase significativa por justificar o Al-5. “A censura se configura, pois,
como um ato violento, explícito, mas também insidioso, a demonstração cabal do
reconhecimento da força das ideias do inimigo, o recuo para um lugar onde o debate e o conflito
de opiniões cedem suas posições à violência” (KUSHNIR, 2015, p. 12)
É curiosa essa estratégia de dominação por meio da hipocrisia, pois se alega que se deve
amputar a liberdade do outro antidemocraticamente, pois a liberdade do outro está manipulando
a liberdade democrática. Desse paradoxo, podemos tirar uma conclusão um tanto orwelliana:
assim como “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”, Censura é expressão e
Escola “Sem” Partido é sem partido.
O autocrata na narrativa é o pai por quem se ditam as leis. Vemos desde de o início da
narrativa que a rudeza do pai é bem marcada na narrativa. Desde o momento que o vê
metamorfoseado o pai lhe cerra os punhos, dá bengalas bengaladas nele, empurra-o de volta do
quarto. Além da violência, isso marca o pai autoritário que não o tranca dentro do quarto
esvaziado de tudo o que lhe era caro. Interferindo, então, na liberdade do outro e não o muito
procura o seu filho está em estado penoso, deixando-o passar fome em um quarto sujo e
empoeirado. Portanto, esse “mesmo homem que costumava ficar enterrado na cama[...]
levantava os pés a uma altura incomum e Gregor fico espantado com o tamanho gigantesco das
solas de suas botas. Mas não ficou nisso, já sabia desde o primeiro dia da sua nova vida que,
diante dele, o pai só considerava adequada a severidade extrema”.
[falta a conclusão e organização na bibliografia]

KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de


1988. Boitempo Editorial, 2015. https://books.google.com.br/books?hl=pt-
BR&lr=&id=iDTaByChVY0C&oi=fnd&pg=PA12&dq=C%C3%A3es+de+guarda:+Jornalist
as+e+censores&ots=mm1ZoAFzd0&sig=PzgKuBSBoE27pWpZOwHx_-Nzf-
M&redir_esc=y#v=onepage&q=C%C3%A3es%20de%20guarda%3A%20Jornalistas%20e%2
0censores&f=false

SOARES, Gláucio Ary Dillon. A censura durante o regime autoritário. Revista


Brasileira de Ciências Sociais, v. 4, n. 10, p. 21-43, 1989.
http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_10/rbcs10_02