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SAN TIAGO DANTAS

Capa de
SÉRGIO FRAGOSO

'+

P
DOM QuiXOTE
Um apólogo da alma ocidental

2' edição, revista


Exemplar NO

Prefácio de
AUGUSTO FRB]DERICO SCHMIDT

Depoimento de
AFONSO ARINOSDE MELOFRANCO
SBD-FFLCH-USP

fP.c'

Direitos reservados às .i..;ic..,A


EDIÇÕESTEMI'O BRASILEIRO liTDA.
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Rio de Janeiro -- GB -- BRASIL
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A AuÉusto Frederico Schmidt

DEDALUS - Acervo - FFLCH

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ÍNDICE

Prefácio :
Augusto Ft'ederico Schmidt XI

Depoimer to :
.$ Afonso Arinos de Meio Franco xvn
3
QUASE UMPREFÁCIO
1 -- SEN'HDO DO QUIXOTn. A refle-
xão sôbreas reflexões. As grandescon-
tradições. A comédia,e o drama. O louco 9
e discreto. Julgamento da cavalaria,

11 -- A QIJESTÃO CE;NTRAL. Heroís-


mo. Os atributos do herói. A pureza.
A fé. Q.Êplgédiodg..Montesinos.-
O dom
de si mesmo 27

111-- 0 AMOR. O amor antigo. He-


loísa,e Abelardo. Duas fábulas do amor
moderno. O amor titânico. O amor qui-
53
xotesco. O símbolo e a, salvação

l
)
t
No fundo, bem no fundo, não seriam PREFÁCIO
+
tão opostos o personagem cervanti-
&

no -- SenhorDom Quixote de La Mancha-- e o


lúcido ProfessorFranciscoClementino San Trago
cantas. Ao fidalgo manchego,Cavaleiroda Triste
Figura, subiu à cabeçaa má literatura do seutem-
# po, de conteúdofantasista;ao líder brasileiro,a
vontade de se a])assar do miando o precipitou no
sofrimento, numa espécie de autopunição, de pe-
nitência no deserto.
/

.+
Não, não é impossívelo'paralelo ou, pelo me-
nos, não são tão contrários os dois: o nosso intelec-
tual ou político, e o personagemfilho apenasdo ho-
mem e marcado para as grandes tarefas reparado
+

ras, justiçadoras e nobres. As ''saladas'' quixotes-


d
cas e as peregrinações eleitorais de San Tiago pos-
f3' suem, na sua essência, a mesma origem: a deforma-
ção da imagem do mundo, o julgamento dos seus
deverescom uma total indiferença pelo que se
chama 7eaZidade, e que é apenas:"a maneira soli-
dária com quc a loucura contempla e realiza as coi'
sas que parece /& ser e os sentimentos que habitam
e movem os sêreshumanos, os objetos e brinque-
J. dos dêste reino terrestrc.
Alongo Quijano e Francisco Clementino, em
certas épocas de suas vidas, abandonaram o coii-

t fârto e passarama lutar, a sollrernas estudas e a


ser repelidos em tudo o que tentavam. Armara-se

XI
o herói cervantino.de uma estapafúrdiainstrumen- taco que, para desculpar-se do seu sangue de nobre,
tália de combate, e se oferecia de peito aberto aos aceitava as tarefas menos condizentes com a sua
seus inimigos imaginários; preparou-se, também, grandezaintelectual e com a força de suasarmas.
J)antas, longamente, para a conquista do poder. Compreendera excessivamente (como sempre Ihe
Desde a adolescência estudou, aliou a espada, uti- acontecia) a realidade -- mas a compreenderade
lizou a poderosa máquina de compreender de que } tal forma, que essarealidadeIhe fugira afinal e
eta dotado. Ao Senhor Dom Quixote, vestiu-o o passara a ser um conceito, uma fuga, uma evasão.
seu autor com a túnica de pureza, a fim de pre- -- ''Se conheço o pensamento grego" -- meditaria
serva-loùnicamente da loucura, ou para que esta & certamente o Mestre brasileiro na sua humildade
não o imolasse; San Tiago nasceu para classificar
--, ''se dou nome certo aos problemas mais incer-
e clarificar as coisas, distingui-las, nomes-las, reti- tos, devo corrigir-me guardando os "patos" do meu
ra-las da obscuridade, fazê-las acessíveis ao enten-
Senhor. É a minha clarividência que me cega.'
dimento sem, no entanto, vulgarizá-las -- conser- + Dessameditação quase mística é que incidia o seu
vando-lhes a elgância necessáriagraças a uma julgamento da política num êiro fundamental:
formulação correm, simples. Dom Quixote man- a(omodar-see aceitai a grande penitência dos con-
teve-secoerente com o seu alto e nobre engano até
a vésperada morte; San.Tiago Dantes,até o fim T tados inconvenientes e inadequados. O antiquixo-
te aparenteficou dias e dias de cabeçabaixa na
defendeu-se da pecha de incoerência e permaneceu
Serra Morena do partídarismo. Quando aos seus
impávido, fiel a tudo aquilo a que se abandonara;
olhos desVendadores passava a verdadeira ])u]ci-
l)om Quixote convem-teu-se, porém, à lucidez e caí- + néia, julgava-aSan Tiago a labregade hálito for-
mm-lhe as escamasdos olhos. Seu fim foi terrível
te, que tangia pelas estudas bichos Úteise jamais
porque se despiu de tal maneira de suas fantasias era seguida pelos falcões ou pelas aves insólitas e
que terminou por deformam essa realidade à força + noturnas. Via com olhos magroso que era para
de escravizá-la,de retirar-lhe qualquer sonho, qual- ser visto planturoso, gordo, abundante. Descarna-
quer encantamento. .Foi tão longe a negação quixo- va os sonhosaté o ponto de reconduzi-losde novo
tesca,no filial da vida do Cavaleiro,
que as pró- à suaprópria origem. O Senhorfidalgo de La Man-
prias pedras se comoveram e Sancho Pança .cuidou
cha, porém, era de uin perfeito equilíbrio em tudo.
que houvesseenlouquecido o seu aDIo de realidade.
Ao contrário de San Tiago Danças, buscava o abso-
San Trago Danças,político, nada renegouporém.
Na hora supremada agonia,ou da luta final, con-
fidenciou aos seus amigos que chegara para ê]e a
l luto, desdenhava as honrarias; não se verificava em
sua alma nenhum movimento pendular; inclina-
va-se invariàvelmente para uma só direção: aque-
fan de Job. Mantinha a máscma do "não está
la que Ihe trazia maiores riscos, maiores perigos,
acontecendo nada". Permanecia aparentemente fiel
maiores sofrimentos e jamais qualquer proveito.
aa sõupersonagemexterior, à sua atitude de polí- San Tiago, porém, se desventuiava ao dizer-se con-
Xll xm
tente com o que praticou contra a sua própria eco- Êsse "Dom Quixote", "um apólogo da alma
nomia espiritual e intelectual. ocidental", é uma espéciede estudoiemá7zficodo
Insisto no tcma da penitência de San Tiago; personagemde Miguel de CervantesSaavedra.San
de um certo momento de sua vida em diante, trans- Tiago apalpa com as pinças do entendimento as
formou-seem político, em lí(ter do antigo petebis- + transformações
do tipo até vê-loinstaladona sua
y
categoria de símbolo, em símbolo mudado. É uma
nlo. Pala San Trago, deve ter sido uma verdadei-
verdadeira viagem essaclarificadora, definidora ou
r.i expiação a permanência nesse baixo plano es-
transfiguradora. Em Quixote,. saído das mãos do
tagnado da política. Como herói cervantino que,
na SerraMorena, ficava de cabeçapara baixo em
+ seuautor frescoe virginal, mas curvo e triste, en-
contramos perenemente êsse homem humaníssimo
vigilância e atenção ao seu perfeito Amor, Mestre
Danças se penitenciava de .ser quem era, de sua al- e bom -- D. Miguel de Cervantes Saavedra--, cuja
vida foi uma ininterrupta seqüência de fracassos,
tura intelectual,'qio seu preparo, de sua cultura, r
rnilitando num pa\tido político que, então, ainda uma cadeia de frustrações,como hoje se diz: frus-
tações nas guerras que o deformaram, no casamen-
não estavaem condiçõesde compreendê-lo,que não
se motivava senão pelo interêsse, pela conquista to que o deixou ainda mais solitário, nos trabalhos,
do poder i 4 ilo ganha-pão burocrático que o levou ao cárcere
por imprudência (dinheiro público colocado em
Mas não quero insistir no que me poderia banco que faliu) ; durante toda a sua vida Cervan-
ocupar muitas páginas. Acho apenasnecessáriodi- tes foi habitado por Dom Quixote.
zer ainda que essa espécie de paralelismo absurdo
'}
enfie o assunto desta conferência admirável e o Reencontro apoia o tema de minha própria
seu conferencistanasceu-mêda lembrança de um l
conferência,na mesma série em que falaram ma-
gistralmente Francísco Campos e Francisco Cllemen-
jôgo a que outrora nosentregávamos
os dois -- San
Tiago e eu. Distraíamo-nos, muitas vêzes, proce- -t- tino San Trago Dantas, entre outros. Êssemeu tra.
galho -- de que já não me lembro mais e cujo tcx-
dendo a uma crescentesimplificação dos sêrespara,
em seguida, tentarmos aproxima-los, por mais opos- to estáperdido -- s6 reviveu porque mereceua re-
ferência de San Tiago quando êste,na sua admi-
tos que fossem.
rável conferência,observou o fato de ter sido a "so-
lidão de Dom Quixote" o tema por mim escolhi-
esta conferência -- uma das realizadas na co- do. A maior das razõesda solidão do bom Fidalgo
memoração do IV Centenário de Cervantes, eiu
+.

da Mancha consiste, primeiramente, nos seus cons-


1947-- dará a medida do que foi San Tiago Dan tantes desencontros; nasceu ''cavaleiro andante"
tas, da sua cultura, do seu poder de análise, de numa hora em que não havia mais lugar nem mes
sua capacidade de respirar nos mais. altos domí- i mo para o heroísmo. Homem de uma época,viveu
nios do pensamento e dos sentimentos humanos. dum período. Deus Ihe deu essacontradição:fê-lo
Xlv xv
um sublimeretardatário.Amou de maneiraque
não se amavamais no seu tempo. Via Dülcinéia
quando s6 existiam Aldonças e Maritotnes. Encon-
trava ''encantadas:s" quando não mais havia "en-
cantadores'' ou "ê)peritos'' pelas estudas. Da ca-
beça aos pés, no espírito, no entendimento, no co-
ração era todo êle um desencontro. Dêssedescom- Apesar de operada há tanto tempo SANA TIAGO
passoé que seoriginou a sua perenidade. "Não vai ez mais por êle do que por nób
morrer. Que será feito dêle'' -- dizia-me Louis Jou- seus amigos diegados p- a mort© de San Tiago Dan-
vet, um dosgrandesdo teatro de todos os tempos ças causou-me profundo abafo.11(]om. êle desapare'
-- "na hora do Juízo Final? Para onde ilá êssevivo, ce a figura que, tomada no conjunto da sua rica
que não é filho de Deus,mas tão'sementedo ho- complexidade, cra, provàvelmente, a mais impor-
mem, quando tudo se fâr?'' Ninguém saberá res- tante da minha geração. No .primeiro volume dês-
ponder a essapergunta. Não o soube San Trago te livro deixei dito como conhed San Trago, há 35
Dantas. Nem Unamuno, nem Ortega y Gasset,nem anos, nos tempos heróicos da livraria de Schmidt,
qualquer ouu-o dos grandes pensadores e mergu- na Rua Rodrigo:Bilva, e como êle, Jorre Amado,
lhadores de almas, que se debruçaram sabre essa Schmidt e Hamilton Nogueirap entre ouros, fo-
estranha, ridícula e sublime figura que emerge em ram, para mim, a revelaçãode que a.literatura bra
certos momentos nas criaturas feitas à imagem de fileira deixava de ser semente estética e se trans.
Deus e que povoam com os seus sofrimentos e ale- formava em espelho de crítica modal e de afirma-
grias êste planêta. ção ideológica: de esquerda, de direita ou refor-
Revejo agora San Tiago Dantas na sua tribu-l mista cristã. San Trago era, então, pouco mais que
na de conferencista, conferindo, com palavras pre- um adolescente; ainda não cumprirá 20 anos. Clleio
cisas,o Solitário da Esperança,o Cavaleiroda Tris- d( corpo, mas não gordo; cabelos pouco .abundan
te Figura. Falava Mestre Danças com todas as vir- te', mas não c'l"; as !'ntes possas já he corta.
tudes da claridade e da penetração. Sua voz, que vam o perfil marcado e belo, que herdara dos Car-
vimos, depois, rasgada e perdida, era então bela, neiro de Mendonça, família por cujo mngue seus
harmoniosa, voz de quem compreende, de quem antepassados Haternos se ligavam longinquamente
sabe o que está dizendo. Para onde foi essavoz que aos meus, paternos, na então também longínqua
era a de um escultor cuja matéria-prima era a pró- Paracatu. Foram as glórias esquecidas e humanas
pria palavra? do comum berço sertanejo, o assunto de algumas
Mas já é tempo que o leiam os que não tive- das nossasprimeiras conversas.San Trago amava
ram a graça,a alegria, a ventura de ouvi-lo. profundamente a mãe, que entroncava em Dona
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT Josefa Carneiro de Mendonça Franco, a brava re-

x\'l XVH
volucionária de 1842,também minha parenta e so- conduzir ao êrmo. Quando chamava a atenção de
gra do Visconde de Abaeté.
San Trago para esta verdade, e para os perigos pa-
Cultuavaigualmentemuito a mem(áriada av(5 radoxais que ela encerra, êle respondia sempre, rin-
paracatuense, teãqo por ela uma espécie de curio- do, que não compreendia a minha afirmativa e que,
sidade construtiva, que logo me pareceu influen- se ela fossecerta, não haveria remédio para êle, que
ciada pelas leituras de Marcel Proust, para quem, não conseguiaagir senão em função de prévios es-
como se sabe, personifica também, em outra quemas racionais.
geração,a mãe amada,e é objeto de uma análise "Já reparei que você -- disse-me êle um dia --
psicológica cujo rigor ofuscante só parece atenuada só consegue pensar de pena na mão, ou instalado
pela ternura. O retrato da avó, que me mostra-
na tribuna; elaborar e compor são,para você, aios
va num .velho daguerreótipo, envolta em sêda ne- conjuntos, mas eu não sou assim. No fundo não sei
gra, parecia-me a mim, também leitor de Proust, o
bcm se você faz o que pensa, ou pensa o que faz.
símbolo de uma atitude literária; portanto artifi-
Confesso que esta resposta à minha crítica atingiu-
cial. Mas êstejulgamento era um êrmo,como mais
tarde vim a verificar. O intelectualismo de San
me em cheio. Por isto mesmonão gostei. Mas
aquela que eu Ihe fazia não era menos exala. O
Trago, fosseêle literário, jurídico ou político, não
mal de uma inteligênciapolítica superlúcida,como
era artificial , mas instrumental. Certos espíritos
a de San.Tiago, é que, abandonadaa seupróprio
captam o real pelo sensível, intuitivamente; outros,
movimento e distanciada da sensibilidade, tende
fortes mas rombudos, devastam a realidade quando
invencivelmentea sobrepor,ao que é, aquilo quc
supõemapresá-lapela força; finalmente alguns,e,
deve ser. A Filosofia do Direito alemã, principal-
entre êsses,conspicuamente,o de San Trago, só são
mente depois de Hans Kelsen, vulgarizou as duas
capazesde penetrar a realidade com o agudo esti-
n.oções sociais do ser (sem) e do dever ser (ioZZen).
lête do raciocínio. Não que êle, San Tiago, fosse
Alas se, na construção das hipótesesjurídicas, nas
insensível. Ao contrário, sensível era, e muito. Mas,
altitudes rarefeitas do pensamento kelseniano, o Di-
nêle, a sensibilidade só funcionava no campo afe-
reito se funde mais no abstrato do se/Ze7z
do que no
tivo; nunca incluía na conduta, cuja pauta só era
concreto do hein (porque, de certa forma, a essên-
marcactapelas notas da inteligência. Verifiquei,
cia ética e racional do Direito transcende e supe-
aos poucos,que isto Ihe era inerente e, pois, nada
i;i a sua exisfê?Teia
social) já em política isto é im-
tinha de artificial. Em toda a sua vida, principal-
possível.Em política não se pode atingir o que
mente na sua vida pública, os erros de apreciação e
deve ser senão pelo que é. Esta marcha, às vêzes
de conduta em que incorreu provieram, paradoxal-
pcclregosa, às vêzes pantanosa, através do irracional,
!nente, dêste claríssimo poder de raciocínio. Poi-
é que San Trago. era incapaz de empreender. Falta-
queáem certasoportunidadesda política, a inteli-
ram àquele Anel as necessárias gatas do sangue de
gência, tanto mais clara seja, mais riscos corre dc
Caliban. Êle tomava pelo real o que não era, prà-
xvm
priamente, fanblÊja, mas aparência, criada pelo ra« expunha,criava com a suahabitual facúndia e lu-
ciocínio. (]onstruià uma realidadelógica,que pre- cidez. Quando chegamosà porta do hotel o moto-
tendia tomar como vital. Incidia, então, nos erros rista perguntou-nos se tínhamos pressa. Que não,
que surpreendiam mais aos amigos que a êle pró- foi nossa resposta surprêsa. Então o rapaz pediu-
prio, porque encontrava, sempre, outras razões ló- -nos apenas esta coisa extraordinária: que ficásse-
gicas para explicar os motivos do seu êrro, razões +

mos dentro do carro, parados, com San Tiago con-


da mesmaclaridade daquelas que em breve o po- tlnuando a falar. O maço uruguaio, que entendia
deriam levar a errar novamente.
português, estava maravilhado com o que ouvia.
Em país diferente do Brasil, onde os aconteci- Claro que nos sentimoslogo estupidificadoscom
mentos políticos tomam ainda feição rústica ou na- esta estranha necessidade de exibir, como num cir-
co, a acrobacia das idéias. Saímos corridos com a
tural (como as enchentes e as sêcas) e muito pou-
nossa súbita burrice.
casvozesracional, um homem como San Trago, que
da natureza só conhecia diretamente as saladas,
Revejo o brilhante concursode Direito Civil,
não conquistaria fàcilmente a confiança dos gru-
a cujasprovasassisti;a rápida ascensão
na carreira
pos elementares,de cujas maquinações depende a de advogado, que o levou às culminâncias da pro-
partilha do Poder. Em uma palavra, êle era supe- hssão, no País. Seu sucessona advocacia era mar.
q%+.
rior ao seumeio, e ao seu tempo. De qualquer ma-
cedo pela mudança sucessivade residências.A
neira, sua presença era imensamente importante,
talvez insubstituível. Sua falta ficará marcada em princípio a casinha minúscula, com livros pelo
chão, em uma rua de lpanema, que nem calçada
nossomeio pelo vaziodo seulugar. O pobre Bra-
era. Depois o apartamento de primeiro andar, em
si] fica mais pobre, menos capaz de soluções, sem
êle um bom prédio dividido em duasmoradias,na
Rua Barão de Jaguaribe. Em seguida a compra
Percorro de memória o longo, nunca aciden- do andar térreo, para o alargamento da biblioteca;
tado caminho de nossa amizade a bem dizer fra-
os primeiros trastes de luxo (foi em sua casa que,
terna. Lembro-me de nossa viagem universitária
pela primeira vez, assisti à televisão); as reprodu-
ao Uiuguai, em 1938,onde fomosrepresentar
o
ções de quadros famosos, trocadas por originais de
Brasi!, a convite do Mini$uo Capanema,em uin
boa qualidade. Enfim a bela mansão desta mes-
curso IRtíno-americano. Lá conhecemosprofessores,
que viemos a encontrar depois, em conferências in- ]na Rua Dona Mariana; o painel de Portinari, a
tapeçariade Luçart, o quadro de Duffy, a magna
ternacionais. Recordo de um episódio curioso
dessaviagem,que, no dia de sua morte, me foi re- fica biblioteca: mansãode onde saímosa pé, para
acompanha-lo no seu repouso
lembrado por Dirá de Queiras, que dêle o ouvira.
vínhamosos dois, em um táxi, à noite, de Pocitos Lembro ainda nossos dias de convívio em
para Carrasco, em Montevidéu. San Tiago falava, li.oma, êJevindo de Nova lorque, para balizar um
xxl
elos meus netinhos. Nossos passeios vagarosos pelas esta parte, êle jogava indiferentemente as suas pa-
ruas ilustres, nossasvisitas aos livreiros antiquários, radasnos dois tabuleiros,o da vida e o da morte;
êle me pedindo que Ihe falassede Stendhalna Ci. se restava ambição, ela transcendeu do pessoal
dade Edema. .
para o nacional, pois, sabendo-seperdido, sua vo-
Fiquei comovido quando Roberto Campos ca- caçãode homem público o fêz trabalhar até o fim,
ntunicou-me que eu havia sido eleito, pelos mais
.+

r,o encontro de soluções nacionais de que sabia não


velhosamigosde San Tiago, para exprimir a emo- podem'mais participar. Na véspera da crise final,
ção comumà. beira do seu túmulo. Possodizer que o prostrou, disse-me pelo telefone: "Estou
que, dos vários pleitos, políticos ou não, em que como ÀÍallamié, quc afirmava não se interessar
tenho me metido, desdeo de orador da turma do pelo contingente, mas só sentir atração pelo abso-
(olégio, nenhuma escolha me sensibilizou tanto luto.
como aquela, feita por um reduzido grupo, em Em breve dois sentimentos crescerão enorme
momento de tal responsabilidade e significação. n3ente,no Bl-anil,para com a memória de San Tia.
Procurei falar como se San Trago nos estivessereal- gc Danças: o respeito e o arrependimento.
mente ouvindo; e não estaria? Procurei dizer na-
quela estranha presença insensível, o que sempre fa- AFONSOARINOS DE MEIO FRANGO
b. lávamosdêle, na sua ausência. Falando tinha a
(Trecho do segundo volume, em pro-
impressãode que, do fundo do claro mistério, êle püi'o, do livro .A Alma do Tempo.)
podia ouvir, semconstrangimento,o que a discri-
ção nos fazia calar. E disse aquilo que realmente
estavano fundo de todosnós. Que a êle, como es-
tadista, se aplicava,no Brasil, o que há pouco se
disse de Churchill, na Câmara dos Comuns: os mais
velhos não conheceram ninguém parecido; os mais
novos dificilmente encontrarão outro igual. Obser-
vei depois que, como homem, sõmcnte a morte veio
dar-lhe a verdadeira dimensão de grandeza. Tudo
o que nêle se acusavade versatilidade,hedonismo,
ambição e vaidade, se sublimou naquele fim, espar-
tana pela bravura, estóico pela modéstia e mode-
ração. Se vaidade havia, ela se fundiu no esforço
de não provocar piedade, de não fazer sofrer os que
n amavam; se existia versatilidade e hedonismo.
identificaram-sena calma com que, de um ano a
XXll XXlll
DOM QuiXOTE

K
i

-#

{
'+
O estudo a que me proponho, QUASE UM
.& nos breves limites desta pa- PREFÁCIO
lestra, e com o qual espero Contribuir
modestamente para a homenagem que
se vem aqui rendendo ao gênio de CEn-
VANTES
e à perenidadede sua obra, #
não pertence ao domínio da crítica lite-
4 rária, e ainda menos ao das investiga-
ções históricas ou filológicas .
Se me é lícito empregar um dos têr-
L
mos favoritos da filosofia moderna, di-
rei que vou tratar do Quixote como sím-
&'
bolo, isto é, do sentido que o próprio
Quixote adquiriu refletindo-se secular-
mente na consciência .ocidentalj onde
se tornou, a meu ver, uma fábula cons-
trutiva, um episódio exemplar, a cuja
luz julgamos muitas de nossaspróprias
experiências, e de que tomamos mode-
lo para muitas de nossas aspirações .

(+) Ciclo de contei'ências realizado eJn comemoração (io


4p centenário cle Cervantes, no auditório do 'Minis-
tério da Educação;
sob a presidência
do Exmo.Sr.
Embaixador da Espanha. t
3
Conhecimento O examedêssetemanão seu protagonista, ou criador. A segun-
simbólico dispensa a enunciação de
da ordem de conhecimento a que me re- »
algumas idéias gerais preliminares. firo é o conhecimento õimbóZioo: um fa-
Procurarei ser nelas muito breve, \ex- to histórico, uma obra artística ou lite-
plicando apenas o que entendo pelo co- +
rária, ao se projetarem no tempo, adqui-
nhecimento simbólico' de uma obra lite-
rem um sentido. Raramente será o que
rária, noção que vos é familiar, mas se continha nas intenções do autor, em-
que, como toda noção propedêutica, es- + bora possamos admitir que um criador
tá sujeita a ser empregadanum senti- de obra de arte ou um protagonista his-
do pessoal, já deformado pelas aplica-
tórico tenham tido a visão, já direi pro-
ções que dela pretende tirar o nosso
fética, do que sua anão iria significar
pensamento .
na dimensão do tempo. Tal coincidên-
Não é só a obra literária,
mostra suscetível de um conhecimento
que se
.4, .cía entre o pensamento do autor e o
sentido da obra. é, porém, puramente
simbólico. A obra de arte em geral, e ocasional e irrelevante.
os próprios fatos históricos, estão su-
Seu sentido, é a própria obra que o
jeitos a uma dupla ordem de especula- engendra, projetando-se no tempo. Ne-
ção e de conhecimento: em primeiro lu-
la se vem exprimir ou condensar, origi-
gar podem ser vistos e estudados como
nariamente, uma situação suscetível de
um /ato, que se verificou em condições
repetir-se muitas vêzes,.ou um movi-
de tempo e de espaço determinadas. mento fundamental do homem ou da so-
Partindo dêsseponto de vista, o conhe- ciedade,que através dela se revela à
cimento que obtemos é de critico, e nê- consciência comum. Mas por ser, no
le se compreendenão só a identificação momento em que é criada, uma conden-
e caracterização do fato artístico ou his-
sação exemplar da realidade, não fixou
tórico, como o estudo de seus antece-
a obra de arte ou o fato histórico para
dentes,da,sinfluências externas ou in- sempre o seu sentido. Depois de ilumi-
ternas que agiram sôbre êle e sabre o nar o mundo real, tornando-o inteligí-
4
5

a
f' \-'
vel, um incessanteintercâmbio se ini- bula quixotesca vem sendoum.dos múl-
cia, pois, de um lado, a obra de ar.te irra,- tiplos moldes em que o espírito moder-
dia sabre a existência a sua fôrça per- no tem plasmadosua concepçãodifusa
suasiva, e de outro lado recebe da cons- da existência.
ciência humana novos matizes de com- JAEGIR,no seu grande livro sôbre
preensão,que Ihe enriquecem o sentido. a cultura helênica, mostra como o poe-
.l)e modo que o sentido de um fato ma homérico e o herói homérico servi-
artístico ou histórico é sempre o estado
+ ram de exercício espiritual para a for-
atual de um laborioso e permanente pro- mação do ideal aristocrático do bnmem
cessode trocas entre êle e o espírito que f. antigo:
o considera : êste, elaborando a signifi-
cação e a eficácia exemplar do que exa- ''O patAos do alto destino he-
mina ; aquêle, operando, por sua vez, sa- 4 róico do homem é o alento espiri-
bre a realidade, pela fulguração mo- tual da llíada. O etAos da cultura
mentânea que lança sabre a obscurida- e da moral aristocráticas acha o
de da existência. J poemade sua vida na Odisséia.''
Ao dizer que vou tratar do Quixote (Paide4a, 1, p. 57)
como símbolo, quero significar, portan-
to, que não me vou ocupar dessa obra Entre os exercícios espirituais que
como fato literário, mas do sentido que têm servido à formação do homem mo-
ela adquiriu ao se projetar na cons- derno, ou por Ihe apontarem exemplos,
ciência do mundo ocidental, especial- ou por fixarem seus permanentes pro-
mente do mundo hispânico. Como apó- blemas, quero indicar o posto saliente
logo, o Quíxote- torna inteligíveis certos que cabe ao Qwiaofe, de Miguel de CKn-
recessos dessa consciência; dêle advém VANTES. E para isso nada melhor do
u m a considerável contribuição de que examina-lo à luz do nosso próprio
advertências e de exemplo; não há exa- entendimento, mirando-o na imagem
gêro em dizer, segundo penso, que a fá- que êle deixa refletida em nossa própria
6 7
,F

consciência,pois, como todos sabem, a


experiência individual da obra literária
é oUI.mais seguro instrumento da sua
compreensão universal.

Numa das suas conversas SENTIDO DO


COm ECKERMANN,d IZ I a QUIX(yI'B
GoETnE, a propósito do F'awsto :

"Ao menos uma vez, tenham


coragem de se abandonarem às
suas impressões, de se deixarem di-
vertir. de se deixarem comover, de
se deixarem. elevar, instruir, infla-
mar e encorajar por alguma coisa
de grande; .e não pensem sempre
que tudo está perdido quando não
se pode descobrir no fundo de uma
obra, alguma idéia ou pensamento
abstrato. Perguntam-me que idéia
eu procurei encarnar no meu Faus-
to! Como se eu soubesse,como se
eu mesmo o pudesse dizer! (oon-
uerõa do dÍa 6 de maio de 1827) .''
Outra não havia de ser, pensoeu,
a resposta de CERVAmTES
a quem hoje
9
Bem sei que uma grande obra vale
Ihe pedisse o conceito, a significação
abstrata (io D. Quixote. e influi, mesmosem ser integralmente
Compreendida . Mas a tarefa da inteli-
E, entretanto,procurar reduzir a gência humana é tirar o valor das coi-
obra de arte a um conceito,é um pro- sas da obscuridade para a luz.
cesso de compreensãoinerente ao espí-
rito moderno .>.Por detrás dos ''Cinco No caso particular qa Quixote ex-
livros de Pantagruel'T, como das tragé- tremam-se, ao mesmo tempo,-.a-ânsia e
dias de SnAKZSPEAnE ou de RAclKE, do a dificuldade de compreender. Nenhum
teatro de IBSEN ou do rom.ande de livro será talvez':ilãã difícil de reduzir
PKousT, a tendência erres;;iliçêí'ão nos: a uma fórmula abstrata que Ihe equi-
se espírita..é procurar uma idél3z.. de valha, e ao mesmo tempo, pelo seu as-
que a obra de ã1lle seja..i.cábula, e que pecto apologal, nenhum outro exige tan-
nos traduza, em têrmos racionais, a es- to um ato de compreeniãõjlena, em
sência e a eficácia da criação. que se esclareçam.o. sentido de .cada epi- l
sódio,..Qln:.q!!g.se..Bsolvam as dúvidas e /
Parece-me realmente absurdo que perplexidades. diante .de cada persona- ?
se fôsse perguntar a GoETnE ou a CEK- gem,e a partir do qual se dissipemos \
VANTESo sentido do Fausto e do D. Qui-
juízos contraditórios, a que sua leitura .J
xote. Seria supor que essas grandes nos conduz.
obras fossem apenasa ilustração de
uma tese, preconcebida no espírito do QqQ..quer.4ilçz:.tç4Ç}Jsto.= é a per-
autor. O queconsidero,porém,legíti- gunta que não sai da mente do leitor do
mo, é que se indague do sentido simbó- Quixote, e para a qual êle espera alcan-
lico de qualquer dessas obras, isto é, da çar respostano capítulo seguinte. Mas
significação que cada uma assumiu na o capítulo seguinte passa,e não raro
perspectiva do tempo, pela operação apenastraz um desmentido às explica-
combinada das intenções do seu auto! ções que se Ihe iam formulando, e o li-
vro se encerra, deixando irresolvido o
e da consciência que as recebeu:.
10 11
l
...#+' 'b /

equívocosem iÊuhl, em que nos com- prio livro se apresentacomoum tecido


prometemos . cerrado, uma densa floresta de refle-
A simplicidade e a objetividade:l xões . Certamente já atentastes na pro-
eom que foi escrito e concebido, aumen-i À digiosa efusão de conceitos sôbre o Qui-
tam as dificuldades da interpretaçãol xote, que é o próprio Quixote . CERVAN-
do Quixote. TES tomou Como tema de seu romance,
não a simp]es aventura de ]). Quixote;
A narrativa é sempre plana e expli-
cada,o espírito do narrador nunca de- mas a repercussão múltipla dessa aven-
forma o conta'no da realidade visual. tura no espírito de seus personagens.
os fatos e as pessoas incessantemente De modo que o D. Quixote} o primeiro.
. .= .........u,..p.d.. -p wp-R'B'H l.+=n 'p ' "i'--------.=........à.

se refletem no espelho límpido do senso


livro em'que se estuda e se discute.o.
seiitlitjo e o valor da aventura do extra-
comum. Assim como o sentido profun
orãiiiãi;io fidalgo, por quem ainda não
do de certas obras é defendido pelas
cessamosae estar atónitos . Todo o Quis
obscuridades poéticas indecifráveis que
xote não é mais que uma lenta e inces-
o rodeiam, assim o enigma do D.. Qui- 7
bote está preservadopela sua inviolável b# }
sante polêmica, em terno da insólita
simplicidade . Nem seria possível pen-
aventura, com que Alongo Quijano as-
sar em descobrir um segundosentido sombrou os seus vizinhos, os seus ami-
nesta novela límpida,, lógica e conse- gos e o seu autor: êle próprio -- desde
cjüente,se ela nos não precipitasse eln a primeira õüZidü, que o leva pelos cam-
conceitos e estados de alma contraditó- pos de Â41ontiel
até o pobre quarto onde
rios, para os quais precisamosbuscjar, abandona seu imortal personagem para
nela ou em nós mesmos, um princípio de recuperar o seu nome no tempo, e mor:
explicação rer -- outra coisa não faz senão argu-
mentar e refletir. Com êle, gancho
A reflexão sabre E o que talvez ainda can- trava o clássico e interminável diálogo,
as reflexões tribua para nos excitar que julga à luz de inteligências contrá-
a reflexão, e perturba-la, ,é que .o pró- rias, a experiência comum. Refletem,
) q n\'\ 13
loucura se cepa!'am, onde o ridículo aca- l
discutem,interpretam, o cura e o bar-
beiro, o bacharel e o canónico, os duques ba-r cóiiiêêã'Õ'sublime, e onde a cava-
e o cavaleiro do Verde Gabão, a ama e laria deixa,.de.ser uma insliífãêão pura,
a sobrinha, o vendeiro, Dorotéia, Lucin- para merecer o anátema, assim tam-
da, Cardênio e D. Fernando. E sabre as bém não é possível avançar na compre-
meditações dêstes, ainda se estende, de- ensãodo sentido universal do Quixote,
composta êiâ'duas vozes, a meditação nem exprimir a sua contribuição para
do autor -- de Cede Hamete e de CxR- #.:.a moldagem do espírito ocidental, sem
VANTES . i reduzir primeiro essas contradições .

De tôda essa imensa máquina de Todo o Quixote se ergue .-- As grandes


julgamentos e opiniões, que tira o leitor
não' apenas' 'nas. -intenções contradições
do Quixote para decifração do seu per- exteriores do seu autor, .como freqüen-
sonagem? Apenas a inelutável necessi- temente se ouve, mas na própria estru-
dade de se empenhar êle próprio no de- tura e movimento interno do romance
bate, de vencer as contradições em que
-- como a prescrição da Cavalaria: O
o lança o sentido equívoco da aventura, 1.
mesmo Alongo Quijano, quando volta a
e, afinal, de bem 'entender o exemplo, o
ser Qui)apo, o bom; e se prepara para
exemplo cuja eficácia já Ihe alcançou, t subir ao seio de Deus, renega a que fa-
embora obscuramente, o receoso do pró- rá forma e essênciade sua loucura, e
prio ser. exclama :
Ora, é difícil acolher o exemplo, em
cuja raiz se encontra o equívoco. --t ''Ya soy enelnigo de Amadas de
E assim como o leitor do Quixote & Gaula y de toda la infinita cater-
não se pode confiar à admiração irresis-
va de su linaje; ya me son odio-
tível, a que o arrasta a intacta virtude sas todas las historias profanas del
do mais perfeito dos cav4jlgiros, sem andante caballeria; ya colloseo mi
necedad y el peligro en que me pu-
primeiro distinguir onqg..g:..Virtudeea
14 15
sieron haberlas ileido ; ya por mise- louco, que estamos aceitando? E será,
ricordía de Duos, escarmentando en por ventura, a insónia de D. Quixote, .
q
cabeza propria, las abomino.'' (p. poderá ser alguma insónia, uma custo- '\
) dia para o amor e Dura a virtude? '"l
k Igualmente perplexos ficamos eml f
E, entretanto, a vitória de D. Qui- face da irresistível comicidade'do Qui-l "
xote, essavitória que, ao longo de sua xote . Êsse homem sem sorriso. êsse mo-l.
insensata caminhada, êle vai conquis- dêlo de gravidade, essa regra de come-l '&
tando sabre o seu leitor, até vencer o alimento e de pudor, cujas anõesjamais
sarcasmo com que o contemplamos nas deixaram de ter um móvel justo,. ainda l
suas primeiras partidas e suscitar o k que ilusório, êsse ser que pacientiemente l
amor dilacerado com que o acompanha- sofreu e testemunhou por tudo que se l
mos nas ruas de Barcelona, êsse outro impôs a si mesmo, é uma fonte indis-./
+
calvário, corrido pela assuada, com um
cartaz colado às costas por outros cen- cutível, permanente,irresistível de riso.l
É bem certo que, em sua aventura, logo l
turiões, essavitória êle a conseguepela se alcançao sentido trágico, e que o
integral fidelidade às práticas e disci- f
1-
drama do Quixote fica sendo em nós o l,
plinas da Cavalaria, e é, através dêle, resíduo da comédia. Mias é imprescin-
uma vitória e uma perpetuansãoda Ca- dível compreender porque é cõlnico êsse
valaria entre nós. P'
santo, porque é louco êsse virtuoso, por-
A essa primeira e desconcertante que deve ser renegada essa Cavalaria,
antinomia, somam-se outras . E' difícil que fêz do modesto Alongo Quijano um #.
compreend:er porque foi D . Quixote, não mediador universal . :J
apenas um herói, mas um herói louco . Para êsses problemas preliminares
Ao aceitar a mensagem de purificação à compreensãodo Qüixoté, julgo que
do mundo pe]o dom (];.êi mesmo, que podem ser buscadas soluções radicais,
irradia"aã'êRtí;ãordinár'i& existência do independentes da experiência individual
cavaleiro manchego é o exemplo de um 'h

de cada leitor
?P'
17
A comédia Cabe a ORTEGA y GAssET ter efetivamente o fosse, e se aspirar a uma
e o drama .giJ;o a palavra que encami- superior missão entre os homens é su-x
nha a explicação da comicidade do Qui- b blime, acreditar que se possui essamis-
xotc. Por ela podemos alcançar o valor são é ridículo .
, dramático que em nós recebe o exem- CERVANTES,concebendo a novela do
plo quixotesco, e conjugar no plano do
/nge»ãoõo .HidaZgo como uma fai'êa, ao
entendimento, o sentido trágico e o apa- mesmotempo nos deu, do heroísmo, o
rato cómico de que CERVANTES dotou*a
sua fábula: exemplomais grave e eficaz que encon-
tramos no nosso património de idéias, #
e a mais aguda advertência contra o pe-
''Do querer ser ao crer que já, rigo da sua degenerescência . ......Querer
se é, vai a digtãliiõiã-do trágico ao salvar, é sublime; julgar-se um sãlVã=
cómico. ÊsSempasso entre o su- dor, é ridíõiilo., Eis por que nos sewi-
blime e o ridíõííkol'' (.IUedifacione8 mos da exprQgsãoquixotismo, ora para
deZ Ç?a{.fofa,p. 153) exaltar uma virtude, ora para denun-
ciar uma fraqueza .
/' A aspiração de D. Quixote à aven-
tura, o seu desejo de renova:r, no mun- A êsse primeiro ponto se 0 louco
do povoado de injustiças, do seu tempo,. } prendeasolução dasduasou- e discreto
a anão ptii;amadora da andante cavala- trás perplexidadesque apontei: Já que
ria, e de operar essa anão pelo dom de o seu Quixote continha o: que há de alto
\ si mesmo,é, em si, um dos mais altos e o que pode haver de baixo no heroís-
.€1 anseios a que tendeu o espírito huma- mo, CznvAmvES não podia impedir que
no, e a provação a que se sujeitou para sabre êle caíssea venda mágica da lou-
cumpri-lo, um drama do tipo messiâni- F
cura. -- Sím, dir-se-á; porque só um
co . Mas D. Quixote não se limitou a as- louco se poderia acreditar cavaleiro.
pirar à condição de um novo Amadas ou Mias penso que CznvANTES,com a lou-
q
Felixmarte de Hircânia; pensou que cura de Quijano visou mais longe; só
18
19''\
/

r
lr um louco poderia fizer.gg,.gi.,mesmoç.a- o personagemda comédia, ]nas não cl\
{'P valeiro.e .ÍicQTJsentQ -dg..ippost;ura, herói dramátiõõWe a novela oferece \+
l guardando intacta a sinceridade dos
sr;us motivos' como um exemplo, e que aos nossosl
\ olhos sintetiza a contribuição de Cun- l
Ç... Não foi para Ihe permitir que se
VANVES para a formação espiritual doJ
expusesseao ridículo de tomar armas
homem moderno. Eis porque é de suma
e cobrir-se de falsas couraças, que CEn-
$ importância na exegesedo D . Quixote
VANTES revolveu a mente, fatigada de
estabelecera integridade absoluta da
leituras, do seu Quixote'Plf=Qi
para que sua crença em si mesmo,posta à prova
essa loucura protegem.Uureza Bgral/ $ em diversas aventuras fundamentais :
de qlE o Quixote ia dar testemunho, pu:. não tenho a intenção de me deter recor-
reza qüõ''seria iiiêõiiipatível com fada
dando essas aventuras, entre as quais
simulação consciente, com qualquer '+' são de suma importância as que provam
parcela de mistificação voluntária .
o total desamparo de si mesmo, a que
Os mistificadores conscientes, tão
D. Quixote se votava, como a chamada
comunsentre os servidoresde ideolo-
aventura do cavaleiro dos Leões, ou as
+

gias, são os réprobos da novela cervan-. ]. que mostram que êle mantinha, quando
tina . Réprobos'são os duques que aco-
sózinho, a mesma regra e os mesmos in-
lhem D .(ãiiiiõae, e eré:iiêin--eiy: terno
tentos que enunciava perante suas habi-
dêle um falso cenário cara Ihe experi- tuais testemunhas, como sucedeu na
mentarem os limites da-demência . Ré-
Serra Morena, onde reproduziu solitário
probo é o bacharel limão Carrasco,
as penitências de Amadas no exílio da
quando se arma de ÍCavaleiro dos Espe- Penha Pobre .
lhos para dar miserável combate ao au-
têntico, ao genuíno, ao indiscutível Ca- t
valeiro da Triste Figura. Mais laboriosa de explicar Julgamento
será a antinomia que re- da Cavalaria
D. Quixote sem a loucura, que o sêde em todas as partes do Quixote,
fêz acreditar em''si i;iêimo, poderia ser +
com relação à Cavalaria Andante. Al-
21
Runs autozõe-pretendem que ela i'eílete A apóstrofe contra as obras menti-
o juízo contraditório do próprio CEn- rosas não é uma inovação cervantina;
VANTES, amigo dessas leituras, de que pertence, pelo contrário, à cultura do l
üê enchera o seu século, mas advertido seu tempo, e séculos antes já se encon- l
contra os males que ela produzia no es- tra em autores enfadados das fábulas \
pírito e sobretudo no gôsto dos leitores . sem sentido, de que o modêlo literário.\
Pois a literatura de cavalaria, a chama- mais digno de aprêço seriam .Los qwütro l
da matéria de p'raHçaou de Brefanha, cle .Amadas Que tal literatura estava \
foi no Renascimento espanhol o que são morta e superada, em Espinha,.pelo al- 'i
,iil os contos policiais dos almanaques de to labor intelectual dd..sécwZo de owroC
J la (iHI (:lllêliêD o passatempo dos preguiçosos, e ninguém poderia ter dúvidáls, ao tempo
também o devaneio das cabeças mais em que CERVANTES compunha o seu D
1. frívolas

Por tudo isso não podia CZKVAWTES } Quixote. De sorte que me pareceridí-
culo atribuir
intuito
à novela predestinada
polêmico que o autor anuncia., e
o

deixar de ter o menosprêzo do homem +


de gôsto . É êsse o tempo de que se nar- em que, um pouco ingênuamente, acre- ,,J
ditam os seus leitores.
ram anedotas comoa que refere em sua .x

''Arte de galanteria'', Francisco de Pí)n-


TUGAL: um homem encontra, em prantos
.}. Na verdade, a meu ver, o que CKn-
VAWIES pretendeu mostrar no seu livro,
e soluços, a mulher, as filhas e as cria- ou -- se não pretendeu -- o que mos-
das, e perguntando-lhes ''muy acongo- trou efetivamente, foi que a Cavalal'ia
jado'' se morreraum de seusfilhos, colho forma social, como aparato exter- /

''respondieron ahogadas en lágrimas no e também como tema literário, esta-


que no; replicó confuso: porquê llorais ? va irremediàvelmente. ultrapassada e
Dijéronle: Seííor háse muerto Amadas'' liquidada, mas que dela era possível de-
({n MENÉNDEZ PELADO, Origenes de Za sencarnar o sentido, transformando-a
KoueZa) em mitologia.
23

1.. .E?.:....
nP»{x''''w" '7
A pl:i!!vira caractei'estica da mito-L . .uma i'esÜrreição no mundo dos símbo-
«
l.ogia, tal como hoje"ã"õoncebelnos, é que \l .los . !'odo o Quixote prova. que a..pera:
nada,de da Cavalaria não está nas .puas.
L nela não se a(:l'edi;i!&T-Enquanto foi pos-
sível aci'editar erlíma, houve por cel'- exterioridades. e aparências, mas no
to um paganismo, não, porém, uma mi- molde espiritual invisíve!,.,que, . depois
tologia. Transformando os deusesem de se haver modelado s8Voreela, se sepa-
mitos, os homens operam a recupera- rou do seu corpo transitório. Eis porque
ção estética de certas formas parecidas, a novela cervantina pode ser implacável
e passam a servir-se delas como de um com a Cavalaria e os Livros de Cava-
material incorruptível, sôbreque já não laria, para os quais aponta o caminho
tem poder nem a fé, nem o tempo. Criar da morte, -- ao mesmo tempo que o es-
a mitologia não será, por ventura, re- pírito e a ética da Cavalaria entram pe-
encontrar o tempo perdido? la sua mão no clima da vida eterna.
Tudo o que existiu, e cuja forma Todo o Quíxote se abre, assim, em
efêmera não logrou resistir à fatal de- dois, quando rompemos, pela análise, a
unidade vital da aventura e dos perso-
composição..do tempo, pode ser salvo,
nagens . Pela sublimidade da sua voca-
seo espíritodo homemali souberen-
contrar o símbolo, em.que se personifi- ção, o triste herói cervantino se ergue
às proporçções de um confessor do espí-
cam as essênciasuniversais.. QBgg4oJ
rito moderno; mas, acreditando que já,
é que -- miseráveis indivíduos, i--':i=i;;'"f. \.{ y/
era o que aspirada a ser, marca para
seguimossalvar da morte em nós, as lt3hi'ill#l sempre, ante os nossos olhos, a linha
nossas aventuras de amor? F©ao é seda.o l lç..lilf''
quando as transformamos em mitolo- ..) p"'
imaginária que separao heroísmoda
fantasia, a sublimidade da ridiculez . A
gia . Pois CERVANTES,segundo pensoll
Cavalaria Andante, cujos livros Ihe ti-
concebeu o D. Quixote para extrair ajr
nham "secado el cerebro'', está presen-
Cavalaria da forma histórica em que vi- l te nas duas metades do seu ser. O es-
verá, e da ingênua literatura fabulosal
pírito da Cavalaria é que Ihe ilumina a
em que agonizava,e para Ihe assegurarl
24 t
l metade hei'ói:ca; as aparências fabulo-
sas e as roupagens sem sentido reves-
R tem a que morrerá nêle, antes mesmo
que o recolha a morte.
\
11

Já é tempo agora de atin- A QUESTÃO


gir a questão central que CENTRAL
anuncieino início desta palestra. Já é
tempo -- afastadas as dificuldades, que
obscurecemo sentido da obra cervan-
tina -- de procurar aquêle Nseu valor
simbólico,e por êle conceituar a contri-
buição trazida pelo Quixote à compre-
ensão que o homem moderno tem de si
mesmo e à motivação de sua conduta .
Poissão êssesos dois objetivospara
que tende a ação da obra de arte ou do
fato histórico sôbre o homem: primei-
ro, tornar o mundo e o próprio homem
mais inteligíveis, pela captaçãoda ex-
periência universal nos limites rigoro-
sos de um exemplo; segundo,motivalr
t
a própria conduta humana, por Ihe ofe-
recer modêlos e advertências que se en-
treterem no tecido moral de uma ou de
várias épocas.
Eis porque os.grandes livros ope- mas e procedências múltiplas; se fõsge
rativos são forças modeladorasdo es- necessário escolher, apesar disso, a sua
pírito humano. Coube a Teodoro HAE- legenda primordial, eu por mim elege-
KER,na sua obra insuperável sôbre Vir- ria o ''Fausto'',de preferência
a qual-
gílio, oferecer o estudo mais completo quer outra. Reconheceria, porém, que
da anão da obra :literária sabre os o espírito moderno, numa tal represen-
tempos: dando uma base filosófin.â con- tação, estaria mutilado . Êle contém ou-
sistente às aproximações mais ou menos tros sentidos, para os quais é possível
alegóricas que se derivam da 4.' Écloga, encontrar, nas grandes obras de arte ou
liAEKEn mostrou que a obra poética de episódios históricos, as formas imanen-
Virgílíó foi o centro de coordenação do tes . Uma destas, que a nenhuma outra
processo de amadurecimento do mundo equivale ou se reduz, é o Quixote, de
antigo para o Cristianismo. (HAEKER, CERVANTES .
yergiZ, der reter des Ábe?zdZandes)
Não hesito em dizer que, sem o
Não foi o D. Quixotel certamente,
o livro:revelador do homem moderno . Quixote, o espírito ocidental, especial-
menteibérico e íbero-americano,teria
Se procuramos as matrizes tio homem
tido outros caminhos. E, se hoje o per-
ocidental de hoje, contrapondo-o ao Ito-
dêssemos, e o apagássemos da memória,
mem medieval e ao homem antigo, eU.
muito do que existe em nós se nos tor-
eontramos não uma, porém um número naria indecifrável.
incontável de fábulas e de episódios, em
que ficaram fixados os seus moldes e Em que consistiu a contribuição do
desenhos elementares . Foi possível ins- Quixote ?
crever toda a alma helênica nos poemas Se não ê possível reduzi-lo a um
homéricos e nas tragédias e ditirambos, conceito de onde emane a desmedida ri
a que 'já se pretende acrescentar o ci- queza de seus temas e episódios, se de
clo campestre, personalizado em lJlesío- vemosrenunciar à procura de uma idéia
do. A alma moderna,porém,tem for- abstrata que Ihe equivalha, podemos,
28 29
entretanto, perquirir nesselivro alguns
veios, dos quais o primeiro é, sem dúvi-
do próprio Enéias,:tão mais próximo,
como herói virgiliano, da consciência
-7]
@

da, a incessante conversaem que, do ocidental; e também se opõe ao padrão


princípio ao fim da novela, amo e es- de heroísmo do revolucionário de hoje,
cudeiro se acham empenhados . Nela se do ativísta, do militante partidário ou
projetou, como em nenhum outro exem- sindical.
plo literário, o contraste interno esse11-
cial da natureza humana, ali dissocia- Vou tentar expor, em suas ori- Heroísmo
da em dois personagens. Os pontos de Bens e atributos, o heroísmo
oposição e os pontos de concordância quixotesco, e, ao tratar dêle, deparare-
eH'LFCas duas faces do homem -- dis- mos com outra contribuição do.Quixote,
tintas e ao mesmo tempo consubstan- ligado à primeira, e não menos capital:
ciais -- recebbem
ilustração definitiva . a sua conceituaçãodo amor
Com D. Quixote e gancho, CERVANTES E' bem compreensível que devamos
proporcionou ao homem, no domínio do à Espalha a construção artística que
conhecimento. de si mesmo, um avanço nos tornou para sempre inteligível o
que, se considerarmos tanto o mérito da homem heróico, não no sentido .aristo-
criação, quanto a sua absorção pelo pú- crático, de homem privilegiado;\mais
blico, até a sua épocasó tem paralelo poderoso do que os outros e realizador
no teatro de SnAKESPEARE .
de grandes feitos -- que.foi como o en-
Peço, porém, licença para deixar tendeu a.antiguidade -- mas no senti-
de ]ado êsse aspecto da novela cervan- do.ãe homem que dá testemunho,.de
tina, que a crítica tem focalizada de to- mártir, cujas anões frutificam pelo
dos os modos, para me ocupar, aqui, de exemplo e pela força espiritual que irra-
outra contribuição do Quixote: a sug. diam.
formulação do heroísmo . Essa formu- 'i:

lação se opõe ao heroísmo antigo; ao he- O...gênioespanhol sempre se mos


roísmo de Ulisses, de Aquêles, de Teceu, trou liarticularmente dotado para com
31

\,
preendQr.e-exprixnir o heroísmo--E' cer- reversibilidade, que recolhe no tesouro
to que o quixotismo não é a forma per- comum o valor aparentemente. perdido
manente do heroísmo espanhol, mas é das boas ações.
sem dúvida a mais pura e original, e a E' o Quixote um herói fracassado?
que, em certo sentido, representa a sín- t Sim, se atentarmos apenas no desvario
tese da tradição heróica com o Cristia- de suas aventuras e arremetidas contra
nismo .
l alvos imaginários, e no fatal insucesso
Trê.s heróis, pelo menos, nascem da que, uma por uma, Ihe encerrou tôdas
alma espanhola,e dela passamao oci- as anões.; Mas quando passamos a últi-
dente: o Cid, o Quixote e D. Fernando, ma página do livro inimitável, compre-
o ''príncipe constante'' de CALDEnÓN endemos que a efusão do heroísmo não
(VogsLEn, .La Zife2'alwralê paãoZadeZ õê' ficou perdida; que os atou malogrados
gZo de :oro) . E' interessante observar
F do último cavaleiro foram recebidos a
que o Cid é a encarnaçãoespanholado crédito, para compensalção das injusti-
herói aristocrático de to(nosos tempos, ças e agravos que êle não soube ver,
primeiro em tudo, e sustentadona sua nem reparar; e finalmente que dêle bro-
primazia pelo sufrágio incessante do ta um ensinamento contrário ao {deaZ
êxito. Com o Príncipe Constante, a fé da e/iciê c ü, que é o da simples entre-
cristã, e não mais o simples valor pes-
b ga de si mesmo, para operar pelo exem-
soal extraordinário, assume o papel de plo e pela germinação.
centro e motivação da conduta e dos su- Cada vez que, em nossa própria vi-
cessos do herói. Com o Quixote, pode- da, nos recusamos a uma jazida, porque
mos enfim contemplar o heroísmo isen- sabemosque o nosso ato não terá força
to de todo êxito, e elevar a nossa refle- n sabre as coiadições externas e assim
xão até a eficácia da anão heróica, não não poderá remover os obstáculos opos-
pelo resultado imediato alcançado, mas tos ao nosso intento, estamos agindo
pela repercussão do exemplo e por essa r
contra o espírito de D. Quixote.
\ /
33
/
E cada vez que saímos para o im- cujos temas, mutuados de língua em lín- l
possível, deixando nas mãos de Deus o gua, atestam a ampla comunhão euro- /
segrêdo da germinação de nossas anões, péia em que se elaborou a vida intelec- /
ê conforme o Quixote que estamospro- tuas da Idade Média. Assim como GoE-
cedendo. TnE recolheu no Fausto um dos temas
Sua técnica é, pois, o dom de si mes- constaiates da imaginação eui'opéia --
mo . Uma técnica que, em face do mun- o tema do mágico que ensaia o seu po-
do ant.igo, seria mais a do martírio que der sabre a própria alma -- q??im CZR-l
a do heroísmo, mas que se tornou para
nós 'b heroísmo por excelência. Tornou-
se, sobretudo, o recurso supremo, a re-
serva, com que contamos para sobrevi-
[. VANTnS recolheu o tema geral do cavam
'leito andante-nas páginas. do Quixote /
Para CEnvANTES os precedentes liter:
rios eram os livros de cavalaria, a cuj
Auto-da-Fé assistimos no graciosíssimo\
episódio do escrutínio feito pelo cura, e
'' As qualidades do herói quixotesco,-:
pelo barbeiro na biblioteca de D: QXit
não foi CERVANTESque as inventou . Êle
;mte; pal'a GoEvnu, os precedentes lite-
apenas as recolheu, purificou e crista- 7 rários foram as representaçõespopula-
lizou para sempre no seu personagem, res do Dr. Fausto no teatro de mar4on-
que ficou sendo, assim, o ponto de che- tz.elles: as p'awõfspieZeH,o roZkõbwch
gada de uma longa, complexa e difusa de Fausto e as composições eruditas de
tradição literária: os romancesde ca- LEASING e MIARLOWE .
valaria.
Já vimos que CERVJl4íl ESnão podia
Literàriamente falando, o Quixote ter senão as reservas do llomem de gas-
é a síntese e o superamento dessalite- to perante os estalidos livros que Ihe
ratura, em parte popular, em parte ge- iam servir de material; mas é claro quc
mi-erudita, que no século X.VI se con- êle compreendeu o tema universal, a
densou,em Espanta, numa obra típica, contribuição já consumadapara a for-
"Os quatro livros de Amadas'', e:/ mação européia, que nêles se continha .
3.1 35
.u'

#
Com(i GoEvnx tirou do mágico pre- O heroísmo quixotesco é, (":\. Os atributos
sunçoso e sensual do yoZhõbwc# alemão portantos um coHceF'uo de ' '\-..,.. do herói
a fábula e a figura do Prometeu mo- atributos, que se fundem num todo mo:
derno, CEnvANTESsuperou a legenda ral , Vejo:os, sobretudo, traduzidos em
cavalheiresca, ainda tratada ingênua- três notas essenciais:
l.', o domde si
mente pelos escritores do seu século. mesmo; 2.', a fé; 3.', a pureza. Todas
fêz dela uma nova mitologia, e fixou o essas qualidades vêm do perfil cava-
tema na significação definitiva que te- lheiresco, tal como o desenharam, ainda
ria para o espírito ocidental. que com traços discordantes e, às vê-
Desde logo o heroísmo do cavalei- zes, contraditórios, os livros de Cava-
ro não está nosseusfeitos, está nas laria . No Quixote elas atingem um teor
suas disposições de alma. O fracasso. absoluto,e erguem diante de nós uma
o insucesso, o ridículo, irão'obüml)ram. figura incorruptível, na qual nada exis-
antes fazem resplandecer o heroísmo te de angélicoou de feminino. E' notá-
de D. Quixote.. E aumentam a eficácia vel o caráter masculinopuro do Quixo-
/

/. espiritual dos seus fitos. Nisto a cria- te. Nenhumoutro heróié tão viril. na
ção cervantina liberta o heroísmoda mais íntima minúcia de sua natureza,
concepção aristocrática, que se transe quanto êssemodêlo de castidade,de
mitiria aos romances medievais, e dei- + idealismo, de desinterêsse,de sacrifí-
ta suas raízesno solo mais nobre do cio, de bondade compassiva,.mas isenta
Cristianismo . Pois só o Cristianismo de emoção.
revelou que fracassar é, muitas vêzes.
apenas o ponto de partida para vencer. Pela pureza de D. Quixote de- A pureza
e estendeu, assim, às ações humanas. vemos começar o exame de
t
no plano do tempo, a idêia evangélica l seus atributos, pois parece ser a pure-
da sementeque morre, e se transfor- za o assento iaatural das qualidades do
ma em árvore, e ain(ilà produz muitos herói. Puro é o que está isento de mis-
frutos . f tura . Puro é o que não deixa eil+.i:ar em
36
si o mundo de objetos desejáveis,pela zer receber, como insuportáveis agra-
possedos quais todo dia caímosem vos, anõesmiserandos como a mistifi-
contradição com nós mesmos. cação dos duques, ou o disfarce do Ca
Os maiores campeões não merecem valeiro de Branca Lua e dos Espelhos
o nome de heróis, se são impuros. He-
rói não foi Alexandre, nem Júlio César, A pureza do herói quixotesco se A fé
pois o heroísmo não se afirma apenas completa com a 'integridade e
em relação a um objetivo externo; afir- inaeessibilidade de sua fé. Fé na graça
ma-se, ao mesmo tempo, em direção do divina, fé na boa fortuna, fé em si mes-
nossopróprio ser, como um firme pro- B mo, dão ao cavaleiro essa serenidade e
pósito de resguardar algo de íntimo. imediata resolução de ânimo, sem a qual
Por isso escreveumuito bem ORTEG.A y missão alguma passará do devaneio, ne-
GASSET : nhum destino I'omperá o envólucro em
que germina, no fundo de nós.
.,!'' ''herói é o que quer ser quem
A fé heróica, tal como a exprime
é.'' (OP. oif., P. 145)
o Quixote, é, porém, uma fé hierarqui-
A vitória do Quixote sabre o leitor, zada pela consciência formada no Cris-
a que momen'cosantes aludi, é a vitória d-' t.ianismo. A fé em si mesmo é própria
da irredutível e irresistível pureza de do herói antigo, do herói, sem humilda-
consciência, que dêle faz um outro D. de, em caminho para o semideus. A fé
Galaaz, o cavaleiro do ciclo arturiano na fortuna é a própria fé em si mesmo,
que se podia assentar, sem receio, na quetanto faz esperarmos
o êxito do
cadeira fatal aos impuros. E' essa. pu- nosso próprio esforço como da nossa
reza que, sejam quais forem as nossas predestinação .: A fé quixotesca, porém,
iniciais disposições de espírito, nos vn.i está informada na tríplice ordem da
comprometendo na causa do Quixote à graça divina, da boa fortuna e do mé-
medida que o lemos, e acaba por nos fa- rito próprio, o que permitiria ao Qui- l
38 39

.H
xote dizer algumas vêzes,tomando pa- rega e efetivamente seja, ao mesmo
+
ra si os versos de CAI.nERÓN:
tempo, uma humilde bacia de barbeiro :
''Duos defenderá mi causa
pues yo defendo la suya.'' ''Vive Duos! seãor caballero de
la Triste Figura, que no puedo su-
Toda sua fé, derivada dêssespla- prir ni elevar en paciencia algunas
nos superiorese inferiores, o 1.Quixote
- ' ' cosas que vuestra merced dize, y
a localiza e concentrana sua missão.
que por ellas vesgo a imaginar que
na tarefa que se deu a si mesmo,e a
que reciprocamentedeu os seus dias. todo quanto me dize de caballerias,
Fé em sua própria causa -- o requisi y de alcanzar reinos e imperios, de
to do heroísmo. ' dar insular, y de haver otras mer-
Com a consciência impregnada de cedes y grandezas, como es uso de
confiança, D. Quixote fita os desafios caballeros andantes, que todo dele
e rechassa os desmentidos. Em vão sâ. de ser cosa de viento y mentira, y
bre êle desabam provas contrárias; ne- todo pastraíía, o como lo llamare-
nhum fato o demove; nenhuma evidên- mos; porque quien oyere devir a
cia o atinge; nenhuma surprêsa o en- vuestra merced, que una bacia de
contra desarmado; fatos?provas, argu-
barbero es el yelmo de Mambrino,
mentos contrários, evidências, rompem-
se contra as malhas inquebráveis do y que no salga deste error en más
seu pensamento. Sou mesmo tentado de quatro dias, qué há de pensar
vos Í sino que quien tal dize y affirma,
g®Q..de
]

Mambrino CuIDa 4 Í l # debe de tener quero el juicio? La


testa
F
o diáloego,
não resisto a transcrever aqui
em que D.. Quixote explica {'
bacia yo la llevo en el postal toda
como é abollada, y llévola para aderesarla
possível que o famoso elmo pa en mi casa, y hacerme la barba en
41
ella, si Duosme diere tanta grada, de mi parte, haver que parezca ba-
que algún dia me vea con mi mujer cia a todos,lo que real y verdade-
y rijos. ramente es yelmo de Membrino, a
-- Moira gancho, por el mesmo que causa que siendo él de tanta esti-
denantes jui'este te juro -- dijo ma, todo el mundo me perseguira
don Quixote --, que tienes el más por quitármele; pero comoven que
nos es más de un bacon de barbero,
corto entendimientoque tiene ni
no se curan de procuralle, como se
tuvo escudero en el mundo. Qué! mostro bien en el que quiso rom-
Es posible que en quanto ha que pelle, y le dejó en el suelo sin lle-
andas commigo, no has echado de varle, que a fe que sele conociera,
ver que todas las cosas de los ca- que nunca le dejara. Guárdale,
balleros andantes parecen quime- amigo, que por chora no le he me-
ras, necedades y desatinos, y que nester, que antes me tengo de qui-
tar todas estas armas, y quedar
son todas hechas al revés? Y no
desnudo como quando naco, si es
porque sea ello anui, sino porque
que me da en voluntad de seguir en
andan entre nosotros siempre una mi penitencia más a Roldán que a
caterva de encantadores que todas Amadas''
nuestras cosas mudam )r truecan, y
lasvuelven,segúnsu Bustoysegún A consciência de D. Quixote, sela-
tienen la gana de favorecernos o da pela fé, resiste em exemplos sem con-
destruirnos; y así, esa que a ti te ta, como êsse, aos assaltos da realida-
de. SÓ -- naquela solidão que não o
parece bacia de barbero, me parece
abandona um só instante, e de que aqui
a mi el yelmode Mambrino,y a falou, em seu discurso admirável, Au-
otro le pareceráotra cosa. Y fué gusto Frederico ScnuinT -- a alma de
rara providencia del sábio que es D. Quixote arde silenciosamente; e o
42 43

l
l

J
que a faz arder é essa fé inabordável.
que tudo desbarata, que tudo converte trazer à senhora Bellerma, na ponta de
e transfigura em tardo de si. uma adaga, o coração que Ihe enviava
o seu enamorado Durandarte. E não
.+
tardou que Montesinos Ihe mostrasse.
O episódiode Levantaram alguns críti. presos e encantados naquela Cova, por
Montesinos cos, neste ponto, uma sus- artes de Merlin, à esperade quem os
peita, que merecea consideração mais libertasse, Durandarte, Bellerma e ca-
amurada,pois, se procedente,alteraria valeiros e donzelas de seu séquito, aos
ou, pelo menos, abalada em grande par- quais nos desenvolvimentos da história
te a exegesedo Quixote . Trata-se do di- outros se vão juntando, inclusive a rai-
fícil e misterioso episódio de Montesi- nha Ginebra e sua dama Quintaãona.
nos.
e três lavradoras, entre as quais D. Qui-
Recordais que D. Quixote, vindo xote reconhece "la sin par Dulcinéa del
das bodas de Camacho, o rico, emir)re- Toboso". Três dias e três noites se te-
endeu na companhia de Sancho e de um riam passado na incomparável aventu-
primo do Cavaleiro do Verde Gabão ra, autênticadescidade D. Quixoteao
uma excursãoao sítio onde se abre a Inferno da Cavalaria. ]] o que é de se
Cova de Montesinos, nas cercanias do
l
notar é o tom humorístico, a verdadei-
Guadiana e de Alcaraz, e ali se fêz des- ra pantomima infernal construída des-
cer ao fundo da gruta, onde seus com- preocupadamente por ]). Quixote, que
panheiroso deixaram ficar por meia não tinha, nos seus tidas comuns, para
hora Voltando à luz, que lhes narrou tratar êsses temas, senão o tom grave
o veraz, o sincero, o simples e nunca fe- do respeito e da convicção.
lnentido D. Quixote? Que encontrara Teria D. Quixote inventado a vi-
no fundo da Cova -- transformada num são da, Cova de Montesinos? O próprio
.Erebo de cavaleiros medievais -- aquê- ganchonão Ihe deu crédito, e o intér-
le mesmo Montesinos a quem coubera prete encontra,páginas adiante, umü
44
breve frase, de que desce Febre a since-
45
ridade e, portanto, sabre a inteireza da a quebra da sinceridade e exclui tôda
fé do Quixote o único instante de dúvi- impostura, fazendo do episódio, como
da e de perigo. E' quando, apeados do diz lgIAnAnIACA, uma fábula na fábula
cavalo Clavilegno, gancho descreve o -- ''ilusíón en la ilusíón'' -- é o valor
que vira no céu. E D. Quixote Ihe con- puramente estético da fantástica nar-
testa: rativa, da qual D. Quixote apenas tira
o prazer gratuito da criação.
''gancho, pues vos quereis que
Daí vem o inesperado humorismo,
se os área lo que hábeis visto en el
as liberdades poéticas que se permite,
cielo, yo quiero que vos me areais e que destoamdo estilo geral de suas
a mi lo que vi en la cueva de Mlon-
práticas e da própria narração: a Mon-
tesinos, y no os digo más.'' tesinos, que Ihe promete o desencanta-
mento,
Na corda estendida em que cami-
nha, vendado por sua loucura, mas guia-
do pela integridade da sua incorruptível ''Y quando asi no sea'', respondia
consciência, D. Quixote, nessa altura, el lastimado Durandarte con voz
pisa em falso. Toda a sua obra está em lastimada y baia, ''oh! primo! digo,
jogo. Haverá uma farsa na descida a paciencia y barajar''
Montesinos?
Por mim recuso que o episódio te- E quando dá à donzela as alvíssa
nha sido uma alucinação ou sonho, tese ras de quatro reais:
sugerida a muitos pela pergunta que D.
Quixote faz à O'abeça adivinhadora, em
Barcelona. A narrativa da Cueva foi, ''Tomando los quatro redes, en la-
a meu ver, uma criação intelectual, for- gar de hacerme una reverência, hi-
jada em tôdas as suas peçasno espírito zo una cabriola, que se levantó dos
de D. Quikote. O que, porém, impede varas de medir en el abre.''
46 47
\

D. Quixote viveu, no episódio de ''-- Dome tu, el que respondes,


llontesinos, um dêsses graves e inefá- fué verdad o fué sueíío lo que yo
veis momentos, em que o nosso espíri- cuento que me pasó en la cueva de
to, transportado pela força da criação 't

Montesihos ?
poética que nêle irrompe, reconstrói o & -- A lo de la cueva -- respon-
mundo conforme .uma instantânea vi-
são das coisas,e não se pode dizer que
g. dieron -- hay mucho que devir: de
todo tiene.''
minta, porque na verdade enriquece A pureza e a fé não exprimem, en-
com sêres e objetos novos o mundo tretanto, os totais atributos do herói
-q quixotesco.
real: Não foi possível ao insano cava-
leiro saber, depois, se a maravilhosa fá-
bula, que se !he desprendeu do espírito
num momento inspirado, era uma pura
g O herói crê na sua missão,
confia em Deus e em si mes-
O dom de
si mesmo
fantasia ou um acontecimento vivido ; mo, conserva a alma isenta de mescla e
.e

seria difícil queo pudessedistinguir, da satisfação de apetites, mas ainda Ihe


êle que não duvidava da veracidade de
todas as histórias que lera. De modo
que D. Quixote, depois de criar a aven-
1. falta o meio de a.gir, a técnica . Essa téc-
nica é, afinal, a essência do heroísmo
quixotesco; podemos defina-la -- o dom
de si mesmo.
tura de Montesinos, nela acreditou co-
mo acreditava nas aventuras de Ama- Entregar-se a si mesmo, fazer do
das,não sem guardar no espírito, entre- próprio ser um simples mediador da
tanto, a incerta lembrançade que a in- obra que tem diante dos olhos, desapa-
ventara.
F recer nessa obra, consumir-see enter-
F
rar-se nela como a semente no solo. eis
Outro não pode ser o sentido que o "savoir faire'' do cavaleiro, eis o que
se depreende da esquiva resposta, que o Quíxote nos ensina, do primeiro ao úl-
Ihe dá a (cabeça: timo dos seus instantes.
48 49
$
# E' certo que o dom de si mesmo não
aniquila aquêl.e que o consuma.
não é possível ao homem fazer cada dia
o dom de si mesmo a uma nova causa,
''(2ul se renonce, se trouve'', escle- à reparação de outra ofensa, à compo-
B veu GIREparafraseandoaquela supre- sição de outro agravo, se a sua vida ain-
.r'f
ma ,palavra : da Ihe pertence, se ainda é, nas suas
Í mãos, algo de que êle pode dispor, que
:€ ''Quem quiser salvar sua vida, êle pode amar, e que êle insensivelmen-
2 a perderá; e quema quiser dar, a te tendea economizar,a dirigir, a em-
í.o encontrará.''
pregar em tarefas escolhidas, a servir
g Mas a recuperaçãoda vida não é Na vocação religiosa a entrega de todo
uma operação a têrmo, que o homem instante a qualquer tarefa está assegu-
H calculadamente conclui consigo mesmo. rada pela renúncia completa e antecipa-
E' preciso dar definitivamente, dar sem da de si mesmo nas mãos de Deus. Po-
J.

desejo e sem esperança de poupar uma rém a cavalaria não é necessàriamente


5
parte ou de reaver mais tarde. SÓas- uma profissão religiosa; êsse dom de si
sim, repetindo no seu destino particular mesmo, essa gratuidade de anão, que
o mistério incessante da resurreição, o ela exige, precisa estar assegurada por
homem se encontrará de novo: um penhor, um compromisso, humano
nos seus fins, porém místico na sua efi-
O herói quixotesco, em que se cris- cácia.
talizou o tipo perfeito do herói-Cavalei-
ro, é o homem que faz o dom completo Êsse compromisso que liberta, em
de si mesmo. Sua vocação o solicita, e vez de pi'ender, D. Quixote o encontrou
no amor
não foi sem razão que a Idade Média -"}

conjugou muitas vêzes a instituição da


cavalaria com a profissão religiosa .
Mas -- e aqui tocamos o ponto de
transição para o tlossoilúltimo tema --
{
50 51
111

O amor da Dulcinéa -- símbo- o AMOR


lo e síntese do amor cavalhei-
resco -- é um dos pontos de partida pa-
ra a compreensão do amor, tal como o
tem entendido o espírito moderno. Por
} isso disse eu, momentos antes, que Cer-
vantes contribuíra para uma nova com-
preensão do heroísmo e do amor, na
d
+ consciência do nosso tempo. Já vimos
como se configura essa compreensão do
heroísmo. Tratemos agora do amor
} As consideraçõesque vou fazer têm
um ponto de partida: a idéia, aceita por
uns, repelida por outros, de que o amor,
como todas as paixões e sentimentos
humanos, é um ílruto do que há de imu-
tável, de permanente, na natureza do
t homem, mas é também o resultado
uma transformação da consciência his-
de

tórica, sabre a qual atuam as grandes


forças materiais e espirituais que mo-
53

L
delam o curso dos tempos . O amor mo- xidade que Ihe daria a consciência mo-
derno é diferente do amor medieval e do derna. O drama de amor por excelên-
amor antigo. Pouco importa que êle cia do homem antigo é a recusa do obje-
se OI'igine sempre da mesma inclinação to amado -- o mais simples, embora tal-
afetiva e que aspire ao mesmo resulta- vez o mais constante dos dramas. Dêle
do. O que importa é que o sentimento se alimenta toda a literatura pastoril e
amorosose projeta no ''écran'' da alma arcádica, até as églogas virgilianas . A
humana, e aí se combina com outros êsse,:as tragédias acrescentam o drama
problemas, entra em antagonismos, so- do amor ilegítimo, isto é, o conflito en-
fre desvios, recebe estímulos,= e conhece tre a paixão amorosa e a ordem estabe-
triunfos e desastres,que variam radi- lecida pelos deuses imortais . Em todos
calmente de época para época, de povo os casos, com.o observou M.AX SCnELLEn
para povo, de geração para geração. no seu estudo sabre o ressentimento na
Muitos dramas de amor do nosso moral, o amor antigo é sempre o amor
de baixo para cima, isto é, em que o
tempo não assaltariam as consciências
amante aspira a algo que se acha colo-
do mundo romano ou mesmo do século
cado acima dêle, que Ihe parece maior,
de Luís XIV. O que não quer dizer que
sob qualquer aspecto que seja, ao seu
não conservemos, nas possibilidades
próprio ser. Coube ao Cristianismo ope-
sempre ampliadas da nossa alma, a
rar a primeira revoluçãona essênciae
compreensão das experiências do ho- na existência do amor, concebendo-o
mem antigo, e a faculdade de repeti-las. como uma efusão de cim.a para baixo,
comoamor do criador pela criatura, de
O amor antigo Por imensa que tenha sido a Deus pelo homem, do forte pelo fraco,
capacidadedos antigos de ex- do maior pelo menor. A caridade apa-
plorar as contradiçõese os limites do rece,assim, como o primeiro amor que
homem, o problema do amor na antigui- oferece, em vez de pedir. Já não pode
dade não atinge nem entrevê a comple- ter sentido para a consciênciarefundi-
55
da pelo Cristianismo a frase de Pi.A- destino a cumprir, que se tornaria uma
não: antinomia permanente do homem mo-
derno, coma Go T:n exprimiu nos ver-
''Se fôssemos deuses, não ama- sos:
rlamos.''
''So tauml ich von Begierde zu
Em toda antiguidade,quer consi- Genuss und in Genuss verchmacht
dei'emosa tradição trágica ou a lírica, ich nach Begierde. . .''
o amor é uma paixão que, mesmo sob
suas formas mais nobres,vive na esfe- Outro já foi o panorama em Heloísa e
ra dos sentidos, como, aliás, se depreen- que se construiu a experiência Abelardo
de do Simpósio platónico, e a inteligên- amorosa do homem medieval. Não é
cia está sobretudo empenhada, como meus. desejo desenvolver êste tema,
atesta Ovídio, na formação da ars amü- apressadocomo estou de retornar ao
foria, que cerca a vida amorosade ex- D. Quixote. Ihllas não quero deixar de
perimentados conselhos para dela eo- cllamar a vossa atenção para um epi-
Ihêr todo o fruto.
sódio, ém que vejo o amor medieval fi-
O primeiro poema antigo em que''Í xar-se no que poderia ter de mais espe-
se esboçaum drama de amor de estilo cífico e infungível. Refiro-me ao amor
ocidental e moderno. é, como observou de Abelardo e Heloísa. Êle, no esplen-
HAEKER,a Eneida . Enéias, abandonan- dor da sua irradiação intelectua,l,mes-
do o amor de Dadopara não deixar de tre incontestável da "Blscola de Paras,
cumprir o seu destino, é o primeiro he- cheio da tentação da glória e da santi-
rói que exprime o conflito entre o an- dade, que naquele instante o levava a
seio do destino no homem e as satisfa- uma carreira sacerdotal; ela, a culta e
ções do amor. O amor-prêmio do herói discretíssima abadessa do Parácleto,
homérico cede lugar ao conflito entre empenhada na glória e na i'ealização
a satisfaçãomomentâneae o ando do da carreira do professor genial. E sõ-
56 57
bre êles desatando:se a mais furiosa
paixão sensual, que correspondência
l nem a realização do próprio gozo,-ou da
própria experiência, o que comandado
amorosa registra, paixão para que êle espírito sob o império da paixão . OnTu-
propõe o casamento secreto, a que ela, ll GAy GAssnT,nos seus ensaios sôbre o
querendo resguardar sempre a oportu- amor, pretende mesmo que não se deve /
nidade final do arrependimentoe da ver nesse estado de alma o amor-pai-t
vocação, prefere opor uma recusa e ofe- xão, todo feito de um insaciável apetite ?ú
recer o amor sem casamento. (E. Gn.- da pessoaa que amamos,porém anal
son, .HeZoiseef .AbeZa7'd,p. 59 e seg.) forma especial de amor, a que chama l
Não haverá, talvez, drama em que q ''amor-enamoramiento':(.Eõtwdios ao: l
}

melhor se exprima a dupla natureza do Z,re-eZamor, {@OZ,ras, n,.P. 1618) . . o


homemmedieval,dividido entre um es- amor de D. Quixote por sua gigantes-/
pírito e um corpo, que ambos tudo exi- ca fantasia -- a Dulcinéa del Toboso --
gem. é o exemplo perfeito do ''enamora-
miento''
Duas fábulas do Já o amor moderno. a
amor moderno meu ver, se exprime, so- Já o amor do Fausto a Mar- . O amor
bretudo, em dois exemplos fundamen- gerida postula o lado oposto ..n titânico
tais: o amor do Dr:' Fausto por Marga- do espírito moderno: o trágico proble-
rida, ou o amor titânico; e o amor de ma do homem que quer o amor, e ao
D. Quixote por Dulcinéia, ou o ''ena- mesmo .tempo precisa salvar-se dêle,
ilioramiento'' 4
que se empenha até o fim na realização
O amor do Quixote traduz no gi'au vertiginosa do seu desejo, mas não faz
mais alto, e em sua manifestação mais o dom de si mesmo, e
radical, a paixão amorosa em que o
amante faz a entrega do seu próprio .á ''in Genuss, verschmacht naco Be
ser. Não é .o desejo da pessoa amada, t gierde.''
l
l
58 59
mefett, a afirmação do indivíduo como
Ja se disse que GozvnE repetiu nas
páginas do Fausto, sob as roupage11s
criador inatingível.
de outra fábula, .o tema que tratara nos
Ãlo/r4mewfosde IVerf#er, e que era um
O conflito vivido, de que o último l
eco é o episódiodo amor cáustico,foi
dos ''motivos'', profundos e intermiten- como é sabido, o amor do jovem GoETUE
tes, da sua criação artística e de sua por FREDERlcA.A êsse romance deve-
própria vida: o tema da ani(ànilação do mos um dos instantes mais plenos de
deõf4mono amor, ou melhor, do perigo felicidade, de graça e primaveril ligei-
da aniquilação do destino no ap&or O .']

l
reza, que passaram para a nossa expe-
amor satisfeito é a imagem perfeita do q- riência literária, e de que alguns poe-
doce {nõtü te; todo o espírito de GoE- mas ficaram sendo os testemunhos
TnE, por um de seus epicentros, aspira mortais. Mas não tarda que o jovem
a se entregar, a se consumir no doce GoEV.UE sinta o aterrador perigo que re-
i õíla?zfe,
a consentir nessa satisfação presenta para êle o amor de Frederica,
plena, que nos transpor'ta à delícia da justamente porque o seu espírito encon-
intimidade momentânea,
e pede um
abandono sem resistêuici&s. Mas por
{ tra nesse amor uma satisfação perfeita,,
uma realização que não pede senão a
outro lado, GoETnn aspira a uma reali- repetição indefinida, e que assim paci-
zação consciente (ile si mesmo, que Ihe .+

fica e amolece o homem preparado pa-


impõe a conservação incessante da li- ra umatarefa semfronteiras.
berdadee Ihe mantém a alma em per-
O abandono súbito e inexplicado
manente recusa a tudo que a queira
de Frederica foi a indispensável anão
absorver e dominar. Como bem obser-
vou Friedrieh (lluNoot.p, há duas obras
titânica, e sob alguns aspectoslembra
outro episódio amoroso de repercus-
de Gou'pnu em que êsses pólos magné- sõesuniversais: o rompimentodo noi-
ticos do seu espírito se manifestam se- vado -de Sõren KIERlçEGAARI). O aban-
parados: Ganymedeõ, o impulso para
dono de Frederica é, porém, o sacrifício
se dissolver no instante que passa; P?'o-
61
60

.i
de'Ft'ederica, e nisso está o drama es- Ao amor fáusticoZsecontra- O amor
catológico do amor titânico, que não põe o amor quixotesco, tão quixotesco
pode retribuir &"Léo fim o amor recebi- radicalmente aue nos custa reconhecer
do, e tem de ferir e perder para retor- l k entre êles uma essência comum. .No
nar à liberdade. !.

'ilhor de D. Quixote não há tragédia,


\J l sabre êle não pesam contradições, nem
No drama de Fausto reside bem
essa contradição insolúvel da consciên- receiosl nem remorsos, nem desejos .
cia titânica: que êle mente a si mesmo Podemos dizer que o amor de Dul-
se não possuir Margarida, e mentiria cinéia é, subi'etudo, uma vocação amo-
uma segunda vez se, depois, não a aban- i rosa . Entregando-se espiritualmente à
donasse. A terrível lei do ''eu quero'' sua dama, nesse ato do dom de si mes-
traz consigo a fatalidade do êrro. M.as mo, que é a outra aparência do amor'
o titã vence a contradição formidável, moderno, D. Quixote se liberta, por as-
integra-se no cosmos, e o Segundo p'aws- sim. dizer, do próprio amor, pelo menos
to se encerra com a salvação do titã pe- daquilo.que no amor é a necessidade de
la intercessãofeminina. nos satisfazermos a n.ós mesmos .
Está salvo do Demónio,dizem os E' interessante observar como a
anjos, o nobre adepto da sociedade dos paixão quixotesca, parecendo ser e sen-
Espíritos; a quem se esforça e busca no do uma entrega completa,-uma sujeição
sofrimento, nós podemos salvar : sem limites, uma vassalagem espiritual,
é, por êsse poder de recuperação consu-
''Gerettet isto das edle Glied bstancial a. todo ato de renúncia, uma
Der Geisterwelt von Bõsen; completa libertação, inclusive dos pro-
V\?erimmer strebend sich bemultt blemas e sofrimentos do amor
Den kõnnen wir erlõsen.''
O primeiro de que D. Quíxote se
E pela mão de Gretchen redimida
liberta é a tirania da aventura amoro- l
l

o doutor Fausto penetra nos céus. sa, isto é, a perpétua tentação de corres-

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ponder às oportunidades amorosas que viesse moído da aventura dos langue
se nos deparam, e que nos lançam na se8, pois, disse,
insaciável curiosidade das mulheres que
Indo amamos. D. Quixote, tendo con- ''ha querido la fortuna ponerme en
signadoà Dulcinéia todo o seu amor,
J latia tem para dar à aventura amoro-
+ este lenho, donde yago tan mondo
y quebrantado, que aunque de mi
voluntad quisiera satisfacer a, la
sa, mesmo quando esta corre para êle,
tomo no episódiode ]UaritorHes,'ou de
} vuestra, fuera impossible.''
.kZtiõidora. Vale a pena reler a respos-
ta de D. Quixote a .AZtisidora. O caso Mias a resposta aos cantos e della
de ]Marêtor#es, que todos temos bem
{ i'anões de .4Zfãõidora. é indubitável :
presente ao espírito, sabemosque não
passou de coincidência infeliz, pois a .L ''Que tengo de ser tan desdi-
trêfega asturiana entrou no quarto em chado andante,que no ha de caber
busca do arrieiro, justamente no ins- doncella que me mire, que de mi no
tante em que D. Quixote imaginava a se enamore! Que tenda de ser tan
corta de ventura la sin par Dulci-
#

hipótese de Ihe vir ao encontro a dona


do Castelo para oferecer por uma noite néa del'.Toboso,quleno la han de
o seu amor. D. Quixote Ihe explica a X pejar gozar a solas de la incompa-
rable firmeza mia. Que la quereis,
impossibilidade,em que está, de acei-
tar e pagar tamanha mercê, pela fé pro- reinam? A que la perseguia, empe-
metida à sem par Dulcinéia; mas um ratrices? Para qué la acosáis, don-
intérprete suspicaz poderia pensar, cellas de catorze a quinze mãos?
vendo quanto D. Quixote »
Dejad, dejad a la miserable que
triunfo, se gole y ufane con la suer-
''la tenta asida'', te que amor quilo darle en rendirle
mi corazon y entregarle mi alma .
que outra teria sido a resposta se não Miram, caterva enamorada, que pa-
't:

64 65
ra sola Dulcinéa soy de mesa y al- pessoas libertadas pelos seus feitos de
feííique, y para todas las demos soy' cavaleiro fossem mandadas prostrar-se
de pedernal;para ella solo soy ante Dulcinéía e contempla-la, eis o que
miel, y para vosotras acabar.; para respondeu D. Quixote:
mi sola Dulcinéa es la hermosa, la
discreta,la honesta,
la gallarday ''Oh que necio y que simple
la bien nacida, y las demos,..las ei'es! Tu no ves, gancho, que eso to-
feas, las necias, las levianas y las do redunda en su mayor ensalza-
de peor linaje: para ser yo suyo, y miento? Porque has de saber que
no de otra alguma,me arrojo la na- en este nuestro estilo de caballel'ia
turaleza al mundo. Llore o cante es grau honra tener una damamu-
Altisidora, desesperese madama chos caballeros andantes que la sir-
por quien me aporrearon en el cas- van, sin q.ue se extiendan más sus
tillo del moro encantado, que yo pensamientos que a servila por solo
tengo de ser de Dulcinéa coado o ser ella quien es, sín esperar otro
alado, limpio, bien criado y hones- pago de sus muchos y buenos de-
to,a pesar de todaslas potestades seos, sino que ella se contente de
hechiceras de la berra.'' acetarlos por sus caballeros.''

Assim como se liberta da constan- O sentido dêsseamor místico não


te e fatal sedução da aventura amorosa, escapa à implacável perspicácia do es-
D. Quixote se liberta do ciúme. A en- cudeiro:
trega amorosa, sobretudo a entrega que
aindanãologrou satisfazer-se,
isto é, ''-- Con esa manera de amor,
ser recebida pela pessoaamada, assu- { digo gancho,he oido yo predicar
me um sentido unilalteral que acaba por qt-tese ha de amar a nuestro Seõor
por si solo, sin que nos mueva es-
assemelha-la ao amor pelo Ser Divino .
Como gancho estranhasse que todas as
{ peranza de gloria o temor de pena .
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-- Vá.late el diablo por villano mundo pelo heroísmo, não por um he-
-- dijo don Quijote -- y qué de roísmo de tipo hercúleo, mas por um
discreciones doces a las vedes! No outro feito de fé intangível,purezaper-
parece sino que has estudiado.'' feita, e de um atributo que a todos re-
sume -- o dom de si mesmo.
A fidelidade -- o polo para onde
Êsse dom de si mesmo resolve o
tende o ideal do amor -- é o apanágio
problema do destino, vence as hesita-l
do amor do Quixote. O amor do Faus-
iões que o temor do êrmotanto nos in-
to, o amor titânico, é infiel, pois em
funde, e, fazendo-nosolhar para fora
meio às satisfações perfeitas do amor,
no peito do homem titânico medra o de- de nós, permite que, um dia, nos reen-
contremos .
sejo de libertar-se . E a sêdeinextinguí-
vel de realização de si mesmo, o leva a O dom de si mesmo salva o Quixo-
recomeçaro amor mil vêzes,até encon- te, e o faz triunfar de seusfracassos e
trar a síntese que Ihe dará no seio tran- enganos pelo exemplo de que deixou en-
quilo da ordem o uso perfeito da liber- sementada a consciência dos tempos se-
dade. guintes. O dom de si mesmosalva o
Essa síntese, que é a aspiração do Quixote, mas -- herói ocidental em tu-
homem moderno, o herói quixotesco a do -- nesse dom de si mesmo êle tem
encontra por outro meio, qual de sua um mediador, de cuja eficácia depende
equívoca, porém inteligível aventura, a plenitudedo seu êxito: o amorde
irradia incessantemente até nós . Dulcinéia .

''Ella peles en mi, y vence en


O símboloe a E agora, em poucaspala- mi, y yo vivo y respiro en.ella, y
salvação vras, o resultadoda análi- tendo vida y ser.''
se, que cumpri com o concurso da vos-
sa paciência. Penso que o Quixote nos Se pudéssemos assistir à salvação
transmite uma lição de purificação do de D . Quixote, veríamos, pois, o seu pu-
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ro espírito erguer-se às esferas celes-
tes :'b -- tambêm pela intercessão do
Eterno Feminino -- acolher-se ao seio
de Deus

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