Vous êtes sur la page 1sur 13

QVO VADIS?

: A VIAGEM NA CONSTITUIÇÃO DO ROMANCE ANTIGO

Cláudio AQUATI*

RESUMO: Examino neste trabalho o significado da viagem como elemento

constituinte do romance antigo. No romance grego a viagem através dos espaços

parece indicar uma expiação de culpas, sobretudo a da hybris, que levará os

protagonistas à purificação pelo sofrimento. A viagem é, portanto, um elemento

catártico. No romance latino, a viagem implica na ruptura da ordem ou na descoberta

dos aspectos mais miseráveis da natureza humana. Se no romance grego os heróis

viajam exoticamente cortando os mais longínquos espaços, no romance latino os anti-

heróis realizam viagem ainda mais exótica, pois cortam a sociedade num mergulho

que atinge profundas realidades desconhecidas, ou antes, ciosamente postas de lado

e apontando na literatura não mais que esporadicamente.

Palavras-chave: Romance grego; romance latino; Satyricon; Petrônio; O Asno de

Ouro; Apuleio.

Desde o princípio o romance grego apresentou contornos típicos, caracterizado por

uma narração fluente em prosa, um relato amoroso ameno, com noções de tempo e

espaço muito flexíveis, não distante do gosto e das expectativas populares. Seu tom é

quase épico e destina-se a engrandecer o herói. Em graus diversos, não lhe faltou o

exotismo oriental e o amor cavalheiresco, que, como notou Grimal (1958, p. xx), não é

exclusivo ou original da Idade Média ocidental, e faz com que o herói realize as
*
Departamento de Teoria Lingüística e Literária, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas,
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, São José do Rio Preto, SP, CEP
15054-000 - Brasil.
maiores façanhas e empreenda longínquas viagens a bem de seu amor pela heroína.

Os romances gregos adotaram tipos humanos e situações básicas muito próximos uns

dos outros, reconhecíveis por intermédio de detalhes particulares a cada enredo,

voltado “para o indivíduo como pessoa e, como tal, empenhado, acima de tudo, em

ser feliz, na ânsia da realização integral da própria vida” (Horta, 1984, p. 55).

Ao lado do amor, o grande tema do romance grego é a aventura, que se traduziu

pelo interesse por viagens fabulosas pelos confins do mundo, real ou imaginário, o

que revelava não só os desejos, mas também os riscos temidos na vida daquele

período, comuns, e não admiráveis, deve-se entender, para povos nascidos e criados

nas costas mediterrânicas: viagens marítimas, naufrágios, ataques de piratas, rapto,

prisão, escravidão, ambientados em geral em tempos remotos e lugares fabulosos e

exóticos. Assim, o escapismo contemporâneo leva os protagonistas e o leitor ao Egito,

à Babilônia, num distanciamento espacial e temporal que permitia a ocorrência dos

mais diversos prodígios e fantasias. Conforme assinala Gual, 1

ademais, intervêm sepulcros, tesouros enterrados, torturas e mutilações, bruxos,

nigromantes, ventríloquos, assim como curiosas variedades do reino animal: moscas e

abelhas venenosas, cães que devoram cadáveres e dromedários que fazem o papel de

mensageiros do amor. Era aquele mundo raro, onde se mesclava o mais antigo com o

mais moderno: a Babilônia depois de Cristo. Junto aos prodígios há descrições de

paisagens, de pinturas ou de animais exóticos, como a girafa de Heliodoro, ou o

hipopótamo e o elefante de Aquiles Tácio (1972, p. 52-3).2

1
A tradução das citações de autores estrangeiros é da responsabilidade do autor deste ensaio. O
original segue em nota de rodapé.
2
“ Además intervienen sepulcros, tesoros enterrados, torturas y mutilaciones, brujos, nigromantes y
ventrílocuos, así como curiosas variedades del reino animal: moscas venenosas y abejas
envenenadas, perros que devoran cadáveres y dromedarios que hacen el papel de mensajeros del
amor. Era aquel mundo raro, donde se mezclaba lo más antiguo com lo más moderno: Babilonia
después de Jesuscristo. Junto a los prodigios hay descriptiones de paisajes, de pinturas o de animales
exóticos, como la jirafa de Heliodoro o el hipopótamo y el elefante de Aquiles Tacio”.
Esse escapismo pode ainda levar o leitor a experimentar outro tipo de vida a que
3
está acostumado, aproximando-o de um cenário bucólico, como em Dáfnis e Cloé.

Conforme observa Horta (1984, p. 66), “Longo tira proveito do escapismo em relação

à vida em cenário urbano, característica do período helenístico”. O espírito bucólico

que imprime à sua obra reproduz o “gosto pelas paisagens e a vida rústicas, numa

espécie de escapismo da vida tumultuada e pouco gratificante dos grandes centros

urbanos helenísticos, só vantajosa para uma minoria privilegiada pela fortuna, ou pela

posição política junto às cortes reinantes”.

Segundo Bakhtin (1988, p. 218), a aventura, e na esteira, a viagem, embora central

na temática das obras, ocorre sempre porque o “curso dos acontecimentos normal,

pragmático ou submetido à causalidade, interrompe-se e dá lugar à intrusão do mero

acaso com sua lógica específica”. Como observa Gual,

a experiência de viajante converte em espaço a atmosfera que domina o romance. Os

protagonistas são empurrados não apenas de um perigo a outro, mas também de um

lugar para outro. Viajar significa carência de nexos; é a forma livre de viver, se cabe

chamá-la assim. Portanto, o protéico do romance tem de expressar-se por meio da

viagem” (1972, p. 52).4

E é preciso que se diga que, se há fantasia no relato das aventuras por paragens

distantes e incomuns, não há contudo absurdo, pois, como chamam a atenção Grimal

(1958, p. xx) e Bakhtin (1988, p. 215), os autores seguem de perto a realidade dos
3
Tradução para o português de D. Bottman (v. referências bibliográficas: Longo, 1990).
4
“La experiencia viajera convierte en espacio la atmosfera que domina la novela. Los
protagonistas son empujados no sólo de un peligro a outro, sino también de un lugar a
otro. Viajar significa carecer de nexos; es la forma libre de vivir, si cabe llamarlo así. Por
lo tanto, lo proteico de la novela tiene que expresarse por medio del viaje”.
lugares por onde perambulam os heróis, com alguma inexatidão, é bem verdade, e

alguma credulidade, lançando mão de descrições por vezes bastante detalhadas não

só de aspectos materiais como também de usos e costumes das populações

visitadas, e incluindo em seu repertório curiosidades e eventos raros, como o

aparecimento de animais exóticos e maravilhosos. Segundo observa D’Onófrio (1976,

p. 221), o tema das viagens está ligado a uma “expiação de culpas”, como se pode

verificar, por exemplo, nesta passagem da Efesíacas, de Xenofonte de Éfeso:

Habrócomes grita gemendo: — […] a idade não põe termo ao verdadeiro amor; mas eu

percorro em todas as direções terra e mar, e eu não posso esperar até esse dia, ó querida

Ântia, de saber que tu estás de volta. Ó infeliz oráculo! Ó Apolo, tu que predisseste

grandes infortúnios, tem piedade de nós e faze cumprir o desenlace prometido por teus

oráculos. (Xenofonte de Éfeso, Efes. 5.1.12-13, tradução do texto francês de Dalmeyda).5

Nessa expiação de culpas deve-se levar em conta sobretudo a da hybris, que leva o

homem a arrostar os deuses, na perspectiva de superar sua condição humana

igualando-se a eles:

O jovem [Habrócomes] experimentava seu orgulho, e se vangloriava de sua virtude, era

ainda mais confiante em sua beleza: tudo o que se acreditava belo, ele, com desdém o

tinha como muito inferior a si mesmo; nada lhe parecia digno de ser olhado ou ouvido por

Habrócomes; elogiava-se diante dele um belo rapaz ou uma bonita moça, ele zombava

5
“Habracomès s’écrie en gémissant: «[…] l’âge ne met point terme au véritable amour;
mais moi je parcours en tous sens terre et mer, et je n’ai pu jusqu’à ce jour, à chère
Anthia, apprendre au moins ce que tu es devenue. O malhereux oracle! Ô Applon toi qui
nous a prédit les plus grandes misères, prends enfin pitié de nous et fais s’accomplir le
denouement promis de tes oracles”.
daqueles ignorantes que não sabiam que só ele era belo. (Xenofonte de Éfeso, Efes.

1.1.4-5, tradução do texto francês de Dalmeyda).6

A remissão de sua falta dá-se por intermédio do enfrentamento do desconhecido,

concretizado no romance grego pelo deslocamento dos protagonistas por lugares

longínquos, como se vê, ainda nas Efesíacas:

Após a travessia que durou alguns dias, eles [Habrócomes e Ântia] desembarcaram em

Éfeso, onde todos já sabiam que eles retornavam sãos e salvos. Logo que puseram os

pés em terra firme, sem perda de tempo, foram ao santuário de Ártemis. Depois de ter

feito seus votos e seus sacrifícios à deusa, eles lhe consagram, entre outras oferendas,

uma inscrição onde se lia tudo o que eles haviam feito e sofrido. (Xenofonte de Éfeso,

Efes. 5.15.1-2. tradução do texto francês de Dalmeyda).7

Essa peregrinação nada mais é que a proposição de uma série de provas que

levam os amantes à purificação pelo sofrimento e também ao atestado de que são

dignos do amor de que são depositários. “A aventura tem, portanto, uma finalidade

catártica: o errar torna o homem sábio, pois o liberta do orgulho” (D’Onófrio, 1976, p.

219). Como veremos, a questão da expiação de culpas e da purificação pelo

sofrimento será abordada com a máxima intensidade pelo romano Apuleio, em O

Asno de Ouro. 8A divindade persegue ou conduz: se, por um lado, o desterro decorre

6
“ Le jeune homme en éprouvait de l’orgueil, et s’il se glorifiait de sa vertu, il était plus fier encore de sa
beauté: tout ce qui était réputé beau il le tenait avec dédain pour bien inférieur à lui-même; rien ne lui
semblait digne d’être regardé ni écouté par Habrocomès; louait-on devant lui un beau garçon ou une
jolie fille, il se moquait de ces ignorants qui ne savaient pas que lui seul était beau”.
7
“Après une traversée de quelques jours ils débarquèrent à Éphèse, où tous savaient déjà qu’ils
revenaient sains et saufs. Aussitôt qu’ils eurent pris terre ils se rendirent sans désemparer, au
sanctuaire d’Artémis. Après avoir adressé à la déesse leurs voeux et leurs sacrifices, ils lui
consacrèrent, parmi d’autres offrandes, une inscription où se lisait tout ce qu’ils avaient fait et subi”.
8
Tradução para o português de R. Guimarães (v. referências bibliográficas: Apuleio, 1963). O texto
latino de base é o estabelecido por D. S. Robertson (v. referências bibliográficas: Apulée, 1956).
da expiação de faltas contra ela, por outro lado, para obter o sucesso em sua aventura

e lograr o reencontro com o amor insubstituível de que se separaram, os protagonistas

contam com o auxílio de forças superiores, o favor divino, seu padroeiro (D’Onófrio,

1976, p. 216). Caso contrário, jovens, inexperientes, destituídos muitas vezes de

meios que lhes possibilitem suportar as duras provações e tamanhos obstáculos a que

foram destinados, como poderiam lutar e obter o perdão? No exato momento o deus

de sua devoção é invocado para benefício individual (Horta, 1984, p. 61).

A viagem, além do mais, é um elemento comum entre o romance grego e a

literatura que o precede e que, sabe-se, contribui da forma mais variada para sua

formação. Brandão (1996, p. 58) observa que, se a Odisséia já conta dentre seus

elementos com a viagem de aventuras e o amor no casamento, ela prefigura o

romance de aventuras em que o fantástico, o mágico, a confiança na intervenção dos

deuses (constante e indispensável) e o prodigioso sobrenatural em nada prejudicam o

realismo das situações vividas. Também a comédia nova, dentre outros elementos

como raptos, reconhecimento da identidade de certas personagens, venda de ingenui

como serui, pirataria, amores contrariados e dificultados, reencontro dos apaixonados

e desenlace compensatório, conta com as viagens malogradas entre os elementos

que a ligam à gênese do romance, os quais contribuem para o crescimento da

importância da paixão amorosa em detrimento de outros sentimentos como a

coragem, a ambição do poder, a luta pela glória, a ânsia de imortalidade.

Tem-se, contudo, uma visão bem diversa no romance latino. Os espaços em que se
9
desenvolve o argumento do Satíricon, cronologicamente o primeiro dos romances

latinos remanescentes — em que pese a questão petroniana —, não deixam de ser

objeto de controvérsia em razão do teor especulativo que a fragmentação do texto que


9
O texto latino de base é o estabelecido por A. Ernout (v. referências bibliográficas: Petróne, 1950).
nos chegou permite. Pode-se aventar a possibilidade — frágeis conjecturas — de que

o Satíricon se abra na cidade de Massília. 10 Nesse espaço, Schmeling (1996, p. 461)

suspeita que tenham ocorrido os seguintes eventos: início em Massília, introdução de

Encólpio como narrador, sacrilégio contra Priapo, Encólpio como bode expiatório,

interlúdio com Dóris, introdução de Gitão; em movimento para o sul, direção de Baias,

episódios com Trifena e com Licas; já em Baias-Puteoli a introdução de Ascilto e os

episódios com Licurgo; em Puteoli, os episódios com Quartila, a fatal sacerdotisa do

deus Priapo, o episódio do manto roubado e as moedas de ouro, no mundo marginal

do mercado, introdução de Agamêmnon e Menelau, episódio com Menelau. Seguem-

se a Cena Trimalchionis, com a introdução do grotesco contexto dos libertos romanos,

o aparecimento de Eumolpo, com quem se traçará toda uma teoria literária, e o infeliz

embarque no navio de Licas, cenário mais uma vez adverso e agressivo aos jovens

estudantes. Esses espaços do sul da Itália na verdade não são determinados

concretamente, e, por essa razão, alguns autores preferem, a nomear as cidades,

tratá-las genericamente de “cidade campana, uma colonia antes do embarque”

(Cesareo & Terzaghi, 1952, p. viii)11 ou “uma cidade sem nome que resumisse em si

as características genéricas de todas as cidades campanas” (Paratore, 1987, p. 653).

Depois do naufrágio do navio de Licas nomeia-se a escatológica cidade de Crotona.

Por fim, vem à tona novamente a especulação de Schmeling (1996, p. 461), o qual

supõe que Eumolpo deixa a história, Encólpio e Gitão partem de Crotona, aparece

alguma outra personagem que toma o lugar de Eumolpo, o trio movimenta-se para o

oriente e chega a Lâmpsaco (terra natal do deus Priapo), Encólpio expia suas ofensas

a Priapo e inicia-se em seu culto e Encólpio encontra novas atribulações

10
Sullivan, 1968, p. 40-1; Grimal, 1972, p. xiii; Schmeling, 1996, p. 460-1.
11
“[…] città campana, una colonia, avanti l’imbarco”.
Dentre as personagens que povoam esse enredo itinerante nenhuma há que tenha

bons princípios morais, qualquer que seja sua extração social. Com elas Petrônio

constrói um universo miserável e corrupto atravessado por estudantes viajantes e

vagabundos e retores aproveitadores, detestáveis homens de negócio, libertos

daninhos, velhas e velhos viciosos, jovens devassos, proxenetas, mulheres de má

vida, cidadãos sequiosos de herança e prontos para tudo.

Encólpio e Gitão formam a dupla que, viajando pelo sul da Itália, protagoniza o

Satíricon. Encólpio é um jovem estudante que conhece retórica, bissexual, ciumento,

covarde e violento. Gitão é um jovem por volta de dezesseis anos, homossexual

efeminado, volúvel e dissimulado. Segundo Sullivan (1968, p. 43), é provável que a

dupla se tivesse encontrado após um dos crimes de Encólpio, o de roubar um templo,

num ergastulum, onde o estudante aguardava para ser jogado ad bestias. Depois do

encontro com Gitão, tudo o que parece mover Encólpio é o ciúme, possivelmente

figurando como parte da vingança de Priapo: teria sido essa a razão do assassínio e

do roubo de Licurgo, e da questão com Trifena (na parte perdida). Licas fugiria a esse

esquema, pois seu relacionamento teria sido com Encólpio, para depois ser traído por

ele e sua esposa Hédile e ainda ter assaltada a imagem da deusa Ísis de seu navio,

do qual era a padroeira. Ascilto, um agressivo jovem homossexual, que também

parece ter mantido relações com Encólpio, cai igualmente na «ira» de Encólpio pelo

assédio a Gitão. Do mesmo modo, Eumolpo se interessa por Gitão, transformando-se

em mais um rival e criando mais um triângulo amoroso, mas, com o episódio de

Crotona desaparecerá da história, como desapareceram outras personagens. 12

Graças a seu caráter multiface, de cada ângulo que se observa o Satíricon pode-se

ter uma idéia diferente acerca de seu formato. Esse é o resultado a que chega
12
A reconstrução do enredo é suposição, aqui, de Sullivan (1968, p. 42-5).
Petrônio, penso que não casualmente, é claro, dada o extremo esmero que se pode

apontar na concatenação de cada dado, de cada detalhe no conjunto. Não há dúvida

de que o Satíricon é como as tragicomédias da tradição italiana, farsas que punham

em cena, sob forma grotesca, as lendas da mitologia. A verve italiana se comprazia

com essas paródias desrespeitosas, próximas do teatro popular e, sobretudo, das

mascaradas carnavalescas que acompanhavam o triunfo e as procissões sagradas. O

Satíricon é, ele também, uma mascarada na qual são inseridos os episódios

emprestados à tradição das fábulas milesianas, esses contos orientais bastante

coloridos e propositadamente cínicos, de origem evidentemente popular, assegura

Grimal (1958, p. xxii-xxiii), que ainda afirma:

O dado essencial do romance — a viagem dos três jovens através da Itália helenizada

— lembra sem dúvida as viagens dos romances gregos […]. Mas nada mais é que uma

moldura dentro da qual a aventura se desenvolve em um espírito totalmente diferente.

A pintura satírica dos costumes toma o passo sobre todo o resto: vê-se claramente a

maneira como um gênero literário grego se transforma nas mãos romanas e se

impregna de um realismo ultrajante que é totalmente estranho ao romance helênico”

(1958, p. xxiii).13

Conforme avalia Cizèk (1975, p. 92), por mais risível que seja o meio freqüentado

pelos anti-heróis petronianos, é a reflexão sobre o sentido da existência que parece

ser o interesse de Petrônio. Na verdade, opressor e oprimido nessa ficção romana são

desprezíveis, e, diante de um quadro de natureza tão constrangedora para todo


13
“La donée essentielle du roman — la voyage de trois jeunnes gens à travers l’Italie
hellénisée — rapelle sans doute celle des romans grecs […]. Mais ce n’est là qu’un cadre
à l’intérieur duquel l’aventure se déroule en un tout autre esprit. La peinture satirique des
mouers y prend le pas sur tout le reste: on y voit clairement la manière dont un genre
littéraire grec se transforme entre des mains romaines et s’y imprègne d’un réalisme
outré qui est bien étranger au roman hellénique”.
aquele que consiga ali enxergar o ser humano, o leitor do Satíricon ri, mas não com o

riso liberado da comédia, como observou Sell (1984, p. 277), já que não há uma

restauração da ordem nem uma confirmação dos modelos humanos. No Satíricon

existe sempre a ruptura da ordem, situação que, no entanto, nunca é restabelecida ou

sequer contornada, daí a viagem, a fuga a que sempre estão submetidos os anti-

heróis petronianos.

Já em O Asno de Ouro, o outro romance latino remanescente, por outro lado, o

asno, protagonista viajante e peregrino de natureza humana mas com forma de um

animal, vai descobrindo na trajetória de sua viagem os aspectos mais miseráveis da

vida humana: entre outros aparecem a vida no submundo dos ladrões, seu meio de

vida, sua violência; a perfídia e a vingança na alta sociedade; o charlatanismo de

falsos religiosos; os maus tratos a que o submetem no trabalho, sem nenhuma

justificativa; os mais hediondos crimes de morte (não só os passionais como também

os planejados por interesse); a disputa de terras; a violência dos militares; os desvios

sexuais. Em O Asno de Ouro existe a tendência ao exame e à divulgação de vícios e

defeitos humanos, com que muitas vezes se expõem ao ridículo os valores sociais. O

certo é que o protagonista passeia pelo underground como que perseguido pela

Fortuna, sempre a serviço de vários amos, numa viagem constante através de um

espaço labiríntico, brutal e hostil. Na qualidade de um animal, pode-se dizer que o

asno vê sem ser visto: o quadro social que testemunha e que vai a pouco e pouco

descobrindo em O Asno de Ouro evoca amiúde a sátira, com notável gosto pelo

detalhe pitoresco ou terrível. Dentre os aspectos que compõem O Asno de Ouro


destacam-se a sátira social14 e sobretudo religiosa15 com a observação da vida diária,

o interesse por figuras extrassociais e ínfimas, pelo mundo das coisas, etc. Enfim, a

vulgaridade mais extrema é a tônica do aprendizado dos protagonistas: trapaças,

adultérios, roubos, quebra do celibato, etc.

Assim, o romance latino apresenta-se novo em relação ao congênere grego, e

mesmo em relação à épica clássica. Graças à sua novidade — a visão múltipla diante

da visão una — os anti-heróis romanos podem visitar a sociedade e o fazem dir-se-ia

num corte vertical, em contraposição a heróis que só podem abordar a sociedade

horizontalmente. A viagem que os anti-heróis petronianos e o apuleiano realizam, na

verdade, é muito mais exótica que a dos heróis do romance grego, que cortam

espaços. Nos romances romanos os protagonistas viajam pelo submundo, cômica e

grotescamente realçando o marginal ou periférico, o baixo e o fora de perspectiva da

norma clássica, por contraste vista como central, alta, inserida (Stallybrass, 1986, p.

23). Em suas viagens aparentemente aleatórias — ou geograficamente aleatórias —,

mergulham sistematicamente em ambientes humanos o mais das vezes de clima

doentio e cenário cáustico, claustrofóbico, noturno, povoado de figuras grotescas, e

chegam a profundidades até então desconhecidas, ou antes, ciosamente postas de

lado e apontando na literatura não mais que esporadicamente. **

AQUATI, Cláudio. Quo Vadis?: Travelling as an element of the ancient novel. Rev. Let..

14
A sátira social desenvolve-se nas histórias de ladrões, na história de Caridade, do hortelão e o
soldado, etc.
15
A sátira religiosa desenvolve-se nas histórias de bruxas e, principalmente, na de Filebo, o falso
sacerdote.
**
Agradeço à Profª Drª Giséle Manganelli Fernandes pela contribuição na elaboração deste
ensaio.
ABSTRACT: In this paper, the meaning of travelling is focused as an element of the

ancient novel. In the Greek novel, travelling through space seems to indicate expiation

of guilt, especially of hybris, which will take the protagonists to purification through

suffering. Travelling is, therefore, a cathartic element. In the Latin novel, travelling

implies either the rupture of order or the discovery of the most miserable aspects of

human nature. If the heroes in the Greek novel travel in an exotic way through the

most distant places, in the Latin novel the anti-heroes travel to even more exotic

places, since they go deep into society reaching unknown, or rather, carefully put aside

realities, which appear sporadically in literature.

KEY-WORDS: Greek novel, Roman novel, Satyricon, Petronius, The Golden Ass,

Apuleius.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APULÉE. Les Métamorphoses. Trad. P. Vallette e estabelecimento do texto D. S.

Robertson. Paris: Les Belles Lettres, 1956. Tradução de Metamorphoseon.

APULEIO. O Asno de Ouro. Trad. e introd. Ruth Guimarães. São Paulo: Cultrix, 1963.

Tradução de Asinus Aureus ou Metamorphoseon Libri XI.

BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética. São Paulo: Universidade Paulista Júlio

de Mesquita Filho, Hucitec, 1988.

BRANDÃO, J. L. Narrativa e mimese no romance grego.. Belo Horizonte, 1996, 233p.

Tese (Livre-Docência em Letras) – Universidade Federal de Minas Gerais.

CESAREO, G. A., TERZAGHI, N. Introduzione. In: PETRONIO ARBITRO. Il romanzo

satirico. Trad., estabelecimento do texto e coment. G. A. Cesareo e N. Terzaghi.

Firenze: Sansoni, 1950. Tradução de Satyricon. p. V – XXI.


CIZÈK, E. Face à face eloquent: Encolpe et Agamemnon. La parola del passato, fasc. 120,

p.91-101, 1975.

D’ONÓFRIO, S. Narrativas idealizantes. Mimesis, v.02, p.201-29, 1976.

GRIMAL, P. (Trad., introd. e notas) Romans grecs et latins. Paris: Gallimard, 1958.

Originais gregos e latinos.

GRIMAL, P. Préface. In: PÉTRONE. Le Satiricon. Trad. e notas A. Ernout. Paris:

Générale Française, 1972. Original latino. p. IX – XXVI.

GUAL, C. G. Los origenes de la novela. Madrid: Istmo, 1972.

HORTA, G. N. B. P. Raízes helênicas do romance. Calíope. v.01, p.53-71, 1984.

LONGO. Dáfnis e Cloé. Trad. D. Bottman. Campinas: Pontes, 1990. Original grego.

PARATORE, E. História da literatura latina. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.

PÉTRONE. Le Satiricon. Texte établi et traduit par Alfred Ernout. 3.ed. Paris: Les

Belles Lettres, 1950.

SCHMELING, G. (org.). The novel in the ancient world. Leiden: E. J. Brill, 1996.

SELL, Rainer. The Comedy of hyperbolic horror: Seneca, Lucan and 20th century

grotesque. Neohelicon: acta comparationis litterarum universarum. v.01, nº01,

p.277-300, 1984.

STALLYBRASS, P., WHITE, A. The politics and poetics of transgression. Ithaca: Cornell U.

P., 1986.

SULLIVAN, J. P. The Satyricon of Petronius. A literary study. Londres: Faber and Faber,

1968.

XÉNOPHON D’ÉPHÈSE. Les éphesiaques. Trad. e estabelecimento do texto G.

Dalmeyda. Paris: Les Belles Lettres, 1926. Original grego.

Centres d'intérêt liés