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Thomas Hobbes

O Filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) faz parte de uma


tradição que reúne tanto o humanismo renascentista passando pelo realismo
político de Maquiavel quanto dos teóricos da lei natural (jusnaturalismo) que
procuram justificar a origem das leis civis e do poder político (STRAUSS, 1963;
SKINNER, 1996). “É a partir da compreensão dos humanistas que “Hobbes, no
Leviatã, emprega o ideal humanista de união da razão e da retórica para ampliar
e sublinhar as descobertas da razão e da ciência” (SEVERINO, 2014, p. 16).
Hobbes teve contato com grandes e ilustres filósofos de sua época. “Por volta
de 1620, morando na Inglaterra, trabalhou como secretário de Francis Bacon o
auxiliou na tradução latina de seus ensaios” (SEVERINO, 2014, p. 17). Fez parte
do círculo intelectual dirigido pelo Padre Mersenne, mentor do filósofo francês
René Descartes, de quem Hobbes escreveria as Terceiras objeções às
meditações metafísicas de Descartes a pedido de Mersenne. E teria, ainda,
conhecido o célebre físico italiano Galileu Galilei “durante uma viagem à Itália,
em 1636 (seis anos antes de Galileu morrer), sob cuja influência Hobbes
desenvolveu a sua filosofia social, baseando-se nos princípios da geometria e
das ciências naturais” (SEVERINO, 2014, p. 17).

Já no que diz respeito ao aspecto político e social, Hobbes é considerado


um contratualista, ou seja, é um daqueles filósofos que afirmaram na
modernidade que a origem do Estado e/ou da sociedade está em um contrato
social (MATTEUCCI, 1998; OAKESHOTT, 1992; POLIN, 1953): “[...] os homens
viveriam, naturalmente, sem poder e sem organização – que somente surgiriam
depois de um pacto firmado por eles, estabelecendo as regras de convívio social
e de subordinação política” (RIBEIRO, 2001, p. 53). Contratualismo “[...] é a
doutrina que abarca as teorias políticas que situam a origem da sociedade e a
fundamentação do poder político [...] em um pacto social, também chamado
contrato, dando o termo contratualismo” (VILALON, 2011, p. 49). Tal pacto
representa um acordo entre os indivíduos de uma mesma localidade geográfica
e que farão parte do mesmo corpo político.

Além disso, as teorias do homem e do Estado, formuladas por Hobbes


(seja no Leviatã ou em Do Cidadão[1]) inserem-se num processo histórico
bastante definido: o conflito entre o poder real e o poder do Parlamento, na
Inglaterra do século XVII. Em 1689, as forças liberais (inspiradas nas idéias
de John Locke) que predominavam no Parlamento inglês derrotaram o
absolutismo real. Na introdução de sua obra mais conhecida, Leviatã (1997)
(Hobbes usa a figura bíblica do Leviatã: um monstro marinho que representa um
animal monstruoso mas que de certa forma defende os peixes menores de
serem engolidos pelos mais fortes. Simbolicamente esta seria a figura que
representa o Estado, o poder do Estado absoluto, simbolizado com inúmeras
cabeças e empunhando os símbolos dos dois poderes: civil e religioso) Hobbes
estabelece alguns pontos principais que pretende trabalhar em sua obra: Como
e através de que convenções é feito o Corpo Político? Quais são os direitos e o
justo poder ou autoridade de um soberano? O que o preserva e/ou desagrega?

Para o filósofo inglês, a resposta a estas perguntas pressupõem uma


análise da própria natureza humana, sendo que o mesmo acredita que o homem
não é sociável por natureza. A situação dos homens deixados a si próprios é de
anarquia, insegurança, medo. Predominam interesses egoístas e o homem se
torna um lobo para o próprio homem (homo homini lupus). O homem em seu
estado de natureza (um estágio anterior a vida em sociedade como veremos
mais adiante) é agressivo. O estado natural em que o homem se encontra é o
estado de “guerra de todos contra todos”. O homem, movido por suas paixões e
desejos não hesita em matar e destruir seu semelhante.

Ao descrever o homem em seu estado natural, o autor


do Leviatã aponta a igualdade entre todos como característica
básica. Falamos então de uma igualdade de direitos. Esses direitos
não têm limites: todos indistintamente têm direito a tudo que lhes
aprouver. Não existindo um poder comum que garanta a
preservação das posses, a única garantia de que algo vai continuar
em poder daquele que o tomou para si é o uso da força e do ataque
como formas de defesa. Qualquer bem existente na natureza
pertence a todos que o queiram. É comum, por sua vez, que dois
ou mais indivíduos se interessem pela mesma coisa. É a partir
desse direito, quando dois homens desejam a mesma coisa, ao
mesmo tempo que é impossível ela ser gozada por ambos que
surgem as atitudes que irão levá-los à condição de guerra no estado
de natureza. A guerra de todos contra todos se refere a essa
condição (GOMES, 2006, p. 13).

Vejamos agora para entender melhor o que vem a ser um tal estado de
natureza e como a vida em sociedade surge a partir da necessidade de se
constituir um acordo entre os homens levando em consideração as condições de
vida humana no estado natural.

Do Estado de Natureza ao Estado social

O estado de natureza é o modo de ser característico do homem antes de


seu ingresso no estado social. Para Hobbes os homens não são altruístas por
natureza, mas egoístas. Os homens são, por natureza, desejosos de poder. Com
isso, o estado natural exige uma saída. “A concepção que Hobbes tem do estado
de natureza distancia-o da maior parte dos filósofos políticos, que acreditam
haver no homem uma disposição natural para viver em sociedade. Na
obra Sobre o Cidadão Hobbes argumenta contra Aristóteles, para quem o
homem é um animal social” (João Paulo Martins. In: HOBBES, 1997, p. 13 e 14).
A concepção tradicional aristotélica, de uma política fundamentada na ideia de
que o homem é apto para viver em sociedade é objeto central da crítica
hobbesiana. “La filosofía política tradicional fracasó, según Hobbes, porque
partía del fundamento falso de la disponibilidad innata del hombre para la vida
social” (RODAS, 2010, p. 18). O ponto de partida de Hobbes será definido,
portanto, por meio de alguns elementos básicos que incluem a ideia de que o
homem não é sociável por natureza sendo um ser absolutamente egoísta
buscando sempre os meios mais adequados para a realização de seus fins. A
filosofia política hobbesiana parte de uma consideração realista da natureza e
só a partir desta consideração, “[...] es decir, del egoísmo y la maldad, dará el
conocimiento correcto a partir del cual pueda fundamentarse y construirse el
Estado” (RODAS, 2010, p. 18).

Para Hobbes os indivíduos ingressam na vida social somente quando a


preservação da vida esta ameaçada e, nesse caso, os homens são levados a
estabelecer contratos entre si, o pacto social. Pois a vida só se torna viável
dentro de uma sociedade civil. Por natureza os homens não poderiam viver em
paz e diante do grau de insegurança em que nos colocou a própria natureza é
preciso se defender contra a violência dos demais.

En el Leviatán, el motivo de la generación del mundo civil está


enraizado en la conformación natural del hombre mismo. Por esto,
la fundamentación contractual del Estado es precedida por una
doctrina de la naturaleza humana, en la cual Hobbes define al
hombre natural como un sistema mecánico de materia en
movimento (RODAS, 2010, p. 20).

Todos os autores contratualistas admitem, antes da formação da


Sociedade, a existência de um “estado de natureza”, embora com diferenças na
forma como cada um explica as características humanas nesse estado e há,
inclusive, aqueles que, apesar de descreverem um “estado de natureza”,
admitem que ele possa nunca ter vindo a existir, mas que era preciso fazer essa
construção para entender a formação da sociedade civil. A principal
característica do “estado de natureza” e com a qual todos os contratualistas
concordam é a ausência de uma organização social.

Já tecemos algumas considerações. sobre como são os homens


naturalmente para Hobbes. Vejamos um pouco mais.

A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo


e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem
manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que
outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a
diferença entre um e outro homem não é suficientemente
considerável para que um deles possa com base nela reclamar
algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar. Porque
quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar
o mais forte, quer por secreta maquinação, quer aliando-se com
outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo
(HOBBES, 2003, cap. XIII, p. 106).

Essa passagem é utilizada por Renato Janine Ribeiro (2001) para


justificar a ideia hobbesiana de que se, no estado de natureza, eu não sei o que
os outros homens desejam, é preciso pressupor com uma certa razoabilidade
que existe sempre a possibilidade de um ataque, já que não existe um poder do
Estado controlando ou reprimindo. Entregues a si mesmos o conflito de uns
contra os outros é a atitude mais racional que se pode adotar. E se dois homens
desejarem a mesma coisa, ao mesmo tempo, sendo impossível a ambos gozá-
la simultaneamente, é forçoso que se vejam como inimigos. E disto decorre que

se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar cômodo,


espera-se que provavelmente outros venham preparados com
forças conjugadas, para o desapossar e privar, não apenas do fruto
do seu trabalho, mas também da sua vida ou da sua liberdade. Por
sua vez, o invasor ficará no mesmo perigo em relação aos outros.
E por causa desta desconfiança de uns em relação aos outros
nenhuma maneira de se garantir é tão razoável como a
antecipação, isto é, pela força ou pela astúcia subjugar as pessoas
de todos os homens que puder, durante o tempo necessário rio para
chegar ao momento em que não veja nenhum outro poder
suficientemente grande o ameaçar (HOBBES, 2003, cap. XIII, p.
107-108).

O medo é o grande vilão dessa história. O medo, sobretudo de morte


violenta, faz com que o mais seguro a se fazer seja atacar antes de ser atacado.
Como não há no estado de natureza um poder comum que mantenha o respeito
entre todos, sempre existirá alguém querendo tirar do outro algum objeto de
desejo que esteja em suas mãos, inclusive a própria vida.

A ameaça constante, mesmo que não concretizada, caracteriza a


condição de guerra que, segundo o filósofo inglês, é típica da condição natural
da humanidade. Outra característica de igual importância é a inexistência de um
poder comum capaz de manter a paz. Não há nesse estado um poder comum
ou leis que proíbam as paixões, acabando com a discórdia. Não pode haver,
consequentemente, desobediência ou crime. Não existe bem ou mal, nem noção
de justiça ou injustiça. “Para essa situação de discórdia, que é a condição de
guerra, Hobbes cita três causas principais: a competição, que visa ao lucro; a
desconfiança, que visa a segurança; e a glória, para a qual se procura uma
melhor reputação” (GOMES, 2006, p, 14). Ou nas próprias palavras de Hobbes:

De modo que na natureza do homem encontramos três causas


principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a
desconfiança; e terceiro, a glória.

A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro;


a segunda, a segurança; e a terceira, a reputação. Os primeiros
usam a violência para se tornarem senhores das pessoas,
mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para
defenderemnos; e os terceiros, por ninharias, como uma palavra,
um sorriso, uma opinião diferente, e qualquer outro sinal de
desprezo, quer seja diretamente dirigido às suas pessoas, quer
indiretamente aos seus parentes, amigos, nação, profissão ou ao
seu nome (HOBBES, 2003, cap. XIII, p. 108).

Ao analisar a natureza humana, Hobbes entende que o homem é movido


por suas paixões; que a sua vontade resulta apenas da soma dessas paixões e
a liberdade nada mais é do que a ausência de impedimento para a ação. É esse
constante estado de insegurança e medo, bem como o desejo de paz, que leva
os homens a estabelecerem um pacto e fundar um Estado social, abdicando de
seus direitos em favor de um soberano cuja autoridade terá um poder absoluto,
encarregado de prescrever leis, julgar, recompensar, punir, escolher seus
conselheiros, de fazer a guerra e a paz, enfim.

Com a finalidade de cuidar da própria conservação e de ter uma vida


mais satisfeita, o Estado é então instituído. Eis o que é o pacto nas palavras de
Hobbes: “Autorizo e transfiro o meu direito de me governar a mim mesmo a este
homem, ou a esta assembléia de homens, com a condição de transferires para
ele o teu direito, autorizando de uma maneira semelhante todas as suas ações”
(HOBBES, 2003, cap. XVII, p. 147 – grifo no original). O pacto através do qual
se dá a instituição do Estado consiste na submissão de cada um a
um representante, para o qual será transmitido o direito ao uso da força para
proteção dos representados. Daí aparece a ideia do soberano representante em
Hobbes.

O contrato social descrito no Leviatã se encontra diretamente ligado à


ideia de representação. A essência do Estado está na pessoa do representante,
que é o soberano. Quando há voluntariamente esse acordo entre os indivíduos
de se submeterem a um homem, ou a uma assembleia de homens, dá-se a
instituição do Estado. É a partir desse consentimento geral, motivado e
preservado pela busca de segurança (por medo da morte), que derivam os
direitos dos soberanos. A autoridade concedida ao representante contém em si
o maior poder do Estado. O poder do representante não encontra poder maior
que o que lhe foi concedido, nem mesmo na união daqueles que lhe
concederam. Assim é possível em Hobbes o uso da expressão soberano
representante, pois ele tudo pode.

Através do contrato os homens transferem o direito de governar a si


mesmo ao soberano que passa agora a representar todos os indivíduos
contratantes. O acordo traz implícita a ideia da renúncia deste direito feita por
cada um dos indivíduos e aqui temos a teoria da representação como eixo da
filosofia política hobbesiana e o capítulo XVI de O Leviatã expressa o conceito
de representação como base da legitimação política. O fundamento do pacto
político está em que cada um dos indivíduos acordam em instituir a “pessoa civil”
do Estado como autoridade representativa. “Así, La renuncia de los hombres a
gobernarse a sí mismos produce, mediante la actuación representativa, el
Estado, que posee el gran poder sobre la tierra y que actúa y piensa por los
hombres” (RODAS, 2010, p. 27). É um contrato de indivíduos, feito entre uns e
outros, que delega poderes a um soberano representante de suas vontades.

Não existe nenhuma garantia, no estado de natureza, que serão


respeitadas as liberdades individuais e, por conseguinte, a ordem e a paz. Basta
a mera suspeita de que o outro não respeitará a minha liberdade para que haja
desconfiança e desconforto. Cada um se torna rival e adversário cuja
consequência última será a guerra com a imposição de um sobre outro (LYRA,
2006; VILALON, 2011). É preciso resolver essa situação através de um poder
comum, situado acima dos indivíduos, com direito e força suficiente para impor
o cumprimento da ordem, segurança e paz. “Dessa maneira, a sociedade civil
só surge com o Estado: é a saída do homem do Estado de Natureza. Para que
o homem possa voltar a ter a segurança fundamental para usufruir do seu próprio
labor, sem temer a sua própria sobrevivência” (FARIAS, 2013, p. 151).
O Estado, de acordo com Hobbes é instituído quando uma multidão
de homens concorda e pactua que qualquer homem ou assembléia
de homens a quem seja atribuído pela maioria o direito de
representá-los (ou seja, de ser seu representante), todos sem
exceção, tanto os que votaram a favor como contra ele, deverão
autorizar todos os seus atos (do homem ou assembléia de
homens), tal como se fossem seus próprios atos e decisões, a fim
de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos do
restante dos homens (DIAS, 2008, p. 69).

É no momento mesmo em que é firmado o pacto social que surge, por


assim dizer, o direito. O contrato social, “[...] em que se transfere autoridade,
força e poder a um ou a vários homens que representarão a vontade da
comunidade, coincide com o momento de criação do direito propriamente dito”
(MARUYAMA, 2009, p. 54). E é no cap. XVI da obra Leviatã que Hobbes traz a
sua fundamentação jurídica do pacto social, ou seja, o nexo entre direito e
política. Em sua condição natural não existem leis civis, comunidade política,
poder comum e muito mesmo direitos civis. O único direito existente no estado
de natureza é o direito individual que surge como elemento perturbador e ao qual
é preciso renunciar, mas uma renúncia que não implica abandono do direito, mas
no reconhecimento do mesmo direito aos outros. Sob esta perspectiva do direito,
o pacto representar a transferência dos direitos naturais que o soberano recebe
dos indivíduos contratantes. Mas só os direitos individuais são naturais. O direito
do soberano é obra e artifício da razão, resultado do pacto e a ele cabe instaurar
o direito civil.

O direito de natureza, liberdade natural do homem, pode, então, ser


legitimamente limitado pelas leis da comunidade política. A
finalidade da lei é essa restrição, sem a qual, de certo modo, não
haveria paz. No Capítulo 26, sobre a lei civil, no Leviatã, Hobbes é
enfático: a lei foi trazida ao mundo para limitar a liberdade natural
dos indivíduos (MARUYAMA, 2009, p. 57).

Absolutismo Não Teológico

Mas por que Hobbes prefere a Monarquia se ele inclui a possibilidade de


que uma assembleia de homens, e não apenas um só, possa ter o direito de
representá-los? Segundo Danilo Marcondes (2002), as assembleias tendem a
reviver o conflito por causa das disputas entre facções e partidos e por isso uma
monarquia seria preferível. Eis a razão pela qual Hobbes defendeu a monarquia
contra Cromwell, durante a guerra civil inglesa e, por isso, “[...] teve sua obra
censurada, indo exilar-se na França, período em que teve contato com Mersenne
e Descartes. Após a restauração da monarquia, retornou à Inglaterra e recuperou
o seu prestígio” (MARCONDES, 2002, p. 198).

Hobbes dá preferência à monarquia absolutista baseado no princípio de


que o poder, para ser eficaz, deve ser exercido de forma absoluta, e não baseado
nas teorias tradicionais do direito divino dos reis (é o que podemos chamar de
absolutismo não teológico). Este poder absoluto é o resultado da transferência
dos direitos dos indivíduos ao soberano através de um pacto social, mas esse
poder absoluto só pode ser considerado legítimo enquanto assegura a paz civil
e não para a realização da vontade pessoal do soberano

Para o autor do Leviatã, o contrato é estabelecido unicamente entre os


membros do grupo que, entre si, concordam em renunciar a seu direito
a tudo para entregá-lo a um soberano encarregado de promover a paz.
Um tal soberano não precisaria dar satisfação de sua gestão, sendo
responsável apenas perante Deus ‘sob pena de morte eterna’. Não
submetido a nenhuma lei, o soberano absoluto é a própria fonte
legisladora. A obediência a ele deve ser total, a não ser que ele se torne
impotente para assegurar paz durável e prosperidade (João Paulo
Martins. In: HOBBES, 1997, p. 15).

Não basta a instituição de um Estado, é preciso um Estado forte, armado


inclusive, para forçar os homens ao respeito.

Política e Religião

O absolutismo hobbesiano de tipo não teológico, isto é, em que o poder


do soberano não é um direito que lhe é atribuído por uma certa autoridade divina,
mas o resultado de uma acordo criado e estabelecido entre os homens, promove
uma rígida distinção entre poder temporal e poder espiritual. Uma análise sobre
o processo de secularização no Leviatã de Hobbes é feita por Pedro Castelo
Branco e, apesar de Hobbes afirmar que “quando estes dois poderes se opõem
um ao outro, o Estado só pode estar em grande perigo de guerra civil ou de
dissolução” (apud BRANCO, 2004, p. 27), a verdade é que Hobbes quer explicar
o Direito e o Estado sem fazer referência a um poder transcendente e espiritual,
o que rompe com qualquer possibilidade de ideia de fundar o poder em um plano
teológico-metafísico (REALE, 1965). O Estado é produto da vontade humana e
não de leis atemporais. O Estado espiritual, apregoado pela Igreja, seria o
mesmo que o Reino de Cristo do qual ele mesmo afirmou não ser deste mundo.
Entre os homens só pode existir o poder temporal. “[...] Hobbes, como bom
agnóstico, não nega em nenhuma passagem do Leviatã a existência de um
poder espiritual. Seu esforço é no sentido de suprimir a usurpação da jurisdição
secular por parte de autoridades eclesiásticas” (BRANCO, 2004, p. 27). O poder
espiritual existe, mas sua jurisdição reside em um mundo que ainda está por vir.
Com isso Hobbes pretende invalidar o argumento religioso de que o poder civil
está sujeito ao poder espiritual sendo este o detentor do direito de mando sobre
todos os príncipes.

Mas ao mesmo tempo em que Hobbes usa as passagens da Bíblia para


criticar tal argumento religioso, ele também usa a autoridade das Escrituras em
favor de suas próprias teorias (STRAUSS, 1979). Com efeito

[...] é destas Escrituras que vou extrair os princípios de meu


discurso, a respeito dos direitos dos que são na terra os supremos
governantes dos Estados cristãos, e dos deveres dos súditos
cristãos para com seus soberanos. E com esse fim vou falar no
capítulo seguinte dos livros, autores, alcance e autoridade da Bíblia
(HOBBES, 2003, cap. XXXII, p. 318).
O objetivo de Hobbes é claro: dar cabo à disputa política entre o Estado
e a Igreja, submetendo a Igreja ao poder do Estado, mas sem negar a
importância da Igreja ou mesmo a existência do poder espiritual. Fato que é
compreensível se levarmos em consideração que estamos tratando de uma
época em que o poder da Igreja procurava influenciar de alguma forma o poder
do Estado. Não raro a autoridade do poder da Igreja procurava determinar como
deveria ser conduzido o poder do Estado.

Profetas, bispos, papas, monges, pastores derivavam seu poder,


direitos e funções da imediata autoridade de Deus, o que constituía
uma ameaça à unidade e segurança do Estado, uma vez que não
deviam obediência ao soberano civil [...] A fim de enfrentá-los o
autor separa o que é de César, isto é, a esfera temporal, política,
da esfera espiritual, religiosa, cuja jurisdição é de Deus, e pertence
a outro mundo (BRANCO, 2004, p. 29).

Além disso é preciso considerar que no corpus da teoria filosófica


hobbesiana existe uma base teológica da ideia de direito natural. Mas um
pressuposto teológico que não altera a origem do poder temporal estabelecido
com o pacto social. Hobbes pensa a política e o direito em termos contratuais.

Considerações Finais

Por tudo o que vimos até aqui podemos entender como a filosofia política
é o estudo do “corpo social” e o poder soberano em Hobbes existe para impedir
as consequências do estado de natureza (impedir que os homens se destruam
uns aos outros), permitindo, com isso, a coexistência entre os homens. Para
delegar este poder a um soberano é preciso que os indivíduos cedam uma parte
de seus direitos e o transfiram a um soberano por meio de um contrato ou pacto
social através do qual se institui e se organiza a sociedade civil e se evita a
“guerra de todos contra todos”. Através deste pacto os indivíduos elegem um
representante de seus interesses dotado de poder absoluto.

Esse contrato se torna necessário porque o homem deseja sobreviver.


Esse desejo de sobrevivência é uma lei natural e é em nome dela que os homens
estabelecem um contrato, cujo poder deve ser exercido por um soberano que
pode ser uma assembleia ou parlamento, ou um rei.

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Leia mais: https://www.sabedoriapolitica.com.br/filosofia-politica/filosofia-


moderna/os-contratualistas/hobbes/