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LENDO AS CARTAS

AS CARTAS NO MUNDO ANTIGO


Quando o leitor moderno tem o seu primei- temas diversos se tomaram o meio pelo
ro contato com o NT ele pode achar estra- qual a primeira geração de crentes, dirigi-
nho que 21 de seus 27 livros sejam cartas, da pelo Espírito Santo, aprendeu a expres-
ou algo muito parecido com cartas, e que sar e defender a fé com manifestações da
elas perfazem 35% do texto. Por que foi verdade extraordinariamente valiosas. As
usada essa forma específica? pressões eram com frequência tratadas de
Ao menos quatro fatores precisam ser forma muito adequada por meio de cartas;
levados em consideração. Primeiro, às não é de admirar que tais cartas se tomas-
vezes esquecemos o quanto estamos sa- sem, sob a condução de Deus, os docu-
turados da grande riqueza de opções que mentos fundamentais da igreja.
temos hoje no campo das comunicações, Finalmente, as cartas eram um meio
e que quase nada disso estava disponível de "marcar presença" estabelecido e acei-
à igrej a do século I. As cartas (como vere- to no mundo antigo. Nós talvez também
mos) eram um meio consagrado de comu- chamaríamos isso de um meio de "manter
nicação tanto particular quanto pública; contato", de "manter os relacionamentos
não havia muitos outros meios. Havia o de amizade", e em algumas organizações
equivalente antigo aos arautos públicos, de "preservar linhas de autoridade". Para
algumas publicações em livros (mas não atingir tais alvos no mundo ocidental mo-
impressos), apresentações teatrais, mui- derno, recorremos principalmente ao tele-
tos discursos - mas em sua maioria não fone e à internet. No Império Romano os
eram opções realísticas para o tipo de mesmos alvos eram atingidos por meio de
mensagens que os primeiros líderes cris- cartas, sem dúvida estimadas ainda mais
tãos precisavam enviar. pelos atrasos que com frequência separa-
Segundo, o crescimento rápido da igre- vam uma missiva da seguinte. Certamente
ja cristã nas primeiras décadas de vida há evidências de que em inúmeras ocasiões
exigia um meio flexível, barato e ágil de os autores do NT queriam marcar presença
manter contato com crentes espalhados por diversas razões (e.g., lCoríntios 5.3-
pelo império. É difícil imaginar uma opção 5; Gl 4.19,20; lTs 5.27), embora nada
melhor entre as disponíveis na época. pudesse transpor completamente o abis-
Terceiro, à medida que a igreja cris- mo na comunicação criado pela distância
tã crescia, ela enfrentava mais questões (1Ts 2.17-3.8; 210 12).
dificeis do que estava preparada para en-
frentar. Algumas delas resultaram do seu Tipos de cartas
próprio surgimento a partir da religião da Há aproximadamente trezentos anos se
antiga aliança; algumas se originaram do argumentava que as antigas cartas greco-
seu confronto com o paganismo do mundo romanas podiam ser classificadas em dois
greco-romano. O crescimento rápido e a tipos: (1) epístolas, i.e., produções literá-
geografia extensa eram assim combinados rias que de maneira um tanto superficial
a um programa de trabalho em constante adotavam a forma de cartas mas eram des-
mudança. Na providência de Deus, esses tinadas à publicação universal e a um am-
COMENTÁRIO BíBLICO VIDA NOVA 1668

plo círculo de leitores; e (2) cartas, escritos introdução geralmente era breve: "X para
ocasionais (i.e. cartas ocasionadas por cir- Y, saudações [charein]". No NT essa forma
cunstâncias concretas) destinadas à leitura simples é preservada numa carta enviada
de um indivíduo ou de um grupo definido. pelo concílio apostólico (At 15.23), na car-
As cartas de Paulo, segundo se argumen- ta de Cláudio Lísias (At 23.26) e em Tiago
tava, pertencem todas à segunda catego- (1.1). Duas cartas do NT (Hebreus e lJoão)
ria. Mas essa divisão elementar está agora não trazem tal tipo de introdução, suscitan-
descartada universalmente. Ela é simples do dúvidas quanto ao seu gênero (v. adian-
demais; muitos outros tipos de cartas fo- te); mas a maioria expande essa introdução,
ram classificados. Também é rígida de- às vezes até tomando-a um tanto longa
mais, pois há evidências suficientes de que (e.g., Rm 1.1-7), e alteram o tradicional
ao menos algumas das cartas endereçadas charein ("saudações") para charis ("gra-
a situações concretas eram, ainda assim, ça"), sem dúvida em virtude da influência
tratadas como tendo escopo e significado cristã sobre a experiência da graça de Deus
normativos que iam além dos primeiros re- mediante o evangelho (assim todas as car-
ceptores (e.g., CI4.6). Além disso, a mera tas de Paulo, 1 e 2Pedro e 2João).
diversidade das cartas do NT (compare-se, Algumas cartas antigas incluíam um
e.g., Filemom e 3João a Romanos) requer voto de saúde ou alguma bênção. Nesse
categorias mais apropriadas. aspecto as cartas do NT apresentam uma di-
Um grupo de estudiosos classificou as versidade considerável. O que chega mais
cartas antigas em dez categorias (embo- perto de um voto de saúde está em 3João 2,
ra haja alguma sobreposição entre elas). em que notavelmente é a saúde espiritual
O que está claro é que cartas antigas iam de Gaio que estabelece o padrão para o
desde comunicados particulares e pessoais seu bem-estar geral. Os autores das cartas
(como uma carta pedindo dinheiro à famí- do NT comumente iniciam com gratidão a
lia) até tratados formais que eram dirigidos Deus (todas as cartas de Paulo o fazem, ex-
a uma circulação mais ampla. Entre es- ceto Gálatas, 2Coríntios, 1Timóteo e Tito);
ses extremos havia cartas públicas breves algumas começam com um cântico de
(algo parecido a uma "carta ao editor"). louvor (2Coríntios, Efésios e 1Pedro). As
As cartas do NT cobrem grande parte dessa cartas antigas costumavam terminar com
classificação, mas não toda ela. Romanos saudações de diversos tipos; os autores do
e Hebreus, por exemplo, estão mais próxi- NT seguem o mesmo padrão, com frequên-
mas da ponta dos tratados nesse espectro, cia acrescentando uma doxologia ou bên-
mas mesmo assim continuam sendo cartas ção. Romanos é notável pelo espaço que
ocasionais (v. Rm 15.17-22; Hb 10.32-39; dedica a um esboço dos planos de viagem
13.22-24). Filemom, Tito e 3João estão de Paulo (15.22-29), um pedido de oração
mais próximas da outra ponta, mas a sua (15.30-32) e um desejo de oração (como
inclusão no cânon mostra que elas foram são chamadas as orações na terceira pes-
reconhecidas como tendo autoridade e re- soa; 15.33), uma lista longa de recomen-
levância mais amplas do que seria de es- dações e saudações (16.1-16) e saudações
perar da imposição das necessidades dos finais de colaboradores e a graça e bênção
primeiros leitores. finais (16.20-27). Embora alguns tratem o
cp. 16 como um acréscimo editorial pos-
o conteúdo de uma carta terior, a razão de Paulo dedicar espaço tão
A maioria das cartas do mundo antigo era considerável a essa conclusão provavel-
constituída de três partes: uma introdução mente se deva ao fato de que ele não tinha
que continha a indicação do receptor e sau- envolvimento anterior com a igreja como
dação, o corpo da carta e a conclusão. A um todo, e assim ele estava interessado em
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estabelecer o melhor relacionamento possí- produto final com o acréscimo de sauda-


vel com eles, com vistas à sua estadia pla- ções finais de próprio punho; essa cer-
nejada entre eles a caminho da Espanha. tamente era a prática de Paulo (Gl 6.11;
No corpo das cartas, a forma das car- 2Ts 3.17). A inferência é que ele ditava
tas do período final da Antiguidade diferia todas as suas cartas, e talvez os outros au-
grandemente uma para outra. Alguns es- tores do NT tenham feito o mesmo.
tudiosos modernos têm tentado identificar A pergunta difícil de responder é quanta
formas e sequências típicas, transições tí- liberdade tinham esses amanuenses. A evi-
picas da introdução para o corpo da carta, dência não está clara, e por isso é bastante
e assim por diante. Até aqui esses esfor- debatida. Que havia alguma liberdade é su-
ços ainda não obtiveram amplo consenso. gerido até pelo fato de Tércio se identificar
Parece melhor simplesmente respeitar a em Romanos. O grau de liberdade prova-
diversidade, reconhecendo que os autores velmente dependia do relacionamento en-
cristãos podiam ser tão criativos quanto os tre o amanuense e o que ditava o conteúdo,
outros (as cartas de Paulo são particular- a habilidade relativa das duas pessoas, a
mente criativas e ecléticas) e que algumas natureza da correspondência e assim por
peculiaridades provavelmente devam algo diante - de forma parecida a como o grau
à herança da influência judaica que caracte- de independência concedida a um secretá-
rizava a igreja primitiva. rio hoje depende de variáveis semelhantes.
No entanto, uma vez que o autor tivesse
Algumas considerações lido e assinado o produto final, o docu-
especiais mento era responsabilidade do autor, não
Quatro observações adicionais de natureza simplesmente do amanuense. Ainda assim,
geral são necessárias. Primeira, as cartas pode ser que algumas diferenças de formu-
do NT tendem a ser um pouco mais exten- lação entre, digamos, as Cartas Pastorais
sas do que as suas correlatas seculares. As e o restante do corpus paulino girem em
cartas de Sêneca e Cícero frequentemente tomo da probabilidade de que Lucas foi o
são comparadas às de Paulo. As 124 car- amanuense daquelas (v. 2Timóteo 4.11),
tas de Sêneca variam em extensão de 149 uma vez que elas contêm uma quantidade
a 4.134 palavras; as 776 cartas de Cícero substancial de nuanças mais típicas dos es-
têm entre 22 e 2.530 palavras. As cartas de critos próprios de Lucas.
Paulo têm em média 1.300 palavras, mas Terceira, com frequência se afirma que
Romanos tem 7.114. a composição de cartas pseudônimas (i.e.,
Segunda, evidências independentesates- cartas supostamente escritas por um autor
tam o quanto era comum a prática de os muito conhecido mas na verdade escritas
autores lançarem mão da ajuda de "ama- por outra pessoa) era uma prática comum
nuenses", escribas treinados que cum- nos primeiros dois séculos dessa era, de
priam a função de escrever o que os autores modo que os autores do NT não teriam vis-
ditavam. Sem dúvida, havia muitos ama- to nada de errado nisso, e que evidências
nuenses escravos, empregados para aju- literárias exigem a conclusão de que algu-
dar senhores praticamente iletrados nos mas cartas do NT são pseudônimas. (A lista
seus negócios e correspondência; outros difere de comentarista para comentarista,
trabalhavam como agentes livres em tro- mas as Pastorais e 2Pedro são as mais comu-
ca de honorários. Romanos 16.22 mostra mente consideradas pseudônimas, seguidas
Tércio como um amanuense que escre- de Colossenses, Efésios e 2Tessalonicenses,
veu o que Paulo lhe ditou nessa carta. e, menos frequentemente, de várias outras).
Era prática comum que os que ditavam Mas conquanto a pseudonímia não fosse in-
o conteúdo atestassem a autenticidade do comum no mundo antigo - especialmente
COMENTÁRIO BíBLICOVIDA NOVA 1670

em livros apocalípticos - , era rara, e talvez Como as cartas de Paulo


totalmente inexistente no âmbito das car- foram coletadas
tas. Não temos um único exemplo seguro As cartas de Paulo foram escritas durante
de carta pseudônima que tenha chegado até um período de aproximadamente quinze
nós dos primeiros dois séculos. Os exem- anos (depois de ele mesmo já ser cristão
plos que são citados não são convincentes. por aproximadamente quinze anos), e en-
Do lado judaico, A epístola de Jeremias é viadas a igrejas e indivíduos muito distan-
uma homilia e não uma carta, e A carta de tes uns dos outros. Como então essas 13
Aristeias é uma narrativa apologética (am- cartas foram ajuntadas? A resposta breve é
bos os exemplos também são anteriores à que não sabemos; a evidência é escassa de-
era cristã). Problemas semelhantes estão mais para termos certeza. Em alguns casos,
associados aos exemplos cristãos posterio- o próprio Paulo ordenou que a circulação
res (e.g., as cartas de Cristo e Abgarus, uma fosse limitada (Cl 4.16). Bons argumentos
carta de Lentulus, a suposta correspondên- foram propostos em apoio à teoria de que
cia entre Paulo e Sêneca), Não temos um Efésios foi escrito primeiramente como
único exemplo convincente do mundo pa- uma carta circular geral para os crentes em
gão greco-romano. Certamente tão logo a Éfeso e vilas e cidades vizinhas, uma carta
igreja começou a analisar essas questões, geral abrangendo cartas mais específicas
qualquer suspeitas de que um documen- como Colossenses e Filemom (e talvez
to fosse pseudônimo significava que não Filipenses).
poderia ser considerado como tendo auto- A primeira lista concreta que chegou
ridade canônica. E de todo modo, muitos até nós é a lista de dez cartas paulinas
estudiosos têm sido convencidos de que as (excluindo as Pastorais) compilada por
razões tradicionais para se rotular algumas Marcião (líder de uma comunidade cristã
cartas do NT como pseudônimas não são heterodoxa em tomo de 140 d.C.). Alguns
muito atraentes. Essas questões são trata- estudiosos argumentam que essa foi a pri-
das brevemente nas introduções dos livros meira vez que uma lista dessas foi com-
relevantes para a hipótese. pilada. Mas isso é altamente improvável.
Finalmente, e completando, deve-se Apenas uma pequena fração do material
mencionar o meio de transporte dessas escrito no final da Antiguidade chegou
cartas. Mesmo o governo imperial tendo o até nós, e a lista de Marcião é importan-
seu próprio sistema postal, este não podia te principalmente como evidência de que
ser usado pelo público em geral. As cartas listas mais amplas e mais ortodoxas prova-
eram por isso levadas por amigos, conhe- velmente já estavam circulando. A prática
cidos, escravos, empregados, soldados, desses líderes pseudocristãos era adaptar a
pessoas de negócios, viajantes - todo literatura cristã às suas próprias necessida-
aquele que se dispusesse e estivesse indo des. Marcião excluiu todo o AT e a maior
na direção desejada. parte do NT; mesmo dos Evangelhos ele só
preservou uma edição mutilada de Lucas.
Outros têm argumentado que as cartas
de Paulo foram reunidas pela primeira vez
AS CARTAS DE PAULO no início da década de 90, cinquenta anos
Se pressupomos que as 13 cartas canônicas antes de Marcião. Algum discípulo zeloso
que levam o seu nome são obra de Paulo, de Paulo, entusiasmado pela publicação de
precisamos mesmo assim perguntar como Atos (pouco antes do ano 90, segundo essa
elas foram coletadas e quais princípios re- teoria), reuniu as cartas de Paulo existen-
geram sua inclusão no NT como nós o co- tes. Mas é muito mais provável que Atos
nhecemos hoje. tenha sido publicado muito antes disso, em
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tomo de 64, e é dificil ver por que a com- jectura sobre a razão disso seria que as
pilação de ao menos alguns dos escritos de pessoas que ordenaram as cartas de Paulo
Paulo teria de esperar tanto tempo. Há boas dessa forma tinham em mãos uma cópia de
evidências de que diversas das cartas de Efésios escrita de forma mais condensada,
Paulo são citadas pelos primeiros pais da e por isso equivocadamente pensaram ser
igreja (especialmente Clemente de Roma; Efésios mais curta que Gálatas e mais lon-
c. 96). Mais importante, 2Pedro 3.16 se re- ga que Filipenses.
fere à maneira como Paulo escreve "em to- As cartas com frequência são classi-
das as suas epístolas", uma expressão que, ficadas, de forma mais temática, em qua-
embora não abarque necessariamente com tro grupos. No primeiro temos Romanos,
precisão as 13 cartas canônicas que che- 1 e 2Coríntios e Gálatas, descritas às ve-
garam até nós, certamente pressupõe que zes como as grandes cartas evangélicas.
há conhecimento comum de um corpus da As primeiras três foram escritas durante
correspondência de Paulo em circulação. a terceira viagem missionária de Paulo.
Embora a maioria dos comentaristas atuais Embora muitos atribuam Gálatas ao mes-
favoreça uma data tardia para 2Pedro, há mo período, pode-se defender de forma
razões substanciais para fundamentar uma razoavelmente convincente a teoria de que
publicação já em 64 ou 65. Gálatas foi, dentre as cartas de Paulo que
Embora não possa ser provada, outra sobreviveram, a primeira a ser escrita. Em
teoria talvez seja mais plausível do que conteúdo, Romanos e Gálatas são bastante
as suas principais concorrentes. Pequenos próximas, embora Gálatas tenha sido cla-
grupos de cartas paulinas circulavam re- ramente escrita para advertir as igrejas da
gionalmente já durante a vida de Paulo, em Galácia contra os que estavam exaltando
parte seguindo o pedido dele mesmo com o judaísmo dentro da comunidade cristã
relação a isso (CI 4.16). Então, depois do (gentílica), ao passo que Romanos não pa-
martírio dele (c. 65), um ou mais dos seus rece ter um propósito tão específico.
colaboradores mais próximos (Timóteo?) O segundo grupo é com frequência
se empenharam em preservar o que fosse chamado de "cartas da prisão", visto que
possível da correspondência em circulação em cada uma delas Paulo fala de si mes-
do seu mestre. Nada disso pode ser provado mo como prisioneiro. São elas: Efésios,
de forma irrefutáve1. Não obstante, alguma Filipenses, Colossenses e Filemom. Talvez
teoria dessa natureza parece se adequar as quatro tenham sido escritas enquan-
melhor aos fatos que chegaram até nós. to Paulo estava na prisão em Roma, em-
bora alguns estudiosos argumentem que
A ordem dessas cartas Filipenses e talvez outras dessas quatro te-
A organização do corpus paulino em nosso nham sido enviadas de Éfeso ou Cesareia.
Novo Testamento requer alguma explica- O terceiro grupo inclui 1 e 2Tessalo-
ção. A ordem não segue nem a cronologia nicenses. Muitos argumentam que dentre
(data de publicação? época de compo- as cartas que temos de Paulo essas foram
sição?) nem os temas. Está baseada em as duas primeiras que ele escreveu. Mesmo
dois princípios simples: as cartas às igre- que Paulo tenha escrito Gálatas antes dis-
jas (Romanos a 2Tessalonicenses) são so, essas duas, escritas em Corinto durante
agrupadas antes das cartas aos indivíduos a sua segunda viagem missionária, reve-
(1 Timóteo a Filemom), e em cada grupo lam uma sensibilidade pastoral e uma pers-
as cartas mais longas são colocadas antes pectiva "dos últimos dias" que reaparecem
das cartas mais curtas. A única exceção em muitas de suas outras cartas. Embora
é Efésios que, segundo esses princípios, seja comum Paulo associar um ou dois co-
deveria estar antes de Gálatas. Uma con- legas ao seu nome nas primeiras linhas das
COMENTÁRIO BíBLICOVIDA NOVA 1672

suas cartas, estes dois são explicitamente li- sem saudação alguma (diferentemente de
gados a Paulo, Silas e Timóteo, e então, de todas as outras cartas do NT). Isso levou
forma muito incomum, são escritas quase alguns estudiosos a sugerir que esses escri-
inteiramente na primeira pessoa do plural. tos não são cartas, mas brochuras ou livros
O quarto grupo, as Cartas Pastorais, breves, homilias ou ensaios. Mas Hebreus
incluem I e 2Timóteo e Tito. Essas são ao menos termina como uma carta, e am-
as cartas que com maior frequência são bas contêm observações pessoais suficien-
consideradas pseudônimas. Se, no entan- tes, sem falar das referências a detalhes
to, de fato as atribuímos a Paulo, precisa- específicos da experiência dos leitores,
mos concluir que Paulo havia sido liberto que nos levam à conclusão de que os seus
da prisão em Roma, pois em 1Timóteo e respectivos autores tinham em mente leito-
Tito Paulo já não está em cadeias. Quando res específicos (e.g., Hb 5.12; 6.10; 10.32;
escreve 2Timóteo, no entanto, Paulo está lJo 2.19). Além disso, em Hebreus, a pro-
preso novamente, e dessa vez é eviden- fusão de expressões usadas normalmente
te que ele não espera sobreviver. Embora no discurso falado sugere que a carta co-
as peculiaridades linguísticas e temáti- meçou como uma série de homilias que
cas desse grupo tenham sido às vezes foram reduzidas a essa forma. É possível
exageradas, elas são substanciais e pro- que lJoão tenha servido como carta pasto-
vavelmente resultaram de uma mistura ral geral que circulou entre várias igrejas, e
de fatores. Essas cartas são dirigidas a algumas igrejas também tenham recebido
indivíduos, no final da vida do apóstolo, as suas missivas específicas e mais breves
tratando em parte dos princípios da lide- (2 e 3João?).
rança cristã e possivelmente ditadas a um Diversas dessas cartas têm caracterís-
colega de confiança (Lucas?) que serviu ticas que requerem comentário extenso,
como amanuense com liberdade relativa- mesmo que possam ser apenas citadas
mente maior do que a comum. aqui. Judas e 2Pedro compartilham algu-
ma relação de dependência literária (como
ocorre também, digamos, entre Marcos e
Mateus). É possível que Tiago tenha sido o
AS CARTAS primeiro livro do NT a ser escrito. A segun-
NÃO PAULINAS da carta de João é singular quanto ao seu
Essas cartas são extremamente diversas receptor: ela é dirigida "à senhora eleita e
em autoria e natureza. A carta aos Hebreus aos seus filhos", muito provavelmente uma
é formalmente anônima, e não há consenso igreja irmã e os seus membros (embora se
quanto a quem foi o seu autor. Duas cartas esteja longe do consenso quanto à razão de
se apresentam como tendo sido escritas por João ter escolhido essas palavras). A ter-
Pedro, e uma como sendo de Tiago e uma ceira carta de João é notável por refletir
de Judas (que é considerado por muitos o francamente a "disputa de poder" dentro
meio-irmão de Jesus). As três restantes são da igreja primitiva, o que lembra um pouco
formalmente anônimas, embora duas delas 2Coríntios 10-13.
se apresentem como obra "do presbítero".
Há boas razões para se crer que o autor das
três tenha sido o apóstolo João. Duas des-
sas sete cartas estão entre as mais breves INTERPRETANDO
do NT (2 e 3João); uma está entre as mais AS CARTAS
extensas (Hebreus). OS princípios gerais de interpretação resu-
Hebreus e lJoão são semelhantes em midos anteriormente (v. "Como interpre-
um aspecto interessante. Ambas começam tar a Bíblia" no capítulo Como abordar a
1673 LENDO AS CARTAS

Bíblia) evidentemente precisam ser levados propósito apresentar a Jesus nos dias da
em consideração aqui, mas além deles há sua vida na terra. Independentemente do
algumas diretrizes que são particularmente quanto possamos saber pelos Evangelhos
importantes para a leitura das cartas. acerca do estado da igreja quando eles
1. Visto que a maioria das cartas man- foram escritos, o que juntamos nunca
tém certo grau de fluxo linear de pensa- passam de inferências. Em contraste com
mento, precisamos fazer o melhor para isso, as cartas nos oferecem percepções
detectar e seguir esse fluxo. Ao mesmo relativamente diretas acerca da natureza
tempo, é preciso fazer concessões para di- da igreja primitiva.
versas variações importantes. Assim as cartas nos fornecem a cul-
Primeira, às vezes o autor está respon- minação doutrinária, ética e espiritual
dendo às necessidades das pessoas a quem (este lado da segunda vinda) do desenro-
está escrevendo. Isso é particularmente lar da história da salvação na Bíblia. Que
verdade em 1Coríntios. Embora os cp. o quadro é rico e multifacetado não deve
1---4 tratem do problema do partidarismo ser negado. Que não temos todas as peças
na igreja de Corinto, nos capítulos restan- do quebra-cabeça é evidente. Mas as pe-
tes Paulo lida, item por item, com questões ças que temos combinam e reúnem muitos
sugeridas por relatos orais que chegaram a dos temas das Escrituras e estabelecem as
ele (cp. 5-6), e então itens suscitados por formas em que vertentes aparentemente
uma carta dos coríntios (a partir do cp. 7). divergentes são reunidas na revelação de
Segunda, o movimento do pensamen- Deus, nestes últimos dias, no seu Filho. É
to é tudo menos claro e direto em diversas difícil imaginar como ficaríamos empobre-
cartas. Tiago é notoriamente difícil de es- cidos se o NT não incluísse, por exemplo,
boçar, e lJoão ainda mais. Alguns estudio- Hebreus, com sua visão abrangente da ma-
sos têm argumentado que em lJoão há um neira como o sistema levítico e a aliança
"estilo rondó", com diversos pontos princi- a ele relacionada apontavam para o sacri-
pais sendo tratados repetidamente. Mesmo fício e o sacerdote que tratariam de forma
que seja o caso, não é uma questão de mera eficaz e definitiva do pecado. Ou se o NT
repetição; cada ciclo introduz material e não incluísse Efésios, com sua visão arre-
percepções novos. De todo modo, o de- batadora da extensão do plano de Deus em
senvolvimento do argumento não é linear reunir judeus perdidos e gentios perdidos
(como o é, relativamente, em boa parte de em uma nova humanidade, a igreja. Ou se
Romanos e 2Coríntios); tampouco é uma faltasse lJoão, com sua insistência estimu-
colcha de retalhos, como algumas listas de lante em que o cristianismo pode se confor-
Provérbios. A linha de pensamento precisa tar e fortalecer na fidelidade doutrinária, na
ser desemaranhada, mas com frequência obediência moral e no amor genuíno. Ou
volta-se sobre si mesma novamente e foca então Colossenses, com suas advertências
em terreno já tratado, mas de uma perspec- pungentes, particularmente relevantes em
tiva levemente diferente. nossa época pluralista, quanto ao fato de
2. As primeiras cartas foram os pri- que Jesus Cristo não é um deus entre mui-
meiros documentos canônicos a ser pro- tos, mas a revelação exclusiva e redentora
duzidos depois da morte e ressurreição de Deus, Aquele em quem "habita, corpo-
do Senhor Jesus Cristo; as últimas dentre ralmente, toda a plenitude da Divindade"
elas foram os últimos documentos canôni- (CI2.9). Afirmações semelhantemente dis-
cos escritos. Mas embora cubram um pe- tintivas poderiam ser feitas acerca de cada
ríodo aproximadamente contemporâneo carta do cânon do NT.
ao da composição dos Evangelhos, es- 3. Em medida considerável, as cartas
tes, ao contrário das cartas, tinham como são "documentos-ponte". As Escrituras do
COMENTÁRIO BíBLICO VIDA NOVA 1674

AT foram escritas pelos judeus, em grande no mundo greco-romano. A sensibilidade


parte no contexto da aliança que Javé ti- a essa herança dupla enriquecerá a nossa
nha feito com o seu povo. É verdade, es- exegese. Ao mesmo tempo, ela gera admi-
ses livros refletem um pouco do contexto ração diante da sabedoria e providência
do Antigo Oriente Próximo em que os is- do Deus, que de forma tão detalhada pre-
raelitas viviam. Estamos familiarizados, parou o caminho para esse ato sublime de
por exemplo, com algo parecido com a autorrevelação.
Literatura de Sabedoria dos judeus na li- 4. Visto que as cartas refletem não so-
teratura do Egito, com algo semelhante à mente circunstâncias históricas concretas
estrutura da aliança nos tratados dos an- mas também teologia bíblica culminante,
tigos hititas e outros povos, e com o uso há duas outras ferramentas muito úteis para
da circuncisão em outros agrupamentos pastores e leigos (além dos comentários).
tribais (embora tendo um simbolismo bas- Bons dicionários bíblicos proveem gran-
tante diferente do que Abraão e seus filhos de riqueza de material acerca de cidades,
lhe atribuíam). Mas as cartas do NT surgem movimentos, expressões técnicas, evidên-
de forma autoconsciente dessa herança cias arqueológicas relevantes e informa-
judaica, e em muitos casos se dirigem a ções acerca de algumas questões críticas.
igrejas novatas e inexperientes no mundo Quando lemos ICoríntios, é útil saber al-
greco-romano. A mudança não foi inciden- gumas coisas sobre Corinto; quando estu-
tal; ela refletiu a transformação do povo de damos a última das cartas às sete igrejas
Deus de um agrupamento tribal em uma (Ap 3.14-22), é extremamente proveitoso
comunidade internacional dos redimidos. aprender um pouco sobre Laodiceia. Além
Quando os escritores do NT enfrentaram disso, bons dicionários teológicos conse-
essa transição extraordinária, no início da guem resumir em alguns parágrafos ou pá-
elaboração dessa visão globalizada à qual ginas grande parte da discussão cristã bí-
o Espírito de Deus os conduziu, eles não blica e pós-bíblica, situando o assunto em
somente tiveram de discernir a relação contextos e arcabouços mais amplos que
que os cristãos têm com a lei de Moisés, seriam facilmente esquecidos por pessoas
mas também o desafio de manter unidos que estão estudando seriamente o texto bí-
os cristãos judeus e gentios. Havia novas blico pela primeira vez.
implicações políticas de uma comunidade 5. Visto que todas as cartas do NT foram
da aliança que não era uma nação mas uma em alguma medida motivadas por algu-
irmandade internacional. ma ocasião específica, é útil reconstruir a
Mesmo no nível literário esse signifi- ocasião. Às vezes esse exercício é vital; às
cado de "ponte" das cartas assume gran- vezes é perigoso; sempre é um tanto escor-
de importância. Por um lado, é possível regadio e traiçoeiro.
examinar as cartas de Paulo e observar a Reconstruir a ocasião que gerou uma
sua maneira predominantemente judaica carta a partir das evidências da própria
de manuseio das Escrituras e seu conhe- carta é em parte parecido com reconstruir
cimento profundo dos métodos judaicos uma conversa ao telefone com as evidên-
de interpretação. Ao mesmo tempo, Paulo cias do que é dito em apenas uma ponta da
tinha se beneficiado não somente das van- conversa. Às vezes a tarefa é muito fácil;
tagens de uma excelente formação acadê- às vezes é extremamente difícil. Mesmo
mica aos pés de Gamalie1 em Jerusalém, correndo o risco de forçar demais a ana-
mas também tinha tido exposição sufi- logia, podemos dizer que é fácil recons-
ciente ao pensamento grego de modo que truir uma conversa ao telefone em que a
podia citar poetas gregos secundários e fa- pessoa na ponta em que você está ouvindo
zer uso de artifícios literários originários está sempre repetindo o que a outra está
li
1675 LENDO AS CARTAS • •
••
dizendo; é um pouquinho mais difícil, mas livre de preconceito ou hipocrisia. Os ar-
nada muito desafiador, a situação em que gumentos precisam ser avaliados por todo
somente uma inferência é possível; é mais leitor atento. O que está claro, no entanto,
difícil, mas não impossível, quando várias é que o que fizermos da ocasião que origi-
inferências são possíveis mas as direções nou Hebreus afetará não somente a nossa
na conversa tendem a eliminar algumas compreensão do chamado à perseverança
delas; e é impossível ir além de probabi- mas também nossa compreensão da manei-
lidades ou meras especulações quando se ra em que essa carta deve ser aplicada aos
podem fazer muitas inferências, e poucas crentes da atualidade. A aplicação relevan-
delas são certas. Mesmo nesse caso, o que te, apropriada e eficaz depende em primei-
se consegue de fato ouvir numa ponta pode ro lugar do estabelecimento de associações
ser extremamente valioso por si mesmo. razoáveis entre nossas circunstâncias e as
Esse esforço de reconstruir a ocasião circunstâncias dos primeiros leitores.
que originou uma carta específica às ve- A despeito de argumentos contrários,
zes é chamado de "leitura por espelho". as linhas gerais do que ocasionou a carta
Por exemplo, já a partir da superfície do aos Hebreus estão muito mais claras do
texto de Hebreus pode-se observar que o que a situação por trás de Colossenses.
autor está seriamente interessado em que Nunca houve concordância precisa em
os seus leitores perseverem na fé, indepen- tomo do que exatamente foi a "heresia
dentemente das dificuldades. Mas seriam colossense". A resposta, de todo modo, é
os leitores cristãos judeus que estão em pe- a supremacia exclusiva de Cristo, o único
rigo de voltar à observância detalhada da em quem "habita, corporalmente, toda a
lei judaica? Seriam eles gentios prosélitos plenitude da Divindade" (CI 2.9), o único
do judaísmo, e depois convertidos ao cris- que é a imagem do Deus invisível, o único
tianismo, que querem voltar às conexões que deu o sangue, derramado na cruz, pelo
mais evidentes com o judaísmo praticante? qual Deus estabeleceu a paz (CI 1.15,20).
Teriam eles ou o seu autor sido influencia- Essas grandes verdades estão estabelecidas
dos profundamente pelos escritos de Filo firmemente, não importa a natureza da he-
de Alexandria, cuja obra num nível me- resia colossense. Sem dúvida ficaria mais
ramente formal se assemelha em muitos claro exatamente por que Paulo argumenta
aspectos a Hebreus? Certamente podemos da maneira que o faz se soubéssemos mais
citar estudiosos que apoiam cada uma des- precisamente o que ele estava confrontan-
sas teorias, e muitas outras. do, mas as linhas gerais de pensamento da
Em um nível, tais perguntas não têm carta estão claras de mesmo assim.
grande importância. Independentemente O ponto principal a ser observado é que
das conclusões a que chegue um intér- a natureza das cartas requer que o intérpre-
prete moderno, praticamente todos vão te faça o esforço de entender as circunstân-
concordar em que o texto de Hebreus ins- cias históricas em tomo da composição de
ta cristãos professos à perseverança. Não cada documento. O que não é permissível
obstante, as questões não são meramente é fazer uma interpretação particular total-
acadêmicas. A natureza da tentação dos mente dependente de uma reconstrução
leitores e a maneira em que são estimula- que em si resulta de um conjunto de infe-
dos a perseverar estão associadas às suas rências meramente prováveis.
circunstâncias concretas. O fato de haver 6. A natureza ocasional das cartas toma
estudiosos que discordem desta ou daquela difícil a tarefa do intérprete em alguns as-
posição não é razão para que o leitor deixe pectos. Os temas que, por exemplo, Paulo
de processar por si tais questões; a erudi- tende a destacar são determinados em par-
ção não está acima do sectarismo, nem está te pelas situações que ele enfrenta. Nesse
COMENTÁRIO BíBLICOVIDA NOVA 1676

sentido os seus temas talvez não represen- 7. Mas se a natureza ocasional das
tem adequadamente a sua teologia como cartas do NT causa dificuldades de inter-
ele a pregaria em praça pública ou a articu- pretação, em outro nível a tarefa do cris-
laria num livro aos seus colegas apóstolos. tão é muito mais fácil do que seria de ou-
Isso não significa que as suas cartas são tra forma. Se em vez disso os autores das
contrárias à sua teologia; significa, antes, cartas tivessem escolhido escrever tomos
que, com a possível exceção de Romanos, teológicos, sem dúvida os intelectuais cris-
Paulo em nenhum lugar se propõe a apre- tãos estariam muito satisfeitos. As cartas
sentar um panorama geral das estruturas como as temos, no entanto, não somente
teológicas de pensamento que ele adotou estimulam o pensamento e aumentam a
como apóstolo cristão. compreensão, mas se aplicam a todos os
Isso significa que muito do que se es- aspectos da vida. As cartas tratam de ques-
creve sobre o "centro" da teologia paulina tões éticas, de atitudes pastorais, das fontes
não leva em consideração adequadamente profundas das emoções humanas, da cons-
a natureza dos seus escritos na forma em ciência, vontade, moralidade, verdade.
que chegaram a nós. Não é possível deter- Encontramos carinhosas ações de graças
minar de maneira razoável a importância em Filipenses, a saudade sincera e amável
relativa da cruz e do Espírito no pensamen- em 1Tessalonicenses, indignação e repre-
to de Paulo simplesmente pela contagem ensão misturadas ao amor e à aflição em
do número de ocorrências de cada palavra. Gálatas, súplicas comoventes em Hebreus,
Pode ter havido razões pastorais importan- e assim por diante.
tes de ele ter dito mais sobre um tema do Tudo isso certamente é como deveria
que sobre o outro, mesmo que o outro fos- ser. Pois a Bíblia, e ainda mais as cartas,
se mais determinante em seu pensamento. foram dadas não meramente para infor-
Além disso, precisamos examinar todos os mar a mente, mas para transformar a vida.
lugares em que, por exemplo, "cruz", "cru- Essas cartas constituem um meio genero-
cificado", "morte" e "sangue" ocorrem samente dado por Deus para mediar a pre-
para identificar que função tais referências sença de Deus a homens e mulheres que
têm no pensamento de Paulo. de outra forma estariam abandonados e
Mesmo a noção de "centro" no pen- perdidos. Por isso o desafio interpretativo
samento de Paulo pode ser enganosa. Ela nunca pode ser um desafio meramente in-
requer dele uma ordenação da sua teologia, telectual. Deve ser parte do nosso chamado
com sucessivas hierarquias de importância, como cristãos, como pecadores justifica-
que ele bem poderia ter considerado estra- dos, como discípulos que confessam Jesus
nhamente abstratas, até mesmo repulsivas. como Senhor.
"Centro", de todo modo, não é um termo
claro; precisa ser definido mais precisa- D.A. Carson
mente. O que se pode argumentar é que
a justificação é o "centro" na teologia do
pensamento de Paulo no sentido de que ela
marca o ponto crítico na relação de uma Leitura adicional
pessoa com Deus e é portanto o conceito CARSON, D. A.; Moo, D. 1.; MORRIS, L.
fundamental de que dependem todas as Introdução ao Novo Testamento. Vida
outras bênçãos salvíficas. Mas poderíamos Nova, 2001.
definir "centro" de forma um pouco dife- LONGENECKER, R. N. "On the form,
rente e insistir em que a cruz, Cristologia function and authority of the New
ou a glória de Deus ou outras diversas coi- Testament Letters" em CARSON, D. A.;
sas são centrais para Paulo. WOODBRIDGE, 1. D. ed. Scripture and
1677 LENDO AS CARTAS

Truth. Inter- Varsity Press/Zondervan, rary environment. James C1arke, 1987,


1983. p. 159-225.
BRUCE, E E Paulo: o apóstolo da graça DOTY, W. G. Letters in Primitive
- sua vida, cartas e teologia. Shedd Christianity. Fortress, 1973.
Publicações, 2003. HAWTHORN, G. E; MARTIN, R. P.; REm,
ZIESLER, 1. Pauline Christianity. OBS. D. G. ed. Dicionário de Paulo e suas
Oxford University Press, 1983. cartas. Vida Nova/Paulus/Loyo1a,
AUNE, D. E. The New Testament in its lite- 2008.
ROMANOS

INTRODUÇÃO
A carta de Paulo à comunidade cristã em em Corinto provavelmente ocorreu em 57
Roma é um dos mais importantes docu- d.e., embora possa ter ocorrido um ano an-
mentos teológicos já escritos. A sua in- tes ou depois.
fluência sobre a igreja foi enorme: a carta Um fator de certa importância para
aos Romanos definitivamente moldou o nossa compreensão de Romanos é a in-
ensino de Agostinho, Calvino, Lutero e dicação que Paulo faz nesses versículos
Wesley, para mencionar apenas alguns. de que tinha chegado a um ponto crucial
No entanto, Romanos não é uma teolo- em sua carreira missionária. "Não tendo
gia sistemática, e sim uma carta escrita já campo de atividade nestas regiões",
em circunstâncias históricas específicas. isto é, no Mediterrâneo Oriental (15.23),
Vamos compreendê-la melhor se enten- Paulo havia decidido pregar na Espanha.
dermos essas circunstâncias (v. também o Com o estabelecimento de igrejas vigoro-
artigo "Lendo as cartas"). sas "desde Jerusalém e circunvizinhanças
até o Ilírico" (15.19), Paulo acreditava
Circunstâncias gerais que a obra que Deus lhe tinha confiado
- plantar igrejas estratégicas por meio
1. Paulo das quais o evangelho poderia ser pro-
Paulo nos fornece em 15.14-29 alguns de- clamado - fora concluída nessa região.
talhes sobre as próprias circunstâncias em Assim como os pioneiros americanos sen-
que vivia na época. Ele está a caminho de tiam que já havia muita gente em deter-
Jerusalém, onde pretende entregar à igreja minados locais e partiam para onde quer
judaica o dinheiro que coletou das igre- que vissem a fumaça de alguma cabana,
jas missionárias gentílicas. De Jerusalém Paulo também sentiu que já havia cristãos
Paulo pretende viajar à Espanha a fim de demais onde ele estava ministrando, e de-
iniciar uma nova obra evangelística no lo- cidiu ir àqueles que chamaríamos hoje de
cal. A caminho da Espanha, o apóstolo pla- "povos não alcançados".
neja fazer uma escala em Roma. Se com-
pararmos esses planos à narrativa de Lucas 2. A igreja em Roma
em Atos, podemos concluir que Paulo Algumas das tradições mais antigas trazem
escreveu Romanos no final de sua tercei- Pedro como o fundador da igreja de Roma,
ra viagem missionária, provavelmente du- mas isso é improvável. É possível que
rante sua estadia de três meses na Grécia peregrinos judeus vindos de Roma, que
(At 20.3-6). Paulo, sem dúvida, passou a se converteram com a pregação de Pedro
maior parte desse tempo em Corinto (v. no dia de Pentecostes, tenham sido os que
2Co 13.1,10), e a confirmação indireta levaram o evangelho à grande população
dessa cidade como o local onde a carta aos judaica da capital (Lucas observa em Atos
Romanos foi escrita vem da recomendação 2.10 que havia judeus de Roma presentes
que Paulo faz de Febe, uma irmã que ser- naquele dia). Como em tantas outras ci-
via na igreja de Cencreia, cidade portuária dades, os judeus de Roma não abraçaram
ao lado de Corinto (16.1,2). Essa estadia o novo ensino messiânico. O historiador
1679 ROMANOS {

Suetônio observa que o imperador romano com o acréscimo de 16.1-23 à igreja em


Cláudio expulsou todos os judeus de Roma Éfeso. Isso não apenas explicaria a razão
"porque, instigados por Chrestus, eles es- pela qual a doxologia aparece no final
tavam constantemente promovendo desor- dos cp. 15 e 16, mas também explicaria
dens" (Vida de Cláudio, 25.2). É quase cer- o número de pessoas que Paulo saúda em
to que ele estava se referindo às discussões 16.3-16. Essa familiaridade com tantos
violentas entre a comunidade judaica so- fiéis em Roma, uma igreja que Paulo nun-
bre as alegações dos cristãos de que Jesus ca tinha visitado, parece pouco provável,
era o "Cristo" (no grego, Christos), nome mas faria todo sentido se esses versículos
aqui corrompido para "Chrestus". Assim, fossem escritos à igreja em Éfeso, com a
essa expulsão dos judeus teria incluído os qual Paulo teve um longo e estreito rela-
judeus cristãos, como o próprio Lucas dei- cionamento. (O mais conhecido defensor
xa implícito quando menciona que foi por dessa teoria é T. W. Manson, "St.Paul's
causa desse edito de Cláudio que Priscila Letter to the Romans - and Others",
e Áquila tinham vindo para Corinto (At The Romans Debate, ed. K. Donfried
18.2). A expulsão (que provavelmente [Augsburg, 1977], p. 1-16).
ocorreu em 49 d.C.), teria tido um efeito Entretanto, essa teoria e outras seme-
significativo sobre a constituição da comu- lhantes a ela devem ser refutadas. Pri-
nidade cristã em Roma: os gentios, que até meiramente, porque a evidência textual na
esse ponto eram a minoria dos fiéis, foram qual se baseiam é muito frágil. De fato, há
agora deixados como os únicos cristãos um manuscrito que coloca a doxologia no
na cidade. Portanto, ainda que estivesse final do cp. 15, mas o mesmo manuscrito
autorizada a volta dos judeus a Roma na inclui o texto de 16.1-23. Não possuímos
época em que Paulo escreveu aos romanos um só manuscrito que contenha o texto
- Priscila e Áquila, por exemplo, tinham no formato de 15 capítulos proposto por
voltado (Rm 16.3,4) - os gentios é que Manson. Há evidência do formato de 14 ca-
eram maioria na igreja, e davam o tom tan- pítulos, mas é muito improvável que Paulo
to na liderança quanto na teologia. tenha escrito tal texto, uma vez que este
interrompe Paulo exatamente no meio de
História do texto seu argumento sobre os "fortes" e "fracos"
Variantes textuais nos cp. 14--16 suscitam na fé (14.1-15.13). Os primeiros cristãos
questões sobre a forma original e a história devem ter sido os responsáveis por omitir
literária de Romanos. A doxologia (16.25- os dois últimos capítulos da carta, talvez
27) no fim da carta é colocada no final do para que ela tivesse um apelo mais univer-
cp. 14 em alguns manuscritos, no final dos sal (Harry Gamble, Jr, The Textual History
cp. 14 e 16 em outro, e no final do cp. 15 of the Letter to the Romans [Eerdmans,
em um texto antigo. Alguns manuscritos 1977]). Porém, o mais provável, como su-
latinos não apenas têm a doxologia no fi- gere Orígenes, foi que Marcião (um teólogo
nal do cp. 14, mas também omitem todo o do século 11 que não gostava das influências
cp. 15 e o restante do cp. 16. Esses dados do AT e dos elementos judaicos no cristia-
sugerem a possibilidade de que o formato nismo) tenha removido esses capítulos.
da carta em 16 capítulos que temos hoje Temos boas razões, portanto, para pen-
pode ter sido precedido de um formato de sar que a carta impressa em nossas Bíblias
14 ou 15 capítulos. Talvez a mais popular é substancialmente idêntica à carta que
das reconstituições seja a que defende que Paulo escreveu à igreja em Roma. Como
Paulo tenha primeiramente escrito os cp. então explicaríamos a quantidade de sauda-
1-15 mais a doxologia para a igreja em ções? Primeiro, ao longo de seu ministério
Roma e, posteriormente, enviou essa carta no Oriente, Paulo poderia ter encontrado
ROMANOS 1680

várias dessas pessoas - como Priscila e gentios cristãos" (Introductíon to the New
Áquila - durante o período em que esti- Testament [SCM, 1975], p. 309).
veram exilados de Roma. As famosas vias Confrontados por essa evidência con-
romanas, muito bem construídas e conser- flitante, alguns estudiosos concluíram
vadas, possibilitavam oportunidades exce- que Paulo tinha em mente destinatários
lentes para viajar no mundo mediterrâneo nitidamente judeus, outros defendem que
do século I. Segundo, Paulo pode ter apro- ele estava escrevendo somente para desti-
veitado a oportunidade que lhe fora propor- natários gentios, e há ainda os que dizem
cionada por seu desconhecimento da igreja que Paulo estava se dirigindo a judeus em
em Roma para saudar todos os cristãos que alguns pontos e a gentios em outros. A
ele conhecia na cidade. melhor explicação para a evidência, no en-
tanto, é a suposição de que a comunidade
Destinatários cristã formada pelos destinatários a quem
Paulo parece enviar sinais confusos so- Paulo se dirigia era composta tanto de ju-
bre a questão dos destinatários específi- deus como de gentios. Todavia, a maneira
cos que tinha em vista enquanto escrevia pela qual Paulo associa a igreja com seu
para a igreja em Roma. Por um lado, vá- ministério para os gentios em 1.5,6 sugere
rios elementos da carta apontam princi- que os gentios constituíam tamanha maio-
palmente, se não exclusivamente, para ria que a igreja tinha incorporado um toque
destinatários judeus: ele saúda os judeus e uma identidade gentílica.
cristãos em 16.3,7,11; ele se dirige aos
"judeus" em 2.17 e deixa implícito que Gênero literário
seus leitores têm estreita relação com a As cartas antigas variam de breves cartas,
lei mosaica (cf 6.14;7.1,4); ele se refere passando por escritos mais íntimos ende-
a Abraão como "nosso pai" (4.1); devota reçados a membros da família até tratados
atenção considerável a questões "judai- elaborados, destinados a uma plateia nume-
cas", por exemplo, o pecado e o fracasso rosa. Entre as cartas de Paulo, Romanos é
dos judeus (2.17-3.8), o lugar da lei na claramente a mais próxima do último tipo.
história da salvação (cp. 7) e o passado e Assim, embora Romanos tenha a abertura
futuro de Israel (cp. 9-11). Indicações de e a conclusão típicas de uma carta (1.1-15
que a carta também tem em mente leitores e 15.14-16.27), sua característica mais
gentios são, no entanto, igualmente cla- marcante é a sua consistente argumentação
ras: o discurso da carta associa os roma- teológico-pastoral em 1.16--11.36. Em ne-
nos aos gentios para os quais Paulo tinha nhum ponto dessa longa seção Paulo se di-
sido especialmente chamado a ministrar rige diretamente aos cristãos de Roma por
(1.5,6; cf 1.13 e 15.14-21); Paulo se di- si mesmos ou sugere que as questões que
rige diretamente a gentios (11.11-24), e discute foram levantadas por eles. E isso é
seu apelo à unidade e tolerância parece verdade mesmo no trecho da carta de cará-
ser dirigido especialmente aos gentios ter mais "prático" como 12.1-15.13 (em-
(15.7-9). w.G. Kümmel resume de forma bora seja provável que os apelos aos "for-
sucinta a ambiguidade dessa evidência: tes" e "fracos" em 14.1-15.13 reflitam um
"Romanos manifesta uma natureza dupla: verdadeiro problema da igreja em Roma). A
essencialmente é um debate entre o evan- dinâmica da carta é ditada pela lógica inter-
gelho de Paulo e o judaísmo, de modo na do evangelho e não por questões locais.
que a conclusão parece óbvia, ou seja, os Isso não significa que Paulo escreveu a car-
leitores eram judeus cristãos. No entanto, ta num vácuo: Romanos não é um tratado
a carta contém declarações que indicam teológico atempora1, mas sim uma carta,
especificamente que a comunidade era de escrita para uma igreja específica em uma
1681 ROMANOS

situação específica. Romanos, como todas Espanha. Segunda, sabendo que visitaria
as demais cartas de Paulo, é um documen- Roma em breve, Paulo pode ter aproveita-
to criado para uma ocasião específica. Não do esta oportunidade para colocar por es-
devemos esquecer os destinatários que ele crito suas próprias conclusões doutrinárias.
tinha em mente quando a escreveu. O cará- Afinal, o apóstolo tinha acabado de sair
ter da carta deixa claro, ao mesmo tempo, de um conflito teológico e pastoral difícil
que a ocasião que deu origem à sua redação com a igreja de Corinto, e tinha chegado a
deve ter sido a necessidade de abordar cer- um ponto crítico em seu próprio ministé-
tas questões teológicas de relevância para rio. Que oportunidade poderia ser melhor
os cristãos da igreja primitiva em geral- e para refletir sobre suas próprias convic-
para todos os cristãos desde então. ções teológicas e concretizá-las por escri-
Estudiosos têm tentado ocasionalmente to? Uma terceira possibilidade é a de que
uma identificação mais precisa da natureza nessa carta aos Romanos Paulo aproveitou
de Romanos, comparando-a a tipos espe- a oportunidade para ensaiar o discurso que
cíficos de cartas de outras obras literárias faria quando chegasse a Jerusalém com o
do mundo antigo. Embora essas tentativas dinheiro da coleta. Certamente essa visita
muitas vezes tenham esclarecido certas ca- a Jerusalém estava há muito tempo presen-
racterísticas específicas de Romanos, ne- te na mente de Paulo (cf 15.25-33), e as
nhuma delas pode ser tomada como uma tensões entre cristãos judeus e gentios, que
identificação aceitável da carta como um ele esperava solucionar por meio da cole-
todo. Como James Dunn conclui: "O ca- ta, poderiam muito bem explicar por que a
ráter distintivo da carta excede em muito carta aos Romanos se concentra tanto em
a importância da sua conformidade com questões relacionadas a Israel e à lei.
as práticas literárias ou retóricas da época" Provavelmente cada um desses fatores
(Romans }-8 [Word Books, 1988]). teve seu papel no propósito de Paulo em
escrever essa carta. Mas apenas o primeiro
Propósito explica por que ela foi enviada especifica-
O estilo de "tratado" de Romanos sugere mente para Roma, e a esse fator, portanto,
uma pergunta crítica acerca da carta: por devemos dar uma atenção especial. Mas,
que Paulo escreveu essa carta específica antes de tirarmos conclusões, devemos
para essa igreja em particular? Ele diz pou- observar outra abordagem sobre a questão
co sobre seu propósito ao escrevê-la, por do propósito.
isso nossa resposta a essa pergunta deve se
basear na análise que fizermos do conteúdo 2. Foco nos problemas
da carta em face das circunstâncias gerais da igreja em Roma
em que foi escrita (v. acima). As respostas EC. Baur, crítico bíblico do século XIX, deu
mais prováveis podem ser agrupadas em início a uma nova abordagem à carta aos
duas categorias principais: aquelas cujo Romanos ao enfatizar que, como as ou-
foco está na própria situação de Paulo e tras cartas de Paulo, essa fora escrita para
aquelas cujo foco está na situação dos cris- tratar de problemas específicos no interior
tãos romanos. da comunidade cristã romana. Muitos es-
tudiosos contemporâneos concordam, en-
1. Foco na situação de Paulo contrando o objetivo geral da carta parti-
Três possibilidades devem ser menciona- cularmente nas admoestações de Paulo
das. A primeira, que Paulo pode ter escrito aos "fortes" e "fracos" (14.1-15.13). Sob
para se apresentar aos romanos e explicar essa ótica, Paulo escreveu com o intuito de
aquilo em que ele acreditava, com a fina- acabar com uma divisão no seio da igreja
lidade de obter apoio para sua missão na em Roma. A divisão era especificamente
ROMANOS 1682

entre os cristãos gentios (os "fortes") e os Tema


cristãos judeus (os "fracos"), e isso explica À luz do que foi dito no último parágra-
por que Paulo gasta tanto tempo na carta fo, não é de admirar que muitos estudio-
expondo cuidadosamente sua teologia no sos pensem que a continuidade da história
que diz respeito a esses dois grupos. da salvação é o tema central da carta. Eles
O desejo de acabar com essa divisão na muitas vezes apontam os cp. 9-11 como
igreja romana foi provavelmente um dos o centro da carta. Por outro lado, muitos
propósitos de Paulo ao escrever, mas não reformadores protestantes concentraram
o propósito principal. Teria Paulo adiado sua atenção nos cp. 1-5 e concluíram
o momento de mencionar algo relativo ao que o tema da justificação pela fé é o tema
seu propósito principal até que a carta es- central da carta. Até certo ponto, essa abor-
tivesse quase terminada? Não deveríamos dagem é bastante parecida com a de Emst
esperar que ele fizesse aplicações de suas Kãsemann, que vê "a justiça de Deus" (que
discussões teológicas a esse problema ao ele entende como sendo a intervenção de
longo da carta, se isso ocupava tanto seu Deus para recuperar sua criação rebelde)
pensamento? como o tema de Romanos. No entanto, ne-
Portanto, parece que Paulo escreveu nhum desses conceitos é suficientemente
Romanos com uma série de propósitos em amplo para abranger o conteúdo da carta
mente. Provavelmente o principal objetivo como um todo. Embora a justificação pela
fosse seu desejo de se apresentar à igreja fé seja uma doutrina crucial em Romanos e
em Roma, anunciando o evangelho que ele seja o tema de 3.21-4.25, não é um tema
pregava. Isso era especialmente importan- de expressão em outras partes da carta. Por
te porque falsos rumores sobre o que Paulo isso, se tivermos de identificar um único
pregava haviam chegado até os romanos tema para a carta, este tem de ser "o evan-
(cf 3.8). Ele aparentemente tinha con- gelho". A palavra é importante na introdu-
quistado na igreja primitiva a reputação ção (1.1,2,9,15) e na conclusão (15.16,19)
de ser contrário à lei e aos judeus. Paulo da carta, e tem lugar de honra naquela que
tentou mostrar que não era esse o caso (v. é identificada como a declaração do tema
especialmente 1.16; 7.7-12; cp. 9-11), ao da carta: "Pois não me envergonho do
mesmo tempo em que explicou de forma evangelho, porque é o poder de Deus para
pormenorizada em que sentido ele era crí- a salvação de todo aquele que crê" (1.16).
tico dos judeus e da lei mosaica (v. particu-
larmente 2.17-3.20; cp. 7). Esses mesmos
temas teriam sido debatidos em Jerusalém
e eram cruciais para alguns dos debates da
igreja em Roma. Em outras palavras, nós Leitura adicional
temos em Romanos uma série de propósi- STOTT, J. R. W. Romanos. BFH. ABU,
tos, todos convergindo para a questão que 2000.
predomina em toda a carta: de que natu- BRUCE, F. F. Romanos: introdução e co-
reza é a continuidade que existe entre as mentário. SCB. Vida Nova, 1979.
disposições de Deus na antiga aliança e MORRIS, L. The Epistle to the Romans.
suas disposições na nova aliança? Qual é IVPIUK/Eerdmans, 1988.
a relação entre a lei e o evangelho, entre os CRANFIELD, C. E. B. Comentário de
cristãos judeus e os cristãos gentios, entre Romanos - versículo por versículo.
Israel e a igreja? O desejo de Paulo é abor- Vida Nova, 2005.
dar essa questão teológica central e perma- MURRAY, J. Romanos. Fiel, 2003.
nente que confere a Romanos seu caráter DUNN, J. D. G. Romans. 2 V. WBC. Word,
universal singular. 1988.
1683 ROMANOS

ESBOÇO
1.1-17 A introdução da carta
1.1-7 Preâmbulo
1.8-15 Ações de graças e ocasião
1.16,17 O tema da carta

1.18-4.25 O evangelho e a justiça de Deus pela fé


1.18-32 A ira de Deus em relação aos gentios
2.1-3.8 A ira de Deus em relação aos judeus
3.9-20 A culpa de toda a humanidade
3.21-26 A justiça de Deus
3.27-4.25 "Somente pela fé"

5.1-8.39 O evangelho e o poder de Deus para a salvação


5.1-11 A esperança da glória
5.12-21 O reinado de graça e vida
6.1-23 Libertos da escravidão do pecado
7.1-25 Libertos da escravidão da lei
8.1-30 A garantia da vida eterna no Espírito
8.31-39 A celebração da segurança do crente

9.1-11.36 O evangelho e Israel


9.1-6 a A questão: a angústia de Paulo em relação a Israel
9.6b-29 O passado de Israel: a eleição soberana de Deus
9.30-10.21 O presente de Israel: desobediência
11.1-10 O presente de Israel: "um remanescente pela graça"
11.11-32 O futuro de Israel: salvação
11.33-36 Propósito e plano maravilhosos de Deus

12.1-15.13 O evangelho e a transformação de vida


12.1,2 O cerne da questão: uma mente renovada
12.3-8 Humildade e dons
12.9-21 Amor
13.1-7 A responsabilidade cristã em relação ao governo
13.8-10 O amor e a lei
13.11-14 Discernindo os tempos
14.1-15.13 Apelos à unidade

15.14-16.27 A conclusão da carta


15.14-33 O ministério e os
16.1-16 Recomendações e saudações
16.17-20 Advertência acerca dos falsos mestres
16.21-27 Saudações finais e doxologia
ROMANOS 1 1684

COMENTÁRIO (v. GI 1.1). O mesmo vale para a mensa-


gem que Paulo proclamava, o evangelho
1.1-17 A introdução da carta (GI 1.11,12). Paulo extrai essa palavra do
A introdução tem elementos comuns às AT, em que às vezes significa as "boas-no-
introduções de outras cartas de Paulo: um vas" da vitória final de Deus na história
preâmbulo ou saudação (1.1-7), ações de (v. Is 40.9; 52.7; 61.1; Joel 2.32). Paulo
graças (1.8-15) e uma transição entre a gostava muito dessa palavra, utilizando-
introdução e o corpo da carta (1.16,17). a para designar tanto os atuais aconteci-
Uma palavra-chave em todas essas seções mentos da morte e ressurreição de Jesus
é "evangelho", introduzindo o tema geral que constituem as boas-novas, quanto a
da carta. comunicação das boas-novas aos outros
("pregação"). Aqui, o termo "evangelho"
1.1-7 Preâmbulo engloba as duas ideias.
As cartas antigas geralmente começavam Tendo se apresentado no v. 1, Paulo ca-
com uma identificação do autor e dos des- racteriza brevemente esse evangelho nos v.
tinatários, e Paulo normalmente começava 2-4. Primeiro, diz que ele tem suas raízes
suas cartas da mesma maneira. No entan- no AT: prometido por intermédio dos seus
to, o preâmbulo de Romanos é notável por profetas nas Sagradas Escrituras. Paulo
sua extensão e detalhes teológicos. Não toca aqui em um tema que se tomará cen-
satisfeito em simplesmente identificar-se a trai para Romanos: a continuidade entre o
si mesmo, Paulo descreve quem ele é em plano de Deus no AT e sua culminação no
termos do seu chamado divino para o apos- NT. Segundo, o evangelho tem no seu cer-
tolado (l), o evangelho que ele prega (2-4) ne uma pessoa: o Filho de Deus (3), Jesus
e o ministério especial que Deus lhe deu Cristo, nosso Senhor (4). Em uma declara-
(5,6). Somente depois disso é que ele final- ção cuidadosamente equilibrada, que cer-
mente conclui seu preâmbulo, ao nomear tamente reflete o que os primeiros cristãos
os destinatários da carta (7). Paulo entra ensinavam sobre Jesus, Paulo compara
nesses detalhes porque precisa apresentar sua condição terrena e celeste. O v. 3 olha
suas "credenciais" diante de uma igreja para a existência terrena de Jesus como o
que ele nunca havia visitado. Messias prometido da linhagem de Davi
Essas credenciais repousam, sobretu- (v. 2Sm 7.12-16; Is 11.1,10; Ez 34.23,24).
do, no seu chamado divino. Paulo, servo A melhor paráfrase da expressão segundo
de Cristo Jesus, e como tal um servo espe- a carne (no grego, kata sarka) seria "de
cial, pois foi chamado para ser apóstolo, acordo com uma perspectiva meramente
separado para o evangelho de Deus. Essas humana" (cf RSV, NASB). Essa expressão é
palavras referem-se à sua experiência na então contrastada com segundo (no grego,
estrada de Damasco, onde o Cristo ressus- kata, "de acordo com") o espírito de san-
citado apareceu a Saulo, perseguidor dos tidade no v. 4. O contraste entre os v. 3 e
cristãos, e o chamou para desempenhar um 4, assim, não se dá entre a natureza divina
papel central no plano de Deus para levar o e humana de Cristo, mas entre sua condi-
evangelho aos gentios. O termo "apóstolo" ção terrena e sua condição celestial como
é usado na maior parte do NT para designar aquele que foi ressuscitado e exaltado. O
alguém que viu a Cristo e foi especialmen- que aconteceu na ressurreição de Cristo,
te comissionado por ele para atuar como então, não é simplesmente uma declaração
parte da "fundação" da igreja (Ef 2.20; v. poderosa de que Jesus é o Filho de Deus
At 1.12-26). Paulo, portanto, recebeu sua (como sugerem algumas versões, e.g., a
autoridade como apóstolo não por mãos NIV, em inglês), mas a designação de Jesus
de homens, mas do Senhor ressuscitado para uma nova posição como "Filho de
1685 ROMANOS 1

Deus em poder". Preexistindo eternamente bitua1 saudação, adaptação de uma fórmu-


como o Filho de Deus, Jesus, mediante a la grega popular à qual ele conferiu novo
sua ressurreição dentre os mortos, recebeu conteúdo teológico: Graça a vós outros
novo poder e glória, poder agora exercido e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do
para a "salvação de todos os que creem" Senhor Jesus Cristo.
(1.16; v. também Fp 2.9-11; Hb 7.25).
Foi por intermédio desse poderoso 1.8-15 Ações de graças e ocasião
Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor Nesse parágrafo Paulo expressa brevemen-
(4) e por amor do seu nome que Paulo re- te sua gratidão porque em todo o mundo
cebeu a graça especial de ser apóstolo (5). era conhecida a fé dos cristãos em Roma
O apostolado de Paulo, como o NT repetida- (8), e em seguida fala do seu desejo de vi-
mente enfatiza, era centrado principalmen- sitar e ministrar à igreja em Roma (9-15).
te nos gentios (v. At 9.15; 22.21; 26.17,18; A ênfase das afirmações de Paulo quanto
G11.16; 2.1-11; Ef3.1,6,8; lTs 2.16). Paulo ao seu desejo de visitar a igreja sugere que
mostra aqui que seu propósito específico alguns dos cristãos romanos possam ter
era chamar os gentios para a obediência se sentido desprezados, pelo fato de que
porfé. Essa tradução sugere que Paulo está o grande "apóstolo dos gentios" ainda não
enfatizando em sua pregação a necessida- tinha vindo à capital do mundo gentílico.
de de os cristãos viverem uma vida santa Paulo assegura-lhes que a sua ausência não
após a conversão inicial. Mas talvez de- foi por falta de vontade, mas por falta de
vêssemos atribuir à palavra "obediência" o oportunidade: ele fora impedido de visitá-
mesmo peso que atribuímos à palavra "fé", los (13), provavelmente por causa das suas
e compreender que Paulo está declarando obrigações para com as igrejas na parte
seu propósito abrangente de chamar os leste do Mediterrâneo (cf 15.19-23). Paulo
gentios tanto à aceitação inicial do evan- também manifesta seu propósito que é vi-
gelho como a uma contínua obediência às sitar a igreja romana. Primeiro, ele quer re-
exigências do evangelho (o grego traz sim- partir com eles algum dom espiritual (11).
plesmente hypakoên pisteõs, "obediência Essa tradução sugere que Paulo espera
da fé"). Crer e obedecer são duas coisas conferir um dom (charisma) espiritual es-
diferentes, mas para Paulo eram sempre pecial aos cristãos em Roma. Deveríamos,
inseparáveis: as pessoas não podem verda- no entanto, provavelmente traduzir suas
deiramente obedecer a Deus sem antes do- palavras por "compartilhar com vocês um
brar os joelhos ao Senhor Jesus em fé; e as certo dom espiritual", a referência sendo
pessoas não podem crer verdadeiramente a um dom do próprio Paulo que ele está
no Senhor Jesus sem obedecer a tudo que planejando utilizar para fortalecer a igre-
ele nos ordenou (Mt 28.20). ja. Segundo, Paulo manifesta seu desejo
Uma vez que Paulo fora especialmente de conseguir igualmente entre vós algum
comissionado para ir aos gentios, a igre- fruto (13), algo que ele aparentemente pre-
ja romana, composta em grande parte por tende colher por meio do ato de anunciar o
gentios nessa época (v. Introdução), encon- evangelho entre eles (15). Talvez devêsse-
trava-se na esfera da autoridade apostólica mos interpretar o primeiro propósito, mais
de Paulo (6). Essa é a razão de Paulo se di- geral, por meio do segundo propósito, mais
rigir a todos os cristãos em Roma amados específico, e concluir que Paulo pretende ir
de Deus [...] chamados para serdes santos a Roma para usar seu dom de evangelismo
(7). Essa linguagem, que retoma a termi- a fim de ganhar convertidos para a igreja de
nologia padrão do AT para descrever Israel, lá e assim fortalecê-la. Tal desejo está em
lembra os leitores da carta de que eles são plena consonância com o sentimento inten-
o povo de Deus. Paulo conclui com sua ha- so de Paulo de que era devedor [estava sob
ROMANOS 1 1686

obrigação] tanto a gregos como a bárba- ato de Deus de salvar o pecador da pena
ros, tanto a sábios como a ignorantes (14). do pecado. A insistência de Paulo em que
O desejo de Paulo de ministrar em Roma essa salvação é para todo aquele que crê
não resulta de um impulso egoísta, mas sim soa como uma nota que ecoará ao longo de
da consciência de que Deus o chamara e toda a carta. Igualmente característico é o
equipara para um propósito (v. ICo 9.16b: acréscimo da expressão primeiro do judeu
"Ai de mim se não pregar o evangelho!"). e também do grego. O poder do evangelho,
acessível a todos, não anula a prioridade
1.16,17 O tema da carta dos judeus. Como destinatário da palavra e
A ansiedade de Paulo para pregar o evan- da aliança de Deus no AT, o povo judeu ain-
gelho em Roma (15) leva diretamente à da continua sendo o primeiro destinatário
descrição que ele faz desse evangelho nos das boas-novas de Deus acerca do cumpri-
v. 16,17. Esses versículos expressam o mento do plano e das promessas que fizera
tema central de Romanos e fazem a tran- no AT (3.1,2; n.i ,2,29).
sição entre a introdução (1.1-15) e o corpo O evangelho é a fonte do poder de
da carta (1.18-15.13). A palavra-chave Deus para salvar visto que a justiça de
nessa declaração do tema bem como o Deus nele se revela. Fazemos bem em
motivo central da carta é o evangelho (cf definir essa expressão - "a justiça de
v. I para o significado dessa palavra). Ao Deus" - uma vez que Paulo está se re-
dizer não me envergonho desse evangelho, ferindo a um conceito específico, mais
Paulo pode estar querendo dizer simples- uma vez arraigado nas promessas do AT.
mente que ele está "muito orgulhoso" do OS "últimos dias", quando Deus interviria
mesmo. Mas o fato de que falsos rumores para salvar seu povo, eram caracterizados
acerca de Paulo tinham chegado ao conhe- por profetas como Isaías como um tem-
cimento dos cristãos romanos (3.8) pode po em que Deus revelaria sua "justiça"
sugerir que ele esteja realmente se defen- (e.g., Is 46.13; 51.5,6,8). Essa "justiça
dendo contra acusações de que ele deveria de Deus" é um tema central em Romanos
se "envergonhar" daquilo que prega. Em (cf 3.5,21,22,25,26; 10.3; fora Romanos,
ambos os casos, deveríamos observar o or- Paulo usa essa expressão somente em
gulho ardente e desafiador de Paulo daqui- 2Co 5.21). Alguns estudiosos entendem
lo que é "pedra de tropeço" para os judeus essa justiça como algo que significa o
e "loucura" para os gregos (1Co 1.23). dom de "ter acesso e se relacionar com
Por que esse orgulho pelo evangelho? Deus sendo considerado justo por ele", o
Porque Paulo sabe, e sabe por experiên- que Deus confere àqueles que creem, en-
cia própria, que o evangelho é o poder de quanto outros a entendem como algo que
Deus para a salvação de todo aquele que significa a ação pela qual Deus salva seu
crê. "Salvação" é uma palavra que signifi- povo. Porém, não é necessário fazer uma
ca libertação de um vasto leque de males opção entre essas duas alternativas. Tanto
e foi usada no AT para descrever a liberta- no AT como em Paulo a "justiça de Deus"
ção final do povo realizada por Deus. Ver é um conceito amplo que abrange tanto o
particularmente Isaías 52.7, em que apare- ato da concessão desse dom (a parte de
cem duas das palavras-chave dessa parte Deus) quanto a condição daqueles que
de Romanos: "Que formosos são sobre os recebem o dom (a nossa parte). A justiça
montes os pés do que anuncia as boas-no- de Deus é revelada, então, à medida que
vas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas o evangelho é pregado e as pessoas res-
boas, que faz ouvir a salvação, que diz a pondem à mensagem pela fé. Pois é nesse
Sião: 'O teu Deus reina'!". No v. 16, como momento que Deus age para conduzir o
sempre em Paulo, a salvação se refere ao pecador a um novo relacionamento com
1687 ROMANOS 1

ele, a um relacionamento de "justiça". Ob- humano pode experimentar essa justiça.


serve também que a expressão se refere a Este último tema em particular é central
um novo relacionamento, não a uma nova para a argumentação de Paulo em 1.18-
aptidão moral. Paulo (assim como o AT) 4.25. (Pode-se notar que o termo 'justiça"
toma a linguagem das cortes de justiça, e e as palavras a ele relacionadas, como "jus-
ela retrata o ato pelo qual um juiz declara tificar" e "justo", ocorrem 27 vezes nessa
uma pessoa "inocente" perante ele. seção; as palavras "fé" e "crer", 23 vezes).
Uma das características distintivas da A ação justificadora de Deus, baseada na
argumentação de Paulo sobre a justiça de cruz de Cristo e revelada na pregação do
Deus é sua insistência quanto à sua ligação evangelho, é inteiramente gratuita - uma
com a fé. Essa ligação é enfatizada na úl- questão de "graça" (3.24; 4.4,5,16) - e
tima parte do v. 17. "Do princípio ao fim é pode portanto ser experimentada apenas
pela fé" (NVI ) é uma boa tradução do grego pela fé. Pois fé não é "obra", mas um ato
ek pisteõs eis pistin. A expressão enfatiza de grata aceitação e entrega (4.4-8). A gra-
que a justiça de Deus é experimentada pela ça de Deus como meio de revelação e a fé
fé e por nada mais além da fé. A citação humana como meio de aceitação apontam
de Habacuque 2.4 reforça a ligação entre para outra verdade que Paulo está empe-
"justiça" e "fé". Na verdade, pode ser que nhado em ressaltar em toda essa seção: que
Paulo pretendesse conectar esses termos de a justiça de Deus é para todo aquele que
forma ainda mais próxima do que as tradu- crê, seja gentio ou judeu. Ambos, Paulo
ções mais usadas sugerem, pois poderíamos afirma, igualmente "estão debaixo do pe-
também traduzir a expressão por: "Aquele, cado" (3.9); ambos podem ser justificados
que pela fé é declarado justo, viverá" (VFL). somente pela fé (3.28-30). Paulo desenvol-
No contexto de Romanos, "viverá" se refere ve a primeira dessas afirmações em 1.18-
à vida eterna, espiritual. 3.20 e a segunda em 3.21---4.25.
Nota. 17 Em Habacuque 2.4, Deus está Paulo se prepara para sua exposição
lembrando o profeta de que a pessoa que sobre "a justificação de Deus pela fé"
faz parte do povo da aliança de Deus (o (3.21---4.25) começando por demonstrar
"justo") experimentará as bênçãos de Deus a profundidade e amplitude do "problema
e entenderá seus caminhos apenas por meio do pecado" (1.18-3.20). Ele tenta respon-
da fidelidade a Deus e à sua aliança. No der a duas perguntas específicas. Por que
uso que Paulo faz do versículo (cf também Deus precisa revelar sua justiça redentora
GI 3.11), a cada um dos termos-chave- em Cristo? Por que as pessoas podem ex-
"justo", "viverá" e "fé" - é atribuído um perimentá-la somente pela fé? A resposta a
significado mais profundo à luz da vinda essas duas perguntas se encontra na argu-
de Cristo, mas o sentido geral do original mentação de Paulo de que "todos estão de-
é mantido. Tanto Habacuque quanto Paulo baixo do pecado" (3.9) - cativos e inde-
afirmam que a vida diante de Deus exige o fesos diante do domínio mortal do pecado.
comprometimento sincero do indivíduo. Enquanto Paulo desenvolve o argumento
que conduz a essa conclusão, toma-se claro
1.18-4.25 O evangelho e a que seu propósito específico é mostrar que
justiça de Deus pela fé os judeus, assim como os gentios, estão su-
A citação de Habacuque 2.4 no v. 17 in- jeitos ao domínio do pecado e necessitam
troduz o tema da primeira grande seção do evangelho da justiça de Deus. Assim,
que forma o corpo da carta aos Romanos: após expor o pecado e a necessidade dos
a revelação, há muito prometida, da jus- gentios em 1.18-32, Paulo gasta um tempo
tiça redentora de Deus em Jesus Cristo, considerável mostrando que a situação dos
e a fé como o único meio pelo qual o ser judeus em nada era melhor (2.1-3.8).
ROMANOS 1 1688

A passagem de 3.21-26 é o parágrafo 13-15). Também são evidentes as alusões


central dessa seção, um parágrafo que para às histórias da criação e da queda de Adão
Lutero era "o ponto principal, e o próprio e Eva no jardim do Éden (cf v. 23 com Gn
ponto central da epístola, bem como de 1.20,24). Alguns estudiosos acreditam que
toda a Bíblia" (nota de margem da Bíblia Paulo esteja descrevendo aqui essa queda
de Lutero, em 3.23-26). O restante da se- original (20-23), bem como suas consequ-
ção (3.27--4.25) elabora um grande ele- ências para a história humana subsequen-
mento desse parágrafo: a fé como o único te (24-32). Mas isso não é provável, uma
meio de justificação perante Deus. Paulo vez que Paulo deixa claro que as mesmas
desenvolve seus pontos básicos sobre a fé pessoas que viraram as costas para Deus
nos v. 27-31 que, por sua vez, são elabo- são também as culpadas dos pecados que
rados em seguida no cp. 4, com referência ele descreve nesses versículos. Devemos
a Abraão. ver essa seção, portanto, como o retrato
que Paulo faz da situação dos gentios em
1. 18-32 A ira de Deus geral, e que é esboçado contra o pano de
em relação aos gentios fundo da queda original. Paulo retrata cada
Os v. 18,19 funcionam como "cabeçalho" pessoa como sendo o seu "próprio Adão",
de 1.18-3.20: a ira de Deus recai sobre ou seja, repetindo o mesmo pecado básico
todos os seres humanos que não seguem cometido por nossos primeiros pais huma-
a verdade como Deus a revelou para eles. nos. Os v. 20-23 descrevem a decisão bá-
Alguns teólogos têm dificuldade em con- sica tomada pelos gentios e os v. 24-32, a
ciliar a ideia de ira com o Deus da Bíblia. reação de Deus a essa decisão.
Mas na verdade a Bíblia constantemente Embora os gentios não tenham a "reve-
retrata Deus como um Deus que age para lação especial" das Escrituras, como a têm
julgar o pecado. O AT menciona várias oca- os judeus, a eles, no entanto, tem sido dado
siões em que a ira de Deus recai sobre o o conhecimento da verdade sobre Deus na
povo devido a seus pecados (e.g., Êx 15.7; criação que os cerca. Os atributos invisí-
32.10-12; Nm 11.1), e o NT prevê uma épo- veis de Deus, assim o seu eterno poder,
ca em que a expressão final da ira de Deus como também a sua própria divindade,
recairá sobre a humanidade rebelde (e.g., claramente se reconhecem (20). Paulo dei-
Rm 2.5; 5.9; Ef 5.6; Cl 3.6; lTs 1.1O; 5.9). xa claro que os gentios de sua época, assim
A ira de Deus não é, evidentemente, uma como as pessoas de hoje que nunca ouvi-
fúria emocional, mas sim uma oposição ram o evangelho ou leram a Bíblia, têm re-
firme e absoluta a tudo o que é mal. É algo almente "visto" algo de Deus e quem ele é.
que é parte da essência do caráter de Deus: Mas alguns dos que recebem essa verdade
"Uma vez que Deus é Deus, ele não pode não respondem a ela da forma como deve-
assistir com indiferença ao fato de que riam: em vez de glorificarem a Deus ou lhe
sua criação é destruída e sua santa vonta- renderem graças, eles viram as costas para
de pisada. Portanto, ele enfrenta o pecado a verdade e escolhem abraçar a idolatria
com uma reação poderosa e aniquilan- (21-23).
te" (A. Nygren, Commentary on Romans Essa passagem é uma das mais impor-
[Fortress, 1949]). tantes da Bíblia acerca do conceito de "re-
Paulo mostra primeiro como a ira de velação natural": a ideia de que, além de
Deus sobreveio merecidamente aos gentios se revelar em Cristo e nas Escrituras, Deus
(20-32). Toda essa seção apresenta muitos também se revelou a todos por meio da na-
paralelos com os textos judaicos em que tureza e da história. Como Paulo deixará
os gentios são criticados por seus pecados implícito mais tarde (cf 1.32; 2.14-16), to-
(cf especialmente Sabedoria de Salomão dos os seres humanos têm capacidade para
1689 ROMANOS 1

receber essa revelação, pois continuam a com o pecado e a rebeldia do ser huma-
carregar a imagem de Deus. Esse texto no, Deus entrega o ser humano ao peca-
não só afirma esse conceito, mas também, do que escolheu e às suas consequências.
e sobretudo, ensina qual é o resultado fi- A linguagem que Paulo utiliza (no grego,
nal da revelação natural desacompanhada paradidõmi, "entregar") refere-se a bem
de quaisquer outros meios de graça: uma mais do que uma passiva retenção da graça
rejeição de Deus. Como Paulo deixa bem divina por parte de Deus. Aparentemente,
claro aqui, ninguém pode ser salvo com Paulo pensa em um ato jurídico no qual
base na verdade revelada na natureza por Deus confirma a decisão que o próprio
si só. Assim, como Paulo conclui, uma vez indivíduo tomou e o entrega às consequ-
que todos tiveram acesso ao verdadeiro ências dessa decisão. Entre os pecados aos
conhecimento de Deus, todos, quando se quais Deus entregou o ser humano estão
afastam dele, são indesculpáveis (20). a idolatria (25; cf v. 23) e os pecados de
Esse texto fornece uma das bases teo- ordem sexual, especialmente o pecado da
lógicas mais importantes para a obra mis- homossexualidade (24,26,27). Paulo con-
sionária: a condição caída em que se en- corda aqui com a tradição judaica - e
contram todos aqueles que nunca tiveram a com o AT - em lançar mão das práticas
oportunidade de responder ao evangelho da homossexuais como exemplo particular-
graça de Deus. Pois esse texto deixa claro mente evidente da rejeição de Deus pelos
que não pode haver salvação desvinculada gentios. A expressão contrário à natureza,
da resposta ao evangelho de Cristo. Os que que se aplica à prática homossexual no v.
nunca ouviram o evangelho estão, portan- 26, nesse contexto significa que a prática
to, escravizados em seus pecados e sem é contra a lei natural dada por Deus como
esperança. Na verdade, Deus é soberano regra para todos.
tanto na transmissão quanto na aplicação Os v. 29-31 mostram como a falha hu-
de sua graça, e ele pode em determinados mana em dar a Deus o que lhe é devido
momentos optar por trazer pessoas ao co- trouxe sobre a raça humana males destru-
nhecimento do evangelho de maneiras bas- tivos, de todos os tipos, que vão desde a
tante inesperadas e até mesmo desconhe- difamação até o homicídio. Pode ser que
cidas para nós. Mas as Escrituras deixam Paulo deixe implícita uma gradação desses
claro que Deus optou por tomar manifesto pecados onde o pecado básico, a idolatria
as boas-novas de Jesus Cristo por meio - colocar algo no lugar de Deus - con-
do testemunho de seu próprio povo (Mt duz a todos os outros tipos de pecados. O
28.16-20; Rm 10.14,15). Essa foi uma das v. 32 sugere que o conhecimento que o
principais razões por que Paulo e outros ser humano tem das coisas de Deus não é
dentre os primeiros missionários cristãos completamente apagado por sua "queda"
se entregaram com tanta paixão à propaga- no pecado. Embora a mente do ser huma-
ção do evangelho. no talvez não funcione mais como deveria
A rejeição de Deus por parte do ser hu- (28), ele ainda é capaz de compreender
mano leva à punição do ser humano por que as coisas que pratica merecem a pena
parte de Deus. Três vezes Paulo nos diz de morte imposta por Deus. Não obstante,
que os gentios "mudaram" ("trocaram", as pessoas não somente as praticam, mas
NVI): trocaram a verdade de Deus e suas também aprovam os que assim procedem.
exigências morais pelos seus próprios deu- O que Paulo quer dizer com isso não é
ses e caminhos de pecado (23,25,27). Por que aprovar o pecado alheio seja, em sen-
três vezes Paulo também aponta a reação tido absoluto, pior do que cometer nosso
de Deus a essa "troca", afirmando que próprio pecado, mas sim que a atitude de
Deus os entregou (24,26,28). Confrontado encorajar outros a pecar revela a extensão
ROMANOS 2 1690

com que o ser humano se rebelou comple- 3.1-8, Paulo se desvia de sua linha princi-
tamente contra a justa ordem divina. pal de argumentação para lidar com algu-
mas questões suscitadas por aquilo que ele
2.1-3.8 A ira de Deus havia dito no cp. 2.
em relação aos judeus 2.1-16 O juízo imparcial de Deus. O
Em 1.18-32, Paulo descreveu o pecado e o propósito de Paulo nessa seção é colocar o
julgamento dos gentios usando a terceira judeu na mesma categoria que o gentio pe-
pessoa: "eles" se afastaram de Deus, Deus cador do cp. 1. Ele o faz em três estágios.
"os" entregou. Na maior parte do cp. 2, po- OS V. 1-5 contêm o cerne da acusação de
rém, Paulo usa a segunda pessoa do singu- Paulo: o judeu (o "alvo oculto" por trás do
lar, como no v. 1: Portanto, és indesculpá- "tu" a quem Paulo se dirige) faz as "mes-
velo Essa mudança de pessoa não significa mas coisas" que os gentios fazem e portan-
que Paulo esteja agora se dirigindo dire- to está sujeito ao mesmo juízo. A seguir,
tamente a um destinatário em Roma. Ele Paulo introduz dois parágrafos nos quais
está usando um recurso literário popular ele se afasta de seu estilo "acusatório" para
no mundo antigo por meio do qual o autor explicar e elaborar a acusação que fez nos
se dirige a um adversário ou companheiro v. l-S. Paulo defende a acusação que fez ao
de debate imaginário como um meio vívi- judeu, mostrando que a imparcialidade de
do de fazer suas teses chegarem a quem os Deus, ensinada no AT e no judaísmo, exi-
assiste (esse estilo era chamado diatribe). gia que ele não tivesse preferências, mas
Quem seria o "adversário" ou o "compa- tratasse todos da mesma maneira (6-11),
nheiro de debate" de Paulo nesses versícu- independentemente de ser judeu ou gentio.
los? O V. 17 deixa claro que, nos v. 17-29 Tampouco o fato de ser detentor da lei de
pelo menos, Paulo está falando a um judeu. Moisés tomava a condição do judeu algo
Muitos estudiosos (e.g., Barrett) acredi- significativamente diferente da dos gentios;
tam que nos v. 1-16 Paulo esteja falando pois não é o ouvir a lei, mas o praticar a
de modo mais geral a qualquer um que se lei que importa para Deus, e de todo modo
proclamasse uma pessoa de "moral"! Mas os gentios, em certo sentido, também têm
é mais provável que até mesmo aqui o ver- a lei de Deus (12-16).
dadeiro "alvo" de Paulo seja o judeu. A O portanto do V. 1 é, à primeira vista,
princípio, ele omite qualquer identificação dificil de entender. Como pode a conde-
específica, de modo que possa envolver o nação que Paulo fez aos gentios (1.18-32)
judeu em seu argumento, antes que o im- levar à conclusão de que também os judeus
pacto da sua acusação se tome evidente. A estão sob condenação? Alguns estudiosos
técnica de Paulo aqui provavelmente refle- sugerem que esse portanto foi utilizado
te o estilo de sua pregação. Podemos até com um simples termo de transição, sem
imaginar os destinatários judeus de Paulo nenhuma força lógica; outros (Cranfield,
manifestando sua concordância com a acu- e.g.) sugerem que 1.18-32 não se refere
sação que Paulo faz aos gentios, no cp. 1, aos gentios, mas a todas as pessoas. Uma
apenas para depois se verem acusados de variação desta última sugestão parece-
fazer as mesmas coisas (3). ria mais provável. Enquanto a linguagem
Então, em toda a passagem de 2.1-3.8 utilizada por Paulo nos v. 20-32 indica que
Paulo se concentra nos judeus. Ele de- ele está pensando apenas nos gentios, os v.
monstra que a condição dos judeus diante 18,19 incluem a todos. Como salientamos
de Deus no juízo não é diferente da dos anteriormente, esses versículos funcionam
gentios (2.1-16), a despeito do fato de como um cabeçalho de todo o trecho de
eles possuírem dádivas genuínas de Deus, 1.18-3.20, e é a esses versículos que Paulo
como a lei e a circuncisão (2.17-29). Em agora se volta em 2.1. Uma vez que a ira
1691 ROMANOS 2

de Deus se revela do céu contra todos os de Deus que Paulo está contestando. O
homens que detêm a verdade de Deus, judeu que não se arrepender sinceramen-
tu, portanto, és indesculpável, Ó homem. te não escapará do juízo simplesmente por
Pois quem quer que condene os pecadores fazer parte do povo da aliança de Deus.
gentios, que Paulo descreveu em 1.20-32, Tal pessoa está, na verdade, simplesmente
também está condenando a si mesmo. Isso acumulando contra si mesmo ira para o
porque aquele que os condena pratica "as dia [...] do justo juízo de Deus (5).
mesmas coisas" (NVI). Embora nem todas O v. 6 está estreitamente ligado ao v. 5
as pessoas se envolvam com idolatria e pro- (e essa é a razão da divisão do parágrafo na
miscuidade sexual, nenhuma é inocente no xvr), mas, na verdade, introduz uma nova
que diz respeito aos pecados enumerados seção. O tema dessa seção é expresso tanto
nos v. 29-31: por exemplo, avareza, aver- nos versículos de abertura como de encer-
são de Deus, soberba. E talvez, em sentido ramento: Porque para com Deus não há
mais amplo, até mesmo o judeu que colo- acepção de pessoas (11), ele retribuirá a
ca a lei, ou sua circuncisão, ou mesmo sua cada um segundo o seu procedimento (6).
religiosidade acima da devoção a Deus é Paulo usa essa mesma técnica (algumas
culpado de idolatria. Uma vez que o juízo vezes chamada de quiasmo) para detalhar
de Deus é baseado na verdade, ou seja, está os dois possíveis resultados do juízo im-
sempre exatamente de acordo com os fatos parcial de Deus: a vida eterna para aqueles
(2), ele não pode simplesmente ignorar tais que praticam o bem (v. 7 e 10) e a ira para
pecados (3). O argumento de Paulo nesses aqueles que pecam (v. 8 e 9). O esquema a
três primeiros versículos pode, portanto, seguir mostra essa estrutura:
ser resumido em três proposições: o juízo
de Deus recai sobre aqueles que praticam A O juízo justo de Deus (v. 6)
"tais coisas"; mesmo o virtuoso que julga B Vida para os que praticam bem (v. 7)
os outros pratica "tais coisas"; portanto, C Ira para os que praticam o mal
mesmo aquele virtuoso que julga está su- (v. 8)
jeito ao julgamento de Deus. C Ira para os que praticam o mal
A pergunta retórica no v. 4 expõe os (v. 9)
falsos pressupostos em que se baseia esse B Glória para os que praticam o bem
virtuoso que é juiz dos outros. A questão de (v. 10)
que Paulo está falando a um judeu e refle- A A imparcialidade de Deus (v. 11)
tindo uma situação real fica clara pelo fato
de que o sentimento e mesmo muitos dos Paulo aplica abertamente esse ensi-
vocábulos utilizados na formulação dessa namento sobre a imparcialidade de Deus
pergunta são extraídos de um livro dos tanto ao judeu quanto ao gentio (9,10),
judeus que pertence ao período intertesta- revelando seu propósito geral de mostrar
mentário, Sabedoria de Salomão. Após cen- que o padrão de juízo de Deus para o ju-
surar os gentios por sua idolatria e pecado deu em nada diferirá do padrão de juízo
nos cp. 13-14 (texto do qual Paulo faz um de Deus para os gentios. Pois para ambos
paralelo em 1.18-32), o autor de Sabedoria é o fazer que será decisivo. O fato de que
diz em 15.1,2: "Mas tu, nosso Deus, és fazer o mal acarretará a ira de Deus não é
benigno [chrêstos] e verdadeiro, paciente nenhuma surpresa e se mostra consisten-
[makrothymos], e governas sobre todas as te com o ensinamento bíblico. Mas o que
coisas em misericórdia. Pois mesmo que Paulo pretendia ao afirmar que as pessoas
pequemos, conhecendo teu poder, somos que fazem o bem receberão a vida eter-
teus". É claro que é exatamente esse pres- na (7; cf v. lO)? Uma vez que Paulo em
suposto de exclusão automática do juízo outras passagens toma evidente que as
• ROMANOS 2 1692

pessoas podem alcançar a vida eterna so- também os gentios serão condenados pela
mente pela fé (1.l7; 3.20,21,22), ele não lei (12), pois somente aquele que obede-
poderia estar dizendo que as pessoas po- ce serájustificado aos olhos de Deus (13).
dem de fato ser salvas simplesmente por A lógica desses versículos pressupõe que
praticar boas obras. Alguns estudiosos não há uma só pessoa que seja capaz de
(como Cranfield, e.g.) acreditam que obedecer à lei de Deus o bastante para ser
Paulo estava descrevendo os cristãos justificada diante dele.
cujas boas obras dão mostras da realida- O segundo ponto que Paulo defende
de da sua nova vida. Mas Paulo diz que aqui é que os próprios gentios possuem
é a própria prática do bem que traz vida. a lei de Deus e, portanto, não há de fato
Seria melhor, então, ver essas afirmações uma diferença assim tão grande entre ju-
como asserções de generalização de prin- deus e gentios como os judeus poderiam
cípio: se alguém viesse a fazer o bem com imaginar (14,15). Os gentios não têm a
persistência (cf v. 7), essa pessoa recebe- lei de Moisés; no entanto, ao procederem,
ria a vida eterna. Mas o que Paulo tomará por natureza, de conformidade com a
claro em outras passagens é que não há lei, ou seja, seguindo alguns dos padrões
ninguém, desde a queda de Adão, que da lei de Deus - abstendo-se de ma-
possa, na verdade, praticar o bem com tar, roubar, adulterar e honrando os pais
persistência (cf 3.9-18,23). O propósito - servem eles de lei para si mesmos. O
de Paulo neste ponto não é mostrar como que Paulo quer dizer com isso é explica-
as pessoas podem ser salvas, mas estabe- do no v. 15: Estes mostram a norma da
lecer os padrões de avaliação que Deus lei gravada no seu coração. Por sua con-
usa além do evangelho. Esses padrões são formidade casual às exigências da lei de
os mesmos para todos - sejam eles ju- Deus, os gentios mostram que têm acesso
deus ou gentios, negros ou brancos. às exigências morais de Deus. Embora
Um judeu, ouvindo a argumentação de não possuam a lei escrita, eles possuem
Paulo sobre esse ponto, certamente teria um conhecimento interior das exigências
feito uma objeção crucial: o fato de os ju- de Deus, de modo que suas consciências
deus serem o povo escolhido de Deus e de podem, até certo ponto, monitorar com
terem recebido sua lei como um sinal da cuidado sua conformidade com a vontade
aliança não os colocaria em uma posição de Deus (15b). Aqui Paulo completa seu
muito diferente diante do juizo de Deus ensinamento sobre a "revelação natural"
em relação aos gentios? Paulo antecipa do cp. 1 ao nos relembrar que toda pes-
essa objeção e fornece uma resposta pre- soa tem algum conhecimento da vontade
liminar nos v. 12-16. Como nos v. 6-11, moral de Deus. Entretanto, como no caso
o propósito de Paulo é eliminar qualquer da revelação natural, esse conhecimento
distinção entre judeu e gentio com relação não pode levar à salvação; o v. 15b não
ao juízo final de Deus. E ele o faz em dois significa que alguns gentios possam real-
pontos. Primeiro, não é o simples fato de mente ser salvos no juízo, mas sim que
possuir a lei que livrará o judeu do juízo; cada gentio terá certos pensamentos que o
somente a verdadeira obediência à lei trará "acusarão" e outros que o "defenderão".
qualquer bem ao judeu (12,13). Fica claro Os parênteses que a NVI coloca nos v.
que os que pecaram sem lei e os que com a 14,15 sugerem que deveríamos ler o v. 16
lei pecaram (12) são respectivamente gen- como uma continuação do v. 13: a declara-
tios e judeus. Isso toma evidente que Paulo ção de Deus acerca da condição de justifi-
usa a palavra "lei" aqui (do grego nomos) cação terá lugar no dia em que Deus, por
para se referir à lei de Moisés, como ele meio de Cristo Jesus, julgar os segredos
normalmente faz. Não só os judeus, mas dos homens. Mas os v. 14,15 são essen-
li
1693 ROMANOS 2 .11
••
ciais para o argumento de Paulo. O v. 16 Escrituras (24). Em uma série de orações
assim provavelmente está ligado ao v. 15b: condicionais, Paulo enumera os privilégios
os "pensamentos" conflitantes das pessoas que os judeus reivindicam para si mesmos
serão revelados e utilizados como provas (17-20). Eles reivindicam o nome judeu,
no dia do juízo pelo Deus que tem conhe- o título honorifico herdado de seu ante-
cimento perfeito de nossos corações (cf passado Judá, que se tomou o núcleo do
ISm 16.7; SI 139.1,2; Jr 17.10). povo escolhido de Deus. Eles repousavam
Nota, 14 Alguns estudiosos entendem na lei, que Paulo chama no v. 20 a forma
que Paulo está descrevendo os gentios cris- da sabedoria e da verdade. Os gentios têm
tãos nos v. 14,15, mas isso é improvável. acesso limitado a determinados conheci-
Os gentios cristãos não praticam as coisas mentos sobre Deus por meio da "revelação
da lei por natureza; e todo argumento de natural" (1.18,19,25,28,32); mas os judeus
Paulo apresenta muitas semelhanças com têm uma revelação muito mais clara e
o ensinamento grego popular sobre a "lei completa na lei de Moisés. Pelo fato de se-
natural" que todas as pessoas possuem. rem instruídos por essa lei, os judeus [co-
2.17-29 A lei e a circuncisão. Paulo nhecem] a sua vontade e podem [aprovar]
retoma o estilo critico de 2.1-5 nesses ver- as coisas excelentes (18). E, pela mesma
sículos, assim como usa novamente a se- razão, os judeus podem legitimamente rei-
gunda pessoa do singular para se dirigir ao vindicar o direito de instruir outras nações
seu "companheiro de debate". Pela primei- que não foram abençoadas com a revelação
ra vez esse companheiro é explicitamente tão clara da vontade divina (19,20). O pa-
identificado como judeu (17). O que Paulo pel de Israel no ensino em relação ao resto
discute nessa seção é que o judeu não pode do mundo é afirmado no AT - a nação, o
confiar na lei nem na circuncisão para pro- "servo do Senhor" deveria ser "luz para
tegê-lo do juízo de Deus. Os judeus viam os gentios" e "abrir os olhos aos cegos"
isso como sinais de sua condição especial (Is 42.6,7; 49.6). (Essa tarefa, na qual a
na aliança diante de Deus e acreditavam própria nação de Israel falhou, foi cumpri-
que essa condição garantiria a salvação a da pelo servo do Senhor, Jesus Cristo).
todos os judeus que deliberadamente não Nos v. 21-23, Paulo recorre a uma sé-
o rejeitassem: Paulo não nega o valor da rie de perguntas para lembrar os judeus de
lei nem o da circuncisão ou da condição seu fracasso nesse aspecto, introduzidas
especial dos judeus; mas ele nega que esse por pois. O que nos surpreende é o fato
relacionamento especial confira imuni- de Paulo selecionar tais pecados - rou-
dade automática perante o justo juízo de bo, adultério e roubo de templos (prova-
Deus. A palavra de Deus dada a Israel e velmente referindo-se à utilização de me-
sua aliança com o povo são grandes privi- tais em artigos de idolatria; cf Dt 7.26)
légios; mas esses privilégios por si só não - como exemplos da incapacidade dos
podem justificar ou salvar ninguém. Como judeus em cumprir a lei. Pois não teriam
fez repetidamente em toda a passagem de os judeus respondido em sua grande maio-
2.1-16, Paulo afirma mais uma vez que a ria que nunca tinham desobedecido a esses
lei e a circuncisão podem proteger o judeu mandamentos? Talvez a resposta seja que
do juízo somente se praticar a lei. E, como Paulo está assumindo a extensão radical
Paulo sugere nos v. 17-24 e afirma clara- da lei feita por Jesus: "Quando o roubo, o
mente em 3.9-18, os judeus não são verda- adultério e o sacrilégio são entendidos do
deiramente capazes de obedecer à lei. modo estrito e radical, não há um homem
O primeiro parágrafo, v. 17-24, é cons- sequer que não seja culpado de todos os
tituído de uma longa frase condicional três" (C. K. Barrett, A Commentary on the
(17-23) e de uma citação conclusiva das Epistle to the Romans [Harper & Row,
ROMANOS 2 1694

1957]). Mas não há nada nesse contexto o de negar qualquer beneficio salvífico da
que sugira que Paulo está assumindo tal circuncisão e da lei.
perspectiva. Talvez Paulo tenha selecio- Se os judeus que falham no cumprimen-
nado esses pecados em particular devido to da lei perdem o valor de sua circunci-
à sua importância dentro da lei (e tomado são, não poderia a incircuncisão [do gentio
a expressão roubando templos como uma que] observa os preceitos da lei, ser, por-
forma de idolatria). Paulo não está aqui ventura, considerada como circuncisão?
tentando provar que todos os judeus come- (26). Essa é uma decorrência lógica do v.
tem esses pecados, mas que eles são indi- 25. E Paulo vai além no v. 27: Tal pessoa
cações especificamente claras do contraste incircuncisa que obedece à leijulgará a ti,
entre a teoria e a prática que impregnava o que, não obstante a letra e a circuncisão,
judaísmo. Paulo exprime acentuadamente és transgressor da lei. A letra ("Lei escri-
esse contraste na última de suas perguntas ta", NVI) é a tradução do vocábulo grego
retóricas (23): Tu, que te glorias na lei, de- gramma, que Paulo usa em outras passa-
sonras a Deus pela transgressão da lei? gens para indicar a lei de Moisés (cf v. 29
As consequências desse contraste entre a e Rm 7.6; 2Co 3.6,7). A lei exige daqueles
alegação e a realidade são destacadas na a quem se destina uma obediência que por
citação de Isaías 52.5 no v. 24. Aqui talvez si mesma não pode assegurar. Esses ver-
haja ironia no fato de Paulo transferir a res- sículos são ocasionalmente interpretados
ponsabilidade pela blasfêmia do nome de no sentido de que pessoas que nunca ou-
Deus dos gentios (como está no contexto viram o evangelho poderão ser salvas se
do AT) para o próprio povo de Israel. seguirem os ditames de sua consciência.
A circuncisão, assim como a lei de Mas isso é claramente contrário ao que
Moisés, era um sinal particularmente im- Paulo afirma em outras passagens (3.20).
portante da condição especial dos judeus Preferível é o ponto de vista de que essas
(alguns rabinos alegavam que "nenhum pessoas incircuncisas que observam a lei
homem circuncidado iria para o inferno"). são os cristãos gentios (Murray, Cranfield,
Paulo, porém, afirma que a circuncisão Godet). Mas será que Paulo alguma vez
somente teria valor se o judeu observasse fez do cumprimento da lei um meio de
a lei. Ou seja, o judeu que violasse a lei salvação? Provavelmente, assim como
perderia o valor da circuncisão. O simples em 2.7 e 10, Paulo adianta esse corolário
fato de pertencer a Israel, simbolizado na apenas como uma possibilidade teórica:
circuncisão, não pode salvar uma pessoa caso um gentio pudesse verdadeiramente
do justo juízo de Deus. Pois Deus julga cumprir os preceitos da lei (possibilidade
uma pessoa "segundo o seu procedimento" que Paulo nega veementemente em ou-
(2.6), e é apenas pela "observância da lei" tras passagens), ele seria salvo (cf Calvin,
que a circuncisão terá algum valor. Não Kãsemann, Wilckens).
fica claro se com isso Paulo quis dizer que Os v. 28,29 explicam por que a circun-
a circuncisão terá beneficio salvífico, se cisão não garante a salvação e por que a
for acompanhada do cumprimento da lei incircuncisão não exclui a salvação. Pois
que brota de um coração sincero, motivado a circuncisão que conta diante de Deus é a
pela fé (v., e.g., Murray, Cranfield), ou se do coração, realizada "pelo Espírito" (NVI).
ele quis dizer que a circuncisão nunca pode O que Paulo diz aqui não é evidentemente
ter poder salvífico, pois ninguém é capaz nada novo; o próprio AT utilizou essa lin-
de cumprir a condição de observar a lei (v., guagem para exigir transformação inte-
e.g., Calvin, Bruce). Mas esta última tese rior (e.g., Dt 10.16; Jr 4.4), e, assim como
parece preferível, uma vez que o propósi- Paulo, enfatizou que somente o Espírito
to de Paulo nessa parte da carta parece ser de Deus poderia efetuar tal transformação
1695 ROMANOS 3

(Ir 31.31-34; Ez 36.26,27). Mas o que era relacionamento salvífico com Deus por di-
uma questão de expectativa para os profe- reito de herança; mas eles têm inegáveis
tas do AT se tomou realidade na nova alian- vantagens, principalmente porque aos ju-
ça inaugurada em Jesus Cristo. Assim, a deus foram confiados os oráculos de Deus.
linguagem de Paulo aqui conduz o cp. 2 a Muita, no início de v. 2, sugere que Paulo
um clímax, ao sugerir a verdade, ou seja, iria continuar a enumerar outras vantagens,
que tomar-se membro da família de Deus mas desviou-se de seu propósito e nunca
não é uma questão de ser judeu, uma con- terminou a lista (cf, entretanto, Rm 9.3-5).
dição decorrente da aliança, ou de cumprir O maior dom de Israel são as Escrituras,
a lei, mas sim de ser nova criação por meio a própria palavra de Deus (do grego,
do Espírito de Deus. ta logia, "os oráculos", utilizado 24 vezes
3.1-8 A fidelidade de Deus e os ju- em Sll19 da palavra de Deus). É bem ver-
deus. Em seu ataque às pretensões dos dade que alguns judeus não se provaram
judeus no cp. 2, Paulo escreveu como se fiéis a essa palavra: eles nem obedeceram à
agora não mais houvesse diferença entre lei nem aceitaram a Jesus pela fé. Mas a in-
judeus e gentios (v., e.g., v. 9,10, 26-29). fidelidade humana nunca poderá diminuir
Mas isso seria interpretar seu argumento a fidelidade de Deus (3). Mesmo quando
de maneira equivocada. O propósito de alguém é mentiroso, Deus continua a ser
Paulo era mostrar que o fato de ser judeu verdadeiro (4a). A maioria dos estudiosos
simplesmente por ser judeu não apresen- vê nesses versículos uma afirmação posi-
tava nenhuma vantagem em relação aos tiva da fidelidade contínua de Deus para
gentios no juízo de Deus. Paulo, pregador com o seu povo Israel, que, como Paulo
experiente que era, sabia que seu argumen- deixa claro em Romanos 11, não foi rejei-
to poderia ser mal-interpretado; por isso tado por Deus (11.1,2) e que um dia será
ele acrescentou no final da sua exposição salvo (11.25,26). No entanto, embora sem
uma discussão detalhada sobre o pecado dúvida o aspecto positivo da fidelidade de
dos judeus, na qual ele afirma as vantagens Deus esteja presente, o v. 4b sugere que
dos judeus e delineia a natureza e as limita- também há um aspecto negativo dessa fi-
ções dessas vantagens. Naturalmente essa delidade. Paulo cita aqui a declaração de
questão despertaria o interesse especial- Davi em Salmos 51.4 de que Deus foi justo
mente dos judeus e judeus cristãos; mas no em castigá-lo, pois ele de fato pecou (no
aspecto em que suscita perguntas sobre a seu relacionamento com Bate-Seba). O
própria coerência e confiabilidade de Deus ponto é que Deus é justo quando julga. À
~ pois é bom lembrar que a circuncisão luz disso, deveríamos entender que Paulo
e a lei foram dadas por Deus ao povo de está afirmando nos v. 3,4 a fidelidade de
Israel ~ a questão também despertaria o Deus em todos os aspectos de sua palavra
interesse dos gentios. a Israel. E essa palavra tanto promete bên-
C. H. Dodd alegou que a resposta lógi- çãos pela obediência quanto ameaça de juí-
ca à pergunta que Paulo faz no v. 1 é "não", zo pela desobediência (cf Dt 28; 30.11-20).
não há mais nenhuma vantagem em ser ju- Então a fidelidade de Deus à sua palavra
deu nem na própria circuncisão. Ele acre- não evita o julgamento do povo judeu pelos
ditava que a resposta contrária de Paulo seus pecados (v. ênfases semelhantes em
~ Muita, sob todos os aspectos! ~ de- Ne 9.32,33; Lm 1.18. Salmos de Salomão
corre de seu compromisso emocional com 2.18; 3.5; 4.8; 8.7).
seus "irmãos segundo a carne". Mas isso Mas essa afirmação suscita outra ques-
é interpretar de maneira equivocada a teo- tão: se a justiça de Deus se toma ainda
logia cuidadosamente equilibrada de Israel mais evidente por meio da injustiça hu-
que Paulo elabora. Os judeus não têm um mana, seria justo que Deus julgasse essa
ROMANOS 3 1696

injustiça (5)? Alguns (e.g., Murray) acre- Deus é 'justo", mesmo quando julga os pe-
ditam que Paulo está sugerindo isso como cados dos judeus, é entendida por alguns
uma questão sobre o relacionamento de judeus como se significasse que o pecado
Deus com os seres humanos em geral. Mas é portanto justificado. Paulo não se com-
o contexto judaico da argumentação toma promete a fazer uma defesa lógica de sua
provável que ele ainda esteja pensando na condição aqui, mas simplesmente pronun-
injustiça dos judeus especificamente. A cia uma condenação sobre aqueles que su-
justiça de Deus não pode significar aqui o gerem uma conclusão tão blasfema (8b).
que significou em 1.17 - a justiça reden-
tora de Deus - mas deve se referir à sua 3.9-20 A culpa de toda
fidelidade, como as palavras paralelasfide- a humanidade
!idade (3), verdadeiro (4) e verdade (7) su- Embora as breves questões que iniciem o
gerem. O AT frequentemente usa a palavra v. 9 o conectem aos v. 1-8, fica claro que
"justiça" (no hebraico, tsedeq ou tsedãqâ; Paulo começa aqui uma síntese e aplica-
traduzida na LXX pela mesma palavra grega ção do argumento que ele começou em
que Paulo utiliza aqui, dikaiosynêi para se 1.18. Ele demonstrou que a ira de Deus
referir à fidelidade de Deus (e.g., SI 31.1; recai com justiça tanto sobre os gentios
36.5,6; Is 38.19; 63.7). Os estudiosos fre- (1.18-32) como sobre os judeus (2.1-
quentemente alegam que essa fidelidade se 3.8). Assim, conclui Paulo, todos os po-
refere ao compromisso de Deus em cum- vos estão "debaixo do pecado". Paulo re-
prir suas obrigações positivas na aliança força essa conclusão com uma prova do
com Israel. Mas muitos textos sugerem AT (10-18) e então aplica o princípio aos
um conceito mais elementar, no qual a fi- judeus (19,20).
delidade de Deus é para com a sua própria A afirmação de Paulo sobre a conti-
pessoa e palavra; e em alguns desses con- nuação da vantagem dos judeus em 3.1-8
textos a "justiça" de Deus é demonstrada (especialmente nos v. 1-3) estimula a sua
no seu justo juízo em relação aos pecados pergunta: Temos nós [os judeus] qualquer
de seu povo (e.g., SI 67.4; 94.15; Is 5.16; vantagem? Sua resposta - Não, de forma
10.22). Uma vez que o v. 4 proclamou nenhuma! - não tem a intenção de desdi-
que Deus é "verdadeiro" (dikaiõthêsi em zer o que ele disse nos v. 1-3, mas de im-
castigar o pecado, essa ideia mais básica pedir a conclusão de que a dádiva de Deus
da justiça de Deus deve estar presente no aos judeus dá a eles alguma vantagem no
v. 5. O fato de os judeus não obedecerem juízo de Deus. Paulo defende esse ponto
à palavra de Deus trouxe juízo sobre eles, lembrando seus leitores de que ele já de-
e por isso destacou a fidelidade de Deus monstrou que todos, tanto judeus como
em sua palavra de ameaça de juízo sobre gregos estão debaixo do pecado. Estar
o pecado. Mas qualquer que possa ser o "debaixo do pecado" significa não apenas
resultado positivo do pecado, Deus nun- "ser um pecador"; significa também ser
ca é injusto em castigá-lo. Julgará Deus um escravo indefeso do poder do pecado
o mundo e o fará em completa justiça (cf (cf 6.15-23).
Gn 18.25; Jó 8.3; 32.10-12). Os v. 7,8 re- Paulo realça sua conclusão sobre a
petem a objeção do v. 5 em outros termos, pecaminosidade universal com uma série
mas o v. 8 lança nova luz sobre a natureza de citações do AT. Essas coletâneas de ci-
dessa questão para Paulo. Como ele sugere tações tematicamente ligadas eram popu-
aqui, ele mesmo tem sido acusado de pre- lares entre os rabinos, e alguns pensavam
gar uma doutrina que leva a uma conclu- que Paulo poderia estar aqui citando uma
são do tipo Pratiquemos males para que coletânea cristã já disponível. O propósito
venham bens. A afirmação de Paulo de que dessa série é ilustrar especialmente o ter-
1697 ROMANOS 3

mo "todos" do v. 9: observe a repetição da ao demonstrar o pecado do próprio povo


expressão não há (v. 10,11,12) e o retomo da aliança ele provou a parte mais difícil
ao tema da inclusão de todos nos v. 19,20: de sua tese. Se até mesmo os judeus são
se cale toda boca, e todo mundo, ninguém. condenados, então ninguém pode escapar
Os textos à primeira vista parecem estar da mesma sentença.
dispostos aleatoriamente, mas há indícios Isso significa, por sua vez, que ninguém
de certa atenção à estrutura e sequência. A será justificado diante dele por obras da
primeira linha, Não há justo, nem um se- lei (20a). O fato de todas as pessoas esta-
quer, é o título, e então Não há, no v. 18, rem "debaixo do pecado" (3.9) significa
o retoma para concluir a série. Os v. 11,12 que nenhuma pessoa pode sempre obede-
desenvolvem a primeira linha com cinco re- cer à lei de Deus o suficiente para merecer
petições genericamente sinônimas do tema se apresentar diante dele. Ao colocar isso
"não há justo, nenhum sequer". Todas essas em termos de obediência à lei, Paulo está
citações são extraídas de Salmos 143.1-3. novamente pensando particularmente na
Paulo continua a citar Salmos (5.9; 140.4; situação dos judeus. Mas a obediência dos
10.7) nas quatro linhas seguintes (13,14), judeus à lei é uma instância da obediên-
sendo que cada uma delas retrata os peca- cia humana aos preceitos morais de Deus.
dos da fala. Os v. 15-17, por outro lado, Ao considerar as "obras da lei" dos judeus
utilizam citações de Isaías 59.7,8 para ilus- insuficientes para alcançar a salvação,
trar pecados da prática de violência contra Paulo implicitamente considera inadequa-
os outros. Significativamente, enquanto das também todas as "obras" humanas. O
algumas das passagens do Ar que Paulo poder do pecado mantém todas as pessoas
cita descrevem os inimigos de Israel, ou- sob seu domínio inexorável, e nada do que
tras (e.g., Is 59.7,8) referem-se a pecados nós fizermos pode nos libertar disso. Qual
do povo de Israel. Então Paulo defende é, então, o propósito da lei de Moisés? Pela
novamente de maneira sutil a tese de que lei vem o pleno conhecimento do pecado.
os judeus também devem ser contados na Ao demonstrar detalhadamente a vontade
categoria dos "maus". de Deus, a lei toma absolutamente claro
A aplicação que Paulo faz do ensino que é ao Deus vivo que ofendemos quan-
dos v. 9-18 (e indiretamente de 1.18- do pecamos. Assim dá à humanidade uma
3.18 como um todo) aos v. 19,20 revela compreensão clara da sua "responsabilida-
uma vez mais a sua preocupação com a de" (cf v. 19) diante de Deus.
condição dos judeus. Ele lembra seus lei- Nota. 20 As obras da lei ("obediência
tores de que suas citações foram extraídas à lei", NVI) é a tradução de ergõv nomou
da lei (nomos), palavra que aqui se refere (v. também Rm 3.28; GI 2.16; 3.2,5,10).
às Escrituras como um todo (cf também Tradicionalmente essa expressão é enten-
lCo 9.8,9; 14.21,34; GI4.2Ib). Mas essa dida como qualquer coisa que uma pessoa
lei é dirigida especialmente àqueles que faça em obediência à lei de Deus. Essa é
vivem na lei ("estão debaixo dela", NVI), a interpretação adotada no comentário aci-
isto é, os judeus (cf 2.12; 3.2). Daí Paulo ma, e acreditamos existirem boas razões
concluir que se cale toda boca - ninguém para aceitá-la. Embora a expressão não
tem nenhuma defesa para oferecer diante apareça em nenhuma outra parte do texto
de Deus (cf Jó 5.16; SI 63.11; 107.42) grego, uma expressão hebraica paralela é
- e todo mundo seja culpável perante encontrada nos manuscritos do mar Morto,
Deus, aguardando a sentença de condena- e também lembra muito as frequentes re-
ção. Paulo pode validamente extrair essa ferências rabínicas às "obras" e aos "man-
conclusão universal a partir da prova es- damentos" - todas elas se referindo a fa-
criturística do pecado dos judeus porque zer aquilo que a lei geralmente exige. Mas
ROMANOS 3 1698

estudiosos têm sugerido várias outras inter- na cruz de Cristo (o tempo verbal se ma-
pretações nos últimos anos. A interpretação nifestou sugere isso). Além disso, em uma
de James Dunn provavelmente seja a mais confirmação positiva do que ele disse em
conhecida e significativa. Ele defende que 3.20, Paulo deixa claro que essa justiça de
a expressão "obras da lei" se refira àquelas Deus foi manifestada sem lei. A tradução
áreas da vida dos judeus que os distingue da NVI sugere que essa expressão poderia
como o povo de Deus, especialmente a cir- modificar o que vem antes dela: "uma jus-
cuncisão, as leis da dieta judaica e a ob- tiça que provém de Deus, independente da
servância das festas. Então no v. 20 Paulo lei", mas a expressão provavelmente mo-
estaria negando que a identificação dos difica o verbo. A tese de Paulo é que uma
judeus por meio da aliança seja capaz de nova era no plano de Deus havia chegado
justificar. Embora Paulo não ensine isso de agora e que sua forma de trazer as pessoas
fato, tem-se a impressão de que esse versi- a um relacionamento com ele mesmo ocor-
culo está dizendo mais do que apenas isso. re fora dos limites da antiga era, da qual
Ao longo de 1.18-3.20, o foco de Paulo a lei mosaica era um componente central.
esteve voltado para às "obras" em geral Mas ao mesmo tempo Paulo é cuidadoso
(com referência específica aos judeus, cf em enfatizar a continuidade do plano de
2.2,3,6-10,21-23,25-27), e assim não há Deus. Ajustiça de Deus pode não ter lugar
uma boa razão, quer seja na acepção ge- na antiga era ou aliança; mas a lei e os pro-
ral da expressão, quer no próprio contexto, fetas daquela aliança testificam dela.
para restringir seu significado a determina- Na segunda etapa de sua exposição,
das obras ou a obras executadas segundo Paulo destaca o caráter universal da justiça
determinada atitude. de Deus. Experimentar a ação justificadora
de Deus é algo possível somente mediante
3.21-26 A justiça de Deus a fé em Jesus Cristo, e é para todos e sobre
A "justiça" de Deus (dikaiosynês se encon- todos os que creem; pois todos igualmen-
tra no centro desse grande texto. É men- te precisam da justiça de Deus, uma vez
cionada quatro vezes (21,22,25,26), en- que todos pecaram e carecem da glória
quanto a ocorrência de duas palavras cog- de Deus (22,23). A tradução mediante a
natas "justificar" (dikaioõ; 24,26) e "justo" fé em Jesus Cristo pressupõe que o geni-
idikaios; 26) reforça a sua centralidade. tivo lesou Christou é objetivo, mas muitos
Paulo desenvolve sua exposição sobre a estudiosos estão convencidos de que é um
justiça de Deus em quatro etapas. genitivo subjetivo e traduzem a expressão
Primeiro, ele anuncia "a justiça de por "fé [ou fidelidade] de Jesus Cristo".
Deus" (21). "Uma justiça que provém de Paulo estaria dizendo então duas coisas
Deus" (NVI) é uma tradução possível, mas distintas no v. 22b: que a justiça de Deus
certamente incorreta, pois Paulo está se re- se baseia na fidelidade de Cristo e que está
ferindo a uma ação que é de Deus (como disponível a todos os que crerem. Esta é
em 1.17) e não a um dom ou condição certamente uma interpretação possível,
"que provém de Deus". O vocabulário de mas provavelmente é melhor ficarmos com
Paulo deliberadamente relembra 1.17, à a primeira tradução. A ideia da "fidelidade"
medida que ele retoma, depois do pano de de Cristo (expressa com a palavra pistis)
fundo necessário de 1.18-3.20, ao tema não é claramente comprovada em outras
de 1.18---4.25. Aqui, no entanto, o foco de passagens de Paulo, ao passo que toda essa
Paulo está menos voltado ao modo como a seção de Romanos volta seu foco repeti-
ação de Deus em "tomarjusto" ou justificar damente à centralidade da fé humana em
se revela na pregação do evangelho, e mais Cristo para a justificação (v. especialmen-
ao fundamento histórico dessa justificação te o v. 26 no final desse parágrafo). Paulo
1699 ROMANOS 3 - :


então repete a noção de fé humana no v. 22 a "expiação" do povo. Uma vez que em
porque pretende dizer tanto que a justiça sua única outra ocorrência no NT (Hb 9.5)
de Deus vem somente pela fé em Cristo e hilastêrion se refere a esse propiciatório,
que ela vem para todos que tenham tal fé. O parece provável que Paulo utilize a palavra
v. 23 é um resumo sucinto de 1.18-3.20. com esse significado. Sua tese então seria a
A terceira parte do parágrafo (24,25a) de que Jesus Cristo é o equivalente neotes-
chama a atenção para a fonte da justiça tamentário do propiciatório do AT.
de Deus. Sendo justificados no início do Uma vez que esse "propiciatório" foi
v. 24 faz referência à justiça de Deus nos o lugar onde Deus tratou do pecado de seu
v. 21,22. A ação de Deus de colocar as pes- povo, assim, agora, Jesus Cristo foi mani-
soas em um novo e justo relacionamento festado (publicamente, para que todos vis-
com ele é um ato de pura graça: ele age sem), como o "lugar" onde Deus agora tra-
sem compulsão e à parte de quaisquer "ra- ta em definitivo e para sempre do pecado
zões" que não sejam sua própria vontade do seu povo. A expiação agora tem lugar
(v. também 4.4,5,13-16; 11.6). É por essa nele, e essa expiação, como no AT, inclui
razão que a fé, um ato de aceitação e entre- tanto o perdão dos pecados - a expiação
ga, é necessária para que se experimente propriamente dita - quanto o aplacamen-
essa justiça. A nossa justificação, além dis- to da ira de Deus - a propiciação. Essa
so, tem sua fonte na redenção que há em propiciação obviamente está muito distan-
Jesus Cristo. Redenção (apolytrõseõs) é te do tipo de "suborno" dos deuses capri-
mais um termo teológico importante desse chosos e egocêntricos característicos de al-
parágrafo. Ele denota um ato de "resgate gumas religiões antigas. A propiciação que
da escravidão" e sugere que Deus forneceu ocorreu na cruz é dom do próprio Deus e
em Jesus Cristo um "pagamento" total pe- envolve a satisfação da sua própria justiça
los nossos pecados para que sejamos liber- e da ira santa pelo pecado.
tados das amarras do pecado (cf 3.9) para A quarta etapa da exposição de Paulo
servir a um novo senhor. sobre a justiça de Deus afirma que o modo
O v. 25 dá continuidade a esse pensa- como Deus justifica os pecadores mantém
mento ao descrever mais detalhadamente a a sua justiça e santidade (25b,26). A chave
natureza da obra de Cristo na cruz por nós. para compreender esses versículos é perce-
A palavra-chave é hilastêrion, propiciação, ber que a "justiça de Deus" tem um signifi-
traduzida por "sacrifício para propiciação" cado diferente aqui do que nos v. 21,22. Tal
na NVI. Muitos acreditam, em função do uso como em 3.5 (v. as notas ali), os versículos
dessa palavra no grego secular, que ela sig- se referem à fidelidade de Deus a si mes-
nifique "propiciação" aqui, isto é, um ato mo e à palavra de um modo geral. Por essa
que afasta e aplaca a ira de Deus. Outros razão a ARA traduz dikaiosynê por "justiça"
(Dodd, e.g.) insistem em que a palavra em ambas as ocorrências nesses versículos.
significa "expiação" (v. RSV), um ato pelo Deus no passado "ignorou" - deixou de
qual os pecados são perdoados e "apaga- punir com toda severidade (paresis) - os
dos". Mas a evidência do uso da palavra na pecados do seu povo. Ele justificou pessoas
LXX aponta para uma direção ligeiramente como Abraão e Davi, sem remover toda
diferente e mais ampla. A palavra na LXX a pena por seus pecados. Essa pena agora
normalmente se refere ao "propiciatório", foi paga por Cristo na cruz, revelando que
um componente do tabernáculo. A palavra Deus é justo tanto por ignorar esses peca-
é particularmente importante em Levítico dos anteriormente cometidos (25b) como
16, em que o ritual do Dia da Expiação é por justificar os pecadores no tempo pre-
prescrito. É sobre esse "propiciatório" que sente (26a). Assim, em uma frase que re-
o sangue do sacrificio é aspergido, para sume todo o parágrafo, Deus é agora visto
ROMANOS 3 1700

como o que é justo e ojustificador daquele propiciatório)''' (1. Denney, The Death of
que temfé em Jesus (26b). James Denney Christ [Tyndale, 1951], p. 98).
nos fornece seu próprio resumo desse pa-
rágrafo: "Não pode haver evangelho algum 3.27-4.25 "Somente pela fé"
a menos que exista tal coisa como a justi- Essa passagem desenvolve um elemen-
ça de Deus para o ímpio. Mas tampouco to-chave na grande síntese teológica de
pode haver evangelho se a integridade do 3.21-26: a fé como o único meio de jus-
caráter de Deus não for mantida. O pro- tificação. Paulo desenvolve essa tese em
blema do mundo pecador, o problema de duas etapas, sendo a primeira delas uma
toda religião, o problema de Deus em lidar declaração geral (3.27-31) e a segunda
com uma raça pecadora está em como unir (4.1-25) uma elaboração a respeito de um
essas duas coisas. A resposta cristã para o caso específico - Abraão. As duas se-
problema é dada por Paulo nessas palavras: ções não apenas têm seu foco no mesmo
'Jesus Cristo, a quem Deus propôs, no seu tema, como também se desenvolvem da
sangue, como propiciação (ou com poder mesma forma:

3.27b,28 o homem é Abraão foi justificado pela fé e 4.3-8


justificado pela fé não pelas obras
independentemente
das obras

3.27-31 "Somente pela fé": declaração à lei mosaica. A tese de Paulo seria, então,
inicial. No estilo de debate que ele tanto que a jactância é excluída quando se perce-
usa em Romanos, Paulo desenvolve sua be na lei não apenas a exigência de obras
argumentação junto com outra pergunta: ("obediência à lei", NVI), mas também o
Onde, pois, a jactância? ("Onde está, en- seu apelo subjacente por fé. Mas o fato
tão, o motivo de vanglória?", NVI). Paulo de o v. 28, que parece ser uma elaboração
provavelmente faz essa pergunta tendo em feita por Paulo do v. 27, contrastar "obras
mente os judeus em particular. Como ele da lei" e "fé" faz com que essa interpreta-
observa em outras passagens, os judeus ti- ção seja improvável. Traduzir nomos por
nham a tendência de contar com suas obras "princípio" (NVI) é possível, e faz mais sen-
como base para seu relacionamento com tido no contexto: a jactância dos judeus é o
Deus (9.30-10.3, cf Fp 3.2-9). A provi- produto de sua preocupação com a lei e sua
são da justiça de Deus "independentemen- exigência por obras, que será vista como
te das obras da lei" (28) e mediante a fé revogada quando for reconhecida a verda-
em Jesus Cristo (21,22) revela a insensatez de de que um homem é justificado pela fé
do orgulho por tal realização. Foi de todo independentemente das obras da lei (28;
excluída, Paulo alega, pela lei da fé. A pa- obras da lei ["obediência à lei", NVI] traduz
lavra lei traduz o grego nomos, e muitos novamente ergõn nomou).
estudiosos acreditam que nomos se refere Nos v. 29,30, Paulo cita o ensino cen-
aqui, como geralmente acontece em Paulo, tral dos judeus sobre a unicidade de Deus
111
1701 ROMANOS 4 _-
-li

(Dt 6.4) como mais um argumento a favor obediência à lei. Em segundo lugar, por-
da exclusividade da fé. Pois se Deus deve que Abraão, o ancestral do povo judeu que
ser verdadeiramente o Deus de todos os recebera a promessa de Deus, ocupa um
seres humanos, então todos os povos de- lugar fundamental na história da salvação
vem ter igual acesso a ele, e pelos mesmos do AT. Particularmente era assim que Paulo
meios. A lei de Moisés, a Torá, não pode entendia a questão, pois ele via que um
mais continuar sendo um "muro divisório" dos erros principais de seus contemporâ-
entre judeus e gentios (Ef 2.11-22). Deus neos judeus era enfatizar a aliança mosai-
justifica tanto os circuncisos (os judeus) ca em detrimento do arranjo anterior que
quanto os incircuncisos (os gentios) pela Deus fizera com Abraão (cf GI 3.15-18).
fé. (O texto grego fala de Deus justificando Paulo então precisa citar Abraão para mos-
os judeus por [ek]fé e os gentios mediante trar que sua ênfase na justificação pela fé
[dia] a fé, mas provavelmente não há ne- não era uma doutrina nova, revolucionária,
nhuma diferença de significado). mas sim algo que as Escrituras ensinaram
O último versículo desse parágrafo (31) desde o princípio. Além do mais, Paulo faz
revela novamente o desejo de Paulo de im- uso de Abraão para deixar absolutamente
pedir seus leitores de chegarem a uma con- claro o que de fato é a fé. Ele o faz em
clusão extrema de sua argumentação con- uma série de contrastes que prenunciam
trária à lei. A rejeição franca de qualquer o grande princípio da Reforma, sola fide
papel da lei na justificação que Paulo faz ("somente pela fé").
em favor da fé (20,21,27,28) não significa 1-8 Nessa seção Paulo discute a ques-
que ele com isso procura anular a lei. Ao tão fé versus obras. No que diz respeito
contrário, insiste Paulo, nós corifirmamos a esse assunto, isto é, em matéria de jac-
a lei. Infelizmente Paulo não explica aqui tância e justificação, a pergunta que inicia
como é que a sua pregação confirma (ou esse capítulo - Que, pois, diremos ter al-
"estabelece", do grego, histêmi) a lei. Ele cançado Abraão, nosso pai segundo a car-
pode estar querendo dizer que a sua dou- ne? - faz um paralelo com a pergunta que
trina da justificação pela fé está plenamen- inicia 3.27-31. Pois se Abrão tivesse sido
te de acordo com o ensino do Pentateuco justificado por obras - como acreditavam
("a lei"), como ele deixa claro no cp. 4. alguns judeus - então ele de fato teria
Entretanto, uma vez que o seu foco nos v. boas razões para se vangloriar, e a conclu-
27,28 esteve voltado às exigências da lei, o são de Paulo de que a jactância fora excluí-
mais provável é que ele está ensinando que da (3.27) estaria comprometida. Mas não
a fé em si provê o que é necessário para diante de Deus (2b) é a resposta de Paulo
o pleno cumprimento dessas exigências. a essa suposição. Isso pode significar que
Como Paulo formulará em 8.4: "a fim de Abraão tinha razões para se vangloriar
que o preceito da lei se cumprisse em nós", diante de outras pessoas, mas "não diante
isto é, nos fiéis cheios do Espírito. de Deus"; ou mais provavelmente que a hi-
4.1-25 "Somente pela fé": a fé de pótese que Paulo apresentou - se Abraão
Abraão. Paulo desenvolve agora os pon- foi justificado por obras - deve ser refu-
tos em que tocou por alto em 3.27-31, ao tada quando colocamos a questão "diante"
se referir à história de Abraão. Era impor- do próprio veredicto de Deus. Esse vere-
tante que Paulo citasse Abraão nesse mo- dicto é dado nas próprias Escrituras: "Ele
mento, por duas razões. Primeiro, porque o [Abraão] creu no SENHOR, e isso lhe foi im-
judaísmo tinha Abraão em alta estima mas putado para justiça" (Gn 15.6). Esse texto
tendia a vê-lo como um grande pioneiro da toma-se a base para o restante da exposi-
"religiosidade da Torá", um homem que ção de Paulo. Ele mostra que esse fato que
agradara a Deus acima de tudo por sua "lhe foi imputado para justiça", justamente
ROMANOS 4 1702

por se basear na fé, exclui as "obras" (4- 9-12 Essa condição de justo, essa
8), a circuncisão (9-12) e a lei (13-17). Ele bem-aventurança não é baseada na cir-
detalha a natureza e a força dessa fé que le- cuncisão. Pois Deus julgou Abraão como
vou Abraão à justiça (18-21) antes de citar justo (Gn 15) bem antes de ele ser circun-
o seu texto, mais uma vez (22) deixando cidado (Gn 18; de acordo com os rabinos,
clara, assim, a sua aplicabilidade aos seus 29 anos separaram os dois incidentes). A
leitores (23-25). circuncisão, assim, não foi a base para a
O propósito de Paulo nos v. 4,5 é con- justiça imputada a Abraão, mas apenas um
trastar fé e obras. As obras, de um lado, sinal ou selo dessa justiça que Abraão já
implicam uma situação de obrigação. Uma possuía em virtude de sua fé. Dessa forma
pessoa que "trabalha" recebe um salário Abraão é idôneo para ser o pai de todos
que o empregador é obrigado a pagar. A os que creem. Pois assim como os cris-
fé, por outro lado, implica uma situação tãos gentios, Abraão fora justificado sem
em que algo é concedido por liberalidade. ser circuncidado (llb), e da mesma for-
Como um ato de humilde aceitação, a fé ma que os cristãos judeus, ele fora tanto
não exige nada do doador nem "obriga" o circuncidado como justificado pela fé. A
doador a uma reação. Os contrastes mos- leitura que Paulo faz de Gênesis, à luz do
tram claramente que a justificação deve cumprimento do plano de Deus em Cristo,
se basear na fé. Isso porque Deus é por permite que ele veja Abraão como mais do
definição um Deus de misericórdia, um que somente o pai da nação judaica (1, "o
Deus que justifica o ímpio (5). As pessoas nosso pai segundo a carne"), e sim como o
não são aceitas por Deus porque, por se- pai de todos os cristãos.
rem justas, elas mereceram isso. É a "pes- Nota. 12 A ordem das palavras nesse
soa má" que Deus aceita, aquela pessoa versículo toma possível pensar que Paulo
que não tem em si mesma nenhum direi- tem em mente dois grupos distintos: os ju-
to de pleitear sua causa. Aqui Paulo nos deus - "os circuncisos" - e os cristãos
lembra de uma das grandes verdades das judeus - "que não apenas são circuncida-
Escrituras: que as pessoas não têm direito dos, mas que também seguem o caminho
de reivindicar a atenção de Deus. A possi- de fé que o nosso Pai Abraão seguiu ...".
bilidade de nos relacionarmos com Deus Mas a interpretação que se presume na tra-
é uma dádiva gratuita a ser aceita com fé dução da ARA (e também na NVI) é preferí-
e humildade. vel. Ou seja, temos aqui somente um grupo
Para realçar o ponto que Paulo está ela- - o de cristãos judeus.
borando com base no Pentateuco (Gn 15.6), 13-17 Em Gálatas 3, Paulo argumenta
ele acrescenta, bem à moda judaica, um que a lei mosaica não poderia ter tido re-
texto confirmatório dos "Escritos". Em lação alguma com a condição de Abraão
Salmos 32.1,2 Davi também deixa claro diante de Deus porque a lei apenas se tor-
que Deus justifica as pessoas independen- nou conhecida séculos depois de Abraão.
temente de obras. A bênção, como Davi Aqui no cp. 4 Paulo prefere falar menos
deixa claro, não é uma questão relacionada "da história" e mais "de princípio". Para
aos méritos de uma pessoa por algo que ela mostrar que a obediência à lei não tinha
tenha conquistado, mas sim ao fato de ela relação alguma com o fato de que a justiça
ser perdoada por Deus. Paulo deixa claro foi imputada a Abraão (13), Paulo cita a
que a expressão "imputado para justiça" fragilidade da própria lei (14,15), a graça
em Gênesis 15.6 significa que Deus confe- (16) o poder criativo de Deus (17b) e a "pa-
re à pessoa a condição de "justo", ou seja, ternidade" universal de Abraão (16,17).
Deus a considera justa, e seus pecados não Se herdar as bênçãos de Abraão de-
mais são "contados" contra ela. pende da obediência à lei, anula-se a fé e
1703 ROMANOS 4

cancela-se a promessa. Isso porque, como baseada em uma instituição específica de


Paulo salientou anteriormente (3.9-20), Israel - a lei mosaica.
ninguém pode obedecer tanto assim à lei 18-21 Nesse breve parágrafo, antes
a ponto de merecer ser justificado dian- de terminar sua exposição, Paulo faz uma
te de Deus. Assim, a lei não traz bênção, pausa para caracterizar de forma sucinta
mas, sim, ira (15). Ao explicar em detalhes a natureza da fé em Abraão. Paulo mos-
o que Deus exige, a lei só aumenta a res- tra que Abraão tinha uma fé forte e coe-
ponsabilidade do pecador diante de Deus. rente, mesmo em face dos muitos indícios
Então quando a lei é desrespeitada, como de que o que Deus tinha prometido talvez
é inevitável acontecer, a culpa do pecador não acontecesse. De forma honesta ele en-
é ainda maior do que seria sem a lei para frentou o fato de que a sua idade e a es-
condená-lo. Esse é o ponto que Paulo de- terilidade de Sara tomavam humanamente
fende no v. 15, quando afirma onde não há impossível que a promessa de muitos fi-
lei, também não há transgressão. Ele não lhos se cumprisse. Ainda assim, esperando
quer dizer que não exista "pecado" desas- contra a esperança - esperança do tipo
sociado da lei, mas sim que a forma espe- que se baseia nas potencialidades huma-
cífica de pecado chamada "transgressão" nas comuns - Abrão creu "em esperança"
(do grego parabasis) pode existir apenas (NVI, ARe) - uma esperança do tipo que vê
em face dos mandamentos definidos e cla- além das circunstâncias, descansando nas
ros de Deus, pelos quais alguém é respon- promessas e capacidade de Deus. Observe
sabilizado. (Este é sempre o sentido da pa- a aplicação encorajadora que Calvino
lavraparabasis em Paulo; Rm 2.23; 5.14; faz desse parágrafo: "Vamos nos lembrar
Gl3.l9; lTm 2.14). também que a condição de todos nós é a
Paulo toca brevemente em uma segun- mesma de Abraão. Todas as coisas que nos
da razão pela qual a justiça não pode vir rodeiam estão em oposição à promessa de
por intermédio da lei: basear a justiça na Deus: Ele promete imortalidade, mas esta-
lei significaria que ela seria baseada em mos rodeados de mortalidade e corrupção;
"obras", e isso anularia a graça de Deus ele declara que nos conta como justos, mas
(cf 4.4,5). Esse ponto está relacionado ao estamos cobertos de pecados; ele testifica
ponto que Paulo defende no final do v. 17, que é benigno e amável para conosco, mas
quando diz que o Deus em quem Abraão juízos à nossa volta ameaçam a sua ira. O
creu é nada menos do que o que vivifica que devemos fazer então? Nós devemos
os mortos e chama à existência as coisas fechar nossos olhos e prosseguir, ignoran-
que não existem. Isso aponta para a descri- do tudo relacionado conosco, de modo que
ção nos v. 18-21 da própria fé que Abraão nada possa dificultar ou nos impedir de
tinha, mas também reforça a ideia da liber- acreditarmos que Deus é verdadeiro".
dade e do poder criativo de Deus. Nesse Nota. 20 A insistência de Paulo em que
sentido, ela é paralela à designação ante- Abraão não duvidou, por incredulidade
rior que Paulo faz de Deus como aquele pode parecer inconsistente com a descren-
que "justifica o ímpio" (5). A terceira razão ça e o desdém de Abraão em relação à pro-
pela qual a justiça não pode se basear na messa de Deus em Gênesis 17.17. A tese
lei nos lembra o argumento que Paulo uti- de Paulo, porém, não é de que Abraão fos-
lizou em 3.29,30. A intenção de Deus era se uma pessoa perfeita, ou que nunca tives-
estender a herança que ele tinha prometido se dúvidas, mas antes que a atitude de seu
a Abraão a todas as pessoas, como o pró- coração foi consistente com uma atitude de
prio AT indica: "Por pai de muitas nações fé e esperança na promessa de Deus.
te constituí" (Gn 17.5). Isso só poderia 22-25 Paulo conclui sua exposição so-
acontecer quando a herança não fosse mais bre a fé do patriarca Abraão citando uma
ROMANOS 5 1704

vez mais o seu texto-chave ~ Gênesis tinham sido libertados do domínio desses
15.6 ~ e deixando claro o que nele estava poderes. Assim, a estrutura dos cp. 5~8
implícito, que o versículo e seu significa- é o que alguns chamam de "composição
do têm aplicação direta aos cristãos. Como em cruz" e outros de "quiasmo", no qual
Abraão, nós também acreditamos no Deus há certa correspondência entre o primeiro
que vivifica os mortos; mais especifica- e o último elementos, bem como entre o
mente, no Deus que ressuscitou dentre os segundo e o penúltimo elementos e assim
mortos a Jesus, nosso Senhor. por diante:
O v. 25 descreve a obra de Jesus, o
Senhor, em duas declarações paralelas 5.1-11 Certeza da glória futura
(pode ser que Paulo estivesse citando uma 5.12-21 Base para essa certeza na obra
antiga confissão cristã). A primeira decla- de Cristo
ração faz referência a Isaías 53.12, da LXX, 6.1-23 Liberto do poder do pecado
em que se diz que o servo do Senhor foi 7.1-25 Liberto do poder da lei
"entregue por causa dos pecados deles". 8.1-17 Base para essa certeza na obra
A preposição por causa de (no grego, dia) de Cristo, mediada pelo Espírito
na primeira linha provavelmente significa 8.18-39 Certeza da glória futura
"em razão de": Jesus foi entregue à mor-
te porque era necessário prover algo pelo 5. 1-11 A esperança da glória
nosso pecado. Na segunda linha, no entan- Paulo começa uma nova seção da sua carta
to, a mesma preposição por causa de pro- em 5.1 (em vez de, por exemplo, em 6.1).
vavelmente significa "a fim de", "com o Isso é demonstrado pela transição "justifi-
propósito de": Jesus foi ressuscitado den- cados, pois, mediante a fé" no v. 1; pela
tre os mortos com o propósito de prover mudança da ênfase na "fé" (33 ocorrências
nossa justificação. Embora Paulo normal- em 1.18---4.25 contra apenas três nos cp.
mente associe nossa justificação à morte de 5~8) para a ênfase na "vida" (24 ocor-
Cristo, esse versículo mostra que a ressur- rências no cp. 5~8 contra apenas duas em
reição de Cristo também desempenha um 1.18---4.25); e pela clareza do tema e da
papel importante em nossa justificação. estrutura resumida acima.
Ecoa em todo esse trecho (cp. 5~8) a
5.1-8.39 O evangelho e o questão criada pela tensão entre algo que
poder de Deus para a salvação Paulo ensinava ~ que uma pessoa é jus-
Se "a justiça que do princípio ao fim é pela tificada diante de Deus no minuto em que
fé" (1.17, NVI) resume o tema de 1.18~ crê ~ e a verdade bíblica acerca do dia do
4.25, "o poder de Deus para a salvação" juízo divino que deve ainda ser enfrentado.
encerra a verdade central de 5.1~8.39. O Como essas duas verdades estão relaciona-
evangelho, ao revelar esse poder, assegura das? Posso ter certeza de que minha justifi-
não apenas a aceitação inicial do pecador cação agora será de algum proveito no dia
por Deus, mas a sua libertação final no dia do juízo? A essa pergunta, Paulo responde
do juízo. "Se justificados, então certos da nesse parágrafo com um enfático "Sim!":
salvação final" é o tema geral de Paulo, gloriamo-nos na esperança da glória de
um tema que é expresso especialmente no Deus (2b) e a esperança não confunde
início (cp. 5) e no final (cp. 8) da seção. (5a). Nessas certezas encontramos o cerne
Entre esses capítulos, Paulo trata de dois desse parágrafo.
dos "poderes" que podem ameaçar essa li- Os v. 1,2a levam a essas certezas lem-
bertação futura do fiel justificado, a saber, brando aquilo de que os cristãos que foram
o pecado (cp. 6) e a lei (cp. 7), mostrando justificados mediante a fé agora desfru-
em cada um desses casos que os cristãos tam: a paz com Deus, um relacionamento
1705 ROMANOS 5

no qual nós já não somos ameaçados pela esperou que déssemos o primeiro passo de
ira de Deus, o acesso [...] a esta graça volta em sua direção, mas interveio em um
na qual estamos firmes, a participação ato de pura graça, para nos providenciar
contínua nas bênçãos asseguradas pela um caminho de volta.
graça de Deus em Cristo. Paulo está, no Os v. 9,10 reúnem as partes principais
entanto, consciente das dificuldades que dos v. 1-8, repetindo a certeza da esperança
os cristãos ainda enfrentam neste mun- cristã (2,5a). Eles são, obviamente, para-
do. Contudo, essas dificuldades, longe de lelos. Paulo afirma a ligação indestrutível
ameaçarem nossa paz e segurança, real- entre a condição atual do fiel diante de
mente nos dão uma maior garantia delas Deus (justificados pelo seu sangue, recon-
(3b,4). Pois os sofrimentos são usados por ciliados com ele) e a sua condição futura
Deus para produzir em nós perseverança, (por ele salvos da ira). Seu argumento pas-
a capacidade de resistir. Perseverança sa do "maior" para o "menor". Deus fez "a
produz caráter (dokimês, a força que re- coisa maior" ao nos trazer de volta a um
sulta somente de severas provações, e o relacionamento com ele por meio do terrí-
caráter, por sua vez, produz esperança. vel preço pago pelo sangue de seu Filho,
Porque Deus trabalha dessa maneira em ainda quando éramos inimigos de Deus.
nossa vida e porque devemos desejar an- Estávamos em uma situação de mútua hos-
siosamente esse tipo de caráter e de espe- tilidade, na qual a ira de Deus repousava
rança, devemos nos alegrar em nossos so- sobre nós (1.18) e éramos "aborrecidos de
frimentos (3a). Paulo reproduz aqui uma Deus" (1.30). Certamente, então, Deus vai
perspectiva comum dos primeiros cris- fazer o que nos termos desse argumento é
tãos acerca do valor bem maior das vir- a coisa "mais fácil": libertar a nós - aque-
tudes divinas se comparadas aos proble- les a quem ele já acolheu - do derrama-
mas terrenos (v. também 8.18; Tg 1.2-4; mento de sua ira no dia do juízo. O v. 11
lPe 1.6,7 - uma perspectiva que muitos fecha o parágrafo com uma repetição final
cristãos atuais perderam de vista). de algumas de suas ideias principais: "nos
Os v. 5b-8 firmam a esperança cristã gloriamos" (2,3); a presente glória da re-
(5a) sobre a fundação inabalável do amor conciliação com Deus (lb,10); e, acima de
de Deus pornós em Cristo. O Espírito Santo tudo, o fato de que essa glória e reconcilia-
capacita o fiel a sentir no seu interior que ção vêm apenas por intermédio de nosso
o amor de Deus é derramado [ekcheõ] em Senhor Jesus Cristo.
[seu] coração. Somado a esse apreço inte- Nota. 1 Uma variante fortemente sus-
rior está a demonstração histórica e objeti- tentada traz, em vez do presente do indi-
va desse amor de Deus por nós na cruz de cativo "temos" (echomen), o presente do
Cristo. No calvário foi mostrado ao mundo subjuntivo "tenhamos" (echõmen). Isso
um amor que em muito transcende o amor tem o efeito de transformar o v. 1 em um
humano típico, amor segundo o qual ape- apelo para que desfrutemos a paz com
nas pelo bom (homem) alguém cogitaria Deus, em vez de uma declaração de que
morrer (7). O fato de que Deus sacrificou nós j á estamos desfrutando dela agora. No
seu próprio filho pelos ímpios (6) e pelos entanto, apesar da força do seu apoio nos
pecadores (8) - pelas mesmas pessoas manuscritos (nas duas cópias mais impor-
que se recusaram a honrá-lo e adorá-lo (cf tantes das cartas de Paulo o verbo está no
1.21,22) - é algo que faz parte apenas da subjuntivo) e da sua aceitação por mui-
natureza do amor de Deus. Essa é a ideia tos estudiosos (e.g., Sanday-Headlam,
transmitida na expressão a seu tempo (6): Murray), a formulação no indicativo faz
no exato momento em que ainda éramos mais sentido nesse contexto e é ampla e
fracos, Cristo morreu por nós. Deus não fortemente sustentada.
ROMANOS 5 1706

5.12-21 O reino de graça e vida versais do pecado de um só, Adão: a ofen-


O poder da obediência de Cristo em su- sa de um trouxe a morte para o mundo e
perar a desobediência de Adão é o gran- por meio de um só (isto é, por meio do
de tema desse parágrafo. Paulo apresenta ato de pecar) a morte se espalhou a todos
Adão e Cristo como "figuras representati- os homens. Muitos estudiosos pensam
vas", cujos atos determinam o destino de que a "morte" a que Paulo se refere aqui
todos aqueles que a eles pertencem. Assim é apenas a morte física (Sanday-Headlam,
como Adão pecou e por meio do seu pe- Godet, Murray); outros, que significa so-
cado trouxe o pecado e a morte a todos os mente a morte "espiritual". Mas ele pro-
que pertencemos a ele (12a,18a,19a), as- vavelmente está falando de ambas, a se-
sim também Cristo obedeceu e por meio da paração de Deus e a morte física, como o
sua obediência trouxe justiça e vida para juízo de Deus sobre o pecado.
todos os que pertencem a ele (18b,19b). A A última frase do versículo explica
ênfase recai sobre o aspecto da compara- por que a morte se espalhou a todos os
ção, "assim também". Paulo pressupõe a homens, porque todos pecaram. (Como
verdade do pecado de Adão e o reinado da se reconhece quase universalmente, o
morte que ela introduz, uma doutrina en- grego eph hõ deve ser traduzido por "por-
contrada em outras passagens na literatura que"). Isso pode significar simplesmente
judaica com ênfases variadas. O que Paulo que toda pessoa morre porque toda pes-
quer nos ensinar aqui é que Cristo, entre- soa, em seu próprio corpo, peca. Mas a
gando-se a si mesmo na cruz, estabeleceu ênfase de Paulo na maneira pela qual a
de modo semelhante um reino - mas um desobediência de um só homem levou
reino de vida, em vez de morte, um reino ao pecado e à condenação de todos (essa
de graça (cf v. 15-17,21), em vez de ape- ideia é repetida nos v. lOa e 19a) sugere
nas desertos. Os fiéis podem estar certos da que no v. 12 também ele está pensando no
vida eterna porque foram transferidos para pecado de todos que acontece devido ao
esse novo reino em que a graça e a vida rei- seu relacionamento com Adão. O que ele
nam (21). Esse ensinamento da certeza da pode estar dizendo é que todas as pessoas
vida em Cristo apoia o que Paulo ensinou pecam (12) porque todas herdaram a "na-
em 5.1-11. Podemos ter certeza da salva- tureza pecadora" e corrompida de Adão
ção final (9,10) pois nosso relacionamento (18,19). Mas os v. 18,19 sugerem uma re-
com Cristo nos assegura de que reinaremos lação ainda mais estreita do que essa entre
em vida (17). o pecado de Adão e o nosso. Por isso seria
Paulo começa a explicar seu ponto preferível pensar que o pecado de todas
principal sobre o paralelo entre Adão e as pessoas no v. 12 é um pecado que real-
Cristo no v. 12, mas se interrompe a si mente ocorre "em" Adão. Paulo talvez
mesmo antes de terminar. Temos, por- pense nisso em um sentido "biológico":
tanto, um assim como sem seu corres- todos os seres humanos pecaram em Adão
pondente "assim também" (a maioria das porque estávamos todos potencialmente
traduções em inglês sinaliza a interrupção "presentes" nele (v. um possível paralelo
no pensamento com um travessão no final a essa ideia em Hb 7.10). Ou ele talvez
do versículo; o assim também que temos esteja pensando nessa solidariedade em
no v. 12 nas versões em português não um sentido "jurídico": como o nosso re-
dão continuidade à comparação inicia- presentante nomeado por Deus, o pecado
da no começo do versículo). Apenas nos de Adão é considerado por Deus o pecado
v. 18,19 Paulo retoma esse ponto para de todas as pessoas ao mesmo tempo, e é
completar a explicação da comparação. em consequência desse pecado que todas
Este assim como apresenta os efeitos uni- as pessoas morrem. De todo modo, o pon-
1707 ROMANOS 5

to importante para Paulo, como também entanto, Paulo em outras passagens re-
para nós, é que todas as pessoas por força pudia claramente a ideia de que todas
de sua relação com Adão são pecadoras as pessoas serão salvas (e.g., Rm 2.12;
sujeitas à pena de morte. 2Ts 1.8,9), e o v. 17 também deixa claro
Paulo interrompe a comparação que que somente os que recebem a abundân-
começou no v. 12 para inserir duas digres- cia da graça e o dom da justiça reinarão
sões nos v. 13,14 e v. 15-17. A primeira em vida. Portanto, devemos compreender
protege o ensino de Paulo acerca da uni- o universalismo do v. 18 em termos da
versalidade da morte no v. 12 da possível importância representativa de cada in-
objeção de que as pessoas não podem ser divíduo: os efeitos da ação do Cristo se
responsabilizadas por seus pecados se não estendem a todos os que pertencem a ele,
"transgrediram" a lei de Moisés (cf 3.20 assim como os efeitos da ação de Adão se
e 4.15). Paulo simplesmente responde estendem a todos os que pertencem a ele.
declarando que a realidade universal da Todas as pessoas, sem exceção, pertencem
morte já existia muito antes de a lei ser a Adão (12); mas apenas aqueles que vêm
entregue a Moisés. A segunda digressão a ter fé, que "recebem o dom", pertencem
(15-17) destaca dois pontos de contraste a Cristo (v. também 1Co 15.22,23).
entre Adão e Cristo. Há, em primeiro lu- O parágrafo conclui com mais uma ob-
gar, um contraste no que diz respeito ao servação sobre a lei (20) e um resumo final.
efeito das suas ações: A ofensa de Adão O fato de Paulo mencionar novamente a lei
trouxe condenação (16) e morte (17); (cf também v. 13,14) revela o quanto ele
Cristo trouxe justificação (16) e justiça está preocupado com as questões dos "ju-
(17). Em segundo lugar; há um contras- deus" em Romanos. Seu argumento é que
te no que diz respeito ao poder desses a lei de Moisés nada fez para mudar a situ-
atos. O ato de Adão por certo foi forte ação do pecado e da morte introduzidos no
o bastante, acarretando pecado, morte e mundo por Adão. Na verdade, a lei piorou
sofrimento a todo o mundo. No entanto, as coisas, aumentando a transgressão ao
como Paulo afirma, muito mais poderoso tomar o pecado contra Deus uma rebeldia
é o ato de Cristo e os seus efeitos (15,17). ainda mais grave contra seus claros man-
Isso ocorre porque a graça de Deus está damentos (v. comentário de 4.15). Ainda
em ação por meio de Cristo, e a graça de assim, mesmo nos casos em que o pecado
Deus tem poder para muito mais do que abundou, a graça de Deus abundou ainda
superar qualquer ato de Adão. mais. Como resultado, Paulo conclui, o
Nos v. 18,19 Paulo finalmente ex- reinado de morte foi substituído pelo rei-
pressa a plena comparação entre Adão e nado da graça para os que estão em Cristo,
Cristo. Os versículos são paralelos, cada trazendo para nós uma nova condição de
um deles fazendo uma comparação en- justiça (cf 3.21-4.25) e conduzindo ine-
tre a maneira pela qual a desobediência/ vitavelmente à vida eterna, mediante Jesus
transgressão de Adão trouxe condena- Cristo, nosso Senhor.
ção e pecaminosidade e a maneira pela Nota. 12 Portanto traduz dia touto,
qual por um só ato de justiça/obediência "por causa disso". Nesse contexto, a pala-
Cristo trouxe justificação e retidão. Mas vra dia provavelmente tem um sentido "fi-
será que o paralelo entre eles se estende nal" - "para o bem de", "com o propósito
aos efeitos universais desses resultados? de" - e touto é provavelmente retroativo,
Esse parece ser o caso, uma vez que referindo-se a um tema já tratado nos v.
Paulo afirma no v. 18 que tanto os efei- 9,10, a certeza da salvação. Toda a expres-
tos dos atos de Adão como os dos atos de são traduzida, então, significa "com o pro-
Cristo se estendem a todos os homens. No pósito de assegurar essa salvação final".
ROMANOS 6 1708

6.1-23 Libertos da nenhum! - , explicando, por meio da ideia


escravidão do pecado central do capítulo, por que ele assim pro-
A insistência de Paulo em que os cristãos cede: Como viveremos ainda no pecado,
que são justificados infalivelmente serão nós os que para ele [o pecado] morremos
salvos da ira de Deus (5.9,10) pelo fato de (2)? O que Paulo diz com isso se toma cla-
terem passado, em união com Cristo, para ro à medida que ele desenvolve o conceito
o reinado da graça e da vida (5.12-21) sus- no restante do capítulo: e não mais sirva-
cita a questão do pecado na vida do cristão. mos o pecado como escravos (6,17,18,22);
Não teria o pecado o poder de interromper o pecado já não terá domínio sobre nós
esse processo, impedindo o cristão jus- (14a). "Morrer para o pecado" não signifi-
tificado de alcançar a salvação e a glória ca ser insensível à sua tentação, pois Paulo
final? No cp. 6 Paulo trata dessa questão, deixa claro que o pecado continua sendo
respondendo-a ao afirmar que os cristãos atraente para os cristãos e deve ser comba-
não são somente libertados, em Cristo, da tido a cada dia (cf v. 13). Antes, significa
pena do pecado - isto é, justificados - ser libertado da tirania absoluta do pecado,
mas também do poder do pecado - isto é, do estado em que o pecado exerce domí-
santificados. Sem minimizar a ameaça con- nio incontestável, do estado em que todos
tínua que o pecado representa para a vida vivíamos antes da conversão (cf 3.9). Em
cristã, Paulo insiste em que os cristãos fo- consequência dessa morte para o pecado,
ram colocados em uma nova relação com não podemos continuar a viver nele (2b)
o pecado, uma relação em que o pecado já - pois o ato constante de pecar revela a
não tem o poder de nos "dominar", de nos tirania do pecado, uma tirania da qual o
fazer cativos (cf v. 6,14,18,22). Ao longo cristão já foi libertado.
de todo o capítulo (e, como veremos no Os v. 3-5 revelam o meio pelos qual
próximo), Paulo retrata a experiência cris- "morremos para o pecado": pela união com
tã nos termos de uma transferência de um Jesus Cristo em sua morte. O rito de inicia-
"regime" ou "reinado" para outro. Tomar- ção cristã, o batismo com água, coloca-nos
se cristão, como Paulo afirma, significa ser num relacionamento com Jesus Cristo e
libertado do regime antigo, dominado por de modo mais específico com a morte de
Adão (5.12-21), pelo pecado (cp. 6), pela Cristo (3). Essa "união" com Cristo não é
lei (cp. 7) e pela morte (cp. 8) e ser intro- uma fusão mística da nossa própria pessoa
duzido em um novo regime, dominado por com a de Cristo, mas um relacionamento
Cristo (5.12-21; 7.1-6), pela justiça (cp. 6), "jurídico" no qual Deus nos vê em asso-
pelo Espírito (7.6; 8), pela graça (6.14,15) ciação com seu Filho e assim aplica a nós
e pela vida (5.12-21; 6.4; 8.1-13). os benefícios conquistados por seu Filho.
6.1-14 "Morte para o pecado" pela Pode-se dizer, assim, que fomos sepulta-
união com Cristo. O contexto imediato dos com ele na [sua] morte pelo batismo.
para a discussão de Paulo sobre o cristão e O que Paulo diz com isso não é que o nos-
o pecado é sua afirmação em 5.20b: "Mas so batismo simplesmente simboliza, com
onde abundou o pecado, superabundou a a submersão na água, a morte e o sepulta-
graça". O próprio Paulo faz a pergunta que mento de Cristo, pois Paulo deixa claro que
ele sem dúvida alguma teve de responder fomos sepultados "com" ele, não "como"
muitas vezes em consequência da sua insis- ele. Antes, Paulo está dizendo que a nossa
tência quanto ao poder da graça de Deus: fé, simbolizada pelo batismo, coloca-nos
Permaneceremos [os cristãos] no pecado, num relacionamento com o próprio sepul-
para que seja a graça mais abundante? tamento de Cristo. Por que essa referên-
(1) Paulo rejeita veementemente qual- cia ao sepultamento de Cristo? Em outras
quer inferência nesse sentido - De modo passagens Paulo também inclui o sepulta-
11
1709 ROMANOS 6 rIrI
ri.

mento de Cristo como um elemento-cha- te fomos libertados da tirania do pecado,


ve no evangelho que ele prega: "Antes de mas também recebemos um novo poder de
tudo, vos entreguei o que também recebi: obedecer, por meio da nossa participação
que Cristo morreu pelos nossos pecados, no poder da ressurreição de Cristo. Esse
segundo as Escrituras, e que foi sepulta- é o ponto que Paulo defende no v. 5: A
do e ressuscitou ao terceiro dia, segundo participação na morte de Cristo significa
as Escrituras" (lCo 15.3,4; cf também também a participação na sua ressurrei-
Cl 2.12). Aqui no cp. 6 Paulo afirma que ção. Alguns estudiosos pensam que, assim
os fiéis se uniram a Cristo de tal maneira como em Efésios 2.6 e Colossenses 2.12;
que eles mesmos experimentam, cada um, 3.1, Paulo apresenta aqui a nossa ressur-
esses eventos: nós "morremos com Cristo" reição com Cristo como uma experiência
(8; cf v. 3-6); fomos "sepultados com passada. Mas o tempo do verbo no futuro,
Cristo"(4); e "com ele viveremos"(8; cf tanto no v. 5 (unidos [...] seremos) quanto
v. 4,5). É essa união real por esses even- no v. 8 (com ele [...] viveremos), toma mais
tos redentores centrais que insere o cristão provável que Paulo esteja falando aqui de
numa nova relação com o poder do pecado. nossa ressurreição com Cristo de verdade
A verdade básica do argumento de Paulo é como algo futuro, ao passo que no presente
bem clara: Uma vez que a própria morte o poder da ressurreição de Cristo está ope-
de Cristo foi uma "morte para o pecado" rando em nós (cf v. 11: vivos para Deus).
(lO), a nossa participação na sua morte Os v. 6,7 e 8-10 elaboram, respectiva-
(3-6) significa que nós também "para ele mente, os aspectos da "morte" e da "vida"
[o pecado] morremos" (2). da nossa união com Cristo. O nosso velho
O batismo, como o v. 4 deixa claro, é homem (6) retoma as figuras de identidade
o meio (a palavra grega é dia) pelo qual coletiva do cp. 5. Faz alusão à nossa iden-
somos colocados em relacionamento com tificação com o "velho homem", Adão, e
esses acontecimentos. Alguns intérpretes mostra que "não é uma parte de mim que
defendem que Paulo pode estar se refe- se chama velha natureza, mas todo o meu
rindo ao batismo no "espírito", mas isso é ser, exatamente como eu era antes de me
improvável. É melhor entender que Paulo converter" (JoOO Stott, Men Made New
está usando o batismo em água como uma [IVP, 1966], p. 45). Como resultado da
"representação abreviada" da experiência nossa crucificação com Cristo, esse corpo
inicial de conversão do cristão. O NT con- do pecado, a pessoa como um todo domi-
sistentemente retrata o batismo em água nada pelo poder do pecado, foi tomado
como um componente fundamental da con- impotente (NVI mrg., "seja deixado sem
versão (v., e.g.,At 2.38; 1Pe 3.21). Isso não poder", é preferível à formulação no tex-
significa que o batismo em si tenha o poder to aqui seja destruído). Em consequência
de converter ou nos levar ao relacionamen- disso, não precisamos mais servir o peca-
to com Cristo. Somente quando o batismo do como escravos. Como apoio adicional
é combinado à fé genuína é que ele possui a essa conclusão, Paulo cita uma máxima
algum significado, e o que Paulo escreveu popular dos rabinos quanto ao fato de a
nos cp. 1-5 deixa claro que, afinal, o ele- morte romper o domínio do pecado sobre
mento crucial do processo é essa fé. (Sobre uma pessoa. Os v. 8-10 reforçam a conexão
o batismo no NT e nessa passagem, v. espe- entre morrer com Cristo e viver com ele,
cialmente G. R. Beasley-Murray, Baptism afirmada no v. 5, e fornecem uma ligação
in the New Testament [Eerdmans, 1962]). crucial para o argumento de Paulo ao des-
A nossa união com Cristo na morte e crever a morte de Cristo como uma morte
no sepultamento significa que podemos vi- "para o pecado". Embora puro, Cristo, no
ver em novidade de vida (4b). Não somen- entanto, esteve sujeito ao poder do pecado
ROMANOS 6 1710

em virtude de sua encarnação, e sua morte lhante em alguns aspectos à da lei mosaica
o afastou, para sempre, desse poder. (cf 2.20). Os cristãos têm uma nova obri-
O parágrafo se encerra com uma síntese gação. Os v. 17-23 a explicam como um
e uma aplicação. A nossa identificação com desenvolvimento daquilo que Paulo disse
Cristo em sua morte deve ser entendida e anteriormente nesse capítulo. Ser livre do
posta em prática para que se tome efetiva pecado, segundo Paulo, não significa que
em subjugar o poder do pecado na nossa os cristãos sejam autônomos, que vivam
vida. Assim, Paulo nos exorta a reconhecer sem mestre ou sem quaisquer obrigações.
quem somos agora em Cristo (11) e a co- Significa, sim, uma nova escravidão: mas
locar em prática essa nova identidade, des- desta vez à justiça (18,19) e a Deus (22).
tronando o pecado do nosso comportamen- Assim como Jesus, Paulo insiste em que a
to cotidiano (12,13). Essa vitória sobre o verdadeira "liberdade" só pode ser obtida
pecado é possível, relembra-nos Paulo em em um relacionamento com o Deus que nos
um resumo dos v. 1-10, porque o pecado criou (Jo 8.31-36). Somente ao dobrar os
não terá domínio sobre vós (14; o futuro joelhos diante de Deus uma pessoa pode se
é utilizado para destacar que em momento tomar o que Deus originalmente pretendia
algum o pecado nos dominará novamen- que essa pessoa fosse: "justa" (em confor-
te). Pois já não estamos debaixo da lei, midade com os padrões de comportamento
isto é, sob o regime da lei de Moisés no estabelecidos por Deus) e "santa" (levando
qual o pecado "abundou" (5.20) e trouxe uma vida centrada em Deus e renunciando
a ira (4.15), mas debaixo da graça, o novo aos padrões mundanos). E o resultado é a
regime inaugurado por Cristo, no qual "a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor
graça reina pela justiça para a vida eterna" (23; cf v. 22).
(v. Jo 1.17 para um contraste semelhante
entre "lei" e "graça"). 7.1-25 Libertos da escravidão da lei
6.15-23 Livres do poder do pecado O ponto principal desse capítulo é muito
para servir a justiça. Como foi o caso em semelhante à verdade central do capítulo
6.1-14, este parágrafo começa com uma anterior. Assim como no cp. 6 os cristãos,
pergunta relacionada a algo que Paulo aca- por meio da união com Cristo, "morrem
ba de dizer. Sua afirmação de que o cristão para o pecado" e tomam-se "servos de
não está "debaixo da lei, e sim da graça" Deus", colhendo santidade como benefí-
(14b) poderia implicar que não há mais re- cio, também no cp. 7 os cristãos morrem
gras às quais o cristão deva obedecer, e ne- relativamente à lei, por meio do corpo
nhuma pena para qualquer pecado que ele de Cristo, e passam a pertencer a Jesus
cometer. A resposta de Paulo é semelhante Cristo, "a fim de [frutificar]" (4). Paulo
ao seu ensino nos v. 3-10: o pecado habitual sugere que a lei, assim como o pecado, é
manifestaria um estado de escravidão ao de certo modo um "poder" que pertence
pecado (16), um estado do qual todo cris- ao antigo regime da história da salvação,
tão foi libertado (17,18). Paulo está certo do qual os cristãos devem ser libertados
de que os cristãos romanos tinham eles se quiserem aproveitar a vida no novo re-
mesmos experimentado essa nova liberta- gime de justiça e de vida inaugurado por
ção do pecado, pois [vieram] a obedecer de Jesus Cristo. O apóstolo já sugeriu essa
coração à forma de doutrina a que [foram] ideia em 6.14,15. Esses versículos forne-
entregues (17b). Ao colocar a questão desse cem o contexto imediato para a discussão
modo, Paulo sugere, ao mesmo tempo, que que ele apresenta no cp. 7.
os cristãos, libertos da lei mosaica, estão O primeiro parágrafo (1-6) transmite
mesmo assim vinculados por um código de a verdade central do capítulo. Mas nesses
autoridade, uma "forma de ensino" seme- versículos a perspectiva negativa de Paulo
1711 ROMANOS 7

sobre a lei o leva a acrescentar uma digres- humana" (NTLH) é a tradução literal: quan-
são importante na qual ele afirma a origem do vivíamos segundo a carne (en te sarki;
divina e a excelência da lei, e fala de como "pela natureza pecaminosa", NVI). Em tex-
a lei passou a ter um resultado tão negativo tos como esse Paulo usa a palavra "carne"
na história da salvação (7.25). para designar não uma propensão da pes-
soa ao pecado (como sugere NVI, mg.), mas
7.1-6 Libertos da lei; unidos a Cristo a "esfera de poder" em que a pessoa vive.
A passagem do cristão do domínio da lei Uma vez que a raiz de seu conceito teoló-
para o domínio de Cristo é o ponto cen- gico é que aquilo que é típico deste mundo
tral deste parágrafo (4). Paulo chega a este se distingue do reino espiritual, "carne"
ponto com um lembrete sobre a natureza da pode ser utilizado como símbolo do regi-
lei: ela somente tem poder sobre as pessoas me antigo. "Quando estávamos na carne"
enquanto estiverem vivas. A "lei" à qual significa basicamente "quando vivíamos
Paulo se refere aqui poderia ser a lei roma- no antigo regime não cristão". Nesse regi-
na (Kãsemann) ou a lei em geral (Sanday- me a lei era instrumental para realçar as
Headlam), mas provavelmente trata-se da paixões pecaminosas, pois ela incentivava
lei mosaica (segundo a maioria dos estu- a nossa rebeldia inata contra Deus. Agora,
diosos). Os v. 2,3 ilustram a verdade desse portanto, nós morremos para a lei e pode-
princípio com a analogia do casamento. mos servir em novidade de Espírito, e não
Embora várias e detalhadas comparações na caducidade da letra. Tal como em 2.29,
com a experiência cristã algumas vezes se o contraste entre a "letra" (gramma) e o
encontrem nessa ilustração, Paulo preten- "Espírito" é o contraste entre a lei como po-
de simplesmente fazer duas observações: der determinante da antiga era e o Espírito,
a morte rompe o relacionamento da pessoa o agente reinante da nova.
com a lei, e a libertação da lei permite que
uma pessoa se una a outra. 7.7-25 A história e a experiência
Esses são os pontos que Paulo aplica dos judeus sob a lei
teologicamente no v. 4. Por meio do nosso Em 7.1-6 Paulo disse algumas coisas ne-
relacionamento com Cristo em sua morte gativas sobre a lei. Ele a associou ao pe-
na cruz - por meio do corpo de Cristo - cado como um "poder" do antigo regime
nós, cristãos, morremos para a lei, isto é, de morte e alegou que ela de fato colocava
fomos libertados de seu domínio (cf 6.2). em realce o pecado (v. 5), mas esses ver-
A lei governou os judeus e, por extensão, sículos apenas formam o clímax de uma
todas as pessoas (cf 2.14) no antigo re- série de declarações negativas sobre a lei
gime da história da salvação. Ela regulou em Romanos. Paulo mostrou que a lei é in-
o relacionamento na aliança entre Deus e capaz de justificar (3.20a), toma conhecido
seu povo, e por ela exigir obediência sem o pecado (3.20b) e, na verdade, estimula o
dar o poder de obedecer, teve o efeito de pecado (5.20) e traz a ira (4.15). Diante de
prender o povo sob o poder do pecado e tudo isso, podemos imaginar que alguém
da morte (cf 4.15; 5.20; 6.14,15; Gl3.21- pense que Paulo encara a lei como má.
25). Somente ao sermos libertados do re- Paulo tinha experiência suficiente para sa-
gime da lei é que podemos ser libertados ber que essa interpretação equivocada de
também do pecado e nos unir a Cristo no sua teologia da lei era uma possibilidade
novo regime a fim de que frutifiquemos sempre presente. Ele então introduz uma
para Deus. digressão sobre a lei na qual se protege
A ligação entre a lei e o pecado é ela- contra essa falsa interpretação. Ele defen-
borada no v. 5. Melhor do que "quando de a qualidade positiva da lei ao demons-
vivíamos de acordo com a nossa natureza trar que os efeitos negativos que ela produz
ROMANOS 7 1712

se devem não à lei em si, mas ao poder do Israel, no monte Sinai. Os judeus do século
pecado e da fraqueza humana. Paulo re- eram ensinados a pensar em si mesmos
I
sume de modo sucinto a ideia central de como havendo tomado parte nas experiên-
7.7-25 em 8.3a: "Porquanto o que fora im- cias históricas de Israel (como no ritual da
possível à lei no que estava enfraquecida Páscoa). Talvez Paulo esteja então descre-
pela carne". Paulo defende esses pontos no vendo nesses versículos não a sua própria
contexto de um esboço do efeito que a lei experiência pessoal, mas a experiência do
tinha sobre o povo judeu. povo judeu, coletivamente. Então, o que
7-12 Esse parágrafo sobre a vinda da Paulo estaria dizendo é que a entrega da lei
lei atinge dois propósitos: afirmar e susten- de Moisés a Israel significou para eles não
tar, contra um possível equívoco (7a), que a vida (como alguns rabinos ensinavam),
a lei de Moisés, ou seja, o mandamento, é mas a morte, pois a lei de Moisés, ao es-
santo,justo e bom (12) e explicar a relação timular o pecado, "trouxe ira", deixando
entre a lei e o pecado (7b-11). Ao defen- mais clara do que nunca a distância que
der este último ponto, Paulo afirma que a separava os judeus de Deus.
lei tinha sido o meio pelo qual ele viera 13-25 Esta segunda parte da digressão
a conhecer o pecado (7b). O que Paulo de Paulo sobre a lei fornece um "elo per-
quer dizer com isso não é simplesmente dido" na sua argumentação em 7.7-12: a
que a lei mostrou a ele o que era o peca- fraqueza dos seres humanos como a razão
do, mas que a lei, com a sua apresenta- pela qual o pecado pôde usar a lei para
ção clara dos mandamentos de Deus, deu trazer a morte. A lei, embora espiritual,
ao pecado a oportunidade de incentivar a não pode libertar as pessoas do domínio
rebeldia contra Deus e deixou totalmente do pecado e da morte (21-25), porque elas
clara a sua propensão ao pecado e à mor- são carnais (14), incapazes de obedecer à
te (8-11). A nossa propensão ao pecado é lei que admitem ser boa (16). Assim, é na
tamanha que o simples ato de rotular uma lei de Moisés que Paulo coloca o seu foco
ação como transgressão contra a lei santa nesses versículos.
de Deus nos leva a violá-la; e é dessa ma- O ensino de Paulo sobre a lei vem em-
neira que a lei "estimula o pecado" (5.20; butido em uma longa "confissão pessoal".
7.5) e traz ira (4.15). Que experiência Paulo estaria descrevendo
O fato de Paulo usar a primeira pessoa aqui? Muitos estudiosos, observando que
do singular ("eu") para defender o seu pon- Paulo agora escreve no presente (em con-
to suscita a questão sobre qual experiência traste com o passado dos v. 7-11) e alega
ele está descrevendo aqui. Muitos pensam ter prazer na lei de Deus, argumentam que
que ele está refletindo sobre seu cresci- ele deve estar descrevendo sua situação
mento como um jovem judeu, quando o atual como de um cristão maduro. A passa-
pecado pela primeira vez reviveu e deixou gem então tomaria claro que a lei não pode
claro que ele era um pecador (eu morri). fornecer a vitória sobre o poder do pecado
Outros pensam que Paulo está descreven- dentro dos cristãos que, embora regenera-
do a época em que, um pouco antes de sua dos e libertados do poder de condenação do
conversão, o Espírito começou a condenar pecado, não podem escapar da influência
os seus pecados. Mas o fato de essa expe- do pecado (cf 14,23,25). Embora essa in-
riência ter ocorrido quando o pecado to- terpretação da passagem possa ter um forte
mou ocasião pelo mandamento sugere ou- apoio (e.g., de Agostinho, Lutero, Calvino)
tra possibilidade. Como o contexto deixa e mereça grande respeito, há uma aborda-
claro, o mandamento deve se referir à lei gem alternativa. A maioria de nós pode se
mosaica (cf v. 7,12), e a lei mosaica "sur- identificar, como cristãos, com os conflitos
giu" quando Deus a entregou ao povo de descritos nos v. 15-20, mas o tratamento
1713 ROMANOS 7

objetivo que Paulo dá à situação de que trapõe à incapacidade de cumprir de fato a


está falando toma difícil acreditar que ele lei na prática. O "querer" (usado aqui de
esteja descrevendo um cristão. Paulo alega maneira não técnica) e o "fazer" estão em
que ele é vendido à escravidão do pecado mútua oposição. Isso revela, como conclui
(14b; cf v. 25) e é um prisioneiro da lei do Paulo, que em mim, isto é, na minha car-
pecado (23). A primeira descrição parece ne, não habita bem nenhum (18) e que o
ser diametralmente oposta à descrição do pecado que habita em mim deve ser o res-
cristão no cp. 6 - "libertados do pecado" ponsável por minhas ações (17,20). Os co-
(v. 22) - e a segunda conflita com a afir- mentaristas que defendem a interpretação
mação de Paulo em 8.2 segundo a qual o da "maturidade cristã" da passagem acre-
cristão foi libertado "da lei do pecado e da ditam que Paulo está se referindo ao po-
morte". Parece então que nesses versículos der constante do pecado e da carne na vida
Paulo está descrevendo a sua experiência do cristão. Parece, no entanto, que ele faz
como judeu não regenerado, que vê seu referência à maneira em que quem não é
amor pela lei de Deus e o desejo de lhe cristão se vê impedido de obedecer à lei de
obedecer constantemente frustrados por Deus por estar sob o domínio do pecado.
sua incapacidade em obedecer. Na verda- No v. 21 Paulo resume a lei (mais bem
de, não podemos ter certeza da extensão traduzida aqui por "preceito"; cf RSV), que
da consciência de Paulo a respeito desse ele encontra atuando no conflito que des-
conflito em sua vida antes da conversão. creveu nos v. 15-20: o desejo de fazer o
(Sua alegação em Filipenses 3.6 de que ele bem é igualado e superado pela tendência
era "irrepreensível" com respeito à "justi- de praticar o mal. O prazer na lei de Deus
ça que há na lei" se refere à sua posição - como era típico do povo judeu - de-
perante a lei segundo os padrões dos fari- para com a força de outra lei. Enquanto
seus, e não à sua situação real). Certamente alguns entendem essa "outra lei" como
foi somente à luz do seu conhecimento de sendo uma outra função da própria lei de
Cristo que Paulo reconheceu a profundi- Moisés, a palavra "outra" (heteros) sugere
dade da pecaminosidade que ele descreve que Paulo tem em mente uma "lei" distinta
aqui. Nos v. 7-11, então, Paulo descreve o da lei de Moisés. Essa "lei" é a força ou o
efeito da entrega da lei sobre si mesmo e "poder" do pecado, que Paulo coloca fren-
sobre todos os outros judeus, enquanto nos te a frente com a lei de Deus (v. também
v. 13-25 ele descreve a existência continua- 3.27; 8.2). Paulo se confessa um prisionei-
da de um judeu, como ele certa vez fora, ro dessa lei do pecado, o que é uma forte
sob a lei. O tempo presente, que ele come- indicação de que ele esteja descrevendo
ça a usar no v. 14, é muito mais adequado sua experiência anterior como judeu sob a
para essa descrição de um estado constante lei (contraste 8.2).
das coisas. A reação de Paulo a essa prisão é la-
O v. 13 é um versículo de transição e mentar: Desventurado homem que sou!
resume o argumento dos v. 7-12 - a lei é Quem me livrará do corpo desta morte?
boa, mas tem sido usada pelo pecado para A emoção desse lamento pode sugerir que
produzir morte e assim revela o pecado em Paulo está, na verdade, nessa condição
suas "cores verdadeiras" (sobremaneira "miserável" que descreve e que seu apelo
maligno) - como o ponto de partida para é por libertação, como um cristão, da mor-
os v. 14-25. O fato de a lei ser espiritual, talidade física. Mas Paulo, o cristão, não
mas que "eu" sou carnal (sarkinos) prepa- precisa perguntar quem é seu libertador, e
ra o terreno para o conflito nos v. 15-20. a "morte" nessa passagem geralmente se
Reconhecer o lado bom da lei de Deus e refere à morte em todos os seus aspectos
o desejo de obedecê-la é algo que se con- como o castigo de Deus sobre o pecado
ROMANOS 8 1714

(cf v. 5,9-11,13). Portanto, é melhor atri- anterior da carta. O agora, pois, com que
buir esse lamento ao judeu sincero e piedo- Paulo começa sugere que ele está tirando
so, frustrado por sua própria incapacidade uma conclusão a partir de algo que já dis-
de obedecer à lei de Deus e ansiando pela se. Tanto o vocabulário quanto o conteúdo
libertação do pecado e da morte. Paulo do v. 1 apontam para o final do cp. 5 como
pode escrever de modo tão realista e apai- a base para essa conclusão. O argumento
xonante porque essa era uma condição que de Paulo ali era que os cristãos são liberta-
ele mesmo havia experimentado, e por ser dos da condenação (katakrima; v. 16 e 18)
essa uma condição que ainda caracterizava provocada por Adão, pois eles se uniram
tragicamente a maior parte dos seus "ir- a Jesus Cristo. É esse ponto que Paulo,
mãos, meus compatriotas" (cf 9.1-3). No depois da sua digressão nos cp. 6-7,
início do v. 25 Paulo, o cristão, interrompe agora reitera: agora, pois, já não há ne-
a sua descrição da vida judaica debaixo da nhuma condenação [katakrima] para os
lei para anunciar aquele em quem a liber- que estão em Cristo Jesus. No entanto,
tação da morte é encontrada: Jesus Cristo, dois outros pontos de contato podem ser
nosso Senhor. No final do versículo, Paulo discernidos: o primeiro está no contraste
volta a resumir a situação dos judeus de- deliberado que Paulo cria entre a condi-
baixo da lei: com a mente, sou escravo da ção de estar "debaixo da lei", em 7.7-25,
lei de Deus - a atitude de admitir que a e a situação de quem vive "debaixo do
lei de Deus é boa e de procurar obedecê-la Espírito" (cf 8.2-4,7); o segundo ponto
- mas segundo a carne, da lei do pecado está na elaboração que ele faz no cp. 8 a
- impedidos pela carne de obedecê-la. respeito da breve menção feita em 7.6b
a viver "em novidade de Espírito".
8. 1-30 A garantia da vida A libertação dos cristãos da condena-
eterna no Espírito ção - a pena de morte por causa do pecado
Romanos 8 é bastante conhecido por seu sob a qual todas as pessoas vivem - ocor-
foco no Espírito Santo. A palavra "espíri- re em virtude da nossa união com Cristo
to" (do grego pneuma) ocorre 21 vezes no (5.12-21). Os v. 2-4 explicam mais tarde
capítulo, e em todas elas, com exceção de que essa libertação foi realizada pelo Deus
duas (cf v. 15a e 16b), refere-se ao Espírito trino: o Pai envia o Filho como uma oferta
Santo. Contudo, embora o Espírito seja pelo pecado por nós (3), e com base nisso o
por isso extremamente importante, não Espírito nos liberta do poder do pecado e da
é ele o verdadeiro tema do capítulo. Não é morte (2) e assegura o cumprimento da lei
o próprio Espírito, mas sim a certeza da em nosso favor (4). As "leis" contrastantes
vida eterna que o Espírito ajuda a garantir do v. 2 podem se referir a duas operações
o verdadeiro tema de Paulo. De "nenhu- distintas da lei mosaica, que funciona para
ma condenação" no início a "nenhuma aprisionar as pessoas quando vista estrita-
separação" no final, o capítulo passa em mente como uma exigência de obras, mas
revista os atos e dons de Deus que juntos que opera para libertar as pessoas quando
dão a cada cristão a certeza de que o seu elas a entendem corretamente como uma
relacionamento com Deus é seguro e cer- exigência por "obediência fiel". Ainda que
to. Paulo mostra como o Espírito confere assim entendida, porém, seria algo sem
ao cristão (1-13) a adoção na família de precedentes que Paulo atribuísse à lei o
Deus (14-17) bem como a certeza da es- poder de libertar do pecado e da morte;
perança da glória (18-30). portanto, a lei do Espírito deve significar
8.1-13 O Espírito da vida. Esse ca- "o poder (ou autoridade) exercido pelo
pítulo apresenta uma conexão principal e Espírito". De modo correspondente, por-
duas conexões subordinadas com a parte tanto, a lei do pecado e da morte também
significará não a lei mosaica mas "o po-
1715 ROMANOSS/

onde reinam o pecado e a morte - têm


.
der (ou autoridade) do pecado e da morte" sua inclinação dominada por impulsos im-
(v. também 7.23). puros (5) e não podem se sujeitar à lei de
Em ("por meio de", NVI) Cristo Jesus Deus (7) ou agradar a Deus (8), mas estão
o Espírito de Deus nos livra da situação sob sentença de morte (6). Por outro lado,
de domínio do pecado e da morte, a que os cristãos, que vivem "no Espírito", fo-
Paulo faz alusão em 5.12-21 e 6.1-23 e ram transferidos para o novo regime onde
que é descrita em 7.7-25. O Espírito deve reinam a graça e a justiça, e eles, que rece-
agir assim porque o grande poder do "an- beram uma nova inclinação cujo foco é o
tigo regime", a lei mosaica, foi incapaz, Espírito, desfrutam de vida e paz (6). O v.
por causa da fraqueza humana, de romper 9 deixa claro que toda pessoa que perten-
o domínio do pecado (3a; cf 7.14-25). ce a Cristo foi transferida para esse novo
O que a lei não podia fazer, Deus fez: domínio em que o Espírito, e não a carne,
ele rompeu o poder do pecado - conde- governa. Então nos v. 10,11 Paulo mostra
nou [...] o pecado - ao enviar seu Filho como a posse da vida "espiritual" hoje le-
para se identificar conosco e se entregar vará ao desfrute da "física" por meio da
a si mesmo "como oferta pelo pecado" ressurreição do corpo. E isso também será
(3; assim a NVI traduz corretamente peri alcançado por meio do poder do Espírito
hamartias, de acordo com a utilização da que agora habita em nós.
expressão na LXX). Esse envio do Filho Os v. 12,13 encerram essa primeira se-
possibilita o verdadeiro cumprimento da ção do cp. 8 com um lembrete prático: a
lei por aqueles que vivem de acordo com obra do Espírito em nos garantir vida não
o Espírito. Paulo não diz que os cristãos significa que podemos ser passivos com
são capacitados a obedecer à lei (por mais relação à nossa obrigação de manifestar a
verdadeiro que isso possa ser), mas que os vida do Espírito Santo na nossa vida diária.
cristãos são considerados por Deus como Somente quando nos submetermos ao con-
tendo cumprido plenamente as exigência trole e à direção do Espírito, afastando-nos
da lei devido à obediência de Cristo em do estilo de vida "carnal", seremos capazes
nosso favor (v. Calvino). Isso é sugerido de viver (13). Paulo está claramente se re-
pelo singular dikaiõma ("justa exigência", ferindo à vida espiritual, eterna e assim faz
que a NVI inexplicavelmente traduziu como com que o desfrutar dessa vida dependa de
plural, "exigências") e o sentido passivo certo modo da obediência do cristão. Aqui,
da expressão se cumprisse em nós (4). por fidelidade às Escrituras, somos chama-
Como crentes "em Cristo" somos liber- dos a manter em tensão duas verdades cla-
tados da condenação porque Jesus Cristo ras: que o fato de o Espírito habitar em nós,
cumpriu totalmente a lei em nosso favor. como resultado da fé em Cristo, assegura
Ele se tomou aquilo que somos - fracos, infalivelmente a vida eterna, e que um esti-
humanos e sujeitos ao poder do pecado lo de vida baseado nos padrões do Espírito
- para que nos tomássemos como ele de Deus é necessário para herdarmos a
- justos e santos. vida eterna. A tensão pode ser levemente
O contraste entre a carne ("natureza amenizada ao lembrarmos que o Espírito,
humana", NTLH; cf 7.5) e o Espírito no que nos foi dado na conversão, atua por si
v. 4b conduz à série de contrastes entre mesmo para produzir obediência. Mas isso
essas duas "forças" nos v. 5-8. Por meio não elimina totalmente a tensão, pois ain-
desses contrastes Paulo explica por que da somos chamados a nos submeter a essa
é o Espírito, e não a carne, que traz vida. obra do Espírito.
Pessoas que vivem "na carne" - ou seja, 8.14-17 O Espírito de adoção. Assim
aquelas que vivem sob o "antigo regime", como a "vida" é a ideia central dos v. 1-13,
ROMANOS a 1716

assim a filiação ocupa o centro dos v. 14-17. A nossa adoção na família de Deus, no
Esse breve parágrafo, além de fazer sua entanto, embora maravilhosa e confortan-
própria contribuição para o tema do ca- te, não é o fim da história. Pois ser filho
pítulo ao descrever novamente a verdade significa ser também herdeiro: estar ainda
maravilhosa e reconfortante de que os cris- aguardando a plena concessão de todos
tãos foram adotados na própria família de os direitos e privilégios conferidos a nós,
Deus, faz uma transição entre os v. 1-13 como filhos de Deus (17; v. especialmen-
e 18-30. Ser filho de Deus explica não te Gl 4.1-7, com um argumento bastante
somente por que o Espírito de Deus nos semelhante a esse de 8.1-17). Do mesmo
confere vida (13,14), mas também por que modo que o Filho de Deus teve de sofrer
se diz que somos herdeiros com uma pers- antes de entrar na sua glória (1Pe 1.11),
pectiva gloriosa para o futuro (17,18). também nós, filhos de Deus por adoção,
Ser [guiado] pelo Espírito de Deus devemos sofrer "com ele", antes de com-
(14) não significa ser guiado pelo Espírito partilharmos de sua glória (v. também
na tomada de decisões, mas estar sob a in- Fp 1.29; 3.20; 2Co 1.5). Visto que nos uni-
fluência dominante do Espírito (Gl 5.18). mos a Cristo, o servo do Senhor "despre-
A oração resume as várias descrições da zado e rejeitado pelos homens" (ls 53.3),
vida no Espírito nos v. 5-9. Paulo pode podemos esperar que o caminho para a
afirmar que aqueles guiados pelo Espírito nossa gloriosa herança seja coberto de difi-
são filhos de Deus e por isso destinados culdades e perigos.
à vida (13), porque filhos de Deus é um 8.18-30 O Espírito de glória. Nesse
título que a Bíblia atribui ao povo de Deus parágrafo Paulo elabora mais a sua refe-
(v., e.g., Dt 14.1; Is 43.6; cf Rm 9.26). rência ao sofrimento e à glória no v. 17,
Mas também temos de reconhecer o títu- desenvolvendo o tema geral da certeza
lo como uma alusão à filiação do próprio cristã e completando o círculo ao nos le-
Jesus (cf v. 3 e 29); como o v. 15 confir- var novamente ao início dessa grande se-
ma, Aba era a maneira como Jesus se di- ção da carta (5.1-11; v. as notas em 5.1).
rigia a Deus (cf Me 14.36), maneira que O tema da esperança da glória dos cris-
mostrava uma intimidade especial. Esse tãos emoldura o parágrafo, aparecendo no
mesmo tratamento agora é o que os cris- seu início (18) e final (30), e é seu grande
tãos espontaneamente "clamam" quan- tema. Os crentes, ao enfrentar a necessi-
do eles mesmos se dirigem a Deus. É o dade de "sofrer com Cristo" neste mundo,
Espírito, mais uma vez, que implanta em podem mesmo assim estar confiantes e
nós esse sentido de intimidade (16) e abo- seguros, sabendo que Deus está determi-
le, assim, toda escravidão (a "lei do pe- nado a nos conduzir à nossa herança (18-
cado e da morte", v. 2), e todas as razões 22,29,30), que ele em sua providência
para o temor (15a). O Espírito, portanto, está trabalhando em nosso favor (28) e
é o espírito de adoção. Paulo toma a pa- que ele nos deu seu Espírito como a certe-
lavra "adoção" (hyiothesia), um termo do za da nossa redenção final (23).
mundo greco-romano, onde ela significa- Paulo nunca minimiza o fato ou a se-
va uma instituição legal por meio da qual veridade do sofrimento dos cristãos nes-
se podia adotar uma criança e conferir te mundo. Mas esse sofrimento deve ser
a ela todos os direitos e privilégios que encarado como algo insignificante, em
caberiam a um filho natural. Mas a con- comparação à glória que será revelada em
cepção está enraizada na imagem bíblica nós (18). No AT "glória" indica o "peso"
de Deus como aquele que graciosamente e a majestade da presença de Deus. Paulo
escolhe um povo para chamar de seu (cf aplica o termo ao estado final dos cris-
8.23; 9.4; G14.5; Ef 1.5). tãos, quando teremos sido transformados
111
a ..
1717 ROMANOS
....
a Imagem do Filho de Deus (29). Pois Nos v. 26-30 Paulo fornece três razões
Cristo já entrou nesse estado de glória pelas quais nós podemos esperar com pa-
(Fp 3.21; Cl 3.4), e a transformação de ciência e confiança pela culminação de
nossos corpos trará à luz no último dia a nossa esperança. Primeiro, o Espírito nos
nossa parte nessa glória. ajuda em nossa ignorância sobre aquilo
Os v. 19-25, cujas palavras-chave são pelo que devemos orar (26,27). Nesta vida
ardente expectativa (19,23 e 25) e espe- nós não estamos necessariamente certos
rança (21,24,25), mostram que os cristãos, sobre como convém orar. Mas o próprio
junto com toda a criação, terão de esperar Espírito intercede por nós diante de Deus,
que a obra de Deus seja concluída. Paulo orando em nosso nome a oração que é sem-
segue o precedente do AT (SI 65.12,13; pre perfeita, segundo a vontade de Deus
Is 24.4; Jr 4.28; 12.4) de personificar toda a (27). Paulo não está aqui descrevendo o
criação subumana: ela geme em frustração dom de falar em línguas; nem fica mui-
(20,22) e aguarda ansiosamente o dia em to claro se ele está se referindo a um pro-
que a nossa condição como filhos de Deus cesso audível, uma vez que os gemidos do
será consumada e tomada pública (19,21). Espírito podem ser metafóricos (cf v. 22).
O que deixa claro o fato de Paulo não ter Antes, ele provavelmente está descreven-
incluído os anjos e os seres humanos em do o ministério de intercessão do Espírito
sua exposição é o fato de que a frustra- no coração do cristão que ocorre mesmo
ção agora experimentada pela criação não sem o nosso conhecimento.
aconteceu voluntariamente (20). Ela veio, Uma segunda razão para a confiante
sim, pela vontade daquele que a sujeitou expectativa do futuro dos cristãos é o tra-
(20), isto é, Deus, que decretou uma maldi- balho constante de Deus em todas as coi-
ção sobre a terra como resultado do pecado sas para o bem daqueles que o amam (28).
de Adão (Gn 3.17,18; cflCo 15.27). Mas Nada do que possa dizer respeito a nós se
o decreto da sujeição foi sempre acompa- situa fora do âmbito do cuidado providen-
nhado pela esperança de que um dia Deus cial de nosso Pai: aqui na verdade está um
faria da sua criação o que ele original- motivo para nossa alegria e a rocha sólida
mente pretendia que ela fosse, um lugar em que se fundamenta a nossa esperança.
onde "o lobo viverá com o cordeiro" (Is Devemos, no entanto, definir o bem que
11.6). Nós cristãos compartilhamos do ge- Deus está querendo produzir em nós segun-
mido e da esperança da criação (23), pois do a perspectiva dele, e não a nossa. Deus
possuímos o Espírito como as primícias, sabe que o nosso maior bem é conhecê-lo
como um sinal e garantia da nossa reden- e desfrutar de sua presença eternamente.
ção final, e isso nos deixa mais ansiosos Ele poderá, então, na procura desse "bem"
ainda pela finalização da obra de Deus em final permitir que certas dificuldades, tais
nós. Algo bastante conhecido como a ten- como a pobreza, a tristeza e a falta de saú-
são "já e ainda não" do NT, ou seja, a tensão de possam nos afligir. A nossa alegria não
entre aquilo que Deus já fez para o cristão virá de saber que nunca iremos enfrentar
e o que ele ainda fará fica muito evidente tais dificuldades - pois certamente as en-
quando comparamos o v. 23 aos v. 14-17. frentaremos (17) - mas, de saber que se-
Pois a "filiação" que já ouvimos ser nossa jam quais forem as dificuldades, nosso Pai
é aqui vinculada à redenção do nosso cor- amoroso está agindo para fazer com que
po e se toma objeto de esperança e expec- nos tomemos cristãos mais fortes.
tativa. Essa esperança é a verdadeira es- Paulo descreve aqueles por quem Deus
sência da nossa salvação. Temos, portanto, trabalha a partir do ponto de vista huma-
de aguardar pacientemente por aquilo que no (aqueles que amam a Deus) e do ponto
Deus prometeu (24,25). de vista divino (que foram chamados
ROMANOS 8 1718

segundo o seu propósito, 28). O "cha- um todo. Ela se divide em duas partes. Na
mado" de Deus não é simplesmente seu primeira (31-34) Paulo nos relembra que
convite para as pessoas aceitarem o evan- Deus é por nós: ao dar o seu Filho, ele ao
gelho, mas sua efetiva convocação de pes- mesmo tempo nos garantiu tudo de que
soas para um relacionamento com ele (v., precisamos nesta vida e a obtenção de nos-
e.g., 4.17; 9.12,24). Essa convocação tem sa salvação final. Ninguém então é capaz
lugar segundo o propósito de Deus, sendo de ser bem-sucedido em alguma acusação
que esse propósito, em última análise, é contra nós que tenha a intenção de nos le-
sermos conformes à imagem de seu Filho var à condenação no juízo. Pois é o mesmo
(29). Deus conduz cada um de nós a esse Deus, o Deus que nos escolheu e justificou
propósito por meio de uma série de atos em a nós e a seu próprio Filho, que responde
nosso favor. Primeiro, ele "nos conhece de a qualquer acusação contra nós. A segun-
antemão". Alguns estudiosos pensam que da parte do hino (35-39) celebra o amor
proginõskõ ("de antemão") significa aqui o de Deus em Cristo por nós. Separar-nos
mesmo que costuma significar na literatura desse amor é algo tão impossível quanto
grega - "saber de alguma coisa antes que fazer uma acusação contra nós. Nenhum
aconteça". Mas Paulo diz que somos nós, perigo ou desastre deste mundo pode fazê-
os cristãos, a quem Deus conhece, e isso lo (35b,36). Embora tal sofrimento possa
sugere uma ideia mais pessoal de "conhe- ser esperado, como Paulo nos relembra
cimento", que às vezes é encontrada no AT: com sua citação de Salmos 44.22, em todas
a eleição para um relacionamento pessoal estas coisas, porém, somos mais que ven-
(e.g., Gn 18.19; Jr 1.5; Am 3.2). Esse cer- cedores, por meio daquele que nos amou.
tamente também é o sentido que "de ante- Nem pode qualquer poder espiritual nos
mão" tem em suas outras ocorrências no NT separar do amor de Deus (anjos, principa-
(11.2; At 2.23; lPe 1.2,20). A "presciência" dos, e poderes no v. 38). Na verdade, não
de Deus, o fato de termos sido eleitos por há nada em toda a criação que pode nos
ele para sermos salvos "antes da criação retirar do novo domínio, no qual o amor de
do mundo" (Ef 1.4), leva ao fato de Deus Deus em Cristo reina sobre nós.
nos "predestinar", nos apontar para um de-
terminado destino. Esse destino é que nos 9.1-11.36 O evangelho e Israel
tomemos como Cristo, um propósito final Os estudiosos frequentemente têm conside-
que Deus alcança ao nos "chamar" (cf v. rado que esses três capítulos têm pouca co-
28b), "justificar" (cf 3.21-4.25) e "glo- nexão com o tema verdadeiro de Romanos.
rificar". É significativo o fato de que este Essa seção tem sido entendida como um
último verbo esteja, como os outros no v. aparte, motivado pela preocupação pessoal
30, no passado, sugerindo que, embora a de Paulo com o seu povo, ou como uma
obtenção da glória seja futura, já foi con- digressão sobre o tema da eleição de Deus.
cretizada a determinação de Deus no senti- Mas o tema desses capítulos é o lugar de
do de que iremos obtê-la. Israel no plano de salvação de Deus, e esse
tema está estreitamente ligado aos interes-
8.31-39 A celebração da ses de Paulo em Romanos. Desde o início
segurança do crente da carta (1.2; cf também 3.21,31; cp. 4)
Podemos considerar essa bela celebração Paulo se preocupou em demonstrar que o
em forma de hino da nossa segurança em evangelho está em continuidade com o AT.
Cristo uma resposta ao que Paulo acabou Ele quer deixar claro que a vinda de Jesus
de dizer (28-30, ou 18-30 ou mesmo 1- Cristo e do novo regime da história da sal-
30); mas é melhor enxergá-la como uma vação que ele inaugurou não são inovações
reflexão de conclusão dos cp. 5-8 como no plano de Deus para a história, mas sua
1719 ROMANOS 9 {

culminação almejada. Entretanto, a des- agora a levantar a questão das promessas


crença da maioria dos judeus na época de de Deus para Israel. Os v. 1-3 mostram que
Paulo representa um problema em poten- essa era uma questão intensamente emo-
cial para a tentativa de Paulo em estabele- cional para ele. Pois Paulo nunca perdeu
cer tal continuidade. Será que a promessa o seu senso de identificação com seus con-
de salvação de Deus não foi dada ao povo temporâneos judeus. Ele experimenta, por-
de Israel? Como ele pode permanecer fiel tanto, grande tristeza e incessante dor no
a essa promessa se ela é agora cumprida na coração por aqueles que são, do ponto de
igreja e não em Israel? vista da carne (kata sarka), seus "compa-
Essas são as perguntas que Paulo res- triotas" e irmãos (2,3). Embora Paulo não
ponde nos cp. 9-11, enquanto defende a nos diga por que ele se sente tão mal em
tese de que não pensemos que a palavra relação a seus contemporâneos judeus, o
de Deus haja falhado (9.6a). A incredu- paralelo em 10.1 deixa claro que é porque
lidade dos judeus na época não signifi- a grande maioria dos judeus não foi salva,
ca, segundo Paulo, que as promessas de pois eles se recusaram a acreditar em Jesus
Deus a seu povo tenham falhado porque Cristo (cf 9.30-10.21). Paulo sente isso
(i) Deus nunca prometeu salvar cada um tão intensamente, como Moisés antes dele
dos judeus (9.6b-29); (ii) os próprios ju- (Êx 32.31-34), que ele está disposto a sa-
deus foram responsáveis por não crer crificar a sua própria salvação em favor da
(9.30-10.21); (iii) as promessas de Deus salvação de seus contemporâneos judeus.
para Israel estão até mesmo agora sendo A força da afirmação de Paulo (cf também
cumpridas em um remanescente de judeus v. 1) sugere que ele possa ter tido conhe-
cristãos (11.1-10); e (iv) Deus ainda irá cimento de que alguns judeus duvidavam
salvar todo o Israel (11.12-32). Do princí- de sua preocupação por seus "compatriotas
pio ao fim Paulo está preocupado em mos- segundo a carne".
trar que as promessas de Deus a seu povo, A emoção de Paulo diante da incredu-
Israel - desde que corretamente enten- lidade dos judeus tem, contudo, uma base
didas - permanecem completamente in- diferente - e talvez mais profunda: a
tactas. Além de estabelecer a coerência do incongruência entre o estado atual dos
evangelho, essa "teologia de Israel" é tam- judeus e seus privilégios maravilhosos
bém de importância prática. Pois, como os (4,5). O simples fato de ser o povo de Israel
apelos em 11.12-32 revelam, Paulo estava pode ser colocado entre esses privilégios,
consciente de que os gentios na igreja ro- pois "Israel" (expressão que Paulo prefe-
mana estavam negligenciando suas indis- re utilizar ao longo dos cp. 9-11) sugere
pensáveis "raízes" do AT e menosprezando a condição da aliança concedida aos des-
os judeus e os judeus cristãos. cendentes de Jacó ("Israel"). Igualmente
significativa é a adoção dos judeus como
9. 1-6a A questão: a angústia de filhos, uma designação que Paulo usa em
Paulo em relação a Israel outras passagens para os cristãos (8.15,23;
A falta de uma palavra ou expressão para Gl 4.5; Ef 1.5). O sentido em que exata-
ligar o cp. 8 ao cp. 9 sugere que há uma mente se pode dizer que os judeus têm essa
interrupção no argumento de Paulo nes- condição é o que Paulo vai explicar em
se ponto. O clímax de sua argumentação 9.6b-13 e 11.1-32. O auge dos privilégios
foi atingido nesse ponto com a celebração dos judeus é o fato de que Cristo, o Messias
do amor imutável de Deus pelos cristãos prometido, vem deles. Mas essa é a histó-
(8.31-39). Mas é justamente essa afirmação ria do ponto de vista humano; do ponto de
da certeza do cumprimento das promessas vista divino, esse mesmo Cristo é o próprio
de Deus para os cristãos que leva Paulo "Deus". Essa ao menos é a interpretação
ROMANOS 9 1720

sugerida pela NVI (cf também NASB), que nem todos os de Israel são, de fato, is-
coloca uma vírgula entre a palavra "Cristo" raelitas. Há, segundo Paulo sugere, em
e a afirmação "que é Deus acima de todos". consonância com a teologia do "remanes-
Outras versões, porém, colocam um ponto cente" do AT, um Israel espiritual dentro
final após Cristo, e entendem a última parte do grande Israel étnico. Em outras passa-
do versículo como sendo uma declaração gens, Paulo pode ter usado "Israel" para
de louvor independente a Deus (o Pai) (v. designar todo o povo de Deus, tanto ju-
NVI mg. e RSV). A interpretação adotada no deus como gentios (GI6.16). Aqui, no en-
texto da NVI (semelhantemente também tanto, como a sequência deixa claro, ele
aqui na ARA) é, no entanto, provavelmen- está pensando apenas nos judeus. Paulo
te correta e, se assim for, esse versículo é prova a sua tese sobre a existência de um
um dos poucos lugares no NT em que Jesus Israel dentro de Israel com dois argumen-
Cristo é abertamente chamado de "Deus". tos paralelos, extraídos da história do AT
Os privilégios que Paulo enumerou (7-10, 11-13). No primeiro, Paulo mostra
têm origem no próprio Deus e podem ser que a descendência fisica de Abraão não
tomados por muitos judeus como certos era suficiente para garantir um lugar em
- a salvação dos judeus em geral. É esta meio ao povo de Deus. Ismael e Isaque
salvação que o evangelho especificamente eram ambos filhos de Abraão; no entanto,
põe em questão (v., e.g., o cp. 2) e, ao fazê- foi somente por meio de Isaque que Deus
lo, suscita a pergunta que é central nesses considerou os descendentes espirituais de
capítulos: Teria Deus abandonado suas Abraão (Gn 21.12). A descendência es-
promessas a Israel (6a)? piritual de Abraão, assim, não se baseia
no nascimento mas na promessa de Deus.
9.6b-29 O passado de Israel: Isaque, e não Ismael, foi o receptor dessa
a eleição soberana de Deus promessa (10, citando Gn 18.10 e 14).
Em sua primeira resposta, Paulo argumen- Como se o argumento não fosse sufi-
ta que a palavra de Deus sempre prometeu cientemente claro, Paulo agora o toma ain-
salvação somente àqueles a quem Deus da mais enfático ao escolher uma ilustração
soberanamente escolheu. Em defesa desse da geração seguinte de Israel (10-13). Pois
argumento, Paulo cita extensamente a his- alguém poderia se opor à primeira ilustra-
tória de Israel, mostrando que pertencer ao ção de Paulo, alegando que uma diferença
povo de Deus não depende nem do nasci- significativa na descendência natural dis-
mento nem de qualquer coisa que a pessoa tinguia Isaque e Ismael: o primeiro nasceu
faça, mas do chamado de Deus (essa pa- de Sara, "a mulher livre", e o segundo de
lavra é chave para a seção; cf v. 7 (12,24- Hagar "a mulher escrava" (cf GI4.21-31).
26). Do mesmo modo que Deus escolheu Mas essa diferença não existiu entre Jacó
apenas alguns dentre os descendentes de e Esaú. Como gêmeos, eles não só nasce-
Abraão para serem seu povo (6b-13), ele ram da mesma mãe, Rebeca, mas foram
também está agora escolhendo os gentios concebidos no mesmo momento (do gre-
(24-26), e apenas um remanescente de ju- go koitên, que provavelmente se refere à
deus (27-29) para ser seu povo na época relação sexual). Contudo, mesmo antes do
presente. O peso do argumento de Paulo, nascimento, foi dito à Rebeca que "o mais
assim, encontra-se nos v. 6b-13 e 24-29, velho servirá ao mais moço" (Gn 25.23).
sendo os v. 14-23 uma resposta distinta às Essa prioridade de Jacó é confirmada por
questões suscitadas pela ênfase de Paulo um segundo texto do AT, citado por Paulo
na soberania de Deus. em Malaquias 1.2,3: "Amei a Jacó, porém
9.6b-13 O Israel dentro de Israel. A aborreci a Esaú". Desses testemunhos do
tese do parágrafo é apresentada no v. 6b: AT sobre a prioridade da Jacó, Paulo extrai
1721 ROMANOS9/
11I11I

a conclusão, em uma nota entre parênteses é escrupulosamente justo e que os seres


(l lb), de que a bênção usufruída por Jacó humanos são justificadamente culpáveis
não foi baseada em nada que ele havia feito pelas suas ações. Faríamos bem em se-
mas no livre chamado soberano de Deus. guir a sua abordagem: afirmar a verdade
a que é essa bênção? Uma vez que os dessas grandes doutrinas bíblicas sem en-
contextos do AT de onde Paulo extrai sua fraquecer ou eliminar uma ou outra pela
ilustração falam sobretudo dos papéis his- insistência por uma explicação exaustiva.
tóricos de Jacó e Esaú ou das nações que Esse é um ponto em que, junto com Paulo
eles representam (Israel e Edom) segundo (cf 11. 33-36), devemos estar preparados
o plano de Deus (cf MI1.2,3), Paulo pode para reconhecer um mistério além da nos-
não querer dizer nada além de que Jacó sa compreensão.
desfrutou do privilégio de ser um instru- No mesmo estilo provocativo de dis-
mento positivo nesse plano. Mas a lingua- cussão (diatribe) que ele com frequência já
gem que Paulo usa em todo esse parágrafo adotou em Romanos, o próprio Paulo faz
- chamada (7; cf 4. 2-21); eleição (11; a pergunta que ele sabe será suscitada em
cf 11.5,7,28; At 9.15; lTs 1.4; 2Pe 1.10); razão de sua insistência sobre a soberania
propósito (11; cf 8.28; Ef 1.11); obras de Deus na eleição: Há injustiça da parte
(11; cf 4.4-8); chama (11; cf 8.29) - ge- de Deus? Paulo rejeita essa inferência de
ralmente se refere à questão da salvação forma veemente e cita de novo o AT para
eterna. E é esta questão, ou seja, o fato de apoiar o seu ponto de vista (15). Mas o tex-
que muitos judeus não foram salvos pelo to que Paulo cita - Êxodo 33.19 - pare-
evangelho, que suscitou toda essa discus- ce simplesmente reiterar a livre e soberana
são. Concluímos, portanto, que Paulo está ação de Deus, em vez de explicar por que
usando esses textos do AT para ilustrar o essa ação é justa. Mas talvez este seja o
princípio da soberania de Deus na salva- ponto de Paulo: que as ações de Deus não
ção: ser filho de Deus (cf v. 7-9) depende, podem ser "julgadas" por nada além de sua
em última instância, do chamado de Deus. própria natureza revelada nas Escrituras.
a fato de Deus "amar" a Jacó e o de "abor- Paulo afirma novamente que o que decorre
recer" a Esaú são maneiras de descrever da liberdade de Deus é o fato de que ela
em termos fortemente contrastantes a rea- (isto é, a eleição de Deus para a salvação;
lidade de Deus eleger para a salvação e ex- cf v. 11,12) prevalece não por obras.
cluir da salvação, respectivamente. as v. 17,18 fornecem um apoio adi-
9.14-23 Objeções: a liberdade de cional a essa negação de que os atos de
Deus. A ênfase de Paulo na soberania de Deus são baseados em decisões e ações
Deus na salvação suscita algumas obje- humanas, mas agora, a partir de uma
ções, como ele bem sabia por sua experiên- ótica"negativa" (cf me aborreci de Esaú,
cia de muitos anos de pregação. Paulo lida v. l3b). a papel do faraó na história da
com duas delas nessa seção. Não seria salvação foi uma questão de determinação
Deus injusto por escolher alguns e rejei- de Deus. Foi Deus quem trouxe o faraó
tar outros (14)? E como as pessoas podem para o palco da história ("para isso te hei
ser responsabilizadas por rejeitar a Deus, mantido"; cf. Êx 9.16) e fez com que o
se ele mesmo determina tal rejeição (19)? seu coração se endurecesse. Aquilo que é
Essas questões são a nossa reação natu- dito no AT sobre o faraó se aplica evidente-
ral à doutrina bíblica sobre a soberania mente ao seu papel na história da salvação
de Deus. É significativo que Paulo aqui e não ao seu destino pessoal. Mas, como
não ofereça uma explicação "lógica" para nos v. 10-13, Paulo sugere no v. 18 que
compatibilizar a soberania de Deus com a a obra de Deus no faraó ilustra a manei-
doutrina igualmente bíblica de que Deus ra pela qual Deus trabalha com pessoas
ROMANOS 9 1722

em geral: terei misericórdia de quem me de ira, que são preparados para a perdi-
aprouver ter misericórdia (15,16; cf Amei ção. Os "vasos" que Paulo tem em mente
Jacó, v. l3a) e, também endurece a quem aqui são provavelmente os judeus incré-
lhe apraz (18; cf me aborreci de Esaú, v. dulos, que estão agora desempenhando
13b). Nem a concessão da misericórdia de um papel na história da salvação igual
Deus nem a sua negação são baseadas em ao desempenhado pelo faraó na época do
ações humanas (embora deva ser lembra- êxodo (cf 11.12-15). Como no caso do fa-
do que Deus age em pessoas que já estão raó, a ênfase recai sobre o seu papel histó-
perdidas no pecado, e que a exclusão de rico no momento presente (embora o seu
alguns da salvação é em certo sentido uma destino seja óbvio: ira e destruição). Mas
simples confirmação da escolha que eles já o propósito último de Deus não é ira, mas
fizeram). Também seria bom lembrar que sim misericórdia e glória. Pois a verda-
as decisões de Deus em relação a essas de principal dos v. 22,23 é o modo como
questões não são reveladas para nós e que Deus manifesta a sua preocupação com
não pretendem, de forma alguma, causar os vasos de misericórdia, que para glória
desespero. As Escrituras deixam claro que preparou de antemão.
Deus nunca se recusará a aceitar ou lançará 9.24-29 Deus chama um novo povo.
fora os que diligentemente o buscam. Ainda que o v. 24 esteja gramaticalmen-
A pergunta que Paulo faz agora é exa- te ligado aos v. 22,23, ele retoma o tema
tamente aquela que nós também somos com que Paulo começou essa seção: O
tentados a fazer neste momento: como chamado de Deus. Nos v. 7-13 Paulo
Deus pode culpar as pessoas por rejei- mostrou como Deus chamou, de dentro
tá-lo, se ele mesmo ao escolher alguns e do Israel étnico, um pequeno número
"rejeitar" outros em certo sentido provoca de judeus que formaram o "Israel espiri-
essa rejeição? A resposta de Paulo revela tual". Agora ele mostra que esse chama-
que ele mesmo não tem uma resposta sa- do soberano de Deus criou no momento
tisfatoriamente lógica para essa pergunta. presente um povo novo, composto por
Anteriormente, ele tinha deixado claro gentios (25,26) e por um remanescente
na carta que as pessoas são plenamente judeu (27-29). Nos v. 25,26 Paulo aplica
responsáveis por rejeitarem a verdade de Oseias 2.23 e 1.10, que em seu contexto
Deus (1.20-2.11), e ele defende esse pon- original se aplicavam a Israel, ao chama-
to novamente com relação a Israel (9.30- do dos gentios para se tomar o seu povo,
10.21). Mas Paulo não menciona isso filhos do Deus vivo (cf "filhos de Deus"
como uma forma de evitar o problema no v. 8). Paulo cita Isaías para ilustrar a
que ele levanta agora. Sua implicação, as- situação dos judeus e, ao fazê-lo, defen-
sim, é que a soberania de Deus na rejeição de três pontos que servem para resumir
e a responsabilidade do homem por essa toda essa seção e preparar para o cp. 11:
rejeição devem ser mantidas como duas (i) a descrença de muitos judeus, contem-
verdades complementares, verdades que porâneos de Paulo, não é surpreendente,
não devem ser utilizadas para desvalori- uma vez que a própria Escritura diz que
zar uma a outra. Aqui Paulo simplesmente somente "o restante se converterá", isto é,
contesta o direito de alguém de julgar os será salvo (Is 10.22); (ii) os judeus estão
caminhos de Deus. Ele é o oleiro que tem sendo salvos e se tomando parte do povo
pleno direito sobre os vasos que ele cria de Deus: um remanescente é que será sal-
(v. Ir 18; Sabedoria de Salomão 12.3-22; vo (cf 11.3-7); e (iii) Deus é quem traz
15.7). Nos v. 22,23 Paulo relaciona essa a salvação de seu povo: Se o Senhor dos
liberdade de Deus à disposição que ele Exércitos não nos tivesse deixado descen-
tem para suportar pacientemente os vasos dência ... (cf Is 1.9).

9.30-10.210 presente
1723 ROMANOS 9 _-

ção que ele acaba de mencionar (24-29):


-.
de Israel: desobediência dos judeus, "o povo escolhido", é deixado
O segundo argumento de Paulo em defesa apenas um remanescente, enquanto os
da proposição de que a palavra da promessa gentios, que uma vez estavam longe de
de Deus a Israel não falhara (9.6a) é que o Deus, estão agora sendo chamados de "fi-
próprio Israel, por sua incapacidade de res- lhos do Deus vivo". Paulo fornece uma
ponder adequadamente à palavra de Deus, primeira explicação nos v. 30b-33 das
é o culpado por sua exclusão do novo povo razões de isso ter ocorrido. Ele usa ima-
de Deus. Em 9.30-10.13 Paulo culpa gens das corridas de atletismo para fazer
Israel por buscar o direito de preservar seu o contraste entre os gentios e Israel. Os
relacionamento com Deus como algo basea- primeiros, embora não "participassem
do no cumprimento da lei e não na fé em da corrida" (que não buscavam a justifi-
Cristo. Em seguida, em 10.14-21 ele de- cação), mesmo assim cruzaram a "linha
monstra que Israel não pode alegar que sua de chegada": eles obtiveram de Deus um
falha se deveu à ignorância, pois Deus dei- direito permanente. E o obtiveram, como
xou seu plano e propósito bastante claros Paulo deixa claro, em virtude de sua fé.
para Israel nas Escrituras. A incredulidade Israel, por outro lado, embora participas-
da maioria dos contemporâneos judeus de se ativamente da corrida, não cruzou a li-
Paulo se deve tanto à eleição soberana de nha de chegada. Nesse ponto, contudo, o
Deus (9.6b-29) quanto à sua recusa culpá- contraste cuidadoso de Paulo parece ruir,
vel em crer. A eleição divina incondicional pois o objetivo que Israel perseguia, mas
e a responsabilidade humana se encontram não alcançara, não é a justiça, mas uma
lado a lado, e não se deve admitir que uma lei de justiça. Alguns estudiosos sugerem
elimine ou atenue a outra. que Paulo com isso está querendo dizer
9.30-10.13 A justiça de Deus e a jus- simplesmente o "princípio da justiça", ou
tiça da lei. Um contraste entre dois tipos que podemos inverter os termos e tradu-
de justiça domina essa seção: A justiça de zi-los por "justiça da lei" (cf 10.5). Mas
Deus (10.3), uma justiça disponível so- é quase certo que a lei de que Paulo fala
mente por meio da fé (9.30; 10.4,6,10), e aqui é a lei de Moisés, e devemos res-
a "justiça" própria de alguém (l0.3), uma peitar a ordem das palavras que Paulo
justiça que está relacionada estreitamente à escolheu. Paulo usa essa expressão para
lei (9.31; 10.5) e às obras (9.32). Paulo de- enfatizar que a busca de Israel pelo direito
senvolve esse contraste em três parágrafos de se relacionar com Deus estava estreita-
até certo ponto paralelos (9.30-33; 10.1- mente ligada à lei: eles estavam em busca
4; 10.5-13). Em cada um ele acusa Israel de "uma lei que oferecia a promessa de
como um todo de não perceber a justiça de justiça" (cf 2.13).
Deus em Cristo, a única justiça que pode Esse objetivo eles não atingiram e nem
salvar (cf 10.1,9,10), devido à sua preo- poderiam atingir. Pois a lei, como Paulo
cupação com obras e com a lei de Moisés. deixou claro anteriormente, nunca pode-
Uma abordagem correta da lei os teria le- rá trazer justiça (3.20,28; 4.13-15; 8.3).
vado a Cristo e à verdadeira justiça, pois a Paulo, portanto, rompe o paralelismo entre
própria lei aponta para Cristo (10.4). os gentios e Israel para expor o fato de que
A pergunta de Paulo Que diremos, Israel é culpado tanto pelo que estava bus-
pois? (30) introduz a nova etapa de seu cando (a lei de justiça) quanto pela forma
argumento. Sugere que ele estará lidando como o fazia (porque [a justiça] não de-
com uma questão suscitada por sua dis- correu da fé, e sim como que das obras).
cussão anterior. Essa questão é a do de- Seus olhos estavam tão voltados para a lei
senrolar inesperado da história da salva- que, em vez de abraçarem a Jesus Cristo, o
ROMANOS 9 1724

verdadeiro objetivo da "corrida" (cf 10.4), também a intenção de Deus de oferecer


tropeçaram nele. Paulo toma essa imagem justiça a todo aquele que crê, tanto a gen-
de Isaías 8.14, que ele cita no v. 33 junto tios como a judeus (cf 9.30; 10.12,13).
com Isaías 28.16. A terceira afirmação de Paulo sobre o
Em 10.1-4 Paulo discorre sobre esse contraste entre as duas formas de justiça
"tropeço" dos judeus em Jesus Cristo. (10.5-13) tem dois propósitos principais.
Depois de reafirmar seu profundo anseio Ela usa o próprio AT para reafirmar que a
pela salvação de seus irmãos e irmãs ju- diferença principal entre elas é a distinção
deus (cf 9.1-3), Paulo culpa os judeus por entre "cumprir" (a lei) e "crer" (no evange-
não terem conhecimento dos caminhos lho) (5-10) e reafirma a dimensão "univer-
e propósitos de Deus que corresponda a salista" da justiça de Deus pela fé (11-13;
seu zelo inegável. Utilizando a imagem da cf. 10.4b: ela é para todo aquele que crê).
corrida em 9.30-33, Israel estava correndo A citação que Paulo faz do AT, aparente-
com determinação, mas não em direção mente "contraditória" nos v. 5-8, foi tema
à verdadeira linha de chegada. Essa linha de grande controvérsia e discussão. Não
de chegada é a justiça de Deus (3, "que podemos evitar o problema eliminando o
vem de Deus", NVI). A tradução melhor é contraste entre os v. 5 e 6 (Cranfield, e.g.,
mesmo "a justiça de Deus" (do grego tên traduziria "e" no início do v. 6) ou negando
tou theou dikaiosynêni e, como em 1.17 e que Paulo esteja verdadeiramente citando o
3.21,22, refere-se ao ato de Deus em tor- AT nos v. 6-8. Pelo contrário, devemos en-
nar as pessoas justas diante dele. Voltados tender que Paulo está querendo extrair um
para a busca de sua própria justiça, a jus- sentido mais completo das passagens que
tiça que vem pelas obras (9.32) e pela lei ele cita à luz da vinda de Cristo. Levítico
(10.5), os judeus não tinham se submetido 18.5 pode permanecer como uma expres-
e não estavam dispostos a aceitar, em fé, a são válida dajustiça decorrente da lei, pois
maneira de Deus estabelecer um relaciona- tem seu foco naquilo que é característico
mento com as pessoas. do sistema da lei mosaica: fazer. Somente
A preocupação dos judeus com a lei é pela obediência, como Moisés enfatizava
de novo o problema fundamental, como repetidamente, poderia um judeu viver,
Paulo deixa implícito no v. 4. Pois eles não ou seja, desfrutar das bênçãos do Deus da
conseguiram entender que Cristo é, em si aliança.Tomada em seus próprios termos e
mesmo, a "culminação" da lei. Paulo usa separada da promessa de Deus, a lei mo-
a palavra telas, que alguns traduzem por saica oferece a possibilidade de justiça e
fim (ARA e também NVI; RSV) e outros por vida somente se for realmente cumprida.
"objetivo", "alvo". Em consonância com Tendo seu foco concentrado apenas na lei
a imagem da corrida na passagem, no en- mosaica, os judeus tinham se colocado em
tanto, a palavra provavelmente contém uma posição de serem capazes de encon-
elementos de ambas as traduções. Cristo, trar vida e salvação apenas "cumprindo-a"
segundo Paulo, sempre foi o objetivo para - uma tarefa impossível, como Paulo dei-
o qual a lei apontou; e uma vez que o ob- xou claro (cf 3.9-20).
jetivo já foi atingido - Cristo veio - a É precisamente a pronta disponibi-
busca da lei não deveria ser um fim em si lidade da justiça decorrente da fé, em
mesmo. Esse versículo, junto com Mateus contraste com a impossibilidade de cum-
5.17, representa uma expressão-chave de prir a justiça que decorre da lei, que é o
um tema predominante no NT: o clímax ponto da citação seletiva que Paulo faz de
ou "cumprimento" da antiga lei da alian- Deuteronômio 30.12-14 nos v. 6-8. Apas-
ça e todas as suas instituições em Jesus, sagem de Deuteronômio incentiva a obe-
o Messias. Com esse cumprimento vem diência à lei de Deus, lembrando os judeus
1725 ROMANOS 10 / '
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de que a palavra da lei de Deus está perto, de uma antiga coletânea cristã de "textos-
e que não há necessidade de ascender ao prova" messiânicos, cujo foco está em
céu ou descer ao abismo (Paulo pode aqui Cristo, a "pedra".
ter mesclado uma alusão a Salmos 107.26 10.14-21 Israel não tem desculpas.
com a sua citação) para encontrá-la. Paulo Em 9.30-10.13 Paulo mostrou que o
pode aplicar o texto à morte e ressurreição fato de Israel não obter a salvação deve
de Cristo (6,7) e à palavra da fé, o evan- ser atribuído à sua incapacidade de crer,
gelho (8), porque ele vê em Cristo o cum- e não a alguma falha da palavra de Deus
primento da lei (4). O que o AT atribuiu à (9.6a). Paulo agora elimina qualquer pos-
lei Paulo agora entende ter-se "cumprido" sível desculpa que Israel possa ter para não
em Cristo e na mensagem do evangelho: a crer ao afirmar que o evangelho, na verda-
pronta disponibilidade do meio que leva à de, foi trazido para "perto" de Israel (cf
justiça. Continuar a se esforçar para cum- v. 8). As condições para crer no evangelho
prir a lei de Moisés como uma forma de e encontrar a salvação foram cumpridas
justiça - como os judeus estavam fazendo (14,15,17,18). A culpa, então, é de Israel
- é deixar de ver o fato de que Deus agora por se recusar a ser obediente ao evangelho
trouxe para bem perto sua palavra para o (16) e por deixar de compreender o próprio
povo na mensagem do evangelho da morte AT, que profetizou o que agora Deus fez no
e ressurreição de Cristo. evangelho (19-21).
Os v. 9-13 elaboram duas implica- Nos v. 14,15a Paulo usa uma série de
ções da proximidade da palavra de Deus perguntas para estabelecer a série de con-
no evangelho. Primeiro, porque Deus já dições que devem ser cumpridas se as pes-
"fez" o que é necessário para garantir a soas quiserem invocar o nome do Senhor
justiça, tudo que as pessoas precisam fazer (13): mensageiros devem ser enviados, a
é crer. Segundo, o evangelho está "perto" mensagem deve ser pregada, as pessoas
de todos, não apenas dos judeus. A men- devem ouvir a mensagem e, quando a
ção à boca e ao coração em Deuteronômio ouvem, devem ser conduzidas à fé. Em
30.14 leva Paulo a desenvolver cada um seguida, Paulo cita Isaías 52.7 - Quão
desses temas nos v. 9,10. (Visto que essa é formosos são os pés dos que anunciam
a fonte das imagens, não devemos colocar coisas boas - para ressaltar a importância
ênfase indevida na confissão oral, como se do envio de pregadores e também passar
Paulo a elevasse à condição de elemento para um foco explícito no evangelho. Pois
necessário para a salvação). O reconheci- no v. 16 Paulo deixa claro que a condição
mento de que Jesus é o Senhor é o elemen- desse ciclo que não se completou é a res-
to que Paulo claramente pretende destacar: ponsabilidade de todos os que ouvem os
a atitude de crer no coração (cf 2.28,29). A pregadores das boas-novas de responder
fé, mesmo sem cumprir a lei, traz salvação, em obediência e fé. Como a tradução da
e a traz para todos, independentemente de ARA deixa explícito (o grego tem apenas
serem judeus ou gentios. Paulo prova esse ou pantes, nem todos), Paulo agora está
ponto citando Isaías 28.16 (11; observe pensando especificamente nos judeus.
que Paulo usou esse texto antes em 9.33) e Paulo cita novamente Isaías (53.1) para
Joel 2.32 (13). Indicativo do alto conceito buscar a confirmação profética do fato de
que Paulo tem de Jesus Cristo é o fato de Israel não responder afirmativamente à
ele aplicar ao Senhor Jesus textos que fa- mensagem (cf também Jo 12.38).
lam do Senhor Deus. Com o v. 17 começa um novo parágra-
Nota. 33 O fato de Pedro também ci- fo. Tomando seu vocabulário da citação
tar Isaías 28.16 e 8.14 em conjunto (1Pe de Isaías 53.1, Paulo reitera a ligação en-
2.6,8) pode indicar que eles faziam parte tre ter fé e ouvir a mensagem (cf v. 14)
ROMANOS 11 1726

e identifica essa mensagem com a palavra segundo a eleição da graça (5), judeus que
de Cristo, isto é, "a palavra que proclama creram em Cristo.
Cristo", o evangelho (cf v. 15,16). Paulo Paulo demonstra novamente sua sensi-
quer mostrar nos v. 18-20 que Israel na bilidade em relação à forma como o seu en-
verdade já "ouviu" a palavra de Cristo e sinamento poderia ser mal interpretado, ao
"conheceu" o plano de Deus para a salva- levantar a questão: Terá Deus, porventura,
ção, como foi agora revelado por meio da rejeitado seu povo? (1). Que Deus rejeitou
pregação do evangelho. Paulo provavel- Israel como "seu povo" poderia muito bem
mente cita Salmos 19.4 (v. 18b) não como ser a conclusão extraída do argumento de
uma profecia da pregação do evangelho, Paulo de que pertencer ao povo de Deus
mas simplesmente a fim de utilizar sua lin- depende totalmente do "chamado" sobera-
guagem para afirmar a difusão da procla- no de Deus, e não da descendência fisica
mação do evangelho aos judeus em todo o de Abraão (9.6-29), e da sua acusação de
mundo mediterrâneo. Talvez seja a referên- que Israel não se submeteu à justiça de
cia aos "confins do mundo" nessa citação Deus (9.30-10.21; cf 10.3). Mas, como
que leva Paulo a refletir nos v. 19,20 sobre agora Paulo deixa bem claro, essa não é a
aquilo que foi para os judeus de sua épo- conclusão a que ele quer que cheguemos.
ca "uma pedra de tropeço" na maneira de Deus não rejeitou o seu povo, a quem de
aceitar o evangelho: a inclusão dos gentios antemão conheceu (2a; cf SI 94.14). Paulo
na igreja. Paulo mostra tanto por Moisés está não apenas afirmando a eleição para a
(Dt 32.21) como por Isaías (65.1) que salvação do remanescente (cf 9.6-9; 11.3-
Deus tinha planejado o tempo todo incluir 6; assim Calvino), mas também está afir-
os gentios no seu plano de salvação e fazer mando a contínua "eleição" de Israel como
deles o seu povo (cf 9.24-26). Continuando um todo (cf 11.28,29). Essa afirmação,
sua citação de Isaías (65.2), Paulo conclui portanto, apresenta-se como o título para
essa seção de seu argumento lembrando todo o capítulo, enquanto Paulo descreve
seus leitores de dois fatos principais: Deus como a eleição de Israel por Deus se dá, no
tem estendido constantemente a palavra de presente, por meio da salvação do rema-
sua graça, o evangelho, ao povo de Israel, nescente (3-10) e, no futuro, por meio da
mas este, por sua vez, tem sido um povo salvação de "todo o Israel" (11-27).
rebelde e contradizente. A situação em sua própria época, se-
gundo Paulo sugere, poderia ser compa-
11.1-10 O presente de Israel: rada à de Elias, pois o desencorajamento
"um remanescente pela graça" do profeta em relação à apostasia genera-
Conforme Paulo descreveu em 9.30- lizada de Israel quanto à verdadeira adora-
10.21, a condição presente de Israel parece ção do Senhor foi revertido pela garantia
a de resistência obstinada à revelação da do Senhor de que ainda havia um sólido
justiça de Deus no evangelho. Como o núcleo de sete mil "verdadeiros fiéis" (cf
versículo de encerramento afirma, Israel é IRs 19.10-18). Do mesmo modo, não obs-
"rebelde e contradizente". Este, no entan- tante a incredulidade prevalecente entre os
to, não é bem o caso, como Paulo agora judeus da época de Paulo, ainda sobrevi-
nos lembra. Já em 9.24,27-29 ele ressaltou ve um remanescente segundo a eleição da
que há um remanescente de judeus que graça. Um número significativo de judeus
continua sendo parte do povo de Deus. Ele - pessoas como o próprio Paulo (cf v. Ib)
agora retoma esse tema, deixando claro - tomaram-se obedientes ao evangelho
que, ainda que uma parte significativa do de Jesus Cristo, sendo assim salvos. Mas
povo de Israel se "endureceu" (7-10; cf o remanescente existe somente como pro-
9.30-10.21), ainda há um remanescente duto da graça de Deus, e não se pode par-
1727 ROMANOS 11 <
ticipar dele pelas obras (6). É essa preocu- gunta para introduzir a próxima etapa de
pação com as obras que provocou a queda sua argumentação. Porventura tropeçaram
de tantos contemporâneos judeus de Paulo para que caíssem? E sua rápida e enfática
e acabou por não deixá-los obter a justiça resposta - De modo nenhum! - mostra
que eles tão diligentemente buscavam (7; mais uma vez que a pergunta revela uma
cf 9.31,32; 10.2,3). Mas assim como é a interpretação equivocada do que Paulo es-
intervenção de Deus que traz a salvação tava dizendo. Sim, Israel como nação "tro-
aos eleitos (cf graça no v. 6), assim é pelo peçara": não conseguiu ter fé em Cristo,
ato de Deus que os mais (os outros) não o meio escolhido por Deus para prover a
conseguiram alcançá-la, pois eles foram justiça (cf 9.33; 10.2-4). Mas o tropeço de
endurecidos. Que Deus é a causa desse Israel não levou a uma ruína irreparável.
endurecimento fica claro pela citação de Pois a transgressão dos judeus deu início
uma combinação de Deuteronômio 29.4 e a um processo pelo qual eles ficarão com
Isaías 29.10 no v. 8, e pelo texto paralelo ciúmes e serão conduzidos por fim à sal-
de 9.18 [embora uma palavra grega dife- vação (11b; cf 11.26). Isso acontece por
rente (sklêrynõi seja usada ali, o conceito é meio de um estágio intermediário: a sal-
o mesmo]. Enquanto Israel continua a ser vação dos gentios. O fato de os judeus te-
plenamente responsável por sua falta de rem recusado o evangelho, segundo Paulo
aceitação do evangelho, Paulo deixa claro deixa implícito, abriu o caminho para a
que, de maneira misteriosa, Deus está por pregação aos gentios - uma circunstância
trás dessa incapacidade de aceitá-lo. que Paulo tinha testemunhado várias ve-
zes em sua própria obra missionária (e.g.,
11.11-32 O futuro At 13.45-47; 18.6; 19.8-10; 28.24-28).
de Israel: salvação Ao mesmo tempo, temos de salientar que
A fidelidade de Deus à palavra da sua a troca de judeus por gentios foi muito
promessa a Israel como nação (9.6a) é in- mais do que uma circunstância histórica:
violável: ele não rejeitará o povo que co- Como o NT deixa claro aqui e em outras
nheceu de antemão (1,2). A incredulidade passagens, isso era parte do plano sobera-
da maioria dos judeus contemporâneos de no de Deus para a salvação (v. as citações
Paulo não deve nos cegar para o fato de de Is 49.6 em At 13.47, e de Am 9.12 em
que o "endurecimento" de Israel nem é to- At 15.16-18). Assim, quando os judeus
tal (no tempo de hoje, sobrevive um rema- veem os gentios desfrutando da bênção
nescente segundo a eleição da graça; 5), de Deus, ficam, por sua vez, enciumados
nem definitivo (todo o Israel será salvo; - como está previsto em Deuteronômio
26). A previsão da salvação futura de Israel 32.21, que Paulo cita em 10.19.
é o foco desta seção de Paulo e o auge de Nesse parágrafo Paulo coloca a incre-
sua discussão sobre Israel e o evangelho. dulidade dos judeus no contexto da reve-
Paulo conduz a discussão para esse tema, lação do plano de Deus para a salvação de
mostrando como Deus está usando a incre- todo o seu povo. Esse plano envolve uma
dulidade atual de Israel para realizar seu alternância entre judeus e gentios em três
plano para a salvação do mundo (11-24). estágios: (i) a transgressão dos judeus abre
Sua repreensão aos gentios cristãos, por caminho para (ii) a salvação dos gentios,
sua "jactância" inapropriada em relação o que redunda, no final, (iii) na salvação
aos incrédulos judeus, mostra que a teolo- dos judeus. A importância desse ponto
gia que Paulo desenvolve nessa seção tem para o argumento de Paulo é revelada no
uma aplicação prática muito específica. fato de que ele o reitera pelo menos seis
11.11-24 Judeus e gentios no plano de vezes nessa seção (cf v. 12; 15; 16; 17-24;
Deus. Paulo recorre novamente a uma per- 25,26; 30,31). No v. 12 e novamente no
ROMANOS 11 1728

v. 15 a inclusão final dos judeus - sua ple- modo que os ramos da oliveira brava, os
nitude/seu restabelecimento - conduz a gentios, pudessem ser enxertados (17,19).
um quarto estágio: riquezas/vida dentre os Paulo não discute isso - e, na verdade, ele
mortos. Uma vez que Paulo apresenta essa mesmo tinha afirmado algo parecido com
inclusão dos judeus como um fato do final isso (11,12,15) - mas contesta o direito
dos tempos (11.26), é provável que essas de qualquer arrogância dos cristãos gen-
expressões se refiram ao estabelecimento tios em relação ao fato. Eles não devem se
completo do Reino de Deus com a vinda esquecer de que a raiz da oliveira em que
de Cristo, trazendo consigo bênção extraor- foram enxertados é, em si, judaica, pois o
dinária e a ressurreição dos mortos. povo de Deus foi construído sobre as suas
Além de explicar como a transgres- promessas e relações com os patriarcas
são presente de Israel será revertida, esse (cf também 4.11,12,16,17; Gl 3.15-29).
esquema atinge dois outros propósitos. A igreja, à qual os cristãos gentios per-
Primeiro, Paulo apela a ele para explicar tencem em Roma, não é nada menos do
como o seu chamado para ser o apóstolo que uma continuação do povo de Deus a
dos gentios não implicava um desvio do partir da AT.
seu profundo desejo de salvar o maior nú- Paulo apresenta uma segunda razão
mero possível de seus contemporâneos ju- pela qual os gentios não devem se vanglo-
deus (13,14). Pois, por meio da conversão riar: é perigoso para a condição espiritual
dos gentios, Paulo está, ao mesmo tempo, da pessoa. Pois a arrogância é o contrário
promovendo um grande ciúme entre os da fé, a nossa aceitação humilde do presen-
judeus, e talvez trazendo para mais perto te da salvação de Deus (20-22). Os judeus
aquele dia quando virá "a plenitude dos perderam o seu lugar em meio ao povo de
gentios" (25). Deus por causa da incredulidade, e os cris-
Segundo, Paulo encontra nesse proces- tãos gentios em Roma precisam reconhe-
so razão para repreender os cristãos gen- cer o perigo que correrão se sucumbirem
tios em Roma por sua atitude arrogante em ao mesmo pecado.
relação aos judeus (17-24). Paulo deixa Ao final dessa seção (23,24), Paulo re-
claro no v. 13 que ele está escrevendo a toma ao ponto em que começou (12,13),
esses cristãos gentios como a indivíduos utilizando a imagem da oliveira para dar
responsáveis nos v. 17-24 (observe-se que esperança à salvação futura dos judeus.
o tratamento nesses versículos está no sin- Embora, no presente, estejam quebrados
gular, "tu"). Esses versículos caracterizam (17-20), esses ramos naturais continuarão
a famosa metáfora da oliveira de Paulo. a compartilhar da santidade da raiz da qual
Paulo compara a raiz da árvore aos patriar- se originaram (16b). Então, de modo muito
cas de Israel (cf v. 28), os ramos naturais mais rápido do que os gentios, que são en-
aos judeus, a oliveira brava aos gentios e xertados contra a natureza, os judeus po-
a própria oliveira ao povo de Deus. Os dem ser enxertados novamente na oliveira
estudiosos têm discutido se as imagens de Deus. Mas isso só pode acontecer se os
utilizadas por Paulo seguiam práticas judeus não permanecerem na incredulida-
da agricultura de sua época. Esse debate de. Conquanto a salvação final de Israel
é, no entanto, equivocado, uma vez que seja certamente obra de Deus, ela não pode
Paulo poderia muito bem adaptar o pro- ocorrer sem a resposta de fé que Deus sem-
cesso natural para atender sua aplicação pre estabeleceu como pré-requisito para se
teológica. A jactância dos cristãos gentios, desfrutar de suas bênçãos.
da qual Paulo trata aqui, parece ter sido 11.25-32 "Todo o Israel será salvo".
ocasionada pelo fato de que os ramos natu- A esperança de uma restauração futura de
rais, isto é, os judeus, foram quebrados, de Israel com que Paulo acenou ao longo dos
v. 11-24 (cf v. 12,15,23,24) é agora afir-
1729 ROMANOS 11 <
do à salvação de toda a igreja, "o Israel
mada na forma de revelação de um misté- de Deus" (cf Gl 6.16). O termo "Israel"
rio. A utilização que Paulo faz disso está ao longo dos cp. 9-11 significa raça e
fundamentada no AT (Dn 2.27-30,47; 4.9) não uma entidade espiritual, e o contraste
e no conceito apocalíptico dos judeus, se- com os gentios, no v. 25, toma ainda mais
gundo o qual o plano de Deus para a his- provável esse significado aqui. Paulo está
tória é completamente determinado, mas descrevendo um evento que terá lugar no
algo oculto que aguarda sua revelação final da história, quando Cristo retomar
no momento adequado (v. especialmente em glória; quando (como expressa Isaías
lCo 2.7; Ef 3.9; Cl 1.26,27). O compo- 59.20,21) virá de Sião o Libertador e se-
nente principal desse mistério agora reve- rão tirados os pecados de Israel (26b,27).
lado por Paulo é a maneira pela qual Deus Todo o Israel tem um sentido coletivo: não
está agora trabalhando com os gentios (cf quer dizer cada judeu da última geração,
especialmente Ef 3.1-10). Assim, não é mas, em contraste com os escassos nú-
nada surpreendente que Paulo chame de meros atuais, um número suficientemente
"mistério" a alternância entre judeus e grande para representar a raça como um
gentios no plano de Deus para a salvação. todo (cf a máxima rabínica "Todos os
O v. 25 reafirma resumidamente o proces- israelitas têm parte no mundo por vir",
• so que Paulo delineou várias vezes nos v.
11-24: que veio endurecimento em parte
que é seguida de uma lista de exceções
[mo Sanh. 10.1]). Alguns estudiosos afir-
a Israel, até que haja entrado a plenitude mam que Deus vai salvar Israel de uma
dos gentios. O endurecimento dos judeus "forma especial", à parte de uma fé cons-
por Deus, como Paulo demonstrou nos v. ciente em Jesus, mas isso não é correto. A
3-10, é parcial pois alguns judeus estão salvação de todo o Israel terá lugar apenas
vindo para Jesus e sendo salvos. Mais de quando indivíduos judeus da época depo-
uma vez ele assinalou a limitação tempo- sitarem sua fé em Cristo (cf v. 23: se não
ral desse endurecimento, que ele agora permanecerem na incredulidade). A fé em
deixa explícita: ela durará até que o nú- Cristo é o único meio de salvação, tanto
mero de gentios determinado por Deus para o judeu como para o gentio (1.16,17;
tenha entrado no Reino de Deus (cf tam- 10.11-13).
bém Lc 21.24). Depois da sua previsão culminante da
Essa clara ênfase temporal no v. 25 faz salvação de "todo o Israel" Paulo apresen-
com que seja provável que a salvação de ta sua base para tal afirmação: a eleição
todo o Israel (26) deva acontecer após ter irrevogável de Deus do seu povo Israel
entrado a plenitude do número de gentios. (28,29) e sua determinação de ter miseri-
Com certeza, a palavra que introduz esse córdia de "todos" (30-32). Ambos os pon-
versículo (houtos) tem seu foco voltado tos repetem os componentes essenciais da
não para o tempo dessa salvação, mas argumentação de Paulo nesses capítulos.
para a sua forma, assim ou "desta forma". Como Paulo deixou claro, os judeus como
Mas, como Paulo mostrou repetidamente, um todo são, no presente, inimigos de Deus
a maneira pela qual Deus conduzirá Israel (cf 9.30-10.21) em virtude da rejeição do
à salvação é semelhante à última etapa de evangelho. Ao mesmo tempo ele também
um processo histórico. Portanto, é pouco deixou claro que a eleição de Israel por
provável que nesse versículo Paulo esteja Deus permanece válida (11.1,2). Mas não
falando da salvação dos judeus ao longo podemos nos esquecer do que Paulo dis-
da história da igreja. Igualmente impro- cutiu em 9.6b-29: a eleição de Israel está
vável é o ponto de vista defendido pelos baseada no chamado livre e soberano de
reformadores, que Paulo esteja se referin- Deus e não na descendência racial. Assim,
>
ROMANOS 11 1730

a validade contínua da eleição de Israel, 12.1-15.13 O evangelho e a


no que diz respeito à salvação, deve ser transformação de vida
limitada àquelas circunstâncias que Paulo Paulo mostrou que o evangelho que ele
descreveu: a vinda dos judeus a Cristo du- prega tem o poder de transferir os cris-
rante a era da igreja (O remanescente; cf tãos do reino do pecado e da morte para o
9.27-29; 11.3-7), bem como a dramática reino da justiça e da vida. Mas essa trans-
conversão de um grande número de judeus ferência, como Paulo observou (6.11-23;
ao Messias na época do retomo de Cristo 8.12,13), não isenta os cristãos da res-
(11.25-27). Os v. 30,31 reafirmam uma úl- ponsabilidade de viver a justiça tão gra-
tima vez o processo de desobediência dos ciosamente concedida pelo evangelho.
judeus/salvação dos gentios/salvação dos Deus está trabalhando para nos trans-
judeus que é central nessa parte do argu- formar à imagem de seu Filho (8.29),
mento de Paulo. É nos termos dessa alter- mas devemos participar desse processo
nância entre judeus e gentios que o v. 32 empenhando-nos para tomar real essa
deve ser interpretado. Paulo não está en- transformação na nossa vida cotidiana.
sinando aqui um universalismo individual Por isso 12.1-15.13 se encaixa natu-
- que cada ser humano experimentará a ralmente na apresentação que Paulo faz
misericórdia de Deus e assim será salvo do evangelho; na verdade, a sua apresen-
(como, e.g., Dodd e Cranfield sugerem). tação ficaria incompleta sem isso. Uma
Antes, ele está pregando um universalismo nova forma de viver não é consequência
nacional: a misericórdia de Deus vem tan- do evangelho, mas parte desse evange-
to para os gentios como para Israel. lho, cujo propósito é produzir a "obe-
diência por fé" (1.5).
11.33-36 Propósito e plano O apelo inicial de Paulo capta a es-
maravilhosos de Deus sência do que significa viver como cristão
Paulo conclui seu exame do passado, pre- (12.1,2). Então seguem apelos específicos
sente e futuro de Israel com um hino de relativos à unidade e aos dons (12.3-8), o
louvor ao Deus cujos caminhos estão além amor aos companheiros tanto fiéis quan-
de nosso entendimento e crítica. A sabedo- to incrédulos (12.9-21), as atitudes para
ria e o conhecimento de Deus (33) refe- com as autoridades (13.1-7) e novamente
rem-se particularmente à revelação de seus o amor (13.8-10). Em 13.11-14 Paulo re-
propósitos em Cristo (Ef 3.5,10; Cl 2.3). toma para o ponto em que começou em
Esses propósitos, como Paulo mostrou nos 12.1,2, com outro lembrete sobre a natu-
cp. 9-11, estão sendo desenvolvidos no reza dos tempos em que agora vivem os
âmbito de um processo histórico que en- cristãos. Paulo encerra essa seção da car-
volve tanto judeus como gentios. Podemos ta com uma exortação longa ao forte e ao
não entender todos os detalhes desse plano fraco na igreja de Roma (14.1-15.13).
e podemos até ser tentados a questionar al- É evidente que nessa última seção Paulo
gumas partes dele, mas, como Paulo nos está escrevendo tendo em mente a situ-
lembra com as citações do AT nos v. 34,35 ação específica dos cristãos romanos.
(Is 40.13 e Jó 41.11a), qualquer crítica de Os apelos anteriores (cp. 12-13) não
nossa parte, meros mortais, está completa- são tão claramente dirigidos à situação
mente fora de questão. Pois Deus é a fonte em Roma. Até mesmo aqui, no entanto,
(dele), o sustentador (por meio dele) e o enquanto Paulo está sem dúvida resu-
objetivo (para ele) de tudo. Diante desse mindo de forma geral alguns dos prin-
Deus sábio e soberano a nossa resposta só cípios básicos da vida cristã, há alguma
pode ser a de Paulo: A ele, pois, a glória alusão aos problemas e às necessidades
eternamente! da igreja romana.
1731 ROMANOS12<

12.1,2 O cerne da questão: coração e mente por dentro de modo que


uma mente renovada nossa obediência a Deus possa ser natural
A convocação de Paulo para que transfor- e espontânea (cf 7.6; 8.5-9; Jr 31.31-34;
memos nossa vida não acontece em um 2Co 3.6,7; Ef 4.22-24).
vácuo. É apenas na perspectiva das mise-
ricórdias de Deus que o seu apelo se toma 12.3-8 Humildade e dons
relevante e que a nossa obediência a ele é O propósito de Paulo nesse parágrafo é
possível. Quando reconhecemos tudo (ob- promover a unidade entre os cristãos por
serve o plural da palavra "misericórdia", meio do encorajamento a uma atitude de
assim também no grego) que Deus fez por humildade de uns para com os outros, em
nós em seu Filho, como Paulo analisou nos especial no que diz respeito a possuir e
cp. 1-11, percebemos que oferecer-nos a usar os dons espirituais. Paulo nos exorta
Deus como sacriflcio vivo é, na verdade, a não pensar de nós mesmos além do que
um ato "razoável" (logikênv de adoração, convém, mas a olhar para nós mesmos de
ou seja, um culto racional. A palavra vivo maneira honesta e objetiva. Devemos me-
nos lembra do que Deus fez por nós: somos dir-nos a nós mesmos, e não uns aos ou-
pessoas que agora estão "vivas para Deus tros, pela medida da fé (metron pisteõs).
em Cristo Jesus" (6.11). Paulo nos enco- Alguns estudiosos entendem que essa ex-
raja a considerar toda a nossa vida cristã pressão designa as diferentes porções de fé
como um ato de adoração. Não é apenas o que Deus deu a cada um de nós (cf a NVI
que fazemos no domingo, dentro de uma e ARA). O contexto, no entanto, sugere que
igreja, que "atribui valor" a Deus, mas o Paulo está falando aqui da nossa fé cristã
que Deus e o mundo veem em nós a cada comum, segundo a qual cada um de nós
dia e a cada momento da semana. deve medir-se a si mesmo (JB: "o padrão da
O v. 2, ainda que gramaticalmente pa- fé"). Quando fazemos isso, a comparação
ralelo ao v. 1, realmente explica de forma de nós mesmos com os outros cristãos se
mais detalhada como esse oferecimento toma relativamente irrelevante - particu-
de nós mesmos como sacrificios deve ser larmente porque Deus deu dons diferentes
realizado. O que se requer é nada menos aos membros da igreja, o corpo de Cristo
do que uma transformação total da nossa (4,5). O que é necessário é reconhecer a be-
visão de mundo. Já não devemos olhar leza da diversidade e complementaridade
para a vida nos termos deste século, o do- dadas por Deus e conduzidas pelo Espírito
mínio do pecado e da morte do qual fo- dentro da igreja (v. ênfase semelhante em
mos transferidos pelo poder de Deus (cf ICo 12.4-31).
5.12-21), mas com os olhos do novo reino Apesar de Paulo não mencionar aqui
ao qual pertencemos, o reino regido pela explicitamente o papel do Espírito, seu en-
justiça, pela vida e pelo Espírito. Embora volvimento fica implícito pela referência
vivendo no mundo, não somos mais "deste aos dons (charismata; cf 1.11; lCo 12.7-
mundo" (Jo 17.15,16). A essência da vida 11). Paulo menciona dons específicos em
cristã bem-sucedida é a renovação de nos- duas outras passagens (lCo 12.7-11,28;
sa mente de modo que possamos ser ca- Ef 4.11), e uma comparação desses textos
pazes de provar qual é a vontade de Deus, revela que em nenhum deles ele está bus-
isto é, reconhecer e pôr em prática a von- cando fornecer uma lista exaustiva. Antes,
tade de Deus em todas as situações com em cada passagem Paulo seleciona exem-
que deparamos. Deus não deu aos cristãos plos que serão relevantes para o seu propó-
um conjunto detalhado de mandamentos sito. O objetivo de Paulo neste momento é
para nos guiar. Ele nos deu o seu Espírito, incentivar cada cristão a usar os seus dons
que está operando para transformar nosso de maneira enérgica e apropriada e a não
ROMANOS 12 1732

se preocupar com os dons que outros pos- O amor sem hipocrisia é o amor ver-
sam ter, ou com a maneira como possam dadeiro, sem fingimento (v. também
estar utilizando-os. Profecia (6b) é o dom 2Co 6.6; lTm 1.5; lPe 1.22), do tipo que
de transmitir a outros cristãos a verdade nasce do coração e da mente renovados.
que foi revelada ao profeta por Deus (cf Detestai o mal, apegando-vos ao bem (9)
lCo 14.1-32). O profeta deve exercer seu pode explicar o que é o amor sincero, mas
dom segundo a proporção da [de sua]fé, são provavelmente ordens independentes.
uma expressão que tem o mesmo sentido Começando no v. 10, Paulo encoraja os
que "medida de fé" no v. 3 (talvez fa- cristãos a procurar o amor sincero e fa-
zendo a sua parte no trabalho da igreja). zer o bem em seus relacionamentos com
Ministério (7a) pode significar um deter- outros cristãos. Amai-vos cordialmente
minado ministério de ensino ou condução uns aos outros com amor fraternal, prefe-
de adoração, mas é provavelmente uma rindo-vos em honra uns aos outros reme-
designação geral de vários ministérios (v. te ao que Paulo expressa muito bem em
lCo 12.5). Ensino (7b) envolve a trans- Filipenses 2.3b: "considerando cada um
missão da doutrina cristã (cf 2Tm 2.2); os outros superiores a si mesmo". A seme-
exortação (8) inclui uma ampla varieda- lhança entre esse apelo e o v. 3 sugere que
de de ministérios de discurso ou oratória. Paulo já se preocupava com o problema
Somos lembrados das maneiras variadas da falta de unidade na igreja romana (cf
pelas quais Deus leva as pessoas, bem 14.1-15.13). O zelo (v. 11) com Deus e
como a comunidade, a servi-lo, através com as coisas de Deus deveria caracteri-
da inclusão do dom de contribuir para as zar sempre os cristãos, como o fez com o
necessidades dos outros (8b). nosso Senhor (v. Jo 2.17). Os meios para
manter esse zelo são fornecidos na ordem
12.9-21 Amor seguinte, que seria mais bem traduzido por
Nem todos esses versículos tratam de um "permitam que cada um seja inflamado
único tema, na medida em que Paulo fala pelo fogo do Espírito Santo" (Cranfield; a
de vários componentes da "boa, agradável NVI difere, não entendendo pneuma como
e perfeita vontade" de Deus, que os cristãos sendo o Espírito Santo). Tal zelo, estimu-
com a mente renovada devem experimen- lado pelo próprio Espírito, levará o cristão
tar (2b). Mas eles têm um tema central: a a servir verdadeiramente ao Senhor. Paulo
exigência de amar aos outros, anunciada falou anteriormente em Romanos sobre a
no v. 9, e que se apresenta como um título esperança (5.2-10; 8.18-30), as tribula-
de toda a seção. Embora nenhuma demar- ções (5.3,4) e a oração (8.26,27); ele agora
cação rígida seja possível, podemos dividir lembra os cristãos brevemente (12) da ati-
esse parágrafo em duas seções principais: tude correta em relação a cada um desses
v. 9-16 e 17-21. A primeira seção tem seu temas. O amor sincero também conduz a
foco voltado para as responsabilidades dos passos práticos na ajuda aos cristãos que
cristãos para com os outros cristãos, en- passam por necessidades (13; v. também
quanto a segunda (prenunciada no v. 14) lJo 3.17,18).
se concentra nos relacionamentos com as O v. 14 interrompe o chamado para que
pessoas que se encontram fora da igreja. os cristãos amem e façam o bem uns aos
A quantidade de paralelos estreitos com os outros, e antevê os v. 17-21. Fica eviden-
ensinamentos de Jesus (cf especialmente o te a relação entre o mandamento de Paulo
v. 14 com Mt 5.44 e o v. 21 com Mt 5.39) abençoai os que vos perseguem e o ensino
sugere que Paulo pode estar refletindo aqui de Jesus no Sermão da Montanha (5.44).
sobre um antigo conjunto comum de orien- O mandamento de Jesus provavelmente se
tações éticas cristãs. tomou o elemento principal da instrução
111
1733 ROMANOS 13 111111
111.

da igreja cristã primitiva (v. também 1Pe Deus, mas esse é certamente o significado
3.9). No v. 15 Paulo retoma o relaciona- que Paulo pretendia dar aqui; "deixem com
mento entre os cristãos. O envolvimento Deus a ira", NVI). Paulo cita Provérbios
empático com as alegrias e sofrimentos 25.21,22 para reforçar o seu argumento
dos demais cristãos é a marca do amor sin- contra a vingança. Mais uma vez, como no
cero para com irmãos e irmãs (10). O pro- v. 17, o propósito aqui é que os cristãos de-
blema é que os cristãos pensam muito em vem substituir a vingança pelo ato de fazer
si mesmos. Paulo adverte novamente os o bem aos seus inimigos. Quando fazemos
cristãos romanos sobre isso (cf também v. bem ao inimigo, estamos amontoando bra-
3,lOb) e os encoraja a estender a sua com- sas vivas sobre a sua cabeça. Isso pode ser
paixão e preocupação até mesmo a pesso- uma referência a um castigo divino futuro:
as humildes. A palavra que Paulo usa aqui se o inimigo não for levado a se arrepender
(tapeinos) se refere àqueles muitos cristãos por nossas boas ações, nossas ações amá-
do século I que pouco podiam se vanglo- veis tomarão a ira de Deus muito pior. Mas
riar no que diz respeito a bens materiais ou o fato de sermos nós, pelas nossas boas
posição social (cf Lc 1.52; Tg 1.10). ações, que colocamos o carvão em brasa
Na última seção desse parágrafo (17- sobre o inimigo sugere que Paulo está an-
21) Paulo convoca os cristãos para que tes nos acenando com a esperança de que
demonstrem amor sincero (9) para com a nossa bondade estimulará a vergonha e o
aqueles que se opõem a eles. Lembrando arrependimento no inimigo. O v. 21 - Não
novamente o ensinamento de Jesus (Mt te deixes vencer do mal, mas vence o mal
5.38-42; cf 1Ts 5.15; 1Pe 3.9), Paulo proí- com o bem - é uma conclusão adequada
be retaliações (17a; cf v. 19). Em seu lu- dessa seção (17-21) e, indiretamente, de
gar, ele incentiva os cristãos a terem uma todo o trecho dos v. 3-20.
reação positiva: Esforçai-vos por fazer o Notas. Os mandamentos nos v. 9-13 e
bem (lit. "coisas boas"; cf 12.2b) perante 16-19 representam particípios no grego,
todos os homens. Especificamente, o cris- uma forma verbal que normalmente não
tão deve procurar manter relacionamentos indica uma ordem. Seu uso por Paulo aqui
pacíficos com cristãos e também com não pode refletir a tendência de muitos rabi-
cristãos (cf Pv 3.4; 2Co 8.21). No entan- nos de usar o particípio do hebraico para
to, Paulo reconhece que a nossa liberdade dar uma ordem. 11 Em vez de servindo ao
para fazê-lo será limitada pelas atitudes Senhor (kuriõ), alguns manuscritos trazem
dos outros e por nossa necessidade de não a expressão "servindo ao tempo" (kairõ).
comprometer nossa integridade cristã. A Esta última, sem dúvida, é a leitura mais
paz com os outros nunca deve ser adqui- difícil, o que muitas vezes é uma indicação
rida ao preço de nossas convicções e tes- de autenticidade, mas carece de suficiente
temunho cristãos. Assim, ele acrescenta a apoio externo. 20 O uso de brasas vivas
qualificação quanto depender de vós. para simbolizar vergonha e arrependimen-
À sua segunda proibição (19) Paulo to em Provérbios 25.22 pode ser derivado
acrescenta uma explicação da razão por de um ritual egípcio, no qual uma pessoa
que tal retaliação é desnecessária. Devemos podia supostamente limpar seus pecados
nos lembrar que servimos a um Deus justo carregando sobre a cabeça uma bandeja
e soberano, um Deus que prometeu vingar com brasas vivas.
as injustiças daqueles que são maltratados
neste mundo (Dt 32.35). Devemos, portan- 13.1-7 A responsabilidade cristã
to, não achar necessário assumir o papel em relação ao governo
de vingadores, mas sim dar lugar à ira. (O Paulo não conecta de maneira explícita
grego não deixa bem claro que a ira é de esse parágrafo com o anterior, e isso levou
ROMANOS 13 1734

alguns estudiosos a pensar que ele fosse e ao ensino judaico (Sabedoria de Salomão
talvez um acréscimo posterior pós-paulino 6.3; Eclesiástico 10.4; 17.17), Paulo nos
ao texto de Romanos. Mas não há evidên- lembra que cada autoridade foi instituí-
cia textual para uma interpretação tão drás- da (tetagmenai) por Deus, sendo assim,
tica. A passagem se encaixa perfeitamente ministro de Deus, ainda que indireta ou
no contexto: submissão às autoridades é inconscientemente (4,6). As autoridades
parte da "boa, agradável e perfeita vontade governamentais servem a Deus ao prote-
de Deus" (l2.2b) que Paulo estava descre- ger os que fazem o bem (3b,4a) e ao punir
vendo, e é também um exemplo concreto os que praticam o mal (3a,4b). Portanto, os
de " fazer o bem perante todos os homens" cristãos, assim como todo mundo (cf v. 1),
(l2.17b). Paulo poderia estar consciente de devem fazer o que as autoridades gover-
que os cristãos romanos precisavam parti- namentais pedem que façam; e não só por
cularmente de tal conselho, uma vez que temer a punição, mas também por reconhe-
havia evidências de que vários grupos na cer que Deus está por trás das autoridades
capital, incluindo judeus, estavam provo- e por querer evitar fazer o que violaria nos-
cando agitações em protesto contra o pa- sa consciência (5b).
gamento de impostos nessa época (Tácito, O ensino de Paulo nesse parágrafo pa-
Ann. 15.50s). No entanto, Paulo aconselha rece ser bastante direto e é, na verdade,
os romanos cristãos a pagar seus impostos paralelo a outros livros do NT (v. especial-
(6,7) como parte de suas obrigações gerais mente lPe 2.13-17). No entanto, a ordem
de se submeter às autoridades do Estado aparentemente absoluta para se fazer o
(la,5a). Tal submissão é exigida, Paulo que as autoridades pedem que façamos
argumenta, porque as autoridades gover- cria problemas para a maioria dos cris-
namentais são estabelecidas por Deus para tãos. Esses problemas são resultantes não
servir aos seus propósitos de recompensar só da nossa experiência - muitos cristãos
o bem e punir o mal (l b-4,5b). são obrigados a viver sob governos dita-
As autoridades (no grego exousiai) toriais e radicalmente anticristãos - mas
claramente são as pessoas em posições de orientações do próprio NT, que em mui-
de autoridade nos governos seculares; na tas passagens defende a desobediência aos
época de Paulo, é claro, especialmente os governantes em algumas situações como
oficiais romanos imperiais e provincia- algo louvável (At 4.19,20; Apocalipse).
nos. Submeter-se a essas autoridades sig- Portanto, o problema criado por 13.1-7
nificava reconhecer sua posição "acima" tem sido resolvido de diversas maneiras.
do cristão na "ordem" que há no mundo. Alguns estudiosos argumentam que Paulo
Essa "ordem" inclui tanto as instituições está ordenando obediência ao governo
seculares que não têm a sanção de Deus apenas quando este está cumprindo suas
(e.g., a escravidão, Tt 2.9; lPe 2.18) quan- funções de recompensar o bem e punir o
to as instituições ordenadas por Deus para mal. Embora possa haver alguma verdade
o bem do seu povo (e.g., o casamento, nisso, Paulo não toma a obediência cristã
Ef 5.22; Cl 3.18; Tito 2.5; lPe 3.1,5; a contingente ao comportamento do gover-
família, Lc 2.51; a liderança da igreja, no. Outros pensam que Paulo pode estar
lCo 16.16; IPe 5.5. Ef5.21 provavelmen- se referindo a uma situação imediata da
te inclui o casamento, a família e a escra- comunidade romana; mas a linguagem
vidão). As autoridades, como Paulo deixa universal do texto (todo, não há autori-
claro nos v. 1b-4, enquadram-se claramen- dade, no v. 1) toma isso improvável. Uma
te na segunda categoria. Fazendo eco a alternativa mais atraente é que a exigência
doutrinas consistentes do AT (Pv 8.15,16; de Paulo de que os cristãos se sujeitem à
ls 40.15,23,24; Dn 2.21; 4.17,25,32; 5.21) autoridade significa simplesmente que eles
1735 ROMANOS14(

reconhecem o lugar legítimo da autorida- as exigências da lei de Moisés (pelo menos


de na hierarquia das relações estabelecidas as que dizem respeito às nossas obrigações
por Deus, uma hierarquia em cujo topo se para com as outras pessoas) pelo amor.
encontra o próprio Deus. Quando, no en- Pois o amor está no cerne da "lei de Cristo"
tanto, o governo usurpa o lugar de Deus (G16.2 cf lCo 9.20,21), a lei que Jesus tor-
e nos manda fazer algo contrário ao nosso nou reguladora da vida no novo mundo em
Senhor, somos livres - aliás, obrigados que vivemos. E essa própria lei "cumpre" a
- a desobedecer. Esse ponto de vista pode, lei de Moisés (v. Mt 5.17).
no entanto, enfraquecer indevidamente o
significado de "submeter-se". Talvez a me- 13.11-14 Discernindo os tempos
lhor solução, então, seja entender 13.1-7 Assim como Paulo começou essa seção
como uma declaração geral sobre a forma com a ética cristã geral, com um lembrete
de os cristãos se relacionarem com as au- da nova situação em que agora vivem os
toridades, sendo que há exceções a esses cristãos - não são mais "deste mundo"
conselhos presumidas, embora não deta- (12.2, NVI) - assim ele a conclui. Os cris-
lhadas, aqui. tãos devem discernir o tempo: uma época
em que esperamos o alvorecer iminente do
13.8-10 O amor e a lei dia (12), "o dia do Senhor Jesus", que trará
A primeira parte do v. 8 é transicional. A a nossa salvação final. Como Paulo deixou
ninguém fiqueis devendo coisa alguma re- claro em 5.9,10, a salvação é um processo
pete uma implicação importante extraída que se completará somente quando esti-
da necessidade de os cristãos se submete- vermos livres do derramar da ira de Deus
rem às autoridades seculares (cf v. 7a), e é no último dia (v. também Fp 1.19; 2.12;
a base para o lembrete de Paulo de que os lTs 5.9). Esse dia vem se aproximando
cristãos têm uma dívida que nunca pode- progressivamente à medida que a era pre-
rão pagar: o amor com que vos ameis uns sente segue o seu curso e lança a sua luz de
aos outros. Paulo retoma ao tema do amor volta sobre o tempo em que vivemos ago-
(cf 12.9-21), destacando sua importância ra. Esse é o motivo do seu apelo para que
ao apresentá-lo como o cumprimento (8 e os seus leitores vivam como os que vivem
10) ou a síntese (9) da lei mosaica. A cen- em pleno dia (12b,13) e se abstenham das
tralidade de Levítico 19.18, o "mandamen- ações que são características das trevas, o
to do amor", foi enfatizada e sublinhada sistema do mundo que se opõe a Deus. O
pelo próprio Jesus (Mt 5.43; 19.19; 22.39; v. 14 defende a mesma ideia com uma lin-
Me 12.31; cf Jo 13.34,35) e encontra eco guagem diferente: devemos nos revestir do
em todo o NT (cf G15.14; Tg 2.8; 4.11,12; Senhor Jesus Cristo de tal forma que tudo
Do 4.11, passim). O que Paulo quer di- o que fizermos seja feito por ele e para ele,
zer quando insiste que a obediência a esse e não devemos sequer dar espaço a qual-
mandamento "cumpre" ou "sintetiza" todos quer daqueles desejos pecaminosos que se
os outros mandamentos não é a noção de originam neste mundo caído e pecador (no
que tudo que temos de fazer para agradar a grego sarx, "carne", natureza pecaminosa;
Deus é "amar" - como se disso decorresse v. comentário de 7.5).
que basta ter um sentimento de "amor" e se
pode fazer o que se quer. Paulo também não 14. 1-15. 13 Apelos à unidade
quer dizer que o amor pelos outros é sim- Em 12.3-13.14 Paulo mencionou com-
plesmente o mandamento mais importante ponentes gerais da "boa, agradável e
da lei, ou o espírito segundo o qual todos perfeita vontade de Deus" que devem
os demais devem ser obedecidos. Antes, ele caracterizar os cristãos cuja mente está
está dizendo que os cristãos agora cumprem sendo renovada pelo poder do evangelho
ROMANOS 14 1736

(cf 12.1,2). Agora Paulo discute um as- dade em Cristo. O próprio ponto de vista
sunto específico dentro da igreja romana: de Paulo sobre essas questões é claro: ele
a divisão entre aqueles a quem ele chama se inclui entre "os fortes" (15.1) e afirma
de fracos (14.1,2; 15.1) e fortes [na fé] que nenhuma coisa é de si mesma impu-
(15.1). Esses dois grupos estavam discu- ra (14.14). É significativo que Paulo não
tindo se os cristãos deveriam ou não comer tenta convencer os fracos de que eles es-
carne (14.2,6,21), observar dias religiosos tão errados. Pelo contrário, ele insiste em
especiais (14.5,6) e, possivelmente, beber que os fortes aceitem seus irmãs e irmãos
vinho (14.21; cf. v. 17 - não fica total- mais fracos (14.1; 15.7) e, na verdade, res-
mente claro se essa era uma questão real trinjam o exercício de sua liberdade sobre
na igreja ou se Paulo simplesmente a cita essas questões controversas a fim de pro-
como exemplo). mover a unidade e evitar ferir a fé dos fra-
Não podemos identificar com certeza cos (14.13-22). Os fracos também devem
esses dois grupos. Certos paralelos com a deixar de condenar os fortes e aceitá-los
discussão de Paulo em 1Coríntios 8-10 como irmãos (14.3,13; 15.7). Paulo sente
levaram alguns estudiosos a pensar que claramente que as questões que estão di-
Paulo está abordando aqui o problema de vidindo os cristãos em Roma pertencem à
saber se os cristãos deveriam comer carne categoria da adiaphora, das "coisas indife-
sacrificada aos ídolos. Outros pensam que rentes" (cf v. 1, discutir opiniões) - ques-
o debate é sobre a adequação de determina- tões que não são essenciais à fé e a res-
das práticas ascéticas que foram adaptadas peito das quais os cristãos comprometidos
das religiões pagãs. Mas a ênfase de Paulo e sinceros podem discordar. Seu propósito
em 15.8-13 na importância da unidade en- é promover a unidade da igreja exortando
tre judeus e gentios - um tema presente à tolerância de um para com outro nessas
em toda a carta - sugere, sim, que a di- questões. Embora os assuntos de debate
visão teve suas raízes em uma insistência tenham mudado, a igreja atual, da mesma
dos cristãos judeus em manter alguns dos forma e com frequência, tem se dividido
seus "tabus" tradicionais. À semelhança por questões não essenciais. Sem compro-
de outros judeus piedosos num ambiente meter as doutrinas que são essenciais ao
gentílico (Dn 1.8-16; Judite 12.1-4), mui- evangelho, precisamos atender ao apelo
tos cristãos judeus em Roma tinham apa- de Paulo para aceitar todos aqueles a quem
rentemente decidido se abster de carne (e Deus aceita (cf 15.1 e 14.3b).
talvez de vinho) por temer contato com a 14.1-12 Reprovação das atitudes crí-
idolatria. (Essa decisão pode ter sido uma ticas. Paulo reprova tanto os fortes como
necessidade por serem excluídos da comu- os fracos por suas atitudes críticas (1-3),
nidade judaica mais ampla, em que a co- fazendo-os lembrar que eles não têm o di-
mida "kosher" podia ser encontrada mais reito de julgar aqueles a quem Deus acei-
facilmente.) tou (4-12).
Devemos então presumir uma situação Nesse contexto a pessoa descrita como
na qual os cristãos judeus se vangloriam débil na fé (1,2) não é necessariamente a
de sua religiosidade estrita, "condenan- que é imatura ou não tem fé em Cristo em
do" (14.3) os que não adotam o mesmo sentido absoluto. Pelo contrário, é a que
padrão, enquanto muitos cristãos gentios, não acredita que a sua fé cristã lhe permita
não encontrando valor em tais práticas, participar de algumas práticas específicas;
estão ostentando sua "liberdade" nesses a que é excessivamente escrupulosa ou
assuntos (15-22) e "discutindo" (14.1) e "sensível". No entanto, "fraco" é, até certo
"desprezando" (14.3) aqueles a quem eles grau, pejorativo, e é claro que esse deve
consideram "fracos" em afirmar sua 1iber- ter sido o rótulo dado a esse grupo pelos
1737 ROMANOS14{

fortes. Associado ao fato de que Paulo ini- que julguemos nossos irmãos, cuja prática
cialmente se dirige aos "fortes", isso suge- em questões discutíveis pode ser diferente
re que os "fortes" são a maioria e o grupo da nossa (10-12).
que Paulo tem em mente quando escreve Nota 11 Paulo também cita Isaías 45.23
(cf também 15.1). Esses cristãos estão em Filipenses 2.10,11. Ali, no entanto, é
convencidos de que a sua fé lhes permite diante do Senhor Jesus que todo o joelho
de tudo comer, enquanto aquele, cuja fé é se dobra, enquanto aqui o "Senhor" diante
fraca, come legumes (2). Como indica o de quem alguém se dobra provavelmente
v. 6, o fraco evita comer carne provavel- é Deus.
mente porque, como cristão judeu, tem 14.13-23 Os limites da liberdade.
receio de entrar em contato com a idola- Depois de mais um apelo aos dois grupos
tria. Cada grupo deve parar de criticar o - não julguemos uns aos outros - , Paulo
outro, reconhecendo que todos são servos se volta aos fortes na fé, exortando-os: to-
do mesmo mestre, o único que tem em si o mai o propósito de não pordes tropeço ou
direito de julgá-los (4). É "diante" de seu escândalo (13) no caminho do irmão mais
próprio mestre (lã idiõ kyriõ é provavel- fraco. Essa é a ideia central da seção, com
mente um dativo de referência), o Senhor, os v. 14-21 elaborando e explicando essa
que cada cristão fica em pé ou cai - isto ordem. Os v. 22,23, em seguida, tratam de
é, persevera ou falha na fé (cf 11.20,22). maneira mais geral dos dois grupos.
E Paulo está convencido de que aqueles a O forte está criando para o fraco uma
quem Deus aceitou (3) irão perseverar por- situação de pecado (tropeço e obstáculo;
que é o próprio Senhor que os sustém (4). cf 9.33 [Is 8.16]) ao continuar a ingerir
Outra questão que dividia os fracos e alimento que o fraco considera "impuro".
os fortes era a observância de dias reli- O próprio Paulo afirma vigorosamente
giosos especiais (5). Devido à sua origem sua convicção de que nenhuma coisa [ali-
racial, os judeus, os fracos, evidentemente mento] é de si mesma impura, alinhando-
continuavam a observar os dias de festivi- se, assim, com o ensinamento de Jesus
dades judaicas, inclusive provavelmente o (Mc 7.17-19; cf também At 10.9-15).
sábado. Os fortes, por outro lado, não viam Impuro (koinos) significa impureza ritual
nenhum fundamento em tratar um dia di- (do hebraico tãmê; e.g. , Lv 11.4-8). Paulo
ferentemente de outro. Para Paulo esta era entende e deseja que todos os cristãos em
claramente outra "discussão de opiniões" Roma entendam que a vinda de Cristo sig-
(1) e, por isso, ele aconselha tolerância. nifica que a lei judaica a respeito da pureza
Cada cristão deve ter a sua própria opinião ritual já não se aplica. Mas ele reconhece
sobre essas questões discutíveis e, caso que os cristãos judeus podem ter dificulda-
participasse ou se abstivesse, que o fizesse des em se desfazer de uma vida de ensino e
"por causa do Senhor" (aqui na ARA: para o hábitos, e por isso ele relembra os fortes de
Senhor; tõ kuriõ é um dativo de vantagem; que nenhuma coisa é de si mesma impura,
cf também v. 7,8) e dando graças a Deus salvo para aquele que assim a considera.
(6). Pois, como Paulo relembra aos dois para esse é impura (14). Embora Paulo
grupos, os cristãos não são autônomos: aqui não utilize a palavra, ele está clara-
a sua liberdade deve ser estabelecida em mente preocupado que a "consciência" dos
termos de serviço ao Senhor que morreu fracos seja violada (1Co 8.7,10) se eles ce-
e ressuscitou por eles (7-9). Deus - não derem à pressão para ingerirem alimentos
outros cristãos - é aquele perante quem que consideram "impuros".
todos os cristãos são responsáveis e peran- Este "comer contra a consciência" é o
te o qual teremos de responder por nossos que Paulo tem em mente com a "angústia"
comportamentos. Portanto, não é correto do cristão mais fraco no v. 15. Dirigindo-se
11

.fI
1111 ROMANOS 15 1738

individualmente agora ao cristão forte a e da sua liberdade em Cristo devem ser


fim de elucidar sua tese (OS verbos no v. os primeiros a abandonar as práticas que
15 estão na segunda pessoa do singular), podem causar danos a um irmão. A liber-
Paulo o relembra de que comer sem preo- dade cristã é real e valiosa, e ninguém in-
cupação alguma com o efeito que isso sistiu mais fortemente nisso do que Paulo
terá sobre o mais fraco é uma violação (Gl 5.1; Cl 2.16-23). Mas o exercício da
do princípio cristão fundamental do amor liberdade cristã, como também Paulo enfa-
(12.9,10; 13.8-10). Além disso, ao en- tizou (G15.13; lCo 6.12), deve ser sempre
corajar tacitamente o mais fraco a comer subordinado às necessidades dos outros.
contra a sua consciência, o forte pode fa- Como a famosa máxima de Lutero: "O
zer perecer aquele por quem Cristo mor- homem cristão é o mais livre senhor de
reu. A palavra perecer (apollymi) é bem todos, a ninguém submisso. O homem
forte, normalmente com o significado de cristão é o mais submisso servo de todos,
condenação eterna (2.12; lCo 1.18; 15.18; a todos submisso".
2Co 2.15; 2Ts 2.10). Esse pode ser o senti- Paulo completa seu apelo aos fortes
do aqui, embora, se for, pode ser que Paulo recomendando que mantenham para si
não pense nisso literalmente. Ou pode ser mesmos o que pensam a respeito dos ali-
que "perecer" esteja sendo usado aqui com mentos, dias especiais e bebidas. Não há
um sentido bem mais fraco: o de "causar necessidade de que comam carne na fren-
dano espiritual". te de todos os que podem ser espiritual-
Uma segunda razão para o forte se mente prejudicados por isso, ou que eles
abster de ostentar sua liberdade é que tal se abstenham de comer com a insistência
comportamento, por causar tristeza e desu- arrogante em que não há nada de errado
nião dentro da comunidade, põe o evange- com o que eles estão fazendo. O forte deve
lho em descrédito perante os que não são se contentar em reconhecer que é uma ver-
cristãos (16-18). Os incrédulos, ao ver na dadeira bênção saber que o que ele aprova
igreja discussões sobre a comida e a be- nessas questões não é algo pelo qual ele
bida, em vez de justiça, e paz, e alegria deva condenar-se. No entanto, há aqueles
no Espírito Santo (17), não enxergarão o que não são capazes de aprovar o exer-
evangelho com bons olhos. O forte, no en- cício da liberdade nessas questões. Seria
tanto, deve servir a Cristo, buscando jus- pecado para eles fazerem o que sua cons-
tiça, paz e alegria (deste modo no v. 18), ciência reprova. Embora a ingestão de
evitando comportamentos que diminui- carne possa não ser pecado aos olhos de
riam essas qualidades dentro da igreja. Ao Deus (14), fazer algo que não provém de
fazê-lo, ele estará sendo agradável a Deus fé é pecado (23).
e aprovado pelos homens (18). 15.1-13 O chamado final à unidade.
Os v. 19-21 recapitulam ideias às quais A conclusão do apelo de Paulo por tolerân-
Paulo se referiu anteriormente nesse pará- cia na igreja romana se divide em quatro
grafo. O forte (a quem ele provavelmente partes: um último apelo ao forte (1-4); uma
está se dirigindo) deve buscar paz e edifi- oração pela unidade entre todos os cristãos
cação de uns para com os outros (cf v. 17; em Roma (5,6); um último apelo (com
lCo 10.23). Ele deve reconhecer que sua apoio das Escrituras) aos fracos e fortes (7-
insistência em comer o que outros consi- 12); e uma oração de encerramento (13).
deram "impuro" pode levar à destruição Os v. 1-4 estão relacionados estrei-
da obra de Deus, que para Paulo provavel- tamente a 14.13-23, na medida em que
mente significa o irmão mais fraco (cf v. Paulo, usando a palavra pela primeira vez,
l5,2lb), e não a comunidade. Aqueles que insta osfortes (dynatoi) a suportar as de-
se orgulham da "força" da sua consciência bilidades dos fracos. O uso da primeira
11
1739 ROMANOS 15 - :
11

pessoa do plural (nós) mostra que Paulo se com também prejudica nossa capacidade
inclui entre os fortes (cf 14.14). O termo de dar a Deus a glória que ele merece.
"suportar" (bastazein) sugere que os for- O v. 7 é o clímax de 14.1-15.13. Aqui
tes devem fazer mais do que simplesmente encontramos o apelo básico de Paulo à
tolerar os fracos - eles devem ajudá-los igreja romana (acolhei-vos uns aos ou-
com uma atitude de amor (cf GI6.2). Isso tros), o fundamento mais importante para
é confirmado pelos v. 2,3, que desenvol- esse apelo (como também Cristo nos aco-
vem a advertência de Paulo de não agra- lheu) e o propósito mais elevado desse
dar-nos a nós mesmos, no final do v. 1. apelo (para a glória de Deus). Paulo agora
O incentivo para agradar ao próximo nos acrescenta mais uma razão para essa acei-
lembra o mandamento do amor (13.9; tação mútua: o ministério de Cristo como o
Lv 19.18) e a alusão ao sacrificio de Cristo que incorpora tanto judeus (8) quanto gen-
em se entregar em beneficio dos outros. A tios (9-12). O serviço de Jesus aos da (lit.)
citação no v. 3b vem de um salmo (69) que "circuncisão" (a NTLH traduz legitimamen-
os autores do NT frequentemente aplicam te por "judeus") é, segundo a sugestão de
aos sofrimentos de Jesus (cf Me 15.23,36 Paulo, um ministério que está enraizado no
e paralelos; Jo 2.17; 15.25, 19.28,29; passado, mas de modo nenhum terminou
At 1.20). O lembrete de Paulo no v. 4 so- (algo sugerido pelo tempo verbal do verbo
bre a relevância contínua do que outrora gegenêsthaij. Assim Paulo lembra os gen-
foi escrito tem o propósito imediato de jus- tios de que Cristo continua a se preocupar
tificar a citação no v. 3, mas também vale em alcançar os judeus (cf 11.1,2,28,29). O
como um princípio geral. ministério de Cristo aos judeus, no entanto,
O que Paulo está pedindo que os cris- tem um propósito mais amplo: é feito por
tãos façam, ele pede que Deus supra - causa da fidelidade de Deus a suas promes-
um exemplo típico da interação divino- sas (NVI: "por amor à verdade de Deus";
humana envolvida na vida cristã. Paulo alêtheia aqui significa "fidelidade" [v. tam-
ora ao Deus que dá paciência e consola- bém 3.4 e 7]). Essas promessas feitas aos
ção (5) que ele acaba de mencionar como nossos pais incluíam a bênção a "todas as
a finalidade do ensino das Escrituras. Não nações" (4.16,17). Portanto, quando essas
fica claro se o mesmo sentir de uns para promessas forem confirmadas, o resultado
com os outros (5) significa concordância (9) será que os gentios serão capazes de se
entre os fortes e os fracos em assuntos que juntar aos judeus na glorificação a Deus
os dividem ou, o que é mais provável, a por sua misericórdia. Sendo assim, os cris-
aceitação e o respeito mútuos em meio tãos judeus precisam reconhecer que a in-
à diversidade de pontos de vista. A NTLH corporação dos gentios no povo de Deus
entende kata Christon Iêsoun (segundo faz parte do plano de Deus, e portanto eles
Cristo Jesus, assim também NVI) como devem tentar um bom relacionamento com
uma orientação para que os cristãos imi- os cristãos gentios.
tem o exemplo de Cristo, mas a expressão As citações nos v. 9b-12 enfatizam a
também poderia significar "de acordo com inclusão que Paulo faz dos gentios no povo
a vontade de Cristo Jesus" (v. 2Co 11.17). de Deus. As palavras de Salmos 18.49
O propósito dessa unidade de todo modo (citadas de 2Sm 22.50), citadas no v. 9b,
é claro: que todos os cristãos em Roma provavelmente são entendidas por Paulo
unam seus corações e vozes em adoração como palavras do Messias: é anunciado
fervorosa a Deus. A falta de unidade entre que os gentios se unirão ao Messias quan-
os cristãos não somente prejudica nossa do este cantar louvores a Deus. A presen-
própria caminhada com Deus e nossa re- ça dos gentios na comunidade messiânica
putação com aqueles que não são cristãos, também é prevista nas Escrituras quando
ROMANOS 15 1740

elas dizem que eles se alegrarão em Deus, cunstância da carta (14-21); esboço dos
junto com Israel (10; Dt 32.43), cantando planos de viagem de Paulo (22-29); pedido
louvores ao Senhor (11, SI 117.1) e colo- de oração relativo à coleta para os cristãos
cando a sua esperança no Messias, a raiz de Jerusalém (30-32); e o desejo de paz
de Jessé (12; Is 11.10). (33). Há muitas semelhanças com 1.8-15,
O v. 13 parece quase isolado do con- demonstrando que Paulo está consciente
texto anterior, mas a oração-desejo de de terminar sua carta por onde a começou.
Paulo, como tais orações na terceira pes- Em consonância com sua vontade
soa devem ser chamadas, para que os cris- de estabelecer uma boa relação com os
tãos em Roma sejam caracterizados pelo cristãos em Roma, Paulo deixa claro que
gozo e paz, toma-se mais relevante depois ele está escrevendo não porque há qual-
do que ele acaba de dizer (cf 14.17,19). quer tipo de problema grave na igreja de
Da mesma forma, a ênfase na esperança Roma. Ele louva os cristãos romanos por
(v. também v. 4) faz sentido como con- sua bondade e conhecimento (14, e.g., a
clusão de uma discussão que questionou compreensão da fé cristã), observando
a situação atual da igreja e instou seus que eles têm capacidade de admoestar [ou
membros a dar passos difíceis para me- "exortar"] uns aos outros (14) (cf 1.8b).
lhorar essa situação. Paulo quase se desculpa por escrever da
forma como o faz (ousadamente) e salien-
15.14-16.27 A conclusão ta que o que ele disse nada mais é do que
da carta um lembrete. Esse louvor não é simples
Romanos conclui com as características bajulação; Paulo não teria dito o que disse
típicas das seções de encerramento das nesses versículos se não acreditasse que a
cartas de Paulo: um esboço dos planos de igreja em Roma era basicamente sólida e
viagem (15.22-29); um pedido de oração estável. Todavia, Paulo sabe que até mes-
(15.30-32); o desejo de paz (15.33); reco- mo as igrejas mais maduras precisam ser
mendações e saudações (16.1-15,16b), o lembradas da verdade do evangelho. E os
ósculo santo (16.16a); saudações finais aos apelos de 12.1-15.13 (e especialmente
colaboradores e ações de graças e bênçãos 11.12-27; 14.1-15.13) demonstram que a
finais (16.20-27). O que diferencia a seção igreja tinha lá os seus problemas. Embora
de encerramento de Romanos das demais evite qualquer insinuação de condescen-
cartas de Paulo é o espaço longo dedica- dência ou autoritarismo, Paulo insiste, no
do a muitas dessas questões e o acréscimo entanto, em que a sua autoridade como um
de uma seção em que Paulo explica suas ministro de Cristo entre os gentios (16) se
razões de ter escrito a carta (15.14-21). estende aos cristãos romanos (cf 1.5,6).
Ambas as diferenças resultam da falta de Paulo descreve o seu ministério com a aju-
envolvimento prévio de Paulo com a igreja da da linguagem de culto. Ministro traduz
em Roma. Embora tendo legítimo direito uma palavra que muitas vezes se refere a
de exercer certa autoridade sobre a igreja um sacerdote (leitourgos, cf Ne 10.39; Is
em Roma em virtude de seu chamado para 61.6; Hb 8.2), e seu significado sacerdotal
ser apóstolo aos gentios (1.1,5-7; 15.16), aqui é confirmado pela frase a seguir em
Paulo pretende se resguardar da impressão que Paulo descreve a sua proclamação do
de ser um intruso autoritário. evangelho como um sagrado encargo sa-
cerdotal e seus gentios convertidos como
15.14-33 O ministério e oferta. Assim como fazem outros autores
os planos de Paulo do NT (v. especialmente lPe 2.4-10), Paulo
Essa seção pode ser dividida em quatro dá a entender que o culto do AT, com seus
partes: explicação dos propósitos e cir- sacerdotes, sacrificios e o tabernáculo ou o
1741 ROMANOS 15

templo, encontra seu cumprimento no mi- (24,28). Paulo evidentemente decidiu que
nistério do evangelho (e observe 12.1). a bem povoada península Ibérica oferecia
É justo, então, o motivo de Paulo para a localização ideal para continuar o seu
se gloriar (ou se "orgulhar") desse mi- evangelismo pioneiro. Uma das razões
nistério, pois ele tem origem na graça de para Paulo parar em Roma foi obter ajuda
Deus (15b) e é uma questão de Cristo tra- dos cristãos romanos para a sua viagem.
balhando por meio do apóstolo (18). Essa A expressão seja por vós encaminhado
obra de Cristo em Paulo tem o propósi- ("...de me ajudarem em minha viagem",
to de conduzir os gentios à obediência a NVI; 24b) inclui um verbo que se toma no NT
Deus (cf 1.5), e o que Paulo diz e faz é quase que um "termo técnico para a missão
acompanhado do poder: a força de sinais cristã" (Cranfield; cf At 15.3; 20.38; 21.5;
milagrosos ("sinais e maravilhas"; cf ICo 16.6,11; 2Co 1.16; Tt 3.13; 3Jo 6).
At 2.22,43; 5.12; 15.12; 2Co 12.12; Significa o suprimento de material e apoio
Hb 2.4) e o poder do próprio Espírito (cf logístico para missionários cristãos. Uma
1.16a). O final do v. 19 menciona o po- das principais razões para Paulo escrever
deroso ministério sacerdotal e apostólico essa carta para a igreja em Roma foi pre-
de Paulo: desde Jerusalém e circunvizi- parar o caminho para esse apoio.
nhanças até ao Ilirico, tenho divulgado Antes que Paulo possa colocar em prá-
o evangelho de Cristo. O !lírico era uma tica o seu plano, no entanto, ele tem uma
província romana que ocupava uma área tarefa mais imediata: ministrar (diakonõn;
aproximada à área ocupada antigamente NVI: "a serviço dos") aos cristãos em
pela Iugoslávia e Albânia. Jerusalém foi Jerusalém (25). Esse ministério, como os
o ponto de partida para as missões cristãs, v. 26,27 revelam, é a entrega aos cristãos
enquanto o Ilírico era o local mais distan- de Jerusalém de uma oferta em dinheiro
te alcançado pela pregação de Paulo até o recolhida de muitas das principais igrejas
momento. Uma linha traçada de Jerusalém cristãs gentílicas plantadas por Paulo. As
até o Ilírico forma um arco, e por isso a lin- condições econômicas gerais, sem dúvida,
guagem de Paulo e circunvizinhanças (lit. pioraram pelo isolamento dos judeus de
"num círculo"). Paulo está dizendo que ele suas comunidades, motivado por sua nova
implantou igrejas fortes e estrategicamente profissão de fé, que resultou no empobre-
bem localizadas por toda a parte nordeste cimento de muitos cristãos judeus tanto
da bacia do mediterrâneo. Ele, portanto, em Jerusalém como em suas redondezas.
"divulgou" tplêroõ; NVI: "proclamei plena- Paulo sentia que era certo que os cristãos
mente") o seu evangelho nessas áreas, pois gentios retribuíssem com bens materiais
sua missão era pregar o evangelho não os valores espirituais (27) que tinham
onde Cristo já fora anunciado (20). A cita- herdado dos judeus (cf 11.17,18). Coletar
ção do AT, que Paulo utiliza para confirmar o dinheiro para esse esforço de ajuda hu-
essa missão (21), é extraída dos cânticos manitária foi a principal preocupação de
do servo de Isaías (52.15), mas é imprová- Paulo em sua terceira viagem missionária
vel que Paulo se visse no papel de servo. (v. ICo 16.1-4; 2Co 8-9). Alguns estu-
Paulo passa do passado para o presente diosos pensam que Paulo estava particu-
e o futuro. Sua obrigação de cumprir sua larmente interessado nessa coleta porque a
missão no leste o impedira de vir a Roma considerava um cumprimento da profecia
até o momento (22). Mas com o término do AT de que a riqueza dos gentios flui-
dessa missão, Paulo agora pode satisfazer ria para Jerusalém pouco antes do dia do
o seu desejo de longa data de visitar Roma Senhor. Mas há poucas evidências de que
(cf 1.10-15). Ainda assim, Roma seria ape- esse fosse o caso. No entanto, Paulo indu-
nas uma escala para uma viagem à Espanha bitavelmente via essa ajuda como um meio
ROMANOS 16 1742

prático de estreitar o relacionamento entre paralela a pedidos semelhantes em muitas


gentios e judeus cristãos. de suas outras cartas (2Co 13.11; Fp 4.9;
É talvez à luz deste propósito que Paulo lTs 5.23; 2Ts 3.16; cf também 16.20).
pede aos cristãos romanos por orações para Notas. 19 Não fica claro se Paulo quer
o êxito da coleta (30-32). Paulo sugere a dizer que ele pregou "até e no" Ilírico ou
necessidade de oração séria e fervorosa por "até" o Ilírico. Embora Atos nunca men-
esse assunto, pedindo-lhes que luteis jun- cione uma viagem missionária de Paulo
tamente comigo nas orações. (Considerar a essa província, alguns estudiosos acre-
a orientação para a "luta juntamente co- ditam que ele pode ter pregado ali pouco
migo" [synagõnizomai, usado apenas aqui antes de ir para Corinto, no final de sua
na Bíblia grega] como algo que ocorre terceira viagem missionária (quando Paulo
"em oração" é preferível a ver a distinção está escrevendo Romanos; cf At 20.2).
entre os dois aspectos, sugerida pela NVI.) 24 Não sabemos se Paulo jamais alcançou
Paulo lhes pede que orem especificamente o seu objetivo de pregar na Espanha. A car-
por duas coisas: que ele possa se ver livre ta de 1Clemente, um antigo documento do
dos rebeldes que vivem na Judeia e que século I escrito em Roma, alega que Paulo
este meu serviço (a coleta) possa ser bem "atingiu o limite [terma] do ocidente" (5.1-
aceito pelos santos em Jerusalém. Paulo 7). Não está claro se o documento se refere
sabe da hostilidade dos judeus em relação à à Espanha ou a Roma.
sua defesa audaciosa e pública da admissão
dos gentios no seio do povo de Deus sem 16.1-16 Recomendações
lhes impor a circuncisão ou a lei de Moisés. e saudações
Muitos dos judeus mais radicais de sua A recomendação de um companheiro
época (e eles estavam crescendo em núme- cristão e as saudações são componen-
ro nesse momento) teriam considerado essa tes típicos de encerramento das cartas
defesa uma traição pura e simples. Que os de Paulo. O que não é típico nesse tex-
receios de Paulo sobre esse assunto eram to é o número sem paralelos de pessoas
justificáveis pode ser provado pelo fato de a quem Paulo saúda: são mencionadas 27
que essa viagem a Jerusalém resultou em pessoas. Esse fato, por estar numa carta
sua prisão pelas autoridades romanas por a uma igreja que Paulo nunca visitou, le-
instigação dos judeus (At 21.27-36). vou muitos estudiosos a pensar que esse
Nós não temos certeza absoluta sobre capítulo não fazia parte da carta original
o cumprimento do segundo pedido de ora- de Paulo aos Romanos, mas de outra carta
ção de Paulo. Certamente Paulo também de recomendações, ou de um aditamento
tinha razões válidas para temer que alguns à carta quando ela foi enviada a Éfeso.
dos judeus cristãos pudessem ainda estar Mas isso é improvável (v. a Introdução).
tão desconfiados dele e tão preocupados Precisamente por Paulo não ter implanta-
com a ideia de manter relações com seus do a igreja em Roma, ele é capaz de nomi-
concidadãos judeus que iriam rejeitar seus nar talvez todos os cristãos da igreja que
esforços, recusando-se a aceitar o dinhei- ele conhecia, como Priscila e Áquila (3),
ro de Paulo e dos cristãos gentios. Paulo a quem ele tinha encontrado durante as
pede aos cristãos de Roma que se juntem a suas viagens no mediterrâneo oriental.
ele em oração para que isso não aconteça Ao se referir a Febe como uma irmã
de modo que ele seja capaz de seguir para que está servindo à igreja de Cencreia
Roma com alegria e um sentimento positi- (uma cidade localizada a oito quilômetros
vo de realização (32). a leste de Corinto), Paulo pode simples-
A oração de Paulo para que o Deus da mente estar dizendo que ela é cristã e cha-
paz esteja com os cristãos romanos (33) é mada, como todos os cristãos, a ser uma
1743 ROMANOS 16 <
serva (1) de Cristo e da igreja (v. lPe 4.10). Júnias, no v. 7, provavelmente poderia
Mas, com o acréscimo da expressão com ser traduzido por "Júnia" (ASV; NRSV). O
um toque oficial à igreja de Cencreia, é nome grego Iounian pode ser uma forma
mais provável que Paulo está identificando abreviada do nome masculino Junianis,
Febe como alguém que exerce a função de mas isso não é comprovado. É mais prová-
"diaconisa" (cf Fp 1.1; lTm 3.8,12; mui- vel, então, que seja uma forma do nome
tos veem 1Tm 3.11 como uma referência à feminino Júnia, o qual é bastante co-
existência de diaconisas). Não temos ne- mum. Presumivelmente, ela era a esposa
nhuma evidência sólida do século I sobre de Andrônico (cf v. 3). O casal, que era
a natureza desse ministério, mas, como judeu (syngeneis provavelmente significa
foi em data posterior, provavelmente essa "compatriotas judeus" [como em 9.3], e
função tinha seu foco voltado sobretudo ao não parentes), converteu-se a Cristo antes
cuidados dos membros mais pobres e fra- de Paulo e tinha estado com ele na prisão
cos da igreja. Talvez a posição secular de - provavelmente devido a seu ministério
Febe tenha tido algo a ver com sua nomea- comum como apóstolos. Uma vez que não
ção para esse ministério, pois Paulo a cha- sabemos nada deles por outras passagens,
ma no v. 2b de prostatis, uma palavra que Andrônico e Júnias provavelmente não fo-
muitas vezes designava pessoas ricas que ram "apóstolos" da mesma forma que, por
se tomaram "benfeitoras" e patrocinadoras exemplo, Paulo e Pedro o foram - divi-
de pessoas e movimentos (a NVI parafraseia namente escolhidos como representantes
a expressão assim: "tem sido de grande au- do Cristo ressuscitado com uma autorida-
xílio"). Paulo menciona Febe porque ela de singular (v., e.g., At 1.12-26; Ef 2.20;
está indo para Roma, provavelmente como lCo 15.7-9). Apóstolos aqui, em vez disso,
portadora da carta de Paulo à igreja (2a). teria o sentido de "missionário" ou "men-
As saudações de Paulo não obedecem a sageiro" (v. 2Co 8.23; Fp 2.25).
uma sequência óbvia, mas talvez comecem Amplíato (8) não é mencionado em
por aqueles a quem Paulo conhece melhor outras partes do NT, mas pode ser a pes-
e com quem trabalhou pessoalmente (3-7), soa cujo túmulo foi encontrado nas cata-
e terminem com aqueles a quem ele não cumbas de Domitila, uma mulher rica e
conhece tão bem (8-15). Priscila e Àquila de família imperial, aparentemente cristã.
certamente pertenciam à primeira catego- Urbano, Estáquis (9) e Apeles (10a) são
ria. Paulo os encontrou pela primeira vez também pessoas de quem não temos outras
em Corinto, para onde foram porque tinham informações. Aristóbulo, porém, que tinha
sido forçados pelo decreto do imperador cristãos em sua família (1 Ob), pode ter sido
Cláudio a abandonar a sua casa em Roma o irmão de Agripa I, rei da Judeia de 41 a
(At 18.2). Eles se tomaram companheiros 44 d.e. (v. At 12). Compatriota judeu de
de trabalho de Paulo, passando muito tem- Paulo isyngenês, cf. v. 7), Herodião pro-
po na igreja de Éfeso (At 18.18,26). Foi vavelmente é um escravo ou um liberto da
talvez aqui, durante o distúrbio naquela família de Herodes, governante hereditário
cidade (At 19.23-41), que eles arriscaram da Judeia. Narciso, cuja família Paulo saú-
sua própria cabeça (4) por Paulo. Agora, da no v. llb, pode ser o mesmo Narciso
vivendo em Roma novamente, eles conti- que ganhou fama (e notoriedade) como ser-
nuam a ministrar à igreja que se reúne em vo do imperador Cláudio. Trifena, Trifosa
sua casa (5a). Epêneto (5b), o primeiro e Pérside, três mulheres que trabalhavam
cristão na província romana da Ásia (Ásia pela causa de Cristo, também são desco-
Menor ocidental), não é mencionado em nhecidas. Paulo saúda nove mulheres nes-
nenhuma outra parte do NT; também nada sa passagem, seis das quais são descritas
sabemos dessa Maria (6). como companheiras de trabalho ou como
ROMANOS 16 1744

as que muito [...] trabalhavam no Senhor mentos (Paulo ironicamente os repreende


(12). Nada nas palavras utilizadas por por colocar muita ênfase no que vai para as
Paulo nos permite identificar a natureza de suas barrigas), outros, à preocupação sen-
seus ministérios, mas devemos dar o devi- sual da satisfação dos próprios prazeres.
do reconhecimento ao papel fundamental Precisamos nos contentar em deixar esses
desempenhado pelas mulheres nos ministé- falsos mestres no anonimato.
rios variados da igreja primitiva - e tam- Sejam eles quem forem, Paulo insta
bém nos ministérios de hoje. Uma vez que os cristãos romanos a que os identifiquem
o evangelho de Marcos provavelmente foi (que noteis bem) e mantenham distância
escrito em Roma, e talvez ao mesmo tempo deles (afastai-vos deles; 17). Esta última
que Romanos, é tentador identificar o Rufo advertência não significava que a igreja
do v. 13 com o Rufo cujo pai carregou a deveria excomungá-los (cf 1Co 5.1-5),
cruz de Jesus para o Gólgota (Me 15.21). mas que deveria evitar o convívio com
Nenhum dos nomes que aparecem nos v. eles. Paulo reafirma sua confiança nos ro-
14,15 é conhecido de outras partes do NT manos cristãos (19; cf 15.14,15; 1.8), mas
ou na história cristã primitiva. não quer que eles sejam ingênuos com os
O ósculo (16a) como forma de sauda- perigos para a sua fé (18b). Imitando o
ção, cumprimento ou despedida era difun- conselho de Jesus ao 12 apóstolos, Paulo
dido no mundo antigo e foi adaptado pela encoraja os cristãos a serem sábios para
igreja primitiva (1Co 16.20; 2Co 13.12, o bem e símplices para o mal (19b; cf
lTs 5.26; 1Pe 5.14). Deve ser, no entanto, Mt 10.16). Ao fazê-lo, eles podem ter a
um ósculo santo, totalmente desprovido de certeza de que o próprio Deus tomará me-
qualquer conotação erótica ou pagã. didas contra os que estão tentando enganá-
los: e o Deus da paz, em breve, esmagará
16.17-20 Advertência acerca debaixo dos vossos pés a Satanás (20; esse
dos falsos mestres versículo deveria ser intimamente asso-
Tão abrupta é a súbita advertência de Paulo ciado aos v. 17-19, v. RSV). Pode ser que
sobre falsos mestres que alguns estudiosos Paulo esteja insinuando que esses falsos
acreditam que essa passagem não perten- mestres, vistos como asseclas de Satanás,
ce a esta seção da carta. Mas, embora esse serão rapidamente esmagados. Mas é mais
tipo de advertência não se encaixe no pa- provável que ele esteja pensando aqui no
drão das seções de encerramento de Paulo, grande clímax do final dos tempos quando,
certamente ele não é assim tão desconheci- em cumprimento de Gênesis 3.15, Deus
do (v. 1Co 16.22; GI6.12,13; Fp 3.2-21). obterá a vitória triunfal sobre Satanás. A
Paulo não deixa claro a quem ele se re- paz (20) que Deus por fim criará é resulta-
fere em sua advertência aos cristãos roma- do tanto da libertação de seu povo como do
nos. Ele os descreve como provocadores de julgamento dos seus inimigos.
divisão e escândalos (skandala; cf 9.33;
11.9; 14.13) entre os cristãos (17). Eles fa- 16.21-27 Saudações
lam com suaves palavras e lisonjas para finais e doxologia
tentar enganar os possíveis inocentes e in- Paulo conclui a carta com saudações de
cautos (18). Eles se preocupam com o seu três cooperadores (21-23) e uma doxologia
próprio ventre (lit. "sua própria barriga"), (25-27).
mas mesmo essa indicação mais específica Timóteo (21) foi um companheiro cons-
em nada nos ajuda a identificar quem eles tante de Paulo desde o início da segunda
eram. Alguns estudiosos acreditam que viagem missionária (At 16.3), e agora está
Paulo está se referindo à insistência judai- com Paulo em Corinto. Lúcio foi identifi-
ca na observância da lei relativa aos ali- cado ocasionalmente como Lucas, o "mé-
1745 ROMANOS 16

dico amado", ou como Lúcio de Cirene Cristo é provavelmente uma explicação do


(At 13.1), mas isso não é provável. Jasom, conteúdo do evangelho), é um mistério que
no entanto, pode bem ser o Jasom que só recentemente foi revelado (2Sb,26a).
hospedou Paulo em sua primeira visita a Somos lembrados da ênfase de Paulo na
Tessalônica (At l7.S-9 - talvez ele teve forma como a justiça redentora de Deus foi
de fugir para Corinto por causa da perse- revelada na cruz e na pregação do evange-
guição), enquanto Sosípatro provavelmen- lho (1.17; 3.21). Se tornou manifesto efoi
te é o mesmo que o Sópatro de Atos 20.4. dado a conhecer por meio das Escrituras
Parentes novamente traduz syngeneis, proféticas (26) é provavelmente um parale-
uma referência aos compatriotas judeus de lo à "revelação", e não algo subordinado a
Paulo, e não a seus parentes consanguíneos. ela (como a NVI interpreta): acrescenta uma
Tércio (22), nunca mencionado em outras segunda descrição do evangelho no v. 2S,
partes do NT, é copista de Paulo, ou o escri- que também retoma um dos temas princi-
ba que anotava as palavras que Paulo lhe pais da carta (1.2; 3.21; cp. 4; 10.14-21).
ditava. Gaio (23), em cuja casa uma das A revelação e a difusão do evangelho têm
comunidades cristãs de Corinto se reunia, ocorrido sob as ordens do próprio Deus e
é quase com certeza o mesmo Gaio men- têm o propósito de que todas as nações (a
cionado em 1Coríntios 1.4, e talvez deva ARA corretamente entende ethnê aqui como
ser identificado também como Tício Justo "nações", e não "gentios" [cf Mt 28.19])
(At 18.7). Paulo identifica Erasto como possam obedecer por fé (lit. "obediência
tesoureiro da cidade (do grego oiknomos da fé"; cf 1.S e o comentário sobre a ex-
tês poleõs), suscitando a pergunta se ele pressão ali). Enquanto continuamos a per-
poderia ser o mesmo Erasto mencionado seguir a realização desse propósito pela
como um "edil" ou "comissário de obras nossa pregação do evangelho, somos lem-
públicas" em uma inscrição do século I de brados de que isso é para a glória final do
Corinto. Mas a palavra que Paulo utiliza Deus único e sábio.
não é um correspondente natural ao latim Nota. 24 Algumas versões modernas
aedilis, de modo que a identificação não é da Bíblia não trazem o v. 24 porque seu
certa. Também não fica claro se o Erasto conteúdo é quase certamente uma adição
mencionado aqui é o mesmo mencionado posterior ao texto de Romanos (cf NVI,
em Atos 19.22 e 2Timóteo 4.20, uma vez mg.). 25-27 A maioria dos comentaristas
que o nome era bastante comum. modernos considera a doxologia nos v.
A doxologia de Paulo, além de concluir 2S-27 uma adição posterior à carta. Mas
a carta com uma nota sublime de decla- não há nada que não seja paulino em seu
ração à glória a Deus, também resume de vocabulário e ideias, ela tem sólido apoio
maneira eficaz alguns dos temas principais externo em manuscritos antigos e sua co-
da carta. A defesa e a explicação que Paulo locação variada (no final do cp. 14 ou cp.
faz do evangelho que prega são, como lS) pode ter surgido do deslocamento da
temos sugerido, o tema central da carta. conclusão original de Paulo quando a carta
Paulo agora nos lembra que é por meio foi abreviada.
desse evangelho que Deus nos "confirma"
em nossa fé (2S). Esse evangelho, que pro-
clama Jesus Cristo (a pregação de Jesus Douglas 1. Moo
1CORíNTIOS

INTRODUÇÃO
Contexto adoravam muitos deuses. Entre eles, Afro-
Na época em que Paulo chegou a Corinto, dite é a mais conhecida. Quando Corinto
no outono de 50 d.C., a cidade já era colô- era uma cidade grega essa deusa era asso-
nia romana havia mais de um século. Antes ciada ao amor e especialmente à prostitui-
ela foi uma cidade grega com uma história ção no templo. Ela havia sido completa-
magnífica, mas foi destruída por Múmio em mente reentronizada no período romano.
146 a.C., depois de entrar em conflito com Alegava-se que ela era a matriarca da fa-
Roma, e ficou em ruínas durante cem anos. mília imperial; daí sua presença na Corinto
O plano de reconstrução da cidade se baseou romana como uma figura venerada, ligada
no modelo-padrão das cidades romanas em ao culto imperial, como em outros locais.
44 a.C., depois da decisão de Júlio César Seria um exagero grosseiro afirmar que
de fazer dela uma colônia romana. Corínto as tendências dos coríntios à imoralidade
se tomou a sede do governo romano para a eram resultantes de seu patronato, e errô-
província da Acaia e logo sua população já neo sugerir que os pecados sexuais dos
era maior do que a de Atenas. Embora fun- coríntios cristãos pudessem ser explicados
dada como uma "base para soldados", aos dessa forma. A imoralidade, seja por for-
quais se juntaram alguns escravos libertos nicação, adultério ou incesto, não estava
provenientes da Itália, a cidade se conso- confinada a Corinto.
lidou rapidamente como um importante Paulo fundou a igreja por volta de 50
centro de cultura e comércio. Algumas das d.C., depois da sua visita a Atenas (At 18.1-
famílias mais abastadas da Grécia foram 7). Ela se originou a partir dos sermões que
atraídas para Corinto e se estabeleceram no Paulo pregou na sinagoga judaica, cujo lí-
concorrido subúrbio residencial nas encos- der estava entre os primeiros convertidos
tas da enorme elevação de 545 metros co- (At 18.8). Inevitavelmente a igreja e a si-
nhecida como Acrocorínto. Essas famílias nagoga entraram em conflito. Os judeus
figuravam entre os benfeitores principais tentaram instaurar um processo criminal
da cidade. Inscrições fornecem evidências contra os cristãos, o qual não surtiu efeito
de muitas delas entre a classe dos sábios, pois Gálio determinou que o cristianismo
dos nobres e dos poderosos. No início da se encontrava sob a égide do judaísmo
era cristã os jogos ístmicos tinham recome- (At 18.12-17), conferindo aos cristãos a
çado sob a sua égide. Os portos que serviam mesma posição privilegiada dos judeus.
a colônia eram Lecaião e Cencreia. As ruí- Essa foi uma decisão com consequências
nas arqueológicas deste último indicam sua de longo alcance, especialmente para os
prosperidade não apenas como um porto, cristãos que eram cidadãos romanos com
mas também como uma cidade-satélite, e obrigações para com o culto imperial.
no momento em que Paulo escreveu sua Paulo passou por um período de desen-
carta aos cristãos romanos havia ali uma corajamento no ministério, o que exigiu
igreja (Rm 16.1). a intervenção direta do Senhor (At 18.9-
Era uma cidade de nível cultural eleva- 11). Depois de 18 meses de trabalho - a
do e os seus cidadãos, como os de Atenas, segunda estadia mais longa de Paulo em
1747 lCORíNTIOS

uma cidade - , ele deixou Corinto. O tra- sem o véu na igreja, abusos na ceia do
balho prosseguiu com Apolo (lCo 3.6), Senhor e a negação da ressurreição do cor-
um orador judeu capacitado que viera po (cp. 1---4; 5; 6; 12; 15).
de Alexandria, e mais recentemente de Para uma discussão mais detalhada das
Éfeso, onde seu ministério floresceu con- cartas dos coríntios e uma reconstituição
sideravelmente com o trabalho de Áquila das várias visitas de Paulo, ver Introdução
e Priscila (At 18.24-28). Eles estiveram a 2Coríntios. Ver também o artigo "Lendo
com Paulo em Corinto desde a fundação as Cartas".
da igreja e trabalharam na mesma profis- Essa primeira carta de Paulo aos co-
são como fazedores de tendas (At 18.2,3). ríntios é o mais extenso documento pas-
Parece que Pedro também esteve em toral do NT e fornece indícios importantes
Corinto (lCo 1.12). de como as difíceis questões pastorais
Antes de escrever 1Coríntios, Paulo pa- devem ser tratadas. Fornece também res-
rece ter escrito uma carta sobre a associa- postas cruciais a problemas críticos que
ção com pessoas imorais que foi mal inter- de uma forma ou de outra ainda assom-
pretada pelos coríntios (l Co 5.9). Nessa bram a igreja hoje.
época Paulo tinha se mudado para Éfeso,
quando alguns da casa de Cloe trouxe-
ram notícias das divergências na igreja Leitura adicional
(l Co 1.11). Também vieram outros, como PRIOR, D. A mensagem de 1Coríntios. BFH.
Estéfanas, Fortunato e Acaico (lCo 16.17), ABU, 2001.
trazendo uma carta que os coríntios tinham CARSON, D. A. showing the Spirit: a theolo-
escrito em busca de orientações de Paulo gical exposition of lCorinthians 12-
sobre várias questões pastorais comple- 14. Baker Book House, 1987.
xas que afetavam a igreja - casamento, CARSON, D. A. The Cross and Christian
alimentos oferecidos aos ídolos, dons es- Ministry: an exposition of passages
pirituais, a coleta para os judeus cristãos from 1Corinthians. Inter-Varsity Press/
de Jerusalém e o pedido para o regresso de UK/Baker Book House, 1993.
Apolo (l Co 7.1,25; 8.1; 12.1; 16.1,12). MORRIS, L. 1Coríntios: introdução e co-
Relatórios verbais também revelavam mentário. SCR Vida Nova, 1981.
problemas de divisões, incesto, litígios FEE, G. D. The First Epistle to the
civis, imoralidade, mulheres profetizando Corinthians. NICNT. Eerdmans, 1987.

ESBOÇO
1.1-3 Autores e destinatários
---c-c--:--:---,---c-----
1.4-4. 21 Abordagem cristã ao ministério na igreja
- 1.4-9 Ações de graças pela ~su-:f:-ic-iê-n-cia total de Cristo
1.10-17a As divisões provocadas por idolatrar mestres cristãos
1.17b-2.5 Gloriar-se no Senhor e não na elite instruída
2.6-16 A sabedoria revelada pelo Espírito
3.1-23 O problema contínuo dos coríntios
4.1-5 Ministério e críticas
4.6-13 Ministério e posição
4.14-17 Paulo, o apóstolo, como pai dos coríntios
4.18-21 As opções diante dos coríntios
1CORíNTIOS 1748

5.1-6.20 Questões morais


5.1-8 A imoralidade e a esfera legítima de disciplina da igreja
5.9-13 A esfera de julgamento da igreja
6.1-8 As ações judiciais entre os membros
6.9-20 Contra a libertinagem cristã

7.1-40 Questões conjugais


7.1-6 Aos casados
7.6,7 O dom do casamento e o do celibato
7.8,9 Aos que não têm parceiros conjugais
7.10,11 Aos casados
7.12-16 As opções com um parceiro não cristão
7.17-24 O chamado pessoal de Deus
7.25-38 Casar agora ou esperar
7.39,40 A viúva

8.1-11.1 As obrigações do evangelho em um mundo pluralista


8.1-13 Carne sacrificada aos ídolos
9.1-14 Direitos e ministério
9.15-23 O evangelho gratuito de Paulo
9.24 -10.13 Correndo e não caindo
10.14-11.1 O sacrifício aos ídolos e a ceia do Senhor

11.2-14.40 A vida disciplinada da igreja


11.2-16 Cobrindo a cabeça no culto
11.17-34 Os problemas na ceia do Senhor
12.1-13 Há somente um Espírito Santo
12.14-31 Há somente um corpo de cristãos
13.1-13 Dons exercidos no contexto de relacionamentos
de compromisso
14.1-19 Profecias, línguas e a igreja
14.20-25 Profecias, línguas e os incrédulos
14.26-36 De maneira apropriada e ordeira
14.37-40 Advertências e conclusões

15.1-58 A ressurreição do corpo dos cristãos


15.1-11 O evangelho e a certeza da ressurreição de Cristo
15.12-34 A ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição
15.35-44 Analogias de sementes e corpos
15.45-49 Analogia de Adão e Cristo
15.50-57 A garantia da vitória
15.58 Instruções finais

16.1-24 Outros assuntos


16.1-4 Organizando a coleta
16.5-9 Os preparativos para a viagem de Paulo
16.10,11 A visita proposta de Timóteo
1749 1CORíNTIOS 1

16.12-14 o retorno de Apolo


16.15-18 O bom exemplo da casa de Estéfanas
16.19-22 Saudações finais

COMENTÁRIO "saúde" Paulo acrescenta graça, algo que


nos é dado como um presente não mereci-
1.1-3 Autores e destinatários do (Rm 6.23). Essas bênçãos são reais pois
As cartas escritas na época de Paulo co- emanam de Deus, nosso Pai, e do Senhor
meçavam mencionando primeiramente o Jesus Cristo (cf 8.6).
autor e então as pessoas a quem elas se di-
rigiam. Paulo faz referências a si mesmo e 1.4 -4.21 Abordagem cristã
às suas qualificações para escrever - ele ao ministério na igreja
não se intitulava mestre nem trabalhador
cristão por sua própria vontade, mas sim 1.4-9 Ações de graças pela
alguém comissionado segundo os propósi- suficiência total de Cristo
tos de Deus para ser missionário e porta- Na seção de ações de graças, Paulo com
voz de Cristo. A carta tem um "coautor", frequência prenuncia as questões que ele
Sóstenes (l), que é descrito como irmão. precisará tratar posteriormente em suas
A inclusão de Sóstenes demonstra o con- cartas. Ele sempre pode dar graças porque
ceito que Paulo tinha do trabalho em equi- a suficiência de Deus é capaz de solucionar
pe no ministério apostólico. Paulo não era todas as nossas necessidades na pessoa de
uma "prima-dona" e nunca chama os que seu Filho.
compartilham de sua obra de "seguidores" Aqui ele faz referências ao sentimento
ou "discípulos", mas de colegas -"com- de inferioridade dos que não pertenciam à
panheiros de trabalho". Nem considera a elite dessa colônia romana. Muito cristãos
igreja como "sua", embora ele tivesse sido não pertenciam à elite. Ele menciona es-
seu fundador - a igreja é de Deus e per- pecificamente a refinada arte da oratória,
tence somente a ele (2). i.e., a retórica (lagos) e o conhecimento.
A posição da igreja é determinada pela Essas eram ferramentas utilizadas pelos
obra de Cristo, que fez de seus membros mestres e oradores públicos bem prepa-
santos. Em consequência disso, eles for- rados, mas seriam elas cruciais para o
mam uma classe peculiar de pessoas, os testemunho cristão e para os pregadores
"santos". A sua posição como santifica- e mestres nas reuniões cristãs? O tradi-
dos ou santos não se deve às suas atitudes cional amor dos coríntios pela oratória
santas - na verdade, alguns estavam até ("até mesmo entre mulheres e crianças",
envolvidos em ações pecaminosas (5.1; Dia Chrisostom Or. 37) também explica
6.1,16; 8.10; 10.8 etc.). Ela só é adquirida a razão de alguns na igreja terem pedi-
graças ao que Cristo fez (cf 1.30). Paulo do o retomo de Apolo, pois o preferiam
não apenas enfatiza a posição deles - os a Paulo. É claro que Apolo havia usado
coríntios seculares eram arrogantes e se sua capacitação em retórica nas suas pre-
consideravam superiores por viverem na gações (lCo 16.12; At 18.24-28). Essa é
capital da Acaia - mas sobretudo sua ori- uma das questões principais discutidas
gem espiritual comum com cada pessoa na carta. Em cada um desses versículos
no mundo que clama pelo nome de nos- Paulo menciona Jesus Cristo. O povo de
so Senhor Jesus por salvação (Rm 10.13). Deus é importante, pois tudo que ele é e
Cristo é tanto o Senhor deles como nosso. será é resultado do que Deus fez por ele
3 À saudação secular comum de paz ou na pessoa de seu Filho (cf 1.30), e não
1CORíNTIOS 1 1750

resultado da posição secular ou dos seus ou batizados por meio dos ministérios de
privilégios ou conquistas pessoais. Paulo, Apolo e Pedro comportavam-se des-
4 Sua razão para agradecer a Deus cons- sa mesma maneira, como se fossem seus
tantemente é o reconhecimento da graça seguidores exclusivos, e se envolviam do
que Deus concedeu aos coríntios em Cristo mesmo modo em discussões sobre os mé-
Jesus. 5 Isso resultou no enriquecimento de ritos de seus mestres cristãos. Paulo decla-
cada aspecto da vida deles. Paulo selecio- rava que essa forma de lealdade era idola-
nou uma área crucial para o evangelismo tria. Ele queria que os coríntios seguissem
cristão: a pregação e o ensino: em toda a o Messias, e não seus servos. A prática de
palavra e em todo o conhecimento. Esses idolatrar mestres ou pregadores "carismá-
eram dons transmitidos a eles por Cristo. ticos" que procuram a lealdade de "seus"
7 Em decorrência disso, eles não tinham membros sempre foi e continua sendo um
deficiência em nenhum dos dons necessá- desastre para a comunidade cristã.
rios a seus ministérios, enquanto aguarda- O apelo de Paulo pela unidade, contra-
vam, não pelo fim de suas vidas devido a riando a percepção que os coríntios tinham
um acontecimento inevitável, mas pela do papel dos mestres cristãos - Paulo
revelação do Senhor Jesus Cristo. A ex- nunca usa o termo "líderes", de uso secu-
pectativa da segunda vinda representa uma lar e que sempre implica superioridade de
mudança radical na visão de mundo dos posição - , é baseado no nome de nosso
coríntios, que previamente viam a história Senhor Jesus, o qual eles invocam por sal-
da humanidade como algo eterno em um vação (1.2). Não é um apelo que busca a
mundo indestrutível. 8 Em uma sociedade unidade em tomo do menor denominador
em que os que não pertenciam à elite eram comum, mas um clamor urgente: que faleis
julgados socialmente e politicamente insig- todos a mesma coisa [...] sejais inteiramen-
nificantes, Paulo enfatiza a verdade de que te unidos, na mesma disposição mental e
Cristo os manterá fortalecidos para que se- no mesmo parecer (lO). A proibição das
jam apresentados irrepreensíveis no dia de divisões e a exigência para que os cristãos
nosso Senhor - uma expressão do AT que permaneçam unidos na mesma disposição
se refere ao dia do juízo. 9 Por eles mesmos mental os incita a buscar entender a mente
isso seria impossível, mas o Deus que os de Deus em relação a essa questão. Paulo
chamara à comunhão de seu Filho é abso- faz uma argumentação cuidadosa sobre
lutamente confiável, pois ele não pode dei- isso em 1.10--4. 21.
xar de cumprir suas promessas. Entretanto, 12 Paulo deixa bem clara a acusação,
nenhum dos filhos de Deus deve se deixar Refiro-me ao fato, isto é, "de cada um de
paralisar no serviço cristão por um senti- vós dizer" - Eu sou de ..., isto é, "Eu per-
mento de inferioridade ou de inadequação tenço a...". Depois de alguns se declara-
mas deve olhar para Cristo, que é suficiente rem leais a mestres proeminentes na igreja,
para suprir as suas necessidades. outros parecem ter se definido como par-
tidários de Cristo. 13 Cristo nunca pode
1.10-17a As divisões provocadas ser propriedade exclusiva de um grupo
por idolatrar mestres cristãos em uma igreja (cf 1.2), por isso a pergun-
Naquela época, os pupilos ou "discípulos" ta: Acaso, Cristo está dividido? Uma vez
de um mestre secular tinham de prestar leal- que a igreja é o corpo de Cristo, não pode
dade exclusiva a ele. Tradicionalmente eles ser dividida. Tais expressões de lealdade a
se envolviam em discussões com o grupo Paulo e a outros mestres são vistas por ele
rival de alunos sobre os méritos de seus como usurpação do lugar de Cristo. Assim
mentores, os quais por tradição invejavam como alguns objetos religiosos encontra-
uns aos outros. Os coríntios convertidos dos em Corinto continham inscrições como
1751 1CORíNTIOS 1

"Eu pertenço a Afrodite" ou "Eu pertenço como conteúdo a cruz de Cristo. Cristo
a Demétrio", também essas expressões enviara Paulo para pregar o evangelho e
equivocadas de fidelidade exclusiva se re- não para reunir em tomo de si um grupo
vestem de um caráter idólatra - elas im- de seguidores.
plicam que Paulo e os outros mestres eram 18 Em um provável jogo de palavras,
mediadores da salvação de seus seguidores. Paulo chama o evangelho de a mensagem,
A entrada deles no Reino de Deus, expressa literalmente "a oratória" (logos) da cruz.
no batismo, não se dava mediante o nome Ele argumenta que a reação à sua pregação
do evangelista que havia pregado para eles. é dupla. Por alguns é considerada um ab-
Essas expressões de lealdade aos mestres surdo (cf At 26.24), mas por outros é um
tomavam o lugar do compromisso e da meio poderoso pelo qual eles se tomam o
lealdade cristãs devidas somente a Cristo. povo de Deus. Nos v. 18-31 duas citações
Não poderia ser dito que o batismo cristão das Escrituras abrem e concluem sua argu-
concretizava a filiação ao grupo de Paulo mentação (Is 29.14 e Ir 9.24). A primeira
ou indicava qualquer tipo de relacionamen- (19) promete que Deus destruirá a admi-
to especial com ele, pois Paulo havia bati- rada sabedoria e inteligência dos sábios; a
zado poucos dentre eles (14-16). segunda (31) renuncia à glória dos sábios,
17a Paulo explica que seu chamado dos ricos e da elite poderosa e exige que
apostólico não era batizar, mas sim pre- os que se gloriam devem gloriar-se apenas
gar o evangelho, e então na seção seguinte no Senhor.
continua a dar as razões de ele haver re- Paulo afirma que a retórica e a reflexão
nunciado ao uso de métodos dos pregado- teológica tão admiradas de sua época falha-
res públicos profissionais. ram, pois não podiam levar as pessoas a co-
nhecer a Deus (20-25).20 Nem o sábio, isto
1. 17b-2.5 Gloriar-se no Senhor é, o filósofo, nem o estudioso ou o escriba
e não na elite instruída (judeus), nem literalmente o inquiridor
Esperava-se que um orador público do sé- deste século, isto é, o orador, nenhum deles
culo I elaborasse com capricho discursos em sua época entendia a educação como
bem preparados, capazes de chamar a aten- sabedoria de Deus. Comparada à sabedo-
ção para a sua habilidade de emprego das ria de Deus, a sabedoria deles era loucura.
regras da retórica. A oratória era chamada 21 Apesar dos debates altamente sofistica-
de "magia", pois enfeitiçava os ouvintes. dos da teologia natural, feitos pelos estóicos
O conteúdo dos discursos era secundário, e epicureus sobre a "natureza dos deuses",
somente o desempenho importava. Eles aquele mundo de intelectuais não conhecia
discursavam para serem adulados por sua a Deus. Os propósitos de Deus eram alcan-
plateia. 17b Paulo não utilizava nenhum çados por meio do que era considerado lou-
dos truques dos oradores profissionais, pois cura, isto é, o que Paulo pregava, a fim de
ele não pregava com sabedoria de palavra, salvar os que depositavam a sua confiança
literalmente "pelos meios da sabedoria da nessa mensagem. 23 Um Messias crucifica-
retórica". Adotar a convenção secular se- do desafiava todas as expectativas judaicas
ria promover o orador, de cujo desempe- e era considerado algo absurdo para o mun-
nho os ouvintes fariam um julgamento. do gentio. 24 Tanto a sabedoria quanto o
Isso desviaria a atenção dos ouvintes da poder de Deus são encontrados em Cristo.
cruz para o próprio Paulo, roubando assim 25 Ainda isso pode ser considerado tolo e
a oportunidade de eles ouvirem a respeito fraco pelos homens, Deus é muito mais sá-
do feito maravilhoso pelo qual Deus sal- bio e forte do que eles.
va as pessoas. Essa mensagem revestida 26-31 Paulo exorta os coríntios a re-
de autoridade é chamada evangelho e tem fletir sobre a posição ou classe secular de
1CORíNTIOS 2 1752

todos os que Deus escolheu para demons- crucificado. Ele já sabia qual era o con-
trar a natureza de sua sabedoria. A elite do teúdo de sua mensagem antes de chegar.
século I era descrita como sábia e influente 3,4 Paulo descreve em termos negativos o
na esfera política e de procedência nobre. que os oradores chamavam de "presença".
Dentre estes, não muitos foram chamados Ele não era uma figura carismática, pois
por Deus (26). Deus escolheu os loucos em estava ali emfraqueza, temor e grande tre-
comparação aos sábios, os fracos em vez mor, e sua palavra (ou melhor, "oratória")
dos poderosos e os que a sociedade secu- e pregação não eram elaboradas com o
lar considerava como "nada" em oposição recurso a técnicas persuasivas de oratória,
aos que eram bajulados como importantes fazendo representações ou jogando com
(27,28). O propósito de Deus ao fazer isso os sentimentos dos ouvintes e fazendo uso
foi evitar que as pessoas se vangloriassem das demonstrações clássicas recomenda-
por sua posição no mundo (29,30). Tudo é das nos manuais de retórica. Em vez de
uma questão de favor divino, pois tudo o utilizar uma das técnicas recomendadas
que é necessário deve ser encontrado em por Aristóteles, sua mensagem era acom-
Jesus Cristo (vós sois dele), como Paulo panhada pelo poder do Espírito. 5 Fazia
destacou ao dar graças (1.4-7). Para Paulo, isso pois queria que a fé dos coríntios fos-
bem como para todos os cristãos, sabedo- se depositada no poder de Deus e não na
ria, justiça, santidade e redenção são en- eloquência do orador. Paulo não era um
contradas em Cristo. Por isso as palavras orador eloquente ou convincente que per-
de Jeremias 9.24, dirigidas à elite de sua suadia os coríntios a se tomar cristãos. Ele
época, são citadas com muita propriedade, se diferenciava dos oradores profissionais
uma vez que nem a sabedoria, nem os po- por não adaptar o conteúdo de sua mensa-
derosos e nem os bem-nascidos devem se gem aos métodos persuasivos tão em voga
vangloriar de qualquer coisa, a não ser do em Corinto, pois Deus rejeitara os debates
Senhor (31). deste século (1.20).
1-5 O começo do ministério de Paulo.
Segue agora uma ilustração a respeito da 2.6-16 A sabedoria
insuficiência da sabedoria e da retórica revelada pelo Espírito
do mundo. No texto original, as palavras A sabedoria divina é contrastada à sabe-
"E eu" ligam essa passagem à declaração doria tão admirada pela classes dirigentes.
anterior referente a gloriar-se somente no Deus tem se deleitado em revelar sua sabe-
Senhor (1.31). Os v. 1,2 e 3,4 começam doria por meio do seu Espírito aos apósto-
com as palavras "e eu" (no original), e des- los, no-lo revelou (10). O nós implícito nos
crevem as atividades de Paulo, nesse caso, v. 6,7,13 e 16 não se refere aos coríntios
na primeira vez em que chegou a Corinto. cristãos, cujo comportamento, como está
Os oradores seguiam certas convenções registrado nessa carta, demonstra que eles
marcantemente tradicionais quando en- não possuem a mente de Cristo (16; cf
travam em uma cidade. Esperava-se deles 5.1; 6.1; 11.1). Nem se refere aos cristãos
discursos elegantes em louvor da cidade e em geral, mas antes ao ministério singular
de seus feitos pessoais. E eles assim o fa- dos apóstolos.
ziam para engrandecer sua reputação e co- 6-8 Paulo declara que prega não apenas
lher as recompensas financeiras como ora- o evangelho, mas também a sabedoria de
dores políticos e mestres dos ricos. Paulo Deus. Ela é exposta entre os experimen-
deixa isso claro nos v. 1,2: ele rejeitava as tados. Os tão admirados oradores virtuo-
convenções que exibiam a eloquência ou a sos da época de Paulo usavam esse termo
sabedoria clássicas ao proclamar o teste- em relação a si mesmos e alegavam fazer
munho de Deus sobre Jesus Cristo e este o mesmo de seus pupilos. Eles seriam os
1753 1CORíNTIOS 3

dirigentes futuros de cidades e Estados. não é examinada por ninguém. Se ele se


Paulo talvez esteja pensando nisso quando refere ao cristão espiritual, então poderia
diz o que a sua sabedoria não é - ela não significar que ele nem vive nem morre
é a sabedoria deste século, nem dos diri- pelo julgamento dos homens, mas somente
gentes de um mundo que está agonizando. quando é examinado pela palavra de Deus.
Ele então a define (7). Ela é a sabedoria 16 Paulo cita Isaías 40.13, que pergunta
de Deus em mistério, outrora oculta, mas se há alguém que conheceu a mente do
agora revelada, e que foi destinada à nos- Senhor para que possa instruí-lo. Ele afir-
sa glória antes da eternidade. A despeito ma que os apóstolos têm a mente de Cristo,
de sua formação sofisticada, os dirigentes que é o Senhor. Será que isso significa que
deste século nunca a compreenderam, pois Paulo está demonstrando indiferença para
se a tivessem compreendido não teriam com aqueles coríntios que o estavam exa-
tomado parte na crucificação de Jesus, minando e julgando (cf 4.3)?
que aqui é chamado de Senhor da glória A passagem lida com o fato de que
(cf At 13.27). Deus é um Deus que "fala" (cf Dt 4.33-
9 Isaías 64.4 é citado por chamar aten- 36), que escolheu abrir seu coração e sua
ção para a graça totalmente inesperada que mente por meio dos seus servos, os apósto-
Deus concedeu aos que o amam. 10a O los. Atribuir as palavras dos apóstolos "ex-
versículo de Isaías não é uma referência pomos" e "falamos" (ambas no presente, v.
a algo que descobriremos no futuro, por 6,13) à sabedoria de Deus revelada aponta
meio dos propósitos individuais de Deus para o fato de que os apóstolos falaram a
para seu povo, nem a dons inesperados, palavra de Deus - esse é o motivo de a
pois Paulo usa o verbo no passado quando igreja defender historicamente o ponto de
declara mas Deus no-lo revelou, ou seja, vista de que os apóstolos disseram o que
aos apóstolos, por meio da ação do Espírito Deus disse.
Santo (cf lPe 1.12). 10b,1l Assim como
somente cada pessoa pode saber o que ela 3.1-23 O problema
mesma pensa, também somente o Espírito contínuo dos coríntios
de Deus conhece as coisas de Deus. 12 Os Assim como Paulo ilustrou sua discussão
apóstolos não pensam como o mundo pen- de 1.10-31 sobre glorificar-se no Senhor
sa pois eles receberam o mesmo Espírito com uma referência à sua própria vinda
para que pudessem entender o que Deus para Corinto, ele também o faz em 3.1-23.
tão generosamente nos concedeu em seu Ele discute os problemas originais e con-
Filho. 13 Os apóstolos não utilizam a sa- tínuos dos cristãos de Corinto em relação
bedoria deste mundo para transmitir suas a divisões (1-9), ao papel do apóstolo fun-
verdades, antes empregam palavras en- dador e aos cuidados presentes necessários
sinadas pelo Espírito, conferindo coisas para construir a igreja devido ao julgamen-
espirituais com espirituais. Eles não recor- to futuro (10-17), concluindo com uma
rem às técnicas retóricas utilizadas pelos correção dos equívocos cometidos pelos
oradores profissionais. mestres no relacionamento com o povo de
14,15 A pessoa sem o Espírito, literal- Deus (18-23).
mente "a pessoa natural", rejeita o que o 1 Assim como em 2.1 e 2.3, aqui Paulo
Espírito ensina, pois isso requer um exa- começa com mais um "e eu" (no original)
me espiritual. Por outro lado, o homem com o intuito de discutir posteriormente
espiritual questiona todas as coisas, isto suas experiências em Corinto. Quando che-
é, o que o Espírito ensina. Se a referên- gou pela primeira vez à cidade, ele não con-
cia aqui é aos apóstolos, então fica claro seguiu se dirigir a eles como a espirituais,
por que Paulo diz que a pessoa espiritual mas somente como a carnais e crianças
1CORíNTIOS 4 1754

em Cristo. 2 A condição deles era determi- damento. Materiais de construção podem


nada naquela ocasião por sua dieta, e ainda ou não ser duráveis (apesar de o ouro, a
o é. 3 Que eles ainda são carnais fica claro prata e as pedras preciosas normalmen-
pela ocorrência de ciúmes e contendas em te não serem usados, exceto para decorar
relação a seus mestres. Andais segundo os o edificio). 13 No século I também havia
homens significa literalmente "agir como construtores desonestos, mas virá o Dia
os homens", isto é, guiados por normas do do juízo quando os fatos serão trazidos à
mundo. 4 Quando eles se apegam exclusi- luz e o fogo testará os materiais que foram
vamente ao líder, seja ele Paulo ou Apolo, utilizados. 15 Os construtores desonestos
o apóstolo precisa perguntar novamente: verão o fogo destruir todo o seu trabalho e
Não é evidente que andais segundo os ho- eles próprios serão queimados. Sua salva-
mens? A secularização nesse caso procede ção não está em questão, mas o papel que
do pensamento mundano aplicado ao mi- receberam de Deus para desempenhar na
nistério cristão. 5 Os cidadãos de Corinto igreja tem sido desacreditado por suas pró-
eram um retrato de seu mundo ao avaliar prias ações. 16 Complementando a analo-
as pessoas por seus privilégios, posição gia utilizada por Paulo no v. 9, ele descreve
e riqueza; Paulo pergunta se também não o povo de Deus como o santuário em que o
era isso que os cristãos estavam fazendo. Espírito de Deus habita.
Ele usa termos que refletem uma posição 18 Os coríntios estavam enganados
humilde ao descrever Apolo e a si mesmo a respeito da sabedoria. Paulo desafia os
como servos por meio de quem crestes. reconhecidamente "sábios" ou que perten-
Eles não podiam reivindicar crédito pes- ciam à "elite acadêmica" entre os cristãos
soal pois era o Senhor quem tinha con- a reconhecer a sua própria ignorância para
cedido a cada um a sua tarefa. 6 Em uma que se tomem realmente sábios. 19,20 A
colônia romana elitista, que desprezava os razão para isso é dada e sustentada por cita-
trabalhadores braçais, Paulo designa tanto ções de Jó 5.13 e Salmos 94.11. 21 Assim,
Apolo quanto a si mesmo como lavrado- o Portanto traça para os coríntios as im-
res com diferentes obrigações. 8 Tanto o plicações de sua discussão até esse pon-
que planta quanto o que rega tem um único to: ninguém devia se gloriar nos homens.
propósito; eles não estão competindo en- Todas as coisas pertencem a eles, uma vez
tre si, e cada um será recompensado com que Cristo os enriqueceu de todas as ma-
base em seu próprio trabalho. 9 Pois somos neiras (cf 1.4-7). 22 Não é a comunidade
colaboradores de Deus, assim como os co- cristã que pertence a mestres específicos,
ríntios são a lavoura de Deus e o edificio mas sim os mestres que pertencem à comu-
de Deus. Assim como os edificios impo- nidade. Cada um deles dizia: "Eu pertenço
nentes de Corinto tinham o nome de seus a...", mas Paulo diz: "Paulo, Apolo e Pedro
benfeitores inscritos neles, assim também pertencem a vocês".Tudo na vida perten-
os coríntios eram o edificio de Deus. Não ce a eles, inclusive o presente e o futuro.
cabia nenhum pensamento do tipo "estes 23 Eles não pertencem aos mestres, mas ao
são os meus convertidos" e nem de que os Messias, que pertence a Deus. Paulo nunca
cristãos "pertencem" a um evangelista ou disse: "Essa é a minha igreja", embora ele
mestre em particular. fosse o seu apóstolo fundador.
10 Pela graça de Deus Paulo não é
apenas o apóstolo fundador da igreja, mas 4.1-5 Ministério e críticas
também seu arquiteto. Os mestres pos- 1 Paulo usa dois termos bem apropriados
teriores continuam a construir o edificio para descrever o papel dos mestres na
e precisam fazê-lo com muito carinho e igreja - ministros ("servos", NVI; TB), li-
cuidado. 11,12 Jesus Cristo é o único fun- teralmente "empregados", e despenseiros
1755 lCORíNTIOS 4

("encarregados", NIV). O primeiro leva o artificio aqui, usando ironia com grande
sentido de responsabilidade em relação efeito, embora à medida que a discussão se
a Cristo no serviço em que a pessoa está desenrola se possa notar que não há nada
envolvida. O segundo se refere à ativida- de velado em suas intenções. Ele se utili-
de de um servo fundamental em uma casa, za desse recurso para que a congregação
cuja tarefa é transferir os recursos do dono aprenda o significado da declaração não ul-
da casa aos membros da família de acordo trapasseis o que está escrito. Isso se refere
com as necessidades de cada um. O que foi às Escrituras do AT, às quais Paulo frequen-
confiado a Paulo são os mistérios de Deus, temente se refere nos cp. 1-4. A conduta
isto é, a sabedoria de Deus discutida no ca- da igreja cristã está vinculada às Escrituras.
pítulo anterior. Ele é o portador da mensa- Certamente esse é o caso da acusação de
gem. 2 Certas qualidades eram esperadas Paulo aos coríntios, pois as Escrituras de-
de um despenseiro. No contexto cristão o sempenharam um papel decisivo na acusa-
que se exige é a fidelidade - o registro ção de Paulo de que os cristãos de Corinto
da infidelidade no mundo secular é bem estavam idolatrando a sabedoria secular e
documentado. 3a Paulo pouco se importa a oratória. Paulo estava prestes a corrigir a
com o julgamento dos outros, sejam eles conduta deles, provocando a consciência
da comunidade cristã ou não (cf 2.1-5 e deles para que mudassem de pensamento
At 17.19-34, em que pregadores públicos e conduta. 6b O que eles vinham fazen-
são julgados). 3b-S Embora ele não sou- do é explicado de forma detalhada, pois
besse de nenhuma conduta inapropriada cada um estava se vangloriando de um
em seu ministério cristão, Paulo faz ques- mestre em detrimento de outro. 7 Ao fa-
tão de enfatizar que o Senhor é seu juiz, zer três perguntas confrontadoras, ele os
e conclui com a ordem para que a nada ensina a evitar uma conduta contrária às
julguem antes do tempo, isto é, o Dia do Escrituras. A primeira está relacionada a
Senhor. Cristo é o que exporá as tentativas 1.30, em que é dito que a obra de Deus
de ocultar as más ações e julgará não ape- em Cristo é o que faz deles quem são. A
nas as ações, mas também as motivações. segunda diz respeito à seção de ações de
É nesse momento que cada um receberá graças em 1.4-9, em que eles são lembra-
o seu louvor, isto é, a sua aprovação de dos de que foram enriquecidos de todas as
Deus. Como mostra 2Coríntios 10.10-13, maneiras em Cristo, e especialmente com
os coríntios tiveram dificuldade em apren- respeito à abundância de dons. A terceira
der essa lição; a igreja posterior não tem se explica por que o seu orgulho é totalmente
dado melhor nesse aspecto. inapropriado, pois os seus dons não eram
produzidos por eles mesmos nem resulta-
4.6-13 Ministério e posição vam de privilégio ou posição, embora sua
A ligação com 4. 1-5 é clara. A comparação arrogância sugerisse isso.
feita pela congregação entre Paulo e Apolo Após essas perguntas, que efetivamen-
(um julgamento prematuro) tem impac- te deveriam eliminar toda a arrogância dos
to direto sobre o futuro do ministério dos cristãos, Paulo usa de ironia nos v. 8-13.
dois em Corinto (v. discussão em 16.12 Aqui Paulo esboça alguns contrastes entre
que mostra como a congregação escreveu, os cristãos de Corinto e os apóstolos. 8 Os
pedindo o retomo de Apolo a Corinto). oradores e integrantes das classes sociais
6a Estas coisas, irmãos, apliquei-as refe- mais altas orgulhavam-se de sua autossufi-
re-se ao recurso literário chamado "alusão ciência assegurada por suas riquezas e in-
velada" que era usada para se referir indi- fluência política que lhes permitiam viver
retamente a uma pessoa ou situação, e era como pessoas independentes (v. Filo, The
uma forma de ironia. Paulo emprega esse Worse overcomes the Better 32-34). Paulo
1CORíNTIOS 4 1756

declara ironicamente que os cristãos se ele os gerou. 16 Sobre essa base ele os en-
comportavam (reinavam) da mesma ma- coraja a imitá-lo. Essa imitação não devia
neira embora sem nós. Ele apenas desejava ser como a dos discípulos em relação a
que eles reinassem; assim ele também reina- seus mestres seculares, que imitavam o seu
ria. 9 Esse não é o caso, pois Deus colocou modo de vestir, andar e ensinar, mas, antes,
os apóstolos em uma posição de ignomínia deviam imitá-lo ao suportar a infâmia em
- como escravos capturados que seguiam nome da mensagem da cruz. 17 Timóteo, o
no final da procissão nos desfiles em co- fiel companheiro efilho amado, está vindo
memoração das vitórias romanas antes de para lembrá-los dos caminhos de Paulo em
serem sacrificados. Os apóstolos não eram Cristo Jesus, o qual, por toda parte, ensino
um espetáculo somente diante dos homens, em cada igreja. Paulo não apenas ensinava
mas diante de todo o mundo invisível. a natureza do verdadeiro discipulado, mas
10 Paulo compara as descrições da posi- conseguia combinar vida e doutrina, e espe-
ção social dos "não [...] muitos") a que se rava que todos os cristãos o imitassem.
referiu em 1.26 aos cristãos de Corinto,
e a posição social dos muitos que Deus 4. 18-21 As opções diante
escolheu (1.27,28) à dos apóstolos. 11 Até dos coríntios
esse ponto eles tinham recebido o mesmo O Reino de Deus não trata de filosofia teó-
tratamento que os prisioneiros de guerra. rica, mas do poder - poder de transfor-
12,13 Enquanto a classe alta se vangloriava mar (6.9-11). A escolha era deles (21). Ou
de nunca ter feito trabalhos braçais, Paulo eles se arrependiam de sua conduta, o que
trabalhara (cf 9.6). A resposta dos apósto- permitiria que Paulo viesse em espírito de
los à infâmia que se amontoava sobre eles amor e de mansidão, ou ele viria como um
foi suportá-la e até mesmo responder com governador secular, com seus oficiais que
bênçãos quando eram abusados. andavam com chicotes como sinal de auto-
ridade para infligir castigo.
4.14-17 Paulo, o apóstolo, Nessa longa seção, 1.4-4.21, Paulo
como pai dos coríntios trata de questões relacionadas às atitudes
Assim como as autoridades seculares da corretas dos cristãos para com o ministé-
colônia romana de Corinto registravam em rio. O ministério deve ser visto como algo
inscrições que Júlio César fora o seu fun- orientado pelo evangelho, e não como al-
dador e reconheciam a jurisdição do pre- guma forma de liderança cristã que sim-
sente imperador ao atribuir o mesmo título plesmente copia os modelos do mundo e
a ele, também Paulo usa a imagem do pai aparentemente só é confiado aos cristãos
fundador da comunidade cristã para reco- culturalmente conscientes de Corinto.
mendar a eles que o imitem. 14 Ser alvo de Paulo não usa o termo "líder" devido às
críticas nessa cultura era profundamente suas conotações elitistas e políticas, que
vergonhoso. Paulo assegura aos coríntios estavam em total desacordo com o minis-
que seu objetivo não era humilhar, mas, tério cristão. Ele não tinha clientes ou se-
antes, adverti-los como afilhos meus ama- guidores particulares, como os benfeitores
dos. 15 Os ricos de Corinto tinham servos, seculares. A igreja não tinha conseguido
preceptores, que acompanhavam os estu- compreender e se beneficiar do ministério
dos de seus filhos e cuidavam deles. Paulo que Cristo ordenara para a igreja e para o
assegura aos cristãos que eles também têm mundo, e como resultado a vida cristã co-
muitos preceptores, mas não se pode dizer munitária tinha se deteriorado. Ele tinha
que tenham muitos pais. Paulo declara que bons motivos para colocar esse aspecto
o relacionamento dele com os cristãos de como prioridade na sua lista. Muito de-
Corinto é o de pai e filhos, pois em Cristo pendia do desenvolvimento da maturidade
1757 1CORíNTIOS 5

deles nesse assunto, mas eles eram muito lando para que a igreja se reúna em nome
lentos em seu amadurecimento. Ao longo [isto é, no caráter e no poder] do Senhor
de toda a história da igreja, esses proble- Jesus, e tome consciência da presença de
mas têm sido frequentemente recorrentes. Paulo como juiz. O poder do Senhor Jesus,
aparentemente invocado pelas orações,
estará presente com o propósito de entre-
5.1-6.20 Questões morais
gar esse homem a Satanás (5), isto é, de
5.1-8 A imoralidade e a esfera excluí-lo da comunidade dos crentes para
legítima de disciplina da igreja a destruição de sua natureza pecadora, li-
O primeiro relato falava de divisões (1.11); teralmente a carne (cf Gl 6.8; 11.30-32).
o segundo diz respeito ao incesto (5.1). Esse homem não é tratado como um não
Alguns chegam a pensar que a imoralida- cristão. O propósito da ação da comuni-
de cometida por esse membro da igreja era dade é a salvação de sua alma no dia do
endossada por outros cristãos. Isso é ape- Senhor. 6 A jactância dos coríntios em re-
nas uma suposição. O texto não diz que os lação a essa pessoa é condenada, como o
membros se gabavam de sua imoralidade. tinha sido em outros lugares (cf cp. 1--4).
Parece que a pessoa que cometeu esse pe- 7 A razão para a excomunhão é baseada
cado era alguém de alta posição, e era esse em parte na festa dos pães asmos do AT (cf
o fato que teria recebido elogios dos outros Êx 12.15-20), quando o fermento utiliza-
cristãos, e não sua imoralidade. Sob a lei do para se fazer o pão não era utilizado no
romana essa pessoa estava sujeita ao ba- preparo do pão da Páscoa. Em vez disso
nimento dessa colônia romana prestigiosa o fermento era jogado fora, e, por impli-
por tal conduta se fosse levado à corte. cação, a pessoa transgressora tinha de ser
Como não havia um procedimento público excluída da comunidade. A razão para isso
de acusação, seria necessária uma acusa- é que Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi
ção privada. Tais procedimentos legais po- imolado. 8 A festa de júbilo pela morte de
diam ser empreendidos somente por uma Cristo não deve agora ser celebrada com a
pessoa de posição social igualou mais ele- infiltração da influência de malícia e mal-
vada. A sociedade e a igreja frequentemen- dade, mas com sinceridade e verdade.
te fecham os olhos para as "indiscrições"
de seus membros socialmente influentes, 5.9-13 A esfera de
mas para a igreja isso sempre significou julgamento da igreja
uma grande perda espiritual. 9 Paulo havia escrito uma carta anterior
1 O delito é de incesto de um homem que tinha sido mal interpretada (cf 2Co
com a mulher de seu próprio pai. O termo 6.14-7.1 que também foi usada inde-
"possuir" é um eufemismo para o ato sexual vidamente para exigir que os cristãos se
(cf 7.2 e discussão). A mulher poderia ser afastassem da sociedade). Ela estipulava
ou não sua mãe natural - poderia ser sua normas a respeito da associação com pes-
madrasta. A lei romana era intolerante em soas imorais. 10 Paulo corrige qualquer má
relação a tal conduta, como o eram outros interpretação de que ele tivesse condenado
códigos legais (cf Dt 22.30).2 Em vez de o contato com pessoas da sociedade secular
se orgulhar de tal homem devido à sua po- que fossem imorais, gananciosas, trapacei-
sição social, a congregação deveria tê-lo ras ou idólatras. Se esse fosse o caso, então
excluído de sua comunhão. 3 Paulo, como os cristãos teriam de se retirar do mundo,
apóstolo fundador, sentencia essa conduta como o faziam certas seitas religiosas do
como se ele na verdade estivesse presente judaísmo, por exemplo, os essênios e os
- como se [eu] estivesse presente. 4 Ele therapeutaes. 11 Paulo esclarece agora o
invoca o mais forte dos julgamentos, ape- que havia sido mal interpretado - eles
1CORíNTIOS 6 1758

deveriam se afastar de qualquer cristão se- em um processo. A mediação poderia ser


xualmente imoral, ganancioso por dinhei- usada no lugar do litígio nas cortes ju-
ro (isto é, avarento), idólatra, beberrão (os daicas e greco-romanas. Essa era a opção
antigos banquetes eram notórios por bebe- preferida de alguns, pois os principais
deiras e imoralidades, cf a discussão em cidadãos temiam os efeitos danosos do
10.7) ou que fosse desonesto nos negócios. litígio em sua projeção social ou carreira
A comunhão com todos esses à mesa de re- política. Também surgiam animosidades,
feições estava proibida. 12 É interessante pois os que votavam contra o acusado au-
que Paulo não se via a si mesmo como juiz tomaticamente tomavam-se seus inimigos.
da conduta da sociedade secular. Em uma Os litígios civis para a elite eram vistos
pergunta que exigia uma resposta afirmati- simplesmente como uma extensão das fac-
va, Paulo declara que a comunidade cristã ções e discórdias na vida política.
é responsável por julgar os seus próprios De forma característica Paulo começa
membros. 13 Deus julgaria a conduta ina- a discussão com uma série de perguntas
dequada da sociedade secular, enquanto que funcionam tanto para inquirir quanto
a comunidade cristã deveria expulsar a para ensinar (cf cp. 9 em que ele faz 19
pessoa imoral do seu meio, um ponto que perguntas). 1 À luz da maneira como as
Paulo reforça citando Deuteronômio 17.7. cortes locais operavam, não é de admirar
A facilidade e a frequência com que a igre- que Paulo esteja assustado com o fato de
ja dos dias atuais julga a ética ou o mau que algum cristão ouse apresentar a causa
comportamento estrutural dos que não per- diante de magistrados anualmente eleitos e
tencem à comunidade cristã às vezes só é de ricos compatriotas. Tanto o juiz quan-
comparável à sua relutância em agir para to o júri agiam com grande parcialidade
reparar a conduta ética dos seus próprios e podiam até mesmo ser comprados. 2 Se
membros. Temos invertido a ordem das os santos teriam de julgar o mundo (cf
coisas que Paulo falou. Dn 7.22) então eles certamente tinham
competência suficiente para agir como me-
6.1-8 Ações judiciais diadores nas ações civis que Paulo chama
entre os membros de coisas mínimas. O termo utilizado suge-
Entre a elite da sociedade do século I era re que essas ações civis são vergonhosas e
prática comum dar entrada em procedi- não resolvem problemas genuínos. 3 Paulo
mentos legais diante de um magistrado ou novamente usa sua forma favorita de argu-
um júri por questões triviais com o intuito mentação - Não sabeis...(cf v. 2) - para
de deixar evidente a superioridade social e indicar que se os anjos deverão ser julgados
política de uma pessoa em relação a outras. pelos santos, é certo que os santos podem
Ao examinar sua decisão em tais casos, o resolver essas disputas. 4 Em caso de desa-
júri tinha de levar em consideração o poder cordo, Paulo pergunta: "[Vocês] designam
e a posição social das partes envolvidas; para juízes os que são menos importantes
assim também agia o juiz na imposição na igreja?". Essa tradução alternativa ofe-
das penas. Além disso, certas pessoas eram recida pela NIV (mg.) deve ser preferida.
proibidas de participar de procedimentos Enquanto os juízes seculares eram pessoas
legais contra outras, isto é, um filho con- de posição elevada na comunidade, na
tra seu pai, um escravo contra seu dono, congregação cristã a posição secular não
um homem livre contra seu benfeitor, um tinha lugar. Paulo usa aqui o mesmo termo
cidadão contra o magistrado e um membro usado em 1.28 para aqueles que a socieda-
de classe mais baixa contra um membro de de secular desprezava.
classe superior. Os juízes e jurados eram S Alguns dos que eram sábios (cf 3.18)
regularmente subornados pelos envolvidos poderiam desempenhar o papel de media-
1759 1CORíNTIOS 6

dor, o que era uma maneira aceitável de autoengano por parte dos cristãos como o
resolver as questões nas cortes seculares. vemos também hoje. A imoralidade sexual
O terceiro estágio da educação no sécu- (pornoi, que abrange os fornicadores, isto
lo I preparava os estudantes no estudo do é, indivíduos não casados que vivem jun-
direito, e portanto deveria haver alguns tos), adoradores de ídolos, homens que
membros na igreja que tivessem conheci- traíam sua esposa independentemente do
mento das leis para resolver as questões fato de essas mulheres tolerarem o pecado,
com equidade. 6 Paulo demonstra sua re- os homossexuais, ladrões, avarentos que
volta pelas ações deles com as palavras não estavam satisfeitos com a bondade de
irá um irmão a juízo contra outro irmão Deus para com eles, os beberrões (normal-
- o que indica que ele está falando da mente os que participavam de orgias em
comunhão de crentes - e isto perante in- certos banquetes) e as pessoas que eram
crédulo!? 7 O fato de a questão não poder desonestas nos negócios - nenhum deles
ser resolvida quando um irmão tem uma tinha herança no Reino de Deus. Nenhum
disputa contra outro cristão é um sinal de desses pecados fortalecia o relacionamen-
derrota para a comunidade cristã. 8 É me- to com Deus ou com outras pessoas; como
lhor sofrer o dano ou a injustiça do que nos Dez Mandamentos, eles eram proibi-
levar a questão para a corte. Não apenas dos por serem destrutivos e em nada facili-
teriam roupa suja lavada em público, mas tarem os relacionamentos, e por infligirem
uma multa seria aplicada ao que perdesse angústia e sofrimento. 11 Essas eram as
a ação - por isso a sua acusação: fazeis coisas que os coríntios faziam. Eles não
a injustiça e fazeis o dano; uma tradução eram nem mais nem menos imorais do que
melhor seria "defraudais". o resto da sociedade. Nem naquela época,
Em Romanos 13.1-7 Paulo discute o nem hoje. Mas a obra de Cristo os puri-
papel determinado por Deus ao Estado em ficou de seu passado, tomando-os santos,
casos de crime, mas Deus não tem lugar justificados, isto é, livrando-os do juízo
para magistrados e jurados locais que fo- em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e
ram eleitos e usam as ações civis como no Espírito de Deus. Essas boas-novas do
arena política. Os cristãos que tinham trei- evangelho significam que as atitudes peca-
namento legal deveriam agir como media- minosas do passado não precisam determi-
dores para resolver as questões de maneira nar o destino final de homens e mulheres.
justa em uma sociedade onde as conven- 12 Paulo cita slogans populares liber-
ções injustas prevaleciam. tinos que ele contradiz com declarações
sucintas semelhantes. A elite argumenta
6.9-20 Contra a libertinagem cristã que em função do seu sucesso podia fazer
Em Romanos 1.18-32 a lista de transgres- o que bem entendesse, pois tudo era líci-
sões fornecida por Paulo, que provocam o to; mas Paulo exige ética que dignifique e
juízo de Deus, não inclui somente os peca- não explore - nem todas convêm, isto é,
dos sexuais (cf v. 29-31). Aqui igualmente uma ética que conceda bênçãos aos outros.
esses pecados que excluíam os membros Eles argumentam que todas as coisas eram
da comunidade de crentes do AT também permitidas - não havia restrições. Paulo
os excluíam da herança de Deus (9b,IO). insiste que os cristãos não devem ser domi-
A sociedade secular tinha desenvolvido nados por tais coisas. 13 Eles argumentam
um argumento filosófico sofisticado que que o alimento foi feito para se comer e
endossava o estilo de vida libertino da eli- que o estômago foi feito para o alimen-
te. Seus delitos podiam estar além do al- to. Uma leitura atenta dos livros de culi-
cance da lei humana, mas não do veredicto nária do século I mostra quão sofisticado
de Deus. Claramente havia uma medida de era o pecado da glutonaria. Imoralidade e
1CORíNTIOS 7 1760

glutonaria caminhavam de mãos dadas em em 7.26 que levou cristãos a reconside-


festas pagãs. Paulo argumenta que nem o rar se era adequado ou não o casamento
alimento nem o apetite são indestrutíveis. de casais que já estavam noivos (7.25).
O corpo não foi feito para o sexo fora do Há evidências arqueológicas e literárias
casamento, mas no caso dos cristãos, o seu sólidas que indicam ter havido um perío-
corpo não lhes pertence para que façam do de escassez de alimentos em Corinto
o que desejarem, pois ele foi feito para o nessa época. Essa escassez veio acompa-
Senhor. 14 Paulo rejeita o argumento de nhada de distúrbios e pânico devidos às
Platão de que os sentidos devem ser sacia- inquietações sociais e incertezas sobre o
dos agora, uma vez que não podem ser sa- futuro. Foram descobertas l l inscrições
ciados na morte. Entretanto, Deus pretende da mesma pessoa que por três vezes foi
ressuscitar corpos, não almas, pois ele res- responsável pelos suprimentos de grãos
suscitou o Senhor. 15 Nenhum cristão pode em Corinto nesse período. Esse cargo
dizer "meu corpo", pois não é o espírito, era ocupado apenas em tempos de fome;
mas a pessoa como um todo que se une a assim há boas razões para se associar a
Cristo na conversão. Os cristãos que são crise à ameaça de fome. Tácito também
chamados membros de Cristo nunca po- registra terremotos e fomes. Muitos acre-
dem se unir a uma prostituta por meio do ditavam que eram presságios divinos.
sexo. 16 Tal comportamento, embora acei- Sabemos que muitos cristãos acreditavam
to como normal para os homens no mun- que os sinais da tribulação seriam a fome
do romano, era sempre proibido na igreja e os terremotos, e as bem-aventuranças
por causa da união que qualquer ato sexual seriam pronunciadas sobre as mulheres
estabelece entre duas pessoas. Paulo cita a que não estivessem grávidas (Mt 24.7,19;
prática sexual em Gênesis 2.24 - nunca Me 13.17). Aqui Paulo não somente res-
houve exemplo algum de defesa do adul- ponde às suas perguntas imediatas, mas
tério na Bíblia. 20 Nenhum cristão pode também fornece um quadro importante
dizer "meu corpo", pois ele foi comprado que deve servir de base para a considera-
por um preço, isto é, resgatado pela mor- ção do casamento cristão.
te de Cristo. A implicação clara é que sua
tarefa é honrar, literalmente "glorificar", a 7. 1-6 Aos casados
Deus em seu corpo, e isso é feito no seu 1 A frase é bom que o homem não toque em
relacionamento com os outros, tanto social mulher pode ser traduzida tanto por "O ho-
quanto sexualmente, dentro dos parâme- mem faz bem em não casar" (NTLH) quanto
tros estabelecidos na Bíblia. por "É bom que o homem se abstenha de
ter relações sexuais com qualquer mulher"
7.1-40 Questões conjugais (NIV mg). Uma das razões para essa incer-
Essa é a discussão mais longa sobre a se- teza na tradução dessa passagem é que a
xualidade e sobre os assuntos a ela rela- palavra grega para "mulher" e "esposa"
cionados em todas as cartas de Paulo. Ela é normalmente a mesma. Também é mui-
contém informações vitais sobre questões to comum o grego não usar um pronome
ainda não discutidas. A incapacidade de quando se refere à esposa de alguém; as-
compreender as circunstâncias que deram sim a frase pode ser traduzida literalmente
origem ao problema descrito em 7.1 e 7.25 - "É bom que o homem não toque [sua]
fez com que ensinamentos valiosos sobre o mulher". O que define a preferência pela
casamento e o celibato fossem ignorados. segunda tradução é o uso do verbo que na
No que diz respeito às circunstâncias, a frase significa "tocar". Era também uma
própria carta nos dá uma pista, pois Paulo forma de eufemismo, tanto no grego quan-
refere-se à angustiosa situação presente to no latim, como também em algumas
1761 1CORíNTIOS 7

línguas contemporâneas, para designar a 7.6,7 O dom do casamento


relação sexual. 2 Devido ao problema da e o do celibato
tentação sexual cada um tenha sua pró- A declaração E isto vos digo como con-
pria esposa (isso é um mandamento) e cessão e não por mandamento refere-se
cada uma [esposa] o seu próprio marido. aos v. 6,7 e não aos v. I-S. Nos v. 2,3, e 5
O verbo "ter" é também um sinônimo para ele ordena seis mandamentos - "deve"
relações sexuais. 3 O marido tem a obri- na NIV traduz o verbo referente a manda-
gação de manter relações sexuais com sua mento. 7 Ele deseja que todos os homens
esposa, e a esposa com seu marido. sejam como ele, isto é, solteiros. No en-
4 O corpo da mulher não é sua "pro- tanto, expressão que aqui está na forma
priedade" pessoal e o mesmo vale para grega enfática, ele reconhece que cada
o homem. Uma vez que se case, ele não pessoa recebe de Deus o seu dom, cha-
deve ter relações sexuais com outra mu- risma, isto é, uns permanecem solteiros e
lher. Não encontramos nenhuma outra outros se casam. O celibato em algumas
referência na literatura do mundo antigo sociedades é alvo de insinuações cruéis.
que ensine que o marido deva entregar Algumas vezes na igreja isso tem sido tão
seu corpo exclusivamente à sua esposa. supervalorizado quanto desvalorizado,
Na verdade, no mundo secular era uma em ambos os casos de modo contrário à
tradição no dia do casamento se dizer à palavra de Deus. O celibato, assim como
noiva que, quando seu marido cometesse os outros dons, é um dom pessoal dado
adultério com uma prostituta ou uma mu- por Deus a um indivíduo.
lher de pouca virtude, isso não era sinal
de que ele não a amava, mas simplesmen- 7.8,9 Aos que não têm
te uma maneira de satisfazer seus dese- parceiros conjugais
jos. 5 Não manter relações sexuais com o E aos solteiros e viúvos digo que: é pre-
parceiro no casamento era "privar" o côn- ferível que permaneçam no estado em que
juge. Paulo proíbe tal abstinência, exceto se encontram. Entretanto, Paulo reconhece
por consentimento mútuo e somente para que isso pode não ser possível e observa
um período de oração, que talvez tenha li- que em tais casos a pessoa deve, isto é, tem
gação com "a presente crise". Ele adverte de se casar, pois é melhor casar do que se
que Satanás fica à espreita e pode tentar encher de desejos sexuais incontroláveis.
um parceiro sexualmente, e por essa razão Tais pessoas devem aceitar que o charisma
eles devem novamente "ajuntar-se" (mais de Deus para elas é o casamento.
um sinônimo para o ato sexual) devido à
tentação da infidelidade. 7.10, 11 Aos casados
Essa única exceção mostra a ênfase bí- Aqui Paulo distingue entre uma declara-
blica sobre a importância da relação sexual ção conhecida de Jesus, isto é, do Senhor
como parte integrante da estrutura do ca- (10,12) e a sua. Deve-se lembrar, no entan-
samento. Não foi algo dado simplesmen- to, que Paulo dá mandamentos claros nessa
te com a finalidade de procriação, nem é seção. A esposa cristã não é livre para se
desonroso (cf Hb 13.4). Será que alguns separar de seu marido. Paulo aceita que há
casais cristãos, ao perceber os sinais dos ocasiões em que a separação é necessária.
tempos em fomes e terremotos, decidiram Entretanto, em tais circunstâncias, ela tem
abster-se do relacionamento sexual? Essa apenas duas opções, isto é, permanecer se-
teria sido a única forma aceitável de con- parada ou se reconciliar com seu marido.
tracepção. Bênçãos eram prometidas à mu- O marido está vinculado às mesmas restri-
lher que não estivesse grávida na época da ções indicadas por Paulo ao proibir a op-
tribulação (Mc 13.17). ção do divórcio. Presume-se que no caso
1CORíNTIOS 7 1762

da imoralidade sem arrependimento se claração da condição cristã de seus filhos.


abra uma exceção (Mt 19.9). O fato de am- Outros, oriundos do Ocidente, terão um
bos os parceiros serem cristãos não garante ponto de vista diferente, baseado às vezes
sua felicidade, mas com certeza a garanti- em diferenças denominacionais, e podem
ria se vivessem em amor e respeito. Todas refletir algo das crenças não verbalizadas
as atitudes impensadas das quais alguém da época específica em que surgiram.
não se arrepende trazem consequências 15 Se um marido descrente desejar
duradouras e nefastas. abandonar sua esposa, então a esposa deve
consentir. Às vezes no mundo antigo as
7.12-16 As opções com pessoas se preocupavam com o julgamen-
um parceiro não cristão to dos deuses, se alguém os rejeitasse em
Paulo tem em mente casamentos realizados favor de uma nova religião. As mulheres
antes de um dos parceiros se tomar cristão. no século I, principalmente nas regiões
A exigência por implicação de que uma greco-romanas, podiam divorciar-se de
viúva cristã só pode se casar novamen- seus maridos rapidamente. Elas simples-
te com um cristão sugere que os cristãos mente exigiam seu dote de volta. Se não
não são livres para se casar com quem não o recebessem de volta, então a lei roma-
compartilhe da fé cristã (7.39). Além dis- na permitia que cobrassem a taxa de 18%
so, os apóstolos tinham esposas que eram de juros até que o marido o quitasse. Se
chamadas "irmãs", isto é, cristãs (9.5). a mulher desejasse deixar seu marido por
12 Ter uma parceira que não era cristã não ele ser cristão, então nenhum obstáculo de-
era motivo para o marido se separar ou di- veria ser colocado em seu caminho, como
vorciar. Deve ter havido pressões sobre al- por exemplo, a retenção de seu dote. Deus
guns cristãos para que o fizessem por causa chamou seu povo para que vivesse em paz
da interpretação equivocada do AT, que exi- e não em divergência perpétua. Certamente
gia que um judeu que tivesse assumido um que a retenção do dote, mesmo com a me-
relacionamento com uma mulher que não lhor das intenções de salvar o casamento,
fosse judia, conhecendo bem a proibição acabaria por resultar na infelicidade dos
do AT, desprezasse sua mulher. Se a mulher processos judiciais. Os cristãos não es-
não cristã desejava permanecer casada, o tavam obrigados em tais circunstâncias,
marido não deveria divorciar-se dela. A ou seja, não estavam vinculados àquele
ordenança do casamento é uma dádiva de casamento, e portanto, por dedução, eram
Deus para toda a humanidade (Gn 2.21- livres para se casar novamente, mas so-
24), e não simplesmente para os cristãos. mente "no Senhor" (cf v. 39). O divórcio é
O mesmo se aplica à esposa cristã (13). permitido quando um dos parceiros aban-
14 Não há nada de impuro no relacio- dona o casamento pelo fato de o outro ter
namento. Ao contrário, há uma influência se convertido à fé cristã. 16 Embora possa
santificadora em que os beneficios das bên- haver esperança de que o parceiro não cris-
çãos de Cristo fluem para a outra pessoa. tão venha a se converter, o que toma váli-
Se o relacionamento não fosse santificado, dos todos os esforços para a manutenção
então os filhos também seriam impuros, do casamento, não há nenhuma garantia
mas o fato é que eles são "santos". Esse absoluta de que isso venha a acontecer.
é um exemplo na Bíblia em que a posição
dos filhos de um ou de ambos os cristãos é 7.17-24 O chamado
declarada. Os cristãos oriundos de socie- pessoal de Deus
dades em que a ênfase principal está na ati- Paulo retoma o tema do chamado de Deus
tude corporativa, especialmente na família, do v. 15 e fornece uma síntese do ensina-
tenderão a considerar isso como uma de- mento ministrado em todas as igrejas.
1763 1CORíNTIOS 7

17 Ande cada um segundo o Senhor nascimento se tomasse cristão, tomaria-se,


lhe tem distribuído, ou seja, literalmen- paradoxalmente um escravo de Cristo. 23
te, segundo o seu "chamado". As pessoas A libertação de alguns escravos incluía di-
eram classificadas em termos tanto sociais nheiro de resgate, e Paulo faz referência ao
quanto raciais no século I, e privilégios preço que Cristo pagou por eles. Ele ordena
eram oferecidos a determinados grupos. que os homens livres não se tomem escra-
Como princípio geral Paulo diz que eles vos de homens. Embora isso possa parecer
deveriam manter a presente posição que fora do comum no século I, alguns gregos
o Senhor havia determinado a cada um, nascidos livres vendiam-se a si mesmos
para a qual foram chamados. 18 Os jovens como escravos para os cidadãos romanos,
judeus tentavam escapar de sua condi- e frequentemente passavam a ocupar o car-
ção racial submetendo-se a cirurgias para go lucrativo de administrador de uma casa.
corrigir a sua circuncisão. Assim faziam Eles podiam investir o dinheiro e dirigir
para que pudessem progredir tanto em sua os negócios de seus donos, acumulando
educação quanto em relação à cidadania. riquezas legitimamente. Era possível para
Mas os judeus cristãos eram proibidos de eles comprar de volta a liberdade de sua
renunciar à sua raça judaica para galgar escravidão voluntária, e consequentemen-
posições na sociedade. Esse foi um perí- te receber a cidadania romana como ho-
odo de antissemitismo, como observado mens livres e, ao mesmo tempo, assegurar
em Atos 18.1,2. Os cristãos gentios foram a liberdade e a cidadania romana para seus
orientados a não se submeterem à circun- próprios filhos. Não era somente a riqueza
sisão. Contudo, para quem mesmo assim que contava no Império Romano, espe-
o quisesse, as razões estão registradas na cialmente em uma colônia rom~a como
carta aos Gálatas. 19 Em relação a agradar Corinto, mas o chamado, isto é, a classe e a
a Deus, nem a circuncisão nem a incircun- posição social. 24 Novamente Paulo repete
cisão eram a questão central. Essencial era que eles permaneçam na posição em que
a obediência aos mandamentos de Deus. Deus os colocou - literalmente cada um
20 Paulo repete seu ensinamento em permaneça diante de Deus naquilo em que
relação à aceitação da raça e circunstân- foi chamado. Enquanto os jovens sonha-
cias ordenadas pela providência para cada vam com ascensão social e riqueza, os que
pessoa. 21 Os escravos, exceto os da casa estavam na igreja precisavam se alegrar
imperial, podiam ser libertados após sete com a determinação da providência divina
anos. O escravo cristão não deveria se an- para a vida de cada um. A busca invejosa
gustiar por sua posição social. Aqui Paulo por ascensão social era proibida.
não está exigindo que eles permaneçam
em seu chamado mesmo que estejam qua- 7.25-38 Casar agora ou esperar
lificados para receber sua libertação - li- No século I os que ficavam noivos para se
teralmente "mas se ele tiver o poder ou o casar estavam comprometidos um com o
direito de fazê-lo". Ele poderia se tomar outro, sendo o divórcio o único meio de
um homem livre. A libertação de escravos renunciar a esse compromisso (cf Mt 1.1-
é encorajada, embora na época fosse acom- 9). A questão suscitada por alguns homens
panhada por obrigações ao antigo mestre jovens que estavam noivos era se deveriam
que então passava à condição de benfeitor. se casar agora ou esperar, dada a circuns-
22 Paulo desenvolve esse tema ao expli- tância desoladora em Corinto. 25 Paulo
car que, quando era chamado pelo Senhor não tinha sobre esse assunto nenhum man-
para a salvação, o escravo experimentava damento do Senhor, isto é, de Jesus (cf
a libertação e se tomava um homem livre v. 10), pelo menos nenhuma palavra de
no Senhor. Contudo, se o cidadão livre por Jesus durante seu ministério terreno, pois
1CORíNTIOS 7 1764

essa questão surgiu por causa de circuns- agradar-se a si mesma, mas a seu marido.
tâncias excepcionais na região. Ao dar sua 35 O conselho de Paulo é motivado por sua
resposta identificando-se como aquele que preocupação pelo próprio bem-estar deles,
tendo recebido do Senhor a misericórdia não para restringi-los, mas para que eles
de serfiel, ele fornece diretrizes pastorais e possam se consagrar desimpedidamente,
espirituais importantes, e o faz no contex- ao Senhor.
to de um vasto arcabouço teológico sobre 36-38 Fatores que influenciam a de-
a natureza da vida conjugal. 26 Devido à cisão. 36 A decisão de consumar o casa-
crise aguda na época em Corinto (v. a in- mento é governada por certos fatores: (i) se
trodução do cp. 7) seria uma coisa boa que alguém julga que trata sem decoro sua fi-
"os noivos" permanecessem noivos e não lha. Possivelmente membros de sua família
se casassem, mas, se resolvessem se casar, sentem que ele deva cumprir sua promessa
não estariam cometendo pecado algum. eles devam casar-se; (ii) se seu relaciona-
29-35 O contexto teológico. Ele expli- mento chegou ao ponto de total afloramen-
ca que o tempo literalmente se abrevia. Isso to dos desejos - os jovens casais ficam
tem sido entendido no sentido de que o fim mais abrasados fisicamente à medida que
é iminente. A perspectiva secular sobre a o dia do casamento se aproxima. A tradu-
indestrutibilidade do mundo e sua imutabi- ção "que ela está passando da idade" (NVI)
lidade futura era assunto das discussões do é improvável, pois a lei romana requeria
século I. Para os cristãos, o conceito de tem- que uma mulher se casasse até os cinquen-
po, kairos, tinha mudado radicalmente. A ta anos de idade. O termo expressa a ideia
vida agora assumia uma nova perspectiva, do "total afloramento" dos desejos sexuais,
e por isso agora não poderia se concentrar cf também o versículo seguinte, situação
unicamente no casamento, nas aflições e no em que ele tem controle sobre sua própria
dinheiro. Isso tudo parecia diferente diante vontade, isto é, de seus impulsos sexuais e
do novo relógio cristão, pois o mundo em (iii) se ele sentir que deve se casar, então
sua forma presente estava morrendo. Ele que se case. Ele não está agindo de forma
não era indestrutível. Nesse arcabouço teo- inapropriada.
lógico, Paulo expressa sua inquietação de 37 A decisão de não se casar é também
que os que sugeriram a questão deveriam governada por certos fatores: (i) ele já de-
ser livres das responsabilidades da vida na cidiu a questão por si mesmo; (ii) ele não
situação angustiante daquele momento. A sofre pressão da família ou de parentes; (iii)
tarefa de cada homem cristão que não era ele tem controle sobre si mesmo, isto é, de
casado era tentar procurar a melhor manei- seus desejos sexuais e (iv) já resolveu não
ra de agradar ao Senhor - não era váli- se casar; essa pessoa então também toma a
do o conceito de agradar-se a si mesmo. decisão apropriada. Paulo não é contrário
33 A tarefa do homem casado era encon- ao casamento (cf v. 7b). O homem que não
trar a melhor maneira de agradar sua es- se casa faz melhor dadas as complexidades
posa - no casamento cristão não há lugar do momento. A decisão de se casar é co-
para o egoísmo. 34 É claro que o tempo do locada diretamente nas mãos dos homens
marido se divide entre agradar a sua esposa jovens envolvidos que devem julgar por si
e agradar ao Senhor - o casamento coloca mesmos e por suas situações. Paulo estabe-
sobre ele obrigações adicionais. A mulher leceu parâmetros para que eles pudessem
não casada não é diferente em seu chama- tomar suas próprias decisões.
do, embora isso seja expresso de forma di-
ferente - ela deve ser devotada ao Senhor 7.39,40 A viúva
de corpo e espírito (cf 6.19,20). A mulher Paulo fala mais uma vez do caráter vin-
casada tem obrigação semelhante, não de culante do casamento cristão. A mulher
1765 1CORíNTIOS 8

está ligada a seu marido, com uma única o Deus vivo e verdadeiro, a quem os co-
exceção, a dos v. 13,15. Se ficar viúva, ela ríntios se converteram a fim de se toma-
estará livre para se casar novamente, mas rem cristãos (I Ts 1.9,10). Aparentemente
seu marido tem de ser cristão. A lei roma- alguns cristãos estavam frequentando um
na exigia que uma viúva só se casasse no- templo que tinha ídolos e comiam o ali-
vamente depois de 18 meses da morte de mento ali oferecido. Com o seu exemplo
seu marido, se ela não tivesse 60 anos de eles estavam encorajando outros cristãos
idade. Na opinião de Paulo, em vista das a fazer o mesmo, ou pelo menos corriam
dificuldades do momento, ela ficaria me- o risco de fazê-lo (lO). Os que o faziam
lhor se permanecesse sozinha. Seu pai ou podem muito bem ter discutido o caso
seu filho mais velho seriam o "senhor" de teologicamente: não havia problemas no
seus dotes e proveriam suas necessidades. fato de um cristão participar de uma festa,
Paulo está convencido de que fala pelo uma vez que o próprio Paulo ensinara que
Espírito de Deus ao escrever isso. havia somente um único Deus e um único
Senhor, e que um ídolo não era absolu-
8.1-11.1 As obrigações tamente nada. Parece que alguns estavam
do evangelho em um defendendo o seu direito de comer em um
mundo pluralista templo de ídolos, enquanto outros não ti-
nham tanta certeza, e a igreja ansiava por
8. 1-13 Carne sacrificada aos ídolos um esclarecimento dessa questão. Paulo
Essa é a questão seguinte sugerida pelos explica como ele mesmo lidava com os
coríntios. Para os cristãos que vivem em seus próprios direitos, como um modelo
sociedades em que os alimentos são ofere- para que outros cristãos também agissem
cidos aos ídolos, seja em lares não cristãos, da mesma forma.
banquetes ou templos, há certa urgência I Paulo ataca o problema ao declarar
nessa discussão. Nesses capítulos, entre- o perigo de a sabedoria ensoberbecer as
tanto, há obrigações do evangelho que são pessoas, uma vez que a fé cristã significa
impostas a todos os cristãos. O apóstolo relacionamento com os demais em amor.
conclui com o mandamento de que todos O amor edifica as pessoas, pois procura
deveriam se tomar seus imitadores, como conceder algumas bênçãos aos outros.
ele é de Cristo. 2 Ele envia uma advertência aos cristãos
As palavras introdutórias, no que se que pensam saber tudo a respeito dessa
refere, mostra que esta seção, como em questão e a resolveram de acordo com
7.1, começa com uma citação da car- as suas satisfações (daí sua decisão de
ta que os coríntios lhe tinham enviado. comer no templo dos ídolos). Eles ainda
Reconhecemos que todos somos senhores não aprenderam como convém saber, ou
do saber, isto é, temos conhecimento dos literalmente, "como é necessário saber".
sacrificios e ídolos. Paulo repete a expres- 3 Alguns manuscritos gregos omitem as
são inicial do v. 1 no v. 4, no tocante à... duas referências a Deus nessa passagem.
com o conectivo "assim que" (ARe) que Entretanto, o que é verdadeiro acerca do
explica esse conhecimento. Podemos, relacionamento de Deus conosco é tam-
portanto, presumir que o conhecimento bém verdadeiro acerca do relacionamento
a que o v. 1 se refere era sabemos que o dos cristãos com os outros. O homem que
ídolo de si mesmo nada é no mundo, e ama é o que realmente sabe, enquanto o
que não há senão um só Deus (4). É bem homem que diz "saber" não age necessa-
possível que a totalidade dos v. 4-6 seja riamente de maneira prestativa para com
uma citação que reflete o ensino normati- os outros. Esse é o verdadeiro motivo por
vo de Paulo sobre ídolos e deuses e sobre que alguns coríntios não estão agindo
1CORíNTIOS 9 1766

em amor, mas simplesmente exercitando do em relação aos alimentos. 9 Entretanto,


seus direitos. eles são advertidos no sentido de que o
Os v. 4-6 são uma declaração de fé im- exercício de sua liberdade, ou melhor, seu
portante, um verdadeiro credo elaborado "direito" - a palavra aqui é a mesma uti-
em um contexto de pluralismo religioso, lizada em 9.4,5,12,15 - poderia ser preju-
algo tão crucial de se afirmar hoje quan- dicial àqueles que eram mais fracos do que
to naquela época. Há apenas um único eles. Isso bem poderia ter relação com o di-
Deus vivo e verdadeiro, e os ídolos nada reito de participar nas festas dos jogos, ou
significam (cf Dt 6.4; Is 40.25,26). 5 No em importantes ocasiões cívicas, um dos
entanto, Paulo e os demais observavam a privilégios concedidos à elite. A primeira
grande extensão da idolatria em Corinto, hipótese parece ser a mais provável, uma
onde muitos deuses eram adorados. Paulo vez que os jogos ístmicos não aconteceram
não lhes atribui divindade como se fos- enquanto Paulo esteve em Corinto, e assim
sem legítimas expressões de Deus. Ao o problema não se apresentou enquanto
contrário, Paulo diz que eles se autointi- ele estava no local. Sabemos que todas
tulam deuses: ainda que [00'] se chamem as pessoas importantes de Corinto eram
deuses. Essa expressão era usada para convidadas para três festas pelo presidente
descrever alguma coisa que era popular- dos jogos. 10 Paulo temia que um cristão,
mente afirmada, mas de forma equivo- ao ver outros cristãos comendo no tem-
cada. Os termos deuses e senhores eram plo dedicado a um ídolo, cedesse à pres-
sinônimos na linguagem religiosa pagã. são para se conformar e tropeçasse na fé.
Paulo os utiliza aqui para contrabalançar 11 Esse cristão seria destruído, pois vol-
o que ele diz no v. 6, todavia (uma forte taria às atividades pagãs em decorrência
declaração de negação) para nós há um da atitude daqueles cristãos que comiam
só Deus, o Pai, que é o criador de todas no templo dedicado a ídolos para provar
as coisas e para quem os cristãos existem. que um ídolo nada significava. 12 Não é
Nosso propósito de vida é servi-lo, e não apenas uma questão de exercer seus direi-
simplesmente ter um Deus para atender a tos, mas antes um pecado contra o irmão
todas as nossas necessidades e interesses e consequentemente contra Cristo. Dado
(cf At 27.23). Os cristãos não são meros o relacionamento bastante próximo entre
adeptos do teísmo. Para eles há apenas o Senhor e seus filhos, algo que Paulo
um Senhor, Jesus Cristo, e ele é o agente descobriu em sua conversão, prejudicar
de tudo que é criado (cf Jo 1. 3) e aquele os cristãos é o mesmo que prejudicar a
por quem nós vivemos. 7 Mas nem todos Cristo (At 9.1-4). 13 Paulo formula a pri-
os cristãos acreditam com convicção que meira exigência a respeito de se imitar
um ídolo não tem poder. Os adoradores tanto a ele, Paulo, como a Cristo (11.1).
do século I diriam de um ídolo: "Esta é Se o exercício do direito causar o pecado
Atena", acreditando que a deusa verda- de um irmão, então exercer esse direito
deiramente se encontrava ali. Os cristãos deve ser evitado a todo o custo.
eram chamados de ateus por não possuí-
rem estátuas. A ingestão de alimentos sa- 9. 1-14 Direitos e ministério
crificados aos ídolos não era considerada Paulo prossegue, demonstrando uma vez
um costume inofensivo pelo cristão fraco mais uma verdade extraída de seu próprio
que, se o ingerisse, se sentiria corrompi- ministério (cf 2.1,3). Essa demonstração
do - um ponto de vista defendido ainda também lhe fornece uma oportunidade
hoje por alguns cristãos no Oriente. de defender seu ministério diante dos que
8 Os presunçosos cristãos de Corinto emitem juízos sobre ele ao explicar as ra-
concordariam com o princípio estabeleci- zões de ele não reivindicar seus direitos
1767 lCORíNTIOS 9

como um apóstolo (cf 9.3). Ele conduz nós, por causa dos direitos do trabalha-
essa parte de sua argumentação com uma dor sobre a colheita. Ele trabalhou com a
série de perguntas que exigem o "sim" expectativa de se beneficiar da colheita.
como resposta. 11 O semeador espiritual (cf 3.6), nesse
A eficácia do seu ministério apostólico caso Paulo em Corinto, também tem direi-
em Corinto é clara, embora alguns agora to sobre a colheita material. 12 Entretanto
comecem a questionar se era realmente ne- ele não exerceu essa prerrogativa com
cessário que ele retomasse para mais um eles. Ao contrário, ele não se favorecia a
período lá (cf 16.12). Ele é um apóstolo, si mesmo, suportando qualquer coisa, isto
isto é, um dos que tinham visto o Senhor é, qualquer deslocamento ocasionado por
(cf At 9.17). A própria igreja de Corinto seu trabalho tanto de dia quanto de noite
é uma prova do reconhecimento divino do (cf At 20.35). Ele o fazia para não colocar
seu ministério, isto é, do seu apostolado no nenhuma pedra de tropeço no caminho dos
Senhor (2). 3 À medida que o seu ministé- seus ouvintes enquanto lhes apresentava o
rio começa a sofrer escrutínio por parte de evangelho. Este é o segundo princípio de
seus críticos, a defesa da validade do apos- Paulo, que expande o seu ponto em 8.13,
tolado de Paulo, algo que ele declarou em aumentando seu escopo para beneficiar os
termos gerais nos v. 1,2, é detalhada com que não eram cristãos.
uma série de perguntas. Embora muitos oradores chegassem
4 Paulo expõe os direitos de um apósto- às cidades prometendo trazer benefícios
lo - o direito de comer e beber, 5 o direito cívicos e educacionais (cf comentário em
de se casar e o direito de ser acompanha- 2.1-5), os que os ouviam sabiam que o in-
do por sua esposa (um princípio quebrado teresse do orador era acumular dinheiro.
por alguns missionários do último século, Os ouvintes se interessavam apenas pelas
cf. 7.35), como acontecia com os demais suas habilidades oratórias, e não propria-
apóstolos e os irmãos do Senhor (esses úl- mente pelo assunto do seu discurso, o qual
timos outrora céticos, Mc 3.31; Jo 7.2,3, eles mesmos frequentemente escolhiam.
mas agora cristãos, At 1.14, logicamente Paulo, em contraste, tinha grande preocu-
eram testemunhas importantes de Jesus); pação com o conteúdo de sua mensagem,
6 o direito de ser sustentado ou, como per- isto é, com as boas-novas. Ele ansiava,
gunta Paulo, Ou somente eu e Barnabé entretanto, evitar qualquer identificação
não temos direito de deixar de trabalhar? possível com os oradores seculares, para
7 Esses direitos eram tão óbvios como o di- que pudesse conquistar ouvintes para a
reito dos soldados de receberem o seu sol- sua mensagem.
do, o direito dos trabalhadores das vinhas 13 Tendo discutido as convenções se-
sobre a colheita e o direito dos pastores de culares, às quais Paulo renunciou devido
se alimentarem com o leite do rebanho. ao perigo de que fossem mal interpretadas,
8,9 Os direitos mencionados no v. 7 ele cita também os direitos dos sacerdo-
não eram apenas convenções seculares, tes que serviam o altar do AT e, no v. 14,
mas eram endossados pelo próprio AT, ci- o mandamento do Senhor Jesus de que os
tados em Deuteronômio 25.4, em que até que pregassem o evangelho deveriam ser
mesmo o boi não deveria ter a sua boca sustentados do evangelho (cf Mt 10. 10).
amordaçada. Os estudiosos judeus viam o Paulo não fizera uso do mandamento do
boi como um símbolo de todos os tipos de Senhor porque acreditava que em um con-
trabalhadores, humanos e animais, e inter- texto não judaico a reivindicação de seus
pretavam que essa lei era dirigida direta- direitos levantaria uma barreira em relação
mente ao homem e este deveria obedecê-la. ao povo para o qual o evangelho deveria
Esse é o motivo de ela ter sido escrita para ser pregado.
1CORíNTIOS 9 1768

9.15-23 O evangelho va aos não judeus, fazendo as adaptações


gratuito de Paulo culturais necessárias em sua tarefa missio-
15 No mundo secular, falar de dinheiro nária, tanto na pregação (cf At 17.22-31)
era sinal de que a pessoa estava pedindo como nos contatos evangelísticos (21; cf
dinheiro, assim Paulo deixa claro que ele 10.30); e quando pregava aos supersticio-
não está pedindo por nenhuma restituição. sos, como o seu Senhor, não esmagando a
Ele preferia morrer a ser despojado de seu cana quebrada (22).
direito de pregar o evangelho por sua livre Paulo define agora o seu terceiro prin-
e espontânea vontade. 16 Ele se apressa cípio - sensibilidade ao contexto cultural.
em esclarecer isso ao revelar a obrigação Fiz-me indica que a certa altura ele tomou
divina sob a qual ele opera (2Co 5.14), e essa decisão como uma estratégia missio-
até mesmo faz uma ameaça a si mesmo nária. Ele seria transcultural na sua apre-
se deixar de desempenhar sua comissão. sentação do evangelho e no seu estilo de
17 Se ele prega o evangelho porque quer, vida, e sem dúvida inovador na sua abor-
ele tem a sua recompensa. Se ele prega dagem. 23 Suas ações eram exclusivamen-
porque tem de pregar, ele simplesmen- te voltadas ao evangelho, e sua motivação
te cumpre o seu papel de despenseiro do era compartilhar suas bênçãos. Paulo foi,
evangelho (cf 4.1). 18 Qual é a recom- sem dúvida alguma, um apóstolo livre. Os
pensa de Paulo por querer pregar o evan- que habitualmente orientam sua vida para
gelho? A satisfação por poder oferecê-lo compartilhar o evangelho são os que mais
gratuitamente. Em uma sociedade em que sentem o sabor inebriante de liberdade que
a vantagem pessoal, e até mesmo as obras o evangelho traz, quando veem a liberta-
beneficentes, sempre foram aceitas como o ção das pessoas.
fator motivador, a "vantagem" de Paulo era
ver o evangelho singular da graça gratuita 9.24-10.13 Correndo e não caindo
de Deus sendo oferecido sem custo algum Paulo agora começa a tratar da questão
para os seus ouvintes. Suas ações demons- dos perigos da má conduta sexual, carac-
travam o verdadeiro caráter de sua mensa- terística dos banquetes no templo. Ele faz
gem. Ele não exigiria os seus direitos. isso citando primeiramente como exemplo
19 Os que empregavam mestres secu- a sua própria autodisciplina, e em segui-
lares sentiam-se em débito para com eles, da contrastando-a ao que acontece com o
especialmente quando os tinham como tu- povo de Deus, quando este coloca o seu
tores particulares em suas próprias casas. coração nas coisas más. Seu objetivo é evi-
Apesar de algumas das obras de Paulo te- tar que os corintios façam o mesmo (10.6).
rem sido realizadas no âmbito das grandes 24 Paulo constrói uma imagem a partir
casas de famílias onde havia igrejas do- dos eventos que se realizavam durante os
mésticas, ele testemunha o fato de que era famosos jogos ístmicos nos arredores de
um agente livre. No entanto, embora tenha Corinto. Ele incentiva os seus ouvintes
essa liberdade (cf 9. 1, sua pergunta de a se tomarem corredores determinados a
abertura), ele não a utiliza. Tal como o seu cruzar a linha de chegada. 25 Ele os faz
Senhor (Fp 2.7.8), ele escolheu ser escra- lembrar da dieta e disciplina rigorosas por
vo de todos para que possa ganhar alguns que passam os atletas nos treinamentos, a
para Cristo. Paulo é um missionário trans- fim de receber uma coroa que, na época de
cultural por excelência, e não um escravo Paulo, era feita de louros, e por isso logo
de convenções evangelísticas. Sua capaci- pereceria. Em contrapartida, a corrida cris-
dade de adaptação é vista em sua sensibi- tã oferece uma recompensa que dura para
lidade quando pregava aos judeus, embora sempre. 26 Paulo compara seu próprio mi-
não estivesse sob a lei (20); quando prega- nistério ao de um corredor que sabe para
1769 1CORíNTIOS 10

onde deve correr. Ele também é como um ticipam da experiência de Cristo como o
lutador, mas não como um lutador que seu libertador (2). Eles foram nutridos com
esmurra o ar (oradores que exibiam sua o mesmo alimento espiritual (Êx 16.15,35)
habilidade oratória diante de multidões, e sustentados pela bebida espiritual da ro-
mas em debates efetivos eram ridiculari- cha (SI 78.15), que era Cristo, satisfazendo
zados como lutadores que esmurram o ar). as suas necessidades da mesma forma que
27 O adversário era o seu próprio corpo e os ele satisfaz plenamente as necessidades
seus apetites. É isso que Paulo domina, ao dos coríntios (1.4-7,30). Aquele que es-
contrário dos oradores que se gabavam de tava no princípio e era o agente de cria-
que seus rendimentos lhes davam o direito ção (Jo 1.2-4), em quem todas as coisas
de satisfazer seus apetites e se entregar à subsistem (Cl 1.17), participou ativa-
luxúria, e que eram criticados por pregar a mente da vida do povo de Deus na épo-
virtude mas viver de modo diametralmente ca do AT, do mesmo modo que participa
oposto. Paulo está profundamente cons- da vida dos cristãos de hoje. A segunda
ciente da necessidade de controlar e domi- pessoa da Trindade não apareceu subita-
nar seus apetites; para que possa realizar o mente pela primeira vez na encarnação.
seu ministério de pregação ele luta contra a 5 Contudo, a exclusão dos israelitas do
tentação sexual ou quaisquer outras tenta- povo de Deus resultou na sua morte no de-
ções. Esses eram problemas constantes em serto. Eles são um tipo ou exemplo que ser-
sua época e ainda são um perigo entre os ve de alerta para os coríntios para que não
evangelistas e líderes cristãos da igreja de venham a repetir o mesmo engano terrível.
hoje. Aqui Paulo aponta para o perigo de Paulo faz quatro proibições aos corintios,
se tropeçar por não abandonar uma condu- que são derivadas do juízo severo de Deus
ta pecadora (cf Hb 12.1). sobre seus filhos no deserto. (i) A idolatria
10.1-13 Exemplos da própria his- é proibida, e Paulo cita Êxodo 32.6, passa-
tória de Israel. A divisão tradicional do gem que teria servido com perfeição para
capítulo estabelecida por cristãos de um descrever o comportamento descomedido
período posterior não é útil aqui. Ela co- em banquetes nos templos dedicados aos
meça com Ora, conectando a discussão ídolos em Corinto (7). (ii) A imoralidade
acerca da possível desqualificação de sexual (8), que era uma conduta aceitável
Paulo para o seu ministério com os que em tais banquetes no século I, também é
sofreram o juízo de Deus no AT. O trecho proibida. A consequência de tal comporta-
10.1-13 ilustra a verdade de que o Deus mento para Israel foi sua exclusão imediata
do Senhor Jesus julgou Israel por sua da comunidade dos fiéis (Nm 25.1-9). (iii)
conduta idólatra. Deus vai fazer o mesmo Testar ou tentar Deus a agir (9) também
com os coríntios, que insistem em exercer traria um terrível juízo (Nm 21.5,6). Pode
o seu direito de comer nos templos dedi- ter havido alguns em Corinto que raciona-
cados aos ídolos, a menos que se afastem lizaram o exercício de seu direito de comer
da idolatria (cf 10.14-22). nos templos usando o argumento de que
Os v. 1-4 apresentam as credenciais es- nada ainda tinha lhes acontecido enquanto
pirituais impecáveis dos filhos de Deus no comiam, e portanto isso nunca aconteceria.
deserto. Eles tinham vivido a experiência (iv) Eles recebem a ordem de não murmu-
inconfundível da mão orientadora de Deus rar (lO; Nm 14.2). Alguns podem ter se
e testemunhado a libertação milagrosa na queixado ao Senhor devido à dificuldade
travessia do mar (Êx 13.21; 14.22). Os fi- que experimentavam por viverem em uma
lhos de Israel participaram da experiência sociedade que endossava o pluralismo re-
de Moisés como agente de libertação de ligioso; eles foram levados a negar a bon-
Israel, e do mesmo modo os cristãos par- dade de Deus e sua ordenação providencial
1CORíNTIOS 10 1770

das circunstâncias assim como Israel fizera 7.15). 19-21 Paulo explica que os sacrifi-
contra o Senhor e Moisés. cios pagãos são oferecidos aos demônios
11 O juízo que lhes sobreveio e que foi (Dt 32.17) e que não é possível beber do
registrado no AT significa que a sua adver- cálice do Senhor e do cálice do demônio.
tência deve ser ouvida por aqueles a quem É interessante observar neste contexto que
agora osfins do século têm chegado, isto é, alguns vasos e cálices encontrados pelos
por aqueles a quem chegou o cumprimento arqueólogos em Corinto trazem gravados
da promessa a Abraão de abençoar a to- os nomes de determinados deuses. 22 O
das as nações e não simplesmente a Israel ponto alto do argumento é que os coríntios
(Gn 12.2,3). 12 Paulo se dirige ao que pen- irão suscitar o ciúme do Senhor. Seriam
sa estar em pé, ao que discutia que um ído- eles mais fortes do que o Senhor para so-
lo não era nada (8.4) e que comer em um breviver a tal confronto?
templo dedicado aos ídolos era algo perfei- Após ter exposto o que realmente está
tamente aceitável (8.10). A ele é dada uma ocorrendo nas refeições sacrificiais dos
clara advertência para que reflita, pois há pagãos, nas quais alguns coríntios justi-
uma grande possibilidade de que venha a ficavam a sua participação, Paulo usa o
cair, dada a coerência de Deus como juiz próprio argumento deles para expor o seu
de Israel e da igreja. 13 Esses cristãos au- caráter não cristão (23,24). Tal como em
toconfiantes são advertidos de que toda a 6.12,13, a ética que diz que tudo é permi-
humanidade enfrenta as tentações de fazer tido tem sido utilizada como justificativa
concessões à imoralidade - e com eles para a ação daqueles que pensam que estão
não será diferente. de pé. 23 Eles alegavam que Todas as coi-
sas são lícitas, mas as ações cristãs são ba-
10. 14-11. 1 O sacrifício aos seadas no que é benéfico para a pessoa em
ídolos e a ceia do Senhor questão. Com base nisso, as conclusões em
14 Os amados convertidos de Paulo devem 10.19-22 mostram que o que eles tinham
evitar comer no templo devido ao perigo feito despertara o ciúme do Senhor e não
da idolatria. 15 Um apelo lhes é feito para trouxera a eles nenhuma bênção. Se tudo
que pensem mais sobre o assunto, e Paulo que é feito deve ser para a edificação de
usa duas analogias. A primeira diz respeito outros, então eles tinham fracassado pelo
à ceia do Senhor e a segunda a se alimentar fato de terem corrido o risco de destruir
dos sacrifícios do AT. 16 O cálice de ações o seu irmão mais fraco (cf 8.10-12). As
de graças era o terceiro cálice na Páscoa. ações de um cristão devem ser construtivas
Jesus, na noite anterior à sua morte, reinter- no que se refere aos outros; essa analogia
pretou o significado desse cálice de modo da "edificação" é exclusiva ao cristianismo
que ele apontasse para o derramamento do e reflete sua exigência de que as necessi-
seu sangue na cruz e fosse o meio de es- dades dos outros determinem a conduta
tabelecer uma participação nos beneficios cristã. Da mesma forma, as ações de Deus
de sua morte. Ele fez o mesmo com o pão em Cristo voltadas para nós têm o pro-
que foi partido para expressar essa mesma pósito de atender as nossas necessidades.
participação. 17 Da mesma forma, o fato 24 As tão admiradas ações beneficentes,
de os cristãos partilharem de um mesmo tanto cívicas como pessoais, e o sistema de
pão na ceia do Senhor aponta para o fato patronagem de Corinto não tinham como
de que todos eles pertencem a Cristo, que objetivo principal atender as necessidades
todos são um só corpo em Cristo. 18 O dos outros; a promoção pessoal vinha em
relacionamento dos sacerdotes no AT com primeiro lugar, e quaisquer beneficios a
o altar é citado como base para estabele- terceiros eram meramente secundários.
cer o relacionamento nos v. 19,20 (Lv 3.3; A ética cristã radical é exposta em outros
1771 1CORíNTIOS 11

termos: fazer o bem aos outros era o princi- sim o bem de muitos, para que sejam sal-
pal e nunca a promoção pessoal. Os corín- vos. 11.1 Ele conclui dizendo para que os
tios que insistiam em seu próprio direito de coríntios sigam seu exemplo, delineado na
comer nos templos dedicados aos ídolos, a discussão, que é um exemplo baseado em
despeito das necessidades dos outros cris- Cristo. A prioridade dos outros no que diz
tãos, tinham falhado em amar o próximo, respeito à sua necessidade do evangelho e
pois colocaram as suas próprias necessida- as preocupações com o irmão mais fraco
des em primeiro lugar. devem determinar as ações do cristão.
Nos v. 25-30 Paulo explica como agir
em meio ao pluralismo religioso. O ali- 11.2-14.40 A vida
mento vendido no mercado de carnes de disciplinada da igreja
Corinto podia ser consumido pelos cris-
tãos (25). O fato de ele ter sido ofereci- 11.2-16 Cobrindo a cabeça no culto
do no templo, antes de ser vendido, era 2 Paulo elogia a congregação por observar
anulado por Salmos 24.1, que todo judeu as tradições que ele tinha recomendado a
piedoso recitava antes de comer qualquer eles no passado. É interessante perceber
coisa (26). Se um não cristão fosse convi- que as questões levantadas são questões
dado para jantar e aceitasse, então o prin- que Paulo não havia tratado enquanto este-
cípio era o de observar a etiqueta de comer ve com eles. Não se trata de uma reflexão
o que fosse oferecido pelo anfitrião. Não sobre a sua competência, mas, antes, sobre
há escrúpulos nisso, pela mesma razão for- as mudanças que aconteceram depois da
necida no versículo anterior (27). A exce- sua partida. O que Paulo ordena faz parte
ção a essa regra se dava quando um dos da tradição apostólica que é determinante
presentes chamasse a atenção para o fato para a congregação (cf v. 16). 3 Paulo quer
de que a carne fora comprada no mercado que os coríntios entendam que Cristo é o
de carnes. Se essa pessoa acreditasse que cabeça de todo homem (ou "marido", como
era errado que o cristão comesse a carne, é mais provável), e o "marido" é o cabeça
então o cristão deveria desistir de fazê-lo, de toda mulher (ou "esposa", como é mais
tanto para o seu bem quanto por razões de provável, dada a ambiguidade dessas pa-
consciência (28). Paulo deixa claro que ele lavras no grego). Era um costume pagão
está falando sobre a consciência da outra que os sacerdotes provenientes da elite da
pessoa (24) e com isso enfatiza o ponto sociedade se distinguissem de outros fiéis
de que os escrúpulos e as necessidades do pelo fato de orar e oferecer sacrifícios com
próximo determinam as ações do cristão. a cabeça coberta. Haveria alguns, dentre a
Toda a discussão é concluída em minoria de cristãos provenientes da elite,
10.31-11.1, fornecendo parâmetros am- que pretendiam chamar a atenção para a
plos para a atuação dos cristãos na socie- sua posição por meio desse costume de
dade. 31 Primeiro, não importa o que o orar e profetizar com a cabeça coberta? Ele
cristão fizer, seja comer, beber ou qualquer desonra sua própria cabeça, isto é, Cristo,
outra ação, deve fazê-lo para a glória de que é o seu cabeça (cf v. 3). A desonra
Deus. 32 Segundo, nem judeus nem gre- estaria em chamar a atenção para a sua
gos, isto é, nem os de dentro nem os de posição social, quando é para Cristo que
fora da igreja poderiam ser levados a tro- toda a atenção deveria ser dirigida quando
peçar por causa das ações de um cristão. alguém estivesse em oração.
33 Novamente Paulo pode chamar a aten- 5 Qualquer mulher que ora ou profe-
ção para as suas próprias ações como base tiza com a cabeça sem véu desonra a sua
para isso, pois ele procura agradar a todos, cabeça, ou seja, seu marido. É como se ela
nunca buscando o seu próprio bem, mas tivesse a cabeça raspada. Raspar a cabeça
1CORíNTIOS 11 1772

de uma mulher que cometesse adultério era a ekklêsia, tinha seu equivalente secular no
uma pena prescrita pelo direito romano, le- corpo diretivo da cidade. Essa reunião era
gislação que era aplicada à colônia roma- realizada normalmente no teatro. O que
na de Corinto. 6 Se a esposa não cobrir a aconteceria quando uma reunião de cris-
cabeça, implicitamente ela é vista como tãos, a ekklêsia, acontecesse em uma casa
alguém que se recusa a reconhecer o seu particular, onde fosse dada autoridade a
relacionamento com seu marido, ou seja, uma mulher e ela não cobrisse a sua ca-
seu estado civil. Para a mulher, a atitude beça? Embora seja ponto de controvérsia
de não cobrir a cabeça em público era uma entre os comentaristas, a questão aqui não
vergonha. 7 Já o homem está impedido parece tratar de homens e mulheres per
de cobrir sua cabeça, pois ele é a imagem se, mas do marido e da esposa - essa é
e a glória de Deus (Gn 1.27a). A mulher a tradução legítima de ambos os termos.
permanece como a glória de seu marido Também faz sentido com a declaração de
(Pv 12.4). 8 Essa foi a ordem em que o "autoridade" (cf Ef 5.22,23, em que as
homem e a mulher foram criados segundo mesmas palavras são usadas). É preciso
Gênesis. 9 Em Gênesis 2.2üb-23 a mulher observar também que não eram apenas
foi criada para o marido, e não o contrário. os homens que oravam e profetizavam
10 Por essa razão, e também por causa dos na igreja apostólica. As mulheres tinham
anjos (cf Mt 18.10), a mulher deve ter o si- um papel primordial nos cultos. Para uma
nal da autoridade sobre sua cabeça. 11 No discussão sobre as profecias na igreja, v. a
Senhor, Paulo ensina reciprocidade como seção 14.1-25.
em 7.4.12 Paulo explica isso pelo fato de a
mulher ter vindo do homem, e o homem da 11. 17-34 Os problemas
mulher. Mas Paulo afirma que tudo vem de na ceia do Senhor
Deus. 13 Tal como em 10.15, Paulo convi- 17 Paulo já tinha elogiado os coríntios an-
da os membros da congregação a julgarem teriormente por observarem as tradições
por si próprios. Nesse caso, é correto que apostólicas (v. 2); mas agora, ele não pode-
uma mulher ore com a cabeça descoberta? ria fazê-lo, pois ele fornece preceitos para
14 No século I acreditava-se que a natu- corrigir os abusos na ceia do Senhor (34).
reza determinava as questões culturais. Parece que quando eles se reuniam, não era
Sem dúvida Paulo também usa esse argu- para melhor, e sim para pior. As divisões
mento no ensino do AT, em que se insistia entre os membros (cf 1.10.12) também se
na polarização dos sexos. Um homem de notavam nas reuniões. Na ekklêsia secular,
cabelos compridos era algo vergonhoso. ou seja, na reunião dos cidadãos para fins
Já se argumentou que há estátuas antigas políticos, eles não escondiam suas divisões,
de homens com cabelos longos, mas essa e os cristãos coríntios se comportavam do
era a forma como os deuses eram repre- mesmo modo em uma série de questões
sentados, e não os homens. 15 Os cabelos quando se reuniam em sua ekklêsia cristã.
longos de uma mulher eram vistos como a A expressão enigmática e eu, em parte, o
sua glória, e autores antigos mencionam a creio é traduzida de maneira semelhan-
atenção dada aos cabelos de uma mulher te na NVI. É surpreendente o fato de que
como sua glória estimada. 16 Paulo con- Paulo, que era tão bem informado pelos da
clui que se alguém deseja discutir essa tra- casa de Cloe, estivesse apenas parcialmen-
dição apostólica terá de ter em mente que te informado acerca de um problema em
nem Paulo nem as igrejas de Deus seguem virtude do qual ele entende que vai cair o
outra prática. juízo sobre alguns na congregação. A frase
Nota. É digno de nota que um proble- no grego pode ser traduzida por "e creio
ma específico era que a reunião de cristãos, em certo relato", o que talvez faça mais
1773 1CORíNTIOS 11

sentido. A palavra traduzida em algumas recebeu do Senhor, a qual ele repassou aos
versões por "parcialmente", e que é um ad- coríntios quando esteve com eles. Ele re-
vérbio, também é um substantivo no grego lata os atos e palavras do Senhor Jesus na
que significa "um relato". 19 Foi somen- noite em que ele foi traído. Os cristãos de
te quando surgiram divisões que puderam Corinto deveriam partir o pão em memó-
ser conhecidos os que eram aprovados por ria da morte de Jesus. Eles também deve-
Deus, ou seja, os que eram genuínos, ou li- riam beber do cálice em memória da nova
teralmente "os que passaram no teste". (Cf aliança que Jesus ratificou em seu sangue
2Co 2.9, em que os genuínos são os que (cf a ratificação da antiga aliança com
deram atenção às instruções apostólicas.) sangue, em Êxodo, e a promessa de uma
As divisões separavam os fiéis à palavra de nova aliança, em Jr 31.31, uma aliança
Deus dos demais. que era para a bênção de todas as nações,
20 A segunda razão de Paulo não po- Gn 12.3). 26 A ceia do Senhor anuncia a
der aceitar a conduta deles é que, quando morte do Senhor até a sua segunda vinda.
eles se reúnem, não é a ceia do Senhor que Paulo repete e modifica a ordem das pala-
estão comendo. Sem dúvida isso foi uma vras de Jesus para dar ênfase a seus atos.
surpresa para eles, mas Paulo apresenta Ele o faz para contrastar a abnegação de
as razões da sua constatação. 21 Cada um Jesus em dar sua vida em beneficio dos
procede sem respeito algum pelos demais. que, com suas ações egoístas, criam divi-
Não se sabe ao certo se o comportamento sões no seu corpo, a igreja (cf 10.17). Ele
em questão era que eles não esperavam pe- se concentra no fato de eles não partilha-
los outros ou se simplesmente comiam seu rem o alimento na ceia, a fim de mostrar
próprio alimento durante a ceia. A palavra quão generosa tinha sido a ação de Jesus
traduzida por antecipadamente pode signi- na cruz com respeito a eles. Eles estavam
ficar fazer alguma coisa antes dos outros ou se comportando de forma egoísta até mes-
comer avidamente a própria ceia durante a mo nas cerimônias que Jesus instituíra na
refeição. 22 Tais ações resultavam na ver- noite de sua traição que deveria servir para
gonhosa situação de alguns ficarem com lembrar a morte dele. Não seria o compor-
fome, enquanto outros ficavam bêbados. tamento deles uma traição a Jesus, cuja
Paulo faz três perguntas que se destinam a ceia eles estavam comemorando?
tomá-los conscientes de sua culpa por esse 27 Nesse contexto particular, a indig-
comportamento vergonhoso. A primeira é nidade em comer do pão e beber do cálice
se os que comiam e bebiam em demasia estava associada à atitude e às ações de
não tinham sua própria casa onde pudes- uns para com os outros, especialmente
sem comer e beber. A segunda é por que em relação aos necessitados que estavam
eles menosprezam a igreja, literalmente, a sofrendo grande constrangimento. Paulo
"reunião" de Deus, uma vez que a igreja chama a atenção deles para suas posições
lhes pertencia (cf 1.2). A terceira pergun- sociais e comportamentos durante a ceia,
ta é se a intenção deles é humilhar os que em uma comunidade em que as divisões
literalmente nada têm, ou seja, os que não sociais deveriam ser abolidas em Cristo
têm a proteção de um lar próspero em uma (cf 1.30). Eles são, portanto, culpados de
época de crise como aquela em que havia pecar contra o corpo e sangue do Senhor.
fome (v. comentário de 7.26). Paulo certa- 28 Todos devem testar ou examinar-se a
mente não pode endossar ou elogiar essa si mesmos antes de participar da ceia do
conduta indesculpável. A razão pela qual Senhor. Nessa circunstância em especial,
eles são culpados é pronunciada. o exame está relacionado às atitudes de
23-25 Paulo começa com um lembre- um espírito partidário e à falta de com-
te de que ele está repetindo a tradição que paixão para com os que nada têm. 29 O
lCORíNTIOS 12 1774

fato de não reconhecer o corpo do Cristo, os que dela participam o fazem com atitu-
ou seja, o corpo de cristãos (cf 10.16), só des e ações para com os outros que sejam
pode provocar o juízo pessoal. 30 O juízo coerentes com a atitude e as ações de Jesus,
já ocorreu. Alguns estão espiritualmente doando-se a si mesmo (cf 11.20).
fracos devido às suas ações, outros estão
enfermos e ainda outros foram levados 12.1-13 Há somente
pela morte. Isso aponta para a importân- um Espírito Santo
cia enorme que Deus atribui à sua igreja e Assim como a conduta na ceia do Senhor
reflete a mesma atitude no AT de sua par- estava fora de controle, o mesmo acontecia
te no sentido de julgar e eliminar os que com a forma como o ministério era con-
ignoram o compromisso com a unidade duzido na igreja. Embora os coríntios te-
e as necessidades da comunidade cristã. nham escrito a Paulo pedindo orientações
31 Se eles julgassem as suas próprias do apóstolo sobre os dons espirituais, não
ações evitariam o juízo divino. 32 Para há razão para separar as questões do cp. 11
que os coríntios não pensem que o juízo das dos cp. 12-14. Se as tomarmos em
de Deus é tão indiferente quanto o dos conjunto, poderemos perceber a desordem
deuses pagãos, ele os faz lembrar que a com que eram realizadas as reuniões cris-
disciplina do Senhor nesta vida tem sem- tãs. Seja qual for a forma como o leitor re-
pre a intenção de corrigir, de modo que constitua os problemas que deram origem
o seu povo não seja condenado no futuro ao pedido de esclarecimento a Paulo - e
junto com o resto do mundo. fazer isso é como juntar pedaços de uma
33 A expressão assim, pois assinala a conversa ao telefone em que se escuta ape-
essência do que os coríntios são chama- nas uma parte - eles precisam ser asso-
dos a fazer. Quando eles se reunirem para ciados ao resumo das instruções finais de
comer devem esperar uns pelos outros ou Paulo em 14.39,40. Ele utiliza esse mesmo
partilhar sua refeição, pois o verbo tam- método em outras partes de sua carta (cf
bém pode ter esse significado. 34 Os que 11.33; 15.58). Paulo diz a eles: "Procurai
estiverem tão esfomeados que não pude- com zelo o dom de profetizar e não proi-
rem esperar são orientados a comer em sua bais o falar em outras línguas. Tudo, po-
própria casa. Isso significa que eles deve- rém, seja feito com decência e ordem".
rão se reunir não "para o pior", mas "para Os problemas parecem estar relacionados
o melhor" (cf v. 17). Essa parece ser uma principalmente à prioridade de profetizar e
orientação provisória, pois Paulo promete exercer o dom de línguas nas reuniões cris-
lidar um pouco mais com a questão quando tãs. Ambos, a profecia e o dom de línguas,
vier novamente a Corinto. deveriam ser conduzidos de forma a repro-
Essa declaração é por vezes tomada no duzir o caráter de Deus, a quem pertencia
sentido de que Paulo tenha suspendido a a reunião.
refeição permanentemente e implementa- 1 Os coríntios escreveram a respeito
do um culto como o que celebramos hoje. dos dons espirituais - o grego é ambíguo
É mais provável que a sua intenção fosse e pode ser traduzido por "pessoas espiri-
erradicar os problemas e as atitudes implí- tuais". A abertura da discussão sugere que
citas que deram origem a eles. É preciso a pergunta dos coríntios no v. 1 tinha rela-
não esquecer que os cidadãos estavam atra- ção com a forma com que os que possuí-
vessando um período de fome (7.26) em am o Espírito exerciam seu ministério nas
que os "que nada tinham" viviam em situa- reuniões da igreja. A primeira preocupação
ção extremamente precária. Também vale de Paulo é a de acabar com a ignorância
a pena refletir sobre o fato de que a ceia deles. 2 Ele os faz lembrar que, quando
do Senhor só pode ser autêntica quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos
1775 1CORíNTIOS 12

ídolos mudos, literalmente, "vocês eram de dons, serviços e realizações - a igreja


desviados ao serem constantemente guia- faria bem em seguir o exemplo de Paulo,
dos". A rejeição da revelação geral de Deus utilizando os três termos. 7 A cada um é
nessas vidas os levou à idolatria e a uma dada a manifestação do Espírito não para
espiral descendente de práticas idólatras o beneficio próprio, mas para um fim pro-
(Rm 1.21-23). O termo mudos é emprega- veitoso. O proveito ou bem alheio na vida
do aqui da mesma forma que os autores do secular era objeto das obras de benfeitores,
AT o empregavam quando ressaltavam em e Paulo usa aqui a mesma palavra para
Israel a insensatez e a inutilidade de se cur- enfatizar que o que cada pessoa recebeu é
var a ídolos esculpidos por mãos humanas para beneficio dos outros. Na Corinto se-
(Hb 2.18,19). 3 Os gentios acreditavam cular a elite ostentava seus dons e habili-
que os deuses eram capazes de atingir os dades acreditando que era isso o que lhe
seus objetivos contra outros em áreas da dava posição e importância social. Essa
vida como: competições atléticas, assuntos falsa noção parece, em alguns casos, ain-
do coração, negócios e política. Isso era da existir, mesmo após a conversão e já no
praticado nos cultos pagãos por meio do ministério. 8-10 Paulo resume os diferen-
uso de maldições contra seus adversários. tes dons, serviços e atividades do Espírito
Às vezes essas maldições eram escritas em - sabedoria, conhecimento, fé, cura, po-
pequenas placas de chumbo, depositadas deres milagrosos, discernimento de espíri-
no templo e nos poços e juradas em nome tos, variedade de línguas e suas interpreta-
de um deus. Numa dessas placas de chum- ções. 11 Tudo isso é atribuído ao Espírito,
bo, encontrada no templo de Demétrio em e sua distribuição a cada um é uma decisão
Corinto, se lê: "Hermes do mundo dos soberana do Espírito (cf 4.7b).
mortos [conceda] pesadas maldições". 12 Assim como os dons são diversos,
Anátema, Jesus pode ser traduzido por mas derivados de um único Espírito (4-11),
"Jesus [é] uma maldição" ou "Jesus [con- assim também com respeito a Cristo, isto
ceda] uma maldição", pois as duas pala- é, com respeito ao corpo de Cristo (cf v.
vras são literalmente "anátema Jesus". Cf 27). 13 O batismo pelo Espírito tem lugar
16.22 "seja anátema", em que o verbo está em um só corpo, em que as origens raciais
no tempo presente. Estariam os cristãos ou a posição social de cada um não faz ne-
de Corinto usando o nome de Jesus como nhuma diferença. A fonte da vida espiritual
uma maldição contra os seus adversários, deles é o Espírito (cf a "fonte" do povo de
da mesma forma como o faziam os pagãos Deus no AT, 10.4).
com os seus deuses? Estaria Paulo dizen-
do que nenhuma pessoa que falasse pelo 12.14-31 Há somente um
Espírito de Deus amaldiçoaria os outros corpo de cristãos
com "anátema Jesus" com a finalidade de Não é possível declarar independência do
prejudicá-los? Apenas os conduzidos pelo corpo de cristãos simplesmente porque
Espírito afirmam que Jesus é o Senhor. algumas pessoas estão particularmente
Dos cristãos se espera que usem seus dons descontentes com os dons dados pelo
para a bênção e o bem-estar das outras Espírito soberano (15-20) ou com os dons
pessoas (cf v. 7). dos outros, e por isso declarar que eles
Paulo prossegue discutindo o fato de não precisam de ministérios específicos
que os muitos e diferentes dons têm origem (21-26). Todos os cristãos são parte de um
em uma única fonte, Deus, que os tomou corpo, e foi Deus quem providenciou essa
disponíveis para o bem comum (4.11).4-6 diversidade.
Do mesmo Espírito, do mesmo Senhor e 15-21 A insatisfação de alguém com
do mesmo Deus se origina uma variedade determinada função não pode fazer com
1CORíNTIOS 13 1776

que essa pessoa deixe de ser parte do cor- de importância no v. 27. Essa suposição é
po. Se todo o corpo tivesse um só dom, corroborada em 14.1,39.
como ele funcionaria? Deus dispôs todas Para que os coríntios não buscassem
as partes do corpo como lhe aprouve. Se dons com o espírito de arrogância refletido
todas as partes do corpo fossem iguais, não em suas atitudes em 12.1, Paulo lhes mos-
haveria corpo. A verdade é que há muitas tra um caminho sobremodo excelente em
partes, mas um só corpo. Os que têm dons termos de seu ministério conjunto.
de discernimento e de reflexão não podem
menosprezar os que têm dons mais prá- 13.1-13 Dons exercidos no
ticos. 22-24 Que as partes do corpo mais contexto de relacionamentos
fracas e menos dignas sejam tratadas com de compromisso
honra e decoro especiais em contraste com 1 A falta de amor no exercício dos dons
as partes do corpo que não precisam de prejudica a pessoa que fala em línguas (ou
atenção especial. Deus integrou os mem- as línguas) dos homens e anjos. Serei -li-
bros do corpo e concedeu honra adicional teralmente "eu me tomarei" - tão vazio
às partes que menos tinham. 25 O cerne da quanto o som do "sino [ou do] prato que
questão é a intenção de Deus de que não retine" (NVI). 2 O dom de profecia, por
houvesse divisão, mas, antes, que os mem- meio do qual toda a verdade é revelada e
bros cooperassem com igual cuidado em o conhecimento compreendido, e a fé, que
favor uns dos outros (cf 1.1o; 3.3; 11.18). move montanhas de problemas, fazem com
27 Os coríntios são o corpo de Cristo, que esse ministério nada seja se o amor es-
e cada um deles faz parte desse corpo. tiver ausente. 3 Se houver generosidade
Alguns se sentem superiores, e como re- transbordante a ponto de a pessoa entregar
sultado outros se sentem inferiores em seu a própria vida para ser queimada, mas se
ministério. Com isso, eles foram tentados ela não tiver amor nada disso lhe trará pro-
a se afastar, ou na verdade se afastaram de veito. A falta de amor no ministério signi-
um papel ativo nas reuniões cristãs. Assim fica que mudei para pior - "Eu me tomo
como alguns coríntios não conseguiram vazio", cc Eu sou um nada" e "Nada rece-
reconhecer o corpo em 11.29, também bo por todos os meus esforços", tudo isso
aqui eles exerceram seu ministério de uma aguça as motivações para o ministério. O
forma que teve um efeito negativo sobre amor não pode ficar de fora.
os demais membros. Eles se mostraram 4-7 A presença de amor encoraja as
parciais em sua relação com os demais outras pessoas e nos ajuda a superar os
- algo que acontecia claramente na socie- aspectos destrutivos do nosso caráter. A
dade secular. 28-30 Tanto a atribuição dos paciência, a bondade e a verdade são im-
dons aos cristãos como a prioridade dada a portantes demais. Assim como evitar os
cada um desses dons pertencem somente pecados dos Dez Mandamentos que dizem
a Deus. As funções apostólicas, o minis- respeito a outros seres humanos é algo
tério profético, as tarefas do ensino, mila- que nutre e fortalece os relacionamentos,
gres, cura, socorro aos necessitados, tarefas o mesmo acontece com o amor. A inveja,
administrativas e o dom de línguas são de- a soberba, a raiva e o mal são evitados. O
finidos (28) junto com o dom da interpreta- amor fornece tanto a estabilidade quanto a
ção de línguas (30). É claro que nem todos consistência para que a vida floresça.
têm cada um desses dons. 31 Os coríntios 8-13 O futuro do amor é garantido.
deveriam procurar com zelo os melhores 9 Nessa existência temporária o nosso co-
dons. Quais seriam esses dons? Seriam, nhecimento imperfeito se reflete na nossa
presumivelmente, os dons de profecia e de profecia. 10 Porém, quando vier do céu o
ensino, como aparecem listados em ordem que é perfeito então o imperfeito será eli-
1777 1CORíNTIOS 14

minado. 12 As imagens imperfeitas serão cisava dar o toque correto como sinal para
substituídas por percepções verdadeiras que as tropas se preparassem para a bata-
- os espelhos imperfeitos distorciam o lha. 9 Paulo amplia a ilustração: Assim,
reflexo verdadeiro do rosto no espelho. O vós. Ninguém pode discernir a melodia ou
conhecimento parcial dará lugar ao conhe- reconhecer o sinal se a língua for ininteli-
cimento pleno, assim como também somos gível. 10-12 Desde Babel, havia inúmeras
totalmente conhecidos por Deus. 13 A per- línguas, e uma língua incompreensível faz
manência só é concedida à fé, à esperança de quem fala e de quem ouve estrangeiros
- o futuro nos vem das mãos de um Deus um para o outro. Assim, também vós, Paulo
que não vai nos desapontar - e ao amor. repete (12) e elogia a vontade que os co-
Porém, o maior desses é o amor, pelas ra- ríntios têm de possuir dons espirituais, e os
zões claramente afirmadas nos v. 1-7. encoraja a procurar progredir para a edifi-
cação da igreja.
14. 1-19 Profecias, línguas e a igreja Nos v. 1-19 Paulo discute os motivos
A busca do amor deve ser a prioridade nas pelos quais o dom de profecia deve ser mais
reuniões cristãs. Repetindo a declaração procurado que o dom de línguas. A edifica-
de 12.31 e resumindo a instrução da busca ção, o fortalecimento, o encorajamento e o
pelos melhores dons, Paulo revela ter em consolo da igreja são aspectos fundamentais
mente o dom da profecia. 2 Ele indica a da reunião dos cristãos como povo de Deus,
razão disso. As línguas não são dirigidas e isso ocorre por meio do dom da profecia.
aos homens, mas a Deus. 3 A profecia, por
outro lado, é dirigida ao povo de Deus e 14.20-25 Profecias,
atende a três necessidades do coração hu- línguas e os incrédulos
mano - a edificação, a exortação e o con- 20-22 Paulo recomenda que os coríntios
solo. A fé cristã é singular nesse sentido, parem de pensar como meninos (cf 13.11).
pelo fato de ter usado palavras que descre- Embora seja conveniente que sejam ino-
vem a edificação na sua atividade de tentar centes em relação à malícia, eles devem
fortalecer, incentivar e confortar os seus pensar como adultos. Isso implica em
membros. 5 O desejo de Paulo era que to- compreender o que está escrito na lei (Is
dos falassem em línguas, mas, acrescenta, 28.11,12; Dt 28.49), donde Paulo deduz
se pudesse escolher, ele gostaria que todos que as línguas são um sinal para os incré-
profetizassem. O profeta é maior do que o dulos (mas um sinal negativo que con-
que ora em línguas, a menos que este inter- firmaria sua descrença!) e a profecia um
prete o que ora e a igreja seja edificada. Ele sinal para os cristãos. 23 Se entrar algum
repete que as reuniões cristãs devem ter a indouto ("não instruído", NVI) ou incrédu-
intenção de edificar. lo ("descrente", NVI) na igreja e todos es-
6 Paulo está discutindo com pessoas tiverem falando em línguas, ele concluirá
que evidentemente dão grande ênfase ao que a igreja reunida é um grupo de loucos.
dom de línguas tomando-se a si mesmo 24 No entanto, se todos estiverem profeti-
como exemplo. A não ser que produza zando, o descrente ou o não instruído será
alguma revelação, conhecimento, profecia impactado. Ele será convencido e julgado
ou ensinamento, que bem alcançará o seu por todos, 25 seu coração será revelado e,
ministério? Ele fornece dois exemplos. prostrando-se, adorará a Deus.
7 A inteligibilidade é crucial no caso da
música tocada pela flauta ou cítara - o sé- 14.26-36 De maneira
culo I tinha um grande apreço pela cítara, e apropriada e ordeira
os seus expoentes lotavam os teatros com 26 Todos têm um hino, uma mensagem de
seus vastos repertórios. 8 A trombeta pre- instrução, uma revelação, uma língua ou
1CORíNTIOS 14 1778
11III

uma interpretação. Mas tudo isso deve ser mas reguladas, como previsto no presente
feito para a edificação da igreja. 32 Tudo capítulo. 40 O intuito das decisões e orien-
deve estar sob controle, pois Deus é um tações de Paulo era a ordem nas reuniões.
Deus de paz. Um aspecto do caráter de Deus é que ele
Os v. 33-36 tratam da questão do pa- é um Deus de ordem (cf v. 33), e para re-
pel das mulheres na igreja. Alguns co- fletir isso, tudo deve ser feito de maneira
mentaristas tentam se livrar do problema, apropriada e ordeira na sua igreja. Essa
afirmando que essa seção não é de Paulo, inferência inclui não somente as questões
mas um acréscimo posterior. Mas todos relativas a esses capítulos, mas também as
os manuscritos incluem essa passagem. do cp. 11.
Para se entender a passagem, três pontos Nota. Os cp. 11-14 refletem a convic-
precisam ser observados: (i) As mulheres ção teológica de que a igreja não é "mi-
oravam e profetizavam nas reuniões cris- nha" ou "nossa", mas de Deus; de que as
tãs (cf 11.5). Essa era uma prática comum ações e a entrega da própria vida de Cristo
em todas as igrejas apostólicas (33b). O devem se refletir nos relacionamentos e
contexto é crucial, a saber, a avaliação da no atendimento das necessidades; de que
profecia (v. 35). (ii) A lei exige o reco- deve haver a participação tanto de homens
nhecimento de papéis distintos para ho- como de mulheres; e de que a preocupação
mens e mulheres (34), uma referência a principal deve ser a edificação, de maneira
Gênesis 2.20-24 ou 3.16. Paulo já havia ordeira, dos que se reúnem. Esses capítulos
citado a primeira passagem em 11.8,9. não deveriam ser lidos com o propósito de
(iii) A mulher deveria procurar a eluci- apontar as falhas ou deficiências de outras
dação dos pontos em casa, o que poderia tradições cristãs. Seria fácil ler esses capí-
perfeitamente significar que foi seu mari- tulos sem observar seus desafios pessoais.
do quem deu a profecia (35). Embora não Paulo clama por um comprometimento
haja certeza absoluta, o presente autor é maior em relação às necessidades físicas
da opinião que as mulheres, nessa reunião e espirituais nas reuniões cristãs semanais
pública, não devem participar na avalia- mais do que muitas reuniões das igrejas
ção pública de profecia que envolvesse modernas permitem. Elas devem ser edifi-
questionamento do seu conteúdo. cantes para os que delas participam. A igre-
ja apostólica nunca estaria fechada para os
14.37-40 Advertências e conclusões incrédulos. O desafio que continua válido
37 A orientação apostólica que os corín- para nós é que os cultos cristãos devem ter
tios procuravam a respeito "das pesso- uma atmosfera tal que as pessoas de fora
as ou dons espirituais" conclui com uma entrem e adorem e reconheçam que Deus
declaração franca de que tudo que Paulo realmente está entre o seu povo.
escrevia vinha do Senhor. O profeta e a
pessoa espiritual saberiam que "Paulo diz 15.1-58 A ressurreição
o que Deus diz" (Agostinho). Não há ne- do corpo dos cristãos
nhum fundamento para relegar esses capí- Essa não é uma questão que os coríntios
tulos, ou quaisquer outros, a uma circuns- mencionaram na sua carta a Paulo. Paulo
tância de lugar ou tempo determinados. ficou sabendo que alguns diziam não
38 Pessoas que ignorarem esse aspecto, in- haver ressurreição dos mortos (12). Ele
clusive os profetas e as pessoas que exer- prevê que alguns irão fazer perguntas re-
cem dons espirituais, devem ser ignorados. lativas aos meios pelos quais os mortos
39 A profecia deve ser avidamente perse- são ressuscitados e à natureza do corpo
guida por causa de seus beneficios para a ressuscitado dos cristãos (35). É evidente
igreja. As línguas não devem ser proibidas, que a questão está relacionada à conduta
1779 1CORíNTIOS 15 li"
l1lil1li

deles, pois ele ordena aos coríntios que 15.1-11 O evangelho e a certeza
não se enganem e parem de pecar (34). da ressurreição de Cristo
Assim como em 11.33,34; 14.39,40, este 1 Paulo os faz lembrar do evangelho que
capítulo conclui com algumas ordens de ele tinha anunciado e no qual eles tinham
Paulo, v. 58 - ... sede firmes, inabaláveis crido, (cf v. 11). 2 Esse evangelho os
e sempre abundantes na obra do Senhor salvou, e a não ser que eles retivessem a
- e com a razão para serem assim - sa- palavra tal qual Paulo a tinha pregado, a
bendo que, no Senhor, o vosso trabalho sua crença era vã, ou seja, vazia. 3 Paulo
não é vão. não tinha inventado essa palavra, mas ti-
Que associação há entre a ressurreição nha sido aquele que transferira a eles o
do corpo depois da morte do cristão e as que ele mesmo tinha recebido (cf 4.1). O
obras realizadas no Senhor nesta vida? Por aspecto mais importante em tudo isso era
que eles precisam ter a certeza de que elas a morte de Cristo por nossos pecados que
não são em vão? Não é a ressurreição de era verdadeira porque o AT tinha discutido
Cristo que estava sendo negada, mas a res- a obra do Messias (Is 53). 4 O sepultamen-
surreição dos cristãos em contraste com a to e a ressurreição do Messias no terceiro
doutrina pagã da imortalidade da alma. dia também foram temas do AT (SI 16.8-11
A imortalidade da alma era uma verda- citado por Pedro no dia de Pentecostes,
de inquestionável para a maioria dos pa- Atos 2.24-28).5-8 Essa passagem do AT foi
gãos do século I. A ressurreição do corpo comprovada naturalmente pela ressurrei-
era um absurdo para eles (cf At 17.32). ção de Cristo, algo que um grande número
Alguns cristãos parecem ter entendido a de pessoas ainda vivas na época poderia
vida eterna em termos da imortalidade da confirmar. Primeiramente Pedro, em se-
alma. Parece também que eles endossavam guida os 12 apóstolos, quinhentos cristãos
as implicações que os pagãos tinham con- a quem ele apareceu em dado momento,
cluído. O paganismo popular argumentava Tiago, o irmão do Senhor e, em seguida,
que os sentidos que acompanhavam a alma todos os apóstolos, e finalmente Paulo, a
imortal eram dados pela natureza, mas não quem apareceu na estrada para Damasco,
poderiam ser desfrutados além do túmulo. todos o encontraram (At 9.3-5). 10 A in-
Assim, se eles tivessem dinheiro, a conclu- tervenção da graça de Deus tinha feito de
são era: comamos e bebamos, que amanhã Paulo um apóstolo e ele alegava ter traba-
morreremos (32). Sentia-se que o modo lhado com mais afinco do que qualquer
como os cristãos viviam nesta vida não ti- outro apóstolo, ou melhor, que a graça de
nha a mínima consequência, mas a certeza Deus permitira que assim fosse. 11 Isso,
da imortalidade era vista como a essência entretanto, era irrelevante, pois esse evan-
do evangelho e isso era tudo o que importa- gelho que Paulo acabou de descrever era o
va. Essa visão da vida cristã ainda persiste que pregamos (nós, os apóstolos) e nele os
e tem os seus proponentes tanto no púlpito coríntios creram.
como nos bancos das igrejas. Paulo refuta
veementemente esse ponto de vista aber- 15.12-34 A ressurreição de Cristo
rante da continuidade do cristão separado e a nossa ressurreição
de um corpo, ao mostrar que a ressurreição 15.12-19 Se Cristo não ressuscitou. Com
de Cristo estava no centro do evangelho e a o uso de seis "ses", Paulo explora as con-
ressurreição do corpo dos cristãos era uma sequências da crença de alguns dos cris-
consequência lógica, concluindo com as tãos de Corinto que defendiam não haver
implicações éticas disso. Ele então conti- a ressurreição dos mortos. 12 Ele come-
nua a explicar a natureza do corpo ressus- ça voltando-se ao fato da ressurreição de
citado para os cristãos (35-57). Cristo. Como poderiam alguns afirmar
1CORíNTIOS 15 1780

que não havia a ressurreição dos mortos? todo o mal. 25 Ele reinará com o sobera-
13 Se, como os fundadores do Areópago no Senhor do céu e da terra até que todos
de Atenas acreditavam, a ressurreição do os inimigos estejam debaixo dos seus pés.
corpo era em si impossível, então, a res- 27 Paulo continua sua explicação, citan-
surreição de Cristo era impossível. 14 Se do um salmo messiânico, Salmos 8.6, que
Cristo não foi ressuscitado, o evangelho aponta para a sujeição de tudo. Sua exposi-
é inútil e sua confiança inapropriada. 15 ção da passagem enfatiza o significado de
Além disso, o testemunho dos apóstolos de todas as coisas. Isso naturalmente não in-
que Deus ressuscitou a Cristo é fraudulen- clui o próprio Deus que coloca tudo sob os
to. Mas Deus não poderia fazer algo que pés de Cristo. 28 Quando todas as coisas
na verdade não aconteceu, ou seja, a res- estiverem sujeitas a ele, o próprio Cristo
surreição dos mortos. 16 Se não há ressur- dobrará os seus joelhos a Deus Pai para
reição, Jesus não havia ressuscitado. 17 Se que Deus possa ser tudo em todos. Em uma
Cristo não ressuscitou, a fé deles era vã e passagem tão curta Paulo delineou a perda
seus pecados não poderiam ser perdoados e a recuperação do paraíso, bem como a
(cf v. 3). 18 Além disso, os cristãos que já recuperação da submissão de todas as coi-
tinham morrido e que haviam sido persua- sas a Deus, como no início da criação. E é
didos a abandonar suas antigas convicções a ressurreição de Cristo que garante isso.
religiosas estavam perdidos, pois Paulo 15.29-34 Ressurreição, batismo cristão e
acreditava realmente que os que morriam ministério. Paulo elabora mais argumen-
sem Cristo estavam perdidos. 19 Se a fé tos contra os que negam a ressurreição do
cristã é mais uma panaceia desta vida, en- corpo e as consequências presentes para
tão, em face do custo de ser cristão numa a atividade cristã. Ele conclui com uma
sociedade pluralista como a de Corinto, os repreensão dura contra os que estão espa-
cristãos eram as pessoas mais patéticas da lhando a sua crença equivocada. Se não há
face da terra. Paulo trouxe esse ponto de ressurreição do corpo, Paulo considera que
vista falso à sua conclusão lógica. Eles de- tanto o batismo como os ministérios deles
veriam abandonar sua crença se não havia são inúteis. 29 Esse é um versículo dificil.
a ressurreição do corpo. Alguns o entendem como algo que apoia
15.20-28 Se Cristo ressuscitou. Paulo a ideia de que os coríntios cristãos se sub-
agora explica as consequências da ressur- metiam ao batismo em nome dos que ti-
reição de Cristo. 20 Ele afirma que a res- nham morrido, presumivelmente membros
surreição de Cristo é verdadeira, e também já falecidos de suas famílias. Eles também
que ela é a garantia da ressurreição dos argumentam que, embora Paulo não tolere
que morreram (v. também 11.30, em que esse batismo, ele simplesmente cita o que
a morte agora era vista como um sono, e eles fizeram como um argumento contra a
não como o mal monstruoso que signifi- sua crença. Mas Paulo não era um prag-
cava para o mundo pagão). As primícias mático. Isso não tem a menor sintonia com
de qualquer colheita indicam que há mais a ideia de Paulo como pastor e com o seu
da colheita por vir. 21 O homem fora o comentário crítico incisivo sobre a conduta
responsável pela morte (Gn 2.17), e a res- deles por toda essa carta. Seria uma prática
surreição dos mortos também veio através conflitante com o seu evangelho.
de um homem. 23 O processo segue uma Paulo ensina em Romanos 6.3-5 que
ordem. Cristo é o primeiro, e então com os cristãos são sepultados com Cristo no
sua vinda seguem os cristãos. 24 Depois batismo e ressuscitados para caminhar
vem o fim, o último evento nesta histó- em novidade de vida, e que estão unidos
ria cósmica, quando Cristo entregará nas a ele na sua morte e ressurreição. Essa
mãos do Pai o Reino, tendo subjugado experiência espiritual para a qual a água
1781 1CORíNTIOS 15

do batismo aponta não é simplesmente estilo de vida hedonista era o testemunho


uma referência à "alma", mas à pessoa do seu sucesso. Essa era a ética dos ricos.
como um todo, incluindo o seu corpo. Os Eles se orgulhavam da sua vida licencio-
antigos pais gregos concluíram que nes- sa. Paulo está aparentemente preocupado
se versículo Paulo está perguntando qual com o efeito que essas más companhias
seria a razão de alguém se submeter ao podem ter sobre o caráter dos cristãos.
batismo que se fazia por causa dos corpos 34 Quando Paulo ordena que alguns dos
- a expressão por causa dos mortos, li- coríntios ponham a mão na consciência e
teralmente, "por causa dos [corpos] mor- parem de pecar, parece que ele tem esse
tos" é repetida duas vezes - se eles iriam estilo de vida autoindulgente em mente.
simplesmente desaparecer. Isso era endossado pelos cristãos com
30 O segundo argumento de Paulo é base no argumento de que não havia a
com relação ao seu próprio ministério. ressurreição do corpo. Esse estilo de vida
Suas próprias atividades o colocavam em centrado no prazer significava que eles
perigo constante (cf 2Co 11.23-28).31 Ele não se preocupavam em tomar Deus co-
se via morrendo dia após dia. Pelo que ele nhecido para outras pessoas, o que Paulo
está morrendo? Os pagãos alegavam que os vê como uma obrigação de todos os cris-
desejos deveriam ser satisfeitos nesta vida. tãos (cf 10.32-11.1). Paulo acreditava
Eles também acusavam os que discorda- que tudo seria levado perante o tribunal de
vam deles, alegando que estavam negando Cristo e receberia a sua recompensa, se-
a si mesmos a autorrealização e os prazeres gundo o bem ou mal praticado por meio
da vida. Paulo parece estar argumentando do corpo (2Co 5.10 cf Ap 14.13). Sendo
que, à luz dessa opinião, ele consciente- esse o caso, ele condenou a má conduta
mente se negava a si mesmo. 32 Ele fala ética de alguns em Corinto que negavam a
em ter se empenhado no ministério a ponto ressurreição do seu corpo para justificar o
de enfrentar asferas em Éfeso - uma pos- que eles faziam. Um deslize de um cristão
sível alusão ao culto imperial da província em sua conduta ética resulta na negação
de veneração de imperadores com o qual da ressurreição de seu corpo e na respon-
Paulo, como cidadão romano, parece ter sabilidade por aquilo que tem praticado.
se envolvido de alguma maneira. O culto
era sempre acompanhado de apresenta- 15.35-44 Analogias de
ções com feras selvagens. Em 2Coríntios sementes e corpos
1.8-11 ele se refere às dificuldades que ex- 35 Paulo responde tratando os que fizeram
perimentou em Éfeso. Sobre a premissa essas perguntas (e.g., Como ressuscitam os
dos coríntios, Paulo sugere que ele estava mortos?) como "insensatos". Sob reflexão
perdendo o seu tempo. Ele deveria viver as respostas são muito óbvias, como mos-
como os pagãos que argumentavam que se tram as suas analogias. O trigo existe em
deveria comer, beber e se divertir no cor- duas formas, e a segunda não nasce se a se-
po, porque esses prazeres chegariam ao mente primeiramente não morrer no solo.
fim com a morte. Ele cita Isaías 22.13. Foi Deus que determinou a forma futura
33 Ele ordena a eles que não se des- de cada espécie de semente, ou seja, foi ele
viem e cita um dito popular extraído de que lhe deu um "corpo" característico. Deus
Thais, de Meander: "As más companhias criou também os animais com diferentes ti-
corrompem os bons costumes" (NvI). Qual pos de carne. O mesmo é verdade também
seria a relação disso com a negação da para os corpos celestiais e terrestres. A gló-
ressurreição do corpo? Os que pregavam ria desses corpos é que difere. Os corpos
a imortalidade da alma e do corolário da terrestres são a prova disso. A ressurrei-
satisfação dos sentidos diziam que o seu ção dos mortos não é diferente. É como a
1CORíNTIOS 15 1782

semente, semeada na morte e ressuscitada vem a realização do poder esmagador do


como imortal. Ela passa por uma transfor- pecado (cf Rm 7.7-14, em que Paulo ex-
mação gloriosa. Semeada em desonra e em plica em detalhes a afirmação breve que
fraqueza, ressuscitará em glória e poder. ele faz aqui). 57 Cristo invadiu o domínio
44 Paulo conclui que, se há um corpo natu- da morte e roubou o seu aguilhão. Essa é a
ral, há também um corpo espiritual. grande vitória pela qual devemos agrade-
cer a Deus.
15.45-49 Analogia de Adão e Cristo
45 O primeiro homem foi feito alma viven- 15.58 Instruções finais
te, de acordo com Gênesis 2.7, e o último A consequência de toda essa discussão é a
Adão, Cristo, um espírito vivificante (cf v. ordem para que permaneçam firmes e não
22,23). 48 A descendência de Adão com- se afastem dessa rocha que é a ressurreição
partilha de sua natureza, enquanto os que do corpo do povo de Deus. O que eles não
são do céu compartilham da natureza de devem fazer agora neste corpo que deve
Cristo. 49 Assim como os cristãos com- ressuscitar é deixar se conduzir pelo peca-
partilham da semelhança de Adão, assim do (33,34a). Antes, eles devem ser sempre
eles devem compartilhar da semelhança de abundantes na obra do Senhor, que em
Cristo. Para o cristão, há a garantia de uma parte significa ajudar os que não têm o co-
continuidade da existência com a ressur- nhecimento de Deus (34b). Esse é o cha-
reição do seu corpo e sua transformação à mado de toda a vida para o cristão comum.
semelhança de Cristo (cf Fp 3.21). Esse trabalho não será em vão e significará
que eles receberão no dia do julgamento no
15.50-57 A garantia da vitória tribunal de Cristo a recompensa do Senhor
50 A transformação é uma necessidade, pelo bem praticado no corpo (2Co 5.10).
pois a carne e o sangue, isto é, o corpo ter- Os que morrem no Senhor são chamados
restre, não podem herdar o reino de Deus, abençoados, pois eles descansam do seu
nem a corrupção herdar a incorrupção. 51 trabalho no Senhor, e as suas boas obras os
Paulo lhes conta um segredo, um mistério, seguem (Ap 14.13). No cristianismo con-
ou seja, algo que não tinha sido revelado temporâneo, há um risco de revestir o ter-
anteriormente na história humana mas foi mo "vida eterna" com a noção greco-pagã
revelado aos servos de Deus (cf ICo 4.1). da imortalidade da alma, e de considerar
Nem todo o povo de Deus dormirá o sono o presente momento da vida cristã como
da morte, ou seja, morrerá, mas é certeza algo que proporciona oportunidades para
absoluta de que todos serão transforma- promoção pessoal e engrandecimento.
dos. 52 A vinda de Cristo ocorrerá em um
instante, o fim sendo anunciado pelo toque 16.1-24 Outros assuntos
da trombeta (cf Zc 9.14). Então os mortos
ressuscitarão e o povo de Deus será trans- 16. 1-4 Organizando a coleta
formado. 54 Quando isso acontecer, o que Esse é o quinto assunto sobre o qual os
o profeta profetizou irá se cumprir - a coríntios escreveram (7.1,25; 8.1; 12.1).
morte será tragada pela vitória (Is 25.8). Paulo atribuiu grande importância ao di-
55 Novamente Paulo pode citar a profecia nheiro a ser recolhido para os cristãos ne-
do AT de Oseias 13.14, que é precedida pela cessitados em Jerusalém. Isso não tinha
promessa de que o Senhor irá resgatar o apenas uma motivação filantrópica, mas
seu povo da sepultura. Das duas perguntas representava um gesto singular de solida-
do v. 55, a segunda é respondida no v. 56 riedade dos gentios para com os judeus.
e a primeira no v. 57. 56 O pecado foi a Normalmente eram os judeus da dispersão
causa da morte (Gn 2.17). Através da lei que enviavam doações para os concida-
1783 1CORíNTIOS 16

dãos judeus em Jerusalém; mas o empenho breve (4.19). 6 Ele esperava passar o in-
das igrejas gentílicas em coletar dinheiro verno com eles na expectativa de que eles
para os judeus cristãos revelava a nature- o ajudassem em sua jornada, isto é, pro-
za do evangelho, que conseguia quebrar porcionando-lhes a oportunidade de fazer
de modo decisivo as barreiras raciais. 2 A parte do seu futuro ministério. Em todas
doação precisava ser sistemática, em que as passagens que Paulo fala do apoio dado
cada pessoa separava no primeiro dia da livremente pela igreja ele se refere a esse
semana um montante apropriado de seu apoio como uma parceria com ele no evan-
rendimento, literalmente "conforme a sua gelho (Fp 1.5; 4.15). Ele deseja visitar
prosperidade" dada pelo Senhor. A doa- Roma e também levar a coleta a Jerusalém
ção sistemática foi preferida, pois Paulo - daí o elemento de incerteza. 7 O fato
não queria fazer a coleta quando ele che- de que Paulo não retomou imediatamen-
gasse. 3 Paulo então enviaria a coleta para te a Corinto levou alguns dos coríntios
Jerusalém pelas mãos de pessoas escolhi- a se tomar arrogantes (4.18). Isso reflete a
das pelos coríntios, e escreveria cartas de forma de pensar mundana deles, enquan-
apresentação para elas. Exigia-se respon- to ele, de sua parte, ao pensar sobre as
sabilidade. Abusos em relação às doa- opções, sempre o faz coagido claramen-
ções confiadas eram tão comuns entre os te por um fato: se o Senhor o permitir.
judeus que uma escolta foi providenciada 8,9 Ele está atualmente em Éfeso e per-
pelas autoridades romanas para a proteção manecerá ali até o Pentecostes, a festa
dos fundos a serem enviados a Jerusalém. judaica celebrada cerca de cinquenta dias
4 Paulo viajará com os que levarem as car- depois da Páscoa. A razão de sua perma-
tas e o dinheiro, se ele acreditar que isso nência ali são as grandes oportunidades
é conveniente. Ele não fala como se ele evangelísticas que são acompanhadas de
os estivesse acompanhando, mas como se muita oposição (cf 15.32 e 2Co 1.8,11).
eles o acompanhassem. Ele claramente Ele não era um evangelista do tipo que
se vê como o apóstolo dos gentios que não corria riscos.
ia para a igreja de Jerusalém com as do-
ações dos cristãos gentios. A doação foi 16. 10,11 A visita proposta
finalmente recolhida (Rm 15.26), embora, de Timóteo
como mostra 2Coríntios 8-9, os coríntios 10 Paulo também está preocupado se o
parecem não ter seguido seus ensinamen- seu companheiro fiel na obra (Fp 2.19-23),
tos sobre a doação sistemática nos v. 1-4. Timóteo, seria bem recebido. Dada a hosti-
Quanto tempo e energia poderiam ser pou- lidade que alguns na congregação nutriam
pados na obra cristã se o povo de Deus sim- contra Paulo, ele está preocupado que eles
plesmente exercesse a disciplina de levar recorram a formas mundanas de expres-
em conta regularmente a bondade de Deus sar inimizade, vingando-se do apóstolo ao
e colocasse de lado recursos para a partilha maltratar o seu amigo. 11 Paulo apela por
cristã. Observe também o cuidado com que um tratamento adequado. Encaminhai-o
Paulo lida com o dinheiro a fim de evitar em paz, para que venha ter comigo pode
eventuais acusações de impropriedade, e a ser uma referência ao costume judaico do
forma como encoraja os cristãos para que Shalom, que envolvia uma bênção espiri-
façam o mesmo. tual, bem como a provisão das necessida-
des do viajante.
16.5-9 Os preparativos para
a viagem de Paulo 16.12-14 O retorno de Apolo
5 Aqui ele explica o que tinha em mente Este é o último assunto sobre o qual os co-
quando disse que esperava visitá-los em ríntios escreveram. Eles tinham solicitado
1CORfNTIOS 16 1784

o retomo de Apolo. Fica evidente a partir 16.15-18 O bom exemplo


de 1.12; 3.4; 4.6 que, ao pressionar por da casa de Estéfanas
esse retomo, os motivos de alguns eram Famílias grandes eram uma instituição
claramente suspeitos - era a alternati- social nos dias de Paulo. Elas tinham uma
va ao retomo de Paulo para uma estadia capacidade enorme de promover o minis-
prolongada. Apesar de tudo isso, Paulo tério cristão. 15 Como já mencionado em
insiste que Apolo retome a Corinto para 1.16, os membros da casa de Estéfanas fo-
ministrar. A resposta de Apolo é refletida ram as primícias do ministério de Paulo e
na frase: mas de modo algum era vontade claramente utilizavam seus recursos para
dele ir agora. Ele irá quando se lhe depa- o povo de Deus, isto é, os santos (cf 1.2).
rar boa oportunidade, literalmente, "no Se, como foi sugerido, os coríntios en-
tempo certo". Isso sugere que Apolo jul- frentavam escassez de grãos (v. discussão
gou que aceitar o convite nesse momento no cp. 7 e o significado de 7.26), então
não seria do interesse da congregação, havia uma família que ministrava dia a
dadas as tensões entre Paulo e a igreja. É dia àqueles que nada tinham (cf 11.22).
interessante que Apolo ficou contente por Seu ministério incluiria a hospedagem de
Paulo responder em seu nome. É evidente viajantes cristãos.
aqui que não há um espírito competitivo 16 Paulo apela aos coríntios e a to-
entre Paulo e Apolo e nem este ficaria li- dos os que trabalham na obra cristã para
sonjeado pelo pedido da igreja para que que sejam submissos. O significado do
ele retomasse, dadas as suas motivações. apelo para - que também vos sujeiteis
Paulo registraria, mais tarde, a atitude - é incerto, a menos que eles fossem os
dos obreiros cristãos em Corinto que su- presbíteros que dirigiam as suas próprias
cumbiram ao espírito competitivo secular casas e tivessem o histórico de utilizar
(2Co 10.12). seus recursos em benefício dos outros.
13,14 Embora pareça que esses versí- 17 Certamente, o ministério de socorro
culos não estão relacionados com a questão aos necessitados é a chave, pois Paulo o
de Apolo, faria sentido enxergar aqui as or- experimentou em Éfeso, tanto nas mãos
dens dadas diante das atitudes equivocadas de Estéfanas como nas de Fortunato e
dos coríntios em relação ao ministério do Acaico. A chegada deles alegrou o co-
evangelho. Paulo apela para que eles sejam ração de Paulo, e eles foram capazes de
vigilantes. Está evidente que eles sucumbi- preencher o vazio que Paulo sentia em
ram às maneiras seculares de pensar sobre sua vida, separado como estava da igre-
Apolo e Paulo (cf 3.3,4). Permanecer fir- ja de Corinto. 18 Ele explica que eles
mes na fé do Cristo crucificado era neces- renovaram o seu espírito, e eles fize-
sário tanto aos coríntios quanto aos men- ram o mesmo também para os coríntios.
sageiros do evangelho (cf 1.17b-2.5). Um ministério desse calibre deve ser
O chamado para serem pessoas de cora- estimado: Reconhecei, pois, a homens
gem e para serem fortes envolve resistir à como estes.
pressão de moldar o ministério de acordo Os servos de Deus não podem ser dife-
com as categorias seculares de discursos rentes do próprio Deus que envia tempos
polidos e inteligentes (cf o próprio exem- de refrigério para os corações e mentes de
plo de Paulo, 4.8-16). O apelo para fazer seu povo. A igreja contemporânea necessi-
tudo em amor pode muito bem ser uma ta de pessoas que atendam às necessidades
reprovação às suas divisões e ao ciúme de do povo com as bênçãos que receberam
antigos mestres, bem como à motivação para esse propósito. Não se pede que a
por trás do convite pelo retomo de Apolo congregação autorize tal ministério mas
(cf 1.10; 3.3; 4.6). que reconheça a sua existência.
1785 1CORíNTIOS 16

16. 19-22 Saudações finais ver desculpas para não reagir com amor
19 Paulo termina com saudações das igre- ao incrível amor de Cristo. O oposto de
jas na província da Ásia, da qual Éfeso uma saudação ou bênção era uma maldi-
é a capital - isso implica que o seu mi- ção ou anátema. Em outras passagens ele
nistério foi estendido para além daquela invoca uma maldição sobre aqueles que
cidade. Antigos membros da congregação pregam outro evangelho (Gl 1.8,9), e não
em Corinto (At 18.2,3), Áquila e Priscila, pode ser diferente no caso das pessoas que
bem como toda a igreja que se reúne em não amam o Senhor de quem esse evan-
sua casa, enviam as suas saudações mais gelho testemunha. O clamor em aramai-
calorosas, literalmente "muitas". 20 Todos co Maranata! ("Vem, nosso Senhor!",
os irmãos pode se referir a um grupo es- NTLH) é uma oração pela volta de Cristo
pecífico, possivelmente seus colaborado- (cf 15.51-54). 23 A carta começou com
res a quem ele sustentou financeiramente as ações de graças (1-3) e termina apro-
com o seu trabalho (At 20.34). Do mesmo priadamente com ela, como na verdade
modo que a igreja na Ásia enviou seus acontece com todos os encontros entre o
cumprimentos, ele clama aos coríntios que Senhor Jesus e o seu povo. Paulo acres-
saúdem uns aos outros como membros da centa a declaração do seu amor em Cristo
irmandade santa. 21 Até esse ponto a carta Jesus pela congregação - novamente um
foi escrita por um secretário - na época de testemunho notável da graça de Deus de
Paulo, o emprego da escrita abreviada, bem que, a despeito das atitudes da congrega-
como de secretários, era bastante comum. ção para com ele, o amor de Paulo, assim
Agora Paulo pega na mão a pena e envia as como o de Cristo, não havia mudado, pois
suas próprias saudações. 22 Naturalmente ele os vê em Cristo Jesus.
tais saudações não eram enviadas à pessoa
que não amasse o Senhor; não pode ha- Bruce Winter
2CORíNTIOS

INTRODUÇÃO
o relacionamento de Paulo começou a escrever 2Coríntios, Timóteo já
com os coríntios havia retomado (1.1), e o relacionamento
Para entender 2Coríntios é necessário saber entre Paulo e os coríntios tinha passado por
alguma coisa sobre todo o curso de aconte- um período muito dificil.
cimentos no relacionamento entre Paulo e
seus convertidos em Corinto. O que ocorreu A visita dolorosa de Paulo
antes da composição de ICoríntios é des- Quando Timóteo voltou a Éfeso ele apa-
crito na Introdução do comentário daquela rentemente trouxe notícias muito perturba-
carta. O que se segue é uma reconstituição doras a respeito de Corinto. Isso fez com
da sequência de acontecimentos da época da que Paulo alterasse os planos de viagem
composição de ICoríntios em diante. (Essa que ele havia detalhado em ICoríntios
reconstituição pressupõe certas decisões a 16.5-9. Em vez de passar pela Macedônia
respeito dos problemas literários e históri- e por Corinto em seu caminho a Jerusalém,
cos envolvidos. Os leitores que estiverem ele navegou direto de Éfeso para Corinto.
interessados nesses problemas devem ler a A sua intenção era, depois de visitar a
Introdução a 2Coríntios no TNTC.) igreja ali, viajar ao norte da Macedônia
e então retomar novamente a Corinto no
A composição de 1Coríntios seu caminho a Jerusalém. Ao fazê-lo, ele
Paulo escreveu ICoríntios para esclarecer esperava que os coríntios tivessem "um
uma carta anterior que ele havia escrito segundo beneficio" (1.15,16). Entretanto,
(lCo 5.9-11) como reação às notícias que quando Paulo chegou a Corinto, descobriu
ele havia recebido de alguns da casa de que ele mesmo era objeto de um ataque
Cloe sobre Corinto (lCo 1.10-12), para pernicioso (2.5; 7.12) feito por determina-
responder algumas questões sobre seu en- do indivíduo, e nenhuma tentativa foi feita
sino contidas na carta que os coríntios lhe pela congregação como um todo em defesa
haviam enviado (I Co 7.1), e para enfrentar de Paulo (2.3). Esta provou ser uma visita
algumas críticas que surgiram a respeito de bastante dolorosa tanto para Paulo como
sua própria pessoa e ministério (l Co 4.1- para os coríntios, e uma visita que o após-
18). Ele também aproveitou a oportunida- tolo não gostaria de repetir. Assim, ele al-
de para dar instruções a respeito da "coleta terou novamente os seus planos de viagem,
para os santos" (l Co 16.1-4), para preparar e em vez de retomar a Corinto depois da
o caminho da visita de Timóteo a Corinto viagem pela Macedônia, foi diretamente a
(l Co 4.17; 16.10,11) e para dizer aos co- Éfeso (1.23; 2.1).
ríntios que ele mesmo planejava visitá-los
no seu caminho a Jerusalém, depois de A carta severa de Paulo
passar pela Macedônia (l Co 16.5-9). De volta a Éfeso, Paulo escreveu sua carta
denominada "severa" aos coríntios. Esta
A visita de Timóteo a Corinto carta se perdeu. Pelas referências feitas a
Sabemos muito pouco da visita de Timóteo ela por Paulo nas correspondências subse-
a Corinto. Entretanto, na época que Paulo quentes, parece que ele clamou à igreja de
1787 2CORíNTIOS

Corinto que tomasse as medidas necessá- mediu esforços para explicar as alterações
rias contra a pessoa que o havia atacado no seu plano de viagens (1.15-2.1), nem
durante sua visita "dolorosa", e assim os para esclarecer por que e com que espí-
coríntios demonstrassem a sua inocência rito ele escrevera a carta "severa" (2.3,4;
na questão e dessem prova de sua afeição 7.8-12). Embora Paulo estivesse satisfeito
pelo apóstolo (2.3,4; 7.8,12). Não sabemos porque os coríntios de forma tão vigorosa
direito quem levou essa carta "severa" a tinham se corrigido e punido o transgres-
Corinto. Pode ter sido Tito. De todo modo, sor, mesmo assim ele os estimula agora a
era de Tito, que retomara de uma visita a perdoar e restaurar o transgressor de modo
Corinto, que Paulo esperava notícias da que "Satanás não alcance vantagem sobre
resposta dos corintios à sua carta. Paulo nós" (2.11).
estava bastante confiante em uma respos- Além de manifestar o seu alívio e
ta positiva. Ele expressou essa confiança a alegria, Paulo lida com dois outros as-
Tito antes de este partir para Corinto (7.14- suntos tratados com alguma profundida-
16), e ele até mesmo pode ter pedido a Tito de. Primeiro, ele explica o seu ministério
que tratasse com os coríntios a questão da apostólico, tanto na Ásia (Éfeso) como na
coleta (8.6). Macedônia (1.3-11; 2.12-7.4). Segundo,
ele dá instruções detalhadas e encoraja-
Paulo encontra Tito na Macedônia mento sobre a coleta para o povo de Deus
Planos haviam sido feitos para o encontro de (cp. 8-9). Os coríntios começaram "no
Paulo com Tito em Trôade. Quando Paulo ano passado" (8.10), quando escreve-
chegou ali, ele encontrou portas bem abertas ram a Paulo, e ele tinha respondido dan-
para o evangelismo, mas por Tito não haver do instruções básicas sobre esse assunto
ainda chegado e devido à sua ansiedade em (cf 1Co 16.1.4). Na verdade, Paulo fez
encontrá-lo, Paulo não pôde começar a sua menção elogiosa aos macedônios sobre
obra. Assim, ele deixou Trôade e cruzou a prontidão dos coríntios em contribuir
a Macedônia na esperança de interceptar com a coleta, e agora ele teme que eles o
Tito em seu caminho a Trôade (2.12,13). decepcionem (9.1-4).
Quando Paulo alcançou a Macedônia, ele
se encontrou envolvido na amarga per- Novas más notícias de Corinto
seguição que as igrejas da Macedônia es- Depois de escrever 2Coríntios 1-9, Paulo
tavam experimentando (7.5; 8.1,2), e isso recebeu notícias desoladoras sobre uma
apenas aumentou sua ansiedade. Quando nova reviravolta dos acontecimentos em
Tito finalmente chegou, Paulo encontrou Corinto. Homens aos quais Paulo se refere
grande consolo (7.6,7) quando ouviu so- como "falsos apóstolos" (11.13) estavam
bre o zelo dos coríntios em demonstrar sua fazendo todo o tipo de acusações contra
afeição e lealdade a ele ao punir aquele que Paulo e seus mensageiros. Aparentemente,
lhe infligira tanto sofrimento. a igreja de Corinto foi influenciada profun-
damente por esses homens, tendo aceitado
Paulo escreve 2Coríntios 1-9 o seu evangelho (11.1-4) e se submetido às
Paulo reagiu às boas notícias trazidas por suas exigências arrogantes (11.16-20). Isso
Tito escrevendo 2Coríntios 1-9. Ele lhes tudo causou uma crise profunda no relacio-
dizia o quão satisfeito estava pela resposta namento de Paulo com os coríntios.
à sua carta "severa" e que a visita de Tito
tinha justificado o orgulho que sentia de- Paulo escreve 2Coríntios 10-13
les, especialmente porque tinha falado Não se tem muita certeza se Paulo rece-
muito bem deles a Tito antes de enviá-lo beu informações sobre a nova crise em
a Corinto (7.4,14,16). Paulo também não Corinto antes ou depois de ele ter enviado
2CORíNTIOS 1788

2Coríntios 1-9. De todo modo, foi em Seria gratificante poder dizer que depois
resposta a essa nova crise que Paulo escre- de todas essas coisas a igreja de Corinto
veu 2Coríntios 10-13. A carta foi escrita se fortaleceu cada vez mais. Infelizmente,
em resposta não só às acusações dos fal- não foi isso o que aconteceu. Evidências
sos profetas, mas também para afastar as encontradas na Primeira Epístola de
suspeitas que eles suscitaram na mente dos Clemente (escrita cerca de 95 d.Ci) indi-
coríntios. A carta é uma última tentativa cam que a desarmonia mais uma vez tinha
desesperada do apóstolo de trazer a igreja se tornado um problema.
de volta à razão a fim de obter novamen-
te a sua devoção pura a Cristo, e recobrar, Os opositores de Paulo
mais uma vez, a lealdade deles ao seu pai em Corinto
espiritual, Paulo. Nela, ele os adverte de Na reconstituição da sequência dos acon-
que está planejando uma terceira visita em tecimentos no relacionamento de Paulo
que pretende demonstrar a sua autoridade, com a igreja de Corinto esboçada acima, a
se for necessário, embora ele claramente oposição a Paulo em Corinto consistiu em
espere que a resposta dos coríntios ao que duas fases. Na primeira fase (refletida nos
ele está escrevendo torne desnecessária cp. 1-7), a oposição procedia principal-
(12.14; 13.1-4,10). mente de um único transgressor; já na se-
gunda, (refletida nos cp. 10-13) procedia
A terceira visita de Paulo de um grupo de pessoas ao qual Paulo se
aos coríntios referia como falsos apóstolos.
De acordo com Atos 20.2,3, Paulo via-
jou à Grécia depois de uma temporada na o transgressor dos cp. 1-7
Macedônia e ali permaneceu por três me- Tradicionalmente, o transgressor indivi-
ses. Podemos presumir que foi nessa épo- dual a quem Paulo se refere nos cp. 1-7
ca que ele fez a promessa de uma terceira foi identificado como o que cometeu o in-
visita a Corinto. Aparentemente, ou como cesto citado em l Coríntios 5. No entanto,
resultado do que ele havia escrito nos cp. esse ponto de vista tem sido abandonado
10-13, ou devido à sua própria ida a pela maior parte dos comentaristas do sécu-
Corinto pela terceira vez, os problemas da lo xx por duas razões principais. Primeiro,
igreja de Corinto estariam resolvidos por Paulo, que em I Coríntios 5 exigiu tão for-
enquanto. Isso pode ser deduzido da carta temente a excomunhão da pessoa incestuo-
de Paulo aos Romanos que foi escrita em sa, dificilmente poderia ter voltado atrás e
Corinto durante esses três meses. Na car- pedido pela sua reintegração em 2Coríntios
ta ele escreveu: "Mas agora estou de par- 2. Essa não é uma objeção muito atraente,
tida para Jerusalém a serviço dos santos. uma vez que subestima os efeitos do evan-
Porque aprouve à Macedônia e à Acaia le- gelho do perdão na própria vida do apósto-
vantar uma coleta em beneficio dos pobres lo. Em segundo lugar, a ofensa a que Paulo
dentre os santos que vivem em Jerusalém" se refere em 2Coríntios não é o comporta-
(15.25,26). Se os de Acaia (que eram corín- mento imoral, mas um ataque pessoal a ele
tios em maioria) tinham contribuído a essa e à sua autoridade apostólica. Essa é uma
altura para a coleta, obviamente sua má objeção bem mais profunda. No entanto, o
conduta, refletida em 11.7-11 e 12.13-18, transgressor pode ter acrescentado a seus
tinha sido superada. E se Paulo permane- pecados anteriores de um comportamento
ceu na Grécia por três meses em um esta- imoral uma transgressão adicional, ou seja,
do de espírito que permitiu que escrevesse um ataque pessoal ao apóstolo Paulo e a
Romanos, então a situação de Corinto ti- rejeição de sua autoridade. O cenário, en-
nha melhorado bastante. tão, poderia ser o seguinte.
1789 2CORíNTIOS

Os coríntios, quando receberam 1Co- a questões financeiras, insinuando que a


ríntios, não disciplinaram imediatamen- sua recusa em aceitar o suporte financeiro
te, como Paulo havia pedido, o homem dos coríntios (como eles próprios faziam,
que cometera o incesto. Assim, quando obviamente) era tanto uma evidência de
Timóteo chegou a Corinto, o homem ainda que Paulo realmente não amava os seus
não havia sido disciplinado e nem se arre- convertidos (11.7-11) quanto uma cortina
pendera. Quando Paulo soube disso, alte- de fumaça por trás da qual ele pretendia
rou o seu plano de viagem e se dirigiu dire- extrair para si uma quantia bem maior por
tamente para Corinto, pretendendo tomar o meio do golpe da coleta (12.14-18).
assunto em suas mãos. Uma vez na cidade, A identidade dos falsos apóstolos. A
ele passou a ser objeto de um feroz ataque partir das diversas sugestões fornecidas
pessoal protagonizado pelo autor da trans- nos cp. 10-13 deduz-se que os adversá-
gressão, que era agora culpado não só do rios de Paulo eram judeus cristãos que tan-
pecado de incesto, mas também de atacar to se orgulhavam da sua ascendência ju-
Paulo e de rejeitar sua autoridade apostóli- daica como de serem servos de Cristo. Se
ca. A Igreja não apoiou Paulo, por isso ele a demanda por cartas de recomendação às
foi forçado a voltar para Éfeso. De lá ele quais Paulo respondeu em 3.1-3 procedia
enviou a sua carta "severa", uma vez mais originariamente desses homens, parece ra-
exigindo que os coríntios disciplinassem o zoável concluir que eles mesmos portavam
autor da infração. Isso finalmente foi feito, tais cartas de recomendação, muito prova-
e quando Paulo o soube através de Tito, ele velmente vindas de Jerusalém. Nesse caso,
escreveu 2Coríntios 1-7, expressando a eles provavelmente mantinham alguma
sua alegria e alívio e pleiteando que o ho- afinidade com o partido de Cefas que já ti-
mem presumivelmente agora arrependido nha se formado em Corinto e que possivel-
fosse reintegrado à comunidade. mente estava afinada com a forma judaica
de cristianismo associada a Pedro.
Os falsos apóstolos dos cp. 10-13 Paulo os acusa de pregar um outro Jesus
A segunda fase da oposição envolvia um e um outro evangelho (11.4), uma acusa-
feroz ataque pessoal a Paulo por parte da- ção semelhante à que fez contra os homens
queles a quem ele chamava de falsos após- que criaram problemas na igreja da Galácia
tolos. A natureza do ataque é refletida na (cf Gl 1.6-9). Estes eram judeus fiéis que
resposta corajosa de Paulo nos cp. 10-13. procuravam impor aos convertidos gentios
A crise precipitada por esses falsos após- tanto as obrigações da lei como a circun-
tolos estava longe de ser resolvida quando cisão. Entretanto, não há indicações em
2Coríntios 10-13 foi escrito. 2Coríntios de que os oponentes de Paulo
A crítica dos falsos apóstolos a Paulo. em Corinto estivessem tentando impor
Eles o acusavam de ser "corajoso" quando esse tipo de coisa. Havia outras diferenças
ausente e ao mesmo tempo a uma distância significativas entre os oponentes de Paulo
segura, mas de ser "tímido" quando presen- na Galácia e os falsos profetas de Corinto.
te (10.1). Agia segundo um "mundano pro- Estes davam grande importância ao dom da
ceder" (10.2). Enquanto suas cartas eram oratória (11.5,6), que não era uma coisa es-
"graves e fortes", em pessoa ele era "fraco" perada dos cristãos de Jerusalém (At 4.13)
e seu discurso desprezível (10.9,10). Eles nem presumivelmente dos que os repre-
criticavam a alegação que Paulo fazia de sentavam. Além disso, os falsos apóstolos
ser apóstolo, dizendo que ele era inferior de Corinto parecem ter dado grande ênfase
a eles mesmos, pois ele não era um orador à importância de revelações e experiên-
treinado (11.5,6). Eles também atacaram cias visionárias (12.1), de demonstrações
a integridade pessoal de Paulo em relação de poder para provar que Cristo falava por
2CORíNTIOS 1790

eles (13.3) e das chamadas marcas de um por outros que não os Doze na igreja pri-
apóstolo (12.11-13). Segundo o que sabe- mitiva. Os adversários de Paulo defendiam
mos, essas coisas também não são caracte- o que pode ser chamado de um ponto de
rísticas da abordagem dos judaizantes. Por vista triunfalista. Eles esperavam que um
todas essas razões, os falsos apóstolos pro- apóstolo fosse alguém que causasse uma
vavelmente não podiam ser identificados boa impressão pessoal, tivesse uma pre-
como judaizantes. sença controladora e uma boa oratória
No mundo grego, dava-se grande im- (10.10) e fosse autoritário com os que lhe
portância ao dom da oratória, e havia uma eram sujeitos (11.20,21). Sua reivindica-
grande fascinação pelos fazedores de mi- ção apostólica deveria se fundamentar em
lagres que tinham visões e revelações (cf visões e revelações de Deus (12.1) e seria
Cl 2.18) e realizavam milagres poderosos apoiada pela realização de sinais e maravi-
(cf At 8.9-13). Os falsos apóstolos em lhas (12.11-13). Ele agiria como um por-
Corinto podem ter sido influenciados pelo ta-voz de Cristo, e seria conhecido como
mundo grego, ou mesmo ter acomodado tal devido às manifestações de poder em
sua abordagem aos coríntios que haviam seu ministério (13.3,4). E no aspecto mais
sido influenciados por ele. É evidente formal, o apóstolo de Cristo seria de ascen-
com base em ICoríntios que os fiéis em dência judaica distintiva (11.22) e portaria
Corinto tanto se orgulhavam de tais coi- cartas de recomendação (3.1) emitidas
sas quanto precisaram ser alertados por muito provavelmente por lideranças judai-
Paulo para que não dessem importân- cas da igreja de Jerusalém.
cia exagerada a elas (ICo 1.5; 4.8-10; Para o bem da igreja de Corinto, Paulo
13.1,2). Parece então que os adversários se sentiu obrigado a salientar que a seu
de Paulo eram ou judeus fiéis que tinham próprio ministério não faltavam recomen-
sido influenciados pelo mundo grego e ti- dações (3.2,3), conhecimento (11.6) ou
nham incorporado em seu próprio enten- autoridade (13.10). Salientou também que
dimento sobre o apostolado certas ideias ele havia experimentado visões e revela-
gregas, ou eram judeus fiéis da igreja de ções de Deus (12.1.5), que ele realizara
Jerusalém que tinham aceitado as ideias sinais e maravilhas (12.11-13) e que ele
correntes entre os coríntios de modo a in- poderia mostrar evidências de que Cristo
fluenciá-los contra Paulo. falava por meio dele (13.3,4). No entan-
Diferenças teológicas entre Paulo e to, é claro que Paulo rejeitava toda essa
os seus oponentes. Se reunirmos os frag- abordagem para avaliar as reivindicações
mentos de informações que Paulo nos for- do apostolado e os critérios triunfalistas
nece sobre o ensino dos seus adversários, incluídos nisso. Para Paulo as marcas do
duas grandes áreas de desacordo entre a ministério apostólico verdadeiro eram os
teologia deles e a de Paulo podem ser dis- seus frutos (3.2,3), a maneira com que o
cernidas. A primeira diz respeito ao pró- ministério era conduzido (isto é, de acordo
prio evangelho, e vimos que na visão de com a mansidão e benignidade de Cristo;
Paulo a mensagem que eles pregavam era 10.1) e o compartilhar dos sofrimentos de
um evangelho diferente, no qual um Jesus Cristo (4.8-12; 11.23-28). Aquele que pre-
diferente era apresentado e pelo qual um ga o evangelho de Cristo crucificado como
Espírito diferente era recebido. Senhor exemplificará em seu ministério
A segunda área de discórdia estava asso- a fraqueza em que Cristo foi crucificado,
ciada aos critérios usados para que alguém bem como manifestará o poder do Cristo
pudesse reivindicar o título de apóstolo de ressuscitado (4.7-12; 12.9, I O; 13.3,4).
Cristo. Tais critérios eram necessários por- Temos aqui, então, duas maneiras bem
que o título de "apóstolo" era reivindicado diferentes de avaliar o ministério autêntico.
A primeira é triunfalista e salienta ape-
1791

Leitura adicional
2CORíNTIOS li-
.
li

nas as manifestações de poder e autori- BARNETT, P. The Message of2Corinthians.


dade, sem lugar algum para a fraqueza Bsr. Inter-Varsity Press, 1988.
e o sofrimento. A segunda, ao mesmo KRUSE, C. G. 2Coríntios: introdução e co-
tempo em que afirma a importância do mentário. Vida Nova, 1994.
poder e da autoridade, insiste em que es- CARSON, D. A. From Triumphalism to
tes não pertencem ao próprio apóstolo, Maturity: an Exposition of2Corinthians
mas dependem inteiramente da ativida- 10--13. Inter-Varsity PresslUK/Baker
de de Deus, que escolheu deixar o seu Book House, 1986.
poder repousar sobre os seus servos em HUGHES, P. E. Paul s Second Epistle to the
suas fraquezas e manifestar o seu po- Corinthians. NICNT. Eerdmans, 1961.
der por meio da loucura da pregação do MARTIN, R. P. 2Corinthians. WBC. Word,
evangelho (12.9,10; cf lCo 1.17-2.5). 1986.
Ver também o artigo "Lendo as Cartas".

ESBOÇO
1.1-11 O prefácio
1.1,2 Saudações
1.3-11 Ações de graças

1.12-7.15 A resposta de Paulo a uma crise resolvida


1.12-2.4 Paulo defende as repetidas alterações em seu plano
de viagem.
2.5-11 Perdão ao transgressor
2.12,13 A espera por Tito
2.14-17 Conduzido em triunfo
3.1-3 Cartas de recomendação
3.4-6 Ministros da nova aliança
3.7-18 O contraste entre dois ministérios
4.1-6 A condução do ministério de Paulo
4.7-12 Tesouros em vasos de barro
4.13-15 O espírito da fé
4.16-5.10 A esperança sublime de Paulo
5.11-7.4 O ministério da reconciliação
7.5-16 A alegria de Paulo depois da resolução da crise

8.1-9.15 A questão da coleta


8.1-6 O exemplo dos macedônios
8.7-15 Os coríntios exortados a se superar
8.16-24 Recomendações aos que receberão a oferta
9.1-5 Estejam preparados e evitem a humilhação
9.6-15 Um apelo para que sejam generosos

10.1-13.14 Paulo reage a uma nova crise


10.1-6 Uma súplica sincera
10.7-11 Paulo responde às críticas
2CORíNTIOS 1 1792

10.12-18 Vangloriando-se dentro dos limites adequados


11.1-6 A ingenuidade dos coríntios
11.7-15 Por que Paulo recusa o apoio financeiro
11.16-12.13 O discurso dos insensatos
12.14-18 Paulo nega a astúcia
12.19-21 O propósito do discurso insensato
13.1-10 Paulo ameaça com medidas riqorosas
13.11-13 Apelo final e saudações
13.14 A bênção

COMENTÁRIO venceu a morte em Cristo (cf Ef2.l3-18),


cuja compreensão produz em nós a cons-
ciência de bem-estar.
1.1-11 O prefácio
1.1,2 Saudações 1.3-11 Ações de graças
1 Em sua saudação inicial à igreja na qual 3 Seguindo o costume de sua época, Paulo
sua autoridade apostólica tinha sido colo- inclui uma oração de ações de graças de-
cada em questão, Paulo se descreve a si pois da sua saudação inicial. Um tanto in-
mesmo como um apóstolo de Cristo. Para comum, essa expressão de ações de graças
Paulo só era apóstolo quem tinha visto o não tem seu foco em algumas característi-
Senhor ressuscitado (lCo 15.3-10; Gl1.15, cas louváveis dos leitores, mas sim no Pai
16), por este tinha sido incumbido do evan- de misericórdias e Deus de toda consolação
gelho (Gll.1l,12; 2.7) e em cujo ministério que tinha consolado Paulo em todas a sua
do evangelho a graça de Deus era evidente tribulação (incluindo sofrimentos físicos,
(Rm 1.5; 15.17-19; G12.8,9). Foi na estrada perigos, perseguição e ansiedade; cf 1.8-
de Damasco que Paulo recebeu de Cristo a 10; 4.7-12; 11.23-29). O "conforto" que
sua comissão como apóstolo, e esta comis- Paulo recebia era, em algumas situações, o
são foi apoiada pela vontade de Deus. Os livramento de suas aflições e ansiedades, e
receptores da saudação são descritos como em outros momentos o encorajamento em
a igreja de Deus em Corinto, refletindo o meio a elas. 4-7 Aqui Paulo fala de conforto
fato de que as igrejas não são apenas reu- como encorajamento e graça fortalecedora
niões de indivíduos com o mesmo espírito em meio aos problemas. Ele diz que so-
religioso, mas comunidades que pertencem mos confortados para podermos consolar
a Deus e desfrutam de um relacionamento aos que estiverem em qualquer angústia,
especial com ele. Entre os que recebem a com a consolação que nós mesmos somos
saudação estão todos os santos em toda a contemplados por Deus. Um ser humano
Acaia. Aqui santos não exprime nenhuma não pode dar livramento divino da aflição a
das ideias do século xx de canonização, outro ser humano, mas é possível compar-
mas reflete, antes, o fato de que todos os fi- tilhar com o outro o encorajamento recebi-
éis são possessão especial de Deus. 2 Paulo do em meio aos seus próprios problemas.
invoca graça e paz sobre todos eles. Com (Quando Paulo se refere aos problemas
graça de Deus ele quer dizer cuidado ou dos fiéis como aos sofrimentos de Cristo,
amparo; cuidado mostrado no envio de seu que também padecemos na nossa vida, ele
Filho ao mundo para a nossa salvação (cf provavelmente se refere ao sofrimento su-
8.9; Rm 5.8) e em repetidos atos de amor, portado em nome de Cristo e experimenta-
socorro e provisão (cf Rm 8.32). A paz é do como parte do que os judeus chamavam
primariamente aquela paz pela qual Deus de dores de parto do Messias, ou seja, o
1793 2CORíNTIOS 1

período da tribulação, cujo início era espe- ça de Deus, com sinceridade e da parte do
rado na era messiânica). Paulo encoraja os próprio Deus. Sabedoria humana é a que
seus leitores ao salientar que, embora seu recorre à astúcia (cf 4.2) ou à habilidade
ministério possa ter passado por muitos com as palavras (cf lCo 2.1) para impres-
problemas, isso tomou possível que eles sionar o ouvinte. Um ministério marcado
compartilhassem do conforto de Deus. pela graça de Deus é aquele que depende
8-11 Aqui Paulo se refere ao conforto como do poder de Deus (cf lCo 2.2-5) para a sua
o livramento de problemas. Durante o seu eficácia. 13 A integridade geral de Paulo se
ministério e o dos seus companheiros na estende também ao seu ofício de escrever:
Ásia, ele lhes diz que as tribulações estive- Porque nenhuma outra coisa vos escreve-
ram acima das suas forças, a ponto de de- mos, além das que ledes e bem compreen-
sesperarmos até da própria vida. Deus às deis. Ele não escreve uma coisa pretenden-
vezes permite que isso aconteça, de modo do dizer outra. 14 Ele conclui expressando
que não confiemos em nós, mas nele. A a esperança de que os coríntios venham a
confiança em Deus, e não na própria capa- reconhecer que ele e os seus companheiros
cidade de alguém é de importância funda- são pessoas íntegras, de quem eles podem
mental na vida cristã, embora essa atitude se orgulhar, "assim como nos orgulha-
não venha naturalmente. Frequentemente remos de vocês no dia do Senhor Jesus"
é preciso sofrimento para que dependamos (NVI). Paulo ansiava por se orgulhar nos úl-
de Deus. Paulo testifica que embora Deus timos dias do que Deus tinha feito na vida
tenha se utilizado do sofrimento para ensi- dos seus convertidos, e esperava que, no
ná-lo, ao mesmo tempo Deus o livrara de presente, eles pudessem se orgulhar do que
tão grande morte. Deus estava fazendo nele.
15,16 Tendo defendido a sua integrida-
1.12-7.15 A resposta de Paulo de em termos gerais, Paulo passa a justi-
a uma crise resolvida ficar as alterações feitas em seu plano de
Depois da seção de saudação e ação de viagem. Foi com um sentimento de con-
graças, Paulo passa diretamente a res- fiança no orgulho que os coríntios tinham
ponder as notícias trazidas a ele por Tito. dele que ele alterou os planos anunciados
Antes de manifestar a sua alegria e alívio em 1Coríntios 16.5-7. Ele tinha feito as
pela notícia da exibição dos coríntios de alterações para que eles tivessem um se-
afeto e de lealdade para com ele, ele trata gundo beneficio de sua visita em seu cami-
de algumas críticas que poderiam ter per- nho para a Macedônia. 17 A confiança nos
turbado suas relações. coríntios com que Paulo mudou os seus
planos foi evidentemente mal-interpreta-
1.12-2.4 Paulo defende da. Eles o criticaram por essas mudanças,
as repetidas alterações de forma que ele precisa perguntar: Ora,
em seu plano de viagem determinado isto, terei, porventura, agido
12 Paulo começa a defender a sua integri- com leviandade? Ou, ao deliberar, aca-
dade em geral. Em todos os seus contatos so delibero segundo a carne de sorte que
com os coríntios ele tinha agido em santi- haja em mim, simultaneamente, o sim e o
dade e sinceridade, não segundo a sabedo- não? Fazer planos de forma carnal implica
ria humana, mas de acordo com a graça de uma disposição para romper compromis-
Deus. O tipo de coisa que Paulo contras- sos com pouca ou nenhuma preocupação
ta aqui é expressa de forma completa em pelas outras partes envolvidas, mudando
2.17: Porque nós não estamos como tantos de "Sim" para "Não" sem problema de
outros, mercadejando a palavra de Deus; consciência. A pergunta de Paulo foi feita
antes, em Cristo é que falamos na presen- com o sentido de evocar nos seus leitores
2CORíNTIOS 1 1794

a negação enfática de que o apóstolo agiria essa também teria sido muito dolorosa,
dessa maneira. mas por um motivo diferente - ele teria
18-20 Para defender a mudança no seu sido obrigado a tomar medidas disciplina-
plano de viagem, Paulo chama a atenção res contra os coríntios, o que lhes causaria
dos seus leitores para a natureza da mensa- muita dor, e não teria sobrado ninguém que
gem que ele lhes pregou: Antes como Deus o fizesse feliz. 3,4 Assim, em vez de fazer
é fiel, a nossa palavra para convosco não a segunda visita prometida, ele lhes escre-
é sim e não, acrescentando que não impor- veu uma carta "severa", para que quando
ta quantas são as promessas de Deus, elas for, não tenha tristeza da parte daqueles
têm nele [Cristo] o sim. Não há nenhuma que deveriam alegrar-me. Ela foi escrita
quebra arbitrária de promessas por parte de no meio de muitos sofrimentos e angús-
Deus. E, Paulo sugere, assim como Deus tias de coração [...] com muitas lágrimas,
é fiel no cumprimento das promessas do e devia conter algum tipo de reprovação
evangelho, é possível confiar que Paulo aos coríntios (cf 7.8,9). Entretanto o seu
como pregador do evangelho não fará um propósito ao escrever a carta não era que
plano de viagem para depois alterá-lo sem ficásseis entristecidos, mas para que co-
razão alguma. 21,22 A razão disso é: Mas nhecêsseis o amor que vos consagro em
aquele que nos confirma convosco em grande medida. É preciso amor verdadeiro
Cristo [...] é Deus. Uma vez que é Deus para enfrentar uma situação difícil - mes-
que faz Paulo permanecer firme, os corín- mo que isso inclua algumas dores - em
tios podem ter certeza de que Paulo agirá vez de evitá-Ia. Paulo evitou elogiar-se a si
com integridade. Paulo acrescenta: [Ele] mesmo, mas estava preparado para correr
nos selou e nos deu o penhor do Espírito o risco de ser acusado de fazê-lo a fim de
em nosso coração. Essas expressões são corrigir a situação. Se quisermos resolver
maneiras de mostrar como Deus confiou a conflitos nós também precisamos estar
Paulo o seu Espírito, tanto como a "garan- preparados para fazê-lo, embora evitando
tia do que está por vir" (NVI) (a porção de a mera autojustificação. As grandes ques-
Paulo na glória futura de Deus) quanto nos tões envolvidas nos conflitos entre o povo
meios pelos quais Deus fortalece e firma de Deus são bem mais importantes do que
Paulo como uma pessoa de integridade no a nossa própria reputação. A não ser que
presente. 23,24 Paulo passa a mostrar que esses conflitos sejam resolvidos de forma
ele agiu com integridade, mesmo quando adequada, somente Satanás obterá vanta-
ele não conseguiu fazer a visita de retomo gem (cf 2.11).
que ele tinha prometido. A razão dessa mu- Nota. A palavra "consciência" é en-
dança de plano foi poupar-vos. Para que contrada com frequência muito maior nas
essa alusão a uma ação disciplinar não dê cartas de Paulo do que no restante dos li-
margem a que eles entendam que Paulo vros do NT juntos. Ao contrário dos estói-
exerce algum tipo de tirania espiritual so- cos, Paulo não considerava a consciência
bre os coríntios, ele se apressa em acres- como a voz de Deus interior, nem restrin-
centar: não que tenhamos domínio sobre a gia sua função a julgar atos passados (nor-
vossa fé, mas porque somos cooperadores malmente os maus), como era o caso no
de vossa alegria. Em razão de sua fé, eles mundo grego secular de sua época. Para
têm a sua própria posição diante de Deus, Paulo a consciência era uma faculdade
e sob esse aspecto não estão submissos a humana por meio da qual uma pessoa jul-
ninguém. 2.1,2 A primeira das duas visi- ga os seus próprios atos (não importa se
tas prometidas por Paulo revelou ser muito já realizados ou apenas pretendidos) e os
dolorosa devido à forma em que ele foi ata- dos outros. Ela julga as ações humanas à
cado. Se ele tivesse feito uma outra visita luz do padrão mais elevado percebido por
1795 2CORíNTIOS 2

uma pessoa. Visto que toda a natureza hu- a Igreja, privando-a permanentemente de
mana foi afetada pelo pecado, tanto a per- um dos seus membros ao explorar a falha
cepção de uma pessoa do padrão de ação moral para causar o afastamento da parte
requerido quanto a função da própria cons- culpada. Toda a abordagem de Paulo em
ciência (como parte da natureza humana) relação ao transgressor é um lembrete para
são ambas afetadas pelo pecado. Por essa nós de que o pecado manifesto ou osten-
razão, a consciência não poderá ser jamais sivo por parte dos membros da igreja não
o único e último juiz do comportamento deveria ser ignorado ou perdoado. Para o
de alguém. É possível que a consciência bem da própria igreja, e para a honra do
desculpe alguém por aquilo que Deus não nome de Deus, ações disciplinares devem
desculparia, e inversamente é igualmente ser tomadas. A abordagem de Paulo tam-
possível que a consciência possa conde- bém nos lembra de que o objetivo dessa
nar uma pessoa por aquilo que Deus não ação disciplinar é a restauração completa
condenaria. O julgamento final, portanto, da parte culpada. Os que pregam a reconci-
pertence somente a Deus (cf lCo 4.2-5). liação devem também praticá-la. Eles não
Não obstante, rejeitar a voz da consciência devem se contentar com a disciplina dos
é flertar com o desastre espiritual (cf 1Co transgressores, mas devem estar prontos a
8; ITm 1.19), mas nós podemos modificar reafirmar seu amor por eles, depois de es-
esse padrão elevado ao qual ela se relacio- tes terem sido levados ao arrependimento.
na ao procurarmos alcançar uma compre-
ensão melhor da verdade. 2.12,13 A espera por Tito
Algum tempo depois do retomo de Paulo
2.5-11 Perdão ao transgressor a Éfeso, depois da visita "dolorosa" e de-
5 Antes de apelar aos coríntios para que pois de ter enviado a carta "severa", ele
perdoem e restaurem a pessoa que havia tomou o caminho de Trôade, onde espera-
feito oposição a ele, Paulo os faz lembrar va encontrar Tito e deste receber notícias
que a transgressão não tinha apenas afligi- de Corinto. Quando chegou, percebeu que
do a ele, mas a toda a igreja em Corinto. uma porta tinha sido aberta no Senhor
6 Contudo, basta-lhe a punição infligida para que ele pregasse o evangelho. Mas
pela maioria. Aqui podemos observar que por não ter encontrado Tito ali, não teve
a igreja finalmente acatou as instruções tranquilidade no seu espírito, partindo,
de Paulo e disciplinou o transgressor (cf então, para a Macedônia, onde esperava
7.11.12). 7,8 O próprio Paulo estava pre- encontrá-lo. O fato de Paulo ter deixado
ocupado com o transgressor para que pela para trás uma porta aberta para a prega-
disciplina aplicada não fosse o mesmo ção do evangelho salienta a ansiedade que
consumido por excessiva tristeza. Assim, ele sentia na espera de notícias de Tito.
ele roga aos coríntios que reafirmem o seu O alívio que Paulo experimentou quando
amor ao infrator arrependido. 9,10 Ele finalmente encontrou Tito na Macedônia
ressalta que não escreveu apenas para exi- é descrito em 7.5-16, mas antes de con-
gir medidas disciplinares, mas também tar a seus leitores sobre isso ele faz uma
para testar a sua obediência. Eles tinham longa digressão (2.14-7.4), na qual ele
provado ser obedientes às suas instruções, fala sobre a natureza do seu ministério e
e agora ele os exorta a perdoar o trans- de como ele recebera apoio durante tem-
gressor, assegurando-lhes que ele mesmo pos difíceis.
também já o tinha perdoado. 11 O perdão
e a restauração do infrator são essenciais 2.14-17 Conduzido em triunfo
para que Satanás não alcance vantagem O que Paulo disse até esse ponto na car-
sobre nós, ou seja, ganhe vantagem sobre ta poderia ser entendido como um relato
2CORíNTIOS 3 1796

bastante deprimente de seu ministério. Ele 3. 1-3 Cartas de recomendação


falou dos sofrimentos por que passou na Paulo agora responde à crítica recebida
Ásia, das críticas à sua integridade, da dor por não ter apresentado cartas de recomen-
experimentada em Corinto e da sua impos- dação quando veio a Corinto. As críticas
sibilidade de se estabelecer em Trôade para provavelmente vieram dos falsos após-
pregar ali. Como que para equilibrar esse tolos, e a sua intenção era atacar Paulo.
relato deprimente, Paulo passa a expres- 1,2 Paulo responde dizendo que era absur-
sar uma nota positiva, descrevendo como do que eles tivessem necessidade, como
Deus sempre e em cada lugar o capacitou a alguns, de cartas de recomendação [...].
exercer um ministério efetivo. Vós sois a nossa carta. A própria existên-
14 Apesar das dificuldades, Paulo foi cia da igreja em Corinto testemunhava da
capaz de dizer: Graças, porém, a Deus, validade do seu ministério. 3 A igreja era
que, em Cristo, sempre nos conduz em a carta de Cristo. Paulo fora incumbido
triunfo. A imagem é provavelmente a por Cristo de escrever uma "carta viva"
do desfilo triunfal romano, e Paulo fala nos corações dos fiéis de Corinto. Para
de si mesmo como de um soldado leva- essa missão a tinta do Espírito tinha sido
do em triunfo por Deus. Nesse contexto, confiada a Paulo. Pela graça de Deus, a
tais imagens não apoiam uma abordagem carta recomendava o próprio ministério
"triunfalista" do ministério porque Paulo pelo qual foi produzida. Embora haja
tem em mente a vitória por meio do sofri- algumas circunstâncias em que um mi-
mento. No desfile triunfal um incenso do- nistério fiel não é recompensado por re-
cemente perfumado era oferecido aos deu- sultados aparentes, tais observações não
ses, e Paulo diz que por meio de nós Deus deveriam ser utilizadas para desculpar
manifesta em todo lugar a fragrância do ministérios ineficazes em outras circuns-
[...] conhecimento de Cristo. 15,16 Os tâncias. Normalmente é conveniente que
que anunciam as boas-novas são como um os nossos ministérios sejam julgados pe-
doce aroma para Deus; para os que obe- los seus resultados.
decem ao evangelho eles são aroma de
vida, mas para os que lhe desobedecem, 3.4-6 Ministros da nova aliança
cheiro de morte. Sabendo que a pregação 4,5 Aqui Paulo responde à pergunta que
do evangelho tem essas sérias implicações ele fez em 2.16, mostrando que a sua com-
para os que o ouvem, e, por isso, conhe- petência vem de Deus. Isso não reflete uma
cendo a grande responsabilidade dos que humildade exagerada, mas sim um reco-
o pregam, Paulo pergunta: Quem, porém, nhecimento sensato do fato de que a obra
é suficiente para estas coisas? (Só iremos espiritual só pode ser realizada pelo poder
encontrar sua resposta em 3.5: "não que, que Deus fornece por meio do seu Espírito.
por nós mesmos, sejamos capazes de pen- 6 O ministério de Paulo no âmbito da nova
sar alguma coisa, como se partisse de nós; aliança foi não da letra, mas do espírito.
pelo contrário, a nossa suficiência vem de O contraste aqui é entre a lei de Moisés e
Deus"). 17 Paulo sentiu essa grande res- o Espírito Santo, as características princi-
ponsabilidade, pois não estamos, como pais da aliança antiga e da nova, respecti-
tantos outros, mercadejando a palavra de vamente. A letra mata na medida em que
Deus. Ele se recusava a adulterar a pala- pronuncia o juízo sobre aqueles que des-
vra de Deus (cf 4.2) removendo sua parte respeitam a lei. O espírito [Espírito, NVI;
ofensiva a fim de manipulá-la para bene- ARe] vivifica, porque no âmbito da nova
fícios pessoais. Pelo contrário, ele falava aliança os pecados são perdoados e não
com sinceridade, consciente de sua res- mais lembrados, e as pessoas são capacita-
ponsabilidade perante Deus. das pelo Espírito a viver para Deus.
1797 2CORíNTIOS 4

3.7-18 O contraste entre conseguem entender corretamente a lei de


dois ministérios Moisés quando ela é lida em suas sinago-
Nessa seção Paulo usa Êxodo 34.29-32 gas (14,15). Os fiéis, os que se converte-
(7-11) e 33-35 (12-18) para continuar a ram ao Senhor, experimentaram a remoção
contrastar os ministérios da antiga e da do véu da sua mente (16), e assim, com o
nova aliança a fim de demonstrar a supe- rosto desvendado, eles refletem (ou talvez
rioridade da última. O propósito principal contemplam) a glória do Senhor, e ao fazê-
de Paulo é realçar o caráter glorioso do mi- lo são transformados [...] na sua própria
nistério que lhe foi confiado e assim expli- imagem (18).
car por que, apesar de tantas dificuldades, O propósito principal de Paulo ao sa-
ele não perde o ânimo (cf 4.1). lientar o esplendor superior do ministério
7-11 Êxodo 34.29-32 fala da glória pre- da nova aliança era explicar por que ele era
sente na entrega da lei, uma glória refletida tão ousado e não perdia o ânimo (12; cf
no rosto resplandescente de Moisés, que 4.1). Ele também pode ter pretendido usar
provocou medo no coração dos israelitas. esse argumento para contrariar o ensino de
Paulo reconhece que a antiga aliança foi seus oponentes em Corinto, que colocava
acompanhada de grande esplendor, mas grande ênfase na sua ascendência judaica
ele argumenta que a nova aliança é acom- (cf 11.21b,22).
panhada de um esplendor ainda maior. A
superioridade da nova aliança é discutida 4. 1-6 A condução do
com base em três argumentos: o ministério ministério de Paulo
do Espírito é mais esplêndido do que o mi- 1,2 Visto que a ele foi confiado esse mi-
nistério da morte (7,8), o ministério dajus- nistério tão grande, Paulo diz: não des-
tiça é mais esplêndido do que o ministério falecemos. Por esse motivo ele também
da condenação (9), e o ministério perma- diz: rejeitamos as coisas que, por vergo-
nente é mais esplendido do que o ministé- nhosas, se ocultam. Negativamente, isso
rio que se desvanecia (11). O ministério da envolve uma recusa a andar com astúcia
antiga aliança, no qual a lei condenava os ou adulterar a palavra de Deus (isto é,
transgressores, desvaneceu-se com a vinda misturando-a com ideias exóticas; 2.17).
de Cristo. O ministério da nova aliança é Positivamente, isso envolvia a manifesta-
realizado no poder do Espírito; ele propor- ção da verdade. Embora tenhamos de nos
ciona às pessoas o direito de comparecer empenhar em tomar a verdade da palavra
diante de Deus; e é permanente, porque ele de Deus manifesta às pessoas nas situações
não será substituído por outro. em que se encontram, nós não precisamos,
12-18 Êxodo 34.33-35 explica como mais do que Paulo, manipulá-la para tomar
Moisés cobriu o seu rosto depois de trans- eficaz a palavra de Deus. Apresentada de
mitir a lei de Deus para os israelitas de forma simples e na confiança depositada
modo que eles não vissem o seu brilho. no Espírito, a palavra de Deus alcança-
Paulo interpreta o fato como uma tenta- rá os resultados esperados por Deus (cf
tiva de Moisés de ocultar dos israelitas a Is 55.10,11).
natureza desvanecida do esplendor que 3,4 A referência àqueles a quem o
acompanhava a antiga aliança, e ele con- evangelho de Paulo está encoberto é prin-
trasta a falta de ousadia de Moisés com a cipalmente a seus contemporâneos judeus
sua própria ousadia como ministro da nova que não compreendem que as suas pró-
aliança (12,13). Ele também vê na cober- prias Escrituras apontam para Cristo (cf
tura do rosto de Moisés algo análogo ao 3.14,15) e cujo entendimento o deus des-
véu que está sobre as mentes de muitos te século cegou. No entanto, fica evidente
de seus contemporâneos judeus, que não por outras referências de 2Coríntios que
2CORíNTIOS 4 1798

Paulo de maneira nenhuma via a ativida- 4.13-15 O espírito da fé


de do deus deste século (Satanás) como Assim como o salmista que manteve a
restrita aos judeus (cf 2.11; 11.3,14). sua fé em meio ao sofrimento pôde dizer:
Aqueles cujas mentes foram cegadas não Eu cri; por isso, é que falei ( citação de
conseguem ver a luz do evangelho, e SI 116.10), assim Paulo diz: Também nós
tudo no evangelho está associado à gló- cremos; por isso, tambémfalamos. Foi a sua
ria de Cristo. o qual é a imagem de Deus. confiança no Deus que ressuscita os mortos
Quando Paulo fala de Cristo como a ima- que capacitava Paulo a continuar pregando,
gem de Deus ele pode estar se referindo à sabendo que isso resultaria em beneficios
sua humanidade (cf Gn 1.26: "Façamos o aos seus ouvintes e graças a Deus.
homem à nossa imagem, conforme a nos-
sa semelhança") ou à sua transcendência 4.16-5.10 A esperança
(a sabedoria era muitas vezes personifica- sublime de Paulo
da como a imagem de Deus; cf Pv 8.22- 16-18 Embora Paulo estivesse aparente-
31; Cl 1.15-20). 5,6 Se o evangelho trata mente "abatido" (cf v. 7-12) ele não desa-
da glória de Cristo, então Paulo não prega nimou porque o seu interior se [renovava]
sobre si mesmo (como outros talvez fa- de dia em dia. E, de todo modo, a tribula-
çam), mas ele prega a Cristo Jesus como ção exterior era leve e momentânea com-
Senhor e considera-se a si mesmo um ser- parada ao peso e à natureza eterna da gló-
vo daqueles a quem ele prega. A base para ria que como resultado ele experimentaria.
o ministério de Paulo é o privilégio de ter Paulo suportava aflições no mundo visível
visto a glória de Deus, na face de Cristo presente ao olhar para as glórias do mundo
(inicialmente na estrada para Damasco). ainda não visível.
Só podemos pregar aos outros o Cristo 5.1-10 É a luz disso que Paulo passa
que nós mesmos encontramos. a explicar o que ele quer dizer com se a
nossa casa terrestre deste tabernáculo se
4.7-12 Tesouros em vasos de barro desfizer. 1 A maneira de interpretar esse
7 Os que exibem a luz gloriosa do evan- versículo vai determinar a interpretação de
gelho são comparados a vasos de barro, 5.1-10. No contexto geral de 4.16-5.10,
baratos e fáceis de quebrar; e isso ser- a destruição da nossa casa terrestre deste
ve para demonstrar que o poder liberado tabernáculo se refere à destruição do cor-
pela pregação do evangelho é de Deus e po na morte. Paulo imagina que as suas
não de nós. 8-12 Esse princípio é ilustrado aflições possam se intensificar de tal ma-
por uma série de declarações (perplexos, neira que isso resulte na sua morte. Ciente
porém não desanimados; perseguidos, de que a casa terrestre pode ser tão facil-
porém não desamparados; abatidos, po- mente destruída, ele lembra seus leitores
rém não destruídos) e usado para mostrar de que temos da parte de Deus um edificio,
que o poder de Deus não apenas susten- casa não feita por mãos, eterna, nos céus.
ta Paulo, mas trabalha por meio dele para Um fator importante na determinação do
trazer vida a outros (em nós, opera a mor- significado do que Paulo quis dizer aqui
te, mas em vós, a vida). As referências à é o paralelismo no versículo. A casa que
morte e vida não devem ser entendidas de é terrestre e ameaçada de destruição (la)
forma mística, mas de forma concreta, isto deve ser substituída por algo correspon-
é, no decorrer do seu ministério Paulo foi dente a isso, mas que seja uma casa eterna
exposto à morte continuamente (cf 1.8-10; (l b). Se aquela significa o corpo terrestre
Rm 8.36), mas ao mesmo tempo ele expe- do fiel, parece que esta se refere a um ou-
rimentou o poder da vida de Cristo operan- tro corpo, ou seja, o corpo ressuscitado do
do nele e por meio dele. fiel (cf Rm 8.18-23).2-5 Paulo fala do seu
1799 2CORíNTIOS 5

desejo de ser libertado das aflições que ele encontremos. Porque importa que todos
experimenta em seu corpo terreno. Não nós compareçamos perante o tribunal de
que ele anseie por uma existência desen- Cristo, e então cada um receberá o que
camada, como desejam os gnósticos, mas lhe é devido segundo o mal ou o bem que
antes ele anseia pela vida no corpo ressus- tiver feito por meio do corpo. Nesse con-
citado. Isso é o que ele quer dizer com não texto, as coisas feitas por meio do corpo
queremos ser despidos, mas revestidos, podem se referir apenas ao que uma pes-
para que o mortal seja absorvido pela soa faz nesta vida. Nós somos responsá-
vida. Deus nos criou para esse propósito, e veis perante o Senhor por nossas ações, e
concede o seu Espírito aos fiéis como a ga- seremos recompensados ou sofreremos de
rantia de que o seu propósito será atingido. acordo com elas.
6-8 Até esse ponto Paulo falou de como a
destruição do corpo terrestre é compensa- 5.11-7.4 O ministério
da pela provisão de um corpo ressuscitado, da reconciliação
mas sem sinal algum de que aquele possa Nessa seção central da carta Paulo apela
acontecer antes deste. Aqui, talvez por cau- aos coríntios para que se reconciliem com
sa de uma consciência crescente de que ele Deus e que abram seus corações a ele, seu
mesmo possa experimentar a morte antes apóstolo. Ele abre caminho para esses ape-
da ressurreição geral, ele volta a sua aten- los ao responder primeiramente às críticas
ção para esse assunto. Primeiro, ele afirma ao estilo de seu ministério (5.11-15), e em
novamente a sua confiança em Deus, que seguida ao declarar as bases teológicas
faz com que ele não desanime (cf 2.14; em que está fundamentada a reconciliação
3.4,12; 4.1,16), e depois ele reconhece (5.16-21). Então ele faz seus apelos (6.1-
claramente que a sua situação atual deixa 13; 7.2-4) e intercala entre eles um convite
algo a desejar: sabendo que, enquanto no à vida santa (6.14-7.1).
corpo, estamos ausentes do Senhor. O sig- 11 Paulo alega agir com integridade
nificado da afirmação pode ser encontrado em todas as suas tentativas para convencer
no v. 7, em que Paulo acrescenta: andamos as pessoas sobre a verdade do evangelho.
por fé e não pelo que vemos. Isso sugere Ele é motivado por um saudável temor do
que estar no corpo significa que Deus não Senhor e por ser conhecido cabalmente por
está acessível aos nossos olhos (e nesse Deus. 12 Prevendo o que seus adversários
sentido estamos ausentes do Senhor), mas diriam dele que ele está apenas começan-
nos é acessível somente por fé. Ele passa do a louvar-se a si mesmo novamente, ele
a dizer que ele preferiria deixar o corpo e diz que o seu propósito ao explicar os seus
habitar com o Senhor, pois nessa situação motivos é capacitar os seus leitores a res-
o Senhor seria acessível aos olhos e não ponder às críticas deles. 13 Além disso,
mais somente pela fé. Assim Paulo parece ele afirma, que se ele parece estar louco,
reconhecer que ele terá de experimentar isso é um problema entre ele e Deus, mas
uma existência desencarnada se ele morrer quando ele emprega o discurso inteligí-
antes da segunda vinda de Cristo. Ele não vel é para o benefício dos seus ouvintes.
fornece sinal algum de como ele pensava 14,15 Ele argumenta que ele não poderia
que seria essa existência desencarnada. O fazer outra coisa senão servir a Cristo, es-
que ele faz nos v. 9, I O é enfatizar algo que forçando-se em fazê-lo com a maior inte-
é muito mais importante do que isso. gridade, pois é obrigado a isso devido ao
9,10 Afinal o que importa não é a es- grande amor de Cristo. Ele está convicto
peculação sobre a nossa situação futura, de que Cristo morreu em seu lugar, e ago-
mas a determinação de agradar a Deus, ra Paulo quer viver para ele. Vemos aqui
não importando a situação em que nos dois aspectos da motivação de Paulo para o
2CORíNTIOS 5 1800

ministério, e cada um destes deve ser re- surpreendentemente Paulo a dirige aos
fletido na nossa própria motivação ao ser- seus convertidos (rogamos que vos... ),
virmos ao Senhor. Por um lado, Paulo está algo que se torna ainda mais evidente em
consciente da responsabilidade e assim tem 6.1,2,11-13 e 7.2-4.
um temor saudável (11), e por outro lado 21 Antes de continuar o seu apelo aos
ele sabe do grande amor de Cristo e por coríntios, Paulo faz uma afirmação resumi-
isso não consegue fazer outra coisa senão da mas extremamente profunda da obra de
viver por aquele que morreu e ressuscitou Cristo: Aquele que não conheceu pecado,
por ele (14,15). ele o fez pecado por nós. Diversas interpre-
16,17 Um dos resultados da morte e tações desta afirmação têm sido sugeridas:
ressurreição de Cristo é que Paulo tem uma que Cristo foi feito pecador; que ele foi a
nova perspectiva: nós, daqui por diante, a oferta pelo pecado; que ele foi obrigado a
ninguém conhecemos segundo a carne. assumir as consequências de nossos peca-
Atributos e realizações a que antigamente dos. A primeira sugestão é corretamente
ele daria grande valor agora não têm impor- rejeitada. A segunda pode ser apoiada ao
tância (cf Fp 3.4-8). Isso também significa apelar ao uso que Paulo faz da termino-
que ele considera a Cristo de uma maneira logia sacrificial em outras passagens (cf
nova. No período anterior à sua conversão Rm 3.25; 1Co 5.7), e no fato de que na
ele julgava que Cristo empregava critérios versão grega de Levítico 4.24 e 5.12 a pa-
mundanos e chegava a conclusões equivo- lavra traduzida por pecado é utilizada para
cadas, mas ele já não o faz. Alguma coisa significar oferta pelo pecado. A terceira
do grande significado de Cristo é visto no interpretação é corroborada pelo apelo a
fato de que se alguém está em Cristo, é Gálatas 3.13, em que Paulo fala da morte
nova criatura, de forma que se pode dizer, de Cristo em termos de ele suportar as con-
as coisas antigas já passaram, eis que se sequências de nossos pecados: "Cristo nos
fizeram novas! Estar em Cristo é já estar resgatou da maldição da lei fazendo-se ele
participando da nova criação. É verdade próprio maldição em nosso lugar, pois está
que por enquanto o antigo ainda persiste escrito: 'Maldito todo aquele que for pen-
e o novo ainda não veio plenamente (cf durado em madeiro'''. Essa interpretação
Rm 8.18-25; GI 5.16-26). No entanto, nes- ainda é corroborada pelo fato de que a de-
sa passagem o que se destaca é a novidade claração Aquele que não conheceu pecado,
da vida em Cristo, e não a tensão envolvi- ele o fez pecado por nós é equil ibrada pela
da em participar da nova criação enquanto declaração contrária para que, nele, fôs-
ainda se vive como parte da antiga. semos feitos justiça de Deus. Se "ser feito
18-20 Dessa nova criação, de que os justiça de Deus" significa que a sentença
fiéis já participam, Paulo diz: tudo pro- pronunciada por Deus nos foi favorável e
vém de Deus, porque foi Deus que tomou nos coloca em um relacionamento correto
a iniciativa em Cristo para nos reconci- com ele, então tornar-se pecado, como o
liar consigo mesmo, não nos imputando oposto disso, significaria que Deus pro-
os nossos pecados. Depois de nos ter re- nunciou a sua sentença contra Cristo (por-
conciliado, Deus nos confiou a palavra que ele tomou sobre si o fardo de nossos
da reconciliação; assim, por meio de nós pecados; cf Is 53.4-6,12) com o resultado
como seus embaixadores ele apela aos de que o seu relacionamento com Deus
outros para que se reconciliem com ele. foi momentaneamente, mas terrivelmente,
Eles precisam responder afirmativamente além de todo entendimento humano, rom-
a esse apelo para que eles também expe- pido (cf Mt 27.46) em favor de nós. Não
rimentem efetivamente a reconciliação. é de admirar que o amor de Cristo tenha
Essa é a linguagem do evangelismo, mas sido uma grande força motivadora na vida
1801 2CORíNTIOS 6

de Paulo, e uma vez que entendemos o cipe no culto de idolatria, os fiéis devem
significado do amor de Cristo por nós ele se afastar desta. Paulo enfatiza ao apelar
também será uma motivação fortíssima ao clamor do AT para que nada tenham que
na nossa própria vida. ver com o que é impuro e às promessas
6.1,2 Paulo apela aos seus leitores: de Deus no AT de receber como um Pai os
que não recebais em vão a graça de Deus, que abandonam a idolatria (17,18). À luz
isto é, não deixem que a sua resposta ao dessas promessas, Paulo exorta os seus lei-
evangelho seja perturbada por críticas a tal tores a que deixem para trás tudo aquilo
evangelho ou críticas em relação àquele que contamina e se concentrem em aper-
que lhes apresentou o evangelho. Para sa- feiçoar a sua santidade no temor de Deus
lientar a gravidade do seu apelo, Paulo os (7.1). Essa passagem cria problemas para
faz lembrar que "agora" é o tempo do fa- o leitor, pois a sua relação com o que pre-
vor de Deus e conclui que eles não devem cede e o que segue não é óbvia, e é difícil
receber esse favor de Deus em vão. compreender a razão de Paulo inseri-la
3-10 Paulo insiste em que a forma nesse ponto da carta. Pode ser que Paulo,
como ele tem conduzido o seu próprio mi- profundamente preocupado em restabele-
nistério não constitui uma pedra de trope- cer a comunhão com os coríntios, esteja
ço que poderia prejudicar a boa recepção os lembrando de que esta comunhão po-
da graça de Deus por parte deles. Antes, deria ser atingida somente se eles aban-
de todas as maneiras ele tentou recomen- donassem qualquer tipo de envolvimento
dar-se a eles como um servo de Deus, ao com a adoração pagã. Alternativamente,
suportar as tribulações (4b,5) e agir com ele pode estar alertando os seus leitores
integridade (6,7), não importando se a suas que se eles se unirem aos que se opõem a
próprias experiências no ministério fossem ele e ao seu evangelho, isso será o mesmo
agradáveis ou dolorosas (8-10). Em todos que alinhar-se a Satanás / Belial. É claro
os altos e baixos da vida e do ministério que é possível que Paulo tenha passado
como cristãos temos de agir com integri- de um assunto para outro, e que não haja
dade. Se não o fizermos, nossas próprias conexão lógica alguma. A maior parte das
vidas poderão se tomar pedras de tropeço pessoas que escreve cartas ocasionalmen-
para aqueles com quem queremos compar- te faz o mesmo, e nós devemos admitir
tilhar o evangelho. que Paulo possa tê-lo feito aqui.
6.14-7.1 Paulo faz uma digressão 2-4 Depois da digressão de 6.14-7.1,
para exortar os seus leitores a que nada te- Paulo renova o seu apelo à plena reconci-
nham que ver com a adoração pagã, mas liação entre ele e os coríntios, instando-os:
a que levem uma vida santa de reverência Acolhei-nos em vosso coração. Ao fazê-
a Deus. O apelo não vos ponhais em jugo lo ele insiste em que nada no seu próprio
desigual com os incrédulos significa aqui comportamento para com eles constitui um
não participar na adoração pagã com os obstáculo a essa reconciliação: a ninguém
incrédulos. Isto fica evidente pela série de tratamos com injustiça, a ninguém corrom-
cinco perguntas retóricas que seguem nos pemos, a ninguém exploramos. Além disso,
v. l4b-16, especialmente a última: Que li- para apoiar o apelo à plena reconciliação
gação há entre o santuário de Deus e os ele lhes garante que tem um lugar enorme
ídolos? (16a). Os fiéis não podem partici- para eles no seu coração, que ele tem gran-
par no culto de idolatria porque eles são o de orgulho e confiança neles (3,4a) e que as
santuário do Deus vivente, como o próprio boas notícias que ouviu de Tito a respeito
Deus disse: Habitarei e andarei entre eles. da resposta deles à sua carta "severa" o fez
Visto que ser impossível que uma pessoa transbordar de júbilo. Aqui vemos Paulo
ande com Deus e ao mesmo tempo parti- praticando no seu relacionamento com os
2CORíNTIOS 7 1802

coríntios a reconciliação que ele pregava 12,13a À luz dessa resposta Paulo con-
aos outros. A nossa credibilidade como segue dizer aos seus leitores o seu propósito
mensageiros da reconciliação depende, em principal em escrever a carta "severa": não
parte, de sermos reconciliadores do nosso foi por causa do que fez o mal (isto é, não
relacionamento com os outros. foi simplesmente para que eles disciplinas-
sem o transgressor), nem por causa do que
7.5-16 A alegria de Paulo depois sofreu o agravo (isto é, não apenas para
da resolução da crise que ele pudesse ser vindicado), mas para
Nessa seção Paulo retoma a linha deixa- que a vossa solicitude a nosso favor fosse
da em 2.13. Depois de não ter consegui- manifesta em vós. E assim Paulo conclui:
do pregar o evangelho em Trôade sem a Foi por isso que nos sentimos confortados.
presença de Tito, Paulo tinha ido para a Esse desfecho feliz sublinha a importância
Macedônia, esperando encontrar ali o seu de lidar com situações de conflito de modo
amigo. 5-7 Na Macedônia Paulo em tudo cristão, em vez de ignorá-las e esperar que
foi atribulado com lutas por fora, temo- elas simplesmente desapareçam.
res por dentro. As lutas eram provavel- 13b Paulo ainda explica as razões da
mente discussões exaltadas tanto com os sua alegria no encontro com Tito. Ele se
incrédulos (cf At 17.5-14) quanto com os alegrou pelo contentamento de Tito, cujo
opositores cristãos (cf Fp 3.2), enquan- espírito tinha sido encorajado pelos co-
to os temores eram tanto as perseguições ríntios. 14 Antes de enviar Tito a Corinto,
(cf At 18.9) quanto as perdas espirituais Paulo tinha se orgulhado dos coríntios
resultantes da reação negativa dos corín- diante de Tito (provavelmente em virtude
tios à sua carta anterior. No entanto, Deus da sua postura como congregação, apesar
deu grande conforto a Paulo quando Tito de antes não terem defendido o seu após-
finalmente chegou. Assim como o confor- tolo quando este foi difamado pelo trans-
to da presença de Tito, havia também as gressor), e tudo que Paulo alegou Tito viu
boas notícias trazidas por ele dos corín- que era verdade. 15,16 Como resultado, a
tios, com renovadas expressões de sauda- própria afeição de Tito pelos corintios tinha
de e preocupação por Paulo. aumentado, e Paulo pode dizer: Alegro-me
8-11 Paulo fala do remorso que sentiu porque, em tudo, posso confiar em vós.
por ter escrito a carta "severa", mas agora
que recebeu notícias do seu efeito, ele já 8.1-9.15 A questão da coleta
não sente arrependimento (8). Ele está fe- Depois de ter falado da sua grande alegria
liz porque a carta produziu um arrependi- e alívio com as notícias que Tito trouxera
mento verdadeiro por parte dos coríntios, da reação dos coríntios à sua carta, Paulo
produzindo muita defesa ("dedicação" NVI) prossegue no intuito de discutir com eles
em arrependimento, grande indignação (da a questão da coleta que estava sendo fei-
cumplicidade com o ataque do transgressor ta entre as igrejas gentílicas para ajudar os
a Paulo), indignação (contra o transgres- pobres judeus crentes da Judeia. Estes ti-
sor) e temor (tendo percebido o que tinha nham sido duramente atingidos pela fome
acontecido), saudades e zelo (para restau- durante o reinado do imperador Cláudio
rar seu relacionamento com Paulo; cf v. (41-54 d.C.), e a grande igreja gentílica
7), bem como a "vingança" (ARe) ou o "de- em Antioquia (Síria) tinha reagido rapi-
sejo de ver a justiça feita" (NIV; a tomada damente mediante o envio do dinheiro
de ações disciplinares contra o transgres- coletado por Barnabé e Paulo (At 11.27-
sor). O resultado dessa resposta vigorosa 30). Em Gálatas 2.10 Paulo narra a forma
foi, Paulo diz, que em tudo destes prova de como os líderes da igreja de Jerusalém,
estardes inocentes neste assunto. depois de terem reconhecido o seu apos-
1803 2CORíNTIOS 8

tolado para os gentios, instaram-no a que por amor de vós, para que, pela sua pobre-
continuasse se lembrando dos pobres, o za, vos tornásseis ricos. Não é a pobreza
que ele estava ansioso por fazer. Quando econômica que Paulo tem em mente aqui
Paulo escreveu ICoríntios (c. 56 d.C,] ele (a extensão da pobreza do Jesus encarnado
já tinha começado a angariar auxílio entre às vezes é exagerada), mas antes o custo
as igrejas da Galácia, e os coríntios, tendo para o nosso Senhor de desempenhar o
ouvido sobre isso, pediram permissão para seu papel em todo o drama da redenção.
participar desse ministério (l Co 16.1-4). Ela de fato incluía as circunstâncias eco-
E quando 2Coríntios estava sendo escrito nômicas relativamente escassas de sua
(c. 56 d.Cc) Paulo tinha contatado as igre- vida encarnada, mas isso foi só o começo.
jas na Macedônia e eles tinham pedido Houve também rejeição, ridicularizarão,
com muitos rogos, a graça de participarem perseguição, traição e sofrimento, e tudo
da assistência aos santos, e essas igrejas isso culminou na agonia do Getsemâni e
tinham sido extremamente generosas nas na cruz. Todas essas coisas constituem o
suas contribuições (8.1-5). preço total de nossa salvação. Assim como
a pobreza de Jesus aqui não deve ser en-
8. 1-6 O exemplo dos macedônios tendida em termos econômicos, as rique-
1,2 Paulo usa o exemplo da reação extraor- zas que ele toma disponíveis aos fiéis não
dinariamente generosa dos macedônios ao devem ser entendidas como prosperidade
apelo da coleta para motivar os coríntios material aqui e agora. A salvação do pe-
a completar o que anteriormente se mos- cado e as bênçãos da nova era são as ri-
traram dispostos a fazer (cf 9.1,2). Os quezas para as quais Cristo, mediante a sua
macedônios, apesar de estarem enfrentado pobreza, abriu caminho. 10-12 Arespeito
tribulação e profunda pobreza, expressa- da coleta, Paulo adverte os seus leitores a
ram a sua alegria em grande riqueza da terminar agora o que eles não apenas co-
sua generosidade. 3-5 Eles não somente meçaram a fazer há um ano, mas depois
contribuíram na medida de suas posses, ansiosamente desejaram fazer. Ele expli-
mas mesmo acima delas, e não somente ca que, se há boa vontade e eles derem
por causa da urgência do apelo, mas de- de acordo com o que têm, será aceitável
ram-se a si mesmos primeiro ao Senhor. a Deus, pois eles não são obrigados a dar
6 À luz da reação dos macedônios, Paulo nada além das suas posses. 13-15 Paulo
enviou Tito para organizar a coleta entre procura evitar qualquer mal-entendido so-
os coríntios. bre a coleta. Os coríntios não devem se so-
brecarregar para que outros possam viver
8.7-15 Os coríntios confortavelmente às custas deles. A abun-
exortados a se superar dância relativa dos coríntios no momento
7,8 Reconhecendo que os coríntios trans- presente deve atender às necessidades dos
bordavam em outras graças, Paulo os exor- crentes judeus pobres. E para que, se em
ta a transbordar também nesta graça. No algum momento futuro as posições se in-
entanto, esse desejo não é uma ordem a ser verterem, a abundância daqueles venha
obedecida - generosidade não pode ser a suprir a vossa falta. Ele encontra uma
produzida mediante uma ordem; antes, ele ilustração do tipo de igualdade que ele tem
está utilizando a oportunidade que o apelo em mente na experiência da comunidade
à coleta proporciona para testar a genuini- judaica no êxodo. Quando Deus forneceu
dade do amor deles. o maná do céu, o que muito colheu, não
9 Como apoio a esse apelo por amor teve demais; o que pouco, não teve falta
em ação, Paulo cita o exemplo do Senhor (Êx 16.18). As necessidades de todos fo-
Jesus Cristo, que sendo rico, se fez pobre ram atendidas, ninguém sofreu, ninguém
2CORíNTIOS 8 1804

teve mais do que precisava. O fato de 9. 1-5 Estejam preparados


Paulo esperar que os coríntios relativa- e evitem a humilhação
mente abastados suprissem as necessi- 1,2 Paulo reconhece que em certo sentido
dades dos fiéis relativamente pobres em é supérfluo escrever aos coríntios acerca
Jerusalém deveria nos precaver quanto à da participação na coleta, pois eles mes-
nossa forma de aplicar o seu ensinamento mos tinham levantado a questão com ele
sobre as doações hoje. Não devemos apli- inicialmente (ele se refere à indagação
car essa passagem igualmente aos que são deles sobre o assunto em ICo 16.1-4).
abastados e aos que não o são. Mais do que isso, ele tinha se gabado da
prontidão deles para os macedônios a fim
8.16-24 Recomendações aos de estimulá-los também a participar. 3-5
que receberão a oferta Mas agora a crise havia se precipitado por
Aqui Paulo dá graças a Deus pelos três intervenção do transgressor e Paulo teme
homens que irão a Corinto para adminis- que quando ele vier com a delegação dos
trar a coleta. 16,17 Primeiro, ele dá graças macedônios para receber a contribuição
por Tito, enfatizando a sua solicitude pe- dos coríntios eles ainda não a tenham re-
los coríntios e sua disposição em aceitar a colhido. Por esse motivo ele escreve: en-
tarefa. 18,19 Segundo, ele louva o irmão viei os irmãos, para que o nosso louvor
cujo louvor no evangelho está espalhado a vosso respeito, nesse particular, não se
por todas as igrejas e que foi escolhido desminta, acrescentando que não será ape-
pelas igrejas como seu representante para nas ele que se envergonhará se isso acon-
levar a coleta para Jerusalém. 20,21 Antes tecer, mas os próprios coríntios também se
de elogiar o terceiro dos irmãos, Paulo faz sentirão envergonhados. Assim ele envia
uma breve digressão para dizer por que os irmãos para que preparem de antemão
ele está se preocupando tanto com a co- a dádiva deles, de modo que a sua con-
leta. É para evitar que alguém nos acuse tribuição esteja pronta como expressão de
em face desta generosa dádiva admi- generosidade e não de avareza, como pa-
nistrada por nós, de modo que tudo que receria se ela fosse coletada rapidamente
for feito seja honesto não só perante o quando Paulo chegasse.
Senhor, como também diante dos homens.
22 Finalmente, ele elogia o nosso irmão, 9.6-15 Um apelo para
cujo zelo, em muitas ocasiões e de mui- que sejam generosos
tos modos temos experimentado. 23,24 A 6 Paulo encoraja os seus leitores a fazer
passagem termina com um elogio resumi- a doação generosa a que se refere no v. 5
do aos três e um apelo para que os corin- ao lembrar-lhes de um ditado utilizado na
tios deem provas do seu amor (por Paulo) agricultura: o que semeia comfartura com
e da verdade do seu orgulho deles (para abundância também ceifará. A "semeadu-
os macedônios) quando os três homens ra" e a "colheita" nesse contexto referem-
chegarem. Vale a pena observar como se à contribuição que os coríntios farão e
a seriedade (ou o zelo) era importante os resultados dessa contribuição, respecti-
para o apóstolo tanto na recomendação vamente. (O resultado esperado é descrito
de obreiros cristãos quanto no incenti- nos v. 12-14). 7-11 Eles não devem ser
vo aos fiéis em geral. Podemos colocar relutantes no dar, lembrando que Deus
outras qualidades acima dessa em nossa ama um doador alegre, e que como aque-
lista de prioridades, mas para Paulo a se- le que dá semente ao que semeia é capaz
riedade estava entre as mais importantes de aumentar a sementeira deles genero-
(v., e.g., 7.11,12; 8.7,8,16,17; Rm 12.11; samente, ou seja, para toda generosidade
2Tm 1.16,17). em qualquer ocasião. Isso era dirigido aos
1805 2CORíNTIOS 10

coríntios relativamente abastados; e não ataque vigoroso contra os seus opositores.


teria sido adequado dizer as mesmas coi- A crise que Paulo enfrentou nessa situação
sas aos judeus atingidos pela pobreza para foi a mais crucial em todo o seu relacio-
quem a coleta estava sendo feita. 12-14 namento com os coríntios, e esse fato dá
Paulo descreve os resultados da contribui- cor tanto ao tom quanto ao conteúdo dos
ção antecipada dos coríntios não somente cp. 10---13, nos quais Paulo apresenta a
como suprindo a necessidade dos santos, sua resposta.
mas que também redunda em muitas gra-
ças a Deus. Além disso, os que se benefi- 10.1-6 Uma súplica sincera
ciarem glorificarão a Deus pela obediência 1,2 Paulo inicia a sua resposta fazendo um
da confissão dos coríntios e pela libera- apelo como alguém que quando presente
lidade com que contribuíram para eles e entre eles é humilde; mas, quando ausente,
para todos, e em seus corações oram eles é ousado para com eles. Essa é uma alu-
a favor dos coríntios com grande afeto. são à acusação feita pelos seus oponentes
Tudo isso reflete os propósitos da coleta: depois da sua partida "tímida" ao final da
primeiro, que o louvor e as ações de graças visita dolorosa, por um lado, e sua carta
devem afluir diante de Deus pela obra da "severa" escrita "com firmeza" à distância,
sua graça entre os gentios; segundo, que o por outro. Paulo apela aos coríntios para
amor e a unidade entre os judeus e gentios que ajam de tal maneira que ele não preci-
na igreja devem ser reforçados. 15 Paulo se ser "ousado" com eles, como ele pensa
conclui seu tratamento sobre a coleta agra- ter que tratar alguns (os seus oponentes)
decendo a Deus o seu dom inefável que quando ele fizer a sua terceira visita. Ele
toca a mesma nota ouvida em 8.9. rejeita a acusação dos seus oponentes de
que nos julgam como se andássemos em
10.1-13.14 Paulo reage disposições de mundano proceder.
a uma nova crise 3-6 Paulo responde a essa acusação
Há uma mudança de tom acentuada quan- com o uso extensivo de uma metáfora mi-
do se passa dos cp. 1-9 para os cp. 10- litar afirmando que, embora andando na
13. Nos primeiros, o tom é basicamente de carne (ou seja, participando da existência
alívio e conforto, de confiança em Deus e humana normal, com todas as suas limita-
nos coríntios, não obstante Paulo sentir a ções), não militamos segundo a carne (ou
necessidade de explicar a sua mudança dos seja, empregando simplesmente os meios
planos de viagem e sublinhar a integridade humanos e duvidosos). Pelo contrário, diz
do seu ministério. O tom da segunda parte ele: as armas de nossas milícias não são
é marcado pela ironia e sátira, pela defesa carnais, e sim poderosas em Deus, para
pessoal severa, pela censura direta aos co- destruir fortalezas. Essa é uma alusão às
ríntios e pelo ataque amargo dirigido aos torres ou rampas utilizadas nas batalhas
oponentes que se infiltraram na congrega- antigas, mas aqui representa os sofismas e
ção (v. na Introdução uma discussão so- a altivez que se levantam contra o conhe-
bre a identidade dos oponentes de Paulo). cimento de Deus. Foi pela proclamação do
Depois da disciplina e reintegração do in- evangelho (que envolvia raciocínio e argu-
frator, parece que os adversários de Paulo, mentação no esforço para remover barrei-
os falsos apóstolos, começaram a influen- ras falsas erguidas contra a verdade) que
ciar diretamente a congregação e envene- Paulo tentou vencer a resistência do povo
nar os seus membros contra ele. Ao ter a e, assim levar cativo todo pensamento à
sua autoridade usurpada e o seu apostolado obediência de Cristo. A imagem aqui é a
posto em dúvida, Paulo foi obrigado a fazer de uma fortaleza com brechas nas mura-
uma defesa pessoal intensa e arquitetar um lhas e os que atrás dela se protegiam sen-
2CORíNTIOS 10 1806

do levados cativos. O propósito de Paulo 10. 12-18 Vangloriando-se dentro


não é somente demolir os argumentos dos limites adequados
falsos, mas também levar os pensamentos 12-15 Paulo satiriza os seus oponentes
das pessoas para debaixo do senhorio de como os que se elogiam a si mesmos pela
Cristo. Por fim, ele diz estar pronto para comparação entre si! Em relação a si mes-
punir toda desobediência (ao evangelho mo, ele diz não nos gloriaremos sem medi-
por parte dos seus oponentes), uma vez da, isto é, na força da sua comissão como
completa a [...] submissão deles (isto é, apóstolo aos gentios por Deus e da obra
uma vez que os coríntios reconheçam no- que ele tinha realizado em Corinto. 15b-18
vamente a autoridade de Paulo e a verdade A esperança de Paulo é que com o cresci-
do seu evangelho). Uma passagem como mento dafé dos coríntios (em especial, com
esta nos faz lembrar que o ministério cris- a resolução da presente crise) sua própria
tão envolve uma batalha pela mente. Os atividade entre eles se expandirá significa-
argumentos falsos precisam ser demolidos tivamente, de modo que ele terá uma base
para que as pessoas possam se sujeitar à para anunciar o evangelho para além das
verdade do evangelho e encontrar vida de- [...]fronteiras deles. Ali também ele espera
baixo do senhorio de Cristo. continuar a sua maneira de trabalhar onde
Cristo não é conhecido (cf Rm 15.20), sem
10.7-11 Paulo responde às críticas com isto nos gloriarmos de coisas já rea-
7 Referindo-se aos seus oponentes, Paulo lizadas em campo alheio. Paulo termina
afirma que ele mesmo é tão servo de com um lembrete de que pouco importa o
Cristo como eles alegam ser (mais tarde que alguém diz quando se elogia a si mes-
ele nega o que, na argumentação, ele aqui mo. O que realmente importa, no final, é o
admite, ou seja, que os seus oponentes louvor do próprio Senhor (cf ICo 4.1-5).
sejam verdadeiros servos de Cristo; cf Foi com essa consciência que ele conduziu
11.13-15). 8-11 Paulo responde àqueles o seu ministério, e parece que ele deixa im-
que diziam que ele se gloriava um pouco plicito que seus oponentes não o fizeram.
mais a respeito da sua autoridade, a qual Não é atribuição nossa nos orgulhar da
o Senhor lhe tinha conferido, e que essa nossa própria obra para Cristo.
vanglória era desmentida pelo seu desem-
penho real quando estava entre eles em 11. 1-6 A ingenuidade dos coríntios
pessoa. Eles diziam que ele intimidava as 1,2a Prenunciando o seu discurso em
pessoas com cartas graves e fortes quan- 11.16-12.13, Paulo diz: Quisera eu me
do ele estava ausente e a uma distância suportásseis um pouco mais na minha lou-
segura, mas quando estava pessoalmen- cura, explicando que o zelo de Deus que
te entre eles a sua presença era fraca e ele sente pelos seus leitores é que o força
sua argumentação não levava a nada. a fazer isso. lb,3 Utilizando as imagens
As alusões aqui são às palavras ríspidas do noivado e do casamento, ele se enxerga
de sua carta, por um lado, e ao seu fra- como o agente de Deus mediante o qual os
co desempenho pessoal quando presente seus convertidos eram apresentados como
em Corinto, por outro. Aos que fazem a noiva para Cristo, e ele se sente na obri-
essas críticas Paulo diz: o que somos na gação de assegurar que eles sejam apresen-
palavra por cartas, estando ausentes, tal tados como uma virgem pura para ele, isto
seremos em atos, quando presentes. Isso é, para garantir que eles permaneçam ver-
não é apenas defesa, mas também uma dadeiramente devotados a Cristo até à sua
advertência de que em sua próxima visita volta. Mas Paulo expressa o seu receio: as-
ele tomará medidas enérgicas contra os sim como a serpente enganou a Eva com a
seus detratores (cf 10.6; 13.1-4). sua astúcia, assim também seja corrompida
1807 2CORíNTIOS 11

a vossa mente e se aparte da simplicidade Primeiro, os coríntios pensavam que o tra-


e da pureza devidas a Cristo. A sedução de balho humilde não estava à altura da dig-
Eva pela serpente não foi sexual, como al- nidade de um apóstolo; e segundo porque
guns textos rabínicos sugeriram, tenha sido provavelmente eles se sentiram ofendidos
antes a sedução da mente pela negação da porque ele se recusava a aceitar a ajuda de-
verdade do que Deus havia dito. A história les, especialmente quando aceitou a oferta
de Eva descreve apropriadamente o tipo de das igrejas da Macedônia enquanto traba-
perigo que os coríntios enfrentavam, isto lhava em Corinto. Os adversários de Paulo
é, a sedução da sua mente. 4 Paulo explica podem bem ter utilizado esse fato como
a natureza exata da sedução que ele receia: prova de que ele não os amava. Paulo cha-
a aceitação fácil pelos coríntios de um ou- ma a Deus como testemunha de que ele
tro Jesus, de um espírito diferente e de um os ama. Não obstante, ele continuará ten-
evangelho diferente dos que eles recebe- tando não ser um fardo, porque ele deseja
ram pela pregação dele. Paulo não nos diz cortar ocasião àqueles que a buscam com
em que eles diferiam. No entanto, sabemos o intuito de serem considerados iguais a
que os oponentes de Paulo prezavam alta- nós. Os oponentes de Paulo queriam con-
mente as evidências de autoridade e poder, solidar a sua posição em Corinto dizendo
assim pode ser que eles tenham induzido que eles cumpriam a sua missão nos mes-
os coríntios a aceitar um Jesus, um espírito mos termos que Paulo. No entanto, havia
e um evangelho nos quais não havia lugar uma área crucial na qual os seus termos
para fraqueza, humilhação, sofrimento e eram diferentes - eles queriam um retor-
morte. Paulo pregava Cristo crucificado no financeiro. Se eles fossem apóstolos de
como Senhor, e tal evangelho diferia acen- boa-fé não precisariam estar preocupados
tuadamente disso. 5,6 Paulo volta-se de com essa distinção, pois a maioria dos de-
sua preocupação com os coríntios para a mais apóstolos aceitava remuneração (cf
sua defesa pessoal, alegando que ele não lCo 9.7-14). Parece que os adversários de
é em nada inferior a tais apóstolos (uma Paulo não apenas aceitavam a remunera-
referência irônica aos seus oponentes). ção, mas a extraíam de forma gananciosa
Mesmo que ele, ao contrário deles, não (cf 11.20), e isso teria feito com que se
seja um grande orador, ele realmente tem tomassem sensíveis à comparação odiosa
conhecimento (do mistério do evangelho que poderia ser feita entre o comportamen-
que os seus oponentes não conseguiram to deles e o de Paulo. Se quisermos que
compreender corretamente), e isso ele ten- os nossos ministérios como cristãos hoje
tava tomar perfeitamente claro aos seus tenham credibilidade, nós também tere-
leitores (provavelmente se referindo ao mos de agir com integridade em relação às
seu ministério de ensino entre eles durante questões financeiras. O evangelho cai em
a sua primeira visita a Corinto, bem como descrédito quando os seus mensageiros são
às instruções dadas nas cartas). ávidos por ganhos financeiros.
13-15 Paulo agora expõe o caráter ver-
11.7-15 Por que Paulo recusa dadeiro dos seus oponentes como falsos
o apoio financeiro apóstolos, obreiros fraudulentos, trans-
7-12 Paulo responde às críticas à sua práti- formando-se em apóstolos de Cristo. Ele
ca de trabalhar para sustentar a si mesmo e acrescenta que a falsidade deles não é de
de complementar o que ganhava dessa for- admirar, pois o próprio Satanás se trans-
ma com o auxílio de outras igrejas. Tudo forma em anjo de luz, e também não é de
isso permitia que ele servisse aos corín- admirar que os seus próprios ministros se
tios sem se fazer pesado a ninguém. Mas transformem em ministros de justiça. Os
isso resultou em críticas por duas razões. ataques de Satanás à igreja raramente são
2CORíNTIOS 11 1808

diretos. Muitas vezes são realizados de for- para fazer uma exibição do autoritarismo
ma subversiva pelos que dentro da igreja desprezível e arrogante demonstrado pelos
servem equivocadamente aos desígnios falsos apóstolos.
dele. Isso é o que Paulo receia que possa 21b,22 Falando com insensatez, Paulo
acontecer em Corinto (cf 11.3,4). Aos res- afirma que a sua própria ascendência judai-
ponsáveis Paulo diz: o fim deles será con- ca é tão boa quanto a dos falsos apóstolos.
forme as suas obras (ou seja, no julgamen- 23-29 Ele alega ser um servo de Cristo bem
to de Cristo eles receberão o que as suas melhor do que eles porque sofreu muito
obras os fizeram merecer; cf. 5.10). mais do que eles. Para apoiar essa alega-
ção Paulo fornece uma lista de suas priva-
11.16-12.13 O discurso ções apostólicas que podem ser divididas
dos insensatos em quatro seções: em prisões, em açoites,
Aqui Paulo se orgulha da sua ascendên- sem medida, e muitas vezes em perigo de
cia judaica, tribulações apostólicas, expe- morte, incluindo uma explicação detalha-
riências visionárias e dos milagres pode- da do que isso incluía (23b-25); frequentes
rosos que ele realizou. Ele sabe ser uma viagens, com uma descrição dos perigos da
estupidez esse orgulho, mas em circuns- viagem (26); em trabalhos e fadigas, com
tâncias em que os seus convertidos foram um relato das privações envolvidas (27); e
dominados pela jactância de outros, ele se a preocupação com todas as igrejas, com
sente compelido a jactar-se um pouco de um exemplo do que a causou (28,29).
si mesmo. 30-33 Como um último exemplo das
16-19 No início, Paulo pede aos seus coisas que dizem respeito às fraquezas
leitores que o recebam mesmo como um dele, Paulo narra a história de sua fuga de
insensato, para que ele possa se gloriar Damasco, o seu primeiro sabor de perse-
um pouco. Nessa confiança de gloriar- guição, que parece ter deixado uma im-
me, ele está plenamente consciente de pressão indelével nele. Ao contrário da
que está falando não segundo o Senhor, lista de tribulações dos v. 23b-29, o que
e sim como por loucura; no entanto ele poderia ser interpretado como triunfalismo
espera que os coríntios o perdoem por ("Superei todas essas dificuldades a fim de
essa loucura, vendo que, Paulo diz ironi- cumprir a minha missão"), a fuga infame
camente, sendo vós sensatos, de boa men- de Damasco contém muito pouco do que
te tolerais os insensatos (uma referência ele poderia se orgulhar. Ao destacar todas
tanto ao fato de terem tolerado a vanglória essas coisas que mostram a sua fraqueza
dos oponentes de Paulo quanto ao seu or- e humilhação, e não a sua força, Paulo se
gulho em sua própria sabedoria). 20 Para apresenta como um verdadeiro servo de
enfatizar a amplitude da própria insensatez Cristo. Jesus disse que os que o seguissem
da tolerância deles no que dizia respei- sofreriam perseguições como ele tinha
to à questão dos falsos apóstolos, Paulo sofrido, e Paulo mostra que essa foi a sua
acrescenta: tolerais quem vos escravize, experiência como apóstolo. Ao introduzir
quem vos devore, quem vos detenha, quem essa ideia para o debate em curso sobre
se exalte, quem vos esbofeteie no rosto. quais eram os verdadeiros apóstolos em
21a Paulo conclui esse parágrafo com mais Corinto, Paulo não somente dá suporte à
uma declaração repleta de ironia mordaz: sua alegação, mas também enfraquece as
Ingloriamente o confesso, como se fôra- alegações dos seus oponentes.
mos fracos! Os coríntios tinham criticado 12.1 Paulo agora passa a se gloriar das
Paulo por sua suposta fraqueza (cf 10.10; visões e revelações do Senhor. Ele está
11.21). Agora ele os critica pela mesma ra- consciente de que não ganha nada com isso
zão e os informa de que ele é fraco demais (cf NVI), mas que tem muito a perder se
1809 2CORíNTIOS 11

não o fizer. Evidentemente os seus adver- orgulhar dela. É importante reconhecer que
sários tinham criticado a sua alegação de tanto no AT como no NT o poder de Satanás
ser um apóstolo, dizendo que ele não tinha não vai além do que Deus lhe permite, e
experimentado visões e revelações. Paulo que até mesmo os seus desígnios maléficos
dirime assim qualquer tipo de dúvida. foram elaborados para servir os propósi-
2-4 Das muitas visões e revelações tos de Deus. Nesse caso, o mensageiro de
que ele havia recebido (At 9.4-6; 16.9,10; Satanás foi usado por Deus para que Paulo
18.9-11; Gl 1.15,16), Paulo seleciona uma não se ensoberbecesse, claramente o que
que ocorreu catorze anos atrás, e portanto Satanás não tinha em mente. Tem havido
alguns anos depois da sua conversão. Ele muita especulação sobre a natureza do es-
sentiu que foi arrebatado até ao terceiro pinho na carne de Paulo, mas não há dados
céu [...] ao paraíso, onde ouviu palavras suficientes para decidir simplesmente que
inefáveis as quais não é lícito ao homem tipo de aflição ele sofria.
referir. Ele não sabe se essa experiência foi S-lO Paulo pediu ao Senhor por três
no corpo oufora do corpo, e portanto tam- vezes que afastasse dele o espinho. O seu
pouco sabemos nós. Na literatura tanto do pedido não foi atendido, mas o que ele
mundo judeu como do gentio, há paralelos ouviu foi: A minha graça te basta, porque
da experiência de arrebatamento do após- o poder se aperfeiçoa na fraqueza. Em ou-
tolo, e a partir desses paralelos três coisas tras palavras, Deus prometeu a Paulo que
podem ser aprendidas com a experiência em meio à fraqueza e frustração que este
de Paulo. Primeiro, a experiência a que ele "espinho" produziu ele encontraria todo o
se referiu era inteligível aos seus contem- poder de Deus ainda mais presente. Tendo
porâneos. Segundo, acreditava-se que uma ouvido essa palavra de Deus, Paulo é ca-
experiência desse tipo inspirava terror, e paz de se gloriar das fraquezas, não porque
isso explica em parte a grande relutância ele as aprecie, mas porque ele sabe que o
de Paulo em descrevê-la. Terceiro, o passar poder de Cristo está nele em suas fraque-
por essa experiência o colocaria no mesmo zas. Ele então passa a aplicar essa palavra
nível dos grandes heróis da fé, e ao alegar de Deus às outras áreas da sua vida em
tal experiência Paulo obteria uma vanta- que depara com fraqueza e sofrimento,
gem completa sobre os seus oponentes. pois quando sou fraco, então, é que sou
5,6 É notável que Paulo não tenha va- forte. O propósito de Paulo em falar des-
lorizado ao máximo a sua experiência. Em sa maneira não era somente ajudar os seus
vez disso, ele procura se separar do Paulo leitores a compreender melhor a fraqueza
que tinha tido essa experiência catorze anos humana e o poder de Deus. Os seus adver-
antes. Tendo divulgado o fato de forma a sários tinham criticado a sua reivindicação
satisfazer as críticas dos seus oponentes, ele apostólica baseada na fraqueza (cf 10.10;
desvia rapidamente a atenção dessa expe- 11.21), e eles provavelmente considera-
riência para as suas fraquezas como a única vam as muitas perseguições e insultos que
razão que tem para se gloriar. Embora ele Paulo tinha experimentado como algo in-
acrescente, para silenciar as críticas, que compatível com a sua reivindicação apos-
se fosse para se gloriar ele o faria falando tólica. Ao estabelecer o princípio do poder
a verdade. Mas na realidade ele se abstém divino manifestado pela fraqueza, Paulo
porque quer que as pessoas o avaliem com imediatamente defendeu a sua própria rei-
base no que veem e ouvem dele agora, e não vindicação ao apostolado e neutralizou as
por alguma experiência que ele teve cator- críticas dos seus opositores. 11,12 Paulo
ze anos antes. 7 Em vez de tirar o máximo está consciente de que o que ele acaba de
proveito da sua experiência, Paulo explica dizer foi um exercício de insensatez, mas
imediatamente como ele conseguiu não se os próprios coríntios o levaram a isso. Ele
2CORíNTIOS 12 1810

diz: Eu devia ter sido louvado por vós; para com os coríntios, ele pergunta se o seu
se isso tivesse sido feito, ele não precisa- amor transbordante por eles irá significar
ria elogiar-se a si mesmo. As pessoas não que ele será menos amado por eles.
precisam se submeter ao ato desagradável 16-18 Paulo indica aqui por que o seu
de elogiar-se a si mesmas quando os seus amor pelos coríntios não pode ser retribuí-
amigos, ou aqueles a quem têm ministrado do. É porque a sua recusa em ser um peso
tomam medidas positivas para defender a financeiro para eles foi propositadamen-
integridade delas nas ocasiões em que esta te mal-interpretada por seus adversários.
é posta em dúvida injustamente. Paulo Assim ele confronta os seus leitores com
lembra os seus leitores de que em nada fui a acusação levantada contra ele. Os adver-
inferior a esses tais apóstolos com respeito sários de Paulo tinham sugerido que ele
às credenciais do apostolado, pois sinais, recusou o apoio financeiro somente porque
prodígios e poderes miraculosos tinham ele pretendia utilizar a ocasião da coleta
sido realizados por ele entre os coríntios. para os judeus cristãos pobres como uma
Nesse sentido, eles não eram menos fa- oportunidade para se beneficiar pessoal-
vorecidos do que os membros das outras mente. Assim Paulo pergunta aos coríntios
igrejas que ele havia fundado. 13 Só se se ele os explorou por meio de algum dos
poderia dízer que eles eram inferiores aos homens que ele enviou para organizar a
membros das demais igrejas em um único coleta (cf. 8.16-24; 9.3-5), fosse de Tito
aspecto, Paulo diz ironicamente, o fato de ou dos irmãos enviados com ele. Ele con-
não vos ter sido pesado (ou seja, ele nunca clui perguntando: Acaso, não temos anda-
aceitou o apoio financeíro deles). O sig- do no mesmo espírito? Não seguimos nas
nificado desse fato tinha sído distorcido e mesmas pisadas? A pergunta requer uma
utilizado contra o apóstolo como evidência resposta positiva. Tanto Paulo como os que
de que ele não amava os crentes de Corinto ele enviou a Corinto agiam da mesma for-
(cf 11.7-Il). Paulo se recusa a levar essas ma, com total integridade.
críticas a sérío e responde com grande iro-
nia quando diz: Perdoai-me esta injustiça! 12.19-21 O propósito
Ele dá a entender que é uma coisa realmen- do discurso insensato
te estranha o fato de eles se queixarem por 19 Paulo se sentiu obrigado a falar dessa
ele não ter sido pesado para eles ou por não maneira porque os coríntios tinham sido
tê-los explorado (cf 11.20). influenciados pela jactância dos seus ad-
versários, e ele tinha que mostrar que em
12.14-18 Paulo nega a astúcia nada era inferior àqueles homens. Mas o
14,15 Prenunciando a sua terceira visita seu verdadeiro propósito, diz ele, foi para
a Corinto, Paulo diz aos seus leitores que vossa edificação, não é para ser erronea-
ele não será pesado para eles, pois não vou mente interpretado como simples autode-
atrás dos vossos bens, mas procuro a vós fesa. Para fortalecê-los na fé ele deve expor
outros. Pensando no seu ministério a eles os falsos apóstolos e reconquistar a fide-
como o de um pai para com seus filhos pe- lidade dos coríntios como seu verdadeiro
quenos, ele acrescenta: não devem osfilhos apóstolo e, também, ao seu evangelho.
entesourar para os pais, mas os pais, para 20,21 Ele procura fortalecê-los na fé,
os filhos. Por esse motivo ele não somente porque receia que de outra forma, quando
está disposto a empenhar tudo o que tem ele fizer sua terceira visita, nem ele nem
(os seus recursos financeiros), mas tam- eles irão encontrar um no outro aquilo que
bém a gastar-se a si mesmo (a sacrificar a eles desejam. Ele pode encontrá-los ain-
sua própria vida) por eles. Seguindo essa da obcecados pelos pecados que tinham
declaração do seu amor e compromisso cometido anteriormente e dos quais eles
1811 2CORíNTIOS 13

ainda não tinham se arrependido (especial- ao se examinarem a si mesmos e chegarem


mente impureza, prostituição e lascívia). à conclusão de que eles estão firmes na
Eles poderão encontrá-lo agindo com arro- fé, os coríntios também reconhecerão que
jada autoridade em relação a eles devido a Paulo não reprovou no teste. Se eles estão
seus pecados. na fé e Cristo neles, isso ocorre em virtude
do que receberam por meio do ministério
13.1-10 Paulo ameaça de Paulo, o que, por sua vez, prova que ele
com medidas rigorosas é um apóstolo verdadeiro, alguém que foi
1 Paulo adverte os coríntios de que se por aprovado no teste.
ocasião da sua terceira visita eles tiverem 7-9 A oração de Paulo pelos coríntios
a intenção de acusá-lo por quaisquer de- é para que eles não façam mal algum. Sua
litos, então por boca de duas ou três tes- preocupação é pelo bem-estar dos corín-
temunhas, toda questão será decidida. A tios e não pela sua própria reputação. Sua
exigência de que as acusações devem ser afirmação de que ele nada poderia contra a
apoiadas por duas ou três testemunhas verdade, se não em favor da própria ver-
é encontrada em Deuteronômio 19.15 e dade é mais bem entendida no sentido de
foi incorporada por Jesus às suas instru- que ele nunca poderia agir de uma forma
ções aos discípulos relativas à disciplina contrária ao evangelho ou às suas implica-
da Igreja (Mt 18.16; v. também Jo 8.17; ções morais.
lTm 5.19; Hb 10.28; 110 5.8). 10 Paulo resume o propósito da sua
2-4 Paulo também os adverte de que, carta: Escrevo estas coisas, estando ausen-
uma vez que eles estão exigindo provas de te, para que, estando presente, não venha
que Cristo esteja falando por meio dele, usar de rigor segundo a autoridade que o
quando ele chegar, eles terão as suas pro- Senhor me conferiu para edificação e não
vas. Não será o tipo de prova que eles es- para destruir. Nos cp. 10-13 Paulo amea-
peram (visões e revelações, sinais e mara- çou repetidamente usar sua autoridade de
vilhas etc.); em vez disso, será o exercício forma severa (10.5,6,11; 12.20; 13.1-4); no
do poder de Cristo de disciplinar os trans- entanto, o que ele diz aqui deixa claro que
gressores. Ele os faz lembrar que Cristo ele esperava o tempo não precisar chegar
foi crucificado em fraqueza, contudo, vive a esse ponto (cf 10.2; 12.19-21). Assim,
pelo poder de Deus, e que ele, Paulo, do podemos dizer que o propósito dos cp.
mesmo modo, embora fraco, irá tratá-los 10---13 era relembrar os coríntios da sua
com o poder de Deus. lealdade a Paulo e seu evangelho, e assim
5,6 Os coríntios podem ter em mente evitar que ele utilizasse severidade no uso
fazer algumas acusações contra ele e tes- da sua autoridade para com eles.
tar as suas reivindicações de ser um ver-
dadeiro apóstolo, mas aqui Paulo lhes diz 13. 11-13 Apelo e saudações finais
que se examinem a si mesmos para ver se O encorajamento final de Paulo aos seus
realmente estão na fé. Ele os lembra de leitores é: Aperfeiçoai-vos, consolai-vos,
que Jesus Cristo está neles (com todas as sede do mesmo parecer, vivei em paz. No
implicações morais do fato; cf 1Co 3.16; contexto isso significa que eles deveriam
6.19,20), ou seja, a menos que reprovem rejeitar o evangelho diferente apresentado
no teste! Paulo diz então: Mas espero re- pelos seus adversários (lIA), reconhecer as
conheçais que não somos reprovados. Isso reivindicações legítimas do apostolado de
de certo modo é surpreendente, pois o con- Paulo (10.13-18; 11.21-23; 12.11-13), em-
texto nos leva a prever que a esperança de penhar-se para que nenhuma prática imoral
Paulo era a de que os coríntios seriam os fosse permitida no seu meio (12.19-21) e
que passariam no teste. A explicação é que viver em harmonia uns com os outros.
2CORíNTIOS 13 1812

13.14 A bênção forma sublime quando reconciliou consigo


A súplica final pelas bênçãos de Deus é o mundo em Cristo; cf5.18-21) e a comu-
especialmente significativa porque este é nhão do Espírito Santo (isto é, a participa-
o único lugar no NT em que Deus o Pai, o ção no Espírito Santo por ser o seu templo,
Filho e o Espírito Santo são explicitamente e a participação na comunhão dos crentes
mencionados juntos em uma bênção. Paulo criada por ele).
destaca a graça do Senhor Jesus Cristo
(cf 8.9), o amor de Deus (demonstrado de Colin G. Kruse
GÁLATAS

INTRODUÇÃO
o significado da carta Na medida em que desenvolve os seus
A carta aos Gálatas trata diretamente da argumentos em resposta ao ensino dos ju-
questão teológica mais fundamental en- daizantes, o apóstolo toca numa varieda-
frentada pela primeira geração cristã: de de questões fundamentais, tais como a
Como o evangelho de Jesus Cristo afeta a natureza da autoridade apostólica, a justi-
divisão judeus/gentios? Os primeiros cris- ficação pela fé, a promessa abraâmica, a
tãos eram judeus, e no começo eles pres- posição de Cristo como Filho de Deus, o
supunham que a natureza especial de sua papel da lei de Moisés, a liberdade, a obra
nação, e, portanto, as observâncias cerimo- do Espírito Santo e a santificação. Não é
niais associadas a ela, teriam continuidade. de admirar que essa carta tenha tido papel
Quando os gentios, em grande quantidade, dos mais importantes em toda a história
começaram a receber o evangelho, essas da igreja, mais notavelmente no tempo da
pressuposições foram questionadas, e foi Reforma no século XVI, quando Martinho
necessário um período prolongado de re- Lutero se apoiou de forma decisiva em
flexão, ajustes e tensões para que se com- Gálatas para atacar a doutrina da salvação
preendessem os propósitos de Deus para da igreja católica. Embora o foco exato da
os judeus e os gentios. controvérsia entre Paulo e seus oponentes
Nenhum documento é mais importan- - deveriam os gentios ser circuncidados?
te para desvelar essas lutas e tensões do - possa parecer uma preocupação distante
que a carta de Paulo às igrejas da Galácia. da maioria dos cristãos depois do primeiro
Os cristãos dessa região tinham se torna- século, a questão central não é nada me-
do objeto de intenso zelo missionário de nos do que a base do nosso relacionamento
certos "judaizantes" que estavam conven- com Deus. A resposta dada pelos judaizan-
cidos de que o evangelho não descartava tes, na superfície, chamou atenção para as
as cerimônias judaicas e que, portanto, os cerimônias judaicas, mas seu compromisso
gentios cristãos tinham de se tornar judeus mais profundo - dependência da "carne"
se quisessem receber as promessas de e não do Espírito - pode se expressar de
Deus dadas a Abraão. (Originariamente outras formas.
a palavra grega "judaizar" era usada para Afirmam alguns estudiosos modernos
descrever a adoção das práticas judaicas que essa denominada compreensão pro-
pelos gentios convertidos ao judaísmo). testante de Gálatas é inválida. No entanto,
Motivados por argumentos judaizantes, embora Martinho Lutero e outros reforma-
esses gálatas, que tinham sido primeira- dores possam ter omitido algumas nuanças,
mente evangelizados por Paulo, come- eles não estavam enganados ao enxergar
çaram a observar as cerimônias judaicas. nessa carta a resposta de Deus para as ques-
O apóstolo percebeu que essa mudança tões dos seus dias. Não importa o que mais
de rumo minava o evangelho da graça Gálatas nos ensine, certamente nos conta
exatamente na sua essência. Sua carta a em linguagem clara e vigorosa que nossa
eles revela as mais profundas convicções posição correta diante de Deus só pode ser
de Paulo. um ato de graça recebida por meio da fé
GÁLATAS 1814

em Cristo. Nenhum rito eclesiástico e ne- essa descrição é conflitante com a narra-
nhum esforço humano podem estabelecer tiva de Atos, especialmente porque deixa
a nossa justificação. Ao contrário, "o justo de mencionar o decreto registrado em Atos
viverá pela fé" (3.11). 15.22-29.
Alguns eruditos evitam o problema ao
Contexto histórico argumentar que Gálatas foi escrito antes
Com relação a algumas questões históricas do concílio. (Esse argumento pressupõe
concernentes a Gálatas, há poucas dúvidas. que a carta foi escrita a igrejas na parte sul
Poucos estudiosos questionam, por exem- da província. O ponto de vista de que as
plo, que Paulo foi o seu autor. Repetindo, igrejas em questão estavam localizadas no
o texto deixa bem claro que alguns indi- norte impede essa datação, visto que Paulo
víduos estavam incitando à sedição espi- não evangelizou a região norte senão após
ritual na comunidade da Galácia ao pregar o concílio). De acordo com essa datação
um evangelho falso que pressionava os precoce, Gálatas 2 não conflita com Atos
crentes gentios a observar cerimônias ju- pela simples razão de que no tempo em
daicas, particularmente a circuncisão (1.7- que foi escrita a carta o concílio não tinha
9; 5.2,3,7-12; 6.12,13). Por outro lado, há ocorrido ainda. Os comentários de Paulo,
debates consideráveis acerca da data, dos portanto, necessariamente são uma refe-
receptores e da exata ocasião da composi- rência a um encontro diferente (provavel-
ção dessa carta tão importante. mente o que é descrito em Atos 11.29,30).
Muitos estudiosos hoje identificam os Para outros estudiosos, essa solução pare-
receptores da carta como as igrejas funda- ce muito fácil, especialmente em vista das
das por Paulo e Barnabé em Icônio, Listra fortes semelhanças entre Atos 15 e Gálatas
e Derbe (At 14.1-23). Estavam localiza- 2. É possível argumentar que ambos os tre-
das na parte sul da provincia romana da chos se refiram ao mesmo evento e que as
Galácia, no interior da Ásia Menor (a atual diferenças possam ser explicadas ao se re-
Turquia). O nome dessa província vem conhecer as perspectivas tão diferentes dos
de uma região ao norte, onde a raça dos dois autores. De acordo com essa opinião,
gálatas (originariamente Gália) tinha se as- Gálatas deve ter sido escrito depois de 49
sentado, e uma minoria defende o ponto de d.C., e a data preferida está aproximada-
que as igrejas em questão estavam locali- mente na metade da década de 50, enquan-
zadas nessa região - uma opinião que afe- to Paulo estava em Éfeso durante sua ter-
ta a data da carta. Esse grupo busca apoio ceira viagem missionária.
em Atos 16.6 para o ponto de vista de que A controvérsia acerca da data de Gálatas
Paulo fundou algumas igrejas aí, mas esse não é um mero jogo acadêmico. Algumas
texto é ambíguo, na melhor das hipóteses, sutilezas acerca do significado da carta -
e outras evidências não são sólidas. sem falar de questões maiores concernentes
Uma questão mais complicada, porém à história da igreja primitiva - são de fato
relacionada, tem que ver com a fixação da afetadas pela perspectiva que se tem da re-
data em que a carta foi escrita. O ponto bá- lação da carta com o concílio de Jerusalém.
sico do debate é se Paulo escreveu Gálatas Este comentário pressupõe que Gálatas foi
antes ou depois do chamado Concílio escrita na metade da década de 50. Não
Apostólico em Jerusalém. Esse evento, obstante, visto que não é possível obter
registrado em Atos 15, é datado pela maio- certeza sobre a questão, não seria sábio in-
ria dos estudiosos em 49 d.C. (certamen- terpretar a carta de forma tal que dependes-
te não antes de 48). Paulo aparentemente se seriamente de quando ela é datada. Em
faz referência a esse concílio em Gálatas particular, precisamos fazer esforços para
2.1-10, mas muitos têm argumentado que não oferecer explanações cruciais que se
1815 GÁLATAS

A situação da Galácia
GÁLATAS 1816

tomariam inválidas caso adotássemos um Alguns estudiosos consideram Gálatas um


contexto histórico alternativo. Felizmente, discurso "apologético" (algo como uma
a ênfase principal do argumento de Paulo defesa jurídica), enquanto outros conside-
está suficientemente claro e não gira em ram a carta uma "deliberação" (que tem a
tomo da nossa capacidade de identificar o intenção de persuadir uma plateia a fazer
contexto com precisão. algo). Outra perspectiva, focalizando mais
na estrutura da carta do que nos discursos,
Propósito e estrutura considera Gálatas uma carta que consiste
Qual é, então, o argumento de Paulo? O em duas partes, uma seção de repreen-
apóstolo é muito franco quando afirma que sões (1.6-4.11) e uma seção de petições
foi motivado a escrever a carta porque os (4.12-6.10).
gálatas estavam no processo de desertar o Outras sugestões têm sido propostas
evangelho (1.6,7). Eles de fato tinham re- por especialistas nesse campo, e as per-
tomado a práticas ritualistas que lembra- cepções da pesquisa sociológica e antropo-
vam as suas antigas experiências pagãs lógica fazem ainda outras contribuições à
(4.9,10). nossa compreensão da forma em que Paulo
Visto que os indivíduos que estavam elabora a sua argumentação. Visto que
causando os problemas na Galácia pare- ainda não se atingiu um consenso acerca
cem ter minado a autoridade de Paulo, o dessas questões, este comentário usa um
apóstolo dedica a primeira seção principal esboço tradicional para indicar a estrutura
da sua carta à defesa da origem divina do da lógica do apóstolo. Independentemente
seu evangelho (cp. 1-2; v. especialmente do padrão literário que possa ter influen-
1.1,11,12; 2.6-9). Nos dois capítulos se- ciado a escrita de Paulo, é muito importan-
guintes, recorrendo ao próprio AT, ele de- te interpretar cada versículo ou trecho no
monstra que a promessa de Deus a Abraão contexto dessa lógica. (V. também artigo
é recebida, não pelas obras da lei, mas pela "Lendo as cartas").
fé (cf 3.6-14). Finalmente, ele considera,
nos cp. 5-6, que é necessário formular as
implicações práticas desse evangelho da li- Leitura adicional
berdade (v. especialmente 5.13-26). Esses STOTT, J. R. W. A mensagem de Gálatas.
três assuntos, no entanto, são subservientes BFH. ABD, 1989.
a um grande propósito do apóstolo: impe- HANSEN, G. W. Galatians. IVPNTC. Inter-
dir que os gálatas abandonem o evangelho Varsity Press, 1994.
da verdade e se tomem apóstatas. COLE, R. A. Galatians. TNTC. Inter-Varsity
A estrutura tríplice esboçada acima Press/DK/Eerdmans, 1989.
reflete uma forma comum e tradicional GUTHRIE, D. Gálatas: introdução e comen-
de ler Gálatas. Estudos recentes, sem ne- tário. SCB. Vida Nova, 1984.
cessariamente descartar essa perspectiva LONGENECKER, R. N. Galatians. WBC.
básica, têm tentado definir mais precisa- Word,1990.
mente a natureza literária da carta ao exa- BRUCE, F. F. Commentary on Galatians.
minar as técnicas retóricas da Antiguidade. NIGTC. Eerdmans, 1982.

ESBOÇO
1.1-10 Introdução
1.1-5 Abertura
1.6-10 Ocasião
1817 GÁLATAS 1

1.11-2.210 apostolado de Paulo


1.11,12 Proposição principal
1.13-24 Evidências concretas
2.1-21 Dois casos especiais

3.1-4.31 O evangelho de Paulo


3.1-5 Apelo inicial
3.&-4.7 Argumentos básicos
4.8-31 Mais apelos

5.1-6.10 Ordens de Paulo


5.1-12 Com respeito à circuncisão
5.13-26 Com respeito ao amor
6.1-10 Com respeito às cargas

6.11-18 Epílogo . . _

COMENTÁRIO é que os receptores são descritos em ter-


mos muito secos; em outras cartas, Paulo
1.1-10 Introdução se dirige aos seus leitores como "santos"
Em todas as suas cartas, o apóstolo começa ou usa uma expressão equivalente. O sig-
com uma seção introdutória, que normal- nificado dessa sutil omissão se tomará cla-
mente inclui uma saudação inicial e uma ro no v. 6.
oração de gratidão. Essas introduções, em O leitor deve observar também como
diversos graus de intensidade, contêm pis- é substanciosa essa abertura em compa-
tas das preocupações de Paulo. Esse certa- ração com as outras cartas. (Somente em
mente é o caso em Gálatas, assim devemos Romanos, em que Paulo tinha de explicar
prestar atenção especial em seus aspectos a sua mensagem a uma igreja que não o
distintivos. Ver também o artigo "Lendo conhecia, encontramos uma introdução
as cartas". mais longa). Especialmente significativo
é o teologicamente carregado v. 4. Aqui
1.1-5 Abertura Paulo destaca o sacrifício que Cristo fez
Uma leitura superficial desses versículos de si mesmo, um tema que prenuncia di-
iniciais poderia sugerir que temos aqui versas mensagens de grande impacto (e.g.,
somente mais um exemplo das saudações- 2.20,21). Ele também toca a tecla da liber-
padrão de Paulo, embora talvez com leves tação, que reflete a sua grande preocupa-
acréscimos ou variações. O formato básico ção com o contraste entre a escravidão e a
é por demais conhecido: começa denomi- liberdade. Essa libertação recebe uma forte
nando o autor no v. 1 (Paulo, apóstolo); coloração escatológica (i.e., associada ao
depois os receptores são identificados no fim dos tempos). Ao ressaltar [este] mundo
v. 2 (às igrejas da Galácia); finalmente, a perverso, Paulo lembra os seus leitores de
saudação característica de Paulo está no que a redenção trazida por Cristo dá início
v. 3 (graça [...] e paz ...). a uma era nova como o cumprimento das
Uma segunda olhada, no entanto, deixa promessas de Deus. Finalmente, o após-
claro que essa abertura é bem incomum e tolo afirma que a vontade de Deus está
que serve como uma pista importante para por trás desses eventos. Os gálatas preci-
a natureza distintiva de Gálatas. Uma razão sam reconhecer que essa mensagem não é
GÁLATAS 1 1818

invenção de Paulo: se eles a rejeitam dizer uma mera mudança intelectual. A


estão rejeitando o plano divino. Em todo o ação deles é intensamente pessoal: eles
caso, a grandeza da obra de Cristo conduz estão de fato abandonando aquele que pela
à doxologia (uma expressão de louvor) no sua graça os chamou a si mesmo. Essa
v. S, algo ausente na abertura de todas as ideia dupla de separação tanto da graça
outras cartas. quanto de uma pessoa ocorre explicita-
A característica distintiva mais impor- mente em S.4: "De Cristo vos desligastes,
tante na abertura, no entanto, está no v. 1, vós que procurais justificar-vos na lei; da
em que Paulo interrompe a sequência da graça decaístes". Em vista dessas palavras,
sua saudação para fazer uma negação en- certamente a nossa leitura de Gálatas pre-
fática: o seu apostolado não tem origem cisa ser mais do que um exercício histórico
humana, mas divina. Alguns indivíduos ou intelectual. Todos os leitores dessa carta
estavam claramente questionando a auto- são confrontados com questões que afetam
ridade de Paulo para falar como apóstolo o seu destino eterno.
de Cristo. A natureza precisa dessas acu- Um fator complicador observado por
sações é uma questão debatida entre os Paulo, no entanto, era que o erro em que
estudiosos, mas possivelmente ele estava os gálatas estavam caindo não era simples-
sendo acusado de pregar uma mensagem mente o resultado de uma fraqueza entre os
peculiar que estava contradizendo o en- crentes. Tinha uma origem externa. Certos
sino da igreja em Jerusalém. Paulo vai cristãos judeus, descontentes com a forma
tratar desse assunto mais diretamente a em que Paulo convidava crentes dentre
partir do v. 11. os gentios a virem livremente a Deus, ti-
nham começado a visitar as igrejas que ele
1.6-10 Ocasião tinha estabelecido. O propósito deles era
Qualquer pessoa familiarizada com as car- "judaizar" esses crentes gentios; persua-
tas de Paulo às igrejas esperaria encontrar di-los de que, depois de crerem em Cristo,
uma declaração de gratidão imediatamente eles precisavam dar um passo a mais e
após a saudação (no caso de 2Coríntios e se tomar judeus por meio da circuncisão
Efésios: "Bendito o Deus ..."). Não somen- (v. Introdução).
te estão faltando essas ações de graças, O apóstolo não considerava esses ju-
mas Paulo na verdade as substitui por uma daizantes simplesmente cristãos mal-orien-
repreensão: Admira-me que estejais pas- tados e enganados, mas perigosos falsos
sando tão depressa daquele... (6). Essa ca- mestres. A mensagem deles não era de for-
racterística é uma indicação muito impor- ma alguma o evangelho, mas o seu oposto.
tante na avaliação da natureza de Gálatas. A sua missão, aliás, era tão destrutiva que
A abertura já tinha nos alertado para algo Paulo se viu obrigado a usar as palavras
incomum nessa carta, mas agora percebe- mais severas de todas as suas cartas: co-
mos como era séria e urgente a situação locou um anátema sobre qualquer pessoa
que Paulo precisava tratar. que pregasse um evangelho diferente do
Ao descrever o desvio dos gálatas, o que aqueles que os gálatas tinham ouvi-
apóstolo usa uma linguagem de deserção do e recebido dele. A palavra anátema
militar (6) e disputa política: há alguns que (usada também em lCo 12.3; 16.22; e es-
vos perturbam (7; o mesmo verbo é usado pecialmente em Rm 9.3, que faz lembrar
em S.IO; At IS.24; 17.8 ["ficaram agita- Êx 32.32) é uma referência à própria mal-
das"],13). O seu foco é bem específico: os dição de Deus, e assim a NIV (em inglês)
gálatas estão no processo de abandonar o traduz adequadamente por: "seja ele eter-
ensino da graça que é essencial ao evan- namente condenado" (8,9); a NVI traz: "que
gelho. Com isso, no entanto, ele não quer seja amaldiçoado!".
1819 GÁLATAS 1

Essa linguagem tão forte certamente de que ele "recebeu" as verdades básicas
chocou os seus leitores, e assim, no v. 10, do evangelho (v. 3), ao passo que aqui em
ele justifica a sua reação ao chamar atenção Gálatas ele destaca o oposto, o que mos-
aos seus motivos. Evidentemente, os judai- tra que o seu foco é um tanto diferente. A
zantes o haviam acusado de pregar a cir- expressão o evangelho por mim anunciado
cuncisão quando lhe convinha, como que (lI) pode ser significativa; em virtude do
para obter a aprovação humana (cf 5.11). seu ministério singular entre os gentios,
Paulo nega veementemente que ele tenha a sua pregação teve certa característica
qualquer outro motivo a não ser agradar a distintiva (observe "meu evangelho" em
Deus; se não fosse assim, já não poderia Rm 2.16) que atraía uma oposição particu-
ser considerado servo de Cristo. Em todo o larmente forte por parte dos judaizantes.
caso, o simples fato de que tinha colocado O que segue é uma negação tríplice,
uma maldição sobre os judaizantes deveria confirmando - se é que havia alguma dú-
convencer os gálatas de que as suas ações vida a respeito - de que Paulo está res-
dificilmente eram motivadas pelo desejo pondendo a algum tipo de acusação acerca
de não ofender pessoas. Lightfoot parafra- da natureza da sua mensagem. A primeira
seia o v. 10 desta forma: "Vocês me acu- dessas negativas é formulada literalmen-
sam de uma política de conciliação. Sim, te: "não é de acordo com o homem". É
eu concilio a Deus" (1. B. Lightfoot, Saint uma negação geral, claramente explicada
Paul s Epistle to the Galatians, 10.ed. pelas duas negações seguintes: visto que
[Macmillan, 1898], p. 79). nenhum homem lhe deu nem lhe ensinou
(nem o aprendi) esse evangelho, este cla-
1.11-2.21 O apostolado ramente não tem origem humana. O ponto
de Paulo é esclarecido ainda mais pela locução con-
Tem sido dito que nessa carta Paulo se vê trastante: "mas por uma revelação de Jesus
obrigado a defender-se a si mesmo antes Cristo" (lit.), que pode significar ou que
de defender o seu evangelho. Há uma me- Cristo foi a origem da revelação (de Jesus
dida de verdade nessa análise. Os ataques Cristo, como a ARA aqui) ou, mais prova-
à sua mensagem de liberdade para os gen- velmente, que o próprio Cristo foi revelado
tios estavam inextricavelmente vinculados a ele (como no v. 16).
às questões que tinham sido levantadas
acerca da sua autoridade apostólica. Por 1.13-24 Evidências concretas
que é que os gálatas deveriam dar ouvidos Paulo agora avança para provar a sua ale-
a ele? Por outro lado, seria um engano con- gação. A prova parece consistir em duas
siderar os cp. 1-2 uma defesa meramente partes principais. Em primeiro lugar, ele
pessoal. As observações autobiográficas precisa apresentar evidências para a alega-
estão sempre subordinadas ao seu propó- ção propriamente dita (1.13-24): ele preci-
sito primário de estabelecer "a verdade do sa mostrar que nos anos formativos do seu
evangelho" (2.5,14). ministério ele não recebeu treinamento dos
apóstolos. Em segundo lugar, ele precisa
1. 11,12 Proposição principal tratar de dois eventos subsequentes que
Aqui, como em 1Coríntios 15.1 e2Coríntios provavelmente tinham sido usados pelos
8.1, Paulo começa uma seção nova e im- judaizantes como evidências contra ele
portante com o uso do verbo "fazer conhe- (2.1-21).
cido" (gnõrizõi, que confere um tom um 1.13,14 Antes da sua conversão. Aqui
tanto formal, quase solene, a essa afirma- o apóstolo ressalta que sua experiência pré-
ção. É interessante que o trecho paralelo cristã foi marcada por duas características
em 1Coríntios 15 introduza o comentário que são incompatíveis com seu ministério
GÁLATAS 1 1820

presente. Em primeiro lugar, ele estava luz raiou nas terras dos gentios, dos quais
completamente comprometido com a per- os gálatas fazem parte.
seguição dos cristãos e com o extermínio Especialmente significativo, no entan-
da igreja (um aspecto que nos é relatado to, é o acúmulo surpreendente de termos
em detalhes em At 9). Em segundo lugar, nos v. 15,16 que chamam a nossa atenção
ele estava totalmente devotado ao farisaís- para a iniciativa soberana e benevolente de
mo. A expressão tradições dos meus pais Deus: aprouve (primeiro verbo no gr.); me
provavelmente se refere não somente aos separou antes de eu nascer; me chamou;
ensinos gerais do judaísmo, mas mais es- graça; revelar. Essa forte ênfase na vonta-
pecificamente ao que é também conhecido de predestinadora de Deus tem a intenção
como a lei oral, um extenso conjunto de re- de não deixar dúvida alguma acerca da ori-
gulamentações que distinguiam os fariseus gem divina do evangelho que Paulo estava
dos outros grupos judaicos (cf também pregando. Em particular, não são os seus
Mc 7.1-13; Fp 3.4-6). esforços pessoais, mas somente a agência
Por que Paulo menciona essas coisas? de Deus que é responsável pelo seu oficio
Uma resposta comum é que elas provam apostólico.
que Paulo não obteve o seu evangelho 1.16b-24 Depois da sua conversão.
dos mestres judeus. Mas quem teria afir- O ponto dessa paráfrase está claro. Paulo
mado que foi isso que havia acontecido? quer estabelecer que nos primeiros anos do
Certamente não os judaizantes! De certa seu ministério, durante os quais as marcas
forma, essa informação apoia a reivindica- distintivas da sua pregação estavam sendo
ção de Paulo de falar com alguma autori- formadas, ele não esteve sob influência
dade sobre a natureza do judaísmo. Parece prolongada dos outros apóstolos. Ele nos
provável, no entanto, que esses versículos conta que sem detença (imediatamente)
estejam menos direcionados a ser uma pro- após a sua conversão, em vez de consultar
va independente e mais a ser um preparo carne e sangue (uma expressão que cha-
para o que ele vai dizer em seguida. Em ma a atenção para a fragilidade dos seres
outras palavras, sua vida antes mostra a ne- humanos), ele passou três anos na Arábia.
cessidade que ele tinha de uma conversão A região em questão, que era governada
drástica. Somente uma intervenção divina pelos nabateus, pode ter incluído a cidade
e graciosa pode explicar a mudança que de Damasco na época (cf At 9.19-22). Em
lhe sobreveio. todo o caso, o ponto de Paulo é que ele não
1.15,16a A revelação. Nessa descri- passou por um período de instrução sob os
ção vigorosa e convincente de como Deus apóstolos de Jerusalém. Quando finalmen-
agiu na sua vida, Paulo alude às palavras te retornou a Jerusalém, o seu contato com
do próprio Deus a Jeremias: "Antes que Pedro foi muito limitado, e a única outra
eu te formasse no ventre materno, eu te figura importante que ele encontrou foi
conheci, e, antes que saísses da madre, Tiago, o irmão do Senhor. A limitação da
te consagrei, e te constituí profeta às na- sua exposição à igreja primitiva na Judeia
ções" (Jr 1.5; cf. também ls 49.1-6). Há é confirmada pelo fato de que pouquíssi-
pouca dúvida de que Paulo pensava no seu mas pessoas o conheciam pessoalmente
próprio ministério não meramente como - embora estivessem bem informadas da
comparável ao de Jeremias, mas, mais do sua conversão, um motivo para glorificar
que isso, como integralmente relaciona- a Deus.
do à obra dos profetas do AT, e, de certa É importante observar a seriedade do
forma, como a sua culminação. Agora argumento de Paulo. No v. 20, ele chega
finalmente a mensagem da salvação está ao extremo de fazer um juramento (diante
rompendo todas as barreiras nacionais. A de Deus) para dizer que o seu testemunho
1821 GÁLATAS 2

é verdadeiro. Isso é uma indicação clara que ele sinta obrigação de registrar todos
de que Paulo estava respondendo a algu- os contatos que teve com os apóstolos de
mas acusações específicas. Sem dúvida, os Jerusalém (esse aspecto do seu argumento
judaizantes estavam espalhando histórias foi concluído no final do cp. 1), mas antes
segundo as quais ele tinha sentado sob a porque os seus oponentes tinham levanta-
instrução completa e elaborada dos após- do esse aspecto e fizeram mau uso dele.
tolos de Jerusalém como um discípulo nor- Em outras palavras, Paulo precisa esclare-
malmente faria sob a direção de um rabino. cer e corrigir as coisas.
É importante observar, também, que com O primeiro ponto a ser observado é a
o v. 24 Paulo concluíu o seu argumento. ênfase de Paulo na razão e no propósito da
Durante os primeiros 14 (possivelmen- sua visita (2). A razão foi uma revelação:
te 17) anos do seu ministério, quando foi não foi obediência a uma ordem humana,
estabelecida a natureza da sua mensagem, mas sujeição a uma instrução divina. O
ele não teve a oportunidade de ser treinado propósito foi informar os líderes acerca do
por fonte humana. seu ministério e assim certificar-se de que
os seus esforços apostólicos não eram em
2.1-21 Dois casos especiais vão. Essa é uma observação extraordinária
Tendo estabelecido que os seus primeiros (cf também Fp 2.16 e lTs 3.5, possivel-
contatos com os discípulos não podiam ex- mente uma alusão aIs 49.4), e nos revela
plicar e justificar o seu apostolado, Paulo um pouco das tensões que certamente es-
agora trata de duas questões específicas tiveram presentes no concílio. Ao menos
que podem ter sido levantadas pelos seus do ponto de vista da experiência humana,
oponentes. Paulo parece ter pensado que seria possível
2.1-10 Concílio em Jerusalém. Visto que a igreja em Jerusalém pudesse tomar a
que esse trecho é de grande importância decisão errada e destruir o ministério aos
para a reconstrução da história da igreja gentios. A confiança do apóstolo na von-
cristã, os estudiosos do NT têm dado mui- tade de Deus nunca se tomou presunçosa.
ta atenção a ele. Argumentos detalhados Ele entendeu a realidade do pecado e do
e técnicos têm sido desenvolvidos, volta- mal como também o peso da sua própria
dos especialmente à determinação de se responsabilidade. Embora estivesse certo
a ocasião a que Paulo se refere é a visita de que Deus cumpriria as suas promessas
registrada em Atos 11.29,30 ou o conhe- e aperfeiçoaria a obra dele (Rm 8.28; Fp
cido Concílio Apostólico em Atos 15 (v. 1.6), esse fato não se tomou uma descul-
Introdução). pa para passivamente "deixar Deus" tomar
Em meio a esse debate, é fácil perder conta do problema. Paulo estava disposto a
de vista a pergunta principal: qual é o pon- empregar todos os seus esforços para con-
to da narrativa? Há boas razões para se crer cluir a corrida (cf pf3.12-14), mesmo que
que Paulo está respondendo a uma acusa- sempre dependendo da operação de Deus
ção dos judaizantes que pode ter sido mais (Fp 2.12,13).
ou menos esta: "Em algum ponto do seu Em segundo lugar, observe que o
ministério, Paulo foi requisitado a parti- apóstolo é sincero acerca do conflito que
cipar de um encontro em Jerusalém, a se caracterizou o encontro (3-5). Havia lá na
submeter aos Três (Tiago, Pedro e João) igreja um "partido da circuncisão" ~ pes-
e a concordar em obedecer às instruções soas que Paulo considerava falsos irmãos,
deles, como fica provado pela sua dispo- cuja motivação real era minar a liberdade
sição em coletar fundos para os cristãos espiritual que o evangelho proporciona.
na Judeia". Se esse é o caso, Paulo talvez Evidentemente querendo fazer do gentio
esteja tratando desse incidente, não por- Tito um caso-teste, eles devem ter insistido
GÁLATAS 2 1822

em que ele fosse circuncidado. Paulo não alguma à legitimidade do seu ministério).
nos conta explicitamente o que foi a reação Os judaizantes, no entanto, que de fato ape-
inicial de Tiago, Pedro e João, mas há boas laram a tal autoridade acabam sendo os que
razões para crer que esses líderes, preo- violaram o acordo de Jerusalém por exigi-
cupados com a unidade da igreja, tenham rem que os gentios fossem circuncidados!
considerado fazer concessões ao partido 2.11-21 Conflito em Antioquia. Assim
da circuncisão. Por causa do seu chamado como os judaizantes podem ter apelado
especial, no entanto, Paulo compreendia (equivocadamente) ao concílio de Jeru-
de forma profunda as implicações do que sa1ém por apoio às suas acusações, assim
estava sendo discutido. As emoções devem também é possível que tenham tentado
ter sido muito fortes, como sugere a sinta- destruir a reputação de Paulo ao exagerar
xe grega cortada e irregular desses versícu- a disputa que surgiu na cidade gentílica de
los. O apóstolo, em todo o caso, se negou Antioquia. Afinal, se Paulo tinha a ousadia
a ceder aos falsos irmãos, nem ainda por de repreender publicamente o grande após-
uma hora [...] para que a verdade do evan- tolo Pedro, não era exatamente esse pro-
gelho permanecesse entre os gentios. Em cedimento que provava que Paulo estava
resumo, os líderes não obrigaram Tito a se fora de sintonia com a igreja de Jerusalém?
submeter à circuncisão. Essa não era a evidência mais clara de que
Em terceiro lugar, Paulo dedica meta- ele era um desertor desrespeitoso em quem
de da sua narrativa relativa ao concílio de não se podia confiar?
Jerusalém à explanação do resultado do Em resposta, Paulo dá primeiramente
concílio, expresso tanto negativa (6,10) um breve resumo do incidente (11-14).
quanto positivamente (7-9). Em contraste Ele não nega que confrontou a Pedro,
com as afirmações dos judaizantes, o fato mas também mostra por que aquilo foi a
foi que os Três não impuseram mudanças única coisa certa a se fazer. O acordo de
ao seu ministério e mensagem. É verdade, Jerusalém de fato havia reconhecido uma
esses líderes pediram a Paulo que mos- distinção entre o ministério aos judeus, que
trasse compaixão pelos pobres na Judeia, podiam continuar praticando o judaísmo
mas esse pedido dificilmente era contrá- mesmo depois de se tomarem cristãos, e
rio ao seu ministério distinto, por isso ele o ministério aos gentios, que não deviam
teve grande alegria em se submeter a isso. ser forçados a se tomar judeus. Mas esse
(Pode bem haver uma conexão entre esse acordo não especificava o que deveria ser
pedido e a coleta que Paulo discute em feito em caso de conflito desses dois prin-
Rm 15.25-27 e 2Co 8-9). É digno de cípios. (Observe que os chamados decre-
nota, por falar nisso, de que Paulo não viu tos mencionados em At 15.23-29 também
conflito entre o seu ministério de pregação deixaram essa questão ambígua. Se esse é
e os seus esforços de suprir as necessida- o mesmo encontro ao qual Paulo se refere
des físicas dos pobres. em Gálatas, o problema em Antioquia po-
Importância maior para esse ponto, no dia ser facilmente compreendido com base
entanto, teve o resultado positivo. Tiago, nas orientações sugeridas aqui).
Pedro e João lhe mostraram mútuo respei- A comunhão à mesa suscitou preci-
to e igualdade. Especificamente, reconhe- samente esse conflito. Se o cristão judeu
ceram (conheceram) que Deus tinha dado sentasse para comer com os gentios, es-
a Paulo um dom apostólico especial para taria em perigo de violar as leis cerimo-
trabalhar entre os gentios. Havia um toque niais concernentes aos alimentos. Por ou-
de ironia nesse fato. O próprio Paulo não tro lado, se ele se negasse a comer com
apelaria aos Três como se dependesse da eles, esse comportamento teria minado o
autoridade deles (que não fazia diferença princípio de que os gentios deveriam ser
1823 GÁLATAS 2

completamente aceitos como cristãos sem (1. Gresham Machen, The Origin ofPaul 's
se tomarem judeus. Ao não tratar desse Religion [Macmillan, 1921], p. 102).
problema, os apóstolos aparentemente ti- Coerentemente, Paulo tomou as medidas
nham deixado a questão para a consciên- extremas exigidas pela situação. Não era
cia do indivíduo. Claramente, os cristãos que Pedro e Paulo estavam tendo uma
judeus em Antioquia escolheram como um discordância doutrinária, como talvez os
todo comungar com os gentios, assim am- judaizantes sugerissem (e como muitos
pliando o significado do que os apóstolos eruditos modernos afirmam); o que esta-
de Jerusalém tinham feito. Pedro, quando va ocorrendo era que a conduta de Pedro
visitou a cidade, achou adequado se en- era discordante dos seus princípios, como
quadrar em tal situação, mas a chegada de Paulo passa a mostrar nos v. 15-21.
alguns indivíduos da parte de Tiago (12) Em primeiro lugar, Paulo ressalta que
lhe apresentou um sério problema. ele e Pedro, junto com todos os outros cris-
Não está claro de forma alguma como tãos judeus, ao depositar sua fé em Cristo,
era o relacionamento desses homens com tinham reconhecido que a lei judaica era
Tiago: foram eles de fato enviados por incapaz de tomá-los justos diante de Deus
Tiago, ou só alegaram que foram? Em todo (15,16). Se isso é verdadeiro, segue que os
o caso, eram cristãos judeus que não tinham judeus não são nada menos pecadores do
de conviver com a presença dos gentios que os gentios, e que não contêm nada em
dia após dia e assim não compreenderam si mesmos que os tome recomendáveis a
a situação em Antioquia. Naturalmente Deus. Visto que Pedro reconhecia comple-
teriam interpretado o comportamento de tamente esse fato, ele já não se opunha ao
Pedro como negação da identidade judai- afrouxamento das leis cerimoniais e assim,
ca e talvez até como um tipo de apostasia. poderíamos dizer, ele agiu como um "pe-
Temendo o juízo deles e suas possíveis cador gentio" com relação às regras ali-
consequências, Pedro começou a manter mentares e da comunhão à mesa (17a).
distância dos gentios. Naturalmente, os Em segundo lugar, Paulo nega que esse
outros cristãos judeus o imitaram. Se evi- abandono das observâncias judaicas faça
tar os gentios tivesse sido uma caracterís- do evangelho de Cristo um instrumento do
tica do comportamento de Pedro desde o pecado. Muito pelo contrário, seria uma
início como uma questão de consciência, é transgressão séria se Paulo, tendo coloca-
concebível que Paulo não lhe tivesse feito do de lado aquelas observâncias pelo evan-
objeção. Pedro, no entanto, anteriormente gelho, seguisse a condução de Pedro e as
já tinha mostrado que não tinha escrúpu- restabelecesse (17b, 18).
lo algum em comer com os gentios. Seu Em terceiro lugar, em uma de suas de-
retraimento subsequente sugeriu que os clarações mais profundas da carta, Paulo
gentios não podiam ser completamente afirma que é a própria lei, paradoxalmen-
aceitos como parte do povo de Deus. Em te, que o conduziu a esse curso de ação:
certo sentido, ele os estava forçando a se Porque eu, mediante a própria lei, morri
tomarem judeus (14). para a lei, a fim de viver para Deus (19).
"Tinha surgido uma séria crise. Mas Estou obedecendo à lei, insiste Paulo,
Deus não tinha abandonado a sua Igreja. quando me separo dela! É a própria lei que
A Igreja foi salva pela instrumentalidade me orienta a derrubá-la. Como a lei faz
de Paulo [...] A Paulo tinham sido reve- isso? Talvez o apóstolo tenha em mente o
ladas as totais implicações do evangelho; fato de que Cristo veio debaixo da maldi-
para ele, a liberdade dos gentios era uma ção da lei na cruz e que os cristãos morre-
questão de princípio, e quando um princí- ram com ele (cf: v. 20; 3.13; Rm 6.1-4). É
pio estava em jogo, ele nunca se calava" mais provável que ele esteja prenunciando
GÁLATAS 3 1824

o argumento de 3.19-25. Por meio da sua Paulo aqui seja bem diferente da forma que
restrição e condenação, a lei nos leva à fé ele usa o AT em 3.6-14.
em Cristo, que, por sua vez, nos liberta da
maldição e do poder da lei. 3. 1-5 Apelo inicial
Em quarto lugar, o apóstolo deixa cla- A natureza fortemente pessoal do apelo
ro e cristalino o que o motivou a falar de nesses versículos é evidente com base nas
forma tão dura (20,21). É o valor da morte palavras: Quero apenas saber isto de vós
de Cristo, e, portanto, o princípio da gra- (2). A reflexão de Paulo acerca da morte de
ça, que estão em jogo. Se vivemos para Cristo, e particularmente acerca do fato de
Deus, é somente porque fomos unidos com que a conduta dos gálatas é uma negação
Cristo crucificado (v. também 6.14). Ele se do valor dessa morte (2.21), faz com que
deu por nós, e ele toma possível essa vida ele rebente em uma bateria de perguntas
de fé. Se os judaizantes estivessem certos formuladas em tom emocional altamen-
- se pudéssemos obter a justiça pela lei te tenso (1,2,3a,3b,4a,5). Duas vezes ele
- não haveria a necessidade da graça, e chama os gálatas de insensatos; o apóstolo
o autossacrifício de Cristo teria sido um sugere que eles foram hipnotizados e estão
desperdício. abandonando o Espírito. Em resumo, a ex-
periência está em perigo de ter sido inútil
3.1--4.31 O evangelho de Paulo apesar do fato de que pela proclamação
É debatido se o último parágrafo do capí- do evangelho eles viram Jesus crucificado
tulo anterior (2.15-21) é um resumo das diante dos seus próprios olhos. (O verbo
palavras de Paulo a Pedro ou se o apóstolo traduzido por sofrestes no v. 4 pode ter o
já mudou o seu foco e começou a falar aos significado mais geral de "experimentas-
gálatas diretamente. Parece bem provável tes" e assim ser uma referência às intensas
que a seção reflita, ao menos em certa me- manifestações do Espírito).
dida, a fala de Paulo em Antioquia. Mas É especialmente interessante observar
mesmo que seja uma citação quase literal, os contrastes com que Paulo trabalha nesse
Paulo certamente tem em mente a necessi- trecho. Nos v. 2,5, ele faz a distinção en-
dade dos gálatas, e assim o parágrafo fun- tre as obras da lei e a pregação da fé (Iit.
ciona como ponte para a seção central da "o ouvir da fé"). A última expressão pode
sua carta. Nos cp. 3 e 4, o apóstolo precisa ser traduzida de diversas formas, como: "o
persuadi-los de que é a justiça pela fé, não ouvir que vem da fé", "o ouvir que é acom-
a observância da lei, que determina se eles panhado pela fé" ou, preferencialmente: "a
são verdadeiramente filhos de Abraão. mensagem que produz [ou suscita] a fé"
A argumentação doutrinária consiste (v. expressão semelhante em Rm 10.17).
principalmente na longa seção que começa Embora essas formulações tenham ênfases
em 3.6 (ou 3.7) e termina em 4.7. Tanto um tanto diferentes, todas transmitem a
o parágrafo introdutório (3.1-5 ou 3.1-6) mesma ideia central: há um forte contraste
quanto a seção subsequente (4.8-20) pa- entre a vida de observância judaica e o ato
recem apelos à própria experiência dos de crer na mensagem do evangelho.
gálatas, embora devamos evitar uma dis- O mesmo contraste básico é expres-
tinção acentuada demais entre os aspectos so por Paulo de forma diferente no v. 3:
intelectual e experiencial (e.g., 3.1-6 não tendo começado no Espírito versus "ter-
está isento de conteúdo doutrinário, en- minando na carne" (Iit.). A NVI traduz as-
quanto 3.26-29 focaliza no que os gálatas sim a segunda expressão: "querem agora
experimentaram em Cristo). Um parágra- se aperfeiçoar pelo esforço próprio". Essa
fo de conclusão (4.21-31) apela ao ensino formulação capta de forma precisa a ideia,
das Escrituras embora a argumentação de mas obscurece o contraste entre as pala-
1825 GÁLATAS 3

vras "carne" e "Espírito", que é um tema como ele creu (cf Rm 4.11,12). Além
recorrente na carta (v. notas de 4.23,29; disso, Paulo cita mais uma afirmação de
5.13,16-26; 6.8,12). O ponto que se deve Gênesis que focaliza no significado da
observar aqui é que Paulo está começando vida de Abraão para os gentios: Em ti, se-
a agrupar uma diversidade de termos que rão abençoados todos os povos (Gn 18.18;
constituem dois sistemas distintos e con- 22.18; cf Gn 12.3; 26.4; 28.14). É como
traditórios. A um pertencem as obras da se o evangelho da liberdade pregado por
lei, a carne, a escravidão, o pecado, a mor- Paulo já estivesse sendo pregado muito
te; ao outro, a fé, o Espírito, a herança e a tempo antes da vinda de Cristo.
promessa, a liberdade e a filiação, a justiça Tendo identificado a natureza do rela-
e a vida. O primeiro grupo caracteriza este cionamento de Deus com Abraão (6-9), o
mundo perverso (l.4); o segundo reflete a apóstolo prossegue agora para desenvolver
vinda de uma nova época, a Jerusalém lá uma proposição negativa nos v. 10-14: a
de cima (4.26). justiça precisa vir pela fé e não pela lei, por-
Ao dar ouvidos ao falso evangelho dos que a lei não pode justificar. O argumento
judaizantes, os gálatas estavam negando a central está nos v. 11,12, e é fundamentado
sua própria experiência verificável de te- em duas citações, uma de Habacuque e ou-
rem recebido o Espírito com todo o seu po- tra de Levítico. A referência a Habacuque
der e maravilhas. Eles precisam entender 2.4 geralmente é formulada (como na NVI):
que esse movimento é um passo para trás. o justo viverá pela fé. (A formulação grega
Em vez de viverem como filhos da época de Paulo, mas não o texto correspondente
por vir, eles regrediram para as coisas ele- no AT hebraico, também pode ser traduzido
mentares deste mundo (cf 4.8-10). por: "o justo pela fé viverá"). Esse trecho é
fundamental para o ensino de Paulo. Aliás,
3.6-4.7 Argumentos básicos essa citação serve exatamente como o tema
O apóstolo agora prossegue para lhes dar a partir do qual é desenvolvida a carta aos
um conjunto cuidadosamente elaborado romanos (Rm 1.16,17).
de argumentos que estão centrados no re- Visto que o texto hebraico é mais na-
lacionamento entre a promessa abraâmica turalmente traduzido por: "O justo viverá
e a promulgação da lei. O v. 6 pode ser pela sua fidelidade", alguns têm argumen-
considerado o final do parágrafo introdu- tado que Paulo esteja usando equivoca-
tório ou o começo de um parágrafo novo. damente o AT, que parece estar frisando
De todo modo, serve como comentário- a obediência à lei de Deus. No entanto,
ponte para realçar a questão real que os Habacuque 2.4 é em si mesmo uma alu-
gálatas enfrentam, isto é, como se tomar são muito clara a Gênesis 15.6 (ambos os
filhos de Abraão. Visto que Paulo de- trechos usam as raízes-chave do hebrai-
monstra que a resposta não pode ser pela co para os termos justiça e fé/fidelidade).
observância da lei (3.4-14), surge outra O profeta pode ter tido em mente toda a
pergunta inevitável: Qual é, então, a fun- vida "cheia de fé" que Abraão levou, in-
ção da lei (3.15-25)? clusive a disposição do patriarca para sa-
3.6-14 A promessa abraâmica. A cita- crificar Isaque, mas certamente essa vida
ção de Gênesis 15.6 se toma um fator-cha- precisa ser vista como uma expressão do
ve para Paulo, e ele vai usar esse texto de ato inicial de fé. Embora no cp. 3 Paulo
novo em Romanos 4, em que ele amplia o não desenvolva as implicações éticas da
significado de Abraão. O ponto é simples: fé, está claro com base em 5.13-6.10 (e
Se Deus creditou justiça a Abraão porque em Rm 6-8) que ele considerava a vida
ele creu, então certamente os verdadeiros obediente (fidelidade) algo inseparável da
filhos de Abraão são aqueles que creem fé que justifica. O apóstolo não está usando
GÁLATAS 3 1826

Habacuque 2.4 para propósitos que contra- frute da promessa abraâmica por meio do
digam o texto originário. Até poderíamos Espírito (14).
argumentar que sua teologia de fé e justiça 3.15-25 O lugar da lei. Tendo se ex-
resultou da dependência de Habacuque do pressado bastante negativamente acerca da
padrão abraâmico, lei, Paulo pode ter sentido a necessidade
É problemática também a forma em de ampliar o tópico de como essa lei se en-
que Paulo parece colocar Habacuque 2.4 caixa nos propósitos de Deus. Exatamente
em oposição a Levítico 18.5: Aquele que qual é a relação entre ela e a promessa a
observar os seus preceitos por eles vive- Abraão? A sua resposta focaliza no fato
rá, com a inferência de que a lei não pro- de que a lei é tanto posterior à entrega da
cede da fé (lit. "a lei não é da fé"). Sem promessa (15-18) quanto anterior ao cum-
dúvida, o apóstolo reconhece o contraste primento da promessa (19-25).
básico entre a administração mosaica e o Em primeiro lugar, então, o apóstolo
ministério do evangelho (cf 2Co 3.6-18). ressalta que a aliança da lei foi dada por
Mas isso significa que ele enxerga a lei Deus mais de quatro séculos depois de
em si mesma como oposta ao princípio da ter sido estabelecida a aliança abraâmica,
fé? Certamente que não, como o próprio (A palavra traduzida por aliança geralmen-
contexto do cp. 3, particularmente o v. 21, te significa "testamento", mas foi usada
deixa claro. O foco de todo esse trecho é a pela LXX para dar o termo hebraico padrão
função da lei para a obtenção da herança para "aliança". É difícil saber se Paulo ti-
abraâmica, justiça e vida (v. especialmente nha em mente aqui um sentido duplo). O
v. 18). A lei de fato contradiria o princípio seu ponto está claro: Não é concebível que
da fé se o propósito da lei fosse justificar. a aliança posterior pudesse cancelar (ab-
Em outras palavras, eram os próprios ju- rogar) a aliança anterior. Mas isso é exata-
daizantes (muito provavelmente recorren- mente o que a lei faria se pudesse oferecer
do a Lv 18.5 para defender a sua posição) uma herança com outra base que não fosse
que colocaram lei e promessa em oposição a promessa da graça. O ensino dos judai-
ao dizer aos gentios que para receber a pro- zantes de fato cria um conflito insuportável
messa abraâmica eles precisavam se sub- entre as duas alianças (17). A herança ou
meter às observâncias da lei. vem pela graça ou vem pelas obras da lei;
Em todo o caso, Paulo usa o contraste visto que vem por aquela, não pode vir por
entre esses dois textos (Hc 2.4 e Lv 18.5) estas (18; cf Rm 4.5). Durante o seu argu-
como prova de que a lei não pode prover mento, Paulo lembra os gálatas de algo que
a justiça. O argumento é refinado ainda eles (e provavelmente até os judaizantes)
mais, no entanto, por duas outras citações, aceitavam, isto é, que a promessa à semen-
uma no v. 10, a outra no v. 13. A primeira te de Abraão tem o seu cumprimento em
vem de Deuteronômio 27 .26, que coloca Cristo (16). Esse ponto se tomará impor-
uma maldição sobre todo aquele que não tante no argumento seguinte.
realiza completamente as obras da lei (em Em segundo lugar, Paulo ressalta que a
outras palavras, a lei amaldiçoa, e não jus- lei veio antes do cumprimento da promes-
tifica). A segunda vem de Deuteronômio sa (19-25), e, em certo sentido, preparou o
21.23, que Paulo toma como prenunciação caminho para isso. O ponto principal aqui
da obra de Cristo que carrega sobre si a é a natureza temporária da lei mosaica. Foi
maldição. Não precisamos nos desesperar dada por um período, até a vinda do descen-
por causa da incapacidade da lei de justifi- dente, Cristo (19). Uma vez que a realidade
car e do seu poder de amaldiçoar. Cristo, da fé veio em Cristo, a função supervisora
pela sua morte, nos libertou (resgatou) da- da lei cessou (25). Em vez de contradizer
quela maldição e assim nos levou ao des- a promessa, a lei serviu aos propósitos de
1827 GÁLATAS 3

Deus de "encarcerar" (encerrou) seus sú- (um conceito que ele vai ampliar em 4.1-
ditos pecaminosos, ao protegê-los e res- 7). Outros temas proeminentes no capítulo
tringi-los, em grande parte como no mun- são entretecidos nesse trecho: a promessa
do romano o paidagõgos (um escravo res- (14), a herança (18) e a fé em Jesus Cristo
ponsabilizado pela supervisão dos filhos) (22). Como observou há muito tempo um
corrigia os que estavam sob sua condução. comentarista com referência ao v. 29: "A
(O termo paidagõgos ocorre nos v. 24,25, declaração do v. 7 é agora fundamentada
e é traduzido por "tutor" na NVI). Em outras detalhadamente e ampliada pelos 22 ver-
palavras, a administração mosaica estava sículos da argumentação mais variegada e
subordinada à aliança abraâmica e de fato mais abrangente que existe na esfera dos
preparou seus adeptos para a manifestação escritos do grande apóstolo" (C. 1. Ellicott,
do evangelho. Essa ideia é desenvolvida A Criticai and Grammatical Commentary
ainda mais em 4.1-7. on St. Pauis Epistle to the Galatians [J. W.
A natureza subalterna da função da lei Parker and Son, 1854, p. 72]).
é expressa em diversas formas no v. 19. Além disso, mais dois pontos impor-
Primeira, ela foi adicionada, i.e., ela não tantes são trazidos a lume pela primei-
foi a aliança originária. Segunda, ela foi ra vez. Primeiro, a unidade em Cristo.
dada por causa das transgressões, o que Evidentemente a ideia de que o evange-
pode significar que a lei tinha a intenção lho desfez a divisão entre judeus e gentios
de restringir o pecado ou, mais provavel- (cf Ef2.ll-l8) está por trás de tudo que
mente, de trazer à luz as transgressões Paulo está dizendo nessa carta. No v. 8,
(Rm 3.19,20; 4.13-15; 5.13) e até mesmo no entanto, o apóstolo dá expressão a essa
de aumentá-las (no sentido de Rm 5.20; verdade de forma intensa, ressaltando que
7.7-11). Terceira, foi promulgada por outras divisões (escravo/livre, homem/
meio de anjos, o que sugere inferioridade mulher) também não têm importância para
à aliança abraâmica (o sentido exato do v. a nossa posição diante de Deus. Mesmo
20 é incerto, mesmo depois de muita dis- que esse versículo tenha sido usado e abu-
cussão acadêmica e de muitas interpreta- sado na tentativa de se desenvolver uma
ções). Concluindo, a lei não pode conceder ética cristã, não podemos nos dar ao luxo
vida, não pode justificar. Longe de anular de ignorar seu grande significado para o
a natureza benevolente da promessa, a lei tópico em discussão. E especialmente nos
promove os propósitos de Deus e nos ensi- nossos dias, quando nos tomamos muito
na a morrer para aquela lei (2.19) para que conscientes do poder destrutivo do pre-
sejamos justificados pela fé. conceito - não importa se baseado em
3.26-4.7 Conclusão: verdadeira fi- identidade étnica, posição social, ou sexo
liação. A palavra filhos (gr. huioi) no v. 26 - devemos nos alegrar nesse evangelho
é um termo-chave que foi primeiramente que não tolera preferências espirituais, e
usado já bem no começo dessa importante devemos aprender a nos portar de tal for-
seção (7). Essa é uma pista importante para ma que destaque essa verdade diante de
a compreensão da lógica do argumento de um mundo confuso.
Paulo. Podemos entender os v. 26-29 como O segundo tema destacado aqui é o da
uma recapitulação desse argumento. Mas união com Cristo. A ideia já foi sugerida
assim como um compositor não repete pela ênfase de Paulo na fé em Cristo, mas
sem motivo um tema no final de um mo- é ressaltada pela referência ao ser batizado
vimento sinfônico, assim Paulo aqui não em Cristo e ser revestido dele (27; cf Rm
se contenta em falar de filiação abraâmi- 6.1-4; 13.14; Ef4.24; C13.1 O), pela afirma-
ca. Em vez disso, ele leva a ideia um pas- ção de que somos um em Cristo (28) e pelo
so adiante: todos vós sois filhos de Deus comentário-resumo de que pertencemos
GÁLATA54 1828

a Cristo (29). É difícil destacar o suficiente tona novamente o assunto do Espírito, com
a importância dessa doutrina para o ensino o qual tinha inicialmente apelado aos gála-
de Paulo; é isso que dá coerência a tudo o tas (3.3; cf também 3.14 e possivelmente
que ele diz acerca da salvação. Começamos a referência ao batismo em 3.27). Somente
a enxergar mais claramente por que Paulo agora o significado do batismo é associa-
falou de Cristo como a semente (descen- do diretamente à doutrina da filiação. Vísto
dente): nós somos sementes (descenden- que recebemos o Espírito do Filho de Deus,
tes) de Abraão somente na medida em que nosso coração está consciente de que Deus
desfrutamos da união e da solidariedade é o nosso Pai e que somos herdeiros com-
com o descendente. pletos. Observe atentamente a ampliação
Uma leitura superficial de 4.1-7 pode- dessas ideias em Romanos 8.14-17,26,27.
ria sugerir que aqui o apóstolo está come-
çando uma seção nova. Na verdade, esse 4.8-31 Mais apelos
trecho faz parte da conclusão do seu argu- Embora, rigorosamente falando, Paulo ago-
mento doutrinário. Ele consiste em uma ra tenha concluído a argumentação doutri-
ilustração que esclarece o que foi dito an- nária, ele deseja reforçar o seu ensino por
teriormente acerca da função supervisara meio do apelo tanto à experiência dos gála-
da lei. O que é mais importante, o trecho tas (8-20) quanto ao testemunho da própria
serve para levar a doutrina da filiação a um lei (21-31).
grande clímax. 4.8-20 Um apelo à experiência dos
A figura do paidagõgos (aio usada no gálatas. Os v. 8-11 lembram os gálatas da
gr. em 3.24,25) abre caminho para a de sua vida no paganismo. Esse trecho fun-
tutores e curadores em 4.2 ("guardiães e ciona quase como uma ponte para o tre-
administradores", NVI). Visto que são eles cho seguinte (12-20), mas seria um engano
os que de fato estão no comando, o filho considerá-lo meramente um interlúdio e
da casa não é muito diferente de um es- não apreciar o fato de que segue um forte
cravo em um importante sentido: a posse argumento (7). O ponto desse parágrafo é
da herança. O filho tem de esperar pela o fato assustador de que os gálatas, que de
prescrição legal soberana do pai no dia fato já experimentaram a era vindoura (4),
designado. Os israelitas estão ainda prin- estavam retomando à escravidão. O con-
cipalmente em vista aqui (os que estavam traste é evidenciado fortemente por meio
sob a lei, v. 5), mas Paulo introduz um ter- do conceito de "conhecer a Deus": as suas
mo novo, stoicheia (rudimentos do mun- práticas anteriores podem ser explicadas
do, v. 3; v. também v. 9), que lhe permite em virtude do fato de que eles não conhe-
ampliar a referência também aos gentios. ciam a Deus, mas tal conduta é inconcebí-
Aparentemente o ponto é que assim como vel agora que eles o conhecem. Em seguida,
os pagãos estão sujeitos a alguns princí- Paulo qualifica as suas palavras ao ressal-
pios elementares do ritualismo, assim, em tar que, em vez de dizer que os gálatas co-
certo sentido, estavam os judeus. (Como nheciam a Deus, é mais apropriado dizer
alternativa, alguns estudiosos acham que que eles eram conhecidos por Deus, visto
o termo se refere a poderes angelicais ou que foi ele que iniciou e estabeleceu o re-
demoníacos; cf CI 2.18,20). lacionamento. Esse breve parágrafo termi-
Em todo caso, essa condição semelhan- na com uma declaração tocante, repleta de
te à de escravo permaneceu até a época do páthos (cf v. 11), que lembra 2.2 e 3.4 e
cumprimento, quando o Filho de Deus se que conduz naturalmente à seção mais pes-
tomou homem e se sujeitou à mesma lei soai logo em seguida.
para que ele pudesse nos libertar e nos tomar Os v. 12-20 não são fáceis de entender.
filhos (4,5). Nesse ponto, o apóstolo traz à O trecho é obscurecido por alusões aos
1829 GÁLATAS 4

eventos com os quais os gálatas estavam 4.21-31 Um apelo ao testemunho da


familiarizados, mas dos quais pouco sabe- própria Torá. Tratar esse trecho como
mos. Além disso, a linguagem de Paulo é mais um apelo - e assim não como par-
emotiva e abreviada. O v. 16 parece sugerir te do argumento básico - poderia suge-
que tinha havido alguma comunicação en- rir que o parágrafo não é tão importante.
tre Paulo e os gálatas depois que a amea- Aliás, alguns consideram a ironia no v. 21
ça judaizante fora sentida. Além disso, as uma evidência de que Paulo na verdade
palavras: Em nada me ofendestes (12) são não quer dizer o que está dizendo. A ver-
mais naturalmente entendidas como res- dade é, no entanto, que a história de Agar-
posta a algo que talvez foi dito pelos gála- Sara tem um papel importante nos esfor-
tas. Por outro lado, a referência explícita ços de Paulo de persuadir os gálatas. Além
nos v. 13-15 sugere que Paulo também tem disso, a distinção específica entre Ismael e
em mente a evangelização inicial deles: Isaque vai se tomar crucial à medida que
"Naquela época - mesmo que eu não fos- o apóstolo elaborar a sua doutrina na carta
se judaizante, mas antes tinha me tomado aos romanos (cp. 9, especialmente v. 6-
como vocês - , vocês, longe de me ofen- 12). Além disso, é apropriado reconhecer
der, me receberam muito bem". que essa história de Gênesis não é a base
Mesmo que seja difícil discernir os da sua concepção da justificação, uma dou-
detalhes desse trecho, sua ênfase básica trina que foi claramente explicada no capí-
está suficientemente clara. A atitude dos tulo anterior. Pode muito bem ter aconte-
gálatas para com Paulo tinha mudado cido que a história tenha sido citada pelos
significativamente. Se eles lembrassem próprios judaizantes e assim Paulo teve de
somente os primeiros contatos dele com responder a ela (essa sugestão, porém, não
eles - tanto a enfermidade dele quanto a pode ser comprovada).
atitude amável deles para com ele - cer- Muita discussão já ocorreu em tor-
tamente reconsiderariam a sua presente no do significado do v. 24: Estas coisas
atitude. Esse comportamento, em certo são alegóricas. Paulo usa o termo grego
sentido, é o resultado de alguns indiví- allêgoroumena, e assim uma tradução mais
duos que querem que os gálatas pres- literal poderia ser: "Estas coisas foram es-
tem atenção exclusiva neles e que assim critas alegoricamente", ou: "Estas coisas
descartem a influência de Paulo (17). Os podem ser interpretadas alegoricamente".
gálatas deveriam considerar com muito Paulo certamente não está usando o méto-
cuidado os motivos dessas pessoas (assim do alegórico que foi amplamente difundi-
o v. 18, uma afirmação difícil que pode do por Filo de Alexandria, que depreciava
ser traduzida de diversas formas). fortemente (ou até negava) a natureza his-
Paulo conclui essa seção com mais uma tórica da narrativa do AT e que servia como
observação pungente (19,20). A sua tensão o meio para a formulação de complexos
emocional ao tratar com os gálatas só pode sistemas filosóficos. Em vista do signifi-
ser comparada a dores de parto. Então, com cado um tanto especializado que o termo
uma combinação intencional de metáforas, "alegoria" tem hoje na mente de muitos (o
o apóstolo identifica a maior e mais básica termo gr. correspondente poderia ser usado
necessidade deles, isto é, que Cristo seja de formas diversas e mais gerais), prova-
formado neles. Em outras palavras, eles velmente é enganoso usá-lo para descrever
precisam ser transformados na imagem de o que Paulo está fazendo nesse texto.
Cristo (Rm 8.29). O coração pastoral de Por outro lado, não há dúvida de que
Paulo é revelado nessas palavras e no seu o apóstolo está enxergando algo aqui
intenso desejo de visitá-los para que possa que não faz parte do que nós comumen-
falar com eles face a face. te chamamos de "significado histórico"
GÁLATAS 5 1830

de um texto. O autor de Gênesis, no que portantes de correspondência com a ques-


é possível discernir, não estava tentando tão judaizante. Essas correspondências
distinguir entre duas alianças, nem estava são apresentadas em forma de contrastes,
tentando retratar a relação entre judaizan- como segue: Agar/Sara; escravo/livre;
tes e gentios. Paulo está, então, manejando aliança do Sinai/(nova) aliança; Jerusalém
maIo AT? atual/Jerusalém de cima; IsmaeI!Isaque;
É importante manter em mente que em nascimento natural (carne)/nascimento
toda a história da redenção se podem ob- pela promessa/Espírito; perseguidor/per-
servar padrões claros de como os eventos seguido; expulso/herdeiro.
se desenrolam. Talvez o mais óbvio seja Com base em diversas ideias interes-
o padrão do "teste que resulta em desobe- santes sugeridas por esses contrastes, ao
diência", visto claramente em Adão, e nos menos duas requerem atenção especial.
israelitas no deserto, e então quebrado por Em primeiro lugar, observe a referência
Jesus na sua tentação. Especialmente im- à Jerusalém atual em contraste com a de
portante é a distinção entre o natural e o cima (25,26). Está claro que o pensamento
sobrenatural, i.e., o que os seres humanos de Paulo foi fortemente influenciado por
tendem a fazer com suas próprias forças uma perspectiva da história bíblica mar-
em contraste com o que eles realizam na cada pelo aspecto "escatológico", ou "dos
dependência de Deus. Esse princípio é últimos dias", de acordo com a qual se diz
transmitido muitas vezes na história bí- que a vinda de Cristo traz e inaugura a era
blica, e a história de Ismael e de Isaque por vir. O ponto já apareceu em IA e fun-
é um exemplo particularmente forte. Cer- damenta textos de "cumprimento" como
tamente Deus estava ensinando o seu povo 3.23-25 e 4.4 (cf também ICo 10.11).
a depender dele para a sua salvação. O que Em segundo lugar, observe o contras-
poderia ser mais adequado do que destacar te entre carne e promessa/Espírito nos v.
esse princípio e aplicá-lo à controvérsia 23,29 (a tradução na NVI do termo gr. "car-
dos gálatas? ne" por: "nasceu de modo natural" expres-
Alguns estudiosos preferem usar o ter- sa corretamente a ideia, mas o faz à custa
mo "tipologia" (em vez de "alegoria") para do contraste teológico). Esse contraste foi
descrever o método de Paulo aqui. O ponto trazido a lume primeiro em 3.4 (v. comen-
é que a história, longe de ser depreciada tários ali); assim, é significativo que essa
a favor da teologia, é vista como incorpo- seção central da carta comece e termine
rando essa teologia e assim prenunciando com tal referência. Esses termos estão
eventos posteriores como manifestações fortemente relacionados à compreensão
mais completas do princípio em vista. escatológica ("dos últimos dias") do evan-
Além disso, alguns sugerem que mesmo gelho. A carne - i.e., a natureza humana
que o autor humano de Gênesis não tenha caída agindo nas suas próprias forças natu-
tido em mente o que Paulo tem com esse rais - é a característica distintiva da pre-
trecho, o autor divino o tinha. Essa aborda- sente era. O Espírito Santo, por outro lado,
gem pode ser facilmente usada para justifi- inaugura a era vindoura, assim que se pode
car todo o tipo de interpretações incorretas, até dizer dos cristãos que eles estão as-
mas certamente é verdade que um Deus sentados nos lugares celestiais (Ef 2.6; cf.
onisciente (sem falar do seu pré-conheci- Fp 3.20; CI3.1-4). O significado ético des-
mento) claramente enxerga as implicações se contraste é desenvolvido em 5.13-26.
dos eventos de formas que seres humanos
contemporâneos nem consigam imaginar. 5.1-6.10 Ordens de Paulo
Para Paulo, não podia ser coincidência que Como é comum nas suas cartas, Paulo
a história de Gênesis tinha pontos tão im- acrescenta à seção doutrinária um conjunto
1831 GÁLATAS 5

de chamados à ação. É tópico disputado se gerais, não compreendia completamente


essa seção começa em 5.1,2 ou em 5.13. esse conceito. Grande parte da interpre-
Certamente os v. 1-12 incluem um con- tação rabínica consistia em tentativas de
teúdo doutrinário significativo, e o fato de afrouxar as exigências estritas das ordens
que a questão central nesses versículos é a bíblicas, com o resultado inevitável de que
circuncisão não deve ser ignorado. Há, no as pessoas pensavam que podiam realmen-
entanto, uma mudança notável de tom no te satisfazer as exigências de Deus pelos
v. 2 (o v. I serve a uma função de ponte e seus esforços.
pode facilmente ser visto como a conclu- Em segundo lugar, nos v. 5,6 Paulo
são do cp. 4). A questão não é de grande afirma que a verdadeira experiência cris-
importância. tã é caracterizada pela fé. Essa fé é uma
Mais significativa é a decisão de des- expectativa sólida: ela espera ansiosa-
crever essa seção como "Ordens de Paulo". mente a demonstração final da justiça de
Tal título destaca um dos problemas mais Deus, quando a sua verdade será vindica-
interessantes que surgem aqui. Como da e o seu povo receberá o veredicto final
Paulo concilia todas as suas declarações de "inocente". Também é uma fé gerada
negativas acerca da lei com as muitas or- e sustentada pela presença do Espírito;
dens incluídas na carta? Há uma coerên- mais uma vez Paulo destaca o papel cru-
cia básica na teologia de Paulo quando ele cial do Espírito Santo na vida do cristão.
parece encorajar os gálatas a cumprir a lei Finalmente, essa fé é muito operante por
(5.14) ou quando diz que devemos fazer meio do ministério do amor (o verbo grego
coisas contra as quais não há lei (5.23)? no v. 6, traduzido por "atuar", é energeõy.
Devemos manter em mente essas questões "Para a revelação da ideia fundamental do
nos nossos esforços para compreender o apóstolo acerca da natureza da religião não
ensino de Paulo. há declaração mais importante em toda a
epístola, talvez até em todas as epístolas
5. 1-12 Com respeito à circuncisão de Paulo" (E. de Witt Burton, A Criticai
A afirmação solene do v. 2 (cf 2.21), com- and Exegetical Commentary on the Epistle
binada com a linguagem assustadora do v. to the Galatians [T. & T. Clark, 1921],
4 (cf 1.6), indica não somente que a circun- p. 279). Não se deve esperar que o fato de
cisão não tem valor positivo algum, mas Paulo contrapor a fé às obras da lei signi-
que para os gálatas ela é realmente preju- fique que a fé é passiva. Pelo contrário, a
dicial. De uma perspectiva, é indiferente se fé toma possíveis as obras genuínas. Esse
alguém é circuncidado ou não (observe o princípio prepara o caminho para as ordens
v. 6 e os paralelos em 6.15 e ICo 7.19). nos v. 13-26.
No entanto, se um gentio se submetesse à Antes de prosseguir a elas, no entan-
circuncisão como sinal de submissão à lei, to, Paulo precisa expressar ainda mais um
isso seria "pernicioso e fatal em si mesmo" apelo pessoal. Em grande parte, os v. 7-12
(Lightfoot). são um ataque aos oponentes. Os judaizan-
Paulo fundamenta suas fortes declara- tes estão levando os gálatas a tropeçar. O
ções de duas formas. Em primeiro lugar, seu ensino, que age como fermento, é in-
no v. 3 ele argumenta que o ato inicial da compatível com o chamado divino. Paulo
circuncisão implica o compromisso de está confiante que eles serão julgados e até
fazer tudo que a lei diz (cf Tg 2.10,11). mesmo expressa o seu desejo de que se-
Qualquer pessoa que deposita sua confian- jam mutilados (possivelmente uma alusão
ça em suas próprias obras precisa enten- às práticas mutiladoras dos pagãos na Ásia
der que Deus exige perfeição (Mt 5.48). Menor, mas muito provavelmente também
O judaísmo dos dias de Paulo, em termos uma referência à castração, que, por sinal,
GÁLATAS S 1832

desqualificava os homens judeus para o sa- ênfase que o apóstolo dá a esse proble-
cerdócio). No v. 11, ele também se defende ma. No v. 15, ele fala acerca do perigo de
da aparente acusação de que ele era incoe- que eles podem se destruir uns aos outros
rente e de que, quando lhe servia, defendia pelo mútuo "morder-se e devorar-se". E
a circuncisão (talvez uma alusão ao fato de no final do parágrafo, ele acrescenta uma
ter circuncidado Timóteo; At 16.1-3). advertência final contra a presunção e a
O "negativismo" desses versículos inveja (26).
não deve obscurecer o que é o propósito As implicações de tal conduta deve-
principal de Paulo. Ele deseja expressar a riam ter sido bem conhecidas dos gálatas:
sua confiança nos gálatas. A reação inicial o apóstolo os tinha advertido em ocasião
deles ao evangelho (Vós corríeis bem, v. anterior de que não herdarão o reino de
7; cf 4.13-16) o encoraja a crer que eles Deus os que tais coisas praticam (21). Foi
não alimentarão nenhum outro sentimento realmente irônico que esses cristãos, que
(10).A única razão de eles terem vacilado é foram seduzidos por uma mensagem de
a influência externa dos judaizantes; assim obediência à lei, caíssem em um compor-
o apóstolo se consola no fato de que havia tamento que ostensivamente contradizia a
evidências suficientes da genuinidade da fé sua fé. A sua ênfase na carne ~ literalmen-
dos gálatas. (Cf também o encorajamento te, por meio da circuncisão, mas, mais im-
de Hb 6.9-12 depois das palavras duras no portante, por meio da sua dependência dos
início do capítulo). próprios esforços ~ de fato os conduzíu a
realizar as obras da carne em outro senti-
5.13-26 Com respeito ao amor do. Nossos esforços em agradar a Deus na
Aquele que chamou os gálatas na graça (8; nossa própria força resultam somente em
cf 1.6) os chamou a exercer os direitos e comportamento pecaminoso. (V comentá-
desfrutar das bênçãos da liberdade (13a). rio de 3.4).
Paulo sabe, no entanto, que a liberdade Paulo também deixa claro qual é o uso
pode ser transformada em licenciosidade, correto da liberdade: sede, antes, servos
e assim ele precisa deixar claro e cristalino [lit. escravos] uns dos outros, pelo amor.
quais são as supremas obrigações daqueles Porque toda a lei se cumpre em um só
que foram libertos. Nesse trecho, o após- preceito, a saber: Amarás o teu próximo
tolo entra em alguns detalhes para des- como a ti mesmo (l3c,14). O princípio de
crever tanto o abuso quanto o uso correto uma fé operante (6) é elaborado agora. E
da liberdade. assim como tinha alistado as obras da na-
A liberdade é abusada quando se toma tureza pecaminosa, assim ele especifica
uma desculpa para dar ocasião à carne o tipo de conduta que flui da comunhão
(13b; lit. "um pretexto para a carne"). com o Espírito Santo (22,23). É digno de
Paulo é bem específico acerca do tipo de nota que o fruto do Espírito aqui consis-
conduta que ele tem em mente. Nos v. 19- te principalmente em atitudes e ações que
21, ele até alista as obras da carne ("As intensificam os relacionamentos pessoais,
coisas que a natureza humana produz", exatamente a grande fraqueza dos gálatas.
NTLH). Esses atos parecem se dividir em As qualidades de alegria e paz não se refe-
quatro grupos: impureza sexual, idolatria, rem a sentimentos subjetivos, mas à forma
dissensão e intemperança. A maioria dos com que tratamos uns aos outros. Até mes-
pecados alistados por Paulo cai na tercei- mo o termo pistis ("fé") no grego pode ser
ra categoria, e isso sugere que os gálatas entendido como fidelidade (como aqui na
eram particularmente propensos aos pe- ARA), mais uma vez associada aos relacio-
cados que envolviam os relacionamentos namentos pessoais. Há também ênfase em
pessoais. Essa sugestão é confirmada pela bondade e longanimidade.
1833 GÁLATAS 6

Mas como podemos atingir esses al- forma rude a um dos seus irmãos se não
vos? Como cristãos, com frequência gos- atingissem os elevados padrões recém-des-
taríamos de ter fórmulas rápidas que resol- critos. Portanto, ele ressalta que se eles são
vessem os nossos problemas espirituais. espirituais (tendo o Espírito Santo e sendo
O material bíblico resiste a esse tipo de guiados por ele), devem reagir com espíri-
atitude. Mas, se há um texto bíblico que to de brandura, sempre conscientes de que
soa como uma fórmula para a santificação, cada um de nós é suscetível à tentação.
esse é Gálatas 5.16: Digo, porém: andai no Nos v. 2,3, Paulo continua o pensamen-
Espírito e jamais satisfareis à concupis- to, mas o generaliza um pouco. Restaurar
cência da carne. Como Paulo explica no um crente que pecou não é nada mais do
versículo seguinte, o Espírito e a natureza que um exemplo da obrigação mais ampla
pecaminosa (carne) são mutuamente ex- que temos de levar as cargas uns dos ou-
cludentes. Assim, se estamos ocupados em tros. Qualquer pessoa que empaca diante
agradar aquele, não vamos satisfazer esta. dessa obrigação, pensando que está acima
Observe ainda que as ordens de Paulo dessa fraqueza, só se engana a si mesma.
(o "imperativo") estão firmadas em fatos Em uma alusão notável e irônica à preocu-
da nossa experiência cristã (o "indicati- pação dos gálatas pelas leis judaicas, Paulo
vo"). A razão de podermos estar encoraja- descreve o levar as cargas como o cumpri-
dos na nossa vida espiritual é que quando mento da lei de Cristo. Muito provavel-
depositamos a nossa fé em Cristo demos mente essa noção deve ser relacionada a
um golpe fatal no poder da carne (24; cf. 5.14, o mandamento do amor. Claramente,
Rm 6.1-4). Assim, se a nossa vida procede a maravilhosa liberdade pela qual Paulo
do Espírito, só é adequado ~ aliás, é in- tinha lutado durante o seu ministério e
cumbência nossa ~ portar-nos de acordo especialmente nessa carta não acarreta o
com a condução dele. abandono das obrigações morais.
Finalmente, observe como esse texto A preocupação de Paulo para que os
nos ajuda a compreender um pouco melhor gálatas estivessem conscientes das cargas
o ensino de Paulo acerca da lei. Embora e fraquezas dos outros, no entanto, poderia
antes ele tenha falado muito duramente conduzir a um sentimento de superioridade
contra o uso da lei como meio de ganhar e daí à jactância pecaminosa. Assim, nos
a herança, ele não questiona o valor da v. 4,5 ele traz à memória a necessidade e a
lei como revelação do que é a vontade de adequabilidade de a pessoa olhar somente
Deus para nós. Se a nossa vida é gover- para si mesma para avaliação, i.e., a pes-
nada pelo Espírito, não estamos sujeitos soa deve olhar para as fraquezas dos outros
ao poder condenatório da lei e, assim, não somente com o propósito da compaixão,
precisamos temê-la. Portanto, é correto e não da comparação (cf 2Co 10.12-18).
que "cumpramos" a lei (14) para realizar Nesse sentido, cada um precisa carregar
aqueles atos que a lei não condena (23). a sua própria carga. Podemos parafrasear
Isso é liberdade de fato. assim: "Se você está propenso a se gloriar,
só olhe para si mesmo; não seja como o
6. 1-10 Com respeito às cargas fariseu que se compara ao publicano, mas
Tendo apresentado um retrato elevado da use o padrão de Deus, e então vai descobrir
vida cristã, Paulo agora trata das reais pos- que o gloriar-se só pode ser em Deus" (cf
sibilidades do pecado (1). Embora o prin- v. 14; 1Co 1.26-31).
cípio de viver pelo Espírito não seja mero Com o v. 6 o apóstolo avança para mais
idealismo, o apóstolo sabia perfeitamente um tópico (embora talvez esteja em parte
bem que os crentes vacilariam, e ele pode relacionado ao levar as cargas), que é a res-
ter receado que os gálatas reagissem de ponsabilidade de suprir os obreiros cristãos
GÁLATA56 1834

nas suas necessidades. Embora seja pos- batar a atenção dos seus leitores apesar de
sível que Paulo tenha em mente mais do si mesmos" (Lightfoot).
que o aspecto financeiro (todas as coisas De maneira parecida, Paulo claramen-
boas), o verbo "compartilhar" (jaça par- te se dirige às emoções dos gálatas quan-
ticipante; gr. koinõneõ) é usado em outros do apela às marcas de Jesus (17). Talvez
textos por Paulo para falar de contribuições aludindo uma vez mais às acusações de
financeiras (v. Rm 12.13; 15.27; Fp 4.15; o insinceridade (cf 1.10; 5.11), ele lembra
substantivo é usado de forma semelhante os seus leitores e oponentes de que suas
em Rm 15.26; 2Co 8.4; 9.13). A mesqui- reivindicações não são em vão. As feridas
nhez nas nossas contribuições, financeiras que ele sofreu por causa da sua fidelidade
ou em outras áreas, é equivalente a zombar a Cristo são a evidência mais clara de que
de Deus. Mas, na verdade, de Deus não se os gálatas não precisam duvidar dos seus
pode zombar (7), e se dedicamos nossos motivos. Como alguns comentaristas têm
recursos para satisfazer a natureza pecami- destacado, a batalha com os judaizantes é
nosa (lit. "semear para a carne") em vez de levada até o final da carta.
satisfazer o Espírito, vamos receber o que Essa batalha, contudo, assume uma
nos é devido (8; cf 2Co 9.6). nova característica nos v. 12-14, pois aqui
O apóstolo conclui essa seção da carta Paulo toma explícito o que esteve subja-
com um resumo de como ele espera que cente até esse ponto (cf especialmente
os gálatas ajam (9,10). Em cada oportu- 4.17,18). Em resumo, o apóstolo vai ao
nidade, precisamos empenhar todos os âmago da questão ao desmascarar a pró-
nossos esforços para fazer o que é bom, pria motivação dos judaizantes. A verda-
e devemos estar particularmente atentos deira razão de estarem tão ocupados em
para suprir as necessidades da comunida- rodear os gálatas é que, temerosos de ser
de cristã. Embora possa haver muitos de- perseguidos, eles querem dar uma boa
sencorajamentos ao longo da caminhada, impressão exterior (querem ostentar-se
precisamos criar coragem com a certeza de na carne). Por meio de um belo jogo de
que Deus vindicará o seu povo. No tempo palavras, Paulo chama a atenção ao fato
apropriado, certamente colheremos a ple- de que o rito da circuncisão é realizado na
nitude da bondade do próprio Deus. carne (fisica), e isso é uma indicação cla-
ra de que os judaizantes vivem no âmbito
6.11-18 Epílogo da carne (como esse termo foi usado em
Esse parágrafo final transmite fortes emo- 3.3; 4.23,29; 5.13,16-26; 6.8; em outras
ções, ressaltadas tanto no início (11) quan- palavras, opostos ao Espírito). Apesar das
to no final (17). Era costume de Paulo suas afirmações, a sua obediência à lei é
acrescentar uma nota de próprio punho (cf na melhor das hipóteses seletiva - o seu
2Ts 3.17; possivelmente isso era feito como verdadeiro propósito é gloriar-se no fato
salvaguarda contra falsificações, 2.2). No de que colocaram uma marca na carne dos
entanto, o fato de destacar o tamanho da cristãos da Galácia.
sua caligrafia - um comentário que ele Nesse ponto, o apóstolo introduz um
não faz em nenhum outro lugar - acres- dos temas recorrentes mais importantes das
centa considerável pungência ao texto. É suas cartas: gloriar-se em Cristo. O sinal
inútil especular se essa observação nos diz mais claro de incredulidade deve ser visto
algo acerca do estado da sua capacidade na nossa tendência de nos gloriarmos em
visual ou da sua posição social. Antes, tem nós mesmos, quando a única base legítima
um propósito emotivo: "A audácia da cali- para o gloriar-se é Deus (v. especialmente
grafia corresponde à força das convicções Rm 5.11; lCo 1.29-31; 2Co 10.17; Ef2.9;
apostólicas. O tamanho das letras vai arre- Fp 3.3). Aqui Paulo é mais específico. Ele
1835 GÁLATAS 6

se gloria somente na cruz, a ferramenta pela o Espírito é a manifestação mais clara da


qual Paulo e o mundo foram separados um nova criatura.
do outro. Como é sugerido em Colossenses Os que andam dessa forma recebem
2.20, o mundo é uma referência às orde- uma bênção muito especial de paz e mise-
nanças exteriores (cf 4.9,10), mas com ricórdia (16), às quais Paulo acrescenta: e
certeza também inclui o pecado (5.24) e o sobre o Israel de Deus. De acordo com al-
velho eu (2.20; cf Rm 6.6). Aqueles que guns, Paulo está chamando atenção não so-
pela fé são unidos com Cristo participam mente para a igreja (daí: "e [sobre o Israel
da morte dele na cruz e são, dessa forma, de Deus]"), mas também para a nação
removidos do poder do pecado. étnica de Israel como receptores da bên-
Essa confissão do v. 14 conduz, no ver- ção. Mas se essa nação, composta tanto de
sículo seguinte, à repetição do princípio crentes como de incrédulos, pode realmen-
de 5.6, mas agora a conclusão é surpreen- te desfrutar de paz e misericórdia, parece
dente. Em ambos os trechos, se diz que a que Paulo está contradizendo a essência da
circuncisão e a incircuncisão não têm valor sua mensagem: os verdadeiros descenden-
algum. O que tem valor, de acordo com 5.6, tes de Abraão são os que creem em Cristo
é a fé que atua pelo amor; aqui no v. 15 é o e foram libertos da lei. A NIV (em inglês),
ser nova criatura, uma ideia desenvolvida portanto, muito provavelmente está correta
em 2Coríntios 5.17. Mais uma vez Paulo ao traduzir a palavra "e" por "até", "mes-
nos lembra da natureza escatológica (de mo" (ou "ou seja"; esse sentido não é in-
cumprimento) da mensagem do evangelho comum). Se é assim, podemos apreciar o
(v. comentário de 4.25,26). De forma mais impacto dessa declaração como um argu-
marcante ainda, o mesmo princípio é re- mento contra os judaizantes: o verdadeiro
petido em lCoríntios 7.19, mas aí, em vez Israel vive segundo um outro princípio que
de fé ou nova criatura, o elemento valioso o da submissão à lei mosaica.
é "obedecer aos mandamentos de Deus", A bênção do v. 18 não parece nada mais
uma afirmação que nos ajuda a colocar em do que uma variante da conclusão usual
perspectiva as observações "negativas" de das cartas do apóstolo. Há, contudo, uma
Paulo em Gálatas acerca da lei. notável diferença: o acréscimo da palavra
De todo modo, esse princípio da nova irmãos numa posição enfática, bem no fi-
criatura (ou fé que atua pelo amor) é a nal (no original). Isso é bem inesperado e
verdadeira regra segundo a qual devemos revela o coração intensamente pastoral do
caminhar (16). O verbo traduzido por apóstolo. Na verdade, essa uma palavra
"andar" (a todos quantos andarem de con- alivia a severidade de toda a carta ao res-
formidade ...) é também usado em 5.25 (an- saltar a confiança de Paulo em que os gála-
demos também no Espírito). Claramente, tas são verdadeiramente o povo de Deus e
Paulo quer que entendamos que a regra que, portanto, vão reagir à verdade como
que devemos seguir é a conduta dirigida devem (cf 3.4; 5.10).
pelo Espírito descrita anteriormente. E
isso realmente não surpreende, visto que Moisés Silva
EFÉSIOS

INTRODUÇÃO
Efésios é um livro empolgante na sua com- sios, muitos eruditos modernos (incluin-
preensão teológica do escopo dos propó- do os comentários mais importantes de
sitos de Deus em Cristo para a igreja. É Schnackenburg e Lincoln) têm questionado
uma carta pastoralmente afetuosa e espiri- essa autoria. Em vez disso, tentaram expli-
tualmente sensível nos seus conselhos, pa- car a carta como a composição de um estu-
cífica no seu tom, e facilmente transborda dante e admirador de Paulo, que com isso
em alegre adoração. Mas também é bem trouxe o evangelho do apóstolo à sua pró-
diferente das outras cartas de Paulo. Todas, pria geração. Esses argumentos estão vin-
exceto esta, tratam de situações bem espe- culados fortemente às questões suscitadas
cíficas nas igrejas às quais ele escreveu. acima, e às sutis e alegadas mudanças que
Tipicamente, elas estão repletas de identi- indicariam um distanciar-se da perspectiva
ficações locais, contêm ensinos bem argu- paulina para uma perspectiva posterior. As
mentados e retoricamente bem formulados questões são complexas demais para serem
que investigam as dimensões teológicas tratadas em detalhes aqui, mas são resumi-
de algum problema fundamental, e elas das nos comentários de Caird (p. 11-29) e
combinam com isso aplicações meticulo- Foulkes (p. 19-49). Nossa posição pessoal
samente associadas na forma de apelos aos é que Paulo é de fato o autor, e as alega-
leitores. As frases do apóstolo geralmente das diferenças entre este autor e o Paulo de
são curtas, às vezes ásperas. outras cartas ou são compreensões equivo-
Em Efésios, por contraste, o que comu- cadas de Efésios (algumas das principais
mente seria a parte de "ensino" é tomado serão levantadas neste Comentário), ou
em grande medida pelo louvor a Deus (1.3- podem ser explicadas em termos da natu-
14) e por um relato da oração de Paulo pe- reza e das circunstâncias especiais da com-
los seus leitores (1.15-3.21, com digres- posição desta carta.
sões significativas em 2.11-22 e 3.2-13).
Isso conduz imediatamente à exortação (cp. o ambiente da carta
4-6). Em toda a carta, as frases geralmen- Enquanto era prisioneiro em Roma (em
te são muito longas e têm um tom ligeira- tomo de 61-62 d.C.), Paulo teve opor-
mente litúrgico. Ainda mais incomum é o tunidade para devolver um escravo con-
fato de toda a carta depender fortemente de vertido, Onésimo, ao seu senhor cristão,
Colossenses: trechos e mais trechos podem Filemom, que vivia em Colossos, ou
ser explicados como uma reformulação dos perto de lá. Para tratar dessa situação me-
temas-chave de Colossenses, e aproxima- lindrosa, Paulo escreveu a Filemom. Ele
damente um terço do seu fraseado é de fato enviou tanto essa carta quanto o escravo
transportado de lá para Efésios. Como se - que estava voltando - aos cuidados
deve explicar tudo isso? de um dos seus colaboradores, Tíquico
(Cl 4.7-9), e usou a ocasião para escrever
Autoria também a toda a igreja de Colossos, ad-
Embora a igreja primitiva apoiasse de ma- vertindo-a acerca dos falsos ensinamen-
neira uniforme a autoria paulina de Efé- tos que começavam a se horizontar por lá.
1837 EFÉSIOS

Para ir até Colossos, Tíquico e Onésimo estava atravessando. Poderia haver outra
teriam navegado naturalmente a Éfeso, e forma melhor para Paulo do que cele-
depois tomado o rumo leste para o valo brar a realização em Cristo dos grandes
do Lico pela estrada romana principal que propósitos de Deus (1.3-14), e incluir
levava ao Eufrates. Paulo tinha ele pró- um relato de como ele estava orando pe-
prio baseado sua missão asiática (52-55 los leitores, intercedendo para que eles
d.C.) na grande e pujante cidade de Éfeso compreendessem alegremente a mensa-
(At 18.19-20.17; 1Co 15.32; 16.8,19; gem central do evangelho e o privilégio
2Co 1.8-11), e assim teria sido natural maravilhoso para o qual foram recebidos
que ele escrevesse uma carta à igreja ali (1.15-2.10; 3.1,14-21)? Não é muito
e a enviasse também com Tíquico (cf realista argumentar que a carta não seja
Ef6.21,22 e C14.7-9). paulina porque coloca a oração no lugar
A carta que temos com o nome em que Paulo normalmente põe o ensino;
"Efésios" não foi escrita, contudo, primei- a verdade é antes que a carta ensina o con-
ramente aos "santos que vivem em Éfeso" teúdo essencial do evangelho de Paulo em
(1.1). Aliás, as palavras "em Éfeso" não forma de um chamado à adoração e de um
se encontram nos primeiros manuscritos, relato de oração (e as digressões de 2.11-
e 1.15 e 3.1-3 pressupõem que Paulo e a 22 e 3.2-13 explicam mais amplamente o
maioria dos seus leitores tinham ouvido ensino implícito no chamado à adoração
relatos uns dos outros, mas não necessaria- e no relato de oração). A escolha de um
mente mais do que isso. A carta também formato adoração/oração para a maior
termina sem as costumeiras saudações parte da primeira divisão da carta já dá o
pessoais que esperaríamos numa carta en- tom do estilo mais "elevado" e litúrgico
dereçada a Éfeso (cf Rm 16; Cl 4.10-17). que então - o que não é incomum - se
Essas características têm sugerido a mui- estende a toda a carta (e é semelhante ao
tos estudiosos que a verdadeira intenção estilo das orações de Paulo em outras car-
de Efésios era ser uma carta circular para tas). E se Paulo tinha acabado de escre-
as igrejas de toda a província romana da ver aos colossenses, e ainda tinha a carta
Ásia (inclusive as sete mencionadas em à mão, seria de admirar se ele a tivesse
Ap 1-3). Talvez, o que é mais plausí- reformulado para o conjunto mais amplo
vel, tenha sido escrita às igrejas à beira, de leitores?
ou próximas, da estrada que Tíquico to-
maria de Éfeso para Colossos, incluindo A mensagem central da carta
Magnésia, Tra1es, Hierápolis e Laodiceia. Efésios toma proeminente um tema que já
(Nesse sentido, Efésios pode ser a carta a era importante em Colossenses: a reconci-
que C14.6 se fere como "a [carta] dos de liação cósmica em Cristo (cf Ef 1.9,10,20-
Laodiceia".) 23; 2.10-22 e 3.6 com Cl 1.19,20). O AT
propunha que o universo era a criação do
A natureza e o propósito Deus único, sem igual nem rival, e ini-
da carta cialmente tudo estava em harmonia com
A maioria das características incomuns ele (cf Dt 6.4, recitado diariamente pelos
dessa carta pode ser mais bem explicada judeus, e Gn 1). Segundo a compreensão
em termos de nossa compreensão do seu judaica, no entanto, a submissão voluntá-
ambiente. O seu propósito não é confron- ria de todas as coisas a Deus se dissolveu
tar algum tipo particular de falso ensina- em uma rebelião de reivindicações con-
mento em alguma igreja específica, mas correntes. As pessoas se tomaram pro-
encorajar todas as igrejas (principalmen- gressivamente alienadas de Deus e depois
te as dos gentios) da região que Tíquico umas das outras, o que foi simbolizado no
EFÉSIOS 1838

jardim do Éden, no assassinato de Abel unidos com ele, ou seja, os crentes. Isso
e no fiasco de Babel. Deus ainda era o conduz a uma visão impressionante e ma-
Senhor do universo (como afirmam todos, jestosa da igreja. A igreja universal dos
de Js 3.11 a Josefo Ant. 14.24), ele ainda judeus e dos gentios é o lugar que Jesus
lhe dava unidade, e essa unidade chegou enche (1.23); é o lugar em que o mundo
à expressão mais clara na obediência de e os poderes devem ver a reconciliação
Israel ao único Deus, seguindo uma única cósmica já em processo (3.6-10). Pela
lei e adorando em um único templo. "As união com Cristo, a igreja já é aquele úni-
nações", contudo, estavam separadas de co templo celestial (2.19-21), e acima de
Deus, e de Israel, pela sua adoração aos tudo deve se empenhar em manter essa
ídolos. E até mesmo Israel, chamado a ex- unidade que é testemunha dos propósitos
pressar em si mesmo a unidade da criação, de Deus (4.1-6). O apelo de Paulo nos
foi desfigurado por facções. A nação se di- cp. 4-6 expressa como devemos viver
vidiu internamente. Na raiz de tudo isso, de forma tal que reflita a nova criação de
no que diz respeito ao judaísmo, estava o Deus de unidade, harmonia e paz.
conflito entre o Senhor Deus e os poderes Essa nota de unidade cósmica em
de Satanás. Cristo tem sido confundida, às vezes, com
Em contraste com o que estava acon- o universalismo (i.e., que no final Deus
tecendo na época, o dia do Senhor era salvará todas as suas criaturas, incluindo
visto como o dia em que Deus sujeitaria os poderes hostis). Isso não está indicado
a si todos os poderes concorrentes e assim no texto: 5.6 ainda prenuncia a ira de Deus
restauraria a harmonia no universo. Assim, sobre a desobediência persistente, e 5.5
como diz Zacarias 14.9: "O SENHOR será adverte acerca de pecados que excluem do
Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só reino de Deus. O que se afirma nesse texto
será o SENHOR, e um só será o seu nome". é que toda a nova criação estará unida em
O Messias é, assim, o príncipe da paz Cristo, mas partes da antiga criação não
(Is 9.6) que pacifica até a natureza (Is 11.1- participarão da nova.
9; 2Baruque 73.1). Quando ele vier, toda a Autores posteriores como Inácio e
oposição será eliminada, Israel será restau- Ireneu destacaram a unidade institucio-
rado e todas as nações virão para reveren- nal da igreja católica na terra, sob bis-
ciar o único Deus (Tobias 14.6; Oráculos pos, presbíteros e diáconos. Em contraste
Sibelinos 3.080), e elas o adorarão no úni- com isso, as ênfases aqui são as ênfases
co templo em Jerusalém (Is 2.2-4; 56.6,7; paulinas regulares em uma única igreja
60-62; Mq 4.1-4; Zc 8.20-23; 14.16-19; universal de judeus e gentios como a ma-
Jubileus 4.26). nifestação histórica do templo celestial e
Tudo isso poderia ser chamado de re- da reunificação mundial (como veremos
conciliação cósmica. Efésios ensina que no Comentário). Paulo estava na prisão
esse propósito já teve início em Cristo e exatamente por tentar fortalecer a unidade
será consumado nele. Nele a alienação foi entre as igrejas dos judeus e dos gentios
destruída e a reunificação começou: a an- (v. comentário de 3.13).
tiga divisão da humanidade em judeus e Duas características associadas na
gentios já foi vencida (2.10-16); e a mais carta também são especialmente signi-
antiga alienação da humanidade de Deus ficativas: o foco em "dominadores deste
foi superada também (2.17,18). Cristo co- mundo tenebroso" (6.12), e a ênfase na
meçou a "encher" e unir o universo (4.10), presente salvação. C. Arnold demonstrou
trazendo a paz. Mas dizer que essas coisas como eram fortes as crenças e também os
começaram nele é também dizer que elas medos dos poderes espirituais associa-
são experimentadas por aqueles que estão dos a elas em Éfeso e na região vizinha.
1839 EFÉSIOS

Colossenses foi escrita em parte contra cf. 1.14; 4.13); daí a ênfase em compreen-
esses medos (CI 1.13,16; 2.8,15,18,20) dermos a nossa esperança (1.18).
e assim não é de admirar que a carta de
Paulo aos efésios retomasse novamente o principal desafio de Efésios
esse tema. Arnold mostrou que há alu- Essa carta desafia o individualismo pie-
sões muito mais fortes a tais medos em tista e a correspondente e fraca doutrina
Efésios do que se tem aceito comumente, da igreja que tantas vezes encontramos
e que uma parte importante do propósi- no evangelicalismo. "Não olhe para a
to da carta é neutralizá-los por meio da igreja", dizemos, "Olhe para Cristo!".
insistência no poder maior que há em Paulo, no entanto, espera que as pessoas
Cristo e nos crentes que estão unidos de fora vejam Cristo e o propósito unifi-
com ele (v. comentário de 1.19-23; 2.1-7; cador de Deus para o mundo exatamente
3.9,10,15,16,20; 4.8; 6.10-17). na igreja. O desafio para um protestantis-
Um grupo de estudiosos crê que mo fragmentado e cada vez mais dividido
Efésios distorce a tensão genuinamente hoje dificilmente poderia ser mais agudo:
paulina entre o que vamos receber e ser Efésios nos chama a construir pontes, e
quando a nova época ou nova criação vier não campos minados. Também é um de-
a existir e o que já experimentamos disso safio para os que promovem igrejas se-
em Cristo. Efésios, assim dizem, contém paradas para negros e brancos, igrejas
muito pouco da salvação futura, dando a segregadas em igrejas de ricos, de clas-
impressão de que supõe que ela já esta se média e de classe operária etc. Esses
quase totalmente realizada em Cristo. O grupos homogêneos podem até se enten-
fato é, contudo, que as ênfases de Paulo der melhor, mas como poderão refletir
diferem de acordo com o contexto. Aos o evangelho da reconciliação? Efésios
coríntios, exageradamente confiantes, ele desafia a todos nós a encontrarmos me-
destacou o "ainda não"; aos gálatas, que lhores maneiras de fazer de nossas igre-
estavam ponderando se deviam abraçar a jas locais verdadeiras comunidades de
lei para garantir a salvação, ele destacou pessoas cuja vida e adoração como igreja
o "já". Colossenses e Efésios ambas res- testemunhem da unidade cósmica inicia-
saltam o "já" para encorajar crentes que da em Cristo, e estejam profundamente
estão propensos a temer os poderes espi- imbuídas dessa presença.
rituais do universo. Se eles já estão salvos Veja também o artigo "Lendo as
desses poderes, é no sentido limitado de cartas".
que já foram unidos com o Cristo vitorio-
so nos lugares celestiais, e assim foram Leitura adicional
levados definitivamente para debaixo da STOTT,1. R. W. A mensagem de Efésios.
influência dele (2.1-9). Os crentes estão BFH. ABU, 2001.
livres agora para contra-atacar, e podem FOULKES, F. Efésios: introdução e comentá-
fazê-lo de uma posição sólida. A bata- rio. SCB. Vida Nova, 1983.
lha, contudo, ainda não acabou (6.10-20) MARTIN, R. P. Ephesians. BBC. Broadman,
mesmo que o resultado já esteja garantido 1971.
pela nossa união com Cristo (cf CI 3.1- CAIRD, G. B. Paul s letters from prison.
4). O presente é a era má (6.12,13,16), e a Oxford University Press, 1976.
nossa real redenção está no futuro (4.30; LINCOLN, A. Ephesians. WBC. Word, 1990.
EFÉSIOS 1 1840

ESBOÇO
1.1,2 Autor, receptores e saudação
1.3-3.21 Ações de graças e oração de Paulo
1.3-14 Celebração do plano eterno de Deus
1.15-2.10 Começa o relato de Paulo das suas ações de graças
e oração pelos seus leitores
2.11-22 Digressão: A igreja, reconciliação e unidade cósmicas:
O novo templo
3.1 Continua o relato de oração
3.2-13 Digressão: Elaboração do ministério apostólico de Paulo
3.14-21 O relato de oração de Paulo é concluído; doxologia

4.1-6.20 Encorajamento para que se viva o evangelho da reconciliação cósmica


e a unidade em Cristo ~--c-~~--c-~~~- .-... ----------.~.---

4.1-6 Apelo inicial para uma vida que exponha a harmonia


da nova criação
4.7-16 Os dons da vitória de Cristo e o crescimento
para Cristo
4.17-6.9 Apelos para que se abandone a antiga humanidade
e se viva de acordo com a nova criação
6.10-20 Apelo final: Lutem a batalha espiritual juntos!

6.21-24 Pós-escrito

COM 1.3-14 Celebração do plano


eterno de Deus
1.1,2 Autor, receptores Paulo abre o corpo da carta com um tributo
e saudação a Deus (como em 2Co 1.3,4 cf IPe 1.3-5).
Esse início segue basicamente a forma de Esse parágrafo de alegre celebração (que,
saudações e tratamento de outras cartas no grego, consiste em um longo período)
paulinas. As palavras em Éfeso não apare- não é caracterizado nem pela métrica dos
cem nos nossos manuscritos mais antigos, hinos gregos, nem pelo paralelismo linha
mas a construção gramatical deixada suge- por linha dos salmos judaicos, mas é uma
re que mesmo esses manuscritos mais anti- composição de seis seções cuidadosamen-
gos continham dois nomes de lugar. A. Van te estruturada. É mais bem compreendida
Roon sugere que a formulação era: "aos como uma oração imponente, ou um cha-
santos em Hierápolis e Laodiceia, que são mado à adoração, designada a elevar os
fiéis a Cristo Jesus", mas Éfeso e Laodiceia olhos dos leitores para longe de si mesmos
(os dois extremos da viagem que Tíquico e dos seus temores, para a majestade e o
teria feito) mais facilmente explicariam amor de Deus revelados no seu plano em
como a carta veio a ser conhecida como desenvolvimento e para o privilégio de par-
Efésios. (Y. a Introdução). ticipar dele. O conteúdo (como nas ações
de graças introdutórias de Paulo em outras
1.3-3.21 Ações de graças cartas) é propositadamente selecionado
e oração de Paulo para introduzir os tópicos principais da
1841 EFÉSIOS 1

carta; essa seção é, portanto, a chave para a citamente convida os seus leitores a fazer
compreensão da carta como um todo. o mesmo. Em seguida, Paulo identifica a
Como em orações judaicas semelhan- Deus como o Pai de nosso Senhor Jesus
tes, esse tributo começa ao declarar Deus Cristo, pois foi precisamente no Filho (e
digno de bênção (Bendito, 3a), e aí segue no evangelho do que o Pai realizou por
uma descrição que o amplia e justifica. meio dele) que os leitores vieram a verda-
Essa descrição se divide em seis seções deiramente conhecer a Deus, e começaram
(3b,4; 5,6; 7,8; 9,10; 11,12; 13,14), mas a reconhecê-lo como digno de bênção.
não são de igual proeminência. O grego de A primeira razão para aplaudir a Deus
Paulo destaca três expressões particulares como "digno de bênção" é que ele tão ri-
como centrais para a composição. Ele diz camente nos tem abençoado (3b). Paulo
que Deus nos tem abençoado com toda a está consciente, sem dúvida, de que nem
sorte de bênção espiritual (3b); nos pre- ele nem seus leitores já experimentaram no
destinou para ele, para a adoção defilhos presente todas as bênçãos espirituais, e por
(5) e [desvendou-nos] o mistério da sua isso acrescenta a sua qualificação. Temos
vontade (9). recebido essas bênçãos somente nas regiões
As seções elaboradas em tomo dessas celestiais e em Cristo. Ou seja, as bênçãos
expressões (3b,4; 5,6 e 9,10) na verdade da época por vir (cf 1.21), ou o Reino de
fornecem o cerne do que Paulo está dizen- Deus, foram definitivamente conferidas a
do. Em cada caso o foco está na ação do Cristo que reina à direita de Deus ("nos
Pai (i.e., ele é o sujeito do verbo), e o ponto lugares celestiais", 1.20,21), e assim es-
é que Deus deve ser visto como digno de tão garantidas para nós, o seu povo, por
louvor precisamente porque ele realizou intermédio dele. Além disso, por estarmos
as ações referidas. Nas outras três seções, unidos com ele (cf 2.6), já começamos a
Deus não é o sujeito das ações, antes o participar de algumas dessas bênçãos es-
foco está naquilo que "nós" (todos os cris- peradas (veremos quais e como, na medida
tãos) recebemos no Filho (em Cristo, 7,8; em que prosseguirmos com a carta).
11,12), ou naquilo que os leitores começa- Essa bênção essencialmente futura,
ram a experimentar por meio do Espírito que já começamos a experimentar em
(13,14; observe a mudança para vós) como Cristo, é assegurada também com base
consequência da ação de Deus. na eleição divina (4). Já antes da criação
A concentração nos tempos verbais no Deus escolheu um povo (em Cristo) que
passado têm enganado muitos intérpretes estivesse perante ele santo e irrepreensí-
a ponto de pensarem que em Efésios a vel em amor. Observe que a ideia aqui não
salvação é vista como já completa. Como é primariamente a eleição de indivíduos
veremos, no entanto, seria verdadeiro di- para a igreja (embora isso possa estar
zer que Paulo celebra o fato de que a sal- implícito), para que sejam santos e irre-
vação futura já começou e está garantida preensiveis (como em Fp 2.15). A ideia
em Cristo. principal é antes que Deus na eternidade
3,4 As palavras iniciais (gr. lit. "aben- escolheu um povo em Cristo (nos, i.e., a
çoado") também podem ser traduzidas por igreja), para estarmos perante ele santos
"digno de bênção", ou, como na maioria e irrepreensíveis no juízo final (como em
das versões em português: Bendito o Deus Cl 1.22, que Paulo tem em mente aqui),
e Pai (cf NTLH: "Agradeçamos ao Deus e assim entrarmos nas plenas bênçãos da
e Pai "), e o que segue são as razões para era messiânica, e na nova criação.
pronunciá-lo "digno de bênção". Paulo, 5,6 Essa seção explora ainda mais o
no entanto, não está argumentando; ele pensamento do v. 4. Centralmente, lem-
está começando a exaltar a Deus e impli- bra-nos de que o prazer e a vontade eletiva
EFÉSIOS 1 1842

de Deus para o seu povo são a nossa ple- futura que já experimentamos agora, mas
na adoção futura como filhos, por meio de porque está na raiz das outras. Enquanto
Jesus Cristo (5). Paulo cria que em certo não se tratar do pecado, a humanidade
sentido os cristãos já desfrutam da "filia- está alienada de Deus e de seus benefícios
ção" de Deus, a obediência filial amorosa (cf 2.1-3,11-22; 4.17-19; 5.8-14). Aliás,
inspirada pelo Espírito (cf Rm 8.14,15; Paulo esclarece que a dádiva do perdão é
Gl 4.6). Ele enxergava isso, contudo, prin- acompanhada também pelas da sabedoria
cipalmente como uma primeira parcela ou e da prudência espirituais, que estão no
um antegosto de um tipo muito mais pleno cerne da nossa caminhada com Deus como
de adoção de filhos. Assim ele diz que a Pai (e por cujo aprofundamento ele ora em
criação espera pela revelação dos filhos de 1.15-23; 3.14-19).
Deus (Rm 8.19), e nós ainda "gememos 9,10 Essa seção volta à confirmação do
em nosso íntimo, aguardando a adoção de que Deus fez, e, assim, por que ele é "dig-
filhos" (Rm 8.23), que virá por meio da res- no de bênção", e apresenta o seu clímax.
surreição e da nova criação. Combinando Deus nos tomou conhecido, tanto na com-
isso com Efésios 1.4 e 12-14, provavel- preensão quanto na experiência, o mistério
mente é esta última filiação da "nova cria- que sempre esteve no centro da sua vonta-
ção" que o autor tem em mente aqui. Em de. Em Efésios, "mistério" significa algo
outras palavras, Deus elegeu a igreja para magnífico demais para ser compreendido.
aquela plena e gloriosa filiação a ele que O mistério que Deus nos tomou conhecido
resultará da nossa transformação/ressurrei- é a implicação central do que ele propuse-
ção na/para a semelhança de Jesus (nesse ra em Cristo, ou seja, no seu ministério,
sentido pleno por meio de Jesus Cristo; cf morte e ressurreição/glorificação. É um
lCo 15.42-49; Fp 3.21; Cl 3.4). mistério concernente à plenitude dos tem-
Visto que essa filiação é o resultado da pos que denota primeira e principalmente
generosa vontade de Deus, realizada por os tempos que seguem esta era (o Reino de
meio de Cristo, ela redundará no louvor de Deus, e a nova criação). Mas Paulo crê que
Deus (6a). E visto que já estamos unidos a plenitude dos tempos já é antecipada ali
com Cristo por meio do Espírito, pode-se onde Cristo está entronizado nas regiões
dizer que essa graça, incluindo a filiação, celestiais, e que os crentes compartilham
já foi plenamente conferida a nós, contanto disso com ele. O conteúdo desse mistério é
que qualificada pela afirmação: gratuita- a intenção de Deus de "levar à unidade em
mente no Amado (i.e., Cristo; cf Me 1.11; Cristo o universo, tudo o que há no céu e
9.7; CI1.13). na terra" (assim corretamente a REB; ARA:
7,8 Essa seção subordinada desenvol- fazer convergir nele [...] todas as coisas,
ve o v. 6b. Na nossa união com Cristo, já tanto as do céu, como as da terra; a formu-
participamos dos benefícios da futura re- lação da BJ - "a de em Cristo encabeçar
denção deste mundo do mal, a qual Deus todas as coisas" - está fundamentada em
garantiu pela morte expiatória de Cristo. etimologia insuficiente, embora, à luz dos
(Sangue é uma metáfora bíblica para a v. 20-23, expresse bem como Paulo imagi-
morte sacrificial expiatória [não importa se na que Deus irá atingir tal unidade). Acerca
a morte foi em virtude da perda de sangue do significado teológico dessa unidade e da
ou não; cf. Jo 1.14] porque originariamente sua importância fundamental para a carta,
era o sangue de animais sacrificiais que era ver a Introdução. Essencialmente, então,
de fato oferecido). O benefício particular o aspecto de Deus ser digno de bênção é
que Paulo escolhe mencionar aqui (como afirmado com base no fato de que ele nos
em Cl 1.14) é a remissão dos pecados- mostrou em Cristo e na igreja o início do
não porque essa é a única parte da bênção seu plano mestre de trazer de volta para
1843 EFÉSIOS 1

si o cosmo e de restaurar a harmonia per- minação para perceber as implicações do


dida por meio da rebelião e consequente evangelho (1.17-20; cf. 3.5); receber for-
alienação. talecimento interior no evangelho (3.16;
11,12 Como a seção seguinte, estes ver- cf. 6.17); acesso à presença de Deus e de
sículos deixam de focalizar na atividade de Cristo e a presença divina habitando neles
Deus e (como os v. 7,8) exploram a nossa (2.18,22; 3.16,17); o início da prometida
participação em tudo isso em Cristo. Eles unidade cósmica (4.3,4); inspiração para
repetem, em parte, a garantia de que pela a vida piedosa e a adoração agradecida
união com Cristo somos predestinados a (4.30; 5.18-20) e ajuda em oração (6.18).
nos tomar troféus da graça de Deus, que Todas essas atividades marcam os crentes
evocam o louvor da criação a Deus (cf 6a). como povo de Deus e são indispensáveis
Essa ênfase na pré-ordenação não ofusca para a existência cristã contínua. O selo do
a real escolha e responsabilidade huma- Espírito não é um tipo de segunda bênção
na, mas nos assegura do poder soberano - a expressão tendo nele também crido
e abrangente de Deus e do seu propósito (13b) significa de fato: "quando vocês cre-
diretivo em ação no crente (v. Carson). A ram", ou "assim que depositaram a sua fé
ênfase teria sido especialmente apropriada nele [no evangelho]". Essas atividades do
para os leitores da região de Éfeso, que es- Espírito prefiguram em tipo e qualidade o
tavam particularmente propensos a temer que ele fará de forma mais plena na nova
a influência decisiva de outros poderes criação, e assim o Espírito com que Deus
(v. Arnold). nos marca com seu selo de propriedade
A maioria das versões e comentaristas é também adequadamente chamado de
entendem que o v. 12 está distinguindo o penhor, "garantia" (NTLH, NVI), ou até de
nós - judeus ou cristãos judeus, os que de "primeira parcela" da nossa herança (cf
antemão esperamos em Cristo - do vós Rm 8.23; 2Co 1.22; 5.5). Mas as bênçãos
(13) - cristãos gentios, que vieram à fé que recebemos agora são somente uma
mais tarde. Mas o "nós" em todo o trecho prefiguração: de acordo com Paulo, ainda
dos vv 3-10 é uma referência a todos os esperamos a nossa herança na redenção fi-
crentes (não só os judeus), e faz a mesma nal e total do mundo por Deus no fim dos
coisa aqui (v. Lincoln). Seria melhor tradu- tempos. Em 4.30, isso é reforçado, lem-
zir o v. 12 assim: "para que nós que primei- brando-nos que somos selados "para o dia
ro [i.e., agora] esperamos em Cristo possa- da redenção" ainda por vir. Aí o propósito
mos então [i.e., no juízo final] ser para o de Deus, iniciado em Cristo, será levado à
louvor da sua glória". consumação, e observar isso do começo ao
13,14 A seção final destaca a participa- fim certamente evocará o louvor da criação
ção dos leitores em tudo isso (daí a mu- pelo Criador.
dança para "vós"). Em Cristo, tendo crido
no evangelho, eles também foram distin- 1.15-2. 10 Começa o relato de
guidos como povo de Deus. (Y., e.g., Ez Paulo das suas ações de graças e
9.4-6 e Ap 7.1-8 acerca da ideia de Deus oração pelos seus leitores
colocar a sua marca de identificação no 1.15-19a Relato de ações de graças. Era
seu povo). O selo usado para distingui- comum que cartas gregas começassem
los não é nada menos do que o prometi- com uma declaração de ações de graças
do dom do Espírito. Como em Atos 2, a aos deuses e promessas de intercessão
promessa em questão é principalmente a contínua. Paulo usava essa forma regular-
de Joel 2.28,29, mas interpretada de uma mente, embora ele a tenha desenvolvido de
forma distintivamente cristã. Por meio maneira distintivamente cristã. A declara-
desse dom, eles receberam sabedoria e ilu- ção de ações de graças em si (15,16), que
EFÉSIOS 1 1844

é apresentada especificamente por aquilo Colossos na declaração de ações de graças


que Deus está fazendo na vida dos leito- nas cartas dirigidas a elas (e ele nos diz que
res e, por isso, tem um foco diferente dos nunca as visitou pessoalmente: Cl 2.1) do
tópicos mais gerais do tributo de louvor, é que mostra aqui.
breve em comparação às suas outras cartas 17-19 Esses três versículos estão con-
(embora Gálatas não tenha nada disso), e centrados no conteúdo da oração de Paulo.
marcantemente destituída de detalhes pes- A oração no v. 17 por um espírito de sa-
soais (cf Cl 1.3,4 e Fm 4,5, segundo as bedoria e de revelação (v. mrg. nvt: "ou
quais é, no mais, modelada). O relato de o Espírito") representa uma forma de falar
oração que segue é, no entanto, surpreen- tipicamente judaica; significa que Paulo
dentemente longo, e mais extensamente está orando para que o Espírito que eles já
entretecido com ensino do que o normal. receberam seja experimentado dando-lhes
Vai no mínimo até o v. 23 (v. 15-23 são essas coisas. Observe que o propósito do
na verdade um longo período composto no pedido não é de informação especial, mas
grego), mais provavelmente até 2.10, e é de percepção e conhecimento mais profun-
retomado novamente em 3.1,14-21. Essas dos do próprio Deus (como ele foi reve-
características incomuns provavelmente lado em Cristo). Sabedoria, iluminação e
devem ser explicadas pelo propósito geral revelação eram de fato os dons típicos que
da carta, e pela intenção de que deveria ser os judeus esperavam do Espírito. O poder
lida para diversas congregações não rela- é mencionado muito mais raramente (cf
cionadas entre si. Êx 31.3; Dt 34.9; Is 11.2; lEnoque 49.3;
A oração regular de Paulo por seus lei- IQS 4.3-5).
tores é, como ele relata, por iluminação A oração do v. 18 é igualmente uma
espiritual, para que conheçam a Deus mais oração por compreensão espiritual: o cora-
profundamente e compreendam a nature- ção aqui é um sinônimo parcial da mente,
za da esperança cristã (17,18) e a natureza vontade e espírito, e significa o centro da
do poder de Deus já operante nos cristãos percepção e das decisões. Embora Paulo
(19a). Este último ele exemplifica de duas seja o autor do NT que mais tenta explicar
maneiras diferentes: diz que está para ser e argumentar a sua teologia em termos de
revelado na ressurreição e na exaltação do compreensão racional, ele claramente reco-
próprio Cristo (19b,23), e é manifestado nhece que isso é só parte da tarefa. O cora-
no fato de nós sermos trazidos da "mor- ção da pessoa não necessita meramente de
te" para a "vida" espiritual em união com mais conceitos teológicos refinados, mas
Cristo (2.1-10). da obra do Espirito integrando esses con-
15,16 A expressão inicial Por isso re- ceitos com a percepção da pessoa e assim
fere-se a 1.14, e, por meio desse versículo, reestruturando a sua vontade e vida. Paulo
a todo o trecho de 1.3-14. Paulo dá gra- ora para que seus leitores sejam capazes de
ças pelos leitores da Ásia romana porque entender (para saberdes) a esperança que
Deus os levou a participar da salvação. Ele está à frente deles nesse sentido mais com-
dá graças brevemente também por aquilo pleto. Se eles realmente captarem que Deus
que ouviu da fé e do amor deles (como em tem a intenção de fazer deles e de todos os
Colossenses e Filemom), indicando que santos uma maravilhosa herança para si
ele vê esses aspectos como frutos da graça mesmo, esse conhecimento ("Pela graça
de Deus. Esses versículos são a evidência dele devo ser um príncipe e não um sapo")
clara de que Paulo não estava escrevendo os transformará com alegria e amor. Israel
principalmente a Éfeso (onde ele ficou por é retratado com frequência no AT como a
até três anos); ele mostra conhecimen- herança de Deus: v., e.g., Deuteronômio
to mars detalhado das congregações de 4.20; Salmos 33.12; Isaías 63.17; Jeremias
1845 EFÉSIOS 1

10.16. Aqui Paulo a aplica à igreja glorifi- ridade e o poder investidos em Jesus estão
cada, e sua oração é que eles entendam a operantes na igreja.
esperança que predomina no seu tributo de As afirmações tanto acerca da ressur-
louvor inicial (1.14,5,6,12). reição de Jesus quanto de sua exaltação
A terceira parte da oração de Paulo à direita de Deus (20) eram tradicionais
(l9a) é que os leitores entendam a natu- na igreja, e a última é formulada na lin-
reza e a intensidade do poder de Deus já guagem de Salmos 110.1 (cf At 2.34-36;
operante neles. Se os crentes olharem sim- Rm 8.34; C13.1 e Hb 1.3,13). Ela fala da
plesmente para o que veem Deus fazen- entronização de Jesus como governante
do na sua própria vida agora, facilmente cósmico que recebe o lugar de honra na
podem subestimar o poder de Deus, ain- esfera celestial (daí nos lugares celestiais).
da mais porque agora é manifestado em Jesus não foi removido da influência ter-
amor cruciforme. Os leitores efésios, por rena pela ascensão; ocorreu exatamente
virem de um ambiente de crenças forte- o contrário: ele foi elevado à posição de
mente mágicas, podem ter achado que influência máxima sobre as questões na
o poder de Diana era mais imponente e terra. Por isso, nenhum outro poder ou
temível do que o de Deus. (A Diana dos potentado, no mundo ou nos céus, seja
Efésios era considerada rainha tanto dos bom ou mau, pode ser comparado a ele; a
poderes celestiais, incluindo os potentes autoridade dele, como o daquele que está
poderes zodiacais, quanto dos deuses do à direita de Deus, está acima de tudo (21).
inferno; v. Arnold.) Isso poderia ter cor- Os primeiros leitores teriam entendido o
roído a sua confiança em Deus e minado ponto: nenhum dos poderes a quem esta-
a sua firmeza em meio ao conflito espi- vam propensos a temer poderia ser com-
ritual em que estavam engajados. Paulo parado a Jesus.
sabia que a proporção espetacular do Enquanto em Salmos 110.1 Deus or-
poder de Deus no seu povo só será com- dena ao Senhor celestial que se assente à
pletamente revelada no final desta criação sua direita "até que eu ponha os teus ini-
(assim 1.5,6,9,10,14), mas ele já podia migos debaixo dos teus pés", o v. 22a aqui
mostrar aos seus leitores para onde olhar insiste em que Deus já pôs todas as coisas
na presente época para vê-lo manifestado debaixo dos pés de Jesus. Isso não é deixar
(1.19b-2.10). de ser realista acerca da continuação do
19b-23 O poder salvador de Deus mal, mas é uma mudança da linguagem de
revelado na ressurreição/exaltação de Salmos I JO para a de Salmos 8.6. (Paulo
Cristo. Visto que ele é o Homem verdadei- faz o mesmo em lCo 15.25-27). Jesus é
ramente representativo, a sua ressurreição com isso retratado como o segundo Adão
e glorificação são um retrato do que Deus que recebe a tarefa de exercer o domínio
vai realizar em nós (cf lCo 15.45-49; sobre o cosmo. Como tal, ele é o cabeça
Fp 3.21). Certamente há uma diferença: a sobre todas as coisas (22b), ou seja, o go-
autoridade investida em Jesus por meio da vernante ou senhor, um significado de "ca-
sua exaltação é singular, mesmo que haja beça" bem atestado no grego bíblico e em
um sentido que nós compartilhamos dela outros textos. O essencial do que segue no
(cf 2.6). Mas é exatamente essa diferença v. 22b é então mais bem formulado pela
que conduz Paulo a mais uma forma de as- NVI: Deus "o designou cabeça de todas as
segurar os efésios do poder de Deus neles, coisas para a igreja". Paulo dificilmente
pois ele conclui dizendo que o Jesus que poderia ter feito um retrato mais comoven-
recebeu todo o poder foi dado por Deus à te do poder operante na igreja, mas, para
igreja, a qual ele completa (22,23). Isso reforçá-lo ainda mais, ele descreve a igreja
sem dúvida significa que a completa auto- de duas maneiras distintas. .
EFÉSIOS 2 1846

Em primeiro lugar, ele chama a igreja ressurreiçao do representante, o Homem


de corpo de Cristo (23a). Em 1Coríntios, Jesus, e a dádiva que Deus deu por meio
a igreja como "corpo" de Cristo inclui dele como governante exaltado do cosmo
seus próprios ouvidos, olhos e cabeça à igreja. Aqui ele quer chamar a atenção
(lCo 12.16-21) ~ é um corpo inteiro que para o mesmo poder de Deus, mas agora
pertence a Cristo e está intimamente unido na medida em que é revelado no fato de
com ele (lCo 6.15; 12.12). Esse provavel- Deus nos levar da morte para a vida. Ele
mente também é o significado aqui, e não começa o v. I (no grego) com o conectivo
que a igreja é simplesmente um torso sem direto "e" (omitido na maioria das versões;
cabeça, do qual Jesus mesmo é a cabeça; mas a ARe começa o versículo com "E"),
pois o v. 22 descreve Jesus como cabeça e pode parecer que ele tinha em mente es-
do cosmo, não da igreja, e usa "cabeça" crever: "E vós, estando mortos em vossas
com o sentido de "governante", e não de transgressões e pecados, ele vos vivificou
uma parte anatômica. Mas o fato de des- em Cristo..." (em paralelo com CI2.12,13;
crever a igreja como seu "corpo" logo de- 3.1,2). No entanto, foi desviado dessa afir-
pois de descrever a Jesus como "cabeça" mação clara e franca pela necessidade de
quase inevitavelmente realça ao menos a explicar a expressão: estando vós mortos
conotação da união entre eles (cf 4.16; nos vossos delitos. E depois de expor um
5.23,28 e o mais marcante: "Ele é a cabeça quadro desanimador da posição antiga dos
do corpo, da igreja" em CI 1.18). leitores (2), ele precisava deixar claro no
O v. 23 prossegue e descreve Jesus v. 3 que não eram só eles (vós), mas todos
como aquele que a tudo enche em todas as (nós) estávamos na situação desoladora
coisas (cf 4.10). "Encher" é uma metáfora da qual Deus de forma misericordiosa nos
para "tomar-se presente a, e ativo em" ou resgatou. Finalmente nos v. 5,6, Paulo re-
"estender influência, ou governo, sobre". toma o ponto em que tinha começado, mas
Como "cabeça" sobre todas as coisas, agora na primeira pessoa do plural: estan-
Jesus as "enche"; ele assim começa a cum- do nós mortos em nossos delitos, nos deu
prir o mistério mencionado nos v. 9,10, ele vida juntamente com Cristo .... Aqui está a
começa a tarefa de sujeitar a rebelião e de revelação adicional do poder de Deus na
atrair todas as coisas à unidade e harmonia igreja que Paulo pede em oração seja com-
em si mesmo. Mas, diz Paulo, é suprema- preendida pelos seus leitores, pois certa-
mente a igreja que é a plenitude dele (i.e., mente dará significado à vida deles, alegria
a coisa que ele enche) ~ e ele vai explicar ao coração, adoração grata aos seus lábios
isso em mais detalhes em 2.1-22. e força para a sua luta.
Em resumo, Paulo ora para que os seus 1-3 Estando vós mortos nos vossos
leitores compreendam que o poder operan- delitos é novamente uma forma judaica
te na igreja é a presença do mesmo poder de falar; sua intensidade é adequadamen-
que vai gerar a nova criação, um novo uni- te ilustrada por um midrash (comentário
verso em harmonia total, unido sob Cristo. judaico) de Eclesiastes 9.5 que fala dos
Na sua união com Cristo, a igreja já rece- "maus que sabem que mesmo durante o
beu um ante gosto daquele final. seu tempo de vida são chamados de mor-
2.1-10 O poder salvador de Deus tos". Aqueles que estão presos nos peca-
revelado na salvação da igreja. É in- dos estão condenados à morte, e assim já
feliz e inadequada a divisão de capítulos pertencem ao domínio dela; exatamente
feita aqui, porque há boas razões para se aquilo que eles pensam que é "vida" não
crer que esta seção forma um parágrafo é nada mais do que um antegosto da mor-
com 1.15-23. Ali Paulo explicou o po- te, porque Deus não está nisso (cf Jo 5.24;
der de Deus na igreja como revelado na 1103.15 e 1QH 11.10-14). Enquanto Paulo
1847 EFÉSIOS 2

em outros textos ensina que esse estado de deu vida (a palavra usada no original
coisas é resultado do pecado, esse não é o normalmente denota ressurreição) jun-
ponto aqui; antes, o estado nos vossos de- tamente com Cristo parece uma forma
litos e pecados é o que caracterizou a sua abreviada de dizer: "Nós seremos ressus-
existência antiga. Essas coisas eram o fruto citados com Cristo para uma vida de nova
corrupto da "morte" deles. No v. 2, Paulo criação, e podemos falar disso como se já
atribui essa vida marcada pelos pecados fosse um evento concretizado porque, pri-
principalmente a dois fatores relacionados meiro, o evento decisivo da ressurreição
- a influência deste mundo (i.e., a criação do representante, o Homem Jesus, está
presente e caída e as forças que ela gera no passado, e, segundo, já começamos a
na sociedade, que está em rebelião contra participar em alguns aspectos dessa vida
Deus e em contraste com a "nova época" de nova criação na nossa presente união
ou "nova criação" esperada), e a influência com ele".
de Satanás, descrito aqui como príncipe da O mesmo deve ser dito acerca do
potestade do ar. O aer denotava os céus v. 6, que fala de termos sido exaltados e
inferiores, mais próximos da terra, e mui- assentados com Cristo nos lugares celes-
tos pensavam que era a habitação dos seres tiais (i.e., com Cristo, no seu trono, à di-
espirituais malignos. A ideia de Satanás reita de Deus; o v. 6 é modelado segundo
como o que agora atua nos filhos da de- 1.20). Embora Paulo ensine que os crentes
sobediência é encontrada também na lite- estarão envolvidos no juízo e no gover-
ratura judaica. Por exemplo, na Ascensão no da nova criação (v., e.g., 1Co 6.2; cf
de Isaías se diz que ele "se alegrou em Ap 3.21), ele insiste com igual firmeza em
Jerusalém por causa de Manassés e o forta- que ainda não estamos lá (l Co 4.8). Esses
leceu na sua liderança para a apostasia e na versículos na sua essência não estão dizen-
injustiça que se espalhou em Jerusalém" do coisas muito diferentes.
(2.2-4; cf 2Rs 21; 2Cr 33). Tudo isso pode- Diversos comentaristas têm frisado
ria soar como um determinismo para o mal que aqui Efésios se afasta do verdadeiro
pelo qual não somos responsáveis, mas o Paulo, ensinando que a salvação é com-
v. 3 coloca a culpa de forma igual e ade- pleta, a batalha acabou e que os crentes já
quada sobre a nossa natureza rebelde com governam nos lugares celestiais. O autor
seus desejos e pensamentos corrompidos. (geralmente considerado um discípulo de
Tudo isso fez de nós o que Paulo chama de Paulo) é então acusado de ser triunfalista.
filhos da ira; ou seja, os que estão conde- Mas isso deixa de levar a sério a ênfase na
nados a sofrer a santa ira de Deus dirigida esperança em 1.3-23; e minimiza 4.20-
contra o pecado. 5.15; 6.10-18 e especialmente 6.12, que
4-7 O que Deus no seu amor e mise- certamente retratam a presente experiên-
ricórdia de fato fez por nós, então, chega cia cristã como estando em conflito com o
como um forte e surpreendente contraste padrão da nossa antiga humanidade peca-
à condenação vislumbrada no v. 3, e reve- minosa e com os poderes desta era. Os v.
la de forma tão dramática a natureza do 5,6 fazem mais sentido quando compreen-
poder de Deus operante em nós. O v. 5 o didos como apontando para o futuro: o
retrata como o poder da ressurreição que que eles dizem agora só é completamente
nos transfere da "morte" para a "vida". verdadeiro em Cristo, mas se pode afir-
Isso poderia ser compreendido simples- mar acerca de nós no sentido secundá-
mente como uma metáfora de um rela- rio que ele é o nosso representante, que
cionamento restaurado (como Lc 15.32), ele é determinante para o nosso futuro,
mas provavelmente significa mais do que e que nós estamos unidos com ele ago-
isso. Dizer que fomos vivificados - nos ra pelo Espírito. De forma semelhante,
EFÉSIOS 2 1848

o tempo verbal perfeito de pela graça 2. 11-22 Digressão: A igreja,


sois [lit. fostes] salvos no v. 5 (também reconciliação e unidade cósmicas:
no v. 8), não quer dizer que o autor pensa O novo templo
que a nossa salvação já esteja completa, Paulo interrompe aqui o relato de sua ora-
mas que a nossa completa salvação já foi ção para os seus leitores e, portanto, em
garantida e revelada em Cristo, e está a termos formais, os v. 11-22 são uma di-
caminho para nós: começamos de fato a gressão. Em outro sentido, contudo, são
experimentar a transferência do domínio o cerne teológico da carta; pois as verda-
da morte para o domínio da ressurreição e des contidas nesse trecho fundamentam e
vida. Esses versículos devem sercompreen- explicam o hino de louvor e a oração de
didos como uma elucidação mais ampla Paulo, e reforçam a sua mensagem. Se
do tipo de afirmação que Paulo faz em Efésios é a coroa dos escritos teológicos
Colossenses 1.13; 3.1-4. O v. 7 (fazendo de Paulo, 2.11-22 talvez seja a joia central;
eco a 1.6,7,18,21) mostra que é o futuro mas como uma pérola belamente lapidada,
que vai desvendar a salvação e a graça co- ela contém profundidade e sutileza que
nhecidas agora somente à fé. não são facilmente resumidas.
8-10 Esse resumo ecoa parcialmente Estruturalmente, a seção é totalmente
a linguagem dos debates em Gálatas e dominada pelo contraste então/agora (que
Romanos acerca da justificação pela fé amplia o contraste semelhante anterior nos
sem o compromisso com a lei mosaica. v. 1-7). Começa nos v. 11-13, que ressal-
O ponto que Paulo está destacando aqui, tam principalmente o elemento "então"
contudo, é bem diferente, mesmo que (observe o outrora do v. 11, o naquele tem-
complementar. Ele diz que a salvação po do v. 12 e o contrastante Mas, agora,
que já experimentamos, na nossa transfe- em Cristo Jesus do v. 13), e é retomado
rência da "morte" para a "vida" em união nos v. 19-22 que destacam principalmente
com Jesus, é uma manifestação dramática o "agora". Os v. 14-16 (com os v. 17,18
do poder generoso de Deus, precisamente fazendo a recapitulação) fornecem a peça
porque é derivado totalmente dele. Não central e a transição, e assim dividem todo
é o produto das nossas obras, nem a re- o trecho dos v. 11-22 em três partes.
compensa por elas; é o dom de Deus à fé. O contraste então/agora de Paulo é ex-
(O grego usado por Paulo aqui não sugere presso principalmente em termos do gran-
que ele esteja dizendo que a fé também é de tema da alienação passada (12,19), da
puramente a graça de Deus, embora isso exclusão de então (13) ou hostilidade (16)
possa ser deduzido de outras considera- e da presente reconciliação (16), unidade
ções.) Isso não quer dizer, Paulo esclare- (15,16) ou paz (17). Em resumo, o trecho
ce rapidamente, que as obras não sejam nos conta como Deus começou a reconci-
importantes. Mas a nossa vida antiga com liação cósmica que era o seu plano eterno
suas obras só contribuía para piorar a (1.9, IO). Há duas dimensões importantes
situação difícil da qual precisávamos ser nisso. Os v. 11-15 focalizam primariamen-
libertos. Em contraste com isso, o v. lO te em como a grande barreira entre judeus e
desenvolve a nossa salvação em termos da gentios foi removida em Cristo, e como os
nova criação de Deus para nós em Cristo gentios foram unidos com o Israel que crê.
(cf 2Co 3-5; 5.17; GI 6.15). Assim, Poderíamos chamar isso de "reconciliação
com Jesus somos os primeiros frutos da horizontal". Os v. 16-22, no entanto, têm
nova criação e fomos feitos tais para que uma ênfase diferente; eles explicam como
de fato sejamos capazes de realizar obras tanto judeus quanto gentios são reconci-
verdadeiramente boas. Isso será explica- liados com Deus (16,17), como obtiveram
do amplamente em 4.17-6.20. acesso a ele (18) e foram transformados
1849 EFÉSIOS 2

no santuário celestial habitado por ele los, os leitores podiam não ter tido parte al-
(19-22). Vamos chamar isso de "reconcilia- guma em Cristo, pois o Messias é primeira
ção vertical". Observaremos atentamente e principalmente o rei de Israel (Rm 9.5).
nos comentários mais detalhados de cada Eles estavam alienados da comunidade de
seção como essas duas estão relacionadas Israel ~ o povo de Deus que recebe a sua
(e como são realizadas). bênção. A expressão comunidade escolhi-
11-13 A primeira seção convida os lei- da por Paulo (assim também NVI; contra o
tores predominantemente gentios-cristãos menos provável "cidadania em Israel", BJ)
a lembrar a sua situação anterior como de sugere que ele não está pensando aqui na
excluídos do povo de Deus. Eles eram nação de Israel, mas mais particularmen-
então o que muitos judeus chamariam de te nos judeus fiéis vistos como vivendo
"incircuncisão". A circuncisão era o selo uma teocracia. A exclusão dos gentios da
da aliança com Israel, e, portanto, o que comunidade do povo de Deus significa-
distinguia os judeus do restante do mun- va que eles não tinham parte nas alianças
do. Assim, o judaísmo podia referir-se a que prometiam a salvação messiânica. (A
si mesmo como circuncisos (ou a circun- linguagem aqui ecoa fortemente Rm 9.4.)
cisão), significando "o povo da aliança "Esperanças" e "deuses" eles podem ter
com Deus", e rejeitar o restante do mun- tido em profusão, mas esses teriam se tor-
do, que estava fora da aliança, como "a nado vazios, pois os gentios estavam sem o
incircuncisão", O ponto não era que so- verdadeiro Deus e a esperança que ele dá, e
mente os judeus praticavam esse pequeno que agora estava começando a cumprir.
procedimento cirúrgico (outros semitas Agora, em Cristo (13), a situação deles
também o praticavam), mas somente eles mudou dramaticamente, e Paulo escolhe
o praticavam como rito de entrada na uma metáfora bíblica comum para ex-
aliança mosaica. pressar o contraste. As imagens de longe
Paulo começa a sua descrição da an- e "próximo" (fostes aproximados) têm sua
tiga posição dos gentios usando a lingua- origem em Isaías 57.19, e elas dominam
gem que qualquer judeu poderia usar para a descrição de Paulo até os v. 17,18 (em
apontar para a sua posição "de fora". Está que ele de fato usa a formulação de Isaías).
igualmente claro, contudo, que Paulo não No v. 13, contudo, ele usa a linguagem que
está realmente satisfeito com essa forma de certa forma reflete mais proximamente
de expressar as coisas, e sente a necessida- um uso especial dessa imagem no judaísmo
de de qualificá-la ao esclarecer que judeus contemporâneo. O verbo "aproximar" tinha
são somente os que se chamam circunci- se tomado um termo técnico para fazer do
são. Para Paulo, a deles é uma circunci- não judeu um prosélito, e assim acrescen-
são realizada meramente pelos homens, tá-lo à congregação de Israel. Isso tomava
porque, para ele, a circuncisão deles com a pessoa referida "próxima" em dois sen-
frequência não é nada mais que um ato ci- tidos, ambos atestados no judaísmo. Essa
rúrgico exterior, e o relacionamento com pessoa se tomava "próxima" do restante
Deus que deveria representar não se tomou do povo de Deus e "próxima" do Deus de
uma realidade interior realizada por Deus. quem o povo estava "próximo". Eles ti-
Para Paulo, é na família da fé que o relacio- nham acesso ao templo (o lugar especial
namento com Deus de fato cumpre o que da presença divina) e ao Deus que estava
significa a circuncisão (v. Rm 2.28,29), e presente de forma mais geral entre o seu
isso é profundamente verdadeiro para os povo. Como veremos, Paulo está pensando
cristãos (Fp 3.3; Cl 2.11). em um povo de Deus transformado e num
Paulo retoma ao seu ponto principal no templo celestial, mas fora isso as suas ima-
v. 12. Antigamente, como gentios incrédu- gens no v. 13 são semelhantes.
EFÉSIOS 2 1850

Os v. 14-18 nos levam ao âmago da Paulo é contra a lei deve ficar claro com
compreensão paulina do evangelho da re- base no restante da carta (e observe o uso
conciliação. Ele começa os v. 14,15 com a específico da Torá em 5.31-6.3). Antes, o
dimensão horizontal. Primeiro o texto diz bom propósito a que a lei mosaica serviu,
que Jesus é a nossa paz no sentido de que ao preservar Israel da influência pecamino-
ele uniu as duas grandes divisões da huma- sa das outras nações, deu lugar ao propósi-
nidade (a incircuncisão e a circuncisão) em to ainda mais elevado afirmado no v. 15 e
uma. Ele (em princípio!) destruiu a inimi- que reflete o plano eterno de Deus (1.9,10).
zade entre judeus e gentios, ao remover a Deus desejou criar uma nova humanidade
parede da separação, que inevitavelmen- a partir dos judeus e dos gentios. Acerca
te se tomara razão para mútua suspeição da centralidade disso na teologia de Paulo
e animosidade. A barreira em questão era ver, e.g., 1Coríntios 12.13; Gálatas 3.28 e
a lei mosaica com o seu detalhado código Colossenses 3.11.
de santidade, que tomava praticamente im- O v. 16 agora volta a atenção à dimen-
possível ao judeu fiel viver em proximida- são vertical. Até aqui quase poderíamos ter
de com os gentios. a impressão (refletida na compreensão que
Com relação a essas regulamentações, Marcus Barth tem de todo esse trecho) de
a Carta de Aristeias (c. 100 a.c.) afirma: que o evento de Cristo deixa a posição do
"O legislador [Moisés] nos cercou com povo de Israel fundamentalmente inaltera-
paliçadas não quebradas e muros de ferro da: os gentios são simplesmente acrescen-
para evitar que nos misturássemos com tados a ele, e assim abençoados com ele.
qualquer dos outros povos de qualquer Contudo, esse não é o ponto de Paulo, pois
maneira, sendo assim guardados puros em em seguida ele afirma que o um só corpo
corpo e alma [...] adorando o único Deus assim criado a partir de judeus e gentios foi
todo-poderoso" (139), ou, ainda: "E assim, reconciliado com Deus na cruz. Isso pres-
para que não fôssemos profanados por supõe que Israel também sofreu uma alie-
ninguém nem infectados com perversões nação de Deus por meio do pecado (cf 2.3)
ao nos associarmos com pessoas indignas, que precisava ser vencida na cruz; e que ele
ele nos limitou e cercou por todos os lados somente experimenta essa reconciliação na
com purificações prescritas em questões de medida em que participa de sua nova hu-
comida e bebida e tato e audição e visão" manidade, o um só corpo de Cristo, a igre-
(149). A barreira literal no próprio templo ja constituída de crentes judeus e gentios.
que impedia os gentios, sob pena de morte, Sem dúvida, o fraseado de Paulo não deve
de entrar no pátio interno onde Israel ado- ser forçado a significar que a igreja uni-
rava era meramente a expressão exterior versal de judeus e gentios foi criada pri-
das exigências mosaicas. meiro, e somente depois reconciliada com
A inimizade que a lei mosaica gerou en- Deus na cruz. O seu ponto, antes, é que
tre a humanidade pecaminosa, assim nos é Jesus na cruz se apresentou como repre-
dito, foi destruída na sua carne (15) - uma sentante não somente da humanidade dos
referência à morte de Cristo na cruz que judeus, mas também da humanidade dos
Colossenses retrata como o "despojamento gentios, como o último Adão (Rm 5.12-
do corpo da carne" (CI 1.22; 2.11,12; cf v. 21; 1Co 15.45; Fp 2.5-11). Na primeira
16). A inimizade foi destruída quando a lei ocasião, foi singularmente em si mesmo
mosaica, como uma unidade e uma aliança (15) que ele fez um novo homem de dois;
indivisível com Israel, foi transcendida e e subsequentemente é somente pela união
substituída pelas condições da nova cria- com ele em um corpo que a reconcilia-
ção e da aliança correspondente em Cristo ção cósmica é experimentada. Isso signi-
(cf 2Co 3.3-18). Que isso não significa que fica que, para Paulo, a igreja realmente é
1851 EFÉSIOS 2

uma terceira entidade - nem judaica nem Expiação. Israel esperava a certa distân-
gentílica, mas uma nova humanidade. cia, e os gentios, atrás dos judeus, ainda
Por trás da linguagem de criar uma nova mais distantes. Mas pela morte e ressur-
humanidade está a esperança judaica de reição de Cristo, ambos agora têm aces-
que no final Deus recriaria um mundo ain- so imediato a Deus por meio do dom do
da mais maravilhoso do que a sua primeira Espírito Santo que traz a presença cons-
criação antes da queda. Como parte disso, ciente de Deus ao indivíduo.
o povo de Deus seria transformado e rece- Em tudo isso, Paulo não diz explicita-
beria corpos ressurretos para corresponder mente como a cruz efetua a reconciliação
ao mundo em que iria viver, e assim ser um entre a humanidade e Deus. O uso da pala-
novo tipo de humanidade vivendo em total vra sugere uma alienação ou inimizade em
harmonia com Deus e uns com os outros. ambos os lados que é curada. Do lado da
Para Paulo, exatamente isso começou pela humanidade, a hostilidade a Deus é causada
ressurreição de Cristo, que é o padrão para pela nossa reação rebelde à reivindicação
a nossa (v. Rm 8; lCo 15.45-49; 2Co 3-5; amorosa dele pelo direito à nossa obediên-
Gl 6.15; Fp 3.21). Mas observe que tudo cia filial. Do lado de Deus, também pode-
isso é verdadeiro somente nele, em Cristo; mos falar de um elemento de alienação da
é somente a igreja em união com Cristo que humanidade; ou seja, a sua ira amorosa e
de fato começa a experimentar essa unida- santa contra o nosso pecado (2.3; 4.17,18;
de cósmica. 5.3-6). É o segundo aspecto que Paulo crê
Os v. 17,18 recapitulam o ponto em ter- o tempo todo, como aqui, que seja o nosso
mos de uma citação modificada de Isaías problema mais crucial e que foi resolvido
57.19 e mais uma explicação. As palavras na cruz (i.e., antes que qualquer um de nós
E, vindo, evangelizou paz não são refe- cresse e se apropriasse dessa reconciliação
rência nem à encarnação e ministério de oferecida). É por isso que ele destaca cons-
Jesus nem ao Cristo exaltado por meio tantemente a rica misericórdia (4) e graça
do ensino apostólico, mas são mais facil- (1.2,6,7 etc.) de Deus. Ele nos conta, sim,
mente compreendidas como um resumo como Deus realizou isso - ele só não afir-
dos v. 14-16: elas se referem então espe- ma que foi pela expiação substitutiva (para
cificamente à cruz e à ressurreição. As pa- a qual v. Comentário de Rm 3.25; 5.9-11;
lavras evangelizou paz ecoam Isaías 52.7, 2Co 5.19-21; Gl 3.13). Ele antes parece
mas o restante segue aproximadamente pressupô-Ia (1.7; 5.2,25,26) e nesta carta
Isaías 57.19. Originariamente esse texto parece mais interessado em descrever suas
era aplicado à bênção de Deus sobre os consequências - a restauração do relacio-
judeus de Jerusalém (os que estão perto) namento com Deus, e particularmente o
e os judeus da Diáspora (os que estão lon- escopo universal da unidade, harmonia e
ge), mas aqui dá a entender que atingiu um paz que Deus tinha em mente com Cristo.