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TIPOS TITON

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A formação do ' ycaià ni ax iv ixAexxârv xleov y.<
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Novo , fjv inri yyei Aax o & áy evò rjç


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Testamento axà xoivryv niaxiv xágiçrxai


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Oscar Cullma nn iov xáçiv rdn éAmó v oe èv Kq


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Esc rit o por um famoso bibli sta , e st e livro tom <,n,iir*i ■!>* 'ttp
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introdução: na primeira parte, expõe a história cl.t lummc.Au
do texto do NT. Na segunda, apresenta, livro a livro, dniloi xai nagaxa
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sobre o autor e a srcem, bem como um resumo da mnr.ayrm ol èx °X7)Ç nsçixofi
ess enc ial de cada es cri to, além de outras peculiar l<l.i<l«*% u .
terceira parte, aborda a questão da formação doc.iimiir uni
te st am en tá ri o, c oncl uin do com reflex õe s sobre ,i «
■•.•.«•tu In
A formação do
comum do pensamento teológico do NT.
Trata-se de uma obra excelente para o/a estudante de
Teologia, pois fornece uma primeira visão geral da problrmál i
ca da formação do NT. Para qualquer pes soa que quoii.t <-.in
Novo
dar a Bíblia, oferece o rientação clara e sólida para compn-ni
der a mensagem e as particularidades de cada escrito nc*oi<-,
tamentário.
Testamento
Recomendamos também:
Oscar Cullmann
A FORMAÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO
Rolf Rendtorff

ISBN 978 8') 7II llll/f, II

Editora
a
Edição
SlNODAL 9 788523 SlNODAL revista
Oscar Cul lman n

A FORMAÇÃO DO
NOVO TESTAMENTO

13a ediç ão
revista

FAC U LD AD ES

Editora

SlNODAL
2015
Traduzido do srcinal francês “ Le Nouveau Testament" da série “Que sais-je?”, Le
Point des Connaissances Actuelles N° 1231, © P resses Universitaires de France

Os direitos desta edição pertencem à


ÍNDICE
EDITORA SINODAL
Caixa Postal 11
93001-970 - São Leopoldo/RS
Fone: (51)3037-2366
editora@editorasinodal.com.br
www.editorasinodal.com.br Introdução................................................................................................................5
Capa: Editora Sinodal PRIMEIRA PARTE
Tradução: Bertoldo Weber História do texto do Novo Testamento..................................................................
7
Revisão: Rui Bender

Coordenação editorial: Luís M. Sander Capítulo 1


Os documentos de base..........................................................................................7
Os manuscritos....................................................................................................8
Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/ Programa
de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST da Igreja Evangélica de As traduçõ es.................... .......................... .......................... .......................... .... 10
Confissão Luterana no Brasil (IECLB). As cita çõe s.................... .......................... ........................... .......................... ..... 11
Tel.: (51)2111 1400 Fax: (51)2111 1411
est@est.edu.br www.est.edu.br Capítulo 2
Classificação dos documentos de base:.............................. .......................... .......... 12
CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO As “famílias de textos”
Bibliotecária responsável: Rosemarie B. dos Santos CRB 10/797
Capítulo 3
C96 7f Cullmann, Oscar História do texto impresso....................................................................................13
A formação do Novo Testamento /
Oscar Cullmann ; tradução de Bertoldo SEGUNDA PARTE
Weber. - 13. ed. rev. - São Leopoldo : Os escritos do Novo Testamento.......................... .......................... ........................ 15
Sinodal, 2015.
95p. Capítulo 1
Os escritos narrativos......................................................................................... 15
Título srcinal: Le Nouveau 1 - O Evan gelho e os evangelhos .................................................................
15
Testament 2 - 0 Evangelho segundo Mateus.... ......................... 20
3 - O Evangelho segundo Marcos...... .......................... .......................... ........23
ISBN 85-233-0026-0 4 - O Evangelho segundo Lucas..................... .......................... ...................... 27
5 - O Evangelho segundo João .......................... .......................... ................... 31
I.Bíblia. 2.Novo Testamento. I. Título. 6 - O s Atos dos Após tolos.. .......................... .......................... ........................ 37

CDU22
225
Capítulo 2
O Corpus paulino.... ............................. ............................. ............................. ... 40
Cronologia paulina............... ............................. ............................. ....................... 40
1 - As primeiras epístolas ........................... ............................. ................... 41 Introdução
2 - As grandes epístolas....................... ............................ ........................... 44
3 - As epístolas do cativei ro................. ............................. ......................... 53 Em toda a literatura do cristianismo primitivo, 27 livros ocupam um
4 - As epístolas pastorais........... ............................. ............................. ........61 lugar privilegiado. Esses se impuseram às primeiras gerações cristãs (muito
mais do que foram por elas escolhidos) e foram, pouco a pouco, reunidos,
Capítulo 3 classificados nu ma coleção e considerad os Escritura Sa grad a1. Os cristãos
A Carta aos Hebreus..............................................................................................
66 já dispunha m de uma Escritura Sagrada: a Bíblia herdad a do judaís mo.
Chamaram-na, mais tarde, de “Antigo Testamento” para lhe juntar os 27
Capítulo 4 livros novos que tomaram o nome de “Novo Testamento”.
As epístolas católicas............................................................................................69 Esse Novo Testamento é que estudaremos na presente obra. Sem negar o
1 - A Carta de Tia go.. ............................. ............................ ........................... 70 interesse real que apresenta toda a literatura dos primeiros tempos do cristia
2 - A Primeira Carta de Pedro....................................................................... 73 nismo, é evidente que esses 27 escritos devem ser estudados à parte, nem
3 - A Carta de Judas..................... ............................. ............................. ........
77 que fosse em razão do papel excepcional que representaram e continuam
4 - A Segunda Carta de Ped ro.......... ............................ .............................79 .... representando na história da igreja, bem como na história do mundo.
5 - As três Cartas de João ......................... ............................. ........................ 81 O Novo Testamento não somente foi a regra de fé dos cristãos, não so
mente inspirou e ainda inspira vidas heróicas, célebres ou desconhecidas,
Capítulo 5 como também determinou civilizações inteiras em sua ética, individual e
O Apocalipse......................................................................................................84 social, em sua literatura e sua arte.

TERCEIRA PARTE
A formação do cânone do Novo Testamento............................... ......................... 89

Conclusão..............................................................................................................
93

1 Cf. a terceira parte: “A formação do cânone do Novo Testame nto”

4 5
I

História do texto do Novo Testamento

O leitor que hoje em dia folheia as páginas do Novo Testamento, numa


das edições modernas da Bíblia, encontra um texto que está claro, tanto
do ponto de vista tipográfico como do ponto de vista do estilo, e não pode
dar-se conta da diversidade e complexidade dos documentos que formam a
base do texto im presso, nem das en ormes d ificuldade s vencida s no decorre r

da publicação, com a decifração e apr eciação desses documentos de base.

Capítulo 1

Os documentos de base

Não temos documento ori ginal do Novo Testamento, mas som ente cópias.
Os manuscritos completos mais antigos que possuímos não remontam além
do século IV. Deixando à parte fragmentos mais antigos, cerca de 300 anos,
portanto, separam a redação srcinal do tex to conse rvado.
Tal espaço de tempo poderia fazer-nos duvidar da autenticidade
estrita desses textos. De fato, de cópia em cópia, lograram introduzir-
-se deformações e impor-se erros. Contudo, não se deve esquecer que o
Novo Testamento , desde que foi reconh ecido como Sagra da Escritura,
foi recopiado com a minuciosidade escrupulosa que inspira o respeito
das coisas sagradas. Também é preciso considerar que a distância entre o

srcinal e o primeiro texto conservado é, abstraindo de fragmentos, muito


menor para os escritos do Novo Testamento do que para os outros escritos
da Antiguidade. Por exemplo, o m anuscrito mais antigo da obra de Esquilo
(525-456 a.C.) data apenas do ano 1000 aproximadamente.
As condições de transmissão do texto não são, portanto, tão desfavoráveis
quanto poderia parecer à primeira vista e não poderíam justificar um
ceticismo exagerado da parte dos historiadores.
Outro problema é avaliar a distância que separa a redação dos escritos do
Novo Testamen to dos aconteci mento s que eles testemu nham; tratarem os
disso na segunda parte desta obra, com referência a cada um desses 27 Os manuscritos em letras minúsculas (conhecemos hoje 2.570) datam no
escritos. C omeçaremos por uma classificação dos documentos de base. máximo do século IX. Entretanto, não devem ser negligenciados, porque
os copistas dos séculos IX, X, XI recopiavam possivelmente manuscritos
em maiúsculas muito mais antigos, que não possuímos mais. As edições
Os manuscritos críticas os assinalam por algarismos arábicos.
Todos esses manuscritos são bastante difíceis de ler. As palavras, as fra
Os manuscritos do Novo Testamento podem ser classificados segundo a ses e os parágrafos não são separados por espaço algum, e não encontramos
matéria que os compõe ou segundo os caracteres da escrita. Essa classifi nem acento tampouco sinal de pontuação.
cação ajuda a datá-los. Esses textos apresentam variantes entre si. Essas resultam ora de erros
Esses manuscritos são papiros ou pergaminhos. involuntários: o copista saltou uma palavra, ou, ao contrário, escreveu-a
Um papiro é constituído por tiras de medula do papiro (uma espécie de duas vezes em seguida, ou, ainda, toda uma parte de uma frase é omitida
caniço com caule triangular, da família das ciperáceas, da grossura de mais por descuid o, porque se achava colocada , no manuscr ito a ser recopiado,
ou menos um braço e de 2,5m a 5m de altura). Cortadas em finas talas e entre duas palavras idênticas. Ora se trata de correções voluntárias: ou o

colocadas em camadas
seguida, fixadas cruzadas,
umas após essase tiras
as outras formam
enroladas em folhas queuma
tomo de são,vara.
em O copista tomou
ou procurou a liberdade
harm onizar ode corrigir
texto que ocopiava
texto segundo
com um suastextoidéias pessoais,
paralelo2 , para
rolo assim formado se chama, em grego, de biblos (daí a palavra “Bíblia”) reduzir, mais ou menos habilmente, as divergências. A medida que os es
e pode ter até 1Om de comprimento. critos do Novo Testamento se destacarão do resto da literatura cristã pri
Os papiros do Novo Testamento são os mais antigos documentos de base mitiva e serão considerados Escritura Sagrada, os copistas hesitarão mais
que possuímos: em sua maioria datam do século III (um papiro descoberto em se permitir tais correções em seus predecessores: creem recopiar o
em 1935 deve até ser datado do começo do século II). Se bem que nos texto autêntico e fixarão assim as variantes. Ora, enfim, um copista anota o
transmitam apenas fragmentos de textos, esses documentos são testemunhas texto à margem para explicar uma passagem obscura. O copista seguinte,
preciosas do texto, jus tament e em razão de sua antiguidade. Eles existem pensan do que tal frase qu e ele acha escrita à margem fora e squec ida n essa
atualmente em númer o de 72, designados nas ediçõ es críticas por P1, P2etc. passagem por seu antecessor, julg a neces sário reintro duzir essa anotação
Um pergaminho é uma pele, ordinariamente de ovelha, cabra ou bezerro, marginal no texto. Assim acontece que o novo texto às vezes se toma mais
tratada e cortada em folhetos (a palavra “pergaminho” se srcinaria da cida obscuro ainda.
de de Pérgamo): esses são postos um em cima do outro para formar não um A apreciação das variantes é delicada. Um dos princípios norteadores
rolo, mas um volume (em grego: teuchos, donde vem a palavra “P entateuco” dessa avaliação é aquele da lectio tJifficilior, da leitura mais difícil: entre duas
para d esign ar os c inco primeiros livros do A ntigo Testamento). “versões” do mesmo texto, a versão mais difícil a admitir, seja por causa de
Os pergaminhos trazendo textos do Novo Testamento datam só do século sua forma gramatical irregular, seja por causa das idéias que exprime, tem
IV, no máximo, mas apresentam-nos geralmente textos completos do Novo probabilidade de ser a versão autêntica, pois as co rreções dos copistas vão
Testamento. O princípio e o fim do texto faltam às vezes, em consequência sempre no sentido de uma eliminação ou de uma redução dos elementos
da deterioração, fácil de imaginar, dos folhetos da capa. incompreensíveis, suspeitos ou chocantes do texto. Resta, enfim, a idade dos

Todos esses documentos estão escritos em grego, mas num grego que manuscritos, que igualmente intervém na apreciação das variantes.
não é mais o grego clássico: a morfologia é simplificada e deformada, a Seis manuscritos em maiúsculas são muito importantes: o Vaticanus
sintaxe é frequentemente irregular e o vocabulário evoluiu sob diversas (designado por “B” nas edições críticas), assim chamado porque é conser
influências, por exemplo, a da língua hebraica. (Esse grego, comumente vado na biblioteca do Vaticano. Com data do século IV, é o mais antigo
falado em todo o Império, é denominado koiué: língua comum). de todos os manuscritos sobre pergaminho. O Sinaiticus (designado por
Os manuscritos mais antigos do Novo Testamento são escritos em letras “8”), descoberto num convento do Sinai no século XIX, vendido em
maiusculas ou “unciais”. Atualmente seu número é de 242. As edições
críticas os designam por letras maiúsculas ou números precedidos por zero.
2 Sobretudo nos três primeiros eva ngelhos.

8 9
1933 pelo governo soviético ao British Museum em Londres, também também possuímos um bom número de manuscritos (cerca de 44) de tra
deve datar do século IV. O Alexandrinus (designado por “A”), trazido duções latinas anteriores a Vulgata e, portanto, mais preciosas do que essa,
da Alexandria à Inglaterra no século XVIII e igualmente conservado no às quais se deu o nome coletivo de Vetus ítala. (Nas edições críticas, elas
British Museum, data do século V. O Codex Ephrem (designado por “C”) são designadas com letras minúsculas.)
é um “palimpsesto”, o que quer dizer que o texto primitivo, um manuscrito As traduções siríacas devem seu interesse excepcional não somente à
do Novo Testamento, com data do século V, fo i apagado no século XII por idade antiga, mas ao fato de que o siríaco é uma língua próxima do aramaico
um copista que se serviu do pergaminho para nele copiar tratados de Efrem palestin ense, usado por Je sus e pelos que o cercavam . Divers os au tores do
da Síria. Felizmente, o texto primitivo não desapareceu inteiramente e Novo T estamento escrevera m em grego o que p ensavam em ar amaico, e as
ainda pode ser lido sob o texto medieval por olhos peritos (trabalho penoso, traduções siríacas podem ajudar-nos, em certos casos, a compreender me
facilitado hoje em dia pelos processos técnicos modernos). Esse manuscri lhor o que quiseram dizer. A tradução siríaca mais afamada é a Peschitta
to é conservado em Paris, na Biblioteca Nacional. Esses quatro primeiros (= simples) do século V (sigla: syp),mas são conhecidas também duas que,
manuscritos não diferem entre si a não ser em pormenores. sendo mais antigas, têm maior valor: Syra sinaítica (sys)e a Syra Cureton
Dois outros manuscritos (designados por “D”) apresentam, juntamente (syc)-
com os quatro precedentes, um grande número de variantes e Restam, enfim, as traduções coptas (o copta era a língua dos cristãos do
particu larmente notórias. Datam ambos do sécu lo VI. O prim eiro: o Codex Egito), dignas de grande atenção. Algumas dentre elas foram descobertas
Bezae Cantabrigiensis deve seu nome ao fato de ter pertencido, assim recentemente.
como, aliás, também o segundo, a Teodoro de Beza, amigo de Calvino, e
que, em 1581, seu proprietário ofertou a Cambridge. Escrito sobre duas
colunas, a primeira contendo o texto grego e a segunda a tradução latina, As citações
oferece somente os quatro evangelhos e o livro de Atos dos Apóstolos. Um
exemplo do interesse das variantes do Codex Cantabrigiensis é fornecido Um terceiro grupo de documentos é formado pelas citações do texto do
por aquela palavra de Jesus que só ess e manus crito traz: “No mesmo dia, Novo Testamen to, qu e estão esparsa s nos escritos dos Pais da Igreja. Raras
Jesus viu alguém que trabalhava no dia de sábado e disse-lhe: Homem, se no século II, seu número vai crescendo desde que o Novo Testamento,
tu sabes o que fazes, és bem-aventurado. Se não o sabes, és maldito e és reconhecido como Escritura Sagrada, impôs uma autoridade absoluta.
um transgressor da Lei!” (Lc 4.5). O segundo manuscrito, que contém as Essas citações, que têm a vantagem de nos indicar o lugar de difusão de
epístolas e é inteiramente semelhante àquele de Cambridge, tira seu nome tal forma do texto, devem, no entanto, ser manejadas com precaução num
do lugar de seu descobrimento: Clermont. O Codex Claromontanus é trabalho crítico. Quando, efetivamente, uma citação feita por um Pai da
conservado hoje na B iblioteca Nacional de Paris . Igreja difere do texto do Novo Testamento em uso no país onde esse vive,
essa diferença não indica forçosamente uma verdadeira variante, testemu
nha de um manuscrito que nos seria desconhecido, mas pode simplesmente
As traduções vir de uma citação feita de memória.

Vem a seguir uma série de documentos, constituída pelas antigas tradu


ções. Elas apresentam a grande vantagem de ser mais antigas do que os
manuscritos gregos que possuímos. De fato, certas traduções que datam
do século II foram feitas com base em manuscritos hoje perdidos e mais
antigos do que aqueles que acabamos de mencionar. Elas estão, portanto,
cronologicamente mais próximas do srcinal do que esses.
Uma tradução bem conhecida no Ocidente é a tradução latina, feita
por São Jerôn imo no século IV, que se cham a Vulgata. Mas, além disso,

10 11
Capítulo 2 Capítulo 3

Classificação dos documentos de base: História do texto impresso

As “famílias de textos” O Novo Testamento esteve entre os primeiros livros impressos. Uma
das duas primeiras edições do texto grego é devida à iniciativa do cardeal
Ximenes, arcebispo de Toledo, falecido em 1517, que fez imprimir em
Confrontando o conjunto dos documentos que acabamos de enumerar, os Alcala (cujo nome latino é Complutum) uma Bíblia poliglota. Nessa
críticos que, a partir do século XIX, se ocupam com este gênero de pesquisas3 Bíblia, chamada Complutensis, que deveria aparecer somente em 1520,
constataram que as mesmas variantes se reproduzem em toda uma série de o Novo Testamento grego, acabado e impresso desde 1514, ocupava o
manuscritos, de idade e procedência bem diversas. Era, pois, necessário tomo V. E difícil dizer de acordo com quais manuscritos esse texto foi
supor que esses manuscritos derivassem de um tipo comum. Dessa maneira estabelecido.
podem se e stabelecer diversas famílias de textos, obten do as seg uintes: O humanista Erasmo (1466-1536) fora solicitado, desde 1515, pelo
1) O texto chamado siríaco, representado pela grande maioria dos ma tipógrafo de Basiléia, Froben, a preparar, para fins de publicação, um
nuscritos antigos. Esse texto muito adulterado, resultado das revisões de texto grego do Novo Testamento. Froben queria ganhar por rapidez da
um texto mais antigo, é o pior de todos. Largamente difundido na Europa edição da Bíblia de Alcala; assim o trabalho de Erasmo, publicado desde
a partir do século XVI graças à imprensa, ele veio a ser, em toda a parte, o 1516, foi precipitado e mal executado: o humanista usou manuscritos de
texto “recebido” (textus receptus)4. má qualidade (minúsculos de pouca idade, texto siríaco) do século XI ou
2) O texto chamado ocidental, cujo nome não é inteiramente correto5, XII, conservados em Basiléia. As edições posteriores foram ligeiramente
é srcinário da região da Antioquia. A partir dali, já antes do século III, corrigidas, mas sem alcançar um verdadeiro valor científico6.
atravessou, sem dúvida, toda a cristandade, seguindo as estradas comerciais Sobre a base do texto de Erasmo, comparado com a Complutensis e
para fixar-se no Ociden te, notada mente em Roma, onde era conh ecido de uma quinzena de manuscritos, entre os quais o Codex Cantabrigiensis,
Justino Mártir, em Lião, para onde foi levado por Irineu, e na África. O os tipógrafos Roberto Estienne (1503-1559) e seu filho Henrique (1528-
Codex Cantabrigiensis,o Codex Claromontanus,versões latinas de Pais
1578) publicaram quatro edições do Novo Testamento grego: 1546,
ocidentais são as testemunhas mais representativas dessa família. Apesar 1549, 1550, 1551. E nessa última edição que aparece, pela primeira
de uma certa tendência à paráfrase secundária, não devem ser eliminados vez, a divisão dos capítulos em versículos7. Esse texto, defeituoso,
quando se trata de estabelecer o texto primitivo. serviu como base para todas as edições impressas posteriores ao século
3) O texto chamado neutro,assim denominado porque ele se conservou XVI, por exemplo as nove edições publicadas por Teodoro de Beza
relativamente independente das alterações posteriores e caracteriza-se por (1519-1605), cuja primeira data de 1565. E é esse mesmo texto que foi
uma pureza bastante grande. É representado, sobretudo, pelo Vaticanus usado de novo no século XVII pelos irmãos tipógrafos Elzevir. Graças
e pelo Sinaiticus. Durante sua estada em Alexandria, ele sofreu retoques ao prestígio desses, foi largamente difundido até vir a ser o “texto
no sentido de uma maior correção para dar srcem ao texto chamado recebido”8, cuja autoridade injustificada fez surgir o ditado: Textus
“alexandrino”, que apenas é uma variante do neutro. receptus sed nort recipiendus.
Se bem que essa classificação nos permita formar um juízo a priori sobre Será preciso ir até o começo do século XX para ver aparecerem edições
o valor das variantes, cada caso deve ser objeto de um exame particular, que aplicam um método crítico, o qual presta contas da história do texto
que deve levar em conta o conjunto das variantes. e das relações das diversas famílias de manuscritos entre si. Esse método

6 Lutero traduziu o Novo Testamento de acordo com uma reimpressão da 2* edição de 1519.
3 Ver págs. 13-14 7 A divisão do texto em capítulos remonta ao século XI II.
4 Ver “História do texto impresso”, p. 13 . 8 Esse nome tem por srcem o prefácio à 2“edição, ed. Elzevir, onde se pode ler “agora tens
5 Talvez se poderia chamá-lo de texto “siro-latino" por causa de sua srcem e sua d ifusão. o texto recebido por todos”.

12 13
foi inaugurado após os trabalhos preparatórios de Simon (+1712), Bengel
(+1752) e Wettstein (+1754) por Griesbach (+1812). Entre os principais
editores que o seguiram citamos: Lachmann (+1851), Tischendo rf (+1874),
Wescott (+1901), Hort (+1892), von Soden (+1914), Eberhard Nestle II
(+1913). O texto desse último editor é atualmente o mais usado para o
estudo exegético do Novo Testamento''; é um texto composto, o que quer Os escritos do N ovo Testamento
dizer que não corresponde a nenhum manuscrito particular, mas combina,
como num mosaico, os textos estabelecidos pelos principais editores mo
dernos. Um código de sinais, postos dentro do texto e remetendo o leitor Capítulo 1
às notas ao pé da página, permite determinar, em cada caso, de qual ma
nuscrito foi tirada a versão escolhida pelo editor e quais as variantes que os Os escritos narrativos
outros manuscritos propõem nessa passagem.
A edição mais completa até hoje continua sendo aquela de Tischendorf Em uma história literária dos livros do Novo Testamento deveriamos

(8a ed., 1867ss). Mas uma edição nova está sendo preparada, que prestará proced er cronolo gicame nte, quer dizer, começ ar pelas epísto las paulinas,
contas de todos os manuscritos descobertos desde então. A equipe que a das quais sabemos de modo seguro que foram redigidas antes dos
prepara é internacional. Essa edição, cujo primeiro tomo conterá o Evan evangelhos.
gelho segundo Lucas, vai se chamar: New Critic ai Appara tus o f the Greek Entretanto, diversos dos 27 escritos do Novo Testamento podem ser
New Testament. datados apenas de m aneira incerta, e não sabemos como classificá-los pela
ordem. Cremos, p ortanto, ser preferível seguir, grosso modo, a tradicional
e começar nosso estudo analítico pelos escritos narrativos: os quatro
evangelhos e o livro de Atos dos Apóstolos.

1 - 0 Eva nge lho e os eva nge lho s

O termo grego euaggélion, que se traduz por “evangelho”, provém


do grego profano. Significava, por exemplo, em Homero e Plutarco, a
recompensa dada ao mensageiro por sua mensagem; ou, no plural, as
ofertas de ações de graça aos deuses por uma boa-nova. Por extensão, veio
a designar, em Aristófano por exemplo, a mensagem propriamente dita e,
depois, o conteúdo da mensagem, a boa-nova anunciada. Assim o aniver
sário do imperador Augusto, chamado deus e salvador, foi festejado como
“o começo, para o mundo, das boas-novas que ele trazia”. A tradução
grega do Antigo Testamento, chamada Septuaginta, emprega essa pala
vra também para assinalar mensagens felizes. Entre os cristãos primiti
vos, o euaggélion é primeiramente a boa-nova da salvação realizada em
Jesus Cristo, tal qual é anunciada oralmente pelos apóstolos. Somente
9 Esse texto conhece sempre novas edições revisadas. Após a morte de Eb. Nestle, seu fi
mais tarde, o termo aplica-se à forma escrita dessa boa-nova apostólica.
lho Erwin Nestle e, mais tarde, Kurt Aland continuaram seu trabalho; a última edição é Enfim, chega a designar (por volta de 150 d.C.) aqueles escritos do Novo
atualmente a 27ae data de 1993. Uma edição análoga, mais usada pelos entendidos católi
cos, é a de Merk (7aed., 1951).

14 15
Testamento que contam mais precisamente a vida terrena de Jesus Cristo. valer então também para o quarto evangelho, o que, porém, não é o caso.
E é nesse sentido que se fala dos quatro evangelhos e que são chama No mais , ela nã o leva em considera ção a identidade da disposiç ão geral das
dos de evangelistas os autores aos quais são atribuídos: Mateus, Marcos, matérias esparsas, usadas pelos sinóticos. Cada evangelista, na realidade,
Lucas e João. somente tinha à sua disposição narrativas e palavras isoladas de Jesus, que
Os evangelhos formam um gênero literário à parte, que não se assemelha foram transmitidas pela tradição oral; ele podia, portanto, estabelecer o
em nada aos gêneros conhecidos na literatura profana. Seu aspecto biográfi plano que queria. Se, apes ar disso, existe, grosso m odo, um plano idêntico,
co não deve esconder o que querem ser antes de tudo: testemunho da com u é preciso admitir, por conseguinte, uma dependência mútua desses três
nidade acerca de Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador dos homens. textos.
Há quatro evangelhos, e sua pluralidade cria um duplo problema. Por outro lado, os sinóticos também apresentam divergências. Certos
O problema de ordem teológica, ressentido desde a Antiguidade, é o episódios encontram-se apenas em dois evangelhos, outros num só. A in
seguinte: por que são necessários quatro testemunhos sobre os mesmos fância de Jesus é recontada diferentemente em Mateus e Lucas, e Marcos
fatos? Não se pode harmonizar os quatro relatos para fundi-los em uma só não a menciona de modo algum. As aparições do Jesus ressuscitado são
Vida de Jesus? Desde as srcens do cristianismo foram feitas tentativas situadas por Lucas na Judeia, por Mateus na Galileia; os grandes discursos
para reduzir essa pluralidade. Taciano compôs, no s éculo II, uma Harm o que se leem em Mateus estão ausentes em Marcos; a ressurreição do filho
nia evangélica: o Diatessaron (= “por quatro”, subentendendo-se: um só); da viúva de Naim, o episódio da pecadora perdoada, a parábola do bom
ainda no século II, Marcião suprimiu radicalmente três dos quatro evange samaritano, a história de Marta e Maria etc. encontram-se somente em
lhos, conservando apenas o Evangelho segundo Lucas. Lucas; esse teve que intercalar, dentro do plano comum, uma moldura para
A igreja cristã, recusando essas tentativas de unificação artificial, rece essas matérias. Além disso, as divergências de detalhes pululam mesmo
beu os quatro evangel hos lado a lado, m as lhes deu títulos que assinalam dentro dos textos paralelos.
bem de que se t rata de quatro tes temunhos sobre um mesmo a conteci mento No passado, foram propostas diversa s soluções para resolv er esse pro
e uma mesma pessoa, de uma só boa-nova, entendida de modo diferente blema literário. Sua pluralidad e mostr a seus limites. Trata-se , essen cial
e complementar, de um único evangelho tetramorfo: segundo Mateus, mente, de hipóteses que não resolvem todo o problema. Apenas enumera
segundo Marcos, segundo Lucas, segundo João. remos as principais, das quais a última, a chamada “hipótese das duas
Mas essa pluralidade levanta igualmente um problema literário. Os três fontes”, é ainda hoje geralmente a mais aceita, se bem que também ela
primeiro s evangelh os - Mateus, Marcos e Lucas - aprese ntam entre si levante dificuldades.
uma certa unidade em relação ao quarto - João. Tudo se passa dentro do
mesmo plano cronológico e geográfico: o ministério de Jesus estende-se
por um ano; co meça na Ga lileia e te rmina na Judeia , pela Paixão. J oão, ao 1.1 - A hipótese da uti lização recíproca
contrário, estende esse ministério sobre dois ou três anos e localiza-o em
geral na Judeia e, episodicamente, na Galileia. Esta hipótese diz o seguinte: os três sinóticos utilizaram-se reciproca
O plano nos três primeiros evangelhos é tão semelhante, que se pode mente. Fazendo isso, introduziram modificações. Essa solução, que se en
copiá-los sobre três colunas e fazer uma leitura paralela num só golpe de contra pela primeira vez sob essa forma em Agostinho, é tradicional. O
vista: daí seu nome de evangelhos sinóticos. Esse termo, usado pela pri primeiro evange lho e scrito seria Ma teus. Marcos teria resum ido Mateus, e
meira vez no século XVIII por Griesbach, deriva do grego synoráo , que Lucas se teria servido de um e de outro. Dali provém a ordem tradicional
significa: ver junto, ver sob o mesmo ângulo. dos evangelhos Mateus, Marcos e Lucas. Outras hipóteses m odernas apro
Estamos, portanto, diante do “problema sinótico”: como explicar o pa ximam-se dessa. Já em 1789, Griesba ch propunha uma teoria análoga, mas
rentesco desses três evangelhos e, por outro lado, as divergências que exis colocava Lucas antes de Marcos; segundo ele, Marcos teria utilizado, por
tem, apesar de tudo, entre eles? tanto, Mateus e Lucas. Com uma ordem diferente, a solução foi retomada
Os sinóticos assemelham-se, poder-se-ia ser tentado a dizer, porque tra em 1835 por Lachm ann e em 1838 por Wilke.
tam da mesma matéria; mas essa explicação não é suficiente, pois deveria

16 17
1.2 - A hipótese do evan gelho primitivo precisa da em diverso s pontos que perma necem problemá ticos. Por e xem
plo, o Evang elho de Marcos, usado por Mateus e Lucas, era exatam ente
Segundo esta hipótese, os três sinóticos remontariam a uma fonte comum aquele que nós conhecemos hoje? Diversos pesquisadores fazem pensar
de srcem aramaica, que não possuímos mais, e cada um dos três redatores em um “Proto-Marcos”. Por outro lado, não é certo que a fonte comum
teria usado essa fonte à sua maneira. A esta hipótese está ligado o nome de tenha sido única e de contornos escritos precisos. Houve provavelmente
Lessing (1788). Eichhom adota essa solução, modiflcando-a (1804). mais coleções de logia, como o evang elho gnóstico de Tomé, recentemente
descoberto, parece provar.
Mas é preciso, sobretudo, levar em conta o fato de que os evangelhos
1.3 - A hipótese das dieges es (hipótese dos f ragmentos) sinóticos são, em larga escala, apenas os porta-vozes da comunidade
cristã primitiva, que fixou a tradição oral. Durante 30 ou 40 anos,
Esta hipótese atribui aos evangelhos uma pré-história escrita. Primeira o Evangelho existiu quase exclusivamente sob a forma oral. Ora, a
mente teriam sido compostos pequenos pedaços, diegeses: narrativas da tradição oral transmitiu sobretudo palavras e narrativas isoladas. Os
Paixão, relatos de milagres, coleções de palavras de Jesus. Cada um dos evangelistas teceram laços, cada qual a seu modo, cada um com sua

evangelistas teria, mais tarde, combinado, à sua maneira, esses diversos próp ria pers ona lidad e e suas preo cupa ções teoló gicas part icula res, entre
elementos. Essa teoria, defendida por Schleiermacher em 1817, anuncia já, as narrativas e as palavras que receberam da tradição do ambiente. O
e até mesmo ultrapassa sob diversos aspectos, as explicações do período agrupamento das palavras de Jesus, como o encadeamento das narrativas
bem m oderno, do qual falaremos logo mais. por f órmu las de ligaçã o muito vagas, tais como: “e depo is d isso ”, “ logo ”
etc., em suma, “a moldura” dos sinóticos é, pois, de ordem puramente
literária e carece de fundamento histórico.
1.4 - A hipótese d a tradição o ral E necessário reconhecer, enfim, que são mais as necessidades da prega
ção, do ensino e do culto do que propriamente um interesse biográfico que
Esta hipótese remonta a Herder (1797). Cedo já se teria fixado a tradição guiaram a comunidade primitiva na fixação da vida de Jesus. Os apóstolos
oral, e os evangelistas se teriam limitado a sorver essa tradição comum. ilustraram as verdades da fé cristã que pregavam contando acontecimen
Teriam feito isso cada um a sua maneira. Também essa teoria antecipa, em tos da vida de Jesus, e seus sermões davam lugar à fixação das narrativas.
parte, a evol ução mais rece nte da história do pro blema. As palavras de Jesus, por sua vez, foram transmitidas particularmente no
ensino catequético da igreja primitiva".
Aquilo que acabamos de adiantar apoia-se nos trabalhos da escola chama
1.5 - A hipótese das duas fontes (completada pe los trabalhos recentes da Formgeschichte (história das formas literárias). Na realidade, não se tra
sobre a formação da tradição) tava, no início, de uma “escola” propriamente dita, mas da convergência de
diversos estudos que vieram à luz entre 1919 e 1922. Seus autores propunham-
A hipótese das duas fontes (exposta por Holtzmann em 1863) é, para -se a estudar a história da formação e das formas (literárias, “gêneros” - esse
dizer a verdade, uma combinação da hipótese da utilização recíproca e da é o sentido da palavra alemã Formgeschichte) do evangelho.

do evangelho primitivo perdido: Mateus e Lucas teriam utilizado, inde- M. Dibelius, K. L. Schmidt, R. Bultmann aplicavam aos evangelhos
pende mente, a Marcos, que seria, portanto, o mais antigo dos três, e uma esse método que poderiamos qualificar de paleontológico. Ele permite
fonte comum, hoje perdida. Essa fonte teria contido, antes de tudo, pala determinar as leis e as circunstâncias (Sitz im Leben = lugar de vivência)
vras de Jesus ( logia ). Essa hipótese, rejeitada por diversos (Zahn, S chlatter) que deram srcem às diferentes partes da tradição evangélica oral’1 12.
desde seu aparecim ento, im pôs-se à maioria dos ente ndid os10. Entretanto ,
à luz de trabalhos mais recentes, ela deve ser, em todo caso, corrigida e
11 Mais recentemente, sábios suecos (Riesenfeld, Gerhardsson) chamaram a atenção para a
maneira como os discípulos dos rabinos aprendiam de cor as palavras de seus mestres.
10 No entanto, sã o propostas, seguidamente, var iantes ou soluçõe s diferentes (cf . Streeter, 12 Ver nossos artigos sobre a Formgeschichte na Revue cF Histoire et de Philoso phie R eligiett-
Vagany, Farmer etc.). ses, ano 1925, p. 459-477 e p. 564-579.

18 19
Resta-nos ainda delimitar a contribuição pessoal de cada evangelista, Jesus, acrescenta: “Ora, tudo isto aconteceu, para que se cumprisse o que
trabalho ao qual se dedicam os entendidos, sobretudo desde a ú ltima guerra fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta” (Mt 1.22; cf. ainda, por
(Reda ktions gesch ichte), que estuda: exemplo: 21.4 e o que segue; 26.54, 27.35).
1. a escolha feita pelo evangelista dentre os elementos da tradição; Essa insistência sobre o Antigo Testamento faz eco à discussão áspera
2. o plano segundo o qual os elementos escolhidos foram dispostos. na qual, sobretudo durante o século I, se confrontam o judaísmo e o
Esse estudo literário nos permitirá destacar, em cada evangelho, as idéias cristianismo de srcem judaica. A escolha dos elementos narrativos da
particula res q ue ca da au tor faz do “e vang elho” . vida de Jesus, feita por Mateus, testifica-o igualmente. Talvez ele já
utilize, entre os documentos escritos anteriormente, uma espécie de
seleção de textos do Antigo Testamento aplicados a Cristo. Se bem
2 - 0 Eva nge lho seg und o Mat eu s que deles não se possua nenhum em nossos dias, fez-se a prova de que
tais coleções existiram e se as designa, habitualmente, pelo nome de
Na ordem tradicio nal, o Evange lho segundo Mateus abre o No vo Testa teslimonian. Segundo certos entendidos, como Stendahl, dever-se-ia
mento. Isso é j ustificado no sentido de que é aquele dos quatro evangelhos falar antes de uma escola rabínico-cristã de Mateus, que dedicou todo o

que procura, mais acentuadamente, estar dentro da linha do Antigo Testa seu esforço para p erscrutar o Antigo Testamento a fim de desc obrir nele
mento. Ele lança uma ponte entre a expectativa do reino messiânico, cuja anúncios de Cristo.
vinda é proclamada nos livros proféticos do Antigo Testamento, e o ad
vento de Jesus Cristo, que o Novo Testamento apresenta como resposta a
essa espera. 2.2 - O que sabemos do ambiente d e srcem?

O autor do primeiro evangelho é um judeu convertido ao cristianismo,


2.1 - Originalidade e srcem do Evangel ho segundo Mate us que vive dentro de uma comunidade judaico-cristã que se esforça para
romper os laços que a amarram ao judaísmo, conservando, todavia, a
O primeiro evangelho é muito sistemático e sua redação muito bem continuidade com o Antigo Testamento. Os centros de interesse, o tom
elaborada. Mateus agrupa nele as narrativas e as sentenças por assuntos geral desse evangelho, sugerem a existência de uma situação tensa. O
(p. ex., caps. 5-7: a “Lei”; 11: João Batista; 23: os fariseus). Sua atenção vocabulário indica-nos com precisão que o autor é judeu e que se dirige
volta-se, sobretudo, às tradições sobre a opinião e a atitude de Jesus frente a gente que, falando grego, conhecia os costumes judeus1 3 14 e a língua
à lei judaica. ara ma ica 15.
Por isso se esforça em mostrar que Jesus não veio rejeitar o Antigo Mas onde situar essa comunidade judaico-cristã? Na falta de argumen
Testamento, mas levá-lo a seu objetivo, a seu cumprimento. Escolhe, na tos decisivos, foram sugeridas Jerusalém, Galileia, Antioquia, Alexandria
tradição oral, palavras de Jesus como estas: “Não penseis que vim revo ou alguma das grandes cidades do litoral fenício da Síria (Tiro, Sidom ou
gar a lei ou os profetas (quer dizer todo o Antigo Testamento): não vim Ptolemaida), ou ainda uma cidade nos confins da Palestina do Norte e da
para revog ar, vim para cumprir. Porqu e em verd ade vos digo: Até que o Síria, como Cesareia de Filipe ou Damasco. No momento é impossível
céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que decidir a esse respeito.
tudo se cumpra” (Mt 5.l7s). Segue um discurso no qual Jesus retoma Em que data essa comunidade judaico-cristã deu srcem a esse evange
prece itos da lei jud aic a para ensi nar a seus discí pulo s não sua tran sgre s lho? Pode-se estar seguro de que esse escrito é o fruto de longos anos de
são, mas seu cumprimento, não formal, mas total, radical (“Eu, porém, experiências comunitárias. Um detalhe da parábola da festa das bodas, em
vos digo...”). 22.7, pode fazer-nos supor que o primeiro evangelho tenha sido redigido
Para Mateus, aliás, o cumprimento do Antigo Testamento é realizado
não somente pela doutrina de Jesus, mas por sua própria pessoa e pelos 13 Veja-se a respeito desse te ma os trabalhos de Rendei Harris e de P. Prigent.
acontecimentos de sua vida; assim, após haver contado o nascimento de 14 Ele os menciona sem julg ar oportuno explicá-los (cf. 15.2ss).
15 Em 5. 22, nem se dá o trabalh o de traduzir a palavra raca.

20 21
após o ano 70; de fato, esse versículo provavelmente faz alusão à primeira Mas Mateus também nos proclama um reino que começa com a vinda de
revolta dos judeus e ao incêndio de Jerusalém provocado pelo imperador Jesus Cristo. Leia-se, por exemplo, 12.28: “Se eu expulso os demônios pelo
Tito em 70. Nesse caso, dever-se-ia datar a redação do primeiro evangelho Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós”. O reino
no ano 80 aproximadamente. é, portanto, uma realidade presente,afirmam os teólogos da “ escatologia
A tradição (e não o próprio texto, que nada revela) atribuiu esse evange realizada”, como C. H. Dodd.
lho a Mateus, o “publicano”, cuja conversão é contada em 9.9 (os dois Essas duas teorias são extremas e parciais. De fato, segundo Mateus,
outros sinóticos chamam-no de Levi) e que se torna um dos 12 apóstolos, o reino já está inaugurado pela vinda de Jesus Cristo, mas ainda não é
segundo 10.3. Mas nada nos permite confirmar essa tradição, que levanta plename nte manifes to, como será por ocasião de seu Adv ento no fim dos
dificuldades, principalmente se admitirmos que o autor usou o Evangelho tempos.
de Marcos, que não era discípulo de Jesus. Os crentes consideram-se atualmente dentro do tempo intermediário,
Podemos dizer que o exame do texto nos faz, de bom grado, atribuí-lo entre esse “já” e esse “ainda não”. Eles (e o mundo com eles) já estão sob
a um judeu srcinário da Palestina, de fala grega e convertido à nova fé. o reinado de Cristo, mas ainda esperam seu reino glorioso. As parábolas do
Porventura o autor usou uma fonte aramaica redigida por Mateus? E se capítulo 13, e em particular as parábola s da boa semente e do joio, mostram

assim é, por acaso esse escrito era um evangelho completo ou somente uma claramente a dupla realidade desse reino (13.24-30 e 36-43): a sementeira
coleção de palavras de Jesus (logia), como alguns o admitem, baseando-se já está feita, m as a inda não estam os no tempo da colheita.
cm uma notícia de Papias (140) concernente a uma obra escrita em “he A proclamação do reino e o cumprimento do Antigo Testamento por
braico” por Mateus? Trata-se, no caso, de nada mais do que uma simples Jesus Cristo, juntamente com a preocupação de construir uma nova ética,
hipótese. individual e social, que manifeste realmente a novidade do evangelho, são
os aspectos dominantes da mensagem especial que nos dirige o primeiro
evangelista.
2.3 - A mensagem do Evangelho segundo Mateus

Mateus emprega 51 vezes a palavra grega basileia , que se pode traduzir 3 - 0 Evan gel ho seg undo Mar cos
por “rein o” ou “rein ado” . “Reino de Deus” ou “reino dos céus” , “reino
do Pai” ou “reino” - todas essas expressões revelam uma conceituação O segundo evangelho foi considerado, durante muito tempo, o resumo
judaic a. O judaís mo contem porâneo de Je sus falava do re ino de Deus que do primeiro. Bossuet chamava Marcos de “o divino abreviador”.
se estabelecería no futuro e falava também do reino do Messias, esperado Efetivamente, como dissemos, tudo leva a crer que Marcos seja o mais
como uma realidade iminente em certos círculos fervorosos. antigo dos quatro.
O reino dos céus anunciado por Mateus é futuro. Para se convencer disso A transmissão de seu texto apresenta no fim uma particularidade: nos
é somente preciso ler 13.43: “Então os justos resplandecerão como o sol, dois mais antigos manuscritos do Novo Testamento, o Vaticanus e o
no reino de seu Pai”, ou 25.34: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua Sinaiticusn, o evangelho termina em 16.8 de forma abrupta: “e elas (as
direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está mulheres, tendo achado vazio o sepulcro) não disseram nada a ninguém,
preparad o desde a fundação do m undo” 16. Igual à terra prom etida no Antigo pois tinham med o” . Manu scritos gregos mais rece ntes e certa s versõe s
Testamento, em direção da qual marchava o povo de Israel, o reino é a meta acrescentaram nesse lugar uma conclusão sobre aparições, que não é de
dos crentes, um “território” do qual tomarão posse, no qual entrarão. O Marcos, mas é tirada de outros evangelhos. O problema textual que aqui
reino é, portanto, uma realidade futura, assim afirmam autores como A. surge é o seguinte: acaso o versículo 8 marca o fim autêntico do evange
Loisy ou A. Schweitze r, cuja teoria se cha ma “esca tologia cons equent e” 17. lho ou será que o fim srcinal perdeu-se acidentalmente ou foi suprimido
arbitrariamente? Conforme uma hipótese recente, o fim perdido de Mar-

16 Veja-se também: 7.21; 8.11; 16.28.


17 Escatologia: palavra derivada do grego ( eschala: as últimas coisas). 18 Assim como a versão siro-sinaítica e de outras testemunhas an tigas.

22 23
cos teria contido o relato de uma aparição do Ressuscitado a Pedro, um juda ica 19; mas també m achamos latinism os em seu texto: ele transcr eve
relato do qual ainda acharíamos vestígios no capítulo 21 do Evangelho em grego pala vras l atinas20. Portanto não está exc luído que ele tenha e s
segundo João. crito seu evangelho em Roma. Ele se dirige, aliás, a cristãos que não vi
vem na Palestina e toma cuidado em explicar-lhes as expressões aramaicas
que emprega, por exemplo em 5.41: “(Jesus) toma a mão da menina e lhe
3.1 - Quem é Marcos e de onde procede seu evangelho? diz: talitha koumi, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te”. Da
mesma forma explica os costumes judaicos, como em 7.3: “Os fariseus e
A tradição aponta Marcos como autor do segundo evangelho, e não todos os judeus ... não comem sem lavar cuidadosamente as mãos: quando
há razão séria para duvidar dessa atribuição, ainda que o próprio texto voltam da praça, não comem sem se aspergir, e há muitas outras coisas
não mencione autor. Com efeito, se tivesse sido inventado um autor para que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de
esse evangelho, ter-se-ia preferido atribuí-lo a um apóstolo para dar-lhe metal”. Enfim, reconhece-se facilmente no segundo evangelho uma pro
maior autoridade. Para cobrir esse escrito com a autoridade apostólica, funda influência do pensamento do apóstolo Paulo, sugerida igualmente
a tradição cristã afirma, após 150, que o apóstolo Pedro, na companhia pelo livro de Atos dos Apóstol os, que fa z de Marcos o colabo rador de Paulo

do qual se encontra Marcos, segundo 'IPe 5.3, é o fiador desse escrito, em suas viagens missionárias. Portanto o evangelista é, provavelmente, um
sendo Marcos apenas o secretário de Pedro. Esse apadrinhamento pode jude u transpl antado em uma comu nidade cristã “rom anizad a” (Roma?)
pare cer suspeit o; entre tanto , pode-se objet ar que Mateus e Lucas talvez após um longo trabalho de missionário entre os gentios, trabalho efetuado,
não tivessem usado esse evangelho como o fizeram, se não o tivessem em grande parte, em colaboração com o apóstolo Paulo.
conhecido como realmente fundamentado no ensinamento de um Levando em consideração alusões - muito breves, é verdade - à destrui
apóstolo. ção do templo de Jerusalém, pode-se datar seu evangelho em 70 aproxi
Marcos parece que pode ser identificado como “João cognominado Mar madamente.
cos”, do qual ouvimos falar, repetidas vezes, no Novo Testamento. Segundo
At 12.12, a mãe de Marcos recebe em sua casa em Jerusalém uma parte da
comunidade para a oração. Marcos é o companheiro do apóstolo Paulo, se 3.2 - A mensagem do segundo eva ngelho
podemos dar crédito a At 12.25; 13.5 e 13; 15.37-39; Cl 4.10. E talvez ele
também tenha trabalhado com o apóstolo Pedro, a quem conhecia, segundo Desde o começo, o Evangelho segundo Marcos mostra-nos sua intenção:
At 12.12 e IPe 5.13. “Princípio da boa-nova (‘Evangelho’) de Jesus Cristo, Filho de Deus”
Mas teria sido ele uma testemunha ocular ao menos de uma parte da vida (1.1). O que é contado a seguir quer ser um testem unho dado a essa filiação
de Jesus? Uma tradição antiga sustenta isso, o que talvez venha confirmar divina de Jesus Cristo.
o curioso versículo que achamos no seu evangelho (e somente lá) bem O nome “Filho de Deus” aplicado a Jesus não é próprio do segundo
no meio do relato da Paixão: “Seguia-o um jovem, coberto unicamente evangelho; mas o que é particular e significativo é que, se Marcos empre
com um lençol, e lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu ga esse termo, dá-lhe um sentido pleno, colocando-o à frente, depois nos
desnudo” (Mc 14.51-52). Essa anedota, sem importância para os eventos momentos culminantes de seu evangelho: é a voz do próprio Deus que diz
da Paixão e sem interesse teológico, poderia, no entanto, fazer-nos supor a Jesus por ocasião do seu batismo: “Tu és meu Filho” (1.11) Ele o chama
que esse jovem fosse Marcos e que ele quisesse, através dessa lembrança de novo como Filho no episódio “glorioso” da transfiguração sobre a mon
pessoal, coloc ar um marco de autentic idade, uma “ass inatura anônim a”, tanha (9.7) e é, enfim, um centurião que, em face da cruz na qual Jesus
provando que foi testem unha ocular.
Pelo exame do vocabulário, do estilo e das idéias do segundo evangelho, 19 Por exemplo, conjugações por perífrases com um particípio presente: “Jesus est ava os pre
poderem os revel ar mais nitidame nte as influências do meio ambien te. O cedendo” (10.32) e o emprego de “eis” no inicio de certas frases (2.23; 3.32 etc.).
papel importante atribuído à Galile ia e numeros as constru ções de frases 20 A palavra legion (latim: legio = legião, 5.9), spekoulálôr (latim: speculator= soldado roma
no encarregado da guarda dos prisioneiros, 6.27) ou denarion (latim: denarius = denário,
aramaicas corroboram a hipótese segundo a qual o autor era de srcem
6.37) etc.

24 25
acaba de morrer pela salvação dos gentios, exclama em nome de todos os O segundo evangelho é, portanto, centrado menos no ensinamento do
gentios: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15.39). que na pessoa de Jesus, misterioso Filho do homem no qual a fé, pouco a
Mas ao lado desse título de Filho de Deus, que é dado a Jesus, o segun pouco, descobre o pode r salva dor do Filho de Deus.
do evangelho apresenta-nos Jesus reivindicando para si mesmo o título
Filho do homem, reticente, ao contrário, em relação ao título “Messias”
(ou “Cristo”, o equivalente grego dessa palavra hebraica que significa 4 - 0 Eva nge lho s egu ndo Lu ca s
“ungido”).
Duas questões são levantadas aqui: a primeira é saber se o título “Filho Com o terceiro evangelho nós estamos diante da obra literária de um
do homem” foi realmente reivindicado por Jesus ou se lhe foi outorgado “cronista”. Trata-se, seguramente, de um evangelho, quer dizer de uma
somente pela comunidade cristã primitiva; a segunda é conhecer o sentido obra nascida da fé de uma comunidade e fundada sobre uma tradição,
deste título. Sua aplicação a Jesus não é de todo corrente no cristianismo muito mais do que de uma obra individual: mas a personalidade literária do
primitivo. Encontramo -la em Marcos e nos outros evangelis tas somente autor aparece aqui muito mais do que nos outros evangelhos.
quando fazem falar a Jesus mesmo; nunca quando um interlocutor de Je Desde o prólogo, o autor expõe seu método: “Visto que muitos houve
que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se
sus se dirige
assim. a ele.pois,
Eles têm, Também jamais
guardada os próprios precisa
a lembrança evangelistas
de queo denominam
só Jesus se realizaram, conforme no-los transmitiram os que desde o princípio foram
deles testemunhas oculares, e ministros da palavra, igualmente a mim me
designava como Filho do homem.Mas é esse um título messiânico? Dito
pareceu bem, depois de acurada investigaçã o de tudo desde sua srcem,
de outra forma: é, porventura, um dos títulos que o judaísmo oficial dava
dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para
ao Messias esperado? Não, a não se r em certos círculos judaicos esotéricos
que cultivavam idéias apocalípticas. Jesus retoma, portanto, uma expres que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lc 1.1-4).
Essa introdução na matéria mostra-nos, portanto, que o autor usou três
são pouco corrente e a carrega de um conteúdo novo, combinando-a com a
fontes: de uma parte, várias narrativas compostas antes dele (entre elas, sem
noção do “Servo sofredor de Javé” (Is 53). O Filho do homem, que virá no
dúvida, o Evangelho de Marcos); de outra parte, as informações recolhidas
fim sobre as nuvens do céu (Dn 7.13), é primeiramente um representante de
junto às test emunh as o culares (pelo que se subentende que el e m esmo não
toda a humanidade, representant e cuja função não é guerreira nem triunfal,
foi uma delas); enfim, a tradição oral das pregações apostólicas.
mas humilde: ele toma o caminho da cruz para chegar à glória e salvar
todos os seres humanos.
A partir desse momento se compreende que Jesus observa, segundo
Marcos, o maior silêncio sobre seu papel messiânico e impõe esse silêncio 4.1 - Lucas e seu ambi ente
também aos outros. Assim ordena aos demônios expulsos que se calem
Se o texto do terceiro evangelho não nos diz o nome de seu autor, ele
(1.34; 3.12),aos enfermos curados (1.44; 7.36; 8.26),aos mortos ressusci
nos permite, no entanto, descrever sua personalidade. Os primeiros três
tados e ao ambiente deles (5.43) e aos próprios discípulos que nada digam
versículos nos fazem já perceber um intelectual metódico , preocupado com
a ninguém (8.30; 9.9).A menção desse segredo messiânico de Jesus, ca
a história. A linguagem que emprega é relativamente pura e, em lugar dos
racterística do segundo evangelho, não é necessariamente uma invenção
barbaris mos e ne ologismo s dos outr os eva ngelistas, escolhe te rmos do gre
do evangelista, como se afirmou (Wrede), mas pode perfeitamente provir go clássico; o autor tem, pois, também cuidado literário.
de uma lembrança exata da tradição oral, lembrança à qual Marcos deu
A comparação de seu evangelho com os dois primeiros mostra que é
uma importância particular. De fato, esse segredo se explica pelo cuidado
gentilico-cristão, quer dizer um cristão convertido do paganismo. E por isso
que tinha Jesus de impedir uma proclamação messiânica suscetível a favo
que deixa de mencionar os versículos mais judaicos de Marcos (como Mc 7.
recer uma falsa interpretação de sua missão. Jesus entendia ser ele o Mes
21) e sublinha, ao contrário, as palavras de Jesus contra a incredulidade dos
sias, mas não queria ser um Messias político, tomando nas mãos o destino
judeus e suas boas relaçõ es com os sam aritanos, que os j udeus detestavam
nacional e libertando o povo de Israel da ocupação romana, o Messias
(Lc 9.51-56, a parábola do “bom sam aritano” em 10.25-37 e 17.1 lss).
esperado pela maioria dos judeus.

27
26
O escrito é dedicado ao “excelentíssimo Teófilo”, que nos é inteiramen 4.2 - A mensag em de L ucas
te desconhecido, mas ao qual é dedicado igualmente o livro de Atos dos
Apóstolos: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as cousas Mais do que em Marcos e Mateus, acha-se em Lucas a perspectiva de
que Jesus fez e ensinou...” (At 1.1); esse “primeiro livro” não pode ser uma “história da salvação”. A vida de Jesus inscreve-se dentro de um con
outro senão o terceiro evangelho, o que confirma, aliás, uma comparação jun to mais v asto, e nós somos coloca dos no período central de uma histó
filológica dos dois escritos. Ora, o livro dos Atos é escrito, em parte, na ria que comporta ainda outros períodos, particularmente o de Atos dos
primeir a pesso a do plural por um comp anheiro de viagem do apóstolo Apóstolos21. Lucas olha a vida de Jesus retrospectivamente, não apenas
Paulo. Por outro lado, o terceiro evangelho é atribuído, a partir do século como historiador que deseja refazer os eventos passados em sua ordem
II, a um certo Lucas. Conhecemos um Lucas que foi companheiro de Pau cronológica, mas como crente que sabe que a ressurreição de Cristo dá a
lo; é dele que se fala na carta de Fm 24: “Lucas, meu cooperador”, em tudo que precede o seu sentido verdadeiro. E à luz da Páscoa que ele relê a
Cl 4.14: “Saúda-vos Lucas, o médico amado” e em 2Tm 4.11: “Somente vida de Jesus; por isso designa Jesus com o título que lhe deu a comunidade
Lucas está comigo” . Não é possível revogar ou confirmar essa tradição pela cristã: o Senhor (em grego: Kyrios).
língua ou pelo estilo do evangelho. É verdade que o crítico inglês Hobart O título “Senhor” exprime melhor do que qualquer outro o fato de que
procurou encontrar,
confirmação em 1880, no
de sua identidade comvocabylário do te rceiro
Lucas, o médico; evang elista,
ele mostrou que osuma Cristo foi elevado
intercede à direita
atualmente pelosdeseres
Deushumanos.
e que emQuando
sua qualidade de glorificado
os primeiros cristãos
termos médicos eram frequentes: 4.38; 5.18 e 31; 7.10; 13.11; 22.44. Mas dão a Jesus o título Kyrios , proclamam com isso que ele não pertence
os mesmos conhecimentos médicos podem ser encontrados em qualquer somente ao passado da história da salvação, que ele também não é somen
escritor culto, como Josefo ou Plutarco. te objeto de uma espera futura, mas que é, também no presente, uma
As idéias desenvolvidas no Evangelho segundo Lucas denotam um inte realidade viva, que ele pode entrar em relação conosco, que o crente
resse particular pelos gentios; isso concorda, em todo caso, com a atribui pode dirig ir-lh e suas oraçõ es e a igreja invocá-lo no culto , a fim d e que
ção da obra a um companheiro de Paulo. E verdade que a orientação teoló ele ofereça suas orações a Deus e as tome eficazes. Uma das primeiras
gica geral, sobretudo o papel atribuído à morte de Cristo, não é a mesma confissões de fé cristã podia caber nestas duas palavras: Kyrios Iesous
como nas cartas paulinas, mas existe, por outra parte, uma afinidade ine (Jesus é Senhor).
gável entre os escritos de Paulo e nosso evangelho, particularmente em De fato, a palavra “Senhor” acha-se também nos outros evangelhos, no
sua insistência comum sobre o papel do Espírito Santo, pelo qual já estão sentido de um título de cortesia semítica, como equivalente ao tratamento
cumpridos antecipadamente os últimos tempos. “senhor” do francês: Mo nsieu r ou, com mais deferência, Monse igneu r;
Não temos, portan to, razão válida para duvidar de que o gentílico-cris- mas Lucas é o único dos evangelistas a usar esse termo de uma maneira
tão que é o autor não seja idêntico a Lucas, o companheiro de Paulo. absoluta: o Senhor (7.13, 10.1 e39e41; 11.39; 12.42; 13.15; 17.5; 18.6;
A crítica, aliás, mostrou que ele se serviu do Evangelho de Marcos e 19.8; 22.61; 24.3 e 34).
que era mais ou menos contemporâneo de Mateus. Situa-se, portanto, a Quando fala do reino de Deus, Lucas pensa sobretudo diferentemente
redação do terceiro evangelho dez ou vinte anos após a morte do apóstolo de Mateus, mais no reino futuro que se verá (9.27) e no qual é neces
Paulo, quer dizer pelo ano de 80. Quanto ao lugar onde a obra foi compos sário crer do que na presença misteriosa e operante desse reino. Para
ta,
ondeestamos
nasceu somente
esse eva em condições
ngelho de afirmar
era de srcem pagã,que
quera dizer,
comunidade cristãA
não judaica. Lucas, a presença atual e dinâmica de Deus é menos o reino do que o
Espírito Santo. João Batista, sua mãe e seu pai são cheios do Espírito
solução desses problemas deve estar de acordo com aquela que se oferecerá Santo (1.15 e 67), assim como o ancião Simeão (2.25-27). Jesus tem a
para Atos dos Ap óstolos. força do Espírito, é impelido pelo Espírito, exulta no Espírito (4.1 e 14
e 18; 10.21). É o Espírito que deve assoprar aos discípulos o que terão

21 Este plano já confirma que o autor do terceiro evangelho é o mesmo autor de Atos dos
Apóstolos. H. Conzelmann falou de "periodização” (Die Mitle der Zeil , 1962).

28 29
que dizer em época de perseguição (12.12). É, pois, o Espirito que é 5 - 0 Ev an gel ho s egu ndo J oã o
necessário pedir na oração: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis d ar boas
dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito 5.1 - O quarto evangelho e os sinóticos
Santo (Mateus diz neste lugar “boas co usas” [Mt 7.11]) àqueles que lhe
ped irem ?” (11 .13). A cha mos par a a p rece da oração dom inical “Ve nha o Dissemos que o quarto evangelho se distingue dos outros. Todavia não
teu reino” uma variante atestada por algumas testemunhas: “Que venha o podemos isolar totalmente dos sinóticos, porque os pressupõe como
sobre nós teu Espírito Santo e nos purifique” (11.2). conhecidos, em todo caso a tradição que relatam. Assim, por exemplo, em
Já temos observado que Lucas omite voluntariamente as tradições 1.40, André nos é apresentado com o irmão de Simão Pedro; ora, de Simão
mais “judaicas” sobre Jesus e seu ensinamento, tradições que os outros Pedro ainda não foi falado. Em alguns pontos tem-se a impressão de que
evangelistas relatam. A contrapartida positiva dessas omissões voluntárias esse evangelho quer retificar os dados dos sinóticos, como se estivesse
é a insistência de Lucas sobre o universalismo do evangelho.Lucas faz melhor informado do que esses; em 3.24 certifica que “João (Batista) ain
remontar a genealogia de Jesus além de Abraão (cf. Mateus) até Adão, o da não tinha sido encarcerado”, quando Jesus já começara seu ministério
primeiro homem (3.38). Na noite de Natal, os anjos cantam: “Paz na terr a público; segun do Marcos, ao contrário, Jesus começo u a preg ar somente

eentre
a luzosdehomens,
todos osa povos
quem Ele (Deus)equer
(2. 31-32) bem”os
é a todos (2.14);
povosJesus é a mandará
que ele salvação após o aprisionamento
Ademais, o evangelhode joanino
João Batista (Mcdos1.14).
diverge sinóticos, não somente pelo
prega r o pe rdão (24.47). O Ev angelho segund o Lucas é també m o evang e quadro cronológico e pelo plano geográfico que dá à narração da vida de
lho dos pobres. Os “pobres” são o objeto da solicitude de Jesus: pecadores Jesus, mas sobretudo por perspectivas teológicas diferentes.
e pecadoras, publicanos, viúvas e crianças, ladrões e penitentes, homens Considera os mesmos acontecimentos que os sinóticos, mas a distância.
e mulheres enfermos. Os pobres, no sentido concreto, os que carecem de Trata-se de uma meditação em profundidade sobre os eventos centrais da
bens materiais, são chama dos bem-a venturados (6.20), e os ricos são qua  história da salvação. Seu desígnio é pôr em evidência a identidade entre
lificados não de maus, mas de desventurados (6.24). A boa-nova (o evan o Jesus histórico e o Cristo presente em sua igreja, traçar as linhas que
gelho) é para os pobres (4.18; 7.22), e Lucas esboça, em relação a esse conduzem de cada evento da vida de Jesus a cada manifestação da vida
assunto, em todo o cap ítulo 16, os princípios éticos do evangelho. de Jesus Cristo, o Senhor glorificado, na igreja. O objeto desse evangelho,
Sublinhemos, enfim, a atmosfera de louvor jubiloso que se desprende portan to, não é, como alguns afirmaram , uma verdad e abstrata , mas um
desse evangelho. Ela aparece muito pura nos cânticos que a igreja cristã conjunto de acontecimentos históricos, apresentados como o ponto culmi
universal integrou em seu culto para cantar os louvores a Jesus Cristo, nante de toda a revelação divina. Longe de negar a biografia de Jesus, num
seu Senhor: o Cântico de Maria (Magnificat, 1.40-55), o de Zacarias misticismo não histórico, o evangelista a toma muito a sério. Os eventos
(Benedictus, 1.68-79), o dos anjos de Belém (Gloria in excelsis, 2.14) e precisam ser reais para ser significativos; não são símbolos, ma s realidades
aquele do velho Simeão (Nunc dimitis, 2.29-32). Tal é a alegria do evang e cuja importância, entretanto, ultrapassa o momento em que se produziram
lista, que juntamente com a comunidade se sabe integrado em uma história e se estende à história da salvação em sua totalidade.
cujo centro é a v ida de Jesus. Jesus Cristo é, nesse evangelho, ao mesmo tempo humano e divino, e
o autor, longe de ser “docetista”, até combate o “docetismo” (doutrina se
gundo ao qual
Logos, VerboCristo teriapreexistente,
de Deus tido uma aparência
mas elede
é ohomem): Jesus Cristoo éVer
Logo s encarnado, o
bo feito carne (1.14). Em sua conclusão, o e vang elista indica, ele mesmo,
o objetivo de sua obra: “Estas (cousas) foram registradas para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em
seu nome” (20.31).

30 31
5.2 - Valor histórico do quarto evangelho assim, fazendo Jesus subir uma única vez a Jerusalém, eles nos fazem
supor que havia amigos quando ele chegou lá (cf. Mt 21.17, Mc 11.11 e
A perspectiva teológica bem definida determina a escolha das narrações 19; Mc 14.3); e quando Jesus exclama (segundo Mateus): “Jerusalém, Je
e dos ditos relatados, assim como a maneira pela qual são reproduzidos. rusalém! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos!” (23.37), essa excla
Assim o autor prolonga, frequentemente, as linhas e faz o Jesus histórico mação também não se coaduna muito bem com uma única viagem.
dizer o que o Espírito Santo revelou ao autor. Por outro lado, essa perspec
tiva levou o autor a misturar, num certo desleixo histórico, a exposição
da vida de Jesus com a das consequências no tempo da igreja. Por essa 5.3 - Lugar e data de srcem
razão, muitos críticos gostariam de considerar esse evangelho como um
documento completamente desprovido de qualquer valor histórico; ora, Se o quarto evangelho pressupõe os evangelhos sinóticos, é posterior a
apesar das liberdades históricas, devidas à sua perspectiva especial, é esses. Inácio, bispo de Antioquia, morto como mártir em 107 ou 112, parece
uma fonte de informações sobre os fatos e, mesmo em alguns pontos, referir-se a ele, sem, todavia, citá-lo diretamente. Atribui-se habitualmente
mais segura do que a dos sinóticos. Assim, os sinóticos consideram o 15 uma data muito tardia à redação do nosso evangelho23. Em 1935, descobriu-
nisan, dia da festa da Páscoa judaica,, como a data da morte de Jesus. A -se um papiro, trazendo um fragmento joanino (18.31-33), que os papirólogos
última ceia que Jesus tomou com seus discípulos e durante a qual instituiu dataram no começo do século II, talvez até o fim do século I. Caso esse
a “Santa Ceia” teria acontecido, segundo eles, na véspera à noite e seria, fragmento não seja um elemento de tradição anterior, utilizado ao mesmo
port anto , a ceia pascal dos jud eus. Ora, segu ndo o qua rto evan gelh o, tempo por esse pap iro e por nosso e vangelho, não se pode m ais admitir, para
Jesus foi crucificado no 14 nisan, na manhã do dia em que os judeus a composição do quarto evangelho, um período posterior aos anos 90 e 95.
comiam o cordeiro pascal. A última ceia de Jesus com seus discípulos A tradição que se apoia sobre o testemunho de Irineu quer que o evangelho
teria ocorrido, portanto, no 13 nisan e não poderia ser considerada seja oriundo de Éfeso; outros indícios nos incitam a procurar sua srcem
uma ceia pascal. Porventura não se deve dar aqui preferência ao quarto antes em Antioquia. Seu estilo e sua linguagem (aramaísmos) trazem a marca
evangelho? E, de fato, difícil imaginar que a reunião do Sinédrio e todas de uma dupla influência, helenística e judaica, e não é preciso escolher, como
as medidas judaicas antes da crucificação tenham acontecido durante o se faz geralmente, entre essas duas influências, como se elas se excluíssem
grande dia de festa do 15 nisan11. Certos detalhes dos próprios sinóticos uma a outra, representando dois meios totalmente diferentes. Ao lado do
não concordam, aliás, com seu próprio contexto cronológico: segundo judaísmo oficial da Palestina (saduceus e fariseus) não deve ser esque cida a
Mc 15.21 e Lc 23.26, obrigou-se Simão Cireneu, “vindo do campo”, a existência de um outro tipo de judaísmo: o judaísmo esotérico, testemunhado
carregar a cruz de Jesus. Pois bem, isso signif ica - mesmo não sendo na Palestina e na Síria. Trata-se, no caso, de toda uma corrente de pensamento
seguro, é pelo menos provável - que ele trabalhara nos campos. Isso é cuja importância mostraram claramente os documentos descobertos em
incompatível com a proibição rigorosa imposta aos judeus de trabalhar Qumrã. Esses judeus, mais ou menos aparentados com os essênios, atribuíam
no dia da Páscoa, o 15 nisan, enquanto que esse fato é perfeitamente um papel primordial ao conhecimento e a toda sorte de batismos e usavam
verossímil no 14 nisan. um vocabulário que lembra o do sincretismo helenístico (A. Dupont-
De maneira geral, o plano cronológico do evangelho joanino, mais amplo -Sommer). As duas correntes do judaísmo palestinense - juda ísmo oficial e
do que o dos sinóticos, p oderia ser também o mais exato. A tradição sempre judaí smo não conformista - correspon diam prova velmente, em bora tivessem
tendeu a concentrar os eventos, e os dois ou três anos do quarto evangelho sofrido transformações profundas, a duas correntes análogas no cristianismo
são mais verossímeis do que o único ano atribuído pelos sinóticos ao primitivo d a Palestina.
ministério de Jesus. Também aqui, esses últimos contêm indícios do c aráter Os sinóticos representam antes a primeira corrente, o quarto evangelho
talvez artificial mente restrito do seu quad ro cro nológico e geográfico: mais a segunda, da qual talvez fazem parte igualmente aqueles “helen istas”
da Palestina que são mencionados no livro de Atos dos Apóstolos (At 2
22 Se se combinam os dados dos sinóticos c om aqueles do evangelho joanin o, fazendo intervir
a diferença do calendário da seita de Qumrã (A. Jaubert), a indicação cronológi ca do quarto
evangelho conserva igualmente seu valor histórico. 22 Albcit Schweitzer coloca-o até no século II, depois de Inácio de Antioquia.

32 33
6.7 e 8; 11.19-20). A interferência de um pensamento semítico e de um Com a morte de Cristo já está alcançado o auge da história do mundo. A
pensa mento grego no quarto evang elho explica-se facilme nte se o autor escatologia, portanto, já está realizada.
é procedente, como gostaríamos de admitir, desse ramo helenístico do Contudo, o quarto evangelho conhece aquela tensão entre o “já” e o
jud aísm o pa lestinense . “ainda não” que se encontra ao longo de todo o Novo Testamento, mas, de
sua parte e à sua maneira, põe o acento no “já”. Sua mensagem não é de
modo algum atemporal e admite claramente um fim da história dos seres
5.4 - As grandes idéias joaninas humanos, pois ela se refere frequentemente à ressurreição dos mortos no
derradeiro dia (5.28; 6.39,40,44,54). Entretanto, também aqui, o acento é
Já definimos a perspectiva teológica particular do evangelho: o autor posto na realizaç ão antecipada desse anúnc io, pois Jesus é, ele próprio , a
esforça-se para traçar a linha que liga o Jesus histórico ao Cristo da igreja ressurreição e a vida (11.23-26): a história que se desenrolou no passado e
com a intenção de mostrar sua identidade. aquela que se desenrolará no futuro são concentradas em sua pessoa.
E essa intenção que o leva a ver, em uma mesma perspectiva, certos Enfim, o quarto evangelho é o evangelho do amor: Deus amou o mun
eventos da vida de Jesus e das realidades da vida da igreja, de sua missão do (3.16), ele ama a Cristo (3.35; 15.9), Cristo ama os seus até mo rrer por
(4.3 lss; 12.20ss) e do culto “em espírito e em verdade”, no qual a presen eles (13.1), e os cristãos devem realizar, após sua morte, sua união com ele,
ça da glória divina não mais é ligada ao templo, mas à pessoa do Cristo amando-se uns aos outros (13.34).
morto e ressuscitado (1 .14; 1.51; 2.13ss; 4.19ss). Assim, o milagre de Caná
(2.1-12) e a multiplicação dos pães (6.1-13) pressupõem o sacramento da
Santa Ceia, a Eucaristia, como também a cura do paralítico de Betesda 5.5 - O autor do quarto evangelho
(5.1-14) e aquela do cego de nascença (9.1-4) anunciam o Batismo, e
a água e o sangue que saem da ilharga de Jesus após sua morte (19.34) A tradição clássica segundo a qual o autor do evangelho é João, filho
contêm uma referência a esses dois sacramentos. O discurso sobre o “pão de Zebedeu, um dos 12 apóstolos, não é testificada antes do testemunho
da vida” (6.22-59) é também uma verdadeira exposição doutrinai sobre a de Irineu, que escreve somente no fim do século II: “João, o discípulo do
Eucaristia, e a conversa com Nicodemos (3.1-21), uma autêntica cateque Senhor, escreveu o evangelho quando estava em Efeso na Ásia”.
se batismal. O que poderia dar peso ao testemunho de Irineu é o fato de que esse,
A continuidade entre o Jesus encarnado e o Cristo presente em sua antes de ser bispo de Lião, conheceu Policarpo, bispo de Esmirna, e que
igreja aparece, sobretudo, na promessa do Espírito Santo, chamado nos Policarpo, como afirma Irineu, lembrava muitas vezes suas antigas rela
“discursos de des pedida ” (cap. 14 a 17) pelo termo Paráclito (consolador, ções “com João e com os outros que viram o Senhor” (Carta de Irineu a
advogado, intercessor). Ele permitirá aos discípulos compreenderem o Florinus).
sentido da vida e das palavras de Jesus, tal como o evangelista revela Uma outra tradição, que se apoia em expressões pou co claras, registradas
em seu livro. Ele os conduzirá em toda a verdade; mas, por outro lado, pela p ena de Papias (bispo de H ierápolis, anterio r a Irineu, e que conh ece
o Cristo, ele mesmo, é a verdade e a palavra, do mesmo modo como é a mos somente pelo que nos relata o historiador eclesiástico Eusébio), fala
luz, a vida e a ressurreição (11.25). O tema da vida ocupa aqui o lugar que ora de João o apóstolo, ora de João o presbítero (= ancião). Por isso certos

é reservado
um ao tema
bem divino do Reino
a esperar para onos
fimsinóticos.
dos temposA vida
e um é,bem
ao presente,
mesmo tempo,
desde críticos
do filhoatribuíram o quarto evangelho a João, o ancião, que seria diferente
de Zebedeu.
agora, na pessoa do Cristo. Desde o fim do século II, a autenticidade joanina do quarto evangelho
A escatologia (quer dizer, a doutrina que trata do fim dos tempos) joanina foi posta em dúvida. E verdade que foi por causa de lutas doutrinárias,
é igualmente peculiar: nada de descrição do fim do mundo nem do retomo portan to por motivos cientifica mente problem áticos.
de Cristo para o julgamento final. A glória de Cristo já é manifesta (1.14; Mas surgem dificuldades reai s quando, após esses testemunhos “exter
2.11; 11.4 e 40); a salvação já está adquirida (5.24); o mundo já est ájulg a- nos” dos escritores antigos, que não nos proporcionam indicações
do (3.18-19) e o príncipe deste mundo já está expulso (12.31; 16.33). seguras, interrogamos nosso evangelho (sem dúvida, o título “Evangelho

34 35
segundo João” lhe foi dado muito tempo após a redação e não faz parte de Jesus, não faz parte necessariamente do grupo dos doze apóstolos; 2)
do srcinal) sobre a questão se seu autor é o apóstolo João, filho de Lázaro é o único personagem do qual também se diz que Jesus o amava (cf.
Zebedeu. Essa identificação jamais foi feita explicitamente e, sem 11.3,5,35); 3) quando o capítulo 21 nos participa o boato de que o discípulo
ser excluída absolutamente, nem mesmo foi sugerida pelo texto. O amado não morreria, porventura não se poderia pensar em Lázaro, o qual
evangelista pretende apenas ser uma testemunha ocular, se é que se pode Jesus ressuscitara dentre os mortos?
dizer isso quanto ao emprego da primeira pessoa do plural em 1.14 e Mas temos que reconhecer que essa identificação permanece inteira
sobretudo a “assinatura” de 19.35: “Aquele que isto viu testificou, mente hipotética e nos resignar por não conhecer com certeza o nome do
sendo verdadeiro o seu testemunho; e ele sabe que diz a verdade, para discípulo amado. Entretanto, podemos dizer dele:
que também vós creiais” (cf. também 20.30-31 e 21.24-25). Ademais, 1) Pertence a um ambiente teológico diferente daquele dos outros
o evangelho menciona duas vezes (1.35-40 e 18.15) a presença de um evangelistas, talvez ao dos helenistas da Palestina ou da Síria (veja acima
discípulo anônimo, que bem poderia ser o autor. Por fim e sobretudo, p. 33s).
é falado, repetidas vezes, de um discípulo “que Jesus amava” (13.23; 2) Não faz, necessariamente, parte do grupo dos doze, que como tal não
18.26; 20.2; 21.7; 21.20). Esse discípulo “amado” é apresentado como tem importância nesse evangelho, quando esse menciona outros discípulos
uma testemunha ocular e permanece anônimo: seria ele o autor?
Dois críticos modernos, A. Loisy e M. Goguel, pensaram que esse discí íntimos
3) Nãodeparece
Jesus.pertencer ao mesmo meio social dos outros discípulos de
pulo amado não era um p ersona gem histórico, mas uma fig ura ideal, a do Jesus (era conhecido do sumo sacerdote, cf. 18.15-16).
discípulo perfeito. Essa tese é contrária ao relato da história e da teologia 4) É talvez procedente de Jerusalém (historicamente, ele é bem infor
no evangelho joanino (v. págs. 31 e 34s). Além disso, difundiu-se (de acor mado sobre as tradições jerosolimitas).
do com 21.22-23) uma tradição segundo a qual o discípulo amado não
morreria; no momento em que esse cap. 21 é escrito, o erro dessa tradição
é reconhecido (cf. o v. 23), sem dúvida em consequência da constatação 6 - Os Atos dos Apóstolos
de que o discípulo amado já estava morto, o que combinaria mal com uma
figura ideal. Enfim, a confrontação entre o discípulo amado e o apóstolo 6.1 - Título e conteúdo
Pedro, que, por sua vez, não poderia ser uma figura ideal, toma essa tese
insustentável. O conteúdo do livro não corresponde a seu título, porque não se trata
O cap. 21 não parece ser do mesmo autor que os capítulos 1 a 20 (20.30- de todos os apóstolos, mas somente de Pedro (João não é mais do que um
31 é evidentemente uma conclusão), mas de um discípulo do evangelista, figurante) e de Paulo. Por outro lado, não são os “atos” desses apóstolos
ou melhor, de um grupo de discípulos (em 21.24 encontramos a primeira que achamos neste livro, mas antes a história da difusão do evangelho, de
pessoa do plural). Os cap ítulos 1 a 20 teria m sid o, p ortanto, escritos no fim Jerusalém até Roma, pela ação do Espírito Santo.
da vida de seu autor, que seria o discípulo amado. O capítulo 21 teria sido Tanto em sua intenção como em sua forma literária, este escrito não é
acrescentado em seguida, em parte para explicar sua morte, por um discí diferente dos evangelhos. Ainda é um euaggélion. Ademais, o Evangelho
pulo q ue te ria feito retoque s também no corpo do e vangelho. segundo Lucas e os Atos dos Apóstolos (como já vimos no estudo do Evan
Mas
cido doseevangelho?
pode identificar o discípulo
O capítulo amado com
21.2 distingue um personagem
claramente conhe
o anônimo dos gelho segundo
Talvez Lucas)
essa tenha sidoformavam apenas mais
dividida somente dois volumes
tarde p deelauma m esma
inserção obra.
do quarto
filhos de Zebedeu. Poder-se-ia ser tentado a propor uma hipótese bastante evangelho (Menoud).
sedutora, se bem que não seria escorada por argumentos indiscutíveis: o O intuito desse segundo volume é mostrar a ação poderosa do Espírito
discípulo amado seria Lázaro, o ressuscitado. Eis os pontos que se pode Santo na primeira comunidade cristã e, por ela, no mundo em redor. Esse
apresentar em favor dessa hipótese: 1) o quarto evangelho é o único que objetivo determina a escolha dos materiais históricos: o autor deixou fora
fala de Lázaro e coloca esse personagem bem próximo de Jesus, ao mesmo o que era contrário à sua tese ou aquilo que do seu ponto de vista não o
tempo é o único que fala de um discípulo amado, que, embora sendo íntimo interessava.

36 37
Assim temos de explicar o fim abrupto da “história” de Pedro (“E, sain plural - “Após esta visão de Paulo, im ediata mente (nós) procuramos partir
do, retirou-se par a outro luga r” - 12.1724) e o da “história” de Paulo (28.30- para a Macedôn ia ... (16.10)25; o texto contém , a seguir, longos trechos em
31). Daí também vêm lacunas e deformações. Os discursos de Pedro, de “nós”, o que se explicaria muito bem se o autor retomasse, nessa passagem
Estêvão e de Paulo, mesmo conservando as idéias mestras de cada um de seu relato, as anotações do jornal de viagem de um companheiro de
desses personagens, refletem a teologia particular do autor (Wilckens, apostolado de Paulo.
Haenchen). Muitos fatos contados pelo livro dos Atos encontram-se tam A questão que surge, então, é saber se o autor de todo o livro e o autor dos
bém nas cartas de Paulo, às vezes com divergên cias de narração, que fazem trechos em “nós” são idênticos ou se o primeiro recopiou certas passagens
pensa r que o autor dos Atos não conhecia as cartas paulinas. Assim, quando do jornal do segundo. A Antiguidade fornece exemplos de textos nos
se comparam At 15.1-29 e G1 2.1-10, que, muito provavelmente, relatam quais a primeira e a terceira pessoas alternam. Podemos, portanto, supor
o mesmo evento, a “conferência” de Jerusalém, quer dizer a reunião dos que o autor se tenha servido, para a segunda parte, do diário de um grupo
apóstolos, vindos a Jerusalém para confrontar suas experiências e seus de companheiros de Paulo, notadamente nas passagens em “nós” de seu
proble mas m issioná rios, p ercebe m-se n ítidas d ivergências: segund o G1 2, a próprio diário (Trocmé).
“conferência” apostólica decide que, doravante, a missão entre os gentios Admitamos, pois, que o autor de Atos é Lucas, companheiro de Paulo e
e a missão entre os judeus sejam separadas (2.7-9), enquanto, segundo autor do terceiro evangelho. Sendo o livro de Atos a continuação do Evan
At 15, o resultado da “conferência” é um decreto que impõe aos cristãos gelho de Lucas e datando esse do ano 80 aproximadamente, o livro de Atos
prove nientes do p aganismo a submissão a certas prescrições da lei judaica dos Apóstolos pode ter sido redigido entre 80 e 90.
(15.23-29).
O livro de Atos com seus relatos de conversões (9.1-20; 16.13-15; 16.24-
34) e de curas (3.1-11; 9.33-35; 14.8-10), seus quadros coloridos da vida
da igreja primitiva (2.42ss; 4.32ss; 5.11), os discursos teológicos postos na
boca de P edro (2.14-36; 3.12-26; 11.5-17), d e Estêvão (7.2-53) e de Paulo
(13.16-41; 17.22-31; 22.1 -21) constitui, ao mesmo tempo, uma apologia
do cristianismo.

6.2 - O autor, a data e as fontes

Vimos que o autor é o mesmo do Evangelho segundo Lucas. Ele se refere,


de fato, a um primeiro volume dedicado ao mesmo Teófilo. O vocabulário,
a linguagem, o estilo e as idéias teológicas são as mesmas. Como para o
evangelho (Lc 1.10), o autor serviu-se de fontes cujos vestígios descobrem-
-se facilmente, sobretudo para a primeira parte que descreve a vida da
comunidade primitiva.
Entre os documentos que lhe puderam servir de fontes para a segunda
parte, os exege tas pensa ram que havia um “diário”, um jorn al de viagem,
transcrito como tal em diversas passagens. De fato, no cap. 16, o relato
passa brusca mente da terceira pessoa do plural - “D esceram a T rôade. À
noite, sobreveio uma visão a Paulo ... “ ( 16.8-9) - para a primeira pessoa do

24 A reaparição no cap. 15 é somente passageira. 25 Segundo o Codex Bezae , o texto de Atos passa à primeira pessoa do plural desde o cap.
11, v. 28.

38
39
Capítulo 2 a data do proconsulado de Gálio em Acaia nos é conhecida por uma inscri
ção achada em Delfos e que foi publicada por Bourget. Essa inscrição
O Corpus paulino reproduz uma carta do imperador Cláudio aos habitantes de Delfos e nos
informa, incidentalmente, que Gálio era procônsul de Acaia por ocasião da
Cronologia paulina 26aaclamação do imperador, isto é, em 51 ou 52.
Ora, segundo At 18.11, Paulo permanece um ano e seis meses em Corinto
A questão da data de cada uma das epístolas paulinas é mais fácil na época do proconsulado de Gálio, depois parte dali para Éfeso, depois
de resolver do que para a maior parte dos documentos da Antiguidade. para Jerusa lém etc.: Festo, portanto, teria substituído Félix em 57 e Paulo
Assim sendo, em nosso estudo do Corpus paulino (quer dizer, da coleção ter-se-ia convertido em 32.
canônica das cartas tradicionalmente atribuídas ao apóstolo Paulo), Se, desse modo, conseguirmos relacionar as epístolas paulinas aos even
seguiremos a ordem cronológica e não a do cânone, que dispõe as cartas tos da vida de Paulo, será possível para nós datá-las. Por essa via ficamos
segundo sua extensão. sabendo que a Primeira Carta aos Tessalonicenses foi escrita no ano 50; dos
E preciso distinguir entre uma cronologia relativa e a cronologia absolu escritos cristãos que possuímos essa é a primeira em data.

ta:
coma os
cronologia
dados da relativa
Epístoladaaosvida de Paulo
Gálatas, pode serpor
completada estabelecida
aqueles dedeAtos
acordo
dos
Apóstolos. Obtém-se assim o seguinte esquema aproximativo: 1 - As primeiras epístolas
a) Entre a conversão de Paulo no caminho de Damasco e a sua primeira
visita aos apóstolos em Jerusalém passaram três anos; 1.1 - A Primeira Carta a os Tessal onicenses
b) A prim eira viagem missionária de Paulo, seguid a de uma segun da
visita a Jerusalém, durou 13 a 14 anos; Tessalônica foi fundada por volta de 300 a.C. por Cassandro da Mace-
c) A segunda e a terceira viagens missionárias de Paulo, seguidas de sua dônia em homenagem à sua mulher Tessalônica. Essa cidade (que mais
prisão em Jeru salém , re presenta m um p eríodo de seis anos e meio; tarde se chamou Salônica) era um importante centro de encontro entre o
d) Paulo fica na prisão em Cesareia durante dois anos; Oriente e o Ocidente. Na época em que foi redigida esta epístola, era o
e) O prisioneiro é levado a Roma, e a viagem dura um ano; lugar de residência do procônsul romano. Segundo o historiador Estrabão,
f) Paulo é prisioneiro em Roma durante dois anos. era uma cidade muito populosa, e inscrições nos informam que nela havia
Basta, pois, um só ponto fixo dentro dessa cronologia relativa para obter muitos judeus.
a cronologia absoluta. E a cronologia geral da Antiguidade que nos deve No percurso de sua segunda viagem mission ária, Paulo cheg a a
fornecer esse ponto de referência. Tessalônica, acompanhado de Silas e de Timóteo (At 17.1-15). Pregam na
Outrora indicava-se como data de referência na história de Paulo o sinagoga da cidade e ali convertem alguns judeus e, sobretudo, gentios
momento em que o procurador, perante o qual Paulo se devia defender, ligados ao judaísmo, sem, porém, se ter submetido a suas leis rituais; mas
Antônio Félix, foi chamado a Roma e substituído em seu cargo por Pórcio essas conversões despertam a inveja dos outros judeus, que provocam um
Festo. Essa sucessão é mencionada em At 24.27, onde o apóstolo Paulo, motim, de maneira que Paulo e Silas são obrigados a fugir da cidade em

entãotrês
Ora, prisioneiro em Cesareia,
documentos, vai comparecer
uma passagem perante
dos Anais esse Pórcio
de Tácito, Festo. de
um texto plena noite
Esses e refugiar-se
dados emlivro
históricos do Bereia.
de Atos são confirmados pela Primeira
Josefo e um outro de Eusébio nos dão a conhecer a duração das funções de Carta aos Tessalonicenses. Por ela temos conhecimento de que Paulo en
Félix e de Festo. Infelizmente, esses textos não são claros nem unânimes, viou de Atenas (3.1) seu discípulo Timóteo para informar-se sobre a comu
se bem que se possa concluir deles que Festo substituiu Félix no ano 60 ou nidade de Tessalônica (3.2-5) e que Timóteo comunicou a Paulo, juntame n
no ano 56 ou 59. te com boas-novas (3.6), uma série de questões doutrinárias aos membros
Floje temos um ponto de referência mais seguro. Em At 18.12-17, a dessa igreja, a propósito da escatologia. Entrementes, Paulo dirigira-
propósito da e stada de Paulo em Corinto, fala-se no p rocônsu l Gálio. Ora, -se provavelmente a Corinto. Após sua partida, efetivamente surgiram

40 41
discussões sobre a sorte dos cristãos que morrem antes do retomo de Cristo As alusões históricas não seriam mais do que ficções literárias. Eis os dois
(4 .13ss) e sobre a data desse retorno (5.1 ss). Paulo vai respon der a essas pri nci pai s a rgu me nto s des ses crít icos :
questões, e o ensinamento que dispensa sobre esse assunto, baseando-se a) O conteúdo teológico das duas epístolas é contraditório. De acordo
numa palavra de Jesus, constitui o interesse teológico central dessa carta: com a primeira, o fim aparecerá subitamente; de acordo com a segunda,
aqueles que ainda estarão vivos no momento da vinda final de Cristo não somente depois de um certo número de eventos;
terão vantagem sobre aqueles que já estarão mortos, porque esses últimos b) Na seg und a epí sto la ac ham -se rep etiç ões da prim eira : po r exe mpl o,
ressuscitarão quando ressoar a última trombeta. 2Ts 2.13-17 reproduz mais ou menos lTs 3.7-13.
Vimos que esta epístola foi escrita muito provavelmente em 50. Sua Constrói-se, portanto, a seguinte hipótese: um cristão teria desaprovado,
autenticidade foi contestada no século XIX pelos exegetas hegelianos da após a morte de Paulo, lTs e teria tentado substituí-la por uma outra
Escola Teológica de Tubinga. Segundo eles, o versículo 16 do capítulo epístola de sua própria mão (2Ts), recopiando mais ou menos literalmente
2 - “A ira, porém, sobreveio contra eles (os judeus), definitivamente” - certas passagens de lTs para enganar o leito r.
faria alusão à destruição de Jerusalém em 70. Essa epístola seria, portanto, O que se deve responder a esses argumentos?

escrita após a morte de Paulo. Mas há um argumento positivo em favor a) A ideia central de cada um a das epístolas e, em particular, suas opiniões
da autenticidade: o fato de se discutirem em Tessalônica problemas sobre o fim não são contraditórias, mas complementares. O apocalipsismo
escatológicos que pressupõem a espera de um fim iminente indica uma jud aic o reú ne-a s igua lmen te.
situação correspondente aos tempos mais primitivos da igreja. Os primeiros b) Qua nto às repe tiçõ es, pod e-se exp lic á-la s mesm o adm itin do a iden 
cristãos, de fato, inclusive o próprio Paulo (ao menos no início de seu tidade do autor: Paulo tem muito a escrever e se repete; ou ainda, vendo
ministério apostólico), esperavam a volta de Cristo para a geração deles. que sua primeira carta deu lugar a mal-entendidos, escreve uma segunda,
Um outro indício depõe em favor da autenticidade paulina desta epísto retomando as mesmas idéias em outros termos, para corrigir esses mal-
la: os chefes da igreja de Tessalônica são designados pelo termo de -entendidos.
prois táme noi, “d irigentes” (“os que presidem” - 5.12), te rmo que desapa Naq uel e tem po, ain da não exi stia a pro prie dad e literá ria. No caso de
recerá bem rapidamente para dar lugar a epíscopoi, “supervisores”. Esta nossa epístola, não se deveria atribuir ao autor, não sendo Paulo, uma in
mos, portanto, aqui em uma etapa primitiva do desenvolvimento da orga tenção cínica de enganar seus leitores? De fato, é dito em 2.2: Irmãos, nós
nização das comunidades cristãs. vos exortamos “a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade,
nem vos perturbeis ... por alguma epístola como se procedesse de nós” e
em 3.17: “A saudação é de próprio punho: Paulo. Este é o sinal em cada
1.2 - A Segunda Carta a os Tessalonice nses epístola, assim é que eu assino”. Se, como nós pensamos, esses versículos
são de Paufo, eles provam duas coisas: que, primeiro, Paulo usava habitu
A Segunda Carta aos Tessalonicenses contém menos alusões diretas à almente um secre tário (Silvano ou Timóteo de 1.1?), e que existiam, já
situação histórica do que a primeira. durante a vida do apóstolo, cartas que lhe eram atribuídas falsamente.
Onde está o apóstolo quando redige esta segunda carta? Não podemos dedu Já na sua primeira epístola, Paulo advertira contra a “inspiração” do
zi-lo, nem dela mesmo nem do livro dos Atos. No entanto, a situação não deve Santo Espírito, sem controle. Havia, sem dúvida, muitos iluminados em
ser muito diferente daquela que havia durante a redação da primeira epístola. Tessalônica, e esse iluminismo estava relacionado àquela expectativa fe
Timóteo e Silas ainda estão junto a Paulo (1.1), e a igreja de Tessalônica ainda bril da vind a de Cristo . O apó stol o esc rev era que é nece ssár io mant er-se
continua debaten do a escatologia (2.1 ss). Supõe-se, pois, que Paulo tenha escri prep arad o para esse even to, mas tamb ém quer ia d esv iar o s t essa loni cen ses
to esta segunda epístola pouco após a primeira, que ele ainda se encontrasse em de fazer cálculos sobre a data de retorno de Cristo, já que esse viria de
Corinto (cf. At 18) e que tivesse recebido novas notícias dos tessalonicenses surpresa como um “ladrão de noite”. Ele foi mal compreendido, porque os
entre as duas cartas. Estaríamos, pois, ainda no me smo ano de 50. destinatários criam que a volta de Cristo era iminente, que não restava nada
A autenticidade paulina desta segunda epístola é contestada por muitos mais senão parar todo o trabalho e esperar ansiosamente. Paulo corrige
críticos, mesmo por alguns dos que admitem que a primeira seja autêntica. em sua segunda carta: acontecimentos precursores anunciarão o grande dia

42 43
(2.3); há notadamente um elemento (uma pessoa) que ainda “retarda” o A Galácia do Norte, quer dizer a região de Pessino e de Ancira (hoje
fim (2.6-7); é necessário ficar calmo e continuar a trabalhar (3.6-12). E Ancara), entre o Ponto, a Bitínia e a Licaônia, era habitada por uma popu
para mostrar que não se contradiz, o apósto lo lembra q ue o q ue ele escreve lação céltica (daí a palavra “gálatas”), que lá se estabelecera em p rincípios
agora está de acordo àquilo que ensinava de viva voz quando estava em do século III a.C. Em 50 a.C., Amintas, último rei dos gálatas, une a seu
Tessalônica (2.5) e está conforme àquilo que escreveu em sua primeira território a Licaônia e a Pisídia, duas regiões meridionais. Com a morte de
carta (2.15), da qual retoma, aliás, muitas idéias (2Ts 2.13-17 paralelo a Amyntas em 25 a.C., todo o território passa aos romanos, que fizeram do
lTs 3.7-13). mesmo uma só província administrada por um mesmo legado. Essa pro
víncia romana, que se estendia de norte a sul, levava um título muito longo,
que citava todas as regiões que englobava. Esse título foi, por comodi
2 - As grandes epístolas dade, abreviado para “Galácia”, como atestam Tácito, Ptolomeu e Plínio.
A linguagem popular, no entanto, parece ter reservado o uso da palavra
A autenticidade paulina das quatro epístolas para as quais vamos passar “Galácia” à região setentrional .
agora jamais foi contestada, afora algumas exceções. Obras-mestras do Ora, Paulo circulou na Galácia do Sul (região da Pisídia, Icônio,

pensa ment o do apósto lo Paulo, apresentam um alto interesse doutrinai. Listra e Derbe)
At 13.14ss, ali durante
fundou aigrejas
sua primeira viagememmissionária.
que visitou, Segundo
seguida, por ocasião
de sua segunda viagem (At 16.1). Mas, durante essa segunda viagem
2.1 - A Carta aos Gálat as missionária, também foi à Galácia do Norte e lá igualmente fundou
igrejas, visitadas por ele novamente no decorrer de sua terceira viagem
Esta epístola desempenhou, por seu lado dogmático26, um papel especial (At 18.23).
nos períodos de combate da história da igreja, por exemplo, durante a A quais dessas igrejas se dirige Paulo: àquelas do norte ou àquelas do
Reforma do século XVI. sul? Da resposta a essa questão depende a datação de nossa epístola. E
O tema principal, que trata das relações entre a lei e a graça, entre as improvável que Paulo tenha chamado de “gálatas” os habitantes das cida
obras e a fé no ato redentor de Jesus Cristo, reencontrar-se-á, mais larga des helenizadas da Galácia do Sul (cf. 3.1: “Ó gálatas insensatos!”). Uma
e metodicamente desenvolvido, na Carta aos Romanos, que estudaremos terceira solução seria aceitar, evidentemente, que Paulo escreve a todas as
mais adiante. Aqui, em Gálatas, o pensamento paulino ainda se acha em igrejas da província da Galácia, do norte ao sul; mas os ataques precisos
sua fase de elaboração. Além disso, o motivo desta epístola é diferente. e diretos que ele lança aos “gálatas” não poderíam valer para todas essas
Ela deve sua srcem a um ataque dirigido contra a própria pessoa de igrejas, tão diferentes umas das outras. Ele escreve, portanto, antes a um
Paulo, contra seu ensinamento e sua autoridade de apóstolo da parte dos peque no grupo local de igrejas.
cristãos judaicos, agarrados à Lei e que não compreenderam a novidade Por outro lado, quando o livro dos Atos fala de uma “região da
do evangelho (cf. 1.6 a 3.1). Paulo insiste no fato de que ele recebeu Galácia” (16.6 e 18.23), faz isso sempre em associação com a Frigia,
o evangelho diretamente por uma revelação da parte de Cristo e, sem região setentrional, e para marcar uma etapa em um percurso apostólico
o intermédio de uma transmissão humana, o apostolado, função única, rumo ao norte. Concluímos, pois, que esta epístola é endereçada aos
excluindo qualquer transmissão de pessoa a pessoa. cristãos de srcem céltica da Galácia do Norte, a região de Pessino e
de Ancira.
Tentemos definir a situação histórica e a data da Carta aos Gálatas.
Quem são os gálatas? A questão é menos simples do que poderia pare Qual é sua data de redação? Em 4.13, Paulo lembra que, quando veio
cer, porque duas regiões da Ásia Menor, uma ao norte e outra ao sul, “pela primeira vez” aos gálatas, estivera enfermo, portanto esteve lá
tinham o nome de Galácia. já duas vezes. Se se trata da Galá cia do Norte , as duas visit as não são
aquelas de At 13.14 e 16.1 (Galácia do Sul), mas aquelas de 16.6e 18.23.
Esta epístola foi, pois, redigida após a segunda dessas passagens de Paulo
26 Paulo nos dá aqui, mas com um objetivo teológico, informações sobre sua vida que nos pela Galá cia do No rte, que r dizer, na sua terc eira viage m missioná ria, por
são preciosas; cf. 1.13 a 2.14.

44 45
conseguinte mais cedo, cerca de 52-53. E provavelmente ele a redigiu A epístola, no entanto, leva em conta uma certa diversidade e até divi
em Efeso. sões no seio da comunidade. Segundo 1.12, havia quatro “partidos”, que
se pretendiam respectivamente de Paulo, de Apoio, de P edro e de Cristo.
O “partido de P aulo” era composto talvez pelos primeiros cristãos dessa
2.2 - A Prim eira Carta ao s Coríntio s igreja, convertidos por Paulo em 51. O “partido de Apoio” resultou, sem
dúvida, da atividade doutrinária de Apoio, um judeu letrado de Alexandria,
A pergunta pelos destinatários desta epístola não é difícil de responder, membro da seita de João Batista antes de ser cristão; ele viera a Corinto
porqu e co nhece mos muito bem a cidade e a igreja de Corinto. (At 19.1) e é descrito como um bom pregador, forte em conhecimentos
Corinto, a opulenta cidade grega de dois portos, destruída em 146 a.C. bíblicos (cf. A t 18.24-28). Teria sido sobretu do um partido de uma mino
por Mummius e recons truída sob Júlio Césa r e Augus to, era um centro ria de intelectuais. Certamente o apóstolo tem esses intelectuais em vista
comercial cosmopolita. Todos os cultos e todas as filosofias da época esta quando, nos primeiros capítulos, dá um ensinamento particularmente pro
vam representadas ali. Também era uma cidade onde, frequentemente, acon fundo sobre a diferença entre a sabedoria humana e a sabedoria de Deus,
teciam desordens de toda espécie e que tinha uma reputação de libertina essa última acessível ao ser humano somente pela fé e pela intermediação
gem e devassidão, de modo que a expressão “viver à maneira coríntia” do Espírito Santo.
passara para a ling uagem corrente como expres são de uma vida d issoluta. Compreendiam o “partido de Pedro” os judaico-cristãos vindos da Pales
A igreja de Corinto, composta, sobretudo, de cristãos provenientes do tina e batizados lá pelo apóstolo? Ou teria o próprio Pedro passado por
paganism o e pro ceden tes d e meios sociais modes tos, foi fu ndada por Pau Corinto?
lo. Encontramos o relato dessa fundação em At 18.1-18; ocorreu no ano de Quanto ao estranho “partido de Cristo”, esse dá muito trabalho aos
51, época do procônsul Gálio, do qual já falamos. Paulo anuncia o evan exegetas. Porventura trata-se de um grupo de sectários, que reivindica para
gelho na sinagoga, e os judeus lhe fazem oposição. Ele se volta, então, para si o monopólio do nome de Cristo? E estranha a aparição desse nome na
os gentios, mas a oposição judaica toma-se violenta no dia em que Crispo, vizinhança e em comparação com Paulo, Pedro e Apoio. Várias hipóteses
o chefe da sinagoga, se converte ao cristianismo com toda a sua família. foram levantadas, das quais nenhuma é convincente; citaremos apenas
Quanto ao procônsul Gálio, ele recusa imiscuir-se nessa querela judaica. duas, das quais uma é mais engenhosa, enquanto a outra é mais provável.
Após um ano e meio, Paulo deixa Corinto. Sugeriu-se não ler Christos em 1.12, mas Crispos. Um copista teria feito
O Novo Testamento contém duas epístolas aos coríntios. Ora, Paulo en confusão por causa da semelhança gráfica das palavras gregas escritas em
viou quatro cartas a essa igreja, das quais duas estão perdidas até hoje. Pode letras maiúsculas. Nesse caso se trataria do “partido” formado em torno
mos situar uma antes da nossa “Primeira Carta aos Coríntios”, graças a uma de Crispo, o chefe da sinagoga de Corinto, convertido por Paulo segundo
indicação nessa epístola. Paulo faz alusão a isso em 5.9: “Já em carta vos At 18.8 e do qual nossa epístola fala ainda, logo a seguir, após ter citado
escrevi...”. A outra situa-se entre as duas epístolas canônicas (aquela da qual os quatro “partidos” em 1.14: “... a nenhum de vós batizei exceto Crispo
fala 2Co 2.4). Nossa “Primeira Carta aos Coríntios” é, pois, na verdade, a e Gaio”. Outros creram ver na expressão “e eu de Cristo” (1.12) uma
segunda dessas quatro, e nossa “Segunda Carta aos Coríntios” é a última. observação pessoal de Paulo ou a exclamação entre parênteses de um dos
Os dados históricos do livro dos Atos são confirmados por nossa Primeira primeiro s copista s da epísto la. E sse, indig nado de vido às di visões co ríntias,
Carta aos Coríntios. Segundo Atos, a igreja de Corinto é composta de uma teria insistido em acrescentar, à margem, sua confissão de fé pessoal:
maioria de gentílico-cristãos e de uma minoria de judaico-cristãos; de fato, “quanto a mim, eu sou de Cristo!”. O copista seguinte teria introduzido
lemos em ICo 12.2: “quando éreis gentios...” e em 7.18: “Foi alguém essa anotação marginal no texto, de acordo com o que mencionamos sobre
chamado estando circunciso? Não desfaça a circuncisão”. a srcem de certas variantes de detalhes entre os manuscritos27. Em defesa
A igreja compreende numerosos escravos (cf. 7.21: “Foste chamado dessa hipótese poder-se-ia recorrer à continuação da epístola, onde se fala
sendo escravo? Não te preocupes com isso”), mas poucos intelectuais e de novo dessas divisões internas (3.3-7 e 3.21-23): ali esse quarto partido
ricos: “Irmãos, reparai na vossa vocação: visto que não foram chamados
muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento...” (1.26).
27 Cf. supra p. 9.

46 47
não é mais mencionado (nem mesmo o de Pedro em 3.4), e Paulo conclama claro quando se comparam 2.1,1 2.14 e 13.1-2). Durante sua últ ima estada,
os coríntios a juntar-se em Cristo. ele fora insultado pessoal e gravemente por um membro da comunidade
O apóstolo escreve esta carta para tentar restabelecer a unidade na (cf. 2.5-11; 7.12). De volta a Éfeso, ele dirige uma carta aos coríntios,
igreja de Corinto, da qual recebeu más notícias (1.11). Ao lado desse exigindo que o ofensor seja punido. Essa carta é mencionada em 2.3-4,
importante assunto de unidade, que é tratado nos capítulos 1 a 4, encon  2.9, 7.8 e 12. Chamam-na habitualmente de “epístola de lágrimas”, por
tramos nesta epístola uma instrução sobre a questão sexual nos capítulos que o próprio apóstolo diz: “Porque no meio de muitos sofrimentos e an
5 e 6; sobre o casamento no capítulo 7; sobre a liberdade cristã e o res gústias de coração vos escrevi, com muitas lágrimas” (2.4). Essa epístola
peito devid o aos “fra cos na f é” no capít ulo 8; sobre os d ireitos d o min is não pode ser nossa “Primeira Carta aos Coríntios”, que não corresponde à
tro do evangelho de viver de sua pregação no capítulo 9; sobre o culto definição de uma “epístola de lágrimas”. Trata-se, portanto, de uma carta
e a Eucaristia nos capítulos 10 e ll28; sobre os dons mais ou menos ex perdid a29, a terceira das quatro escritas por Paulo aos C oríntios. Talve z Tito,
traordinários do Espírito Santo, em particular o fenômeno de “falar em um discípulo de Paulo, tenha sido seu portador. Em todo caso, o apóstolo
línguas”, nos capítulos 12 a 14. A resposta a todas essa s questões práticas enviou Tito a Corinto, e esse acalmou os espíritos, restabeleceu a unidade e
é submetida ao princípio do amor, que é o objeto especial do capítu trouxe boas-novas a Paulo (7.6-16); esse então retoma a pena.
lo 13.eiram
prim O capítulo
ente de 15, talvez
Cristo, o mais
citand o umimportante,
dos credos trata
mais da ressurreição,
antig os, que enu  emOnde se encontra
Trôade, o apóstolomais
onde preparará nesse momento?
tarde Ele deixou
sua última viagemÉfeso e esteve
a Jerusalém.
mera todas as aparições do Ressuscitado. A seguir, fala nesse contexto Percorre a região da Macedônia, “fortalecendo os discípulos com muitas
da ressurreição dos cristãos, não a ressurreição da carne, mas do corpo, exortações” (At 20.2). Ele organiza para a comunidade em Jerusalém uma
transformado em “corpo espiritual” (ICo 15.44). coleta que lhe interessa vivamente, porque é um sinal da unidade da igreja;
Esta epístola é, portanto, uma das mais preciosas, tanto pela doutrina da dedica dois capítulos inteiros (8 e 9) para expor o fundamento teológico
igreja como pelo conhecimento da vida concreta nas comunidades funda dessa coleta. É nessa região da Macedônia (cf. 1.16 e 7.15) que foi redigida
das por Paulo. O apóstolo escreveu esta epístola em Éfeso (16.8) no mo a Segunda Carta aos C oríntios no fina l do ano 55.
mento em que se preparava para deixar essa cidade, sem dúvida pouco Os detalhes biográficos que ela proporciona contribuem para nos dar a
tempo depois da Páscoa (5.7-8), pois ele partiría em Pentecostes (16.8). É conhecer a vida e a personalidade do apóstolo. Ele mesmo nos fala das
a primavera do ano de 55. tribulações que sofreu em Éfeso (11.23-27), de suas visões e de sua enfer
midade (12.1-10), da maneira com o encara seu ministério e da natureza de
sua autoridade (6.1 -10 e 10.1-11).
2.3 - A Segunda Carta aos Coríntios

O estilo da Segunda Carta aos Coríntios trai a emoção do autor, o que 2.4 - A Carta ao s Romanos
toma a tradução um tanto difícil. É a carta mais pessoal do apóstolo: Paulo,
atacado, vê-se obrigado a fazer nela sua própria defesa ou, antes, a do seu A Carta aos Romanos assemelha-se muito mais a um tratado teológico
apostolado. do que a uma carta. Ela desempenhou, no decurso da história da igreja, um
Acontecimentos precisos sucederam no tempo que separa a primeira da papel espe cialme nte importan te, a ponto de ser fiadora de uma fé cristã
segunda epístola. Alguns indícios nos permitem reconstituir esses eventos, autêntica. Serviu de arma para Santo Agostinho na luta contra Pelágio; os
em parte desconhecidos. Paulo interrompeu sua longa estada em Éfeso para reformadores Lutero e Calvino fizeram dela um baluarte da verdade; e, em
visitar os coríntios e preparar-se para fazer-lhes uma nova visita (o fato é nossos dias, o retumbante comentário do teólogo suíço Karl Barth sobre
esta epístola permitiu ao pensamento teológico tomar um novo impulso.

28 O cap. 11contem um rel ato da instituição da Santa Ceia, que, apesar das divergências, tem
a mesma srcem que os relatos paralelos dos evangelhos sinóticos, a saber: a tradição oral 29 Pretendeu-se reencontrá-la nos capítulos 10-13 de nossa Segunda Carta a os Coríntios, que
da comunidade primitiva. teria sido acrescentada posteriormente. E difícil provar essa hipótese.

48 49
Paulo escreve aqui a uma igreja da qual não é o fund ador (cf. 15.20; esse, no momento da redação dessa carta, estivesse estabelecido no seio da
1.13). Ele tem agora a intenção de ir ao Ocidente (15.23). Seu pensamento igreja da capital. O historiador romano Suetônio infonna-nos indiretamente
aprimorou-se com a polêmica e as experiências que teve em toda parte por que, já sob o imperador Cláudio, havia cristãos em Roma. Em 49, um decreto
onde passara até então. desse imperador ordenava a expulsão dos judeus da capital do Império . Esse
Acredita ele que o Ocidente tem os mesmos problemas que o Oriente? decreto visava pôr fim aos tumultos que surgiram, naquele momento, em
De fato, antes mesmo de conhecer a igreja de Roma, ele lhe expõe sua decorrência da atuação de um certo “Chrestus” (Suetônio, Vit. Claud., 25). E
teologia. E que Paulo tenta fazer de Roma a base inicial da evangelização provável que a expansão da fé cristã entre os jude us tenha dado srcem a esses
no Ocidente e já tem em vista a evang elização da Espanha (15.23-33). tumultos (vimos que em quase toda parte no Oriente esse desenvolvime nto
Paulo encontra-se em Corinto; lá desfruta da calma necessária para le não aconteceu sem choques) e que o “Chrestus” em questão não seja nenhum
var a bom termo uma exposição doutrinai. Não mantém relações diretas outro senão “Christus”, a saber, Jesus Cristo. Os gentios confundiríam ainda
com os cristãos de Roma e, ainda que considere a situação e os problemas por muito tem po os jude us e os cristãos.
concretos daquela comunidade, sobre os quais foi informado, ele ultrapassa Em consequência do decreto de Cláudio, também os judaico-
o horizonte da igreja local e tem em vista todos os cristãos. -cristãos tiveram que deixar Roma32, ficando na comunidade somente
Os documentos
situação da época
dessa igreja. permitem-nos Roma
Não descreveremos compreender o estado
no tempo e a
de Paulo; os gentílico-cristãos,
morte de Cláudio em 54,nãoosatingidos
judeus pelo decreto
puderam de expulsão.
retornar a Roma eApós a
com eles
porq ue as obra s são abu nda ntes sobre esse assu nto. Not em os som ente os judaico-cristãos. A readaptação desses últimos em uma comunidade
que a colônia judaica de Roma era muito numerosa, sobretudo depois que, na ausência deles, se tornara gentílico-cristã provocou uma certa
que Pompeu, em 61 a.C., trouxera para lá numerosos escravos judeus, desavença e até atritos, aos quais talvez façam alusão discretamente os
libertados mais tarde (veja-se a notícia de At 6.9, que assinala a capítulos 14 e 15.1-13 de nossa Carta aos Romanos. Essa é a razão pela
existência de seus descendentes em Jerusalém). No seio dessa colônia qual o apóstolo se esforça para colocar em evidência o papel de Israel
nasceu e desenvolveu-se a fé cristã. na história da salvação.
E fácil adivinhar como essa igreja em Roma nasceu. Trata-se, sem Com grande exatidão podemos fixar a data de redação desta epístola.
dúvida, de uma expansão natural, porque todos os caminhos conduziam Segundo 15.25, Paulo prepara-se para levar a Jerusalém o resultado da
a Roma, capital do Império. Os judeus da Palestina afluíam para lá com coleta feita como sinal de unidade entre os cristãos da Macedônia e Acaia
o objetivo de reencontrar seus correligionários. Pode-se admitir, portanto, em favor dos pobres da igreja-mãe de Jerusalém. Uma confrontação com
que uma parte dos judeus atingidos pela nova fé quando ainda estavam na o livro dos Atos permite datar o fato. Há uma ampla concordância particu
Palestina10 tenham trazido o evangelho para os judeus romanos. Por isso larmente entre nossa epístola e At 19.21: “Paulo resolveu, no seu espírito,
não é necessário fazer intervir a missão de um apóstolo. ir a Jerusalém, atravessando a Macedônia e Acaia, considerando: Depois
Mas a tradição associa a srcem da cristandade romana ao apóstolo Pedro. de haver estado ali, importa-me ver também Roma”. Portanto, a Carta aos
Na realidade, nenhuma declaração do Novo Testamento sugere que Pedro Romanos foi escrita antes da Páscoa do ano 56, durante os três meses em
seja seu fundador3 031. Outra questão é saber se ele se dirigiu para lá mais que Paulo esteve, pela última vez, em Corinto.
tarde, no fim de sua vida, quando já existia a comunidade cristã. Segundo A autenticidade paulina dessa epístola jamais foi contestada. Somente
a Primeira
supor Cartatenha
que Pedro de Clemente Romano,
morrido como mártirum escritodurante
em Roma cristão dea perseguição
96, pode-se o capítulo 16, composto de saudações, apresenta o problema de saber
se esta epístola era realmente destinada aos romanos. De fato, como o
desfechada por Nero. Entretanto, apesar de toda a prudência que requer o apóstolo, que jamais fora a Roma, podería conhecer tanta gente residente
emprego dos argumentos e silentio, é preciso reconhecer que a ausência, na lá? Epêneto, “primícias da Ásia”, encontra-se realmente em Roma
Carta aos Romanos, de toda e qualquer alusão a Pedro seria de estranhar, caso (16.5)? Áquila e Priscila tinham uma casa em Éfeso, se crermos no que
está escrito em ICo 16.19: “Vos saúdam Áquila e Priscila e, bem assim,
30 Ou também judeus romanos que haviam retom ado de uma peregrinação a Jerusalém (cf.
At 2.5-10).
31 Em todo caso não At 12.17: “E saindo (Pedro), retirou-se para outro lugar”. 33 Cf. a anotação do livro dos At 18.1 -3.

50 51
a igreja que está na casa deles”. (Recordemos que a Primeira Carta aos B - 9.1 -11.36: a história da salvação, jude us e gentios.
Coríntios foi escrita em Éfeso.) Ora, segundo Rm 16.4-5, eles devem ser
saudados juntamente com a comunidade reunida “em sua casa” . 2 - A segunda parte, de cunho ético, trata da santificação e vai de 12.1 a
Por isso propôs-se ver nesse capítulo 16 uma epístola a Éfeso. Mas 15.13. O capítulo 13 aborda o problema da atitude para com o Estado e o
será que uma epístola pode conter exclusivamente saudações? O exame capítulo 14, o das relações entre os fortes e os fracos na fé.
dos manuscritos antigos sugere uma outra explicação. Os papiros Chester Uma conclusão dupla, enfim, é trazida pelo capítulo 15, que contém
Beatty (chamados “p46”), que datam do século 111, situam a doxologia final planos de viage m e t ermin a com uma bênçã o, e p elo capítulo 16, do qual
de 16.25-27 após 15.33. Parecem, pois, atestar a existência de exemplares falamos, que encerra somente uma série de saudações, terminando com
que não continham o capítulo 16. Além disso, as duas palavras “em Roma” uma bênção seguida de uma doxologia.
(1.7; 15), que lemos na m aioria dos manuscritos antigos, faltam em outros
manuscritos. Certamente os capítulos 1-15 da epístola foram enviados a
Roma; mas o hábito, aconselhado pelo próprio Paulo3’, de fazer circular 3 - As epístolas do cati veiro
suas cartas entre as igrejas permite pensar que o apóstolo queria que sua
epístola
jun tado àtambém fosse
sua carta lidaetepelos
o bilh de sacristãos
udação de
queÉfeso;
formanesse
o capítcaso, ele teria
ulo 16. As epístolas
prisão (Fp 1.7 que seguem
e 13-14; Fm,têm
v. 1em comum
e 9; Ef 3.1entre si Cl
e 4.1; que4.3,
foram
10 eescritas na
18); daí
Isso explicaria por que o endereço “a Roma” está suprimido na “edição a designação desse grupo. Já que o apóstolo Paulo esteve várias vezes no
efesina” da epístola. Essa explicação impõe-se tanto mais quanto se cativeiro, a questão será determinar de qual cativeiro se trata em cada caso.
pod e fazer uma obser vaç ão aná log a a propós ito da Car ta aos Efésíos
(que estudaremos mais tarde), em que, no endereço, faltam as palavras
“a Éfeso” (cf. 1.1) nos melhores manuscritos. 3.1 - A Carta aos F ilipenses
0 conteúdo teológico é demasiado rico para ser resumido. Seu tema é
formulado em 1.16-17 : “O evangelho é o pode r de Deus, para a sal vação A cidade na qual o apóstolo se encontra no momento em que escreve
de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que esta carta, como prisioneiro (1.7 e 1.13-14), é, segundo a hipótese clássi
a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. ca, Roma. Lá ele está detido numa residência sob a guarda de um soldado
A Carta aos Romanos segue um plano sistemático, que tentamos esbo romano (At 28.16).
çar aqui, a fim de facilitar a leitura dessa obra-prima de Paulo. Após uma Certas passagens foram invocadas em favor dessa hipótese. Em 1.13
introdução epistolar (1.1-17), encontramos: menciona-se o “pretório”. Essa palavra pode designar um edifício (o palá
cio imperial ou a caserna da guarda pretoriana) ou o conjunto de pessoas
1 - Uma primeira parte, de natureza dogmática, que se estende até a (os soldados dessa guarda, sendo esse o caso em 1.13: “e de todos os de
doxologia de 11.36 e pode ser subdividida da seguinte forma: mais”). Aplica-se, portanto, a Roma, mas não exclusivamente. Em todo
A - 1.18-8.39: a justificação pela fé: caso, a residência dos governadores das províncias romanas mais distantes
a) 1.18-3.20: aspecto negativo: fora da fé, tanto os judeus como os gen da capital também leva esse nome. Assim, o governador romano de Cesa-
tios estão sob o domínio da ira de Deus; reia habitava um pretório, construído por Herodes (At 23.35), e Pôncio
b) 3.21 -8.39: aspecto positiv o: p rova da Escritura p ela fé de Abraão (cap. Pilatos residia, durante suas estadas em Jerusalém, também em um pretório
4), a humanidade entre Adão e Jesus Cristo (cap. 5), o Batismo que nos faz (veja Mt 27.27).
participar da m orte e da ressur reição de C risto (cap. 6), o papel da Lei que Em 4.22 lemos: “Todos os santos (= cristãos) vos saúdam, especialmen
manifesta o pecado e produz um conflito no ser humano (cap. 7), a liberta te os da casa de César”. Acaso é esse um argumento convincente para
ção pelo Espírito Santo (cap. 8).3 situar esse cativeiro de Paulo em Roma? Não, porque inscrições nos mos
tram que a expressão “os da casa de César” não designa somente os mem
33 Veja nas páginas seguin tes onde se fala da Carta aos Colossenses.
bros da fam ília ou da corte impe riais, mas os escr avos, os liber tado s, os

52 53
militares e os funcionários a serviço do imperador. Havia dessa gente em do fim de sua vida, portanto durante seu cativeiro romano. Nesse caso, a
todas as grandes cidades do Império. É por isso que a hipótese “romana” Carta aos Filipenses deve ter sido escrita no ano 59 ou 60.
foi, muitas vezes, colocada em dúvida. Afirmou-se que Roma era afastada Conhecemos nós seus destinatários? Filipos, cidade da Macedônia, foi a
demais de Filipos para que se pudesse, em relativamente pouco tempo, primeira cidad e da Europa onde Paulo fundou uma comun idade cristã. O
circular entre as duas cidades, como as informações de nossa carta nos livro dos Atos conta-nos todos os pormenores dessa fundação, que ocorreu
obrigariam a supor. Este argumento não é absolutamente sólido. Preten durante sua segunda viagem missionária (At 16.8-40). Essa comunidade
dia-se situar a redação da epístola em Cesareia, onde o apóstolo igualmen é particularmente cara ao coração do apóstolo, que lhe dirige um grande
te esteve preso. Hoje em dia, pensa-se antes em Efeso, entretanto é apenas elogio em nossa epístola: “Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo
uma conjetura, porque não sabemos nada a respeito de um cativeiro de de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as
Paulo em Efeso. minhas orações, pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia
A descrição da comunidade na qual Paulo se encontra no momento até agora” (1.3-5). Essa é também a razão por que, contra seus princípios,
da redação desta carta fecha com o que sabemos da igreja de Roma. ele aceitou que essa comu nidade lhe fizesse dádivas pessoais (4.10-20).
Aquilo que deduzimos da Carta aos Romanos sobre a composição Sob o ponto de vista teológico, é preciso mencionar a passagem particu

dessa comunidadedeve
gentílico-cristãos e sobre certos 'atritos
ser confrontado com entre judaico-cristãos
Fp 1.12-17; além disso,e larmente
da doutrinanotável
sobreno capítulode2 Jesus
a pessoa (v. 6-11), que“que,
Cristo, oferece um resumem oforma
subsistindo magnífico
de
essa passagem deve ser comparada também com a “Primeira Carta de Deus ... a si mesmo se esvaziou”. Essa passagem ritmada, na qual se des
Clemente aos Coríntios”. cobriu a influência do aramaico (Lohmeyer), interrompe um pouco o fio
Esse documento do cristianismo primitivo, redigido em tomo de 96 por da epístola e emprega um vocabulário diferente. É bem possível que este
um dos dirigentes da igreja de Roma, adverte os coríntios contra a d iscórdia jam os aqui d iante de um dos primeir os hinos litúrgicos por m eio dos quais
que então ameaçava sua unidade. O autor conta como, em Roma, 30 anos a comunidade cristã primitiva cantava sua fé em Cristo.
antes, a “inveja” e o “espírito de querela” fizeram Paulo e P edro sofrerem. O convite “Alegrai-vos sempre no Senhor” (4.4) caracteriza muito bem
Ele dedica até três capítulos a essa questão para mostrar que sempre, já na essa epístola ao mesmo tempo íntima e profunda.
antiga aliança, a inveja provocou desgraças e mesmo a morte. Eis o que
escreve a respeito de Paulo: “Por causa da inveja e da discórdia, Paulo pôde
mostrar o prêmio de sua tenacidade: depois de ter estado sete vezes a ferros, 3.2 - A Carta a Filemom
depois de ter sido banido, apedrejado, de se ter tomado arauto no Oriente
e no Ocidente, conseguiu a insigne vitória merecida pela sua fé: depois de Esta epístola tem apenas um capítulo de 25 versículos. E uma carta
ter ensinado a justiça a todo o mundo e ter ido até o extremo Ocidente, deu inteiramente pessoal, que Paulo endereça a um certo Fm, homem rico a
o seu testemunho pelo martírio, perante os governantes. Desprendeu-se, quem seu escravo deixou para juntar-se ao apóstolo. Paulo intervém com
desse modo, do mundo e foi para a santa morada, exemplo grandioso de delicadeza e tato em favor desse escravo, que não som ente fugiu, mas ainda
tenacidade”34. furtou de seu patrão. Esse escravo se chama Onésimo, nome que significa
As duas palavras gregas phth ono s (inveja) e éris (porfia), das quais se “útil”; por isso Paulo, ao devolver Onésimo a seu patrão, faz um jogo de
serve Clemente Romano, reencontram-se em nossa Carta aos Filipenses palavras:
a mim!” (v. “Oné simo,
11). que antes
Onésimo te foi cristão,
tornou-se inútil, atualme
e Paulonte, porém ,muito
desejaria é útil tê-lo
a ti e
1.15: “Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia”.
Realmente parece ter sido a situação da comunidade romana que o apóstolo jun to a si, mas não quer fazer n ada sem a pe rmissão de Fm . Ele o exorta a
descreve no início de sua epístola (1.12-18). perd oar Onésim o pela fuga e p elo furto e a encará -lo não mais como seu
Observemos também que, segundo 1.23, o apóstolo admite em princípio escravo, mas como um irmão na fé. Aliás, o apóstolo se compromete a
que possa morrer antes da volta de Cristo; compreende-se isso m elhor perto indenizar Filemom pelo prejuízo.
Esta breve carta não é sem interesse espiritual, porque vemos aqui como
14 Clemente Romano, Carta aos Coríntios, ao cuidado de Igino Giordani, Lisboa: Paulistas, a ética social se m odifica sob a influência da fé cristã.
s. d., p. 131 s.

54 55
O pano de fundo teológico é o mesmo da Carta aos Colossenses, que mais nítidas: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divin
vamos abordar logo mais e na qual é exposta uma doutrina dos deveres dade (‘plenitude’ da qual falam os heréticos), e nele sois plenos” (2.9-
dos escravos para com seus senhores. Existe, aliás, uma relação estreita 10). Essa heresia é propagada por judaico-cristãos, e o apóstolo acentua
entre esses dois escritos: é mencionado o mesmo coautor: Timóteo (Fm 1 a superioridade da “circuncisão espiritual” sobre a circuncisão carnal do
e Cl 1.1), são saudados os mesmos personagens (Fm 24 e Cl 4.10-13), e juda ísmo (2.11); enfim, esses heré ticos q uerem introd uzir práticas ascéticas
Onésimo é o portador das duas cartas (Fm 12 e Cl 4.7-9). que Paulo recusa, apesar de sua aparência de sabedoria, como contrárias à
Paulo é prision eiro (v. 1,9 e 19), mas espe ra ser libertado (v. 22). Trata- liberdade cristã (2.16-23), para expor, em seguida, qual deve ser a discipli
-se de qual cativeiro? Provavelmente do último, que o apóstolo sofreu em na da vida cristã (3.1 até 4.6).
Roma no fim de sua vida. Paulo diz de si mesmo que é um velho (v. 9). Por O apóstolo não é conhecido dos colossenses nem dos laodicenses (2.1),
isso essa pequena epístola deve ter sido escrita por volta do ano 59. e nenhum ataque foi dirigido contra sua doutrina; por que, então, escreve
a essas duas comunidades? Provavelmente foi o próprio Epafras, que,
impotente diante do crescimento dessa heresia, solicitou sua intervenção.
3.3 - A Carta a os Colossen ses Paulo quer encorajar aquela jovem igreja a permanecer firme na fé (2.6-

Esta epístola tem uma grande importância teológica devido a suas expo 7) e lembra-a
filosóficas que da incompatibilidade
alguns absoluta
queriam misturar do evangelho com as idéias
a esse.
sições sobre a obra cósmica de Cristo. Põe em evidência a relação entre a A Carta aos Colossenses é considerada inautêntica por muitos críticos
história da salvação em Cristo e a criação inteira. Quando alarga assim o pelas seguin tes quatro razões principa is:
horizonte cristão a todo o universo, aborda um problema de grande atuali 1) ela combate um a doutrina gnóstica; ora, o gnosticism o16 teria
dade tanto na Antiguidade como em nossos dias e trata-o sem trair a es surgido somente no século II, o que fixaria o surgimento dessa epístola
sência do evangelho em proveito de uma filosofia. no século II;
Ela foi escrita no mesmo tempo da Epístola a Filemom, ou seja, por 2) a doutrina sobre a pessoa do Cristo exposta nessa epístola vai muito
volta do ano 59. Paulo está na prisão (4.3,10,18) em Roma provavelmente. mais longe do que a cristologia desenvolvida em todas as outras cartas
Colossos, hoje em ruínas, era uma pequena cidade situada na Frigia paulinas. Particularm ente a particip ação do Cristo na criaçã o do mundo
ocidental, às margens do Licos, muito próxima de duas cidades importan seria uma ideia em desacordo com o resto da cristologia paulina;
tes: Hierápolis e Laodiceia (4.13). A comunidade de Colossos não foi fun 3) o vocabulário e o estilo seriam muito diferentes daqueles das outras
dada por Paulo, mas por um certo Epafras, “fiel ministro de Cristo” (1.7). epístolas;
Esse, sem dúvida, também fundou a comunidade vizinha de Laodiceia (cf. 4) a presente epístola apresenta um parentesco curioso com a Carta
2.1 e 4.12), e o apóstolo recomenda às duas comunidades que troquem suas aos Efésios, parentesco que poderia sugerir sua dependência em relação
respectivas cartas: “E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai a essa.
que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodiceia lede-a O que se deve pensar sobre esses argumentos?
igualmente perante vós” (4.16)35. Isso nos explica a maneira como se 1) É errado afirmar que o gnosticismo tenha aparecido somente no
constituíram as coleções parciais de epístolas paulinas. século II. Já há formas preliminares em certas correntes do judaísmo. O
No mo mento em que o apóstolo escreve esta carta, Epafras está a seu lado
(4.12). Esse trouxe ao apóstolo boas-novas da comunidade de Colossos,
onde reinam a fé e o amor (1.4; 2.5). Ali surgiu, no entanto, uma heresia,
que queria mesclar com o evangelho especulações filosóficas de colora
ção gnóstica. Paulo lhes opõe em sua carta uma doutrina cristológica das 36 O gnosticismo, movimento teológico “in telectualista”, é fundado sobre a gnose ou conheci
mento (em grego: gnosis). Originalmente foi uma simples tendência intelectual que colo
cava em primeiro plano da fé cristã especulações metafísicas. Depois o gnosticismo se fi
35 Paulo teria, portanto, escrito uma carta aos laodicenses, que hoje estaria perdida, a menos xou em sistemas gnósticos nos quais se introduziram elementos estranhos à teologia cristã.
que - o que é muito possível - não se tratasse da epístola canônica que chamamos de Carta Mas parece hoje que é necessário fazer remontar a srcem do gnosticismo para além do
aos Efésios (veja esse problema mais tarde). cristianismo.

56 57
gnosticismo não atacou o cristianismo, pela primeira vez, na confrontação Atos (18.19 até 20.1), e Paulo mesmo faz alusão a ela em ICo 15.32 e
direta do pensamento cristão com o pensamento grego, mas já no desvio do 16.8 (essa epístola foi escrita, como vimos, de Éfeso). Por outro lado,
jud aísm o helenizad o; Marcião, aquele herético que, vindo da Ásia Menor, se instalou em Roma
2) a preexistência de Cristo não é uma ideia particular desta carta; por vol ta do ano 140 e que foi o prim eiro a pôr um título nas epísto las
achamo-la expressa na Carta aos Filipenses (2.9-11). A mediação de Cris paulina s, intitu la e ssa e písto la de “C arta aos Laodice nse s” . Se te mos toda
to na criação do mundo aparece mesmo em ICo 8.6, passagem cuja au razão para desconfiar de Marcião no plano dogmático, nesse problema
tenticidade paulina jamais foi contestada; histórico não temos motivos para ser céticos.
3) se Paulo quer combater eficazmente os gnósticos, ele deve lutar no Pode-se adivinhar por que a indicação do endereço falta nos manuscritos
próprio terreno deles e em prega r termos gnósticos pa ra vir á-los contr a eles antigos, quando nos lembramos que, já durante a vida de Paulo e incentivada
mesmos; por ele, houve uma troca de cartas entre as igrejas. Vimos que o p roblema
4) a questão do parentesco com a Carta aos Efésios não pode, em todo do cap. 16 da Carta aos Romanos se explica dessa maneira. Assim se pode
caso, ser resolvida no sentido de uma dependência da Carta aos Colossenses compreender que o nome do destinatário srcinal tenha sido eliminado
em relação àquela aos Efésios. As passagens paralelas parecem, de fato, definitivamente, porque a carta foi lida em diferentes comunidades. A
afinidade que existe entre nossa Carta aos Efésios e a Carta aos Colossenses
mais primitivas
Já que não senapode
Cartasustentar
aos Colossenses.
um argumento verdadeiramente decisivo explica-se se a primeira foi endereçada, srcinalmente, aos laodicenses: as
contra a autenticidade paulina desta epístola, consideramo-la, portanto, duas teriam sido redigidas ao mesmo tempo, e a primeira troca de nossa
como sendo da pena de Paulo. carta, recomendada pelo próprio apóstolo (cf. Cl 4.16), teria ocorrido com os
cristãos de Colossos. Nossa “Carta aos Efésios” seria, portanto, aquela carta
escrita aos laodicenses, segundo Cl 4.16, e que geralmente era tida como
3.4 - A Carta aos Efésios
perdida. Isso ex plicaria por que Tiq uico, menciona do em Cl 4.7 e Ef 6.21,
teria sido o portador das duas cartas, visto que Colossos e Laodiceia eram
A doutrina central da Carta aos Efésios é eclesiológica, quer dizer, ela duas cidades vizinhas. Poderiamos até adivinhar por que, a seguir, teria sido
tem por tema a igreja e as relações de Cristo com essa. A igreja é para omitido definitivamente o nome de Laodiceia, em consequência de uma falsa
Cristo o que o corpo é para a cabeça (1.23), o que a esposa é para o marido conclusão tirada de uma passagem do Apocalipse de João. Esse contém, entre
(5.23-32). Como a Carta aos Colossenses o faz para a pessoa e a obra de suas sete cartas às igrejas da Ásia, uma carta à igreja da Laodiceia, e o Cristo
Cristo, assim a Carta aos Efésios coloca a doutrina sobre a igreja dentro de ressuscitado lhe diz : “ Estou apon to de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.16).
uma perspectiva cósmica. Mas restaria explicar por que a menção “em Éfeso” ficou ligada à
Após a parte dogmática (caps. 1-3), onde, nesse contexto, é reafirmada maioria dos manuscritos. Um exemplar de nossa epístola teria chegado até
a salvação pela graça oferecida a todas as pessoas, gentios e judeus, uma Éfeso. Vimos que, na leitura da carta às comunidades reunidas para o cul
parte ética (caps. 4-6) v em relemb rar o q ue de vem ser, na igreja, a unida de to, trocava-se no endereço o nome da cidade destinatária. A menção “em
da fé e a santidade, a moral pessoal e social e a “armadura” espiritual do Éfeso”, juntada no exemplar que lá teria sido lido, ter-se-ia imposto nos
crente (6.10ss). exemplares distribuídos em outro lugar, tanto mais que se sentia a necessi
dade de ter uma carta levando o nome daquela igreja onde Paulo se deteve
Porventura é a comunidade estabelecida em Éfeso, porto da Ásia por m ais tem po do q ue em qualq uer outro lugar.
Menor, muito conhecida, a verdadeira destinatária desta epístola? Já
mencionamos que os mais antigos escritos gregos do Novo Testamento Todavia a autenticidade paulina da nossa epístola foi fortemente con
não contêm as palavras “a Éfeso” no endereço da epístola (1.1). Além testada.
disso, o apóstolo escreve a uma igreja que ele não conhece pessoalmente: A maioria dos críticos pronuncia-se hoje contra ela. Apresentam-se os
“Também eu, tendo ouvido falar da fé que há entre vós”... (1.15). Ora, seguintes motivos:
a comunidade dos efésios lhe é perfeitamente conhecida. Sua estada em 1) a afinidade demasiadamente grande com a Carta aos Colossenses
Éfeso, rica em acontecimentos, nos é contada em minúcias no livro de tornaria tal repetição pelo mesmo autor inconcebível. É preciso acrescentar

58 59
que, justamente nas passagens paralelas, a Carta aos Efésios emprega, em admitir que, no momento em que a epístola se tomou definitivamente uma
diversos pontos, um outro vocabulário do que na Carta aos Colossenses; Carta aos Efésios, ela sofreu modificações posteriores.
2) de uma maneira geral, o vocabulário não é o mesmo aqui como nas O problema da autenticidade ou inautenticidade necessitaria, por um
outras epístolas: por exemplo, em 4.27, o diabo é chama do diabolos em vez lado, de estudos aprofundados sobre a pseudepigrafia (quer dizer, a atri
do habitual Satanás; buição de um escrito a um autor que não é seu redator) na A ntiguid ade e
3) as concepções teológicas são mais evoluídas: enquanto que Cl 1.26 particularme nte no cristianismo antigo. Por outro lado, dever iamos conhe 
fala de “santos”, termo aplicado correntemente desde os primeiros tempos cer melhor o papel exato dos corremetentes, colaboradores e secretários do
a todos os cristãos, a passagem paralela de Ef 3.5 menciona “os santos apóstolo. A questão se colocará, sobretudo, nas epístolas pastorais.
apóstolos e profetas” e dá à palavra o sentido que ela assumiu mais tarde; Seja o que for, o valor teológico de nossa epístola independe dessa
4) a igreja organizada e provida de “ministérios”, que esta epístola questão. A maneira como nela são definidas as relações entre Cristo e sua
pressup õe, ainda não existia no tem po de Paulo. igreja faz dessa carta um elemento precioso no conjunto da mensagem
Sem negar o valor desses argumentos, pode-se responder: bíblica.
1) os problemas eram os mesmos nas duas igrejas vizinhas de Colossos
e Laodiceia, fundadas ambas por Epafras, e é normal que as duas cartas
expedidas por Paulo ao mesmo tempo para essas duas comunidades, ambas 4 - As epístolas past orais
desconhecidas dele, assemelhem-se muito. É verdade que isso não explica
o emprego de termos diferentes para o mesmo assunto, precisamente nas São três as epístolas pastorais: Primeira Carta a Timóteo, Segunda Carta
passag ens paralela s; a Timóteo, Carta a Tito. Recebem o nome de “pastorais” somente desde o
2) e 3) para explicar a mudança geral de vocabulário e de certas concep século XVIII. De fato, esse título geral corresponde a seu conteúdo: são
ções teológicas, poder-se-ia pensar na colaboração de coautores ou secretá escritos de disciplina eclesiástica, que se preocupam com a situação espi
rios, a cujos serviços o apóstolo recorreu, como se depreende de outras ritual e material da igreja.
epístolas. O papel exato desses co laboradores deve ria ser definido; A autenticidade paulina dessas cartas, ao menos sob a forma em que elas
4) a igreja do tempo de Paulo não é anárquica nem puramente “carismática” chegaram a nós, é muito incerta. Retomaremos a esse problema fortemente
(quer dizer, guiada pelos “carismas” ou dons do Espírito Santo). Ela já co debatido. Essas três epístolas são tão aparentadas entre si, que podemos
nhece um funcionamento organizado, com ministérios estabelecidos. Se ela tratá-las em conjunto.
vive sob o sopro do Espírito, essa vida não é regulada pela inspiração do A situação histórica na qual elas foram redigidas é difícil de determinar.
momento. O apostolado, por exemplo, por mais “carismático” que seja, já é Segundo a Primeira Carta a Timóteo, Paulo foi a Éfeso, depois a Macedônia
um órgão de governo da igreja, cuja autoridade está bem estabelecida. (1.3). Conforme a Segunda Carta a Timóteo, ele está preso no cárcere (1.8
Enfim, podem-se citar dois argumentos em favor da autenticidade paulina: e 1.16) em Roma. Ora, como sabemos das “epistolas do cativeiro” e do
1) o testemunho externo é excelente, já que a autenticidade é confir livro de At 28.30-31, Paulo estava detido, mas não encarcerado: ele havia
mada indiretamente e ao mesmo tempo por Inácio (bispo de Antioquia, alugado uma casa em Roma, recebia lá todos aqueles que o visitavam,
martirizado em 110), Policarpo (bispo de Esmima por volta de 150) e pelo preg ava e ensin ava “com toda a intrepid ez, sem impedimento algum ”.
herético Marcião (estabelecido em Roma em tomo de 140); De acordo
está com como
algemado a Segunda Carta a Timóteo,
um criminoso (2.9); poro ocasião
apóstolo,depelo
seu contrário,
primeiro
2) a despeito de novos desenvolvimentos eclesiológicos, o conteúdo
teológico pode enquadrar-se, no conjunto, na teologia paulina. interrogatório, foi abandonado por todos (4.16), de sorte que não espera
Chegamos à conclusão de que, se a epístola é de Paulo, ela provavelmente nada de bom na continuação do processo e prepara-se para uma condena
foi destinada à igreja da Laodiceia na mesma época em que foi escrita a ção à morte (4.6-8 e 18). Pouco tempo antes, ele se dirigira à Ásia Menor e
Carta aos Colossenses, quer dizer em 59 ap roximadamente. A parte pessoal à Grécia; passara também por Mileto, onde deixara um dos seus discípulos,
do colaborador ou secretário do apóstolo na sua redação parece, em todo Trófimo, que estava doente (4.20), e por Trôade, onde esquecera su a capa e
caso, maior do que nas outras epístolas. E talvez ainda seja necessário os pergaminhos na casa de um amigo (4.13). De lá ele passou por Corinto

60 61
(4.20), veio a Roma e pede a Timóteo para vir juntar-se novamente a ele voluntariamente” (2Co 8.16-17). Ele foi para o apóstolo não somente um
(4.9). Esse parece estar em Éfeso, onde se expandiram heresias (2.17-18): colaborador devotado, mas um amigo caro; Paulo mesmo escreve: “Ora,
dois heréticos, Himeneu e F ileto, afirmam que a ressurreição já aconteceu. quando cheguei a Trôade, para pregar o Evangelho de Cristo, e uma porta
(Ensinam eles que a alma é imortal ou que os “verdadeiros” cristãos não se me abriu no Senhor, não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito,
morrem mais? - Não sabemos.) Já a Primeira Carta a Timót eo falava-nos porqu e não encon trei o meu irmão Tito” (2Co 2.12), e mais adiante: “ ...
de heresias que provocavam desordens na comunidade pela qual Timóteo fomos atribulados... Porém Deus, que conforta os abatidos, nos consolou
era responsável. Parece que esses heréticos são judaico-cristãos, que sem com a chegada de Tito” (2Co 7.5-6).
razão ainda se sentiam presos à Lei judaic a (lT m 1.3-7). A príori é difícil harmonizar esses dado s biográficos sobre Timóteo e Tito
Quanto à Carta a Tito, ela contém apenas po ucas alusões a uma situação com as informações das epístolas pastorais e, sobretudo, integrar as circuns
histórica e, de qualquer maneira, essa não parece ser a mesma que nas tâncias pressupostas po r essas epístolas na cronologia da vida de Paulo. Só
duas Cartas a Timóteo. O único ponto em comum é a menção de heréticos há duas possibilidades: ou as epístolas pastorais são inautênticas, e então
juda ico-cristão s, que também são simpa tizante s do gnost icismo (Tt 1.10- o autor forjou o plano cronológico delas ao mesmo tempo que o conteúdo
16; 3.9-11). Por outro lado, essa epístola indica que Paulo deixou Tito em doutrinai, ou elas são autênticas, e então deve ser possível inseri-las num
Creta (1.5). Portanto também ele mesmo esteve lá. Ele tem a intenção de períod o da vida de Paulo. Se a gente aceita essa segun da possib ilidade , a
passar o inverno em Nicóp olis, cidade da Macedônia (3.12); por conse  escolha é restrita, e é preciso colocar as cartas em um período posterior
guinte, no momento em que escreve, estaria livre ou a ponto de ser liberta a todas as peripécias descritas pelo livro de Atos, quer dizer, posterior
do em breve. aos dois anos de cativeiro de Paulo em Roma (At 28.30-31). Visto que o
O que sabemos a respeito dos destinatários dessas epístolas? Timóteo cativeiro mencionado pela Segunda Carta a Timóteo parece muito mais
é frequentemente mencionado nas epístolas paulinas e no livro de Atos. duro do que aquele de At 28, poderiamos imaginar que Paulo, libertado
Natura l de Listra, na Á sia Menor, é filho de uma judia e de um grego (At após um primeiro processo, teria retomado sua atividade missionária.
16.1); ainda jovem, torna-se, após ter sido circuncidado por causa dos Frequentemente situa-se nesse período uma viagem à Espanha, planeja
jude us, o comp anheiro de Paulo na segun da viagem mission ária; depois da há muito tempo pelo apóstolo (cf. Rm 15.24) e que é sugerida pela
é enviado pelo apóstolo a Atenas, a Tessalônica e a Corinto. Seu nome “Primeira Carta de Clemente”, quando essa diz, falando de Paulo: “Após
aparece em seis cartas como o de um corremetente, o que talvez signifique ter atingido os confins do Ocidente...” A execução do plano é confirma
que, longe de ser um simples secretário, ele era encarregado de redigir da, mais tarde, pelo “Cânone Muratoriano”, primeiro catálogo dos livros
certas passagens dessas epístolas. Segundo At 20.4, ele faz parte do grupo do Novo Testamento, estabelecido por volta de 180. A seguir, Paulo teria
daqueles que acompanham Paulo na sua última viagem a Roma. O fato é retomado a Roma e sido feito prisioneiro novamente, mas dessa vez de
confirmado pelas epístolas do cativeiro, pois o apóstolo escreve (Fp 2.19- uma forma mais impiedosa. Ele teria sofrido um segundo processo, que
23) que Timóteo está a seu lado e que é o único a compartilhar suas difi teria terminado na condenação à morte e no martírio. As epístolas pastorais
culdades. As epístolas pastorais informam-nos ainda que Timóteo foi in teriam sido escritas durante esse segundo cativeiro em Roma. Mas persiste
cumbido de uma missão particular na Ásia Menor. uma dificuldade: se uma viagem é pressuposta pelas epístolas pastorais,
Tito é um personagem desconhecido no livro de Atos. Segundo as epís ela não aconteceu para a Espanha, mas para a Grécia, a Macedônia e a

tolas
do quepastorais,
Timóteo.eleConforme
deveria terG1exercido um papel
2.1-3, Paulo levamuito
Tito amais importante
Jerusalém com a Ásia Menor.pastorais.
às epístolas Essa hipotética viagem
É por isso à Espanha,
muito portanto,
difícil situar não da
no âmbito estávida
ligada
de
intenção de obter da igreja-mãe uma aprovação de sua missão junto aos Paulo os eventos pressupostos por esses escritos.
gentios. Tito é pagão e, portanto, incircunciso, e Paulo quer que seja reco Somente uma cronologia relativa das três epístolas entre si é possível,
nhecida pelos judaico-cristãos a liberdade de Tito e dos outros gentios de mas nem isso leva muito longe. A sequência de sua redação, na verdade,
se converter ao cristianismo sem passar pelo judaísmo e pela circuncisão. não é a ordem de sequência que encontramos no Novo Testamento. A
Esse companheiro participou da seg unda e da terceira viagens missionárias Segunda Carta a Timóteo parece ser a última (cf. 4.7: “completei a carrei
de Paulo; enviado pelo apóstolo a Corinto, ele parte “com novo zelo e ra”); a Carta a Tito deve ser a primeira por causa dos planos de futuro que

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contém. Teríamos, pois, a seguinte ordem: Carta a Tito, Primeira Carta a Por todas essas razões, aceita-se geralmente que, no fim do século I ou
Timóteo, Segunda Carta a Timóteo. no início do século II, um cristão admirador de Paulo, inspirado em suas
Resta saber se essas epístolas pastorais podem ser ou não atribuídas a epístolas, teria tentado estabelecer para o seu tempo, atribuindo a Paulo
Paulo. Que informações podemos tirar da tradição antiga? A comprovação as recomendações dessas três epístolas, o que lhe teria parecido o tes
através dos autores cristãos é tardia, portanto má. Marcião não as conhece. tamento espiritual do apóstolo para a igreja do futuro. Essa solução, apesar
Ora, esse herético do século II havia organizado um catálogo dos livros de inteiramente hipotética, atende melhor as dificuldades indicadas do que
bíblicos, em que elimin ava o Antigo T estamen to e todos os liv ros d o Novo a aceitação ilimitada da autenticidade. Será possível atribuir, dentro dessa
Testamento que tinham como autores judaico-cristãos, bem como todas as explicação, ao menos uma paternidade indireta dessas epístolas a Paulo?
passa gens que, segun do ele, revelav am uma tendê ncia jud aizan te. A partir Como vimos, é mais difícil aqui do que na Carta aos Efésios atribuir
de sua doutrina ele não teria motivo doutrinai algum para rejeitar as epís a autoria a um de seus secretários ou colaboradores, porque a própria
tolas pastorais, cujas idéias não tinham nada que pudesse chocá-lo parti época de redação das epístolas pastorais parece posterior ao tempo de
cularmente. Conclui-se que ele não conhecia sua existência entre as epís Paulo. Mas, por outro lado, seria preciso repetir aqui o que já dissemos em
tolas classificadas no “corpus” paulino. As semelhanças com as epístolas nossa conclusão sobre a Carta aos Efésios a propósito da pseudoepigrafia.
de Inácio e a epístola de Policarpo encontram sua explicação na tradição
comum. Somente no final do século II, encontramos a primeira comprova Pode-se acaso considerar,
e aos pergaminhos em especial,
esquecidos na casaasdealusões muitoem
um amigo concretas
Trôadeà(2Tm
capa
ção no Cânone Muratoriano dc que as epístolas pastorais faziam parte do 4.13) como ficções literárias, mesmo levando em conta o antigo hábito
“corpus” paulino (veja p. 90). da pseudoepigrafia? Não seria possível que o autor, que escreveu no fim
Vimos que os acontecimentos mencionados nessas três epístolas são di do século I ou no começo do século II, tenha se servido de fragmentos de
fíceis de acomodar no contexto da vida do apóstolo, se bem que isso não é cartas autênticas do apóstolo? Isso não pode ser descartado. Mas, nesse
absolutamente impossível. Por outro lado, esses escritos diferem, mais do caso, é difícil desprender os fragmentos paulinos do restante das epístolas,
que outro qualquer, pelo estilo e pelo vocabulário do conjunto das cartas de sorte que ainda assim não chegaremos a uma certeza.
paulina s. Seus conceitos teológ icos mostr am um grau de evolu ção pos Se no final observarmos que nessa questão não conseguimos passar das
terior àquele das outras epístolas. A palavra gre gapis tis (fé) já designa aqui hipóteses, uma coisa é certa: mesmo que as ordens dadas às igrejas e a
a “regra de fc” (lTm 3.9; 6.10; 2Tm 4.7), e frequentemente se fala em “sã seus líderes nas epístolas pastorais não sejam do tempo de Paulo, elas, não
doutrina” (lTm 1.10; 2Tm 4.3; Tt 1.9; 2.1). É mais difícil do que, no caso obstante, podem valer como uma aplicação da doutrina paulina à situação
de outras epístolas, atribuir tais particularidades a um secretário. necessariamente modificada das igrejas no começo do século II.
Contra a autenticidade citou-se ainda o fato de que aqui é combatido o
gnosticismo. Mas, como já expusemos a propósito da Carta aos Colossenses,
o gnosticismo é muito anterior ao século II. Esse argumento, portanto, não
tem o mesmo peso dos outros.
Antes de tudo, chamou-se enfim a atenção para o fato de que as epísto
las pastorais refletem uma organização eclesiástica na qual se encontram
todos
igreja os elementos
durante do episcopado
os séculos seguintes.monárquico, tal como
Essa organização se desenvolveu
é posterior na
ao século
I. Ela alcançou um grau de desenvolvimento que a primeira geração cristã
não conheceu. A força desse argumento é, quando muito, atenuada pela
observação de que os escritos de Inácio da Antioquia (morto cm 110) —
nos quais a organização das igrejas aparece sob a forma, muito acentuada
e pressuposta como já sendo antiga, do episcopado monárquico - foram
redigidos somente 50 anos após as epístolas paulinas.

64 65
Capítulo 3 Onde se encontram os destinatários? A expressão que lemos em 13.24:
“Os da Itália vos saúdam” é ambígua: ela pode referir-se a cristãos resi
dentes na Itália que saúdam destinatários longínquos ou a exilados da
A Carta aos Hebreus Itália que saúdam seus irmãos que permaneceram em Roma durante a
perseg uição. O fato de que o bispo de Roma, Cleme nte, é o p rimeiro que
Neste e scrito nã o temos nenhum probl ema de a utenticid ade. Esta epístola faz em seus relatos uma citação da Carta aos Hebreus depõe antes em favor
não pretende, nem pelo título que lhe deu a tradição antiga tampouco em da segunda hipótese.
passag em alguma , te r sido escrita por Paulo, como fazem as “cartas pasto  Quanto à data, toda tentativa de precisá-la deve ser excluída. A perse
rais”. Mesmo assim, este escrito anônimo foi considerado pela igreja do guição sob Domiciano parece estar em plena fúria. Propomos as seguintes
Oriente e depois pela igreja do Ocidente como sendo de srcem paulina, e datas-limites: antes do ano 96, data em que Clemente Romano cita a epís
por essa razã o entro u no cânone. Hoje, m esmo os e xegeta s católic os, ap esar tola, e após o ano 64, data da primeira perseguição desencadeada por Nero,
de um decreto da Comissão Bíblica de 1914 (srcem paulina “indireta”), pois os destin atários já foram perseguidos. A d ata média prová vel situar-
podem atribuí-lo a um outro autor. -se-ia, portanto, entre 80 e 96, durante a perseguição sob Domiciano.
Quem poderia ser o autor? Ainda que as idéias paulinas lhe sejam fami
Não osedoutrina
posiçã trata , prop
i ouriame nte prédica,
de uma dito, de ucujo
ma tema
epístolcentral
a, mas éantes de dócio
o sacer u ma ex
de liares, a terminologia e o estilo da carta proíbem atribuí-la a Paulo. Nume
Cristo. Diferentemente das epístolas paulinas, as exortações não aparecem rosas propostas foram feitas. Tertuíiano37era da opinião de que o autor era
somente no fim, à guisa de conclusões gerais, mas con cluem cada uma das Barnabé, o companheiro de Paulo segundo os capítulos 13-15 do livro de
partes dessa exposição. Atos. Lutero pe nsava em Apoio de Alexandria38; essa hipótese foi defendi
Os assuntos desenvolvidos sucessivamente são os seguintes: da também em nossos dias por causa da grande semelhança existente entre
1) a superioridade de Jesus Cristo, Filho de Deus, sobre os anjos (cap. 1 as idéias do autor da Carta aos Hebreus e as de Filo de Alexandria39. Já que
e 2), depois sobre Moisés (cap. 3). é provável a influência das idéias de Filo sobre a Carta aos Hebreus, pen
2) a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o do sumo sacerdote sou-se naturalmente em um autor que viesse de um ambiente semelhante,
juda ico (cap. 5-7); mas não é necessário identificá-lo com um personagem conhecido em
3) a superioridade do santuário celeste, no qual Cristo entrou em sua outro lugar. Além disso, propu seram-se ainda Áquila40e até Priscila, Lucas,
ascensão, sobre o templo dos judeus (cap. 8 e 9); Clemente Romano ou Silas41... O debate continua aberto.
4) a superioridade do sacrifício único do Cristo crucificado sobre os Podemos dizer, com segurança, apenas o seguinte: o autor é um cristão
sacrifícios sempre renovados de animais no Antigo Testamento (cap. 10). estudado de srcem judaica, que não somente domina melhor a língua
O cap. 11 pinta um quadro magnífico da História Sagrada, exaltando a fé grega do que os outros autores do Novo Testamento, mas assimilou a fun
que animou os ancestrais do povo judeu. O epílogo (cap. 13) dá à obra um do a cultura grega. Ele cita abundantemente o Antigo Testamento em sua
cunho epistolar e contém notícias, desejos e saudações. tradução grega (chamada Septuaginta), corrente entre os judeus dispersos
O título “Carta aos Hebreus” aparece somente a partir da segunda metade de fala grega. Sua piedade fica inteiramente centrada em Jesus Cristo.
do século II em Panteno de Alexandria e Tertuíiano. A análise do conteúdo da Esse é para ele uma pessoa viva, e jamais suas especulações cessam de ser
epístola fez com que lhe fosse dado esse título pela igreja antiga. À primeira
leitura, os destinatários parecem, de fato, ser judaico-cristãos. Acreditou-se 37 O primeiro escritor de língua latina, nascido por volta de 160.
até que se deveria procurá-los nos círculos judaicos da seita que conhecemos 38 Apresentamos o.personagem Apoio estudand o a Primeira Car ta aos Coríntios.
pelos manuscritos do Mar Morto (Spicq, Kosmola). Mesmo que ten ham so 39 Nascido em Alexandria po r volta de 20 a.C., morto por volta de 40 d,C., Filo, cuja obra
filosófico-teológica é considerável, representa a tentativa mais avançada que um judeu ja
frido tal influência, aqueles aos quais o autor se dirige são cristãos, ameaçad os mais fez para pensar sua fé em categorias gregas.
de todos os lados. Intemamente, são amea çados talvez pelo perigo de recair no 40 Judeu natural de Ponto, exilado de Roma com sua esposa Priscila pelo decreto de Cláudio
judaísm o, mas sobretudo pelo desfalecimento da fé e d a fidelidade primitiva. em 49, Áquila estabeleceu-se em Corinto, onde teceu tendas juntamente com o apóstolo
Paulo, que era da mesma profissão.
Exteriormente, são ameaçados pelo ímpeto de uma nova perseguição. 41 Companheiro de viagem de Paulo, segundo At 15.2.

66 67
teológicas para tomar-se puramente filosóficas, como frequentemente é o Capítulo 4
caso em Filo de Alexandria. Ele acentua igualmente a divindade de Cristo:
“No princípio. Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra
de tuas mãos... Tu permaneces o mesmo e teus anos jamais terão fim” (1.10- As epístolas católicas
12), assim como a sua humanidade: “Não temos sumo sacerdote que não
possa compade cer-se das nossas fraquezas; antes foi ele tentad o em todas Sete escritos são reunidos sob este título: a Carta de Tiago, a Primeira e
as cousas, à nossa semelhança” (4.15); ele gritou e chorou em Getsêmani a Segunda Cartas de Pedro, a Primeira, a Segunda e a Terceira Cartas de
(5.7). Teologicamente, a Carta aos Hebreus parece pertencer ao mesmo João e a Carta de Judas. Essas sete cartas assemelham-se tão pouco, que sua
tipo de cristianismo primitivo como o evangelho e as cartas joaninas, das reunião em um grupo especial deve ser atribuída ao mero fato de que não
quais se aproxima muito. Nesse caso, o autor estaria próximo do ambiente são de srcem paulina. No Novo Testamento da igreja grega, elas precede m
dos helenistas palestinenses do livro de Atos (dos quais falamos antes). as cartas paulinas; no da igreja latina, seguem aquelas.
Juntamente com o Evangelho de João, é aquele dos 27 escritos do Novo A denominação de “cartas católicas” não aparece senão pouco antes do
Testamento que nos faz compreender melhor que Jesus Cristo é o Senhor século III; encontramos essa denominação aplicada a uma ou o utra dessas
presente, que intercede por nós, o p onto culminante e a chave de toda a sete cartas em Orígenes42e em seu discípulo Dionísio43; por fim, ela desig
Bíblia e que sua vida terrena é o acontecimento central e determinante da na todo o grupo e impõe-se definitivamente no século IV com o historiador
história da salvação e da história do mundo: “Jesus Cristo ontem e hoje é o da igreja Eusébio de Cesareia e com Jerônimo, o tradutor da Bíblia para o
mesmo, e o será para sempre” (13.8). latim.
O significado srcinal desse nome não nos é mais conhecido: geralmente
se admite que ele expressa a definição “universal” dessas cartas (“católico”
remete à palavra grega katholikos, que quer dizer “universal”). De fato,
essa explicação deve valer para a Carta de Tiago: “As doze tribos que
se encontram na dispersão, saudações” (1.1); para a Primeira Carta de
Pedro: “Aos eleitos que são forasteiros e dispersados, no Ponto, Galácia,
Capadócia, Ásia e Bitínia” (1.1); para a Segunda Carta de Pedro: “Aos que
conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Salvador
Jesus Cristo” (1.1); para a Carta de Judas: “Aos chamados, amados em
Deus Pai, e guardados em Jesus Cristo” (1.1) e para a Primeira Carta de
João, que não tem nem mesmo endereço; ela não vale mais para a Segunda
Carta de João: “À senhora eleita e aos seus filhos ” (v. 1) nem para a Terceira
Carta de João: “Ao amado Gaio, a quem eu amo na verdade” (v. 1). Pode-
-se, todavia, admitir que essas duas últimas cartas, por sinal muito curtas,
foram acrescentadas ao grupo como simples apêndices e talvez para chegar
ao número sete44.
Seja como for, mesmo que essa denominação “universais” não se apli
que exatamente a todas essas epístolas, ela expressa, à sua maneira, uma
42 Filósofo e teólogo cristão de Alexandria, nascido por volta de 185.
43 Dionísio de Alexandria.
44 Como no livro do Apocalipse, são endereçadas ca rtas a sete igrejas da Ásia: Ap 2 .1 a 3.22,
como duas vezes sete epístolas paulinas foram admitidas no cânone como as igrejas às
quais Paulo escreveu são em número de sete. O número sete, um dos mais importantes da
aritmologia bíblica, indica de fato a plenitude ou totalidade.

68 69
ideia teológica, fundamental para a interpretação do Novo Testamento. dos 12 Patriarcas” e, mais tarde, pelos Pais da Igreja nas obras dedicadas
Todos os escritos do Novo Testamento, mesmo quando seus destinatários à interpretação alegórica dos nom es próprios. Graças a esse procedimento,
são igrejas locais ou particulares, são dirigidos, na realidade, a todos os A. Meyer acreditou poder d escobrir através de comparações etimológicas,
crentes. Nesse sentido, esses 27 livros são Escritura Sagrada e fonte de sucessivamente, os nomes dos doze patriarcas: Rubem, Simeão etc.
vida para os crentes. As primeiras comunidades cristãs entenderam isso, O cristão que adotou esse escrito judaico teria não somente acrescentado
quando fizeram circular essas cartas entre elas, quaisquer que tenham sido o nome de Jesus Cristo, mas também, provavelmente, suprimido os nomes
seus primeiros destinatários. dos doze filhos de Jacó. A vantagem dessa explicação é que ela tomaria
plausíve l o aspecto incoerente da epístola. Mas é preciso distinguir dois
elementos na hipótese de A. Meyer: o problema do gênero literário e a
1 - A Carta d e Tiago questão do autor.
Mesmo que fosse certo que se trata de um gênero literário judaico, não
Encontramo-nos aqui em um mundo literário e teológico completamente se podería deduzir que o autor srcinal tenha sido, ele mesmo, um judeu
diferente daquele das outras epístolas. A Carta de Tiago não é uma carta não convertido ao cristianismo. Um cristão de srcem judaica podia per-
verdadeira; aquele endereço às doze tribos judaicas na dispersão é mais do feitamente escolher um gênero judaico para desenvolver suas idéias; é o
que vago. caso dos apocalipses cristãos.
A questão que se levanta para nós, sobretudo em relação a esse escrito, Mesmo o paralelismo muito estreito entre as idéias morais contidas
é saber se srcinalmente era judaico ou cristão. O mais estranho nele é que em muitos tratados da ética e da sabedoria do judaísmo tardio, de
a obra redentora de Jesus Cristo é totalmente silenciada. Jesus Cristo é um lado, e o ensinamento da nossa epístola, de outro, não prova que
mencionado apenas em dois versículos (1.1 e 2.1), e poder-se-ia suprimir o autor seja um judeu não convertido. Na realidade, é provavelmente
facilmente essas duas passagens , sem m udar nada no conteúdo do conjun  jud aic o-c rist ão. O fat o de que e le nã o fala d a sal vaçã o o perada p or Jesu s
to do texto, que, à primeira vista, parece moralizante, judaizante e sem Cristo não prova nada. Se o caráter da Carta de Tiago é a “parênese”
nenhuma influência cristã . (quer dizer, a exortação e o ensinamento de uma sabedoria em estilo
Certos críticos presumiram, portanto, que aqui estávamos diante de um pop ular), uma refe rên cia exp líc ita à o bra red ent ora de Jesus Cristo não
escrito judaico de ensinamento moral, redigido durante a primeira metade é indispensável. Basta comparar nossa epístola com as “parêneses”
do século I, no ambiente da sinagoga helenística45, e adotado, a seguir, por que terminam as epístolas paulinas (por exemplo: Rm 12.1 a 15.13; G1
um cristão, que o teria cristianizado, inserindo nele duas vezes o nome de 5.1 a 6.10 etc.), para ver que, frequentemente, essas exortações morais
Jesus Cristo (Massebieau e Spitta). também não contêm alusões à obra da salvação cumprida por Cristo.
Para Amold Meyer, que em 1930 deu a essa hipótese uma forma mais Quem afirmaria por isso que essas “parêneses” paulinas (que também
precisa, o “Tiago ” de 1.1 (em grego Iakobo s) não é Tiago, o irmão de têm seus paralelos nos escritos de Qumrã) foram escritas por um judeu
Jesus (cf. Mt 13.55; Mc 6.3; At 12.17; 15.13; 21. Í8; ICo 15.7; G1 1.19; não convertido a Cristo?
2.9; 2.12), como quer a tradição antiga, mas Jacó, o patriarca do Antigo Para provar que o autor é cristão, costuma-se invocar a passagem polê
Testamento, que dirige exortações a seus doze filhos, representados aqui mica que trata da fé e das obras: cap. 2.14-26. De fato, nesse texto, um
pelas doze t ribos ju daic as dispersas (veja o en dereço). Cada filho teria di cristão parece atacar a doutrina do apóstolo Paulo. Enquanto Paulo afir
reito a uma exortação no contexto da etimologia de seu nome. Isso nos mava: “O ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da
parece ser um jo go de palavras curioso, mas era um gênero literário co lei” (Rm 3.28), Tiago escrev e: “Qual é o proveito se alguém disser que tem
nhecido no judaísmo. Efetivamente, encontramos no Antigo Testamento fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? ... Queres,
uma bênção profética de Jacó sobre seus doze filhos (Gn 49.1-28), que usa pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inop erante?
esse procedimento, retomado, a seguir, pelo judaísmo nos “Testamentos ... Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé somente”
(2.14,20,24). É acima de tudo surpreendente que o mesmo exemplo de
45 Poder-se-ia até, por causa das semelhanças com certos escritos descobertos nas grutas de Abraão, empregado por Paulo, seja retomado pela Carta de Tiago com
Qumrã, descobrir nela influências dos essênios.

70 71
uma interpretação oposta. Em Paulo lemos (Rm 4.3; veja também G1 3.6): nos daria uma ideia da mensagem cristã, mas ela tem seu lugar garantido
“Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado ao lado dos outros escritos do N ovo Testamento.

para a ju stiça” . A Carta de Tiago parece dizer o contrário: “Não foi por
obras que o nosso pai Abraão foi justificado, quando ofereceu sobre o altar
o próprio filho Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas 2 - A Primeira C arta de Pedro

obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a


Escritura, a qual diz: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para Em conexão com grandes provações e a expectativa de um fim do mundo
jus tiç a” (2.2 lss). A polêmica é evidente. Mas será que ela é dirigi da cont ra iminente (4.7), a Primeira Carta de Pedro apresenta-se como uma exortação
Paulo mesmo? à esperança (1.3-12: baseada para os crentes na ressurreição de Cristo), à
Já os judeus especulavam abundantemente sobre Abraão, de modo santidade (1.13 a 2.10: tomar-se pedras vivas de um edifício espiritual,
que, mesmo que o autor não fosse cristão, nossa epístola não replicaria cuja pedra angular é Cristo) e à bo a conduta (2.1 1 a 4.19: saber sofrer como
necessariamente a Paulo. Se realmente Paulo teria sido visado aqui, Cristo sofreu). O último capítulo contém uma exortação particular aos
ele, em todo caso, teria sido mal compreendido pelo autor. Isso é “anciãos”, quer dizer, aos líderes das igrejas.
Esta epístola é endereçada aos eleitos que são “forasteiros da Dispersão ’
confirmado por umaque,
O primeiro definiu comparação
aos olhospormenorizada entre aPaulo
de Cristo, somente e Tiago.
fé tinha valor (1.1) nas províncias da Ásia Menor. Em que sentido esse termo é usado
para a no ssa ju st ifi ca çã o, ma s a fé “qu e atu a pel o am or” (Gl 5.6); aqui? Ele pode designar os judaico-cristãos fora da Palestina, os judeus
ele também falou da “operosidade da fé” (lTs 1.3) e determinou às convertidos do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia
obras, contanto que sejam frutos da fé e do Espírito Santo, seu lugar (1.1) . Mas expressões como “não vos amoldeis às paixões que tínheis an
na economia da salvação. A doutrina paulina da justificação pela fé teriormente na vossa ignorância” (1-14), “fostes resgatados do vosso fútil
não nos dispensa da obrigação de colocar a fé em prática. Portanto procedimento que vossos pais vos legaram ” (1.18), “vós que antes não
nosso autor combate uma compreensão errônea da história de Abraão éreis povo, mas agora sois povo de Deus” (2.10), “porque basta o tempo
e talvez da doutrina paulina. decorrido para ter des executado a vontade dos gentios (4.3) são igual
No estado atual da pesquisa, devemo s renun ciar a i dentifica r o autor da mente dirigidas a gentílico-cristãos. É preciso, pois, entender a palavra
epístola. A tradição reconheceu, sem que possamos prová-lo, Tiago como “dispersão” em sua acepção cristã: no mundo, os cristãos são forasteiros;
o irmão de Jesus. A data da epístola é de épocas posteriores. Somente por seu lugar verdadeiro está no céu (Fp 3.20).
volta do ano 200 achamo-la citada por Orígenes, que, aliás, não parece Esta epístola pretende ser de Pedro, apóstolo de Jesus Cristo (1.1), mas
estar convencido de que ela deve ser admi tida entre os livros reconhecidos. sua autenticidade “petrina” levanta um certo número de problemas.
Ainda no século IV, Eusébio acrescenta-a aos livros contestados. Apenas 1) Ela é redigida em muito bom grego, com vocabulário muito rico: 60
podemos afirmar que os ensinam entos da epísto la não contra riam aquifo palavra s d esse escrito são ún icas do No vo Te stamento. Ora, o que o Novo
que sabemos de Tiago, que, segundo o livro de Atos e as epístolas paulinas, Testamento nos informa de Pedro combina mal com tal elegância literá
liderou um certo tempo a igreja-mãe de Jerusalém. ria. Simão, que Jesus apelidou “Cefas”46, era pescador por profissão (Mc
Já que o escrito não faz alusão alguma a eventos históricos e não pode 1.16; Lc 5.2; Jo 21.3); de acordo com Jo 1.44, era natural de Betsaida.
Esse pescador não “estudou”, e em At 4.13 o tribunal do Sinédrio consi-
ser, com
sível datarsegurança,
essa carta.atribuído a umem
Se se pensa determinado autor,Paulo
Paulo ou num é também impos
mal compre dera-o um “homem iletrado e inculto” . Por outro lado, a epístola não pode
endido, o que não é certo, essa carta é posterior à difusão das epístolas ter sido redigida primeiro em aramaico (língua corrente do povo palestino
paulina s que tratam da fé e das obras, quer d izer pe los ano s 60. no tempo de Jesus) e depois traduzida para o grego, porque as citações
Contrariamente ao julgamento negativo de Lutero, que a chamava de do Antigo Testamento são feitas diretamente segundo a versão grega da
“epístola de palha”, ela tem um valor teológico incontestável. Reencon Septuaginta.**
tramos nela certos acentos do Sermão do Monte (Mt 5.1-7; Lc 6.20-49) e
4(1 Palavra aramaica que significa “pedra” ou “rocha” ; o Novo Testamento transcreve essa
sobretudo uma preocupação verdadeira com os pobres. Por si só, ela não pala vra p or Cefas o u a t raduz por “ Petros" .

72 73
2) Acentua-se a ausência de recordações pessoais em relação a Jesus, o companheiro de Paulo segundo At 15 a 18; esse Silvano-Silas teria, pois,
que é surpreendente, como se diz, para esse homem que viveu na intimida sido o verdadeiro redator das idéias de Pedro.
de de Jesus. Diz apenas ter sido “testemunha dos sofrimentos de Cristo” 2) A ausência de qualquer referência a recordações pessoais, longe de
(5.1), mas não dá nenhum detalhe47. nos fazer duvidar da autenticidade petrina da nossa epístola, dá-nos, muito
3) Constata-se uma grande afinidade entre as idéias desta epístola e a antes, uma espécie de prova por via negativa: os escritos apócrifos 48rec or
teologia paulina. As analogias são surpreendentes, em particular com a rem geralmente, para alcançar maior valor e autoridade, a um apóstolo e
Carta aos Romanos: a imagem da pedra de tropeço em 2.4-8 e Rm 9.32- multiplicam as pretensas recordações pessoais. A sobriedade de nossa epís
33, a passagem sobre os dons do Espírito Santo e sua utilização a serviço tola, nesse ponto, está em favor de sua autenticidade.
dos outros em 4.10-11 e Rm 12.6-8, a recomendação da sub missão às 3) A semelhança entre a Primeira Carta de Pedro e as epístolas paulinas
autoridades em 2.13-17 e Rm 13.1-7. Ora, diz-se que Paulo e Pedro eram compreende-se muito bem se Silvano-Silas, que foi durante longo tempo
teologicamente opostos. colaborador de Paulo, coloca aqui sua pena a serviço de Pedro; ele era
4) Procura-se em vão, nesta epístola, conceitos centrais do ensinamento teologicamente influenciado demais por Paulo para que, aqui e acolá, não
de Jesus, como “Reino de Deus” ou “Filho do homem”. Porventura sobressaíssem idéias e formas de estilo paulinas.
tal lacuna não é impensável em um discípulo íntimo de Jesus tal qual Além disso, está errado contrapor a teologia de Pedro à de Paulo; os
Pedro? dois apóstolos são, na realidade, mais próximos do que geralmente se
Esses argumentos são de valor inegável, e é preciso examiná-los de afirma. Naquele acontecimento que se costuma chamar de “o incidente de
perto: Antioquia”, relatado em G1 2.11-21, Paulo resiste a Pedro face a face por
1) Betsaida, a cidade natal de Pedro, situa-se à margem oriental do causa de sua covardia, não por causa de sua doutrina. Pedro não agiu em
Jordão, não distante de sua foz no lago de Genesaré. Mesmo que essa conformidade com suas convicções teológicas (que, na questão da comu
localidade fosse judaica, ela tinha caráter cosmopolita. André, o irmão de nhão de mesa com “os ex-gentios”, são as mesmas de Paulo), e Paulo
Pedro, e Filipe, natural como esse de Betsaida, segundo Jo 1.44 e 12.21, censura somente essa inconsequênc ia.
têm nomes gregos, que nos lembram um ambiente bilíngue. Qualquer um 4) Um conceito importante do ensinamento de Jesus encontra-se em
que se criara em Betsaida compreendia o grego e estava familiarizado nossa epístola : a do “Servo sofredor de Deus” .
com a cultura helênica. O Antigo Testamento apresenta aquele personagem misterioso, o Servo
Entretanto, essa srcem seria uma explicação insuficiente não fosse de Deus, que deve resgatar o povo culpado, tomando sobre si os pecados e
o papel que Silvano parece ter representado na redação dessa epístola: os sofrimentos de todos (veja-se, sobretudo, Is 52.13 a 53.12). Para o juda
“por meio de Silvano, que para vós outros é fiel irmão, como também ísmo oficial, esse Servo de Deus não pode ser o Messias esperado, porque
o considero, vos escrevo resumidamente” (5.12). Uma certa elegância esse é imaginado como um personagem glorioso, vitorioso, e não saberia ser
literária e as citações da Septuaginta poderíam, pois, ser a contribuição um homem de dores, humilhado e oprimido, “como cordeiro que é levado
desse secretário, muito mais do que do antigo pescador de Betsaida. Esse ao matadouro”. Mas Jesus mesmo se reconheceu nesse Servo sofredor,
Silvano, de resto, não nos é desconhecido; ele é mencionado no endere que se põe no lugar dos culpados para salvá-los. Esse é o sentido próprio
ço da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses: “Paulo, Silvano e da redenção. Palavras de Jesus apresentam seus sofrimentos e sua morte
Timóteo, à igreja dos tessalonicenses” (1.1), e da mesma maneira no como parte integrante da obra que ele deve cumprir para realizar o plano
endereço da Segunda Carta aos Tessalonicenses (1.1); na Segunda Carta divino da salvação (Mc 10.45 e as palavras da instituição da Ceia nos textos
aos Coríntios ainda é falado em Silvano (1.19), que teria pregado o dos sinóticos e em ICo 11.24ss). Jesus refere-se uma vez explicitamente
evangelho em Corinto. Parece, portanto, já ter sido secretário de Paulo. à profecia de Is 53: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o
Ele é identificado habitualmente com Silas, chamado de “profeta”, que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se
refere está sendo cumprido” (Lc 22.37, que cita Is 53.12).

Perguntou-se também se um discípulo pessoal de Jesus teria falado dele em termos tão 48 Do grego apokryphos, oculto, secreto; essa palavra grega designa os livros não canônicos
teológicos. mantidos ocultos, quer dizer: não lidos nas igrejas.

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Ora, essa ideia, segundo a qual Jesus realiza a profecia do Servo de O que sabemos do lugar da redação? Lemos em 5.13: “Aquela (a igreja)
Deus, reencontra-se na pregação do apóstolo Pedro segundo o livro de que se encontra em Babilônia vos saúda”.
Atos. Embora os discursos de Atos revelem a influência da teologia de Babilônia, capital da Babilônia, com passado brilhante, cujo nome se
Lucas, não é um mero acaso que somente naqueles que são atribuídos conservara no judaísmo como sinônimo de exílio e de opressão, existia
a Pedro Jesus seja chamado de Servo de Deus (At 3.13; 3.26: discurso ainda naquele tempo, conforme relatam Josefo e Filo; mas perdera toda
ao povo de Jerusalém; 4.25). É surpreendente constatar que essa a importância, e até a colônia judaica a deixara para estabelecer-se em
identificação, muito raramente expressa no Novo Testamento, encontre- Selêucia em meados do século I. E improvável que Pedro tenha ido lá.
-se precisamente em nossa Primeira Carta de Pedro; parece ser uma ideia Ainda se poderia pensar em uma outra Babilônia, lugar de um campo
preci osa para este após tolo que, após sua revo lta contra o sofrim ento de militar que Estrabão e Josefo localizam no Egito nos arredores da atual
Cristo (Mc 8.32ss), parece ter feito dele mais tarde, assim como Paulo, o cidade de Cairo; mas não se compreende muito bem como essa Babilônia,
centro de sua teologia. mais ou menos obscura, poderia ser aquela de 1Pe 5.13.
Pode-se assinalar, efetivamente, nessa epístola, diversas citações de Is Resta a interpretação simbólica, segundo a qual Babilônia significaria
53, em particular em 2.21-25, onde é exposto o sentido do sofrimento de Roma. Temos notado o silêncio do Novo Testamento sobre uma eventual
Cristo, que constitui o tem a central de nosso escrito em relação à cristologia estada de Pedro em Roma. Está, portanto, aqui provavelmente o único
do Servo de Deus. texto que faz uma alusão indireta a essa estada. De fato, o uso de nomes
Esse último ponto não somente depõe em favor da autenticidade petrina simbólicos, tomados do judaísmo, é frequente entre os cristãos. Assim,
da nossa epístola (ao menos no que concerne às idéias), mas marca a sua no livro de Apocalipse, no capítulo 17, Babilônia designa Roma: o autor
profund a i ntenção t eológica. descreve a visão de uma mulher assentada sobre sete colinas, sobre cuja
Com razão destacou-se, além disso, que essa carta contém elementos fronte está escrita a palavra Babilônia, que deve ser decifrada (Ap 17.5ss).
litúrgicos do cristianismo primitivo: nela se encontram traços de um dos Essa mulher representa “a grande cidade que domina sobre os reis da terra”
primei ros credos (3.18ss, com menção de uma pregação de Jesus aos m or (17.18). Admitimos, portanto, que Babilônia em 1Pe 5.13 significa Roma .
tos) e de uma instrução batismal.
Enfim, podemos atribuir, se não a redação, ao menos o conteúdo dessa
epístola ao apóstolo Pedro. Ela é conhecida e reconhecida já muito cedo no 3 - A Carta de Judas
Oriente (Policarpo, Papias), enquanto no Ocidente ela falta no Cânone de
Muratori, mas é citada no fim do século II por Irineu e Tertuliano. Em nossas edições do Novo Testamento, a Primeira Carta de Pedro é
Pode-se, acaso, datá-la independentemente da questão do autor? Várias seguida de uma segunda epístola, que lhe é atribuída igualmente. Mas
alusões muito nítidas aos sofrimentos e às provações dos cristãos fazem veremos que a Segunda Carta de Pedro somente retoma elem entos da Carta
pensa r em um contex to histórico de calúnia s, de processos, de perseg ui de Judasr que é anterior àquela. Assim sendo, trataremos primeiramente da
ções mais ou menos declaradas contra os fiéis49. Essas perseguições acon Carta de Judas. Esse breve escrito é uma exortação que, embora endereçada
tecem com fúria em numerosos lugares50, mas não parecem oficiais nem de maneira muito geral “aos chamados” (quer dizer, a todos os cristãos,
generalizadas. Não se trata, portanto, da perseguição de Nero nem da de v. 1), assume prontamente um tom polêmico e um sentido agressivo. O
Domiciano51. autor ataca essa gente libertina e ao mesmo tempo propagandista de falsas
doutrinas, que está empenhada em envenenar a vida da igreja. Ele tivera
a intenção de escrever calmamente uma carta tratando da salvação (v. 3),
mas, informado de que esses falsos doutores penetraram furtivamente na
comunidade, não se contém mais e exprime sua indignação. Essa polêmica
49 2.12,19-21; 3.15-17; 4.4; 4.12-16: “Se, pelo nome de Cristo, soi s injuriados... se alguém é surpreendente, considerando um endereço tão universal.
sofrer como cristão...”
50 Vejam-se os países mencionados em 1.1 e a reflexão de 5.9. O autor apresenta-se como sendo Judas (o nome grego é loudas ), “servo
51 Quanto mais a gente se aproximar da perseguição de Domiciano, tanto maior será a distân de Jesus Cristo e irmão de Tiago”: será suficiente para identificar-se?
cia cronológica en tre Pedro e o redator.

76 77
Conhecemos diversos personagens com esse nome no Novo Testamento: mos, portanto, retroceder muito m ais além do ano 90. De fato, aqui se fala
Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus; Judas, “filho de Tiago” (Lc 6.16; nos apóstolos como de gente do passado (v. 17 e 18) e da fé como “uma vez
At 1.13; Jo 14.22), que, segundo uma tradição, sem dúvida secundária52, por to das entregu e aos santos” (v. 3, compare c om v. 20).
teria feito parte do grupo dos doze apóstolos; por fim, um terceiro Judas, O vocabulário e o estilo m ostram que o autor domi na bem o grego (onze
irmão de Jesus (Mc 6.3; Mt 13.55). palav ras gregas desse escrito não se en contram no No vo Testamento nem
Excluído Judas Iscariotes, pode-se pensar no apóstolo Judas, filho de na Septuaginta), mas que é, todavia, de srcem judaica, porque se desco
Tiago? Segun do o v. 17, os apóstolos estão mo rtos, ou ao menos o autor brem, aqui e acolá, alguns semitism os. Esse ju daic o-cri stão poderia, por
não faz parte deles. Trata-se, por acaso, de Judas, o irmão de Jesus? Marcos tanto, ser, sob esse ponto de vista, o irmão de Jesus e de Tiago, mas a data
(6.3) menciona Tiago entre os irmãos de Jesus, juntamente com Judas. Esse que fixamos para o escrito tom a essa identificação difícil.
último seria, pois, irmão de T iago, o que corresponde ao v. 1 de nossa Outros indícios permitem dizer que ele provavelmente é srcinário da
epístola. Mas por que então o autor preferiu dar-se a conhecer como irmão Síria. A veneração por Judas permaneceu, efetivamente, por muito tempo
de Tiago em vez de irmão de Jesus? Por outro lado, é possível que um viva na Síria, como testemunham os antigos documentos siríacos que co
irmão de Jesus tenha escrito essa carta? nhecemos.
Essa epístola tem um a particularidade que não se pode esquecer, porque O Cânone de Muratori, a mais antiga lista de escritos do Novo Testamento
é importante ao mesmo tempo para a história do cânone bíblico e para a conhecida e que data, como sabemos, de cerca de 180, menciona a Carta de
datação da epístola. Cita, repetidas vezes, livros do judaísmo, sobretudo o Judas entre os livros canônicos, o que não impediu os antigos de duvidar
“Livro de Enoque”. de sua autenticidade.
Uma das citações (Enoque 1.9) é até introduzida solenemente, como se
se tratasse de um texto da Escritura Sagrada (v. 14s): “Quanto a estes foi
que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: ‘Eis 4 - A Segunda Cart a de Pedro
que veio o Senhor entre suas santas miríades...”’ O “primeiro livro de
Enoque” ou “Enoque etíope” é uma obra judaica composta de vários ele Uma com paração da Segunda Carta de Pedro com a de Judas revela uma
mentos, cujas partes com idades diferentes se dispersam entre o século II grande semelhança entre os capítulos 2 e 3 de 2 Pedro e os 25 versículos
a.C. e a época de Jesus. de Judas. Já a saudação inicial é quase idêntica (2Pe 1.2 e Jd 2); além
Se nossa epístola cita essa obra, isso significa que ela ainda não foi disso, os textos de 2Pe 2.1 a 3.18 e Jd 3 a 25 são tão paralelos, que se
afastada pelos judeus do cânone do Antigo Testamento. De fato, no século pode ria escrevê -los em duas colun as à m aneira dos sinóticos . O t ema é o
I de nossa era, a lista dos livros que compõem a Bíblia judaica, o Antigo mesmo: uma polêmica contra os falsos doutores; estão citadas, na mesma
Testamento dos cristãos, ainda não fora fixada; isso acontece definitiva ordem, as mesmas referências à queda de anjos (2Pe 2.4; Jd 6), a Sodoma e
mente não antes de 90, em Jâmnia53, que se tornara, após a queda de Gomorra (2Pe 2.6; Jd 7), a Balaão (2Pe 2.15-16; Jd 11). Vários versículos
Jerusalém em 70, o centro espiritual do judaísmo, onde se reuniam os assemelham-se quase palavra por palavra, assim 2Pe 2.12 e Jd 10. Tudo
rabinos mais conceituados. Após essa data, os livros da Bíblia grega parece como se o autor de um a das duas epístol as tivesse copiad o a outra,
(Septuaginta) que não dispunham de um srcinal hebraico e que eram modificando-a um pouco.
demasiado tardios ou de uma doutrina mais ou menos heterodoxa, como Há, no entanto, uma diferença importante: as citações dos apócrifos do
o livro de Enoque, citado pela Carta de Judas, não gozam mais da mesma Antigo Testamento, que são abundantes na Carta de Judas, desapareceram
autoridade. na Segunda Carta de Pedro. Portanto essa última eliminou essas citações
Disso resulta que nossa epístola foi re digida antes de 90. Mas, por outro ao retomar os versículos de Judas. Não teria isso acontecido porque a ex
lado, ela revela um grau mais evoluído do pensamento cristão. Não pode clusão dos apócrifos do cânone pela assembléia rabínica de Jâmnia caiu
entre as duas epístolas? É, pois, claro que a Segunda Carta de Pedro foi
escrita após 90. Por conseguinte, é impossível que ela tenha por autor
52 Pode-se mostrar que se trata provavelmente de uma duplicação de Judas Iscariotes. Pedro, que, segundo a tradição, teria morrido por volta de 64 ou 67 em
53 Localidade na fronteira da Judeia, a uns 10 km do mar.

78 79
Roma durante ou pouco tempo após a perseguição de Nero. A carta A Segunda Carta de P edro é, pois, dos 27 escritos do Novo Testamento,
autodenomina-se uma obra de Pedro: “Simão Pedro, servo e apóstolo de o que foi redigido por último, mesmo que tenha entrado antes de outros
Jesus Cristo” (1.1). O autor lembra (1.18) que conheceu Jesus e que estava no cânone do Novo Testamento. Entre a Primeira Carta de Paulo aos
com ele no monte da transfiguração54; mas essa insistência em fazer lem Tessalonicenses, escrita por volta de 50, e a Segunda Carta de Pedro pas
brar record açõe s pesso ais é muito suspe ita, confo rme já dissem os. Por sou uma centena de anos.
outro lado, essa epístola faz alusão à Primeira Carta de Pedro, da qual O valor teológico dessa obra reside na manutenção da esperança cristã,
quer ser uma sequência (3.1). apesar do retardamento da “parusia”56. Sabemos que esse retardamento,
Outro indício que prova tratar-se de um escrito de uma época posterior: constatado há muito tempo, inspirou os zombadores a fazer reflexões
em 3.15-16 lemos: “Tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, amargas (3.4). Diante dessas zombarias, o autor lembra que mil anos são
como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a para o Se nhor como um dia (3.8) e pro clama corajosa mente: “Nós espera
sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como de fato mos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça ” (3.13).
costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis
de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam
as demais Escrituras, para a própria destruição d eles”. A expressão “todas 5 - As três Cart as de João
as epístolas de Paulo” permite supor que, nesse momento, as epístolas
paulin as já estão reunidas em um “corp us”, numa coletânea. Além disso, As epístolas joaninas foram redigidas em um espírito de contemplação
essas cartas paulinas são consideradas Escrituras Sagradas, como escritos luminosa. As idéias nelas expressas não seguem uma progressão lógica,
inspirados e canônicos, com a mesma qualidade do Antigo Testamento. É como aquelas das epístolas paulinas, mas um procedimento cíclico: os
a primeira vez que livros do Novo Testamento são chamados de Escrituras mesmos temas retomam diversas vezes, e tudo é expresso num estilo
Sagradas. Ora, o cânone do Novo Testamento é fixado em suas grandes litúrgico57.
linhas somente por volta do ano 150. Encontramo-nos, portanto, com essa
Segunda Carta de Pedro muito depois de 90, por volta de 150.
O Cânone de Muratori (180) não menciona essa epístola, mas conhece 5.1 - A Primeira Carta de João
a de Judas, o que confirma que temos aqui uma reedição corrigida e
aumen tada55d esse escrito. Entre todos os autores do século II, somente Esta lembra, na forma e no conteúdo, numerosas passagens do Evange
Orígenes fala da Segunda Carta de Pedro, e apenas para dizer que ela é lho de João e, particularmente, os discursos de despedida (Jo 14-17). O
contestada. autor não revela seu nome, mas é, sem dúvida, o mesmo que o do quarto
O autor parece ser um cristão da Ásia Menor, que quer advertir seus evangelho (já era a opinião de Dionísio de Alexandria) ou, se se leva em
irmãos contra o gnosticismo. Essa heresia parece ser diferente daquela que conta as ligeiras diferenças, ao menos um membro do mesmo grupo. Os
Paulo combatia no século 1. É possível que a expressão “pessoas instáveis temas principais, abordados altemadamente, são os seguintes: Deus é luz;
que deturpam o sentido das Escrituras” (3.16) faça alusão a Marcião, o Jesus Cristo obtém o perdão dos pecados do mundo inteiro; Deus é amor;
herege do qual já falamos. os cristãos, filhos do Deus do amor, são chamados a amar, e para amarem a
O uso dos termos “fé” e “conhecimento” é inteiramente diferente da Deus, eles devem am ar-se uns aos outros. Não há uma introdução epistolar,
quele que conhecemos pelos escritos cristãos do século 1; o conceito de mas o anúncio de que o autor quer testemunhar sua fé em Jesus, o “Verbo
“virtude” (1.3) é totalmente helenístico. O fato de que a epístola é obrigada da vida”, que “era desde o princípio”, que ele diz ter “ouvido”, “visto com
a reagir contra o desaparecimento da espera pelo fim prova igualmente que seus próprios olhos”, “apalpado com suas mãos” (1.1-4). Falta também
estamos longe das srcens do cristianismo. uma conclusão; em vez disso há uma abrupta frase final: “Filhinhos,

54 O episódio é relatada nos evangelhos: Mt 17.1 -8; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36.


55 Aumentado com o primeiro capitulo sobre o fortalecimento na fé cristã e com o desdobra 56 A palavra paro usia designa a volta ou antes a (segunda) vinda de Cristo.
mento do terceiro capítulo sobre a vinda de Cristo. 57 Até se disse que toda a primeira carta não seria mais do que uma liturgia batismal.

80 81
guardai-vos dos ídolos” (5.21). Entretanto, o autor parece ter em vista A maioria dos críticos é da opinião de que essas três epístolas são do
determinados leitores. Ele conhece a situação moral e espiritual deles e mesmo autor e que, se esse não é o autor do quarto evangelho, pertence
os perigos aos quais estão expostos (cf. 2.12,15,21,26; 3.7,13; 4.4; 5.13). em todo caso ao mesmo ambiente espiritual. Remetemos, pois, o leitor ao
Ataques precisos contra hereges vêm interromper, por duas vezes (2.18- probl ema do aut or do q uarto evangel ho, que abo rdamos antes.
19 e 4.1-6), o fio da meditação. Esses hereges têm tendências docéticas,
quer dizer, segundo eles, Jesus só teve a aparência (dokein em grego:
parecer, aparentar) de um corpo, m as não um verdade iro co rpo, e eles não
creem na natureza humana de Cristo58.
O autor indica a seus destinatários um critério para reconhecer a heresia
dessa gente: aquele que não confessa que Jesus Cristo veio em carne
(quer dizer, tomado ser humano verdadeiro) não está na verdade (4.2-3)
e lembra-os da confissão de fé. Esses gnósticos colocam o conhecimento
acima do amor e afirmam não ter pecado. O autor acentua, por isso, que a
verdadeira gnose, o verdadeiro conhecimento, é subordinado ao amor: não
se pode conhecer a Deus sem amá-lo e também sem amar seus próprios
irmãos (4.7-21). Não é possível definir de um a maneira precisa o grupo de
cristãos aos quais se dirige o autor.

5.2 - A Segunda Carta de João

Esta retoma brevemente o tema do amor fraternal e a advertência contra os


hereges da primeira carta. Começa com o seguinte endereço: “O presbítero
(= velho) à Kyria, a eleita, e a seus filhos” (v. 1). Quem é esse presbítero
(em grego pres byte ros)! A palavra lembra o texto de Papias sobre João, o
“presbítero”. Quanto à Kyria, a palavra pode ser traduzida por senhora:
a “senhora eleita” não é uma pessoa cristã, mas uma igreja denominada
assim simbolicamente.

5.3 - A Terc eira Carta de João

E um simples bilhete pessoal do “presbítero ao amado Gaio” (v. 1). Diver


sas passagens do Novo Testamento mencionam um Gaio (cf. At 19.29; 20,4;
Rm 16.23; ICo 1.14), mas nada nos permite afirmar que esse seja o mesmo
personagem. Seja como for, o presbítero louva-o, assim como a D emétrio, e
confronta-os com Diótrefes, que, estando provavelmente à testa de uma outra
comunidade, parece não reconhecer a autoridade do presbítero.

58 É o mesmo problema que está no pano de fundo do quarto evangelho.

82 83
Capítulo 5 sempre é possível identificar com certeza os imperadores romanos em vis
ta. Mas é certo que se fala de Roma (“Babilônia”), do culto ao imperador
e da perseguição à igreja que esse culto provoca. Ainda que a “besta
O Apocalipse emergindo do mar” (13.1ss), que está a serviço do dragão (diabo), repre
sente o poder demoníaco que está por trás de cada império conquistador,
Este é o livro que encerra a Bíblia cristã. A presença legítima do o autor pensa no Império Romano de seu tempo e, mais precisamente, na
Apocalipse no cânone foi contestada, pela primeira vez, por volta do final perseg uição da igreja sob Domi ciano, que deu uma difusão especial ao
do século II e desde a metade do século III sobretudo no Oriente. Mas, por culto imperial. A diferença dos apocalipses judaicos, orientados somente
volta do ano 150, o Apocalipse era considerado um livro inspirado (por para o fu turo, o Ap ocalips e de João é caracte rizado pelo conceit o cristão
Justino e pelo Cânone de Muratori). de tempo, segundo o qual o centro da história divina já foi atingido por
Apocalipse significa “revelação”. O título completo, tal qual aparece em antecipação em Jesus Cristo (M. Rissi). Assim, todo o tempo presente já
1.1, significa o seguinte: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para é tempo do fim, mesmo que o cumprimento ainda fique por vir. O autor
mostrar a seus servos as cousas que em breve devem acontecer e que ele, mostra o aspecto celeste dos acontecimentos presentes, como descreve o
enviando por intermédio do seu anjo, notificou a seu servo João” . Esse João aspecto celeste dos acontecimentos futuros. Essa é a chave da compreensão
afirma que fala como profeta (1.9) e termin a o relato de suas visões dizendo: de todo o livro.
“Eu, João, sou quem ouviu e viu estas cousas” (22.8). E verdade que todas O Apocalipse contém sete cartas, escritas como se tivessem sido ditadas
essas visões têm um caráter literário, mas isso não exclui que o autor tenha pelo Filho do homem às sete igrejas da Ásia: Efeso, Esmima, Pérgamo,
sido um visionário. Os apocalipses eram um gênero literário tradicional no Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia (caps. 2 e 3). Elas contêm alusões
jud aísm o59. P ara descre ver o indescritível, é natural que o autor se sirva a situações concretas. A composição dessas sete cartas é característica da
de imagens e que as tome emprestado sobretudo dos apocalipses judaicos intenção pastoral do autor. Dentro de um objetivo pastoral de exortação às
que conhece. Não é possível nem necessário, para explicar esse recurso às igrejas em situação crítica, o autor transpõe acontecimentos de seu tempo
imagens e aos motivos tradicionais, pressupor a utilização de fontes cristãs para fazer sobress air seu valo r escatoló gico. Atrav és de seu número, que
ou decompor o livro em uma série de escritos ou de redações diferentes. indica a plenitude divina, essas sete igrejas representam a igreja inteira.
Outras imagens ele empresta da astrologia e da mitologia pagã. Ao mesmo tempo, esse papel representativo atesta a importância da Ásia
Serve-se, porém, sobretudo de elementos litúrgicos do culto da igreja Menor para o cristianismo daquele tempo.
primi tiv a para des cre ver os eve nto s futu ros, que aco nte cerã o na esfe ra Em uma série de quadros coloridos, que não descrevem uma sequência
celeste (por exemplo, a última “trombeta”, instrumento de culto). Essa cronológica de eventos futuros, mas são, por assim dizer, progressivamen
utilização da linguagem litúrgica pressupõe uma ideia fundamental do te encaixados uns nos outros como diversas ilustrações sobre um mesmo
cristianismo primitivo: o culto é uma antecipação do fim (Cullmann). tema, o autor descreve o grande drama que lhe foi dado revelar: capítulo
Não é por acas o que o aut or tem sua prim eira visã o num dom ingo 4: visão da liturgia celeste; capítulo 5: o livro com os sete selos; capítulo
(1.9; é a primeira denominação cristã do “dia do Senhor”, que é o dia 6: a abertura dos primeiros seis selos (os quatro cavaleiros); capítulo 7:
da ressurreição de Cristo), dia em que as primeiras comunidades se intermezzo do povo dos vencedores; capítulos 8 e 9: a abertura do sétimo
reuniam para o culto. selo, introduzindo a visão dos sete anjos com sete trombetas; capítulos 10
Mas, por outro lado, o autor deixa entrar em sua visão do futuro o tempo e 11: intermezzo do pequeno livro e das duas testemunhas; capítulos 12 a
presente. O livro está repleto de alusõe s históric as. E verdade que nem 14: a sétima trombeta desfecha as visões da mulher e do dragão, das duas
bestas e do jul game nto; capítu los 15 e 16: visão dos sete anjos com sete
taças, que são sete flagelos; capítulos 17 e 18: queda de Babilônia (Roma);
59 A literatura apocalíptica judaica é abundante. Mencionamos apenas o livro de Enoque, a
Ascensão de Moisés, o Apocalipse de Baruque, o Testamento dos Doze Patriarcas. Encon- capítulo 20: o reino de mil anos de C risto, a derrota definitiva de Satanás e
tram-se, igualmente, traços desse gênero literário no Antigo Testamento, em particular nos o julgam ento final; capítulos 21 e 22: os novos céus e a n ova terra e a visão
livros de Ezequiel e Daniel. Os livros contidos nos manuscritos do Mar Morto (Qumrã) da Jerusalém celeste.
pertencem parc ialm ente a ess e gên ero.

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A linguagem desse escrito é muito particular, e pode-se até estabelecer um menosprezo total de seu caráter histórico, servem-se dele para calcular
uma gramática especial para o Apocalipse (Charles). Isso se deve, por um a data do fim do mundo); por outro lado, é objeto de uma aversão acentuada
lado, ao estilo litúrgico e, por outro, à influência semítica que é percebida (durante a Antiguidade na igreja oriental, mais tarde por Lutero, por causa
em toda parte nesse grego que certamente é o pior de todo o Novo Testa do caráter demasiadamente concreto da esperança). Ele não merece nem
mento. Com certeza, o autor não pertencia a um ambiente grego, mas uma nem outra. Em todo caso, contém uma mensagem particularmente
procede, arovave lment e, da Síria ou da Palest ina. importante no fim do Novo Testamento e de toda a Bíblia (“Vem, Senhor
O autor insiste em se chamar “Eu, João” (1.9; 22.8; veja-se também 1.1 Jesus” - 22.20). Lembra-nos o objetivo de toda essa história da salvação,
e 4); e este é o único escrito do Novo Testamento, atribuído a João, que que é o objeto do Antigo e do Novo Testamentos. Ao colocar todo o tempo
mesmo afirma que tem como autor alguém chamado João. Esse encontra- intermediário entre a vinda de Cristo e o fim do mundo na perspectiva
-se na ilha de Patmos, no oeste da Ásia Menor, “por causa da palavra de cristã do tempo, na qual a época atual já aparece como um tempo final,
Deus”, o que pode significar que ele chegou lá com a intenção de pregar determinado pela obra de Cristo, o Apocalipse tem uma grande atualidade.
o evangelho ou então que foi exilado lá por ter pregado o evangelho. De Sem nos autorizar a fazer cálculos, ele nos permite compreender os
acordo com 6.9 e 20.4, deve aceitar-se o último sentido. acontecimentos da época atual sob essa luz. Basta ler o vigoroso capítulo
Uma parte da tradição antiga identifica já bem cedo esse João com o 13 sobre o império conquistador e a ideologia totalitária para nos dar conta
apóstolo João, filho de Zebedeu, autor do quarto evangelho. Mas, a partir até que ponto esse escrito está próximo de nós, mesmo falando somente do
do fim do século II, essa opinião começa a ser contestada por alguns e, por Império Romano e de seu culto ao imperador. Ele também é atual quando
volta da metade do século III, Dionísio de Alexandria (morto por volta de procl ama a importância cós mica da obra rede ntora e do reino de Cristo e a
265) escreve: “João, autor do Apocalipse, é um homem santo e inspirado esperança de uma nova criação.
por Deus. Mas eu não aceitarei facilmente que este era o apóst olo... ”
Dionísio baseia sua opinião numa análise literária e teológica comparada
desse escrito e do quarto evangelho (que ele atribui, por sua vez, ao após
tolo João). Com efeito, vários pormenores lhe dão razão: por exemplo, em
18.20 e 21.14, João fala dos apóstolos sem que ele mesmo aparentemente
se conte entre eles. Por outro lado, o vocabulário e a língua de nosso escri
to diferem também em relação ao Evangelho de João. Uma comparação
minuciosa entre o quarto evangelho e o Apocalipse faz, entretanto, apare
cer analogias nos temas doutrinários (por exemplo, o conceito de “teste
munho”; o de “cordeiro de Deus”, Jo 1. 29 e 36; Ap 5.6-14; o de “bom
pasto r”, Jo 10, Ap 7.17; e o de “água viva ”, Jo 6.37-38; Ap 21.6). Se não
se pode, pois, tirar uma conclusão sobre a identidade do autor dos dois
livros, há, todavia, uma certa proximidade entre os dois, que ainda restaria
explicar.
Quanto à data, temos o testemunho de Irineu do século II. Segundo esse,
o Apocalipse foi escrito no final do reinado de Domiciano em 96, durante
a perseguição generalizada e sangrenta que esse então dirigia contra os
cristãos, que se recusavam a render culto ao imperador como se fosse a
um deus. Essa data é confirmada por numerosas passagens (3.10, 13; 17.6;
18.24; 19.2; 20.4).
Em todos os tempos e até os nossos dias, o Apocalipse é, por um ladò,
objeto de uma consideração exagerada (sobretudo em certas seitas, que, por

86 87
III

A formação do cânone do Novo T estamento6 0

Na époc a em que foram escrito s os 27 livros do Nov o Testamen to,


eles ainda não eram “Escritura Sagrada”. Como já dissemos, a Escritura
Sagrada, para os autores do N ovo Testamento, era o Antigo T estamento61.
Quando introduzem citações com a fórmula “para que se cumprisse o que
está escrito”, eles se referem exclusivamente ao Antigo Testamento. E
verdade que o apóstolo Paulo lembra, ocasionalmente, palavras de Jesus
(lTs 4.15; ICo 7.10; 9.14 e o relato de ICo 11.23ss); mas ele as toma da
tradição oral e não dos escritos, pois os evangelhos ainda não existiam
em seu tempo. Nesse caso, emprega geralmente a fórmula da introdução
“O Senhor diz”, e assim fazem todos os autores cristãos até o começo do
século II62.
Somente em escritos redigidos por volta de 140/150, a Carta de Bamabé
e a Segunda Carta de Clemente, é citada uma palavra de Jesus na categoria
de Escritura Sagrada (Bam 4.14 = Mt 22.14; 2Clem 2.4 = Mt 9.13). Mais
ou menos na mesma época, o termo “evangelho”, que até então assinalara
a pregação da boa-nova, começa a ser empregado no sentido de “livro”
(em Justino Mártir, por volta de 150, por exemplo; mas esse, dirigindo-se
a gentios cultos, emprega paralelamente o termo literário “memórias dos
apóstolos”, que, porém, é m enos apropriado).
Em meados do século II, nossos quatro evangelhos ainda não eram os
únicos que exerciam autoridade. Outros evangelhos, “apócrifos”, que em
parte relatam lendas (es pecialme nte so bre os p eríodos da vida de Jesus dos
quais os evangelhos antigos não falavam), em parte especulações gnósticas,
atribuídas, frequentemente, ao Cristo ressuscitado, já se tinham difundido,
e seu número continuava crescendo.

60 Cânone, em grego kanon, tem primeiro o sentido de caule de junco, depois, porém, regra,
norma.
61 Uma exceção: 2Pe 3.16, que considera as cartas de Paulo como Escritura Sagrada, mas
dissemos que a Segunda Carta de Pedro é um escrito muito tardio.
62 Veja também At 20.36.

89
Estava na hora de represar essa maré. Pouco a pouco, nossos quatro daquele de apóstolo. O apóstolo tem, na igreja, uma função única, que não
evangelhos foram separados e revestidos de uma autoridade normativa se repete mais: ele é testemunha ocular. Por conseguinte, acreditava-se que
antes dos outros escritos do Novo Testamento. No fim do século II, Irineu somente os escritos que tinham como autor um apóstolo ou discípulo de
já tentara explica r p or que não deve haver nem menos nem mais do que apóstolo poderíam garantir a pureza do testemunho cristão.
quatro evangelhos. Mas não se deve supor que o cânone se tenha formado em consequência
Quanto às epístolas de Paulo, vimos que, durante a vida do apóstolo e de uma série de decisões inequívocas. Os livros admitidos mais tarde im-
sob seu conselho (Cl 4.16), algumas entre elas foram permutadas entre as puseram-se por si mesmos aos membros da igreja; quando se compara,
diferentes igrejas; é essa a srcem da coleção ou do “corpus” das epístolas por exemplo, o conteúdo dos quatro evange lhos com o dos evangelhos
paulinas. A p rimeira coleção desse gênero parece ter sido compila da em apócrifos, só se pode admirar o julgamento seguro dos cristãos daquele
Corinto. Essa é a razão pela qual a mais antiga lista de livros canônicos, tempo. A teologia vê nisso a obra do Espírito Santo, que ao m esmo tempo
o Cânone de Muratori, coloca por volta de 180 as Cartas aos Coríntios à era atuante naqueles escritos e nas comunidades que os recebiam.
frente das epís tolas pauli nas63. A primeira citaç ão de uma passa gem pau lina Antes de tentar expor a ideia comum dos 27 escritos, limitemo-nos a
(Ef 4.26), considerada como Escritura Sagrada, acontece em tomo do ano mencionar as grandes etapas da constituição do cânone. O primeiro

150, na carta de Policarpo 12.1. Por vòlta de 170, as primeiras coleções cânone foi obra
de critérios de M
muito arcião de
estreitos por sua
voltateologia.
de 150,Condenado
que fez sua como
escolha a partir
herege,
paulinas contam ora 10 epístolas (as do fu turo cânone, menos as epísto las
pastorais e a Carta aos Hebreus), ora 13 (faltando somente a Carta aos Marcião, do qual já falamos, opunha radicalmente o Deus de amor e de
Hebreus). graça, Pai de Jesus Cristo, ao Deus justo do Antigo Testa mento. Não admi
Somente aos poucos, também outros escritos, os Atos dos Apóstolos, as tindo nenhuma continuidade entre os dois Testament os, Marcião rejeitava
epístolas católicas e o Apocalipse, alcançaram dignidade canônica. em bloco o Antigo Testamento e eliminava do Novo Testamento todos os
De uma maneira geral, o cânone do Novo Testamento não se formou, escritos atribuídos a apóstolos judaico-cristãos ou aqueles que se referiam
como se poderia supor, por adição, mas por eliminação. Ainda no início demasiadamente ao Antigo Testamento. Sendo Paulo, segundo essa teoria,
do século II, foram redigidos não somente evangelhos apócrifos e atos dos o único apóstolo legítimo, um só evangelho podia ser admitido, o de Lucas,
apóstolos, mas também um grande núm ero de outros escritos cristãos (como porta-v oz de Paulo. Esse c ânone conté m, pois, somen te o Evange lho segu n
os escritos dos Pais Apostólicos). Esses, mesmo que não pretendessem do Lucas e dez epístolas paulinas (portanto nem as cartas pastorais nem a
remontar às srcens, não tinham, em princípio, uma autoridade inferior Carta aos Hebreus).
àquela dos escritos que hoje fazem parte do Novo Testamento. Em reação contra essa redução excessiva e arbitrária, a igreja estabele
A elaboração do cânone do Novo Testamento foi, portanto, o fruto de ceu seu cânone com quatro evangelhos e 14 epístolas paulinas (as cartas
um processo que, até a fixação final, estendeu-se por vários séculos. Mas o pastorais e a Carta aos Hebreus entraram finalmente como tais), aos qu ais
fato decisivo é o surgimento da ideia do cânone. Esse momento importante se juntaram A tos, as epístolas católicas e Apocalipse .
aconteceu entre os anos 140 e 150. Na época, a igreja reconheceu que ela A primeira lista que possuímos e que representa um estágio já evoluído
sozinha não podia mais controlar as tradições que pululavam e, então, do cânone data, sem dúvida, da segunda metade do século II. Foi descober
submeteu toda a tradição a uma norm a superior, à tradição apostólica, que, ta pelo bibliotecário Muratori (falecido em 1750) na Biblioteca Ambrosiana
de Milão. Conservada em latim, ela reconhece como canônicos nossos
exposta
Eis poremque
certos escritos,
o caráter teria valoratribuído,
apostólico, canônico. com ou sem razão, a um quatro evangelhos, 13 epístolas paulinas (portanto não a C arta aos Hebreus)
escrito, não deixou de influir na escolha que foi feita. Em certos casos, para e Atos dos Apóstolos. A terceira parte do cânone estava, naquele tempo,
fazer entrar no cânone um livro que não tinha como autor um apóstolo, foi ainda longe de ser encerrada: somente abrange a Carta de Judas e duas
preciso estabelecer, posterio rmente, uma relação entre o escrito e algum epístolas joaninas, mas nenhuma menção é feita das duas Cartas de Pedro,
apóstolo. Pode-se dizer que o conceito de “cânone” resultou diretamente da de Tiago nem da Terceira Carta de João. Ao invés disso, o Cânone de
Muratori admite dois apocalipses: o de João e o de Pedro; esse último - é
verdade - não sem uma certa reserva.
63 Em nossa coleção atual, as epístolas são postas na ordem decrescente por sua extensão.

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Na s equência, as lista s canô nicas fornecida s pelos Pais da Igreja ate stam Conclusão
ainda muita incerteza em relação a essa terceira parte. É feita uma distin
ção entre os escritos sobre os quais se estabeleceu um acordo (os quatro A essência comum do pensamento teológico
evangelhos e a maior parte das epístolas paulinas), aqueles cujo valor do Novo Testamento
canônico é objeto de discussão e aqueles que são rejeitados po r todos.
Por volta de 200, o cânone do Novo Testamento já se aproxima muito Acabamos de ver como os 27 livros foram selecionados pouco a pouco
do nosso (o cânone da igreja da Síria, que conta somente 22 livros, tem por causa de sua grande imp ortância e como surgiu o cânone do Novo
sua história particular). Entretanto, as discussões continuaram ainda muito Testamento. Realçamos as idéias teológicas essenciais de cada livro. Mas
tempo sobre a canonicidade da Carta aos Hebreus, contestada pela igreja em que consiste a linha teológica interna que une todas essas obras, que
do Ocidente, porque essa apreciava pouco seu caráter especulativo, e sobre forma a unidade da coleção e autoriza-nos a falar de um pensamento do
o Apocalipse, que, ao contrário, a igreja do Oriente tinha dificuldades para Novo Testamen to?
admitir por causa de suas concepções julgada s pouco espirituais. Não é fácil respo nder a essa pergunta , pois cada é poca e cada igreja são
Essas discussões fora m concluídas, grosso modo, sem ter alcançado um tentadas a fazer uma escolha e a considerar como essencial aquilo que
fim definitivo, no Oriente (com exceção da Síria) e no Ocidente no final
do século IV. As datas decisivas são, para o Oriente , a 39a carta pascal de corresponde
inclinava-se apara
suasver
próprias aspirações.
a essência do NovoAssim, por exemplo,
Testamento o Humanismo
no Sermão do Monte,
Atanásio em 367 e, para o Ocidente, o Sínodo de Roma de 382 e os concí- mas a Reforma, na doutrina da justificação pela fé. O conjunto do Novo
lios africanos de Hipona (393) e Cartago (397). Testamento foi então explicado em função de uma única ideia.
Existe, porventura, um critério que permita evitar uma escolha mais ou
menos arbitrária? Pensamos que as fórmulas breves, contidas no próprio
Novo Testamento e destinad as a resum ir a fé do cristia nismo primitiv o
em vista do Batismo ou em vista da confissão em tempos de perseguição,
indicam exatamente para nós o que os autores do Novo Testamento consi
deravam, eles mesmos, como o centro comum de sua fé.
Essas fórmulas concordam em restringir-se a confessar a fé em Jesus
Cristo, enquanto a fé em Deus é apenas uma função dessa: Jesus Cristo é
o Senhor e o Filho de Deus64. Se as fórmulas são mais desenvolvidas, elas
acentuam a ressurreição de Cristo e o senhorio atual e universal daquele
que “está sentado à direita de Deus”65. A revelação inteira é vista, portanto,
à luz do Cristo presente.
Mas esse Cristo ressuscitado, cuja presença diária, segundo o livro de
Atos e as epístolas, os primeiros cristãos constataram em suas comunida
des e sobretudo no seu culto não é simplesmente um princípio abstrato: é

o mesmo cuja
enfermos, vida pecados,
perdoou e ministério terreno
morreu na contam os evangelhos.
cruz e, por outro lado, Ele curou
pregou a
vinda bem próxima do reino de um Deus que ama “as ovelhas perdidas”
e que pede a seus filhos que façam penitência e cumpram sua vontade de

64 Examinem-se, por exemplo, dentro do seu contexto, as fórmulas “Senhor é Jesus” ( I Co 12.3;
Fp 2.11) e “Jesus é Filho de Deus” (certos manuscritos de At 8.37; Hb 4.14; Uo 4.15).
65 Segundo o SI 110, que é a passagem do Antigo Testamento mais cita da no Novo Testa
mento.

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uma maneira radical, quer dizer, segundo o Espírito e não segundo a letra. Apóstolos, nas epístolas e no Apocalipse, que, apesar de nossa ignorância
Ao mesmo tempo, esse Jesus sabia que devia cumprir o plano de Deus, sobre a duração que ainda nos separa de seu cumprimento, já entramos na
assumindo o papel do Servo sofredor de Deus e do Filho do homem que fase final d a história divina da salvação.
virá para manifestar o reino de Deus no fim dos tempos. O acontecimento central da salvação é um acontecimento histórico,
Esse mesmo Jesus Cristo continua sua obra na comunhão dos crentes. que está em relação estreita com a história do povo de Israel e até com a
A experiência e a convicção dessa ação permanente são a base de todo o história mundial e os acontecimentos de seu fim. Essa relação aproxima a
Novo Testamento. fé do Novo Testamento daquela do Antigo Testamento: ambas pertencem
A teologia das epístolas (Cristo é o Senhor do universo) opõe-se a uma mesma história de salvação, e esse caráter “histórico” distingue
frequentemente à pregação mais simples de Jesus sobre o reino de Deus. ambas das religiões da Antiguidade. E isso que também as preservou do
Essa oposição não existia no espírito dos primeiros cristãos, que vislum destino que atingiu aquelas: sua absorção e depois seu desaparecimento no
bravam um vínculo estreito entre o ensinamento dos evangelhos e o das vasto sincretismo gnóstico, perigo que já os autores do Novo Testamento
epístolas. Assim a fé no Senhor presente está ligada ao papel singular que reconheceram e combateram.
Jesus Cristo mesmo atribuiu à sua própria pessoa, falando, por um lado, A união do Novo Testamento ao Antigo em uma mesma Bíblia significa ,
da necessidade de sua morte e, por outro, de seu papel futuro como Filho por um lado, que se realizou , se realiz a e se realizará um plano divino
do homem. A mensagem central das epístolas, que tem por objeto a fé na sobre uma linha histórica particular, escolhida por Deus, e que se desen
morte redentora de Cristo por nossos pecados, condição primordial de volve, desde as srcens até o fim, dentro da história geral. Significa, por
nossa salvação, está ligada ao ensinamento de Jesus nos evangelhos sobre outro lado, que os acontecimentos decisivos relatados no Novo Testamen
o perdão de Deus, o Pai, que não leva em conta nossos méritos, mas nossa to são ao mesmo tempo o resumo de toda essa história, seu centro e sua
penitê ncia; e está tam bém ligada ao fato, rel atado p elos e vangel hos, de que norma. Mesmo que a história da salvação seja cumprida em Cristo, ela
Jesus mesmo, durante seu ministério, perdoou efetivamente os pecados. continua a desdobrar-se no presente até o fim dos tempos, de uma maneira
Toda a ética da igreja primitiva, pressuposta nas epístolas e baseada no frequentemente misteriosa e em linhas sinuosas. O caminho é estreito, mas
amor divino, revelado e realizado na obra de Cristo, está ligada à exigência isso é próprio do plano divino da salvação na Bíblia: que, para realizar sua
evangélica do amor ao próximo, que se baseia no amor de Deus por nós. intenção de salvar todos os seres humanos, ele se sirva dessa limitação, que,
Os meios da graça, oferecidos pela igreja cristã, o Batismo e a Eucaristia é uma consequência do princípio teológico da escolha e da substituição. O
(Santa Ceia), estão ligados primeiramente ao batismo que Jesus mesmo plano d ivino to ma o caminho da esc olha de um peq ueno nú mero de pesso as
recebeu de João Batista e que ele cumpriu sobre a cruz, em segundo lugar e depois do Único; seu objetivo, porém, é o universo.
à última ceia de Jesus com seus discípulos. O Espírito Santo, o poder da A alegria imensa e a paz profunda dos primeiros cristãos, testemunha
ressurreição, que está atuante na comunhão dos crentes e “renova de dia em das pelo Novo Testamento, são inspiradas pela consciência comum a todos
dia” (2Co 4.16) seus membros, está ligado não somente ao acontecimento os autores de estar engajados nessa história particular e de participar de
da ressurreição de Jesus, à sua vitória sobre a morte, mas também aos um mesmo acontecimento com todo o passado e todo o futuro. Fazendo
milagres de Jesus dos quais falam os evangelhos. parte d essa hist ória, o t empo p resente, interm ediário entre a ressu rreição de
O que unifica sobretudo a teologia de todo s os livros do Novo Testamen Cristo e seu retorno, ganha toda a sua importância como tempo do Espírito :
to é sua espera comum pelo fim do mundo. Essa esperança distingue-se Santo, como tempo da igreja, como tempo da pregação do evangelho. Pela
daquela dos judeus, pois aqui o reino de Deus não é somente algo vindouro, fé, o ser humano do Novo Testamento integra sua existência individual
mas ao mesmo tempo futuro e presente. Ela se fundamenta na fé naquilo nessa história, precisamente no tempo e no lugar destinados a ele. Através
que já é realidade em Cristo. E verdade que, no começo do cristianismo, de nosso nascimento natural fazemos parte da história de nossa família, de
esse fim era esperado num futuro muito próximo, enquanto que, no tempo nosso povo e do mundo; “crer” significa, no Novo Testamento, integrar-
subsequente, os autores do Novo Testamento previam um período de espe -se, em virtude de uma decisão da fé, que é um “novo nascimento”, nessa
ra mais longo. É fundamental e comum em todo o Novo Testamento, no história particular da salvação, cujo ponto culminante e significado é Cristo.
ensinamento de Jesus nos evangelhos sinóticos, bem como em Atos dos

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