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ANÁLISE INFANTIL: UMA ESTÓRIA DE HERÓIS – RELATO DE


ATENDIMENTO CLÍNICO

DRA. GILCINÉIA SANTOS


DANIELE F. DE OLIVEIRA

Resumo

O presente artigo refere-se aos atendimentos psicoterápicos realizados em clínica-escola


com uma criança de 07 anos, cuja mãe procurou psicoterapia para o filho no ano de 2012, a
fim de obter ajuda devido ao comportamento agressivo que ele vinha desenvolvendo. Ela
relatava que o filho era muito impaciente, completamente intolerante às frustrações,
reagindo sempre com raiva e agressividade. Nas primeiras sessões o paciente demonstrou
comportamentos contrários aos que a mãe havia relatado. Em contrapartida ele apresentava
muita resistência em falar de seus problemas e sentimentos. Era nítido nas sessões o
interesse da criança por atividades mais intelectualizadas, demonstrava facilidade e
criatividade por criar estórias em meio às atividades. Na décima sessão o paciente decidiu
desenvolver uma estória sobre super heróis criados, e convidou sua terapeuta para
participar de sua criação, pedindo a ela que escrevesse enquanto ele ditava. Essa atividade
estendeu-se por várias sessões e foi de grande importância para colher informações sobre o
caso que até então eram desconhecidas. O paciente protagonizou uma estória infantil,
sublimando e projetando assim todos os seus impulsos agressivos através de sua obra
literária. Foram realizados vinte e sete atendimentos semanais, nos meses de maio a
novembro de 2013, com duração de 50 minutos cada. Ao final do tratamento, ele apresentou
melhoras comportamentais significativas referentes à queixa inicial de sua mãe.

Palavra chave: sublimação; contos, agressividade

Abstract

This article refers to the psychological appointments held in the school-clinic with a seven-
year-old child, whose mother sought for psychotherapy for the child in the year of 2012, to
get help for the aggressive behavior he had been developing . She reported that the child
was very impatient, completely intolerant to frustrations, always reacting with anger and
aggression. In the first treatment sessions the patient showed opposite behaviors than those
his mother had previously related. On the other hand, the patient showed a lot of resistance
to talk about his problems and feelings, His interest in more intellectual activities was clear
during the treatment sessions though, and the displayed facility and creativity in coming up
with infant stories during the development of the activities. During his tenth treatment session
the patient decided to come up with a story about super-heroes developed by him and then
he invited his therapist to participate in his creation asking her to write down while he
dictated. This activity was extended during many sessions and it was very important to
search for information about his case that up to that time were unkown. The patient staged
an infant story, so sublimating and projecting all his aggressive impulses in his literary
work.Twenty seven weekly sessions, from may to November 2013 lasting 50 minutes each
were held. At the end of the treatment he presented significant behavioral improvements
regarding his mother’s initial complaint.

Keyword: sublimation, short stories, aggressiveness


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Introdução

Em psicoterapia de orientação analítica é crucial ter-se em mente as


diferentes formas de comunicação da criança de acordo com a idade, dadas suas
condições motoras, perceptivas, cognitivas e de linguagem. A psicoterapia de
orientação psicanalítica, bem como a psicanálise de crianças se valem da
comunicação expressiva do terapeuta, que é, por excelência, a interpretação.
Segundo Klein (1981), as crianças no período de latência apresentam
dificuldades especiais na análise. Comparadas aos adultos, seu ego ainda é pouco
desenvolvido, não tem consciência de que estão doentes e não desejam ser
curadas, de sorte que não possuem incentivo para iniciar análise e tampouco
estímulo para prosseguir com ela. Os pacientes dessa idade não são fáceis de
serem abordados pelo analista, pois não brincam como os pequeninos e nem
fornecem associações verbais, como os adultos. Em contraste com os pequeninos
que, geralmente, no princípio da análise, se mostram mais inclinados para os
brinquedos, às crianças no período de latência logo começam a representar papéis.
A autora diz ainda que, assim como as associações aos elementos do sonho levam
à descobertas do conteúdo latente do mesmo, também os elementos do jogo da
criança, que correspondem a essas associações, permitem uma visão de seu
significado latente. E a análise lúdica, assim como a análise de adultos, ao tratar
sistematicamente a situação presente como situação transferencial e ao estabelecer
suas conexões com a situação originalmente experimentada ou imaginada, dá à
criança a possibilidade de liberar e elaborar a situação original da fantasia.
Segundo ZIMERMAN (2004), a criança tem múltiplas formas de resistir,
tanto no que se refere às suas vindas para as sessões, quanto também contra a
evolução do processo analítico, as quais variam com a idade e com a singularidade
de cada uma delas.
De um modo geral, as resistências da criança na análise expressam
como se comportam em casa e se constituem como um indicador dos
mecanismos que estão forjando a estruturação de sua personalidade.
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Por exemplo, a criança pode estar agredindo continuadamente ao


terapeuta, sob forma verbal ou conductual, como forma de testar, ao
máximo possível, a sua capacidade de continente, a sua capacidade
de sobreviver aos ataques sem desmoronar ou revidar. (ZIMERMAN,
2004, p.353)

O presente trabalho se propõe a apresentar um caso clínico de uma criança


com sete anos de idade, cujo sua maior dificuldade era resistência em falar sobre
seus sentimentos. Os pais do paciente apresentaram como queixa inicial o fato do
filho ser agressivo e agir com teimosia. Notou-se durante as sessões que a criança
tinha preferência por atividades intelectualizadas. O paciente decidiu iniciar uma
estória infantil que pudesse colocar seus próprios heróis, sendo assim convidou a
terapeuta a escrevê-la enquanto ele ditava as palavras a serem usadas.
Durante as sessões de Psicoterapia, o paciente intercalava suas atividades
da caixa lúdica com a produção do conto que nomeou como: “Os Heróis do Caribe”.
Sua obra tornou-se um veículo importante para acessar seus conteúdos
inconscientes, dando a oportunidade a sua terapeuta de fazer interpretações
significativas para o sucesso do tratamento.
O desenvolvimento do texto tomará a seguinte ordenação: Apresentação do
caso, apresentação do conto escrito pelo paciente e suas interpretações, o desfecho
do caso e as considerações finais.

1. O CASO
Os pais de F. procuraram a clínica escola devido aos comportamentos
agressivos que o filho apresentava quando sua vontade era contrariada. Raramente
o pai comparecia às sessões, mas quando estava presente era nítido os desacordos
que tinha com a mãe em relação ao filho, ela era mais permissiva, ele mais
autoritário.
O paciente ainda dormia na cama dos pais, pois relatava ter medo do escuro
e da chuva. Tinha ciúmes do pai com a mãe e de sua irmã com os amigos, e se
irritava quando não tinha atenção voltada para ele.
F. contrariou nas sessões a queixa inicial dos pais, sempre reagiu muito bem
às frustrações que a terapeuta impunha para ele, aceitava as regras impostas
naquele contexto. Demonstrou ter uma inteligência acima da média das crianças de
sua idade, tinha um vocabulário rico e sabia articular bem as palavras, era
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perceptível sua capacidade de manipular os pais para que fizessem as suas


vontades.
No Psicodiagnóstico ficou evidenciado a necessidade de trabalhar com o
paciente suas dificuldades em aceitar as frustrações, falar de seus sentimentos, e
trabalhar o seu amadurecimento no tema mãe-filho, pois F. ainda permanecia
regredido nas questões Edípicas. Outro assunto a ser trabalhado era a sua
preferência em ficar sozinho com seus amigos imaginários, quando deveria estar se
socializando e saindo do mundo da fantasia.
Nas primeiras sessões, F. preferiu os brinquedos não estruturados,
atividades intelectualizadas, tinha a necessidade de mostrar a sua inteligência para
a terapeuta. No decorrer da terapia ficou explícito que intelectualizar era o seu
mecanismo de defesa para fugir das questões que o desagradava. Na quarta sessão
o paciente pela primeira vez decidiu utilizar a família terapêutica, demonstrando para
sua terapeuta como era seu relacionamento familiar. F. mostrou na disposição dos
bonecos que raramente sua família tinha momentos juntos, na maioria das vezes
encontrava-se cada um em um canto diferente da casa e raramente ele tinha a
atenção necessária. Nesta sessão o paciente relatou ter amigos imaginários. É
importante ressaltar que quando ele dizia brincar com amigos imaginários ficou claro
para a terapeuta por verbalizações do paciente que ele tinha plena consciência de
que esses amigos faziam parte somente da sua imaginação. Crianças que se
encontram no período de latência tendem a formar grupos de iguais, intensificando o
relacionamento entre crianças do mesmo sexo. Foi possível perceber nas sessões
em suas brincadeiras de faz de conta, nas suas preferências por brincar com
meninas, quando na verdade deveria optar em brincadeiras com meninos, que o
paciente encontrava-se regredido na sua fase de desenvolvimento psicossexual,
nesta fase a criança vai deixando de lado a fantasia e o brinquedo, passando a
empreender tarefas reais na direção de competências acadêmicas e sociais.
Da quinta a nona sessão, sua atividade preferida tornou-se lutar com
espadas, durante a qual dizia ser um samurai mágico. Isto proporcionou à terapeuta
informações relevantes sobre os problemas do paciente, pois a regra criada em
meio a esse jogo inventado por ele, era que cada um que acertasse o adversário
poderia fazer qualquer pergunta que deveria ser respondida sem mentiras. Quando
F. dizia que queria “brincar” de “touche”, ficava implícito sua vontade de falar sobre o
que vinha lhe desagradando.
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Na décima sessão, o paciente decidiu iniciar uma estória de super heróis,


onde projetou e sublimou a sua agressividade e seus conteúdos sexuais em seus
personagens. Passou a escrever em todas as sessões, concluindo seu conto duas
semanas antes de receber alta da terapia.
Segundo BETTELHEIM (2002)
Para dominar os problemas psicológicos do crescimento – superar
decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser
capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de
individualidade e de autovalorização, e um sentido de obrigação
moral - a criança necessita entender o que está se passando dentro
de seu eu inconsciente. Ela pode atingir essa compreensão, e com
isto a habilidade de lidar com as coisas, não através da compreensão
racional da natureza e conteúdo de seu inconsciente, mas
familiarizando-se com ele através de devaneios prolongados -
ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elementos adequados
da estória em resposta a pressões inconscientes. Com isto, a criança
adéqua o conteúdo inconsciente às fantasias conscientes, o que a
capacita a lidar com este conteúdo. É aqui que os contos de fadas
têm um valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à
imaginação da criança que ela não poderia descobrir
verdadeiramente por si só. Ainda mais importante: a forma e
estrutura dos contos de fadas sugerem imagens à criança com as
quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor
direção à sua vida.

O conto de F. tem vinte e quatro páginas e relata a estória de um Super


Herói que tem a ajuda de uma Super Vaca para lutar contra os vilões que querem
acabar com a cidade. Durante o desenvolvimento de sua obra, foi possível fazer
interpretações para o paciente que foram cruciais para uma notável melhora
comportamental.

2. CONTO E INTERPRETAÇÕES

Como já foi relatado, na décima sessão o paciente começou a pensar na


estória que iria contar e pediu à terapeuta que desenhasse os personagens que
seriam os heróis, enquanto ele desenharia os inimigos. F. desenhou vários
personagens para serem os vilões, tais como: A Mão Esmagadora, O Agudo, O
Machado de Guerra entre outros. Ele criou de forma linear, traçou a ideia e foi
desenvolvendo sem interrupções, dando a impressão que tudo já estava construído
em sua cabeça. O paciente solicitou à terapeuta que redigisse a estória enquanto
ele narrava. Quanto às ilustrações dos personagens, o herói foi feio com as
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características de um desenho animado já conhecido (Doug) e F. o nomeou de


Super S.

Os Heróis do Caribe

“O Super S estava indo para o mercado, quando ele escutou um pedido de


socorro, então, ele chamou a super Vaca, a sua fiel ajudante. Daí ele foi ver, e era a
mão esmagadora, ela estava esmagando a cidade inteira, mas o Super S não pode
deixar, pegou a sua espada e gritou: “Eu não vou deixar você esmagar a cidade, se
você quiser esmagar a cidade passe por mim primeiro. A mão disse: “Seu desejo é
uma ordem”, e correu para cima dele. A Super Vaca percebeu que ele ia ser
esmagado, então ela correu também, quando ela chegou perto dele a Vaca deu um
pulo e espetou a Mão Esmagadora, mas era um alarme falso, quando ele espetou,
um buraco se abriu e começou a vazar ar, então o Super S falou: “Ué, era de
borracha com engrenagem preta! Acho que alguém controla.
O Machado de guerra foi ver o que estava acontecendo com a mão
esmagadora feita de engrenagem preta e controlação, porque tinha caído o sinal da
câmera que ele tinha instalado na Mão Esmagadora. Ele viu a mão esmagadora
deitada no chão com um furo dos grandes, então, o Machado de Guerra deu de cara
com a Super Vaca e falou: “Eu não vou deixar que você faça isso, o Super S disse
pra mim ficar de vigia, você não vai levar a Mão Esmagadora para o seu esconderijo
secreto dos maus. O Super S disse pra mim dar uma chifrada em quem aparecer por
aqui que seja mau”. Então a Super Vaca correu para cima dele, mas antes dela
chegar ele gritou de pavor e correu para o seu esconderijo, chegando lá a Água Viva
Queimadora que é a super Vilã muito poderosa, disse: “Cadê a Mão Esmagadora?”
Então o Machado de Guerra disse: “ A Super Vaca estava lá e ela disse que ia dar
uma chifrada em mim, então corri de pavor pra cá”. Então a Água Viva pegou um
pedaço de ferro e relou nele dizendo: “Prisão”, então ela pegou um pedaço de vidro
e disse: “Chave para a prisão”, então ela colocou o Machado de Guerra dentro da
prisão e jogou a chave num buraco sem fundo.”

F. assimilou cada personagem com um membro de sua família, como segue


no recorte abaixo:
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T: F. quais pessoas que você conhece poderia fazer esses personagens?


F: Qualquer pessoa?
T: Sim, quem poderia ser a mão esmagadora?
F: Meu pai
T: Por que você escolheu ele para ser a mão esmagadora?
F: Por causa da força dele
T: E quem seria o Machado de Guerra?
F: A minha irmã Leticia, por que ele é muito estressado igual a ela
T: Quem seria a Água viva queimadora?
F: A D. Naíde minha vizinha, porque ela tem o poder de transformar quase tudo
em raiva, ela e o marido brigam muito, quando eu vou lá fazer visita vejo eles
brigando bastante.
T: E a Super Vaca, quem pode ser?
F: A minha mãe, porque a boca é igual a dela. A super vaca só sabe falar e
transformar os chifres. A minha mãe transforma os cabelos em rabo de cavalo.
T: E o Super S quem é?
F: Esse você já sabe
T: Não sei, não... Me diz quem é
F: É você, porque é super amigo do contador de estórias
T: E você ainda não entrou na estória?
F: Vou entrar na semana que vem, eu vou ser o inimigo espetossauro.

Essa primeira parte é uma prévia do que vamos encontrar no decorrer de


toda a sua estória, aparecem conteúdos sexualizados e agressivos que se repetem
ao longo do conto.
Primeiramente será exposto o personagem da Mão Esmagadora; este
apresenta-se na estória sempre destruindo tudo que tem pela frente. O paciente
revela que esse personagem poderia ser o seu pai por causa da força. É preciso
levar em consideração o conteúdo manifesto apresentado, no qual a Mão
Esmagadora representa a agressividade do pai frente ao filho, onde na sua estória
F. pode descontar toda a sua raiva utilizando recursos para destruí-lo. Para isso cria
o personagem Super S que pode suprir todos os seus impulsos do Id, a destruição
de um pai mau. Quando perguntado ao paciente quem seria este Super Herói, ele
responde que seria sua Terapeuta, ou seja, ele foge da responsabilidade de punir
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esse pai e permite-se passar essa tarefa para o seu ego substituto, livrando-se da
culpa.
Por outro lado, podemos observar os conteúdos latentes que aparecem
no conto. O paciente encontra-se saindo da fase fálica, onde as crianças são
acompanhadas da culpa masturbatória, pois fantasiam de forma inconsciente um
envolvimento sexual com o genitor do sexo oposto. A culpa de um desejo
inconsciente e sua repressão aparecem no personagem da Mão Esmagadora; esta
entra na estória de forma punitiva, representando o mal que pode causar se seus
desejos se concretizarem.
Em sua obra “O Homem dos Ratos” (1909), Freud faz uma observação
clínica a respeito da masturbação:

A masturbação infantil atinge uma espécie de clímax, via de regra,


entre as idades de três e quatro ou cinco anos; e constitui a mais
evidente expressão da constituição sexual de uma criança, na qual se
deve buscar a etiologia das neuroses subseqüentes. Logo, sob esse
disfarce, os pacientes ficam atribuindo a culpa por suas doenças à
sua sexualidade infantil, e têm toda razão de fazê-lo. Por outro lado, o
problema da masturbação torna-se insolúvel se tentarmos tratá-lo
como uma unidade clínica e esquecermos que pode representar a
descarga de toda a variedade de componente sexual e de toda
espécie de fantasia à qual tais componentes possam dar origem. Os
efeitos prejudiciais da masturbação são autônomos - ou seja,
determinados por sua própria natureza - apenas em um bem pequeno
grau. São, em sua essência, meramente parte e parcela da
significação patogênica da vida sexual, como um todo, do indivíduo.
O fato de muitas pessoas poderem tolerar a masturbação - ou seja,
determinada porção desse ato - sem prejuízo, mostra apenas que a
sua constituição sexual e o curso de evolução de sua vida sexual
foram de tal forma a permitir-lhes exercer a função sexual dentro dos
limites daquilo que é culturalmente permissível; ao passo que outras
pessoas, de vez que sua constituição sexual foi menos favorável, ou
perturbado o seu desenvolvimento, caem doentes em conseqüência
de sua sexualidade - isto é, elas não conseguem alcançar a
necessária supressão ou sublimação de seus componentes sexuais
sem recorrerem a inibições ou substituições. (Freud, 1909).

No período de latência a criança começa a reprimir suas fantasias de


forma mais severa do que nas fases anteriores. KLEIN (1981), diz que enquanto a
criança pequena sofre influência imediata das experiências e fantasias instintivas, a
criança do período de latência já as dessexualizou, assimilando-as de uma maneira
diferente.
Dessa forma a criança passa a expressar suas fantasias masturbatórias
de maneira dessexualizada, ou as reprime para atender as exigências de seu ego ou
para agradar os pais, essa atitude é de extrema importância nesse período.
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Segundo KLEIN (1981, 50 p):


O analista não deve temer fazer uma interpretação em profundidade,
mesmo no principio da analise, já que o material pertinente às
camadas mais profundas do psiquismo tornará a aflorar para ser
elaborado mais tarde. A função da interpretação em profundidade é
simplesmente a de abrir a porta do inconsciente e diminuir a angústia
suscitada, preparando, assim, o caminho para o trabalho analítico.

Após a interpretação realizada a respeito do paciente dormir na cama dos


pais, onde foi revelado os seu desejo de ocupar o lugar do pai na cama, ele parou
definitivamente de cometer esse ato quando sentia medo. Fica evidente no trecho
abaixo de sua estória a perturbação do paciente frente à relação de seus pais, o
ciúmes que sente de sua mãe e a raiva que sente de seu pai.

“Ele viu a mão esmagadora deitada no chão com um furo dos grandes,
então, o Machado de Guerra deu de cara com a Super Vaca e falou: “Eu não vou
deixar que você faça isso, o Super S disse pra mim ficar de vigia, você não vai levar
a Mão Esmagadora para o seu esconderijo secreto dos maus. O Super S disse pra
mim dar uma chifrada em quem aparecer por aqui que seja mau”.

O esconderijo secreto dos maus pode ser interpretado como o quarto de


seus pais, onde acontece o coito do casal. O paciente expressa sua aversão em ver
os pais juntos, estar de vigia nada mais é do que expressar seu desejo inconsciente
de tomar o lugar de seu pai na cama. Por muitas vezes em sua estória e até mesmo
em suas atividades apareceram personagens e objetos fálicos, tais como os chifres
da super vaca, o machado de guerra, o Agudo e seu brinquedo preferido à espada.
Em outro trecho do conto, o paciente mais uma vez faz menção ao coito dos pais.

Então o Vibora Chefão disse: “Vai quebrar mais pedras, e ele foi... As pedras
eram quebradas para o mau, para o vilão ZZ colocar dentro dele e entregar para a
nuvem de chuva, para fazer chover pedra nas pessoas. Daí o Agudo estava
quebrando mais e mais pedras e a nuvem de chuva ia crescendo e crescendo e
jogando as pedras nos outros. Então as pessoas começaram a gritar: “Socorro
Super Heróis”. Então os Super Sinal apareceu no céu e disse: “Está chovendo
pedra, venham e tragam o Mega Polvo”... Todos foram, até o Olverine e o Homem
Inseto. Mas o único que dava conta disso era o Mega Polvo e o Sol Ardente.
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Fica explicito as fantasias do paciente em tomar posse do corpo da mãe por


meio da copulação com ela. Faz menção ao crescer da nuvem que pode estar ligada
com as suas fantasias que envolvem a concepção.
KLEIN (1981. p, 317) diz que:
No menino a onipotência dos excrementos e pensamentos
centraliza-se na onipotência do pênis, que substitui em parte a dos
excrementos. Em sua imaginação, ele dota o próprio pênis de
poderes destrutivos, assemelhando-o a bestas ferozes e vorazes e a
armas mortíferas. A crença de que sua urina é uma substância
perigosa e a equação de suas fezes deste último o órgão executor de
suas tendências sádicas.

De acordo com a estória e os relatos do paciente nas sessões foi possível


verificar que o personagem da Super Vaca representaria a sua mãe, pois cuida do
Super S, não deixando que a Mão Esmagadora (o pai) faça mau a ele. E o protege
também do Machado de Guerra que F. diz ser sua irmã. A água Viva Queimadora
faz o papel de um superego muito rígido, punitivo.

Chegando lá a Água Viva Queimadora que é a super Vilã muito poderosa,


disse: “Cadê a Mão Esmagadora?” Então o Machado de Guerra disse: “A Super
Vaca estava lá e ela disse que ia dar uma chifrada em mim, então corri de pavor pra
cá”.
(...)Então o Machado de Guerra tentou usar suas lâminas laterais para cortar
a prisão, mas a Água Viva Queimadora disse assim: As grades são impenetráveis.

O paciente demonstrava não conviver bem com seus próprios erros, e


demonstrou dificuldades em falar de si, fato que deixou explicito no trecho que diz
que as grades são impenetráveis, ou seja, inconscientemente estava dizendo a sua
terapeuta que não revelaria seus sentimentos com facilidade.
Ao longo de sua estória surgem vários heróis e vilões, mas F. manteve o
foco principal naqueles que comparou com os seus pais, encontrou na escrita uma
forma de comunicar a terapeuta todas as seus conflitos internos.

3. DESFECHO DO CASO
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Com base nas atividades realizadas durante as sessões de psicoterapia, e


com relatos feitos pela mãe do paciente, foi possível verificar que o mesmo
encontra-se com o ego bem estruturado, ou seja, está desempenhando a sua função
de dar conta dos estímulos externos. Ele diminuiu sua agressividade e teimosia,
passando a respeitar mais os seus pais, os professores passaram a elogiar sua
conduta dentro da sala de aula. Nas sessões de psicoterapia, o paciente diminuiu
suas resistências em falar sobre sua família e seus problemas pessoais.
Devido às mudanças positivas no comportamento do paciente, este foi
conduzido à alta das sessões de terapia.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observar a teoria fazendo sentido na prática foi um ponto crucial para o


sucesso da terapia, visto que a cada nova semana ir para as sessões tornou-se
prazeroso e com isso era possível verificar melhoras no comportamento da criança.
Conhecer algumas atividades infantis ajudaram muito a adquirir a confiança do
paciente, com isso ele passou a desenvolver atividades projetivas que lhe davam a
oportunidade de falar sobre seus problemas. Foi possível fazer interpretações
significativas que o ajudaram na elaboração de muitos conteúdos que o
incomodavam, tais como: ter medo do escuro, dormir com seus pais, intolerância a
frustração. Esses comportamentos foram diminuindo gradativamente.
Trabalhar com crianças na graduação em Estágio Supervisionado Clinico,
foi de grande importância para que eu pudesse ter novos olhares sobre esse campo
de atuação na Psicologia. O convívio semanal trouxe crescimento para ambos os
envolvidos. Foi gratificante ver a evolução do caso em meio às resistências do
paciente, resistências essas que foram sendo deixadas de lado em meio às
atividades gradualmente com a criação do vínculo que foi ocorrendo de forma
natural a cada nova sessão.
E a partir do crescimento e fortalecimento dos aspectos fragilizados do
paciente, o rompimento do vínculo ocorreu de forma natural, visto que, o paciente
entendeu que o término do tratamento se deu em virtude de usa visível melhora.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1992.

BETTELHEIM. B - A psicanálise dos contos de fadas - 16a Edição – Paz e terra -


2002

EIZIRIK. Cláudio L., Rogério W. de Aguiar, Sidnei S. Schestatsky Psicoterapia de


orientação analítica: fundamentos teóricos e clínicos. – 2.ed. – Porto Alegre: Artmed,
2005

FREUD. S. – Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva (1909) - Obras


Psicológicas Completas – Vol. X – p. 168.

KLEIN. M. Psicanálise da criança. 3ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981. 50 p.

ZIMERMAN, David E. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre:


Artmed, 2004
https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/91531/261758.pdf?sequence=
1 acessado em 29/03/14

TRINCA, W. – Psicanálise e expansão de consciência: Apontamentos para o novo


milênio. São Paulo: Vetor, 1999