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Extraído e traduzido do The

Worship of the English Puritans,


páginas 13 a 24, de autoria do Dr.
Horton Davies – Editora Soli Deo
Gloria Publications.
Os Puritanos
A Teologia do Culto Reformado

É frequentemente suposto que as reformas litúrgicas de


Lutero e Calvino são concordes somente na condenação dos
abusos existentes no período final da Igreja Medieval. É
também admitido que as diferença nas respectivas
concepções de Culto e no cerne essencial das suas ordens
litúrgicas, refletem os contrastes no temperamento dos dois
reformadores. Isto, esperamos demonstrar, é um grave
equívoco no entendimento tanto de Lutero como de Calvino,
em dois aspectos. Uma tentativa será feita para demonstrar
que os pilares gêmeos da Reforma concordavam não apenas
no que se constituía os abusos do período final da igreja
medieval, mas também no desejo de retornar para a primitiva
simplicidade do culto cristão. Esperamos demonstrar,
inicialmente, que a concordância deles sobre os abusos que
deviam ser corrigidos, além de ser a expressão de suas
preferências subjetivas, foi devido às doutrinas e teologia que
eles mantinham em comum. Em segundo lugar, será
demonstrado que é uma simplificação espúria da questão,
declarar que os desacordos entre Lutero e Calvino são
explicados como resultado, respectivamente, do
conservadorismo de Lutero e da natureza rigidamente lógica
de Calvino. Mesmo que esta afirmação seja alterada e venha
a produzir a impressão de que Calvino foi inteiramente
verdadeiro aos seus princípios, enquanto Lutero foi
conservador, isto ainda permanece uma concepção injusta a
respeito de Lutero. Seu aparente conservadorismo pode ser
explicado por princípios teológicos.
Os Reformadores eram concordes com respeito aos abusos
da igreja medieval, que deviam ser corrigidos. Em particular,
eles investiram contra quatro falsas concepções.

(1) Sua comum “aversão peculiar” foi o antigo e medieval


ensino a respeito da Missa. Eles concordavam em condenar o
ensino que proclama ser na Missa, mais uma vez, oferecido o
sacrifício que de uma vez por todas foi feito no Calvário. Não
parecia nada menos que blasfemo para eles que homens
usassem asseverar que o sacrifício feito na Cruz exigia
repetição.

(2) Eles estavam igualmente seguros, em segundo lugar, que


a Missa como era celebrada na época não era uma
comunhão. O povo não comungava de ambos os elementos;
eles eram apenas espectadores de um drama no qual o
sacerdote era o ator principal e o coro cantava uma música
incidental e complicada. Isso não era tudo; o serviço da Missa
não era ao menos inteligível para a maior parte do povo,
porque onde era audível, ou era falada ou cantada em uma
língua acadêmica [Latim*]. Os Reformadores também
objetaram o caráter propiciatório da missa, quando elas eram
oferecidas para aplacar a Deus pelas ofensas de alguém ou
obter favores especiais de Deus, como por exemplo, antes de
sair para uma jornada de trabalho. De fato os Reformadores
contendiam que a Missa medieval fora considerada um
officium ao invés de um beneficium.1

1
James Moffatt, ‘Lutero’, capítulo viii de Christian Worship (ed. cit.) p. 127
Aliada à desaprovação da Missa por eles estavam suas
objeções pelas concepções correntes concernentes ao
sacerdócio. Pois se o sacerdote deveria ser considerado como
um instrumento indispensável para obter o bom favor de
Deus, ele se tornava, não um veículo de graça, mas um
impedimento, um obstáculo para a comunhão entre Deus e o
homem. Além do mais, os sacerdotes eram, como insistia
Lutero com desprezo, tirânicos, insaciáveis, mundanos e
mercenários.2
(3) A terceira concepção que ambos os Reformadores
condenavam era a falsa visão da autoridade dos santos, os
quais eram considerados como poderosos mediadores entre
Deus e os homens, que poderiam ser influenciados por um
indivíduo a remir suas penas e suplícios do purgatório, o que
constituía um panteão.

Não é surpresa que, tanto Lutero como Calvino, enfatizassem


a primazia da pregação da Palavra de Deus, tanto para acabar
com os abusos que estavam incrustados no sacramento da
Santa Ceia, como para declarar o que era a verdadeira
vontade de Deus nesta matéria.

Os Reformadores não apenas concordavam em suas


negações, mas eles eram uma só mente em muitas
afirmações positivas. Ambos desejavam restaurar o puro
culto da Igreja primitiva. Em sua Formula Missae Lutero
declara que não era sua intenção “omnem cultum dei prorsus
oblere” (não era obsoleto todo o culto que era prestado a

2
Formula da Missae de Lutero, em Carl Clemen Quellenbuch zur praktischen
Theologie, I Teil (Giessen 1910) p. 27f
Deus), mas apenas “eum qui in usu est, pessimis additamentis
viciatum, repurgare et usum pium monstrare” (alguns usos
que estão em prática, péssimas adições viciosas, que pelo uso
pio ficam aparentes e repugnam).3 Ele, portanto não atirava
ao mar toda a tradição da igreja não dividida, desde que
concordava que “primorum patrum additiones...laudabiles
fuere, quales Athanasius et Cyprianus fuiesse putantur” (as
primeiras adições dos Pais da Igreja...foram saudáveis, as
quais Atanásio e Cipriano foram seus artífices).4 De fato sua
visão era retornar ao não corrompido Serviço da Comunhão
da igreja primitiva. A intenção de Calvino era similar. Isto ficou
claramente explícito no título completo do Livro de Culto de
Genebra de 1542. Este título dispõe: “La forme dês prieres et
chantz eclesiastiques auec la maniere d´administrer lês
sacrements, et consacrer lê mariage; selon la coutume de
L´eglise ancienne” (A forma das orações e cânticos
eclesiásticos e ainda a maneira de administrar os sacramentos
e celebrar o casamento; segundo o costume da Igreja
Antiga).5 Era portanto, um declarado anseio de ambos os
reformadores de restaurar o Culto da Igreja antiga. A base
comum de concordância tanto nos abusos do culto
contemporâneo quanto na positiva concepção de
restauração do culto da Igreja primitiva, longe de ser apenas
coincidência, era baseado em pressuposições teológicas
similares. As doutrinas básicas mantidas em comum pelos
reformadores foram três: A Bíblia como a Revelação de Deus,

3
Clemen op. cit. p. 27
4
ibid.
5
Maxwell The Liturgical Portions of the Genevan Service Book (1931) p. 70; os itálicos
são meus.
a Justificação por meio da Fé, e Cristo como único mediador
entre Deus e os homens. As últimas duas doutrinas,
obviamente, foram derivadas da primeira doutrina toda
inclusiva das Escrituras. Uma vez que a Bíblia foi resgatada em
toda a sua autoridade, então se seguiu que qualquer tradição
que conflitasse com a Palavra de Deus, embora com a sanção
da Igreja, tinha que ser abolida. Ademais, a primazia das
Escrituras determinou um desejo pelo retorno aos princípios
e práticas da comunidade primitiva dos cristãos como vista
nos Atos dos Apóstolos. Estas duas conclusões passaram de
mão em mão. Isso porque os erros da Igreja da época foram
vistos como desvios, tanto da Bíblia, como também da Igreja
primitiva. Além disso, existiam dois princípios dominantes na
Bíblia que a prática da época desconsiderava. Se os homens
eram justificados por meio da fé na justiça de Cristo,
aceitando seu sacrifício como garantia toda suficiente para o
perdão de seus pecados, então todas as práticas motivadas
por uma crença na justificação pelas obras deveriam
desaparecer. Tais práticas incluíam participar da Missa como
uma boa obra como também fazer peregrinação religiosa.
Ainda, a noção de que os santos tinham um tesouro de
méritos o qual está disponível como um crédito para
compensar os débitos do pecador, também tinha que ser
abolida. A mesma concepção da eficácia da intercessão dos
santos e da mediação necessária do sacerdote, anulava a
doutrina bíblica de Cristo como único mediador. Se santos e
sacerdotes eram indispensáveis, seria inverídico dizer ser
Cristo “o único nome dado entre os homens pelo qual importa
que sejamos salvos”. Portanto através destas três doutrinas
integradas no pensamento de ambos os reformadores, Lutero
e Calvino, se fez necessária uma reforma litúrgica.

Os resultados das reformas litúrgicas luteranas e calvinistas


foram reconhecidamente diferentes. Como essas diferenças
deveriam ser levadas em consideração? É insuficiente explicar
estas diferenças assumindo que Lutero era um conservador e
cauteloso reformador enquanto que Calvino era lógico e
radical. A diferença real entre a reforma luterana e calvinista
no culto pode ser disposta como a seguir: Lutero ficaria com
o que não era especificamente condenado nas Escrituras
enquanto Calvino ficaria apenas com o que é ordenado por
Deus nas Escrituras. Este era o seu fundamental desacordo.
Isto é de vital importância na história do culto Puritano, visto
que os Puritanos aceitavam o critério Calvinista, enquanto
que seus oponentes, os Anglicanos, aceitavam o critério
Luterano.

A visão de Lutero, que será demonstrada, foi na maior parte


direcionada por suas considerações teológicas, mas deve ser
levado em alguma conta seu temperamento e suas exigências
práticas que teve de encarar e que devem ser apreciadas as
notórias razões do seu tão conhecido conservadorismo. Ele
deixou isto perfeitamente claro quando não desejava
introduzir uma “nova lex” em matéria litúrgica. Ele era
completamente avesso a instalação de um cristianismo
Levítico. Isto, dizia ele, era contrário a liberdade do Cristão.6
Além disso, Lutero sustentava que a Palavra de Deus, se
fielmente pregada, iria por ela mesma criar novas e
6
Moffat op. cit. p. 125
adequadas formas de culto cristão. Não era prerrogativa sua
produzir uma liturgia obrigatória que acorrentasse as
consciências dos homens cristãos. Mesmo promulgando a
Formula Missae ele negou o desejo de coagir os cristãos a
aceitá-la.7 Foi meramente apresentada como uma alternativa
sugerida à Missa da Igreja Romana, não como uma declaração
autoritativa a qual se deva submeter. A variedade de ritos e
cerimônias praticadas nos dias atuais pelas igrejas luteranas
do continente é um legado da doutrina de Lutero da liberdade
cristã. Deve ainda ser lembrado que ele favoreceu a fluidez
cúltica tendo por base uma liturgia uniforme e pela sua
própria uniformidade poderia cegar os homens em relação ao
caráter interno do culto.8 Tudo o que ele requeria era que os
ritos da Igreja não conflitassem com a orientação da Sagrada
Escritura. Aliada a esta preocupação pela liberdade cristã,
estava sua defesa do princípio da “festina lente”. Isto estava
baseado na orientação de Paulo em considerar o irmão mais
fraco. Para que eles não fossem desnorteados por nenhum
iconoclasticismo, ele propunha abolir apenas o que era
contrário ao ensinamento claro das Escrituras. Para o resto,
ele iria provar de todas as coisas e reter o quer era bom.

Esta tendência em considerar a tradição da igreja como


valiosa, quando e onde ela não contradizia a Escritura, foi
confirmada por Lutero em sua doutrina das Ordens. As
implicações desta doutrina foram que Deus ordenou ao
mundo que o homem não deveria viver como um indivíduo
isolado da sociedade, mas como um ser compartilhando

7
Clemen op. cit. p. 26
8
Moffat loc. cit.
certas relações comunitárias. Tais comunidades ordenadas
por Deus são a Igreja e o Estado. Desde que elas dependem
para a sua continuidade da divina sanção, os homens devem
respeitá-las. Portanto, excetuando-se o que elas
definidamente contradizem a vontade revelada de Deus, elas
devem ser obedecidas. Tal doutrina coloca um grande prêmio
sobre a tradição e deve ser tida como a base religiosa do
conservadorismo de Lutero. Também ajuda a explicar o
porquê dos bispos terem uma parte importante em decidir
quais particulares reformas litúrgicas são desejáveis.
Teoricamente Lutero deixou a escolha de aceitar ou rejeitar
suas reformas litúrgicas para os cristãos das igrejas locais, mas
na prática a decisão foi deixada para a escolha do bispo.

Um ponto a ser tratado ainda, é a atitude de Lutero para com


o cerimonial. Em contraste com o despido Culto Calvinista, a
liturgia luterana é rica no uso de ações simbólicas e
vestimentas. Nesta matéria, nós temos a clara afirmação de
Lutero que Deus deu ao homem cinco sentidos com os quais
ele o poderia adorar e seria uma franca ingratidão não usá-
los.9 Sem dúvida ele teria considerado a forma de liturgia de
Calvino como um exemplo de cultuar a Deus com apenas dois
dos sentidos: ouvir e falar [ou cantar]. Ao contrário da liturgia
Luterana que apela para o sentido do olfato nos incensos e
para a visão pelo uso de vestimentas e cerimônias. Para esse
criticismo Calvino teria legitimamente respondido que o culto
é primariamente para a glória de Deus, e secundariamente
para a edificação dos homens e não para o prazer deles.
Alguém poderia questionar se Lutero ficaria satisfeito com
9
Moffat op. cit. p. 129
essa resposta, desde que com o senso que tinha da grandiosa
condescendência de Deus em Cristo, ele mantinha que Deus
tinha dado ao homem auxílios as suas devoções. Tais auxílios
eram rituais e cerimoniais. Assim como Cristo, pela sua
encarnação, santificou a humanidade, então as coisas
terrenas poderiam ser sacramentadas pelo divino. Lutero não
estava preparado a dispensar o “o porta olho” para a alma,
como Bunyan iria mais tarde denominar. Como nós iremos
ver mais tarde, essa visão era inaceitável para Calvino, desde
que ele mantinha que o homem era essencialmente corrupto
e que seu culto só era aceitável na medida que ele se
conformava com a lei de Deus nas Escrituras. Calvino
mantinha que o Decálogo discorrendo contra “as imagens de
escultura”, tinha dispensando suficientemente a necessidade
de cerimônias e vestimentas.

A postura de Lutero, como veremos, era capaz de ser


defendida em termos teológicos. Mas sua atitude não era
estritamente teológica, nem era sempre baseada em
princípios. Algumas vezes ele era inconsistente com seus
princípios. Lutero nem sempre levava suas convicções
teológicas às suas conclusões lógicas. Por exemplo, seu apelo
ao braço do estado para punir os camponeses que se
revoltaram contra seus senhores era contrário à sua doutrina
da liberdade cristã. Similarmente, em matéria litúrgica, pode
ser exposto de forma justa que sua doutrina da Palavra de
Deus não foi logicamente desenvolvida. Como atenuante
deve ser lembrado, no entanto, que ele foi o primeiro
reformador e que no tempo de Calvino a situação era mais
estável e os homens tinham mais tempo de refletir nestes
assuntos. Não obstante, não pode ser negado que nos últimos
anos de Lutero, o reformador mostrou um crescente
conservadorismo. Ele desejava mais uniformidade tanto no
uso das vestimentas eclesiásticas como nas formas de liturgia.
O que previamente era opcional se tornou obrigatório.

Finalmente, não pode se ter dúvida que a opinião de Lutero


foi, em certa extensão, moldada não em cima de um princípio,
mas pelos acontecimentos. O método era “solvitur
ambulando”. Isto era definitivamente o caso na ordem pela
qual suas reformas eram executadas. Sua pregação da
Justificação pela fé exigiu-lhe reformar o Cânon da Missa. Isto
por sua vez levou os sacerdotes a serem separados para cada
localidade e também para o costume onde cada sacerdote era
permitido realizar uma missa a cada dia. Isso levou mais
clérigos para fora da vida cotidiana e assim significava menos
dinheiro nos cofres da Igreja. O ataque à vida monástica fez
com que muitos monges e freiras ficassem desempregados e
solitários. O completo colapso das finanças levou Lutero a
buscar ajuda do Príncipe. Um outro efeito das reformas de
Lutero era que a Igreja Romana recusava ordenar candidatos
que eram luteranos ou que não tomassem os votos do
celibato. Todas estas circunstâncias forçaram Lutero a fazer
sua própria provisão para ordenar e treinar futuros ministros
da Palavra. Numa extensão considerável, portanto, Lutero foi
guiado não por seus princípios mas pelos fatos. Ao mesmo
tempo é também verdadeiro que foi a fiel proclamação destes
princípios teológicos que levou a estes acontecimentos. A
atitude de Lutero com a reforma litúrgica foi, pois,
majoritariamente fundamentada em bases teológicas, mas
também foi parcialmente determinada pelas considerações
de conveniências.

As doutrinas que são logicamente aplicadas por Calvino não


são distintivamente suas. Ele e Lutero estavam unidos
concordemente na maioria delas, mas foi Calvino que deu a
elas sua ênfase distintiva e aplicou logicamente a teoria e a
prática do culto. Para ambos Lutero e Calvino a Bíblia era a
Palavra de Deus. Mas suas concepções da autoridade da
Palavra de Deus eram diferentes. Lutero descrevia a Bíblia
como “trostbuch” (livro consolador), o berço de Cristo;
Calvino, porém a definia como “la sainte loy et parole
evangelique de Dieu” (a santa lei e promessa evangélica de
Deus).10 Lutero aceitava a orientação bíblica em matérias
doutrinárias, mas recusava em considerá-la um diretório de
culto. Lutero iria admitir em sua adoração qualquer elemento
litúrgico que não fosse inconsistente com o ensinamento da
Bíblia. Calvino só iria aceitar o que a Bíblia especificamente
autoriza. Se a Bíblia era a vontade revelada de Deus, afirmava
Calvino, então somente as ordenanças bíblicas seriam
aceitáveis a Deus. Adições humanas deveriam, por
conseguinte, ser de todo ab-rogadas, porque Deus fez
conhecer sua vontade nas Escrituras.

A raiz da objeção de Calvino às adições humanas no culto


legítimo de Deus tinha outra base. O homem era
essencialmente corrupto; ele carregava a “damnosa
haereditas” (herança danosa) do pecado original e portanto
ele não poderia cultuar a Deus da forma certa ainda que
10
J. S. Whale, “Calvin”, ch. x. of Christian Worship p. 156.
pudesse assim o desejar.11 Ele é inteiramente pecaminoso e
assim suas próprias ideias do que constituiria o correto culto
seriam viciadas pela sua depravação. Estando nesta confusão,
ele ainda não poderia afastar de seu coração o fato que Deus
tinha declarado o que é o verdadeiro culto em Sua Palavra. O
homem, portanto, deveria aprender ali como glorificar a Deus
da forma certa. Visto que só podemos orar da maneira certa
a Deus apenas quando o Espírito Santo por nós intercede,
devemos nos submeter a orientação do Espírito. Estas três
doutrinas: da Palavra de Deus, do pecado original (da queda),
e da intercessão do Espírito Santo, são logicamente aplicadas
no culto calvinista. Consequentemente o caráter bíblico e os
precedentes bíblicos para a liturgia também, ou seja, a
centralidade da Palavra está invisivelmente na pregação e
visivelmente nos sacramentos. Isto também explica a
abertura invocatória pelo auxílio de Deus na liturgia de
Genebra, enfatizando a total falta de amparo do homem à
parte de Deus. Consequentemente, também, a confissão de
pecados e a invocação da ajuda do Espírito Santo antes de ler
as Escrituras para que Elas possam ser corretamente
entendidas.12 Todas estas três doutrinas tão cuidadosamente
levadas a cabo na forma genebrina podem ser compreendidas
sob a total submissão da Doutrina Calvinista à dependência
de Deus.

A doutrina que Calvino fincou, cada vez mais distintivamente


sua, foi a da Eleição. Pode ser dito que ele redescobriu o
sentido da Igreja como o Novo Israel, o povo de Deus. Esta

11
Inst. I. iv
12
Calvino La forme des prières ecclésiastiques, em Clemen op. Cit. Pp. 51-58
doutrina sem sombra de dúvida é refletida em sua teoria do
culto. Ela produziu um profundo senso de honra e reverência
perante Deus, que era enfatizado na liturgia pela leitura do
Decálogo e pela confissão de fé que era feita pelos cristãos
como uma unidade em Cristo. Não era menos sentida na
profunda e espontânea gratidão que extravasava através do
cântico dos salmos pela congregação. E foi esta doutrina,
como também a da Comunhão como “sigillum Verbi”, que
fazia Calvino enfatizar a unidade dos elementos do culto
antes da Comunhão. A Comunhão é, portanto não um mero
apêndice ao ato da pregação, é o ato, para os fiéis, no qual
Deus sela suas promessas aos Eleitos. A doutrina da Eleição
com sua reflexão na natureza corporativa do culto calvinista
contrasta com o individualismo que caracteriza a liturgia
Luterana.

Deixar esta matéria desta forma seria uma injustiça para a


memória de Lutero. Deve ser reconhecido que Calvino teve
que acomodar suas visões em três assuntos. Ele fez uma
distinção entre os fundamentais e os não importantes pontos
na forma do culto. Ele não vacilava por um momento de sua
convicção de que todo o culto deve proceder da divina
inspiração, e as tradições humanas não carregavam nenhum
peso na adoração. Por outro lado, ele mantinha que, em
matéria de culto, existiam tanto doutrinas fundamentais
como também auxílios superficiais que conduziam à paz e
concórdia e que deveriam ser deixados para o julgamento dos
Cristãos como indivíduos. Ele fez apenas três concessões,
cada uma delas em matéria de forma, não de doutrina.13 1)
Ele desistiu de sua fórmula de absolvição quando o populacho
de Genebra a depreciou como novidade. 2) Ele também
permitiu que a Santa Ceia fosse celebrada com pão não
fermentado. Ele não desaprovou o uso de pão não
fermentado no Sacramento, mas ele não gostou do método
pelo qual esta mudança foi introduzida em Genebra, ou seja,
ele desaprovou o modo arbitrário pelo qual o vizinho Cantão
de Berna exigiu que Genebra adotasse esta prática. 3) Sua
terceira e maior concessão, foi a de se render ao
requerimento dos magistrados de Genebra em permitir a Ceia
do Senhor ser celebrada apenas quatro vezes por ano. Este
ponto não foi facilmente concedido e Calvino deixou
registrado para a posteridade que sua convicção nesta
matéria foi imposta pelos magistrados genebrinos.14 Estas
três concessões não podem ser comparadas em seriedade ou
amplitude com as concessões feitas por Lutero. Sendo assim,
Calvino não pode ser acusado de inconsistência ou
conservadorismo na matéria de acomodação, porque ele
sabia tanto a lógica de sua posição quanto que deveria ceder
porque era minoria e porque os pontos em questão eram
apenas de menor importância.

É na comparação da doutrina dos sacramentos de Calvino (e


particularmente da Ceia do Senhor) com a de Lutero, que a
anterior base teológica consistente aparece de forma clara.
Não é apenas asseverar que Calvino era meramente lógico no

13
F. O. Reed Public Worship in XVIth century Calvinism (tese para graduação – não
publicada – na B. Litt. na Universidade de Oxford) ch. ii
14
Maxwell op. cit. p. 203
seu tratamento dos Sacramentos, visto que ele reconheceu
que existe um mistério impenetrável nos atos graciosos de
Deus para com o homem, os quais a razão pode raramente
provar. Assim, ele era um adorador de mente acurada. No
entanto, sua doutrina dos Sacramentos era mais consistente
teologicamente que a de Lutero. Como Barclay
demonstra,15 os dois Reformadores eram concordes em
quatro principais aplicações. (1) Ambos condenavam
qualquer doutrina que negava a necessidade de fé viva no
receptor ou que ensinava que os sacramentos conferiam
graça ex opere operato. (2) Ambos repudiavam a doutrina
que mantinha que os Sacramentos deveriam ser entendidos
num sentido meramente etimológico como distintivos ou
testemunhos da confissão cristã. (3) Em terceiro lugar, eles
rejeitavam como inadequada a visão que os sacramentos
representavam meras alegorias ou significativas exibições da
verdade. (4) Finalmente, ambos se opuseram a doutrina que
expressava que a Ceia do Senhor era apenas um rito
comemorativo. Para ambos os sacramentos eram,
positivamente, “sigilla verbi”, ou seja, eles eram sinais pelos
quais Deus confirmava ou selava suas promessas ao seu povo.
A diferença radical entre a posterior visão luterana e a
doutrina Calvinista consistia no fato que Lutero mantinha que
os Sacramentos tinham eficácia inerente, enquanto Calvino
se refere ao seu poder santificador pelo acompanhamento do
auxílio de Deus.16 Lutero pensava que a objetividade dos
sacramentos apenas poderia ser mantida se a eficácia
inerente fosse postulada. Asseverar a fé como uma pré-

15
The Protestant Doctrine of the Lord´s Supper (1928) ch. ii
16
Inst. IV xix 2
condição para a sua eficácia parecia para ele fazer os
sacramentos dependerem da fé do receptor. Calvino estava
bem ciente desta imputação, mas sua doutrina da Ceia do
Senhor não pode ser acusada de subjetividade, desde que ele
declara que a própria fé é um dom de Deus mediado pelo
Espírito Santo. Lutero também achou dificuldade em manter
uma crença numa união mística de Cristo com o crente na
Santa Ceia, se alguém mantinha que o corpo ressurreto do
Senhor era limitado (limitado ao céu em corpo humano – N.
E.)

Para eliminar esta dificuldade, Lutero mantinha a doutrina da


ubiquidade do corpo de Cristo. Calvino, por outro lado, não
recorreu a uma dúbia teoria metafísica para substanciar
conclusões chegadas de equivocados fundamentos
teológicos. Ele argumentou que o corpo ressurreto de Cristo
estava no céu, mas isto não o impedia de que ele pudesse
operar pelo poder do Seu Espírito Santo.

“Cristo, com todas as suas riquezas está lá presente a nós não


menos do que estivesse perante nossos olhos ou tocado por
nossas mãos”.17
Então, pode ser visto que a posterior doutrina de Lutero da
eficácia inerente dos Sacramentos se distancia de sua
doutrina inicial dos sacramentos como “sigilla Verbi”,
presente e respondida por meio da fé. Do outro lado, Calvino
é consistente teologicamente sem conceder nada da
objetividade da posterior visão de Lutero. Ao mesmo tempo
seu ensinamento, igualmente com o de Lutero, preserva o
17
Le Catechisme français de Calvin, citado por F. O. Reed op. cit.
sentido da grata adoração como a condescendência de Deus
quanto também a um profundo senso de mistério.

(1) Esta primeira grande diferença entre o culto Luterano e o


Calvinista, considerada como um todo, é que o primeiro é
mais subjetivo e o último é mais objetivo. Para Lutero a Bíblia
é a Palavra de Deus na qual ele encontra a corroboração de
sua experiência espiritual. Para Calvino a Bíblia é a declaração
da vontade de Deus e tem autoridade em toda sua totalidade.
O culto luterano tende a se tornar a expressão da experiência
que a Palavra gera. Sua atmosfera é de alguém grato pelo
perdão misericordioso de Deus. No culto Calvinista mais
proeminência é dada para a Bíblia como a declaração da
vontade de Deus para a doutrina, conduta e governo da
Igreja. A atmosfera característica é a de reverente temor
perante a Soberana Vontade. O sermão no culto calvinista é
um elemento objetivo de culto, porque é o proclamar e expor
a vontade de Deus declarada em todas as partes dos Escritos
Sagrados. Além disso, enquanto o culto luterano apela para o
individual e expressa sua confissão na primeira pessoa do
singular, o culto calvinista é corporativo e congregacional.
Deus é concebido como declarando sua vontade aos Eleitos e
as orações feitas são a resposta corporativa à Sua Palavra,
como o são os louvores nos salmos metrificados.

(2) A segunda diferença é que o culto calvinista é mais bíblico


em natureza que o luterano. Onde no culto luterano se
continha hinos que são paráfrases da experiência cristã e
ensinamentos cristãos, para Calvino os louvores eram
inteiramente escriturísticos. Ele apenas permitiria os Salmos.
Enquanto Lutero não se opunha ao uso de sequências de
prosas, provadas antes que sua doutrina fosse correta,
Calvino insistia na leitura da Palavra de Deus sem
embelezamentos. Outra vez, enquanto as orações luteranas
poderiam proclamar a experiência cristã, como o
arrependimento ou a adoração, nas formas originais de
Calvino a liturgia apenas continha uma oração de confissão
que era exclusivamente escriturística. Também Calvino
incluiu o Decálogo como uma parte integral da liturgia de
Estrasburgo.

(3) Uma terceira diferença entre os ritos luteranos e


calvinistas é que mais se destaca. Enquanto o culto luterano
é composto de dois elementos, o movimento descendente de
Deus em direção ao homem e o movimento ascendente do
homem até Deus (estes sendo aproximadamente iguais em
proporção), o culto calvinista é majoritariamente um
movimento descendente. Se o pensamento em primeiro lugar
na mente de Lutero era a gratidão, o pensamento dominante
para Calvino é que no culto o homem obedecia à Bíblia, pois
à parte desta obediência ele não poderia oferecer uma
aceitável adoração a Deus. A ideia fundamental do culto
luterano era gratidão; a de Calvino era obediência. Ainda que
existam elementos, tanto nas orações como nos louvores do
culto calvinista que representem este movimento
ascendente, o senso que prevalece é uma reverente
humilhação perante o Deus vivo. Isto é exemplificado pela
falta de uma específica oração de adoração no serviço
calvinista. Se os adoradores luteranos eram “laeti
triumphantes”, os calvinistas eram “miseri et abiecti”. Esta
distinção não é absoluta, mas aponta para uma real diferença
de ênfase.

(4) Em quarto lugar, o culto luterano é mais rico no uso de


cerimônias que o serviço calvinista. Anteriormente já foi
mostrado que eram teológicas e não estéticas as razões para
a diferença. Basta dizer aqui que o culto luterano é “rico” e o
calvinista é “nu”.

As diferenças teológicas entre Lutero e Calvino refletidas nas


diferenças de ênfase litúrgicas são de total importância
porque esta base litúrgica prepara o caminho para as
diferenças entre os Anglicanos e os Puritanos na Inglaterra. É
visto que a posição do Clero Estabelecido na Inglaterra era a
de Lutero, enquanto que as visões dos Puritanos eram
aquelas de Calvino. A analogia não é exata em cada detalhe,
mas num todo é muito boa. Pode ser certamente mantido, no
entanto, que as diferentes concepções da autoridade das
Escrituras na mente de Lutero e na mente de Calvino
reapareceram na controvérsia litúrgica entre os Puritanos e o
clero Estabelecido, os Anglicanos. Os Puritanos foram os
herdeiros dos Reformadores.