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Política Internacional Contemporânea:


Mundo em Transformação

www.saraivauni.com.br
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Henrique Altemani de Oliveira


Antônio Carlos Lessa
José Flávio Sombra Saraiva
Pio Penna Filho
Carlos Eduardo Vidigal
Cristiano Garcia Mendes

Política Internacional Contemporânea:


Mundo em Transformação
Tiragem revista e atualizada
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Sobre os Autores

Henrique Altemani de Oliveira é professor do curso de Relações Internacionais e coorde-


nador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da PUC/SP, além de
autor do livro Política externa brasileira (São Paulo: Saraiva, 2005, 291 p.). Coordena
também na mesma universidade o Grupo de Estudos da Ásia-Pacífico (Geap-PUC/SP).
Antônio Carlos Lessa é professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasí-
lia, onde coordena o curso de graduação em Relações Internacionais. Autor do livro A
construção da Europa: a última utopia das Relações Internacionais (Brasília: Ibri, 2003,
191 p.) e coordenador da Rede Brasileira de Relações Internacionais — RelNet.
José Flávio Sombra Saraiva é professor de Relações Internacionais da Universidade de
Brasília (UnB) e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri).
Autor de mais de uma dezena de livros sobre história das Relações Internacionais, e
organizador da coletânea Relações Internacionais: dois séculos de história (Brasília: IBRI,
2 volumes, 2001).
Pio Penna Filho é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade
de Brasília (UnB) e professor de História Contemporânea da Universidade Federal de
Mato Grosso (UFMT). É autor de artigos publicados no Brasil e no exterior sobre a
África e sobre a América Latina.
Carlos Eduardo Vidigal é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade
de Brasília (UnB) e professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de
Brasília (UCB). É autor de artigos publicados no Brasil e no exterior sobre História
das Relações Internacionais Contemporâneas.
Cristiano Garcia Mendes é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de
Brasília (UnB) e professor de Relações Internacionais da PUC/MG.
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Introdução
Henrique Altemani de Oliveira


Desde o final da Segunda Guerra Mundial, as relações entre os Estados, assim
como os relacionamentos econômicos, comercias e financeiros estiveram fortemente
condicionados à dinâmica internacional decorrente do estabelecimento da bipolaridade.
Isto é, o mundo apresentava-se dividido em dois blocos antagônicos e que tinham como
objetivo prioritário a destruição do outro.
Desta forma, todo o período da bipolaridade, também classificado como guerra
fria, pode ser caracterizado pela prática da contenção, entendida como a política aplicada
por cada superpotência visando impedir que a outra avançasse sobre o seu espaço.
Assim, sem qualquer possibilidade de erro, pode-se afirmar que, na guerra fria,
as questões estratégicas foram sempre prioritárias, estando as decisões de caráter eco-
nômico subordinadas aos interesses estratégicos. Exemplos bem representativos dessa
perspectiva foram as decisões de reconstrução econômica da Europa por meio do Plano
Marshall ou a do Japão em decorrência da Guerra da Coréia.
De outro lado, enquanto a Segunda Guerra caminhava para o seu fim, os Estados
Aliados discutiam e definiam uma série de medidas com vistas à definição de um mundo
mais estável e pacífico que pudesse reduzir as possibilidades de guerra. Definiram-se assim,
no plano político, a criação da Organização das Nações Unidas e, no plano econômico-
financeiro, o estabelecimento do Banco Mundial, do Fundo Monetário Interna­cional, da
Organização Internacional do Comércio, além da paridade fixa entre o ouro e o dólar
norte-americano.
Como o Congresso norte-americano não ratificou o apoio dos Estados Unidos
à Organização Internacional do Comércio, ela não foi implementada e em seu lugar
começou a funcionar, em caráter temporário, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio
(Gatt). Cabe então a ressalva de que, na realidade, as instituições econômico-financeiras
foram definidas em função direta dos interesses dos Estados Unidos, por ser o único
país no pós-guerra com capacidade econômica real.
Em decorrência da perspectiva de contenção e de relevância das questões estra-
tégicas é que se enquadra todo o processo de reconstrução econômica da Alemanha e
do Japão e sua transformação em países desenvolvidos, superando inclusive os Estados
Unidos. Entretanto, mesmo que atores econômicos de peso, esses dois Estados não apre-
sentavam capacidade política ou estratégica, estando subordinados à lógica da guerra
da fria e à liderança dos Estados Unidos no bloco ocidental.
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Essa situação, no plano genérico, funcionou até o final da guerra fria, represen-
tado pela queda do Muro de Berlim, em outubro de 1989, e a desintegração da União
Soviética em dezembro de 1991.
Assim, com a vitória, de forma pacífica, dos Estados Unidos sobre a União So­viética
e com o fim da guerra fria, propagou-se a esperança de que os valores do liberalismo,
vinculando democracia e mercado, tendiam a uma irreversível universalização, com a
possibilidade de estabelecimento de uma paz mais duradoura e que os recursos econômi-
cos, anteriormente destinados à produção de armas, seriam direcionados aos processos
de desenvolvimento econômico e social. Enfim, a tendência agora seria de cooperação
entre os países e não de conflitos.
Nesse momento, aprofundaram-se as teorias a respeito da globalização e dos bene-
fícios advindos do fato de o mundo todo aparentar estar, ou dever estar, organizado de
forma similar nos planos econômico, político e estratégico.
Essa percepção foi ainda fortemente reforçada pelo fato de o mundo ter conde-
nado o Iraque pela invasão no Kuwait (1990) e ter apoiado a intervenção, autorizada
pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, das forças aliadas no Iraque.
Simultaneamente a essas perspectivas de universalização, observava-se cres­
centemente uma outra tendência que pode ser denominada regionalização ou integração.
Essa tendência é representada, por exemplo, pela consolidação do processo de integração
européia por intermédio da institucionalização da União Européia (UE), pela consti-
tuição do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec) e pelo Acordo de
Livre-Comércio da América do Norte (Nafta).
De outro lado, crises posteriores, como as da ex-Iugoslávia na década de 1990
(Bósnia e Kosovo), demonstravam que a coalizão legítima obtida na 1ª. Guerra do Golfo
não se reproduzia normalmente em outros conflitos. A ampliação dos conflitos comer-
ciais e do prote­cionismo nos países desenvolvidos, a ocorrência de crises financeiras, o
ressurgimento do nacionalismo e de novos tipos de ameaças, como o terrorismo, têm
como resultados mais imediatos o fato de abalar as perspectivas de início de um século
XXI voltado para a manutenção de um clima pacífico e próspero em decorrência da
existência de mercados livres sem fronteiras, numa economia internacional globalmente
integrada.
Dessa forma, podemos considerar que o mundo atualmente está numa fase de
redefinições, compreendendo a construção de um consenso sobre quais são os Estados
que detêm poder internacional e/ou regional e que podem cooperar na reestruturação
institucional do pós-guerra fria.
Para ficar bem clara essa observação, o caso das atuais discussões sobre a necessidade
ou não de mudanças no Conselho de Segurança da ONU (CS/ONU) é bem ilustrativo.
Inicialmente, deve-se entender que o CS/ONU representava a situação política inter-
nacional do fim da Segunda Guerra Mundial e não a do fim da guerra fria. Por quais
razões França e Rússia são membros desse Conselho e o Japão e a Alemanha não?
Enfim, o problema que está sendo apontado é que as principais instituições inter-
nacionais representam um acordo político internacional da guerra fria, ou em especial o
poder que os Estados Unidos detinham naquele momento, e não um acerto político atual.
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A comunidade internacional, no início deste século XXI, defronta-se com o desafio


político de redefinição das relações de poder (Sistema Internacional) e de reorganiza-
ção das instituições e das regras que regulamentam as relações internacionais (Ordem
Internacional).
Apresenta-se em primeiro lugar a necessidade de se raciocinar sobre o papel que
os principais poderes podem desempenhar no momento e no futuro, assim como sobre
as possibilidades de atuação que se vislumbram para os países emergentes.
Em segundo lugar, apresenta-se igualmente a pressuposição da existência de
uma íntima relação entre as variáveis econômicas e estratégicas como garantia de um
continuado desenvolvimento econômico mundial.
Isso nos leva a uma terceira perspectiva, a provável nova distribuição global de
poder, militar e econômico, no século XXI, deverá ser altamente difusa. Em contraste
com a bipolaridade, na qual as duas superpotências mantinham preponderância de força
em relação a todos os outros países, o sistema multipolar do futuro aparenta conter
cerca de três grandes poderes iguais (Estados Unidos, China/Japão e União Européia)
e outros atores regionais com capacidade relativa (Brasil, Índia, África do Sul).
Parte-se do princípio de que atualmente os Estados Unidos representam a ultima
ratio do sistema internacional, sendo sua liderança fundamental para qualquer tipo de
ação coletiva no sistema internacional.
No entanto, em decorrência de limitações de recursos e também da oposição
da opinião pública norte-americana a intervenções onde seus interesses não estejam
diretamente envolvidos, os Estados Unidos procuram forçar uma participação maior
dos diferentes atores, através de uma divisão de custos. Nesse sentido, reforça-se a pers-
pectiva de ampliação das práticas de engajamento e de expansão, em vez da política da
contenção utilizada durante a guerra fria.
A política de engajamento e de expansão pode ser traduzida sob duas perspectivas.
Na primeira, a participação dos Estados Unidos em qualquer questão que afete direta-
mente sua segurança ou o equilíbrio político em regiões consideradas estratégicas, bem
como os fluxos comerciais. Noutra perspectiva, a necessidade de maior participação dos
diferentes atores que se beneficiam tanto do clima de segurança quanto da globalização
econômica.
A idéia de igualdade decorre da percepção de que mesmo que se possa apontar que
os Estados Unidos detêm capacidade relativa superior ao dos demais, não pode prescindir
do aval dos outros Estados para gerenciar o sistema internacional. E igualmente do fato
de novas parcerias comerciais terem se desenvolvido na Europa, América do Norte e
Bacia do Pacífico, podendo se articular tanto como blocos unitários ou independentes,
como competindo um com o outro.
O presente livro, voltado à discussão da Política Internacional Contemporânea,
teve como objetivo principal fornecer elementos para uma melhor compreensão das
atuais relações internacionais e das transformações que o mundo está passando.
Escrito em uma linguagem simples e direta, discute as posições e interesses dos
principais atores e regiões internacionais apontando pontos de convergência e de di-
vergência. Não se duvida que os Estados sejam movidos pela perspectiva de construção
x

de um mundo mais pacífico e que possibilite condições de vida mais igualitárias. No


entanto, a definição de regras internacionais, num esquema em que os Estados são
soberanos, sem qualquer autoridade legítima sobre eles, tende a ser lento e gera um
processo de negociações (políticas) extremamente difícil em decorrência do choque entre
os diferentes interesses dos diferentes Estados.
Dessa forma, os capítulos que compõem a presente obra são contribuições signi-
ficativas para o entendimento de como o mundo está hoje e, igualmente, fornecendo
elementos suficientes para se raciocinar sobre as possibilidades e estratégias que se
abrem para o processo de inserção internacional do Brasil.
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Sumário

Capítulo 1 — A Nova Ordem Mundial.............................................. 1


Introdução.......................................................................................................1
A Noção de Ordem em Relações Internacionais..................................................2
Globalização, Fragmentação e Relações Internacionais........................................7
As Estruturas Hegemônicas Mundiais.............................................................10
Conclusão......................................................................................................13
Questões para Discussão.................................................................................15
Glossário.......................................................................................................15
Bibliografia Indicada......................................................................................16

Capítulo 2 — A Organização das Nações Unidas — ONU.............. 17


Introdução.....................................................................................................17
A Criação da ONU.........................................................................................18
Estrutura e Funcionamento da ONU...............................................................21
A ONU e os Direitos Humanos.......................................................................22
A ONU e as Missões de Paz............................................................................24
Os Objetivos do Milênio.................................................................................26
Reforma da ONU...........................................................................................28
Conclusão......................................................................................................29
Questões para Discussão.................................................................................29
Glossário.......................................................................................................30
Bibliografia Indicada......................................................................................30

Capítulo 3 — A Hegemonia dos Estados Unidos........................... 31


Introdução.....................................................................................................31
A Dimensão Histórica da Hegemonia Americana..............................................32
A Renovação Doutrinária da Hegemonia no Pós-Guerra Fria.............................36
xii

Desafios à Hegemonia Americana: A Outra Superpotência na Guerra Fria,


o Ângulo Europeu, a Gradual Elevação da Ásia, o Integrismo Islâmico
e a Construção de Alianças ao Sul...............................................................37
O Brasil, a América Latina e a Hegemonia dos Estados Unidos.........................40
Conclusão......................................................................................................43
Questões para Discussão.................................................................................43
Glossário.......................................................................................................44
Bibliografia Indicada......................................................................................44

Capítulo 4 — A Europa, Seus Organismos e Sua Integração


Político-Econômica..................................................................... 45
Introdução.....................................................................................................45
Uma Idéia de Europa — Os Primórdios da Integração......................................45
Os Tratados de Roma e a Criação da Comunidade Econômica Européia.............48
Redefinição Institucional e Alargamento..........................................................49
O Europessimismo.........................................................................................51
O Retorno das Grandes Ambições....................................................................54
Um Novo Tempo de Crise e de Novas Oportunidades: O Fim da Guerra Fria......55
O Alargamento sob a Égide de Maastricht e a Constituição Européia.................57
Conclusão......................................................................................................59
Questões para Discussão.................................................................................59
Glossário.......................................................................................................60
Bibliografia Indicada......................................................................................60

Capítulo 5 — A América Latina, Sua Integração e Sua Inserção


no Mundo Globalizado.............................................................. 61
Introdução.....................................................................................................61
A Inserção Internacional durante a “Década Perdida”: A América Latina
nos Anos 1980..........................................................................................64
Sob a Égide do Neoliberalismo: A Redefinição da Inserção Internacional
Latino-Americana durante os Anos 1990....................................................66
Os Processos de Integração na América do Sul: O Mercosul e a Comunidade
Andina de Nações......................................................................................68
O Mercado Comum do Sul — Mercosul...........................................................69
A Comunidade Andina — CAN.......................................................................76
Conclusão......................................................................................................80
Questões para Discussão.................................................................................81
Glossário.......................................................................................................81
Bibliografia Indicada......................................................................................82
xiii

Capítulo 6 — A Ásia na Atual Conjuntura Mundial....................... 83


Introdução.....................................................................................................83
Sobre Qual Ásia Estamos Falando?..................................................................84
Os Processos de Cooperação e Integração Regionais no Leste Asiático................89
A Segurança Regional no Leste Asiático...........................................................95
Conclusão......................................................................................................98
Questões para Discussão.................................................................................99
Glossário.......................................................................................................99
Bibliografia Indicada....................................................................................100

Capítulo 7 — A África e o Oriente Médio no Contexto


Internacional............................................................................ 101
Introdução...................................................................................................101
A África no Contexto Internacional...............................................................102
Os Processos de Integração no Continente Africano........................................104
Integração Regional e Conflitos na África Contemporânea..............................107
O Oriente Médio e o Mundo.........................................................................108
O Estado de Israel e a Questão Palestina........................................................109
O Oriente Médio, o Mundo Árabe e o Contexto Regional................................111
Conclusão....................................................................................................113
Questões para Discussão...............................................................................113
Glossário.....................................................................................................114
Bibliografia Indicada....................................................................................115
1

Capítulo 1
A NOVA ORDEM MUNDIAL
Carlos Eduardo Vidigal1

INTRODUÇÃO
A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, dois anos
depois, marcaram um ponto de inflexão na história mundial contemporânea. Pessoas dos
mais variados pontos do mundo se perguntavam como era possível a ordem bipolar da
guerra fria desaparecer de forma tão rápida e relativamente pacífica. Alguns analistas se
apressaram em identificar uma nova etapa da história da humanidade, que seria caracte-
rizada, no plano político, pelo fortalecimento dos regimes democráticos e pelo primado
do direito internacional, e, no plano econômico, pela economia de mercado. Parecia sur-
gir no horizonte o que poderíamos denominar “paz kantiana”, um mundo regido por
regras construídas e aceitas por todos.
No entanto, não foi necessário muito tempo para que as previsões de um futuro
mais harmônico nas relações internacionais arrefecessem. A guerra da Bósnia-Herzegóvina
(1992-1995), os testes nucleares franceses no Atol de Mururoa (1995-1996), o início da
crise financeira asiática (Tailândia, 1997), a crise do Kosovo (1997-1999), dentre outros
acontecimentos, demonstraram que nem tudo tinha mudado. Estaria o mundo se tor-
nando mais incerto, mais complexo e, talvez, mais perigoso? Passados os primeiros im-
pactos das profundas transformações ocorridas entre 1989 e 1991, os analistas das relações
internacionais passaram a se pautar pela prudência, indicando o início de uma fase de
transição e não de uma nova ordem mundial, clara e bem definida.
A pressa, porém, voltou a pautar boa parte da intelectualidade mundial quando dos
acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Novamente surgiram vozes que afirmavam
o fim da “transição” iniciada em 1989-1991 e início de uma nova etapa nas relações
internacionais, desta vez caracterizada pela unipolaridade e pela retomada das preocupa-
ções em relação à guerra, ainda que uma guerra contra um inimigo de difícil conceituação,
o terrorismo. Pela primeira vez na história, os Estados Unidos tinham sido atingidos em
seu próprio território, por um grupo terrorista islâmico, Al-Qaeda, e por um método
inusitado: o uso de aviões de carreira como mísseis. A política exterior norte-americana
para a área da defesa estabeleceria a pauta internacional dos anos seguintes.
Não se trata de questionar a importância dos atentados de 11 de setembro de 2001
ou dos atentados ocorridos em Madri, em 11 de março de 2004, ou em Londres, a 7 de
julho de 2005. Trata-se de buscar o “lugar” de tais acontecimentos em uma perspectiva

1
Professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB).
2

mais ampla, de compreender as mudanças ocorridas no mundo nos últimos 20 ou 30


anos, de identificar as permanências e as mudanças no cenário internacional.
Uma rápida passagem por alguns dos principais acontecimentos das últimas déca-
das do século XX e dos anos iniciais deste novo século é suficiente para perceber a dificul-
dade da tarefa de identificar o advento de uma nova ordem mundial, suas características,
seus fundamentos, suas perspectivas. Quando nos situamos no nível dos acontecimentos
diários, que, de hora em hora, minuto em minuto, pululam nos sites de notícias da Internet,
tendemos a nos deixar impressionar por qualquer grande acontecimento, mesmo que
aparente, como se fosse, por si só, capaz de gerar um novo ordenamento internacional.
Aqui, a prudência seria a melhor conselheira.
Uma visão mais segura do ordenamento do mundo atual exige, pelo menos, dois
procedimentos. Em primeiro lugar, buscar os elementos constitutivos da ordem mundial
em uma perspectiva multidisciplinar, sem a qual todo conhecimento será parcial, encer-
rado nos limites por definição estreitos de uma única disciplina. Em segundo lugar,
identificar o nível de compreensão dos acontecimentos em relações internacionais: o do
evento diário, o da conjuntura e o da estrutura, conforme velha lição do historiador
francês Fernand Braudel, o historiador da longa (e da curta) duração.
Uma perspectiva multidisciplinar, aplicada à área das Relações Internacionais, re-
quer a inclusão das contribuições de pelo menos seis campos do conhecimento: a Ciência
Política, o Direito, a Economia, a Geografia, a História e a Sociologia. A identificação do
nível dos acontecimentos pressupõe um profundo conhecimento das próprias relações
internacionais e a percepção do que é duradouro, do que é transitório e do que é fugaz
neste mundo de permanente transformação. Unir os dois procedimentos é uma necessi-
dade para a compreensão da nova ordem internacional.
Para tanto, o presente texto, além da introdução e da conclusão, está desdobrado em
três partes: 1) A noção de ordem em Relações Internacionais; 2) Globalização, fragmen-
tação e relações internacionais; 3) As estruturas hegemônicas mundiais. Na primeira
parte, desenvolve-se uma reflexão sobre o conceito de “ordem mundial”, por meio de um
diálogo entre os conceitos criados nas origens das Relações Internacionais como campo
do conhecimento e os mais recentes avanços verificados nesta e nas outras áreas afins. Na
segunda, se analisa os impactos do processo de globalização-fragmentação da sociedade
mundial contemporânea nas relações internacionais, com ênfase naquilo que é novo,
mutável, dinâmico. Na terceira, a preocupação maior é com aquilo que permanece mas se
transforma, com o que conforma as relações de poder mundiais, as estruturas hegemônicas.

A NOÇÃO DE ORDEM EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS


As Relações Internacionais, como disciplina acadêmica, surgiram no período situa-
do entre o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e o início da Segunda, em 1939.
Os chamados “vinte anos de crise”, na expressão do historiador Edward Carr. O tema que
dominou as Relações Internacionais naquele contexto foi o da guerra e da paz. O ponto de
partida das análises eram os Estados nacionais, causadores da Primeira Guerra Mundial
e principais atores das conferências de paz. Os métodos adotados, o da Ciência Política e
da História, com a primazia do primeiro. O objetivo era evitar a eclosão de novos confli-
tos. Era natural naquela conjuntura internacional o surgimento de conceitos como os de
“anarquia internacional” e de “hierarquia entre os Estados”.
3

Por “anarquia internacional” compreendia-se, e se compreende ainda hoje, a ausência


de um governo mundial capaz de ordenar as relações entre os mais diversos Estados na-
cionais soberanos. A existência de múltiplos Estados, detentores da soberania no plano
político interno, e buscando cada um a realização de seu “interesse nacional”, aproximava
a noção de “anarquia internacional” da idéia de “desordem”. Porém, não era esse o caso.
A análise dos Estados nacionais levou à identificação de grandes, médias e pequenas
potências; esta última categoria como um eufemismo. A simples existência de países com
diferentes recursos de poder — militar, econômico, financeiro, tecnológico — estabelecia
uma hierarquia entre eles. A essa hierarquia denominou-se ordem.
No conjunto, as relações entre as grandes, médias e pequenas potências definem
uma determinada ordem, em geral multipolar ou bipolar. Exemplos de ordem multipolar
seriam o concerto europeu do século XIX, oriundo da Conferência de Viena, ou o período
do entreguerras, em que se tentou consolidar a paz mundial, por meio da Liga das Na-
ções. Exemplos de ordem bipolar, a ocorrida na Europa antes da eclosão da Primeira
Guerra Mundial, dividida nas potências da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-
Húngaro e Itália) e da Tríplice Entente (França, Grã-Bretanha e Rússia), ou a polariza-
ção desenhada no período da guerra fria, entre Estados Unidos e União Soviética.
Em uma perspectiva histórica, seguindo os períodos citados no parágrafo anterior,
analistas sugeriram que a ordem mundial contemporânea seria unipolar, dada a preemi-
nência norte-americana na esfera militar e na impossibilidade de qualquer outro país do
mundo poder desafiar e vencer os Estados Unidos em uma guerra. Argumentos distintos
logo surgiram, como aquele de Samuel Huntington, que prefere chamar o período atual
de uma ordem unimultipolar, reconhecendo o predomínio dos Estados Unidos na área
militar, mas acrescentando que, no plano econômico, o mundo atual é nitidamente
multipolar, como o exemplificam a força econômica da União Européia ou de países do
Extremo Oriente, como o Japão e a China.
Acrescenta-se a essas perspectivas, as contribuições do “realismo ofensivo” norte-
americano, expresso principalmente pelo cientista político John Mearsheimer. Insatisfei-
to com a simplicidade de interpretar uma ordem internacional em termos de uni, bi ou
multipolaridade, desenvolveu os conceitos de “multipolaridade equilibrada” e
“multipolaridade desequilibrada”. No primeiro caso temos um conjunto relativamente
pequeno de grandes potências em uma situação de equilíbrio, sem que nenhuma delas
tenha uma grande superioridade em termos de recursos de poder. No segundo, em que
também se fazem presentes algumas grandes potências, uma delas se destaca por possuir
recursos de poder superiores aos das demais. Nessa visão, o mundo atual seria um mundo
de uma multipolaridade desequilibrada.
Seria a nova ordem mundial uma ordem unipolar, multipolar ou de uma
multipolaridade desequilibrada? Qualquer que seja a resposta a essa pergunta, e a despei-
to da capacidade analítica de quem se propuser respondê-la, nunca teremos uma resposta
satisfatória. Em primeiro lugar, pelo reducionismo embutido nos termos utilizados. Em
segundo, pelo fato de essa terminologia estar ligada apenas a um campo do conhecimento
humano, o da Ciência Política.
Vivemos em um mundo extremamente complexo, habitado por povos diferentes em
termos étnicos e culturais, que interagem em uma série de conexões igualmente comple-
xas e variadas. Utilizarmos apenas a perspectiva dos Estados nacionais como atores úni-
cos, dotados de recursos de poder que os ordena em uma determinada hierarquia, é um
4

equívoco. Como foi dito anteriormente, além da visão própria da Ciência Política, temos
que contar com as contribuições das áreas do Direito, da Economia, da Geografia, da
História, da Sociologia.
O Direito Internacional talvez apresente um mundo composto por Estados nacio-
nais soberanos, que procuram solucionar suas diferenças por meio de negociações diplo-
máticas, mas que chegam a utilizar a guerra como um último recurso. Deve-se defender
sempre a solução negociada, pacífica. Mas, caso a guerra seja inevitável, temos que dis-
tinguir entre guerras justas e injustas. As primeiras, aquelas em que um país reage a uma
agressão externa ou age para reparar uma grande injustiça cometida anteriormente, como
os casos de genocídio. As segundas, as guerras de anexação de territórios, de apropriação
de riquezas naturais etc. Em qualquer dos casos, deve-se recordar que existe um Direito
da Guerra, que procura disciplinar a conduta dos Estados envolvidos, protegendo a po-
pulação civil.
Quanto à ordem mundial, o Direito Internacional nos lembra que, nas organizações
internacionais, cada Estado possui um mesmo valor, de acordo com o princípio “um
Estado, um voto”, e que as regras e leis internacionais coletivamente acordadas têm
legitimidade e devem ser respeitadas por todos. Os juristas e as demais pessoas que
atuam na área sabem que a violência é uma constante da história mundial, que a todo o
momento temos casos de agressões e ingerências nas relações internacionais. Porém, ci-
dadãos e dirigentes dos mais variados países do mundo têm tomado consciência de que o
respeito ao direito internacional é o único caminho na construção de uma ordem um
pouco mais harmônica. Daí a importância de se defender e preservar as leis, as entidades
e os regimes internacionais.
A visão dos economistas deriva de uma outra percepção. Os interesses econômicos é
que informam os atores internacionais, e a ordem mundial é estruturada, fundamental-
mente, pelo poder econômico. As próprias relações internacionais foram construídas his-
toricamente acompanhando o desenvolvimento capitalista mundial, a expansão do
comércio, a acumulação do capital. A primeira interação entre os países e os povos, em
uma escala planetária, data da época das grandes navegações, nos séculos XV e XVI. A
segunda etapa de mundialização da economia é a ocorrida na segunda metade do século
XIX, marcada pela partilha da África e do mercado asiático, pelas mãos das grandes
potências econômicas da época. A terceira, a globalização.
A nova ordem mundial é comumente interpretada pelos economistas como sendo
condicionada pela globalização, principalmente em sua dimensão financeira. Nesse caso,
os Estados Unidos, o Japão e a União Européia estabelecem as regras do jogo. Atualmen-
te, seríamos tentados a incluir a China, mas como a China é um sócio recente do “clube
dos países industrializados” é melhor falarmos do G7 ou do G8. Que países compõem
essas entidades? O grupo surgiu em 1975 e era formado pelos EUA, Japão, Alemanha,
França e Grã-Bretanha. Posteriormente, foram admitidos a Itália e o Canadá, formando
o G7. Com a entrada mais recente da Federação Russa, surgiu o G8.
O G8 é a entidade que discute os principais problemas econômicos mundiais e
procura estabelecer as diretrizes para o bom funcionamento da economia do planeta.
Suas “orientações” são ouvidas atentamente pelos diretores do Banco Mundial (Bird), do
Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização Mundial do Comércio (OMC) e
de muitas outras instituições. O conjunto das decisões tomadas pelo G8 e pelas demais
5

organizações econômicas internacionais define uma certa “ordem” mundial, presente na


análise da maioria dos economistas que estudam as relações internacionais.
Para os geógrafos, a nova ordem mundial deve ser compreendida com base naquilo
que define esta área do conhecimento: o espaço. Um grande problema enfrentado pelos
geógrafos a partir do advento da globalização foram as críticas que falavam do “fim dos
territórios” ou do “fim da geografia”. Em um mundo globalizado, a velocidade com que
se estabelecem as trocas de informações e com que se deslocam mercadorias e pessoas
tornaria possível relegar a dimensão geográfica a um segundo plano. Mas os geógrafos
reagiram à altura e, para aqueles que falavam do “fim dos territórios” ou do “fim da
geografia”, responderam com os conceitos de “multiterritorialidade” e de “território-rede”.
Por multiterritorialidade entende-se a possibilidade de pessoas e empresas, ao longo
de sua existência e muitas vezes simultaneamente, conviverem em múltiplos territórios.
Para os indivíduos, o território da casa, do bairro, da faculdade, da empresa onde traba-
lha. Para as empresas, o território-área onde se localiza a indústria ou o estabelecimento
comercial, o território-rede da logística do comércio, os territórios dos consumidores dos
produtos por ela manufaturados ou comercializados. O geógrafo Rogério Haesbaert recu-
sa a idéia do fim do território porque a globalização trouxe, ao contrário, a sua explosão
em múltiplos territórios.
Os geógrafos também perceberam, há algum tempo, que as áreas de maior concen-
tração econômica, sejam elas subnacionais, transnacionais ou internacionais, muitas ve-
zes ultrapassam o velho limite do Estado nacional territorial, transformando as redes de
informações, de comércio e de finanças em entidades mais importantes que o Estado. Em
outras palavras, em vez de acreditarmos que o mundo está efetivamente dividido naque-
les países representados com as mais variadas cores no mapa-múndi, deveríamos prestar
maior atenção nas grandes companhias transnacionais que dominam o comércio mun-
dial; nos vínculos que unem as três regiões economicamente mais dinâmicas do planeta
— Estados Unidos, Japão (e China) e Europa — e que os geógrafos denominam “a tríade”;
nos fluxos de mercadorias e de pessoas que desafiam a lógica dos procedimentos mais
tradicionais de intercâmbio; nas ligações entre as pessoas situadas nos mais diversos
pontos do globo por meio da Internet. Daí a importância da noção de território-rede.
A nova ordem mundial, nessa perspectiva, seria uma ordem construída por inúme-
ras redes, que interligam os pontos mais dinâmicos do globo, como, por exemplo, as
megacidades. As regiões excluídas, as áreas mais empobrecidas e esquecidas do planeta,
seriam a contraparte necessária de um processo de globalização que simultaneamente
potencializa a riqueza e aprofunda as desigualdades.
Já na visão dos historiadores, a nova ordem mundial teria que responder a uma
questão principal: o que mudou e o que permaneceu daquele mundo virtualmente supe-
rado com a queda do Muro de Berlim e com o fim da União Soviética?
Algumas das principais mudanças talvez sejam facilmente identificáveis: 1) o fim
de uma ordem política mundial polarizada pelos Estados Unidos e pela União Soviética;
2) a sobrevivência de uma única superpotência com pretensões hegemônicas mundiais;
3) a emergência de novos pólos de poder mundial, potencialmente capazes de contraba-
lançar o desequilíbrio mundial definido pela presença de uma superpotência; 4) o enfra-
quecimento das ideologias, decorrente do fracasso do “socialismo real”, e o conseqüente
desinteresse pela política; 5) o surgimento de um mundo “sem-sentido”, do qual seria a
dimensão mais evidente a proliferação de seitas religiosas e da literatura de auto-ajuda.
6

E as permanências? Estas exigem maior cuidado. Em um exercício necessariamente


superficial e parcial, é possível identificar as seguintes permanências: 1) os Estados na-
cionais como principais (não exclusivos) atores das relações internacionais, como de-
monstram as assinaturas presentes nos principais tratados e acordos internacionais, sempre
de chefes-de-Estado ou de seus delegados; 2) a existência de um número relativamente
pequeno de países altamente industrializados, dentre os quais os Estados Unidos, o Ja-
pão, a Alemanha, a França, a Grã-Bretanha e talvez a Itália, que já eram grandes potên-
cias industriais no final do século XIX, portanto mais de cem anos atrás; 3) a importante
presença de instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra Mundial ou no
período da guerra fria, como o Bird, o FMI, o Gatt-OMC, o BID, a OEA etc; 4) o uso das
armas atômicas como poder dissuasivo e a insistência de algumas grandes potências em
dar continuidade ao desenvolvimento das “armas de destruição em massa”; 5) as ações
internacionais dos Estados Unidos, que mantêm basicamente o tipo de relacionamento
que já tinham na época da guerra fria, tanto com as grandes potências industriais quanto
com os países periféricos, chegando a recuperar práticas do século XIX, como demonstra
a ocupação militar do Iraque e a exploração de seus campos de petróleo.
Para os historiadores, a compreensão da nova ordem internacional passa, necessa-
riamente, por um balanço de mudanças e permanências, em um nível de análise estrutu-
ral. O trânsito entre o antigo e o moderno, entre o novo e o velho, seria a melhor estratégia
para a compreensão das relações internacionais atuais.
Por fim, mas não menos importante, os sociólogos lançam um olhar igualmente
original. O mundo globalizado teria potencializado, como nunca antes na história, o
conhecimento e a interação das mais variadas sociedades humanas. Mas, ao mesmo tem-
po em que se internacionalizam, as sociedades se “localizam”, reforçando muitas vezes os
laços identitários em meio à construção de uma sociedade internacional.
Os conflitos étnicos e nacionais nos Bálcãs, os movimentos de libertação nacional,
como a luta dos chechenos pela independência de sua região, os movimentos irredentistas,
como o dos bascos na Espanha, os conflitos étnicos e tribais na África etc, colocam no
centro das preocupações da Sociologia e de outras áreas do conhecimento a preocupação
com o tema da identidade. Nessa perspectiva, duas forças profundas atuam nas mais
diversas sociedades: o identitário e o modernizador. De um lado, as culturas tradicionais,
os ritos ancestrais, a memória intemporal. De outro, a economia de mercado, o fetichismo
da mercadoria, o imaginário cultural-global.
Nesse mundo pautado pela comunicação em tempo real, pelo deslocamento de capi-
tais em velocidade vertiginosa, pela possibilidade que algumas pessoas têm (e somente
algumas) de acordar em Nova Iorque, almoçar em Paris e jantar em Tóquio, os laços
identitários se reforçam. E os sociólogos levantam a voz para afirmar o direito à identida-
de e o direito a novas identidades, o direito de continuar a ser como se era e o direito de
se unir a pessoas das mais diversas partes do mundo em prol de uma causa, de um
princípio, de um prazer.
O exercício realizado nos parágrafos anteriores, o de imaginar como juristas, econo-
mistas, geógrafos, historiadores e sociólogos poderiam se posicionar virtualmente diante
do tema da nova ordem mundial, embora de caráter ensaístico, tem a vantagem da clareza
ao demonstrar o grau de complexidade do mundo globalizado e alguns dos múltiplos
enfoques passíveis de serem utilizados. Os profissionais das Relações Internacionais po-
deriam lançar mão de tais aportes para elucidar a nova ordem internacional? É certo que
7

sim. É o que se pretende desenvolver, ainda em caráter preliminar, nas partes seguintes
do texto.
Antes, porém, uma observação: as universidades continuam formando “especialis-
tas por áreas”, as revistas científicas continuam cultivando a originalidade do campo
específico do conhecimento e as editoras continuam mantendo em seus catálogos livros
classificados de acordo com a origem “acadêmica” do autor. A tendência é que as coisas
continuem como estão, como nos ensina a lei da inércia. A aproximação dos diversos
enfoques aplicados às relações internacionais, embora se identifiquem avanços significa-
tivos nos últimos anos, ainda é uma tarefa por se realizar.

GLOBALIZAÇÃO, FRAGMENTAÇÃO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS


A primeira dificuldade com que estudantes universitários e mesmo os professores se
defrontam ao tratarem do tema da globalização é com o seu conceito. Cada área do conhe-
cimento procura defini-la com base em seus próprios critérios, como é o caso da econo-
mia, que prioriza a aceleração dos fluxos comerciais e financeiros. Um conceito capaz de
se aproximar de seu objeto real e ao mesmo tempo contemplar as diversas áreas do conhe-
cimento é praticamente impossível. Aqui, optou-se pela utilização do conceito proposto
por Haesbaert no livro Globalização e regionalização no mundo contemporâneo.
A globalização deve ser compreendida, antes de mais nada, como um produto da
expansão cada vez mais ampliada do capitalismo e da sociedade de consumo, numa so-
ciedade moldada pelo fetichismo da mercadoria. Contempla-se dessa forma parte das
preocupações presentes nas áreas da economia, da geografia, da história e da sociologia.
Relegam-se, aparentemente, a um segundo plano, as áreas do direito e da ciência política.
No entanto, é necessário reconhecer que, se existe um tema em torno do qual gravitam as
várias ciências do homem, esse centro é ocupado pelo capitalismo, enquanto fenômeno
econômico, geográfico, histórico, político e social, além de sua dimensão institucional
(jurídica). Como acontecimento de longa duração, é aquele que forjou, ao longo dos sécu-
los, as principais estruturas do nosso mundo contemporâneo.
Estabelecida a essência do conceito de globalização — um produto da expansão cada
vez mais ampliada do capitalismo —, é necessário reconhecer que sua face mais visível é
a da tecnologia e da economia. Sua face mais perversa, o desemprego estrutural e a exclu-
são social e territorial. Qual seria no entanto o impacto do atual estágio de evolução do
capitalismo para as relações internacionais? Como podemos desenhar a nova ordem in-
ternacional, levando em consideração a realidade de um mundo global? Seria a globalização
uma fase fundamentalmente nova das relações internacionais?
A leitura de alguns dos textos mais recentes acerca de tais questões informa a exis-
tência de pelo menos três grandes questões: 1) o Estado nacional deixou de ser o princi-
pal ator das relações internacionais?; 2) a presença de grandes empresas transnacionais
atuando em escala global e muitas se superpondo aos Estados nacionais significa uma
“desnacionalização” irreversível da produção econômica?; e 3) estamos caminhando rumo
à consolidação de uma sociedade internacional e, quem sabe, à formação de um governo
mundial?
A primeira questão tem preocupado sobremaneira os internacionalistas. Pesquisa-
dores franceses, fortemente influenciados pelos últimos avanços da Geografia, sugerem o
enfraquecimento do Estado nacional e o início da formação de estruturas políticas pós-
8

internacionais. Nesta fase de transição entre um mundo dominado por Estados nacionais
e a formação de uma nova realidade caracterizada pelo predomínio de redes e de fluxos, e
caminhando em direção a uma “Nova Idade Média”, ou seja, uma nova fase de fragmen-
tação do poder político em escala mundial, o conceito de região seria o mais apropriado
para a compreensão da nova realidade internacional. A região é vista como um espaço
intermediário entre o nacional e o internacional, e pode ser compreendida como “um
espaço útil para a ação”, nas palavras de Marie-Claude Smouts. O melhor exemplo é o da
União Européia.
Tal abordagem apresenta dois problemas principais: o enfraquecimento do Estado
nacional tomado como pressuposto e a dificuldade de se definir o que é uma região.
Quanto à idéia do enfraquecimento dos Estados nacionais é possível contrapor dois argu-
mentos. A formação dos Estados nacionais é um processo histórico de longa duração e
nada indica que este processo está em sua fase final, visto que o século XX, mais particu-
larmente as décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, foi o período da história
em que surgiu o maior número de novos Estados. Nessa mesma fase, a ONU viu crescer
o número de Estados membros. De 51 países em sua fundação, em 1945, a ONU passou
a ter 76 membros em 1955, 117 em 1965, 144 em 1975, 189 no ano 2000. Com o
ingresso, em 2002, da Confederação Suíça e da República Democrática do Timor, alcan-
ça 191 membros.
Outro argumento baseia-se na idéia de identificar a quem o discurso está sendo
dirigido. Ou seja, quando falamos de enfraquecimento dos Estados nacionais estamos
falando exatamente de quais Estados? De alguns dos chamados Estados falidos da África
e de outras regiões do mundo? Do Afeganistão e do Iraque sob ocupação norte-america-
na? Dos Estados que integram poderosos blocos regionais, como o caso dos Estados
europeus? Embora existam razões para aceitar que os Estados, nacionais encontram
dificuldades para operar em seus moldes mais tradicionais, é mais pertinente falar em
uma redefinição do papel dos Estados nacionais do que em seu enfraquecimento. Alguém
ousaria falar em enfraquecimento do Estado nacional norte-americano?
Em um mundo cada vez mais interligado, os Estados nacionais enfrentam inúmeros
problemas como o crescimento das redes criminosas internacionais, das pressões cada vez
mais insidiosas das companhias transnacionais, o aprofundamento dos laços de
interdependência em uma ordem internacional assimétrica. Mas existem povos que ain-
da lutam pelo seu direito a um Estado, povos que, muitas vezes imersos em prática de
corrupção, ainda não consolidaram seus respectivos Estados, e Estados insatisfeitos com
o processo de regionalização, que querem voltar ao seu funcionamento tradicional. Os
Estados nacionais deixaram de exercer algumas de suas antigas funções, dependem cada
vez mais de outros Estados para dar andamento às suas políticas “nacionais”, mas não
estão em processo de desaparecimento.
Quanto à segunda questão, referente à atuação das companhias transnacionais, o
uso do adjetivo transnacional é ilustrativo, pois sugere que uma determinada empresa,
cujas ações em sua maioria são de propriedade de nacionais, atua em outros países. Pode
parecer um erro fazer a distinção entre empresas nacionais e empresas estrangeiras quan-
do se priorizam os investimentos produtivos capazes de gerar novos postos de trabalho. O
que está em questão é o fato de as empresas transnacionais remeterem lucros para a
respectiva matriz, sediada necessariamente em um espaço “nacional”, transferindo re-
cursos das áreas periféricas para os países centrais.
9

A década de 1990 foi, na América Latina, a década da “onda neoliberal”. Um dos


países que mais abriu sua economia ao capital estrangeiro e desenvolveu um programa
profundo de privatização das empresas estatais foi a Argentina. O resultado foi a crise de
2001, que aumentou enormemente o número de pessoas no e abaixo do nível de pobreza.
Desde 2002, a Argentina procura recompor seu parque industrial, movida pela idéia de
que somente um país com empresas nacionais fortes tem condições de obter vantagens na
economia globalizada.
Quanto à terceira questão, se estamos ou não caminhando rumo à consolidação de
uma sociedade internacional e mesmo de um governo mundial, a resposta pode ser elabo-
rada em dois momentos. É necessário explicitar inicialmente o que se entende por socie-
dade internacional. Os internacionalistas ingleses consideram a existência, no século XIX,
de uma “sociedade internacional européia” e, no século XX, a de uma “sociedade interna-
cional”. A sociedade internacional seria estruturada pelas regras do direito público e
privado internacional, pelas práticas comerciais tradicionais e pelo predomínio de valores
cristãos e ocidentais. A única diferença mais substancial do século XIX para o século XX
seria a ampliação do escopo, ou seja, o ingresso de outros países no comando da sociedade
internacional.
A formação de um governo mundial, entretanto, ainda é um tema situado na esfera
da utopia. A instituição que mais se aproximou de um governo mundial foi a ONU.
Ignorada quando os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque, em 2003, acusada de
corrupção em torno do programa Petróleo por Alimentos, sofrendo fortes pressões por
parte dos países que desejam a ampliação do seu Conselho de Segurança, a ONU não
atravessa um bom momento.
A ONU é a organização que mais se aproxima de um governo mundial, contando
com suas instâncias e agências, além das relações informais que mantém com outras
instituições, como o G8. Sua estrutura básica gira em torno da Assembléia Geral e do
Conselho de Segurança. Sobre essas duas instâncias, um dos maiores cientistas políticos
do século XX, afirmou que “onde está a legitimidade não está o poder, onde está o poder
não está a legitimidade”. Seu problema maior reside no Conselho de Segurança, cuja
reforma é almejada por algumas grandes e médias potências, mas que não tem encontra-
do eco em alguns de seus membros permanentes. Sua reforma, se ocorrer, não estenderá
o direito de veto a outros países, o que significa a manutenção do fundamental em sua
estrutura atual. É natural que assim ocorra: que país dos cinco membros permanentes do
Conselho de Segurança estaria interessado em diminuir, ainda que de forma parcial, seu
poder?
Se um governo mundial é, todavia, uma utopia, talvez não seja o caso da “governança”
mundial ou global, compreendida como as atividades apoiadas em objetivos comuns,
derivadas ou não de responsabilidades legais e formalmente estabelecidas, que não de-
pendem do poder de polícia para que sejam aceitas. Já existe, de certo modo, uma
governança global em áreas como meio ambiente, direitos humanos, direito humanitário
e mesmo no comércio internacional. Os críticos, como José Luís Fiori, alertam para o fato
de nenhuma governança mundial ter nascido do consenso ou da escolha coletiva, nem ter
se sustentado sem o aval do hegemon, isto é, dos Estados Unidos. Ademais, a “legislação
internacional” foi quase sempre a imposição pura e simples, ao resto do mundo, do mo-
delo institucional e do direito dos países ganhadores. Nesse sentido, a idéia de governança
mundial também encontraria seus limites.
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Do que foi exposto nos parágrafos anteriores, podemos tirar as primeiras conclusões:
a) A globalização, com toda a sua complexidade e fluidez, nos impede de abordar a
nova ordem internacional, sem levar em consideração as contribuições de outras
áreas do conhecimento. Aproximar essas áreas é extremamente difícil, a não ser
que se tome o “capitalismo” como categoria em torno da qual podem convergir
os diferentes enfoques;
b) Por globalização entende-se o produto da expansão cada vez mais ampliada do
capitalismo e da sociedade de consumo, caracterizada pelo fetichismo da merca-
doria, e compreendida em toda a sua extensão: envolve as dimensões econômica,
tecnológica, espacial, temporal, social e jurídica;
c) Na área das relações internacionais, que toma o Estado nacional como categoria
analítica básica, o impacto da globalização provocou uma redefinição do papel
do Estado, que se encontra cada vez mais dependente (ou interdependente) em
relação a outros Estados, organizações internacionais, empresas transnacionais
etc. Não obstante, o Estado continua a ser o principal ator das relações interna-
cionais, como demonstram, por exemplo, as discussões em torno da reforma do
Conselho de Segurança da ONU;
d) A ação das companhias transnacionais tem diminuído a margem de manobra
das pequenas e médias potências quanto ao gerenciamento da “economia nacio-
nal”, mas estas empresas continuam apresentando uma “base” nacional original
e revertem seus ganhos para o país-sede;
e) Estamos longe da construção de um governo mundial, embora seja possível al-
gum grau de governança mundial. Além disso, as diversas instituições interna-
cionais que atuam nas esferas do comércio, das finanças, da política e do direito
internacional conformam no seu conjunto o que pode ser denominado, na tradi-
ção britânica referida, “sociedade internacional”.
À luz de tais considerações, que lugar teriam as categorias mais caras à área das
relações internacionais, como a unipolaridade, a bipolaridade e a multipolaridade? Pode-
se observar que tais categorias mantêm sua função explicativa em um nível mais abrangente.
A nova ordem internacional surgida dos acontecimentos ocorridos entre 1989 e 1991 é
multipolar em muitos sentidos, mas é reconhecidamente unipolar no campo da seguran-
ça. É plausível falar, assim, de uma multipolaridade desequilibrada por um hegemon
principal, os Estados Unidos da América. Porém, uma compreensão mais profunda da
nova ordem mundial passa pela análise de suas estruturas, tema que será desenvolvido na
próxima seção.

AS ESTRUTURAS HEGEMÔNICAS MUNDIAIS


O historiador britânico, Adam Watson, ao analisar a sociedade internacional euro-
péia do século XIX propôs o conceito de “hegemonia coletiva” para designar a ordem
surgida do Congresso de Viena, com cinco potências hegemônicas — França, Grã-Bretanha,
Áustria-Hungria, Prússia e Rússia — que elegeram a diplomacia como instrumento para
a superação de suas eventuais desavenças. A hegemonia coletiva era, dessa maneira, uma
hegemonia difusa. Centro e trinta anos depois de Viena, as conferências internacionais
11

que estabeleceram as regras que deveriam ser seguidas após a tragédia da Segunda Guerra
Mundial, criaram uma nova realidade, a das organizações internacionais.
As organizações internacionais (ONU, Bird, FMI etc) são estruturas jurídicas de
amplo escopo que procuram tornar as relações entre os mais diversos países do mundo
algo mais harmônicas. Comandadas pelas maiores potências da época, tais organizações
foram por elas hegemonizadas, a ponto de não podermos sustentar a idéia de que se trata
de instituições isentas da influência dos interesses nacionais das grandes potências. Por-
tanto, essas organizações são utilizadas, em boa medida, como instrumentos de poder.
Não significa que se reduzam a isso, mas que elas atuam em meio às disputas de interesse
de seus membros, disputas nas quais predominam os interesses das grandes potências.
Um caso ilustrativo do que se procura esclarecer foi o da Opaq, a Organização para
a Proibição de Armas Químicas, uma organização internacional independente, afiliada às
Nações Unidas, criada em 1997 com o objetivo de implementar a “Convenção sobre a
Proibição do Desenvolvimento, Armazenagem, Produção e Uso de Armas Químicas e
sobre sua Destruição”. Estando à frente dessa organização desde sua criação, o embaixa-
dor brasileiro José Maurício Bustani procurava cumprir os objetivos da Opaq, contando
para isso com o direito de realizar amplas investigações nos “países suspeitos”. A partir
dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, sua atuação no Iraque não agradou aos
Estados Unidos, que pressionaram por sua saída. Seu estilo negociador deveria ser subs-
tituído pelo estilo arrogante de Washington. Contando com o apoio de países “aliados”,
membros da organização, os Estados Unidos retiraram Bustani do cargo.
As organizações internacionais são, porém, apenas um tipo de estrutura encontrada
nas relações internacionais. Existem, no entanto, estruturas mais profundas, de difícil
percepção no emaranhado de acontecimentos diários, que condicionam a nova ordem
mundial. A internacionalista britânica Susan Strange, considerada por alguns uma ana-
lista pouco convencional, desenvolveu, entre outros, o conceito de poder estrutural. Em
sua visão, o poder estrutural é a capacidade de formar estruturas dentro das quais os
Estados se relacionam uns com os outros, com as pessoas ou com as empresas corporativas.
Tal poder é exercido em quatro dimensões principais: o poder de influenciar as idéias dos
outros (a estrutura do conhecimento), o acesso ao crédito (a estrutura financeira), as
políticas de segurança (a estrutura de segurança) e as chances de uma vida melhor como
produtores e consumidores (a estrutura da produção).
A estrutura do conhecimento está presente, por exemplo, nos próprios cursos de
Relações Internacionais do mundo afora. No caso brasileiro, bastaria analisarmos os pla-
nos de ensino das diversas disciplinas da grade curricular dos cursos de Relações Interna-
cionais do país, para identificarmos o predomínio de uma literatura norte-americana o
que, por si só, não é algo positivo ou negativo. Mas os internacionalistas formados com
base no pensamento de autores norte-americanos tenderão, no exercício de suas profis-
sões, a analisar o cenário internacional e mesmo a inserção internacional do Brasil por
uma visão que não é nossa. Assim, provavelmente serão muito compreensivos diante dos
argumentos utilizados pelas grandes potências e poderão ser influenciados em suas deci-
sões. A estrutura do conhecimento gera influência, não determinação.
A estrutura financeira mundial é facilmente compreendida pelos nacionais dos paí-
ses periféricos, uma vez que as grandes negociações, como aquelas estabelecidas com o
FMI, implicam discussões sobre temas econômicos internos, que para alguns pode ser
o caso de uma violação do princípio da soberania nacional. Ao longo de sua trajetória, o
12

FMI pautou-se pela defesa de políticas econômicas ortodoxas, que objetivavam dar um
melhor ordenamento às economias nacionais periféricas, mas que em muitos casos inibi-
ram o potencial de desenvolvimento. Embora tenha sido utilizado um único exemplo,
não há dúvida, neste caso, que a estrutura financeira mundial condiciona as ações dos
mais diferentes países.
Quanto à estrutura de segurança, a influência não é menos evidente. Os países
detentores da tecnologia mais avançada na área são os principais responsáveis pelo co-
mércio mundial de armamentos, desenvolvido muitas vezes de forma ilícita. Ao vender
um produto de sua indústria bélica o país produtor não vende apenas aquele item, vende
a assistência técnica, o treinamento para o uso do armamento e, quiçá, uma determinada
visão da “segurança internacional”, dialogando com a estrutura do conhecimento. A atual
questão da compra de caças por parte do governo brasileiro, que tem se arrastado por
alguns anos, revela a influência que um eventual fornecedor de caças pode ter sobre a
segurança de um país.
Por fim, a estrutura da produção, a fonte básica de criação de riqueza na sociedade
e as formas pelas quais as tecnologias de produção estruturam a distribuição de poder
entre e por todos os Estados e mercados. Se tomarmos como exemplo a área da informática,
a força de tal estrutura se apresenta bastante clara no caso da Microsoft. Uma empresa
norte-americana que consegue desenvolver produtos a serem utilizados na maior parte
dos computadores do mundo todo. Sem esquecer da existência do sistema operacional
Linux, quem, no nosso dia-a-dia, pode prescindir inteiramente dos produtos desta em-
presa? As áreas da informática e das comunicações tradicionalmente têm sido influen-
ciadas pelos Estados Unidos, país no qual as relações entre o Departamento de Defesa
e as corporações da área de telecomunicações têm uma relação estreita. A própria Internet
foi, como sabemos, desenvolvida e regulamentada pelos Estados Unidos. É um exem-
plo eloqüente.
Vistas em uma perspectiva histórica, as estruturas identificadas por Strange ga-
nham novos matizes. E aqui é novamente a trajetória capitalista do Ocidente que explica
a articulação entre as diversas esferas. O mundo tal qual conheceram os homens do
século XX foi forjado nos séculos anteriores, principalmente no século XIX. Naquele
período, o desenvolvimento da sociedade internacional européia ocorreu por meio da
expansão do comércio e de suas regras, da dominação política direta ou dissimulada das
áreas periféricas pelos países desenvolvidos, da disseminação dos valores culturais euro-
peus por quase todos os cantos do mundo. Era o desdobramento do processo de
“europeização” do mundo, iniciado com as grandes navegações.
Nesse processo de expansão econômica européia, à qual foram agregados os Estados
Unidos e o Japão, predominaram princípios do liberalismo político e econômico, embora
muitas vezes aplicados de forma limitada pela maioria dos países industrializados, prin-
cipalmente em matéria econômica. A liberdade de navegação, de comércio, de investi-
mentos orientava os códigos aplicados no cotidiano das transações internacionais. O tratado
desigual assinado pelo Brasil com a Grã-Bretanha, em 1827, servia de modelo para
outros tratados, como os que os britânicos firmaram com os chineses após as guerras do
ópio. Regras que se expandiram e se aprofundaram, a ponto de parecerem “naturais” já
na passagem do século XIX para o século XX. No novo século, essas regras tornaram-se
mais complexas e sofisticadas, mas não perderam a capacidade de influenciar todos os
participantes das relações internacionais.
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Na nova ordem mundial, desenhada ao fim da bipolaridade da guerra fria, tais re-
gras não estão menos presentes. O capitalismo não é um produto disposto em uma prate-
leira de supermercado, que o consumidor pode pegar ou largar. Sua atual fase, a
globalização, tampouco. Daí não fazer muito sentido quando alguém se posiciona a favor
ou contra a globalização. É como ser contra ou a favor da lei da gravidade. Em suma, a
globalização é uma realidade que tem um profundo impacto sobre as relações internacio-
nais contemporâneas e que molda a nova ordem internacional. Apresenta elementos ino-
vadores em relação a algumas décadas atrás, mas conserva muito do mundo surgido da
Revolução Industrial e da Revolução Francesa, o mundo que pode ser chamado de mo-
derno ou contemporâneo. A nossa modernidade.
Estaríamos em um mundo pós-moderno? As linhas anteriores afirmam que não. O
que seria, então, a pós-modernidade? Um conjunto de manifestações culturais, sociais,
políticas, econômicas etc, próprias da etapa global do capitalismo, nova em muitos aspec-
tos, mas ainda capitalista. Nosso mundo é, neste sentido, simultaneamente moderno e
pós-moderno. Afinal de contas, não é o capital que ordena as relações Socioeconômicas
atuais, entre pessoas, empresas e países?
Quanto à nova ordem internacional, a história vem em nosso auxílio ao identificar a
existência de centros privilegiados de acumulação de capital, as áreas que conformaram
as relações econômicas mundiais, e que se transformaram nos centros determinantes das
“regras” internacionais. Em suas linhas gerais, Giovanni Arrighi e Charles Tilly, dentre
outros, mesmo trabalhando em recortes temporais distintos, reconheceram que ao longo
da Idade Moderna e Contemporânea formaram-se distintos centros econômicos dinâmi-
cos: na Idade Moderna, Espanha, Portugal, Holanda, França e Inglaterra; na Idade Con-
temporânea, Inglaterra, Estados Unidos, Japão, Alemanha e, mais recentemente,
novamente o Japão, os “tigres asiáticos” e, agora, a China. Talvez seja precipitado falar-
mos em um século asiático, mas temos elementos suficientes para sustentar que a região
do Extremo Oriente, com Japão, China e outras grandes economias, não mais deixará de
ocupar, pelo menos por um bom tempo, o centro dinâmico da economia e da política
mundial.

CONCLUSÃO
A identificação e a caracterização de uma nova ordem internacional requerem a
passagem de alguns (ou de muitos) anos e amadurecimento da produção acadêmica
a respeito dela. Mas é possível desde já estabelecer alguns parâmetros e delinear algumas
tendências das relações internacionais neste século.
a) As relações internacionais e a política internacional não mudaram de natureza
com as transformações do final da década de 1980 e início da de 1990, se
consideradas a anarquia internacional, a hierarquia entre as potências, a perma-
nência de relações de dominação e influência, as estruturas capitalistas de pro-
dução, distribuição e consumo, os conflitos de interesse envolvendo os diversos
atores internacionais;
b) A emergência dos Estados Unidos como única potência global é um dado pró-
prio da nova ordem internacional. Os Estados Unidos têm um papel preeminen-
te na manutenção das estruturas hegemônicas mundiais, mas não conseguem
por si sós estruturar uma nova ordem, que ainda se lhes escapa. A possibilidade
14

real de contribuir para o fortalecimento das organizações internacionais e para


um maior respeito ao Direito Internacional foi substituída, principalmente após
o 11 de setembro de 2001, por iniciativas unilaterais, que tornam o mundo
mais instável;
c) A União Européia, potencialmente um ator capaz de contrabalançar o poder
norte-americano, demonstrou, na crise do Iraque, que, antes de se contrapor aos
desígnios de Washington, está interessada em consolidar sua estratégia de inser-
ção dinâmica no capitalismo contemporâneo. Porém, enfrenta dificuldades nes-
sa seara, e o “não” dos franceses e holandeses à aprovação da Constituição Européia
no ano de 2005, juntamente com as desconfianças surgidas quanto ao futuro do
Euro, aponta não para a consolidação de uma federação européia internamente
coesa, e sim para a emergência de novos conflitos locais;
d) O Japão, depois de décadas de “um país que diz sim” aos interesses econômicos
e de segurança do Ocidente, começa a pensar em “dizer não” e inicia uma polí-
tica para se armar diante de um vizinho que se configura como um gigante da
política internacional do futuro, a China. Os Estados Unidos continuam a
apoiar este que é o principal defensor dos interesses de Washington no Extremo
Oriente, mas a conjuntura política regional indica a possibilidade de instabilida-
de na região, nos próximos anos;
e) A China, por outro lado, surge como a região mais dinâmica economicamente do
planeta, mas não dá sinais de querer abandonar sua estrutura autoritária de
poder. Cabe lembrar que em outros momentos da história dos dois últimos sécu-
los, em que uma potência autoritária transformou-se em um centro econômico
dinâmico da economia mundial, os resultados foram desastrosos, como revelam as
duas guerras mundiais;
f) Os países emergentes ou “em desenvolvimento”, como Brasil e Índia, mais o
primeiro que o segundo, ainda vivem os dilemas em torno do desenvolvimento
econômico. Nesse caso, é importante destacar que as estruturas hegemônicas
mundiais depõem contra o desenvolvimento “autônomo” desses países. Encon-
trar alternativas viáveis para o desenvolvimento é a principal tarefa que se lhes
apresenta;
g) As áreas empobrecidas e esquecidas do planeta tendem a reproduzir sua situação
atual: são objeto de saques e exploração econômica cujos padrões nos remetem
ao século XIX, são interessantes do ponto de vista comercial e político, mas não
ocupam o centro das preocupações das grandes potências e dos principais orga-
nismos internacionais.
Em suma, a nova ordem mundial é complexa e dinâmica. Apreender suas tendên-
cias mais gerais é sempre um desafio para os pesquisadores e estudiosos em geral. Anali-
sar a nova ordem mundial com o uso apenas do instrumental fornecido pela área das
relações internacionais propriamente dita é, de antemão, um exercício fadado ao fracasso.
Deve-se reconhecer a pertinência de interpretarmos a realidade internacional atual em
termos de uma ordem uni ou multipolar. Mas isso é pouco.
Somente uma visão mais abrangente, considerando os aportes das mais variadas
áreas das ciências do homem, poderá levar a uma compreensão maior do mundo atual.
Além disso, é necessário descer aos níveis mais profundos do devir da humanidade. Um
15

exemplo concreto: como um internacionalista deveria se comportar diante das questões


levantadas em torno da Venezuela de Hugo Chávez? Situando-se no nível dos aconteci-
mentos diários, tenderia a endossar a caracterização do governante venezuelano como
populista — um rótulo muito caro aos dirigentes norte-americanos —, a enfatizar a fra-
gilidade da democracia daquele país (o que não estaria incorreto) e, no limite, simpatizar
com soluções “alternativas”, fora do marco institucional do país, como o golpe fracassado
de abril de 2002.
Uma leitura mais profunda dos acontecimentos daquele país nos levaria a incluir
uma história de poderes oligárquicos que usufruíram da principal riqueza do país, o
petróleo, sem atacar os problemas sociais mais profundos, como a desigualdade de renda.
Um país estrategicamente importante para os Estados Unidos, uma vez que é responsá-
vel pelo fornecimento de boa parte do petróleo ali consumido (dados do ano 2000 susten-
tam que 14,7% do petróleo importado pelos Estados Unidos era proveniente da Venezuela).
A presença de um dirigente autoritário, sem dúvida, mas que consegue catalisar a insatis-
fação dos setores excluídos da sociedade venezuelana. Cotejar os dados da mídia diária
com o conhecimento acumulado nas diversas áreas das ciências do homem é um procedi-
mento aconselhável.
Não existem soluções fáceis para o caso da Venezuela, como para a maioria dos
grandes problemas do mundo atual. Reconhecer a existência de poderes estruturais, que
tendem a seguir em sua trajetória inercial, com algumas mudanças processadas em um
tempo relativamente longo, ajuda a delinear as tendências para o futuro. Comparada com
a ordem internacional da guerra fria, a ordem mundial atual tem muitos elementos no-
vos, mas talvez as estruturas mais antigas é que nos expliquem a permanência dos confli-
tos, das guerras, das desigualdades, da fome. Tornar a vida humana algo mais racional e
harmônica é tarefa de todos.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Explique por que a análise da nova ordem mundial requer uma abordagem
multidisciplinar.
2. Escolha um dos grandes temas do tema mundo atual, como o conflito palestino-
israelense e procure identificar os fatores conjunturais e estruturais do conflito.
3. Analise o tema: Nova Ordem Mundial — unipolaridade x multipolaridade.

GLOSSÁRIO
Estados falidos: Estados que há algumas décadas atrás passaram pelo processo de
descolonização (independência), mas que não conseguiram consolidar suas instituições
políticas e que hoje são áreas governadas de forma precária ou mesmo sem governo.
Fetichismo: culto de objetos materiais, considerados a encarnação de um espírito, ou em
ligação com ele, e possuidores de virtude mágica.
Hegemon: país hegemônico que, em uma determinada conjuntura, consegue impor os
seus interesses pelo uso da força ou do convencimento aos países situados em sua área de
influência.
16

Megacidades: grandes cidades que têm renda equivalente à de países pequenos e que são
simultaneamente pólos industriais e tecnológicos, interconectados com outras cidades
gigantes, onde se estabelecem os grandes gestores da economia mundial, sejam eles em-
presas, entidades ou pessoas.
Ordem internacional assimétrica: a ordem internacional vista pelo reconhecimento da
existência de uma profunda clivagem entre os países desenvolvidos e os demais, que
conformaria uma estrutura polarizada entre um centro industrializado e uma periferia
não industrializada.
Países ganhadores: países industrializados, que conseguiram consolidar seus avanços
nas áreas social, política e econômica.
Pós-internacional: diz-se da ordem “internacional” que não seria mais composta de
Estados nacionais e sim de uma multiplicidade de micropoderes espalhados pelo planeta.
R egimes internacionais: conjunto de normas, regras, procedimentos de processo decisório
em torno dos quais convergem as expectativas dos agentes em uma área específica das
relações internacionais.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
DUPAS, G. Economia global e exclusão social: pobreza, emprego, Estado e o futuro do
capitalismo. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
HAESBAERT, R. (Org.). Globalização e fragmentação no mundo contemporâneo. Niterói:
EdUFF, 2001.
SARAIVA, J. F. S. (Org.). Relações Internacionais: dois séculos de história. Brasília:
Ibri, 2001, 2 v.
SMOUTS, M. C. As novas relações internacionais: práticas e teorias. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2004.
STRANGE, S. States and markets. London: Pinter Publishers, 1994.
17

Capítulo 2
A ORGANIZAÇÃO DAS
NAÇÕES UNIDAS — ONU
Cristiano Garcia Mendes

INTRODUÇÃO
A Organização das Nações Unidas (ONU) pode ser vista como um emaranhado
institucional de sistemas e instâncias criados, em princípio, com o objetivo de construção
da Segurança Coletiva1. Nascida das experiências malsucedidas na Liga das Nações, a
ONU tentou organizar as relações entre Estados no período do pós-Segunda Guerra
Mundial. Respeitando a hierarquia de poder existente entre os Estados àquela época, as
Nações Unidas tentaram garantir a participação de atores-chave do cenário internacional,
cedendo assento permanente a eles no Conselho de Segurança e direito de veto por parte
destes países.
Com um perfil mais realista que a Liga das Nações, a ONU conheceu períodos de
inércia, como na época da guerra fria, e períodos de expansão das suas atividades e reforço
da sua legitimidade como, por exemplo, a década de 1990.
O objetivo deste capítulo é fazer um levantamento geral sobre a criação e estrutura
de funcionamento da ONU para, em seguida, analisar alguns aspectos de maior destaque
nos últimos anos. Assim, nos tópicos 1 e 2, vamos encontrar um breve relato sobre a
conjuntura histórica na qual a ONU foi criada e um levantamento das suas principais
instâncias e processos de tomada de decisões. No item 3, trataremos da relação existente
entre a ONU e a questão dos Direitos Humanos, uma vez que este tema não somente é
recorrente na Organização, como também vem sendo estendido para outras áreas, como,
por exemplo, aquelas relativas às questões de segurança. Já no item 4, serão abordadas as
Missões de Paz e os atuais desafios enfrentados por elas. O item 5 trata dos Objetivos do
Milênio, um programa que se propõe a indicar quais os setores sociais/econômicos dos
Estados devem receber investimentos para o desenvolvimento humano e a mensurar até
que ponto estes investimentos podem, ou não, ser considerados satisfatórios. No item 6,
serão abordadas as atuais tentativas de mudança na estrutura da ONU e, em especial, no
Conselho de Segurança.
Por se tratar de um capítulo introdutório, não existe aqui a pretensão de esgotar ou
mesmo de analisar a fundo os itens propostos. A função deste texto é simplesmente fazer
um apanhado geral da Organização das Nações Unidas e gerar referências para que os

1
Vide glossário.

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18

estudantes possam, em um segundo momento, aprofundar seus conhecimentos sobre


tópicos específicos das Nações Unidas, por meio de outras bibliografias.

A CRIAÇÃO DA ONU
Apesar de a ONU ter sido criada, oficialmente, no ano de 1945, é preciso voltarmos
ao período compreendido entre as duas Grandes Guerras Mundiais (1919-1939) para
entendermos o contexto histórico do seu nascimento. Ao término da Primeira Grande
Guerra Mundial (1914-1918), o mundo inteiro fazia um balanço do ocorrido e tentava
responder a uma questão crucial que se impunha no momento: “Qual o motivo dos Esta-
dos fazerem guerras entre si?”. Com essa questão, um sentimento de pacifismo começou
a tomar conta da opinião pública mundial, e mecanismos para impedir que outras guer-
ras, de iguais proporções, voltassem a ocorrer começaram a ser pensados. Várias foram as
respostas encontradas para explicar o porquê das guerras e, dentre elas, uma sobressaiu
no começo. Provavelmente, o fato de os Estados fazerem tratados secretos entre si acaba-
va gerando uma situação em que, à medida que estes tratados se concretizassem, o resul-
tado final seria um emaranhado de relações que acabavam levando às agressões entre
determinados países. Somente uma maior publicização desses tratados poderia permitir
maior controle sobre informações a respeito do que estava sendo acordado entre os países
e, conseqüentemente, situações que levassem ao conflito poderiam ser evitadas com maior
facilidade.
Com essas respostas, surgia, também, um sentimento de que era crucial naquele
momento criar uma organização que servisse de instância decisória internacional na qual
os Estados pudessem participar como membros discutindo problemas e solucionando
conflitos internacionais de maneira mais transparente e democrática. Surgia, assim, a
Liga das Nações, também chamada de Sociedade das Nações. Uma organização de caráter
internacional que tinha como objetivo regular a relação entre Estados a partir do fim da
Primeira Grande Guerra Mundial.
Entretanto, apesar de a opinião pública naquele período acreditar na possibilidade
de se criar uma instância internacional na qual os Estados pudessem tomar decisões de
forma democrática e acreditar, ainda, que o mundo havia aprendido o suficiente com os
custos gerados pela Primeira Grande Guerra, esta visão, já naquele momento, começou a
sofrer críticas. O discurso de cunho pacifista e a crença de que os Estados jamais fariam
outra guerra semelhante começaram a ser taxados de utópicos ou idealistas. Para se con-
trapor a esse arcabouço de crenças, alguns autores, denominados realistas, argumenta-
vam que, apesar de o objetivo pacifista ser nobre, nem sempre podemos evitar uma guerra.
Segundo os realistas2, quando estamos lidando no ambiente internacional, que se
caracteriza pela ausência de uma autoridade comum, podemos nos defrontar com situa-
ções em que, mesmo quando dois, ou mais Estados não desejam, a guerra entre eles é
inevitável. Na ausência de uma autoridade que regule de maneira legítima a relação entre
os atores internacionais, prevalece a desconfiança entre eles e, em nome da própria segu-
rança, alguns Estados tendem a preferir o ataque a um potencial inimigo antes que este
suposto inimigo tenha a oportunidade de atacá-lo primeiro.

2
Vide glossário.

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19

Apesar das críticas, esse discurso chamado de idealista foi levado adiante no período
entre guerras e, apesar da descrença de muitos, inclusive estadistas, a Liga das Nações
entrou em vigor em 28 de abril de 1919 como um símbolo do desejo vigente na época de
um mundo onde a guerra não tivesse mais lugar como resolução dos conflitos interna-
cionais.
A necessidade de criação dessa Organização Internacional já havia sido citada no
discurso feito pelo presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson (1913-1921) em
janeiro de 1918 no qual ele aponta 14 pontos que deveriam ser seguidos pelos Estados ao
final da Primeira Grande Guerra Mundial. O Tratado de Versalhes (1919), que tratava
da situação mundial dos países no pós-guerra, estabeleceu em um dos seus artigos a
criação da Liga das Nações.
No princípio, a Liga das Nações foi formada para colocar em prática o que havia sido
acordado em Versalhes: promover a cooperação econômica e social entre os países e garan-
tir a segurança coletiva entre os Estados. Composta por um Conselho com membros
permanentes e outros rotativos, uma Assembléia com a participação de todos os Estados
e territórios membros, e um Secretariado, a Liga foi inicialmente formada por 32 compo-
nentes. Mais tarde, outros Estados foram convidados a participar, sendo que 63 Estados
passaram por essa instância internacional no decorrer da sua existência. A ausência ou
saída de alguns Estados-chave foi um dos motivos que levaria a Liga das Nações ao
fracasso. Os Estados Unidos, um dos principais mentores da organização, não chegaram,
sequer, a fazer parte dessa organização. A União Soviética entrou em 1934, mas foi
expulsa em 1939, devido à invasão à Finlândia. A Alemanha, perdedora da Primeira
Grande Guerra Mundial, foi aceita em 1926 e se retirou em 1933. Por uma série de
incompatibilidades entre interesses do Brasil e decisões da Liga, o país pediu seu afasta-
mento no ano de 1926.
Outro motivo que explica a ineficácia da Liga das Nações é o fato desta organização
exigir unanimidade nas votações, tanto da Assembléia Geral, quanto do Conselho. A
multiplicidade de interesses presentes dentre os países fez com que tal exigência parali-
sasse a Liga das Nações nos seus processos de tomada de decisões.
Por fim, pode-se citar, também, o fato de a Liga das Nações não imprimir um caráter
de obrigatoriedade na execução das suas decisões perante os Estados membros. Assim,
mesmo que se conseguisse unanimidade nas decisões, a efetivação destas ficaria depen-
dendo da vontade dos Estados em suprir a Liga com os meios materiais necessários para
que determinada resolução fosse colocada em prática. Assim, a Liga ficava à mercê, não
só da vontade unânime dos seus membros, como, também, em um segundo momento, da
boa vontade dos Estados em efetivar as decisões que viessem a ser tomadas. Havia uma
aparente contradição nos propósitos da Liga (contradição esta que reapareceria na ONU)
entre a necessidade de gerar a Segurança Coletiva versus o respeito à soberania de cada um
dos Estados membros. Até que ponto a Liga das Nações poderia intervir em assuntos
referentes a Estados em específico, até que ponto determinada ação de um Estado pode-
ria ser considerada, ou não, legítima defesa, e até que ponto e por meio de quais procedi-
mentos os Estados membros poderiam agir por conta própria, sem a anuência da Liga,
eram questões que nunca foram respondidas e que continuariam presentes na futura
criação da Organização das Nações Unidas.

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Nos 27 anos de existência da Liga, pequenos sucessos e um grande número de


fracassos foram acumulados, fazendo com que esta organização fosse desconstituída em
1946.
O início da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945) fez com que a já desacre-
ditada Liga das Nações (que desde a crise econômica de 1929 não funcionava muito bem)
paralisasse quase que por completo suas ações. Desde a assinatura da Carta do Atlântico
entre Estados Unidos e Reino Unido, em 1941, e a Conferência de Washington de 1942,
os pilares do que viria a ser a Organização das Nações Unidas estavam sendo criados.

Semelhanças e Diferenças entre a Liga das Nações e a ONU

Liga das Nações (LDN) Organização das Nações Unidas (ONU)

Ano de criação 1919 Oficialmente, em 1945

Sede Inicialmente, com sede em Nova York, Estados Unidos. Com exceção do
Londres e transferida para Tribunal Internacional de Justiça, localizado em Haia,
Genebra, Suíça, em 1920. Holanda. Tem também uma sede européia,
localizada em Genebra, Suíça.

Estrutura organizacional 3 órgãos principais: Assembléia 6 órgãos principais: Assembléia Geral,


Geral, Conselho e Secretariado. Conselho de Segurança, Ecosoc, ICJ, Secretariado,
Conselho de Tutela.

Processo de tomada de Votações exigiam unanimidade Assembléia Geral: normalmente, por maioria
decisões tanto na Assembléia Geral dos Estados-Membros. Em casos específicos, há a
quanto no Conselho. As exigência de 2/3 de aprovação. As decisões
decisões eram apenas são indicativas. Conselho de Segurança: aprovação
indicativas. de, pelo menos, 9 membros e não pode haver
oposição de um membro permanente (direito de
veto). A decisões são impositivas.

Forças Armadas Não previa utilização de Forças Prevê a utilização de Forças Armadas fornecidas
Armadas específicas. pelos Estados membros. No caso das Missões
de Paz, os soldados a serviço da ONU são
conhecidos como Boinas Azuis.

Número de membros 63 191

Obedecendo a uma estrutura organizacional semelhante à encontrada na Liga das


Nações, a ONU, por sua vez, tratou de corrigir aquilo que foi encarado como erro
naquela organização e adotou modificações substanciais, principalmente nos processos
de tomada de decisões. Apesar de seguir a mesma estrutura da Liga das Nações, com a
presença de uma Assembléia Geral (formada por todos os Estados membros), um Secre-
tariado (com um Secretário Geral eleito para o período de 5 anos, com mandato renovável)
e um Conselho de Segurança (formado por 15 Estados membros, sendo que destes,
apenas cinco são permanentes), a ONU deu direito de veto a todos os membros perma-
nentes do Conselho de Segurança. Assim, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e
China teriam a garantia de que somente as decisões que não afetassem os interesses de
algum destes países, potências que saíram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial,
seriam acatadas.

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Construída em bases mais realistas, se comparada à Liga das Nações, e respeitando


as diferenças de poder encontradas no pós-Segunda Guerra, a ONU tentou garantir sua
efetividade pelo cuidado (via estrutura do Conselho de Segurança) de não permitir que os
interesses das grandes potências àquela época fossem colocados em xeque.

ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DA ONU


A estrutura organizacional da ONU não possui muitas diferenças daquela encontra-
da na Liga das Nações. Basicamente, a ONU está dividida em seis órgãos: a Assembléia
Geral (na qual cada Estado membro é representado de forma igualitária), o Conselho de
Segurança, instância executiva da ONU (formado por 15 Estados membros, sendo que 5
deles são permanentes e possuem direito de veto e os demais são rotativos, eleitos para
um mandato de dois anos, sem direito a veto), o Ecosoc (Conselho Econômico e Social),
instância responsável pelos assuntos econômicos, sociais e culturais da Organização, o
ICJ (Corte Internacional de Justiça), idealmente, a instância responsável por julgamen-
tos internacionais (formado por 15 juízes, eleitos para um mandato de nove anos), o
Secretariado, com um secretário-geral eleito para o período de cinco anos, com mandato
renovável, e o Conselho de Tutela, que inicialmente possuía a função de administrar
territórios. Este último, não possui mais atividades desde 1994, com a independência do
Palau3.
Esses seis órgãos são ligados às diversas outras agências especializadas e programas,
cujo grau de dependência com a administração central é variado. A relação dessas agên-
cias e programas, entre si, também varia de acordo com a estrutura administrativa, sendo
que, várias vezes, diferentes instâncias, relativamente autônomas, desempenham papéis
semelhantes e possuem objetivos comuns, apesar de trabalharem separadas.
Atualmente, a Assembléia Geral é formada pelos 191 Estados membros da ONU.
As decisões da Assembléia, em geral, têm que ser aprovadas por maioria. Já os assuntos
mais polêmicos como, por exemplo, a admissão de novos membros, questões relativas à
segurança internacional e mudanças na Carta da ONU têm que receber o apoio de, pelo
menos, dois terços dos países membros. Apesar das suas decisões não possuírem caráter
impositivo, a simples aprovação de diretrizes já representa um peso moral, mesmo que as
decisões não sejam efetivadas.
O Conselho de Segurança possui, em relação aos membros não permanentes, um
sistema de rotatividade regional. As decisões do Conselho têm que ser aprovadas por, pelo
menos, nove dos seus membros, e não pode sofrer a oposição de nenhum membro perma-
nente (direito de veto). Ao contrário das decisões da Assembléia Geral que não têm cará-
ter de obrigatoriedade, as decisões do Conselho são consideradas imperativas, cabendo,
portanto, sanções ao não-cumprimento delas.
O Ecosoc é composto por 54 Estados membros eleitos pelo período de três anos.
Responsável por questões como Direitos Humanos, Proteção à Mulher, Desenvolvimento
Sustentável e Desenvolvimento Social, o Ecosoc trabalha em conjunto com instâncias

3
Conjunto de ilhas do Pacífico Ocidental, que era parte do Protetorado das Ilhas do Pacífico das
Nações Unidas e que se tornou independente em 1/10/1994. Atualmente, é uma República Democrá-
tica associada aos EUA.

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regionais e agências especializadas como, por exemplo, o Banco Mundial, a Unesco e


o FMI4.
O Secretariado concentra as funções administrativas da ONU. Os funcionários da
Organização (cerca de 22.000) são admitidos via seleção que respeita critérios técnicos e
regionais. O secretário-geral é eleito pela Assembléia Geral, pela indicação do Conselho
de Segurança. A função do Secretário vai além da administração burocrática. Quem exer-
ce esse cargo tem a função de induzir a coexistência das várias instâncias da ONU e
provocar os órgãos competentes a tomar decisões sempre que algum tema ganhe relevân-
cia internacional.
A Corte Internacional de Justiça só pode julgar demandas por meio da autorização
das partes envolvidas em determinado conflito. Procura-se sempre eleger representan-
tes de diversos países de forma que garanta a isenção e imparcialidade das decisões
tomadas. O posto de Juiz do ICJ representa, para um jurista, o grau máximo na carreira
internacional.
Já o Conselho de Tutela foi criado como resposta à necessidade de administrar
regiões ainda sob domínio de certos Estados, mas que se encontravam em processo
irreversível de independência. Ao contrário da Liga das Nações que aceitava a presença de
territórios e colônias como membros da Organização, a ONU é, por definição, uma ins-
tância formada única e exclusivamente por Estados-Nação.

Secretário-Geral da ONU — Cronologia

Secretário País de Origem Mandato

Trygve Lie Noruega 1946-1953

Dag Hammarskjold Suécia 1953-1961

U Thant Birmânia (atual Myanmar) 1961-1971

Kurt Waldheim Áustria 1972-1981

Javier Pérez De Cuellar Peru 1982-1991

Boutros Boutros-Ghali Egito 1992-1996

Kofi Annan Gana 1997-2006

Ban Ki-moon Coréia do Sul 2007-atualidade

A ONU E OS DIREITOS HUMANOS


Em 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal
dos Direitos Humanos. Nenhum dos Estados membros votou contra a aprovação do documento

4
Unesco – Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura da ONU.FMI – Fundo Monetário
Internacional.

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e somente alguns países como Arábia Saudita, África do Sul e países alinhados à Rússia
abstiveram-se na votação. Entretanto, quando analisamos mais a fundo a questão dos Direitos
Humanos nas Nações Unidas, percebemos que se trata, ainda nos dias de hoje, de assunto
controverso, cujas definições ainda são imprecisas, e grande parte das preocupações sobre
este assunto não consegue encontrar soluções concretas5.
Em 1966, dois documentos foram produzidos pela Assembléia Geral, dividindo os
Direitos Humanos em dois grandes grupos: um Tratado sobre Direitos Civis e Políticos
e, outro, sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. O primeiro, claramente, refletia
os anseios dos países ocidentais, de tradição liberal. Já o segundo grupo, representava a
ideologia de países do bloco comunista que enfatizavam mais a obrigação do Estado em
prover os indivíduos de bens econômicos e sociais do que de garantias civis individuais.
Somente a partir de 1976 é que esses dois documentos são formalizados e, apesar de os
países poderem ratificar (mesmo com reservas) apenas um dos dois Tratados, ainda assim
um considerável número de Estados membros não os aceita totalmente devido a razões
diversas. Juntos, os dois Tratados de 1966 ficaram conhecidos como International Bill of
Rights.
De maneira geral, os Direitos Humanos costumam ser divididos em três categorias:
primeiro, os chamados Direitos Negativos. São aqueles direitos que protegem os indiví-
duos contra abusos da própria sociedade. Dentro dessa categoria encontramos, por exem-
plo, o direito à liberdade de expressão, direito à liberdade de religião, direito de se reunir
em assembléias, dentre outros. A segunda categoria de direitos refere-se aos chamados
Direitos Positivos. Como exemplos, podemos citar o direito ao trabalho, direito à educa-
ção, direito à saúde, dentre outros. A terceira categoria é a mais recente. Somente no
decorrer da última década é que a idéia de direitos que transcendem os indivíduos como,
por exemplo, direito à paz e ao desenvolvimento sustentável vem sendo defendida. São
considerados direitos coletivos e nasceram da constatação de novos problemas gerados
com o processo de industrialização e degradação do meio ambiente e da necessidade de
defender comunidades inteiras ameaçadas, principalmente, por conflitos étnicos e intra-
estatais.
Na prática, quando tratamos dos Direitos Humanos no âmbito da ONU, estamos
lidando com questões das mais variadas esferas. Desde a luta contra o racismo, os proble-
mas gerados pelo colonialismo, a questão dos trabalhos forçados, denúncias de torturas,
defesa das mulheres, refugiados, dentre outros, são considerados temas pertinentes aos
Direitos Humanos. Tecnicamente, a Commission on Human Rights, criada em 1946 e
subsidiária do Ecosoc, é a instância oficialmente responsável pelas questões dos Direitos
Humanos na ONU. Entretanto, várias outras Comissões, Comitês e subComitês tratam
do assunto, às vezes, até mesmo de forma não coordenada o que dificulta um levantamen-
to geral sobre o tema. A Assembléia Geral dedica grande parte das suas votações às
questões relativas aos Direitos Humanos. Apesar do peso das suas decisões ser meramen-
te indicativo, ainda assim a publicização do que foi julgado e os relatórios produzidos
pelos Comitês e Agências especializadas são responsáveis pelo aumento da pressão públi-
ca mundial para garantir o cumprimento destes direitos.
Outra tendência que deve ser destacada, principalmente a partir do fim da Guerra Fria,
é a transferência da defesa dos Direitos Humanos do âmbito da Assembléia Geral para o
5
Apesar de alguns autores diferenciarem Direitos Humanos de Questões Humanitárias, neste trabalho
adota-se a linha teórica de não-diferenciação entre os termos.

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Conselho de Segurança. Cada vez mais, nota-se um empenho da ONU em tratar a defesa e
proteção de indivíduos como assunto de Segurança Coletiva. Como as decisões do Conselho
de Segurança são impositivas, as ações daí decorrentes possuem um poder de ação direta
sobre as situações. Seja por meio das Missões de Paz, ou de intervenções militares clássicas,
o Conselho de Segurança demonstrou, várias vezes, sua disposição em relativizar a soberania
de determinados Estados que não garantem condições mínimas de sobrevivência aos seus
cidadãos. Assim, ações, como as vistas na Somália, Camboja e Bósnia, podem ser consideradas,
em uma primeira instância, operações que visam garantir a proteção de Direitos Humanos
para determinada coletividade.
Claro que nem sempre a ONU age de forma eficaz na defesa dos Direitos Humanos.
Assim como podem ser listados vários exemplos de intervenções com objetivos humanitá-
rios, também é possível citar algumas situações em que Direitos Humanos foram viola-
dos sem nenhum tipo de ação, ou com ações de pouca eficácia, por parte das Nações
Unidas6. Como a ONU é uma instância internacional formada por Estados, ainda cabe a
estes (principalmente os que possuem assento permanente no Conselho de Segurança)
produzir um consenso mínimo sobre a necessidade de intervenção e de assumir os custos
que estas operações podem gerar. Principalmente quando estão lidando com conflitos
étnicos e questões relativas a refugiados, os Estados são cautelosos nas decisões, não só
porque podem arriscar a vida de seus cidadãos em assuntos que, em princípio, não têm
relação com seu país, como, também, qualquer falha de logística nas ações pode vir a
piorar a situação. Além disto, a ONU ainda enfrenta críticas, principalmente de países
asiáticos, que acusam de ser etnocêntrica7 a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Podem ser listados, ainda, como desafios enfrentados pelas Nações Unidas na luta pela
garantia dos Direitos Humanos: a falta de critérios objetivos que permitam quantificar
até que ponto os Estados respeitam, ou não, estes direitos; o excesso de Tratados sobre o
tema, que acaba gerando uma falta de clareza sobre quais são os reais objetivos destas
ações; a dependência de fundos orçamentários suficientes para a concretização das deci-
sões tomadas neste campo e, por fim, o aparecimento recorrente de denúncias, principal-
mente referentes às Missões de Paz que, mesmo atuando em nome da ONU, são acusadas
de não respeitarem os Direitos Humanos, em várias ocasiões8.

A ONU E AS MISSÕES DE PAZ


Assim como vários outros conceitos comumente ligados à Organização das Nações
Unidas, as Missões de Paz (peacekeeping) não possuem definição clara e consensual. De
uma maneira geral, podemos dizer que elas caracterizam-se pela tentativa de manter o
status quo em uma determinada região, ou de fornecer condições para que determinada
estrutura organizacional/política seja construída após término de conflitos. Idealmente,
as Missões de Paz não possuem inimigos específicos, e suas ações limitam-se a garantir a paz
sem que o uso da força seja necessário. Os Boinas Azuis (nome dado aos soldados a serviço

6
O caso de Ruanda é exemplar. A atuação da ONU não conseguiu evitar o massacre de um milhão de
pessoas em 1994.
7
Vide glossário.
8
Violações aos Direitos Humanos por soldados a serviço da ONU foram relatadas em Missões na
Bósnia, Camboja, Moçambique, entre outras.

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25

destas Missões de Paz) deveriam portar, no máximo, armas leves e utilizar a força somente em
casos de legítima defesa, ou para garantir o cumprimento das leis na região em questão.
A crise do Canal de Suez, em 1956, marca a inauguração deste tipo de missão pela
ONU. Até essa data, somente missões de outra natureza como, por exemplo, de observa-
dores, haviam sido utilizadas. A Unef 9 lançou as bases do que seriam, no futuro, as
demais gerações das peacekeeping. Em princípio, para que uma Missão de Paz seja efetiva-
da, é necessário o consentimento do Estado no qual a missão é instalada. O Conselho de
Segurança dá o aval para a criação da missão que fica sob o comando do secretário-geral
da ONU que, por sua vez, conta com a ajuda de representantes designados e assessoria de
especialistas10. As Forças de Paz seriam constituídas por soldados e equipamentos forne-
cidos voluntariamente por Estados que não estivessem envolvidos na situação em ques-
tão, ou que não possuíssem interesses particulares naquela região.
Três gerações de Missões de Paz podem ser visualizadas, desde sua criação: a primei-
ra delas, caracterizada pelo consentimento expresso do(s) Estado(s) no qual a missão iria
acontecer, tinha por objetivo primordial evitar que conflitos fossem deflagrados, garan-
tindo um ambiente neutro para o desfecho de negociações entre determinadas partes. A
partir das ações na Namíbia (1989), tem-se uma segunda geração de Missões de Paz,
caracterizadas não somente por ações militares. Junto dessas, representantes civis fazem,
também, papéis de suma importância para a região como, por exemplo, treinamento de
pessoal, fiscalização, coordenação de eleições e consultoria técnica. Atualmente, uma
terceira geração pode ser identificada. Nesta última fase, as Missões de Paz relativizam a
necessidade de se obter o consentimento do Estado ou das partes envolvidas no conflito.
O documento chamado Agenda para a Paz (1992), produzido pelo então secretário-
geral da ONU, Broutros Boutros-Ghali, enfatiza a necessidade da Organização assumir
um papel de peacebuilding, no qual a paz deveria ser garantida pela indução categórica
dela. A ONU não poderia mais esperar de forma passiva que a sua atuação fosse requisi-
tada formalmente para intervir em determinadas situações. Seria preciso se antecipar a
essas necessidades por meio de uma política mais contundente e positiva na manutenção
da paz.Tendo como base o capítulo VII da Carta das Nações Unidas, que prevê a autori-
zação, pelo Conselho de Segurança, do uso da força para garantir a paz, estas missões
passam a atuar em duas direções: primeiro, no sentido de peace enforcement, fazendo com
que soldados possam ser enviados para intervir, mesmo sem autorização do Estado em
questão, em determinadas situações em que a paz e os Direitos Humanos estejam seria-
mente ameaçados, ou já tenham sido desrespeitados. Segundo, após a relativa estabiliza-
ção da região, estas missões também podem assumir o papel de statebuilding ajudando na
reconstrução de sociedades destruídas pelos conflitos.
A década de 1990 viu aumentar, ainda, o número, a estrutura e gastos com as Missões
de Paz. Apesar de possuir um orçamento relativamente modesto, se comparado com todas as
outras despesas que os Estados fazem na área de segurança, ainda assim, as Missões de Paz
conseguiram mais do que duplicar suas ações pelo mundo, convencendo diversos países a
participar dos custos que isto acarreta. Através de parcerias com Organizações Regionais

9
United Nations Emergency Force.
10
Em casos específicos, em que o Conselho de Segurança demonstra inércia para lidar com a situação,
a própria Assembléia Geral pode tomar a iniciativa de requisitar estas missões.

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26

como, por exemplo, UE, Ecowas e OEA11, as Missões de Paz têm convencido boa parte dos
Estados membros que suas ações representam, no final das contas, uma economia em questões
de segurança, pois, por mais que tenham falhado em casos específicos, ainda assim, os sucessos
são considerados significativos no sentido de evitar a intensificação de conflitos e gerar
estabilidade social em certas regiões.
Até o momento, o Brasil participou de Missões de Paz no Canal de Suez (1957-1967),
na República Dominicana (1965), em Moçambique (1994), em Angola (1995-1997), no
Timor Leste (1999 — em andamento) e no Haiti (2004 — em andamento). Como observador
militar, o Brasil atuou nos Bálcãs, Peru/Equador, Chipre, República Dominicana, Índia/
Paquistão, El Salvador, Costa Rica, Honduras, Guatemala, Nicarágua, Moçambique, Uganda/
Ruanda, Croácia e ex-Iugoslávia12.
Sua atuação no Haiti reflete a continuidade da tradição do país em participar ativamen-
te na ONU por meio desta instância. Reafirma, também, a posição de destaque do nosso
Estado em relação aos demais países da América do Sul em termos de representatividade na
Organização das Nações Unidas.

OS OBJETIVOS DO MILÊNIO
Apesar da criação da ONU ter como objetivo principal a garantia da Segurança Coletiva,
as instâncias de desenvolvimento político, social, econômico e cultural nunca foram deixadas
de lado. Pelo contrário, principalmente a partir da década de 1990 é que, cada vez mais,
assuntos relativos a essas questões sociais vêm sendo tratados, também, como questão de
segurança. Os Estados têm chegado ao consenso de que, se o objetivo maior das Nações
Unidas é a paz mundial, somente com o desenvolvimento socioeconômico da humanidade é
que este ideal poderá ser cumprido.
No ano de 2000, foi aprovada na Assembléia Geral da ONU a Agenda do Milênio. Uma
tentativa de sintetizar todas as iniciativas feitas pela Organização das Nações Unidas na
década anterior em relação ao desenvolvimento humano, social e econômico da população
mundial. A partir dessa Agenda, foram estabelecidos, em 2001, oito objetivos, 18 metas e
48 indicadores, conhecidos como Objetivos do Milênio ou também chamados de Metas do
Milênio. A intenção é que esse patamar possa ser concretizado pelos Estados até o ano de
2015. Os objetivos são:

1. Erradicar a extrema pobreza e a fome


2. Atingir o ensino básico universal
3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres
4. Reduzir a mortalidade infantil
5. Melhorar a saúde materna
6. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças
7. Garantir a sustentabilidade ambiental

11
União Européia, Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental e Organização dos Estados
Americanos.
12
Fonte: Exército brasileiro (www.exercito.gov.br).

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8 . Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento


Para cada um desses objetivos, especificaram quais metas deveriam ser atingidas e quais
indicadores seriam usados para mensurar seus desenvolvimentos. Fundos de financiamento
específicos para programas que atuam nesta área foram criados e parcerias com instituições
privadas, públicas e governos foram feitas para garantir o avanço desses pontos e capacitar
seu acompanhamento.
Criados com base nos parâmetros dos Direitos Humanos, definidos pelas Nações Uni-
das, os Objetivos do Milênio já estão sendo adotados como parâmetros para projetos de
desenvolvimento de vários países. Inclusive as Missões de Paz já pautam suas ações com base
no que é apontado como crucial por esses objetivos.
Como cada região do planeta possui problemas específicos, alguns mais fáceis, outros
nem tanto de serem solucionados, também o sucesso desses objetivos da ONU estão variando,
de acordo com cada localidade. De maneira geral, segundo relatórios já produzidos, podemos
dizer que enquanto países da Ásia e Norte da África estão caminhando relativamente bem
rumo aos objetivos, os países da América Latina, Caribe e Ásia Ocidental não possuem o
mesmo grau de desenvolvimento em relação a todos os pontos, conseguindo avançar em
alguns específicos, mas ainda com pouco sucesso em questões relativas à redução da pobreza.
A pior região é a dos países da África Subsaariana, que ainda apresentam um desempenho
que os deixam distantes das metas apresentadas13.
No caso do Brasil, especificamente, podemos notar que, no geral, suas médias estão
acima daquelas encontradas nos demais países da América Latina. Enquanto as metas
relacionadas à educação e gênero estão no patamar previsto pela ONU, outras como mor-
talidade infantil, acesso à água potável e diminuição da pobreza, apesar de ainda não
estarem nos níveis previstos, estão bem próximas disto. O ponto mais preocupante, em
relação ao nosso país, é o do saneamento, considerado ainda longe dos níveis ideais esta-
belecidos pela Agenda. Outra questão que deve ser levada em consideração é o fato de
que, apesar de grande parte da população ter superado a linha da pobreza, aqueles que
ainda continuam abaixo dela têm sua situação ainda mais piorada. Assim, apesar de ser
possível alcançar as metas em relação a este último ponto, ainda é preocupante a situação
daqueles que não conseguiram ser atingidos pelas políticas sociais brasileiras14.
De maneira geral, podem ser apontados como dificuldades em se atingir o previsto
para o ano de 2015: falta de conhecimento técnico/burocrático dos Estados mais afetados
pelos problemas, o que dificulta o acesso ao financiamento de projetos; dificuldade de
acesso às regiões mais isoladas pelos programas necessários para o desenvolvimento hu-
mano; impossibilidade de produção de dados confiáveis sobre determinadas situações
específicas, dentre vários outros problemas.

13
Fonte: PNUD/Brasil (www.pnud.org.br)
14
Agradeço ao professor Márcio Salvato (Departamento de Economia/PUC-Minas) por estas observações.

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28

REFORMA DA ONU
Como já foi dito, um dos principais motivos do sucesso da ONU, se comparado com o
fracasso da Liga das Nações, foi o fato daquela organização reproduzir, via Conselho de
Segurança, o jogo de forças encontrado no período do pós-Segunda Guerra Mundial.
Assim, o fato dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China possuírem assento
permanente e direito de veto fez com que estes mesmos Estados se sentissem mais à
vontade para entrar em uma Organização que, devido a este tipo de processo decisório,
jamais permitiria que uma decisão fosse concretizada sem o aval consensual das cinco
potências.
Esse mecanismo de veto, responsável pela paralisia da ONU durante o período da
guerra fria, acabou tornando-se ultrapassado no sentido de não refletir mais o jogo de
forças que encontramos atualmente entre os Estados que compõem a Organização. As-
sim, cada vez mais, a ONU recebe pressões de determinados países para que a
proporcionalidade da representação seja atualizada, que o número dos Estados que parti-
cipam do Conselho de Segurança (tanto os permanentes, quanto os não-permanentes)
seja ampliado e, até mesmo, propostas que pedem para que o direito a veto seja revisto ou
ampliado a outros membros.
Dentre vários Estados interessados nessas mudanças, podemos citar: Japão, Alema-
nha, Índia e, até mesmo, Brasil15. No caso dos dois primeiros países citados, segundo e
terceiro maiores contribuintes financeiros da ONU, respectivamente, o interesse é reflexo
de uma maior participação deles no jogo de forças internacional. No caso do Brasil,
apesar da luta por ampliação no Conselho não significar garantias de vaga para os
demandantes, é notório o papel de liderança que o país vem assumindo na América do
Sul, o que aumentaria as chances do nosso país ser o principal beneficiado de possíveis
ampliações do Conselho.
Devemos lembrar, entretanto, que qualquer mudança no número de Estados mem-
bros deve ser aprovada por dois terços dos votos da Assembléia Geral e ter a aprovação do
Conselho de Segurança. Isso faz com que qualquer mudança neste sentido somente pode-
rá ser efetivada se, em última instância, não tiver a reprovação dos Estados com assento
permanente e direito de veto.
Outra questão a ser pensada refere-se à possibilidade de aumento ou diminuição da
legitimidade da Organização das Nações Unidas a partir dessas reformas. Se, por um
lado, uma reforma no Conselho de Segurança refletiria de maneira mais fidedigna a atual
realidade internacional, o que poderia aumentar a confiança na Organização, por outro
lado, isto tornaria o processo de decisão desta instância ainda mais intrincado. A possibi-
lidade de consenso iria, naturalmente, diminuir, o que poderia, caso os Estados membros
não tenham habilidade política para negociar, levar a ONU a uma nova fase de paralisia.
De qualquer modo, a reforma da ONU é vista como inevitável, pelo menos a longo
prazo, caso a Organização queira ser reconhecida como uma arena institucional legítima
de debates e decisões internacionais. Caso as mudanças não ocorram, corre-se o risco de
perda gradativa da autoridade desta Organização que, com o passar dos anos, não sofreu
muitas mudanças estruturais para adaptar-se aos novos tempos.

15
Grupo conhecido como G4.

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29

CONCLUSÃO
Quando comparamos a Organização das Nações Unidas com a Liga das Nações, fica
patente que as duas instâncias devem ser vistas não em separado, mas, sim, como a
continuação de um esforço para gerar Segurança Coletiva. Esforço este criado a custo de
muitos erros, mas também, de significativos sucessos.
O caráter menos idealista da ONU (se comparada com a Liga das Nações) e o fim da
guerra fria possibilitaram que, nos últimos anos, esta Organização começasse a ter força
e voltasse a ser vista como instância promissora na administração das relações entre os
Estados. O incremento no número de programas vinculados à Organização, a expansão
das suas atividades em todo o mundo, e o aumento da percepção da legitimidade da ONU
contrastam com a necessidade de se superar problemas como o baixo orçamento dedicado
às suas atividades, a necessidade de se formar um corpo de funcionários e técnicos mais
preparados e encaminhamento de discussões sobre possíveis alterações nas suas estruturas.
Principalmente a partir da década de 1990, nota-se, também, uma preocupação
maior com questões relativas à segurança. Temas antes tratados apenas como questões de
cunho social e/ou econômico, passaram a ser vistos como de importância crucial para que
a paz seja alcançada. Áreas como a dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social
transitam com facilidade pelos diversos órgãos e agências da Organização das Nações
Unidas sendo tratadas sob duas ou mais perspectivas, simultaneamente. A coordenação
dessas instâncias e o encaminhamento dos procedimentos de forma eficiente, também,
são desafios a serem superados.
De maneira geral, devemos analisar as mudanças ocorridas nas Nações Unidas por
meio de um viés que enfatize o aprendizado ocorrido no percurso e, não somente, dedi-
que-se a contabilizar sucessos e fracassos. A ONU é uma organização que precisa estar em
constante adaptação aos desafios que surgem. Assim, apesar de não conseguir atingir
grande parte de seus objetivos, pelo menos faz o possível para que os bons resultados
sejam maximizados. Se a realidade internacional que conhecemos hoje não é aquela que
gostaríamos que existisse, pelo menos a ONU teve papel crucial para que esta realidade
também não estivesse pior.
Entre as perspectivas mais pessimistas, que consideram a ONU como simples
reprodutora do jogo de forças internacionais, e outras perspectivas otimistas, que deposi-
tam todas as suas esperanças no futuro da Organização, talvez tenhamos que optar pelo
meio-termo.
Segundo Dag Hammarskjold, ex-Secretário-Geral da ONU, “The United Nations
was not created in order to bring us heaven, but in order to save us from hell (1954).”16

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Até que ponto as questões dos Direitos Humanos podem ser pensadas como algo
relativo à Segurança Coletiva?

16
“A ONU não foi criada para nos trazer o céu, mas para nos salvar do inferno”. (tradução livre).

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2 . Uma possível reforma do Conselho de Segurança, com a entrada de novas potências


como membros permanentes e com direito a veto, iria facilitar ou dificultar as ações
da ONU? Justifique.
3 . Seria realmente interessante para o Brasil obter um assento permanente no Conse-
lho de Segurança? Quais as vantagens e obrigações que, provavelmente, adviriam
disso?

GLOSSÁRIO
Segurança Coletiva: refere-se à união de atores com o intuito de homogeneizar ações de
segurança. Nesta concepção, um ataque a qualquer membro daquela unidade significaria
uma agressão a todos os seus componentes.
R ealismo: paradigma teórico, das Relações Internacionais, que se contrapõe aos chama-
dos idealistas. Dentre os pressupostos que sustentam o realismo destacam-se: Estados
como principais atores internacionais; ambiente internacional anárquico, ou seja, ausên-
cia de autoridade supra-estatal, e a questão da segurança como prioridade destes Esta-
dos. Apesar do Realismo nas Relações Internacionais ter-se originado no período
entreguerras (1919-1939), suas bases podem ser encontradas em autores como Tucídides,
Maquiavel, Hobbes e Clausewitz.
Etnocentrismo: pressuposto, segundo o qual, os valores de uma determinada cultura são
superiores às demais. Esta visão faz com que os diferentes padrões culturais sejam anali-
sados e classificados em relação àquela cultura em específico.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
BERTRAND, Maurice. A ONU. Petrópolis: Vozes, 1995.
HERZ, Mônica; HOFFMAN, Andréa R. Organizações Internacionais: histórias e
práticas. RJ: Elsevier, 2004.
RYAN, Stephen. The United Nations and international politics. New York: St. Martins’s
Press, 2000.
SEITENFUS, Ricardo. Manual das organizações internacionais. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2003.
Site da ONU: www.un.org

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Capítulo 3
A HEGEMONIA DOS ESTADOS UNIDOS
José Flávio Sombra Saraiva 1

INTRODUÇÃO
O presente capítulo tem o objetivo, em primeiro lugar, de avaliar o tema da hegemonia
dos Estados Unidos da América desde suas origens, nos estertores da Segunda Guerra
Mundial, passando pela sua consolidação ao longo da guerra fria, até seu esforço de
renovação nos últimos anos. Essa é uma matéria aberta aos debates acadêmicos e práticos
relativos às relações internacionais do mundo contemporâneo. Tampouco é um assunto
apenas passível de ser avaliado com racionalidade científica. Posições ideológicas e visões
apaixonadas, em favor ou contra a hegemonia norte-americana, estão sempre presentes
quando esse tema é avaliado.
O intento, nas páginas que se seguem, é o de organizar os argumentos disponíveis,
apresentá-los de forma crítica e prover os elementos históricos e atuais essenciais à refle-
xão acerca das condições em torno das quais a hegemonia foi gerada nas relações interna-
cionais do século XX e início do XXI. Deixar espaço para a construção das opiniões e
convicções é tarefa importante na elaboração do trabalho acadêmico, nomeadamente ante
o difícil esforço de compreensão dos principais fenômenos que abraçam a vida interna-
cional do momento.
O segundo objetivo do capítulo é o de avaliar o impacto dessa hegemonia ou da
influência preponderante dos Estados na região latino-americana. Ênfase será conferida
ao caso brasileiro, tendo em vista a relação histórica que aproxima e separa um país do
outro.
Nesse sentido, o texto encontra-se dividido em quatro tópicos essenciais. No primei-
ro discute-se a dimensão histórica da hegemonia norte-americana no planeta. Avalia-se a
origem do fenômeno e seus desdobramentos na chamada guerra fria. Na segunda parte é
analisada a atualização da hegemonia dos Estados Unidos após a crise do socialismo real
e da extinção da União Soviética. A terceira parte lida as reações à hegemonia americana
durante a guerra fria e depois dela, com ênfase às reações atuais ensejadas pelos países
das regiões menos avançadas economicamente ou de Estados continentais como a China.
Finalmente, na quarta parte, estudam-se as relações da América Latina, especialmente
do Brasil, com a potência hegemônica nas Américas e no mundo.

1
Professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e diretor-geral do Instituto
Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri). Autor de mais de uma dezena de livros sobre história das
Relações Internacionais, e organizador da coletânea Relações Internacionais: dois séculos de história
(Brasília: Ibri, 2 volumes, 2001).

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32

A DIMENSÃO HISTÓRICA DA HEGEMONIA AMERICANA


O entendimento da hegemonia planetária dos Estados Unidos, como hoje verificada,
não pode ser alcançado sem um olhar sobre o processo histórico que propiciou tal situa-
ção. Seu nascedouro está umbilicalmente vinculado à grande crise do poder europeu
sobre o mundo ao longo da primeira metade do século XX.
O primeiro elemento dessa crise deriva da grande dificuldade que os Estados euro-
peus, inventores de uma primeira ordem global por eles conduzida praticamente desde o
século XIX, tiveram para manter tal sistema depois da Primeira Guerra Mundial (1914-
1918). O declínio naval da Inglaterra e a regressão econômica das potências européias,
corroídas pelo esforço de guerra, foram explorados pelos Estados Unidos. A perda gradativa
e profunda do poderio da Europa desde o colonialismo sobre a África, Ásia e América
Latina feneceu gradualmente no decorrer dos anos seguintes ao término da Primeira
Guerra.
Tais países, formuladores da ordem internacional liberal que vinha sendo gradual-
mente criada, perderam espaço no controle sobre suas colônias, protetorados ou regiões
dependentes econômica e politicamente dos centros europeus. Os britânicos, que haviam
exercido em nome da Europa certa hegemonia global no século XIX, assistiam à perda de
muitos navios mercantes e tinham seu ritmo de construção naval limitado pelo esforço de
guerra. O endividamento inglês, especialmente ante a utilização das reservas monetárias
para o pagamento dos encargos da guerra e da manutenção de um grande império plane-
tário, levou o país à quase falência.
Os Estados Unidos observavam a crise britânica com apreensão. Era a nação que
mais modernizara o capitalismo justamente nos anos anteriores à guerra. Geraram fortu-
nas nas exportações de produtos que não eram possíveis serem produzidos na Europa em
conflito. Da mesma forma, a arrancada norte-americana era, assim, sustentada na gene-
rosidade com a democracia britânica, na defesa dos seus interesses comerciais e na de-
monstração da sua força e da vontade de potência. Mesmo com algum custo, os britânicos
compreenderam o novo papel que se desenhava para os Estados Unidos no plano interna-
cional. Churchill — o velho líder inglês que levara aliados à vitória — percebera o declínio
do velho império e a emergência da nova potência atlântica.
Nascia assim, já nos anos 1940, um novo conceito: o de superpotência. Os Estados
Unidos criavam uma nova condição da inserção internacional das nações no mundo con-
temporâneo. Sua superioridade econômica, sua capacidade e sua vontade de sobrepujar
as potências européias tradicionais elevavam os Estados Unidos para o coração das deci-
sões internacionais. Essa era uma forma diferente da idéia de hegemonia coletiva que
presidira até então o ordenamento internacional, sob o controle dos europeus.
A partir de 1941, ante os movimentos japoneses de ruptura do pacto com a União
Soviética e da ocupação nipônica da Indochina, os Estados Unidos voltaram-se para o
Oceano Pacífico também. Era o início de uma política de poder mundial. Congelando os
investimentos japoneses no país e interrompendo as exportações de petróleo para o Japão,
os norte-americanos reforçaram a sua política de observação e monitoramento dos espa-
ços marítimos.
Simultaneamente, desenvolvia Roosevelt, o presidente norte-americano de então,
esforços para operacionalizar a aliança atlântica com os britânicos. Churchill e ele encon-
traram-se para conversações no navio Príncipe de Gales e no cruzador Augusta, entre 9 e

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33

12 de outubro de 1941, e assinaram a famosa Carta do Atlântico, publicada em 14 de


outubro.
Com seus oito pontos, a Carta do Atlântico era a exposição pública do desejo
hegemônico norte-americano, já durante a Segunda Guerra Mundial. As definições da
Carta falam por si mesmo. Suas proposições eram:
• a impossibilidade de modificações territoriais contra os interesses das popula-
ções envolvidas na guerra;
• o livre acesso aos mercados mundiais e aos mares;
• a autodeterminação dos povos (exceto para as situações coloniais britânicas)
• o sistema de segurança permanente.
Os termos da Carta do Atlântico eram o prenúncio da entrada, de forma definida e
com vontade de poder, na caótica quadratura das relações internacionais de então. O
sexto ponto da Carta engajava os Estados Unidos, de vez, na guerra européia. Depois de
exortar os povos à paz e à segurança, o texto fala da “destruição final da tirania nazista”.
Embora os norte-americanos não fossem ainda juridicamente beligerantes, as conversa-
ções de Churchill e Roosevelt representaram muito mais que o esforço da aliança anglo-
americana.
Buscava Roosevelt, então, um pretexto mais claro para levar a opinião pública do
seu país para o seio da guerra. Os japoneses ofereceram essa oportunidade. Depois do
embargo petroleiro dos Estados Unidos ao Japão e das tentativas diplomáticas lideradas
pelo príncipe japonês Konoye para resolver as diferenças por via das negociações, os
japoneses reacenderam a chama do nacionalismo e das conquistas das regiões ricas em
petróleo da China e da Indochina.
Pearl Harbor, nas ilhas do Havaí, não era o pretexto procurado por Roosevelt, que
imaginava ataques japoneses nas Filipinas. O ataque japonês à base norte-americana, em
7 de dezembro de 1941, comoveu a opinião pública norte-americana. 0s 86 navios perdi-
dos e mais de três mil homens mortos e feridos levariam os Estados Unidos para o
coração da Segunda Guerra Mundial. Em dezembro de 1941, os Estados Unidos uniam
as duas guerras paralelas, a da Ásia e a da Europa, em uma só. Transformavam-se, assim,
no centro do mundo.
Assumiam os norte-americanos a responsabilidade internacional de administrar a
crise européia já referida, a contenção da emergência do Japão na Ásia e o enfrentamento
direto do flanco oriental da guerra aos cuidados da União Soviética. Nascia a política de
superpotência. Os Estados Unidos, enfim, ajustariam a condição de superpotência eco-
nômica que já eram, de fato, à vontade política de intervir em forma planetária. Emergia
um novo ciclo hegemônico ao Ocidente, nos estertores da Segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, os Estados Unidos estavam prontos para o exercício da sua hegemonia
ocidental, como grandes vitoriosos e patrocinadores da reconstrução da Europa destruída.
Foi essa a brecha para a busca da hegemonia global. O multilateralismo econômico, uma
necessidade que se impunha aos norte-americanos diante da iminência de crise da produ-
ção industrial e da recessão que elevara a população de desempregados de cerca de 2,5
milhões para 8 milhões desde o final de 1945, só seria possível com uma política de
poder verdadeiramente mundial.

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O novo conceito de superpotência correspondia, assim, à conjugação da capacidade


econômica de exercer forte multilateralismo econômico com a vontade de construção de
uma grande área sob a influência dos valores do capitalismo. Para os Estados Unidos, a
política de poder mundial era um corolário dos dois elementos anteriores. Os líderes demo-
cratas, mais que os republicanos, tinham essa noção na segunda metade dos anos 40.
A hegemonia norte-americana no mundo não foi, portanto, uma meta exclusiva-
mente ideológica da nova diplomacia do presidente Truman e seus auxiliares Marshall,
Acheson e Kennan. As forças mais profundas, que alimentaram a guerra fria, ao lado dos
Estados Unidos, foram constituídas no ambiente econômico. A política industrial e fi-
nanceira do girante associava-se à luta do anticomunismo, ingrediente fundamental da
prelação doméstica da guerra fria.
A formulação de doutrinas hegemônicas, tanto no plano político quanto no campo
econômico, para contenção dos soviéticos na esfera global foi, também, uma característi-
ca forte das décadas do pós-guerra. Os planos econômicos de reconstrução das áreas
atingidas pela guerra mundial e consideradas vulneráveis à influência soviética, assim
como a constituição de uma grande aliança militar ocidental, foram partes constitutivas
de um único objetivo dos Estados Unidos. Liderando um dos lados do condomínio, a
superpotência ocidental procurava assenhorear-se de mais espaços econômicos, políticos
e ideológicos no cenário internacional do pós-guerra.
A Doutrina Truman foi a primeira clara formulação da hegemonia política norte-
americana, com caráter universalista, nos tempos da guerra fria. Concebida às pressas, de
maneira quase atabalhoada, 1947, no contexto das dificuldades da Inglaterra em manter
a ajuda aos regimes anticomunistas instalados na Grécia e na Turquia. A estagnação do
velho império britânico, agravada pelas contingências do racionamento e dos altos níveis
de desemprego e de desindustrialização, era visível. Sua capacidade de intervir em ques-
tões internacionais foi reduzida enormemente.
O discurso do presidente Truman no Congresso foi uma peça primorosa da dimen-
são messiânica que os Estados Unidos conferiram ao seu novo lugar hegemônico. Insistiu
o presidente que todas as nações teriam que enfrentar uma escolha fundamental entre
duas formas de vida. A primeira, aquela que primava pelas instituições livres e governos
representativos. A segunda, a sustentada na vontade da minoria sobre a maioria.
Para Truman, apesar de muitas escolhas não estarem sendo conduzidas de forma
livre, restava ainda a possibilidade de a política exterior dos Estados Unidos apoiar os
“povos livres que estão resistindo ao jugo de minorias armadas ou pressões externas”. A
doutrina, fundamentada na concepção de lideranças dos norte-americanos, expunha a
crença de que se o país fracassasse na missão haveria perigo à paz e à segurança da nação.
A mensagem de Truman virou doutrina e associou-se à idéia de uma declaração
informal de desafio à União Soviética. Alguns dos assessores de Truman trataram poste-
riormente de minimizar o tom emocional da mensagem presidencial vinculando-a a uma
circunstância precisa. Na prática, no entanto, a força doutrinal das idéias daquele discur-
so ecoou muitos anos depois na imaginação política do gigante ocidental. Foi a Doutrina
Truman a construção discursiva mais importante da afirmação da hegemonia norte-ame-
ricana no século XX.
Mas ela ainda foi acompanhada por dois outros instrumentos. O primeiro foi sua
tradução econômica no Plano Marshall. O segundo foi o desdobramento militar da lide-

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rança ocidental norte-americana na guerra fria com a criação da Organização do Tratado


do Atlântico Norte (Otan).
O Plano Marshall, o apresentado em forma de aula inaugural na Universidade de
Harvard pelo secretário de Estado George Marshall em 5 de de junho de 1947, foi o
braço econômico da Doutrina Truman. Marshall anunciou naquela ocasião uma série de
ações voltadas para a orientação da presença norte-americana na reconstrução econômica
da Europa Ocidental. O Congresso reagiu cautelosamente ao projeto que prometia “ajuda
às instituições livres”, como definira o secretário.
Nada impediu, no entanto, que entre 1947 e 1951 fosse implementado valor da
ordem de US$ 17 bilhões, em valores da época, para o revigoramento da Europa. O
montante da ajuda norte-americana no contexto do Plano Marshall, organizado em torno
de empréstimos vinculados à compra de produtos daquele país e de outras modalidades
de financiamento da produção européia, permitira o soerguimento gradual da Europa
Ocidental.
O desdobramento militar da hegemonia norte-americana na guerra fria foi a criação
da Otan, em 4 de abril de 1949. Expressão estratégica da febre anticomunista das lide-
ranças daquele país, a Otan foi proposta por Truman para agrupar 12 nações ocidentais
em torno de um pacto de defesa contra as possíveis agressões militares soviéticas.
Após intensos debates no Senado norte-americano, a criação da instituição foi aceita
pelo Congresso. O grande compromisso dos Estados Unidos com a Otan foi o de promo-
ver a criação de um certo escudo atômico sobre a Europa Ocidental. Eclipsavam os norte-
americanos e, de forma definitiva, as práticas isolacionistas do passado.
Criada para reagir a qualquer ataque armado contra os membros da aliança na Eu-
ropa e na América do Norte, a Otan estabelecia como princípio básico a defesa coletiva
das liberdades democráticas dos países capitalistas. O exagero da pregação liderada pelos
Estados Unidos justificaria o rearmamento da Alemanha e o endurecimento das posições
nacionalistas. O alarme da iminente ameaça comunista, no entanto, nunca correspondeu
ao compasso dos fatos internacionais.
Quando Truman deixou a Presidência, no começo de 1953, para cedê-la a Eisenhower,
a guerra fria já havia assumido proporções globais. A reforma da organização militar
norte-americana, que se havia estendido a um sistema mundial unificado de defesa e a
instituições de coordenação internacionais, era acompanhada pela luta interna contra o
comunismo e pela criação de leis e instituições domésticas adaptadas ao clima da guerra
fria. A Lei de Segurança Nacional, o Departamento de Defesa, a CIA e o Conselho de
Segurança Nacional expressavam o quanto a guerra fria alimentava o sistema político
norte-americano em suas ambições de polícia do mundo.
Foram essas as bases do exercício hegemônico dos Estados Unidos desde o final da
Segunda Guerra Mundial, passando por todas as crises da guerra fria, até os fins do
século XIX, em contraste com a superpotência oriental, a União Soviética. A queda do
Muro de Berlim e o fim da União Soviética viriam, apenas parcialmente, alterar o peso
dos Estados Unidos nas relações internacionais contemporâneas.

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A RENOVAÇÃO DOUTRINÁRIA DA HEGEMONIA NO


PÓS-GUERRA FRIA
Dois fenômenos internacionais iriam alterar parte da balança de poder internacional
no final do século XX: a crise profunda da experiência socialista na União Soviética e seus
vizinhos na Europa Oriental e a derrubada do Muro de Berlim, símbolo da guerra fria.
Que impacto esses fenômenos tiveram para a revisão prática e doutrinária do esforço de
afirmação da hegemonia norte-americana no mundo?
Resta pouca dúvida que, durante a maior parte do pós-guerra, os Estados Unidos
detiveram claramente a hegemonia econômica mundial e, em grande medida, também a
hegemonia político-estratégica sobre o Ocidente. A primeira era garantida pela capacida-
de de exercer domínio sobre seus parceiros econômicos, comerciais e tecnológicos. Insti-
tuições como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o sistema do Gatt
serviram a esse desiderato. A segunda era garantida por um bem organizado sistema de
alianças regionais em várias partes do mundo.
Em todo caso, não se pode dizer que a hegemonia norte-americana fosse tão
universalista quanto a ideologia hegemônica dos Estados Unidos propunha. A nova dire-
ção dada à busca de universalismo na hegemonia americano padeceu do problema do
campo ideológico encerrado com a crise da União Soviética. O final do século XX e início
do século XXI assistiria ao fim do experimento socialista como área articuladora de um
sistema socioeconômico concorrente ao domínio tradicional da área capitalista e liberal
liderada pelos Estados Unidos.
Assiste-se, de forma nítida, a partir dos anos 80, a uma grande ruptura que levaria
ao desmembramento do outro lado da hegemonia norte-americana: a queda do peso
geopolítico e ideológico da União Soviética. A dissolução do sistema soviético, cujas es-
truturas tinham sido consideradas relativamente rígidas por parte do Ocidente, facilitou
o fim da guerra fria e a transição da bipolaridade rígida do sistema internacional para
uma nova situação de relativo equilíbrio entre velhas e novas potências. Mas permitiu
igualmente engendrar uma nova fase da hegemonia norte-americana, desta vez ancorada
na força da economia política da globalização e da capacidade de agir dos Estados Unidos,
em forma planetária. E isso seria feito com base na sua extraordinária plataforma cientí-
fica e tecnológica, bem como no redimensionamento de sua capacidade militar, estratégi-
ca e econômica.
A queda do Muro de Berlim em outubro de 1989 e a chegada de George Bush à
Presidência dos Estados Unidos em 18 de janeiro de 2001 se interligam. A primeira é o
símbolo histórico do fim da guerra fria. A segunda é o lançamento de um novo ciclo de
retomada da hegemonia norte-americana, sem um inimigo oriental como fora a União
Soviética, mas em favor do controle econômico de fontes energéticas fundamentais ao
capitalismo norte-americano, ante a eventual elevação de novas formas de contenção
ao poder norte-americano no mundo, especialmente vindo da Ásia.
Assiste-se, de janeiro de 2001 aos dias atuais, a uma nova formulação gradualista,
mas assertiva, de formulação de uma nova doutrina hegemônica que foi posta em mar-
cha, claramente, a partir do ataque organizado por grupos islâmicos aos Estados Unidos
em 11 de setembro de 2001. A invasão do Afeganistão e a tomada do Iraque pela força

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militar por parte dos Estados, com ajuda de alguns poucos países, expressa a nova formu-
lação doutrinária da hegemonia norte-americana.
Sua base política está em certo “conservadorismo compassivo”, conforme lançamen-
to da campanha presidencial do Partido Conservador ao poder presidencial nos Estados
Unidos em agosto de 2000. Sua base ideológica está nos chamados neoconservadores que
acompanharam a trajetória política do presidente George Bush. Um deles, o vice-presi-
dente Richard Cheney, votou no Congresso norte-americano, antes de chegar ao poder
vice-presidencial, em favor da legalização das mortíferas balas de uso criminal conhecidas
como cop killer bullets, contra as propostas de políticas de auxílio educativo às crianças,
contra as sanções ao apartheid sul-africano, além de ter dirigido ainda no governo de
George Bush (pai), na condição de seu secretário da Defesa, a primeira guerra contra o
Iraque.
As relações de Cheney com empresas como a Halliburton, uma das maiores em-
presas norte-americanas de tecnologia para exploração de petróleo, com vendas anu-
ais da ordem de US$ 15 bilhões, em sua chegada à vice-Presidência, é elucidativa dos
novos contornos do exercício da hegemonia norte-americana no contexto global. En-
cerrada a tensão ideológica anterior que justificava a formação do colosso norte-ame-
ricano para combater o comunismo, a nova forma adquirida pela hegemonia — seguindo
a escola de pensamento de Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, entre outros neoconservadores
vinculados à administração Bush — é a associação do controle das fontes petrolíferas
às novas formas de movimentações geopolíticas para evitar desafios à sua hegemonia
norte-americana.
Um dos meios para melhor afirmar a soberania e autonomia do capitalismo norte-
americano, braço essencial à preservação da capacidade de agir de forma hegemônica no
cenário internacional, é a necessidade de manter e ampliar a rede de interesses econômi-
cos globais que alimenta a economia norte-americana. Daí a associação de temas como o
“combate ao terrorismo” às táticas de contenção dos avanços dos interesses de acesso de
países de capitalismo mais atrasado, mas competitivos em vários produtos de exportação,
ao mercado estadunidense. A experiência da Conferência de Comércio da Organização
Mundial do Comércio, em Cancun, no México, em 2003, foi emblemática na associação,
para a inteligência norte-americana no poder na era Bush (filho), das dimensões econômi-
ca, política e estratégica do novo conceito de hegemonia.

DESAFIOS À HEGEMONIA AMERICANA: A OUTRA


SUPERPOTÊNCIA NA GUERRA FRIA, O ÂNGULO EUROPEU, A
GRADUAL ELEVAÇÃO DA ÁSIA, O INTEGRISMO ISLÂMICO E A
CONSTRUÇÃO DE ALIANÇAS AO SUL
Mas nem tudo que é proposto de forma hegemônica é aceito hegemonicamente por
todos. Daí historicamente poder-se observar desafios à hegemonia norte-americana no
cenário global. Tanto há uma fase na guerra fria na qual esse fenômeno ocorreu, dentro e
fora da disputa interimperial entre as superpotências, quanto nas relações internacionais
de hoje.

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No primeiro caso, na fase da guerra fria, é visível que a flexibilização da ordem


bipolar foi também uma das características marcantes daquele período. Apesar das gran-
des crises internacionais presenciadas nos anos 50, 60 e 70 do século passado, as duas
superpotências já não operavam com os princípios da guerra fria típica dos anos 40 e da
primeira metade dos anos 50. A coabitação pacífica, alimentada pela percepção da capa-
cidade destrutiva que carregavam com seus armamentos atômicos, e as forças profundas
que vieram alimentar os novos movimentos nas relações internacionais evidenciaram a
imperfeição do modelo bipolar.
A coexistância pacífica, definida temporalmente entre 1955 e o final dos anos 60,
foi o segundo momento da ordem internacional do pós-guerra. Outro, nos anos 70, seria
já de relativa distensão (détente) entre os Estados Unidos e a União Soviética. Por outro
lado, é evidente que a coexistência pacífica e a détente foram momentos de um curso mais
profundo em que sobressaía a perda de importância relativa das superpotências nas defi-
nições do jogo internacional.
É esta, certamente, a raiz da idéia de que pode haver certo desafio à hegemonia
norte-americana mesmo naqueles tempos de guerra fria, da coexistência pacífica e de
détente. Cinco grandes movimentos realizaram-se na cena internacional daquelas fases,
com grande impacto na diminuição da capacidade hegemônica dos Estados Unidos. São,
a saber:
Em primeiro lugar, ocorreu a elevação do tom da fala da Europa nas relações inter-
nacionais. O quadro dramático dos anos imediatos veio sendo superado gradualmente na
Europa. O êxito dos investimentos e doações norte-americanas por meio do Plano Marshall,
associado à capacidade e à vontade de reconstrução, lenta e declaradamente, levou a
Europa para o coração das relações internacionais nos anos 50 e início dos anos 60, até os
dias de hoje, com a conformação da União Européia.
Em alguma medida, a criação contínua européia permitiu, ao longo de algumas
décadas, o soerguimento do continente e a reinserção ativa dos Estados europeus no
coração das relações internacionais contemporâneas, muitas vezes sem o consentimento
das vontades hegemônicas dos Estados Unidos. Exemplos são muitos, historicamente.
Embora sem contestar os parâmetros da guerra fria, essa emergência da Europa colocava
novos desafios à ordem internacional, porquanto deslocava a competição do terreno do
liberalismo universal e ilimitado proposto pelos Estados Unidos para o dos mercados
organizados e, até certo ponto, protegidos.
O segundo movimento de desafio à hegemonia norte-americana emana da própria
flexibilização intra-hegemônica ocorrida ao longo dos tempos da guerra fria e mesmo
depois. O fim da cruzada redentora liderada pelos “fanáticos” da guerra fria no imediato
pós-guerra, descritos na primeira parte deste capítulo, mudou gradualmente o perfil da
política exterior dos Estados Unidos. O experimento da Guerra da Coréia, bem como da
Guerra do Vietnã, mostrara que grande volume de bombas e maciços investimentos na
indústria do policiamento mundial não eram suficientes para construir a legitimidade
internacional da hegemonia norte-americana. Essa mudança de percepção apareceu, por
exemplo, na administração Eisenhower, nos anos 1950, e, em certa medida, na adminis-
tração Clinton, nos anos 1990.
O terceiro movimento de flexibilização e desafio à hegemonia norte-americana vin-
cula-se, em toda a grande fase de construção do poder dos Estados Unidos na cena global
do pós-guerra, aos processos de descolonização dos povos e nações afro-asiáticas. Surgi-

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ram novas constelações de países que não queriam ser, de nenhuma maneira, encapsulados
pelos tentáculos hegemônicos da superpotência ocidental.
Foi esse um elemento crucial no novo cenário mundial. A multiplicação repentina
de um número de Estados com soberania formal, ainda que muito atrasados sob o ponto
de vista do desenvolvimento industrial e nas condições sociais e distribuição da renda
interna, viria modificar gradualmente o quadro de poder formal dos organismos interna-
cionais como as Nações Unidas. A politização ampliada dos organismos multilaterais foi
uma conseqüência natural das vontades de participação daqueles países, em pé de igual-
dade jurídica, com as chamadas nações fortes, as ex-metrópoles e também a força
hegemônica dos Estados Unidos. Inúmeros exemplos podem ser dados nessa direção,
desde os movimentos dos países autodefinidos como “não-alinhados” aos Estados Unidos
ou à União Sovética, bem como às coalizões internacionais advindas do chamado “grupo
dos 77” ou mesmo mais recentemente nos novos esquemas de coalizões ao Sul como o
“grupo dos 20” ou o “G3”, entre outros.
Um quarto movimento, e que será desenvolvido na última parte deste capítulo, mas
que já merece menção na explicação, é o da articulação própria de alguns países da Amé-
rica Latina — chamada muitas vezes de “quintal” do exercício hegemônico pelos Estados
na história —, no sentido da busca de um modelo de inserção autônomo em suas políticas
exteriores.
A chamada “Política Externa Independente” (1961-1964) no Brasil ou a política
externa autonomista do presidente argentino Arturo Frondizi (fins dos anos 1950 e iní-
cio dos 1960) procuraram mostrar que a América Latina começava a construir seus
próprios interesses na inserção internacional do período. Mesmo na área nuclear, com o
Tratado de Tlatelolco, que propunha a pesquisa em área atômica apenas para fins pacífi-
cos na região latino-americana, houve certo desafio ao clube atômico dirigido pelos Esta-
dos Unidos e União Soviética. A evolução da idéia de “quintal” da superpotência hemisférica
para uma noção moderna de alinhamento negociado, pragmático, calculado foi uma con-
quista conceitual dos movimentos de esforço de relativa independência das políticas exte-
riores de países como a Argentina, o Brasil e mesmo o México nos anos 1970.
Um quinto e último movimento, já importante nos anos 1960 e 1970, portanto
antes do fim formal da guerra fria, e que arrefeceu o ânimo hegemônico dos Estados
Unidos, advém da formulação diplomática e gradual do conjunto de regras internacionais
voltadas para a diminuição gradual do monopólio nuclear. O bizarro equilíbrio nuclear,
perpetrado na guerra fria, foi criticado pela comunidade internacional. O medo generali-
zado, cristalizado na opinião pública mundial, da iminência de uma terceira guerra mun-
dial, foi o substrato societário que levou líderes europeus e das superpotências a chegar a
certos acordos mínimos como o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (o TNP)
ou os planos Salt I e II.
Esses cinco movimentos, entre outros, juntos, interligados, tenderam a atenuar o
exercício hegemônico dos Estados Unidos na guerra fria. Em alguma medida, tais aspec-
tos amenizaram, mesmo, a dicotomia entre os Estados Unidos e a União Soviética. Per-
mitiram abrir brechas para experiências de reacomodação de forças e da balança de poder
que seria gradualmente vertida para mais flexibilidade e menos bipolaridade.
De certa forma, o mundo pós-derrubada do Muro de Berlim é também caudatário
dessas histórias anteriores, que seguem trazendo conseqüências para o reordenamento glo-

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bal pós-guerra fria. Novos movimentos, no entanto, vêm ganhando força nos últimos anos
em relação ao desafio da capacidade de agir dos Estados Unidos no meio internacional.
Há, em primeiro lugar, um grande debate aberto em torno do integrismo islâmico,
ou seja, da forma em torno da qual as múltiplas e diversas sociedades, no Ocidente, no
Oriente Médio e em partes da Ásia e da África, com grande força demográfica, vêm
reivindicando a defesa dos seus valores e da liberdade de organizar o espaço do poder, da
economia e da sociedade diferente dos valores e das formas defendidas pela superpotência
hegemônica. Para vários autores, de correntes liberais e pró-norte-americanos, essa é a
nova guerra fria, esse é o novo muro que separa as relações internacionais contemporâne-
as, o novo foco de tensão internacional.
Sem valorizar em excesso essa tensão, há certamente um desafio à hegemonia ame-
ricana que vem dessas áreas e dessas concepções. Países importantes do mundo islâmico
se sentem atingidos em seus objetivos e projetos de desenvolvimento ante a volúpia
hegemônica do governo Bush e eventualmente das empresas e setores da sociedade norte-
americana. Esse é um debate carregado com forte tintura ideológica, mas que merecerá
melhor acompanhamento no pensamento crítico nos próximos anos.
Em segundo lugar, há também uma força que emerge do chamado Sul nas relações
internacionais e que se relaciona à forma inédita na qual grandes Estados ao sul do
Equador, países em desenvolvimento como a China, a Índia e o Brasil, mas também
países como a África do Sul, a Argentina, a Indonésia, entre outros, vêm ensaiando e
pondo em prática, coalizões e alianças políticas com efeitos econômicos e políticos para a
hegemonia norte-americana.
Tema que também levará algum tempo para ser depurado, mas com bastante rele-
vância para a discussão epistemológica das relações internacionais de hoje e que devem
levar o pensamento crítico à discussão de se a ordem internacional contemporânea, ten-
dente à polarização hegemônica em torno dos Estados Unidos, não estaria assistindo a
uma rápida mudança na direção multipolar. Qual o peso de uma nova conformação
geopolítica na qual especialmente a China já estaria alcançando papel de grande potência
aglutinadora de satélites na Ásia?
Da mesma forma, qual o peso da Europa ampliada, apesar das dificuldades que
enfrenta para avançar seu projeto de integração? Qual o peso do segundo conglomerado
científico-tecnológico e estratégico do mundo ante a hegemonia norte-americana? São
perguntas que deverão ser melhor estudadas, ao longo dos próximos anos, para o melhor
entendimento dos próprios limites e do movimento, ascendente ou descendente, da
hegemonia exercida pelos Estados Unidos nas relações internacionais contemporâneas.

O BRASIL, A AMÉRICA LATINA E A HEGEMONIA DOS


ESTADOS UNIDOS
Há uma vontade de restabelecer novos padrões de exercício da hegemonia norte-ame-
ricana na América Latina no início do século XXI? Qual o peso do Brasil neste novo
quadro? Essas são as duas perguntas que a parte final deste capítulo procura tratar. O
quadro empírico para a observação são os dados, fatos e discursos pronunciados por autori-
dades norte-americanas e latino-americanas em visita recente ao ambiente regional.

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A visita da secretária de Estado dos Estados Unidos ao Brasil, em fins de abril de


2005, se insere no contexto de retomada do interesse da política externa daquela super-
potência em relação à América Latina. A visita, um mês depois da estada de outra alta
autoridade daquele país — o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, de forma bastante
discreta, em Brasília — confirma essa nova ênfase do segundo governo Bush em suas
relações com a região meridional das Américas.
Essa nova ênfase do governo norte-americana para o Brasil não pode ser entendida
sem localizá-la na retomada da própria política latino-americana da segunda administra-
ção Bush. Na primeira administração, por razões múltiplas, a América Latina havia
ficado menor no quadro de interesses da política externa daquele país à luz dos esforços
concentrados mais nas questões atinentes aos desdobramentos do 11 de setembro e da
guerra do Iraque.
A ampliação do interesse gradual em relação à América Latina nesse novo tempo
tem dois objetivos:
• primeiro, reforçar os laços da presença dos Estados Unidos na formação de uma
opinião pública latino-americana mais favorável à reinserção internacional da-
quele país na ordem global, após os desgastes internacionais advindos da políti-
ca unilateral praticada no primeiro governo Bush e a crescente onda de
antiamericanismo que vem se observando especialmente na região sul-americana;
• segundo, modificar o curso tático em relação aos novos governos de cunho ideo-
lógico mais à esquerda, administrando as diferenças para bem agir na região e
estabelecendo certa observância vigilante dos passos empreendidos por esses es-
tados, como a Venezuela, a Argentina, o Uruguai e o Brasil.
Por que o Brasil foi o epicentro da visita da secretária de Estado norte-americana?
Apesar de ter visitado outros dois países da região, sempre por poucas horas, o Brasil,
como ela mesma insistiu em lembrar às elites brasileiras, é o lugar da ênfase da revisão
dos termos da política norte-americana para a região. As razões são as seguintes:
• primeiro: o Brasil — apesar de não ser um país “plenamente confiável” para os
Estados Unidos por ter sempre agido, historicamente, pela via do ensaio de
brechas na hegemonia norte-americana para poder ampliar seu espaço de mano-
bra internacional e aliviar suas vulnerabilidades e a dependência econômica e
política em relação à superpotência — apresenta-se agora aos Estados Unidos
como um país confiável. O Brasil de Lula quer ser visto no mundo, mantendo
uma relação cordial e cooperativa com os Estados Unidos, como um país “ba-
leia” que passou a aceitar, de forma mais pública e natural, seu esforço de apre-
sentar-se à comunidade das nações como líder da região sul-americana (a
movimentação diplomática pela formação do G4 e a obsessão pela entrada do
Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas
exemplifica, sem dúvida, esse esforço de se fazer mais presente na cena global);
• segundo: o Brasil — apesar do seu governo ter uma forte bagagem ideológica no
campo da esquerda — vem cumprindo os contratos internacionais de
refinanciamento da dívida externa e vem ampliando os espaços de investimento
confiável da banca internacional controlada estrategicamente pelos interesses
norte-americanos, sem esquecer que a elevadíssima taxa de juros do Brasil

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(a maior do mundo hoje, superior a da Turquia e da Rússia) vem sendo um fator


de atração de investimentos dos chamados “capitais voláteis” e “investimentos
diretos” norte-americanos no país (o maior investidor isolado na economia bra-
sileira ainda são os Estados Unidos, conforme os dados mais recentes do Banco
Central);
• terceiro: o Brasil — na percepção dos tomadores de decisão nos Estados Unidos
na era Bush filho — vem exercendo um fundamental papel de “estabilizador de
potenciais conflitos” ou “observador privilegiado confiável” nos conflitos já exis-
tentes na região sul-americana, especialmente no caso da Venezuela, mas tam-
bém nos casos do Equador, Bolívia e, segundo plano, no caso da Colômbia, no
qual os Estados Unidos estão particularmente envolvidos;
• quarto: o Brasil — apesar de sua auto-suficiência energética, particularmente
com o gigantismo econômico da Petrobras e seus históricos esforços no campo
hidroelétrico — vem ampliando seus interesses no campo da ampliação da capa-
cidade estratégica na área energética, especialmente com seus interesses no pe-
tróleo da Venezuela e no gás da Bolívia (a maior empresa estrangeira nesse país
é a Petrobras, o Brasil produz cerca de 20% do PIB boliviano);
• quinto: o Brasil — apesar de não tratar mais o tema da Alca como uma espada de
Dâmocles e na forma do plebiscito do “sim” versus o “não” — vem mantendo
uma posição “bastante reticente”, particularmente o setor do Itamaraty e menos
o setor do Ministério do Desenvolvimento e do Comércio Exterior (MDIC), em
relação à necessidade de acelerar negociações nesse campo;
• último, embora nem menos importante: a preocupação norte-americana em
monitorar iniciativas brasileiras como a Cúpula da América do Sul com os Paí-
ses Árabes — temerosos de que o evento se tornasse um libelo contra Israel e a
ocupação norte-americana do Iraque.
No que se refere ao tema da confiabilidade no Brasil e o caminho que está sendo
trilhado pela política externa do Brasil, os Estados Unidos parecem relativamente sa-
tisfeitos com os movimentos do Itamaraty. Mantém o Brasil a tradição não conflitiva
com os grandes interesses dos Estados Unidos na cena global, procurando não irritar a
diplomacia de Washington, mas enveredar pelos próprios caminhos da defesa dos inte-
resses do país.
A respeito do tema da estabilidade na região sul-americana, parecem manifestar
muita satisfação os norte-americanos pela capacidade gerencial da diplomacia brasileira
de administrar crises acumuladas e em gestação na região. A movimentação do Brasil,
nesse sentido, além de reforçar a liderança brasileira na região, não é incompatível com os
interesses norte-americanos de não se desgastarem mais em outras regiões do globo, após
o fiasco da invasão do Iraque. Em outros termos, o Brasil é quem se desgasta, se for o
caso, mas mantém a disciplina e a tranqüilidade na região.
Na área econômica, parece ter demonstrado a secretária de Estado grande contenta-
mento com o encaminhamento da estabilidade macroeconômica do Brasil, que viu seu
PIB elevado à condição de décima segunda economia do mundo em 2004, elevando em
três o ranking nas posições das grandes economias globais, depois dos EUA, Japão, Ale-
manha, das economias nacionais de grande porte, como as da França, Grã-Bretanha,

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Itália e China, ao lado quase das economias do Canadá, da Rússia, Índia, Coréia do Sul,
Espanha.
No que tange ao tema petrolífero à formação do eixo estratégico Brasil-Venezuela há
preocupação por parte do governo norte-americano. Ao mesmo tempo no qual reconhece-
se o papel do Brasil de “estabilizador das crises domésticas” naquele país e da capacidade
mediadora já demonstrada, além de “disciplinadora” dos excessos do presidente Chávez,
a diplomacia de Lula estaria indo além, protegendo Chávez, permitindo a ampliação do
raio de ação do presidente venezuelano, aceitando mansamente a compra de armas e
aviões (portanto a militarização do regime anfictiônico bolivariano) por parte da Rússia e
da Espanha, bem como afiançando, pelo silêncio, as auspiciosas relações bilaterais Cuba-
Venezuela. Parece, nessa matéria, haver diferenças entre o enfoque de Washington e de
Brasília.
Com relação ao tema boliviano e equatoriano, a secretária de Estado parece haver
compreendido bem e até registrado, com regozijo, o esforço brasileiro de não deixar as
crises se alastrarem, agindo rápido, reforçando os eixos de integração na América do Sul
não apenas no econômico, mas também na área das conversações políticas de alto nível. O
asilo político concedido pelo Brasil ao ex-presidente Gutiérrez, do Equador, foi bem rece-
bido pela alta funcionária da administração Bush.

CONCLUSÃO
O capítulo procurou passar em revista, por meio de uma visão evolutiva, os princi-
pais momentos da formação da hegemonia dos Estados Unidos nas relações internacio-
nais contemporâneas. A ênfase à busca de objetiva histórica levou a que o autor não
deixasse de avaliar os movimentos anti-hegemônicos empreendidos em diferentes
temporalidades e regiões do mundo. Destacou-se, em especial, o argumento de que a
hegemonia variou de tempo em tempo e teve suas proporções modificadas em torno dos
diferentes cursos históricos.
Apesar da guerra fria ter sido o momento crucial para o exercício da forma mais
conhecida da hegemonia exercida pelos Estados Unidos no século XX, em contraposição
à hegemonia soviética, uma nova forma de hegemonia tomou conta da ação externa da-
quele país no período pós-guerra fria. O capítulo observou, em especial, a dimensão eco-
nômica e geopolítica dessa nova forma hegemônica. Mas também a vinculou às dimensões
da política interna dos Estados Unidos, especialmente ao grupo político que chega ao
poder com o presidente George Bush filho em 2001.
Ao final, a relação da hegemonia norte-americana com o contexto latino-americano
mereceu tratamento especial. Vários aspectos recentes relativos ao novo interesse
hegemônico da superpotência hemisférica na região, em especial ante a gradual amplia-
ção de liderança brasileira no espaço sul-americano, são avaliados.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Explique o surgimento da hegemonia dos Estados Unidos nas relações interna-
cionais contemporâneas, considerando a sua evolução desde a guerra fria e até os
nossos dias.

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2. Explique a natureza das coalizões de países e dos movimentos que procuram desa-
fiar a hegemonia norte-americana nas relações internacionais contemporâneas.

GLOSSÁRIO
Apartheid: regime político, econômico, social e jurídico que existiu na África do Sul no
século XX e que supunha que o desenvolvimento deveria ser organizado em termos de
segregação racial.
pacífica: momento da evolução das relações entre os Estados Unidos e a
Coexistência pacífica
União Soviética, nos anos 50 e parte dos anos 60 do século XX, baseado na idéia da qual
não se deveria caminhar para confronto aberto entre as duas superpotências nucleares
sob a pena de destruição global.
Cop killer bullets
bullets: balas mortíferas e perversas que, utilizadas pela polícia dos Estados
Unidos, mas também por bandidos, causaram mais vítimas entre os próprios policiais.
Détente
Détente:: momento da evolução das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética,
mas também envolvendo a Europa Ocidental, de distensão política e direto controle dos
arsenais nucleares dos outros, além da promoção de uma política de diminuição dos
próprios arsenais.
Integrismo: filosofia que integra o Estado e a sociedade a Deus, articulando a identidade
Integrismo
do indivíduo entre esses três vetores.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
FUENTES, Carlos. Contra Bush. Buenos Aires: Aguilar, 2004.
GADDIS, John Lewis. We now know. Rethinking cold war history. Oxford: Clarendon
Press, 1997.
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos
(de Collor a Lula, 1990-2004). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
KAGAN, Robert. Paradise & Power: America & Europe in the New World Order.
London: Atlantic Books, 2003.
SARAIVA, José Flávio S. (Org.), Relações Internacionais: dois séculos de história —
entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias). Brasília: Ibri, 2001.

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Capítulo 4
A EUROPA, SEUS ORGANISMOS E SUA
INTEGRAÇÃO POLÍTICO-ECONÔMICA
Antônio Carlos Lessa *

INTRODUÇÃO
A União Européia é atualmente uma entidade formada por 25 países, que comporta
cerca de 500 milhões de pessoas, e se estende por quase 4 milhões de quilômetros qua-
drados, nos quais são faladas mais de 20 idiomas. É um dos maiores mercados consumi-
dores do mundo, tendo o terceiro maior padrão de vida, atrás apenas dos Estados Unidos
e do Japão. É uma economia tão grande, rica e complexa quanto a norte-americana, sendo
os seus produtos internos brutos equivalentes. As suas importações e exportações
correspondem a um quinto do total das correntes do comércio internacional.
Em poucas palavras, a União Européia é uma verdadeira superpotência dos dias
atuais, com condições de influenciar de modo decisivo os rumos políticos e econômicos
das relações internacionais contemporâneas. Por isso, o estudo da dinâmica de integração
que se processa no continente europeu desde os anos 50 do século XX é verdadeiramente
estratégico. Como se construiu essa extraordinária história de sucesso? Como o continen-
te que saiu destruído da maior guerra da história contemporânea pôde se transformar
nesta potência? Quais os desafios que o futuro guarda para os europeus? Quais lições
podem ser aprendidas com a experiência européia?
Neste capítulo, propõe-se uma apresentação geral da evolução do processo de
integração na Europa, o que se fará à medida em que se comenta o nascimento das
instituições que hoje compõem a estrutura organizacional da União Européia, e os pro-
cessos de negociação dos seus tratados constitutivos.

UMA IDÉIA DE EUROPA — OS PRIMÓRDIOS DA INTEGRAÇÃO


A idéia da união da Europa se confundiu durante muito tempo com a da própria
organização do mundo, em uma assimilação que então se justificava pelo fato de que no
Velho Continente se resumiam o mundo conhecido e o mundo útil. As primeiras iniciati-
vas de organização de uma ação comum voltada para a segurança e a concertação política
na Europa surgiram apenas no século XIX, forma que é melhor representada pelo arranjo
da Santa Aliança produzido no Congresso de Viena (1815). Esse mecanismo de equilí-
brio de poderes, entretanto, foi posto a prova quando as grandes potências européias se
enfrentaram, como aconteceu em 1870, na guerra entre a França e a Prússia e sobretudo,
em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Nos anos seguintes ao primeiro

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conflito mundial, o problema da organização da integração européia como solução para a


repetição das guerras que impediam a prosperidade começou a ser mais claramente per-
cebido, mas foi necessária ainda uma outra guerra, muitas vezes mais destrutiva do que
a primeira, para que os lideres europeus se convencessem definitivamente de que o futuro
da Europa passava pela cooperação política e econômica.
Três importantes visões sobre o processo de cooperação entre os Estados podem ser
identificadas. Havia o grupo que estava convencido de que só tomando a iniciativa polí-
tica de criar um sistema federal inspirado nos Estados Unidos da América, por exemplo,
com um controle único sobre os assuntos externos e a defesa, se poderia criar uma forma
de governo que pudesse proporcionar segurança suficiente para a prosperidade dos países
do continente. Um outro grupo defendeu uma abordagem funcional, mais pragmática,
considerando que os problemas econômicos comuns exigiam respostas comuns e, portan-
to, uma aproximação que se faria gradualmente, por setores, e que criaria finalmente as
condições necessárias para o estabelecimento de uma Europa unida. O terceiro grupo
relutava em aceitar a centralização de autoridade ou soberania, pelo menos na esfera
econômica, e visava uma maior unidade no continente por meio da cooperação mais estreita
entre os governos, preferindo arranjos intergovernamentais aos supranacionais. Essas três
abordagens coabitaram e raramente uma delas esteve ausente nas decisões mais importan-
tes tomadas acerca da integração política e econômica da Europa Ocidental.
Um impulso fundamental para a cooperação entre os Estados da Europa Ocidental
foi dado pelo governo norte-americano, preocupado com a instabilidade política produzi-
da pela destruição produzida pela Segunda Guerra Mundial. Em 1947, o governo dos
Estados Unidos propôs aos governos dos países europeus o aumento da ajuda financeira
para reconstrução, com o lançamento do Plano Marshall. Entretanto, os norte-america-
nos impunham uma condição: os Estados beneficiários deveriam participar de uma ins-
tituição encarregada da gestão coletiva da ajuda e da elaboração de um programa de
reconstrução europeu, que foi criada em abril de 1948 com o nome de Organização
Européia de Cooperação Econômica (Oece), da qual tomaram parte Áustria, Bélgica,
Dinamarca, França, Grécia, Irlanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Bai-
xos, Reino Unido, Suécia, Suíça e Turquia. Dois outros Estados seriam posteriormente
admitidos na organização: a República Federal da Alemanha (RFA) em 1955 e a Espanha,
em 1959.
Ao mesmo tempo em que ganhavam corpo os primeiros arranjos de cooperação para
a reconstrução, se fazia sentir o clima de crescente tensão entre os Estados Unidos e a
União Soviética. Desse modo, a cooperação para a reconstrução européia não poderia
dizer respeito exclusivamente à ordem econômica, mas também aos assuntos militares e,
por isso, novas alianças foram concluídas, ligando os EUA e a maior parte dos países da
Europa Ocidental, destinadas a assegurar a segurança coletiva no continente. Desse modo,
novas organizações foram criadas tendo por objetivo principal a cooperação nos assuntos
de defesa e de segurança, como a “União Ocidental”, criada em fevereiro de 1948, reu-
nindo a França, o Reino Unido, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo, e como a
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criada em abril de 1949, liderada
pelos Estados Unidos, na qual tomavam parte a França, a Grã-Bretanha, a Bélgica, os
Países Baixos, o Luxemburgo (os cinco parceiros da União Ocidental), e ainda pelo Cana-
dá, Dinamarca, Islândia, Itália, Noruega e por Portugal.

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Surgia gradualmente a idéia de que os graves problemas econômicos enfrentados


pelos países da Europa Ocidental, que eram em grande medida comuns, poderiam ser
melhor resolvidos pela unificação progressiva de ações. O mais importante desses proble-
mas econômicos eram as indústrias do carvão e do aço francesa e alemã, evidentemente
fundamentais para a reconstrução econômica, que eram geograficamente contíguas mas
nacionalmente separadas. Tendo isso em mente, o ministro dos Negócios Estrangeiros da
França, Robert Schuman, apresentou em 9 de maio de 1950 um plano para a exploração
conjunta dos recursos do carvão e do aço da Europa Ocidental sob uma autoridade única
e a criação de um mercado único.
O Plano Schuman, como ficou conhecido, procurava conciliar soluções técnicas tan-
to sobre a exploração do carvão e do minério de ferro (que diziam mais respeito à Alema-
nha, por conta do Ruhr e do Sarre, e à França, devido à Lorena — todos grandes pólos
produtores de minério e também centros siderúrgicos importantes) quanto às indústrias
pesadas da Bélgica e do Luxemburgo. No Plano adotava-se a abordagem gradualista, que
defendia realizações concretas, mesmo que no início fossem limitadas, mas que permitis-
sem a criação de uma solidariedade de fato entre os países que tomassem parte da ini-
ciativa. Tal realização consistiria, no caso, da implementação de uma indústria pesada
comunitária, que deveria ser o elemento propulsor de uma comunidade maior e mais
profunda.
A RFA, a Itália, a França e os países membros do Benelux (Bélgica, Países Baixos e
Luxemburgo), acolheram o Plano Schuman com entusiasmo, e o Tratado instituindo a
Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca) foi firmado aos 18 de abril de 1951 em
Paris, instaurando um mercado comum progressivo do carvão e do aço, implicando, em
conseqüência, a supressão de direitos alfandegários, de restrições quantitativas à livre
circulação desses bens, de medidas discriminatórias e de subsídios ou ajudas de qualquer
natureza eventualmente acordadas pelos Estados membros aos produtores nacionais. O
Tratado de Paris que estabelecia a Ceca entrou em vigor em 25 de julho de 1952.
A importância da Ceca foi fundamental, tendo em vista que o elemento supranacional
preponderava, parecendo romper as resistências em torno de medidas que levassem a
algum tipo de transferência de soberania: o poder executivo estava nas mãos de uma Alta
Autoridade, que representava os interesses da Comunidade no seu todo e que não podia
ser dissolvido pelos representantes dos governos que tomavam parte na iniciativa, reuni-
dos no Conselho de Ministros. A conclusão bem-sucedida das negociações da Ceca deu
enorme impulso à causa federalista, ao passo que o anterior sucesso da Alta Autoridade
deu um peso considerável à abordagem funcionalista da integração.
Os êxitos da negociação da Ceca, combinados com a crescente ameaça da URSS, e
em particular pela eclosão da Guerra da Coréia (1950), levaram, pela primeira vez, a uma
tentativa de estabelecer organizações supranacionais mais ambiciosas, especialmente na
área da defesa e da política externa. Entretanto, o projeto que resultou dessa iniciativa,
denominada Comunidade Européia de Defesa (CED), de natureza federalista, foi rejeita-
do pelas opiniões públicas dos Estados membros em 1951.
Com o fracasso da CED, percebeu-se que existia ainda uma forte resistência às
propostas de cooperação que diminuíssem a soberania nacional, com a constituição de
mecanismos supranacionais, o que acabou postergando o processo de cooperação nas
áreas vitais da defesa e da política externa, e empurrando os parceiros envolvidos para o
aprofundamento da sua participação em arranjos mais familiares e que oferecessem mar-

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gens menores de risco, seja pela sua natureza intergovernamental, seja pela qualidade dos
atores envolvidos e pela autoridade que neles exerciam, como a Otan, por exemplo. Por
outro lado, esses contratempos acabaram por conduzir a uma nova ênfase na abordagem
funcionalista da integração, que era naturalmente mais pragmática — porque criava a
solidariedade em torno de questões importantes, mas não vitais, enquanto ia produzindo
gradualmente compromissos nos parlamentos, nos organismos dos Estados e nas opi-
niões públicas nacionais tanto com a causa da integração quanto com a necessidade de
aprofundá-la para enfrentar os problemas comuns.

OS TRATADOS DE ROMA E A CRIAÇÃO DA COMUNIDADE


ECONÔMICA EUROPÉIA
Quando os chefes de governo dos seis países que formavam a Ceca (França, RFA,
Itália, e mais os três membros do Benelux) se reuniram em Messina, na Sicília, em junho
de 1955, o ânimo da integração da Europa estava diminuído pela derrota do projeto da
CED. Naquela oportunidade, os governos dos países do Benelux propuseram um projeto
que poderia propiciar o relançamento da integração regional, na forma da criação de um
mercado comum amplo, caracterizado pela livre circulação de bens, capitais e de mão-de-
obra. Propunha-se um programa amplo de integração, que poderia incluir a organização
comunitária da utilização pacífica da energia nuclear, o desenvolvimento do comércio de
energia convencional e atômica, a organização de uma rede européia de vias de transporte
e, eventualmente, a preparação progressiva de um mercado comum sem direitos alfande-
gários, quotas e licenças de comércio. Nos meses seguintes, de intensa negociação, defi-
niu-se a criação de duas comunidades regionais — a Comunidade Econômica Européia
(CEE) e a Comunidade Européia de Energia Atômica (Euratom), cujos tratados foram
assinados em Roma em 25 de março de 1957, ratificados pelos parlamentos de todos os
Estados membros entre setembro e dezembro daquele ano, e entraram em vigor em 1º de
janeiro de 1958.
O tratado que instituiu a Comunidade Econômica Européia (CEE), um dos marcos
fundamentais do processo de integração da Europa, tinha por objetivo principal criar um
mercado comum entre os paises que dele tomavam parte, promovendo um desenvolvi-
mento harmonioso das atividades econômicas, a sua expansão contínua e equilibrada, a
melhora acelerada do nível de vida das suas populações e, evidentemente, “relações mais
estreitas entre os Estados europeus”. O mercado comum estabelecia uma união aduanei-
ra, que acabava com os direitos alfandegários e com outras restrições ao comércio entre os
membros, erigindo uma tarifa externa comum — medidas que entrariam em vigor pro-
gressivamente, ao longo de um período de transição de 12 anos. A criação do Mercado
Comum Europeu (MCE) levaria também à abolição de outros obstáculos, como aqueles
que existiam na circulação de trabalhadores, dos bens e serviços e dos capitais entre os
Estados membros, além do estabelecimento de condições favoráveis à livre concorrência,
ficando proibidas formas danosas de proteção, discriminação e de associação entre as
empresas nacionais. Por fim, a grande inovação do Tratado era o estabelecimento de
políticas comunitárias, e com ele já se instituía uma política agrícola.
O segundo Tratado de Roma criava a Comunidade Européia de Energia Atômica
(Euratom), que tinha o objetivo de facilitar a formação e o crescimento de uma indústria
nuclear européia, buscando desenvolver uma política de pesquisa e difusão de conheci-

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mentos, regulando o fornecimento de matérias-primas nucleares e incentivando inves-


timentos públicos e privados no desenvolvimento da capacidade de produção da in-
dústria comum que vinha a ser criada.
Os dois tratados inovaram no desenho institucional e demonstravam a preocupação
de evitar que diferenças fundamentais entre os Seis parceiros viessem a surgir no
gerenciamento das novas comunidades ficando, por isso, o elemento supranacional mais
limitado do que sob a Ceca. Estabeleciam-se estruturas administrativas que se asseme-
lhavam a uma espécie de Poder Executivo comunitário, que eram denominadas Comis-
sões, independentes dos governos nacionais. Nas novas comunidades, o Conselho de
Ministros, organismo intergovernamental, tinha um controle maior sobre a tomada
de decisões e sobre as Comissões.
Havia a crença de que o mercado comum conduziria de maneira mais eficaz à
integração gradual das economias dos Estados-membros, e para sublinhar esse aspecto,
os Tratados de Roma foram além dos aspectos “negativos” da integração, que são o sim-
ples desmantelamento de barreiras comerciais, sugerindo por outro lado um modo de
integração “positiva”, que ganharia a forma de políticas comunitárias em vários campos,
sendo o mais importante o da agricultura.

REDEFINIÇÃO INSTITUCIONAL E ALARGAMENTO


Com o aprofundamento da cooperação econômica no contexto da CEE, começaram
a surgir com maior frequência diferenças de percepções entre os governos da França, da
RFA, da Itália, e dos paises do Benelux quanto à intensidade da integração, uma vez que
a natureza e o papel das instituições comunitárias começaram a ser duramente critica-
dos, justamente porque avançavam sobre assuntos que sempre foram prerrogativas dos
governos nacionais, tais como as regulamentações de mercados. É certo que, com o avan-
ço do processo integracionista, a unificação das instituições supranacionais e intergo-
vernamentais seria natural, mesmo porque elas foram concebidas e mantidas separadas
muito mais em função do contexto político em que foram criadas do que devido à falta de
crença de que poderiam efetivamente funcionar. Era necessário unificá-las e emprestar-
lhes mais capacidade de ação — e foi essa a decisão tomada pelo tratado de 8 de abril de
1965, assinado em Bruxelas.
Por outro lado, a simples decisão de buscar a fusão das instituições comunitárias
não desfez os obstáculos que surgiram — por exemplo, se estavam sendo unificadas es-
truturas com poderes e liberdades de ação tão diferentes, como aqueles que detinham a
Alta Autoridade da Ceca e as Comissões da CEE e da Euratom, qual seriam os graus de
independência que prevaleceriam? Além disso, como lidar com a divisão das sedes das
novas estruturas — ou seja, a quem atribuir o status de capital da Europa? Como seriam
nomeados os membros da Comissão e como se daria a alternância entre os súditos dos
diferentes Estados membros? Em virtude do desacordo em torno dessas questões, o Tra-
tado de Bruxelas de 1965, e a conseqüente fusão dos executivos comunitários, entrou em
vigor apenas em julho de 1967, com considerável atraso com relação à data prevista.
Apesar da discussão sobre a organização institucional e do processo decisório nas
comunidades, os governos dos Seis países que delas tomavam parte concordavam que
ainda existiam motivos suficientes para que os Estados membros implementassem, final-
mente, a união aduaneira e a Política Agrícola Comum. Assim, em abril de 1966 foi

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tomada decisão consensual acerca dessas duas etapas fundamentais da construção da


Europa, que acertava os passos para a sua implementação, devendo ambas entrar em
vigor em julho de 1968.
O debate sobre os limites dos arranjos intergovernamentais e sobre a suprana-
cionalidade fez com que as discussões sobre o aprofundamento ficasse paralisado, até que
em 1969 se decidiu retomá-las, justamente no momento em que tinha fim o período de
transição previsto para a plena entrada em vigor de todas as instituições comunitárias,
inclusive dos regimes de financiamento e de algumas das políticas comuns. Assim, se
propôs a continuação da integração, com a definição de novas políticas comuns, em novos
campos, como o da política financeira e monetária, ciência e tecnologia, direito das so-
ciedades e concorrência, o que se deu em uma nova conferência, que reuniria os chefes de
governo dos Seis parceiros, na cidade de Haia (Holanda).
A Conferência de Cúpula de Haia, realizada entre 1º e 2 de dezembro de 1969,
marcou o relançamento da Europa em grande estilo. Lá se discutiram as necessidades de
concluir os processos em aberto, como a definição das disposições para o financiamento da
PAC, aprofundar a integração, tendo em vista a criação de uma união econômica e mone-
tária e, finalmente, alargar a Comunidade, admitindo a abertura de negociações com
outros países que quisessem aderir à integração. A “conclusão” da Comunidade, particu-
larmente, tomou a forma do acordo dos Estados membros relativo ao financiamento de
novas políticas e da própria estrutura comunitária, e reinseria a questão do controle
parlamentar. Para além da conclusão, no entanto, e além das disposições pormenorizadas
do Tratado de Roma, os chefes de governo negociaram em Haia duas metas principais: a
união econômica e monetária e posteriores passos no sentido da união política.
Os governos dos Seis encontraram grandes dificuldades para dar prosseguimento à
integração pela via da união econômica e monetária, o que se devia principalmente
à conjuntura econômica internacional, caracterizada especialmente pelas transformações
do sistema financeiro internacional a partir de 1971, nada propícia para iniciativas dessa
natureza. Por outro lado, rápidos e importantes progressos foram feitos em uma dimen-
são vital para uma aproximação da idéia de união política, com o estabelecimento de um
mecanismo de concertação política para coordenar as ações externas dos parceiros, que se
estruturava em torno de reuniões semestrais nas quais se procederia à revisão da cena
internacional, e se ensaiaria a conjugação de atitudes e, eventualmente, o empreendimen-
to de ações comuns.
O terceiro elemento do compromisso de Haia foi o alargamento da Comunidade, que
deveria dar-se com a demonstração de disposição para incluir novos membros no processo
europeu de integração, como previa o artigo 237 do Tratado do Mercado Comum, o
artigo 98 do Tratado da Ceca e o artigo 205 do Tratado da Euratom, que permitiam aos
parceiros estabelecer negociações para novas adesões. Desse modo, negociações com a
Grã-Bretanha, a Dinamarca, a Irlanda e a Noruega foram iniciadas em junho de 1970 e,
um ano depois de iniciados os entendimentos, chegou-se a acordo em relação à maior
parte das questões mais importantes, sendo o Tratado de Adesão assinado aos 22 de
janeiro de 1972 em Bruxelas. A 1º de janeiro de 1973, o Reino Unido, a Dinamarca e a
Irlanda tornavam-se os novos membros da CEE, que passava, então, a ter nove membros
(Comunidade dos Nove — os seis membros “fundadores”, que eram a França, a RFA, a
Itália, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo, agora acrescidos da Grã-Bretanha, da
Dinamarca e da Irlanda), tendo o povo norueguês rejeitado a entrada em referendum

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realizado em 26 de setembro daquele ano. A Europa integrada, que aumentada com as


adesões dos novos membros, era no início dos anos 70 uma impressionante estrutura
econômica, com pouco mais de 250 milhões de habitantes, e surgindo já como o mais
importante pólo dinâmico do comércio internacional.

O EUROPESSIMISMO
Com a conclusão das negociações de alargamento, a CEE parecia preparada para um
novo período de “desenvolvimento positivo”, ou seja, de aprofundamento. Era necessário
firmar um plano de ação para a Comunidade dos Nove que, evidentemente, tinha proble-
mas e velocidades essencialmente distintas daquelas da Comunidade que se construiu
nos 20 anos precedentes. Para definir esse plano, o presidente da França, Georges
Pompidou, convocou uma Cúpula de Chefes de Estado, que aconteceu em Paris em 19 de
outubro de 1972.
Foi a primeira vez que os representantes dos Estados membros da nova Comunida-
de se encontraram, mas as propostas apresentadas foram ainda mais ambiciosas do que as
que saíram da Conferência de Haia realizada em 1969. Estabeleceu-se em Paris um
denso programa de ação, que evidenciava novas preocupações e prioridades: declarava-se
a irreversibilidade da união econômica, e definiu-se uma política especial de desenvolvi-
mento regional de ajuda às regiões menos desenvolvidas ou em declínio dos Estados
membros, que se somaria a outras novas políticas setoriais nas áreas industrial, de desen-
volvimento científico e tecnológico, de energia e de meio ambiente. Todas as novas polí-
ticas deveriam culminar, por volta de 1980, na arrojada meta de construir uma verdadeira
“União Européia”.
É certo que as expectativas em torno do futuro da construção da Europa eram
grandiloqüentes ao final da Conferência de Cúpula de 1972 — afinal, o clima de otimis-
mo generalizado fazia crer que aquele era o início do nascimento da “superpotência”
Europa. Entretanto, o grande salto proposto na Conferência de Paris foi quase imediata-
mente paralisado por nova crise econômica internacional que teve impactos tão impor-
tantes para as economias nacionais em todos os níveis e que abriu imediatamente um
período de pessimismo generalizado.
O início dos anos 70 é lembrado pelo choque de outubro de 1973, provocado pelo
súbita elevação dos preços internacionais do petróleo pelos países produtores (em torno
de 70%), marcando o início da grande crise econômica que se arrastou até os anos 80. Os
problemas criados pela recessão e as mudanças no sistema econômico internacional fo-
ram persistentes e tiveram um impacto direto no desenvolvimento político e econômico
da Comunidade, porque os três principais problemas engendrados pela crise do início dos
anos 70, o da reestruturação, o do desemprego e o da inflação crescente, foram atacados
em grande parte em bases individuais e não comunitárias.
Apesar do sentimento de crise econômica e do pessimismo generalizado, tanto o
governo alemão, como o francês, estavam convencidos de que as dificuldades poderiam
ser vencidas, mais uma vez, por um novo esforço de relançamento. Para tanto, convocou-
se uma nova Cúpula de Chefes de Estado e de Governo, que se realizaria, como aquela de
dois anos antes, em Paris, para os dias 10 e 11 de dezembro de 1974, com o objetivo de
transformar o conjunto das relações entre os Estados membros. Um dos resultados dessa
conferência foi a avaliação de que a transformação qualitativa pela qual deveria passar a

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Comunidade para a construção de uma verdadeira união entre os parceiros passaria pelo
reforço da eficácia, legitimidade, coerência e, particularmente, da autoridade das insti-
tuições comunitárias. Estava evidente que os poderes e competências das diferentes ins-
tâncias poderiam ser melhor desenvolvidos — portanto, na mesma medida em que
propunha o reforço da autoridade política do presidente da Comissão, indicava a necessi-
dade de atribuir aos chefes de Estado e de governo um papel mais atuante, o que se deve
à sua qualidade intrínseca de detentores da legitimidade européia. Propunha-se, portan-
to, uma transformação qualitativa da Comunidade que não poderia evoluir para um dese-
nho institucional superior se não fossem criadas condições para o estabelecimento de
políticas comuns nas áreas típicas e representativas da própria soberania estatal, ou seja,
segurança e política externa. Nesse sentido, a unificação dos órgãos de ação, que refletiam
originalmente um sistema de decisão que equilibrava instâncias de natureza supranacional
com outras de composição intergovernamental, foi um avanço considerável.
A fusão das Comissões da Alta Autoridade da Ceca, da Comissão do Mercado Co-
mum e da Euratom permitiu a confirmação da independência dos órgãos executivos
inscrita nos tratados fundadores, e reafirmada no Tratado de Paris. Por transformações
fundamentais também passou o Parlamento Europeu. Desde a sua criação como institui-
ção comunitária em 1951, como Assembléia da Ceca, o Parlamento era composto por
representantes dos legislativos dos Estados membros, por eles escolhidos de acordo com
procedimentos nacionais. Tal fórmula se justificava enquanto as opiniões públicas nacio-
nais não estivessem preparadas para eleger os seus representantes na instituição, mas a
percepção de que os sistemas políticos dos diferentes países estavam prontos para o sufrá-
gio direto foi consagrada na Cúpula de Paris de 1974, quando abriu-se a perspectiva de
eleições diretas a partir de 1978.
A entrada em vigor do Sistema Monetário Europeu (SME) no dia 13 de março de
1979, também mostrou ser um marco significativo na construção da Europa, mesmo
considerando que o sistema monetário internacional continuasse dominado pelo dólar
norte-americano e influenciado pela crise econômica dos anos 1970. A decisão de criar o
SME partia da percepção de que a sucessão de crises, além do efeito negativo na estabili-
dade das taxas de crescimento econômico, acabara também com a crença na estabilidade
das taxas de câmbio, marcada pelo enfraquecimento gradual do dólar, caracterizado por
suas repetidas desvalorizações a partir de 1971. No centro do sistema que foi criado pelo
SME estava uma moeda escritural, estabelecida como meio de liquidação entre os bancos
centrais nacionais, denominada ECU (sigla de European Currency Unit ou Unidade Mo-
netária Européia) que funcionaria como o denominador do mecanismo da taxa de câmbio
e dos mecanismos de crédito.
Ao longo da década de 1970, a cooperação política européia efetivamente não cami-
nhou para a formação de uma política externa comum, mas tornou-se um fator muito
importante nas políticas externas de todos os Estados membros. Desde a guerra do Yom
Kippur, que opôs Israel e países árabes em 1973, produzindo efeitos colaterais para toda
a comunidade internacional, cuidou-se de proceder a uma concertação política mais ínti-
ma. Em alguns casos, a cooperação iniciada sobre temas de política externa, tradicional-
mente uma das áreas de mais difícil convergência na história da construção da Europa,
evoluiu de modo extremamente satisfatório, sendo possível vislumbrar, ao final dos anos
1970, “embriões” de uma ação internacional comunitária, ainda que bem delimitados a
certos temas, como as questões do Oriente Médio e as relações dos países europeus com

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os EUA. Para tanto não há dúvida que contribuíram o desenvolvimento de rotinas mais
precisas, que ganhavam a forma de um sistema flexível de consultas consolidadas nas
reuniões dos ministros de Negócios Estrangeiros (a primeira com esse objetivo realizou-
se em Munique aos 19 de novembro de 1970). Além disso, a repetição das Cúpulas de
Chefes de Estado dava densidade política ao processo de consolidação das instituições
comunitárias e permitia, a cada novo encontro, o lançamento de novas iniciativas para o
aprofundamento da integração. A institucionalização dessas cúpulas em 1972 permitiu a
criação de uma câmara de ressonância em que se construíam respostas consensuais sobre
pontos importantes da agenda internacional, emprestando também visibilidade para as
questões que eram objeto de discussão e deliberação por parte dos chefes de governo
reunidos.
Alguns processos ligados ao aprofundamento da Europa estavam certamente em
aberto, como o da constituição de uma união de Estados, mas os nove parceiros não
estavam fechados às negociações para a ampliação da Comunidade. Por isso, a paralisia
aparente da construção européia teve fim com as negociações para a admissão da Grécia
como membro pleno das Comunidades. As negociações tiveram início em julho de 1976,
e a Grécia foi admitida como membro pleno da Comunidade Européia em 1981.
A Comunidade dos Dez (composta pela França, Itália, RFA, Bélgica, Países Baixos,
Luxemburgo, Grã-Bretanha, Dinamarca, Irlanda e, a partir de então, Grécia) passava a
carregar consigo a disparidade de níveis de desenvolvimento econômico e social cada vez
mais profunda, que pela primeira vez criava um fosso que separava os Estados membros.
É verdade que os níveis de desenvolvimento desiguais não foram um obstáculo até aquele
momento para a admissão de novos parceiros, uma vez que a Comunidade já havia esta-
belecido desde muito políticas voltadas à equalização das condições econômicas de algu-
mas regiões dos países que dela tomavam parte, mas o ineditismo da situação trazida pela
Grécia situava-se no fato de que, pela primeira vez, era admitido um membro com uma
configuração econômica e social com padrões muito inferiores ao conjunto dos países que
tomavam parte na Comunidade. O “desafio grego” à construção da Europa ganhou, por-
tanto, em um primeiro momento, a forma de novas pressões sobre as políticas
redistributivas da Comunidade (aquelas voltadas para propiciar o desenvolvimento de
regiões atrasadas), e dificuldades para manejar, no plano da concertação política euro-
péia, a hostilidade da Grécia com a Turquia.
O problema redistributivo esteve ainda em evidência quando foram abertas nego-
ciações para um novo alargamento, com as candidaturas de Portugal e Espanha. As mes-
mas questões que separaram a Grécia do esforço de construção da Europa estiveram
presentes no relacionamento dos países ibéricos com o restante da Europa Ocidental: os
dois países estavam submetidos a regimes autoritários consolidados e as suas economias
predominantemente agrárias apresentavam sérios problemas de subdesenvolvimento.
Realizadas a partir de 1977, as conversações foram difíceis e realçadas por questões que
surgiam do subdesenvolvimento das economias portuguesa e espanhola, como, por exem-
plo, as implicações que uma maior mobilidade da mão-de-obra ibérica barata e
desqualificada portaria para o espaço econômico europeu. A adesão dos dois países foi
efetivada na reunião do Conselho de 29 de março de 1985 e os tratados que implementavam
a sua admissão entraram em vigor em 1º de janeiro de 1986.

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O RETORNO DAS GRANDES AMBIÇÕES


Duas propostas marcaram nos anos 80 o retorno da grande ambição de formação de
uma união política entre os membros da Comunidade Européia. Uma delas foi formulada
pela primeira legislatura eleita por voto direto do Parlamento Europeu, e a outra foi
produzida pelo Conselho Europeu.
A primeira proposta foi formulada por uma comissão institucional criada em 9 de
julho de 1981 pelo Parlamento Europeu, e ganhou a forma de um projeto de tratado
sobre a União Européia. Levados a votação em 14 de janeiro de 1984 e aprovados por
larga maioria, os 87 artigos do projeto incorporavam os tratados em vigor e os diplomas
legais existentes sobre cooperação política e econômica, propondo uma moldura única
para a diversidade de instrumentos jurídicos editados para regular o processo de integração
da Europa. Paralelamente, os chefes de governo elaborariam o seu próprio projeto, no
seio do Conselho Europeu. Na reunião de Stuttgart de junho de 1983 adotaram uma
declaração solene acerca da União Européia, na qual reafirmaram a adesão dos Estados
membros aos objetivos estatuídos nas Cúpulas de Haia (1969) e de Paris (1972). Na
reunião do Conselho do ano seguinte, realizada em Fontainebleau, os líderes europeus
definiram um conjunto de medidas de importante impacto psicológico, como a adoção de
um passaporte europeu e a supressão de controles de passagem nas fronteiras nacionais,
mas também concordaram com a necessidade de reformar as instituições comunitárias,
preservando-as e adaptando-as às necessidades da Europa alargada e a cada ano mais
complexa. Nesse sentido, recomendava que o Parlamento assumisse maiores responsabi-
lidades no processo decisório comunitário, ganhando poderes de co-decisão legislativa
com o Conselho e exercendo maior controle sobre todas as políticas comuns e sobre as
decisões da Comissão, sobre as relações exteriores comuns (pronunciando-se sobre acor-
dos de associação ou de adesão, por exemplo) e, evidentemente, sobre o orçamento comu-
nitário. A Comissão, por seu turno, deveria ter os seus poderes e autonomia reforçados,
com maiores capacidades de iniciativa, execução e gestão. O presidente da Comissão
deveria ser designado pelo Conselho Europeu e, junto com os demais comissários, deve-
ria ser investido de voto de confiança dado pelo Parlamento, reproduzindo também a
fórmula de um regime parlamentarista. O Conselho Europeu, composto pelos chefes de
governo e de Estado, deveria desempenhar o papel estratégico de dar à Comunidade
direções e impulsos políticos. O Conselho de ministros também deveria ser adequado à
complexidade crescente da Comunidade, com uma mudança importante no processo de
decisão, que deveria se dar pela regra da maioria, simples ou qualificada, suprimindo a
unanimidade (reservada para casos realmente excepcionais). O Tribunal Europeu de Jus-
tiça, enfim, também deveria ser adequado, com o aumento da sua jurisdição para novas
matérias de conflitos.
As duas propostas convergiam: as instituições comunitárias mostravam-se ineficientes
e ineficazes e as ações comuns, por isso, eram insuficientes para o aprofundamento da
integração — na perspectiva de que essa passava a ser entendida como um verdadeiro
comprometimento político, especialmente em áreas sensíveis, como a defesa e a política
externa. Convergiam na percepção de que a integração européia estava paralisada desde
meados dos anos 1970. O único meio para a sua retomada seria a realização da única
medida que nunca foi realmente empreendida e que era uma das razões da integração: o
estabelecimento de um verdadeiro mercado único.

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Tendo essa idéia por base, a Comissão Européia propôs a adoção de medidas que
permitissem a realização do “espaço econômico sem fronteiras”, franqueando a livre cir-
culação de bens, capitais e trabalho, que foi submetido ao Conselho Europeu reunido em
Milão em maio de 1985. Ao enumerar três centenas de medidas necessárias para a real
efetivação do mercado comum, a Comissão indicava, como medida fundamental, o início
de negociações para um novo tratado, que codificaria em um único diploma os avanços
empreendidos nas últimas décadas nos textos dos tratados de fundação, as suas emendas,
os procedimentos de cooperação política e as práticas procedimentais aprendidas com a
experiência. O Ato Único Europeu foi assinado em Luxemburgo em 28 de fevereiro de
1986, entrando em vigor em 1º de janeiro do ano seguinte.
A realização do mercado único teve conseqüências diretas para a vida econômica e,
claro, dos cidadãos, entre as quais devem ser ressaltadas a liberdade total de movimenta-
ção de capitais, o fim das preferências nacionais nos sistemas de compras governamentais
e o estabelecimento da equivalência de diplomas universitários, o que reforça o livre
acesso dos cidadãos às diferentes atividades profissionais em qualquer dos paises que
fazem parte da Comunidade.

UM NOVO TEMPO DE CRISE E DE NOVAS OPORTUNIDADES:


O FIM DA GUERRA FRIA
O fim da guerra fria provocou grandes e intensas modificações na estrutura das
relações internacionais contemporâneas. Para a Europa que aprofundava a sua integração,
dois desafios muito importantes sobressaíam dos escombros da ordem bipolar: o primeiro
deles, era a reunificação da Alemanha, formalizada em outubro de 1990, e o segundo, o
início da transição dos países ex-socialistas para a economia de mercado. Quais seriam os
impactos da recriação da Alemanha para a Comunidade? Como evoluiriam as economias
e os regimes políticos dos antigos satélites soviéticos e quais impactos esses processos
teriam sobre o processo europeu de integração?
Ao mesmo tempo, uma parcela expressiva dos meios políticos e sociais europeus
ficou francamente desapontada com as providências encaminhadas pelo Ato Único de
1986 no sentido da implementação do mercado único e acreditava que novas medidas
seriam em breve necessárias para garantir um novo esforço de aprofundamento da
integração. Acresce que as medidas do Ato Único Europeu, na medida em que empurra-
vam os parceiros para a desregulamentação de seus mercados nacionais, criavam necessa-
riamente novas regulamentações, em nível comunitário, para garantir que as novas
liberdades necessárias ao mercado unificado fossem implementadas.
Importantes fatores internos reforçavam essa percepção. Em primeiro lugar, muitos
dos Estados membros perceberam que os benefícios do mercado único somente poderiam
ser realizados se ações importantes fossem empreendidas no sentido da criação de uma
união econômica e monetária. Nesse aspectos, uma moeda comum passou a ser vista
como necessária para eliminar as distorções de comércio provocadas pelas alterações nas
taxas de câmbio, provendo também maiores facilidades e condições para o planejamento
empresarial e eliminando os custos de conversão de divisas. Em segundo lugar, havia
uma percepção crescente da necessidade de políticas sociais que compensassem os impac-
tos da liberalização e desregulamentação dos mercados nacionais causadas pela criação do

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mercado único. Em terceiro lugar, o desmantelamento dos controles de fronteira criaram


demandas por novos mecanismos de controle comunitário para lidar com o fluxo
transnacional que decorre da livre circulação de pessoas, como o crime organizado, o
tráfico de entorpecentes, o terrorismo e, especialmente, com as novas correntes de migra-
ção de massas da Europa Centro-Oriental e do norte da África. Finalmente, o aumento
dramático das prerrogativas comunitárias provocado pela instituição das novas regula-
mentações necessárias para a criação do mercado único reapresentava o problema do
déficit democrático; em outras palavras, a partir de então a burocracia comunitária pas-
sou a exercer poderes cada vez maiores sobre um número crescente de competências, mas
sem o controle e a transparência desejáveis.
A combinação da dimensão internacional em transformação com a percepção inter-
na das distorções provocadas pela criação do mercado único produziram a crença de que
uma nova rodada de aprofundamento da Comunidade era necessária. Nesse contexto, a
atuação do presidente francês François Mitterrand e do primeiro-ministro alemão Helmut
Kohl foi decisiva. A convergência nas visões dos dois líderes europeus impulsionou o
debate e as negociações para a reforma completa das instituições, que deveriam levar a
novo ímpeto na construção da Europa. Esse foi o espírito do Conselho Europeu reunido
na cidade holandesa de Maastricht entre 9 e 11 de dezembro de 1991.
A Cúpula de Maastricht tinha inicialmente os objetivos de chegar a um acordo sobre
a união econômica, monetária e política. As posições dos diferentes parceiros ao longo das
negociações intergovernamentais evidenciaram a persistência de visões bastante distintas
acerca da velocidade e da profundidade da união política e monetária desejada pelas
partes. O Tratado da União Européia, que seria conhecido como Tratado de Maastricht,
seria firmado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e das Finanças de todos os Esta-
dos membros na mesma cidade holandesa em 9 de fevereiro de 1992.
Com o tratado surgia uma nova organização, a União Européia, que se estabelecia
sobre três pilares: as Comunidades Européias, a Política Externa e de Segurança Comum
(Pesc), e a cooperação nos campos da justiça e das questões internas, em que se costura-
vam princípios gerais, ressaltando-se o da subsidiariedade, do respeito à democracia e aos
direitos humanos, e guiados por uma estrutura institucional de natureza supranacional
encabeçada pelo Conselho Europeu. Uma inovação de importante impacto simbólico e
psicológico foi a criação da “cidadania européia”, pela qual todo súdito de um Estado
membro tornava-se cidadão da União, tendo o direito de viver e trabalhar no território de
qualquer um dos parceiros, de votar e se candidatar nas eleições locais e do Parlamento
Europeu.
O estabelecimento da Política Externa e de Segurança Comum (Pesc), por seu tur-
no, se deu também pela definição de objetivos gerais, tais como a “proteção dos valores
comuns, dos interesses fundamentais e da independência da União” e “desenvolver e
consolidar a democracia e o estado de direito, e o respeito pelos direitos humanos e as
liberdades fundamentais”, sendo implementados pela cooperação sistemática entre os
Estados membros sobre qualquer assunto relativo à ação externa e à política de segurança
que fosse de interesse comum. A cooperação nas áreas da justiça e dos assuntos internos,
por seu turno, se daria pela convergência sobre problemas de interesse comum, como
asilo político, regras de controle de fronteira para estrangeiros, política de imigração,
combate ao tráfico de drogas, cooperação judiciária em assuntos de direito civil e crimi-
nal, cooperação policial para o combate ao terrorismo, entre outros ilícitos definidos por
um Escritório Europeu de Inteligência.

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O núcleo de Maastricht, entretanto, era o estabelecimento da União Econômica e


Monetária, pela qual no mais tardar a 1º de janeiro de 1999 as moedas nacionais dos
Estados membros seriam substituídas por uma moeda única, que foi batizada com o
sugestivo nome de “euro”. Estariam aptos os países que provassem estar gozando de boas
condições econômicas e financeiras.
A transformação radical do processo de integração causada pela gradual entrada em
vigor das medidas estabelecidas pelo Tratado de Maastricht induziu não propriamente ao
retorno dos temores característicos dos primórdios do processo de integração, mas ao
debate acerca da velocidade do processo. O Tratado da União Européia atropelava uma
competência tipicamente decorrente da soberania estatal, a emissão de moeda, e levava a
comparações com iniciativas anteriores que faziam o mesmo, como a Comunidade Euro-
péia de Defesa, “abortadas no nascimento”.
Ainda que não se pusesse em questão as virtudes da integração “positiva”, que
substitui perdas de soberania por ganhos proporcionados por políticas comuns, era evi-
dente que o estágio máximo da integração estabelecido em Maastricht engendrava novas
reticências acerca dos poderes acrescidos da tecnocracia européia, que poderiam agir em
detrimento da expressão democrática calcada em controles sociais funcionais — afinal, o
que se propôs no Tratado da União Européia era algo de um ineditismo tão marcante que
apenas a experiência poderá computar os ganhos e perdas desse importantíssimo proces-
so histórico.

O ALARGAMENTO SOB A ÉGIDE DE MAASTRICHT E A


CONSTITUIÇÃO EUROPÉIA
As negociações para que a Áustria, a Finlândia e a Suécia aderissem à Comunidade
foram abertas em 1992 e, um ano depois, passaram a incluir a Noruega. Concluídas com
sucesso em março de 1994, apenas o tratado de adesão da Noruega foi rejeitado em
referendum popular, tornando-se os demais membros plenos da União Européia em 1º de
janeiro de 1995.
O Tratado de Maastricht, peça fundadora da União Européia, inovou o direito co-
munitário em muitos sentidos, sendo um dos principais o entendimento subjacente de
que o processo de construção da Europa não poderia ali se dar por concluído. Por isso, a
disposição do artigo “n” do Tratado da União Européia (TUE) especificava que uma
outra rodada de negociações intergovernamentais deveria ser instalada quatro anos de-
pois da sua entrada em vigor para que o seu funcionamento fosse examinado. Dessa
dinâmica deveriam sair ajustes que permitissem o aumento da capacidade de ação exter-
na da União, prepará-la para um melhor funcionamento e para novos alargamentos e,
finalmente, torná-la mais relevante para o cidadão comum. Entretanto, a radical reversão
dos humores diante da integração percebida pela maior parte dos líderes europeus nos
seus países, em virtude da absorção dos impactos iniciais das medidas de convergência e
de austeridade necessárias para a consecução da UEM, fez com que se adotasse uma
atitude cautelosa no sentido de novos aprofundamentos.
Desse modo, um novo projeto de tratado foi levado ao Conselho Europeu, que se
reuniu em Amsterdã entre os dias 16 e 17 de junho de 1997, e foi aprovado com diversas
disposições que tinham por objetivo facilitar uma passagem sem incidentes para a tercei-

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ra fase da União Econômica e Monetária, além de adotar uma resolução sobre o cresci-
mento e o emprego. O Tratado propriamente dito foi firmado pelos ministros dos Negó-
cios Estrangeiros dos Estados membros em 2 de outubro do mesmo ano e entrou em
vigor somente em 1º de maio de 1999.
Ainda que não tenha a mesma importância assumida pelo Ato Único de 1986 e pelo
Tratado de Maastricht, é fato que o Tratado de Amsterdã tem valor considerável para a
governança comunitária, indicando a necessidade de reforma das instituições como re-
quisito para a definição de novas políticas comuns e, especialmente, para o mais aguarda-
do alargamento da história da construção da Europa — a admissão dos ex-países socialistas
do continente.
Os melhores resultados do Tratado de Amsterdã situam-se nos ajustes necessários
para a efetivação da UEM, mas poucas reformas foram empreendidas para a criação de
condições de alargamento. Assim, um novo esforço negociador foi convocado para estudar
as medidas necessárias para novas reformas que permitissem concluir mais facilmente as
novas adesões. Submetida ao Conselho Europeu reunido em Nice entre 7 e 9 de dezem-
bro de 2000, a minuta de um novo tratado com essas intenções foi aprovada, junto com
uma Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia. O Tratado foi assinado tam-
bém em Nice a 26 de fevereiro de 2001, tendo por objetivo principal o estabelecimento
de condições para a adaptação das instituições européias para permitir as novas adesões.
O ano de 2002 foi um dos mais profícuos da integração da Europa inaugurando-se
com o funcionamento pleno da UEM, que se deu com o primeiro dia de circulação das
moedas e notas de euro na Áustria, na Bélgica, na Finlândia, na França, na Alemanha, na
Grécia, na Irlanda, na Itália, em Luxemburgo, nos Países Baixos, em Portugal e na
Espanha, em 1º de janeiro, processo concluído dois meses depois quando a moeda única
passou a ter circulação exclusiva, ficando definitivamente extintas as moedas nacionais.
Em 9 de outubro daquele ano, na seqüência das transformações históricas, a Comis-
são indicou aos 15 Estados membros da União Européia que o processo negociador para
a entrada de dez novos membros no bloco seria concluída em dezembro, abrindo caminho
para a tão esperada expansão para o Leste, pouco mais de uma década após a queda do
Muro de Berlim. Apesar de ser considerada crucial politicamente, a adesão efetivada em
1º de maio de 2004 da Polônia, da Hungria, da República Tcheca, da Eslováquia, da
Eslovênia, da Lituânia, da Letônia, da Estônia, de Malta e Chipre (a Romênia e a Bulgária
poderão aderir à União em 2007), também porta desafios econômicos importantes para a
estabilidade do processo europeu de integração, uma vez que a admissão desse bloco de
países composto majoritariamente por economias agrícolas e com grandes desníveis
de desenvolvimento social (particularmente se comparados com os níveis atingidos pelas
sociedades dos demais membros da União) pressiona ainda mais as políticas redistributivas
da União, sendo provável que boa parte desses países recebam subsídios para a
reestruturação das suas economias muito maiores do que as suas contribuições para o
orçamento comunitário. Com a conclusão desse processo de alargamento, a União Euro-
péia praticamente dobrou, passando a ter 25 membros, o seu território aumenta em
25%, e a sua população total alcança 455 milhões de pessoas.
A nova Europa, com 25 membros, tem, além dos problemas decorrentes da
heterogeneidade do novo espaço econômico, o desafio da superação do déficit democráti-
co, que decorre do aumento da institucionalização da integração. Para enfrentar esse
desafio, o Conselho Europeu realizado em Laeken, instituiu em dezembro de 2001 a

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Convenção Especial sobre o Futuro da Europa, que funcionou entre fevereiro e junho de
2003, com a responsabilidade de elaborar um anteprojeto de Constituição para a União
Européia, que cuidaria de atender aos seus objetivos democráticos e tornar mais transpa-
rente o processo decisório da União — que é ainda inspirado no modelo original elaborado
pelos Seis em 1957, de decisão consensual, e que certamente não se ajusta a uma entida-
de com 25 membros.
O objetivo principal de uma Constituição seria o de equacionar determinados aspec-
tos das regulamentações comunitárias que ficariam muito difíceis de serem manejados na
Europa ampliada, como a composição e o funcionamento da Comissão Européia, o peso
relativo de cada um dos Estados membros, a divisão das competências entre a União e os
seus membros etc. A Constituição reforça também os meios de ação da União na esfera
externa, instituindo o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, e na esfera interna,
absorvendo a Carta dos Direitos Fundamentais e conferindo-lhe plena eficácia jurídica.
A Constituição européia deve ser ratificada pelos 25 países membros da União Eu-
ropéia, o que pode se dar por referendo popular ou diretamente pelos parlamentos na-
cionais. O projeto, entretanto, sofreu um duro revés, com a rejeição do texto no referendo
realizado na França e na Holanda, em maio de 2005. Os processos de aprovação devem
ser concluídos até outubro de 2006, quando o texto da Constituição entraria em vigor.

CONCLUSÃO
A Europa, cuja construção se iniciou como um projeto utópico no final da Segunda
Guerra Mundial, chegou ao novo milênio como uma realidade de resultados impressio-
nantes, e isso certamente não se deve apenas à imponência dos números envolvidos no
comércio intra-regional e no porte da economia unificada. Apresentando-se à comunida-
de internacional como um ágil gigante feito de quase 500 milhões de cidadãos consumido-
res, a construção da Europa foi o processo responsável por conduzir a região durante
meio século de estabilidade, de paz e de prosperidade, contribuindo para a melhoria da
qualidade de vida das suas populações, para a diminuição das desigualdades, para uma
melhor equalização do poder dos Estados que dela tomaram parte, para a criação de um
imenso mercado interno e, evidentemente, para amplificar a voz dos seus 25 Estados
membros no mundo.
O processo de integração europeu é a causa de muitas e importantes transformações
na estrutura política e econômica da Europa Ocidental contemporânea. Além dos extra-
ordinários índices econômicos e de bem-estar social que traduzem o estado atual da União
Européia, que foram aumentados em grande medida graças à cooperação econômica que
se estabeleceu entre os parceiros, pode-se afirmar que é graças à integração que a Europa
conheceu uma longa fase de prosperidade econômica, com a modernização das estruturas
produtivas e a melhora substancial dos padrões de vida das populações européias. Nesse
sentido, não há dúvidas de que foi cumprida, plenamente, a intenção original dos trata-
dos de criação das comunidades européias.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Como o processo de integração na Europa contribuiu para pôr fim aos conflitos
armados no continente?

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2. Tendo em mente a história da União Européia, procure situar o estágio da


integração no Mercosul, considerando as noções de “intergovernamentalidade” e
de “supranacionalidade”.

GLOSSÁRIO
Intergovernabilidade: é uma forma de estabelecimento de medidas de cooperação que se
dá pelo relacionamento entre os governos dos países membros envolvidos. Nela não há
nenhuma transferência de competências soberanas ou atribuições, dos governos nacio-
nais para uma instância comunitária — portanto, não são formuladas políticas que obri-
guem todos os membros, que são livres para decidir se desejam acatar ou não as medidas
que decorrem das negociações intergovernamentais. O Estado-membro permanece.
Supranacionalidade: é umas das idéias mais importantes do processo europeu de
integração, pois oferece condições para a formulação e a implementação de políticas co-
muns, que não são definidas pelos governos dos países membros, mas sim pelas organiza-
ções comunitárias, que têm poderes para criar decisões obrigatórias aos Estados membros,
e são independentes e autônomas dos governos que as criaram. A criação dos organismos
supranacionais decorre da própria vontade soberana dos Estados membros, que delegam
a esses organismos determinadas competências.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
D’ARCY, François. União Européia: instituições, políticas e desafios. Rio de Janeiro:
Fundação Konrad Adenauer, 2002.
LESSA, Antônio Carlos. A Construção da Europa: a última utopia das Relações
Internacionais. Brasília: IBRI, 2003.
PFETSCH, Frank R. A União Européia: história, instituições, processos. Brasília:
Editora da Universidade de Brasília, 2002.

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Capítulo 5
A AMÉRICA LATINA,
SUA INTEGRAÇÃO E SUA INSERÇÃO
NO MUNDO GLOBALIZADO
Pio Penna Filho1

INTRODUÇÃO
A América Latina tem experimentado uma inserção internacional marcada pela ad-
versidade, haja vista que a região é constituída por Estados que apresentam diferenciados
níveis de desenvolvimento econômico e social, além de fatores históricos específicos que
deram um perfil peculiar aos países que compõem esse conjunto, muito embora possa-
mos identificar elementos que dão certa unidade às suas várias sub-regiões, como as
zonas andina e platina no contexto sul-americano e os países que formalizaram o Merca-
do Comum Centro-Americano, na região da América Central, e ainda alguns, também de
origem latina, localizados no Caribe.
Desde o início do século XIX, quando do processo de independência e formação dos
Estados nacionais, os países latino-americanos buscaram formas de inserção internacio-
nal positiva, ou seja, buscaram se vincular aos espaços econômicos mais importantes que
se localizavam, basicamente, na Europa e nos Estados Unidos da América. Na Europa, o
capitalismo avançava e as revoluções burguesas, associadas à Revolução Industrial, mar-
cavam o surgimento de uma nova era, de um novo mundo, que servia de referência para
quase todos os novos Estados surgidos no início do século XIX e que viriam a formar o
que somente mais tarde seria chamado de América Latina.
Nos Estados Unidos, desde a independência em 1776 e os seus desdobramentos,
que acabaram fazendo das antigas 13 colônias britânicas na América do Norte o núcleo
do mais próspero e importante mercado do mundo no século XX, sua evolução política e
econômica logo o colocaram também como importante ponto de referência para os demais
países americanos, seja por seu peso econômico ou pelas diversas influências e interferên-
cias políticas que aquele Estado acabou exercendo sobre os latino-americanos, ao longo
de praticamente toda a sua história. Assim, a presença dos Estados Unidos, desde a
Declaração Monroe (“A América para os americanos”), vem sendo uma constante na

1
Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

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história da América Latina, presença esta marcada muitas vezes por intervenções políti-
cas e militares ou por influências econômicas.
À parte as influências externas na América Latina, seja européia ou norte-america-
na, internamente a evolução política e econômica dos Estados latino-americanos teve,
durante o século XX, alguns elementos em comum. Numa perspectiva política, foi so-
mente a partir dos anos 1930 que os governos latino-americanos começaram a desenca-
dear programas mais consistentes para o desenvolvimento da região. Foi um período de
nacionalismo exacerbado, com regimes fortes, como a era Vargas no Brasil, iniciada du-
rante a década de 1930, e o governo de Juan Domingo Perón, na Argentina, durante os
anos 1940, para ficarmos nos exemplos mais marcantes. Outro exemplo foi o governo de
Lázaro Cárdenas, no México, que durante os anos 1930 também promoveu uma política
modernizadora, com envolvimento deliberado das massas no jogo político e projetos de
industrialização do país.
Foi durante a década de 1930 que houve uma maior aproximação entre os Estados
latino-americanos. Naquele contexto, havia em comum a consciência da necessidade da
industrialização e o envolvimento das massas na política. Contudo, a conjuntura interna-
cional, inicialmente favorável tendo em vista a competição estabelecida entre os regimes
fortes da Alemanha, Itália e Japão diante dos tradicionais parceiros liberais dos Estados
latino-americanos, ou seja, Inglaterra, Estados Unidos e França, em alguma medida aca-
bou favorecendo a região, tanto em termos de comércio internacional quanto em investi-
mentos diretos que ajudaram no processo de industrialização. Todavia, as rivalidades
políticas e sobretudo ideológicas entre esses dois grupos acabou levando à Segunda Guer-
ra Mundial, o que forçou os Estados da América Latina a se posicionarem ante o conflito.
Assim, muito embora os Estados Unidos tenham pressionado a América Latina a tomar
uma posição conjunta, não houve consenso a esse respeito. Enfim, parte das preocupa-
ções relacionadas ao tema do desenvolvimento cedeu lugar à preocupação com a seguran-
ça internacional e regional, ainda mais quando submarinos alemães e italianos começaram
a operar no Atlântico Sul, principalmente na costa brasileira.
No pós-Guerra ocorreu novo realinhamento da América Latina, haja vista que a
conjuntura internacional havia mudado drasticamente, principalmente pelo novo
reordenamento mundial marcado pela guerra fria. Em certo sentido, esse novo contexto
implicou algumas restrições para a região, uma vez que na nova ordem bipolar as regiões
consideradas mais estratégicas estavam distantes do cenário latino-americano. Efetiva-
mente, as duas novas superpotências, Estados Unidos da América e a ex-União Soviética,
disputavam zonas de influência na Europa e na Ásia e, em terceiro lugar, na África. Para
os americanos e para os soviéticos, pelo menos até a Revolução Cubana, ocorrida em
1959, a América Latina constituía-se uma inquestionável zona de influência norte-ame-
ricana.
Mas durante a década de 1950, mesmo com dificuldades, houve avanços no proces-
so de modernização da América Latina e de aproximação entre os seus Estados membros.
Registre-se, por exemplo, que ocorreu um ciclo de desenvolvimento econômico com dis-
tribuição de renda e houve possibilidades de concertação política entre os latino-america-
nos. A iniciativa diplomática coube ao Brasil, que sob a presidência de Juscelino Kubitschek
lançou a Operação Pan-Americana, uma iniciativa que teve a pretensão de unir os países
do continente em torno da temática do desenvolvimento, chamando a atenção dos Esta-
dos Unidos da América para a região.

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O que mais incomodava os governantes latino-americanos de então era o descaso dos


Estados Unidos para com a região. Enquanto bilhões de dólares eram gastos para a
reconstrução da Europa e do Japão, Washington deixava a América Latina a ver navios.
Para o governo norte-americano, o mais importante era manter a região no seu esquema
de segurança internacional, não se importando com o desenvolvimento econômico e com
as pressões sociais que começavam a se avolumar e que chegaram à ruptura revolucioná-
ria em Cuba e à contestação de vários outros governos. De qualquer forma, ressalte-se
que houve, durante os anos 1950, investimentos internacionais na região e um surto de
desenvolvimento organizado por parte dos Estados nacionais latino-americanos, além de
conversações políticas que fizeram pressão sobre os Estados Unidos para que este país
investisse mais no desenvolvimento da região e deixasse de colocar toda a ênfase no
aspecto da segurança e do combate ao comunismo.
O início da década seguinte foi conturbado para a América Latina. Em termos de
política internacional, os Estados Unidos, sobretudo após o governo de John Kennedy,
retomaram uma política de pressão enfatizando o combate ao comunismo. Para tanto, a
Doutrina de Segurança Nacional foi intensamente utilizada como instrumento de propa-
ganda para a contenção da ideologia comunista. Gradativamente, a maior parte dos Esta-
dos latino-americanos caiu sob o poder de ditaduras militares que iniciaram um novo
ciclo político na vida dessas nações. Houve diferenciações importantes entre os regimes
militares, tanto em termos de projetos nacionais quanto em termos de inserção interna-
cional.
Muito embora todos assumissem uma perspectiva nacionalista, os meios escolhidos
para se atingir os objetivos identificados como sendo o interesse nacional variou sensivel-
mente de país para país. Alguns adotaram uma perspectiva mais radical e utilizaram de
extrema violência no plano interno, como foi o caso da Argentina e do Chile. Outros,
como o Brasil, muito embora tenham também se utilizado da violência como instrumen-
to de poder, foram mais moderados e elaboraram regimes mais sofisticados, que afinal
obtiveram melhores resultados no que diz respeito ao seu desenvolvimento econômico e à
sua inserção internacional.
Mas para a integração regional os regimes nacionalistas significaram uma barreira
quase intransponível. No contexto dos regimes nacionalistas falar em integração econô-
mica e política era praticamente um pecado. O que houve, de fato, foi uma integração do
tipo perversa, na qual os regimes militares, principalmente do Cone Sul (Brasil, Bolívia,
Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai), uniram forças para reprimir os movimentos de
contestação às ditaduras e perseguir os exilados políticos. Esse movimento de integração
da repressão deu origem à famosa Operação Condor, um esquema montado pelo Chile e
que contou com a participação das outras ditaduras, inclusive com a conivência do Esta-
dos Unidos.
De meados da década de 1960 em diante e durante a década de 1970, portanto, os
Estados latino-americanos, no geral, viviam uma situação política pautada pelos regimes
de força, e sua inserção internacional, em termos políticos, tinha como fundamentação
ideológica o alinhamento aos Estados Unidos no combate ao chamado “comunismo inter-
nacional”, um inimigo muito mais imaginário do que concreto. De fato, a idéia de com-
bate ao comunismo era funcional aos regimes de exceção, haja vista que servia para dar
cobertura e legitimidade, tanto interna quanto externamente, a eles mesmos.

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É importante destacar, todavia, que nem toda a inserção internacional da América


Latina esteve pautada exclusivamente pelos pressupostos da guerra fria e da bipolaridade.
O Brasil talvez tenha sido o exemplo mais contundente de um país que, mesmo alinhado
aos Estados Unidos e tendo os seus sucessivos governos militares comungado das princi-
pais teses norte-americanas de luta contra o comunismo, foi capaz de imprimir uma
política externa independente e com objetivos próprios, principalmente durante a década
de 1970. Em vários momentos, inclusive, as divergências com os Estados Unidos foram
evidentes, por exemplo, quando o presidente Ernesto Geisel denunciou o Acordo Militar
com aquele país, que vinha desde a década de 1950, e celebrou o Acordo Nuclear com a
então República Federal da Alemanha, contrariando os interesses norte-americanos.

A INSERÇÃO INTERNACIONAL DURANTE A “DÉCADA PERDIDA”:


A AMÉRICA LATINA NOS ANOS 1980
A América Latina começou a década de 1980 em crise. Após os dois choques do
petróleo durante a década anterior e a elevação das taxas de juros no mercado interna-
cional, os países latino-americanos foram diretamente afetados pelas bruscas mudanças
no quadro internacional, alguns de maneira mais profunda, como foi o caso do Brasil, e
outros menos, como o Chile, dadas as suas características liberais e seu perfil econômico,
bem mais modesto que o brasileiro.
Da mesma forma que a questão petróleo e do choque dos juros no mercado financei-
ro internacional, a política norte-americana da era Reagan também ajudou a complicar
ainda mais a melindrosa situação dos Estados da região. Ronald Reagan assumiu o poder
estabelecendo como doutrina a idéia de contenção ao comunismo no plano internacional
e prometendo mudanças de cunho liberal no plano interno. Para sua doutrina de ação
internacional, a América Latina, especialmente a América Central, passou a ser conside-
rada estratégica e, portanto, componente essencial da ação global norte-americana. Para a
América do Sul, a temática mais importante foi o combate ao narcotráfico, o que colocou
em evidência países como Bolívia, Peru e, principalmente, a Colômbia.
Mas além da política externa norte-americana e das influências da economia inter-
nacional sobre os países da região, aspectos relacionados à própria evolução política dos
Estados nacionais tiveram grande importância para a inserção internacional da região na
década de 1980 e para desdobramentos políticos regionais de profundo alcance. Foi o
caso, por exemplo, da aventura militar argentina em sua tentativa de reconquista das
Ilhas Malvinas.
Com efeito, a crise interna do regime militar argentino, resultante da falta de legiti-
midade política e do agravamento das tensões sociais em decorrência de suas deficiências
econômicas, levou o regime militar a se aventurar numa guerra duvidosa contra uma
grande potência internacional, a Inglaterra. Assim, os militares argentinos, em busca de
coesão política interna e na tentativa desesperada de revigorar o regime, arriscaram-se
numa duvidosa aventura militar que terminou em tragédia para milhares de jovens ar-
gentinos e no fim do próprio regime militar em vigor no país desde 1976.
A Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982, foi, portanto, decisiva em muitos aspec-
tos para o futuro da Argentina e da região do Cone Sul. Além de ter promovido a
redemocratização do país, foi fundamental para a aproximação entre Buenos Aires e

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Brasília. Mas não só isso. A guerra demonstrou de maneira inequívoca o que significava,
para os Estados Unidos, a América Latina. Os norte-americanos, naquele episódio, não
vacilaram e ficaram ao lado da Inglaterra no conflito (um aliado global no contexto da
guerra fria), mesmo existindo o compromisso internacional de solidariedade aos países
latino-americanos consubstanciado na assinatura do Tratado Interamericano de Assis-
tência Recíproca (Tiar), que previa a cooperação inter-hemisférica em caso de guerra com
atores de outros continentes.
No Brasil, a ditadura militar também vivia seus últimos momentos, abalado que
estava o país por um quadro de recessão econômica, desemprego crescente e dificuldades
para honrar os compromissos internacionais. Esse quadro levou ao desgaste do regime e
forçou a saída dos militares. A redemocratização veio em 1985 e foi, como no caso argen-
tino, decisiva para a aproximação do Brasil com seus vizinhos, especialmente a Argenti-
na. Pode-se dizer que a posição assumida pelo Brasil de efetiva solidariedade aos argentinos
durante a Guerra das Malvinas possibilitou a aproximação sincera entre os dois países
que ocorreu logo em seguida, com a ascensão de governos civis ao poder.
O Uruguai e a Bolívia foram outros dois países que iniciaram a década de 1980 com
mudanças políticas. Os regimes militares ali instalados padeciam de males semelhantes
aos vividos pelos regimes do Brasil e da Argentina. Para a Bolívia, a situação foi mais
dramática do que para o Uruguai. Nesse caso, além da crise de legitimidade, parte do
setor militar boliviano acabou sendo contaminado pela ação do crime organizado, espe-
cialmente pela ação dos narcotraficantes. Já no Uruguai, país que havia apresentado
historicamente uma evolução política mais estável e democrática, a transição se deu de
forma um pouco menos conturbada. Ainda na região do Cone Sul, destaque-se que os
regimes militares do Chile e do Paraguai também estavam comprometidos com as mu-
danças internacionais e eles não mais correspondiam aos imperativos da ordem bipolar,
ou seja, os seus regimes não resistiram ao fim da guerra fria.
Na zona andina deve-se frisar que no final dos anos 1970 e início da década de
1980, dois países vivenciaram momentos críticos que os projetaram internacionalmente.
Foi o caso da Colômbia, com a ação continuada da guerrilha (Forças Armadas Revolucio-
nárias da Colômbia — FARC — e Exército de Libertação Nacional — ELN, os dois
principais movimentos de guerrilha; deve-se também considerar a ação violenta levada a
efeito por forças para militares, ligadas à direita e que contam com conivência governa-
mental), e do Peru, com a escalada de violência perpetrada pela grupo guerrilheiro maoísta
Sendero Luminoso.
Essas forças tornaram-se potencialmente mais perigosas por conta de seu envol-
vimento crescente com o narcotráfico, que lhes garantia boa parte dos recursos necessá-
rios para a continuidade da luta política. Em troca, os exércitos ou grupos guerrilheiros
davam suporte e segurança para algumas zonas produtoras de coca ou laboratórios para
elaboração da cocaína. Nesse sentido, sua ação acabou se tornando objeto de preocupação
por parte dos Estados Unidos (de longe o maior consumidor mundial de cocaína) e dos
países da União Européia, outro importante mercado consumidor da droga do altiplano.
É bom salientar que a política norte-americana com relação à questão da droga
acabou sendo mais a do combate às áreas produtoras e menos a repressão ao consumo
interno, medida logicamente explicada por melindres de política interna. Naturalmente,
os formuladores da política de combate às drogas nos Estados Unidos entenderam ser
menos oneroso, pelo menos em termos políticos, combater nem tanto os consumidores,

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potenciais eleitores, mas sim os produtores, mais distantes dos centros de consumo e dos
desgastes políticos gerados por medidas repressivas no plano interno.
Já no que diz respeito à América Central o quadro foi outro. A região se tornou
particularmente conturbada ainda no final da década de 1970, com a vitória da Revolu-
ção Sandinista na Nicarágua e a escalada crescente da guerra civil em El Salvador. A
região tornou-se num centro de grande atividade ideológica e de conflitos sangrentos,
com envolvimento crescente dos Estados Unidos que, sob a liderança de Reagan, como
afirmado anteriormente, não admitia em hipótese alguma a possibilidade

SOB A ÉGIDE DO NEOLIBERALISMO: A REDEFINIÇÃO DA


INSERÇÃO INTERNACIONAL LATINO-AMERICANA DURANTE OS
ANOS 1990
Entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990 o cenário de definições
políticas começou a se alterar na América Latina. À exceção de Cuba, os demais Estados
latino-americanos promoveram reformas políticas de cunho liberalizante que objetivavam,
de acordo com o que se convencionou chamar de Consenso de Washington, adequar as
economias antes fechadas aos novos tempos, liberalizando os fluxos comerciais e
desregulamentando a economia, ou seja, permitindo a livre circulação de mercadorias e
capitais. Além disso, os projetos de cunho liberal visavam também o remodelamento do
Estado, redimensionando-o no sentido de torná-lo mais enxuto, daí a sua preocupação
em reduzir o máximo possível a sua participação na economia, para o que o instrumento
da privatização foi largamente utilizado.
No geral, como salientado anteriormente, a América Latina passou por esse proces-
so. O que variou foi a sua intensidade. Assim, alguns Estados promoveram reformas
mais radicais, outros atingiram um estágio intermediário e outros, ainda, o fizeram de
maneira mais superficial. A Argentina foi, por exemplo, o Estado que mais aprofundou
suas reformas, privatizando boa parte de suas empresas estatais e liberalizando com vora-
cidade sua economia. Como exemplo de um país que ficou no nível intermediário, pode-
mos citar o Brasil, que embora tendo promovido uma ampla privatização não chegou a
atingir, em extensão, o programa liberal argentino. No nível intermediário ficaram aque-
les nos quais a participação do Estado na economia nunca chegou a ser das dimensões do
Brasil ou da Argentina, como a Colômbia ou o Peru.
O que assistimos portanto, no alvorecer dos anos 1990, foi o esgotamento de um
modelo de desenvolvimento econômico e social trilhado pelos países da América Latina e
que teve a sua origem ainda nos anos 1930, sendo conhecido como modelo nacional-
desenvolvimentista. Nesse modelo, a presença do Estado no desenvolvimento era tida
como essencial, haja vista a incapacidade, gerada por uma série de fatores, das elites
nacionais em promover um processo de industrialização consistente e sustentada apenas
pelos capitais privados. Aliás, é sempre bom lembrar que, à exceção da Inglaterra, esse foi
o padrão para os diversos processos de desenvolvimento industrial verificados entre os
países que hoje são considerados plenamente industrializados e que compõem o seleto
grupo dos mais ricos, os quais são comumente conhecidos como o G 7 (Estados Unidos,
Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Canadá e Japão). Pode-se inferir daí, portanto, que
historicamente é um mito a afirmação de que os Estados nacionais não foram um compo-

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nente essencial para a consolidação dos processos de industrialização. A única exceção


reside no caso da Inglaterra, pioneiro e que por essa razão pôde prescindir de uma ação
estatal mais coordenada.
Voltando ao contexto latino-americano, a tentativa de industrialização via modelo
de substituição de importações não obteve o sucesso desejado. Alguns poucos países,
como foi o caso do Brasil e do México, seguidos pela Argentina, conseguiram diversificar
seus parques industriais e avançar no desenvolvimento econômico e industrial. Mas,
mesmo esses países obtiveram resultados parciais. Alegava-se que o modelo de desenvol-
vimento voltava-se excessivamente para o mercado interno, geralmente de dimensões
restritas. Além disso, segundo os críticos do modelo nacional-desenvolvimentista, o Es-
tado não é um agente econômico eficiente e, portanto, sua presença na economia acabou
gerando mais distorções do que a promoção de um ciclo de desenvolvimento sustentado.
Era preciso modificar essa situação e a saída vislumbrada estava afinada com as tendên-
cias mundiais, profundamente marcadas pelo processo de globalização. Como forma de
readequar o modelo de desenvolvimento e sintonizá-lo com a tendência predominante
houve uma inflexão do Estado latino-americano no caminho do liberalismo econômico e
político.
A aposta no modelo liberal acabou gerando várias novas distorções, principalmente
no campo social. Destaque-se, por exemplo, que, após mais de uma década de implanta-
ção do modelo, os resultados sociais são desanimadores. Alguns indicadores
macroeconômicos até tiveram resultados positivos, como o controle da inflação. Contu-
do, a abertura econômica por si só não foi capaz de promover a inserção das economias
latino-americanas no Primeiro Mundo, e nem tampouco as reformas econômicas criaram
condições para um ciclo virtuoso de desenvolvimento, que pudesse contar com atração de
investimentos diretos nas economias nacionais e resolver problemas estruturais que vi-
nham de muitas décadas atrás.
O resultado, do ponto de vista social, foi catastrófico. Houve o aumento do desem-
prego, da economia informal e em vários casos ocorre um processo de diminuição da
atividade industrial, haja vista que parte das empresas nacionais não conseguiram se
adequar para competir com empresas estrangeiras. O quadro social acabou aumentando o
descontentamento, e vários países passaram por sérios problemas políticos no final da
década de 1990. Isso levou a mudanças políticas generalizadas, sendo que vários parti-
dos de esquerda foram conduzidos ao poder no final daquela década sem, contudo, reuni-
rem condições de promover transformações políticas e econômicas estruturais nos países
latino-americanos.
É importante destacar que um dos resultados da implementação de políticas
neoliberais na América Latina foi a eleição dessas lideranças situadas à margem do pen-
samento predominante, o que significa uma reação ao status quo. Houve mudanças na
Venezuela, na Bolívia, no Peru, no Equador, no Uruguai, na Argentina e no Brasil, para
ficarmos somente na América do Sul. Nesse sentido, a eleição de Hugo Chávez, na
Venezuela, foi sintomática e a que sinaliza para uma tentativa de mudança mais radical.
Esse importante país sul-americano, um dos dois eixos mais estratégicos da política
externa brasileira na América do Sul, é o quinto maior produtor de petróleo do mundo e
tem, por isso mesmo, capacidade para incomodar países mais desenvolvidos como os
Estados Unidos.

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A questão internacional mais importante que se coloca para a América Latina no


alvorecer do século XXI continua sendo a de buscar mecanismos para superar a diferença
que separa a região das áreas mais desenvolvidas do planeta. A implementação do modelo
neoliberal já demonstrou que certamente esse não é o caminho para o desenvolvimento.
Assim, a participação do Estado como coordenador de políticas desenvolvimentistas con-
tinua sendo valoroso para a região, haja vista que, mesmo sem se tornar um Estado
autoritário e interventor, ele pode coordenar e maximizar os esforços para o desenvolvi-
mento nacional e regional.

OS PROCESSOS DE INTEGRAÇÃO NA AMÉRICA DO SUL: O


MERCOSUL E A COMUNIDADE ANDINA DE NAÇÕES
A integração regional é uma realidade mundial. Desde pelo menos a intensificação
do processo de globalização, verificado durante a segunda metade dos anos 1980, os
processos de regionalização foram renovados ou relançados à luz da nova realidade inter-
nacional. Tratava-se, naquele contexto, de tentar conter os prejuízos advindos de uma
liberalização comercial cada vez mais agressiva e de outras medidas reestruturantes
advindas de modificações no sistema capitalista, como a desregulamentação financeira e
a reforma do Estado sob a égide do chamado neoliberalismo.
Os avanços no processo de construção da União Européia também acabaram influen-
ciando outros países e regiões e mostrando que pelo menos um dos caminhos para o
desenvolvimento, talvez o principal, passava pela união de forças, cristalizadas na integração
regional. Assim, ante um cenário internacional econômico e político marcado por
indefinições e muitas incertezas, diversos Estados nacionais buscaram criar blocos regio-
nais para responder às novas diretrizes que emanavam do centro mais dinâmico do siste-
ma capitalista. Vale lembrar que tudo isso estava acontecendo no momento de crise do
então bloco socialista, capitaneado pela profunda transformação que atingiu a ex-União
Soviética e levou, na seqüência da “Glasnost” (reforma política) e da “Perestroika”
(reestruturação econômica), à queda do Muro de Berlim e ao fim da própria União Sovi-
ética, pondo fim ao período histórico conhecido como guerra fria.
Portanto, foi no contexto da globalização e do enfraquecimento ou remodelação da
idéia de Estado-nação que o mundo viu o relançamento de alguns blocos regionais e o
surgimento de outros tantos. No caso do Cone Sul da América, assistimos, assim, ao
lançamento do Mercado Comum do Sul, ou Mercosul, um bloco regional formado por
Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai (mais tarde entrariam, como membros associados,
a Bolívia, o Chile e o Peru), inspirado sobretudo no modelo de integração européia, que
previa, praticamente desde o seu lançamento, um processo de integração mais profundo,
que visava não somente a criação de um zona de livre comércio, mas sim a idéia de um
Mercado Comum e de uma União Política e Econômica sólida, que indicava a tendência
de criação de uma nova identidade.
O Mercosul nasceu, pois, com objetivos ousados, tanto do ponto de vista econômico
como político. Naturalmente, o aspecto econômico e comercial sempre foi de primordial
importância para os países envolvidos na formação desse bloco regional, mas os seus
fundadores não perderam de vista a idéia de que uma integração regional mais sólida
necessita contemplar outros campos além desses, como os campos cultural e social. As-
sim, existe a consciência de que os países membros possuem uma história em comum e

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são muitos os pontos de convergência que envolvem aspectos culturais diversos e que
poderiam ser mais intensamente explorados para, de fato, consolidar um processo de
integração duradouro e permanente.
O Pacto Andino, que mais tarde passou a ser denominado de Comunidade Andina
de Nações, também surgiu como resultado de um projeto político voltado para a integração
regional na área andina da América do Sul. Seu objetivo principal era coordenar o desen-
volvimento da região com base no pressuposto de que a união das economias dos seus
membros teria o efeito de promover o aumento do comércio e favorecer investimentos
externos na região.
Assim como no caso do Mercosul, os fundadores da Comunidade Andina de Nações
decidiram construir o bloco econômico partindo da experiência prévia da Alalc, que havia
fracassado com o seu intento de promover a integração econômica em escala continental.
Nesse sentido, a avaliação era de que a integração de economias de escala aproximada e o
fato de existirem laços históricos mais profundos entre os países da região, inclusive
contando já com algum grau de integração física, poderiam favorecer um maior
entrosamento econômico e resultar no sucesso da integração.
Muito embora os países da Comunidade Andina possuam problemas econômicos e
políticos sensivelmente mais densos do que os países do Mercosul, haja vista o clima de
instabilidade política gerado pela existência das Forças Armadas Revolucionárias da Co-
lômbia (Farc).

O MERCADO COMUM DO SUL — MERCOSUL


No dia 26 de março de 1991, em Assunção, os presidentes do Paraguai, Argentina,
Uruguai e Brasil, assinaram o Tratado de Assunção que deu nascimento ao Mercado
Comum do Sul, ou Mercosul. Quatro países de uma mesma região aceitavam criar um
mercado comum estabelecendo o dia 31 de dezembro de 1994 como prazo para a
concretização do bloco econômico. Nessa data, nos termos do acordo, a maioria dos bens
produzidos em qualquer dos países deveria circular livremente dentro da região integrada
sem taxações ou impedimentos extras, desde que comumente acordado em mesas de
negociação. Integrava-se uma área com 11 milhões de quilômetros quadrados, mais da
metade da América do Sul, cuja população passava dos 200 milhões de habitantes.
Em termos percentuais, o Brasil detém em torno de 75% do PIB do Mercosul, a
Argentina um pouco menos de 23% e o restante é distribuído entre o Uruguai (1,5%) e
Paraguai (0,7%), o que demonstra o grau de disparidade no nível de desenvolvimento e
perfil industrial dos países membros. Associado a isso temos que a produção de manufa-
turas na área é de 78% brasileira, 20% argentina, 1,3% uruguaia e 0,4% do Paraguai. O
Brasil é dois terços do Mercosul em território, população e PIB. Para os padrões latino-
americanos é uma área integrada de certo valor, principalmente porque estão juntas as
duas maiores economias da América do Sul.
A proporção de produtos industrializados no total das exportações brasileiras para a
Argentina vinha crescendo. Na década de 1970 essa exportação ficou em torno de 55%.
Na década seguinte a exportação de manufaturados subiu para 65% do comércio total e
35% para os bens primários. As exportações argentinas para o Brasil eram diferentes. Na
mesma década de 1970, a Argentina exportou para o Brasil aproximadamente 65% de
produtos primários e 35% de bens industrializados. Na outra década, passaram a ser

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exportados 75% de bens primários e 25% de manufaturados. Os argentinos temiam, e


ainda temem, que ocorresse uma divisão de trabalho na região em que aquele país se espe-
cializaria em produzir e exportar matérias-primas e alimentos e o Brasil, bens industriais.
É importante observar o significado econômico de um país para com o outro e esta-
belecer alguns parâmetros de comparação no período anterior e posterior à criação do
Mercosul. Até 1985, antes portanto da assinatura dos atos de integração, com variações
normais em anos diferentes, o Brasil estava entre segundo e quarto comprador dos pro-
dutos argentinos e na mesma proporção como supridor de suas necessidades A Argenti-
na, por seu lado, estava entre sexto e oitavo supridor das necessidades brasileiras e entre
décimo primeiro e décimo segundo como mercado para a venda de produtos nacionais.
Depois do Mercosul isso alterou, a Argentina passava a ser o segundo mercado compra-
dor, perdendo apenas para os EUA. Para a Argentina, o Brasil passou a ser também o
mais importante mercado, além do país ter-se tornado um investidor de peso na econo-
mia argentina, a ponto de alguns setores ponderarem que está em curso uma invasão de
capitais brasileiros em direção à Argentina, desnacionalizando setores considerados im-
portantes para os vizinhos. No fundo, trata-se de uma tentativa de reação do governo
argentino diante da crise de sua economia, resultado direto da política econômica equivo-
cada adotada pelo governo de Carlos Menem e que promoveu um grande impacto no
perfil industrial do país, sobretudo por ter mantido, por um tempo excessivamente lon-
go, a paridade entre o peso e o dólar, o que afetou diretamente o parque industrial argen-
tino, uma vez que facilitou a importação de produtos industrializados.
Por vários fatores, mas também porque o comércio Brasil-Argentina havia se dete-
riorado entre 1980 e 1985, em parte pela crise vivida pelos dois países, Raul Alfonsin e
José Sarney buscaram uma maior aproximação entre os dois países. Começou em agosto
de 1985 e culminou em 30 de novembro daquele ano com a Declaração de Iguaçu. Por
meio de comunicados e declarações oficiais, os dois presidentes, como raras vezes ocorreu
na história dos dois países, expressaram pontos de vista conjuntos sobre vários assuntos
e que, a partir dali, ambos passariam a atuar unidos em suas decisões no campo interna-
cional.
Em 30 de julho de 1986, em Buenos Aires, Alfonsin e Sarney assinaram a Ata para
a Integração Argentino-Brasileira e Protocolos relacionados. Ambos convidaram ainda o
presidente do Uruguai, Júlio Sanguinetti, para participar do encontro, analisar as pro-
postas e, no futuro, associar-se ao projeto. A participação do Uruguai, uma economia
relativamente menor, poderia ser um treinamento para que não se repetisse, como no
passado, as mesmas fricções entre economias maiores e menores.
Com Fernando Collor de Mello e Carlos S. Menem nas presidências, os seus gover-
nos apressaram os passos para a integração e caminhou-se rapidamente para o Tratado de
Assunção, assinado em 1991. A data para implementação do bloco foi definida para
dezembro de 1994, e Uruguai e Paraguai foram formalmente convidados para se torna-
rem sócios efetivos do Mercosul, gozando das prerrogativas de membros plenos.
A idéia inicial de ter o Uruguai na integração com Brasil e a Argentina era para se
analisar com cuidado a participação de uma economia menor junto às duas maiores. A
partir daí, aos poucos, poder-se-ia estender a integração para outros países. No que diz
respeito ao Paraguai, o exemplo da Alalc vem logo à mente. E o caso paraguaio era, em
princípio, complicado. Sua economia, no setor agropecuário, é competitiva com a brasi-
leira, o parceiro maior da integração. O Paraguai produz café, algodão, soja, mate, menta,

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carne, madeira, bens que o Brasil é auto-suficiente e até exportador. No campo indus-
trial, em que poderia haver complementação e alguma atuação conjunta, a produção
paraguaia é negligenciável.
No Paraguai pode-se, desde 1974, importar produtos industrializados de qualquer
parte do mundo pagando-se pouca taxa de importação. Foi uma medida tomada no gover-
no de Alfredo Stroessner quando da aproximação com o Brasil. No início, a medida
deveria beneficiar somente os países vizinhos. Vendo que a economia paraguaia poderia
ser sufocada pela brasileira, principalmente na compra de produtos industrializados, e
forçado pelos comerciantes locais, a administração Stroessner estendeu aquele beneficio
de importar para qualquer país do mundo. Já que o Brasil estava ganhando com exporta-
ções para o Paraguai, este país encontrou um meio para ganhar também.
O Tratado de Assunção é dividido em capítulos, artigos e vários anexos. O acordo
prevê livre circulação de bens, serviços e fatores de produção. É um pouco ousado, mas está
dentro dos princípios corretos para se criar um Mercado Comum. Mas não é fácil aceitar
que a circulação livre de mão-de-obra não especializada ocorra tão cedo entre os países
membros. No Nafta, que na verdade é uma zona de livre comércio, em que a circulação do
capital é incentivada, o fator mão-de-obra foi tratado de forma diferente, adaptaram-se a
uma realidade concreta do momento. A circulação livre dos fatores de produção, portanto,
consta no Tratado do Mercosul. Também, é óbvio, prevê a eliminação de barreiras alfande-
gárias e a livre movimentação de mercadorias entre os membros integrados.
Estabelece ainda que se pretende adotar uma política comercial comum ante os
outros países. Se ocorrer, seria usada uma só linguagem, de forma coordenada, nas rela-
ções comerciais com países e blocos econômicos de outras regiões. Esse é um dos objeti-
vos de uma integração. Integrar, para que, na hora da barganha econômica internacional,
os membros integrados usem argumentos diferentes seria um erro. Erro que a América
Latina vem cometendo desde muito tempo. São economias pequenas e de força diminuta
no plano mundial, ao propor falar em conjunto adquire-se uma força maior, o poder de
pressão na barganha comercial aumenta e, quem sabe, pode-se garantir ganhos adicionais
no comércio internacional para os países do Mercosul.
O Tratado prevê ainda coordenação de políticas macroeconômicas e também a exis-
tência de uma Tarifa Externa Comum para ser aplicada a países não membros. Impostos
e taxações, continua o Tratado, devem ser os mesmos para todos os produtos provenien-
tes de qualquer dos países integrados. Não se poderia, portanto, taxar um produto argen-
tino no Brasil de forma descabida, com um imposto desproporcional àquele que se aplica
ao produto nacional. Não se poderia também realizar acordos paralelos, de um só mem-
bro, com outros países, mesmo da América Latina, que possa prejudicar os termos do
Tratado. Se, por exemplo, houver vantagens em um entendimento entre a Argentina e a
Venezuela, isso deverá ser estendido também aos outros membros.
O Mercado Comum em formação teria uma estrutura de comando que seria dividido
em dois segmentos: Conselho do Mercado Comum e Grupo Mercado Comum. O Conse-
lho era o órgão de mando da integração, tomaria as decisões com o objetivo de assegurar
o cumprimento das metas e prazos estabelecidos no tratado. O Conselho seria composto
pelos ministros das Relações Exteriores e da Economia dos respectivos países. Deve se
reunir quando necessário e também com a participação dos presidentes dos países pelo
menos uma vez por ano. A presidência do Conselho seria ocupada de forma rotativa, cada
seis meses, em ordem alfabética.

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O órgão executivo do Mercado Comum em andamento era o Grupo Mercado Co-


mum e coordenado pelos ministros das Relações Exteriores dos países envolvidos. O
Grupo, depois das decisões do Conselho, trabalha nos detalhes, e pelo cumprimento dos
acordos estabelecidos, seria a parte executiva do tratado. O Grupo teria quatro membros
titulares e quatro suplentes que deveriam vir dos Ministérios do Exterior, da Economia e
do Banco Central. Há ainda uma secretaria executiva, e a sede, como fora antes com a
Alalc e a Aladi, está localizada em Montevidéu. As decisões finais devem ser tomadas por
consenso e com a presença de todos os participantes. Os idiomas usados são o espanhol e
o português.
Para o Tratado, um produto que for só maquiado, embalado ou montado dentro de
um país, tendo procedência de fora da área, não seria considerado de origem local. Será
considerado da área integrada, mesmo que a matéria-prima não pertença ao país, quando
o processo de transformação lhe dê uma individualidade própria. Essa questão da origem
do produto é um dos aspectos mais controversos e mereceu longos debates. O Uruguai,
como exemplo, queria um pouco mais de flexibilidade, Argentina e Brasil não. O Uru-
guai, por sua situação geográfica e tipo de mão-de-obra, poderia ser um paraíso para
fábricas maquiadoras produzirem e venderem nos dois países maiores. Os artigos sobre
esse aspecto do tratado descem aos detalhes para identificar a origem do bem, propõe
análise minuciosa para se entender a característica essencial do produto.
Em 17 de dezembro de 1994 foi assinado um “Protocolo Adicional ao Tratado de
Assunção sobre a Estrutura Institucional do Mercosul”, que ficou conhecido como Pro-
tocolo de Ouro Preto. Ficou definido com clareza os órgãos que compõem o Mercosul, uns
vem desde o seu início e outros foram acrescentados para dar maior agilidade e funciona-
lidade ao acordo de integração regional. A estrutura do Mercosul ficou maior. Tem-se
hoje, como antes, o Conselho do Mercado Comum, órgão máximo da integração, que o
conduz politicamente e é formado pelos ministros das Relações Exteriores e da Economia
dos países membros. O Grupo Mercado Comum continua como o órgão executivo e é
composto pelos ministros das Relações Exteriores de cada país. Acrescentou-se a Comis-
são de Comércio do Mercosul que ficou encarregada de dar assistência ao Grupo Mercado
Comum na questão da política comercial dos países membros. Criou-se ainda uma Co-
missão Parlamentar Conjunta, em que os parlamentos dos países integrados teriam as-
sento. Os setores econômicos e sociais ficaram contemplados com o Foro Consultivo
Econômico e Social. E, por fim, faz parte dessa estrutura uma Secretaria Administrativa,
responsável a prestar serviços para todos os outros órgãos do Mercosul. A sede continua-
ria em Montevidéu. O Protocolo de Ouro Preto, que cria aqueles órgãos, também os
define, dá a função de cada um e de como deveriam atuar. São longas e detalhadas essas
colocações naquele protocolo.
O Mercosul, na sua criação inicial e mesmo depois de sua formalização em Ouro
Preto, aproveita o aprendizado da época da Alalc. Fala muito em Aladi mas, na verdade,
a base do acordo tem sua origem nos erros e acertos ocorridos entre 1960 e 1980 com a
Alalc. Aliás, esse parece ser o melhor caminho para os países da região, não é possível que
vizinhos vivam no século XXI como se estivessem ainda no século XIX. Comercializar
com o mundo é importante, mas não se pode deixar de dar alguma preferência a uma
economia de dentro da área integrada.
Em 1990 o comércio entre os países hoje integrados estava em torno de quatro
bilhões de dólares, um ano depois passou dos cinco bilhões. Em 1992 chegava a sete

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bilhões, no ano seguinte já ultrapassava os dez bilhões. Continuou subindo para chegar em
1997 e 1998 a mais de 20 bilhões de dólares em trocas na área integrada. Crises locais e
importadas fizeram com que o comércio caísse nos anos posteriores, chegando a 15.1 bi-
lhões de dólares em 1999 e subindo outra vez, no ano 2000, para algo como 17.6 bilhões
de dólares. Oscilou mais ainda na enorme crise econômica que passou a Argentina depois
da desvalorização do peso ante o dólar. Para perceber a extensão desse problema, veja o
exemplo das exportações do Brasil dentro do Mercosul nos anos de 2000 e 2001.
Com a Argentina, ela caiu mais de 19%, com o Paraguai mais de 13% e com o
Uruguai acima de 4%. O Brasil também comprou menos naquele período. Com a Argen-
tina, a queda foi mais de 9%, com o Paraguai cerca de 14% e do Uruguai importou-se
16% menos. As exportações do Brasil dentro do Mercosul já chegou a ser 14% do total
dos bens exportados pelo Brasil para o mundo. Com as crises e as seguidas quedas no
comércio regional, em 2001, as exportações para o Mercosul correspondia a 12,37% do
nosso total para o mundo. A coisa piorou mais ainda, em 2002 apenas 5,9% de nossa
exportação global foi para o Mercosul. As importações nacionais do Mercosul, em 2001,
foi de 13,13%, no ano seguinte caiu para 12,82%. Mostra esse dado que o Brasil, apesar
das crises envolvendo os parceiros do Mercosul, principalmente a Argentina, ainda man-
teve dentro da área integrada um patamar alto de importação, se comparado com os
parceiros. Um dado interessante na relação comercial do Brasil com a Argentina é que,
em 1994 e 1995, tivemos superávit comercial com ela. Daí para a frente, mesmo nos
momentos maiores da crise econômica naquele país, sempre tivemos déficit comercial.
Recentemente o Brasil voltou a ter superávit com o país vizinho. Com o Paraguai, o
Brasil teve superávit de 1994 a setembro de 2002. Com o Uruguai varia um pouco. Teve
superávit em 1994 e 1995, déficit comercial de 1996 a 1998, volta a ter superávit em
1999, 2000 e 2001. E, em 2002, até setembro, tinha déficit outra vez.
Um dado importante sobre o Mercosul é que, apesar de ter aumentado as trocas
internas, o comércio com outros países também aumentou, não houve, como recomenda
a OMC, desvio de comércio. Em 1990, a participação do Mercosul no comércio mundial
era de 2% do total. Em 1991 e 1992 subiu para 2,1% e aí foi subindo seguidamente até
chegar ao patamar maior, em 1997, com 2,9% do comércio internacional, um acréscimo
de quase 50% sobre ano de 1990. Passou, no total das importações mundiais, em núme-
ros redondos, de 29 bilhões de dólares em 1991 para 98 bilhões de dólares em 1998.
Outra vez as crises que abalaram as economias da região, principalmente as duas maio-
res, acabam fazendo que essa participação internacional diminuísse.
O que mais tem chamado a atenção na integração dos países do Mercosul é que, até
agora, os problemas surgidos têm sido resolvidos de forma negociada. Era comum aceitar
que na primeira desavença o processo seria interrompido. Mesmo com muita choradeira
de um ou outro membro nenhum rompimento ocorreu. Se, como exemplo, a tarifa exter-
na comum não tinha ainda condições para ser aplicada, os lados transferiram as datas
antes estabelecidas. Reclamações sobre os sistemas automotivos do Brasil e da Argentina
levaram esses países a um entendimento para tentar harmonizá-los. O chamado “acordo
sobre a política automotiva do Mercosul” é um exemplo. Deveria entrar em vigor a partir
de 1 de fevereiro de 2001 e era um substituto aumentado de um outro acordo de 30 de
junho de 2000. Os detalhes previstos no acordo automotivo impressionam. Cada item,
cada componente, cada fator na construção do automóvel ou sua venda posterior está ali
previsto. O que se pontua aqui é que os países integrados, basicamente Argentina e

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Brasil, apesar dos vários casos criados por um ou outro país, sempre buscaram alternati-
vas para que a integração não morresse. O dos automóveis é um exemplo.
Os lácteos, autopeças, tecidos, quem vai ter assento no Conselho de Segurança da
ONU ou a desvalorização cambial no Brasil de 1999, que quase comprometeu de uma
vez por todas as relações regionais; a paridade cambial e depois a desvalorização na Ar-
gentina que também ajudou a por mais lenha na fogueira dos assuntos regionais; a possi-
bilidade, real ou imaginada, de algum país da área integrada ser membro do Nafta, num
abandono do Mercosul; não foram poucos os desentendimentos entre os membros inte-
grados, é só buscar nos jornais da época para se ver a quantidade de assuntos quentes
entre os lados, principalmente nas relações do Brasil com a Argentina.
Para o Brasil, o Mercosul tem sido importante economicamente, os números do
comércio mostram isso. Mas essa integração tem um objetivo maior, é também um proje-
to de alcance político. A intenção é manter a integração para buscar novas adesões na
América do Sul, principalmente da Comunidade Andina e aí, em conjunto, ter uma
conversação mais apropriada com os propositores da Área de Livre Comércio das Améri-
cas (Alca). Seria mais inteligente que se fosse em conjunto para aquela integração, se não
toda a América do Sul pelo menos os países do Mercosul. Até isso foi colocado em dúvida
em diversas ocasiões quando membros da integração ameaçavam debandar para outros
lados ou apelarem para conversações bilaterais. Mas, nas discussões finais da Alca, em
Miami em 2003 e Puebla em 2004, viu-se um Mercosul unido, com uma linguagem
única nas discussões e decisões a serem tomadas. O trabalho dos membros integrados,
principalmente do Brasil, teve resultados concretos na unificação dos objetivos naquela
discussão de integração continental. Um dado que muitos não acreditavam que ocorresse
tal a monta de problemas e assuntos que surgiram entre os países do Mercosul, com o
Brasil e a Argentina à frente. O poder de barganha dos integrados aumentou, portanto.
Quando as conversações maiores na Alca se complicam, como mais um exemplo, fala-se
no “quatro mais um” ou o Mercosul tentar se entender diretamente com os EUA.
Em conjunto também, a área mantém entendimentos com o Japão, o México, a
Comunidade Andina e a União Européia. Com esta última as conversações, apesar dos
conhecidos problemas, foram avançando. Praticamente os mesmos assuntos que
emperraram o andamento da Alca aparecem na negociação entre o Mercosul e a UE. Por
algum motivo especial esse entendimento fluiu um pouco melhor do que as conversações
do bloco sul-americano na Alca. Traços culturais e históricos mais próximos talvez aju-
dem nisso ou, quem sabe, a força maior dos EUA assusta um pouco. Ou ainda porque os
negociadores do Mercosul entenderam de dar maior rapidez nos entendimentos com a
UE para forçar uma barganha comercial mais adequada com o gigante da Alca, os EUA.
Os subsídios agrícolas também estão no centro das discussões entre o Mercosul e a UE.
Os negociadores da UE, um pouco diferente do que ocorria na Alca, concordaram em pelo
menos aumentar a cota de importação de bens agrícolas do Mercosul, sem no entanto
acabar de vez com os subsídios ao setor. A grande preocupação dos negociadores do Mercosul
é abrir mercado fora para seus produtos agrícolas, daí a luta para a retirada ou diminui-
ção dos subsídios. É uma busca justa, somos competitivos nessa atividade econômica.
Mas, quem sabe, o exemplo do México no Nafta deveria ser analisado com mais cuidado
e poderia ser um parâmetro a seguir. Aberturas em algumas atividades econômicas que
não puderam ser feitas desde o início daquela integração foram transferidas para ocorrer
anos à frente. Não se interrompia a busca da integração quando um aspecto comercial
não andava, foi a fórmula encontrada para não atrapalhar a integração em estágio em-

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brionário ainda. Com o objetivo de obterem mais vantagens e aberturas comerciais na


área agrícola, os negociadores do Mercosul algumas vezes não usaram a mesma ênfase na
busca de aberturas maiores no setor industrial, em áreas onde se é competitivo também.
Mas, enfim, as conversações com a União Européia andavam juntamente com aquela que
o Mercosul fazia na Alca. Tem uma pequena história por trás daquela tentativa de apro-
ximação.
Em dezembro de 1995, o Mercosul e a União Européia assinaram o chamado “Acor-
do-Quadro Inter-regional de Cooperação”; seriam mecanismos de transição para se che-
gar, mais tarde, a uma Associação Inter-Regional ou uma integração mais efetiva entre os
lados. Em 28 de junho de 1999, no Rio de Janeiro, os chefes de Estado dos governos do
Mercosul e da UE lançaram as negociações reais entre os dois blocos. O Comitê de Nego-
ciações Birregionias (CNB) se reuniu pela primeira vez em abril de 2000 em Buenos
Aires. Na segunda reunião, em Bruxelas, em 12 de novembro de 2003, aprovou-se as
diretrizes que orientariam as negociações diretas entre os dois interesses. Dali para cá
foram realizados vários encontros para tentar liberar o comércio e ainda para se estabele-
cer regras sobre outros setores de atividade como serviços, investimentos ou propriedade
intelectual. É uma discussão ampla, que inclui praticamente todos os aspectos no rumo
de uma integração econômica entre o Mercosul e UE. Entre dezembro de 2003 e julho de
2004 seriam realizadas cinco reuniões do CNB e ainda dois encontros de nível ministe-
rial, em maio e outubro de 2004. Pretendia-se terminar essa fase, que daria mesmo o
início de uma integração entre os dois blocos, até outubro de 2004. Nessa data termina-
ria o mandato da Comissão Européia que fazia as negociações, uma nova poderia atrasar
um pouco os entendimentos finais entre os dois lados. O entendimento final não ocorreu.
Ficou transferido para o ano de 2005, já com novos membros na Comissão Européia. A
que saiu, ante os impasses entre os dois lados, não quis formalizar um acordo que talvez
fosse contestado ou criticado pelos novos negociadores daquela integração.
Talvez possa ser especulado também que este assunto poderia ser associado com o
que estava ocorrendo nas conversações entre o Mercosul e a Alca. Uma conclusão da
integração entre o Mercosul e UE antes daquela outra talvez desse mais munição aos
negociadores do bloco sul-americano nas suas conversações com o principal integrante da
Alca, os EUA. E, outra vez, chama a atenção a unidade de linguagem dos membros do
Mercosul na busca dessa outra alternativa integracionista com parte da Europa. Derru-
bava por terra a crença de que isso não ocorreria, que um ou outro membro da integração
acabaria quebrando a unidade do bloco. Até agora isso não ocorreu. A unidade ao longo do
tempo rendeu frutos. O que o Brasil sempre buscara, atuação conjunta nas discussões
futuras da Alca e com a UE, acabou acontecendo. Cada item das propostas apresentadas
aos negociadores europeus ou norte-americanos ou que de lá vinham era estudado em
conjunto pelos representantes do Mercosul, com preponderância de brasileiros e argenti-
nos. Essa atuação conjunta fez um contraponto interessante às conversações na Alca.
Enquanto nesta as coisas chegaram a andar mais devagar, os entendimentos do Mercosul
com a UE por algum tempo caminharam com mais vigor.
Esse entusiasmo regional, que comumente ocorre sob certas circunstâncias, se es-
tendeu a uma outra vertente integracionista mais ampla. Uma tentativa nova que procu-
ra unir toda a América do Sul ou mais precisamente a unidade entre os países do Mercosul
e da Comunidade Andina. Em Cusco, Peru, em dezembro de 2004, houve a assinatura
do acordo para se criar a Comunidade Sul-Americana de Nações. A idéia faz parte da
estratégia da política externa brasileira de conter o avanço da Alca e propiciar a integração

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no espaço sul-americano como uma condição prévia para a integração maior. A CSN, de
acordo com o estabelecido em Cusco, está baseada em três pontos: 1. diálogo político
permanente; 2. acordo comercial entre a CAN e o Mercosul; e 3. a sonhada integração da
infra-estrutura física da região, uma tentativa que vem desde o governo Fernando Henrique
Cardoso. A sigla para essa importante parte do acordo é IIRSA ou Integração da Infra-
Estrutura Regional Sul-Americana.
É mais uma tentativa. É cedo para dizer se vai dar certo ou não. Integrações meno-
res e de países geograficamente mais próximos como os do Mercosul já enfrentam muitas
dificuldades para ir em frente. Uma integração mais ampla, com interesses variados e
com economias tão díspares entre si, é uma empreitada que depende não só de boa von-
tade. Mas é uma tentativa válida, mostra que há um interesse em se unir as economias
dessa parte do mundo. Como amostragem de dificuldades futuras, naquele encontro em
Cusco, três presidentes de países do Mercosul, com alegações diferentes, não foram ao
evento que criou a CSN. Nestor Kirchner da Argentina, Jorge Battle do Uruguai e Nicanor
Duarte Frutos do Paraguai não compareceram.

A COMUNIDADE ANDINA — CAN


Em maio de 1969, um grupo de países dos Andes, por meio do Acordo de Cartagena,
conhecido como Pacto Andino, resolveu estabelecer uma integração entre suas economi-
as. Faziam parte, inicialmente, a Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. A Venezuela
passou a pertencer ao grupo em 1973 e o Chile afastou-se em 1976. O Chile, naquele
momento sob o comando da ditadura militar, alegava que era mais interessante para o
país manter um perfil liberal, autônomo e livre das amarras de qualquer esquema de
integração, haja vista que o governo militar optou por uma inserção internacional que
privilegiasse o comércio aberto.
A integração na zona andina veio como resultado do que se entendia ser o fracasso
da integração continental no âmbito da Alalc. Um dos motivos que levou a isso foi que as
economias menores reclamavam que não teriam ganhos naquela integração. Equador,
Bolívia e Paraguai estavam nesse grupo. A Alalc fez concessões especiais a esses países,
mas não foi suficiente. Depois de algum tempo as economias médias, como Colômbia,
Chile, Venezuela, também passam a reclamar que a integração beneficiava os chamados
“três grandes” ou Argentina, Brasil e México, que estavam num processo de industriali-
zação maior e em que, por motivos vários, as multinacionais tinham mais interesses em
investir do que nas economias menores ou médias da região. Os governos dessas economi-
as achavam que as concessões que estavam sendo feitas, basicamente na área industrial,
acabariam beneficiando aqueles três países.
A integração andina previa liberalização comercial, coordenação na política de de-
senvolvimento industrial, tratamento especial para as multinacionais, programa unifica-
do para importações, criação de uma corporação de fomento, atuação em conjunto na
pesquisa científica e na educação, criação de uma Tarifa Externa Comum — para criar
uma União Aduaneira —, coordenação e harmonização de suas políticas econômicas e
investimentos em infra-estrutura. Tratava-se, portanto, de um esquema de integração
ousado, com objetivos maiores do que apenas criar uma zona de livre-comércio.
Em síntese, os objetivos gerais daquela integração previam 1) aumentar o cresci-
mento econômico dos países envolvidos; 2) criar mais empregos; 3) promover desenvolvi-

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mento equilibrado e harmônico entre seus membros em que prevaleceria a cooperação


econômica e social; 4) buscar, ao longo do tempo, uma integração regional ou a formação
do Mercado Comum Latino-Americano; 5) procurar diminuir a vulnerabilidade externa
dos países membros e, por fim, envidar esforços para melhorar o nível de vida dos habi-
tantes da região.
A integração, seja a andina ou da Alalc, dedicava mais atenção à industrialização da
área do que a outras atividades econômicas. Com o mercado ampliado, acreditava-se que
se poderia chegar à economia de escala, além de outras motivações que interessariam ao
capital externo. Era mais difícil caminhar para uma integração efetiva no setor agrícola.
De forma geral, os países da zona andina produziam quase os mesmos bens, ou seja,
havia inicialmente pouca complementaridade. Eram economias competitivas no campo.
A ênfase no setor industrial tinha um objetivo maior ainda. Se ocorresse, como sonhavam
alguns latino-americanos, principalmente os técnicos da Comissão Econômica para a
América Latina (Cepal), faria com que a região comprasse menos bens industrializados
de fora e assim manteria mais dinheiro internamente. Ela ainda aumentaria e melhoraria
a qualidade dos empregos nas áreas integradas.
Em fevereiro de 1989, em Caracas, os presidentes dos países membros resolveram
avançar na integração que se encontrava num impasse devido ao emperramento nas dis-
cussões sobre liberalização tarifária. Era um recomeço. No mesmo ano, em maio, houve
um novo encontro em Cartagena de Índias para fazer realmente funcionar o programa de
liberalização comercial que estava parado. E, em dezembro daquele mesmo ano, aconte-
ceu mais um encontro nas ilhas Galápagos. A intenção era melhorar o entendimento e
tornar mais efetivas as conversações dentro do grupo.
Em maio de 1990, representantes da Comunidade Andina reúnem-se em Machu
Pichu para institucionalizar certos mecanismos que dinamizariam os trabalhos do grupo.
Em julho do mesmo ano, em Lima, se reúnem outra vez e decidem que examinariam em
conjunto a proposta norte-americana de “iniciativa para as Américas”. Em agosto daque-
le ano, em Bogotá, aceitam a proposta dos EUA, mas enfatizam que ela deve trazer
benefício a todos, reforçam o valor das integrações em andamento e que por meio delas se
fariam as negociações. Em La Paz, em novembro de 1990, já se fala em zona de livre-
comércio, tarifa externa comum, união de transportes e telecomunicações. A proposta
norte-americana acabou provocando uma movimentação maior dentro da CAN. Em maio
de 1991, em Caracas, numa nova reunião, decidem aprofundar ainda mais os laços co-
merciais entre os membros integrados. Em Cartagena de Índias, em dezembro do mesmo
ano, em mais um encontro presidencial, decidem sobre a zona de livre-comércio e ainda
sobre a tarifa externa comum da união aduaneira.
Voltam a se reunir em Quito, em setembro de 1995. Os argumentos são quase os
mesmos de encontros anteriores, mas reforçam a idéia de se aprofundar a integração
ainda mais. Em março de 1996, em Trujillo, dão sentido institucional à CAN, com a
Secretaria Geral e a incorporação dos Conselhos Presidenciais e dos Ministros de Rela-
ções Exteriores. Em Sucre, em abril de 1997, decidiram criar o Mercado Comum. Em
abril do próximo ano, 1998, se reúnem em Guayaquil, e a definição mais importante foi
a de aceitarem defender uma Política Externa Comum, um objetivo ousado e que dificil-
mente será atingido num curto ou médio período de tempo.
Os presidentes voltam a Cartagena de Índias, em maio de 1999, e reafirmam a idéia
do Mercado Comum, que deveria ser concretizado no mais tardar até 2005 e insistem

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que manterão a decisão anterior sobre Política Externa Comum. Lima, capital do Peru,
recebe a reunião de junho de 2000, na qual é aprovado um plano de ação para o estabe-
lecimento do Mercado Comum. Em Valência, Venezuela, em junho de 2001, foi elabora-
do um plano com preocupações sociais que visava enfrentar os graves problemas de pobreza
e de desigualdade social na área. Em julho do mesmo ano, em Machu Pichu, por causa da
posse de Alejandro Toledo no Peru, os presidentes se reúnem outra vez e enfatizam a luta
contra a pobreza e pela manutenção do processo democrático na região. Em Santa Cruz
de la Sierra, em 30 de janeiro de 2002, decidem consolidar a Zona de Livre-Comércio
(ZLC), melhorar os passos rumo à União Aduaneira, harmonizar políticas macroeconômicas
e, mais uma vez, falam em aplicar uma Política Externa Comum.
É preciso dar ênfase a algumas formulações que ocorreram naqueles encontros pre-
sidenciais. O primeiro exemplo é a criação da Zona de Livre-Comércio, em 1991, quando
Venezuela, Colômbia, Bolívia e Equador, depois de anos de complicadas negociações,
terminaram as discussões sobre tarifas intra-regional e abriram seus mercados à circula-
ção de bens dos países membros. Mantiveram, porém, suas tarifas para países de fora da
área integrada. O Peru somente se incorpora à ZLC em julho de 1997 e, assim mesmo,
continuou a liberar seu comércio dentro da integração de forma gradual. Em 1995 cria-
se a União Aduaneira andina, com uma Tarifa Externa Comum, característica maior de
uma integração nesse estágio. Ela deveria entrar em funcionamento definitivo, de acordo
com a Declaração de Santa Cruz, de janeiro de 2002, o mais tardar até 31 de dezembro
de 2003. É previsto um tratamento especial para a Bolívia, economia menor da região.
Contudo, é preciso destacar que o objetivo da Tarifa Externa Comum não foi alcançado,
haja vista que uma decisão dessa natureza implica uma série de requisitos que ainda não
haviam sido alcançados pela CAN.
Criou-se ainda o Parlamento Andino que deveria ajudar no processo de integração,
os representantes seriam eleitos nos respectivos países para pertencer àquele fórum. Na
área política merece citação um protocolo adicional ao Acordo de Cartagena, chamado de
“Compromisso da Comunidade Andina pela Democracia” de 10 de junho de 2000, que
ratificava uma decisão anterior de Bogotá de agosto de 1998. Em síntese, defende os
princípios democráticos. A região havia passado por tantas adversidades políticas e
institucionais em anos anteriores que agora, diante de um novo mundo e sem a guerra
fria, entendia que o melhor caminho a seguir seria o da democracia. Está previsto, depois
de etapas diferentes de negociações, que um país membro que infringir pressupostos
democráticos poderia até, no caso extremo, ser excluído da Comunidade Andina.
Em junho de 2001 os países andinos decidem permitir a livre circulação de pessoas
na área integrada. Não é uma permissão aberta para que trabalhadores possam sair de
seus respectivos países e ir livremente trabalhar em um outro da região em integração. É
mais para reconhecer os documentos nacionais de identificação e permitir que pessoas
dos países membros possam viajar “pela região na qualidade de turistas”. Abria-se uma
pequena exceção ao dizer que profissionais da área técnica, com formação educacional
adequada, poderiam trabalhar em outro país. Acorda-se também em reconhecer os diplo-
mas universitários dos países integrados. Não é uma circulação, portanto, de qualquer
trabalhador em qualquer nível de trabalho.
Os países da Comunidade Andina decidiram ainda caminhar para um Mercado Co-
mum, o “mais tardar até 2005”. Esse, em teoria, se caracteriza pela livre circulação de
bens, serviços, capitais e até de pessoas. A circulação de bens é o que está mais adiantado,

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pois, desde 1991, com a ZLC, depois de se acertar a liberação tarifária entre os membros
integrados, já vem sendo realizada de forma crescente. Na área de serviços, que deve ser
parte de um Mercado Comum, passos mais concretos foram dados nos setores de teleco-
municação e transportes, outros ainda engatinham. Prevê-se harmonizar e regularizar o
sistema bancário e financeiro e acena-se com a possibilidade de entendimento entre as
Bolsas de Valores dos respectivos países.
A Comunidade Andina também aprovou uma Política Externa Comum. A intenção
é ter voz única em foros internacionais. Acreditam que unidos podem ter mais peso nos
assuntos externos. E, ao longo do tempo, em matérias diversas, estão atuando nessa
direção. Em temas como combate a drogas, tráfico de armas, terrorismo ou corrupção
falam linguagem única. Caminham com unidade também quando buscam integração
econômica com outros países.
Citemos alguns desses acordos como exemplo. Em maio de 1997, a Comunidade
Andina estabelece um acordo com o Mercado Comum Centro-Americano composto por
Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e El Salvador. Até um entendimento mais
limitado, em março de 2002, foi estabelecido entre a CAN e Guatemala, El Salvador e
Honduras que pertencem a uma unidade econômica chamada de “triângulo norte”. A
proliferação de “integrações’ é uma realidade do momento latino-americano. Aumentou
bastante depois da movimentação em torno da Alca. Essas divisões menores, em princí-
pio, não seriam recomendadas, mas, diante do passado de comércio restrito e difícil,
qualquer tentativa que ajude a melhorar as relações comerciais entre vizinhos, que por
anos não mantiveram portas abertas, é um avanço.
Em abril de 1998, foi estabelecido um acordo de livre-comércio entre a CAN e o
Panamá. Com os países do Caribe, na integração conhecida como Caricom, há um tratado
de integração. E ainda com a União Européia, pelo acordo estabelecido em dezembro de
2003. Talvez o passo maior daquela integração foi dado na aproximação com o Mercosul
porque, se realmente concretizado, praticamente faria a integração da América do Sul,
intenção que vem desde a década de 1960 com a Alalc. As negociações seriam por etapas,
começou com um protocolo de entendimento entre os lados em 16 de abril de 1998. Em
agosto de 1999, a CAN e o Brasil estabeleceram acordo de preferência tarifária, o mesmo
foi feito com a Argentina em junho de 2000. Agora, com a Alca, passos mais diretos
foram tomados pelos países dos Andes e do Mercosul para efetivarem uma integração
entre suas economias, formar uma área de integração sul-americana.
Como se disse anteriormente, os encontros presidenciais promoveram o renascimento
da integração entre os países dos Andes. Sem eles, talvez o processo, que começara com
certa euforia no fim da década de 1960 e pouco depois fenecera, não tivesse chegado onde
chegou. Mas, apesar disso, eles ajudaram a cimentar um entendimento mais harmonioso
entre os parceiros integrados. Tudo fizeram, portanto, para que o processo iniciado em
1969, ao se desligarem da Alalc, não morresse. A luta foi enorme, dificuldades surgiam
a todo momento, seja no campo econômico ou no político. A liberalização comercial, o
dado mais importante para uma iniciante integração, foi um parto complicado. O que se
alegava antes sobre a Alalc, que algumas economias ganhariam mais que outras, aconte-
ceu, num plano menor, dentro da nova tentativa. Equador e, principalmente a Bolívia,
queriam decisões que os beneficiassem como economias menores. Capital de fora ou mes-
mo regional terá preferência em investir numa economia mais robusta, com população
maior e meios de comunicações adequados do que em uma sem essas vantagens.

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A integração na região andina não é perfeita, assim como nenhum esquema de


integração o é. Quando analisamos os dados disponíveis sobre a Comunidade Andina,
percebemos que houve crescimento considerável do comércio intra-regional. Assim, um
dos objetivos principais quando se monta um esquema de integração foi alcançado, que é
justamente o de promover o comércio regional.

CONCLUSÃO
O estudo das relações internacionais da América Latina nos mostra que a região vem
tentando, desde praticamente o século XIX, uma inserção internacional que lhe permita
superar o subdesenvolvimento, rompendo com a situação de dependência verificada pela
divisão internacional do trabalho, marca característica do século XIX e que se aprofundou
ao longo do XX. Assim, em termos gerais, sua modernização foi um dos objetivos perma-
nentes a ser alcançado no plano internacional.
Romper com a herança colonial, promover a superação do subdesenvolvimento,
modernizar suas instituições, corrigir as distorções sociais, combater pelo fim dos entra-
ves comerciais promovidos pelos Estados mais poderosos pela via dos subsídios e propor
mudanças no sistema financeiro internacional tornado-o menos abusivo são outros aspec-
tos que compõem os objetivos estratégicos da região em suas relações internacionais.

MERCOSUL — (MERCADO COMUM DO SUL)

INTEGRANTES ÁREA POPULAÇÃO PIB(Bilhões RENDA PER CRESC.ANUAL


(km2) (Milhões de de US$) CAPTA (US$) DO PIB %
habitantes)

ARGENTINA 2.780.092 37,9 102.2 4,060 4,3

BOLÍVIA * 1.098.581 8,8 7.8 900 4

BRASIL 8.547.403,5 174,7 452.4 2,830 2,9

CHILE * 756.626 15,6 64.2 4,250 6,8

PARAGUAI 406.752 5,5 7.2 1,170 2,2

URUGUAI 176.215 3,4 12.1 4,340 3,4

PERU * 1.285.215 26,5 54 1,980 4,7

TOTAL 15.050.884,5 272,4

* Fonte: Fiesp/Ciesp, Relatório do Banco Mundial (2004). Membros associados. Assinam trata-
dos para a formação da zona de livre-comércio, mas não entram na União Aduaneira.

Destaque-se, ainda, que os projetos de integração regional se tornaram, no contexto


da globalização, um importante componente para a inserção econômica internacional dos
países da América Latina no final do século XX. Os blocos regionais, como o Mercosul e
a Comunidade Andina de Nações, têm sido instrumentos positivos de aproximação entre

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os povos da região e, além disso, componentes estratégicos para alavancar o desenvolvi-


mento nacional. Nem sempre perfeitos, os esquemas de integração vêm sendo adequados
às realidades políticas dos Estados latino-americanos visando superar o quadro de depen-
dência econômica internacional por meio do aumento do comércio regional e da coopera-
ção entre os seus membros.
Por último, é preciso frisar que os desafios colocados para a América Latina no atual
sistema internacional são complexos. Parece-nos evidente que somente uma ação coleti-
va, integrada e cooperativa pode ajudar na superação do subdesenvolvimento e na moder-
nização da economia e das instituições latino-americanas, daí a grande importância
assumida pela integração regional, tanto como instrumento político para ação nos foros
internacionais como econômico para maximizar as possibilidades das economias latino-
americanas.

COMUNIDADE ANDINA DE NAÇÕES

INTEGRANTES ÁREA (km2) POPULAÇÃO PIB(Milhões de RENDA PER CRESC. ANUAL


(Milhões de US$) CAPTA (US$) DO PIB %
habitantes)

BOLÍVIA 1.098.581 8,8 7.8 900 4

COLÔMBIA 1.141.748 43,5 82.4 1,890 3

EQUADOR 283.561 13,1 18.0 1,080 1,8

PERU 1.285.215 26,5 54 1,980 4,7

VENEZUELA 912.050 25,1 124.9 4,760 1,6

TOTAL 4.721.155 117

Fonte: Relatório do Banco Mundial (2004).

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Faça uma análise da evolução histórica das relações internacionais da América
Latina.
2. Discuta as percepções sobre o Mercosul por parte dos seus dois principais mem-
bros, ou seja, Brasil e Argentina.
3. Caracterize a inserção internacional da América Latina durante a década de
1990.

GLOSSÁRIO
Integração Econômica R egional: é um processo em direção à união e à integração eco-
Regional:
nômica visando a criação e implementação de políticas comuns por meio da remoção de
barreiras e discriminações entre os membros de um bloco.

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Zona de livre comércio: visa o incremento das trocas comerciais dentro dos blocos,
eliminando barreiras como taxas alfandegárias para os bens e serviços produzidos no
âmbito dos países do bloco. Pode haver diminuição das taxas alfandegárias ou sua plena
eliminação. Nesta modalidade permanecem práticas protecionistas contra países não
membros e alguns setores internos continuam protegidos, mesmo dentro da configuração
do bloco.
União Aduaneira: avança alguns pontos no conceito anterior. As relações comerciais
entre os membros do bloco e terceiras nações são comuns, ampliando ainda mais o espaço
econômico no interior do bloco. Os membros, portanto, concordam com tarifas externas
comuns (TEC) e tendem a reduzir ainda mais os entraves para a plena circulação de bens
e mercadorias no interior do bloco.
Mercado comum: é um estágio avançado no processo de integração regional. Os mem-
bros do bloco concordam em remover as barreiras para a livre circulação de bens, capitais
e pessoas no interior do bloco. Para se chegar a esse estágio os países membros devem
desenvolver políticas harmoniosas. Tende a ampliar os níveis de investimentos entre os
países, contribuindo para o incremento das atividades econômicas. Por contemplar a
livre circulação de pessoas tende, também, a desenvolver a integração social e cultural
entre os povos no interior do bloco.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
AYERBE, Luis Fernando. Estados Unidos e América Latina: a construção da
hegemonia. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
CANO, Wilson. Soberania e política econômica na América Latina. São Paulo: Editora
Unesp, 2000.
CERVO, Amado L. Relações Internacionais da América Latina: velhos e novos
paradigmas. Brasília: Ibri, 2001.
__________. RAPOPORT, Mario (Orgs.). História do Cone Sul. Rio de Janeiro: Revan;
Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
MENEZES, Alfredo da Mota; PENNA FILHO, Pio. Blocos Regionais e Relações
Internacionais. 2005.
VAZ, Alcides Costa. Cooperação, integração e processo negociador: a construção do
Mercosul. Brasília: Ibri, 2002.

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83

Capítulo 6
A ÁSIA NA ATUAL
CONJUNTURA MUNDIAL
Henrique Altemani de Oliveira

INTRODUÇÃO
A Ásia, sob qualquer ângulo que seja considerada, atrai atualmente as atenções
mundiais. Na perspectiva econômica, era o Japão inicialmente e, em seguida, a assim
denominada economia asiática que se apresentava ou como um modelo a ser seguido pelos
países em desenvolvimento ou como um possível novo pólo de poder internacional. Mais
recentemente, o admirável crescimento econômico da China ou suas estratégias de inser-
ção internacional despertam interesses que vão da admiração ao receio.
Na perspectiva estratégico-militar, a Ásia compreende a maior concentração de Es-
tados Nucleares do mundo (China, Índia, Paquistão, Rússia e provavelmente a Coréia do
Norte), sendo que estrutura de segurança regional, tida atualmente como uma das mais
instáveis, decorre ainda dos acordos bilaterais estabelecidos durante a guerra fria, não se
vislumbrando qualquer cenário de descontinuidade desta situação devido às desconfian-
ças mútuas, principalmente entre Japão, China e Coréia do Sul.
A Ásia apresenta assim algumas características específicas que serão analisadas no
presente texto:
a) O período da guerra fria, em função do fato de ter sido o palco para o qual se
transferiram as tensões entre as duas principais superpotências do Sistema
Bipolar1, manteve inalterados os principais problemas de relacionamento entre
os países da região. Ao contrário, por exemplo, da Europa onde se desenvolve-
ram mecanismos que propiciaram uma diminuição, em especial, da histórica
rivalidade franco-germânica, na Ásia não se desenvolveu nenhum tipo de aproxi-
mação política entre os diferentes países, sendo que a presença concreta dos
Estados Unidos foi o fator primordial de manutenção de segurança, por meio de
acordos militares bilaterais;
b) No imediato pós-guerra fria, observa-se, de um lado, o ressurgimento dos confli-
tos regionais em decorrência das questões que permaneceram congeladas duran-
te a guerra fria e, de outro, uma redefinição dos papéis dos principais atores

1
Exemplos desta afirmação são a Guerra da Coréia, a Guerra do Vietnã, os conflitos no Camboja e no
Laos, os sucessivos conflitos entre Índia e Paquistão, a guerra entre a Índia e a China, as tensões entre
China e Taiwan e mesmo os conflitos fronteiriços entre a União Soviética e a China.

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regionais. Já, no plano econômico, a situação é relativamente diferente, com a


Ásia despontando como uma das principais economias internacionais e dispu-
tando a liderança com a União Européia e os Estados Unidos;
c) E, no início do presente século, os ataques às torres de Nova Iorque, em 11 de
setembro de 2001, acarretaram significativos reflexos sobre o equilíbrio militar
das diferentes regiões asiáticas, com a Ásia Central adquirindo nova relevância.
Em decorrência do fato de o Leste Asiático conter os principais atores da região
(Japão e China), bem como uma maior relevância econômica, política e estratégica no
plano das relações internacionais, o texto analisará com maior ênfase esta sub-região.

SOBRE QUAL ÁSIA ESTAMOS FALANDO?


Há normalmente uma certa dificuldade em se definir a região asiática. Isso porque
o que se convencionou chamar de Ásia compreende um conjunto muito disperso e dife-
renciado de Estados, com realidades e dinâmicas regionais muito específicas.
No plano teórico pode-se considerar que uma região é decorrente da manifestação
concreta da consciência regional percebida entre seus membros, possibilitando uma dife-
renciação entre quem está dentro (membros) e quem está fora (não membros). Em outros
termos, podemos raciocinar que regiões não são fatos geográficos, mas fenômenos politi-
camente construídos. Esse breve conceito está muito presente nas atuais discussões sobre
a definição das sub-regiões asiáticas, de seus membros e de seus limites.
A Ásia apresenta uma distinta bagagem histórica. Com exceção da China, Japão e
Tailândia, todos os demais Estados asiáticos são formações pós-coloniais e assim mesmo
estes três foram fortemente penetrados e influenciados pelas potências ocidentais. No
entanto, ao contrário das Américas e da África, o processo de descolonização na Ásia
possibilitou a presença de Estados que mantiveram padrões estabelecidos pela história
política pré-colonial. Isso significa que, com exceção das Filipinas e da Indonésia, os
diferentes Estados asiáticos têm a vantagem de apresentar uma legitimidade derivada de
sua própria história. De outro lado, no entanto, esses Estados trouxeram também para os
processos de relações internacionais pós-coloniais, ou mesmo atuais, seu histórico ante-
rior, suas percepções de amizades e inimizades, de ameaças e de parcerias.

ÁSIA CENTRAL
Podemos, assim, visualizar três grandes sub-regiões asiáticas. Uma, compreendendo
os Estados da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e
Uzbequistão) encravados entre a Rússia, a China, o Irã, o Mar Cáspio e o Afeganistão.
Esses Estados adquiriram sua independência depois da desintegração da União Soviéti-
ca, no início da década de 1990, e passaram a fazer parte de um agrupamento regional
denominado Comunidade dos Estados Independentes (CEI)2. Essa comunidade tem a

2
A CEI, constituída em 1991, é comporta pelos seguintes países: Azerbaijão, Armênia, Belarus (ou
Bielo-Rússia), Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Rússia, Tadjiquistão, Turcomenistão,
Uzbequistão e Ucrânia

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Rússia como líder, mantendo um relativo controle sobre a economia e a segurança desses
Estados.
Na década de 1990, os países da Ásia Central defrontaram-se com o problema de
conjugação de dois imperativos: consolidação do Estado recém-constituído e adaptação à
economia internacional. Em ambas as necessidades chocaram-se com dificuldades simi-
lares: o relacionamento com a Rússia, entendido como uma relativa continuidade da
anterior dependência ao sistema soviético e a instabilidade regional decorrente da presen-
ça de grupos radicais nacionalistas e terroristas.
De qualquer forma, como a Ásia Central despertava interesses internacionais por
apresentar uma extensa reserva de recursos em petróleo e gás natural, iniciaram-se dife-
rentes análises prospectivas voltadas a delinear um cenário de produção e exportação
destes recursos energéticos seja para abastecimento do mercado europeu ou do asiático.
Após os ataques terroristas a Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, passou
também a ser percebida como de interesse estratégico devido à proximidade com o
Afeganistão, com o Irã e também com a Rússia e China.
Em função da intervenção no Afeganistão e da lógica de combate ao terrorismo, os
Estados Unidos ao estabelecerem uma presença militar no Quirguistão e no Uzbequistão
geraram um clima de desconforto na Rússia e na China. A China, em especial, tem a
percepção de que esse fato complementa a estratégia norte-americana de estabelecimento
de um cinturão de contenção à sua volta.
Desde a metade da década de 1990, Rússia, Cazaquistão, Quirquistão e Tadjiquistão
estavam reunidos para negociação e demarcação de fronteiras comuns com a China. A
partir dessas conversações, constituiu-se o Grupo de Shanghai voltado não só para a
discussão das questões fronteiriças, mas também para manutenção da segurança regional
e evitar separatismos, terrorismos e fundamentalismos.
Com a entrada do Uzbequistão em junho de 2001, o Grupo de Shanghai transfor-
mou-se na Organização de Cooperação de Shanghai. Em decorrência da nova posição
estratégica da Ásia Central, o interesse da China é contrabalançar a presença norte-
americana na região. China receia que o apoio dos Estados Unidos às empresas petrolífe-
ras americanas possa comprometer seus esforços para obtenção de concessões dos governos
da Ásia Central para exploração ou construção de oleodutos. De outro lado, há também a
preocupação de que a presença americana possa dificultar a ação chinesa no caso de
crescimento da perspectiva separatista da província de Xinjiang, que faz fronteira com a
Ásia Central.

ÁSIA DO SUL
O segundo conjunto asiático é o da Ásia do Sul, compreendendo genericamente a
Península Indiana e especificamente os Estados de Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas,
Nepal, Paquistão e Sri Lanka. A Península Indiana, colonizada a partir da metade do
século XVIII, começou a apresentar crescentes demandas para sua independência no
final do século XIX e inícios do XX e centralizadas principalmente no Congresso Nacio-
nal Indiano, fundado em 1885, e na Liga Muçulmana Toda Índia, fundada em 1906. A
filosofia pacifista de Mahatma Gandhi influenciou fortemente o processo de reivindica-
ção da independência, obtida em agosto de 1947.

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No entanto, a península foi inicialmente dividida em dois Estados, com base em


critérios religiosos (muçulmanos no Paquistão e hindus na Índia), sendo que as diferen-
tes províncias decidiam em qual lado queriam ficar.
A população de Caxemira, na sua maioria muçulmana, pretendia vincular-se ao
Paquistão. Entretanto, o marajá que governava Caxemira decidiu unir-se à Índia, geran-
do um contencioso que provocou de imediato uma guerra entre a Índia e o Paquistão.
Com a divisão da Caxemira em duas partes, com o estabelecimento de uma Linha de
Controle, mantendo um terço do território sob controle do Paquistão e os outros dois
terços com a Índia, a questão não foi solucionada, gerando até hoje um forte clima de
hostilidade.
Seguiram-se assim outras guerras, uma em 1965 em função do contencioso em
relação à Caxemira, outra em 1971 pelo envolvimento da Índia no Paquistão Oriental, e
recentemente em 1999 quando forças paquistanesas invadiram a área controlada pela
Índia.
Os testes nucleares em 1998 e a transformação da Índia e Paquistão em potências
nucleares são atribuídos principalmente, de um lado, às rivalidades em torno do controle
sobre Caxemira, mas também, de outro, à rivalidade sino-indiana3. Alguns analistas de-
fendem que a Índia buscou a arma nuclear para se proteger preventivamente da China, e
que o Paquistão só conseguiu chegar aos testes nucleares porque a China lhe transferiu a
tecnologia com o objetivo de manter a preocupação indiana com o Paquistão e assim
ampliar sua sensação de segurança.
Dentro desse conjunto de conflitos, é ainda pertinente relembrar que o Paquistão
inicialmente fora constituído pelo Paquistão Ocidental e pelo Paquistão Oriental, estan-
do estes espaços territoriais separados pela Índia. Com a reivindicação de autonomia pelo
Paquistão Oriental e com o início da guerra, em 1971, inclusive com a participação da
Índia, o Paquistão Oriental conquistou sua independência, passando a se chamar
Bangladesh.
O conflito na Caxemira, em 1999, demonstrou claramente que Estados Nuclearizados
podem combater entre si, contrariando o que para muitos seria uma cláusula pétrea, nas
relações internacionais de que “estados nucleares não fazem guerra um com o outro”.
A tensão regional ficou ainda mais dramática após o 11 de setembro, com críticas
crescentes de que o Paquistão incentivava a ação de grupos terroristas através da frontei-
ra. A Índia prontamente apoiou a decisão norte-americana de eliminar o regime do Talibã
no Afeganistão na esperança de que esta ação resultaria numa melhor relação com os
Estados Unidos e isolamento do Paquistão. Para alguns observadores isso não se concre-
tizou só por um simples fato geográfico: o Paquistão tem fronteiras com o Afeganistão e
a Índia não.
Assim, logo de início ficou claro que o Paquistão apesar de todos os constrangimen-
tos iniciais, anti-americanismo, pró-Talibã e apoio ao terrorismo na Caxemira indiana,
estava transformando suas desvantagens em capacidades negociadoras. E, muito mais do
que isso, o Paquistão reabilitou seu papel dentro da comunidade internacional com a
suspensão das sanções internacionais que estavam sendo mantidas em função dos testes
nucleares de 1998.

3
Apesar da filosofia pacifista, a Índia envolveu-se ainda em uma guerra com a China, em 1962, por
questões de reivindicações de territórios no Himalaia.

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A Índia, que já estava alterando sua estratégia internacional ao buscar uma maior
aproximação com os Estados Unidos, mesmo à custa de alianças tradicionais, foi um dos
poucos grandes países a apoiar o anúncio da administração Bush de avançar no projeto de
Defesa Nacional contra Mísseis. A decisão indiana oposta às de Moscou, de Beijing e das
principais capitais européias foi considerada um apoio cínico com vistas à obtenção de
outras concessões e principalmente à retirada das sanções impostas após os testes nu-
cleares de 98.
De outro lado, o apoio indiano aparentava também atender interesses norte-ameri-
canos de desenvolvimento de uma alternativa ao papel regional da China.
Ainda em 2001, ataques suicidas e um ataque terrorista na sede do Parlamento
indiano elevaram as tensões. Imediatamente a Índia equiparou seu comportamento ao
dos Estados Unidos, reivindicando que o ataque tinha tido apoio da inteligência
paquistanesa e exigindo o desmantelamento das organizações estabelecidas no Paquistão
e a prisão e envio de seus líderes para Nova Delhi.
Apesar das pressões e solicitações norte-americanas de cautela e de colaboração en-
tre os dois Estados na investigação do ataque, as tensões cresceram e os conflitos foram
retomados ao longo das fronteiras da Linha de Controle.
Estados Unidos desempenharam um papel essencial na não-continuidade desse úl-
timo conflito com o objetivo de não ampliar o quadro militar regional ante a sua presença
no Afeganistão. No entanto, está por demais claro que o que ocorre é uma redução das
tensões, mas não eliminação do perigo e principalmente da possibilidade de sua retoma-
da. Não há uma real disposição política para a solução do conflito e estabelecimento de
uma paz mais duradoura. Provavelmente tem-se mais uma trégua, na expectativa
de mais um conflito e igualmente na presunção de que “guerra limitada” ou “o equilíbrio de
forças” impedirá uma guerra nuclear.
Apesar do clima de rivalidades e conflitos muito presentes na região, com a primeira
reunião de cúpula dos governantes dos sete países da região, em 1985, tiveram início as
atividades da Associação da Ásia do Sul para a Cooperação Regional (South Asian Association
for Regional Cooperation — Saarc), com o objetivo de buscar mecanismos que possibili-
tem a ampliação das relações comerciais e econômicas na região diante de um mundo que
apresenta cada vez mais a tendência de estabelecimento de agrupamentos regionais. A
sucessão de crises e a continuidade dos conflitos e desconfianças entre os diferentes paí-
ses da península praticamente mantêm a Saarc num estágio de incapacidade total.
Ainda que sem uma significativa redução do clima de tensões, a Saarc não apresenta
condições mínimas de avanço no processo cooperativo regional, sendo fundamental a
disposição política da Índia em assumir a liderança deste processo como a principal
economia da região.

ÁSIA DO LESTE
A terceira sub-região é a Ásia do Leste, composta pelo Sudeste e pelo Nordeste
Asiáticos. Na constituição desta região fica bem clara a observação anterior de que as
regiões são politicamente construídas. Iremos, dessa forma, trabalhar a idéia de que a
região do Sudeste Asiático foi inicialmente construída em função de uma ameaça comum
que vai dar sentido ao contexto regional. E que, da mesma forma, durante a guerra fria,
o Nordeste Asiático não apresentava uma identidade regional, estando sobremaneira afe-

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tado pela disputa entre as duas superpotências. Por fim, somente após o início dos anos
1990 em decorrência do fim da guerra fria, é que se desenvolverão os conceitos de Ásia-
Pacífico e posteriormente, com a crise financeira asiática, o de Leste Asiático.
Há ainda uma questão de extrema importância quando se pensa neste processo de
definição do Leste Asiático. Foi em função do clima de guerra fria que a Coréia e o Vietnã
foram divididos, cada um, em dois Estados, a China ficou separada entre a China Conti-
nental e a ilha de Taiwan, além da manutenção de dois territórios sob administração
européia, Macau e Hong Kong.
No Sudeste Asiático, desde o final da 2ª Guerra Mundial, detectavam-se diferentes
preocupações e propostas voltadas para o campo da segurança, culminando com a criação
da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean na sigla em inglês) em 1967. A
criação da Asean só foi possível após a solução parcial das reivindicações territoriais
envolvendo principalmente Indonésia, Malásia e Filipinas, da separação de Cingapura da
Federação Malaia e a instalação de governos mais pró-americanos na Indonésia com a
deposição de Sukarno em 1965 e nas Filipinas com a posse de Ferdinando Marcos em
1966. Apresentada como tendo o objetivo de promover o crescimento econômico, a Asean,
na realidade, tinha a missão de evitar o avanço do comunismo.
Constituída inicialmente por cinco países (Cingapura, Filipinas, Indonésia, Malásia
e Tailândia), a Asean foi se ampliando na medida em que as questões fronteiriças foram
sendo resolvidas. Brunei torna-se membro em 1984, depois de ter obtido sua indepen-
dência da Grã-Bretanha. É interessante observar que anteriormente, em 1982, Sri Lanka
tinha solicitado admissão à Asean, sendo negada sua participação por não ser considerado
como um país do Sudeste Asiático, mas sim do Sul da Ásia.
Após o fim da guerra fria (entre 1995 e 1999), Vietnã, Laos, Camboja e Myanmar
passaram igualmente a fazer parte da Asean, sendo que no caso de Camboja e principal-
mente de Myanmar houve uma forte pressão contrária por parte dos Estados Unidos e da
União Européia, sob alegação de que mantêm ainda regimes autoritários e não respeitam
os direitos humanos. Em parte para contar com todos os países da região e também, em
parte, por pressão favorável da China que cada vez mais amplia sua presença e influência
no Sudeste Asiático, ambos os países foram aceitos.
Já no Nordeste Asiático, pode-se considerar que o início da guerra fria propiciou o
surgimento de uma série de questões que perdurarão por todo esse período e que somadas
às inimizades anteriores continuam afetando ainda as relações internacionais da região.
A entrada da União Soviética na Guerra do Pacífico levantou a suspeita, em Wa-
shington, de uma possível dominação soviética na Coréia, na Manchúria e mesmo no
Nordeste da China. No Acordo de Yalta, de fevereiro de 1945, entre Grã-Bretanha, Esta-
dos Unidos e União Soviética, tinha sido prometido à União Soviética as ilhas Kurilas
japonesas, Sakalina, o controle das ferrovias sino-russas da Manchúria, das bases milita-
res de Port Arthur (Lushun) e de Port Dairen (Dalian). Em contrapartida, a União So-
viética apoiaria o Partido Nacionalista Chinês, o Kuomintang.
Assim, a decisão da divisão da península coreana no Paralelo 38, que gerou o
surgimento da República da Coréia (Coréia do Sul) e da República Democrática e Popu-
lar da Coréia (Coréia do Norte), foi tomada em decorrência do receio norte-americano de
que a União Soviética, após a declaração de guerra contra o Japão, seis dias antes da
rendição, pudesse avançar e ocupar toda a península.

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De outro lado, a vitória do Partido Comunista Chinês (PCC) em 1949 e a fuga do


governo chinês com tropas do Kuomintang para a ilha de Taiwan, que passou a contar
com apoio dos Estados Unidos, propiciou o surgimento de dois espaços chineses, com
dois governos (a República Popular da China, no continente, sob controle do PCC e a
República da China, na ilha, sob controle do Kuomintang) e ambos defendendo a existên-
cia de Uma Só China e reivindicando legitimidade sobre toda a China.
O quarto país membro do Nordeste Asiático é o Japão que contava com a oposição
das duas Coréias e da China pelo seu passado intervencionista e agressivo. A Coréia fora
invadida e transformada em colônia do Japão a partir de 1910, em função tanto de sua
relevância econômica, quanto de sua importância estratégica para os interesses nipônicos
na Sibéria e na Manchúria, e a China tinha sido igualmente invadida a partir de 1932.
Dessa forma, o que se observa durante a guerra fria nesta sub-região é a intensifica-
ção das relações econômicas do Japão com os demais Estados, transferindo empresas,
buscando mão-de-obra mais barata e tecendo uma interdependência industrial. Esse pro-
cesso ocorreu em ondas sucessivas, sendo que, grosso modo, a primeira onda englobou a
Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong, a segunda onda envolveu os demais
países do Sudeste Asiático, e a terceira passou a contar com a presença da China. Ainda
que esse processo tenha estabelecido uma forte complementaridade econômica, gerando
uma rede produtiva, não se estabeleceram laços políticos entre esses países.
Entretanto, o final da guerra fria começa a apresentar algumas novas questões que
começaram a criar condições para se poder pensar no estabelecimento de uma região. Em
primeiro, o fato de que nesse período o Japão, a principal economia mundial, começou a
ser percebido pelos Estados Unidos como um competidor que reunia elementos que po-
diam enfraquecer o poder norte-americano no pós-guerra fria. De outro lado, ainda que
não membro geográfico da região asiática, Estados Unidos tinham e ainda têm um papel
essencial na manutenção da segurança asiática. Começou assim a ter maior relevância o
conceito de Ásia Pacífico, entendido como uma região que abrangeria os dois lados do
Oceano Pacífico, o asiático e o americano.
Com a ampliação do conflito entre os dois e principalmente com a eclosão da Crise
Financeira Asiática, no final da década de 1990, o entendimento de que a crise decorria
exatamente deste conflito e que não afetava somente o Japão, mas toda a região, teve
início um processo de conscientização da necessidade de construção de uma identidade
do Leste Asiático, compreendendo exclusivamente os Estados do Sudeste e do Nordeste
Asiático.

OS PROCESSOS DE COOPERAÇÃO E INTEGRAÇÃO REGIONAIS NO


LESTE ASIÁTICO
AS INICIATIVAS PIONEIRAS
A primeira iniciativa asiática concreta de desenvolvimento de um esquema regional
de cooperação ou de integração, no plano econômico, surgiu em 1965, com a formalização
da proposta apresentada pelo professor japonês Kiyoshi Kojima de criação de uma área de
livre-comércio, a Área de Livre-Comércio do Pacífico Asiático (Pacific Asian Free Trade
Area — Pafta).

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90

A motivação para essa primeira tentativa decorreu, entre outros fatores, dos receios
de que os blocos regionais em desenvolvimento (Comunidade Econômica Européia —
CEE, criada em 1957 — e Associação Latino-Americana de Livre-Comércio — Alalc,
iniciada em 1960) poderiam criar entraves para o acesso ao mercado mundial, deixando
o Japão de fora.
A proposta previa como membros plenos os Estados Unidos, Japão, Canadá, Austrá-
lia e Nova Zelândia, com a possibilidade dos países em desenvolvimento da região aderi-
rem como membros associados. No entanto, essa proposta não foi bem aceita no Sudeste
Asiático devido à ênfase na forte presença ocidental, sendo que, na realidade, o fator
fundamental para seu fracasso foi o desinteresse dos Estados Unidos em participar de
esquemas de cooperação regional que pudessem afetar interesses americanos.
Ainda que não tenha obtido êxito formal, a proposta do professor Kojima, enquanto
reflexo de uma preocupação regional sobre as questões econômicas, propiciou o desenvol-
vimento de uma série de conferências com o objetivo de refletir sobre as possibilidades de
cooperação regional. É necessário frisar que essas conferências que vão caracterizar o
processo asiático abandonam completamente as perspectivas de área de livre-comércio e
vão se concentrar especificamente nas questões de cooperação, e mesmo assim entenden-
do-se cooperação não como integração, mas como coordenação de políticas econômicas.

O FÓRUM DE COOPERAÇÃO ECONÔMICA DA ÁSIA-PACÍFICO


Com base nessas experiências de conferências constituiu-se o Fórum de Cooperação
Econômica da Ásia-Pacífico (Asia-Pacific Economic Cooperation forum — Apec) com um
caráter essencialmente econômico e como um fórum informal em resposta ao aumento do
regionalismo econômico e, consequentemente, para discussão de questões econômicas e
ampliação da cooperação regional.
Note-se que a Apec não se propõe inicialmente como um bloco comercial, mas como
um fórum negociador dos interesses dos diferentes países membros no sentido de ampliar
e explorar as vantagens da interdependência econômica.
Constituída em 1989 com 12 membros (Austrália, Canadá, Estados Unidos, Japão,
Coréia do Sul, Nova Zelândia e os seis membros da Asean — Indonésia, Malásia, Tailândia,
Filipinas, Brunei e Cingapura), a Apec conta hoje com 21 membros.4
De sua criação até 1992, a Apec caracterizou-se pela ausência de propostas concre-
tas que pudessem levá-la a ter uma atuação mais ativa no contexto regional ou interna-
cional. O principal fator que dificultava seu desenvolvimento era a discussão sobre a
viabilidade ou não da participação dos Estados Unidos. Nesse momento, muitos acredi-
tavam que a presença dos Estados Unidos no Leste Asiático era como um fator de estabi-
lidade para a segurança regional, mas de instabilidade para o comércio e para outras áreas
correlacionadas, a partir de suas constantes críticas no que se refere às condições sociais
dos trabalhadores e aos direitos humanos e pressões sobre direitos intelectuais.

4
Em 1991 foram aceitas as participações das três Chinas, sendo que as de Taiwan e Hong Kong, como
economias e não como países. Em 1993, ocorreu a aceitação do México e de Papua Nova Guiné e, em
1994, do Chile. A Rússia, Peru e Vietnã tornaram-se membros plenos em novembro de 1998.

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91

A proposta inicial excluía os Estados Unidos e o Canadá, em primeiro, devido às


mudanças no protecionismo norte-americano em relação ao Pacífico e, em seguida, devi-
do a um posicionamento contrário à participação dos Estados Unidos em um mesmo
organismo com o Japão temendo-se que seu relacionamento bilateral monopolizasse as
atividades da organização.
Na realidade, essa questão da presença norte-americana em organismos regionais
asiáticos estava igualmente na base da proposta do primeiro-ministro da Malásia (Mohamad
Mahathir) de constituição do Grupo Econômico do Leste Asiático (East Asian Economic
Grouping — EAEG). A EAEG previa somente participação de Estados asiáticos, excluin-
do tanto os Estados Unidos, quanto o Canadá, Nova Zelândia e Austrália. Previa igual-
mente que o Japão se predispusesse a liderá-la.
De outro lado e favoravelmente à presença dos Estados Unidos, havia o receio de
predominância do Japão. Nesse sentido, Malásia e Tailândia preocupavam-se com o pre-
domínio norte-americano, enquanto Cingapura achava que a ausência dos Estados Uni-
dos e a ameaça de um bloco do yen desestimularia a proposta australiana. Já a Indonésia
questionava se um ou o outro isoladamente teria condições de liderar o processo, racioci-
nando que a presença de ambos seria favorável às economias abertas da região. Porém, os
Estados Unidos conseguiram sua participação devido às suas pressões e ao pedido japo-
nês de sua inclusão.
De outro lado, independentemente dessa aparência de indefinição de objetivos e de
estratégias, pode-se visualizar a Apec como o resultado de um processo de interação entre
as perspectivas americanas e asiáticas do Pacífico, dentro do contencioso econômico-
comercial entre o Japão (compreendendo a economia asiática) e os Estados Unidos.
No entanto, a partir de 1993, na reunião de Seattle, a perspectiva de liberalização
comercial torna-se a peça-chave da agenda da Apec. Na reunião de Seattle, presidida
pelos Estados Unidos, procurou-se estabelecer uma Estrutura de Comércio e Investi-
mento para futura liberalização de comércio e investimento. Em segundo, o Grupo de
Personalidades Eminentes, que em 1992 tinha recebido a incumbência de preparar a
institucionalização da Apec, apresentou um relatório (Para uma Comunidade Econômica
da Ásia-Pacífico) propondo que a Apec acelerasse a cooperação econômica com vistas ao
estabelecimento de um regime de livre-comércio e de investimento na região. E, em
terceiro, procurou-se instrumentalizar a reunião para se obter um consenso mútuo de
apoio à conclusão da Rodada do Uruguai do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Ge-
neral Agreement on Tariffs and Trade — GATT).
Na reunião na Indonésia, em 1994, deu-se seqüência ao objetivo de estabelecimento
da área de livre-comércio, com um cronograma para adaptação até 2010 para os países
desenvolvidos e até 2020 para os em desenvolvimento. Permaneceu, no entanto, a
indefinição sobre quem é desenvolvido e quem está em desenvolvimento.
Entretanto, essa disposição para definição de uma área de livre-comércio decorria
principalmente das intenções norte-americanas e dos países ocidentais membros, sofren-
do uma velada oposição dos membros asiáticos, principalmente do Japão e da Malásia.
Assim, já na próxima reunião, sob liderança japonesa, 1995 em Osaka, a perspecti-
va de transformação da Apec numa área de livre-comércio praticamente foi descartada.
Essa reunião caracterizou-se pela retomada da via asiática, pela definição da idéia de
regionalismo aberto, segundo o qual as vantagens tarifárias que os membros da Apec se

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concederem mutuamente devem ser estendidas a todos os não-membros, via cláusula da


Nação Mais Favorecida e sem exigências de contrapartida.
Além disso, flexibilizou o disposto na reunião de Bogor sobre os prazos de liberalização
comercial, deixando a cargo de cada país membro decidir sobre os prazos e o calendário
para implementação de seus compromissos de liberalização.

A ASSOCIAÇÃO DAS NAÇÕES DO SUDESTE ASIÁTICO


Como anteriormente indicado, ainda que a Asean, em seus primórdios, tenha tido
uma ênfase maior na perspectiva de evitar que os países do Sudeste Asiático se transfor-
massem em regimes comunistas, de uma forma esquemática, pode-se considerar que a
Asean apresentou três fases desde sua criação, sendo que a primeira correspondeu ao
processo de manutenção da segurança regional, evitando-se a transformação dos regimes
políticos nacionais em comunistas e colaborando para a diminuição dos conflitos inter-
nos, bem como para a estabilidade entre fronteiras.
A segunda fase, com maior ênfase nos anos 1980, abrangeu o período em que o
Sudeste Asiático se inseriu no processo de desenvolvimento econômico asiático, por in-
termédio da transferência de empresas e investimentos tanto do Japão quanto dos Tigres
Asiáticos.
A terceira fase, já no pós-guerra fria, representou um novo direcionamento de seus
objetivos. De um lado, o lançamento do projeto de estabelecimento de uma Área de
Livre-Comércio da Asean (Asean Free Trade Area — Afta) em 1992, com previsão de
redução tarifária até sua efetivação em 2008. E, de outro, a ampliação da Asean em seu
papel de mecanismo garantidor da segurança estratégica, não só restrito ao Sudeste Asiá-
tico, mas incluindo o total da Ásia-Pacífico por meio do Fórum Regional da Asean (Asean
Regional Forum — ARF).
Assim, o Fórum Regional da Asean foi institucionalizado em 1993 com caráter
intergovernamental para discussão de questões políticas e de segurança. Em sua consti-
tuição inicial foram incluídos como participantes da ARF os membros da Asean — Brunei,
Cingapura, Malásia, Indonésia, Filipinas e Tailândia, mais os sete maiores parceiros
comerciais da Asean — Estados Unidos, União Européia, Japão, Canadá, Coréia do Sul,
Austrália e Nova Zelândia, mais dois convidados China, Rússia, e três observadores Vietnã,
Laos, e Papua Nova Guiné.
A inserção da ARF dentro da Asean decorreu, entre outros, do fato de a Asean ser a
única organização na região com um fórum de diálogo já estabelecido e de já ter uma forte
importância na arquitetura de segurança regional por meio dos princípios contidos no
Tratado de Amizade e Cooperação (pelo qual se assegura que nenhum membro procurará
resolver suas disputas pelo uso da violência).

NOVAS PERSPECTIVAS DE INTEGRAÇÃO NA ÁSIA


A crise asiática pode ser considerada como o momento de inflexão das políticas
regionais asiáticas, a partir do momento em que suscitou uma série de questionamentos
sobre a região, os atores e seus papéis no sistema internacional, deixando patente a neces-
sidade de definição de um esquema de bloco regional reativo aos já estabelecidos (União
Européia — UE, North American Free Trade Agreement — Nafta) ou em negociação (Área
de Livre Comércio das Américas — Alca).

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Na realidade, a crise desnudou as fragilidades regionais, demonstrando, de um lado,


que a interdependência por si só não tem capacidade de manter a região isenta de insta-
bilidades e, de outro, que o processo de disputa por poder econômico entre Estados
Unidos, União Européia e Japão não afeta só o Japão, mas acaba englobando toda a
região, exatamente em função da forte interdependência regional.
Nesse sentido, retomaram-se as expectativas de desenvolvimento de um processo de
integração regional, com características essencialmente asiáticas, sem a participação de
atores externos, podendo ser canalizado para estruturas institucionalizadas com o objeti-
vo de encarar questões transnacionais comuns.
A reunião informal da Asean, em novembro de 1999, ressuscitou desta forma a
idéia defendida em 1990 pelo primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, de
institucionalização de um bloco regional, com características essencialmente asiáticas.
No entanto, agora, a reunião da Asean demonstrou que a adesão dos três líderes do
Nordeste Asiático — Japão, China e Coréia do Sul —, constituindo o processo Asean + 3,
refletia a tendência para uma crescente cooperação, especialmente em economia. A ênfase
no reforço da cooperação econômica sinalizou igualmente o cuidado em evitar eventuais
discussões sobre questões políticas e de segurança.
É evidente que não é provável que um mercado comum asiático seja institucionalizado
no curto prazo, levando-se em consideração a persistência de profundas divergências
históricas entre os principais atores. Apesar dessas dificuldades, não se duvida que o
processo pode contribuir para ampliação da mútua compreensão e confiança e uma mais
durável estabilidade e paz no Leste Asiático. Mas, além disto, há o interesse dos três
atores do Nordeste Asiático em atuar em conjunto com o Sudeste Asiático.
No plano da cooperação econômica, a presença do Japão mostrou-se fundamental
para transferir credibilidade a qualquer desenvolvimento do bloco, enquanto que é um
instrumento que possibilita uma atuação japonesa sem cobranças de seu passado.
Retoma-se ainda a idéia de que a proposta de um mercado comum sem a presença
dos Estados Unidos tem significativa importância enquanto se busca a definição de uma
identidade regional, na qual não só se aceita, mas também se requisita a presença japone-
sa. Sob outra perspectiva, enquanto Asean + 3 pode desempenhar um papel fundamen-
tal na aproximação dos atores regionais, pode igualmente também ser visualizado como
um entrave à liberalização do comércio internacional, num processo no qual a Ásia, com
sua extrema dependência dos mercados externos, apresenta-se relativamente mais
fragilizada.
Em conjunto com a atual disposição de estabelecimento de um mecanismo regional
que possa propiciar melhores condições de desenvolvimento regional, assim como de
inserção internacional, detectam-se dois instrumentos complementares que buscam exa-
tamente manter e/ou ampliar os relacionamentos asiáticos com duas outras regiões: a
União Européia e a América Latina.
O projeto Asem (Asia-Europe Meeting), uma iniciativa do primeiro-ministro de
Cingapura, Goh Chok Tong, tem como objetivo estreitar os laços políticos, econômicos e
culturais entre os dois continentes. Para a UE, a institucionalização do Asem, estrategi-
camente, tem o papel de ser um instrumento de aproximação política com a Ásia, com o
objetivo de evitar que Estados Unidos possam se manter isolados na região. Em outros
termos, a UE espera, com o Asem, ser um ator político-regional, além do econômico, de
forma que possa relativizar a importância que Estados Unidos detêm na região.

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O projeto Asem, cuja primeira reunião foi em 1995, antes então da concordância no
desenvolvimento do Asean + 3, tem como participantes asiáticos os membros da Asean,
mais Japão, China e Coréia do Sul. Para o Japão, ainda que as diferentes questões a serem
discutidas já estivessem embutidas no seu relacionamento bilateral com a UE, a impor-
tância do Asem está no fato de representar um diálogo inter-regional sem a presença dos
Estados Unidos. Nesse sentido, note-se que Japão reagiu lentamente à proposta até ter
ciência de que Estados Unidos não se opunham ao encontro.
Mas, mais do que isso, começou-se a ter ciência de que o Asem poderia ser um
instrumento de reaproximação com a Ásia e de uma forma em que não estivessem presen-
tes os constrangimentos históricos, possibilitando um contato mais íntimo entre os dife-
rentes Estados em torno de um objetivo comum. Nesse sentido, o processo em si colabora
para construção e reforço de uma identidade asiática, ou, em outros termos, de um
posicionamento asiático ante os outros agrupamentos políticos e econômicos.
Esse crescente regionalismo pode ser canalizado para estruturas institucionalizadas
com o objetivo de encarar questões transnacionais comuns. Ou mesmo, visualizado como
uma resposta necessária à tendência de aprofundamento dos regionalismos europeu e
americano.
Da mesma forma que o Asem, o processo de aproximação entre Ásia e América
Latina vai ter como ponto inicial uma proposta de Cingapura e vai englobar os países
membros da Asean mais Japão, China e Coréia do Sul. Como proposta básica, trata-se de
uma iniciativa com vistas a institucionalizar uma aproximação política de alto nível e
implementar programas e planos que ampliem os laços econômicos, políticos e culturais
entre as duas regiões.
Seus objetivos oficiais podem ser definidos em termos de gerar condições favoráveis
para ampliação e aprofundamento das relações inter-regionais em cooperação econômica
e social e a troca de visões sobre desenvolvimento, estratégias de mercado, educação,
formação de capital humano, criação de emprego e desenvolvimento social. Assim, na
Primeira Reunião de Chanceleres, em março de 2001, definiu-se que o Fórum de Coope-
ração América Latina — Ásia do Leste (Focalal)5 insere-se no contexto do adensamento das
relações entre as diferentes regiões do mundo e tem por objetivo preencher lacunas no
relacionamento entre as duas regiões.
Dessa forma, o Focalal apresenta forte conteúdo simbólico ao procurar ampliar e
aprofundar relações com a região da América Latina, sem a presença dos Estados Unidos.
Demonstra não só um crescente interesse asiático pelo espaço latino-americano, mas
também a disposição de diferentes Estados, como Japão, China e Coréia do Sul em par-
ticipar deste processo. Considera-se que um dos incentivos para a iniciativa Focalal é a
percepção asiática de que a Alca tende a se efetivar no prazo estabelecido e que, conse-
qüentemente, pode afetar ou diminuir as possibilidades de inserção da Ásia no espaço
latino-americano.

5
O Focalal teve sua reunião inaugural em setembro de 1999, em Cingapura (Reunião de Altos Fun-
cionários). Em agosto de 2000, teve a segunda reunião de Altos Funcionários em Santiago do Chile,
seguida em outubro de 2000, pelo primeiro encontro acadêmico. Em março de 2001, realizou-se a
primeira reunião de Ministros de Relações Exteriores. E, em junho de 2001, dentro desse espírito de
aproximação com a Ásia, a Divisão de Ásia e Oceania do Ministério das Relações Exteriores do Brasil
realizou o Seminário O Brasil e a Ásia no Século XXI: Ao Encontro de Novos Horizontes.

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Note-se que essa iniciativa asiática corresponde, de um lado, às demandas latino-


americanas de ampliação dos contatos políticos e econômicos com a Ásia e, de outro,
soma-se à tentativa regional de desenvolvimento de um bloco asiático, com identidade
asiática, por meio do assim denominado Asean + 3 (Japão, China e Coréia do Sul), sem
a presença de países ocidentais. Focalal nada mais é do que a réplica do processo de
aproximação, já em desenvolvimento, entre a Ásia e a Europa, o Asem.

A SEGURANÇA REGIONAL NO LESTE ASIÁTICO


No período imediato ao fim da guerra fria, tornou-se lugar comum apontar que com
o desaparecimento da União Soviética ou do sistema bipolar o mundo estaria entrando
num período contínuo de paz. Havia a perspectiva de que os investimentos em armas
seriam redirecionados para os projetos de desenvolvimento e que sob os ideais do libera-
lismo, conjugando democracia e desenvolvimento, as forças econômicas funcionariam na
promoção da interdependência e cooperação entre os Estados. Apontava-se assim para
uma predominância do econômico sobre o ideológico, do econômico sobre o militar ou
mesmo do geoeconômico sobre o geoestratégico.
O fim da guerra fria induziu também a um processo de descentralização das ques-
tões de segurança que passaram a ter um caráter mais regionalizado do que universalizado.
Isto é, com o desaparecimento do caráter ideológico, os conflitos readquiriram um signifi-
cado territorial, implicando muito mais o desenvolvimento de esquemas de segurança
regional.
O mundo ficou muito mais complexo, pois, em substituição à rigidez do esquema
bipolar, adentrou-se num sistema com um aumento significativo do número de Estados
independentes e que estão agora engajados numa intensa competição por poder econômi-
co e financeiro. Isso quer dizer que a insegurança internacional está-se ampliando pelo
número de participantes e de variáveis em jogo, indicando que o estabelecimento de
estratégias por parte dos Estados engloba além da visão limitada de segurança militar
igualmente a de segurança econômica.
Quando se pensava no Leste Asiático, normalmente enfatizava-se o fabuloso cresci-
mento econômico dos Tigres Asiáticos, da China, do Japão, ou, genericamente, do avanço
econômico da região que se transformara num dos pólos mais dinâmicos do sistema
econômico internacional.
Entretanto, quando se raciocina que:
a) a maior parte dos Estados da região tornou-se independente durante o período
da guerra fria, com uma série de reivindicações territoriais até então não resolvi-
das e que foram relegadas a um segundo plano devido ao conflito ideológico;
b) a região não dispõe de um mecanismo interno que possa garantir um mínimo de
segurança regional, ou que o atual esquema de segurança é herança da guerra
fria e mantido por um poder por alguns considerado como externo à região e com
tendência declinante; e que
c) o dinamismo econômico está baseado numa grande interdependência entre os
vários Estados, pode-se deduzir que o Leste Asiático apresenta significativos
problemas de segurança, tanto militar quanto econômica, e que necessitam ser
avaliados.

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O fim da guerra fria desencadeou no Leste Asiático um processo de adaptação a esta


nova realidade, conjuntamente com a necessidade de enfrentar antigas questões regio-
nais, sendo um de seus grandes desafios gerenciar os velhos conflitos da guerra fria e se
preparar para as novas ameaças que estão se formando.
Esta nova situação obriga os atores regionais a repensarem as questões de paz e
estabilidade que se direcionam para duas vertentes contraditórias. De um lado, passa-se
por um processo de asianização, em todos os níveis, principalmente nas questões econô-
micas. Nesse sentido, amplia-se a percepção da pertinência de estabelecimento de uma
estrutura regional para discussão das questões de paz e segurança. De outro, receia-se
que a retirada das forças americanas possa criar instabilidade que os obrigue a perseguir
estratégias individuais nacionais, distintas das coletivas nos anos da guerra fria. Esse
receio, inclusive, provocou uma ampliação no índice de compra de armas na região.
Esse caráter contraditório, em parte, decorre do papel decisivo que os Estados Uni-
dos desempenharam na manutenção da segurança do Leste Asiático. Se há relativa con-
tradição para os países da região, a definição do futuro papel da participação regional
militar norte-americana implica igualmente posições antagônicas. De um lado, criticam-
se os gastos para garantia da segurança, mas, de outro, parece que os Estados Unidos não
têm interesse em abandonar seu papel proeminente na região.
No período posterior à Segunda Guerra Mundial, as relações de segurança na região
da Ásia Pacífico estiveram condicionadas a considerações ideológicas ou da guerra fria,
nas quais uma construção triangular entre Estados Unidos, União Soviética e China
delineava a estrutura de segurança interestatal. A preocupação com o estabelecimento de
mecanismos asiáticos de segurança é recente, tendo-se iniciado somente na metade dos
anos 1980, principalmente após uma série de discursos de Gorbachev, nos quais enfatizava,
numa visão multilateralista, a necessidade de uma segurança comum.
Em decorrência dessas considerações, diferentes Estados (União Soviética, Malásia,
Japão, Coréia do Sul, Mongólia, Austrália e Canadá) apresentaram propostas e ou reco-
mendações para a criação de novos canais para o estabelecimento de um diálogo multila-
teral sobre questões de segurança.
No entanto, alguns problemas básicos demonstravam as diferenças entre as propos-
tas e mantêm-se ainda como entraves para uma maior solução consensual, como a delimi-
tação da região, a definição conceitual do tipo de segurança buscada e a relação com os
esquemas anteriores de segurança, principalmente no que se refere às alianças militares
com os Estados Unidos.
O fim da guerra fria com a eliminação mais imediata do fator ideológico gerou dois
tipos de respostas. A primeira traduzida na política de ampliação das capacidades milita-
res nacionais e a outra no crescimento da movimentação em favor da institucionalização
de algum tipo de arranjo regional que tivesse um caráter multilateral e que correspondesse
a um processo cooperativo em termos de segurança.
No processo de recomposição de forças no Leste Asiático ou de ressurgimento de
conflitos adormecidos durante o período da guerra fria são apontados exaustivamente,
entre outros, a questão da península coreana em si, separada através do Paralelo 38 pela
Zona Desmilitarizada, a disputa entre Japão e Rússia sobre os Territórios do Norte, o
conflito China-Taiwan, e as disputas entre China, Malásia, Indonésia, Vietnã e Filipinas,
no Mar da China do Sul, pelo controle dos arquipélagos Spratly e Paracels.

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Ainda que se possa observar uma relativa melhoria nas relações interestatais e dimi-
nuição das tensões regionais, o Leste Asiático permanece como uma das regiões mais
armadas do mundo e com uma tendência de crescimento da corrida armamentista. So-
mente na Zona Desmilitarizada entre a Coréia do Sul e a do Norte concentra-se aproxi-
madamente um milhão de soldados norte-coreanos fortemente armados e posicionados
em oposição a 650 mil sul-coreanos reforçados por 37 mil soldados norte-americanos.
A esses antigos conflitos podem-se acrescer dois novos fatores que afetam direta-
mente a problemática da segurança no Leste Asiático. Um, de caráter mais hipotético do
que concreto, correlaciona-se com a possibilidade do Japão procurar transformar-se num
Estado Normal dotando-se de capacidade militar como um instrumento de política exter-
na. O outro corresponde à atual retomada da questão nuclear da Coréia do Norte. Ainda
que represente revisão de uma antiga questão, em especial da crise de uma década atrás,
a atual aparenta ser mais perigosa do que a anterior.
A questão do Japão, com uma tendência de remilitarização, reveste-se de extrema
importância enquanto se choca com a atual distribuição regional de poder.
Como base das prováveis alterações japonesas no plano da defesa, aponta-se que o
Japão sofreu três choques de segurança que, além de um forte impacto psicológico, pres-
sionaram-no a retomar a discussão sobre sua própria segurança e principalmente a de-
pendência em relação ao guarda-chuva norte americano. Em primeiro, os testes chineses
de mísseis sobre o Estreito de Taiwan em 1995 e 1996. Depois, o teste de lançamento do
míssil norte-coreano Taepodong 1 em 1998. E, por fim, um conjunto de eventos que
erodiu a confiança nos fundamentos do existente regime de não-proliferação: os testes
nucleares da Índia e Paquistão em 1998 e a decisão norte-americana de não ratificar o
Tratado Compreensivo de Proibição de Testes Nucleares (CTBT).
Como indício dessa tendência e com forte conotação doméstica está o debate sobre a
possibilidade de alteração do Artigo Nono da Constituição que o impede de manter forças
consideradas ofensivas. Essa questão encontra profundas resistências internas principal-
mente pela cultura pacifista que se desenvolveu em decorrência do Japão ter sido o único
Estado que sofreu as conseqüências da utilização de bombas nucleares.
No que se refere à segurança regional, a China preocupa-se com a possibilidade de
que esta nova postura japonesa possa afetar seus interesses considerados vitais, em espe-
cial Taiwan, as ilhas Diaoyu e o Mar da China do Sul.
O teste do míssil norte-coreano, Taepodong 1, em agosto de 1998, violando o espa-
ço aéreo japonês, antes de cair no Pacífico, assustou o Japão e influenciou a definição de
sua política externa. O governo japonês, ainda sob o impacto do teste, expressou seu
interesse em cooperar com os Estados Unidos no desenvolvimento de um sistema de
defesa de mísseis (Theater Missile Defense — TMD). Certo de que a Coréia do Norte está
desenvolvendo o Taepodong 2, com capacidade intercontinental, o Japão, em agosto de
1999, assinou com os Estados Unidos um Memorando de Entendimentos visando o
desenvolvimento conjunto de tecnologias para o sistema de defesa. Concordou igualmen-
te em investir cerca de US$ 280 milhões para pesquisa nos próximos cinco a seis anos.
Ainda que o sistema TMD seja apontado como decorrente da ameaça representada
pela Coréia do Norte, diversos analistas indicam que, na realidade, o objetivo é a China.
Embora o governo japonês afirme que o projeto de defesa não representa uma
ameaça ofensiva a seus vizinhos, o TMD pode alterar a balança de poder regional dando

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ao Japão uma poderosa força de intimidação ou até mesmo um ganho em qualquer futura
negociação sobre redução de armas com a China. Enquanto Estados Unidos e Japão vêem
sua cooperação em defesa como o principal componente de seu relacionamento, a China
a visualiza como uma ameaça à sua própria segurança. Beijing está convencido de que o
Japão irá colaborar com os Estados Unidos em atividades militares na Ásia, do mesmo
modo que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) colabora na Europa.
Dentre as razões da oposição chinesa, a de maior sensibilidade é a visão de que o
TMD pode constituir um potencial obstáculo para seu objetivo de recuperar Taiwan,
principalmente pela possibilidade do TMD abrigar também Taiwan. Há alguns analistas
que tendem a considerar que, sem essa possibilidade, a reação chinesa seria relativamente
atenuada, ou mesmo simplesmente retórica.
Noutra perspectiva, aventa-se a possibilidade de que o Japão possa adotar uma polí-
tica externa e de segurança mais independente para exatamente refrear futuras tendên-
cias unilaterais e políticas de intervenção dos Estados Unidos no Leste Asiático. Já, nesse
caso, a participação conjunta do Japão no TMD poderia atender interesses da China, pois
tal envolvimento reforçaria a independência política do Japão no processo decisório numa
situação de crises ou de conflitos militares.

CONCLUSÃO
Em primeiro, destaca-se que o clima de desconfianças e ressentimentos persiste
muito forte no Leste Asiático, indicando que China, Coréia e Japão ainda se vêem como
ameaças. Acresce-se a esse ambiente hostil a instabilidade em decorrência da retomada
das ameaças nucleares por parte da Coréia do Norte.
Há, entretanto, um clima mais estável se comparado com alguns anos atrás. Dois
fatores aparentam serem fundamentais para essa relativa melhoria. De um lado, o cresci-
mento da confiança em relação à China, numa percepção de que a China é cada vez mais
um ator cooperativo e que procura se ajustar às regras internacionais para não compro-
meter seu processo de desenvolvimento econômico. E, de outro, a percepção desses dife-
rentes atores sobre a necessidade de esquecerem suas diferenças para se posicionarem
diante dos outros blocos regionais.
Entretanto, isso não indica que Asean + 3 inexoravelmente será institucionalizado
como um organismo de integração econômica.
Aparentemente, o ponto-chave da equação asiática está na questão da presença con-
creta dos Estados Unidos na região. Pode-se inclusive afirmar que todos os Estados, ao
mesmo tempo, que gostariam que Estados Unidos se retirasse da região, não o querem. A
certeza é de que a presença norte-americana inibe os desenvolvimentos regionais ou
quando efetivados são definidos levando em conta os interesses americanos. Mas, de
outro, a retirada dos Estados Unidos, em especial pelo rompimento dos acordos milita-
res com o Japão e a Coréia do Sul e a desmobilização das tropas ali estacionadas e
também da esquadra marítima fundeada em Cingapura, provavelmente provocará um
vácuo de poder.
E se algum outro Estado tentar ocupar esse vácuo, provavelmente não o será de
forma pacífica. Isto é, China não está preparada para aceitar uma liderança regional do
Japão e o Japão igualmente não aceitará um papel mais proeminente da China.

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Dessa forma, o processo Asean + 3, no campo econômico, e o Fórum Regional da


Asean, no plano da segurança, exercem um papel primordial enquanto funcionam como
um laboratório que possibilite a construção de um maior clima de confiança entre Japão,
China, Coréia do Sul e também os demais países do Sudeste Asiático.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Até que ponto a rivalidade sino-japonesa inibe o desenvolvimento de organismos
de cooperação econômica no Leste Asiático?
2. O Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, englobando Estados tanto
do Pacífico Asiático quanto do Pacífico Americano, apresenta a possibilidade de
se constituir numa área de livre-comércio?
3. Qual a importância da Associação das Nações do Sudeste Asiático para a maior
parte das negociações, econômicas ou de segurança no Leste Asiático?

GLOSSÁRIO
Cláusula da Nação Mais F avorecida: a principal regra do Acordo Geral sobre Tarifas e
Favorecida:
Comércio (Gatt) que disciplinava as relações comerciais internacionais. Indica que uma
redução tarifária concedida por um país a um outro deve ser imediata e universalmente
repassada para todos os outros países. Por exemplo, se a China reduz as tarifas de impor-
tação de soja do Brasil para 2%, favorecendo o Brasil, e esta é a menor tarifa que a China
está aplicando sobre este produto, ela deve ser também aplicada para as importações que
a China fizer de outros países.
Defesa Nacional contra Mísseis: projeto norte-americano de construção de um sistema
de proteção que possa detectar e eliminar, na estratosfera, mísseis com ogivas nucleares,
antes de atingirem seu território. O Estado que detiver essa tecnologia passa a ter uma
significativa superioridade militar, possibilitando-o realizar um ataque nuclear e evitar o
contra-ataque do inimigo.
Sistema Bipolar: compreende o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945)
e a desintegração do bloco soviético (1991). Recebeu o nome de Bipolar pelo fato de o
mundo apresentar-se dividido em dois blocos, com cada um subordinado ao seu respecti-
vo líder. O Sistema Bipolar foi marcado pela política de contenção, sendo o objetivo de
cada uma das superpotências conter e eliminar a outra. Por isso, a variável estratégica foi
a mais importante nas relações internacionais desse período, tendo preponderância sobre
a econômica.

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100

BIBLIOGRAFIA INDICADA
AMARAL Jr., ALBERTO & SANCHEZ; RATTON, Michelle (Orgs.). Relações
Sul-Sul: países da Ásia e o Brasil. São Paulo: Aduaneiras, 2004.
FUJITA, Edmundo S. (Org.). O Brasil e a Ásia no século XXI: ao encontro de novos
horizontes. Brasília: IPRI, 2003.
GUIMARÃES, Lytton L. (Org.). Ásia – América Latina – Brasil: a construção de
parcerias. Brasília: NEÀSIA/CEAM/UnB, 2003.
VIZENTINI, Paulo Fagundes; RODRIGUES, Gabriela. O dragão chinês e os tigres
asiáticos. Porto Alegre: Novo Século, 2000.

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101

Capítulo 7
A ÁFRICA E O ORIENTE MÉDIO
NO CONTEXTO INTERNACIONAL
Pio Penna Filho 1

INTRODUÇÃO
A África e o Oriente Médio formam duas regiões que não devem ser desprezadas
quando se deseja entender as relações internacionais contemporâneas. Embora não pos-
suam vínculos diretos uma com a outra, é possível perceber elos que dão coerência a
partes dessas regiões. O norte da África, por exemplo, possui relações históricas com o
Oriente Médio e é muito suscetível a aspectos culturais e religiosos que têm o seu núcleo
justamente nessa região. De toda maneira, é importante registrar que se trata de dois
universos distintos, mesmo porque é ilusório imaginar as duas regiões como blocos coe-
sos. Nem a África e nem o Oriente Médio possuem a unidade que geralmente se lhes
atribui.
A África por si só é um mundo. É muito freqüente, principalmente no Ocidente,
enxergar na África um continente sem grandes diferenciações internas, como se o que
acontecesse no sul estivesse acontecendo em qualquer outra parte da África ou com ela
estivesse relacionado. Nada mais equivocado. O continente africano é diverso,
multicultural, multiétnico e possui distintos processos políticos e econômicos.
Os africanos se debatem com o fato de estarem num continente que possuiu um
passado de glórias, de grandes e estáveis impérios e reinos, mas que desde a intensificação
dos contatos com os europeus começou a entrar em declínio e entrou num ciclo de infor-
túnios de enormes proporções, passando pela escravidão e pelo colonialismo em sua for-
ma mais brutal. O domínio europeu acabou moldando o “novo” continente africano de
forma profunda, seja pelas transformações impostas de fora sobre praticamente toda a
estrutura tradicional africana, incluindo aí as redes de poder e tradições sociais, culturais
e políticas, seja pelas transformações econômicas impostas de fora, com a introdução de
relações de tipo capitalista que lançaram o continente numa posição subordinada ao
centro do sistema econômico mundial.
O Oriente Médio também passou por transformações que foram impostas pelo exte-
rior. Primeiro, sob domínio Otomano; depois pela ação das potências ocidentais, princi-
palmente pela Inglaterra, França e, mais tarde, pelos Estados Unidos da América. A
região do Oriente Médio foi se tornando cada vez mais importante para o mundo ociden-

1
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

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tal pelo fato de possuir grandes reservas de petróleo, por estar situada em ponto estraté-
gico de contato entre continentes e civilizações e por ser o berço de uma ativa religião —
o Islã — que objetiva levar sua combativa fé a todos os cantos do planeta, e ainda mais
considerando que se trata da religião que mais cresce no mundo e possui fortes correntes
de confronto com as idéias e valores ocidentais. Não é à toa, portanto, que durante os
anos 1990 os Estados Unidos tenham se envolvido tão diretamente no Oriente Médio,
estabelecendo a região como de prioridade máxima da sua política internacional.
Este capítulo está dividido em duas partes. Num primeiro momento, analisamos a
evolução econômica e política da África e sua inserção internacional. O objetivo principal
é mostrar que os africanos encontram-se numa verdadeira encruzilhada. Sua situação é
vista por muitos analistas como de difícil solução, haja vista as deficiências estruturais
que atrapalham enormemente uma saída no contexto da globalização. Apesar disso, como
será evidenciado, está em andamento um grande esforço para superação dos problemas
políticos e econômicos que abalam o continente.
O Oriente Médio será analisado à parte. Procura-se demonstrar a importância da
região em termos estratégicos para o Ocidente, por reunir grandes jazidas petrolíferas e
por ser o mais importante centro de irradiação islâmica do mundo. Assumimos nesse
texto, portanto, que setores mais radicais do Islã estão por trás da onda terrorista que
preocupa e ameaça o Ocidente. Porém, entende-se também que esse fenômeno, no seu
estágio atual, pode ser visto como uma reação do mundo islâmico à presença ocidental na
região do Oriente Médio, seja para impor seus interesses econômicos ou valores políticos
e culturais, historicamente distintos da formação dos povos árabes.

A ÁFRICA NO CONTEXTO INTERNACIONAL


Os estudos relativos à África no Brasil, muito embora existam e estejam consolida-
dos em algumas poucas Instituições de Ensino Superior, mantêm como característica o
estudo mais intensivo de períodos históricos outros que não a contemporaneidade africa-
na. Assim, sobretudo no campo da História, privilegia-se o estudo da África pré-colonial
e da África colonial em detrimento da África pós-colonial, qual seja, do período que vai da
independência dos antigos territórios coloniais aos dias de hoje. Naturalmente, não se
está afirmando que não hajam estudos de qualidade com relação ao período pós-colonial,
mas é inegável a escassez de trabalhos sobre o período. Na área de Relações Internacio-
nais, temos visto um interesse permanente com relação à África. Mesmo que não existam
estudos em abundância, como sugerido, uma característica da área é a freqüência com
que dissertações de mestrado e teses de doutorado vem sendo defendidas em Universida-
des já há várias décadas.
O Brasil, país que possui em sua estrutura social uma visível e importante herança
africana, além de aspirações comerciais e políticas que não podem deixar de levar em
consideração o continente africano, não deveria e nem poderia deixar de tentar entender
a África mais contemporânea, seus fundamentos, processos e vicissitudes. É nesse senti-
do que se busca, neste breve texto, expor em linhas gerais a realidade africana atual,
principalmente dos anos pós-guerra fria, isto é, da década de 1990 em diante, e como
tem sido a sua inserção internacional.
Do início do processo de descolonização, verificado na África no alvorecer da década
de 1950 (a princípio no norte do continente, mas logo em seguida se espalhando pela

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África Subsaariana) aos dias atuais, a África como um todo atravessou diversas fases
políticas e econômicas, destacando-se, principalmente, a conclusão do processo de
descolonização, o aprofundamento da situação de crise econômica e política — derivada
em parte do legado colonial — e as tentativas, verificadas ao longo da década de 1990, de
superação da crise, com propostas africanas para problemas africanos, o que revela maior
amadurecimento político por parte das elites do continente, uma vez que estão buscando,
por meios próprios, mesmo que contando com alguma cooperação do mundo desenvolvi-
do (na verdade, muito pouca cooperação), achar caminhos e saídas para a difícil situação
em que se encontra o continente.
Com o fim da guerra fria e o redimensionamento das relações internacionais, com
todas as suas implicações para as sociedades contemporâneas, os países subdesenvolvidos
e em desenvolvimento se viram fragilizados no novo ambiente que passou a se constituir
desde meados da década de 1970 e que se firmou ao longo da década seguinte. No proces-
so de reestruturação política e econômica que se seguiu após a guerra fria, os Estados
africanos foram, provavelmente, os mais atingidos em todo o mundo.
Contando com uma estrutura econômica pouco diversificada e baseada em produtos
primários, cada vez mais desvalorizados pelas transformações tecnológicas e pelos
paradigmas da Terceira Revolução Industrial, as economias africanas, que já viviam em
boa medida da ajuda dos países ricos, interessados em alianças políticas no contexto da
bipolarização, não davam conta de atender às crescentes demandas sociais de suas socie-
dades. A crise econômica, portanto, agravou a crise social com desdobramentos políticos
de amplitude.
Em sociedades multinacionais como as africanas, sem tradição ou com pouca tradi-
ção democrática, divididas geralmente em preceitos de cunho étnico, a situação de escas-
sez de recursos foi seguida pelo questionamento da legitimidade de grande parte dos
governos ‘nacionais’. Estes, sem o apoio das antigas superpotências e até mesmo de parte
dos governos europeus, que afinal lhes davam certa legitimidade, tentaram usar da vio-
lência para conter a revolta dos excluídos, que por sua vez também geralmente optavam
por métodos radicais para encaminhamentos políticos. O quadro resultante dessa situa-
ção de crise econômica e instabilidade política foi a intensificação das guerras civis, le-
vando o caos a países demasiadamente divididos. Foi assim que alguns Estados africanos
virtualmente desapareceram durante a década de 1990, como a Somália, a República
Democrática do Congo e Serra Leoa, este último já reintegrado após um longo conflito.
Não bastasse a crescente escalada das guerras civis e suas conseqüências sociais,
como a impressionante elevação do número de deslocados internos e refugiados de guer-
ra, além de problemas sociais outros de difícil solução, como o alistamento forçado de
crianças nas guerras civis e a ruptura nos processos produtivos que aumentaram a fome,
o continente africano foi palco também da explosão da epidemia da síndrome da
imunodeficiência adquirida (Aids), que pegou os africanos totalmente despreparados para
lidar com uma situação extremamente grave e com implicações sociais e econômicas de
envergadura. Registre-se, igualmente, o retorno de outras doenças e epidemias que não a
Aids no continente, como a poliomielite, que preocupa autoridades sanitárias nacionais e
internacionais.
A década de 1990 pode ser vista como um período de transição, uma época muito
mais de incertezas e indefinições do que de convicções, e essa característica é paradigmática
no caso da África. Para os africanos, do ponto de vista político, aquela década, pela

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gravidade de seus problemas, simboliza uma espécie de tomada de consciência política


por parte de setores sociais organizados em vários países africanos. Da valorização dos
direitos humanos, do direito à alimentação, da luta contra o racismo em todas as suas
formas de expressão e do respeito aos direitos da mulher, passando pelo incremento da
conscientização na necessidade de preservação do meio ambiente, todas essas questões
vem sendo intensamente discutidas pelas novas lideranças de vários países africanos,
colocando temáticas de cunho social nas agendas interna, regional e internacional.
Concomitante a essa renovação no plano social, outro tema de suma importância que
vem ganhando terreno na realidade atual da África diz respeito à valorização da democracia
como elemento fundamental para a harmonia, para a justiça social e para a retomada do
desenvolvimento dos países africanos. Assim, gradativamente se verifica a afirmação da
idéia de um renascimento africano, a ser conduzido pelos próprios africanos.
Diante de um contexto em permanente estado de mudança, de crise, mas também
de revigoramento e renascimento, estudar e entender a realidade africana atual contribui-
rá para compreender melhor a própria realidade brasileira, contribuindo para desfazer
preconceitos e indicar novos caminhos de cooperação e de perspectivas que certamente se
abrirão no futuro para o relacionamento entre o Brasil e o continente africano, considera-
do pelo governo brasileiro como área prioritária de sua ação internacional.

OS PROCESSOS DE INTEGRAÇÃO NO CONTINENTE AFRICANO


Neste tópico citaremos a questão da integração regional no continente africano,
especificamente nas regiões da África Ocidental e da África Austral, nas quais os pro-
cessos de integração estão em estágio mais avançado. Discutiremos o fenômeno da
formação de blocos regionais em seu contexto político e econômico e suas perspectivas
no contexto da globalização e das incertezas do mundo atual, sobretudo no último
decênio do século XX.
Geralmente há uma perspectiva muito pessimista com relação às possibilidades de
desenvolvimento da maior parte das regiões africanas. De fato, os Estados nacionais
africanos não conseguiram romper, na perspectiva econômica, o perfil de países primário-
exportadores, quase sempre com pautas de exportação concentradas em poucos produtos.
Do ponto de vista político e social, a situação também não é das melhores. Há muita
instabilidade política e os problemas sociais se agravaram e multiplicaram nas últimas
décadas. Esse quadro acabou gerando em boa parte dos estudiosos da realidade africana
um tipo de sentimento que poderíamos classificar de afro-pessimismo.
A grave crise que assola a África não é, naturalmente, exclusividade dos africanos.
No entanto, é naquele continente que a humanidade defronta-se com seus mais terríveis
níveis de desigualdade social, miserabilidade, falta de perspectiva, desestruturação eco-
nômica e social, guerras, fome, epidemias, morte. No Relatório da Organização das Na-
ções Unidas sobre Desenvolvimento Humano, referente ao ano de 1998, por exemplo, os
últimos 15 países que apresentaram piores índices são africanos (Uganda, Malawi, Djibouti,
Chad, Guiné-Bissau, Gâmbia, Moçambique, Guiné, Eritréia, Etiópia, Burundi, Mali,
Burkina Faso, Níger e, por último, Serra Leoa). Como explicar um quadro tão desalentador
e complexo como esse? Quais serão os fatores de desagregação que mais prejudicam o
desenvolvimento e o bem-estar das populações da região?

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A história do continente africano nos últimos 500 anos pode ser considerada, em
múltiplos aspectos, dramática. A chegada dos europeus, se por um lado marcou a inten-
sificação dos contatos entre as civilizações da Europa e da África, por outro significou o
início da desestruturação de sociedades autóctones que haviam criado instituições pró-
prias e que funcionavam com certa estabilidade há muito tempo. Significou também a
intensificação da nefasta atividade da escravidão, que exauriu a África de braços e mentes
por mais de três séculos. Após a escravidão, o domínio físico e a instituição do sistema
colonial retardaram em pelo menos meio século a retomada das instituições e seu desen-
volvimento próprio, oprimindo, barbarizando e colonizando territórios e seres humanos,
diminuídos a coadjuvantes de sua própria história.
O processo de descolonização, acentuado após a Segunda Guerra Mundial, coroa um
longo processo de resistência e faz o continente como um todo entrar em efervescente
período de atividade política, o que resultou, efetivamente, na esperança de dias melho-
res e na chance de provar ao mundo a capacidade africana de autodeterminação com
iniciativa para gerir os próprios assuntos e promover o bem-estar de sua população.
Durante os anos 1950, portanto, inicia-se nova fase na história política do conti-
nente africano, com o começo das independências. A princípio, os novos Estados africa-
nos iniciaram um período de otimismo, buscando aprofundar laços preexistentes e iniciando
o processo de integração regional. Além disso, houve euforia com as possibilidades de
desenvolvimento econômico, modernização, liberdade política e exacerbou-se o sentimento
nacionalista no mosaico étnico africano.
A integração regional caracterizou-se pela associação formal de países geografica-
mente próximos e com forte tendência a aproveitar o legado deixado pela era colonial. As
primeiras associações efetivaram-se, portanto, em regiões colonizadas por uma mesma
metrópole e com algum tipo de vinculação econômica que vinha da era anterior à inde-
pendência. Isso implicou a manutenção dos laços econômicos entre os países africanos e
as ex-metrópoles européias, muito embora o desejo manifesto por vários líderes da África
expressasse a idéia de independência total.
Foi na África Ocidental, entendida aqui como a área formada por 16 países que
formam a Ecowas ou Economic Community of West African States (Benin, Burkina Faso,
Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali,
Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo), e que inaugurou o processo de
descolonização na África negra, que surgiram os primeiros agrupamentos entre os novos
Estados africanos. A região sofreu o colonialismo proveniente de quatro metrópoles euro-
péias: Inglaterra, França, Portugal e Espanha. Destas, as duas primeiras destacaram-se
pela presença mais pujante em número de colônias, intensidade da exploração e expres-
são internacional. Assim, irão influenciar a região por muito mais tempo e profundidade
do que Portugal e Espanha. Pode-se dizer que ainda hoje boa parte dos países dessa região
sofrem influências diretas de Paris e Londres.
Mesmo que se intente uma divisão dos países da África Ocidental em grandes agru-
pamentos forjados na base colonial, ou seja, uma zona inglesa e outra francesa, percebe-
se claramente a profunda diversidade dos países de cada área. Existem, por exemplo, na
África Ocidental de colonização inglesa, países populosos e abundantes em recursos na-
turais, destacando-se a Nigéria; e países pequenos, de baixa população e com moderados
recursos naturais, como a Gâmbia. Na área francesa, cite-se, por um lado, o caso da Costa
do Marfim, com indicadores econômicos relativamente elevados para os padrões da região

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e, por outro, Burkina Faso, um país com indicadores econômicos e sociais muito modes-
tos. Isso, sem contar, a diversidade cultural e religiosa, um fenômeno nada desprezível
num continente marcado por conflitos que têm em sua raiz fatores interétnicos e ques-
tões religiosas. No que diz respeito a esse último fator, é necessário levar em conta a
contínua expansão do Islã sobre vastas regiões da África, o que implica um projeto que
não é meramente religioso, mas que influencia consideravelmente o destino político dos
países que recebem tal influxo.
A África Austral, utilizando-nos de uma abordagem ampliada no que diz respeito ao
conceito geográfico e que, no âmbito deste trabalho, compreende todos os países mem-
bros da SADC (Southern African Development Community), apresentou evolução histórica
diferenciada quando comparada com a África Ocidental. Muito embora não se possa
encontrar coesão entre países tão diversos (são membros da SADC: Angola, África do Sul,
Botswana, Lesoto, Malauí, Maurício, Moçambique, Namíbia, República Democrática do
Congo, Seicheles, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue), com sistemas de coloni-
zação e características culturais específicas, além de um vasto território que é inclusive
considerado um subcontinente, os países dessa região se associaram inicialmente com o
objetivo de formar uma frente unida contra a proeminência econômica sul-africana, que
os colocava numa condição de extrema dependência, o que era agravado pela política de
apartheid praticada pela África do Sul.
O fim do regime racista sul-africano possibilitou o ingresso da África do Sul na
comunidade e a ampliação do processo de integração. A partir daí houve uma revisão dos
princípios iniciais do movimento e buscou-se a construção de um espaço comum, para
juntos lograrem a superação dos graves problemas estruturais que assolam e entravam o
desenvolvimento de uma das mais ricas regiões do continente africano.
Entre as duas regiões — a África Ocidental e a Austral —, o que há de mais em
comum na atualidade é o quadro de instabilidade política, algumas guerras internas com
freqüente envolvimento de terceiros Estados, falta de perspectiva para um crescimento
econômico sustentado num futuro próximo e a enorme dificuldade de inserção na econo-
mia internacional. Entretanto, os países de ambas as regiões conseguiram promover um
processo de integração econômica que visa, sobretudo, à superação do quadro supracitado.
Apesar das dificuldades dos frágeis Estados nacionais africanos, carentes de infra-
estrutura adequada, de recursos humanos capacitados, de uma base industrial moderna,
de coesão social e nacional, somente para citarmos alguns dos problemas mais freqüen-
tes, os países africanos têm tentado, num esforço fenomenal, manter pelo menos um
mínimo de estabilidade que possa garantir a sua sobrevivência num contexto internacio-
nal complexo. Uma das saídas para o dilema africano passa pela integração regional e pela
revisão geral da forma como suas lideranças conduziram os negócios de Estado desde pelo
menos o período das independências nacionais. Já há, portanto, por parte da nova lide-
rança africana a consciência de que não se deve atribuir ao legado colonial toda a culpa
pela atual condição do continente. Esse movimento de introspecção, de auto-análise, tem
ajudado na revisão da postura africana perante o mundo, da conscientização de suas
fraquezas, num movimento que certamente está ajudando a própria África a trilhar um
novo rumo e vislumbrar um futuro positivo no horizonte.

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INTEGRAÇÃO REGIONAL E CONFLITOS NA


ÁFRICA CONTEMPORÂNEA
Em diversas regiões da África persiste um clima de tensão e, eventualmente, de
guerra, em alguns casos de conflitos que perduram já há décadas. No Sudão, por exem-
plo, ao mesmo tempo em que se busca uma solução para as disputas entre o Norte
islamizado e o Sul, animista e cristão, no início do século XXI explodiu um outro confli-
to, agora na região de Darfur, área fronteiriça com o Chad. Na Somália, o Estado e suas
instituições tradicionais praticamente desapareceram, estando o país fragmentado e go-
vernado por clãs, o que faz daquele país uma região insegura e economicamente inviável.
Na região da África central, o antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, vive
há anos sob forte clima de instabilidade política, estando o país dividido e sem um con-
trole central efetivo. Disso resulta, também, mais dissenso entre alguns dos mais impor-
tantes Estados membros da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, haja
vista que há diferentes perspectivas para a solução desse conflito por parte das lideranças
nacionais da República da África do Sul, de Angola, do Zimbábue e da Namíbia. Esses
três últimos, inclusive, enviaram tropas para a região, o que contrariou a posição sul-
africana de tentar uma solução negociada, sem o uso de força ou intervenção militar.
Assim, são diversas as regiões da África que vivenciam conflitos armados e falência
dos Estados nacionais. Muito embora se tenha verificado uma tendência para a superação
de vários conflitos no final dos anos 1990, ainda é cedo para um diagnóstico otimista
para o contexto africano. Isso sem contar outros aspectos relacionados à segurança que
envolvem a região como, por exemplo, a segurança alimentar e os aspectos relativos às
doenças e epidemias, de grande impacto econômico para o desenvolvimento africano.
O ponto que mais interessa quando se destaca a questão da instabilidade política na
África é que esta acaba afetando diretamente o desenvolvimento econômico e social do
continente. No interior de todos os blocos econômicos existentes na África, há algum tipo
de conflito em andamento e, na maioria das vezes, em mais de um país. No caso da África
Ocidental (Ecowas) e da África Austral (SADC), esse quadro acaba comprometendo a
capacidade de articulação política e agregamento entre os Estados membros, haja vista
que uma característica importante das guerras africanas é sua capacidade efetiva de
desestabilização regional, o que acaba impelindo os Estados mais desenvolvidos a adotar
algum tipo de política intervencionista a fim de evitar o transbordamento do conflito e a
conseqüente desestabilização regional.
Num balanço geral, o fim da guerra fria e a diminuição da interferência estrangeira
não foi capaz de levar a estabilidade às várias regiões africanas. Os conflitos continuam e
a África permanece marginalizada no contexto internacional. Entretanto, como demons-
trado, os Estados africanos lutam contra toda sorte de adversidade no sentido de encon-
trarem soluções conjuntas para a superação da defasagem industrial e tecnológica e, acima
de tudo, melhorarem o desempenho social, o que só será conseguido se primeiro atingi-
rem a paz e conseguirem promover um ciclo virtuoso que possibilite crescimento econô-
mico minimamente sustentado. Nesse sentido, o esforço de integração no continente
africano assume uma importância estratégica vital para o futuro da região mais pobre do
planeta, haja vista que só o desenvolvimento econômico sustentado será capaz de levar à
superação dos seus graves problemas políticos e sociais.

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CONCLUSÃO
O continente africano, apesar de sua grande diversidade e das particularidades dos
seus Estados e regiões, apresenta alguns elementos que lhe dão nexo no que diz respeito
à sua inserção internacional. A primeira observação que devemos fazer é que se trata do
continente, em termos gerais, que menos se adaptou ao mundo globalizado. Além do
grande déficit tecnológico, sobretudo por sabermos estarmos vivendo num mundo no
qual a tecnologia da informação é cada vez mais um pré-requisito para a modernidade, os
africanos também não conseguiram alcançar um perfil industrial; alguns Estados ressen-
tem-se mesmo da falta de infra-estrutura básica para o seu desenvolvimento. Mais um
elemento a indicar as dificuldades da África é que até no setor agrícola há defasagens
gritantes no continente. Nesse sentido, a África é o único continente que não conseguiu
auto-suficiência na produção de alimentos, o que, associado a situações de conflito, pro-
voca quadros esporádicos de fome. Esse é o contexto geral no qual a África se encontra no
limiar do século XXI.
Indo além de todas essas deficiências estruturais, o fim da guerra fria piorou as
condições para uma inserção internacional mais positiva do continente africano. Alguns
Estados africanos, durante a guerra fria, mereceram por parte das superpotências uma
atenção especial no contexto bipolar. Essa vantagem que podia ser explorada pelos africa-
nos desapareceu com a nova ordem internacional do pós-guerra fria.
Todavia, é importante salientar que as próprias lideranças africanas têm consciência
dessa situação e se esforçam para conseguir superá-la. Nesse sentido, além dos processos
de integração econômica em andamento no continente, existem propostas que valorizam
a democratização das sociedades africanas e um renovado sentimento de respeito aos
direitos humanos. A idéia de Renascimento Africano (African Renaissance) é uma delas, a
qual se constitui num diagnóstico e prognóstico para a redenção continental.
Do ponto de vista internacional, apesar do distanciamento dos países mais ricos
com relação ao continente, é possível identificar alguns importantes movimentos no sen-
tido de ajuda à África. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e os credores
mais ricos já sinalizaram com o perdão de parte da dívida externa de vários países africa-
nos e da revisão de seus procedimentos com relação àquele continente. De sua parte, os
africanos reivindicam que esses países lhes concedam acesso aos seus mercados, uma vez
que, somente por meio de um programa econômico consistente e que contemple os mer-
cados internacionais, poderão os Estados africanos conseguir algum resultado econômico
consistente.

O ORIENTE MÉDIO E O MUNDO


O Oriente Médio está, direta ou indiretamente, relacionado aos grandes marcos das
relações internacionais contemporâneas. As grandes reservas petrolíferas, vitais para a
manutenção do Ocidente, e, mais recentemente, o fenômeno do fundamentalismo islâmico
e a ação de grupos terroristas que professam a doutrina islâmica colocam a região como
centro das atenções internacionais em termos de segurança e ameaça ao Ocidente.
Não bastasse os problemas históricos enfrentados pelos povos da região e muito
acentuados após o fim da Primeira Guerra Mundial com a ocupação dos territórios ante-
riormente dominados pelo Império Otomano, com o fim da Segunda Guerra Mundial a

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situação iria se complicar um pouco mais, agora em decorrência da criação de um novo


Estado nacional em terras antes ocupadas por maioria palestina, ou seja, a criação
do Estado de Israel e a negativa dos povos árabes em aceitar esse fato lançaram a região
em novo ciclo de violência, agora capitaneado contra o Estado judaico.
Mas divergências entre os próprios povos árabes também formam o complexo cená-
rio regional. Quando se fala em união dos povos árabes, seja por afinidade étnica ou
religiosa, estamos falando na verdade de um mito. O mundo árabe está dividido há sécu-
los, não só por disputas políticas pelo poder, mas também e principalmente em termos
religiosos, numa guerra surda que remete à própria religião criada por Maomé (Mohamed).
As divergências entre os Estados árabes são, pois, um aspecto de suma importância
quando se deseja compreender o contexto regional.
Além disso, o Oriente Médio aparece, ao lado do continente africano, como uma
zona de tensão permanente e de conflitos duradouros e persistentes. Há, ou houve, nas
últimas quatro décadas, guerras civis (Líbano), guerras entre Estados (Irã x Iraque),
guerras entre uma coalizão de Estados (Egito, Síria, Jordânia x Israel), revoluções (Irã),
conflitos de cunho religioso (Egito), guerras de países ocidentais contra regimes árabes
(Estados Unidos/Inglaterra x Iraque) e, mais recentemente, a ação deliberada de grupos
terroristas.
Nota-se, naturalmente, que a associação entre petróleo, fonte vital da matriz energética
mundial principalmente para os países mais desenvolvidos, e o fundamentalismo religio-
so acabou sendo explosiva e colocou o Oriente Médio no centro das atenções internacio-
nais. O deslocamento de tropas norte-americanas e de outras partes do mundo, sobretudo
após a Guerra do Golfo (1991) e a sua permanência na região, aumentada com a Guerra
do Iraque (2003), reforça e evidencia a tese da importância do Oriente Médio para as
relações internacionais contemporâneas.
Além disso, o impacto proporcionado pela expansão islâmica em várias outras re-
giões é outro exemplo da influência que o Oriente Médio promove no plano internacional.
Vários conflitos do pós-guerra fria tiveram conexões com esse forte movimento emanado
daquela região. Citamos como exemplos áreas de atrito entre populações muçulmanas na
África (Nigéria), nos Bálcãs (Bósnia), na Ásia Central (Chechênia/Daguestão) e as ações
terroristas na Europa e Estados Unidos. Mesmo considerando o fato de não existir uma
relação vertical e subordinada entre a ação dos grupos terroristas e a maior parte dos
Estados árabes, é inegável que existem elos entre eles, mesmo que de forma indireta.

O ESTADO DE ISRAEL E A QUESTÃO PALESTINA


A existência do Estado de Israel, desde a sua criação, foi um problema para as
comunidades árabes que viviam na região desde tempos muito remotos. Na esteira da
Segunda Guerra Mundial e do Holocausto promovido pelos nazistas contra o povo judai-
co, a comunidade internacional acabou sendo obrigada a tomar uma posição ante a ques-
tão judaica, ou seja, a existência desse povo, espalhado por vários países e que não possuía,
até 1948, um Estado próprio.
Desde o final do século XIX alguns setores da comunidade judaica perceberam,
muito em decorrência das perseguições contra judeus na Europa, que era importante
uma ação coletiva para a emancipação do seu povo, ou seja, se os judeus não criassem um
Estado nacional para defendê-los estariam fadados a perseguições freqüentes, haja vista

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que a assimilação desse povo entre as comunidades nacionais em formação mostrava-se


inviável, seja pela recusa dos próprios judeus em abrir mão de suas tradições, seja pela
dimensão xenofóbica do nacionalismo em vigor. Assim nasceu o movimento conhecido
como sionismo, que pregava o retorno dos judeus à Palestina, considerada a pátria ances-
tral. É importante ressaltar que inicialmente o sionismo havia sido uma expressão de
setores minoritários e que foi também muito combatido por parte da ortodoxia religiosa
judaica, principalmente por se tratar de um projeto político que subordinava a identida-
de judaica ao modelo político ocidental de Estado nacional.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, portanto, o movimento sionista, que já
existia e possuía um núcleo ativo de militantes na Palestina, ganha força e sua principal
reivindicação é aceita pela Organização das Nações Unidas (ONU), que determina a cria-
ção de um Estado judaico na Palestina. Antes disso, porém, os judeus tiveram que en-
frentar a ambigüidade da Inglaterra, que era a mandatária, por determinação da antiga
Liga das Nações, do território reivindicado por judeus e árabes. Os ingleses, apesar de
serem a favor de um lar nacional para os judeus, executavam uma política de restrição de
entrada de novos imigrantes judeus na região, atendendo aos apelos dos árabes. O caso
mais conhecido e dramático foi o do navio Exodus que, com cerca de 4500 imigrantes
sobreviventes do holocausto a bordo, chegou ao porto de Haifa em 1947 e foi expulso
pelas autoridades britânicas, que impediram o desembarque dos refugiados e os devolve-
ram à Alemanha.
Na mesma ocasião a ONU determinou também a criação de um Estado palestino,
uma vez que o território deveria ser dividido e criados dois Estados. Contudo, não foi o
que aconteceu. A liderança judaica, mais organizada, proclamou a criação do Estado de
Israel e mobilizou a sua população para a luta, ao mesmo tempo em que emissários foram
enviados para a obtenção do reconhecimento internacional do novo Estado. Nesse senti-
do, foi fundamental para a realização dos objetivos dos israelenses o reconhecimento
seguido de apoio do governo dos Estados Unidos.
Vários Estados árabes resistiram e partiram para a guerra contra os judeus. Inicial-
mente houve um impasse, mas logo a sorte pendeu para o lado de Israel, sobretudo após
o ato de reconhecimento do Estado de Israel por parte do governo norte-americano, se-
guido por vários outros governos. A partir daí, o governo israelense pôde agir com respal-
do internacional, ou seja, foi permitido a Israel a compra de material bélico no exterior e
o apoio norte-americano acabou sendo decisivo para a vitória israelense.
A situação no Oriente Médio tendeu a se agravar cada vez mais após a consolidação
do Estado de Israel. Uma série de questões relacionadas a essa nova realidade regional
ajudou a complicar o quadro político, não só para as relações entre os Estados árabes e
Israel, mas também para os palestinos que se refugiaram nos países vizinhos. Com efeito,
apesar de uma forte identidade cultural e religiosa entre os palestinos e os seus vizinhos
jordanianos, sírios, libaneses, egípcios e iraquianos (dentre outros), não houve a assimila-
ção deles aos Estados que lhes deram abrigo. Divergências de cunho político, mas sobre-
tudo a determinação da liderança palestina de lutar para conseguir o seu próprio Estado
nacional, fizeram com que a permanência de grande número de refugiados palestinos se
transformasse em motivo de novos conflitos. Assim, a repressão aos ativistas palestinos
passou a ser feita também por governos árabes, como foi o caso da Jordânia e do Líbano,
haja vista que ocorreram divergências políticas com relação aos objetivos e aspirações dos
palestinos.

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Até o início dos anos 1990 a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a
maior parte dos Estados árabes não aceitavam sequer a existência do Estado de Israel,
motivo pelo qual ocorreram várias grandes guerras entre coligações árabes e Israel. O
contexto da guerra fria também ajudou nesse sentido. Muito embora os problemas do
Oriente Médio e, especialmente, as divergências entre árabes/palestinos e judeus tenham
a sua justificativa bem assentada em problemas regionais e territoriais, ou seja, na exis-
tência mesmo do Estado de Israel, as divergências entre as duas superpotências acaba-
ram contaminando a região. A União Soviética, por exemplo, abasteceu de armamentos
relativamente sofisticados países que se candidatavam a se tornar seus aliados na região,
como foi o caso, em determinado contexto histórico, do Egito. Da mesma forma, a atitu-
de norte-americana de ser o primeiro país a reconhecer a criação do Estado de Israel tinha
também a sua lógica baseada na guerra fria, uma vez que um dos motivos que levaram os
Estados Unidos a tomar essa atitude foi a busca de um parceiro confiável e aliado no
Oriente Médio.
Os conflitos entre os israelenses e os povos árabes não terminaram. Houve uma
evolução no sentido de que a fase das grandes guerras que envolveram vários Estados
árabes contra Israel aparentemente chegou ao fim. Contudo, após exaustivas negociações
e uma situação permanente de conflito, parece cada vez mais evidente para os dois lados
o fato de que a convivência entre judeus e árabes não pode ser discutida sob uma perspec-
tiva de exclusão, isto é, os dois povos estão obrigados ao convívio presente e futuro, daí a
necessidade de um entendimento.
Analisando as relações entre o Estado de Israel e o mundo árabe, podemos constatar
que, muito embora os conflitos não tenham terminado, houve uma evolução em direção à
paz e ao estabelecimento de relações normais. À parte a existência de grupos como o
Hamas que não admitem até hoje a existência de Israel e lutam com todos os meios para
a sua destruição, inclusive utilizando-se de ações terroristas contra populações civis, hoje
constata-se um entendimento maior entre as autoridades judaicas e as lideranças árabes.
Gradativamente, apesar de existirem notáveis avanços e recuos, os palestinos vêm ga-
nhando cada vez mais autonomia e assumindo o controle de territórios localizados na
Faixa de Gaza e na Cisjordânia, ou seja, seguindo um roteiro aproximado do plano origi-
nal das Nações Unidas que, como salientado, previa a criação de dois Estados.

O ORIENTE MÉDIO, O MUNDO ÁRABE E O


CONTEXTO REGIONAL
Dentre países do Oriente Médio, o Iraque chegou a ser a única potência que come-
çou a reunir condições materiais de projeção de seu poder no plano regional. Como aliado
dos Estados Unidos durante as décadas de 1970 e 1980, o país gozou do apoio norte-
americano e, ao lado da Arábia Saudita, era visto como amigo e possuidor de interesses
convergentes com os Estados Unidos.
No início da década de 1980, pouco tempo depois de ter assumido de forma ditatorial
o controle político no Iraque, o regime de Saddam Hussein, como aliado dos Estados
Unidos, pôde se armar e gozou da boa vontade da superpotência ocidental durante a guerra
fria. Ele foi útil na guerra contra o Irã, então visto como um Estado ameaçador, não só
pelos norte-americanos, mas igualmente por parte dos seus vizinhos no Oriente Médio.

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O Iraque, contudo, não foi bem-sucedido em suas iniciativas militares, antes pelo
contrário: elas se mostraram devastadoras para o seu regime e para o seu povo. A guerra
contra o Irã, iniciada em 1980 por iniciativa do Iraque, terminou oito anos depois num
humilhante empate para Saddam Hussein. Os beligerantes perderam cerca de um milhão
de pessoas. Depois, foi a vez do Iraque invadir o Kuwait e atrair para si a efetiva oposição
norte-americana numa guerra que significou o início do fim para Saddam Hussein. A
última foi a guerra do Iraque, na qual os Estados Unidos, a Inglaterra e uma ampla
coalizão impuseram o fim do regime de Hussein e profundas modificações no Iraque,
ainda em curso e com futuro incerto. Após a decadência iraquiana, o país mais forte no
Oriente Médio e que tem sinalizado que pretende se transformar em ator cada vez mais
importante no plano internacional é o Irã.
Com efeito, o Irã, após a Revolução de 1979 que derrubou o regime do Xá Reza
Pahlevi e originou a ascensão do Partido Islâmico Revolucionário ao poder, se tornou uma
República Islâmica, ou seja, um Estado teocrático governado de fato pelos aiatolás, líde-
res religiosos que tinham o poder de decisão em última instância. Na verdade, a estrutura
política iraniana implementada pela Revolução de 1979 é bastante complexa. O país
possui parlamento, partidos políticos, poder judiciário e presidente. O grande diferencial
com relação às democracias ocidentais reside no fato de que há um Conselho dos Guardiões
do qual fazem parte líderes religiosos (aiatolás e ulemás) e que é responsável por zelar
pelos princípios doutrinários islâmicos (xiitas) e que estão acima da política cotidiana.
Ressalte-se, igualmente, que existem outras divergências com relação às democracias
ocidentais, como o papel da mulher na sociedade, liberdade de imprensa etc. Isto é, os
princípios religiosos ditam a conduta social e política da população iraniana, e esses
princípios eram interpretados de acordo com a corrente xiita, mas fundamentalista e
ortodoxa. Nesse ponto, os iranianos só perderam, em termos de conservadorismo religio-
so, pelo regime dos Talebãs que viriam governar o Afeganistão durante os anos 1990.
O Irã significou um desafio para o Ocidente sobretudo pela sua capacidade de con-
gregar grande número de pessoas identificadas com o fundamentalismo islâmico e por ter
assumido um caráter declaradamente antiocidental. Isso se deve ao fato de que por muito
tempo o destino do Irã e de todo o Oriente Médio foi determinado a partir de fora, sob
influência européia e norte-americana. Ademais, a Revolução foi francamente uma reação
associada a uma profunda rejeição aos valores relacionados ao Ocidente. Mas não só isso.
O objetivo dos aiatolás era também purificar o próprio mundo islâmico e para isso os
regimes aliados ou cooptados pelo Ocidente eram vistos com reservas por parte de Teerã,
como foi o caso do Iraque e das posteriores divergências com os demais Estados árabes.
Além de tudo isso, vale lembrar que os iranianos não são árabes, mas persas, uma distin-
ção que pode fazer alguma diferença numa região tão conturbada como o Oriente Médio.
Mas o Oriente Médio possui outros atores de peso, seja por sua importância econô-
mica (existência de petróleo), seja por sua capacidade de influência política e religiosa. A
Arábia Saudita é talvez o mais importante deles. Tem atuado como aliado dos Estados
Unidos, permitindo inclusive o estacionamento de tropas norte-americanas em seu terri-
tório. Paradoxalmente, é o guardião dos símbolos mais sagrados do Islã e grande financiador
da religião islâmica em praticamente todo o mundo. Vale lembrar que a maior parte dos
terroristas que realizaram os ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos eram sauditas,
isso sem contar o próprio líder da Al Quaeda, também um saudita.

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CONCLUSÃO
O Oriente Médio, como visto, possui uma história recente muito dinâmica e profun-
damente marcada por situações de conflitos. No centro das atenções estão os conflitos
entre palestinos e israelenses e, mais recentemente, as intervenções dos Estados Unidos
e seus coligados, principalmente a Inglaterra, no contexto regional, sobretudo para fazer
valer seus interesses sobre o Iraque.
Os interesses ocidentais no Oriente Médio estão estreitamente relacionados à ques-
tão do petróleo. Não há a menor dúvida de que o que move os Estados Unidos a efetiva-
mente se ocuparem com a região não são os direitos humanos ou problemas de outra
natureza, como a alegada, e muito mais imaginária do que real, existência de armas de
destruição em massa no Iraque. Na verdade, o interesse específico e concreto com relação
ao petróleo foi potencializado pela existência de regimes fundamentalistas islâmicos, o
caso do Irã, e regimes que, como o de Saddam Hussein, entraram em conflito e passaram
a desafiar os interesses norte-americanos na região.
No caso do Irã, o regime dos aiatolás acrescenta um complicador a mais para os
Estados Unidos em decorrência de sua aspiração em se tornar uma potência com capacida-
de nuclear, o que entra em choque direto com a política dos Estados Unidos de congelar o
poder nuclear no plano internacional, principalmente para evitar que armas desse tipo,
mesmo com potência reduzida, venham a cair em mãos de terroristas internacionais.
Todavia, mais recentemente eclodiu um fenômeno que não é de todo uma novidade,
mas que assumiu um patamar nunca antes visto. Referimo-nos ao terrorismo praticado
por grupos fundamentalistas islâmicos que têm sua inspiração mais profunda no contex-
to religioso do Oriente Médio. Muito embora devamos reconhecer que a maior parte dos
muçulmanos de fato adota preceitos de paz e, portanto, não violência, não há como negar
que existe uma relação direta entre a ação de redes terroristas como a Al Quaeda e esses
movimentos fundamentalistas. Boa parte dos seus militantes, potencialmente suicidas,
são recrutados em madrassas (escolas religiosas) espalhadas entre os Estados de maioria
islâmica, não necessariamente árabes, como Afeganistão, Paquistão e Indonésia, mas em
grande medida financiados pelos Estados árabes mais ricos, como a Arábia Saudita.
Em suma, a questão palestina, o controle das reservas petrolíferas existentes no
Oriente Médio e a existência de grupos islâmicos fundamentalistas e suas vinculações
com o terrorismo internacional vêm se constituindo na temática central da inserção in-
ternacional do Oriente Médio, uma região marcadas por guerras e ambições econômicas,
políticas e religiosas que a colocam no centro das atenções internacionais.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


África
1. Como se encontra a atual situação política e econômica do continente africano?
2. Em termos de política internacional, como têm-se comportado os países mais
desenvolvidos com relação à África?
3. Quais as perspectivas para a África no contexto internacional do pós-guerra fria?

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Oriente Médio
1. Discuta a questão palestina buscando analisar suas origens e evolução ao longo
do tempo.
2. Partindo de uma perspectiva regional, em que sentido podemos falar em unida-
de do mundo árabe? Existe uma convergência de interesses dos povos árabes em
termos de política internacional? Quais seriam esses interesses e como eles se
materializam?
3. Quais são os interesses norte-americanos e ocidentais no Oriente Médio?

GLOSSÁRIO
África
Terceira R evolução Industrial: os paradigmas da Terceira Revolução Industrial são os
Revolução
seguintes: a) menor dependência em relação às disponibilidades de recursos naturais
(substituição de matérias-primas por materiais leves); b) menor dependência do esquema
tradicional de baixos salários (a mão-de-obra perde significado em face do custo do produ-
to final); c) aumento substantivo da importância do saber na formação dos preços agrega-
dos (tecnologia avança); d) emergência da robotização e produção de máquinas de controle
numérico computadorizado; e e) superação do taylorismo e do fordismo como formas de
organização do trabalho.
Animista: a expressão no texto faz referência a formas de expressão religiosas autentica-
mente africanas, ou seja, são cultos sagrados africanos, em oposição a manifestações
religiosas que foram levadas para a África por outros povos, como o islamismo e o cris-
tianismo.
R enascimento africano: o termo faz referência a um suposto renascimento africano
idealizado por lideranças políticas e intelectuais africanas durante os anos 1990, estabe-
lecendo um paralelo direto com o que a historiografia registra como sendo o fim da idade
das trevas na Europa, na transição da Idade Média para a Idade Moderna, quando houve
uma retomada mais vigorosa no desenvolvimento econômico e avanços em vários planos
da vida material e espiritual, como na arte, cultura, ciência e tecnologia.
Oriente Médio
Fundamentalismo islâmico: é um movimento cujo objetivo principal é a implantação de
uma República Islâmica, ou seja, um Estado Teocrático no qual há o primado da religião
islâmica sobre todos os níveis da vida política, econômica e social. Para os fundamentalistas
islâmicos as leis contidas no Alcorão devem reger a sociedade. Um elemento comum a
esse tipo de fundamentalismo é também uma forte rejeição aos valores ocidentais.
Holocausto: o termo faz referência ao extermínio sistemático promovido pelos nazistas
durante a Segunda Guerra Mundial contra vários grupos considerados indesejáveis pela
ideologia nazi. Muito embora os judeus tenham sido as vítimas mais atingidas, outros
grupos também foram alvos da perseguição nazista, como os homossexuais, ciganos, co-
munistas e testemunhas-de-jeová.
Xiitas e sunitas: após a morte de Maomé, houve uma forte disputa pelo poder entre os
muçulmanos. A maioria — os sunitas — leva em conta as idéias do profeta assim como de
seus quatro sucessores. Já os xiitas só consideram, além do Alcorão, o quarto califa, Ali,

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genro de Maomé, por acreditarem que o comando da religião deveria ser exercido por
familiares do profeta. Em ambas as correntes, há grupos mais moderados e mais radicais.
Os xiitas predominam no Irã e em parte do Iraque, mas também estão presentes em
outros países islâmicos.
Aiatolás e ulemás: autoridades religiosas islâmicas capacitadas a interpretar o Alcorão.
Os ulemás são teólogos islâmicos, conhecedores da lei. Os aiatolás são líderes religiosos
mulçumanos da alta hierarquia xiita, tendo ganhado grande destaque no Irã.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
África
PANTOJA, Selma (Org.). Entre Áfricas e Brasis. Brasília: Paralelo 15; São Paulo:
Marco Zero, 2001.
SARAIVA, José Flávio Sombra. Formação da África contemporânea. São Paulo: Atual;
Campinas: Editora da Unicamp, 1991.
_________. O lugar da África. A dimensão Atlântica da política externa do Brasil
(de 1946 a nossos dias). Brasília: EDUnB, 1996.
WRIGHT, Stephen (Ed.). Africa foreign policies. Boulder: Westview Press, 1999.
Oriente Médio
DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
MASSOULÉ, François. Os conflitos do Oriente Médio — século XX. São Paulo: Ática,
1994.
SCARLECIO, Márcio. Oriente Médio: uma análise reveladora sobre dois povos
condenados a conviver. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

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