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ANDRÉ DESRAMAUX cia de certas injustiças virulentas do mundo contempo-

iq~
râneo pela vida do teatro. Poder-se-ia, então, falar de
contestação do teatro e da contestação pelo teatro. Esta
segunda contestação implica necessariamente, na elabo-
TEATRO ECONTESTAÇÃO ração de sua linguagem, numa permanente autocrítica
das formas de expressão do próprio teatro. Fazendo-se
uma, faz-se a outra fatalmente.
No plano individual, o ator foi sempre um homem
tentando resolver um conflito, um conflito de sua pró-
pria personalidade em luta consigo próprio ou em hiato
É impossível escrever hoje reflexões sobre o teatro com a sociedade. Ele é o homem a quem recusaram J
- ou sobre a arte em geral - sem levar em conta os linguagem e que tenta recuperá-Ia, ganhá-Ia pelo com-
recentes acontecimentos que abalaram a França (*) e bate e de ser em consequência o Prometeu público. É a
que tiveram repercussão em certos países da Europa palavra de verdade, finalmente possuida e sempre fugi-
pondo em foco as noções de contestação e de crítica. A tiva, agarrada após todas as frustrações da infância para
contestação política levou logicamente a um questiona-
além da impossibilidade do dizer, da interdição de entrar
mento radical da cultura chamada "burguesa", e a toma-
no mundo dos adultos que têm sobre a criança a supe-
da do Odéoll - mesmo sem ter levado a um resultado
rioridade da Iingagem, Lembremo-nos que o verdadeiro
verdadeiramente tangível - foi um fenômeno tão im-
portante quanto a ocupação da Sorbonne. De passagem, crime em Rei Édipo é a tentativa de infanticídio e não
é interessante notar que essa febre de contestação deu o assassinato do pai e o incesto.
lugar, bruscamente, como por geração espontânea, a toda Hamlet, esse tímido, não se bate também para der-
uma série de recem-vindos-na-contestação que, por osmo- rubar o substituto do pai, o usurpador que tomou todos
se ou por pura capilaridade, não queriam perder esse os poderes, inclusive o da palavra. Em toda tragédia _
barco cheirando a nova vanguarda. e também em Shakespeare - a morte do herói é trans-
E para começar, é preciso lembrar que contestar cendida pelo fenômero da linguagem. Hamlet moribundo
quer dizer criticar, discutir, não admitir. Essa crítica se salva, desemboca sobre a beleza do ato da palavra,
visa a uma certa ordem de coisas, uma esclerose estabe- supremo conhecimento e suprema liberdade. Ele morre,
cida em qualquer domínio que seja. A constestação é mas finalmente se identifica consigo mesmo:
sempre um apelo à liberdade, uma porta que se tenta
abrir em um local muito bem fechado, uma verdade que O, I die, Horatio;
se esforça por proclamar, uma procura de um pouco mais The potem poison quite o'er-cro1Vs my spirit:
de luz. Nessa perspectiva, é evidente que é possível con- I cannot live to hear ne1VSirom England;
testar politicamente, moralmente, culturalmente etc. É Bu: I do prophesy the eiection lig!lts
preciso atrair a atenção para a importância da palavra On Forlinbras: he tas my dying voice;
na constestação; talvez seja por isso que a arte visada So lel/ him, wit!l lhe occurrenls, more alld less,
em primeiro lugar seja o teatro. Jl'hich !lave soliciled. The test is silence. (Dies)
O movimento francês nos mostrou bem uma vonta-
de de contestação geral. Limitar-me-ei aqui a uma análi- Karl Jaspers escreve, em seu prefácib à tradução de
se da contestação teatral e estudarei isto sob o duplo Yves Bonnefoy: "A mesma questão volta sempre: o
aspecto do teatro como arte individual e social, sendo homem morre forçosamente da verdade? A verdade é
esses dois aspectos indissociáveis. a morte? A tragédia de Hamlet, é o frêmito do saber aos
Pode-se dizer imediatamete que "contestação tea- limites do homem. Não se acha aí nem preconceito, nem
tral" tem um sentido objetivo e subjetivo, De fato, isso preferência, mas o puro saber do ser no não-saber que
designa tanto a crítica de um teatro estabelecido e rea- denuncia incansavelmente a vontade de atingir o verda-
cionário (95%do que se faz na Europa) como a denún- deiro e que derrota a vida."
.G pela aquisição da pahmil que o ator (mia iCSol· I suas conotações religiosas, torna-se muitas vezes um di- COSo Em seu teatro, volta às lendas medievais e aos I dragão lançando fumaça que leva muito tempo para ncr-
ver seu l:Oi1Í1ilo, lias também. o i~utor de peças eodire- vertimento puro, um grande jogo da corte. Em uma pala- afrescos históricos da Renascença. I ret, Os meios eletrârricos conlemporâneos, segundo Mae
tor de um grupo. Os tres nas celebres grupos de tcalro VfU, como muilo bem demonstrou Artaud, abandona a Deve-se citar Le Roi S'amuse como uma exceção'l Luhan, vão transformar o homem visllill em aúdio-tátil
atualmente no mundo são indissociáveis do chefe que os vida, E durante esse tempo a comédia de boulevard se deen- como era em sua origem, Todos os media provenientes da
?irig~: Julian Bec,k, ~el~r Brook e.Gro,~owski. j~o..n[vel Ou, para ser mais exato, deixa atotalidade da vida, volve, atinge a maturidade evai muito bem atuahnente, eletricidade são uma extensão de sistema nervoso en-
mdlvldual, o teatro ja e.contestaçao. li. a condl~ao de a universalidade da vida para praticar uma espécie de Analisando a noção de teatro de contestação em tral) são os mais fascinantes visto que aluz éum medium
todos a~ueles que opralIcam: ator;s). dlretores creluam regionalismo dos problemas, um regionalismo de classe 1968, convem lembrar dois fenómenos maiores que, glo- íoíal cujo conteúdo é opróprio medium (lhe medium is
uma cntlca. permanente de scu propno pensamento na social limitada. balmente, revolucionaram toda a sociedade e em parti- the message). Entramos, então, na era do cinema e
situação, _co~ um olhar lúcido .e ~wiedoso. A~r!meira "Nunca, quando é a prépria vida que se vai, se fa- cular, mudaram o teatro quanto ao seu papel) sua lin- sobretudo da televisão. Não se pode deixar de estar intei-
contestaçao e, portan,to, a pnnClplO, um negocIO do leu tanto de civilização ecultura. Ehá um estranho para- guagem e seu poder de impacto: ramente de acordo com Mac Luhan, mas acho que o
homem de tei/tro COllSlgO :Ile~mo,. , lelismo entre esse desmoronamento generalizado da vida teatro possue ainda um campo de operações que analisa-
, Yl~apassar. s~us .propncs ~t~s,· bater-se cont~a que cstá na base da desmoralização atuá! e a preocupa- I. Onascimento no séc. 20 de novos mass media. rei adiante.
SI propno com vlOlen~Ia ehumor, cntIcar-se em det~:nll: ção de uma cultura que nunca coincidiu com a vid~ e A sociedade de espetáculo e de consmno só fez
nada cena e consumu:-se aos olhos de uma platem c que éfeita para gerir avida," aumentar o fosso existente entre manual e intelectual)
2, O desenvolvimento de um tipo de sociedade
pura contestação,
' ... sobretudo
. neste ato íeatral .que éime- E se Artaud imSls. ti'u tanto nesse aspecto em toda entre agricultura e indústria, entre rural e urbano. A
dato, mslantãneo enao renovado. br " ,. chamada "sociedade de espetáculo e de consumo" (es-
.., .. t d
e
" sua Ora, cren que eporque ele se sentiu temvelmente rapidez de produção - eportanto de consumo - au-
Mas se o teatro nao esenao o erreno eexpenen- f d d ' . . . petáculo se entende aqui no sentido situacionista).
mentou a velocidade de produção das "obras de arte"
cm. para a lib" eraçao doaor tl""1
eeemulI como ato SOCI''al aasta o essa . VIda, dessa VIda coletiva e SOClá! que ele Até oinício do século 20, a{mica via de informa- que em sua maior parte entram no mercado da arte,
liberadoa um pu'blicoo ) amava e edsva ao mesmo tempo. Artaud se lançou no
tea tro sobretu do para se consumrr .ii,SI propno
" como ção era a imprensa (reservada aos alfabetizados) e o Pode-se aqui fazer referência ao livro de Jean Gimpel.
. _ ,. , único grande divertimento público o teatro. Pode-se di-
Essa liberaçao,.do individuo
, ..' deve se encarnar numa t t b' t t
' . . aor, mas an] em para en ar ogran e logo com o d diál A pequena nota crítica publicada no Edmagramme de
forma esímtursda, forma slglllfJcante em lmguagem a pU'bl'ICO. N-ao conseguIU, esse d'Iá! orro por est· zer que onão-público (é preciso lembrar que essa noção
,. r " , ar amdamUI'to de não-público nasceu durante os acontecimentos de
junho de 1968, focaliza bem oproblema:
mas uillversal passIVeI. Esta ar toda ii dIferença entre o ;. b "A arte teria, segundo Gimpel, tendência para se
, mergulhado em suas prcpnas trevas presa de todos os maio, em seguida às reflexões feitas por diretores de
pSlcodrama e oteatro. Oator deve ~ f~
. , . lembrar-se . que pra- seus vorazes dsmêni
emomos. Oque lez .t
01 apenas proJe ar no teatros populares e de casas de culíura, e designa esse
calar no momento de sua venda, e a se tomar nula no
uca uma arte dlretiilllente envolVIda numa SOCIedade, uma I . d' .d ... instante em que se especula sobre ela. Ê compartimento
ar1e de míl imCI'dA" .,. Sb
encas l1l1preVlSlvels, o pre tex to dc pa fco umd menso
d . eseJo ecomumcaçao que permaneceu vasto público intocado pela quase- totalidade das ativi- da cultura, sendo esta mesma definida como uma cultura
"fazer teatro eenao
II I • pode, assm, . nao .. se saber poI"llIco na ·ase o esqo. , . . dades culturais) não pessaia bem a informação nem o "de consumo". Asociedade modema teve muito cuidado
esocial. É aqui que chegamos afalar de teatro de cen- Volte~os, pOre?l, ao hiato entre ~ teatro e aVIda. divertimento. Os novos mass media deram ao não públi- em preparar esses compartimentos: através de subvenções,
testação politica. Esse teatro é possível, e esta noção é ~sse romplment? vm s~ acent~ar no sec, 18 c?m onas- co um divertimento e uma informação (mais ou menos subsídios, encorajamentos - e indiferença. Daí o papel
amesma nos Estados Unidos, como na Bél~ca'l Aarte cnnelIto.. da sOCl~d~de mdus~al' o dese~~ol~mento ~o dirigida conforme os países) que eles não tinham: o contestador fictício) marginal e que) pela consciência de
sempre foi um veículo de combate, mesmo quando se proletarIado, a csao entre litera~a e ClenCla.. No sec. rádio, a televisão e a grande imprensa (isto graças ao seu vazio e de sua ineficácia, o conduz ao sobrelance.
desenvolvia numa sociedade calma e sem graves proble- 1;, os grandes c?ntestadores serao, ~odos malditos, luta- desenvolvimento do ensino e à supressão progressiva em Se aexistência real de uma arte se mede pelo temor que
mas aparentes. Ê uma espécie debarômetro da não-se- r~o c~ntra a socI~dade do IIImp.eno pela ~ena e pelo nossos países do análfabetismo). pode inspirar sua mensagem atoda uma sociedade) pode-
curização. Foi assim que oteatro grego serviu de contes- pincel: Hugo,. ~baud, BaudelaIre) Gaugmn o~ Van Além disso, o desenvolvimento desses recursos de -se dizer, entre nós; que a arte existe? E pode-se ainda
tação politic~ criticou a ordem dos deuses esua violên- Gogh. A maona ~esses conte~~dores. aparece lDeg~- comunicação de massa provocou uma divisão dos interes- mostrá-Ia?"
cia fatalista. Sempre foi) pelo próprio vigor de sua Un- velmen~e como desajustados socus, Vejamos o que diz ses e da escolha pela proliferação de ofertas espetacula- Esse ciclo incessente de produção-compra criou
guagem um apelo libertário muito vivo. Ê por isto evi- Jean Glmpel: res Se em determinada época só era possível irao teatro uma falta de atrativo da arte que se tornou um fenôme-
denteID~nte, que onovo re~e grego aíual (*) se ~pres- "Os burgueses afastados da vida política ativa :e para "assistir aum espeíácalo", agora pode-se optar pelo no "culturá!" ~rando em circuíto fechado: o artista) os
sou em proibir os grandes trágicos esuas representações. sentem frn~tados, Im?~tentes para ex:ercer uma açao chena, rádio, televisão, olivro ou um passeio de cano. vendedores, um público minoritário. Essa sociedade de
Essa contestação, que tinha uma relação direta com ~obre arealIdade quot~dJa~a, eles se evadem num ~u~do Então, o teatro perdeu naturahnente uma parte de sua consumo - podendo ser objeto de diversas críticas -
oreal, durou até oinício do século 17. Até aí oteatro meal, no sonho, no mlstenoso eoestranho, no fantas!Jco clientela. Não se deve queLm ou lamentá-lo. Não resta inventou, todavia, o automóvel (foi também essa socie-
tinha profundas raizes reli~osas, era um dos grandes e no bizano, no passado, na utopia. Eles s,e desl.igam do tá!vez mais que um reduzido número de pessoas interes- dade que além disso inventou também os novos mass
veículos do pensamento antes da difusão do livro, e era mundo e. do pr~sente. Eles se sentem sos. e 1soI.ados. sadas por esse espetáculo difícil, essa arte de alta tradi- medi~~) e esse automóvel) máquina de sonho espacial,
também oreflexo do conjunto das camadas da sociedade, Mergulham em SI mesmos e descobrem o mconSClente, ção. Amenos que ele não tenha se tomado inteiramente peTIlllti~ graças aos lazeres (que são opróprio resulta-
um verdadeiro espelho. Assim, nasce nesse meio burguês num novo tipo de anacrônico, uma espécie de lamparina das artes em plena do da automação), descobrir omundo. E é por isso que
Apmtir do séc. 17 o teatro se tornou o apanágio intelectuá!: oromântico." época eletrônica. Se optamos pelas teses de Mac Luhan, ohomem contemporâneo descobre seu primeiro espetá-
de certa minoria social (e, se contesta, só contestará Hugo faz uma real contestação politica e sociá! em éevidentemente oaspecto anacrônico que é preciso con· culo gratuito e permanente na rua, na publicidade, na
2 agora através dessas minoria)) perde progressivamente Les Misérables ou em seus escritos propriamente politi- siderar edizer-se) então) que oteatro não émais que um moda que desfil~ no salão do autom6vel ou nas ~gantes. 3
arte abstrata foi a plincípio considerada revolucionária, tem que seu próprio as, se sente uma necessidade pro-
cas manifestações esportivas. Creio ~ue isso também faz "O drama: isto é, o ato teatral no momento da re-
depois burguesa. E deve-se lembrar que o próprio Marx funda disso. Há uma certa mentalidade coletiva, uma
parte da nova "cultura". presentação, esse ato teatral não pode ser não impolta
guarda sua predileção pela arte grega. A arte explicita- violência de problemas (problema negro ou Vietnã nos
Há pessoas ~ue conhecem Chimcne mas ignoram o o que seja mas qualquer coisa pode servir de pretexto.
mente revolucionária se reduz a quase nada; a arte poli- EE. Unidos) que mostram bem que a contestação tem
~ue é um motor Wankel. Possuem uma cultura total-
Parece-me de fato que qualquer acontecimento visível
ou não, se for isolado, quero dizer, fragmentado no ticamente cobre ~uase tudo." Não é, portanto, questão acor da sociedade em ~ue se desenvolve.
mente anacrônica se considerarmos que, mais do qne de se diri~r ao não-público, sob pena de cair na mais Finalmente, creio que a mais autêntica contestação
nnnca, a cultura deve ser esse conjunto de informa- contínuo, pode, se for bem produzido, servir de pretexto
ou) então, ser o ponto de partida e de chegada do ato baixa demagogia sem de partida estudar em profundidade só pode nascer entre gente de teatro deserdada, que co-
ções que nos penuite agir sobre onosso mundo contem- todo o fnndo político, cultural, econômico, social desse nheceu profundamente as injustiças humanas e agudez
porâneo, estar em equilíblio no seio desse mundo com- teatral. Não impOlia que acontecimento vivido por nós,
de um modo ou de outro, mas cuja queimadura tenhamos público. Não se faz arte popular indo representar Racine de certos problemas. Bruxelas não tem seu bairro do
preendendo-o e nos compreendendo. diante de uma fábrica. Creio que é necessário levar o Bronx. Desconfiemos então dos fabricantes de contesta-
ressentido causada por um fogo que não poderá apagar-
Então, que é o teatro de contestação cm 1968? próprio não-público a liberar-se de seus entraves e alie- tação. Mas não é a ausência dessa área qne pode justifi-
-se desde que atiçado. car ofato de continuar arepresentar Pagnol ou Roussin.
Apolítica, os divertimentos, a moral etc. nada te- nações, a' politizar-se primeiro e depois a pensar em
Primeira reflexão. Falar da arte de contestacão é rá a ver com a nossa preocupação. Se à nossa revelia cultura, as duas coisas podendo andar juntas. Pode-se
antes de mais nada contestar aprópria arte. Isto foi feito observar que durante os acontecimentos de maio uma Quarta reflexão. Para mim, o teatro como puro di-
eles se introduzem no ato teatral, que se os enxotem até vertimento está fadado .a uma morte certa, porque
com extrema violência pelo movimento Dada há 50 anos. que todos os seus traços estejam apagados: são escórias pressa exagerada, sem análise séria dos problemas podia
E todavia, a partir dessa época, tem-se servido de uma desembocar em impasses. nesse domínio ele é vencido de mil léguas por outros
com que se pode fazer filme, tevê, esíéría em quadrinhos, media que possuem recursos mais amplos eespetaculares.
certa arte para mistificar as pessoas, para mergulhá-Ias foto-novelas - há um cemitério dessas velhas carcassas." "Desenvolver acontestação sem que ela se nutra de
num permanente obscurantismo em nome de toda uma conhecimentos básicos, éfavorecer overbalismo, aima- Ocinema se tornou uma indústria, mas pelo teatro; isto
série de ideologias estetizantes de pretensão absoluta. "Que se pense sobre o qne seria asaida dos espec- prova que o teatro não é altamente rentável financeira-
tadores depois do D. Juan de Mozart andando entre os turidade e as tendências uItra-revolucionárias que são
Desenvolveu-se encr~camente nos últimos anos o tem- geralmente a expressão da iguorância e da impotência: mente. Se se procura o caráter próplio do teatro, desco-
rismo de uma certa eriíiea de arte de linguagem esoté- mortos deitados na terra, antes de entrar na vida pro- bre-se, comparando-o com as outras "artes do espe-
fana. As conversações nem osilêncio seriam os mesmos em certo sentido, os excessos do grande movimento de
rica. E aprópria arte, em suas pesquisas mais avançadas maio de 1968 refletem o subdesenvolvimento da juven- táculo", que é o jogo do ator e a palavra dita por este
e mais puras, foi quase sempre recuperada pelos vende- que à saida de um teatro comum." diri~ndo-se diretamente auma comunidade em um corpo
tude francesa em matéria de fonnação política. Em um
dores ou por certos magos que a transformaram num ponto pelo menos, conservadores e inovadores podelianl a corpo violento.
universo intocável, o paraíso da não-comunicação. Se Segunda reflexão. Quando se começou a falar de estar de acordo: quer se queira manter ou derrubar a No momento em que, numa sociedade, os grandes
em 1968, milhares de jovens denunciaram uma cerra não-público, pôs-se em evidência ofato de que esse não- ordem estabelecida, é indispensável conhecer bem seus problemas estão resolvidos, pode-se pensar eventualmen-
arte reacionária, foi precisanlente porque chegaram ao -público era intocado pelas representações teatrais. Le- te em divertir. Mas nossa sociedade se ampliou visto que
fundamentos e sua estrutura."
ponto de total saturação, anojados com o teatro de vantou-se, portanto, o problema da difusão das obras, engloba atotalidade da tena, Portanto, todos os prcble-
necrópole transfonnado em arqueologia dos "bons sen- da criação de casas populares de cultura, mas pouco se Terceira reflexão. Fazendo-se a análise acima, ccns- mas dessa terra são nossos: Vietnã, Biafra ou rensd-
timentos", e não mais essa permanente "reflexão sobre falou do próprio conteúdo dessas obras, dos valores a tala-se que não se pode praticar a contestação nos Esta- mento do fascismo. Se deve ainda existir um teatro con-
a realidade" contemporânea (para retomar as próprias difundir. Não li em parte alguma que se tivesse levanta- dos Unidos da mesma maneira qne na Bél~ca. É neres- temporâneo, ele só pode ser um teatro da infonnação e
palavras de Brecht). Oteatro perdeu osentido do fogo. do a questão: "Será mesmo necessário continuar repre- sário desconfiar de todo mimetismo de camaleão-con- da crítica, um teatro do despertar; É evidente que para
Falando em necrópole e em fogo, penso aqui no texto sentando Moliere? Se sim, de que maneira representá-lo"? testador. Anisca-se imediatamente afazer oseu pequeno transfornlaI uma sociedade em profundidade, é necessá-
maravilhoso de Jean Genet em que ele preconisa que Gaetan Picon desenvolveu recentemente esse aspec- "sub-Lil'ing-Theater", seu pequeno "sub-Bread & Pup- rio revolucionar suas infra-estruhlras efazer em prineiro
se coloquem os teatros nos cemitérios. to do problema: ' pet", de ver florescer os Cohn-Bendit na U.L.B. quinze lugar política e não teatro, mas tenho notado que aque-
"Porque não tenho os poderes espirituais para isto "Uma primeira ambiguidade surge ao nível da exi- dias depois da Sorbonne, ou de assistir à reconstitnição Jes que nada mais fazem que repetir essa Jitania despre-
gência de comunicação. Falar de cultura, de universidade zando todas as formas de arte não mudam nada peja
- se é que existem, não exijo qne o lugar teatral seja dos corredores do Odéon no palácio de Belas-Artes" prépria confissão de impotência e incapacidade.
escolhido, depois de um esforço de meditação, por um burguesa, pode ser entendido no sentido de extensão
transfonnado pela circunstância numa espécie de acam- Todos sabemos que imagens televisadas sobre Bia-
homem ou por uma comunidade capazes desse esforço, não da compreensão dos valores. Censurar as universi:
pamento-quennesse para pseudo-revolucionários partiu- fra são o mais violento discurso de contestação que se
será necessário portanto que oarquiteto descubra osigni- dades por acolher apenas uma ínfnna proporção de filhos
de operários, as casas da cultura (são os animadores do uma pá~a em branco. Oteatro de contestação, que possa imaginat, e forçam os mais acomodados arefletir
ficado do teatro no mundo e, tendo-o compreendido, que existe sobretudo nos EE. Unidos (e penso aqni no Bread etomar partido. Em nossa época, ainda é possível ccn-
elabore sua obra com uma gravidade quase sscerdoíal que o dizem), de não atin~ onão-público é admitir o
próprio valor desses valores que se tem de'comumear a & Puppet, no Teatro Campesino, na Mime Troupe, no duzir uma ação teatral eficaz com a condição de usar o
e sonidente. Se necessário, que ele seja apoiado, prote- Guerrilla Theater, no Opell Theater ou no Gut Theater) vocabulálio teatral de 1968. Mae Luhan demonstrou
gido, durante seu trabalho, por um grupo de homens que todos.
Considerar os valores como burgueses e supor que não é absolutamente transportável tal qual na Europa.. bem que opróprio mediulll éque é messagem. É, assim,
ignoram a arquitetura mas sejam capazes de uma verda-
eles cessarão de ser quando auniversalidade de fato res- Não é por nada que, mais perto de nós, Peter Brook renovando sua linguagem que o teatro pode ser urna
deira audácia no esforço de meditação, isto é, do riso 5
recusou representar seu as fora da Inglaterra. Cada país , expressão contemporânea e agir sobre nossa percepção
4 interior.." ponder à universalidade de direito é contraditório. .. A
do lllundo. Instaurando uaa lingnagem relacional em qne heierogeneidade pura da vida no combate difícil entre I aela. Um exemplo disto são os programa.') de auditório
lv!ARIA CLARA MACHADO nas Tvs para crianças. Temos visto programas de tele-
funcionem os gestos, os sons, as cores eas palavras como Eros e Thanatos, reatar com as núpcias do Yin e do
tantos signos de infonnação, aviolência estando sempre Yang, da grande mutação desse rio de Victor Segalen visão onde olocutor-herói distribui brinquedo~, conversa
presente. chama "Diversidade". Espelho do homem, espelho da com as crianças cdemonstra enorme capacidade de atrair
as jovens meninas-moças que enchem os estúdios.
"Em épocas de paz e de hannonia social, o teatro
pronuncia um Sim coletivo. Mas em um mundo caótico
alma e espelho de uma sociedade de mil faces, de mil
dores, de mil ferimentos e mil esperanças. Catalisador
AARTE ~ Oque querem essas meninas que lotam os estúdios da
Tv? Ou que estão coladas aseus aparelhos durante horas
e despedaçado, temos que escolher entre um teatro que
articula um sim mentiroso, cuma provocação que faz o
das ener~as em busca de verdade. Trata-se de uma am- DIRIGIDAA afio, esperando apalavra mágica que faz com que uma
pla exigência para os homens de teatro epara opúblico.
público explodir em partículas de não viventes." Mas como muito bem disse Stanislaviski numa carta lida CRIANÇA: UM PROBLEMA meninazinha do interior se sinta amada por todos? Qual
o mundo que essa criança está criando para o futuro?
Em nosso país eem quase toda aEuropa ocidental num caderno precedente do TOL: "Sabem porque aban-
de resto -esse teatro só pode tratar dos grandes mitos donei meus negócios pessoais e me consagrei ao teatro? Afelicidade das mães, já se começa a compreender. ?
do homem misturando no bojo a morte, a tortura, a Porque o teatro é a tribuna mais formidável, cuja in- sorriso daqueles que vêem seus filhinhos serem premeu-
opressão, o exflio, a liberdade sob todas as formas , a fluência ésuperior àdo livro eda imprensa. Esta tn'buna dos a pessoas importantes é a realização máxima do
invenção de melhores relações humanas pela tolerância, caiu nas mãos da escória da humanidade, efizeram dela adulto frustrado em seus anseios. Ser visto por uma
pelo amor e a sensibilidade. É preciso notar que é este um lugar de corrupção. Minha tarefa, na medida de Muito já se falou sobre a criativida~e c a liber.d~de quantidade enonne de espectadores e ainda p~~ ci~a
caminho que, na Europa, segue oLiving The'ater. minhas forças, élivrar afamília dos atores dos ignoran- que se deve dar àcriança para ~riar. EXISt~~ exposlçoes ganhar um brinquedo caro já é uma enonne gralIflcaçao.
Oacontecimento teatral reunindo um certo número tes, dos diletantes e dos exploradores. Minha tarefa, na de pintura infantil, centros de logos dramatIcos onde a lr a um programa, responder qualquer coisa ~e mu!to
de homens num momento dado, permite um diálogo após criança cria situações evive um teatro feito por ela. m.e~­ pouco ima~ativo, ser vencedor de .nada, ouvrr elog!03
medida de minhas forças, é dizer à geração atuaI que o
arepresentação. É no curso desse diálogo que é possível ator é oprofeta da beleza eda verdade." ma além dos suplementos literários infantis. AcnativI- sem ter feito nenhum esforço e tenmnar dando as maos
continuar oque foi começado com apeça e a desenvcl- dade da criança vem sendo incentivada epromovida por a todos fonnando uma enonne cadeia de mediocridade
Quem se sente encatarrado que se assoe!
ver aparte de informação-crítica Essa noção varia, evi- todos os lados. Através de sua história, de seu desenho, satisfeit~ éomundo dos prêmios epromoções da Tv, um
Torçamos o pescoço ao teatro que não nos torna
dentemente, em função do público e dos acontecimentos um pouquinho mais inteligentes, um pouco mais sensíveis, de seu comportamento nos jogos dramáticos, o adulto dos espetáculos mais tristes aque amaioria das crianças
do momento. Sabemos mais do que nunca como ainfor- um pouco mais conscientes de nós próprios, do mundo julga e descobre omundo interior .da criança, Do ponto e adolescentes de nosso país está sujeita. Apromoção
mação émanipulada por mãos hábeis para criar obscuran- e daquilo que resta afazer nele. de vista terapêutico, a arte infantil tem SIdo o mel?or comercial é uma engrenagem onde as mais belas epro-
tismos e raramente para projetar a luz. Jean-François caminho para levar os psicólogos ao mundo dos corflitos fundas aspirações do ser humano são trituradas. Para
Revel notava isso em seu livro Lettre OuveHe àla Droite, infantis. Apedagogia está dando tratos à b~la para d?s- vender mais, oprodutor-comerciante no.s oferece um es-
quando declara que o grande progresso a realizar, a cobrir, a cada ano que passa, novas. e nas revoluclo- petáculo de perturbadora pobreza coletlva. , .
grande revolução a ser feita, é a outorga aos povos de nárias maneiras de se educar uma criança, de se. can~­ Nesta época em que se pensa estar dando acnança
uma infonnação absoluta, tão radicalmente livre quanto lizar sua criatividade para torná-Ia um adulto mas ieliz liberdade para criar, estamos, pelo contrário, dirigindo
se possa ima~nar. e mais integrado na sociedade. Estamos vive~do uma a criança para uma falsa espontaneidade, dirigi~a, con-
Falar em teatro de contestação é dizer um pleonas- época em que todos se preocupam de uma maneira quase trolada, estudada em benefício quase que exclUSIvamente
mo. Se não há mais contestação, não há mais teatro, nada excessiva para que seus filhos tenham tudo que omundo de uma propaganda comercial.
mais resta que um farrapo desprezível em que apenas os pode oferecer de melhor. Outra atividade cheia de boas' intenções é a de fa-
medíocres podem encontrar prazer. Essa arte do teatro Aqui começam os equívocos. . zer acriança pesquisar. Para que acriança descubra por
que há anos está em crise talvez tenha sido sempre uma Oadulto que, integrado na sociedade, não se sente si mesma os caminhos da cultura, os alunos das escolas
arte da crise, aarte que tenta resolver os problemas mais feliz procura por todos os meios fazer com que seus estão aprendendo a pesquisar. Os professores dão as
agudos. Ele ainda pode correr orisco mara~lhoso de se filh;s tenham oque ele acredita que não teve; eoferece dicas, os alunos saem por aí para descobrirem omundo
tornar a grande arte da participação e da não-securiza- a eles uma série de atividades, pensando estar-lhes dan- das ciências edas artes, da cultura em geral. Acuriosi-
ção, varrendo de seu repertório todas as fantasias poei- do omelhor. Algumas dessas atividades são simplesmen- dade para com as coisas do mundo, pela pesquisa, está
rentas mergulhadas num verbalismo inútil, colocando o te assustadoras para o desenvolvimento da criança. Em ao alcance de todos. Os meninos com um pequeno gra-
homem diante de seus verdadeiros probllemas contem- nome da felicidade da criança, de seu bem-estar, esta- vador se espalham pela cidade em busca de suas curiosi·
porâneos, desvendando um pouco mais de verdade, ins- mos talvez nos afastando cada vez mais dos seus verda- dades, chegam ao teatro para entrevistar uma artista. Os
taurando progressivamente um mundo de novas relações deiro mundo: um mundo mágico emisterioso. alunos têm de 10 a 12 anos. É um orgulho para o en-
sociais mais extensas, mais profundas, sem esquecer pú- Quais são essas atividades? tre~stado ver crianças tão pequenas já mauipulando tão
blico algum. ~ Julho-agoslo!1968 Toda vez que oadulto impõe àcriança um compor- bem os gravadores. Depois tiram uns papeizinhos do
Oteatro de contestação será aquele que, fora das I tamento adulto ou confunde saber com viver, está for- bolso
adorada
e começa
nas
a
escolas
entreista
para
Parece
desenvolver
que
na
a pesquisa
criança sua
é
li- 7
alamedas batidas de uma arte confortável, reencontrar a Cahiers Théatre Loul'aill - 68/69 çando a criança a assumir um papel que não pertence
Oautor de obras para crianças se pergunta sempre Se a criação artística é um imenso mistério que
b~,rdade de escolha, sua imaginação, sua capacidade de trono nã? fique, dentro de uma torre de marfim. Tudo o que escrever para criança, o que é bom para elas. vem das profundezas do inconsciente, a criança é outro
~r~tI~a, csobretudo sua inicia,tiva, Oque se pretende'dar que ii cnanç: dIZ" tudo que pinta, tudo que representa Quais os ingredientes para se fazer uma boa peça infan- mistério maravilhoso. Agrande decepção do homem ra-
a n~ç~, d~ndo~ho operlunidade de pesquisar por con- num teatro e analsado, pesado, comentado. Sentadinha til? cional deste século é querer saber tudo que se passa no
ta,propna; e faze-la descobrir, com liberdade, seus pró- no seu trono, a cnaaça vai direitinho aprendendo os Não adianta digerir um tratado de pedagogia, de mundo infantil. Escreve livros, inventa teorias, faz con-
P:"10S ~amlllho~. ,Mas para se saber usar a própria hber-
dadc e necessano um aprendizado, e é justamente isso
t~uques adultos, como fazem 110S diálogos na Tv ou en- psicolo~a ou mesmo da arte de escrever, que de nada gressos, e a criança continua fazendo seu buraquinho.
tao. tor?am-se exigentes, tirânicas, porque sabem'que são serviriam para se escrever bem para crianças. Aarte de na areia para colocar o mar dentro, como na Iústória
que o~ alunos .nã? têm. Não s~ pode soltar as crianças muito Imp?rtantes~ Quan~o cantam, sem voz, nem es-
de ~ualquer manara para pesqUIsar aquilo de que nunca escrever para criança, como toda criação verdadeira, de Sto. Agostinho, Não tente me desvendar, parece di-
tudo, nem Idade, sao consderadas excepcionais. " quan-
ouaram falar. Ogarotinho posto de repente, com seus continua tão misteriosa como há um século. zer acriança.
10 ou 12 anos, de gravador em punho, diante do mundo
do r~resent~m num teatro, senpre de uma maneira adul- A criação artística, diz Jung, toma conta do Cria-\ Talvez, o segre?o daqueles qU~"conseguira~l ficar
ta, sa~ consldera~a,s talentos precoces... quando escre- dor eomo se ele fosse um mero instrumento de alguma entre as cnanças seja o de serem fIeIS ao memno que
dos adultos, sente-se basttmte perdido, As entrevistas em
coisa que o transcende. O autor pode ser uma pessoa \ vive ~entro deles. De.ouvirem a. v~z. de se~ ~ró~rio in-
vem sao quase gemes, porque emitiram idéias adultas.
geral se passam da seguinte maneira: Entrevistador A
senhora se sente realizada? ou: Como é que a senhora
.E ?nde está a yerdadeira criança delairo daquele comum como personalidade, ele não tem obrigação de conscieníe, e d~ respel~arem. omlsteno da mfanclíl.
me~mozll1ho ou memnazinha sentada num trono de pa- estar à altura de sua obra. .. Sua biografia pessoal po- \ Talvez atao desejada liberdade que se reclama para
começou sua carreira artística?
Sente-se que o~enino está lendo as perguntas feitas
pelao? Ela será obrigada a reinar sobre a mediocridade de ser de um filisteu, de um homem maravilhoso, de ü~n a .edu~ação mode~a seja apenas .isto: respeit~ omundo
geralmente pel?s pas que precisam ajudar às filhos de
dos adultos? Oque se deve dar para elas de verdadeiro? mendigo, de um louco, de um criminoso. Que ele seja mstencso do memno. Ele ~oSSUl d~ntro de SI mes~o o
Con:o desmistificar o adulto prematuro que esconde ~ interessante ou não é secundário para a essência da futuro e cabe ao adulto abnr o eammho apenas, deixan-
qual~uer manara, Se o entrevistado responde direitinho
menino? poesia. do que avida faça oresto. .
a coisa :ola. Mas ai do entrevistado que r esolver pergunta;
ao ~eruno, p~r exemplo, o que é se sentir realizado ou ,A_cri~tivid~de d~ criança precisa de alimento .. ' Se Omelhor modo que encontrei para explicar minhas Quando e:creve~os para c~ança somo~ apenas
entao o que e uma carreira artística, Os meninos ficam a.cnaçao l11~an~11 esta tão valorizada, se a criança deve peças foi amaneira usada pelas próprias crianças quan- aq~eles que es!ao a~nndo o eanunho~ o cammho, que
perturbados e confundidos. enar seu prcpno mundo, o que será feito da arte feita do perguntamos a elas por que fizeram aquele desenho vm do sonho a realidade. Estamos criando, atraves da
Creio que amelhor maneira de fazer a criança che- pelos adultos e dirigida à criança? daquele jeito arte, e a partir do maravinlhoso, a oportunidade do me-
p' . . nino sentir que a vida pode ser bonita, feia, misteriosa.
l'd d A b ' b ~ clara, escura, feita de sonhos e de realidades:
gar, ao conhecim~nt~ d~ teatro através da pesquisa é . Qual o segredo do encontro entre os autores de
faz~-l,a chegar prmleJf? a obra. Um grupo de crianças Imos e ~eças para crianças e o meuino? Quando uma -. arque SaIb'I asslm .
obra, escrita por um adulto para a criança êboa, em E:\lste o pro Iema d· a qua I a e. o ra e oa:
assistindo a um espetaculo e depois discutindo com os
Serve para criança? É realmente uma obra de arte? E
aut?res .e atores a obra é muito mais eficiente, muito q~e eque ela toca a criança? Quem julga aobra para a
cnança? ~ o adulto? tão difícil aresposta quanto é difici! conhecer realmente
nas aüvo. Eles sentem um real interesse pelo teatro.
as necessidades artísticas de uma criança. O crítico de
Querem saber como funcionam aqueles cenários, ou por Justam~nte por desconhecer as verdadeiras necessi-
que o at?r falou. daqu~la maneira. Então as perguntas dades. da cnaaça, porque acriança não sabe transmitir, à uma obra para criança éum adulto,
Quem faz coisas para crianças são os adultos. A
saem mais nataras, mas espontâneas. l1lane~a do ~d~lt~, su~s impressões sobre suas próprias
- Como éque asenhoraachou esta idéia da peça? frase <ta criança gostou" é falsa. Porque ela gosta tam-
emoçoes .~ VlvenClas, e que o adulto comete tantos pe-
bém dos programas de auditório nas Tvs, emnitos adul-
. .~ pergunta vem logo para o grande problema da que~os crmes contra a infância. Tudo que se fala e se
criatiridade. E a resposta tem que ser tão infantil quanto ana~lsa sobre acriança não passa de Iúpóteses, de obser-
tos acham estes programas medíocres.
a pergunta: vaçoes baseadas no comportamento da criança. Averdade é que muito pouca coisa escrita e feita
- Aidéia veio de minha cabeça. para a criança resiste ao tempo. E nem sempre o que
. ,~encontro do adulto com o menino é sempre um resistiu ao tempo é aquilo que os educadores podem
, E a criança fica satisfeita com a resposta. Está ao mlst,en? ~ que agrada ao menino nos contos epeças ín-
n:vel dela. ~l: t:un~ém ~ão erplica .muito. Pede explica- chmnar de saudável para a criança. Estão aí os irmãos
f~ntts ~ t~o desconhecido como a própria alma do me-
çoes sobre cienca, e cunosa sobre lIlvenções, mas sobre Grinm, Andersen, Perrault e outros, desafiando o
nmo. E Impossível para qualquer criador explicar sua
arte ela se contenta com oinexpicáveJ. obra. Em se tratando de obra para criança então a ta- tempo ...
,. A criação artística continua sendo um srande mis- Lewis Carroll, com sua Alice no País das Maravi-
refa se toma muito mais difícil. Talvez o adulto' tenha
teno. b
guardado melhor o seu lado menino e tenha pcdid " lhas, Monteiro Lobato ea deliciosa Emília, são persona-
~odos os equ~vocos que a educação moderna tem com d ,. d ' o, Ja gens onde o nonsense desenfreado faz lembrar aos adul-
o onu.mo a. tecnica, passar para outros meninos tos que é mais saudável não levar a sério demais as
com.elIdo com a. cnança v.êm justamente da própria ne- seu mundo m~onsctente, rico de vivência. Jung diz que
cessidade de. deirar ~ cnança livre para se desenvol- coisas tidas como certas e imutáveis. Uma cambalhota,
o. mome~to cnador, que mergulha suas raízes na inen- à maneira dos irmãos Marx está talvez mais perto da
ver. " A cna~ça est~ sentada num trono, supervalori- SIdade difusa do inconsciente pemaascerá indubitavel-
zada, super estimada a espera do que os adultos resol- verdade das crianças do que uma enrurada de ensina-
mente para sempre fechado aos assaltos do conhecimento
8 vam fazer delas. É preciso ter cuidado para que este humano. ' mentos morais duvidosos... I 9
IRENE BRIETZKE bem como as artes cm geral, constitui-se numa das for. qae as informações recebidas. É pensando, critic?ndo e ainda vive em seu mundo próprio e não brinca realmen-
mas ideais de Jazer para o homem moderno) possibili- expressando que a criança, e~colberá. seus pr6~nos p.a- te comOs·ouitos. .
tando uma maneira de escapar do perigo de massificação, drões de comportamento. Desta manara, 'passara a~Xl~­ O terceiro perícdo conduz a criança até .os~?ze
Oteatro é, dentre as várias formas de espetáculo, a tir um vínculo muito estreito entre oespetaculo eopúbli- anos por uma lenta evolução do pensament? s~m?ollc~
TEATRO INFANTIL COMO maneira completa de se chegar à comunicação, já que co infantil. . para um pensamento mais hierarquizado, l11U1S lopco. E
a épcca da socialização e dos jogos de convençao, em
exige apresença viva do ator edo público. No momento Aevolução lustórica fez com que o hO~e?l esqu:-
FORMA DE LAZER da ausência de um dos dois elementos, oteatro deixa de cesse que ser criativo éuma de suas caractensticas mau comum.
existir. É, portanto, uma vivência cm lúvel artístico de importantes. Foi aos poucos perdendo o contato com a Depois, opensamento se,torna fO~l~1 enão se f~a
grande alcance. Oespectador realiza um enriquecimento arte e, além disso, deixou de colocar a arte como parte mais em infância, mas de pre-adolescencIa e adolescen-
interior através da própria experiência sensorial. de seu pensamento, É c11egada a hora de recuperar a cia. I •

No caso do teatro infantil, a criança sempre parti· criatividade! Oteatro para crianças se dirige aum publIco entre
cipa do espetáculo, fazendo aidentificação de si mesma 4e 12 anos isto é a"segunda" ca"terceira infâncias",
l , ••

Nossa sociedade tem passado por marcantes transfor- com opersonagem. Desta íoma, libera parte dos vários -masseja aos pequenos ~eja aos gr~n~es: ~os prmeres
mações histólicas que levaram ohomem adiminuir cada componentes de sua realidade interior, seja emoção) afe- não têm pensamento lógiCO nem soclallzaçao, os segun-
vez mais seu contato com o ambiente através dos senti- to, agressividade, insegurança etc. Também é oferecida dos têm um início de pensamento lógico euma forte so-
dos. Podemos dizer que aforma ideal de reconhecimento ao espectador infantil uma possibilidade de escolba: o cialização.
do mundo exterior seria aquela feita através dos sentidos) espetáculo apresentará toda uma gama de situações, ações De fato, essas distinções, estudadas já há muito tem-
CLAUDE-PIERRE CHAVANON
desenvolvendo a criatividade, opensamento imaginativo e comportamentos frente aos quais ele deverá se posi- po, tendem amodificar-se em consequência. das obs~rva­
e aoriginalidade. Isto nos leva aum real contato com o cionar, decidindo e escelhsndo onde se colocar. Eviden- ções feitas sobre orejuvenescimento de faL"m~ de Idade
ambiente que nos cerca. Oque acontece, no entanto, é temente, tudo isso.leva a um julgamento crítico, tendo \ e, no teatro, em consequência das experiências sobre os
um pouco diferente: ohomem está deixando aos poncos
de influir em sua própria cultura, para assumir uma
como ponto de partida a compreensão do material que TEATRO DIRIGIDO A menos de 4anos eos mais de 12 anos.
Alguns preconizam três faixas: de 3 a 5 anos, de
lhe éfornecido.
posição passiva. Atelevisão, ocinema, orádio e apro-
paganda têm reforçado o condicionamento do llOmem a
Por tudo isto, devemos ter muito cuidado, hoje em CRIANÇA 5 a 8e de 9 a 11 anos.
dia, ao levar uma criança ao teatro. Aqualidade do es- Além dessas, poderiam ser criados espetáculos para
padrões pre-estabelecidos. Neste momento, s.urge opo- petáculo éde importância fundamental para o desenvol- os pré-adolescentes, aos quais os espetáculos dirígdos a
der da massificação, fazendo o ser humano perder sua vimento tanto da sensibilidade e percepção, quanto à adultos ainda não lhes convêm.
individualidade. Perdendo sua identidade pessoal, ele só compreensão, e principalmente, a capacidade de julga- Vemos que a infãncia é compósita; na "segunda
se identifica na massa, tomando-se apenas um padrão
do consumo.
mento. Veja bem, um mau espetáculo poderá levar o
Oteatro para crianças se dirige a ~ públic? m?ito
t
infância" reina opensamento simbólico e terceira in-
fância" marca aevolução em direção ao pensamento con-
público infantil àformação de um senso crítico errôneo.
Nota-se, no entanto, um movimento conínirio no que Se examinarmos as demais formas de espetáculo especial, e preciso naturalmente refenrmo-nos a PSICO-
é
creto. As observações que faremos sobre a percepção
diz respeito às artes em geral. No caso do teatro, ele que são oferecidas ao nosso público infantil, notaremos, logia infantil. e a imaginação são válidas sobretudo para a "segunda
apreseuta uma riqueza de córes, luz, formas, sons c com tristeza, que a situação é muito má. Os cinemas Vamos tentar esboçar algumas linhas gerais, .por- infância" e teoricamente, cada vez menos para a "ter-
movimentos que apelam àparte sensolial do espectador. raramente apresentam filmes especialmente dedicados à i, que uma análise da psicclegia infantil nos levaria f~ra ceira infân~ia". De fato, se orejuvenescimento das fai,as
É claro que existe aparcela intelectual, presente no teJ,10, criança. Quanto à televisão) o nível da programação é de nossa competência, além dos conhecimentos dos ena- de idade pode prejudicar as observações, psicólo~cas que
que ê parte integrante do espetáculo teatral. Podemos r dores e deste estudo. Teremos, de resto, que abordar o
baixo. No geral, com algumas exceções, éclaro, os pro- apontamos, opoder do espetáculo sobre a cri.ança, pelo
con~derar oteatro, neste caso, como uma força contrá- gramas diri~dos à criança são medíocres, contaminando fato de que um criador de teatro para crianças não pode choque visual e emocional que provoca,. confirma essas
ria no processo de massificação do homem. Ao assistir a possibilidade de trabalho intelectual mais intenso por nem deve ser um psicolólogo profissional: . A
observações: não éque oteatro para cnanças retarde a
um espetáculo teatral o público participa de uma expe- parte da criança eseu crescimento eamadurecimento in- Os psicólogos estão de acordo ao .dlze~ q?e a m~an­ evolução mental, ao contrátio, mas oceticismo da crian-
riênca recreativa e educativa. No caso de teatro comer- terior. Esta situação não poderá ser modificada) no mo- cia se subdivide em muitas idade) cuJos limItes yanam ça ou sua apreensão da realidade têm menos ligação com
cial e digestivo, o público recebe apenas o aspecto re- mento, em virtude dos grandes interesses comerciais em segundo as latitudes, as épocas eograu de evolução cal- acaixa de ilusões que é oteatro.
creativo do teatro, entendendo-se por recreação algo que jogo. ~~ I

divirta e- cause prazer. Já no caso de um teatro mais Em contrapartida, oteatro infantil, imune aos gran- Um primeiro período, durante o qual o r~al e o Percepção e imaginação
sério, aexperiênciâ, além da recreativa éeducativa, com- des interesses comerciais, que ofereça um texto de quali- desejado de acordo com a lei do e~ de Slgmund A - ·.. .,"7'\u cn'ança e' imediata fragmentária e
Freud Víll. ate os d'OlS ou tres anos . .percepcao.
A n
preendendo-se por educação, neste caso, um processo dade, com direção einterpretações competentes, aliados I
_._.' a ~--', .... Hd • o
. . . . ·Um segundo período se estende em seguida llté. os, 1!~9.al; sua. atenção esta ~lDtelramente. vo a a para
I"

assistemático. Obom teatro leva opúblico adesenvolver a bons cenários, figurinos, iluminação, sonoplastia e ma-
sua percepção, sensibilidade, criatividade, senso estético ete anos. Acrian a .uxtapõe omundo do jogo e o da mundo extenor, para .a ~çao, de modo algum para seu
10 esenso crítico. Portanto, podemos afirmar que o teatro,
quilagem, terá sempre caracteósticas educativas, fazen-
do com que a criança, perceba, analise, discuta e criti- ~ervação, o "pa~a ~'ir" e o "de verdade". A cdança I pensamento) como mao mterposto entre omundo eela.
Assim, a criança não toma distância, adere íolal- se entre objelos ou palavras, estranhas umas às outras, .a objetiva. É, entretanto, reaiismo, porque aerlança não é
mente ao espetáculo, com tudo que abarca de positivo JiKar entre si fenômenos naturalmente heterogêneos, para e nem um "intelectualista" nem um místico.
mais convencionais. Notemos que ojogo dramático adqui-
! rc seu lugar e importância, permitindo à criança conti-
para uma participação ativa do espectador, e de mais encontrar uma razão para qualquer acontecimento mes- Compreendemos que a imaginação, pensamento re-
discutível para os problemas de identificação com os per- 1110 fortúito. nuar a desenvolver afaculdade que ela tinha, de ser re-
presentativo ou abstrato, influencia, corrige ou suplanta jeitada pela sua incompetência.
sonagens e de credulidade na "magia teatral". De um lado, não avaliamos bastante a riqueza des- a percepção, pensamento concreto. Ecomo seria de ou-
Acriança projeta nas coisas todo seu pensamento sas ligações, porque justamente esse sincretismo não As crianças têm um senso agudo do símbolo e das
tro modo, uma vez que oreal corresponde aum compor- convenções.
verbal; ela não analisa o conteúdo de seus percepções, conhece verdadeiro meio de expressões, que o fízese lamento constrangido, tomado em uma situação, num
mas ocarrega de aqnisições mal digeridas. Nossa perccp- comunicável. Pensamos, entretanto, que esse mero de conjunto, e que a imaginação éfonte de liberdade e de
ção é constantemente corrigida por nossa compreensão, expressão está próximo do jogo e, portanto, como mos- Acriança se contenta com analogias muito
fantasia? superficiais, muito reduzidas e, daí, relativamen-
isto é, pelo uso dos quadros lógicos, sociais ou provindos traremos, também do teatro.
Imaginar é usar de representações, de símbolos, é te arbitrárias. Não há grande semelhança entre
de nossa experiência. Pensamos no sol aduzentos passos Por outro Jado, notamos também que essa faculdade
de Spinoza. Para a criança, essa correção é ínfima, por- de ligar tudo por ànalo~a perturba a percepção por decoijór e recompor, transpor, combinar, em uma pa- uma haste de couve ou um termometro, e um
que sua percepção é tributária da afetividade e do com- aproximações provenientes de erros ou por aproxima- lavra, .é "brincar" para a criança. Oprocesso espontâ- bebê e uma criança sabem que não basta fazer
portamento motor. neo do pensamento é o jogo. Ê preciso não exagerar, "lloul" para representar um lobo, nem correr
ções, l~ece a credulidade infantil. como se faz ainda largamente, o caráter .notável da
Compreendemos que o teatro pode explorar essa atrás dos colegas para figurar um gavião.
imaginrção infantil. Em todos esses casos ela se contenta em
"A imagem éao mesmo tempo uma forma, credulidade.
uma existência, um comportamento motor cor- Esse hábito de ligar tudo, de tudo justificar, dá o estabelecer uma convenção. E chegamos ao ca-
respondente aum certo sentimento. (l) que se chama fenômeno de pré-causalidade. "A pretendida imaginação das crianças é ráter ilusório: é uma estrutura convenciona!."
Como omostram os estudos de Piaget, t criança só I apenas una mistura confusa das sensações edas
imagens e aimpossibilidade de ver extamente o
(J. Château, op. cit)
Acriança vê muitas coisas, mais do que nós vemos. ~ê oque ela sabe, ~ percebe omundo exterior como se I
reaL" (3)
Ela olsérvàimn quantidade de pormenores, que passam ele tivesse sido construido antes por sua inteligência'l Contudo essas noções não devem ser levadas ao
.oespercebidos para nossos olhos,.mas ela não reorganiza Desde então, a percepção infantil não é visual, não se absoluto e fixadas para toda a infância. Jean Château
essa percepção, vê apenas uma coisa de cada vez c, interessa pelos contatos especiais, nem pela causalidade Jean Chateau citando esta frase de M. COllssinet, explica essa progressão da percepção e da imaginação
assim, atomiza, ao juxtapor. Confunde, igualmente, mui- mecânica. Ela é intelecttual, isto é, penetrada de consi- estabelece por seu lado uma comparação com a imagi- infantil.
nação do adulto:
tas vezes, ousual e oreal nos detalhes que ele contém. deraçêes estranhas à observação pura, donde a confusão
AElànça juxtapõe porque não sabe generalizar, da causalidade física e da motivação psicológica e aíe- "A ~a1idade visionária da criança pe-
achar a reciprocidade das relações a descoberta de uma tiva. "Se há una imaginação da criança, não é quena pode Javorecer afaculdade ilusõria, mas
lei geral estando ligada à possibilidade de manejar as Assim, as consequências da pré-causalidade são o absolutamente que a criança tenha mais imagi- n_í\9 pode criá-la, porque, elai.$rcepção, en-
relações em todos os sentidos. É o fenômeno da trans- animismo e o artificialismo. nação que o adulto, como se pretende; vimo), ql!!!!1J9 que a ilusão consiste em uma represen-
dução, passagem do singular ao singular, diferentemente •A criança prolonga a realidade sensível de sua ao contrário, que sua imaginação é menos pre- tação" uma reconstituição; esta reconstituição
da indução, que passa do singular ao geral eda dedução, observação por uma realidade verbal eimaginada que ela cisa, menos rica. Se ela perde em consequência não pertence mais ao domínio das fonnas per-
do geral ao singular. Essa definição da transdução dada coloca no mesmo plano. esse maravilhoso poder de evocação, é que ela cebidas. Mais do que isto, éa própria mentali-
pelo psicólogo Stein foi completada por fu~t, que vê Ela nunca viu homem construir montanhas, mas pro- não pode mais fazer corresponder a um tão dade visionária, a faculdade de perceber com-
nesse esquema de raciocínio "numa experiência mental longa o que viu no pedreiro, no marceneiro e na tele" grande número de objetos estruturas tornadas parações, que permite à criança libertar-se mais
primitiva, isto é, uma simples ima~nação ou imitação da visão. _" . mais complexas; sua imaginação perde em ex- facilmente da percepção presente encontrando
realidade tar como é percebida, isto é, irreversíveL" (2) (re;I'~ plástico ao infinito para a criança, visto tensão o que ganha em profundidade. Se ela vê nela uma sugestão do ausente, e que ajuda a
que iguàra arealidade comum atodos, susceavel de des- menos seres fictícios, é que os vê melhor; é' peia ruina do seu poder, À medida que desaparece
A+B~C, mas as relações são de tal modo puídas
truir a ilusão e constrang-ê-la à verificação. Mas adis- mesma razão que as palavras, cujo sentido étão essa mentalidade, a criança é mais exigente- em
que C=A+B.
cussão é um tipo de relação falseada, pelo menos para extenso na origem, se especializam cada vez suas imitações; mas, em troca, peja ilusão de
Ess~ irreversibilidade do pensamento explica a.,.im- os mais jovens: eles têm durante muito tempo o senti-
mais. Aimaginação, como a linguagem, perde que, sem criá-la, essa mentalidade terá facilitado
~~liªaêle que a criança tem de encontrar uma l,'~. mento de ser inteiramente compreendidos pelo adulto,
Não se compreenderia, sem isso, porque a.,ggQÇi!J)jQ não tentando daí precisar seu pensamento e, inversamen- '!
em extensão o que ganha em compreensão." onascimento, ela terá aprendido ovalor do Ia-
,sabe generalizar, quando todos os seus hábitos de sin- te, retêm oque lhes agrada dos prop6sitos adultos, pela zer de conta e seu poder evocador e criador.
cretismo alevam aassimilar tudo atudo. Convém desmistificar a criança, mas não vamos Terá passado sobre o plano dos símbolos, de
impossibilidade de penetrar totalmente no mundo adulto. longe em demasia, porque a criança tem consciência de
Podemos definir esse sincretismo como a tendência Q~ealismo da criança é intelectual. É a represen-
onde se passa rapidamente ao plano dos sinais.
espontânea que as crianças têm de perceber por visões tação do mundo amais natural para o.pensamento ego-o suas imperfeições. Ê por isso que, ao crescer, ela abando- Terá, por assim dizer, abandonado a imagem
12 globais, de encontrar analo~as imediatamente, sem análi- i,Efu1lriço" Mostra lima incapacidade para a observação na os jogos de ficção, de simulacro, de símbolos (os no- pela ima~nação. Sem nascer diretamente do
mes variam com os psicólogos), por jogos de regras, pensamento concreto, a estrutura ilusória faz 13
como uma transição entre esse pensamento con- Sonoplastia: Edelvira Fernandes, Marta R6sman ePierre VmGÍNIA VALLI
creto, imaginado a afetivo, e o pensamento Fortin (1975) Edelvira Fernandes (1964) - Jai-
abstrato, conceituaI e racional do adulto. me Alem (música) 1975
Caracterização: Fred Amaral (1955-1964)
Acriança eoteatro; opinião de 11111 plíblico Execução de cenários: Wagner (1964-1975) - Cosme VINTE ANOS DE
(1955)
Aprimeira maneira de saber como reage opúblico
Execução de figurinos: equipe d'O TABLADO (1955- prUF[ OFANTASMINHA
e de adivinhar sua opinião de maneira empírica é a de
-1964) - Betty Coimbra (1975)
colocar-se numa platéia durante uma representação.
Imediatamente, ao movimento, às reflexões e pela pro- Marionetes: manipulação de Mário Cláudio da Costa
porção das crianças que se deslocam ou mesmo saem, Braga (1955)
vemos se oespetáculo passa. Ê sempre bom colocar mi- Assistente de direção: Vânia V. Borges (1964) - Ber-
crofones um pouco por toda parte e re~strar, assim: o nardo Jabolonski (1975) Pluft envelheceu, fez vinte anos, ou antes, aqueles
máximo de reflexões espontâneas. Assistente de produção: Carlos Wilson Siveira (1975) que viram o prineiro Pluft envelheceram, amadurece-
Asegunda maneira, mais satisfatória, éde conhecer ram. Depois vieram seus filhos esobrinhos para conhe-
Cartaz: Napoleão Freire (1955-1964) Juarez Machado cer Phift. Também gostaram. As aventuras do herói, sua
as rcações infantis nos locais onde elas se' encon~am (1975)
depois do espetáculo: em casa, no centro de fédas. ou inocência, seu medo de gente, as peripécias que se desen-
na classe. Naturalmente, nestes casos, são os pais, mo- EM 20 ANOS DE PLUFT UMA EQUIPE DE Contra regra: equipe O TABLADO (1955) Elizabeth rolaram mais em sua mente de fantasma do que em
nitores, educadores ou professores que recolhem as opi- Murtinho, Angela Ferreira, Luís Sér~o Gonçalves, luta física com o mundo concreto, foram superadas e
niões. Os teatros, na maioria, distribuem na entrada ou 50 ARTISTAS E TÉCNICOS, DIRIGIDOS Paulo César Peçanha e Jorge Carvalho (1964) - ele se transmutou pelo amor que passou ater pela gente
à saida do espetáculo uma carta-questionário em que PELA AUTORA Nelson Rodrigues Santos e Guida Viana (1975) de carne eosso. Nenhuma peça, elemento ou mola dessa
a criança é convidada a dar suas impressões por escdto Sonotécnica: Ivaníldo Marques (1975) estória banal de um fantasma banal precisará ser modifi·
ou por um desenho. Essas fichas são centralizadas, mas TIuminação: Equipe Faze (1975) cado, melhorado, endquecido ou lisado, coloddo ou en-
seu exame ainda não foi feito de maneira bastante com- feitado para que a obra se torne mais legível, feérica ou
Direção: Maria Clara Machado (1955-1964-1975)
pleta para que pudessem fornecer todas as informações atraente a qualquer cdança de qualquer idade. Não foi
desejáveis. necessário um elenco de tônias e autrans, cenáios de
Excursão: OTABLADO excursionou com a pdmeira Gianni Ralto e iluminação de Fernando Pamplona para
Pluít: Carmen Sylvia Murgel (1955) - Lúcia Madna produção. de Pluft, apresentando-se em São Paulo consagrar Pluft e fazer dele uma obra-prima. Nem a
Acioli (1964) Louise Cardoso (1975) (1956) onde recebeu o prêmio da Associação mudança de língua em que oherói se comunica através
Paulista de Críticos Teatrais, único prêmio obtido do mundo, com platéias russa, alem~ indu, americana,
Mãe Fantasma: Kalma Murtinho (1955) - Lívia lm-
no Brasil pela mais famosa peça infantil brasileira. latina etc. Se Pluft fosse mudo, também se comunicaria
bassahy (1964) - Suvia Fucs (1975)
Pluit oFantasminha foi sucesso em todas as suas monta- pois sua estóda é a simples aventura do herói (1) que
Maribsl: Vânia Veloso Borges (1955) - Lúcia Lesin I gens, permanecendo em cartaz, em sua última mono se cria erecria, se endquece esobrevive no próprio mito.
(1963) - Ana Lúcia Paula Soares (1975) } tagem, durante meses com casas cheias, em duas Esse protagonista expedmentado em todos os palcos,
Tio Gerúndio: Germano Filho (1955) - Fernanao sessões aos sábados e domiogos. . bons, mans, amadores, profissionais, pobres e ricos de
Reski (1964) - Bernardo Jablonski (1975) Opreço da entrada, em 1955, foi: 0,50 todo omundo já trazia em si, ao ser criado, os elementos
Perna de Pau: Emílio de Maltas (*) (1955) - Ético em 1975: 10,00 (adulto ou criança) que o íomariam um clássico. Daí todos quererem ncn-
(Le Théolre Pour Eufants - Claude-Pierre Chavanon Widal (1964) - João Carlos Mota e Paulo Reis íar P/uft.
- Edit. L'Age d'Homme - Lo Cité Lausanne. 1972) (1975) Oachado de Pluft oFantasminha foi que levou a
Marinheiros: Eddy Rezende Nunes, Roberto de Cleto autora eOTablado a poder se dedícarem de preferência
e João Augusto (1955) - Flávio de S. Tiago, ao teatro infantil. .
(1) Jean Château - le réeT et l'imoginlÚre dons Te teu de Paulo Nolasco e Olney Barrocas (1964) - Milton Havia um autor capaz de escrever para crianças. O
l'ellfant Vrin, 1966. Dobbin, Paulo Reis, Carlos Wilson Silveira (subsl. Rapto e A Bn/xinha já haviam dado prêmios antes de
(2) Piaget, La reprêsenlation dll monde chez l'ellfalll ~ Sura Berditchevski e José Lavigne) (1975) Pluft. Pluft dispensou-os e possibilitou a MCM igua-
Delachaux et Niestlé, Genebra Cenografia: Napoleão Moniz Freire (1955 e 1964) _ lar-se com o nosso pdmeiro clássíco de literatura in-
(3) Coussinet - ~el" P!,ilosopiliqlle, 1970 -;-: Le rôTe de Juarez Machado (1975) (*) Dois criadores de Pluft são hoje f,a1ecidos: Napoleão fantil: O Casaco Encantado, de Lúcia Benedetti, itfe-
l'anologie dons les representotlOns du monde exleneur chez Tes . 1m M inh (1955 1964 1975) Moniz Freire (cenógrafo) e Emílio de Mattos (Perna-de-Pau). lizmente já esquecido na avalanche de maus textos ou
14 en/aniS Von 1946. I Figunnos: Ka a urt o --
de não-textos, ou nos excessos de vanguardismos, mo-
dismos, criaçães-coletivas, improvisações e participações
que sufocam as platéias infantis dé hoje, Poder-se-ia lem-
que os áudiovisuais ainda não fizeram milagres, sob pena
de regredirmos ao estágio do selvagem de Aveyron,
Quanto à ideologia que se queira transmitir ao pú-
l Numa época de tantos malentendidos quanto aquilo
que se deve comunicar ao público infantil em matéria de
diversão e arte, será bom recordar as conclusões dos tra-
brar uma Revolta dos Briliquedos (Pernambuco de Oli- blico infantil através da fábula, isto são outras quinhen- balhos realizados pelo Congresso de Teatro para Ctianças
veira) ou um Filhote do Espantalho (do saudoso Oswaldo tos. Cada um transmite a sua, ou o que pode, já que nos idos de 51:
Cuca Waddington) dos últimos vinte anos, quando os o bem eo mal estão muito confundidos ou diluidos para
diretores e grupos de teatro infantil eram mais humildes, para que possamos distinguir oque éum oque é outro. 1. Acriança pode se identificar COlllum dos personagens
coerentes e menos vanguardeiros, não queriam se impro- Contudo, comunico-vos que, quanto a heróis} os maiores principais?
visar em autores, calcando espetáculos sobre clássicos bambas em psiquiatria e psicolo~a, de Jung a Lauretta - Deve poder fazê-lo.
da literatura infantil ou sobre absurdos importados à Bender eNise Silveira, até seus cupinchinhas psicólogos
força, para se chegar, assim, ao lado do verdadeiro mas- echm que fada, bruxa e outras maluquices de conto-de-, 2. Há participação emotiva?
sacre dominical dos heróis (Vide cartazes do movimento -fada não são alienações, mas se fundam nos arqué-
teatral infantil nos últimos CT), levando de cambulhada ti Pos, monomitos, mitos, sei lá oquê (que não são de Oconflito deve ser forte enítido, cobrindo uma ex-
as atices em paises maravilhosos, as baratinhas se minha área), eque todos esses monstros estão mesmo no tensa gama de emoções, oferecendo oportunidade de
casalldo, belas adormecendo, brallClls-nevalldQ, às con- subconsciente, e não é qualquer filosofia, metafísica ou rela:'(amentos ocasionais de tensão. Acfise deve ser resol-
fusões de escolas grotowskianas, planchnnianas e pro- ideologia que vai tirá-los de lá. Estão nos subterrâneos vida antes do final da peça.
vocações participatórias, que se ainda não são nudistas mentais. Agente - que se há de fazer - tem que alimen-
como ofoi oteatro guerrilheiro do Living Theater não é tá-los um pouco, amansá-los com cuidado para não desen- 3. O personagem identificado com acriança acaba ven-
por pudicícia mas sim para engalanar a ausência do he- tocá-los de todo. cem/o?
rói e das petipécias. Porque ,então, aescolha dos contes Quanto à criança, vítima ptimeira de niuitas Acriança deve sentir que pode resolver problemas,
eIássicos? É que só estes resistem a tanta picaretagem, experiências pseudo-artísticas e até analiticas, recordaudo ser forte ecorajosa, assegurando-se também que ela pode
amputação e falta de invenção, numa hora em que Sé, a quetida Maia Mazzetti, pediriamos respeito por ela. ter êxito onde outros fracassam.
multiplicam as escolas c cursos que ensinam "criati- Pedsnos mais: se ela tiver menos de 6 anos, ainda que
bem vividos em suas 3 a4horas diárias diante da mini- (1) 'As eslorinhns infantis de Perrault, Grimm, Andersen
vidade". 4. A intriga é contínua?
tela, vendo desfilarem emoções e imagens sem qual- e de todos os demais autores dessa modalidade narrativa, grande
Com a preocupação de brilhar, a maioria dos gru- quer nexo, disnelândias, batman-aranhas-supermans-eucas- Barte das vezes inspirados por versões populares difundidas por Actiança segue mais facilmente uma intriga simples,
pos de teatro infantil se esquece que, além daquilo que legais-escaladas-espigões eviagens interplanetárias, tenham todos os cantos, em geral apresentam um significado profundo. díreta, ininterrupta ebem construida.
não se ensina, há o b-a = há, a parte artesanal e pena!
técnica que deve ser assimilada: como falar português 'A literatura infantil, sempre renovada, narra aventuras em
que invariavelmente se depara a figura do herói, aparentemente
5. A peça oferece ocasião aaventuras?
(brasileiro) sem sotaques (2), como andar naturalmen- inerme e fraco, de início, cujas qualidades, entretanto, levam-no
te, como gente enão macaqueando alguma vedette} como Apeça éuma experiência importante para a crian-
à conquista de bens inatingíveis. Aparentemente, são tidas como ça. Ela exerce seu potencial em novas situações. Ela gos-
usar amáscara e as mãos (sem precisar pegar cigarra ou fantasiosas, nem sempre se atentando de forma suficiente para
copo) - oelementar; como elementar ésaber que uma as armas invencíveis a que ele recorre: reconhecimento das pró- ta de ver, sentir e aprender coisas novas.
prias imperfeições ou inadequação, e erros, coragem, sentimento
esíôria para ser comunicada eapreendida por um público fraterno, determinação, ânimo, sinceridade de propósito."
infantil, mesmo desenvolvido mentalmente, tem que ter 6. A intriga érazoavelmente realista?
"Inegável é o fascínio exercido pelas esíorinhas sobre as
uma trama, um enredo, um fio significante através das crianças e adultos que incessantemente a vêem repetir-se, como Ainda que goste de expetiências novas, é necessá-
palavras ditas pelos personagens e que se estruturam ficou dito, sob milhares de formas, através dos séculos emilénios, tio que sejam semelhantes àquelas que ela já teve para
numa oração com sujeito, predicado etc. pois ainda não em variadissimas versões, São eternamente recriadas na imagi- que as compreenda ese torne um dos elementos da esíó-
nação humana porque está indelevelmente cunhada no íntimo do
há computadores que as escrevam. homem a aptidão dele se ultrapassar, no processo de auto-artesa- tia. Além disso, quando ela i.mita o herói, deve imitar
Mesmo omais simples, composto de um vocabulârio O;'lto, e que todas as estórias do herói simbolicamente resumem." um modelo plausível.
mínimo ainda tem que ser ensinado e aprendido pela Salles Arthur - O Encontro de Si Mesmo - pp 19120 Livr.
criança para não se perder a linguagem - uma obra Freitas Bastos-l974
7. A intriga tem uma significação?
humana inventada, aperfeiçoada e transmitida penosa- (2) I Congresso da Língua Falada no Teatro 1956.
mente através milênios de evolução. Esse aprendizado Deveria haver nela um valor social, artístico ou lite-
lento não pode ser posto de lado, não pode ainda ser rário além do apelo ao interesse, mas esses valores deviam
.6 substituido por um processo tecnológico relâmpago já Consulta: Le 1'héntre duns le MUI/de -llT vol Il- 3 estar implicitos na estória ou no tratamento,
8. Há ação dramática suficiente?
ACOMÉDIA·FARSA JAPONESA
Acriança gosta mais da ação do que do diálogo e
prefere uma ação mais manifesta do que sutil. Ainda que
tenha inclinação pelos golpes teatrais, soluções rápidas e
comicidade, a ação deve ser essencial, não desligada da
intriga.
oKyôgen é uma comédia-farsa que se representa
9. Aapresentação é dil:eta esincera? depois do Nô (*). Aprincípio era uma farsa cujas pala-
vras egestos eram improvisados segundo as circunstâncias.
Naturalidade, ausência de artificialismo e qualidade Na época cm que onô começou aperder seu prestígio aos
profissional sólida são apreciados pela cri~nça. olhos do povo (150 anos mais ou menos depois de
Zéami), okyôgen atin~u sua maturidade teatral. OJapão
10. Há previsão de participação do plíblico? se achava então numa fase de desordem erevoluções. As
Acriança gosta de representar seu pap~l exterior- lutas intermináveis entre os senhores, as sublevações repe·
mente à ação a que ela assiste. Durante arepresentação, MARIA CLARA MAcHADo: tidas e tenazes dos camponeses, o desenvolvimento da
gosta de rir, de reagir verbalmente, mexer-se na cadeira. burguesia são os fatos mais marcantes desse período. O
Essas reações não devem ser reprimidas. kyôgen representou, em linguagem falada, esses aconteci-
r, mentos eanedotas. Infelizmente, areação dos chefes mili-
Aestréia de Pluft foi muito inlportante para mim, tares, orevjgor~ento do re~me feudal frearam odesen-
Atodos aqueles que escrevem teatro infantil, diri- pois foi quando eu disse não ao teatro profissional, quan- voh~mento do gênero, separando-o do povo, como onô.
gem teatro para clianças, recomendamos alcitura emedi- do desisti de ser atriz. Na verdade o sucesso da estréia Apartir dessa época, okyôgen, considerado inferior ao
tação desse decálogo, pois o vmlguardismo em teatro foi até surpresa, diante do fracasso do ensaio geral, quan- nô esubordinado aeste, perdeu sua atualidade, estereoti-
infantil só deve ser tentado depois de se ter preenchido do os amigos que foram assistir sairam encabulados, sem pando-se em sua forma simples. Ele aperfeiçoou os por-
positivamente esses dez requisitos. querer comentar nada comigo. Aliás, P/uft é dificil, pa- menores eestilizou sua representação e, atualmente, essa
rece fácil mas não é, em seu misto de comn!edia deli' estilização confere, ainda, ao seu realismo uma certa
arte com momentos poéticos. Na hora da estréia sentei poesia.
numa escada efiquei assistindo, descobriodo que bonito Okyôgen não comporta coro nem acompanhamento
que era P/uft... Fora de Pluft, gosto muito também do musical. Oator raramente usa máscara e opersonagem
Cavalinho Azul, peça que foi montada até na lndia. A só dança quando está de bom humor. Aação decorre do
Menina eoVento também émuito moníada por aí, bem diálogo, de estilo muito vivo. Nele se apresentam peque·
como A B1'lIxinl1ll, ORapto; não há colé~o que não as nos senhores tolos ou bonachões, burlados pelos criados
apresente. espertos, mulheres terríveis, megeras emercadores astu-
ciosos. Acomicidade nunca éuma sátira mordaz, deven-
do-se antes acentuar aalegria, agenerosidade, que repro-
(Depoimento de :MC:M no SNT) duz bem aépoca em que se desenvolveu okyôgell, quan-
do opovo começou asnbir ebuscar opoder.
Damos aqui um texto do kyôgen: Senhora Hana-
É necessário, pois, imaginar para nossas crianças, espe- ko ou OVéll de Oração. Nessa farsa os diálogos são
cialmente as que estão crescendo em meios m.ais desfavorecidos, pronunciados muito lentamente e bem articulados e a
toda sorte de linguagem, inúmeras experiências, estímnlos ricos mímica émuito lenta, mesmo no momento da catástro-
e fascinantes; que elas possam em curto espaço de tempo reter fe. Ainda que o texto pareça breve, à leitura, a repre-
uma fatia da Vida transformada em cor, som, imagem, poesia,
fantasia; que elas sejam levadas a pensr - glória do ser hu- sentação deve durar uns vinte minutos. Esse ritmo lento
mano - a r~ciociuar, inclnsive, através de meios novos: o provoca grande efeito cômico.
espetácnlo, a festa.
(*) Sobre Nô e teatro japonês, consultem Cadernos de
18 Maria Mazzcttl Teatro TI. 42 1!
EsPOSA - Tu também a chamas OCRIADO - Está bem, madame. com vontade de rever sua esposa".
MADAME HANAI<O OU
tmnsmilir meus respeÍlos ;\ criada
dela,
I
e- de "madame", a essa vagabunda? Não esqueça de me mandar chamar Então, zombei de minha mulher, caa-
quando tudo voltar à calma. Ah, lá, tando assim:
. OCRIADO - Ah, não, ele foi à
OVÉU·DE-ORAÇÃO OAMO - Psiu! Sim, da próxima
vez, te levarei para vê-la. Vais gostar. casa dessa vagabunda eme pediu para lá, que situação! Mas que jeito? De-
ficar aqui debaixo desse véu. Eu pro- pressa, para a cidade. Quando penso na esposa
OCRIADO - Agradeço-lhe aníed-
testei, a senhora pode crer. Mas ele eu feliz a teu lado,
padamente, senhor meu amo!
queria me cortar acabeça. Se dissesse ela me parece um macaco
OAMO - Então, assim, tudo sai-
não, ele oteria feito sem pestanejar, III ensopado sdorneddo.
rá bem. Mas não percamos tempo,
PERSONAGENS: Hanako. Teu papel é o seguinte: depressa à casa da querida Madame. asenhora bem sabe. Não podia fazer
nada. Por isso concordei. Salve a OCriado sai. Entra oMIO cantando .Aí Madame Hsnsko estourou na
cobre-te com este véu-de-oração c
OAMO, vestido de branco, usa fica no meu lugar até a minha 1'01- minha pele, não fui eu que inventei gargalhada eme deu de presente este
ta. Se minha melher aparecer, bate essa estória. (Chora). OAMO - Ocinto do quimono quimono. Olha bem. Mas se minha
uma espada. entreaberto
OCRIADO, saia curta. apenas com a cabeça e não diz uma II AEsPOSA - Então, tu recusaste mulher descobrir, isso vai acabar mal.
só palavra, entendes? Cuidado para e como ele ameaçou com a espada, guarda a Tenho que jogá-lo fora, épena. Mas
AEsPOSA, de túnica
não ser descoberto. Bem, conto con- Ele sai. Entra a Esposa tu concordaste. Não foi assim? lembrança da aaro- não tenho coragem. Eu te dou, mas
tigo.. OCRIADO - Sim, senhora, foi ra nascendo. cuidado para não deixar minha nu-
OCRIADO - Oh! Como isto me AEsPOSA - Meu marido pediu Alua lamenta ades- lher ver. Ora, podes retirar o véu
I isso.
aborrece. Se sua senhora descobre a dispensa de duas semanas, dizendo pedida temporã agora. Agora é minha vez.
AEsPOSA - De fato émuito pos-
trapaça, vai me bater até matar. Ah, que ia fazer um retiro eque não be- junto ao salgueiro ilu- AEsPOSA - Como? Não mostre
sÍvel. Pois bem, tenho algo ate pedir.
Entra OAMO edepois OCRIADO senhor meu amo, éimpossível. bcria sequer uma gota d'água. Isso minando a amada. àminha muller? Éisso asua oração?
Tu não dirás que não.
OAMO - Impossível? Temes também éexagero. Ele me proibiu de OCRIADO - Claro, minha senho- Que oração!
OAMO - Olá, criado! mais minha mulher do que a mim? vê-lo durante as orações, mas isso ra Farei tudo que a senhora quiser. Ah, meu Deus, que gostosural OAMO - Ai, veja só!
CRIADO - Às ordens, senhor meu Ajoelha-te, malandro. Vou te cortar também é demais. Estou tão aflita Arriscarei até avida. Essa alegria até me faz cantar. Estou AEsPOSA - Não faça essa cara
amo. a cabeça. que não posso deixar de dar uma AEsPOSA - És muito bonzinho. um pouco atrasado emeu criado deve espantada, mentiroso!
OAMO - Como sabes, já faz OCRIADO - Ai! Espere, espere! espiadela para ver que está accnte- estar impaciente. Depressa, vamos OAMO - Oh, lá, piedade! Per-
Então, ajuda-me a me cobrir com
algum tempo que não vejo Madame . Tenho muito mais medo do senhor do cendo. Oh! Já, lá ... Ele deve estar libertá-lo. Boa coisa éter um criado dôe-me! Perdôe-mel
este véu eme deixa aqui sozinha.
Hanako. Acha que ela duvida da que dela. Eu vou fazer, vou fazer tudo bem atrapalhado com esse véu. Pa- fiel. Lá está ele, conforme ordenei. AESPOSA - Onde é que vai?
OCRIADO - Oh! Lá, lá. Não tem
minha fidelidade? eomo osenhor quer. trão, um jovem como o senhor não Olá, criado, cheguei. Porque não res- Pensa que vou deixá-lo escapar?
graça. Se meu patrão voltar ele me
O CRIADO - Oh! Certamente que OAMO - Oh! Bom criado, tu és precisa rezar tanto. Pense na sua saú- pondes? Estavas tão atrapalhado com
mata. Não me peça uma coisa dessas,
não, senhor meu amo. muito dedicado. Compreende que te de, na sua vida. Beba alguma coisa. esta palhaçada, hem? Agora podes fi- Saem os dois, amulher perseguindo
madame.
OAMO - Pois bem. Desejo ir à ameaçei porque estou com muita vou- Isto não pode ser pecado. Oh, como car contente, es~ve com ela. Ela me o marido.
A EsPOSA - Ah, ah! Tens medo
casa dela esta noite. Epara isso pre- tade de irem casa de Madame Hana- ele está engraçado, só mexe acabeça. dele, não é? Mas não tens de mim. pediu notícias tuas. Vou te contar co-
ciso lhe pedir algo. Espero .que não ko. Agora que concordas, está tudo Será que não pode dizer "não"? Tire mo aconteceu: primeiro, assim que
Está bem, maroto, eu te mato!
digas não. bem. És minha única salvação. Anan- esse véu. Ah sim! Vou tirá-lo àforça. cheguei à casa ela estava muito slen-
OCRIADO - Oh, perdão, perdão.
OCRIADO - Não se preocupe, ja-te. Vamos. Experimenta este véu- OCRIADO - Oh meu Deus! Miseri- Eu vou ajuclar. Em primeiro lugar ciosa, mas Madame Hanako logo me
senhor meu amo. Osenhor sabe que de-oração - Oh! Ótimo! Está muito córdia! Piedade, piedade, madane, tenho que salvar minhe pele. acolheu com amabilidade eme condu-
estou sempre à sua dispo~ção. bem. Agora eu me vou. Mas volto AEsPOSA - Então, éistol És tu. AESPOSA - Vamos. Anda. Pron- ziu ao seus aposentos pegando-me pe-
OAMO - Eis aí um homem de logo. Presta atenção, não diz uma Mas que é que estás fazendo aí? Ê to, que achas? Estou parecendo com Ia mão. Dançamos, cantamos, brinca-
bem. Aliás, isso não é odifíciL En- palavra, compreendeste? Até mais demais. Onde está teu amo? Respon- mos e conversamos um bocado. O
meu marido?
ganei minha mulher, e para me li- tarde. de. Responde, senão te espanco até OCRIADO - Oh, madame. Igual- tempo passou tão depressa, eos pás-
vrar dela, disse que durante duas se- OCRIADO - Senhor meu amo, matar. zinha a ele. sares anunciaram achegada da auro-
manas vou me mergulhar em ora- senhor, volte logo. OCRIADO - Bu vou dizer, vou A EsPOSA - Muito bem. Meu ra. AÍ eu lhe disse qu precisava ir
ções, para que ela não me importune OAMO - Não te preocupes que dizer. Em primeiro lugar tenho que embora antes de osol sair para que
caro criado, tu só tens que te escen-
com sua presença. Custei a eonven- voltarei depressa. Sim, sim. salvar minha pele. der em casa de minha tia, na cidade. ninguem desconfiasse. E madame
cê-la, mas afinal consegui. Agora, OCRIADO - Senhor meu amo, AESPOSA - Já, já! Estou furiosa. Quanto meu marido melhorar de Hanako disse: "Admira-me ouvi-lo iII
(Trad. de Nabutoshi Ando
aproveitando oprecioso tempo, que- meu patrão, quando estiver em casa OCRIADO - Opatrão foi à easa humor, eu te chamarei. Vai, vai Jogo. falar asin. Você com certeza está Théâtre PoplIlaire n. 7/1954).
20 ro me relaxar ao lado de Madame de Madame Hanako não esqueça de de madame Hanako e...
FORl\1AS POPULARES DO dOIS ou três TSllré (aquele que segue), subordinados a ção se divide em duas categorias: uma representa uma
Waki e tIS vezes a Shité. estória ou 11m gesto seguindo o texto, a outra exprime
TEATRO JAPON~S Há ainda no nô um coro de uma dezena de pessoas, estados de alma como alegria, furor, dor etc. Por exem-
que canta ou dcclanla a parte descritiva do texto, mas plo, o ator leva uma das mãos ou as duas diante dos
nunca dialoga com os personagens. Onô compcrta um olhos, mas para alguns centímetros eas mantem imóveis
acompanhamento musical muito simples: uma flauta de um momento. Ê gesto de chorar. Aqui está una das
madeira etrês instrumentos de percussão. Acena é mui- caracteJisticas do nô. Ojogo 11ão é e mnca deve ser
to sóbria. Otablado principal éum quadrado de 6metros natural. Ela deve "matar" os movimentos naturais para
Mais ou menos no final do séc. 14, em época rela- de largura; para oCOJ;O eoacompanhamento lllusical, são atingir, se se pode dizer, o natural arustico: éuma es-
tivamente calma, após um período de guerra civís, dois acrescentadas cenas anexas ao fundo e do lado direito. pécie de simbolismo.
gêneros dramáticos se formaram eaperfeiçoaram no Ja- Um longo corredor de 15 metros mais ou menos se ex- Os textos do IlÔ são escritos em versos livres e em
pão. Foram o nô e o kyôgen, irmãos gêmeos, que se tende do lado direito por onde os atores aparecem e estilo pompcso e declamatório. Há agora cerca de 200
originam de uma dança acompanhada de narrativa ede desaparecem. Essas cenas são desprovidas de qualquer peça,s, cuja metade foi escrita por Zéami. A ação é
mímica às vezes bufa: o saragakll, tão popular. Esse sa- ornamentação ou pintura. Mas não são menos caras, muito simples. Eis um dos tipos principais. Na primeira
ragakll era apresentado durante as festas organizadas pe- porque se escolhe rigorosamente aqualidade de madeira parte da peça, Waki, osegundo personagem que égeral-
los templos shintoistas ebudistas. Atualrnente,' num tem- a fim de que o tablado seja polido e mostre a beleza mente um padre budista, encontra um velho senhor ou
plo fam~so, ainda se representa o nô ao ar livre, à luz natural do material. Como decoração, pinta-se apenas um uma velha, que é oprimeiro personagem, oShité. Este
de fogueIras. . grande pinheiro na parede do fundo. Tres pequenos pi- último conta ao padre aestória de um guerreiro, de um
Os atores do saragakll ligados a esses templos pro- nheiros são colocados em intervalos iguais ao longo do amante ou de uma criança que morreram de um acidente
curaram aperfeiçoar seu jogo afim de obter as graças corredor. Além dessa decoração, imutável, existem várias triste e pede-llle para orar e consolar seus manes. Na
do público formado de todas as classes sociais, eforma- espécies de cenários portáteis simples e simbólicos. Por segunda parte, o Shité aparece na realidade como 11m
ram uma espécie de corporação. Oelemento correográfi- exemplo, uma pequena porta representa uma casa, uma fantasma desse guerreiro, amante ou da mãe da criança.
co, épico e elegíaco dai se desprendeu e formou o nô carruagsm de luxo será uma estrumra de alguns pedaços Revela-se com seu rosto verdadeiro e seu espírito não
enquanto o elemento cômico e bufão se tornou o kyô- de bambu eficará imóvel mesmo no momento em que apaziguado, e descreve através da danças circunstân-
gen. Os grandes senhores militares, que nada compreen- deve correr a toda velocidade conforme o texto. cias de sua noríe e de seu estado de espírito. Opadre
diam dos divertimentos refinados da antiga nobreza liga- Um acessório indispensável no nô éoleque. Repre- ora e, fmalmente, consegue apaziguá-lo ou, se o Shité
da àCasa Imperial, favoreceram todavia oseu desenvolvi- senta muitas coisas, conforme o caso: uma borboleta, se torna um demônio, vencê-lo. A idéia dominante é
mento. Um Shogun, no fmal do séc. 14, auxiliou um um arco, a neve que cai, uma montanha longinqua, de inspiração budista éainconstância da vida, a vanitas
jovem ator de saragakll. Esse jovem ator, Zéami, fundou os desde que seja segurado ao contrário. l'allÍtatem.
jogos do nô. Sendo ao mesmo tempo grande intérprete e Tudo isto é muito sóbrio. Quanto aos temas principais, são. a celebração dos
grande autor (quase ametade dos 200 textos que ainda Aúnica coisa luxuosa é a roupa. Os desenhos são deuses, ahistória dos guerreiros, o amor infeliz, as len-
subsistem atualmente são de sua autoria), foi também riquíssimos ecomplicados, mas tem-se ocuidado de não das locais: todos são caros efamiliares ao povo japonês.
grande teórico. Graças a ele, o nô atin~u a perfeição. empregar cores claras ou vivas. Ecomo já disse, opro- As frases do texto formigam de alusões aos antigos roma-
Depois de Zéami, o espetáculo continuou ainda a se tagonista usa uma máscara. Essa máscara serve para nos, às poesias nipônicas echinesas, oque os torna quase
desenvolver epermanecer vivo no seio do povo. Mas nos representar em cena um personagem determinado, mas intraduzíveis. Enfim, a maneira de cantar ou de decla-
séculos seguintes, o re~me feudal revigorou e a hierar- não lhe confere nenhuma expressão: nem alegria, nem mar essas frases émonótona, grave emajestosa. Deve-se
notar que o IlÔ não há atdz. Opapel feminino é sempre
.
quia estritamente restabelecida, os Shogun favorecendo
o no, osepararam de suas raízes popnlares. ' Desde en- tristeza nem cólera. Não tem qualquer sinal de vida. To-
davia, quando ela aparece em cena, acentuada pelos feito por homem. Oque écurioso é que oatar não imi-
t~o o n~ se estereotipou como um teatro clássico. Hoje gestos do ator, começa amostrar expressões ricas eva- ta avoz feminina, mas declama com voz natural.
amda, cmco ou seis teatros de nô existem em Tóquio e riadas. As máscaras exigem um trabalho delicado esutil
atraem simpatizantes. do fabricante. As produzidas durante o século 15 são
Na concepção tradicional, o nô é uma espécie de consideradas obras-primas e ainda usadas hoje.
de tragédia acompanhada de dança. Os personagens são O jogo dos atores é também muito estilizado. É
pouco numerosos. Shité (o que representa}faz o per- rigorosamente regulado por umas trinta posições, como
sonagem principal, de máscara. Há também um Waki as cinco posições dos pés no balê europeu, epara com-
!2 (aquele que fica ao lado), interlocutor do primeiro, e pô-Ias deve-se obedecer aregras estritas. Essa composic 2
As FILHA MAIS VELHA - Apesar TIO - Quando a doença entra OTIO - Pobre pequeno, que cnl-
AINTRUSA r disso vêem-se as estrelas. numa casa, parece que um estranho pa tem ele? Épreciso sermos justos.
I
O Avô - Parece-me que está se misturou à família. Está agora sozinho?
aqui muito escuro. OPAI - Mas é nestas ocasiões OPAI - Omédico não quer que
que se vê como, fora da família, não ele fique no quarto da mãe.
DE MAURICE MAETERLINCK OPAI - Vamos para o telTaçp, OTIO - Mas tem aama ao pé?
ou ficamos neste qumio? se pode contrar com mais ninguém.
OTIO - Tem rilZ<10. OPAI - Mandei-a descansar uma
OTIO - Não será melhor ficar- OAvô - Porque não me deixa- ou duas horas. Bem omerecia, coi-
Tradução de mos aqui? Toda a semana tem cho- ram ver hoje a minha pobre filha? tada Úrsula, vai ver se omenino es-
vida e as ilOites estão húmidas y tá adormir.
F. Rebello de Almeida OTIO - Bem sabe que omédico
frias. AFILHA MAIS VELHA - Sim, meu
proibiu.
AFILHA MAIS VELHA - Apesar OAvô - Não sei o que devo meu pai.
disso vêem~se as estrelas. pensar. ..
OTIO - Ora! As estrelas não OTIO - Não vale apena assus- As três irmãs levantam-se, de mãos
I' provam coisa nenhuma, ta-se.. . dadas, entram no quatro da direita.
OAvô - Melhor será ficarmos OAvô (indicando aporta da es-
aqui. Nunca se sabe o que pode querda)Ela não nos ouve?
OPAI - Se não falarmos alto .. , OPAI - Aque horas ficou de vir
acontecer.
De resto os muros são espessos, e anossa irmã?
OPAI - Não há razão para nos OTIO - Pelas nove horas, creio.
inquietarmos. Agora ela já está li- a irmã de caridade que está junto
dela avisa-nos se fizermos demasiado OPAI - Já passa das nove, Ora-
vre de perigo" . lá que não falte: aminha mulher pe-
OAvô - Pois eu creio que ainda barulho.
OAvô (indicando aporta da di- diu muito que ela viesse.
não. " OTIo - Vem com certeza, É a
OPAI - Porque diz isso? reita) Eele?
OPAI - Também não deve ouvir primeira vez que ela vem cá?
OAvô - Ouvi-lhe há pouco a OPAI - Nunca entrou nesta casa.
nada.
voz. OAvô - Dorme? OTIO - É-lhe difícil sair do con-
PERSONAGENS: OPAI - Mas se os médicos di- vento.
~ OPAI - Suponho que sim.
zem que podemos estar tranquilos ... OAvo - Talvez seja melhor ir OPAI - Virá sozinha?
OAvô (cego) OTIO - Bem sabe que oseu so- OTIO Suponho que uma freira a
OPAI. ver.
gro gosta de nos assustar sem neíí- OTIO - Opequeno inquieta-me acompanhará. Não podem sair sozi-
OTIO voo mais do que asua mulher. Desde quenhas,
As TRÊS FILHAS' OAvô - É que eu não vejo como nasceu, quase não fez ainda um mo- OPAI - Mas ela éasuperiora.
A IRMÃ DE CARIDADE as outros. OTIO - Aregra éigual para to-
vimento, não gritou, não chorou...
ACwA OTIO - Por isso mesmo deve das.
Dir-se-ia uma criança de cera.
fiar-se naqueles que vêem. Hoje à OAvô - Penso que mais tarde OAvô - Enão têm medo?
Compartimento sombrio de Ulll tarde ela estava com ótimo aspecto. há-de vir aser surdo, etalvez mudo. OTIO - Eporque haviam de ter
velho castelo. Portas à direita e à Agora está adormir, enão devemos É no que dão os casamentos entre medo? Não falemos mais nisso. Já
esquerda euma outra, mais pequena, estragar a primeira noite sossegada primos... não há nada arecear.
dissimulada, num ângulo. Ao fundo, que odestino nos consente... Pare- OAvô - Avossa irmã é mais
(*) A lnmu« é um dos primeiros dramas de Maeterlinck velha?
e uma das obras mais características da dramaturgia simbolista,
janelas de vitral, em que predomina ce-me que temos o direito de des-
acor verde, euma grande porta, en- cansar, e até mesmo de rir um pou- (Silêncio reprovador) OTIO - Sim, é amais velha de
em que "as potências invisíveis e fatais, cujas intenções ninguém
conhece, mas que o espírito do drama supõe maléficas, atentas a vidraçada que abre para um terraço. co, sem receio, esta noite. todos nós.
todas nossas ações, hostis ao sorriso, à vida, à paz, à felicidade•.. A mn canto, um grande relógio fla- OPAI - É verdade, é aprimeira OPAI - Para que ele nascesse, a OAvô - Não sei o que tenho,
e que tomam geralmente a aparência da morte, cuj~ presença mengo. Uma lâmpada acesa. vez que me sinto em minha casa, mãe teve de sofrer tanto... Eeu mas não me sinto sossegado. Gosta-
infinita, tenebrosa, hipocritamente oliva, preeaehe lodos os inters-
tícios do poema" - segundo o próprio autor. A morte é o A ação decorre nos tempos mo- entre os meus, depois daquele ter- quase lhe chego a querer mal por ria que a vossa irmã já aqui esti-
~4 verdadeiro protagonis\a do drama. demos. rível palio. isso. '{esse.
o TIo - Ela prometeu, não AFILHA MAIS VELHA - Parece- OAvô - Mas não há ruidos na Ouve-se subitamente o mfdo de O TIO - Aflige-se sempre mais OPAI - Não, dantes era tão sen-
falta. -me que alguém entrou no jardim, noite. uma foice que está sendo aguçada lá do que devida. Ehá ocasiões em que sato como qualquer de nós; tudo o
OAvô - Gostaria que esta noite avô, fora. não dá ouvidos aninguém. que dizia era normal. É verdade que
OPAI - Faz um silêncio de mar-
já tivesse passado! OAvô - Quem? [e.
OPAI - Na sua idade é descul- a Úrsula tem uma certa culpa: res-
_AFIL~A ~fAIS, VELHA - Não sei, OAvô ( estremecendo) Oh! pável. ponde atudo que ele pergunta...
O Avô - Só um desconhecido
Tornam aentrar as três filhas. nao se ve JlInguem. os poderia assustar porque se fosse OTIO - Deus sabe o que será OTIO - Melhor seria para ele
OTIO - Que é isto?
OTlO - Certamente não era nin- alguém da casa eles não se calariam. de nós quando lá ehegarulOs! que não respondesse.
guém. AFILHA MAIS VELHA - Não sei O PAI - Tem perto de oitenta
oPAI - Eentã01 Estava a dor- AFILHA lIfA1S VELHA - Há-de OTIO - Que importam agora os bem, Parece-me que é o jardineiro. ano.s
mir1 rouxinóis? Daqui não ovejo bem, deve estar na O relógio bate onze horas.
lmver alguém no jardim. Os rouxi- OTIO - Então não admira que
AFILHA MAIS VELHA - Profun- OAvô - Todas as janelas estão parte do jardim que oluar não ilu- às vezes nos pareça estranho.
nóis emudeceram de repente.
damente, meu pai. abertas, Úrsula? mina. O Avô (acordalldo) Estou vol-
·0 Avô - Mas não se ouvem pas- O PAI - Todos os cegos são
OTIO - Que vamos nós fazer en- sos... AFILHA MAIS VELHA - A porta OPAI - Ê o jardineiro que vai assim. tado para oterraço?
quanto esperamos? AFILHA MAIS VELHA- Alguém envidraçada está aberta de par em ceifar. AFILHA MAIS VELHA - Dormiu
OTIO - Pensam demais.
OAvô - Enquanto esperamos o se aproxima do lago... Os cisnes par, avô. OTIO - Durante anoite? bem, avô?
quê? OPAI - Têm muito tempo aper-
estão con medo. OAvô - Entrou de repente o OPAI - Amanhã não é domin- der. E não têm mais nada que os OAvô - Estou voltado para o
OTIO - Que chegue a nossa ir- OPAI - Enão vês ninguém1 frio neste quarto. go? Ê, sim. Notei hoje que a erva distraia. terraço?
mã. A FILHA MAIS VELHA - Nin- em redor da casa tinha crescido AFILHA MAIS VELHA - Sim, avô.
AFILHA MAIS VELHA - Há um OT10 - Deve ser horrível.
OPAI- Úrsula, não vês ninguém guém, meu pai. muito~ OAvô - Não está ninguém no
pouco de vento no jardim, avô, que OPAI - Dizem que acabam por
aproximar-se? OPAI - Mas oluar bate cm cheio OAvô - Que barulho faz essa se habituar, . terraço?
faz desfolhar as rosas.
AFILHA MAIS VELHA (iun/o da no lago •.. foice... OTIO - Não compreendo como AFILHA MAIS VELHA - Não, avô,
jro/ela) Não, meu pai. OPAI - Fecha então essa porta.
AFILHA MAIS VELHA - Por isso Já étarde. AFILHA MAIS VELHA - Éele que isso é possível. não vejo ninguém,
OPAI - Ena alameda? Vês daí mesmo é que eu vejo que os cisnes está a ceifar àvolta da casa. OPAI - É bem certo que infun- O Avô - Julguei que estivesse
a alameda? estão com medo. A FILlIA MA1S VELHA - Sim,
OAvô - Está a vê-lo, Úrsula? dem piedade. alguém àespera. Não veio ninguém?
OT10 - Tenho a certeza de que meu pai. Não consigo fechar a por-
AFILHA MAIS VELHA - Sim, meu ta. A FILHA MAIS VELHA - Não, OTIO - Não saber onde se está, AFILHA MAIS VELHA - Ninguém,
pai: oluar ilumina-a até ao bosque foi a nossa irmã que os assustou. As OUTRAS DUAS FILHAS - Não avô. Asombra não o deÍ.\a ·ver. não saber onde se vem nem para on- avô.
de ciprestes. Deve ter entrado pela porta mais OAvô (para o Pai e o Tio) E
pequena. conseguimos fechá-la. OAvô - Tenho medo que ele de se vai, não distinguir o dia da
OAvô - Enão vês ninguém? OAvô - Que aconteceu, minhas acorde a minha filha. noite nem overão do inverno E a vossa irmã ainda não chegou?
AFILHA MAIS VELHA - Não, avô, OPAI - Porque será que os cães OTIO - Já émuito tarde; agora
não ladram? filhas? OTIO - Mal se ouve... as trevas sempre à nossa volta .
ninguém. Ah! eu preferia não viver... Ê abso- não creio que venha. Foi pouco gen-
AFILHA MAIS VELHA - Vejo o OTIO - Não épreciso dizer isso OAvô - Pois eu ouço-o como
OTIO - Como está otempo? lutamente incurável? til da sua parte.
cão de guarda escondido no fundo nesse tom. Eu ajudo-as afechar. se estivesse a ceifar dentro de casa.
A FILHA MAIS VELHA - Lin- da sua casota. E os cisues fogem OPAI - Parece que sim. OPAI - Começo aficar inquieto.
AFILHA MAIS VELHA - Não se OTIo - Não há perigo, a doen-
do. .. Não ouvem os rouxinóis? para a outra margem! ... consegue fechá-Ia completamente. te não pode ouvi-lo. OTIO - Mas ele não está com-
OTIO - Oiço, oiço. OTIO'- Éanossa irmã que os OTIO - Será por causa da hu- OPAI - Parece-me que esta noi- pletamente cego? Ouve-se um l'lIído, como de al-
AFILHA MAIS VELHA - Levan- assusta. Vou chamá-Ia. (Chama pa- midade. Vá, todos ao mesmo tempo. te a lâmpada não arde bem. O PAI - Distingue, apenas as guém que entra 'em casa.
tou-se agora um pouco de vento na ra fora) És tu, minha irmã? És tu? Forçai Deve haver qualquer coisa OTIO - Talvez precise de azeite. grandes claridades.
alamcda. Não está ninguém lá fora. entre os batentes. OPAI - Ainda esta manhã opu- OTIO - Todo cuidado é pouco OTIO - Ela aí está! Não ouvi-
OAvô - Um pouco de vento na AFILHA MAIS VELHA - Tenho a OPAI - Ocarpinteiro conserta-a seram. Desde que se fechou a jane- com os nossos pobres olhos. ram?
alameda? certeza de que alguém entrou no jar- amanhã. la aluz enfraqueceu. OPAI - Por vezes acodem-lhe ao OPAI - Ouvi ,alguém entrou pe-
AFiLHA MAIS VELHA - Sim, as dim. OAvô - Ele vem cá amanhã? OTIO - Éovidro que está em- espírito estranhas idéias. los subterrâneos.
folhas das árvores estremecem leve- OTIO - Se fosse ela, teria res- AFILHA MAIS VELHA - Sim, avô, baçado. O TIO - Sim, há ocasiões em OTIO - Deve ser a nossa irmã.
mente. pondido! para trabalhar na adega. AFILHA MAIS VELHA - Oavô que não é divertido estar a ouví-Io. Conheço-lhe os passos.
OTIO - Éestranho que aminha O Avô - Úrsula, os rouxinóis OAvô - Mas então vai fazer ba- adormeceu. Há três noites que não OPAI - Diz tudo oque lhe passa OAvô - Oiço alguém que lenta-
irmã não tenha ainda chegado. não tomaram a cantar? rulho! dormia. pela cabeça. mente avança,
OAvô - Agora já não se ouvem AFILHA MAIS VELHA - Nem um AFILHA MAIS VELHA - Eu di- OPAI- Coitado... Tem-se afli- O TIO - Mas dantes não era OPAI - Ela entrou quase sem
6 os rouxinóis. só se ouve ... go-Ihe para não fazer, gido muito. assim? fazer barulho.
oTro - Sabe que há um doente
em casa.
OAvô - É avossa irmã?
OTIO -- Apenas vejo a criada.
OAvô ~ Parece-me que de re-
pente tudo escureceu.
;( Ü AvÔ - Áconieeeu alguma eoi-
sal Tenho a certeza de que aminha
meu iado, não sei o qlic se passa à
minha volta! Porque estão a falar
A FILllA MAIS VELHA - Já llle
disse, avô, não está ninguém.
O Avô - Agora já não ouço OPAI - Não vejo mais ninguém
com ela. (À Criada) Quem foi que
OPAI (para a Criada) Volte lá
para baixo, mas não tome a fazer
! filha está pior. .. em voz baixa? OPAI - Ouviu? Não está nin-
nada. OTro - Está a sonhar? OPAI - Ninguém falou cm voz guém!
OTro - Já não pode tardar. Lá entrou? barulho ao descer. OAvô - Não me querem dizer! baixa. OAvô - Vocês éque não vêem!
embluxo hão de dizer-lhe que esta- A CRIADA - Quem entrou aonde, A CRIADA - Mas eu não fiz baru- Mas eu bem vejo que aconteceu algu- OAvô - Falaram, sim, ao pé OTro - Está a brincar?
mos aqui. meu senhor? lho. ma coisa... da porta.
OPAI - Cá em casa; não acaba OPAI - Nós bem ouvimos. Desça OAvô - Juro-lhes que não sinto
OPAI - Ainda bem que ela veio. OTIO - Nesse caso, vê melhor OPAI - Não está ninguém ao omenor desejo de brincar!
OTro - Eu tinha certeza de que de entrar alguém? devagar para não acordar asenhora. do que nós. pé da porta.
A CRIADA - Não entrou ninguém, Ese vier alguém, diga que não esta- OTIO - Então acredite naqueles
ela não faltaria esta noite. OAvô - Úrsula, dize-me aver- OAvô - Tenho acerteza de que que têm olhos para ver.
OAvô - Demora muito a subir meu senhor. mos. dade! entrou alguém neste quarto! .
OAvô - Quem se ouve suspirar? OTIO - Isso mesmo, que não OAvô (indeciso) Julguei que
a escada! AFILHA MAIS VELHA - Mas nós OPAI - Tomo a dizer-lhe que houvesse mais alguém... Sinto que
OTIO - Não pode ser senão ela. OTIO - É a criada, que vem estamos. estamos a dizer averdade, avô! ninguém entrou!
ofegante. OAvô (estremecendo) Não de- já não hei de viver muito tempo ...
OPAI - Não esperamos outra vi- OAvô - A tua voz está dife- OAvô - Quem foi? A vossa OTro - Porque razão haviamos
sita OAvô - Está a chorar? viam ter dito isso! I: rente! irmã ou um padre? Não procurem de enganá-lo? Com que intenção?
OAvô - Continuo a não ouvir OTIO - E porque havia ela de
chorar?
OPAI - Anão ser para a ninha
irmã e para omédico.
i OPAI - Porque a assusta com enganar-me. Úrsula, quem foi que OPAI - Cedo ou tarde, teríamos
coisa nenhuma. i essas perguntas? entrou? sempre que lhe dizer averdade.
OPAI (à Criada) Ninguém en- OTIO - A que horas virá o OAvô (voltando-se para o Pai) AFILHA MAIS VELHA - Ninguém,
OPAI - Vou chamar a criada: trou? OTIO - De que serve enganar-
médico? Easua também! avô.
assim saberemos o que se passa. mo-nos uns aos outros?
A CRIADA - Ninguém, meu se- OPAI - Depois da meia-noite. OPAI - Endoideceu! OAvô - Não procurem enganar-
nhor. OPAI - Não poderia viver inâe-
me, eu sei oque digol Quantas pes-
Vai puxar ocordão da campaninfla. OPAI - Mas nós ouvimos abrir Fecha aparta. Orelógio deixa cair finidamente no erro.
OPai eoTio trocam sinais dando soas estão aqui?
a portal uma badalada de meia hora. OAvô (tentando levantar-se) Ah!
aentender que oAvô perdeu arazão. AFILHA MAIS VELHA - Somos
OAvô - Agora já ouço ruído na A CRIADA - Fui eu que afechei. como cu desejaria poder rasgar esta
seis à volta da mesa, avô.
OPAI - Estava então aberta? OAvô - Ela entrou? OAvô - Bem vejo que estão com OAvô - Todos àvolta da mesa? névoa!
escada.
A CRIADA - Sim, meu senhor. OPAI - Quem? medo! AFILHA MAIS VELHA - Sim, avô, OPAI - Para onde quer ir?
OPAI - É a criada que eu cha-
OPAI - Como se explica que OAvô - A criada. OPAI - Medo? Medo de quê? todos. OAvô - Para a1i. ..
mei.
estivesse aberta aesta hora? OPAI - Não, desceu para a co- OAvô - Porque éque me que- OAvô - OPaulo está ai? OPAI - ~ão esteja assim inquie-
OAvô - Parece que não vem zinha.
A CRIADA - Não sei, meu senhor, rem enganar? OPAI - Estou sim. to.
sozinha. eu tinha-a fechado. OAvô - Parece-me que se tinha OTIO - Ninguém pensa em enga- OAvô - Eo Oliveiros? OTIO - Está hoje tão estranho!
OPAI - Mas como sobe devagar! OPAI - Mas então quem foi que sentado à mesa. OAvô - São vecês que me pa-
OAvô - Ouço os passos de vos- nâ-le. OTIO - Também estou, no lugar
a abriu? OTIO - Acriada? OAvô - Porque éque apagaram do costume. Mas não acha que já é recem estranhos!
sa imlã. A CRIADA - Não sei, meu senhor. OAvô - Sim. ...\ aluz? tempo de acabar com esta brinca- OPAI - Que procura?
OPAI - Eu só ouço os da criada. Só se alguém saiu depois de mim... OTIO - Era oque faltava! OAvô - Não sei o que tenho.
OTro - Mas ninguém apagou a deira?
OAvô - É a vossa irmã. É a OPAI - É preciso tomar caida- OAvô - Ninguém entrou neste AFILHA MAIS VELHA - Avô, avô,
luz: está tão claro como há pouco. OAvô - Estás aí, Genoveva?
vossa irmã! do! Mas não empurre a porta! Não quarto? diga-me oque precisa?
AFILHA MAIS VELHA - Parece- UMAS DAS FILHAS - Estou, situ,
está aver como ela range? OPAI - Não, ninguém. me que alâmpada bairm, avô. OAvô - Dêem-me as vossas
Batem à porta mais pequena A CRIADA - Mas eu nem sequer OAvô - Eavossa irmã não está OPAI- Eu não noto diferença OAvô - E tu, Gertrudes? mãos, minhas filhas.
lhe toquei! aqui? nenhuma. AOUTRA FILHA- Também estou. As TRÊS FiLHAS - Situ, avô.
OPAI - Não diga isso! Eu bem OTIO - Até agora ainda não t OAvô - Sinto grandes círculos OAvô - E aÚrsula? OAvô - Porque estão a tremer
OPAI - Eu vou abrir. Só nos a vejo empurrá-la como se quisesse veio.
servimos desta porta quando quere- . negros que me pesam nas pálpebras! AFILHA MAIS VELHA - Estou tanto?
entrar! OAvô - Estão-me aenganar! Minhas filhas, digam-me o que se mesmo ao seu lado, avô. AFILHA MAIS VELHA - Mas nós
mos entrar sem ninguém d~r por ACRIADA - Não pode ser, eu OTIO - Aenganá-lo?
isso. passa aqui! Diga, por amor de Deusl OAvô - E ali, quem éque está não estamos a tremer, avô.
estou afastada da porta! OAvô - Ürsula, dize-me aver- Vocês podem ver, mas eu estou aqui sentado. OAvô - E como estão pálidas,
OPAI - Fale mais baixo. dade, pelo amor de Deus! sozinho, perdido no meio da escuri- AFILHA MAIS VELHA - Aonde, as três!
Entreabre aporta, aCriada fica de OAvô - Apagaram a luz? AFILHA MAIS VELHA - Avô, dão ... desta escuridão que não tem avô? Ali? Não está ninguém. AFILHA MAIS VELHA - É tarde,
.;,
8 fora, /la limiar. AFILHA MAIS VELHA - Não, avô. avô! Oque tem?
~. fim! Não sei quem veio sentar-se ao OAvô - Ali, ali, no meio de nós? avô, eestamos cansadas. 2~
oPAI - Deviam deitar-se, e o do que os outros, entendem? Há dias OTIO - Agora não há vento, as A Filha abre ajaJIela,
avô também faria melhor se fosse edias que os ouço falar em voz baira, janelas estão fechadas. .1 OPAI - Para onde queda que
fôssemos?
OAvô - Quem foi que se levan-
tau?
descansar um pouco. como se estivessem na casa de um AFILHA MAIS VELHA - Está qua- OTIO - Francamente, acho que OTIO - É muito tarde para irmos OTIO - Ninguém se levantou.
OAvô - Esta noite não serei enforcado! Não me atrevo a dizer o se a apagar-se, estamos aqui fechados há demasiado para outro sítio,
capaz de dormir. quc sei esta noite.. , Mas hei-de OPAI - Já não tcm azeite. OPAI - Eu não me levantei!
tempo.
OTIO - Ficamos 11ÓS àespera do saber a verdade! Espero que me AFILHA MAIS VELHA - Pronto. As TRÊs FILHAS - Eu também
médico. OAvô - Abriste ajanela? Silêncio. Estão todos sentados, não! Eu também não! Eu também
digam averdade, embora, apesar de Apagou-se,
OAvô - Deixem-me ver aminha tudo, há muito que a saiba! E agora OPAI- Não podemos ficar assim AFILHA :MAIS VELHA - Sim, imóveis, ao redor da mesa. não!
pobre filha! sinto que estão todos mais pálidos às escuras. avô, de par em par. OAvô - Alguém se levantou da
OPAI - Bem sabe que éimpossí- do que os mortos! OTIo - E porque não? Eu já OAvô - Dir-se-ia que continua OAvô - Que estou eu a ouvir, mesa!
vel; não devemos acordá-Ia inulil- As TRÊs FILHAS - Avô! Avô! O estou habituado. fechada. Não vem o mais pequeno Úrsula? OTIO - Acendam aluz!
mente. que tem, avô? OPAI - Há uma luz no quarto som lá de fora.
AFILHA MAIS VELHA - Nada,
OTIO - Amanhã averá. OAvô - Não é de vocês que eu de minha mulher. AFILHA MAIS VELHA - É verda- avô, são as folllas que caem no ter-
OAvô - Não se ouve LUído ne- estou afalar, minhas filhas ... Não, OTIO - Iremos buscá-la quando de, avô, não se ouve nada. Neste momento ouvem-se gemidos,
raça. vindos do quarto da criança, àD; es-
nhum no quarto dela. não é de vocês... Bei sei que vocês omédico chegar. OPAI - Que extraordinário silên- OAvô - Vai fechar a janela, ses gemidos continuam aouvir-se até
OTIO - Se se ouvisse é que era me didam averdade, se eles deixas· OPAI - É certo que a luz que cio! Úrsula. final da cena.
motivo para sustos. sem! De resto, tenho a certeza de vem de fora chega para iluminar este
OAvô - Há muito tempo que AFILHA :MAIS VELHA - Se um AFILHA MAIS VELHA - Sim, avô.
que também vocês foram engaoadas quarto.
não vejo aminha filha. .. Ontem à anjo voasse neste momento, ouvia-se!
por eles. .. Havemos de ver! Have- OAvô - Há c1addade lá fora? OPAI - Estão a ouvir? É a
noite peguei-lhe nas mãos sem poder mos de ver! OPAI - Mais do que aqui. OTIO - Por isso é que eu não Vai fechar ajanela 'e depois toma cdança!
vê-Ia! Já não sei como ela é. .. Já OPAI - Julga verdadeiramente OTIO - Eu gosto de conversar gosto do campo. asentar-se, OTIO - É a prineira vez que
não conheço o seu rosto. .. Como que aminha mulher está em perigo? às escuras. OAvô - Gostada de ouvir U111 ela chora!
ela deve estar diferente, ao cabo de OPAI - Também eu. som qualquer. Úrsula, que horas são?
OAvô - Não continuem a ten- OAvô - Tenho frio. (Silêncio) OPAI - Vamos ver!
todas estas semaoas .. , Senti-lhe os tar enganar-me; agora já é tarde, e AFILHA MAIS VELHA - Quase E agora, o que é isto que eu estou
ossos da cara quaodo a afaguei. meia-noite, avô. OTIo - Acendam a luz! Acçn-
eu sei averdade melhor do que todos! Um silêncio. a ouvir? dam aluz!
Entre mim eela agora só há aescari-
dão ... Aescuridão etodos vós!. ,, a TIO - Mas nós não somos AFILHA :MAIS VELHA - Nada,
cegos! OAvô - Que barulho faz oreló- Neste momento, oTio começa a avô. Fui eu que apertei as mãos.
Assim não posso viver. .. Nem isto Ouvem-se agora passos precipita-
éviver. .. Estão todos a olhar para OPAI- Quer entrar no quarto da gio! caminhar de um lado para outro da
cena. dos esurdos que COITem do quarto
mim, para os meus olhos sem vida, sua filha? Há aqui um engano eum AFILHA MAIS VELHA - É por-
(Silêncio) da E. Depois um silêncio de //lorte.
e ninguém sente piedade! Não sei o mal-entendido a que é preciso por que estamos calados, avô. Todos escutam, num terror mudo, até
que tenho. .. Nunca dizemos o que fim. Quer entrar? OAvô - E porque foi que se OAvô - Quem é que está a
I
OAvô - E agora?
que aporta do quarto da E. se abre
deveriamos dizer... equando se pen- OAvô (subitamente indeciso) calaram? I
andar de um lado para o outro? -lentamente ealuz do quarto penetra
sa, é tudo tão terrível! Mas porque Não, não... Agora não... Ainda OTIO - De que haviamos nós f OTIO - Sou eu, sou eu, não se AFILHA MAIS VELHA - Não sei, em cena, No limiar da porta aparece
éque se calaram? pão... . de falar? Que estranhas coisas tem avô. .. talvez as minhas mãos atre-
assuste. Senti necessidade de fazer aIrmã de caridade, vestida de negro,
OTIO - Que havemos nós de OTIO - Bem vê que não está a dito esta noite! meL ..
um pouco de mo\dmento. (Silêncio) que se inclina e faz osinal da cruz
dizer, se não acredita em nós? ser razoável. OAvô - O quarto está muito OAvô - Também eu tenho
escuro?
Mas vou sentar-me outra vez. para anunciar amorte da mulher. Os
OAvô - Têm medo de se denun- OAvô - Nunca se sabe tudo o medo, minhas fillias. outros compreendem e, depois de un:
ciar! que um homem não pôde dizer duran- OTIO - Sim, aluz épouca.
Silêncio. ,momento de indecisão eterror, entram
OPAI - Vamos, seja sensato! te asua vida! Quem está afazer este Neste momento, um raio de lua silenciosamente na câmara mortuália,
OAvô - Há muito tempo que barulho? Um silêncio atravessa os vitrais, entomando uma deixando o cego sozinho em cena.
me escondem qualquer coisa. Alguma AFILHA MAIS VELHA - É aluz OAvô - Gostaria de estar noutro luz estranha sobre acena. Começam Este levanta-se e, tateando, gira em
coisa aconteceu nesta casa... Eago- que treme, avô. OAvô - Não me sinto be\ll. sítio. redor da mesa, procurando orientar-
asoar as doze badaladas da meia-
ra é que eu começo a compreender, OAvô - Parece-me bem a~ta- Úrsula, abre um pouco ajanela. AFILHA MAIS VELHA - Onde, noite, e ouve-se, ao cair da líltíma se.
Há muito tempo que me enganam! da... bem a~tada ... OPAI - Sim, minha filha, abre avô? badalada, o vago som, quase indis-
Julgam que eu nunca viria a saber? AFILHA MAIS VELHA - É oven- um pouco ajanela; também eu come- OAvô - Não sei, noutro quarto, tinto, de alguém que rapidamente se OAvô - Onde vão? Onde vão?
O Há ocasiões em que sou menos cego to que afaz estremecer..• ço a sentir necessidade de respirar. mas não aqui! Não aqui! levanta. O avô estremece. Não me deixem sozinho! 3
MATEUSA (pondo as mãos) Meu CENA SEGUl\lJ)A a) és tu, oh! quanto me apraz ver-
MATEUS (caminhando em r~da da
MATEUS EMATEUSA cama) Que estão fazendo as meni- Delis, qu~ homem mais mentiroso. te, se tu soubesses, queridíssima filha,
quão grande é o prazer que banha
nas, que ainda as não vi hoje? Céus, quem diria que ainda aos 80 PÊDRA (entraiIdo} Oque é, papai-
\ I
este judeu erraote havia de proceder zinho? Oque éque quer? Oque tem? (inclinando e levando amão ao pd-
MATEUSA (sentada em uma cadei- to) este peito. Sim; (tomando aabra-
de QORPO-SANTO (*) m, balançando-se) Eosenhor que se como aos quinze, quando roubava Sucedeu-lhe alguma coisa? Não? (Pe-
frutas do pai. gando-lhe no braço). ça-/a) tu és hum dos entes que fazem
importa, sr. velho Mateus, com as com que eu preza avelha existência,
suas filhas? MATEUS (com fala e voz muito MATEUS (como acordando-se de
rouquenha) Ora, senhora. Ora senha- hum sonho) Hein? (Esfregando os
ainda por alguns dias. Sim, sim, sim.
MATEUS (voltando-se para esta) Tu, tua sábia irmã Pêdra; e... e
Ora éboa esta! Asenhora sempre foi, ra, quem, quem lhe disse essa asneira? olhos) Rein? Oque é? Oque é? Che-
(Profere estas palavras querendo an-
aquela que hoje não tive a fortuna
é e será uma (atirando com as gou alguém? Eu estava, aqui es- de ver; atua mais que simpática irmã
Personagens: mãos), não só impertinente, como dar,'e quase sem poder: éeste otodo lava ... Silvestra, são todas três os anjos que
atrevida! do velho em quase todos os seus PÊDRA - Que tem meu pai? anparan; que me alimentam o cor-
NIATEus, velho de 80 aaos MATEUSA - Ora, veja Já, senllOr discursos.) MATEUS (assoando sem tocar no po e a alma; por quem epara quem
MATEUSA, ídem Torto (levantando-se), se estamos no MATEUSA (empurrando-o) Então nariz e olhando) Vejam oque é ser vivo; e morreria se fosse mister.
CATARINA, tempo em que o senhor a seu belo para que fala .de mim a todas as velho. Menina; menina, já que estás (Entra Si/vestra aos pulinhos, ePêdra
prazer me insultava! Agora eu tenho moças que aqui vêm, sr. chino? Para aqui, dá-me um lenço: anda (pegando fazendo passos de dança).
PÊDRA e filhos que me hão de vingar! que, hein? Se osenhor não fosse mais nos braços da filha) anda, minha que-
SILVESTRA - filhas MATEUS (abraçando-a) Não, não, SILVESTRA - Papaizinho do meu
narmorador que hum macaco preso ridinha; vê hum lenço para ovosso coração (abraçando-o pelas pemas)
BARRJÔS, criado. nnha querida Mateusa; tu bem sabes aum cepo, celiamente não diria - velho paizinho! Sim; vai; vai; anda
que isto não passa de impertinências você éomeu tudo. Olhe, papaizinho,
que sou velha, feia emagra, que sou (fazendo-a caminhar). eu sonhei que o senhor queria um
dos 80; tem paciência, vai me aturan- doente da asma; que tenho huma per- PÊDRA (voltando-se) Também este
do, que te hei de deixar minha univer- lenço e corri, tomei este que amana
na mais curta que a outra; que ... meu pai cada vez fica mais porco, Catarina lhe trazia; elhe truce!
sal herdeira (atirando com uma per- que ... finalmente, que já (voltando- por isso éque aminha mãe já enjoou
na) de reumatismo que o demo do MATEUS - Quanto sou feliz! (Pe-
se com expressão de terror) não lhe ele tanto, que nem opode mais (sain- ga olenço eenxuga os olhos).
teu avô torto meteu-me nesta perna! do). Eu já vou buscar, espere hum
sirvo para os seus fins de (pondo a CATARINA (à parte e com expres-
(Atirando comum braço) Das incha- minuto (com as mãos, fazendo-o pa-
mão em hum olho) de... Osenhor são de dor) Ele disse que aoutra era
ções que todas as primaveras arreben- rar). Já venho, papai, já venho; evou
tam nestes braçosl (Abrindo acami- bem sabe. (Esfregando' com as costas simpática; e de mim nem ao menos
J
das mãos ooutro, com voz de quem buscar-lhe hum dos mais lindos (com
sa) Das chagas que tua mãe com seus ar gracioso) que encontrar em meu
diz que sou formosa! Sempre évelho,
lábios de vênus imprimiu-me neste chora) Sim; se eu não fosse desde a não sabe agradar atodos!
minha tenra idade um espelho, tipo, quarda-roupa, ouviu, papai, ouviu?
peito! E finalmente (arrancando a PÊORA - Papai, eu não fui porta-
cabeleira) da calvície que tu me pe- eu sombra de vergonha e de acanha- MATEUS - Sim, sim, já ouvi. Tu
dora do que me pediu, porque aSil-
gaste, arraocando-me ora os cabelos ,~I menta, eu diria (virando-se para o sempre foste o encanto dos meus
vestra é muito velhaca, e é muito
brancos, ora os pretos, conforme as público) já não quer dormir cOTIÚgO, olhos; o sonho de todos os meus
momentos. .. .(entra outra)! esta ligeira! Assim que me viu com olenço
mulheres com quem eu falava. Se elas diz: feio (saindo da sala), feio, mau, na mão, tomou-me, ecorreu para tra-
(virando-se para opúblico) os tinham velho, rabujo, tão bem não te quero menina (voltando-se para oPovo) é
os encantos da imaginação desta cabe- zer-lhe primeiro que eu!
pretos, assim que asujeitinha podia, mais, fedorento.
arraocava-me os brancos sob o frí- ça (batendo com as mãos, huma de SILVESTRA - É porque eu quero
MATEUS - Mas (voltando-se para (dando com a mão na irmã) mais
valo pretexto de que me namoravam! cada lado da cabeça) eobjeto que ao
o ftllldo) e as meninas; onde estão? bem apapai do que você. Aí esta!
Se elas os tinham brancos, fazia-me ver, me enche (apalpando ocoração)
Onde? Onde? (Puxa a cabeleira)
As pessoas que comprarem equiserem levar àcena o mesmo, sob ainda o frivolíssimo este coração de alegria. PÊDRA - Pois não! Não vê que a
Pêdra. Catarina. Silvestra. (Escuta um
quaisquer das minhas comédias, podem, bem como fazer pretexto de que eu as namorava. !• CATARINA - Meu papai, e eu, senhora já pesou os graus de amor
pouco) Nenhuma aparece. Cruzes.
quaisquer alterações, corrigir alguns erros e algumas fal- (Batendo com as mãos e camin!lan- Fizeram omesmo que amãe? Fugi- então não mereço alguma? que em meu coração eu consagro a
tas, quer de composição, quer de impressão, que amim, do) Eassim é; e assinl é, que calvo, ram de mim? Coitado. Pobre de quem MATEUS (voltando-se e olhando meu pai ...
por iniÍmeros estorvos, foi impossível. calvo, calvo, calvo, calvo, calvo. pl/ra Catarina) Minha querida filha, SILVESTRA - Não preciso pesar.
é velho. As mulheres fogem; e as
(Algum tanto cantl/ndo) Calvô... minha querida Catarina (abraçando- Olhe: no seu coração existe certa
12' QORPo-5ANTo, julho de 1877 culvô... calvô ... ô... ô ...
filhas desaparecem.
força ou quantidade de umor cersa- As FILHAS CANTAM: CATARINA (olhando-a com certo ar
grado (afagando com as mãos) ao PÊDRA - Eu papai, mudava algu- CATARINA - As manas já lhe pedi- CATARINA - É quanto basta; e
de indiferença) Se te parece, minha "I
ram lal1lo que cu não sei oque lllC com ele ficarei muito contcnte!
papaizinho. E em mim todo o meu mas eplantava outras.
Nós somos três anjinhos; muito querida maninha, chama-me de hei-de pedir, parece que tudo 1m-de
coração épuro amor aele umbutado! E quatro éramos nós preguiçosa. :MATEUS - Já vejo que todas íra-
balharam muito! Hei-de fazer acada custar tanto dinheiro, que se osenhor :MATEusA entra renglliando, revi-
PÊDRA - Vejam só (com aspecto Que do céu descemos! PÊDRA - Não, isso eu não digo, não tivesse ainda há pouco tirado a
E o amparo procuramos: huma das senhoras omais lindo pre- ramlo os olhos e fazendo mil trejei-
impertinente, desgostoso; rosto fran- porque a senhora deu as mais des- sorte grande na loteria do Rio de
Mataremos ao algoz scnte! (Movendo acabeça, inc1inan- tos. As filhas, que aobsmam, dizem
zido, pende a cabeça de nm lado) lumbrantes provas de que !lá de vir Janeiro, eu acreditaria que teria de
Destes dois 110SS0S vizinhos! do-a) isto é, quando eu sair à rua, umas para as outras: "Aí vem ama-
como é retórica! Não pensei que a aser lá ... (elevando amão) para o vender a cabeleira, para satisfazer
pois bem sabem que eu aqui não te- mãet", quase em segredo, rapidamen-
senhora estivesse tão adiantada. Não futuro uma moça das mais tnbsha- tantos pedidos.
Sempre fomos bem tratadas nho com que lhes presentear. te: "Olhem amamüe!" :'Vamos, va-
estudou, não se preparou hoje tão deras, que eu conheço! Eainda hoje
Quer deste, quer daquelas PÊDRA - Eu quero. .. quero, o :MATEUS - Não, não menina, o mos, já süo nove horas". Para opai:
bem com seus velhos alfarrábios de disso deu segurança no jardim do
Não queremos que amaldade, que há de ser (levantando algum tan- que elas pedem custa pouco compa-
filosofia? Se não se preparou, para quintal, em que não ficava flor que
Para nós ainfelicidade, to acabeça erefletindo) huma bone- rativamente aos meus evossos rendi- FILHAS - Papai, não se esqueça
outra vez prepare-se, eveja se ganha não fosse pela senhora cultivada.
Maltrate aele ou a ela... ca de cera, do tamanho da (apontan- mmtos! Diga, diga o que mais esti- das nossas encomendas, como nós n~o
mais U111 afeto do papai! SILVESTRA - Inda bem que ase- matá que eu lhe traga, para comprar
Mataremos tresloucadas! do) Silvestra! Etoda vestida de seda, nos esquecemos de orar aDeus para
CATARINA (serenando-as) Meninas nhora sabe, efaz-me o obséquio de e trazer-lhe?
dizer, ese eu onão fora ainda, não omdu, papai? Com brincos, adere- q~e prolongue seus dias e que estes
(pegando no braço ou mão de uma e Não somos só anjos ços. .. Osenhor sabe como se ves- CATARINA - Pois bem, eu vou
era de admirar, pois não canto mais, "I seJ3m íehzes. Até logo àhora de jm-
de outra) Acomodem-se. Vocês pare- Que assim pensamos; tem as moças que se casam; assim eu dizer-lhe: mas V. Mercê não se há
de nove adez anos de idade. tar l efazendo uma profunda cortezia
cem nenês! Que assinI praticamos; quero. Não se esquaça; não se esque- de zangar. depOIS de lhe beijarem amão, pegan-
MATEUS - Meus anjos (tão bem Tão bem são os arcanjos! :MATEUS (voltando-se para Silves- ça de comprar, e me trazer assim. do as smas dos vestidos) que é quan-
:MATEUS - Não, não, peça oque
querendo acomodá-las) Minhas saa- tra) Pois asenhora esteve no quintal? Olhe (batendo-lhe amão no braço), do poderemos ter oinexpnmível pra-
De principados - exércitos quiser, que eu com muito prazer llle
tas; minhas virgens ... não quero que SILVESTRA - Pois, então, papai, eu se na loja do Pacífico não tiver, tem zer de passar alguns preciosos mo-
Temos; também de virtudes! não havia de ircortar, arrancar todas trago.
briguem, porque isso me desgosta. na do Leite, na do Rodolio, ou do CATARINA - Pois então, ,dsto que neaícs em sua estimável companhia.
De tronos! Não mudes, as ervas perniciosas, que crescendo
Sabem que já sou velho eque os ve- Papai! Vivanl as órdens! Paradeda. tem gosto em me fazer um presen-
destroem as plantas, as flores predo-
lhos são sempre mais sensíveis que os sas? SrLVESTRA - Eu me contento com te. .. até se eu não tivesse de ira
moços. .. Quero vê-Ias contentes; Para debelarmos facínoras! menos. Quero um vestido de seda, um batisado à casa da minha amiga CENA TERCEIRA
contentezinhas, ao contrário fico tris- Para triunfarem diretos, :MATEUS (com muita alegria, pe- lavrada na barra, e as mangas, afio
gando afilha) Filha. Filha minha, e comadre dona Leocádia das Neves
te. As armas temos nos peitos! de ouro; com blonds e tudo o mais Navarro eSouto, eu não diria oque 1vlATEusA (aproximando~se das fi-
Aforça de milhões d'espíritos! vem ameus braços (abraça-a e bei- que se usar, do mesmo fio ou daquilo
PÊDRA ESILVESTRA (formando com ja-a muitas vezes) Fazes, minha mui- mais preciso e quero que me dê... lhas) Viu, meninas, vão fazer asua
as mãos pegadas uma nas outras Ulll que for mais moderno. é um ramalhete das mais delicadas costura, está tudo marcadinho, cada
to amada Silvestra - oque Deus faz
círculo em roda do pai) Nosso papai- Terminado oemIto, abraçarão to- nos Governos, oque os bons Gover- MATEUS (para Silvestra) Conten- flores que se costumam vender nas uma das senhoras tem na sua alno-
zinho, não hade se desgostar: não das o pai, e este a elas, banhados nos fazem aos Governados, prendem, ta's-te só com isso? Não queres sspa- lojas das modistas francesas e ale- fada o pano, a linha, a agulha; e
hade chorar: não hade chorar (dml- todos na maior eftlsão de júbilo.
) tos de seda, botinas de veludo tão lllãs. tudo o mais que é necessário para
castigam; melhoranl ou mutilam os
çando). Nós haemos de amparar o maus - para que não ofendam, nem bem bordadas de ouro, ou enfeite fino :MATEUS - E levou tanto tempo trabalhar até as duas da tarde. O
nosso querido papai. (Humas para as PÊDRA (para opai) Agora, papai, prejudiquem os bons. Evocês (para para acabeça? para pedir uma coisa Qe tão pouco que é de bordar para a Pêdra, está
outras) Vamos, pulemos, dancemos e as outras) o que faziam durante o SILVESTRA - Não, papai; basta o valor? desenhado alápis; os picados para a
vamos coser, bordar, fiar; fazer renda
cantemos: todos de uma só vez. (O ·tempo em que a minha inteligente vestido; omais tudo eu tenho muito Catarina, estão alinhavados; e acos-
(para as irmãs). Vamos, meninas. A CATARINA - Não é de muito pe-
pai vira-se ora para uma ora para Silvestra procedia com tanto acerto, bom, eem estado de poder servir com íura lisa, a camisa deste velho feio
mamãe já hade ter a nossa tarefa queno valor, oque eu quero é de uns
outra, cheio do maior contentamento: praticando uma tão meritória ação, olindo vestido que lhe peço. Sempre muito mimosos, cujo preço sobe a (batendo no ombro do marido) está
pronta para nos dar trabalho.
o sorriso não lhe sai dos lábios, os e digna dos maiores elo~os? gostei da economia; e sempre abor- dez ou doze mil réis. começada. Tenham cuidado, façam
CATARINA - Ainda é cedo; eu PÊDRA eCATARINA (quase ao mes-
olhos são temos; aface se frmlze de reei a prodigalidade. tudo bem feitinho.
não ouvi dar oito horas; e o nosso mo tempo) Eu regava as minhas plan- :MATEUS - Pois então, isto émui-
prazer; quer falar eapenas diz:) trabalho sempre principia às nove. MATEUS - Estimo muito; éomais to barato! Mas como é o que me FILHAS - Como sabe, somos ole-
tas eflores, com amais fresca eeris- dientes filhas; deve por isso contar
:MATEUS - Meu Deus! Eu sou; SILVESTRA - Eu não sei o que fiel retrato da moral do velho Mateus pede, fique certa que hade ser ser-
talina água, afim de que crescessem assim havemos defazer, (Saem).
eu sou tão feliz que... SinI, sou; sou hei-de fazer hoje o que hade de edesabrochassem- perfeitas epuras. (para Catarina). E a senhora, que vida, tanto mais que tem aintenção
14 muito feliz. fazer. (Isto diz Catarina). está tão calada. Então, não pede de se apresentar com ele em um baile, MATEUSA (para o marido, baten-
nada? batisado, ou não sei que festa. do-lhe 110 ombro) Já sei que está
repassado de prazer, esteve com suas pre mostra que é velha, e renga. I dia que as tripa, (pondo amão 1U1 da! Ou bengalada! (Bate com aben· Porto Alegre, maio 12 de 1866
queridas filhinhas mais de duas horas (Querem erguer-se sem poder) Isto barriga) me revelarem anecessidade gala no chão). Beco do Rosário, sobrado de 3janelas, n. 21
e eu lá sofrendo as maiores sauda- Pelo rio-granderse José Joaquim de Qampos Leão, Qorpo-
é o diabo ... de ir à latrina. MATEUSA - Ah! dessa lei, sim, -Saato; aos 37 anos de idade.
des. MATEUSA (levantando-se, querendo MATEUSA - Ah, já sabe que isso tenho medo. (1 parte) Mas ele não Em quatro ou cinco horas de trabalho.
MATEUS - Éverdade, minha que- fazê-lo apressadamente esem poder, não vale coisa alguma; e principal- pode com (pega em uma cadeira e
rida Mateusa (batendo-lhe também cobrindo as pemas que, com olombo, mente para as autoridades - para - dá-lhe com ela, dizendo) Ora, toma
110 ombro). Mas antes de te dizer o ficaram algum tanto descobertas) Ê quem tem dinheiro! Estimo muito; lá! (Ele apara apancada com aben-
que pretendia, confessa-me. Porque isto, este velho, pois não querem ver muito; muito. (Pega em olltro - a gala, encolhendo-se todo, enfia esta
não quiseste tu o teu nome de baís- só acara dele. Parece-me odiabo em Constituição do Império eatira-lhe na na cadeira, empurrão para lá para
mo, que te foi posto por teus faleci- figura humana. Estou tonta. Nunca cara) . cá).
dos pais'! mais, nunca mais hei-de aturar este MATEUS (glitando) Ai, cuidado As FILHAS (aparecendo na porta
MATEUSA - Porque achei muito carneiro velho, e já sem guampas. quando atirar, sra dona Mateusa. dos flmdos, umas para as outras) Vai (*) Na grafia que mais tarde inveutaria, seu nome de ba-
feio onome de Jônatas que me puse- (Ambos levantam-se muito devagar, Não continuo aaceitar seus presentes; lá! (empurrando) Vai tu apartar! Eu fumo era Jaze Joaquim de Qampos Leão. Nasceu em 1829, em
ram, e então preferi o de Mateusa amuito custo, esempre praguejando se com eles me quiser quebrar onariz não, quando eles estão assim, eu te- Triunfo, pequena cidade. às m~rgens do rio Jacuí, no coração
que bem casa com o teu. da Província de São Pedro do Rio Grande. Em 1863, alcunhou-se
11m contra ooutro.) (apalpa este, ediz) Não partiu, não nho medo, porque sou pequenina. o Qllorpo-Salllo. Morreu a 1.0 de maio de 1883 cm Porto Alegre,
MATEUS - Sempre és mnlher, e MAtEusA (fazendo menção ou quebrou, mas entortou (e como o ,MATEUS - Ai! Eu caio! Quem deixando mulher, quatro filhos vivos, e a pequena fortuna de
não sei oque me pareces depois que dando 110 ar ora com uma ora com nariz; tem parte de cera, fica com ele me acode! Perdi o queixo! 40 contos de réis cm bens imóveis.
ficaste velha e rabugenta. outra mão) Hei-de ir embora, hei-de assás torto. Ainda não acaba de endi- MATEUSA (gritando e correndo) Foi caixeiro-viajante, varredor, delegado de polícia. Tomou-
MATEUSA (recllando um pouco) ir; hei-de ir. Ai! Esfolei um braço, mas deixo-lhe -se professor de "Língua Pátria" (português). Dirigiu reuomados
reitá-lo, Maleusa atira-lhe com olltro estabelecimentos de ensiuo. Teve alunos ilustres. Destes, alguns
És bem atrevido. De repente equan- MATEUS - Não hade ir, não bade de História Sagrada, que lhe bate a cadeira enfiada na cabeça. (Quer chegaram a acompanhar-lhe oenterro. Era monarquista couvicto,
do não esperares hei-de tomar amais ir; não hade irporque eu não quero nllma orelha postiça e que por isso assim fazer efugir, mas Mateus atira- adversário incansável dos rebeldes farroupilhas qne proclamaram,
justa vingança das grosserias, das que vá. Você éminha mulher, epelas com apancada cai) Eis oterceiro e lhe acadeira às pernas; ela tropeça e em 1835, a República de Piratiui. Na coucepção mais legítima
duras afrontas com que costumas leis tanto civís como canôllicas, tem último, que lhe dou para os fins a cai, ele vai acudíla, quer COITeI'; as do termo, era um "cidadão do Império".
insultar-me. Ao certo, ninguém sabe o que houve. A lenda conta que,
obrigação de me amar ede me aturar; que osenhor quiser aplicar. filhas convidam-se afugir; ele cai aos por volta de 1862, dois assaltantes notumos bateram-lhe muito
MATEUS se aproxima e ela recua. de comigo viver, até eu me aborrecer. MATEUS (no sentir apancada, gri- pés da velha). na cabeça, e que esta desandou. Ele próprio escreveu que, a 7
.MATEUSA - Não se chegue para (Bale com um só pé). Ha-de. Há-de; ta) Ai, que fiquei sem orelha! Ai! de junho de 1863, José de Leão subiu ao céu virou santo. Sen
mim (pondo as mãos na cintura e Há-de. Onde cairia? (Atirando com os livros Elltra um criado, passados algulls corpo ficou morto por dez horas, até que nele se infiltrou Um
mregaçando os punhos) que eu não MATEUSA - Não hei-de. Não hei- na velha ecom raiva) Por mais que minutos, terminadas as gargalhadas
"outro" - o QlIorpo-Santo. A partir daí Qorpo-Santo fez e
sou mais sua. Não o quero mais. Já sofreu o diabo. Tentou implantar uma nova ortografia, elimi-
de. Não hei-de. Quem sabe se eu sou recomendasse a esta endemoinhada que sem dtívida devem desenvolver-se nando os K, ç PH, SS RR e demais inutilidades. Ii!creveu peças
tenho outro com quem pretendo viver sua escrava'! É muito gracioso e até que não queria presentes caros, este por algwll tempo. absurdamente ousadas para o teatro da época. Escreveu poemas
mais felizes dias. atrevido. Quer cerceara minha liber- demônio havia de quebrar-me onariz, agressivos, sem métrica, sem rima, sobre formigas, araohas, tino
MATEUS (cOlrendo a abraçá-la dade e ainda me fala de leis da igreja epor-me fora uma orelha. ÓMateusa teiros e quinquilharias, escandalizando as mentes pama~anas.
apressadamente) Minha queridinha, BARRIÔS - Eis, senhores, as con- Editou sua própria obra, pomposameute chamada Ellsiq/opédia
e civís, como se alguém fizesse caso do diabo, com que partes desta casa ,
minha velhinha, minha companheiri- I seqüências funestas que aos adminis- 011 Seis Me,es de Humo Enfermidade.
de papéis borrados. Quem é que se em ir eu amanhã ao baile masquê, trados ou como tais considerados, De 1862 a 1868, Quorpo-Sauto foi "réu" de um processo de
nha de mais de 50 anos (agarran- importa hoje com Leis (atirando-lhe visitar as Pavoas? E... interdição. A 17 de agosto de 1868 foi oficialmente declarado
do-a), por quem és, não fujas de traz odesrespeito das autoridades aos
com oCódigo Criminal). Sr. banana. MATEUSA (batendo com o pé) Ca- direitos destes; ecom tal proceder aos louco, e incapaz de gerir seus bens, sua famflia e a si próprio.
mim, do vosso velhinho. Eas nossas Bem mostra que éfilho de um lavra- charro! Ainda me fala em Pavoas, e Na fase final do processo, Quorpo-Santo foi encarcerado c envia-
queridas filhinhas, que seria delas, se seus próprios direitos. A descrença do ao Hospício D. Pedro, no Rio de Janeiro, para melhor exame.
dor de Viana. Pegue lá o cospe e em baile masquê? Traste! Ordinário! das mais sábias instituições, em vez No Hospício tomou muitas notas. E depois publicou-as sob o
nós nos separássemos, se tu buscasses escarram todos osdias como se fosse Já .. , ma, seu maroto! irónico título de QlIin,e Dias lia Corte.
depois de velha efeia outro marido, de só aterem nesta ou naquela auto-
uma nojenta escarradeira. MATEUS (voltando-se para o plí- ridade que as não cumpre, nem faz Na verdade, foram quatro meses de "Corte", embora depois
ainda que moço ebonito, que seria de MATEUS (espremendo-se todo, blico) Já se viu que escaler velho ele conseguisse transferência para uma casa de saúde particular.
cumprir! Aluta do mais forte contra
nim? Que seria de ti'! Não, não, não, abaixa-se, levanta o livro e diz: à mais iapertiaeate. Esperem que eu o mais fraco! Finalmente, a destrui-
tu jamais me deixarás (tanto se abra- mulher) Obrigado pelo presente, adi- lhe boto cavernas novas (procurando Flávio Aguiar
ção em vez da edificação! Oregresso
çam, agarram, pegam, beijam-se, que vinhou ser coisa de que muito neces- uma bengala) Achei (Com abengala em vez do progresso!
cai um por cima do outro). sitava. (Mete-o na algibeira; àparle) e/ii pllnho) Já que a senhora não (Revista EX.Loucura, n. 7/1974)
MATEUS - Ai que quase quebrei Ao menos servirá para algumas vezes faz caso da lei escrita, falada e jura-
6 uma perna, esta vslha éodiabo, sem- sevir-me de suas folhas, uma em cada da, há-de fazer da lei cacetada. Paula- FIM DA COMÉDIA Sobre Qorpo-Santo, V. Cadcmos de Tealro n, 45
./
Üque você deve s~)er quando desBjar meros casos de peças estrangeiras cujas traduções
não são as autorizadas para encenação. Há ainda
MACKSEN Lmz , Carlos Silva, chefe do Serviço Técnico do Teatro Munici-
os casos de obras pcríugusas ou estrangeiras, pal, "o cenotécnico está na base da execução dos cená-
montar uma peça de autor nacional
. publicadas em Portugal. Todas, sem exceção, estão rios". Já para Luciano Trigo, do Teatro Dulcina, "o eeno-
técnico é um profissional que conhece matérias sobre
ou esh'angeIro: sujeitas à consulta prévia à SBAT.
ASAIDA INVüLUNTARIA DE CENA cenografia emaquinaria de palco".
(t Outro caso é ode peças compostas de trechos de
outras obras, de crônicas, poemas etc. colhidos à O ante-projeto de lei elaborado pelo Sindicato de
revelia dos AA. São as peças antológicas ou de Artistas e Técnicos em Espetáculos e em estudo pelo
"colagem" que, talvez, apareutemeute, posam ser Ministérios da Educação e do Trabalho, define o ceno-
representadas sem consulta prévia. Acontece, porém, técnico como responsável por toda aparte cênica de um
Ao escolher uma peça para seu grupo, seja amador que esse gênero de obra de retalhos pode colocar espetáculo, incluindo até mesmo as funções de tapeceiro
ou profissional, você deve dirigir-se àSociedade Brasileira partes do texto em conflito com outras, por ter Aprofissão de cenotécnico, como tantas outras que eestofador. Toda esta inlprecisão de termos reflete ape-
de Autores Teatrais (*) que dará todas as infofUlações a sido retirada de um contexto diferente. Portanto, formam ainfra-estrutura da atividade teatral, está conde- nas oabandono em que está relegado otécnico de teatro,
respeito da possibilidade ou não de montagem-do texto uma consulta énecessária para resguardar direitos nada ao desaparecimento por falta de técnicos que acon- hoje um marginal que vive com salário irrisórios e que
escolhido. Como a própria SBAT tem inlerese em que e evitar futuras reclamações dos AA além de pre- tinuem. No passado a partir dos anos 20 e até oinício do teatro pode esperar apenas a descontinuidade de tra-
as peças sejam representadas, pois arrecada os direitos juizos futuros para ogrupo ou companhia. dos 60 - apresença do cenotécnico era uma imposição balho eaprecáriedade do exercício profissional,
do autor erecebe uma porcentagem desses direitos; ela da estrutura teatral, já que as montagens exi~am diversas Dentro de uma conceituação ampla, o cenotécnico
éoórgão mais indicado para dar as informações neces- mutações de cenas, uma maior complexidade na cons- éoresponsável pelo bom funcionamento da parte cênica
sárias. Oseu papel é ao mesmo tempo de arrecadador e trução dos cenários edetalhes de acabamento hoje consi- . de um espetáculo.
de fiscalizador do patrimônio sob sua proteção (as peças derados secundários. Aprecariedade econômica da empre- Quando grandes companhias atuavam permanente-
registradas na SBAT), estando, assim, autorizada por lei sa teatral não permite que atualmente ocenotécnico seja mente e mantinham elencos estáveis, o cenotécnico era
asuspender ou proibir qualquer espetáculo que não tenha uma figura ativána elaboração do espetáculo. Sob aperi- um elemento imprecisdível na construção do espetáculo.
sido previanlente autorizado pelo autor. gosa marca da contenção de despesas, as produções atuais Na verdade, era ele quem "viabilizava" o projeto do
Para evitar prejuízos futuros para oseu grupo, diriga- improvisam contra-regras, carpinteiros, iluminadores, ade- ce~ógrafo, ajustando as características dos cenários à
se àSABT, que lhe dará informes sobre: recistas (algumas das funções exercidas ou coordenadas dimensão do palco, coordenando toda a sua execução
pelo cenotécnico) com graves prejuizos para a qualidade e montagem. Além de exercer as funções de contra-
@ Se apeça escolhida está vinculada contratualmente técnica do espetáculo teatral. regra - o que mantém a parte técnica do palco fun-
aontra companhia ou grupo. Apenas três teatros no Rio - Dulcina, Ginástico e cionando durante o espetáculo -- e eventualmente,
Copacabana além do Municipal, mantêm cenotécnicos con- de iluminador ou de diretor de cena. A técnica vem
@ Se, em se tratando de original estrungeiro, atradu-
tratados, que ainda assim encontram dificuldades em sendo absorvida no decorrer desses anos por disci-
ção está devidamente autorizada e ocontrato emi- encontrar auxiliares que executem cenários, ou mesmo
tido pelo Autor, válido, ainda, apesar de ter sido pulos de velhos mestres europeus, sobretudo portugue-
que conheçam as bases de uma boa contra-regra. Ecomo ses eitalianos. Os mais conhecidos cenotécnicos que par-
apeça fartanlente representada até então. Convém oteatro não dispõe de condições econômicas para manter
esclarecer que todo contrato fha prazos; índices de ticiparam do teatro carioca, a partir dos anos 20 -
esse "luxo", atelevisão está absorvendo os poucos técnicos Wilson Bandeira, Mario Conde (falecido há 2 meses)
representações mínimas em cada ano de validade do mercado, ofe.recendo salários compensadores eapos-
e, algumas vezes, até onome da companhia que tem formaram no trabalho diário uma equipe que aluou (e
sibilidade de continuidade de trabalho. Enquanto aregu- ainda atual) nos palcos do Rio, mas que hoje está redu-
a exclusividade do direito de representação, além làmentação das atividades artísticas não for resolvida e
de outras cláusnlas importantes. Daí anecessidade vida auns poucos remanescentes,
as (poucas) escolas de teatro não tiverem condições de
de examinar cada caso especificamente. manter cursos regulares para cenatécnicos, o panorama
S Ofato de uma peça nacional ou estrangeira estar continuará desolador. Os remanescentes continuarão até Últimos Atas
publicada não significa que poderá ser representada (*) Sociedade Brasileira de Autores Teatrais aaposentadoria - eamaioria está próxima - aexercer
sem o cumprimento das formalidades a que nos Luciano Trigo, que iniciou suas atividades como téc-
Fundada em 27/9/1917 uma atividade que se torna anacrônica pelo fato de sua nico teatral em 1926 eque hoje éresponsável pelo setor
referimos. Apublicação édestinada àleitura enão, Reconhecida de utilidade pública federal (decr. 4.092, de utilidade técnica estar sendo substituída pelo imediatismo
implicitamente, à representação pública. E se a 4/8/920 técnico do Teatro Dulcina, diz que "com adecadência do
das soluções de improviso. teatro e com as produções esporádicas, a profissão de
edição for de obra estrangeira, éindispensável saber Sede: Av. Almirante Barroso, 97, 3.° andar. Ead, telegr,
se otradutor que assina otexto éotradutor auto- SRAT RIO A indefinicão do cenotécnico no mercado teatral cenotécnico está se extinguindo. Os produtores, por me-
brasileiro começa pela dificuldade que esses profissionais dida de economia, alijam o profissional, improvisando
J8 rizado para representação pública da obra. Há inú- Rio de Janeiro - Brasil ..
'-\' têm em delimitar aeliensão de sua atividade. Para Luiz técnicos". A permanência de LT como cenógrafo do
Vu/cina só é possível graças a uma cláusula que consta Técnico do Municipal, recebe 2.200,00 e LT estima nome genérico de cenatécnicos, é bem precisa nesse an-
do contrato de locação do teatro, que obriga o elenco em $3.000,00 os rendimentos de um cenotécnico e afir-
,\

te-projeto, mas aforma como serão conferidos diplomas SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO
que o ocupe a utilizar os serviços de Luciano. Como ma que "pago para os carpinteiros da equipe que sempre aos aos novos técnicos permanece uma incoguita. As es-
conhece as condições técnicas do palco, a extensão do trabalha comigo 12 cruzeiros a hora." Esses preços são colas de teatro não têm meios de colocar em funciona-
sistema de iluminação eos recursos acústicos do Dulcina, variáveis segundo a urgência e as condições do mercado mento cursos de formação. Pelo menos por agora. "Na
LT assessora as companhias na montagem dos cenários, no momento. Se a época for de carnaval, será pratica- Escola de Teatro da FEFIEG - afirma PO - "deveria-
na indicação de carpinteiros especializados e até mesmo mente impossível corsegulr qualquer carpinteiro espe- mos ter em pleno funcionanlento cursos de maquinistas,
na execução de tarefas de sustentação cênica. Esse tipo cializado ou pintor de cenário, que estarão recebendo um contra-regras, eletricistas e carpinteiros. Se não temos
de função é mantido apenas por 3 teatros particulares: salário bem maior que no teatro, por mais "abastada" técnicos graduados, não temos professores, e forma-se OQUE ~ TEATRO NA EDUCAÇÃO
ODu/cina, oCopacabana eoGinástico. Mas odesempe- que seja acompailhia. ELT aíirma, com a segurança de assim um círculo vicioso. Ao mesmo tempo não posso
nho profissional desses técnicos fica bastante prejudicado muitos anos de conhecimento do mercado, que "se 3pro- contrar um LT porque ele já atingiu os 60 anos. No caso
pelas más condições dos teatros. Opréprio Teatro Muni- duções médias forem montadas ao mesmo tempo, não de iluminação, precisamos de aparelhagem específica, e
cipal, considerado a principal casa de espetáculos da ci- existem técnicos especializados disponíveis em número Geografia, Ciências, Matemática eTeatro são áreas
o material que temos é quase lamentável. Como formar a serem igualmente qesenvolvidas no contexto escolar.
dade, tem problemas técnicos insuperáveis. "Em matéria suficiente para atender às necessidades." técnicos dessa forma?"
de iluminação - lembra Luis Carlos Silva ---:- "nossa Os estudos recentes de estrutura curricular têm demons-
- Aparte técnica - diz Pernambuco de Oliveira Asugestão surgida na própria Escola de Teatro foi trado que étão importante oque vai em direção à crian-
cabina é arcáica, funcionando com 8homens em um es- - do teatro no Brasil está indo por água abaixo. Contra- entregar aformação de técnicos ao Senac mas enquanto
petácul0 de ópera e mesmo assim com deficiência." A ça, quanto o que sai da criança em direção ao mundo.
-regra, por exemplo, não existe mais. Ele é o elemento os cursos não são estabelecidos e aprofissão regulamen-
situação é tão precária que quando da vinda do Royal qne precsa conhecer tudo, inclusive decoração, ilumina- Sabendo-se da importância que o aluno chegue a
tada, oaprendizado vai sendo feito através dos profissio-
Ballet, o grupo trouxe 250 refletores. OMunicipal pos- ção etc. Os que existiam receberam preparo desde jovens, nais atuantes. Somente oTeatro Municipal, com sua equi- seus próprios couceitos (seja em que área for), funda-
sui apenas 45. passaram aprofissionais. Ocontra-regra éhoje o carre- pe permanente contratada, é que teria como formar no- mental é que isto se concretize mais em atividades ex-
LT considera apenas o Teatro Carlos Gomes com gador de móveis na televisão. E foi a própria televisão vos profissionais, mas Luís Carlos éoprimeiro aapontar pressivas.
uma estrutura arquitetônica adequada, seguido do Muni- que ajudou aacabar com ocontra-regra. as deficiências de pessoa. "Em todos os setores do Ese teatro éfundamentalmente expressivo éimpor-
cipal e João Caetano. Os outros, considera apenas "au- Oex-presidente do Sindicato dos Artistas (Luis Fran- Setor Técnico temos carência de pessoal. Há 5 anos ha- tante que o aluno (em qualquer idade) coloque a sua
ditórios mal adaptados". Mas ainda que as condições cisco Olimecha), diz que apesar de não existir um levan- via 25 eleüicistas, hoje estamos reduzidos a 5 e mais própria visão das coisas e do mundo que o cerca, de
técnicas sejam adversas, as profissionais são quase dra- tamento s~temático do número de profissionais técnicos um chefe. Daí anecessidade de contratar para um espe- maneira pessoal, original, flexível e imaginativa. Nesse
máticas. Ocenógrafo e diretor da Escola de Teatro da atuantes no Rio, ele estima em cerca de 300 e que a táculos 8 técnicos de fora." Osalário médio de um car- sentido, éclaro, que oaluno deve criar seu próprio texto
FEFIEG Pernambuco de Oliveira, diz "a situação chegou função de ceilotécnico, entendida em sua acepção de pinteiro teatro no TM não excede de 1,800 cruzeiros. (estória, roteiro, flash, etc), escolha a linguagem mais
a tal po~to, que vamos acabar tendo que. impo;tar ele- coordenador da parte cênica do espetáculo, praticamente Só ficaram nesta profissão - relembra LT - aque-
mentos apreço de dólar ou aouro. ArealIdade. e q~e os adequada para contá-lo·(oral, corporal, sonora, plástica,
desapareceu. Ede certa forma pela carência de mão-de- les que não sabem fazer outra coisa. Amaioria desistiu, etc.), escolha o espaço em que pretenda desenvolvê-lo.
poucos cenotécnicos que ainda restam, prcfssiorais de obra especializada LFO acredita que a situação dos desapareceu." Oque é comprovado por Antônio Caste-
altíssimo gabarito, estão acabando. Sãoidosos enão está Nesse sentido, teatro permite a integração de todas as
profissionais não é tão desfavorável. Oque PO lembra, lar, um homem de 83 anos, carpinteiro teatral que con-
havendo renovação. Onde encontrar hoje iluminadores, no entanto, é que não há nenhuma renovação e conti- I
,; tinua a exercer sua profissão, como contratado, sem di-
possibilidades da Educação Artistica, por seu caráter glo-
balizador. E se teatro éfundamental expressão coletiva,
cenaristas, maquinistas, aderecistas, como existiam anti- nuidade técuica. "Luciauo Trigo, por exemplo, iS um dos reito a aposentadoria, depois de 60 anos.
gamente, ligados às grandes companhias?" éimportante que oaluno traballle em grupo, de maneira
melhores cenotécnicos do Brasil e já tem mais de 60
abe~aJ contactando com todos os alunos da classe.
anos. Como ele, só existem uns sete. Quando esses pou-
Profissão esquecida cos se forem, oque vai restar?" Ao professor, cabe apenas orientar as eventuais di-
ficuldades que os alunos encontrem, acompanhar a pro-
Ainda que o Sindicato dos Artistas estabeleça uma posta eoprocesso de trabalho, conduzir aretomada cri-
tabela rigorosa de "preços mínimos" para os diversos EoFuturo!
tica da resultante a que se chegue. Mas, ciente de que
técnicos ligados à atividí:de teatral, esta tabela não pode No ante-projeto de lei que regula as funções anis- em toda a atividade expressiva ofundamental é o pro-
ser cumprida em raZ<10 da "deserdem do mercado". To- ticas eque ainda não foi apreciado pelo Congresso, faz-se cesso, eos produtos alcançados só interessam como pon-
mando como base o salário mínimo vigente a partir de aexigência para uma pessoa que exerça atividades técni- to de partida para odesenvolver de novos processos.
maio/74, um chefe de montagem deverá receber por 8 cas em teatro, que possua um diploma de curso médio
horas de trabalho, $96,00, um 2.0 ajudante de contra- ou que tenha dois anos de exercício profissional com- Isto deve ocorrer de maneira sistemática, incluido
-regra, pelo mesmo período, $48,00 eum chefe de guar- provado ou omíuimo de quatro trabalhos realizados. A no horário escolar, (e não como uma atividade extra-
da-roupa, $60,00. Luis Carlos, como chefe do Serviço definição de cada uma das atividades, englobadas pelo classe) obedecendo amesma importância dada às outras
(Jornai do Brasil, 214/75) disciplinas. Oque não impede que otom possa ser lúdico.
Nestc sentido ê óbvio que a montagem de espetá· 1- O concurso selccionará 3 (três) originais c) ao terceiro colocado caberá o prêmio I em di· EDITAL N.o 8/75
culos, com textos de autores consagrados (ou não), sele· inéditos, entendendo·se por inéditos aqueles não editados, nheiro no valor de CR$ 5.000,00 (quinze mil cruzeiros).
cionados com critérios adultos (o do professor) c com não representados ou submetidos aleitum pública;
11 - Os ori~nais premiados serão editados, em PR~MIO SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO
um enfoque nos "talentos" de alguns alunos, nada tem 2- Oconcorrente deverá ser brasileiro nato ou DRAMATURGIA INFANTIL - 1975.
um único volume, pelo Serviço Nacional de Teatro.
l! ver com oprocesso educacional que se pretende. naturalizado;
12 - O ori~nal colocado em primeiro lugar po. ODiretor do Scrv:ço Nacional de Teatro, dentro
3 - Os originais deverão tcr a extensão que per- derá ser montado pelo Serviço Nacional de Teatro, ou
mita espetúculo de duração mínima de 1 (uma) hora c do Programa de Ação Cultural do Departamento de
se este preferir, concederá auxílio àEmpresa teatral, ~. Assuntos Culturais, do Minislério da Educação e Cultu-
PESQUISA TEATRAL poderão / ser de qualquer gênero teatral, execto o de
dicada, pelo autor, desde que oprojeto de montagem seja ra, faz publicar, para conhecimento dos interessados, o
teatro infantil; previamente aprovado, pelo SNT;
OMuseu do Serviço Nacional de Teatro está orga- seguinte Edital, que regulamenta, para o ano de 1975,
4- Oprazo para entrega dos originais cncerrar- oVII CONCURSO PERMANENTE DE PEÇAS PARA
nizando um Centro de Documentação ePesquisa Teatral, se-á no dia 12 de setembro do corrente ano; 13 - A Comissão Julgadora será constituída de
6 (seis) membros, sendo um, oDiretor do Serviço Na- OTEATRO INFANTIL, inst::nído pela Portaria n. o24,
sendo uma de suas finalidades reunir epreservar todo o
5 - Os originais devcrão ser cntregues no Serviço cional de Teatro, que exercerá sua presidência, com di- de 29 de maio de 1969.
documentário do teatro brasileiro do passado e do pre- Nacional de Teatro - Setor de Difusão Cultural - si·
sente. Além do seu próprio acervo, o Centro' já conta reito avotos, de qualidade edesempate. Os demais nen- 1. - O Concurso selecionará 3 (três) originais
tuado àAvenida Rio Branco 179 - 8.0 andar, nos dias bras serão desiguados pelo Diretor do SNT dentre nomes inéditos, entendendo·se - como inéditos aqueles não
com Arquivo Bricio de Abreu, constituído de cêrca de úteis das 10.00 às 17.00 horas, mediante protocolo ou »

30.000 fotografias, pacientemente colecionadas durante representativos ligados ao teatro; representados ou submetidos aleitura pública,
enviados pelo correio, sob regstro, com especificação 2, - Oconcorrente deverá ser brasileiro nato ou
40 anos pelo saudoso jornalista, "PR~MIO SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO" - 14 - A Comissão Julgadora, se assim julgar de
mérito poderá indicar mais 2 (dois) textos para aedição naturalizado,
Os depoimentos que oServiço Nacional de Teatro 1975;
de que trata oítem 12 deste EDITAL e selecionar, até 3. - Oconcorrente poderá inscrever mais de um
vem gravando, com personalidades do teatro,· constituem 6- Os textos deverão ser cnviados cm número omáximo de 10 textos, para leituras dramáticas públicas; ori~al.
acervo do Museu e, além disso, as peças em cartaz estão de 6 (seis) exemplares legíveis - caso contrário, serão
sendo fotografadas e documentadas para futuros pesqui- 15 - Oautor, ao se inscrever concordará automa· 4, - Os ori~nais deverão ter extensão que permita
desclassificados -datilografados em espaço 2 (dois), espetáculo de duração mínima de uma hora,
sadores, sem título eassinados com pseudônimo; ticamente com aisenção do pagamento de direitos suto-
rais pelo Serviço Nacional de Teatro, nos casos de que 5, - Oprazo para entrega dos ori~nais eecerrar-
Visando a preservar material de valor histórico, o 7- Os originais serão acompanhados de um en- -se·á no dia 12 de setembro do corrente ano,
Serviço Nacional de Teatro está promovendo uma csn- velope fechado contendo: nome da peça, pseudônimo tratam os ítens 8,11, e 14 deste EDITAL;
; 6, - Os ori~ais deverão ser entregues ao Serviço
panha de doações, que poderão ser encaminhadas, para usado, nome /verdadeiro do autor, sua assinatura een- I 16 - O prazo para julgamento dos textos será Nacional de Teatro - Setor de Divulgação Cultural -
a sua sede, Avenida Rio Branco, 179 - 7,0 andar - dereço completo; II de 90 (noventa) dias, apartir do encerramento das ins- na Av, Rio Branco, 179, 8,0 andar, nos dias úteis, das
Rio de Janeiro, criçães;
8- Uma cópia de cada texto inscrito ficarúrirqui- 10,00 às 17,000 horas mediante protocolo, ou enviados
vado no Serviço Nacional de Tcatro e a inscrição do 17 - Os originais não procurados no SNT, Ave- pelo correio, sob registro, com especificação "PMM!O
nida Rio Branco 179 - Rio de Janeiro, após 90 (noven- SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO - DRAMA·
ori~nal neste Concurso configura autorização expressa .I I
ta) dias a contar do encerramento do Concurso, serão TURGIA INFANTIL -19.75".. r
do autor no sentido de que sua peça possa participar das
EDITAL N,o 7/75 leituras públicas que vierem aser organizadas pelo SNT; incinerados; 7, - Os tertos deverao ser enVlados em numero
18 - A entregados"premes sera'alizad
re oem ao t I de 6 (seis) exemplares legíveis (caso contrário serão
"PRÊMIO SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO!' - 9- Oautor poderá inscrever mais de um original;
público em data fixada pelo Diretor do Serviço Nacio- desclassificados), datilografados em espaço 2 (dois) sem
1975. 10 - Os prêmios atn'buidos pelo presente Con- nal de Teatro; título e assinados com pseudônimo.
curso de Dramaturgia denominar-se·ão "PRÊMIO SER-
19 - Os casos onrissos serão resolvidos pela Co- 8, - Os ori~ais serão acompanhados de um en-
ODiretor do SERVIÇO NACIONAL DE TEA· VIÇO NACIONAL DE TEATRO", eterão os seguintes velope fechado contendo: nome da peça, pseudônimo
missão Julgadora, com homologação do Diretor do Ser·
TRO, dentro do Programa de Ação Cultural, do Dpar- valores; usado, nome verdadeiro do autor, sua assinatura cende·
viço Nacional de Teatro,
tamento de Assuntos Culturais, do Ministério da Educa· reço completo.
ção eCultura, faz publicar, para conhecimento dos inte· a) ao ori~nal colocado em primeiro lugar caberão 9, - Uma cópia de cada texto inscrito ficará ar-
ressados, o seguinte EDITAL, que regulamenta para o oprêmio em dinheiro no valor de Cr$ 50,000,00 (dn- Rio de Janeiro, 13 de Junho de 1975 quivada no Serviço Nacional de Teatro, eainscrição do
ano de 1975, oVII Concurso permanene de peças "PRÊ· quenta mil cruzeiros) ; ori~al neste Concurso configura autorização expressa
MIO SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO" instituído b) ao segundo colocado caberá oprêmio em dinhei· do autor no sentido de que sua peça possa participar das
·2 pela Portaria n,o 55 de 19 de dezembro de 1963: ro no valpr de CR$ 30.000,00 (trinta níl cruzeiros); 'f ORLANDO MIRANDA DE CARVALHO leituras públicas que vierem aser organizadas pejo SNT. :~
19. - Os casos omissos serão resolvidos pela Co- TEATRO GINÁSTICO
10. - Os prêmios atribuídos pelo presente Con-
curso denominar-se-ão "PRÊMIO SERVIÇO NACIO missão Julgadora, com homolagação do Diretor do Ser-
MOVI MENTO TEATRAL (TeL 221.4484)
NAL DE TEATRO - DRAMATURGIA INFANTIL viço Nacional de Teatro.
-1975", e terão os seguintes valores: Gaiola das Loucas, de Poiret, dire-
Rio de Janeiro, 13 de junho de 1975 ção de João Bethencourt, com Jor-
a) Ao original colocado em primeiro lugar caberá
oprêmio em dinheiro no valor de Cr$ 15.000,00 (quin- ge Déria, Carvalhinho, Nélia Paula,
ORLANDO MIRANDA DE CARVALHO Lady Francisco, Miguel Carrano de
ze mil cruzeiros). Diretor ABRIL AJUNHO DE 1975
outros. Preço 40,00.
b) Ao segundo colocado, caberá o prêmio em di;-
nheiro no valor de Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros).
TEATRO GLÓRIA
c) Ao terceiro colocado, caberá o prêmio em di-
nheiro, no valor de: Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros). (Tel. 245.5527)
11. - Os originais premiados serão editados, em TEATRO DE BOLSO oAmante de Mme. Vidal, de Ver-
um único volume, pelo Serviço Nacional de Teatro. (TeL 287.0871) neuiL Direção de Fernando Torres,
com Fernanda Montenegro, Otávio.
12. - Os originais premiados, em primeiro, segun- ,J
Mangue Story, de Aurimar Rocha, Augnsto, Fernando Torres. Simon
do e terceiro lugares, poderão ser montados pelo Serviço direção do autor, com Iris Bruzzi, Curi e Jacqueline Laurence. Preço
Nacional de Teatro, ou se preferir, concederá um auxí- Nelson Caruso, Dorinha Duval e 40,00.
lio no valor de Crc 15.000,00 (quinze mil cnzeiros) ftalo Freitas, Preço 30,00.
para cada texto, à empresa teatral indicada pelo autor,
desde que oprojeto de montagem seja previamente apro-
TEATRO JOÃO CAETANO
TEATRO COPACABANA
vado pelo SNT. (Tel. 257.0881) (Tel. 221.0305)
13. - A Comissão Julgadora será constituída de Constantina, comédia de S. Mau- Caminho de Volta, de Consuelo
6 (seis) membros sendo um, o Diretor do Serviço Na- ghan, diri~da por Cecil Thiré, com Castro. Direção de Fernando Peiro-
cional de Teatro, que exercerá a sua presidência, com Tania Canero, Rogério Fróis, Rosi- to. Com Otan Bastos, Marta Over-
direito a votos de qualidade e desempate. Os demais ta Tomás Lopes, Suzana Vieira e back, Armando Bogus e Flávio S.
membros serão designados pelo Diretor do SNT, escolhi- outros. Preço 50,00. Tmago. Preço: 10,00.
dos dentre os nomes representativos ligados ao teatro.
14. - A Comissão Julgadora poderá indicar, se TEATRO DULCINA TEATRO MESBLA
SINDICATO DOS ARTISTAS E TÉCNICOS
assim achar de mérito, mais dois textos para publicação. (Te1. 248.4880)
(Te1. 232.5817)
15. - O autor, ao inscrever, concordará automa- EM ESPETÂCULOS DE DIVERSÕES DO
Loucuras na Cobertura, de Paulo A Venerável Mm, Goneau, de J.
ticamente com o isenção do pagamento de direitos au- RIO DE JANEIRO
Silvino. Direção de J. Maria Mon- Bethencourt, direção do autor, com
torais pelo SNT, nos casos de que tratam os itens 9, 11
teiro. Com Neusa Amaral, Mauricio Hildegard Angel, Milton Morais, Ivã
e14 deste Edital.
Loiola, Fausto Rocha e outros. Pre- Cândido e Silvia Martins.
16. - A prazer para julgamento dos.textos será ços 40,00.
de 90 (noventa) dias, apartir do encerramento das ins-
crições. OSindicato dos Artistas informa ao sócios que está TEATRO GALERIA
a~a~elhado para oferecer-lhes os benefícios a que têm
17. - Os originais não procurados no Serviço (Te1. 225.8846)
d!relto no campo social eprofissional, já estando em fun-
Nacional de Teatro, à Avenida Rio Branco 179, Rio de
cicnaneato consultórios médico e odontoI6~co, além de Jogo do Sexo} comédia de Harris
Janeiro, após 90 (noventa) dias, serão incinerados.
a~~ogados ~ara atender aos problemas da classe. Para o e L. Darbin. Direção de José Rena-
18. - Aentrega dos prêmios será relizada em ato SOCIO usufrUIr desses benefícios deverá estar em dia com to, com Felipe Carone, Monique La-
público, em data fixada pelo Diretor do Serviço Nacional o pagamento das mensalidades. Infornlaçõcs na sede à fon, Heloisa Helena e outros Pre-
44 de Teatro. rua Pedro 1,7 s/302 - tel. - 2420182. ço: 30,00.
-
TEATRO MAISON Criançando, pelo Gmpo Carreta
DE FRANCE na Casa Grande. Preço 15,00. Textos à disposição dos leitores na Secretaria d'Ü TABLADO
(TeI. 252.3456) A Árvore que Andava, de Oscar em cartaz durante este
Pfuhl, direção de Eugênio Gui para
o Ate1iê de Mme. Zazá, de Fey- Os Casulos. Preço 8,00. trimestre:
deau. Direção de José Renato. Com Pedro coLobo, dircção de J. Pi-
Berta Loran, Zanone Ferrite, Amci nheiro, no Teatro de Bolso. J.5,00. Equus, de Peter Shaffer, direção Aman-Jean O Guarda dos Pásams .. o................ 64
Cardoso, Ruth Mezzek, Luís Delfi- Lulu oMacaquinho Verde, de Lú- de Celso Nunes, no Teatro Maria Anônimo (séc. 15) Todomundo ., ... ,..... ................... 62
na, AmãDdio e outros. Preço 20,00. della Costa. Andrade Oswald AMorta 52
cia Benedetti, direção de Dilu Melo, o ••••••••••••••• , . . . . . . . . . . . . . . . .

no Teatro Miguel Lemos. Preço Manua/ de Sobrevivência, de Ro- Arrabal Fernando Pique-nique no front ,............... 54
~O,OO. berto Athayde, no Teatro Aliança
TEATRO NACIONAL Francesa. Barr & Stevens OMoço Bom e Obediente 28
AbruxÍliha que era Boa, de MCM, Brandão Raul ODóido e aMorte 43
DE COMÉDIA no Teatro de Bolso. Preço 15,00. Leonor de Mendonça, de Gonçal-
ves Dias. no TEC. Brecht Bsrtelt AExceção eaRegra .: ,............... 61
(Tel. 224.2356) Festival de Palhaços, de Dilu Me-
Io, lia T. Miguel Lemos, Preço Lampião no Inferno, direção de Cervantes OTribunal dos Divórcios 63
Corpo aCorpo, de O. Viana Filho. 10,00. Luiz Mendonça, no Teatro Aplicado. Cocteau Jean Édipo Rei 58
Direção de Aderbal Júnior, com Gra-
A Varinha do Faz de Conta, de A Teoria na Prática é Outra, no Checov Antou OUrso , 29
cinda Júnior. Preço 30,00.
Hugo Sala, no Teatro J. Caetano. Teatro Itália. O Jubileu 46
Preço 5,00. Orquestra de Senhoritas, de Os Males do Fumo 49
TEATROPRTI1CESAISABEL Branca de Neve, produção Rober- Anouilh no Auditório Augusta.
França Júnior Maldita Parentela 55
(Tel. 236.3724) to de Castro, no Teatro Senac. Pre- Tio Vânia, de Checov no Ruth Es-
ço 8,00. cobar. Labiche Eugene AGramática 47
Feira do Adultélio, de diversos au- Farsa com Cangaceiro, Turco e Macedo J. Manuel de ONovo Otelo 43
Quem Quer Casar com D. Barata?
tores, dircção de Jô Soares. com Produção de R. Castro, no T. Padre, de Chico de Assis, no Circo Machado de Assis Lição de Botânica 61
Mauro Mendonça, Rosamaria Mur- Senac. Teatro de Cordel. Machado M. Clara Os Embrulhos 47
tinha, Arlete SalIes e Osmar Prado.
Preço: 50,00. Porandubas Populares, de Quei- As Interferências ,......... 56
roz Teles, no Estúdio S. Pedro. Um Tango Argentino 57
Senhora dos Afogados, de Nelson Marinho Luís ADerradeira Ceia 59
OTABLADO Rodrigues, Fac. Morumbi. Maltins Pena As Desgraças de uma Criança 45
(TeI. 226.4555) Reveillon, da F. Márcio, no T.
Pessoa Fernando OMarinheiro 50
Anchieta.
Plu# o Fantasminha, de MCM. Qorpo-Santo Eu Sou aVida Não sou aMorte 45
Direção do autor, com oelenco d'O Mateus e Mateusa 65
TABLADO. Vide pá~nas internas Souto Almeida MA
deste cr Preço: 10,00. Jogo da Independência 54
Synge JM Viajantes para oMar 48
OPalhaço Imaginador, no Teatro ASombra do Desfiladeiro 51
CARTAZES INFANTIS: Oficina. OMais Belo dos Paraiso, no Tardieu Jean Conversação-Sinfonieta 48
Ruth Escobar. AVolta de Chapeu-
zinho Vermelho, no J. Caetano. Ma- Um Gesto por Outro 64
A Viagem do Barquinho, de S. roquinhas Frufm, no Teatro de Arte. Yeals OÚnico Ciúme de Emer 43
Ortof no MAM - preço 15,00. Um Conto Chiripitijlalltico, no T. da
OHomem que Buscava Sabedoria, Praça. Dorotéia, aBmxinha Rebelde,
apresentação do Grnpo Contadores no Itália. Você Tem 11m Caleidoscó- Acham-se esgotados os seguintes ns dos CADERNOS:
46 de Estórias, no MAM Preço 15,00. pio, no T. Aplicado.
do n.o 1/16-19/23-30 ao 42. 41
Avenda na Secretaria erO TABLADO

Autora: MARIA CLARA MACHADO

Títulos: O Cavalinho AZlIl (conto) 15,00


Como Fazer Teatro de Bonecos.... 12.00
A Menina e o Vento, Maroquinhas
Frufl'll, A Gata Borralheira e Maria
Minhoca 25,00
Plllft o Fantasminhll, O Rato das
Cebolinhas, Chapeuzinho Verme-
lho, OBoi eo Buno e A Bl'llxinlw
que era Boa 25,00
O Embarque de Noé, A Volta de
Cama/ão e Camaleão na Lua .... 25,00
O Diamante do Grão Mogol, TribotiÍ
City e oAprendiz de Feiticeiro .. 25,00
Cem Jogos Dramáticos 10,00
Pluft o FWltasminha (gravação) 30,00
O Embarque de Noé (música) , 20,00
Tribobó (música) 10,00

CADERNOS DE TEATRO
Assinatllm (4 números) 50,00
Nlímero avulso 10,00

As publicações poderão ser pedidas À Secretaria


d'O TABLADO mediante pagamento em cheque
visado em nome de Eddy Rezende Nunes O Impresso por
48 TABLADO; pagável no Rio de Janeiro. GRÁFICA EDITORA DO LIVRO LTDA.
Rio rlr. Janeiro Brasil