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PREFÁCIO

DO EDITOR
CONFORTO PARA AS ORAÇÕES FRACAS
EIS QUE ELE ESTÁ ORANDO
HUMILDADE, A AMIGA DA ORAÇÃO.
IMPEDIMENTOS À ORAÇÃO
ORAÇÃO, A PROVA DA SANTIDADE
OS DOIS GUARDAS: ORAR E VIGIAR
PEDIDO E ARGUMENTAÇÃO
QUANDO DEVEMOS ORAR?
PREFÁCIO DO EDITOR
Não existe nenhuma outra atividade mais difícil, mais intensa e mais necessária
que a oração, o entrar em contato com o Senhor com palavras, lágrimas e até
mesmo o silêncio. A oração é, de longe, o maior desafio para a alma. A oração
em público é fácil de ser feita, comparada à oração particular. Ali está o maior
indicador da saúde da sua vida espiritual, ou você ora ou você não ora. Não
existe meio termo.
De acordo com a Lei do Antigo Testamento, os sacrifícios poderiam ser de
animais puros, mas o coração do homem sempre foi levado em consideração. Na
verdade, o coração do homem é determinante na aceitação do sacrifício
oferecido.
Vemos logo em Gênesis que Deus se agradou de Abel e depois de seu sacrifício,
e se desagradou de Caim e, consequentemente, do seu sacrifício. Que você tenha
em mente aqui que os sacrifícios não determinaram nada na aceitação de Deus,
mas o que foi principal no aceitar ou não foi o coração daquele que oferecia.
Vemos no Salmo 51, que o rei Davi escreve algo interessantíssimo. “Não te
deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, se não eu os traria” (verso
16). Olhe bem para o que Davi fala, que Deus não se agrada do simples
sacrifício, como se fosse uma conta a se pagar e que depois de paga, a
consciência do pecador estaria limpa. Se fosse assim, Davi não teria que se
preocupar, ele era rei em Israel, possuía mais bens que a grande maioria da
população, se Deus pedisse um boi ou mil bois, Davi poderia trazer e sacrificar.
Mas ele entendia algo essencial, Deus não aceita sacrifícios vazios, Deus não
aceita formalidades sem arrependimento; se Deus fosse como homem, Davi
poderia trazer seus sacrifícios e seria perdoado. Mas Davi conhecia o Deus que
adorava. “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um
coração quebrantado e contrito” (verso 17). Ele sabia que o que agradaria a seu
Senhor, era um coração arrependido pelo pecado.
Suas orações são sacrifícios a Deus, como você as tem feito? Você tem buscado
a formalidade sem fervor? Você tem levantado as mãos para cima e agradecido
por ser um ótimo homem e um ótimo crente? Ou entra diante de Deus de cabeça
baixa, bate no peito e clama por misericórdia? Isso vai definir toda a sua vida, a
vida nesta terra e a vida eterna, seja no inferno, seja à direita de Deus.

Augusto César Cutrim Magalhães,
23 de Julho de 2017.
CONFORTO PARA AS ORAÇÕES FRACAS
Sermão de Número 3083

“Ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido ao meu
suspiro, ao meu clamor.”
Lamentações 3:56

JOVENS iniciantes na Graça são muito aptos a se compararem com discípulos
avançados e assim se tornam desencorajados. E santos atribulados caem no
mesmo hábito. Eles olham para aqueles do povo de Deus que estão no topo da
montanha apreciando a luz do Semblante do seu Redentor, e comparando sua
própria condição com a alegria dos santos, eles escrevem coisas amargas sobre si
mesmos e concluem que, certamente, eles não são povo de Deus! Este caminho é
tão tolo quanto alguns carneirinhos pensarem que eles não fazem parte do
rebanho por não serem carneiros adultos, ou tão tolo quanto um homem doente
duvidar de sua existência porque ele não é capaz de andar ou correr como um
homem de boa saúde. Mas já que este mau hábito é muito comum, é nosso dever
ir atrás dos desanimados e cabisbaixos e confortá-los. Esta é nossa incumbência
neste curto discurso. Nós ouvimos as palavras do Mestre, “Consolai, consolai o
meu povo” (Is 40:1), e nós vamos nos esforçar para obedecê-las com a ajuda do
Seu Espírito.

Sobre o assunto da oração, muitos são desanimados porque eles ainda não
podem orar como crentes maduros oram, ou porque, durante alguma crise
peculiar de sua história espiritual, suas orações não lhes aparentam serem muito
ardentes e aceitáveis como é o caso de outros cristãos. Talvez Deus tenha uma
mensagem para alguns atribulados neste presente endereço e que o Espírito
Santo a aplique com poder sobre eles!

“Não escondas o teu ouvido ao meu suspiro”. Esta é uma maravilhosa descrição
de oração, não é? Frequentemente, é dito que a oração tem uma voz – assim é
neste verso – “Ouviste minha voz”. A oração tem uma voz melodiosa no ouvido
do nosso Pai Celestial. Frequentemente a oração é expressa por um clamor.
Assim é neste verso – “Não escondas o teu ouvido... ao meu clamor”. O clamor
é o pronunciamento natural e lamentoso da tristeza e tem tanto poder para mover
o coração de Deus como o choro de um bebê tem para tocar a ternura da mãe.
Mas existem vezes quando nós não podemos falar com a voz, nem mesmo
clamar. E então a oração pode ser expressa por um gemido, ou um lamento, ou
uma lágrima – “o elevar de um suspiro, o cair de uma lágrima”. Mas
possivelmente nós não poderíamos nem chegar a isso e você pode falar, como
um do passado, “Como o grou, ou a andorinha, assim eu chilreava” (Is 38:14).
Nossa oração, ao ser ouvida por outros, pode ser um tipo de expressão irracional.
Nós podemos ainda cair abaixo disso, pois no texto nos temos um tipo de oração
a qual é menos que um gemido ou uma lamentação. Esta é chamada de suspiro –
“Não escondas o teu ouvido ao meu suspiro”. O homem está muito longe para se
ver a olho nu, ou para o gemido do coração – ele mal respira, mas aquele fraco
fôlego é uma oração! Apesar de não dito e não expresso por algum som que
poderia chegar aos ouvidos humanos, ainda assim Deus escuta o suspirar da
alma de Seu servo e não esconde o Seu ouvido dele.

Nós devemos ensinar três ou quatro lições do presente uso da expressão
“suspiro”.

I. QUANDO NÓS NÃO PODEMOS ORAR COMO DEVERÍAMOS,
É BOM ORAR COMO CONSEGUIMOS.

Fraqueza corporal nunca deveria ser argumentada por nós como uma razão
para parar de orar. De fato, nenhum filho Deus pensaria tal coisa como esta. Se
não posso dobrar os joelhos de meu corpo por estar muito fraco, minhas orações
que faço de minha cama devem estar em seus joelhos – meu coração deve estar
em seus joelhos e orar tão aceitavelmente como antigamente. Em vez de relaxar
nas orações pelo fato de nosso corpo sofrer, corações verdadeiros, em tempos
como esse, geralmente dobram suas petições. Como Ezequias, eles viram seus
rostos para a parede para que eles não vejam nenhum objeto terreno e então
olham para as coisas invisíveis e falam com o Altíssimo. Sim, e frequentemente
em uma maneira mais doce e familiar do que eles faziam nos dias de sua saúde e
força; Se nós estamos tão fracos que só podemos nos deitar parados e respirar,
façamos com que cada respiração seja uma oração!

Nem deveria um cristão relaxar nas suas orações por dificuldades mentais.
Quero dizer daquelas perturbações que distraem a mente e impedem a
concentração dos nossos pensamentos. Tais males acontecerão conosco. Alguns
de nós estão frequentemente deprimidos e muitas vezes são jogados para lá e
para cá em sua mente, de forma que se a oração fosse uma operação que
requeresse que as faculdades estivessem todas em dia, como no resolver
problemas matemáticos difíceis, nós não poderíamos, nesses momentos, orar de
forma nenhuma. Mas, irmãos e irmãs, quando a mente está muito pesada, então
não é a hora de desistir de orar, mas em vez disso, redobrar nossas súplicas!
Nosso abençoado Senhor e Mestre foi levado por angustias da mente para a mais
triste condição – Ele disse, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” – e
mesmo por essa razão Ele não disse, “Eu não posso orar”, mas, pelo contrário,
Ele buscou as bem conhecidas sombras do olival e lá descarregou Seu pesado
coração e derramou Sua alma como água perante o Senhor! Que nunca nos
consideremos tão doentes ou distraídos para orar. Um cristão nunca deve estar
em tal estado de mente em que ele deva se sentir obrigado a falar “Eu não sinto
que consigo orar”, ou se ele o fizer, que ele ore até que ele sinta que ele pode
orar. Não orar porque você não se sente apto a orar é como dizer, “Eu não
tomarei o remédio porque estou muito doente”. Ore para orar! Ore por você
mesmo, através da assistência do Espírito, para que você consiga orar! É bom
martelar o ferro quando ele está quente, mas alguns fazem o ferro frio se
esquentar por martelar ele! Nós, às vezes, comemos até que tivéssemos apetite,
então oremos até que possamos orar. Deus irá te ajudar na procura do seu dever,
não na negligência dele.

O mesmo é o caso com relação às doenças espirituais. Algumas vezes não é
meramente o corpo ou a mente que estão afetados, mas nossa natureza interior é
tediosa, estúpida, letárgica, de forma que quando é o tempo de orar, nós não
sentimos o espírito da oração. Além disso, talvez nossa fé esteja tombando e
como nós podemos orar quando nossa fé está tão fraca? Possivelmente nós
suspeitamos de que sejamos realmente povo de Deus e somos molestados pela
coleção de nossas quedas. Agora o tentador irá sussurrar, “Não precisa orar
agora – seu coração não está numa boa condição para isso”. Meus queridos
irmãos e irmãs, você não se tornará apto para orar por se manter longe do Trono
da Misericórdia! Mas se deitar gemendo e suspirando aos pés do Trono é a
melhor preparação para suplicar ao Senhor. Nós não devemos almejar uma
autopreparação do nosso coração para que possamos nos achegar a Deus
corretamente, mas “as preparações do coração no homem e a resposta da língua
são do Senhor” (Provérbios 16:1 – Versão King James). Se eu me sinto
desinclinado a orar, então este é o tempo em que preciso orar mais do que
nunca! Possivelmente quando a alma pula e exulta em comunhão com Deus,
deve ser mais seguro se refrear de orar do que aqueles momentos quando a alma
se arrasta pesadamente à devoção. Ai de mim, meu Senhor, será que minha alma
anda errante longe do Senhor? Então volte, meu coração! Irei te arrastar de volta
pela força da Graça Divina! Não irei parar de clamar até que o Espírito de Deus
te faça voltar para a obediência. O que? Meu irmão cristão, por você se sentir
negligente, esta é a razão pela qual você deveria guardar sua mãe e não servir
seu Deus? Não, fora com sua negligência e dobre sua alma resolutamente ao
serviço! Então, ao sentir uma sensação de não querer orar, seja mais aplicado na
oração! Arrependa-se por não querer se arrepender, lamente por que você não
consegue se lamentar e ore até que você consiga orar – fazendo isto, Deus irá te
ajudar.

Mas, pode surgir uma objeção, de que algumas vezes nós somos colocados em
grandes dificuldades por tais circunstâncias que nós podemos ser dispensados de
orar. Irmãos e irmãs, não existem circunstâncias nas quais nos deveríamos parar
de orar de forma alguma. “Mas eu tenho tantas necessidades”. Quem de nós não
as tem? Se nós estamos dispensados de orar até que nossas necessidades acabem,
certamente nunca chegaríamos a orar, ou oraríamos quando não mais
precisássemos de oração! O que Abraão fez quando ele ofereceu sacrifícios ao
Senhor? Quando o patriarca sacrificou as criaturas determinadas e as deitou no
altar, alguns abutres e pássaros vieram prontos para arrancar pedaços da carne
consagrada. O que o patriarca fez? “E as aves desciam sobre os cadáveres;
Abrão, porém, as enxotava.” (Gn 15:11). Assim devemos pedir para que a Graça
enxote nossas necessidades das nossas devoções.

Aquela foi uma sábia instrução que o profeta deu à pobre mulher quando o
Senhor estava prestes a multiplicar seu azeite. “Vá, pegue a botija” ele disse,
“derrame o azeite e encha as vasilhas emprestadas”. Mas o que mais ele disse?
“E fecha a porta sobre ti” (2 Rs 4:4). Se a porta estivesse aberta, alguns de seus
vizinhos bisbilhoteiros teriam olhado aquilo e dito, “O que você está fazendo?
Você realmente espera encher todos esses jarros com essa pequena botija de
azeite? Por que, mulher? Você deve estar louca!”. Temo que ela não fosse capaz
de realizar aquele ato de fé se os seus objetores não estivessem sido trancados
fora da casa. É uma grande coisa quando a alma pode fechar com ferrolho as
portas contra as distrações e manter fora os intrusos – pois então é que a oração e
a fé irão realizar o seu milagre e nossa alma deve ser cheia com as bênçãos do
Senhor! Ó, que a Graça vença as circunstâncias e ao menos nos faça suspirar
nossas orações se não podemos alcançar a forma mais poderosa de oração!

Talvez, contudo, você declare que suas circunstâncias são mais difíceis do que
posso imaginar, pois você esta cercado daqueles que zombam e, além disso, o
próprio satanás lhe molesta. Ah, querido irmão ou irmã, debaixo de tais
circunstâncias, em vez de restringir a oração, seja dez vezes mais diligente! Sua
posição é preeminentemente perigosa – você não pode se permitir de viver longe
do Trono da Graça – portanto, não tente isto. Sobre a perseguição e ameaça, ore
provocando-as. Lembre-se de como Daniel abriu sua janela e orou ao seu Deus
como ele tinha feito em outros dias? Deixe que o Deus de Daniel seja seu Deus
no seu quarto de oração e Ele será seu Deus na cova dos leões! Sobre o demônio,
tenha certa que nada o expulsará como a oração. Esse par de versos é correto
quando declara que –
“Satanás irá tremer quando olhar
O mais fraco santo orar!”
Qualquer que seja sua posição, se você não pode falar, chore. Se não pode
chorar, comece a gemer. Se não pode gemer, deixe que falem os “gemidos
inexprimíveis”. E se você nem mesmo pode chegar a isso, deixa que suas
orações sejam ao menos respirações – um desejo vital e sincero – o transbordar-
se de sua vida interior na mais simples e fraca forma, e Deus irá aceitar isso. Em
uma palavra, quando você não consegue orar como deve, cuide para orar
como você pode!

II. Agora, uma segunda palavra de instrução. É claro neste texto, de muitas
outras passagens da Escritura e de observações gerais que: OS MELHORES
HOMENS GERALMENTE ACHAVAM AS MAIORES FALTAS NAS
SUAS PRÓPRIAS ORAÇÕES.

Isso vem do fato que eles apresentaram orações verdadeiras e ainda assim
sentiam muito mais do que podiam expressar. Um mero formalista sempre pode
orar assim que desejar. O que ele deve fazer além de abrir seu manual e ler as
palavras prescritas, ou dobrar seus joelhos e repetir certas frases sugeridas por
sua memória ou por sua imaginação? Como a Máquina de Oração do Tártaro[1],
tendo vento e a roda, toda a oração é realizada! Todo esse dobrar de joelhos,
falar e orar já estão feitos! As orações do formalista sempre são igualmente boas,
ou melhor, sempre igualmente más. Porém o verdadeiro filho vivo de Deus
nunca oferece uma oração que o satisfaz – seus padrões estão acima de suas
capacidades. Ele se maravilha na forma de que Deus o escuta, e mesmo que ela
saiba que será ouvido por amor de Deus à Cristo, ainda assim ele considera isso
um maravilhoso fato de misericórdia condescendente, a saber, que tão pobres
orações como as suas devem chegar aos ouvidos do Senhor dos Exércitos!

Se fosse perguntado em qual ponto os homens santos acham faltas em suas
orações, nós responderíamos, que eles reclamam da pequenez de seus desejos. Ó
Deus, Tu me convidas a abrir minha boca bem aberta e que o Senhor vai enchê-
la de palavras, mas eu não abro minha boca! Tu estás pronto para me conceder
grandes coisas, mas eu não estou pronto para receber grandes coisas! Eu sou
limitado, mas não no Senhor – eu sou limitado nos meus próprios desejos!
Queridos irmãos e irmãs, quando nós lemos sobre Hugh Latimer[2] que ficava de
joelhos perpetuamente clamando “Ó, Deus, dê de volta o Evangelho para
Inglaterra”, e que algumas vezes orava por tanto tempo que não conseguia se
levantar, sendo um homem de idade – e eles tinham que levantá-lo do chão da
prisão – e ele continuava a clamar “Ó, Deus, dê de volta o Evangelho para a
pobre Inglaterra”; nós devemos bem nos surpreender pelo fato de alguns de nós
não orarem desse jeito! Os tempos são maus como os de Latimer e nós temos
uma grande necessidade de orar como ele orou “Ó, Deus, expulse estes papas
mais uma vez daqui e dê de volta o Evangelho para a Inglaterra”. Pense, então,
em John Knox[3]. As orações daquele homem eram como exércitos poderosos e
ele lutava durante toda a noite com Deus para que ele incendiasse a luz do
Evangelho na Escócia. Ele declarou que lhe foi concedido este seu desejo e creio
que realmente o foi, e que a Luz de Deus que queima tão fortemente da Escócia
deve ser muito atribuída às orações daquele homem. Nós não oramos como esses
homens. Nós não temos coração para pedir grandes coisas. Um avivamento está
esperando, a nuvem está passando por cima da Inglaterra, mas nós não sabemos
como trazê-la para baixo! Ó, que Deus ache alguns espíritos verdadeiros que
possam ser os condutores a trazer para baixo o Fogo Divino! Nós precisamos
muito disso, mas nossos pobres suspiros – eles não são muito mais que isso –
não têm força, nem expansividade, nem coração e nem preponderância em si
mesmos!

Então, quão grave nós caímos a respeito da fé! Nós não oramos como se
acreditássemos. Orar acreditando na oração é um sofrimento e uma luta, mas
nossas orações são meros assopros e bafejos, pequenos suspiros – nada mais que
isso. Deus é verdadeiro e nós oramos a Ele como se Ele fosse falso. Ele quis
dizer o que Ele disse, e nós tratamos Sua Palavra como se Ela fosse falada de
brincadeira. O maior erro de nossas orações é a falta de fé.

Quão frequentemente nos falta seriedade! Tais homens como Lutero tinham
seus desejos do Céu porque eles queriam tê-los! O Espírito de Deus os fez
resolutos em intercessão e eles não sairiam de perto do Trono da Misericórdia
até que seus apelos fossem atendidos. Mas nós somos frios, e consequentemente
fracos, e nossas pobres, pobres orações nos cultos, no nosso quarto em secreto e
no altar da família definham e quase morrem!

Quão mais, infelizmente, é a impureza de nossos motivos de oração! Nós
pedimos por avivamento, mas queremos que nossa própria igreja ganhe a bênção
de ter o crédito por isso! Nós oramos a Deus para abençoar nosso trabalho e isto
porque desejamos escutar homens dizerem que somos bons trabalhadores. A
oração é boa em si mesma, mas nossos dedos sujos a estragam. Ó, que possamos
oferecer súplicas como elas devem ser oferecidas! Bendito seja Deus, Aquele
que é o Único que pode lavar nossas orações por nós, mas, mais
verdadeiramente, nossas próprias lágrimas devem ser choradas de novo e nossas
orações devem ser oradas novamente. Mesmo a melhor coisa que nós façamos
deve ser lavada na Fonte de Sangue, ou de outra forma, Deus somente a pode
olhar como um pecado.

Outra falta que bons homens olham em suas súplicas é que eles mantém certa
distância de Deus enquanto oram, que eles não se achegam perto o bastante
Dele. Não é verdade que alguns de vocês são oprimidos por uma sensação de
distância que existe entre vocês e Deus? Você crê que existe um Deus e acredita
que Ele irá lhe responder, mas não é sempre que você vem direto para Ele, até
Seus pés, e toma posse Dele e diz, “Ó, meu Pai, escuta a voz de Seus escolhidos
e deixe o clamor do sangue de Seu Filho venha diante de Ti!”. Ó, queremos
orações que possam ir além do véu e se aproximem do Trono da Misericórdia!
Ó, queremos pessoas suplicantes que são familiarizados com os querubins e com
o brilho que sai do meio de suas asas! Que Deus nos ajude a orar melhor! Mas
disso estou certo – vocês que têm as melhores súplicas são exatamente aqueles
que pensam o mínimo de suas próprias orações e que são os mais gratos a Deus
por Ele deseja escutar a vocês – e os mais ansiosos para eu Ele os ajude a orar de
uma maneira mais nobre.

III. A terceira lição é esta – O PODER DA ORAÇÃO NÃO É MEDIDO
POR SUA EXPRESSÃO EXTERNA.

O suspiro é uma oração da qual Deus não esconde Seu ouvido. É, sem sombra de
dúvida, uma grande Verdade de Deus, e também cheia de conforto, de que
nossas orações não são poderosas na proporção de suas expressões, pois, se fosse
assim, o Fariseu teria obtido sucesso já que ele tinha melhores dons de oratória
do que o Publicano tinha. (Lc 18:10-14). Não tenho dúvida de que se houvesse
um culto normal, e o Fariseu e o Publicano estivesse lá, nós teríamos chamado o
Fariseu para orar. Não creio que o povo de Deus teria apreciado sua oração, nem
teria sentido alguma afinidade de espírito com ele e ainda assim, muito
naturalmente, por pensar em seus dons, ele teria se levantado e se comprometido
com a devoção pública ou, se aquele Fariseu não tivesse feito isso, sei de outros
Fariseus que o fariam. Sem dúvida o espírito daquele homem era mau, mas sua
expressão era boa – ele podia colocar sua oração tão ordenadamente e a
proclamar muito cuidadosamente. E que todo homem saiba que Deus não se
importa com isso! O suspiro do Publicano alcançou Seu ouvido e ganhou a
bênção, porém as palavras orgulhosas do Fariseu foram uma abominação para
Ele!

Se nossas orações fossem eficientes na proporção de sua expressão, então a
retórica seria mais valiosa que a Graça e a educação escolástica seria melhor que
a santificação – mas isso não é verdade. Alguns de nós podem ser capazes de se
expressar muito fluentemente através da força de dons naturais, mas deveria ser
sempre uma pergunta inquietante para nós se nossa oração seria uma que Deus
receberia, pois nós devemos saber, e saber de uma vez, que nós frequentemente
oramos melhor quando nós balbuciamos e gaguejamos – e nós oramos pior
quando as palavras fluem como uma torrente, uma atrás da outra! Deus não é
movido por palavras – elas não passam de barulhos para Ele. Ele só é movido
pelos pensamentos profundos e pelas emoções verdadeiras que estão no mais
fundo do espírito. Seria algo ruim para você, que é necessitado, se Deus só nos
escutasse de acordo com a beleza de nossas palavras, pois talvez seja que sua
educação foi tão negligenciada que não exista esperança para você ser capaz de
falar gramaticalmente bem. E, além disso, poderia ser que, por sua informação
limitada, você não usasse palavras que soassem tão bem. Mas o Senhor ouve os
pobres, os ignorantes e os necessitados! Ele ama escutar o seu clamor. O que
importa para Ele a gramática de uma oração? É a alma que Ele quer! E se você
não consegue amarrar corretamente nem três palavras do inglês da rainha,
mesmo assim se sua alma consegue de alguma forma suspirar a si mesma diante
do Altíssimo – se é algo quente, de coração, sincero e sério – existe poder na sua
oração e não menos poder nela por causa de palavras quebradas, nem seria
vantagem para você, visto ao que o Senhor se importa, se essas palavras não
fossem quebradas, mesmo que fossem bem compostas! Isso não é um conforto
para nós, então?

Mesmo que sejamos abençoados com facilidade de se expressar, nós, algumas
vezes, notamos que nosso poder de proclamação nos falha. Debaixo de grande
pesar, um homem pode não falar como ele é conhecido a fazer. Circunstâncias
podem fazer a língua mais eloquente se tornar pesada. Não importa – sua oração
é tão boa quanto era antes. Você clama a Deus em adoração pública e se senta
pensando que sua confusa oração não foi de serviço para a Igreja. Você não sabe
em que balanças Deus pesa sua oração – não em quantidade, mas em qualidade –
não por uso de vestimenta externa verbal, mas pela alma interna e seriedade
intensa que havia ali é que Ele pesa o valor! Não é verdade que algumas vezes
quando você se levanta de seus joelhos em seu quarto, em secreto, e diz, “Acho
que não orei, não me senti orando de verdade”? Nove de cada dez vezes, essas
orações que não achamos aceitáveis são as mais importantes para Deus. Mas
quando nós nos gloriamos em nossa oração, Deus não irá querer saber dela! Se
você vê alguma beleza em sua própria súplica – Deus não olha isso – pois,
evidentemente, você estava olhando para sua oração e não para Ele! Mas quando
a alma vê tanto de Sua glória que chega clamar, “Eis que agora me atrevi a falar
ao Senhor, ainda que sou pó e cinza” (Gn 18:27). Quando a alma vê tanto de Sua
Santidade que ela é dificultada a se expressar pela profundidade de sua própria
humilhação, ó, então é quando esta é sua melhor oração! Pode haver mais oração
em um gemido do que em uma liturgia inteira. Pode existir uma devoção mais
aceitável em uma lágrima que molha o bando da igreja do que em todos os hinos
que nos cantamos, ou em todas as súplicas que nós fizemos! Não é o exterior, é o
interior! Não são os lábios, é o coração que o Senhor leva em consideração! Se
você consegue somente suspirar, suas orações serão aceitas pelo Altíssimo!

Desejo que esta verdade possa ir para casa com cada um de nós que diz, “Eu não
consigo orar”. Isso não é verdade. Se para orar fosse necessário falar por um
quarto de hora, ou que fosse necessário pronunciar coisas bonitas, então eu
admitiria que você não conseguiria orar! Mas se for só falar de seu coração,
“Deus, tem misericórdia de mim, um pecador”, então consegue sim, e se oração
não é nada sobre o falar, mas sim desejar, ansiar, esperar por misericórdia,
perdão e por salvação, então nenhum homem pode falar “Eu não consigo”, a não
ser que ele seja honesto o suficiente para completar a frase: “Eu não consigo,
porque eu não vou orar. Amo os meus pecados demais e não tenho fé em Cristo.
Não desejo ser salvo”. Se você quer orar, Ó meu ouvinte, então você consegue
orar! Ele que dá o querer, adiciona a habilidade para isso!

E ó, deixe-me dizer, não durma esta noite até que você tenha tentado e
experimentado o poder da oração! Se você sente um fardo em seu coração, diga
ao Senhor! Cubra seu rosto e fale com Ele. Nem isso acredito que você precise
fazer, pois, suponho que Ana não cobriu seu rosto quando Eli olhou seus lábios
movendo e pensou que ela estava bêbada (1 Sm 1:9-15). Não, seus lábios nem
precisam mover! Sua alma pode agora dizer, “Salve-me, meu Deus! Convença-
me do meu pecado, me leve até a Cruz! Salve-me esta noite! Não me deixe
terminar mais um dia como Seu inimigo! Não me deixe ir para meus afazeres
por mais uma semana sem ser perdoado, com Sua ira suspendida sobre mim
como um relâmpago! Salve-me, salve-me, Ó meu Deus!”. Tais orações, mesmo
que sem palavras pronunciadas, não são impotentes, mas serão ouvidas no Céu!

IV. Iremos concluir com essa quarta lição prática – ORAÇÕES FRACAS
SÃO OUVIDAS NO CÉU.

Por que que orações fracas são entendidas e ouvidas por Deus no Céu? Aqui
estão três razões.

Primeiro, a oração mais fraca, se for sincera, foi escrita pelo Espírito Santo
no coração, e Deus sempre reconhecerá a caligrafia do Espírito Santo.
Frequentemente, alguns caros amigos da Escócia mandam para o Orfanato[4]
algumas porções do que um deles outro dia chamou de “dinheiro imundo” – isto
é, notas de uma libra sujas. Bem, certamente, essas notas de uma libra parecem
que tem um pequeno valor. Mas ainda assim, elas carregam a assinatura própria
e são bem aceitas – e sou muito grato por elas. Muitas orações que são escritas
pelo Espírito Santo no coração parecem escritas com tinta fraca, e além disso,
parecer ser apagadas e sujas por nossas imperfeições. Mas o Espírito Santo pode
sempre ler Sua própria caligrafia. Ele conhece Suas próprias anotações e quando
Ele emitiu uma oração, Ele não a negará. Portanto, o suspiro ao qual o Espirito
Santo trabalhou em nós, será aceito por Deus.

Ademais, Deus, nosso sempre bendito Pai, tem um ouvido ligeiro para o suspiro
de cada um de Seus filhos. Quando uma mão tem um filho doente, é maravilhoso
o quão ligeiro seu ouvido é o atendendo. Que boa mulher, nós nos maravilhamos
como ela não cai no sono. Se você contratou uma enfermeira, as chances são de
dez para um que ela dormiria. Mas o filho querido, no meio da noite, não precisa
pedir por água, ou nem mesmo falar – só um pequeno suspiro – quem ouvirá
isso? Ninguém exceto a mãe! Mas seus ouvidos são rápidos, pois estão no
coração de seu filho. Então, se existe algum coração no mundo que anseia por
Deus, o ouvido de Deus já está no coração daquele pobre pecador! Ele o ouvirá.
Não existe um único bom desejo no mundo que o Senhor não tenha escutado.
Lembro-me quando, uma vez, estava um pouco temeroso de pregar o Evangelho
aos pecadores como se fossem pecadores, e mesmo assim, eu o queria fazer,
então costumava falar, “Se você tem somente uma milionésima parte de desejo,
venha a Cristo!”. Ouso dizer mais do que aquilo hoje, mas ainda assim quero
fazê-lo, e o farei de uma vez – se você tem uma milionésima parte de desejo, se
você tem somente um pequeno suspiro – se você deseja ser reconciliado, se você
deseja ser perdoado, se você deseja ser desculpado, se existe ao menos metade
de um bom pensamento formado em sua alma, não o ponha em questão, não o
sufoco e não pensei que Deus irá rejeitá-lo!

E, então, há outra razão, a saber, que o Senhor Jesus Cristo está sempre pronto
para pegar a mais imperfeita oração e a aperfeiçoar para nós. Se nossas orações
tiverem que subir aos Céus como elas são, elas nunca teriam obtido sucesso.
Mas elas acham um Amigo neste caminho, e então, elas prosperam. Um pobre
homem tem uma petição para ser mandada para alguma agência do governo. Se
ele tivesse que escrever isto por si mesmo, todos os oficiais da rua Downing[5]
ficariam confusos sobre o que a petição significaria. Mas o pobre homem é sábio
o bastante para achar um amigo que pudesse escrever, ou ele viria até o seu
pastor e diria, “Pastor, o senhor poderia escrever essa petição corretamente para
mim? O senhor poderia colocar em um bom inglês, para que esta fosse
apresentada?”. E então a petição iria de uma forma diferente. Dessa forma, o
Senhor Jesus Cristo toma nossas pobres orações, as adapta e apresenta a petição
com a adição de Sua própria Assinatura – e o Senhor nos manda uma resposta de
paz.

A mais fraca oração no mundo é ouvida quando esta tem o selo de Cristo em si.
Quero dizer que Ele coloca Seu Sangue Precioso sobre ela. E aonde quer que
Deus veja o Sangue de Cristo, Ele deve e irá aceitar o desejo que ela endossa. Vá
a Jesus, pecador, mesmo que você não consiga orar, e deixe que o suspirar de sua
alma seja, “Seja misericordioso comigo, limpa-me, salva-me” e assim será feito,
pois Deus não escutará tanto sua oração como escuta o Sangue de Seu Filho,
“que fala melhor do que o de Abel.” (Hb 12:24). Uma voz mais alta prevalecerá
sobre a sua! E seus fracos suspiros irão até Deus cobertos com as súplicas
Onipotentes do Grande Sumo Sacerdote que nunca apela em vão!

Tive por objetivo, desta forma, confortar os aflitos que dizem que não pode orar,
mas antes de eu terminar, devo adicionar como indesculpáveis são aqueles que,
sabendo de tudo isto, continuam sem orar, sem Deus e sem Cristo! Senão
houvesse nenhuma misericórdia para se obter, você não seria culpado se não a
tivesse. Se não houvesse nenhum Salvador para os pecadores, um pecador
poderia ser desculpado por continuar no pecado. Mas existe uma Fonte e ela está
aberta – por que, então, você não se lava nela? Misericórdia é para ser ganha
“sem dinheiro e sem preço” (Is 55:1) – é para ser ganha por se pedir por ela.
Algumas vezes, pobres homens são amordaçados, condenados em uma cela e
sentenciados para serem enforcados. Mas suponha que eles tivessem um perdão
gratuito só por pedir por ele, e eles não fizessem isso – quem teria pena deles?
Deus dará Suas bênçãos para todo aquele que é movido a busca-las com
sinceridade às Suas mãos sob somente essa única condição – que a sua alma
confie em Jesus! E ainda isso não é uma condição, pois Ele dá o arrependimento
e a fé, e capacita pecadores a crerem no Seu querido Filho! Eis Cristo
crucificado, a mais triste e, ao mesmo tempo, a mais alegre visão debaixo do céu
jamais vista! Eis o eterno Filho de Deus feito carne e sangrando Sua vida! Uma
maravilha insuperável de aflição e amor! Olhe para Ele que salvará você!
Mesmo que estejas aos pés da cova ou na beira do inferno, por um olhar ao Jesus
crucificado sua culpa será cancelada, suas dívidas serão para sempre anuladas
diante do Trono de Deus e você mesmo será levado à alegria e paz. Ó, que você
dê esse olhar!

Suspire a oração, “Senhor, dê-me a fé de Seus eleitos e salve-me com uma
grande salvação!”. Apesar de ser somente um suspiro, ainda assim, como o
antigo puritano falava, quando Deus sente o respirar de Seu filho sobre Sua face,
Ele sorri. E Ele irá sentir o seu respirar, sorrir para você e lhe abençoar. Que Ele
assim o faça, em nome de Jesus! Amém.
EIS QUE ELE ESTÁ ORANDO

Pregado em Setembro de 1885

“E pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso
chamado Saulo; pois eis que ele está orando”.
Atos 9:11

Estas palavras são a marca da conversão genuína. “Eis que ele está
orando” é uma testemunha mais confiável da conversão de um homem do que,
“eis que ele canta”, ou “eis que ele lê as Escrituras”, ou “eis que ele prega”.
Essas coisas podem ser admiravelmente feitas por homens que não foram
regenerados! Mas se, no sentido que Deus tem pelo termo, um homem
realmente ora, nós podemos saber com certeza que ele passou da morte para a
vida. Oração verdadeira é uma evidência do vivificar espiritual – o Espírito
Santo colocou vida espiritual no coração do homem que ora, pois oração é o
respirar de uma vida espiritual. Oração é o resultado do sentimento de
necessidade que surge da nova vida – o homem não oraria a Deus se ele não
sentisse que ele tivesse uma urgente necessidade de bênçãos que só podem ser
concedidas pelo Senhor. Enquanto expressa seu sentimento de necessidade e
apela a Deus por ajuda, o homem que ora dá evidência de estar em paz com seu
Senhor e curado de sua alienação natural. Aquele eu ora, crê, e assim revela a fé
que salva. Algumas formas de oração mostram uma grande fé, mas toda
verdadeira oração é obra da fé, seja pequena ou grande. Será que um homem
clamaria a Deus por misericórdia se ele não acreditasse Nele? Será que ele
suplicaria ao Trono da Misericórdia se ele não esperasse obter seu desejo?
Assim, caros amigos, o tipo verdadeiro de oração é um comprovante da
existência da vida espiritual na sua consciência de necessidade, no seu se voltar a
Deus e na sua fé Nele.
Oração é o autografo do Espírito Santo sobre o coração regenerado.
Oração é, também, uma admirável forma de comunhão com Deus e, e como a
mente carnal não pode ter comunhão com Deus, esta se torna prova da
regeneração, a evidência da adoção! Aquele que ora tem algum conhecimento de
Deus, algum entendimento com o Grande Invisível. O hábito de oração privada e
a constante prática do coração de comunhão com o Altíssimo são os mais certos
indicadores da obra do Espírito Santo sobre o coração. Quando pode ser dito de
um homem, “Eis que ele está orando”, o selo do Grande Rei está sobre ele! Ele
carrega o aval do Esquadrinhador de Corações. Assim que o Senhor deu a
Ananias esta certa indicação de que Saulo de Tarso era um homem convertido,
por dizer a ele, “Eis que ele está orando”.
No caso de Saulo, esta indicação era especialmente notável. “Eis que ele
está orando” tinha um significado especial em relação a este fariseu convertido.
Mostrarei isso durante o sermão. É como se fosse uma grande maravilha que o
rei Saul, do Velho Testamento, tivesse profetizado. Algo tão inesperado e
maravilhoso que o evento se tornou um provérbio – “Está Saul também entre os
profetas?” (1 Sm 10:12). Mas era uma maravilha igual quando este mais
moderno Saulo foi visto orando! Está Saulo de Tarso também entre aqueles que
oram pela misericórdia de Jesus? O próprio Senhor dos Céus menciona isto
como um prodígio! Ele aponta para isso como se fosse uma coisa a ser
contemplada e de se maravilhar, pois Ele diz ao Seu servo Ananias, “Eis que ele
está orando”.

I. Nós começaremos nosso discurso com a seguinte observação –
Esta expressão a respeito de Saulo de Tarso é notável, pois ELA IMPLICA
QUE ELE NUNCA HAVIA ORANDO ANTERIORMENTE. “Eis que ele
ora” não poderia ser falado a respeito de um homem que já orava em situações
anteriores.
Isto é muito arrebatador, pois Saulo era um fariseu e, portanto, um
homem que habitualmente repetia orações. Fariseus se orgulhavam da
regularidade, do número e da duração de suas orações. Talvez não houvesse
nenhum dia da vida de Saulo em que ele se não tivesse orado, segundo sua
própria percepção. Muitos judeus devotos passavam nove horas por dia em
oração, pois eles ocupavam uma hora com reais súplicas, mas antes disso se
sentavam durante uma hora antes e uma hora depois de fazer essas súplicas – e
isto era feito três vezes ao dia! Fariseus geralmente ofereciam orações não
somente no templo o nas sinagogas, mas até nas esquinas das ruas onde
poderiam ser vistos por outros homens. Qualquer que fosse a qualidade de suas
orações, elas muitas em quantidade. Se algum fato público fosse tão
evidenciado de forma que ninguém pudesse negá-lo, tal fato era que Saulo de
Tarso passava muito tempo orando e, portanto, é mais surpreendente que o
próprio Senhor disse a Ananias à respeito deste constante e devoto fariseu, “Eis
que ele está orando”.
Veja como o Senhor examina os julgamentos dos homens! Na opinião
de todos os que conheciam Saulo de Tarso, o discípulo de Gamaliel, ele era
muito doado à oração. Mas Aquele que examina os corações e conhecia bem
Saulo – e sabia verdadeiramente o que oração é – Ele aqui declara que agora
sim, finalmente, Paulo começa a orar! Apesar de todo seu anterior excesso e
ostentação de devoção, Saulo, em toda sua vida, nunca tinha orado de forma
alguma! O que os seus amigos considerariam como uma grande quantidade de
oração, o Senhor não considera nada daquilo! Até que a primeira quebrantada
confissão de pecado viesse do pobre cego perseguidor de Jesus, o Senhor
considerava que ele nunca tinha orado! Quero empurrar esse fato para a casa de
alguns que aqui estão presentes conosco, esta manhã. Me refiro àqueles que, de
uma maneira formal, tem sempre orando e apesar disso nunca oraram
espiritualmente. Sua mãe lhe ensinou uma forma de oração – você repetiu esta
forma por toda sua meninice e juventude. Neste momento você está bem regular
em dobrar seus joelhos, tanto de manhã quanto de noite, e ainda sim, nenhuma
oração jamais saiu de seu coração ao coração de Deus!
Você vai constantemente ao lugar de adoração; você é diligente em
observar cada ordenança cristã; você se junta àqueles que respondem a pregação,
ou você abaixa sua cabeça e escuta em silêncio à proclamação extemporânea do
seu pastor e, portanto, você supõe que ora – e mesmo assim esta é uma
suposição vã! Se alguém fosse falar que você não ora, você ficaria muito
zangado! E mesmo assim é possível que esta afirmação seja totalmente
verdadeira. Espero tanto que hoje, pela primeira vez, você em uma seriedade
verdadeira possa clamar ao Senhor Deus e faça com que Ele testemunhe que
agora, de fato, você ora! Você irá então ter em pouca estima todas as suas
repetições sem coração de orações e irá clamar a Deus, o Espírito Santo, que nos
ajuda nas nossas enfermidades, já que nós sabemos que não oramos como
devemos orar.
Já lhes disse que os fariseus eram notados por suas orações e, portanto,
parece mais maravilhoso ainda o fato de que o Senhor tenha anunciado que
Saulo de Tarso tinha então começado a orar. Porém, isto foi verdade – ele agora
estava oferecendo pela primeira vez uma oração verdadeira. Aquela oração do
fariseu da qual lemos do capítulo dezoito de Lucas era para ser uma oração, mas
não havia nenhuma partícula de oração nela! Ele não pediu por nada. Ele não
confessou nenhuma necessidade, nem suplicou por uma promessa. Ele não
procurou por misericórdia, nem mencionou expiação pelos pecados. Sua ação de
graças formal era manchada de uma autoestima orgulhosa e era mais a
ostentação da vaidade do que um pedido em humildade! Muito do que é
chamado de oração é uma casca e não o interior de uma oração. Suponha que
você pegue a melhor forma do que um dia já foi escrito e vai lendo através
daquilo da forma mais ordenada possível – você pode fazer isso e continuar a
fazer isso durante uma vida de setenta anos – e ainda assim você nunca terá
buscado a Deus com verdadeira diligência!
Se você preferir compor suas próprias orações, você pode fazer isso
durante toda a sua vida e faça orações que podem ser excelentes em linguagem.
Você pode ainda fazer uma nova oração toda manhã e toda noite – e ainda assim
pode não existir um único átomo de verdadeira oração em todo esse
derramamento de piedade! E se sua primeira oração ainda deve ser feita? Que
solene sugestão para você que foi criado no colo da piedade e vestido nas roupas
da religião! Não me admiro que isso lhe ofenda tão rapidamente. Esse exame de
coração não pode ser colocado de lado como se eu não estivesse falando com
você. A não ser que seu coração fale com Deus; a não ser que sua alma venha a
um contato espiritual com o Grande Pai dos espíritos, sua forma de oração, não
me importa se é litúrgica ou extemporânea, de nada vale! Deus não é o Deus dos
mortos, mas dos vivos – e isto se aplica as orações tanto quanto aos homens –
“Deus abomina o sacrifício
Onde um coração não possa ser achado”
Uma única frase de um verdadeiro coração suplicante, como, “Ó Deus,
tem misericórdia de mim, pecador!”, vale mais do que grandes trabalhos dos
lábios!
Oração verdadeira deve ser espiritual e as orações de Saulo nunca havia
sido isso antes. Palavras são somente o corpo da devoção – a confissão do
pecado, a ansiedade pela misericórdia, o gemer pela Graça – estas são a alma e o
espírito da oração! Um homem pode ter repetido as palavras mais seletas e estas
podem ter sido o corpo externo de uma verdadeira oração, pois seu coração as
seguiu de verdade – mas, por outro lado, nós podemos usar as mesmas
excelentes expressões e não termos orado coisa alguma – pois pode não existir
nenhuma inclinação do coração a Deus. Um homem pode não pronunciar
nenhuma palavra. Ele pode sentar-se em absoluto silêncio e mesmo assim pode
estar orando o mais eficientemente possível. Moisés clamou a plena voz quando
não disse sequer uma palavra e Ana foi ouvida no templo quando não emitira
nenhum som, mas somente os seus lábios se moviam! Eu considero que aquelas
orações que não podem ser expressas pela linguagem são, frequentemente, as
mais profundas e fervorosas. Quando os desejos são tão pesados que colocam
fardos em nossas palavras e chegam mesmo a esmagá-las, então eles são os mais
prevalentes para Deus. Existe poder naquele solene silêncio o qual é “a geada na
boca, mas o fogo da mente”, quando a alma flui como uma corrente forte em um
leito tão profundo e escondido até que alcance o coração de Deus e triunfa Nele.
De qualquer maneira, a oração que não é espiritual não é considerada
pelo Senhor nem como uma oração, pois “Deus é Espírito, e importa que os que
o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (Jo 4:24). Você pode, se quiser,
adorar a Deus com órgãos como os ingleses fazem, ou você pode orar com
moinhos de vento, como fazem os tártaros[6] - ambas são muito parecidas ao meu
ver – mas a sua adoração e a sua oração não serão medidas pelos assopros dos
foles, nem pelas voltas das pás ou velas. Elas serão medidas somente pelo
trabalho do coração que foi feito nelas. Se o espírito não tem união com Deus,
não houve oração. Pode ser que haja música e oratória, mas não haverá oração se
a natureza espiritual não houver falado com o Pai dos espíritos. Perceba, então,
que nós só começamos a orar quando começamos a viver vidas espirituais.
Seguinte a isso, Saulo nunca orou uma única correta oração do tipo do
qual o Senhor pode aceitar. Saulo, até então, não conhecia o Senhor Jesus e,
portanto, ele não conhecia o caminho de acesso ao Pai através do Seu Filho, a
quem Ele apontara como Mediador. Saulo conhecia a letra da Verdade de Deus
de acordo com a Lei Cerimonial, mas ele não conhecia o espírito da Lei que é
incorporado por Jesus. Ele tinha buscado estabelecer sua justiça própria, mas ele
não havia se submetido à justiça de Cristo e, desta forma, em suas orações ele
não estava atravessando a estrada que leva ao coração de Deus. Se um homem,
usando um rifle em Wimbledon[7] em uma competição por prêmio, fosse avisado,
“Não é o alvo à direita, mas é o alvo à esquerda que deve ser acertado”, e se ele
continuasse a atirar para a direita, mesmo que ele acertasse bem no centro do
alvo, ainda assim ele não tinha marcado nenhum ponto! Dessa forma, como
aquele não era o alvo determinado na competição, seus melhores tiros não
contavam para nada.
Quando um homem não ora pelo caminho apontado pelo Senhor, nem
através de Jesus Cristo, nem em dependência do Espírito Santo, ele não ora de
forma nenhuma! Por mais bela que seja sua oração, é somente um pecado
esplêndido. Se você contrata um empregado para fazer um trabalho e ele
obstinadamente persiste em fazer uma outra coisa, ele não ganhará seu salário.
Por mais que ele trabalhe diligentemente naquilo que você nunca determinou
que ele tivesse trabalhado, ele não receberá nada de suas mãos. Dessa forma se
você orar a Deus de uma maneira que Deus nunca ordenou; se você se recusa a
usar o nome que Ele apontou; se você negligencia o cultivo o único, santo e
humilde espírito que o Senhor aceita, você poderá orar até que sua língua
atravesse o céu de sua boca, mas no julgamento de Deus, você não orou de
forma nenhuma e não receberá nada do Senhor!
É certo, também, que Saulo de Tarso nunca tinha mencionado o nome
de Jesus em suas orações e, portanto, Deus considerava que ele não havia orado.
Saulo havia ouvido sobre Jesus, mas ele rejeitou Suas afirmações e odiou Seu
povo. Nosso Pai Celeste nunca esconde os ouvidos ao nome de Jesus quando
este é honestamente suplicado. Mas Ele não irá nos ouvir se nós desprezarmos
aquele Nome abençoado. “Porque também debaixo do céu nenhum outro nome
há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4:12). Não há
nenhum outro nome pelo qual podemos nos aproximar com esperança do Trono
da Misericórdia! Saulo havia rejeitado aquele Nome e tinha se baseado em seu
próprio nome e, por esse motivo, ele nunca havia orado. Suponha que um rei
faça uma lei ordenando que toda petição que for apresentada a ele deve conter
um determinado selo que seus representantes colocaram de graça em cada
petição. Então se um homem negligenciasse ou se recusasse a ter sua petição
assim sancionada, ele não podia se espantar que suas petições fossem tratadas
como insolências e que não fossem respondidas! Na prática, tal homem nunca
havia mandado nenhuma petição, desde que ele tinha recusado a cumprir com a
regulação sem a qual nenhuma petição seria recebida! Amigos, que nós
possamos entender que nós devemos nos humilhar e com todo o coração clamar
ao precioso sangue do Senhor Jesus Cristo em oração, pois a força da oração está
primariamente em nossa súplica pelo Nome e pela Obra de nosso Bem-Amado
Filho de Deus! Nós devemos nos colocar de um lado e nos escondermos atrás do
Senhor Jesus – pois nós e nossas orações só podem ser aceitas no Amado,
através da Pessoa, do mérito, do sacrifício, da intercessão eterna do Senhor Jesus
Cristo! Se nós não oramos no nome de Jesus, nós não oramos de forma alguma!
Além disso, gostaria que vocês notassem que a verdadeira oração não
pode vir de homens cujo caráter é contrário à mente de Deus. Aquele que
contradiz sua oração, não orou. Sua vida tem, com efeito, suplicado contra seus
lábios. Saulo de Tarso se opôs ao Filho de Deus – como ele poderia estar no
favor de Deus? Ele não acreditava no Evangelho, mesmo que o selo de Deus
estivesse nele – como, então, Deus iria receber sua oração? Como o Senhor
ouviria a ele, se ele não ouvia ao Senhor? Como Deus nos aceitará se não
aceitarmos o Seu Filho? Se nós nos colocarmos em oposição ao Seu Evangelho,
não teremos nós fechado a porta da misericórdia em nós mesmos? Enquanto nós
fingimos que batemos no portão dos Céus, estamos virando a chave para nos
trancarmos fora de lá! Saulo era muito mais que um opositor, ele havia se
tornado um perseguidor – podem perseguidores experimentar o favor de Deus?
Podemos esperar receber uma bênção de Deus quando estamos amaldiçoando o
Seu povo? Como pode um perseguidor orar?
Saulo de Tarso era, evidentemente, cheio de ódio e crueldade – como ele
poderia orar? O amor é a matéria-prima dos filhos de Deus! “Qualquer que ama
é nascido de Deus” (1 Jo 4:7) - mas Saulo tinha concebido um nojo intenso
contra os seguidores do Crucificado, que ele os arrastava para prisão e consentia
com a sua morte! Irmãos e irmãs, nós não temos o direito de perseguir nenhum
homem por sua religião ou irreligião – seja ele católico, judeu, mulçumano ou
infiel, nós não devemos fazer nada de ruim para ele, nem roubá-lo de nenhum de
seus direitos, por mais errada que seja sua visão de mundo. Nós somos obrigados
a sermos justos e corretos a todos os homens, qualquer que seja suas convicções
religiosas, ou noções irreligiosas. Injustiça não é amiga da Verdade de Deus! Nós
não devemos lutar as batalhas de Deus com as armas de nossa vontade doente.
Pois o fato de nós odiarmos aqueles que estão em erro, falarmos deles com
desprezo, lhes desejarmos fazer mal ou os machucá-los não é de acordo com o
Espírito de Cristo. Você não pode expulsar satanás pelo nome de satanás, nem
corrigir um erro com violência, nem superar o ódio com ódio. A arma de
conquista do cristão é o amor e se Paulo tivesse buscado derrubar aquilo que ele
considerava como erro usando o amor, ele não seria considerado tão culpado.
Quem quer que eles sejam, justos ou ímpios, homem ou mulher, ele os
obrigava a blasfemar o nome de Jesus, aquele a quem ele considerava ser um
impostor. Ele buscava dominar sobre suas consciências e os oprimir por suas
crenças. Como, então, Deus ouviria sua oração? Se você tem o espírito de ódio
em você, este torna nula sua devoção e faz com que sua oração não seja uma
oração. No amor está a essência da oração e a oração deve ser a flor e a coroa do
amor. Se eu atravessar o mundo odiando meus semelhantes pelo fato de eles
serem diferentes de mim; se estou determinado a forçar minhas doutrinas sobre
outros com mão de ferro, eu não posso levantar essa mesma mão para orar! Um
coração malicioso polui o sacrifício que ele mesmo oferece. Quando vou a Deus
em oração, posso estar ofendendo Ele quando suponho que O estou agradando.
Amigo, se você esta vivendo uma vida ímpia, não me importa com qual
regularidade você dobra seus joelhos em aparente devoção, não existe nada
nisso! Se você não está vivendo como um cristão deveria, suas orações não
provam nada – suas preces da manhã ou da noite, suas orações em família e
seus cultos de oração são apenas a imitação da verdadeira oração e nada mais.
Você pode ter sido batizado e pode ter participado da Ceia do Senhor,
mas tudo isso foi zombaria – uma caricatura de santidade e nada além disso – a
não ser que você se esforce através da santidade e trabalhe para conformar sua
vida com a vontade de Deus. Deus irá nos ouvir quando nós O ouvirmos – Ele
irá fazer nossa vontade quando fizermos a Dele. Mas a persistência em
experimentar o pecado, especialmente a satisfação na inimizade e o ódio são
destrutivos à oração, até que sejamos livres dessas coisas, nós não estaremos
orando! Esteja em paz com todos os homens ou não me fale de oração! Deixe de
lado toda oposição ao Evangelho do Senhor Jesus ou você não pode orar mais do
que um demônio do Abismo!
Novamente – Saulo, com todas suas orações, nunca tinha
verdadeiramente orado porque a humildade estava ausente de suas devoções.
Que teste este é! Saulo andava pelo mundo crendo que ele era um homem justo.
Ele não usava textos das Escrituras entre seus olhos[8]? Que homem piedoso ele
era! Ele não tinha barras nas suas roupas – barras azuis? Que santo ele era! Será
que ele não jejuava três vezes por semana e pagava os dízimos da menta, das
ervas e do cominho? Não existia um homem melhor em todos os domínios de
César do que Saulo, isto em seu próprio julgamento! Quando ele orava, existia
um grande sabor de justiça própria em seu exercício religioso e isso fazia o
Altíssimo se enojar. O Senhor se deleita em espíritos humildes e contritos, mas
os orgulhosos, Ele rejeita. Não havia confissão de pecado, nem choro por
misericórdia através da propiciação – sua oração era a expressão da gratidão de
que Saulo era o Hebreu dos Hebreus, com relação à Lei, irrepreensível!
Nas cortes mais altas, onde a aparência exterior não é nada e Deus
enxerga o coração, seus discursos piedosos não eram contados como orações de
forma alguma. Se você se sente satisfeito com suas próprias orações, permita-me
sugerir que você não ora, pois são poucos aqueles que oram corretamente e estão
satisfeitos com suas próprias petições. Aqueles que supõem que pertencem à
“família boa o suficiente” irão se descobrir ruins o bastante, e aqueles que se
consideram suficientemente bons serão trancados fora do Céu! Se você tem uma
justiça própria fabricada em suas orações, jogue-a aos cachorros! Justiça própria
é o fermento que o Senhor nos manda jogarmos fora, pois Ele abomina isso e
considera-o como poluidor de Sua Páscoa. Se você ora como uma pessoa
merecedora, apelando para suas próprias boas obras, existe uma enorme mentira
no fundo de suas orações e isto mostra que você nunca orou na vida!
Digo novamente, isto mostra que é terrível o trabalho de muitas pessoas
que se baseiam em uma religião exterior. Querido amigo, não fique contrariado
ou com raiva se isto for com você para casa. Se, diante dos seus olhos, toda a
montanha de “trigo” de seu celeiro foi levada pelo vento como se fosse palha,
graças a Deus que isto foi levado agora, pois ainda há tempo para recolher o
verdadeiro trigo! É melhor para você fazer esta descoberta triste agora do que a
fazer quando chegar à morte, e acordar em outro mundo onde não haverá
esperança de corrigir o erro! Que este pensamento chegue a cada professor de
religião esta manhã – que você que foi um homem ou uma mulher que orou por
tantos anos, assim como Saulo de Tarso, ao máximo de seus anos e que abundou
na aparência exterior da devoção – venha a orar a Deus pela primeira vez!

II. Isto nos traz à minha segunda reflexão, e está é, É
MOSTRADO NO TEXTO QUE ERA UMA COISA EXTRAORDINÁRIA
PARA TAL PESSOA COMEÇAR A ORAR DAQUELA FORMA. É
colocado com um “eis”, uma marca de admiração, “Eis que ele está orando!”. É
uma coisa muito difícil, algo muito maravilhoso, para um homem
verdadeiramente orar, um homem que durante toda sua vida orava de uma
maneira falsa! É um milagre da Graça trazer um Fariseus para clamar por
misericórdia da mesma forma que um penitente publicano! Não chega a ser nem
a metade da maravilha que um homem sem religião começasse a orar,
comparado a um professor presunçoso orando. A mais extraordinária conversão
que poderia ocorrer aqui hoje, não seria a de Elimas, o mágico, (Atos 13:8), mas
sim a de Saulo, o Fariseu! A mais extraordinária conversão na era apostólica foi
de um homem que, desde sua tenra idade, foi mergulhado em justiça e satisfação
próprias que vem da atenção ao ritual, à cerimônia e à forma de piedade. “Eis
que ele está orando”.
É difícil para ele orar, pois ele foi um formalista por um longo tempo.
Ele esteva tão enraizado ao hábito de devoção formal e tão satisfeito com isto
que é extremamente difícil trazê-lo a enxergar coisas espirituais. A letra mata em
mais sentidos que um só – e um homem tão morto não tem vida para as coisas
espirituais. Se ele vai para o seu quarto na hora da oração, ele percorre os
mesmos velhos trilhos sem o mínimo de sentimento e coração. Ele repete
palavras, mas é o mesmo para ele do que ler em uma língua desconhecida. A
tendência é dizer a mesma coisa vez após vez até que os lábios se movam
mecanicamente e a alma durma profundamente. A Bíblia é lida, mas a mente
está cochilando. O sermão é ouvido, mas o coração está vagando. Qual é o bem
disso? Mesmo assim, quão difícil é para os homens saírem disto! É mais fácil
comparecer a milhares de assembleias, ou ir à igreja todos os dias da
semana do que oferecer uma única oração verdadeira!
É muito difícil para você que é rico em devoção falsa[9] entrar no Reino
dos Céus. É difícil colocar o Manto da Justiça de Cristo nas costas daquele
homem que acredita que seu próprio manto é tão bom e tão necessário quanto o
de Cristo – ele vestem seus próprios trapos a tanto tempo que se unirão a ele! Ele
é muito orgulhoso para mendigar, pois ele tem vivido com um cavalheiro em
seus próprios ganhos. Ele tem sido rico e grande em bens por tanto tempo – e
não necessita de nada – que ele cresceu tão acostumado à sua forma de religião
externa e superficial, que você não consegue o fazer, a não ser que haja um
milagre da Graça, buscar aquilo que é verdadeiro e profundo.
Novamente, a justiça própria é um grande impedimento para vir a Cristo
em oração. Nos dias de Cristo, os publicanos e as prostitutas entraram no Reino
antes mesmo que os Fariseus que se consideravam justos! É uma grande coisa
conquistar o “eu” pecaminoso, mas é uma coisa ainda maior derrotar a natureza
“justa”. O homem que é completamente mal e sente isto, pede por misericórdia,
mas aqueles outros são maus no seu coração e não se sentem assim e, portanto,
não buscarão o Senhor. Eles acreditam que fizeram tudo que deveriam ter feito –
enrolando-se nos seus farrapos de justiça, eles imaginam que são aptos o
suficiente para entrar no Banquete Real sem colocar as vestes nupciais que o Rei
providenciou (Mt 22:1-14). Custa, para um homem que considera a si mesmo
justo, um grande esforço para se colocar para orar. Se ele soubesse somente que
sua justiça própria é só uma parte de sua imundície, ele mudaria isto. A Escritura
diz “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo
da imundícia” (Is 64:6). Quando nós vemos nossas justiças assim, ficamos
felizes em nos livrar delas, pois elas são repugnantes e si mesmas e a tola doença
do orgulho envenena cada parte delas!
O homem que é acostumado a orar sem seu coração e a ser religioso
sem ser convertido é difícil de ser posto para orar, pois ele é preconceituoso com
o caminho da Graça. Ele arquitetou sua mente de tal maneira que não verá a Luz
de Deus porque acredita em sua própria luz. Você fala com ele sobre a salvação
pela Graça, redenção pelo sangue precioso e justificação somente pela fé, mas
ele não suporta essas conversas – elas podem servir para os ímpios, mas ele é de
outra raça! Ele está encoberto pelas glórias de si mesmo e, portanto, ele não pode
ver a Glória de Deus na face de Jesus Cristo. O hábito da religião superficial e
externa, sendo uma vez formado, é tão difícil para ser quebrado quanto para o
etíope mudar a sua cor de pele. Um homem abraça sua justiça própria como se
abraça à sua vida. Pele por pele, sim, tudo que um homem tem, ele irá dar por
sua vida legalista, a vida do seu eu.
Apesar disso, um homem que se considera justo sabe que todos pensam
que ele é justo e, assim, ele não pode se humilhar por tais orações e confissões
como cabem aos pecadores comuns. Se você fala para ele sobre se converter; por
que falar, senhor? Ele não precisa de conversão! Ele nasceu bom! Ele sempre
foi um cristão! Ele não precisa de nenhuma mudança – você não sabe quão
bom cavalheiro ele é! Ele nunca chora no amargor de sua alma, “Deus, tem
misericórdia de mim, um pecador”. Por que ele deveria? Sua mãe e pai foram
pessoas extremamente boas e ele “nasceu de novo” no batismo e até então foi
confirmado! O que mais você precisa? Se lavar no sangue de Jesus? Bem, talvez
ele precise disso como os outros também, mas não há um pecado grande nele,
certamente, nada pelo que ele deveria ser condenado. Pessoas desse tipo são
raramente levadas a orar. Elas podem ser chamadas de prata reprovada, pois o
Senhor as rejeitou. Se tais pessoas um dia serão salvas, isso irá maravilhar
homens e anjos – e o próprio Senhor irá clamar, “Eis que ele está orando!”.
Até mesmo a intensidade e o fervor religiosos podem se tornar
impedimentos para a conversão de um homem quando o ardor é pela falsa fé. O
mais sério formalista está envolto em aço e as flechas do Evangelho
ricocheteiam nele. Alguns adoram cada prego da porta da igreja e cada azulejo
da capela; se um padre atravessasse a rua, eles estariam prontos para beijar o
chão em que ele pisa! Como estes podem ser trazidos à simplicidade da fé? Entre
os inconformados não existem pessoas que são obcecados com insignificâncias,
conservadores com velhos métodos, inflexíveis nos hábitos, ferozes por formas
exteriores e ainda assim vazios de vida espiritual? Aqueles que não têm nada
dentro de si ou da Graça espiritual são frequentemente os mais ardentes pelos
sinais exteriores e visíveis. O homem que não tem nenhum centavo é o mais
obcecado por uma aparência respeitável, ele crê que se não mantém uma boa
aparência, logo sairá nos jornais. Um sincero e gracioso cristão é tentando, pelo
contrário, a pensar tão pouco da sua “fachada” do que a ter em boa estima. Ele
valoriza ao máximo sua vida e fé interiores no Senhor Jesus. Falo novamente,
irmãos e irmãs, é uma coisa tão maravilhosa que um homem externamente
religioso venha um dia a começar a orar com sinceridade que isto é considerado
como um prodígio! “Eis que ele está orando”.
Veja o que foi necessário no caso de Saulo para fazer com que ele orasse
– o próprio Senhor Jesus teve que aparecer e o trazer aos seus joelhos! Nada
menos que uma Luz brilhando do Céu poderia lhe mostrar sua maldade! Ó, que
tal Luz possa brilhar sobre as almas dos “justos”! O homem orgulhoso caindo ao
chão, empurrado de seus altos lugares! Até que ele esteja ao chão, ainda haverá
glória em sua carne. Ele teve ser atacado com cegueira, para que ele esteja
pronto para aceitar a enxergar pela fé. Por três dias ele não deve comer ou beber,
para fazer com que ele largue o vício desta terra e o faça se alimentar do Pão do
Céu. Grande deve ser a agonia do seu espírito, pois ele, que era tão intensamente
justo aos seus próprios olhos, não podia ser trazido a Cristo sem ser grandemente
machucado. Ele, que havia confiado em si tão completamente e por tanto tempo,
devia ser arrancado pelas raízes antes que ele pudesse largar suas confianças
carnais. É necessária, assim como foi, uma especial intervenção da Graça para
trazer um professor religioso a orar em espírito e verdade!

III. E agora quero que você perceba, em terceiro lugar, que embora
fosse uma grande maravilha que Saulo tenha orado, ainda assim É
DIVINAMENETE DECRETADO NO TEXTO QUE ELE O FIZESSE.
Algum de vocês poderia gostar de ter ouvido a oração de Saulo de Tarso.
Olhe pare ele agora! Este bom homem! Quão humilhado, quão modesto ele é!
Sua oração começou com uma completa e dolorosa confissão de pecados. Ele
não ofereceu nenhuma desculpa ou diminuição dos seus erros. Saulo olhou para
Ele, que fora traspassado por ele e chorou por Ele. Ele reconheceu que era o
principal dos pecadores – “Pois que persegui a igreja de Deus”. A única coisa
que ele poderia ter falado com uma forma de pedido de desculpas era, “o fiz
ignorantemente, na incredulidade.” Olhe para ele lá, sozinho em um quarto, com
seus olhos abertos mas ainda assim cego, ele chora copiosamente, clama e se
humilha diante do Senhor. De fato, ele está orando! No outro dia, enquanto ele
estava pela estrada de Damasco, todos o olhavam como um santo, mas agora,
por sua própria confissão, ele é um pecador do mais alto nível! Escute como ele
difama a si mesmo! Ele se arrepende no pó e nas cinzas! Ele ora por
misericórdia. Ele implora para que seja perdoado por seus vermelhos pecados.
Ele reconhece que se fosse mandado para o inferno, isso seria mais do que justo,
mas ele implora para que pelo nome do Salvador, ele seja poupado e permitido
que veja a Luz do Rosto de Deus. Quase consigo ouvi-lo fazendo esta triste
confissão. Eis que ele está orando!
Agora você o encontrará reconhecendo sua enorme necessidade. Ele diz,
“Senhor, eu necessito de tudo! Não é somente uma coisa que me falta, mas não
tenho nada do que é digno de se ter. Preciso de um novo coração e um espírito
certo. Preciso da Verdade de Deus nos meus lugares mais escondidos e que, no
meu interior, eu possa conhecer a sabedoria”. Ele não tinha nada para se
orgulhar – ele saiu de um orgulhoso milionário para um mendigo! Ele deve ter
chorado, “Senhor, recobre a minha visão novamente, mas especialmente me
forneça a visão espiritual. Tire todas as escamas do meu coração assim como dos
meus olhos! Ajude-me a ver Jesus como meu Salvador! Ajude-me a viver para
Sua Glória, como antes eu vivia para prossegui-lo”. Desta vez ele estava orando
– e ninguém tinha dúvida disso!
Posso vê-lo misturando com essa oração, o mais humilde tipo de
adoração. Como ele iria adorar Jesus de Nazaré como seu Deus, agora que ele
foi conquistado por Ele?! Como ele choraria, “Meu Senhor, meu Senhor, eu
estava perseguindo a Ti? Tu és o Messias O qual todas as 12 tribos esperavam, e
eu O rejeitei? Não fui eu quem me sentei para ver Teu servo, Estevão, ser
apedrejado e guardei os mantos daqueles que atiraram pedras nele, e eu que
respirava ameaças contra Ti, meu Senhor?”. Certamente a mais profunda
reverência de seu espírito castigado devem ter sido um aromo doce ao Senhor, à
medida que Saulo se prostrava no pó diante Dele, e vez por vez falava, “Mas
longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”.
“Eis que ele está orando”.
Perceba que súplicas ele fez. Nunca lhe surpreendeu a maneira como
Saulo deve ter suplicado ao Senhor? Suplicar é a parte mais verdadeira e mais
forte da oração. Agora, como Saulo de Tarso suplicou? Sem dúvida nenhuma ele
implorou pela promessa, “Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os
seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para
o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar.” (Is 55:7). Ele conhecia as
Escrituras do Velho Testamento melhor do que nós conhecemos e é certo que ele
as usaria em sua oração. Eu o escuto chorar, “Ó Senhor, Tu disseste: ‘Vinde
então, e argui-me, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a
escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos
como o carmesim, se tornarão como a branca lã.’” (Is 1:18). É certo que ele
percorreu cada letra do Salmo 51 – pois este se encaixava a ele exatamente.
“Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha
língua louvará altamente a tua justiça.” (Sl 51:14).
Você não acha que depois de que ele tivesse buscado todas essas
promessas, ele iria, então, considerar todas as características da Lei Cerimonial
que apontavam para Cristo? Como o capítulo 53 de Isaías deve ter resplandecido
em sua mente! Ele estava cego, mas que luz deve ter flamejando em seu espírito
à medida que ele via o Homem de Dores, que sabia o que era sofrer, e que
escutava o profeta dizer, “Verdadeiramente Ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre si... o castigo que nos traz a paz
estava sobre Ele”. Como Saulo deve ter começado a chorar a Jesus, “Ó, Filho de
Deus, seja minha Expiação, seja minha Oferta pelo Pecado, seja meu Sacrifício
da manhã e da tarde! Seja para mim o aspergir do sangue do Cordeiro Pascal!”.
Sabendo, como ele sabia, todos os modelos da Lei Judaica, ele deve ter
encontrado neles rico conforto, agora que, contemplando Jesus, ele achou a
Chave de cada um desses modelos!
E, amados, tudo isto deve ter sido levado em um maravilhoso fervor. Se
nós pudéssemos ter ficado à porta e escutado, teríamos entendido porque o
Senhor disse, “Eis que ele está orando”. Antes, você deveria ouvi-lo repetindo
palavras, mas agora ele gemia, chorava, soluçava e derramava lágrimas! Antes,
você teria dito para si mesmo, “Ele está dizendo suas preces”, mas desta vez era
como se um homem lutasse por sua vida ou estivesse em amargor pela morte de
seu único filho! Todas as orações anteriores eram falsidades, mas esta era
verdadeira! Todo o resto era somente uma performance, mas agora ele realmente
se relacionou com o Altíssimo! “Eis que ele está orando”. Agora sim ele era um
verdadeiro israelita, e eis que ele sai mais do que vencedor através Daquele que
o ensinou a orar!

IV. Em último lugar, nós vemos que tão logo que ele orou, ERA
MAIS DO QUE EVIDENTE DE QUE O SENHOR HAVIA ACEITADO A
SUA ORAÇÃO. Como sei por este texto que, “Eis que ele está orando”? Bem,
sei isso do texto, primeiramente, porque Deus está aqui testemunhando que ele
tinha orado. Não deveria o Senhor está em uma reunião de oração e escutar
uma dúzia de nós falarmos nossas preces e ainda assim não falar “Eis que ele
está orando”? Mas se uma voz do Céu falasse à respeito de alguém, “Eis que ele
está orando”, nós saberíamos que aquele homem fora aceito pelo Senhor. Assim
aconteceu com Saulo. A primeira vez que ele orou, Deus o ouviu. Tente isto,
meu amigo, tente! Se esta vai ser sua primeira oração esta manhã, suspire ela a
Deus com uma fé humilde e Ele irá te ouvir!
Sabemos que Deus aceitou a sua primeira oração, pois Deus estava
prestes a respondê-la! Ele estava aprontando Ananias para ir e confortar o
pobre arrependido e cego. Deus está prestes a responder sua oração, meu querido
irmão, esta manhã, se você chorar a Ele. Talvez esteja presente aqui no
Tabernáculo o homem que irá falar com você depois que você deixar essas
paredes, ou alguém logo irá lhe chamar para dizer-lhe o caminho da paz mais
perfeitamente. Se você largar hoje o caminho da justiça própria e devoção
formal, e começar a chorar ao Deus Vivo, Deus irá se encontrar com você!
Além disso, nós temos certeza que Deus aceitou sua primeira oração,
pois Ele chamou atenção para ela com um “Eis”. Nós já ouvimos falar das sete
maravilhas do mundo e sobre outras maravilhas a respeito das quais os homens
clamam, “Eis”, mas o que mais “surpreende” Deus é um homem orando, um
pecador orando! Deus não diz, “Eis Herodes em seu trono” ou “Eis César em
seu palácio”, mas Ele diz, “Eis que ele está orando”, como se Ele fizesse a
oração do homem o centro da observação, o foco da atenção! “Eis que ele está
orando”. O coração de Deus se deleita com orações verdadeiras. O maior
inimigo percebe a verdadeira oração e treme quando um homem cai em seus
joelhos. E Deus chamou para que todos os Seus santos na terra e Seus santos no
Céu olhassem para um homem em oração. Para o grande coração do Pai, é um
pródigo retornando! Ele clama, “Eis que Ele está orando”, mas Ele quer dizer
“Eis que ele está voltando para casa! Eis que ele busca o rosto de seu Pai! Eis
que Eu achei meu filho que havia perdido!” A oração é o prazer de Deus, a
admiração de Deus!
Amado, será que isso já passou pela sua cabeça, que você poderia
chamar a atenção do Grande Deus para si? Temo que existam muitos de quem
poderia ser falado, “Eis que ele nunca ora!”. Que coisa sobre a terra – um
homem feito pelo seu Criador que nunca adora seu Autor – um homem que é
diariamente alimentado pelas dádivas de Deus, mas nunca O adora! Cavalheiro,
você é um monstro, você é a criatura mais nojenta dentre os homens! Um
homem que vive sem oração não deveria viver! É uma maravilha que a terra não
abra sua boca e engula este miserável! E, apesar disso, quando ele, de fato,
ora, Deus faz disto uma maravilha!
É sua primeira oração esta manhã. Eu o vejo – o sermão acabou e ele
chegou em casa. Ele sobe para seu quarto. Ele tem medo que alguém entre e o
atrapalhe – ele está virando a chave. Ele está se ajoelhando ao lado da cama na
qual ele já dormiu tantas vezes sem orar e ele clama, “Ó, Deus, eu não sei o que
falar, mas seja misericordioso comigo, um pecador, e perdoe meus pecados!”.
Escuto o barulho das asas dos anjos à medida que eles se reúnem neste local
sagrado! Logo eles irão voar para cima clamando, “Eis que ele está orando!”.
Anos passarão por você, jovem rapaz, e você pode chegar ao meio de sua vida e
ser exposto a mais aguda tentação – o que você fará então? Bons espíritos irão
olhar você, temendo para que você não se perca, e demônios olharão para sua
indecisão. Você se lembrará daquele dia no meio de Setembro em que você orou
pela primeira vez – e você dirá para si mesmo, “Clamarei novamente a Deus,
como eu tenho feito frequentemente”. Você vai para o quarto e diz, “Senhor,
muitos dias se passaram desde a primeira vez em que clamei a Ti e eu não parei
de clamar, mas agora eu estou em uma grave tribulação. Eu Te imploro, proteja-
me!”. Deus te ajudará. A grande roda da Providência irá se mover por você.
Enquanto isso, ambos os anjos e demônios têm espiado você – os anjos cantam e
os demônios resmungam: “Eis que ele está orando”.
Alguns anos passaram. O jovem rapaz envelheceu e o tempo em que ele
deve morrer chegou. Ele sobe para o mesmo quarto da última vez e lá estão
aqueles que choram e o olham. Perceba a serenidade da alma que está partindo!
Ele está olhando para a eternidade sem medo. Ele conhece Aquele em que ele
crê e está pronto para partir. O que ele está fazendo em seus últimos momentos?
“Eis que ele está orando”. A oração, que por muito tempo foi seu respirar vital e
seu ar nativo é agora –
“Sua senha de entrada aos portões da morte
Ele entra no Céu orando!”.
Demônios que se reúnem em nossas últimas horas fugirão como
morcegos fogem da caverna assustados por uma tocha! Eles fugirão quando
ouvirem a voz, “Eis que ele ora”. Os espíritos iluminados encontrarão, felizes, a
alma que está na margem do Jordão quando escutarem a voz “Eis que ele está
orando”. Eles irão encontrar o espírito que ora do outro lado das águas e sorrirão
enquanto a oração terrena se transforma em uma oração Celestial! Logo
estaremos para sempre com o Senhor! Que Deus nos conceda isso, no Seu Santo
Nome. Amém.

HUMILDADE, A AMIGA DA ORAÇÃO.



Pregado em Junho de 1884

“Não sou digno da mínima de todas as Tuas misericórdias,
e de toda a verdade que Tu mostraste ao Teu servo, porque
com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em
dois bandos.”
Gênesis 32:10 (Versão King James[10] )

O caráter de Jacó está longe de ser impecável, mas igualmente sem ser
desprezível. Ele possuía uma grande força de caráter e de julgamento, mas isso
de alguma forma se tornou uma armadilha para ele, pois ele nem sempre se
moveu pela vida com a tranquilidade infantil de Isaque, ou com a serenidade real
de Abraão, mas era, às vezes, astuto e crítico como os parentes de parte de sua
mãe. Mesmo assim, confronto a depreciação ao caráter de Jacó a qual é muito
comum em alguns lugares, pelo fato de ele usar os meios necessários, assim
como orar. Nosso Deus é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó – e, muito
frequentemente, Ele é chamado do Deus de Israel – e até mesmo de o Deus de
Jacó. “Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus”
(Hb 11:16). E se Ele não se envergonha de ser chamado do Deus de Jacó,
nenhum crente tem algum direito de ter vergonha de Jacó! Com todas suas
imperfeições – e certamente ele as tinha – ele era um nobre homem.
Algumas boas pessoas são construídas em uma escala tão pequena para
mostrar boas ou más qualidades em medidas grandes – que tal frase não seja
usada com Jacó! Ele imprimiu seu caráter sobre uma multidão de gerações e
nações inteiras carregam seus traços. Ele era um homem cheio de energia, ativo,
sofredor, resoluto e, portanto, suas fraquezas se tornaram mais notáveis do que
seriam se estivessem em uma natureza mais quieta e calma. Diga o que quiser
dele, mas ele foi um mestre na arte de orar – e aquele que bem pode orar é um
homem da altura de um príncipe! Aquele que pode prevalecer com Deus irá
certamente prevalecer sobre os homens! Parece-me que quando um homem é
ensinado pelo Senhor a orar, ele é do tamanho de qualquer emergência que,
possivelmente, pode surgir. Dependa disso, será duro para qualquer um que luta
contra um homem de oração! Todas as outras armas podem ser colocadas de
lado, mas a arma da Oração, invisível como é, e desprezada pelos mundanos,
tem em si o poder e a majestade que irão garantir a vitória! A espada da oração
tem tal gume que cortará através de muitas armaduras de couraça. Jacó foi um
dominante príncipe quando ele estava ajoelhado.
Dr. Ditto em sua obra admirável, Ilustrações Bíblicas, tem um capítulo
sobre este texto o qual é intitulado, “A Primeira Oração”. Eu difiro um pouco
deste título. Esta mal pode ser dita que fora a primeira oração registrada na
Escritura. Admito que aquele excelente escritor excluiu a oração de Abraão por
Sodoma por se tratar de uma oração intercessória, mas existem outras orações de
Abraão e outros casos de súplica. Ainda assim, é verdade que seja dito que esta é
a primeira oração na Bíblia de um homem que ora por si mesmo e que é
registrada por completo. E, sendo a primeira, pode ser vista em alguma medida
como um padrão para os suplicantes bem sucedidos.
Se você a examinar cuidadosamente, perceberá que é um modelo que
pode ser copiado por qualquer filho de Deus em seus dias de tribulação. Jacó
inicia por apelar pela Promessa – “Deus de meu pai Abraão, e Deus de meu pai
Isaque, o Senhor” (Gn 32:9a) – que melhor apelo podemos ter do que a
Promessa de um Deus fiel que já a cumpriu para os nossos pais? Ele em seguida
apela por uma promessa especial que fora feita para ele mesmo. Esta promessa
estava envolvida em um mandamento o qual ele estava obedecendo – “Torna-te
à tua terra, e a tua parentela, e far-te-ei bem” (Gn 32:9b). Enquanto nós apelamos
à Aliança geral feita com todos os crentes em Cristo, nós podemos também
apelar particularmente e especialmente a toda aliança que tem sido feita com
nossa própria alma pelo Espírito do bendito Deus.
Após isso, ele continua a apelar para sua própria indignidade. Pela fé,
ele tornou até mesmo suas falhas em argumentos, como eu deverei mostrar-lhe –
“Não sou digno da mínima de todas as Tuas misericórdias”. Ademais, ele foi
apelar a Deus, expondo seu perigo específico – “Livra-me, peço-te, da mão de
meu irmão, da mão de Esaú” (Gn 32:11a). Ele também especifica seus filhos e
seu perigo diante de Deus – um apelo forte para um Deus de Amor como O que
temos – “porque eu o temo; porventura não venha, e me fira, e a mãe com os
filhos.” (Gn 32:11b). Então ele conclui com aquilo que sempre deve permanecer
como um potente apelo a Deus – “E tu o disseste” (Gn 32:12). Ele insistiu na
promessa de Deus e praticamente clamou, “Faça como disseste”. É sábio
divulgar a promessa diante Dele que a fez e implorar por sua execução! Nós
devemos apelar à fidelidade de Deus e clamar, “Lembra-te da palavra dada ao
teu servo, na qual me fizeste esperar” (Sl 119:49).
A primeira frase da oração de Jacó tem esta peculiaridade, a saber, tem
por base a humildade, pois ele não se dirige ao Senhor como seu próprio Deus,
mas como o Deus de Abraão e Isaque. A oração em si, apesar de ser urgente,
nunca é presunçosa. É tão humilde quanto deve ser séria! Tomo para mim que
mesmo quando Jacó, em seu desespero, agarrou o Anjo e disse, “Não te deixarei
ir, se não me abençoares”, não havia ali intimidade indevida em sua audácia
santa. Havia uma coragem extraordinária e uma determinação invencível – mas
era do tipo que Deus aprova – de outra forma Ele não teria o abençoado ali.
Nenhum homem ganha uma bênção através de um ato pecaminoso direcionado a
Deus!
Por toda essa oração vejo, com toda sua intensidade, uma lembrança
amorosa de quem Jacó é, e quem Jeová é – e o suplicante fala com termos
adequados para serem usados por um homem de coração humilde para com o
Deus três vezes Santo. Este é o assunto de nosso discurso – humildade é a
atitude adequada para a oração. Nós iremos começar com isso – “Não sou
digno da mínima de todas as Tuas misericórdias, e de toda a verdade que Tu
mostraste ao Teu servo”. Então avançaremos, em segundo lugar, para a
observação: a humildade é promovida pelas mesmas convicções que
encorajam a oração – isto lhe mostrarei pelo texto. E em terceiro, a humildade
sugere e fornece muitos argumentos que podem ser usados na oração. Um
homem orgulhoso tem poucas coisas a trazer diante de Deus – mas quanto mais
humilde um homem é, mais numerosos são seus dominantes apelos. Oração é
uma ocupação adequada para um pecador – e um pecador é a melhor pessoa para
exercer a oração.

I. Nossa primeira observação é que A HUMILDADE É A
ATITUDE ADEQUADA PARA A ORAÇÃO. Não penso que Jacó poderia ter
orado a não ser que tivesse rasgado as vestes da justiça própria às quais ele usou
na sua contenda com Labão – e ele permaneceu sem estas vestes diante da
infinita majestade do Altíssimo. Observe que aqui ele não fala diante de um
homem, mas diante de Deus, pois ele clama, “Não sou digno da mínima de
todas as Tuas misericórdias”. Ele tinha falado com Labão – Labão que havia
feito dele um escravo, que o usou da maneira mais mercenária – e que o havia
perseguido em fúria feroz porque ele tinha abandonado o serviço com suas
esposas e filhos para que ele pudesse voltar para seu país nativo. Para Labão ele
não diz, “Sou indigno do que possuo”, pois, até onde o grosseiro Labão sabia,
Jacó era digno de muito mais do que ele havia recebido em forma de salários.
Para Labão ele usa muitas verdadeiras frases de auto vindicação e
justificação. As posses de Labão cresceram bastante sobre o incessante cuidado
de Jacó. Ele cuidou dos rebanhos de Labão com constante diligência e, ele diz,
“De dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o meu sono fugiu dos meus
olhos” (Gn 31:40). Ele declarou que nunca tomou um carneiro do rebanho com o
qual devia alimentar sua própria família; que ele, de fato, havia trabalho sem
nenhum salário exceto as filhas (de Labão) que se tornaram suas mulheres. E ele
vai até o fim dizendo, “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de
Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio”. O mesmo
homem que fala daquela maneira com Labão, se vira e confessa ao seu Deus,
“Não sou digno da mínima de todas as Tuas misericórdias”. Isto é perfeitamente
consistente e verdadeiro. Humildade não é dizer coisas falsas contra você mesmo
– humildade é formar uma estimativa correta de si mesmo. Direcionado a Labão,
foi uma correta estimativa por um homem que trabalhou tão duro para ganhar
tão pouco, reivindicar que ele tinha um direito o qual Deus o havia dado. E ainda
assim, diante de Deus, era perfeitamente honesto e sincero de Jacó dizer, “Não
sou digno da mínima de todas as Tuas misericórdias, e de toda a verdade que Tu
mostraste ao Teu servo”.
Agora, sempre que você for orar, se você foi anteriormente compelido a
dizer algo muito duro sobre sua própria integridade ou seus negócios, ou se você
ouviu outros falando em seu louvor, esqueça tudo isto – pois você não pode orar
se isto tiver algum efeito sobre você. Um homem não pode orar com uma boa
opinião de si mesmo – tudo o que ele poderá fazer é resmungar, “Ó Deus, graças
te dou porque não sou como os demais homens” (Lc 18:11), e isso não é oração
de maneira nenhuma! Uma visão elevada sobre sua própria excelência irá lhe
tentar a olhar para baixo com desprezo para o seu próximo – e isto é a morte
para a oração. Deus expulsa de Seu templo todas as orações orgulhosas! Ele não
pode suportar tais provocações! Você deve tirar seus sapatos quando fica de pé
em solo santo – estes mesmos calçados que são bem leves para se usar quando
você tem que pisar sobre o leão e o dragão – estes mesmos sapatos que o servem
bem e são adequados para serem usados quando viajar através desse grande e
terrível deserto. Tire-os, quando diante de seu Deus, mesmo aqueles sapatos que
você é forçado a usar diante de vilões!
Quando nós vemos Jesus, dizemos Dele, “eu não sou digno de desatar a
correia da sua sandália”. “Senhor, eu não sou digno” é nosso clamor. Como
Abraão, nós reconhecemos que somos nada além de pó e cinzas – menor que o
menor dos santos – honrados somente por ser-nos permitido executar qualquer
função servil na casa de nosso Mestre! Perceba, então, que isto foi essencial para
Jacó se colocar na atitude certa depois de ter disputado com Labão. Foi
adequado que em levantando seus olhos para o Céu, ele deveria usar a mais
humilde linguagem e de maneira alguma demonstrar ter algum mérito na
presença do Deus três vezes Santo. Irmãos e irmãs, seria doentio para nós
usarmos alguma linguagem de mérito diante de Deus, pois nós não temos
mérito nenhum! E se nós tivéssemos algum mérito, não necessitaríamos orar!
Foi bem observado por um velho teólogo que o homem que reivindica
ao seu próprio mérito não ora, mas exige sua dívida. Se peço a um homem para
me pagar uma dívida, não sou suplicante, mas estou reivindicando
queixosamente os meus direitos. A oração de um homem que pensa que tem
mérito é como servir ao Senhor com um decreto – não é direcionar um pedido –
é a emissão de uma exigência. O mérito, com efeito, diz, “Paga-me o que Tu me
deve”. Pouco tal homem terá com Deus, pois se o Senhor somente nos paga o
que Ele nos deve, um lugar no além do tormento rapidamente será nosso
pagamento! Se, enquanto vivermos aqui, nós não recebemos nada além do que
merecemos, deveremos ser reprovados e exilados! O mais vil dos mendigos
obtém mais do que merece. Até mesmo a vida, em si mesma, é um presente do
Criador! “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos
seus pecados” (Lm 3:39). E mesmo que sejamos trazidos humilhados como
devemos, ainda assim devemos admitir que “As misericórdias do Senhor são a
causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim”
(Lm 3:22). Qualquer outra atitude que não seja a de humildade deve ser a mais
imprópria e presunçosa na Presença do Altíssimo.
Deixe-me adicionar, também, que em tempos de grandes pesos sobre o
coração, não há uma quantia de justiça própria ali se intrometendo. Jacó
estava muito apavorado e extremamente angustiado. E quando um homem é
trazido a tal estado, a linguagem mais humilde o satisfaz. Aqueles que estão
fartos de pão podem se gabar, mas os famintos imploram. Que os orgulhosos
tomem cuidado para que enquanto o pão ainda esteja em suas bocas, a ira de
Deus não venha até eles. Aquele que é trazido à pobreza; aquele que é afligido
no espírito; aquele que jaz às portas da morte não é um homem que mostra as
penas do pavão e esbanja seus enfeites! Ele busca para si a bondade amorosa do
Senhor e implora por misericórdia. Este é o seu clamor – “Misericórdia!
Misericórdia!”. Ele percebe que não consegue orar até que ele tenha chegado à
sua verdadeira postura que é a de um indigno. E, tendo chegado a isso, ele tem o
pé bem firmado, pois ele implora à absoluta soberania da Graça Divina e ao
amor sem limites do coração Divino como argumentos substanciais para
misericórdia!
Estou convencido que falhamos em nossas orações, em certas vezes,
porque não nos humilhamos o suficiente. Somente se você estiver sobre o seu
rosto é que prevalecerá ao Trono. Se você tem alguma justiça de si mesmo, você
nunca deverá ter a retidão de Cristo. Se você não tem nenhum pecado, você não
se lavará no sangue precioso! Se você é forte, você será deixado em sua própria
fraqueza. Se você é rico e grande em bens, você será mandado para fora de mãos
vazias. Mas quando você pode verdadeiramente confessar sua insignificância e
se prostrar diante de Deus, Ele terá que lhe ouvir. “Das profundezas a ti clamo, ó
SENHOR” (Sl 130:1). Nenhuma oração chega mais rápido às alturas do que
aquela que é feita nas profundezas! Quando você está nu, o Senhor irá te vestir.
Quando você está faminto, Ele te alimentará. Quando você é um nada, Ele será
o seu Tudo em Todos, pois é assim que Ele ganhará a glória para Si Mesmo e
Suas misericórdias não serão pervertidas para alimentar o seu orgulho. Quando
nossas misericórdias magnificam o Senhor, nós teremos muitas delas, mas
quando nós as usamos para magnificar a nós mesmos, elas irão se separar de nós.
Veja, então, caro amigo, o quão necessário é para que nós nos aproximemos do
Senhor em uma atitude de humildade.
Chamo sua atenção para a presente frase assim como é usada no texto –
Jacó não diz, como nós pensaríamos que ele fosse falar, “Eu não era da mínima
de todas as Tuas misericórdias, e de toda a verdade que Tu mostraste ao Teu
servo”, mas ele diz “Eu não sou digno”. Ele não apenas menciona à sua
insignificância quando cruzava o Jordão com um cajado na mão – um pobre e
solitário exilado – ele crê que era insignificante naquele tempo, e até mesmo
agora, olhando para seus rebanhos, manadas e sua grande família, e para tudo o
que ele sofreu e fez, ele clama “Eu não sou digno!” O que? Todas as
misericórdias de Deus não lhe fizeram digno, Jacó? Irmãos e irmãs, a Graça não
é nem o filho e nem o pai da dignidade humana! Se nós tomarmos toda Graça
que pudermos, nunca seremos dignos daquela Graça, pois a Graça, assim como
entra onde não existe dignidade, também não nos dá merecimento quando somos
julgados por Deus! Quando tivermos feito tudo, somos servos inúteis – nós
somente fizemos o que era nosso dever!
Não consigo suportar o homem que, em sua tola murmuração sobre sua
própria perfeição, fala como se ele tivesse se tornado merecedor da Graça. O
Senhor tenha misericórdia de tais ostentadores e os traga ao seu verdadeiro
ancoradouro, para que eles possam admitir que não são merecedores! Quando
você e eu chegarmos ao Céu, apesar de que Deus possa dizer, “Comigo andarão
de branco; porquanto são dignas disso” (Ap 3:4), ainda assim, nunca será
correto que nenhum de nós diga que somos dignos de qualquer coisa que Deus
nos conceder! Nossa canção deverá ser, Non nobis Domine[11] – “Não a nós,
SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e
da tua verdade” (Sl 115:1).
Tocar na glória que vem a nós através das operações da Graça Divina,
mesmo que com nosso dedo mindinho, significaria traição contra o Altíssimo!
Assumir, por um momento, que nós merecemos alguma coisa do Senhor Deus, é
uma glória tão vã, tão falsa, tão injusta que nós devemos abominar até mesmo o
pensamento sobre isso, e chorar como Jacó, “Eu não sou digno!”. Jó, que se
defendeu com todo vigor e possivelmente com amargura, não demorou para
ouvir Deus falando com ele no redemoinho e clamar, “Com o ouvir dos meus
ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso me abomino e me
arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5,6). Se prostrar diante do Trone é a atitude
adequada para a oração – na humildade está nossa força para suplicar.

II. Em segundo lugar, o mesmo pensamento será mantido, mas
colocado sob uma luz um pouco diferente, enquanto nós percebemos que
ESTAS CONSIDERAÇÕES QUE NOS LEVAM NA DIREÇÃO DA
HUMILDADE SÃO A FORÇA DA NOSSA ORAÇÃO. Observe,
primeiramente, que Jacó, nesta oração, mostrou sua humildade através da
confissão da obra do Senhor em toda sua prosperidade. Ele diz com um
coração cheio, “todas as Tuas misericórdias, e de toda a verdade que Tu
mostraste ao Teu servo”. Bem, mas Jacó, você tem rebanhos imensos de ovelhas
e você os adquiriu. E através do seu cuidado, eles cresceram muito – você não
considera que esses rebanhos são inteiramente do seu próprio trabalho?
Certamente você deve perceber que você foi altamente diligente, prudente e
cuidadoso e assim você se tornou rico, não é mesmo?
Não! Ele avalia seu grande estado e fala de tudo isto como
misericórdias – misericórdias as quais o Senhor mostrou ao Seu servo! Não
faço objeções a livros de homens que se fizeram[12], mas temo que todos estes
homens tenham uma tendência grande de adorar àqueles que os fizeram. É muito
natural que eles façam isto. Mas, irmãos e irmãs, se nós nos fizermos, tenho
certeza que temos um criador muito ruim e que devem existir muitas falhas em
nós! Seria melhor se nos colocássemos no pó e fossemos refeitos para que nos
tornemos homens feitos por Deus! Escute, ó orgulhoso independente mortal! E
que importa se você ganhou tudo – quem lhe deu a força para ganhar isto? Que
importa se seu sucesso veio de sua sagacidade – quem lhe deu a habilidade e a
capacidade de previsão? Que importa que você tenha sido sóbrio e trabalhador,
por qual razão você não é gastador como outros e por que você não gasta em
farras tudo aquilo que Deus lhe concedeu? Ó, senhor, se você é levantado um
centímetro acima da imundície, você deveria agradecer a Deus por isto, pois é da
imundície que você veio!
Deus ajuda Seus servos quando eles estão fracos. Mas quando eles se
imaginam fortes, Ele frequentemente os humilha. Quando nós clamamos, “Não é
esta a grande babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu
poder, e para glória da minha magnificência? (Dn 4:30), Deus pode até não nos
lançar para fora, mas Ele irá nos lançar para baixo. Ele não lançou fora
Nabucodonosor, mas Ele permitiu que ele perdesse sua razão e que se misturasse
com as feras do campo. Se nós agimos com brutalidade, o Senhor pode permitir
que nos tornemos como feras em outras situações. O uso de nossos poderes
racionais é um presente de caridade celestial que deveria nos guiar a uma
profunda gratidão – mas nunca nos induzir ao orgulho pelas nossas habilidades
superiores! Se nós estamos fora do hospício, devemos abençoar o Senhor da
forma mais humilde possível. Será que ousaremos nos gloriar de nossos
talentos? Será que o machado deve ser orgulhar contra aquele que o usa para
cortar? Será que a rede deve exaltar a si mesma contra o pescador que a arrasta
pelo mar? Isto seria, de fato, uma loucura – uma loucura que provoca a Deus!
Enquanto Deus faz tanto por nós, nós deveríamos ser humilhados pelo peso da
obrigação que esse amor nos acumula.
Isto deve, também, produzir em nós um apego a Deus em oração, pois
agora podemos dizer, “Senhor, Tu fizestes tudo isto para mim! É claro que Sua
mão tem estado em todas as felicidades de Teu servo – que ela continue comigo
então”. Ó, homem que se fez, quando você se realiza, será que você pode se
manter e se preservar no que quer? E você espera chegar ao Céu e tirar sua capa
e dizer, “Hosana para mim mesmo”? Você se baseia em tamanha vangloria? Se
você busca sua própria glória, você não terá lugar naquela cidade em que a
Glória de Deus é a felicidade que a tudo permeia. Então, aquilo que nos tenciona
a ser humildes, também se torna uma assistência para nossas orações.
O próximo ponto é uma consideração das misericórdias de Deus. Em
meu caso, nada me faz mais humilde do que a misericórdia de Deus. E, em
sequência a isto, sou prontamente subjugado pela bondade de alguns homens.
Quando a trombeta chama para batalha, estarei passo a passo contra aquele que
duela comigo – e tudo o que há de homem em mim está desperto para o conflito
– mas quando tudo é paz e quietude, e todos desejam o meu bem, me maravilho
com sua bondade, e afundo em meus sapatos com temor para que não aja de
nenhuma forma indigna. O homem que possui a devida percepção de sua
personalidade será humilhado por palavras de elogio. Quando nos lembramos do
carinhoso amor do Senhor para nós, não podemos fazer nada a não ser contrastar
nossa pequenez com a grandiosidade de Seu amor, e ter uma sensação de auto
humilhação. Está escrito, “Espantar-se-ão e perturbar-se-ão por causa de todo o
bem, e por causa de toda a paz que eu lhe dou.” (Jr 33:9). Estas palavras não
poderiam ser mais verdadeiras.
Tome um caso – Pedro foi pescar e se ele houvesse capturado alguns
peixes, seu barco teria flutuado bem alto no lago. Mas quando o Mestre entrou
no barco e disse-o para jogar a rede para que ele a puxasse com uma multidão de
peixes, então o pequeno barco começou a afundar! Para baixo e para baixo este
foi e o pobre Pedro desceu também até que caiu aos pés de Deus e chorou,
“Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador” (Lc 5:8). Ele estava
confuso e rendido, ou ele nunca teria pedido para que o bendito Mestre o
deixasse – a bondade de Cristo o espancou com delicadeza até que ele temesse
o seu Benfeitor! Você não sabe o que é ser levado abaixo pela bondade infinita,
oprimido pela misericórdia, varrido por uma avalanche de amor? Eu, pelo
menos, conheço tal coisa e não conheço nenhuma outra experiência que já me
tenha feito tão pequeno aos meus próprios olhos! Sinto-me indigno da menor de
Suas misericórdias! Encolho-me e tremo na presença de Sua ajuda! Se alguma
vez a bondade providencial fizer isto, tenha certeza que o amor redentor será
muito mais efetivo!
Aqui está um pecador orgulhoso, se gabando de sua própria justiça. Você
não pode tirar dele o seu louvor ao próprio ego, mas, pouco a pouco, ele aprende
que o Filho de Deus deu Sua vida para redimi-lo, derramou Seu coração na Cruz
do Calvário, o Justo pelo injusto, para trazê-lo a Deus – e agora ele tem outro
pensamento! Nenhum homem poderia pensar que ele merecia que o Filho de
Deus deveria morrer por ele! Se um homem pensa assim, deve estar insano! O
amor que morre toca o coração e o homem clama, “Senhor, não sou digno de
uma gota de Seu precioso sangue! Não sou digno de um suspiro de Seu sagrado
coração! Não sou digno que Tu tenhas vivido na Terra por mim, muito menos
que Tu tenhas morrido por mim”. Um sentimento dessa maravilhosa bondade a
qual é o maior louvor do amor de Deus, isto é, que no devido tempo Cristo
morreu pelos ímpios, traz o homem aos seus joelhos, derrotado pelas
misericórdias de Deus!
Agora, se houver algum homem aqui que tem uma boa esperança através
da Graça de que, pouco a pouco, ele estará no Céu com Deus – se ele meditar
nesta visão alegre, se ele se imaginar com uma coroa sobre sua cabeça e o ramo
de palmeira em sua mão, se ele se imaginar desfrutando de infinitas Aleluias –
“Longe do mundo de tristeza e pecado,
Com Deus eternamente selado”
A próxima coisa que ele deverá fazer é se sentar e chorar para que isto se
torne realidade! Tal pobre, inútil e pecadora alma como a minha – será que posso
ser glorificado, e será que Jesus preparará um lugar para mim? Será que Ele me
dá Sua própria certeza que Ele voltará e me receberá Nele? Sou eu um coerdeiro
com Cristo e um favorecido filho de Deus? Isto faz com que nos perdamos em
adoração de gratidão. Ó, senhores, nós nunca poderemos mais abrir nossa boca
com ostentação! Nosso orgulho é afogado neste mar de misericórdia!
Se nós tivéssemos um pequeno Salvador, e um pequeno Céu, uma
pequena misericórdia, poderíamos levantar nossas bandeiras. Mas com um
grande Salvador, e uma grande misericórdia, e um grande Céu, nós podemos
somente entrar, como Davi, e sentar diante do Senhor e falar, “Por que tudo isto
para mim?”. Tenho um querido irmão em Cristo que agora está extremamente
doente, o Reverendo Curme, o vicário de Sandford em Oxfordshire, que tem
sido um caro amigo por muitos anos. Ele reflete humildade e divide seu nome
em duas palavras Cur me? Que significa “Por que eu?”. Geralmente ele diz, “Por
que eu, Senhor? Por que eu?” Verdadeiramente posso falar o mesmo, por que
eu? –
“Por que fui eu feito para ouvir Tua voz
E entrar onde há lugar para mim
Enquanto milhares fazem uma escolha miserável
E preferem morrer de fome do que vir?”
Toda esta excedente bondade do Senhor tende a promover humildade e,
ao mesmo tempo, nos ajudar em oração, pois se o Senhor é tão enormemente
bom, nós devemos adotar a linguagem da mulher fenícia quando o Mestre lhe
disse, “Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos”. E ela
respondeu, “Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que
caem da mesa dos seus senhores” (Mt 15:27).
Então nós iremos pedir ao nosso Senhor que nos dê migalhas de
misericórdia – e elas serão suficiente para nós, pobres cachorrinhos. As migalhas
de Deus são maiores que os pães dos homens e se Ele nos der o que para Ele é
uma migalha, isto nos será uma refeição. Ó, Ele é um Grande Doador! Ele é um
Glorioso Doador! Nós não somos dignos dos menores de Seus presentes! Não
podemos estimar Sua menor misericórdia, nem descrevê-la completamente, nem
O louvar por ela suficientemente! Seu raso é muito profundo para nós! Seu
montinho de terra de misericórdias irão se elevar muito acima de nós! O que
diremos da Sua montanha de misericórdia?
Ademais, uma comparação do nosso passado com nosso presente irá
nós levar a humildade e, também, será uma ajuda em oração. Jacó,
primeiramente, se descreve assim, “com meu cajado passei este Jordão”. Ele está
completamente sozinho, nenhum servo o auxilia. Ele não tem nenhum bem, nem
mesmo um pouco de alguma parcela – nada além de um cajado para andar.
Agora, depois de alguns anos, aqui está Jacó voltando, atravessando o rio na
direção oposta. E ele tem consigo dois bandos. Ele é um grande criador de gado,
com grande riqueza em todo tipo de rebanho. Que mudança! Digo sempre para
aqueles homens que Deus fez prosperar que eles nunca devem se envergonhar do
que eles eram – eles nunca deveriam se esquecer do cajado com o qual eles
atravessaram este Jordão! Tenho um bom amigo que preservou o eixo de
madeira do carrinho no qual ele trouxe seus bens quando veio, pela primeira vez,
para Londres. Este era colocado em cima de sua porta da frente e ele nunca se
envergonhava de dizer sobre como ele veio do interior, trabalhou duro e fez seu
caminho pelo mundo.
Gosto muito mais disso do que da nobreza rebuscada que se esquece da
solitária moedinha que trazia nos bolsos quando entraram nesta cidade. Eles
ficam indignados se você os lembrar do seu velho e pobre pai que está no
interior, pois eles descobriram que sua família é muito mais antiga e honrada!
De fato, um de seus ancestrais veio junto com Conquistador! Nunca senti
nenhum desejo de ser aparentado com aquele grupo de vadios, mas os gostos
mudam, e existem alguns que pensam que eles devem ser seres superiores, pois
são descendentes dos piratas das ilhas Norman. Ninguém se enche de si tão
rapidamente como eles! Observe que Jacó não diz, “Anos atrás eu estava em
casa com meu pai, Isaque, um homem de grande patrimônio”. Nem mesmo ele
fala de seu avô, Abraão, como um nobre de uma antiga família em Ur dos
Caldeus, aquele que foi recebido por monarcas.
Não, ele não é tão estúpido para se vangloriar de aristocracia ou de
riqueza, mas ele francamente admite sua pobreza inicial – “Com meu cajado, um
pobre, solitário e sem amigos, eu atravessei este Jordão, e agora eu me tornei
dois bandos”. O humilha pensar no que ele era, mas, ao mesmo tempo, isto o
fortalece em oração, pois, com efeito, ele suplica, “Senhor, Tu fizeste dois
bandos de mim para que Esaú tenha mais o que destruir? O Senhor me deu essas
crianças para que elas pereçam pela espada?”. Então, novamente eu digo –
aquilo que o humilhou também o encorajou – ele encontrou força para a oração
naquelas mesmas coisas que forneciam-lhe motivo para ser humilhado!

III. E agora, já que o tempo voa, devemos acolher o terceiro ponto,
ainda batendo no mesmo prego – A VERDADEIRA HUMILDADE NOS DÁ
ARGUMENTOS NA ORAÇÃO. Olhe para o primeiro argumento, “Não sou
digno de todas as Tuas misericórdias”. Não, “Não sou digno da mínima de todas
as misericórdias que Tu mostraste ao Teu servo. Tu guardaste Tua Palavra e foste
verdadeiro para comigo, mas isto não foi porque eu fui verdadeiro para Contigo.
Não sou digno da verdade que Tu mostraste ao Teu servo”. Não existe poder em
tal oração? Não é a misericórdia garantida por uma confissão de indignidade? O
homem mais elogiado por Cristo, até onde me lembro, usou essa mesma
linguagem. O centurião veio à Cristo e disse, “Senhor, não sou digno de que
entres debaixo do meu telhado” – ainda assim, este foi o homem sobre quem o
Senhor disse, “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta
fé” (Mt 8:10).
Dependa disto se você quer o elogio de Cristo, você deve ser humilde
em sua própria estima, pois Ele nunca elogia o orgulhoso! Mas Ele, sim, honra o
humilde. Já que o Senhor fora tão gracioso com ele, quando este era indigno,
Jacó não teria assim um esplêndido argumento para se basear enquanto ele
lutava com Deus e dizia, “Livra-me de Esaú, meu irmão, apesar de que o mal
que o tenha feito me faz indigno de tal livramento”? Sempre temos medo de que,
em nosso tempo de tribulação, Deus nos trate de acordo com nossa indignidade –
mas Ele não fará isto. Dizemos a nós mesmos, “Enfim, os pecados de minha
mocidade me alcançaram. Agora eu serei tratado de acordo com minhas
iniquidades!”.
Mas Jacó praticamente disse, “Senhor, nunca fui digno da menor das
coisas que Tu fizeste por mim. E todos os Seus tratamentos comigo são em pura
Graça. Permaneço aqui onde sempre permaneci – como um devedor de Teu
imerecido e soberano favor! E apelo a Ti – já que fizestes isto tudo por mim, um
indigno, eu imploro a Ti, faça ainda mais! Eu não mudei, pois sou tão indigno
como sempre fui, e Tu não mudaste, pois Tu és bom como sempre foi. Desta
maneira, continue por salvar Teu servo”. Isto é apelar poderosamente com o
Altíssimo!
Então, por favor, note que enquanto Jacó assim apelava por sua própria
indignidade, ele não é lento em apelar para a bondade de Deus. Ele fala com as
mais expressivas palavras, com as mais amplas e cheias de significado. “Não sou
digno da mínima de todas as Tuas misericórdias. Não posso enumerá-las, a lista
seria longa demais! Parece-me que Tu me deste todos os tipos de misericórdias,
todo tipo de bênçãos. Sua misericórdia dura para sempre e Tu me deste todas
elas”. Como ele engrandece a Deus de boca cheia quando diz, “Todas as Tuas
misericórdias”. Ele não diz, “toda a Tua misericórdia” – a palavra está no plural
– “da mínima de todas as Tuas misericórdias”. Deus tem muitos conjuntos de
misericórdias – os favores nunca vêm sozinhos – eles nos visitam em tropas!
Todas as árvores na videira de Deus são cheias de ramos e cada ramo é
carregado de fruto! Todas as flores no jardim de Deus florescem duplamente – e
algumas delas florescem até sete vezes mais!
Nós não temos somente misericórdia, mas misericórdias tão numerosas
como a areia! Misericórdia para o passado, presente e futuro! Misericórdia para
acalmar aflições, misericórdia para purificar alegrias! Misericórdia por nossos
pecados, misericórdia por nossas coisas sagradas. “Todas as Tuas misericórdias”
– a expressão tem um vasto campo de significado! Ele não sabe como expressar
seu senso de compromisso exceto com plurais e universais! A linguagem é tão
cheia, que eu não consigo exibir todo o seu significado! Ele parece dizer ao
Senhor, “Por causa de toda essa grandiosa bondade, eu oro a Ti que vá e
permaneça com Teu servo. Salva-me de Esaú, ou todas as Tuas misericórdias
serão perdidas! Não foi o Senhor que, em Seu amor passado, me deu a garantia
de que continuaria comigo até o fim?”. Misericórdia e verdade estão
continuamente entrelaçadas por toda a Bíblia – “Todas as veredas do Senhor são
misericórdia e verdade” (Sl 25:10). “Deus enviará a sua misericórdia e a sua
verdade.” (Sl 57:3). Essas duas graciosidades dão as mãos na oração de Jacó –
“Todas as Tuas misericórdias e toda Tua verdade!”. Ó, irmãos e irmãs, se você
gostaria de lutar com Deus e prevalecer, use o máximo que puder desses dois
argumentos mestres – misericórdias e verdade! Estas são duas chaves que
abriram todos os tesouros de Deus! Estes são dois escudos atrás dos quais você
se protegerá do alcance de todo dardo de chamas! Aquilo que fez Jacó se
humilhar também o fez poderoso em oração. A gratidão pelas misericórdias o fez
se prostrar diante de Deus, mas isso também o permitiu se agarrar ao Anjo com a
mão da persistência da fé!
Note, em seguida, como ele fala “Teu servo”. Um apelo está oculto
nesta palavra. Jacó poderia ter se chamado por outro nome nesta ocasião. Ele
poderia ter dito, “Não sou digno da mínima de todas as Tuas misericórdias, e de
toda a verdade que Tu mostraste ao Teu filho”. Isto seria verdade. Mas não seria
adequado. Suponha que tenha ocorrido assim – “Ao Teu escolhido”? Isto teria
sido verdade, mas não seria tão humilde. Ou, “ao homem do Teu pacto” – isto
teria sido correto, mas não uma expressão tão humilde como a qual Jacó se
sentiu obrigado em usar no tempo de sua angústia, quando os pecados de sua
juventude foram trazidos à sua mente. Ele parecia dizer, “Senhor, sou Teu servo.
O Senhor me trouxe até aqui e aqui estou por causa desse chamado – portanto,
me proteja”. Certamente um rei não irá se recusar ao ver seu servo engajado em
um serviço real!
Jacó estava no caminho do dever e Deus iria fazer deste, um caminho de
segurança. Se fizermos de Deus nosso Guia, Ele irá nos guardar. Se Ele é nosso
Comandante, Ele será nosso Defensor. Ele não permitirá que nenhum Esaú
esmague à espada nenhum de Seus Jacós! Quando nos atiramos completamente
ao Senhor através de uma obediência de fé, nós podemos depender de que Ele
irá nos levantar e nos carregar por todo o caminho! Mestres são mandados a dar
aos seus servos o que é justo e correto – e nós podemos ter certeza de que nosso
Mestre Celestial fará o mesmo para cada um de nós que O serve. Jacó estava em
perigo ao obedecer a seu serviço e, portanto, a honra do Senhor haveria de
garantir que ele seria salvo. Pode parecer algo pequeno ser um servo, mas é algo
grandioso clamar por isso em nossa hora de necessidade! Assim Davi o fez –
“Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo” (Sl 31:16). “E não escondas o
teu rosto do teu servo, porque estou angustiado” (Sl 69:17). “Ó Deus meu, salva
o teu servo, que em ti confia” (Sl 86:2). Estes são nada mais do que exemplos de
maneiras nas quais homens de Deus usam sua posição como servos para um
argumento para atingir a misericórdia.
Jacó tinha ainda outro apelo que mostrou sua humildade e que foi um
argumento feito de fatos. “Com meu cajado”, ele disse, “passei este Jordão”.
“Este Jordão” que corria forte e que recebia o Jaboque. Isso trazia milhares de
coisas à sua mente, estar naquele velho lugar mais uma vez. Quando ele o
atravessara anteriormente, ele estava caminhando para o exílio. Mas agora ele
está voltando como um filho para tomar seu lugar com a amada Rebeca e seu
(falecido) pai Isaque – e ele sentia que isto era uma grande misericórdia, o fato
de que ele estava agora indo a uma direção mais feliz que a anterior. Ele olhou
para o seu cajado e lembrou como, em medo e tremor, se apoiou nele enquanto
percorria sua apressada e solitária marcha. “Com este cajado – isto era tudo o
que eu tinha”. Ele olha isto e compara sua presente condição e seus dois bandos
com aquele dia de pobreza, aquela hora de fuga apressada!
Essa retrospectiva o humilhou, mas também o fortaleceu em oração. “Ó,
Deus, se Tu me ajudaste desde minha miserável pobreza até toda esta riqueza, Tu
podes, certamente, me preservar deste presente perigo. Aquele que tem feito
tanto, ainda é capaz de me abençoar e assim Ele o fará” –
“Pode Ele, que me ensinou a confiar em Seu Nome
E tão longe assim me trazer, me entregar à vergonha?”.
Será que Deus zomba de todos os homens? Será que Ele encoraja a fé
deles e depois os abandona? Não, o Deus que começa a abençoar, nos preserva
em bênção e, até om fim, continua a amar os Seus escolhidos!
Concluindo, penso que descobri um poderoso argumento aqui na oração
de Jacó. Será que ele não quis dizer que apesar de Deus ter o enriquecido tão
grandemente, veio com isto toda uma grande responsabilidade? Ele tinha mais
do que cuidar do que quando possuía pouco. O dever aumentou com o aumento
das posses. Ele parece dizer, “Senhor, quando eu vim por este caminho, antes, eu
não tinha nada – somente um cajado – isto era tudo o que eu deveria cuidar. E se
eu perdesse aquele cajado, poderia ter encontrado outro. Então eu tive a Sua
querida e doce proteção, que foi melhor para mim do que as riquezas. Não a
terei agora mesmo? Quando eu era só um homem com um cajado, Tu me
guardaste. E agora que estou rodeado por essa numerosa família de filhos e
servos, não estenderás Tu as Tuas asas sobre mim? Senhor, as dádivas de Sua
bondade aumentaram minha necessidade – dê-me proporcionalmente Sua
bênção! Eu poderia, anteriormente, correr e escapar de meu furioso irmão – mas
agora as mães e as crianças estão ligadas a mim e devo permanecer com eles e
morrer com eles a não ser que Tu me preserves”.
Meus irmãos e irmãs, neste momento sei como usar o mesmo apelo!
Para mim, toda posição de avanço dentre os homens significa mais obrigação
para servir meu Senhor e abençoar minha geração! Necessito de mais Graça
Divina ou minha queda será a mais vergonhosa possível! Indignos como somos
para toda esta benção, ainda assim nós não ousamos desperdiça-la e recusar a
servir nosso Deus com todas as nossas forças. Quanto mais bois – mais arados
devem ser feitos! Quanto mais largos os campos – mais laboriosamente devemos
semear. Quanto maior a colheita – mais diligentemente devemos ceifar! E para
tudo isto precisamos de muito mais força. Se Deus abençoa e nos aumenta o
talento, ou a substância, ou qualquer outra coisa, não deveríamos nós concluir
que maior confiança envolve maior responsabilidade? Assim quanto mais dura
nossa tarefa de vida se torna, quanto mais dificuldade houver, mais do que nunca
somos direcionados ao nosso Deus!
Este é nosso argumento – “Ó, Senhor, Tu me impuseste um maior
serviço! Dê-me mais Graça! Em Tua bondade, Tu conferiste mais talentos para
aquele que tinha dez talentos – será que Tu não irás me ajudar a colocar tudo em
ordem por amor ao Teu Nome?” Sim, irmãos, à medida que Deus lhes levanta,
tomem cuidado para sempre se prostrar mais e mais baixo aos Seus pés.
Consagre mais inteiramente o teu completo ser a Deus! Seja agradecido se sua
moeda ganhou outra moeda e, se Ele fizer mais por você, seja incansável até que
suas cinco libras ganhem mais cinco. Permaneça na bondade de Deus, em vez de
fazer uma capa para seu orgulho, ou um mestre para sua preguiça, seja um
incentivo para seu empreendimento, um estímulo para seu zelo! Que isto o ajude
em sua humildade, mas, ao mesmo tempo, que isto encoraje sua confiança
quando você se aproximar de Deus em oração, que o faça sentir o quão
largamente você é obrigado a servir ao Senhor.
Venham, caros amigos, o Senhor cuida de nós como Igreja e Ele irá nos
abençoar! Nós obtivemos, através de nosso Senhor Jesus e Seu Espírito, bênçãos
tão grandes que posso falar em seu nome que você não é digno da menor de
todas essas misericórdias! Será que não as usaremos para a Glória de Deus? Sim,
mais do que nunca – pois estamos determinados a orar mais, crer mais e
trabalhar mais – e sermos mais cheios de coragem e intrepidez para que o nome
e a verdade de Jesus sejam conhecidos onde quer que nossa voz seja ouvida!
Enquanto línguas puderem falar e corações bater, Deus estará nos ajudando, e
nós viveremos por Jesus, nosso Senhor! Nós somos o que Rutherford chamaria
de “devedores afogados” – que vivamos como amantes vivos! Nossos navios
têm afundado em um oceano de amor até que a misericórdia passe sobre nossos
mais altos mastros. Que assim seja! Que assim seja! Nós somos engolidos em
um abismo de amor! Minha ilustração nos descreve como afundando, mas, na
mais plena verdade, estamos sendo levantados com todas as plenitudes de Deus!
Com um coração cheio eu oro por você, amado. Deus te abençoe, no nome de
Jesus. Amém.
IMPEDIMENTOS À ORAÇÃO
Sermão de Número 3083
Pregado em Setembro de 1874

“Para que não sejam impedidas as vossas orações.”
1 Pedro 3:7

Para muitas pessoas este discurso terá somente um pouco de
importância, pois estas pessoas não oram. Temo, também, que existam outros
cujas orações são tão inúteis que, se elas fossem impedidas, não haveria muita
diferença material; ainda é possível que se essas pessoas forem impedidas de
orar, este fato pode acordá-las de uma letargia gerada de sua justiça própria.
Meramente dobrar os joelhos em formalidade, realizar uma forma de devoção de
uma maneira descuidada ou não colocar o coração inteiro naquilo é zombar de
Deus em vez de louvá-Lo! Seria um tema terrível para se contemplar a
quantidade de vãs repetições e orações sem coração que enfadam o Senhor
diariamente. Gostaria de solenemente lembrar, contudo, que aqueles que não
oram verdadeiramente têm a Ira de Deus permanecendo neles! Aquele que nunca
busca a Misericórdia de Deus, com certeza nunca a achou; a consciência
considera que é algo justo que Deus não deva dar para aqueles que não pedem. A
mínima coisa que deveria ser esperada de nós é que deveríamos humildemente
pedir pelos favores que necessitamos, e se nós nos recusamos a fazer isto, é nada
mais que justo que a porta da Divina Graça deva permanecer fechada até que os
homens se recusem a bater nela. Orar não é uma exigência dura – e o dever
natural da criatura para com o seu Criador – a mais simples obediência que a
necessidade humana deve pagar para a Generosidade Divina. Aqueles que se
recusam a rendê-la podem muito bem esperar que em um dia desses, quando
uma terrível e extrema necessidade surgir, e quando eles começarem a lamentar
por sua tolice, que eles escutem a voz do seu insultado Deus, dizendo:
“Entretanto, porque eu clamei e recusastes; e estendi a minha mão e não houve
quem desse atenção, Antes rejeitastes todo o meu conselho, e não quisestes a
minha repreensão, Também de minha parte eu me rirei na vossa perdição e
zombarei, em vindo o vosso temor”. (Pv 1:24-26).
Uma antiga estória fala sobre uma monarca que deu um anel ao seu
cortesão favorito, o qual ele deveria devolver caso o mesmo estivesse debaixo do
desprazer da monarca, onde esta prometeu que ao olhar aquele anel, o cortesão
seria restaurado ao favor dela. Mais tarde, quando o cortesão foi envolvido em
traição, a rainha ansiosamente esperou por aquele anel, mas o anel nunca foi
mostrado, e apesar de muito esperar, não foi surpresa concluir que o ofensor era
teimosamente rebelde, e, assim, uma ordem de execução foi emitida. Se um
pecador não clamar pelo nome de Jesus, para qual a Promessa de perdão é
dirigida; se ele não dobrar seu joelho em oração penitencial, e pedir o perdão da
mão de Deus, ninguém se espante ao saber que este irá perecer em sua tolice!
Nenhum de nós será capaz de acusar o Senhor de grande severidade quando Ele
expulsar eternamente as almas que não oram! Ó, você que nunca ora, eu tremo
por você! Deus quisera que você também tremesse por si mesmo, pois existe
razão suficiente para isto! Para aqueles que oram, a oração é a coisa mais
preciosa, pois é por esta forma que bênçãos incalculáveis vêm para eles, a janela
pela qual suas grandes necessidades são supridas pelo Deus gracioso.
Para os crentes, a oração é o maior meio de enriquecimento da alma; é a
embarcação que faz comércio com o Céu, e volta para casa vinda do País
Celestial cheia de tesouros muito maus valiosos do que qualquer galeão espanhol
já trouxe da terra do ouro! De fato, para os verdadeiros crentes, a oração é tão
incalculável, que o perigo de tê-la impedida é usado por Pedro como um motivo
pelo qual os crentes deveriam se comportar com muita sabedoria no ambiente do
casamento e da casa! Ele ordena que os maridos coabitem com suas esposas
“com entendimento”, e que rendam honras amorosas a elas, para que todas suas
orações não sejam impedidas! Tudo aquilo que impede a oração tem de ser
errado; se alguma administração da família, ou falta de administração, está
injuriando nosso poder em oração, existe uma demanda urgente para mudança;
marido e mulher devem orar juntos, como coerdeiros da Graça Divina, e
qualquer temperamento ou hábito que impede isso é perverso. O texto poderia
ser usado com mais propriedade para estimular os cristãos a serem diligentes a
orar em família, e apesar de que eu não o vá usar nesta ocasião, não é porque eu
desmereço esta instituição, pois a estimo tão grandemente que nenhuma palavra
minha pode adequadamente expressar meu senso desse valor. A casa na qual não
tem um altar familiar mal pode esperar por uma bênção divina; se o Senhor não
cobre nossa habitação com Suas Asas, nossa família é como uma casa sem teto!
Se não buscamos a orientação do Senhor, nossa casa é como um navio sem
capitão, e a não ser que esta seja guardada pela devoção, nossa família estará
num campo sem nenhuma cerca. O triste comportamento de muitas crianças de
pais professos é devido à negligência ou à frieza da adoração familiar; e, não
duvido que, muitos juízos têm caído sobre lares, pois o Senhor não é
devidamente honrado ali.
O pecado de Eli ainda traz consigo as visitações de um Deus Ciumento.
Aquela palavra de Jeremias carrega severidade para famílias que não oram,
“Derrama a tua indignação sobre as nações que não te conhecem, e sobre as
famílias que não invocam o teu nome” (Jr 10:25). Sua Misericórdia visita cada
família onde os votos noturnos e matutinos são prestados, mas onde estes são
negligenciados, as famílias ficam expostas aos pecados. No bom tempo dos
Puritanos, dizem que se andasse pela Rua Cheapside[13], você ouviria em cada
uma das casas a voz de um Salmo em uma determinada hora da manhã e da
noite, pois não havia casa onde haviam cristãos professos onde não houvesse
oração em família! Acredito que o baluarte do Protestantismo contra o Papado é
a adoração em família; tire isto, e a instrução das crianças no temor do Senhor, e
você deixa este país aberto, novamente, à teoria de que orações são mais bem
aceitas dentro de uma igreja católica. E então você entra na questão da
sacralidade de lugares! Assim, tirando o sacerdócio do pai da família – que
deveria ser um sacerdote em sua própria casa, você cria uma abertura para um
sacerdócio supersticioso, e deixando o ensino com esses fingidores, inúmeros
estragos são introduzidos! Se a negligência da oração familiar se tornasse
comum em todas nossas igrejas, seria um dia obscuro para a Inglaterra! Crianças
que observam que seus pais praticamente não oram em casa irão crescer
indiferentes à religião – e em muitos casos se tornarão mundanos, se não ateus!
Este é um assunto sobre o qual a igreja não pode fazer perguntas acusatórias –
isto deve ser deixado para o bom senso e para o espírito cristão dos cabeças das
famílias! Eu, portanto, falo o mais enfaticamente possível, e oro para que você
coloque ordem em sua casa para que suas orações familiares não sejam
impedidas.
Neste tempo, contudo, devo usar o texto para outro propósito, e o aplico
para os impedimentos que assaltam as orações privadas. Nossas orações podem
ser impedidas desta forma – primeiramente, podemos ser impedidos de orar;
segundo, podemos ser impedidos na oração; e, terceiro, nós podemos ser
impedidos de que nossas orações sejam efetivas com Deus.

I. Primeiramente, existe tal coisa como ser IMPEDIDO DE
ORAR – e isto pode ser feito por cair em geral frouxidão e condição
indiferente em referências às coisas de Deus. Quando um homem se torna frio,
indiferente e descuidado, uma das primeiras coisas que irão sofrer é a sua
devoção. Quando um homem doente está em declínio, seus pulmões sofrem, e
assim sua voz; e quando o cristão está em um declínio espiritual, o fôlego da
oração é afetado, e o clamor da súplica se torna fraco. A oração é o verdadeiro
indicador de poder espiritual! Segurar orações é perigoso, e de uma tendência
mortal; você deve depender disto, tome isto como a coisa mais importante, que
quando você está de joelhos é quando você está diante do seu Deus! O que o
Fariseu era e o que o Publicano era em oração foi o verdadeiro critério de seu
estado espiritual. Você pode manter uma reputação decente diante dos homens,
mas é inútil ser julgado pelo julgamento dos homens; homens veem somente a
superfície; enquanto os olhos do Senhor esquadrinham os recantos mais
profundos da alma! Se Ele vê que você não ora, Ele faz pouco caso de sua
frequência nas reuniões religiosas, de sua confissão em voz alta da sua
conversão; mas se você é um homem diligente na oração, e se, especialmente, o
espírito de oração está em você, e em adição à isto, em algumas épocas de
súplica o seu coração fala habitualmente com Deus, as coisas estão corretas com
você! Mas este não é o caso quando nossas orações estão “impedidas”, existe
algo em seu organismo espiritual que necessita ser expulso, ou alguma coisa está
fazendo falta e que isto necessita ser resolvido de uma vez por todas! “Sobre
tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as
fontes da vida.” (Pv 4:23), e as orações verdadeiras são uma dessas fontes de
vida.
Orações podem ser impedidas, em seguida, por ter muitas coisas para
fazer. Nesta era, isto é algo muito corriqueiro. Nós, homens, temos muitos
negócios a fazer; os dias quietos dos nossos contentados antepassados passaram,
e os homens atribuem a si mesmos muita labuta. Não contentados a ganhar o
suficiente para si e para suas famílias, eles devem ter muito mais do que podem
possivelmente usar consigo mesmos, ou que podem usar proveitosamente para
com os outros; a sabedoria aparenta dizer que um cajado é o suficiente para um
homem andar, mas ambição não pode ser satisfeita a não ser que carregue um
lote de cajados nas costas! “O suficiente é tão bom quanto um banquete”[14], diz
o antigo provérbio, mas hoje me dia nem o suficiente e nem um banquete
satisfará os homens! Eles devem acumular mais do que pode alimentar milhares
de famílias antes que estejam satisfeitos – não, eles nem mesmo estão
contentados desta forma! Muitos homens que poderiam prestar um ótimo serviço
à Igreja de Deus se tornam inúteis, pois eles quiseram caminhar por uma nova
direção nos negócios que tomou todo o seu tempo livre. Em vez de pensar que
seu primeiro cuidado deveria ser, “Como posso melhor glorificar Deus?”, seu
objetivo que a tudo consome é “estender os braços como mares e agarrar tudo o
que há nos litorais”. Milhares, centenas de milhares e até mesmo milhões de
libras não podem silenciar a ambiciosa sanguessuga que os homens engoliram, a
qual continuamente clama “Dá-me! Dá-me!”. Muitos adicionam casas à casas,
terrenos à terrenos, como se fosse para que eles morassem sozinhos na terra! Ai
daqueles cristãos que são infectados por esta mesma febre! O homem rico na
parábola não tinha nenhum tempo para oração, pois ele estava muito ocupado
planejando os novos celeiros para abrigar seus bens – mas ele teve que arranjar
tempo para morrer quando o Senhor disse, “Louco! esta noite te pedirão a tua
alma” (Lc 12:20). Tome cuidado, eu te imploro, com “as ambições de outras
coisas” (Mc 4:19), com a úlcera das riquezas, com a insaciável ganância que
leva os homens ao mesmo engano do diabo, pois se isto não lhe traz maldade
maior, irá te trazer prejuízos suficientes, e suas orações serão impedidas.
Nós ainda podemos ter muitas coisas para fazer na Casa de Deus, e
então ter nossas orações impedidas como Marta, amontoada com tanto serviço.
Nunca ouvi ninguém que esteve tão atarefado com oração! Quanto mais nós
trabalhamos, mais deveríamos orar, e a oração deveria equilibrar nosso serviço,
ou melhor, esta devia ser o sangue de toda nossa ação, e saturar nossa vida
completamente, assim como o orvalho dos Céus encharcou a lã de Gideão. Nós
não podemos trabalhar tanto se a oração for proporcional ao trabalho, mas temo
que alguns de nós fariam muito mais se tentassem menos e orassem mais. Temo
ainda que alguns permitem compromissos religiosos públicos se sobreporem à
comunhão privada com Deus – eles participam de muitos sermões, muitas
conferências, muitos estudos bíblicos, muitos ajuntamentos; e sim, a muitas
reuniões de oração! Todas essas coisas são boas em si, mas todas elas se tornam
nocivas quando limitam nossas orações secretas e privadas. A senhora Row disse
que se os Apóstolos estivessem pregando no momento de sua comunhão privada
com Deus, ela não iria deixar seu quarto para ir e os escutar! É melhor estar com
Deus do que com Pedro ou Paulo! A oração é o objetivo da pregação, e ai
daquele homem que, valorizando mais os meios do que o fim, permite que
qualquer outra forma de culto empurre suas orações para o canto!
Não pode haver dúvida de que, também, as orações são impedidas por
haver muito pouco a se fazer. Se você quer uma coisa bem feita, você deve ir ao
homem que tem muitas coisas para fazer, pois ele é o homem que fará isso para
você! Pessoas que não têm nada para fazer, geralmente, fazem as coisas com
uma grande quantidade de confusão; de manhã até de noite eles desperdiçam o
tempo das outras pessoas; eles são os visitantes, os entrevistadores, as pessoas
que escrevem parágrafos atraentes sobre homens públicos; muito
frequentemente, coisas inventadas em seus próprios tolos cérebros. Estes são os
propagadores da calúnia, que em muita malícia, cospem no caráter de bons
homens; não tendo nada para fazer, eles são contratados por satanás para impedir
e injuriar outros. Se tais pessoas oram, tenho certeza que sua preguiça deve os
impedir bastante. O homem que tem que ensinar nas escolas carentes percebe
que ele tem que clamar por ajuda para dominar aquelas naturezas jovens e
selvagens; a senhorita que tem ao seu redor dúzias de meninas as quais ela
deseja levar ao Salvador, sente que é obrigada a orar por Jane e Helen, para que
elas sejam convertidas a Deus. O ministro, cujas mãos estão cheias de santo
trabalho, e cujos olhos chegam a falhar com vigia sagrada, percebe que ele não
pode fazer nada sem estar perto de seu Deus! Se estes servos de Jesus tivessem
menos o que fazer, eles orariam menos, mas a indústria santa é o berçário da
devoção!
Eu disse que nós devemos fazer muito, e não poderia deixar de
equilibrar essa verdade a não ser que adicionasse que uma grande proporção de
cristãos faz muito pouco! Deus os deu riqueza o suficiente para que eles fossem
capazes de se aposentar dos negócios; eles tem tempo em suas mãos e ainda têm
que inventar coisas para gastar este tempo – e ainda assim, os ignorantes
precisam de instrução, os doentes precisam ser visitados, os pobres precisam de
ajuda; não deveriam eles deixar seu lazer abundante e servir a Deus? Não
deveriam eles, então, se apressarem para orar? Gostaria que todos pudessem
dizer como um dos santos do Senhor, “Oração é meu negócio, meu louvor e meu
prazer” – mas estou certo de que eles nunca farão isso até que o zelo pela Casa
do Senhor os consuma completamente. Algumas pessoas impedem suas orações,
novamente, por falta de ordem. Eles acordam um pouco mais tarde, e têm que
correr atrás do seu trabalho durante o dia todo, e nunca o alcançam. Eles estão
sempre em uma agitação, um dever tropeçando no outro. Eles não tem tempo
determinado para se retirar, um pequeno espaço cercado para sua comunhão com
Deus, e consequentemente, alguma coisa ou outra aparece, e a oração é
esquecida – não, acho que nem tanto esquecida, mas sim, arrastada e apressada a
uma pequena quantidade, e isto não os traz nenhuma bênção. Gostaria que cada
um de vocês mantivesse um diário de como vocês irão orar na semana que vem,
e assim verão o quão pouco de tempo que vocês passam com Deus das 24 horas!
Muito tempo é gasto em uma mesa, quanto de tempo é gasto no Trono da
Misericórdia? Muitas horas são gastas com homens, quantas horas são gastas
com seu Criador? Você tem tempo para os amigos da Terra, mas quantos
minutos você tem com o seu Amigo no Céu? Você se permite um tempo para
recreação; o que você separa para aqueles exercícios nos quais verdadeiramente
sua alma é recriada? “Um lugar para tudo, e tudo tem seu lugar”, é uma boa
regra para escolas e casas de negócios, e isto será igualmente útil em questões
espirituais! Outros deveres devem ser feitos, mas a oração não pode ser deixada
de ser realizada – esta deve ter o seu próprio lugar e tempo suficiente para si.
Deve ser tomado cuidado para que nossas orações não sejam impedidas, para
que nós não haja omissão ou encurtamento delas. O tempo me obriga a deixar
este grande assunto e continuar.

II. Em segundo lugar, nós devemos vigiar para que não sejamos
IMPEDIDOS NA ORAÇÃO, quando nós estamos comprometidos com esse
santo trabalho. Aqui eu irei pelo mesmo solo de antes, e observar que alguns são
impedidos enquanto estão em sua oração por serem frouxos e indiferentes – um
grande impedimento; outros por ter muito ou por ter pouco o que fazer, e outra
classe por estar naquela apressada condição de coração a qual é resultado de
falta de ordem. Mas não preciso repetir quando vocês estão tão diligentemente
bebendo minhas palavras! Notemos que alguns são impedidos na oração por
selecionar um tempo e lugar inapropriados. Existem tempos em que você espera
por uma batida em sua porta; então não bata ainda na porta de Deus! Existem
horas em que cartas chegam, quando clientes ligam, quando mercadores
precisam de atenção, quando trabalhadores precisam de ordens; seria tolice ir
para o seu quarto nestes momentos!
Se você é empregado por outros, você não deve apresentar para Deus
aquelas horas em que você pertence ao seu patrão! Você honrará mais ao Senhor
com a diligência de seu ofício. Existem tempos que demandam você para as
necessidades da família, e para o seu chamado obrigatório; estes já são do
Senhor de qualquer forma – deixe que eles sejam usados para os seus devidos
propósitos. Nunca corrompa um dever com o sangue de outro; dê a Deus e ore
naqueles momentos adequados nos quais você espera estar sozinho. Claro que
você pode orar em seu trabalho com gemidos silenciosos – e você deve
permanecer no espírito de súplica durante o dia todo; mas estou me referindo
agora a tempos que são especialmente devotos à súplica, e digo para encontrar
um tempo e um local onde você pode estar livre de interrupção. Um garoto
piedoso que não tinha lugar em casa para orar, foi para o estábulo e subiu no
palheiro, mas em breve veio alguém que subiu a escada e o interrompeu. Na
próxima vez, ele cuidou de puxar a escada para cima logo depois que subiu –
uma dica muito útil para nós! Seria bom se você, de fato, pudesse puxar
completamente a escada para cima de forma que nem o diabo e nem o mundo
pudessem invadir sua privacidade secreta. “Mas tu, quando orares, entra no teu
aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que
vê em secreto, te recompensará publicamente.” (Mt 6:6). Escolha, então, o
melhor tempo e lugar para que suas orações não sejam impedidas.
Cuidados mundanos são frequentes e os mais perniciosos
impedimentos à oração. Um cristão deveria ser o homem mais cuidadoso do
mundo, e mesmo assim não ser ansioso. Você entende este paradoxo? Ele
deveria ser cuidadoso para não pecar, mas para com outros assuntos, ele deveria
colocar sua ansiedade “porque ele tem cuidado de vós.” (1 Pe 5:7). Receber tudo
das mãos de Deus, e confiar tudo nas mãos de Deus é um caminho feliz de se
viver, e muito útil à oração. Será que seu Mestre não lhe contou dos pássaros e
dos lírios? Seu Pai Celestial os alimenta e os veste – não irá Ele te vestir?
“Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça” (Mt 6:33). A fé dá paz e a paz
deixa a alma pura para a oração – mas quando a ansiedade vem, esta confunde a
mente, e tira o coração das súplicas. Um coração entupido de ansiedade é como
um homem tentando nadar com roupas pesadas – ele deve tirá-las se espera
nadar até à praia. Muitos marinheiros cortaram suas roupas aos pedaços porque
eles pensavam que iriam afundar se não as cortassem. Desejaria que muitos
cristãos se rasgassem dos excessivos compromissos mundanos; pois eles tem
uma tal massa de ansiedade sobre si que mal conseguem manter suas cabeças
sobre a superfície da água! Ó, por mais Graça e menos preocupação; mais oração
e menos fardos; mais intercessão e menos especulação! Dessa maneira, orações
são tristemente impedidas.
Prazeres terrenos, especialmente aqueles de tipo duvidoso, são o pior
tipo de impedimentos. Alguns adeptos toleram entretenimentos os quais não
tenho certeza que são consistentes com a oração. Eles lembram às moscas que
mergulham no mel até que grudem suas asas e pernas e não conseguem mais
voar. Lembro-me uma vez de ler “uma oração para ser feita pelo cristão que
chega em casa depois do teatro”, “uma prece para o santo ao retornar das
corridas” e “uma oração para uma moça cristã depois de retornar do baile”.
Claro que estas foram escritas sarcasticamente e eram, de fato, uma farsa
desmedida. Como você pode chegar em casa de uma frivolidade e pecado, e
então olhar para a face de Jesus? Como podem as modas do mundo serem
seguidas e a comunhão com Deus ser mantida? Você não pode rolar no lamaçal e
depois se aproximar com roupas limpas ao Trono da Misericórdia! Como você
pode vir diante do Trono de Deus com petições quando você acabou de desonrar
o nome do Altíssimo? Ó cristãos, guardem-se de tudo que é duvidoso quanto a
sua pureza ou mesmo sua conveniência; tudo aquilo que não é da fé é pecado
(Rm 14:23) e irá impedir suas orações! Além disso, orações podem ser
impedidas igualmente por tristezas mundanas. Alguns dão lugar à tristeza tão
extremamente que não podem orar; as lágrimas do lamento rebelde molham o pó
da oração de forma que um cristão não pode enviar seus desejos em direção ao
céu como ele deveria. A tristeza que impede a oração de um homem é uma
ampla rebelião contra a Vontade de Deus!
Nosso Senhor estava cheio “de tristeza até a morte”, mas então Ele orou
– não – por isso “Ele orou”. É correto ficar triste, pois Deus planeja que a
aflição seja algo pesaroso e não alegre; mas quando a tristeza é justa, esta irá
nos levar à oração – não nos expulsar dela! E quando nós encontramos a
tristeza na perda de um filho amado, ou na ruína de nossa propriedade,
impedindo nossas orações, penso que deveríamos dizer a nós mesmos, “Agora
eu tenho que orar, pois é errado que eu seja tão rebelde contra meu Pai para
recusar pedir todas as coisas de Suas mãos”. Você acharia que seu filho teria um
comportamento muito mal se, porque ele não teve as coisas do jeito que queria,
ele se recusasse a lhe pedir qualquer coisa, e andasse pela casa fazendo cara feia.
Porém muitos prateadores agem dessa maneira. Nós poderíamos nos simpatizar
profundamente com sua tristeza, mas nós não devemos deixar passar seus
resmungos, pois “a tristeza do mundo opera a morte” (2 Co 7:10), e isto é
inadequado para um filho de Deus. Com toda sua dor dobrada ao pó pela aflição,
ainda assim, como seu Senhor e Mestre, clame, “não seja como eu quero, mas
como tu queres”. (Mt 26:39), e então suas orações serão ajudadas e não
impedidas! Existem casos onde a oração é grandemente impedida por um mau
temperamento. Não sei onde isto será aplicado, mas onde quer que o seja,
acredito que isso será fixado em você. Você não pode habitualmente falar com
grosseria com servos e crianças; você não pode se unir em uma grande contenda
ou em pequenas discussões e então ir e orar com poder! Não posso ser efetivo
em oração se eu sinto ódio no meu coração, e acredito que nem você pode fazer
isso também! Levante-se e vá resolver a situação antes que você tente falar com
Deus, pois a oração de homens irados faz Deus se irar; você não pode lutar com
o Anjo enquanto você está sob o poder do demônio. Apelo para suas próprias
consciências – vocês deverão ser juízes – não é mesmo? Este foi um bom
conselho da parte do nosso Senhor: “Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai
reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta”
(Mt 5:24). Se isso não for feito, o sacrifício não pode ser aceito, nem vejo como
você pode ousar oferecê-lo!
Ouvi falar de dois bons homens que tinham uma afiada divergência entre
si nos negócios. Não sei quem foi o culpado; talvez nem um dos dois, pois eles
deve ter se desentendido. Um deles, ao caminhar para casa muito contrariado,
viu o sol se pondo, e a passagem veio a ele, “não se ponha o sol sobre a vossa
ira”. Ele pensou, “Voltarei e pedirei desculpas, pois acredito que falei muito
fortemente”. Ele começou a voltar ao escritório de seu amigo, e no meio do
caminho este homem o encontrou fazendo a mesma coisa! Felizes crentes esses
por serem tão atentos ao ensino do Espírito Santo, e do Senhor Jesus! É certo
que a ofensa virá, mas benditos são aqueles que são os primeiros a removê-la! Ai
daqueles homens de tal maneira que não podem fazer isso, mas guardam rancor
até que este apodreça e encha toda sua vil natureza com os seus odores!
Certamente eles não podem esperar serem ouvidos em oração enquanto
hostilidades não sepultadas poluem suas almas! Esforcem-se, queridos amigos
cristãos, o mais que puderem, para sempre que estiverem irados, não pecarem;
isto é possível, pois está escrito: “Irai-vos, e não pequeis” (Ef 4:26). Um homem
que não tem ira dentro de si mal pode ser um homem, e certamente não é um
bom homem, pois ele não pode estar irado contra o pecado, não está apaixonado
pela bondade! Dizem de alguns que eles são macios como um sapato velho, e,
geralmente, eles não valem mais do que este objeto. A ira contra a injustiça é
correta, mas a ira contra a pessoa que se degenera em desejar que esta seja
machucada é ira pecaminosa e apaga, com efeito, os fogos da oração. Nós não
podemos orar por perdão a não ser que perdoemos as ofensas que outros
cometeram contra nós!
A oração pode ser impedida – terrivelmente impedida – de três formas.
Se nós desonrarmos ao Pai ao qual nos oramos, ou ao Filho através do qual nós
oramos, ou ao Espírito Santo pelo qual nós oramos. Digo que nós podemos
desonrar ao Pai. Isto pode ser feito pela inconsistência do viver – se os filhos de
Deus não são obedientes à vontade do Pai, eles não podem se surpreender se
encontrarem dificuldades ao orar. Você não pode derramar o seu coração
adequadamente a não ser que acredite em seu Pai Celestial; se você tem
pensamentos desagradáveis sobre Ele; se você tem um coração frio à Ele, e falta
de reverência pelo Seu Nome; se você não acredita que naquele grandioso e
disposto coração o qual está pronto para abençoar você, a sua falta de amor, fé e
reverência irão estrangular suas orações. Ó, quando um homem está
completamente em união com o grande Pai; quando “Aba, Pai” é o espírito de
sua alma; quando ele fala com Deus como o único no qual ele coloca sua
confiança, e cuja Vontade ele se submete perfeitamente; quando a Glória de
Deus é o prazer de sua alma – então ele está em um terreno vantajoso para a
oração, e ele irá ganhar o que deseja de Deus; mas se ele não é assim com Deus,
suas orações irão cambalear muito dolorosamente!
E, irmãos e irmãs, se estamos em uma posição errada com Jesus, através
de quem devemos orar; se nós temos alguma medida de justiça própria; se
sentimos prazer em nós mesmos e esquecemos de nosso Amado; se pensamos
que podemos triunfar sem o Salvador, e se, portanto, nós oramos como Fariseus
satisfeitos em si mesmos, nossas oração serão impedidas! Se nós não somos
como o Salvador; se não fazemos Dele nosso Exemplo; se não tivermos nada de
Seu Espírito amoroso; se, acima de tudo, nós O crucificamos novamente, e O
envergonhamos abertamente, e se nós somos ingratos pelas bênçãos que já
recebemos – nossas orações serão impedidas. Você não pode apelar na corte se
você brigar com seu Advogado; se suas orações não forem tomadas pelas mãos
pelo Grande Intercessor, e oferecidas por Ele em seu lugar, você não terá
chances para o exercício sagrado. Então, novamente, sem Espírito Santo não
existe uma única oração que Deus aceite, somente aquelas que o Espírito
primeiramente escreve dentro de nossos corações. Oração verdadeira não é tanto
nossa intercessão como é o fato de o Espírito de Deus criar intercessões em nós!
Agora, se nós entristecemos o Espírito, Ele não nos ajudará a orar, e se nós
tentarmos orar por algo que é contrário a santa, graciosa e amorosa natureza do
Espírito, não podemos esperar que Ele nos possibilite a orar em contradição à
mente de Deus! Tome cuidado para que você não aborreça o Espírito de Deus de
nenhuma forma, especialmente por fechar os ouvidos para Suas advertências
gentis, Seus chamados amorosos, Suas diligentes súplicas, Seus tenros
requerimentos – pois se você é surdo para o Confortador Divino, Ele irá ser
mudo para com você! Ele não irá ajudá-lo a orar se você não se render a Ele em
outras áreas.
Então, queridos amigos, estabeleci para vocês de uma maneira rápida
algumas das formas nas quais a oração pode ser impedida. Que Deus conceda
que nenhum de nós possa ser derrotado por elas, mas que nós possamos ser
guardados de tudo aquilo que pode arruinar nossas petições!

III. Agora necessito de sua mais diligente atenção para a parte
mais importante de todas, na qual devo me esforçar para ser breve. Nós
podemos ser IMPEDIDOS NA EFETIVIADE DE NOSSAS ORAÇÕES. Nós
podemos orar, mas mesmo assim nossas orações podem não ser ouvidas! E
deixe-me aqui introduzir uma nota: O Senhor ouvirá a oração de qualquer um
que pedir por Sua Misericórdia através da mediação do Senhor Jesus Cristo! Ele
nunca despreza o choro do contrito; Ele é um Deus pronto para ouvir todos
aqueles que buscam reconciliação. Mas à respeito de outros quesitos, é verdade
que Deus não ouve os pecadores – isto é, enquanto eles permanecem pecadores,
Ele não irá conceder seus pedidos; de fato, se fosse assim, isto os encorajaria a
continuar em seus pecados! Se eles se arrependerem e clamar por Misericórdia
através de Jesus Cristo, Ele ouvirá seu clamor e os salvará; mas se eles não
forem primeiramente reconciliados com Ele, suas orações são sopros vazios.
Um homem concederá o pedido de seu filho, mas ele não escuta a
estranhos. Ele irá escutar seus amigos, mas não seus inimigos. Não é correto que
a chave dourada que abre os baús dos Céus deva ser encontrada nos cintos do
rebelde! Mais ainda, Deus não escuta a todos os Seus filhos igualmente, ou em
todo o tempo. Não é todo crente que é poderoso em oração. Leia o Salmo 99, e
se lembro-me bem, você encontrará palavras como essas – “Moisés e Arão, entre
os seus sacerdotes, e Samuel entre os que invocam o seu nome, clamavam ao
Senhor, e Ele lhes respondia. Na coluna de nuvem lhes falava; eles guardaram os
seus testemunhos, e os estatutos que lhes dera.” (Sl 99:6,7). Sim, Ele os
respondeu – Moisés, Arão, Samuel – Ele os respondeu, pois eles guardaram Seus
testemunhos. Quando filhos de Deus percebem que suas orações não obtém
sucesso, eles deveriam buscar – e logo descobririam uma razão pela qual suas
orações foram impedidas!
Primeiro, deve haver um viver santo no crente se suas orações
obtiverem um grande sucesso com Deus. Escutem – “A oração feita por um
justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5:16). Note as características de um
homem justo. Ouça o nosso Salvador em João 15:17 – “Se vós estiverdes em
mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e
vos será feito”. Existe um se ali! Se você não faz a vontade de Cristo, Ele não irá
fazer a sua vontade. Isto não tem relação com a Lei! Não tem nada relacionado
com a Lei, mas é a regra do Evangelho de Cristo de que a obediência tenha por
recompensa o poder na oração! Assim como você faz com seus filhos; você tem
uma disciplina sobre eles; você não os expulsa ou os dá a polícia por eles agirem
mal; mas você tem formas de castigar os teimosos e recompensar os obedientes!
Você não se apressa para conceder os pedidos daquele menino intratável; de fato,
você nega seus pedidos; mas aquela outra querida, gentil e amorosa criança só
tem que pedir para receber! Esta é a disciplina correta, esta é tal como a que
Deus exercita conosco. Ele não joga fora seus filhos quando estes pecam e os
nega completamente, mas Ele os castiga em Seu Amor; e um de Seus castigos é
desconsiderar suas orações. Se nós comparamos o orar com o atirar com arco e
flecha, você deve limpar suas mãos ou não conseguirá atirar, pois este arco se
recusa a ser dominado por mãos poluídas por pecados não arrependidos! A
bênção geral é descrita – “o desejo dos justos será concedido” (Pv 10:24) – não
o desejo dos ímpios. Primeiramente, lave-se na Fonte da Graça da
Reconciliação, e tenha seu coração purificado pelo Espírito Santo, ou então você
não terá sucesso na oração! Se alguém me falasse de um homem que Deus
responde grandemente pela oração, e então me informasse que ele vive em
pecado grosseiro, eu não acreditaria em tal coisa! É impossível para Deus
auxiliar um criminoso professo da religião garantindo a ele sucesso em oração!
O cego que Jesus curou disse verdadeiramente, “Ora, nós sabemos que Deus não
ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse
ouve” (Jo 9:31).
Em adição à obediência, deve haver fé. “Ora, sem fé é impossível
agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que
ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6). “Peça-a, porém,
com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar,
que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.” (Tg 1:6). A fé
obtém promessas, incredulidade vai de mãos vazias. O Senhor pode dar uma
bênção para aquele que duvida, mas a promessa é mais do que isso, e o incrédulo
não tem direitos de esperá-la! A oração que tem mais proveito com Deus é a
oração daquele que crê que Deus o ouvirá, e daquele que, portanto, pede com
confiança. Em uma palavra, a fé é o arco da oração; você deve tomar posse do
arco ou não pode atirar, e quanto mais forte é o arco, mais longe você pode atirar
a flecha – e maior a realização que você pode fazer com isto. Sem fé é
impossível agradar a Deus em oração ou em qualquer outra coisa! Fé é a própria
coluna vertebral, tendão e músculo da intercessão.
Em terceiro lugar, deve haver desejos santos, ou então a oração será um
fracasso. E estes desejos devem estar fundamentados na Promessa; se você não
encontrou que Deus prometeu uma bênção, você não tem o direito de pedir por
isso, e não possui nenhuma razão para esperar por isso! Não tem valia pedir
dinheiro para um banqueiro sem possuir um cheque – no caixa eles não te
conhecem; eles conhecem a promessa de pagar em troca do cheque, e se você o
apresentar, receberá a quantia. Você deve trazer as próprias promessas de Deus
ao Trono de Misericórdia, o qual é o balcão do Banco Divino, e você obterá o
que precisa, mas somente deste jeito! Observe então que a fé é o arco, e o desejo
forte é como a corda em qual a flecha será lançada para cima. Nenhuma flecha é
lançada para o Céu a não ser aquela que desceu do Céu; cristãos tomam suas
flechas da aljava de Deus, e quando eles as atiram, o fazem com isto em seus
lábios: “Lembra-te da palavra dada ao teu servo, na qual me fizeste esperar” (Sl
119:49). Então a oração bem sucedida é o desejo de um santo coração,
sancionado pela Promessa! Orações verdadeiras são como aqueles pombos-
correios que acham seu caminho de volta tão bem; elas não podem falhar em ir
ao Céu, pois do Céu elas vieram; elas só estão voltando para Casa!
Além disso, se a oração é para ser efetiva, deve haver fervor e urgência.
Está escrito, “A oração fervorosa de um justo pode muito em seus efeitos” (Tg
5:16 – Versão King James[15]). Não a oração meio viva e meio morta do mero
cristão nominal; não a oração daqueles que não se importam se recebem a
resposta ou não; deve haver diligência, intensidade, o derramar do coração
diante de Deus! A flecha deve ser colocada na corda do arco, e o arco deve ser
puxado com toda a nossa força. O melhor arco não tem serventia nenhuma se
não for puxado, e se você puxar o arco da fé, e atirar no alvo que está lá no Céu,
você obterá o que deseja – você só tem que se decidir se realmente quer tal
coisa, mas com um único limite – “Faça-se a vontade do Senhor” (At 21:14) – e
você terá sucesso! Deve haver, em seguida, um desejo pela Glória de Deus –
pois este é o próprio alvo, e se nós não atiramos na direção disso, a flecha não
acertará coisa alguma. Nós devemos diligentemente desejar o que nós buscamos,
porque cremos que o que pedimos irá glorificar a Deus! Se nós vivermos
completamente para Deus, nossas orações irão andar lado a lado com Seus
Propósitos, e nenhum delas irá cair no chão. “Deleita-te também no Senhor, e te
concederá os desejos do teu coração” (Sl 37:4). Nós devemos também ter uma
esperança santa ou iremos impedir nossas orações. Aquele que atira deve
observar para enxergar aonde sua flecha vai; nós devemos direcionar nossas
orações a Deus e olhar para cima! Com os olhos fitos no Senhor Jesus em todas
as coisas, nós devemos olhar para ter sucesso através dos méritos do Redentor.
“E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos
as petições que lhe fizemos” (1 Jo 5:15). A presunção na oração atira com o arco
da autoestima, não pela Glória de Deus, mas pela gratificação do ego, e assim
ela falha! Alguns têm a ideia de que se eles pedirem aquilo que gostam para
Deus, têm a certeza de que irão receber. Mas, primeiramente, eu perguntaria
“Quem é você?”. Segundo, “O que é que você almeja alcançar?”. E, terceiro,
“Que direito você tem de esperar isto?”. Estas perguntas devem ser claramente
respondidas; ou de outra forma, a oração será um insulto a Deus!
Gostaria que alguns crentes que oram sobre coisas temporais fossem um
pouco mais cuidadosos na forma como agem. Quando eles entram em
dificuldade e confusão por suas extravagâncias, será que eles esperam que Deus
os tire de lá? Lembro-me de escutar a uma observação feita pelo bom senhor
Muller, de Bristol. Em uma Reunião de Oração ele leu uma carta de um irmão
que o agradecia por um presente de 20 libras o qual havia chegado
providencialmente, pois ele devia o aluguel de metade do ano. O senhor Muller
fez a observação, “Sim, nosso irmão deveria estar grato; mas eu irei escrever-lhe
e lhe dizer que ele não deveria dever a metade de um ano em aluguel sem estar
preparado para pagar; e que ele está agindo com tolice e sem justiça por não ir
até o dono e resolver a situação. Quando aluguei minha casa, disse ‘Está é a casa
de outra pessoa. Sou obrigado a pagar o aluguel’, e então, semana após semana,
à medida que usava a casa, eu separava a porção semanal que deveria pagar. Eu
não gastava este dinheiro, e no fim de um trimestre esperava que o Pai Celestial
me enviasse mais”. Isto é moralidade sadia e senso comum, e oro para que vocês
tenham isto! Ore, de todas as formas, mas não deva nada a ninguém. O pão de
cada dia é para ser orado, mas especulações que podem lhe envolver em ruína ou
fazer-lhe ganhar uma fortuna não foram mencionadas! Se você vai para
jogatina, desista logo de orar! Sobre transações honestas, você pode orar, mas
não misture o Senhor com suas empreitadas! Foi pedido a mim que orasse por
um jovem homem que perdeu seu emprego durante uma fraude para que ele
arranjasse outro lugar para trabalhar. Mas em vez de fazer isto, eu sugeri que ele
deveria, por si mesmo, orar para que ele fosse mais honesto. Outro que está em
uma incrível dívida quer que eu ore para que ele obtenha ajuda, mas eu sugeri
que ele deveria deixar que seus credores recebessem uma parte do que tinha até
que não lhe sobrasse mais nada. Não irei pedir para o meu Deus o que não
pediria para nenhum homem!
O se aproximar ao Trono da Misericórdia é um terreno santo, não
brinque com isso ou não faça disso uma oportunidade para pecar! “Pedis, e não
recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4:3). Se nós
andamos na contramão com o Senhor, Ele irá andar contra nós! E digo a todo
homem e mulher aqui que está em apuros e que são cristãos, tome o caminho
certo nisto – faça a coisa certa, e se isto o trouxer aflição, suporte isto como
homem, e então vá ao Senhor e diga, “Senhor, eu escolhi, por Sua Graça, um
caminho correto e honesto, agora ajude-me”, e Ele irá! Deus nos conceda Graça,
como Cristãos, a andar com Deus no Poder de Seu Espírito, descansando
somente em Jesus, e que Ele faça cada um de nós poderoso em oração! Um
homem a quem Deus ensinou a orar poderosamente é um homem que possui a
mente do Senhor, e é a Mão de Deus movendo-se no meio dos homens! Quando
ele age, Deus age nele. Ele deve, contudo, ser cuidadoso e vigilante, pois o
Senhor é um Deus ciumento – e mais ciumento com aqueles que Ele mais ama!
Deus lhes conceda, irmãos e irmãs, andarem humildemente com Ele, e a
viver perto de Si, “para que suas orações não sejam impedidas. Amém.
ORAÇÃO, A PROVA DA SANTIDADE
Sermão de Número 2437
SERMÃO ENTREGUE NA NOITE DE QUINTA-FEIRA, 27 DE OUTUBRO DE 1887.

“Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti, a tempo de Te
poder achar.”
Salmos 32:6

Nem TODOS os homens são santos. Oxalá, os ímpios são a grande maioria da
raça humana! E todos os homens que são, até certo ponto, santos, não são
igualmente santos. O homem que teme a Deus e deseja verdadeiramente
conhecê-Lo tem alguma pouca medida de santidade. O homem que tem
começado a confiar no Salvador, o qual Deus colocou como a grande
Propiciação pelo pecado tem uma abençoada quantidade de santidade. O homem
cuja comunhão com Deus é constante, cujas sérias orações e lágrimas
penitenciais são frequentemente observadas pelo grande Pai, e o qual suspira por
um mais completo e mais profundo conhecimento do Senhor – este homem é
santo em um sentido mais alto. E aquele que, por uma companhia contínua com
Deus tem se tornado como Ele, sobre quem a imagem de Cristo foi fotografada,
pois ele olhou para Ele por tanto tempo e se alegrou Nele tão intensamente – ele
é um homem santo! O homem que acha seu Deus em todo lugar, que vê Ele em
todos os trabalhos de suas mãos. O homem que leva tudo a Deus – quer que seja
algo feliz ou calamitoso – este é o homem santo. O homem que procura à Deus
por tudo, toma cada pedido para o Trono da Graça e toda petição para o Assento
da Misericórdia – o homem que não poderia viver sem seu Deus, para quem
Deus é sua alegria excelente, a ajuda e a saúde de seu semblante, o homem que
permanece em Deus – este é o homem santo. Este é o homem que deverá habitar
eternamente com Deus, pois ele teve a santidade dada para si e, no bom tempo
do Senhor, ele deverá ser convocado para aquele abençoado lugar onde ele
deverá ver Deus e se alegrará diante Dele por toda eternidade!

Julguem-se a si mesmos, queridos ouvintes, por estes testes, se você é santo ou
não. Deixe que a consciência faça um trabalho correto neste assunto.
Possivelmente, enquanto estou pregando, você pode ser ajudado a realizar este
muito necessário trabalho de autoexame. O texto, em si mesmo, é um teste pelo
qual nós podemos dizer se estamos entre os santos – “Por isso, todo aquele que é
santo orará a Ti, a tempo de Te poder achar.”

Nestas palavras nós temos, em primeiro lugar, a marca universal dos homens
santos. Eles oram a Deus. Então nós temos, em segundo lugar, um motivo
poderoso para orar – “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti.” E em
seguida, em terceiro, nós temos a ocasião especial onde a oração é mais útil, a
ocasião na qual os santos se beneficiam abundantemente – eles deverão orar” “a
Ti, a tempo de Te poder achar.” Todos estes pontos são muito dignos da nossa
mais séria consideração.

I. O primeiro ponto é, A MARCA UNIVERSAL DA SANTIDADE –
“Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti”

Quando um homem está começando a ser santo, este é o primeiro sinal de
mudança que está sendo trabalhado nele, “Pois eis que ele está orando” (Atos
9.11) Oração é a marca da santidade em sua infância. Até que ele tenha
chegado aos pedidos e às petições, não podemos ter certeza alguma de que a
vida Divina está nele. Podem existir desejos, mas se eles nunca se tornam em
orações, nós podemos temer que eles sejam como a nuvem da manhã e como
orvalho da madrugada – que logo passam. Podem existir alguns sinais de
pensamentos santos no homem, mas se esses pensamentos nunca se aprofundam
em oração, nós podemos temer que os pensamentos sejam como a semente
jogada sobre a dura estrada, a qual os pássaros do ar irão em breve devorar. Mas
quando o homem vem a um real acordo de súplica com Deus – quando ele não
pode descansar sem derramar seu coração ao Trono da Misericórdia – você
começa a ter esperanças que agora ele é, de fato, um homem santo! A oração é o
suspiro de vida no crente recém-nascido! A oração é o primeiro choro pelo qual
é reconhecido que a criança recém-nascida realmente vive! Se ele não ora, você
pode suspeitar que ele tem somente um nome pelo qual viver – e que ele não
possui verdadeira vida espiritual.

E como a oração é a marca da santidade em sua infância, é igualmente a marca
da santidade em todos os estágios de seu crescimento. O homem que tem mais
da Graça, orará mais. Tome minha palavra como certa quando falo que quando
vocês e eu temos mais da Graça, nós podemos julgar isso pelo fato de que existe
mais oração e louvor em nós do que existia antes. Se você ora menos do que
uma vez já orou, então julgue-se como menos piedoso, como tendo menos
comunhão com Deus, como menos, de fato, santo! Não conheço melhor
termômetro para a temperatura espiritual que este – a medida da intensidade da
sua oração. Não estou falando sobre a quantidade dela, pois existem alguns que,
por serem pretensiosos, fazem longas orações. Estou falando sobre a realidade
dela, a intensidade dela. Oração é mais bem medida por seu peso do que por seu
tamanho e largura e, na proporção que você cresce na Graça, você irá crescer em
oração; dependa dela! Quando o filho de Deus alcança a medida da estatura
completa de um homem em Cristo, então ele se torna como Elias, um poderoso
homem em oração. Um homem como esse na igreja pode salvá-la da ruína! Vou
ainda mais adiante e digo que tal homem em uma nação, pode trazer bênçãos
indizíveis sobre esta! Ele é um homem mais santo enquanto obtiver mais poder
com Deus em suas petições secretas – e aquele que tem mais poder com Deus
em suas petições secretas tem isto, pois ele abunda em santidade! Todo aquele
que é santo orará ao Senhor, seja ele um bebe na Graça que balbucia algumas
frases quebradas, ou um forte homem em Cristo que lança mão sobre o Anjo da
Aliança com a poderosa determinação de Jacó, “Não te deixarei ir, se não me
abençoares.” As orações podem varia a medida que o grau de santidade difere,
mas todo homem santo tem, do começo ao fim de sua vida espiritual, esta marca
distintiva, “Eis que ele ora”.

Adiante, caros amigos, a oração verdadeira é uma marca infalível de santidade.
Se você não ora, lembrem-se daquele velho ditado, “Uma alma sem oração é
uma alma sem Cristo”. Você sabe o quão frequentemente tem sido o caso das
maiores confissões de santidade terem sido algumas vezes acompanhadas pela
prática dos mais mortais vícios. Por exemplo, onde quer que a doutrina da
perfeição humana seja guardada, ali tem sido quase sempre produzidas horríveis
devassidões, desesperadas imundícies da carne que são desconhecidas a todas
outras doutrinas menos nessa! De forma semelhante, tenho conhecido pessoas
que se tornaram, como elas mesmas dizem, tão conformadas à mente de Deus,
tão perfeitamente em acordo com a Vontade Divina que elas não sentem a
necessidade de orar. Isto é o diabo de branco – nada além disso – e o diabo de
branco é mais diabólico do que quando ele está vestido de preto! Se alguma
coisa levar-lhe ao enfraquecimento na oração, ou a se abster completamente da
oração, é uma coisa perversa, não importa o disfarce que coloque nela!

Porém, onde quer que exista a real oração na alma, tome como certo que o
desejo santo e persistente no espírito comprova que ainda há vida no espírito. Se
o Senhor permite a você orar, peço-lhe, não se desespere. Se você tem que orar
com muitos gemidos, suspiros e lágrimas, não pense menos de suas orações por
essa razão! Ou, se você pensar menos delas, o dia virá quando você vai
considerar como melhores suas orações quebradas do que de quaisquer outras.
Tenho conhecido o que vem do Trono da Graça quando sinto que não orei em
nada! Tenho desprezado minha oração e chorado por cima disso, e ainda assim,
algum tempo depois, olhando para trás, tenho pensado “Desejaria orar como orei
quando eu pensei que eu não tivesse orado em nada”. Nós, geralmente, somos
pobres juízes de nossas próprias orações! Mas este julgamento devemos fazer –
se o coração suspira, chora, anseia e apela a Deus, tais suspiros e sinais nunca
estiveram em um coração não-regenerado! Estas flores são exóticas – a semente
na qual elas crescem deve vir dos Céus! Se você ora uma verdadeira oração
espiritual, isto deve ser, de fato, uma certa marca de que o Espírito de Deus está
empenhando-Se em você e que você já é um filho de Deus!

Mais uma vez, amados amigos, a oração é natural ao homem santo. Penso que é
uma boa coisa ter horários certos para oração, mas estou certo de que seria uma
terrível coisa confinar a oração a algum tempo ou estação, pois para o homem
santo, a oração vem como o respirar, como o suspirar, como o chorar. Você tem,
talvez, ouvido do pregador que costumava colocar na margem dos manuscritos
dos seus sermões, “Clame aqui”. Este é um tipo muito pobre de clamor que pode
ser feito a pedido, dessa forma, você não pode produzir a intensidade da oração a
um pedido – isso deve ser uma emanação natural do coração renovado! Jacó não
podia sempre ir e passar a noite em oração. É possível que ele nunca tenha
passado uma outra noite inteira em oração em toda sua vida depois daquela
memorável noite! Mas quando ele passou aquela noite ao ribeiro Jaboque, ele
não podia fazer outro tipo de oração, como Lutero disse. Oração bombeada de
algum lugar é um pouco melhor do que a água bombeada dos porões de um
navio! O que você necessita é a oração que flui livremente de você, como uma
fonte que jorra de uma rocha quebrada. Oração deveria ser o desabafo natural da
alma – você deveria orar porque você deve orar, não porque o tempo
determinado para oração chegou – mas porque seu coração deve clamar ao
Senhor.

“Mas”, diz um, “algumas vezes eu não sinto que eu consigo orar”. Ah, neste
momento, de fato, é que você mais precisa orar! Este é o tempo quando você
deve insistir na oração, pois há algo infelizmente errado com você. Se, quando o
tempo chega para você se aproximar para perto de Deus – você tem a
oportunidade e o tempo livre para isto, mas você não sente nenhuma inclinação
para o exercício santo – dependa no fato de que tem algo radicalmente errado
com você! Existe uma doença mortal no seu sistema e você deveria, de uma vez,
clamar ao Médico celestial. Você tem necessidade de clamar “Deus, eu não
consigo orar. Tem algo estragado e misterioso em mim. Existe algo que me
aflige! Vem, Ó Senhor, e me corrige, pois eu não posso continuar a permanecer
em uma condição sem oração!”.

Um estado sem oração deveria ser uma condição infeliz e miserável para um
filho de Deus – e este não deveria descansar até que achasse mais uma vez
aquele espírito que pode verdadeiramente se derramar diante do Deus vivo!
Quando você está em um estado correto de coração, orar é tão simples quanto
respirar. Lembro-me de estar na capela do senhor Rowland Hill*[16] em Wotton-
Under-Edge e parar na casa onde ele costumava morar. Eu disse a um amigo que
conhecera o bom homem, “Onde o Sr. Hill costumava orar?”. Ele respondeu,
“Bom, meu caro senhor, não sei se posso lhe dizer isto. E se você me
perguntasse, ‘Onde ele não orava?’ ou ‘Quando ele não orava?’ Estaria
impossibilitado de lhe falar. O querido e velho cavalheiro costumava andar para
cima e para baixo daquela cerca dourada e se alguém estivesse fora da cerca,
ouviria ele orando enquanto caminhava. Em seguida, ele subia a rua e
continuava orando todo o tempo. Depois que ele tivesse feito isso, ele voltaria,
novamente, orando todo o tempo. E se ele fosse para dentro de casa e sentasse na
sua escrivaninha, ele não era muito um homem de ler, mas você o encontraria
repetindo algum verso de um hino, ou ele estava orando por Sarah Jones que
estava doente, ou ele clamaria por Tom Brown que estava recaindo no erro.”

Quando o velho homem estava em Londres, ele subia e descia a Rua Blackfriars,
parava e olhava para uma janela de loja. E se alguém estivesse ao seu lado,
encontraria que ele ainda estava orando, pois ele não conseguia viver sem
oração! Isto é como um homem santo se torna, no fim – começa a ser natural
para ele orar assim como é respirar! Você não nota o dia inteiro quantas vezes
você respira. Quando você chega em casa à noite, você não diz, “Eu respirei
tantas vezes hoje”. Não, claro que você não percebe a sua respiração, a não ser
que tenha asma! E quando um homem tem asma em oração, ele começa a notar a
sua oração! Mas aquele que está em boa saúde espiritual respira livremente,
como uma alma viva diante do Deus vivo – e sua vida se torna uma sessão
continua de oração.

Para tal homem, a oração é um exercício muito feliz e consolador. Não é uma
tarefa, nem esforço. Sua oração, quando ele é verdadeiramente santo e vive perto
de Deus, é um prazer intenso! Quando ele pode se afastar dos negócios por
alguns silenciosos minutos de comunhão com Deus, quando ele pode mover-se
em segredo do barulho do mundo e ter um pouco de tempo sozinho – estes são
os prazeres de sua vida! Estes são os prazeres que nos ajudam a esperar com
paciência através dos longos dias de nosso exílio até que o Rei deva voltar e nos
levar para casa para habitar com Ele eternamente!

Essas orações dos santos, contudo, podem se apresentar de muitas formas.
Algumas orações tem a boa forma da ação – e um ato pode ser uma oração.
Amar nossos companheiros e desejar o seu bem é um tipo de prática consolidada
de oração. Existe alguma verdade naquele par de versos muito citados por
Coleridge[17] -
“Aquele que melhor ora, melhor ama
À todas as coisas, pequenas e grandes”
Chega a ser uma oração a Deus dar esmolas, pregar o Evangelho, tentar ganhar
um errante ou colocar uma criança em seus joelhos e falar-lhe sobre o Salvador.
Tais atos são frequentemente as mais aceitadas orações, mas quando você não
pode agir assim, é bom derramar seu coração diante do Senhor em palavras. E
quando você não pode fazer isso, é doce sentar bem parado e olhar para Ele e,
assim como os lírios derramam sua fragrância diante Dele que os fez, assim você
fazer, mesmo sem falar – adorar Deus naquela adoração profunda que é muito
eloquente para a linguagem – aquela santa proximidade a qual, por ser tão
próxima, não ousa pronunciar algum som para que não quebre o encanto do
silêncio Divino que ela carrega! Congelamento da boca, mas fluidez da alma, é
geralmente uma boa combinação na oração. É uma abençoada oração se deitar
em seu rosto em silêncio diante de Deus, ou suspirar e chorar, gemer e lamentar,
à medida que o Espírito Santo lhe mover. Isto tudo é oração, não importa a
forma que assuma, e é o sinal e a prova da verdadeira vida de um crente.
Penso que já disse o suficiente sobre aquele primeiro ponto – a marca universal
de santidade é a oração.

II. Em segundo lugar, existe, no texto, UM PODEROSO MOTIVO
PARA A ORAÇÃO – “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti, a tempo
de Te poder achar”.

O motivo parece ser, primeiramente, porque Deus escutou tão grande pecador
como Davi era. Possivelmente você sabe que esta passagem é muito difícil de
interpretar. Parece ser simples o bastante, porém existem muitas interpretações
sobre ela. Na Versão Revisada você irá achar na nota de rodapé “A tempo de
descobrir pecados”. Deixe-me ler o contexto – “Confessei-te o meu pecado, e a
minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas
transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado. Por isso, todo aquele
que é santo orará a ti, a tempo de descobrir pecados”. Tudo corre bem e o
contexto parece garantir essa interpretação. Não estou certo de que esta seja a
tradução correta, mas o sentido harmoniza com a tradução, então que
aprendamos disto esta lição, que Deus escutou a oração de um grande pecador!

Pode existir, nesta Casa de Oração, alguém que penetrou em pecado grosseiro e
grave – e esta leitura da passagem pode ser uma mensagem do Senhor para esta
pessoa. Davi pecou muito tolamente e adicionou a este pecado o engano. Suas
obras maléficas fazem os ímpios criticarem a piedade até o dia presente, dessa
forma os infiéis perguntam em desprezo “Este é o homem segundo o coração de
Deus?”. Foi um pecado horrível que ele cometeu, mas veio a ele um tempo de se
deparar com seu pecado. Seu coração foi quebrantado em penitência e então ele
foi à Deus, achou misericórdia e disse, com efeito, que era tão maravilhoso que
um desgraçado como ele poderia ser perdoado, que todo homem santo, por todo
tempo enquanto o mundo existir, poderia acreditar na confissão de pecados ao
Senhor e no poder da oração para obtenção de perdão para a culpa! Gosto deste
significado do texto, pois ele é algumas vezes necessário para nós, quando nós
estamos debaixo da convicção do pecado, para que pensemos sobre tais
pecadores como Manassés, Madalena, o ladrão crucificado e Saulo de Tarso.
Existem ocasiões, mesmo para aqueles que são grandemente abençoados por
Deus, quando nada a não ser o Salvador do pecador pode fazer algo para eles. E
quando eles sentem que se não existisse salvação para o mais vil dos vis, não
haveria salvação para eles mesmos.

Então Deus nos dá um caso como o de Davi, que todos que são santos devem
orar a Ele em tempo de achar o seu pecado. Nós devíamos ficar com medo se
Davi não tivesse trilhado este caminho antes de nós! “Venha,” ele diz para o de
coração quebrantado, ele que escreveu o Salmo 51, “Deus me perdoou e Ele o
fez para que Ele mostrasse em mim toda a longanimidade, como por um padrão
para que aqueles que viessem depois pudessem se arrepender e crer”.

Outro motivo para a oração o qual eu penso que o texto nos traz é que, todos nós
precisamos de perdão diário – “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti”.
“Por isso” – pelo cobrir dos pecados, por este apagar das iniquidades. Queridos
amigos, espero que todos vocês orem a Deus diariamente pelo perdão dos
pecados. Estou certo de que todos os santos entre vocês o fazem. Se você não
comete nenhum pecado, então o Salvador cometeu um grande pecado quando
Ele nos deixou a oração “Perdoai as nossas ofensas”. Qual é a necessidade dessa
petição se nós não tivéssemos ofensas para serem perdoadas? Mas para isto, ou
seja, o perdão dos seus pecados, todo aquele que é santo deve orar ao Senhor.

E todo aquele que é santo orará a Deus por esta razão, também, a saber, porque
este recebeu o perdão dos pecados. Você se lembra de quando fez sua
confissão ao Juiz de Tudo e recebeu absolvição Dele? Você se lembra de quando,
com coração quebrantado e olhos cabisbaixos, você reconheceu seu pecado a Ele
e Ele lhe tirou suas transgressões? Muito bem, esta é a razão pela qual você
deveria sempre orar! Aquele que lhe escutou naquele tempo, ainda irá te escutar!
Aquele que tirou seus pecados naquele tempo, por aquele grande lavar na Fonte
de sangue, continuará a tirar seus pecados por aquela lavagem de pés que Ele
continuamente nós dá, sobre a qual Jesus disse; “Aquele que está lavado não
necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo”. Bendito seja
Deus, nós não devemos parar de orar por perdão por mais que já tenhamos
recebido perdão! Nós iremos suplicar pela renovação diária do símbolo Divino
da reconciliação. Se nós o recebemos quando ainda éramos pecadores, quanto
mais devemos o receber agora que somos reconciliados com Deus pela morte de
Seu Filho! Se nós O recebemos quando ainda éramos exilados, quanto mais
agora devemos receber já que somos Seus queridos filhos!

Novamente, “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti”, isto é para dizer que,
tribulações vêm, pois o contexto nos ensina esta lição. “Até no transbordar de
muitas águas, estas não lhe chegarão. Tu és o lugar em que me escondo; tu me
preservas da angústia”. Irmãos, o Senhor cuida para nos manter orando, não é
verdade que Ele o faz, por nos dar necessidades constantes? Suponha que eu
tenha um amigo no qual eu era dependente e cuja associação eu amava muito, e
ele falasse a mim: “Eu vou te dar, de uma vez, dinheiro o bastante para que lhe
durasse até essa mesma época do ano que vem, e então você pode vir me ver e
receber outra porção anual. Ou, como você gosta de vir à minha casa, você
preferiria receber essa quantia de três em três meses?”. Eu responderia: “Eu
escolho a última opção, pois assim eu poderia vir até você quatro vezes ao ano e
poder jantar quatro vezes com você”.

“Bem, então, você gostaria que fosse mensalmente?”. “Ó, sim! Eu gostaria de vir
mensalmente e passar o dia com você a cada mês”. “Talvez”, ele diria, “Você
não gostaria de vir todos os dias?”. “Ó, sim! Eu preferiria assim! Eu gostaria de
ter um lugar na sua mesa diariamente”. “Ou talvez você gostaria de ficar comigo
para sempre, assim como o Dr. Watts[18] fez quando ele foi até a casa do senhor
Thomas Abney, para passar uma semana, e acredito que essa ‘semana’ durou 28
anos, pois ele nunca saiu de lá até sua morte. Talvez você gostaria de receber
tudo de minha mão e não ter nada além daquilo que eu te der”. “Ó, sim, meu
amigo, essa dívida contínua, essa constante dependência me daria tantas
oportunidades de melhor lhe conhecer, alguém que eu amo tanto, que eu gostaria
que fosse dessa maneira”.

Vocês ouviram falar de “porção do cesto[19]”. Existe uma donzela prestes a se
casar e seu pai diz-lhe “Aqui, minha menina, vou lhe dar, de uma vez, várias
centenas de libras. Use da melhor forma, pois é tudo o que lhe darei”. Outra
moça se casa e seu pai diz, “Te mandarei uma cesta cheia de coisas em tal dia” e
então, toda semana, um presente chega até ela. É uma cesta cheia de presentes e
está sempre vindo! Nunca chega a um fim e esta recebe uma quantia maior do
seu velho pai do que a outra recebe, aquela que recebeu sua fortuna de uma vez
só. De qualquer forma, a cesta vem, todas as vezes “com o amor de seu pai”. Se
isto fosse dado uma vez só e com um sentimento, talvez, ruim, a inimizade
poderia surgir. Mas se isto vem “com o amor de seu pai”, 50 ou 100 vezes por
ano, olhe como a afeição aumentaria entre pai e filha! Dê-me a “porção do
cesto”!

Você que gostaria de ir e pegar maná suficiente para uma semana – irá criar
cheiro antes do fim da semana! Eu gosto de ter o meu maná fresco todos os dias,
assim como vem aquecido dos fornos do Céu e pronto para o apetite celestial
daquele que aprende a viver das dádivas diárias de Deus! Por isso, todo aquele
que é santo orará a Deus. Ele terá problemas para levar, ele terá a Graça para o
chamar, ele terá pesos para o elevarem e estes pesos serão tão ajustados que em
vez de ameaçar colocar o homem para baixo, eles irão, na verdade, levantá-lo!

Mais uma vez, penso que, falando amplamente, as palavras “Por isso”, aqui
significam “Porque Deus escuta as orações, por isso, todo aquele que é santo
orará a Ele”. Agora, queridos amigos, sempre existirá uma disputa entre o
verdadeiro crente e o mero professor sobre o assunto de Deus escutar orações. É
obvio que o mundo irá sempre zombar à ideia de Deus ouvindo orações! Um
homem disse uma vez para mim, “Você diz que Deus escuta suas orações?”.
“Sim, eu digo isso”. Disse ele: “Eu não acredito nisso”. “Não,” eu disse, “eu
nunca disse que você acreditava nisso. E se você tivesse acreditado, eu pensaria
que havia ocorrido um engano! Não espero que uma mente carnal receba a
Verdade de Deus”. “Ó,” ele disse, “não existe tal coisa como oração!”. Então lhe
perguntei, “Você já orou, meu amigo? Você alguma vez já orou a Deus?” Não,
ele nunca tinha orado. “Muito bem, então,” eu disse, “não fale nada sobre aquilo
que você não conhece! Se você não sabe nada sobre oração, guarde sua língua
até que você saiba – e deixe que aqueles de nós que a experimentam falem do
que nós conhecemos”.

Se eu fosse colocado na cadeira de testemunhas amanhã, qualquer advogado em
Londres gostaria de me ter como testemunha. Então, quando eu me levanto aqui
e declaro solenemente que centenas e mesmo milhares de vezes Deus respondeu
às minhas orações, imploro que seja aceito como uma testemunha honesta como
se fosse colocado na mais alta corte de justiça. E eu posso levar adiante, não eu
mesmo, somente, mas muitos e centenas de vocês! Irmãos, me digam, Deus ouve
orações? [Vozes da igreja: “Sim! Sim”]. Eu sei que Ele o faz e vocês, povo
santo, podem testemunhar disso também! Calmamente e deliberadamente, vocês
poderiam me contar de tantas vezes nas quais vocês clamaram ao Senhor e Ele
lhes respondeu. Eu desprezo argumentar neste quesito, pois não é algo que
deveria ser discutido. Se um homem diz que eu não tenho nenhum dos meus dois
olhos, mesmo ele falando isso, meus olhos piscariam enquanto eu o escutasse. E
se qualquer um falar, “Deus não ouve orações”, eu sinto muito pela pobre alma
que faz uma afirmativa sobre algo que ela nunca testou ou experimentou!

Deus ouve orações e porque Ele as escuta, nós iremos clamar a Ele enquanto
tivermos vida! “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti” – porque existe
realidade nisto e também gera um resultado abençoado! A oração move o braço
que move o mundo, apesar de que nada é posto fora do seu devido lugar por
nossa oração. O Deus que ordenou os efeitos que seguem as orações, ordenou
que as próprias orações fossem feitas – é uma parte do grande maquinário pelo
qual o mundo gira em seus eixos!

III. Não tenho mais tempo para falar sobre aquela parte de meu discurso,
apesar de que exista muito mais a ser dito. O último ponto é um no qual gostaria
de chamar sua mais séria atenção – isto é, A OCASIÃO ESPECIAL ONDE
ORAÇÃO É MAIS EFICIENTE. “Por isso, todo aquele que é santo orará a Ti,
a tempo de Te poder achar”. Existe algum momento determinado onde Deus
pode ser achado?

Bem, em geral, é no momento desta vida mortal. Enquanto você estiver vivo,
aqui, e orar a Deus, Ele tem prometido responder sua oração. Mesmo que seja a
última hora, nem hesite em orar! As palavras de Cristo são, “Aquele que buscar,
achará”. Existe uma promessa especial para aqueles que buscam ao Senhor bem
cedo, mas isso não exclui aqueles que O buscam tardiamente. Se você
verdadeiramente O procura, Ele irá ser achado por você.

Penso, também, que o tempo de achar está debaixo desta dispensação do
Evangelho. Deus sempre escutou orações, mas parece existir uma maior
liberdade fornecida a nós em oração, agora. O Trono da Misericórdia está
descoberto e o véu está partido ao meio para que nós possamos vir com santa
ousadia. Mas, além disso, existem tempos especiais para encontrar a Deus, isto
é, nas visitações de Seu Espírito. Tempos de avivamento são grandes tempos de
oração! Quantos são aqueles que são colocados em harmonia com Deus porque
se sentiram movidos a isso por um impulso celestial! Existe “um ruído de
marcha pelas copas das amoreiras” (1 Cr 14:15), assim como houve com Davi, e
eles começam a se agitar.

Concluindo, permanecerei somente neste único ponto – existem momentos
especiais para o encontro e um desses é o momento onde o pecado é
encontrado. Volte para a tradução que lhe dei anteriormente. O momento
quando você encontra seu pecado é o momento em que você encontrará Deus.
“Por que”, você diz, “é uma coisa horrível para mim o fato de encontrar meus
pecados”. Sim, é, em si mesmo, mas é o melhor momento para se encontrar
Deus! Quando seus olhos estão cegos com as lágrimas do quebrantamento, você
pode olhar melhor para o Salvador. Não diga, “Eu me encontro tão culpado e,
por isso, não tenho esperanças”. Não, em vez disso, porque você se achou tão
culpado, por isso mesmo, tenha esperança, pois o Salvador veio buscar e salvar
tais pecadores como você é! O momento, eu digo, quando o pecado nos
encontra, e quando estamos humilhados e envergonhados, é o tempo em que nós
podemos encontrar nosso Deus através de Jesus Cristo.

Dessa forma, também, o tempo de decisão é um tempo para encontrar Deus.
Alguns permanecem indecisos – eles não decidiram se irão viver para o mundo e
perecer, ou buscar a Cristo e viver eternamente. Mas quando o Espírito de Deus
vem sobre você e você diz a si mesmo, “Eu devo encontrar Jesus Cristo, eu devo
buscar perdão e tomar posse da vida eterna. Dê-me Cristo, ou eu morrerei”, você
poderá tê-Lo! Deus prometeu que se nós O buscarmos de todo nosso coração,
Ele será encontrado por nós. Quando você está decidido por Deus
completamente e intensamente, este será para você um momento de encontro
com Ele.

Assim será quando você vir até Deus em total submissão. Alguns de vocês ainda
não abaixaram suas armas de rebelião. Vocês não podem se reconciliar com
Deus enquanto sua espada ainda está em sua mão – abaixe isto, homem! Alguns
de vocês têm finas penas em seus capacetes e vocês vêm até Deus como grandes
capitães – tirem essas penas! Ele irá te aceitar em trapos, mas não em belas
roupas! Ele irá te receber se você vier confessando seu pecado, mas não se
vangloriando de seus supostos méritos. Abaixe-se ao próprio pó! Se renda a
Deus! Ó, que Sua misericórdia faça a todos nós flexíveis como o salgueiro diante
de Seu Majestoso Poder! Então assim teremos paz com Cristo.

Acredito que é um tempo de encontro quando você vem a se concentrar. Tenho
conhecido homes, às vezes, que dizem com santa determinação, “Estou resoluto
que encontrarei Cristo. Encontrarei salvação e tudo pode acabar-se até que eu
encontre salvação. Subirei para meu quarto, fecharei a porta e só sairei de novo,
quando houver encontrado o Senhor”. Quando toda alma é dobrada para
encontrar Cristo, então o Senhor aparecerá rapidamente, e este será um tempo de
encontro com Ele!

Mas, especialmente, é um tempo de encontro quando o coração, enfim, confia
completamente e implicitamente ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo. Você descobrirá que Deus te encontrou quando você estiver acabado
consigo mesmo e tomado o sangue e a justiça de Cristo para ser a única
esperança de sua alma! Deus os guie a isso, queridos ouvintes, neste exato
momento!

Sei que existem alguns de vocês que estão buscando o Senhor. Existem alguns
que ultimamente começaram a se encontrar com grande ansiedade. Espero que
você não demore neste estado ansioso, mas que você o ultrapasse por confiar-se
em Cristo! É um fim maravilhoso para a ansiedade quando você tem Alguém
para confiar e quando sua confiança está em Alguém. Agora, confie em Jesus!
Ele irá salvar-te! Sim, Ele te salva no mesmo momento em que você crer Nele, e
Ele nunca te deixará ir, mas irá te trazer para Sua Alta Glória!
OS DOIS GUARDAS: ORAR E VIGIAR

Pregado em Julho de 1890

“Porém nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda
contra eles, de dia e de noite, por causa deles.”
Neemias 4:9

Neemias e os judeus estavam reconstruindo os muros de Jerusalém.
Sambalate e outros estavam furiosos com eles e tentaram parar o seu trabalho.
Eles determinaram a se aproximar do povo e de repente os assassinar – e assim
colocar um fim naquilo que eles estavam fazendo. Nosso texto nos diz o que
Neemias e seus companheiros fizeram nesta emergência – “Porém nós oramos
ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite, por causa
deles”.
Estas pessoas teriam não só que construir os muros de Jerusalém, mas
vigiar contra os seus inimigos ao mesmo tempo. O caso deles é o mesmo do
nosso. Nós temos que trabalhar para Cristo. Espero que todos nós que O amamos
estejamos fazendo tudo o que podemos para construir Seu Reino – mas nós
também necessitamos vigiar contra nossos inimigos mortais. Se eles podem nos
destruir, claro que eles também destruirão nosso trabalho. Eles irão fazer os dois
se for possível. Os poderes do mal estão furiosos contra o povo de Deus. Se eles
podem, de alguma maneira, nos injuriar ou nos importunar, você pode ter certeza
que eles o farão. Eles não irão deixar nenhuma pedra desvirada se isto puder
servir ao seu propósito. Nenhuma flecha sobrará nas aljavas do inferno enquanto
existirem homens e mulheres santos os quais puderem ser atingidos. Satanás e
seus aliados mirarão aos nossos corações todos os dardos envenenados que eles
tiverem.
Neemias foi avisado do ataque que estava para ser realizado à cidade.
Os judeus que viviam perto dos samaritanos escutaram sua conversa sobre o que
eles pretendiam fazer e forma contar a Neemias os planos de seus adversários.
Nós também somos avisados. Como nosso Senhor disse a Pedro: “Simão, Simão,
eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo” (Lc 22:31), da mesma
forma, Ele, em Sua Palavra, nos disse que existe um grande e terrível poder
maléfico que está buscando nossa destruição. Se Satanás puder assim fazer, ele
não vai somente nos cirandar como trigo, mas irá nos lançar ao fogo para que
sejamos destruídos. Irmãos, “não ignoramos os seus ardís” (2 Co 2:11). Vocês
não são deixados em um paraíso de tolos para sonhar com a segurança das
tribulações e sonhar ter o luxo de estar fora de tentações.
Era bem conhecido para estas pessoas, também, que estando em perigo
e alertados sobre a malícia de seus inimigos, que eles tinham um nobre líder para
estimulá-los ao caminho certo a ser seguido. Neemias estava bem qualificado
para esta obra. Ele deu aos judeus conselhos muito astutos, sensíveis e espirituais
– e isto foi uma grande ajuda para eles na hora da necessidade. Amados, nós
temos um Líder melhor que Neemias. Nós temos nosso Senhor Jesus Cristo e
nós temos Seu Espírito Santo que habita em nós e que permanecerá dentro de
nós. Imploro que você escute ao Seu sábio e bom conselho. Penso que Ele o dará
à medida que continuamos com a explicação do texto. Ele dirá a você o que
Neemias, de fato, disse a aquelas pessoas – Orem e vigiem. Mesmo que os
adversários dos judeus conspirassem juntos – e viessem lutar contra Jerusalém e
impedir o trabalho de reconstrução dos muros – Neemias diz, “Porém nós
oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite, por
causa deles”.

No texto, vejo dois guardas. Primeiro, a oração – “nós oramos ao
nosso Deus”. O segundo guarda é a vigia – “pusemos uma guarda”. Quando eu
houver falado desses dois assuntos, deverei pegar, como meu terceiro tópico, os
dois guardas juntos. “Nós oramos e pusemos uma guarda”. Nós devemos ter os
dois se quisermos derrotar o inimigo.

I. Primeiro então, caros amigos, pensem no PRIMEIRO
GUARDA – “nós oramos ao nosso Deus”.
Falando desta oração, eu a tomaria como padrão para nossas orações
quando estivermos em condições semelhantes. Foi uma oração que pretendia
um objetivo. Algumas quando nós oramos, temo que não estejamos transferindo
um objetivo ao Trono da Graça. Mas Neemias era tão prático em sua oração
quanto era em sua vigília. Alguns irmãos vêm para nossas reuniões de oração e
dizem coisas muito boas – mas o que eles realmente buscam, eu realmente não
sei. Tenho ouvido orações às quais tenho dito, quando elas são terminadas,
“Bem, se Deus responder essa oração, eu não faço a mínima ideia do que Ele nos
dará”. Era uma oração muito bonita e nela havia uma grande quantidade de
explicação doutrinária e de experiência, mas eu não creio que Deus precisa que
Lhe sejam explicadas doutrinas ou experiências. A falha nessa oração era que
nada foi pedido nela. Gosto quando irmãos estão orando como se eles tivessem
um objetivo assim como um carpinteiro quando está trabalhando. Não há
necessidade de usar um martelo de marfim se você não deseja acertar a cabeça
do prego. E se este é seu objetivo, um martelo comum o fará tão bem quanto um
maravilhoso martelo – talvez o faça até melhor. Bem, as orações de Neemias e
dos judeus eram petições para proteção divina. Eles sabiam o que queria e eles
pediram por isso de forma completa. Ó, por mais orações definidas! Temo que
nossas orações sejam, frequentemente, nuvens e que nós recebemos névoas por
respostas. A oração de Neemias tinha objetivos. Desejaria que nós pudéssemos
sempre orar desta maneira. Quando eu oro, gosto de ir a Deus da mesma forma
como vou a um banqueiro quanto preciso sacar um cheque. Entro, coloco o
cheque sobre a mesa, o balconista me dá o dinheiro e eu sigo para minhas
tarefas. Não sei se já parei em um banco cinco minutos para conversar com o
balconista – assim que recebo minha quantia, vou embora cuidar de outras
coisas. Assim é como gosto de orar. Mas existe uma forma de oração que parece
ser como se estivesse se espreguiçando perto do Trono da Misericórdia, como se
este alguém não tivesse nenhuma razão em especial de estar ali. Que não seja
assim com vocês, irmãos. Apele para a promessa, creia nela, receba as bênçãos
que o Bendito Deus está desejoso de lhe dar, e continue sua obra. A oração de
Neemias e de seus companheiros tinha um objetivo.
No próximo lugar, era uma oração que superava dificuldades. O texto
começa com a seguinte palavra, “Porém”. Se observarmos bem, quando certas
coisas acontecem, nós oramos muito pouco. Quando, pelo contrário, deveríamos
clamar ao nosso Senhor o máximo que pudermos. Sambalate zombava, porém
nós oramos ao máximo por suas zombarias. Tobias pronunciou um escárnio
cortante, porém nós oramos ao máximo por seus gracejos. Se homens fazem
piada de sua religião, ore mais ainda. Se eles se tornam violentos e cruéis, ore
mais ainda. Nada a menos, nem uma palavra a menos, nem uma sílaba a menos,
nem um desejo a menos, nem um pouco de fé a menos. Quais são suas
dificuldades, querido amigo, em vir ao Trono da Misericórdia? Quais
impedimentos estão em seu caminho? Não deixe que nada obstrua sua
aproximação ao Trono da Graça. Torne todas as pedras de tropeço em pedras de
apoio e venha, com coragem santa, e ore, não importando toda oposição. “Porém
nós oramos ao nosso Deus”. A oração de Neemias buscava objetivos e superava
dificuldades.
Note, em seguida, que era uma oração que foi feita antes de qualquer
outra coisa. O texto não fala que Neemias pôs uma guarda e depois orou, mas,
“nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda”. A oração deve ser o cavalo
dianteiro de um grupo. Faça o que quer que seja sábio, mas só depois que você
tiver orado. Vá ao médico se você está doente, mas primeiro ore. Tome o
remédio se você acredita que vai lhe fazer bem, mas primeiro ore. Vá falar com
o homem que lhe caluniou, se você acha que deve fazê-lo, mas primeiro ore.
“Bem, eu farei isto e aquilo”, diz um, “e depois orarei para uma bênção para
meus objetivos”. Não comece nada até que você tenha orado. Comece, continue
e termine tudo com oração, mas especialmente comece com oração. Algumas
pessoas nunca começam o que irão fazer se tivessem orado primeiro, pois elas
não poderiam para Deus abençoar tal ação. Há alguém neste tabernáculo que ao
sair daqui irá a um lugar ao qual não deveria ir? Será que este alguém irá orar
primeiro? Ele sabe que não pedir uma bênção, pois ele sabe o mau lugar onde
estará indo. Não vá a nenhum lugar onde você não pode ir depois de orar; isto
seria um bom guia em sua escolha de lugares para ir. Neemias primeiro orou e
depois vigiou.
Mais uma vez, foi uma oração que teve continuidade. Se nós lermos a
passagem corretamente, “Porém nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma
guarda contra eles, de dia e de noite”, isso significa que à medida que eles
vigiavam, eles oravam. Eles não oraram e então a abandonaram e foram embora,
como garotos teimosos fazem quando saem para tocar campainhas e correr.
Tendo começado a orar, eles continuaram orando. Enquanto houvesse inimigos
ao redor, a oração e a guarda nunca pararam. Eles continuaram clamando a
Aquele que guarda Israel enquanto colocavam os guardas para adverti-los dos
inimigos.
Quando nós devemos largar a oração, irmãos e irmãs? Bem, dizem que
nós devemos fazer isso quando chegarmos ao Céu. Não estou certo disso. Não
acredito que os santos já mortos fazem intercessões por nós, mas lembro-me do
que está escrito no livro de Apocalipse, de que as almas debaixo do altar
clamavam, “Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador” (Ap 6:10). As almas
estavam esperando pela Ressurreição, esperando pela vinda de Cristo, esperando
pelo triunfo de Seu Reino, e não consigo imaginar a sua espera lá sem um
clamor frequente “Até quando, ó Senhor? Lembre-se do Seu Filho, glorifique
Seu Nome, complete o número dos Seus eleitos”. Mas certamente, enquanto nós
estivermos aqui, devemos orar. Uma senhorita, que dizia que já fazia tempo que
ela alcançara a perfeição, disse que sua mente estava em tão completa
conformidade com a mente de Deus que ela não precisava mais orar. Pobre
criatura! O que ela sabe da verdade? Ele precisava primeiramente começar no
ABC da salvação e orar, “Deus, tem misericórdia de mim, uma pecadora!”.
Quando as pessoas pensam que não precisam orar, que o Senhor tenha
misericórdia delas! –
“Enquanto eles viverem, os cristãos devem orar,
Pois somente enquanto oram é que eles podem viver”
A oração que Neemias ofereceu era, em seguida, uma oração caseira.
Podem existir alguns de vocês que gostam de orações já feitas e pode ser que, se
toda a congregação se unir na súplica e toda voz falar ao mesmo tempo, a oração
deve ser preparada como um hino. Mas orações pré-prontas sempre me parecem
como roupas pré-prontas – elas são feitas para servir em todo mundo e é muito
raro que sirva para alguma pessoa. Para um objetivo real ao Trono da
Misericórdia, dê-me uma oração feita em casa, uma oração que vem das
profundezas do coração, não porque eu a inventei, mas porque Deus o Espírito
Santo colocou lá e a deu uma força vivente tão forte que eu não podia impedir
que ela saísse. Mesmo que suas palavras sejam quebradas e que suas frases
sejam desconexas, se seus desejos são sinceros, se eles são como carvões,
queimando com uma chama violenta, Deus não se importará como você se
expressa. Se você não tem palavras talvez ore melhor sem elas. Existem orações
que quebram as costas das palavras – elas são muito pesadas para que qualquer
linguagem humana consiga carregar.
Esta oração, então, qualquer que tenha sido em relação às suas palavras,
foi uma que os homens fizeram – “nós oramos ao nosso Deus”.
É muito importante notar que era uma oração que se direcionou para A
Casa da Oração (isto é, o Céu. N.E.) – “nós oramos ao nosso Deus”. Vocês
ouviram falar do homem que orou em Boston, “o centro do universo”, e a notícia
no jornal do dia seguinte foi, “O Reverendo Fulano orou a mais excelente oração
que já foi dirigida à audiência de Boston”. Temo que existam orações desse tipo
que são oradas para a congregação. Este não é o tipo de oração que Deus ama.
Esqueça que existe alguém presente. Esqueça que o ouvido humano está
escutando ao seu sotaque e deixe que seja dito da sua oração, “Porém nós
oramos ao nosso Deus”.
É algo muito comum lembrar que a oração deve ir a Deus se existir
alguma utilidade nela, mas isto é algo necessário de se fazer. Quando a oração
não vai a Deus, qual é o bem nela? Quando você sai de seu quarto e sente que
você somente desempenhou uma forma exterior, quão beneficiado é você? Faça
suas orações a Deus. Fale em seu ouvido, sabendo que Ele está lá, e saia sabendo
que Ele te respondeu, que Ele levantou a luz de Seu semblante sobre você. Este é
o tipo de oração que nós precisamos para nossa proteção contra os inimigos
tanto de dia quanto de noite.
Somente mais uma vez sobre este ponto, entendo pelas palavras que são
colocadas diante de mim que foi uma oração saturada de fé. “Nós fizemos nossa
oração a Deus?” Não, o texto diz, “ao nosso Deus”. Eles tomaram Jeová como
seu Deus e oraram a Ele como seu Deus. Eles tinham uma segurança completa
que, apesar de Ele ser o Deus de toda a terra, mesmo assim, Ele era
especialmente o Deus deles – e então eles fizeram sua oração ao Deus que havia
Se dado a eles e ao qual eles pertenciam pelo relacionamento da promessa. “Nós
oramos ao nosso Deus”. Essas duas palavras parecem carregar um vasto peso de
significado. A porta da oração parece se virar nessas duas dobradiças douradas –
“nosso Deus”. Se você e eu seremos livres do mal que está no mundo – se nós
seremos guardados enquanto construímos a Igreja de Deus – nós devemos ter
nossa primeira guarda poderosa, a oração confiante, tal qual a de Neemias e de
seus companheiros judeus apresentaram ao Senhor.

II. Agora devo falar-lhe sobre O SEGUNDO GUARDA –
“Pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite, por causa deles”.
A colocação da guarda foi um trabalho determinado. “Pusemos uma
guarda”. Neemias não disse, “Agora, alguns de vocês vão e vigiem”, deixando o
posto de vigia para qualquer um que quisesse o adquirir, mas eles puseram “uma
guarda”. Um certo número de homens tinham que ficar de plantão em um
determinado lugar, em uma determinada hora, permanecer uma certa quantia de
tempo e ficar de guarda contra o adversário. “Pusemos uma guarda”. Irmãos, se
nós formos vigiar a nós mesmos – e nós devemos fazer isso – nós devemos fazer
isso com um propósito definido. Nós não devemos dizer, “Eu devo tentar
vigiar”. Não, não. Você deve vigiar e sua guarda deve ser um ato tão distinto e
definido como sua oração. “Pusemos uma guarda”. Alguns de vocês já viram
soldados trocar a guarda no quartel – existe um momento especial para cada
companhia montar a guarda. Quando você vai para cama a noite, ore ao Senhor
que o guarde durante as trevas; pela manhã, coloque uma guarda quando você
for trabalhar. Coloque uma guarda quando você for à mesa de jantar. Coloque
uma guarda quando você retornar para casa. Ó, quão rápido seremos tragados
para o mal se não pusermos uma guarda!
Foi um trabalho feito com muito cuidado, pois Neemias disse,
“pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite, por causa deles”. Essas três
últimas palavras podiam significar melhor como “contra eles”, isto é, onde quer
que exista um inimigo, ali deve haver uma guarda. É mais provável que eles
venham por esse caminho. Muito bem, coloque uma guarda lá. Talvez eles
possam mudar e vir por esse outro caminho. Justo, coloque uma guarda lá.
Possivelmente eles podem vir subir o muro neste ponto. Certo, coloque uma
guarda lá. “Pusemos uma guarda contra eles”. Um irmão tem um temperamento
muito difícil. Meu irmão, coloque uma guarda lá. Outro irmão é muito
rabugento, crítico, acha defeito na vida dos outros. Irmão, coloque uma guarda
aí. Um amigo tem a tendência ao orgulho, outro para a incredulidade. Coloque
uma guarda onde quer que o inimigo tenha mais probabilidade de vir. “Pusemos
uma guarda contra eles, de dia e de noite, por causa deles”.
Foi um trabalho contínuo. Neemias disse, “Pusemos uma guarda contra
eles, de dia e de noite”. O que?! Há alguém lá sentado durante a noite toda?
Claro que há. Se Sambalate houvesse falado sobre quando pretendia atacá-los,
eles poderiam dormir em outras horas, mas como ele não deu tal informação,
eles tiveram que pôr uma guarda “de dia e de noite”. O demônio não informou a
hora em que ele irá tentar você – ele gosta de pegar os homens de surpresa –
portanto, coloque uma guarda de dia e de noite.
Foi um trabalho estimulado pelo conhecimento. Eles sabiam que
Sambalate pode vir se ele quisesse, então eles puseram uma guarda. Quanto mais
você souber da praga de seu próprio coração, melhor você colocará uma guarda
contra ele. Quanto mais você souber das tentações e das concupiscências do
mundo, melhor você poderá colocar uma guarda. Quanto mais velho você for,
mais deve colocar guardas. “Ó” disse um idoso amigo meu, “você não deveria
dizer isso – são os jovens que mais cometem erros”. São? No Velho Testamento
e no Novo, você sabe de algum caso de um jovem que se perdeu? A Bíblia nos
conta de muitos velhos que tropeçaram por ação de Satanás quando eles não
estavam vigiando. Então você deve colocar uma guarda até mesmo quando seus
cabelos ficarem grisalhos, para que você não seja atingido pelo demônio até que
tenha passado pelos portões de pérolas até as ruas de ouro da Nova Jerusalém.
Você e eu, caros amigos, temos a necessidade de colocar guarda contra os
inimigos da santa fé. Algumas pessoas me perguntam, “Porque você fala tanto
sobre o declínio do Cristianismo? Deixe que os homens acreditem no que
querem. Continue com sua obra para Deus e ore a Ele que os homens encontrem
o caminho correto”. Eu creio em orar e vigiar. Nós temos que guardar com
cuidado íntimo da “fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos”.
Quando você encontrar, como acontece hoje, cristãos professos e pastores
negando cada artigo da fé, ou colocando outro significado em todas as palavras
que deveriam ser entendidas, e pregando mentiras no Nome do Altíssimo, é
chegada a hora de alguém colocar uma guarda contra eles. O cargo de um vigia
noturno não é uma profissão fácil, mas estou desejoso em tomar este posto por
amor do meu bendito Mestre. Os professos servos de Cristo que entram em uma
profana aliança com homens que negam a fé, deverão responder por isto naquele
grande último dia. Quanto a nós, irmãos, quando nosso Senhor vier, que Ele nos
encontre tanto vigiando quanto orando.
Mas, caros amigos, que fique claro para vocês, nós devemos colocar uma
guarda contra nossos adversários pessoais. Espero que, em certo sentido, vocês
não tenham nenhum inimigo pessoal, que você não deva rancor a ninguém, mas
que você viva em paz e ame a todos. Mas existem cristãos aqui que irão para
suas casas onde todos naquela casa são contra eles. Muitas mulheres santas saem
do santuário e vão para um marido bêbado. Muitas crianças, convertidas ao
Senhor, não veem nada de agradável em suas casas. Coloque uma guarda.
Querida mulher, você não sabe que pode ser o meio pelo qual o seu marido pode
ser salvo? Se souber disso, coloque uma guarda – não seja influenciada nem
mesmo um pouco por ele – você não vai convertê-lo assim. E vocês, queridas
crianças, que vieram a Cristo e entraram na igreja, perceba que você deve ser
respeitosa e obediente, pois de outra forma você destruirá toda a esperança de
trazer seus pais ao Salvador. Coloque uma guarda. “Ó”, você diz, “se eu cometo
um pequeno erro, eles o aumentam”. Eu sei que eles fazem isso e, por isso,
coloque uma guarda – seja mais cuidadoso. Coloque uma guarda sobre seu
temperamento, coloque uma guarda sobre sua língua, coloque uma guarda sobre
suas ações. Seja paciente, seja gentil, seja amável. Que o Espírito de Deus
trabalhe em tudo isto dentro de você.
Mas existe um outro grupo de inimigos muito mais perigosos que estes
adversários que ficam do lado de fora de nós mesmos – existem os inimigos
internos – as tendências malignas de nossa natureza corrupta, contra quem nós
sempre devemos colocar uma guarda. Talvez você diga, “Como eu posso fazer
isso?”. Bem, primeiramente, saiba que inimigos são esses. As pessoas que estão
começando na vida cristã deveriam procurar saber onde estão seus pontos fracos.
Não me admiro, caro amigo, se seu ponto fraco é que você se considera forte.
Quando você pensa, “Ó, eu nunca cometerei aquele tipo de pecado!” – este é o
local mais provável de sua queda. Coloque uma guarda onde quer que fraquezas
apareçam e se no passado você entristeceu o Espírito Santo por algum ato
errado, coloque uma guarda dupla ali. No lugar onde você tropeçou uma vez,
você pode tropeçar de novo, pois você ainda é o mesmo homem. Coloque uma
guarda também, caro amigo, onde quer que você se sinta seguro. Sempre que
você tiver certeza que não pode ser tentado em uma direção especial, isto prova
que você é tão orgulhoso quanto Lúcifer. Coloque uma guarda, coloque uma
guarda e coloque uma guarda. Evite qualquer ocasião de pecado. Se qualquer
caminho ou conduta poderia lhe dirigir ao pecado, não vá nesta direção. Ouvi
um homem falar, argumentando que não poderia beber, “Veja, se eu algum dia
tomar um copo de cerveja, parece que me perco e preciso tomar mais dois ou
três copos”. Muito bem, então se este é o seu caso, não tome nenhum copo de
cerveja. “Mas”, diz um, “se me junto com minhas velhas amizades, eu esqueço
de mim mesmo”. Então não se junte com essas pessoas. Melhor ir para o Céu
como um solitário do que ir para o inferno com uma multidão. Arranque fora o
olho direito e corte fora sua mão direita antes que estes lhe causem cometer um
pecado. Não vá para onde é provável que você seja tentado. “Certo”, diz outro,
“mas é que meu trabalho me chama para o meio da tentação”. Eu lhe garanto que
seu trabalho pode lhe levar aonde existem homens ímpios, pois como é que você
poderia viver sem ter que entrar em contato com os ímpios? – você teria que
estar fora do mundo. Bem, então, se este é o seu caso, coloque toda a armadura
de Deus e não vá despreparado para lutar o bom combate da fé. Coloque guarda,
coloque guarda e coloque guarda.
Vigie contra os inícios do pecado. Lembre-se, Satanás nunca começa no
lugar em que ele quer terminar – ele começa com um pequeno pecado e então
continua isso até chegar a um grande pecado. Quando ele primeiramente tenta os
homens, ele não atira aonde ele espera atingir – ele faz com que os homens
saiam do caminho de pouco a pouco – e ele trabalha com degraus para levar ao
grande pecado que ele quer que você cometa. Não creio que hoje em dia um
cristão seja um homem muito preciso. Nós servimos a um Deus muito preciso –
“o Senhor é um Deus zeloso”. Se distancie de muitas coisas onde outros cristãos
hoje se satisfazem. A questão é: será que eles realmente são cristãos? Se nós não
devemos julgá-los em nenhuma medida – que nós julguemos a nós mesmos e
que possamos decidir de uma vez por todas de não ir para onde eles tem ido – de
fato, que não tenhamos nenhuma vontade de ir.
Vigie para o que Deus tem a dizer a você. Na sua leitura da Bíblia, se o
Espírito Santo aplicar um texto da Escritura a você com uma força especial,
considere isto como um conselho de seu Pai Celestial que aquilo é uma lição
para você. Surpreendo-me frequentemente como o texto que leio pela manhã
geralmente me instrui pelo dia inteiro. Pessoas que veem ouvir a Palavra de
Deus ser pregada percebem que, em dois ou três dias, existe uma razão para que
o pregador tivesse pregado tal sermão – e uma razão pela qual elas foram
levadas a ouvir aquilo.
Sempre que você olhar um cristão professo se desviar do caminho da
santidade, não fale sobre isso com outros para não aumentar o pecado. “Um
pouco de fermento leveda a massa toda”. Em vez de falar sobre a queda de
outro, coloque uma guarda em você mesmo e diga, “Ali foi onde ele caiu, e é ali
que eu vou tropeçar se a Graça de Deus não me guardar”. Lembre-se das
palavras de nosso Salvador para os três discípulos com Ele no Getsêmani,
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mt 26:41).

III. Termino por colocar OS DOIS GUARDAS JUNTOS. “nós
oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles”.
Queridos amigos, nenhum desses dois guardas é suficiente por si mesmo.
Somente a oração não terá sucesso. Orar e não vigiar é arrogância. Você finge
confiar em Deus, mas continua se atirando no perigo, como o demônio queria
que Cristo fizesse, quando ele O tentou a Se jogar de cima do pináculo do
templo. Se você ora para ser guardado, então mantenha a vigília.
Oração sem vigiar é hipocrisia. Um homem ora para ser guardado do
pecado e então vai e entra em tentação – sua oração é um evidente pedaço de
zombaria, pois ele não a toma e a pratica.
Algumas vezes, contudo, a ignorância pode nos levar a orar sem vigiar.
Existem outras coisas que não podem ser omitidas. Deixe-me contar uma
história simples. Havia uma pequena estudante que, frequentemente, não
conhecia suas lições. E havia outra garota que sentava perto dela, que sempre
respondia em voz alta suas lições corretamente. Suas companheiras diziam a ela,
“Jane, como você sempre sabe todas as suas lições?”. E Jane respondia, “Eu oro
a Deus que me ajude e então eu as aprendo”. No dia seguinte, a outra pequena
estudante se levantou, mas não soube dizer suas lições – e depois disso ela disse
para sua amiga, “Eu orei a Deus sobre minha lição, mas eu não sabia nada além
do que sabia ontem”. Jane disse: “Mas você tentou aprender a lição?” “Não”,
respondeu a outra, “eu orei sobre ela e pensei que isto era o suficiente”. Claro
que ela não saberia sua lição sem aprendê-la. Da mesma forma, você deve vigiar
e também orar. Deve haver uma guarda diária colocada sobre sua língua,
pensamento e mãos, ou qualquer tipo de oração será em vão.
Sei de pessoas que correm grandes riscos e ainda disse que oraram para
que o Senhor os proteja. Já ouvi, dezenas de vezes, estas palavras, “Eu entrei em
oração por isso”, e tenho me irado rapidamente com aquele que me fala essas
palavras. Ele fez algo errado e tenta se desculpar porque afirma que entrou em
oração por aquilo! Uma cristã casou com um homem mundano e quando alguém
a culpava por desobedecer a Palavra de Deus, ela falava que havia entrado em
oração pelo casamento. Se você realmente tivesse buscado aconselhamento
divino, você não teria ousado em fazer aquilo que a Escritura proíbe
expressamente de que um filho de Deus faça. Orar sem vigiar não é suficiente
para nos preservar do mal.
Por outro lado, caros amigos, vigiar sem orar é igualmente inútil. Dizer
“eu irei me corrigir”, e nunca orar a Deus para lhe guardar é autoconfiança que
levará ao mal. Se você tentar vigiar sem orar, você irá dormir e sua vigília
chegará ao fim. É somente por orar e vigiar que você será capaz de se manter em
guarda. Além disso, vigiar sem orar se torna um cansaço, e nós logo desistimos a
não ser que tenhamos o doce intervalo destinado à oração para que tenhamos
descanso e possamos ser ajudados a continuar vigiando.
Não vou me prolongar quando tiver dito isto, coloque os dois juntos.
“Vigie e Ore”, ou como o meu texto diz “Ore e Vigie”. Um ajudará o outro. A
oração irá chamar o vigia, a oração irá estimulá-lo a manter seus olhos abertos, a
oração será a comida para sustentá-lo durante a noite, a oração será o fogo para o
aquecer. Por outro lado, vigiar irá ajudar a oração, pois o vigiar mostra que a
oração é verdadeira. Vigiar provoca a oração, pois todos os inimigos que nós
olharmos nos farão orar com mais diligência. Além de que, vigiar é uma oração.
Se existe uma verdadeira vigília, a vigília em si é uma oração. Os dois se
misturam em um. Amados amigos, eu os despeço com meu texto soando em
seus ouvidos, “Porém nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra
eles, de dia e de noite”.
Mas eu não estou falando para todos que estão aqui. Alguns de vocês não
oram. Alguns de vocês não conseguem vigiar. A mensagem para você é a
seguinte, “Você deve nascer de novo”. Você não pode experimentar os deveres
cristãos até que tenha uma vida cristã, e a única forma para ter uma vida cristã é
ter fé no Senhor Jesus Cristo. Venha para a fonte a qual Ele encheu com Seu
Precioso Sangue. Lave-se lá e seja limpo. E então, impulsionado pelo Seu
Espírito, vigie. Estou ansiando ver algumas pessoas serem trazidas a Cristo neste
culto, pois apesar de eu estar pregando para o povo de Deus, se eles vigiarem e
orarem por você, uma bênção virá até você através desta vigília e oração. Que o
Senhor permita que assim aconteça com muitos de vocês! “Buscai ao Senhor
enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.” (Is 55:6). Que muitos de
vocês busquem e achem o Senhor nesta noite – e que muitos possam clamar a
Ele verdadeiramente! “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será
salvo.” (Rm 10:13). Deus conceda que assim seja com todos aqui, no nome de
Jesus! Amém!
PEDIDO E ARGUMENTAÇÃO
Sermão pregado em 15 de Julho de 1866

“Ah, se eu soubesse onde O poderia achar! Então me
chegaria ao seu tribunal.
Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria
de argumentos.”
Jó 23:3,4

No mais extremo limite de Jó, ele clamou pelo Senhor. O desejo mais
ardente de um afligido filho de Deus é, mais uma vez, ver a face do seu Pai. Sua
primeira oração não é, “Ah, se eu pudesse ver meus filhos restaurados das presas
do túmulo, e que minha propriedade fosse trazida de volta das mãos do ímpio!”.
Não, o primeiro e mais alto clamor é, “Ah, se eu soubesse onde O poderia achar
– Aquele que é o meu Deus! Que eu pudesse chegar ao Seu tribunal!”. Os filhos
de Deus correm para casa quando a tempestade chega. É o instinto adquirido do
céu o fato de que uma alma graciosa busque abrigo de todas as suas
enfermidades debaixo das asas de Jeová. “Aquele que fez de Deus o seu
refúgio”, deve servir com o título de um verdadeiro crente. Um hipócrita,
quando sente que foi atingido por Deus, ofende-se com a aflição e, como um
escravo, foge de seu mestre que o açoitou; mas não é assim com o verdadeiro
herdeiro do Céu, ele beija a mão que o esmagou, e busca abrigo da vara no peito
do próprio Deus que se zangou com ele. Você observará que o desejo de ter
comunhão com Deus é intensificado pela falha de todas as outras formas de
consolação. Quando Jó, primeiramente, viu seus amigos à distância, ele pode ter
produzido uma esperança em seu conselho gentil e na sua sensibilidade
compassiva, em que eles poderiam reduzir o espinho de sua tristeza; mas eles
não demoraram muito falando e ele já havia chorado em amargura, “Miseráveis
consoladores são todos vocês!” (Jó 16:2 – King James). Eles colocaram sal em
suas feridas; atiraram combustível nas chamas de sua tristeza; adicionaram o fel
da sua repreensão no absinto de suas aflições. Nos raios de sol de seu sorriso,
eles já haviam se aquecido anteriormente, e agora eles ousam lançar trevas sobre
sua reputação – coisa muito desprezível e imerecida. Ai do homem cujo vinho o
engana com vinagre, e seu travesseiro zomba dele com espinhos! O patriarca deu
as costas aos seus desgostosos amigos e olhar para cima ao trono celestial, assim
como um viajante dá as costas para seu odre e se dirige com toda velocidade ao
poço. Ele se despede das esperanças terrenas e clama, “Ah, se eu soubesse onde
achar o meu Deus!”. Meus irmãos e irmãs, nada nos ensina mais da preciosidade
do Criador do que quando nós aprendemos sobre o vazio de todas as outras
coisas. Quando você for atravessado pela frase, “Maldito o homem que confia no
homem, e faz da carne o seu braço” (Jr 17:5), então irá beber indizíveis doçuras
vindas da segurança divina, “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja
confiança é o Senhor.” (Jr 17:7). Dar as costas com desprezo amargo às colmeias
terrenas, onde não se acha nenhum mel, mas sim afiados ferrões, te fará
regozijar-te Nele cuja Palavra fiel é mais doce que o mel e o favo.
Além disso, observa-se que apesar de um homem se apressar a buscar a
Deus em sua tribulação, e correr com toda velocidade por causa da falta de
gentileza de seus companheiros, ainda assim a graciosa alma é deixada sem a
confortável presença de Deus. Esta é a pior de todas as tristezas; o texto é um
dos mais profundos gemidos de Jó, mais profundo do que qualquer um que ele
teve relacionado com a perda de seus filhos e sua propriedade: “Ah, se eu
soubesse onde O poderia achar!”. A pior de todas as perdas é perder o sorriso de
Deus. Ele agora teve um antegosto da amargura do choro de seu Redentor,
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. A presença de Deus é
sempre com o Seu povo em um sentido, até onde Ele almeja sustentá-los
secretamente, mas nem sempre eles desfrutam da manifestação da Sua presença.
Como a noiva em Cantares, eles buscam o seu amado por toda a noite sobre a
cama, eles O buscam mas não O encontram; e apesar de eles acordarem e
procurarem por toda cidade, eles não O descobrirão, e a pergunta será repetida
vez após vez, “Vistes aquele a quem ama a minha alma?” (Ct 3:3). Você pode ser
um amado de Deus, e ainda assim não ter nenhuma consciência desse amor em
sua alma. Você pode ser precioso ao Seu coração como o próprio Jesus Cristo, e
mesmo assim por um pequeno momento Ele o desamparará – e em uma pequena
ira Ele pode Se esconder de você. Mas, caros amigos, em tempos assim o desejo
das almas dos crentes reúne mais intensidade do fato da luz de Deus ser retida.
Em vez de dizer com orgulhosos lábios, “Bem, se Ele me abandonar, eu seguirei
sem Ele; se eu não posso ter Sua confortável presença, eu lutarei o melhor que
puder para seguir em frente”, a alma diz, “Não, Ele é minha própria vida; eu
tenho que ter meu Deus. Vou morrer, vou afundar em profundo lamaçal onde não
há fundo, e nada a não ser o braço de Deus pode me salvar”. A alma graciosa se
direciona com um zelo dobrado para achar o seu Deus, e envia seus gemidos,
suas súplicas, seus soluços e suspiros para o Céu mais frequentemente e
fervorosamente, “Ah, se eu soubesse onde O poderia achar!”. Distância ou
trabalho são como o nada; se a alma somente soubesse para onde ir, brevemente
ela atravessaria tal distância. Ela não faz nenhum cálculo sobre montanhas ou
rios, mas, sim, votos de que se ela soubesse aonde, ela iria até o Seu trono.
Minha alma, em sua fome, quebraria muralhas de pedra, ou escalaria todos os
parapeitos do Céu para alcançar o seu Deus, e mesmo que houvesse sete infernos
entre eu e Ele, ainda assim eu enfrentaria as chamas se pudesse alcançá-Lo –
nada me assustaria se eu tivesse uma probabilidade de uma última vez em Sua
presença sentindo o prazer de Seu amor. Este, parece-me, ser estado mental no
qual Jó pronunciou estas palavras que estão diante de nós.
Mas nós não podemos parar neste ponto, pois o objeto do discurso desta
manhã nos direciona a irmos além. Parece que o objetivo de Jó, desejando a
presença de seu Deus, é que ele pudesse orar a Ele. Ele havia orado, mas ele
gostaria de orar como se estivesse na presença de Deus. Ele deseja apelar como
se estivesse diante de alguém que poderia o ouvir e ajudar. Ele ansiava expor seu
próprio caso diante do trono do Juiz Imparcial, diante da própria face do Todo
Sábio Deus; ele apelaria desde as cortes menores, onde seus amigos julgavam
um julgamento incorreto, até ao Tribunal do Rei – a mais alta Corte do Céu – lá,
disse ele, “Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de
argumentos”.
Neste último verso Jó nos ensina como ele pretendia apelar e interceder
a Deus. Ele iria, se fosse possível, revelar os segredos de sua câmara privada, e
desvendar a arte da oração. Aqui nos somos admitidos na associação dos
suplicantes; à nós é mostrada a arte e o mistério da apelação; nós somos aqui
ensinados a bendita produção artesanal e científica da oração, e se nós podemos
nos colocar como aprendizes de Jó nesta manhã, pela próxima hora, e pudermos
receber uma lição do Mestre de Jó, podemos adquirir grande habilidade na
intercessão para com Deus.
Existem duas coisas aqui apresentadas como sendo necessárias em
oração – expor nossa causa, e encher nossa boca de argumentos. Nós deveremos
falar destas duas cosias e então se nós tivermos aprendido a lição, um resultado
abençoador irá ser produzido.

I. Primeiro, É NECESSÁRIO QUE NOSSO CASO SEJA
EXPOSTO PERANTE DEUS.
Existe um entendimento vulgar de que a oração é algo muito fácil, que é
uma atividade comum que pode ser feita em qualquer lugar, sem nenhum
cuidado ou esforço. Alguns pensam que você só tem que pegar um bom livro e
passar por algumas excelentes palavras, e que você orou e já pode colocar o livro
novamente na estante. Outros supõem que usar um livro é superstição e que você
deve, em vez disso, repetir frases extemporâneas, frases que vêm a sua mente
com agitação, como um rebanho de porcos ou um bando de cães de caça, e que
quando você as repetido com alguma pequena atenção para o que elas dizem,
você já orou. Bem, nenhum desses modos de oração foi adotado pelos antigos
santos. Eles parecem ter tido um pensamento muito mais sério sobre oração que
muito hoje em dia. Parece que era algo muito poderoso para eles, um exercício
longamente praticado no qual alguns deles ganharam grande eminência, e eram,
portanto, singularmente felizes. Eles ceifavam grandes colheitas no campo da
oração, e descobriram que o Trono da Misericórdia era uma mina de tesouros
inconcebíveis.
Os santos antigos eram acostumados, como Jó, a expor suas causas
perante Deus; isto é, como um suplicante que ao entrar na Corte não vem
despreparado para expor seu caso no impulso do momento, mas que entra na
câmara de audiências com sua causa bem preparada, tendo, além disso,
aprendido como ele deve se comportar na presença do Grande ao qual ele estaria
apelando. É correto se aproximar do Trono do Rei dos reis com máximo possível
de meditação prévia e preparação, sabendo tudo o que nós podemos saber, onde
nos posicionarmos, e o que é aquilo que desejamos obter. Em tempos de perigo e
tribulação, devemos ir a Deus justamente como estamos, como pombas entram
nas fendas das rochas, mesmo que suas plumas estejam amarrotadas; mas em
tempos comuns nós não deveríamos vir com um espírito despreparado, da
mesma forma que uma criança não vem até o seu pai de manhã sem ter lavado
seu rosto. Veja aquele sacerdote, ele tem um sacrifício a oferecer, mas ele não se
apressa a entrar na corte dos sacerdotes e parte o bezerro com o primeiro
machado que ele consegue pôr nas mãos, mas quando ele se levanta, ele lava
seus pés na pia de bronze, coloca suas vestes e se adorna com suas vestes
sacerdotais – então ele vem ao altar com sua vítima devidamente dividida de
acordo com a lei de Deus, e é cuidadoso a realizar tudo de acordo com o
mandamento, até mesmo ao simples local de onde colocar a gordura, o fígado e
os rins, ele tira o sangue em uma tigela e o derrama no local apropriado ao pé do
altar, não derramando como ele quiser, e nem fazendo o fogo com chama
comum, mas com o fogo sagrado do altar. Hoje este ritual foi completamente
substituído, mas a verdade que este ensina continua a mesma; nossos sacrifícios
espirituais devem ser oferecidos com um cuidado santo. Deus nos proíba de que
nossas orações sejam somente um pular da cama para os joelhos e um dizer de
qualquer coisa que venha à nós; pelo contrário, que nós dependamos do Senhor
com temor santo e sagrada reverência. Veja como Davi orou quando Deus o
abençoara – ele foi diante do Senhor. Entenda que; ele não ficou do lado de fora
à uma distância, mas quando ele foi diante do Senhor e se sentou – pois sentar-se
não é uma má postura para oração (isto é para aqueles que falam contra isto) – e
sentando-se calmamente e com quietude diante do Senhor, ele, então, começou a
orar, mas não antes que houvesse pensado sobre a bondade divina e assim
adquirira o espírito de oração. E então, pela ajuda do Espírito Santo, ele abriu
sua boca.
Ó que nós mais frequentemente buscássemos ao Senhor dessa maneira!
Abraão pode nos servir de um padrão. Ele se levantou cedo – aqui está sua
vontade; foi em uma jornada de três dias – aqui está seu zelo; deixou seus servos
ao pé do monte – aqui está sua privacidade; carregou a madeira e o fogo consigo
– aqui está sua preparação; e, por último, ele construiu o altar o deitou a lenha
organizadamente e então pegou a faca – aqui está o cuidado devoto de sua
adoração. Davi coloca desta maneira, “Pela manhã ouvirás a minha voz, ó
Senhor; pela manhã apresentarei a ti a minha oração, e vigiarei” (Sl 5:3), o que
expliquei frequentemente para vocês que significa que ele organizava seus
pensamentos como um homem de guerra, ou que ele mirava suas orações como
flechas. Ele não pegava a flecha, colocava na corda e atirava, atirava e atirava
para qualquer lugar; mas depois que ele havia pegado a seta escolhida e a
colocado na corda, ele mirava cuidadosamente. Ele olhava – olhava bem – para
o centro do alvo; mantinha seus olhos fixos nele, direcionando suas orações, e
então puxava seu arco com toda sua força e deixava a flecha voar; e então,
quando a seta saía de suas mãos, o que ele diz? “Vigiarei”. Ele vigiava para ver
aonde a flecha iria, para ver o efeito que esta causou; pois ele esperava uma
resposta às suas orações, e não é como muitos que mal pensam em suas orações
depois que eles as pronunciaram. Davi sabia que ele tinha um compromisso
diante de si que requeria todos os seus poderes mentais; ele organizava suas
faculdades e ia para o serviço de uma maneira bem determinada, como um que
acreditava naquilo e que desejava ter sucesso. Nós devemos arar e orar
cuidadosamente. Quanto melhor o trabalho, mais atenção este merece. Ser
ansioso no mercado e de mente vazia no quarto de oração é um pouco menos
que blasfêmia, pois é uma insinuação de que qualquer coisa serve para Deus,
mas que o mundo merece o nosso melhor.
Se alguém perguntar que ordem deve ser observada na oração, não irei
dar-lhe um esquema como muitos já desenharam, no qual adoração, confissão,
petição, intercessão e imputação são colocadas em sucessão. Não estou
convencido de que qualquer ordem é de alguma autoridade divina. Não é de
ordem mecânica que estou me referindo, pois nossas orações serão igualmente
aceitas, e talvez igualmente adequadas, em qualquer ordem; pois existem tipos
de orações, de todas as formas, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A
verdadeira ordem espiritual das orações parece-me consistir em algo mais do que
mero arranjo. É mais adequado para nós sentirmos que estamos fazendo algo que
é verdadeiro; que nós estamos prestes a nos dirigir a Deus, O qual não podemos
ver, mas que está verdadeiramente presente; a quem nós não podemos tocar ou
ouvir, e nem nossos sentidos podem perceber, mas a quem, apesar de tudo, está
verdadeiramente conosco como se nós estivéssemos falando para um amigo de
carne e osso como nós. Sentindo a realidade da presença de Deus, nossa mente
será levada pela Divina Graça para um estado humilde; nós devemos sentir como
Abraão, quando ele disse, “Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que
sou pó e cinza” (Gn 18:27). Consequentemente nós não devemos fazer nossas
orações como meninos repetindo suas lições, como uma mera questão de rito,
muito menos devemos falar como se fôssemos coelhos ensinando seus filhotes,
ou como ouvi alguns fazerem, com a grosseria de um ladrão de estradas que
captura pessoas e exige que entreguem suas bolsas; mas nós devemos ser
humildes, porém suplicantes corajosos, humildemente importunando e pedindo
misericórdia através do sangue do Salvador. Não devemos ter a restrição de um
escravo, mas a amável reverência de um filho, contudo não um filho imprudente
e impertinente, mas um filho ensinável e obediente, honrando seu Pai, e portanto
pedindo seriamente, mas com a submissão devida à vontade de seu Pai. Quando
sinto que estou na presença de Deus, e tomo uma posição correta naquela
presença, a próxima coisa que desejo reconhecer é que não tenho nenhum direito
de ter aquilo que estou buscando, e não posso esperar obter nada que não seja
um presente da Divina Graça, e devo lembrar que Deus determina o canal pelo
qual Ele me dará misericórdia – Ele me dará isto através de Seu querido Filho, e
somente através de Seu Filho, Jesus Cristo. Deixo-me colocar, então, debaixo do
auxílio do grande Redentor; deixo-me sentir que agora não sou eu quem falo,
mas Cristo que fala comigo, e enquanto eu apelo, eu apelo a Suas Feridas, Sua
Vida, Sua Morte, Seu Sangue – por Ele todo. Isto é verdadeira organização.
A próxima coisa a ser considerada é sobre o que estou prestes a pedir. É
mais adequado na oração, almejar grande clareza na súplica. Existe muita razão
para reclamar de algumas orações públicas, pois aqueles que fazem essas
orações, na verdade, acabam não pedindo nada a Deus. Devo reconhecer que
temo que eu mesmo já tenha orado assim, e certamente que já ouvi muitas
orações deste tipo, nas quais eu não sinto que algo tenha sido buscado em Deus –
uma grande quantidade de excelentíssima doutrina e grande experiência foram
faladas, mas pouca petição verdadeira, e este pouco dentro de um estado de
mente nebuloso, caótico e informe. Mas, parece-me, que a oração deve ser clara,
deve ser definido e claro aquilo que é pedido, pois a mente reconheceu sua
necessidade nítida de tal coisa, e, portanto, deve ser pedido aquilo. Não é bom
ficar dando voltas na oração, mas vir diretamente ao ponto. Gosto daquela
oração de Abraão, “Quem dera que viva Ismael diante de teu rosto!” (Gn 17:18).
Ali está o nome da pessoa que foi orada, e a bênção desejada, tudo colocado em
poucas palavras – “Que viva Ismael diante do teu rosto!”. Muitas pessoas teriam
usado expressões indiretas deste tipo, “Ó, que nossa maravilhosa prole seja
considerada como favor com que Tu guardas para aqueles que...” etc. Diga
“Ismael”, se você quiser dizer Ismael. Coloque em palavras simples perante o
Senhor. Algumas pessoas não conseguem nem orar pelo pastor sem usar tais
descrições circulares que fazem você pensar que elas foram direcionadas ao
zelador da igreja, ou alguém que a oração não mencionou particularmente. Por
que não ser claro, e dizer o que nós desejamos e também desejar o que dizemos?
Expor nossa causa nos traria a uma grande clareza de mente. Não é necessário,
meus queridos irmãos e irmãs, no seu quarto em privado, pedir por toda coisa
supostamente boa; não é necessário repassar o catálogo de todas as necessidades
que você tem, que teve, que pode ter ou que terá. Peça pelo que você precisa
agora, e, como uma regra, mantenha isso as suas necessidades presentes; peça
por seu pão de cada dia – o que você precisa agora – peça por isto. Peça
claramente, como se estivesse diante de Deus, que não liga para suas expressões
rebuscadas, e para quem sua eloquência e oratória serão menos do que nada e só
vaidade. Você está diante do Senhor; deixe que suas palavras sejam poucas, mas
que seu coração seja fervoroso.
Você não vai quase não terá completado a oração enquanto você não
tiver pedido o que necessita através de Jesus Cristo. Deveria haver uma
percepção sobre a bênção que você deseja, para ver se é algo adequado a se
pedir; pois algumas orações não seriam feitas se os homens ao menos
pensassem. Uma pequena reflexão nos mostraria que algumas coisas que nós
desejamos deveriam ser deixadas de lado. Nós podemos, além disso, ter um
motivo no fundo de nossos desejos que não é de acordo com Cristo – um motivo
egoísta que se esquece da Glória de Deus, e que liga somente para nosso caso e
conforto. Agora, apesar de que peçamos coisas que são para nosso benefício,
ainda assim não podemos nunca deixar que nosso benefício interfira de nenhuma
forma com a Glória de Deus. Deve haver misturado com a oração aceitável o
santo sal da submissão à vontade divina. Gosto do ditado de Lutero, “Senhor,
terei minha vontade dada pelo Senhor neste momento”. “O que?”, você
pergunta, “Você gosta de uma expressão como esta?”. Sim, gosto, por causa da
próxima cláusula, a saber, “Terei a minha vontade, pois a minha vontade é a
Sua vontade”. Bem dito, Lutero! Mas sem estas últimas palavras seria uma
presunção ímpia. Quando estamos certos de que o que pedimos é para a Glória
de Deus, então, se nós temos poder em oração, nós poderemos dizer, “Não Te
deixarei ir se não me abençoares”. Nós podemos ter um relacionamento próximo
com Deus, e como Jacó com o Anjo, nós podemos ainda lutar, e buscar dar
dificuldades ao Anjo do que deixar que vá sem a bênção. Mas nós devemos ser
muito claros, antes de chegar até estes termos, que nós estamos buscando é
verdadeiramente a honra do Mestre.
Coloque essas três coisas juntas, a espiritualidade profunda que
reconhece a oração como sendo uma real conversa com o Deus invisível – muita
clareza que é a realidade da oração, pedindo por aquilo que sabemos que
necessitamos – e com muito fervor, acredito que tal coisa é necessária, e,
portanto, se decidindo em obtê-la se for adequado pedir isso em oração, e sobre
tudo isto, a completa submissão, deixando plenamente com a vontade do Mestre
– junte todas essas e tenha uma ideia clara do que é apresentar sua causa diante
do Senhor.
Oração contínua, por si só, é uma arte que só pode ser ensinada pelo
Espírito Santo. Ele é o doador de toda oração. Ore para orar – ore até que
consiga orar; ore para ser ajudado a orar, e não desista de orar porque você não
consegue orar, pois é quando você pensa que não consegue orar que é mais
necessário que ore; e algumas vezes quando você não tem nenhum tipo de
conforto em suas súplicas, é então que seu coração, totalmente quebrantando e
caído, está verdadeiramente lutando e, de fato, prevalecendo com o Altíssimo.

II. A segunda parte da oração é ENCHER A BOCA COM
ARGUMENTOS – não encher a boca com muitas palavras nem boas frases,
nem expressões bonitas, mas encher a boca com argumentos. Os antigos santos
eram conhecidos por arrazoar em oração. Quando chegamos aos portões da
misericórdia, argumentos convincentes são as batidas no batente pelo qual o
portão será aberto.
Por que, afinal, argumentos devem ser usados, é a primeira pergunta;
certamente não porque Deus é vagaroso em dar, nem porque nós podemos mudar
o propósito divino, nem porque Deus precisa ser informado de qualquer
circunstancia a respeito de nós ou de nada em conexão com a misericórdia
pedida; os argumentos devem ser usados para nosso próprio benefício, não para
o Dele. Ele requer que nós apelemos com Ele, e que tragamos adiante fortes
razões, como Isaías disse, porque este sentimento mostra que nós reconhecemos
o valor da misericórdia. Quando um homem busca por argumentos para algo é
porque ele atribui importância para aquilo que ele busca. Novamente, nosso uso
de argumentos nos ensina a base na qual devemos obter a bênção. Se um homem
vir com o argumento de seu próprio mérito, ele nunca terá sucesso; mas o
argumento bem sucedido é sempre baseado sobre a Graça Divina, e por isso a
alma que pede é obrigada a entender intensamente que é pela Graça e somente
pela Graça que um pecador obtém qualquer coisa do Senhor. Ademais, o uso de
argumentos é intencionado para estimular nosso fervor. O homem que usa um
argumento com Deus terá mais força em usar o próximo argumento, e usará o
consequente argumento com mais grandiosa força, e o outro com mais força
ainda. As melhores orações que já ouvi em reuniões têm sido aquelas com mais
argumentos. Algumas vezes minha alma tem-se desmanchado verdadeiramente
quando escuto irmãos e irmãs que vieram diante de Deus sentindo que a
misericórdia é realmente necessária, e que eles têm que tê-la, pois eles
primeiramente pediram a Deus por esta razão, e depois por uma segunda, depois
por uma terceira, e uma quarta e uma quinta, até que eles tenham despertado o
fervor de toda a igreja!
Meus amados, não existe nenhuma necessidade de oração por causa de
Deus, mas a necessidade existente é para nosso próprio bem! Se nós não
fôssemos compelidos a orar, questiono-me se poderíamos ao menos viver como
cristãos. Se as misericórdias de Deus viessem a nós sem que as pedíssemos, elas
não teriam nem metade da utilidade que agora têm, quando temos que buscar por
elas; pois assim temos uma bênção em dobro, a bênção de obter e a bênção de
buscar. O ato em si de orar já é uma bênção. Orar é como se fosse alguém se
banhando em uma correnteza gentil e fria, escapando assim do calor excessivo
do sol desta terra. Orar é montar nas asas da águia sobre as nuvens e entrar no
claro Céu onde Deus habita. Orar é entrar no tesouro da casa de Deus e
enriquecer-se de uma fonte inesgotável. Orar é agarrar o Céu com os braços,
abraçar com a alma a Divindade e sentir o corpo como o templo do Espírito
Santo. Separada da resposta, a oração, por si só, é uma bênção. Orar, meus
irmãos e irmãs, é jogar nossos fardos para longe, é rasgar nossos trapos, é
sacudir nossas doenças, é ser cheio com vigor espiritual, é alcançar o ponto mais
alto da saúde cristã. Deus nos dá muito na arte sagrada de argumentar com Deus
em oração.
A parte que mais importa em nossas orações permanece; é um sumário
bem rápido e um catálogo de alguns dos argumentos que têm sido mais bem
sucedidos para com Deus. Não posso lhe dar uma lista completa; isto iria
requerer um tratado tal quais aqueles produzidos pelo mestre John Owen[20]. É
bom que na oração sejam feitos apelos aos atributos de Jeová. Abraão fez
assim quando ele tomou posse da Justiça de Deus. Uma oração seria feita por
Sodoma, e Abraão começa, “Se porventura houver cinquenta justos na cidade,
destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinquenta justos que
estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o
ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda
a terra?” (Gn 18:24,25). Aqui a luta começa. É um argumento poderoso pelo
qual o patriarca se agarrava à mão esquerda do Senhor, e a parou quando o
relâmpago estava prestes a cair. Mas veio uma resposta para isso. Era notório
para ele que isto não iria poupar a cidade, e você nota como o bom homem,
quando extremamente pressionado, recuou centímetros; e por fim, quando ele
não poderia mais segurar a justiça, ele se agarrou à mão direita de Deus por
misericórdia, e isto o deu uma maravilhosa posição quando este pediu que se
houvessem somente dez justos então a cidade seria poupada. Então, eu e você,
devemos nos posicionar à qualquer hora sobre a justiça, a misericórdia, a
fidelidade, a sabedoria, a longanimidade, a ternura de Deus, e acharíamos cada
atributo do Altíssimo como sendo um aríete com o qual podemos abrir as portas
do Céu.
Outra poderosa parte da ordenança na batalha da oração é a promessa
de Deus. Quando Jacó esteve do outro lado do Jaboque, e seu irmão, Esaú,
estava vindo com homens armados, ele apelou com Deus para não permitir que
Esaú destruísse a sua mulher e filhos, e como uma razão principal ele apelou, “E
Tu o disseste: Certamente te farei bem, e farei a tua descendência como a areia
do mar, que pela multidão não se pode contar.” (Gn 32:12). Ó, que força de
apelo – ele estava segurando Deus à Sua Palavra: “Tu o disseste”. O atributo (de
Deus) é um esplêndido chifre do altar onde é possível segurar-se, mas a
promessa, a qual possui o atributo e algo a mais, é mais ainda poderosa. “Tu o
disseste”. Lembre-se como Davi fez isso. Depois que Natã proclamara a
promessa, Davi disse no final de sua oração, “faze como falaste.” (1 Cr 17:23).
Este é um argumento legítimo para todo homem honesto. Será que Deus
dizendo, Ele não fará? “Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem
mentiroso” (Rm 3:4). Será que Ele não é verdadeiro? Será que Ele não manterá
Sua Palavra? Será que todas as palavras de Sua boca não serão firmes e serão
cumpridas? Salomão, na abertura do tempo, usou esse mesmo poderoso apelo.
Ele apela a Deus para que lembre a palavra que Ele falou através de seu pai
Davi, e que abençoasse aquele lugar. Quando um homem dá uma nota
promissória, sua honra é envolvida. Ele aperta a mão e deve quitar aquilo
quando o devido tempo chegar, ou então ele perde crédito. Nunca deve ser dito
que Deus desonra Seus negócios. O crédito do Altíssimo nunca é impedido, e
nunca será. Ele é pontual aos segundos; Ele nunca está atrasado, Ele nunca está
adiantado. Você deve procurar por todo este Livro (Bíblia), e você deve
comparar com a experiência do povo de Deus, tudo bate do início até o final; e
muitos patriarcas grisalhos falaram como Josué em sua velhice, “Palavra alguma
falhou de todas as boas coisas que o Senhor falou à casa de Israel; tudo se
cumpriu” (Js 21:45). Meus irmãos e irmãs, se você tem uma promessa divina,
você não precisa apelar a ela com um “se”; você deve apelar com certeza. Se
para a misericórdia que você está agora pedindo, você tem a solenemente
prometida palavra de Deus, mal haverá espaço para o cuidado com a submissão
à Sua vontade. Você conhece a vontade Dele – esta vontade está na promessa –
apele a isto. Não O dê descanso até que Ele a cumpra. Ele deseja cumpri-la ou
então Ele não haveria dado tal promessa. Deus não dá Sua palavra meramente
para aquietar nossos barulhos, e para nos manter esperançosos por um pouco,
com a intenção de nos deixar de fora no fim de tudo; mas quando Ele fala, Ele
fala porque Ele deseja agir.
Um terceiro argumento para ser usado é aquele empregado por Moisés –
o grande nome de Deus. Quão poderosamente ele argumentou com Deus em
uma ocasião sobre este terreno! “O que farás ao Teu Grande Nome? O egípcios
falaram, porque Deus não pode os levar até a terra, Ele os assassinou no
deserto”. Existem algumas ocasiões quando o nome de Deus é muito bem
amarrado com a história de Seu povo. Algumas vezes, em confiança à uma
promessa divina, um crente será levado a tomar determinadas atitudes. Agora, se
o Senhor não fosse tão bom quanto Suas promessas, não somente o crente seria
enganado, mas o ímpio mundano olharia e falaria, “Aha! Aha! Cadê o seu
Deus?”. Tome o caso do nosso respeitado irmão, senhor Muller, de Bristol.
Nesses muitos anos ele tem declarado que Deus ouve orações, e é firme na
convicção de que ele foi mandado construir casa atrás de casa para cuidar dos
órfãos. Agora, posso conceber muito bem que, se ele fosse levado a um ponto
onde necessitaria de meios para manter aquelas duas mil crianças, ele com toda
certeza usaria o apelo, “O que Tu farás pelo Teu Grande Nome?”. E você, em
severas tribulações, quando você recebeu verdadeiramente a promessa, deve
dizer, “Senhor, tu disseste: ‘Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal não te
tocará’ (Jó 5:19). Disse aos meus amigos e vizinhos que eu coloquei minha
confiança em Ti, e se Tu não me salvares agora, onde estará Teu Nome?
Levanta-Te, Ó Deus, e faça isto, para que Sua honra não seja jogada ao pó”.
Acompanhado disto, nós devemos empregar o próximo argumento, as coisas
ruins ditas pelos maldizentes. Foi muito bem o que foi feito por Ezequias,
quando ele tomou a carta de Rabsaqué (Is 37:8) e a abriu diante do Senhor.
Aquilo o ajudaria? Aquilo estava cheio de blasfêmia, aquilo o ajudaria? “Onde
estão os deuses de Arpade e Serfavaim? Onde estão os deuses das cidades que
destruí? Não deixem que Ezequias os engane, dizendo que Jeová os livrará”.
Será que isto tem efeito? Ó, sim! Foi algo abençoado que Rabsaqué tenha escrito
aquela carta, pois esta provocou o Senhor a ajudar Seu povo. Algumas vezes o
filho de Deus pode se alegrar quando vê seus inimigos explodirem em seu
temperamento e começar a maldizer. “Agora”, diz ele, “Eles blasfemaram o
próprio Senhor, não somente eu eles atacaram, mas ao próprio Altíssimo”.
Agora, não é o pobre e insignificante Ezequias com seu pequeno bando de
soldados, mas é Jeová, o Rei dos anjos, que veio para lutar contra Rabsaqué.
Agora o que você fará, Ó orgulhoso soldado de Senaqueribe? Não será você
completamente destruído, já que o próprio Jeová chegou para o combate? Todo o
progresso que é realizado pelo Papado, todas as coisas erradas dita pelos ateus
especuladores e assim por diante, deveriam ser usados por cristãos como um
argumento com Deus para que Ele ajude o Evangelho. “Senhor, veja a
reprovação ao evangelho de Jesus! Tire Sua mão direita do seu colo! Ó Deus,
eles O provocam! O Anticristo se joga no lugar onde o Seu Filho uma vez foi
honrado, e dos mesmos púlpitos que o Evangelho uma vez fora pregado, o
Papado agora é declarado. Levanta-Te, Ó Deus, desperte o Seu zelo, que Suas
sagradas paixões queimem! Seu antigo inimigo novamente prevalece! Eis a
carruagem da Babilônia, mais uma vez sobre suas bestas vestidas de escarlate,
que corre para o triunfo! Venha, Jeová! Venha, Jeová, e mais uma fez mostre o
que Seu braço nu pode fazer!”. Esta é uma maneira legítima de apelar a Deus,
por amor a Seu Grande Nome.
Nós também devemos apelar pelos sofrimentos de Seu povo. Isto é
feito frequentemente. Jeremias é o grande mestre desta arte. “Os seus nobres
eram mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite, mais vermelhos de
corpo do que os rubis, e mais polidos do que a safira. Mas agora escureceu-se o
seu aspecto mais do que o negrume” (Lm 4:7,8). “Os preciosos filhos de Sião,
avaliados a puro ouro, como são agora reputados por vasos de barro, obra das
mãos do oleiro!” (Lm 4:2). Ele fala de todos os sofrimentos deles (do povo de
Deus) e de todas suas necessidades quando estes estiveram no cerco. Ele invoca
o Senhor para olhar Seu Sião sofredor; e pouco tempo depois seus queixosos
choros são ouvidos. Nada é tão eloquente para o pai como o choro de seus filhos,
mas ainda uma coisa é maior, e isto é um gemido. Quando o filho está tão doente
que já está além do choro e permanece deitado gemendo com aquele tipo de
gemido que indica extremo sofrimento, e intensa fraqueza, quem pode resistir a
este gemido? Ah, quando a Israel de Deus é trazida ao pó de maneira que ela mal
pode chorar, mas somente seus gemidos são ouvidos, então vem o tempo de
salvação do Senhor, e Ele é firme em mostrar que ama o Seu povo. Queridos
amigos, sempre que você, também, for trazido a esta mesma condição, você
pode apelar com seus gemidos, e quando você vê uma igreja ser trazida ao pó,
você pode usar suas aflições como um argumento pelo qual Deus deveria
retornar e salvar o remanescente de Seu povo.
Irmãos e irmãs, é bom apelar com o passado para Deus. Ah, você já
experimentou isso, povo de Deus, você sabe como fazer isso. Aqui está um
exemplo de Davi sobre isso: “Tu foste a minha ajuda, não me deixes nem me
desampares, ó Deus da minha salvação” (Sl 27:9). Ele apela pela misericórdia de
Deus a ele em sua juventude. Ele fala de ser lançado sobre seu Deus desde seu
nascimento, e então ele apela, “Agora também, quando estou velho e de cabelos
brancos, não me desampares, ó Deus” (Sl 71:18). Moisés também, falando com
Deus, diz, “Tu tiraste este povo do Egito”. Como se ele dissesse, “Não deixe Teu
trabalho inacabado; Tu começaste a construir, termine-o. Tu lutaste a primeira
batalha, Senhor, termine a guerra! Vá até que Tu tenhas a completa vitória”.
Quão frequente nós choramos em nossas tribulações, “Senhor, Tu já me livraste
de tal e tal tribulação, quando parecia que nenhuma ajuda estava por perto; Tu
nunca me desamparaste ainda. Construí meu altar Ebenézer em Teu Nome. Se
Tu tens intenção de me deixar, porque Tu me mostraste tais coisas? Tu trouxeste
teus servos para esse lugar para nos envergonhar?”. Irmãos e irmãs, nós temos
que lidar com um Deus imutável, que irá fazer no futuro o que Ele tem feito no
passado, porque Ele nunca se arrepende de Seu propósito, e não pode ser
frustrado em Seu desígnio. O passado assim se torna uma forma muito poderosa
de ganhar bênçãos Dele.
Nós podemos ainda usar nossa própria indignidade como um argumento
para com Deus. Davi em um lugar clama assim, “Senhor, tenha misericórdia da
minha iniquidade, pois ela é imensa” [21]. Esta é uma forma muito especial de
raciocínio, mas pode ser interpretada desta forma, “Senhor, por que Tu te
importarias em fazer coisas pequenas? Tu és um Grande Deus, e aqui está um
grande pecador; aqui está uma oportunidade em mim para a demonstração da
Tua Graça. A grandeza do meu pecado faz de mim uma plataforma para a
Grandeza de Tua misericórdia. Deixe que a grandeza de Seu amor seja vista em
mim”. Moisés parece ter o mesmo em sua mente quando ele pede a Deus que
este mostre Seu grande poder em poupar Seu povo pecador. O poder com o qual
Deus se contém é grande de fato. Ó irmãos e irmãs, existe tal coisa como se
rastejar para os pés do Trono, se encolher e chorar, “Ó Deus, não me quebre –
sou um caniço ferido. Ó! Não pise em minha pequena vida, está é como um
pavio fumegante. Vais Tu me caçar? Irás Tu atrás de, como Davi disse, ‘um cão
morto? Uma pulga?’ (1 Sm 24:14) ? Perseguirás Tu a mim como uma folha é
arrebatada na tempestade? Vigiarás Tu a mim, como Jó disse, como se eu fosse o
mar ou uma baleira (Jó 7:12)? Não, mas porque sou tão pequeno e porque a
grandeza de Sua misericórdia pode ser mostrada em um ser tão insignificante
(porém vil), então, Ó Deus, tenha misericórdia de mim”.
Houve uma vez uma ocasião quando a própria Divindade de Jeová fez
um triunfante apelo para o profeta Elias. Naquela ocasião magnífica quando ele
convidou seus adversários para ver se o deus deles poderia respondê-los com
fogo, você mal pode imaginar a excitação que deveria haver naquele dia na
mente do profeta. Com um firme sarcasmo ele disse, “Clamai em altas vozes,
porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa
que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará”
(1 Rs 18:27). E enquanto eles se cortavam com facas, e pulavam sobre o altar, ó
que escárnio aquele homem de Deus deve ter olhado para aqueles impotentes
esforços, e aos seus diligentes, porém inúteis clamores! Mas pense em como seu
coração deve ter palpitado, se não fosse pela força de sua fé, quando ele reparou
o altar de Deus que estava quebrado, e deitou a madeira em ordem, matou o
sacrifício. Escute ele clamar, “Derrame água no altar. Vocês não irão suspeitar
que eu esteja escondendo fogo; derrame água no sacrifício.” Quando fora feito
isto, ele os convida, “Derramem uma segunda vez”. E quando eles fizeram pela
segunda vez, ele então diz, “Façam isto uma terceira vez”. E quando tudo
estivera completamente coberto de água, encharcado e totalmente saturado, ele
então se levanta e clama a Deus, “Ó Deus, que seja conhecido que somente Tu és
Deus”. Aqui tudo havia sido posto à prova. E quão bem o profeta foi ouvido!
Desceu fogo do alto e devorou não só o sacrifício, mas até a madeira e as pedras,
e até mesmo a água que estava na vala, pois o Deus Jeová respondeu a oração de
Seu servo. Nós, algumas vezes, devemos fazer o mesmo, e dizer para Ele, “Ó,
pela Tua Divindade, pela Tua existência, e se de fato Tu és Deus, mostre-Se para
a ajuda do Seu povo!”.
Por ultimo, o grande argumento cristão é o sofrimento, a morte, o
mérito e a intercessão de Cristo Jesus. Amados, temo que nós não entendemos
o que é termos em nossas mãos o fato de nos ser permitido apelar a Deus por
amor a Cristo. Peguei-me pensando nisto um outro dia: foi de alguma maneira
novo para mim, mas creio que não deveria ter sido. Quando nós pedimos para
Deus nos ouvir, apelando ao nome de Cristo, nós geralmente queremos dizer, “Ó
Senhor, Teu querido Filho merece isso vindo do Senhor; faça isto para mim por
causa dos méritos Dele”. Mas se soubéssemos que poderíamos ir além. Suponha
que você me dissesse, você que possui um armazém na cidade, “Senhor, liga
para minha loja, e use meu nome, e diga que eles devem lhe mandar tal coisa”.
Eu iria e usaria seu nome, e obteria meu pedido, desde que este fosse justo e
uma questão de necessidade [22]. Isto é virtualmente o que Jesus Cristo nos
disse. “Se você necessitar de alguma coisa de Deus, tudo o que o Pai tem
pertence a mim; vá e use Meu Nome”. Suponha que você desse a um homem seu
talão de cheques, todo assinado com seu nome e deixado o valor em branco, para
ser preenchido como ele desejasse – isto seria muito próximo ao que Jesus fez
nestas palavras, “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (Jo 14:14).
Se eu tivesse um bom nome no fim do cheque, teria certeza que este seria
creditado quando eu fosse ao bancário com ele; então quando você tem o nome
de Cristo, com o qual a própria Justiça de Deus foi paga, e com um mérito que
pode apelar ao Altíssimo, quando você tem o nome de Cristo não há necessidade
de falar com medo, tremendo e com o fôlego suspenso. Ó, não hesite e não deixe
a fé vacilar! Quando você apela ao nome de Cristo, você apela àquilo que treme
os portões do inferno, Àquele a quem todas as hostes celestiais obedecem, e o
próprio Deus sente o poder sagrado deste abençoado apelo!
Irmãos e irmãs, vocês fariam melhor se por vezes pensassem mais em
suas orações sobre as aflições e os gemidos de Cristo. Traga diante do Senhor
Suas chagas, lembre o Senhor de Seus clamores, faça com que os gemidos de
Cristo sejam ouvidos mais uma vez do Getsêmani, e que Seu sangue fale de
novo daquele congelante Calvário. Fale e diga ao Senhor que com tais aflições,
clamores e gemidos você irá apelar, e não será negado. Tais argumentos como
estes honram a Deus.

III. Se o Espírito Santo nos ensinar a apresentar nossa causa, e como
encher nossas bocas com argumentos, o resultado será tal que NÓS TEREMOS
NOSSAS BOCAS CHEIAS DE LOUVORES. O homem que tem sua boca
cheia de argumentos em oração, logo terá sua boca cheia de bendizeres pelas
respostas das orações. Querido amigo, você tem sua boca cheia esta manhã, não
tem? Cheia de que? Cheia de reclamações? Ore ao Senhor para que limpe sua
boca destas coisas escuras, pois pouco proveito terá disso, e será amargo o seu
coração em um dia desses. Ó, tenha sua boca cheia de oração, cheia, cheia de
argumentos para que não haja lugar para mais nada. Então venha com essa
bendita boca, e você em breve irá com o que quer que tenha pedido a Deus.
Somente se regozije Nele, e Ele irá dar-lhe o desejo de seu coração.
É dito que – não sei o quão verdadeiramente – que a explicação do
texto, “Abre bem a tua boca, e ta encherei” (Sl 81:10), pode ser encontrado em
um costumo oriental muito singular. É dito que não muitos anos atrás – lembro-
me da circunstância sendo reportada – o rei da Pérsia ordenou que o chefe de sua
nobreza, que havia lhe feito algo que grandemente o gratificou, abrisse sua boca
e então ele poderia colocar pérolas, diamantes, rubis e esmeraldas, até que ele
houvesse enchido a boca o máximo possível, e então ele foi mandado ir para
casa. É afirmado que isto é feito ocasionalmente em Cortes Orientais
direcionado a grandes favorecidos. Agora, certamente, que esta seja a explicação
do texto ou não, é uma ilustração deste. Deus diz, “Abra sua boca com
argumentos”, e então Ele irá enchê-la com misericórdias inestimáveis, gemas de
valor incalculável. Não abriria um homem sua boca se ela fosse cheia desta
maneira? Certamente o mais simples de espírito entre nós seria sábio o suficiente
para isto. Ó, então nos deixe abrir bem nossas bocas quando formes apelar ao
nosso Deus. Nossas necessidades são grandiosas, deixe que nossos apelos sejam
grandiosos, e o sustento também será grandioso. Você não é impedido a Ele;
você está impedido no seu próprio coração. Que o Senhor os dê grande bocas em
oração, grande potência, não em uso de linguagem, mas em emprego de
argumentos.
O que eu tenho falado para os cristãos é aplicável em grande medida aos
não convertidos também. Que Deus lhe dê a força para isto, e para correr em
oração humilde para o Senhor Jesus Cristo e para achar vida eterna Nele.

QUANDO DEVEMOS ORAR?


Sermão de Número 2519
Pregado em Outubro de 1885

“Os homens devem sempre orar, e nunca desfalecer”.
Lucas 18:1
(Versão Inglesa da Bíblia King James)

Minha mente sempre é iluminada com grande alegria sobre a simples
Verdade de Deus que brilha na superfície de nosso texto – a saber, que homens
podem orar! Se homens devem orar, eles podem orar. Qualquer coisa que um
homem deve fazer, é certo de que ele tem o direito e o privilégio de fazer – e
apesar disso parecer uma verdade simples para aqueles de nós cujos coração
estão em paz através da fé em Jesus e que aproveitam de uma comunhão diária
com Cristo através da oração – ainda assim existe uma doçura sobre este fato
para o homem que tem medo de que ele não possa orar. Satanás o afirma que a
porta da misericórdia está fechada contra ele, que o seu dia da Graça acabou e
que o tempo de esperança para ele já acabou e passou. Mas nosso texto diz, “os
homens devem sempre orar”. Então, os homens podem sempre orar!

Seus joelhos podem ser dobrados diante do altar de Deus, mesmo que
eles estejam calejados de tantas quedas no pecado. Apesar de que faça muitos
anos desde que você ao menos tenha pensado em orar, ainda assim você pode
orar! Embora, talvez, você tenha negado que exista um Deus, ainda você pode
orar! Apesar de que você tenha ridicularizado a própria ideia de orar, você pode
orar – Deus não recusa dar a você a permissão de vir até Seu Trono de
Misericórdia. Mesmo que você tenha cometido todos os crimes no manual do
pecado, você pode orar. E mesmo que você tenha ido longe nesses crimes e se
envolvido profundamente em iniquidade, você deve orar! Embora você esteja à
alguns dias da morte e condenação a não ser que a Graça de Deus o visite, ainda
assim você pode orar! É claro que você pode orar porque os homens sempre
devem orar, e tudo aquilo que eles têm fazer, eles podem fazer! Se agarre nesta
Verdade de Deus, Ó desesperado, e se agarre rápido, e diga para o seu desespero,
“Me abandone! Não é possível que eu tenha negado o direito de orar enquanto
este texto continua na Santa Escritura, ‘Os homens devem sempre orar’”.

Agora olhe para o texto novamente, e insista nas primeiras palavras –
“Os homens devem sempre orar.” Me sinto muito grato à Escritura Sagrada
porque este texto não fala que “Os santos devem sempre orar”, porque eu
deveria me perguntar, “Será que sou um santo?”. E talvez, eu houvesse que
responder “Não, estou longe disso”. Mas o texto não diz “santos”, e mesmo não
diz “os de coração manso, pessoas penitentes que estão sempre em um estado
muito gracioso devem sempre orar”. Não, não existe nenhuma descrição do
caráter dado no texto – por isso sou profundamente grato. Essas exortações que
deixam o sujeito mais aberto possível são as mais cheias de Graça e amor
condescendente!

Quem deve sempre orar então? “Os homens”. E a palavra “homens”, é
genérica e inclui a raça humana. Isto é, homens, mulheres e crianças – velhos
homens e pais, jovens rapazes e donzelas – todos que pertencem a raça humana
devem sempre orar! Talvez você diga, “Fulano não é um bom homem”. Sim,
mas ele é um homem, e os homens devem sempre orar. “Ele está longe de ser
um louvável, um homem distinto, um homem de ser observado, um nobre em
seu mais verdadeiro interior”. Ah, mas ele é um homem, e os homens devem
sempre orar! Desça as ruas e entre nos escuros becos onde existem homens que
mal podem ser chamados de homens, e mulheres que mal são mulheres, e diga,
mesmo a eles, que eles estão incluídos nesta afirmação, “Os homens devem
sempre orar”. Suba e fica de pé diante da cama onde a Morte agarra sua vítima
pela garganta – um homem que ainda vive ainda é um homem – a pobre
criatura vivente ainda não é um cadáver, mas ainda é um homem! Diga a ele,
“Os homens devem sempre orar”. Aqueles que amaldiçoam e falam palavrões
devem sempre orar. Aqueles que vivem sem nenhum respeito por Deus, ou que,
ainda, não acreditam na Sua existência, e que detestam o Evangelho, ainda
assim, eles devem sempre orar! E, como disse no início, o “devem” implica uma
permissão, pois, o que um homem deve fazer, ele pode fazer e, portanto, quem
quer que você seja, se você se encaixa como um ser humano, você deve orar!

Se você tem uma cabeça sobre seus ombros, e pulmões que respirar, e
um coração que palpita – se você ainda está na terra dos viventes e pode ser
contado dentre os filhos dos homens – esse texto mostra a você um grande e
glorioso Evangelho! Apesar de que pareça ser colocado com uma forma da Lei
de Deus pelo uso daquela severa palavra, “devem”, mesmo assim é colocada na
forma do Evangelho – você pode orar se você é homem ou mulher, se você é da
raça humana, pois “os homens devem sempre orar”.
Ó, que algum pobre coração possa se apegar a esta doce Palavra de
Deus! Aquela mulher que falou em se jogar da Ponte de Londres – até ela deve
orar! Aquele homem atravessando o Atlântico e se escondendo do seu povo,
deixando seus amigos e parentes para fugir do local onde ele desonrou seu nome.
Não pense em tal coisa, meu caro senhor, mas ore, porque você deve orar! Não
existe nada na terra ou no Céu que o proíba de orar! Existe um decreto de anistia
e esquecimento na corte de Deus e você não está excluído desta! Não existe
nenhum Livro Inspirado por Ele que nega a você um lugar no Trono da
Misericórdia! Não existe nenhum mensageiro mandado por Deus que irá dizer-
lhe “Assim diz o Senhor, você não deve orar”, mas pelo contrário, trazendo
diante de você a viva e Inspirada Palavra do Vivo Cristo de Deus, nós lhe
dizemos, “Os homens devem sempre orar!”. Portanto você deve orar, e assim,
você pode orar!
Agora viremos o texto um pouco e coloquemos a ênfase em outra
palavra, “Os homens devem sempre orar”. Portanto, os homens podem orar
agora! Se eles devem sempre orar, eles devem orar agora, e se eles devem orar
agora, eles podem orar agora! Esta não é uma preciosa e abençoada Verdade de
Deus? Ai você está sentado, pobre pecador, e estou falando com você. Não se
importe com essa pessoa muito respeitada ao seu lado. Não estou, por enquanto,
pensando ou falando com ela – Eu estou falando de você pobre, triste e culpado!
Talvez você diga: “Não me sinto em um estado mental em que consiga orar. Mal
sei porque vim aqui. Estou muito triste, muito afligido, sou muito pecaminoso e
tenho um muito duro coração”. Mas, meu caro amigo, você pode orar! Deixe-me
parar por um minuto. Neste silêncio solene, você pode suspirar sua primeira
oração a Deus. Que Deus o ajude, meu pobre irmão, a dizer pela primeira vez,
“Deus, tem misericórdia de mim que sou pecador!”. Que Ele o ajude, minha
querida irmão, que já viveu tanto sem orar, a dizer agora, “Senhor, me receba,
me perdoe, deixe com que eu seja Sua filha, Sua criança, de hoje em diante e
para sempre!”.
Você não vê isto? Se os homens – e você está nesta categoria – se seres
humanos sempre devem orar, então eles sempre podem orar! E, “sempre”,
inclui este presente momento! Então você pode orar agora! Você deve orar
agora, pois você está na lista dos humanos! Portanto, ore agora, pois “agora” está
incluído na palavra “sempre”. “Bem”, alguém pode dizer, “me apressarei a
chegar em casa e lá irei orar”. Não faça isto! Sente aonde você está agora e deixe
sua alma derramar-se a Deus. “Mas eu gostaria de me ajoelhar”. Sim, eu gostaria
que você se ajoelhasse se isto fosse possível e próprio, mas não existe
necessidade disso. Coloque sua alma em seus joelhos! Muitas vezes, quando o
corpo está ajoelhado, a alma não está orando de verdade – e existe uma forma na
qual a alma pode ser prostrada diante de Deus por mais que o corpo esteja de pé.
Mesmo agora, no pó eu atiro meu próprio espírito diante do três vezes Santo
Deus, e prostrado diante Dele, oro, “Senhor, ajude alguns aqui a orar a Ti agora
mesmo! Pela primeira vez em suas vidas, neste exato momento, enquanto estas
palavras fluem por meus lábios, que seus corações confessem seus pecados e
clamem a Ti, Grande Pai, pela ação da Tua infinita misericórdia!”. Por que não
fazer isso? Acredito que o Espírito de Deus está a trabalhar aqui neste momento
e está levando alguns de vocês neste abençoado ato de oração. Se assim for, que
Seu Nome seja louvado por isso!
Existe mais uma coisa a ser notada enquanto me lanço neste texto e esta
é, “Os homens devem sempre orar, e nunca desfalecer”. Então é claro que a
oração é sempre – se for uma oração verdadeira – um efetivo e proveitoso
exercício para qualquer homem que ora, pois, se os homens devem orar, é
simples que existe algo na oração que é útil ao espírito, pois os homens não
devem fazer aquela coisa que é meramente vã e vazia. Deus não pode exigir que
façamos aquilo que terminará em fumaça, ou que será somente um nada! Deus
não pede que nenhum de nós vá e fale com os ventos e assobie às ondas! Deve
existir alguma realidade na oração – deve ser Sua intenção escutar e responder
as orações ou não estaria escrito assim – “Os homens devem sempre orar”.
Será que Ele nos daria permissão de fazer algo que não teria valor
nenhum em si? Não. Será que Ele nos exortaria a fazer algo, será que Ele nos
mandaria fazer algo quando Ele saberia que, se nós o fizéssemos, seria somente
uma mera formalidade? Será que Deus nos manda a agir como as filhas de
Danaus[23], que deveriam encher uma vasilha sem fundo com vasos furados? Será
que Ele nos diz, como Sísifo[24], para passar toda a nossa vida a empurrar uma
pedra enorme montanha acima na qual a pedra rolará para baixo de novo sobre
nós? Será que Ele faz de nós tolos? Será que Ele falou em segredo e disse para a
semente de Jacó “Busque Minha Face em vão”? Não pode ser! Afirmo que se
Deus não escuta e nem responde orações, então isto é um bocado de tolice! Não
posso conceber que Deus colocaria nenhum de nós para fazer algo que fosse
insanidade, ou no mínimo algo que fosse idiota. Não, se os homens devem
sempre orar, existe algo real na oração e, quando o Senhor diz que nós devemos
orar, é porque Ele é pronto para garantir o desejo de nossos corações e nos
mandar uma bênção.

I. Com este prefácio, queridos amigos, nós chegamos ao nosso
texto, e notei que a respeito dele, primeiramente, existe UM PERPÉTUO
DEVER, OU PRIVILÉGIO, OU AMBOS. “Os homens devem sempre orar”.

Isto significa que, em suma, e em primeiro lugar, que os homens devem
orar habitualmente. Deve existir – e onde quer que a Graça de Deus esteja,
haverá – um hábito de oração. Existirão orações em tempos determinados. É
necessário marcar as extremidades do jardim, para guardá-los do caminho por
onde você anda, para que as plantas que crescem não sejam pisadas pelos pés
ocupados do trabalho. Nós precisamos de alguns horários determinados, algumas
cercas, alguns horários e períodos reservados à oração. Esses deveriam ser
regularmente frequentados. Nossas orações privadas – é uma grande perda para
nossas almas quando estas são negligenciadas. Nossas orações familiares – estou
certo de que é uma ofensa grave para um lar cristão se este não se reúne
regularmente para orar. Nossas orações na Casa de Deus, entre nossos irmãos e
irmãs, não devem ser esquecidas também. Nós amamos reuniões para orar – nós
temos dado atenção à determinação apostólica, “Não deixando a nossa
congregação, como é costume de alguns” (Hb 10:25). Todas essas coisas nós
devemos fazer, mas ainda existe um hábito de oração que é superior a tudo isto!
Os judeus oravam três vezes ao dia. Houve alguns santos homens que oravam
pelo menos sete vezes ao dia, mas creio que o homem que vive perto de Deus
não poderia dizer quantas vezes por dia ele ora, pois, para cada vez que ele tenha
três ou sete períodos de oração especiais e notáveis, ele terá setenta vezes sete
vezes por dia em que seu coração fala com Deus sobre tudo o que acontece com
ele. Penso que é bom antes de toda ação, fazer uma oração; que durante cada
ação, fazer uma oração e depois de toda ação, fazer outra oração.
“Sal”, diz o Velho Testamento, “à vontade” (Esdras 7:22). Assim deve
ser com a oração, orar, sem prescrição de quanto. Você nunca pode exagerar
nisso. Possivelmente aquelas questões que parecem requerer um pouco de
oração são as pro´rias coisas que requerem o máximo de oração. “Os homens
devem sempre orar”. Você não tem que deixar seus negócios para orar, ou deixar
de lado trabalhos domésticos ou serviços públicos – todos aqueles que devem ser
realizados. Você pode fazê-los e orar o mesmo tanto – e esta é a forma como os
cristãos deveriam sempre orar.
Mas eu não penso que este texto busque tanto ensinar a continuidade da
oração quanto à pertinência da oração. Quero dizer que não tanto o sempre orar
quanto o continuar a orar por algo em particular que você tenha pedido.
Você deve continuar a orar! Deixe-me testar e abrir um pouco mais isso. “Os
homens devem sempre orar”, isto é, orar em todas as circunstâncias. Qualquer
que seja a dificuldade ou tribulação ore por ela. Se for uma tribulação no lar –
ore por ela. Se for uma tribulação nos negócios – ore por ela. Se for uma
dificuldade na Igreja – ore por isso. Quero trazer meu testemunho pessoal sobre
isso. Tenho tido e continuo a ter, mais fardos para carregar, penso, do que
qualquer outro homem que vive – fardos pesados, não meus, mas dos outros e
pela Glória de Deus – os quais, diariamente vêm até mim, o cuidado não só por
esta enorme igreja, mas por tantas outras igrejas também. E tenho percebido
nunca tive um fardo de nenhum tipo que não pudesse ser indicado pela minha
sabedoria para ser –
“Levado ao Senhor em oração”.
Já tive fardos que me atribularam tanto ao ponto de estar muito
desnorteado. Meditei e agi o melhor que pude, mas a aflição continuava e, ao
final, eu a levava pessoalmente e a colocava na estante. E dizia ao Senhor,
“Nunca tocarei nesta aflição novamente, deixarei em Tuas Mãos, meu
Abençoado Mestre”. Acredito que, por via de regra, este foi o melhor modo de
lidar com essas coisas, colocá-las inteiramente nas mãos Dele. Existem certas
coisas que, depois de termos feito tudo o que podíamos, o único remédio é a
oração.
Que seja definitivamente aceito entre nós, cristãos, que qualquer
dificuldade que seja, qualquer forma que ela tenha, secular ou sagrada, que, “Os
homens devem sempre orar”, isto é, eles devem orar por todas as coisas. Este é
o remédio que irá curar todas as doenças. Esta é a espada que cortará o Nó
Górdio[25] que não pode ser desatado. Esta é a chave que irá destrancar cada cela
da prisão de sua tristeza. Nós iremos nos libertar se soubermos somente usar a
chave da oração! “Os homens devem sempre orar”. Pode existir um irmão que é
suscetível a realizar discórdia – devo eu ir e batalhar com ele? Não, eu irei falar
dele para o Senhor – Ele irá lidar com ele melhor do que eu poderia. Ó, mas o
que aquele homem começou a pregar é completa heresia! Devo eu lutar contra
ele? Bem, posso contradizê-lo se eu for levado a isso, mas irei, primeiramente,
falar para o Senhor sobre ele. O Senhor pode derrota-lo melhor do que eu. “A
menor distância entre dois pontos é uma reta.” Em vez de desviarmos e irmos
para o servo, tentando arranjar algum favor com ele, vá diretamente ao Mestre!
Vá de uma vez ao quartel-general por todas as coisas. “Os homens devem
sempre orar”. Ó, que aprendamos bem esta lição!
E, caros amigos, nós devemos orar diante de toda oposição à oração.
Algumas vezes dizemos a nós mesmos, “Realmente, eu não consegui orar sobre
aquele assunto”. Bem, então se você não consegue orar por aquilo, não se
envolva com essa coisa – é um sinal definitivo de que existe lepra nesta coisa,
então não toque nela! O verme devorador do inferno esta em algo se você não
consegue orar por aquilo. Fuja disso como se estivesse fugindo do próprio
inferno. Deve ser algo tolo e sujo se você não consegue orar por isso. Não,
amados, não pode existir tal coisa, mas tudo aquilo que parece estar no caminho
da sua oração, acredite que sempre quando é mais difícil orar, esse é o tempo
mais necessário para fazer suas orações! Sempre quando parecer que você não
consegue orar, então você deve falar, “Agora eu tenho sete vezes mais
necessidade de orar por esta coisa do que quando tive outros assuntos nos quais a
oração vinha mais facilmente a mim”. É um sinal de perigo quando você não
consegue orar. O fato de você não conseguir orar é como o chocalho da cascavel
– deve haver algum dano mortal prestes a surgir. Qualquer que seja a dificuldade
na oração, você deve, pela ajuda do Espírito Divino, quebrar todas as barreiras,
pois você deve orar.
“Os homens devem sempre orar”. Então eles devem orar mesmo quando
há um grande atraso nas respostas às suas orações. Oponho-me grandemente à
prática de alguns que tenho lido, os quais dão a Deus um determinado limite de
tempo no qual eles irão orar. Ouvi uma mulher que disse que ela orou por seu
marido durante vinte anos e, de acordo com a estória, no fim dos vinte anos, ele
se convertera, mas se ele não tivesse se convertido até então, teria sido perigoso
para ela desistir dessa oração, mesmo após vinte anos orando por aquilo! Nosso
querido irmão, senhor George Muller[26], tinha em seu “livro de oração” o nome
de um irmão por quem ele orava, acredito que tenha escutado ele dizer por trinta
e seis anos. E isto foi há alguns anos atrás, então deve ser um tempo maior do
que esse, a não ser que a oração tenha sido respondida. Mas ele tinha a persuasão
interna de que esta pessoa seria trazida aos pés do Salvador e, portanto, ele o
mencionava este caso diariamente ao Senhor em oração. À propósito, ele nos
conta de uma estória muito admirável sua, na qual ele escrevia seus pedidos de
oração e os marcava à medida que estes eram respondidos – e aqueles que não
eram respondidos, ele os deixava lá até que, passado um tempo, percebia que
não eram pedidos corretos. Mas ele notou que Deus, sim, responde às orações e
ele gostava de manter um registro disso. Se nós fizéssemos o mesmo, teríamos
muito mais uma digna confiança em Deus, e nossa oração seria muito mais
eficiente do que tem sido. Mas não diga a si mesmo, “Irei orar por tanto tempo
por isto”. Se o que você está pedindo toca o Reino e a Glória de Cristo, então
persevere em oração como este texto encoraja-nos, “Os homens devem sempre
orar”.
Se for algo que diz respeito somente ao seu próprio conforto pessoal,
então o Espírito de Deus deve lhe ensinar a limitar suas orações. “Acerca do qual
três vezes orei ao Senhor” (2 Co 12:8), disse Paulo. Sim, e ele não teve a
resposta que desejava, mas ele teve uma com a qual ficou perfeitamente
satisfeito! O Senhor não tirou o seu espinho na carne, o mensageiro de satanás
continuou a esbofeteá-lo, mas Ele disse, “Minha Graça é suficiente para ti”.
Paulo ainda teve que carregar a aflição, mas ele recebeu do Senhor, a Graça que
o capacitava a suportar aquilo! Peça com a respiração suspensa quando você
estiver pedindo por algo temporal para si, pois você nada mais é do que uma
criança boba no que se refere a si mesmo. Um garoto pode se apaixonar pelas
navalhas de seu pai ou desejar comer alguma delícia que seria muito perigosa
para sua saúde – e você não gostaria que seu filho persistisse pedindo por algo
que os machucaria! Você não está zangado com ele por pedir, pois ele não sabe
de quase nada, então você diz, “Meu filho, isso não seria bom para você!”. Se
seu filho foi uma boa criança, ele não pedirá aquilo de novo, ou se pedir, não
ficará com raiva se não receber.
E, frequentemente, você não sabe o que é bom para você. Se Deus
realmente tivesse colocado ao nosso alcance ter tudo aquilo que escolhêssemos
pedir, isto, de fato, seria um poder muito perigoso! Se o Senhor me falasse,
“Você terá tudo aquilo que desejar”, eu iria diretamente ao meu quarto e diria,
“Ó, meu Senhor, me livre deste perigoso privilégio! Peço a Ti, na Sua tenra
misericórdia, que nunca me dê nada que Sua grande sabedoria não veja que seja
bom para mim mesmo. Não confie a mim um poder tão perigoso como este! Tu
és Onisciente e eu sou estúpido. Tu és completamente Bom e Sua vontade pra
mim é melhor do que meu desejo pode ser! Não seja, então, como eu quero, mas
como Tu queres; que assim seja feito”. Mas se é algo concernente ao Reino de
Cristo, alguma coisa pra a Glória de Deus, continue em oração, mesmo que seja
por cinquenta anos – e deixe que esta pequena frase o anime – “Os homens
devem sempre orar”.
Continuem orando, caros amigos, apesar de todas as tentações e
dificuldades pessoais. Se você sentir que, “Minhas orações são tediosas e
fracas”, continue orando. Quando satanás diz “Não há razão para orar por aquela
coisa”, continue orando. Quando os outros ao seu redor falarem, “Não é algo
pelo qual se deva orar”, ainda assim ore. Quando, finalmente, parecer ser um
trabalho desesperador e você começar a clamar, “Será que Deus se esqueceu de
ser gracioso? Será que Ele, irado, calou Seu coração à compaixão?”, ainda
assim, ore, pois “os homens devem sempre orar.”

II. Agora devo falar algumas palavras sobre A BASE DESSA
OBRIGAÇÃO: “Os homens devem sempre orar”.
Bem, nós devemos sempre orar porque nós sempre temos algum pecado
a confessar, nós sempre temos alguma coisa boa para bendizer a Deus e nós
sempre temos alguma necessidade a ser suprida. Devo admitir que eu nunca
estivesse em uma condição em que não precisei orar. Aquele que está no fundo
do vale deve orar para que ele seja capaz de subir a montanha. Aquele que está
no topo da montanha precisa orar duas vezes mais para que sua cabeça não se
torne tonta – e para que ele não caia de sua alta posição. Aquele que não tem
deve orar até que ele tenha e aquele que tem deve orar para que ele seja
abençoado nesta posse. Se seu copo está vazio, ore ao Senhor para que o encha.
Se seu copo está cheio, ore ao Senhor que mantenha suas mãos firmes para que
você não derrame o que dentro está. Se você não consegue enxergar seu
caminho, ore para que Deus lhe guie. Se você puder olhar o seu caminho, ore a
Deus para que Ele o ajude a segui-lo. Você é jovem? Ore para que Deus o ajude
com os pecados da juventude. Você está no meio de sua vida? Ore para que Deus
o ajude no meio do caminho, onde as tribulações são muito numerosas. Você está
quase no Céu com sua idade? Ore para que você entre no Paraíso orando.
“Os homens devem sempre orar”. É sempre um dever oficial por uma ou
outra dessas razões. Homens sempre devem orar porque Deus os manda orar.
“Orai sem cessar”, é um comando curto e grosso. Não tem dar a volta por este
texto, “Orai sem cessar”. Ele está amarrado dentro do coração do Primeiro
Mandamento da Lei de Deus – “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas
forças” (Mc 12:30).
“Os homens devem sempre orar”. É sempre a mais sábia coisa que eles
podem fazer. “Os homens devem sempre orar”. É, algumas vezes, a única coisa
que eles podem fazer. “Os homens devem sempre orar”, ou então eles querem
tirar o assunto das mãos de Deus. “Os homens devem sempre orar”, pois ele
sempre necessitam da ajuda de Deus, quer eles acreditem nisso ou não.

III. Não irei entrar em outras razões, apesar de elas serem muitas
para esta obrigação, mas devo concluir notando A ALTERNATIVA – “Os
homens devem sempre orar, e nunca desfalecer”.
Existem alguns que desfalece fatalmente. Eles declararam a confissão
cristã. Talvez haja alguns aqui que uma vez fizeram isto. Anos atrás você foi
membro de uma igreja – onde você está agora? Anos atrás você costumava falar,
algumas vezes, sobre o melhor do nome de Cristo – você não faz mais isso
agora. Como você se tornou o que você é agora – sem sequer fazer uma
confissão religiosa ou certamente não servido a Cristo de forma alguma? Não
estou dando um palpite, mas pronuncio uma certeza – você se desviou e
começou a desfalecer na caminhada espiritual porque negligenciou a oração.
Você desfaleceu porque você não orava! Ah, a religião que não começa com
oração em secreto[27] não é digna do rótulo que você faz dela! A religião que não
é sustentada pela oração em secreto é uma mentira! Uma religião que não cresce
através da oração em secreto é somete orgulho; esta religião não é
verdadeiramente construída pelas mãos de Deus. Não, não, meu jovem, se você
busca ingressar em uma igreja, ser batizado, vir à Mesa da Comunhão e,
enquanto isso, você não ora, sua religião não passa de uma estrutura sem base e
inútil que logo irá desaparecer! Nós tínhamos muitos homens os quais eu os
tinha visto e conhecido em épocas diferentes, e que poderiam falar muito
fluentemente e trabalhavam no serviço de Deus por um tempo, mas o grande
problema com eles era que eles não viviam para o Senhor em secreto! Se assim é
com qualquer um de vocês, sua religião deve ser construída com muita
arrogância, como uma torre alta, mas que rapidamente virá abaixo, pois as
fundações foram mal colocadas. Você deve orar ou irá desfalecer!
Se você é um filho de Deus, a mesma alternativa está diante de ti. Ou
você ora ou desfalece – isto significa que às vezes, você ficará atordoado. Eu
fico assim. Desejo fazer a coisa certa, mas raramente sei qual é a coisa correta
dentre vinte. Eu trataria este irmão com carinho, mas com firmeza àquele outro
irmão. Como consigo mesclar firmeza com bondade? Se você é pastor de uma
igreja – ou você será, meu amigo – você sabe quantos quebra-cabeças nós temos
diante de nós, lidando não somente com nossa própria natureza humana, mas
com a natureza humana do povo de Deus, pois existe bastante natureza humana
aonde existe natureza espiritual – e existem muitos caminhos ruins mesmo em
bons homens! O que você fará em tais casos? Bem, se você não conseguir ir
através do véu e falar com o Oráculo Santo, você desfalecerá.
Já lhes disse anteriormente que quando eu estava vindo para Londres,
havia um homem velho e estranho na Reunião de Oração que, enquanto as
pessoas estavam orando para que eu fosse abençoado na minha vinda, ele pedia
ao Senhor que eu fosse ajudado a “engolir várias questões atravessadas”. Isto eu
fiz muitas vezes. Outro orou para que eu fosse “protegido do balido das
ovelhas”, e, naquela época, não conseguia entender o que ele disse. Não sei se
ele entendeu o que ele mesmo falou, mas eu entendo isso muito bem agora. Não
existe líder do rebanho que não irá ocasionalmente desejar ser protegido do
balido das ovelhas, pois elas balem em tons tão diferentes às vezes. Você pode
escutar o balido de uma ovelha ou outra – algumas, talvez, não estejam balindo
da forma correta, mas é uma grande coisa pensar: “Eu não serei guiado pela
forma com essas ovelhas balem. Fui colocado para guia-las, em vez de deixar
que elas me guiem, mas eu serei guiado por vozes mais altas que os balidos das
ovelhas, a saber, a voz do Grande Pastor”. Creio que todo homem que deseja
ganhar almas – e estou me referindo a muitos que estão liderando classes
bíblicas, ou estão em missões, ou de alguma forma servindo ao Senhor – irá
desfalecer, estou certo que irá – na administração de seu trabalho, a não ser que
ele se retire algumas vezes e coloque tudo isto aos pés do Senhor e espere Nele.
“Os homens devem sempre orar, e nunca desfalecer” em seu ministério a Deus,
em seu serviço par as almas de seus irmãos. Eles irão desfalecer de muita
desorientação se não orarem.
E você certamente ira desfalecer, em certos tempos, por cansaço e
depressão de espírito, por sua própria impotência. “Ó,” você diz, “Deus
permitisse que eu pudesse desistir de tudo! Ó, que eu tivesse as assas de uma
pomba e voasse para longe e pudesse descansar!”. É uma grande misericórdia
que as assas não nasçam quando nós pedimos por elas, pois elas não seriam de
nenhuma serventia para nós – o que faríamos se voássemos como pombas? Se
Deus tivesse uma mensagem para que nós a carregássemos como um pombo, Ele
nós daria as assas e então seria correto voarmos. Mas o que nós geralmente
queremos dizer é que nós queremos nos livrar do trabalho duro, nós estamos
querendo os sábados à noite. Quem gostaria de ter um trabalhador que fala na
Terça-Feira de manhã. “Ó, Senhor, gostaria que fosse Sábado à noite!”. E
quando chega a Quinta-Feira, ele se encontra com você e diz, “Bom dia, Senhor.
Gostaria que fosse Sábado à noite.” “Ó,” eu diria, “próximo Sábado será a ultima
noite em que eu te verei”. Você precisa de um melhor trabalhador do que esse – e
se nós tivermos desfalecimentos adicionado a isso, diríamos para nós mesmos,
“Chega, assim não dá! Devo ir e dizer ao Senhor tudo sobre minha dificuldade e
aflição”. Busque Nele por novas forças e então você sairá como se tivesse
molhado seu rosto no orvalho do Céu, como se a Luz de Deus estivesse entrado
em seus olhos e se você estivesse voltado refrescado de uma visão de anjos para
que possa falar aos homens com novas línguas à medida que o Espírito lhe
provesse intrepidez! “Espere no Senhor”, pois isto é aquilo que lhe guardará de
desfalecer e fará com que você renove suas forças como a águia!
Estou lidando com o povo de Deus na conclusão do meu assunto, mas
gostaria que não fosse assim – gostaria que eu tivesse me mantido no primeiro
grupo e falasse com aqueles que estão começando a orar. Caros amigos,
comecem esta noite, eu os imploro, fiquem com um olho no Senhor naquela
Cruz, toda manchada com faixas de sangue escarlate descendo de Seu precioso
corpo. Olhe para Ele! Há vida em um olhar para Ele. Olhe para Ele enquanto Ele
morria por você e você viverá! Deus nos ajude a fazer isso, no nome de Criso! E
quando vocês houverem acreditado Nele, venham e sejam batizados em Seu
Nome, como esses queridos amigos estão prestes a ser[28]. Deus abençoe a todos!
Amém.
[1]
Uma máquina de oração é uma roda onde símbolos de orações são escritos ou pregados nela, e à
medida que o vento sopra, a roda gira. Os religiosos que usam tal coisa acreditam que a cada volta
que a roda dá, todas as orações ali escritas foram realizadas aos seus ídolos.

[2]
Hugh Latimer foi um pregador inglês que se uniu aos reformadores, até ser preso e por fim
queimado na fogueira pela igreja Católica Romana.

[3]
John Knox foi o principal reformador escocês. Enfrentava diretamente os reis e rainhas de sua
época por se ligarem a igreja Católica Romana. A rainha da Escócia, Maria, afirmava que tinha
mais medo das orações de John Knox do que de um exército de milhares de homens.
[4]
Spurgeon matinha um orfanato para meninos inicialmente e depois, através de ofertas,
conseguiu abrir outro orfanato destinado à meninas.
[5]
A rua Downing é a rua onde se instalam os principais ministros da Inglaterra.
[6]
Os tártaros usavam rodas onde colocavam símbolos ou orações e à medida que o vento girava as
pás dessas rodas ou moinhos de vento, eles acreditavam que suas orações eram feitas.
[7]
Wimbledon é um distrito da Grande Londres, onde competições de tiro eram realizadas. Nos
dias atuais, essas competições ainda existem, porém as competições mais famosas neste distrito são
os campeonatos de tênis.
[8]
Uma referência aos Filactérios, pequenas caixas que continham pequenas partes da Escritura. Os
judeus amarravam essas caixas na testa e no braço para mostrar que guardavam a Palavra do
Senhor.
[9]
O sentido da palavra é uma devoção só de nome, mas cujo interior do homem não é
verdadeiramente transformado.
[10] Esta versão é aquela usada por Spurgeon e a mesma não possui tradução equivalente em
português.
[11]
“Não a nós, Senhor”.
[12]
É uma expressão em inglês usada para homens que pelos próprios esforços se fizeram homens
ricos, grandes ou famosos.
[13]
A Rua Cheapside era uma rua de comércios da cidade de Londres.
[14]
Provérbio inglês.
[15]
Esta é a versão usada por Spurgeon, a qual não possui uma tradução igual no português.
[16]
Rowland Hill era um famoso pregador britânico.
[17]
Samuel Coleridge foi um poeta inglês.
[18]
Issac Watts foi convidado por Thomas Abney para que morasse nas dependências da família
Abney e Watts permaneceu morando com esta família até a sua própria morte em 1748.
[19]
‘Porção do Cesto’ é uma expressão em inglês dada a mulheres que recebem muitos presentes de
seu pai.
[20]
Considerado um dos mais importantes teólogos puritanos e conhecido como “teólogo do
pecado”, pois expunha com muita abrangência e profundidade sobre a questão do pecado. É tido
como um dos maiores teólogos reformados de todos os tempos. Recomendo muito que as obras
deste puritano sejam adquiridas por você, leitor.
[21]
Possivelmente este texto só pode ser encontrado na versão da Bíblia que era usada) por
Spurgeon.
[22]
Nunca pense que pode pedir a Deus qualquer coisa só porque acha que está usando o
nome de Cristo. Nossos pedidos para o Senhor devem ser sempre para suprir necessidades
que Ele prometeu que seriam supridas. Não pense você que pode obter do Senhor coisas para
esbanjar em seus prazeres. Miserável o homem que pensa assim. (Nota do Editor).
[23]
As filhas da figura mitológica Danaus, como a lenda conta, eram em número de cinquenta e
foram casar com outros cinquenta homens, porém os mataram na noite de seus casamentos. Dessa
forma, elas foram condenadas tomar jarros de água furados e encher um grande recipiente também
furado. Esta lenda mostra uma atividade completamente fútil e sem fim.
[24]
Sísifo foi outro personagem da mitologia grega que por ser um enganador, tanto de homens
quanto de deuses, foi condenado pelos deuses gregos a carregar montanha acima uma pedra enorme
de mármore e sempre que chegava perto do topo, uma força irresistível a empurrava novamente
para o pé do monte, fazendo com que ele houvesse de realizar todo o trabalho novamente por toda
eternidade.
[25]
Nó Górdio, segundo uma lenda, era um nó impossível de ser desatado. A lenda conta que quem
desatasse o nó, iria dominar toda a região da Ásia Menor. Alexandre, o grande, ao se deparar com o
nó, o cortou com sua espada. A expressão em inglês significa resolver um problema de uma forma
muito simples.
[26]
George Muller foi um grande evangelista e diretor de um orfanato onde pôde cuidar de mais de
dez mil crianças.
[27]
A oração em secreto é aquela onde você está sozinho diante de Deus, onde não há ninguém
para escutar suas palavras além do Senhor. Se alguém não ora sozinho diante de Deus, não pode
falar que conhece a Ele e nem que tem comunhão com Ele. [N.E.]
[28]
Neste culto havia um grupo de crentes que seria batizado.