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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

GABRIELA DUBRULL SAN NICOLAS RABELLO

Fichamento da obra: “As três hegemonias do capitalismo histórico”

Seropédica – Rio de Janeiro

2018
ARRIGHI, Giovanni. As três hegemonias do capitalismo histórico.

O conceito de hegemonia mundial

Com o declínio do poder dos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, originou-se
uma série de estudos abordando a ascensão e declínio de poderes mundiais. Estes se baseavam
em algum conceito de “inovação e “liderança” ao definir as capacidades relativas dos Estados,
como “hegemonias”, “potências mundiais”, “núcleos” e “grandes potências” Estes estudos
possuem divergências em relação aos seus objetos de estudo, metodologia e conclusões, mas
convergem em duas posições: primeiro, quando usam o termo “hegemonia”, querem dizer
“domínio; e, segundo, sua ênfase está numa invariabilidade do sistema no interior do qual o
poder de um Estado ascende e declina. (ARRIGHI, Giovanni, p. 227).
Em todos esses estudos, as inovações sistêmicas não alteram os mecanismos
fundamentais por meio dos quais o poder do sistema interestados ascende e declina. Aliás, em
geral se diz que a invariabilidade desses mecanismos é uma das principais características do
sistema interestados. (ibid., p.227).
O objetivo geral do autor neste ensaio é mostrar que, ao aplicar o conceito gramsciano
de hegemonia às relações interestados, é possível compreender a história da ascensão e queda
de uma potência mundial, explicando a invariabilidade, a evolução e a superação do sistema
mundial moderno. O conceito que o autor adota de “hegemonia mundial” se refere ao poder
que um Estado tem de exercer funções governamentais sobre um sistema de Estados
soberanos. Esse poder envolve tanto a administração desse sistema como, na prática, algum
tipo de ação transformadora que altera o modo de operação do sistema de maneira
fundamental. (ibid., p.227).
Como enfatizado por Gramsci a respeito da hegemonia no plano nacional, esse poder
de um grupo social vai além de uma pura “dominação”, ele também se manifesta através da
“liderança intelectual e moral”. Esse grupo social domina seus adversários e dirige seus
aliados. Ele é, condicionalmente, dirigente antes de conquistar o poder e, ao exercê-lo, torna-
se dominante para sustentá-lo, mas continuando a ser dirigente. (Gramsci, 1971, p. 57-58).
O autor, assim como Gramsci, reformula a imagem de Maquiavel sobre o poder: uma
combinação de consentimento e coerção. Coerção implica uso da força ou ameaça verossímil
de seu uso; o consentimento implica liderança moral. Quando o uso da força é arriscado
demais e o exercício da direção moral é problemático, a “corrupção” e o “engano” podem
intervir temporariamente como substitutos no exercício do poder: entre o consentimento e a
força estão a corrupção e o engano (que são características de certas situações quando é difícil
exercer a função hegemônica e quando o uso da força é arriscado demais). Essa situação
consiste em tentar desmoralizar e paralisar o adversário (ou adversários) comprando seus
líderes – na surdina, ou, em caso de perigo iminente, às claras – a fim de semear a desordem e
a confusão entre suas fileiras. (Ibid., n. 80)
Portanto, de acordo com Gramsci, a corrupção e a fraude são, na verdade, expressões
do fracasso do poder. Diferentemente da hegemonia, que é a capacidade de asseveração do
grupo dominante de representar um interesse universal e que acrescente algo ao poder desse
Estado dominante, mesmo que seja sempre fraudulenta em certa medida. Caso essa
asseveração do Estado seja inteiramente fraudulenta não será definida como hegemonia, mas
como um fracasso de hegemonia. (ARRIGHI, Giovanni, p. 229).
O autor disserta sobre a possibilidade de Gramsci ter usado o termo “hegemonia”,
metaforicamente, para esclarecer relações entre grupos sociais por meio de uma analogia com
as relações entre os Estados. Arrighi e outros autores transpuseram esse conceito gramsciano
de hegemonia social derivada das relações intra-estado para as relações interestados que,
segundo o autor, estariam refazendo em sentido inverso o processo mental de Gramsci. E,
com isso, apresenta dois problemas. (Ibid., p. 229).
O primeiro problema diz respeito ao duplo sentido de “liderança”, principalmente
quando aplicado às relações entre Estados. Um Estado dominante exerce uma função
hegemônica quando dirige o sistema de Estados a um sentido desejado e, com isso, é
percebido como perseguindo um interesse universal. É esse tipo de liderança que torna
hegemônico um Estado dominante. Mas um Estado dominante também pode liderar no
sentido de atrair outros Estados para sua trajetória de desenvolvimento. Esse segundo tipo de
liderança, com o tempo, aumenta a competição pelo poder, em vez de aumentar o poder do
Estado hegemônico. Esses dois tipos de liderança podem coexistir, mas só a liderança no
primeiro sentido é que define uma situação de hegemonia. (Ibid., p. 230).
O segundo problema diz respeito ao fato de que é mais difícil definir um interesse
geral no plano do sistema interestados do que no plano dos Estados individuais, no qual um
aumento de poder do Estado em relação a outros Estados é um componente importante na
busca bem-sucedida de um interesse geral (nacional). Mas, nesse caso, o poder não pode ser
aumentado para o sistema como um todo. É claro que o poder de um determinado grupo de
Estados pode aumentar a expensas dos demais Estados, mas a hegemonia do líder daquele
grupo é, no melhor dos casos, “regional” ou “civilizacional”; não é uma hegemonia mundial.”
(Ibid., p. 230).
De acordo com Arrighi, existem dois lados da mesma moeda que define a estratégia e
a estrutura dos Estados como organizações. De um dos lados têm-se a busca pelo poder entre
o sistema interestados, este não podendo ser o único objetivo dos Estados para, assim,
surgirem como hegemonias mundiais. O outro lado caracteriza a maximização do poder
perante os súditos. Portanto, um Estado pode se tornar mundialmente hegemônico porque
pode afirmar com credibilidade ser a força motora de uma expansão universal do poder
coletivo dos governantes perante os súditos. Ou, inversamente, um Estado pode se tornar
mundialmente hegemônico porque tem condições de afirmar com credibilidade que a
expansão de seu poder em relação a alguns ou até mesmo a todos os outros Estados representa
o interesse geral dos súditos de todos os Estados. (Ibid., p. 230).
Essas afirmações, de acordo com o autor, são mais verdadeiras em situações de “caos
sistêmico”. Fazendo a distinção entre “caos” e “anarquia” para compreender as origens
sistêmicas das hegemonias mundiais. (Ibid., p. 230).
“Anarquia” significa “ausência de poder central”. Tanto o sistema moderno de Estados
soberanos, quanto o sistema de governo da Europa medieval, no qual o primeiro se originou,
são sistemas anárquicos. Porém, o autor se refere a eles como “anarquias ordenadas”, ou seja,
nesses sistemas, cada um com seus próprios princípios e normas, a “ausência de um poder
central” não significa necessariamente falta de organização, pois, respeitando seus limites, o
conflito tende a produzir ordem. (Ibid., p. 231).
Ao contrário, “caos” e “caos sistêmico” dizem respeito a uma situação de completa
falta de organização. Uma situação de “caos” surge porque o conflito aumenta
progressivamente e desencadeia grandes antagonismos, ou porque um novo conjunto de
regras e normas de comportamento é imposto, ou cresce no interior de um conjunto mais
antigo de regras e normas sem substituí-lo, ou por causa da combinação entre esses dois
processos. À medida que o caos sistêmico aumenta, a demanda por “ordem” tende a se tornar
cada vez mais generalizada entre os governantes e os súditos. Qualquer Estado que tenha
condições de satisfazer essa demanda de todo o sistema obtém a oportunidade de se tornar
hegemônico. (Ibid., p. 231).

As origens do moderno sistema interestados


Neste tópico, o autor disserta sobre as hegemonias mundiais como um fenômeno do
moderno sistema interestados que surgiu da decadência do sistema de governo da Europa
medieval. Diante disso, o autor analisa toda a sua evolução sistêmica e apresenta suas
diferenças analíticas fundamentais. Começando pela caracterização de “anarquia”, na qual
mesmo que houvesse uma “ausência de poder central” em ambos os sistemas, eles divergiam
de acordo com a base de princípios pelos quais as unidades do sistema são separadas umas
das outras. (Ibid., p. 232).
O sistema de governo medieval consistia em relações entre senhores e vassalos,
baseadas numa mescla de propriedade condicional e autoridade privada. As jurisdições
políticas eram geograficamente entrelaçadas, com elites governantes extremamente móveis,
assumindo o governo sobre todo o continente. O direito, a religião e o costume expressavam
direitos naturais inclusivos pertencentes à totalidade social conformada por suas unidades
constituintes. (Ibid., p. 232)
Em contraste com o sistema de governo medieval, o sistema de governo moderno
consiste na institucionalização da autoridade pública no interior de domínios jurisdicionais
mutuamente exclusivos. Os direitos de propriedade privada e os direitos do governo público
passam a ser absolutos e separados uns dos outros; as jurisdições políticas tornam-se
exclusivas e demarcadas por fronteiras; a mobilidade das elites governantes pelas jurisdições
políticas começa a desaparecer; o direito, a religião e o costume tornam-se “nacionais”, isto é,
não estão sujeitos a nenhuma outra autoridade política além daquela do suserano. (Ibid., p.
233).
O autor introduz a conceituação feita por Wallerstein do sistema mundial moderno
como economia capitalista mundial. Nessa conceituação, Wallerstein afirmava que o
capitalismo conseguiu florescer exatamente porque a economia mundial teve, dentro de suas
fronteiras, não um, mas uma multiplicidade de sistemas políticos. Ao mesmo tempo, a
tendência dos acumuladores capitalistas de mobilizar seus respectivos Estados para melhorar
sua posição competitiva na economia mundial reproduziu a separação do domínio político em
jurisdições separadas. Ou seja, a ascensão do moderno sistema interestados esteve
intimamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo e é tanto causa quanto efeito da
acumulação de capital. (Ibid., p. 233).
Para Arrighi, há uma fraqueza na formulação de Wallerstein no que diz respeito a
ignorar as distinções analíticas entre os dois termos da relação entre o capitalismo e o sistema
de governo moderno. (Ibid., p. 233).
Para o autor, essa segmentação da economia mundial em jurisdições políticas rivais
não beneficia necessariamente os acumuladores capitalistas. Ela depende muito da forma e da
intensidade da competição. Se a competição interestados assume a forma de lutas armadas
intensas e prolongadas, há o risco de o lucro do empreendimento capitalista ser destruído por
um desvio de recursos cada vez maior para o setor militar, além do rompimento contínuo nas
redes de produção e comércio, também prejudicando as empresas capitalistas pois se
apropriam do excedente e o transformam em lucro. (Ibid., p. 233).
Nessa mesma linha de raciocínio, essa competição entre os acumuladores capitalistas
não promove a segmentação contínua do domínio político em jurisdições separadas. De novo,
isso depende em grande parte da forma e da intensidade da competição, neste caso entre as
empresas capitalistas. Como os acumuladores capitalistas estão presos em densas redes de
produção e comércio, eles podem muito bem mobilizar seus respectivos Estados para diminuir
essa segmentação política da economia mundial. E quanto mais intensa a competição, maior
será essa tendência. (Ibid., p. 234).
Ou seja, para Arrighi, não basta enfatizar apenas a conexão histórica entre as
competições interestados e interempresas. Também é necessário enfatizar a forma que essas
competições assumem e como mudam com o tempo, só assim é possível resolver a
contradição recorrente entre a acumulação incessante de capital e a organização
comparativamente estável do espaço político. (Ibid., p. 234).
O autor apresenta duas definições de modos de governo opostos que são a
característica essencial do moderno sistema mundial: os governantes “territorialistas”, que
identificam o poder como a busca incessante de expansão territorial, e a riqueza como
subproduto dessa expansão. Ao contrário, os governantes “capitalistas” identificam o poder
como o controle sobre recursos escassos, a as aquisições territoriais como subproduto dessa
acumulação de capital. (Ibid., p. 235).
Diante das explicações dadas no decorrer do texto até aqui, o autor inicia a sua
explicação sobre as origens da formação do sistema moderno interestados. Com a decadência
do sistema de governo medieval estruturou-se, no Norte da Itália - centrado em Veneza,
Florença, Gênova e Milão -, um subsistema de jurisdições políticas independentes que
mantinha sua coesão pelo princípio de equilíbrio de poder e pelas redes densas de diplomacia
residencial. O autor identifica quatro características principais que foram peça-chave do
moderno sistema interestados. (Ibid., p. 235).
Primeiro, esse subsistema, liderado por Veneza, constituiu um sistema capitalista de
realização de guerra e de construção do Estado. As aquisições territoriais só eram
concretizadas se aumentasse a lucratividade do intercâmbio comercial da oligarquia
capitalista que exercia o poder estatal. (Ibid., p. 235).
Segundo, a administração do “equilíbrio de poder” foi essencial na promoção do
governo capitalista dentro do sistema medieval. O autor destaca esse êxito em três planos: o
equilíbrio de poder entre as autoridades centrais do sistema medieval (papa e imperador); o
equilíbrio de poder entre as cidades-Estado do Norte da Itália, preservando sua autonomia; e o
equilíbrio de poder entre os Estados dinásticos emergentes da Europa ocidental foi útil para
evitar a disseminação da lógica do territorialismo. (Ibid., p. 236).
Esse equilíbrio de poder serviu como um instrumento por meio do qual os governantes
capitalistas reduziam os custos da proteção em termos absolutos e relativos aos rivais. Porém,
para tanto, o Estado tem de estar em condições de usar esse equilíbrio a seu favor. Se o
equilíbrio de poder só puder ser mantido com guerras dispendiosas, então é frustrante para os
objetivos de Estados capitalistas, pois os custos excederiam os benefícios financeiros. A
solução, para governantes capitalistas, seria fazer com que essas guerras fossem travadas por
outros Estados, com o menor custo possível. (Ibid., p. 237).
Terceiro, as cidades-Estado italianas desenvolveram uma comercialização da guerra,
uma “indústria de produção de proteção”, ou seja, uma relação da guerra com a construção do
Estado. Com isso, converteram parte de seus custos de proteção em renda, fazendo com que
as guerras custeassem a si mesmas, criando um sistema emergente autossustentável. Porém,
em situações de guerra permanente, gerava cada vez mais dinheiro, aumentando os preços
gerais mais rápido que sua produtividade, gerando inflação de custos. (Ibid., p. 237-238).
Quarto, os governantes capitalistas dessas cidades-Estado desenvolveram uma
diplomacia residencial na qual, por meio dela, foi adquirido conhecimento sobre
predisposições e aptidões de outros governantes, cruciais para administrar o equilíbrio do
poder para, assim, minimizar os custos de proteção. (Ibid., p. 238).
As cidades-Estado italianas, apesar de concentrarem uma formidável concentração de
riqueza e poder, nunca tentaram uma verdadeira transformação do sistema de governo
medieval. Somente após o “longo” século XVI que um novo tipo de Estado capitalista (as
Províncias Unidas) vieram transformar o sistema de governo europeu, adequando-o aos
requisitos da acumulação do capital em escala mundial. (Ibid., p. 239).

A hegemonia holandesa e o surgimento do sistema westfaliano


O autor inicia este tópico dissertando sobre a grande mudança na luta europeia pelo
poder, com estados territorialistas – principalmente Espanha e França - desenvolvendo novas
técnicas de realização da guerra que lhes deu vantagens de poder perante outros governantes.
(Ibid., p. 239-240).
Essa intensificação da luta pelo poder se deu também por uma expansão geográfica,
nos quais governantes territorialistas procuraram novas formas de dominar a riqueza e o poder
das cidades-Estado italianas que não fosse essencialmente anexá-las. Tentaram conquistar os
circuitos do comércio de longa distância – a própria fonte da riqueza e poder das cidades-
Estado italianas. (Ibid., p. 240).
Até aquele momento, nenhum Estado territorial era forte o bastante para apoderar-se
do monopólio veneziano sobre a cadeia de trocas comerciais com Estados não-Ocidentais,
porém, governantes territorialistas – entre eles, Portugal e Espanha - tentaram desviar o fluxo
para seus próprios circuitos comerciais. Portugal obteve êxito, e a Espanha, fracassada,
dirigiu-se para uma nova fonte de riquezas, as Américas. (Ibid., p. 240).
O autor afirma que essa intensificação global da luta pelo poder na Europa gerou o que
ele denomina como um círculo vicioso/virtuoso (vicioso para suas vítimas, virtuoso para seus
beneficiários) de recursos e técnicas cada vez mais sofisticadas de construção do Estado e
realização da guerra. Essas técnicas foram usadas para subjugar Estados e povos não-
europeus, e a riqueza e o poder originados da sujeição desses Estados subjugados foram
usados na luta no interior do continente europeu. (Ibid., p. 240-241).
O Estado que mais se beneficiou, inicialmente, com esse círculo vicioso/virtuoso foi a
Espanha, seu poder excedendo consideravelmente os outros estados Europeus. Entretanto,
esse poder não foi utilizado para a transição esperada para o sistema de governo moderno e,
ao invés disso, foi usado pelo Império dos Habsburgos e pelo papado para tentar salvar o
sistema de poder medieval. (Ibid., p. 241).
Porém, esse sistema de poder medieval estava desintegrado pela luta pelo poder na
Europa desde o século XV. Como resultado dessa luta, houve a formação de mini impérios
compactos no Noroeste europeu (França, Inglaterra e Suécia) que, coletivamente, não se
subordinariam ao domínio de nenhuma autoridade política. Essa situação gerou um cenário de
caos sistêmico que criou as condições para o surgimento da hegemonia holandesa e à
liquidação final do sistema de governo medieval, pois foi além da sua capacidade
regulamentadora. Isso tudo acarretou no acirramento do conflito social no sistema, que
constituiu séria ameaça ao poder coletivo dos governantes europeus. (Ibid., p. 241).
Essa intensificação do conflito social no sistema foi resultado do aumento anterior dos
conflitos armados entre os governantes. Isso repercutiu em diversas questões em todo o
sistema, entre elas: o aumento nos custos de proteção, levando a um aumento da pressão fiscal
sobre os súditos; a ampliação da luta ideológica, com os súditos transformando a religião num
instrumento de luta contra os governantes; a desintegração das redes transeuropéias de
comércio, das quais contribuíram mais que os fatores climáticos para o agravamento dos
problemas que foram o pano de fundo da crise geral de legitimidade social e econômica do
século XVII. (Ibid., p. 242-243).
O resultado dessa insurreição popular foi uma consciência muito maior, entre os
governantes europeus, de seu interesse comum pelo poder em relação aos seus súditos, o que
ofuscava seus antagonismos mútuos. (Ibid., p. 243).
Assim, as Províncias Unidas se tornaram hegemônicas, liderando a coalizão dos
Estados dinásticos do Noroeste da Europa para a desintegração do sistema de poder medieval
e, com a Paz de Westfália em 1648, nasce o moderno sistema interestados, se baseando no
direito internacional e no equilíbrio de poder, tais quais exercidos entre os Estados, e não mais
acima deles. A ideia de que os Estados da Europa Ocidental formavam um único sistema
político. (Ibid., p. 243).
Esse sistema de poder criado em Westfália também tinha propósito social, como o
princípio da tolerância religiosa, e o princípio de separação das jurisdições políticas, ou seja,
os civis não estavam incluídos nas guerras entre os respectivos soberanos. (Ibid., p. 244).
Além destas, outra aplicação importante foi no setor do comércio, no qual objetivava
restaurar a liberdade de comércio, com a abolição das barreiras que tinham sido criadas
durante a Guerra dos Trinta Anos. Com isso, estabeleceu-se um regime internacional, com
efeitos das guerras na vida cotidiana minimizados evidenciando, também, os interesses
particulares da oligarquia capitalista holandesa na acumulação irrestrita de capital. (Ibid., p.
244-245).
O caos sistêmico do início do século XVII transformou-se, portanto, numa nova ordem
anárquica. Ademais, os interesses pela acumulação de capital marca o nascimento do
capitalismo como sistema mundial. O autor apresenta as devidas razões pelas quais isso
aconteceu somente no século XVII, sob a liderança holandesa, em vez de ter ocorrido no
século XV, sob a liderança de Veneza. (Ibid., p. 245).
A mais importante delas, segundo Arrighi, é que, no século XV, a anarquia ainda não
havia se transformado em caos sistêmico, de modo que não existia um interesse geral entre os
governantes europeus pela extinção do sistema de governo medieval. Além disso, a oligarquia
capitalista veneziana não tinha tal interesse devido a sua posição de liderança. (Ibid., p. 245).
Já no início do século XVII, o caos sistêmico deu espaço tanto para o interesse geral
entre os governantes europeus para uma luta pelo poder, quanto para a oligarquia capitalista
holandesa assumir a liderança e satisfazer o interesse geral. Essa oligarquia capitalista
holandesa, assim como a veneziana, defendia uma lógica de poder capitalista e também era
líder na administração do equilíbrio de poder e iniciativas diplomáticas; Porém, divergiam no
quesito de que, a holandesa, foi mais produto do que causa da grande mudança na luta pelo
poder na Europa, possibilitada pelo surgimento de Estados capitalistas no Norte da Itália. O
autor assume que essa diferença teve várias implicações importantes. (Ibid., p. 245-246).
Primeiro, a importância da influência da oligarquia holandesa na política europeia e
mundial foi muito maior do que a de Veneza. A riqueza e o poder de Veneza baseava-se numa
cadeira comercial que ela mesma não controlava devido a sua dimensão. Já a riqueza e o
poder da oligarquia capitalista holandesa baseava-se mais em seu controle sobre as redes
financeiras mundiais nos impérios colonialistas de além-mar, do que sobre as redes
comerciais. Quando a competição no comércio mundial se intensificou, os holandeses
encontraram novo campo de investimento lucrativo, elevando-se acima da competição. (Ibid.,
p. 246).
Segundo, o conflito entre os interesses da oligarquia capitalista holandesa e os
interesses das autoridades do sistema de governo medieval foram muito mais determinantes
do que os conflitos entre estes últimos e os interesses da oligarquia capitalista de Veneza. A
riqueza e o poder de Veneza foram ameaçados de modo mais decisivo pelo poder ascendente
dos Estados dinásticos do Sul e do Noroeste da Europa do que pelo poder medieval do papado
e da casa imperial. Ao contrário, a oligarquia capitalista holandesa tinha interesses em comum
com os Estados dinásticos ascendentes de pôr fim às autoridades do sistema de governo
medieval, principalmente ao imperialismo espanhol. (Ibid., p. 246-247).
Terceiro, as aptidões da oligarquia capitalista holandesa de realização de guerra
ultrapassavam demasiadamente às da oligarquia veneziana, que estavam ligadas somente à
sua posição geográfica. (Ibid., p. 247).
Quarto, as possibilidades de construção do Estado da oligarquia capitalista holandesa
eram muito maiores do que aquelas da veneziana. Os interesses capitalistas venezianos se
preocupavam exclusivamente com a administração do Estado, sendo tanto a principal fonte de
seu poder, mas também a sua principal limitação. (Ibid., p. 248-249).
Já as possibilidades de construção do Estado da oligarquia capitalista holandesa
visavam à sua emancipação do governo imperialista da Espanha. Assim, a oligarquia
holandesa, para alcançar a vitória nessa luta, precisou fazer uma aliança com os Estados
dinásticos, ao mesmo tempo que lidava com a rebelião popular. Então, o poder da oligarquia
capitalista foi muito menos absoluto do que havia sido em Veneza e, exatamente por isso,
desenvolveram maiores aptidões para resolver problemas em torno dos quais girava a luta
pelo poder na Europa. (Ibid., p. 249).
Portanto, as Províncias Unidas tornaram-se hegemonias em virtude de serem menos
capitalistas que Veneza, e não mais. (Ibid., p. 249).
A hegemonia inglesa e o imperialismo de livre-comércio
Mesmo tendo os holandeses criado o sistema westfaliano, eles logo perderam seu
status de potência mundial para os grandes beneficiários desse novo sistema de governo, a
França e a Inglaterra, que passaram a lutar pela supremacia mundial. Então, logo após o
Tratado de Westfália, em 1652, deflagrou-se guerras ininterruptas que só tiveram fim após as
guerras napoleônicas em 1815. (Ibid., p. 249-250).
O autor destaca três fases em que se desenvolveram o conflito do “longo” século XVI.
A primeira fase é caracterizada pela tentativa dos governantes territorialistas ingleses e
franceses de incorporarem aos seus domínios o principal Estado capitalista, as Províncias
Unidas. Apesar dos esforços, não conseguiram subjugar os holandeses. Repetindo os
acontecimentos do século XV, em que a França e a Espanha tentaram conquistar as cidades-
Estado do Norte da Itália. (Ibid., p. 250).
A segunda fase é caracterizada pela mudança de percepção das duas potências na
disputa pelo poder. Ao invés de tentarem dominar o Estado capitalista em si, deslocaram seus
esforços para incorporar as fontes de riqueza e de poder desse Estado. Novamente, os fatos
históricos se repetem, pois assim como Portugal e Espanha lutaram pelo controle do comércio
com o Oriente, agora França e Inglaterra lutavam pelo controle do Atlântico. (Ibid., p. 250).
Apesar das suas semelhanças históricas, o autor destaca diferenças muito importantes
para seu entendimento. Franga e Inglaterra obtiveram vantagens ao chegarem tarde na luta
pelo poder mundial, principalmente porque os exércitos europeus já eram superiores sobre os
exércitos dos governantes de fora da Europa. (Ibid., p. 250).
Além disso, existia a preocupação dos retardatários em ultrapassar as sólidas posições
dos governantes europeus no comércio mundial, sendo necessário reestruturar toda a sua
geografia política. Para tanto, foi criada uma nova síntese entre capitalismo e territorialismo
alcançada pelos mercantilismos francês e inglês no século XVIII. (Ibid., p. 251).
O autor alega que essa nova síntese teve três componentes principais, todos
relacionados entre si: colonialismo de povoamento, escravismo capitalista e nacionalismo
econômico. Arrighi acreditava que, mesmo todos sendo essenciais para a reestruturação do
espaço político-econômico mundial, o colonialismo de povoamento tenha sido o principal.
(Ibid., p. 251).
O desenvolvimento do escravismo capitalista tornou-se o principal fator na expansão
da infraestrutura e dos mercados compradores necessários para sustentar a atividade produtiva
dos colonos. (Ibid., p. 252).
O nacionalismo econômico, segundo o autor, teve dois aspectos principais: primeiro, a
acumulação incessante de excedentes monetários, que foram obtidos com o comércio colonial
e o comércio entre Estados; e, segundo, a construção de uma economia nacional. (Ibid., p.
252).
A construção da economia nacional conseguiu, ao aperfeiçoar as práticas criadas pelas
cidades-Estado italianas, fazer as próprias guerras se pagarem, transformando os custos de
proteção em rendimentos. (Ibid., p. 252-253).
Segundo o autor, as guerras não estavam “se pagando a si mesmas”, na verdade, os
civis que, inconscientemente, estavam sendo mobilizados para sustentar os esforços dos
governantes de realização de guerras e construção do Estado. (Ibid., p. 253).
Os governantes ingleses conseguiram uma vantagem relativa geopolítica decisiva em
relação a todos os outros concorrentes. A Inglaterra conquistou a supremacia do comércio
além-mar e do poderio naval, enquanto seus rivais europeus comprometiam-se em lutas
continentais. (Ibid., p. 253-254).
Isso aumentou a pressão com relação aos outros Estados Europeus continentais, que
queriam acompanhar o poder mundial crescente britânico. Com o tempo, esse círculo
virtuoso/vicioso deixou o Reino Unido em condições de eliminar todos os seus rivais da
expansão ultramarina e de, ao mesmo tempo, tornar-se o supremo do equilíbrio de poder na
Europa. (Ibid., p. 254).
Com o fim da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) pela luta com a França pela
supremacia mundial, o Reino Unido sai vitorioso, mas não se torna a hegemonia mundial por
causa disso. Pelo contrário, após o fim desse conflito, ele entra numa fase caracterizada por
um caos sistêmico crescente. Assim, do mesmo modo que as Províncias Unidas no início do
século XVII, o Reino Unido tornou-se hegemônico, criando nova ordem mundial a partir
desse caos sistêmico. (Ibid., p. 254).
Também como ocorrido no século XVII, o caos sistêmico foi resultado da intrusão do
conflito social nas lutas de poder dos governantes. Porém, segundo Arrighi, houve diferenças
consideráveis entre as duas situações. A mais importante é a maior autonomia e eficiência
demonstradas pelos súditos rebeldes dos séculos XVII e XIX, em comparação com os do
século XVII. (Ibid., p. 254).
Essa segunda onda de rebelião do período 1776-1848 teve dois resultados mais
profundos. Primeiro, a transformação completa das relações governante/súditos. Segundo, o
estabelecimento de um tipo interiamente novo de hegemonia mundial – o imperialismo inglês
de livre-comércio – que reorganizou o sistema interestados para que se ajustasse a essa
transformação. (Ibid., p. 255).
Essa onda de rebelião teve início nas colônias britânicas, com a Declaração de
Independência dos Estados Unidos em 1776, atingindo diretamente o Reino Unido. O que
levou a Revolução de 1789, na França, intensificando o revanchismo francês com Napoleão
que, por sua vez, levou a uma generalização da revolta no interior dos Estados e entre eles. No
decorrer dessas lutas, as normas e regras do sistema westfaliano foram frequentemente
violadas. (Hobsbawn, 1962; Wallerstein, 1988; Blackburn, 1988; Arrighi, p. 255).
Assim como os holandeses conseguiram liderar o sistema interestados prestes a nascer
da luta contra as pretensões imperialistas da Espanha dos Habsburgos, os ingleses também
conseguiram liderar o sistema interestados prestes a ser destruído na luta contra as pretensões
imperialistas da França napoleônica. (ARRIGHI, Giovanni, p. 256)
O novo sistema mundial de governo, o imperialismo de livre-comércio, surgiu a partir
de uma grande reorganização do sistema governada pelo Reino Unido, devido a insurreição
revolucionária. Esse novo sistema, ao mesmo tempo, expandiu e suplantou o sistema
westfaliano. De acordo com o autor, isso pode ser explicado por três níveis de análise inter-
relacionadas. (Ibid., p. 256).
Primeiro, um novo grupo de Estados emergiu, controlados por comunidades nacionais
que conquistaram suas independências dos impérios. As relações interestados passaram a ser
governadas, então, não mais por monarcas, mas por comunidades nacionais. (Ibid., p. 256).
Essa “democratização” do nacionalismo foi acompanhada de uma centralização do
poder mundial nas mãos de um único Estado, o Reino Unido. Então, pela primeira vez, o
objetivo de todos os Estados capitalistas do equilíbrio do poder fora plenamente realizado
(mesmo que temporariamente) pelo Estado capitalista dominante da época. (Ibid., p. 256-
257).
Segundo, a desintegração dos impérios coloniais do mundo ocidental foi acompanhada
e seguida pela expansão de impérios no mundo não-ocidental. O ressurgimento do poder
imperialista foi, na verdade, a principal razão para designar o novo sistema como
imperialismo de livre-comércio. (Ibid., p. 257).
Nenhum governante territorialista jamais incorporara a seus domínios tantas regiões, e
nem extraído à força tributos tão formidáveis - em força de trabalho, recursos naturais, meios
de pagamento - como o Reino Unido incorporou no século XIX. (Ibid., p. 257).
Parte desses tributos foi transferido para o sustento do aparato coercitivo; a outra parte
foi transformada em capital investido no mundo inteiro, aumentando a vantagem relativa de
Londres como centro financeiro mundial, o “haute finance”. À medida que os vínculos entre o
governo inglês e a haute finance foram se consolidando, as redes financeiras mundiais foram
transformadas, no sistema interestados, em mais um instrumento inglês de dominação. (Ibid.,
p. 257-258).
Terceiro e, segundo o autor, o mais importante, a expansão e a suplantação do sistema
westfaliano encontraram expressão num instrumento inteiramente novo de governo mundial.
O sistema westfaliano baseou-se no princípio de que não havia autoridade operando acima do
sistema interestados. Ao contrário, o imperialismo de livre-comércio estabeleceu o princípio
de que as leis que operavam dentro e entre os Estados estavam sujeitas à autoridade de uma
nova entidade metafísica – o “mercado mundial”. (Ibid., p. 258).
Ao apresentar sua supremacia mundial como corporificação desse “mercado mundial”,
a Inglaterra expandiu seu poder no sistema interestados além do que era garantido pela
eficácia de seu aparato coercitivo. Esse poder britânico foi resultado da adoção da ideologia
do livre-câmbio que, mesmo que imposta de uma forma limitada, tornou-se dominante com a
abertura progressiva do mercado doméstico inglês. (Ibid., p. 258).
Com o controle sobre o mercado mundial devido a sua abertura doméstica, combinado
ao domínio do equilíbrio global do poder e à relação do governo inglês com a haute finance,
foi permitido ao Reino Unido governar o sistema interestados tão efetivamente quanto um
império mundial, resultando na “paz de cem anos” (1815 – 1914). Esse fenômeno refletiu as
capacidades hegemônicas da Inglaterra, principalmente em relação ao seu aparato coercitivo e
à sua posição insular, que garantiu à potência uma vantagem decisiva em relação a todos os
seus rivais na luta pelo poder europeu e mundial. (Ibid., p. 259).
Mesmo assim, segundo o autor, essas vantagens não explicam a extraordinária
capacidade que a Grã-Bretanha mostrou ter de reestruturar o mundo no século XIX,
adequando-o aos seus interesses nacionais. (Ibid., p. 259).
Essa capacidade foi uma manifestação de hegemonia – ou seja, a capacidade de
reivindicar com credibilidade que a expansão do poder do Reino Unido não atendia somente a
seus interesses nacionais, mas a um interesse “universal”. Fundamental para essa afirmação
hegemônica era a distinção entre o poder dos governantes e a “riqueza das nações”. Segundo
a ideologia liberal propagada pela intelligentsia britânica, a expansão do poder dos
governantes ingleses quando comparado ao de outros governantes era apresentada como a
força motora de uma expansão universal da riqueza das nações. O livre comércio poderia
solapar a soberania dos governantes, mas ao mesmo tempo, expandiria a riqueza dos seus
súditos. (Ibid., p. 259)
A sustância principal dessa hegemonia teve por base as circunstâncias sistêmicas
criadas pelos levantes revolucionários de 1776-1848. As comunidades nacionais que
emergiram ao poder estavam mais preocupadas com o valor monetário de seus bens do que
com o poder autônomo de seus governantes, formando a clientela da hegemonia inglesa do
livre-câmbio. (Ibid., p. 259-260).
Esses levantes revolucionários também promoveram na Inglaterra mudanças que
aumentaram as capacidades de seus governantes para satisfazerem a demanda pela riqueza
“democrática” do sistema, a mais importante delas foi a Revolução Industrial. O autor
enquadra dois aspectos que, para ele, foram os mais significativos da Revolução Industrial.
(Ibid., p. 260).
Primeiro, a Revolução melhorou a relação de complementaridade que ligava as
empresas de súditos ingleses a empresas de súditos de diferentes jurisdições políticas. Os
governantes ingleses, com isso, usaram essas relações entre súditos de diferentes Estados
como instrumento invisível de poder sobre os súditos de outros países, ao passo que os levou
a apoiarem as forças ligadas ao nacionalismo democrático contra os monarcas. (Ibid., p. 260).
Segundo, a Revolução Industrial transformou o Estado inglês, alterando sua estrutura
de representação e, por conseguinte, suas predisposições e aptidões na política mundial. Essa
mudança deveu-se à emergência de uma nova classe de empresários capitalistas (resultado dos
êxitos do mercantilismo inglês) envolvidos com o comércio e a produção no plano nacional, e
que dependia do Estado e da antiga classe de mercadores capitalistas para obtenção de
insumos e distribuição dos produtos em mercados estrangeiros. (Ibid., p. 260-261).
No entanto, essa nova classe capitalista e protocapitalista se expandia e prosperava
cada vez mais, se contrapondo aos limites estabelecidos pela superlotação do espaço
econômico nacional. Com o fim das guerras napoleônicas, a parte relativa aos impostos que
voltava para esses empresários (demanda de seus produtos gerada pela guerra) diminuiu
drasticamente. A competição aumentou, e o aluguel e salários subtraíram-se. (Ibid., p. 261).
Nesse contexto, a burguesia nacional inglesa tornou-se internacionalista ao mesmo
tempo que procurava satisfazer seus interesses de classe. Tinha por objetivo diminuir a
pressão da superlotação da economia doméstica, reformar as estruturas de representação do
Estado britânico e alcançar uma abertura radical do mercado inglês ao mercado estrangeiro. A
vitória da burguesia nacional inglesa como representante dentro do bloco dominante do Reino
Unido foi o desfecho da construção da hegemonia mundial dos ingleses. (Ibid., p. 261).

A hegemonia norte-americana e o sistema da livre-iniciativa


No fim do século XIX, a ascensão de duas potências, a Alemanha e os Estados Unidos,
começaram a ameaçar o poder mundial do Reino Unido, que logo começou a perder o controle sobre
o equilíbrio de poder tanto na Europa como no mundo. Isso acabou levando a uma nova luta violenta
pela supremacia mundial. (Ibid., p. 261-262).
O autor disserta sobre as fases que caracterizaram esse conflito e suas semelhanças
com a anterior luta pela supremacia mundial. A fase inicial, na qual os governantes
territorialistas tentavam incorporar o principal Estado capitalista, foi completamente
suprimida. As lógicas de poder territorialista e capitalista entraram em uma grande fusão,
sendo difícil de caracterizar quais governantes dos respectivos países, Reino Unido, Alemanha
e Estados Unidos, eram capitalistas e quais eram territorialistas. (Ibid., p. 262).
Durante todo o confronto, os governantes alemães mostraram inclinações
territorialistas muito mais fortes do que os governantes britânicos e norte-americanos,
exatamente por terem adentrado nos negócios tardiamente e, por isso, buscavam se espelhar
nos “modelos” presentes nas outras duas potências. No começo, procuraram seguir os passos
do Reino Unido, na qual sua hegemonia mundial era constituída fundamentalmente por uma
construção do império no mundo não-ocidental. Porém, após a Primeira Guerra Mundial e a
consequente superioridade do modelo norte-americano, tentaram seguir os passos dos Estados
Unidos. Este transformou-se, ao longo do século XIX, no principal polo empreendedor da
economia mundial. (Ibid., p. 262-263).
Diferentemente dos séculos XV e XVII, nos quais as potências tentaram incorporar
aos seus domínios o principal Estado capitalista, isso não aconteceu nesse momento. Isso
ocorreu pelo fato do poder mundial do Estado capitalista líder ter crescido demasiadamente
em comparação aos seus antecessores e rivais. Portanto, a solução seria começar a luta pelo
que antes havia sido a segunda fase, na qual os rivais tentam suplantar a vantagem
comparativa da riqueza e do poder do Estado capitalista líder. Por mais que o controle sobre o
comércio e as finanças continuasse a ser importante, no século XIX esse cenário muda. Agora,
quanto maior e mais dinâmico o mercado doméstico de um determinado Estado em relação
aos outros, maiores as chances desse Estado substituir o Reino Unido no centro das redes
globais de relações de clientelismo que constituíam o mercado mundial. (Ibid., p. 263).
Portanto, os Estados Unidos estavam bem à frente da Alemanha. Com uma enorme
dimensão territorial e isolamento, riqueza em recursos naturais, política protecionista em
relação a entrada de produtos estrangeiros, mas incentivo a entrada de capital e ao
empreendedorismo. (Ibid., p. 263).
Quanto a Alemanha, não se beneficiava dessa posição geográfica e dos fluxos de
trabalho, capital e espírito empreendedor. Entretanto, sua ascensão ao status de potência
mundial deve-se a sua “industrialização de guerra”, no processo de se envolver na luta pelo
poder europeu e, assim, desenvolveu grandes inovações militares e industriais. (Ibid., p. 264).
Mesmo assim, isso não alterou sua posição desfavorecida no cenário da economia
mundial. Pelo contrário, quanto mais os Estados Unidos se favoreciam nos fluxos de trabalho
e de capital, maiores eram os benefícios para o Reino Unido, pois eram o centro do comércio
e das finanças mundiais. Essa sensação de impotência dos alemães resultou numa obsessão
crescente dos governantes alemães com o Lebensraum (“espaço vital”). (Ibid., p. 264).
Foi essa obsessão que fez os governantes alemães seguirem os passos das potências
britânicas e norte-americanas. Essas tentativas frustradas levaram a reações defensivas que
fizeram o conflito interestados se transformar rapidamente em confrontos de larga escala. O
autor aponta uma segunda diferença entre essa luta pela supremacia mundial e a luta anterior
entre a França e a Inglaterra. Na luta anterior, foi preciso mais de um século de conflito
armado entre as grandes potências antes que a anarquia provocasse uma grande onda de
rebeliões populares que, por sua vez, precipitaram o caos sistêmico. Mas, no século XX, a
anarquia transformou-se em caos sistêmico logo que as grandes potências se enfrentaram
numa luta declarada. (Ibid., p. 264-265).
Antes mesmo da eclosão da Primeira Guerra Mundial, movimentos de protesto se
alastraram em diversas partes do mundo, que tinham suas raízes na dupla exclusão oriunda do
imperialismo de livre-comércio. Essa dupla exclusão abrangia tanto os povos não-ocidentais,
como às massas não-proprietárias do Ocidente. (Ibid., p. 265).
Enquanto o direito das nações ocidentais de procurarem enriquecer foi colocado acima
dos direitos absolutos de governo de seus dirigentes, os povos não-ocidentais foram privados
de seus direitos consuetudinários de autodeterminação. Ao mesmo tempo, as nações que
haviam se tornado unidades constituintes do sistema interestados eram geralmente
comunidades de proprietários, das quais os não-proprietários estavam praticamente excluídos.
(Ibid., p. 265).
Essa situação de impotência começou a mudar para as massas não-proprietárias do
Ocidente no final do século XIX em decorrência da intensificação da competição interestados
e da disseminação da necessidade de construção da economia nacional como instrumento
dessa competição. O poder social das massas não-proprietárias aumentou de forma
correspondente, assim como a efetividade de suas lutas pela proteção do Estado de seus meios
de vida. (Ibid., p. 265-266).
Assim, a deflagração do conflito mundial apresentou uma contradição nas relações
entre governante e súdito. Por um lado, o poder social das massas não-proprietárias aumentou.
Por outro lado, os meios de conciliação entre governante/súdito foram reduzidos. Isso foi
visto logo no início da Primeira Guerra Mundial, quando, em apenas alguns anos de disputa
entre eles foram suficientes para liberar a mais intensa onda de rebelião popular jamais
experimentada pelo sistema mundial moderno, representado pelo Revolução Soviética de
1917. (Ibid., p. 266).
Entre os pilares dessa Revolução, estava o “anti-imperialismo”, ou seja, a defesa do
direito de todos os povos à autodeterminação; e o “internacionalismo proletário”, isto é, a
primazia dos direitos de subsistência sobre os direitos de propriedade e os direitos do governo.
Inicialmente, o impacto da Revolução de 1917 foi semelhante ao da Revolução de 1776,
promovendo a retaliação da grande potência que tinha acabado de ser derrotada na luta pela
supremacia mundial (dessa vez, a Alemanha) e, com isso, levou a uma nova rodada de
conflito aberto entre as grandes potências. (Ibid., p. 266).
A partir daí, o sistema interestados foi polarizado entre duas facções divergentes. De
um lado, a facção dominante (liderada pelo Reino Unido e pela França) era conservadora, isto
é, voltada para a preservação do imperialismo livre-cambista. Do outro, a facção reacionária
(dirigida pela Alemanha nazista) que envolvia os Estados novos na luta pelo poder mundial,
que não tinham um império colonial considerável e nem influência sobre as redes de comércio
e finanças mundiais. Estes, mesmo tendo maior interesse na aniquilação da Revolução
Soviética, acreditavam que seus objetivos contrarrevolucionários seriam alcançados mais
facilmente em um confronto prévio com a facção conservadora. (Ibid., p. 266-267).
Como resultado desse conflito, sucedeu-se a desintegração completa do mercado
mundial e violações drásticas dos princípios, normas e regras do sistema westfaliano. Além
disso, o autor aponta que, como as guerras napoleônicas precedentes, a Segunda Guerra
Mundial provocou a propagação da revolução social por todo o mundo não-ocidental,
caracterizadas pelos movimentos de libertação nacional. Com isso, o imperialismo livre-
cambista entrou em colapso, resultando numa desorganização irreparável do sistema
interestados. (Ibid., p. 267).
Novamente observado pelo autor, assim como o Reino Unido no século XIX, os
Estados Unidos, primeiramente, tornaram-se hegemônicos ao orientar o sistema interestados
na restauração dos princípios, normas e regras do sistema westfaliano; posteriormente,
passaram a governar e a remodelar o sistema que haviam restaurado. Como dito pelo autor
anteriormente, essa capacidade de refazer o sistema interestados baseou-se numa percepção
generalizada entre os governantes e súditos do sistema de que os interesses nacionais da
potência hegemônica representavam um interesse universal. (Ibid., p. 267).
Essa percepção generalizada decorreu da eficiência dos governantes norte-americanos
de apresentarem soluções dos problemas condizentes com a luta pelo poder que confrontava
forças revolucionárias, reacionárias e conservadoras. (Ibid., p. 267).
O fim da Segunda Guerra Mundial resultou num aumento exorbitante do poder
mundial tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética. O cenário estava preparado
para a reconstrução do sistema interestados no sentido de acomodar as demandas dos povos
não-ocidentais e das massas não-proletárias, garantindo a todos os povos o direito à
autodeterminação e, depois de constituídos como comunidade nacional, foram aceitos como
membros efetivos no sistema interestados. Então, a “descolonização” global foi o feito mais
importante da hegemonia norte-americana. (Ibid., p. 268).
Na hegemonia inglesa, o objetivo da sua ideologia liberal colocou a busca de riqueza
dos súditos proprietários acima dos direitos absolutos de governo de seus dirigentes,
expandindo o sistema interestados de forma a acomodar a “democratização” do nacionalismo.
Na hegemonia dos Estados Unidos, o objetivo foi colocar também a prosperidade de todos os
súditos – consumo de massa – acima dos direitos absolutos de propriedade e do governo,
expandindo o sistema interestados de forma a acomodar a “proletarização” do nacionalismo.
(Ibid., p. 268).
Mais uma vez, a expansão envolveu a superação. Como a superação do sistema
westfaliano pelo imperialismo de livre-comércio. Sob hegemonia britânica, esse imperialismo
livre-cambista era regido pelo direito internacional e o equilíbrio de poder, que funcionavam
entre os Estados, e não acima deles, não tinham autonomia organizacional em relação ao
poder mundial do Reino Unido. Em comparação, as instituições da hegemonia dos Estados
Unidos restringiram consideravelmente os direitos e poderes dos Estados soberanos. (Ibid., p.
269).
Os estados soberanos sob a hegemonia norte-americana tinham muito menos liberdade
do que tinham sob a hegemonia britânica, em especial ao organizar as relações entre eles e
com seus súditos e para usar a guerra e a expansão territorial objetivando realizar seus
objetivos. Além disso, foram desenvolvidas grandes empresas transnacionais que criaram uma
rede extensa de trocas monetárias que nenhum Estado podia controlar unilateralmente ou se
desvincular. (Ibid., p. 269-270).
Ao mesmo tempo, essas redes foram instrumentos do governo mundial exercido pelos
Estados Unidos, exatamente como os instrumentos do governo mundial exercido pelo Reino
Unido no século XIX. A Organização das Nações Unidas com funções análogas àquelas do
Concerto da Europa. O Banco de Compensações Internacionais, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e o Banco Mundial com funções análogas às do haute finance. E, por fim,
as redes organizacionais e as empresas multinacionais com sede nos Estados Unidos com
funções análogas às redes comerciais com sede no Reino Unido. (Ibid., p. 270).
Porém, segundo o autor, as analogias são mais de forma do que de conteúdo. Primeiro,
o alcance e a complexidade organizacional das instituições de hegemonia dos Estados Unidos
são muito maiores e autônomos. Segundo, a partir do fim da década de 1960 as grandes
empresas transnacionais transformaram-se em um sistema integrado de produção, comércio e
acumulação que não está submetido a nenhuma autoridade estatal e que tem o poder de
sujeitar a suas “leis” todos os membros do sistema interestados. (Ibid., p. 270).
A hegemonia norte-americana marca o surgimento do sistema de livre-iniciativa, e o
fim do processo de superação do sistema westfaliano, como o princípio do fim do sistema
interestados como lócus primordial do poder mundial. (Ibid., p. 271).

Algumas conclusões preliminares


Ao concluir o ensaio, a partir de tudo o que foi dito pelo autor sobre a recorrência
anterior de hegemonias mundiais, ele enfatiza três pontos no que diz respeito sobre
determinadas condições em que se pode esperar que novas hegemonias mundiais surjam ou
não. (Ibid., p. 271).
Primeiro, os motivos que tornaram as Províncias Unidas, o Reino Unido e os Estados
Unidos hegemônicos no passado não foram seu poderio militar ou seu controle sobre recursos
escassos, mas sim suas predisposições e capacidades de fazer uso deles para resolver os
problemas em torno dos quais giravam os conflitos do sistema mundial. Essas predisposições
e capacidades refletiam a vontade da futura nação hegemônica que, por sua vez, foram
moldadas pelo caos sistêmico que criou uma demanda geral por ordem. (Ibid., p. 271).
Ou seja, segundo o autor, por mais que o poderio militar e o maior controle sobre
recursos escassos sejam condições importantes para a hegemonia mundial, não são suficientes
para atingi-la. O autor remete-se ao passado para guiar o futuro, onde nações hegemônicas
surgem de uma nova situação de conflito social e caos sistêmico. (Ibid., p. 271).
No segundo ponto, entretanto, o autor enfatiza que confiar excessivamente em
modelos de recorrências hegemônicas do passado para prever modelos futuros é perigoso. As
hegemonias mundiais ascendem e declinam num sistema que elas próprias criaram e
superaram, mudando de uma hegemonia para a seguinte em aspectos significantes, portanto,
não num sistema imutável. (Ibid., p. 272).
Para Arrighi, a mudança mais importante de todas foi a “aceleração da história social”.
Nos três exemplos de hegemonia mundial, a intensificação do conflito interestados engendrou
ondas de rebelião dos súditos em todo o sistema, cada vez mais aceleradas e fortes, que
serviram como meios para a transformação da anarquia sistêmica em caos sistêmico. Quanto
maiores os círculos de súditos mobilizados nos esforços dos governantes de construir o Estado
e o mundo, mais rapidamente o conflito interestados fez surgir rebeliões populares contra a
distribuição de custos e benefícios desses esforços. (Ibid., p. 272).
Em contrapartida, também houve a desaceleração da história política. Ou seja, a
socialização do esforço de guerra e da construção do Estado aumentou demasiadamente os
custos e riscos entre governantes rivais, diminuindo a fase de conflito armado entre eles. O
autor ainda afirma que um novo período de luta pela hegemonia mundial poderia estar
acontecendo, porém, uma luta em que o caos sistêmico é o resultado não da intensificação do
conflito interestados, mas da crise permanente do sistema interestados e de sua substituição
por organizações supra estatais. (Ibid., p. 272-273).
O autor adiciona uma terceira conclusão. Nos três exemplos históricos de hegemonia
mundial, a nação hegemônica também foi o principal Estado capitalista de sua época, porém,
em graus e formas diferenciadas. Arrighi menciona Marx e Engels, no Manifesto Comunista,
ao analisar a representação de interesses no Executivo dos três Estados, e conclui que cada
Estado hegemônico posterior foi menos capitalista que o anterior. Mas, ao mesmo tempo, o
sistema interestados tornou-se cada vez mais capitalista no sentido de que todos os seus
membros foram submetidos cada vez mais rigorosamente à lógica do poder capitalista. (Ibid.,
p. 273).
Para concluir, o autor nos deixa com um questionamento. Caso essa progressão
continue, o próximo Estado hegemônico teria de ser menos capitalista em suas estruturas
internas de representação do que os Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial; ao mesmo
tempo, teria de tornar o sistema mundial ainda mais capitalista do que é hoje. Arrighi deduz
que isso se assemelha com uma democracia social mundial, mas mesmo assim podendo ser
algo diferente, sendo necessário analisar todas as probabilidades.