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MACLEAN, Ian.

Foucault’s Renaissance Episteme Reassessed: an Aristotelian


Counterblast. In: Journal of the History of Ideas, Vol. 59, No. 1 (Jan., 1998), pp. 149-
166.

Duas boas razões para olhar para a episteme renascentista de Foucault:

1) “A primeira é que em geral livros sobre as abordagens de Foucault ainda são


produzidos de um modo neutro ou aprovador, como se nem o conceito de episteme
(que sugere que tanto mentalidades ou paradigmas ou epistemes são inescapáveis
[all-constraining]) nem a abordagem da episteme renascentista em particular (à qual
é dado um caráter predominantemente platônico e hermético) requer modificação, se
não refutação”1 (p.149).

2) “Eu sugerirei que embora em algum sentido nós sejamos todos prisioneiros de
nossas mentalidades [mind-sets], há maneiras pelas quais nós podemos escapar
desta prisão2; em em relação ao Renascimento em particular, eu afirmarei que o
aristotelismo, não o platonismo, é o contexto apropriado para ver o universo
dominante do discurso da época e que é possível mostrar que esta filosofia
possui os recursos para escapar às suas limitações”3 (p.149).

Anuncia objetivo de fazer uma exposição da ideia de episteme em Foucault e da


episteme renascentista especificamente (149-150).

Anuncia então que demonstrará que as características platonistas que Foucault define
como cruciais para a episteme renascentista são “ativamente refutadas à época” e “não

1
“The first is that in general books on Foucault accounts of it are still given in a neutral or even
approving way, as though neither the concept of episteme (which suggests both that mind-sets or
paradigms or epistemes are all-constraining) nor the account of the Renaissance episteme in particular
(which is given a predominantly Platonic and hermetic character) require modification, if not refutation”.
2
Nota 3.: “Cf. Karl Popper’s refutation of Thomas Kuhn: “Normal Science and its Dangers”, Criticism
and the Growth of Knowledge, ed. Imre Lakatos and Alan Musgrave (Cambridge, 1970), 51-58, na
argument elaborated in The Myth of the Framework (New York, 1994), 33-64, although, unlike Popper, I
am not claiming that rationality is universal and omnitemporal”.
3
“I shall suggest that although in some sens we are all prisoners of our mind-sets, there are ways in which
we can escape from this prison3; and with respect to the Renaissance in particular, I shall claim that
Aristotelianism, not Platonism, is the appropriate context in which to see the dominant universe of
discourse of the day and that this philosophy can be shown to possess the resources for escaping its
limitations”.
podem ser descritas como dominantes sem qualificação severa”; além disso, “versões do
aristotelismo ensinadas amplamente nas universidades e escolas dão diferentes
abordagens desses aspectos”; e “que esta forma de pensamento pode-se mostrar tem
liberdade de autocrítica em muitas áreas em que Foucault escolhe ver a filosofia do
renascimento tanto como limitadora como limitada [constraining and constrained]”
(p.150).

Passa à exposição/definição da ideia de episteme em Foucault (p.150).

Les mots e les choses 

“Neste trabalho o homem é descrito como uma autoinvenção moderna, fabricado por
uma configuração particular do conhecimento e destinado a desaparecer em breve. A
história do homem de Foucault é uma história sobre o modo como ele se constituiu a si
mesmo como um sujeito e então tornou seu corpo, seu comportamento, sua razão e sua
consciência o objeto de seu estudo e um campo a ser controlado, regulado, treinado e
coagido [coerced]. Nesta análise a ‘racionalidade’ do homem se torna não uma
faculdade mas uma camisa de força autoritária. O que Foucault delimita para investigar
é uma forma muito fundamental de ontologia, mas não uma associada com
conhecimento profundo; é um campo superficial e finito, mesmo que largamente
invisível, que é descontínuo, não definido pela agenda do estado moderno de qualquer
disciplina associada, e povoado por ‘elocuções’ [utterances] (énoncés) que são apenas
apreensíveis em suas diferenças e sua dispersão. Se afinal ocorrem coagulações dessas
‘elocuções’ (formations discursives), elas aparecem apenas na forma de relações
consistentes: os objetos a que elas ‘referem’ são nada mais que objetificações cujo
status científico não pode ser estabelecido e cujo sentido [meaning] não pode ser
recuperado pela análise semântica ou retórica. Ao chamar seu livro anterior de Les Mots
et les choses, ele estava sendo explicitamente irônico, pois nem as palavras nem as
coisas do título têm qualquer substância to them: elas não são presenças, mas ausências.
A descrição feita pelo historiador é distante de seu objeto, indireta, incompleta; ela
descreve um ‘campo pré-conceitual’ no qual os ‘pré-conceitos’ [preconcepts] não são
mais que operadores organizadores ou funções revelando relações de dependência,
processos de validação , teorias contingentes da verdade. As ‘elocuções’ [utterances]
que esses ‘pré-conceitos’ informam vêm juntas em ‘discursos’ que não são sem
sistemas nem meros agregados [aggregations] de conhecimento; a história arqueológica
como praticada por Foucault revela não uma ‘mentalidade’, mas uma ‘episteme’”4
(p.150).

“A noção de ‘episteme’ oferece acesso ao passado, mas um passado intotalizável


caracterizado por regularidades, não regras, e por modos de discurso nos quais verdade,
conhecimento e poder de alguma forma coabitam mas não são dominados pelos sujeitos
humanos que os habitam mais que os usam. Uma episteme é um ‘conjunto’, não uma
estrutura, e como suas ‘formações discursivas’, ela não tem interior e profundidade,
nem é um conjunto finito de princípios organizadores”5 (p.151).

Maclean acredita que poucas leituras da história dão um lugar tão pequeno ao sujeito
humano consciente, como agente ou objeto de estudo  “um crítico compara a

4
“In this work man is described as a modern self-invention, fashined from a particular configuration of
knowledge and destined soon to disappear. Foucault’s history of man is a story about the way he
constituted himself as a subject and then made his body, his behavior, his reason, and his consciousness
the object of his study and a field to be controlled, regulated, trained, and coerced. In this analysis man’s
‘rationality’ becomes not a faculty but an authoritarian straitjacket. What Foucault sets out to investigate
is a very fundamental form of ontology but not one associated with profound knowledge; it is a
superficial and finite, if largely invisible, field, which is discontinuous, not defined by the agenda of the
modern state of any associated discipline, and peopled by ‘utterances’ (énoncés) which are only graspable
in their differences and their dispersion. If coagulations of these ‘utterances’ (formations discursives)
occur at all, they apear only in the form of consistent relations: the objects to which they ‘refer’ are no
more than objectifications whose scientific status cannot be established and whose meaning cannot be
recovered by semantic or rhetorical analysis. In calling his previous book Les Mots et les choses, he was
being explicitly ironic, for neither the words nor the things of the title have any substance to them: they
are not presences but absences. The description made by the historian is remote from his object, indirect,
incomplete; it describes a ‘preconceptual field’ in which the ‘preconcepts’ are no more than organizing
operators or functions revealing relationships of dependence, processes of validadion, contingent theories
of truth. The ‘utterances’ which these ‘preconcepts’ inform come together in ‘discourses’ which are
neither systems nor mere aggregations of knowledge; archaeological history as practiced by Foucault
uncovers not a ‘mentality’ but an ‘episteme’”.
5
“The notion of ‘episteme’ offers access to the past, but na untotalizable past characterized by
regularities, not rules, and by modes of discourse in which truth, knowledge, and power somehow cohabit
but are not mastered by the human subjects who inhabit them rather than use them. An episteme is an
‘ensemble’, not even a structure, and like its ‘formations discursives’, it has no interior and no depth, nor
is it a finite set of organizing principles”.
representação de Foucault das mentalidades passadas [past mindsets] a um laboratório
em que um experimento acontece sem a presença do pesquisador”6 (p.151).

“Deve-se conceder contudo, que a abordagem do Renascimento que emerge desse


laboratório é incontestavelmente original [novel] e exótica”7 (p.151).

Investigação de Foucault é situada por volta de 1600.

EVIDÊNCIA SOBRE A QUAL FOUCAULT SE BASEIA

“os poucos textos que ele cita [...] são uma amostra estreita de pensadores, um
signifcativo número dos quais são também citados em histórias da filosofia oculta ou
desviante do mesmo período”8 (p.151).

“A função do capítulo sobre o Renascimento é mostrar a quebra epistemológica da


idade clássica em duas áreas cruciais, aquela da taxonomia e a da significação”9 (p.151).

“para Foucault, a reação de Buffon [à obra de Aldrovandi] é evidência da quebra


epistemológica que separa os dois escritores”10 (p.151-152).

Capítulo “la prose du Monde” de As palavras e as coisas

6
“one critic compares Foucault’s representation of past mindsets to a laboratory in which na experiment
takes place without the presence of a researcher”.
7
“It must be conceded, however, that the account of the Renaissance which emerges from this laboratory
is incontestably novel and exotic”.
8
“the few texts he cites [...] are a narrow sample of thinkers, a significant number of whorm are also cited
in histories of occult or deviant philosophy in the same period”.
9
“The function of the chapter on the Renaissance is to show the epistemological break from the classical
age in two crucial areas, that of taxonomy and that of signification”.
10
“for Foucault, Buffon’s reaction is evidence of the epistemological break which separate [152] the two
writers”.
REVER TRADUÇÃO/TRECHO DIFÍCIL/RUIM

“Foucault argumenta que há três níveis ou ‘códigos’ ou ‘grades’ que organizam o dado
estado sincrônico desta cultura. A primeira normalmente estudada é o nível empírico,
que constitui os dados visíveis relativos à organização e operação da cultura; em um
nível mais fundamental há estruturas de um tipo econômico, linguístico, técnico e
epistemológico que são em um certo sentido fixadas e impessoais; e entre elas está um
tipo de duplicação dos códigos fundamentais (que os disfarçam da visão) operando na
esfera empírica. Isto passa a si mesmo como como os códigos fundamentais de uma
cultura mas não é de fato aquela grade nessessária, restritiva. Isto é o que Foucault
chama episteme renascentista, e ela é dominada por relações de semelhança”11 (p.152).

Quatro modos nos quais as coisas são similares a outras: conveninentia [relação de
contiguidade], aemulatio [relação de imitação ou eco], analogia [relação de afinidade
ou homologia], sympathia [relação de proporção ou ação a distância].

“Ao fazer a semiologia do Renascimento parasitária da interpretação, conhecimento e


evidência se tornam um, e Foucault afirma que um sistema fechado de tautologia está
aí”12 (p.152).

“Conhecimento consiste em conhecer o sistema de semelhanças, mas este conhecimento


pode apenas ser alcançado pela leitura dos sinais que são eles mesmos um sistema de
semelhanças: semelhança ou similaridade, a figura dominante do sistema é
incognoscível, irrecuperável e para sempre escondida pelos próprios meios de pesquisa
em sua natureza” (p.153).

11
“Foucault argues that there are three levels or ‘codes’ or ‘grids’ which organize the given synchronic
state of this culture. The one normally studied is the empirical level, which constitutes the visible data
relating to the organization and operation of the culture; at a more fundamental level there are structures
of na economic, linguistic, technical, and epistemological kind which are in a certain sense fixed and
impersonal; and between them is a sort of doubling of the fundamental codes (which disguises them from
view) operating in the empirical sphere. This passes itself off as the fundamental codes of a culture but is
not in fact that necessary, constraining, grid. It is that Foucault calls the Renaisance episteme, and it is
dominated by relations of resemblance”.
12
“By making Renaissance semiology parasitic on interpretation, knowledge and evidence become one,
and Foucault claims that a closed system of tautology is in place”.
“A episteme de Foucault é portanto anterior à hermeneutica, pré-pessoal, e como uma
consequência não afirma representar o modo de conhecimento que os pensadores do
Renascimento tinham de si mesmos e seus próprios modos de pensamento. Mas em
outro de seus breves e parciais incursões neste período em L’Histoire de la folie à l’âge
classique, é notável que Foucault caracterize o Renascimento como uma época de
‘loucura livre e liberadora’, conectada aos poderes da ironia e da imaginação criativa de
humanistas notáveis tais como Erasmo. Em ‘la prose du monde’, por outro lado, o
agente humano livre está conspicuamente ausente. É também notável que Foucault mais
tarde concederia que um grau de pensamento para além das limitações de uma
mentalidade fosse possível embora aqui isso pareça estar completamente excluído10”13
(p.153).

Nota 10.In other words I wish to claim for the Renaissance that which Foucault prescribes for modern
thought. See “What is enlightenment?” A Foucault Reader, ed. Paul Rabinow (New York, 1984), 45-46:
“If the Kantian question was that of knowing the limits knowledge has to renounce transgressing, it seems
to me that the critical question today has to be turned back into a positive one: in what is given to us as
universal, necessary, obligatory, what place is occupied by whatever is singular, contingent, and the
product of arbitrary constraint? The point, in brief, is to transform the critique conducted in the form of
necessary limitation into a practical critique that takes the form of possible transgression...” See also
Graham Priest, Beyond the Limits of Thought (Cambridge, 1995), for a survey of the paradox that by
acknowledging the limits of thought we appear to transcend them.

“Seria possível apontar várias características insatisfatórias dessa abordagem do


Renascimento. As versões de similaridade ou semelhança – convenientia, aemulatio,
analogia e sympathia – são citadas por Foucault como se elas constituíssem um único
campo, enquanto elas pertencem de fato respectivamente às esferas da gramática,
retórica ou filosofia moral, dialética e filosofia natural ou medicina. A numerologia é
tomada por Foucault como sendo uma doutrina renascentista padrão, mas ela está longe
de sê-lo; os muitos ataques sobre ela têm sido excelentemente documentados por Brian
Vickers e outros. A correlação entre metais, planetas e doenças e o traçamento de
analogias astrológicas são vistos [154] pelo humanista do fim do século XV Pico della
Mirandola e outros como coisas da fantasia; o cientista inglês William Gilbert um

13
“Foucault’s episteme is therefore prior to hermeneutics, prepersonal, and as a consequence makes no
claim to represent the mode of knowledge which Renaissance thinkers had of themselves and their own
ways of thought. Yet in another of his brief and partial forays into this period in L’Histoire de la folie à
l’âge classique, it is notable that Foucault characterizes the Renaissance as a time of ‘free and liberating
madness’, connected to the powers of irony and the creative imagination of notable humanists such as
Erasmus. In ‘la prose du monde’, on the other hand, the free human agent is conspicuously absent. It is
also notable that Foucault later was to concede that a degree of thought beyond the constraints of a
mindset was possible though here it seem to be completely excluded”.
século depois descreve isso como ‘contos da carochinha’ [old wives talk]. De fato, isso
foi atacado até por Aristóteles. Esses podem ser vistos como lapsos significativos no
uso da evidência histórica, mas há duas outras afirmações feitas por Foucault que me
parecem mais importantes desafiar: primeiro, sua caracterização de uma episteme como
uma grade pré-conceitual totalmente compulsórias [all-constraining], e segundo, sua
discussão implícita de que várias doutrinas associadas com o pensamento neoplatonista
e com o pensamento ocultista são típicos do Renascimento”14 (p.153-154).

“Contextos [Frameworks], paradigmas ou mentalidades não podem, eu acredito, ser


descritos pertinentemente como pré-conceituais por pelo menos duas razões. Primeiro,
uma limitação [constraint] pré-conceitual ao discurso (como oposto às categorias do
discurso) não parece ser um conceito para o qual qualquer conteúdo possa ser dado, não
mais do que o ‘pensamento inconsciente raciocinativo’ de R.G. Collingwood, que
governa suas ‘pressuposições absolutas’. Segundo, sistemas de pensamento por sua
própria natureza contém dentro de si os meios (embora limitados) de autocrítica. Esses
meios, que implicam a existência de uma metalinguagem de um espaço mental para
além do enquadramento teórico [framework], são supridos pela habilidade da linguagem
de referir-se a si mesma e são relacionados à característica específica da consciência
humana, que é estar consciente de si e de suas operações; e os pensadores estão portanto
capacitados a discutir algumas das pressuposições de seus sistemas e o ponto em que
elas colapsam ou caem em paradoxo”15 (p.154).

14
“It would be possible to point to a number of unsatisfactory features of this account of the Renaissance.
The versions of similarity or resemblance – convenientia, aemulatio, analogia, and sympathia – are cited
by Foucault as though they constituted a single field, whereas they belong in fact respectively to the
spheres of grammar, rhetoric or moral philosophy, dialectics, and natural philosophy or medicine.
Numerology is taken by Foucault to be a standard Renaissance doctrine, but it is far from being so; the
many attacks on it have been excellently documented by Brian Vickers and others. The correlation of
metals, planets, and illnesses, and the tracing of astrological analogies is seen [154] by the late fifteenth-
century humanist Pico della Mirandola and others as the stuff of fantasy; the English scientist William
Gilbert a century later describes it as ‘old wives’ talk’. In fact it had even been even attacked by Aristotle.
These may be seen as significant lapses in the use of historical evidence, but there are two other claims
made by Foucault which seem to me more important to challenge: first, his characterization of na
episteme as na all-constraining preconceptual grid, and second, his implicit contention that a number of
doctrines associated with Neoplatonist and occult thought are typical of the Renaissance”.
15
“Frameworks, paradigms, or mindsets cannot, I believe, pertinently be described as preconceptual for at
least two reasons. First, a preconceptual constraint on discourse (as opposed to the categories of
discourse) does not seem to be a concept to which any content can be given, any more than can R. G.
Collingwood’s ‘unconscious ratiocinative thought’, which governs his ‘absolute presuppositions’.
Second, thought systems by their very nature contain within them the means (albeit limited) of self-
critique. These means, which imply the existence of a metalanguage or a mental space beyond the
“Isto não quer dizer que um dado pensador seja capaz de perceber todos os
investimentos ideológicos em seu trabalho, nem que ele seja livre dos constrangimentos
[constraints] da política e da religião de sua época, nem que ele dominou o contexto
[framework] em que ele viveu em tal grau que ele seja capaz como nós somos de um
ponto de vista diferente de expor suas limitações. Há provavelmente razões muito boas,
por exemplo, por que Galileu, que formulou uma versão da relatividade, poderia não ter
continuado a teoria geral. Minha afirmação mais limitada é de que os pensadores do
Renascimento eram capazes de distinguir o uso e a menção de uma palavra, que eles
eram capazes de (dentro de um âmbito teórico/contexto suprido pelo aristotelismo) de
usar a noção complexa de paradoxo em vários níveis para continuar até uma crítica
sofisticada desse contexto [framework], e que eles não estavam condenados à
tautologia, como Foucault afirma”16 (p.154).

Período no qual o autor se baseia  da descoberta dos textos dialéticos e retóricos de


Cícero e Quintiliano (1420s) até os ataques à filosofia natural de Aristóteles no começo
do século XVII.

“Eu desenvolverei três aspectos disso que são mais pertinentes para a retomada de ‘la
Prose du Monde’, em que as próprias evidências de Foucault são extraídas
principalmente de textos concernentes à história natural e à filosofia, e constituem o
conhecimento subjacente das práticas mentais do que poderíamos chamar hoje as
classes profissionais educadas: primeiro, questões fundamentais de epistemologia e

framework, are supplied by the ability of language to refer to itself and are related to the specific feature
of human consciousness, which is to be aware of itself and of its operations; and thinkers are thereby
enabled to discuss both some of the presuppositions of their systems and the point at which they break
down or fall into paradox”.
16
“This does not mean that a given thinker was capable of realizing all the ideological investiments in his
work, nor that he was free from the constraints of politics and religion of that day, nor that he mastered
the framework in which he lived to such a degree that he was as capable as we are from a different
standpoint to expose its limitations. There are probably very good reasons, for example, why Galileo, who
formulated a version of relativity, could not have proceeded to the general theory. My more limited claim
is that Renaissance thinkers were able to distinguish the use and mention of a word, that they were able
(inside a framework supplied by Aristotelianism) to use the complex notion of paradox at various levels
to proceed to a sophisticated critique of this framework, and that they were not condemned to tautology,
as Foucault claims”.
ontologia; segundo, a versão de Foucault do signo; e terceiro, sua abordagem da
linguagem”17 (p. 155).

“Como eu apontei, o corpus de evidência de Foucault é extraído principalmente de


textos fora da esfera escolástica ou neoaristotélica, muitos dos quais são influenciados
pelo neoplatonismo. Esses textos eram necessariamente lidos em um ambiente
aristotélico e eram vistos pelo prisma das próprias críticas muito detalhadas de Platão
por Aristóteles, como essas eram articuladas pelos escolásticos e neoaristotélicos
escrevendo comentários sobre a seção relevante do Organon e da Metafísica. O escopo e
o vigor da tradição que eles representam pode ser aferido da bibliografia de Charles
Schmitt e Edward Cranz dos comentários do século XVI sobre o corpus aristotélico, e
eles oferecem uma justificativa forte não só para a inclusão da tradição em qualquer
abordagem de um paradigma ou episteme renascentista de pensamento mas também
para sua identificação como uma paradigma ela mesma. Esta tradição não é totalitária;
ela é fendida por debates e discordâncias internas, das quais a bibliografia de Schmitt e
Cranz oferecem uma evidência ampla. Nisto ela é diferente do corpus de textos
escolhidos por Foucault, muitos dos quais começam de uma pressuposição de que o
campo de conhecimento que elas cobrem é unificado e completo”18 (p.155).

Passa a discutir questões fundamentais de epistemologia e ontologia em Platão e


Aristóteles e suas respectivas discussões no renascimento (156 ...).

17
“I shaw elaborate on three aspects of this which are most pertinent to my reassessment of ‘la Prose du
Monde’, in which Foucault’s own evidence is mainly drawn from texts concerning natural history and
philosophy, and constitutes the knowledge underpinning the mental practices of what we might call today
the educated professional classes: first, fundamental issues of epistemology and ontology; second,
Foucault’s version of the sign; and third, his account of language”.
18
“As I have pointed out, Foucault’s corpus of evidence is drawn mainly form texts outside the scholastic
or neo-Aristotelian sphere, many of which are influenced by Neoplatonism. These texts were necessarily
read in an Aristotelian environment and were seen through the prism of Aristotle’s own quite detailed
critiques of Plato, as these were articulated by scholastics and neo-Aristotelians writing commentaries on
the relevant section of the Organon and the Metaphysics. The scope and vigor of the tradition which they
represent can be gauged from Charles Scmitt’s and Edward Cranz’s bibliography of sixteenth-century
commentaries on the Aristotelian corpus, and they offer a strong justification not only for the inclusion of
the tradition in any account of a Renaissance paradigm or episteme of thought but also for its
identification as the paradigm itself. This tradition is not totalitarian; it is riven by debates and internal
disagreements, of which Schmitt’s and Cranz’s bibliography provides ample evidence. In this it is unlike
the corpus of texts chosen by Foucault, many of which begin from a presupposition that the field of
knowledge they cover is unified and complete”.
“Pode-se inferir disso que as afirmações de Foucault sobre o caráter totalmente
compulsório e prévio da episteme são muito mais adaptados a um contexto platônico, já
que as formas agem de um modo similar a seus pré-conceitos, mesmo se esses últimos
não tem a aprovação divina que era dada às formas pelos platonistas. A posição de
Aristóteles é muito menos fácil de reconciliar com esta episteme, e ela permite a
possibilidade de que a esfera de conhecimento possa ser estendida ou modificada”19
(p.156).

Vários argumentos factuais sobre a adesão ao platonismo e ao aristotelismo em fins da


idade média e no renascimento (p.156-160).

“O contexto em que os usuários da linguagem do Renascimento viveram permitiu-lhes


reconhecer sua natureza convencional, e isso incluiu, na teoria legal pelo menos, um
conceito de ‘significação extensiva’ que hes permitiu discutir tanto a dimensão
semântica quanto histórica das palavras. Portanto, ele não é a tautologia da qual
Foucault o acusa de ser. Há uma prisão, um ergastulum, da linguagem, mas ela não é
submetida ao regime aterrorizante que tudo vê [all-seeing] e regulador do panopticom
de Foucault”20 (p.160).

“O aristotelismo tinha ainda outros recursos de autocrítica que Foucault nega ao


Renascimento caracterizando-o como platônico”21 (p.161).

19
“One may infer from this that Foucault’s claims about hte episteme’s all-constraining and prior
character are much more suited to a Platonic context, since the forms act in a similar way to his
preconcepts, even if these latter do not have the divine imprimatur that forms were given by
Neoplatonists. Aristotle’s position is much less easy to reconcile with this episteme, and it allows for the
possibility that the sphere of knowledge could be extended or modified”.
20
“The framework in which Renaissance users of language lived allowed them to recognize its
conventional nature, and it included, in legal theory at least, a concept of ‘extensive signification’ which
permitted them to discuss both the semantic and historical dimensions of words. Therefore, it is not the
tautology of which Foucault accuses it of being. There is a prison-house, an ergastulum, of language, but
it is not subjected to the terrifyingly all-seeing and regulating regime of Foucault’s panopticon”.
21
“Aristotelianism has yet other resources of self-critique which Foucault denies the Renaissance by
characterizing it as Platonic”.
“como [Stephan] Otto demonstra, o aparato conceitual que é elaborado para discutir a
similaridade não só colapsa em tautologia ou silêncio, como Foucault parece sugerir,
mas abre qualquer campo de pesquisa abstrata da época para análises complexas e de
longo alcance: ou, para colocar isso diferente, tal aparato conceitual é tanto um
mecanismo capacitante quanto uma limitação”22 (p.161).

Mais discussão factual nas páginas seguintes.

“Foucault cita Bacon como rejeitando o conceito renascentista de semelhança, mas as


passagens do Novum Organon que ele cita (1.45, 55) confirmam Bacon como alguém
capaz de trabalhar dentro de uma episteme renascentista aristotélica”23 (p.162).

“Mais uma vez descobrimos que o quadro conceitual do Renascimento não aprisiona
aqueles que o habitam, como Foucault nos quer fazer acreditar”24 (p.163).

“Ao fornecer esta abordagem de aspectos do que eu tomo como sendo o quadro teórico
possibilitador [enabling] do pensamento do Renascimento, eu não estou afirmando, é
claro, que as pessoas que viveram durante o Renascimento pensaram tudo o que nós
podemos pensar ou fazer; nem que nós podemos pensar tudo o que eles pensaram ou
poderiam ter feito. Uma das grandes forças da abordagem de Foucault dessa episteme e
que ela nos torna conscientes de quão exótica a atividade mental do passado pode ser.
Mas eu acredito quehá limitações eruditas [scholarly] sobre o que você usa como
evidência do passado, quanto disso você considera antes de construir uma síntese
ampla, e como você lida com o problema do conhecimento sedimentado, que é o
conhecimento que é levado adiante de um contexto para outro na forma de um
substrato. Meu próprio paradigma e substrato renascentista é desavergonhadamente
aristotélico: eu iria até mais longe, a ponto de sugerir que a crítica de Platão por

22
“as [Stephan] Otto demonstrates, the conceptual apparatus which is elaborated to discuss similarity
does not just collapse into tautology or silence, as Foucault seems to suggest, but opens up any field of
abstract enquiry at this time to complex and far-reaching analyses: or to put it a different way, such
conceptual apparatus is as much na enabling mechanism as a constraint”.
23
“Foucault quotes Bacon as rejecting the Renaissance concept of resemblance, but the passages of the
Novum Organon which he cites (1.45, 55) confirm Bacon as someone able to work within na Aristotelian
Renaissance episteme”.
24
“Once again we find that the Renaissance framework of thought does not imprison those who inhabit it,
as Foucault would have us believe”.
Aristóteles colore insidiosamente o próprio neoplatonismo florentino, e que o ataque de
Francis Bacon ao aristotelismo se apoia sobre recursos da tradição aristotélica”25 (p.
165).

“A episteme renascentista de Foucault, por outro lado, parece muito lullista ou


platonista e me parece lida retrospectivamente através do prisma do iluminismo, ou
mesmo de Kant: sua própria insistência quase kantiana em condições de possibilidade,
em limitações formais, pré-conceituais, e no fator limitador da imaginação podem fazê-
lo cego para o conhecimento endoxico? [endoxical], com suas fronteiras bagunçadas e
suas imprecisões, mas indiscutivel praticidade [practicality], cujo emblema poderia-se
dizer ser a régua feita de chumbo que os antigos arquitetos da ilha de Lesbos usavam
para medir objetos que não eram planos. O próprio Foucault poderia objetar que uma
descrição de uma episteme está em um nível ‘pré-arquitetural’, e que eu estive enredado
de um jeito ou de outro [willy-nilly] com fatos empíricos e pressuposições sobre seres
humanos que sua própria história das ciências humanas quer [is meant to] evadir. Mas
ele não é o primeiro a ter tentado tal análise: o conceito de racionalidade formal de Max
Weber é uma limitação não menos impessoal, embora em seu caso ele seja combinado
com individualismo metodológico, não o coletivismo implícito e o anti-humanismo do
empreendimento de Foucault em Les Mots et les choses; e eu acredito que postular um
quadro teórico aristotélico como um tipo ideal weberiano do pensamento renascentista
[166] ofereça uma melhor estrutura explicativa, porque está apto a explicar mais, e
precisa excluir menos”26 (p.165-166).

25
“In giving this account of aspects of what I take to be the Renaissance enabling framework of thought, I
am not of course claiming that people living during the Renaissance thought either all that we can think or
can do; nor that we can think everything that they thought or could have done. One of the great strengths
of Foucault’s account of his episteme is that it makes us aware of how exotic mental activity of the past
can be. But I do believe that there are scholarly constraints on what you make of evidence from the past,
how much of it you consider before constructing a broad syntesis, and how you deal with the problem of
sedimented knowledge, that is knowledge which is carried forward from one context to another in the
form of a substrate. My own Renaissance paradigm and substrate is unashamedly Aristotelian: I would
even go so far as to suggest that Aristotle’s critique of Plato insidiously colors Florentine Neoplatonism
itself, and that Francis Bacon’s attack on Aristotelianism calls upon resources in the Aristotelian
tradition”.
26
“Foucault’s Renaissance episteme, on the other hand, looks very Lullist and Platonist and seems to me
to be read backwards through the prism of the Enlightenment, or even Kant: his own quase-Kantian
insistence on conditions of possibility, on formal, preconceptual constraints, and on the limiting factor of
the imagination may make him blind to endoxical knowledge, with its untidy edges and imprecisions, but
undoubted practicality, whose emblem might be said to be the ruler made of lead which the ancient
architects of the island of Lesbos used to measure objects which were not flat. Foucault himself might
“Então, o que deve ser dito em favor de ‘la Prose du Monde’? Primeiro, é um corretivo
útil para a abordagem de Frances Yates da magia do Renascimento que a transforma no
precursor das revoluções científica e política do século XVII. Segundo, ele destaca uma
refiguração radical do conhecimento no século XVII, vista no trabalho de Descartes, na
lógica e na gramática de Port Royal, e no desenvolvimento da taxonomia mais
sofisticada nas ciências biológicas. Terceiro, ele nega ao homem agudeza [perpicacity],
totalidade e continuidade, e isso é um corretivo útil para a autoconfiança presunçosa dos
historiadores no progresso, evolução, racionalidade omnitemporal e aquelas
características duradouras [enduring features] da natureza humana que eram nada mais
do que constructos ideológicos. Quarto, ele traz a um foco estreito as contradições
internas de alguns aspectos do pensamento passado que emergem das próprias
estruturas de pensamento: eu suponho que o exemplo mais óbvio do período do
Renascimento e do pós-Renascimento seriam a insistência por um lado na
confiabilidade da autoridade textual em matérias religiosas e por outro lado seu
banimento da esfera da ciência, ambas as posições sendo argumentadas por
‘logicamente’ pelo mesmo pensador”27 (p.166).

object that a description of na episteme is at a ‘pre-architectural’ level, and that I have been enmeshed
willy-nilly with empirical facts and presuppositions about human beings which his own history of the
human sciences is meant to evade. But he is not the first to have attempted such an analysis: Max
Weber’s concept of formal rationality is a no less impersonal constraint, although in his case it is
combined with methodological individualism, not the implicit collectivism and antihumanism of
Foucault’s enterprise in Les Mots et les choses; and I believe that to postulate na Aristotelian framework
as a Weberian ideal type of Renaissance [166] thought offers a better explanatory structure, because it is
able to explain more, and needs to exclude less”.
27
“So what is to be said in favor of ‘la Prose du Monde’? First, it is a useful corrective to Frances Yates’s
account of Renaissance magic which makes of it the forerunner or the scientific and political revolutions
of the seventeenth century. Second, it highlights a radical refiguration of knowledge in the seventeenth
century, seen in the work of Descartes, in the logic and grammar of Port Royal, and in the development of
more sophisticated taxonomy in the biological sciences. Third, it denies man perspicacity, totality, and
continuity, and it is a useful corrective to historians’ presumptuous self-confidence in progress, evolution,
omnitemporal rationality and those enduring features of human nature which were nothing more than
ideological constructs. Fourth, it brings into sharp focus the internal contradictions of some aspects of
past thought which arise from the structures of thought themselves: I suppose that the most obvious
example of the Renaissance and post-Renaissance periode would be the insistence on the one hand on the
reliability of textual authority in religious matters and on the other hand its bainshment of the sphere of
science, both positions being argued for ‘logically’ by the same thinker”.
“A questão permanece, contudo, se a síntese de Foucault pode estar certa se muito dos
fatos e métodos sobre os quais ela é construída pode-se mostrar ser não confiáveis
[unreliable]. Não é, é claro, impossível que um médico, ao diagnosticar uma doença,
tomasse nota de um número insuficiente de sinais, construindo a partir deles uma
dedução errada e então procedesse a aplicação de um remédio sob falsas premissas que
todavia não funcionam; mas isto deve ser muito raro. Eu prefiro pensar no
empreendimento de Foucault nos termos da descrição de Aristóteles de como alcançar
uma generalização a partir de nossa experiência de percepções particulares (Posterior
Analytics, ii.19:100a). Ele evoca a imagem de um exército em retirada: primeiro um
soldado para de fugir e para diante do inimigo, e então outro, e outro, até em algum
ponto o exército já não está mais em fuga; ou para colocar de outra forma, de uma
miríade de impressões efêmeras nós adquirimos conhecimento de um gênero ou de um
universal. Me Pergunto se os insghts brilhantes de Foucault não funcionam no sentido
inverso, e se, começando como um modelo abstrato de grades superimpostas ou placas
[plates] de semelhança, sua generalização não é ela mesma posta em fuga pela deserção
de um por um dos fatos soldados de infantaria [footsoldier-facts] que constituíam seu
exército”28 (p.166).

28
“The question remains, however, whether Foucaut’s synthesis can be right if many of the facts and
methods upon which it is built can be shown to be unreliable. It is of course not impossible that a doctor,
in diagnosing na illness, should take note of na insufficient number of signs, construct out of them a
wrong deduction, and them proceed to apply a remedy on false premisses which nonetheless works; but it
must be quite rare. I prefer to think of Foucault’s enterprise in terms of Aristotle’s description of how to
reach a generalization from our experience of particular perceptions (Posterior Analytics, ii.19:100a). He
evokes the image of a fleeing army: first one soldier stops fleeing and stands to face the enemy, then
another, then another, until at some point the army is no longer in flight; or to put it another way, from a
myriad of fleeting impressions we acquire knowledge of a genus or a universal. I wonder whether
Foucault’s brilliant insights do not work the other way around, and whether, beginning as na abstract
model of the superimposed grids or plates of resemblances, his generalization is not itself put to flight by
the desertion one by one of the footsoldier-facts which constituted his army”.