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CENTRO DE ESTUDOS BET - HAKAM

CURSO DE BACHAREL EM TEOLOGIA


DISCIPLINA: HERMENÊUTICA
PROFESSOR: LÚCIO CARLOS
ALUNO: ANTONIO ELIAS SILVA NETO

ANÁLISE HERMENEUTICA DA PRIMEIRA CARTA DE PAULO AOS


CORINTIOS - CAPÍTULO 15

SÃO LUIS – MA
2018
ANTONIO ELIAS SILVA NETO

ANÁLISE HERMENEUTICA DE PRIMEIRA CARTA DE PAULO AOS


CORINTIOS - CAPÍTULO 15

Trabalho entregue ao
Professor da disciplina de
HERMENEUTICA para
obtenção de nota final.

SÃO LUIS – MA
2018

2
Ponto Titulo Pg.
1 LOCALIZAÇÃO DE CORINTO .................................................................................... 05
2 HISTÓRIA ........................................................................................................................ 06
3 POVO ................................................................................................................................. 06
4 RELIGIÃO E CULTURA................................................................................................. 07
5 IMPORTÂNCIA................................................................................................................ 08
6 CRONOLOGIA ................................................................................................................ 09
6.1 Procônsul Gálio............................................................................................................ 09
6.3 A Igreja em Corinto .................................................................................................... 09
7 MENSAGEM .................................................................................................................... 10
7.1 Problemas de Liderança .............................................................................................. 10
7.2 Problemas Morais e Sociais ........................................................................................ 11
7.3 Problemas Religiosos e Culturais ............................................................................... 11
7.4 Problemas Eclesiásticos .............................................................................................. 12
7.5 Problemas Doutrinários .............................................................................................. 12
8 DESTINATÁRIOS ........................................................................................................... 12
8.1 Judeus e Tementes a Deus ........................................................................................... 12
8.2 Convertidos .................................................................................................................. 13
8.3 Romanos ...................................................................................................................... 14
8.4 Líderes ......................................................................................................................... 14
8.5 Adversários ................................................................................................................. 15
9 CARACTERISTICAS ...................................................................................................... 15
10 TEXTO .............................................................................................................................. 16
11 PROPOSITO ..................................................................................................................... 17

12 ANÁLISE HERMENÊUTICA DO CAPITULO 15 DE 1ª CORINTIOS 18

12.1 A Ressurreição de Cristo...................................................................................... 18


1 Versículo 1....................................................................................................... 18
2 Tradição........................................................................................................... 21
3 Morte............................................................................................................... 21
4 Sepultamento................................................................................................... 22
5 Ressurreição..................................................................................................... 22
6 Aparecimentos................................................................................................. 23
• Considerações Doutrinárias em 15.3-8 .................................................... 26
8 Palavras, expressões e construções em grego em 15.2-8 ................................ 27
9 Palavras, expressões e construções em grego em 15. 9, 10 ............................ 28

12.2 A Ressurreição dos Mortos (15.12-19) ................................................................ 29


(1) O Argumento Lógico 15.12-19 ........................................................................ 29
• Considerações Doutrinárias em 15.14 ....................................................... 31
1.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.12-19.............................. 35
(2) A Realidade da Ressurreição 15.20-28 ............................................................ 36
(a) Em Adão e em Cristo 15.20-22 ........................................................................ 36
2.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.20-22 ............................. 40
(b) A Vinda do Senhor (15.23-28) ......................................................................... 40
2.2 Palavras, expressões e construções em grego em 15.23-28............................... 42
3 Argumentos com Respeito à Ressurreição (15.29-34) ..................................... 43
3.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.29-34 ............................. 43

3
12.3 Paralelos com o Corpo da Ressurreição (15.35-44) 45

1 Vida a Partir da Morte (15.35-38) ..................................................................... 45


• Considerações Doutrinárias em 15.35-38 ................................................. 47
1.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.35-38 .............................. 48
2 Semeado e Erguido (15.42-44) .......................................................................... 48
2.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.44a .................................. 51
3 Imortalidade e Vitoria........................................................................................ 51
3.1 Palavras, expressões e construções em grego em 15.50-53 .............................. 53
4 Celebração 15.54-57 ......................................................................................... 53
Bibliografia 54

4
1. LOCALIZAÇÃO DE CORINTO

A antiga Corinto estava localizada numa extensa planície abaixo do soberbo


Acrocorinto, um cume fortificado de 575 metros de altura na península do Peloponeso.
A subida íngreme do Acrocorinto tornava o forte praticamente invencível e a própria
cidade era relativamente segura.
Da antiga Corinto, a distância até a cidade portuária de Lacaeum, localizada no
golfo de Corinto, era de cerca de três quilômetros ao norte. A cerca de onze quilômetros
para o leste situava-se a cidade portuária de Cencréia junto ao golfo de Sarônica. Esses
dois portos traziam a Corinto comércio e riqueza. Navios do Ocidente (Itália, Espanha
e Norte da África)levavam seus produtos até Lacaeum, e navios do Oriente (Ásia Menor,
Fenícia, Palestina, Egito e Cirene) aportavam em Cencréia.
Capitães e tripulações relutavam em navegar as duzentas milhas que
circundavam o cabo ao sul da península (cabo Malea), onde tempestades- imprevisíveis
tornavam a navegação extremamente incerta. Extravios de navios, cargas e vidas
estavam profundamente gravados na memória tanto dos proprietários dos navios quanto
dos marinheiros. Por esse motivo, ou atracavam em Lacaeum ou em Cencréia. Desses
portos, transportavam as mercadorias dos navios maiores pelo istmo que liga a península
à Grécia central.
A construção de um canal teria facilitado o transporte de mercadorias, como
Periander (625-583 a. C.) percebeu; mas, em vez disso, pavimentou-se uma ligação
terrestre, que se chamou de diolkos. Essa palavra significa uma plataforma móvel sobre
rodas. Pequenos navios eram colocados sobre as plataformas e arrastados do golfo de
Sarônica no lado oriental até o golfo de Corinto no lado ocidental, e vice-versa. O
volume de mercadorias transportadas através do istmo contribuiu consideravelmente
para a quantia de taxas de circulação de mercadorias recolhidas por Corinto.1
Na Antigüidade, o rei grego Demétrio e os imperadores romanos Júlio César e
Gaio Calígula quiseram escavar um canal através do istmo em seu ponto mais estreito
(7,2 quilômetros). Nero, mais tarde, deu início às obras, mas logo teve de abandonar o
projeto por várias razões: finanças, uma crença de que fazer um canal era um ato de
sacrilégio e uma teoria de que os níveis da água nos dois lados do istmo eram diferentes.2
Josefo relata que Vespasiano, o general das forças romanas na Palestina, que
escravizou um número incontável de judeus, enviou aproximadamente seis mil homens
judeus a Corinto para cavar a passagem pelo istmo em 67.3 Finalmente, na última parte
do século IX e começo do século X, engenheiros franceses construíram e completaram
o canal coríntio.

1
Jerome Murphy-O’Connor, “The Corinth that Saint Paul Saw”, BA 47 (1984): 147-59.
2
Suetônio, Life of Apollonius of Tyana 4.24; Plínio, Natural History 4.9-11; Jerome Murphy-O’Connor, St.. Paul’s
Corinth: Texts and Archaeology, Good News Studies, vol. 6 (Wilmington, Del.: Glazier, 1983), pp. 53, 85.
3
Josefo Wars 3.10.10 [540].

5
2. HISTÓRIA

A cidade de Corinto aparece na Ilíada de Homero e, portanto, data do segundo


milênio antes de Cristo. Exerceu influência sobre toda a península, o istmo e parte da
Grécia central. No século VII a. C., Corinto alcançou o seu apogeu devido à sua atração
para o comércio. Periander impulsionou o poder comercial de Corinto suprindo o
equipamento necessário para transportar navios menores através do istmo. Mas, durante
os dois séculos seguintes, Corinto teve de enfrentar o poder rival de Atenas.
Durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a. C.), entre Atenas e Esparta, Corinto
aliou-se a Atenas. Essa guerra enfraqueceu Atenas e Corinto de tal forma que Filipe II
da Macedônia subjugou Corinto no ano 338 a. C. Seu filho, Alexandre o Grande, usou
Corinto como um centro comercial e atração turística. Depois da morte de Alexandre
(323 a. C.), Corinto assumiu a liderança das cidades-estados gregas no Peloponeso e no
sul da Grécia.
Mais tarde, em 196 a. C., os romanos conquistaram a Grécia e concederam a
Corinto o direito de liderar a liga das cidades na província da Acaia. Quando os corintos
se rebelaram, cinqüenta anos mais tarde, os romanos, sob Lúcio Mummius, destruíram
a cidade. Por um século, a cidade permaneceu em ruínas, até que Júlio César a reedificou
em 44 a. C. e reconstruiu os dois portos de Lacaeum e Cencréia. Corinto tornou- se uma
colônia romana conhecida então como Colonia Laus Julia Corinthiensis (a colônia
coríntia é louvor juliano), isto é, esta colônia honra Júlio César. A cidade prosperou
novamente como um entreposto e centro comercial que atraiu pessoas de várias partes
do mundo.

3. POVO

Como uma colônia sujeita à lei romana, Corinto tinha um governo semelhante
ao da cidade imperial.4 A língua oficial era o latim, embora o grego permanecesse a
língua do povo simples. Paulo menciona nomes latinos de pessoas que viviam em
Corinto: Tércio, Gaio e Quarto (Rm 16.22,23), o casal judeu Priscila e Áqüila; Tício
Justo; Crispo, o principal da sinagoga, e Fortunato (At 18.2, 7; 1Co 1.14; 16.17). Oficiais
romanos civis e militares, entre os quais estava o procônsul Gálio (At 18.12), residiam
em Corinto junto com uma multidão de colonos formada de ex-soldados e libertos (ex-
escravos) vindos de Roma. Havia também mercadores, artesãos, artistas, filósofos,
mestres e trabalhadores de muitos países ao redor do Mediterrâneo. A população da
cidade incluía certo número de judeus de Israel e de outros lugares, gregos nativos,
expatriados e escravos. Todas essas pessoas viviam e trabalhavam em Corinto ou em
suas duas cidades portuárias. Aumentavam a população de Corinto, contribuíam para
sua diversidade e fortaleciam sua economia. O interior contribuía para a base agrícola
de Corinto. A própria cidade era um centro manufatureiro e os dois portos faziam de

4
Victor Paul Furnish, “Corinth in Paul’s Time. What Can Archaeology Tell Us?” BAR 14 (1988): 14-27

6
Corinto um centro do comércio internacional. Em resumo, Corinto desfrutava de
reconhecimento internacional.

4. RELIGIÃO E CULTURA

Autores gregos e romanos nos séculos que antecederam o surgimento do


Cristianismo referiram-se muitas vezes a Corinto como a cidade da fornicação e da
prostituição. Os gregos haviam cunhado o termo corinthiazesthai (literalmente, “viver
uma vida coríntia”) para descrever a imoralidade da cidade. Corinto tinha uma dúzia de
templos ou mais, dos quais, um, dedicado à deusa do amor, Afrodite, era conhecido na
Antigüidade por sua imoralidade. Estrabão escreve sobre a cidade de Corinto em época
anterior à sua destruição pelos romanos, em 146 a. C., e registra a presença de mil
prostitutas no templo de Afrodite,5 embora a exatidão dessa afirmação tenha sido
questionada por muitos estudiosos.6 Supomos que a cidade de Corinto e seus dois portos,
que recebiam uma multidão de navegantes, mercadores e soldados, era um lugar para
altos padrões morais. As claras exortações de Paulo para fugir da imoralidade (5.1; 6.9;
15-20; 10.8) deixam a nítida impressão de que a promiscuidade não era rara nessa
cidade.
Os coríntios também permitiam que muitos grupos religiosos diferentes
praticassem sua fé. Além do culto a Afrodite, os coríntios cultuavam Asclépio, Apolo e
Posêidon. Havia também vários altares e templos para as divindades gregas Atenas,
Hera e Hermes, além de santuários para o culto dos deuses egípcios Ísis e Serapis.7 Entre
os diversos grupos religiosos presentes em Corinto, incluíam-se os judeus. Os
imperadores Júlio César e Tibério haviam dado aos judeus liberdade para praticarem
sua religião desde que se abstivessem de atos de rebelião contra o governo romano. O
imperador Cláudio, também, havia reeditado esse decreto imperial. Os judeus em
Corinto tinham sua própria sinagoga,8 onde, no início, convidaram Paulo a pregar, mas
da qual logo o expulsaram. Lucas narra que os líderes judeus arrastaram Paulo até o
tribunal (bēma) do procônsul Gálio 9 e o acusaram de ensinar uma religião contrária à
lei (At 18.12,13). Gálio, sabendo da legitimidade da religião judaica, recusou-se a ouvir
os judeus porque sua acusação nada tinha que ver com a lei romana. Para ele, o assunto
era uma controvérsia religiosa interna, não uma questão civil e, por esse motivo, recusou
a acusação.
À vista das várias correntes religiosas existentes em Corinto, a introdução do
Cristianismo, vista como uma variante da fé judaica, não era, absolutamente, ofensiva à

5
Estrabão Geography 8.6.20.
6
Entre outros, ver H. D. Saffrey, “Aphrodite a Corinthe: Réflexions sur Une Idée Reçue”, RB 92 (1985): 359-74.
7
Veja Dan P. Cole, “Corinth & Ephesus. Why did Paul Spend Half His Journeys in These Cities?” BibRev 4 (1988): 20-30.
8
Arqueólogos descobriram um lintel com a provável inscrição “Sinagoga dos Hebreus”. Embora os arqueólogos atribuam
uma data do III ou IV séculos para esse lintel, a presença de uma sinagoga judaica nos dias de Paulo não está em questão.
Consultar Richard E. Oster,Jr., “Use, Misuse and Neglect of Archeological Evidence in Some Modern Works on 1
Corinthians (1Co 7,1-5; 8,10; 11, 2-16; 12, 14-26)”, ZNW 83 (1992): 52-73.
9
O imperador Augusto declarou Corinto a capital da província de Acaia e, embora essa província estivesse sob jurisdição
senatorial, algumas vezes o imperador designou procônsules para administrar a lei romana. Assim, o Imperador Cláudio
enviou Gálio a Corinto para servir como procônsul (presumivelmente de julho de 51 até junho de 52).

7
população em geral. Os gentios coríntios mais facilmente poderiam aceitar a fé cristã do
que a religião judaica. Paulo ensinava que os gentios convertidos ao Cristianismo não
precisavam se submeter aos rituais da fé judaica, nem mesmo à circuncisão. Por esse
motivo, seus ensinamentos enfureceram os oficiais da sinagoga local, que arrastaram
Paulo até a presença de Gálio. Mas depois que perderam sua causa no tribunal do
procônsul, Paulo e a igreja continuaram a pregar o evangelho sem medo de que lhes
fizessem mal (ver At 18.10). Porque o Senhor tinha muitas pessoas nessa cidade, a igreja
continuou a crescer. Ao contrário dos judeus, os cristãos encontravam-se nas casas de
membros da igreja – em Corinto, na casa de Tício Justo, que morava ao lado da
sinagoga. Os cristãos fundaram igrejas domésticas que, em casas grandes, reuniam no
máximo cinquenta pessoas e, em casas menores, talvez trinta.
Um acontecimento importante na Corinto cosmopolita do século I eram os Jogos
do Istmo. Esses jogos eram o segundo em importância –o primeiro lugar pertencia aos
Jogos Olímpicos – e eram realizados a cada dois anos, na primavera. Os jogos incluíam
corridas, lutas e corrida de bigas (comparar com 9.24-27).10 Durante seus dezoito meses
em Corinto, Paulo deve ter assistido aos Jogos do Istmo na primavera de 51. Supomos
que Paulo tenha se ocupado em seu ofício de fabricante de tendas durante esses eventos
e, fazendo-se tudo para com todos, proclamava o evangelho da salvação (ver 9.22, 27).

5. IMPORTÂNCIA

Paulo decidiu pregar o evangelho nas capitais das províncias, entre as quais,
Tessalônica na Macedônia e Corinto na Acaia. Considerou as capitais como centros
estratégicos onde, em alguns casos, as rotas comerciais terrestres e marítimas se
encontravam. De Corinto, o evangelho finalmente se espalhou para as vilas rurais ao
redor, para outras cidades da região e para muitas partes do mundo mediterrâneo.
Mais do que a qualquer outra igreja, Paulo devotou seu talento, tempo e lágrimas
à congregação de Corinto. Os membros receberam três visitas (2 Co 13.1), orientação
sadia, longas cartas e incessante oração. Apresentaram diversos problemas práticos que
angustiavam a jovem congregação coríntia. Como pai dessa igreja específica (4.15),
Paulo orientou os crentes sobre como lidar com todas as suas dificuldades. No entanto,
suas palavras não estão limitadas a certas pessoas ou a determinada época; Paulo deixou
por escrito orientações para a igreja universal. A mensagem teológica que ele apresenta
aplica-se a situações existentes em inúmeras congregações através do mundo. De fato,
seus ensinamentos sobre casamento, divórcio, separação, virgens e viúvas (capítulo 7)
servem para todos. Consequentemente, a epístola de Paulo é dirigida a cada crente de
qualquer época ou século em todas as partes do mundo.11

10
Oscar Broneer, “The Apostle Paul and the Isthmian Games”, BA 25 (1962): 2-31; e “Paul and Pagan Cults at Isthmia”,
HTR 64 (1971): 169-87
11
Consultar Larry McGraw, “The City of Corinth”, SWJourTh 32 (1989): 5-10.

8
6. CRONOLOGIA

6.1. Procônsul Gálio


Lucas informa que Paulo permaneceu um ano e meio em Corinto em sua
primeira visita (At 18.11). Entre outras coisas, menciona que a visita de Paulo a Corinto
ocorreu quando Gálio servia como procônsul da Acaia (At 18.12). Sabemos que o
mandato para um procônsul era de um ano, a contar do primeiro dia de julho até o último
dia de junho. Arqueólogos descobriram inscrições próximas a Delfos que, num caso,
mencionam o nome Gálio como procônsul da Acaia junto ao de Cláudio; a inscrição
especifica a data como o duodécimo ano do reinado do imperador Cláudio e a vigésima
sexta vez que ele era proclamado imperador. Uma vez que Cláudio deu início ao seu
primeiro ano de governo no dia 25 de janeiro de 41, ele começou seu duodécimo ano
em 25 de janeiro de 52. Nessa ocasião, Gálio já havia cumprido quase sete meses de seu
proconsulado em Corinto (julho de 51 a junho de 52). Depois de seu comparecimento
diante do tribunal de Gálio, Paulo permaneceu ainda muitos dias em Corinto (At 18.18)
e, então, partiu para Éfeso. Com base na data do proconsulado de Gálio, que aceitamos
como estabelecida, podemos dizer, com certo grau de certeza, que Paulo fundou a igreja
de Corinto nos anos 50-52.

6.3 A Igreja de Corinto


Logo depois do encontro em Jerusalém, Paulo iniciou sua segunda viagem
missionária pela visita às igrejas na Ásia Menor (At 15.36 – 16.5). Ele cruzou o mar
Egeu e viajou até Filipos, Tessalônica, Beréia e Atenas (At 16.8 – 17.33). Supomos que
Paulo chegou em Corinto no outono de 50, ali permanecendo por dezoito meses (At
18.11). Paulo partiu de Corinto na primavera de 52, navegando com Áqüila e Priscila
para Éfeso, onde os deixou, continuando sua viagem para Cesaréia, de onde foi para
Jerusalém e Antioquia (At 18.18-22). Depois, viajou pela Ásia Menor, fortalecendo as
igrejas, chegando a Éfeso provavelmente no outono de 52 (At 18.23; 19.1). Permaneceu
três anos em Éfeso, ensinando, primeiro na sinagoga e depois na escola de Tirano, e
propagando a palavra de Senhor (At 19.8, 20; 20.31). Não temos como especificar a
ocasião exata da composição de 1 Coríntios, mas 55 é uma data bastante próxima.12 De
certa forma, 1 Coríntios é a continuação de uma epístola anterior que Paulo escreveu,
mas que não foi preservada. Ele havia enviado aos coríntios uma carta ordenando a eles
não se associarem com pessoas imorais (5.9). Aparentemente, não conseguiu transmitir
sua mensagem, fato que moveu os coríntios a lhe escreverem uma resposta (ver 7.1).
Paulo respondeu a carta que havia recebido da igreja em Corinto e compôs o que hoje
chamamos 1 Coríntios. Depois de enviar essa epístola, Paulo foi a Corinto e os visitou
“em tristeza”, escrevendo-lhes depois uma carta “com muitas lágrimas” (2Co 2.1, 3,4).
A visita e a remessa dessa carta provavelmente aconteceram em 55. No ano seguinte,
Paulo compôs 2 Coríntios.

12
S. Dockx é da opinião que Paulo compôs a carta no primeiro trimestre de 54. Ver sua “Chronologie Paulinienne de
l’Année de la Grande Collecte”, RB 81 (1974): 183-95. No mesmo sentido, consultar Graydon F. Snyder, First Corinthians:
A Faith Community Commentary (Macon, Ga.: Mercer university Press, 1992), p. 8.

9
7. MENSAGEM

A epístola foi ocasionada por um relatório trazido a Paulo por membros da casa
de Cloe (1.11), por uma carta dos coríntios (7.1) e pela chegada de uma delegação da
igreja de Corinto (16.17). O relatório dos da casa de Cloe referia-se às facções que
haviam surgido em Corinto e estavam destruindo a unidade da igreja. Paulo também
tinha ouvido acerca de incesto (5.1), litígios (6.1-8) e imoralidade (6.9-20). A carta que
ele recebeu de Corinto continha perguntas sobre o casamento (7.1), as virgens (7.25), a
comida sacrifica aos ídolos (8.1), os dons espirituais (12.1), a coleta para os santos de
Jerusalém (16.1) e Apolo (16.12). A delegação formada por três homens da igreja de
Corinto supriu as lacunas existentes (16.17).

7.1. Problemas de Liderança

A congregação de Corinto significava muito para Paulo: ele escreve que era pai
espiritual deles em Cristo Jesus mediante o evangelho (4.15). Sem dúvida, o período
relativamente breve do ministério de Paulo na igreja de Corinto, junto com as diferenças
de origem étnica e de status econômico de seus membros, permitiu o surgimento de
muitos problemas. Havia judeus cristãos, os quais conheciam as Escrituras do Antigo
Testamento e os gentios tementes a Deus que haviam freqüentado as reuniões de
adoração na sinagoga local; havia também cidadãos ricos e escravos indigentes. A
congregação reunia pessoas de várias nacionalidades e muitas línguas. Podemos
seguramente dizer que, devido a essa diversidade, a igreja de Corinto não primava por
estabilidade.
Quando um espírito de partidarismo invadiu a igreja de Corinto, as pessoas
afastaram-se umas das outras e a união deu lugar à discórdia. Quando Paulo tomou
conhecimento da existência de facções na congregação de Corinto, tratou do problema
como prioridade. Conforme lhe haviam dito, a igreja estava dividida em quatro grupos
e cada um seguia um líder: Paulo, Apolo, Cefas ou Cristo. No primeiro versículo sobre
esse assunto, ele apela aos coríntios no nome do Senhor Jesus Cristo para que estivessem
de acordo uns com os outros, que evitassem divisões e que estivessem unidos numa só
mente e num só parecer (1.10). A pergunta retórica: “Cristo está dividido?” (1.13)
subentende uma resposta negativa que afirme a unidade da igreja cristã. Quem são Paulo
e Apolo? A resposta é que são simplesmente servos a quem o Senhor atribuiu a tarefa
de levar pessoas à fé nele (3.5). Estão incumbidos da missão de proclamar e ensinar a
revelação de Deus ao povo, razão pela qual proíbe-se a arrogância e o partidarismo.
Cada membro da igreja de Corinto tem de aprender o que as Escrituras têm a dizer e,
assumindo um espírito de mansidão, precisa evitar divisões na igreja (4.6).
Por causa da ausência de Paulo, por três anos, da igreja de Corinto (de 52 a 55),
alguns de seus líderes haviam se tornado arrogantes; eles se opunham e desafiavam a
liderança de Paulo e de seus cooperadores (4.18-21; 9.1-6; 16.10-12). Esses líderes
alegavam serem sábios e filosoficamente instruídos; sem dúvida, eram influenciados
pela filosofia grega da época (comparar 1.20-25; 2.1-5, 12-14; 3.18-22; 12.3). Não eram

10
gnósticos,13 mas adversários do afã de Paulo de ensinar e aplicar o evangelho de Cristo.
Paulo os chama de volta à revelação de Deus e aponta Cristo como poder e sabedoria
de Deus (1.24, 30). Paulo aplica a revelação divina ao cotidiano deles, perturbado por
enfermidades morais e sociais.

7.2 Problemas Morais e Sociais

Na comunidade de Corinto, um homem mantinha relações sexuais com a mulher


de seu pai – um mal que não acontecia nem mesmo entre os gentios (5.1). Paulo
considerou toda a igreja de Corinto responsável por esse pecado e repreendeu seus
membros por não se lamentarem. 14 Instruiu os coríntios a entregarem tal homem a
Satanás e a expulsarem-no da comunidade (5.5,13). Paulo ordenou que fosse removida
da igreja tal infâmia; essa mácula prejudicaria a eficácia da igreja em Corinto. Paulo
esperava dos cristãos que fossem exemplares quanto à pureza moral em uma sociedade
imoral. Por essa razão, Paulo ordenou aos coríntios que não se associassem com pessoas
sexualmente impuras, mas que fugissem da imoralidade (5.9; 6.9-11, 18). A imoralidade
também envolvia um mal social, a saber, o fato de cristãos apresentarem suas demandas
perante um juiz gentio (6.1). Repetidamente, Paulo fez os coríntios recordarem-se de
seus ensinamentos anteriores sobre a imoralidade, perguntando se lembravam de suas
admoestações. Com relação às demandas em juízo, instruiu-os de forma clara a
encontrarem um homem sábio dentre eles para julgar, como mediador, suas diferenças.
Aplicando a lei de Cristo de amor mútuo, instou-os que preferissem sofrer injustiça e
dano a obter um ganho de causa que inevitavelmente seria prejudicial ao seu próximo
(6.7,8).
Outros problemas sociais existentes na comunidade de Corinto estavam
relacionados a casais, pessoas separadas ou divorciadas, solteiras e viúvas. A igreja
enviou uma carta a Paulo em que os membros buscavam sua orientação em questões
relativas ao casamento. Ele atendeu plenamente à solicitação deles apresentando uma
longa exposição sobre um assunto de interesse universal (v. 7). Na verdade, em toda a
Escritura, ninguém apresentou uma exposição mais detalhada sobre questões
matrimoniais do que Paulo em 1 Coríntios 7. Paulo fundamentou seu ensino na
instituição do santo matrimônio no Éden e no pronunciamento de Jesus sobre não
quebrar os votos matrimoniais (Gn 2.24; Mt 19.4-6).

7.3 Problemas Religiosos e Culturais

Outra questão sobre a qual os coríntios buscaram orientação foi quanto à atitude
que deveriam ter diante de uma prática gentílica: comer comida sacrificada a um ídolo
(8.1). Os cristãos que tinham consciência firme não tinham dúvidas quanto a comer

13
Walter Schmithals vê puro gnosticismo cristão em Corinto. Ver Gnosticism in Corinth: An Investigation of the Letters to
the Corinthians, trad. de John E. Steely (Nashville e Nova York: Abingdon, 1971), p. 138. Contudo, não o meio, mas o fim
do primeiro século é conhecido por um começo embrionário do gnosticismo cristão nas igreja de Corinto.
14
Consultar Brian S. Rosner, “‘ouvci. ma/llon evpenqh,sate’: Corporate Responsibility in 1 Corinthians 5”, NTS 38 (1992):
470-73; F. S. Malan, “The Use of the Old Testament in 1 Corinthians”, NeoTest 14 (1981): 134-66.

11
carne num templo idólatra porque consideravam o ídolo como nada sendo e a carne
como alimento comum. Exerciam a liberdade cristã comprando tal carne no mercado.
Mas Paulo chamou a atenção para a consciência do irmão mais fraco, a responsabilidade
dos cristãos fortes para com o irmão mais fraco e a unidade da igreja.

7.4 Problemas Eclesiásticos

Os quatro capítulos seguintes (11-14) dizem respeito a questões pertinentes ao


culto: oração e profecia, a celebração da ceia do Senhor, os dons espirituais, o
significado do amor, o profetizar e o falar em línguas e a ordem no culto. Os problemas
referentes aos dons espirituais eram tão graves que a carta que os coríntios enviaram a
Paulo pedia que explicasse a questão dos dons espirituais. A questão em si precede e
segue o eloquente capítulo sobre o amor (13), que dá tom para a conduta apropriada no
culto.

7.5 Problemas Doutrinários

Nada indica que os leitores tenham pedido alguma orientação de Paulo sobre a
doutrina da ressurreição. Mas havia chegado ao seu conhecimento que alguns membros
da igreja de Corinto negavam a existência da ressurreição (15.12). Nas observações
iniciais de sua epístola, Paulo escreveu sobre a expectativa do retorno de Jesus (1.8).
Isso é revelador por causa do longo discurso de Paulo sobre a ressurreição física do
corpo em 15.12-58 e sua discussão sobre a escatologia. Paulo escreve que os coríntios
corriam o risco de serem desviados do caminho por doutrinas errôneas sobre a
ressurreição de Cristo (15.12, 33,34). No começo e no fim de sua epístola, Paulo
encoraja seus leitores a aguardarem o retorno de Cristo.

8. DESTINATÁRIOS

Pela leitura cuidadosa da carta de Paulo, podemos aprender algo sobre seus
leitores. Do relato histórico em Atos, sabemos que alguns judeus aceitaram o evangelho
e abandonaram a sinagoga local. Também gentios que adoravam o Deus de Israel,
conhecidos como tementes a Deus, creram em Jesus e foram batizados (At 18.7-8).

8.1 Judeus e Tementes a Deus

O emprego do Antigo Testamento por Paulo em sua epístola revela que ele
pressupunha que muitos de seus leitores tinham um conhecimento básico das Escrituras,
pois ele cita passagens de vários livros do Antigo Testamento. Ele revela sua própria
predileção por citar mais de um livro que de outro. Precisamente falando, quase um

12
terço da soma total de suas citações diretas são da profecia de Isaías.15 Além da
afinidade de Paulo com Isaías, ele faz citações de Gênesis, Êxodo, Deuteronômio, Jó,
Salmos, Jeremias e Oséias. Em resumo, com relação a 1 Coríntios, ele se firma
basicamente nos livros de Moisés e na profecia de Isaías.
Podiam os cristãos de Corinto compreender, de imediato, o contexto, a colocação
e a aplicação dessas citações do Antigo Testamento no discurso de Paulo? Cristãos de
origem judaica haviam aprendido as Escrituras desde a infância e, assim, podiam
compreender o contexto das passagens citadas e sua aplicação. Por exemplo, de Isaías
22.13, Paulo cita as palavras “Comamos e bebamos, que amanhã morreremos”.
Cristãos de origem judaica, familiarizados com a história de Israel,
compreendiam imediatamente a importância histórica dessas palavras. Sabiam que
Paulo fazia alusão à indiferença do povo de Jerusalém quando um exército estrangeiro
encontrava-se prestes a devastar o seu país. Em vez de pedir socorro a Deus, esses
israelitas matavam bois, comiam a carne, bebiam vinho e entregavam-se à orgia. O povo
de Jerusalém não se arrependia, afastava-se deliberadamente de Deus e esperava o
tempo passar embriagando-se. Muitos dos tementes a Deus de Corinto haviam adquirido
conhecimento das Escrituras na sinagoga local e na igreja. Também conseguiam
entender a profundidade do ensinamento de Paulo e não necessitavam de explicações
adicionais.

8.2 Convertidos

Outras pessoas converteram-se à fé quando Paulo começou seu ministério em


Corinto. Não devemos esquecer que permaneceu ali somente dezoito meses, pois Paulo
partiu em 52. Quando escreveu 1 Coríntios, três anos mais tarde, não podia esperar que
cada membro da igreja de Corinto tivesse um conhecimento e uma compreensão
perfeitos das Escrituras. Muitos dos problemas eclesiásticos e sociais nessa igreja
surgiram de um discernimento e uma aplicação insuficientes da Palavra de Deus.
Paulo observa que a conduta de alguns cristãos coríntios é idêntica à das pessoas
mundanas, a ponto, inclusive, de a diferença entre eles ser desprezível (3.3). Paulo
repreende o comportamento deles, marcado por brigas, inveja, imoralidade e
licenciosidade; pela sua conduta estavam desacreditando o templo de Deus. Paulo os faz
lembrar que, como o Espírito de Deus habita neles, o corpo deles é o templo de Deus.
E, se alguém destrói esse templo, Deus o destruirá (3.16,17). Acaso Paulo, com a
expressão grega pneumatikoi, está se opondo a pessoas que se autodenominam de
espirituais? Fosse esse o caso, seria de se esperar que esse termo grego estivesse no
masculino plural e aparecesse frequentemente do início ao fim de 1 Coríntios. Esse,
dificilmente, é o caso. Paulo escreve a palavra espiritual doze vezes,16 mas nove das
ocorrências estão no gênero neutro e referem-se a verdades, coisas e corpos espirituais.
Quando emprega a forma masculina, quer no singular ou no plural (2.15; 3.1; 14.37), o
termo aparece em contraste explícito ou implícito com pessoas que são não-espirituais

15
Essa propensão para citar Isaías também é evidente em Romanos, onde Paulo cita esse profeta dezoito vezes de um total
de sessenta passagens do Antigo Testamento.
16
1 Coríntios 2.13, 15; 3.1; 9.11; 10.3, 4; 12.1; 14.1, 37; 15.44 [duas vezes], 46.

13
ou crianças em Cristo. Pessoas espirituais são cheias do Espírito Santo, fazem bons
julgamentos, não são sensuais ou mundanas e aceitam o mandamento do Senhor e
obedecem a ele.
Verificamos que essa carta contém uma série de lemas que eram usados pelas
pessoas arrogantes de Corinto. Paulo se dirige a esses membros da igreja, dialogando
com eles a partir de seus slogans. Eles aplicavam o slogan “Todas as coisas me são
lícitas” (6.12; 10.23) à sua conduta diária. Eles se deleitavam em pecados sexuais e
sociais e permitiam- se tal conduta sob o pretexto da liberdade em Cristo. Em vez de
servirem ao seu Senhor e Salvador, satisfaziam seus próprios desejos pecaminosos.
Paulo os censura com afirmações contrárias que anulam o conteúdo de seus lemas. Eles
diziam que todas as coisas eram lícitas, mas Paulo afirma que nem todas as coisas são
proveitosas. Vangloriavam-se dizendo: “Os alimentos são para o estômago, e o
estômago para os alimentos”, ao que Paulo respondeu “mas Deus destruirá tanto estes
como aquele” (6.12,13).17 Buscavam satisfação sexual, mas Paulo mostra que a
imoralidade sexual é pecado contra o próprio corpo. Uma vez mais ele lembra os
coríntios que o corpo do cristão é um templo do Espírito Santo (6.19; ver 3.16,17). Paulo
confronta esses arrogantes que queriam tirar o máximo proveito da liberdade cristã. De
maneira franca, lhes diz que se tornaram altivos no falar e que carecem de correção
(4.18-21).
Muitas dessas pessoas eram recém-convertidos que precisavam ser alimentados
na fé. Evidentemente, judeus e tementes a Deus também eram recém-convertidos ao
Cristianismo e precisavam ser instruídos no evangelho. A congregação de Corinto
compunha-se de pessoas dentre todas as camadas da sociedade e de muitas
nacionalidades. Os membros da congregação demonstravam falta de homogeneidade e
união enquanto permaneciam em práticas pecaminosas que pertenciam às suas
respectivas culturas.

8.3 Romanos

Depois da reconstrução de Corinto em 44. a. C., a cidade tornou-se uma colônia


romana habitada por um grande número de pessoas dos corpos administrativo e militar
e por escravos libertos. A cultura romana influenciou a sociedade de Corinto e alguns
de seus costumes tornaram- se parte da vida diária. Por exemplo, Paulo escreve sobre
véus que cobriam a cabeça de homens e mulheres no culto: um homem não deve ter sua
cabeça coberta quando ora ou profetiza, mas uma mulher que ora ou profetiza deve
cobrir sua cabeça (11.4,5, 13). Ele tem em mente o costume dos romanos que, na Itália
e nas colônias, cobriam a cabeça em devoções públicas ou privadas. Quando ofereciam
sacrifícios, oravam ou profetizavam, puxavam a toga sobre a cabeça. Paulo está tentando
dizer aos cristãos de Corinto que gostaria que se apartassem de forma clara desses
costumes romanos e adotassem um estilo de vida cristão.18

17
Ver Roger L. Omanson, “Acknowledging Paul’s Quotations”, BibTr 43 (1992): 201-13.
18
Oster, “Use, Misuse and Neglect”, pp. 67-69.

14
8.4 Líderes

A congregação de Corinto ainda estava em seu estágio de formação quando


apóstolos (Paulo e Pedro) e cooperadores apostólicos (Apolo, Timóteo, Silas e Tito)
atenderam às necessidades da igreja. Alguns dos líderes na igreja foram Estéfanas e seus
dois amigos, Fortunato e Acaico. Os ex-chefes da sinagoga de Corinto, Crispo e
Sóstenes, também eram considerados líderes. Paulo não usa o termo presbítero, mas
pede aos membros que se submetam àqueles que haviam se dedicado ao serviço da igreja
(16.15,16). Já em sua primeira viagem missionária, Paulo designou presbíteros em cada
congregação que fundou (At 14.23). Anos mais tarde, ele se dirigiu à igreja em Filipos
juntamente com seus “bispos e diáconos” (Fp 1.1). Também instruiu Tito para que
constituísse presbíteros em cada cidade na ilha de Creta (Tt 1.5; ver também 1Tm 3.1-
7). A congregação de Corinto, contrariamente, revela um estágio inicial de liderança.19

8.5 Adversários

Em muitos lugares, em sua epístola, Paulo demonstra ter encontrado adversários


de seu ministério e doutrina. Esses adversários não formavam necessariamente uma
frente coesa, pois, ao que parece, defendiam interesses diferentes. Paulo observa que os
judeus exigem sinais miraculosos e os gregos buscam sabedoria (1.22). Ele tinha de
lidar com membros com concepções errôneas acerca da fé cristã, entre os quais estavam
aqueles que ensinavam que não há ressurreição (15.12).
Influenciados pela filosofia grega, alguns negavam completamente a
ressurreição. Outros estavam fascinados pela oratória dos sofistas gregos, que atraía
muitos ouvintes. Quando chegou a Corinto depois de sua humilhante experiência no
Areópago de Atenas (At 17.16-34), Paulo afirmou não ter vindo aos coríntios “com
ostentação de linguagem ou de sabedoria” (2.1). Os sofistas em Atenas acreditavam
possuir os tesouros da sabedoria e seus seguidores procuravam imitá-los. Paulo não
possuía o dom da eloquência que Apolo tinha (comparar com 2Co 10.10; 11.6);
consequentemente, Apolo era admirado e Paulo desprezado por alguns em Corinto.20
Paulo menciona Apolo sete vezes, nessa epístola, sempre com apreço, a seu
companheiro de trabalho (1.12; 3.4, 5, 6, 22; 4.6; 16.12).

9. CARACTERÍSTICAS

Vemos a epístola de Paulo aos Romanos como a carta patente do Cristianismo,


em que o apóstolo apresenta as doutrinas a respeito do pecado, da salvação e do culto.
Sabemos que alguns poucos capítulos finais de Romanos (cap. 12-16) são dedicados a
questões práticas relativas à vida da igreja. Por contraste, 1 Coríntios é, do princípio ao
fim, uma epístola que revela o cuidado pastoral de Paulo para com a congregação de

19
Comparar com Andrew D. Clarke, “Secular and Christian Leadership in Corinth”, TynB 43 (1922): 395-98.
20
Consultar Bruce W. Winter, “Are Philo and Paul Among the Sophists? A Hellenistic Jewish and a Christian Response
to a First Century Movement”, dissertação de doutorado, Macquaire University, 1988.

15
Corinto. O apóstolo não dá recomendações práticas somente àquela igreja particular,
mas a toda a igreja cristã. A série de questões discutidas por Paulo em 1 Coríntios é
suficientemente ampla para que os membros de cada congregação possam de bom grado
recorrer a ela para orientação. Uma primeira característica é que a epístola é
excepcionalmente abrangente no tratamento de problemas que a igreja precisa enfrentar:
cismas, respeito pela liderança, litígios, casamentos desfeitos, práticas e influências
mundanas, feminismo na igreja, problemas graves no culto, concepções erradas sobre a
consumação dos tempos e a coleta de donativos para os pobres. Segunda, Paulo se
expressa de forma pessoal ao discutir os problemas práticos dos coríntios. Atende aos
membros da igreja como um pastor que tem interesse pessoal em seu bem-estar
espiritual. A marca registrada dessa epístola é o pronome pessoal eu, que aparece
repetidamente em todos os seus dezesseis capítulos. Terceira, o estilo no qual 1
Coríntios foi escrita é notavelmente bom. Paulo demonstra um domínio do grego que
em determinados lugares rivaliza com o estilo de autores clássicos; Paulo usa um grande
número de palavras que são peculiares a essa carta.21 A epístola revela um tempero
semítico por causa do uso freqüente que o autor faz de passagens do Antigo Testamento;
Paulo, inclusive, recorre ao emprego das palavras aramaicas amém e maranata. Quarta
e última, Paulo faz muitas perguntas retóricas. Especialmente na primeira metade, ele
repete a interrogação: “Vocês não sabem que...?”.22 Ele espera que os coríntios
respondam afirmativamente a essas perguntas, pois eles foram instruídos pelos
apóstolos e seus cooperadores. Portanto, ao fazer essas perguntas, Paulo refresca a
memória dos coríntios e constrói sobre o fundamento estabelecido no começo dessa
igreja.

10. TEXTO

O texto grego de 1 Coríntios tem o apoio de um papiro (P46) e dos principais


testemunhos (tanto unciais como minúsculas). O manuscrito em papiro tem todos os
capítulos, mas eles estão incompletos. Os manuscritos unciais que têm o texto completo
de todos os capítulos são os códigos Í, A, B, D, 06abs, L, Y, 056, 0142, 0150 e 0151.23
Em resumo, contando também os numerosos testemunhos que têm um texto incompleto,
a epístola conta com um texto grego firmemente estabelecido. Não obstante, a carta
apresenta alguns poucos problemas textuais que nenhum tradutor e comentador pode
ignorar. Por exemplo, a leitura de 2.4 deveria ser “não em palavras persuasivas de
sabedoria” ou “não com persuasão de sabedoria”? É mínimo o apoio de manuscritos
para a segunda interpretação; em vista disso, os tradutores preferem a primeira. Primeira
Coríntios 13.3 é outro texto crucial. Quase todos os tradutores adotam a leitura “e ainda
que entregue o meu próprio corpo para ser queimado”. Mas a esmagadora maioria do
apoio de manuscritos para o texto grego é “e ainda que entregue o meu próprio corpo a

21
Thayer relaciona um total de 110 palavras, pp. 704-706.
22
1 Coríntios 3.16; 5.6; 6.2, 3, 9, 15, 16, 19; 9.13, 24.
23
Consultar Kurt Aland e Barbara Aland, The Text of the New Testament, trad de Eroll F. Rhodes, (Grand Rapids:
Eerdmans; Leiden: Brill,1987), tabela 6, encarte s/nº .

16
fim de me orgulhar” (NRSV). Apesar da força do testemunho externo, os tradutores são
influenciados pela evidência interna e escolhem a leitura mais fraca, “para ser
queimado”.
Por fim, alguns manuscritos ocidentais transpõem 14.34,35 para depois de 14.40.
Mas essa transposição não contou com uma reação favorável; a razão para a mudança
parece provir da inquietude dos escribas. Estes sentiam-se desconfortáveis com a
fraseologia da recomendação de Paulo para as mulheres manterem-se em silêncio no
culto. Todavia, a fraseologia permanece a mesma depois da transposição e afeta muito
pouco, se é que o faz, a exegese da passagem. Os estudiosos que classificam esses
versículos como uma glosa incorporada mais tarde ao texto de 1 Coríntios carecem da
necessária evidência textual para substanciar seu argumento. Por enquanto, não se tem
essa evidência. Contudo, é possível interpretar a passagem dentro do contexto geral para
mostrar que o sentido é de fato lúcido e compreensível.

11. PROPÓSITO

Resumindo o conteúdo da epístola, podemos ser breves na afirmação do


propósito de 1 Coríntios. Primeiro, Paulo procurou promover um espírito de unidade na
igreja local e, ao mesmo tempo, mostrar aos leitores que eles eram parte da igreja
universal. Segundo, o apóstolo procurou corrigir uma série de tendências errôneas na
comunidade de Corinto. Uma delas era a apatia quanto ao exercício da disciplina com
relação ao homem incestuoso. Terceiro, Paulo respondeu às perguntas que lhe haviam
sido submetidas por carta (7.1) e por uma delegação (16.17). Quarto e último ponto, a
epístola de Paulo instrui os cristãos em Corinto a coletar fundos para socorro aos santos
necessitados em Jerusalém.

17
12. ANÁLISE DO CAPITULO 15 DE 1 CORINTIOS

ESBOÇO (Capítulo 15. 1-58)

15.1-8 12.1. A Ressurreição de Cristo


15.9-11 12.2. A Ressurreição dos Mortos
15.12-19 (1) Argumento Lógico
15.20-28 (2) A realidade da Ressurreição
15.20-22 (a) Em Adão e em Cristo
15.23-28 (b) A Vinda do Senhor
15.29-34 (3) Argumentos Relativos à Ressurreição
15.35-44a 12.3. Paralelos ao Corpo da Ressurreição
15.35-38 (1) Vida a Partir da Morte
15.42-44a (2) Semeado e Erguido
15.50-57 (3) Imortalidade e Vitória
15.54-57 (4) Celebração

12.1. A Ressurreição de Cristo

De todos os escritos de Paulo, 1 Coríntios 15 figura como o capítulo por


excelência sobre a ressurreição. O fato redentor de que Cristo ressuscitou dos mortos é
para todos os crentes a garantia de que também eles ressuscitarão (6.14; 15.15,16). Paulo
descreve Cristo como as primícias daqueles que morreram (15.20, 23). Quando as
primícias dos grãos maduros são colhidas, a própria colheita está próxima. Alguns
coríntios negavam a ressurreição (15.12). Se eles espiritualizavam sua própria
ressurreição dos mortos ou não, o fato permanece de que Paulo ensina a ressurreição
física do povo de Deus.24 Ele apresenta essa doutrina por meio de um paralelismo
tipicamente semita (15.21,22):

pelo homem veio a morte


pelo homem veio a ressurreição dos mortos
todos os que estão em Adão morrem
todos os que estão em Cristo serão levantados.

Paulo menciona Adão, que é o cabeça da raça humana, e Cristo, que é o cabeça
de todo o seu povo. O primeiro Adão, pela desobediência, trouxe a maldição da morte
sobre a raça humana; o segundo Adão removeu a maldição e concede vida eterna a todos
os que nele crêem. O primeiro Adão veio do pó da terra, o segundo Adão, contudo,
desceu do céu (15.45-49). Paulo afirma que Adão tornou-se um ser vivo, mas Cristo,

24
Para uma discussão abrangente, ver Anthony C. Thiselton, “Realized Eschatology at Corinth”, NTS 24 (1977-78), 510-
26.

18
um espírito vivificador. O contraste é incomparável, porque Cristo tem a autoridade de
erguer seu povo da sepultura e transformá-los em corpos gloriosos e realizar esse ato
redentor num piscar de olhos (15.52).
A conclusão do longo discurso de Paulo sobre escatologia soa como uma nota
de triunfo. Das profecias de Isaías e Oséias (Is 25.8; Os 13.14), Paulo cita versos que
falam sobre a morte: “Tragada foi a morte pela vitória” e: “Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”. Nessas duas passagens do Antigo
Testamento, contudo, não aparece a palavra vitória. A profecia de Isaías lê: “Tragará a
morte para sempre”, e Oséias tem: “onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó
inferno, a tua destruição?”. Paulo substitui livremente as palavras da Escritura pelo
termo vitória com o qual culmina o seu discurso sobre a ressurreição.
A ressurreição de Jesus Cristo não se tornou uma doutrina articulada na época
(cerca de 55 d.C.) em que Paulo escreveu sua primeira epístola aos coríntios. Longe
disso. Quando Pedro se dirigiu à multidão de judeus devotos no dia de Pentecoste,
presumivelmente em 30 d.C., ele já proclamou a ressurreição de Jesus (At 2.24-36).
Através de todo o Livro de Atos, nós lemos que os apóstolos pregavam a doutrina da
ressurreição tanto a judeus como a gentios em Jerusalém, Antioquia da Pisídia, Atenas
e Roma. Esta doutrina era fundamental na pregação apostólica e revelou-se a base da fé
cristã (compare, por ex., At 17.18). E essa doutrina tem sido e ainda é a peça central do
Cristianismo. Paulo escreve que ele recebeu e passou adiante o ensino da morte, do
sepultamento e da ressurreição de Cristo (v. 3). Ele dá a entender que, em sua conversão
perto de Damasco, ele conheceu a realidade da ressurreição, e assim imediatamente
proclamou a filiação de Jesus Cristo nas sinagogas locais (At 9.20). Depois, Paulo foi a
Jerusalém e encontrou- se tanto com Pedro quanto com Tiago. Jesus havia aparecido a
Pedro e a João entre a Páscoa e a ascensão (ver v. 7). Esses apóstolos reforçaram o
conhecimento da ressurreição de Jesus. Em suma, o Livro de Atos indica que o próprio
Paulo recebeu e passou adiante a doutrina da ressurreição depois de sua conversão (ver
9.20, 22, 28; 13.30-37; 17.31). Ele não esperou até escrever sua correspondência
coríntia. Se Paulo proclamou o evangelho aos coríntios quando esteve com eles como
seu pastor, por que faziam objeção a aceitar o ensino sobre a ressurreição? Os cristãos
que vinham do judaísmo aceitavam a doutrina hebraica de que a pessoa é uma unidade
de corpo e alma; a existência humana na forma de alma incorpórea está fora de
cogitação, pois o corpo e a alma formam uma unidade. Para o povo judeu, o ensino de
sua ressurreição física significava “a reintegração da pessoa inteira”25
No século I, os saduceus negavam a doutrina de uma ressurreição física (Mc
12.18-23; At 23.8); no entanto, não podemos provar que eles influenciavam os judeus
que viviam na dispersão. Lucas revela que em Jerusalém um grande número de
sacerdotes havia se convertido à fé cristã (At 6.7) e não se relacionavam com o partido
minoritário dos saduceus. Presumimos, portanto, que em Corinto não os judeus cristãos,
mas alguns dos gentios cristãos negavam a ressurreição dos mortos (v. 12). Alguns
crentes coríntios, influenciados pelos filósofos gregos, não conseguiam ver a
importância de uma ressurreição corporal e estavam negando sua realidade (v. 12).

25
Michael Green, The Empty Cross of Jesus, série The Jesus Library (Downers Grove: Inter-Varsity, 1984), p. 108.

19
Paulo sabia que ele tinha de opor-se à negação deles. Suspeitamos que Paulo não havia
recebido uma pergunta por carta (ver 7.1, 25; 8.1; 12.1), mas que provavelmente ouvira
um relatório sobre as ideias coríntias sobre a ressurreição de Cristo. Do mais longo
capítulo dessa epístola, inferimos que para Paulo e para a Igreja universal, a doutrina da
ressurreição era e permanece básica. Paulo ensina a doutrina da ressurreição de Cristo a
partir das Escrituras e de numerosos relatos de testemunhas oculares (vs. 1-11). Entre
as testemunhas oculares ele menciona os doze apóstolos, junto com Tiago e ele próprio.
Ele também observa que um grupo de quinhentos crentes viram Jesus ressurreto. O
testemunho dessas pessoas fortalece a fé dos leitores em Cristo.

1) “Agora, irmãos torno conhecido a vocês o evangelho que eu lhes preguei.”26


(vs 1). A palavra agora se refere mais a tempo do que a lógica. Depois de
um longo discurso sobre a conduta correta no culto, Paulo está pronto para considerar
um tópico inteiramente diferente, a saber, a ressurreição do corpo. Ele sabe que esse
assunto é controverso no ambiente social da antiga Corinto. Por essa razão, ele se dirige
aos leitores como irmãos, termo que no linguajar da época incluía as irmãs da
congregação. Paulo quer que saibam que ele é seu irmão no Senhor.
A tradução do verbo principal, tornar conhecido a vocês, nessa sentença, não
sugere que Paulo esteja pregando um evangelho diferente do dos outros apóstolos.27
Com esse verbo ele transmite que ele lhes ensina mais uma vez o evangelho que ele lhes
havia proclamado em dias anteriores. Não obstante, Paulo introduz um novo elemento:
o ensino doutrinário detalhado sobre a ressurreição física de Cristo e dos crentes.28
Em seus ensinos e escritos anteriores, Paulo já tinha dado a conhecer aos crentes
a doutrina da ressurreição (por ex., At 13.30; Gl 1.11). Mas aqui, no capítulo 15, ele faz
a eles uma exposição abrangente dessa doutrina Escritural. Por esse motivo ele pode
dizer: “Torno conhecido a vocês o evangelho”.
O evangelho que Paulo pregava consistia da revelação de Jesus Cristo, que
cumpria as Escrituras do Antigo Testamento. Paulo reconhece que ele não havia seguido
Jesus desde o tempo do batismo do Senhor até sua ascensão (At 1.21, 22). Contudo,
Paulo podia dizer que ele havia testemunhado a ressurreição de Jesus, e que assim
recebera de Cristo a autorização para proclamar seu evangelho. Consideremos agora o
trecho: “Que vocês também receberam, no qual permanecem.” (vers. 1). Com essas
palavras, Paulo confirma os coríntios em sua fé. Mas sutilmente lembra a eles a
responsabilidade de receber e transmitir doutrinas básicas (comparar com 11.23; 1Ts
2.13). Ele espera deles não só que aceitem seu evangelho, mas também que o proclamem
em Corinto e em outros lugares. Assim como Paulo recebeu o evangelho de Jesus e o
passou para os coríntios, eles por sua vez devem receber e transmiti-lo a outros (ver v.
3). Ele os elogia por ficarem firmes no evangelho e aceitá-lo como fundamental para a
própria vida.

26
Comparar com Gálatas 1.11 para o vocabulário e a estrutura de sentenças semelhantes. Ver também Walter Radl. “Der
Sinn Von gnorizo in 1 Kor 15.1”, BibZ 28 (1984): 243-35.
27
Consultar J. Knox Chamblin, “Revelation and Tradition in the Pauline Euangelion”, WTJ 48 (1986): 1-16.
28
Bauer, p. 163.

20
2) Tradição. “Pois eu lhes entreguei aquilo que também recebi como sendo de
primeira importância.” Paulo declara que o evangelho não é um ensino que ele próprio
formulou. Ele indica que o recebeu do Senhor (Gl 1.12) e que considerou o ensino dos
apóstolos como sendo uma tradição autorizada que teve origem em Jesus Cristo. Ao
receber esse ensino, coube-lhe a obrigação de passá-lo adiante tanto a judeus como a
gentios (At 20.21) e ao mesmo tempo servir como seu guardião (compare 11.23). Os
termos receber e entregar são termos técnicos que aparecem tanto em contextos
judaicos como gregos.
O evangelho que Paulo recebeu de Jesus e dos apóstolos parece ser formulado
aqui como um credo dos primeiros tempos usado nas confissões de fé pelos cristãos
primitivos e na pregação e no ensino das igrejas deles. 29 Esse resumo é fundamentado
nas Escrituras. Em três versículos Paulo usa duas vezes a expressão segundo as
Escrituras para demonstrar que o evangelho está arraigado no Antigo Testamento e
emerge dele.
Para ele, os ensinos elementares desse evangelho são estes quatro fatos
redentores:

1. que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;


2. que ele foi sepultado;
3. que ele foi ressuscitado no terceiro dia, segundo as Escrituras;
4. que ele apareceu a Cefas, e depois aos Doze.

Esses fatos são os mais importantes na apresentação que Paulo faz do evangelho.
No versículo 3, a tradução a princípio em vez de “de primeira importância” também é
possível. A passagem, contudo, enfatiza não que Paulo foi a primeira pessoa a proclamar
o evangelho em Corinto. Ao contrário, esses quatro fatos resumem a importância
intrínseca do evangelho.

3) Morte. “Que Cristo morreu por nossos pecados de acordo com as Escrituras.”
Observe que Paulo usa o nome Cristo, e não Jesus, para indicar o papel oficial dele
como Messias. Com sua referência ao Antigo Testamento, Paulo aponta para a profecia
de Isaías. O profeta relata que o Messias, o ungido de Deus, o servo sofredor, foi
traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. Isaías escreve
ainda que nossos pecados foram colocados sobre o servo, e que ele morreu pelos
pecados de seu povo (Is 53.5,6. 8,9; ver também Sl 22.16; 1Pe 3.18). Jesus cumpriu as
profecias messiânicas do Salmo 22 e Isaías 53. Quando instituiu a Ceia do Senhor, Jesus
deu expressão verbal à doutrina de que o Messias morreu pelos pecados de seu povo.
Ele disse: “Este é meu sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão
de pecados (Mt 26.28). O conceito por nossos pecados ocorre em outros lugares nas

29
Jerome Murphy-O’Connor, “Tradition and Redaction in 1 Cor 15.3-7”, CBQ 43 (1981) 582-89; John Kloppenborg, “An
Analysis of the Pre-Pauline Formula 1 Cor 15.3b-5 in Light of Some Recent Literature”, CBQ 40 (1978): 351-67; Murray
J. Harris, Raised Immortal:Resurrection and Immortality in the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1983), p. 32.

21
epístolas de Paulo (por ex., Rm 5.8; 8.32; Gl 1.4; 30 Ef 5.2; Tt 2.14). Nessas passagens,
a preposição grega hyper (por) expressa a ideia de Jesus ser tanto nosso representante
como nosso substituto.31 Em suma, Cristo não só nos representa diante de Deus, mas
também toma nosso lugar morrendo na cruz por nossos pecados. A cláusula Cristo
morreu por nossos pecados é o resumo doutrinário da expiação. Como nosso substituto,
Cristo morreu para satisfazer Deus e corresponder às demandas da lei (Rm 3.25, 26; 5.9-
19).32 Como nosso advogado, ele efetuou a reconciliação e nos tornou justos diante de
Deus (2Co 5.21; 1Jo 2.1, 2). Quando Jesus encontrou-se com os discípulos no cenáculo,
no Domingo da Páscoa, ele lhes disse que tudo o que estava escrito nas Escrituras sobre
ele teria de ser cumprido (Lc 24.45, 46). O Antigo Testamento declara que Cristo
sofreria (Sl 22, Is 53), e que ele ressuscitaria dos mortos no terceiro dia (Sl. 16.9-11; Is
11 53.10, 11).

4) Sepultamento. “E que ele foi sepultado.” À parte dos escritores dos


Evangelhos, só Paulo menciona o sepultamento de Jesus. Ele observa que Jesus foi
tirado do lenho e deitado num túmulo (At 13.29). Ele identifica o batismo do crente com
o sepultamento de Cristo (Rm 6.4; Cl 2.12). E nesse texto menciona o sepultamento
como a consequência da morte e como prenúncio da ressurreição. O sepultamento de
Jesus aponta “para trás, para a realidade da morte, e para a frente, para o caráter da
ressurreição”.33

5) Ressurreição. “Que foi ressuscitado no terceiro dia segundo as Escrituras.”


As traduções não fazem justiça à diferença de tempos verbais do texto grego nos
versículos 3 e 4. O grego usa o tempo passado para descrever uma ação única no
passado, para a morte e para o sepultamento de Jesus. Mas para o verbo ser levantado,
o grego emprega o tempo perfeito para indicar uma ação ocorrida no passado, mas que
possui relevância duradoura para o presente (ver vs. 12, 13, 14, 16, 17, 20; comparar
com 2Tm 2.8), isto é, Jesus foi levantado dos mortos e continua sua vida no estado
ressurreto. A voz passiva denota o agente implícito, isto é, Deus. Em suas falas e
sermões, tanto Pedro como Paulo apresentam a voz ativa com respeito à ressurreição de
Jesus e dizem que Deus ressuscitou Jesus dos mortos (At 3.15; 4.10; 5.30, 10.40; 13.30,
37). Tanto para os judeus como os gentios, os apóstolos proclamaram a morte e a
ressurreição de Jesus como sendo o âmago da boa-nova. Portanto, a respeito dos mais
importantes fatos do evangelho, Michael Green observa: “É a morte e ressurreição de
Jesus, a cruz vazia, que se encontra no cerne do Cristianismo apostólico e que é a boa-
nova de Deus para o mundo”.

30
O Texto Majoritário tem a leitura variante περί, (por). No Novo Testamento, ύπερ é substituído por περί,, mas não o
contrário. Berthold Klappert, “Zur Frage des semitischen oder griechischen Urtextes von I. Kor. XV. 3-5”, NTS 13 (1966-
67): 168-73.
31
R. C. Trench, Synonyms of the New Testament, org. por Robert G. Hoerber (Grand Rapids: Baker, 1989), pp. 325-26;
Murray J. Harris, NIDNTT, vol. 3, pp. 1196-97.
32
Herman N. Ridderbos, Paul: An Outlline of His Theology¸ trad. por John Richard de Witt (Grand Rapids: Eerdmans,
1975), p. 188.
33
R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Cambridge Greek Testament for Schools
and Colleges (Cambridge: Cambridge University Press, 1937), p. 216.

22
A evidência do túmulo vazio enfatiza que a ressurreição de Jesus foi física. Os
quatro escritores dos Evangelhos fazem questão de descrever o vazio do túmulo,
relatando-nos o aparecimento dos anjos e a presença dos panos do sepultamento (Mt
28.5, 6; Mc 16.5, 6; Lc 24 reconhecido com dificuldade pelos discípulos (Jo 20.14, 15;
21.4, 7), pôde ir e vir através de portas trancadas consumir pedaço de peixe assado (Lc
24.42, 43). Em certas ocasiões, Jesus comeu e bebeu com os discípulos (At 1.4; 10.41).
Contudo, seu corpo foi também transformado para transcender o tempo e o espaço. Nós
simplesmente não temos respostas para perguntas sobre o corpo ressurreto de Jesus.34As
Escrituras não nos dão essa informação. Jesus foi levantado dos mortos no terceiro dia,
Paulo escreve, segundo as Escrituras. Na verdade, o próprio Jesus ensinou que ele seria
morto e no terceiro dia ressuscitaria (Mt 16.21). Mas será que as Escrituras do Antigo
Testamento ensinam sua ressurreição no terceiro dia? A resposta é dupla. Não há
nenhuma referência específica em nenhum texto; contudo, uma combinação de textos
fornece evidência suficiente do conceito da ressurreição. Por exemplo, lemos que Deus
restaurará Israel no terceiro dia (Os 6.2); Jonas esteve dentro do peixe durante três dias
e três noites (Jn 1.17, Mt 12.40). E Isaías profetiza a ressurreição do Messias (Is 53.10-
12). Gordon D. Fee conclui: “O Antigo Testamento como um todo testifica da
ressurreição no terceiro dia... Uma tradição primitiva viu a evidência combinada dos Sl
16.8-11 e 110.1 como testificando da ressurreição do Messias (cf. At 2.25-36)”. 35

(6) Aparecimentos. “E que ele apareceu a Cefas, e depois aos Doze.” Nesse
versículo e nos três seguintes, Paulo enumera os aparecimentos pós-ressurreição de
Jesus. Ele tem em mente a presença física do Senhor ressurreto, não visões do tipo que
Paulo vivenciou quando Jesus falou com ele em Corinto e Jerusalém (At 18.9, 10;
23.11). No entanto, Paulo fala de si mesmo como uma pessoa a quem Jesus apareceu no
caminho para Damasco. Esse aparecimento foi distintamente diferente daqueles do
período pré-ascensão. O que Paulo quer dizer com a palavra grega ophthe (ele apareceu,
ele foi visto)? Durante o período de quarenta dias entre a Páscoa e a ascensão, as
testemunhas viram o Senhor, mas nem sempre o reconheceram. Houve uma “certa
ambiguidade nos aparecimentos”36 que não diminuiu a alegria daqueles que testificavam
o fato de que Jesus fora ressuscitado de entre os mortos. A primeira pessoa que Paulo
menciona é Pedro, a quem ele geralmente chama de Cefas (1.12). Esse é o nome
aramaico de Pedro (Jo1.42).37 Será que Pedro viu Jesus? Sim, porque na manhã do
Domingo da Páscoa, os discípulos no cenáculo disseram aos homens de Emaús: “O
Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão” (Lc 24.34). Naquela manhã, o anjo instruiu
as mulheres que dissessem aos discípulos e a Pedro que fossem à Galiléia, onde Jesus
se encontraria com eles. Lá Jesus perdoou Pedro e o reintegrou (Jo 21.15-19). O Livro

34
Consultar Murray J. Harris, From Grave to Glory: Resurrection in the New Testament (Grand Rapids: Zondervan,
1990), pp. 139-46; Stephen T. Davis, “Was Jesus Raised Bodily?” ChrSchRev
35
(1985): 140-52; Francis Foulkes, “Some Aspects of St. Paul’s Treatment of the Resurrection of Christ in 1 Corinthians
XV”, AusBRev. 16 (1968): 15-30.
36
James D. G. Dunn, Jesus and the Spirit: A Study of the Religious and Charismatic Experience of Jesus and the First
Christians as Reflected in the New Testament (Filadélfia: Westminster, 1975), p. 123 (itálicos do autor).
37
1 Coríntios 1.12; 3.22; 9.5; 15.5; Gálatas 1.18; 2.9, 11, 14. No grego o nome Pedro ocorre só em Gálatas 2.7, 8. O
composto Simão Pedro ou então Simão não se encontra nas epístolas de Paulo.

23
de Atos revela que, imediatamente depois da ascensão de Jesus, Pedro tornou-se o líder
incontestado da igreja em Jerusalém. Por essa razão, ele é mencionado primeiro na lista dos
aparecimentos de Jesus, embora as mulheres o tivessem precedido como testemunhas da
ressurreição. A seguir, Paulo menciona que Jesus apareceu aos Doze, que nos quatro Evangelhos
e Atos é o termo comum usado para os discípulos. É verdade que Judas havia se suicidado e
Tomé havia se recusado a se reunir com seus colegas naquele domingo à noite, mas esses
detalhes não são relevantes aqui porque Paulo usa o termo coletivamente. Esses homens serviam
como representantes e testemunhas oficiais da ressurreição de Jesus. Talvez essa tenha sido a
razão pela qual as referências aqui omitiram os aparecimentos para as mulheres e os dois homens
de Emaús.
Por causa de uma mudança na estrutura da passagem, nós concluímos que a
fórmula que constituía esse credo termina no versículo 5, talvez depois da expressão ele
apareceu. 38 Estamos certos de que o versículo 6 fazia parte do credo primitivo. Nada
nos Evangelhos ou Atos corrobora o número de quinhentos irmãos. O número mais
aproximado é de 120 pessoas que se reuniram para nomear um sucessor para Judas
Iscariotes (At 1.15). Se um grupo grande de pessoas – testemunhas escolhidas por Deus
(At 10.41) – esteve presente na Galiléia, não pode ser verificado.19 O ponto central dessa
passagem não é a localização do aparecimento, e sim o número de testemunhas que
poderia testificar da ressurreição. Numa corte de lei judaica, a presença de duas ou três
testemunhas era compulsória para se provar a veracidade de um acontecimento.
Aparecendo a quinhentos crentes de uma vez, Jesus forneceu prova esmagadora de estar
vivo. Paulo acrescenta que a maioria dos quinhentos ainda estava vivo à época em que
ele escrevia a epístola. Ele dá a entender que se houvesse quem duvidasse do fato do
triunfo de Jesus sobre o túmulo, poderia consultar quaisquer desses crentes que tinham
visto o Senhor ressurreto. Onde essas testemunhas moravam não se pode determinar,
mas entendemos que tanto Paulo como os coríntios conheciam muitos deles. Paulo
parece indicar que os céticos poderiam procurar as testemunhas e pedir que dessem seus
depoimentos. A frase “alguns já dormiram” é um eufemismo que os cristãos dos
primeiros tempos haviam adotado como referência à morte. Eles viam a morte natural
de um crente como um sono do qual a pessoa acorda. Portanto usavam a frase como
analogia para a ressurreição.
(a) “Depois disto apareceu a Tiago” Sabemos que meio ano antes da morte
de Jesus, seus irmãos, incluindo Tiago, ainda não criam nele (Jo 7.5). Mas
imediatamente depois da ascensão de Jesus, seus irmãos creram e estavam com os
apóstolos no cenáculo (At 1.13,14; comparar também com 1 Co 9.5). A alusão de Paulo
a Tiago no contexto dos aparecimentos possivelmente seja devido à posição
proeminente que Tiago ocupava na comunidade cristã primitiva.39 Tiago escutou Paulo
quando o ex-perseguidor retornou a Jerusalém como crente (Gl 1.19). Ele preencheu o
lugar de Pedro quando o apóstolo fugiu de Jerusalém depois de ser solto da prisão (At
12.17). Paulo considerou Tiago, Pedro e João os três pilares da igreja (Gl 2.9); e na
conclusão de sua terceira viagem missionária, Paulo apresentou-se a Tiago e aos

38
Murphy-O’Connor, “Tradition”, p. 582.
39
(Jerônimo, De Viris Illustr, 2), ver Edgar Hennecke, Wilhelm Schneemelcher e R. Mcl. Wilson, New Testament
Apocrypha, 2 vols. (Filadélfia: Westminster, 1963-64), vol. 1, p. 165.

24
presbíteros em Jerusalém (At 21.18, 19). Como Paulo menciona Pedro, assim também
cita o nome de Tiago, provavelmente porque, de todos os crentes, esses dois eram
conhecidos pela capacidade de liderança que tinham. b. “E então a todos os apóstolos.”
Essa cláusula parece meramente repetir o versículo 5, que menciona os Doze, ou entrar
em conflito com ele. Entender a cláusula depende de se compreender o termo apóstolo.
Nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, a palavra apóstolos significa os Doze (Mt
10.2; Mc 3.14; Lc 6.13). Teve essa conotação depois que Judas Iscariotes cometeu
suicídio e antes de Matias ser nomeado. Em contraste, em Atos, Lucas usa o termo para
se referir aos Doze, os proclamadores iniciais e os guardiões do evangelho aos gentios,
e para descrever Paulo e Barnabé (At 14.14). A igreja de Antioquia comissionou Paulo
e Barnabé para levar o evangelho aos gentios; por isso, esses dois homens eram
chamados apóstolos, no sentido de pregadores do evangelho. Andrônico e Júnia, de
acordo com Paulo, foram “notáveis entre os apóstolos” (Rm 16.7). No uso mais
específico, bem cedo na história da igreja, um apóstolo era tanto uma testemunha da
ressurreição de Jesus como nomeado pelo próprio Jesus (At 1.21-26). Não temos
nenhuma informação sobre se as pessoas que Lucas e Paulo mencionam correspondiam
a essas qualificações. De acordo com isso, estaríamos incorretos em aplicar o uso de
Lucas e Paulo nesse texto. Concluímos, então, que a expressão todos os apóstolos é
sinônimo de “os Doze” (v. 5).
A menção dos Doze se refere ao aparecimento de Jesus na Páscoa e àquela de
uma semana depois (Jo 20.19, 26). A referência aos apóstolos é ao aparecimento da
ascensão de Jesus (At 1.6-11). 40 Juntas, as referências realçam o primeiro e o último dia
dos aparecimentos físicos de Jesus.
(b) “E por último de todos apareceu a mim também.” Qual é o sentido da
expressão por último de todos? Significa que Paulo é o último na fila de todos os
aparecimentos. Ele ocupa o último lugar por causa de sua experiência de conversão
repentina que aconteceu anos depois da ascensão de Jesus. Paulo menciona sua
experiência de conversão no caminho para Damasco e chama o encontro com Jesus de
uma visão do céu (At 26.19). Esse encontro não foi uma alucinação, e sim uma revelação
genuína do Senhor ressuscitado. Observe que Paulo usa a expressão ele apareceu uma
vez mais, mas agora especificamente para si. Ele quer indicar que ele também pertence
àquele grupo especial de pessoas que viram Jesus. Paulo nunca seguiu o Senhor desde
o dia do batismo de Jesus até o dia da sua ascensão. Apesar disso, ele viu Jesus numa
visão tão claramente quanto os apóstolos o viram durante o período de quarenta dias
entre a Páscoa e a ascensão. Ele definitivamente é o último apóstolo a quem Jesus
chamou.41 Por essa razão, Paulo pôde escrever: “a mim também”. Observe que Paulo
aplica o termo a si mesmo como ilustração; ele escreve a palavra como, que é semelhante
a “por exemplo”. Paulo nem havia seguido o Senhor nem havia visto o túmulo vazio no
Domingo da Páscoa. No entanto, Paulo podia reivindicar que vira o Cristo ressurreto
(9.1), que o nomeou para ser apóstolo aos gentios.42

40
Consultar Frederic L. Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand Rapids: Kregel, 1977), p.764-6
41
Ver P. R. Jones, “1 Corintians 15.8: Paul the Last Apostle”, TynB 36 (1985): 3-34.
42
Atos 9.15; Romanos 11.13; 15.15,16; Gálatas 1.16; 2.7,8. Consultar Colin Brown, NIDNTT, vol. 1, pp. 183-84.

25
 Considerações Doutrinárias em 15.3-8

Algumas linhas cheias de significado teológico resumem a verdade do evangelho de


Cristo. Elas estão relacionadas com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus, e
como tais apresentam a boa-nova da salvação. Agnósticos e ateístas não têm problema
em aceitar a morte e o sepultamento de Jesus; eles vêem a inevitabilidade da morte. E
porque Jesus foi condenado numa corte romana, sua morte numa cruz de madeira era a
penalidade inevitável que um revolucionário mal orientado tinha de pagar. Dizer que
Jesus ressurgiu do sepulcro e assim venceu a morte é absurdo à mente moderna.
Ninguém jamais retornou do túmulo; portanto, para descrentes, a história da ressurreição
de Jesus deve ser uma maquinação de seus aflitos seguidores que pensavam que ele
ainda estava com eles. Contudo, a verdade doutrinária da ressurreição é o ensino dos
quatro Evangelhos, do Livro de Atos, das Epístolas e do Apocalipse. Paulo afirma
inequivocamente que Jesus foi levantado no terceiro dia segundo as Escrituras do
Antigo Testamento. Para ele, a ressurreição é uma verdade inegável, que diz que todos
os que crêem em Cristo também serão ressuscitados dos mortos. Cristo venceu a morte
não só para ele como para seu povo.

26
(8) PALAVRAS, EXPRESSÕES E CONSTRUÇÕES EM GREGO EM 15.2-8

(8.1) Versículo 2

43

44

(8.2) Versículos 3, 4

(8.3) Versículo 5

43
Grosheide, First Corinthians, p. 348 n.2.
44
Bauer, p. 222.

27
(8.4) Versículos 6, 7

45

(8.5) Versículo 8

(9)

45
Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and Other Early Christian Literauture,
trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of Chicago Press, 1961), nº 275.5.

28
12.2. A Ressurreição dos Mortos (15.12-19)

De seu resumo do evangelho (vs. 3-5), Paulo destaca a doutrina da ressurreição


para uma discussão adicional.46 De modo positivo, ele afirma que Cristo foi ressuscitado
de entre os mortos. Ele segue perguntando o motivo pelo qual algumas pessoas negam
esse fato histórico e redentor. De modo negativo, ele examina os resultados de se
repudiar essa doutrina: crer que a pregação dos apóstolos e a fé dos crentes é vazia e
impotente. Sem proclamar a doutrina da ressurreição, os pregadores pronunciam
mentiras, as pessoas permanecem em pecado, crentes que morreram em Cristo estão
perdidos, e os cristãos são dignos de piedade. Por isso, quando opositores da fé cristã
atacam e minam a doutrina da ressurreição, o que querem é destruir os alicerces do
Cristianismo. Se obtivessem êxito em seu assalto, a Igreja fundada em Jesus Cristo se
desintegraria e finalmente deixaria de existir. Em suma, a doutrina da ressurreição é
básica para a fé cristã.

(1) O Argumento Lógico 15.12-19

a) “Mas se Cristo é pregado, que ele foi ressuscitado dos mortos (vs 12)”. A
primeira parte dessa sentença condicional declara um fato, isto é, o evangelho de Cristo
está sendo proclamado em Corinto e em outros lugares. A palavra Cristo obviamente
representa o evangelho que se originou com ele e que seus seguidores continuam a
proclamar.
Para provar a veracidade da ressurreição de Jesus (vs. 5-8), Paulo
enumera os numerosos aparecimentos depois que ressurgiu dos mortos e antes de ele
ascender ao céu. O tempo perfeito no grego do verbo erguer indica que a ressurreição
de Cristo, que aconteceu no passado, tem significado duradouro para o presente. Por ter
vencido a morte, Jesus Cristo não mais terá de enfrentar a morte. A expressão dos mortos
significa que Jesus foi ressuscitado da morte por Deus o Pai. Para ser preciso, o texto
grego tem o plural mortos, que deve ser entendido num sentido geral. Se Deus, então,
levantou Jesus dos mortos, ele também levantará os crentes da morte no fim dos tempos
(6.14). Paulo declara que todos os que crêem em Jesus compartilham de sua ressurreição
(15.20-23).
b) “Como alguns dentre vocês dizem que não existe ressurreição dos
mortos?” (vs 12). Paulo declarou que Cristo foi erguido dos mortos. Agora ele
pergunta por que alguns coríntios negam a doutrina da ressurreição. Não rejeitaram
essa doutrina, mas reinterpretaram-na, dizendo que a ressurreição de Cristo foi
espiritual. Ensinaram que com Cristo eles também foram ressuscitados dos mortos
na ocasião de seu batismo. Portanto, para eles a ressurreição já tinha acontecido e
teve apenas significado passageiro. Eles não a aceitavam como uma doutrina da fé

46
A literatura sobre esse tópico é prolífica. Publicações selecionadas são Kathryn W. Trim, “Paul: Life after Death, An
Analysis of 1 Corinthians 15”, Crux 14 (1978): 129-50; Robert Sloan, “Resurrection in 1 Corinthians”, SWJourTh 26
(1983): 69-91; A. J. M. Wedderburn, Baptism and Resurrection: Studies in Pauline Theology against Its Graeco-Roman
Background, WUNT 44 (Tübingen, Mohr-Siebeck, 1987); M. C. de Boer, The Defeat of Death: Apocalyptic Eschatology
in 1 Corinthians 15 and Romans 5, JSNT Supplement Series 22 (Sheffield: JSOT, 1988); Norman L. Geisler, “The
Significance of Christ’s Physical Resurrection”, BS 146 (1989): 148-70.

29
cristã, e assim corriam o risco de se separar da Igreja. Em outro lugar, Paulo escreve
que porque Himeneu veio a naufragar na fé, Paulo o entregou a Satanás (1Tm 1.19,
20). Com Fileto, Himeneu negou a doutrina da ressurreição do corpo e destruiu a
fé de alguns crentes (2Tm 2.17, 18).47 Não podemos saber ao certo quantas pessoas
em Corinto questionavam esta doutrina, que influência exerciam na igreja, ou quem
eram. À vista do longo discurso sobre esta doutrina em particular, presumimos que
esses coríntios eram influentes.48 Influenciados pela filosofia grega, esses membros
da igreja argumentavam que a alma (que é imortal) retorna a Deus que a deu (Ec
12.7), mas que o corpo é mortal e na morte desce para o túmulo. A alma, eles
acreditavam, é erguida para estar com Deus e goza da vida eterna, mas o corpo é
aniquilado. Essa é uma visão truncada da ressurreição, porque Deus criou Adão
com corpo e alma como um ser humano completo. A alma e o corpo são criação de
Deus e compartilham da ressurreição de Cristo. Cristo ressurgiu dos mortos
fisicamente, como Paulo prova com sua lista dos aparecimentos de Jesus (vs. 5-8).
Em contraposição à visão filosófica grega de alguns coríntios, no capítulo 15 Paulo
desenvolve uma perspectiva bíblica. No versículo seguinte, ele apresenta um
argumento que mostra tanto contraste como lógica.
c) “Mas se não existe ressurreição dos mortos, nem mesmo Cristo foi
ressuscitado.” (vs 13). Colocando os versículos 12 e 13 em colunas paralelas,
observamos que Paulo contrasta seus pensamentos:

Versículo 12 Versículo 13
Mas se Cristo é pregado, Mas se não existe
que ele foi ressuscitado ressurreição
dos mortos dos mortos
como alguns dentre vocês dizem
que não existe nem mesmo Cristo
ressurreição ressuscitou.
dos mortos?

Com lógica irrefutável, Paulo contradiz a visão incorreta dos coríntios de que
Deus ressuscita a alma, mas não o corpo. Se algumas pessoas crêem numa ressurreição
espiritual da alma e negam uma ressurreição do corpo, então a conclusão inevitável será
que o corpo de Cristo ainda está no túmulo e sua obra redentora é infrutífera. O fato é
que Jesus não veio à terra, morreu na cruz, ressurgiu dos mortos para si, mas para
aqueles que ele redime. 49 Um evangelho sem a doutrina da ressurreição não tem
nenhuma mensagem de redenção. Com a negativa dupla nas duas partes desse versículo,
Paulo redige uma sentença condicional que é contrária à realidade. A cláusula se não
existe ressurreição dos mortos contrasta com o fato que há ressurreição. Mas se os

47
Ver George W. Knight III, The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text, série New International Greek
Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans; Carlisle: Paternoster, 1992), pp. 109-12, 413-14; J. N. Vorster,
Resurrection Faith in 1 Corinthians 15”, Neotest 23 (1989): 287-307.
48
Consultar Harris, Raised Immortal, p. 15: From Grave to Glory, p. 190; R. A. Horsley, “‘How can some of you say that
there is no resurrection of the dead?’ Spiritual Elitism in Corinth”, NovT 20 (1978): 203-31.
49
Comparar com João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s Commentaries, trad.
por John W. Fraser (reedição: Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 318.

30
críticos negam o fato, então Paulo deduz para eles a conclusão inescapável de que o
corpo físico de Cristo também não ressurgiu da sepultura.
d) “E se Cristo não ressurgiu, então nossa pregação é vã e também sua fé é vã”
(vs 14). Com a expressão “E se Cristo não ressurgiu” Paulo continua
escrevendo uma sentença condicional que contrasta o ensino incorreto com a realidade.
Paulo afirma que negar a ressurreição de Cristo é ir contra toda a evidência pertinente
que estava à disposição da Igreja primitiva. Centenas de pessoas do tempo de Paulo
podiam testificar da ressurreição porque haviam visto pessoalmente seu Senhor
glorificado. Fora os apóstolos, cerca de quinhentas pessoas viram o Senhor vivo entre a
Páscoa e a ascensão (vs. 5-8). Paulo pôde dizer aos coríntios que consultassem essas
testemunhas oculares. Até ele tinha visto Jesus perto de Damasco, e por esse motivo
proclamava a mensagem de seu Senhor ressurreto.
Com a expressão “Então nossa pregação é vã e também sua fé é vã”, a lógica
do discurso de Paulo é irresistível. Se Cristo ainda está no túmulo fora de Jerusalém, ele
argumenta, então o conteúdo de minha pregação nada mais é que palavras vazias e eu,
assim como todos os outros apóstolos e pregadores, sou um charlatão. E mais, a fé de
todos aqueles fiéis que escutam Paulo e seus companheiros é vã. Tanto ele como seus
ouvintes estariam mal servidos se tivessem de crer numa mentira e perpetuá-la.

 Considerações Doutrinárias em 15.14

O soldado romano que abriu o lado de Jesus com a lança e viu jorrar sangue e
água sabia que Jesus tinha morrido. O corpo partido de Jesus estava além de poder ser
restaurado e teve de ser sepultado. Assim, do ponto de vista médico, a ressurreição do
corpo de Jesus é impensável, pois nunca ninguém retornou da sepultura. Alguns
teólogos têm procurado dar resposta a essa objeção médica dando uma interpretação
moderna à palavra ressurreição. Explicam o termo espiritualmente e dizem que a
ressurreição não é um acontecimento objetivo de Jesus sair de um túmulo fora de
Jerusalém. Dizem que ninguém esteve presente para testemunhar Jesus sair do lugar do
sepultamento, pois os guardas ficaram como mortos (Mt 28.2-4). E eles concluem que
a história de sua ressurreição, que não pode ser verificada pela observação, não faz parte
da História.
Esses teólogos interpretam a ressurreição como sendo uma experiência
subjetiva que ocorre no coração dos crentes. Alegam que, quando os crentes ouvem a
Palavra de Deus e obedecem a ela, a ressurreição acontece no coração deles.50
Admitimos que esta interpretação espiritual é inventiva, pois desmancha todas as
objeções levantadas pelos cientistas médicos e historiadores empíricos. Onde quer que
pregadores proclamem essa mensagem de ressurreição espiritual, nenhum crítico
levanta objeções. A pura verdade, no entanto, é que essa mensagem juntou a doutrina
da ressurreição com uma descrição da experiência de conversão de um crente. Essa
interpretação espiritual nada tem que ver com a ressurreição física de Jesus e com a de

50
Willi Marxsen, The Resurrection of Jesus of Nazareth (Filadélfia: Fortress; London: SCM, 1970).

31
seus seguidores. Na realidade, nada tem em comum com a doutrina expressa no Credo
Apostólico: “Creio na ressurreição do corpo”.
Os críticos da doutrina da ressurreição exigem provas evidentes de testemunhas
oculares de que Jesus levantou-se fisicamente dos mortos e saiu do sepulcro. Asseguram
que, pelo fato de as Escrituras do Novo Testamento não darem tal prova observável, a
fé cristã é duvidosa. Um deles ainda sugere a possibilidade de que os arqueólogos em
Jerusalém teriam encontrado uma carta escrita por Caifás, endereçada a Pôncio Pilatos.
Essa carta, então, revelaria um plano detalhado para remover o corpo de Jesus do túmulo
e colocá-lo num lugar não revelado.51 Será que a fé cristã seria seriamente prejudicada
por essa carta e perderia sua credibilidade? A resposta é um sonoro não. Considere a
diferença nos pontos de partida respectivos de crentes e descrentes. Os cristãos aceitam
os ensinos da Escritura pela fé, mas o descrente a rejeita. Os cristãos crêem na doutrina
da ressurreição, mas o descrente a nega. Suficiente para os crentes, mas insuficientes
para os incrédulos, é o testemunho dos apóstolos que foram testemunhas oculares da
ressurreição de seu Mestre (At 1.22; 3.15). A Bíblia dá a entender que na ocasião da
ascensão de Jesus muitas pessoas satisfaziam as exigências para o apostolado porque
tinham sido testemunhas oculares da ressurreição. E a Escritura ensina que pelo
testemunho de duas ou três testemunhas a verdade é estabelecida (Dt 19.15). Se Pilatos
tivesse removido o corpo de Jesus para um local secreto, a doutrina da ressurreição
descansaria, de fato, sobre o testemunho fraudulento dos apóstolos e de um grande
número de crentes. Então Cristo seria um impostor, seus apóstolos, enganadores, e a
Igreja uma grande fraude. Em vez disso, o próprio Cristo é a verdade e também a Palavra
de Deus (Jo 14.6; 17.17).
e) “E mais, nós somos até julgados ser testemunhas falsas de Deus.” (vs 15).
Paulo ainda não terminou de modo algum sua análise lógica. Tem muito mais a
dizer, porque declara enfaticamente que se a ressurreição de Cristo for mentira, Paulo e
seus associados seriam expostos como “impostores da pior espécie”.52 Seriam marcados
como sendo falsas testemunhas que espalhavam mentiras para pessoas ingênuas,
enganando-as. Não só isso, porque estariam testificando falsamente sobre Deus e assim
sendo culpados perante o próprio Deus.
A expressão “falsas testemunhas de Deus” pode ser entendida tanto de
modo objetivo como subjetivo. Ela pode significar objetivamente que Paulo e seus
cooperadores estavam dando um falso relato do que Deus fez em Cristo. E
subjetivamente pode significar que foram enviados pelo próprio Deus para pregar e
praticar engano. Das duas interpretações, só a primeira seria aceitável: Deus não envia
embaixadores para representá-lo enganosamente. A expressão acima, então, tem uma
conotação objetiva e dá a entender que se a ressurreição de Cristo for uma mentira,
aqueles que a proclamam como princípio de fé são mentirosos. Essas pessoas precisam

51
Donald W. Viney, “Grave Doubts About the Resurrection”, Encounter 50 (1989): 127. Ver o contraste em William L.
Craig, Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus, Studies in the Bible and Early
Christianity 16 (Lewiston, N.Y., Queenston, Ont.; and Lampeter, UK: Mellen, 1989), p. 396; Gary R. Habermas, “Jesus’
Resurrection and Contemporary Criticism: An Apologetic (Part II)”, CrisTheolRev 4 (1990): 323-85.
52
Godet, First Corinthians, p. 773.

32
se colocar diante do tribunal de Deus como impostores. Estão na mesma categoria dos
falsos profetas da era do Antigo Testamento (Dt 18.20-22) e dos falsos apóstolos da era
do Novo Testamento (1Jo 5.10; 2 Jo 10).
f) “Porque testificamos em contradição a Deus que ele ressuscitou Cristo.”
(vs 15). O conceito pronunciar-se contra alguém é terminologia jurídica. É
usado quando uma testemunha presta juramento para afirmar a verdade de seu
testemunho. A verdade está em jogo, porque ou Deus ressuscitou Jesus dos mortos, ou,
se a ressurreição não aconteceu, Paulo e todos os seus associados pregam uma mentira
e falam contra Deus. Mas por que promoveriam uma decepção, estariam dispostos a
sofrer e morrer por ela, e reconhecer que ainda defrontariam o Deus da verdade?
g). “A quem não ressuscitou se os mortos não ressuscitam.” (vs 15) Essa parte
diz praticamente o mesmo do versículo 13. A ressurreição de Jesus Cristo está
inseparavelmente ligada à ressurreição dos mortos.
h) “Pois se os mortos não ressuscitam, então nem Cristo ressuscitou” (vs 16).
Esse versículo também repete o versículo 13 (ver v. 14). A reiteração serve
para alertar os leitores para as consequências de negar a doutrina da ressurreição de
Jesus. Aqueles que negam esta doutrina implicitamente rotulam Deus de mentiroso e os
apóstolos de testemunhas falsas. Mas essas pessoas devem reconhecer que terão de
comparecer diante do trono do juízo de Deus para dar conta daquilo que disseram.
i) “E se Cristo não ressuscitou, sua fé é sem valor e vocês ainda estão em seus
Pecados” (vs 17) O versículo 17 é uma continuação do versículo anterior.
Paulo estende sua lógica constrangedora para que seus leitores vejam o efeito de uma
negação da ressurreição. Passo a passo, ele lhes revela as implicações espirituais dessa
negação. Paulo se dirige aos coríntios com o uso da segunda pessoa do plural vocês. Ele
diz: “Se vocês negam a ressurreição de Cristo, então devem perceber que sua fé nada
vale” (comparar com v. 2). No versículo 14, Paulo usa o adjetivo inútil, mas aqui, “sem
valor”. A diferença é que o adjetivo grego kenē, traduzido “inútil”, expressa “vazio”, e
o adjetivo grego mataia, traduzido “sem valor” indica falta de direcionamento”.53 Quais
são as ramificações de uma fé sem valor? Primeiro, se Cristo não ressuscitou do túmulo,
ele está morto; um Cristo morto é incapaz de justificar os crentes; e crentes não
justificados permanecem em seus pecados. Tiramos a conclusão inevitável de que a
justificação dos crentes depende justamente da ressurreição de Jesus Cristo.54 Sem o
Cristo ressurreto não existe justificação, sem a justificação não existe a fé viva, e sem a
fé viva não existe perdão de pecados. Paulo confronta os coríntios que rejeitam a
ressurreição de Cristo e o que de fato lhes diz é isto: “Se vocês permanecem em seus
pecados sua fé nada vale, vocês não mostram sinal algum de que pertencem ao povo
santificado de Deus, e vocês não estão salvos”. Contudo, Paulo havia escrito que os
coríntios estavam santificados em Cristo Jesus, seriam conservados fortes até o fim, e
eram chamados para a comunidade de Deus (1.2, 8, 9). Mais do que isso, Paulo lhes
dissera que eles eram lavados, santificados e justificados no nome de Jesus pelo Espírito
de Deus (6.11). Seus pecados estavam perdoados; eles foram tornados santos e justos
em Cristo Jesus. Paulo não se contradiz nessa carta; ao contrário, ele quer que os

53
Trench, Synonyms of the New Testament, pp. 191-92.
54
Richard B. Gaffin, Jr., The Centrality of the Resurrection: A Study in Paul’s Soteriology (Grand Rapids: Baker, 1978),
p. 124; Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, org. por George W.
MacRae, trad. por James W. Leitch, Hermeneia: A Critical and Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress,
1975), p. 266.

33
coríntios entendam a lógica de seu argumento e vejam o erro do seu caminho. Precisam
enxergar o efeito que negar a ressurreição de Jesus tem sobre a vida espiritual deles, e,
portanto, devem se arrepender. Paulo quer que eles possuam a segurança de que foram
remidos por Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou da sepultura em benefício deles. Ele
quer que saibam que, com base na ressurreição de Jesus, eles foram justificados e
santificados.
j) Então também aqueles que já dormiram em Cristo pereceram. (vs 18).
Paulo chega à conclusão de seu argumento lógico e o introduz com a
expressão grega ara, que nesse versículo significa “como resultado”. Ele pede a seus
leitores que reflitam sobre uma questão que é relacionada a uma geração passada de
crentes. Ele se refere àqueles que dormiram, o que no Novo Testamento é um
eufemismo comumente usado para os que já morreram55 (em inglês, o eufemismo é he
passed away; em português, ele descansou). O eufemismo do Novo Testamento é
relacionado não ao sono da alma, mas a um corpo físico esperando num túmulo o dia da
ressurreição. Nesse texto, contudo, a expressão “dormiram em Cristo” se aplica aos
cristãos que na hora da morte creram que entrariam no céu para estar eternamente com
Cristo. Os coríntios criam que a separação entre corpo e alma teria fim quando Jesus
retornasse (1Ts 4.16). Se uma pessoa nega a ressurreição, Paulo informa aos leitores, a
implicação lógica é que aqueles que morreram em Cristo estão perdidos. Se Cristo não
ressurgiu dos mortos, então Deus condena as pessoas a castigo eterno por causa de seus
pecados; elas nunca entram no céu para estar na presença de Deus e, finalmente, o corpo
delas permanece para sempre no túmulo. Afastadas, separadas do Deus vivo, elas
perecem. Se os coríntios que negam a doutrina da ressurreição dizem que aqueles que
morreram estão com Jesus, então eles se contradizem. Uma negação da ressurreição
significaria que todos pereceram, incluindo Jesus.
Os coríntios, no entanto, crêem que seus queridos morreram em Cristo. Paulo os
força a ver a falácia de seu modo de pensar. Devem reconhecer que se crentes morreram
em Cristo, o próprio Cristo lhes dá as boas-vindas no céu. Portanto, Jesus Cristo
ressuscitou dos mortos e está vivo. A morte é incapaz de quebrar o vínculo que existe
entre Cristo e os crentes durante toda esta vida terrena. Esse vínculo continua adentrando
a vida do além e dura eternamente (comparar com Rm 6.11).

55
Ver o grego de Mateus 17.52; João 11.11, 12; Atos 7.60; 13.36; 1 Coríntios 7.39; 11.30; 15.6, 18, 20, 51; 1
Tessalonicenses 4.13-15; 2 Pedro 3.4.

34
(1.1)

35
(2) A Realidade da Ressurreição 15.20-28

(a) Em Adão e em Cristo 15.20-22

1) “Mas agora Cristo já ressuscitou dos mortos, as primícias daqueles que


dormiram” (vs 20). A expressão “Mas agora”, que são as primeiras duas
palavras desse texto, são importantes. A primeira é o adversativo “mas”,
que muda o discurso de uma série de afirmações negativas sobre a
ressurreição (vs. 12-19) para um testemunho positivo sobre Cristo
ressuscitado dos mortos. Depois de escrever sete declarações
condicionais para demonstrar o efeito de negar a ressurreição, Paulo se
volta de um ensino contrário afirmado por alguns coríntios para a
doutrina coerente da Igreja Cristã, o ponto doutrinário da ressurreição de
Cristo. A segunda palavra, agora, pode indicar uma referência temporal,
uma conclusão lógica, ou ambas. Para Paulo, a ressurreição de Cristo
dentre os mortos era um fato histórico com implicações de longo e
duradouro alcance; Cristo Jesus foi erguido dos mortos por Deus o Pai
para efetuar a restauração de todos os seus. Inversamente, o advérbio
agora assinala a conclusão lógica da longa discussão de Paulo sobre a
rejeição da ressurreição que alguns coríntios defendiam. 56

2) “Cristo já ressuscitou dos mortos” Esse breve testemunho traça um


fato indiscutível que está arraigado na História e é básico à fé cristã.
Cristo ressurgiu. A evidência que Paulo reuniu e dispôs na primeira parte
desse capítulo é suficiente para os crentes, isto é, o túmulo vazio e os
aparecimentos (ver vs. 3-8). Reconhecendo que os descrentes continuam
com a zombaria, os cristãos não precisam de mais provas para essa
verdade histórica, que na mente deles é irrefutável (ver At 3.15; 26.23).
Paulo repete as palavras que havia escrito no versículo 12. Ali colocou:
“Se Cristo foi ressuscitado dos mortos”, na forma condicional, mas aqui
ele o põe como uma declaração que relata um fato histórico. Lá ele
levantou a questão teológica de que alguns coríntios negavam esse fato,
enquanto ele mesmo atestava sua veracidade.57 Aqui ele reitera
afirmativamente a verdade da ressurreição; ele sabe que só alguns dos
coríntios negam a ressurreição de Cristo. Talvez os leitores não tenham
entendido as implicações desta doutrina redentora, mas depois do extenso
discurso de Paulo sobre o assunto, devem agora ser capazes de perceber
a importância profunda deste ensino. Será que está continuando seu
discurso dirigindo-se àqueles que rejeitam o ensino, ou Paulo fala agora
só àqueles que o aceitam?58 Nessa sessão (vs. 20-28) não há nenhuma

56
Bauer traduz as palavras gregas nuni de como “mas, para dizer a verdade” (p. 546).
57
Jan Lambrecht, “Paul’s Christological Use of Scripture in 1 Cor. 15.20-28”, NTS 28 (1982): 503.
58
Para uma discussão, ver William Dykstra, “1 Corinthians 15.20-28, An Essential Part of Paul’s Argument Against Those
Who Deny the Resurrection”, CTJ 4 (1969): 195-211.

36
indicação de que Paulo exclua alguém. Com efeito, depois de discutir
extensivamente as consequências negativas de se negar a ressurreição,
Paulo convida todos os seus leitores a examinarem os aspectos positivos
de se confessar essa doutrina.

3) “As primícias daqueles que dormiram” Essa cláusula é uma declaração


forte, de apenas três palavras no texto grego, contudo cheia de
significado. Paulo presume que os leitores já conheçam os ensinos do
Antigo Testamento sobre as primícias. Estas eram os primeiros frutos
colhidos na estação, que o povo oferecia a Deus em reconhecimento por
sua fidelidade em providenciar as safras na devida estação. Moisés
instruiu os israelitas para oferecerem, diante do Senhor, no dia depois do
sábado seguinte à festa da Páscoa, um molho do primeiro grão colhido
(Lv 23.9-11). Exatamente sete semanas depois, deveriam apresentar uma
oferta de grão novo ao Senhor (Lv 23.15-17; ver também Dt 26.1-11).
Num século posterior, Israel foi chamado de “primícias da sua colheita”
(Jr 2.3). Paulo aplicou essa palavra aos primeiros convertidos na Ásia
Menor ocidental e no sul da Grécia, respectivamente (Rm 16.5; 1Co
16.15, NASB). E os 144.000 remidos da terra são oferecidos como
primeiros frutos a Deus (Ap 14.3; comparar com Tg 1.18).59 O termo
primícias indica que o primeiro molho da futura colheita de grãos será
seguido pelo restante dos molhos. Cristo, primícias levantadas da morte,
é a garantia, para todos aqueles que lhe pertencem, de que eles também
compartilharão de sua ressurreição. Paulo descreve as pessoas que
pertencem a Cristo como sendo aqueles que já dormiram. Ele não
menciona a ressurreição de Jesus com referência nem ao aspecto
temporal nem ao religioso da Páscoa judaica. O sentido que ele pretende
é que a ressurreição de Cristo é a entrada do pagamento pelo seu
povo (v. 23) ou a garantia deles (2Co 1.22). Cristo não é as primícias
daqueles que foram ressuscitados, e sim daqueles que morreram.60
Na verdade, nenhum ser humano foi fisicamente ressuscitado dos mortos.
Os filhos, tanto o da viúva de Zarefate como o da sunamita, morreram
anos depois, como também a filha de Jairo, o jovem de Naim, e Lázaro.
Só Cristo venceu a morte e ressuscitou dos mortos. Todos os outros
precisam esperar por sua ressurreição corpórea até o tempo
determinado.61

4) “Pois visto que por homem veio a morte, também por homem veio a
ressurreição dos mortos (vs 21) Pois como em Adão todos morrem, assim

59
Comparar também com Romanos 8.23; 2 Tessalonicenses 2.13, NRSV.
60
Conzelmann, I Corinthians, p. 268.
61
Ralph P. Martin, The Spirit and the Congregation: Studies in 1 Corinthians 12-15(Grand Rapids: Eerdmans, 1984), p.
110.

37
também em Cristo todos serão vivificados. (vs 22). Nota-se os seguintes
pontos:

 Paralelos. Paulo revela o paralelismo semítico típico nesses dois


versículos, nos quais ele liga o homem e a morte na primeira cláusula
e o homem e a ressurreição dos mortos na segunda. Ele compara Adão
com Cristo e nota que a morte veio por meio de Adão, mas a vida vem
por meio de Cristo. As cláusulas se reforçam mutuamente, e a segunda
é mais comprida do que a primeira em cada um dos versículos.
 Alusão. As duas palavras, visto que, expressam causa; formam a
conexão entre o versículo anterior (v. 20) e essa passagem. As
palavras explicam a entrada da morte no mundo. Paulo alude às
Escrituras do Antigo Testamento e em particular a Gênesis 3.17-19,
que conta que, por causa do pecado, Adão e Eva e sua descendência
tornaram-se sujeitos à morte. O grego tem a preposição dia (por) para
mostrar que o homem é o agente responsável pela morte (Gn 2.17;
3.19). Cristo viveu obedientemente sem pecado e venceu a morte em
benefício de todo o seu povo. Adão tinha a capacidade de não pecar e,
pela sua obediência, receber a imortalidade. Mas pela sua
desobediência ele e a raça humana receberam a penalidade da morte
(Gn2.17; 3.19). Cristo viveu de modo obediente e venceu a morte para
o benefício de todo o seu povo. No grego do versículo 21, Paulo omite
não só os verbos, mas também os artigos definidos para enfatizar a
qualidade abstrata dos substantivos homem, morte, ressurreição e
mortos. Ele frisa que a morte entrou no mundo por causa do pecado
cometido pelo homem. E a morte, tendo sido causada por um ser
humano, pode ser tornada ineficaz somente por um ser humano
(comparar com Rm 5.12, 18). O corolário da morte é a ressurreição
dos mortos, que foi realizada por Cristo, que triunfou sobre a morte.
Ele é capaz de livrar da garra da morte aqueles que lhe pertencem.
 Sentido. O conceito da ressurreição se centra em Jesus Cristo, que,
como Deus e como homem, venceu a morte e ressurgiu vitoriosamente
do sepulcro. Embora a ressurreição de Cristo já tenha ocorrido, a do
seu povo deve aguardar. Paulo colocou a preposição em antes do nome
Adão e do nome Cristo. Assim, ele indica que Adão é o cabeça da raça
humana e Cristo, o cabeça do povo de Deus. No texto grego, ele
colocou um artigo definido antes de cada nome, para confirmar que
representam pessoas históricas.62 Sua declaração: “como em Adão
todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” tem
o tempo presente na primeira cláusula e o tempo futuro na segunda. O
presente indica a recorrente realidade da morte, e o futuro revela a

62
Archibald Robertson e Alfred Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on the First Epistle of St. Paul to the
Corinthians, International Critical Commentary, 2ª ed. (1911; reedição, Edimburgo: Clark, 1975), p. 352.

38
preciosa promessa da ressurreição. O pronome indefinido todos não
deve ser interpretado como significando que Paulo ensina a salvação
universal. Longe disso. O sentido do versículo 22 é que todos aqueles
que, pela sua natureza, têm origem em Adão, morrem; portanto, todos
aqueles que, pela fé, são incorporados em Cristo, serão vivificados.63
Enquanto todas as pessoas enfrentam a morte por causa do pecado de
Adão, só os que estão em Cristo recebem a vida por causa de sua
ressurreição. O Novo Testamento ensina que o verbo vivificar ou dar
vida se refere apenas a crentes, e não a descrentes.64 Paulo esclarece o
ressurgir dos mortos de Cristo e de seu povo, mas não o dos pagãos.
Haverá uma ressurreição geral? Sim, os crentes serão ressuscitados
para a vida eterna, mas os incrédulos para a vergonha e o desprezo
eternos (Dn 12.2). E Jesus disse: “Os que tiverem feito o bem, para a
ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a
ressurreição do juízo” (Jo 5.29).

63
Ridderbos, Paul, pp. 340-41; Vos, Pauline Eschatology, pp. 240-41.
64
Por exemplo, João 5.21; 6.63; Romanos 4.17; 8.11; 1 Coríntios 15.45.

39
(2.1)

65

(b) A Vinda do Senhor (15.23-28)

1) “Mas cada um em sua própria ordem: Cristo, as primícias, depois


aqueles que pertencem a Cristo em sua vinda. Então vem o fim, quando ele
entregar o reino a Deus o Pai, depois de ele abolir todo governo, e toda
autoridade e poder” (vs 23 e 24). A primeira palavra mas na sentença “Mas cada
um em sua própria ordem: Cristo, as primícias.” é uma forma suave de
adversativa. Explica a sequência das pessoas que são vivificadas em Cristo.

65
Lothar Coenen, NIDNTT, vol. 3, p. 276.

40
Paulo usa também o termo grego tagma, que em outros lugares tem relação com
companhias de soldados; aqui não tem qualquer ligação com o mundo militar;
em primeiro lugar significa “posição” e depois “ordem”. Cristo é o primogênito
daqueles que são levantados dos mortos e tem a supremacia (Cl 1.18); ele é
também o primeiro na sequência. Depois que Cristo é ressuscitado, então aqueles
que lhe pertencem receberão um corpo glorificado.66 Novamente Paulo chama
Cristo de primícias (v. 20) para realçar o fato de que a colheita completa virá no
devido tempo. Cristo, o primeiro na ressurreição, será seguido de incontáveis
multidões que lhe pertencem.

2) “Depois aqueles que pertencem a Cristo em sua vinda.” Paulo


menciona duas categorias: Cristo e seu povo. Cristo está sozinho na primeira
classificação e todos os crentes na segunda. A ressurreição de seu povo ocorre
em dois estágios: primeiro os mortos em Cristo se levantarão de seus túmulos, e
depois os crentes que estiverem vivos serão transformados (1Ts 4.16, 17). Mas
observe que Paulo nada diz sobre uma ressurreição de incrédulos, ainda que tanto
o Antigo como o Novo Testamentos relatem que essas pessoas serão
ressuscitadas para vergonha e desprezo eternos (Dn 12.2; Jo 5.29). Num contexto
logo adiante, Paulo revela que quando Cristo retornar os crentes serão
transformados. “Nem todos nós dormiremos, mas todos nós seremos mudados,
em um momento, no piscar de um olho, na última trombeta. Pois a trombeta
soará, e os mortos serão levantados incorruptíveis e seremos mudados (vs. 51-
52). Em resumo, porque Cristo foi ressuscitado, todo o seu povo que está morto
ou vivo na sua vinda será ressuscitado e glorificado.

66
“A questão primária em 1 Coríntios 15 é a ressurreição dos cristãos, que receberão um novo corpo.” Gerhard Delling,
TDNT, vol. 8, p. 32.

41
(2.2)

67

68

67
Bauer, p. 234.
68
Consultar Barrett, First Corinthians, p. 356.

42
(3) Argumentos com Respeito à Ressurreição (15.29-34)

A essa altura do discurso, Paulo deseja tecer comentários adicionais sobre a


ressurreição dos mortos. Ele dá a entender que especialmente aqueles coríntios que
rejeitam esta doutrina precisam ouvir outras considerações. Paulo apresenta argumentos
que tocam no batismo para os mortos, perigos físicos, relaxamento e corrupção do
caráter. Infelizmente, os detalhes desses argumentos são poucos. Com uma analogia
atual, podemos dizer que esses versículos, quando foram escritos, tinham algumas notas
explicativas que não existem mais. Essas observações provavelmente estavam na forma
de explicações orais dadas quando Paulo chegou em Corinto (11.34). Não temos as
informações necessárias e, consequentemente, temos de recorrer a conjeturas para
explicar o texto.

a) “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã


morreremos.” (vs 32). Essa sentença apresenta uma condição que é contrária
à realidade. Paulo diz: “Se os mortos não ressuscitam”, mas dá a entender que
eles ressuscitam. Em benefício do argumento, portanto, ele introduz essa
afirmação contrária aos fatos. E acrescenta uma citação literal colhida em
Isaías 22.13 para concluir a sentença condicional: “Comamos e bebamos, que
amanhã morreremos”. Paulo pensa na atitude despreocupada das pessoas em
Jerusalém quando um exército estrangeiro começou a devastar seu país. Em
vez de buscar forças do Senhor em oração, eles se entregaram a festanças,
matando animais, comendo carne, bebendo vinho. Em vez de chorar por seus
pecados, eles propositadamente se afastaram de Deus e proferiram o provérbio
acima. Jesus traz à memória um eco desse provérbio na parábola do rico
insensato que constrói celeiros maiores para armazenar uma grande safra. O
tolo diz: “Viva folgadamente, coma, beba, divirta-se”. Mas Deus diz: “Louco,
esta noite lhe pedirão sua vida” (Lc 12.19, 20). Paulo retrata as pessoas que
decidiram que não existe ressurreição, de forma que escolhem viver separadas
de Deus. Ele prevê que os cristãos em Corinto verão imediatamente a loucura
de não acreditar na doutrina da ressurreição. Se rejeitarem essa doutrina, terão
de arcar com as consequências.

(3.1)

69

69
Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 442.14

43
70

71

72

70
Robertson, Grammar, p. 470.
71
Consultar D. S. Deer, “Whose Pride/ Rejoicing/ Glorying in 1 Corinthians 15. 31?” BibTr 38 (1987): 126-28; Metzger,
Textual Commentary, p. 568.
72
C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed.(Cambridge: Cambridge University Press, 1960), p. 7

44
12.3. Paralelos com o Corpo da Ressurreição (15.35-44)

Os crentes freqüentemente fazem perguntas a respeito do ressurgimento


do corpo na vida do porvir. Querem saber que tipo de corpo vão ter, e assim
fazem uma busca nas Escrituras por respostas. A Bíblia nos ensina sobre a
criação, a queda no pecado, a redenção e a restauração. Revela alguns pontos
básicos sobre a renovação de todas as coisas, mas deixa de responder às
perguntas todas que ficam. No tempo de Paulo, os cristãos pediam que lhes
dessem maiores detalhes sobre a ressurreição e a volta de Cristo (1Ts 4.13-18).
Um interessado coríntio poderia perguntar sobre a natureza da ressurreição.
Paulo começa suas respostas a essa pergunta apelando para exemplos tirados da
criação de Deus: a procriação de plantas, as diferenças físicas nos seres humanos,
nos animais, nas aves e nos peixes, e o esplendor desta terra que é diferente do
esplendor do sol, da lua e das estrelas, isto é, Paulo dirige a atenção do
interessado à diversidade que podemos observar na criação. Com suas respostas,
ele descreve o cerne da doutrina da ressurreição ao esclarecer o modo pelo qual
esse acontecimento salvífico ocorre.

(1) Vida a Partir da Morte (15.35-38)

a) Mas alguém dirá: “Como os mortos ressuscitam? E com que espécie de


corpo eles vêm?” (vs 35). A primeira palavra desse versículo é o adversativo
mas, que introduz um contraste com o texto anterior. A palavra dá a entender
que Paulo antecipava as perguntas do auditório e que ele mesmo as formulava
e respondia. Deduzimos da resposta ríspida de Paulo (“Tolo!” [v.36]) que essas
perguntas já haviam sido colocadas uma ou outra vez por aqueles coríntios que
repudiavam a doutrina da ressurreição. E mais ainda, tinham feito as perguntas
em tom de zombaria.73 Paulo primeiro trata das duas perguntas sobre a maneira
e forma do corpo ressurreto e depois continua no assunto. Ele responde à
pergunta sobre o modo da ressurreição no versículo 36, e ele explica a forma
que terão os corpos renovados nos versículos logo a seguir. As duas perguntas
se reforçam mutuamente, como mostram claramente as colunas paralelas: como
com que os mortos espécie de corpo ressuscitam eles vêm?
A primeira linha lista as interrogativas como e com quê; na segunda linha,
a expressão os mortos pede perguntas sobre a espécie de corpo que um morto
terá; e a terceira linha apresenta os sinônimos ressuscitam e vêm. Olhemos mais
de perto essas duas perguntas. Aqueles que negam a verdade da ressurreição
perguntam: “É possível os mortos ressuscitarem?” Eles duvidam que um corpo
morto possa ser ressuscitado de algum modo. O fato é que não crêem que um
corpo em decomposição que ou está sepultado ou cremado seja capaz de

73
Consultar Gaffin, Centrality of the Resurrection, p. 78.

45
produzir um novo corpo.74 Questionam se um corpo ressuscitado será
exatamente igual ao corpo que morreu, porque se não é igual, como se pode
falar em uma ressurreição?
Os filósofos gregos ensinavam a imortalidade da alma, mas negavam a
imortalidade do corpo. Paulo foi tratado com desprezo por filósofos epicureus
e estóicos em Atenas quando, no final de seu discurso no Areópago, mencionou
a ressurreição dos mortos (At 17.31, 32). Ao contrário, os rabis judaicos
acreditavam que Deus criou o homem como uma unidade de corpo e espírito.
Com a morte, o espírito volta a Deus, que o deu, e o corpo retorna ao pó da
terra (Ec 12.7). E na ressurreição, os mortos se levantarão com o mesmo corpo
com que pereceu.75 Mas aqueles coríntios que eram influenciados pela filosofia
grega repudiavam os ensinos sobre a ressurreição. Diziam a Paulo que levantar
uma pessoa dos mortos era impossível. Recusavam escutar a mensagem das
Escrituras do Antigo Testamento, o relato da ressurreição de Jesus, e a
promessa de que os crentes em Cristo ressuscitarão dos mortos. Finalmente,
rejeitavam a ideia da continuidade, pois na ocorrência da morte viam apenas a
dissolução do corpo físico.
b) E quando você semeia, não semeia o corpo que haverá, mas sim um simples
grão, talvez de trigo ou de outra coisa. Um zombador poderia argumentar que
jamais alguém viu um corpo novo sair de um túmulo. Ele poderia afirmar que
um novo nascimento ocorre quando a geração seguinte faz sua estréia. Em
outras palavras, Paulo deveria revisar sua analogia e comparar a nova vida
vegetal à nova vida humana. Paulo opta por uma abordagem diferente ao
processo de semear e crescer. Ele observa que a semente semeada é só um grão
puro de trigo ou outra planta. Aquela semente tem um formato e uma substância
específicos; redondo ou oval, duro e seco. Ele diz aos leitores que o que é
semeado germina e cresce, torna-se uma planta. Contudo, na forma, a planta é
inteiramente diferente da semente seca que foi semeada. Aquela planta
continua a se desenvolver e é incomparavelmente mais bonita do que o grão.
A resposta de Paulo a seu oponente revela o contraste do grão puro com a planta
em crescimento. “E quando você semeia, você semeia não o corpo que será,
mas um grão puro, talvez de trigo ou de outra coisa”. Contudo, há também um
sentido de descontinuidade quando um grão germina e se desenvolve em
planta. Uma semente produz sua própria espécie de planta, que por sua vez
produz a mesma espécie de semente. Os detalhes da comparação não devem
ser forçados, no entanto, porque a planta procria a semente que foi semeada.
Nesse texto, Paulo não está pronto ainda para comentar a diferença entre o
corpo perecível e o corpo imperecível, o estado mortal e o imortal de um ser
humano. Isso ele fará poucas sentenças adiante (vs. 42, 52- 54). No momento,
ele dá ênfase à verdade que da semente que está morrendo surge nova vida. O

74
Robertson e Plummer, First Corinthians, p. 366; Ronald J. Sider, “The Pauline Conception of the Resurrection Body in
1 Corinthians XV, 35-54”, NTS 21 (1975): 428-39.
75
SB, vol. 3, p. 474; 2 Bar. 50.1-51.10, in The Old Testament Pseudepigrapha, Charlesworth (org.), vol. 1, pp. 637-38.

46
corpo físico de Jesus foi colocado no túmulo, mas no terceiro dia ele ressurgiu
num corpo glorificado que mostrou continuidade – seus seguidores o
reconheceram. Contudo, também era completamente diferente, porque não
estava mais sujeito a tempo e espaço. O corpo de Jesus podia entrar e sair de
uma sala embora as portas estivessem fechadas (Jo 20.19, 26; Lc 24.31). A
novidade de seu corpo revela uma dimensão que nós em nosso estado atual não
compreendemos.

 Considerações Doutrinárias em 15.35-38

Os cristãos crêem que seus corpos serão ressuscitados da morte quando Jesus
voltar. Sabem que a Escritura lhes diz que seus próprios corpos serão transformados e
glorificados; eles não receberão corpos completamente diferentes. Mas perguntas a
respeito da ressurreição são numerosas e variadas. Aqui estão algumas: Uma pessoa
idosa cujo corpo foi assolado por uma enfermidade incurável será ressuscitada como
jovem? Um infante que morreu por acidente ou doença será como um adulto? Nós não
só reconheceremos nossos queridos como também conheceremos os santos de outras
eras? Haverá um continuum ligando as pessoas com os membros de sua família? Somos
incapazes de responder a essas perguntas e sabiamente nos abstemos de especulações.
Onde as Escrituras guardam silêncio, nós também nos calamos.
A Bíblia revela que os discípulos de Jesus reconheceram-no e viram as cicatrizes
em suas mãos e lado (Jo 20.27). E ainda, Jesus ensinou que na ressurreição o casamento
cessará, porque todos serão como os anjos no céu (Mt 22.30). Quando ocorrer a
transformação, as características pessoais de uma pessoa serão evidentes. Para ilustrar,
um infante mostra certas características que permanecem iguais através de sua vida. À
medida que mudanças distintas se apresentam através da infância, adolescência, idade
adulta e velhice, essas características mostram continuidade. A glorificação do nosso
corpo, no entanto, fornece uma nova dimensão que marca uma medida de
descontinuidade. Tanto a ressurreição do corpo como a imortalidade da alma provam a
existência continuada de nossa existência humana. Nossa segurança está em Jesus
Cristo, cuja ressurreição é o depósito inicial que garante a ressurreição de todos os seus
seguidores.

47
(1.1)

(2) Semeado e Erguido (15.42-44)

a) Texto. “Assim também é a ressurreição dos mortos. É semeado em


corrupção, é ressurreto em incorrupção” (vs 42). É semeado em desonra, é
ressuscitado em glória. É semeado em fraqueza, é ressuscitado em poder. (vs
43). É semeado um corpo físico, é ressuscitado um corpo espiritual. (vs 44)
Fazendo uma divisão de parágrafo no meio do versículo 44; a segunda parte
desse versículo formará a sentença introdutória à seção seguinte. Outras
traduções têm uma quebra no final desse versículo.76 Depois da primeira
sentença do versículo 42, Paulo compõe quatro linhas de verbos recorrentes e
substantivos contrastantes. Colocados em colunas paralelas, notamos que as
primeiras três linhas apresentam a preposição em. A última linha repete o
substantivo corpo, mas o qualifica com os adjetivos físico e espiritual,
respectivamente. Os substantivos das primeiras três linhas da primeira coluna
refletem uma ordem descendente. Os substantivos dessas linhas na segunda
coluna revelam uma ordem ascendente.

76
Uma tradução faz com que o verso 44b seja parte do verso 45 (NAB).

48
É semeado em corrupção, é ressuscitado em incorrupção.

É semeado em desonra, é ressuscitado em glória.

É semeado em fraqueza, é ressuscitado em poder.

É semeado um corpo físico, é ressuscitado um corpo espiritual.

b) Explicação. “Assim também é a ressurreição dos mortos.” Essa sentença


funciona como ponte entre o versículo anterior e o seguinte. Com a expressão
assim também, a sentença é uma comparação, embora esta comparação não deva
ser forçada ao limite. De modo geral, as primeiras três frases similares dos
versículos 42b e 43 são uma explicação a mais da semente que é semeada e da
planta que resulta dela (vs. 36-38). A última frase (v. 44a) está relacionada à
figura dos corpos terrestres e celestes (vs. 40, 41).
c) “É semeado em corrupção, é ressuscitado em incorrupção.” Paulo escreve que
toda esta criação foi sujeita à futilidade. Por causa do pecado do homem e da
maldição subseqüente de Deus, ela está em servidão à decomposição (ver Rm
8.19-21). Este mundo maculado pela corrupção não será aniquilado na
consumação, e sim renovado. Então será restaurado em incorrupção. Nesta vida,
os corpos físicos de crentes suportam as incursões da corrupção, mas na
ressurreição estes corpos serão levantados em incorrupção (ver vs. 50-53). A
dissolução do corpo humano quando consignado à sepultura é a humilhação
máxima para humanos que foram coroados de glória e honra para governar a
criação de Deus (Sl 8.5b; Hb 2.7b, 9). Receberão novamente essa posição
exaltada quando forem ressuscitados à novidade de vida. Paulo escreve que Jesus
Cristo transformará nossos corpos humilhados para os conformar a seu próprio
glorioso corpo (Fp 3.21).77
d) “É semeado em desonra, é ressuscitado em glória.” (vs 43). Embora as pessoas
que assistem a cultos fúnebres prestem o devido respeito ao morto, permanece o
fato de que a morte rouba da pessoa toda a dignidade. No funeral nós entregamos
um corpo inane ao pó da terra. Os enterros são lembranças vivas e constantes da
maldição da morte que Deus pronunciou sobre Adão e Eva e seus descendentes:
“Você retorna à terra, porque dela você foi tirado; pois pó você é e ao pó voltará”
(Gn 3.19). Mas por meio da ressurreição de Jesus a morte foi vencida, pois ele
vive e nós viveremos com ele. Ainda enfrentamos o efeito da morte, mesmo que
saibamos que seu poder foi ab-rogado. Nosso corpo retornará ao pó, mas no fim
dos tempos ressuscitará dos mortos. A ressurreição dos mortos, então, é
semelhante a uma semente em desintegração que dá vida a uma planta. Mas note
que, no ato de semear, o ato de enterrar a semente precede à sua morte. Quando
os humanos morrem, a morte precede o sepultamento.78 Qual é o sentido da
palavra semeado? A semelhança entre uma semente e um corpo é marcante. Uma
semente tem vida, mas, quando semeada, perde sua vida para gerar uma planta.

77
105. Comparar com Calvino, 1 Corinthians, p. 337.
78
106. Consultar Robertson e Plummer, First Corinthians, p. 380.

49
Um crente em Cristo já recebeu a vida eterna neste tempo presente (ver Jo 17.3;
1Jo 5.11-13). Quando a morte ocorre e o corpo desce à sepultura, o princípio da
vida eterna permanece válido. Mantendo a correlação da semente com o corpo,
afirmamos que o enterro é uma semeadura figurada em antecipação à futura safra
no dia determinado da ressurreição. Permanece a promessa de que receberemos
um corpo glorificado unido a uma alma glorificada (v. 49; Rm 8.29; Cl 3.4).
Assim, a plenitude da vida eterna virá quando o corpo for renovado e reunido
com a alma em glória.
e) “É semeado em fraqueza, é ressuscitado em poder.” (vs 43). Quando a morte
separa a alma do corpo, o cadáver é completamente impotente. Ele é uma mera
casca da alma que partiu. Mas quando o corpo volta à vida em glória e é reunido
com a alma, demonstra um poder que é inimaginável.
f) “É semeado um corpo físico, é ressuscitado um corpo espiritual.” (vs 44). Essa
sentença difere das três anteriores; contrasta os aspectos físico e espiritual do
corpo. Em certo sentido, é um resumo do versículo anterior e uma introdução ao
próximo parágrafo. O contraste do corpo físico com o corpo espiritual é
profundo, porque se refere ao corpo mudado e glorificado de Jesus. Enquanto
estava na terra, Jesus era limitado pelo tempo e espaço. É verdade que realizava
milagres, incluindo andar sobre a água, mas seu corpo físico era sujeito às
fraquezas humanas (Hb 4.15). Ele precisava de comida, bebida e sono; sofreu de
indescritíveis maus-tratos verbais e físicos; seu corpo sucumbiu à morte e foi
colocado num túmulo. Mas quando se levantou do túmulo, seu corpo havia
mudado e não era mais limitado pelas leis do tempo e espaço. Portas trancadas
não impediram Jesus de entrar no cômodo onde seus discípulos se achavam em
Jerusalém (Jo 20.19, 26). Em dez ocasiões ele apareceu e ficou com seus
seguidores por curtos períodos. Mas a Escritura não nos diz onde Jesus esteve
no restante do tempo antes de sua ascensão. Depois de sua morte, sua cidadania
terrena tinha terminado e ele se tornou um habitante do céu (Fp 3.20). Os
discípulos reconheceram o corpo glorificado de Jesus; portanto, sabemos que ele
realmente tem seu próprio corpo físico agora no céu. Nós também teremos nosso
próprio corpo no dia da ressurreição. Paulo identifica o corpo renovado como
sendo espiritual, o que significa que não é imaterial, mas assume uma dimensão
diferente. Nosso corpo ressurreto, diz Paulo, será espiritual. Mas o que ele quer
dizer com a palavra espiritual? Ele dá a entender que nosso corpo físico é
dirigido por nossa alma, e ele descreve nosso corpo ressuscitado dos mortos
como sendo completamente cheio do Espírito e governado pelo Espírito. Mesmo
concordando que nosso corpo físico nos serve nesta vida presente, ele precisa de
características espirituais na era vindoura. O corpo ressurreto será
completamente cheio do Espírito de glória. Esse corpo glorificado não é
imaterial, e sim tem aspectos espirituais que o elevam a um nível supernatural.
Em conclusão, no versículo 44a descobrimos uma ênfase distinta sobre a
continuidade do corpo nesta vida e no além. Mas há também uma medida de
descontinuidade em vista da transformação espiritual do corpo quando o corpo
for ressuscitado dos mortos.

50
(2.1)

(3) Imortalidade e Vitoria.

a) Vejam, eu lhes conto um mistério: nem todos nós dormiremos, mas todos nós
seremos mudados, (vs 51) em um momento, no piscar de um olho, na última
trombeta. Pois a trombeta soará, e os mortos serão levantados incorruptíveis e
seremos mudados. (vs 52)
a.) “Vejam, eu lhes conto um mistério.” Os escritores do Novo Testamento nos
Evangelhos, em Atos, nas epístolas e no Apocalipse usam a expressão vejam
repetidamente como expressão idiomática da fala semita. Mas para surpresa
nossa, Paulo, em suas epístolas, só usa a palavra ocasionalmente; na verdade,
aparece uma vez nessa epístola. 79 Ele responde a uma pergunta que já imagina
ouvir: Como o crente será transformado para herdar o reino de Deus? Assim ele
conta a seus leitores um mistério, que é uma revelação de Deus por intermédio
de Paulo sobre a futura mudança que acontecerá aos crentes.80 Num contexto
semelhante sobre o fim dos tempos, Paulo se refere a essa revelação como sendo
uma palavra do Senhor (1Ts 4.15).
b.) “Nem todos nós dormiremos, mas todos nós seremos mudados.” Quando usa
a palavra “dormir”, Paulo está falando eufemisticamente sobre a morte (ver vs.
6, 18, 20). Ele quer dizer que alguns crentes não terão de enfrentar a morte; nem
todos passarão por uma morte física. Aqueles que viverem até o fim serão
mudados na volta de Cristo, assim como todos aqueles que morreram no Senhor.
A linguagem dessa segunda parte do versículo 51 inclui o próprio Paulo, mas
ninguém deve obrigar o texto a dizer mais do ele pretende revelar. Ao contrário,
o pronome nós deve ser entendido com um comentário geral para incluir todos
os crentes. Entre eles estão aqueles que fisicamente verão a volta de Cristo nas
nuvens do céu (1Ts 4.15-17). Paulo revela que “todos nós seremos mudados”,
inclusive aqueles que estiverem vivos quando da volta de Cristo. A mudança que
ele tem em mente é a alteração completa do estado físico do crente, uma
alteração que acontecerá num piscar de olhos. c. “Em um momento, no piscar de
um olho, na última trombeta.” O termo grego que Paulo usa para “momento” é

79
Para as outras epístolas paulinas veja o grego de 2 Coríntios 5.17; 6.2, 9; 7.11; 12.14; Gálatas 1.20.
80
126. Comparar com o uso de “mistério” em 2.7; 4.1; 13.2; 14.2.

51
átomos, do qual temos o derivado átomo. A palavra se refere a algo tão pequeno
que não pode mais ser dividido. Aqui átomos se aplica ao tempo. A frase no piscar
de um olho é aposicional; representa um piscado momentâneo da pálpebra. (No
nosso idioma, o equivalente é “numa fração de segundo”, que comumente
significa o momento mais breve possível). Em tão breve momento o milagre da
transformação ocorrerá tanto para aqueles que se levantam dos mortos como para
aqueles que estão vivos.81 Paulo indica que a última trombeta soará para anunciar
a ocorrência da ressurreição. Esse toque da trombeta é o toque final na história
da redenção. Outras passagens que falam da volta de Cristo têm “grande clangor
de trombeta” (Mt 24.31), “ressoada a trombeta de Deus” 1Ts 4.16). O Antigo e
o Novo Testamentos, os escritos apócrifos e os escritos rabínicos fazem
referência ao soar da trombeta para anunciar a revelação divina iminente, o dia
do juízo e a ressurreição.82
d) “Pois a trombeta soará, e os mortos serão levantados incorruptíveis e seremos
mudados.” Dentro do espaço de tempo mais curto possível ocorrerão a
ressurreição geral e a transformação. Quando ressoar o grande som da trombeta,
nem uma só pessoa do povo de Deus será negligenciada. Os mortos se levantarão
num estado incorruptível, e aqueles que estiverem vivos quando Cristo vier serão
transformados. Paulo não é em nada restritivo quando escreve “seremos
mudados”, porque antes já tinha escrito o adjetivo todos na cláusula “todos nós
seremos mudados” (v. 51). 83Assim, uma vez mais, ele usa o pronome pessoal
nós num sentido mais amplo. Ele se inclui com todos os crentes, os que estão no
túmulo e os que vivem. Em típico estilo semita, Paulo usa a voz passiva sem
dizer quem é o agente na hora da ressurreição. Ele evita usar o nome de Deus,
mas o próprio Deus é o agente que ressuscitará os mortos e transformará
instantaneamente todos aqueles que estiverem vivos quando da volta de Cristo.
Paulo não diz que a volta de Cristo se dará durante seu tempo de vida. Como
cada um de nós, Paulo aguarda com ansiedade o fim. Pela revelação de Deus
aprendemos que, embora a vinda de Cristo seja iminente, ninguém senão Deus
o Pai sabe o dia ou hora desse acontecimento (Mt 24.36). Na verdade, Jesus disse
aos apóstolos que não cabia a eles saber os tempos e as estações que o Pai
determinou (At 1.7). Paulo não diz nada definido sobre a volta de Cristo.
Contudo, como qualquer um de nós hoje, ele expressaria o desejo de estar vivo
no dia desse acontecimento jubiloso.
e) “Pois este corruptível precisa ser revestido da incorruptibilidade, e este mortal
precisa ser revestido da imortalidade.” (vs 53.). O versículo tem duas partes
paralelas que se apoiam mutuamente:

81
G. M. M. Pelser, “Resurrection and Eschatology in Paul’s Letters”, Neotest 20 (1986):
82
Ver, por ex., Êxodo 19.16; Apocalipse 4.1; 8.2-9.14; 2 Esdras. 6.23, e referências rabínicas em SB, vol. 3, p. 481; Gerhard
Friedrich, TDNT, vol. 7, p. 84.
83
Comparar com R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul’s First and Second Epistle to the Corinthians (1935;
Columbus: Wartburg, 1946), p. 737.

52
este corruptível e este mortal
precisa ser revestido da precisa ser revestido da
incorruptibilidade imortalidade

Observe, primeiro, os dois pronomes demonstrativos este, que


especificam a estrutura corruptível e mortal do homem. Depois, a palavra grega
phtharton significa aquilo que é sujeito à decomposição ou à destruição aplicado
ao homem mortal.131 Terceiro, o verbo precisa indica necessidade divina e é
auxiliar do verbo principal revestir. No grego, pode ser entendido na voz passiva
e dá a entender que Deus é o agente. Em outras palavras, os crentes precisam ser
revestidos por Deus com incorruptibilidade e imortalidade. Eles não podem
revestir-se dessas qualidades por si mesmos; precisam, isto sim, esperar que
Deus faça isso por eles. E, finalmente, o verbo revestir refere-se de modo
figurado a colocar uma vestimenta (comparar com 2 Cor 5.4).
Esse texto transmite não só a mensagem da transformação dos crentes,
mas também uma certa medida de descontinuidade com relação ao passado. A
existência física dos crentes do passado e do presente é caracterizada por
corrupção e mortalidade. Contudo, a continuidade é também a mensagem clara
desse versículo, porque é o corpo terreno que será revestido de incorruptibilidade
e imortalidade.

(3.1)

84

85

84
133. Robertson, Grammar, p. 405.
85
134. G. Zuntz, The Text of the Epistles: A Disquisition upon the Corpus Paulinum (Londres: Oxford University Press,
1953), pp. 37-39.

53
(4) Celebração 15.54-57

a) Mas quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e


este mortal estiver revestido da imortalidade, então o que está escrito será
cumprido: A morte é tragada em vitória. (vs 54). Onde está, ó morte, sua vitória?
Onde está, ó morte, seu aguilhão? (vs 55). O versículo 54a é uma continuação e
uma repetição verbal do versículo 3. Pelo acréscimo de duas referências de
tempo, quando e então, e a mudança do tempo do verbo revestir para o passado,
Paulo fala como se um evento futuro já tivesse ocorrido. Para ser preciso, o
cumprimento das palavras de Paulo aconteceram quando Jesus ressurgiu dos
mortos. E com essa ressurreição, todos os crentes sabem que também
ressuscitarão da sepultura. Esse texto é uma ilustração viva da tensão constante
no Novo Testamento entre o agora e o ainda não. Por meio de Jesus Cristo, nós
reconhecemos a realidade da ressurreição, e por meio de sua promessa a nós nos
apropriaremos dela na consumação. Pela última vez nessa epístola, Paulo cita
passagens proféticas das Escrituras do Antigo Testamento (Is 25.8; Os 13.14).
Ele põe o cumprimento da primeira profecia no futuro com essas palavras
introdutórias: “Então o que está escrito será cumprido”. Ele cita da profecia de
Isaías, mas não segue nem o texto hebraico nem a Septuaginta. Essa é a tradução
da Escritura hebraica: “Ele engolirá a morte para sempre” (Is 25.8). E a tradução
grega tem a leitura: “A morte à força engoliu [-os]”. Segundo o texto hebraico,
o sujeito é Deus, e a morte, o objeto. Mas repare que Paulo faz com que a morte
seja o sujeito com o verbo engolir na voz passiva. Ele adota o estilo semita de
escrever para evitar o uso do nome divino; ele dá a entender que Deus eliminou
a morte, isto é, o poder da morte (veja Hb 2.14). E, em último lugar, Paulo muda
a tradução hebraica eternamente para “em vitória”. Sua fraseologia está de
acordo com as leituras de outras traduções do texto hebraico.86
b) “A morte é tragada em vitória.” Olhando para trás, para o triunfo de Jesus
sobre a morte, e para a frente, para a vitória de todos os crentes, Paulo irrompe
em júbilo. Ele compreende que é o fim do inimigo mortal da vida: a morte. Ainda
que a morte continue a exercer domínio como último inimigo de Cristo (v. 25),
Paulo sabe que Deus o destruirá. Os dias da morte estão contados. Paulo
escarnece da morte e pergunta zombeteiramente: “Onde está, ó morte, sua
vitória? Onde está, ó morte, seu aguilhão?” Essa segunda profecia ele toma
emprestado de Oséias, que escreve que Deus resgatará os filhos de Israel do
túmulo e os livrará da morte. O profeta pergunta: “Onde estão, ó morte, as suas
pragas? Onde está, ó sepultura, a sua destruição? (Os 13.14 ). A tradução grega
diz: “Onde, ó morte, está sua penalidade? Onde, ó sepultura, está sua ferroada?”.
Paulo mudou a palavra penalidade para “vitória” para combinar com o fluxo de
sua apresentação.

86
135. As traduções de Áqüila e Theodócio. SB, vol. 3, p. 481; Rodolphe Morissette, “Un Midrash sur la Mort (I Cor., XV,
54c à 57)”, RB 79 (1972): 169. Sem os sinais de vogal, a palavra hebraica nJj pode significar “para sempre” ou “ser
vitorioso”.

54
BIBLIOGRAFIA

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Testamento. São Paulo: Editora Vida Nova, 2002.

LADD, George Eldon – Teologia do Novo Testamento: São Paulo, 2003. Tradução:
Degmar Ribas Junior.

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Editora Cultura Crista, 2003 2ª Ed.

BARCLAY, William. A Primeira Carta aos Coríntios. Tradução: Carlos Biagini.

55