Vous êtes sur la page 1sur 108

Outros livros de interesse

OS FASCISMOS
T.BURONeP.GAUCHON

Uma história descritiva dos movimentos fascistasna Europa


elaborada a partir de uma série de documer F que vão desde
volantes distribuídos em comícios. mania X s e programas
partidários, artigos em jornais anónimos X assinados. até
trechos de discursos e de livros dos líderes X fas
cismo. O método adotado pelos autoresé limpe' e des
critivo: cada capítulo e cada seção sâo apresentados por uma
breve nota. à qual se seguemos textos-documentos

ATRI)LICE ALIANÇA
PETE R EVANS
a classe operária::a burocracia e o est
A fim de analisar a recente acumulaçãode capital no Brasil à
uz de suacontinuada dependência.o autor focaliza nesselivro
as relações entre as empresasmultinacionais, os empresários
nacionais e empresas estatais que se desenvolveram no a revolucão permanente: teoria ou estratégia?
Brasil no decorrer da década de 1979

DAIDEOLOGIA recimento dos est s dostr


CENTRE POR CONTEMPORARY cuLrunAL STuolES(org.)
Esse livro aborda o constante problema da articulação de a crise do eurocomunismo -- cubo
estudos culturais com algumas teorias marxistas de ideologia.
Apresenta as exposições e comentários críticos de importan
tes teóricos da ideologia desde Lukács e Gramsci a Althusser
e Poulantzas. e uma panorâmica geral das abordagens socioló- trotski e as conseqliências da guerra.
gicas. Analisa, a seguir, os problemas suscitados pelas noções
de "subjetividade" e "individualidade'
a situacão da classe operária norte-americana

três setores da revolucão mundial

a picãodo irã

ZAHAR EDITORES
a cultura a serviço do progresso social
MARXISMO Marxismo Revolucionário Atual
REVOLUCIONARIOATUAL
g
l
Neste livro, ERNEST MANOEL faz uma análise ampla
do cenário mundial contemporâneoe das oportuni-
dades que proporciona a uma abertura revolucio-
nária para a democraciasocialista. Inicia seuestudo
com a análise da dinâmica económica e social das
sociedades capitalistas adiantadas da Europa Ociden-
tal num período de crise. e a estratégia necessária
para enfrentar as instituições democrático-burgue-
sas que dominam, tipicamente, a sua vida política.
MANDEL examina o ''modelo" da Revolução Russa
de outubro de 1917, que Ihe parecemaisadequado
aos países capitalistas adiantados do que às nações
em desenvolvimento; analisa a experiência da demcF
cracia soviética nas primeiras fases da revolução,
com o regimedos sov/etse a dualidadede governo,
concluindo com observaçõessobre a crise no eu-
rocomunismo
e a hegemonia
do reformismoe da
frente única.

Os movimentos antiimperialistas no Terceiro Mundo,


desde1945. constituem o tópico do segundocapí-
tulo. centralizado no desenvolvimentoda teoria da
revolução permanente. de Trotski. cujas origens his-
tóricas MANDEL examina desde sua formulação em
1905. como uma tentativa de identificar as forças
motrizes de uma possível revolução na Rússia,che-
gando à conclusão de que as tarefas da revolução
não podem ser as mesmas nos países subdesenvolvi-
dos e nos países atrasados. As lições das revoluções
iraniana e cubana são comentadas. com referências
também aos movimentos no Egito. SI'ria. Moçambi-
que e Angola.
O terceiro capítulo volta-se para as sociedadesdo
Leste. nas quais o capitalismo foi derrubado. Numa
análise marxista bem fundamentada. MANOEL anali-
sa a natureza e evolução dessas sociedades -- mais
notadamente da União Soviética -- ressaltandoo seu
caráter transitório e afirmando a possibilidadee a

continua na 2Q aba
Ernest Mandei

Marxismo
revolucionário
Atual

Tradução :
Waltensir Dutra

ZAHAR EDITORES
BIBLIOTECA DE CIÉNCIASSOCIAIS Rio de Janeiro
Ciência Pol ética
Índice

7
l ntrodução (Jon Rothschild)
Capa: Minam Struchiner 13
1. A Estratégia Socialista no Ocidente
Diagramação: Ana Cristina Zahar 15
O "Modelo'' de Outubro
17
Composição: Zahar Editores S.A. A Crise Revolucionáriae a Democracia Burguesa 29
A Experiência da Democracia Soviética 39
Dualidade de Poder e Governos de Trabalhadores
47
Resultados e Perspectivasno Sul da Europa
Título original : /?eKO/ut/onary A4arx&m Toda/ 58
A Crise do Eurocomunismo
6.1
A Hegemoniado Reformismo e a Frente Unica
Traduzidoda ediçãoinglesapublicadaem 1979 68
por New Left Books, de Londres. Inglaterra. 2. A RevolucãoPermanenteno Terceiro Mundo
75
Os Limites da Acumulação Dependente
© Ernest Mandei, 1979 82
A Revolução Permanente: Teoria ou Estratégia? 90
All rights reserved worldwide b y NLB
O Padrãoda Luta Antiimperialista
Direitos reservados. Proibida a reprodução (Lei n9 5.988) 93
A Lição do Irã 95
Cuba.1959-1979
Sul da África 100
101
O Aparecimento dos Estadosdos Trabalhadores
106
1981t 3. Os Regimes de Transição no Leste
107
Direncs para a língua portuguesa adquiridos por O Conceito de ''Transição"
ZAHAR EDITORESS.A. 114
As Leis do Movimento da Economia Soviética
Caixa Postal 207 [ZC-00) Rio de Janeiro 121
O Caráter Social da Burocracia
que se reservam a propriedade desta versão. 126
A Classe Operária, a Burocracia e o Estado
134
Impresso no Brasii Restauração Capitalista ou Revolução Política?
índice
6

138
Introdução
Europa Oriental 140
A Revolução Chinesa 144 Jon Rothschild
''Séculos de Transição''?
146
4. A Política do Internacionalismo Contemporâneo
153
Trotski e as Consequências da Guerra .. 161
A Guerra Fria e o Longo Surto de Prosperidade
165
A Disputa Sino-Soviética 177
A Situação da ClasseOperária Americana 186
Japão 190
Três Setores da Revolução Mundial 193
A Quarta Internacional 203
O Socialismo que Desejamos
9
8
marxismo revolucionário atual introdução

comissão de estudos económicos da FGTB, a federação nacional sindical


contexto da história e da teoria das crises capitalistas. The Z.ong }Vaves
of Cap/fa//sm l)ei'e/opment;,4 /1#arx/st V/ew (a ser publicado proxtmamen belga. Nessa condição, foi co-autor do relatório sobre a concentração do
poder económico, aprovado pelo congresso especial da FGTB em 1956.
te pela Cambridge Uníversity Press),baseadonuma série de conferências
Foi também diretor do semanário Z.a Gaucbe, órgão da ala esquerdado
pronunciadas na Universidade de Cambridge em 1978, representa um maior
desenvolvimento de sua pesquisateórica e empírica no funcionamento e Partido Socialista. cujos membros foram expulsos dessepartido em 1965
pela sua oposição sistemática às políticas oficiais de coalizão com o Parti-
perspectivasdaseconomiascapitalistasdoOcidente. , .
do Social 'Cristão e às leis contra as greves aprovadas por essa coalizão
't"SÓ num passado relativamente recente. porém, o público geral
em 1 962.
tomou consciênciada importância de Mandeicomo líder político, como
k Mandei vem sendo. há mais de vinte anos, participante ativo de semi-
Lnn dos mais destacados teóricos da Quarta Internacional IQI). a organiza-
nários sindicais e de trabalhadores em toda a Europa, colaborando na edu-
cão mundial criada por Leon Trotski e seuspart:dórios em 1938 para inl-
cação de milhares de ativistas, dentro e fora da QI. O folheto /ntroduct/0/7
fo /Uarx/st fconono/cs. baseado numa apresentação feita numa dessasses-
sões. foi traduzido para muitas línguas e vendeu mais de 400.000 exempla-
res. Eram C/assSoc/ety fo Conomun/sm(Ink Links, 1978), introdução à
teoria marxista como um todo, publicada posteriormente.tem toda proba-
nou-se revolucionário eM 1939 e aderiu ao movimento trotskista em sua
bilidade de atingir níveis de difusão semelhantes.Até mesmoZ-ateCap/ta-
.+
//sm. um trabalho teórico difícil, foi publicado em dez idiomase vendeu
cerca de 70.000 exemplares. Os trabalhos de Mandei cobrem quase todos
os aspectos da política revolucionária, desde a teoria leninista da organiza-
ção partidária até a natureza da burocracia do movimento trabalhista. No
zes pelos alemães, fugiu da primeira vez; ao ser recapturado,foi ''julgado '
todo: seusescritosforam publicadosnum total de trinta ll'águas.' A bur-
formalmente por um tribunal nazista e deportado paraum campode pn-

iiui iz!;:,::i's.::
guesia reagiu a essetrabalho político ao seu modo: Mandei já teve sua en-

3 S$ZI
da organização reuniu os militantes europeus que haviam sobrevivido à
trada proibida nos EstadosUnidos, França,AlemanhaOcidental,Suíça e
Austrália. para mencionarmos apenas alguns países "liberal-democratas
cujos governantesconsideram sua presençacomo prejudicial à ''seguran-
ca nacional
guerra e seus camaradas de todo o mundo, Mandei foi eleito para o órgão
li."'ini;i.; b, l-t.,«.i.«l. N.l. p''m;""- d«d. «tã', "'"i-d. Mandei está. portanto, em condições excepcionais de apresentar uma
como o relator de política internacional em cada um dos congressosmun- sinopsegeral da análiseque a Quarta Internacional fez do cenário mundial
diais. realizados a partir de meadosda décadade 1950. Com o aumento do contemporâneo e das oportunidades que oferece à democracia socialista.
É essa a finalidade de /Uarx;sma cepo/uc/orar/o ,4fua/. As entrevistas aqu
Impactopolítico e do númerode membrosda Internacionala partirde reunidas. embora realizadas em diferentes épocas e complementadas com
1968. Mandei tornou-se uma dasprincipais figuras públicas do movimento
trotskista, defendendo suasopiniões contra críticas de outras correntes da perguntas adicionais, foram organizadas de modo a apresen.tar uma visão
movimento dos trabalhadores e contra ataques dos representantes da classe sistemáticada política mundial.** A primeira trata da estratégiada revolu-
l
ção proletária nos países capitalistas adiantados, com especial referência à
capitalista. Adquiriu, com isso. uma reputação de hábil polemista, em dis-
cussõescom adversários como Shirley Williams. do Partido Trabalhista Bri Europa Ocidental. A segunda examina a teoria trotskista da revolução per'
manqntee a estratégiaque ela impl.icaparaa luta antiimperialistae demo
crática, nos paísescapitalistas dependentesdo Terceiro Mundo. argumen

crítica geral da evolução dos partidos comunistas da Europa Ocidental na $

década de 1970. .. . . .
Embora a Qt tenha sido o centro da atividade política de Mandei, ele
teve também influência significativa êm outros setores. Durante as décadas . + Versões anteriores de partes dessasdiscussõesforam pub.Bicadas
na revista Cr/t/que
de 1950 e 1960, quando os trotskistas belgasparticipavam ativame.ntedo Commur7fsN tParis) e. em inglês, na /Vew Left Rer;ew { Londres)

Partido Socialista. ele mergulhou no movimento sindical, como membro da


10 marxismo revolucionário anual

tendo que astarefasdessaluta só podem serconcluídas atravésda revolução

À memória de
.JABRA NICOLA
árabemarxista e palestino trotskista pioneiro
o internacionalista mais impressionante
que conheci.
'b

IRHgl%il$!
ilh: '+

''>

tra ba Iho ?
1.
A Estratégia
Socialista
no Ocidente

lucro mundial?

A revolução mundial é um processo objetivo que dominou a história do


século XX. Mas a revolução mundial, como a economiamundial a que
corresponde, se desenvolve de maneira desigual. Até agora. as revoluções
socialistas -- mov mentos que envolveram a ação de massana eliminação do
capitalismo. mesmo que tal ação estivesseem grande parte controlada de
forma burocrática -- ocorreram em paísesrelativamente subdesenvolvidos:

:=ull::==:' '.:=:'',=ln:i'=:==.=='" : .':'nll;.;:;;l:


dado urbano -- e mesmo na Rússia. essa classe era socialmente fraca.
apesardo papel político de liderança que desempenhou.As principais for-
t mas de luta' revolucionária e as características centrais dos Estados que
surgiram dessas.revoluções foram influenciadas de maneira decisiva por
esses fatores.
Embora os marxistas revolucionários devam explicar as causasdessa
evolução, em caso algum devem .sugerir que o curso específico da revolu-
15
marxismo revolucionário atual aestratéga socialistano ocidente
14

rapa Ocidental em primeiro lugar.

O ''Mo(leio" de Outubro

quisto do poder. 0 que pensadisso?

Há várias questões diferentes combinadas nessapergunta. Devemos dist n-

ê:l;= É«;ã:..'T,i
,fi,m,çã.
«ã.éd.gmáti«,
m";im-m'""'';;. '
que somoslevadospela experiênciahistórica de mais ae meio secuio
Europa, em particular no sudoesteda Europa.
17
marxismo revolucionário atual a estratéga socialista no ocidente
16

pela primeira vez na Europa Ocidental.

A Crise Revolucionária e a Democracia Burguesa

tal situação inimaginável.


19
18
marxismo revolucionário atual a estratégiasocialistano ocidente

na Fiança ser caracterizado dessamaneira? 0u a Libertação? 0u os episó- é exaustiva -- a um denominador comum único. Mas podemos isolar dois
dios de maio de 1968? ou três fatores básicos.
Pr/he/ro. uma fase altamente desenvolvida de decomposição da má-
quina repressiva do mecanismo estatal. É um elemento decisivo na perda
de autoridade e iniciativa pela burguesia. Pode ser devido a uma guerra ou
aos efeitos desintegradoresque um golpe de Estado parcialmente fracas-
sado tem sobre importantes setores do exército, como aconteceu na Es-
pinha. Ou pode ser resultado de uma greve geral, ou de um levante de tra-
balhadores de uma força moral e política tãa grande que desintegra o exér-
cito a partir de dentro. como ocorreu nos dias que se seguiramaopt/tscb
de Kapp na Alemanha, em 1920. Segundo {o lado positivo da mesma
moeda). uma generalização, ou pelo menos um desenvolvimento amplo dos
órgãosde poderoperárioe popular.a ponto de criar umadualidade
de
poderes, com o mesmo impacto sobre a máquina repressiva O mecanismo
estatal burguês fica. é evidente, totalmente paralisado quando os conselhos
de trabalhadores e populares são bastante fortes para que a maior parte dos
serviços públicos se identifique com eles. Se o pessoal dos bancos recusa as
ordens do Ministro da Fazendaou do presidente do Banco Central, em
favor do conselho de trabalhadores do setor bancário.' então toda a admi-
nistração é paralisada. O mesmo acontece no setor de transportes, e assim
par diante.Seo fenómenosegeneralizaa ponto de incluir até mesmoseto-
res da polícia. é evidente que resultará numa paralisia total do mecanismo
estatal burguês e da capacidade que tem a burguesia de tomar iniciativas
pol íticas centralizadas. '
Mas é a force/ra dimensão. pol ítico-ideológica. da crise crescente que
mais nos interessa,porque foi. até hoje. muito negligenciada.Dera haç/er
uma crise de legitimidade das instituições estatais aos olhos da grande
' . ma;or/à da classeope/ár/a. A menos que essamaioria se identifique com
uma nova legitimidade em ascensão,será pouco provável a evolução da
crise num sentido revolucionário. Não digo que tal possibilidadeseja ine-
xistente. pois o desenvolvimento desigual da consciência de classe pode'dar
origem a certas combinações estranhase surpreendentes.Mas se usarmos
a palavra "legitimidade" em seu sentido mais geral. então o simples fato de
que as massasjá não se reconhecem num governo eleito pelo sufrágiouni-
versal - e talvez refletindo uma maioria de dois ou três anos, ou mesmo
seis mesesantes -- não basta para criar uma crise revolucionária. É uma
crise governamentalou ministerial, ou no máximo uma crise do regime,
mas não é ainda uma crise revolucionária autêntica. Deve haver uma outra
dimensão ideológicaamoral, pela qual as massascomecem a rejeitar a legiti-
midade das instituições do Estado burguês. E isso só pode ocorrer através
das experiências profundas da luta e de um choque intenso -- nao necessa-
riamente violento. ou sangrento -- entre essasinstituições e as asplraçoes
revol:ucionáriasimediatas das massas.
21
a estratégia socialista no ocidente
marxismo revolucionário atual
20 Bem. é essaa minha tentativa. que não Me parecetotalmente satisfa-

maneira mais correta. :; :j"

Acredita que Trotski estavaerradoquando.escreveu,a propósito dejunho


de 1936, que ''a revolução francesa começou"?

situação.
Existe. é claro. uma certa contradicão entre essatarefa poli'tecae

espero realmente que a revolução francesa tenha comecado'\ mas tam-


23
marxismo revolucionário atua] a estratégia socialista no ocidente
22
Não devemos esquecer que a preseça de soldados americanos foi limi-
tada no tempo e que eles pressionarammuito no sentido de serem manda-
dos de volta à sua terra. Além disso, mesmo sem qualquer situação de dua-

análisessuperobjetivistas
!:Blue:Eg: Uil!
111UR
as massasifforam
muito além de uma grevegeral de protesto e ocuparam
fábricas. es açoes ferroviárias, usinas de energia elétrica etc., demonstrando
com isso que levantavam instintivamente a questão do poder. .Se já exis-
E quanto à Libertação? tissem conselhosde trabalhadores e se uma parte do proletariado estivesse
armada. então julho de 1948 poderia ter criado uma crise profundamente
revolucionária na ltália. Tal evolução teria sido possível também na França
-- mas é evidente que com a ajuda do ''se'' poderíamos reescrever.toda a
história do mundo!

ta séria da classe operária.

Não estou .convencido disso. Há. é claro, tantos fatores desconhecidos.


implícitos nessetipo de questão, que é difícil dar umà resposta totalmente
satisfatória -- entramos no terreno da especulação e da contra-especulação
Parece-me.porem que os membrosdos partidos comunistasna época{e
que têm' um complexo de culpa do qual sem dúvida precisamse al:alar)
subestimam geralmente os fatores seguintes: a crise. chegando ao ponto de
motim. no exército dos Estados Unidos; o desejo dos soldados americanos
de voltar à sua terra tão depressaquanto possível; a pressãoda guerra no
Pacífico. que não havia terminado; a necessidadeque o imperialismo ame-
ricano tinha de estabelecerum controle completo do Pacífico e do Japão,
para assegurarsua hegemorlia mundial, o que significava a impossibilidade
de manter o grosso das suastropas na Europa Ocidental. l: . l..
Creio que o prestígio enorme da União Soviética e do Exército
Vermelho também é subestimado. bem como a extrema fraqueza política,
militar e moral da burguesia européia. Repito: a questão de ser ou não pos'
sáveltomar o poder me parecefalsa. O que é c/aro é que a re/açaode forças
poderia ter sido infinitamente mais favorável ao movimento dos trabalha-
dores se houvesse uma liderança comunista que não estivesse disposta a
liquidar as conquistas da resistência de massa.reconstruir o Estado burguês
e capitular ante as exigências da reconstrução económica burguesa. Se essa
liderança tivesse existido. poderia ter sida criada uma situação de duplo
poder, que bem poderia ter dado frutos numa fase posterior: 1947. 1948
ou 1949, é difícil dizer exatamente quando.
Y'
25
a estratégiasocialistano ocidente
marxismo revolucionário atual
24

!.
e como podem ser superadas?

nüidade é a seguante: na
27
a estratégia socialista no ocidente
2z marxismo revolucionário atuãl
pies órgão no qual todos os soviéticos se podiam expressar livremente. qual-

l:i iBilzl$xÊ ngiia ç;

legitimidade democrático-burguesa.
SÓ uma experiência real, indo além das resoluções. artigos de jornal

BãhÜÜi:a'm:.:leia':i:::i
número dessasvariações e combinações
Finalmente. eu gostaria de ressaltara importância absolutamente
isiva do controle dos trabalhadores. Embora a relação entre a democra
29
marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente
28
A Experiência da Democracia Soviética

.'

do poder.

tão real quanto possível?

i!;i:'i?!:iEui,ini ai iiiililii

burguês 'em' numerosos campos ' em particular, na admín straça: local,

a produção industrial aumentou acentuadamentee que o funcionamento


de restaurantes, teatros. educação e justiça em Barcelona, estimulado, entre
0 tra o "social-fascismo
distam.con
30
marxismo revolucionário atual
r a estratégia socialista no ocidente

Não somos cegos aos limites da democracia proletária. tal como Lê-
31

nin não o foi. Na medida em que o Estada não desaparece imediatamente,


na medida em que sobrevive, o mesmo ocorre com a direita burguesa e os
elementosda burocracia. A experiência da revolução russa,o pesadelodo
stalinismo. e o aprofundamento de nossa compreensão do fenómeno da
cos dos autores anarquistas). burocracia deveriam nos alertar para a necessidadede maiores salvaguardas
que as previstaspor Marx e Lênin: a elegibilidade de todos aos postos es-
tatais. a possibilidade de afastamento de todos os delegados. a redução de
seusvencimentosao nível do salário médio. e uma rotação mais ou menos
rápida de delegados.
A primeira e talvez mais importante dessas três novas salvaguardas
é que o Estado da ditadura proletária deve, desde o início, ser um Estado
que começa a decompor'se. E essaa forma concreta de seu desaparecimen'
to. O q-uepretendo dizer com isso é que a centralização do poder'só é jus-
tificável em relaçãoa uma série bastantelimitada de problemas..Deveser
o Congresso dos Conselhos de Trabalhadores que toma decisõesrelaciona-
das com a distribuição dos recursos nacionais. Isso porque é a classe ope
ráfia que suporta o sacrifício de=não consumir uma parcela daquilo que
produz, cabendo-lhepor isso decidir qual a extensão do sacrifício que está
preparadaa fazer. Uma vez, porém, que tenha decidido dedicar 7, 10 ou
12% da produção nacional à educação ou saúde. não há absolutamente ne-
cessidadede administração estatal dos orçamentos de educaçãoou saúde.
E desnecessárioao Congresso dos Conselhos de Trabalhadores assumir essa
tarefa de administração.que pode ser muito melhor realizadano nível mais
democrático dos conselhos escolares ou de educação superior, e nos conse-

i
lhos de pessoal médico e de pacientes. As pessoas que participam desses
órgãos serão diferentes daquelas que são delegadas ao Congresso dos Con-
selhos dos Trabalhadores. Essa separação das funções do Estado central
significa que dezenasde conselhos se reunirão ao mesmo tempo, com a
mento. sem elimina-lo totalmente. participação de dezenas de milhares de pessoas,em escalanacional e conti-
nental. E como o mesmo tipo de processo estará ocorrendo em ni'vel regio-
nal e municipal, essa''separação" permitirá a centenasde milhares, ou mes-
mo milhões, de pessoas,participarem no exercício direto do poder.
A segundasalvaguardaimportante é uma atenção muito maior ao
problema da rotação de postos do que era possível aos bolcheviques. que
contavam com uma classe operária culturalmente subdesenvolvidae que
constituía uma minoria da população..Nos paísesindustrialmente adianta-
dos. será possível uma aplicação do princi'pio de rotação de postos muito
mais radical do que a existente. por exemplo, na lugoslávia. Se tal princí-
pio for rigorosamente aplicado (entre outras coisas, com a,.proibição da
eleição do mesmo delegado mais de duas vezes), então depois de alguns
anos um número muito grande de pessoasterá participado do exercício
do poder nos vários congressose outras assembléias.A idéia da participa-
burguês. que é dez vezes mais burocrático, repressivo e autontario-
33
a estratégia socialista no ocidente
32
marxismo revolucionário anual . ll
ção de todos os trabalhadores no exercício direto (IP.podertomará..dessa
:WHnlHllÊ
mas nas presentes condições. excepcionalmente favoráveis à revolução so-
cialista na Europa Ocidental, tal hipótese nãç) é muito digna de crédito.
Exceto na ocorrência de uma guerra nuclear ou uma intervenção militar
com bombardeios em grande escala, não há razão para se supor que uma
revolução socialista na Espanha. Itália ou França seria acompanhada de
uma queda na produção material. Pelo contrário, o desenvolvimento das
forçasprodutivas no põs-guerraconfirmou que o sistemaindustrial criado
pela burguesia encerra vastas reservas para a expansão da produção .
De fato. uma das principais razões do declínio das forças produtivas
depois da Revolução de Outubro foi o êxodo generalizado da jntelectuaii-
dade técnica e dos quadros administrativos. que se afastaram da produção
e a sabotaram. Incidentalmente, podemos lembrar que Engels havia mani-
festado grande receio de que essa se tornasse a característica mais ou
menos universal das revoluções socialistas, até mesmo nos países industria-
lizados. Mas. como muitos observadoresvêm dizendo desdemaio de.1968.
isso é muito improvável no Ocidente. hoje. pois houve uma modificação
radical na natureza do trabalho desempenhadopela intelectualidade téc-
nica. que se integra. cada vez mais, no próprio processo de produção. em
conseqilência da terceira revolução tecnológica. Como a intelectualidade
se proletariza de maneira crescente. os trabalhadores técn.ices passam.a ficar
sujeitos às leis do mercadode trabalho e. portanto. tendem a identificar-se
com outros vendedoresde força de trabalho, primeiro no comportamento
prático e, em seguida. ná consciência. A intelectualidade, altamente sindi-
calizada, tem participado de grandes ações de greve e até mesmo de movi-
mentos radicais anticapitalistas. em vários países imperialistas. Maio de
1968 na Fiança é um exemplo. Segue-seque o proletariado, hoje. compre'
endendo uma parcela significativa da intelectualidade -- muito maior do
que no proletariado russo de 1917 ou no proletariado alemão de 1918 ou
1923 -- será muito mais capaz de manter. e mesmo de expandir. a produ-
ção e a produtividade a despeito do comportamento dos antigosdonos
e administradores das fábricas.
r
35
marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente
34
Quanto a isso. devemos ter consciência da existência de dois aspectos
da evolução dos partidos comunistas, nos últimos anos, e que uma delas.é
positiva. Essaevolução está. na realidade, ocorrendo sob uma dupla e con-
traditória pressão.De um lado. tais partidos estão seinclinado ante a pies'
são da burguesia e da Social-Democracia -- por exemplo. a abandonarem o
conceito de "ditadura do proletariado". Discordamos totalmente dessas
concessõese continuamos a sustentar a argumentação marxista-leninista
clássica contra as inadequações. o formalismo. o caráter classista e a natu-
reza indireta. opressora e severamente truncada da democracia parlamentar
outquesa. Mas a segunda dimensão dessa evolução. representa urna conces-
são à classeoperaria da Europa Ocidental -- classeque desenvolveuuma
consciência profundamente anttburocrática. em reação à experiência stali-
nista e náb quer unoâ repet/çáb do 'sta//n&mo. A isso só podemos dizer:
'muito bem!
Quando Marchais diz estar abandonando a palavra "ditadura" por-
que lembra Hitler e Pétain, a hipocrisia é evidente. Ninguém. na França ou
em qualquer outro país europeu, identifica o partido comunista com Hitler
ou Pétaln. O que ele quer realmente dizer. mas não ousa fazê-lo devido à
simpatia pelos seus antigos amigos na burocracia soviética. é que quando
as massasda Europa Ocidental ouvem a expressão ''ditadura comunista
pensam não em Hitler ou Pétain, mas em Stálin:'Hungria. Tchecoslováquia
-- em outras palavras. numa ditadura burocrática que não desejam.
Na tradição dos escritos de Marx sobre a Comunade Parise de O
Estadoe a devo/uçáb. de Lênin, a ditadura do proletariadoé, para nós,
a ditadura que consolida e aprofunda todas as liberdadesdemocráticas--
a liberdade de imprensa, o direito de manifestação. a liberdade de associa-
ção e de partidos políticos, o direito de greve, e a independência dos sindi
Gatos em relação ao Estado. Naturalmente, essamaneira de postular. as
bém el;saposição. depois da derrubada. coisas constitui também um avanço em relação ao modelo da União Sovié-
tica. sob Lênin e Trotski. De qualquermodo, essescamaradasnuncatrans-
formaram em modelo ou norma as suas realizaçõespioneiras, que foram a
primeira tentativa de uma ditadura proletária em circunstanciasmu to
desfavoráveis.Pelo contrário. Lênin repetiu dezenasde vezesque não de-
vemos criar dogmas. É esse Lênin realista e lúcido. de carne e osso. que
deve servir como nossa inspiração, e não as fórmulas que também se encon-
tram em seusescritos, e que justificam as medidas temporárias tomadas pela
revolução russa. elevando-asa nl'vel de teoremas. ou mesmo de axiomas.
Permitam-me citar o exemplo concreto dos partidos políticos. que

l
37
marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente
36
esmagando a violência e o poder da burguesia. Não toma, porém. medidas
despóticascontra as idéias burguesasou os partidos burguesesque se li-
mitam à propaganda e "contra-educação". Nesse nível. a superioridade
política do marxismo. do povo armado no controle do poder económico,
'. parece-mesuficiente para impedir o retorno do capitalismo.
Se não respondi à pergunta sobre a necessidadede órgãosparla-
mentares, é porque essa questão me parece essenc/'a/mentetár/a. Não
devemos trata-la como uma questão de princl'pío absoluto. e ela não será
respondida da mesma maneira em todos. os países. Se um órgão parlamen-
tar for usado numa tentativa de reprimir e "fazer recuar" as organizações
espontâneas de massa, ele será então, evidentemente. um instrumento da
contra-revoluçãoe teremos de adotar uma posição de acordo com issoIfoi
o que aconteceu em Portugal em 1975, como aconteceu na Alemanha em
1918 e na Rússiadepois de outubro de 1917). Não devemosesquecerque
Rosa Luxemburg tomou posição bastante clara contra a transferência do
poder à AssembléiaConstituinte. na Alemanha. Ela r e os delegadosespar'
taquistas ao Primeiro Congresso dos Conselhos de Trabalhadores e Solda-
dos -- se opuseram à convocação da Assembléia Constituinte, argumentan-
do em favor da manutenção da soberania do Congresso dos Conselhos
como o único órgão representativo do poder da classe operária alemã.
Porém. uma vez estabelecidaessasoberania,já não é mais uma questão
de princípio se deve haver um órgão parlamentar para tratar de assuntos
secundar/os. Sua utilidade não me parece clara. mas a resposta dependerá
da tradição política nacional dos diferentes países e do papel que tal órgão
poderia desempenhar na arena de luta entre as principais correntes cultu-
rais e ideológicasi'Oessencialé que o poder poli'tico e económicoesteja
firme e autenticamente nas mãos dos trabalhadores armados,organizados
em sovietes.
O pensamento de Trotski sobre essa questão sofreu uma evolução
inquestionável. a que temosüde dar continuidade. Cimo Lênin, ele com-
binou dois elementos no período de 1920-21. De um lado. para defender
o poder soviéticoem condiçõesextremamentedifíceis e perigosas,
eles
tomaram decisões-- com uma determinação férrea, que só podemos louvar
-- que os levou a adotar medidas que na prática se chocaram com a demo-
i:bacia soviética. e assumiram plena responsabilidade por isso. Indo mais
além de Trotski, Lênin declarou em 1920 que o Estado soviético já não era
um Estado sadio dos trabalhadores, mas um Estado de trabalhadores com
deformaçõesburocráticas.Estavaabsolutamentelúcido quanto a issoe nao
pretendeu enganarninguém. É claro que podemos discutir se uma determi-
nada medida ou outra se justificava numa certa conjuntura, masessenao e
o ponto essencial.Mais importante é que essasmedidasforam reconheci-
das. pelo menos implicitamente, como deformações. e não regrasgerais.
Por exemplo, nem as teses da Terceira Internacional sobre a ditadura do
proletariado nem O Estado e a Rapo/uçáb fazem qualquer mençãoa um
39
38 marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente

qüência da adição da Nova Política Económica era um ressurgimento


Estado unipartidário. Ou, tomando outro exemplo: a proibição de facções
político da pequena e média burguesia, que ameaçada com o restabeleci:
no Décimo Congressodo Partido Bolchevique. Evidentemente.tal medida
mento do capitalismoa curto prazo Foi um erro de análiseconjuntural.
foi excepcional, tornada sob a pressãode condições não menos excepcio.
mas nem por isso deixou de ser um erro. Os camponeses estavam demasia-
naus.Que estava em contradição com a tradição do bolchevismo e a prática
da Internacional Comunista evidencia-sepelo fato de que os bolcheviques do dispersose desmoralizadas
paraconstituir uma ameaçaimediataao
poder soviético. IE claro que, a longo prazo,como observoua Oposlçio
jamais tentaram estabelecê-lacomo norma dentro da l nternacional .
Esquerdista. essaanálise estavacarreta, e seis anos depois, emÉ:1927,o
perigo se tornou agudo.) Mas em 1921 o principal perigo não era a contra-
revolução burguesa,e sim a despolitização da classe operária e o rápido
processo de burocratização. As medidas tomadas àquela época ajudaram
e acentuaram esseprocesso. Devemos ter a coragem de reconhecer que foi
um erro e que a palavrade ordem da Oposiçãoem 1923.''Ampliar. e não
reduzir. a democracia soviética", fói válida a partir de 1921.

Dualidade de Poder e Governos de Trabalhadores

que,eLênineTrotskicometeramvànoserros . . . ./.: Ao contrário da classe operária russa. a classe opor.ária..dos países capitalis-
Trotski demonstrou sempre uma acentuada retlcencia rias auluu- lu' tas adiantados de hoje tem uma tradição de sindicalism.o.
de m.essa
.e de
organizaçãoe instituições pol íticas com as quais se identifica. Além disso.
os reformistas,tanto social-democratascomo stalinistas, lutarão .contra.o
desenvolvimentodos sovietes. Acredita que apesarde tudo a dualidade
de poder tomará a forma soviética, ou se poderá.expressarde c).utras ma-
neiras -- através de um bloco de forças de esquerda, eu mesmo através dos
sindicatos?

Nessaquestão, podemos basear-nosnuma prolongada exper.iência histórica,


cujas lições são absolutamenteclaras e sem ambigilidade. Sempreque
houve uma crise revolucionária num país industrialmente adiantado, onde
há uma classe operária no auge de sua maturidade social. política e econó-
mica. testemunhamos o aparecimento de órgãos do tipo soviético. Por mais
diferentesque tenham sido em nome ou origem, não há a menor dúvida
sobre a natureza de tais órgãos. É certo que na revolução espàflhola de
1936-7 foi imposto um bloco organizacionalao nível das cidadese dos
órgãos de poder político, mas não houve nada semelhante ao nível do local
de trabalho>ali. as próprias massasse organizaram. Na maioria dos países
da Europa Ocidental, o movimento dos trabalhadores está dividido entre
diferentes organizações de massa fragmentadas, que em si mesmas nao
estão'1livresde contradições internas, e que além do mais raramente com-.
preendem úma maioria {ou mais do que uma pequena maioria) das massa?.
Dada essasituação, um impetuoso movimento revolucionário do proleta-
riado terá de encontrar uma forma de auto-representaçãoque envolvaa
classeem sua totalidadejTA história não produziu nadamelhor do que a
41
a estratégia socialista no ocidente
40 marxismo revolucionário atual

forma soviética..que não é uma "invenção" dos bolcheviquesou {rotskis-


tas. mas o resultado de uma experiência histórica real. :. . ..
De ordem bem diferente é a questãoda origem precisadessesórgãos
em cada país, e a maneira pela qual as organizações de massa, políticas e
sindicais. se combinarão com eles e neles se representarão. A história já
nos ofereceu uma grande variedade de respostas e h'á até mesmo diferenças dentro dos conselhos.
consideráveis entre as duas experiências na R(issia. Os primeiros sovietes
surgiram em 1905, a partir de comissõesde greve.enquanto que em 1917
ocorreu o oposto: o çomltê executivo dos sovietesde Petrogradofoi cons-
tituído antes do aparecimento dos sovietes no rosto do país. Na Espanha
em 1936 houve. novamente.uma diferença:os comitês de basesurgiram
' d
primeiro, sendo depois coroados por um bloco de organizações
''"'' O mais importante paraos revolucionáriosé acabarcom todo pen-
samentoesquemáticoe a pr/or/ -- o que se aplica a muitos debatesani-
=:ãl"L;'ã-,,:; 'iL;.,«.l.«' . -' "q"'.. ,«.i«i-á,i, .«..p''; '"
geral''Não devemospensar que existe apenasuma palavrade ordem. ou
apenasuma forma na qual os conselhosde trabalhadorespodem surgir.
na situacão presente. Em certas circunstâncias, por exemplo no caso de
luta defensiva da classe operária contra a ascensão do fascismo, é possível.
e mesmoprovável. que os órgãosdo poder proletário só surjama partir
de órgãos'da frente única de partidos e sindicatos.Foi o que Trotski espe-
rou, logicamente. da Alemanha, até 1933. Mas em outras circunstâncias
por exemplo na França entre 1934 e 1936. Trotski estavacerta ao rejeitar
essaidéia. Ele acusou os centristas. e até mesmo alguns pseudotrotskistas,
de pensar que Blum e Thorez deviam chegar primeiro a um acordo. õntes
que pudesse haver comités de ação. Rejeitou o argumento de que o desen-
volvimento de órgãosde poder duplo tinha de subordinar-seà assinatura de que não há margem para equívocos.
de um acordo de cúpula entre as respectivasorganizações.Pareceu-lhebas-
tante provável que acontecesseo oposto: as basescriariam p.rimeiro esses
comitês. e só depois disso os burocratas na cúpula os aceitariam. A expe-
riência portuguesa fez nos uma advertência suficiente dos perigos de qual-
tipo de esquematismo.Em todos os seusescritos sobre a situação
revoluc onária. Lênin e Trotski insistiram em que a principal tarefa é
manter os olhos e os ouvidos abertospara o clue8conteceentre a classe
operária e para indícios da verdadeira direção organizacional que está to-
mando -- e não impor um esquemateórico a essatendência real dos trabail
IhadoreSno sentido de encontrar suasformas próprias de organização-.
Combaterão os reformistas. sempre e em toda parte, essaformação.es-
ntânea de conselhos de trabalhadores? A resposta sectária seria : ''l nfeliz-
rnente. não!"umas como não sou sectário. direi simplesmente:"Não
O núcleo racional da respostasectáriaé o fato óbvio de que a tarefa dos
revdltlcionários seria muito mais fácil se os burocratas nadassem. ''corajosa'
mente". contra a corrente. Seria tão simples isolar as máquinasburocráti- trabalhadores.
cas. se elas se colocassemcontra milhões de trabalhadores identificados
Y
43
42 marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente

existir uma situação de dualidade de poder), e outras formas de representa-


Em paísesonde a estrutura da democraciaüburguesa estábem cmsolidada
provavelmente não será necessárioatravessarumjperi'odo que na antiga
Internacional Comunista era chamado de governo dos trabalhadores, seja ?

no sentidoforte 0u fraco da expressão


lem outraspalavras,um governo
composto%de partidos de trabalhadores, se possível incluindo até mesmo
partidos pequeno-burgueses, mas tendo um programa que pede o rompi-
mento com o capitalismo)? Não será provável que o movimento operário
tenha de atravessar uma fase de tais governos, antes da criação de institui-
ções de poder duplo? E não será também provável que hajam representan-
tes pró-sovietes
no Parlamento.
antesda generalização
do poderduplo?
Será concebível uma situação revolucionária sem a eleição de um único
defensor de uma solução revolucionária para a crise geral da sociedade?

Parece-meque estão sendo introduzidos muitos elementos especulati-


vos numa problemática que é realmenteclara. Preferiria abordar a questão
de uma outra maneira. Primeiro, nos paísesde fortes tradições democrá-
tico-burguesas -- e ainda mais nos países imperialistas que estão saindo das
ditaduras,caso em que as ilusõesdemocrático-burguesas
tendem a ser
maiores do que nos países onde tais tradições são profundas - é inconce-
bível que se desenvolva o poder dos conselhos de trabalhadores, a menos
que a classeoperária adquira experiênciasconcretas de formas de demo-
cracia superiores à burguesia. Os trabalhadores deverá.ser capazes de com-
parar os méritos de ambas, na prática.
Segundo, eu concordaria em que é improvável a ocorrência de uma
verdadeira luta pelo poder soviético sem que uma corrente revolucionária
marxista ganhe força suficiente na classeoperáriapara conseguir represen-
tacão no Parlamento. E. terceiro, é inconcebível que surja uma situação de
dualidade de poder num país com um movimento trabalhista antigo e trai
dicional, sem que essasituação acabecom o atual controle total das buro- Mas essegoverno poderia proclamar que rompera com os capitalistas,
cracias reformistas, colaboracionistas, sobre essespartidos. mesmo que realmente nâo o faça.
Essastrês afirmações me parecem quase que evidentes por si mesmas.
Mas fazer novas deduções com base nelas seria suscitar to.da uma série de Isso é diferente. A diferença é mostrada na análisedo Comintern, sendo
hipóteses especulativas,:tãQ detalhadas que seria difícil responder com um especialmente confirmada pela experiência histórica. Já tivemos seis ou
simples''sim" ou "não".: Vamosdar um exemplo. Dissemosque emgeral sete governos trabalhistas.
uma situação de dualidade de poder implicaria uma corrente socialista
revolucionária bastante forte para ter representação no Parlamento, se elei- Mas nenhum delestinha um programaque proclamastea necessidade
de
ções parlamentares fossem realizadas naquele momento. Mas. como muitos romper com o capitalismo.
parlamentos são eleitos para períodos de quatro ou cinco anos,é possível
a ocorrência de grandes comoções entre as eleições,..que alterem drástica-:
mente as relações de forças dentro da classe operária. Nesse caso, se não
forem realizadas novas eleições parlamentares naquele período, haveria
uma defasagemséria entre a composição do parlamento e a relação real
de forças, em especial dentro dos sindicatos, conselhos de trabalhadores (se Ihor das hipóteses
T

45
44 marxismo revolucionário atua] a estratégia socialista no ocidente

programasdo tipo apresentadopelo Partido Trabalhista Britânico em 1945.


que eraum programa reformista radical, ou do Partido SocialistaAustríaco.
que pedia a nacionalização de setores importantes da economia.
Nenhum dessesprogramas é, de modo algum. anticapitalista. Nenhum
deles pode ser comparado com o programa da Unidad Popular. no Chile.
Mesmo nesta. o caráter anticapitalista do programalera dúbio, mas a dinâ-
mica!!eramais radical. Na Europa Ocidental. porém. com os tradicionais
A questão alistática a ier adotada para com um governo burguês.dos
partidos de classeoperária hoje existentes, é difícil visualizar qualquer evo-
lução que vá além da União da Esquerda.ou do programado Partido Tra-
balhista de 1945.

Seria.então.carreto concluir que não Ihe parecemuito importantedesen-


# ]Ül:$ :n=Hl:Í=.1=:
volver reivindicaçõesprogramáticase palavrasde ordem dirigidasa esseti-
po de governo burguêsdos trabalhadores-- reivindicações. que mostram
corllo se poderia processar um verdadeiro rompimento com o capitalismo?
Você quer dizer que será impossi'vel impor medidasanticapitalistasa esses
governos?

Voltamos novamente à especulação.N inguém pode prever as formas exatas


nas quais as situaçõesrevolucionárias surgirão na Europa Ocidental. É im-
possívelimaginar qualquer padrão que se possaaplicar a todos os casos.
O que se descrevenessapergunta é apenasuma variante. Não afasto a sua
possibilidade, e concordo totalmente em que sempre que exIstIr um gover-
no composto exclusivamentede representantesdo movimento trabalhista,
os revolucionários terão de apresentar reivindicações insistindo em que esse
governo rompa Com o capitalismo. Mas é outra coisa dizer que este será o
principal canal pelo qual a consciência da classe operária se elevará a um
nível qualitativamente superior. Isso pode ocorrer em consequênciade luta
direta. de uma grevegeral, de um confronto com a reaçãoou a máquina es-
tatal -- há muitas variantes para que possamser reunidas num esquema.
Isso é evidente pelo que realmente aconteceu na Europa durante os úl-
timos 40 anos. Na França. em 1936. a crise surgiu da combinacão de uma
vitória eleitoral da Frente Popular e uma grevegeral; na Espanha,de um
confronto direto com os fascistas;em Portugal,da quedade um governo
bonapartista e semlfascista senil. através de uma conspiração militar; mais
recentemente. e ainda na Espanhà, originou-se da demora da burguesia em
acabarcom uma ditadura que na décadade 1970 jó não correspondiaà re-
lação real de forças de classe.SÓaí jó temos quatro variantes.
O problema mais geral -- suscitado de passagempor Trotski masnão
d
suficientemente desenvolvido pelos marxistas revolucionários durante um
longo período -- é o seguinte: num país capitalista adiantado. com uma es-
trutura política altamente sofisticada e um complexo sistemasocial. onde
há uma longa tradição conservadorano movimento trabalhista, é inconce-
bível que os trabalhadores escolham diretamente formas soviéticas de orga-
47
marxismo revo]ucionário atua] a estratégia socialista no ocidente
46
Resultados e Perspectivas no Sul da Europa
caçõesdas massas,relacionadascom a nacionalizaçãosob o controle dos
trabalhadores.que expressaa lógicada dualidadede poder.
A segunda categoria básica das reivindicações dirigidas ao governo rela-
ciona-se com a resposta aos inevitáveis fitos burgueses de sabotagem e
ruptura económica.Aqui, a política orientadora deveóer a dç)olho por
olho: ocupação e controle de fábricas, seguida de sua coordenação: elabo-
ração de um plano dos trabalhadores para a reconversãoe renascimento
económico; extensão e generalizaçãodo controle dos trabalhadores, no
sentido da auto-administração; administração de váriasáreasda vida social
pelos que delas participam diretamente {transporte.público, mercados de
rua. creches.universidades.
terra agrícola etc.). Numerosascamadasse
transferirão do reformismo para a centro-esquerda e para o marxismo revo- ter os marxistas revolucionários, nessascondições?
lucionário. através da discussãodessasquestõesdentro da moldura da
democraciadproletária e através de sua própria experiência prática. proteg/- A pergunta se fundamenta numa premissa básica que discutotNão é
das pela defesa intransigente da liberdade de acho e mobilização de massa.
mesmo quando isso ''atrapalhe'' os planos do governo ou dos reformistas.
Esse rompimento com o reformismo será ajudado pela ilustração..consoli-
;:;;. .';.IÍàii:l.Çâ. d« «á,i,; «p''';":« d...".-..g;-i«Çãj? .!! :E:á
ajudado, porém.'pelos excessossectários, pelos insultos do tipo ''social-fas-
cistas''. ouiignorando-se a sensibilidade especial daqueles que colocam sua quistar a maioria da classe operária.
fé noi reformistas.A política de conquistar as massaspela frente única É claro que precisamos ser muito mais específicos: eu mencionada
está''portanto. inseparavelmente ligada à afirmação, extensão e generaliza-
ção do poder dual, até [e inclusivo) a consolidaçãodo poder dos trabalha-
dores pela insurreição.
Os resultados objetivos das pol éticas dos reformistas sâo os seguintes :
crescente :impotência do governo+Çesquerdista; incapacidade de cumprir
suas promessas; crescente desilusão entre as massase criação. em virtude
disso. de um terreno fértil para a desmobilização e desmoralização, e o .re-
torna da reação, cóm novo vigor, sejaatravésda violência ou mesmo pelos
meios egâis e eleitorais.-Isso mostra que não temos escolha: ou estendemos
a manobra de massaPna
direção da vitória. ou o declínio e a derrota são
inevitáveis. Nesse período, há uma curada entre dois movimentos. um que
leva à superação dos aparelhos reformistas e o outro, que leva à retirada
das ma'smas eM conseqilência da bancarrota dos reformistas. O primeiro sõ
vencerá se as relaçõessociais e políticas de massanão forem interrompidos.
mas crescerem cada vez mais; se a auto-organizaçãofor fortalecida e
generalizada.e não rapidamente fragmentada; e se os revolucionários con-
seguirem superar sua fraqueza e isolamento. e criarem milhares de novos
elos com as massas,com base numa extensão e generalização de experiên-
cias autênticas. vividas, da frente única (e não daquela caricatura propagan-
dística que consisteem exigir que a liderançareformista dê uma resposta.
a fim de desmascara-laem palavras). Essecaminho não nos oferece uma
garantia de vitória.'mas é a única oportunidade que existe.
49
48 marxismo revo]ucíonário atua] a estratégiasocialistano ocidente

Os burocratas e os dirigentes sindicais sabem muito bem que um comício


de massae um referendo ou votação postal produzirão resultadosdiferen-
tes em relação a uma proposta para declarar ou suspender uma greve.
Isso nos leva à seguhda questão: a marginalização das lideranças refor-
mistas. É possível. e mesmo provável, que ocorra um processodtip/o na
Europa Ocidental. As massasconcederão à maioria parlamentar,ou gover-
no de esquerda.uma confiança relativa, condicional e vigilante -- a formu-
iãã «Ãt«dita.i,
«p'"" b'm; '"tid;d..A' m""''t'm.p'.
''" "i-
denciarão a tendência de romper os limites da ação estabelecidos antecipa-
damente pelo programa reformista. e colaboracionista de classe,que evita
o rompimento com o sistema burguês. É a lógica inexorável do desdobra-
mento da luta de classes.e não a clareza teórica das massas.que determina-
rá a dinâmica desse processo.
A maior fraqueza analítica dos reformistas e centristas está na sua in-
capacidade de compreender essalógica. a despeito de sua clara demonstra-
cao nas experiências revolucionárias dos países industrializados. inclusive o
Chile, que sesitua no limite exterior dessegrupo. No mundo de hoje o pro-
letariado. com o seu peso social, económicoe político muito maior, en-
frenta uma crise das relações capitalistas de produção e de todas as outras
relacões sociais burguesas.É inimaginável que um aprofundamento quanta
uva da atividade. combatividade e reivindicações das massasnão leve a
uma verdadeira explosão do conflito de classes,que paralisa a economia ca-
pitalista e o Estado burguês. Qualquer socialista ou comunista que pense
ser possível dizer a esseproletariado, que representa 60 ou 70% da popula-
cao. "Vocês estão no poder. A fábrica pertence a vocês. Agora é possível
elevar o padrão de vida, reduzir a jornada de trabalho. estender as naciona-
lizações e colocar em prática uma legislação social progressista", e que tam-
bém pensa ser possível conseguir. ao mesmo tempo, um aumento no ln-
vestimentoj!capitalista, um aumento na taxa de lucro para financiar esse
crescimento capitalista, essapessoaserá um sonhador utópico absolutamen-
te ride'culo. Ninguém acredita nisso, seja no lado dos operários ou no lado
dos burgueses. SÓ os donciliadores desonestos ou muito ingênuos podem
difundir tais contos de fada. No presenteclima da Europa do Sul. portanto.
podemos afastar a possibilidade de que as massaspermaneçam passivasse
um governo esquerdista assumir o poder. Isso será acompanhado. inevita-
velmente. de uma intensificação da luta de classes,sabotagem da produção,
conspiraçãoconstante contra o governo pelos reacionários e uma extrema
direita apoiadapeloaparelho estatal. terrorismo direitista etc. .. . l .
Ora. os trabalhadores não deixarão de reagir. Nâo acreaitarao que d
polícia burguesa combata os conspiradores, ou que .o Ministro da Fazenda
procure impedir a fuga de capitais. O f/anqueamenfo nâo é provoca(io por
um estado de espírito, de confiança ou desconfiança.nem pelos "agitado-
res esquerdistas" que atíçam tais coisas. É o resultado da inevitável colisão
pronta/ entre as pr/nclpa/s c/essessoc/a/s. Além disso, embora o programa
50 marxismo revolucionário atua] 51
a estratégia socialista no ocidente
l
volucionárias poderiam conquistar o apoio da maioria dos trabalhadores um dos elementos catalizadores do golpe de Estado foi o medo que os ofi-
nos conselhos. Tais organizações já têm milhares de membros e dezenasde ciais contra-revolucionários tinham de que o vírus estivesse se espalhando
milhares de simpatizantes. e num período prolongado de crise poderiam entre os soldados, em especial na Marinha. É claro que os conspiradores
conquistar dezenas de milhares de novos membros e centenas de milhares militares tiveram a ajuda da inépcia traiçoeira dos líderes da Unidade Popu-
de simpatizantes. Nada disso acontecerá. porém. a menos que tais organiza- lar. frente a essesprimeiros indícios de insubordinação das tropas contra
ções adotem políticas carretas, em especial em relação à frente única. os oficiais do Exército e da Marinha, e pela notável fraqueza política da ex-
A quartaobservação a serfeita é uma respostaà objeçãoque se segue, trema esquerda centrista. que adotou uma posição totalmente errada em
e que é provavelmentea maiavigorosade todas: ''Praticamentetudo o que relação ao exército. Também nesse caso creio que poderemos evitar tais
l
se disse anteriormente já foi visto na Chile. Havia um governo esquerdista erros e conseguir melhores resultados. A recente experiência do movimen-
em::estado de paralisia; havia setores esquerdistasdas massasatacando to de soldados -- em especial em Portugal. mas também na França e ltá-
fortalezas marginais da burguesia; havia lutas internas no movimento de lía -- mostra que já estamos em melhores condições do que os chilenos.
trabalhadores,seguidasde choquesentre a maioria reformista e a minoria Em países altamente industrializados -- onde até mesmo a composição do
revolucionária. E no final. isso levou à vitória da reação, através de um exército reflete a estrutura social do país -- é extremamenteimprovável
sangrento golpe de Estado e uma derrota esmagadora do movimento dos que um movimento revolucionário gigantesconão encontre expressãoem
trabalhadores.Em resposta,devo primeiro repetir o que já disse:ninguém movimentos de oposição dentro do Exército. Todos essestrunfos não exis-
pode dar uma garantia absoluta da vitória. A estratégia revolucionária cor- tiam no Chile.
reta nunca se baseou na certeza de uma vitória da classe operária. Tudo o
De qualquer modo. o ponto essencialé que não temos escolhanessa
que podemosdizer é que nossalinha de marchaestratégicae tática é a úni-
ca capaz de tornar tal vitória possa've/,masnão pode garanti-la. Paraa vitó- questão. Quando há uma vigorosa ascensão de um movimento de massa
ria são necessários
falares adicionais,em particular uma vantagemno ba- anticapitalista e antíburocrático. enfrentado pelo endurecimentocontrâ-
revolucionário de quasetoda a máquina burguesa.qualquer coisa que des-
lanço de forças que não pode ser calculada com precisão antecipadamente.
A situação objetivo e subjetiva muito menos favorável no Chile foi, mobilize a classe operária e contenha a sua ofensiva, e qualquer pessoa que
evidentemente.o determinante final da disposiçãode forças entre as clas- b procure diminuir seu entusiasmo, só pode servir à contra-revolução. O pro-
l letariado nâo lucrou nunca com a desmobilização e a divisão de seu cam-
ses e entre os aparelhos reformistas e a extrema esquerda. Na Europa Oci-
dental a situação é muito mais promissora. de ambos os pontos de vista: a po durante as batalhas de classe. Quando há uma polarização extrema das
grau de auto-suficiência
é incomparavelmenteFmaior
do que num pais forças sociais, as únicas medidas que servem à causados trabalhadores são
como o Chile. e o proletariadotem uma capacidademuito maior de reagir o ampliamentoe a generalizaçãodas mobilizaçõese da tendênciada clas-
e conquistar o apoio em nível internacional. Além disso, temos uma formi- se a uma auto-expansão unificada. Devemos colocar as forças centristas e
dável ''arma secreta''. de que nâo fazemos segreda, ou seja, a crescente vacilantes em guarda contra o grave perigo de medidas que reprimam, frag-
mentem.; duvidam ou desmobilizem o movimento de massa sob o pretexto
identidade entre o pogramae objetivos de uma revolução proletária na
de "não alarmar a reação''. Qualquer coisaque tenha um efeito desmobili-
Europa Ocidental e o programa aditado por setores do movimento dos
zante modifica imediatamente o equil ébrio de forças em favor da burguesia.
trabalhadores nos países mais ''estáveis'': Grã-Bretanha, Holanda, Áustria,
Alemanha Ocidental. A diplomacia socialista será capaz de promover seu Inversamente, qualquer coisa que imobilize e unifique a classeoperária
próprio ''Brest-Litovsk". se for organizadoum bloqueio económico contra e as massastrabalhadorasmodifica o equilíbrio de forças em favor da
Portugal,Itália. Espanha ou França, para ''castigar'' a classeoperária por classeproletária. É essaa basede nossaorientação.É issoque dá coerência
ter estabelecido o controle ou a auto-administração pelos trabalhadores, ao nosso objetivo de conquistar a maioria da classe operária: é um dos nos-
enquanto os sindicatos da Europa do Norte semovimentam no sentido de sos ttuntas po\ iscos. Numa situação revolucionária. as Marxistas revolu-
tomar as mesmas posições. Evidentemente. isso não será tãolifácil se a re- cionários devem ser a força mais empenhada no fortalecimento da unidade
volução usar a máscaratenebrosa da ditadura stalinista. Mas se apresentar e da organ/zaçáb
de c/asse.Elesdevemdefenderconstantemente
a uni-
a face comunista sorridente da soberania dos conselhosde trabalhadores, dade do aparelho de classedos trabalhadores. e isso se torna mais fácil
então não me pareceque será.fácil organizar tal bloqueio contra os países pelo fato de que os órgãos da unidade dos trabalhadores são precisamente
socialistas europeus. os órgãos de sua auto-representação: os conselhos de trabalhadores. Defen-
Até mesmo o exército chileno, que tem características peculiares. não demos a unidade dos trabalhadores tanto quanto defendemos os órgãos do
estava automaticamente imune ao vírus do socialismo e revolução. De fato. poder dos trabalhadores numa situação de cumplicidade de poder.
53
a estratégia socialista no ocidente
marxismo:revolucionário atual
52 estou me referindo..aoslíderes reformistas,-.cujopapel é óbvio, massim
ao baluarte da classe:operária, à vanguarda, idos quadros organizadores.
aos representantes de fábricas T :.todos.os camaradas que estavam na linha
de frente da batalha .iproletária} po«período passado. Esses camaradas
eram experimentadose sabiamcomo organizaras lutas:para defender
os saláriosreais contra a inflação, mas iiâo estavam preparadospara lutar
contra o desemprego e© masca! Essa falta de experiência;se complicou
com a capitulação.:.total.
da burocracia n Q partido comunista nã ltália e

podemos dizer: que o .proletariado.'ftendo :mantido a iniciativa por um


longo período, passou agora} temporariamente, à defensiva.. E um elemen-
to NOVO.:
t'\ 'l!..i{.} .- Síii'ln'Í'ii'li.'t-Í:':ilJ.:ÚR {9'g'Í;Çj t !'?ii:i;'i: ç:..{';;==;' ;=~'{.''' ;
O outro -- que aparente ente qtua na mesmadireção.mas.poderia

letarbdo Ê;Qq ljw:itaçgo dos.casos de. f,lanquearnqnto,..


ill!:l:gilil: HRIÍÊJ!EE ll$i
por setores; sendo :divididas e.'espontâneas. Mas seu-impulso mesmo as
levou numa:outra direção, à medida quê .astarefas políticas céntraii e as

:HEnBEfiimâE':1331E
U$i
fábrica. setor.a setor. ou cidade a cidade. Masoutra coisa é resolvero,pro'
blema de um milhão e meio de desempregados.Essabatalha não pode $er
travada cidade por i;idade; o problema sõ pôde ser resolvido em base nacio-
nal'(alguns observadores diriam mesmo em base européia)- :$t€1 :
O mesmo ocorre em muitas;dàs lutas e questões setoriais. Por exam:
plo. manifestações de massa limitadas eiaté. mesmo -campanhas.nac onals
podem ser realizadaspara exigir a liberdade de aborto, a.suspensãoda
construcão de usinas nucleares, o direito de voto para os soldados. o direi-
to geral de voto aos 16 anos etc. Mas quando essesmovimentos ganham
impulso, especialmentequando começam a fundir-se uns com os outros.
então surge a questão de uma alternativa governamental. que significa yma
solução política central. E nesse osso..é claro, as movimentos.de:massa
espontâneos 'ou semi-espontâneos do..tipo que vimos na década: passada
chegam a um impasse, porque não podem.:criar.espontaneamente.soluça)es
pol éticas alterhatlvas. Estas devem ;surgir do campo pol I'tico. cama resulta-
dos de modificações nas relações de forças dentro do movimentoltrabalhis-
ta organizado, através do crescimento das organizações revoluçi=Qnáríase
aumento de sua credibilidade aos olhos das:-grandesmassas;:Ocorre nesse
55
54 marxismo revolucionário atua] a'estratégia socialista no ocidente

caso um hiato temporal óbvio, do qual o movimento tem sofrido. Sur- que'-isso não significa que o nível de consciência da c.las$eoperaria empa'
nhola sejatão elevadoquanto em 1936 ou 1937i';Nãoobstante, houve uma
giu um grande potencial de lutas militantes nas fábricase sindicatos e tremenda intensificação da força do proletariado naquele pal's. Os capitalis-
também um grande potencial de movimentos sociais setoriais de massa.
tas não se sentem satisfeitos com isso. Fizeram tudo o que puderam numa
mas não houve uma alternativa política geral digna de crédito para os
reformistas. Como os reformistas se encontravam num impassee faltava- situação difícil, mas isso não pode ser considerado como uma vitoria para
Ihes uma alternativa. a burguesia tomou a ofensiva. eles. pois foram obrigados a fazer amplas concessões à classe trabalhadora.
Devemos,porém, examinar mais cuidadosamenteessesdois novos Não rne parece que a transição de um regime bonapartista. semifascista,
para a democracia burguesa num pai's como a Espanha constitua uma
ingredientes, que até agora se reforçaram mutuamente. O primeiro -- a concessão dos trabalhadores aos capitalistas. Parece-me antes uma conces-
falta de reação, ou melhor. a demora da reação, da classeoperária contra a
são dos capitalistas aos trabalhadores. PI burguesia foi obrigada a conceder
ofensiva dos empregados contra empregos -- foi principalmente, é claro,
liberdadesdemocráticas aos trabalhadores. sendo provável que o sucesso
uma questão de tempo. Por quê? Partimos, aqui, de uma de nossasnoçoes
básicas para o julgamento da atual situação nos países imperialistas -- em temporárioda política de austeridadefosse.em parte. devidoao fato de
que à classeoperária considera tal êxito muito importante.
especial na Europa Ocidental. mas não apenas ali. Estamos profundamente
::' -' Foi esse. incidentalmente. o argumento do Partido Comunista: troca-
convictos de que a modificação básica na relaçãodasforças sociaisocorrl-
a nas décadas de 1950 e 1960 em consequência do desenvolvimento do mos certas concessõeseconómicas pela conquista dos direitos democráti-
cos que nos permitirão reconquistar o terreno, a longo prazo Isso pode
capitalismo moderno não foi neutralizada pela classecapitalista. E nota-
ria ser chamado de manobra oportunista, contra-revolucinária. para evitar
mos -- o que é especialmente notável na Grã-Bretanha -- que apega.rdo
uma explosão imediata na Espanha. Estou de acordo. Mas não é um argu-
desemprego maciço e os sucessostemporários da ofensiva contra a c asse
totalmente falso. Os trabalhadoresque foram lançados.'napnsãa
operaria promovida pelos empregadorese pelo governo.a força organizada
a autoconfiança da classe trabalhadora não declinaram. Isso acontece em
todosos paísesda EuropaOcidental, semexceçâo.. . . '. x.: ....
A grevedos metalúrgicos na Alemanha Uciaentai. em ly/ , iul unia
confirmacão:notável dessaopinião. A greve -- a primeira grevegeral em ução Os trabalhadores,que agora podem fazer greve legalmente,aos
toda a indústria siderúrgicana Alemanha.desdeo fim da guerra-- foi uma milhões. consideram essefato como uma vingança pela derrota de 1939.
surpresa para muitos que haviam formulado julgamentos erroneos sobre 'ão o vêem cama uma vitória da burguesia,mas como um grande passo
os acontecimentosbinaAlemanha,durante os últimos anos. E certo que à frente, uma vitória para si mesmos. E certo que os reformistas consegui-
a repressãofoi; séria. ocorreram restriçõespressagas
dos direitos demo. ram com isso uma certa credibilidade, mas pessoalmente fui surpreendido
cráticos. e muitos fatos negativos.Mas tudo isso não modificou a relação pelos limites de tal fenómeno. O presta'giodos reformistas aos olhos dos
básica de forças entre os trabalhadores e a classecapitalista, provocada pdr trabalhadores não se aproxima do que era logo depois de 1945. Houve uma
todo o progresso económico dos últimos vinte anos. Simplesmente não pausa durante a qual o ritmo da luta de classes diminuiu. Mas apenas isso.
Esseritmo está voltando a intensificar-se. rapidamente. E não se pode dizer
podemos fortalecer a indústria capitalista, desenvolver as forças produtivas
e estimular um surto de prosperidade de vinte anos, sem fortalecer também que a relaçãobásicadasforcas de classe,que eracontra o capital no perío-
a classe trabalhadora. Essa tese básica do marxismo foi confirmada em do anterior. setenha invertido. :l: .
No todo. podemosdizer que nos últimos três anos a burguesiafez
toda a Europa capitalista.
uistas muito reduzidas, aproveitando-se da desorientação inicial da
Observação semelhante aplica-se à Espanha. Duvido muito que a
situaçãoespanholapossaser consideradacomo um êxito político pa.raa classeoperaria frente ao desempregoem massa.Mas há todos os indícios
de que ess.adesorientação está sendo superada. -'f . , -..,
burguesia. Podemos, é claro, observar que ela conseguiu fazer a transição
sem muitas comoções.Na verdade.você não mencionou o seu maior êxito: '' Algo semelhante está ocorrendo em relação ao segundo ingrediente
fez a transição sem ter de sacrificar seu exército de origem fascista e o também. E certo que ainda há desorganização.As crisesideológicas
mecanismo de repressão. Mas foi pago um preço elevado. Anteriormente.
havia 200.000 trabalhadoresem sindicatosilegais;hoje, há quatro ou
cinco milhões de membros nos sindicatos legalizados -- três vezesmais do
que na Segunda República. Houve em Madri duas ou três manifestações
maiores do que qualquer uma das realizadas durante a guerra civil. E claro
57
marxismo revolucionário atual a estratégia socialista no ocidente
56

Devido a uma série de fatores -- a força da classe.~?perária,


a fraqueza da
burguesia, a crise da ordem burguesa. a crise social geral. a incapacidade
que têm 'os reformistasde apresentaruma verdadeiraalternativa antica-
pitalista, a falta de credibilidadeda extremaesquerdar a buscade uma

@ÜB:lH14HGUãEZtlH%
Em minha opinião. esseexpediente só pode ser temporário. porque
não é essaa função dos sindicatos, que não estão preparados para desempe-
nhar tal papel. Podem fazer tudo isso em nível de propaganda, e até mesmo

dentro dos sindicatos.nto, resumir como segue:não houve modificação no


asconclusões necessárias.
caráter do pêríodal?:houve uma fase de certa desorientação, de adaptação a
condições novas;íMasío$capitalistas não conseguiram estabilizar a situação.

f dicalização em massa por toda a Espanha. xi ''

l X X iiR j311:
[hadores espanhóis ultrapassaram o recorde mundial de dias de greve por
11
mil assalariados. f/ouve uma série de greves gerais regionais. que foram cla- o for.:haverá sem dúvida uma reação em massa.
ramente políticas, apresentandoabertamentereivindicaçõespolíticas. A
59
a estratégia socialista no ocidente
58 marxismo revolucionário atual
agrupamento semelhante. pode começar a parecer a muitos um mal menor:
É certo que subestimamos a possibilidade dessamanobra. para.a os setores menlosradicais do movimento trabalhista, uma parte da pequena
qual, incidentalmente. quase não há precedentesno século XX, mas nâo burguesia e talvez até mesmo um setor da própria burguesia.
creio que isso reflita uma estimativa incorrera das relaçõesde forças de
O problema fundamental que enfrentamos em todos os paíseseuro-
classena Espinha. naquele período. E certo que superestimamoso poten- continua sendoeste: enquanto a esquerda revolucionária não for bas-
cial de mobilizações espontâneas de massa sobre questões políticas, da tarlte forte para ser considerada como uma alternativa política digna de
parte de uma classeoperária que. embora extremamente militante. não se crédito aos partidos de massaexistentes entre a classe operária, e enquanto
beneficia com o mesmo tipo de experiência política que ela acumulou de
os trabalhadores forem suficientemente experimentados e conscientes para
1930 a .,1936, e que constituiu um fator-chave nos acontecimentos de
acreditar que essespartidos, tal como. existem hoje, são incapazesde
julho de 1936. implementar 3s políticas anticapitalistas necessáriasà superaçãoda crise
capitalista. haverá um impasse político difícil de superar através de uma
manobra linha de propaganda ou acordo. Se todos os ll'deres dos partidos
A Crise do Eurocomunismo comunistas e socialistas pudessem acabar com seus desentendimentos,
talvez pudessem vencer as eleições por uns cem mil votos. A diferença na
Franca foi tão pequena que favores imprevistos poderiam ter decidido o
f.à,i;:ld.. M« i". .m ;i -ã. f; i; «m; dif'"''ç; m-it. g« d D. .mb';
os lados das barricadas há muito ceticismo quanto à possibilidade de qual-
quer política reformista em condições de crise económica. Ninguém real-
mente acredita que ela possaser útil. Os capitalistas não acreditam nela, os
agora mais difíceis de serem reacendidas e que, nessesentido, seria prova trabalhadores também não, e até mesmo os próprios burocratas não Ihe
vel o aparecimento do que poderíamos chamar de uma crise da perspec dão realmentecrédito. Isso, e não as dissençõesentre eles,é a raiz mais
uva eurocomunista? profunda do atual impasse.Os trabalhadores vêem o fracassodos reformis-
tas. mas ai'nda não acreditam que a revolução seja possível. Daí o impasse.
Até certo ponto, sim. A curto prazo eu diria que sim, semnenhuma reser-
Não é fácil encontrar uma saída para ele. As propostas de frente úni-
va. Mas devemos ser cautelosos e distinguir entre o que é parte da conjun-
tura e o que é inerenteà naturezado período. Qualquernovadeflagração ca são. é claro, um elementoimportante. Mas não devemosalimentar
de lutas da classeoperária tornará, imediatamente,o prometoeurocomunls- ilusões.mesmo involuntariamente, que já foram abandonadaspor uma boa
ta mais útil e digno de crédito até mesmo aos olhos da burguesia liberal. parte da classe operária. Devemos ter muito cuidado na maneira pela qual
sao apresentadas essaspropostas de frente Única e ''governo de trabalhado-
Na Fiança, por exemplo, vemosagorauma volta à açãodireta pelos res'' De um lado, não há dúvida de que se a União da Esquerda na França,
trabalhadores. Isso, especialmentena ausênciade quaisquer perspectivas
por exemplo, tivesseconquistado a maioria nas eleiçõesde março de lu/ ,
eleitorais a curto prazo, choca-se corri os princípios básicos do elirocomu- uma dinâmica de radicalização muito poderosa teria sido desfechada,le-
nismo. Desde a formação da União da Esquerda,os trabalhadores foram vando a uma confrontação generalizada -- senão imediatamente, então em
aconselhados a não fazer greves. a preparar'se para as vitórias eleitorais.
seis meses ou um ano, aproximadamente. É por isso que sustentamos ter
Bem. os planos eleitorais falharam e há agora uma seqiiência de greves. E sido a derrota dos partidos comunista e socialistanaquelaseleiçõesuma
claro que ações fragmentadas contra a ofensiva de austeridade do governo verdadeira derrota para a classeoperária.
são. em última análise. ineficientes. Os trabalhadores compreendem isso
Por outro lado, isso não quer dizer que em certas condições M.archais
e a propaganda de nossoscamaradasem favor de uma greve geral obteve
boa reação entre eles. Mesmo que isso não seja uma respostasuficiente. e Mitterrand poderiamcomeçara colocar em prática políticas anttcaptta"
listas. Não acreditamos nessa possibilidade, nas circunstâncias atuais. E
seria pelo menos um passo na directo acertada.'A vanguarda dos trabalha-
dores franceses, inclusive os trabalhadores comunistas. está cada vez mais importante, por isso, não enfatizar apenas os resultados positivos da unida-
insatisfeita.
O resultado disso não está claro. Não estou prevendo um novo maio
de 1968. e nem mesmo uma greve gerar.,:Mas se a nova onda de greves e a
acho direta continuar a aumentar,a União da Esquerda,ou qualquer outro
ilbiãB:i:i:n::ia a$
crítica. A reação da classe operária à ineficiência e à traição de um governo
6.1
60 marxismo revolucionário atual :a$stratégta:socialista no ocidente

reformista é tão diferente quanto a noite e o dia, dependendoda existên-


cia, ou não, dessaalternativa dentro do movimento trabalhista.
Nessesentido. há uma corrida contra o tempo na Europa Ocidental,
hoje -- ou antes. uma:çorr.idaentre Qt:fortalecimentodo movimento revo-
lucionário e as fases suc.es;idasde esperança e desespero das massas em rela-
ção às organizações -: de...--;massa
.... : oficiais e tradicionais.
. . Sou
- . otim esta quanto
J...:J-
a um aspecto: temos maia:tempo do que me parecia. há alguns anos, devido
à profundidade da crise social dos capitalistas. Isso nos dá mais tempo do
que pensamos.mas não um tempo, Ilimitado. A classeoperária italiana e
francesa, por exemplo. evidenciou uma militância surpreendente. na última
década.Parece-meque houve seisgrevesgerais na Itália. desde 1969. Mas
isso não pode continuar indefinidamente.

[lual seria. então, a forma de UMa ofensiva reacionári? burguesa contra


o proletariado, se a classe operária não tomar a iniciativa?

A curto prazo, essaofensiva não teria possibilidade de êxito. A longo prazo.


é claro. teria.,:Mas antes que pudesse haver uma: derrota estratégica:.:da
classe operária, seriam necessáriasmuitas fases novas de luta. talvez. algu-
mas derrotas em escaramuçaspreliminares, que não impediriam vitórias no
periodó subsequente. Mas se houvesse uma derrota estratégica, upq modi-
ficacão decisiva na relação de forças qe;classe àscustas do proletariado. e econõ:tnicq.i.ncontrolével:
então haveria um ataque não só contra,algumas,das conquistas fundamen-
tais da classe trabalhadora nos últimos 25 anos, mas também contra alguns
direitos democráticos básicos.A burguéÊía;têm.*perfeita
noção de que uma A HeÓemohiq db: RefõrrnismdjÊ â:.F,i?ri+é .ü riiéá
classe operária consciente ê bem erga.hiza.dá::êÕh direito de. greve e com
-- '' ;,. ê úàrlifé$taç
;.*, ãb.. está bem
amplas possibilidades de ;organi2açãõ .. colocada
para bloquear qualquer modificação decisiva na situação economica. .
Assim. se houver uma derrota estratégica da classe operária! êreió
veremos uma redução radical do díréito de greve e da liberdade sindi
cal em geral. E isso terá implicaçõesprofundas para a estrutura política
dos países em questão. Em dtltras palavras, haveria regimes poli'ticos auto'
ritários -'- não necessariamente
Estadosde tipo fascista.emboraeu não
exclua tal possibilidade. mas regimes autoritários qualitativamente diferen-
tes dos que existem hoje. Não falo apressadamente,quando digo que uma
vitória estratégica da classe capitalista sobre a classe operária em qualquer
pais chave da Europa Ocidental seriaum acontecimento desastroso.Coco dó:diáriadentro da:classeproletária?
=::==:==' :@ S e€1)=lsi\){ 1.; ! b..i=1 } q...=# :.l
disse isso é extremamente improvável a curto e médio prazo. mas tal possa'
;.\
r'': M:;M
bilidade não pode ser excluída para sempre.:E o pior aspecto da política
da social.democraciae do eurocomunismo,e em grande parte também dos
partidos "stalinistas órtodokos''; se assim os podemos chamar. Com todo o
elogio que fazem às instituições derüocrático-burguesas,com todas assuas
genuflexões ideológicas ante os valores democrático-burgueses. eles subesti-
mam de maneira total os perigos da situação europeia. Semeiam as mesmas conduzida.
63
a estratégia socialista no ocidente
62 marxismo revolucionário atual
A fraqueza das organizações revolucionárias durante e imediatamente
Inicialmente. devemos notar que a realidade da luta de classesnos após a SegundaGuerra Mundial. por exemplo era tal que foi impossível
países capitalistas adiantados desde a Primeira Guerra Mundial -- ou desde qualquer desafio político real aos reformistas. Aos olhos das massas,os
1905. na verdade-= não pode ser reduzida simplesmenteà fórmula do revolucionários não representavam uma alternativa genuína aos reformistas
predomínio do reformísmo". ou à pretensãocontrária de que ''os traba- e stalinistas; a relação de forças teria de ser. primeiro. modificada. Masas
lhadorestendem espontaneamente
a ser revolucionáriasma$os traidores organizaçõesrevolucionárias,que contam não apenascom centenas,mas
reformistas impedem que eles façam a revolução". Na realidade. essasduas com aproximadamente dez mil membros. podem esperar. realisticamente.
proposições são ambas analiticamente absurdas. travar batalha com a máquina reformista. quando surgiremcondiçõesmais
A primeira significaria simplesmente que o socialismo é impossível, favoráveis. A composição social das organizações e sua capacidade de re-
e a segundaé uma concepçãodemonológicada história. Nenhumadelasé crutar um número suficiente de dirigentes da classe operária, reconhecidos
capaz de explicar a realidade histórica. O fato é que durante períodos de como líderes autênticos, ou pelo menos potenciais, da classena fábrica.
funcionamento normal da sociedadeburguesa.a classeoperária é na reali- também são elementos decisivos que podem ser estudados em detalhe em
dade dominada pelo reformismo. Isso, na realidade, pouco mais é do que vários casosespecíficos: o Partido Bolchevique entre 1912 e 1914. a ala
um truísmo, pois como funcionaria o capitalismo normalmente se a classe esquerda do Partido Social-Democrata Independente (uspD) na Alemanha
operária contentassesua existência pela ação díreta a cada dia? Mas o ca- entre 1917 e 1920. a esquerda revolucionária na Espinha entre 1931 e
pitalismo não funcionou normalmentenos últimos 60 ou 70 anos.Perío- 1936
dos de normalidade foram interrompidos pela deflagraçãode crises,de
A isso devemos acrescentar que o desaparecimento de uma tradição
situações pré-revolucionárias e revolucionárias=:E impossível -- económica.
anticapitalista é um fenómeno relativamente recente. que acompanhou a
social e psicologicamente-- para a classeoperária viver num estado cons-
fixação definitiva da posiçãodos partidos comunistas nos paísesindustrial-
tante de ebulição revolucionária. Essa atternação de condições suscita,
mente adiantados ao término da Segunda Guerra Mundial e em especial ao
portanto, a mesma velha questão dos limites temporais das crises revolu- fim da Guerra Fria. Essetipo de educaçãoanticapitalista havia continuado
cionárias e pré-revolucionárias.
até mesmo durante a Frente Popular. tendo a política stalinista sido imple
Isso nos leva de volta à problemática trotskista fundamental: a da mentadaem dois níveis, por assimdizer. Hoje, o reformismo social-demo-
lideranca revolucionária. da concordância entre a elevaçãoda consciência crata e stalinista une forças para manter a classeoperáriacomo prisioneira
de classe do proletariado e sua capacidade de auto-organização. da constru- da ideologia burguesa e pequeno-burguesasMas qualquer visão da luta de
cão de uma liderança revolucionária. A coincidência de todos essesfatores classesque se centralizasse exclusivamente sobre esseaspecto da realidade
pode levar a crise a um resu)tododiferente do habitual, que em si mesmo subestimada as molas mestras quase que estruturalmente anticapitalistas
estimula a dominação reformista::Para os que podem querer classificar esta inerentes à luta declasses, durante qualquer fase de instabilidade acentuada.
análisecomo ''revisionlsta''. devemoslembrar que essetipo de revisionismo
tem raízes profundas,Éjá que até mesmo Lênin disse que a classe operária O fato de ser a classeoperáriaespontaneamente
anticapitalistadu-
é naturalmente sindicalista'' durante períodos de funcionamento normal rante os períodos pré-revolucionários foi confirmado em escalamaciçaem
do capitalismo, e ''naturalmente anticapitalista'' em situações revolucioná- país após país: Alemanha. 1918-1923; Itália, 1917-20; França.1934-36;
rias ou pré-revolucionárias. Espanha. 1931-36; novamente a França em maio de 1968; novamente a
Os reformistas continuarão a ser a maioria da classe operária durante Itália em 1969-70 e 1975-76; Espanha novamente em 1975-76; Portugal
em 1975; e assim por diante.
períodos ''normais", setal expressãotem qualquer significado durante a fase
de decadência capitalista. De qualquer modo, é clara a existência de uma Por outro lado, essasexplosõesde atividade anticapitalista espontâ-
diferenca fundamental entre. de um lado, uma situação na qual há dissen- nea (e consciência) têm efeitos menos duradouros sobre a consciência de
são entre pequenos agrupamentos revolucionários isolados e, de outro, a classee permitem aos reformistas reconquistar o controle de modo relati-
máquina dos partidos de massaque sãopraticamente onipotentes na classe vamente rápido, pois do contrário serãoaçambarcadaspor poderosaserga
trabalhadora. bem como situaçõesnas quais os revolucionários jã atraves- nizacões anticapitalistas de massa.como os partidos comunistas de princi
saram o umbral da acumulação primitiva de forças, embora ainda represen- pios da década de 1920. ou por uma vanguardados trabalhada.resde pro-
tem apenasuma pequenaminoria dessaclasse.Nesteúltimo caso,a luta porções significativas, que têm permanente desconfiança dasplmáquinas
para arrancar dos reformistas a hegemonia sobre as massasse torna infinita- burocráticas.
mente mais fácil. uma vez surgida a crise revolucionária.
65
marxismo re'üolucionário anual a estratégia socialista no ocidente
64
nhum sindicato. nenhumafrente unida de partidos jamaisconseguiutal

dãdê pol:Íticâ;
ser concretizada. então, de que a política de unificação daq forças
proletárias é uma 'constante. um ob/et/io estmtég;co pe/manente para os

atraídQs:Pelas forças mais moderadas.

iniii]]Ê:]á#'Ó]i]Íifiiç:i14:i?:
]::iilsl:iii:x;l'4$i
fundamental dos revolucionários?

ou nacional raça, sexo. idade etc.

para iDilhões de assalariêdo$.

iÚlil$$ê:ilha:
67
66 marxismo revolucionário atua] a estratégia socialista no ocidente

se ignorar essaconfiança relativa ou supor que os trabalhadoressocialistas a açáb comum, ou pelo menos exercer. a partir das bases,pressãotal que
ou comunistasparticiparão dâ frente sem levar em conta as atitudes e os aparelhos teriam de pagar um alto preço por não aceitarem o caminho
reações de suas próprias lideranças. l
Segue-sequeluma política de frente única dirigida para os partidos.
social ista e comunista é um componente tát/co da or/e/7taçáb estrafeig/ca
geral. Mas é apenasisso -- um componente e não um substitutivo dessa
or/entaçáb. Isso é particularmente exato na medida em que a unificação
e politização máximas de todo o proletariado exigem tanto a dedicação
dosçtrabalhadores$:
socialistase comunistasquanto um rompimento, por «

parte da grande maioria dessestrabalhadores, com as opções de colabora-


ção de classemantidas pelos aparelhos burocráticos.
É interessante assinalar que a redução simplista da estratégia de uni-
ficação das forças proletárias e elevaçãomáxima da consciência de classe
à poli'tica da frente única dos partidos socialista e comunista tem paralelo
freqilente=:nailusão espontaneístade que a formação real dessasfrentes
únicas é, por si só, suficiente para levar os trabalhadores a romper com os
reformistas. em virtude da amplitude das lutas unificadas que resultariam. Ó'

Ainda mais ilusória e espontaneísta é a nocão de que a experiência de um


governo sem ministros capitalistas" seria suficiente para abrir caminho a
um:'rompimento das massas trabalhadoras com o reformismo e à formação
de um autêntico ''governo dos trabalhadores'' anticapitalista.
A experiência da histórica mostra que essasnoções são falsas. Basta
lembrar. por exemplo. que depois de nada menos de seisgovernostraba-
lhistas "puros" na Grã-Bretanha -- e com isso quero dizer governosque
não contavam com ministros burgueses-- a máquina reformista continua
mantendo seu controle sobre a maioria da classetrabalhadora. embora tal
máquina esteja integrada ao Estado burguês e à sociedade burguesa mais
estreitamente do que nunca, e embora defenda e mantenha uma política
de colaboracão cada vez mais íntima com o grande capital.
A tática da frente única só serve à estratégia de unificação do pro-
letariado e elevaçãode sua consciência se várias condições forem 'adequa-
damente atendidas.
Primeiro, as propostas de frente única dirigidas aos partidos socialista Í'
eljcomunista devem centralizar-se' nas questões mais prementes da luta de
classes e devem concítar as lideranças desses partidos a se unirem para lutar
por objetivos específicos, que articulem os interesses dos trabalhadores.
Devem. portanto, conter um aspecto programático -- sem o qual poderiam
até mesmo lem condiçõesrevolucionáriaslfacilitar as operaçõescontra a '1 premente.
classe operária. f
Segundo. essaspropostas devem ser formuladas de maneira a serem
dignas de crédito pelasgrandesmassas,em momentos nos quais parece
possívelimplemente-lase nas formas qüe levam na devida conta o nível de
consciência dos trabalhadores que ainda seguem essespartidos. Em outras
palavras, uma das funcões essenciaisdessaspropostas é provocar rea/mente
a revolução pemlanente no terceiro mundo by

2.
A revolução Permanente
no Terceiro Mundo

. :
Uma das principaiscontribuiçõesde Leon Trotski ao marxismo foi a for-
]

mulação da teoria da revolução permanente. Na verdade, essateoria p.rova-


velmente está mais intimamente associadaâaoseu nome do que qualquer
outra. Foi desenvolvida inicialmente para a análise e previsão do curso da
revolução russa. com a argumentação de que não haveria um estágio bur-
guês intermediário. que as tarefas ''clássicas'' da revolução burguesa seriam
resolvidas pela classeoperária sob a ditadura do proletariado, :Maistarde,
ele generalizouessateoria. aplicando-aa todo o mundo colonial, onde as
revoluções chinesa, vietnamita e cubana confirmaram a sua exatidão, como
o haviafeito a revoluçãorussa.
No período do pós-guerra, porém. houve uma grande onda de descolo-
nização, frequentemente lideradapor forças políticasnacionalistas burgue-
sasi Isso levou à criação de Estados que gozam pelo menos de independên:
cia jurídica, surgidoscom o colapsodos impérioscoloniaiseuropeus Será
que os marxistasrevolucionáriossubestimarama capacidadeda burguesia
nativa do mundo colonial e semicolonial para conquistar a jndependência
política. e até mesmopara presidirrevoluçõesburguesasbastantep.rofun-
das? Não terá a Quarta Internacional subestimado a capacidade de luta
dessespartidos e forças sociais nacionalistas burguesas?

Vou responder à pergunta em dois níveis. Primeiro, o que realmente ocor-


reu. e ainda está ocorrendo até certo ponto, embora o processoestejaago-
ra quase concluído, já quq restam poucos paísescoloniais no sentido real
da palavra. paasesadministrados diretamente pelas potências imperialistas.
Segundo, quais as implicações desse.processo para a teoria da revolução
permanente?
Para começar, não nego que muitos marxistas, inclusive Trotskí e o
movírríento trotskista. fizeram generalizaçõesimprudentes, de tempos em
71
70 marxismo revolucionário atual a revoluçãopemtanente no terceiro mundo

Ora. contrariará isso a teoria da revolução permanente?Não creio, e


novamente temos de rejeitar as interpretações simplistas e unilaterais do
que essateoria afirma. Como se dedicou muita atençãoa isso{o Partido
ComunistaBritânico publicou um de seusfolhetos maistradicionalmente
B L:E::EF::FH
:1:18B:l
stalinistas sobre essa questão, e isso não foi por acaso), gostaria de recapi-
tular o que a teoria díz, sua estrutura real, e sua premissa essencial, que fo-
ram. com freqilência, mal entendidas.
A premissa inicial da teoria é a de que a famosa frase de Marx de que
os paísesadiantadosrefletem o futuro dos menosdesenvolvidos
deixa de
ser exata com a ascensãodo imperialismo. A.Franca e a Bélgicaseguiram,
em geral, o padrão do desenvolvimento inglêsla Alemanha e a Itálía repeti-
ram. em grande parte. o desenvolvimento francês, embora sem uma revolu-
ção burguesa radical. Japão, Áustria e Rússia czarista começaram nesse
caminho. mas foram incapazesde trilha-los até o fim. E aí termina a ques-
tão. Uma vez estabelecida a natureza imperialista geral da economia mun-
dial. tornou-se impossível aos países menos desenvolvidos repetir totalmen-
l
te o processode industrializaçãoe modernizaçãodos paísesimperialistas.
Há três razões essenciais para isso, que foram resumidas pelo jovem
Trotski. mais intuitivamente do que pelo estudo histórico profundo. quan-
do primeiro formulou sua teoria, em 1905. Primeiro. o peso do capital im-
perialista no mercado mundial (e, portanto, em todos os paísesrinclusive
os mais atrasados} foi tal que qualquer processo orgânico de industrializa-
ção em competição com o capital imperialista foi eliminado enquanto o
imperialismo: dominou. Segundo, a burguesia.nativa nessespaísesfoi colhi-
da entre seu desejo de industrializar-se e modernizar-se, de um lado, e suas
íntimas relações com a propriedade agrária, de outro. Devido a essarela-
ção íntina. 'a burguesia não teve interesse em promover uma revolução
agrária radical, pois isso seria a destruição de uma parte significativa de seu
próprio capital. Essa revolução agrária, porém, é a condição preliminar pa-
ra a criação de um extenso mercado interno, necessárioa um processode
industrialização profunda e orgânica. Houve, no caso,também uma convide
ração política : a classeoperária era relativamente maisforte do que a bur
guesiaem muitos dessespaíses,de modo que a burguesiatemia qualquer .+

comoção radical no sistema de relações de propriedade, pois isso ameaçada


o seu controle. Terceiro, os camponeses-- que teriam oferecido o maior
número de participantes potenciais do processorevolucionário burguês (e
cujo potencial revolucionário Trotski não negou nuncal -- foi incapaz.de
oferecer uma liderança política central a esse processo. Estava historica-
mente condenado a seguir uma liderançaburguesaou proletária, Se os #

camponeses fossem liderados pelas forcas burguesas, a contra-revolução se-


ria Vitoriosa, porque a burguesia, pelas razões acima mencionadas. passaria
inevitavelmente à contra-revolução no curso do processo revolucionário.
Portanto. somente se os camponesesfossem conquistados por uma lideran-
ça proletária, ou pelo menos participassem de um processo revolucionário
73
72 marxismo revolucionário atüal a revolução permanente no terceiro mundo

escrito em 1960. Em essência.essefenómeno pode ser resumido da seguin- por tremendas lutas revolucionárias, conflitos e guerrascivis, transforma-
te maneira: quando o setor que produz e exporta bens de equipamento ções pol éticas dramáticas e embates de todos os tipos -- as tarefas da revo-
passaa predominar, na metrópole, sobre o setor que produz e exporta bens I'ução' burguesa foram realizadas realmente. talvez de maneira.p.alclal..de-
de consumo {inclusive mesmo os bens de consumo duráveis), o imperialis- morada. em vários pai'sesintermediários do ''Terceiro Mundo''? Muitos
mo passa a ter interesse num certo grau de industrialização nos países de- desses Estados possuem hoje máquinas estatais capitalistas, .independen-
pendentes. A razão é evidente: se exporta máquinas, o país precisa de tes. capazesde impulsionar a modernização e ? industrialização..Afinal de
clientes. e estessãoprocuradosem todo o mundo. Issolevaa uma modifi- contas, mesmo nqs pai'ses onde houve revoluções socialistas, a industriali-
cação na relação entre as várias frações da classeburguesa internacional, o zação está longe de ser ''orgânica'' e completa. Mas se examinarmos países
que por sua vez levaa uma modificação no bloco dominante em algunsdos como Méxíco,'Brasil, Argélia, Egito e mesmoa I'ndia,veremos Estadosque
principais paísesdo mundo subdesenvolvido,O bloco dominante clássico são hoje politicamente independentes ê não se baseiamem camadas sociais
era o dos grandes latifundiários, da burguesia intermediária. e do capital pré-capitalistas. Sem dúvida, muitos dessespaíses viram reformas agrárias
imperialista que dominava a produção de matérias-primase produtos tão profundas quanto algumasdas realizadasnos pa.I'ses
metropolitanos.
Se tudo isso é certo, um dos postulados básicos da teoria da revolução
primários.- Esse bloco dominante não tinha interesse em industrialização
em grandeescala,au rápida -- muito pelo contrário. permanente deve ser reexaminado e corrigido: o de que as ta.refaz.darevo-
Há agora um novo bloco dominante em alguns dessespaíses: um.bloco lução burguesa só podem ser plenamente realizadas pela ditadura do prole-
de monopólios capitalistas nativos. tecnocratas do Estado e da máquina tariado. Concordacom isso?
militar. e multinacionais interessadasespecialmente na exportação de equi-
Não. Na verdade. discordo vigorosamente. Para começar, Trotski usa exata-
pamento industrial. Essebloco, ao contrário do anterior. tem interessena mente as mesmas palavras que usei antes: a rea//zacâb coar/efa e aufént/-
industrialização dessaseconomias intermediárias até certo ponto. Essa mo- ca (não o /n/t/o de uma realização) das tarefas da revolução democrática e
dificação na composiçãodo bloco dominante em alguns países está. burguesa. A maneira como você caracterizou as revoluções burguesas no
portanto, ligada tanto à$ modificações estruturais na metrópole da burgue- passado,com base na qual você avaliou o que vem ocorrendo nos chama-
sia imperialista quanto a importantes modificações na composição social dos paísesintermediários,é. na minha opinião, errónea.(De passagem,
in-
dos países intermediários, pois nessesocorreram grandes comoções cidentalmente.eu não considerariao Egito como um dessespaísesinter-
mediários. Brasil e México, sim; a lhdia talvez. Os outros seriam a Coréia
Não haverá um perigo na maneira pela qual esseproblema foi apresentado do Sul. as cidades-Estadode Hong-Kong e Singapura. que são casosespe-
acima? Num sentido, a resposta dada parece fixar padrões excessivame.nte
ciais, e a Argentina).
altos para o que poderia ser consideradoçom.o.processorevolucionário Você colocou ênfase excessivano caráter burguêsdo Estado e na eli-
burguêsautêntico no "Terceiro Mundo''. Afinal de co.nuas,
nospai.ses.me-
minação das relações sociais ou relações de produção pré-capitalistas. Por
tropolitanos adiantados a realização das várias tarefas.da revoluç.ão burgue-
sa exigiu um período prolongado.0 processo.foi.muito desigual;as.contas que digo isso? Porque a lei do desenvolvimento desigual e combinado
evidentementecontinua a operar na época do imperialismo -- mais do que
mm a classe l;tifundiá'ria feudal foram ajustadas de maneira muito diferen-
nunca. na verdade. O atraso de um país como o Brasil, ou mesmo a Índia
tes na Fiança. Grã-Bretanha.Alemanha, Jap.ãoetc. Além disso, a con: em 1950. não pode ser comparadoao ''atraso" da Françaem 1789. Não
cepção marxista clássicadas tarefas essenciaisda revolução burguesa não.se t quero repetir o debate que se vem realizando há várias décadassobre a
centraliza na modernização ou industrialização em plena escala. A Revolu-
natureza da agricultura latino-americana.ou mais geralmentesobre a
ção Francesa em 1789, por exemplo, não produziu uma industrialização to-
agricultura em muitos dos paísescoloniais no século XIX. Meu bom amigo
tal na França, pelo menos a curto prazo A revolução burguesa envolveu. André Gunder Frank levou essedebate até a natureza da agricultura no
essencialmente.' a expulsão das classes que dispunham de.poder e se b.atea-
século XVI .
vam em relações sociais pré-capitalistas, ou, no caso da Guerra Americana Deixemos isso de lado. Minha impressãoé que mesmo na épocade
de Independência, a eliminação da máquina estatal cólon.ial e a criação de l Trotski as relações sociais semifeudais no sentido literal da palavra .--
um Estado independente.E. é claro, geralmenteassociadacom o que f.oi
para não mencionarmos estruturas estatais semifeudais como a monar-
uma revolução agrária como a base. ou um componente essencial, da cria-
quia absoluta na Rússia, ou a monarquia na França antes da revolução
ção dessanova máquina estatal.
de 1789 -- pouco existiam nos paísescoloniais. Podemoscitar o casoes-
Não se poderia dizer que em cerc? de três quartos de século desde que
Trotski tormli ou a teoria 'da revolução permanente= período marcado pecial dos príncipes indianos e das regiõesda Índia que elesdominavam,
75
a revolução pemlanente no terceiro mundo
l. marxismo revolucionário atual
ficaria que o sistemaproduziu uma industrialização suficiente paraabran-
maísde cem milhõesde pessoa's;
no Brasil,cercade 20 milhões.Mas
essa estatística pode ser apresentada de forma oposta: 400 milhões de
pessoas na lhdia e 80 milhões no Brasil foram totalmente excluídas desse
processo. Daí a fórmula: a realização autêntica e completa das tarefas
democráticas da revolução burguesa é impossível no Estado burguês. O
processo deve ser apenas inicia(1), e há acentuados limites objetivos ao seu
desenvolvimento.
Gostaria de acrescentar um outro ponto. mais controverso entre os
marxistas.tanto os revolucionárioscomo os do movimentooperário em
geral. É o segundoaspecto da questão que estamosdiscutindo, ou seja,a
relação exata entre essesEstados e o imperialismo. Inclino-me a dizer que
o grau de autonomia política do capital imperialista que essesEstados
atingiram é maior do que os marxistas esperavamhá 30 ou 40 anos. Ao
que me parece.seria errado chamar hoje paísescomo o Brasil ou a Índia de
semicoloniais no sentido de que seusgovernos devem ser consideradosco-
fb mo dependentes de alguma potência imperialista. Não o são. Mencionei an-
tes o bloco de poder que hoje governa essespaíses.Evidentemente,o com-
ponente que compreendeas classesdominantes nativas é multo maior e
mais autónomo, hoje, do que no passado.
Mas eu acrescentaria imediatamente que me parece um desastroso
erro analítico. com consequênciaspolíticas fatais, deixar de reconhecer
o outro lado da moeda: essespai'sescontinuam dependentes.com burgue-
sias dera/vdenfes. Isso tem. é claro, implicações para o grau de resistência
que essasmáquinasestatais podem ter contra o imperialismo. O domínio
da economia imperialista internacional. do capital imperialista, sobro as
economias desses pai'ses continua tal que a fórmula de dependência se
justifica plenamente.Essedomínio se refletede muitasmaneiras:depen-
dência financeira e tecnológica. sujeição a instituições internacionais como
o Fundo Monetário Internacional, subordinaçãomonetária aos mercados
monetários internacionais. a capacidade que tem o imperialismo de con-
tinuar a manipular e dominar as relaçõesde troca, o grau em que o pro-
cesso de industrialização nessespaíses integrou-se com as necessidadesdo
f capital imperialista, o peso das empresas imperialistas no processo de in-
dustrialização, e assim por diante.

Os Limites da Acumulacão Dependente


)

Um dos fatos para os quais você tem chamado atenção nos últimos.anos é
a ascensãodo 'que você chamou de um novo capital financeiro autónomo
em vários pa'ses capitalistas dependent.es..in.cluindo,entre outros, o Irã.
os países árabes, o;Brasil e a Coréia do Sul. Vários anos transcorreram
77
nK marxismo revolucionário atual a devoluçãopemlanente no terceiro mundo

situam num ponto entre Itália ou Espanha,de um lado, e Tchad, Mali ou


desdeque essaobservaçãofoi feita. Terá ela sido confirmada pelos últimos Paraguai, do outro:'f' .. - - ' .
acontecimentos? Se assim for. esset.iplp de fenómeno não criará problemas $

As consequênciasdisso são;é claro, sérias.Uma delasé a de que o


para a teoria da revolução permanente? objetivo do proletariado na revolução. nessespaíses,serámaior do
que em qualquer das re'/oluções socialistasanteriores, inclusive a russa,la

bei.©HÇi]mün:;311;'ãH
lmport3nte e que essespaíses estão --.e estarão -- envolvidos em crises de
superproducãoclássicasmais diretamente do que ocorreu no passado.Em
outras palavras, eles combinação cada vez mais os efeitos do atraso com os
do desenvolvimento capitalista em grande escalamEste é, na verdade. um
dos fatores que hoje minam a ditadura brasileira, e desempenhou um papel
na revolução iraniana. . ..= .
Ao mesmo tempo, essefenómeno não deve ser examinado de maneira
unilateral. É claro que em sua maior parte essesgrupos de capital finan-
+ ceiro autónomo nos paísesgemi-industrializados operam nos espaços, que
lhes sâo deixados pelas empresas imperialistas multinacionais. Isso é um
dos reflexos de sua continuada dependência da economia capitalista mun-
dial. Além disso, o uso da expressão "gemi-industrializado'' não Implica de
modo algum que essespaísessetornaram "imperialistas", ou mesmo' sub-
imperialistas". Essasfórmulas são muito enganosas,porque ofuscamas
)
diferenças fundBmenfa/s entre os países imperialistas e os dependentes.
De certos modos, a industrialização intensificada tornou tais países' os
mais desenvolvidos entre os subdesenvolvidos -- mais. e. não menos depen-
dentes do imperialismo do que antes. São mais dependentes da tecnologia
imperialista. mais intimamente integrados e, portanto, mais sujeitos ao
mercado mundial imperialista. Setores amplos da burguesia nacional estão
mais fortemente ligadosàs firmas multinacionais. De fato. seusrelativos
êxitos económicos fortaleceram sua dependência do sistema de crédito
internacional. Além disso, em casos nos quais há.um conflito de interesse
sobre mercados, entre empresasimperialistas e indústrias recém-desenvol-
vidas nos paísesdependentes,os últimos são particularmentevulneráveis
às medidas protec onistas tomadas pelos governos imperialistas, especial-
mente num contexto de estagnaçãorelativa, ou mesmo de contração do
comércio mundial. Em 1976, por exemplo, a indústria têxtil de Hong
Kong foi seriamente prejudicada por um embargo imposto pelo Canadá
e pelas restrições de importação determinadas pelas Austrálla. Em 1977
os países do Mercado Comum procuraram reduzir suas importações de
)

ilh@iimlESB'ãiH$Uln
países do ''terceiro mundo", os subdesenvolvidos são em geral incapazes
de uma retaliação efetiva contra essasmedidas. Assim, eles só podem
79
a revolução permanente no terceiro mundo
marxismo revolucionário anual
78
à sua capacidadede modificar qualitativamentea suaestrutura social. Se
desenvolver indústrias na medida em que ''preenchem lacunas" deixadas não houvesse tais limites, então pelo menos alguns deles poderiam teorica-
1;;i. «pi«l :mp'':'''«.. só - m;. d. p''''t?? T.'l'!:."."' m;''''''-' mente continuar seu desenvolvimentoaté o ponto de se tornarem socie-
dades capitalistas.iplenamente modérnizad©, nas quais as tarefas da revolu-
ção burguesa teriam sido concluídas apelo menos na mesma medida em
que foram cumpridas nos países mais adiantados). Uma revolução ''e.xclusi-
vamente proletária'' poderia então estar na ordem do dia. Isso significaria,
sem dúvida. que a teoria da revolução permanente foi finalmente negada.
f Quais são. portanto, esses.limites objetivos? 0 que impede.um país como
o Brasil ou alguns dos países da OPEP de se tornarem nações capitalistas
totalmente modernas?

Vou começar focalizando os países da OPEP.Há, no caso deles, vários


fatores que limitam severamentea suacapacidadede promoverum proces-
so autêntico de industrialização a longa prazo. Nós, na Quarta Internacio-
nal. observamos em várias ocasiões que existe uma tendência para exagerar
muito a acumulação real de reservasde divisawpelospaísesexportadores
de petróleo. Na verdade. houve uma boa margem de falsificação deliberada
pelos círculos imperialistas quanto a isso, com o objetivo ideológico evi-
dente de tentar convencer aos trabalhadores dos pai'sesimperialistasque a
recessão de 1974-75 foi, em grande parte senão principalmente, culpa dos
xeques do petróleo'' e que. como a causa da crise foi externa às econo-
mias dos países capitalistas adiantados, a única solução era a "austeridade
de um tipo ou de outro. O Banco Mundial, por exemplo fez inicialmente a
alegação fantástica de que os membros da OPEPdentro em pouco acumula-
riam 650 bilhões de dólares em reservas de divisas. Fontes semelhantes
alegaram que o saldo dos excedentes de pagamentos recebidos pelos países
exportadores de petróleo totalizariam 80 bilhões de dólares em 1975.
Todos essesnúmeros foram constantemente revistos para menos. O número
real para o saldo dos pagamentosrecebidos.por exemplo, foi de apenas
57 bilhões de dólares, e em 1977 havia cai'do para cercajde 21 bilhões.
Uma das razões dessaconstante sobreestimativa da suposta riqueza
dos países da OPEP.à parte a falsificação deliberada. é que mesmo os recur-
soscriados pelos enormes aumentos dos preces do petróleo não foram sufl
#

cientes para financiar a industrialização a longo prazo, na maioria desses


pal'ses.O resultado é que essespai'sesexportadores de petróleo. com popu'
cações numéricam.ente significativas, na realidade enfrentavam déficits do
balanço de pagamentos devido às grandes despesas das importações que
necessitavam para seus planos de industrialização. Nigéria, Argélia, Irã.
}

Iraque e Venezuela, por exemplo, todos eles enfrentam déficits, apesarde


sua renda com o petróleo.
Em última análise essesimples fato estatl'suco é um reflexo do atra-

RBli:lllR:liiBll$
ÇiR:lUIlilB\lll so sócio-económico dessespaíses. Falta a quase todos uma infra-estrutura
81
marxismo revolucionário anual a revolução permanente no te.rceiro mundo
80
da OPEP.A economia capitalista internacional é, sob aspectos importantes.
um todo unitário. .É. portanto. impossl'vel.cexaminar as perspectivas de
desenvolvimentoeconõÚico num setor isoladamentedo todo ou de outras
partes componentes. Segundo nossa análise :- confirmada pelas ev dências
existentes,-- a economia capitalista mundial não está caminhandopara
um período de expansão vigorosa. Pelo contrário, as próximas recessões
serão mais profundas. os surtos de prosp.eridade e recuperação serão ainda
mais hesitantese desiguais.Nessascondições,atendoos próprios países
imperialistasdificuldade em manter taxas de desenvolvimento significat vas,
e difícil pensarnum surto prolongado de construção industrial n?secono-
mias menos desenho/v/das e noenos v prosas. Pode haver. é claro..exceçõl:s
individuais durante um ou outro breve período. masem geral podemoseli-
minar a possibilidade do tipo de crescimento que seria hecessànopara
transformar a estrutura sócio-económica de paísesdo "Terceiro MunOO
ao ponto em que uma revolução.:;'realmenteproletária" fizesseparte da
ordem do dia.
A verdade final dessa afirmação..poderá ser vista se examinarmos
rapidamente a posição dessespaíses no mercado mundial. Essa posição é
no mínimo. marginal. Vejamos um exemplo. As exportações totais dos
países da Comunidade Económica Européia para o.Brasil, Índia e Paquis-
tão estagnaram ou diminuíram em 1975. 1976 e 1977. Observei isso tam-
bém em The Sn0/7d S/ump. mas é um ponto que mereceser repetido.
Essestrês pal'ses,com uma populaçãototal de cerca de 800 milhõesde
habitantes, compram menos mercadorias dos nove países do Mercado
Comum do que a Austria apenascuja populaçãoé inferior a 8 milhõesl
Qual a razãodessanotável disparidade? É evidente. O "modelo de desen-
volvimento" brasileiro baseou-sena superexploraçâo do proletariado e no
empobrecimento dos camponeses. O resultado, como já disse, é que apenas
cerca de um quinto da população está inclui'do no mercado interno. E isso
cria um limite não só à capacidade
de o Brasilabsorvermercadoriasdos
países imperialistas, como também à sua própria industrialização. Tudo se
reduz ao mesmo ponto, no final: o imperialismo foi incapaz de livrar as
populações dos paísesdependentes da miséria e da pobreza. Portanto, esses
paísesnão podem servir de mercados adequadosàsnovas impo.rtaçoesma-
ciças dos países imperialistas. ou à industrialização intensiva de suas pró-
prias economias.
n Todas as observações podem ser resumidas como se segue. Houve, e
continua havendo, uma reestruturaçãodo mercado mundial. Uma das
características desse processo é que alguns dos mais adiantados entre os
países subdesenvolvidos estão conseguindo um grau bastante significativo
de industrialização que. no fundo, é resultado da combinação.de.duas
tendências:primeiro, a transferência pelo capital impe.realista
de alguns
centros de produção para os países dependentes; segundo, o aumento do
capital financeiro autónomo nessespaíses que tem interesseem realizar
83
82 marxismo revolucionário atual a revolução pemlanente no terceiro mundo

lução russa,à luz das lições da experiência de 1905. Qual poderia ser a di
nâmica de classe daquela revolução, e qual o papel da classe operária
dentro dela? Foram essasas questões que Trotski abordou em Besta/fados
e Perspecf/vas. Nos anos anteriores à Revolução de Outubro, a expressão
lução permanente" estava associadaquase que exclusivamenteao
nome de Trotski. significando simplesmente que a revolução na Rússia co-
locaria a classeoperaria no poder e que. uma vez no poder. os trabalhado-
res seriam forçados a tomar medidas radicais contra as relaçõesde proprie-
dade burguesas,se quisessemresolver os problemas criados pela falta de
uma revolução burguesa no país. Durante aqueles anos. a revolução perma'
nente foi contestada. de um lado, pela posição dos mencheviques, os quais
sustentavam que a revolução seria inevitavelmente burguesa e que a sua li
derança.caberia logicamente aos liberais. e. por outro lado, pela posição
dos bolcheviques, mais nuançada. segundo a qual as tarefas da revolução.
embora fossem burguesas. seriam realizadas por uma aliança do proletaria-
do e dos camponeses.Segundo tal posição, uma vez que essaaliança tomas-
se o poder, haveria uma ''ditadura democrática dos trabalhadorese cam-
poneses''. Trotski caracterizou essa fórmula coma 'algébrica ', no..sentido

i;H:==:=='=;=',!:.=1;=;='=:='=í,=:=i=B.:::==':i: de que o peso relativo das duas classesna aliança não era especificado, bem
como o caráter de classedo Estado dominado por ela.
cas seriam desastrosas.
Na prática, os bolcheviques,'sob o Ímpeto de Lênin, chegarama
adotar a estratégia da revolução permanente no curso das comoções de
Revolução Permanente: Teoria ou Estratégia? 1917. Não conheço, porem indícios de que Lênin tenha jamais reconside-
rado a revolução permanentedo ponto de vista teórico. Com efeito. duran-

ugHXiÜ;=::=f:.füTmm
que. que inicialmente as recebeu como um desvio "trotskista". Se o com-
estratégicas e de tarefas do proletariado e seusaliados. ponente campones da fórmula algébrica da "ditadura democrática dos
trabalhadores e camponeses'' recebesseo valor zero, então a fórmula seria
Prefiro. realmente. a expressão "estratégia" da revolução permanente, em- simplesmenteigual a:'ditadura do proletariado'

g$1#:RilW;llHiRiH$
sobre a aplicabilidade ou não da revolução permanente a este ou aquele
Toda a questãofoi então posta de lado pela .pressão
dos aconteci-
mentos. Durante os anos desesperadosda guerra civil, a discussão das im-
plicações teóricas de outubro para os países subdesenvolvidos não foi
incluída com destaque na agenda. em especial porque a onda de luta revo-
iLiiliL;:' q-. « «g«i- à P,ím'i" G""; M"-di'l « "-t':lj"'' p''"'P'''
mente óa Europa desenvolvida.A prioridade central para os líderes do Par-
tido Bolchevique e a Terceira Internacional, àquela época. era a extensão
tas adiantados se torn8 realmente significativa. da revolução aos paísescapitalistas adiantados. SÕmais tarde, durante a
década de 1920, e em especial após a experiência da revolução chinesa
de 1926-7. á que se reavivou o debate em torno da revolução permanente

:::«'«i$$HK$$$1$81HHi:$$ e a teoria foi melhor desenvolvidapor Trotski. Naquelaépoca,porem,os


termos da discussão se haviam modificado de maneira dramática. O preces'
85
marxismo revolucionário atual a revolução pemlanente no terceiro mundo
84
mento da ditadura do proletariado. Terceiro, a experiência histórica de-
monstrou que os camponeses,por variadas razões. eram incapazesde se
organizar num partido #)dependente, com um papel independente.«Por
maior que fosse o seu papel revolucionário. os camponesesseguiriam,poli'
ticamente. aí:burguesia ouço proletariado,amas em caso algum conquista'

iÜiÜÕii:uzRÊigii:ii::: lli
riam o poder estatal e estabeleceriamum9regimeque expressasse
seuspr.o-
prios interessesde classe.Em outras palavras,o ''componente campones
da ''ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses" ser/a sempre
zero e. portanto, a ''ditadura democrática" só poderia realizar-sena forma
==HH;=1=t=«==:s=':',= =:u=mí= da ditadura do proletariado apoiada pelos camponeses.Quarto, essadita-
dura do proletariado. tendo subido ao poder à testa da revoluçãodemocrá-
um adjunto da teoria do socialismonum paíse. como tal, foi um instru- tica. seria obrigada, para realizar as tarefas dessa revolução, a restringir
mento da burocracia cada vez mais conservadora. O núcleo dessaversão
profundamente os direitos de propriedade burgueses.A tomada do poder
stalinista da ''ditadura democrática" foi sua divisão do mundo em países marcaria então não a conclusão. mas o início do processo revolucionário
que estavam "maduros" para o socialismo e os que nãa estavam. Todos de transformação das relações sociais do pai's em questão. A revolução
os países do mundo colonial {todos os países do mundo. finalmente. mas democrática. na famosa frase de Trotski. evolui diretamente paraa revolu-
isso ocorreu depois) foram colocados na segunda categoria. Em termos de
ção socialista, que por sua vez só .pode ser completada em escala interna-
estratéga política, isso significava que os partidos revolucionários dos tra- cional. A revolução é, portanto, permanente no sentido duplo de que a
balhadores naqueles países não deveriam procurar conquistar a hegemonia
transformação+da revolução "democrática'' em "socialista" ocorre sem
sobre os camponeses, tomar o poder e estabelecer a ditadura do proletaria- qualquer descontinuidade, e esseprocesso de revolução em escalanacional
do como se haviafeito na Rússiaem 1917. Isso foi consideradocomo deve também fundir-se continuamente com a extensão do processo inter-
utÓPico. já que tais paísesnão estavamsupostamente''maduros" para o nacionalmente.
socialismo. Em lugar disso, os partidos do Comintern foram conotadas a
Conceptualmente. portanto, a teoria/estratégia da revolução perma'
apoiar a burguesia. numa tentativa de fazer uma revolução ''democrática nente questionavaa divisão do mundo em países"maduros" parao socia-
(isto é. burguesa).SÓ num futuro indefinido essespaísesestariamentão lismo e países que eram demasiado "imaturos" para Q socialismo. Em lugar
"maduros" para uma transformação socialista. A teoria menchevique da disso. ela sustentavaque um país no qual o proletariado era demasiado
revolução em duas etapas" foi ressuscitada e generalizada -- mas numa fraco para conquistar a hegemoniasobreos camponeses e tomar o poder
forma ainda mais direitista do que antes, já que os mencheviqueshaviam
por si mesmoera 'demasiadoimaturo'' não só parao socialismo,mastam-
pelo menosdefendido a independênciaorganizacionaldo partido proletá- bém para uma rapo/uçâbdemos/atacabem st/ced/da,que. em virtude da
rio em relaçãoao partidodos democratas liberais. .. . ' ... fraqueza sócio-económica e/ou política da classe operária, não poderia ser
Foi nesse contexto que Trotski escreveu o livro intltulaao nevoluç;Éru
completada. Implicitamente. portanto, temos não duas categoriasde países
Permanentee completou a teoria que até então estavaem grandeparte -- os maduros parao socialismo, e os imaturos para o socialismo -- mas três :
implícita nos seus escritos sobre a revolução russa. Em outras palavras. a
paísesnos quais a revolução burguesajá ocorreu e que estão portanto
maduros" para a revolução proletária no sentido ''puro"; paísesnos quais
as tarefas da revolução burguesa ainda devem ser completadas e nos quais a
dêsse operária enfrenta a tarefa de conseguir a hegemonia sobre os campo'
neses.tomando o poder e realizando as tarefas burguesasnum processo
permanente"que evolui diretamente para a transformaçãosocialistada
sociedade;paísesnos quais o proletariado é tão fraco que as tarefasde
revolução democrático-burguesanão podem ser completadas.Isso não
sjgnifica que a burguesia nãb possamanter o poder nos paísesda segunda
categoria, mesmo por um período prolongado. Significa, isso sim, que en-
quanto o domínio burguês não for derrubado, as tarefas da revolução
democrática não estarãocompleta e autenticamente cumpridas.
87
marxismo revolucionário atua] a revolução pemlanente no terceiro mundo
86
Bem pode ocorrer que certos camaradas, pretendendo-se trotskistas. jamais
Ora. o que devemos perguntar. ao julgar se essateoria fdi confirmada tenham realmente compreendido a teoria da revolução permanentee este-
pelos fatos. é se qualquer país da segundacategoriaelevou-seá primeira jam sob a ilusão de que ela afirma que as tarefas da revolução sãa, no
através de um processo de desenvolvimento capitalista. sob o domínio da fundo, idênticas nos países subdesenvolvidos e desenvolvidos. Mas isso
burguesia: Existirá um país capitalista dependente. ou uma ex-colónia, que nadatem a ver com aquilo que a corrente principal da Quarta Internacio-
tenha sofrido urnatransformaçãosócio-económica
suficientede modo nal manteve desde sua criação. Não há nada na estratégia da revolução
que as tarefas hoje enfrentadas pelo proletariado em tal país sejam substan. permanenteque sugiraque as lutas popularesnos paísesdependentesde-
clalmente idênticas às tarefas enfrentadas pelo proletariado de pa asescomo vam começar em torno das reivindicações proletárias. Pelo contrário. é
Alemanha. França, Grã-Bretanha ou EstadasbUnidos?Feita a pergunta altamente improvável. embora. como:tjá disse, pudesseocorrer em alguns
dessa maneira a resposta se torna evidente. Não existe essepaís, e não há dos paísesgemi-industrializadosÍIMesrüoneles, porém. não é certo que as
razão para esperar que venha a existir. Na verdade, em alguns países depen- reivindicações puramente proletárias e socialistas passemao primeiro plano
derües houve uma industrialização significativa. Mas issoapenascoloca a nos primeiros momentos da processo revolucionário.
revolução permanente na agenda de uma maneira mais premente do que A própria estrutura sócio-económica desses países é tal que as reivin-
antes As contradições de classe desses países são muito)mais agudas; o dicacões democráticas provavelmente predominarão no primeiro período
proletariado tem maiores possibilidades de manter sua independência da revolução, desde que por reivindicações democráticas entendamos tam-
política e organizacional e de estabelecer sua hegemonia sobre as massas bémtas relacionadas com a questãonagrária.: Foi essa, afinal de contas, a
camponesas. Mas as tarefas básicas não se modificaram. Poderíamos dizer. essênciado processo revolucionário na Rüssia, que começou como uma ba
um pouco metaforicamente, que tornou-se politicamente crucial distinguir talha contra a tirania e o absolutismo do Czar e pela emancipação dos cam-
entre Argentina e México, de um lado, e Tchade Paraguai,do outro; mas poneses..
e não como uma luta pelo socialismo.Tais reivindicaçõeseram
não a ponto de esquecer a diferença qualitativa entre Argentina e México. tipicamente democráticas, e Trotski nunca negou isso. Pelo contrário. essa
de um lado. e Alemanha e França, do outro. foi a base da estratégia da revolução permanente em sua forma original:
tais reivindicações centrais conquístariam o apoio da maioria esmagadora

M iiiiHai !iií Úiiaii:zl:::ll1li


da população, mas só poderiam sêr satisfeitas se o próprio proletariado
subisse ao poder. Mas o proletariado representava apenas cerca de 10%oda
população; portanto, teria sido puro aventureirismo supor que os trabalha
dores poder am ter tomado o poder sem se tornar os defensoresdaquelas
reivindicações que estavami:no centro das preocupações da esmagadora
maioria da população, constituída em grande parte pela pequena burguesia
e pelos camponeses. Longe de ser uma surpresa para os t(otskistas, o predo-
mínio das reivindicações democráticas no período inicial do processo revo-
lucionário é uma confirmação da.análise de Trotski. Se tivermos de fazer
qualquer correção hoje, é a de que nos paísesgemi-industrializados.onde a
classeoperária é numericamente maior e o campesinato menor do que na
Rússia as questões de democracia política serão provavelmente mais desta-
cadasdo que asrelacionadascom o problema agrário. E mesmo issodepen-
de da estrutura social e política de cada país. Isso não ocorreria. por exem-
plo. na lhdia, onde a esmagadora importância da questão agrária é evidente.
li p''""'im.l-t. -ã. «.«.,';-'m m«m. .m g,; d. p;"' ''..H'??i!.
' Devemoster cautelaquanto ao perigo de cair em armadilhastáticas

iill Ü11Üãm:
!St:i3UE'lllQ T
e políticas, em conseqüênciade uma visão demasiadoesquematizadada
dinâmica da luta. É por isso que não me agrada a palavra ''fase!'. Admito
que não é tão má quanto ''etapa" pelasrazõesmencionadas.Masainda
ntroduz uma certa idéia de seqilênciastemporais, que em minha opinião

***üjü
!$HHl$HWliH:ll:WH é uma abordagem erradasiO impor'tente é ver o processo revolucionário não
89
88 marxismo revolucionário anual a revolução permanente no terceiromundo

favoráveis a tais formas e os que a elas se opoem. o grau de autonomia do


como umasérie de intervalosde tempo, durante a qual uma ou outra relvln
movimento de massa.o grau de consciência de classe,ou 50 outros fatores.
dicação adquire maior ou menor destaque,mas.como uma luta contínua
O importante é manter o espírito aberto, dedicar grande atenção ao que os
por uma combinaçãade palavras de ordem e reivindicações, na qual não há
camponesese trabalhadores estão realmente fazendo, e não afastar quais-
uma separação clara entre ''democrático" e "proletário" ou "socialista
quer possibilidades com base em esquemas preconcebidas. .m
A perigosa armadilha política que espera quem opta pela abordagem Há uma lógica organizacional e política da estratégiada revolução
do'tipo sequência temporal é ê seguinte: as reivindicações democráticas permanente. bem como uma lógica sócio-económica. Quando dizemos que
da "primeira fase" da revoluçãose identificam, ainda que apenaspor omis- as tarefas democráticas só podem ser resolvidas pela ditadura do proleta-
são. com as exigências de instituições de uma caráter democrático burguês, riado. estamosdizendotambém que'a liderançaproletária da luta é impos-
de uma democraciaparlamentar burguesa.Como aconteceu na Espanha e sível. a menos que a classeoperária tenha suaspróprias estruturas organi-
em Portugalnos últimos anos,essaarmadilhaé um perigoaté mesmonos zacionais e políticas independentes:.sindicatos. partidos, sovietes e. natu-
paísescapitalistasadiantados. O fato. porém, é que não há nada de auto- ralmente. um partido revolucionária que possacompreendero potencial da
mático na ligação entre as reivindicações democráticas e as instltulçoes situacão e aproveitar todas as oportunidades para desdobraro conteúdo
estatais democrático-burguesas. E se estivermos pensando nessaidentifica- pro etário das lutas democráticas nos países dependentes. Esta é uma das
ção, acabaremostentando impõ-la ao processo::históricoreall como os mais gravesacusaçõesque nós. trotskistas, fazemoscontra os stalinístas
social-democratas. stalinistas e pessoasoriundas da tradição stalinista vêm clássicos de inclinação pró-Moscoutle aos maoístas: eles mantém um es-
fazendo constantemente nos últimos 50 anos, aproximadamente. testou quema que não dá ênfase à organização independente da classeoperária
me referindo às basesjno caso da liderança dessascorrentes, trata-se de nesse processo revolucionário. E, o que é pior, elesfavoreceram freqtlente-
um problema diferente.) Uma das consequênciasdessaatitude é que os mente a dissolução de qualquer organização independente dessetipo em
seus partidários tornam-se cegos às possibilidades do aparecimento de partidos da burguesia naciç)nal "progressista''. . >.
formas de democraciadireta. democracia proletária e auto-organizaçãoda lqa realidade.porém. essalinha é aventureira,porque do ponto de
classe proletária;; no curso das mobilizações para reivindicações democráti- vista marxista é loucura alimentar esquemas grandiosos de insurreição,
cas. Como vimos naiÇRússia e em muitos outros países também, essas luta armada.tomada do poder. semconstruir os instrumentos elementares
formas de auto-organizaçãoproletária tendem a surgir espontaneamentea de um partido proletário para impulsionar.a organizaçãoindependenteda
partir de lutas revolucionárias. O problema é que, emboü surjam esponta- classe operária. Além disso, seu aventureirismo é agravado por uma.con-
neamente. nãoPlutam da mesma forma para substituir a máquina estatal cepção totalmente ideal.ista da consciência e da organização de classe
existente. Não se coordenam e centralizam espontaneamentee não ques- Trotski observou que não é uma posiçãomaterialista esperarque qualquer
tionam automaticamentee de forma direta a legitimidadedo Estadobur-
guês. Isso exige uma liderança revolucionária. E qualquer corrente política
ofuscada pelo esquema de que umâ ''fase" democrática é necessária e que
essa''fase" necessita.portanto. de instituições estataisdemocráticas, ten-
tará logicamente reprimir essesembiões de auto-organização como poema'
turos. não estando em conformidade com o caráter da etapa '= ou fase.
d
ou qualquer que seja a denominação usada .- democrática. Um partido
com essa linha desempenharáum papel objetivamente contra-revolucioná-
rio -- a despeito das intenções de seus membros'o.u mesmo de sua lide-
rança. É essaarmadilha que deve s9r evitada.
O que devemos ressaltar é que os conselhos de trabalhadores. conse-
lhos ou comunas de camponeses, e outras formas de organização das mas- .»

sastrabalhadoras podem surgir nas primeiras fases de um processorevolu-


cionário aparentemente''democrático". Não estou dizendo que surjam
sempre, maspodem surgir. Se isso acontecerá ou não. dependerá de muitos
fatores: a formação histórica do país e a tradição de seu movimento traba-
lhista. a relaçãode forças dentro do movimento de massa.entre os que sao
91
90 marxismo revo]ucíonário atua] a revolução pemianente no terceiro mundo

a nacionalização dos grandes monopólios, em seguidaa nacionalização mais


ampla. e assim por diante. De um ponto de vista exclusivamenteteórico.
é provável que essateria sido a maneira mais eficiente de começar a cons-
trução do socialismona Rússla.Mas era totalmente abstrata; ignoravaa
:li=;.ZiliEEi::!ilillB:
B:
dinâmica real das modificações üas relações de classeprovocadas pelas con-
quista do poder pela classe operária.gOs trabalhadores, perfeitamente
confiantes e estimulados pela sua vitória histórica. simplesmentenão esta-
vam dispostos a tolerar a existência dos proprietários privados, nem mesmo
dos negociantes privados, por nenhum período de tempo. Começaram, por
Isso. a colocar em prática a revolução socialista, no ritmo que desejavam.
Há nisso uma grande lição. A imposição de um esquematemporal na
mobilização realÉldo proletariado leva à burocratização, na melhor das
hipóteses. a sérias deformações burocráticas da revolução, desde o seu ini
cio deformações essasque mais tarde têm efeito nocivos até mesmo sobre
o sistema de planejamento económico. como vimos na China. Nos piores
casos. leva à derrota sangrentada revolução. É esseo perigo de qualquer
concepção:zqueprocureltimpor ''esquemastemporais'' à revolução nos
paasessubdesenvolvidos

O Padrão da Luta Antiimperialista

Uma das observações que os trotskistas fizeram sobre.o mu.ndo semicolo-


nial é que o padrão da luta de classes nesses papel dizer.e do padrãoTpre. e analisar.
dominante nos países capitalistas adiantados. Em particular. as massas Para explicar essesciclos devemos concentrar-nos prin.cipalmente na
parecem capazes de se recuperar de derrotas .mais rapidamente nos pjlises
subdesenvo vidosl mas as conquistas foram, da mesma for.ma, menos durá-
veis Essaobservação parece ser confirmada pelos acentuados altos e baixos
da revolucão anücoloniat e antiímperialista. Houve a descolonização da
década de 1950. depois a radicalização dos regimes naco.onali.smasem prin-
vitórias do
cip os e meados da década de 1960.,ese.cuida de .uma.série de
'''''' ' "'' ' ''
imperialismo:oCongo,o. golpe
. eachacinana Indonésia.:,aguerrade1967
. ,. . . .,. .....
no 0 riente Mêdo, etc'. Agora. com os acontecimentos na Áfr.i.cado.Sul!
Angola Etiópia e outros pontos, a tendência .pareceestar .modificando-se
novamente. Seria possível:estabeleceruma espéciede periodização da revo-
lução colonial? Esse assim for: .quais as razõ.es.subjacentespara as varias
oscilações, nos dois sentidos? Haverá p.ossibilidade de vermos uma nova
onda de luta antiimperialista na décadade 19807
'>

Houve uma tendência geral de crise quase que contínua da ordem imperia-
lista nos países coloniais e semicoloniais, desde a vitória da revolução ch.m-
esa. senão desde as últimas fases da Segunda Guerra Mundial. A cadeia de
Disso pareceseguir-seque vitórias importantes contra o imperialismo
explosões e revoluções no ''Terceiro Mundo'' tem sido quase que constante, são no momento, mais difíceis de serem obtidas nos principais paísessemi-
com a deflagração de movimentos em uma ou outra parte do mundo colo-
93
92 marxismo revolucionário atua] a revolução pemianente no terceiro mundo

H
industrializadost:da América Latina. ou da I'ndia. ouÊno sul da Áfríca, do
que nas partes mais atraídas da Ásia e África, É claro que circunstâncias
peculiares. como a importância relativa de determinadas matérias-primas
encontradas nesteiCounaquele país subdesenvolvido poderiam tornar o
imperialismomais hesitanteem passardo domínio direto para o índireto
Industrializados dos Estados buroc atizados de trabalhadores. 'BÜ
nessepaís,ou passardo domínio indireto atravésde testas-de-ferroparaQ É certo. naturalmente. que esse ponto não deveria ser exagerado.
domínio índireto atravésde forças políticas mais sofisticadas{inclusive
os nacionalistas pequeno-burgueses). Considerações estratégicas ou pol éti-
cas também podem ter um papel nessasquestões.
Em geral, porém. eu defenderia a tese de que a conquista da indepen-
dência política pela classeoperaria e pelo movimento trabalhista e o rom-
pimento dos laçospolíticos e de organizaçãocom o nacionalismoburguês
e pequeno-burguêssão, cada vez mais, uma precondiçãoabsoluta para
novos progressosda revolução em paísescomo Brasil. Argentina. México,
Colõmbia. Peru. I'ndia. etc. No documento político l)/nám/cada Rapo/u-
militante e desconfiada em relação à burocracia tradicional.. a6 n +É ü.
çâb /çfun(]ia/ Ho/e, que serviu de base à reunião das principais forças da Essefator terá importância cada vez mais decisivano futuro -- e é
Quarta Internacional em 1936, depois de uma divisão que durou dez anos.
motivo de grande otimismo, especialmenteao considerarmosque os dois
observou-seque por várias razões,detalhadas no documento, a classeope-
rária pode conquistar o poder em alguns pal'sesdo mundo semicolonial países por mlm mencionados. Brasil e Espinha, eram ambos governados
por ditaduras rias quais não havia qualquer liberdade política e nas quais a
com um ''instrumento imperfeito". ou seja, um partido e uma liderança
menor participação numa atividade pol ítica organizadaencerravaenormes
que não se comparavam aos padrões de organização e de programa do Par-
riscos pessoais e físicos (e ainda encerra, embora em menores proporções,
tido Bolchevique. Em minha opinião. issojá não se pode repetir nos países
no Brasill. Não devemos exagerar o número de pessoasenvolvidas nas co-
gemi-industrializados -- isto é. nos países subdesenvolvidos mais adiantados.
missõesde trabalhadores na Espinha. sob a ditadura. Não foi grande. mas
No caso dos países mais atrasados,êxitos iniciais e parciais na luta
suficiente para constituir uma nova espinha dorsal. uma nova vanguarda.
contra o imperialismo ainda podem ser registrados sob a liderança colabo-
racionista ou pequeno-burguesa. embora uma realização de todas as tarefas para uma classe operaria que passou de 3 a 9 milhões, em consequência do
desenvolvimentoeconómico.Esseprocesso,em si mesmo,teve um papel
da revolucão democrático-burguesa seja,é claro, impossível sob tal liderança.
Num certohsentido, isso significa que algumasdas condiçõesde luta importante na rnodificaçâo das condições políticas. e quando ellas se mo-
dificaram a vanguardarelativamente pequenaliderou um processode orga-
nosj;pai'ses semi-industrializados se aproximamFhoje mais das condições
existentes nos países capitalistas adiantados. Sob esseaspecto, há um fenó- nização de classe que afetou milhões de operários. Algo semelhanteestá
ocorrendo agora no Brasil e em vários outros paísesgemi-industrializados.
meno que não recebeua devida atenção.Em muitos paísesimperialistas e os resultados serão cruciais na década de 1980.
em fins da década de 1960 e princípios da década de 1970, observamosa
ascensão
do que chamamosuma novavanguardada massaf-num grupo
de atividades (de composição social cada vez mais proletária; nos últimos
A Licão do Irã
anos) preparado para mobilizar-se independentemente.,e mesmo contra as
liderançasreformistas tradicionais. Sou de opinião que essefenómeno, de
grandeimportânciapara a explicaçãode muitos dos mais importantes
acontecimentos da política.mundial nos últimos dez anos, não se limita
apenasaos paísesimperialistas, afetando também vários paísesdependen-
ilil[li:gT
]]$1i]]]i]$'.iE;]]H]i]E
a derrubadado Xá?
]]]ÊERU
tes semi-industrializados -- nem todos, mas apenas alguns. Um dos casos
mais notáveisé a Argentina. Os líderes e participantesdo cordobazos.as
grevesgerais insurreicionais de fins da década de 1960. eram do mesmo
tipo de pessoasque desempenharam o papel propulsor na explosão de
maio de 1968 na França. e na agitação da Primavera de Praga, na Tchecos-
HX:l;Hl:lUÜ#i:E:
14:
95
marxismo revolucionado âtual a revolução permanenteno terceiro mundo
94
ser analisadas pelos camaradas iranianos, melhor versados na história do
que derrubou o regime do Xá -= e as insurreiçõesparalelasem outras lslã e do país. Mas essaanálise não pode.tomar o lugar de uma posição
grandescidades iranianas -- foi a maior insurreição urbana de massa na
história contemporânea. envolvendo literalmente milhões de pessoas.Foi
política clara em relaçãoa certasquestões.Apoiamos.
acertadamente
o
evante contra o Xá. muito embora fosse liderado pelo clero. Apoiariamos
uma confirmação notável de uma tese-chavedos marxistas revolucionários.
o novo regime iraniano contra qualquer conflito real com o imperialismo.
em seus debatesrcom os social-democratas, eurocomunistas e "terceiro-
Masem todos os conflitos entre o novo regimee setoresdas massasque
mundistas". O argumento básico de todas essastendências -- apoiado até
lutam pelas suas reinvindicações justas, ficamos totalmente ao lado das
mesmo por centristas como Régis Debray -- é que as insurreições urbanas
massas.
e contra o regime. Isso se aplica não só aos setoresproletáriosou
de massasão impotentes contra um exército moderno e bem equipado, e semiproletários das massasque lutam pelo seu direito elementar de organi-
só podem levar a uma mortandade insensata. zar-se e por melhores padrões de vida Ino caso, qualquer outra atitude seria
Ora. o exército iraniano era provavelmenteo quartobmaíspoderoso uma traição de classe).mas também das minorias nacionaisque lutam
do mundo capitalista. Tinha um equipamento moderno, sem dúvida equi- contra a opressão,das mulheresque lutam contra a discriminaçãoe códi-
valente. senãosuperior, ao do exército britânico. Seus membros haviam
sido bem tratados eemimados pelas classes dominantes. desfrutavam de gos religiosos reacionários. de todos os que lutam contra a repressão esta-
tal dos "crimes" sexuais,etc. A tentativade impor códigosreligiosospela
grandes vantagensmateriais. Não obstante. éle começou a desintegrar-se
força não é mais ''progressista" no Irã de hoje do em qualquer outro país
sobejoimpacto das enormes mobilizações de massa,que saíram repeti.das desde o alvorecer da moderna sociedade burguesa. Identificar a revolução
vezes às ruas em número cada vez maior. apesar da repressão assassina:
com o obscurantismo religioso é um ato de traição ideológicatão prejudi-
Seria possível dizer, realmente, que as massasproletárias da Argentina ou cial à causa do socialismo iraniano e mundial quanto as formas mais clás-
Brasil. da Espinha ou ltália, são tão inferiores às massasiranianas em ter-
sicas de capitulação ante as classes opressoras.
mos de consciênciapolítica, resoluçãomoral, militância e capacidadede
organização que seriam incapazes de repetir o que as massasde Teerã con-
seguiram realizar? Seria possível argumentar seriamente que os exércitos
dessespaíses seriam menos sensíveis.aos milhões que lutavam nas ruas, do Cubaa1959-1979
que o exército iraniano? Afirmamos que o inverso é verdade,quando
menosdevido ao pesomuito maior do proletariadona populaçãoativa Um dos exemplos mais notáveis de um processo real de revolução perma'
e ao maior número de soldadosde origem social proletária nessespaíses nente ocorreu' em juba. A revolução cubana comemo.rou recentemen.tc
É certo que as propagandas e questões democráticas semelhantes ás o 20o aniversário de sua vitória. Como avaliar a importância dessavitória,
que estavam na origem das mobilizações de massa no Irã parecem, tradicio- vinte anos depois?
nalmente. ter uma .atracão mais ampla e mais eletrizante do que os s/ogans
puramente" socialista-proletários, especialmente em países governados A revolução cubana ocupa um lugar excepcional na história das revoluções
por regimes ditatoriais corruptos. Mas não devemos generalizar indevida- de pós guerra. É a única revolução vitoriosa que não foi liderada por uma
mente essasobservações; não há razão para chegarmos à conclusão falsa de
força originária da Internacional Comunista stalinista e influenciada pelo
que. a despeito da estrutura sócio-económico e política de um país, as mo- stalinismo. pelo menos na educaçãoteórica básicade seusquadrosdirigen-
bilizações em massa do âmbito das ocorridas no Irã só podem ser conse- tes. De fato. como bem se sabia em fins da década de 1950 e princl'pios da
guidas através da luta pelos direitos democráticos. Se o movimento operá- década de 1960n(mas está sendo esquecido nos círculos esquerdistasde
rio conseguir mobilizar e organizar sistematicamente as massasassalariados hoje), os stalinistas cubanos se opuseram :insistentemente ao Movimento
em torno de reivindicações anticapitalistas. em condições de crise social e de Julho em suafase'inicial. e à guerrilha urbanae rural do Diretório
política, açõesde massatão grandesquanto as de Teerã-- e até maiores Revolucionário. Proporcionaram até mesmo ajuda à ditadura de Batista em
-- são perfeitamente possíveis. É essaa base de nossa estratégia alternativa mais de uma ocasião. sabotaram abertamente a greve pedida por Fidel em
tanto16nos países imperialistas como nos países subdesenvolvidos mais 1958 e participaram das ''eleições'' forjadas de Batista. Mesmodepoisque
adiantados. O que aconteceu no Irã tende a confirmar que essaestratégia é o Movimento 26 de Julho tomou o poder. a liderançado Partido Comunista
eminentemente realista. Cubano jconhecido como Partido Socialista Popular, psp} se opôs à orien'
A grande pergunta irrespondida sobre os acontecimentos iranianos é. tação do governo de Castra, quando a expropriação da burguesia foi inicia-
de certo. o papel do3lslã. As razões pelas quais o clero xiita estabeleceua da e teve começo a evolução no sentido de um Estado dos trabalhadores.
hegemonia sobre as mobilizações de massa contra a ditadura do Xá devem
97
a revolução pemlanente no terceiro mundo
96 marxismo revolucionário anual

Várias características essenciaisda revolução cubana foram mal inter-

campesinato e do proletariado rural.

pela decisãode promover uma revolução agráriaradical. destruiu essasten-


tativas. como destruiu também a máquina burguesa.Esse processofoi
;companhado por uma divisão do Movimento 26 de Julho em alas pro-
burguesa e pro-socialista (isto é, proletária). E.asasimportantes lutas de
classede 1959 e 1960. combinadas com a vitória da ala proletária, provo'
caram a destruição total da máquina estatal burguesa e o estabelecimento
do Estado cubano dos trabalhadores.que não foi, de modo algum, o pro'
duto automático ou inevitável da vitória da luta de guerrilhas.
Da mesma forma, embora seja certo que o imperialismo americano poder dos trabalhadores.
foi colhido de surpresapelaevoluçãopolítica do movimentofidelista ime- Enquanto isso, a burocracia soviética avaliava com argúcia a situação
diatamente após sua entrada em Havana, Washington reagiu brutal e rapida- coma menos perigosa para seus interesses do que poderia ter parecido ini-
mente. quando a dinâmica antiimperialista e anticapitalista das mobiliza- cialmente. Moscou apoiou Cuba revolucionária contra o imperialismo dos
ções de massa e sua liderança se tornou evidente. O favor decisivo para lm' Estados Unidos ganhando com isso prestígio na América Latina e influên-
pedir uma intervenção maciça dos soldados americanos foi a onda de sob cia na propna ilha. A liderançarevolucionáriacubanacontinuou a dispor
dariedade internacional à revolução cubana. especialmentena própria de certa margemde ação tanto nas experiênciasinternas como nas iniciati-
América L atina. E qualquer invasão direta dos Estados Unidos ameaçava vas internacionais. mas a influência soviética cresceu. tendo em vista prin-
inflamar todo o continente, risco que Eisenhowere, maistarde, Kennedy cipalmente as subvenções à economia cubana contra o bloqueio imper alis-
não ousaram correr. Foi por isso, e não devido a um erro de julgamento da ta Enquanto isso, um número crescentede funcionários da máquina esta-
situação, que o imperialismo americano preferiu agir através de mercená- ;;i.'b;=.lili.; .:b"idá.i, . d,; t.,ç" «m.d,; «b"" ',,m t"i-.'d.; .
rios. sabotadores e operações de comando, das quais a invasão de 1961 foi educados politicamente na URSS.Isso estimulou muito o processo de esta-
g pont' "-minante. M" "sas 'p'''ções, que acabaram t"do..êxito na belecimento de controle burocrático e sufocação da iniciativa revolucioná-
Guatémala em 1954.anão conseguiram fazer recuar uma revolução que a de massa A tendência nessesentido tornou-se especialmenteclara a
havia mobilizado literalmente centenas de milhares de homens e mulheres. partir de 1967.
A razão hist6r ca da derrota do imperialismo em Cuba está nessasmobili-
A razão ijisLru mo tomado pela lideranca fidelista, e não nos supost(5s erros
de Washington.
Finalmente. a revolução cubana caracterizou-se. desde o início. por
uma intensa atividade de massa,de organização e de espontaneidade revo-
lucionária. muito além de tudo o que se havia visto desde a revolução espa-
nhola de 1936-37. O aspecto criativo da ação de massae da liberdade foi vê a atuação de Cubo na política mundial?
evidente em muitos setores,desdea transformação de vilas de Havanaem
98 marxismo revolucionário atua] 99
a revolução pemlanente no terceiro mundo

A revolução cubana foi muito menos burocratizada. menos controlada, do Um exemplo notável é a posição quase que permanente de Havana de con-
que a iugoslava, a chinesa ou a vietnamita. O peso das camadas proletárias cordância com a política da Kremlin na América Latina e de apoio a estra-
ou semiproletárias nas mobilizações de massaque levaram à tomada do po.- tégia dos partidos comunistas stalinistasdaquele continente. nte certo
der e a ela se seguiramfoi muito maior; a liderançacubanaesteve,de iní- pomo isso representa um abandono de algumas das principais lições da
cio. relativamentelivre da educação
e do dogmastalinistas.Por isso,e própria revolução cubana e a inversão das principais poli'tecas formuladas
provavelmente por outras razõestambém. o internacionalismo teve um pa' na Segunda Declaração de Havana. . ., . . ,
pel muito maior nas políticas da revolução cubanae na con.scíência
das Poderíamos argumentar, é claro, que essaposição e apenastemporária,
massascubanas do que em outras revoluções socialistas ocorridas desde a
Segunda Guerra Mundial. É um fato inegável. e numerosas evidências em-
píricas podem ser reunidas para ilustra-lo.
Contudo, para interpretar adequadamente o desenvolvimento recente
do papel de Cuba na política mundial, outros fatores também devem ser
considerados.
Em primeirolugar.devidoao crescente'Isolamento
da
revolução cubana na América Latina e à pressãocontínua do imperialismo
$
trabalhadores naquela área. Se ela será modificada, é .o que resta.ver:Isso.
por si mesmo.seriaum indício importantedo graude burocratizaçãodo
americano. tanto económica como militar. o Estado cubano dos trabalha- Estado cubano dostrabalhadores. . ,. , -''...
dores tornou-se cada vez mais dependente da ajuda soviética, em especial Quanto à nossa opinião geral sobre a presença cut)ana na nlrna, uuvu
depois da crise dos mísseisde 1962'Essa dependênciadeu um salto quali- ser positiva. A política cubana na África demonstra que as massase a l de-
tativo para frente. depois do fracasso da za/za. a colheita de 10 milhões de
toneladas de cana de açúcar. A dependênciapassou a ser expressano ali-
nhamento dos líderes cubanoscom a política internacional do Kremlin, do
qual o apoioedeCastraà invasãoda Tchecoslováquia
em 1968.por mais
relutante que tenha sido, foi a expressão concentrada. Essealinhamento te-
ve importantes conseqilências políticas. ideológicas e organizacionais den- do regime racista da África do Sul e as formaçõestribais tivessemtomado
tro da própria Cubo. HálÍhoje, toda uma geração de dirigentes de nível mé- o poder em Luanda, o que teria feito de Angola um baluarte da contra-re-
dio e de líderes no Partido Comunista Cubano cuja educação e cujas con-
vicções são claramente stalinistas, a que nâo acontecia com o Movimento
26 de Julho. ou com o Diretório Revolucionário.em fins da décadade
1950 e princípios da décadade 1960:' cecão possível é a Eritréia, mas ali a controvérsia se relaciona com os fatos.
Algumas fontes -- inclusive alguns camaradas -- negam que os cubanos se
Segundo, um processo de burocratizaçâo do isolado Estado cubana tenhamenvolvidona repressão
da luta de libertaçãonacionaldo povo da
dos trabalhadores se vem realizando.há cerca de 15 anos, relacionado com
Eritréia. que em nossaopinião é uma luta justa. Se houver um apoio cuba-
essacrescentedependênciada burocracia soviética, masdela parcialmente no direto àstentativasdo regimede Mengistude esmagara luta pelaliber-
autónomo. Os privilégiosmateriaissurgirame cresceram,bem como a de- dade do povo eritreano. é claro que o condenaremos,masaté agoranão
pressão das críticas políticas. do pluralismo cultural, da liberdade artística exístemprovascabaisdequeissotenhaacontecido. , . . ..
etc. Até onde foi esseprocesso,é o qüe ainda não foi determinado.Nosso Há, porém, uma ressalvaimportante que devemosfazer score o papel
movimento está examinando a questão. e ainda não chegamos à conclusão
de que existe uma casta burocrática cristalizada em Cuba, que só possaser
afastada com uma revolução poli'rica. Isso, porém, não significa que os
casos de buracratizacão não sejam muito mais sérios do que em princípios.
ou mesmoem fins, da décadade 1960.
Essesprocessos impuseram grandes limitações à extensão e ao conteú-
do do internacionalismo
da liderançado Partido ComunistaCubanoe do
governo de Havana. jlncidentalmente, é muito difícil julgar seessaslimita-
ções provocaram retrocesso semelhante na consciência das massascubanas.)
ioo marxismo revo]ucionário atua] a revoluçãopemlanente no terceiro mundo

glesase francesas,ao mesmo tempo em que continua a receber ajuda da que isso teria para o imperialismo mundial. (A 6.frica do Sulé ó pr napa
União Soviética e de outros Estados burocratizados$dd;trabalhadores e produtor de ouro e diamantesno mundo capita isto e um dos ma ares pro-
de Cubo. No caso da Etiópia. a justificativa dessaatitude é a mais frágil dutores de urânio.} Eles têm um ódio de classe profundo do sistema h. .,
possível guês/imperialista. alimentado pela sua exclusão total de quaisquer direitos
Naturalmente, seria irresponsável negar as tremendas conquistas do políticos, pela sua condição de trabalhadores estrangeiros''imigrantes'' em
desdobramento ;das revoluções em Moçambique, Angola, Guiné-Blssau e seu próprio país. Sua luta é também estimulada pela consciência de que es-
Etiópia, contra a podre ordem colonialista ou semifeudalque ali predomi- tão defendendo uma causa cuja justiça é evidente à grande maioria da po,
nava antes. É de importância crucial defendê-las contra as tentativas impe- pulação mundial.
rialistas de fazer recuar tais conquistas. Mas uma coisa é saudar, apoiar e Essepoder. porém, ainda está.em grande parte desorganizadoe não
ampliar essasconquistas,e outra apresentaros Estadosalí criadoscomo explorado. Na verdade. todos os esforços do regime de apartóe/d -- seus
sendo'' dos trabalhadores, ou apoiar essesgovernos, mesmo .em seus bárbaros ates de repressão e suasvárias manobras políticas e ideológicas --
conflitos com as masmas. visam a manter o aspecto do status que mais vital aos exploradores e opres-
sores: a desunião e falta de organização dos explorados e oprimidos. A esta
altura. falar de brigadas internacionais é colocar o carro adiante dos bois.
Sul da África Os marxistas revolucionários deveriam concentrar seus esforços na organi-
zação.unificação e mobilização das massassul-africanas,cujo potencial foi
0 Sul da África é, evidentemente.uma regiãode importância vital parao demonstrado de maneira tão notável pelo levante de Soweto e suasconse-
imperialismo mundial, e uma das áreasdo.''Terceiro Mundo'' onde foi quências, e na mobilizacão de apoio político mundial a esta luta.
maior a agitação nos últimos anos. 0$ problemas da revolução permanente O regime de apartar/c/ é hoje particularmente vulnerável à mobiliza-
são tão agudos na África do Sul quanto em outros países.:Na sua opinião. ção, açâo e organização das massas,devido ao contexto'internacional -- e
deveriam os marxistas revolucionários apoiar a formação de ''brigadas in- muito mais vulnerável do que seriaa um ataque heróico por pequenosgru-
ternacionais'', recrutadas principalmente em outros pontos'da África, para pos armados, lutando pela libertação.:A questão da defesa armada contra
atacar o bastião do aWa/7e/d? Pode esse regime ser derrubado apenas com os assassinos
que governam atualmente a África do Sul semdúvida surgirá
um movimento interno? à medida que a luta se desdobrar, como surgirá também a questão da soli-
dariedade internacional a essaluta. em suasformas mais variadas. Nessemo-
É provável que a África do Sul venha a ser uma das últimas fortalezas mento, os esforços internacionais dentro dessas linhas seriam prematuros.
da imperialismo a cair, porque há vários milhões de pessoasque têm um in- Completamentedistinta é a questãoda reaçâocoletivada revolução
teresse material evidente na defesa dessa fortaleza. mesmo contra toda a ló-
africanaà agressãocínica por parte do regimede PretóriaÇ(eSalisbury}
gica, E como é provável que esseregime venhaa adquirir armas nucleares, contra Zumbia. Mocambique, Angola e outros Estadosafricanos.Nesse
se já nâo dispuserdelas, o preço que terá de ser pago pela libertação das caso,a resistência armada coletiva por forças de libertação africanas. em es-
massassul-africanas poderá ser extremamente elevado -- a menos que o mo- cala internacional, certamente seria oportuna. Se issoenvolveria exclusiva-
vimento revolucionário conduza com eficiência um esforço consciente para mente os exércitos regulares dos Estados existentes, ou brigadas internacio-
neutralizar. se não Ihe for possa'üelconquistar, um setor da$população bran-
nais de voluntários, dependerádo estado e ritmo da revoluçãomundial, do
ca, com base em consideraçõesde sobrevivênciafísica:,Numa relação de caráterda liderançapolítica em pelo menosalgunspaísesda "linha de
forças$favorável, essasconsideraçõesdeveriamgneutralizar os efeitos dos frente" e da relação de forças políticas dentro dos movimentos de liberta-
sul-africanos brancos de defender seus$privilégiosmateriais a qualquer cus- ção, bem como de outros fatores.
to. O esforço para desenvolver uma liderança não-racista na luta de liberta-
ção sul-africana é, por isso, importante -- principalmente para salvar as
vidas de milhares, talvez milhões, de pessoas,sobretudo de africanos negros. O Aparecimento dos Estados de Trabalhadores
Na presente etapa. falar de brigadas internacionais parece. no míni-
mo, prematuro. As massasnegrasda Africa do Sul têm um enorme poder em Concluindo,vamos fazer$umaqperguntaqanali'ricaque está intimamente
potencial. Elas constituerHEa esmagadora maioria do proletariado do mais relacionadacom a teoria da revoluçãopermanente.Em vários pai'ses.nos
rico e desenvolvido país da África. e sema força de trabalho dessamaioria últimos anos, as lutaside massa.de uma forma ou de outra, levarama regi-
a economia entraria. em :colapso. com todas as desastrosasconsequências mes nos quais a maioria dos meios de produção foram nacionalizados e nos
103
102 marxismo revolucionário atual a revolução permanenteno terceiro mundo

de trabalhadores foi ou não criado?

A perguntaresume-se,
essencialmente.
nisto: por que afirmamosque uma
revolução socialista triunfou em Cuba, ao passoque nenhuma revolução
socialista ocorreu no Egito ou na Síria na década de 1960. ou em Maçam-
bique, Angola ou Etiópia na décadade 1970? galmente. e isso constitui uma grande diferenca.
Seria perigoso reduzir tudo a um critério único. Em lugar disso, apre- .O terceiro fator a serconsiderado.e que jó mencionei.é a natureza
sentarei uma série de argumentos. Inicialmente. a questãoda supressãoda do Estado. Poder-se-iaargumentar que nosso raciocínio é çircular (enquan-
propriedade privada dos meios de produção deve ser examinada concreta- to não houver total supressãoda propriedade privada. dizemos que o Esta-
mente. à luz da estrutura económica particular do pal's em questão. Se ti- do é burguês; na medida em que o Estado é burguês, nâo há supressãolegal
vermos. por exemplo. um país na qual 90% da populaçãovivam no inte- e constitucional da propriedade privada. Mas. por trás do que pareceser
um raciocínio circular, encontra-se uma análise concreta. Quem são as
pessoasno poder e qual sua atitude para com a pr.opriedadeprivada?Como
rea mente agem, nessecampo? Há uma enorme diferença entre o burocrata
nasserista no Egito e o burocrata russo,chinêsou iugoslavo,hoje. Pode-
balhadores. Num país com essaestrutura sócio-económica.dado o peso mos dizer que todos são corruptos Na minha opinião, os jugoslavossão
dos camponesese da agricultura na economianacional.a estruturadasre- significativamente menos corruptos do que os egípcios, mas deix:emosIsso
e lado. A questãofundamental é: como usam os seuslucros ilegais?A

!uiz IJli Six;i='Eül


l!
propriedade privada continuou a predominar na economia nacional, dev.jdo
pergunta deve ser respondida não com especulação.abstrata. mas.:om os
fatos reais. Uma coisa é os burocratas usarem seu dinheiro simplesmente
para adquirir mais bens de consumo e privilégios. como carros, telef iões,
ao seu predomínio esmagador na agricultura, apesar da alta taxa de nacio- viagensao exterior, etc. Mas se usam o dinheiro para adquirir propriedades
nal zacão da indústria. e mesmo apesarda reduçãoda áreade terra de pro- que geram uma renda baseada na exploração do trabal.ho de outrost o
priedade dos grandes latifundiários. problema é dife.rente. Nessecaso. estão usando sua.posição na ínaquiiia
estatal como meio para realizar a acumulação primitiva de capital. .
O segundoponto, que está intimamente relacionadocom o primeiro,
Os dois casos resultam em duas dinâmicas sociais qualitativamente
tem sido fonte de confusão nosaúltimos anos, principalmente em cc=nse-
qüênc ia das teorias do capitalismo estatal apresentadas por Bettelheim. É es-
te o segundo ponto: há uma diferença enorme.entre a nacionalizaçãoda
maior parte da propriedade privada num país e a supressâbdo d/re/to â
propr/ecíade pr/fiada na cansa/tu/çáb dessepala. Bettelheim afirma que isso
f" uma questão jurídica, puramente formal. mas isso não é verdade É uma
questão predominantemente económica, e muito prática. Aquilo que é eli.
minado pode ser facilmente reconstituído, se não for proibido -- e com
r'
-105
marxismo revolucionário atual a revolução pemtanente no terceiro mundo
104

freqtlência importante para se determinar em que direção. um determinado


pais subdesenvolvido evoluirá, quando as estruturas da velha máquina esta-
tal tiverem sido seriamente abaladas. Falo da combinação do grau de mobi-
lização de massae sua consciência e liderança. O âmbito das mobilizações
em Cuba em 1961 e 1962, particularmente em momentos de crise como a
invasão contra-revolucionária e a crise dos mísseis. foi um fator-chave para
impedir o retorno aos padrões capitalistas e levar o governo de Castro a
prodamar socialista a revolução e suprimir completamente a propriedade
pr veda dos meios de produção -- contra a opinião da maioria dos líderes
do Partido ComunistaCubano. A mobilização em massa,porém. não é
uma garantia de que tal evolução se processará. Não foram poucas as mobi-
lizações em massa no Egito, por exemplo. Imediatamente depois da guerra
dores potenciais. ''
. : ..
.. é. em última análise.
;É por isso que a fórmula -4'burguesia estatal de junho de 1967. quando Nascerrenunciou, houve uma das maioresmani-
festaçõespopulares já vistas, quaseum milhão de pessoastomaram as ruas
do Carro. Objetivamente, essamobilização foi positiva, pois impediu o.que
teria sido um golpe de direita. Mas na ausência de uma consciência proletá-
ria e de uma liderança revolucionária, essamanifestação. embora maciça.
apenas preservou o governo capitalista existente, e não tevt} nem sempreo
resultadode impulsiona-lo um pouco para a esquerda. .
Esse foi também um dos aspectos trágicos da revolução argelina.
Também nessecaso houve um nível significativo de mobilização de massa.
mas as questões em jogo não eram claras. mesmo para muitos revolucioná-
rios. sem falarmos nas massas.Naquelecontexto, uma figura como Bou-
medienne desempenhou um papel importante na suspensão.deum processo
revolucionário que poderia ter levado ao estabelecimento de um Estado de
trabalhadores. E apesar da radicalização ocoüida entre setores das massas,
nos últimos anos, ele continuou sendo uma figura ambígua até o fim. Em
seu funeral, houve manifestações maciças, com o povo cantando: ' Quere-
mos continuar pela estrada socialista de Boumedienne". Isso foi, é claro,
uma mistificação do que realmente ocorreu na Argélia. e mostra mais uma
vez o que dissemos antes: a presença oü ausência de uma liderança revolu
cionária organizada e consciente será cada vez mais decisiva na determina-
ção da evolução dos Estados dos países subdesenvolvidos.

=-:MINE:Hlu=T=.=:=:s:n.:=::=
107
os regimesde transição no leste

3. pobres. Segundo. que a construção de uma sociedade sem classes.de uma


sociedade totalmente socialista, nesse país atrasado seria obviamente
P impossível. Os mencheviques apegaram-seà posição que Marx tomara no

Os Regimes de século XIX. Não compreenderamas conseqüênciasdo advento da era im-


perialista. Não compreenderam n peso e a lógica do subdesenvolvimento.
Transição no Leste que marcaramfortemente a col ;ciênciado.srevolucionárioscontempora-
neós e demonstram o que a Rússiapoderia ter se tornado se não fosse a
vitória da Revolução de Outubro. Por outro lado. Stálin -- e os stalinistas
até hoje. de todas as tendências. que analisam a natureza da União Sovié-
tica exclusivamente com base nas tendências internas que nela operam '
cometeu o erro paralelo de ignorar a inserção da Rússia no mundo, com
todas as suas implicações económicas, militares e sociais, e de supor a pos-
sibilidade. em certas condições, de completar a construção de uma socie-
dadesemclassesnum único pais
O que está implícito na posição teórica de Trotski, independente
das formulaçõese tendênciasconjecturais, é que para ele o destino da
União Soviética dependia, em última análise. do resultado da luta de clas-

l :llrHlãT::l:l
ini!'iiW:i:Üiili
Ml:l
que sofreu deformações Muitos acontecimentos histór.ecosocorr:eramnas
ses em âmbito mundial. O stalinismo surge, assim, como uma variante im-
prevista da história. cuja função poderia ser chamada de equilíbrio instável
entre forças sociais antagónicasfundamentais numa escalamundial. O
stalinismo é a expressão de uma derrota e uma regressão séria da revolução
últimas quatro décadas-Vimos a manutenção.e relativa estabi.lizacãoda
burocracia soviética. e o aparecimento -- sob várias condições históricas -- mundial depois de 1923. Mas também reflete a fraqueza estrutural a longo
de outros regimes burocráticos. Qual.sentão, a.validade da análise.de prazo do capitalismo mundial, que foi incapaz de restabelecero modo ca-
Trotski. 40 anos depois? Quais as contribuições do movimento trotskista pitalista de produção na URSS,apesar de repetidas tentativas, tanto econó-
micascomo militares. Por trás das fórmulas ''etapa de transição'' e ''socie-
a ela, e como essateoria enfrentou a prova dos fatos?
dade de transição" está a realidade dessaprova de força, ainda não resol-
vida definitivamente. entre o capital e o trabalho em escalamundial. Tam-
O ponto de partida de Trotski -- e nissoresidea fiFRiezade sua posição
sobre o caráter da URSS-- foi a opinião. adotada por toda a esquerdaope- bém nessesentido, a maneira pela qual Trotski formulou a alternativa em
rária ao início da Revolução Russa de 1917 {posteriormente abandonada 1939-40 continua essencialmentecorreta, embora ele estivesseerrado em
por várias tendências revisionistas, uma após outra), de que era impossível relação à previsão temporal. Uma esmagadoraderrota do proletariado
mundial. por todo um período histórico, nâo só poderia levar como tam-
examinar as origens e desenvolvimentoda revolução ao mesmotempo em
bém inevitavelmente levaria ao restabelecimento do capitalismo na URSS.
que se isolava a Rússia do resto do mundo. O paradoxo existente na raiz da
teoria da revolução permanente -+ de que oHproletariado poderia conquis- Uma esmagadoraderrota do capital, da burguesia mundial, .em vários dos
principais paísescapitalistas. faria recuar a URSSno caminho da constru-
tar o poder nos países capitalistas menos desenvolvidos antes que pudesse
ção de uma sociedade sem classes.
conquista-lo nos pai'ses mais desenvolvidos -- só tem significação no. con-
texto de uma determinada análise do imperialismo e da luta de classes
em escalamundial. A velhafrase de Marx, segundoa qual os paísesmais
adiantados espelham o futuro dos menos adiantados, já não é geralmente O Conceito de "Transição"
aplicável no século XX somente devido ao fenómeno do declínio do impe-
rialismo.ou maisprecisamente,
do início do declíniodo modo de pro- Você empregou as expressõesde Trotski "etap.a de transição.'' e ''sõc.iedade
dução capitalista.
de transicão''. Ora, evidenciou-se que a previsão de T.rotski de uma liquída-
Trotski chegou a duas conclusões. a partir dessa posição inicial.
cao relativamente rápida do stalinismo, seja através de uma revolução po.li'-
Primeiro. que a vitória da RevoluçãoRussasó era possívelpelo estabele-
cimento de uma ditadura do proletariado, apoiada pelos camponeses t ca proletária, ou através de uma restauração capitalista, estavaerrada
marxismo revolucionário atua]
r' os regimes de transição no leste
109
108

que Trotski escreveu?


$

ilHÍBÊIÍ
!ÊHUl$
''modo capitalista de produção'' e não "domínio do capital mercantil ou
bancário". que é outra coisa; falo das relaçõescapitalistas de produçãol)

Em primeiro lugar. não há uma ''tradição marxista" sobre o assunto, no


verdadeiro sentido da palavra. O próprio Marx não teve tempo de seocu-
par desseproblema, e Engelstambém nãa. Depoisda morte de ambos,a Ihador assalariado, mas o produtor em pequena escala.com acessoaos
vulgarizaçãoe a simplificação passarama predominar, culminando nos me os de produção e subsistência. De fato, é a transformação não do servo
famosos escritos de Stálin sobre os modos de produção através dos quais em trabalhador assalaria(Jo,mas desseprodutor independente em trabalha-
todas as sociedades deveriam passar -- comunismo primitivo, escravidão, dor assalariado,que dá origem ao capitalismo como o modo predominante
feudalismo. capitalismo. socialismo. Na realidade.só no período mais de produção. no sentido real da palavra, já que uma das caractere'éticasdo
recente, com o renascimento da análise histórica marxista e a penetração proletariado é precisamentea de ser livre, não sujeito à servidãopessoal.
dos métodos inspirados pelo marxismo na pesquisahistórica acadêmica,é EsseperíC)dode transição é mais curto do que o período que separou
que as basesdesse entusiasmador capítulo da teoria marxista começaram a o modo escravistado modo feudal de produção. Envolvedificuldades mui-
ser lançadas Mas essasbasesainda sâo fragmentárias,e há muito a ser feito to maiores de análise sócio-éconõmica, devido à complexidade da situação.
Hoje. tomando apenas a Europa e deixando de lado o exame de Em geral. o que temas aqui é uma manifestação da lei do desenvolvimento
outras partes do mundo e de outras civilizações, podemos ver que houve. desigual e combinado. Se quisermosdar um8 definição realmente precisa
na realidade, longos períodos de transição entre todos os grandes modos de das relaçõesde produção predominantes em:iFlandres. Brabante. Lombár-
produção A }uz desta observação, o caso da sociedade soviética. longe de dia, Toscana e Renânia, e mesmo em certas regiões francesase inglesasem
constituir um processo de transição excepcional, extremamente prolonga- fins do século XV, teríamos grandes dificuldades. Seria difícil reduzi-las
do. parece ser um período bastante limitado. Tomemos dois exemplos. todas a um único denominador comum. Houve uma fusão das relações
' Se definirmos o modo escravistade produção como baseadoessen- semifeudais de produção, relaçõesde produção que sublinham a pequena
cialmente no trabalho produtivo~dos escravosna agricultura e artesanatos produção de mercadorias, e as relações semicapitalistas de produç:uo:
{as principais fontes do produto social) e se definirmos o modo feudal de Houve também o início da manufatura capitalista, já baseadano trabalha
produção como baseadoessencialmenteno trabalho dos servosna produ- assalariado.Não obstante, é impossível reduzir tudo isso a uma fórmula,
ção agrícola, então veremos que um período de transição.que durou sécu- seja feudalismo ou capitalismo. É o que quero ressaltar. Apesar .das caracte-
los, separou a predominância de trabalho escravoda predominância do rísticas particulares da época, temos aí. claramente, uma fase de transição.
trabalho servil. pelo monos na Europa ocidental, central e meridional (dei-
xei de lado o Império Bizantino).Esseperíodo viu, em váriasformase Mas sob o modo escravista ou feuda] de produção, ]á se dose.nvolviam ele-
combinações, a melhoria da sorte dos escravos,lado a lado.com o agrava mentos do novo modo de produção, na forma de novas relações sociais
mento da sorte dos camponeseslivres, em especialos das chamadastribos e produção. Seria possível'dizer que elementos do socialismo se desen-
étnicas bárbaras que penetraram no Império Romano. Foí somente com a volvem como novas relaçõesde produção dentro da própria sociedade
fusão dessasduas forças sociais, que provavelmentese completou em capitalista?
torno do século Vll ou VIII. que o modo de produçãofeudal passoua
Evidentemente que não. Pode-se dizer que as precondições para a.existên-
predominar. ndo exemplo é maisclaro, embora de menor duração. O declí- cia de uma sociedade sem classesestão se desenvolvendo dentro do modo
nio da servidão é bastante evidente nos séculos XIV e XV, nas partes mais capitalista de produção, mas não relaçõessocializadasde produção. É
adiantadas da economia europeia. em especial nos Países Baixos, Inglater exatamente por isca que o advento de uma sociedade.detransição entre o
ra. parte da França. parte da ltália central e do norte, e Alemanha.Em ;;l;iàil;«: : . ;..i,li;m. é imp'"í"- "m , d.''-b:d' p'é"i' d. .p'''' ':l
algumas dessas regiões. a servidão desapareceu praticamerne como a burguesia; sem a derrubada do Estado burguês e, eu diria, sem incursões
relação de produção predominante na agricultura. Ora, o desaparecimento despóticascontra o direito de propriedade -- para usarmosa fórmula de
da servidão não leva imediatamenteà generalização.ou mesmoà extensão
marxismo revo]ucionário atua]
r' os regimes de transição no leste
!ll
110

A análiseda União Soviética e de sociedadessemelhantesé. obvia


Marx e Engels no A4an/restoCamun/sta. Não é um argumento contra a
noção de que a União Soviética é uma sociedadede transicão. análogaàs mente. menos difícil com essa estrutura conceptual de transição do que
com um marxismo urra-simples. Se acreditarmosque ascoisassâo brancas
do passado. É simplesmente um argumento que justifica uma articulação
diferente das novasrelaçõesde produçãocom o poder estatal.É esse.na ou pretas, que há ou capitalismo ou uma sociedade sem classes.um poder
verdade. um dos elementos mais fortes de nossa análise. As relações de democrático dos trabalhadores ou -- por definição a pr/or/ -- Q poder de
produção pós-capitalistasnão podem desenvolver-sedentro de uma socie- uma nova classe proprietária, então enfrentaremos mistério após mistério.
dade dominada pela burguesia, governada por um Estado burguês. lesa Mas se rejeitarmos essas simplificações exageradas e voltarmos a uma abor-
significa que o aparecimento dessas relações de produção só é possível dagemque íntegra todas as dimensõesdo problema de sedeterminar o que
depor de uma revolução socialista. constitui uma sociedade de classes,o que constitui o desaparecimento das
classessociais e o que constitui uma sociedade sem classes.então o fato de
Isso me traz de volta ao ponto de partida. A noção de um período o período de transição ser mais longo do que se esperavainicialmente se
de transição, uma sociedadede transição entre dois grandesmodos de pro- torna menos surpreendente. Apenas porque um certo tipo de sociedade
dução "sucessivos'' na história da humanidade, nâo é um fenómeno isola- dura mais do que se previa. nâo é razão para negar. por definição..que se
do, limitado à'sociedade soviética e a todos os problemas relacionados com trata de uma sociedade transitória. Apenas porque a transição é mais com-
a transição do capitalismo para o socialismo. É um fenómeno que se evi- plexa e -- paradoxalmente -- menos "dinâmica". já que ''transita'' menos
denciou de modo muito mais geral em toda a história humana..Paraos rapidamente do que o esperado, não é razão para dizermos que não é tran-
marxistas interessados na África, porlexemplo, há uma questão particular- sitória. O fato de que paramos numa ponte por um longo tempo em lugar
l
mente fascinante relacionada com essaproblemática : a definição exala do de atravessa-lasem interrupções não modifica o caráter da ponte ou o fato
que era a sociedade africana à época da ocupação colonial, e mesmo duran- da travessia.Significa. simplesmente, que fatores históricos üu individuais
te a fase que se seguiu à ocupação, na$medidaem que ela nâo levou a uma modificaram o ritmo, a orientação e as possibilidadesdo avanço do cami-
transformação completa e radical das relaçõesde produção nativas, parti- nhante. A ponte continua, por definição. essencialmenteum meio de co-
cularmente nas aldeias, e mesmo parcialmente fora delas. Na realidade, é municacão entre duas margens acima de uma superfície de água. Por analo-
impossível compreender a África Negra na segunda metade do século XIX gia, uma fase de transição entre o capitalismo e o socialismo é definida,
e primeira metade do século XX sem usar a noção. eminentemente transi- pelo menosestruturalmente.pelo fato de nâo havermaisa produçãogene-
cional, de "classes sociais em formação" ou ''classes sociais nascentes: ralizada de mercadorias, de que os meios de produção já não são mercado-
E esse. na realidade. o núcleo racional contido em todas as teses de um rias. de que perderam, por definição. o seu caráter de capital, de que a
socialismo supostamente "africano", segundo o qual Ó.marxismo é inapli- classedos capitalistas que existiu no país antes da revolução social já não
cável na África. Essasteses são, evidentemente, erróneas. Elas não compre- tem poder político. económico e social, mas que ainda não há relaçõesde
endem$o processo histórico, não compreendem o desenvolvimento, toman- dução verdadeiramente socialistasauto-administradas e livres efltre os
do apenas instantâneos de um momento da evolução. Mas o instantâneo, produtores associados.Em lugar dela, há uma combinação hl'brida de ele-
embora por vezesfora de foco. nem sempre é inexato. Ao trat8r da aldeia mentos do passado e elementos do futuro.
Mas essacombinação híbrida dá origem a algo específico--.senda
africanatípicaem;afins
do séculoXIX ou princípiosdo séculoXX
quandoicerca de 80 a 90% da populacão vivia nessasaldeias -- não pode- talvez desse ponto de vista que avançamos um pouco em relacão à análise
mos dizer que os senhoresfeudais. ou os donos da propriedade capitalista de Trotski. Essa combinação dá origem a relações de produção específicas
dessafasetransitória. Devo levantar aqui um problemateórico que não é
tiveram pela frente uma massade proletários ou pequenoscamponesesno
processo de se tornar camponeses sem terra.(Falo da aldeia africana típica, fácil de ser compreendido. mas constitui uma das chaves teóricas para se
não da aldeia árabe,que é diferente; nem das aldeias na África do Sul ou compreender a realidade sócio-económica da União Soviética. Refiro-me à
das calõnías ocupadas pelos brancas, que são diferentes; nem das cidades distinção entre a noção de re/anõesde produçáb espec/7fcas,que caracte-
coloniais. também diferentes.)Concordo em que há casosdé feudalismo riza qualquer formacâo social(uma formação social sem relacões de produ-
ou semifeudallsmo em alguns países africanos, em certas regiões de alguns ção seria uma formação social sem produção; em outras palavras. uma for-
mação social que não poderia sobreviver. sem vida e sem existência). e a
países. Há até mesmo casos de agricultura semicapitalista, ou relações semi-
noção de modo de prcducâb. Embora seja carreto dizer que não há for-
capitalistas. ellremanescentes da escravidão aqui e ali. Mas, repito, é um.
mação social sem relações de produção especl'ficas,é falso dizer que qual-
processo no qual uma boa parte da população se encontra precisamente
numa fase de transição da sociedade sem classes para a sociedade de classes. quer relaçãode produção especifica implica necessariamente
a existência
113
112 marxismo revolucionário atual os regimes de transição no leste

de um modo de produção específicaou predominante. Uma dasdistinções


essenciais entre os períodos de transição e as grandes ''etapas progressivas
da história. delineadaspor Marx no prefáciode suaConfrl'bu/çábâ Cr/t/m
da Eco/ m;a Po//t/ca. é precisamentea de que os períodos não têm um
modo específico de produção. ao passoque as etapassão. por defjniçãó,
caracterizadas por esses modos. Vamos examinar primeiro a explicação
teórica dessadistinção, à luz da qual voltaremos à análise sócio-económica
da União Soviética.
O que caracterizallum modo de produção é o fato de ele ser uma
estrutura cuja modificação quantitativa, gradual, que ocorre pela evolução,
só é possível enquanto compatível com a lógica interna do todo que. em-
bora possa sér dividido e contraditório, continua sendo um toda orgânico.
Esse todo. come'qualquer com orgânica. pode reproduzir-se mais ou
menos automaticamente. Não digo que se reproduza mais ou menos auto-
maticamente. apenas através do mecanismo ecanõmico -- essacaracterís-
tica só é aplicável,em última análise.ao modo de produçãocapitalista.
Nos modos pré-capitalistasde produção, as articulaçõesentre os vários
instrumentos da reprodução económica. política e ideológica podem ser
acentuadamente diferentes da que são numa sociedade burguesa. Mas a
essência do problema continua a mesma: uma vez colocada em órbita. a
estruturacontinua nessaórbita e só pode ser afastadadela por revolucões
sociais ou contra-revoluções, por explosões ou perturbações mu ito violentas.
Por outro lado. precisamente devido ao seu caráter geral híbrido, as
reaçíõesde produção de uma sociedade em transição entre dois modos de
adução podem decompor-se por si mesmas, evoluir em várias direções
sem experimentar necessariamenteperturbações revolucionárias do mesmo
tipo das revoluções sociais necessáriasà passagemde um modo de produ-
ção para outro. A passagempara a pequenaprodução de mercadoriasnão
foi antecedida da tomada do poder político pelos seus produtores; não
houve um ''Estado da pequena produção de mercadorias". Houve um
Estado feudal e. em seguida, um Estado burguês. O advento do capitalismo
não exigiu uma revoluçãosocial e política que modificasseas relaçõesde
produção baseadasna pequena produção de mercadorias. A simples pene-
tração/expansão do capital monetário na economia. num contexto deter-
minado pelo mercadocapitalista mundial, pelo domínio clo capitalismo
mercantil. foi suficiente para provocar esse fenómeno de decomposição
Resumindo. podemosdizer que a diferença fundamental entre ai relações
de produção características das fases de transição. por um lado. e os modos
de produção,'por outro lado, é um grau de estabilidade qualitativamente
diferente
e

Examinando a situação na União Soviética à luz dessa distinção.


podemos chegar a várias conclusões. Primeiro, pode-se demonstrar facil-
mente -- ao contrário das afirmações de que as relaçõesde produção na
URSS são essencialmente socialistas -- que a expressão ''socialista" não
114 marxismo revolucionário atua]
os regimes de transição no leste 11J

fico (ou grupo de países).Em outras palavras,trata-se da análise de rela-


ções de produção peculiares não ao período de transição do capitalismo
para o socialismo em geral, mas para uma sociedade que. embora esteja
atravessando essafase. já passou por processos particulares de desenvolvi-
mento num determinado contexto histórico. Isso implica uma acentuada
fragilidade das relações de produção, em comparação com as relações ca-
racterísticas dos modos de produção estáveis, e uma maior estabilidade do
que se poderia prever sob a suposição de que o fenómeno teria vida curta.

As Leis do Movimento da Economia Soviética

Você mencionou que os defensores da teoria de que a União Soviética não


é socialista nem capitalista, mas que suas relaçõesde produção são caracte-
re'éticasde uma nova sociedade de classes,teriam que demonstrar as leis
de desenvolvimento dessasociedade.Mas não enfrentam a mesmatarefa
os defensores da análise trotskista? Afinal de contas, eles sustentam que a
União Soviética não é capitalista, o que significa que as leis do desenvolvi-
mento económicocapitalista descritaspor Marx não se aplicam a ela. Ao
mesmo tempo, insistem em que as relações de produção na URSS não são
socialistas. Mas a economia soviética deve funcionar de acordo com deter.
minadas leis. E elas teriam de ser analisadasquer essaeconomia seja caracte-
rizada como um ''modo de produção'' ou simplesmente como uma série
híbrida de ''relações de produção". Quais são as leis especi'ficas que gover-
nam o funcionamento da economia soviética?

Não há dúvida de que enfrentamos essatarefa. e na verdade procuramos


dar-lhe solução. Eu diria. por exemplo, que grande parte do segundo
volume de minha Teorü fconóm/ca /l#arx&ta é dedicadaao exame da eco-
nomia soviética e da economia do período de transição em geral. Evidente-
mente, não posso.entrar em detalhes nesta rápida entrevista, mas procura-
rei resumir os elementos centrais de nossaanálise.
Vou começar ressaltando nossa afirmacão de que a economia sovié-
tica já não é capitalista. Issose evidenciapor várias observaçõesempíricas,
Para começar, todas as grandes empresas industriais, de transporte e finan.
ceiras -- em outras palavras, os meios de produção e circulação -- são pro-
priedade do Estado. Além disso, essapropriedade estatal é complemen-
tada por três características adicionais: proibição do direito de apropriação
privada dessesmeios de produção e circulação; planejamento eeonõmico
centralizado; e monopólio estatal do comércio exterior. Tudo issosignifica
que a produção generalizada de mercadorias jó nâo existe na URSSe que a
lei.do'valor já não dom/na. Não há mercado para meios de produção em
grande escala ou para a força de trabalho. Os meios de produção e a força
de trabalho deixaram. portanto, de ser mercadorias.
116 marxismo revolucionário atua]
r'
l os regimesde transição no leste
117

ceira das empresas, em conseqtlência do uso generalizado do dinheiro na viética nos últimos 50 anos foram provocadas por essestipos de deforma-
contabilidade nacional. ções burocráticas. E outra lei básica de movimento da economia soviética.
Como já dissemos,nessetipo de produção parcial de mercadoria, o : As massas de produtores têm um interesse duplo eml otimizar o uso
dinheiro não pode desempenharo papel que tem sob o capitalismo.ou olanificado dos recursos económicos. De um lado. querem reduzir os in-
mesmo sob a produção de mercadoriassimples, Não pode transformar-se sumosde trabalho mecânicos,não-criativos, a um mínimo; do outro, que-
em grandecapital, e apenasem casosmarginais(comoa.produção para o rem a maior satisfação possível de suas necessidadese desejos como con-
mercado negro") torna-semeio de exploração direta da força de trabalho. sumidores. Todo desperdi'cio de recursos económicos contraria um desses
Também não se transforma num Instrumento para a apropriação privada interesses.ou ambos. Não há indícios, teóricos ou empíricos, de que uma
autêntica dos principais meios de produção.Pode, porém. tornar-se um economia centralmente planejada e CQletivizada,sob uma autêntica e de-
nHrumento da apropriação privada parcial do produto excedente social mocrática administração dos trabalhadores, utilizasse o$ recursos economt-
jjuros e renda de aluguel) e rea/mente estimula uma tendência espontânea cos com menos eficiência do que uma economia capitalista baseadana
para a acumulaçãoprimitiva do capital privado, masdentro de limites competiçãoenacorridaparamaximizaroslucros. F ..
rigorosos. Continua sendo, também. um fator central na consolidação Na ausência do controle .democrático do planejamento,. produção
e transmissão da desigualdade social {herança. por exemplo). É outra con- e distribuição pelos próprios produtores associados, porém, uma economia
tradição central e lei básicade movimento da economia soviética. planejadacentralmente só pode ser administrada atravésde uma combina-
ção contraditória de busca de interesse material da parte da camada "admi-
Tudo o que foi dito.}até agora, se aplicaria a qualquer sociedade em nistrativa'' da burocracia. de um lado. e o controle político exercido pela
transição'do capitalismo para o socialismo. Todas essas contradiçõe.s máquina estatal. do outro. {A máquina do partido e a máquina do Estado
sao. como disse,objetivas. Mas não haverácontradições --,e leis de movi- há Muito se tornaram uma só e mesma coisa.) A experiência confirmou
mento -:'especi'ficas da economia soviética,.resultantes da forma de gover- aquilo que a teoria marxista poderia ter previsto: dada essacombinação.
no político. ou seja, o governo da burocracia? Se .há, como se relacionam a economia soviética funcionará constantemente abaixo de suataxa ótima
com a questãode constituir ou não essaburocraciaumaclassedominante de crescimento; desproporções periódicas e explosivas surgirão entre os
=em outras palawas. sc estamostrotando de um.modo de produção ou vários ramos da economia nacional.
uma série especi'fica, híbrida, de relações de produção7 Ao mesmo tempo, devemos ter presente que os privilégios materiais
são essencialmenterestritos à esfera do consumo. (Deixo de lado os pri-
vilégiosnão-materiais,como ''prestígio social", "sede de poder" etc. Eles
Essas contradicões fundamentais, que seriam enfrentadas por qualquer não se expressam em vantagens materiais e são irrelevantes para a análise
formação social em transição do capitalismo para o socialismo: são muito econõm/ca.) Dada a natureza específica da economia soviética, essespnvt'
agravadasna URSSpelas conseqüências da contra-revolução pol.ítica que ali légios tomam duas formas principais: maiores rendas monetárias (inclusive
triunfouâem fins da décadade 1920, levando ao monopólio do exercício renda obtida ilegalmenteatravésda corrupção, suborno, roubo e operações
do poder e da administração em todas as esferasda vida social, hoje con- no mercado "negro" ou "cinzento") e vantagens não-monetárias oriundas
trolado por uma camada social materialmente privilegiada. a burocracia. da posição ocupada na estrutura hierárquica da burocracia apor exemplo,
Assim como a lel do valor reina da maneira mais ''natural". seminterferên-
acessoa lojas especiais, uso pessoalde automóveis de propriedade do Esta-
cias, no capitalismo do /a/soez-fa»e,um sistemabaseadano investimento e
do, apartamentos ou casast.relativamente luxuosos etc.). Em ambos os
na distribuição dos principais recursos económicos socialmente planejados casos. o efeito é que o burocrata tem maior acesso ao$ bens de consumo
só funciona normal e livremente se toda a economia estiver sob o controle
Ide qualidade superiora do que o trabalhador médio, para não falarmos do
e administração dos próprios produtores. A administração das unidades
campon.ês
médio. Não obstante, isso não leva à propriedadeprivadados
produtivas e de todos os processoseconómicos básicos por uma burocracia meios de produção nem à acumulaçãode enormes fortunas em dinheiro.
privilegiada inevitavelmente introduz uma grande deformação e desperdí- Tudo isso introduz outra contradição altamente explosiva no funcio-
cio no processo de planejamento. namento da economia soviética. De um lado, o interesse material da buro-
Essasdeformações oriundas da sobrevivência da produção parcial cracia é o instrumento central para a realizaçãodo plano. Dado o monopó'
de mercadoria. da pressãodo mercado mundial e dos outros fatores que lio burocrata da administração de toda a economia, ele constitui o principal
mencÍanei, são agravadaspelas contradições adicionais introduzidas pelo mecanismopelo qual o crescimentoeconómico é obtido socialmente.Por
próprio sistema burocrático. Muitas das crises específicas da economia so- outro lado, náb há qua/quermecan;smoeconómüo -- e muito menosum
118 marxismo revolucionário atua]
r'
:l os regimes de transição no leste
1}9

mecanismo espontâneo e automático -- pelo qual a realização desseauto- de consumo, a burocracia náb pode neutralizar a sua tendência de subor-
interesseburocrático possaser harmonizado com o crescimento economlco dinar as prioridades sociais gerais às vantagens setoriaís separadas {adquiri-
ótimo -- pela menos. não após o limiar inicial da industrialização ter sido das ao ni'vel de fábrica individual. empresa,localidade, região, ramo indus-
trarlsposto. trial. nacionalidade
etc.). Em outras palavras,não há comopermitir a
É essa;incidentalmente, uma das mais importantes objeções teóricas satisfação simultânea dos interesses privados dos burocratas e das necessi-
à ídéia de que a burocracia constitui uma nova c/assedomi.nante. Os que dades e exigências de uma economia socializada e planificada. Por isso,
sustentam essa idéía enfrentam um grande paradoxo. que jamais resolve- todas essasreformas levaram a uma nova forma de contradição. que por
ram: são incapazes
de demonstrara característicaessencialde qualquer sua vez levou a uma nova reforma. que leva a uma nova manifestação
classe dominante numa sociedade de classe, ou seja, a correspondência. a da contradição, e assim por diante. ad /nf/n/tum. Esse fato. em si, deveria
correlação, pelo menos em nível geral, entre os interessese motivações da ser suficiente para indicar que a burocracia não é uma classedominante e
chamada classe dominante e a lógica interna do sistema económico. Não que a União Soviética não produziu um modo de produção estabilizado,
pode havercontradição entre a motivaçãoe o comportamentoda grande pois tal situação é inimaginável sob um modo de produção estabilizado: De
maioria da classecapitalista e a lógica interna do sistemacapitalista.Se qualquer forma. não há precedente histórico para essasituação.
assim não fosse. toda a análise marxista das classes sociais se tornaria total- Na medidaem que a burocraciatenta acumularvantagensmatenals.
mente incoerente e estará'amoslidando com um modo de.produção abstra- não pode administrar de maneira adequadauma economia planificada. E
to, reificado, completamente divorciado das forças sociais vivas e que de- na medida em que tem de administrar a economia planificada pelo menos
sempenharia o papel do Zb/fge/st de Hegel. adequadamente. não pode dar prioridade à acumulação de seus próprios
Ora. é evidente que não existe essacorrespondênciana União Sovié- privilégios materiais. O erro daqueles'que consideram a burocracia como
tica. Não só não existe. como tudo o que sabemossobreo comportamento uma encarnação da "vontade de acumular'', "produção pela produção
e motivação da burocracia, especialmente as camadas mais intimamente aumento da produção na indústria pesadaàs custasda indústria leve'' ou
ligadasà administraçãoeconómica.que supostamentecontrolam o produ- qualqtler idéia semelhante,é que eles têm uma imagemfalsa da verdadeira
to excedente social. contraria a lógica da economia planificada. Uma das burocracia soviética. Pode ter havido planejacfares,e provavelmente alguns
forças da análise revolucionária marxista e trotskista do caráter social da líderes políticos, com a paixão da produção pela produção, da produção
URSS foi precisamente a de demonstrar esse aspecto das coisas, com base para a acumulação. Os verdadeiros burocratas, aqueles de carne e ossoque
em uma concepçãoespecíficada burocraciae seu papel contraditório na vivem no mundo real, são sem dúvida motivados por muitas palxoes, mas
sociedade soviética. Essaanálise apreendeuqo fato essencial de que temas, são paixões mais mundanas do que a produção pela produção. Suas pai-
no caso. um fenómeno que difere, qualitativamente e estruturalmente, de xões estão rigorosamente ligadas à posição particular ocupada pela buro:
uma classedominante. Como não há propriedade privada dos meios de cracia na sociedadesoviética de transição e à sua articulação muito especial
Produção na União Soviética, como as vantagens dêsfrutadas pela burocra- e contraditória com o sistema de economia planificada.
cia são essencialmenteprivilégios relacionados com suasfunções e posições A administração burocrática -- qualquer que seja a sua forma --
na hierarquia e comobessasvantagens continuam sempre precárias em con- levará sempre. portanto. ao desperdl'cio de recursos.de várias maneiras:
seqtlência da ausência de propriedade. foi impossível a um sistema de admi- ocultação de reservas,transmissão de informações falsas, inflação de neces-
nistração baseado nos interesses individuais dos burocratas desenvolver sidadesde insumo, produção de baixa qualidade sem relaçãocom as ne-
qualquer racionalidadeintrínseca autêntica. Na verdade.podemosdizer cessidadesdo consumidor. roubos de insumos produtivos para uso na pro'
que todas asprincipais reformas económicasda economia soviéticaa partir dução do mercado "cinzento" ou "negro'' etc. Nem o recurso sistemática
do segundoplano qilinqilenal -- desdeo princípio do khozrachot llucra- ao terror. como no tempo de Stálin. nem o restabelecimento parcial do
tividade autónoma de cada empresaindividual) introduzido por Stálin, mecanismode mercado. como durante o período pós-stalinista.podem eli-
passandopelo sopnarkhoz/ de Krushev e a proposta de Liberman de ''res- minar a raiz final dessedesperdl'cio,que é o conflito entre, de um lado, o
tauraçãodo lucro como índice do desempenhoeconómicogeral", até o interessematerial da burocracia administrativa privilegiada e, de outro. a
sistemas de ''indicadores combinados" de Kossiguin. e as últimas contra- necessidadede uso ótimo dos recursos económicos liberados pela abolição
reformas que eliminaram alguns dos efeitos das reformas de Liberman -- da propriedade privadados meios de produção e da lei do valor. O interesse
visaram. sem êxito. à superação dessa contradição. coletivo da esmagadoramaioria dos produtores. porém. exige exatamente
Há uma razão fundamental .para essafalta.de êxito. Pelasua própria a utilizacão ótima de recursos. SÓos produtores democraticamente asso-
natureza de camada social que controla os privilégios materiais na esfera ciados. recebendo ''dividendos sociais" iguais de um crescimento economi-
121
120 marxismo revolucionário atual os regimes de transição no leste

co intensificadoou de uma maiorprodutividadedo trabalho,teriam um


interesse material autêntico numa otimização soca/ global do uso dos re-
cu rios econom ecos.

Mas será que o tipo de sistemaauto-administrado ao qual você se referiu


não exige um certo nível de desenvolvimentodasforças produtivas.que
permita a reunião das precondições para o funcionamen.to desce sistema?
E não tem a teoria marxista algo a dizer sobre as precondições económicas.
políticas'ssociaise culturais que permitiriam a estabilizaçãodessasnovas
relações de produção, e sua cristalização num modode produção?

A questão se resume realmente a dois problemas. Quais as precondições


para o desaparecimentoda economia de mercado e da economia monetá-
ria? E quais as precandiçõespara o desaparecimentoda divisão social do
trabalho entre produtorese administradores?Na minha opinião, 8 atual
riqueza dos países industrialmente adiantados permitiria a consecução
rápida de um nível de desenvolvimento tal que as necessidadesmateriais
básicas poderiam ser plenamente atendidas. É um dos critérios mais óbvios
para a possibilidade -- na verdade, a necessidade -- de desaparecimento
das categorias de mercado e monetárias.Nessascondições, tais categorias
só podem ser aplicadascom efeitos negativos.Já podemos ver indícios
disso na tentativa de "organizar'' a .abundânciaagri'cola do Mercado Co-
mum. com base na economia de mercado. Também acredito que seria
possa'velimediatamente reduzir pela metade a jornada de trabalho. Além
disso. é essaa condição material -- não suficiente em si mesma,mascerta-
mente necessária-- para tornar a auto-administração uma realidade. e nãa
um simples s/oga/í. Se os produtores não têm tempo de administrar suas
fábricas. suasvizinhanças e o Estado -- para não falarmos das federações de
Estadosqsocialistas -- pode-se anunciar auto-administração aos quatro
cantos. mas ainda haverápoli'ticos profissionais, e portanto funcionários,
e portanto burocratas potenciais, que controlarão essaadministração. Bem,
as condições para reduzir a jornada de trabalho à metade e para a educação
O Caráter Social da Burocracia
universitária generalizadae compulsória existem hoje ern todos os grandes
pa íses industriais.:

Masexistiamem 1920?

Não. Falo da situação anual

Portanto, em 1920 não existiam?

Não na Rússia,certamente.

E na Aiemaí:liw. em 1920?
123
!22 marxismo revolucionário atua] os regimes de transição no leste

social, mais a estabilidade do governo burocrático sugerir a existência de


uma classedominante?

Para comecar, essa discussão no Ocidente é. com freqilência. prejudicada


por uma grande leviandade :Mais precisamente, a maioria dos que discutem
a URSS
foram incapazes
de abordara realidade
sócio-económica
do país
com aquilo que Lênin considerou uma dascaracterísticasbásicasda diabéti-
ca materialista, ou seja d/e ,4//se/f/bke/t -- o processo de se levar em conta
todos os aspectosdo problema. e não isolar certos aspectosdos demais.
Toda uma história da savietologiaocidental.-- e incluí sob esserótulo
bastante pejorativo todas as várias correntes e subcorrentes do próprio
pensamento marxista -- poderia ser escrita desseponto de vista. Ora um
aspecto, ora outro, foi ressaltado, dependendo do momento, das exigências
pragmáticas da luta política, e até mesmo dos caprichos pessoais e do inte-
ressevulgar. A certa altura, é dada ênfase ao caráter limitado das forças
produtivas; em outro momento, à contradição entre os baixos padrõesde
vida da população e o imenso potencial industrial; em outro ainda. aos
avanços na tecnologia, ou ao enorme atraso tecnológico, e assim por diante.
Além disso, não se trata tanto de uma questão de falta de imaginação.
Para desenvolver uma visão que pelo menos pretenda ser abrangente, o es-
sencialpénos darmos ao trabalho de examinaro todo. e lutar constante-
mente para integrar elementosfreqüentemente contraditórios numa visão
dinâmica, geral, daÉrealidadesoviética. Fico surpreso, por exemplo. pela
levlandadK, irresponsabilidade mesmo, com a qual muitos observadores
ocidentais falam de crise económicaque supostamente''atinge a economia
soviética, como atingiu a economia ocidental"; e pela maneira pela qual
outros (inclusive alguns que se pretendem marxistas) consideram pouco
importante o fato de que, embora tenha havido um terrível aumento do
desemprego em todos os países industrializados do Ocidente, não há qual-
quer desempregonos paísesindustrializadosda Europa Oriental. Elesevi-
tam essasdificuldades com fórmulas que na realidade são apenas frivolida-
des, sem conteúdo teórico sério. Tais observadoresdizem, por exemplo:
Sim. mashá um desemprego
disfarçado,oculto dentro das fábricas,na
União Soviética." A única "diferença" é que os trabalhadoressoviéticos
continuam sendo pagos, ao passo que os desempregados no Ocidente vão
para a rua. E por que a classedominante no$paísescapitalistas industriali-
zados, embora mais ricos do que a União Soviética, não tem a capacidade
ou a vontade de eliminar o desemprego ''evidente":, substituindo-o pelo
desemprego disfarçado? Evidentemente, todas essas perguntas remontam
ao método de análise geral, e à incapacidadede todos os que serecusam a
aplica-lo ao entendimento da realidade muito complexa da União Soviética.
Vejamos outro exemplo. Crio que devemos rejeitar como incom-
patível com a realidade,como uma deformação.qualquer idéia de que
houve uma estagnaçãodas forças produtivas na União Soviética, um des-
125
124 marxismo revolucionário atual os regimes de transição no leste

Finalmente. devemoster cautela ao falar da estabilidade.Eu preferi- Bretanha. Tudo isso constitui uma realização possibilitada pela derrubada
ria dizer que o reinadoda burocraciasoviéticacaracterizou-se
por uma do capitalismo.
combinação de estabilidade e instabilidade. Para os que.tinham esperanças
de uma revolução política, ou um colapso do regime a curto prazo, o que
se revelou foi a estabilidade. Mas se fizermos o balance dos 25 anos desde
a morte de Stálin, veremos que não houve um único ano sem modificações
importantes na União Soviética, em+comparaçãocom a velha imagemda
imobilidademonolítica. Poder-se-ia
dizer que a União Soviéticacom o implicitamente, com a análise trotskista?
culto de Stálin e a União Soviéticasemo culto deStálin sãoexatamentea
Pelo contrário O crescimento da economia soviética e o correspondente
mesma coisa? Que a União Soviética com um padrão de vida dos trabalha-
dores comparável, digamos, ao da Turquia. é exatamente a mesmacoisa aumento no peso social e nas habilitações técnicas e culturais da classe
que a União Soviéticacom nl'veiasalariaisque se aproximam aosdos tra- operaria não torna automaticamente mais fácil ou mais rápida a derrubada
do monopólio burocrata do poder e da administraçãoda sociedade.A esta-
balhadores italianos? Pode-se afirmar que a União Soviética que produzia
bilidade relativa do domínio da burocracia -- ou. de qualquer modo, sua
apenas30 milhões de toneladas de aço seja a mesma coisa que a União
longevidade relativa -- é basicamente resultado do fato de que a derrubada
Soviética que é hoje o maior produtor de aço, com produção anual 20%
maior que a dos EstadosUnidos?Pode-sedizer que a União Soviéticana desseregime exige uma ação poli'teca consc/É'Í7fe,uma revolução política.
qual a oposição se encontrava nos campos de Gulag e a União Soviética de Isso, por sua vez, exige o amadurecimento de condições não só objetivas,
hoje, com seu fermento de correntes políticas, um/zdaf, e discussãoem mas também subjeíivas. A principal razão da duração do domínio burocrá-
tico na URSSé que essascondições subjetivas de revolução poli'tica ainda
todos os nl'veia anão só entre intelectuais, mas também nos sindicatos),.
não amadureceram.
sejam a mesma coisa? Desseponto de vista, também, o problema é mais
Dois fatores relacionadosentre si explicam isso. De um lado, um dos
complexo. Mas no caso, em contraste com o que eu disse antes, o que falta
não é tanto um método de integração de todas essasinformações, mas as efeitos centrais do longo período de domínio burocrático -- e incluo nessa
categoria não só o reino do terror de Stáli.n. mas também os períodos de
informações em si. Temos pouco conhecimento em relaçãoàquilo que, na
União Soviética, não é macroeconómico;ou macrossocial.Conhecemosas Krushev e Brejnev -- foi um processo de atomização e despolitização con-
tínuas da classeoperária soviética. Isso coloca obstáculosenormes no
linhas gerais,os agregados:coisascomo os númerosda produção industrial,
caminho de umaÜrevoluçãopolíticaglComunismo. marxismo e socialismo
a renda nacional, até mesmo a parcela da burocracia na distribuição da
renda nacional, não são difíceis de calcular. Tudo isso é mais ou menos co- foram desacreditados aos olhos de muitos trabalhadores soviéticos, pois fo-
ram sistematicamenteprostituídos numa religião estatal apologética.a
nhecido. MasÜestamos tratando com um país de 250 milhões de pessoas.
Essasociedadecontém muitas mini-sociedadesdentro dela. E quanto a isso serviçoda burocracia dominante. Isso é particularmente importante, tendo
em vista a falta de uma revolução social vitoriosa no Ocidente. ou de uma
estamos, evidentemente, muito menos informados. Percebemosapenas
revolução política num país do leste europeu, pois qualquer uma :dessas
certos aspectos da realidade. através de revelaçõessúbitas. atravésda luz
duas hipóteses poderia oferecer ao proletariado soviético um modelo alter-
que pode ser lançadade tempos em tempos, por uma ou outra fonte, sobre
nativo atraente.
o que está acontecendo,
Por outro lado. o simples crescimento da economia soviética, apesar
de todo o desperdício causado pela má administração burocrática. lançou
Como disse.houve um crescimentocumulativo da#economia
soviéticanos as basespara uma melhoria, lenta mas constante, nos padrõesde vida dos
últimos 50 anos,apesarde todo o desperdícioburocrático.De fato. a trabalhadores soviéticos. Portanto, a burocracia foi capaz de estimular um
URSS transformou-se de um país relativamente atrasado numa grande po- fenómeno que se poderia chamar de ''consumismo reformista", que se
tênciaindustrial. tornou uma espéciede alternativa da ação política entre a classeoperária.
certo que isso provoca ROU'astensões e contradições, em conseqtlência da
Não apenasuma grande potência industrial, masa segundamaior potência aumento das expectativas dos trabalhadores: por bens de consumo de qua-
industrial, pelo menos.do ponto de vista dos númerostotais, absolutos, lidade. acessoà educaçãosuperior, melhor assistênciamédica. liberdade
de produção. Mesmo a produtividade industrial do trabalho aumentou, para viajar ao exterior etc$Mas isso também contribuiu para manter a des-
aproximando-se agora dos ni'veia médios regístrados na Itália e na Grã- politização e atomização do proletariado e. portanto, contribuiu para
126 marxismo revolucionário atual
r' os regimesde transição no leste 127

. em outras palavras. como a segurança de emprego é infinitamente maior


conter qualquer renascimento de uma ação ou organizaçãode massasiste-
mática. tA única exceção -- parcial -- é a fermentação entre as nacionalida- na URSSjembora não devamos exagerar, pois ela não é absoluta), os tra-
balhadores soviéticos têm possibilidade de impor às fábricas várias realida-
des oprimidas; mas, nesse caso. as mobilizações tenderam a se limitar às
des. como um ritmo de trabalho menos intenso, que não existem nos
lutas pelos objetivos nacionais.)
paísescapitalistas. E há uma fusão estranha. mais uma vez hl'brida. de gran-
Mas é importante ter presente que a relativa falta de amadurecimen- de indiferença pelo esforço individual e do maior interessepela habilitação
to das condições subjetivas de revolução política não significa que o domí- individual -- que de certa forma é o oposto do que acontece na sociedade
nio burocrático se reproduzade maneirasuave,ou automática. Ela simples-
capitalista.
mente introduz outra contradição na economia soviética. Quanto mais o Os dois aspectos dessa contradição não devem ser subestimados, pois
crescente pesoobjetivo do proletariado soviético sechoca com a sua contí- têm uma dinâmica social muito clara. Segundo dados oficiais {e embora
nua exclusão do processo de decisão na administração e planejamento, estes sejam exagerados,mantêm certa relação com a realidade). há dez
mais a indiferença generalizada para com o resultado dos processos produ- milhões de pessoas nas fábricas soviéticas hoje -- dez milhões -- com di:
tivos tende a infiltrar-se por todos os níveisdasatividadesdos trabalhado- plumas universitários, ou diplomas de escolas técnicas pós-secundárias. E
res. Isso, por sua vez, passaa ser uma fonte de redução do crescimento uma percentagem considerável do número total de trabalhadores (70 mi-
económico {e um vasto reservatório de crescimento adicional potencial, Ihõesl. e está aumentando a cada ano. Isso deve, inevitavelmente. ter um
no caso de uma revolução política vitoriosa). certo efeito sobrea autoconfiança da classeoperária. Deveinevitavelmente
modificar a relação de forças com a burocracia, no contexto de uma socie-
dadena qual o monopóliodo conhecimentofoi, de início. uma grande
A ClasseOperária. a Burocracia e o Estado arma nas mãos das privilegiados. Esse monopólio está agora sendo reduzido
por esseesforço extraordinário de ç:ducaçãocultural e técnica por parte da
Apesar dessacontradição : ou talvez em virtude dela.--.a classeoperária classe operária soviética.
conseguiu determinar ' várias modificaçõ.es:..mesmo pol.íticas., pelo .menos Nessascondições, como pode existir ao mesmo tempo indiferença
em alguns dos países da Europa Oriental. 0 proletariado está agora inter- pelo esforço produtivo? Também isso é difícil de ser explicado. A indife-
vindo de forma cada vez mais fnaclça.
rençaexiste precisamentena proporção em que a massados produtores se
convence,profundamente. da inutilidade de qualquer esforço real, quando
Eu teria cautela com a expressão''de forma cada vez mais maciça". porque tudo está, de um lado, rigorosamente controlado pelo centro e, do outro,
isso quase poderia levar à idéia de que estamos às vésperas de CQrreções Infinitamente desorganizadolpelo desperdício e pelos privilégios da buro-
qualitativas ou automáticas. Mas é evidente que a situação é muito diferen- cracia.Há demasiadorisco em qualquer iniciativa. Por isso.o sfafusque é
te daquela que predomina nos paísescapitalistas industrialmente adianta- preferido, e as pessoassimplesmente tentam sair-se da melhor maneira pos-
dos. tanto em termos da relação de forças sociais e económicas,como em sível. Podemosmencionar também outro fato, que. embora secundário,
termos da incapacidadeda burocraciaem desenvolveruma ideologiapró- não é destituído de importância (talvez seja mais importante na Europa
pria. o que a obriga a não reconhecer seu próprio poder. e a apresentar-se Oriental do que na União Soviética, mas mesmo nesta última ele tem certo
como representante do poder da classe operária. Já tive oportunidade de peso). E a distância entre a realidade e as estatísticas, provocada pela fato
chamar a atenção para outro paradoxo fundamental da situação: o fato de que uma boa quantidade de trabalho é investida em mercadorias vendi-
de que a classeoperária,proclamadacomo a classedominante em toda a das através de circuitos paralelos. O ritmo de trabalho lento nas grandes
opagandaoficial. está na realidadedestituída de todos os direitos políti- empresasdeve-se.em parte, ao fato de que muitos trabalhadoresespeciali-
cos. Ao mesmotempo, embora a classeoperária não participe da adminis- zadostêm outras octipacões, quando vão para casa.
tração da economia e do Estado, na realidade dispõe de poderes e direitos Apesarde tudo isso, é certo que a classeoperária soviética. com suas
de cacto. resultantes da Revolução de Outubro, e que continuam sendo habilitações, seu nível cultural muito superior e seu evidente desejo de
consideráveis. Essa contradição deve ser compreendida. dominada, e suas aperfeiçoarsuacapacidadetécnica, está profundamente frustrada, privada
consequências percebidas ; de qualquer participação real na administração do Estado e da economia.
Como não existe um mercado de trabalho na URSS,como é formal- As poucas reformas, menos do que modestas, introduzidas na década de
mente ilegal e habitualmente impossi'vela um diretor de fábrica soviética, 1960 visaram,.nomáximo, à adoção de um grau de co-gestãonumas pou-
ao contrário do chefe de uma empresacapitalista. demitir um trabalhador cas questões sociais. como normas de trabalho e salários. Além disso, essa
128 marxismo revolucionário atua] 129
osregimes de transição no leste

co-gestão se fazia entre aparelhos sindicais jem outras palavras, uma fração des. mas um detonador suplementar será provavelmente necessário para
da burocracia) e os dirigentes de fábricas. Não envolvia assembléiasgerais modificar a situação
de membros dos sindicatos, o que teria sido outra coisa -- levando-nosde
Há outra grande incógnita: o que pensam os jovens trabalhadores
volta a uma forma indireta de participação operária no exercício do poder.
tal como existia na décadade 1920. sov'iéticos e como encaram a sociedade? Quero dizer, os trabalhadores
que se formaram em escolastécnicas e profissionais nos últimos c nco
Porque não houve ainda demonstraçõesmais explosivas de protesto ou seis anos. e que nunca passaram por Stálin e a desestalinização.. e nem
por parte do proletariado soviético contra esseestadode coisas,que Ihe mesmo pela invasão da Tchecoslováquia. que tól a ultima grande crise
deve ser cada vez mais intolerável? Creio haver duas razões para isso. Pri- interna no sistema burocrático de dominação. E essaa grande interrogação.
meiro, a falta de um modelo alternativo, que já mencionei; em outras pala- pode haver certas surpresas no caso, mas no momento não devemos ter
vras, o ceticismo ideológico e político, que deve'sermuito profundo. A esperançasexcessivas a curto prazo-
classe operária soviética ficou profundamente decepcionadapela maneira
em que a Revolução de Outubro se transformou. com a degeneração stali- 0 que você disse sob.re.a classe.ope.rlária
soviética suscita, novamente,,a
nista. num modelo de liderança social que não atende às necessidades
dos questão da natureza da buroc.bacia.Há os que concordam em que a buro-
trabalhadores, Os trabalhadores também não foram atrai'dos pelo modelo :rac a não pode ser comparada a uma classe dominante num.modo de pro-
capitalista.,Eles não vêem alternativa no mundo de hoje, não vêem nenhum ução clãs'ico (a burguesi?, por !xempjo.), mas que têm dúvidas -:.não em
terceiro modelo. Não há dirigentes dentro da classe operária soviética capa- geral masno.contexto.da formação social soviética específica -- sobre sso
zesde propor um modelodiferentede administração.
Sob esseaspecto,o dado o papel destacadodo Estado, particularmente na economia. como
extermínio radical, ordenado por Stálin, de todas as tendências de .oposi- você ressaltou, e dada a atomizaçêo da classeoperária. nâo.teí.áa burocra-
ção comunista,de todos os quadrosdirigentescomunistas,teve efeitos cia acumulado um conjunto de poderes nos setoles económico, social e
realmente desastrosos.Na ausência:desse modelo alternativo, houve um político que a colocam fora da. classe.operária? E. signif.icaria.isso que a
recuo no sentido da vida privada. de reivindicações imediatistas, de padrões posição de -Trotski, que. falou de uma burocracia dos trabalhadores, uma
de vida mais elevados,e mesmode progressosocial individual atravésda fracão da classe operária atravéslãdaqual a ditadura do pro.letariado se
educação lo lado negativo da corrida à educação que não deve ser ignora- exerceria de uma maneira deformada, mas real, deixa de ser válida?
do). Todas essasformas de fuga são praticamente inevitáveis. A segunda
razão principal é que houve um progressoinegávelno padrão de vida e nas Se tivéssemos de definir a burocracia apenas como as camadas mais eleva-
condições de trabalho dos operários soviéticos. Esseprogresso, quase cona das da hierarquia, então é evidente que qualquer parentescocom a classe
tante desde a morte de Stálin, isto é, nos últimos 25 anos,gerou o que operária, seja psicológico ou social, seria cada vez mais difícil de demons-
podemos chamar basicamente de um clima mais reformista do que revolu- trar. A relação se tornaria então puramente histórica, na melhor das hipó-
cionário, dentro da classeoperária. Pode haver explosões passageirasprovo- tesesl O Único elemento da definição de Trotski que permaneceria--
cadas por determinadas questões,por exemplo quando a escassezde pro'
embora me pareça que continuaria a ser decisivo, apesarde tudo.-- seria
duros alimentícios ou a intensificação da repressãoé especialmentesevera. o modo de remuneração: o fato de que a burocracia, como não possui os
Normalmente, porém, os trabalhadores soviéticos esperam melhorar sua meios de produção. participa da distribuição da renda nacional exclusiva-
sorte exercendo pressãodentro da estrutura do sistema, e não desafiando-o mente como uma função da remuneração de sua força de trabalho. Isso
de maneira global. implica muitos privilégios, mas é uma forma de remuneração que não dife-
E a combinação dessesdois fatores que explica a presentepassivida- re qualitativamente da remuneração em forma de salário. Embora essa
de política da classeoperária {fatores. incidentalmente, que vimos em ope' definição possa satisfazer aos teóricos. sobretudo aos marxistas que atri-
ração também em pai'sescapitalistas adiantados). Um detonador adicional buem importância capital aos fenómenos económicos, eu admitiria imedia-
pode ser necessáriopara provocar maioresexplosões: uma vitória revolu- tamente que não é muito satisfatória do ponto de vista psicológico e peda-
cionária no Ocidente. ou o desenvolvimento de uma oposição pol ética mais gógico. Explicar que a burocracia é uma burocracia doK~trabalhadores
articulada e efetiva entre os não-operáriosna União Soviética. que pudesse apenasporque aquelesque recebemvinte vezeso salário de um trabalha-
estabelecercontato e diálogo com a classeoperária; ou contradições muito dor comum ainda sãa assalariados, é um argumento muito abstrata. Mesmo
profundas e explosivasdentro da própria burocracia, ou novas crisesmais assim,como digo. sua validade deve ser reconhecida. e acima de tudo a
explosivas na Europa Oriental. Podem'amosacrescentaroutras possibilida- implicação de que a burocracia deixaria de ser uma burocracia dos tuba
130 marxismo revolucionário anual 131
osregimes de transição no leste

Ihadores tão..logo adquirisse as fontes essenciaisde renda derivadas db


propriedade etc.
Mas na verdade essadefinição restritiva da burocracia é bastante
arbitrária e. portanto, falsa. Certamentenão é a definição de Trotski, ao
contrário do que afirmam algunsde seuscríticos. Tal definição é total-
mente incapazde explicar a realidadedo domínio da burocracia.Se esta
pudesse ser realmente reduzida a tais indivíduos. algumas centenas de mi-
lhares no máximo, e talvez apenas umas poucas dezenas de milhares, então
o enorme controle que ele continua a exercer sobrea sociedadecomo um
toda seria difícil de explicar. O principal instrumento de controlo durante
a era stalinista-- o terror permanentee sangrento,o medo real de perder
não só a liberdade, mas a própria vida -- evidentemente já não existe nas
mesmasproporções. Tão logo, porém, estendemosa noção da burocracia
para que inclua, coco deve, todas as camadas da sociedade soviética que

g :x ;:Kisg:l:.Xmu
são, de uma maneiraau de outra, privilegiadas,então estaremosfalando de
milhõesde pessoas:entre cinco e dez milhões,talvez mais. Essetotal
incluiria toda a burocraciasindical;todo o corpo de oficiais das forças
armadas, e não apenas os generais e marechais, mas também todos os ofi-
ciais de menor patente; toda a hierarquiaÊldaprodução. e não apenasos
M14
Ihadores e camadas populares, nessascondições, são muito mais violentas
do que quaisquer acusaçõesfeitas sobre a falta de acessoà administração
diretores, mas também os engenheiros;e a grande maioria da intelectuali- das empresas E um aspecto mais concreto, fenomenológico e imediata-
dade (exceto os professores,que ganham menos do que os trabalhadores e mentevisível dos privilégios da burocracia. pois bloqueia um mecanismo
não têm privilégios materiaisl'.
de compensação que até então era indispensável: ou seja. a educação..eo
Tão logo aplicamosessadefiniçãocorreta da burocracia.então as acessos'à'mobilidade ascendente. E podemos esperar reações e conflitos
premissas do argumento .anterior desaparecem. pois é absolutamente certo ainda mais violentos, no futuro. Mais uma vez, isso mostra que. embora a
que um bom número dos burocratas de hoje. nessesentido amplo e real da
burocracia tente cortar o cordão umbilical com o seu passado,a classeope'
expressão,não são apenasos filhos e filhas dos trabalhadores,mas até ráriae a ideologiamarxista, uma coisa é tentar. e outra muito diferenteé
mesmo antigos trabalhadores. A mobilidade ascendente que já mencionei. ter êxito. O que estáem jogo, no caso.é um processocontinuado.que
e que -- com todos os seus aspectos negativos -- sublinha a sede de educa- está longe de sua conclusão, sendo evidente que pode haver reaçõesmuito
ção e de habilitações que caracteriza boa parte da classe operária, é essen- violentas.
cialmente a mobilidade na direção da burocracia. Umá dasprincipais armas
que esta usou para manter a sua ditadura foi precisamente essamobilidade,
o fato de que foi capaz de usar a nata de geraçõessucessivasde trabalhado: Como você disse, há indícios de uma redução na mobilidade social. A mo-
res, oferecendo-lhes algo que o sistema capitalista não pode oferecer. Nesse bilidade ascendente vem declinando nos últimos quinze anos, talvez desde
sistema. o máximo que se pode oferecer a um trabalhador é uma posição a mortede Stáiin.
intermediáriaentre;;o proletariado e a burguesia.Não Ihe é oferecida a
propriedade que Ihe permitiria tornar-se chefe de uma grande empresa.A Não, não. O período de desestalinização viu um expurgo maciço .da máqui-
estrutura particular da sociedadena União Soviética permite à burocracia na, que deu lugar a sangue jovem, embora só recentemente tenhamos rece-
absorver os filhos e filhas dos trabalhadores, e mesmo os próprios trabalha- bido dadossobreisso.
dores, no mecanismo. Não nas cúpulas dessemecanismo. mas em posições
mu)to mais elevadas do que as ocupadas pelas chamadas classes médias nos
paísescapitalistas adiarltados.
Há um problema sociológico muito interessante e concreto nisso.
Depois do período de industrialização e após os primeiros planos qtlinqüe-
nais, depois das comoções da SegundaGuerra Mundial e da desestaliniza-
132 marxismo revolucionário atual 133
os regimesde transição no leste
do qual o poder se articula tende a ser externo à classeoperária, que não
terias. Tomemos um exemplo histórico particularmente revelador. Se fizer-
tem quaisquer direitos poli'ticos7 Qual a validade da expressão ''Estado de
trabalhadores'',nessascondições,dadaa expropriaçãoda classeoperárias mos o balanço daquilo que foi chamado, um pouco superficialmente, de
época da monarquia absoluta, veremos incontestavelmente que numa boa
Nos últimos 40 anos, nós em nosso movimento deixamos de usar sem res- parte da Europa essatambém foi a era da acumulação primitiva de capital
e da ascensãoda jovem burguesia,a época do fortalecimento da burguesia
salvas a expressão ''Estado de trabalhadores", exceto em poucas ocasiões.
. em outras palavras. a época que abriu o caminho para a revolução bur-
Dizemos ''burocraticamente degenerado". ou "Estado de trabalhadores bu-
rocratizada", o que nâo é a mesmacoisa.Trotski falou de um automóvel guesa.Ao mesmo tempo, porém. se examinarmos o problema de outro ân-
quebrado,que se chocou de frente com urnaparedesA dificuldade, no ca- gulo, do ponto de vista do que restou da aristocracia semifeudal, é igual-
so. é a diferença entre ciência e pedagogia.A fórmula "Estado burocratiza- mente incontestável que Q absóltitismo salvou essaclasse decrépita e dege-
da de trabalhadores" refere-sea critérios da teoria marxista do Estado. Pa- nerada, permitindo que continuasse a.existir durante dois séculos ou mais.
ra o marxismo não existe um Estado acima das classes.O Estado se coloca Isso foi feito de maneira extremamente simples: como as rendas agrárias da
a serviço de interesseshistóricos de uma determinada classesocial. Se dei- nobreza semifeudal eram cada vez menos adequadas para permitir que a
xarmos de lado a palavras"trabalhadores",ela poderá ser substituída por nobreza mantivesse seu estilo de vida e seus hábitos, a monarquia absoluta
uma dentre duas alternativas. Podeser chamadode Estado burguês,ou Es- agiu como uma enorme ''bomba financeira'', arrancando rendasde outras
tado de uma burocracia que se tornou uma nova classe dominante. Já disse classes
da sociedade.principalmenteos camponesese a burguesia,e tr8ns-
por que essasdefinições sâo absolutamente falsas, e até mesmo confusas -- ferindo-as para a nobreza da corte, na forma de estipêncios e contribui-
mais carregadas com uma confusão totalmente irracional -- do que ''Esta- ções. Pode-sedizer, assim, que o Estado da monarquia absoluta era um Es-
do de trabalhadores''. Tomemos um exemplo. Se admitirmos que a buro- tado semifeudal. que defendeu os interesses históricos da aristocracia. Mas
cracia é uma nova classe,os partidos comunistasno poder seriam partidos interpretar isso como significando que esseEstado defendeu os nobres feu
dais. tal como eram ou queriam :er refiro-me agora não ao século Xll,
burocráticos"? Tornar-se-à então a luta de classesnos paísescapitalistas
mas ao XVI ou XVll -- é evidentemente um absurdo. Pelo contrário, o Es-
um conflito triangular entre a classeoperária.a burguesiae a burocracia?
tado os atacou,esmagandoas frondas dessesnobres por toda a Europa
Ou a burocracia seria a única classena história que só setorna uma classe
com uma violência e rigor não menos intensos -- quando todas as diferenças
depois de tomar o poder, embora nâo constituísse uma classeantes disso?
são levadasem conta -- do que a repressãoda burocracia contra os traba-
O Partido ComunistaChinêseratum partido dos trabalhadores-- ou um lhadores na União Soviética. Assim, há uma diferença muito grande entre,
partido de:trabalhadorese camponeses,poucadiferençafaz -- até o mo- de um lado. a manutenção de certas estruturas sócio-económicas historica-
mento em que tomou o poder. e então setransformou num partido buro-
mente ligadas aos interesses de uma determinada classe social e, de outro.
crático? Tudo isso leva a absurdos, a uma falta de compreensão da realida- a defesa dos Interesses imediatos e diários de uma classe social no sentido
de mundial de hoje. Torna impossível orientar-se na luta de classescotidía-
daquilo que ela própria vê como -- e quer que seja -- seu lugar na socieda-
na, em escalamundial. E issoé infinitamente mais perigosodo que a des- de. Portanto, a nossadefinição da União Soviética como um Estado de tra-
vantagem pedagógica ou político-pragmática de usar a expressão "Estado
balhadores buracraticamente degenerado é correra -- tanto historicamente
de trabalhadores"em relaçãoao Estadosoviético.Dito isto, quandoa como teoricamente.
Quarta Internacional -- seguindoTrotski -- afirma que ainda há um Estado
Não obstante, é certo que essadefinição é dífi'cíl de ser compreendida
de trabalhadores, burocraticamente degenerado,na União Soviética, e que
e assimilada,para quem abordar o problema não com essescritérios, mas
nessesentido a URSSainda preservauma forma de ditadura do proletaria-
com um senso comum simples. Evidentemente, para o senso comum é
do, o faz de uma maneira bastanteEprecisa,que não Implica nada mais do
absurdo dizer que a ditadura do proletariado existe na União Soviética,já
que aquilo que diz. Até agora esseEstado continuou,$objetivamente.ade-
fender as estruturas, as relações de produção híbridas, nascidas da Revolu- que a imensamaioria do proletariado não exerce a ditadura, e nem mesmo
desfruta de qualquer poder. E se interpretarmos a expressão''ditadura do
ção de Outubro. Assim. até agora esseEstado impediu a restauração do ca-
proletariado'' como significando ''governo direto da classeoperária", então
pitalismo e o poder de uma nova classeburguesa; impediu o reaparecimen-
essaditadura certamente não existe. Para nós, a ditadura do proletariado
to da propriedade capitalista e de relações capitalistas de produção.
existe na União Soviética apenas no sentido derivado, indireto e sócio-teó-
É apenas nessesentido que.usamos a expressão ''de trabalhadores'
Masela tem, não obstante, um profundo significado histórico,:que se po- rico da expressão. Creio que também nesse caso a disputa é puramente se-
mânticae não tem maior interesse.Tão logo os rótulos sãoabandonadose
de esclarecer pela comparação com outrossistemas, outras situações transi-
somos obrigados ailusar circunlóquios mais detalhados e mais nuancados,
135
134 marxismo revolucionário atua] l os regimes de transição no leste

voltamos aos problemas reais que nãa são problemas de rótulos. Qual o lu- crescimento económico. Segundo, não há como superar a relativa indife-
gar da burocracia na sociedade soviética? Será o mesmo de uma classedo- rença que os próprios produtores diretos demonstram pela produção
minante? Através de que métodos pode a burocracia estabilizarseu poder primeira dificuldade só poderia sef afastada se um laço .per.manentede
e seus privilégios indefinidamente? É possível à classeoperária modificar a interessematerial fosse restabelecido entre os burocratas individuais e as
situação? Precisará ela de uma derrubada completa de todo o sistema eco- empresas - em outras palavras. se a propriedade privada dos meios de pro-
nómico. ou será suficiente modificar o sistemade poder, que sem dúvida dução fosse restabelecida, no sentido económico (embora nâo necessaria-
produzirá conseqtiêncíaseconómicas consideráveis,mas que ainda é dife- mente jurídico) da palavra. Isso significaria, é claro, a''restauração do
rente de uma revolução social? Quando nos tornamos mais concretos, es- capitalismo.
pecíficos e precisos, as diferenças não desaparecem. Pelo contrário, se11 A segunda dificuldade só poderia ser removida pela .conquista do con-
significado real surge. Então, não é uma questão de diferençasde rótulos, trole generalizado dos trabalhadores, pela administração dos trabalhadores,
termos ou conceitos, mas diferenças na interpretação de aspectoscontradi- e pelo poder político dos trabalhadores na economia e na sociedade A pri-
tórios da sociedade soviética e nas conclusões políticas a serem deduzidas meira modificação representariauma contra-revolução social vitoriosa, e a
da avaliação dessesfenómenos. segunda,uma revoluçãopol ítica antiburocrática vitoriosa.
Ora. dentro da burocracia, especialmente em sua ala ''administrativa
há sem dúvida tendências que lutam para ligar a busca da segurançaem ter-
Restauração Capitalista ou Revolucâo Pol ítica? mos de situação social, renda e privilégios, a elos permanentes"com
determinadas empresas ou grupos de empresas.:Essastendências são sim-
Mas não levantou .Trotski a possibilidade de que a burocracia pudessecor- plesmenteum reflexo, provavelmenteem parte conscientedo:fato histo-
tar até mesmo seus elos históricos com a classeoperária e efetuar a restau- ricamente demonstrado de que sem esseslaços (isto é, a propriedade priva-
ração do capitalismo? Sem dúvida. não desejaríamosargumentarque.a da no sentido económico da palavra) não há garantias de que os privilégios
única ameaçade restauraçãovem de fora da UniãoSoviética.naforma de materiais e a melhor posição social possam ser assegurados e transmitidos
um ataque militar ou de uma penetração económica imperialista..Se.disser- a novas gerações. Além disso, esses esforços se harmonizam muito bem
mos que a URSS é uma sociedadetransitória, que a economia soviética não como a tendência objetiva que tem a ditadura de buscar uma justificativa
encerra um modo de produção plenamente articulado, e que a burocracia racional unificadora. que ligue o auto-interessematerial burocrático â
não é uma classe dominante. não se seguirá.que a evolução subsequente necessidadede simplificar o funcionamento do sistema. Também se harmo-
poderá orientar-se para qualquer dessasduas direções? Retomando a analo- nizam com a pressão do mercado mundial. a tendência para a acumulação
gia que você apresentou anteriormente: quando atravessamosuma ponte, primitiva de capital, em pequena escala,a operação de setores do mercado
podemos sempre parar, dar meia-volta e retornar ao outro lado. Não há na- 'cinzento" ou ''negro'' da produção etc.
da na naturezada ponte, tal como definida, que impeçaessamudançade Se todas essastendências se desdobrassemplenamente, veríamos pro'
direção vavelmente um desaparecimento consciente do planejamento central, uma
erosãoe desmantelamentodo monopólio estatal do comércio exterior. e
A observação é procedente. Mas devemos examinar cuidadosamente os fa- uma crescente simbiose entre várias empresas soviéticas, libertadas do con-
tores que pressionam numa ou noutra direção. Há cerca de 40 anos a buro- trole férreo do plano, e suascontrapartidas nos paísesimperialistas. O pró-
cracia soviética enfrenta crescentes problemas provocados pela necessidade prio Trotski chamou a atenção para esseperigo. há muito tempo De.fato.
de passar da industrialização extensiva para a industrialização intensiva. ele pode até mesmo ter subestimado o grau de apego da maioria dos buro-
Essa necessidadefundamental resulta da exaustão gradual das reservasem cratas à propriedade coletiva. Mas se assim foi, o erro, como é frequente.
grande escala de terra. trabalho agrícola e m.atérias-primas que alimentaram foi simplesmentede tempo: ele notou uma tendência embrionária e a
a industrialização dos primeiros planos qtiinqtienais. Até agora. todas as considerou. com demasiada rapidez, como já generalizada. De qualquer
tentativas deüresolver essestlproblemas
não atingiram um grau qualitativa- modo. é notável que. embora no todo as reivindicações,digamos,dos
mente superior da eficiência no uso de recursos económicos. embora se administradores soviéticos não se centralizem na questão da acumulação
tenha feito certo progresso. primitiva. eles não obstante vêm, há mais de 25 anosr levantando uma série
Há duas dificuldades básicas. que não podem ser superadas pela lide- de questões cuja lógica enfraquece a economia planificada. Quando os
ranca burocrática. Primeiro. como disse antes, é impossível forjar um elo administradores falam de maiores direitos para os diretores, o que desejam
racional entre o auto-interesse material da burocracia e a otimização do é o direitode demitirtrabalhadores,
fixar preços,modificaresquemas
de
l
1.37
136 marxismo revolucionário atua] os regimes de transição no leste

produção de acordo com os incentivos do mercado. Pareceevidente que


reivindicaçõesdessetipo contradizem a lógica da economia planificada, e
constituem apenas outra fase passageirano caminho do restabelecimento
da propriedade 'privada. É evidente que os diretores de grandes trustes
automobil ísticos ou de equipamento elétrico não vão acordar certa manhã
e dizer: "Entreguem-nosas fábricas". Isso ocorreria atravésde toda uma
série de fases intermediárias. Trata-$e de outro reflexo da contradição
entre. de um lado, a estruturaplanejadae o caráter.socializado,coletivo
e estatalda produçãoem grandeescala,e, do outro, a manutenção
das
normas burguesasde distribuição -- que resultam essencialmente da sobre-
vivência das categorias de mercado e monetária na esfera dos meios de con-
sumo. e que constituem a basedos privilégios da burocracia.
Mas antes que todas essastendências pudessem levar à restauração real
do capitalismo, teriam de superar a resistência dos setores-chavedo apare-
lho estatal, que não se opõem a essatendência. É essa.incidentalmente. a
justificação objetivaido nosso uso da fórmula científica ''Estado degenera-
do de trabalhadores'' para descrever a Urss, apesarde todas as medidas ca" que pode dar origem a ambigiiidades?
contra a classeoperária e da falta total de poder proletário dÊreto,ou mes-
mo de direitos políticos. E o que é ainda mais importante, teriam de supe-
rar a resistênciado próprio proletariado, que tem muito a perdercom esse
processo de restauração capitalista. em particular o que constitui sem dúvi-
da a maior conquista remanescente de Outubro, do ponto de vista dos tra-
balhadores: um grau de segurançade emprego qualitativamente maior do
que o existente no capitalismo.
A restauraçãogradual do capitalismo na União Soviética, atravésde
um processo "frio'' {ou através de uma ''revolução palaciana'' percebida
pelos maoístas, por Bettelheim e alguns outros teóricos) é tão impossível
quanto a derrubada gradual do capitalismo na Europa Ocidental atravésde
uma série de reformas. Acreditar noutra coisa é, para usarmos uma boa fra-
se de Trotski. ''passarum filme.reformista ao contrário". Em suma,a res-
tauração do capitalismo só poderia ocorrer através de novas e desastrosas
derrotas do proletariado soviético e internacional, através de violentas co-
moções sociais e políticas.

A situação evidentementecontraditória da burocracia,em particular suas


contradições internas, cria uma questão muito prática (embora não, infeliz-
mente. uma questãoque no momento seja premente): qual a natureza da
revolução antiburocrática? Surgem, também em relação a isso, vários pro-
blemas, particu.larmente em conexão;*com a expressão ''revolução políti-
ca''. Trotski apresentou uma única definição, mas com pontos de referên-
cia nem sempre idênticos. Em ,4 nego/uçâb Tra/da, ele comparou a rcvo-
lução política a 1830 e 1848 na França,e a 1918 na Alemanha:uFez
outras
comparações também. mas voltou constantemente a estas. Em outras pala-
vras, modificações realizadascom uma certa mobilização das massas,mas
139
138 marxismo revo]ucionário atua] os regimes de transição no leste

Pouco importa falar do ''desmantelamento" do aparelho estatal. A auto-


administração. mesmo a auto-administração democraticamenteÍlcentrali-
zada e planificada, é inconcebível sem que uma boa parte do aparelho esta-
tal hoje existente na União Soviética seja desmontado;mas o aparelho es-
tatal não é apenas esseaparelho central.
Uma vez identificado esseconteúdo, podemosver se há diferenças
básicasou simples disputas terminológícas. Estas últimas não têm interesse.
pois permanecemabstratas.:As diferençasbásicasrelacionam-secom dife-
rentes análises da realidade soviética. diferentes opiniões sabre o que deve:
ria ser o poder dos trabalhadores e a ditadura do proletariado. Uma dessas
diferenças provavelmente se relaciona com as capacidades e limites da clas-
se operária. Também nesse caso a dimensão histórica e a relatividade histó-
rica nâo devem $er nunca esquecidas. Não há comparação entre a classe
operária da União Soviética de hoje e a classeoperária de 1937. 1927, ou
191 7: Ela é diferente não só numericamente, onde houve considerável cres-
cimento. e do ponto de vista da consciênciapoli'tecae de classe.onde
houve uma enorme regressão.É também diferente em seu nível educacio-
nal : sua capacidade técnica, cultural e administrativa de assumir a adminis-
tração da economia e do Estado.O que foi extremamente diíi'cil depois da
Revolução de Outubro, com a classe operária daquela época, é hoje muita
mais fácil.
Resta ver quais os detonadores, externos e internos, que podem colo-
car o proletariado soviético outra vez no caminho da consciência de classe.
Se isso não acontecer. então o debate sobre "revolução política ou revolu-
ção social" se torna absolutamenteinútil, porque então o verdadeiropro'
blema será a contra-revolução, tentar impedir a contra revolução. Porém.
sesnossasexpectativas forem realistas -- e há muitas indicações de que são,
na verdade. realistas -- então a questão de se o que vimos foi na realidade
uma revolução política, social ou uma combinação das duas, ou nenhuma
das duas. não terá interesse real. Teremos simplesmente de notar ohfím
dessecapítulo histórico com grandeprazere um suspirode alavio.É um in-
tervalo da história que custou caro à humanidade. principalmente ao movi-
mento comunista internacional, e que continuará a custar caro à revolução
socialista mundial. Masum intervalo que o proletariado soviético e mundial.
terá levado a um fechamento definitivo.

coslováquia, ou Polõnia.)
Europa Oriental

Até agora, falamos principalmente sobre a União Soviética. Parece eviden-


te que os pontos gerais mencionados sobre a sociedade transitória e a natu-
reza de classedo Estado soviético se aplicariam igualmente bem aos Esta-
dos da Europa Oriental. Mas não haverá um sentido no qual essesEstados
]41
]40 marxismo revolucionário atua}
os regimes de transição no leste

1968. Mas resta saber se veremos a mesma maturidade notável de ambas


as formas de organização(conselhosde trabalhadoresl) e conteúdo políti-
l W,l
::;u,==nWz=:m:;,IA='=ll'E,:n;"ã;:Ê;
houvesse altos e baixos nas mobilizações dos camponeses e embora o movi-
co na Rússia. A essaaltura, é inútil especular sobre o assunto; nosso conhe-
mento .d.emassa nas cidades fosse sempre mais limitado, mesmo em 1947-
cimento do que realmente está acontecendo na classeoperária é demasiado
IF fragmentado. Quanto à melhor maneira de evitar a ameaçade intervenção
russa, é evidente: a internacionalização do movimento de oposição. Em ou-
tras palavras:contatos mútuos e coordenação entre os países do leste euro-
peu e com a URSS;propaganda e agitação internacionalistasdirigidas para
os povos e trabalhadores soviéticos; internacionalização das próprias lutas
de massa. Infelizmente, é fato pouco sabido que a ocupação da Tchecos-
lováquia teve um impacto profundo em muitos soldadossoviéticos, alguns quatr Sob esseaspecto, a situação é mais favorável na China do que na URSS,
dos quais tiveram de ser retirados, como ''politicamente duvidosos''. Se o
Kremlin tivesse de ocupar vários paísesao mesmotempo -- especialmente
numa época em que a oposição na própria URSSestivessemais avancada do
que em 1968 -- o impactodessasintervençõescontra-revolucionárias
ria na realidade inflamar a revolução política na própria Urss.
pode-
:l:lHlifr:
::
erual e na União Soviética, formas que refletem a combinação de condi-
A Revolucão Chinesa ções mais ou menos favoráveis, que mencionamos. f\4asnão é notável que

Toda essa.discussãodeixou um importante fenómeno inexplicado: a


revolução chinesa. Sob um aspecto. ela foi superior à russa, poismobilizou
ativamente maiores massasda população, inclusive, é claro, os camponeses
Por outro lado, o componente pro etário foi muito menos importante.
Essacontradição marcou o Estado chinês de trabalhadores desdeentão
Sua vida poli'rica tem sido mais ''sadia'' no sentido de que a participação
em massa na poli'rica não deupareceu nunca. As massaschinesas nunca so-
l freram a despolitização ocorrida na Rússia.Por outro lado, nunca houve
uma verdadeira tradição bolchevique na China. e nessesentido a vida poli'-
rica da classe operária foi sempre mais ''primitiva''. Significa isso que o
proces:lode revolução antiburocrática na China serádiferente do processo
na União Soviética e Europa Oriental?

Nâo aceito a afirmação de que a revolução chinesamobilizou ativamente


uma proporção maior da população que a russa.Não porque subestime o
âmbito das mobilizações de massa dos camponeses chineses, que foi real-
mente importante, mas porque acredito que a afirmaçãocontida na per-
gunta implica uma subestimativa sériado âmbito das mobilizaçõesde mas'
sa na Rússia em 1917 e 1918, que em minha opinião continuam insuperá-
veis. mesmoÊselevarmos em conta o$ camponeseschineses. É certo, porém,
que a dinâmica subseqüente do movimento de massana Rússia e na China
foi mu ito diferente.
Na Rússia houve um processo continuado de desmobilização e despoli-
tização depois de 1920-21 , que se prolongou por mais de uma década..:De-
143
142 marxismo revolucionário atual os regimesde transição no leste

1: nês, que não queria um desenvolvimento independente das lutas da classe A máquina do partido representava uma burocracia que era privilegiada em
trabalhadora. E então, nas fasesfinais da guerra civil, a inflação galopante relação à massa do proletariado, desde o início. Mas era uma formação in-
e a repressãoferoz dos bandidos de Chiang tornou a luta urbana muito terna. e não externa, à classeoperária chinesa.
difícil. A resposta à segunda pergunta é mais complexa. Nenhuma revolução
11

Mesmo com essaressalva, é inegável que as principais forças envolvidas social que envolva a derrubada de relações de propriedade que governam as
IF' vidas de milhões de pessoaspode triunfar apenas pelos meios militares.
na batalha revolucionária que derrubou Chiang e tornou possível a instala-
ção de um Estadode trabalhadores
tinham suabaseno campo.Seráisso A revolução agrária.que transformou as relações de propriedade numa área
habitada por vários milhões de pessoasao.Norte de Huang-ho {se não ao
surpreendente?Eu diria que não. De fato, no sumário que Trotski fez das
norte do Yàngtse-kiang)certarüente não se limitou a um conflito armado
teses da teoria da revolução permanente, ele afirma explicitamente que os
entre dois exércitos.Há muitos indícios de que os levantesem massano
camponeses, como maioria esmagadora da população dos países atrasados.
ocupariam um ''lugar excepcional'' na revolução, não só devido à questão campo. no nordesteda China. foram na realidadeanfer;ares à guerra total
agrária em si mesma. mas também devido à questão nacional. isso se aplica
entre o ExércitoPopularde Libertaçãoe o exércitodo Kuomintang.
e
a todos os países .nos quais os camponeses constituem a esmagadora provavelmente constituíram um fator i.mportante para solapar as negocia-
maioria da população.Hoje em dia. isso é mais raro (embora continue ções que visavamao estabelecimentode um governo de coalizão entre os
líderes do Kuomintang e a liderança do Partido Comunista. Há também in'
sendo a norma em vários paísesimportantes, como a Indonésia, Nigéria,
dícios de que na China do norte e central esseslevantesrurais -- uma
Índia e Egito). Mas era sem dúvida o que ocorria na China em 1945. Por-
verdadeira revolução agrária popular -- acompanharam, e não vieram após
tanto, a participação maciça dos camponeses nas batalhas revolucionárias
as vitórias militares do Exército Popular, tornando-as muito mais fáceis,
do 1945-50 não é de surpreender.
ou até mesmo explicando-as. No sul da China. é claro, a situação se lnver
Mas os verdadeiros problemas analíticos são os seguintes: Que forca teu. Ali. a revolução agrária seguiu-seà proclamação da República Popular
socialteve a liderancapolítica dessaslutas? Como explicar a forma pecu- da China. e foi até mesmo conscientemente sufocada. por algum tempo,
liar de organizacão
na qual a revoluçãotriunfou, ou seja.o confronto pelaburocracia do partido.
armado entre o Exército Popular de Libertação e as forças guerrilheiras,
A explosão sem precedentes da massado campo, no norte da China,
de um lado, e o exército de Chiang Kai-shek,do outro?
depoisda SegundaGuerra Mundial, cujo impulso revolucionário foi muito
A resposta à primeira pergunta me parece indiscutível. A liderança do além dos levantes camponeses tradicionais da história chinesa, deve ser
Exército Popular de Libertação estavanas mãos de forcas sociaisu/óa/7as, analisadaobjetivamente. A sociedaderural nessaregião foi totalmente des-
ou seja. a máquina e os militantes do Partido Comunista Chinês. {Dígo má truída por dez anos de conflitos constantes: guerra civil, impostos e repres'
quina e militantes porque houve um fluxo constante de mil'itantes urbanos são imperialistas japoneses,saque e repressão pelas forças contra-revolucio-
para as forças guerrilheiras e as áreas libertadas, a partir de 1937 até a con- náriasdo Kuomintang, operações maciçasde guerrilha contra a ocupação
quista das grandes cidades, fluxo esse que a princípio foi de milhares, e em japonesae contra asforças de Chiang, e assim por diante. Tudo issoprovo-
seguida de dezenasde milhares.l Caracterizar essasforças como ''pequeno- cou o aparecimentode uma cardadade milhõesde camponeses
pobres
burguesas" é colocar em questão um princípio básico da teoria da revolu- desalojados, afastados de sua vida tradicional e de seu sistema tradicional
ção permanente; o de que a pequena burguesia é incapaz de desempenhar de produção, e praticamente reduzidos ao estado de semiproletários, e
um papel político independenteda burguesia e do proletariado. Em parti- mesmo de quase miséria. Essa transformação social explica o âmbito
cular, à luz dos acontecimentos posteriores, essacaracterizaçãoda buro- maciço da guerrilha permanente, o recrutamento maciço do Exército
cracia do Partido Comunista Chinês pareceinsustentável.Poderi4haver um Popular. os levantes espontâneos, a resistência fenomenal às tentativas de
partido pequeno-burguês que destru éssea propriedade privada. estabeleces- Chiangde impor relações''normais'' entre arrendatáriose latifundiários.
se a ditadura do proletariado {talvez em condições altamente burocratiza- depois de agosto de 1945. quando suasforças ocuparam o norte da China.
das desde o íni'cio} contra a maior potência do imperialismo mundial. na. e a forma radical que assumiu a revolução agrária em nível de aldeia. desde
Coréia? Não. A única conclusão razoável é a de que o Partido Comunista o início. Também explica por que a liderança do Partido Comunista foi
Chinês, independente de suasreviravoltas táticas, com frequência oportu- capaz de fazer a transição de uma reforma agrária radical para a supressão
nistas e até mesmo traiçoeiras, estava lutando para destruir o capitalismo e. da propriedade privada da classecapitalista sem encontrar resistênciasigni-
portanto, representava'
uma força social fundamentalmenteproletária. ficativa da populaçãorural. Urna grande'parte da burguesiarural já havia si-

tl
144 145
marxismo revolucionário atual l os regimes de transição no leste

do expropriada e eliminada pelos .próprios pobres rurais. antes da expro- O que permanece em aberto é a questão de se a vitória da revolução
priação dos capitalistas urbanos.
proletária nos países industrialmente adiantados. ou nos países nos quais o
Em todos essesaspectos. o caráter do Estado chinês dos trabalhado. proletariado já representa a maioria absoluta da nação, desencadeará --
res difere do russo, para não falarmos dos países da Europa Oriental. e a tanto dentro dessespaísescomo em escalamundialã--um processoque
sua análiseilíndependente é sem dúvida uma necessidade da teoria revolu- possa''desburocratizar" a experiência das revoluções.proletárias do século
cionária marxista. Mas apesardessasdiferençasimportantes, parece evi- XX com uma rapidez multo mais desconcertante do que a duração do
dente que nossa análise do caráter fundamental da sociedade soviética co- fenómeno da própria burocratização. Quanto a issoa história dará a última
mo uma sociedade em transição do capitalismo para o socialismo. transi- palavra.Se ela confirmar que os marxistas revolucionários vêm mantendo
ção essasustida pela usurpação do poder por uma burocracia privilegiada. ilusões sobre esseassunto, então seria necessário chegar a conclusões sobre
que só pode ser afastada por uma revolução política antiburocrática. tam- as raízes históricas e sociais mais profundas da burocratização diferentes
bém é essencialmente aplicável à China. das conclusõesgeralmenteformuladas nasanálisesde Marx, Lêninr Trotski
e da Quarta Internacional. Masserá injustificado, impressionista e irrespon'
sável chegar a essas conclusões prematuramente, antes de termos provas:
''Séculos de Transição"? especialmente para os marxistas, que não são simplesmente teóricos ou his-
toriadores, mas acima de tudo militantes, pessoasque participam com o
Vam.o.sconcluir levantandooutra possibilidade,que também pode ser objetivo de modificar conscientementeo curso da história.
considerada como excessivamenteespeculativa. Se aceitarmos a análise Pessoalmente continuo a pensar que teremos algumas surpresas mui-
troTskista de que os Estados nos quais o capitalismo foi derrubado se trans- to agradáveisbquanto a isso. Dadas as condições de hoje, dada a riqueza
formaram em Estados burocratízadosdos trabalhadores.;e se também relativa da economia e o esmagadorpeso numérico do proletariado, com
analisarmos a fase pós-burguesade desenvolvimento. na moldura da luta de suastradições políticas democráticas, e alto ni'vel de habilitações técnicas
classesem escalamundial, chegamosà conclusãode que outubro de 1917. e culturais. tendo dificuldades em conceber aiirepetição, em: países como
a primeira revoluçãosocialistavitoriosa, iniciou um pari'odo de transição França, ltália, Espanha ou Grã-Bretanha, para não falarmos dos Estados
mundialt cuja duração, embora não possaser previstaexatamente, ameaça Unidos, de qualquer coisa que possa,Rmesmo
remotamente.justificar a
se.r.relativamentelonga, em corrlparaçãocom as previsoesdos revolucio- idéia de uma transição que dure séculos,ou uma burocratização de séculos
nários russos, pouco antes .de tomarem o poder -- ou mesmo em compara- {mesmo sendo mais benigna do que a da Urss). entre a queda do capitalis-
ção com alguns dos escritos do próprio Trotski, Concorda com 'isso? mo e o advento de uma sociedade socialista.

l Sim e não. Todos sabem que a questão dos chamados "séculos de transi-
ção'' teve um ce.rto papel na história da Quarta Internacional. Não quero
ser mal interpretado, e acima de tudo não quero dar a impressãode que
um processo histórico especi'ficotinha fatalmente de ocorrer, ou foi gover-
nado por uma tendência inata dentro do proletariado, estrutural ou organi-
camente ligada a ele. Na verdade,'esseprocesso deve ser compreendido no
contexto da prova de ft)rça entre as classesque se processou quando a era
do declínio capitalista teve início. O que vimos na União Soviética. a ossifi-
cação da burocracia durante mais de meio século. não correspondea
nenhuma necessidade objetiva, a nenhum destino. É produto de uma com-
binação de circunstâncias históricas excepcionais. O fato de essesistema se
ter difundido pela Europa Oriental, e influenciado profundamente a estru-
tura de dominação e organizaçãoBdo Estado dos trabalhadores. mesmo na
China, Vietnã e Cuba. não invalida esta análise. É evidente que o que ocor-
reu em todos essespaísesfoi um subproduto do que ocorreu na União
Soviética. e nâo se desenvolveu independentemente do poder da burocracia
soviética, ou do contexto mundial no qual a burocracia soviéticasurgiu.

1?
147
a política do internacionalismo contemporâneo

4.
A Política do
Internacionalismo rota antecipada.
Antes de tratarmos da SegundaGuerra Mundial. gostariade observar

Contemporâneo

Gostaríamos de começar com várias perguntas sobre a Segunda Guerra


Mundial. Às vésperas de sua deflagração, Trotski e os marxistas revolucio-
nários consideravam o conflito iminente essencialmente como uma guerra
interimperialista, atitude essaque se estendeu até as primeiras fnes do con-
flito. Foram feitas,Üfreqüentemente,comparaçõescom a Primeir&Guerra
ÊÃÜFISTEF:B%m,;;:l:l:S
fomtar numa combinação de três guerras numa só.
Mundial. Não é verdade, porém. que a guerra, à medida que se desenrolava, Ora. Trotski não era dogmático. Depois que Hitler tomou o poder.
assumiaium caráter mais complexo, sem!;dúvidadiferente da Primeira ndo Trotski começou a tentar preparar a vanguarda da classe operária
Guerra, e que essatransformação refletiu-se em parte, embora não de ma- internacional, em especial seus próprios camaradas e simpatizantes. para
neira suficiente, nos slogans e anões dos trotskistas da época? A Quarta a inevitável conflagração mundial, levou em conta essasconsiderações. Na
Internacional, por exemplo, apoiou a resistênciachinesaao imperialismo tese intitulada ''A Quarta Internaciorul e a Guerra", um surpreendente
japonês antes mesmo da guerra; apoiou a União Soviética contra a invasão documento escrito em princípios da décadade 1930 e infelizmente pouco
nazista; em muitos pai'ses, os seus militantes participaram da resistência à
ocupação fascista. Na Grã-Bretanhae nos Estados Unidos os trotskistas
não apresentaram os slogans clássicos do derrotismo revolucionário, mas
defenderam uma luta contra os Estados fascistas que foi, sob n)uitos aspec-
tos, original, e melhor exemplificada nos escritos de James P. Cannon, e efender esseEstado contra o ataque imperialista, venhade onde vier. Esse
em seusdiscursos no julgamento por sedição. nos Estados Unidos, em prin- documento tem todo um capítulo dedicado às diferentes táticas a serem
cípios da década de 1940. Não equivaleu tudo issoa uma nova caracteri- aplicadas pelos marxistas revolucionários nos países.empenhados na agres-
zação da guerra, pelo menos implicitamente, e não estariam os trotskistas são direta contra a União Soviética e seus aliados. Nos países imperialistas
melhor colocados para explorar a dinâmica revoluçionária potencial da luta que atacarem a União Soviética. disse Trotski. será dever dos revolucioná-
antifascista se estivessem equipados com uma concepção estratégica mais rios não só se opor à guerra politicamente. mas também procurar sabotar as
excita e mais coerente? indústrias bélicas, impedir que armas sejam levadasà frente. e assim por
diante. Nos países aliados à União Soviética. seria absurdo sabotar o embar-
Na minha opinião, a questão da natureza da Segunda Guerra Mundial está que de armas para a frente soviética. ou mesmo interferir na sua produção.
intimamente ligada à questão do cafáter das principais forças propulsoras Segundo, o mesmo documento também é perfeitamente claro quan-
da revolução mundial, tal como surgiramda Primeira Guerra Mundial. to à necessidade de defender os Estados burgueses, e mesmo pré'capitalis-
Concordo que a questão é complexa e que houve um perigo de esquematis- tas. empenhados em guerras de independência contra as potências tmperia'
mb dogmático. O maior perigo, porém. foi a capitulaçãooportunista à listas. Mais uma vez. tratava-se de um problema concreto, e os marxistas
Y a política do internacionalismo contemporâneo
]49
148 marxismo revolucionário atua] l

revolucionários adotaram uma posiçãoclara em apoio à guerra da Etiópia ra do imperialismo inglês, francês, americano, belga ou holandês contra o
outro campo imperialista adversário. levaria apenas ao sacrifício de interes-
contraste imperialismo italiano e à guerra chinesa de resistência à invasão
ses imediatos da classe operária. à colaboração sistemática de classes e ao
Japonesa.
Do ponto de vista analítico, portanto, os partidários de Trotski esta- estrangulamento das possibilidades revolucionárias ao término da guerra.
vam bem colocados para compreender o desdobramento da Segunda Guer- Na SegundaGuerra Mundial, como na Primeira, houve uma linha direta
ra Mundial, que se tornou, diria etJ,c/nco guerrasnum%única: uma guerra entre a aceitaçãoda ''defesa nacional'' por um governo imperialista e a
colaboração de classe com a burguesia para conter os levantes revolucioná-
interimperialista, entre saqueadores.à qual a classeoperária não podia dar
rios dos trabalhadores,aafim do conflito. Todos os que aceitarama pre
o $eu apoio; umã guerra justa de defesapelo Estado burocratizado dos tra-
missa também aceitaram a conclusão. Não foi por acaso que as forças polí-
balhadores soviéticos contra a agressãoimperialista pela Alemanha nazista
e seus aliados; uma guerra justa de defesa pela China semicolonial contra o ticas que afirmavam estar as potências imperialistas ocidentais travando
imperialismo japonês; guerrasjustas de libertação nacional de povos colo- uma guerra justa contra o nazismo acabaram formando governos de coali-
zão ao fim da guerra. para reconstruir a ordem burguesa,a economiacapi-
niais oprimidos contra seusexploradores imperiais, fossem japoneses, ingle-
ses:ou$franceses; etfínalmente uma guerra justa de resistência das massas talista e a máquina estatal burguesa.
Posso mencionar um exemplo pessoal que expressa isso de forma
de trabalhadoresne oprimidos ,nos países ocupados da Europa)contra:a
superexploração e opressão nacional impostas pelos nazistas. Ora, con- notável. Durante a guerra. como representante de nossaspequenasforças
revolucionáriasem Flandres Itínhamas apenasuma dezenade camaradas
ceptualmente, na medida em que essasüguerrqs eram distintas -- e até
no setor de Antuérpia do movimento de resistência).tive oportunidade de
certo pontolieram -- a posiçãopolítica a sertomada é bastanteclara, e a
esmagadoramaioria do movimento trotskista compreendeuissoe tomou as encontrar representantesda ala esquerdado Partido Socialista.entre os
posições cornetas,embora eu admita ter havido camaradas,não muitos, quais estavam alguns sionistas de esquerda. grandes militantes na Resistên-
que não compreenderam a situação4: cia à ocupação nazisthi Eles procuraram convencer-nosa formar uma espé-
A dificuldade surge -- e é resultado não da análise teórica inadequada
cie de frente nacional,que na .Bélgica,como em todosiíosoutros países
da guerra, mas da complexidade da própria realidade -- de dois problemas europeus, estava surgindo como uma forma de grupo geral de várias
adicionais: primeiro, embora conceptualmente distintas, e em grande parte tendências na Resistência. Lembro-me de que lhes disse: vocês propõem
distintas também na realidade. essascinco guerras estavarüevidentemente que trabalhemos juntos hoje contra o inimigo comum -- e concordo em que
relacionadas entre $í de maneira altamente complexa; segundo, embora
quatro dessas "cinco guerras" fossem intrinsecamente justas do ponto de
vista da classetrabalhadora internacional, no sentido de que deviam ser
travadas. eram praticamente. em todos os casos, lideradas por forças polí-
UHHilX
#X:ill:l(U!ãli*l:ÊÇIU
indústria do carvão em Charleroi, razão pela qual aquelaspessoastinham
interesse em nossa participação na organização geral). Além disso, estamos
ticas e/ou sociais que não tinham qualq;uer interesse em conduzi-ias de uma
maneira conforme ao interessehistórico objetivo do proletariado mundial ansiososparaver a difusão dessasgreves.Mas qual seráa atitude de vocês
no dia em que os soldados alemães deixarem a Bélgica e forem subs-
e das massasdos países coloniais e semicoloniais. O problema, para os revo:
lucionários, torílou-se então;jcomoapoiar essasguerrasjustas,ao mesmo tituídos por tropas inglesas e americanas? Qual será a posição de vocês em
tempo em que não tinham confiança política nasforças que as lideravam: As
relaçãoàsgreves,então? l$W :l.y . } ...
E es ficaram indignados e responderam: Se vocês acham que podem
dificuldades táticas em termos:de s/oganse ações surgiramdessesdois
convenceraupovo e os trabalhadoresbelgasa continuar a luta contra os
problemas. que eram espinhososaquaisquerque:fossem os padrõesa ele
aliados depois da derrota dos nazistas, estão enganando a si mesmos; isso é
aplicados, e não de qualquer inadequação teórica em nossa concepção do
uma utopia e. como tal, reacionária. porque, se tal coisa acontecesse.não
caráter da Segunda Guerra Mundial como um todo,
Na verdade. no que se relacionavacom o problema analítico funda- seria bom. A história mostrou, porém. que não era uma utopia e certa-
mente não era umahidéia reacionária. As greves surgiram na Bélgica em
mental nos própriosüpaíses
imperialistas,haviaum paralelonotávelentre a
Primeira e a Segunda Guerra Mundial, confirmado pela experiência prática grande escala logo depois que as tropas aliadas expulsaram.as forças ale
do que aconteceu imediatamente depois dejambas. Dentro dos países mãesde ocupação.Na Fiança. Itália. e Grécia houve maisdo que apenas
imperialistas. qualquer caracterização errónea'ida natureza da guerra anti- greves -- houve urna guerra civil incipiente, o ini'cio de uma revolução
socialista em potendtal.Qualquer falta de clarezaquanto à naturezada
imperialista, qualquer noção de que devido à naturezaespecíficado impe-
rialismo nazista, italiano ou japonês, havia um elemento de justica na guer- guerra interimperiali.sta e do caráter de classe dos Estadas e governos que a
150
marxismo revolucionário atual a t)olítica do internacionalismo contemporâneo
1 5]

conduziam, qualquer confusão sobre as tarefas históricas da classeoperária rejeita totalmente essesegundo aspecto e afirma que o movimento trots-
nesses países, só podia levar a poli'tecas contra-revolucionárias de colabo- kista (e mesmoovpróprio.Tr.otski. porque seu último artigo, aquele em
ração de classes.Não se trata de uma questão de teoria, masde algo com- quebtrabalhava ao ser assassinado,começa com as palavras "A Franca
provado pela realidade. tornou-se agora uma nação oprimida") capitulou ao patriotismo social e à
Havia também uma segundaconsequênciade qualquer incapacidade ideologia burguesa. participando na Resistência. Isso está completamente
de compreender-o caráter imperialista da guerra dos Estados imperialistas errado. é claro. tanto na teoria como politicamente. E absurdo manter que
ocidentais contra a Alemanha,;lltália. Japâo. Se a guerra da Inglaterta em meio à superexploração, opressão e genocl'dio que se desenvolviam nos
contra a Alemanha, :por exemplo, for consideradacomo justa, então qual- pai'sesocupados. não havia tarefas imediatas e especl'ficasde autodefesa,
quer levante das massasindianascontra o domínio. britânico, durante aque- apenasdevido à natureza geral da guerra como um todo. Isso não só é ab-
la guerra, deveria ser combatido. A razão disso é evidente. Mesmo se con- surdo. como equivaletambém ao suicídio. O levante do gueto de Varsóvia
siderássemos o levante indiano contra a Grã-Bretanha como igualmente foi mil vezesjustificado, e qualquer revolucionárioali presenteque se re-
justo, teríamos de reconhecerque a guerraentre ela e a Alemanhaera a cusassea participar dele, seja pela alegação de que sua liderança era favorá-
guerra principal" no sentido de que envolvia maiores forças. era mais vel aosAliados pró-Ocidente(com um significativo componentesionista).
ampla e era, pior qualquer padrão razoável, "principal". Teríamos então ou sob a alegação de que a Segunda Guerra Mundial efa um conflito inte-
duas guerras justas, e o problema estava em que o lado ''justo'' na primeira rimperialista no qual .o proletariadornão devia tomar posição, merece
era o lado "injusto" na segunda. Uma vez estabelecido essetipo de estru- desprezo.
tura lógica, seguese inevitavelmente que uma das duas lutas ''justas" deve Não tomamos posição entre imperialistas, mas certamente nos defen-
ter precedênciasobre a outra. e nessecasoé evidentequal a que deveria demos contra assassinas(qualquer que seja o seu lado). Oõmesmo ocorre
ter prioridade. Não se trata de um argumento abstrato. O movimento stali- com as massassuperexploradas de trabalhadores, camponeses e pequenos
nista mundial denunciou, de forma coerente,.todos e quaisquerlevantes burgueses em todos os países ocupados: Mesmo no$ países nos quais não
dos povos coloniais contra seus senhores imperialistas "democráticos houve genocídio, o padrão de vida das massastrabalhadoras foi rebaixado
durante a SegundaGuerra Mundial. Em muitos casos-- a maioria. se nãa
à metade.ou um terço, do que era antes da guerra.Por que abrir mão de
todos -- isso não ocorreu porque os stalinistas fossem a favor do domínio uma luta?necessáriacontra aquela situação? Todos essesmovimentos me
imperialista nas colónias. Nem devido à sua preocupação,totalmente justi- parecem absolutamente justificados, na medida em que foram movimentos
ficada, em defender a União Soviética, pois esta sem dúvida não tinha in- das massasem sua própria defesa::IAdificuldade surgiuquandohouve
teresseno governo britânico na l ndia, por exemplo. Nem foi principalmen- combinaçõesde movimentos autónomos de massae tentativas, pela má-
te por seremos ingleses"aliados" da URSS,emboraesseargumentofosse quina f)olítica burguesa,de integrar essesmovimentos em projetos. planos
apresentado demagagicamentede tempos em tempos. Não. A verdadeira
e operações ligados às decisões de guerra que estavam sendo tomadas em
razão era que: os stalinistas acreditavam que os i.mperialistasbritânicos Londres ou Washington. Nesse caso, não é fácil separar as duas coisas na
estavam travando uma guerra justa contra o imperialismo nazista e que essa prática. especialmente para os pequenos grupos revolucionários sem in-
guerra, como os interesses em jogo eram grandes, devia ter prioridade sobre fluência de massasignificativa. Mas isso se pode fazer conceptualmente,e
todos os outros conflitos. A lógica é férrea; a premissa subjacente é que era pode ser realizado na prática até certo ponto.
falsa. A história mostrou, creio eu, que essefoi o principal perigo para os É impossível negar que as dificuldades tátícas foram imensase que
revolucionários, na Segunda Guerra Mundial: a armadilha de considerar a
cometemos alguns.erros. Mas o$ trotkistas belgasforam sem dúvida os
guerra interímperialista como justa. Ainda estamos pagando as conseqüên- membros da Resistência que tiveram a posição mais acertada e cometeram
cias desse "engano
menos erros. Isso se deve. em grande parte. à destacada inteligência políti-
Estou pronto a admitir, semdúvida, que algunscamaradasda Quarta ca e teórica de nossocamarada Abram Leon. o indiscutível gigante político
Internacional -- poucos na Bélgica e uma minoria na França. talvez a maio-
de nossa organização na Bélgica, na época. assassinadopelos nazistas ainda
na Gréciair-- cometeram o erro oposto. Ao ressaltar o perigo dessa muito jovem, aos 26 anos. Foi ele quem desenvolveu a fórmula estratégica
armadilha, eles subestímarama importância do outro aspecto da guerra: de nossotrabalho na Resistência:apoiar e estimular todos os movimentos
o caráter historicamente justo de qualquer forma de resistência de massa
de massados trabalhadores e camponeses pobres contra a superexploraçãa
ã superexploração e opressão -- na verdade. em certos casos, ao genocl'dio e opressão nacional oriundas da ocupação e lutar para transforma-los num
-' impostas pela ocupaçãonazista da Europa. Até hoje. há uma ala do movimento pela revolução socialista, pela derrubadada ordem capitalista e
movimenta trotskista na França - os camaradas ddjLutte Ouvriére -- que pelo estabelecimento de Estados de trabalhadores. Não haveria muito sen-
153
152 marxismo revolucionário atual a política do internacionalismo contemporâneo

tido em simplesmente tentar excluir todas as forças burguesasda Resistên- Trotski e as Conseqiiências da Guerra
cia. por decreto, sob a alegaçãoabstratade que os revolucionáriosse re-
cusaram. a se associarcom políticos burgueses.Inversamente,teria sido -- Vejamosagora uma questão correlata. Às vésperas.daSegundaGuerra
e foi T desastroso ligar a Resistência a uma frente única programática com Mundial, além de apresentar uma análise do caráter do conflito iminente.
a classecapitalista dos pal'sesocupados.A linha estratégicaadequada,de Trotski fez algumas previsões sobre o curso dos acontecimentos, uma vez
realização reconhecidamente difícil, era promover a Resistência de acordo terminado o conflito. Quase todas essasprevisões não se.co.nfirmaram..A
com a fórmula desenvolvida porE$Leon. democracia soviética não foi restabelecida na URSS através de uma revolu-
ção política. nem foi o capitalismo restaurado através de uma contra-revo-
Eu disse que essa estratégia era de implementação difícil. Pequenos lução vitoriosa (alternativa previ.sta por. eles.. Pelo contra.rio.. Stálin não só
grupos revolucionários, como os trotskistas. por exemplo, nâo dispõem sobreviveu, mas fortaleceu-se sob certos aspectos e o stalinismo expandiu-
de força suficiente para coloca-la em prática,:Tudo o que podíamos fazer se. Enquantoisso.e ao contrário dasprevia.ões
de Trotski..o mundo l;apta'
era dar um exemplo, e creio que foi o que fizemos, e bem, levando-seem l sta ei;trava numa nova fase de desenvolvimento económico acelerado.
conta todas as coisas. Mas não era uma estratégia de realização impassível. não tendo a revolução proletária conquistado vitórias no,.Ocide.nteadianta:
especialmente para partidos com apoio de massa.Na verdade, em um caso do Significam essesprofundos erros de previsão uma deficiênci.a de análise
na Europa ocupada ela foi posta em prática com êxito, embora com defor- teórica? Podem eles ser explicados sem questionar toda a análise marxista
mações burocráticas: na lugoslávia. Embora o$ líderes do Partido Comunis- revolucionária da realidade social contemporânea?
ta jugoslavomanifestassemapoio formal à ideologiada ''frente única" do
movimento stalinista mundial, na prática sua atitude era bem diferente. Em geral, os pronunciamentos políticos clássicos do marxismo podem scr
Já em 1942 eles organizaram não só a resistência contra os nazístas, mas divididos em duas categorias: primeiro. o que se pode chamar de prev/iões
também ações de guerra civil contra a ordem burguesa = e foram denuncia- a curto prazo; segundo,as tentativas teóricas de descobriras tendências
dos por Stálin. por isso. Nasaldeiasda lugoslávía,a luta seprocessava
não fundamentais de desenvolvimento, em outras palavras, a tentativa de apre-
entre colaboradores e não-colaboradores, mas entre os que eram partidá- ender o caráter subjacentede uma época histórica e asprincipais contradi-
rios da revolução socialista -- o que significava várias coisas nas aldeias -- e ções que a definem.
os que a ela se opunham. Não foi por acasoque o Partido Comunista jugos-
Numerosos erros foram cometidos na primeira categoria -- por Marx,
lavo organizou brigadas proletárias e fez apelos internacionalistas aos solda-
dos italianos e, mais tarde. alemães, Isso deve ser enfatizado, porque pouca Engels, Lênin, Trotski e todos os outros. Devemos lembrar, por exemplo,
que em fins dç 1916 Lênin fez um discurso numa reunião de trabalhadores
atenção foi dedicada a esseaspecto: no final da guerra, havia m//bares de
soldadositalianos e alemãeslutando no exército de Tito. suíças. no qual apresentou conclusões sombrias e pe:sim estassobre a situa-
ção, após a derrota da revoluçãorussade 1905. Com efeito. apenasd:ls
Não dispomos de tempo suficiente para disçutir as razões pelas quais meses antes da explosão de fevereiro de 1917 ele argumentou que, embora
issoocorreu na lugosláviae quais foram os limites dessefenómeno, ou seja. 1905 tivesse iniciado um processo que acabaria levando a uma nova revolu-
as deformações burocráticas do Partido Comunista jugoslavo e da liderança ção, sua geraçãoprovavelmente não veria essa conclusão. A lista desses
de Tito. Mas o Importante é: se foi possível a um partido comunista alta- erros poderia ser estendida indefinidamente. Sua razãofundamental ê que
mente burocratizada, de origem stalinista, ainda muito influenciado pelos o rcursodos acontecimentosa curto prazo é determinado não só pelas
métodos stalinistas, obter esseêxito, o mesmo potencial existe sem dúvida grandes tendências históricas. mas também por numerosos fatores secun-
em escalamuito maior em pai'sescomo !tília e França.Isso mostra que a dários que não só não podem ser adequadamenteincorporados numa ana-
estratégia por nós desenvolvidaestavateoricamente correra e era politica- lise exaustiva. mas também frequentemente não podem ser conhecidos an-
mente realista, apesar dos erros táticos secundários que tenham sido come- tecipadamente, e isso parque não é possível dispor de informações comple-
tidos. Maisdo que isso: foi uma tragédia histórica para a proletariado mun- tas. Trotski. como Marx antes dele, disse freqilentemente que a função da
dial o fato de que partidos tradicionais da classeaperárí:a.socialistase co- análiseteórica não é produzir profetas ou videntes materialistas,uma con-
munistas, tenham rejeitado essaestratégia em favor de uma continuação, tradição em termos, mas descobrir e codificar essastendênciashistóricas
ou reativação. de suas políticas de Frente Popular, de meados e fins da dé amplas.
cada de 1930. Por que, então, vemos repetidas incursões no terreno das previsõesa
razo. não só de Trotski, mas por todos os outros marxistas também?
154 marxismo revolucionário anual .apolítica
dointernacionalismo
contemporâneo ' ''
Qual a origem dessa inclinação. aparentementeirresistível, para as previ-
sões, apesar de todas as negativas? E. mais do que qualquer outra coisa.
uma conseqiiência da própria po/I'f/ca levo/uc/amar/a. Se os revolucionários
querem modificar o mundo -- e essaé, afinal de contas,a sua principal
função -- eles devem agir dentro dos limites de uma sériede possibilidades
a curto e médio prazo, para seremcapazesde determinar sua linha de ação
prática. A teoria revolucionária analisa as tendências históricas subjacentes,
essenciais.mas a ação revolucionária é praticadaidentro das limitações da
realidade imediata. Para solucionar essa;dificuldade, do ponto de vista
conceptual, devemosdistinguir entre. de um lado, a formulação, pelo mar-
xismo revolucionário, das leis científicas do desenvolvimento de modos de
produção ou de determinadasformações sociaise. de outro, a formulação
daquilo que só pode ser consideradocomo hik)ótesesde fraga/ho, e não leis
científicas. sobre aÉevolução a curto prazo de acontecimentos. Semnessas
hipóteses sobre a evolução a curto prazo, é simplesmente impossível agir;
mas. ao mesmo tempo, sua verificação constante pela:;realidade é necessá-
ria, para que tenham base suficiente para determinar a ação carreta. Nesse
sentido, essasprevisõesa curto prazo, embora freqiientemente falsas, são
uma exigência da ação revolucionária -- desde que se/am ver/f/Gajase
cora/bodas com base na paper/éncia. Por mais perigosas que sejam, sem elas
não pode haver ação revolucionária,masapenasa teoria histórica ampla.
Ora. essadigressãoé necessáriapara que compreendemosa afirma-
ção seguinte, aparentemente paradoxal: no seu entendimento das linhas
mestras do desenvolvimento de nosso século. Trotski foi não só correto,
mas demonstrou uma lucidez tão grandeque suas previsõeserróneasa
curto prazo foram. com freqilência, resultadoprecisamentedessalucidez
extraordinária sobreas tendênciasda história a longo prazo. Desdeque o
declínio da revoluçãomundial se tornou evidente em fins da décadade
1920 e no.inl'cio da décadade 1930, quando os fenómenosda fascismo
e stalinismo começaram a adquirir dimensões cada vez mais bárbaras, os
marxistas revolucionários lúcidos enfrentaram três questões básicasna de-
terminação da evoluçãode nossaépocaa longo prazo
Primeiro. sofreu a revolução mundial uma derrota duradoura. de
modo a ser o mundo mergulhado num prolongado período de barbárie?
Essa pergunta pode parecer hoje alarmista, mas era perfeitamente justa na
décadade 1930. Poderíamosreunir uma lista impressionantede citações
de muitos marxistas.desdereformistascomo Rudolf Hilferding, o último
grande teórico social-democrata, até uns poucos ex-trotskistas, que se con-
venceram de que Hitler venceriaa SegundaGuerra Mundial e que a Europa
seria governada pelo fascismo durante um século ou mais. Trotski. por
outro lado. responde de maneira diferente a essa pergunta. argumentando
que as derrotas sofridas pela revolução mundial eram realmente sérias. mas
limitadas no tempo. Haveria. disse ele. inevitavelmente, uma nova onda de
lutas revolucionárias por parte do proletariado e dos povos oprimidos ao
156
marxismo revolucionário atual
'Y
l a política do internacionalismo contemporâneo
]57

nidade como um todo e depende da construção de uma liderança.revolu-


cionária adequada.Se essaslutas não produzirem vitórias, a agonia mortal
da sociedade burguesa se arrastará, e, se isso acontecer, as.consequências
de nossa resposta à segunda pergunta se tornarão cada vez mais reais.
A terceira pergunta tem também um corolário. de que Trotski tinha
perfeita consciência. No .manifesto do congresso de emergência da Quarta
[nternaciona[, realizado em maio de ]940 {que pode ser considerado o tes-
tamento político de Trotski. sob certos aspectos),ele escreveu.em res-
postas à pergunta sobre se as oportunidades revolucionárias abertas pela
SegundaGuerra Mundial seriam perdidas pela máquina burocrática tradi-
cional, que a questão estava mal formulada. Um movimento revolucionário,
continuou ele, não é um acontecimentoa curto prazo, masum processo
que durará muitos anos, décadasmesmo;haveráaltos e baixos, guerras,re-
voluções, contra-revoluções, armistícios e novas guerras. Essa época -- e a
essaaltura Trotski falava de décadas,e não apenasdos anos que se segui-
ram imediatamente à guerra -- será propícia à construção de organizações
revolucionárias. Essaprevisão, também, foi confirmada em escalahistórica.
Podemosresumir. portanto, dizendo que em relação a essastrês
questões, que foram decisivas para o entendimento da época em que vi-
vemos, Trotski não estavaerrado. Pelocontrário, demonstrou que o méto-
do marxista de análise era capaz de apreender as tendências gerais do de-
senvolvimento histórico, a despeito do otimismo ou pessimismoconjuntu-
ral. Não houve, portanto, deficiência de análiseteórica, e o curso da histó-
ria desdeaiSegundaGuerra Mundial não sugere,de modo algum, que a
análise revolucionária marxista da realidadesocial contemporânea estiver:
se fu ndamentalmente errada.
Isso, porém, é apenasparte da,resposta à pergunta, pois continua
sendo verdade que muitas das previsões de Trotski. a curto prazo, às vés-
perasda guerra,foram realmenteerróneas.Em que errou ele, e qual a ra-
zão do erro? Deixarei de lado supostoserros que na realidade se baseiam
em citações desonestas,como a pretensão de que Trotski tenha afirmado
que a União Soviética seria inevitavelmentederrotada na guerra. quando
seusescritos na realidade mostram que ele não concordava com essaposi-
ção. Em primeiro lugar, ele superestimouo impacto a curto prazo, sobre a
consciência da vanguarda dos trabalhadores, da nova ascensãoda revolução
mundial. Foi. nessecaso, guiado por uma analogia histórica: o isolamento
de um punhado de internacionalistas dentro do movimento dos trabalha-
dores em 1914 deu lugar a umscrescimento extraordinário na força dos
internacionalistas, nos últimos dias da Primeira G,uerraMundial e especial-
mente depois da vitória da Revolução de Outubro. Ao estabelecer essaana-
logia, Trotski subestimou seriamenteos efeitos cumulativos de vinte anos
de derrotas não só de revoluçõesproletárias, mas também do movimento
organizado dos trabalhadores como um todo. Num certo sentido isso era
um paradoxo, pois ele não cometeu tal erro ao examinar casosnacionais
158 marxismo revolucionário atua] a política do internacionalismo contemporâneo 159

Kart Liebknecht. Lênin ou Trotski. e todos os internacionalistas.Tinham classe dos operários na Alemanha. mas houve também um enfraquecimen-
uma tradição$comum. e os internacionalistas não perderam nunca o conta- to qualitativo do controle dos mecanismostradicionais da classeoperária.
to díreto com as massastrabalhadoras. mesmo depois dos acontecimentos A situação oferecia a possibilidade de uma explosão espontâneaque fugi-
de 1914, exceto talvez por um breveperíodo, até 1916, pois após essadata ria rapidamente ao controle dos partidos socialista e comunista. Como uma
a ala centrista. que se opunha à continuação da guerra imperialista, come- testemunha ocular nb Alemanha naquelalépoca {eu havia sido deportado
çou a alcançar os reformistas ma.ischauvinistas na maioria dos. partidos so- para lá. como preso político, e trabalhei durante algum tempo na enorme
cial-democratas. (Até mesmo os partidári.os de Kautski, por exemplo. com- urina de petróleosintético em Wesseling..:próximo
de Colónia), ainda
pareceram à conferência de Zimmerwald e votaram a favor da resolução de acredito que essaperspectiva era menos irrealista do que poderia parecer.
Trotskí, mas contrqüa de Lênin.) Essacontinuidade é mais clara no caso pelo menos até a primavera de 1944. Mas a decomposição social apossou'se
crítico da Alemanha. Exceto nos dois primeiros anos da guerra, os Esparta- da Alemanhaaiiuma certa altura. A massa'dosprodutores erana realidade
qulstas se viram numa situação que. em geral, foi positiva. Sua decisão de constitui'da de presos de guerra, presos políticos, internos em campos de
unir-se ao Partido Social Democrático Independente {USPD)quando foi concentração e trabalhadores estrangeiros deportados. A desorganização
fundado em 1917 não foi acidental, nem constituiu Um erro tático. Foi da vida coletiva foi quase total,#e até mesmo a simples cooperacãobnos
produto do fato de que os espartaquistas falavamVuma linguagem comum locais do trabalho entrara em colapso. Nessascondições, a perspectiva de
com muitos dos militantes, e mesmo um bom$número dos líderes do USPD. um levante revolucionário na Álemanha começou a desaparecer, por nume-
que apoiavam a revolução russa na época. Pouco depois. os partidos socia- rosas razões objetivas: a "mobilização total" e o acentuado terror nazista,
listas em numerosos países nos quais as tradições revolucionárias não eram especialmentedepois de 20 de julho de 1944; bombardeios maciçosdas
excepcionalmente fortes solicitaram íhgressona l nternacional Comunsita: cidades pelas forças aéreas inglesa e americana; os terríveis efeitos da inti-
1{
os partidos socialistasitaliano e tchecoeslovaco,por exemplo: e não nos midação, seguidos pela ocupação e desmembramento do país; o colapso
esqueçamosde que a maioria do Partido Socialista Francêsvotou a favor dos meios de comunicação.
da Internacional Comunista. no congressode Touro de 1921. A tudo isso devemos acrescentar os efeitos da derrota sabre a popu-
Assim, a situação enfrentada pelos revolucionários em 1944 era to- lação: fome, miséria, dispersão dai.:população urbana. Igualmente devasta-
talmente distinta da situação de 1918 ou mesmo de 1914. Estavam isola- doras foram as conseqilências políticas do stalinismo e reformismo. O Par-
dos num movimento operário cuja tradição internacionalista havia sido. há tido Comunista Alemão havia preservado mais dirigentes operários do que
muito, interrompida. A política de colaboração de classedos partidos so- seria de esperar. Emborago partido não estivessenuma posição muito fraca
cialistas e comunistas não era uma aberraçãoedequatro anos. mas a cul- inicialmente. teve de adaptar-seà política de Stálin, o que significou o en-
minação de pelo menos vinte anos de evolução {tomando 1927. o,ano em dossodas tesesmais contra-revolucionáriasque se poderia imaginar.Em
que a Oposição Esquerdistafoi1lexpulsado Partido Comunista Soviético, particular. Q Partido Comunistaapoiou o desmantelamentodas fábricas
como o:#início da eliminação do internacionalismo. embora em muitos do Ruhr e sabotoua greve)contra
ela. Enquantoisso,o PartidoSocial
casos#adata: deve ser ainda anterior). Nessascondições. os revolucionários Democrata. violentamente anticomunista, apoiava a linha dos imperialistas
tinham poucas possibilidades de aumentar significativamente as suasforças. ocidentais, apesarde certos casosde rebeldia. mais nacionalistasdo que
embora houvesseuma conjunção de uma acentuada radicalização dos tra- esquerdistas. As conseqüências de tudo isso sobre/lume classeiroperária
balhadorese uma política ultrajante de colaboraçãode classedos social- que já vacilavaante os golpes debilitantes dos acontecimentosde 1929-33,
democratas e stalinistas. os anos do terror nazista. a guerra, o desmembramento do país, foram
A essaestimativa errónea da capacidade dos revolucionários de con- incalculáveis.
quistar a hegemonia sobre os levantes deiipós-guerra, devemos acrescentar Qual o balanço de toda essaanálise? Seria um erro reduzi-lo ao cha-
dois fatores suplementaresque desempenharam
um grandepapel na aná- vão "o imperialismo e o stalinismo estrangularamiia Revolução Alemã"
lise tanto de Trotskí pessoalmente,como da Quarta Internacional -- dois Essetipo de formulação significaria que Trotski e a Quarta Internacional
fatores que são importantes, mas poderiam nos levar a um raciocínio cir- subestimaram a capacidade contra-revolucionária do, imperialismo e do
cular. sefossem isoladosdo contexto mais geral. stallnismo, o que não é verdade.O fato é que esperávamosuma revolução
O primeiro deles foi a ausênciade qualquer. revolução na Alemanha alemã, ape r disso. O que negou essa hipótese foi a concatenação de cir-
ao término da Segunda.rGuerraMundial. A revolução alemãhavia ocupado cunstâncias que descrevi {que teriam sido difíceis de prever em 1940. ou
umq.posição d%limportãncia primordial em todas as previsõesde Trotski mesmoem 1943). e que tornaramlimpossível qualquer levante de massaa
e da Quarta Internacional.Houve, é claro. um declínio na consciênciade partir do verão de 1944. {É interessante, embora ocioso. especular sobre o

l
160 16]
marxismo revolucionário atua] a política do intcrnacionalisnlo contemporâneo

que poderia ter acontecido se o estado-maior alemão tivesseconseguido se ano em que começou a série de derrotas. Na realidade, muitas vitórias
livrar de Hitler a 20 de julho de 1944 e se a guerrativessesido levadaa ainda eram possíveis, apesar da derrota alemã de 1923. como se evidencia
uma conclusão rápida.) De qualquer modo,ila ausênciade uma revolução pelas revoluções chinesa e jugoslava e pelos acontecimentos na Espanha.e
na Alemanha, ou mesmode um levante revolucionário mais limitado, com- França, na década de 1930, Até mesmo a vitória de Hitler poderia ter sido
parável ao daliFrança, Itália ou Grécia, pesou muito no curso dos aconteci- impedida. Em fins daquele período de vinte anos, porém. estávamosas
l mentos, tanto na Europa como em todo o mundo, voltas não apenascom os efeitos da derrota de 1923. da aniquilação da
O segundofator não previsto por Trotski e pelos trotskistasfoi o revolução chinesa em 1926-27. do contínuo isolamento da URSS.da falta
exercício de considerável poder de atração pelos partidos comunistas entre de perspectivas internacionais para os comunistas após a vitória do nazis-
a classe operária européia, devido ao papel desempenhado pela União Sovi- mo. da derrota das mobilizações francesasem meados da década de 1930 e
ética na derrota do fascismo. e mesmodevido àstransformaçõessociaisna da revolução espanhola na sangrenta guerra civil. mas também com os
Europa Oriental. Em 1948 e 1949unão era fácil explicar a um militante efeitos cama/af/Posde todos essesretrocessos.A subestimaçãoda?impor-
comunista que Stálin preferia preservara ordem burguesafora das frontei- tância dessefenómeno foi a que mais contribuiu para a inexatidão das
ras da URSS:Os trabalhadores e os jovens organizados identificaram, falsa- previsões
de Trotski. Foi o que permitiuaospartidoscomunistase so-
mente, as vitórias das revoluções iugoslavaçechinesa com o Exército Ver- cial-democráticos
na Europa Ocidentaldesempenhar com êxito o papel
melho Soviético. Em seguida.nos anos do augeda Guerra Fria, de 1949 a que tiveram na reconstruçãoe consolidaçãoda ordem burguesa,depois
1952, as camadas mais radicalizadas do proletariado e da juventude foram da Segunda Guerra Mundial.
It atraídas espontaneamentepara os partidos comunistas e as organizações
de juventude stalinistas, não devido à poli'tecade colaboraçãode classe
seguida por essespartidos, mas devido à divisão politica mundial em "dois A Guerra Fria e o Longo Surto de Prosperidade
campos", criada pela Guerra Fria.
Sob esseaspecto, é importante notar que a Quarta Internacional foi Uma. das principais razões pelas quais os partidos comunistas desempenha-
a primeira força no movimento dos trabalhadoresa compreenderZ- desde ram o papel que lhes foi dado na Europa Ocidental depois,da Segunda
a época de seu Terceiro CongressoMundial em 1951 -- que a consolidação Guerra Mundial fói certamente o fato de csTara liderança soviética lutando
e ampliação do stalinismo era apenasaparente, mesmo na zona geográfica para manter suas alianças de guerra com o ''imperi.ali.smo.democrático
posta sob?controle do Exército Soviético.$A realidade$erauma mistura vendo.ascomo a base de uma ''nova ordem mundial". Alguns partidos
muito contraditória de extensão do#controle pela burocracia soviética. comunistas, como.,o americano. por exemplo. levaram tão a sério essa
além das fronteiras da URSS,e de casos autênticos dp revoluções socialistas noção que se dissolveram. Mas a guerra não foi seguida de uma era de.coo-
que acabariam atingindo as raízes do stalinismo e provocariam sua históri' pencao internacional entre o imperialismo e a Un.iã.oSoviética. Em lugar
ca crise mundial. levando à decomposição gradual do controle dos burocra- disse, foi deflagrada a Guerra Fria. Por que o imperial.ism.o rejeito.u a o.farta
tas de Kremlin sobre setoresinteiros dos seusdomínios. Masessesdois fa- de Stálin. de uma colaboração a longo prazo? 0 que havia atrás da política
tores conjunturais -- ausência da revolução alemã e aparente consolidação da Guerra Fria e dais'contenção''? Terá sido uma tentativa autêntica para
do stalinismo no. movimento internacional dos trabalhadores-- só tiveram restaurar o capitalismo na União Soviética e na Europa Oriental?
esses efeitos desastrosos sobre o curso da revolução. especíalmentednos
países ocidentais, devido ao contexto geral do declínio histórico da consci-
ência de classe.Se, por exemplo, a máquina do Partido Comunista Francês, A cooperação ininterrupta entre o imperialismo e a burocracia soviética foi
ouHitalíano, tivesse sido posta de lado pela mabílização, tal como a máqui- interrompida em 1947 e 1948 par uma razãomuito simples:a ascensão
da
na social-democrata foi posta de lado na Alemanha depois de 1918, os efei- revolução mundial fora do controle de Washington ou Moscou. Os dois me-
tos sobre o stalinismo teriam sido esmagadores.amas isso não aconteceu, lhores exemplos sãa. naturalmente, a lugoslávia e a China. Em ambos os
porqueiidepoisdos efeitos cumulativos de vinte anosde derrota, a esponta- casos. houve esmagadora evidência de que Stálin quis, sincera e realmente,
neidade e capacidades:deorganizaçãoda classeoperária era muito menor governos de coalizão que presidissem Estados capitalistas nos quais as ten-
do que Éeesperavaem 1940, ou mesmo 1944. dências políticas pró-Moscou e pró'Washington dividissem os cargos em
basesmais ou menos igualitárias. Foi o que se estabeleceu nas conferências
Essesefeitos cumulativos foram a causa fundamental das limitações
do'imovimento revolucionário de(1944-48 na Europa. Quero deixar claro realizadas nas últimas etapas da guerra, não havendo nenhum indício de
que não estou dizendo que essasituação estavapredeterminado em 1923, que o Kremlin tivesse tentado violar tais acordos. Os partidos comunistas
163
162 marxismo revolucionário atual a política do internacionalismo contemporâneo

iugoslavo e chinês, porém. revelaram sua verdadeira estratégia (e por verda- por sua vez. serviu como base para uma caça generalizada às bruxas. prin-
deira estratégiaentendo o que estavamrealmentefazendo,e não a suafi- cipalmente nos Estados Unidos.
delidade verbal ao "Camarada Stálin") rompendo com alguns postulados O resultado de tudo isso foi a Guerra Fria que por sua vez obrigou
básicosdo stalinismo. Em particular, recusaram-se
a abrir mão de suas Stálin a reagir de maneira defensiva.consolidando o. controle da burocra-
estruturas de poder independente e não quiseramdesarmarseusmembros. cia sobre os países da Europa Oriental sob seu domínio. Isso, porém. exigia
Foi por isso que em ambos os casosos governosde coalizão.falharam e a derrubada das relações de propriedade capitalistas naqueles países, e o
sob o crescente impacto das mobilizações de massa, as instltuiçoes estêbeecimento de Estados burocratizados dos trabalhadores. É importan-
do Estado burguês je finalmente, embora não simultaneamente, as relações te notar. incidentalmente.que a ideologiada Guerra Fria teve grande
de propriedade burguesas)foram varridas. Uma das lições aprendidaspelos importância no fortalecimento ideológico do domínio burguêsnos países
mperialistas foi a de que o Kremlin já não tinha condiçõesde cumprir sua capitalistas adiantados e. com isso, na continuação de seu predomínio
promessade conter os movimentos revolucionários em todo o mundo. Ele muito tempo depoisde terminadaa Guerra Fria, no sentidopróprio da
desejava faze-lo, mas não tinha poder para isso. expressão. Na verdade, vemos ainda hoje não poucos aspectosdessaideolo-
gia. Mas quando se torrlQU claro a ambos os lados que um novo equilíbrio
Por outro lado. os imperialistas sofriam grande pressãopara recons-
havia surg do da Guerra Fria, o imperialismo começou a diminuir suaofen-
truir seus mercados e campos de investimento na escalamais ampla possí-
siva pelo menos em escala global, e a responder às manobras de "détente'
vel. Eu não diria que elesresolveram.em definitivo. restabelecer
o capita- e ."coexistência pacífica'' do Kremlin. Esta última sempre foi a meta esfm-
lismo na URSS.até mesmoao preço de uma terceira guerra mundial, embo-
t47lca fu/}da/menta/ da burocracia soviética. mesmo no auge da Guerra Fria.
ra alguns elementos entre os militares americanos sem dúvida tenham pen- e continua sendo até hoje. Quando atacada. porém, essaburocracia teve
sado nisso. e tiveram certo apoio de círculos significativos dos políticos
de defender-se.pois apesarde tudo ainda sefundamenta em basesde classe
burgueses. Não houve. porém. um consenso imperial.lata quanto a Isso. diferentes das bases dos Estados burgueses.
Mas eles sem dúvida haviam resolvido experimentar até onde poderiam ir.
Uma vez recuperado o Estado capitalista e reconstituída a economia bur-
guesa,os partidos comunistasforam afastadosdo governona Itália e na
Franca. Foi feito um esforço bem-sucedidopara ''recuperar" a Finlândia
e a Austria daquilo que seestavatransformando, rapidamente, num "bloco
soviético''. Esforçosemelhantefoi feito em relacãoà AlemanhaOriental.
hl)'l:ll\f
e::lllU
?$H:lEBK
!
pol ética imperialista'face aos Estados dos trabalhadores?
mas falhou. tendo apenas Berlim Ocidental sido reintegrada no "mundo Não acredito numancorrelação direta entre a Guerra Fria, a estabilização
livre". Operações semelhantes foram organizadas contra a lugoslávia e
capitalista na Europa Ocidental e o surto de prosperidade económica do
TchecoesloVáquia.Na Coréia. houve uma tentativa evidente de aniquilar
pós-guerra.Ou antes, um elemento decisivo fica de fora ao seapresentar
o Estado norte-coreano dos trabalhadores. O que não está bem claro é se
essa espécie de cadeia causal, ou seja. a derrota do movimento operário
a classe dominante americana havia decidia, definitivamente, tentar fazer
no pós-guerrana Europa Ocidental, e a onda de lutas sindicaisnos Estados
recuar também a revolução chinesa. Alguns poli'tacos burgueses americanos Unidos entre fins de 1945 e princípios de 1947. Eu insistiria em que essa
semdúvida assim o queriam. e provavelmentetinham certo apoio na classe derrota deve ser vista como um fator autónomo, influenciado de maneira
dominante.
i;Ei;i;. iiLi;;b.l Ítii« d« lid."-Ç« ",li i«. . ;«í,l-d.m"'áfi?: Dei*:'
Em outras palavras, tendo recuperado o sistefna burguês na Europa de fora essefator é oferecer um quadro falso do que realmenteaconteceu
Ocidental. através da colaboração com o$ partidos de trabalhadorestradi- depois da SegundaGuerra Mundial. e que resultaria numa verdadeira
cionais e com a burocracia soviética. tendo "perdido" a lugosláviae a falsificação da história.
China apesar de todas os esforços de Stálin. e necessitando do mais amplo É 'importante lembrar que, apesar de todos os fatores negativos que
território possível para a expansãoeconómica, a fim de impedir a depres- já discutimos. o período de 1945-1948 foi de grande /nstab///dadoeconó-
são de pós-guerra que se temia. o imperialismo lançou uma ofensiva inter- mica. política e social em paísescomo França, ltália, AlemanhaOcidental
nacional. A ideologia da "contenção" foi simplesmente um. disfarce para e Japão. Na Grâ.Bretanha. a burguesia estavadesorganizada.depois da
vender essa política à população dS)spaíses capitalistas adiantados (espe- esmagadoravitória do Partido Trabalhista em 1945. enquanto o movimen-
cialmente nos Estados Unidos), retratando a União Soviética como uma to operário estavano apogeu de sua força histórica. Até mesmo nos Esta
potência mundial com intencões de expansão imperialista Essa ideologia. dos Unidos o quadro estava longe de ser tranquilo. O ano de 1946 viu a
]64 marxismo revolucionário atual 165
a política do internacionalismocontemporâneo

maior ;onda de grevesda história americana. A imagem que temos em 1953


é notavelmente diferente. Temos então a Europa dos tor/es, de Adenauer. A Disputa Sino-Soviética
de De Gasperina Itália. de uma classeoperária dividida e desorientadana
França. Nos Estados Unidos, Eisenhoweç:;subiu ao poder, tendo como
Secretário de Estado John$Foster Dulles, e o país estavaàs voltas com o
macarthismo. A passagemdo primeiro quadro para o segundoexigiu mais
do que simplesmenteos efeitos da Guerra Fria e do Plano Marshall. Pr.eci-
sou também da derrota da5ondade13greves
na França,em 1947-48; dos
efeitos da oportunidade perdida daégrevegeral política na Itália a 14 de
julho de 1948, deliberadamente sufocada pela liderança do Partido Comu-
nista; da traição da grandegrevedo Ruhr contra o desmantelamentoda
indústria. que acabou com oáPartido Comunista da Alemanha Ocidental;
da traição do movimento de:amassacontra a remilitarização$pela Social-
Democracia Alemã, que iniciou a longa tendência decrescente de atividade
política da classe operária; da espantosa capitulação da burocracia sindical
americana à Guerra Fria e à caca às feiticeiras de McCarthy; da rejeicão
deliberadagdo Partido Trabalhista Britânico de romper com o capitalismo
materiais reais Qntre as lideranças soviética e chinesa?
em 1945-50, emborativessea força necessária
para isso.Os acontecimen-
tosNppsteriores só são compreensíveis à luz de todos estes outros. Seria,
portanto. um erro supor que o lançamentoda Guerra Fria foi. em si,:res- Inicialmente. o ciclo de luta de classes,o ciclo de luta antiimperialista
ponsável pela estabilização do capitalismo e pelo surto económico. e a longa onda de desenvolvimento económico devem ser examinados
Quanto ao«mecanismodessesurto. remeto o leitor ao meu livro separadamente, em grande parte. Eles estão relacionados entre si. .é claro,
mas nãb de maneira mecânica. Nos países imperialistas, a ''longa onda
Cap/ta/ümo /14oderno, onde a questão é analisada em detalhe. É impossível
repetir aqui essa longa análise. O importante. porém. é que a estabilização expansionista de desenvolvimento económico" (comumente conhe.cida
política e social antecedeuo surto económico e proporcionou as suascon-
dicõesipreliminares. Na Europa, o surto começou com uma taxa de explo-
racão herdada do fascismo. emj:outras palavras, com.uma taxa dej;lucro
muito superior ao curto período de prosperidade de 1923 29.'Nos Estados
$41%31ili:iiu
l iii::i E:iii:lqi:i
de classesanticapitalista, proletária, começou a intensificar-se novamente.
sendo maio de 1968 a comocâo que simbolizou essefato. É importante
Unidos. a lei Tatf-Hartley e o;jmacarthismo tiveram efeitos semelhantes.
observar porém. que a intensificação da luta de classescomeçou antes de
lssa, por sua vez, explica por que houve um ni'vel muito superior de acu-
mulacão de capital. Dai' a possibilidade de uma terceira revolução tecnoló- qualquer crise importante de superprodução.numa época em que não
havia desempregoem massae os salários reais continuavam subindo. A
gica,'que por sua,vez:explica a longa duração do surto. O.''ciclo econõi
mica'' continuou a funcionar durante a expansão (isto é, houve crises de crise do sistema imperialista mundial. porém, vinha crescendosem Inter-
superprodução periódicas. mas foram muito mais breves e suaves do que no rupção séria desde fins da década de 1940. continuando pelas décadas de
período entre as duas guerras): 1950 e 1960, apesardos altos e baixos das mobilizaçõesde massanos
vários paísesdependentes.Essacrise explodiu com a vitória da revolução
Finalmente. a classe operária, embora tivesse sofrido derrotas férias
depoiskde 1947. não foi totalmente esmagada.Conservousua força de
organização e, portanto, tinha de ser ouvida. É esseo principal fator que
explica o aspecto''reformista'' da surto {por$exemplo.o fato de ele ter-se
originado numa expansãodo mercadointerno, e não na reconquistados
Estados dos trabalhadores}. para o qual a sua própria duração prolongada
proporcionou os recursos materiais.
colónias portuguesas na África. e assim por diante.
lbo marxismo revolucionário atual 167
a política do internacionalismo contemporâneo

Em geral. a radicalizaçãomundial da juventude ena;jascensãoda chave de estratégia. como o problema das relaçõescom o imperialismo e a
'nova esquerda" foram, a princípio, subprodutos dessaonda de revolução burguesianacional. as formas de luta e a dinâmica da revolução nessespa'
mundial centrada no "Terceiro Mundo". Muitas das idiossincrasiasda nova íses (a revolução em "duas etapas'', ou a revolução ininterrupta), passaram
corrente esquerdista, como o "terceiro-mundismo" e a rejeição do prole- a ser discutidas mais abertamente do quezhaviaacontecido em muitas dé-
tariado ;.urbano como "sujeito revolucionário". foram produtos típicos cadas. Essa crise ideológica foi aguçada por vários contrastes notáveis na
l de uma combinação singular de circunstâncias: calma relativa por um longo sorte da luta de massas:a vitória cubana e a derrota brasileira. as vitórias
#
período nos países capitalistas adiantados, e ondas continuadas de luta nos chinesa e vietnamita e a mortandade da Indonésia, para darmos apenas
países capitalistas dependentes. Os acontecimentos de maio de 1968 na dois exemplos. Nessascondições. várias correntes entre os ''revolucionários
trança, porém, modificaram subitamenteessas;icircunstâncias
e com isso do terceiro mundo'' começaram a pen.der?iparagum rompimento comia
mudaram os temas e expressõesda radicalização de maneira duradoura. estratégia tradicional menchevique-stalinista de "revolução por etapas
Durante todo essepera'odo;;aburocracia soviéticaaderiu firmemente e de alianca com a burguesia nacional nos países capitalistas dependentes.
à sua linha fundamental de procurar colaborar com a burguesiacolonial e Mas. seja devido às origens stalinistas e aos remanescentes ideológicos de
bloquear qualquer tendência da revolução colonial de transformar-se em sua educaçãooriginal, ou devido à sua ênfaseunilateral nasformas de luta,
revolução socialista. Foi essaa orientação estratégicado Kremlín em todos em oposiçãoà estratégiapo//l/ca. esserompimento com o stalinismoclás-
osepaíses.da China ad:Vietnâ, da Argélia a Cuba,da Indonésiaà I'ndia. sico foi apenasparcial. Portanto. uma inversão, no sentido da colaboração
do Evito ao fraque. Sempre que os partidos comunistas locais tinham â de classe. sempre era possível, embora o fermento ideológico entre essas
hegemonia dos movimentos de massa e se submeteram a essaorientação. correntes fosse real, por um longo período
ocorreram derrotas esmagadorase. com freqtlência, sangrentas.Por outro A reação do imperialismo às lutas de libertação foi bem.mais com-
lado, sempre que os partidos comunistas locais (ou forças revolucionárias plexa e diversificadado que se poderia deduzir pela pergunta. É certo que
11
independentes, como em Cuba) romperam com essaestratégia, mesmo que durante todo um período a força principal da política imperialista dirigiu-
apenas empiricamente. a revolução pede triunfar. se à intervenção militar contra-revolucionária aberta, à chantagem econó-
Nessas circunstâncias,: percebidas por todos,, mesmo quando não mica e à intervencâo política, tanto às claras como encoberta. Ao mesmo
compreendidas perfeitamente,surgiu uma profunda crise ideológicadentro tempo, porém. as manobraspolíticas com a burguesiacolonial e amplos
do ''movirnentoqínternacíonal comunista e antiimperialista". Questões- setores da pequena burguesia nacionalista nunca cessaramrealmente. Em
chave de estratégia, como o problema das relaçõescom o imperialismo e a certos casos. tais manobras tiveram maior êxito do que as intervenções
burguesia nacional, as formas de luta e a dinâmica da revolução nesses mais abertas.como se vê pela derrota do imperialismono Vietnã e seus
países (a revolução em "duas etapas". ou a revolução íninterrupta}. passa' êxitos na Egito. Desde princi'pios da década de 1970, na verdade, houve
ram a ser discutidas mais abertamente do que haviaacontecido erT#muitas uma tendência na política imperialista, no sentido dessasmanobras,e de
décadas;iÍEssacrise Ideológica foi aguçadapor vários contrastes notáveis um afastamento das intervenções militares diretas. O fator mais decisivo
na carte da luta de massas:a vitória cubana e a derrota brasileira. as vitórias nessa mudança fai o movimento nos Estados Unidos contra a guerra no
chinesa e vietnamita e a mortandade da Indonésia. para darmos apenas dois Vietnã. que não só teve êxito em forçar Washingtona retirar suastropas
exemplos. Nessascondições, párias correntes entre os "revolucionários do terrestres e sustar os bombardeios, criando combisso as precondíções para
terceiro mundo" começaram a pender para um rampímento com a estra- a vitória vietnamita. mastambém impediu que o governoFord interviesse
tégia tradicional menchevíque-stalínista
de ''revoluçãopor etapas", e de para salvar o regime de Thíeu no último minuto, e criou condições políti-
aliança com a burguesia nacional nowpa asescapitalistas dependentes. Mas, castais que a classedominante americana é hoje impotente paraempenhar-
seja devido às origens stalinistas e aos remanescentesideológicos de sua se nos tipos de aventuras militares maciças e abertas que foram tão fre-
educacão original, ou devido à sua ênfase unilateral nas fomlas de luta, qiientes nas décadas de 1 950 e princl'pios de 1 960. Isso não significa que o
em oposição à estratégiapo/í'f;ca; esserompimento com o stalinismo clãs' imperialismo americano tenha abandonada a política de vigorosa interven-
fico foi apenasparcial. Portanto, uma inversão,no sentido da colaboração ção contra-revolucionária em escala mundial. nem imp.lacaque compromis-
de classe, sempre era possível, eylbora o fermento ideológíccrentre essas sos militares maciçosdo tipo da Indochina continuem impassíveisindefini-
correntes fosse bastante real, por um longo período. damente. Mas a combinação dos efeitos políticos do movimento antiguerra
Nessascircunstâncias,percebidas
apor todos, mesmoquando não com os recentes sucessosdo imperialismo em manobras mais sutis geu ori-
compreendidas perfeitamente,, surgiu uma profunda crise ideológica den- gem a uma evidente modificação na estratégia imperialista para com o
tro do ''movimento internacional comunista e antiimperfalista". Questões- Terceiro Mundo.
H
168 ]69
marxismo revolucionário atua] .a política do internacionalismo contemporâneo
l Resta a questão da ligação entre todos essesfatos na década de 1 960 O conflito. portanto, não é apenas político, ou mesmo ideológico,
e o aparecimento do conflito sino-soviético. Vou começar cam algumas mas um reflexo da incapacidade que têm os burocratas de Moscou ou
observações metodológicas. .Para compreendermos as origens e dinâmica Pequim de tolerar o ''policentrismo" ou "faccionalismo'' em suasfileiras.
dos conflitos entre as lideranças dos Estados burocratizados dos trabalha- pois isso desafiada o seu monopólio do poder e, com isso. os seusprivilé-
l dores. devemos combinar constantemente a autonamía relativa do conflito gios materiais. As diferenças de orientação ideológica e política refletem,
político e ideológico e as disputas baseadasno contraste de interessesma- em última análise, diferentes táticas de autodefesaburocrática, sob cir-
# teriais imediatos. Negligenciar qualquer um dessesaspectos é abandonar cunstâncias objetivas variadas. Isso. porém, não significa ''competição''. no
a análise marxista revolucionária clássicado caráter da burocracia domi- sentido capitalista da palavra. Moscou não procurou. por exemplo. ''con-
nante nesses Estados, no caso as burocracias soviética e chinesa. Concen- quistar" a Mongólia Interior e explorar sua riqueza. nem Pequimtem
trar-se exclusivamente {ou quase exclusivamente) no conflito político e qualquer interesse em "conquistar a riqueza da Sibéria". Não há nada na
ideológico, seria tratar a burocracia como um grupo de pessoascarentesde estrutura de nenhum dos dois países que leve seu grupo dominante a ex-
interesses materiais distintos dos interesses da classe operária e da burgue- pandir-se dessa maneira. Portanto, é importante observar que as ''raizes ma-
sia. Por outro lado, concentrar-seexclusivamente lou quaseexclusivamen- teriais'' do conflito sino-soviético diferem qualitativamente das ral'zes
te) nos interessesmateriaisseria,com efeito. identificara burocraciacomo materiais dos conflitos interimperialistas, ou dos conflitos entre países im-
}
uma nova classedominante. A posição peculiar, ''intermediária", ocupada perialistas e Estados burocratizados dos trabalhadores. Os conflitos inter-
por ela na sociologia marxista -- não uma nova classedominante, mas uma imperialistas derivam da competição económica que é parte do próprio
camada privilegiada do proletariado, com seuspróprios interessesmateriais modo de produção capitalista. Essesconflitos podem ser mediadose regu-
específicos a defender -- implica exatamente essacombinação singular de ladas sem conflito militar. em determinadas condições políticas e mili-
política e interessesmateriais,que é a fonte final de conflitos entre dife- tares. mas não podem ser eliminados enquanto o sistema capitalista so-
rentes burocracias dominantes. !sso se reflete na maneira particular pela breviver. Os conflitos entre Estados imperialistas e Estados burocratizados
qual cada burocracia governa, ou, em outras palavras, na maneira pela qual dos trabalhadores refletem. em última análise, as estruturas sócio-econó-
mantém e garante seus privilégiosáçpelo
exercício de um monopó//o (yo micas contraditórias dos pal'ses em questão, e podem ser mediadas e susta-
11 poder. das sem conflito militar em muitos casos, mas não podem ser eliminadas
enquanto não forem derrubados os principais Estadoscapitalistas.Os
Exatamente por não ser uma nova classedominante, por nãoter um conflitos entre as burocracias dominantes, porém, embora sejam conse-
papel social necessárioa desempenhare nenhuma legitimidade subjetiva
qüência inevitável do monopólio do poder pela burocracia. não são gerados
aos olhos dos trabalhadores e camponeses, ela só pode defender seus pri-
inevitavelmente pela estrutura sócio-económica dos Estadosdos trabalhado-
vilégios se mantiver um rigoroso monopólio do poder: A burocracia é, por-
res. É nessesentido que podem ser considerados ''políticos e ideológicos
tanto, abrigada a proteger ciosa e rigidamente essemonopólio -- daí o
de uma maneira que aqueles outros conflitos não podem ser encarados.
nexo entre a propriedade nacionalizada;'a manutenção de uma tradição
comunista formal, o sistema unipartidário e a repressãopol ítica.
A questão seguinte é bastante longa. mas de grande importância.. .Nadéca-
Em última análise,asraízesdo conflito sino-soviético
estãono fato da de 1960, a Quarta Internacional deu apoio cri'rico à posiçãochinesanas
de que é objetívamente impossível às burocracias soviética e chinesa man- questõesinternacionais,em oposição à russa.Afirmou-se.quea liderança
ter uma orientação político-ideológica comum (seja internamente. ou em chinesa estava desempenhando um papel na poli'rica mundial que, embora
11 política externa), devido às condições sócio-económicas bastante diferen- não fosse internacionalista e proletário, 8r8 significativamente mais posi-
tes dos dois países.nHáuma razão simples pela qual essadiferença político- tivo que o do Kremlin. Nos últimos anos, com a modificação.da p.olltica
ideológica transformou-seliinevitavelmentenuma disputa em nível estatal: externa chinesa, a posição da QI também se modificou, considerando hoje
111 Mao não podia tolerar a facção pró-Kremlin do Partido Comunista Chinês. o papel dos dois maiores Estados de trabalhadores como igual.menu.e
dele-
tal como Krushev ou Brejnev não podiam ter tolerado uma facção pró- térios. embora continuando a atribuir alIMoscoua responsabilidadepela
Mao no Partido Comunista Soviético. Como a máquina partidária é idên- divisão sino-soviética
tica à máquinaestatalem ambosos países,a disputatinha de refletir-se Examinemos, porém. o argumento seguinte. 0 papel contra-revolu
num conflito entre os dois poderesestatais.O Kremlin procurou colocar a cionári@do Kremlin foi geralmenteafirmado de uma maneira negativa
liderança chinesa em sua linha através de pressãosobre o Estado chinês. Em outras palavras, os li'deres soviéticos aconselharam as forças sob sua
Peljiim foi então obrigada a retaliar, em nível estatal. influência a'terem moderação. a não aproveitarem as oportunidades.revolu-
l
170 marxismo revo]ucionáríó atua] 17]
a política do internacionalismo contemporâneo

cionárias, a apoiarem o ''mal' menor'' nos conflitos entre forças poli'ricas país em particular, ou de decidir se deve ser feito um esforço para conse-
burguesas. Num número crescente de ocasiões, porém, a liderança chinesa guir crescimento económico e progresso social tão grandes quanto possível,
não só conteve e desviou os movimentos revolucionários, como também mesmoem condiçõesde relativo isolamento de um Estado subdesenvolvi-
apoiou ativamente a contra-revolução. Veja-se o exemplo da guerra de do dos trabalhadores.É antesjluma questão de uma esfraféyü especl'f/ca
Bangladesh em 1971 . A liderança soviética teve um papel contra-revolucio- para o desenvolvimento sócio-f;onõmico num Estado dos trabalhadores.
nário no sentido 9alinista mais ou menosr:clássico,apoiando sem críticas O socialismo num país represent l uma estratégia que subordina tudo o que
a Liga Awami de Mujibur Rahman e fazendo tudo para que a guerrase ocorre no resto do mundo às necessidadesde desenvolvimento nacional.
limitasse à conquista da independência poli'rica. sem se transformar numa que é descrito como ''construção do socialismo na fortaleza principal"
revolução':socialista'',que Teriaconstitui'do uma ameaçareal à estabili- Portanto. esm estratégiacombina. inevitavelmente,o nacionalismo e a
dade do regime indiano pró-soviético. Mas Pequim deu, na realidade, ajuda messianlsmo-nacional, pois essa espécie de subordinação é nacionalista
aviva, não só poli'tida mas também militar. às forças armadas da ditadura por definição.e nenhumcomunistafora dessepaís (e não muitos, na rea-
paquistanesa.0 Irã é um casosemelhante.0 Kremlin procurou uma aco- lidade) a aceitaria. a menosque tivessesido convencido de que o país
modação com o Xá, e o Partido Tudeh, pró-Moscou, não realizou uma luta em questão. e que só ele, representava o bastião do socialismo em escala
intransigente contra ele. Mas Pequim na realidade o saudou como uma mundial. Um corolário adicional dessaestratégiaé a ''coexistênciapack'fi-
figura progressistae um combatente antiimperialista. ca" com o imperialismo, Q abandono de qualquer orientação genuína no
Finalmente, nos pai'sescapitalistas adiantados, vemos a liderança chi- sentido da revolução mundial.
nesa oferecer. com freqüência; apoio a figuras à direita do espectro pol i'rico Ora. a implementação exata dessa estratégia de desenvolvimento
burguês: Nixon; Henry Jackson. Franz-Josef Strauss, os democratas cris- depende, em qualquer momento, de várias limitações objetivas. sobre as
tãos na ltália.. os gaullistas na Fiança. Todas essasforças têm uma coisa em
quais a burocracia tem pouco controle. É por essemotivo que a realizacão
comum: o zlnti-sovíetismot-Estão todas identificadas, de uma forma ou de
prática do "socialismo num só país". na União Soviética, envolveu Q Krem-
outra, com a GuerraFria. A orientaçãoda poli'rica externachinesanos lin numa série de variações inprevisi'vais, desde a tentativa de Bukharin
últimos oito anos pareceter sido a oposição à difusão da influência sovié-
de integrar pacificamente o ku/ak no socialismo. até a coletivização for-
tica. Por isso, os líderes chineses apoiaram ativamente forças imperialistas
çada subseqtlente,'desdea lenta industrialização de 1925-27, até as espan-
e pró-imperialistas em todos os casos nos quais temeram que a vitória da tosas taxas de crescimento dos dois primeiros planos qtlinqiienals. e assim
revolução -- ou mesmo da oposição -- fortalecesse objetivamente a lide-
por diante. Essasmodificaçõesde política foram acompanhadas
por zigue-
rança soviética. Inversamente. em várias ocasiões,suas respostasmenciona-
zagues semelhantes ern política externa: o ''terceiro período". a Frente
ram inda'aosde um reaparecimentode atitudes e poli'ticas da Guerra Fria Popular. o pacto Hitler-Stálín, a ''grande aliançaantifascista". o sectarismo
da parte de governos imperialistas, especialmente Washington. Parece claro da Guerra Fria..a renovação das estratégias da Frente Popular. eté. Essas
que essesnovos casos de Guerra Fria. até e inclusive a atual intensificação
flutuações não refletem nenhuma mudançafundamental na estratégiada
da corrida armamentista determinada por Carter, são dirigidos principal- burocracia."pois o socialismo num só país e a coexistência pacífica con-
mente contra a União Soviétícai 0 Kremlin tem. portanto, de defender-se e tinuam sendoas suaslinhas mestrasde orietanção.Pelocontrário, elas
se tem envolvido num crescentenúmero de conflitos com o imperialismo,
simplesmente representam respostas burocráticas e modificações nas cir-
nos' quais Pequim geralmente apoiou os imperialistas. À luz de tudo isso, cunstâncias objetivas apor vezes, é claro, provocadas não-intencionalmente
não se poderia dizer. se tais termos podem ser utilizados, que a política
pelos efeitos da linha anterior). A aplicação das linhas de orientação funda-
soviéticaevoluiu positivamente.e a chinesanegativamente,a ponto deser mentais exige várias modificações táticas. Teria sido realmente surpreen-
esta última, hoje, palpavelmente pior? dente se não tivesse havido oscilações igualmente imprevisíveis na política
da burocracia chinesa.que vem aplicando as mesmaslinhas de orientação
Não me pareceque a questão possaser abordada dessamaneira. Devemos,
a circunstâncias objetivas muito diferentes.
em lugar disso,começarcom pontos maisfundamentais.Na raiz doscon-
flitos entre burocracias está o conceito de socialismo num só país, o princí- Ora, quais são as várias limitações à implementaçãodas políticas
pio fundamental do stalinismo como uma ideologia especi'fica da burocra- de socialismonum único país?Mencionaremos cinco, masa lista não é
cia. refletindo seus interesses materiais específicos. Essaquestão não é pura- exaustiva {simplesmentedelineia a forma geral da situação): a basesocial
mente platónica, nem puramente pragmática; isto é, não é s:implesmente e material inicial da burocracia em questão; a atitude do imperialismo para
uma questão de decidir se o rótulo "socialista'' pode ser aplicado a algum com essaburocracia; o ni'vel de atividade política social (ou mesmocons-
]72 marxismo revolucionário atua]
l a política do internacionalismocontemporâneo 173

capaz de igualar o poderio militar dos Estados Unidos (armas nucleares,


ciência) do proletariado do país dominado pela burocracia; as vicissitudes
por exemplo). A facção de Mao. por outro lado. defendia: colocar de lado
da revoluçãomundial como um todo; a capacidadeque tem a burocracia os centros de poder imperialistas, recorrendo essencialmente à luta armada
de influenciar cada um dos setoresda revolução mundial através de parti-
nos paísesdo "Terceiro Mundo:". que eram consideradoscomo os verda-
dos sob seu domínio ou controle. Se examinarmos as variações da política
deiros centros da revolução mundial; recurso à ''guerra popular" como
maoísta à luz dessescinco fatores. no que elesse relacionam com a China
veremos que elas começam a ter sentido. meio de defesacontra a agressãoimperialista,com a descentralização
si-
multânea da disposição de armas nucleares entre os Estados de trabalhado-
Depois da morte de Stálin. Mao foi sem dúvida uma das principais
res (o que significava.com efeito, que Moscouforneceria essasarmasaos
autoridades, talvez a figura suprema. entre as burocracias do partido comu-
outros Estados); um padrão de desenvolvimento económico baseadoprin-
nista em todo o mundo. As poli'tecas por ele defendidas nâo eram irracio-
cipalmente no ''investimento de trabalho" (o que significa pequenasindús-
nais. Até mesmo sobre a questãoda desestalinização,ele mantevea princí-
trias descentralizadas, com uso intensivo de trabalho); um congelamento
pio as suas coordenadas.pois seus comentários em ''Da Experiência
Histórica da Ditadura do Proletariado''e ''Do Trato Correto das Contra- salarial para trabalhadores e camponeses e uma redução do grau de privilé-
dições entre o Povo'' foram na real.idade tentativas muito mais sofisticadas giolmaterial dos burocratas, através da doutrinação {"colocar a poli'tica
de explicar os crimes de Stálin do que a imperfeita teoria de "culto da no comando") e mobilizaçõesde massacomo instrumentosparaa acele-
racão do crescimento económico.
personalidade'' elaborada por Krushev. Em 1956 ele apoiou a segunda das As raízes materiais dessas diferenças poli'tecas e ideologias não são
intervenções
do exércitodo Kremlin na Hungria(a 4 de novembro).Mas
difíceis de descobrir. pois as condições objetivas nas quais as duas burocra-
Juntamente com a maioria dos ll'derescomunistas de todo o mundo e al- l
cias estavamtentando ''construir o socialismonum só país'';,:emfins da
guns líderes soviéticos também,' havia condenado a primeira intervenção
década de 1950üegprinci'pios da décadalãde 1960 eramí$muito diferentes;
(de 23 de outubro). Tambémlutou paraimpedir uma intervençãoseme-
Quatro distinções. em particular. devemêser ressalvadas: a hostilidade
lhante na Polõnia, o que Ihe conquistou muita simpatia na Europa Orien-
tal, e não só entre as facções "liberais". pró-Gomulka. qualitativamente maior para com a China do que para com a União Sovié-
tica, evidenciada$ãpelo imperialismo@mundíal; o atraso muito maior da
Nâo há dúvidas de que, na época, havia correntes e líderes pró maoís- China no domínio sócio-económico; o@maiornl'vel da atívidade poli'rica
tas na maioria dos partidos comunistas, provavelmenteaté mesmona Rús-
de massa na China (especialmente nas cidades); as diferentes áreas geográ-
sia. Sabemos que algumas forças antes pró-Krushev nos partidos ocidentais
ficas nas quais a$ duas burocraciasdispunhamde importante influência
se estavam inclinando para Pequim, àquela época. Inversamente. sabemos
sobre os partidos comunistas locais, tendo a China pesosignificativo quase
que havia pelo menos um líder pró-Krushevno Partido Comunista Chinês.
o marechal Peng Tehuai, que fez um ataque total às políticas de Mao. no quetlexclusívamentena Ária e em certos pai'sesdo$"Terceiro Mundo" em
plenário de Lushan do Comité Central, no qual se fez um balanco do outros continentes,e oüKremlin principalmente nosepaíses
imperialistas.
'grande salto à frente' Portanto. as políticasõalternativas das facções de Krushev e Mao fluíram
logicamente das diferentes limitações àBaplicaçãoda estratégia do ''socia-
Há hoje evidências suficientes para delinear as principais diferenças
lismo num só país". No fim. a tentação de procurar solucionar essasdife-
entre as posições iniciais das correntes de Krushev e de Mao. Elas giravam
em torno de atitudes alternativaspara com o imperialismo mundial: de rençasnão simplesmente pelo debate ideológico, mastambém pelo uso do
poder estatal (''política das grandespotências"), tornou-se irresistível para
estratégias alternativas para com o movimento antiimperialísta (e. mais
ambas as$burocracias. Não há dúvida, para mim,;de que os passos decisivos
geralmente,sobre como fazer progredir o ''movimento comunista mun-
dial''); alternativas políticas militares; e políticas económicasalternativas. quanto a esseaspecto foram dados pelo Kremlin em 1960 e 1961. Portan-
to, a burocracia soviética é que tem a principal responsabilidade pela trans-
Em suma, a facção de Krushevdefendia: ampliação da déíte/vtecom o im-
formação dessadisputa num conflito em nível estatal. Moscou cortou subi-
perialismo americano, aliança com a burguesia nacional nos paísessemi-
tamente toda ajuda económica à China. retirou seustécnicos, e deixou ina-
coloniaís(inclusive seusgovernosj; menor ênfase na importância da revolu-
cabadas as fábricas que estavam construindo, desperdiçando assim grande
ção colonial em geral;maior ''consumismo''na União Soviéticae Europa (
parte do enorme investimento que a ChinaEhavia feito nelas. Essasmedidas
Oriental. combinado com maior competição tecnológica com o imperia-
lismo internacional; repetição do padrão soviético de desenvolvimento foram seguidas, logo depois, por uma redução radical até mesmo do comér-
cio normal. equivalendo a um boicote de facto da China pela União Sovié-
económico nos Estados de trabalhadores menos desenvolvidosç(istoné.
tica. Ao mesmo tempo. o Kremlin recusou-se a fornecer armas nucleares à
construção inicial de uns poucos centros gigantescosde indústria pesada);
China ou a ajuda-la a desenvolver a tecnologia para produzir suas próprias
concentração.yapenas no exércit06sovlético,nde um arsenal sofisticado.
174 marxismo revolucionário atua]
T a política do internacionalismo contemporâneo 175

irmãs. A isso seguiu-sea concentração de forças militares na fronteira sino- Nesse ínterim. porém, a burocracia chinesa estavacontinuamente
soviétíca na Sibéría central. A União Soviética até mesmo apontou mísseis alerta em relaçãoa possíveisaberturas.Com a supressãoda agitaçãoda
com ogivas nucleares para as principais cidades chinesas. cinturões indus- revolução cultural, as manobras internacionais tornaram-se mais fáceis.
trais e os centros de experiências nucleares no noroeste da China. Quando surgiram aberturas, elas nâo vieram do Kremlin. amaisuma vez,
Basta lembrar o contexto político internacional no qual essasmedi- a culpa foi de Moscou; a retirada de algumasdas forças militares reunidas
das foram tomadasparacompreenderaté que ponto constituíram crimes na fronteira com a China e uma oferta de ajudaeconómicateriam modifi-
contra a classeoperária mundial e a luta pelo socialismo.O imperialismo cado a situacãa de maneira significativa.) Essasaberturasforam feitas pelo
americano estava ocupado em construir suas bases por todo o sudeste da imperialismo, em primeiro lugar pelos imperialistas europeus e Japoneses.
Agia. Uma ampla facção do Pentágonohavia iniciado uma campanhapara que buscavamnovos escoadouros comerciais. A partir de 1971 a partici-
o uso de armas nuclearescontra a China, antes que ela desenvolvesse
a pação chinesa no comércio mundial aumentou. colocando um fim à autar-
sua capacidade defensiva. A agressãoimperialista contra a revolução vietrla- quia. Vieram em seguidaas aberturas de Nixon-Kissinger, em parte com o
mltâ estava ingressando na fase de escalada maciça, enquanto a agressão em objetivode facilitar o término da guerrado Vietnã em condiçõesfavorá-
várias formas estava sendo preparada contra outras lutas asiáticas. A pró- veis ao imperialismoamericano, mas também para melhorar as relações
pria China enfrentava uma situação económica desesperada.em consequên- a longorprazo entre Washíngtone Pequim. Os chinesesreagiramkcom
cia do colapsoda segunda
fasedo "grandesaltoà frente". Nessascondi- entusiasmo. desenvolvendo uma: nova teoria e prática para acomodar tal
ções, as ações do Kremlin indicavam que a burocracia soviética considerava reação:a "teoria dos três mundos" e a concepção,intimamenterelaciona-
a China. e nâo o imperialismo. como seu principal inimigo. da com essateoria. de que a União Soviética se haviatransformado no
Outro elemento deve ser levado em conta. No Plenário de Lushan do principal inimigo.
Comitê Central do Partido Comunista Chinês. Mao se viu em minoria con- As atuais limitações objetivas à implementação chinesa da estraté-
tr8 a facção liderada por Liu Shao-chí e Tens Hsiao-ping. Procurou então gia do socialismonum único país {hoje expressasna fórmula das ''quatro
reconquistar a liderança do partido lançando a Revolução Cutural. Mas as modernizações") são substancialmente diferentes das que predominavam
mobilizações de massaque foram iniciadas adquiriam logo uma dinâmica há vinte anos (um fator desconhecido era o grau de politização e rebeldia
própria, surgindo entre os Guardas Vermelhos alguma; tendências esquer- potencial das massasurbanas}. Não há, portanto, razões para aç},editar
distas autênticas. Urna limitação adicional foi então criada paraa burocracia que a teoria e prática de considerar a União Soviética como o "principal
de Mao, que passou a ter de levar em contado movimento entre as massas inimigo" dure por várias décadas, tal como a oposição verbal feita anterior-
chinesas e o possível aparecimento de tendências oposicionistas de esquerda mentefipor Pequim à estratégia da "coexistência pacífica com o imperia-
Se combinarmas todos esseselementos.poderemoscompreender lismo" também não durou décadas.Não há, simplesmente,basesmateriais
facilmente as razões para ai'políticayexterna adorada por Mao na década para se colocar em prática, por longo tempo, essapolítica, que era apenas
de 1960. Essa política evolui gradualmente da sua ênfase na hostilidade uma racionalização de uma situação particular. A China continua sendo
para com o imperialismo americano até umasposiçãode igual hostilidade um Estado burocratizado dos trabalhadores,como a União Soviética.
para com as duas superpotências, à medida que Mao passavaa preocupar- e a longo prazo a burocracia chinesaterá maioresdificuldadesem ''coe-
se com o perigo de um entendimento americano-soviético dirigido contra xistir pacificamente" com Washington do que com Moscou. O recurso
a China, obsessãoque não pareceter sido totalmente infundada. Ao mes- unilateral aos países capitalistas para comércio e crédito na aceleração
mo tempo, Pequim continuava a expressar hostilidade para com o imperia- da crescimento económico ameaça prejud.icar seriamente a economia
lismoFdurante aquele período, apoiando as lutas antíimperialistas como planificada.que é a basemesmado poder e dos privilégiosda burocracia
uma ''linha;f:geral" a ser contraposta à versão soviética da ''coexistência chinesa. Os burocratas iugoslavos fizeram essadescoberta há varasdécadas.
pacífica''. O ponto maisà direita a que chegouMao duranteesseperíodo e seus colegas chineses acabarão por faze-la também. Seriaiimuito mais
foi sua rejeição de uma frente única com Moscou.em defesada revolucão racional para Pequim dividir seu comércio entre os '!dois campas", tentar
vietnamita. que Ihe custou o apoio do Partido Comunista Japonêse de vá- obter dellambos créditos e ajuda. como os jugoslavosfizeram com-êxito.
rios outros partidosna Ária (o PartidoComunista-Marxista
da I'ndía.por Tal modificação na política1lchinesaexigiria. é claro, uma modificação
exemplo). A palavra de ordem, naquela época. era ''auto-suficiência correspondente na atitude de Moscou, como também aconteceu no caso da
que era::naverdade apenasuma justificativa racional do isolamento econó- lugoslávia. Mas, a longo prazo, essa modificação é do interesse também dos
mico da China, provocado pelolduplo boicote imposto por Washinton burocratasbsoviéticas.embora de ambos as lados essamodificação possa
e Moscou. ter de esperar por uma alteração na liderança em ambas as capitais.
176 marxismo revolucionário atual
] 177
a política do internacionalismo contemporâneo
Evidentemente. tais observações não implicam. denmodo algum,
qualquer justificativa para as ações e declarações contra-revolucionárias dos
África je no Afeganistão)
paramodificarmarginalmente
a relaçãode
burocratas chineses, que foram acertadamente condenadas e que a Quarta forcas. A reacão de Washington foi intensificar a corrida armamentista e
Internacional vem condenando há muitos anos. São. na realidade. exem- preparar contra-ataquesem certas partes do mundo. Mas tudo isso está
ocorrendo na moldura geral da dérente e não de uma aliança agressiva
plos primordiais de cinismo e traição burocráticos. Minha intenção, aqui,
é demonstrar que não constituem exceçõesao comportamento normal entre Washington e Pequim, contra Moscou. Na realidade e em última aná-
da burocracia; muitos paralelospodem ser lembradosentre as políticas lise. o imperialismo americano continua mais interessado na coexistencia
anuaise passadasdos burocratas soviéticos. Seria realmente um erro restrin- pacífica com a burocracia soviética, pois necessitada assistênciacontra-
revolucionáriade Moscou em áreas-chave
do mundo IEuropa Ocidental,
gir o impacto contra-revolucionário da diplomacia do Kremlin aos casosde
América Latina) onde Pequim simplesmente não tem influência. Se esse
má orientação". O apoio claro à política\hitlerista de conquistaimperia-
lista durante o pano nazi-soviético;a ajuda material {na forma de petróleo) aspecto fundamental da situação mundial se modificar. teremos de reavaliar
à invasão da Etiópia por Mussolini; as ações contra as greves dos aliados as reaçõesdas lideranças soviética e chinesa. Até agora. porém, não houve
de Moscoudurantea última décadado regimeqdeFranco{entregade modificações. e. se posso fazer um prognóstico, não acredito que tal modi-
carvão polonês à Espanhadurante as grevesdos mineiros, por exemplo); o ficação venha a ocorrer dentro em breve, pois seria necessáriauma trans'
apoio franco à ditadura de Videla na Argentina apeloKremlin e seustíteres formação radical nas relaçõessociais e políticas de forças de classena Eu'
argentinos); o apoio inicial a Lon No1contra o Khmer Vermelho, para não ropa Ocidental, EstadosUnidos ou América Latina.
falarmos do esmagamento dos levantes de trabalhadores na Alemanha
Oriental, Hungria, e Tchecoslováquia + são apenas alguns exemplos
que vão além do tipo#de política contra-revolucionária"negativa'';a que A Situação da ClasseOperária Americana
a pergunta se refere.
Resumindo, eu negariaque estejamosentrando numa nova situação Passemosagora a um assunto diferente, outra falar crucial na política
mundial. A crise económicada décadade 1970 tcve efeitos políticos
de guerra fria, na qual o imperialismo, mais ou menos aliado a Pequim.
muito diferentes nas várias regiões do imperialismo. Vimos uma radicali:
estivesseBpreparando um movimento#agressivo t:entra a União Soviética
zação profunda da classe operaria em vários países da Euíopa Ocide,n.tal
e no qual a burocracia soviética teria. portanto de defender-se.tornando-se
mais "antiimperialista". É certo que a weró/agechinesaé atualmente mais e mais geralmente. uma modificação básica para a .esquerdana política
da maioria dos Estadoseuropeus.Com o colapso das ditadurasgregae
reacíonária do que a russa. Mas suasanões -- fora do sudesteasiático --
foram deãmenos$valia ao Imperialismo do que a@política da burocracia portuguesae a crisee liquidação do franquismo,a..Euro.pa
.capitalista,pela
primeira vez em cerca de meio século. está agora livre de ditaduras autori-
soviética, essencialmente parque são maislífracos de recursos materiais. táriasdedireita. '' l='..F=. .. . ..l

z:Hi!
menoscapazesde agir fora de suasfronteiras.a(Háexceções,
é claro: a
criminosainvasãodo Vietnã. o treinamentodos soldadosde Mobutu, a
ajuda às forças pró-imperialistas em Angola.l O Irã é um caso em foco. A
atavacolaboração comercial, industrial e técnica de Moscou com o Xá e â
rejeiçãodo partido Tudeh de desempenharum papel agressivona luta
11
ãÜü:'i:==::iÍüuzé
contra ele certamente ajudaram o monarca muito mais do que as saudações
traiçoeiras eHexageradas
que Pequim Ihe fez, como um ''combatente anti-
imperialista". Afinal de contas, havia muito pouca coisa que Pequim podia
realmente fazer$no irã, o que não é verdade emárelação aã'Moscou,apesar
de seu vocabulário mais prudente.
A8tendência básica na anual situação mundial, ao que me parece, não
é no sentido de uma nova guerra fria de granidesproporções entre Moscou
e Washington, mas de uma continuação:8da ''coexistência pacífica'' que
vem sendo seguida há várias décadas. Nesse contexto, subsequente ao
enfraquecimento do imperialismo americano após a sua esmagadora derro-
ta no Vietnã, o Kremiin pôde tomar algumasiniciativas,em particular na
179
marxismo revolucionário atual ll a política do internacionalismo contemporâneo
178
l
l
l

l
aililHli:':Hllilfl'T:lTI)1111
;:
revisõesrelacionadas com a evolução da situação objetivo. A hegemo-
nia dos EstadosUnidos no mercadocapitalista mundial foi. na.!ealidade.
\

tl confirmadas. com o tempo.

$ iHÜãiqã%iiEalxi:iÍ
trabalhista americano podem modificar a situação?
l
111 Vou comecar com um comentário muito geral. Os diferentes efeitos da
111
111
HI
1!

11
Ü
11
11
-a menor dúvida de que a chavefundamental paratoda a situaçãopolíti-
ca está precisamente n9 baixo nível de consciênciapo//'t/ca de classedo
11 proletariado, exatamente o fator mencionado na pergunta.
il Historicamente. eu manteria o prognóstico feito em "Para Onde Vai
+; a América?". A situaçãocomeçou.de fato. a modificar-se.emboravices
tenham razão ao dizer que ela não se modificou tão rapidamente quanto
11
esperávamos. Em última análise. porém. creio que se compreenderá que as
RI modificações começaram quando o capitalismo americano perdeu. sua post'
11 ção de liderança na produtividade industrial. O capitalismo oa Alemanna
Ocidental tem hoje o primeiro lugar nessesetor decisivo, e mesmo o capita'
11
cismo japonês alcançou os Estados Unidos, pelo menos temporariamente.

l
marxismo revolucionário atual 18]
180 a política do internacionalismo contemporâneo

Auto-lide e a grevedos motoristas de.caminhão de Minneapolis. Provavel- O segundofalar está, sob muitos aspectos,relacionadocom o pri'
mente não será exagerodizer que os quadros dirigentes do Partido Comu meiro: é a total identificação, no espírito dos trabalhadores americanos.do
nisto foram indispensáveisna organizaçãodos sindicatosque passaram a comunismo com a repressão e opressão stalinista. A total ausência de qual-
constituir o cio. Em grandeparte, o sindicalismoindustrial tornou-seum qt;er alternativa de esquerda tem nos Estados Unidos efeitos muito diferen-
fenómeno de massanos EstadosUnidos em conseqüênciado papel dos tes dos registrados na maioria dos paísesda Europa Ocidental. Devido a
marxistas. Isso também ocorreu na onda de grevesde 1946-47, que envol- esserompimento de continuidade, a esquerda organizada nos Estados Uni-
veu um número ainda maior de trabalhadores do que as grevesda década dos. inclusive o Partido Comunista e o que resta da social-democracia disto
de 1930. Nas lutas de pós-guerra. surgiram significativas correntes de es- é. os social-democratasque não se tornaram membros do Partido Democra-
querda nos sindicatos.em oposiçãoà linha do Partido Comunista,forças ta) não éi.!maior.em termos absolutos.,do que a extrema esquerdaem
que haviam chegado a certas conclusões. partindo da gritante colaboração pal'sescomo a Espanha. Em termos relativos, é mesmo menor. clara. A
de classe praticada pelos stalinistas durante a Segunda Guerra Mundial. classedominante em todos os paísescapitalistas adiantados procura iden-
tificar o socialismocom o que existe na União Soviética.bem consciente
Essa ponderável presença dos radicais políticos nas lutas da classe operária
americana tem raízes muito mais profundas do que muitos pensam. Men- de que a sociedade soviética há muito perdeu sua atração para as massasde
cionei as duas ondas anteriores de lutas, mas podem'iair ainda mais longe e trabalhadoresno Ocidente.(Num certo sentido, foi essaa maior contribui
discutir o papel da lww {lnternacional dos Trabalhadores do Mundos na ção do stalinismo para a preservaçãodo capitalismo.) Na maioria dos países
criacão do movimento sindical americano e do Partido Socialista de Eu- da EuropaOcidental,porém. há partidossocialistas
ou comunistas
de
gene..Debs, um dos poucos líderes da social-democraciaüque se opuseram massaque não se identificamtotalmentecom a UniãoSotléticae em
à Primeira Guerra Mundial. Debs foi detido f)elas suasoplnioes contra a muitos pal'sesa extrema esquerda conseguiu estabelecer-secomo uma pre-
guerra e recebeu mais de um milhão de votos na eleição presidencial de' sençaantíburocrática na vida política nacional.
1920, numa campanha que realizou de sua cela na prisão. Isso não ocorre nos Estados Unidos. Devido à ausênciade uma es-
Não é verdade, portanto, que a classeoperária americana não tenha querda significativa, e porque boa parte da esquerda organizada que existe
uma tradicão socialista. ou que seu proletariado tenha sido sempre estra- (ou seja. o Partido Comunistas continua a sustentar que a União Soviética
nho ao radicalismo político. O que aconteceu foi que a repressãoassociada é realmente um modelo de democracia socialista, as massasamericanas
à Guerra Fria e ao macarthismodestruiu essecapital politico quaseque tendem a ser não só anti-stalinistas. mas também antlcomunistas. Para a
totalmente. Essaquebra na continuidade expressou-sede uma forma física: classeoperária americana. o comunismo simplesmente significa a Rússia
socialistas. comunistas e radicais foram expulsos dos sindicatos aos milha de Brejnev. Não só não existe um modelo alternativo fora dos Estados
res e dezenas de milhares; as máquinas dos sindicatos foram expurgadas Unidos. mas não há nem mesmo um partido de massaque se intitule so-
dos radicais, e os simpatizantes das organizações ou das idéias radicais, que cialista ou comunista. com o qual os trabalhadores americanosse pudessem
eram sem dúvida centenasde milhares, foram intimidados e silenciadas identificar. como representativode seus interesses.O resultado é que o
pela ação rigorosa contra eles. socialismo é muito menos atraente para os trabalhadores do que foi nas
Em conseqüência. quando a situacão política geral começou a se mo- décadasde 1930 e 1940 -- e é difícil ter uma radicalização política séria do
dificar: na década de 1960,icom o aparecimento do movimento dos direi- proletariado se as massastrabalhadoras consideram como execrável a pró-
tos civis e as primeiras manifestaçõescontra a guerra do Vietnã, a presença \
pria noção de socialismo. Uma das conseqtlências disso é reforçar a falta de
dos radicais na classe operária era pequena, e sua influência nos sindicatos política de classe no sentido organizacional. Na ausência de qualquer
virtualmente?nulalsOs poucos ativistas socialistas que permaneceram no alternativa socialista. mesmo no sentido mais amplo. os trabalhadores ten-
proletariado não estavamnem mesmoem posiçãode falar sobreas ques- dem a ser atraídos para os vários substitutivos da ação de classe. E essa
tões políticas discutidas pela sociedadeamericana em geral, já que a caça uma das razõesda enorme influência da politica do ''mal menor'' nos Esta-
às feiticeiras durou maistempo no movimento sindical do que em qualquer dos Unidos. e do fenómeno concomitante da atração da ala esquerdado
Partido Democrata.
outro selar da sociedade.Nesse;;entido é que me parececornetofalar de
uma destruicão da tradição socialista na classeoperária americana.A re- Há. ainda um terceiro favor que não deve ser subestimado. Sob mui-
cuperação dessatradição, que é essencialpara que exista uma radicaliza-. tos aspectos a classe dominante americana é politicamente menos sofistica-
ção política autêntica. envolveum procés$Qmais longo do que prevíamos da do que a européia. Ela tende. com frequência. a ser mais brutal e cínica,
há dez ou quinze anos. E esse,portanto, o primeiro ponto: subestimamos não havendo dúvida de que o pessoaldos partidos bu'rguesesé em geral
a amplitude dessa quebra de continuidade e seu impacto. menos competente do que o pesco?l europeu. (Isso é provavelmente outro
183
a política do internacionalismo contemporâneo
marxismo revolucionário atua]
182
tem maiores reservas no mundo capitalista, e é provável que tenhamos
tendências a subestimar os efeitos dessasreservas.

tercdros partidos burguesesparecemuito difícil.

E difícil responder a essapergunta sem examinarmos em detalhe muitos


problemas específicos da história americana. Vou limitar-me, portanto. a
uma observaçãogeral. que me levará a um quarto fator em relaçãoao
atraso no despertar pol ítico do proletariado americano.
. Primeiro. porém. eu diria que sua avaliação da .continuidade das
instituições democrático-burguesas nos Estados Unidos é bastante ousada.
Não nos esquecamos
de que a escravidãocontinuou a existir nos Estados
Unidos durante cerca de: 75 anos depois da vitória da revolução, e que a
classe escravibta era o componente preponderante do bloco dominante,
durante a maior parte de tal período. A primeira revolução americanafez,
na realidade. as menores modificações nas relações sociais promovidas por
qualquer granderevolução burguesana história mundial, e deixou intacta a
mais poderosaclassedominante não-capitalista. Foi precisamentepor essa

ÚãKiqifii:iii:
iiE:is::::i;üu
i84 marxismo revolucionário atu a] a política do internacionalismo contemporâneo 185

nos esqueçamos que milhões de dólares em propriedade privada. na forma Entre os setores oprimidos da classe operária, como os negros. por exem
de escravos. foram expropriados sem indenizaçãa,que toda uma série de
plo, a taxa de abstenção ultrapassa sempre os 50%n.Isso expressauma outra
relações sociais no Sul escravista foi violentamente derrubada. e que duran- grande contradição da vida poli'tida americana. É certo que os trabalhado
te onze anos após a guerracivil os Estadossulistas.e=nmaioria, foram go- res nos Estados Unidos têm um nível de consciência política de classein-
vernados por coalizões nas quais ex-escravostiveram um papel nada despre- ferior ao da maioria dos trabalhadores europeus. Mas, precisamente devido
zível, tendo o governo federal sido colocado sob a influência da ala radical
à falta de um partido de massa da classe operária. o proletariado america-
do Partido Republicano.que, incidentalmente,teve o apoio entusiástico
de Karl Marx. no tende a ter menos ilusões eleitorais do que o europeu. Em minha opi-
nião. talvez a conseqüência mais importante da constante traição às pro-
Essa segunda revolução americana foi na realidade seguida de uma messaseleitorais -- a comecar com a çampanha de ''paz'' de Lyndon
contra-revolução,uma espéciede restauração,que foi também uma das
Johnson nas eleições de 1964 e estendendo-se até a crise de Watergate e
mais completas e violentas da história burguesa. Todos os governos dos Es- renúnciade Nixon -- tenha sido o fato de a populaçãoamericanater-se
tados antes.escravistasforam novamente derrubados, os republicanos ra- desencantadonão apenascom o sistema bipartídário, mastambém com
dicais foram afastadosde seuscargos no poder do governofederal, e final- a po//'f/ca e/e/fora/ em s/. Nâo há dúvida de que há um lado negativo nessa
mente destruídos. Nos Estados sulistas, essacontra-revolução foi imple-
atitude, pois, o resto permanecendoconstante, ela tende a agravara falta
mentada. em grande parte. por uma milícia terrorista contra-revolucionária
de inclinação dos trabalhadorespara a participação poli'teca,dado que
que desfechouum verdadeiroterror branco no interior: a Ku Klux Klan. outro fato da vida política americanaé ciue a poli'tica identificou-se,na
organização existente ainda hoje. As leis aprovadasdurante essacontra- b
mente das massas.com poli'rica 8/ê/fora/. Mas há também um lado positivo:
revolução para restabelecer a opressão da população negra foram as mesmas quando os trabalhadores começarem e reagir politicamente. como sem dú-
leis que passarama ser atacadase foram finalmente revogadaspelo movi- vida ocorrerá. à inflação crescente, aos aumentos de preços das habitacões
mento de direitos civis da décadade 1960. um séculodepoisda guerra ao permanente desemprego em massa. à erosão dos padrões de vida etc.
civil. A realidadehistórica é, portanto, maiscomplexado que a pergunta
pareceindicar. terão maior tendência do que os trabalhadores europeus a escolher formas
de ação política direta não baseadasexclusivamente na poli'rica eleitoral
Concordo, porém, em que o sistemapolítico americano.dada a Isso tornará»muito mais difícil às organizações reformistas controlar a poli-
sua basefde força económicae as reservasde que estamosfalando. de- tização dos trabalhadores americanos,já que Q recurso rigoroso à poli'teca
monstroujuma flexibilidade e um êxito muito maioresdo que os sistemas eleitoral é uma das maiores fontes da hegemonia reformista. Assim. asre-
políticos das burguesias européias. Nesse sentido. a classe capitalista ame servaspolíticas da classe dominante americana.embora sem dúvida exis-
ricana dispõe realmente de grandes reservaspolíticas, das quais se valeu
tam. podem ser mais facilmente superadas do que as menores reservas po-
livremente. ,A coalizão forjada por Roosevelt em torno do Partido Demo- líticas da burguesiaeuropéia.
crata, na décadahde1930, é o mais importante exemplo recente disso. O
Há, porém, um importante elemento de verdadeno que você díz
New Deal". pode ser consideradocomo a versãoamericanada Frente
masque eu formulada de maneira um pouco diferente. É esseo quarto
Popular. não sendolpor acaso que, enquanto a versão européia implicava
obstáculo de que falava. e que pode ser considerado como técnica organi-
UM b/oco entre os partidos burguesese proletários no qual os primeiros
zacional ou talvez institucional. Refiro-me às condições práticas em que se
tinham a hegemonia poli'teca. a versão americana compreendia a dissolução
realizam as eleições americanas e à estrutura do sistema parlamentar dos l
poli'tica do movimento sindical e sua integraçãono principal partido da }

burguesia. EstadosUnidos. Os partidos palítlcos Consistemde máquinasenormes.


com um monopólio quase que total de acessoaos meiosde divulgacão.Os
Estarão) essas reservasvpoli'tidas desaparecendo juntamente com as gastos exigidos pelas campanhas eleitorais são astronómicos. apesardas
reservaseconómicas? Gostaria de chamar a atenção para um fato muito
reformas" em consequência de Watergate. As possibilidadesde fraude e
impressionante. Desde a guerra do Vietnã e a crise de Watergate, todos os
levantamentos de opinião pública nos EstadosUnidos indicaram um decll'- manipulaçãodos eleitores são praticamente ilimitadas. Os distritos legisla-
tivos são estabelecidos de tal modo que grandes números de eleitores exis-
l
nio notável na confiança pública no sistemabipartidário. Essadecepçãose \

tem até mesmo nos menores distritos. Finalmente. as eleições são estrutu-
expressou num comparecimento decrescente nas eleições. Apenas cerca de radas numa base estadual. até mesmo as eleições presidenciais. O resultado
50% dos eleitores votam nas eleiçõespara g Congresso.taxa essaque deve
de tudo isso é que somente uma iniciativa maciça, cobrindo a maior parte
ser uma das mais baixas no mundo imperialista. Mesmo nas eleições pre:
do território nacional e muito bem financiadas. tem qualquer esperançade
sidenciais. o comparecimentoádos eleitores raramente ultrapassa 65%. desafiar seriamenteo sistema#bipartidário.O fenómeno que vimos na
186 marxismo revolucionário atua]
T
a política do internacionalismocontemporâneo 187

Franca. Espinha ou Itália. onde a extrema esquerdafoi capazde provocar


na Europa Ocidental. O movimento trotskista fez provavelmentemais pro-
um impacto significativo na poli'tida eleitoral nacional.é mais ou menos
gressona correçgo dessadeficiência do que qualquer outra tendência do
impossível nos Estados Unidos. E até mesmo muito improvável que pudes- movimentogoperário. mas ainda estamos muito longe de uma verdadeira
se haver uma repetição da experiência do antigo Partido Socialista Ameri-
solução. A dinâmica da luta de classesjaponesa ainda é. em grandeparte.
cano, que começou pequenoe aos poucos aumentou sua votacão, até
atingir certo grau de significação nacional. um território não mapeado para o movimento revolucionário internacional.
E possível, porém. citar pelo menos alguns dos problemas especl'focos
Isso tem várias conseqilências importantes. sendo que a mais crucial
que temos de enfrentar. Inicialmente, a expansãodo imperialismo japonês
é que a única força com potencial suficiente para contestar o sistemabipar-
desde a Guerra da Coréia foi espetacular. De forma ainda mais notável que
tidário, a médio prazo. é o movimento sindical organizado. Isso nos leva de
o imperialismo alemão, a burguesia japonesa realizou pacificamente grande
volta ao ponto de partida: o inl'cio da radicalizaçãoe politização do movi-
parte do que não conseguiu realizar militarmente na SegundaGuerra Mun-
mentoSsindical americano e o aparecimento eventual de uma forte ala es-
dial, tornando-se a potência dominante na vida económica de amplas áreas
querda digna de crédito e dotada de princípios, suficiente para agir com
da Asia. O Japão é hoje um associadocomercial da Austrália mais impor-
independência no domínio político e pressionar por um rompimento
tante do que a Grã-Bretanhaou os Estados Unidos. O capital japonêsâtra-
com o Partido Democrata. Nisso reside a chave para a formação de um
üessou o Pacífico e conquistou uma posição:#significativa no mercado
partido trabalhista de massanos Estados Unidos, que, pelos motivos men-
americano.atingindo também o México ejo Brasil. Emlgeral, podemos
cionados, provavelmente seria muito mais radical e militante. e muito
dizer sem exageroque o capital japonês dispõe hoje de8posiçõesde poder
menos reformista. do que os partidos proletários de massana Europa Oci-
económico no mundo que ultrapassam àté mesmo os sonhos dos senhores
dental.. A lei de desenvolvimento combinado e desigual pode, então. ter
belicistas daÊépocado auge do seu poderio militar. com a excecão de sua
uma notável confirmação. Os trabalhadores americanosterãoÊgastomuita incapacidade de controlar o mercado chinêsi:Imãs isso resulta. é claro. d3
mais tempo para chegar à consciência poli'teca e para organizar o seu pró-
revolução chinesae não da competição de outras potências imperialistas.
prio partido. Masquandoo fizerem.essepartido crescerámuito maisde-
Devemos notar. porém, que muitas dessas posições são altamente
pressa e se chocará multo mais radicalmente com a sociedade burguesa do
vulneráveis, fato geralmente ignorado pelos analistüs ocidentais; freqt)ente-
que os partidos da classe operária européia. Não nos esqueçamosde que o
mente influenciados pelo ciúme ao estudar o Japão. A estrutura financeira
proletariado americano continua sendo o mais poderoso. e o maior. em
todo o mundo. de algumasdas principais multinacionaissob controle japonêsé bastante
precária. Segundo certas informações. a Mitsublshi, a segundamaior em-
presa comercial e corretora financeira do Japão, estaria ameaçadade falên-
Japâo cia se apenas um de seus principais projetos estrangeiros fracassasse. (De-
vemos notar, de passagem, que um dos maiores projetos está no Irã.l Essa
debiiidadejlresuitaem parte do financiamento do crédito e do investimento
0 segundo ou terceiro mais importante país imperialista, o Japão. tem um
atravésde inflação crediü'cía, que foi imposto à indústria japonesade põs-
papel no sistema mundial de poder político burguês que parece um enigma.
guerra durante a reconstrução, sob a ocupação americana, quando muitos
As lutas do movimento operário japonês são em grande parte desconheci-
das no Ocidente. Possivelmentepor motivos culturais e linguísticos. nâo há .1 dos velhos trustes foram desmembrados, pelo menos segundo a leí.:'Em
muito intercâmbio de experiência.ou diálogo teórico, entre o proletariado parte resulta também do espantoso:ritmo de crescimento económico. que
japonês e o resto do movimento internacional. Terá-a Quarta Internacional superou os processos normais de acumulação de capital na década de 1960
e princípios da década de 1970.
conseguido superar esseisolamento relativo, em proporções significativas?
Politicamente, o;Estado japonês foi impedido, por vários, fatores, de
Concordo que um dos principais obstáculos,no caso. é o problema cultural desempenharum papel correspondente ao seu vigor económico. As dificul-
e lingtlístico. Essabarreira opera em ambas as direções. elabora exista um dades são, no casa. semelhantes às que teriam sido enfrentadas peia Alema- ÍI

nha Ocidental se tivesse sido forçada a resolver sozinha os seus problemas.


maior número de pessoascapazesde ler l I'nguaseuropéias no Japão. do que
A burguesia alemã ocidental teve a boa sorte, em parte graças às escolhas
europeus que saibam ler o japonês e sigam os acontecimentos políticos,
económicos e sociais daqueledpaís.Somente num campo -- o da ciência inteligentes de''seus líderes poli'taCOS,ndenão ser obrigada a operar inde-
pendentemente, mas foi capaz de operar através do Mercado Comum e de
económica -- onde há uma escola japonesa com caractere'éticaspróprias, a
produção intelectual daquele país tornou-se razoavelmente bem conhecida todas as suas instituições. Estas foram estruturadas de modo a permitir
que o capitalismo alemão desempenhasseum papel significativo, apesarde
188 marxismo revolucionário anual a politica do internacionalismo cor.temporáneo 189

seu grande descrédito aos olhos dos povos da Europa. O que teria parecido As condiçõesdo movimento trabalhista japonêstambém sãocontra-
uma hegemonia alemã clara. foi disfarçado por um certo equilíbrio e asso- ditórias. De um lado, o movimentosindical estábem organizadoe é sem
ciação entre Bonn e Paras.O Japão não pôde operar dessamaneira no leste dúvida mais politico do que o movimento americano. Os partidos de massa
da Afia, pois não teve associadosque desempenhassem o papel da França, da classeoperária, os partidos socialista e comunista, têm grande peso na
Itália e Grã-Bretanha. no caso da Alemanha Ocidental. Procura-se,agora. vida política, mais do que em muitos pai'Seseuropeus. Ao mesmo tempo
criar uma espéciede Mercado Comum na Ãsia, constitui'do do Japão. Co- esse movimento, que parecia tão fi)deroso há alguns anos. especialmente
réia do Sul, Hong Kong, Formosae. possivelmente,as Filipinas. Essafor- durante o augeiido crescimento económico, parece agora cada vez mais
mação, porém, teria mais a aparência de uma rede de satélites em torno .do desorientado e desequilibrado. Há, sem dúvida, muitas razões para.isso,
Japão do que de uma liga de associadosmais ou menos em pé de igualdade. a maioria das quais aínda$não foram totalmente compreendidas. Quero
Devido às experiências da Segunda Guerra Mundial, a resistência ao impe- Indicar, porém, algumas das peculiaridadesPdomovimento operário japo-
rialismo japonês continua sendo um fator poderoso na consciênciadas nês. A:$principal força das organizações de classe, inclusive os sindicatos.
massasdo leste e sudeste da Asma,e isso, na ausência de um disfarce do tipo o Partido Comunista e o Partido Socialista, está no enorme setor público.
Mercado Comum. contribuiu para limitar a força política do Estado japo- Por outro lado, muitos dos conglomerados,que em certos ramos da indús-
nês, fora de suas fronteiras. tria são os maiores do mundo.: são organizados por sindicatos de compa-
nhias que permaneceramfora das grandeslbatalhasde classedos últimos
Outra dificuldade enfrentada pela classedominante japonesaem de. anos. Isso nem sempre ocorreu. Nossoscamaradas japoneses observam que
sempenharum papel internacional compatível com a sua força económica o ponto marcanteocorreuem fins da décadade 1940 e princípios da dé-
está na resistência interna à militarizaçâo. O povo japonês foi Q único no cadas:
de 1950, quando várias derrotas importantes foram sofridas por
mundo a sofrer o holocaustonuclear,e issocriou um espl'ritoantimilitaris- alguns .dos sindic.alas industriais:i Mas hoje o padrão predominante é o
ta que atou as mãos da classedominante,em proporçõesmuito maiores seguinte: significativa força operária no $etor público, relativa fraqueza no
do que em qualquer outro país imperialista.
setor privado. Isso cria o paradoxode um movimentoque parecemais
Em suma, portanto, o papel japonês no mundo caracterizou-sepor forte no papel-: e naseleições- do que realmenteé nasfábricase ofici-
três aspectos básicos: enorme força económica e industrial. limitada nas, em escala nacional.}:Na realidade, a classe operária japonesa é menos
influência política incompatível com essepoder económico, e uma quase capaz de resistir aos Mitsuis e Mitsubishis do que seria de esperar
total ausência de qualquer força militar. Isso. porém. não significa que o Intimamente ligado a isso está uma das mais estranhas características
Estado japonês seja. em si, fraco. Pelo contrário; por várias razões históri- da estrutura industrial do lapão, um fenómeno que tivemos grande dificul-
cas. a menor das quaisnão é a maneirapelaqual o capitalismosurgiu ini- dade em compreender totalmente: o estranho sistema de antiguidade que
cialmenteno Japão,o Estadodesempenhou
um papelmaisativo do que predomina nas empresas gigantes. De acordo com esse sistema, os diferen:
em qualquer outro país imperialista. na influência, directo e controle dos ciai$ de salários não se baseiam nos níveis de habilitação ou na produtivida-
assuntoseconómicos e monetários. Em vários setores;= comércio interna- de, mas simplesmente no tempo de serviço na companhia. Essesistema de
cional, por exemplo, tendo o petróleo como casoparticular -- o governo antiguidade também implica uma estrutura peculiar de segurança de em-
japonês apoiou suas empresas privadas de maneira muito mais decisiva e prego, na qual os trabalhadores estão permanentemente ligados a determi-
vigorosado que qualquerdos governosda EuropaOcidental.Uma das nadas firmas. Em conseqilêncía, a classe operária jap.onesa se situou entre
razõespelas quais as companhiasjaponesaspodem na 'realidadetentar as menos móveis do mundo nos últimos trinta anos, e isso por sua vez
superar os americanosno setor de computadores.para citarmos outro criou obstáculos à integração de classe.já que os trabalhadores são estirou
exemplo é a existência#de
um programamuito intensivode ajudaestatal lados, de forma material, a se identificarem com firmas específicas,e não
à pesquisae ao desenvolvimentoprivados.(Se conseguirãoêxito, é outro com a classecomo um todo. O que não é fácil decompreenderé por que
problema.} O Estado também desempenhouum papel bastanteativo na essesistema não prejudicou seriamente a intensificação da consciência
limitação dos aumentos salariais, um dos fatores que alimentaram a expan- política de classe;lem sido, porém, um obstáculo formidável ao desen.
são económica. Finalmente. depois da derrota dos Estados Unidos na volvimento daquilo que os franceses chamam de "lutas sindicais inter-
Indochina e da diminuição da capacidadeda classeamericanade intervir profissionais'': Em outrasqpalavras.:
fortaleceu o aspecto corporativista,
diretamente em outros pal'ses,em particular no sudesteda Àsia, a influên- particularista, das lutas sindicais, e introduziu divisões profundas no movi.
cia política de Tóquio estáaumentandonaquilo que é consideradocomo mento sindical. A menos que essasdivisões sejam superadas, seria difícil
sua "esfera de influência'' adequada. conceber uma greve geral por reivlndicacões económicas, por exemplo
190 marxismo revolucionário atua! 19]
a política do internacionalismo contemporâneo

Paradoxalmente. porém, essadivisão seria um obstáculo menor a uma do mundo entra em conflito com o conceito de unidade do proletariado
greve geral po/i't/ça. mundial e representa uma concessão às noções maoístas dos "três mun-
Estas são algumas dasltpeculiaridadesda formação social japonesa dos". Como respondea isso?
que ainda não foram explicadasde maneira adequadapelas marxistas. Há
outras. ainda. O Partido Socialista japonês.por exemplo, foi o único parti- Devo admitir que sempre considerei tal acusaçãocomo baseadaprincipal-
do social-democrata no..imundo com uma tendência maol'sta total. Sua mente na má fé. e não em objeções políticas sériasà nossaanálise. Quando
linha política segue hoje. de perto, a dos partidos eurocomunistas. Durante falamos dos três setores da revolução mundial, falamos das diferentes tare-
umplongo período. o partido socialista teve posições formais à esquerda do fas estrafég/cas enfrentadas pelo proletariado nas três áreas mencionadas na
pergunta. Essadiferenciação das tarefas estratégicasremonta não a 1963.
partido comunista; a prática dos socialistas, porém, foi classicamente social-
democrata. Essacontradição entre as palavrase os atos está sendo resolvida l mas ao próprio Programa Transitório. o documento-chave do congresso de
também da maneira clássica, enquadrando-se a verborragia antes esquerdis- criação da Quarta Internacional, em 1938. Mostra-se,ali, que nos países
taena prática reformista. Os partidos dos trabalhadores, especialmenteos imperialistasexiste uma dinâmica da revolução proletária no sentido "clás-
socialistas. tiveram uma oportunidade excelente de derrubar Q Partido sico" da palavra: Nos países capitalistas dependentes. o que está na agenda
Democrático Liberal. que vinha governandohá mais de trinta anos.quando é um processode revolução permanente pelo qual o proletariado. apoiado
irrompeu o escândaloda Lockheed. Mas essaoportunidade foi deliberada- pelas massascamponesas, deve6realizar as tarefas da revolução burguesa,
mente perdida: o que constitui uma das razões da atuaÇlconfusãoe deso- mas só o pode fazer conquistando o poder estatal, isto é. estabelecendoa
rientação do movimento dos trabalhadores. ditadura do proletariado, e derrubando as relaçõesde propriedade capita-
Finalmente. uma das características mais surpreendentes da evolução listas também. Nos Estados burocratizados dos trabalhadores,o proleta-
da vidqfpolítica japonesasnosj;últimos 15 anos foi o retumbante fracasso riado enfrenta as tarefas de uma revolução polítlcaájantiburocrática, que
do movimento estudantil radical- Na décadade 1960 essemovimento foi, são distintas. em qualidade, tanto das tarefas da revolução social proletária
provavelmente.nomais poderosos
do géneroem todo o mundo, e teve as quanto das tarefas da revolução permanente. Essaespecificidadede tarefas
maiores oportunidades de estabelecerelos reais com o proletariado. provo' nos três setores só pode ser negada se rejeitarmos a teoria da revolucão
cando com isso umamodificação na relação de forças entre reformistas e permanente ou a análise trotskista da natureza da URSSe de outros Esta-
revolucionários,.'lna própria classe operária. Mas. emttlugar disso. o movi- dos burocratizados dos trabalhadores. ou ambos. SÓ no nl'vel da maior
mento evoluiu num sentido espantosamentesectário. fragmentando-seem abstração pode-se afirmar a sério que os trabalhadores enfrentam tarefas
facções paramilitares que finalmente iniciaram campanhasde ataquesfísi- substancialmente idênticas e realizarão essastarefas substancialmente da
cos mútuos.áCom isso, a extrema esquerda degenerou no que só pode ser mesma maneira nos Estados Unidos, t'ndia e União Soviética.
chamado de uma quadrilha belicosa. que praticava não só espancamentos e A questão mais interessante é como a unidade subjacente do prole-
intimidações, mas também assassinatosnos grupos rivais de ativistas. O tariado mundial é afirmada atrairés desseprocessode revolução mundial.
setor japonês da Quarta Internacional foi o único grupo esquerdista de que ocorre simultaneamente em três setores. No caso há dois aspectos fun-
proporções significativasüque ficouafora desseilprocesso.e o condenou. damentais. Primeiro. as tarefagey)ecl'f/cas em cada um dessestrês setores
Mais uma vez. as razões dessaevolução permanecem obscuras. e a sua ex- só podem ser resolvidasse uma precondição comum for satisfeita: em todos
plicação é sem dúvida uma das tarefas mais importantes dos marxistas re- eles. o proletariado deve tomar o poder e estabeleceruma ditaduraijdo
volucionários no Jap.ãode hoje, proletariado autêntica, o que significa um Estado governadopelas normas
da democracia socialista. Segundo, a tarefa mais básica enfrentada pela
humanidade como um todo -- ou seja. a criação de uma sociedade socialis
Três Setores da Revolucão Mundial ta. sem classes=--só pode ser realizada em escalamundial Há, portanto.
uma integração progressiva das tarefas especificas e tarefas gerais. através
É particularmente adequado concluir essadiscussão da evolução da.políti- do processo mesmo daiprópria revolução mundial. Mas isso não significa
ca mundial com algumasperguntassobre a Quarta Internacional.Vamos absolutamentea formulação de um ultimatismo abstrato, literário, em rela-
começar com um ponto analítico geral'A maioria das resoluçõesda.QI ção ao processoreal da revolução mundial. Significa que deve haver uma
desde 1963 falam de "três setores da revolução mundial'', os países capita- integração rea/ das tarefas no curso de um processo revolucionário. que
listas adiantados. os Estados burocratizados de trabalhadoresi;eos países assumea forma de uma tomada de poder em determinados países. Lembre-
capitalistas dependentes. Formulou-se a crítica de que essetipo de divisão mos que a oposição de Trotski à estratégia do socialismo em um sõ pais
192 marxismo revolucionário anual a política do internacionalismo conten)porâneo 193

nada tinha em comum com a idéia absurda de que os trabalhadores não Portugal, na Espanha-- antes de ter efeitos;limportantes na Etiópia, Eri.;:
podem conquistar o poder num só pal's,mesmo um país relativamente tréia, Zimbabwe e Namíbia. Os acontecimentos de maio de..1968;.na
atrasado. ou com a noção igualmente absurda de que a tomada do poder França tiveram ecos profundos naiTchecoslováquia,e seus efeitos.na
tinha de ocorrer simultaneamentenuma série de pai'ses.Pelo contrário. a lugoslávia não foram totalmente diferentes dos efeitos registrados no resto
teoria da revoluçãopermanenteargumentaprecisamente
que a tomada da Europa capitalista. Não há nenhuma lei objetivo segundo a qiial uma
do poder deve ocorrer pai's por pai's, de acordo com as diferentes tarefas e revoluçãocolonial só pode difundir a outrosdpal$es.;semicoloniais,
ou
condições em cada Estado, mas que o processo revolucionário só pode ser uma revolução poli'ticaüsó se pode estender a outros Estados burocratiza-
cancluldo através da extensão e integração continuada das tarefas da cons- dos de trabalhadores. ouüumanrevoluçãoproletária só se pode estendera
trução socialista.Finalmente,a unidade do proletariado mundial também outros pal'ses imperial iscas.
é afirmada no curso do processoda revoluçãomundial pela un/Jade de A unidade do proletariado mundial determina, portanto, a interação
seus /nreressesc/e c/asse.Nenhuma luta revolucionária travada por nenhum internacionalde todos os processosrevolucionários.talvez de maneira
proletariado em nenhum dos três setores é contrária aos interesses da classe dessincronizada e em graus variados. E por essa razão, mais do que qual-
operária internacional como um todo, nem deve ser subordinada.:retardada quer outra, que a unidade subjacentede interessesdo proletariado mundial
ou sufocada em nome de algum ''interesse superior". Esseponto tem parti- deve encontrar expressãoorganizacional num partido mundial unido, para
cular importânciaõnos casos da revolução política antiburocrática e nas que tal unidade se manifeste de maneira coerente na vida real.
lutas das massastrabalhadoras nos paísescapitalistas dependentes.
Essasobservaçõesimplicam uma dialética dupla, que deve ser adota-
da pelos marxistasrevolucionários
e da qual a QuartaInternacionalé a A Quarta l nternacional
expressão programática, pol i'tica e organizacional.
De um lado,a lei do desenvolvimento
desiguale combinado,que Issosuscita um outro ponto. Apesar da sua insistênciana necessidade
de
governa a realidade objetíva na época do imperialismo, também governa uma organização internacional unida, o movimento trotskista sofreu várias
o processoprático da revoluçãomundial, que não avançacontínua e simul- cisões desde sua formação. Na verdade. os trotskistas foram freqüentemen.
taneamenteaem todas as frentes. Os revolucionários devem empenhar-se em te ridicularizados por outras tendências do movimento operário por essa
unificar esse processo. mas nãoldevemRsubordinar as suas tarefas. nem o razão. Quais as mais importantes dessas cisões, e terão sido justificadas7
seu apoio aos processosrevolucionáriosem evolucão.a essaunifícacão E acredita que a reunificação das principais forças do trotskismo mundial
em 1963 põe fim a essatendência de divisão da Quarta Internacional?
preliminar: Concretamente,issosignificaque a desigualdadeda revolução
mundial implica uma como/naçáb de tarefas. Em cada pal's, o proletariado
e sua vanguarda revolucionária têm a tarefabde apoiar as revoluções que se Eu comecaría dizendo que a explicação das divisões que ocorreramx.em
processamem outros pontos do mundo. mas ao mesmo tempo devem nosso movimento em fins da década de 1940 e princl'pios da décadade
preparar-se$ativamente para fazer a revolução em seu próprio país. Aban- 1950 está essencíalmenteênoprolongado isolamento e na lentidão da
donar a segundatarefa em favor da primeira é trandormar-se num freio da crescimento do movimento trotskista depois da SegundaGuerra Mundial.
revolução. e abandonar a primeira em nome da.segunda, mesmo com fór- em contradição direta, como já dissemos, com as previsões e expectativas
mulas edificantes como "a única ajuda adequada à revolução em outros de Trotski. Como observei antes, a razão mais fundamental desseatraso
lugares é fazer a revolução aqui''l é abandonar a bandeira do internaciona- imprevisto na intensificação da consciência da classe operária internacional
lismo proletário, é retirar-separa o comunismo nacional. foram os efeitos acumulados das terríveis derrotas sofridas pela revolução
O segundo aspecto dessadíalética objetiva relaciona-secom a exten- mundial nas décadas de 1 920 e: 1930.
são geográfica prática da revolução. Ela não é, de forma alguma, predeter- Várias correntes do movimento trotskista, porém. resolveram que as
minado por qualquer ''lógica imanente'', e especialmentenão o é pela exis- dificuldades de crescimento experimentadaspela Quarta Internacional rl
tência dos três Éetoresda revolução. É, issosim, ditada por uma variedade eram conseqiiência não de fatores objetivos, mas de algum fator subjetivo
em particular -- uma teoria errónea da natureza da União Soviética. táticas l
de fatores que evoluemcom o tempo:a proximidadegeográfica.os elos
poli'tacos. a interdependência económica. as tradições históricas, a simila- inadequadas,atitude incorreta para com os partidos comunistas.ênfase }1

ridadeyde situações poli'tecas.o poder de-atração de determinados movi- excessivano proletariado dos países capitalistas adiantados. houve muitas
mentos revolucionários etc. Por exemplo, a revolucão:tnascolónias portu' variaçõessobreo tema. E num movimento fraco asminorias têm tendência
guesas na Africa teve profundas repercussões em Portugal -- e. através de evidentea resolveremse separar. e procurar aplicar a teoria ou tática que

>
+

194 marxismo revolucionário atua] a política do internacionalismo contemporâneo !95

na sua opinião, provocará um crescimento rápido. O balançode todas essas devido ao que chamo de certa inclinação à stalinofobia. desconfiaramque
várias tentativas é agora definitivo. Em nenhum caso os grupos que se divi- essa interpretação levaria à: ':'capitulação" ao stalinísmo. Durante anos,
diram conseguiramum crescimentosubstancialmentemaior do que a taxa depois dos acontecimentos, por exemplo, elos se apegaram à nocão absurda
de crescimento da Quarta Internacional -- pela razãomuito simplesde que de que a China ainda era um Estado burguês após 1949 e que Mao estava
a explicação real de nosso fracassoem crescerdurante esseperíodo está pondo em prática uma política de governo de coalizão capitalista. Enquan-
não em nossa fraqueza subjetiva. mas nas condições obietivas. to esses problemas não foram esclarecidos, foi difícil evitar uma descon-
A principal cisão sofrida pela Quarta Internacional -- na realidade, a fiança crescente de ambos os lados. Foí essaa base política da divisão.
única importante. já que as outras compreenderam apenasforças marginais Métodos incorretos de organização. adotados por Pablo, também
-- foi a ocorrida em 1952-53.iniciada na Françapela corrente que hoje é tiveram um certo papel, masnão decisivo, já que algumasdessasmedidas
chamada de Organização Comunista Internacionalista {Ocl) e mais tarde se erróneas foram apoiadas pelas forças que mais tarde se separaram e encon-
estendeu às organizaçõestrotskistas nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, traram oposiçãopelos li'deresda corrente de Pablo. De qualquer modo,
Canadá.Argentina e vários outros pal'ses.Foi essacisão que levou a uma todas essasquestõesestão bem documentadasnas publicaçõesde nosso
divisão das principais forças da Quarta Internacional durante dez anãs. Foi movimento. e não há necessidadede examina-lasem detalhe. aqui. O mais
a cisão principal não só porque envolveu o maior número de forças, mas importante é que já em 1956, três anos apenasapós a cisão,os dois lados
também porque interessou também a alguns dos quadros dirigentes históri- tinham reaçõespraticamente idênticas à revolução húngara, apoiando a
cos da Internacional. em especial,mas não exclusivamente,nos Estados rebelião e as tentativas dos trabalhadores húngaros de criar conselhos dos
Unidos. trabalhadores e condenando a intervencão militar soviética. Isso demons-
As origens políticas da cisão estão nas diferentes maneirasde inter- trou que qualquer base poli'rica para a divisão haxriadesaparecido
e que
pretar as modificaçõesna situaçãomundial apóso início da Guerra Fria.' uma rápida reunificação de forças era necessária.
e o significado dessasmodificações no futuro da revolução mundial e da Infelizmente, foram necessários seis anãs para conseguir essa reuni-
Quarta Internacional. Os problemasenfrentadoslinaquela
épocaforam os ficação, e acredito que pagamos um preço muito alto por essa demora.
mais difíceis da história da Internacional, envolvendo uma evoluçãototal-
De ambos os lados, sérias tendências centra'fugas e aberrações programáticas
mente imprevista na situação mundial. Citaremosapenasum exemplo: o comecarama surgir, sob o ímpeto de tentativas para justificar e racionali-
maior país do mundo, a China, foi testemunha de uma revolução socialis- zar o que se havia tornado, evidentemente.uma separaçãoarbitrária. É
ta vitoriosa liderada por um partido comunista, enquanto que durante anos esseum dos perigos mortais de divisões apressadas:as forças que desejam
os trotskistas se haviam habituado à i.déia de que os partidos stalinistas se manter uma existência orgânica à parte quando o grau de diferenças polí-
haviam colocado definitivamente ao lado da ordem burguesa, em escala
ticas não o justifica. são levadasa inventar ''princi'pios" que explicam senis
mundial. fitos. A degeneraçãosubseqíientedo grupo Healy na Grã-Bretanhateve
Pessoalmente,continuo convencido de que as resoluçõesaprovadas origem nesse período e provavelmente teria sido possa'vel impedi-la com
no nosso Terceiro CongressoMundial, em 1951, a que o camaradaMichel uma reunificação anterior de forças. Observaçõessemelhantes poderiam ser
Pablo fez uma grande contribuição pessoal,foram fundamentàlmenté cor- feitas sobre a corrente liderada por Juan Pomadas,
que apoiou a maioria da
retas e permitiram à Quarta Internacional enfrentar a tempestade.E certo Quarta Internacional na separacão. A degeneração dessegrupo nos levou
que algumas de nossasanálisesforam incorretas, que houve erros. Mas a a perder centenas de membros muito úteis, particularmente na América
contribuição essencial -- e posítivia -- de Pablo,anãocompreendida durante Latina
a

certo tempo. fol a de afirmar que, ao contrário dasaparências,não estava Na minha opinião, embora váriasforças da Quarta Internacional pos-
ocorrendo uma expansãoe consolidaçãodo stalinismo,mas sim uma sam avaliar hoje a cisão de 1953 e suas consequências de maneira diferente.
extensão da revolução que acabaria provocando uma crise tremenda do sta- todos aprenderam as licões -- se isso era necessário -- das conseq(}ênclas
linísmo:" uma Crise dentro do movimento comunista internacional e um negativasdas divisões não baseadasem princi'pios. Hoje, a Quarta Interna-
prt)cesso de revoluções políticas nosqpaíses nos quais a burocracia havia cional tem cerca de dez vezesmais membros do que à épocado congresso
monopolizado o poder. Na minha opinião, essaavaliaçãofundamental da de reunificação, em 1963. Ainda não alcançámoso ponto previsto por
situação em princípios da década de i1950 mostrou-se substancialmente Trotski às vésperas da Segunda Guerra Mundial, mas a dinâmica positiva é
correra
rre clara. E o que é mais importante, apesarde várias lutas de facçõese ten-
Alguns camaradasno movimento, seja devido a uma supersensibili- dênciasextremamcnte veementesem relação a importantes questõespolí-
dade a qualquer forma de modificação da análise e dos prognósticos, ou ticas, a Internacional não sofreu uma única divisão internacional desde
'' -'n n=l

196 marxismo revolucionário atua] a política do internacionalismo contemporâneo 197

1965. Fomos capazesde debater as nossasdivergênciaslivremente. e até os partidos organizadosem linhas stalinistas. O grau de controle exercido
mesmoem público, e preservara democraciainterna. inclusivedo direito
por uma burocracia corrupta. bem integrada na sociedadeburguesa,sobre
que têm as tendências e facções de se organizar e lutar por suas idéias. sem
os membros de classe operária, em grande parte passivos,é tão grande
sofrer divisões. Se compararmos isso ao que aconteceu nas outras tendên. quanto o da burocracia stalinista. Na verdade. é até mesmo mais fácil re-
das do movimento operário internacional, acho que podemos dizer. com produzir essetipo de estrutura burocrática, já que constitui um paralelo
segurança, que stalinistas. maoístas e centristas deviam ter mais cuidado da estrutura do próprio Estad.o burguês. No pior dos casos,portanto seria
ao acusarem de maneira tão estridente os trotskistas de serem congenita- possíveldizer que o movimento trabalhista ainda não criou uma forma de
mente suscetíveís de divisões destrutivas.
organização que ofereça uma garantia estrutural duradoura e efetiva contra
Concluirei ressaltando um aspecto da democracia interna. A conclu- a degeneração burocrática. Eu não rejeito tal afirmação totalmente. A
são organizacional mais Importante proporcionada pelos últimos 25 anos essênciadesseproblema. com freqilência ignorado pelos que atribuem im-
de história da:.Quartal nternacional é que. ao contrário do mito profunda- portância excessiva aos aspectos puramente formais da questão, é que em
mente arraigado. defendido pelos stalinistas e social-democratas. a liberda-
ma análise a única garantia real contra a burocracia é uma classeopera'
de de formar tendências e facçõese a defesaciosa dos direitos que têm os ria politicamente atava. ou pelo menos uma vanguarda da classe operária.
membros do partido de expressar suas opiniões e lutar por elas dentro do
partido (aokponto mesmo de exagerar :esses direitosl constituem uma Isso não significa que regras e proteções organizacionais, o aspecto
proteção adequadada unidade do movimento revolucionário. e não numa formal da questão. sejam destitui'das de importância. Há uma grande dife-
causa de cisões. Sob esseaspecto, cama em outros. a Quarta Internacional rença. quando a classe operária politicamente atava,ou a vanguarda dos tra-
está defendendo hoje o legadode Lênin, os princípios leninistas do centra- balhadores, encontra um partido como o Bolchevique. digamos, de março
lismo democrático, inclusive o direito de formar tendênciase faccõesna e abril de 1917.;no qual era possa'vel
modificar a linha partidária, de um
partido. curso perigosamenteoportunista para um curso revolucionário; ou quando
encontra um partido como a social-democraciaalemã de 1918.'E por isso
que estou convencido da necessidadede centralismo democrático. Talvez
Cri'ricos desses princípios leninistas de organização fazem, em geral, duas
observações.Primeiro, que as evidênciashistóricas tendem a mostrar que pudéssemos
parafrasearWinston Churchill. e dizer que setrata de um mau
as formas leninistas de organizaçãoevidenciam uma tendência inerente a sistemade organização, mas o menos mau já criada pela classeoperária.
se degenerar numa direção*burocrática,'lsufocando a capacidade de os até agora, em sua história, bastante rica de formas de organização.
membros do partido participarem plenamente na formulação de sua orien- Em que consiste essesistema?A essênciado centralismo democráti-
tação. Segundo. que o conceito mesmo de uma organização constituída de co não é,,realmenteorganizacional,maspolítica. ou melhor, sócio-poli'ti-
revolucionários profissionais exclui efetivamente os trabalhadores comuns. ca. A experiência imediata dos trabalhadores é sempre parcial e unilateral.
que nao têm tempo para conduzir debates internos e discussõescom a Os verdadeiros trabalhadores,' em oposição':aos idealizados. atuam numa
mesma intensidade dos líderes partidários que a isso dedicam tempo inte- fábrica. num ramo de indústria. ou numa cidade. As lições que aprendem
gral, ou de outros que não têm empregos ou responsabilidadesde família. de suas experiências imediatas são'' portanto, sempre parciais. A atividade
Nesse sentido, os direitos de formar' tendências podem transformar-se espontânea da classe operária. embora possa ser muito variada. é sempre
numa mera formalidade, já que os membros do partido não têm, com fre- fragmentada e. portanto. tende sempre a levar a uma consciência fragmen-
qtlência, condições'materiais de dar a essaforma um conteúdo democráti tada. A função essencial do centralismo democrático é superar essafrag-
co. Como a Quarta Internacional resolveuessestipos de problemas? mentação pela centralização da experiência da classe operária como um
todo. aprendendo com isso as lições adequadas, e organizando uma estra-
Vou responder seguindo duas'linhas. Primeiro. quaisquer que possamser tégia que possaunificar a frente proletária, em sua batalha pelo poder
os problemas ligados ao centralismo democrático leninista. as formas altera estatal.
nativas de organização parecem ainda mais inclinadas a degenerar na dire- Nessesentido, a essênciado centralismo democrático está na capa'
ção da burocracia. Veja-se,por exemplo,.a forma mais comum de organi- cidade do militante bolchevique individual, ou pelo meras das célulase
zação social-democrática: o partido distrital, com um grande número de unidadesindividuaisdq,partido, de adotar iniciativasÜindependentes,
de
eleitores no .''papel". uma forma de..organizaçãoque tem sido usadapela desfrutar da maior autonomia. Sem isso, nada há a centralizar. Se as ordens
maioria .dos3partidos comunistas dej:massa. atualmenten Na prática, esses de marcha são simplesmente dadas pela liderança do partido em reação a
partidos mostraram-setão inclinados à manipulação burocrática quanto relatórios de campo recebidos depois da emissãode outras ordens, então
198 marxismo revoluciol)ária anual
a política do internacionalismo contemporâneo 199
não há necessidade
de centralismodemocrático,pois estamostratando
merameRte com uma organização militar. de qualquer coisa vista nos partidos social-democráticos. Até mesmo o Par.
Foi essa, incidentalmente, a qualidade esplêndida, quase mágica. do tido Comunista Italiano. quando se dividiu profundamente entre as faccões
Partido Bolchevique em seusmaiores períodos de iniciativa e êxito revo- de Bordiga e. Gramsci, no inl'cio do domínio fascista. manteve a liberdade
lucionários. Foi a capacidadeque tinham os bolcheviquesde integrar e de debate e de formação de tendência, permitindo aos seus membros
centralizar as numerosasiniciativas independentestomadas pelos milhares grandeamplitude de iniciativa. O importante é reconhecer o problema, que
de trabalhadoresavançadosque os distinguiu dos outros partidos. Com é espinhoso. mas não insolúvel.
Stálin, é claro, todo o sistemafoi transformadoe issocriou grande resis- Temos, finalmente, a questão mencionada na pergunta: a contradi-
tência ao ''centralismo democrático". A verdadeiraobjeção,porém, é ao ção entre a educação política séria e a participação dos trabalhadores
centralismo burocrático. que é o sistema instalado pelos partidos stalinistas comuns na vida avivada organizaçãorevolucionária, de um lado, e aspres-
sobre as ruínas do centralismo democrático.
sões materiais a que o proletariado está sujeito, de outro lado. O que se
Ora, é fora de dúvida que essesprincípios gerais não respondem a deve evitar a todo custo é uma separação social dentro do partido revolu-
todas as questões associadasà organizaçãopartidária. como estamosverifi- cionãno entre o trabalhador menospolitizado e os intelectuais.estudantes
cando cada vez mais. à medida que aumenta o número de membros de e revolucionários "profissionais'' superpolitizados, pois tal distância é
nossa organização. Temos agora um número significativo de trabalhadores inevitavelmentefatal. Enfrentamos tal problema nasorganizaçõesda Quar-
em todos os países e, portanto. enfrentamos problemas novos e especi'focos ta:-Internacional,cujos membrossão,em geral, três ou quatro vezesmais
dos quais não tl'nhamos perfeita consciência quando éramos uma pequena ativos do que os membros dos partidos de massa reformistas. O trabalhador
vanguarda. Ainda não encontramos solucões para todos esses problemas. industrial, que passaoito horas ou mais numa fábrica, todos os dias. e
muitos dos quais só podem ser resolvidos no curso de uma longa experi- tem responsabilidadesde família. não pode manter um ritmo de participa
ência. Mas vou mencionar alguns exemplos diretamente relacionados cam ção que inclui várias horas de reuniões, todas as noites. Por outro lado
a segunda parte da pergunta. as tarefas do partido revolucionária tendem semprea se expandir mais
A superioridade do bolchevismo sobre o menchevismo.do ponto de depressa do que as forças ativas desse partido, e muitos membros podem e
vista da democracia partidária, está precisamente no fato de que o bolche- desejam avidamente.manter uma atividade que outros poderiam conside-
vismo exige um nível superior de dedicação e atividade, pois isso age como rar como febril. Uma maneira de solucionar esse' problema é estabelecer
uma proteção contra a manipulação burocrática. Quanto mais homogéneo grupos especiais-- círculos de debate em torno de determinadasquestões
em termos de nível de atividadede seusmembros.'maisdia'cil é manipular teóricas, grupos de ação para questões especificas etc. -- que funcionem
burocraticamente um grupo. Esseprincípio é fácil de ser aplicado a um pe-
paralelamente.Essadivisão funcional do trabalho foi aplicada,por exem-
queno grupo; sua aplicaçãotorna-semais difícil num pequenopartido, e plo, pelo Partido Comunista Alemão durante seus melhores dias. em
num partido de massaela é impossível.Portanto. é necessária
uma escolha. cidadescomo Hamburgo,Lelpzig e Berlim, onde os militantes do partido
Ou acreditamos que a revolução socialista pode ser liderada por um partido podiam escolher entre cinco ou seis reuniões, OI outras atividades partidá-
com uns poucos milhares de membros, que dirigem com inteligência mi- rias. a cada noite, ,mas eram obrigados a codbarecer apenasàs suasreu-
lhõesde trabalhadores.
ou reconhecemos
que o futuro partido revolucio- niões de células. É nessesentido que devemos buscar soluções para tal
nário será um partido de massa,no verdadeiro sentido da palavra. com cen
problema, reconhecendoao mesmotempo que até certo ponto ele deve ser
tenaz de milhares de membros e muitos simpatizantes. A verdadeira dificul-
atacado empiricamente, que não se podem estabelecer regras rígidas. A
dade é, portanto, a de construir UM partido cada vez maior da classeope- unlca regra geral que deve ser defendida a todo custo é a de que as normas
rária, sem diluir o nl'vel médio de atividade e de educação politica a ponto de centralismo democrático devem ser observadas.o que significa que os
de suscitar o perigo da manipulação burocrática.
mijit'"tes do pa'tidode«m ter o direito de ap"s'ntal li«,ement.;s ;.;s
Essa dificuldade não é superadafacilmente. mas também não é opiniões, e de organizar-separa lutar por elas dentro do partido. Isso signi-
impossi'vel soluciona-la. Além do exemplo dos bolcheviques, há outros par- fica que o direito de formar tendênciase facçõesirão deve scr limitado
tidos comunistas de massaque tiveram essavibrante vida interna. combi-
nando o respeito às regrasformais do centralismo democrático e as inicia-
tivas múltiplas e independentesde seusmembros. O Partido Comunista
Como observou, a Quarta Internac.ional cresceude maneira bastantesigni-
Alemão de princl'pios da décadade 1920. par exemplo, tinha centenas de
ficativa desde a reu.nificaçâo.em 1963, sendo anualmente maior do que
milhares de membros e realizavadebates.livres e públicos, que iam além nunca.em sua história. Não obstante. depois de mais de 40 anosdeesfor:
ços, ainda não se transformou na organizacãointernacional revolucionária
200 marxismo revolucionário atual a política do internacionalismo contemporâneo 20]

de massaimaginada pelo seu criador. e em nenhum país fez com êxito a do que começou na segunda metade dos anos 60. Essaé a única interpre-
transição deum pequenogrupo de vanguarda que mantém a continuidade do tação propriamente marxista da história da Quarta Internacional. como
programa revolucionários para um autêntico partido proletário de massa. provam duas evidências convincentes
Ao -mesmo tempo; a crise do stalinísmo possibilitouuque tendências hostis Nâo foram poucos os que.' no período anterior. atribuíram arles-
tanto à social-democraciacomo ao movimento comunista oficial conquis- tagnaçãorelativa da Quarta Internacional ao que chamavam de ''defeitos
tassem a liderança da luta de massa e, pelo menos num caso, o dellCuba. congênitos" do nosso movimento -- sua supostacomposicâopequeno-
liderassem a classe operária'na tomada do poder estatal. Que conclusões burguesa, sua falta de ''raízes nacionais". sua ''falsa posição na questão
podemos tirar dessebalanço mistos Quais as perspectivas de que a Quarta russa", sua suposta revisão das idéias de Trotski -- e se impuseram a tarefa
Internacional venha finalmente a realizar os sonhos de seusfundadores? de corrigir tais defeitos e criar um movimentorevolucionáriopróprio. Mas
nenhuma organização à esquerda do staíinismo e da social.democracia
Devemos distinguir duas fases na história da Quarta Internacional: a pri- obteve resultados qualitativamente superiores aos da Quarta l nterna(iional.
meira, que vai desde $ua formação até fins da década de 1960; e a segunda, entre ]948 e 1968.
a partir de então.: e mais particularmente de 1968::O crescimento registra-
Contesto a proposição de que outrasf;organizaçõesrevolucionárias
do nessa segunda fase não deve ser subestimado:, O número de membros
cresceuem muitas vezes,mas nossainfluência política. a circulaçãode que começaram como pequenos grupos, conseguiram ter êxito, quando
nosso movimento fracassou. O exemplo do Movimento 26 de Julho em
nossaspublicações, nosso peso nos sindicatos e mesmo nossainfluência elei-
Cuba não é cabível, no caso. Fidel era o li'der de uma organização de massa
toral cresceram aindai;mais rapidamente do que o número de membros;
em)Cuba. antes de tornar-se um revolucionário. Foi candidato às eleicões
A Qi teml=hoje organizações em mais de 60 países. quando em firls da dé-
legislativas de 1952 e provavelmente teria sido eleito, se não tivesse ocor-
cadaÍjde 1960 esse número era de apenas30 ou 40. Embora seja inexato
rido o golpe de Estado de Batísta. Era líder de uma das maioresorganiza-
afirmar que os acontecimentosocorridos desde1968 correspondemàs
ções nacionalistasdo'fpaís, o Partido Autêntico. Assim, o que aconteceu
previsões feitas por Trotski às vésperasda Segunda Guerra Mundial, e em-
bora ainda não tenhamosconseguidoum;iverdadeíro
êxito em nenhum em Cuba não foi a transformação de um pequeno grupo revolucionário
país. é hoje possível perceber as linhas mestrasdo processoque poderia num partido de massa,mas sim o contrário: a transformação de uma cor-
resultar na criação de autênticos partidos revolucionários de massaem rente de massa,pequeno-burguesa, nacionalista e populista, numa organiza-
vários pa lhes. ção revolucionária através de uma evolução pragmática, em condições
Os próprios fatores que impediram o crescimentoda Quarta Interna- particulares.gFaía transformação de um movimento que dispunha de in-
cional no final da ll Guerra Mundial permitiram a rápidaexpansãoapós fluência dê massa.mas que nâo era proletário em termos de programa ou
composição, num movimento semiproletário com influência de massa, e
1968. Os efeitos acumulados das derrotas da revoluçã08mundial nos anos
20 e 30 foram gradualmentegdesgastados pelos efeitos acumulados da em seguidanum partido proletário de massa.
ascensão da revolução mundial (mesmo limitada geográfica e socialmente} Mas a revolução cubana não viu, em apenas uns poucos anos, a trans-
durantes oa anos 50 e 60. Oshefeítospositivos das revoluçõesiugoslava, formação de um grupo revolucionário isolado num partido de massagraças
chinesa. cubana e vietnamita foram complicados pelas crises simultâneas à descoberta de uma estratégia ou tática milagrosa. Há cerca de 40 anos
do stalinismo e do capitalismo que irromperam após maio de 1968* Uma alguns camaradas se deixaram seduzir pela busca dessesmilagres. Acrescen-
nova geração de revolucionários surgiu desde então, não mais marcada por temos que houve entre 1936 e ]938 várias organizações centristas, muito
20 anos de retrocessos. Mas confiante ;;nordestino da luta revolucionária maiores do que as secõesda Oposição EsquerdistaInternacional, precur-
e preparada para se comprometer com o processode construir o partido sora da Quarta Internacional até 20 vezesmaiores:partidos com raízes
revolucionário exatamente por causa dessa confíanca: profundas no movimento proletário de seus países Havia o POUMna
Não se trata de um.processo linear. nem no tempo nem no espaço, Espanha,a corrente liderada por Brandler na 'Alemanha. o Partido Traba-
mas é evidente em muitos paísese em todos os continentes.Acima de lhista Independente
na Grã-Bretanha,
o grupo~deBordígana Itália, o
tudo, está ligado ao próprio caráter da época, que provavelmentenão RASPnos PaísesBaixos, o psop na França' Essasorganizaçõesnasceram
levará a derrotas que esmaguemas esperançasda revolução durante gera- em fasesparticularesdo movimento em seusrespectivospaísese tiveram
ções, mas a impulsos gerais de luta e recuperação relativamente rápida com um papel considerável na luta de classesnacional, muito maisFimpartante
reacão aos retrocessos e derrotas. Nessesentido;:é correto falar de um novo do que as pequenasseções da Quarta Internacional.Mashoje'a maioria
período mais favorável à construção de partidos revolucionários. um perío- delas desapareceu.
202 marxismo revolucionário at\tal a po]éticado internacionalismo contemporâneo 203

Essefato simples mostra cabenosso movimento representaum com-


diais. na erâ do imperialismo. SÓ os cegos não vêem que hoje asempresas
ponente universaldo movimento operário. ao passoque essasvárias organi- multinacionais nâo são uma aberração, e sim a expressão de uma carácter ís.
zações constituíam apenasfenómenos nacionalmente limitados. correspon-
teca fundamental do desenvolvimento das forças produtivas e da organi-
dentes a determinados momentos na história'da luta de classescontempo- zação da economia capitalista.
rânea.Portanto,devemoster cuidadoao atribuir a estagnação
de nosso Os argumentos apresentados contra essaconcepção. no passado. fo-
movimento, até 1968. a quaisquer peculiaridades do trotskismo. As vicissi- ram não só falsos como derrotístas, em relação.ao esforço de criar ascha
tudes dos esforços para construir um partido revolucionário internacional
madas organizações nacionais. A luta de classesdeve ser, hoje. travada
autêntico devem-se. em última análise, à evolução das relações objetivas internacionalmente. de forma coordenada, não só por motivos morais
de forças de classe em escala mundial. +

como também por motivos pragmáticos. Vejamos um exemplo prático. Os


Há duas questões adicionais, relacionadas com esta. A primeira é militantes sindicais em vários pai'seseuropeus vêm defendendo a semanade
uma crítica, feita com freqClênciapor organizaçõesde extrema esquerda. 35 horas como um meio de neutralizar o desemprego. Os empregadores e
segundoa qual ? obsessãotrotskista com o que chamamosde continuidade burocratas do trabalho responderam que essa reivindicação. se atendida
programática e nossoscríticos chamam de dogmatismo impediu a unificação poderia na realidade aumentar o desemprego. Se isso é ou nâo verdade -- e
da extrema esquerda em momentos nos qua.is teria sido possível chegar à acreditamos que não seja -- a resposta evidente é clara: lutar pela reivindi-
unidade. Os exemplos mais citados em relação a isso são ltália, França. cação em escala internacional. primeiramente em escalaeuropéia, já que é
Grã-Bretanha, Portugal e Aiemanha em diversas épocas entre 1970 e 1976. o único meio eficiente para reduzir o desemprego
imediatamente
e de
Respondemossempre que essaunificação foi impedida não pela nossa b
forma radical -- e o desemprego é o fantasma da classeoperária em toda a
adesãofetichista ao rótulo da Quarta Internacional. maspor discordâncias Europa capitalista de hoje
políticas precisas e concretas em relação a importantes questões estratégicas Compreender essagrande verdade do corriunismo contemporâneo --
do processode luta de classes
que sedesenrolana Europa.Em nossaopi- de que vivemos numa era de revolução e contra-revoluçãomund/a& -- é
nião. embora novos problemassurjam sempre.e emboraexistam sempre compreender também que uma organização proletária mundial é necessária
modificações na realidadeobjetiva que exigem novascontribuições à teoria para que possamoscentralizar e integrar todos os aspectosdessarealidade
e análise marxista, as velhas aquisições dessateoria -- que a história mos- Compreender os efeitos desastrosos da degeneração burocrática da l nterna-
trou serem corretas -- não devem ser liquidadas. Pelo contrário. a coerência
cional Comunistaé compreenderque essaorganizaçãomundial deve ser
da teoria deve ser preservada. Seria um erro dizer, por exemplo, que a teo- governada pelas normas do centralismo democrático autêntico. Assim
ria da frente única, de Lênin e Trotski. era inaplicável a Portugal em 1975, como jamais aceitaremosa identificação do leninismo com o stalinlsmo. da
ou que as concepções leninista e trotskista das demandas transitórias e do ditadura do proletariado com a ditadura da burocracia. jamais aceitaremos
s/otan do governoque coroariamum programade transiçãonão mais a identificação do centralismo democrático internacional com a concepção
poderiam ser aplicados na França ou Itália em 1976 e 1977. O fracassodas burocráticade um ''centro orientador''. com o direito de afastaras lideran-
organizações de centro em entenderem e aplicarem essascarretas posições çasde organizaçõesrevolucionárias nacionais e de impor táticas nacionais
programáticas, usualmente porque estavam ligadas ao "movimento'', levou que não são aceitas pela maioria dos militantes de um partido nacional. A
a enganos catastróficos, à sua oscilacâo entre sectarismo e adaptações opor- construção de uma internacional revolucionária democraticamentecentra-
tunistas às organizaçõesde massada classeoperária. O resultado final foi lizada, que unifique e dirija a luta do proletariado mundial contra seus
P
uma perda maciça tanto de influência quanto de membrosapós um perío- Inimigoscomuns e em favor de seus interessescomuns -- é essaa nossa
do de crescimento rápido. finalidade.
A segunda observação realciona-se com a organização. Não é por
acaso que nosso movimento é a única organização que realmente funciona
em escalamundial e que no$ identificamoscom a idéla de criar organiza- O Socialismo que Desejamos
ções nacionais e uma organização mundial, ao mesmo tempo. Isso é apenas
a dimensão organizacional da teoria da revolução permanente e de nossa Vamos concluir com uma questão bastantegeral. A revolução russa de!
oposição à estratégia do socialismo num único país. A noção de que parti- 1917 ab.riuuma era de grandesesperançasnão só paraa classeoperária
dos nacionaisfortes e revolucionáriosdevem ser criadosprimeiro e mais nternaciona.l.mastambém para milhões de oprimidos e exploradosem
tarde federados internacionalmente baseia-senuma profunda falta de en-
todo o mundo. Maisde 60 anos depois, devemos reconhecer que em grande
tendimento do caráter orgânico da economia. política e luta de classe mun- parte essasesperancasforam frustladõs. Você rTICsmoobservou em muitas
marxismo revolucionário atua] 205
204 a política do internacionalismo contemporâneo

ocasiões que a falta de um . 'modelo'' digno de crédito,contraponto à triste Além disso. devemos ter cuidado em não cair numa versão ''tro:tskis-
realidade da degeneração burocrática da União Soviética, é um grande obs: ta'' do socialismo num só país, Devemosestabeleceruma distincão clara
táculo à revolui;ão socialista: hoje. Não obstante, a Quarta Internacional entre uma sociedade governada democraticamente. em transição do capi-
tem um ''modelo'' do socialismo, e você mesmo .demonstrou também talismo para o socialismo, e uma autêntica sociedade socialista, uma socie-
grande otimismo quanto ao futuro dessemodelo. A questãoé. llortanto. dade semclasses.que só pode ser estabelecidaem ampla escalainternacio-
iiupla:' Qual a base'desseotimismo? Qual seria na prática a visão que a nal. depois da derrubada do capitalismo em seus bastiões principais.
Mesmo tendo em mente t: idos esse problemas, devemos apresentar
Quarta Internacional tem do socialismo?
+
às massasde hoje um "modelo'' ilo tipo de sociedadee Estado que surgi-
Em última análise. esseotímismo baseia-sena realidade do desenvolvimen- rão da derrubadado capitalismo,e esse.modelotem de constituir!ima
to revolucionário como um processo objetivo inevitável resultante da dupla alternativa âtraent©tanto em relação ao capitalismo como aos Estados
crise da capitalismo mundial e da burocracia trabalhista em todas as suas buroératizadosydosltrabalhadores.#:que nada têm em comum com uma
manifestações. Em 1967 The Econom/sf apresentou a hipótese de que o saciedade realmente socialista, que nâo tem classese é constituída de pro-
'ciclo revolucionário'' iniciado com a Revolução Francesa (essessenhores dutores livremente associados.Essemodelo, que devemosintegrar no lega-
ignoraram as revoluções inglesa e americana, para não falarmos de outras) do teórico do marxismorevolucionáriocam as experiênciasde todasas
havia chegado ao fim com o fracasso da ''revolução cultural'' de Mao. Na revolucõese lutas proletárias dos;últimos 60 anos [tanto em seusêxitos
éooca escrevi um artigo respondendo que essaperspectiva era errónea. como em seus fracassos). e com as conquistas da ciência e tecnologia con-
b
Tivemos. desde então. os acontecimentos de maio de 1968 na Franca. o temporâneas,pode ter e terá sobre a classeoperária internacional o efeito
início da revolução política na Tchecoslováquia, a vitória da revolução que teve. imediatamenteaapós a Primeira Guerra Mundialya firme con-
vietnamita, o processo revolucionário português, o ini'cio da revolução ira- vicção de que o capitalismo estavacondenado e que o socialismo era imi-
niana -- para mencionar apenas acontecimentos mais importantes. Não nente. Nofalvorecer da::era das revoluções proletárias. o sacialismob.era
pode haver dúvidas de que os próximos anos verão muitas outras revolu- considerado pela massa de trabalhadores como um gigantesca progresso
ções, algumas delas mais radicais, em termas de participação de massae em suas condições de vida. Ele deve voltar a ter essemesmo significado.
b Tal modelo deve ser construído essencialmente em torno das idéias
medidas revolucionárias. do que qualquer outra já regístrada. É por Isso
que estou convencido de que muitos dos problemasque parecemtão inso- que se seguem.
lúveis hoje serão resolvidos pela história. O crescimento de Quarta Interna- A revolução socialista significa a derrubada do capitalismo e o esta-
cional. em sí mesmo ligado à ascensãoda revolução mundial e da consciên- belecimento da ditadura do proletariado, o que exige a destruição da má-
cia de classedo proletariado. também contribuirá para a soluçãode muitos quina estatal burguesae o desarmamentoe expropriação da classecapita-
desses problemas. lista?Indo significa uma supressão das liberdades democráticas, um sistema
É inegável, porém, que a falta de uma alternativa socialista bem dife unipartidário, ou o domínio de déspotasburocráticos. O poder político
rente do repugnante estado de coisas na:*Rússia, Europa Oriental e China, estará nas mãos de um congresso de conselhos populares e de trabalhadores
é um obstáculo importante ao rompimento do proletariado ocidental com eleitos pelo sufrágio universal. com um sistema multipartidário a que lodos
o reformismo. É um obstáculo ainda maior à possibilidade de que a classe os partidos terão acesso.desdeque respeitem na prática a legalidadesocia-
operária soviética acabecom sua apatia política. É par isso que a Quarta }
lista. o que significa que poderão existir se não se empenharemem luta
Internacional dedicou tanto tempo e esforço à definição de nossasmetas armada contra o poder proletário. Todas as correntes e partidos terão livre
socialistas.;nos termos mais claros e precisos. acessoaos meios de comunicacão de massa,em proporção ao número de
Essatarefa encontra dificuldades óbvias, pois a história nunca se seusmembros. e a sociedade deve desfrutar de uma vida ideológica e cul-
materializa de acordo com um plano preconcebido. Muitas dascaracterís- tural vigorou e pluralista.Os marxistasrevolucionárioslutarão pelahege-
ticas da democracia socialista dependerão de fatores como as condições monia política dentro dos conselhosde trabalhadoresatravésde meios
particulares de seu nascimento Inas quais o elemento mais importante são políticos -- inclusive mobilizações de massa-- mas não através de ações
os recursos materiais disponíveis, em outras palavras. a situação económica administrativas ou repressivas.
concreta). sua rápida extensão geográfiça, a relação mundial de forcas, as A nacionalização dos meios de produção, ou seja, a supressãotanta
modificações que provocará nos Estados burocratizados de trabalhadores, da propriedade privada como do direito de propriedade privada nos meios
o realinhamento que provocará dentro do movimento trabalhista interna- de produção, é uma condição necessária.mas não suficiente, para uma
cional. etc. transição ao socialismo. Uma economia planificada deve lutar para eliminar
a política do internacionalislllo contemporâneo 207
206 marxismo revolucionário atua]
minha opinião, a respostaa essaperguntaé certamenteafirmativa. Creio.
não só o desemprego e as crises periódicas de superprodução -- para isso na verdade.que sepode demonstrar facilmente que. se o tremendo desper-
é suficiente a supressãoda propriedade privada dos meios de produção -- + dício inerente ao presente sistemade distribuição de recursosfosse elimi-
mas também a desigualdadesocial, a natureza opressivado trabalho mecâ- nado. se as enormes reservas do mecanismo produtivo já existente fossem
nico. a alienaçãodos produtoresem relaçãoao seutrabalho,e o desperdí- racionalmente exploradas, e se a exploração de criatividade e inventividade
cio de recursose riquezas-- que impõem tais malescomo sacrifícios desne-
da classe operária, que se seguiria a uma revolução socialista, fosse estimu-
cessáriosnos padrões de vida. pobreza, frustrações das necessidadesbásicas, lada. em lugar de ser limitada e sufoi;ada. a realização simultânea dessas
desigualdade de acesso à informação e à cultura, e assim por diante. duas tarefas seria perfeitamente possível. Dois exemplos, quanto a isso, são
Segue-seque, para abrir realmente o caminho ao socialismo. a supres- ) especialmente evidentes. A erradicação dos espantosos gastos de recursos
são da propriedade privada deve ser combinada com a administração gene- sociais em armamentos. em todo a mundo e em especial nos países impe:
ralizada da economia pelos próprios produtores, em todos os níveis em que realistas.seria suficiente para liberar uma quantidade de fundos, energiae
isso seja tecnologicamente possível: certas decisões podem ser tomadas recursos materiais que teria um papel decisivo na industrialização dos paí-
no próprio local do trabalho, outras em nível de fábrica, outras em nível sesdependentes, sem provocar a menor redução nos padrões de vida dos
de ramo de atividadeslocal ou industrial. outras nacionalmente.outras trabalhadores dos países adiantados. Segundo. constitui uma das mais ter-
ainda internacionalmente. Essa administração generalizada pelos trabalha- ríveis condenações do sistema capitalista o fato de que massas de pessoas
dores está intimamente ligada à democraciasocialistano sentido de que as no mundo de hoje passam fomeporque há alimentos demais. Esse aspecto
decisões-chave sobre a divisão do produto nacional, as prioridades na utili- foi por mim localizado em detalhe em The Second S/t/mp. e nãa voltarei a
zação de recursos escassas,as opções sociais. etc., devem ser tomadas pelos
{

ele. exceto para dizer que ao contrário do que afirma a propagandaimpe


interessados,depois de debates democráticos abertos nos quais as várias realistae uma crença generalizada.a razão mais premente da fome rlo
alternativas são livremente apresentadas. A longo prazo, essesistema encer- mundo de hoje é a existência de uma cr/se de superpraducâo de alimentos,
rará muito menos desperdício do que o capitali;mo ou o$ Estados burecra- tipicamente capitalista.
tizados dos trabalhadores, porque os responsáveis pelas decisões -- que Essesdois exemplos simples demonstram que uma solução racional
podem cometer erros, e os cometerâo -- sâo também os que pagarão por do problemade igualar os padrões de vida por todo o mundo não implica
esses erros, em seus padrões de vida e condições de trabalho, o que nâo a redução das condições.de vida das classesexploradas nos países imperia-
ocorre, em geral, em relaçãoaos capitalistasocidentais e aos burocratas listas. mas a melhoria simultânea das condições de vida das classesexplora-
soviéticos. das em todo o mundo. O obstáculo a isso não é a escassezmaterial, mas o
Como disseantes, uma reduçãoradicalda semanade trabalho -- sistemade produção para lucro privado. Ao examinar os padrõesde vida,
provavelmente à metade da jornada de trabalho -- é uma precondição ma- porém, devemos distinguir as necessidades reais {como a eliminação
terial para a verdadeira administração pelos trabalhadores. Se estes traba- da fome. a satisfação de todas as necessidaes básicas. a educação e a assis-
lharem oito horas por dia, com duas horas adicionais para o transporte. tência médica gratuitas e generalizadas;'o acesso macico a todas as formas
simplesmente não terão tempo suficiente para tratar de seus problemas, de cultura -- muitas das quais não estão no alcanceda maioria dos traba-
seja na fábrica, no escritório ou na comunidade. Da mesma forma, uma ex- lhadores nos pal'ses imperialistas) das conseqiiências dos padrões de con-
tensão radical do processo de educacão, reorganização de modo a estender- sumo induzidos pela burguesia, que são não apenasem grande parte desti-
se por toda a vida do produtor médio, e o ecessogeneralizadoà informa- ?
tuídos de sentido. do ponto de vista da realizaçãodas possibilidadeshu
ção centralizada, também são condições preliminares para a realização de manas individuais. como Também rigorosamente prejudiciais, do ponto de
um dos objetivos básicos da revolução social: a eliminação da divisão social vista da saúdefi'siga e moral. Nosso "modelo'' de socialismo implica uma
do trabalho entre produtores e administradores. tranformacão radical da tecnologia capitalista e também dos hábitos de
Ao mesmo tempo, não é possível nenhum progresso sério no sentido consumo. Nossaresponsabilidadepara com asgeraçõesfuturas de não des-
do socialismo sem uma redução radical das diferenças em padrões de vida perdiçar os recursos naturais que sãa raros também leva a essaconclusão.
médios entre os países industrializados e os países dependentes. Portanto, Embora sejamos menos pessimistas sobre a capacidade da ciência humana.
a ajuda maciça das primeiros aos outros é indispensávelao progressona a longo prazo. de resolver todos os principais problemasda escassez
de
direção do socialismo. A questão, no caso. é se um aumento radical no energia e de matérias-primas do que alguns técnicos. reconhecemos que
crescimento económico nos países dependentesé compatível com uma essaatitude responsável é imperativa. O desaparecimento das relações de
redução radical da semanade trabalho nos paísesdesenvolvidos e uma con- mercado e dinheiro em todas as áreasnas quais as necessidades
básicas
solidação e extensão do programa material da classe operária ocidental. Na
208 marxismo revolucionário atua] 209
a poli'tida do interllacíonalismo contemporâeno

podem ser satisfeitas e.um.movimento consciente contra a desigualdade rável. Uma luta vitoridêa pelo socialismo seria uma contribuição frutífera
social são, portanto. parte integrante de qualquer luta real pelo socialismo
para o progressohumano, e por isso a luta em prol de tais objetivos, por
lo que não significa que todos os fenómenos do mercado possamser elimi- modestos que sejam. é a realização crucial de nossa era
nados artificialmente}.
As:desigualdades sociais básicas como as existentes entre homens
e mulheres, nacionalidades e raçasopressoras e oprimidas, serão legalmente
eliminadas pela revolução socialista. Mas sua realidade e seusefeitos pro-
longar-se-ão muito além da tomada do poder estatal pelo proletariado. par-
cialmente em consequênciada continuação dos preconceitos na consciên:
y
cia de muitos trabalhadores. Aspectos-chavedo período de transição,:por-
tanto, serãoas lutas de massaorganizadapara a libertaçãodas mulheres
e nacionalidadese raçasoprimidas,a luta contra a repressãodas crianças.
e assim por diante. Tudo isso significa. entre outras coisas, que é impcls-
sível construir o socialismo sem uma gigantesca revolução cultural, da qual
a dissoluçãoda família patriarcal e da distincão entre o trabalho particular
e o trabalho geral são aspectos-chave.
embora não sejamÍosúnicos. As
técnicas de educacão e saúde sofrerão modificações igualmente radicais,
o mesmo acontecendo com as relações urbano-rurais. O restabelecimento
de um meio ambiente natural saudávelexigirá até mesmotransformação
conscientemente preparadasda geografia da Terra. C)urro aspecto desse
processoserá uma redução radical no nível de violência, pois um dos pri-
meiros ates de uma federação socialista mundial seria suster e proibir a
produção de armas em todo,o mundo. e começar imediatamentea reduzir
os estoques de armas existentes a um ni'vel mínimo, controlado pelo povo.
Todos essespontos podem ser resumidosde formalsucinta. Nosso
modelo'',.de socialismo,ao contrário do que muitos adversáriosdo mar-
xismo pretendem, não*prometeo param'se na terra. nem o milénio. Nãa
temos ilusões sobre uma sociedadesemconflitos-ou um ''fim da história
Sabemosmuito bem que centenasde problemas continuarão sem solução
durante séculos":- e muitos outros. novos, surg,irão.;Somos..
na verdade.
pessoasmuito modestas, com objetiüos também modestos. Tudo o que
queremos é $resolver essa meia dúzia aproximadamente de problemas
resultantes da incongruência entrega capacidade'.'técnicae científica da
espécie humana, de um lado, e o sistema de produção para o lucro privado. +

de outro. Não,há:mistério sobre quais são essesproblemas: fome, miséria


física, desigualdade econõmi($ e social. guerra, desigualdade entre homens
e mulherese entre nacionalidadese raçasdiferentes.exploraçãodo traba-
lho de outros, repressãopolítica, violência socialmenteorganizada.Todos
essesobstáculos à auto-realização da personalidade humana podem ser eli-
minados pela derrubada das relações de producão existentes e das estrutu,
ras políticas que as mantêm. Não pretendemos resolver os numerosos
outros problemas, e os problemas futuros que sem dúvida surgirão. Mas
esses problemasÉcu$taram a vida de:centenas de milhões de pessoas,
durante séculos, e tornaram la vida de bilhões de outras terrivelmente mise-
€»

IMPRESSO POR TAVARES & TRISTÃO


- GRÁFICA E EDITORA DE LIVROS
LTDA..À RUA20DE ABRIL.28.SALA
l .I08, Ri0 DE JANEIRO. K.J.
continuaçãoda lq aba

necessidade de uma revolução antíburocrática e po-


lítica. como o único meio de alcançar uma democra-
cia proletária completa. É ressaltado.num outro en-
foque, o caráter camponês da Revolução,Chinesa.
em contraposição ao marcante espírito urbano da
Revolução Soviética, e a relação entre esse aspecto
e a teoria da revolução permanente.

O último capítulo integra os temas dessas discussões


numa análise geral da política mundial desde a Se-
gunda Grande Guerra, delineando as principais linhas
de força e de debilidade da luta de classesna era mo-
derna. MANDEL analisa a natureza daquela Guerra.
da Guerra Fria e do ''longo surto de prosperidade
para estudar em seguida a situação peculiar da classe
operária nos Estados Unidos e Japão. Concluindo.
delineia o programa e as perspectivas de sua organi-
zação,a Quarta Internacional.
Do mesmo autor encontram-se também publicados
pat es\a ed\tara. Trotski: um estudo da dinâmica do
seu pensamento e A formação do pensamento eco-
nómico de Kart Marx.

ZAHAR EDITORES
a cultura a serviço do progresso social