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24/08/2018 Envio | Revista dos Tribunais

Tutela do abandono afetivo do idoso

TUTELA DO ABANDONO AFETIVO DO IDOSO
Revista de Direito Privado | vol. 56/2013 | p. 345 ­ 358 | Out ­ Dez / 2013
DTR\2013\11667

Eduardo Cambi
Pós­doutor em direito pela Università degli Studi di Pavia. Doutor e Mestre em Direito pela UFPR. Professor da Universidade
Estadual do Norte do Paraná (Uenp) e da Universidade Paranaense (Unipar). Coordenador do Grupo de Trabalho de Combate à
Corrupção, Transparência e Controle Social da Comissão de Direitos Fundamentais do Conselho Nacional do Ministério Público.
Assessor da Procuradoria Geral de Justiça do Paraná. Assessor de Pesquisa e Política Institucional da Secretaria de Reforma do
Judiciário do Ministério da Justiça. Promotor de Justiça no Estado do Paraná.
 
Nathália Pessini Cossi
Mestranda em Direito Processual e Cidadania pela Universidade Paranaense (Unipar). Bolsista Capes.
 
Área do Direito: Civil
Resumo: O Estatuto do Idoso visa aos objetivos da República Federativa do Brasil presentes no art. 3.° e incisos da Constituição
de 1988. Com isso, a sociedade tem o dever de construir uma mentalidade de respeito, proteção e reconhecimento em relação aos
idosos. Nessa perspectiva, o presente trabalho visa a analisar a proteção dos direitos individuais dos idosos contra a situação de
abandono afetivo. Foca o estudo sobre a legislação protetiva dos idosos, bem como sobre o cabimento da tutela ressarcitória
referente à indenização do dano moral pelo abandono afetivo e a sua evolução jurisprudencial. Analisa, também, aspectos
relativos à legitimidade processual, à adoção de dispositivos legais específicos no direito comparado e às propostas legislativas em
trâmite no Brasil. No tocante à evolução da jurisprudência pátria, verificou­se a mudança de entendimento do STJ, reconhecendo a
ilicitude e a indenizabilidade do abandono afetivo. Pode­se estender esse raciocínio para os casos de abandono afetivo em relação
aos pais idosos. Conclui­se que uma sociedade justa poderá ser alcançada se estiver baseada na dignidade da pessoa humana,
desde o seu nascimento até a sua morte.
 
Palavras­chave:  Abandono afetivo ­ Pais ­ Filhos ­ Legitimidade ­ Indenização.
Abstract: The Brazilian Elderly Statute aims the objectives of the Federative Republic of Brazil present in 3th article and
subsections of the 1988 Federal Constitution. Therewith, the society has a duty to build a mindset of respect, acknowledgement
and protection in relation to the elderly. In this perspective, this study aims to examine the protection of individual rights of the
elderly against the situation of affective abandonment (emotional distance). It focuses on the study of the protective legislation of
the elderly, as well as the appropriateness of procedural relief of indemnification for moral damages for affective abandonment and
its respective case law evolution. It also analyzes aspects of standing to sue, the adoption of specific legal provisions on
comparative law and bills pending in Brazilian Congress. Regarding the evolution of Brazilian case laws, there was a change in the
understanding of the Brazilian Superior Court, whom recognized affective abandonment as a tort to be compensated. We can
extend this reasoning to cases of affective abandonment to elderly parents. We conclude that a just society can be achieved if it is
based on human dignity, from his birth until his death.
 
Keywords:  Affective abandonment ­ Parents ­ Son ­ Standing to sue ­ Indemnification.
Sumário:
 
1. Introdução ­ 2. O Estatuto do Idoso e a situação de abandono ­ 3. A tutela jurisdicional dos direitos do idoso em face do
abandono afetivo ­ 4. Necessidade de extensão jurisprudencial da indenização do abandono afetivo na relação parental para a
devida proteção dos idosos ­ 5. O exemplo chinês e a perspectiva legislativa no Brasil ­ 6. Conclusão ­ 7. Referências bibliográficas
 
1. Introdução
O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) surgiu para preencher lacuna no ordenamento jurídico brasileiro, pretendendo regular de
forma clara, precisa e minuciosa os direitos dos idosos.
Estabeleceu­se que idoso é aquele indivíduo com 60 anos ou mais (art. 1.° da Lei 10.741/2003), conforme critério utilizado pela
Organização das Nações Unidas (ONU).
A Constituição Federal (LGL\1988\3) e a legislação (em especial o Estatuto do Idoso) reconhecem a vulnerabilidade dos idosos e
visam a assegurar especial proteção a essa parcela da população.
A Constituição Federal de 1988 assegura o dever mútuo de assistência entre pais e filhos (art. 229) e o dever familiar de amparo
aos idosos (art. 230).
Apesar  disso,  não  há  menção  expressa  quanto  à  afetividade,  fazendo  nascer  o  debate  sobre  os  efeitos  jurídicos  do  abandono
afetivo dos idosos, em especial se é capaz de caracterizar dano moral indenizável.
Muitos idosos são vítimas de abandono por seus familiares, não apenas material, mas também no aspecto afetivo. Por isso, surge
a  questão  da  reparabilidade  e  da  incidência  da  tutela  ressarcitória  nos  casos  de  abandono  afetivo  nas  relações  familiares,
especialmente  no  caso  do  abandono  parental  em  relação  aos  filhos.  Por  outro  lado,  o  debate  jurídico  acerca  dos  reflexos  do
abandono afetivo na terceira idade ainda carece de aprofundamentos, tanto no aspecto material quanto no aspecto processual.
Nesse  contexto,  é  necessário  indagar  se  o  abandono  afetivo  contra  pessoa  idosa  pode  ser  passível  de  tutela  jurisdicional;  se  tal
proteção se limita à tutela ressarcitória; e, ainda, se a condição de pessoa idosa gera tutela jurisdicional diferenciada.
2. O Estatuto do Idoso e a situação de abandono
A preocupação com o idoso, em âmbito mundial, ganhou força em 1982, quando a Organização das Nações Unidas promoveu, em
Viena,  Assembleia  visando  a  discutir  o  envelhecimento  e  a  necessidade  de  estabelecer  metas  voltadas  à  inserção  do  idoso  na
sociedade, além de buscar a promoção de sua tutela.1
No Brasil, a Constituição Federal (LGL\1988\3) dispõe sobre o idoso no Título VIII, relativo à Ordem Social, no Capítulo VII, que
trata  da  família,  da  criança,  do  adolescente  e  do  idoso,  sem,  todavia,  estipular  a  idade  para  o  início  da  terceira  idade.  Apenas
estatui  o  constituinte,  no  art.  230,  §  2.°,  que:  “aos  maiores  de  sessenta  e  cinco  anos  é  garantida  a  gratuidade  dos  transportes
coletivos urbanos”.
Em 01.10.2003, foi sancionado o Estatuto do Idoso, Lei 10.741, que garante os direitos das pessoas que estão acima dos 60 anos
de idade, que até então não tinham legislação específica que os resguardasse. O Estatuto do Idoso regulamenta os princípios já
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garantidos pela Constituição Federal de 1988.
Os principais direitos civis assegurados ao idoso, conforme dispõe a Lei 10.741/2003, são: (a) na saúde: os planos de saúde não
podem  reajustar  as  mensalidades  de  acordo  com  o  critério  da  idade;  (b)  nos  transportes  coletivos:  os  maiores  de  65  anos  têm
direito ao transporte coletivo público; (c) no lazer: todo idoso tem direito a 50% de desconto em atividades de cultura, esporte e
lazer; (d) no trabalho: é proibida a discriminação por idade e a fixação de limite máximo de idade na contratação de empregados,
sendo  passível  de  punição  quem  o  fizer;  e  (e)  na  habitação:  é  obrigatória  a  reserva  de  3%  das  unidades  residenciais  para  os
idosos nos programas habitacionais públicos.
Está previsto no art. 4.° do Estatuto que nenhum idoso poderá ser objeto de negligência, discriminação, violência, crueldade ou
opressão.  Quem  abandonar  idoso  em  hospitais,  casas  de  saúde,  entidades  de  longa  permanência,  ou  congêneres,  sem  dar
respaldo para suas necessidades básicas, pode incorrer no tipo penal descrito no art. 98 do Estatuto e, se condenado, está sujeito
à pena de seis a três anos de detenção e multa.
Os  maus  tratos  aos  idosos  podem  ocorrer  em  diversas  categorias:  (a)  abuso  físico:  consistente  na  força  física  que  pode  causar
ferimento  no  corpo,  dor  ou  deficiência;  (b)  abuso  sexual:  contato  sexual  não  consensual  com  uma  pessoa  idosa;  (c)  abuso
emocional  ou  psicológico:  imputação  de  angústia,  dor  ou  aflição  (como  a  ameaça  de  abandono);  (d)  exploração  financeira:  uso
ilegal das reservas ou bens da pessoa idosa; e (e) negligência: recusa ou falha no cumprimento de qualquer parte das obrigações
básicas relacionadas ao idoso, como alimentar beber adequadamente ou fornecer medicamentos prescritos.2
Infelizmente, na maioria dos casos, os agressores são conhecidos, são membros da família, dos quais podem ser o cônjuge ou os
filhos adultos.

O  tratamento  dispensado  ao  idoso  no  lar  foi  degenerado  ao  longo  dos  anos  juntamente  com  a  desestruturação  da  família.3  Os
princípios  de  respeito  aos  familiares  e  antecedentes  foram  mitigados.  Os  idosos  não  poucas  vezes  são  submetidos  à  segregação
por desprezo, ficando abandonados em instituições de longa permanência ou congêneres. Sua cultura e seus conhecimentos são
considerados anacrônicos. Sua sabedoria descartada e a compreensão da vida banalizada. Esses fatos decorrem da desagregação
familiar e do desprezo aos princípios e valores éticos.
Com efeito, é necessário que o Estatuto do Idoso deixe de ser apenas letra de lei e passe efetivamente a ser um novo paradigma
de respeito ao idoso, mobilizando o Estado e a sociedade.
Desse  modo,  o  combate  ao  abandono  afetivo  dos  idosos  ganha  relevo,  para  a  efetiva  concretização  dos  direitos  fundamentais
dessa  parcela  da  população.  Em  consequência,  também  ganha  projeção  a  questão  a  cerca  dos  meios  processuais  adequados  à
promoção da defesa dos direitos do idoso capazes de tutelar adequadamente a situação de abandono afetivo.
3. A tutela jurisdicional dos direitos do idoso em face do abandono afetivo
O Estado Democrático de Direito tem, dentre seus objetivos, o de promover a dignidade da pessoa humana (art. 1.°, III, da CF
(LGL\1988\3)), desde o início de sua existência até a sua morte.
Direitos humanos é uma forma de proteção dos direitos essenciais da pessoa humana. Correspondem a necessidades essenciais da
pessoa humana, para possa viver com dignidade,4 já que a vida é um direito humano fundamental.
Vale lembrar que a Constituição Federal de 1988 determina que é dever da família, sociedade e Estado, em conjunto, ampararem
as pessoas idosas, velando para que tenham uma velhice digna e integrada à comunidade (art. 230).
Cabe à sociedade e ao Estado o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo
sua dignidade e bem­estar e lhes garantindo o direito à vida, inclusive, por meio de programas de amparo que, preferencialmente,
deverão ser executados em seus lares.5
Assim,  o  dever  da  família  e  da  sociedade  para  com  o  idoso  extrapola  o  aspecto  meramente  material,  inferindo­se  que  a
Constituição Federal (LGL\1988\3) implicitamente também pretende proteger o idoso na sua esfera moral e, consequentemente,
do abandono afetivo.
O art. 5.°, V e X, da CF (LGL\1988\3) estabelecem regras de indenização por dano moral ou material. Por sua vez, os arts. 186 e
187 do CC/2002 (LGL\2002\400) versam sobre a violação do direito e o dano causado por ato ilícito, asseverando que o causador
do dano fica obrigado a repará­lo (art. 927/CC/2002 (LGL\2002\400)).
O dano relacionado ao abandono afetivo do idoso tem natureza moral (extrapatrimonial) e recai sobre a pessoa, atingindo o que
ela é em sua profundidade.6 É um dano pessoal, insuscetível de reposição por ser financeiramente imensurável, pois a pecúnia não
retira  a  dor,  podendo  apenas  amenizá­la.  Possui  legitimidade  ad  causam,  para  propor  ação  de  reparação  de  danos  morais  por
abandono  afetivo,  como  regra,  o  titular  do  direito  material  pleiteado,  isto  é,  o  caso  o  próprio  idoso.  Afinal,  a  idade  avançada,  a
maturidade ou a “terceira idade” não afeta o exercício pessoal dos direitos pela própria pessoa, a menos que venha acompanhada
de limitações que possam caracterizar alguma ou várias incapacidades (arts. 3.° e 4° do CC/2002 (LGL\2002\400)).7 Por vezes, a
velhice  aparece  marcada  pela  senilidade,  fraqueza  mental  que  impede  o  discernimento,  a  autonomia  da  vontade,  causando  ao
idoso,  confusão  mental,  comprometendo  o  seu  poder  decisório.  Nestes  casos,  caberá  ao  representante  legal,  curador  ou  ao
Ministério Público (nos limites dos arts. 81 do CPC (LGL\1973\5), 32, I, da Lei 8.625/1993, 74 da Lei 10.741/2003 e 1.769 do CC/
2002 (LGL\2002\400)),8 agir em seu nome, defendendo seus interesses judicial e extrajudicialmente. Ademais, cabe a Defensoria
Pública  a  orientação  jurídica  e  a  defesa,  em  todos  os  graus,  dos  que  comprovarem  insuficiência  de  recursos  (arts.  134  e  5.°,
LXXIV, da CF (LGL\1988\3)), o que a legitima para a propositura de ação de reparação de danos, por abandono afetivo, de idosos.
Além  disso,  a  tutela  jurisdicional  adequada  para  os  idosos  em  abandono  afetivo  passa  pela  necessidade  de  aprofundamento  do
aspecto  probatório  da  ação,  pois,  a  prova  do  dano  moral  se  refere  a  algo  imaterial  e,  portanto,  não  pode  se  valer  dos  mesmos
moldes empregados pelo Código de Processo Civil (LGL\1973\5), no art. 333, para a comprovação do dano material.9

A situação do idoso abandonado é peculiar e dada a sua vulnerabilidade10 pode gerar reflexos processuais diferenciados na tutela
jurisdicional de seus interesses.
Portanto,  a  noção  de  vulnerabilidade  se  expandiu  para  abranger  todo  aquele  indivíduo,  grupo,  etnia  e  instituição  que,  por  suas
diferenças,  especificidades  ou  peculiaridades,  encontrar­se,  momentaneamente  ou  não,  em  situação  de  sofrer  violência  à  sua
dignidade, sem que possa se defender substancialmente, livrando­se por meios próprios de danos.11
Há de se considerar, ainda, que o abandono afetivo de idosos pode ser objeto, além da ressarcitória contra o dano, de todas as
espécies  de  tutelas  (preventivas/repressivas,  individuais/coletivas,12  dirigidas  contra  danos  ou  ilícitos)  e  técnicas  processuais
adequadas  a  efetiva  proteção  dos  direitos  fundamentais  dos  idosos.  Tal  conclusão  é  corolário  da  leitura  do  direito  à  tutela
jurisdicional adequada, célere e efetiva, decorrente da exegese do art. 5.°, XXXV, da CF (LGL\1988\3),13 bem como da exegese do
art. 82 da Lei 10.741/2003.

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Assim  sendo,  deve  ser  extraído  do  ordenamento  jurídico  processual,  como  regra  de  hermenêutica,  a  interpretação  que  melhor
possa concretizar os direitos fundamentais das pessoas vulneráveis.14 Nesse sentido, também, a interpretação jurídica deve levar
em  conta  parâmetros  diferenciados,  que  atendam  as  reais  exigências  da  pessoa  ou  do  grupo  vulnerável,  não  impondo,  para  a
adequada proteção dos bens jurídicos tutelados, levar em consideração o critério do homo medius.15
4. Necessidade de extensão jurisprudencial da indenização do abandono afetivo na relação parental para a devida
proteção dos idosos
Não há jurisprudência específica sobre indenização por danos morais resultantes de abandono afetivo de idosos.
Por  outro  lado,  há  divergência  jurisprudencial  sobre  a  indenização  do  dano  moral  decorrente  do  abandono  afetivo  na  relação
parental.
O reconhecimento da indenização do dano afetivo iniciou­se entre os juízes de 1.° grau e nos Tribunais de Justiça, ainda que com
grande vacilação.
Nos  Tribunais  de  Justiça,  há  lembranças  jurisprudenciais,  exemplificados  nos  acórdãos  a  seguir  citados,  com  a  conclusão  de
procedência  da  ação,  por  abandono  afetivo:  (a)  “Indenização.  Danos  morais.  Relação  paterno­filial.  Princípio  da  dignidade  da
pessoa  humana.  Princípio  da  afetividade.  A  dor  sofrida  pelo  filho,  em  virtude  do  abandono  paterno,  que  o  privou  do  direito  à
convivência, ao amparo afetivo, moral e psíquico, deve ser indenizável, com fulcro no princípio da dignidade da pessoa humana”;16
(b)  “Responsabilidade  civil.  Dano  moral.  Autor  abandonado  pelo  pai  desde  a  gravidez  da  sua  genitora  e  reconhecido  como  filho
somente  após  propositura  de  ação  judicial.  Discriminação  em  face  dos  irmãos.  Abandono  moral  e  material  caracterizados.  Abalo
psíquico. Indenização devida. Sentença reformada. Recurso provido para este fim”.17
Em  outro  julgado,  decidiu­se  pela  a  admissão  da  indenização  do  dano  moral,  mas  improcedência  da  ação  por  falta  de  provas:
Indenização. “Danos morais. Relação paterno­filial. Ausência de prova de violação ao princípio da dignidade da pessoa humana e
ao  princípio  da  afetividade.  Improcedência  dos  pedidos.  Não  se  nega  que  a  dor  sofrida  por  um  filho,  em  virtude  do  abandono
paterno, quando este o priva do direito à convivência, ao amparo afetivo, moral e psíquico, deve ser indenizável, com fulcro nos
princípios  da  dignidade  da  pessoa  humana  e  da  afetividade.  Não  restando  demonstrado  nos  autos  que  a  autora  tenha  sido
abandonada  por  seu  pai,  sem  ao  menos  este  tentar  uma  aproximação  ou  um  contato  familiar,  é  de  se  julgar  improcedentes  os
pedidos de danos morais”.18
No  âmbito  do  STJ,  a  tese  adotada  até  recentemente  era  no  sentido  da  impossibilidade  de  reparação  de  danos  morais  por
abandono  afetivo:  (a)  “Responsabilidade  civil.  Abandono  Moral.  Reparação.  Danos  morais.  Impossibilidade.  1.  A  indenização  por
dano moral pressupõe a prática de ato ilícito, não rendendo ensejo à aplicabilidade da norma do art. 159 do Código Civil de 1916
(LGL\1916\1)  o  abandono  afetivo,  incapaz  de  reparação  pecuniária.  2.  Recurso  especial  conhecido  e  provido”;19  (b)  “Civil  e
processual. Ação de investigação de paternidade. Reconhecimento. Danos morais rejeitados. Ato ilícito não configurado. I. Firmou
o  Superior  Tribunal  de  Justiça  que:  ‘A  indenização  por  dano  moral  pressupõe  a  prática  de  ato  ilícito,  não  rendendo  ensejo  à
aplicabilidade da norma do art. 159 do Código Civil de 1916 (LGL\1916\1) o abandono afetivo, incapaz de reparação pecuniária’
(REsp 757.411/MG, 4.ª T., rel. Min. Fernando Gonçalves, unânime, DJU 29.11.2005). II. Recurso especial não conhecido”.20
Nesses  precedentes,  o  STJ  entendeu  que  o  abandono  afetivo  não  poderia  ser  considerado  ato  ilícito  e,  assim,  não  seria  cabível
reparação pecuniária. Essa era a posição sedimentada na Corte.
Inovando  a  jurisprudência  do  STJ,  o  julgamento  do  REsp  1.159.242/SP  marcou  a  inversão  no  entendimento  até  então  vigente,
passando a aceitar a indenização do dano moral por abandono afetivo na relação entre pai e filho: “Civil e processual civil. Família.
Abandono afetivo. Compensação por dano moral. Possibilidade. 1. Inexistem restrições legais à aplicação das regras concernentes
à  responsabilidade  civil  e  o  consequente  dever  de  indenizar/compensar  no  direito  de  família.  2.  O  cuidado  como  valor  jurídico
objetivo está incorporado no ordenamento jurídico brasileiro não com essa expressão, mas com locuções e termos que manifestam
suas diversas desinências, como se observa do art. 227 da CF/1988 (LGL\1988\3). 3. Comprovar que a imposição legal de cuidar
da  prole  foi  descumprida  implica  em  se  reconhecer  a  ocorrência  de  ilicitude  civil,  sob  a  forma  de  omissão.  Isso  porque  o  non
facere, que atinge um bem juridicamente tutelado, leia­se, o necessário dever de criação, educação e companhia – de cuidado –
importa  em  vulneração  da  imposição  legal,  exsurgindo,  daí,  a  possibilidade  de  se  pleitear  compensação  por  danos  morais  por
abandono psicológico. 4. Apesar das inúmeras hipóteses que minimizam a possibilidade de pleno cuidado de um dos genitores em
relação à sua prole, existe um núcleo mínimo de cuidados parentais que, para além do mero cumprimento da lei, garantam aos
filhos, ao menos quanto à afetividade, condições para uma adequada formação psicológica e inserção social. 5. A caracterização
do abandono afetivo, a existência de excludentes ou, ainda, fatores atenuantes – por demandarem revolvimento de matéria fática
– não podem ser objeto de reavaliação na estreita via do recurso especial. 6. A alteração do valor fixado a título de compensação
por  danos  morais  é  possível,  em  recurso  especial,  nas  hipóteses  em  que  a  quantia  estipulada  pelo  Tribunal  de  origem  revela­se
irrisória ou exagerada. 7. Recurso especial parcialmente provido”.21
A  posição  tomada  no  REsp  1.159.242  passou  a  servir  de  paradigma  para  diversas  outras  decisões  das  instâncias  inferiores,
passando a prevalecer a caracterização do dano moral em caso de abandono afetivo.
Com  efeito,  tal  precedente  reconheceu  a  possibilidade  de  indenização  do  dano  moral  decorrente  do  abando  afetivo  na  relação
parental. Conclui­se que não há restrições legais à aplicação das regras relativas à responsabilidade civil e o consequente dever de
indenizar/compensar no direito de família. Isto porque o cuidado é fundamental para a formação do menor e do adolescente, não
se  discutindo  a  mensuração  do  intangível  –  o  amor  –  mas,  sim,  a  verificação  do  cumprimento,  descumprimento,  ou  parcial
cumprimento, de uma obrigação legal: cuidar. Não se discutiu o amar e, sim, a imposição biológica e legal de cuidar, que é dever
jurídico, corolário da liberdade das pessoas de gerarem ou adotarem filhos. Logo, amar é uma faculdade, cuidar é dever. Por isso,
a  negligência  em  relação  ao  objetivo  dever  de  cuidado  é  ilícito  civil,  importando,  para  a  caracterização  do  dever  de  indenizar,
estabelecer a existência de dano e do necessário nexo causal.
Ao  julgar  o  REsp  1.159.242/SP,  o  STJ,  por  maioria,  deu  parcial  provimento  ao  recurso,  asseverando  que  a  existência  da
caracterização  do  dano  moral  em  face  do  abandono  afetivo  na  relação  parental,  mas  reduziu  o  valor  da  indenização  para  R$
200.000,00.
A indenização por danos morais em face do abandono afetivo não tem o escopo de aproximação familiar. A indenização não tem
por finalidade obrigar os pais a amarem seus filhos, ou vice e versa, tendo caráter de punição, compensação e pedagógico.
Tal  interpretação  do  STJ,  por  estar  voltada  a  atribuir  sentido  e  unidade  ao  ordenamento  jurídico,  deve  orientar  a  vida  social  e
pautar decisões judiciais; em outras palavras, a exegese do STJ, mediante valoração, define o sentido do direito com eficácia geral
diante da sociedade e obrigatória perante os juízes e tribunais inferiores, devendo guiar a solução dos casos iguais ou similares.22
Assim,  os  mesmos  parâmetros  objetivos,  usados  pelo  STJ  em  relação  ao  abandono  afetivo  na  relação  parental,  podem  ser
transpostos  ao  abandono  familiar  de  idosos,  devendo  dar  ensejo  à  reparação  dos  danos  morais  quando  restar  evidenciado  a
negligência do dever de cuidado.

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5. O exemplo chinês e a perspectiva legislativa no Brasil
Na China, recente Lei, em vigor desde julho de 2013, impõe a visita obrigatória parental, institucionalizando uma antiga tradição
chinesa, a de prestação de cuidados filiais aos pais idosos, que necessitam da presença afetiva dos filhos.
A  chamada  Lei  de  Proteção  dos  Direitos  e  Interesses  do  Idoso  revigora,  no  plano  jurídico­legal,  valores  morais  que  devem  ser
preservados na sociedade chinesa, despertando a consciência crítica dos mais jovens, no objetivo de os filhos não abandonarem os
pais.
A nova Lei alcança, como destinatários, cerca de 194 milhões de chineses, que compreende 14,3% da atual população, situada na
faixa  etária  superior  a  60  anos.  E,  nos  próximos  40  anos  (2053),  o  percentual  etário  de  idosos  será  elevado  para  35%  da
população, representando, então, cerca de 487 milhões de pessoas.
A Lei torna a visitação dos idosos obrigatória para inibir a prática de abandono afetivo pela ausência reiterada dos filhos.
Tal  ausência  tem  ensejado,  na  China,  inúmeras  demandas  judiciais  de  pais  abandonados,  que  reclamam  o  devido  suporte
emocional que lhes faltam, diante da omissão dos filhos que os abandonam.23
No Brasil, já há projeto de lei semelhante, apresentado na Câmara dos Deputados, para estabelecer sanções civis e punitivas aos
filhos que abandonem os pais idosos.
O  PL  4.294/2008,  do  Deputado  Carlos  Bezerra,  acrescenta  parágrafo  ao  art.  3.°  do  Estatuto  do  Idoso  para  incluir  previsão  de
indenização  por  dano  moral  decorrente  do  abandono  de  idosos  por  sua  família.  A  redação  dada  ao  parágrafo  estabelece:  “O
abandono afetivo sujeita os filhos ao pagamento de indenização por dano moral”.
Nesse sentido, o mesmo Projeto introduz o parágrafo único ao art. 1.632 do CC/2002 (LGL\2002\400), com a seguinte redação: “o
abandono afetivo sujeita os pais ao pagamento de indenização por dano moral”.
A tramitação do Projeto está estacionada desde 13.04.2011, quando a Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) aprovou o
parecer  do  relator,  Deputado  Antonio  Bulhões,  dando  nova  redação  ao  parágrafo  único  ao  art.  5.°  do  Estatuto  do  Idoso,  nestes
termos: “Comprovado o abandono afetivo por parte da família, caberá indenização por dano moral ao idoso (NR)”.
A  inovação  legislativa,  inobstante  a  possibilidade  de  a  matéria  ser  objeto  de  interpretação  judicial  pelas  Cortes  Supremas  (vide
item anterior), ganha enorme relevância jurídica, quando se verifica que a população idosa, no Brasil, chegará a 32 milhões em
2025, tornando nosso país o 6.° com maior população idosa de idosas no mundo.
Com efeito, a aprovação do PL 4.294/2008, em sentido similar ao exemplo chinês, representará importante avanço na proteção do
idoso contra o abandono afetivo, em que pese já existir o dever legal implícito, bem como o dever moral de assistência dos filhos
em relação aos pais.24
6. Conclusão
Os  direitos  dos  idosos  estão  expressos  na  Constituição  Federal  de  1988  e  no  Estatuto  do  Idoso  (Lei  10.741/2003),  entre  outros
dispositivos legais. O Estado, a sociedade e a família devem zelar para que não ocorra violação desses direitos.
Os  direitos  elencados  no  art.  3.°  do  Estatuto  do  Idoso  garantem  às  pessoas  com  idade  igual  ou  superior  a  60  anos  proteção
integral, favorecendo­lhes oportunidades e facilidades.
O Estatuto abriu amplos horizontes à construção de nova mentalidade sobre o processo de envelhecimento humano.
As  medidas  de  proteção  ao  idoso  são  aplicáveis  para  assegurar  os  direitos  reconhecidos  no  Estatuto  do  Idoso  quando  forem
ameaçados ou violados.
Abandono, desinteresse, solidão, manifestações do desprezo da sociedade para com a pessoa idosa, tiveram, durante séculos da
história da humanidade, efeitos devastadores para com o idoso.
A tutela jurisdicional dos direitos do idoso, relacionada ao abandono afetivo, consiste em uma importante emanação da dignidade
da pessoa humana (art. 1.°, III, da CF (LGL\1988\3)), além de fator de respeito necessário à construção de uma sociedade justa e
solidária (art. 3.°, I, da CF (LGL\1988\3)).
Dessa forma, a efetiva proteção jurídica de idosos abandonados afetivamente, também, contribui para uma visão constitucional do
processo  como  uma  ferramenta  para  a  efetivação  dos  direitos  fundamentais.  Assim,  a  tutela  ressarcitória  do  dano  moral,  sem
prejuízo  de  outras  formas  de  assegurar  o  direito  fundamental  à  tutela  jurisdicional  adequada  e  efetiva  (art.  5.°,  XXXV,  da  CF
(LGL\1988\3)), é um importante meio processual aplicável à tutela do abandono afetivo dos idosos.
A  orientação  do  STJ,  no  REsp  1.159.242/SP,  firmado  para  a  situação  de  abandono  afetivo  nas  relações  familiares,  deve  ser
estendido à hipótese de abandono afetivo de idosos.
Além  disso,  é  oportuna  a  aprovação  do  PL  4.294/2008  pelo  Congresso  Nacional,  a  fim  de  melhor  concretizar  os  valores
constitucionais da dignidade humana e da solidariedade, bem como dar mais efetividade aos direitos fundamentais dos idosos.
7. Referências bibliográficas
Alves,  Jones  Figueirêdo.  Filhas  que  abandonam.  Disponível  em:  [www.ibdfam.org.br/artigos/901/Filhos+que+abandonam%22].
Acesso em: 11.09.2013.
Arenhart, Sérgio Cruz. A tutela coletiva de interesses individuais. Para além dos interesses individuais homogêneos. São Paulo: Ed.
RT, 2013.
Cambi, Eduardo. Neoconstitucionalismo  e  neoprocessualismo.  Direitos  fundamentais,  políticas  públicas  e  protagonismo  judiciário.
2. ed. São Paulo: Ed. RT, 2011.
Casado, Maria. Cuestiones bioéticas en torno al envejecimiento. Revista Bioética. n. 19. p. 697. 2011.
Colucci,  Maria  da  Glória.  Vulnerabilidade  na  velhice  e  o  Estatuto  do  Idoso.  Disponível  em:  [http://
rubicandarascolucci.blogspot.com/2011/04/vulnerabilidadena­velhice­e­o­estatuto.html]. Acesso em: 09.11.2011.
Marinoni,  Luiz  Guilherme. O  STJ  enquanto  corte  de  precedentes.  Recompreensão  do  sistema  processual  da  Corte  Suprema.  São
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Mazzilli, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
Moraes, Alexandre de. Direito constitucional. 26. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
Papalia, Diane E. Desenvolvimento humano. 10. ed. São Paulo: McGraw­Hill, 2009.

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Rubio, David Sanches; Frutos, Juan Antonio Senent de. Teoría crítica del derecho. Nuevos horizontes. San Luis Potosí: Centro de
Estudios Jurídicos y Sociales Mispat, 2013.
Taquary, Eneida Orbage de Britto. O direito fundamental ao envelhecimento. Revista Jurídica Consulex.  n.  17.  p.  54.  São  Paulo,
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Toaldo,  Adriane  Medianeira;  Machado,  Hilza  Reis.  Abandono  afetivo  do  idoso  pelos  familiares:  indenização  por  danos  morais.
Disponível em: [www.ambito­juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11310]. Acesso em: 16.01.2013.
 
 
 
1 Taquary, Eneida Orbage de Britto. O direito fundamental ao envelhecimento. Revista Jurídica Consulex 17/54­56.
 
2 Papalia, Diane E. Desenvolvimento humano. 10. ed. São Paulo: McGraw­Hill, 2009. p. 693.
 
3 Taquary, Eneida Orbage de Britto. Op. cit., p. 54­56.
 
4 “(…) concibo derechos humanos desde una doble referencia: como articulación de tramas y procesos sociales, políticos,
económicos, culturales y jurídicos, de apertura y consolidación de espacios de lucha por concepciones particulares de dignidad
humana, por medio de las cuales cada ser humano con nombre y apellidos, sea reconocido como sujeto, con capacidad de
significar su realidad desde cada contexto particular. Es decir, en tanto sistemas de objetos (normas, instituciones, valores) y
acciones (prácticas) que posibilítenla lucha por las distintas concepciones de dignidad humana que defiende cada colectivo,
cultura, movimiento grupo social” (Rubio, David Sanches; Frutos, Juan AntonioSenent de. Teoría crítica del derecho. Nuevos
horizontes. San Luis Potosí: Centro de Estudios Jurídicos y SocialesMispat, 2013. p. 202).
 
5 Moraes, Alexandre de. Direito constitucional. 26. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 856.
 
6 Toaldo, Adriane Medianeira; Machado, Hilza Reis. Abandono afetivo do idoso pelos familiares: indenização por danos morais.
Disponível em: [www.ambito­juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11310]. Acesso em: 16.01.2013.
 
7 Colucci, Maria da Glória. Vulnerabilidade na velhice e o Estatuto do Idoso. Disponível em: [http://
rubicandarascolucci.blogspot.com/2011/04/vulnerabilidade­na­velhice­e­o­estatuto.html]. Acesso em: 09.11.2011.
 
8 “No tocante à proteção individual do idoso, o Ministério Público a fará sempre que haja indisponibilidade de interesse (como no
caso de incapacidade), ou quando o objeto da ação esteja relacionado com a idade avançada e a atuação protetiva ministerial seja
socialmente proveitosa” (Mazzilli, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 606).
 
9 A título de exemplo, vale mencionar o seguinte precedente: “12. A indenização por dano moral não é um preço pelo
padecimento da vítima ou de seu familiar, mas sim uma compensação parcial pela dor injusta, que lhe foi provocada, mecanismo
que visa a minorar seu sofrimento, diante do drama psicológico de perda a qual foi submetida. 13. No dano moral por morte, a dor
dos pais e filhos é presumida, sendo desnecessária fundamentação extensiva a respeito, cabendo ao réu fazer prova em sentido
contrário, como na hipótese de distanciamento afetivo ou inimizade entre o falecido e aquele que postula indenização” (REsp
866.450/RS, 2.ª T., j. 24.04.2007, rel. Min. Herman Benjamin, DJe 07.03.2008).
 
10 Na Espanha, Maria Casado relata que hoje é evidente a necessidade existente de velar pelas pessoas de idade avançada, pois
se trata de uma parte da população que, frequentemente, se encontra em situações de vulnerabilidade. Cfr. Cuestiones bioéticas
en torno al envejecimiento. Revista Bioética 19/697­712.
 
11 Colucci, Maria da Glória. Op. cit.
 
12 Para a definição dos interesses individuais sujeitos à tutela coletiva, conferir: Arenhart, Sérgio Cruz. A tutela coletiva de
interesses individuais. Para além dos interesses individuais homogêneos. São Paulo: Ed. RT, 2013. p. 142­202.
 
13 Cambi, Eduardo. Neoconstitucionalismo e neoprocessualismo. Direitos fundamentais, políticas públicas e protagonismo
judiciário. 2. ed. São Paulo: Ed. RT, 2011. p. 218­225.
 
14 “A legislação de amparo dos sujeitos vulneráveis e dos interesses difusos e coletivos deve ser interpretada da maneira que lhes
seja mais favorável e melhor possa viabilizar, no plano da eficácia, a prestação jurisdicional e a ratio essendi da norma” (REsp
1198727/MG, 2.ª T., j. 14.08.2012, rel. Min. Herman Benjamin, DJe 09.05.2013).
 
15 Em situação concreta, que versava sobre o dever de informação das indústrias alimentícias, quanto a advertência nos rótulos
dos produtos sobre os riscos que o glúten, presente na composição de certos alimentos industrializados, apresenta à saúde e à
segurança de uma categoria de consumidores (os portadores de doença celíaca), bem decidiu o STJ: “17. No campo da saúde e da
segurança do consumidor (e com maior razão quanto a alimentos e medicamentos), em que as normas de proteção devem ser
interpretadas com maior rigor, por conta dos bens jurídicos em questão, seria um despropósito falar em dever de informar
baseado no homo medius ou na generalidade dos consumidores, o que levaria a informação a não atingir quem mais dela precisa,
pois os que padecem de enfermidades ou de necessidades especiais são frequentemente a minoria no amplo universo dos
consumidores. 18. Ao Estado Social importam não apenas os vulneráveis, mas sobretudo os hipervulneráveis, pois são esses que,
exatamente por serem minoritários e amiúde discriminados ou ignorados, mais sofrem com a massificação do consumo e a
‘pasteurização’ das diferenças que caracterizam e enriquecem a sociedade moderna. 19. Ser diferente ou minoria, por doença ou
qualquer outra razão, não é ser menos consumidor, nem menos cidadão, tampouco merecer direitos de segunda classe ou
proteção apenas retórica do legislador. 20. O fornecedor tem o dever de informar que o produto ou serviço pode causar malefícios
a um grupo de pessoas, embora não seja prejudicial à generalidade da população, pois o que o ordenamento pretende resguardar
não é somente a vida de muitos, mas também a vida de poucos” (REsp 586.316/MG, 2.ª T., j. 17.04.2007, rel. Min. Herman
Benjamin, DJe 19.03.2009).
 
16 TJMG, Processo 2.0000.00.408550­5/00, j. 01.04.2004, rel. Des. Unias Silva.
 
17 TJSP, Ap c/ Rev 5119034700, j. 12.08.2008, rel. Des. Caetano Lagrasta.
 
18 TJMG, Ap 10479.06.112320­0/001, j. 18.03.2008, rel. Des. Unias Silva.
 

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24/08/2018 Envio | Revista dos Tribunais
19 REsp 757.411/MG, 4.ª T., j. 29.11.2005, rel. Min. Fernando Gonçalves, DJ 27.03.2006, p. 299.
 
20 REsp 514.350/SP, 4.ª T., j. 28.04.2009, rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJe 25.05.2009.
 
21 REsp 1159242/SP, 3.ª T., j. 24.04.2012, rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 10.05.2012.
 
22 Marinoni, Luiz Guilherme. O STJ enquanto corte de precedentes. Recompreensão do sistema processual da Corte Suprema. São
Paulo: Ed. RT, 2013. p. 158­159.
 
23 Alves, Jones Figueirêdo. Filhas que abandonam. Disponível em: [www.ibdfam.org.br/artigos/901/
Filhos+que+abandonam%22]. Acesso em: 11.09.2013.
 
24 “A obrigação dos filhos diante os pais idosos tem sede constitucional, e vai além do direito de família, conforme princípio de
solidariedade familiar, não seja preciso escrever na lei, obrigações morais, de proteção afetiva, quando bastaria o compromisso de
dignidade nas relações familiares, o exemplo chinês é oportuno, quando se edita a lei, é um aviso legal de uma obrigação afetiva
de cuidado” (Alves, Jones Figueirêdo. Op. cit.).
     

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