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FILOSOFIA, ÉTICA

E O MUNDO DO
TRABALHO

1ª Edição - 2007
SOMESB
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Ana Paula Matos / Maria Valeska Damásio Francisco França de Sousa Junior
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Vivian Paula Ribeiro Ilustrações
Autoria

Equipe
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da FTC EAD - Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância.
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SUMÁRIO

POSTURA FILOSÓFICA E ÉTICA: OSER PROFISSIONAL NO


CONTEXTO CONTEMPORÂNEO _______________________________ 7

FILOSOFIA E ÉTICA: CONCEITOS CLÁSSICOS, QUESTÕES ATUAIS ______ 7

SIGNIFICAÇÃO DE “FILOSOFIA” E ATITUDE FILOSÓFICA ____________________________ 7

A ATUALIDADE DE SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES ____________________________ 12

CONCEPÇÕES ÉTICAS _______________________________________________________ 15

VALORES E VIRTUDE NA ORGANIZAÇÃO ________________________________________ 20

ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 23

TRABALHO E PESSOA ENQUANTO EXISTÊNCIA RELACIONAL/


POTENCIAL ______________________________________________________ 24

SIGNIFICAÇÃO DO TERMO “TRABALHO” E SUAS IMPLICAÇÕES _______________________ 24

TRABALHO, ALIENAÇÃO E IDEOLOGIA _________________________________________ 29

PESSOA RELACIONAL E POTENCIAL ____________________________________________ 40

COMPETÊNCIA E PROFISSÃO _________________________________________________ 43

ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 45

MUNDO DO TRABALHO: PERSPECTIVAS ÉTICAS E DESAFIOS _ 46

PERSPECTIVAS ÉTICAS E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ___________ 46

PRINCIPAIS ASPECTOS E CONTRADIÇÕES DO CAMPO ÉTICO _________________________ 46

PRESSUPOSTOS OBJETIVOS DA ÉTICA __________________________________________ 49

PRESSUPOSTOS SUBJETIVOS DA ÉTICA _________________________________________ 53

PRINCÍPIOS ÉTICOS E TOMADA DE DECISÕES _____________________________________ 54

ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 58


SUMÁRIO

TRABALHO COMO POSSIBILIDADE PARA DESENVOLVIMENTO


HUMANO ________________________________________________________ 59

A SUSTENTABILIDADE E SEUS CRITÉRIOS ________________________________________ 59

CIENCIA, TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO ___________________________________ 61

DO PLURALISMO DE INTERESSES SOCIAIS A PRÁTICA DO DIÁLOGO ___________________ 65

ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA ________________________________________ 66

ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 69

GLOSSÁRIO _____________________________________________________________ 71

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS __________________________________________ 72


Apresentação da Disciplina
Prezado(a) Estudante.

É com satisfação que a equipe da disciplina “Filosofia, Ética e o Mundo do Trabalho”


convida você para dialogar sobre conceitos indispensáveis à nossa constante formação
na qualidade de pessoa relacional e potencial, prezando por posturas reflexivas, críticas,
criativas e éticas no mundo do trabalho e nas demais instâncias sociais. O Material Didático
Impresso desta disciplina consta de quatro temas, elaborados por nossa equipe conforme
descrição abaixo:
◦ Filosofia e ética: conceitos clássicos, questões atuais (Tema 01); Perspectivas éticas e dig-
nidade da pessoa humana (Tema 03): autoria da profª Vivian Paula Ribeiro.
◦ Trabalho e pessoa enquanto existência relacional/potencial (Tema 02): autoria da profª
Naurelice Maia de Melo.
◦ Trabalho como possibilidade para desenvolvimento humano (Tema 04): autoria do profº
Adriano Araújo.
Buscando que você possa compreender os fundamentos e critérios da postura filosófica,
correlacionando-os ao mundo do trabalho e às perspectivas éticas no âmbito organizacio-
nal e social, trataremos dos sentidos atribuídos à “Filosofia”, ao “trabalho”, à “ideologia”, à
“ética”, à “responsabilidade solidária e social”, à “sustentabilidade”, dentre outros conceitos
que favorecem a edificação do nosso próprio ser e, conseqüentemente, do nosso ser aca-
dêmico/profissional.
A nossa disciplina será realizada mediante estudos e questionamentos como os elenca-
dos abaixo:
Você conhece a origem latina do termo trabalho?
Já realizou releituras sobre ditos populares tais como “Querer é poder”, “Manda quem
pode, obedece quem tem juízo”?
O que dizer do termo “sábio”? Comumente, sábio é aquele que detém conhecimentos.
Entretanto, analisando a origem do termo, podemos compreender que o sábio não detém
o conhecimento, não há entre o sábio e a verdade uma relação de posse, mas de busca...
Atendendo parcialmente ao primeiro questionamento aqui proposto, a título de curiosi-
dade... Você sabia que a origem latina do termo “trabalho” corresponde a um instrumento
de tortura, conhecido por “tripalium”?
Questionamentos assim convidam novas inquietações e favorecem à compreensão real
e significativa do nosso entorno social. Neste sentido, a nossa equipe revela a felicidade de
contar com você, na qualidade de agente transformador, dedicado ao estudo, à pesquisa,
à intervenção social, uma vez que, estando em uma graduação já revela o quanto está dis-
posto à conquista de saberes e a aplicação destes para um mundo mais justo, mais ético,
mais humano. Como bem sugere Gonzaguinha...
“É a gente quer valer o nosso amor, a gente quer valer nosso suor, a gente quer valer
o nosso humor, a gente quer do bom e do melhor [...]. Agente quer é ter muita saúde, a
gente quer viver a liberdade, a gente quer viver felicidade. [...]É! A gente quer viver pleno
direito, a gente quer viver todo respeito, a gente quer viver uma nação, a gente quer é ser
um cidadão.”
Com a alegria e disposição desse fragmento da música “É” (Gonzaguinha), iniciamos a
nossa disciplina e, ao mesmo instante, parabenizamos a você por essa nova conquista e nos
colocamos em parceria e amizade rumo a constante construção de saberes, conhecimentos
e atitudes.
Afetuosamente.
Profº Adriano Araújo
Profª Naurelice Maia de Melo
Profª Vívian Paula Ribeiro
POSTURA FILOSÓFICA E ÉTICA: O
SER PROFISSIONAL NO
CONTEXTO CONTEMPORÂNEO

FILOSOFIA E ÉTICA: CONCEITOS


CLÁSSICOS, QUESTÕES ATUAIS
Autora: Vivian Paula Ribeiro

SIGNIFICAÇÃO DE “FILOSOFIA” E ATITUDE


FILOSÓFICA

SIGNIFICADO DA PALAVRA FILOSOFIA

Você já questionou o significado da palavra Filosofia? De origem grega, a palavra Filosofia é com-
posta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito
entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio. Filosofia significa, portan-
to, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo então é aquele que ama a sabedoria, tem
amizade pelo saber e assim deseja saber.
O termo “Filosofia”, consequentemente, lembra um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto
g p
é, deseja o conhecimento, o estima, procura e respeita. Assim, com o auxílio da etimologia, podemos ver
que a Filosofia não é puro logos, pura razão: ela é a procura amorosa daa verdade.

Você Sabia?
Pitágoras de Samos (um dos filósofos pré-so-
cráticos que viveu no séc.VI a.C.) foi a primei-
ra pessoa a fazer uso da palavra Filosofia
(philos-sophia). Pitágoras teria afirma-
do que a sabedoria plena e comple-
ta pertence aos deuses, mas que os
homens podem desejá-la ou amá-la,
tornando-se filósofos.

A Filosofia exige que nós retiremos de nossas relações mais ordinárias uma reflexão criteriosa
sobre as mesmas; é um modo de pensar que persegue o ser humano em seu exercício de compreensão
do mundo onde ocorrem essas relações, possibilitando ação crítica, criativa e transformadora sobre a
realidade.

A Filosofia é a procura da verdade, não a sua posse, porque fa-


zer Filosofia é estar a caminho; as perguntas em Filosofia são mais
essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa
nova pergunta. (JASPERRS, 1997).

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 7


Por isso não devemos nos restringir a recebê-la passivamente como um produto, mas sermos ca-
pazes, cada um de nós, de nos aproximarmos da Filosofia como processo, ou seja, como reflexão crítica
e autônoma a respeito da realidade vivida.

ATITUDE FILOSÓFICA

Diante do que tratamos acerca do significado da palavra Filosofia, podemos presumir ou arriscar
qual seria a atitude genuína do Filósofo? E o filosofar?
Aranha e Martins (1996) elucidam que se a Filosofia compreende uma abordagem fundamental-
mente teórica, isso não significa que ela esteja à margem do mundo, nem que constitua um corpo de en-
sinamentos ou saberes acabados, com o conteúdo determinado, onde não haja flexibilidade e seja avesso
a qualquer tipo de mudança. A Filosofia supõe uma constante disponibilidade para a indagação. Por isso,
segundo Platão, a primeira virtude do filósofo é encontrar-se suscetível para surpreender-se diante do
que é comum à vida. Essa é a condição para problematizar; o que marca a Filosofia não como aquela que
detém a verdade, mas como aquela que subsiste em sua contínua busca. Ou seja, se o filósofo é capaz
de admirar-se com o óbvio e questionar as verdades dadas, ele recebe a dúvida como despertadora desse
processo abstracional.
Ante o exposto, podemos presumir que é atitude filosófica o refletir sobre a realidade, na busca
de desvelar os significados mais profundos e assim descobrir o que está por trás daquilo que se mostra
à primeira vista. Contudo, é imprescindível distinguirmos entre o rigor da reflexão filosófica e a reflexão
que expressamos comumente, de maneira desorganizada e não sistemática.
Estamos todos para este refletir? O que você diria se lhe confessássemos que este rigor filosófico
não é um mérito de alguns privilegiados? Muito pelo contrário, estamos todos sendo constantemente
convidados e desafiados a superar as adversidades que se apresentam nas dimensões pessoal, profissional
e moral, exigindo, enquanto estudantes e/ou profissionais, uma habilidade reflexiva mais elaborada e
precisa, com respeito às idiossincrasias e exercitando o poder de crítica. Que rigor seria este senão aquele
refletir distinto que a Filosofia propõe?

Que é isto Refletir, portanto? Um bom início é nos relacionarmos


com a idéia que fundamentou a criação da palavra, originária do latim
reflectere, que expressa um voltar atrás, pôr em questão o que já
é conhecido. Refletir é, por conseguinte, retomar o pensamento,
resignificando-o. Ou seja, o próprio pensamento torna-se objeto
de nossa análise. Lorieri (2002, p.37), defende a necessidade de
que as pessoas exercitem continuamente o poder de reflexão,
conquistando a capacidade de “retomar seus pensamentos para
os ‘pensarem de novo’, tendo em vista aprimorar o que já estão
pensando[...]. Em uma realidade, como a nossa, onde tudo é
convite ao imediatismo há que haver convites que levem ao
hábito da reflexão”.

Por que é importante significar o ato de refletir? São várias as possibi-


lidades de resposta para essa questão, vamos mencionar duas:
• Porque o ato de refletir proporciona a cada um de nós condições para a autonomia, contribuindo
ao exercício de crítica e responsabilidade perante o contexto social. Visite o Ambiente Virtual de Apren-
dizagem (Tema 01) da nossa disciplina e, a esse respeito, veja a animação “pensamento”.

8 FTC EAD
• Porque a reflexão filosófica insurge no instante em que o pensar é posto em causa, quando ele
(pensamento) deita seu olhar sobre ele mesmo. Assim como nos relacionamos com nossa imagem no
espelho, em que nos encontramos aqui e lá ao mesmo tempo, ela vai até o espelho e retorna – reflete; um
processo semelhante ocorre com o pensamento filosófico: donde um diálogo é estabelecido mediante o
relacionar-se consigo mesmo.
Aranha e Martins (2004) fazem ótimo uso do modo pelo qual Dermeval Saviani caracteriza a refle-
xão filosófica (radical, rigorosa e de conjunto). Veja transcrição a seguir:

Características da Reflexão Filosófica, conforme Dermaval Saviani


Radical: a palavra latina radix, radicis, significa “raiz” e, no sentido figurado, “fundamento,
base”. Portanto, a Filosofia é radical não no sentido corriqueiro de ser inflexível (nesse caso seria a
antifilosofia!), mas na medida em que busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos
os campos de pensar e do agir. Por exemplo, a filosofia das ciências examina os pressupostos do
saber científico, do mesmo modo que, diante da decisão de um vereador em aprovar determinado
projeto, a filosofia política investiga as raízes (os princípios políticos) que orientam a sua ação.
Rigorosa: enquanto a “filosofia de vida” não leva as conclusões até as últimas conseqüências,
nem sempre examinando os fundamentos delas, o filósofo deve dispor de um método claramente
explicitado a fim de proceder com rigor. Assim os filósofos inovam nos seus caminhos de refle-
xão [...]. São inúmeros os métodos filosóficos em que se apóiam os filósofos para desenvolver um
pensamento rigoroso, fundamentado a partir de argumentação, coerente em suas diversas partes e
portanto sistemático.
De conjunto: a filosofia é globalizante, porque examina os problemas sob a perspectiva de
conjunto, relacionando os diversos aspectos entre si. Neste sentido a filosofia visa ao todo, à tota-
lidade. Mais ainda, o objeto da filosofia, é tudo, porque nada escapa a seu interesse. Daí sua função
de interdisciplinaridade, ao estabelecer o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos.
(ARANHA; MARTINS, 2004, p.89-90)

A reflexão filosófica e a atitude filosófica estão fundamentalmente interligadas. A primeira foi já


elucidada e devidamente caracterizada. A segunda, conforme Chaui (2003) é composta pelo aspecto ne-
gativo e pelo aspecto positivo.
Chaui (2003) esclarece que o aspecto negativo da atitude filosófica consiste em não aceitar as afir-
mações prontas sem antes compreendê-las, por exemplo, as afirmações do senso comum; remete à nega-
ção dos pré-conceitos, bem como dos julgamentos prévios ao entendimento efetivo de dada realidade. O
aspecto positivo corresponde à iniciativa de, uma vez negando pré-conceitos e pré-juízos, indagar sobre
o sentido e significado da realidade, construindo posturas propositivas.

FILOSOFIA E FILOSOFIAS

Não se pode pensar em nenhum ser humano que não seja também filósofo, que
não pense, precisamente porque pensar é próprio do ser humano como tal.
(GRAMSCI apud ARANHA, MARTINS, 2003)

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 9


Você já percebeu que nós, que somos seres sensíveis e racionais, nos encontramos continuamente
atribuindo sentido às coisas? Em nosso cotidiano, quando refletimos espontaneamente podemos por
costume chamar isto de uma filosofia de vida. Entretanto, não podemos confundir esta filosofia de vida
com a reflexão do filósofo que, como veremos, tem suas exigências de rigor que o senso comum não
preenche. Com isto, podemos discernir entre os usos da palavra filosofia, por exemplo, para designar um
modo de ser, e a Filosofia como área do saber.
Iglesias (apud REZENDE, 2002), esclarece que podemos nos referir à “filosofia de vida”, à “filo-
sofia de um determinado time de futebol”, à “filosofia de uma empresa específica” e, nesses casos, temos
o campo das “filosofias” que corresponde a um modo de pensar, um modo de ser que não é necessaria-
mente sistematizado. Como área do saber, Iglesias comenta que se perguntássemos a dez matemáticos o
que é a Matemática, as dez respostas seriam, se não idêntica, próximas; se perguntássemos a dez físicos
o que é a Física, as respostas também seriam semelhantes entre eles; contudo, se perguntássemos a dez
filósofos o que é a Filosofia, ora... Teríamos respostas diferenciadas e não seria de assustar que até fossem
contraditórias. Essa situação se deve ao fato de que perguntar o que é a Matemática, não é uma questão
matemática; perguntar o que é a Física, não é uma questão da física; entretanto, perguntar o que é a Filo-
sofia, é já um questionamento filosófico.
Portanto, a reflexão e filosófica não é pura e simplesmente a nomeação dos acontecimentos, ou-
trossim, permite imprimir-lhes um novo sentido. Torna-se imperativo a todo e qualquer profissional o
cultivo dessa postura reflexiva, questionadora, investigativa.

A QUESTÃO DA UTILIDADE

Dentre as situações que marcam a nossa época, constam a velocidade de acesso às informações, a
inversão de valores, a presença de processos ideológicos de dominação social, conforme você estudará no
Tema 2 da nossa disciplina, promovendo relações de trabalho, consumo e lazer alienados. Deste modo, a
reflexão filosófica passa a incomodar, pois fundamenta posturas investigativas sobre a realidade e tende
a ser vista como um saber inútil, pois não tem finalidade prática. Será que a reflexão filosófica é mesmo
inútil? Qual a referência para “utilidade”? Seria a lógica da posse e do poder em detrimento dos reais
valores que contribuem à formação da pessoa. Afinal, a Filosofia é útil ou inútil? Para responder a essa
questão, convido a “Dama da Filosofia Brasileira”, veja quadro que segue:

Inútil? Útil?
O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o
útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar van-
tagem em tudo”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.
Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira? Platão definia a Filosofia como um saber
verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos. Descartes dizia que a Filosofia é o estudo
da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida,
a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes. Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento
que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade
a felicidade humana. Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o
mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundân-
cia e felicidade para todos. Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso
mundo. Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por
todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?

10 FTC EAD
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar
guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compre-
ender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações
humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade
os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a feli-
cidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de
que os seres humanos são capazes.
(CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Disponível em:
<http://br.geocities.com/mcrost02/convite_a_filosofia_01.htm>. Acesso em: 06 set 2007)

E qual será a real necessidade da Filosofia em nosso viver? Está no fato de que, por meio da refle-
xão, a Filosofia nos permite ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo agir imediato, no qual o
“indivíduo prático” se encontra imerso.

Para refletir...
A Filosofia possibilita a constante avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins
a que eles se destinam; reúne o pensamento fragmentado da ciência moderna e reconstrói na sua
unidade; retoma a ação completa no tempo e procura compreendê-la. Neste sentido, qual a impor-
tância da Filosofia para você?

Portanto, a Filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade de superar a


situação dada e não-escolhida. Pela transcendência, a pessoa surge como ser de projeto, capaz de ser livre
e de construir o seu destino. O distanciamento é justamente o que provoca a nossa aproximação maior
com a vida. A Filosofia recupera o processo perdido na aversão ao progresso das coisas feitas, impedindo
assim a estagnação.
O ato investigativo da Filosofia não fica desatento à ética e à política. O filosofar continuamente se
coloca frente a frente com o poder, assim nos assegura o historiador da Filosofia François Châtelet:

“Desde que há Estado – da cidade grega às burocracias con-


temporâneas, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente,
para o lado dos poderes (ou foi recuperada por ele, como testemu-
nha, por exemplo, a evolução do pensamento francês do século
XVIII ao século XIX). Por conseguinte, a contribuição específica da
Filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de todas as liber-
dades, é a de minar, pelas análises ela opera e pelas ações que
desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se
trate ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da
família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o
que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la...”
(CHÂNTELET apud ARANHA, MARTINS, 2003, p.91)

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 11


E a Filosofia neste sentido exige coragem. Filosofar não é um exercício exclusivamente intelectual:
descobrir a verdade é ter a coragem de confrontar-se com as formas estancadas das forças que tentam
manter o aparente, é então aceitar o desafio da mudança e deste modo ter a sabedoria para transformar.
Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia, a lethe-úein, “des-
nudar”), vemos que a verdade consiste em expor aquilo que está escondido. Eis a vocação do filósofo: o
desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.
Alguns dirão que sempre houve e haverá aqueles pensadores bajuladores do poder, próximos dos
que estão a serviço da manutenção do status quo e que emprestam suas vozes e argumentos para defen-
der os que abusam de sua autoridade. Mas, aí estamos diante das fraquezas do ser humano, seja por estar
sujeito a enganar-se, seja por sucumbir ao temor ou ao desejo de prestigio e glória.

A ATUALIDADE DE SÓCRATES,
PLATÃO E ARISTÓTELES

SÓCRATES

Imagino que você deve estar se perguntando quem de fato foi Sócrates e que importância afinal de
contas tem este filósofo e quais foram as suas contribuições na formação do ser humano, da sociedade
e do mundo.
Pois bem, mesmo sem nada ter escrito, Sócrates foi uma das figuras de maior importância e talvez a
mais polêmica e enigmática da Filosofia ocidental, nascido em Atenas, 469 a.C. Sua Filosofia, seus ensina-
mentos e sua vida nos são transmitidos por seus discípulos, principalmente por intermédio dos Diálogos
de Platão. Isso nos traz, novamente, muita dificuldade em precisar o sentido de sua Filosofia, tanto que
podemos falar de vários Sócrates: o Sócrates histórico, que teria realmente existido; o Sócrates platônico,
personagem dos Diálogos de Platão; o Sócrates personagem de Aristófanes etc.
“Conhece-te a ti mesmo” e “Quanto mais sei, mais percebo que nada sei” são, geralmente, as mais
bem conhecidas máximas usadas por Sócrates em seu processo de fazer surgir do seu interlocutor a ador-
mecida instância mais aprimorada do conceito.
A defesa de Sócrates, um dos Diálogos escritos por Platão, é um dos documentos filosóficos, po-
éticos, sociológicos, psicológicos e jurídicos mais belos e importantes de que temos registro em todos os
tempos. Trata-se da reprodução de sua defesa em seu julgamento, na Assembléia ateniense, por corrom-
per a juventude com seu pensamento, introduzir novas divindades e não venerar os deuses da cidade,
que findou por condená-lo à morte. Morre após tomar um cálice de cicuta na frente de seus discípulos.
Chama-nos atenção a quietude que Sócrates demonstra em todo o processo. Após a defesa e a votação,
Sócrates conduz suas palavras contra os que o declararam culpado:

[...] talvez imagineis, senhores, que me perdi por


falta de discursos com que vós poderia convencer,
fa
se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer
para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta,
p
n
não de discursos, mas de atrevimento e descaro, por
me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir,
m
lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma multi-
la
dão de coisas que declaro indignas como costumais
d
ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo
o
não justificava nenhuma indignidade, tampouco
n

12 FTC EAD
me pesa agora da maneira por que me defendi; ao contrário, mui-
to mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em
viver após fazê-Ia daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na
guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e
qualquer recurso para escapar à morrer. Com efeito, é evidente
que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar à morre arrojan-
do as arma~ e suplicando piedade aos perseguidores; em cada
perigo, tem muitos outros meios de escapar à morre quem ousar
tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil escapar à morte, porque
muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a
morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho
vagaroso, pela mais lenta das duas, e os meus acusadores, ágeis
e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu,
condenado por vós à morte; eles, condenados pela verdade a seu
pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente.
Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excesso.
(Platão apud ARANHA; Martins, 2003, p.92).

Sócrates posiciona-se contra os sofistas, buscando valores absolutos por meio de uma forma de
dialogicidade. O processo de questionamento a que expõe seus interlocutores, em seus diálogos filosófi-
cos, é denominado maiêutica, e talvez seja sua maior herança para a Filosofia. Ao contrário dos sofistas,
utiliza-se de um método pelo qual não se propõe a ensinar, no entanto apenas aprender, formulando
indagações pertinentes das próprias respostas encontradas por seus discípulos. Podemos dizer que a lin-
guagem torna-se um fundamento tão importante quanto a ética e a lógica em seu pensamento.

PLATÃO

Platão (428-347 a.C.) nasceu em Atenas. Em 3877


a.C. funda sua famosa Academia, que pode ser en--
carada como a primeira universidade da história da
humanidade.

Célebre discípulo de Sócrates é considerado o maior responsável pela


disseminação dos seus ensinamentos. Os Diálogos platônicos são riquíssimos metalingua-
os exercícios de metalingua
gem - as próprias idéias e palavras são tomadas como objetos do filosofar. A linguagem passa a ser um
dos assuntos centrais do discurso filosófico. Realizou, analogamente, o esforço de conectar as mais di-
versas elaborações filosóficas que lhe precederam, cujo âmago de suas teorias residia na apreciação da
realidade externa ao indivíduo, com a perspectiva que seu mestre naquele momento oferecia, qual seja,
examinar aquele que aprecia o cosmos.
Filosofia e dialética aí se identificam, como processo, na busca da verdade. A dialética é a atividade
que intermedia o processo pelo qual as contradições das opiniões e das crenças são superadas, objeti-
vando alcançar o incondicionado, a idéia em seu estado de plena pureza (sem a corrupção dos apetites
humanos).
Uma técnica é um saber especializado capaz de concretizar algo que existia apenas potencialmente
numa coisa qualquer. A dialética é, por sua vez, a técnica perfeita da alma, comparável à medicina para o
corpo. A medicina é a técnica que concretiza a possibilidade de saúde para um corpo doente; a dialética,
a técnica que concretiza a possibilidade do conhecimento verdadeiro para a alma ignorante. A téchne
concretiza a djnamis (potencialidade) da alma, que é o conhecimento; a dialética, a téchne que atualiza o

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 13


que era apenas possibilidade. Destarte, a dialética difere da retórica, pois em vez de violentar a alma, opera
para que esta se realize plenamente.
Assim como em Sócrates, a maiêutica é o método filosófico por excelência. É com Platão que os
diálogos tornam-se verdadeiramente gênero literário. Eles se constituem uma trama, numa exuberância
de formas, discursos continuados e mitos trágico-cômicos, funcionando como símbolos coletivos, e a
dialogicidade é o seu centro.
Com efeito, o universo científico, técnico e administrativo que é o nosso surge como a prática, a
realização desse princípio de racionalidade de que a Filosofia nascente, com Platão, havia determinado a
significação e o estatuto. A Filosofia assim definida, na medida em que determinou o que é e o que deve
ser a razão como critério e como juiz, constitui o fundamento da civilização na qual, hoje, participamos.
Tudo se passa como se tivesse sido dado a Platão elaborar a lógica da razão e à nossa civilização industrial
organizar-lhe a prática.
Muitos dos valores questionados por Platão, e retomados por toda a tradição filosófica durante os
séculos que se seguiram, passam a ser agora novamente colocados em questão por meio de outras per-
guntas, outros métodos, outras perspectivas e outras expectativas.

ARISTÓTELES

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, no norte da Grécia, e era filho de um médico. Com
17 anos foi para Atenas estudar na Academia de Platão, permanecendo lá por quase 20 anos. Depois de
abandonar a cidade, retorna a Atenas, aos 49 anos, onde funda sua própria escola filosófica – o Liceu.
Uma das curiosidades do pensamento de Aristóteles é sua paixão pelas classificações. Animais,
vegetais, minerais, virtudes, paixões, faculdades psicológicas e intelectuais, nada escapa à sua vontade de
classificar e, por conseqüência, descobrir leis entre os objetos classificados. Assistimos pela primeira vez
na Filosofia, a ambição enciclopédica de agrupar a totalidade dos saberes. Sua obra aborda todos os cam-
pos do conhecimento, catalogando sempre o máximo de informações e opiniões já existentes sobre os
mais diversos assuntos. O objeto de sua Filosofia não é apenas o ser humano, mas o universo, até mesmo
em seus processos naturais. Daí o porquê de uma física, uma geografia, uma astronomia, uma medicina
e uma biologia aristotélicas. Com Aristóteles, Filosofia e ciência natural se reencontram. A metafísica, a
lógica, a psicologia, a teoria do conhecimento do conhecimento, a linguagem, a teoria literária, a retórica,
a ética e a política são também essenciais em seu pensamento.
A realidade, para Aristóteles, assim como as idéias (não sendo apenas produções da mente huma-
na), apesar da existência real não preexistiriam ao seu objeto. Dito de outra forma, as idéias não existiriam
antes da experiência, diferentemente como pensava Platão. As idéias teriam sua origem na própria expe-
riência, e a terceira faculdade, a imaginação, serviria de ponte entre a sensibilidade e a razão: distinguir
forma de matéria seria, então, um exercício intelectual; daí a importância da lógica, ao estudar as leis do
pensamento.
Podemos dizer que Aristóteles é o fundador da lógica for mal como ciência. Para o Estagirita, a
lógica não podia ser incluída em nenhuma ciência, pois não possuía objeto de investigação definido,
caracterizando-se como um instrumento que serviria a todas as ciências. Por isso, não estudaria nenhum
conteúdo específico, mas apenas do raciocínio. O estudo das ciências deveria começar pela lógica.
Cabe dizer que Aristóteles introduz, também, outra interessante distinção: de um lado a poiesis,
arte ou técnica, como a agricultura, a navegação, a pintura, a escultura, a arquitetura, a tecelagem, o arte-
sanato, a poesia; a retórica etc., ou seja, ações que têm como fim a produção de uma obra; de outro lado
a práxis, ou ações que têm um fim em si mesmas, como a ética, a política e a economia. A política seria,
dentre essas ações, a mais nobre. O indivíduo e o Estado são, em Aristóteles assim como em Platão, pen-
sados como inseparáveis um do outro.

14 FTC EAD
A ciência, ou episteme, por sua vez, não se caracterizaria como ação, mas como conhecimento;
ciência e Filosofia não eram, tampouco, pensadas separadamente. Para Aristóteles, assim como para
toda a Antigüidade e ainda pelos vários séculos seguintes, os temas das ciências modernas estavam en-
globados pela Filosofia natural. O filósofo e o cientista eram em geral a mesma pessoa; a Filosofia e a
ciência possuíam uma unidade que começava a se desfazer, pouco a pouco, até se romper por completo
na modernidade.

CONCEPÇÕES ÉTICAS

Você já questionou se existe diferença entre ética e moral?!


Etimologicamente, as duas palavras possuem origens distintas e significados idênticos. Moral vem
do latim mores, que quer dizer costume, conduta, modo de agir; enquanto ética vem do grego ethos e, do
mesmo modo, quer dizer costume, modo de agir. Essa identidade existente entre elas marca a tendência
de serem tratadas como a mesma coisa, embora do estreito vínculo que as une, elas são diferentes.
Poder-se-ia dizer que a moral normatiza e direciona a prática das pessoas, por referir-se às situações
particulares e quotidianas, não chegando à superação desse nível, e a ética, tornando-se examinadora da
moral, teoriza acerca das condutas, estudando as concepções que dão suporte à moral. São, pois, dois
caminhos diferentes que resultam em status também diferentes; o primeiro, de objeto, e o segundo, de
ciência. Donde deduzimos que a Ética é a ciência da moral.
Cada sociedade, cada cultura cria valores morais diferentes, correspondentes a suas condições his-
tóricas e sociais e a seus interesses e necessidades. Portanto, por conta da articulação histórica e pela
forma como cada sociedade vê os valores, é compreensível que existem diferentes concepções éticas,
articuladas ao tempo e ao espaço.

“A ética é uma forma de ser e modo de agir, não de maneira me-


cânica, mas como fruto da reflexão em consonância com a cultura
e a filosofia da organização.” (PASSOS, 2006, p. 66)

Procuraremos expor sucintamente as concepções éticas consideradas mais importantes, sem ne-
nhuma pretensão de esgotar o assunto; nosso propósito é lançar um olhar para que possamos compreen-
der a historicidade dos valores e nos apropriarmos de elementos necessários às reflexões.

As Concepções éticas variam a depender das condições históri-


co-sociais e da forma de interpretação da realidade hegemônica.

CONCEPÇÕES ÉTICAS NA GRÉCIA ANTIGA

Algumas circunstâncias como a democracia escravocrata e a democratização da vida política com


o advento da polis, oportunizaram aos filósofos a condição propícia para a reflexão acerca do ser, das
questões morais e sociais, na antiga Grécia.
Os assuntos de ordem pública encontravam-se subordinados ao poder de argumentação, da palavra
e do discurso, tornando-se imprescindíveis, em detrimento da qualidade social e econômica dos indivídu-
os, nessa nova forma de organização social e política, a democracia.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 15


Sócrates perscrutou minuciosamente a democracia grega, dedicando-se à investigação da verdade,
compreendida como a absolutização do conceito, apta à gerir as relações dos sujeitos, em todas as suas
dimensões. De tal modo, o filósofo grego empenhou-se em estabelecer um método que auxiliasse os
indivíduos a reconhecer o crítico estado em manter-se alheio a realidade, qual seja, vocês se lembram? É
esta mesma a Maiêutica.
O cerne da ética socrática é a felicidade suprema, ou seja, através de conceitos que possam ser
instituídos como lei universal objetivando alcançar o bem supremo. O contato com esse bem supremo
propicia o polimento da alma, determinando a propagação do bem. Nesta concepção ética, a felicidade é
a virtude natural conseqüente da boa conduta, de conquistar a impertubabilidade do espírito, e consagrar-
se ao conhecimento e à verdade.

Para refletir...
A arte moral não é a arte de viver bem tendo em vista alcançar a felicidade, e sim a arte de
ser feliz porque se vive bem.

Para Sócrates, e posteriormente para Platão, submeter à luz da razão a moral estabelecida, não é
meramente uma atitude convencional, e sim, uma postura deliberada que pretende solucionar as querelas
apontando as falsas virtudes.
Para Platão, tudo o que conhecemos como existente, até mesmo os conceitos estão em nossa
mente. Da mesma forma que ele subordina o mundo sensível ao das idéias, também o faz com o bem
moral ao supramoral. Nesse processo, é preciso que as virtudes sejam praticadas. Como sua teoria ética
relaciona-se com a política, a razão (virtude da prudência) corresponderia aos governantes (filósofos), a
fortaleza (virtude da vontade) aos guerreiros e a temperança (virtude do apetite) aos artesãos. Sua moral,
assim como a de Sócrates e como será a de Aristóteles, é eudemonista (felicidade).
A ética de Aristóteles era finalista, no sentido de visar a um fim, a saber, que o ser humano pudesse
alcançar a felicidade, considerada a aspiração da vida humana. Entendia a moral como um conjunto de
qualidades que definia a forma de viver e de conviver das pessoas, uma espécie de segunda natureza que
guiaria o ser humano para a felicidade, que era composta de vários bens, dentre eles: a sabedoria, a virtude
e o prazer. A sabedoria era considerada o bem de maior valor, por se identificar com a contemplação.
O bem moral consistia em agir de forma equilibrada e sob a orientação da razão. O “meio-termo”,
o ponto justo levaria à felicidade, a uma “vida boa e bela”, tão como privilégio individual e sim coletivo,
pois considerava que o bem individual não poderia estar em desacordo com o bem social. A orientação
era viver em conformidade com a razão e com as virtudes do cidadão, de onde viriam o discernimento e
o autocontrole, que fariam a assimetria entre desejos e habilidades.
Em sua Filosofia, Epicuro, entendia que a vida humana podia ser afetada pelo prazer ou pela dor,
sendo o primeiro sua inclinação natural, de modo que a dor deveria ser evitada. Para ele, o prazer seria “o
fim e o começo de uma vida bem aventurada”, o primeiro dos bens naturais. O prazer, identificado com
a ausência do sofrimento e da dor, seria a própria felicidade. E “o ápice desse tipo de prazer é a conquista
da imperturbabilidade de espírito (ataraxia). Mas ela só chega pelo discernimento da diversidade dos de-
sejos, pois nem todos devem ser atendidos”.

16 FTC EAD
Para refletir!
Uma vida feliz é impossível sem a sabedoria, a honestidade e a justiça, e estas, por sua vez,
são inseparáveis de uma vida feliz. Aquele que não vive nem honesta, nem sábia, nem justamente,
não pode viver feliz.

O mais importante seria garantir ao indivíduo o máximo de prazer. Prazer não como “fruição dos
sentidos”, e sim como ausência de sofrimento físico e moral. Para isso, até algumas “virtudes sociais”
deveriam ser cultivadas, tais como a amizade, a doçura e a magnanimidade. Assim, fazia-se necessário que
os desejos fossem controlados, a fim de não ultrapassarem os naturais. Ser prudente quanto aos prazeres
e os instintos constituiria em caminho seguro à verdadeira felicidade.
A ética epicurista orienta para a necessidade de haver limites, a fim de garantir a serenidade e uma
vida feliz e sem atropelos, e para se construir uma “estética da existência”.
O Estoicismo é, acima de tudo, uma ética cuja orientação central consiste em viver conforme a na-
tureza, o que significa dizer, de acordo com á virtude. Os estóicos não fizeram distinção entre a virtude e
o bem. Para eles, a virtude basta-se por si mesma, é desejável em si porque não tenderia a um fim exterior.
Portanto, a virtude moral é o que há de mais importante: o fim supremo da vida humana é a virtude, só
ela é verdadeiramente boa.
Logo, em que consiste a virtude? Ela é conhecimento racional. Ser virtuoso é ser senhor de si,
capaz de viver de acordo com a sua natureza. O mais importante é viver conforme a razão, tendo consci-
ência do seu destino e de sua função no universo, sem deixar-se dominar pelas paixões nem pelas coisas
do mundo exterior - essa é a posição do sábio.

Mediante o prévio conhecimento do ser, ou seja, da razão, o


indivíduo apreende a perfeição, forjando uma postura e compre-
ensão de si mesmo e da realidade que o cerca. As idéias de ser e de
bem moral equiparam-se atribuindo um sentido à prática moral.

CONCEPÇÕES ÉTICAS NO MEDIEVO

Na Idade Média a conjuntura moral modificou-se, ingressou no lugar da autonegação, a modéstia


e a acondicionamento para obedecer, entusiasmado pelo Cristianismo, uma vez que os seres humanos
eram entendidos como a imagem e a semelhança de Deus. O que os reunia era a autoridade de Deus,
determinada como a procedência e o embasamento da lei moral, a mesma transcorrendo de verdades
reveladas que necessitam ser reverenciadas e seguidas a fim de que o ser humano tivesse a possibilidade
de atingir a “salvação”.
Diferentemente da Idade Antiga, passar a existir virtudes morais dentre as quais, a fé, a esperança,
a caridade e a idéia de igualdade entre os seres humanos, pela qualidade de filhos de Deus.
A sujeição da ética a preceitos religiosos elucubrava a dependência que a Filosofia conviver em
relação à teologia. As capitais teorias morais ampliadas nesse momento ratificam essa tendência.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 17


Em Santo Agostinho sugeriu o restabelecimento da razão, que acreditava estar em decadência, pelo
meio da fé, uma vez que considerava impossível ao intelecto humano levar à verdade, imutável e eterna.
Desse modo, a única direção aceitável equivaleria a Deus e a fé. A moral fazia parte do domínio divino,
sendo suas normas e seus valores criações livres de Deus. Assim, os valores morais só teriam sentido por
sua relação com a vontade de Deus, e o bem só seria bem diante da mesma condição.
Tomás de Aquino alicerçou sua concepção moral, igualmente, em um fim último, em uma verdade
transcendente, em Deus. Assim, por meio da contemplação de Deus e dos seus atributos, estava sujeito
a felicidade humana.

Os códigos de moral, no Medievo, tinham como propriedade


um conteúdo sacro, comprometendo-se em dar esperança de bom
futuro e progresso aos indivíduos, somente alcançado num plano
metafísico.

CONCEPÇÕES ÉTICAS NA MODERNIDADE

A economia, a política e os assuntos sociais refletem um momento intelectual que favorece uma
ética na Modernidade centrada no antropocentrismo, cuja compreensão entende o ser humano como
fundamento de si mesmo e fim último; ele acha-se no âmago da ciência, da política, da arte e da moral.
Como, por exemplo, Immanuel Kant, filósofo alemão e um dos maiores expoentes de sua época,
inquiriu incisivamente o conceito de felicidade, posto em prática desde os antigos gregos, pretensão que
consistia atingir uma finalidade; assim sendo, indicou com precisão que é a consciência do próprio ser
humano que forja e assenta a lei moral. Ora, o que isto significa? Significa dizer que a lei moral é uma
condição primeira da própria estrutura cognitiva humana, ou seja, todo valor resulta da sua consciência,
e não se faz aparecer fora dela. E mais, a lei que o filósofo alemão se refere é uma moral de razão reta e
do dever genuíno, orientada pelo cumprimento do dever pelo dever – o intento de perseguir a lei moral
em detrimento de todo e qualquer benefício ou proveito que advenha desta ação.
Edificou desse modo, uma moral que se realiza sem intervenção de forças ou agentes externos
(autônoma) e que detém um caráter universal. Em outras palavras, como ele ilustra:

Age de tal maneira que sua conduta possa ser enlevada a uma lei suprema.

CONCEPÇÕES ÉTICAS NA CONTEMPORANEIDADE

Karl Marx insurge num período caracterizado pelo franco progresso científico e a promoção do
indivíduo como ser humano concreto. Declarou ser o sujeito um ser histórico e social, hábil e apto a
interferir no mundo que o rodeia; entende-se, igualmente, não apenas o mundo físico, mais, seus pressu-
postos valorativos.
Instituindo uma estreita conexão entre a realidade das relações produtivas e a realidade conceitu-
al, Marx observou que aqueles que detêm os meios de produção prescrevem os valores morais a serem
acatados (sendo a moral um corpo de preceitos que alinham todas as dimensões das relações humanas,
possuindo flexibilidade para adequar-se as condições sociais singulares).

18 FTC EAD
As relações que os indivíduos mantêm com o mundo alteram-se
continuamente, pois elas seguem o fluxo das transformações his-
tórico-sociais e, principalmente, econômicas. Com isso, não quere-
mos dizer que as formas de produção ou a história são as únicas
responsáveis pelo destino dos seres humanos. Ao contrário, existe
uma relação dialética entre elas e as idéias humanas, sendo esses
os maiores protagonistas da história. Assim, a moral transforma-
se em um conjunto de normas construídas a partir do próprio pro-
cesso e desenvolvimento das sociedades, tornando-se temporais
e espaciais.
(PASSOS, 2006, p. 43)

O empreendimento marxista assenta-se no valor de expor os artifícios especializados daqueles que


detêm os meios de produção, e os mecanismos de poder a eles articulados, com o intento de alertar a
população, como Sócrates e Platão o fizeram anteriormente, sobre o risco que é viver alienado, ou seja,
transferir para outrem o domínio do seu juízo, principalmente, àqueles que detêm os modos de como
produzir.
Marx incentiva não apenas a conscientização da população, mais ainda, fomentou a insurreição do
proletariado contra os burgueses e seus modos valorativos.
Friedrich Nietzsche, outro filósofo alemão, procedeu contra o estado legitimado pela tradição fi-
losófica, propondo uma reavaliação estrutural dos valores que motivavam as relações entre os sujeitos.
Que valores seriam esses, afinal? O núcleo da discussão nietzscheana é reconhecer a origem dos valores
morais e, em decorrência disto, dar-se conta da implicação do porquê específicos valores são incentivados
e outros não. Desta atitude decorre a autonomia dos indivíduos .
Ao lançar à luz a discussão sobre a valorização de atos morais singulares, como por exemplo, a
promoção deliberada de negar a vontade de querer mais dos sujeitos em detrimento de uma vida come-
dida, negando a si próprios; a proposta do filósofo é , sobretudo, conduzir as pessoas para um estado de
consciência que ainda que elas sigam os valores morais estabelecidos, elas assumam isto para si mesmas
claramente. O caminho para Nietzsche é a realização de uma sociedade autárquica, ou seja, onde os indi-
víduos norteiam suas próprias vidas, sustentam seu próprio peso.
Num mundo onde não existe profundidades e sim aparência somente, o único caminho para a
verdade são o útil e o necessário, o que determinará a moral; esta adaptando-se ao contexto dirigido,
assistindo o conviver bem entre os seres humanos. O absoluto só existe, por conseguinte, mediante o
particular real e concreto.
Jean-Paul Sartre é outro expoente do entendimento filosófico contemporâneo. Para o filósofo fran-
cês, a existência molda a essência – é o sujeito que forja a sua realidade, e não uma existência sobrenatural
a ele. O indivíduo é tudo o que escolhe ser, é o resultado do seu projeto, por ser naturalmente dotado do
direito de escolher o seu destino e a sua vida – logo, sendo o único responsável.
Como é a experiência concreta que confere ao mundo valor, a ética sartreana fundamenta-se na
liberdade como fim primeiro e último e valor absoluto. O ser humano é livre para escolher; sendo assim,
liberto de toda submissão a parâmetros condicionantes, ele norteia seu ato moral particular, desprezando
toda resignação tendo como fim reestruturarem suas vidas.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 19


Na ausência de todo e qualquer valor, objetivamente fundado e
de qualquer preceito de uma lei moral universal – agora que já
não há ninguém para dar ordens, é cada indivíduo particular que
compete criar ou inventar em cada caso os valores que orientam
sua conduta.
(MARITAIN apud PASSOS, 2006, p. 45)

A Contemporaneidade exprime um ser humano concreto num mundo histórico. Assim sen-
do, a ética reflete uma ação em direção oposta ao formalismo das teorias modernas.

VALORES E VIRTUDE NA ORGANIZAÇÃO

Justiça. Honestidade. Liberdade. Responsabilidade. Respeito. Confiança. Disciplina. Solidariedade.


Ufa! Inicialmente gostaríamos de deixar bem claro a imperiosa necessidade de debruçarmos atenciosa e
laboriosamente sobre estes valores e virtudes, que permeiam o nosso viver, principalmente em nossas re-
lações de trabalho; especialmente, por observamos que a ética no meio social reflete uma ética individual.
Deste modo, não é a empresa que faz a pessoa ética, mas é esta que, possuindo forças éticas internamente,
cristaliza-as em comportamentos favorecendo a criação de um ambiente ético. Assim todos estes valores
não se impõem por leis ou códigos, mas podem e até devem ser estimulados com reflexões constantes na
empresa, especialmente a partir de situações conflitantes.
Que tal nos relacionarmos diretamente com a descrição de cada um desses valores e virtudes?

A JUSTIÇA

Para refletir...
Quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado, será que a verdadeira
infelicidade não está no sofrimento de uma injustiça, mas sim em quem a injustiça.

Conceito de Aristóteles: “O hábito segundo o qual, com constante e perfeita vontade, se dá a cada
qual o seu direito ou o que lhe pertence”. Sendo um hábito ela é adquirida pela pessoa com exercícios e
prática na vida em geral, e no caso que estamos estudando na empresa em particular.
Para Marculino Camargo (2005, p. 43) desta conceituação surgem perguntas básicas para a concre-
tização da justiça: o que é do outro ou o que lhe pertence? Qual a medida ou o critério para dar ao outro
algo? Como estabelecer a igualdade para satisfazer as exigências deste “dar”?
Jornada de trabalho, contratos salariais, férias, descanso, obrigações assumidas, deveres e direitos
dos regulamentos internos são consideradas os modos mais rudimentares, próximos e aparentes para a
execução dos acordos legais da sociedade. No entanto, seria imperativo que a todos houvesse a facilidade
do conhecimento destas normas e requisições, sempre que possível, fossem debatidas.

20 FTC EAD
Camargo (2005) compreende alguns direito fundamentais à vida e assim diz encontra na delicadeza
da consciência a mãe de todas as virtudes:

A forma mais profunda encontra-se na delicadeza da consciência


em promover os direitos fundamentais do ser humano à vida, à
liberdade, à segurança, à verdade, à felicidade, à honra, à digni-
dade, etc., ultrapassando mesmo as medidas estabelecidas pela
sociedade.
(CAMARGO, 2005, p.44)

Em uma empresa o ser humano justo se preocupa não apenas com seu bem-estar, mas igual-
mente com seu entorno, dedicando atenção, por exemplo, tanto às questões interpessoais quanto
socioambientais.

A HONESTIDADE

Pressupondo clareza de intenção, a honestidade, pela qual o ser humano adquiri a si mesmo, resol-
vendo e determinando seus atos, sendo um caminho do meio entre o medo e a temeridade.
Neste sentido, explanando com muita nitidez, podemos compreender a honestidade como:

O respeito aos bens alheios, sejam públicos ou privados; A hones-


tidade é a conseqüência mais imediato da justiça; é a qualidade ou
o atributo ligado à inteireza, à honradez, à pureza e à decência;
portanto é um apreço, consideração ou estima pelas ações boas; é
um sentimento da própria dignidade com o brio e a coragem dos
deveres cumpridos alimentados por um ideal, moral.
(MARCLUNO 2005, P.45)

A LIBERDADE

Com a possibilidade de ser compreendida, a liberdade, num sentido simplesmente físico, a capa-
cidade de fazer ou deixar de fazer algo em um aspecto moral como possibilidade de eleger os melhores
caminhos para uma adequada realização como pessoa. Torna-se perigoso, mas se compreendemos a
liberdade não é simplesmente um eximir-se de coisas (como horário, esforço, relacionamentos, etc.), mas
caminhar para coisas (como horário, esforço, relacionamentos, etc.), ela pode ser concebida desta manei-
ra como a superação de um processo individualista donde (CAMARGO, 2005) utiliza-se do exemplo “a
minha liberdade termina onde começa a do outro”. A liberdade é uma construção coletiva; deve existir
uma rede de relações de engendramento em que um se preocupa com a realização do outro como ser
humano;

A RESPONSABILIDADE

Ser responsável é responder concretamente pelos seus atos assumindo as conseqüências de suas

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 21


escolhas, mesmo com dificuldades e sacrifícios; o responsável cumpre suas obrigações não porque o
chefe está vigiando ou pode ser punido, mas porque descobriu um valor naquilo que está fazendo tanto
para si como para os outros.
A responsabilidade faz a pessoa perceber que, uma vez que ela escolheu algo, ela se limitou, mas é
nesta limitação que está sua realização; a responsabilidade é a construção da liberdade, ela tem como base
a coragem, a lealdade, a transparência. Na sua dinâmica, impõe cuidados e vigilância.
O responsável não somente cumpre ordens como um autômato, mas procura saber o que faz, por
que faz e como faz; assim, numa empresa, não existem aqueles que pensam e aqueles que executam, mas
todos são seres pensantes e executores; nesta perspectiva, a pessoa deixa de ser um mero tarefeiro de
atividades burocráticas, pois exercita a auto-percepção, bem como busca prezar peloa valores humanos
e pelas metas a serem atingidas.

O RESPEITO

O que o respeito no impõe de imediato é a necessidade de estarmos atentos atenção ao outro como
ser humano com seus processos e idiossincrasias, percebendo as riquezas e os valores de cada um; deve-
se partir da realidade de como o outro é para se entabular um relacionamento e uma convivência digna; é
saber admirar o que é diferente na diversidade das pessoas para atingir a igualdade fundamental; o respei-
to impõe a. aceitação de cada idiossincrasia pessoal evitando a massificação e a coisificação. (CAMARGO,
2005) entende por respeito o empenho em reconhecer em si mesmo e nos outros uma dignidade à qual
se refere um dever de salvaguardar.

A CONFIANÇA

Sendo aderência às ações e reações do outro, por palavras ou gestos, como resultado da aceitação
do outro a confiança, entrando em comunhão recíproca com o mesmo; ela é uma toda inteligência a
mando da vontade; o fundo da mensagem torna-se verdadeiro, mesmo que nem sempre inteligível ou
explicável, porque a pessoa do outro fazer jus a estima, importância e distinção.
De fato ainda que a confiança em alguns casos seja algo decidido no desconhecido, sem uma garan-
tia total do que pode acontecer, mas aí de um lado reside sua beleza e grandeza, pois ela implica a saída de
um ser humano para a invasão de outro ser humano, formando uma espécie de outro ser em que ocorre
uma partilha de descobertas; de outro lado, mesmo com riscos, ela mostra que o ser humano não pode
viver exclusivamente de dados inquestionáveis.
Também a confiança espelha humildade em que cada um reconhece os próprios limites que são ul-
trapassados pelas potencializações do outro; revela o indivíduo que, em vez de construir muros, constrói
pontes com os outros à custa de gastar tempo, ouvir, tolerar, ajudar e ser ajudado. Isto é importante na
relação entre colegas, entre chefes e subalternos, entre fornecedores e clientes, etc.
Enfim, a confiança é uma atitude que aceita a lealdade, a sinceridade, a franqueza, a integridade, a
bondade, a pureza, o altruísmo, a magnanimidade e a benevolência como valores existentes no ser huma-
no, inclusive durante uma atividade profissional.

A DISCIPLINA

Sendo a disciplina a maneira pela qual as pessoas de um grupo se conformam de acordo com
as normas já postas; ela tem uma duas extensões: a da comunidade social porque tem ressonâncias no

22 FTC EAD
conjunto humano que constitui uma empresa; de outro lado, é individual porque interessa a cada pessoa
como parte de um todo. Na relação entre autoridade e súditos ela fomenta o respeito mútuo entre ambos,
objetivando manter a todos satisfeitos enquanto ensina e orienta a cada um no desempenho eficiente de
suas tarefas. Desta forma, ela faz parte das regras do jogo de uma convivência humana, encaixando-se nas
exigências da justiça para se conseguir o objetivo comum na empresa. (CAMARGO, 2005)
Para Camargo (2005, p. 53), a disciplina é um processo dinâmico, que é alimentado por duas fontes.
Em um modo, a fonte externa, que provém da própria organização enquanto estabelece normas claras,
fornece instruções a respeito das mesmas, estabelece procedimentos de verificação do comportamento
e de medidas a serem tomadas; destarte, a disciplina não deve ser acolhida por si mesma, mas como um
meio para que sejam logrados valores ascendentes, que no caso da empresa seriam a eficácia no trabalho,
a alegria em render e produzir, a concordância de vida entre seres humanos.

A SOLIDARIEDADE

Solidariedade etimologicamente significa “dar a quem está só”; portanto ela implica uma inter-
relação ou uma interdependência. Conforme Camargo (2005), a solidariedade é, então, é uma assistência
recíproca. Ela brota da percepção de que o mal do outro que está só não pertence só a ele, mas à coleti-
vidade, e esta deve combatê-Io; é uma alteridade que supera o egoísmo. Aqui você deve estar se pergun-
tando o por que conhecer este valores e virtudes, a nós importa muito saber, compreender e executar,
afinal, eis que já percebemos quão complicado é o caos que nos encontramos e neste sentido a nós ficou
a incumbência de vivermos uma vida cada vez melhor. E vamos em frente!

Atividade Complementar
1. Considerando a Filosofia como procura e não posse da verdade, as perguntas em Filosofia são
mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta. Neste sentido, ela-
bore uma redação sobre o significado de “Filosofia”, contemplando a questão da “utilidade” e associando
essas reflexões ao mundo do trabalho?

2. Em suas relações de trabalho, o ser humano necessita conceber e realizar valores e virtudes es-
senciais, concernentes ao seu ambiente de trabalho. Neste sentido, construa uma síntese exemplificando
aqueles valores e virtude.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 23


3. Realize uma pesquisa sobre as contribuições de Sócrates, Platão e Aristóteles para a Filosofia,
para a Ética e para a Ciência. Em seguida, elabore um comentário sobre a atualidade desses pensadores.

4. Cada sociedade, cada cultura cria valores morais diferentes, correspondentes a suas condições
históricas e sociais e a seus interesses e necessidades. Portanto, por conta da articulação histórica e pela
forma como cada sociedade vê os valores, é compreensível que existam diferentes concepções éticas,
articuladas ao tempo e ao espaço. Neste sentido comente cada uma destas concepções aqui citadas.

5. De acordo com seu entendimento e os nossos primeiros conteúdos estudados, explicite em que
medida, esta disciplina Filosofia, Ética e Mundo do trabalho, pode lhe auxiliar em sua formação acadê-
mica e profissional?

TRABALHO E PESSOA ENQUANTO


EXISTÊNCIA RELACIONAL/POTENCIAL
Autora: Naurelice Maia de Melo
SIGNIFICAÇÃO DO TERMO “TRABALHO” E
SUAS IMPLICAÇÕES

Por que problematizar um termo tão utilizado e conhecido por todos? Por que
lançar o olhar sobre a expressão “trabalho” buscando os sentidos que são atribuí-
dos a ele, uma vez que se trata de um termo comumente conhecido?
Será que o trabalhador sabe, de fato, o significado do seu ato (trabalhar)? Será
que aqueles e aquelas que se dedicam á compreensão reflexiva, crítica e criativa da
realidade social poderiam dispensar o estudo sobre o significado do trabalho e suas
múltiplas implicações?

24 FTC EAD
TRABALHO: PERSPECTIVA GREGA E LATINA

No primeiro tema deste material didático você teve a oportunidade de compreender a transição das
narrativas míticas à busca racional de entendimento da realidade, conhecendo alguns aspectos da Anti-
guidade Grega. As referências aos pensadores originários, ou pré-socráticos, já favorecem à percepção de
que aqueles dedicados ao pensar não eram os mesmos dedicados ao “trabalho”.
O sentido do trabalho, na Grécia Antiga, esteve correlato a “ponos”, compreendido como penali-
dade e esforço, ao qual, posteriormente, será associada a perspectiva latina do termo “trabalho. No mes-
mo ambiente da Grécia Antiga, tivemos também outro modo de significar “trabalho”, completamente
distinto de “ponos”, pois corresponde a “érgon” ou criação.
Como é possível que no mesmo instante histórico e no mesmo espaço, tenhamos dois sentidos tão
contraditórios para o termo trabalho?! De que modo essa contradição está manifesta no modo pelo qual
vivemos hoje?!

» Érgon e Ponos ou... “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”
Na Antiguidade Grega o trabalho, na condição de “ponos” era uma atividade própria ao escravo,
não devendo o cidadão realizá-lo. O trabalho manual era compreendido como atividade inferior. Aqueles
que faziam parte da cidadania e, portanto, das reflexões capazes de decidir o destino da polis (cidade-
estado) deveriam ter tempo livre para pensar, para criar (érgon), cabendo aos escravos todo e qualquer
tipo de atividade braçal.
Aqui podemos perceber uma distinção social entre os sentidos do trabalho na qualidade de “érgon”
e “ponos”. Sendo este desprezado. Por exemplo, para Aristóteles a ação pode ser configurada como livre
e como ação fabricante de artefatos, mediante a técnica. Ação livre, para Aristóteles, é a atividade digna
aos homens; já a ação fabricante, é aquela destinada aos escravos.
No Tema 01 da nossa disciplina você estudou sobre Sócrates, Platão e Aristóteles e percebeu que
esses pensadores estão no contexto da Grécia Antiga, marco da democracia. Atenas, cidade-estado gre-
ga, chega a ganhar o apelido de “berço da democracia”; é inegável a importância do legado grego para a
filosofia, a ética, a política, a arte dentre outras áreas. É também indispensável ressaltar que a democracia
ocorria apenas entre os membros da cidadania. É possível questionar: qual a novidade desta afirmação?
Se “demos” corresponde a povo e “kratos” a poder, então todos tinham acesso ao poder... “Poder nas
mãos do povo!!” Esta é uma máxima dos regimes democráticos! Não era desta forma que a polis grega
exercia o regime democrático, pois mulheres, crianças, estrangeiros, escravos e prisioneiros de guerra se
quer podiam sonhar em fazer parte da cidadania. A esse respeito, veja a citação e a tira a seguir...

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 25


Na Grécia dos séculos de ouro apenas uma exígua minoria era
composta de cidadãos com plenos direitos, que se dedicavam à
política, à filosofia, à ginástica e à poesia, vivendo materialmente
nas costas da maioria – escravos, mulheres e metecos – a quem
cabiam todas as atividades de ordem material e de serviço.
(DE MASI, 2006, p.80)

Deste modo, o processo originário da democracia era excludente, uma vez que apresentava restri-
ções à população (poucos indivíduos integravam a cidadania). Conforme já mencionado, é importante
compreender que mesmo excludente, era o início de uma forma de poder que possibilitava aos cidadãos
a escolha sobre os rumos da cidade, sendo inegável a importância da Grécia Antiga para os diversos as-
pectos que constituem a sociedade.

Participe do nosso Fórum!


Hoje é possível afirmar que toda população brasileira
tem direito de exercer a cidadania, uma vez que nosso regi-
me político é democrático. Mas, todas as pessoas estão em igual situa-
ção para o exercício da democracia?!

Considerando que na Grécia Antiga apenas homens (livres) tinham o direito de exercer a
cidadania, a eles era negado o trabalho na qualidade de “ponos”, sendo permitido o trabalho
enquanto “érgon”.

» Érgon
O trabalho, na qualidade de érgon, corresponde à criação. O ato de criar, de pensar, de realizar as
próprias habilidades humanas. Mariana Cruz, no texto “Prudência, ação e virtude” (veja fragmento no
quadro que segue), tece comentários sobre o trabalho/érgon como via de realização humana, chamando
a atenção para a distinção entre érgon e arethé. O primeiro corresponde à tarefa que cada ser humano
(cidadão) tem a ser realizada, tal como pensar sobre os destinos da polis; a arethé (virtude) corresponde
à realização e à excelência no desempenho da referida tarefa.

A tarefa a ser realizada pelo homem (érgon), a sua ocupação pró-


pria, diz respeito ao empenho que ele deve ter na tarefa de realizar
o que ele é. Notemos que érgon não pode ser visto como a essên-
cia do homem, pois a essência é algo estático, perfeito, imutável,
e o érgon é algo a se realizar, o que requer um grande esforço.
Não podemos confundir arethé com érgon. [...] Diferentemente
deste érgon, a arethé não é uma tarefa, a arethé é a excelência no
exercício de uma atividade. Aquele que tem arethé é um virtuoso
naquilo que faz, como um virtuoso na arte de pintar, que faz com
que seus quadros expressem algo de sublime. Apesar do esforço
do pintor, de seu empenho, ele apenas cumpriu o que deveria ser
por ele realizado, porém cumpriu de maneira excelente, daí ele
ser considerado um virtuoso naquilo que faz.

26 FTC EAD
Todo homem tem o érgon, isto é, uma tarefa a ser realizada. Mas
isso não quer dizer que ela seja necessariamente realizada. A are-
thé é a atualização do érgon.
CRUZ, Mariana. Prudência, ação e virtude.
Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/bibliote-
ca/filosofia/filo14.htm>. Acesso em: 02 set 2007.

Portanto, é virtuoso também aquele que trabalha, na qualidade de érgon e associa a seu empenho
reflexivo e criativo a excelência da virtude. Entretanto, aquele que trabalha, na qualidade de ponos, não é
o mesmo que desenvolve atividades reflexivas e criativas sobre a cidade e sobre as relações sociais.

» Ponos
No contexto da Antiguidade Grega, o trabalho “ponos” estava associado aos escravos, compreen-
didos por Aristóteles como aqueles que só têm a oferecer a força física, sendo, por natureza, condenados
à escravidão. No capítulo IV do Livro Primeiro de sua obra “Política”, Aristóteles propõe questionamen-
tos sobre os escravos e sobre as virtudes, chegando a conclusão de que as virtudes estão tanto para os
homens livres quanto para os servos, mas que a uns cabe ordenar e a outros obedecer. Vejamos com as
palavras do próprio pensador como essas situações (a natureza do escravo/servo e a exclusão perante o
exercício da cidadania) se configuram.

Exigir virtude de um e não a exigir de no outro seria absurdo. Se


ao que obedece faltam [...] virtudes, como será capaz de obedecer
bem? Se aquele que manda não é sóbrio nem justo, como saberá
mandar? Viciado e vadio, não cumprirá qualquer de seus deveres.
É evidente, portanto, que ambos devem possuir virtudes, aten-
dendo-se, contudo, a essa diferença que a natureza colocou nos
seres feitos para a obediência. E isto de pronto nos leva a alma.
Tem ela duas partes: uma, a que ordena, outra a que atende –
e suas qualidades são bem diferentes. Esta harmonia acha-se de
modo evidente nos seres, e assim a natureza destinou parte deles
a mandar e parte a obedecer. [...] O homem livre manda no escra-
vo de modo diverso daquele do marido na mulher, do pai no filho.
[...] O escravo é inteiramente destituído da faculdade de querer; a
mulher possui-a, porém fraca; a do filho não é completa.
(ARISTÓTELES, 2002, p.33)

Afinal, qual a correlação entre os saberes aqui elucidados, o trabalho e as relações atuais? Se esses
assuntos parecem estar afastados do que hoje vivenciamos, podemos lançar o olhar sobre o ideológico
dito popular: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Nesta perspectiva, importa questionar:
QUEM PODE?!
Para o contexto da democracia ateniense, o cidadão tinha poder de decisão, podia votar, participar
de reuniões políticas, bem como de debates e discursos na ágora (local público – praças - no qual cidadãos
se encontravam para decidir os destinos da cidade, era também utilizado para espetáculos teatrais, trocas
comerciais etc). A resposta ao questionamento “quem pode?”, neste caso, remete ao homem livre com
condições para o exercício da cidadania e, para este, o trabalho poderia, de fato, ocasionar realização.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 27


Com o passar do tempo, o sentido de trabalho como ponos foi imposto sobre o sentido de traba-
lho na qualidade de criação, de érgon, como é possível verificar mediante a origem latina para o termo
“trabalho”.

◦ Trabalho: perspectiva latina


A origem latina da expressão trabalho remete ao termo tripalium. Afinal, por que é possível apro-
ximar os sentidos de tripalium e de ponos?!
Recordando que ponos corresponde a punição, o que dizer de um instrumento feito por três hastes
de madeira com pontas aguçadas, por vezes com pontas de ferro, utilizado, dentre outros fins, para sacri-
ficar animais e torturar pessoas?! Esse instrumento é conhecido por tripalium, sendo este o termo latino
que etimologicamente dá origem à palavra trabalho.
No contexto histórico da Contra-Reforma, com a adoção de medidas como a “revitalização” do
Tribunal do Santo Ofício, o tripalium foi aos poucos substituído por outros instrumentos de tortura.
Entretanto, o sentido da palavra não deixou de existir!
Sobre a permanência do sentido de tortura ao ato de trabalhar, veja quadro que segue.

Vão-se os objetos, ficam as palavras: por volta do séc. 12, o ter-


mo já tinha ingressado nas línguas românicas - traball, traballo e
trabalho (Port.), travail (Fr.), trebajo, trabajo (Esp.), travaglio (It.).
Embora na França rural, até hoje, travail ainda sirva para designar
uma variante do tripalium - uma estrutura de madeira destinada
a imobilizar o cavalo para trocar ferraduras ou efetuar pequenas
intervenções cirúrgicas-, em todas essas línguas o termo entrou
como substantivo abstrato, significando “tormento, agonia, sofri-
mento”.
MORENO, Cláudio. Trabalho.
Disponível em: <http://www.sualingua.com.br/02/
02_trabalho.htm>. Acesso em: 02 set 2007.

Assim compreendido, o ato de trabalhar está cada vez mais distante da realização do próprio ser
humano, se aproximando dos processos de alienação, dominação e exclusão social, conforme sugere a
composição “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque. Veja abaixo um fragmento da canção:

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Esperando o sol


Manhã, parece, carece de esperar também Esperando o trem
Para o bem de quem tem bem Esperando o aumento
De quem não tem vintém Desde o ano passado
Pedro pedreiro fica assim pensando Para o mês que vem [...]
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando

Fonte: http://www.flickr.com/photos/joao/128390879/in/set-72057594094188145/

28 FTC EAD
Observação: para ver a animação com o fragmento que você acabou de ler, por gentileza, acesse,
no Ambiente Virtual de Aprendizagem, o Tema 02 da nossa disciplina.

Deste modo, entre o ato de trabalhar e a realização humana se configura um gigantesco abismo! As
implicações dos sentidos do trabalho estão manifestas no modo pelo qual hoje construímos a realidade
social. Importa questionar:
- Para quem, como e por que o trabalho assume o sentido de criação (érgon)?
- Para quem, como e por que o trabalho corresponde à punição e/ou tortura (ponos/
tripalium)?
- Se, “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, quem manda e a quem é atribuída a obe-
diência involuntária na contemporaneidade?!
- Por que frases como “o trabalho dignifica o homem” servem a múltiplos interesses?!
Questões como as propostas neste tema não se esgotam, ao contrário, convidam novas reflexões
e inquietações perante a realidade. Objetivando conquistar subsídios às reflexões sobre essas indagações,
vamos dedicar atenção à interface entre trabalho, ideologia e alienação.

TRABALHO, ALIENAÇÃO E IDEOLOGIA

TRABALHO
“Toda atividade humana voltada para a transformação da natureza com o objetivo de
satisfazer uma necessidade.”
(SANDRONI, 2006 p.849)

“Atividade que altera o estado natural dos materiais para melhorar sua utilidade”.
(BRAVERMANN apud LOPPES, 2003, p.117)

“Denominamos trabalho a ação transformadora (material ou intelectual) do homem


realizada na natureza e na sociedade em que vive”.
(ARAÚJO, p.149)

“O trabalho é a ação transformadora dirigida por finalidades conscientes”.


(ARANHA, 2006, p.75)

O quadro que você acabou de ver apresentou alguns conceitos de trabalho, importa notar que o
ato de transformar é um traço presente, direta ou indiretamente, em todos eles. Essa transformação, em
alguns contextos, promove realização humana e, em outros, remete à exploração e alienação...

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 29


TRABALHO E REALIZAÇÃO: RELAÇÃO HARMONIOSA OU
CONFLITANTE?

Na comunidade primitiva o trabalho era realizado de forma solidária. O sustento da comunidade


era proveniente do trabalho de todos e não do trabalho de alguns para favorecer outros, bem como os
instrumentos de trabalho, ainda rudimentares e feitos com pedra e pedaços de madeira, eram comparti-
lhados tendo em vista a subsistência da própria comunidade. Conforme Cunha (2001, p. 14), “na comu-
nidade primitiva [...] o trabalho de todos e de cada um era trabalho para todos”.
Pelo trabalho ocorria a produção da cultura humana, distinguido a atividade humana, da atividade
animal, uma vez que a atividade animal está pautada em leis biológicas e corresponde à adaptação à natu-
reza, ao passo em que a atividade humana transforma a natureza.
O trabalho, neste contexto, remete à realização do ser humano, à produção da cultura, ao exercício
da liberdade de transformar a natureza e criar alternativas e instrumentos para a sobrevivência, criando,
portanto, modos de ser e estar no mundo e em conjunto com o outro, de tal forma que, sem a relação
com o outro, sem o sentido de comunidade, o ser humano dificilmente se torna pessoa. Ora?! Mas o ser
humano não nasce pessoa?! Sim, mas a cultura e a relação social são elementos decisivos para o processo
de humanização. Por exemplo, há o caso real de duas meninas (Amala e Kamala) que foram criadas por
lobos e não desenvolveram a fala, nem a postura humana, caminham como lobos, se alimentavam como
lobos, se expressavam como lobos. Para saber mais sobre essa curiosa história das “Meninas Lobo”, aces-
se o Tema 02 da nossa disciplina no AVA.
A situação das “meninas lobo” evidencia, dentre outras questões, a importância da cultura, das
relações e do trabalho, enquanto atividade humana e humanizadora, para o processo de produção da
realidade social.
O trabalho promove realização, pois transforma a natureza, intencionalmente, a fim de satisfazer
necessidades humanas, ao mesmo instante, contribui à nossa formação enquanto pessoa, pois etabele-
cemos relações com outro, interações com o meio, bem como conquistamos formas diferenciadas de
percepção da nossa realidade.

Além de transformar a natureza, humanizando-a, [...] o trabalho


transforma o próprio homem. [...] Pelo trabalho o homem se au-
toproduz: desenvolve habilidades e imaginação; aprende a co-
nhecer as forças da natureza e a desafiá-las; conhece as próprias
forças e limitações, relaciona-se com os companheiros e vive os
afetos de toda relação; impõe-se uma disciplina. O homem não
permanece o mesmo, pois o trabalho altera a visão que ele tem do
mundo e de si mesmo.
(ARANHA; MARTINS, 1996, p.98)

A realização humana não é um ponto de chegada que, uma vez conquistado, esgota em si mesmo;
ao contrário, consiste em incessante busca que impulsiona o ser humano à transformação do seu entorno
e da natureza. Trabalho e realização são (deveriam ser) indivisíveis! Conforme Araújo et al (1996, p. 149),
“é na ação transformadora que o homem encontra momentos de satisfação, de realização de seus proje-
tos, mesmo que, concomitantemente, esteja gerando novas ansiedades”.
Trabalho e realização são instâncias interdependentes no processo de humanização. Entretanto, as
condições de trabalho nas organizações sociais posteriores às comunidades primitivas, apresentam fatos

30 FTC EAD
que negam a necessária integração entre trabalho e realização humana. Deste modo, o trabalho é afastado
da concepção de érgon e se constitui como sacrifício.
O que pensar sobre o trabalho que apresenta traços de tortura e exclusão quando deveria ser si-
nônimo de ação criativa e transformadora?! Sob quais condições se estabelece o distanciamento entre
trabalho e realização, tornado alheia a satisfação no próprio ato de trabalhar?

Para Refletir...
[...] Será que construir as imensas pirâmides egípcias era projeto das centenas de escravos, ou
era vontade do poderoso faraó? Do mesmo modo, de quem era o projeto de construção do Palácio
de Versalhes, na França?
Mas será que esses trabalhadores não encontraram alguma satisfação pessoal na constru-
ção desses monumentos? Se considerarmos que alguns tipos de trabalhos podem ser criativos,
a resposta é sim. Por exemplo, o artesão que esculpiu a lápide do túmulo de Júlio César deve ter
encontrado uma grande realização no trabalho que fez. Mas que satisfação poderia ter encontrado
o escravo que carregou as pedras do túmulo e nada mais sentiu do que a dor da exploração física?
(ARAÚJO et al, 1996. p. 150)

Trabalho, compreendido na qualidade de criação e/ou satisfação, promove realização, bem como
se constitui em via de liberdade, pois se torna requisito para superar os determinismos, uma vez que se
coloca além do que está posto pela natureza, transformando-a. Por esta razão, conforme Aranha e Mar-
tins (1996, p.9) “a liberdade não é uma coisa que é dada ao homem, mas o resultado da sua ação transfor-
madora sobre o mundo, sobre seus projetos”. Compreendendo a referida “ação transformadora” como
trabalho, este, sem dúvida, se aproxima de realização e, portanto, de liberdade. Entretanto, essa não é a
única significação para o termo trabalho, ao contrário, está próximo também de tortura e punição.
Correlato à tortura, punição, exploração... O trabalho se afasta da realização e compromete até
mesmo a liberdade. Nesta condição, a harmonia entre o processo de humanização e a transformação da
natureza é invalidada, e cede espaço para a conflitante relação entre trabalho e realização.
No contexto da contemporaneidade, é preciso superar essa relação conflitante entre trabalho e
realização. Dentre as possibilidades de superação do referido conflito, consta a busca de posicionamen-
tos reflexivos, críticos e criativos perante a realidade, prezando por condutas responsáveis e socialmente
engajadas, tanto no ambiente organizacional quanto nos demais âmbitos da vida.

Os homens humanizam-se, trabalhando juntos para fazer do


mundo sempre mais, a mediação de consciências que se coe-
xistenciam em liberdade. Aos que constroem juntos o mundo
humano, compete assumirem a responsabilidade de dar-lhe a
direção. Dizer a sua palavra equivale a assumir consciente-
mente, como trabalhador, a função de sujeito de sua histó-
ria , em colaboração com os demais trabalhadores – o povo.
(FIORI, 1994, p. 04)

Fonte: http://www.gettyimages.com.br FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 31


Mas, a construção da realidade, efetivamente, ocorre em cooperação? Ou a satisfação que deveria
ser conquistada com o trabalho é tornada alheia ao próprio trabalhador? Para que possamos atender a
essa questão, é indispensável compreender o processo de alienação, sem perder de vista que a ação para
a liberdade, conforme proposto por Fiori (1994), não exclui o outro, ao contrário, edifica valores de coo-
peração, responsabilidade e compromisso político. Seria uma forma de resgatar da Antiguidade Grega a
concepção de trabalho na qualidade de érgon, oferecendo subsídios para a formação crítica do cidadão e
a tomada de decisões, mas, desta vez, sem limitar o acesso à cidadania.

ALIENAÇÃO E IDEOLOGIA: VIAS DE EXPLORAÇÃO E DOMINAÇÃO

Na Idade Média, tendo por referência a Europa Ocidental, grande parcela da população estava
socialmente organizada mediante a economia de subsistência, os trabalhadores não tinham poderes polí-
ticos, a eles era permitido o domínio sobre o saber técnico necessário à sobrevivência, como a realização
de atividades agrícolas ou artesanais.
Na sociedade feudal do medievo o trabalho se configura como servidão. O servo está preso à terra,
portanto, o processo de dominação e poder tem entre seus fundamentos a propriedade fundiária e as
relações de produção. O trabalho se estabelece também sobre os fundamentos de uma sociedade esta-
mental, caracterizada pela ausência de mobilidade social. O modo de produção esteve pautado na total
exploração do trabalho servil
Dentre as razões que mantinham a ordem e a acomodação entre os trabalhadores, consta a atri-
buição de papéis sociais para cada grupo ou estamento do mundo feudal, completamente legitimada
pelo poder da Igreja e por recursos ideológicos de dominação social. Conforme Dorigo e Vicentino e
(2001, p.118) a Igreja defendia que “cada membro da sociedade tinha funções a cumprir em sua passa-
gem pela terra [...]. Era função do servo trabalhar, do clérigo rezar e do nobre proteger militarmente a
sociedade”.

Uma observação atenta sobre a figura ao lado revela que o trabalhadorr


está completamente excluído do diálogo. Deste modo torna alheio a outro o
direito de pensar, pois a ele (servo/trabalhador) caberia apenas executar as
tarefas para a subsistência da sociedade medieval.

Fonte: http://www.uflib.ufl.edu/hss/medieval/

CURIOSIDADE
Principais obrigações dos servos na sociedade medieval
Corvéia: dias de trabalho semanal gratuito dos servos no manso senhorial a produção era do
senhor feudal.
Talha: divisão da produção servil no manso servil.
Banalidades: taxas pagas pelos servos pela utilização das instalações do feudo (celeiro, moi-
nho, forno).
Capitação: imposto pago por cada servo individualmente.
Tostão de Pedro: imposto pago para manter a capela.

32 FTC
C EAD
Mão-morta: imposto pago para transferir o lote de um servo falecido para seus herdeiros.
Formariage: taxa paga para se casar.
Albergagem: alojamento e produtos para os senhores em viagem.

O Feudalismo: obrigações servis. Dispponível em: <http://www.brasilescola.com/histo-


riag/invasoes-barbaras.htm>. Acesso em 03 set 2007.

A forma de organizar o conjunto das relações sociais, econômicas, políticas e culturais em prol da
subsistência era essencialmente agrícola, à essa época houve o aperfeiçoamento de algumas técnicas de
trabalho, foram inovações simples, mas significativas, por exemplo, o uso de arado de ferro no lugar do
arado de madeira. Mas, qual a diferença? Como o arado de ferro era mais pesado, por onde passava dei-
xava cavas mais adequadas ao cultivo, garantido maior quantidade e qualidade dos produtos agrícolas.
Importa salientar que o trabalho manual, arte mecânica (ars mechanica), era visto, tanto na Antigui-
dade quanto na Idade Média, como atividade ou arte inferior própria a escravos e/ou servos. É a partir
da Idade Moderna que essa situação começa a ser modificada, pois maior valor é atribuído ao trabalho
mecânico, devido à conquista de poder por parte da burguesia e às modificações sobre o modo de pro-
dução. Pois, enquanto no período medieval as relações eram essencialmente agrícolas, fatores como o
crescimento demográfico, o renascimento urbano e a reabertura do Mar Mediterrâneo, contribuíram para
a derrocada do sistema feudal, fazendo emergir valores burgueses e, junto a esses uma nova concepção de
trabalho, correlata a ampliação dos mercados, ao comércio e ao acúmulo de capital.
Neste tema você já estudou sobre os sentidos atribuídos ao trabalho e suas principais implicações,
passando Antiguidade Grega, pelo período medieval e pela Idade Modera, percebendo as considerações
gerais que possibilitam compreender os significados do ato de trabalhar ao longo da história. Vamos,
então, dedicar maior atenção à Idade Moderna, notando as relações de trabalho que se estabeleceram em
torno do modo de produção capitalista, percebendo os processos de alienação e a função exercida pela
ideologia nesse contexto.
Também neste tema, você leu sobre a perspectiva latina do termo trabalho e sua correlação à tor-
tura, aproximando ponos e tripalium, conforme proposto por Lopes.

Etimologicamente, o trabalho traz uma conotação negativa, cujo


conteúdo e organização, além de suplantar a idéia de maldição e
punição, compõe-se de um comportamento que pressupõe a sujei-
ção do corpo por um processo mudo, invisível e que é alienante.
(LOPES, 2003, p.29)

Qual o significado mesmo de alienação e de que modo ela está presente no mundo do trabalho? De
modo os processos de alienação são legitimados? Será que são facilmente notados pela população?

» Trabalho e Alienação
O termo “alienação” é um velho conhecido nosso. Frases como “aquela pessoa é alienada”, “os
bens do devedor foram alienados” ou “é preciso lutar contra a alienação” são comumente repetidas, será
que nelas o conceito de alienação é utilizado corretamente?

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 33


A origem latina da palavra “alienação” corresponde a alienare, alienus. Ou tornar de outro o que
lhe pertence, tornar alheio. Portanto, ainda que as três frases tratem de situações distintas, cada uma delas
usa corretamente o sentido de alienação. Na primeira frase, a alienação é vista como ausência de reflexão
e crítica sobre as condições sociais. A segunda frase se refere ao termo “alienado” no âmbito do direito,
quando os bens/propriedades são, por alguma razão, transferidos para terceiros. A terceira frase, embora
geral, faz um apelo para a superação da visão ingênua, acrítica, da realidade.
No mundo do trabalho, principalmente no contexto da modernidade, o processo de alienação cria
uma gigantesca lacuna entre trabalho e realização. Pois o trabalhador torna alheio o real resultado do seu
empenho. Com a derrocada do sistema feudal e o advento da sociedade capitalista (Idade Moderna), o
trabalho deixa de ser compreendido enquanto servidão cedendo lugar para o trabalhador livre e separado
(alheio) da propriedade sobre os meios de produção. Portanto, o sistema capitalista de produção aponta
para duas modalidades de seres humanos livres. Por um lado, a existência do trabalhador livre e assalaria-
do; por outro lado, o proprietário dos meios de produção.
Se proprietário dos meios de produção ou trabalhador assalariado, as duas categorias são compos-
tas por homens livres. Conforme Araújo et al (1996, p. 153) “a novidade em relação aos modelos ante-
riores de sociedade é que, ao conceder a liberdade para todos os indivíduos, a sociedade estabeleceu uma
espécie de contrato social, em que ficavam definidos os direitos e deveres de cada parte”.
Dorigo e Vicentino (2001) afirmam que a Revolução Comercial dos séculos XVI e XVII intensi-
ficou o desenvolvimento capitalista que esteve até essa época associado à circulação de mercadorias; ini-
ciando, na segunda metade do século XVIII, na Inglaterra, a mecanização industrial, desviando a acumu-
lação de capitais da atividade comercial para o setor de produção, acarretando modificações significativas
de ordem econômica e social rumo à sólida implantação do modo de produção capitalista.

Para refletir...
Um dos grandes dramas do processo da Revolução Industrial foi a alienação do trabalhador
em relação à sua atividade. Ao contrário do artesão da Antiguidade ou da Idade Média, o operário
moderno perdeu o controle do conjunto da produção. Passou a ser responsável por apenas uma
parte do ciclo produtivo de uma mercadoria, ignorando os procedimentos técnicos envolvidos.
Além disso, recebendo “salário” em troca de atividade mecânica realizada, o operário alienava o
fruto de seu trabalho ao capitalista.
(DORIGO; VICENTINO, 2001, p.331)

Para a manutenção da sociedade industrial é preciso que a produção ocorra em qualidade cada vez
melhor e quantidade cada vez maior. No início do século XX, a linha de montagem impulsionou, ainda
mais, o modo de produção capitalista. Implantada por Henry Ford (1886-1947) em indústria automobilís-
tica e com o arcabouço teórico de Frederick Taylor (1856-1915), a linha de montagem se tornou um mar-
co tanto do avanço capitalista quanto da distinção entre classes (proletário/burguês). Para saber mais so-
bre fordismo e taylorismo, acesse o Tema 2 da nossa disciplina no Ambiente Virtual da Aprendizagem.
A produção em quantidade cada vez maior, em tempo cada vez menor, instituiu a necessidade de
um perfil de trabalhador absolutamente disciplinado e adaptado à rotina. Desse modo, a inovação tec-
nológica que poderia estar associada à liberdade, pois permitiria mais tempo livre para criar, passa a se
estabelecer como via de exploração.

34 FTC EAD
Você conhece a
expressão “tempo útil”?!

O conceito de tempo útil impõe que o “bom trabalhador”, ético e moral, é


aquele que atende ao tempo da produção. Desta forma, as relações se tornam cada
vez mais alienadas.

Fonte: http://www.gettyimages.com.br

As principais formas de alienação estão presentes no trabalho, no consumo e no lazer. Aspectos


como o distanciamento entre o trabalhador e os meios de produção, a lógica do mercado e do capital
e os processos ideológicos de dominação social estão implícitos também no campo da relação social e
pessoal.

◦ Relação social e pessoal alienada


Nosso cotidiano evidencia a relação social alienada de modo quase gritante. A indiferença entre as
pessoas, principalmente em centros de grande ocupação urbana, a ausência de solidariedade e compro-
misso com o outro, a artificialidade dos contatos, dos cumprimentos e diálogos tornam alheio o compro-
misso social. Nas comunidades, nas empresas e organizações são comuns frases como “não é comigo”,
“não tenho nada a ver com isso”, “não estou interessado(a)”, “ a minha parte eu já fiz”, “cada um carrega
a sua cruz”. Obviamente, cada pessoa precisa ser responsável pelas próprias ações, escolhas e conseqüên-
cias, mas esse fato não nega o necessário cuidado com o bem comum, com a “saúde” das relações, com
o sentimento de cooperação e solidariedade.
A relação pessoal também sofre com os processos de alienação, configurando um crescente risco
para a autonomia e construção da realidade social. As idiossincrasias são subjugadas ao comportamento
padrão. Conforme proposto por Erich Fromm (apud COTRIM, 2006), a realização pessoal é suplantada
pela posse e por sua demonstração, há um distanciamento entre o ser pessoal e aquilo que o outro espe-
ra, a capacidade de construção do próprio ser, nessas condições, se torna de outro, alheia, seguindo, por
exemplo, as imposições da sociedade de consumo. Dentre as implicações da realização pessoal alienada
temos a reificação do ser humano, também presente nas demais formas de alienação. Estudando o tema
dois da nossa disciplina, no AVA, note o texto “Eu, etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade, ilustra
muito bem tanto a questão da ideologia quanto da alienação.

◦ Trabalho alienado
A racionalização do trabalho, conforme esclarecimentos que você pode ler no AVA, tema dois,
promove a subdivisão do trabalho na sociedade moderna, bem como retira do trabalhador a visão quanto
ao produto final do seu empenho, fragmentando a produção, o conhecimento e o modo de perceber a
própria atividade. A capacidade de adquirir o fruto do seu trabalho se torna mais distante. Dessa forma, o
trabalhador tem suas habilidades limitadas e passa a agir como máquina para atender as necessidades do
mercado, tornando alheio o resultado do seu esforço.
Conforme Aranha e Martins (1996, p.12), Karl Marx, analisando o conceito de alienação, defende
que esse processo “se manifesta na vida real do homem, na maneira pela qual a partir da divisão do tra-
balho, o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer”.
Sob essas condições, a rotina do trabalhador é desgastante e o profissional, se é que podemos
chamar assim, não vê perspectiva de mudança, uma vez que não é capacitado para desempenhar outras

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 35


funções, nem tem acesso ao entendimento da totalidade da produção. Portanto, fragmentando tarefas,
ações, saberes.
O trabalho alienado nega a realização do trabalhador e afirma a sua exploração, mediante a explo-
ração da força de trabalho, mais-valia, aliena os benefícios, os resultados da produção em relação aqueles
que produzem. Consiste no crescente distanciamento entre trabalho e realização e apresenta característi-
cas como rotinização das atividades, exploração e reificação do trabalhador.

◦ Consumo alienado
É impressionante a velocidade com a qual os produtos lançados no mercado são substituídos por
inovações que despertam o desejo de adquiri-los, não apenas por necessidade, mas pela satisfação de pos-
suir algo que trará “prestígio”. Agentes influenciadores, por exemplo, os meios de comunicação de massa,
atribuem status aos produtos lançados no mercado, substituindo o valor de uso pelo valor de posse. Im-
porta recordar que o processo de alienação edifica em homens e mulheres um constante vazio que precisa
ser preenchido e, o consumo alienado, está entre as medidas mais utilizadas para atender este fim.
Em que consiste, então, o consumo alienado? Em poucas e significativas palavras, consiste na
busca insaciável pelo novo. Ora, aqui poderíamos concluir que, se o consumo alienado consiste na insa-
ciável busca pelo novo, ele se torna uma possibilidade de emancipação. Atenção, essa é uma conclusão
equivocada! No consumo alienado, o sentido de “novo” não corresponde à disposição aos novos e di-
versos modos de compreender e interpretar a realidade, mas ao consumo das novidades oferecidas pelo
mercado, nutrindo a neofilia.
De acordo com Cotrim (2006) neofilia significa o amor pelas novidades do mercado, um amor ob-
sessivo que pode ser configurando como uma doença cultural que é alimentada pelos grandes produtores
econômicos, encontrando eco em estratégias como as diversas opções de pagamento que atraem consu-
midores e consumidoras que, na busca insaciável pelo novo, conquistam sempre dívidas para comprar
a mercadoria que provavelmente não será bem usufruída, pois quando novos modelos forem lançados
no mercado, a mercadoria adquirida deixa de causar “satisfação” e cede espaço para outros sonhos de
consumo.
A prática de consumo alienado é também resultante do trabalho alienado, conforme defendido por
Aranha e Martins no quadro que segue.

A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos – pela


qual se separam a concepção e a execução do produto – reduz as
possibilidades de o empregado encontrar satisfação na maior par-
te da sua vida, enquanto se obriga a tarefas desinteressantes. Daí
à importância que assume para ele a necessidade de se dar prazer
pela posse de bens.
(ARANHA; MARTINS, 1996, p.16)

Em suma, no consumo alienado, homens e mulheres buscam, com a posse de bens, preencher o
vazio, produzido tanto pelo trabalhado alienado quanto por outras formas de alienação, não sabendo que
dessa forma se tornarão desconhecedores das reais necessidades humanas e cada vez mais suscetíveis aos
apelos do mercado e a ausência do poder de reflexão, crítica e intervenção social.
É importante realizar a leitura crítica do nosso entorno, como estamos buscando fazer. Portanto, é
mais que notório o conjunto de desigualdades, injustiças e exclusões do ambiente capitalista. Mas este é
ambiente no qual vivemos! Então, é preciso aprender a viver com ele, percebendo as diversas facetas da

36 FTC EAD
nossa realidade e conquistando espaços de autonomia! Por exemplo, o fato de que o consumo alienado
existe em larga escala não significa que vamos parar de consumir. Precisamos pensar sobre o modo pelo
qual consumimos. Se vivemos em sociedade capitalista, é preciso adquirir determinados produtos, bens e
serviços. Entretanto, podemos fazê-lo de modo não alienado.
O consumo não-alienado é também conhecido por consumo sadio, consiste no consumo que não
é um fim em si mesmo, mas um caminho, um meio para atender às necessidades e vontades que não são
movidas pelas influências externas, mas discernidas, pensadas, planejas, decidias com sabedoria, escolha,
autonomia e liberdade consciente para comprar ou não, consumir ou não, sem que o valor de uso seja
substituído pelo prazer da posse. O consumo sadio, portanto, tem entre seus fundamentos o exercício da
nossa percepção reflexiva e crítica do mundo, da nossa inteligência e liberdade.

◦ Lazer alienado

Você sabia?
O lazer é criação da civilização industrial, e aparece como fenôme-
no de massa com características especiais que nunca existiriam
antes do século XX. Antes o lazer era privilégio dos nobres que,
nas caçadas, festas, bailes e jogos, intensificavam suas atividades
predominantemente ociosas. Mais tarde, os burgueses enriqueci-
dos também podiam se dar ao luxo de aproveitar o tempo livre.
Os artesão e camponeses que viviam antes da Revolução Indus-
trial seguiam o ritmo da natureza: trabalhavam desde o clarear do
dia e paravam ao cair da noite [...]. Com a introdução do relógio, o
ritmo do trabalho deixa de ser marcado pela natureza. A mecani-
zação, divisão e organização das tarefas exigem que o tempo de
trabalho seja cronometrado, e as extensas jornadas de dezesseis
a dezoito horas mal deixam tempo para a recuperação fisiológica.
Mas as reivindicações dos trabalhadores vão lentamente conse-
guindo alguns êxitos. A partir de 1850 é estabelecido o descanso
semanal; em 1919 é votada a lei das oito horas; progressivamente,
a semana de trabalho é reduzida para cinco dias. Depois de 1930,
outras conquistas, como descanso remunerado, férias [...] fazem
surgir no século XX o “homem-de-após-trabalho”. [...] Estamos nos
dirigindo a passos largos para a “civilização do lazer”...
(ARANHA; MARTINS, 1999, p.17)

O lazer está correlato ao tempo livre conquistado por homens e mulheres. Mas, quais as atividades
que desempenham e de que modo o fazem no tempo “livre”?
O tempo livre é um forte alvo dos processos de alienação, ideologia e dominação social! É preciso,
portanto, conhecer as principais funções do lazer e discernir entre lazer ativo e o lazer passivo e identifi-
cando o lazer alienado e buscando a sua superação.
As funções do lazer podem ser sintetizadas, conforme Aranha e Martins (1996) de três formas: a)
o lazer com a finalidade de descanso (libera da fadiga); b) o lazer que objetiva o entretenimento (com-
plementação que dá equilíbrio psicológico à nossa vida, compensando o esforço do trabalho); c) o lazer
como via para o desenvolvimento e condutas inovadoras, tem por objetivo a participação social mais livre
(contato com outras pessoas, laços de amizade, aprendizagem voluntária etc).

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 37


O lazer que atende as três funções elencadas no parágrafo anterior promove liberdade, sendo con-
siderado como autêntico, ativo e criativo. Portanto, utiliza o tempo livre conforme as próprias escolhas e
não conforme as imposições da lógica do mercado e/ou da indústria cultural. Contudo, o lazer passivo
permite a passagem do tempo livre de modo não reflexivo, reforçando posturas mecanizadas, bem como
a coisificação do ser humano. É nesta segunda situação (lazer passivo) que encontramos o lazer alienado,
pois torna alheio o direito de escolha, decisão e criticidade.
Uma mesma atividade pode consistir em lazer autêntico, ativo e criativo ou em lazer passivo/alie-
nado. Como discernir, então, entre uma ou outra forma de lazer? A resposta está no posicionamento que
adotamos, ou no que fazemos e, principalmente, no modo pelo qual fazemos, no nosso tempo livre. Um
mesmo espetáculo de teatro, um mesmo filme, um mesmo programa de TV, pode ser ou não instrumento
de lazer alienado, de acordo com o modo pelo qual são assistidos.
Por exemplo, enquanto uma pessoa “A” pode assumir uma função ativa sobre determinado pro-
grama, assistindo-o de modo reflexivo, crítico e criativo; outra pessoa “B” pode assistir passivamente ao
mesmo programa, sem exercitar a capacidade de analise, de julgamento, de decisão etc.
A pessoa “A” do exemplo desempenhou um lazer ativo. Já a pessoa “B” foi atraída pelos apelos da
moda, da indústria cultural, do consumo, ocupando o tempo livre com atividades que não promovem
liberdade, pois não contribuem a construção do próprio ser, ao contrário, se estabelecem como padroni-
zação, na qual o lazer é consumido como indicador de status, sem que ocorra uma original relação entre
a pessoa e a atividade desempenhada em seu tempo livre.

Dentre os fatores que sustentam e até buscam legitimar as relações de


alienação, constam os processo ideológicos de dominação social que, mostran-
alie
do mentiras como que fossem verdades, fazem perpetuar a exploração, “eviden-
ciando” os interesses de poucos com que esses fossem os interesses de todos,
cia
mediante
m ocultamento da verdade.
Processos e discursos ideológicos de dominação estão presentes em di-
tos
to populares, em comportamentos da massa que não transcendo do senso co-
mum
m ao bom senso, em formas de organização do trabalho, da sociedade, das
empresas,
e das unidades de ensino, enfim, de todas as instâncias que compõem
o complexo tecido social.

» Ideologia
O termo ideologia foi difundido pelo filósofo, militar e político Destutt de Tracy (1754 – 1836),
à época da Revolução Francesa, para significar a ciência dedicada ao estudo das idéias, sua origem e
desenvolvimento. Compreendida em sentido amplo, a palavra ideologia significa um conjunto ou sis-
tema de idéias, logicamente ordenado e/ou o conjunto de idéias peculiar a determinados segmentos da
sociedade.
Tomando Karl Marx por referência, podemos compreender a palavra ideologia em sentido mais
específico. Marx significa “ideologia” como um sistema de pensamento também logicamente ordenado
que, longe de ser neutro, está imbuído de instrumentos, iniciativas e discursos destinados à manutenção
de uma classe sobre outra, bem como dos processos de exploração e alienação.
Arruda e Martins (1996) elucidam que Gramsci (marxista italiano) faz uma retomada ao conceito
de ideologia proposto por Marx e acrescenta que a ideologia pode ter função tanto positiva quanto nega-
tiva. A função negativa combina com a definição de Marx, está, portanto, correlata à dominação social. A
função positiva, atribui à ideologia o conceito de visão de mundo, ou concepção de mundo pertencente
a uma estrutura social, identificando-a.

38 FTC EAD
Gramsci afirma que na própria classe dominada e explorada que está submersa no senso comum
(conhecimento popular, superficial e assistemático) pode emergir uma forma de organização pautada no
bom senso. Neste sentido, Gramsci defende a formação de intelectuais na classe subalterna que sejam
capazes de superar a ingenuidade do senso comum, conquistando o bom senso e organizando uma con-
cepção de mundo própria em prol da autonomia.
Aqui você viu alguns conceitos de ideologia. O interesse da nossa disciplina, neste sentido, consiste
em mostrar usos diferenciados para o termo, chamando a atenção para as concepções de Marx e Grams-
ci, compreendendo ideologia como elemento de dominação/alienação.
Como atua a ideologia?! Os processos ideológicos de dominação social utilizam de dissimulação da
realidade, edificando conceitos e pré-conceitos que não correspondem à verdade sobre a realidade social,
mas fazendo com que eles pareçam sempre verdadeiros e, portanto, inquestionáveis. Conforme Cotrim
(2006), afirmar que “querer é poder” é já uma forma de explicar a desigualdade justificando-a sem con-
siderar a opressão e exclusão social, fazendo parecer, por exemplo, que as pessoas que não conquistam
um emprego, ou que não desenvolvem uma profissão, são pessoas sem força de vontade, pois “querer é
poder”.
Querer é poder de modo igual para todas as pessoas? Cotrim (2006), afirma que a ideologia do
“querer é poder” não explica como uma pessoa em situação sub-humana de sobrevivência pode desen-
volver projetos de prosperidade quando desde a infância é privada de condições saudáveis de moradia, la-
zer, educação, formação para a cidadania, para o mundo do trabalho etc. O que dizer, então, da “vontade
sem força”? Ou, embora a vontade seja importante e necessária, basta querer para, de fato, poder?!

Principais Funções da Ideologia


Caracterizada pelo corpo sistemático de representações que “ensinam” a pensar e pelas nor-
mas que “ensinam” a agir, a ideologia apresenta funções de:
1- Assegurar as relações dos seres humanos entre si e com suas condições de existência,
adaptando os indivíduos às tarefas prefixadas pela sociedade;
2- Camuflar as diferenças de classe e os conflitos sociais;
3- Assegurar a coesão entre as pessoas;
4- Promover a aceitação sem críticas das tarefas mais penosas e pouco recompensadas, em
nome da “vontade Deus” ou do “dever moral” ou simplesmente como decorrente da “ordem na-
tural das coisas”;
5- Manter a dominação de uma classe sobre a outra.
(ARANHA; MARTINS, 1996, p.37)

Mediante os processos ideológicos de dominação social, o trabalho, o consumo e o lazer alienados


se tornam sólidos nas relações sociais e na própria formação humana. Cabe, lembrar que o trabalho é,
deveria ser, uma das vias de realização do projeto humano, promovendo liberdade e humanização. No
sentido de superar os conflitos entre trabalho e realização, é preciso lançar o olhar sobre o ser profissio-
nal. Sobre a pessoa, os valores de dignidade, as habilidades relacionais, a capacidade inventiva e transfor-
madora, contribuindo à compreensão e construção do nosso complexo tecido social.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 39


PESSOA RELACIONAL E POTENCIAL

Até aqui você leu sobre a atualidade de Sócrates, Platão e Aristóteles, percebeu a importância da
autonomia mediante o exemplo da maiêutica socrática, da superação das “sombras”, conforme proposto
pela Alegoria da Caverna, fez reflexões sobre a perspectiva aristotélica da Felicidade; estudou sobre o Ser
Humano nas Organizações, a questão dos valores e das virtudes; problematizou os sentidos atribuídos
ao termo trabalho percebendo suas implicações e os processos de alienação e ideologia que permeiam o
mundo do trabalho e o cotidiano humano de modo mais geral. Agora, cabe questionar Quais são
os principais aspectos da “estrutura do ser humano”? De que modo surgiu o termo “pessoa”? Por que é
importante que graduandos e graduandas lancem o olhar sobre essas questões?
Aqui não é objetivo esgotar o conteúdo sobre pessoa relacional e potencial mas, fazer um convite
à contínua descoberta/redescoberta, significação/ressignificação do ser “pessoa”, para que você possa
conquistando os fundamentos necessários à constante busca de compreensão das relações no âmbito
organizacional e social, considerando a realização humana, o trabalho e a ética.

ASPECTOS DA ESTRUTURA HUMANA: EMPÍRICO, PESSOAL E


APERCEPTIVO

Para elucidar os aspectos estruturais do ser humano, Aranha e Martins (1996) fazem uma feliz
adaptação da teoria do conhecimento proposta pelo filósofo Van Riet e afirmam que a estrutura do ser
humano é formada por três aspectos distintos e correlatos: empírico ou corpóreo, pessoal ou voluntário e
aperceptivo ou intelectual. Importa compreender que esta não é a única concepção em torno da estrutura
do ser humano, foi aqui escolhida devido à clareza e pertinência perante os conteúdos que estudamos em
nossa disciplina.
Veja a seguir o detalhamento de cada aspecto, conforme Aranha e Martins (1996):
→ Aspecto empírico: o termo palavra “empírico”, do grego empeiria, significa experiência sen-
sorial. De acordo com esse aspecto, o ser humano é um ser corpóreo (organismo vivo, sujeito às leis da
física, responde coordenadamente às influências do mundo, herda e transmite caracteres geneticamente);
psicológico (percebe o mundo, reage emocionalmente, conquista aprendizagem de forma processual,
apresentando comportamentos que podem, em alguns casos, estar correlatos a questões patológicas) e
cultural (transforma a natureza e a si mesmo, é um ser de historicidade, situado no tempo e no espaço,
compartilha valores e modos de entendimento da realidade).
→ Aspecto pessoal: além de cultural se socialmente situado, o ser humano é dotado de vontade e
reage de forma pessoal diante da realidade, escolhendo, decidindo, apresentando um modo específico de
ser. O olhar sobre esse aspecto precisa ser ainda mais atento, pois o fato de ser “pessoal” não justifica que
as escolhas de um sejam impostas sobre o outro, bem como não limitam o ser humano a si mesmo ape-
nas; é preciso ir além desse aspecto pessoal para associá-lo à capacidade de estabelecer relações. Aranha
e Martins (1996, p.301) alertam que “permanecer nesse estágio pessoal resulta em empobrecimento da
moral, pois o indivíduo não é capaz de descentrar-se de si próprio”.
→ Aspecto aperceptivo: corresponde a compreensão para além do que é percebido, é responsável
pela nossa capacidade de elaborar conceitos, é um aspecto pautado na abstração e na abordagem intelec-
tual sobre o mundo. É a descentralização do sujeito que, na intersubjetividade, se faz ser compreendido
e busca compreender o seu entorno.

40 FTC EAD
O CONCEITO DE PESSOA

Você Sabia?
O conceito de pessoa teve origem etimológica humilde. Em
grego, pessoa corresponde à palavra prosopon e em latim
persona que, traduzidas, significam literalmente másca-
ras usadas pelos atores na representação de tragédias,
comédias e peças teatrais. [...] Como se formou o mais
importante conceito de ética – a pessoa – a partir da
idéia de máscara (prosopon, persona)?
(PEGORARO, 2002, p.53-54)

Campos variados e correlatos do saber dedicam atenção ao conceito de “pessoa”, encontramos a


ocupação com a trajetória da elaboração desse conceito, por exemplo, em áreas (e suas vertentes) como a
Filosofia, a Filosofia do Direito, a Ética, a Bioética, a Antropologia, a Psicologia etc.
De acordo com Abbagnano (1999, p.761), “é possível distinguir as seguintes fases desse conceito
[pessoa]: primeira: função e relação-substância; segunda auto-relação (relação consigo mesmo); terceira
heterorelação (relação com o mundo)”.
A elaboração do conceito “pessoa” ocorre ao longo da história e compreende fases como as ci-
tadas no parágrafo anterior, correspondendo a substância individual, à pessoa relacional, temporal e
potencial.
Aqui lançamos o olhar sobre os significados de pessoa relacional e potencial. E, no AVA da nossa
disciplina, Tema 02, você encontra, considerações sobre a pessoa como substância individual e sobre a
razão (especulativa, inventiva e ética), correlacionando trabalho e formação humana no mundo global.

» Pessoa Relacional/Potencial

A pessoa é existência formada por uma rede de relações que co-


meça no seio materno, se amplia na família, na cultura e na polí-
tica, ao longo de toda a existência. A pessoa vai se construindo
num processo de relações.
(PEGORARO, 2002, p. 63)

Perceber o conceito de pessoa implicado em rede de relações convida à responsabilidade, pois a


constante construção do nosso ser ocorre mediante o nosso estar no mundo, em conjunto com outros
seres humanos, em relação. Na Filosofia encontram os fundamentos para esse modo de pensar o con-
ceito de “pessoa”, por exemplo, em perspectivas fenomenológicas/existencialistas. Não vamos trazer
essas correntes filosóficas como objetivo central, mas compreender a importante contribuição delas para
o conceito “pessoa relacional/potencial”, lançando o olhar sobre a nossa realidade, sobre a empresa,
sobre as organizações, percebendo a importância das relações para a construção do nosso prórico ser e,
ao mesmo instante, a importância da construção do nosso próprio ser para o conjunto de relações que
constitui a sociedade atual.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 41


Defendida por Sartre, a máxima existencialista de que a “existência precede a essência” demonstra
que o ser humano constrói seu próprio ser mediante as escolhas que realiza, pois não há uma essência
prévia à sua existência, ou seja, o ser humano, sob essa perspectiva, não é predestinado e, como tal, não
pode atribuir a responsabilidade dos seus atos ao destino.

Você Sabia?
Na obra “O existencialismo é um humanismo”, Sartre, dentre outras questões, evidencia que por
modismo expressões como “existencialismo” e “existencialista” atingiram proporções diversas, afastan-
do-se do significado próprio que lhe foi atribuído, chegando até a significar, por exemplo, símbolo da
postura pessimista ante a vida, ante a humanidade. Conforme essa equivocada forma de significação
atribuída por modismo, o existencialismo seria uma ausência total de humanismo. Esse modo de pensar
é uma deturpação do pensamento socrático! A proposta de Sartre é outra, conforme elucida o próprio
pensador:

Muitos poderão estranhar que falemos aqui em humanismo. Ten-


taremos explicitar em que sentido o entendemos. De qualquer
modo, o que podemos desde já afirmar é que concebemos o exis-
tencialismo como uma doutrina que torna a vida humana possível
e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação impli-
cam um meio e uma subjetividade humana.
(SARTRE, 1987, p. 4)

A afirmação de que “a existência precede a essência” remete a construção do ser humano por si
mesmo sem conceitos universais que predeterminem seu ser pessoa. Existe a auto-construção humana.
Desta forma, aquilo que faz com que o ser humano seja como é provém da sua existência, das escolhas
qque realiza,, da forma como se projeta, bem como do exercício de sua liberdade.

A possibilidade de constituir a si mesmo promove algum senso


de coletividade ou individualiza o ser humano no sentido de iso-
d
lamento e ausência de compromisso ante o outro?
la

Compreender que cada um é responsável por si mesmo, sob a perspec-


tiva sartreana, não corresponde à postura do famoso dito popular “cada um por si” (esse dito revela um
discurso ideológico de dominação social que promove a relação pessoal alienada). Sendo responsável pela
construção do nosso próprio ser pessoa, é preciso atingir também a responsabilidade perante o outro, no
sentido de humanidade.
Escolhendo a si mesmo, o ser humano escolhe, por assim dizer, o modo pelo qual a humanidade
se faz no mundo, escolhe o conjunto de ações que julga adequado, escolhe postura éticas. Conforme
Sartre (1987, p.06, grifo nosso) “escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do
que estamos escolhendo [...]; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser
para todos”.
O agir, mesmo no campo individual, não se dá em absoluto isolamento. A pessoa constrói a si
mesma em relação com o outro, apresenta traços característicos, idiossincrasias, tem um modo próprio
de ser e estar no mundo... Mas, não está só! Está em uma teia de relações que constitui o tecido social,
sendo, portanto, pessoa relacional.

42 FTC EAD
Pessoa relacional é assim compreendida como ser em construção na relação com o outro e, por-
tanto, ser que não está pronto. Deste modo, o conceito de pessoa relacional é também pessoa potencial.
Compreender a pessoa na qualidade potencial implica em incompletude. Talvez você não tenha
ainda escutado falar em Heráclito, um dos pensadores originários (pré-socráticos). Talvez apenas. Mas,
certamente, você já conhece a máxima heracliteana... É a afirmação de que não nos banhamos duas vezes
no mesmo rio... Lembra? Pois é... Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois nem mais o rio é
mesmo, como nós também não somos. Portanto, somos devir (vir-a-ser), construímos nosso próprio ser,
nos tornamos “pessoa” em um contexto que é socialmente produzido em torno de aspectos valorativos,
culturais, políticos etc.
Buscamos realizar nossas virtudes, aprendemos com as nossas experiências, somos temporais, si-
tuados em épocas repletas de cultura. Somos potencialidade! Temos em nós a potência de vir-a-ser, de
aprender e gerar aprendizagem em cada instância da nossa vida, em caráter processual. De acordo com
Pegoraro (2002, p. 72, grifo nosso) “a fenomenologia defende o conceito de pessoa como um ser tempo-
ral, relacional e potencial; como um núcleo vivo e central que cresce pelo exercício de relações, delibera-
ções, escolhas, decisões e ações”.
Para que possamos bem construir o nosso ser pessoa relacional/potencial no mundo do trabalho,
é indispensável que o referido “exercício de relações, deliberações, escolhas, decisões e ações” mobilize
também saberes e valores, essa mobilização pode ser compreendida como competência.

COMPETÊNCIA E PROFISSÃO

Diálogos sobre a questão da “competência” estão presentes em diversos âmbitos sociais. Por exem-
plo, “competência na sala de aula”, “planejamento estratégico e competência nas empresas”, “competên-
cias e habilidades nas organizações”, “Programas de qualidade e competência profissional” etc.
Considerando que já estudamos sobre a formação do conceito “pessoa”, sobre a necessária supe-
ração dos processos ideológicos de dominação social, dentre outras temáticas. Agora, vamos concluir o
tema “Trabalho e pessoa enquanto existência relacional/potencial” conhecendo o significado da palavra
competência e convidando você querido graduando e querida graduanda, para a aplicação dos sabe-
res que aqui estamos a construir durante a nossa disciplina, reunindo os fundamentos teórico-práticos
indispensáveis à constante formação acadêmica e profissional.

Por que o entendimento do conceito de competência é


importante para a nossa formação na qualidade de pessoa
a
relacional/potencial no mundo do trabalho?!
Participe do nosso Fórum!

Para responder ao questionamento acima, é preciso compreenderr qquee competência remete a mo


mo-
bilização. Não corresponde a todo tipo de mobilização, mas àquele que revela, na ação, a capacidade de
reflexão, crítica e decisão, reunindo valores e saberes.

Se a competência manifesta-se na ação, não é inventada na hora: se faltam os recursos a mobilizar,


não há competência; se os recursos estão presentes, mas não são mobilizados em tempo útil e conscien-
temente, então, na prática, é como se eles não existissem.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 43


A mobilização exerce-se em situações complexas, que obrigam a
estabelecer o problema antes de resolvê-lo, a determinar os conhe-
cimentos pertinentes, a reorganizá-los em função da situação.
(PERRENOUD, 2000)

DIMENSÃO COTIDIANA E ÉTICA DA COMPETÊNCIA

Compreendendo o significado de competência e correlacionando-o ao conceito de pessoa rela-


cional/potencial, podemos notar que na construção do nosso próprio ser, também é preciso mobilizar
saberes e valores, prezando pela integração entre o modo pelo qual pensamos e as nossas ações.
A competência apresenta uma dimensão cotidiana, pois se faz na ação, na prática, na vida. Essa
dimensão cotidiana é também éticas: se pensamos de um modo e agimos de outro distinto, então não
reunimos em nossa prática cotidiana os nossos reais saberes e valores.
É lugar comum ficar feliz quando se escuta de um amigo ou de uma amiga, que faz tempo não ve-
mos, frases como: “– Nossa! Você não mudou nada!”. Há uma satisfação, pois a pessoa se sente sempre
jovem; se faz tempo que não encontra o amigo ou a amiga e, ainda assim, não mudou nada... Então, a
aparência é a mesma... Por outro lado, se ouvimos “Você mudou, não é mais a mesma pessoa”, sentimos
até uma ofensa, pois parece que “perdemos” o nosso modo de ser...
Vamos refletir de modo crítico e criativo sobre a situação acima?
Problematizando essa situação, podemos perceber aí discursos ideológicos de dominação social!
Geralmente, as pessoas são educadas para a obediência, para o não questionamento, para a não transfor-
mação. Deste modo tanto no nosso cotidiano quanto em empresas e organizações, há uma resistência às
mudanças. Passar por tantas experiências, conhecer novas e diferentes pessoas, exercer também funções
e papéis sociais diferenciados e, com tudo isso, ouvir “-Nossa! Você não mudou nada!” poderia significar
que não estamos construindo nosso ser pessoa relacional/potencial e, portanto, nada de novo aprende-
mos... Por outro lado, ouvir “[...] não é mais a mesma pessoa”, também não é agradável, pois ainda que
as situações vivenciadas contribuam à nossa construção, temos valores éticos e morais que respeitamos e
com esses fundamentos construímos nosso ser.
Portanto, ao mesmo instante, passamos por transformações e buscamos a manutenção dos valores
que julgamos fundamentais, evidenciando em nossas atitudes o conjunto dos pressupostos teóricos e
valorativos que construímos ao longo do tempo e das relações. Esses pressupostos estão correlatos aos
principais aspectos constituintes do campo ético (a construção do próprio ser, o questionamento entre o
“ser” e o “dever-ser” e a responsabilidade para além das intenções - aspectos elucidados no Tema 03 da
nossa disciplina).
Conforme Mello (2003) ser competente, requer domínio de conhecimentos. Mas também sabe-
doria para mobilizá-los e aplicá-los de modo pertinente à situação; tomando decisões bem pensadas e
planejadas, correspondentes à vontade, à escolha e, portanto, aos valores. Essa é a dimensão ética da
competência.

COMPETÊNCIA E PROFISSÃO: ENCONTRO NECESSÁRIO

Do encontro entre os conceitos de competência e profissão, tendo por cenário a perspectiva de


pessoa relacional/potencial, resulta a possibilidade de formação ética e autônoma para o mundo do tra-
balho, capaz de superar os discursos ideológicos de dominação social e de lançar o olhar multireferencial
sobre a profissão, compreendendo-a em sua função histórica, social, cultural, econômica e política.

44 FTC EAD
Sabemos, pela história dos povos, que os profissionais foram e ainda são responsáveis por reformas
sociais e por revoluções autênticas do processo político. Isto nos anima a entender que há uma responsa-
bilidade não só social, mas também histórica, da atuação dos profissionais. Como responsáveis pela pro-
dução dos serviços [...] e pelo zelo das condições morais que levam ao bem-estar geral, os profissionais
são guardiões das sociedades. (SÁ, 2004, p.164, grifo nosso)

Diante do exposto, é preciso cultivar a responsabilidade perante a construção do nosso ser en-
quanto pessoa relacional/potencial que compreende, também na profissão, possibilidades de realização
humana e intervenção social.
Revelar em cada gesto, em cada posicionamento diante da realidade, competências humanas e or-
ganizacionais, é compreender que:

“Pela profissão o indivíduo se destaca e se realiza plenamente,


provando sua capacidade, habilidade, sabedoria e inteligência”.
(SÁ, 2004, p.135)

O exercício profissional promove em homens e mulheres a oportunidade de desenvolvimento das


próprias potencialidades, conquistando fundamentos para a construção do próprio ser. Nesta perspecti-
va, a equipe da disciplina de Filosofia, Ética e o Mundo do Trabalho deseja a você, querido graduando,
querida graduanda, muito sucesso na qualidade de pessoa relacional/potencial, dedicada à elaboração de
novos significados para o trabalho no mundo contemporâneo, resgatando o sentido de érgon e contri-
buindo veementemente para a superação do sentido de ponos/triaplium.

Atividade Complementar
1. Na Antiguidade Grega o trabalho esteve correlacionado à érgon e a ponos, qual o sentido desses
termos e de que modo é possível correlacioná-los ao trabalho na contemporaneidade?

2. Dentre as principais formas de alienação elucidadas nesse tema, para você qual é a mais perigosa
para a formação profissional? Por quê?

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 45


3. Quais as principais funções da Ideologia e como é possível superar a dominação social implícita
nos discursos ideológicos?

4. De que modo o entendimento do conceito de pessoa relacional/potencial pode contribuir às


relações no mundo do trabalho?

5. Considere o significado de competência e elabore um comentário sobre “profissão e


contemporaneidade”.

MUNDO DO TRABALHO:
PERSPECTIVAS ÉTICAS E
DESAFIOS

PERSPECTIVAS ÉTICAS E DIGNIDADE DA


PESSOA HUMANA
Autora: Vivian Paula Ribeiro
PRINCIPAIS ASPECTOS E CONTRADIÇÕES DO
CAMPO ÉTICO

CONDIÇÃO HUMANA E ÉTICA

Aqui apreciar algumas fundamentais questões sobre a ética ou restrita a alguns momentos em que a
sociedade discute mais acaloradamente - por exemplo, os problemas éticos na política não é apenas uma
demanda acadêmica, mas é também uma necessidade para a coexistência social.

46 FTC EAD
“Que devo fazer?” Esta pergunta mostra que os seres humanos não nascem geneticamente pré-
programados e para perceber melhor isso devemos começar a nossa apreciação com o próprio ato e fazer
a pergunta: O fato de não ter conhecimento de como agir numa determinada situação nos mostra que,
diferentemente de outros animais, os seres humanos são seres inacabados, isto é, não são determinados
pela natureza, Tampouco somos seres predestinados, isto é, determinados pelo destino ou por Deus. Se
o fossemos, agiríamos instintivamente e não faríamos este tipo de pergunta. Por isso é que’ cada um, ou
cada grupo social, cria diversas respostas e soluções para problemas e perguntas similares.
Ele deve, portanto, construir ou conquistar o seu ser. O ser humano não nasce pronto, se faz ser
humano, se torna pessoa. O grande desafio de nossas vidas é estar atento diante deste processo de cons-
trução do nosso ser.
Sermos diferentes de outros animais não quer dizer que não tenhamos nada em comum com eles.
Nós também partilhamos de certas deter minações da natureza, certas “necessidades naturais” que não
podemos ignorar. Ninguém pode deixar de comer, respirar, beber, dormir, sonhar etc. sem correr o risco
de morrer. Mas, ao mesmo tempo, nós temos um espaço de liberdade em nossas vidas. Os nossos sonhos
os desejos, as soluções para essas necessidades e outros aspectos da vida não são determinados pela na-
tureza ou pelo destino.
Sermos livres, mesmo que não o sejamos de uma forma absoluta, levanta o problema da respon-
sabilidade. Se a nossa vida não está pré-programada pela natureza ou destino/Deus, a forma como a
organizamos, o sentido que damos à nossa existência e o modo como solucionamos os problemas que
surgem na relação com outras pessoas e com a natureza é de nossa responsabilidade. Devemos ser res-
ponsáveis pelas conseqüências das nossas ações e atitudes. Pois delas dependem a convivência humana e
a realização do “ser humano” de cada um.
Esta responsabilidade, que nasce de nosso espaço de liberdade, é algo que pode parecer assustador.
Pensar que o nosso futuro e da própria humanidade está nas mãos de cada um de nós pelo menos no que
toca à nossa responsabilidade - nos traz insegurança. Por isso é muito tentador acreditar que as nossas
vidas já foram predestinadas pela vontade divina ou pelo destino. Ou então simplesmente não pensar nes-
tas coisas e imitar o que outros fazem, reproduzindo os valores e nor mas morais vigentes na sociedade.
Sem se preocupar muito com a conquista do nosso ser e com as conseqüências futuras das nossas ações
individuais e coletivas.

INDIGNAÇÃO ÉTICA

Uma outra situação é quando perguntamos sobre o que “devemos fazer” ou sobre o que “deveria
ser”. Este tipo de dúvida nos mostra uma importante diferença entre o ser e o dever-ser. Só quando ul-
trapassamos determinadas perspectivas da realidade existente como algo inquestionável e absoluto é que
podemos imaginar sonhar e pensar sobre uma outra realidade diferente e melhor.
As pessoas na época da escravidão, por exemplo, acreditavam que os escravos eram seres inferiores
por natureza (como dizia Aristóteles) ou pela vontade divina. Elas não se sentiam eticamente questio-
nadas diante da injustiça atentada contra os escravos. Isso porque o termo “injustiça” já é fruto de juízo
ético de alguém que percebe que a realidade não é o que deveria ser. A experiência existencial de se rebelar
diante de uma situação desumana ou injusta é chamada também de indignação ética.
Tal indignação é uma das experiências humanas fundamentais, pois é a experiência de liberdade
frente às normas injustas e petrificadas aceitas com “normalidade”. É a experiência que nos consente
também desmascarar o mal travestido de normalidade e descobrir, mesmo que parcial e superficialmente.
O bem e a justiça.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 47


RESPONSABILIDADE PARA ALÉM DAS INTENÇÕES

Quando admitimos a nossa condição humana - com necessidades e liberdade, limites e potencialida-
des - e procuramos realizar o nosso ser, tornamo-nos responsáveis pelas nossas atitudes e atos. Isto é, so-
mos responsáveis não somente pelas intenções das nossas ações, mas também pelas suas conseqüências.
Quando temos a consciência do fim aspirado e dos meios aproveitados as nossas ações têm, por
trás de si, motivações sendo que essas podem ser conscientes ou inconscientes.
É mister enfatizar que as ações humanas causam conseqüências intencionais, mas também efeitos
não-intencionais. Isto é, implicações que não estavam previstas na intenção do ato e que, muitas vezes,
vão na direção oposta da intenção. Além das intenções devemos levar também em consideração as con-
seqüências das ações. Um exemplo disso pode ser alguém que tendo problema de estômago toma sal de
fruta e vê a situação agravada porque o “remédio” piorou a sua úlcera. Ou então alguém que na intenção
de melhorar a qualidade de vida usa produtos que aumentam o efeito estufa, que pode tornar inviável a
vida humana sobre a terra.
Os efeitos não-intencionais mostram que há algo entre a intenção da minha ação e o resultado que
não foi previsto e controlado. A primeira possibilidade é que a minha ação teve um problema operacional,
isto é, não foi capaz de materializar a minha intenção. Nesse caso, eu devo aperfeiçoar a minha capacidade
de ação. No caso de não ser verdadeira a hipótese anterior, aparece a possibilidade de que entre a minha
ação e o resultado final exista uma estrutura ou sistema (social, econômico, cultural, político, biológico
etc.) que processe as minhas ações de uma forma diferente daquela que eu tinha previsto originalmente.
O noção da possibilidade dos efeitos não-intencionais erguer a necessidade de não diminuirmos
as questões éticas às intenções das pessoas e também a de clarificarmos as nossas idéias de uma maneira
melhor à estas estruturas ou sistemas que interferem nas nossas ações e vidas.

PRINCIPAIS CONFLITOS DO CAMPO ÉTICO

O questionamento ético revela algumas contradições que fazem


pa
parte de nossas vidas. A primeira é o conflito que pode existir entre meu
int
interesse a curto prazo e meus objetivos a médio ou a longo prazo. Po-
demos
de tomar como exemplo uma experiência comum na nossa infância:
a vontade
v de brincar sem parar e o objetivo de passar de ano na escola.
São
Sã dois objetivos bons “em si”, mas que, na maioria dos casos, são
contraditórios
co se colocados dentro da linha do tempo. Infelizmente ou
fe
felizmente a nossa vida não é linear e os nossos interesses e objetivos
não
n são necessariamente acumulativos. Existem opções e interesses
imediatos
im ou menores que se chocam com os objetivos maiores e a
longo
l prazo.

É claro que neste exemplo não há uma resposta a priori que sirva para todos. Cada um que se vê
neste tipo de situação deve pesar as vantagens e desvantagens de cada opção e fazer, se não forem abso-
lutamente excludentes, uma escolha que per mita atingir o bem maior sem negar totalmente os interesses
imediatos.
Neste sentido se torna evidente que existe este tipo de conflito de interesses e que no discer-
nimento concreto deve prevalecer o bem (objetivo) maior do indivíduo ou do grupo. Mas como existem
motivos e objetivos inconscientes, muitas vezes não é tão simples saber qual é o objetivo maior que deve
servir de critério para definir o que se deve fazer. Principalmente quando se trata de conflito entre inte-

48 FTC EAD
resses imediatos e de longo prazo de um grupo social. Pois nesses casos os interesses inconscientes ou
não confessos têm um peso ainda maior.
Além desse conflito existe também o conflito entre interesse pessoal e coletivo. Se não houvesse
esse tipo de conflito, ou se não fosse importante, as pessoas não se perguntariam sobre o que deve ou não
fazer em relação às outras pessoas ou outros grupos. Simplesmente buscariam os seus interesses próprios,
ignorando os interesses e direitos dos outros e os da coletividade como tal.
Mas a vida nos ensina que ninguém, ou quase ninguém, pode viver totalmente isolado, não somente
por causa das necessidades afetivas, mas também por causa das necessidades materiais. É muito difícil
para uma só pessoa produzir todas as coisas de que necessita para sobreviver dignamente. A necessidade
de conviver com outros nos leva à necessidade de estabelecermos relações que permitam a sobrevivência
de todos os que compõem a coletividade. Isso significa na prática que os meus direitos e interesses não
podem ser absolutizados na medida em que entram em conflito com interesses e direitos de outros com
os quais necessito conviver. A absolutização dos meus interesses seria a negação dos direitos de outros
e a declaração de que eu não necessito deles para viver. Se cada um toma este tipo de atitude, torna-se
impossível a vida em um grupo social.
Além disso, existem interesses da coletividade que não são somente diferentes, mas também con-
flitantes com interesses individuais dos seus membros. Se pegarmos como exemplo a cobrança de impos-
tos, com certeza chegaremos à conclusão de que ninguém gosta de pagá-las e que não os pagaria se pu-
desse e se tivesse a certeza de que não iria sofrer sanções. É exatamente por isso que se chama “imposto”
(particípio passado do verbo impor). Mas as pessoas que têm consciência do conflito entre os interesses
individuais e os da coletividade sabem que os impostos são uma necessidade de todas as sociedades para
a realização de serviços públicos.
Por trás de normas e valores morais que regulam este tipo de conflito está uma experiência humana
secular: um membro de uma coletividade não sobrevive se esta mesma coletividade vier a se extinguir.
É claro que existem exceções para membros que conseguem encontrar novos grupos em substituição
daquele que acabou. Mas quando a coletividade que acaba é a própria humanidade, com a inviabilização
da vida humana na terra, nenhum indivíduo poderá se tornar esta exceção.

PRESSUPOSTOS OBJETIVOS DA ÉTICA

O SER HUMANO É UM SER CORPÓREO

Faz parte e é processo da realidade biológica humana uma vida material com uma série de órgãos,
cada um com sua razão de ser específica e função respectiva, mas intensamente arrolados uns com os
outros.

Para refletir...
Nosso corpo e nossa vida são afetados continuamente por nossa mente e vice-versa, nossa
mente se comporta dependendo de como se encontra nosso corpo; este é uma fantástica fonte de
energia.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 49


O Ser Humano é capaz de um desenvolvimento extraordinário com seu corpo; a própria
existência do Ser Humano se torna visível através de um corpo do qual se tem a representação de
dominar o mundo; a corporeidade ou a somaticidade é um componente essencial do ser humano.
(CAMARGO, 1999)

Pertence à ética, porquanto em sua propriedade ela deve preocupar-se com a desenvolução e o bem
estar de cada órgão, não só em si mesmo, mas em função de todo humano. Enfim, o cuidado com a saúde
própria e alheia é um dever reclamado e exigido peja sua natureza.
Existem questões clássicas a respeito disto, que hoje em dia são englobadas sob o nome de bio-
ética: aborto, eutanásia, transplantes, clonagem, experiências no ser humano, etc. Existe, porém, uma
série de outras situações que talvez são até mais profundas e abrangentes que dizem respeito a este dever
dentro de um contexto social e político: por que milhões e milhões de pessoas passam fome? Por que o
tratamento da saúde é precário em muitos países? Por que o salário dos trabalhadores é freqüentemente
tão insuficiente para sua manutenção e de seus familiares? Por que o saneamento básico, envolvendo
moradias, canalização de água e esgoto, meios de transporte, prevenção de enchentes, etc., é tão descui-
dado? Por que existem empresas que não se preocupam com prevenção de acidentes, com problemas
de poluição, com restaurantes e sanitários dignos dos operários? Por que existem políticos que desviam
verbas para seus interesses em vez de destiná-Ias aos objetivos de irrigação de terras dos pobres e outros
de utilidade pública?
A valorização do corpo humano próprio e alheio é imprescindível para uma construção ética; dos
questionamentos feitos acima vê-se que isto não é só uma questão individual mas está afeto à família, à
política, à economia, à educação, às empresas, etc.

O SER HUMANO É UM SER VOLITIVO

A vontade é a faculdade pela qual a pessoa toma decisões em sua vida. É o querer pessoal; é o
indivíduo colocar todo o seu ser em função de seus objetivos, ideais e metas; é a pessoa evitar coações
e imposições ou amordaçamentos tanto interiores como exteriores pela vontade a pessoa constrói sua
existência a partir de convicções, sendo dona de si mesma; ela se percebe, responsável última pelos seus
êxitos ou considera tal questão:

Para refletir...
O que lhe dá o seu mais alto valor e sua verdadeira dignidade, não é a importância de seu
saber: a ciência só vale pelo emprego que dela se faz; o que dá ao Ser Humano o seu mais alto valor
é a retidão da vontade.
(CAMARGO, 1999)

A vontade pode sofrer algumas dificuldades no tomar de algumas decisões; os impulsivos são aque-
les que sofrem passivamente seus impulsos, sendo forçados a agir; os intelectuais neste caso são os que
levantam sem cessar os mesmos problemas e não conseguem chegar a uma conclusão; os que hesitam
são os que ficam na constatação do que devem fazer, sem se decidir a querer fazê-Io; os fracos são os que
decidem, mas abandonam a execução; os obcecados são aqueles que sofrem a ação de uma idéia fixa; os
obstinados são aqueles aos quais ninguém pode fazer desaferrar-se de suas idéias ou seus caprichos.

50 FTC EAD
O uso da vontade, procurando vencer as diferentes abulias, é um dever ético; o ser humano não
pode viver na passividade, mesmo quando obedece.
Questões éticas? No casamento, por exemplo, ocorre quando um dos cônjuges impõe: “Você tem
de querer o que eu quero”; na política, os chamados líderes conduzem como querem a massa do povo,
concretizando o que diz um provérbio: “A passividade de um povo é a glória de um governo”; em empre-
sas pode ocorrer que proprietários ou diretores considerem seus objetivos como único querer válido; na
vida pessoal podem existir indivíduos que não se preocupam em educar e treinar sua vontade para aquilo
que de fato lhe é mais conveniente, humano e plausível.

O SER HUMANO É UM SER SOCIAL

É convidado a conviver em grupo; nenhum ser humano pode ser uma ilha isolada no mundo, mas
forma junto com os outros um grande arquipélago, vivendo mais ou menos próximo e afastado dos ou-
tros, facilitando ou dificultando as correntezas da é um processo de interação contínua e constante das
pessoas que vai moldando a existência de cada um.
Embora cada pessoa seja uma em sua individualidade, algo, irrepetível certo ponto insondável,
entretanto ela precisa convier com outras para se desenvolver como “ser humano”; isto não só por neces-
sidade física, especialmente nos primeiros anos de vida, mas por uma questão afetiva de intersubjetivida-
de toda pessoa sente necessidade de penetrar na intimidade psíquica de uma outra pessoa e deixar-se
penetrar por ela.
Assim, sociedade não é uma mera justaposição de corpos ou uma entidade acima das pessoas, mas
ela é formada por estas na medida em que se inter-relacionam, formando uma teia de laços interiores,
dinamizando-se mutuamente e respeitando cada individualidade.

Para refletir...
O fato é que o Ser Humano tem a propensão de viver junto com os outros, seus semelhantes,
e comunicar-se com eles, tornando-os participantes de suas próprias experiências e desejos, fican-
do, portanto, mais próximo deles, convivendo e partilhando emoções e bens.
(CAMARGO, 1999)

Isto exige uma organização exterior, especialmente nos campos político, econômico e educacional;
estas organizações, porém, não são um fim em si mesmas, mas instrumentos para que as pessoas se rea-
lizem melhor como seres humanos; portanto, estas não devem ser reduzidas a objetos de manobras para
outros interesses.
Várias questões devem ser levantadas e estudadas pela ética sob o aspecto social.
Em primeiro lugar, a importância das pessoas se associarem como um direito e um dever; pois na
medida em que se formarem grupos e movimentos de pessoas conscientes é que surgirão transforma-
ções; neste contexto estão as associações de bairro, as associações profissionais, os sindicatos, os partidos
políticos, os grêmios estudantis, os clubes esportivos, assembléias religiosas.
Em segundo lugar, várias perguntas devem ser feitas: tas empresas não só não favorecem, mas até
impedem o convívio social dos empregados?l Quantos dos chamados lideres são na prática chefes au-
toritários que manipulam as nos grupos sociais?! Quantos membros de grupos só participam destes por
interesses individualistas e egoístas?

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 51


O SER HUMANO É UM SER HISTÓRICO

Ao ser humano é encarregado programar a existência, saindo da contemplação inerme e fatalista


para uma ação de sujeito de si mesmo o que lhe diz respeito; mesmo que nem tudo ainda lhe seja com-
preensível e dominável (ex.: uma depressão pessoal ou um terremoto), está nele o poder de investigar, de
não se abater li sempre colocar um pequeno avanço para que a humanidade como um todo vá aos poucos
descortinando novos horizontes o Ser Humano é convidado a instituir acontecimentos ou fatos e não a
padecê-los; Ele não deve ser arrastado pelos eventos.
É certo que o ser humano sofre influências do mundo em que vive, bem como é certo que o ser
humano precisa estar ciente do próprio modo pélo qual integra seu sentir, pensar e agir sobre o mundo.
Percebendo-se na qualidade de sujeito, ator e autor de seus sucessos e insucessos; não deve atribuir a
responsabilidade como se apenas o mundo externo exercesse influência sobre a sua formação. Assim
afirma Pessini (apud CAMARGO 1999, p. 76): “O ser humano acontece no movimento da história que
ele mesmo preside (...) o ser humano é o que ele decide ser pelo conjunto de suas ações”.
Esta construção da história serve para questões afetivas, como por exemplo o casamento; para
questões de trabalho, “orno a escolha de uma profissão; para questões de estudo, como o sucesso de
aprendizagem e de formação cultural; para questões morais, como o decidir entre o bem e o mal e praticá
-lo em fim, para todos os aspectos da vida.
Quando a pessoa individualmente e grupalmente está convencida desta sua historicidade, ela vive
mais feliz e confiante, medos irracionais e assumindo decisões com mais força e coragem. Ao mesmo
tempo percebe que está num processo de vir-a-ser contínuo, num dinamismo em que nada está pronto e
acabado, mas tudo está se fazendo, se realizando; também há uma percepção de que nenhuma realidade o
realiza, mas é ele quem a realiza; por exemplo, não é o casamento que realiza os cônjugues, mas são estes
que constroem o casamento longo de suas existências; não é uma profissão que realiza a pessoa, mas é
ela que realiza a profissão.

O SER HUMANO É UM SER LIVRE

Moral não pode ser concebida sem liberdade; qualquer ação, qualquer gesto, qualquer pensamento
só tem valor moral se tiver sido concebido livremente; somente se eu puder fazê-Io ou não fazê-Io; so-
mente quem decide sou eu”
A liberdade em geral significa poder fazer ou não fazer alguma coisa, podendo ser física, civil, po-
lítica, religiosa, etc.; chamada de livre-arbítrio, é o poder que a vontade possui de determinar a si mesma
e, por si mesma, a agir ou não agir, sem ser a isto coagida por nenhuma força nem interior, nem exterior;
num sentido mais dinâmico, a liberdade é a capacidade de escolher os melhores meios para a própria
realização como pessoa.
A única limitação do ser humano é a sua própria natureza; para realizar-se, o Ser Humano encon-
tra uma série de possibilidades; compete a ele examinar qual lhe é mais conveniente e segui-Ia; para isto
ele deve possuir ideais, metas ou objetivos; por isso é mais importante a liberdade para coisas do que de
coisas; p. ex., é mais importante ser livre para estudar do que ser livre do regulamento.
Assim, toda escolha é uma limitação que a pessoa se impõe; porém, é dentro de limitações que ela
se realiza construindo aquilo a que se decidiu; por isso não convém mudar muito as opções, especial-
mente as mais fundamentais, a fim de que haja tempo de construí-Ias; nada impede, porém, que em caos
excepcionais haja mudanças.
A esta liberdade qual necessariamente se deve responder, assumindo as conseqüências das ações e
omissões; refere-se ao cumprimento das obrigações, como ser humano que pode destruir ou construir; a
mesma liberdade oferece a possibilidade de corrigir o mau uso que se faz dela.

52 FTC EAD
“O futuro do mundo está
em nossas mãos”
(Sartre)

A liberdade requer cuidados e vigilância; a luta pela liberdade é a luta pelas potencialidades da vida
e vice-versa; requer superação constante da ignorância, exame dos impulsos, análise dos objetivos e inte-
resses predominantes na sociedade questionando os poderes que monopolizam o rumo da vida em todos
os setores.
Neste sentido, podemos entender que liberdade não é egoísmo ou individualismo, uma vez que,
ela tem uma dimensão social; ela é impraticável fora da concordância dos seres humanos; ela exige que as
relações entre as pessoas não sejam de simples proximidade ou de intersubjetividade.
O que se deve para realizar-se como ser humano; neste sentido ninguém é livre para tomar veneno,
mesmo que queira, pois isto estas considerações levam a várias reflexões de ordem práticas.
Por fim, a liberdade demanda que o Ser Humano tome consciência das diferentes alienações a
que é submetido para enfrentá-Ias. Além disso, pode haver alienação na produção porque uns pensam e
outros executam, quando a mercadoria adquire valor superior ao Ser Humano ou quando o trabalhador
se transforma em mercadoria; pode haver a alienação no consumo, quando as necessidades são artifi-
cialmente estimuladas, criando-se datas para gastar; há também a alienação no lazer com uma indústria
própria produzindo os programas.

PRESSUPOSTOS SUBJETIVOS DA ÉTICA

O diálogo sobre si mesmo com alguém pode ajudar a compreender aspectos da própria vida e
tornar-se uma prática válida de forma constante. Ninguém é tão sábio que conheça tudo a respeito de si;
às vezes também ocorre que a gente mesmo faz questão de deixar de lado certos dados da própria vida,
ou porque eles nos aborrecem ou porque não nos parecem importantes; uma outra pessoa poderá alertar-
nos sobre isto. O diálogo é um encontro através do qual uma vida vai se defrontando com outra vida e
muitas coisas vão se esclarecendo.
Ele, o diálogo, supõe sinceridade, abertura de coração, disponibilidade para mudanças, flexibilidade
ideológica, vontade de acertar. Quem quer dialogar não luta para defender posições primeiramente as-
sumidas de uma forma irredutível é como que em uma historieta mais ou menos longa, que ilustra uma
lição de sabedoria e cuja moralidade é expressa como conclusão, mas está disposto a encontrar possíveis
novos caminhos para sua vida. O diálogo serve ao menos para criar questionamentos e interrogações
do que fornecer respostas pré-fabricadas e prontas para a vida; pois é a partir das dúvidas que a pessoa
construirá suas certezas.
No campo da ética profissional este diálogo é fundamental; p.ex., administradores entre si, conta-
dores entre si, economistas entre si, etc., mas também interprofissional com administradores, contadores
e economistas juntos. Em certas instituições como hospitais, até se institucionalizam comissões de ética,
não tanto para julgar atos, mas para debater assuntos com a participação de vários profissionais, como
enfermeiros, médicos, psicólogos, teólogos, filósofos, administradores, fisioterapeutas; isto ajuda muito
na formação da consciência de cada um.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 53


PRINCÍPIOS ÉTICOS E TOMADA DE DECISÕES

OS PRINCÍPIOS ÉTICOS CONFORME AS CARACTERÍSTICA SUBJE-


TIVAS DO SER HUMANO

A Filosofia ética insurge na Grécia como reflexão sobre o comportamento humano, considerado
em seu duplo aspecto subjetivo e objetivo. Ao elemento subjetivo corresponde a noção de ethos, ou seja,
a maneira de ser ou os hábitos de uma pessoa; ao elemento noção de ethos, isto é, os usos e costumes de
uma coletividade.
Quanto ao comportamento individual, o padrão ético era a aretê. A palavra tem sido em geral tra-
duzi da, nas línguas modernas, por virtude. Ele, o vocábulo, significa propriamente o desenvolvimento
das possibilidades espirituais, mentais e físicas de uma pessoa.
Quanto à maneira coletiva de viver, o padrão da vida ética, para os gregos, era a lei (nómos), en-
tendida não como qualquer regra indeterminada e imposta pelo poder político, mas como o princípio
regulador do comportamento humano, desde sempre vigorante na sociedade.
Ora, a disposição pessoal a fazer o bem e a evitar o mal, segundo Aristóteles, não seria propriamen-
te inata, não se encontraria, tal qual, na natureza humana. Ela seria, antes, o fruto dos usos e costumes,
como expressão dos grandes princípios de vida em sociedade. O filósofo chega a fazer uma aproximação
verbal entre “exis” (disposição pessoal), que os romanos traduziram por habitus. De tal modo, diz ele, não
nascemos favoravelmente virtuosos, mas instruimo-nos a nos comportar de modo verdadeiro e honrado
em nossas vidas. Em matéria de artes ou ofícios, a aprendizagem é sempre feita pela prática. Tornamo-
nos construtores, construindo casas; tocando o instrumento. Da mesma forma, pela prática das ações
justas tornamo-nos homens justos; pela prática das ações moderadas senhores de nossas paixões; pela
prática de ações corajosas adquirimos a virtude da coragem.
A ampla função social do Ser Humano de Estado versa, segundo Aristóteles/a em fazer de seus
concidadãos homens de bem cumpridores das leis. A norma ética, por mais excelente que seja, não tem
real vigor ou vigência, se não corresponder a uma disposição individual e coletiva de viver eticamente.
E, bem ao antagônico do que vieram a sustentar os modernos, a começar por Maquiavel, a ética da vida
pública não difere da ética privada. Os talentos ou aptidões individuais são evidentemente diversos, como
diversas são as qualidades técnicas requeridas para o exercício de uma profissão privada, ou de uma
função de governo no Estado. Mas em hipótese alguma os vícios privados podem atuar como virtudes
públicas, como pretenderam os primeiros grandes ideólogos do capitalismo. No campo ético, os valores
e, por conseguinte, as normas e os deveres que delas decorrem, são os mesmos para os indivíduos e para
as coletividades. A violência não deixa de ser destruidora pelo fato de ser utilizada pelo Estado em vista
de fins coletivos e não individuais.
Daí porque Aristóteles sempre insistiu em mostrar que o objetivo supremo da arte de governo
consiste em formar os cidadãos na aretê, obrigando-os a adquirir hábitos virtuosos. Quando os gover-
nantes não se deixam orientar por esse objetivo, falham completamente no exercício de suas funções. E é
exatamente por aí que se pode distinguir entre a boa e a má constituição ou organização política.
A função primordial dos governantes, segundo o pensamento daquele que concorda com os anti-
gos, é a de constituir e conduzir a educação cívica, desde os primeiros anos de vida do cidadão, harmo-
nizando, por conseguinte, o caráter ou temperamento de todos com os grandes princípios, objetivados
nos usos e costumes.
O que ocorrer é que no mundo moderno as normas éticas, antes em usos e costumes tradicionais,
formando o que os gregos denominavam escrita, passaram, sempre mais, a ser expressas em declarações,
tratados internacionais, constituições e leis.

54 FTC EAD
Seja como for, o choque revolucionário abriu os olhos de alguns espíritos perspicazes, não só para
a condição essencialmente histórica do ser humano (Hegel), mas também para a realidade da constante
dominação social de certos grupos sobre outros, no decorrer da História (Marx). Compreendeu-se que
os grupos ou classes dominantes, em todos os tempos e lugares, procuram sempre apresentar aos domi-
nados certos valores próprios, correspondentes aos seus interesses particulares, como sendo os valores
gerais da coletividade. Com a progressiva expansão do capitalismo aos quatro cantos do planeta, o código
ético da burguesia empresária - a satisfação prioritária do interesse individual, o espírito de competição, a
defesa da liberdade de iniciativa econômica como algo mais importante que a liberdade política, o predo-
mínio do valor da utilidade -- passou a ser inculcado a todas as classes e a todos os povos, como o novo
modelo de virtude.
Em oposição a essa falsificação do que é favorável a privatização do sistema ético que a humanida-
de é agora convocada a reagir. É lacônico voltar a marcar, como é bem visível para a filosofia grega, o bem
comum do interesse particular, e é indispensável mostrar a todos que um regime político de supremacia
do interesse público sobre os interesses privados é não só possível, mas urgentemente necessário.
Todo princípio ético, obedece a uma intenção determinada, que lhe dá sentido e coerência. Con-
vém, em tais condições, examinar os princípios éticos numa perspectiva finalista.

ASPECTO TELEOLÓGICO DA ÉTICA

Para refletir...
“Toda ação Humana visa a uma finalidade, considerada um bem ou algo de bom”. você
concorda?
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 1995, p. 15-20

Acerca da reflexão acima podemos sim inferir que, uma vez que, os bens ou valores específicos,
visados em cada ação, à finalidade última de nossas vidas, desígnio que representa, como o filósofo, o bem
humano por excelência, aquele que, todos os tempos e lugares, tem sido expresso pela palavra felicidade.
Ninguém jamais sustentou que o seu objetivo na vida é ser infeliz. A felicidade é bem supremo, não só
porque não é simples meio para se alcançarem outros mas também porque ela se basta a si mesma, ou
seja, é um bem óbvio, porém, essa autarquia de que fala o filósofo deve ser interpretada no sentido glo-
bal: a vida de cada um de nós insere-se no conjunto da espécie humana. Nenhum grupo social pode ser
feliz à custa da sociedade maior na qual se insere. Nenhum povo pode experienciar, sozinho, a felicidade
completa.

Para refletir...
Os princípios éticos são preceitos que orientam o agir em função da estima pela nossa ação,
ou do material final que dá significado à vida e não de uma instância estritamente subjetiva, que não
compartilhamos com a comunidade.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 55


Através do indivíduo, do grupo ou por meio da própria humanidade, os princípios éticos devem
ser considerados em todas as suas dimensões, inclusive, em seu aspecto objetivo, determinando, deste
modo, a distinção entre a norma ética e a regra técnica (obtenção de um resultado mediante uma ação
deliberada).
A regra técnica, considerada em si mesma, é eticamente neutra. Como bem salientou Kant: “as
prescrições que deve seguir o médico para curar totalmente o paciente, e as que deve seguir um assassino
para envenenar letalmente sua vítima têm o mesmo valor, medida em que umas e outras lhes são úteis
para realizarem de maneira cabal seus desígnios”.
O ensinamento de Kant, nesse particular, há de ser sempre lembrado: a pessoa humana não pode
ser reduzida à condição de simples coisa, utilizável como meio ou instrumento de ação de um outro ser
humano. Nenhuma fé religiosa pode justificar a tortura ou o extermínio dos infiéis, sob o argumento da
obediência à vontade de Deus. Não há ideal de vida em sociedade, por mais sublime que se apresente,
capaz de santificar o horror do terrorismo.
Para Kant, uma ação praticada por dever tira seu valor moral, não da intenção do agente, mas da
máxima ou regra subjetiva de comportamento por ele seguida: Com efeito, quem nos garante que, ao
cumprir um dever, nossa intenção é realmente isenta de todo egoísmo, que não atuamos o secreto desejo
de exibir nossa virtude perante a coletividade e de fortalecer, essa forma, nossa reputação de homens vir-
tuosos? Por outro lado, Kant recusou calmamente o critério da utilidade como guia das ações humanas: a
virtude não consiste em boas obras, nem é sancionada pelo êxito das ações empreendidas, mas reduz-se
inteiramente à cega submissão ao dever.
Foi contra a abstração e o absolutismo dessa ética do dever acima de tudo, a menor consideração
concreta das conseqüências previsíveis dos atos que Max Weber insurgiu-se. Ele estabelece, a esse respei-
to, uma distinção bem marcada entre, de a ética de convicção ou de sentimentos e, de outro, a ética de
responsabilidade.
Na primeira concepção, diz ele, o que conta como justificativa é mente a boa intenção do agente,
ou seja, o fato de que ele teve, ao agir, aquela vontade moralmente boa, a vontade movida pela virtude, a
qual, para Kant, deve tida como uma finalidade em si mesma das ações humanas. Nessa perspectiva, se
põe a menor preocupação com os efeitos dos atos praticados, ou das tomadas em obediência ao dever
ético. Parte-se do postulado de que advir do bem e o mal do mal. Nenhuma possibilidade de mistura entre
o bem mal é moralmente aceitável.
Já na segunda concepção de ética, o agente não deve efeitos concretos das suas ações, ou de suas
decisões, sob o pretexto de que só cabe, moralmente falando, cumprir o seu dever, ou agir com uma reta
intenção. Se ele pode razoavelmente prever, com base na razão e na experiência, que minada política,
ainda que ditada pelos preceitos morais, produzirá conseqüências nefastas, e não obstante ele a segue,
manifesta com isso totalidade.
Aqueles que sustentam a tese de que os fins justificam os meios confundem a regra técnica com
a norma ética. A utilidade, como valor-meio, subordina-se logicamente ao valor do bem que constitui a
finalidade da ação. É claro que se o agente utilizar meios materialmente inadequados, o resultado desejado
não se produzirá. Mas a inadequação dos meios aos objetivos visados pode dar-se no terreno dos valo-
res éticos. Se os meios empregados pelo agente são eticamente incompatíveis com esses valores finais,
o resultado que se tem em vista fica necessariamente comprometido. É impossível aumentar o grau de
honestidade na vida pública mediante a utilização de procedimentos desonestos. Não é pela guerra que
se cria a paz no mundo.
Ainda aí, o exemplo de vida oferecido pelo Mahatma Gandhi foi luminoso. Respondendo aos ata-
ques dos que condenavam a sua pregação de não-violência contra o jugo colonial inglês, e propunham
em lugar disso uma guerra de independência, ele explicou:
Sem dúvida, a ação política, mesmo quando objetivamente dirigida ao “comum do povo, ou ao

56 FTC EAD
conjunto dos povos no plano internacional, é suscetível de produzir secundariamente efeitos negativos.
Não se pode, porém, jamais considerar que os bens ou valores éticos submetem-se a uma que em hipó-
tese alguma é legítimo sacrificar um bem de maior valor para se ale.
Hoje, na fase adiantada do processo de unificação da humanidade em que nos encontramos, é
preciso sustentar, de modo absoluto, que a constituição de uma comunidade solidária de todos os povos
da Terra é um objetivo, não só mais nobre e digno, Como também incontestavelmente mais realista, do
que prosseguir no caminho da globalização capitalista, que só beneficia, e por pouco tempo, uma minoria
forte e rica, e que tende fatalmente, em prazo não muito dilatado, a precipitar a humanidade no abismo
da desordem econômica, da desigualdade social e do conflito generalizado.
A presente situação geral do mundo só faz aumentar a nossa responsabilidade ética. A moderna
acumulação do saber tecnológico em ritmo de progressão geométrica torna a espécie humana cada vez
mais potente para alterar a marcha da evolução biológica, segundo seus desejos e ambições. Tudo se
decide, na verdade, em função de preferências valorativas, como passamos a ver, com isto carecemos de
ser seres éticos.

DEVER-SER ÉTICO, CARACTERÍSTICAS ESPECÍFICAS

A todo valor retribui-se, sempre, um contra-valor que o nega. Ob-


se
serva-se: o contra-valor, não é uma omissão de valor, uma espécie de vácuo
vvalorativo. Ele, o vão, existe realmente na vida social: um crime não é uma
aabstração da mente, mas um fato real, que provoca resultados danosos ex-
tr
tremamente reais.
Na compreensão ética de Aristóteles, não há propriamente uma relação de duas polaridades entre
o bem e o mal, mas a contra posição entre o bem e dois extremos de mal: o extremo da demasia e o da
insuficiência. A virtude, é uma posição entre esses dois extremos.
A dualidade bom contra mau, que é do próprio do cerne da vida ética, inscreve-se na consciência
de todo ser humano. É claro que a definição do que é bom e do que é mau varia no tempo e no espaço,
no plano individual e no social.
Ora, mesmo quando as ações individuais ou as decisões coletivas correspondem aos ditames da
consciência ética, nem sempre elas deixam de produzir maus efeitos. É o que sucede, sobretudo, no cam-
po da ação política, em razão da extrema complexidade da vida social. O fim dirigido por aquele que age,
deve ser em si mesmo bom, de acordo com o critério supremo da dignidade humana; e de modo algum o
ser humano pode ser utilizado como ingênuo meio para o conseguimento de uma desígnio, ainda que jus-
to. Entretanto é evidente que os resultados práticos de uma deliberação política não serão nunca de uma
forma. A decisão, para que seja ética e justificável, se faz necessária num proceder criterioso, e isto, com
a presciência, tão apropriada quanto plausível, da influência e da magnitude dos bons e maus resultados a
serem produzidos, os quais devem ser ponderados em função de um determinado conjunto de valores.

Atenção! Por fim, Graduandos e graduandas


eis que a vida em seu movimento que é diverso e
dinâmico nos convida para sejamos éticos!
O que pensa sobre essa afirmação?

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 57


Atividade Complementar
1. A ética tem uma base comum a todas as pessoas ela é uma construção pessoal, continua e dinâ-
mica. Neste sentido, produza uma redação relacionando esta afirmativa com a sua vida pessoal, profis-
sional e moral.

2. Realize uma pesquisa sobre os significados atribuídos às expressões Liberdade, Responsabili-


dade Moral e Ética e elabore conceitos para cada uma dessas expressões de acordo com o mundo do
trabalho.

3. Construa uma síntese explicativa sobre os pressupostos objetivos da ética.

4. Construa uma síntese explicativa sobre os pressupostos subjetivos da ética.

5. A experiência existencial de se rebelar diante de uma situação desumana ou injusta é chamada


também de indignação ética. Diante desta afirmativa, de maneira dissertativa, exemplifique um caso que
você tenha vivido preferencialmente nas relações profissionais elucidando uma postura de indignação
ética.

58 FTC EAD
TRABALHO COMO POSSIBILIDADE
PARA DESENVOLVIMENTO HUMANO
Autor: Adriano Santos Araújo

A SUSTENTABILIDADE E SEUS CRITÉRIOS

A sustentabilidade decorre da necessidade de resolução dos problemas que afetam a relação entre
os seres humanos e o ambiente. O conceito de sustentabilidade é baseado na sobrevivência do planeta,
na questão ambiental, econômica e na qualidade de vida das pessoas.
É neste sentido que a questão da sustentabilidade merece maior atenção, pois além de buscar
soluções para o meio ambiente, com políticas ambientais e estratégias de desenvolvimento que possam
abordar a questão da preservação como fator primordial para o desenvolvimento de um Estado, Nação
ou País.
Segundo Sachs, (2002) uma nova forma de civilização, fundamentada no aproveitamento sustentá-
vel dos recursos renováveis, não é apenas possível, mas essencial.
O conceito de sustentabilidade surgiu a partir da idéia de desenvolvimento sustentável, lançado
pela Organização das Nações Unidas (ONU) durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Am-
biente e Desenvolvimento ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, entre 3 e 14 de junho de 1992, onde os
líderes dos principais países se reuniram para encontrar soluções com vistas à proteção dos ecossistemas
da terra e o desenvolvimento econômico e social.

Você sabia que a CNUMAD como ficou conhe-


cida a conferência, também foi chamada de
ECO-92, Rio-92, Cúpula ou Cimeira da Terra.

des de consumo, trans-


As definições de sustentabilidade são utilizadas para denominar as atividades
porte, turismo, que qualificam as práticas sociais ou os serviços que são baseados em critérios de
sustentabilidade.
As dimensões que as práticas de desenvolvimento sustentável seguiram foram determinantes para
as definições dos critérios de sustentabilidade.

» Os Critérios de Sustentabilidade
1. Social: São determinados em um patamar razoável de homogeneidade social, com distribuição
de renda justa, emprego pleno ou autônomo com qualidade de vida decente e igualdade no acesso aos
recursos e serviços sociais.
2. Cultural: Existência de equilíbrio entre respeito à tradição e inovação, capacidade de autonomia
para elaboração de um projeto nacional integrado e autoconfiança para abertura com o mundo.
3. Ecológica: Busca a preservação do potencial do capital natural na sua produção de recursos
renováveis e limitando o uso dos recursos não-renováveis.
4. Ambiental: Prega o respeito e realça a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais.
5. Territorial: Prevalece um equilíbrio entre as configurações urbanas e rurais, com melhoria do
ambiente urbano, superação das disparidades inter-regionais e estratégias de desenvolvimento ambiental
seguro para áreas ecologicamente frágeis.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 59


6. Econômico: O desenvolvimento econômico deve seguir de forma intersetorial com equilíbrio,
segurança alimentar, capacidade de modernização contínua dos instrumentos de produção com um nível
de autonomia na pesquisa científica e tecnológica, com uma inserção na economia internacional.
7. Política Nacional: A existência de uma democracia definida em termos de apropriação uni-
versal dos direitos humanos, com desenvolvimento da capacidade do estado para implementar o projeto
nacional, com um nível de coesão social.
8. Política Internacional: Uma eficácia no sistema de prevenção de guerras da ONU, na garantia
da paz e na promoção da cooperação internacional.
(SACHS, 2002. p.85)

No mundo atual, tem se verificado que a humanidade busca com empenho formas alternativas
para amenizar o processo de degradação da natureza, onde os recursos naturais ficam escassos e correm
o risco de desaparecem.
No tema 02 da nossa disciplina, você pode perceber que o trabalho está correlato à natureza, sig-
nificando ação transformadora que promove realização e que, em determinados contextos, culmina em
alienação e exploração. Deste modo, é inegável que, independente da circunstância, ser humano e natu-
reza estabelecem relação. Mas, o que pensar dessa relação na contemporaneidade?!
A relação entre o homem e a natureza caminha para um processo de desequilíbrio de forças, onde
a questão do uso e ocupação do solo se apresenta de forma desequilibrada e sem organização.

Para refletir...
Os processos de urbanização e seus impactos negativos convidam estudos
udos e
análises sobre as relações do homem com o meio ambiente.
Nesta perspectiva, de que modo você pensa a crescente demanda de movimen- ovimen-
tos ambientalistas? Para você, quais as relações entre esses movimentos, os critérios
ritérios
de sustentabilidade, a responsabilidade social e as organizações? Será que a conser-
nser-
vação da natureza pode trazer benefícios para a sociedade?
Observação: visite o tema 04 da nossa disciplina no AVA e veja interface
entre as organizações e o meio-ambiente.

A questão ambiental gerou uma preocupação nas populações a partir da II


Guerra Mundial, onde a tecnologia começou a demonstrar o seu poder de força
e destruição do ambiente natural e habitado, surgindo assim uma necessidade de
busca da sustentabilidade ambiental.
Neste sentido, as perspectivas sociais se concretizam em ações de
cunho responsáveis e refletidas sobre a questão ambiental, com a emer-
gência de debates entre os órgãos e setores públicos e privados na busca
de políticas de preservação do meio ambiente em todos os cantos do
mundo.

60 FTC EAD
Sustentabilidade significa sobrevivência, entendida como a perenidade dos empreendimentos hu-
manos e do planeta. Por isso, o desenvolvimento sustentável implica planejar e executar ações.
O desenvolvimento sustentável é um conceito que busca conciliar as necessidades econômicas, so-
ciais e ambientais sem comprometer o futuro de quaisquer dessas demandas como impulsor da inovação,
de novas tecnologias e da abertura de novos mercados, o desenvolvimento sustentável fortalece o modelo
empresarial atual baseado em ambiente de competitividade global.
A sustentabilidade vincula-se a produção e consumo, com forte ligação aos conceitos de auto-
sustentáveis, de forma a não comprometer as gerações futuras. A humanidade busca sempre uma forma
de lidar com a insegurança que a questão ambiental produz, pois o homem necessita viver sempre em
harmonia com a natureza.

CIENCIA, TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO

O QUE É CIÊNCIA?

A ciência é a base da qual emana a tecnologia que impulsiona a produção de bens, que, por sua vez,
gera a riqueza da nação e, conseqüentemente, a melhoria da qualidade de vida do cidadão.
O mundo da ciência e da tecnologia não é mais o mundo fechado das comunidades científicas e
técnicas, mas tampouco é uma arena disforme em que as questões de natureza científica e técnica são
decididas em assembléias, manifestações de rua e em passeatas.

Quando, ao procurarmos analisar a situação presente das ciências


no seu conjunto, olhamos para o passado, a primeira imagem é
talvez a de que os progressos científicos dos últimos trinta anos
são de tal ordem dramáticos que os séculos que nos precederam.
(SOUSA SANTOS, 1988)

Os cientistas se interessavam em difundir os princípios e os valores da ciência entre o público, atra-


vés das escolas e universidades, para garantir que as pessoas possam entender e apreciar a importância de
seu trabalho, mas não o suficiente para fazer com que todos participem da mesma forma, dos trabalhos
e das decisões relativas à produção do conhecimento científico e tecnológico.
O processo de valorização ética do conhecimento científico, tecnológico e inovador fizeram parte,
historicamente, de um processo muito mais amplo de constituição das sociedades modernas.
A ciência é um mundo de idéias em movimento para a produção de conhecimento derivado das
experiências dos cientistas. É na formulação de hipóteses que o cientista usa imaginação e trilha um ca-
minho próprio quando exerce a crítica e a experimentação.
A atividade científica busca soluções ao confrontar, o que poderia ser feito com aquilo que é a
principal realização do mundo atual e, talvez mais do que qualquer outra atividade, distingue este século
dos demais.
Ciência, tecnologia e desenvolvimento estão inseridas em modos de visão de mundo que se identi-
ficam entre si, para o progresso de um País.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 61


Participe do nosso Fórum!
O cientista não é mais o produto de uma história social, técnica,
econômica, política como qualquer ser humano. Ele tira partido ativo
dos recursos desse ambiente para fazer prevalecer suas teses e ele escon-
de suas estratégias sob a máscara da objetividade. (STENGERS, 2002).
A citação acima evidencia o posicionamento de Stengers sobre o cientista no con-
texto da atualidade. Tendo-a por referência, o que você pensa sobre ciência, tecnologia
e desenvolvimento humano no mundo do trabalho?
Visite nosso Fórum e mantenha diálogos sobre essa questão com nossa equipe e
com seus colegas!

O papel da ciência é evidenciado no balanço e análises das perspectivas e dos desafios que a huma-
nidade enfrentará no limiar do século XXI, tendo em vista o ciclo econômico e tecnológico que instigou
reflexões sobre o futuro.
Segundo Bursztyn (2001) o papel da ciência e tecnologia busca mudanças de conduta para a reso-
lução das cinco categorias de impasses:
1. A consciência das possibilidades reais que a humanidade possa se autodestruir, pelo uso de suas
próprias invenções;
2. A consciência do fim dos recursos naturais, como exemplo, a escassez de águas;
3. A consciência de que é preciso agir com cautela e considerar aspectos éticos da produção de
conhecimentos científicos e, sobretudo, do desenvolvimento de tecnologias;
4. A consciência de que mesmo não tendo resolvido a necessária solidariedade entre grupos sociais
e povos, é preciso que se considere também o princípio da solidariedade em relação a futuras gerações
(ética da sustentabilidade)
5. A consciência de que, na medida em que nossas sociedades vão ficando mais complexas, é pre-
ciso mais ação reguladora, o que normalmente se dá pelo poder público.

CONCEITO DE TECNOLOGIA

A tecnologia é um grande parceiro da ciência, pois tem fundamental importância no fomento as


atividades científicas, no desenvolvimento de teorias, teses, regras e fatos que comprovem a realização
dos procedimentos e atividades instituídas pelos pesquisadores e cientistas. A transformação do conheci-
mento em riqueza é o grande desafio dos cientistas no desenvolvimento de novas tecnologias e processos
produtivos.
O conhecimento, a interpretação, o estudo da técnica e as suas variáveis são vistos como cotidiano
para as pessoas que vivem no mundo da informação, sendo que ciência e tecnologia são equivalentes e
complementares, com sentidos e significados diferentes.

62 FTC EAD
Para refletir...
Qual a importância, para homens e mulheres, da tecnologia? Como poderíamos viver sem o
telefone, o computador e a luz elétrica? Por que estas e outras invenções tecnológicas revoluciona-
ram o mundo?

A tecnologia é algo que surge para melhorar a ciência, dando formas, conteúdos e avanços para os
inventos e criações desenvolvidos pelos cientistas e pesquisadores. O conceito de tecnologia é bastante
amplo, pois envolve tudo aquilo que o ser humano inventa e que não exista na natureza.
Neste contexto, podemos visualizar que os procedimentos, métodos e técnicas constituem as fer-
ramentas que compõem a tecnologia, acrescentando o uso da lógica e da linguagem, que podem ser a fala
e a escrita.

Você sabia que a tecnologia tem grande


importância na educação e, portanto, na
formação do profissional contemporâneo?

As grandes revoluções tecnológicas tiveram enorme influência na educação, sendo que podemos
destacar:
a) A invenção da fala que permitiu a educação em forma de diálogo pessoal e individual. O
principal educador que representou esse estágio da tecnologia foi Sócrates.
b) A invenção da escrita alfabética representando os sons e permitindo o aparecimento da
correspondência e do livro manuscrito e com isso, o surgimento da educação à distância.
c) A invenção da impressão topográfica que permitiu a criação do livro impresso, criando
condições para a educação em massa e para o desenvolvimento da escola moderna.
d) A invenção do computador e da era da comunicação digital, permitindo a criação e apa-
recimento da internet e dos conteúdos multimídias, fazendo com que as pessoas atuem em um
ambiente de interação que incorpora som, texto e imagem, permitindo a educação presencial e a
distância seja personalizada e individual e também para a comunidade em geral.

A conceituação de tecnologia é muito mais ampla, pois sempre que uma nova tecnologia aparece,
acaba produzindo transformações técnicas e mudanças sociais. Etimologicamente, em um sentido geral,
pode-se dizer que tecnologia é o estudo da técnica. O termo tecnologia tem origem grega, onde “techne”
significa técnica e “logos” representa estudo e reflexão.
O sentido de tecnologia evoluiu e passou também designar o estudo e os produtos da técnica, sen-
do utilizado para designar as tecnologias digitais e tecnologias de informática.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 63


DEFINIÇÃO DE DESENVOLVIMENTO

O desenvolvimento em seu sentido mais amplo deve ser definido como uma significativa mudança
qualitativa, que cria um processo complexo e com muita diversidade de mudanças e transformações de
ordem econômica, política e principalmente humana e social.
O debate sobre o conceito de desenvolvimento ocorre em abundância no meio acadêmico, princi-
palmente quanto à distinção entre desenvolvimento e crescimento econômico, pois a maioria dos autores
atribui apenas os incrementos constantes no nível de renda como condição para se chegar ao desenvolvi-
mento, sem, no entanto, se preocupar como tais incrementos são distribuídos e implementados.
O desenvolvimento deve resultar do crescimento econômico acompanhado de melhoria na quali-
dade de vida, ou seja, deve incluir as composições de produtos, e alocação de recursos para a economia
que resulta em um processo complexo de mudanças e transformações de ordem econômica, política e
principalmente, humana e social.

O conceito de desenvolvimento é definido em metas de longo


prazo inspirado nas metas de uma sociedade, com modelos pré-
determinados em torno das pessoas e de modo a identificar e de-
terminar um modelo de satisfação das necessidades do ser huma-
no, que são: saúde, educação, habitação, transporte, alimentação,
lazer, dentre outras.

A partir destes conceitos, o desenvolvimento deve ser entendido como resultado do processo de
crescimento, que atinge a maturidade quando se torna auto-sustentável, com uma capacidade de cresci-
mento contínua.
Neste sentido, a discussão sobre desenvolvimento humano e social acende o dialogo sobre o de-
senvolvimento, com questionamentos em torno das finalidades do crescimento econômico. O desenvol-
vimento é um processo gradativo que conduz ao conhecimento de si próprio e à plena realização de suas
potencialidades, com uma dinâmica de melhoria que implica uma mudança, uma evolução, crescimento
e avanço.
Segundo Sarewitz (1996), a concepção idealizada da ciência, tecnologia e do desenvolvimento são
baseados em cinco mitos, que são:

1. O mito do benefício infinito, fundamentado na crença de que mais ciência e mais tecnologia
inevitavelmente levariam a um aumento do bem-estar da sociedade;
2. O mito da pesquisa livre, segundo o qual qualquer linha de pesquisa razoável voltada para a
compreensão de processos fundamentais da natureza renderá benefícios para a sociedade, como qualquer
outra pesquisa científica;
3. O mito da responsabilidade, de acordo com o qual os mecanismos de controle da qualidade da
pesquisa científica (tais como revisão por pares e a fidelidade ao método científico, por exemplo) conte-
riam as principais responsabilidades éticas do sistema de pesquisa;
4. O mito da autoridade, atrelado à concepção de que a informação científica oferece uma base
estritamente objetiva para a resolução de disputas políticas
5. O mito da autonomia, referente à idéia de que o conhecimento gerado na “fronteira” da ciência
seria autônomo em relação a suas conseqüências práticas e morais junto à sociedade.

64 FTC EAD
De fato, a visão comum é que a ciência, tecnologia são fatores primordiais para o desenvolvimento
humano, como forças positivas e instrumentos que celebram a submissão da natureza ao gênio humano
e importantes para o progresso da humanidade.

DO PLURALISMO DE INTERESSES SOCIAIS


A PRÁTICA DO DIÁLOGO

O pluralismo torna-se adequado a situações onde os indivíduos apresentam razões que supõe va-
lores diferenciados e que partilham elementos comuns e que determinam se os indivíduos podem chegar
a um acordo que seja favorável a todos.
O pluralismo persiste na idéia de posição contraria a realidade, com pontos de vistas definidos so-
bre Estado e tomada de decisão, com prioridade para o papel do indivíduo.
A psicologia, a filosofia e a sociologia constituem um aspecto importante, pois os grandes psicó-
logos, filósofos e sociólogos que estudaram as relações sociais tiveram influência na formação do ser
humano ético e profissional.
No pluralismo, as decisões tomadas dependem dos Estados e de outros envolvidos, que levam em
consideração aspectos como cultura, sociedades, a prática do diálogo, com uma análise que depende da
questão e da importância dentro do contexto dos interesses sociais.
O diálogo é entendido como o falar alternadamente, o trocar idéias, o compartilhamento de ex-
periências e informações. Para que o diálogo ocorra, são necessárias condições específicas. É preciso
conhecer o proposto, é também fundamental que a disposição à aprendizagem e construção contínua de
saberes.
As mudanças que o pluralismo determinam são transferências de parte da soberania entre o estado
e as organizações que adquirem características próprias. Reflete nos aspectos sociais e nos valores or-
ganizacionais como forma de regulação das atividades e na extinção de conflitos que existem por serem
indivíduos com personalidades distintas e próprias que formam uma organização.
O pluralismo tem sua origem no período moderno e desenvolveu-se no pós-moderno, onde a cul-
tura ocidental aceitou as idéias utilizadas e alcançou diversas formas:

1. Pluralismo intelectual onde todas as pessoas podem ter suas idéias com respeito aos textos lidos,
onde ninguém pode requerer exclusividade na verdade de sua interpretação.
2. Pluralismo religioso tornou-se vigente na pós-modernidade onde foram baseados na filosofia e
na teologia, onde não existe uma verdade absoluta.
3. Pluralismo teológico baseados nos pressupostos da teoria cristã, onde pode-se supor a existência
de um ser superior, sendo Deus ou Cristo.

O pluralismo de interesses e concepções é estimulado por meio de práticas sociais e favorece à


construção, mediante o diálogo de novas reflexões e conhecimentos acerca de própria experiência e das
experiências do demais seres humanos.
O objetivo maior do pluralismo de interesses é estimular o diálogo como necessidade estratégica e
prática, respeitando a diversidade dos vários segmentos sociais e com visões e percepções diferentes de
mundo, mas que estejam integrados por meio dos valores e princípios que norteiam as práticas sociais a
que estejam vinculados.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 65


Para ressignificar o diálogo e entender sua importância, fator primordial para a idéia de comunidade
que deverá ser constituída ou construída a partir de um novo tipo de relação entre as pessoas, é possível
partir de uma idéia que podemos chamar de cotidiano, significando, com isso, que cada ser humano pelo
simples fato de existir, depara-se com o mundo, criando correlações que irão caracterizar seu próprio
modo de ser e viver.

Um diálogo é, para nós, aquilo que deixou uma marca. O que


U
perfaz um verdadeiro diálogo não é termos experimentado
p
algo de novo, mas termos encontrado no outro algo que ain-
a
da não havíamos encontrado em nossa própria experiência
d
de mundo.
d
(GADAMER, 2002, P.247)

As práticas sociais foram criadas pelas empresas e ONGs para atender a população marcada pela
desigualdade social, privilegiando o segmento mais vulnerável desse universo social: a infância e a ado-
lescência que foram destituídas de seus direitos e contribuir para a construção de novas metodologias e
articulação política com outros programas e projetos voltados para a promoção dos direitos humanos.

Você sabe o que significa ONGs?


As organizações não-governamentais ou simplesmente ONGs são organizações
formais, privadas, sem fins lucrativos, auto-governadas e com participação de
parte de seus membros como voluntários com o objetivo de realização de prá-
ticas sociais.

Os modelos utilizados para avaliar programas sociais, seja de cunho governamentais, sejam de ONGs,
sofrem críticas, principalmente pelo baixo grau de relevância e de utilidade das informações geradas, que,
normalmente, não respondem satisfatoriamente às necessidades dos agentes sociais envolvidos.
Neste sentido, o diálogo das empresas com o Estado visando à elaboração teórica e a prática de
propostas de atendimento a populações em estado de carência e extrema pobreza podem refletir na busca
de soluções para as desigualdades e o diálogo pode ser determinante para o sucesso desse desafio.

ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA

A ética em uma forma simplificada pode ser definida como um ramo da filosofia que lida com o
que moralmente denominamos de bom ou mau, certo ou errado. A palavra ética vem do grego ethos,
que significa costume, modo de agir. O uso popular proporcionou diferentes significados, sendo que o
que mais é mencionado diz respeito aos princípios de conduta das pessoas em geral.
Segundo Lisboa (1997) os filósofos referem-se a ética para denotar estudo teórico dos padrões de
julgamentos morais, inerentes às decisões de cunho moral, conforme você estudou no Tema 01 da nos-
sa disciplina no AVA. Correlacionado à questão da responsabilidade, as observações que são feitas não
pretendem converter os agentes sociais em indivíduos éticos, mas determinar as posições ideológicas e
filosóficas que se remetem os seres humanos.
A ética pode ser definida como a teoria, o conhecimento ou a ciência do comportamento moral, que pretende
explicar, compreender, justificar e criticar a moral de uma sociedade, dentro de um contexto filosófico e científico.

66 FTC EAD
A convivência é indispensável para a nossa vida! Somos seres
da e para a relação, conforme visto no Tema 02, ao estudarmos
sobre pessoa relacional/potencial.
Nas relações com outras pessoas surgem problemas e indaga-
ções morais, tais como:
O que devo fazer?
Como agir em determinada situação?
Como comportar-me perante o colega?
Como ser ético profissionalmente?

São estas perguntas que afligem as pessoas, pois na nossa vida encontramos situações que nos co-
locam problemas éticos. São os problemas práticos e concretos da nossa vida em sociedade e em grupos,
que dizem respeito às nossas decisões, escolhas, ações e comportamentos.
O contexto atual determina as ações executadas pelas pessoas em seu cotidiano e com isso, a
questão da ética é levada para o contexto empresarial, onde existem maiores responsabilidades e maior
pressão em função da necessidade da transparência nas informações que são repassadas, a fidedignidade
dos dados e a responsabilidade solidária que envolve todos os agentes da organização.
A idéia de responsabilidade solidária incorpora-se a questão dos negócios, pois em função da cria-
tividade existente e dos recursos humanos e financeiros existentes, as organizações tem uma importante
responsabilidade social.
Com o surgimento de novas demandas e maior pressão por transparência nos negócios, as empre-
sas são forçadas a adotar uma postura mais responsável em suas ações, o que ainda cria muita confusão
com relação ao conceito de filantropia.
As ações de responsabilidade solidária das empresas não cuidam apenas do bem estar social e da
coletividade, mas envolve uma melhora nos negócios e a busca continua pelos lucros, o que gera muita
competição entre as empresas.

Como podemos observar, a moral do sistema capitalista se opõe


a uma ética da responsabilidade por não considerar os efeitos de
suas ações sobre outros seres humanos, ou só levar em conta o
seu mundo e interesse particular, desconsiderando a maioria dos
que estão fora dele.
(SUNG, SILVA, 2004)

As buscas da responsabilidade social das empresas seguem as seguintes características básicas:


1. Pluralidade: As empresas devem informações satisfações para os acionistas, para a mídia, ao go-
verno, ao setor não-governamental e ambiental e também para a comunidade a sua volta.
2. Distribuição: A responsabilidade social na empresa se aplica a toda a cadeia produtiva, onde
o produto final deve ser avaliado por fatores ambientais ou sociais, e ser difundido durante o processo
produtivo, onde os consumidores e as empresas devem seguir os seus códigos de ética utilizados nos
processos produtivos.
3. Sustentabilidade: A responsabilidade social é parceira do desenvolvimento sustentável, pois o
mesmo não só se refere ao ambiente, promove a imagem da empresa e leva ao crescimento orientado,
possibilitando a prevenção de riscos como processos judiciais e impactos ambientais.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 67


4. Transparência: O mundo globalizado demanda por transparência e as empresas são obrigadas a
divulgar sua performance social e ambiental, os impactos de suas atividades e as medidas tomadas para
prevenção ou compensação de acidentes.
As empresas adquirem importância social quando ocorre a inclusão de novos parceiros em seus
processos decisórios. Um diálogo mais participativo não apenas representa uma mudança de comporta-
mento da empresa, mas também significa maior legitimidade social, esta é buscada, por exemplo, median-
te códigos de ética que, conforme Lopes de Sá (2004, p.123) derivam “de critérios de condutas de um
indivíduo perante seu grupo e o todo social”.

No AVA da nossa disciplina você encontra a temática


“Códigos de Ética”, aprecie e bom estudo!!!

O tema responsabilidade solidária tem estado presente, nos últimos tempos, na maioria dos debates
sobre a atuação tanto de empresas privadas, quanto de empresas públicas e também das organizações
do terceiro setor. Diante do agravamento de problemas sócio-ambientais, o tema surge da constatação
de que todos esses atores devem assumir responsabilidades pelos impactos gerados por suas atividades,
buscando minimizar ou eliminar seus efeitos negativos diretos e indiretos.
O tema responsabilidade social tem estado presente, nos últimos tempos, na maioria dos debates
sobre a atuação tanto de empresas privadas, quanto de empresas públicas e também das organizações
do terceiro setor. Diante do agravamento de problemas sócio-ambientais, o tema surge da constatação
de que todos esses atores devem assumir responsabilidades pelos impactos gerados por suas atividades,
buscando minimizar ou eliminar seus efeitos negativos diretos e indiretos.

Ser solidário significa se colocar no lugar pelo outro, daqueles que


são as maiores vítimas dos processos sociais de exclusão, as mino-
rias étnicas, as mulheres, os pobres, as gerações futuras e a natu-
reza que também é vítima da ação humana.
(SUNG. SILVA, 1995)

Uma ação de solidariedade significa uma ação de coletividade que atua em defesa dos mais neces-
sitados, baseados em uma nova ética social, a ética solidária.
A responsabilidade social tem como foco principal a cadeia de negócios da empresa cuja deman-
da e necessidade a empresa deve buscar entender e incorporar aos negócios. Neste caso, a responsa-
bilidade social é, antes de tudo, uma forma de gestão que leva em consideração aspectos econômicos,
ambientais e sociais e que se pauta na ética, transparência e moralidade com todos os seus públicos de
relacionamento.

Para refletir...
A ética relaciona-se com a questão existencial, onde as pessoas são questionadas todos os
dias sobre o que fazer e como fazer. Tudo isto tem a ver com o verdadeiro significado da vida.
Lembrando que a indignação ética, conforme visto no Tema 03 da nossa disciplina, corresponde
ao questionamento entre o “ser” e o “dever-ser”, qual a importância dessa atitude no contexto
organizacional?

68 FTC EAD
A responsabilidade social deve estar integrada, como base de todas as práticas da empresa e dire-
tamente relacionada ao seu planejamento estratégico, pois para o sucesso no futuro deve estar focada de
maneira firme e de socialmente responsável.
A responsabilidade solidária se define pela relação ética e transparente com todos os públicos
com os quais ela se relaciona com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos
ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das
desigualdades sociais.

Você sabia....
Que responsabilidade solidária é definida por lei específica que determina que uma pessoa
deve responder pelos atos de outra em igual intensidade?

A partir desta definição acredita-se que as práticas e as atividades desempenhadas pelas pessoas de-
vem ser pautadas na ética e com responsabilidade, pois os dilemas e questionamentos surgem diariamente
e a ética deve estar presente em todos os momentos para garantir que a honestidade, a justiça, o respeito
pelos outros tornem-se hábitos que devem transcender as gerações futuras.

Atividade Complementar
1. Realize uma pesquisa sobre os critérios de sustentabilidade, considerando o compromisso social
das empresas, e produza uma redação identificando possíveis soluções para os problemas ambientais no
Brasil.

2. Reflita sobre os benefícios que a ciência e a tecnologia podem trazer para as pessoas e elabore
um quadro comparativo sobre as vantagens e desvantagens do avanço tecnológico para o mundo do
trabalho.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 69


3. Em breves palavras, como seria a sua vida sem a tecnologia? Como você percebe a questão da
inclusão digital na contemporaneidade?

4. Quais as condições específicas para que o diálogo ocorra com qualidade, possibilitanto a supe-
ração de conflitos?

5. Na sua opinião, qual a importância da ética para o desenvolvimento humano no mundo do tra-
balho? Comente a importancia da ação ética em seu dia a dia.

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Glossário

▄ ABSTRACIONAL – Relativo à ação de separar mentalmente para tomar em consideração (uma


propriedade que não pode ter existência fora do todo concreto ou intuitivo em que aparece).
▄ ALEGORIA DA CAVERNA – Também conhecida por Mito da Caverna, é a narrativa elaborada
por Platão para ilustrar a Teoria das Idéias que corresponde ao dualismo platônico ou, a divisão
entre o mundo sensível e o mundo inteligível.
▄ ALTERIDADE – Qualidade do que é outro.
▄ CLÉRIGO – Indivíduo que faz parte do clero e podem exercer funções sacerdotais.
▄ COEXISTÊNCIA – existir simultaneamente.
▄ DESENVOLVIMENTO – Prosperar, produzir, crescer e progredir algo que esteja realizando.
▄ DIVERSIDADE – Significa variado, mudado, alterado, divergente e discordante.
▄ ETIMOLOGICAMENTE – Em conformidade com a etimologia. Por etimologia entende-se a
parte da gramática que trata da origem e formação das palavras.
▄ FORDISMO – Modelo de produção em série idealizado por Henry Ford (1863-1947).
▄ IDIOSSINCRASIA – Do gr. idiossynkrasía. Disposição do temperamento do indivíduo, que o faz
reagir de maneira muito pessoal à ação dos agentes externos. Maneira de ver, sentir, reagir, própria
de cada pessoa.
▄ LEGITIMAR – Tornar legítimo, autêntico, em conformidade com a lei.
▄ ORDINÁRIO – Do lat. ordinariu. Que está na ordem usual das coisas; habitual, useiro, comum,
corriqueiro, trivial, prosaico.
▄ REIFICAÇÃO – Significa coisificação e corresponde ao modo de reduzir o ser humano à coisa
que produz, desapropriando-o dos aspectos pessoais, coisificando-o e/ou transformando-o em
mercadoria.
▄ TAYLORISMO – Modelo de administração científica do trabalho, idealizado por Frederick Wins-
low Taylor (1856-1915), junto ao fordismo, institui métodos de controle da produção objetivando
produzir cada vez mais em tempo cada vez menor.
▄ TEMPO ÚTIL – Noção de tempo instituída pela ordem burguesa, significa o tempo da produção,
de modo que uma espécie de “relógio moral” interno reconhece com útil apenas o tempo destina-
do ao trabalho.
▄ TERCEIRO SETOR – Corresponde as organizações não-governamentais, chamadas de ONGs.
▄ TRANSCENDER – Ir além do que está posto.

FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 71


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FILOSOFIA, ÉTICA E O MUNDO DO TRABALHO 73


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