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História

Essencial da
Filosofia

Advento do
Cristianismo
Aula 8

po r Olavo de Carvalho
Neste DVD, Olavo de Carvalho contextualiza o
período do surgimento do cristianismo. Caracteriza-
o como “um período de decadência, de discussões,
polêmicas, mas sem nenhuma elaboração filosófica",
no qual florescem seitas as mais diversas, todas
reunidas sob o nome de gnósticas. Defende a tese
de que a vida. a paixão, a morte e a ressurreição de
Jesus Cristo correspondem a aspectos históricos e
espirituais indissociáveis; discute a questão da Fé e
analisa a construção, ao longo dos séculos, de uma
doutrina cristã.

“Olavo de Carvalho é o
mais importante pensador
brasileiro hoje.”
Wagner Carelli

“Filósofo de grande erudição.”


Roberto Campos

“Um gigante.”
Bruno Tolentino

“Olavo de Carvalho se
destaca porque pensa,
reflete, e é de uma
honestidade intelectual
que chega a ser cruel.”
Carlos Heitor Cony

“Louvo a coragem e lucidez


de suas idéias e a maneira
admirável com que as expõe.”
Herberto Sales

Esta publicação vem acompanhada de um DVD,


que não pode ser vendido separadam ente.
Advento do Cristianismo
Aula 8

por Olavo de Carvalho

coleção

História
Essencial da
Filosofia
Advento do Cristianismo
Aula H
por Olavo de Carvalho

Coleção História Essencial da Filosofia

Acompanha esta publicação um DVD.


que não pode ser vendido separadamente.

Impresso no Brasil, abril de 2007


Copyright © 2003 by Olavo de Carvalho

Foto Olavo de Carvalho


Mário Castello

Editor
Edson Manoel de Oliveira Filho

Projeto Gráfico
Monique Schcnkels e Dag mui liizzoln

Diagramaçâo
Dagui Design

Transcrição
Alexander Gicg

I a R evisão
Terem Maria Lourenço Pereira

2 a R evisão
Gerson Silva

Os direitos autorais desta edição pertencem à

É Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda


Caixa Postal: 45321
CEP: 04010-970 - São Paulo SP
Teítfax: (11) 5572-5363
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Reservados íocius os direitos desta obra. Proibida tuda c qualquer rcjiruduç.in deslu edição por
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Advento do Cristianismo
Aula 8

por Olavo dc Carvalho

coleção

História
Essencial da
Filosofia

LuwüàViÜ
2003
4
Coleção História Essencial da Filosofia
Advento do Cristianismo - Aula 8
por Olavo de Carvalho

(...) sobre aquele período confuso de decomposição da inteligência


grega, o período filosoficamente não tem importância, mas historica­
mente é muito ilustrativo, mesmo em certos aspectos da própria época
em que vivemos. Os últimos cinquenta ou sessenta anos foram uma
época também de decomposição na inteligência filosófica. Isso é bastante
visível, assim que se comparar com a efervescência criadora da primeira
metade do século XX. Então, o estudo desse período posterior ao apogeu
- Sócrates, Platão e Aristóteles - é muito elucidativo para nós.
O problema é que as teorias criadas nesses períodos são muito mais
difíceis de compreender intelectualmentc do que as grandes filosofias,
evidentemente, porque sua motivação é muilo complexa, não é uma
motivação filosófica nítida. Toda filosofia é um esforço que por si mes­
mo é inteligível. Por ser um esforço cm busca da intelecção, o esforço
propriamente dito é em si mesmo bastante inteligível: sabe-se por que
as pessoas estão procurando isto - estão atendendo a uma necessidade
humana fundamental.
Mas quando começam a aparecer teorias esquisitas, como aquela
de que devemos viver como um rato solto no meio do deserto, é difícil
explicar para si mesmo por que o sujeito chegou a pensar isto. A fun­
damentação filosófica não é suficiente; então, tem-se que apelar para a
explicação psicológica. Essa explicação é bastante conjectural, porque
se tem pouquíssimos dados sobre a vida dessas pessoas. E. às vezes,
a motivação psicológica também não é suficiente, então parte-se para
a psicopatológica, parte-se para a explicação sobretudo noopatológica,
a doença espiritual, e assim por diante. No fim das contas, acabamos é

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não entendendo por que os sujeitos disseram essas coisas - o máximo
que chegamos a dízer é que ali não há muito o que entender. Não en­
tendemos, mas também não havia muito o que entender; é anotar que
isto aconteceu, iicar um pouco perplexo e passar adiante.
Isso não quer dizer que desses estados patológicos, psicopatológieos
ou noopalológicos, nada se aproveita, porque tudo isso faz parte da
experiência humana. Não vale como doutrina, não vale como teoria,
não vale como idéia, mas vale como traslado. Como testemunho de
experiência vivida, às vezes chega a ser fundamental. Creio que muitos
seres humanos se sentiram mais como Diórgenes do que como Platão,
certamente. Para sentir-se como Diórgenes, basta estar desesperado;
para sentir-se como Platão, precisa algo mais.
Todo esse período que estudamos vem desde muito antes do cristia­
nismo c se prolonga depois; mas há outros processos concomitantes.
Temos que nos resguardar dessa ideia dc continuidade linear na História.
Na verdade, tem-se vários movimentos simultâneos que às vezes não
apenas se contradizem, mas até se ignoram conipletamente. passam
uns à margem dos outros. E num período dc um século anterior ao cris­
tianismo até uns dois séculos já na era cristã, existe um florescimento
de movimentos muito estranhos, seitas religiosas, algumas vindas do
Oriente, outras improvisadas com a costura dc vários elementos, tudo
isso denotando uma consequência daqueles fenômenos que já dissemos:
a decomposição da polis e a angústia generalizada de não ter a que se
ater (as pessoas não têm um ponto de orientação na existência).
Esse período, evidentemente, não cra muito favorável à especulação
filosófica, pois esta pressupõe, por um lado, um motivo, e esse motivo é,
por certo, uma dúvida, um espanto, uma perplexidade; pressupõe, por
outro lado, alguns meios. Os motivos existiam nesse período, quer dizer,
a perplexidade não faltava, mas faltavam os meios. Os meios seriam,
em primeiro lugar, aquilo que assinalamos já no começo da Filosofia,

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uma certa elaboração prévia feita em nível retórico; as questões públi­
cas têm que estar mais ou menos articuladas retoricamenle para que
delas se possa fazer então uma elaboração filosófica. Mas quando as
perplexidades são muitas, e a confusão também c muita, essas várias
linhas de pensamento não chegam a se articular em discursos retóricos
que possam ser de alguma maneira confrontados.
Quando hoje examinamos, por exemplo, algumas doutrinas ditas
gnósticas que apareceram nesse período, elas são tão complicadas, c tão
estramboticamente mitológicas, que às vezes temos dificuldade em saber
do que estão falando. Eles começam a enumerar divindades intermedi­
árias que nos parecem meras figuras de linguagem, que estão tratando
como se fossem entidades reais. Vias são entidades esquisitíssimas, que
não têm para nós a menor presença, nem mesmo a consistência poética
dos deuses da mitologia; então a impressão que temos é estar lidando
com figuras de pesadelo.
Aí havia a motivação, mas não havia a condição, não havia os ins­
trumentos. Mas não podemos dizer que esse estado foi geral e que todo
mundo foi contaminado por ele. Não, houve nesse período pelo menos
um esforço filosófico dos mais notáveis, e que surge de uma situação de
perplexidade que é daquelas típicas que geram a motivação filosófica,
uma confrontação, uma contradição entre duas correntes de idéias que
estão perfeitamente delineadas.
Na época, havia muitos judeus espalhados por toda a parte do
Ocidente, e a religião judaica estava num acelerado processo de disso­
lução. Eslava todo mundo aderindo a outra coisa, mais ou menos como
aconteceu também aos judeus modernos nos séculos XIX e XX, uma
espécie de debandada geral: um entra para a maçonaria, outro entra
para o Partido Comunista, c vai se integrando em outros esquemas sem
deixar de ser judeu e ter alguma raiz na comunidade judaiea.
Nessa altura, havia então entre os porta-vozes, representantes da

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tradição judaica, uma preocupação tnuito grande com esta confusão,
Eles temiam que as novas gcraçõCs dc judeus já não conseguissem
sequer compreender do que Moisés estava falando - mesmo porque a
maioria deles já não sabia falar hebi»ico>e a educação era inteiramente
latina ou grega. E foi justamente um desses camaradas que, não sabendo
falar hebraico mas se considerando ™ Íudeu de coração, tenta fazer
uma confrontação entre a tradição judaica e a filosofia grega, tomando
a tradição judaica na sua expressão bíblica e já com lodos os comen­
tários tradicionais - portanto, tc n rse 31 uma doutrina perfeitamente
exposta e bem conhecida -, c a tradição grcoa na versão que aparecia
na Academia platônica.
Essa é urna situação de contradição e dc perplexidade, mas não de
total confusão - a total confusão não Pode ser elaborada filosoficamente,
tem que ter uma primeira elaboração num nível pelo menos poético-retó­
rico. Neste caso, c uma contradição, uma confusão, mas filosoficamente
claborávcl. Então aparece esse cidadão, que se chamava Filon, da
cidade dc Alexandria, que tenta expressar o judaísmo nos termos
da filosofia grega, com a ideia de que mais ou menos tudo aquilo que
os gregos tinham descoberto e elaborado já eslava, pelo menos em
germe, dentro da Bíblia. Ele escreve um livro que sc chama A criação
do nutrido segundo Moisés, que é pm dos grandes livros filosóficos de
todos os tempos, no qual ele usa interpretações simbólicas c alegóricas
para buscar a identidade entre as doutrinas bíblicas e o ensinamento
de Platão e de Aristóteles, mas particularmente o de Platão, tal como
aparece no livro O Tirneu.
Essa expressão de uma doutrina bíblica em termos filosóficos gregos
ou vice-versa, de uma filosofia gre£a em termos bíblicos, é uma coisa
q ue vamos ver reaparecer muito mais tarde, dentro do contexto cristão.
Durante toda a história do cristianismo, haverá uma elaboração muito
profunda da técnica da interpretação alegórica, e o curioso é ver que uma

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boa parte disso já está em Filon de Alexandria, antes do cristianismo.
Filon nasceu uns quarenta anos antes de Cristo e morreu uns quarenta
anos depois. Fie não teve contato com o cristianismo - aparentemente
não ficou sabendo; pode ser que tenha ficado sabendo, mas na obra
escrita não aparece nada disso então clc está lidando exciusivamente
com o Antigo Testamento e com o material grego.
Existem muitos autores que vêeni nessa obra dc Filon algum arti­
ficialismo, como se ele estivesse fazendo um truque para ajeitar uma
coisa à outra. Mas é o tal negócio: o primeiro sujeito que faz alguma
coisa nunca faz direito. Essa técnica da interpretação alegórica teve que
ser muito aprofundada, criticada c elaborada, e só vamos ver um pleno
domínio disso nos grandes escolásticos, como Hugo dc São Vítor, Santo
Tomás dc Aquino. Mas, considerando que Filon estava trabalhando ate
antes do cristianismo, aquilo é uma coisa de gigante mesmo.
Muitas vezes, o historiador com uma excelente bagagem filosófica,
mas sem muita compreensão justamente desta linguagem simbólica e
alegórica, enxerga contradições na filosofia de Filon. Muitos autores
dizem que Filon confunde duas coisas, por exemplo, as hierarquias
angélicas com a hierarquia das idéias, que são incompatíveis. Na ver­
dade, não são incompatíveis, não são teorias alternativas - afinal de
contas, as idéias eternas são o conteúdo do Logos divino, o conteúdo
da Inteligência divina. Elas não têm nada a ver com o modus operandi
da ação divina. Dessa maneira, se você explicou todas as coisas exis­
tentes a partir de arquétipos eternos que estão na Inteligência divina,
ou seja, as famosas formas ou idéias, é como se tivesse exposto a planta
da Criação, o mapa da Criação, e não o seu modo de construção. Então,
a rigor, não há nenhuma contradição entre a idéia das formas eternas
platônicas e as hierarquias angélicas, sejam elas como Filon as descreve,
seja de qualquer outra maneira.
Outra coisa também notabilíssima em Filon é que cie sintetiza, de

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algum modo, a ideia do Supremo Bem platônico (em Platão, a realidade
primeira e inicial é o que ele chama de Supremo Bem) com o Primeiro
Motor Imóvel de Aristóteles. Também não são duas idéias antagónicas,
não são teorias. O primeiro princípio é o Supremo Bem ou é o Primeiro
Motor Imóvel? É o Primeiro Motor Imóvel, o qual é o próprio Supremo
Bem. E Filon já diz isso de maneira explícita. Para ele. Deus é o Supre­
mo Bem e, ao mesmo tempo, o Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles.
Isso corresponde a se falar de Deus numa linguagem moral ou numa
linguagem metafísica, mas, no fim, se está falando da mesma coisa.
Essa obra de Filon (creio que era lida até a década de 1930 ou 1940
do século XX) parecia uma coisa, mas, nos anos que se seguiram, hou­
ve um progresso imenso da interpretação dos textos sacros, graças a
autores como Henry Corban, Fritjof Schuon, Seyyed Hosscin Nasr. E
quanto mais isto progride, mais se vê que aquele universo de Filon faz
muito sentido.
Trata-se, então, de uma época de extrema decadência filosófica, de
confusão, de degradação. Mas tem ali um camarada que não participa
inteiramente do ambiente de degradação, porque pertencia a uma outra
comunidade. Ele não podia se considerar um indivíduo que estivesse
desorientado apenas por causa da queda da polis. Ele não estava deso­
rientado coisíssima nenhuma, estava com a Lei de Moisés debaixo do
braço, sabia perfeitamente o que estava fazendo, então não padece
pessoalmente da confusão ambiente.
Note bem que todo problema, para poder ser filosoficamente elabo­
rado, precisa que o filósofo mantenha uma certa distância em relação a
ele, senão não tem nem a linguagem para expressá-lo. Todo problema que
nos acerta no coração ou no fígado só pode ser expresso poeticamente;
se não tem nem a expressão poética, ele não tem elaboração alguma, a
coisa não tem nem nome. E quando se trata de um problema existencial
direto, quer seja pessoal, quer seja da comunidade, a primeira expressão

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é necessariamente poética. A elaboração filosófica tinha que ser muito
posterior a isso, já supondo o domínio dos instrumentos lingüísticos ne­
cessários para nomear, classificar as coisas, etc.
Filon pôde ser um grande filósofo num período de decadência filo­
sófica precisamente por estar poupado da degradação coletiva, mas, ao
mesmo tempo, por ter na mão um problema filosófico passível de ser
equacionado e tratado, que é o problema exatamente da relação entre
a sabedoria judaica c a sabedoria grega.
Note bem que até boje, de vez cm quando, surgem esses problemas
de influência de uma tradição na outra. lí evidente que o defensor ou
porta-voz de uma tradição tenta mostrar que a dele é mais antiga, mais
bonita: “Tudo o que eles sabem aprenderam com a gente...”. Se isso for
interpretado historicamente, tudo o que Filon disse está errado, porque
não há nenhuma prova de que algum sujeito discípulo de Moisés tenha
ido até a Grécia ensinar algo; não há nada, nada. Flistoricamente, isso
não faz sentido; o que faz sentido c uma prioridade de certo modo
ontológica.
O conhecimento que os judeus tinham de Deus, podemos dizer, foi
feito por uma experiência histórica. Todo o trajeto dos judeus tinha sido
um constante diálogo com Deus. A história é praticamente sempre a
mesma: Deus os manda fazer alguma coisa, que eles não fazem direito,
daí voltam para trás. consertam, começam de novo... São cinco mil anos
assim; então eles têm uma experiência disso. E, por outro lado. como
estavam muito interessados na sua própria história c nas suas relações
com Deus. eles tinham rclativamente pouco interesse pelo universo físico
em torno.
Veja que praticamcntc a totalidade dos assuntos com que lidamos
pode ser articulada numa cruz: temos, por um lado, o pólo superior da
realidade (chame Deus, Infinito ou Absoluto, como queira); por outro, o
pólo inferior/interior, que é a alma humana, nós mesmos; na horizontal,

11

<
II

temos os dois dados do mundo externo, que são, uin, a natureza sensível
e, o outro, o mundo da sociedade, da história, etc. Podemos dizer que o
mundo judaico se articula todo cm torno de dois pólos: Deus e a história
do próprio povo judeu. As referências à alma individual são poucas, e
as referências à natureza física são puramente ocasionais.
Ora, a cultura grega é exatamente ao contrário; ela está interes­
sada sobretudo na natureza e na alma do indivíduo. Claro que está
interessada também na polis, na constituição do Estado, etc., porém,
não como um fenômeno que devesse ser estudado em si mesmo, mas
como uma conseqüência normativa a ser extraída do conhecimento da
natureza c da alma humana: “Conhecendo a constituição do cosmos c
a constituição da alma humana, daí deduzimos como deve ser a cons­
tituição do Estado". Mas não se verá neles, por exemplo, um interesse
por sua sociedade considerada historicamente, tal como se ve entre os
judeus, que têm uma espécie de registro da continuidade da história.
Não c só um registro, eles têm uma reflexão histórica: “Olha, hoje está
acontecendo tal coisa porque há quinze anos Deus mandou fazer tal
negócio e não fizemos, daí deu tudo errado. Vamos tentar de outro jei­
to...”. Há uma contínua reciclagem de sua consciência histórica; isto é
característico do judeu.
Hoje todos nós tentamos fazer isso, exceto o brasileiro (o brasileiro,
quando aconteceu um negócio na semana passada, ele já esqueceu;
então, quando vem a conseqüência, ele não junta). Mas, de modo geral,
as sociedades modernas têm um grande interesse em saber a conexão
histórica de causas e efeitos daquilo que lhes está acontecendo. Os
judeus já tinham isso numa época em que ninguém tinha pensado, em
compensação, não tinham praticamenle nenhuma ciência sistematizada
do cosmos, nem da alma individual humana.
A ausência de interesse pela alma humana vem do fato de que o
destino de cada judeu era o destino da comunidade judaica: se a co-

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mimidade vai bem, ele vai bem; sc ela vai mal, ele vai mal. O problema
não era a salvação da alma, era a salvação de Israci. Mais tarde, a Igreja
verá nisto também uma analogia da alma: tudo aquilo que Deus fala a
propósito de Israel no Antigo Testamento pode ser interpretado, analo-
gicamente, como referido à alma do indivíduo, num outro plano. Cada
um de nós também é esse povo judeu, que é premiado com o dom da
profecia, inerente ao ser humano (nenhum bicho faz profecia). O ser
humano é profeta por vocação, e essa vocação aparece de uma maneira
mais patente no povo judeu, com um chamamento, com o anúncio dc
uma vocação, da qual às vezes o povo se aproxima no sentido da sua
realização, às vezes a esquece e a trai. Aí tem toda uma dialética da
vocação, destino, realidade e providência.
Este era o mundo judaico. O mundo grego era completamentc dife­
rente. Era o inundo dc, em primeiro lugar, dados da natureza. O grego
se interessava sobretudo pelo mundo físico em torno, o mundo sensível,
que era para ele o grande enigma. Todos os filósofos pré-socráticos, a
única coisa que eles perguntavam no fim das contas é: “Do que é feito
tudo isto?”. Pergunta mais material não poderia ser. Eles, desde o início,
têm algumas preocupações que seriam até científicas no sentido moderno
da coisa, e outras não tão modernas, mas, de qualquer modo, o tema era
o cosmos, a ordem do mundo físico. Por outro lado, há uma ordem da
alma, quer dizer: “Como se organiza o que está organizado, o cosmos,
e como organizo a minha alma para estar mais ou menos encaixado
dentro dele?”. É claro que as respostas que se davam a essa pergunta
variavam enormemente, desde aquela idéia da ascese platônica até, no
outro extremo, a degradação que vemos com os filósofos cínicos. Mas
a pergunta que estavam fazendo era a mesma, tanto em Platão quanto
em Diórgenes: “Como é que está organizado o cosmos c como é que
me encaixo ordenadamente dentro dele?”. A pergunta é a mesma,
mas a resposta pode ir desde a genial até a idiota. Este é o assunto

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grego por excelência.
Ora, como é que vamos comparar essas duas tradições para saber
quem aprendeu com quem? Não tem muito sentido, e historicamente
não se tem notícia de uma influência histórica mosaica exercida sobre
os gregos. De qualquer modo, Filon não deixa de ter razão quando
afirma a prioridade da tradição judaica - prioridade não só no tempo,
mas ontológica, porque, afinal de contas, eles se concentraram na coisa
principal. Dc toda esta quaternidade de que falamos, o mais importante
é, evidentemente, o pólo superior: aquele que tiver o conhecimento de
Deus tem, implicitamente, o conhecimento do resto (cu disse “implí­
cito”, porque, pegar as coisas do Antigo Testamento e deduzir dali a
ciência grega, bom, isso não é impossível, mas c muito forçado!).
Em que sentido poderia haver uma unidade ou uma coerência profun­
da? Bom, existe primeiro a coerência da própria verdade. Se uma coisa
6 verdade, ela deve poder ser vista por esse lado ou por aquele lado, ou
algum reflexo das verdades essenciais nas verdades menores de ordem
cósmica sempre deve aparecer. A afirmação do monoteísmo absoluto e
do caráter puramente espiritual da divindade está muito mais clara no
judaísmo do que nos gregos, mas também existe entre os gregos. Então,
no fundo existe uma convergência.
Sc entendermos Filon não no sentido da paternidade histórica, mas
simplesmente da prioridade ontológica, do próprio Deus sobre o cosmos
- portanto, prioridade gnosiológica do conhecimento de Deus sobre o
conhecimento da realidade sensível -, então não é de lodo absurdo dizer
que, muito antes de os gregos descobrirem a coisa, eles também sabiam.
Sabiam de maneira implícita, compactada e expressa em linguagem mi-
topoética, mas que estava lá, estava. Se não estivesse, não seria possível
toda a ciência da interpretação simbólica que, começando com Filon,
depois vai se desenvolver muito até chegar àqueles grandes edifícios
da exegese medieval, como os comentários à Bíblia de Santo Tomás

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ilr Ai|iiini). de I lugo de São Vítor, nos quais a ciência da inlcrprctação
simbólica ja merece real mente o nome ele ciência, [)ori|iie e um coiihc-
i iiiH iito sistemático, organizado e racional, Mas c|iiaiulo se compara a
exegese de Filon com a dos medievais, Filon nao sai perdendo muito,
nao; de vez cm quando, tem umas coisas absurdas, mas, contando o lato
de que ele fez antes, e fez sozinho, já é um grande negocio.
Tendo entendido direito a noção do Projeto socrático (ou seja, o
que e o projeto, o que é a ambição filosófica básica, quais são seus
componentes essenciais, que seriam: o chamado ponto arquimédico,
base da segurança do conhecimento; o discurso racional e sistemático
em torno disso; e, por fim, a ação ou a ética coerente com o discurso,
componentes mais ou menos presentes em todas as filosofias), com­
preende-se que c inerente ao Projeto Filosófico a idéia do esforço de
investigação - e, portanto, da idéia da maturação do próprio filósofo, da
própria personalidade, da própria alma do filósofo, na medida cm que
ele, realizando essa unidade do conhecimento, apreende nela a unidade
da sua alma, do seu destino, da sua pessoa, e adquire então os critérios
liara dar uma unidade coerente à sua ação moral
Isso quer dizer que nenhuma doutrina na qual nao se veja o esforço
de investigação e este esforço de unificação - e, portanto, a disposição
de enfrentar todas as contradições - pode ser jamais dita uma doutrina
filosófica. Uma doutrina que vem pronta e que, quando enfrenta as
contradições, é somente no sentido de derrubar o adversário, ou seja, de
rejeitar a doutrina contrária, não é doutrina filosófica de jeito nenhum.
Ou será uma doutrina esotérica, ou uma doutrina religiosa, uma doutrina
revelada, alguma coisa assim, mas filosofia náo é.
É nesse sentido que não podemos dizer, por exemplo, que todas as
doutrinas gnósticas que aparecem nesse período são filosóficas. Podem
tratar às vezes acidentalmente, de assuntos filosóficos, mas se trata de
doutrinas prontas, de seitas, que são transmitidas tais e quais aos seus

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discípulos, que estão ali não para discutir, para assimilar aquilo inte­
lectualmente, mas para realizar algo a partir de uma doutrina pronta.
Então, está aqui a doutrina pronta que explica a origem do mal no mundo
e a porta de saída. Não interessa qual seja (não vamos nos aprofundar
agora no estudo das doutrinas gnósticas), basicamente a idéia é de
que a própria Criação do mundo é má: o mundo foi criado por engano,
não foi propriamente Deus Espiritual que o criou, foi um outro, que
por sacanagem fez o mundo e nos aprisionou aqui neste túmulo, então
temos que achar uma saída disto aqui.
Existem muitas doutrinas gnósticas diferentes e técnicas gnósticas
diferentes, mas nenhuma delas pode ser considerada filosófica porque,
se é inerente ao Projeto Filosófico a idéia do esforço de investigação,
então é também inerente o amor à contradição, o amor à investigação
dialética. A objeção, para os filósofos, não é exatamente como a objeção
é para um crente. Para uma doutrina religiosa, esotérica ou ideológica,
a objeção é algo que tem que ser afastado, c um erro, é um mal. Mas
ao filósofo ela pode ser preciosa, porque é exatamente lidando com a
objeção que ele vai descobrir algo que ainda não sabe. Não é porque
ele tem uma doutrina pronta que ele tem que refutar quem se oponha;
não, ele às vezes não tem a doutrina totalmente pronta, está tentando
encontrar.
Sócrates, se investigarmos tudo o que sobrou para nós de sua vida,
não tem propriamente uma doutrina. Ele tem, por assim dizer, um mé­
todo: “Eu vou ter urn método de investigação c um método de viver”.
Mas, se perguntarmos: “O que você acha realmente disso?”, Sócrates
diz: “Eu não acho nada, estou aqui tentando ver se descubro algum
negócio”. Isso aparece a todo momento em Sócrates, e não quer dizer
que ele ignorasse tudo. Aquela história de que “só sei que nada sei”,
isso é dito assim cum grano salis, e um pouco também por educação:
“Eu não sei nada, mas você sabe muito menos do que eu”.

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Para um indivíduo scr um filósofo de pleno direito, não é necessário
que ele tenha uma doutrina filosófica. Ele pode não ter nenhuma. Basta
que esteja trabalhando na direção caracteristicamente filosófica, que
é a busca da unidade do conhecimento e, portanto, da integração da
sua própria alma dentro disso; que ele é um filósofo, mesmo que não
chegue a conclusão alguma. Tanto que o próprio fundador do Projeto
Filosófico, que é Sócrates, também não chega a nenhuma conclusão;
e, dos demais filósofos, eles chegam a muitas conclusões, mas quando
morrem, nos deixam evidentemente mais perguntas do que respostas.
Ele respondeu, digamos, dez, quinze perguntas, c deixou mil. E normal
que seja assim.
Em todo esse período de que estamos falando, houve muita discussão,
muita polêmica, mas não houve elaboração filosófica. Era como se fosse
um confronto de dogmatismos, cada um tentando provar que o outro
estava errado, Você verá os primeiros cristãos impugnando as doutrinas
gnósticas e usando, para impugná-las, técnicas argumentativas aprendi­
das com Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas; verá discussões entre
as várias escolas esotéricas e, como no caso de Filon, uma confrontação
entre tradição judaica e filosofia grega. Mas isso não quer dizer que em
tudo houvesse filosofia. Não, havia polêmica apenas. A discussão não
é filosófica se não é uma discussão científica voltada á descoberta da
verdade, ou seja, se não é uma discussão dialética.
A dialética, segundo Aristóteles, tinha três utilidades, e isso é es­
sencial para compreendermos o Projeto Filosófico. A primeira utilidade
é, evidentemente, o treinamento da mente: a simples arte de, em face
de um assunto, de um tema ou de um problema, se fazer o repertório
dos argumentos possíveis e dos conceitos pertinentes, classificã-Ios e
ordená-ios; isso é uma disciplina da mente. A segunda utilidade está,
evidentemente, nas discussões públicas, para se resolver alguma questão
que estivesse em discussão.

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A terceira utilidade, a dialética, é a mais interessante. Aristóteles diz
que a dialética é o meio de você encontrar as premissas num assunto
em que ainda não as tenha, porque, em toda discussão, a arbitragem e
a solução final são dadas em função de premissas que já estão aceitas.
Se você não as tem, como é que vai resolver? Então a discussão tem
que seguir, de certo modo, ao contrário: em vez de ir para adiante, para
tirar as conclusões, ela tem que ir para trás. para buscar as premissas
que estão ocultas ou não declaradas, ou que estão inconscientes. E a
dialética, justamente a confrontação das doutrinas opostas e contradi­
tórias, é o que permite escavar e encontrar os princípios.
No fundo, a dialética é a disciplina científica fundamental, é o método
científico propriamente dito, embora Aristóteles distinga o que é uma
discussão dialética de uma discussão científica. A discussão científica,
para ele, é a que já está estruturada de maneira perfeitamente lógica. Só
tem um problema: como é que se chega lá? Através da dialética. Então,
onde não existe a elaboração dialética, não há filosofia, por mais que
pareça haver. Muitas vezes parece não haver, mas há. Muitas vezes o
indivíduo parece estar afirmando coisas de maneira puramente dogmá­
tica. mas ele está fazendo isso apenas por uma questão de abreviatura.
Isso acontece íreqüentemente cm Nictzschc. Ele sofria de sífilis terciária
e tinha dores de cabeça horríveis, vivia doente, então tinha poucos mo­
mentos de paz e de lucidez por dia para trabalhar, aí aprendeu a escrever
compactadamentc cm aforismos. Muitas vezes, os aforismos parecem
puramente dogmáticos, puramente afirmativos ou negativos, mas neles
está subentendida uma elaboração dialética. Em outros casos, parece
haver muita dialética, porque tem muita discussão, mas não tem dialética
nenhuma, porque há apenas a refutação de uma oposição.
Quando surge o cristianismo, surgem naturalmente seus defensores,
como Santo Irineu, Tertuliano, Orígencs. Clemente de Alexandria. Nes­
ses, em uns se vê, de fato, algo de filosofia; cm outros, não. Cria-se uma

I
situação na qual o historiador da Filosofia não sabe propriamente se
esses indivíduos pertencem à sua disciplina ou não. Com um pouquinho
de paciência severa que a Historiada Filosofia tem que mencionar todos
estes, mas sem incorporá-los na própria disciplina; ela vai ter que discu-
Ii-los justamente para, às vezes, poder tirá-los e dizer: “Não, isto aqui
está realmenle fora da Filosofia, embora tenha exercido influência sobre
filósofos”. Exercido influencia, como? Esses camaradas defenderam
certas idéias - defenderam não filosoficamente, de maneira puramenle
retórico-dogmática mas isso depois deu assunto para algum filósofo.
Então, aquilo que um sujeito trata num plano retórico-dogmático pode
ser tratado filosoficamente por outro.
Antes mesmo de falar do próprio cristianismo, vou falar dos apologis­
tas do cristianismo, que é um assunto mais externo. Entre os primeiros
deles, a ideia básica é de que aquilo que tinha acabado de acontecer, a
Revelação cristã, é algo tão importante c tão fundamental, tão básico,
que perto dela “cessa tudo o que a antiga musa canta”; quer dizer, tudo
o que os filósofos falaram não interessa mais, é tudo bobagem. Esta é
a primeira impressão por que passam os apologistas, São Justino, São
Irineu.
A rejeição à Filosofia chega, em Tcrtuliano, a extremos de despre­
zo, de rancor, de ódio contra os filósofos. Tcrtuliano é um dos grandes
escritores da humanidade (mesmo quando está dizendo besteira, é
absolutamente maravilhoso, pela força da eloquência). Ele joga tudo
fora - aquilo não apenas não se aproveita, como é heresia, é pecami­
noso e tem que ser esquecido -, ao passo que outros, como Clemente
de Alexandria, começam a perceber que existe um elo de continuidade.
O mesmo elo de continuidade que Filon viu entre a revelação antiga,
judaica, e a filosofia grega, haveria entre a filosofia grega c a nova Re­
velação. Sc Moisés, de certo modo, antecipa toda a filosofia e a ciência
gregas sob a forma compactada e simbólica da linguagem do Pentatcuco,

10
a filosofia grega elabora e abre caminho para que a Revelação cristã se
torne inteligível e até possível. Então Clemente diz que a Filosofia é o
pedagogo que leva ate Crislo.
Ora, essa é uma observação muitíssimo interessante. Lembram-se
da transição da tragédia grega para Sócrates? O que era a tragédia?
Era a confrontação entre a Lei divina, tal como apreendida por um
indivíduo humano, e a lei da polis, a lei da sociedade, a lei do Estado,
que remotamente também teria a mesma fonte divina. É como se Deus
tivesse se manifestado, por um lado, na ordem social e, por outro, na
alma humana. Algum reflexo dele tem aqui e ali, mas como são apenas
reflexos, e não a própria Verdade divina considerada em si mesma, eles
têm contradição uns com os outros.
E justamente essa contradição que aparece na tragédia grega. A tra­
gédia c um drama cívico que visa propiciar que a coletividade reintegre
essas verdades divinas que não estão explicitamente contidas na lei da
polis, na lei do Estado. Então o teatro funciona, durante algum tempo,
como um mecanismo de equilíbrio entre as exigências da coletividade
e as exigências mais profundas do indivíduo consciente. Mas chega
um ponto em que ele não funciona mais, não exerce mais aquela ação
persuasiva e calmante que eleva a população a uma antevisão de uma
sabedoria superior ao próprio discurso da comunidade. Nesse instante,
o que acontece? O teatro vira realidade.
A vida de Sócrates é exatamente isto: Sócrates é condenado à mor­
te exatamente porque o que ele tinha apreendido da Lei divina já era
incompatível, já era inaceitável peia comunidade, que então o sacrifica.
Só que, ao longo de toda a sua vida, ele nunca se preocupou com isso,
como é que ia morrer ou deixar de morrer, como é que o negócio ia ter­
minar; ele estava simplesmente ensinando àqueles indivíduos algumas
condições intelectuais para a investigação da verdade, só isso. Era tudo
o que ele estava fazendo.

20
Com o cristianismo acontece uma coisa diferente: o mesmo drama é
vivido, só que num plano imensamente mais claro, mais explícito e mais
luminoso. Primeiro, porque ele é anunciado de antemão; é anunciado
na própria tradição hebraica, onde tem um monte de menções. Não só
tem um monte de menções ao Messias. Atualmente sabe-se que o nome
de Jesus já está dado no Antigo Testamento (...). Os cabalistas fizeram
os cálculos e dizem que se estava falando explicitamente o nome Jesus.
O drama já é anunciado de antemão. Aquele indivíduo, que é portador
da Verdade divina, ele não é somente o portador, é apresentado como
a própria Inteligência divina. Não é alguém que captou algo. Desde o
início ele disse: “Eu sou o Logos, sou o Verbo divino, e por causa disso
vão me matar”.
Aí já não é mais só o teatro que virou realidade. A verdade - que
era antecipada, de certo modo no teatro grego e vivida nos momentos
finais de Sócrates - aparece aí não só como um acontecimento, mas
como o acontecimento central, de tal modo que toda a explicação da
vida humana estará contida nisto. É como se a vida. a paixão c a morte
de Nosso Senhor Jesus Cristo explicassem reiroativamente o que se
passou com Sócrates e o que se passou no teatro grego. Quem assistisse
à peça no teatro grego ou visse o que se passou com Sócrates podia
certamente considerar esses acontecimentos muito importantes, mas
dificilmente leria a idéia de explicar toda a história a partir deles. E pior,
a história não apenas se desenrola desta maneira anunciada com muita
antecipação, mas o próprio personagem, o próprio Cristo, com bastan­
te antecedência explica o que vai acontecer, como a coisa acontece, e
depois ressuscita para confirmar aquilo. Ressuscita e aparece perante
um monte de gente para dizer: “Olha, se ficou alguma dúvida, se ainda
vocês não entenderam aquele negócio...”.
No teatro grego, você viu a história, pode entender, tem aquele im­
pacto. Mas isso não quer dizer que você lenha compreendido. Aristóteles
dizia que o teatro, a arte narrativa, a arte dramática, nada ensina, mas
deixa em você um profundo impacto. Esse impacto é a atuação do dis­
curso poético. Ele ainda não é uma intelecção. c uma matriz de muitas
intclecções possíveis. Você pode passar o resto da vida pensando sobre
aquilo, mas inicialmentc não entendeu é nada, apenas percebeu. O teatro
vai impactá-lo como um fato, uma coisa que aconteceu.
Aquele que assistiu à morte de Sócrates também ficou impressio­
nado. mas isso não quer dizer que tenha compreendido. Ele sempre
pode achar que aquilo foi coincidência: “Ah, foi um azar desgraçado,
se Sócrates tivesse fugido...”. Sempre tem um “se”, podia ser de outro
jeito... “Antígona podia desistir daquele negócio”... “Eles não podiam
ter sido convencidos a agir de outra maneira?” No caso de Sócrates,
ele poderia ter dado no pé; poderia ter dado uma propina para os caras,
poderia ler sido diferente...
No caso de Jesus Cristo, não, já vinha anunciado de antemão. E
depois ele ainda ressuscita para dizer: “Olha, se não entendeu o que
se passou, eu ainda estou aqui para dar mais uma explicação”. Eissc
fenômeno do indivíduo humano, o indivíduo real, de carne e osso, que
é o portador da Verdade divina, por causa disso entra em choque com
uma outra verdade externa que também deriva da Verdade divina, que
não é uma coisa do diabo, não foi o diabo que inventou, é apenas uma
Palavra divina antiga cristalizada cm instituições, leis, etc. - portanto,
já não tem aquela flexibilidade vivente da alma do indivíduo. No caso
do Cristo, já não é nem um indivíduo que tem uma flexibilidade vivente;
ele mesmo disse: “Eu sou a Vida”. Quer dizer, esta alma que manifesta
entre nós a presença da Inteligência divina, ela é a própria Vida. E o
resto? Bom, o resto foi vida antigamente, foi vida mas já morreu. “As
leis, as instituições, tudo o que vocês fizeram aí, no começo de tudo isso
aí está o quê? Está a Vida divina. Foi Deus que criou tudo isto."

22
[Aluna: E essa insistência em falar do Cristo histórico a toda hora
é uma tentativa de igualá-lo a um Sócrates. |
Mas sc o sujeito fala “Cristo histórico”, não sei do que ele está falan­
do. Todo o Cristo é histórico, evidentemente! O que você lê no Evange­
lho? No Evangelho tem doutrina? Não tem doutrina alguma, tem uma
narrativa. Esse Cristo de que falamos, o Cristo Logos divino, tem que ser
a-histórico. Agora, se você quer distinguir entre um indivíduo qualquer
chamado Cristo e o Logos divino, então foi você que cortou a história
em dois. Porque isso não é a história de um sujeito que foi crucificado.
Crucificado tem um bando de gente. Não foi assim que aconteceu. Não
tinha dois ladrões que foram crucificados com ele? Por que o ladrão foi
crucificado? Porque não conseguiu dar no pé em tempo. Agora, Cristo
não, ele já vinha anunciando: “Olha, está aqui anunciado na Lei c nos
Profetas que vai acontecer assim, e não adianta vocês quererem me tirar
da encrenca...”. Esta é a verdadeira história.
Isto quer dizer que não é possível separar o sentido do acontecimento,
por um lado, da materialidade do acontecimento, por outro, que essa
materialidade é a materialidade do próprio sentido. O que aconteceu foi
exatamente o que ele disse que ia acontecer. Então, querer distinguir, de
um lado, um Cristo de carne e osso e, de outro lado, o Cristo da doutrina,
se fosse assim a coisa não poderia ler acontecido. Teria que ser um mi­
lagre muito maior do que a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Porque, olha, tem aqui um indivíduo que não está sabendo de nada, é
um cara como qualquer um, idiota como qualquer um de nós. Ele foi
crucificado e criaram um culto em torno dele, e, por uma coincidência,
aconteceu tudo exatamente do jeito que estava nos profetas e que ele
disse que ia acontecer! Foi coincidência? Mas é mais fácil ressuscitar
do que fazer isso! Quando aparece um camarada dizendo: “Não, aqui
vamos fazer o quê? O Cristo histórico...” - com esta nuanee de separar
o Cristo histórico, material, etc., do Cristo espiritual -, eu digo: “Mas
esta separação só existe na sua cabeça!”.
23
[Aluna: Que o Cristo espiritual é “objeto de fé" só, e que não...]
Ah, é! Ainda tem essa... Quer dizer, tudo aquilo que os profetas
diziam já era tudo ‘ objeto de fé”: um sujeito acreditou nisto, depois
outro acreditou, depois outro, c, depois, por uma baita coincidência,
aconteceu tudo assim. E aconteceu pior, pois o próprio sujeito disse
que ia acontecer! É claro que isso é uma coisa de idiota, é uma coisa de
criança. Temos que entender que a vida, a paixão, a morte, a ressurreição
de Nosso Senhor Jesus Cristo são um fato. Aconteceu! Não é preciso
entender. Isso não é uma doutrina, não é um objeto de lê, é uma coisa
que aconteceu. É mais difícil negar isto do que aceitar. Sc você nega
que foi assim como ele mesmo disse que seria, então é porque você tem
uma outra explicação. E você tem que me di/.er que a sua explicação é a
melhor. Agora, sua explicação começa por exigir que cu creia num tecido
de coincidências absolutamente impossível. Você está me exigindo mais
fé do que Nosso Senhor Jesus Cristo. Acredito em Nosso Senhor Jesus
Cristo porque ele só pede para cu acreditar num negócio que aconteceu,
e você está pedindo para eu acreditar numa conjectura que é uma ver­
dadeira loteria esportiva! Você pode ter certeza, sempre que entra esse
negócio agnóstico, materialista c tal, o que está em jogo, no fundo, é só
uma coisa: burrice. Burrice mesmo, falta de inteligência!

[Aluno: Por que o senhor acha que essas investigações que tentam
fazer a respeito de um “Cristo histórico”, que seria um homem comum,
se concentram sempre em aspectos técnicos, por exemplo: “Ah, vou
pegar o Santo Sudário e ver qual é a idade dele ”, como se fosse para
investigar um homicídio, e não com afirmações mais ou menos lógicas?
Porque isso é bastante lógico, é mais fácil...]
O Santo Sudário não tem a ver com a história, pois aparece muito
depois. São Justino não sabia que tinha Santo Sudário nenhum; Santo
Irineu não sabia, Clemente não sabia, Orígenes não sabia. Eles vão ser

24
menos cristãos por causa disso? ü Santo Sudário não influi nem contri­
bui. Você pode investigar num monte de coisas, mas o problema é este:
aqui tem uma história que é relatada por testemunhas que estiveram lá
e que a contam numa ordem que coincide exatamente com aquilo que
esses profetas vinham dizendo desde três mil anos antes!

| Aluno: Todo mundo tinha combinado, não é?]


Ademais, ainda teve que combinar com o leproso para ele curar:
"Olha, você vai lá e finge que se curou-’, ou, então, ‘Você, pelo poder
do pensamento positivo...”. Vou acreditar que o pensamento positivo
do leproso o curou? O leproso, que já está lodo ferrado, dc repente
adquire esse poder miraculoso de se curar pelo pensamento positivo?
li um negócio tão rebuscado e tão artificioso que denota idiotice.

[Aluno: Mas existe também a corrente mais hard que nos fala que
não é coincidência, que construíram a história que apareceu, daí...
com o tempo...]
Isto. construíram, porque naquele tempo já existiam agências de
publicidade, tinha o Duda Mendonça...

[Aluna: Eles plantaram provas pedo mundo inteiro.]


Veja, a técnica publicitária foi todinha inventada a partir do fim
do século XIX. E mesmo assim falhou. Tem um monte de campanha
publicitária que falha, ou seja, lançam o produto, o produto ‘‘vai pro
brejo”... Eles querem nos fazer crer que antes disso, no tempo em que
não linha técnica publicitária nenhuma, existia uma técnica publicitária
implícita, inconsciente, que funcionava e que criou os profetas, os santos,
etc. Ora, o sujeito, para acreditar nisso, precisa ser muito pueril, muito
infantil, É sempre a idéia de que a desconfiança é sinal de maturidade, e
a confiança é sinal de que você é um atrasado, um caipira. Não, depende

25
do tipo dc desconfiança, porque essa desconfiança que você está tendo,
ela me exige uma confiança muito maior.

|Aluna: De tamanho igual à mesma desconfiança que você tem de


fatos até anteriores. Eles inclusive têm fatos históricos descritos antes
que as pessoas confiem piamente, corno se aquilo fosse fato. E disso
não têm a mesma... j
Claro! Na verdade, essa desconfiança, essa suspicácia moderna
perante os dados da Revelação, é profundam ente crédula, porque exige
acreditar em muito mais coisas do que a Revelação está pedindo. A
Revelação está dizendo o seguinte: o homem era Deus, era o Verbo
de Deus, e aconteceu isso assim... e ele curou o leproso, morreu e res­
suscitou.... Agora, querem que eu acredite numa loteria esportiva, na
existência de agências de publicidade etéreas, imateriais, que criaram
tudo isso mediante aqueles processos de “violência simbólica” do Picrrc
Bourdieu, “imposição de discurso” c não sei o quê. Como c que o Papa
fazia para “impor um discurso”? Você pensa que tinha a Rede Globo de
Televisão, o Papa chegava lá e falava e 70% da audiência ouvia? Não,
o Papa falava um negócio que, para chegar nas igrejas levava anos! Se
o cara que está na Igreja, digamos, na Irlanda, durante a vida, depois
que ele foi para a Irlanda, se ele duas vezes na vida receber notícia do
Vaticano, é muito. Então, como é que podia haver violência simbólica aí?
Para não aceitarmos um dado miraculoso, pedem que a gente aceite um
universo inteiro dc suposições miraculosas! Então, até por uma questão
dc preguiça, prefiro ficar com a Revelação mesmo. Não é um problema
de fé, estou dizendo uma coisa científica!

[Aluna: Não, Chesterton está falando aqui: “Caso você não acredite
em Deus, você acredita em tudo o m ais”. |

26
É isso, quando o sujeito deixa de acreditar em Deus. não é que ele
não acredita cm mais nada, ele acredita em tudo, ate cm história da
carochinha, em Papai Nocl, Duda Mendonça, etc.

[Aluno: Mas uma comparação que às vezes eu vejo nào é uesse sentido.
0 que esses historiadores usam não é de que foi uma montagem proposital,
com o intuito de enganar; etc. Eles puxam o exemplo daquela...]
Não. foi inconsciente.

| Aluno: Não, mas também não nesse sentido. Eles pegam, por
exemplo, aqueles exemplos de sutras históricos budistas que pegam
um personagem real, por exemplo, o rei Asoka. e aí se constrói Ioda
uma versão extremamente mítica da história dele: “E havia exércitos
que saíram do solo e combateram...”. Constroem toda uma história
mítica em torno de um personagem real, mas essa construção, essa
representação... \
Mas aí, no caso, você é capaz de distinguir entre os fatos históricos
c a construção mítica cm torno. Acontece que ali não é isto que acon­
tece; é o próprio Cristo que está dizendo: “Pu sou o Verbo divino, vou
morrer, vou ressuscitar”. É ele mesmo que está dizendo na hora que a
coisa acontece, isso não foi acrescentado depois - nada foi acrescenta­
do depois. Tudo o que se elabora, toda a elaboração doutrinal, é feita a
partir desses primeiros testemunhos. E, mais ainda, a quase totalidade
dos testemunhos foi rejeitada por não estar muito consistente. Quando
se ficou com quatro evangelhos, é porque se dizia: “Esses quatro aqui
estão confirmados, são perfeitamente concordantes e não têm malu­
quice”. Havia dezenas de evangelhos, mas os camaradas misturavam
suas interpretações doutrinais, ao passo que esses quatro não fazem
interpretações doutrinais; eles contam a coisa e pronto. Agora, se o su­
jeito começava a elaborar em cima, poeticamente, falavam: “Então, não,
isso aí não serve”.
27
Os quatro evangelhos foram selecionados não por uma questão
doutrinal, mas por uma questão de documentação. Não que os outros
sejam “discordantes”; eles também são concordantes, só que eles acres­
centam mais coisa. Nesta separação dos quatro evangelhos válidos c
dos outros inválidos, nada foi colocado lá dentro, foi é tirado! Pode
ser que seja verdade também, mas não sabemos. Ah, tem o evangelho
de Pedro, o evangelho de Tomás, o evangelho de Fulano, de Beltrano,
tem um monte de evangelhos de pessoas que contaram a história a seu
modo, e essas botaram coisas a mais. Esse “a mais” foi tirado. Agora, o
que está aqui também está nesses outros. Esses outros também são
concordantes com estes, só que são discordantes entre si em outras
coisas... Quer dizer, foi por um processo de crítica histórica que a Igreja
separou esses quatro.

| Aluno: Aliás, a Igreja cie vez em quando também pega algum


elemento desses outros e feda: “Não, esse daqui realmente parece que
aconteceu”, conto a Assunção de Maria.]
Claro, pode ter sido e pode não ter sido. A Assunção de Maria, foi
ou não foi? Uns dizem que sim, outros dizem que não, outros não fa­
lam nada; então não c necessário a gente decidir. Agora, existem esses
quatro e existe o testemunho oral que foi transmitido dentro da Igreja
por muita gente, e que é tão importante quanto o Evangelho escrito:
“Estes quatro aqui - que aparecem entre trinta e quarenta anos depois
dos acontecimentos - são concordantes não só entre si, mas com o que
nós da Igreja sabemos. Nós também estivemos lá, também vimos”. O
motivo da exclusão dos outros foi este: é porque eles tinham coisas a
mais que não dá para se saber se é verdade ou não; vamos ficar com a
narrativa mais simples, ainda que com o risco dc perder detalhes que
podem ter sido até importantes. São importantes, mas incertos.
E veja você que fala da construção: uma construção dessa leva

28
séculos. Entre a morte do rei, tem lá um personagem, daí os sujeitos
foram floreando depois. Leva muito tempo, e é preciso ter esquecido a
história real para poder florear em cima. Agora, ali não foi floreado nada,
não tem absolutamente nada a ver uma coisa com outra, são processos
completamente distintos. Mas o sujeito, quando quer ser muito esperto,
acaba ficando é trouxa. Você vai desconfiar da coisa, mas me dè um bom
motivo para desconfiar. Por que vai suspeitar? O sujeito que está falando
é louco, é mentiroso? Não, não é. Está ganhando algum com isso? Não,
também não está. Então, por que você vai desconfiar?

[Aluno: Parece que dizem que é bom demais para ser verdade.}
É bom demais para ser verdade. Agora, se eu contasse para você:
“Olha, o negócio é o seguinte, tudo isso aí é mentira, foi o diabo que
inventou só para sacanear com você”, aí você acredita. Por que acredita?
Porque tem medo.

[Aluno: O senhor não acha certo que a distância no tempo acaba


criando urna certa desconfiança? Porque hoje em dia é muito comum
a gente ver as pessoas argumentarem: 1Ah. mas, então, por que mais
ninguém ressuscita? Nunca ouvi falar de alguém que tenha ressusci­
tado”. Ou, então: “Nunca vi ninguém ressuscitar”.]
Porque não é para ressuscitar mesmo! Se ressuscitar fosse uma coisa
que acontecesse para qualquer um, qual seria a novidade ali? E, antes
de ressuscitar, já tinha feito o outro camarada ressuscitar: “Se eu fiz
com ele, por que não posso fazer comigo?”. Esse negócio de Lázaro,
tinha centenas de pessoas lá que assistiram. E não tinha lá nenhum
publicitário, não tinha nenhum jornalista de O Globo para inventar his-
torinha, não tinha! Ou seja, a história nos parece contada com razoável
fidedignidade; é uma história que você não entende...

29
[Aluno: Mas os milagres não têm um aspecto retórico mais do que
de prova? Porque, se naquela época ocorriam esses milagres, ressur­
reição e outras coisas assim, é porque havia uma necessidade, vamos
dizer assim, de uma espécie de convencimento, pois não havia uma
doutrina para você estudar ]
Mas, espera aí, você vai ressuscitar o sujeito só para convencer os
outros?

[Aluno: Não, não estou dizendo isso. Mas, então... ]


Sc o sujeito fosse capaz de ressuscitar, ele não seria capaz também
de inventar um discurso rnais convincente? Não é possível! Ademais, o
milagre como meio de convencimento é condenado por Cristo da maneira
mais taxativa. No Evangelho se diz que os gregos, para acreditar numa
coisa, exigem uma demonstração matemática, c que os judeus exigem
um milagre - e os dois são malucos, porque simplesmente a coisa está
acontecendo. Qual é o motivo que têm para duvidar? Ademais, você
não vê nenhum, nenhum esforço de convencimento em parte alguma
do Evangelho.1

1Aluno: Eu pensei assim: quando você já tem um conhecimento


da doutrina religiosa, não precisa de um fato desses.]
Mas a doutrina religiosa aparece milênios depois. É isto que c im­
portante entender. A doutrina cristã foi sendo elaborada ao longo dos
tempos pelos concílios, pelos papas, pelos doutores, etc. Note bem que
não houve propagação de doutrina. Você sabe o que é “evangelho”?
Evangelho quer dizer “uma narrativa”, é uma notícia, uma notificação
de algo que aconteceu. O que Cristo mandou eles fazerem? Ele disse:
“Olha, você vai e conta para os outros o que aconteceu”. Não se trata
de pregação doutrinal. A pregação doutrinal começa aos poucos, com
os apologistas, já quase um século depois. 'Iodo o esforço retórico foi

30
feito em seguida; a gente conhece toda a história dele, e pode recompor
passo a passo. A apologética cristã, o que é? É a defesa retórica de uma
doutrina já mais ou menos assentada, e conhecemos a história disso
passo a passo. E tudo isso não tem nada com o Evangelho, é muito
posterior.
E também a confusão, porque as pessoas vêem isso hoje. Como é o
fenômeno religioso? Bom, você liga a televisão, está iá o pastor R. R.
Soares, ou o pastor Fulano de Tal, o Billy Graham, o Jimmy Swaggart,
qualquer outro, expondo uma doutrina e usando meios retóricos. Porque
você vê isso na televisão hoje, você acha que tudo começou assim. Mas
nenhuma religião começou assim; isso c impossível. Para que um dia
exista um pastor R. R, Soares fazendo discurso religioso, a religião tem
que existir. Você está confundindo um processo de propagação muito
posterior com a origem da religião. Essa é outra confusão que muitos
desses historiadores científicos fazem. Nenhuma religião aparece como
doutrina, nenhuma.

[Aluno: O Sermão da Montanha não seria o embrião de uma dou­


trina cristã? |
Não, a doutrina só pode ser elaborada posteriormente, isso tanto
no cristianismo quanto cm qualquer outra religião. Moisés, o que fez?
Chegou lá com uma doutrina? Não foi isso! Ele disse: “Olha, o negócio
é o seguinte: estamos aqui prisioneiros e sei como é que a gente faz para
escapar”. — “Como é que você sabe?” — “Foi Deus que mc contou.”
— “É louco!” Não foi assim? Ou seja, ele convence os camaradas não
de uma doutrina, mas de uma possibilidade de ação; empreende a ação
e dá bom resultado. Qual era a doutrina em que eles acreditavam? Dou­
trina não tinha; até os Dez Mandamentos vieram depois disso. Primeiro
acreditaram em Moisés enquanto líder, enquanto chefe, enquanto guia.
E doutrina? Moisés não tinha doutrina alguma! A doutrina se forma aos

31
poucos, c quando começa o negócio cia apologética religiosa é porque
a religião já está velha. Se Moisés aparecesse aqui e dissesse: "Olha,
vou resolver os seus problemas”, e você vai atrás do cara c ele resolve
os problemas mesmo, você não ia precisar de nenhuma apologética,
porque a coisa já está acontecendo.
Passado muito tempo, a referência à religião vai se tornando cada
vez mais indireta. Ela deixa de ser um objeto de experiência direta e
passa a ser um dado de cultura entre outros dados de cultura que estão
aí mesclados e empilhados. Não é assim? O que não se pode fazer é
projetar retroativamente a situação posterior á situação originária. Se
pegarmos a história das origens islâmicas, a Revelação islâmica pros­
segue durante vinte e oito anos, que é a etapa da formação da própria
comunidade. O texto do Corão vai sendo elaborado junto com a história
da comunidade islâmica. Então, não é que esse sujeito chegou com uma
doutrina pronta, começou a pregá-la e daí fez a comunidade. Não, não
foi assim; ele não tinha doutrina alguma.

[Aluno: Você chegou a comentar isso daí uma vez. Que os profetas
são grandes mistérios, não é? Vem o sujeito, que fala: “Não vamos
m ais”, e todo mundo vai...]
Um historiador da cultura, ou historiador da religião, que encara o
profeta como se ele fosse um propagandista de doutrina é um indivíduo
de uma burrice que, para mim, cbega a ser impensável. Mas como é que
ele foi meter essa idéia na cabeça? É uma projeção infantil: ele vê um
programa na televisão e acha que a religião apareceu assim. Não, assim
você pode inventar uma pseudo-religião, claro: compõe uma doutrina
na sua casa e daí contrata um propagandista para falar. Aí, sim. Temos
o reverendo Moon e tal... Mas, espera aí, qual é a história, a epopéia
do reverendo Moon? ü que ele fez? Não fez nada. Só inventou lá um
negócio e começou a fazer propaganda. Como é o cara da cienlologia,

32
o c|i!C clc fez? Sentou cm casa, escreveu, e daí começou a fazer propa­
ganda. Allan Kardec, o que fez? A mesma coisa.
As religiões de fato não começam com doutrina, nenhuma começa com
doutrina. Começam com um fato. O que este fato diz? As pessoas que par­
ticiparam, que estavam lá perto, não seriam capazes de expor o que aquele
fato diz. O conteúdo intelectual, doutrinal, leva séculos para se expressar. É
um tremendo esforço dc interpretação que se faz depois, porque a doutrina
se forma depois. Tanto que a fase dc formalização pode ser considerada até
o momento de decadência da religião, e é um negócio até perigoso.

| Aluno: E as epístolas de Paulo? já não são unia forma de contar


uma doutrina? Ou é de um... \
Não. A quase totalidade delas são instruções morais para o governo
da comunidade, não são doutrina.

[Aluna: São princípios que vão...]


São regras morais. Ainda não são princípios, porque não tem o enun­
ciado de princípios no sentido doutrinal; são normas: “Façam assim,
façam assado, não façam aquilo, evitem aquilo outro...". Não é assim?
O tempo todo são normas, conselhos, etc. Você não vè uma exposição
doutrinal no Evangelho inteiro. O Evangelho é uma primeira narrativa
dc um fato, e só.

[Aluna: A doutrina é, então, um esforço de interpretação desses


documentos: evangelhos, cartas...]
Posterior. Uma doutrina tem que se expressar em linguagem estabi­
lizada, conceituai, e dotada de universalidade.

[Aluno: Porque são uma interpretação lógica?]


Claro, é uma elaboração lógica, uma expressão lógica.

33
[Aluno: Não seria, então, simples poética...]
Você vê que tem que passar pela narrativa poética. A primeira nar­
rativa é poética: O que aconteceu? Foi assim, assim, assim. Existem
muitas maneiras de contar, e por isso existem vários evangelhos. Cada
um que viu acentua um lado, por isso tem muitos evangelhos. E depois?
Bom, depois...

[Aluna: Eles ministram, há princípios morais que vão... |


Eu só uso a palavra... É por uma questão de palavras: só uso a palavra
“princípio" quando são princípios de ordem doutrinal; regras morais,
eu chamo “normas” ou “regras”.

[Aluna: O princípio do amor ao próximo, princípios de busca do


bem comum...]
E, mas esses princípios, enunciados assim, já são doutrina. Note
bem, Cristo não enuncia nenhum princípio; ele diz: “Amai-vos uns aos
outros como eu vos amei”. É fácil perceber que isto não é doutrina. Está
dando um modelo vivo. E sc você perguntar...

[Aluna: Mas nem como princípios morais?]


Não, esse não é um princípio moral, nesse sentido.

[Aluna: “Amai-vos uns aos outros” é também?]


Isto é, pode-se dizer, uma norma. Mas esta norma, enunciada assim,
não tem conteúdo inteligível suficiente. Por quê?

[Aluno: Isso porque eu não tenho como saber como ele amou. |
Como você amou? Como é o amor de Cristo? Você precisaria enunciá-
lo, isto é: “Cristo amou assim, c é assim que você tem que amar”. Bom, aí
virou uma norma moral mesmo.
Qual c o discurso da linguagem bíblica? E um termo grego chamado
kciygma. O querigma c um intermediário, uma mistura difícil de dis­
cernir, entre o poético e o retórico. Toda a Bihliu é escrita assim. I .la
narra, apresenta e exorta, mas não chega a definir exatamente uma
norma no sentido racional explícito. Cada ordem dada, ou por Jesus
Cristo no Novo Testamento, ou por Deus Pai no Antigo Testamento,
é sempre enigmática. Por quê? Porque ela tem muitos sentidos. Mas
uma doutrina não pode ser plurissensa, tem que ser unívoca. Como
é que se vai pegar esta fórmula compactada e descompactá-la para
transformar numa doutrina unívoca? Isso dá um trabalho miserável,
leva tempo. É por isso que é inteiramente absurdo se achar que uma
religião começa com uma doutrina; isto é materialmente impossível, a
não ser que seja uma pseudo-religião: você inventa a doutrina em casa
e começa a falar. Mas é o tal negócio: Santo Tomás de Aquino dizia
que falamos e escrevemos com palavras, Deus fala e escreve com fatos,
com coisas, com atos. O discurso divino é indisccrnívcl dos fatos que
o enunciam; por isso mesmo não tem aquela inteligibilidade imediata
da doutrina, mas tem o impacto do fato real.

[Aluno: E é aí que está a universalidade também? Quando começa


a virar doutrina a coisa vai se fragmentando (...) \
Claro! A doutrina você pode expor de um jeito ou do outro, daí já
começa a surgir controvérsia. Claro que se pode chegar a unificar a dou­
trina, mas como é que se unifica? Através de inúmeras controvérsias.
O que são os concílios senão imensos palcos de controvérsias? Dessas,
algumas podem ser arbitradas cientificamente, outras não. E daí, o que
o Papa faz? Ele produz outro fato, vai lá, “conversa” com Deus, depois
diz: “Olha, Deus diz que é assim”. — “Por quê?” — “Isso cu também
não sei. Ele me diz que é assim, não sou eu quem está dizendo. Ele rne
diz que é assim.” O que é isto? É uma doutrina? Não, é outro fato.

35
[Aluna: Mas nos concílios existe a utilização de um método dia­
lético. ]
Existe. Existe toda a discussão, com todo o critério dialético, cien­
tífico e tal, mas às vezes, mesmo com tudo isto, não se chega a uma
solução, e quando não se chega, então não tem solução doutrinal, mas
tem uma dogmática.

| Aluna: Mas aí o fato e o dogma ficam insolúveis?]


O dogma é um fato, ele não é doutrina. O Papa vai lá, reza, se
recolhe, vai e daí diz: “Olha, Deus me disse que é assim”. Note bem:
não é uma coisa que o Papa pensou, não é uma elaboração intelectual
dele; é algo que lhe foi imposto de alguma maneira. Você pode passar
o resto da sua vida tentando justificar por que é assim. Aí você está
transformando em doutrina.
Uma doutrina tem que poder ser defendida dialeticamente. Como é
que você vai defender dialeticamente a ressurreição de Nosso Senhor
Jesus Cristo? Você não pode, porque é dado, é um fato, não é uma idéia,
não é uma opinião, não é uma teoria que você pode defender.

[Aluno: Você compra e... como você não pode defender tirar mais
uma árvore, por exemplo?\
Você não pode defender dialeticamente uma árvore,

[Aluno: É isso, é...]


Exatamente. A chuva, o sol, você não pode defender. É um dado. E
claro que os dados podem ser falseados: você pode dizer que uma coi­
sa que aconteceu é uma coisa que não aconteceu, mas isto não é uma
discussão doutrinal, é uma discussão histórica. E se você vai discutir
esses dados da Revelação cristã, então toda a impugnação de um dado
é feita por um motivo racional, nunca irracional: você não pode rejeitar

36
o ilado só porque você não gosta, Se essa rejeição implica a adesão a
hipóteses mirabolantes, então ela não tem razão cie ser.

| Aluna: Mas, aí que entra Schelling? \


Não. Não é matéria de fé. Não é mesmo. Se estou lhe dizendo:
Olha, aqui você lê o Antigo Testamento c vê todo o encadeamento de
anúncios que tem...

[Aluna: (...) você tinha dito antes que ê pela doutrina daquilo que
não pode ser discutido dialeticamente... ]
Não!... Tudo que é doutrina pode ser discutido dialeticamente, sim.
O que não pode é um dado. Como é que você discute dialeticamente,
aí, o exemplo dele, uma árvore? Só pode discutir aquilo que se diz a
respeito da árvore.

[Aluno: E o que seria objeto de fé dentro do cristianismo?)


Já vou chegar lá. Veja, toda esta aula aqui, esse assunto não é filosofia,
mas é o enunciado de um fato que teve um impacto filosófico monstru­
oso, e até hoje esse impacto está aí. A presença do cristianismo é mais
ou menos para nós o que era a presença do mundo físico para os gregos.
Sem passar por isso, não se pode entender o que aconteceu adiante.
Mas, voltando: o que pode ser discutido dialeticamente c só o que se
diz, é o que se afirma; um fato, ou uma narrativa, não pode. Se o sujeito
diz, por exemplo: “Olha, está me doendo aqui”, como é que você vai
discutir dialeticamente isso? Não é possível, é? Você pode negar; dizer:
“Você está fingindo, é mentira”, isso é uma possibilidade. Agora, se
o sujeito disser: “Olha, estou com apendicite”, isto é uma opinião, é
uma interpretação que ele está fazendo; está explicando a sua dor... Aí,
então, isso se pode discutir: “Não, isto não é apendicite, é outra coisa”.
Entendeu a diferença?

37
[Aluna: A impressão não pode ser discutida, não é? Por exemplo:
“Eu estou com dor”. J
Não, ela não pode scr discutida, isso é uni fato. Ou é uin fato ou é
mentira, ou c uma...

[Aluno: A discussão a respeito disso não é uma discussão dialética;


ela vai ser um pseudo...)
Não, pode ser uma discussão histórica. Você está negando a veraci­
dade do depoimento. Por que negar a veracidade do depoimento?

[Aluna: Só com outros fatos que sejam...]


Só com outros fatos que os impugnem ou com razões que os im­
pugnem. Porém...

[Aluno: Não é uma questão de fé negar um fato, não é?]


Não, não c. Agora, se para negar o fato você é obrigado a recorrer a
hipóteses mirabolantes, então é uma negação irracional. Sc você nega a
versão que o próprio Jesus Cristo dá de sua vida - “Olha, não foi nada
disso que aconteceu; o cara não era o Verbo de Deus, não foi nada disso”
então, tudo foi um tecido de coincidências muito mais miraculoso
do que o que ele está contando. Pessoas afastadas três mil anos umas
das ouiras combinaram entre si para produzir um efeito fictício no ano
zero da era cristã. É tão absurdo, é tão estúpido, que não há motivo
para você impugnar isso.

[Aluno: Qual é a atitude dos judeus diante desse fato?]


Esse é outro problema. Porque, se a Nova Aliança confirmava a an­
terior, isso quer dizer que a anterior podia scr cumprida de dois jeitos,
do jeito antigo e do jeito novo, senão a religião judaica teria acabado.
Quer dizer que uma parte dela, sob certos aspectos, c absorvida na nova,

38
mas, sob outros aspectos, não podia ser revogada. Aí surge lodo uni
jogo entre a Lei antiga e a Lei nova, que é uma das coisas mais bonitas
da história humana. Pelos anos seguintes, aqueles que ficam na fórmula
antiga até hoje não sabem o que fazer com o tal do Jesus Cristo, e este
e o grande problema da história. E por isso que a conversão dos judeus
é considerada a etapa final da história humana. Na Bíblia, está assim, o
fim do mundo é antecedido pela conversão dos judeus, o que significa
que, se tivessem se convertido, já teria acabado.

| Aluno: Tem gente que tenta precipitar o processo, não é? Em vez


de converter, tenta eliminar e pronto.]
É, se malar todos, daí não temos mais esse problema.

[Aluno: Mas ele não acaba mais?]

[Aluna: A santidade e o mundo não acabam mais. ]


Você pode dizer que a história do inundo é medida daí para adiante
pela relação entre a Lei antiga e a Lei nova. Tudo o que se passa na
história ocidental pode ser contado pela relação entre o princípio da
Lei e o princípio da Graça, que às vezes parecem se identificar e às
vezes parecem ser antagônicas. Isso aí é um mistério que não me cabe
explicar. Eu sei que é assim.
A partir do advento de Nosso Senhor Jesus Cristo, todo o restante
da história humana é medido por esta régua: de um lado tem a Lei,
do outro lado tem a Graça, No fundo são idênticas, mas só no fundo;
na superfície da história, às vezes aparecem como antagônicas. Por
exemplo, uma coisa interessantíssima: muitas das escolas gnósticas
apareceram com a idéia de que seria preciso colocar um intermediário
entre este baixo mundo, que é o mundo da Lei, da fatalidade, etc., c
o Deus Eterno, que é o Deus da Graça. Para isso é que os gnósticos

39
inventaram outro Deus, que ficava no meio. (...) Por quê? Porque eles
estavam vendo uma contradição entre a Lei e a Graça. Então diziam:
“Ah, então tem um Deus bom e um Deus ruim”. Esse já é um efeito
colateral disto aí. Quando, por exemplo, um povo opta pelo socialismo,
o que ele está fazendo? Está dizendo: “Aqui vamos fazer um negócio que
vai estabelecer a total unanimidade junto com a total espontaneidade e
liberdade”. Não é isso que estão prometendo?

[Aluna: Uma sociedade perfeita, j


O que é isto? Isto é: “Vamos dar um jeito entre a Eei e a Graça”.
Ainda estão vivendo esse problema, quando cabe a nós saber que a
solução deste enigma só Deus tem, nós não temos. Sabemos que, em
algum ponto, e de algum modo, a Lei e a Graça se articulam. Como,
isso cu não sei.

[Aluno: A í isso é questão de fé?]


Não, isso não c uma questão de fc, é questão de lógica. Devem se
articular porque vêm da mesma fonte. E como dizia Santo Tomás de
Aquíno: “Deus não pode revogar a lógica de Aristóteles”. Deus ê onipo­
tente, mas isto não pode fazer. E, por outro lado, vejo que na prática eles
tem conflito, mas também o conflito não é constante. Pelo lado lógico,
vê-se a unidade da Lei e da Graça - e no mundo empírico, ora se ve a
unidade, ora se vê a contradição. A unidade está predominando, mas
não totalmente. Tem um monte de coisa que a gente não entende. Mas
não vamos entrar em considerações sobre o fim do mundo; não é isso;
o objetivo aqui não c esse, nem é um curso de cristianismo.
Para entender a história desse período, a primeira coisa que se tem
que entender é que o cristianismo, como qualquer outra religião, não
surge como doutrina, e o negócio da fé... Ora, o sujeito chega com um
livro c diz: “Olha, você vai acreditar nisso porque é a palavra de Deus”.

40
Você vai acreditar pela confiabilidade da fonte: sendo u palavra de Deus,
d e não vai mentir, então você tem que acreditar. Agora, por que eu bei
de acreditar que isso é a palavra dc Deus? E também pela confiabilidade
da fonte? Não pode ser. Acredito porque a fonte é confiável. Por que
acredito que a fonte é confiável? Então se entende que a palavra fé tem
dois sentidos: deve-se aereditar no que Deus diz porque foi Deus que
disse. Como é que se sabe que foi Deus que disse? isto não pode ser por
fé, tem que ser por outra coisa. Deus tem que dar razões suficientes para
que sc aceite que foi ele que disse aquilo, e para que daí se acredite no
restante do que ele disse também. Você tem que ter razões para acreditar
numa parte até o ponto cm que descobre: “Então, espera aí, isso não sou
eu. foi Deus que falou”, daí ao resto você dá uma credibilidade, mesmo
que não tenha provas. Está entendendo?

[Aluno: Mais ou menos. O limite é meio tênue demais. Onde acaba


a minha confiabilidade, porque tenho fatos suficientes para consubs­
tanciar essas... E onde começa...?]
Quando eu era moleque, viajava frequentemente com meu pai, e
às vezes ele mc deixava sentado no trem e ia ao bar tomar café, fumar
um cigarro; às vezes ele me mandava um recado: “Olha, seu pai falou
para você ficar quietinho aí e esperar que ele vai voltar”. Muito bein,
acredito em meu pai. Mas como é que vou saber que foi meu pai mesmo
que mandou o recado? São duas coisas complctamcnte diferentes: uma
é a confiabilidade da fonte, outra coisa são as razões de se aereditar
que a fonte é exatamente esta que alega ser. A confiabilidade da fonte
quer dizer, por exemplo, se Moisés diz para os indivíduos: “Olha, nós
vamos conseguir escapar daqui, mas tem um jeito”. — “Quem foi que te
ensinou?” — “Foi Deus.” Vamos acreditar porque foi Deus. Mas como
é que vou saber que foi Deus? Isso quer dizer que, para que se acredite
no restante, para que se acredite na promessa por fé, é necessário que
se acredite na narrativa por outros motivos. Deu para entender?
I 41
[Aluno: Entendi. J

[Aluna: Esses outros motivos não são questão de fé.]


Não pode ser questão de fé. Tem que ser o fato brutal!

[Aluna: Você tem que ter reconstituído até o raciocínio de "Porque


aquilo lá teve...”.]
Ou vai ser uma argumentação racional, no caso de você não ter a
experiência direta, ou vai ter que ser um falo que não tenha jeito de
você negar. É simples, você faz um teste: pega cem pessoas crentes
-cem protestantes, católicos, judeus, qualquer c o isa -e cem militantes
socialistas, nazistas, o que você queira. Pergunta para os primeiros:
“Deus costuma atender às suas preces, ou ele sempre diz que não só
para testar a sua fé?” — “Não, Deus geralmente atende. De vez em
quando, tem algum negócio que ele não atende, eu não sei por que, mas
ele deve saber." Agora você pergunta para os outros: “Quando foi que
este regime pelo que você luta atendeu às suas promessas?”— “Nunca.”
— “E você continua acreditando? Isso é que é fé!”
Você está entendendo? Porque se Deus nunca tivesse quebrado meu
galho... Eu estou com 55 anos, tudo que eu peço ele diz que não, e eu
estou lá [orando|... Não éassim? E os caras que acreditam cm socialismo
dizem assim: “Ah, o socialismo real foi urna porcaria, mas o próximo vai
ser bom". Haja fc! Eu prefiro ter fc num Deus que geralmcntc atende;
de vez cm quando ele não atende c faz um negócio que cu também não
estou entendendo o porquê, mas como das outras vezes ele atendeu, sei
que é leal. não vai me sacanear. Todo crente dirá isto: “Deus geralmente
atende”. Todos vão dizer isso. Pode ser que algum diga: “Olha, nunca
fui atendido”...

42
[Aluna: Conto com um fato curioso que não é atendido: todos os
meus colegas na Vacuidade que conheciam um pouco a Bíblia gostavam
só do livro de Jó, porque eles achavam que aquilo retratava o que era
Deus, e o resto era tudo... Isso é geral, assim. \
Ah, isso é incrível! Só que acontece o seguinte: Deus aprontou uma
para Jó, mas aprontou depois de ter atendido às preces dele ate os setenta
anos! De repente diz: “Bom, agora eu vou armar uma aqui para você...”.
Não é? E o Abraão: “Não, tu vais lá sacrificar o teu filho”. É mentira,
não vai fazer nada. Quantos anos tinha Abraão quando aconteceu isso?
Acreditar num Deus que faz um negócio desse o tempo todo, isso é um
pesadelo! Então vejam que Stalin, Fidel Castro, Adolf Hitler nunca
cumpriram nada, e o pessoal todo está acreditando. Não c possível!
A recusa dos dados da Revelação é burrice, c pura falta de inteli­
gência, não é um problema de fé. A fé pressupõe um conhecimento.
Suponha que você é o leproso, e tem lá um sujeito que era cego c está
vendo, outro que estava morto ressuscitou, etc. Você diz: “Mas se o
camarada fez tudo isso, ele também pode curar a minha lepra. Não
tenho prova nenhuma disso, de que ele vai fazer isto, mas sei o que já
fez. Além disso, estou vendo o homem”.

[Aluno: Mas aí entra a questão da narrativa: o direito (...). Isso


aconteceu mesmo?...]
Bom, então voltamos àquele ponto: o que se pode c negar o tes­
temunho, a veracidade do testemunho. A negação da veracidade do
testemunho só é logicamente viável se ela é baseada ou num outro fato
que o impugna ou num exame racionai suficiente. Agora, se para negar
aquilo você logicamente leria que fazer uma construção hipotética muito
complicada, então a negação c idiotice.

[Aluno: É, mas e se não for preciso fazer essa negação?]

43
M a s é, p o is é is s o q u e e u e s to u d iz e n d o .

[Aluno: Não, pois é, mas (...) é o seguinte: já estava tudo isso


previsto no Velho Testamento. Algumas pessoas foram lá, pegaram
o que estava no Velho Testamento e criaram uma história que fosse
coincidente com isso... (estou colocando isto hipoteticamente).}
Sim. e como é que eles fizeram para impor essa história para todo
mundo?

[Aluno: Pois é. E com alguns conhecimentos empíricos, ainda que


rudimentares, de técnicas (...) ele vai, como Aristóteles, avant lalcttre;
já precedia a ciência moderna de, por exemplo (...).]
Sim, para isso você precisaria supor que houve um planejamento.
Ou foi espontâneo?

[Aluno: A pergunta que faço é a seguinte: essa hipótese não é menos


mirabolante do que o sujeito ser Deus?]
Não, essa hipótese c totalmente mirabolante. Porque isso aí pres­
suporia... Veja, uma operação publicitária desse tipo não nasce assim,
tem que ser planejada, discutida, dá um montão de trabalho, c preciso
treinar as pessoas para isso...

[Aluno: Ou ter sido ajudada por uma série de acasos...]


Acasos? Entramos na “loteria esportiva”. Veja pela lei das probabi­
lidades: c mais fácil o sujeito ressuscitar do que acontecer tudo isto por
uma sequência de acasos que vão se encaixando, encaixando, encaixan­
do... Não é possível. É mais fácil se aceitar um dado estranho do que
uma multidão deles! A hipótese da conspiração é absurda. Esse pessoal
vivia se reunindo c conversando, um fazia pregação para o outro. Você
não vê em parte alguma um único documento dizendo: “Olha, vamos

44
combinar de enganar o terceiro”. Não tem nenhum testemunho, não
leni uma ata dessas reuniões. Ecomo é que você vai lazer um plano tão
complexo e manter tudo aquilo na memória?
K como no caso do Hitlcr: “Não, ele não sabia que os caras estavam
matando os judeus”. Olha, você tem que ter alguma prova de que houve
um planejamento. Por exemplo, aqui tem um campo de concentrarão.
De onde surgiu o campo de concentração? Ah, está aqui uma planta,
e tem aqui um orçamento; eles compraram tijolo, compraram isso,
compraram aquilo, compraram gás... E cadê a nota de compra do gás?
Tem! Agora, se apareceu tudo aquilo do nada...

|Aluna: No mínimo um testemunho contrário. J


Isso c a mesma coisa que dizer: “Olha, ninguém fez os campos de
concentração; eles apareceram sozinhos por um tecido de coincidências:
caiu um tijolo, depois caiu outro, depois caiu gás, caiu o judeu lá den­
tro”... Por uma coincidência, exatamente como Hitler linha escrito no
Mein Kampf. É uma hipótese tão absurda quanto! Simplesmente não é
possível. Estou há trinta anos pensando nisso. O relato do Evangelho
é confiabilíssimo, e todas as discussões em torno são imbecis, loucas,
paranóicas. Tudo por quê? Olha, está lá um sujeito chamado Jesus Cristo,
nunca fez mal a ninguém, dizem que ajudou umas pessoas... Por que
eles iam inventar essa história, enganar lodo mundo e, mais ainda, iam
compor uma “equipe de publicitários” para enganar o inundo, e não
sobra uma única ata dessas reuniões, não sobra um único testemunho?...
Não é possível isto! A hipótese é tão mirabolante, tão louca, que acho
que o simples fato de levá-la a sério durante dois minutos já é prova de
debilidade mental. Eu não desconfio de nenhum dado da Revelação, nem
da Revelação judaica, nem da islâmica, nem da budista, dc nenhuma.
Essa gente não está aí para mentir. Você pensa que é o quê? Que eles
são o Duda Mendonça? Existe o problema da qualidade das pessoas.

45
Então, não é a fé em Deus, simplesmente. A fé é no testemunho.

[Aluna: Outro dado pode ser levantado a favor dessa veracidade...]


Eles inventaram tudo isso só para os romanos jogarem eles para os
leões comerem. Foi isso o que eles ganharam.

[Aluna: Justamente. Os apóstolos sofreram martírio. Se isso...]


E, exatamente! “Vamos inventar aqui um negócio; o que vamos
ganhar com isso?” Um vai ser crucificado, outro vai ser jogado para
os leões, outro vai ser cortado cm pedaços... Propõe isso para o Duda
Mendonça. Nenhum publicitário vai fazer um negócio desses por este
preço. Simplesmente isto não é razoável! É muito rebuscado, muito
artificioso. Os dados básicos da Revelação são os dados básicos da his­
tória humana, e não digo isso só com relação à Revelação cristã, não.
A história das religiões é feita disso, é o critério.
Uma vez escrevi um texto dizendo o que é religião c o que não é.
porque hoje em dia o Estado leigo moderno não tem condição de saber...
Sc invento o “culto da...”, como escreveu aquele padre (...) o livro A
fraternidade Cósmica do Repolho Místico1 (é de um humorista que
foi frade, um cara engraçadíssimo, muito melhor do que o Veríssimo e
todos esses). Invento aqui a “Fraternidade” e chego lá no Ministério
c digo: “Olha, quero registrar isso aqui como entidade religiosa”. O
ministro não sabe se é ou se não c, então diz: “Por via das dúvidas:
entidade religiosa”.
Por causa dessa deficiência mental do Estado moderno, não se sabe
mais o que é religião e o que não é, e por isso mesmo acham que, se
você está registrado como entidade religiosa, então tem o direito de
pregar o que quiser, e quem quiser acreditar, acredita. É claro que isso é
uma palhaçada, é claro que isso é uma mentira, mas tem que ter alguns
critérios para se separar o que é uma religião do que não é.
' Alexandre Ramos da SILVA (Irmão Agostinho). F raternidade Cósm ica
do liepollro M ístico. Curitiba: Peregrina, 2000.
46
A origem da religião, eia por si mesma já enuncia a história, ela já diz
se é uma religião ou se não é. Mas as religiões <|ue o são tle verdade são os
pilares da história humana. O sujeito negar isso ai, não dá para acredil ni­
nem em ciência, não dá para acreditar nem que ele existe. Ele vai chegar
num absurdo tão grande que não dá para continuar.

[Aluna: Os messianismos lipo Antônio Conselheiro, eles estariam


pegando, se inspirando na história de f...J.]
Tudo o que acontece na história humana, tudo, é imitação e repe­
tição de arquétipos que estão na fundação das religiões. Essas imita­
ções e repetições vão se diluindo, diluindo, ate virar o seu contrário,
virar um negócio caricatural. Elias Canetti diz que toda a história
ocidental pode ser explicada pelo seguinte: até uma certa data, as
pessoas eram educadas na base dc que tinha havido Cristo, que elas
tinham crucificado c carregavam essa culpa. De repente, passaram a
dizer o contrário; elas é que eram o Cristo crucificado, e agora tinham
que cobrar satisfação de todas as outras: “Não, fui eu que fui crucifi­
cado, foram vocês que me crucificaram". E daí entrou o politicamente
correto, todo mundo é vítima.
Foi isso mesmo que aconteceu. Mas o que é isto? Esse negócio da
vitimização - “Ah, sou vítima, então preciso de uma indenização aqui,
preciso...’' -, isso é inversão total. Porque, considerado sob um certo
aspecto, todo mundo c vítima dc alguma coisa. Ou todos nós arcamos
com as culpas ou, se um de nós se isenta, ele passa a ser o inocente
sacrificado, então ele é Deus. E é esse mesmo o problema: as pessoas
têm idéia dc que são Deus. Cada um acha que é Deus e que os outros
são aqueles que crucificaram o inocente. Não, é o contrário, fomos
nós que crucificamos o inocente, nós todos. Então não tem nada que
um pagar para o outro.
Esse negócio da fé, isto é uma fonte de confusões absolutamente

47
miserável, e a ênfase vai aumentando com o tempo. Já a partir do século
XIX, as pessoas acabam achando que tudo quanto é religião é matéria
de fé. O que na religião é matéria de fé é somente a fé na promessa, não
na narrativa, nem na doutrina. A narrativa é provada com testemunho e
a doutrina, com argumentos. E a promessa? Bom, se você já acreditou
em tudo isso, acredita na promessa lambem, porque o cara que já fez
tudo isso, já ensinou tudo isso, não vai estar lhe sacancando.
Aquilo que é provado, demonstrado - ou por experiência direta, ou
por testemunho é incorporado na doutrina. A ressurreição de Nosso
Senhor Jesus Cristo, ela em si não é uma doutrina, mas quando mais
tarde se formula a doutrina, se incorpora nela este fato. Mas não quer
dizer que ele seja doutrina: ou é um fato, ou não é nada. Portanto, a
discussão básica não é doutrinal, é do testemunho. Então, o ponto básico
que vai separar o cristão do não-cristão não é a crença numa doutrina,
mas a crença num fato.
Ora, o fato por si mesmo não tem como ser objeto de fé, a não ser
no sentido da iidedignidadc do relato. Agora, uma coisa é você acreditar
que aconteceu isso assim porque teve gente que assistiu c contou, e não
tinha nenhum malandro no meio deles, não tinha nenhum publicitário,
ninguém estava ganhando dinheiro com isso, e então se acredita por
fidedignidade no relato. Daí vai ter o juízo final, vai ter a ressurreição.
Essa parte ninguém viu, você acredita pela confiabilidade da fonte que
lhe falou o resto. Isto c a fé. A fé significa apenas você não desconfiar
levianamente de quem nunca mentiu para você. Embora não possa ter
prova dessa promessa, tem prova de tudo mais. Mas, desta parte, do
futuro, você não tem.
Idiotas como Kant - porque Kant era um idiota perfeito em toda
a linha - acham que toda a religião é matéria de fé, tudo na religião
é matéria de fé, o que, evidentemente, é uma impossibilidade pura e
simples. Acredito na palavra de Deus porque é palavra de Deus. E por

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que acredito que é palavra dc Deus? Porque acredito? Porque sim?
Simplesmente não é possível. Ou aquilo tem a consistência de palavra
de Deus (e, portanto, “palavra de Deus” não é um escrito, não ê uma
doutrina, não é uma frase; “palavra de Deus” sao fatos, sao realidades,
são coisas, Deus escreve com coisas), então acredito nisso como acredito
que chove, que tem sol, que estou vivo - isso é um dado da realidade
ou não tem tal consistência c não acredito.
Em geral, a discussão acadêmica ou pseudo-acadêmica em torno dis­
so é boba; não existe discussão seria a esse respeito. Ninguém, nenhum
sábio de primeira ordem sc interessou por esse tipo de conversa. São
mais os bdetristas: Ernest Renan, o maluco especulador; Feuerbach:
“O homem inventou Deus por causa disso, mais isso, mais isso”... Para
você dizer que o homem inventou Deus, então ele inventou todos esses
milagres. Os milagres começaram a acontecer, c de vez em quando acon­
tece algum, tudo isso porque o homem inventou. Isso é uma besteira!
Porque o homem inventou alguma coisa, então de vez em quando ele
reza, pede algum negócio e acontece. Isso porque alguém inventou?!
Essa hipótese é tão artificiosa que não merece ser levada em conside­
ração. E uma hipótese criada pela imaginação pueril, uma imaginação
pueril amedrontada, desconfiada. No fundo, não é que ela não acredita
cm Deus; ela acredita num Deus maligno. E claro que isso é paranóia,
isso é realmente teoria da conspiração.
Mas o impacto do cristianismo não é o impacto de uma doutrina; é
essencial entender isto. As primeiras tentativas dc formulação doutri­
nal - e, portanto, dc apologética; e, portanto, de defesa retórica - são
bastante inadequadas. Pode-se ler, por exemplo, Tcrtuliano, que na sua
argumentação é de uma desonestidade horrível! Tem um sujeito cha­
mado Celso que escreveu uma defesa da tradição greco-romana contra
o cristianismo, e Tcrtuliano então refuta o sujeito, mas refuta daquela
maneira que parece o Congresso brasileiro, com uns argumentos muito

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safados. Mas é um escritor maravilhoso e totalmentc sincero, e é evidente
que aquilo que ele diz não pode ser incorporado na doutrina.
Com o tempo, vai-se acumulando então unia massa de escritos cris­
tãos, uns narrativos, outros de ensinamento moral, outros doutrinais
mesmo, teológicos, c essa massa tem que ser depurada. “De tudo isso dc
que estamos falando, do que aconteceu, o que vale c o que não vale?”
E é para isso que tem justamente os concílios, que vão fixando o que
é doutrina da Igreja e o que é aquilo que os cristãos falaram (vão ter
direito de falar um monte dc coisa). Mas mesmo o que um Papa fala não
se incorpora na doutrina, a não ser que seja um decreto ex cathedra,
que numa vida o Papa faz três ou quatro; o resto que existe c opinião
dele. O famoso decreto da infalibilidade papal só quer dizer uma coisa:
quando um Papa decreta um elemento de doutrina em acordo com tudo
que veio sendo ensinado pela Igreja na sua doutrina desde o início, ele
não erra; é só isso que quer dizer. E o resto do tempo? O resto do tem­
po ele pode errar em praticamente tudo, como de fato muitos erram.
Agora, falar em infalibilidade papal dá a impressão de que é uma coisa
absurda, que se tem que obedecer aquele sujeito faça ele o que fizer, o
que não é verdade.
Para que surgisse dentro do contexto cristão uma situação similar
àquela que foi vivida por Filon de Alexandria, ainda precisava correr
muito tempo. Por quê? Porque era preciso que a doutrina cristã estivesse
explicitada c que o legado grcco-romano fosse suficientemente conhecido
- uma condição que. de fato, não se cumpriu nos primeiros séculos. Não
se cumpriu, primeiro, porque a doutrina ainda estava expressa de ma­
neira muito rudimentar c nebulosa. O que se tinha era a recordação de
fatos ainda muito recentes, fatos cujas conseqüências ainda continuaram
a repercutir pelos séculos seguintes com toda perseguição, martírios e
milagres. Tudo aquilo ainda estava acontecendo; então, não era, eviden-
temente, vivido como doutrina, mas como acontecimento real. Para que

50
isso vire doutrina, é necessário que haja um grande afastamento c que
Ioda a fase dc narrativa e de discussão retórica tenha passado. Vemos
que os grandes autores do período escolástico, que é o supra-sumo do
pensamento cristão, praticamente já não sc dedicam à apologética, e
quando o fazem, não fazem apologética retórica como Tcrtuliano, mas
dialética, filosófica, como faz Santo Tomás de Aquino na Suma contra
os gentios. Mas isto é uma situação muito posterior; portanto, nada dc
projetar isto, e muito menos projetar a nossa situação atual sobre as
origens do cristianismo.
Isto também quer dizer que, quando um cristão dos primeiros séculos
toma posição a favor ou contra o legado filosófico grego, ele não sabe
direito do que está falando, porque não tem a expressão suficiente da
doutrina cristã para poder confrontá-la com uma outra doutrina, nem
tem o conhecimento adequado do legado grego, que já estava em plena
decomposição. Não podemos esquecer que um monte de livros tinha
desaparecido e que, por exemplo, quando se lê Tcrtuliano, sempre que
ele se refere aos filósofos gregos, sc refere à Academia, e ali na Academia
ele mete platônicos, aristotélicos, estoicos, cínicos, etc. - para ele, tudo c
Academia então se vê como sua informação era deficiente.
Não existe, então, a possibilidade de uma confrontação efetiva, a não
ser muitos séculos mais tarde. Precisa o quê? Pelo lado cristão, é preciso
ter tido muitos concílios e ter estabilizado um certo corpo dc doutrina;
pelo lado greco-romano, é preciso ter resgatado aquela papelada toda c
botado em ordem. Isso quer dizer que os primeiros confrontos, como se
vê cm Santo Irineu, em Tcrtuliano, em Orígenes, em Clemente de Ale­
xandria, não são uma confrontação sistemática c, pra valer, são apenas
um entrechoque de impressões: “Tenho impressão de que a doutrina
cristã diz assim, assim, assim; tenho impressão que ser cristão é isso
assim, assim, assim; e tenho impressão de que os gregos diziam aquilo
outro”. Mas quando você vai ver, há uma boa quantidade de fantas-

51
magorias, como existiam fantasmagorias no próprio Filon. porque ele
também conhecia a doutrina mosaica de maneira muito deficiente. Ele
nem falava hebraico! Conhecia através de uma versão, chamada Versão
dos Setenta - setenta eruditos judeus que fizeram uma tradução para o
grego. E fizeram a tradução para o grego por quê? Porque os filhos e os
netos já não sabiam falar hebraico, tamanha a confusão que estava.
Isso quer dizer que o judaísmo que Filon defende é um pouco duvi­
doso. Não se pode imaginar que o judaísmo é exatamente aquilo; é um
judaísmo tal como ele o imaginava. Ele não é um porta-voz autorizado
da ortodoxia judaica, é um filósofo que pegou o que sobrou de judaísmo
na cabeça dele e o defende. E o conhecimento que ele tem dos filósofos
gregos também é deficiente, porque ele mistura: mistura estóicos com
platônicos, atribui a um o que é do outro... Então, todo esse período
foi de uma imensa confusão, e essa confusão aparece no próprio Filon,
que está alheio à questão cristã.
Nesta confusão é que aparece um monte de seitas tentando resol­
ver existencialmente certas contradições que eles viviam na carne, de
algum modo. Essas seitas todas não podem ser consideradas filosóficas
por quê? Porque não há nenhum empenho de investigação; há um em­
penho em formular uma saída prática para um problema existencial, c
em nome da solução se inventava um pretexto doutrinal qualquer: “Ah,
não! Não é um Deus, são dois; teve um bom, outro mal...”. Isso é um
arranjo doutrinal que o indivíduo fazia, de certo modo, para expressar
o seu próprio desconforto existencial.
Esse desconforto que gera as seitas gnósticas é um elemento cons­
titutivo da condição humana. Isso quer dizer que “gnosticismo” não
é nem o nome de uma doutrina. Existem tantas escolas gnósticas que,
se você quiser reduzir aquilo a uma unidade, você morre louco e não
consegue. O que tem em comum cm todas elas - c Erie Voegelin sempre
insistiu nisto - é que o gnosticismo não é propriamente uma doutrina,

52
c uma expressão de um tipo de experiência humana que, transposto ao
plano doutrinai, cai na fantasia e no erro, na medida em que absolutiza
aquela experiência como se fosse a única possível. Quer dizer, como
pessoas que tiveram um trauma, c aquele trauma circunscreve, delimita
seu horizonte visível, elas não enxergam nada mais para fora daquilo,
como o sujeito que tem uma neurose de guerra.
Então o gnosticismo é uma expressão do sofrimento humano, do
sofrimento real, verdadeiro c até justo, que transposto em doutrina,
vira um pesadelo hipnótico, e isto reaparecerá. E reaparecerá no mundo
moderno com enorme impacto, sobretudo a partir do século XIX, na
Revolução Francesa... Quando você lê os escritos do Marquês dc Sade
ou vê aqueles personagens dc Dostoievski. como Ivan Karamazov, vê
a revolta total que eles têm contra Deus (eles fazem uma espécie de
julgamento dc Deus), sempre baseados numa separação entre Deus c o
homem. Bom, se existe um Deus onipotente e infinito, não tem um jeito
de você se colocar cm face dele para falar dele como objeto. E este é o
problema gnóstico fundamental: o gnóstico fala de Deus como objeto.
Todo o discurso gnóstico tem esse problema da auto-referência:
ele não se explica a si mesmo, acaba sendo sempre uma exceção à sua
própria regra. Isto mostra, evidentemente, uma falha, uma ruptura
básica na integridade da visão que o sujeito tem. Por isso mesmo não
pode ser considerado doutrina filosófica, porque a filosofia é a busca
dessa integridade, e não somente na esfera do discurso, mas na esfera
da ação e da conduta. Se o sujeito é um filósofo c busca a explicação
de alguma coisa, essa explicação tem que explicar a ele também: ele
tem que estar inserido na sua própria explicação; não pode ser uma
exceção. Por exemplo, a hipótese do Deus mau tem esse problema:
Deus é mau, c o condeno porque ele é mau. Isto quer dizer que cu
sou bom. E de onde saiu minha bondade? Se Deus é tão mau, porque
ele fez um sujeito bom? Isso quer dizer que o que você está vendo

53
no mundo é apenas o retrato da maldade desse suposto Deus, e não
de sua própria bondade. Sua bondade está ausente do mundo, c o
indivíduo que assim se sente não se reconhece naquilo que acontece.
Se ele percebe que há algo de bom nele, verá sinais dessa bondade
em tudo quanto é lugar. Mas como ele começa a falar de Deus como
objeto, c não também como sujeito - é um Deus que está fora e acima
dele, e não um Deus que está fora dele, mas está dentro dele também,
ao mesmo tempo então cria essa ruptura e essa visão “teatral” da
realidade. É o mundo como um palco que você está assistindo, e você
está fora. Isso é falso, falso na base.
Veremos, mais tarde, que esta falha da auto-referência, que já sc
percebe nesses gnósticos, introduz-se na Filosofia Moderna de tal modo
que cada uma delas é uma exceção a si mesma, denotando então uma
espécie de falha básica de percepção em praticamente todos os filóso­
fos modernos. Por exemplo, quando Maquiavel começa a elaborar O
Príncipe. O que é o príncipe? A Itália tinha sido invadida c estava com
grandes problemas, então ele começa a sonhar com um governante
superpoderoso que conseguiria unificar o país c expulsar os invasores.
Para fazer isso, o sujeito precisava concentrar um poder absoluto; para
concentrar o poder absoluto, ele precisava primeiro subir e depois matar
todos os seus concorrentes, inclusive aqueles que o ajudaram. Claro que
esse príncipe não existiu. Para aparecer um sujeito que se parecesse com
o príncipe do Maquiavel, passaram-se cinco séculos: foi Stalin, que se
parece vagamente.
Maquiavel, descrevendo aquela imagem idealizada do governante
onipotente, do governante maquiavélico mesmo (que prevê tudo, sabe
de tudo, sempre puxa o tapete dos outros e nunca puxam o tapete dele),
em nenhum momento pensa o seguinte: “Espera aí! Se sou eu que estou
dando a receita, estou ajudando o cara a subir, e depois ele vai querer
queimar a receita c matar quem fez a receita...”. Em um momento sequer

54
lhe ocorre esta idéia: “Se aparecer o príncipe, a primeira vítima dele serei
cu, porque sei o segredo, sou um homem que sabe demais”.
Maquiavcl está curiosamente ausente do mundo de Maquiavel: seu
mundo não é o mundo real no qual ele vive, é um mundo de teatro que
ele colocou no palco c observa como sc tosse um espectador de fora.
Maquiavel faz isso, John Locke faz isso, Thomas Hobbcs, Kant, David
Nume fazem isso; todo mundo faz isso; ate Níctzsche pelo menos. Aí
faz sentido se falar de uma visão gnóstica da realidade que sc repete no
mundo moderno, só por esse aspecto.
Isso não quer dizer que estou subscrevendo inteiramente a tese do
Vocgelin de que todas as ideologias modernas são de origem gnóstica.
Pode ser. pode não ser; ainda vai levar séculos para matar essa questão.
Mas, neste aspecto, que é o aspecto da quebra da auto-referência, sem
dúvida são. E, evidentemente, uma das causas dessa experiência dolorosa
que cria o gnosticismo é aquela que já explicamos, que é a quebra da
polis, da ordem estatal; a quebra da cidadania, por assim dizer. E outra
causa é a própria invasão de doutrinas que chegavam do Oriente, cada
uma propondo a solução para todos os males humanos, mas. por sua
própria multiplicidade, provando que elas não podiam remediar mal
algum, porque elas eram o próprio mal.
Nesse período, o gnosticismo surge como uma expressão do Lotai
desamparo humano, ao qual nada resta a fazer a não ser jogar a culpa
em Deus. E onde se repetir uma situação similar surgirão de novo essas
expressões gnósticas que só podem ser neutralizadas pela recordação
do início da coisa: “Como é que entramos nisso? Qual é o caminho
seguido dentro do labirinto para chegar até aqui?”.
Não é necessário dizer que a ideia de que tudo quanto há na religião
é matéria dc fé é uma idéia gnóstica, porque vai separar, evidentemente,
o mundo do conhecimento e o mundo da fé. Se fosse assim, a fé seria
impossível, pois a fé é a crença pela credibilidade da fonte, a qual su-

55
põe o conhecimento da credibilidade da fonte, que, por sua vez, não é
matéria de fé. Vocé acredita no que seu pai disse porque sabe que ele
é seu pai. E você sabe que ele é seu pai por quê? Também é matéria de
fé? Não, você tem que ter tido algum indício. Não é o primeiro sujeito
que chega na sua casa, toca a campainha: “Eu sou seu pai, você c...”.
Não é assim também.
Uma montanha de problemas filosóficos surgirão daí para adiante
dessa ruptura da integridade da visão do cosmos, que se expressa
justamente nessa propensão gnóstica dc encarar a realidade como sc
fosse uma coisa projetada no palco. Praticamente todos os problemas
filosóficos, os grandes erros e desastres filosóficos que acontecerão muito
mais tarde no mundo moderno, tem aí a sua raiz, c é por isso que sem
esse estudo do cristianismo, das origens do cristianismo, é impossível
entender o que se passou depois. Isso quer dizer que ainda estamos
vivendo o drama da relação dialética entre a Lei c a Graça, dentro do
qual surge uma quantidade de sofrimento muito grande, que só vai se
desfazendo aos poucos, ã medida que a mensagem cristã vai chegando
até as pessoas c elas vão se integrando dentro de uma ordem cristã - o
que também não era fácil, pelo simples fato de que não havia doutrina
cristã.
A coisa dependia de uma propagação enormemente problemática,
pois o sujeito que ia pregar, levar a mensagem cristã, ele era o portador
do Evangelho, o portador da Boa Nova. Ora, para ele ser portador da
Boa Nova, ele precisava ser não somente um portador, precisava ser
um sinal dela. Isso quer dizer que aqueles que foram pregar - como,
por exemplo, São Patrício, que foi cristianizar a Irlanda - não estavam
levando uma doutrina, eles estavam levando uma notícia e uma prova.
A prova, o que era? Eles mesmos. Vê como isso é complicado?
Na história da evangelização dos povos, há uma sucessão assombrosa
de milagres que, evidentemente, funcionava muito mais do que qualquer

56
doutrina. Acreditava-se na doutrina por quê? Por causa da confiabilidade
do portador. E onde está a confiabilidade dele? Está na sua conduta,
na santidade e no milagre, c não na doutrina. Não é uni problema de
retórica, é um problema de testemunho, Para virar um problema de
retórica, já é uma segunda fase. É preciso que toda esta etapa tenha
passado e que se tenha tido tempo de estabilizar uma apologética mais ou
menos padronizada. O que é uma apologética padronizada? Será aquela
que teoricamente deveria funcionar na ausência do portador santo, o
que já é um negócio altamente problemático, porque aí vai haver uma
persuasão meramente intelectual na base do possível. Você vai ler tudo
aquilo e dizer: “É, faz sentido, pode ser assim”. Mas cadê o portador,
cadê a confiabilidade do portador? Não tem. Este é um dos problemas
da suposta evangelização da America Latina, que nunca aconteceu: foi
uma evangelização retórica c, portanto, permaneceu superficial.

[Aluna: Nem mesmo Anchieta, com o trabalho dele, recomeço?)


Pode até ser, mas é muito pouco. Se você perguntar quantos santos
tem no Brasil, tem uma beata italiana, isso que eu sei. E como c possível
o maior país católico do mundo, depois de cinco séculos, não ter nenhum
santo? Uma vez, conversando com Whilall Perry, que é o maior estudioso
de religião comparada no mundo, ele diz: “Olha, dizem que o Brasil é
um país católico, mas não é, não. Aquilo lá é tudo macumbeiro”. Fiquei
ofendido, mas depois vi que é verdade! Então é evidente que...

[Aluna: Tem uma Nossa Senhora para... Ela é Aparecida para ser
alguma coisa que
Escuta, mas isso aí tem... Lá a Irlanda tem dez santos por metro
quadrado; é uma história de milagres assombrosa. Todo lugar tem isso:
na Espanha, na Itália, na França... Aqui a cristianização nem começou.
Só se começar com Leonardo Boff.

57
Sim, tem algumas coisas, mas compara islo com a história da evan­
gelização da Europa. É de uma pobreza atroz! Então, o que chegou aqui
não é o cristianismo. É, assim, uma vaga recordação do cristianismo. Por
isso mesmo, nossas discussões a respeito são superficiais, porque não são
baseadas no fato, na experiência; são baseadas em palavrório. Tem-se
muita retórica, mas ninguém sabe do que está falando.

[Aluna: Talvez porque a colonização foi mais de exploração do que


uma colonização de desenvolvimento, não é? Teve mais o sentido de
exploração. ]

[Aluno: Os Estados Unidos têm santos?]

[Aluno: Os Estados Unidos têm ? Mais do que o Brasil?]


Nossa, tem um monte! Vejam, no meio protestante não vai ter esse
conceito de santo, mas, se você lè a história, meu Deus do Céu, se
aqueles caras não eram santos, não sei o que eram!

[Aluno: Os Estados Unidos têm mais ricos que o Brasil.]


É, aqui houve um projeto de ocupação do território. Por uma coin­
cidência, no território também tinha gente, mas era pouca. Na Europa
já era o contrário, não tinha espaço, o que tinha era gente. Acho que é
bem diferente você ocupar um território no qual, por coincidência, tem
lá uns índios - então chama lá um jesuíta para dizer algumas coisas,
fazer um discurso para eles. Isso foi o máximo que aconteceu. O sujeito
vem aqui para quê? Os índios eram poucos, na verdade. Cinco milhões
num território desse tamanho! Eles eram menos da metade da população
de Portugal para um continente inteiro, e a maior parte das tribos se des­
conheciam completamente, não tinham contato algum, era um negócio
ralo. Então o esforço de evangelização era quase nulo; a maior parte

58
do esforço era para ocupar o território mesmo. E o que iam fazer com
o território? Ora, o primeiro sujeito que pensou em fazer alguma eoisa
foi Dom João VI. Ate lá eles não sabiam o que iam lazer. Portugal foi
tomando, invadindo, invadindo, mas nunca pensou: “Vamos fazer um
governo colonial, vamos fazer umas obras”. Só muito tarde eles foram
pensar nisto.
Em outros lugares, foi necessário organizar, porque foi muita gente.
Para a própria América do Norte foi muita gente, e para ficar. Aqui
ninguém vinha para ficar. Só um maluco ia querer ficar aqui, e quem
ficou é porque não conseguiu voltar, ou porque tinha um processo na
Europa, ou porque estava fugindo da mulher, alguma coisa assim. Outro
chegou aqui por um outro motivo... O motivo para ficar cra a própria
decadência. E ainda tinha uma lei dos índios: sc você matava um índio,
era obrigado a sustentar a mulher dele. Então matava o índio, levava a
mulher, matava outro, levava a mulher, ficava com quarenta mulheres
em casa! Daí, como ê que se ia fazer para voltar para a Europa? Os
motivos dc permanência foram puramente acidentais.
Mas não se nega que houve camaradas, naquele começo, com grande
poder civilizador cm certas regiões. Quando se vê o que eles construí­
ram no Nordeste, em Pernambuco, por exemplo, aquele sistema quase
feudal que eles construíram! O sujeilo, para fazer aquilo, precisava ser
um homem dc grande energia mesmo. Chegar num lugar que só leni
inato, uma paisagem hostil, a léguas do seu país de origem (e cie não
veio com uma comunidade unida, como foram os americanos, não; veio
com o soldado que ele pagou, com gente que veio a contragosto, com
o escravo que ele catou a laço), então eram grandes chefes guerreiros
esses caras. Mas foi tudo na base da porrada mesmo.
Não se pode negar: a parte mais bonita da 1listória do Brasil c militar.
As violências que fizemos são maravilhosas, mas também não fizemos
muita coisa além disso. Você vê que as cidades americanas são sempre

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construídas em volta dc uma igreja, de uma escola, de um tribunal, al­
guma coisa assim. Aqui é em volta do quê? Da fortaleza. .VIilicos foram
os grandes civilizadores daqui. É por isso que, se tirarmos os milicos da
política, não tem mais política. Eles nunca vão sair, isso é impossível.
Também não nos cabe explicar tudo isto, as consequências remotís­
simas de uma tardia expansão do cristianismo... Isso sem esquecer que
já era o cristianismo do Concílio de Trento. É no Concílio de Trento que
tudo vira doutrina mesmo: “Fechou aqui, a doutrina é essa e tem que
repetir igualzinho”. Por que se fechou assim? Para reagir à Reforma
Protestante, que tomou a direção exatamente inversa: não tinha mais
nenhuma doutrina, cada um pensava dc um jeito.
É curioso que, nesse sentido, pode ser que a doutrina católica seja
até a mais correta no seu conteúdo, mas formulá-la e fechá-la daquele
jeito, naquele momento, em oposição a um movimento que estava ex­
pandindo o cristianismo sem muita doutrina, aquilo foi um desastre,
porque daí começa o lado retórico. Por exemplo, os jesuítas foram gran­
des propagandistas do cristianismo, grandes retóricos... Então começa
o truque, o artifício: aqui não temos milagre algum, não temos santo
algum, mas tem aqui uma arte retórica infernal. Mas que cristianismo
pode sair daí? Os índios só acreditaram nisso porque eram boas almas,
porque eu não acreditaria, não. A gente aqui: “É o cristianismo? Bom,
então quero ver a santidade, os milagres. Quem é Jesus Cristo, não é
você? Você é o Cristo, não é? Cada sacerdote é o Cristo. Cadê? Cadê a
santidade, cadê o bem que você ia fazer?”. Ele tem que ver o sinal de
Deus; se não tem o sinal não tem nada, só tem retórica.
Toda a educação brasileira foi criada por jesuítas, na base da arte
retórica; então não tem cristianismo algum. E por isso que, no Brasil,
essas interpretações mirabolantes, agnósticas, pegam com uma facilidade
incrível, porque é tudo artificial: o cristianismo é artificial e a oposição
a ele é mais artificial ainda. E temos que sair disso, temos que romper

60
esse artificialismo da cultura brasileira, temos que entrar no campo
da realidade vivida, incluindo o elemento miraculoso. l’or incrível que
pareça, quem está fazendo isso boje são esses evangélicos, que de vez
em quando mostram isso aí acontecer.
Acho que com isto dá para entender o impacto e a origem da p ro b le­
mática filosófica subsequente neste drama dos primeiros séculos. Ainda
estamos vivendo isso, e pretendo demonstrá-lo mais para adiante.

61
I
Leituras sugeridas

POUDFKUN. Bernard Foi chrétien ne et cu ltu re classiqu e.


Paris. Brcpols, 1998.

deinem d'Alexandrie. L ei Strom ales, i-V. Trad.


Claude Mnndésert el al. Paris: Le Cerf, 1951-1981.

P1{A II. P. G. H istoria de la Filosofia. 7 cd.,


Madrid: BAC, 1997. 2 v.

DEM PF, Alois. I.u a m eo p eu in dei m un do en la K dad M edia.


Trail José Perez Kiesen. Madrid: Gredus. 1958.

1ÎOPS. Daniel. A Igreja dos apóstolos e dos m ártires.


Trad. Emérico da Gaina, São Paulo: Quadrante, 1988.

FUNK, F. X. H istoire de l'Église. Trad. Hyppolite M. Hemmer.


Paris: Armand Colin, s/d. 2 v.

63
Dados Internacionais cie Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do l.ivro, SP, Brasil)

Carvalho, Olavo de
Historia essencial da filosofia /
por Olavo de Carvalho - São Paulo: É Realizações, 2003.

Inclui um DVD.
Conteúdo: aula 1: História das histórias da filosofia -
aula 2: O projeto socrático - aula 5: Sócrates c Platão -
aula 4: Aristóteles - aula 5: Pré-socráticos -
aula 6; Período helenístico 1 - aula 7: Período heleníslico 11 -
aula 8: Advento do cristianismo.

1. Cristianismo - Origem 2. Filosofia - Estudo e ensino


3. Filosofia - História 4. Filosofia - Introduções I. Título.

03-6459 C DD-109

índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia: História 109

Este livro é a transcrição da aula c|uc


foi gravada no dia 13 de dezembro de 2002,
na E Realizações, em São Paulo - SP, Brasil.

Impresso pela Prol para a


É Realizações, abril de 2007
Os tipos usados são da família Dutch.
O papel é Chamois Bulk 90 g/m-' para
o miolo e supremo 250 g/m ’ para a capa.

Centres d'intérêt liés