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Ano LXVIII info@casadopovo.org.br Bom Retiro, São Paulo - SP

MARÇO /ABRIL /MAIO /JUNHO Nº 1014

Cais José
Estelita em
Recife
março / abril / maio / junho março / abril / maio / junho
Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014 Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014

RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

Notas do Seminário Cartografias


do desejo

Público Micropolíticas:
A colaboração entre o psicana- Mas há também algo que sempre
lista, ativista e pensador fran- foge, que teima em fugir; nem
cês Guattari e a psicanalista e tudo está dominado. E, nisso,
crítica cultural brasileira Rolnik interessamo-nos pelas alianças
abordou as mobilizações e novas com o menor, com aquilo que

esboço de encontros
alianças de grupos políticos escapa e com o que faz escapar:
heterogêneos no Brasil no ano ao reativo, ao reacionário, às
de 1982. Para isso, fizeram uma capturas restritivamente identitá-
articulação com as experiências rias da norma. Notamos também
políticas do ano de 1968, em seu transformações nas táticas de

em curso
impacto global. O Seminário resistência a essas políticas de
Público Micropolíticas coloca produção e sujeição, na invenção
essas cartografias em constelação, e reivindicação de outros modos
fazendo-as ressoar às experiên- de vida, na inadequação às formas
cias abertas em junho de 2013, estabelecidas, nas atividades
que marcam uma reconfigura- políticas que não buscam tomar o
ção fundamental nas paisagens poder. Seria a chamada micropolí-
políticas do país. Situamo-nos tica, ainda pertinente para pensar
no intempestivo do presente, e outras dimensões para a atividade
Por Acácio Augusto, isso não é apenas uma questão de política? Se há um esgotamento de
Amilcar Packer e tempo histórico, mas, sobretudo, práticas de resistências históricas
de duração, intensidades e afetos.  e uma reconfiguração das tecnolo-
Max Jorge Hinderer Cruz gias de governo e controle, como
O período entre 1982 e 2015 continuar pensando em uma outra
constitui um território ou há vida? Ou será que estamos apenas
apenas o desgaste do tempo? frente a uma pausa, a um simples
Quais transformações, mutações e cansaço que antecede uma revigo-
deslocamentos se produziram no rada retomada das violências do
capitalismo e na resistência a ele capitalismo financeiro?
nessas três décadas? 

Notamos mutações nas estratégias 1982/2015


de produção de subjetividades
pelos fluxos do capital financeiro
e do poder. Capitalismo e esqui- As formas de operação da micro-
zofrenia; capitalismo e medi- política, de uma micropolítica
calização; capitalismo e doping; do desejo, cartografadas por
capitalismo e juridicialização; Suely e Félix no começo dos anos
capitalismo e gentrificação; capi- 1980, em um Brasil ainda sob o
talismo e biopolítica; capitalismo regime militar, parecem hoje ter
e segurança pública; capitalismo e se esgarçado, chegado ao limite.
os circuitos mundiais integrados; As transformações democráticas
capitalismo e Facebook. Há cada no país não são apenas inegáveis,
vez mais corpos que vagam pela são fundamentais. Mesmo assim,
vida, amedrontados e trêmulos, na mantêm intrínsecas relações com
era das políticas da reprodutibili- a cartografia capitalista e com
dade tecnocrática de subjetivida- as cartografias coloniais. Há um
des medicalizadas e mediatizadas, esgotamento das práticas, um
empreendedoras e endividadas, sufocamento macropolítico, um
voluntariamente georeferenciadas sufocamento da lógica de repre-
e governadas.  sentação da política partidária. O
horizonte existencial, seja este
mais localizado à esquerda, seja
à direita, com as tendenciosas
modulações ao centro, revela
Padrões, ciclos e O Seminário uma incapacidade de possibilitar,
cartografias que Público pois mantém, retém e restringe o
desejo ao patamar do consumo. Ao
se sobrepõem Micropolíticas avaliar a pertinência e as implica-
ções de (re-)pensar micropolíticas,
Enfrentamos um momento onde A Guerra Fria: dos restos da queda Em 2010, o corpo em chamas Os professores fazem greve na Por alguma razão, parece que Para lidar com a complexidade da O seminário propõe falar em polí- buscam-se experimentações de
as noções do político se desdobram do Muro de Berlim, em 1989, até de Tarek al-Tayeb Mohamed pátria educadora e são violenta- nós gostamos muito de estar aqui, atual situação política no Brasil tica articulando inúmeras dimen- produção de singularidades em
e se retraem; um momento que é as renegociações do embargo in- Bouazizi (1984 – 2011), na Tunísia. mente reprimidos. porque senão a gente não ia adiar e no mundo, surgiu o desafio de sões do político. Para isso, esco- suas “n” dimensões estéticas,
atravessado por ciclos e padrões ternacional sobre Cuba, em 2015. o fim dessa coisa. E, sinceramente, inventar uma prática regular, lhemos alguns pontos de partida éticas, clínicas, políticas, sexuais,
históricos que se abrem e se Em 2011, Ana Buarque de Aliás, a repressão policial avança eu não entendo por que as pessoas estendida no tempo, sem fim que se desenrolam, entrecruzam e trans-. Movimentos. “Roteiros,
fecham. Ciclos estes que desde o A morte de Eduardo Galeano Hollanda, recém-empossada mi- a passos largos. Leis antiterro- querem adiar o fim do mundo. Se previamente determinado, e sobrepõem, em sessões semanais, roteiros, roteiros.” Sobreposições
início dos anos 1980 afetam glo- e as veias ainda abertas da nistra da cultura, encontra-se com rismo pelo mundo afora e crimina- todos os sinais indicam que nós não cuja coletividade fosse capaz de de leitura e discussão coletivas, de mapas. Cartografias. Mudanças
balmente a vida na terra, na água América Latina. o ministro do comércio dos E.U.A.  lização da tática black block. conseguimos dar conta de cuidar sustentar paradoxos e desfazer gratuitas e abertas ao público imperceptíveis e, no entanto, ne-
e no ar, por meio da constante   Os estados buscam desqualificar desse jardim. Se todas as últimas, contradições, forjar ferramentas em geral. As questões giram em cessárias, enormes.
atualização e maior implantação Da emergência do Ejército Em 2013, foi, sim, por 20 centavos. a anarquia e os movimentos anar- digamos, notícias, que nós temos, e propor novas cartografias. Em torno da análise dos modos de  
dos mecanismos e das tecnologias Zapatista de Liberación Nacional quistas classificando-os são que nós estamos administrando termos históricos, situamos os governo neoliberais e das políticas Diante de um cansaço reativo,
de governo, instrumentalização e (EZLN) em Chiapas, México, Onde está Amarildo? como violentos. muito mal esse negócio. Por que debates por meio do surgimento de produção de subjetividade no colocado por corpos inteiramente
sujeição − capitalista: com o levante em 1994, até a Paris Hilton é que nós queremos adiar isso? A de novíssimos movimentos sociais capitalismo contemporâneo, por governados, buscamos cartogra-
e o filho de
necessária morte autodeclarada 2014, Copa do Mundo; 2016, Jogos Em 2015, o Brasil conquista o pri- Fidel Castro. Havana, gente podia pelo menos ter a cora- a partir dos anos 2000 e da reor- meio da diferenciação entre o que far o estranho e o ingovernável
Das ditaduras civil-militares na do Subcomandante Marcos, Olímpicos; Expo Universal em meiro lugar no ranking mundial fevereiro de 2015. gem de admitir o fim deste mundo ganização da cartografia política é chamado de micro e macro- nos corpos que se dispõem para
América do Sul até a terceirização em 2014, e o surgimento do 2020? de uso de agrotóxicos. e ver se somos capazes de aprender no país, em suas ressonâncias e política e as implicações decor- a luta, uma vez que muito do que
Crédito:
das responsabilidades estatais so- Subcomandante Galeano. Ramon Espinosa / alguma coisa, e se tivermos outras diferenças com os processos de rentes. Essas dimensões não são se acreditou como resistência aos
bre os setores principais da repro- Em 2015, a presidenta Dilma Os governos ditos de esquerda AP Photo / oportunidades, ver como é que nós redemocratização na América excludentes nem opostas, e muito processos de subjetivação capita-
Glow Images
dução social, o trabalho, a saúde, a Do nascimento dos movimentos Roussef se reúne com o criador do instituem políticas econômicas de vamos nos portar em um outro do Sul, particularmente a partir menos contraditórias, pois sempre lista se apresenta, hoje, esgotado.
educação e o transporte abriram antiglobalização e o surgimento Facebook, Mark Zuckerberg. austeridade. mundo ou em um possível outro da década de 1990. Procuramos acontecem ao mesmo tempo e Busca-se o dito e o não dito de prá-
as portas somente para a legitima- de plataformas e meios autôno- Os jovens negros são cotidiana- mundo. Ailton Krenak em Os Mil também sintonizar as conversas estão necessariamente articuladas, ticas em gestação, de práticas que
ção dos governos do capital, pelo mos, como Indymedia, em Seattle, mente assassinados pelas polícias O genocídio dos povos tradicio- Nomes de Gaia, 2014.  em relação aos diversos aconteci- podendo constituir paradoxos, emergiram nessa segunda década
capital e para o capital. em 1999.  e exércitos no mundo. nais e originários é negócio trans- mentos da primeira década e meia que, por vezes, são irredutíveis.  de século xxi e agora se apresen-
nacional. Colonialismo e neocolo- Sinabung, Karangetang, Dukono, do século xxi.  tam de forma mais nítida, uma vez
Do que separa o 11 de setembro de Dos vazamentos de informações Dónde están los 43 normalistas de nialismo. Descolonização?  Ibu, Soputan, Raung, Semeru,   Perguntamos, de modo sistemá- que esperanças e mal-entendidos
1973, no Chile, do 11 de setembro dos serviços secretos dos E.U.A. Ayotzinapa aún desaparecidos? Batu Tara, Villarica, Copahue, tico, sobre as táticas de resistência foram dirimidos. 
de 2001, nos E.U.A. relativos a crimes de guerra e Sangay, Ubina, Tungurahua, às formas do Estado e do capita-  
contínuas violações dos direitos Crise hídrica e valorização das Reventador, Shiveluch, Karymski, lismo, particularmente segundo
No Brasil, um período: da ascen- humanos; WikiLeaks, Chelsea ações da Sabesp na bolsa de NY.  Zhupanovski, ASO, Sakurajiam, as formas que vêm recrudescendo
são do PT em 1980 até a inegável Manning, Edward Snowden, 1972, Suwanose-jima, Nishino- e implementando seu impacto
crise a partir de junho de 2013, grampos telefônicos, Watergate, Entre 2004 e 2014, o consumo de shima, Erebus, OI Doinyo planetário neste novo século,
tendo como baliza a “Carta ao derrubada da administração do Ritalina sobe 775% no Brasil. Lengai, Erta Ale, Nyiragongo, condições inéditas de exploração,
povo brasileiro”, de 2002.  presidente Nixon. Passam-se Colima, Popocatépetl, Santa dominação e de precarização das
40 anos e a espionagem maciça Black lives matter! Maria /Santiaguito, Fuego, Poas, condições básicas para a existên-
pela NSA e a constante quebra do Turrialba, Stromboli, Kilauea, cia. Para isso, o livro Micropolítica:
direito à privacidade por governos Carnaúba, Rabaul, Cátia Matos, cartografias do desejo (1986), de
e empresas escandalizam e geram Yasur, Ambrum; atualmente (quin- Félix Guattari e Suely Rolnik, vem
apenas acusações retóricas entre ta-feira, 30 de abril de 2015), todos servindo como fio condutor.
governos totalmente implicados.  esses vulcões estão em erupção.
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Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014 Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014

RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

Micropolíticas
Não sabemos exatamente o que
é micropolítica, mas sabemos
que não se trata de uma relação
de escala em oposição ao macro.
Não é um objeto ou conteúdo, não
é algo que se possui, que se usa
Recife, Istambul,
São Paulo:
ou se consome. Talvez seja algo
do sempre a fazer, da ordem do
performativo, da incorporação,
particularmente na sua modula-
ção ativa. Por isso, desconfiamos
saber o que ela não é, ou melhor,
sentimos onde ela não está, deixou

lutas em comum
de estar. E, com isso, intuímos
que a micropolítica não é “algo”,
mas talvez seja um “como”, uma
prática; não um movimento, mas
algo que se move, que move. Mas,
também, e para além e aquém
de conclusões e, sobretudo, do
fetiche pelos conceitos, dispomo-
nos vulneráveis e somos afetados
pelos movimentos de transfor-
mação das subjetividades sempre
em curso e, nisso, deixamo-nos Por Ana Lira, Zeyno Pekünlü
levar pelos fluxos que escolhemos.
Como diz Rolnik, “a micropolítica e Augusto Aneas
(em si) não resolve nada!”.

Sociedades
 
de controle Cultura? Territórios Ocupação da
prefeitura do
Recife, 2012.
Nosso meio foi iniciar pelo ma- Durante a vigília criativa que O espaço amplo da cidade, essa Fotografia: Ana Lira
peamento do próprio, das forças manteve o Parque Augusta aberto forma específica de esquadri-
das chamadas sociedades de no início de 2015, perguntamos, nhamento da vida moderna do
controle, que hoje se encontram
tão instaladas por toda parte,
quanto estão plenamente operan-
junto à Rolnik e Guattari, se
“cultura” não seria um conceito
planejamento, vem se moldando
ao favorecimento da circulação Ana Lira / Direitos Urbanos nasceu da coalizão de diferentes gru-
pos afetados pelas mudanças ocorridas no Recife nas
duas últimas décadas. O primeiro grupo foi formado
A parte histórica – o centro e o Recife antigo – está
sendo disputada por interesses da construção civil.
A primeira grande luta se refere às “torres gêmeas”,
ZP Ainda que tenhamos

Direitos
reacionário. Resposta provisória, capitalista de bens, produtos e ganhado alguns processos e
tes. Câmeras nos registram nos não por isso menos pertinente: pessoas, arregimentadas para o por artistas e cineastas que abordavam os efeitos da que, como as de Istambul, têm uma ordem de demoli- feito as autoridades demolirem
ônibus, nas ruas, em nossas casas; sim. Há um Ministério da Cultura, crescimento irrestrito do lucro especulação imobiliária através de filmes, ilustrações ção. A diferença é que não as removerão, pois muitos alguns prédios, a situação mu-
pelo celular, sabe-se onde estamos,
e, nas mídias sociais, produz-se
o que desejamos. Somos parte do
há uma cultura dos ministérios.
Há um mercado da cultura, uma
privado. E se é preciso lutar pelo
fim da segregação econômica, Urbanos, e fotografia. O segundo foi formado por pessoas afe-
tadas por um projeto de lei que tentava punir bares e
restaurantes que pusessem mesas nas calçadas. O ter-
políticos vivem lá. dou recentemente. Mesmo com
ordem judicial, as construtoras

Recife
cultura de mercado e um mercado social, racial e de gênero da cidade, não cessam as obras. Então, o
controle do fluxo de informações cultural. Todos à venda? Talvez é também fundamental construir ceiro foi um grupo que tentava impedir a demolição de Zeyno Pekunlu Em 2012, o que fazer quando você está certo, a justiça diz que você está certo, no
e secreções, da produção desti- não, e seguimos atentos e interes- outras cidades onde isso valha Escola primária na prédios importantes para a memória de Recife. Grupos município de Istambul proibiu entanto nada muda? Recentemente, em uma pequena zona rural, os
vila Zapatista de
nada exclusivamente para o con- sados mais nas criações coletivas a pena, lugares para onde ir e Oventic, ao Sul do
de diversos outros segmentos também vieram integrar bares de colocarem mesas na fazendeiros destruíram as máquinas de escavação que estavam lá para
sumo como única atividade possí- e na coletivização das criações de onde vir; lugares onde ficar; estado de Chiapas, essa plataforma, mas essas três vias foram as princi- calçada e de venderem álcool nos construir uma mina. Eles afirmam que haviam ganhado na justiça, mas
vel, numa crescente depreciação no México, pais. Direitos Urbanos nasceu quando estes grupos se mercados após as 22h. Isso causou que continuavam escavando naquela região. Então, o que fazer? Parar
do que na representatividade. lugares para onde voltar. Criar em 3 de agosto
do que antes era o trabalho como Existirá uma cultura de resistên- espaços, reivindicar territórios, de 2004. encontraram em uma audiência pública, em 2012. uma grande reação e as pessoas as construções à força? O que acontece quando leis não são mais leis?
atividade temporal, contínua e de cia? Uma resistência à cultura? traçar cartografias para além da começaram a beber nas ruas
Foto: Mr. Theklan.
transformação. Integramos e com- Na constelação das referências casa-trabalho-banco-lojas, e dos (https:https:// cantando saúde Tayyip (o nome do
pletamos os circuitos mundiais do não há qualquer retorno seguro percursos pré-estabelecidos entre www.flickr.com/ então primeiro ministro, agora presidente turco). Entretanto, a proibição O caso Estelita é a segunda parte do problema que teve
photos/theklan/
capital financeirizado com o nosso possível, muito menos ao “sujeito” estes e suas restritivas relações. 5312620093/
de colocar mesas nas calçadas continua até hoje. Acredito que isso pode as torres gêmeas como o capítulo 1. Eles querem con-
corpo e nosso desejo, que entre- como instância individual dotada Interromper alguns fluxos e libe- in/photostream/ ser entendido como uma das ações para minimizar a interação pública nas tinuar com o projeto de gentrificação construindo 12
gamos voluntariamente. Talvez já de deveres, de poder e de saber. O rar outros por demais represados.  ruas, uma outra forma de perder o “público”, como o conhecemos. torres de 40 andares em uma área chamada Cais José
estejamos além do controle, pois capitalismo é a cultura do sujeito.   Estelita (101,7 mil m2). Essa é uma área estratégica para
outros sistemas estão instalados eles, pois conecta os centros de poder mencionados.
e, por isso, devemos ficar atentos Fluxos Refluxos  Entre Recife tem 478 anos e, se não tomarmos cuidado, a
às novas cartografias e produzir cidade celebrará seus 500 anos como uma cidade com- Porém, é uma área muito importante para nós. Os dois
outras. Ficar espertos, menos As ruas se tornaram globalmente Mas as ruas são também o lugar No meio, há sempre um começo e referências pletamente tomada pela especulação imobiliária. sistemas de transporte principais (metrô e ônibus) estão
preocupados com o futuro das palcos para afazeres políticos. do exercício da hegemonia polí- um imprevisível e, algum dia ou nas redondezas. Há pelo menos três comunidades ao
revoluções e mais abertos ao devir Movimento Antiglobalização. tica da violência. Desapropriações, noite, o incontornável fim (sim, Ailton Krenak: https://www.you- Nossa primeira grande perda foi a praia. Há 20 anos, o redor. Uma delas (Brasília Teimosa) está localizada em
revolucionário nas pessoas, às Derrubada de regimes autoritá- reintegrações de posse, execuções uma vida é finita!). Por isso, im- tube.com/watch?v=k7C4G1jVBMs governo do estado construiu o porto de Suape na costa uma área com uma piscina natural na praia, e é uma das
potencialidades de outros modos rios. Reivindicação pela descrimi- sumárias cometidas pelas polícias porta aqui o “entre” onde as coisas sul de Pernambuco, em uma cidade chamada Ipojuca. A mais valorizadas agora. O Estelita também é importante,
de vida. Não cabe temer ou esperar, nalização das drogas e pela libera- à luz do dia e na escuridão da acontecem, território no qual a Vulcões no mundo: http://www. construção bloqueou um importante rio e o local em que ZP O governo de Istambul insiste pois está localizado em uma parte histórica da cidade e é
mas buscar novas armas! ção do cultivo de algumas plantas noite, geralmente o assassinato Política, que submete os meios às volcanodiscovery.com/pt/erup- tubarões costumavam se alimentar. Por consequência, em construir uma terceira ponte o lugar que abriga uma das linhas de trem mais antigas
relegadas ao ilícito. Transporte de jovens negros de baixa renda, finalidades, tem sua centralidade ting_volcanoes.html os peixes migraram para a costa do Recife e desde então no Bósforo e um terceiro aero- do Brasil, além de um grupo de prédios históricos.
público, isto é, gratuito e de qua- mas não só. Violações de direi- deslocada e, pouco a pouco, quem competimos com a Austrália em número de ataques. porto na floresta, ao norte da
lidade. Saúde pública. Educação tos civis, humanos; violações de sabe, desaparece. No caso do preciado, Paul B. Desprivatizar o cidade. Quando a construção da No ano passado, as empresas de construção tenta-
pública. Contra o racismo, contra mulheres e também de homens. seminário, até hoje, esse “entre” nome próprio, 2014. Disponível em: ponte teve início, vimos porcos ram destruir parte dos galpões históricos. Um grupo
o sexismo; pela liberdade de per- Desaparecidos por todos os lados. de quase um ano é uma série de http://www.revistaforum.com.br/ selvagens nadando no Bósforo procurando um novo lar. Esses são al- entrou na área e, por 45 dias, cerca de 100 pessoas
formatividade sexual. Marcha das E, mesmo assim, as ruas também percursos e desvios que vêm se blog/2014/06/beatriz-preciado- guns exemplos de que o desenvolvimento urbano não pode ser discutido ocuparam Estelita – 21 dias dentro e o resto do tempo
vadias. Pela demarcação e defesa vêm servindo para a legitimação fazendo segundo os encontros; desprivatizar-o-nome-proprio- sem teorias ecológicas. Mesmo as cidades têm sua ecologia e a transfor- fora da área, embaixo de um viaduto próximo. Foi um
dos territórios indígenas. Contra pública desses sistemas históricos, o encontro de corpos, o embate desfazer-ficcao-individualista/ mação urbana tem um grande impacto nisso. processo difícil para todos. Naquele momento, um
as manipulações genéticas feitas estatais, totalitários, militarizados, das falas, as qualidades da escuta. segundo grupo surgiu do assentamento e decidiram
em laboratório para garantir o genocidas. A experiência livre e pública de deleuze, Gilles. Post-Scriptum chamar de Movimento Ocupe Estelita.
controle da produção alimentar leituras, ora com mais de trinta sobre as sociedades de con- O porto era uma espécie de “ponta do iceberg”. Há 20
e o cartel de corporações. Pela pessoas, ora com menos de cinco, trole. “Conversações 1972-1990”. anos não éramos capazes de perceber as implicações por Para esclarecer:
reforma agrária. Pelo direito à vem atiçando o pensamento en- RJ: Editora 34, 1992, p. 219-226. trás das políticas públicas praticadas até então. Não era
moradia, nas cidades e no campo. quanto prática de transformação e Disponível em: claro para nós, naquela época, a filosofia da “cidade como 1. Direitos Urbanos é um grupo e uma plataforma no
Pela produção de outras cidades. vontade de convivência.  https://drive.google.com/file/ uma empresa”, que Carlos Vainer mencionou no seminá- Facebook com 30.000 pessoas que discutem os ZP Em Istambul há diferentes
Pelo fim da polícia militar. Pelo d/0B94-EYHuPJaY2IyYWE4N- rio O Direito à Cidade, na 31ª Bienal de São Paulo − uma direitos à cidade. Estelita é a discussão principal, bairros engajados na resistência ur-
fim das polícias. Pelo uso público DYtYzkyNi00NTU5LTk0O- empresa que vende a localização como um privilégio. mas estamos também em outras lutas na cidade bana e também há muitas conexões
do espaço como algo em constru- GItYmY2YzA5NjM1Zjg1/view ligadas aos mesmos problemas. entre as lutas de outras cidades.
ção. Pelo fim das fronteiras. Por Não sei se todos vocês tiveram a oportunidade de Recentemente, um fórum urbano
mais parques. Por outras formas O Seminário Público guattari, Félix e rolnik, Suley. assistir ao vídeo Recife, Cidade Roubada, no qual o mensal foi criado e pretende reunir
de vida e modos de existência. Por Micropolíticas é parte das “Micropolítica: cartografias do arquiteto Cristiano Borba menciona que os salá- grande parte destas lutas. No entanto, temos questionado se há solidariedade
estar sem precisar ser. atividades do Programa de Ações desejo”. RJ: Editora Vozes. rios mais altos pagos atualmente em Recife vêm de suficiente entre os movimentos urbanos. Como podemos expandir a rede a
  Culturais Autônomas ( P.A.C.A.) 12. ed., 2013. profissionais que trabalham em negócios localizados fim de empoderar outros movimentos? Pensamos especialmente que as lutas
e se reúne todas as terças-feiras perto das frentes d'água. O parque tecnológico Porto dos migrantes, movimentos LGBT e feministas devem ter conexões mais
entre 20h e 22hs na Casa do Povo. Digital, o porto de Suape e o polo médico e jurídico sólidas. Por exemplo, na Turquia as mulheres se sentem desconfortáveis
Informações: https://seminario- são negócios aos quais pessoas geralmente ligadas à em locais públicos e semipúblicos. Sequestros, estupros e assassinatos são
micropoliticas.wordpress.com/ : justiça, política, medicina e economia se associam. muito comuns e nós nunca estamos confortáveis quando sozinhas com um
Email: mcrpltcs@gmail.com motorista. Transporte, urbanismo e feminismo podem ser facilmente ligados.
A situação acima, que agora sabemos ter sido total- Pedir por transporte 24 horas faria com que as mulheres se sentissem mais
mente planejada segundo uma política de especulação seguras à noite, por exemplo. No caso da revolta do Parque Gezi, um dos
imobiliária, resultou em uma grande mudança do slogans de que eu mais gostei veio do movimento LGBT: “não queremos
panorama de Recife na última década. A praia de Boa guetos, queremos a cidade inteira”. Para as pessoas LGBT, há pontos seguros
Viagem é agora conhecida como a “praia da sombra” na cidade, mas, fora dessas zonas, elas se sentem inseguras. Então, enquanto
porque não se pode mais ficar ao sol após as 14h por pensarmos localmente sobre nossas lutas, encontraremos maneiras de ligá
causa das sombras projetadas pelos prédios. -las a outros movimentos.
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RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

1. #OcupeEstelita é um evento público criado pelo


Direitos Urbanos há três anos e que atualmente Zeyno Pekünlü/ Além da luta do Cinema Emek, protestos contra o
shopping Demiröden, a campanha contra o projeto
Tivemos uma conversa séria com os secretários e suas
respostas foram inacreditáveis. Estávamos denun-
Em contrapartida, os conselhos locais, que hoje de fato
operam na cidade, são frequentados pela população

Müştereklerimiz
é organizado por diferentes grupos, unidos em de pedestrianização da Praça Taksim 3 e as ações para ciando o quão irregulares eram aquelas regras. A mais conservadora e reacionária e são pautados pelo
um coletivo que se utiliza de ações/interven- defender o parque Gezi4 mostram que a luta urbana polícia estava o tempo todo sendo forçada a trabalhar desejo de que as ações públicas operem na prática
ções para se posicionar perante o processo de não é distinta das lutas contra a precarização do em situações difíceis e anunciaram a possibilidade de cotidiana da cidade.

2.
gentrificação.

Movimento Ocupe Estelita é um segundo cole-


(Nossos comuns) trabalho, por exemplo, e que o controle pelo Estado
dos espaços comuns nas cidades cria um processo de
precarização sustentado por uma cadeia de relações.
uma greve. Então o cenário mudou outra vez. Todos
esses problemas estavam ligados. As ideias por trás do
gerenciamento das cidades podem criar um ambiente
Eu tenho uma experiência concreta na participação no
CONSEG-centro (Conselho de Segurança do Centro
tivo formado por diferentes grupos do Recife O que nós aprendemos nesse processo é que a luta muito propício para o uso comum ou uma situação da Cidade) onde se leva em consideração o desejo da
após a ocupação. Algumas pessoas do Direitos urbana não pode ser considerada apenas em termos de completamente oposta. As decisões tomadas pelo população em relação aos procedimentos da Polícia
Urbanos colaboram com o movimento, mas nos- transformação física, mas a transformação urbana é governo estavam nos levando a um cenário de 20 Militar e da Polícia Local de Defesa do Patrimônio
sas estratégias, discussões, ações e projetos para também uma política que determina como as pessoas anos atrás quando a cidade estava dividida, a indús- Público (GCM). O que percebo, de forma assustadora,
o futuro não são exatamente os mesmos. Muitas pessoas engajadas na política antes da se relacionam umas com as outras. As estruturas tria do medo ativa, a violência aumentava, os direitos é que esse espaço de participação é predominante-
Resistência do Parque Gezi1 tinham em comum a sen- precárias que tornam quase inviável que as pessoas básicos estavam sendo negados. Havia muitas greves mente frequentado pela população conservadora,
sação de que faltava uma luta unificada, que protestos se organizem estão de mãos dadas com a gerência dos e a gentrificação começava a transformar o Recife em que expressa uma necessidade de repressão da vida
Por último, estamos passando por um momento de re-
e movimentos eram apenas periódicos e organizados espaços de trabalho e áreas de convivência projetados uma cidade de condomínios fechados e de pessoas que pública. Assim, eles acabam por legitimar a participa-
cuperação de áreas abandonadas na cidade, por artistas
de acordo com a urgência, e que não conseguiam mo- de tal forma que tornam quase impossível a convivên- AL No Recife, nossas lutas estão temiam umas às outras. ção pública, influenciando nas ações repressoras da
e pessoas que, de algum modo, estão ligados às discus-
bilizar grandes massas. O sentimento de pessimismo cia entre diferentes grupos de pessoas. Por essa razão, ligadas às maneiras com que as polícia nas ações do espaço público da cidade. Ou seja,
sões dos direitos urbanos – especialmente em relação ZP Este é um tópico muito
e derrota era dominante. Questões como destruição imaginar uma saída para isso, que seja diferente das decisões tomadas no campo de No livro Image of the City, o autor Kevin Lynch diz que, esses canais locais de “participação popular” não estão
ao direito de ter grupos diferentes vivendo no centro da discutido aqui. Quando artis-
ecológica, espoliações em nome de um lucro ilegal, formas de organização e resistência que conhecemos e gerenciamento urbano afetam a mais que a arquitetura, o desenho da cidade é respon- sendo influenciados e contrabalanceados (e polemiza-
cidade, de criar lugares de livre acesso, como bibliote- tas e intelectuais começam a
espaços para viver sendo constantemente retirados nos acostumamos, surgiu como uma necessidade. vida de todos. Assim, por exem- sável por criar um ambiente em que a população pode dos) pelos que querem mais liberdade e justiça dentro
cas, parques, centros culturais, mercados públicos etc. fazer intervenções em áreas
de nossa posse e as feridas abertas em nossa memória plo, o governo decidiu gentrificar expressar o seu melhor para viver ou poderia ser res- da cidade.
abandonadas, muitas vezes
coletiva, apesar de afetar nossas vidas diretamente, as áreas próximas de onde se ponsável por destruir o potencial das pessoas. Quando
conseguem elevar o valor
permaneceram no interesse de pequenos grupos e pretende construir o Novo Recife. Eles começaram a expulsar grupos perdemos a habilidade de nos conectar e agir como um AL Estelita seria mais um caso de gentrificação se não
da vizinhança. Em Kadikoy, Istambul, dois prédios foram ocupa-
grande parte foi desprezada pela esquerda tradicional. urbanos, como skatistas e vendedores de rua, além de criar um cenário grupo, nossa capacidade de prestar atenção ao contexto, tivéssemos uma rede tão boa dentro e fora do Recife.
dos por ativistas. Depois, o município começou a mostrar prédios
de falta de segurança (com o apoio da mídia local) para desenhar um quando não podemos nos sentir bem nos lugares em que Devemos promover um esforço especial em conectar
vazios para ajudar ocupantes. Os donos perceberam que essas
Desde 2009, são criadas alianças, às vezes tempo- contexto ao projeto que eles gostariam de propor, que selecionava quem vivemos, quando carregamos em nossos corpos a sen- as pessoas, instituições e movimentos. É importante
vívidas intervenções artísticas e culturais estavam, na realidade,
rárias, às vezes permanentes, com o fim de unir poderia circular na área aos domingos, dia em que a classe média/alta sação de morte em vez da sensação de criação de novas aprender com movimentos que têm experiências dis-
revitalizando a área, aumentando os aluguéis e criando demandas
práticas de resistência em uma luta comum. A ideia do Recife costuma visitar o novo polo gastronômico que foi criado ali. maneiras de solucionar problemas estamos vivendo em tintas na cidade e observar quais são as ideias comuns
para a vizinhança. Mas isso não significa que devemos ficar longe.
de Müs˛tereklerimiz nasceu da experiência de lutas Levaram quase um mês para fazer isso, usando a polícia para revistar um lugar em que o gerenciamento urbano está falho. e as diferentes.
Precisamos encontrar um jeito de fazer com que nossa própria exis-
comuns a vários movimentos e da necessidade que qualquer “suspeito” que cruzasse as pontes para acessar o Recife Antigo.
tência não torne as coisas ainda piores.
essas experiências criaram. Obviamente, não era nada A lista de restrições que eles usaram tinha como foco o bloqueio de AA Sobre o tópico da legitimidade das ações das Por exemplo, algumas pessoas consideraram alguns
fácil fundar uma forma de fazer política que revelaria pessoas pobres na área, especialmente adolescentes e crianças. Diziam Prefeituras e dos órgãos locais de São Paulo em relação temas, como mobilidade, muito difíceis de abordar,
AL Isso é uma questão muito importante aqui, mas a área que
o potencial e as necessidades dessa demanda. que essas pessoas só poderiam ir lá com seus pais, mas a maioria deles ao direcionamento de projetos e de gestão da cidade, comparados ao tópico da moradia. Mas, quando se vê a
mencionei no Recife costumava ser comercial. Na maior parte das
usava os domingos para trabalhar vendendo comida, bebidas ou fazendo tenho percebido um fenômeno muito importante, questão da mobilidade pela perspectiva do transporte
vezes, escritórios governamentais e de advocacia, clínicas médicas
A luta pelo cinema Emek2 , iniciada em 2010, tornou-se trabalhos freelance. vulnerável e ameaçador. Aqui, cada vez mais, a ideia público e como isso afeta os usuários – como estudan-
e jornais estavam lá até os anos 1980. Eles se mudaram para polos
uma das ações mais simbólicas no que tange à resistên- da “participação popular” em conselhos, audiências tes e trabalhadores –, ela se torna mais fácil de lidar.
especiais, o que acabou com algumas profissões na área e deixou
cia urbana na Turquia. A forma como foi organizada, e órgãos que fazem a gestão da cidade está crescendo. Acredito que as más condições do transporte público
muitos prédios vazios por 10 anos. Assim, algumas faculdades parti-
suas atividades e o seu slogan: “Continuem com a luta. Durante a Resistência Gezi, a importância de questões Essa participação e sua legitimidade no reflexo direto no Brasil atualmente afetam as pessoas emocional-
culares populares começaram a comprar os prédios. Logo após este
Ela está apenas começando”, foi um dos pilares da que a política do Mus˛tereklerimiz apontou foi provada sobre os rumos da cidade variam, dependendo do tipo mente, tanto quanto tentar ganhar dinheiro o sufi-
momento, vieram os artistas que buscavam um espaço para dividir
Resistência Gezi. As atividades para defender o cinema mais uma vez. A política neoliberal do AKP (partido e de como opera de forma direta na cidade. ciente para pagar por uma moradia.
e trabalhar. Isso foi muito bom porque eram as mesmas pessoas
Emek, que começaram no centro e se espalharam por conservador atualmente no poder), que se baseava em
que consumiam o material vendido em comércios de segunda mão
toda a cidade, foram organizadas para reerguer a voz uma receita ilegal, não leva em conta nenhuma opo- Venho percebendo uma presença muito ativa da po-
localizados na vizinhança. Outros descobriram espaços, como grá-
dos bairros da periferia. Quando ganhou legitimidade sição e ignora as demandas das massas. Esta política pulação mais consciente e libertária dentro do espaço
ficas antigas e outros negócios quase falidos, começando a usar os
e visibilidade, a luta fez com que organizações tradicio- cobriu espaços verdes com concreto, empurrou os de participação popular mais ambicioso como, por
serviços ou a comprar máquinas antigas para fazer algo. Um tópico
nais de esquerda passassem a incluir a luta urbana em pobres para fora do centro e transformou-o em espaço exemplo, no novo Plano Diretor da cidade (2014-2030),
levantado aqui é: como viver nessas áreas, estimulando as possibi-
sua agenda. O uso coletivo foi enfatizado e utilizado con- planejado apenas para uso turístico. O projeto de no qual os desejos e críticas estão começando a ser re-
lidades locais sem que se crie uma nova ilha, que implique outros
tra a transformação de nossos espaços em commodities, pedestrianização da Taksim e finalmente o plano para presentados pelos movimentos sociais e políticos, que
modos de gentrificação?
resultando em discussões acerca de tópicos como espaço, construir um shopping no Parque Gezi causaram uma no geral “roubam” a cena da discussão.
memória e história. A ênfase no valor do uso “coletivo” grande reação pública. A importância da luta urbana e AL Eu tive uma experiência pessoal
Então, acho que temos lutas em comum entre Recife, sugeriu que o termo “público” não pudesse mais ser de resistências locais e seu efeito mobilizador − que até em Istambul. Em 2010 viajei para
São Paulo e Istambul. Nós estamos em cidades: definido apenas em relação ao Estado e que nós, como AL As pessoas normalmente não a Resistência Gezi estavam no fundo das campanhas lá para estudar por uma semana
usuários comuns, poderíamos redefini-lo. Isso abriu ca- associam o termo “público” com a centrais da esquerda − ganharam aceitação comum. e produzi um pequeno fotodocu-
• Afetadas por gentrificação; minho para o início das primeiras discussões que foram ideia de “comum”, como você men- mentário sobre uma questão que
• Com políticas públicas destinadas a garantir os vistas depois, com os movimentos Occupy. cionou, mas a algo controlado pelo eu considerava importante. Como
desejos de empresas em vez de nossas vontades governo. Isso é um pouco preocu- vivíamos um processo de gentrificação no Recife, decidi produzir uma narra- Bem, agora estamos ainda mais reprimidos do que a
como cidadãos; pante no contexto das cidades que tiva visual para o problema da moradia. fase pré-Gezi; no entanto, uma nova maneira de fazer
• Que estão discutindo direitos básicos, como mora- são gerenciadas como empresas, pois o “poder público”, ou o governo, é na política nasceu. Várias novas organizações em rede
dia, transporte, segurança, saúde pública etc.; verdade um poder privado e já não está mais focado nos interesses comuns Sulukule era o foco principal, apesar de que alguns fotógrafos turcos mencio- estão aparecendo e se conectando. Muitas pessoas co-
• Com pessoas que querem pensar em maneiras de da população. naram que os residentes recusavam a visita de estrangeiros na área por causa meçaram a entender que contribuir para a política não
usar os espaços para um público diverso; do impacto que o “mau jornalismo” causava em suas vidas. Era totalmente se limita apenas ao parlamento e ao voto. Para resumir,
• Com grupos interessados em mudar a maneira Augusto Aneas Concordo com a controvérsia entre os termos “comum” e compreensível. Não podemos pensar que publicar tudo possa ser algo positivo eu posso dizer que a rede Mus˛tereklerimiz se organiza
com que se tomam decisões de instituições “público”. O termo “comum” nas lutas de resistência em São Paulo parece- para um movimento. A propósito, isso é uma questão que, no contexto de a partir de um tripé de questões:
político-econômicas; me um fenômeno novo e que começa a ser incorporado na comunicação mídias sociais, estamos esquecendo. Dependendo do tópico, às vezes a melhor
• Que pedem uma participação popular mais efe- geral e, acredito, vem de uma influência direta do pensamento de Antônio estratégia é não publicar. Como eles não conheciam nossa história e as ações • Como criar uma luta em conjunto, entre diferen-
tiva no que tange ao futuro do lugar onde vivem; Negri − com reverberações nacionais em Peter Pal Pélbart, Raquel Rolnik do governo local eram muito intensas, podíamos perceber que eles adotavam tes causas?
• Envolvidas em lutas relacionadas à cultura, edu- e Suely Rolnik, entre outros. Porém, considero o significado do termo e a estratégias para se proteger. • Como criar um novo sujeito político, que con-
cação, identidade e memória. potência que ele representa ainda restrito − e para muitos ainda não está tribui para as lutas locais e internacionais? (A
clara a potência dessa diferenciação entre “público” e “comum” e também a Um dia antes de voltar ao Brasil, fui até lá dar a eles as fotos que tirei na raiz da palavra “comum”, em turco, também é a
dificuldade de expressar essa distinção. vizinhança e os arquitetos do governo e sua equipe estavam medindo as casas mesma raiz da palavra “participar”).
e fazendo planos para a área. Foi muito difícil ver como as famílias e as histó- • Como podemos criar novos espaços comuns?
Ana Lira é fotógrafa.
Ela vive e trabalha em Recife. Concordo com a Ana Lira sobre a atual vulnerabilidade do termo “público” rias naquele lugar não são consideradas. Famílias, no contexto de decisões de (pensamos em um significado ampliado de espaço, AL Eu acho que esta é das ques-
no campo da consciência coletiva, junto com o crescente processo da ges- poder, são apenas peças que eles movem para onde lhes é mais conveniente. não apenas físico, mas que também envolva novos tões mais importantes que temos
tão pública, do espaço público e dos serviços públicos, que cada vez mais métodos de ação, novas ações coletivas, nova de responder. Acredito que temos
operam na lógica da empresa e do mercado. Essa experiência foi muito útil para entender várias coisas aqui no Brasil. linguagem ativista etc.). que aprender a usar a estrutura
No caso do Estelita, estamos discutindo como o projeto Novo Recife afeta disponível, porque aprendemos
A discussão sobre direito à cidade está cada vez mais nas pautas das negativamente as comunidades em torno. Um tópico está relacionado ao que estávamos vivendo em um
demandas da população e do ativismo urbano, mas sinto que a percepção preço do solo. Quando um megaprojeto é construído, o preço fica tão alto país sem saber como utilizar estas estruturas e, uma vez usadas, entende-
da ideia de “público” ainda está mais no campo do serviço “público” e isso que as famílias que moram de aluguel não podem mais pagar e têm que se ríamos como elas poderiam ou não funcionar. Ao mesmo tempo, devemos
começa a se desdobrar também sobre como o termo “comum” vem sendo mudar. Há muitas maneiras de remover pessoas, e expulsá-las à força não é pensar e experimentar novas estruturas e estratégias para transformar
apropriado: como se a prefeitura e os órgãos públicos tivessem que oferecer a única estratégia. estes espaços comuns de forma realmente eficaz.
um serviço público para a população, em oposição ao serviço privado. Ou
seja, a defesa do “público” me parece operar em contraposição ao “privado”,
no sentido do consumo e da prestação de serviço, onde a população se co- Outra questão que o Mus˛tereklerimiz levantou
loca em um papel passivo de consumidor e não na ação direta do processo enquanto construía sua política foi que a junção de Zeyno Pekünlü é artista e conferencista.
Ela vive e trabalha em Istambul.
de construção-gestão-projeção da cidade. diferentes grupos, que podem e querem se juntar em
causas comuns, tem o potencial de obstruir ataques
focados em silenciar e nos sufocar de todos os lados.
Durante a Resistência Gezi, esta forma de relação, 1  [Nota da editora] Gezi é um parque localizado 3  [Nota da editora] O projeto de
ao lado da Praça Taksim, no distrito de Beyoğlu, Pedestrianização da Praça Taksim consistia na
experimentada pelos grupos que faziam parte da rede em Istambul. É uma das últimas áreas verdes construção de cinco túneis subterrâneos para
Mus˛tereklerimiz, mostrou-se útil também em larga nessa região e possui um valor histórico para carros que atravessariam a Praça. O projeto foi
cidade. Em 2013, foram divulgados planos criticado por arquitetos e urbanistas, pois um
escala. O coletivo, que tinha diferentes raízes e foi or- de demolir o parque para construção de um dos problemas envolvidos em sua construção
ganizado ao redor de propósitos diferentes, criou um Shopping, o que gerou uma onda de protestos era de que os túneis dificultariam o acesso de
sentido de solidariedade nunca visto antes na Turquia. na Turquia. pedestres à Praça, além do impacto ambiental
2  [Nota da editora] O cinema Emek está decorrente de sua construção.
Nessa solidariedade, a tática mais importante que localizado no edifício histórico Serki Doryan, 4  Objeções ao Projeto de Pedestrianização da
poderíamos desenvolver contra o governo (que tentava no distrito de Beyoğlu, e hospedava a abertura Praça Taksim e do Parque Gezi começaram logo
do Festival de Cinema de Istambul. O edifício após o seu anúncio. Mais de 80 organizações
nos isolar e minimizar o contato uns com os outros), costumava abrigar festas secretas em se juntaram e formaram a “Solidariedade
foi a experiência de formar vidas compartilhadas em comemoração ao 1º de Maio nas décadas de Taksim” para seguir com o projeto, criar uma
espaços que pleiteávamos como nossos. Durante a 1970 e 1980, quando elas eram proibidas pelo luta legal e seguir com a conscientização
governo. Em 2009, com o pretexto de “reforma”, pública. Durante o ano de 2013, especialmente a
“vida comunal” formada no parque Gezi, essa possibili- foi tomada a decisão de demolir o edifício Serki Câmara dos Arquitetos, um dos constituintes da
dade foi testada pela primeira vez em larga escala. Doryan para a construção de um shopping. “Solidariedade Taksim” brigaram na corte pela
anulação do projeto. Eles abriram um balcão de
informações na praça para informar as pessoas
da ilegalidade do projeto, fazer uma petição
para sua anulação e organizar várias atividades
no parque Gezi.
Protesto contra
a demolição do
histórico Cinema
Emek. Istambul,
2013.
março / abril / maio / junho março / abril / maio / junho
Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014 Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014

RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

Augusto Aneas/ Para que este empreendimento seja habilitado, a


remoção de dezenas de árvores é necessária, incluindo
5  No dia 13 de fevereiro de 2015, depois de três
semanas desde que o Parque Augusta foi reaberto
ao público pelo OPA (o restabelecimento da

Organismo Parque algumas centenárias. Não há estudos sobre os impactos


do empreendimento na infraestrutura da região e do
propriedade privada aconteceu em 04 de março
de 2015), o Ministério Público e o Município
de São Paulo anunciaram publicamente que

Augusta, São Paulo


meio-ambiente local. R$ 65 milhões de dólares foram oficialmente
reservados para comprar o Parque Augusta de
seus donos atuais. Através de um acordo com
Nós pensamos que a lógica do mercado não pode subs- os funcionários públicos, Citybank e UBS, o
tituir as leis da cidade e o desejo da população. Se os M.P. concordou que o dinheiro fosse depositado
nos cofres públicos do município, uma vez que
objetivos atuais encorajam o adensamento demográfico o montante havia sido inicialmente transferido
em determinadas áreas, com o objetivo de otimizar destas contas pela administração anterior de
Paulo Maluf, no âmbito de um escândalo de
a infraestrutura existente, é necessário assegurar a ZP Ao insistir nas leis existen- corrupção durante seu mandato como Prefeito.
garantia imediata de áreas verdes que ainda estão livres. tes, também devemos criar um O acordo prevê que o dinheiro seja destinado
O Organismo Parque Augusta (OPA) é um movi- O Parque Augusta localiza-se hoje em um dos pontos na prioritariamente ao Parque Augusta, caso não
discurso para além delas. Um
mento apartidário diversificado e horizontal de cidadãos área central mais procurados pelo mercado imobiliário.
seja possível, deverá ser aplicado em creches.
discurso que diga que, mesmo
que lutam pela preservação dos últimos espaços verdes,
que percamos perante a lei, ainda Embora a grande mídia anuncie publicamente
permeáveis ​​e gratuitos na cidade de São Paulo. O mo- que o terreno do Parque Augusta vale R$ 240
podemos reivindicar um parque, milhões, sabemos que ele foi comprado no
vimento de luta pelo parque também busca uma gestão
porque é o nosso bem comum e deve ser desapropriado pelo povo. Caso final de 2013 por R$ 8 milhões. É um exemplo
feita pelo povo, e somente desta forma vemos a possibili- clássico de especulação imobiliária. Hoje
contrário, as leis são modificadas da noite para o dia para minar o traba-
dade de outras formas de organização, gestão e tomada sabemos que com o acúmulo de irregularidades
lho dos ativistas, ou outra lei é criada para “condições extremas”, e, em dentro do Parque, como o fechamento de seu
de consciência da cidade por e para seus cidadãos. acesso, podemos desapropria-lo à custo zero
seguida, a aplicam para quase todos os casos.
para a cidade.
A partir da percepção do momento histórico em que
estamos vivendo, entendemos nossa luta como resul- O movimento participou de diversos diálogos com con-
tado de uma série de fatores, principalmente como selhos, secretárias e audiências públicas, mostrando as
uma reação à ação do estado e da cumplicidade econô- restrições e irregularidades de se construir no terreno
mica que transformou a cidade em uma commodity, ao do parque. Embora hoje o processo de aprovação do em-
longo das últimas décadas, culminando em uma crise preendimento esteja paralisado pelo Ministério Público,
urbana que atinge os seus limites. Sabemos que a nossa ainda é incerto o destino final da área. O único retorno
luta é global, e já estamos em rede. da Prefeitura é que a cidade não tem dinheiro para a
desapropriação do parque e que ele não é prioridade.5
O Parque Augusta é a última área livre verde no centro
da cidade de São Paulo, que tem um bosque com As pessoas que defendem o Parque são contra a desapro-
árvores remanescentes da Mata Atlântica e hospeda priação da área via pagamento do montante estipulado
uma mobilização popular há mais de 40 anos, que pelo mercado financeiro internacional e que pesa sobre
busca dificultar a implementação de empreendimentos o orçamento do Município. Uma questão permanente
imobiliários nesse terreno. para nós é: como medir o valor de um parque na me-
trópole São Paulo? Quanto uma árvore centenária ou
Depois de ser sancionada a Lei para a criação do o oxigênio que ela produz valem para quem vive nesta  ZP Na última década, as áreas
Parque Municipal chamado “Parque Augusta”, em de- cidade? Como reforçar a função social de uma proprie- verdes de Istambul diminuíram
zembro de 2013, o acesso ao espaço foi fechado ilegal- dade comum, quando os governos tornam-se cúmplices de forma drástica. Como se não
mente pelos proprietários da terra, e assim permanece. do capital internacional, que a destrói? bastasse, os novos edifícios de
O fechamento deste acesso é ilegal, pois o registro apartamentos são construídos
garante o acesso do público por meio de Termos de sem jardim ou área ao seu redor.
Compromisso com a cidade. O município organiza os parques
já existentes, adicionando mais estradas de cimento e plataformas. Como
No verão passado, o movimento organizou uma ocupa- ZP Como vocês organizaram a resultado, há muitas enchentes, pois a chuva não consegue ser absorvida
ção que durou cerca de dois meses. Essa ocupação foi logística de uma ocupação tão pelo solo. Isto é realmente assustador, considerando que toda essa mudança
chamada de “Vigília criativa” e sua intenção era for- longa? Quantas pessoas foram se pôde acontecer em apenas 10 anos.
talecer a agenda do Parque Augusta. Isto foi essencial hospedar lá, e como é que concilia-
para o progresso da nossa luta. vam trabalho / escola / vida pes-
soal enquanto a ocupação estava A urbanização da cidade é absolutamente exploratória e
acontecendo? destrutiva. Rios foram aterrados e áreas impermeáveis ​​
no centro da cidade sofrem com inundações constantes,
É difícil comparar a ocupação do P.A. e do Estelita com a ocupação Gezi as áreas verdes são escassas e localizadas principal-
por causa da escala. No entanto, após 15 dias de ocupação, a maioria das mente em bairros de classe média e alta ou nos extre-
pessoas não a achava mais sustentável. A polícia evacuou o parque e, mos da cidade. Os edifícios dominam a paisagem, sem
mesmo se não o fizessem, em algum momento nós o faríamos por conta qualquer rigor ou limitação, muitos deles até encontram
própria, deixando apenas uma barraca simbólica. lençóis freáticos nas suas fundações que, no fim, são
drenados e jogados no esgoto, como ocorre diariamente
AL No caso de Estelita, tivemos algumas surpresas agradáveis. Algumas na Rua Augusta.
pessoas trabalhavam durante o dia e dormiam lá à noite. Alguns trabalha-
dores freelancer, estudantes ou aqueles que poderiam trabalhar/estudar Ultimamente, o Parque Augusta está se conectando a
fora de uma base começaram a fazê-lo na ocupação. Alguns professores outros parques, áreas verdes ameaçadas de extinção
universitários entenderam que a experiência era tão (ou mais) impor- e outros movimentos da cidade. No início deste ano, a
tante quanto algumas aulas e deixaram os seus alunos livres para esta- Rede Novos Parques SP criou uma plataforma com o ob-
rem lá. Outros começaram a dar aulas dentro da ocupação. Isso criou um jetivo de mapear as áreas verdes ameaçadas de extinção,
movimento de aulas públicas, que ainda é usado pelos participantes do sistematizar e repassar informação ambiental, legal e
Movimento Ocupe Estelita − o segundo grupo fundado após a ocupação. urbana com o objetivo de fortalecer os argumentos que
garantem a função social dessas regiões e construir uma
Os moradores da ocupação criaram áreas comuns, tais como uma cozinha agenda comum, que expressa a importância dessas áreas
coletiva, uma área para as audiências públicas e aulas, outra para banho, para o presente e o futuro da nossa cidade.
para dormir e deixaram um grande espaço para eventos públicos.
Não deve haver nenhuma construção de edifícios
Tivemos campanhas diárias para coletar água, comida, medicamentos, ma- no Parque Augusta ou em qualquer outra área verde
terial de limpeza e assim por diante. Todos os dias uma comissão publicava restante na cidade, simplesmente porque chegamos
uma lista das necessidades e os que estavam engajados nas redes sociais ao limite mínimo de espaços livres para implantação
recolhiam esse material. de espaços públicos com árvores e plantas. E para nós,
neste exato momento, todos os projetos aprovados ou
Durante a ocupação, de 100 a 150 pessoas viveram ali, quase 500 circula- em aprovação sobre estas áreas devem ser imediata-
vam diariamente nos eventos organizados para dar visibilidade para a área mente paralisados, a começar pelos projetos ilegais
e suas discussões. Nos eventos de finais de semana recebíamos em torno de ou irregulares.
10 mil pessoas em um dia.
Vemos que a prioridade da cidade não é o que é irreversí-
vel, essencial e comum a todos. Árvores, campos, verde,
Ao longo dos anos, houve vários projetos para a área: chuva, água, oxigênio também são a principal priori-
um hotel, um supermercado, um berçário, um museu e, dade para todos.
mais recentemente, um empreendimento de habitação,
com escritórios e lojas de alto padrão. Nenhum desses Entendemos o Parque Augusta como um símbolo, por
projetos foi aprovado e isso acontece principalmente ser a última área de Mata Atlântica no centro da cidade
devido à pressão dos moradores e visitantes do parque. de São Paulo, pois estamos em meio a um colapso
Desde 2002, a área do parque augusta é uma ZEPEC – hídrico e ambiental, no limite da exploração da terra,
Zona Especial de Proteção Cultural da cidade – e mais a cidade e a natureza pelo conluio entre o governo e
recentemente conseguimos transformá-la também em o capital internacional. Queremos um parque público,
uma ZEPAM – Zona Especial de Proteção Ambiental 100% verde, em autogestão, e que seja o ponto de virada
- na Lei de Uso e Ocupação do Solo da cidade. Ou seja, para uma nova maneira de se viver na cidade: igualitária
é uma área cheia de restrições para a construção de e emancipatória. Esta é a agenda do Parque Augusta e
empreendimentos e mesmo assim continua ameaçada. dos outros 29 parques e áreas verdes ameaçadas em São
Paulo.
O único projeto em processo de aprovação na
Prefeitura de São Paulo, diferentemente do que foi
relatado na mídia pelas construtoras, é um empreen-
dimento com cinco torres, que ocupariam 65% da área Augusto Aneas é arquiteto e urbanista.
Ele vive e trabalha em São Paulo.
do parque e os outros 35% restantes se tornariam um
jardim privado. Este projeto inclui seis subsolos-
-garagem, contradizendo a proposta de mobilidade Antonio
Vigília Criativa no Manuel, série
para a região, prevista no novo Plano Diretor da cidade, Parque Augusta, “Clandestinas”,
que incentiva a utilização de transporte público e res- 2015. Fotografia: 1975. Cortesia do
Pedro Sànchez
tringe a quantidade de vagas de estacionamento. artista. Fotografia:
Lula Rodrigues
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RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

Exercício Antonio Manuel,


“Era como se estivesse criando
um jornal clandestino dentro
experimental da
De 0 às 24 Horas,

do próprio jornal O Dia.”


1973. Cortesia do
artista. Fotografia:
Mario Caillaux

AMM Havia um “espírito do AM A série acabou porque o dire- AM Para De 0 às 24 horas, o jornal

clandestinidade
tempo” que levava esses seus tra- tor, o dono do jornal, foi à oficina foi muito mais eficaz do que seria
balhos e obras de outros artistas e me encontrou lá, com vários o próprio MAM. Em 1973, o clima
a acontecerem. A ideia era de operários se ocupando com meu político estava muito tenso e a
uma existência social parasitária, trabalho. Ele não tinha sido avi- direção do Museu tomou a posição
marginal, que nem por isso era sado antes, o filho é que tinha au- de censurar algumas obras que
apartada de um pensamento sobre torizado, que tinha me permitido participariam da minha exposi-
o sistema e o comum. Dentro trabalhar lá, de maneira completa- ção. Eu, inconformado, procurei
desse ambiente, qual o sentido de mente informal. Quando viu, man- deixar o trabalho que seria um
clandestinidade que você emprega dou suspender tudo. Eu estava bode vivo no foyer, fazendo uma
no seu trabalho? fazendo o flan Poema Classificado associação entre bode e body
AM Eu me lembro, pelos anos (1975). Esse foi o último trabalho (corpo) e trazendo a lembrança da
1960, Helio Oiticica, Nelson Motta e o fim da série de Flans. Fiquei performance O corpo é a obra, em
e eu recebemos um livrinho vindo esses anos no ambiente do jornal que me apresentei nu no Museu
de Londres com maneiras de sub- e, em retrospecto, posso dizer durante o Salão de Arte Moderna
verter os sistemas. Era uma coisa que todos esses trabalhos tinham de 1970. Essa ideia também foi ve-
Por Ana Maria Maia* marginal, contra o sistema político seu sentido marcado pelo grande tada e eu achei que o melhor seria
lá na Inglaterra. Eles ensinavam perigo de se estar “dentro do fogo”, publicar os projetos junto a alguns
como fazer uma ficha para usar de não estar fora, de fazer a crítica outros textos, como um de Décio
o telefone público ou burlar o bi- de dentro do sistema empresarial, Pignatari, maravilhoso, sobre as
lhete de ônibus. Essa cartilha reu- político. Mesmo antes de o diretor Clandestinas. Procurei O Jornal
Irônica e posterior, a assinatura do nia tudo o que era contra o sistema descobrir, eu enfrentei censura e negociei para que aceitassem
artista, lado a lado com o crédito e o status quo, táticas para uma lá dentro. Só podia sair do jornal essa proposta e me dessem um
do fundador do jornal, é a revela- guerrilha cotidiana. Isso transfor- mostrando tudo o que eu tinha encarte de seis páginas inteiras,
ção do seu feito. Antonio Manuel mou muita gente, foi muito forte. feito no dia. nada menos que isso. O editor,
infiltrou-se no parque gráfico Quando eu criei as Clandestinas, Washington Novaes, bancou a
do jornal O Dia e, entre outras queria também, de alguma forma, AMM Na exposição De 0 às 24 ideia em retaliação à demissão de
intervenções, produziu uma série reagir ao sistema político, ao sis- horas, você declarou o jornal Reinaldo Jardim daquele jornal,
de dez capas em que, a partir da tema estético, de botar o trabalho como lugar para exposição de três dias antes. Foi minha sorte.
matriz original, inseriu novas fotos nas ruas, fora das instituições arte. Depois de ter sua mostra Chamei a iniciativa de Exposição
e manchetes de teor ora ficcional e oficiais ou chapas brancas. Fazia no Museu de Arte Moderna do de Antonio Manuel: de 0 às 24
absurdo, ora dedicado a repercutir isso “pegando carona” no jornal e, Rio de Janeiro cancelada, levou horas. Era uma mostra minha para
questões da arte dos seus contem- de alguma maneira, deturpando as propostas de trabalhos para estar nas bancas e, dessa maneira,
porâneos. A distribuição de alguns seu conteúdo real. Eu ia pra grá- as páginas de O Jornal. Tendo romper com sistemas oficiais da
exemplares dessa versão do jornal fica do jornal e intervinha sobre a em vista esta experiência, que arte daquele período. O título su-
nas bancas do Rio de Janeiro com- página de capa, abria espaços na prolongamentos ou antagonismos geria a duração de um dia apenas.
pletou o ciclo do trabalho e sugeriu diagramação, atribuía outras man- você identifica entre o museu e a Era uma obra descartável, embora
que, embora tomando uma escala chetes e fotos, às vezes também mídia de massa, ou o circuito da pudesse ser guardada. A mostra
diminuta diante das proporções sobrepunha às chamadas de texto. arte e esfera pública? Que lugares no jornal cumpre a função de dis-
reais da mídia de massa, aquele in- Era como se estivesse criando intermediários você procurou seminar um ruído de informação
tervalo quixotesco entre a arte e o um jornal clandestino dentro do construir para o seu trabalho a de forma relâmpago, com tiragem
mundo poderia ser um lugar perti- próprio jornal O Dia. E, finalmente, partir de então? Onde você acha muito grande, de 60 mil exempla-
nente para o artista. Mimetizar-se eu levava essa outra versão do que o trabalho de arte se torna res. Nesse sentido, assemelha-se a
nas redes de informação a ponto de jornal para as bancas, no mesmo eficaz? ações de guerrilha.
desaparecer ou, no mínimo, perder dia em que o seu original já havia
o controle, talvez pudesse ser uma circulado, criando assim uma AMM Tendo em vista o espaço
estratégia para o seu trabalho. duplicidade, uma falácia que era disputado com outras pautas do
  difícil de distinguir da realidade, jornal e até mesmo o seu caráter
O mesmo artista que, em 1970, visto que parte do conteúdo do pontual dentro de tiragens às AM Nos anos 1970, o anonimato AMM Dos anos 1980 para cá, o
após aparecer nu no Salão de Arte jornal era mantido. vezes enormes, como você pensa foi necessário devido à censura. seu trabalho adentrou o terreno
Moderna para a performance O esta escala da atuação do artista Na Bahia, depois de ter um traba- da instalação e também assumiu
Essa entrevista faz parte do Cada um desses casos traz consigo Ana Maria Maia O que represen- AM Primeiro surgiram os Flans,
corpo é a obra, inspirou a máxima AMM Você era, de algum modo, no real? lho meu fotografado dentro de um elementos desconstrutivos. Que
projeto Arte-veículo, uma pesquisa a necessidade de se recuperar evi- tava o jornal nos anos 70? Qual era que começaram em 1967 e foram
de Mário Pedrosa sobre “arte também clandestino na gráfica do AM O artista interfere na reali- Antonio Manuel, aparelho – que eram os aparta- sentidos podem-se empregar para
em processo sobre intervenções dências de um momento histórico o seu valor social? apropriações de matrizes gráficas Frutos do espaço,
como exercício experimental de jornal. Isso amplia o sentido do dade com seu trabalho, com sua mentos nos quais os estudantes essas mudanças?
artísticas na mídia de massa brasi- que lhe atribuiu significados con- Antonio Manuel Hoje em dia o dos jornais sobre as quais fazia 1980. Cortesia do
liberdade”, experimentou também trabalho para o espectro do real, criatividade, com a sua atuação. artista. Fotografia: se juntavam para contestar o AM Eu queria abstrair toda esta
leira. Entre o advento da televisão, textuais e específicos, e também, jornal vive sua decadência, tem intervenções em pintura. Depois,
certa “clandestinidade” para para a atividade artística radical Mário Pedrosa chamava isso de Romulo Fialdini regime –, percebi que tinha que carga de imagens massificadas e
que chega ao Brasil em 1950 – no para isso, reexaminar categorias seu sentido social esvaziado, seu vieram os desenhos sobre páginas
investigar brechas nos discursos diante das relações de trabalho “atividade-criatividade”. Quando voltar para o Rio imediatamente. violentas que nos bombardeiam
mesmo ímpeto de cosmopoliti- que mudaram bastante ao longo conteúdo é carente de aprofunda- de jornal (Sem título, 1967), e logo
hegemônicos. Como esfera pública no sistema capitalista. Como sua viu O corpo é a obra, ele disse que Vim de ônibus e não podia ser todos os dias, queria desaparecer
zação que resultaria na abertura desses cinquenta anos, como o mento; mas nos anos 1970 tinha a reimpressão desse conteúdo
de encontros e confrontos, e entrada no jornal foi negociada e eu estaria fazendo um “exercício reconhecido. Estava com medo com elas ou mesmo anulá-las. No
da Bienal de São Paulo, no ano circuito, o público, o agendamento uma comunicação imediata e sobre papel Fabriano, um suporte
talvez por isso como laboratório quando precisou parar? experimental de liberdade”. Essa, de ser preso, por isso escrevi trabalho Até que a imagem desa-
seguinte –, e a popularização da e o valor social da mídia. Em tem- grande representatividade e uma mais resistente para desenho
político, estético e discursivo, a na verdade, foi a nossa guerri- um texto narrando a situação pareça (2013), um dos que seriam
internet, que dá acesso a uma pos de desmonte dos principais importância político-social muito e pintura. Assim, eu comecei a
imprensa motivou uma série de lha, minha e da minha geração. e botei numa caixa de fósforos apresentados na Bienal de Veneza
discussão sobre “mídia tática” no veículos da imprensa, e de uma grande − era um veículo poderoso. ir ao jornal e participar de sua
intervenções de Antonio Manuel, Logo depois, vi um cartaz que que vim segurando ao longo de daquele ano, monto um pequeno
país, no fim dos anos 1990, são ressignificação ainda inconclusa Hegel dizia que o jornal é a oração dinâmica de impressão. Ia de
desde o final dos anos 1960. Na dizia: “arte é a última esperança”. todo o trajeto. Se me pegassem, laboratório de revelação foto-
inúmeros os casos de ocupação das suas dinâmicas e papéis, acar- matutina do homem. O jornal da- madrugada buscar os Flans, ou
entrevista que segue, o artista re- Eu me perguntei: esperança de eu largaria aquela caixa discre- gráfica em que deixo um líquido
dos espaços de jornais, revistas, retada principalmente pela hori- quela época cumpria essa função então tentar imprimir o jornal em
cupera o percurso de negociações quê? Eu não entendo isso. Arte é tamente, com a intenção de que gotejar sobre algumas fotografias
emissoras de rádio e TV pelos ar- zontalidade de fluxos e polissemia de agendar o leitor logo de manhã outro papel. Essa já era a minha
envolvidas em cada uma dessas uma maneira de luta, de atuação. alguém a descobrisse. Esta caixa apropriadas de jornais. Essa é a
tistas, para fins de deturpação de de filtros que trouxeram a internet sobre um conteúdo político, social, maneira de estar dentro desse
iniciativas e o contexto histórico Não tinha esperança. A arte está de fósforos era quase uma Urna minha forma de dizer que esses
suas linguagens e problematiza- e as mídias sociais, o apanhado estético... Era um veículo com- veículo, de conhecê-lo por dentro.
que lhes impele – e a toda uma viva. Arte é vida, arte é energia. A Quente (1968) − caixas hermetica- relatos não servem, que devem
ção das narrativas que constroem de Arte-veículo se apresenta como pleto, que circulava pela cidade, O resultado de alguns trabalhos
geração de artistas – a assumir utopia é importante, mas às vezes mente fechadas que depositei no ser jogados fora, pelo menos para
para o status quo. tentativa de prospectar relações que tinha um poder de comunica- iniciais contou com uma certa
direcionamentos contraculturais ela nos leva longe demais. A escala Aterro do Flamengo [no evento mim. É o contrário de revelar, é
cabíveis, hoje, entre os artistas e ção com um público amplo, tinha liberdade para deformar essa rea-
e antimercadológicos. de um veículo de massa é enorme. Apocalipopótese] e que precisavam “desrevelação”. Se, nesse traba-
Das colunas de Flávio de Carvalho, os veículos de comunicação públi- um conteúdo, uma manchete, uma lidade, substituindo imagens, anu-
Apostei sim no seu potencial para ser quebradas para se descobrir o lho, o caminho rumo à abstração
no Diário de São Paulo, à reforma cos. Prospectar, por hora organi- diagramação e ruídos gráficos que lando textos, tornando meu ponto
ampliar o público do trabalho de seu conteúdo. Em várias coloquei ganhou teor de apagamento, na
gráfica do Jornal do Brasil, por zando um arquivo, uma memória me interessavam. de vista talvez mais direto através
arte. No entanto, mesmo sabendo recortes de jornais correntes, com intervenção Frutos do Espaço
Amílcar de Castro e Reynaldo e alguns relatos. do meu desenho e do modo como
que talvez não me comunicasse situações políticas dramáticas. (1980), que montei no jardim
Jardim; da arte-classificada da AMM A relação com a mídia é eu podia valorizar ou ocultar
com todos, acho que se eu me Não sei se a desaparição, mas a da Catacumba da Lagoa, no Rio,
Equipe Bruscky Santiago às fundamental para o seu trabalho, alguns textos e imagens. Daí, até
comunicasse com dois, ou com um, impossibilidade ou a dificuldade tornou-se um conteúdo em aberto,
Inserções em Jornais de Cildo tanto em intervenções em que chegar à série Clandestinas (1973)
já estava muito bom. de aparição estão presentes no que respeita a natureza, os ima-
Meireles; da vídeo-dança, de você usa páginas impressas como ou no jornal De 0 às 24 Horas
meu trabalho dessa época por mo- ginários pessoais dos visitantes e
Analívia Cordeiro, ao quadro de en- suporte para interferências em (1973), as coisas foram se apro-
AMM Como podemos pensar táti- tivos contingenciais. Na instalação a memória daquele lugar, que era
trevistas de Glauber Rocha, dentro desenho e em parcerias criativas fundando, também, a ponto de
cas de desaparição a partir do seu Fantasma (1994), que é posterior, uma favela. Inseri no lugar escul-
do Programa Abertura, tão inspi- que adentram os parques gráficos virarem uma interferência direta
trabalho? Vale a pena considerar a abordei a perda de identidade turas feitas em ferro vazado, com
rador para produtoras, como TV dos jornais e pegam carona em no processo editorial do veículo,
desaparição ou a diluição no social involuntária de uma testemunha a forma das colunas diagramadas
Tudo, Olhar Eletrônico e TV Viva; sua linguagem e nos seus meca- com a criação de manchetes, fotos
como categorias para a arte? da chacina de Vigário Geral, que dos jornais. Embora tenha criado
da atuação anárquica de Geraldo nismos de circulação. Quais as e pequenos textos. Isso acontecia
apareceu em uma fotografia no a metáfora de uma estrutura de
Anhaia de Mello, na rádio e na principais etapas e estratégias dentro do próprio jornal, na ofi-
Jornal do Brasil, com o rosto narração e visibilidade, como a
TV, aos semanários de Lenora de dessa pesquisa? cina de impressão ou na redação,
coberto por um pano branco, en- que acontece na grande imprensa,
Barros e Luiz Baravelli; dos fakes, envolvendo os operários.
quanto dava entrevista para toda a presença do trabalho no local era
de Yuri Firmeza, como “artista
a imprensa. Inseri a imagem do transparente e totalmente passível
invasor”, à invasão real da militân-
fantasma rodeado por microfones de interferências do entorno.
cia de coletivos, como Frente 3 de
nesse labirinto feito de pedaços de
Fevereiro e Contrafilé, na cober-
carvão suspensos, nessa cosmogo-
tura esportiva e de vida urbana.
nia em que há poesia, mas também
choque, energia produtiva, mas Ana Maria Maia é curadora e professora de
história da arte. Faz doutorado na ECA-USP
também risco de ser manchado e está desenvolvendo o projeto Arte-veículo
por aquela matéria porosa e preta. com a Bolsa Funarte de Estímulo à Crítica.
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RESISTÊNCIAS RESISTÊNCIAS

1ª Corrida
de carroças
do centro do
Recife*

Por Jonathas Não é surpresa que a cidade não Foi preciso organizar uma corrida Tem carroça que anda no maior É preciso entender que a trans- E é quando a bosta risca o chão, * A 1a Corrida de carroças do centro do Recife
aconteceu em 5 de agosto de 2012. Sob o
é de quem a vive. Não é surpresa para reunir um grupo de 50 pau na cidade com um monte formação política passa por uma a pata risca o chão, o pé grosso
de Andrade que os homens que fazem a cidade, carroceiros fazendo a presença de menino em cima, um prazer consciência do corpo, que a classe sai correndo pelo chão, que a
pretexto de gravar o filme O Levante!, reuniu
as autorizações necessárias para a realização
que comem, que habitam, que deles na cidade ser indiscutivel- danado de sair correndo pela se entende como classe forte cidade assiste estupefata mas feliz da corrida.
andam, que vivem, não são os mente existente. Foi preciso fazer cidade, ouvir o barulho da pata do quando passa por uma catarse porque entende que o sublime vem
Este texto faz parte do filme O Levante! (2014).
mesmos que regem a cidade, que uma corrida pra entender que cavalo bater nos prédios e voltar, coletiva, por uma experiência dela própria e não de torres de
fazem as leis que decidem o futuro ferradura derrapa no asfalto; que ecoando, multiplicando no meio de desejo, de transe que rasgue 40 andares que vêm de qualquer
dessa cidade. Essa é uma cidade cavalo tropeça na curva; que uma dos carros, pois tem um campo a cidade inteira, que festeje a lugar. E que a danada da revolução
que passa por cima do seu passado, roda bate na outra e a carroça vira; danado pra correr no meio do dissidência desse corpo coletivo que ninguém sabe fazer e que o
que tratora suas vocações, que pra ver égua chegando pra correr esquecimento da cidade sobre a através de um rasgo pela cidade. tempo todo a gente se refere passa
esmaga sua tradição, que cria leis grávida; pra ver animal maltra- própria cidade. pelo desejo e a safadeza que essa
que invisibilizam seus habitantes, tado chegar com homem-bicho cidade sabe extrair de dentro si
que estão por toda parte e que maltratado; pra entender que própria e de sua própria sabedoria.
fazem a alma dessa cidade. muita dessa pobreza é liberdade
dentro da própria opressão.
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ENSAIO ENSAIO

Edifício
Recife
Bárbara Wagner
e Benjamin de Burca

SAINT LOUIS LEONTINA RODRIGUES PRIMAVERA COLONIAL MORADA DA FONTE PORTAL DO NASCENTE MARIA GRAÇA E
MARIA JÚLIA
Em Recife, no Nordeste do Brasil, De acordo com a Lei 14.239: Até os anos 1980, a autoria dessas Saint Louis significa ‘sou liberto’. Eu acho que é, como é que se diz, Olhando pra forma dela, assim, em Quando um pintor pinta um Ela era amarela, botaram essa cor
a ideia de cidade como síntese obras – sobretudo esculturas – está Quem fez isso foi um artista único, dois homens, um casal de homens, cima de uma pedra de mármore, quadro, ele bota a alma dele pra pegar a tonalidade do prédio. Ela parece duas letras, o ‘G’ e
das artes toma a forma de uma lei Art. 1o: A área ‘non aedificandi’ de ligada ao prestígio de uma geração que usou a imagem de uma pessoa um homem e uma mulher. Um é eu creio que seja um diamante. ali. Já esta escultura não repre- Na minha opinião é um portal, o ‘J’ de Graça e Júlia. É meio
municipal no início dos anos 1960, todo edifício com área superior a de artistas de tradição modernista. que ele amava muito. Já fiz uma maior, outra menor. Dá pra ver por Mais que isso eu não sei informar. senta nada. Perto daqui tem um meio atrasado, de outro tempo. abstrato, só observando bem pra
fazendo obrigatória a instalação 1.000 m2 que vier a ser construído A partir dos anos 1990, o interesse foto e postei no Facebook: ‘Esta causa da parte de cima, das cabe- Cada prédio tem suas esculturas quadrado de cimento com uma Gosto mais de coisas do tempo saber mesmo. Não sou muito fã de
de obras de arte tridimensionais no Recife deverá conter obra de privado influencia mudanças na arte mostra em si a nossa pró- ças, dos seios dela, dos pescoços, culturais diferentes, em vários mulher dentro, presa, como se de hoje, mais modernas. Prefiro arte não, não faz meu tipo. Gosto
na entrada de grandes edificações. arte de reconhecido valor artístico, lei a fim de acelerar a conclusão de pria face.’ Porque ela observa as da altura. Acho bonita. Ela está estilos, modelos diferentes. Ela quisesse sair daquele aperto. Ela as figuras, mas não como aquela de pesquisar na internet sobre
compatível com o projeto arquite- projetos imobiliários, e construto- pessoas que observam ela. Bonito, feia agora porque precisa de uma dá identidade ao prédio, chama a significa algo. Arte não é feita só ali do outro lado da rua, que é arqueologia, história antiga das
tônico aprovado. ras passam a assumir elas mesmas não? As pessoas tiram foto, abra- pintura. Todo prédio grande tem atenção das pessoas. O nome do pra quem tem condição finan- muito feia - parece uma Tartaruga pirâmides, das sete maravilhas
a execução dessas peças. çam, fazem até coisas que não se que ter uma, porque a lei exige. prédio é Primavera Colonial. Só o ceira, mas pra aquelas pessoas que Ninja. Onde moro tem mais do mundo. Imagine as pirâmides
Art. 2o: A obra de arte não poderá deve pronunciar. É divertido. Pra São obras de arte que eles fazem, arquiteto que fez sabe informar o gostam e têm inteligência. Uma casas, não tem prédios e a turma do Egito… deve dar uma sensação
ser executada com material de Geralmente posicionadas ao lado mim ela é moderna e contemporâ- não sei quem. Até hoje ninguém significado dela. vez eu vi um quadro que tinha só enfeita a rua na época do diferente estar num lugar que tem
fácil perecibilidade. das cabines de segurança nos nea ao mesmo tempo; moderna do me falou nada sobre ela. um monte de negros trabalhando Carnaval e do Natal. história. Bate a curiosidade de
prédios residenciais, essas obras pescoço pra baixo e contemporâ- – CARLOS com enxada. Isso fala muito sobre saber o que tem por baixo da terra.
§ 1o: A obra de arte deverá ser são diariamente observadas e nea do pescoço pra cima. Pode ver – GERALDO o Brasil. Mas uma caixa com um – MAURÍCIO Já isso aqui é muito banal.
original, não se constituindo em muitas vezes conservadas pelos que o nariz e a boca não aparecem. buraco de um lado e de outro?
reprodução ou réplica. porteiros que guardam a entrada – HENRIQUE
desses edifícios. – ALEXANDRE – IRAN
§ 2o: Somente poderão executar
os serviços os artistas plásticos
pernambucanos ou radicados na
Região Metropolitana do Recife.

Art.3o: O ‘Habite-se’ do edifício


somente será concedido após
a aprovação do projeto ou da
maquete da obra de arte pelo
Conselho Municipal de Cultura e
a sua efetiva implantação na área
‘non aedificandi’.

TRIUNFO COLONIAL ESMERALDA ANTARES PRINCESA ISABEL JULIANA ANAIÉ VILLAGE

Ela não explica muito bem o que Isso aí é uma folha. Não acho que Não sei quem fez ou o que é isso. Essa é Isabel, a princesa que Aqui do lado tem um homem cor- Umas cabeças assim, umas saindo
é. Até hoje não entendi o que ela seja uma obra de arte, é muito Talvez seja uma obra de arte. É assinou a lei Áurea pra acabar rendo, todo na resina. Essa daqui por cima das outras, não sei dizer
quer dizer. Mesmo as pessoas simples. Quando a arte é bonita eu bem feita, bem trabalhada, bem com a escravidão no Brasil. Eu tem uma curva que parece a perna o que é. O jardim eu sempre lim-
daqui não dizem o que é. Acho acho bonita, mas essa é horrível. imaginada. Você sabe, existem conheço a história. Você sabia de uma mulher. Acho razoável. pei, mas dela eu nem chego perto.
interessante o modelo dela, parece Não sou do ramo, mas você olha essas esculturas na forma de uma que ela tem dez nomes? Vou te Tem um ‘P’ e ‘E’ escrito ali, pode Acho estranho, nunca tinha visto
uma flor. O cara que cuida dela assim e vê a coisa mais feia do pessoa e às vezes o pessoal exa- dizer, tenho aqui anotados no ser o nome do escultor. Pra estu- nada assim antes. Não entendo
acha ela estranha. Quando ele está mundo. Tanto é que um dia eu gera, inventa poses, essas coisas. meu caderno: Dona Maria Isabel diosos pode ser uma obra de arte, nada disso. Quando não estou aqui,
limpando ela, ele sempre comenta. pintei e só depois soube que nem Eu não gosto. Acho essa muito Cristina Leopoldina Augusta já pra mim é só uma estrutura. Se estou na igreja. Lá, a gente tem
podia ter pintado, era pra deixar mais criativa. Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga fosse lá em casa botava um sapão somente um Deus pra adorar.
– EVANDRO enferrujando mesmo. de Bragança e Bourbon. O ‘Maria’ bem grande no meio do meu
– VALFREDO do começo fui eu quem botei pra jardim. Eu gosto de sapo. Essa é – CLAURINDO
– OLIVEIRA ficar mais classudo. Imagine como uma coisa do passado, né? Passado,
seria hoje sem ela… Ainda tem passado mesmo.
tanta discriminação aos negros
por aqui… – JOÃO

– AMAZONAS
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ENTREVISTA ENTREVISTA

Conversa
com
Odmar Braga* Presença
Marrana no
Sertão
A conversa a seguir aconteceu
na casa do poeta e dramaturgo “A história NV Você poderia falar um pouco
sobre a presença dos judeus
Jerônimo de Albuquerque con-
quistou o Maranhão dos franceses,
NV Eles se autonomeavam
judeus ou seguiam uma tradição “O sertão é a
judaica reprodução de uma
Odmar Braga, no município de sefaraditas2 no sertão do Brasil? mas passou antes pelo sertão, onde ocultamente?
Paulista, em Pernambuco, na qual Como essa cultura permaneceu na ele, meio tupi, não tinha dificul- OB Ocultamente. Sabiam-se
o autor nos contou a história da região? dade de se relacionar. E assim, judeus, mas se diziam judeus
chegada dos judeus marranos1 no
Brasil – a passagem dessa tradição não passa OB A cultura sertaneja é gado. É
cuidar de cabrito. O sertão é um
foram ficando os Albuquerque no
Sertão. Ora, Dona Brites que fica
cristãos-novos.
cultura muito árabe,
de uma onde o judeu que
ao longo dos anos, os conflitos grande rebanho de cabritos. E em Olinda comandando e adminis- NV Pois havia uma perseguição
e resistências, na memória, nos assim são os homens, um rebanho trando a capitania de Pernambuco muito forte?
costumes e na poesia ladina. de cabritos. O sol começa a nascer no lugar de seu marido Duarte OB Sim. Imagine isso séculos

sucessão de e eles saem. Eles comem qualquer


coisa e só voltam para o curral
Coelho Pereira em virtude de sua
ausência, soube que estava aconte-
atrás. Por exemplo, quando meu
bisavô estava morrendo, um padre chegou aqui era
naufrágios.” sefaradi.”
1  O termo “marrano” refere-se aos judeus que quando o sol se põe. Você não cendo uma série de atos canibais foi visitá-lo para dar a extrema
mesmo convertidos à força ao cristianismo
nos reinos da Península Ibérica mantiveram
precisa chamar o animal. Eles na vizinhança. Então, ela tomou -unção. Então, a minha bisavó ma-
clandestinamente alguns costumes de sua vivem do nada. Bebem pouca uma atitude férrea para estancar terna disse: “Padre, acabou a sua
tradição judaica. água, o que conseguem arrumar. o canibalismo. Mandou carregar missão, pode ir embora. Agora é
Eu não sei como eles sobrevivem. as bombardas − os canhões no a minha vez.” Botou o padre para
O sertão é a reprodução de uma alto da Sé − onde ficava a sua torre. fora e procedeu de acordo com o
cultura muito árabe, onde o judeu Aleatoriamente, mandou prender nosso costume. Não foi necessário
que chegou aqui era sefaradi. Por índios dessas tribos, amarrou-os um rabino para nos ensinar isso,
isso nós temos o aboio, que é a à boca dos canhões, “convidou” quem preservou a tradição foram
melodia pastoril árabe, moura. todas as tribos e a população as mulheres. O banho dos mortos,
Cantiga de pastoreio. de Olinda para assistir ao ato, e as rezas, o que comer e o que não
detonou os canhões, fazendo voar comer...

Os Judeus A ocupação de Pernambuco, por


exemplo, começa em Itamaracá,
pedaços dos índios pelos ares. Foi
assim que ela impôs a mano mili- NV Aqui em Recife, fomos à

Marranos
em 1509, quando já existia Vila tari a ordem do fim do canibalismo. Sinagoga Kadosh Zur Israel, co-
Velha e Itamaracá. Com a chegada Essa mulher tinha sangue no olho. nhecida como a Primeira Sinagoga
de Duarte Coelho Pereira, casado Eu espero que vocês compreen- das Américas. Como ela entra ME REKODRO
com Ana Brites de Albuquerque, dam que, depois de tudo isso, nessa história? A la presiosa Margalit Matitiahu,
seu cunhado, Gerônimo de manter a memória judaica foi para OB Você acredita que foi kerida poeta ermana de mi Sefarad.
Albuquerque, vem como capitão- mim um grande feito. Porque nós a primeira?
Nossa Voz Você acha necessá- Nós não podemos fugir dos nossos Então, quando se resgata histori- NV Que mudanças seriam essas? mor da capitania de Pernambuco. não deveríamos deixar de existir. ¡Ah!… Sangre, Sangre
rio repensar o termo “cultura padrões. Ou seja, um grupo que camente um judaísmo de cente- OB Eu rezo tradicionalmente e Desembarcam no canal de Santa Tinha tudo para dar errado, mas NV É o que eles contam. de mi sangre de Espanya
judaica”? chega ao Nordeste brasileiro para nas de anos, onde essas pessoas judaicamente. Um dia eu disse: Cruz e colocam um marco que deu certo. OB Não foi. A primeira sinagoga ke Sefarad en mi alma kanta,
Odmar Braga Eu vejo a cultura sobreviver tem de se adequar a foram cerceadas da possibilidade “eu sou a geração do presente, por- está lá até hoje e fundam Igaraçu, aconteceu em Olinda, no Alto da Ke en mis versos palpitan
judaica como um caleidoscópio. essa realidade chamada sertão. de vivê-lo como era oficialmente que eu sou a geração do deserto”, a canoa grande. Ali houve uma A família da minha esposa é Ribeira. Era na casa de uma se- i a mi korasón estremerse.
Não vejo a necessidade de repen- A gente tem de compreender que esperado, passaram a fazê-lo a sua eu não estou na terra Santa, mas batalha ferrenha contra os índios dividida, por exemplo: por parte nhora chamada Ana Roes. E a se-
sar este termo. Hoje, antes de mais não se pode exigir dessas pessoas própria maneira. Foram obri- também não estou no Egito. Olhe, e eles ocuparam o espaço. Dois de mãe, são do sertão do Ceará, gunda foi no Engenho Camaragibe, Me rekodro,
nada, se faz necessário preservar a tradução do judaísmo igual à gados a ter a criatividade de um eu sou aquele que está entre dois anos depois, eles descem de barco do Olho d’ água da bica da cidade de sua propriedade, ainda no Si mi ermana me rekodro
a cultura judaica por todos os de uma outra região, como se o judaísmo próprio, de uma crença mundos, o de meus ancestrais e e ocupam Olinda. Quem era de Tabuleiro do Norte. A famí- século xvi. Isso ocasionou a visita de las konsejas de los avuelos,
meios. Acima de tudo, a educação, judaísmo nunca tivesse mudado. mais crua, mais próxima de Deus. do futuro de meus filhos e netos. Duarte Coelho Pereira, e quem lia Oliveira da Costa, que veio do bispo inquisidor, Bartolomeu Son kinyentos de los anyos i me rekodro
a integração e aceitação do outro Certa vez, eu disse a um rabino: Não aquela ditada pelo judaísmo Como fico eu diante desse con- era Dona Brites Albuquerque? dos Açores, só se casa entre si. Furtado de Mendonça, que man- de los refranes, de las kantikas,
como ele é, independentemente “A história judaica não passa de oficial ou pela vontade rabínica. texto, no qual não posso esquecer Quem era Jerônimo? Eles eram os Por parte de pai, os Bezerra são dou prender muita gente, dentre De las kansiones la más antíka
de qual origem judaica se tenha uma sucessão de naufrágios.” Porque não havia rabino no cargo de onde vim, quem me ensinou, Albuquerque, nobres mouros que de uma cidade chamada Acari, eles, dona Ana Roes. Atualmente, i de el golor de los pasteles.
e como se expressa essa cultura. Uma sucessão de naufrágios que da tradição marrana − quem quem me pôs no colo, numa rede se casaram com mulheres judias. próxima à Caicó, sertão do Seridó, está destruída, mas uma parte  
Independentemente das diversas culmina com o pior de todos os manda são as mulheres. As mu- de balanço e me contou a história, O castelo dos Albuquerque existe no Rio Grande do Norte. Esta é a continua em pé, chamada er- Me rekodro,
melodias, temos a harmonia de naufrágios, a Shoah, o Holocausto. lheres são as detentoras de toda e rezava junto comigo, e dizia as até hoje na Espanha. região onde se iniciou a ocupação mida da Feitoria de Fernando de Si mi ermana me rekodro
um único canto. Algo inominável, jamais imagi- a cultura. Do repassar, porque, bênçãos? Era a maneira que ela do Seridó. Os Bezerra têm uma Noronha, que fica no alto do cabo del karinyo de muestros padres,
nado na história da humanidade, afinal de contas, quem ensina essa sabia, como a avó a ensinou. E Dona Brites casa-se com Eduardo genealogia de dezoito gerações. Já de Santo Agostinho. Essa ausência Son kinyentos de los anyos i me rekodro
NV É como pensar que comuni- um crime em série de magnitude cultura a seus filhos devem ser as assim nós conseguimos com as Coelho Pereira. Eles vieram da são milhares. A mãe dela ensi- de memória é muito triste. de la guadra de muestra erensia,
dade judaica, enquanto tal é plural, genocida, onde todos os esforços − avós, as esposas, as tias. pontas das unhas nos sustentar Índia, onde haviam conquistado nou-a a acender a vela do Shabbat, De la tradision de los Hahamim
mas sua cultura é uma só, no final trabalho, inteligência, criatividade Ora, se não fossem as mulheres, durante os séculos. Poderia eu espaço à base da espada e da ou seja, não é necessário um Porém, havia uma outra anterior ke disheron de la fidelidá de haShem
das contas. humana − são empregados para nós não existiríamos. Se elas, dar as costas à tradição de meus pólvora, claro. Ganharam como rabino para que as famílias apren- àquela, próxima ao palácio do go- i del luzero de la Torah.
OB É. Afinal de contas, para se destruição do próprio ser humano. no curso dos séculos, foram as antepassados? presente a posse de uma terra aqui. dam a separar as panelas do leite verno, chamada Maguén Abraham.  
rezar certas rezas, como a Amidá, É o anti-humanismo na sua escala responsáveis no nosso mundo pela Conquistam Olinda. Jerônimo e da carne, para acenderem a vela Depois, foi fundada a Kahal Me rekodro,
são necessários dez homens. Mas, mais brutal e mais hedionda. manutenção dessa cultura, por NV Mas isso é pedido pelos de Albuquerque, capitão-mor, do Shabat; isso sempre aconteceu. Kadosh Zur Israel e as pessoas que Si mi ermana, me rekodro
cada homem reza por si só apenas. “Ora, na associação desses nau- que não querer aceitar essa tradi- rabinos? tinha 42 mulheres, entre negras e eram Maguén Abraham foram de la notche de los tiempos,
Ou seja, não importa a origem do frágios”, eu poderia perguntar ao ção que foi repassada pelas nossas OB Os rabinos representam a índias. Porém, ele vivia em pecado, para lá. Todos aqueles que fun- Son kinyentos de los anyos i me rekodro
judeu, ele é judeu. Então, se você rabino: “como pode se esperar que mulheres? chamada “tradição rabínica”, porque tinha um harém. Ele era daram aquela sinagoga nasceram de la lágrima ke kemó,
reunir judeus de diferentes partes erguendo o Titanic do fundo do independentemente da linha de mouro, não era? Segundo a Rainha em Olinda. As pessoas circuncisa- De tinieblas sin la Luz
do mundo, independentemente se mar, ele continue com a orquestra NV Mas as mulheres podem ser orientação, seja ela ortodoxa ou de Portugal, esse homem não ram-se antes mesmo de terem um i de la sangre ke yoró.
um come falafel ou tabule, e o ou- no passadiço do convés, tocando rabinas? não, reformista, masortí, conser- podia mais viver em pecado − ele rabino. Ninguém veio da Holanda;   
tro gefilte fish, eu fico com lulinha para alegrar as pessoas que na- OB Essa é a diferença. Para nós, vadora... Aliás, sabe o que quer tinha de arrumar uma esposa e ora, quem fundou tudo aquilo fo- Me rekodro,
frita com cerveja na beira da praia. quele momento estavam lá?”, isso a questão não é ser ou não ser dizer Rabino? Rosh Bnei Israel, ou casar na igreja. Então, chegou ram as próprias pessoas de Olinda. Si mi ermana, me rekodro
você não vai encontrar. Você vai rabino. A questão é saber rezar. seja, Cabeça dos filhos de Israel. uma prima e ele prometeu se Somente após doze anos chega um del sufrimiento de los siglos,
encontrar uma mudança completa Portanto, é manter a cultura e a E isso é uma forma de poder, e o casar com ela, desde que suas duas rabino, Isaac Aboab da Fonseca, Son kinyentos de los anyos i me rekodro
do aspecto de um barco naufra- tradição. No nosso caso – daque- poder religioso é, de certa forma, irmãs mais novas se casassem marrano de origem, nascido em ke fuímos dezraygardos de Espanya,
gado. Você não vai encontrar a les que foram oriundos de um um poder político. com seus dois filhos mais velhos. Castro D’Aire, Portugal, onde fora Ke tenemos la fuerza de muestro espiritu,
orquestra, nem os passageiros e processo de Inquisição – quem Ficou tudo em família. Ele casou batizado de maneira católica, em Ke djudios solamente somos
muito menos a elegância de um manteve toda a tradição judaica Então, ele vai dizer: “olha, a na Igreja da Sé, e uma das primi- pia batismal, sob o nome de Simão i mos yamamos de mozotros.
palácio flutuante. foram as mulheres. maneira como vocês têm de fazer nhas mais novas se casou com o da Fonseca, cuja família posterior-  
agora é apenas a nossa maneira, Jerônimo Filho e a outra com seu mente mudou-se para Amsterdã. ¡Ah!… Sangre, Sangre
NV A presença da mulher na ma- não mais como os seus antepas- irmão, ambos filhos de uma índia A história, às vezes, é distorcida. de mi sangre de Espanya
nutenção da tradição é mais forte sados”. É justo? Em nome de Caeté chamada Maria do Espírito ke Sefarad en mi alma kanta,
no judaísmo marrano? apenas uma expressão cultural, de Santo, filha do Cacique Arco- Ke en mis versos palpitan
OB Presença mais forte, não. Ele só um ângulo, você irá esquecer os Verde. O filho mais velho herdou i a mi korason estremerse. 
existe por causa das mulheres. As outros ângulos? Você vai acultu- o trono do pai, capitão-mor da 2  Sefarad significa Espanha em hebraico, por
isso, Sefaradi ou Sefaradita é o termo que se
nossas rezas, as nossas bênçãos... rar-se de si mesmo para assimilar capitania de Pernambuco, e seu refere aos judeus da Península Ibérica. Odmar Braga
foram as mulheres que sustenta- um outro modo de ser? É negar-se irmão o título de capitão.
Vaqueiro do sertão fundamental da
ram. De repente, chega um rabino tocando Buzo – liturgia judaica, a si mesmo.
e diz que tem de mudar tudo. instrumento feito cuja origem
Agora, vocês vão mudar a maneira com chifre de boi se perdeu no
utilizado para sertão, apesar de
de agir. É um conflito interior. diversos tipos de continuar fazendo
toques, dentre parte do repertório
eles o Tekiá, toque dos vaqueiros.
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ENTREVISTA ERRÂNCIAS

Poesia
ladina e
resistência
“Hoje, a história é versão. NV Você poderia falar um pouco
sobre a sua poesia escrita em
O que é que ocorre? Essa língua de
pertencimento, essa extraterrito-
A poesia escrita em ladino é
uma barricada. É um ponto de

Quem detém as versões, e ladino?


OB Existem muitas discussões
acadêmicas sobre o termo ladino.
rialidade, também mudou. Ou seja,
no Magreb, no norte da África, ela
passa a adquirir elementos berbe-
resistência. Eu poderia escrever
em língua portuguesa. Sim, há
uma virtude na língua hispânica,
quem tem o poder de mídia, Porque ladino significava escrever
cartas e responsas rabínicas com
res e árabes. Chama-se hakitia. É
o ladino do norte da África que
em especial no espanhol antigo,
no qual o ladino está inserido.

de tanto repeti-las, torna- caracteres hebraicos no romance


espanhol. Há também o espanhol
antigo, escrito com caracteres e
é distinto do ladino oriental da
Grécia, da Turquia, do que chegou
ao Líbano, que chegou até a Síria.
Existem termos em aragonês, em
galego, em sevilhano, em catalão
e em português que fazem parte
se algo próximo à verdade, letras hebraicas. Chegou à Bulgária, à Romênia,
à Iugoslávia. Em São Paulo há
desse universo, que não sou eu.
Isso é a regra do ladino. Há uma

embora não seja.” Posteriormente, o ladino passa


a ser a língua oficial do judeu
sefaradi, pois, quando chega a
judeus da antiga Iugoslávia que
ainda falam em ladino.
cadência própria, uma musica-
lidade, um ritmo que por si só
se encaminha, além de ser uma
diáspora espanhola, a quanti- Esse aí é o grande contexto. Ou barricada. Aquele forte apache da
dade de judeus em Portugal era seja, uma língua que continua viva, resistência de uma cultura.
muito pequena e houve uma independentemente do extermí-
grande migração da Espanha para nio nazista. Um milhão e meio ou Antes de mais nada, é isso. Como

Diário de
Portugal. Muitos foram embora mais de sefaraditas que falavam se pode dizer sefaradi, que é a
para a Turquia e outra parte foi
convertida.
ladino foram direto para as câ-
maras de gás. Quando ali se mata,
Península Ibérica, e não se lem-
brar dessa territorialidade linguís- Capítulo X
se extermina não só parte de um tica, que é uma extraterritoriali-
Não creio que exista essa catego- NV Quando estivemos lá, ha- Turquia, Grécia, Marrocos, povo, mas um idioma... dade? É onde reside a memória.

Chaim
ria histórica de “judeu holandês”; via um grupo muito grande de Tunísia, Argélia... foram parar, Essa é a questão. Pelo menos, eu Em Olinda recomecei o meu traba- O marido dela chegou do trabalho Continuei a ir à casa dos meus Descobri mais tarde que as pes-
afinal, eram todos judeus mar- estudantes de ensino fundamen- acredite, até na Bulgária. Claro Assim, o ladino só se preservou tenho que deixar um legado. lho na rua. Entrei em uma lan- (ele era mascate, klientelstchik) e amigos Kutner todos os dias soas que vieram conversar comigo
ranos de origem hispano-por- tal, e a Tânia Kaufman, diretora que nesses lugares o ladino passa em virtude de poucas pessoas que chonete para tomar um café e vi ficamos conversando até o jantar; depois do trabalho e, um dia, a eram amigos da família da moça
tuguesa. Em Olinda, ao lado da do Arquivo Histórico Judaico de a ter características diferentes. estavam a salvo da sandice nazista. Isso é o credo dos judeus mar- um senhor judeu sentado em uma voltei à pensão só para dormir. senhora Kutner me disse: “De que e principalmente do irmão dela.
igreja Conceição dos Militares, Pernambuco ( onde se encontra a Na Itália também. O que é que E criaram-se elementos para pro- ranos. Sabe quantos no Brasil mesa de canto. Ele estava lendo De manhã recomecei a trabalhar adianta você viajar tanto se não Eles queriam saber como eu era

Novodvorski
está enterrado Jacob Zakuto, filho Sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel), acontece? Uma saudade que se pagação, divulgação e preservação conhecem esse credo? Alguns um jornal em iídiche, me aproxi- na rua e todo fim de tarde ia até está havendo nenhum resultado e se valia a pena tanto empenho.
do médico marrano português nos falou sobre a importância de nega a morrer. É um sentimento daquele conhecimento que pouco gatos pingados. Porque isso não mei e me apresentei. Seu nome era a casa deles, jogávamos cartas e positivo? Você até ficou doente Eu nem desconfiava, até que um
Manoel Álvares de Távora, o qual se passar essa história. de pertencimento, a língua. ainda restava. No mundo hoje é divulgado. Isso é uma reza que Shimen Massur. Perguntei se no conversávamos. Eu pedia conse- nessas tentativas de se reunir com dia a senhora Kutner adoeceu e o
adotou o nome de seu bisavô, o OB A versão dela. Se a sinagoga foi não existem mais que duzentas eu hoje tive de colocar, porque, de Recife existia alguma pensão para lhos, falávamos da minha situação os seus irmãos e irmãs, e continua médico proibiu que ela recebesse
renomado astrônomo e historia- fundada por judeus marranos no NV Sim. A língua não tem terri- mil pessoas que conhecem, leem, modo geral, eu morro, meus filhos pessoas judias. Ele me deu o ende- e de como a enfermidade tinha sozinho… você é um rapaz tão visitas, assim fiquei sabendo que
dor Abraão Zacuto. O filho mais século xvii, nascidos em Olinda, tório. É a forma como você pensa, escrevem e falam, como se diz se esquecem e isso desaparece. reço de uma cujo proprietário se atrapalhado meus planos de via- jeitoso; será que não chegou a hora não poderia entrar na casa. Todas
novo, Isaac Zacuto, conseguiu por que não devolver aquele pa- entende e se apresenta ao outro. Meldar, que significa: ler, escrever Pelo menos, é um registro. chamava Weber. Fui até lá e con- gem para encontrar meus irmãos. de parar as suas viagens e pensar as tardes eu ia até a porta da
fugir, e os jesuítas enforcaram trimônio a quem é de direito? Por OB Então, em virtude disso, e avlar em ladino. segui um quarto e as refeições que em casar e ter uma família? Em casa para perguntar se ela estava
Jacob Zacuto. Não acha isso muito alguns dizem “não, o termo é
Ensaio visual eram servidas no local. Depois Todos os dias eu ia até a Praça vez de ficar aqui conosco todas melhor e depois ia para a pensão.
que não há ali judeus marranos
irônico, ter um judeu enterrado contando a sua história? Por que judeu espanhol.” Outro diz “ah, Guga Szabzon de resolver a hospedagem, fui Maciel Pinheiro onde me encon- as noites, não quer conhecer uma Quando ela melhorou, perguntou
ao lado de uma igreja católica em a versão contada tem de ser uma Espanyolít”. Espanyolít e o termo Odmar Braga (Recife, 1952) é poeta e procurar a comunidade judaica − trava com alguns judeus e eles moça que nossos amigos rece- por que eu não tinha aparecido
dramaturgo de Pernambuco. Membro
cuja frente ele fora enforcado? versão “oficial”? Por quê? A quem judeu espanhol são a mesma coisa, efetivo da União Brasileira de Escritores
eu ainda guardava o endereço da perceberam que eu estava doente. beram? Uma irmã que chegou mais, e o marido dela contou que
Dois judeus foram enforcados em interessam as ideias? Devemos é ladino. Só que o ladino se pres- UBE/Pernambuco e da Academia de Letras família Kutner. Então um deles, que se chamava da Europa? Ela é muito linda e todos os dias eu procurava saber
frente a essa igreja, pelos jesuítas. sempre perguntar a quem inte- tava àquilo que era escrito pelos e Artes da cidade de Paulista/PE. É coorde- Yankel Lederman, disse que me a família muito fina, o que você da sua saúde. Ela estranhou, pois
nador e membro da Casa do Poeta Brasileiro
Isso é citado? Não. Por que não ci- ressam as ideias. Acredito que rabinos. Miguel de Cervantes, por em Recife/PE. Dentre seus livros publicados,
Dirigi-me até a casa deles e bati levaria ao hospital logo cedo para acha da minha ideia?” A senhora não sabia da gravidade da sua
tam que em Itamaracá havia uma foi Bertold Brecht que disse que, exemplo, era marrano e escrevia destacamos Viduy (2014) e Rekodro de à porta, a senhora Kutner abriu que o médico me receitasse algo. Kutner continuou: “Nós gostamos enfermidade e pediu ao marido
Chaim Novodvorski nasceu em
sinagoga? Onde ficou a sinagoga quando grita o dominador, rever- em judeu espanhol. mis rekodros (2010), ambos poemários em e perguntou o que eu desejava. No dia seguinte fui com ele ao muito do seu comportamento, permissão para que eu fosse
djudeo-espanyol. Knishin, pequena cidade perto
de Itamaracá? Porque é do mesmo bera também a voz do dominado. Respondi que eu já estivera ali hospital e o médico me receitou gentil e decente, e seria do nosso visitá-la porque se tratava de uma
de Bialistok, na Polônia, em
tempo daquela. Por que não dizem Agora nós temos duas Espanhas: há algum tempo, que meu nome quinino. Eu comprei o remédio, agrado que você conhecesse essa pessoa muito solitária. No dia
1903. Deixou sua terra natal num
que em Nossa Senhora das Neves, NV Sim, por isso é tão importante uma cujo idioma está preservado, era Chaim e que naquela ocasião paguei cinco mil réis, comecei moça, quem sabe vocês acabam seguinte, quando cheguei à porta,
contexto de dificuldades financei-
atual João Pessoa, na parte antiga, realizar o trabalho de mostrar é do século xv-xvi e a que ficou estava viajando de navio para a tomar e logo senti melhoras. se casando e estabelecendo a sua me deixaram entrar. A senhora
ras e riscos sociais que afetavam
havia também uma sinagoga? estas outras versões. territorialmente conhecida como Belém no Pará a fim de encontrar Quando estava terminando o re- vida aqui”. Então eu respondi: Kutner então perguntou sobre
grande parte da população judaica
OB Hoje, a história é versão. “Espanha”, que é uma colcha de trabalho em um navio petroleiro e médio, repeti a receita e a malária “Como eu posso pensar em casar, minha saúde, e eu disse que estava
na região. Aportou na Argentina
NV Porque eles estão respon- Quem detém as versões, e quem retalhos, assim como a cultura chegar à América para encontrar sumiu; graças a Deus estava recu- se tenho apenas um único terno, curado. Quando ficou curada, ela
em 1922, dada a impossibilidade
dendo às instituições oficiais, tem o poder de mídia, de tanto judaica. O catalão não se sente meus irmãos. Imediatamente ela perando a minha saúde outra vez. não tenho nem outro para trocar? voltou a conversar sobre casa-
de obter visto para os Estados
talvez... repeti-las, torna-se algo próximo madrilhenho, nem aragonês, não se lembrou de mim, me mandou Perdi todos os meus pertences e mento, preocupada com o meu
Unidos. Em suas memórias, narra
OB Você leu 1984, de George à verdade, embora não seja. Essa é é? Nem sevilhano. entrar e começou a perguntar por preciso trabalhar bastante para futuro. Eu respondi: “Qual é a
situações da vida de imigrante,
Orwell? Quem controla o presente a questão. que eu ainda não tinha viajado comprar aos poucos todas estas moça que irá se interessar? Não
percorrendo o Brasil até o norte,
controla o passado. Quem controla para a América. Contei a ela tudo coisas, porque nada possuo”. possuo nada e o meu trabalho não
em busca de reunir-se aos irmãos
o passado controla o futuro. o que tinha acontecido. Ela achou Continuei: “Consegui adquirir é adequado, imagine, alguém que
na “América”. Após contrair ma-
que eu estava muito magro e pá- novamente uma boa saúde e tenho anda com uma caixa da sorte pela
lária em Belém, voltou ao Recife
lido por causa da malária que con- esperança de ter mais força, ainda rua, tirando bilhetes como um
para se tratar, e lá se estabele-
traí na viagem. Tinha se passado estou muito magro e pálido; como katrinstcik (homem do realejo)!”.
ceu. Formou família, tornou-se
um ano desde que estivera com vou ter coragem de me apresentar A senhora Kutner disse: “Não tem
comerciante, foi ator, tesoureiro
eles − já estávamos no ano de 1929. diante da moça e de sua família”? a menor importância, você é uma
de escola, enfim, membro ativo e
Terminei com estas palavras e não pessoa honesta e de respeito, não
dedicado da comunidade judaica
ouvi mais seus comentários sobre tem nada de patife ou vagabundo,
local. Mudou-se com a família
o assunto “casamento”. Continuei eu o considero como um filho
para São Paulo em 1954.
a visitar a casa deles todas as mais velho”.
noites e, nesse meio tempo, apa-
O trecho que se segue é parte do
reciam visitas e eles me apresen-
diário manuscrito em iídiche, nos
tavam e assim eu tinha chance
anos 1960, que está sendo prepa-
de conhecer mais e mais pessoas.
rado pela família para publicação
Conversavam comigo e eu contava
integral.
o que tinha passado por causa da
vontade de me juntar aos meus
Lilian Starobinas
irmãos na América, e como não
estava conseguindo chegar até lá
e realizar esse sonho, tinha até
contraído malária no Amazonas.
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ERRÂNCIAS ERRÂNCIAS

Eu me senti tão querido, e Acordando, saí para trabalhar Eu adquiria as mercadorias e entre- Eu e minha esposa, cujo nome é
continuei a ir à casa deles todas como todos os dias. No fim da gava em domicílio e minha esposa Marta (Machlia nos documen-
as noites, até que encontrei um tarde caminhei até a casa dos atendia os clientes. Ainda não tos), continuamos com o nosso
jovem sentado à mesa e conversa- meus amigos Kutner, e a senhora podíamos ter um vendedor e pagar trabalho pesado, economizávamos
mos bastante. A senhora Kutner me perguntou se eu tinha ido um salário. Mais adiante, quando até em ingressos para cinema,
olhava e sorria e eu não entendia na noite anterior visitar a moça. sentimos que já não era possível co- pois nesta despesa teríamos que
a razão do seu contentamento. Contei o que tinha acontecido e brir esta função, contratamos uma gastar também com as passagens
Na noite seguinte estávamos ela riu muito, depois me pergun- pessoa para nos ajudar. Ele então do bonde. Achávamos melhor
tomando chá e, junto a nós, estava tou se eu havia gostado da moça, começou a fazer as entregas e eu só gastar em um quilo de carne para
uma sobrinha deles que per- e eu disse que sim, mas que era ajudava quando era necessário. o almoço no dia seguinte, para
guntou: “Tia, você já disse para ainda muito cedo, precisávamos nós e nossa filha chamada Bethi
o Chaim?”A tia respondeu: “Eu nos conhecer melhor. Todas as Ainda assim, não perdi a minha comermos, e economizar algum
tenho tempo para isso, que pressa noites durante alguns meses eu fui vontade de viajar para encontrar dinheiro. Nessa época começou
é essa? Antes vamos tomar o chá à casa da moça, conversávamos, e meus irmãos na América. Entendo a funcionar uma cooperativa
com pão de ló, então terei força contei toda a minha história, de que quem ler este diário poderá se judaica, que no início concedia
e coragem para falar com ele”. como eu tinha viajado, e do meu perguntar por que os meus irmãos empréstimos de duzentos mil
Comecei a entender aos poucos sonho de encontrar meus irmãos não podiam me ajudar, enquanto réis para pagar vinte mil réis a
que o assunto era comigo, e ela na América. Depois de todo esse eu sofria e passava por tudo aquilo cada semana. Fiz o empréstimo e
explicou que o jovem que tinha tempo, confessei que gostava mantendo a ideia fixa de encon- investi em carvão para vender na
conversado comigo na noite muito dela e queria assumir o trá-los. Acontece que eles não me minha loja, pensei até em vender
anterior era o irmão da moça que namoro e marcar o noivado. Ela conheciam, pois eu só tinha 8 anos e entregar para os judeus em
ela queria me apresentar e que já então me disse que não devíamos quando partiram para a América. domicílio, mas minha esposa não
havia combinado uma visita na ter pressa, quem sabe eu já era Achava que eles poderiam pensar achou boa a ideia, disse que eu
casa da família dela na terça-feira comprometido, podia ser que que eu era muito jovem e não ficaria com o apelido de “judeu do
ao anoitecer. O senhor e a senhora eu já tivesse esposa e filhos em saberia ganhar o meu sustento, carvão”, e sempre me chamariam
Kutner iriam comigo, e foi assim algum lugar, pois havia viajado que estava em países da América assim, então desisti. Graças a Deus
que aconteceu. tanto... Então respondi: “Vamos do Sul, e talvez não tivesse von- consegui pagar os compromissos
nos conhecer melhor, poderei dar tade de trabalhar, que seria um assumidos.
Na terça-feira combinada, na a você alguns endereços dos meus preguiçoso ou um vagabundo. Eu
hora de sairmos, apareceu uma parentes na Europa, da cidade não era nem uma coisa nem outra, Nesse tempo, apareceu um dos
visita para a senhora Kutner e ela onde eu nasci e cresci e também simplesmente não tinha sorte, meus fregueses não judeus que
disse ao marido que não podia de amigos de Buenos Aires.” tudo que eu tentava fazer nunca comprava madeira e outras
ir conosco, mas que ele deveria Assim, o irmão dela escreveu para dava certo, e eu não queria que mercadorias para fazer consertos
me acompanhar – e eu ainda fiz os endereços que eu dei e verificou eles soubessem disso. na casa dele, e me disse: “Chaim,
uma brincadeira: “Shimen, você as informações sobre a minha compre a minha loja de artigos
parece um casamenteiro, só falta pessoa. O tempo foi passando e eu Quando conheci minha esposa e alimentícios, uma mercearia, fica
colocar no bolso do paletó um continuei com o meu trabalho e o me casei, ela me ajudou a traba- bem perto daqui, na outra rua.”
lenço vermelho”– e assim saímos namoro, aguardando as respostas lhar e acabou minha má sorte, Fiquei parado, sem ação, pen-
os dois para fazer a visita. Fomos das cartas enviadas. Não demorou pois juntos superamos e consegui- sando: “como posso comprar a
muito bem recebidos, fui apre- muito até chegarem respostas mos, com o nosso esforço, traba- loja dele se não tenho dinheiro?”
sentado à jovem num ambiente
agradável e conversamos algumas
horas; todos participaram da
positivas. Ficamos noivos no dia 14
de setembro de 1929. Meu futuro
cunhado me contou mais tarde
Capítulo Xi lho e economia, chegar a melhores
resultados, subir na vida e nos
tornar independentes.
E disse isso a ele, que me respon-
deu: “Venderei para você sem
dinheiro, pode me pagar com
conversa: a moça, a cunhada, o que as respostas foram muito boas mercadorias que estou precisando
irmão, eu e o Shimen. Na hora da e que responderam: “Se vocês O irmão da minha namorada Ele me mostrou onde eu poderia Escrevi então aos meus irmãos e vamos descontando aos poucos.” Trabalhamos assim durante seis Empreguei um rapaz para nos
despedida, o irmão dela falou: “Se perguntam sobre o rapaz que trabalhava com clientela, quer comprar as mercadorias e logo que estávamos muito bem com Respondi que ia pensar no assunto meses até que apareceu um senhor ajudar. Quando organizei tudo, fui
for agradável para você, pode vir conviveu conosco podem estar dizer, vendia a prestação em comecei a trabalhar, apesar de o nosso trabalho, graças ao bom e lhe daria uma resposta, entrei interessado em comprar a loja. até o centro da cidade (a nossa loja
nos visitar sempre.” Eu agradeci sossegados e realizar o casamento. domicílio (klientelstchik), e me a localização da loja não ser boa Deus. Quando passamos por tem- em casa e contei à minha esposa. Respondi que podíamos conversar, ficava no bairro da Torre, perto do
o convite e na noite seguinte fui Ele é uma pessoa muito boa, levou para ver como se trabalhava para comércio e dificultar o ne- pos difíceis, as pessoas falavam Conversamos sobre a possibili- que era uma possibilidade e quem bairro da Madalena), visitei todas
sozinho visitá-los novamente. Bati honesta e educada.” com isso, a fim de que eu também gócio. O lucro das minhas vendas mal, inventavam tudo o que que- dade de fazer o negócio, e juntos sabe faríamos negócio. Cheguei à as famílias judias e me ofereci para
à porta bem de leve, com cuidado, trabalhasse nesse ramo. Ele me não cobria as despesas, e fui então riam, mas nós sabíamos que isso resolvemos adquirir a mercearia. conclusão de que era conveniente entregar as compras em domicílio.
e ninguém ouviu, porque todos levou a algumas firmas, garantiu o procurar outro local de maior não era verdade, só que era im- Estudamos um jeito de adminis- vender-lhe a mercearia porque Comecei a vender-lhes tudo que
estavam na sala, e não abriram meu crédito, comprou as mercado- movimento. Encontrei uma loja possível calar as bocas maldosas, trar as duas lojas e como iríamos teria um bom lucro. Resolvi vender, uma dona de casa precisava: açúcar,
a porta. Esperei um pouco e fui rias e eu comecei a trabalhar por fechada, perguntei à vizinha sobre ficávamos quietos e Deus nos aju- trabalhar. Chegamos à seguinte fizemos o balanço e ele me pagou. café, azeite, batatas, cebolas, sabão
embora para minha pensão, tirei o conta própria. Fiz bons negócios, o dono. Ela me deu o endereço e dou. As bocas más emudeceram conclusão: ela continuaria na Com o lucro, investi na minha e outros artigos. Levava comigo
paletó, sentei na cama, e os meus consegui muitos clientes, aluguei acabei alugando a casa, porque e mudaram de opinião, dizendo loja antiga e eu na nova, só que primeira loja, aumentei o espaço, uma lista de tudo o que havia na
pensamentos eram tristes. Pensei uma sala e casei no dia 1º de ja- além da loja também havia uma que eu era um bom comerciante, contrataria um funcionário para fiz um telhado num espaço aberto loja e outra dos nomes e endereços
comigo: “Chaim onde você está se neiro de 1930. Eu e minha esposa moradia e foi ótimo porque eu esforçado e trabalhador, e até que eu pudesse ficar nas duas lojas atrás, passei as mercadorias que para quem eu vendia, anotava o
metendo? Que pouca sorte! Onde começamos uma vida nova. O não precisaria pagar dois aluguéis. vinham me pedir conselhos sobre e fazer as compras para ambas; estavam na frente para lá, fiz que as senhoras encomendavam
já se viu?” De repente tive uma dinheiro que entrava dos clientes Entramos em um acordo e o dono negócios e oportunidades. Assim, dessa maneira, eu poderia ajudar a algumas prateleiras, coloquei tudo e a quantidade de cada produto.
ideia: quem sabe as pessoas não era entregue à minha esposa que do imóvel ainda reduziu o preço vocês ficaram sabendo por que minha esposa quando ela preci- o que havia trazido da mercearia Quando chegava em casa à noite,
ouviram? Coloquei de novo o pa- guardava até o dia do pagamento do aluguel. meus irmãos não me ajudaram sasse. Compramos a mercearia e e recomecei a trabalhar junto com minha esposa me ajudava a separar
letó, o chapéu e voltei até lá; desta da mercadoria, porém, aconteceu quando eu mais precisava, não por o trabalho ficou ainda mais difícil minha esposa. os produtos conforme os pedidos;
vez bati mais forte à porta, e ela a Revolução de Outubro de 1930 Mudei com a minha família, pois culpa deles, mas porque eu queria e duro; porém, estávamos muito de manhã cedo eu colocava as
se abriu. Entrei, me sentei na sala e tive uma reviravolta nos meus já tínhamos uma filha de dois anos. provar que era capaz de me virar satisfeitos e achávamos que valia a caixas de mantimentos na carroça
com a moça, e conversamos sobre negócios, perdi muito dinheiro − Abri as duas portas que davam sozinho na vida. pena para o nosso futuro. e o meu empregado fazia a entrega
vários assuntos durante algumas isso me desanimou de trabalhar para a rua e recomecei a minha aos fregueses.
horas, depois me despedi e fui vendendo à prestação. Continuei atividade de comerciante. Junto
para a pensão dormir, sonhar... mais um tempo, até o ano de 1932, com minha esposa vendíamos bas- O esquema deu certo: um dia eu
e resolvi mudar para alguma coisa tante, a nova localização era exce- ia coletar as encomendas e no
mais estável. lente e o dinheiro que entrava era outro meu funcionário entregava,
suficiente para cobrir as despesas no dia seguinte eu ia receber o
Durante este tempo, havia um ra- e cumprir com os compromissos. dinheiro e já recebia novos pedi-
paz que morava na casa de uma tia dos. Trabalhávamos dia e noite,
da minha esposa e que pretendia Embora a loja fosse boa, não ficávamos muito cansados, mas
abrir uma loja de artigos em geral. sobrava dinheiro para comprar satisfeitos, sabíamos que com o
Ele havia alugado um local porque novas mercadorias e ampliar a tempo teríamos ótimos resultados
o cunhado dele ia ajudá-lo, porém, loja; os fregueses solicitavam e iríamos longe, e assim trabalha-
este se arrependeu e não cumpriu outros artigos, cimento, tijolos, cal mos até o ano de 1938.
o prometido. e diversas tintas, tudo referente a
construção e pintura. Aos poucos Conseguimos comprar a casa com
A tia da minha esposa, sabendo consegui colocar as mercadorias a loja e ficamos livres do aluguel
que eu estava procurando algo as- que eles pediam e comprei tam- no fim daquele ano. Nessa mesma
sim, prometeu falar comigo sobre bém um cavalo com uma carroça época, conheci uma pessoa que
o assunto; então fui conversar com para fazer a entrega das compras. trabalhava numa loja de auto-
esse rapaz e fiquei com a loja. móveis usados, contei-lhe que
gostaria de ter uma loja desse tipo,
ofereci 25% de participação nos
lucros e investimento para mon-
tagem da loja e assim seríamos
sócios. Ele aceitou e começamos a
trabalhar juntos.
março / abril / maio / junho março / abril / maio / junho
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espresso colombiano por nossa conta!
Por ser um exemplo excepcional de paisagem cultural,
produtora, sustentável, única e representante de uma
tradição que é um forte símbolo da cafeicultura mun-

Perguntas para
dial: o ____________________ é um Patrimônio Mundial
instituído pela unesco.

Rua Correia de Melo, 42


Rua Três Rios, 363

Jacó Guinsburg
Válido até 09/07

Dança de salão na Faça parte


Casa do Povo do Coral Tradição!
A dança de salão Fundado pela maestrina
proporciona inúmeros Hugueta Sendacz, o coral Por Mariana Lorenzi
benefícios: busca novos integrantes
interessados na língua
• pode ser praticada iídiche* para cantar às
por pessoas de segundas-feiras, às 20hrs,
qualquer idade na Casa do Povo.
• reduz o estresse
• aumenta a energia *Não é preciso falar iídiche para
participar do coral. As músicas
• melhora o tônus são transliteradas e traduzidas
muscular antes de serem ensaiadas Mariana Lorenzi Como surgiu O jornal era dirigido aos falantes ML Por ser feita pelos jovens ML Assim como o público do ML O fim da imprensa iídiche é
• é um excelente sua relação com os grupos que do iídiche que viviam em São que já haviam de certa forma Nossa Voz. um sintoma do desaparecimento
exercício Inscrições:
info@casadopovo.org.br fundaram o Nossa Voz e a Paulo, e falava sobre Birobidjan1, assimilado a cultura brasileira, a JG O Nossa Voz era lido da língua?
cardiovascular Casa do Povo? sobre Israel, sobre Holocausto, revista estava mais preocupada principalmente pelo pessoal JG O Nossa Voz teria sofrido o
• fortalece os ossos de falava muito bem da República em abordar questões locais? progressista, mas tinha um destino da língua, o iídiche não
Ao centro, pernas e quadris
Chaim e Marta Aulas de costura Jacó Guinsburg Desde menino, Polonesa, da Resistência, e do JG Eram feitas matérias variadas público um pouco mais amplo, subexistiu nem desapareceu por
• aumenta o equilíbrio e eu frequentava o Yugent Club e Movimento de Esquerda em na revista, tanto de natureza porém, não acredito que fosse causa do jornal. Naquela época
Capítulo Xii
Novodvorsky. Ao
fundo (da esq. para a coordenação motora à mão depois o Centro Cultura e Progresso, língua iídiche. Uma das suas política internacional ligada muito além do Bom Retiro e do ela continuava falante, mas
a dir), Clara Cecília • desenvolve a
Novodvorsky,
conhecido como “o Progresso”, o fontes era o jornal Morgen Freiheit, à linha do Partidão, como de Brás, e eventualmente da Penha. aquela geração foi morrendo,
Rubens Tachlitsky, consciência corporal Cerzidos, bainhas, chu- clube da juventude do qual a Casa que era o veículo judaico do política local ligada ao processo Mas circulava no Rio de Janeiro, eram pessoas que tinham vinte
Beth Tachlitsky, • exercita a memória leados, caseados, pregar bo- do Povo nasceu. Em 1944, eu era Partido Comunista americano. O da coletividade. A linha cultural havia uma sucursal lá, além disso anos na década de 1920, portanto
Combinei com a minha esposa que Os meus negócios foram melho- conselho escolar e sugeriu que a Jeanete • aumenta a autoestima tões e debruns são técnicas o presidente do departamento Nossa Voz tentou ser a voz do setor seguia dois aspectos, um judaico contava com uma organização muitos estavam no mínimo com
ela permaneceria na loja antiga rando cada vez mais, comprei uma escola mudasse e ocupasse o prédio Tachlitsky e Elias
Novodvorsky, • melhora a postura fundamentais da costura, juvenil do Progresso. progressista judaico em iídiche e com uma marca muito especial muito mais ramificada com 40, 50 ou 60 anos quando o jornal
e eu ficaria na nova. Aluguei um casa na cidade e pouco depois um que estava vazio, adaptando-o c. 1951. • contribui para a inte- feitas à mão.As aulas pre- em português. para o iídiche, e outro brasileiro, correspondentes em várias cidades fechou. Eu mesmo falava iídiche
local e começamos a comprar palacete para onde mudei com como fosse necessário para o bom ração social tendem criar um espaço de ML Como era o engajamento porque o Reflexo representa uma brasileiras: Salvador, Curitiba, com meus pais, mas sempre falei
carros usados, examinávamos os a família. Eu já possuía um belo funcionamento da escola. Muitos trocas pela costura aberto político dos membros do ML Além do Nossa Voz, havia geração de passagem já marcada Porto Alegre, Recife, Santos, etc. português com os meus filhos
automóveis e caminhões. Se esti- automóvel, íamos ao cinema, teatro, membros do Conselho Escolar Turmas todas as aos interessados em desen- Progresso? a revista o Reflexo que também pelo ambiente brasileiro, com Mas a principal comunicação mesmo tendo lido uma quantidade
vessem em bom estado, levávamos e podíamos tirar férias e viajar estavam de acordo, achando que segundas-feiras volver práticas próprias. JG Grande parte do pessoal era ligada ao Progresso mas era preocupações específicas ligadas era com o Rio, em especial com enorme de livros em iídiche,
para a loja. Porém, o meu sócio para a praia com as nossas crianças. devíamos aceitar a sugestão, eu às 18h30 e Encontros com Ofelia Lott, do Progresso havia saído da direcionada a um público jovem. à vida daqui que se traduziram a turma do Cabiras, que era um porque a biblioteca do Progresso
não era honesto comigo. Como ele Durante alguns meses, tomávamos ouvia tudo com muita atenção e quintas-feiras às quintas-feiras, no ateliê Europa Oriental, tanto por razões JG Sim, o Reflexo surgiu em de modo mais acentuado na clube judaico progressista carioca, era muito boa, e o que não foi
é que era o entendido, tornou-se banho de mar. Tornei-me uma depois pedi a palavra. Eu disse às 15h30 do G>E na Casa do Povo. econômicas quanto políticas, 1948, o primeiro número tinha o cultura e na política. Muitos inclusive eles tinham uma revista saqueado nem estragado está lá na
o comprador e também o vende- pessoa importante, um proprietá- que também estava de acordo, mas alguns com participações Monteiro Lobato na capa e falava dos colaboradores do Reflexo que também circulava em São Casa do Povo, uma preciosidade
dor; então ele combinava com o rio, e podia colocar meus filhos em com uma condição: que o grupo Inscrições: Contato:
importantes no movimento do movimento “O Petróleo é começaram lá e depois passaram Paulo e que correspondia mais ou em termos bibliográficos.
proprietário do veículo para que uma escola judaica. Nessa época, dissidente colocasse a escritura info@casadopovo.org.br ofelialott@gmail.com
de esquerda de lá e, aqui, Nosso”, da Guerra Fria, e outros para a imprensa brasileira, como menos ao Reflexo.
ele pedisse mais dinheiro, e ficava estavam escolhendo um conselho do prédio em nome da Escola, pois continuavam fazendo seu trabalho assuntos. Era uma publicação em no caso da Liba Friedman. ML A Casa do Povo foi um
com a diferença que eu pagava a administrativo para a escola e me ela pertencia a toda a coletividade político e cultural em certa medida, português, já que as pessoas para Naquela época também fundei ML Quais eram os outros veículos desdobramento do Centro Cultura
mais. Eu ainda não tinha expe- convidaram para participar, e fui judaica da cidade e não somente a Traga seu anúncio e faça como se ainda estivessem na a qual era destinada, em geral, era junto com o Carlos Ortiz minha impressos em língua iídiche em e Progresso, ela foi feita para ser
riência nesse ramo de negócio. eleito para o cargo de tesoureiro. este grupo. Disse ainda: “Como o Polônia, Lituânia ou na Romênia, de uma geração que até entendia primeira editora, a Rampa3, e São Paulo? um lugar de encontro onde todas
Quando ele dizia quanto eu devia Trabalhei para a escola durante Conselho Escolar muda todo ano, uma caneca personalizada
e claro que eles começaram a bem o iídiche, mas não falava. tanto o Reflexo quanto o Nossa JG O primeiro jornal de língua essas associações e pessoas se
pagar, eu acreditava e pagava. quatro anos, o presidente se cha- no momento os membros são favo- introjetar elementos brasileiros e Voz deram apoio com críticas iídiche em São Paulo chamava-se reuniriam?
Trabalhei com ele desse jeito seis mava Idel Fainzilber e a secretária ráveis a esta ideia e vocês aprovam, americanos, porque havia muita ML Você foi um dos fundadores, ao nosso trabalho. A primeira San Pauler Iídiche Tsaitung e saiu JG Pode-se dizer que a Casa do
meses, até aprender bem como se Berta Margulis. Juntos no novo mas, e se daqui a alguns anos for de R$ 38,00 por R$ 28,00.
ligação com os Estados Unidos, certo? exposição de quadrinhos que foi por muitos anos, inclusive quando Povo foi o desfecho final, quer
trabalhava. Então observei e cons- conselho, fizemos muitas melho- eleito um Conselho que não agrade mas o ritual ainda era aquele. JG Fui, junto com o Israel Febrot, feita no mundo foi no Progresso Getúlio proibiu as publicações dizer, para lá refluíram essas
tatei que ele estava me roubando, rias: conseguimos pagar em dia o a vocês e pedirem a casa de volta? A mas o Reflexo não nasceu de uma através da Liba, isso tudo rodou em línguas estrangeiras, em 1939, associações. Ela surgiu de uma
e passei a não concordar mais salário dos professores e aumentar escola então não terá para onde ir, o Rua Três Rios, 227
Havia um envolvimento direto ideia minha ou dele, e sim de um pelo Reflexo, pela turma que fazia continuou saindo em português. promessa do Manuel Casoy, que
com os preços que ele acertava. o número de alunos para oitenta, espaço que hoje ela ocupa já estará www.fotomiki.com.br
com o Progresso, que era de processo que estava ligado com a revista. era um homem bastante abonado
Comecei eu mesmo a comprar. contratamos dois professores bra- sendo usado para outras atividades natureza social, cultural e o grupo progressista no âmbito Havia também o Naier naquela época, mas que havia
Válido até 20/08
Depois de um ano dissolvi a sileiros e uma professora de iídiche, e seria prejudicada. A maneira recreativa, e uma relação de da coletividade. Foi uma voz O Reflexo era a ala jovem do Nossa Moment (Novo Momento), que sido estivador e anarquista, uma
sociedade, paguei a parte dele e cujo nome era Sara Manckovestzki. correta é providenciar a escritura natureza diretamente política, que para a juventude desse grupo, de Voz, mas não era o Nossa Voz. Em evidentemente carregava uma figura ligada à esquerda assim
contratei outra pessoa. Pagava Durante estes anos os professo- no tabelião e desse modo garantir o era partidária. Nós atuávamos assimilação da cultura brasileira vez de ele ser uma voz, era um marca sionista, mas na verdade como a mulher dele, a Rebeca
todo mês um ordenado e me tornei res de iídiche que lecionaram na futuro da escola.” Eles não aceita-
o único dono do negócio. Resolvi escola se chamavam Burstein, ram o meu ponto de vista e durante
MetaColetivo - Residência para nesses dois aspectos fazendo o que estava em curso. reflexo. Aliás, o próprio nome diz reunia tanto o pessoal do Bund, Casoy, e também por militantes
trabalho de massa no sentido o que ele era. Porém, claro que agia que era o partido socialista ou ex-militantes comunistas,
liquidar a loja e aluguei uma Alpern, Oksman e Bekin. A escola um mês não compareceram para coletivos na Casa do Povo de conscientizar a comunidade. A meu ver duas coisas podem com autonomia porque era feito por judaico, quanto os sionistas de simpatizantes, etc., e que queriam
moradia na cidade e mudei com a funcionava num prédio comprado assistir às nossas reuniões. Não Mas tanto o Progresso quanto a ser vistas como antecedentes uma geração que pensava de outra centro e de esquerda, porque há marcar a continuidade do povo
minha família − já tínhamos três pela comunidade judaica chamado houve acordo, passou algum Convidamos coletivos, grupos, grupos de estudos, Casa do Povo tinham seu cerne do Reflexo: uma era a página em forma, que tinha outras ligações. que considerar que isso existe. O judeu, a continuidade da sua
filhos, um menino e duas meninas. Círculo Israelita. A comunidade era tempo e eu fiquei pensando de que movimentos sociais, companhias, conselhos, associa- ligado com o Partido Comunista português do Nossa Voz, e a outra Novo Momento era um jornal em cultura através de um monumento
Estava começando o ano de 1942 formada por judeus sionistas e da maneira poderíamos nos enten- ções ou qualquer outra forma de agenciamento Brasileiro, o Partidão. era uma mesa expositiva que havia ML O que o Reflexo refletia? língua iídiche, mas se contrapunha que foi a Casa do Povo. A Casa do
e passei a trabalhar sozinho e mi- esquerda progressista e o conselho der: surgiu uma ideia e chamamos coletivo e horizontal a mandarem propostas para a no Progresso onde publicávamos JG Em essência ele seguia e politicamente ao Nossa Voz. Povo é um memorial, e o Nossa
nha esposa cuidava da nossa casa do Círculo incluía ambas as partes o grupo para uma nova reunião. Casa do Povo. ML Você poderia dizer um pouco coisas em português. Os jovens acompanhava o posicionamento Voz participou disso.
e dos nossos filhos. A nossa vida para participar das decisões. Houve Quando nos encontramos contei: sobre como o Nossa Voz era escreviam textos, artigos e do Nossa Voz, mas a meu ver foi
mudou para melhor, minha esposa então uma ruptura e os sionistas, “Vamos passar a escritura da casa Inscrições até 15/07.
estruturado? expunham ali. Eu me lembro de muito mais endógeno, já refletia Mas as divergências
tornou-se uma dona de casa igual na sua maioria, saíram do Círculo para a escola, mas acrescentaremos JG A figura central do Nossa Voz ter escrito para essa mesa uma muito mais a vida brasileira e logo começaram a surgir,
A proposta selecionada deverá acontecer entre
às outras senhoras judias. Israelita e adquiriram outra sede um ponto − enquanto existir Escola era o Hersch Schechter, que tinha resenha crítica sobre a tradução principalmente a paulista. Eu não principalmente com a questão do
01/09 e 01/12.
e formaram uma nova associação. Judaica em Recife, a casa perten- uma história política desde a que a Paula Begelman fez de um sou capaz de medir o efeito do Estado de Israel, foi quando veio
Mas eles não alcançaram o espe- cerá à escola, e, se por algum mo- Essa residência integra o projeto Metacoletivo, contemplado pelo Edital década de 1930 ligada ao Partido, livro do Mendele Mocher Sforim2, Reflexo na coletividade, pelo que a cisão e em seguida o abandono
rado sucesso, porque a sede ficava tivo ela parar de funcionar, o prédio do PROAC, Espaços Independentes vinculados às artes visuais
uma vida de revolucionário, toda que é um dos principais nomes do eu posso me lembrar, não era muito de um certo grupo de antigos
longe do bairro onde a maioria dos voltará a pertencer novamente ao ela feita de militância, prisões início da literatura iídiche. Depois, grande, mas isso não quer dizer militantes, dos homens que
Saiba mais: metacoletivo@casadopovo.org.br
judeus morava, e naquela época grupo.” Eles aceitaram a proposta e exílios. Ele não era o único, esse artigo foi publicado no que inexistia. Os temas brasileiros fizeram e financiaram a Casa do
poucas pessoas possuíam carro e passamos a escritura em nome da havia todo um grupo de pessoas Reflexo. Além disso, também fiz estavam aí, mas ele não atingia Povo. O pessoal que sustentou a
e já estavam acostumados com o Escola Israelita, e assinamos como realização
com histórias políticas muito algumas traduções para a revista. uma massa fora da coletividade, coisa, dizem eles que sustentaram
Círculo Israelita. Lá havia uma boa seus representantes. desenvolvidas, alguns com os seus leitores, suponho que pela causa, mas estavam na
biblioteca, e, além disso, o espaço histórias que vinham desde a ML Em iídiche? esmagadoramente, eram sócios verdade se sustentando, dando
externo servia para a prática de Europa, que eram membros muito JG Como eu não sei nenhuma do Progresso que moravam ou no sentido a si próprios. Agora tá
esportes. Aos poucos, esse grupo atuantes do Partido Comunista língua, eu traduzo de qualquer Bom Retiro ou no Brás. todo mundo fazendo revolução lá
voltou para o Círculo, e as pes- Polonês ou do Partido Socialista língua... (risos) em cima (risos).
soas que haviam comprado outro Na compra Apresente em geral. O Nossa Voz surgiu de
prédio acabaram alugando-o para de um falafel este anúncio no uma união entre a linha comunista, ML Você também escreveu um
um quartel do governo do Estado. com o pessoal que era ligado ao pequeno ensaio sobre Os Sertões,
Assim passaram alguns anos até Ganhe um almoço e ganhe Partidão e também uma pequena de Euclides Cunha, que foi
Jacó Guinsburg é crítico, ensaísta e profes-
sor. Especialista em teatro russo e iídiche.
que o local foi desocupado. O grupo refrigerante KS! um café! ala do sionismo de esquerda, publicado no Reflexo. Fundou, em 1965, a Editora Perspectiva.
dissidente veio a uma reunião do que eram favoráveis ao iídiche JG Exatamente. Foi um dos
em Israel, então esse elemento muitos artigos e textos sobre
FALAFEL MALKA cultural os unia. O Nossa Voz temas brasileiros, como o de
também estava ligado ao ICUF - Jacob Kauffman, que mais tarde
Rua José Paulino, 345 Iídicher Cultur Farband, que era seria presidente do Clube A
lojas 21 e 23A uma organização internacional em Hebraica. Ele foi ao Rio de Janeiro 1  Cidade da Rússia que em 1934 se tornou a
capital do Oblast Autônomo Judaico
prol da cultura iídiche. e entrevistou o Graciliano Ramos. 2  Mendele era o pseudônimo de Sholem Yakov
Válido até 30/08 Rua Correia de Mello, 206
O Graciliano não gostava de dar Abramovich, e significava o mascate de livro.
www.delishoprestau- 3  A Rampa existiu de 1948 a 1951 e publicou 4
entrevista, mas ele conseguiu e
rante.com.br livros, entre eles a Antologia Judaica, Jóias do
está publicada no Reflexo. Conto Idiche, Contos de I.L.Peretz e A Mãe de
Scholem Asch.
Válido até 30/07
março / abril / maio / junho
Ano LXVIII Nossa Voz nº 1014

ACONTECE NO BAIRRO EDITORIAL FICHA TÉCNICA

Casa do Povo Neste ano, o Nossa Voz foi con- Assim, faz-se necessário pensar A cidade também é construída Projeto editorial Benjamin Seroussi e
Mariana Lorenzi
templado pelo 11º Programa Rede novas estratégias para retomar os pelos afetos e pela memória, seja Editora Isabella Rjeille
Nacional Funarte Artes Visuais, discursos e as direções da cidade coletiva ou pessoal. A publicação
20 de Maratona de filmes o que possibilitou a continuidade onde se vive. Estes são alguns de parte do diário do imigrante
Correspondentes Cristiana
Tejo (Recife) e Armando
junho “Frente à Euforia” do projeto iniciado em 2014, com dos tópicos abordados por Ana judeu polonês Chaim Novodvorski, Queiroz (Belém)
Projeto gráfico Estúdio Margem
o relançamento do jornal no seu Lira, Zeyno Pekünlü e Augusto que narra sua vinda à “América” Gráfica Performance
A programação de filmes que inte- formato atual e a ampliação de Aneas, membros ativos de grupos em busca de seus irmãos, nos anos Revisão Gilda Morassutti
Tiragem 3.000
gra a exposição “Frente à Euforia”, seus recursos de pesquisa, colabo- de resistência urbana que, para 1920, desenha um outro mapa do
busca, através de filmes de ficção, radores e público. Cada uma das essa edição, conversaram a partir centro da cidade de Recife – o Colaboradores
documentários e videoarte, traçar três edições que serão publicadas de suas experiências com Direitos mesmo que foi percorrido pelos Acácio Augusto, Amilcar Packer, Ana Lira,
Ana Maria Maia, Antonio Manuel, Augusto
uma reflexão crítica acerca das ao longo de 2015 contará com um Urbanos (Recife), Müs˛tereklerimiz carroceiros de Jonathas e é amea- Aneas, Barbara Wagner e Benjamin de
atuais situações sociais e políticas correspondente em Recife, Belém (Istambul) e Organismo Parque çado pela especulação imobiliária. Burca, Chaim Novodvorski, Cristiana Tejo,
vividas no Brasil e na Colômbia. e Porto Alegre, respectivamente, Augusta (São Paulo). A história de Chaim é muito seme- Guga Szabon, Jacó Guinsburg, Jonathas de
Andrade, Max Jorge Hinderer Cruz, Odmar
Serão exibidos os filmes Oiga vea!, resgatando um intercâmbio que o lhante à de muitos imigrantes que Braga, Zeyno Pekünlü.
de Carlos Mayolo e Luis Ospina, jornal mantinha com estas cidades, Poderíamos pensar na clandesti- vieram ao Brasil naquela época.
Trilogia Nefandus, de Carlos quando funcionou de 1947 até o nidade também como uma forma O trabalho como “vendedor a Comitê editorial Alexandre Lindenberg,
Ana Druwe, Benjamin Seroussi, Bong Kooh,
Motta, Verdade 12.528, de Paula seu fechamento pela censura logo de resistência, seja na circulação prestações”, por exemplo, era uma Celso Curi, Chico Daviña, Jairo Degenszajn,
Sachetta e Peu Robes, entre outros. após o Golpe Militar, em 1964. As transversal de trabalhos de arte prática comum entre estrangeiros Kuk Jae Shin, Lilian Starobinas, Marcos
pautas têm como horizonte o con- em tempos de censura promovi- recém-chegados, pois se tornou a Ajzenberg, Mariana Lorenzi, Michelle
Gonçalves, Mila Zacharias, Nina Knutson,
A partir das 17hrs. texto sócio-político das cidades dos pela ditadura militar, narrada única maneira de trabalhar sem Valeria Piccoli.
onde o jornal circula, sua história por Antonio Manuel, em entre- precisar compreender a língua
e questões atuais. As edições de vista a Ana Maria Maia, seja nas nacional, usando a mímica. Os Instituições parceiras Casa de Onze
Janelas (Belém), Espaço Fonte (Recife),
Oficina Cultural 2015, realizadas em parceria com maneiras como os judeus marra- encadeamentos de eventos que Oficina Cultural Oswald de Andrade,
Oswald de Andrade espaços e colaboradores diferen- nos mantiveram sua cultura em constroem a história pessoal de Pinacoteca do Estado de São Paulo.
tes, buscam construir um solo tempos de inquisição, contadas Chaim foram relidos nas ilustra-
Agradecimentos Ana Dupas, Anita Freitas,
comum entre variados contextos, por Odmar Braga. A clandestini- ções da artista Guga Szabzon, cuja
11 de maio Meus sentimentos descentralizando as narrativas e dade se faz valer como estratégia, avó, também imigrante judia e po-
Cecilia Starobinas, Charles Esche, Cris
Lacerda, Estudio Campo, Fernando Peres,
a 25 Artista: Daniel Lie
justapondo os discursos. interrompendo o fluxo de um sis- lonesa, nunca aprendeu português Gabriel Mascaro, Galeria Luisa Strina, Galit
Eilat, Guilherme Dable, Lilian Starobinas,
tema, criando rachaduras e frestas. e sempre se comunicou com seus
de julho Cristiana Tejo é a interlocutora netos através de gestos. A cama
Luiza Proença, Nuria Enguita Mayo, Nurit
Sharett, Oren Sagiv, Pablo Lafuente, Priscila
“Meus sentimentos” é uma insta-
convidada para esta edição de nº A presença de um carroceiro em de gato, retratada nas ilustrações, Gonzaga, Raquel Rolnik, Silvan Kälin, Tânia
lação pensada para a área externa Kaufman e Traplev
1.014, elaborada a partir de ques- meio a uma cidade que se ergue passa, então, de uma forma sim-
da Oficina Cultural Oswald de
tões tidas como relevantes para ao céu em edifícios de 40 andares ples, organizada a partir de um Nossa Voz é uma publicação da Casa do Povo.
Andrade. A obra, composta por
o atual − e complexo − momento surge também como um “rasgo” emaranhado de linhas nas mãos O jornal existiu próximo à instituição, de
frutas suspensas sobre o centro 1947 a 1964, quando foi fechado pela ditadura
político brasileiro, com foco em na imagem da cidade-empreen- de uma criança, a um complexo
de um círculo composto por 12 co- militar devido ao seu posicionamento
duas cidades: São Paulo e Recife. dimento. Assim, a 1ª Corrida de desenho nos dedos da avó. político. Em 2014, foi relançado pela Casa do
roas de flores, tem como principal
Trata-se de colocar em perspec- Carroças do Centro de Recife, pro- Povo, tendo seus eixos editoriais repensados
reflexão o tempo da vida. As flores a partir do contexto contemporâneo, em
tiva diferentes abordagens sobre posta e organizada por Jonathas Assim, essa edição do Nossa Voz
(em nossa sociedade associa- diálogo com as suas premissas históricas
temas familiares às duas cidades: de Andrade, em 2012, reuniu um foi construída a partir de uma judaicas progressistas. O comitê editorial
das a momentos de nascimento,
especulação imobiliária, crise grupo de 50 carroceiros para escuta sensível do contexto local, se reúne regularmente para discutir a
celebração e morte) e as frutas (a cidade, a memória e as práticas artísticas em
financeira, hídrica e administra- marcar a presença massiva desse partindo do Bom Retiro até o Cais
decorrência das flores) serão aqui consonância com a situação política atual.
tiva, multiplicidade das histórias grupo, atestando sua vívida exis- José Estelita e o Recife Antigo e Para saber mais sobre o Nossa Voz e a Casa
expostas ao efeito do tempo, pelo
em jogo, clandestinidade como tência em uma cidade que tenta voltando a São Paulo, sobrepondo do Povo: www.casadopovo.org.br, facebook.
período de quase três meses. com/casadopovoxxi.
estratégia, memória e o lugar da apagá-la de seu cenário. histórias, criando diálogos, e
arte nisso tudo. refazendo, em um espaço gráfico e A publicação é quadrimestral e tem
25 de maio a 4 de julho
A série fotográfica Edifício Recife bidimensional, um lugar de encon- distribuição gratuita nas instituições
parceiras e em algumas bancas do bairro do
Nossa Voz é um jornal quadri- faz um contraponto entre os pro- tro, debate e memória. Bom Retiro em São Paulo.
Chamando ela mestral, que renova suas sessões cessos de urbanização predatória
e seus autores a cada edição e que da cidade e a ideia de uma “arte Isabella Rjeille jornalnossavoz.wordpress.com
Para ver as edições antigas
Artistas: Sheila Ribeiro, Tiago transita por vários assuntos – das pública” feita para figurar na maio de 2015 (1947-1964) acesse
Lima e João Meirelles artes visuais ao urbanismo, de entrada de condomínios de classe
situações de resistência a novas média. Nesse trabalho, Bárbara www.memoria.bn.br
Através de editoriais de moda, formas de ativismo. São Paulo e Wagner e Benjamin de Burca
para o que poderia vir a ser a Recife vivem momentos muito registraram esculturas que acom-
Moda e os corpos possíveis de hoje, particulares, de semelhanças e panham um empreendimento
a instalação apresenta imagens bruscas diferenças – ambas dia- imobiliário, em cumprimento à
de multiplicidade de corpos re- riamente afetadas por gestões que Lei 14.239, que obriga cada edifí-
criando as cidades de São Paulo e têm como baliza os interesses do cio com área superior a 1.000 m2 a
Salvador, em seu presente-futuro: capital. Ao mesmo tempo em que manter uma escultura de “re-
cruzado, criativo, esperançoso. é feito um movimento em favor do conhecidos artistas plásticos
apagamento da memória coletiva, pernambucanos”. As fotografias
“Chamando ela” perpassa o grafite da diminuição de espaços “públi- possuem títulos não menos pecu-
dentro da cadeia alimentar do cos”, do menosprezo às questões liares (Triunfo Colonial, Primavera
novo business, a arquitetura bruta- ligadas ao meio ambiente, bem Colonial, Princesa Isabel etc.), sele-
lista, a cultura nordestina trendy, a como o isolamento de diferentes cionando da história do Brasil mo-
presença indígena contemporânea. grupos sociais em guetos cada vez mentos simbólicos que sugerem
mais afastados, ondas de desa- um imaginário da classe que ali
provação e revolta se levantam e iria viver. As imagens são acom-
Pinacoteca grupos se organizam na tentativa panhadas por breves leituras dos
de transformar o quadro imposto porteiros do prédio, que convivem
pelos poderes público e privado. com elas diariamente, e que são
11 de abril Sean Scully 1974-2015 responsáveis por sua conservação.
a 28 Primeira grande retrospectiva do
Esta série faz um comentário à
tentativa do Estado e do mercado
de junho artista irlandês no Brasil, com 46
imobiliário de estimular o setor
trabalhos produzidos entre 1974
“cultural” para validar suas ações.
e 2014. A pintura de Sean Scully
é abstrata, composta por formas
geométricas precisas, com linhas
mais demarcadas e claras. A expo-
sição traz um amplo recorte que
permite observar as variações do
seu processo criativo, incluindo
Apoio cultural:
aquarelas e pasteis menos conhe-
cidas do grande público.

13 de Mulheres artistas: as
junho a pioneiras (1880-1930) Apoio:

07 de
A exposição visa mostrar a
setembro inserção da mulher no sistema
Produção:
artístico brasileiro, enfatizando
os processos de formação a que
tiveram acesso e sua afirmação
como artistas profissionais. Correalização:
Contrariando os discursos de
época, que procuravam restringi-
las ao ambiente doméstico,
ao reduzi-las à condição de
“naturalmente amadoras”, diversas Realização:
pintoras e escultoras realizaram
obras de importância histórica.

Este projeto foi contemplado pelo Programa


Rede Nacional Funarte Artes Visuais 11ª edição.