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A VIVÊNCIA DA MATERNIDADE DE MÃES DE CRIANÇAS COM AUTISMO

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Luciane Najar Smeha
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Pâmela Kurtz Cezar

RESUMO. O estudo teve como objetivo compreender como as mães de crianças com autismo vivenciam a maternidade. Participaram da
pesquisa quatro mulheres com filhos na faixa etária infantil que apresentam diagnóstico de autismo. Os dados foram obtidos por meio de
entrevistas semiestruturadas, realizadas individualmente e analisadas conforme a Análise Textual Qualitativa. Os resultados apontam que
esta vivência é uma experiência desafiadora. Estas mulheres renunciam à carreira profissional, à vida social e às relações afetivas em prol
dos cuidados maternos. Surgem com isso sentimentos como incerteza, tristeza e desamparo. Conclui-se diante disso que é necessário
possibilitar a estas mães um espaço onde elas possam ser escutadas, trocar experiências e amenizar suas angústias. Por fim ressalta-se que a
psicologia pode funcionar como rede de apoio a estas mulheres e contribuir para a preservação da saúde mental de famílias que possuem
um componente com diagnóstico de autismo.
Palavras-chave: Maternidade; autismo; psicologia.

THE LIVING OF MATERNITY WITH AUTIST CHILDREN MOTHERS

ABSTRACT. The study aimed at understanding how mothers of children with autism experience motherhood. Participants
included four women with children who have autism diagnosis. Data were obtained through semi-structured interviews and
analyzed individually as Qualitative Textual Analysis. The results point out that this experience is a challenging experience. These
women will not pursue careers, social life and personal relationships in favor of maternal care. Some feelings arise with such
uncertainty, sadness and helplessness. We conclude that it is necessary to enable these mothers a space where they can be heard,
share experiences and relieve their distress. Finally it is emphasized that psychology can work as a network of support to these
women and contribute to the prevention of mental health in families that have a component with a diagnosis of autism.
Key words: Motherhood, autism, psychology.

LA VIVENCIA DE LA MATERNIDAD EN MADRES DE NIÑOS CON AUTISMO

RESUMEN. El presente estudio tuvo como objetivo comprender como las madres de niños con autismo vivencian la
maternidad. Participaron cuatro mujeres con hijos en la edad infantil que presentan diagnóstico de autismo. Los datos fueron
obtenidos por medio de entrevistas semiestructuradas, realizadas individualmente y analizadas según el Análisis Textual
Cualitativo. Los resultados apuntan que esta vivencia es una experiencia desafiadora. Estas mujeres renuncian a su carrera
profesional, vida social y a las relaciones afectivas en Pro de los cuidados maternos. Surgen con eso sentimientos como
incertidumbre, tristeza y desamparo. Se concluye delante de esto que es necesario posibilitar a estas madres un espacio donde
ellas puedan ser escuchadas, cambiar experiencias y amenizar sus incertidumbres. Finalmente se resalta que la psicología
puede funcionar como red de apoyo a estas mujeres y contribuir para la prevención en salud mental en las familias que poseen
un componente con diagnóstico de autismo.
Palabras-clave: Maternidad; autismo en la infancia; psicología.

A vivência da maternidade constitui uma nova 1985). Desde a gravidez acontecem mudanças na
fase da vida da mulher. Neste estudo entende-se a rotina da futura mãe, principalmente se for a primeira
maternidade como um comportamento social que experiência de gestação, despertando com isso novos
transcende o aspecto biológico e se ajusta a um sentimentos, fantasias e expectativas. Dessa forma, já
determinado contexto sócio-histórico (Badinter, no momento do nascimento, há possibilidades de
*
Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora Auxiliar do Centro Universitário
Franciscano , Brasil.
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Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Franciscano-RS, Brasil.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 16, n. 1, p. 43-50, jan./mar. 2011


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decepções causadas pelo contato com o bebê, pois É possível considerar então que as características
existe uma distância entre o filho fantasiado e o filho inerentes aos comportamentos autistas, somadas à
real (Soifer, 1992; De Felice, 2000; Maldonado, gravidade desse transtorno, podem constituir
2002). estressores em potencial para os familiares (Schmidt &
Os pais anseiam pela criança perfeita e saudável Bosa, 2007). Diante disso, estudos estão evidenciando
porque encontram no filho a possibilidade de a presença de estresse em famílias de portadores de
concretizar seus sonhos e ideais; e quando o filho autismo, os quais também enfatizam o impacto que
possui alguma limitação significativa, suas as crianças com este diagnóstico causam sobre seus
expectativas se fragilizam, já que a criança perfeita familiares, devido ao tempo e energia que são
que lhes proporcionaria alegrias não nasceu (Meira, necessários para dar conta da sobrecarga de cuidados
1996; Jerusalinsky, 2007). exigida pela situação (Schmidt et al., 2007).
De acordo com Buscaglia (2006), deparar-se com Diante dessas questões teóricas e de reflexões,
as limitações do filho, em qualquer família, é sempre principalmente, acerca do envolvimento materno, o
um encontro com o desconhecido. Enfrentar essa nova objetivo maior deste estudo foi compreender como as
e inesperada realidade causa sofrimento, confusão, mães de crianças com autismo percebem suas
frustrações e medo. Por isso, exercer tanto a vivências com relação à maternidade, e, mais
maternidade como a paternidade torna-se uma especificamente, elucidar os sentimentos que
experiência complexa, e, mesmo existindo o apoio de perpassam essa trajetória, desvelar as especificidades
inúmeros profissionais e outros familiares, é sobre os da rotina de cuidados com a criança autista e, por fim,
pais que recaem as maiores responsabilidades. compreender como o acesso à rede de apoio pode
Atualmente, é possível encontrar diferentes repercutir nas vivências da maternidade.
etiologias, graus de severidade e características Para isso foram investigadas as histórias de quatro
específicas ou usuais do autismo. Diante disso, mulheres, abrangendo as suspeitas iniciais em relação
caracteriza-se esse diagnóstico como um transtorno de ao autismo do filho, o momento da confirmação do
início precoce, com causas diversas e que compromete diagnóstico, a realidade atual da criança e as
o processo de desenvolvimento infantil (Facion, expectativas das mães em relação ao futuro. Assim,
Marinho, & Rabelo, 2002; Salle, Sukiennik, A. Salle, nesta pesquisa, o intuito é contribuir para os estudos
Onófrio, & Zuchi, 2002; Klin & Mercadante, 2006). em psicologia e, a partir disso, pensar em estratégias
De acordo com o DSM-IV-TR (Associação práticas para melhorar a realidade em foco e assim
Psiquiática Americana [APA], 2002), o autismo está minimizar a complexidade das vivências maternas.
incluído entre os transtornos globais do
desenvolvimento e caracteriza-se por
comprometimento em três áreas do desenvolvimento: MÉTODO
habilidades de interação social recíproca, habilidades
de comunicação e comportamento, interesses e Nesta pesquisa adotou-se a abordagem qualitativa
atividades com padrões restritos e repetitivos. de cunho descritivo, que, conforme Martins e Bicudo
A conduta do autismo se caracteriza (1994), refere-se ao tipo de investigação capaz de
principalmente pela incapacidade de estabelecer um compreender e descrever de maneira mais abrangente
sistema adequado de comunicação com o meio social. os aspectos de cunho pessoal, os quais não podem ser
Essa dificuldade de comunicação se deve ao atraso na precisados numericamente.
aquisição da linguagem, ao uso estereotipado e Participaram deste estudo quatro mulheres que
repetitivo da fala e à falta de reciprocidade social e têm filhos na faixa etária infantil, de 6 a 10 anos, com
emocional que o autista apresenta em suas relações diagnóstico de autismo. A faixa etária das mães situa-
(Marcelli, 1998; Bosa, 2001; Facion et al., 2002). se entre 32 e 39 anos e sua escolaridade é de nível
As crianças com autismo encontram maior médio ou superior completo. A escolha dessas
dificuldade em realizar as atividades ditas comuns, daí participantes ocorreu por conveniência e por meio de
acentuar-se a necessidade de cuidados e a dependência indicações. Ressalta-se que as participantes são
para com os pais ou cuidadores. Dessa forma, para se denominadas por P1, P2, P3 e P4, enquanto os filhos
adaptar às limitações e necessidades específicas da são apresentados por F1, F2, F3 e F4 respectivamente,
criança com autismo, a família necessita de constantes para preservar suas identidades. No quadro a seguir é
mudanças na sua rotina diária (Fávero & Santos, 2005; possível visualizar de maneira mais detalhada os
Schmidt, Dell´Aglio, & Bosa, 2007). dados de cada participante.

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Mãe Idade Escolaridade Estado civil Ocupação Idade do filho Tempo que sabe Outros filhos
do diagnóstico
P1 38 Superior Casada Não trabalha 10 anos 8 anos Não
completo
P2 39 Médio completo Separada Não trabalha 6 anos 1 ano Filho de 2 anos

P3 32 Superior Casada Não trabalha 7 anos 4 anos Filho de 3 anos


completo
P4 33 Fundamental Casada Não trabalha 8 anos 4 anos Filhas de 12 e 2
incompleto anos
Quadro 1 – Dados dos Participantes.

Para a coleta de dados foram feitas entrevistas ela se depara com inúmeros sentimentos, muitas vezes
semiestruturadas, efetuadas individualmente, com contraditórios e capazes de fragilizar sua vivência da
duração de mais ou menos uma hora e em locais maternidade.
escolhidos pelas participantes. As entrevistas Nas falas de todas as mães que participaram da
ocorreram entre os meses de julho e agosto de 2008, pesquisa é perceptível que, antes mesmo da
sendo gravadas em áudio e transcritas na íntegra. confirmação desse diagnóstico, elas já sentiam que o
Posteriormente, o material foi destruído para garantir o filho apresentava algo de diferente. Como mães,
sigilo profissional. percebiam que os comportamentos da criança
Os dados coletados foram posteriormente mostravam que algumas características não estavam
trabalhados conforme a Análise Textual Qualitativa, conforme o esperado para a idade.
que visa a aprofundar a compreensão dos fenômenos A suspeita em relação ao diagnóstico de autismo
investigados, possibilitando com isso a emergência de do filho pode ser observada na seguinte fala:
novos significados sobre o assunto em questão
(Moraes, 2003). “Eu notei que a partir de dois anos e meio
O primeiro passo para a análise foi a unitarização ele começou a ficar alheio às coisas.
Chegávamos ele não respondia, saíamos
do “corpus”, em que se examinou detalhadamente o
também não respondia. Só sentado ele fazia
material, o qual foi fragmentado para se encontrarem este movimento e olhava pra mãozinha. Algo
as unidades constituintes. Com a desmontagem dos de errado existe” (P1).
relatos, foi possível elencar várias unidades de base
que, tendo relação entre si, serviram para a construção Salienta-se então que as características do autismo
de subcategorias. A seguir estabeleceu-se relação podem surgir com mais frequência por volta dos 30
entre esses elementos, o que resultou nas seguintes meses, quando a criança passa a ter comportamentos
categorias finais: Vivências da maternidade; Suporte de intolerância a estímulos externos e mostrar atrasos
social; e Expectativas em relação ao futuro. significativos no tocante à aquisição da linguagem
Esta pesquisa foi encaminhada ao Comitê de Ética (Marcelli, 1998; Owen, 2007).
do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA) e por Logo após as suspeitas iniciais decorrentes dos
ele avaliada. Como o estudo envolve seres humanos, comportamentos da criança vem a busca pela
elaborou-se o Termo de Consentimento Livre e confirmação do que está acontecendo com o filho.
Esclarecido, que foi lido, aceito e assinado por todas Conforme Núñes (2007), quando as limitações do
as participantes, garantindo-se com isso sua filho são evidenciadas, surgem nos pais sentimentos
participação voluntária no estudo. como ansiedade, desilusão, preocupação e culpa. As
pesquisas de Welter, Cetolin, Trzcinski e Cetolin
(2008) também indicam que os sentimentos mais
RESULTADOS comuns em mães que possuem filhos com alguma
deficiência são tristeza, incerteza, inconformismo e
Na análise da primeira categoria, que se refere à culpa.
vivência da maternidade, é possível compreender que Verifica-se, na fala das entrevistadas, uma
o momento da confirmação do diagnóstico de autismo abrangência de sentimentos no que diz respeito à
do filho é crucial para a família, em especial para a confirmação do diagnóstico. Cada mãe sentiu esse
mulher, pois, enquanto mãe, é ela que precisará se momento de forma bastante singular. Nos relatos a
dedicar aos cuidados com a criança. Diante desse fato, seguir, é possível entender os sentimentos que

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perpassaram esse momento; “Foi.. assim... chocante “(...) eu penso no futuro sabe, eu sempre
pra nós, nosso primeiro filho, esperado e tudo. Foi imaginei. Ah, porque agora olha só meu
difícil. (P1). “(...) quando veio o diagnóstico eu fiquei filho quando tiver treze, quatorze anos, as
meninas vão ficar ligando (...) aquela coisa
arrasada, mas eu já tinha certa desconfiança, então
sabe (...) e não sei se isso vai acontecer” .
pelo menos depois disso deu pra nortear um caminho
a seguir” (P3).
O olhar do outro é mais um fator que influencia
Diante de sentimentos de choque, tristeza e até
na vivência da maternidade. Ver que as pessoas ficam
mesmo aceitação percebe-se que existem muitas
incomodadas com a presença da criança autista é
incertezas em relação ao filho; por isso o momento da
sentido pelas mães como um gesto de preconceito. Em
confirmação do diagnóstico traz mais dificuldades
relação a isso, Mannoni (1999) afirma que qualquer
para algumas mães, enquanto para outras traz certo
ofensa ao filho é sentida pela mãe como se fosse
alívio, já que a partir desse momento será possível
dirigido a ela própria. É justamente por perceber a
buscar o tratamento mais adequado para o filho.
fragilidade do filho diante do social que as mães
Dessa forma, quando a criança idealizada se torna
também se sentem fragilizadas. Discriminar, ter
uma criança com autismo, os sonhos e expectativas
preconceito ou até mesmo olhar de forma diferente
que os pais projetavam em relação ao filho se
para a criança mobiliza na mulher a vontade de
fragilizam. Eles sabem que essa criança não irá
proteger cada vez mais esse filho que, para ela, é uma
corresponder completamente aos seus ideais e, além
criança indefesa. Assim, é devido a essa maior
disso, deparam-se com a certeza de que sua vida, a
necessidade de proteção que as mães dedicam-se
partir desse momento, precisará ser modificada. Em
integralmente à maternidade.
relação a isso, Jerusalinsky (2007) afirma que a
Nos relatos das mães, foi possível identificar que
vivência da maternidade é afetada quando o filho
os cuidados com a criança autista são prioridade em
apresenta alguma limitação significativa, pois a mãe
sua rotina diária. Elas dedicam integralmente seu dia
percebe a diferença existente entre a criança esperada
e a criança real. Ela sente esse filho como um ao filho, por isso elas não podem trabalhar fora ou
desconhecido, surgindo-lhe então muitas dúvidas em exercer outra atividade. Cabe salientar que nenhuma
relação a como cuidar dessa criança. das mães entrevistadas está trabalhando no momento.
Em alguns relatos constata-se que perceber as A rotina de cuidados, segundo elas, é árdua, difícil e
características autistas no filho gera muita angústia nas cansativa, conforme refere a mãe P4:
mães. Elas conseguem visualizar o contraste existente
“Eu fico pensando como é que eu consigo?
entre o filho sonhado e o filho real e entendem que
Eu fico pensando, meu Deus (...) às vez eu tô
essa criança, em decorrência de suas limitações, não morta de cansada, mas eu (...) parece que
poderá ser conforme elas esperavam. Nas falas tem uma coisa dentro de mim assim que eu
transcritas a seguir é manifesto que tanto a quero mais (...)”.
entrevistada P1 como a P3 fazem esse movimento de
projeção em relação ao filho sonhado e de incertezas Ademais, não é só a vida profissional que é
em relação ao filho real, com autismo: deixada de lado, mas as relações sociais, e até mesmo
as relações afetivas sofrem modificações em
“Por ser o primeiro e menino, eu deposito decorrência dos cuidados com o filho. Diante disso,
uma expectativa muito grande no primeiro Núñes (2007) afirma que a mãe dedica todo seu tempo
neto, o primeiro filho. Só que ele veio com
e sua energia para cuidar do filho, sacrificando-se
todo esse tipo de problema” (P1).
enquanto mulher e esposa. Nos relatos da mãe P2 e P3
Após se dar conta de que o filho, em decorrência é possível compreender essas transformações:
do autismo, apresentará muitos comprometimentos, as
“Eu tinha um namorado, mas agora já não
mães buscam por soluções, na tentativa de amenizar as tô mais, é meio difícil eu ter tempo livre,
sequelas da criança. Conforme Mannoni (1999) e porque é 24 horas (...). “Eu tô
Jerusalinsky (2007), os pais demandam incansavelmente completamente alienada, eu perdi a minha
diagnósticos, avaliações e indicações porque anseiam vida social, meus amigos eu perdi todos,
que seja “curado” o filho que apresenta algum né(...)”
comprometimento, pois a criança que não corresponde
ao ideal fragiliza o narcisismo desses pais, já que o Outra questão que está atrelada ao autismo do
futuro sonhando por eles para o filho se apresenta no filho é a percepção da vida por outro viés. Pode
plano do improvável, conforme expressa a mãe P3: existir, em decorrência dessa situação, uma mudança

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de valores e, conforme Welter et al. (2008), muitas “(...) depois que meu filho nasceu ele
mães que conseguem superar o fato de ter um filho melhorou bastante [...] a relação dele com o
com alguma deficiência apresentam uma nova pequeno é muito boa, brinca e tudo(...)”. “É
incrível sabe, com o nascer do meu menino
significação sobre essa situação. Na fala da
mais novo ele começou a interagir muito
entrevistada P4 é possível compreender esse mais”.
movimento quando afirma:
Cabe ressaltar que, na realidade das participantes
“(...) eu aprendi muito tendo um filho
da pesquisa, os avós também são figuras centrais no
especial. Eu vejo que nessa vida a gente não
é nada (...). Eu dava importância pra joias, que se refere aos cuidados afetivos e suporte
carro, roupa sabe, hoje eu vou te dizer, não financeiro à criança autista. Para Castro e Piccinini
dou importância pra mais nada. Nada, nada, (2002), os avós são considerados pelas mães como os
nada”! principais provedores de apoio e auxílio diante da
situação atípica da criança. A entrevistada P3 refere-se
Ressalta-se ainda que essa trajetória não pode à importância dos avós:
ser percorrida sozinha. As mães precisam contar
com o auxílio de outras pessoas ou instituições para “(...) inclusive a minha mãe e meu pai podem
conseguirem dar conta da sobrecarga de cuidados dar a entrevista junto porque eles são tanto
com a criança autista. Dessa forma, ao analisar a pais quanto eu (...) e quem arca com as
despesas são os avós (...) que nós não teria
segunda categoria percebe-se que as redes de
condições com o salário do meu marido”.
apoio/suporte social atuam como auxílio a estas
mulheres, ajudando-as a melhor viver a
Não obstante, apenas o apoio familiar não é
maternidade.
suficiente quando a criança apresenta muitas
Conforme Sluzki (1997), a rede social se limitações em decorrência do autismo. É necessário
caracteriza por relações significativas que o sujeito também um acompanhamento técnico abrangente, que
estabelece com outras pessoas ou instituições. Por englobe não apenas profissionais da saúde, mas
meio desse suporte social, é possível receber apoio também da área da educação. Assim, Doria, Marinho e
emocional, cognitivo e até mesmo financeiro. De Pereira (2006) relatam que, quando os pais buscam
acordo com Castro e Piccinini (2002) e Núñes (2007), algum tratamento para seu filho, chegam sempre com
as redes sociais, como a família ampliada, a um discurso perpassado por angústia e
comunidade, a escola e a equipe de profissionais, são incompreensões. A primeira dúvida desses pais refere-
fontes de auxílio e informação diante das adversidades se ao motivo pelo qual a criança desenvolveu tais
sentidas pelos pais em decorrência da situação sintomas e, depois, desejam saber o que é preciso
limitante do filho fazer para mudar e curar seu filho.
Conforme os relatos das mães entrevistadas, as Ao discorrer sobre o tratamento de crianças
relações familiares são a principal fonte de auxílio autistas, Owen (2007) afirma que é necessário um
para elas nas adversidades que surgem em decorrência trabalho em equipe interdisciplinar, aliando a
do autismo do filho. A família nuclear, composta pelo psicoterapia à farmacologia. O autor ressalta a
marido e outros filhos, fornece subsídios importantes importância da participação ativa da família nesse
que ajudam a mulher a suportar a intensa rotina de processo. Bosa (2006), por sua vez, afirma que o
cuidados com a criança autista. Os maridos tratamento se torna eficaz quando a equipe técnica
contribuem principalmente com o apoio econômico, possui habilidades para trabalhar junto à família da
uma vez que as mulheres renunciaram a sua carreira criança autista.
profissional. De acordo com Núñes (2007), enquanto a Diante disso, é interessante salientar que a relação
mulher fica em casa para cuidar do filho, cabe ao com a equipe de profissionais, nos casos estudados,
marido trabalhar fora e se encarregar do sustento não abrange um tratamento interdisciplinar. Nos
financeiro. relatos das mães é possível identificar que cada
Outra rede de apoio encontrada pelas mães é a profissional que atende a criança autista trabalha
presença de outros filhos junto à criança autista. As isoladamente, não havendo troca de informações. É a
mães relatam que, após o nascimento do bebê, o filho mãe ou outro familiar que faz esse intercâmbio de
autista melhorou significativamente. Segundo Núñes notícias em relação aos tratamentos em prol do bem-
(2007), a relação entre irmãos é um importante recurso estar da criança.
de socialização, pois possibilita trocas e interação. Por O ambiente escolar é outra referência importante
isso, conforme as entrevistadas P2 e P3, para os pais de autistas. Após a busca incansável por

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tratamentos para o filho, surge também a necessidade possível compreender a importância da religiosidade
de integrá-lo à sociedade, e isso poderia ser favorecido quando ela afirma: “(...) uma coisa que acalmou
pela entrada do filho na escola. De acordo com bastante ele foi o centro espírita, tudo ajuda né (...)
Jerusalinsky (2007), integrar a criança à comunidade é Todos os meios, os recursos que eu acho que vão bem
um momento gerador de crise, pois já nas primeiras pra ele”.
saídas, em locais onde estão outras crianças, é Nesse viés, entende-se que as mães busquem o
perceptível para os pais o surgimento da rejeição que for preciso para ajudar o filho e amenizar suas
social. Por isso o momento da entrada do filho na angústias. Percebe-se então que o apoio familiar, o
escola também materializa a questão da diferença e apoio técnico e o suporte religioso constituem uma
dos limites em relação à aprendizagem. rede social mais eficaz para as mulheres, quando o
O preconceito em relação ao autismo é sentido filho possui algum comprometimento significativo.
pelas mães quando elas buscam uma escola para o Apesar de poder contar com todo o suporte social,
filho. Existe muito receio em aceitar a criança autista a situação limitante do filho desperta nas mães muitas
e, por isso, as escolas fazem sempre algumas incertezas, principalmente em relação ao futuro da
imposições. É possível verificar, pela fala da criança e a seu desenvolvimento. Diante disso,
entrevistada P1, que, devido ao autismo do filho, a evidencia-se a terceira categoria, que engloba as
escola impôs algumas restrições para aceitar a criança: expectativas das mães em relação ao futuro da criança
autista, salientando os planos e desejos que estas
“Só aceitam o “F1” com a condição que eu mulheres possuem para o filho.
ficasse esperando. Então agora faz três anos Nenhuma mãe pode prever o que irá acontecer
que ele se encontra na escola. Eu largo ele com seu filho, mas quando ele não apresenta um
na porta, espero todo o período (...), e
comprometimento, é mais fácil imaginar o seu
qualquer eventualidade eu tô aqui”.
desenvolvimento. Apesar disso, o futuro da criança
É relevante acrescentar que duas crianças autistas autista é sempre uma interrogação para os pais.
estão estudando em turmas especiais. Uma delas está Compreende-se, a partir dos relatos das mães, que o
em turma de ensino regular, com acompanhamento de importante para elas é que o filho seja feliz, e o fato de
uma educadora especial que permanece na sala junto à eles serem ainda crianças parece ampliar as
criança durante o período das aulas, e a outra não está expectativas positivas com relação ao futuro. O fato de
estudando no momento, já que a mãe a tirou da escola o filho apresentar um grau leve de autismo, conforme
devido aos preconceitos que sofria. Ressalta-se os diagnósticos médicos, faz com que as mães sintam-
também que, na cidade de Santa Maria, RS, até o se mais confiantes em relação ao tratamento e à
momento das entrevistas, não existia nenhuma escola melhora da criança, embora elas saibam que será
especializada ou associação para autistas e, talvez por preciso um trabalho prolongado, que engloba a
isso, as mães se sentem sozinhas ao enfrentar esta intervenção da equipe técnica e o suporte familiar e
vivência. comunitário.
Conforme Schmidt e Bosa (2007), as escolas para Bosa (2006) chama a atenção para a importância
educação especial exercem funções importantes não de se diagnosticar precocemente o autismo, pois
apenas para a criança, mas também para as mães. quanto mais cedo se começar o tratamento, melhor
Esses locais atuam como redes de apoio, auxiliando os será o prognóstico da criança. Nos relatos das mães
pais seja por meio de informação e orientação seja entrevistadas, percebe-se que as intervenções
com atendimento psicológico individual ou em profissionais junto ao filho começaram por volta dos
grupos. dois, três ou quatro anos.
Por fim, ressalta-se a importância do apoio O sentimento de incerteza sempre está presente.
religioso às mães de crianças com autismo, pois Não é possível prever o que irá acontecer com a
acreditar em Alguém superior torna a vivência da criança em termos de desenvolvimento e aquisições,
maternidade uma experiência mais tranquila. De por isso a mulher terá dificuldades em realizar projetos
acordo com Núñes (2007), além de Schmidt et al. para sua vida que vão além dos cuidados com o filho
(2007) e Welter et al. (2008), diante das incógnitas em Percebe-se que, com o crescimento do filho e os
relação ao diagnóstico do filho, a mãe busca novas resultados eficazes dos tratamentos, as mães começam
maneiras para amenizar essa situação. Ela encontra na a olhar para outras dimensões de suas vidas. Por meio
religiosidade uma importante rede de apoio e conforto das intervenções profissionais, a criança autista
em suas angústias, facilitando sua adaptação a essa começa a se desenvolver, mostrando pequenos sinais
situação adversa. Na fala da entrevistada P1, é de autonomia e interesse pela escola. Com isso,

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algumas mães percebem que podem realizar outras sobrecarga de cuidados é benéfica à saúde da mulher,
atividades, uma vez que possuem uma rede de apoio da criança e até mesmo dos demais familiares, como o
para auxiliá-las nos cuidados com o filho: marido e outros filhos, já que esses aparecem muito
pouco na fala das mães e, elas os mencionam, sempre
“Eu pretendo agora, inclusive vô fazê o o fazem para estabelecer uma relação direta com o
concurso(...) então quero vê se começo a filho autista.
retomar um pouco da minha vida também, Constatou-se também a importância de uma rede
voltar a ter uma vida, fazer alguma coisa pra
social para estas mães. A qualidade do suporte
mim(...) pro meu prazer, porque eu esqueci
de mim, sabe?” (P3); “... eu pretendo voltar advindo das redes de apoio torna a vivência da
a trabalhar”(P2). maternidade uma experiência menos sofrida, e quanto
mais eficaz for o auxílio a estas mulheres, mais
Tanto a entrevistada P3 quanto a P2 pretendem confiantes elas ficarão quanto aos cuidados com o
retomar a vida profissional e social. Elas conseguem filho autista. Salienta-se ainda que a ajuda, tanto
perceber os progressos do filho e por isso sentem que emocional como financeira, recebida da família
não precisam mais dedicar-se exclusiva e nuclear e ampliada, constitui a rede de apoio mais
integralmente à maternidade. Não obstante, na fala da eficaz para estas mães.
entrevista P4, verifica-se que esse processo não Em face dos questionamentos referentes às
acontece, quando afirma: práticas maternas, é necessário pensar o lugar da
psicologia nessa situação. É preciso olhar não só para
“(...) eu acho que vou ter que cuidar do o autista, mas também para a família, principalmente
“F4” o resto da vida, né, sempre ensinando para a mãe, já que é ela quem assume as maiores
(...) porque trabalhar, como é que eu vou responsabilidades com o filho no que se refere aos
trabalhar e dexar ele? (...) eu só quero cuidados básicos diários.
trabalhar com o “F4”(...) o meu objetivo é Diante disso, é preciso criar estratégias de
esse, é ter saúde pra cuidar do “F4”.
intervenção e possibilitar a estas mulheres um espaço
no qual elas possam ser escutadas, trocar experiências,
Assim, é possível pensar que o único planejamento
compartilhar sua dor e sofrimento e amenizar suas
que a entrevistada P4 consegue fazer para o futuro é
angústias e incertezas. Neste contexto a psicologia
continuar cuidando do filho autista. Por isso, conforme pode funcionar como rede de apoio às mães e
Mannoni (1999), o destino da mãe em relação ao filho contribuir para a prevenção em saúde mental nas
com alguma deficiência está traçado. A mulher entregará famílias que possuem membros com autismo. Como
o que for preciso de si, sem nunca renunciar, pois, alternativas para melhorar a realidade pesquisada,
enquanto mãe, cabe a ela cuidar eternamente desse filho. propõe-se o desenvolvimento de grupos para pais
Compreende-se então que a vivência da baseados na troca de vivências, grupos informativos
maternidade, quando se tem um filho com autismo, que auxiliem e orientem a família no trato com o
torna-se uma experiência complexa e desafiadora para autismo, assim como de grupos de sala de espera,
as mulheres, já que elas se deparam com o enquanto a criança está em atendimento.
desconhecido e imprevisível. Para o futuro existem Por fim, ressalta-se que os questionamentos e
expectativas, porém muitas incertezas, e em inquietações sobre a vivência da maternidade de mães
decorrência disso, algumas mães podem ter mais que possuem filhos autistas não se encerram com este
dificuldades para planejar outras ocupações que não estudo. Salienta-se a importância de investigações
aquelas referentes aos cuidados maternos. futuras sobre o autismo por meio de outros enfoques,
não apenas referentes à maternidade. Como sugestão
para outras pesquisas, é possível pensar em estudos
CONSIDERAÇÕES FINAIS acerca da paternidade, e até mesmo sobre quanto a
relação conjugal é afetada quando se tem um filho
Conclui-se com esta pesquisa que as mães de
com diagnóstico de autismo.
crianças com autismo dedicam a vida aos cuidados
com o filho, não encontrando tempo para exercer outra
atividade, e que a vivência da maternidade é uma REFERÊNCIAS
experiência difícil, já que envolve uma sobrecarga de
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Recebido em 03/08/2009
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Endereço para correspondência: Luciane Najar Smeha. Rua Roberto Severo Neto,75, Bairro Medianeira, CEP 97015-580, Santa
Maria-RS, Brasil. E-mail: lucianenajar@yahoo.com.br.

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