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se 6 A VALoRIZACAO DO TRABALHO Nos primérdios do cristianismo, ainda se mantém vigente a valorizacao do écio e da contemplagao, porém, com um signifi- cado bem diverso do 6cio grego. A contemplacio se converte em uma busca especifica— sem ser um fim em si mesma ~ da Verda- de Religiosa. Esta atitude do bem descoberto se reverte na norma da Polis, para a felicidade dos homens. Assim, Platao nao separa o Bem de Deus da importancia da Polis. Para Jesus Cristo, a Pélis tinha menor importincia, pelo fato de pertencer ao mundo ter reno, € nio ao outro. Segundo os Padres da Igreja, a meta final era a salvacio, a outra vida, o Reino do Céu. Sob certo aspecto, o trabalho era algo desagradavel, feito por necessidade, durante o transito do ho- mem pela vida. Isto se pode deduzir das palavras biblicas: “Com o suor do teu rosto, ganhards a vida AXé voltares a0 6... Pois tu és pé E em pé his de tornar” (Génesis). 52___Lazer¢ 0 Universo dos Pores 0 trabalho se apresenta como castigo imposto, como uma injungao da precariedade humana e como instrumento de puri- ficagao. O cristianismo ajudou a manter a ordem social, durante a Idade Média, mediante o destaque que atribuia ao drama da salvagao € ao ideal mondstico. Mesmo quando tolerava as mundanidades, tanto na igreja como entre os Ieigos, considerava a vida neste mundo menos importante que a vida futura, enten- dendo que os trabalhos e as dificuldades deviam ser suportados, enquanto se aguardava a felicidade eterna. Encarava a ordem hierdrquica da sociedade como divinamente estabelecida. A de- sigualdade em que se dividia a sociedade medieval justificava-se pelo fato de que Deus atribuia fungGes distintas a cada individuo ou grupo. A ordem dos mosteiros refleti: a de Sto. Agostinho; os monges, as vezes, mesmo os oriundos de clas- ses altas, trabalhavam com as maos. Ilavia destacada considera- 40 pelas atividades artisticas fora dos mosteiros, mas, acima delas, estava a contemplagao pura ea meditacao sobre o divino. A cons- cigncia medieval limitava-se a uma explicagdo religiosa da vida, ¢ 0 problemas sociais eram encarados como castigos divinos. A partir da Idade Média e da Renascenca, constata-se um processo vagaroso € paulatino no sentido de modificar-se a a doutrina cris cosmovisio vigente. Em decorréncia de razdes hist6ricas, econd- micas e sociais, verificam-se mudangas na propria atitude do homem em relagdo aos valores que regem a vida. A desarticula- 40 do processo feudal, 0 inicio e o desenvolvimento do capita- lismo mercantil vao modificar todos os fatores do contexto. © comércio acarretou tragos significativamente novos as mentalidades dos individuos. Dentre os mais marcantes, um foi a necessidade da resolugdo dos problemas por via racional, e que [ ; Avaloriagio do tabaho 53 teve como resultado 0 desenvolvimento das faculdades superio- res do homem, tanto as intelectuais como as cognitivas. Isto por- que as formulas antigas nao mais se ajustavam aos problemas. O novo contexto forca o desenvolvimento da racionalidade, pois a esfera da crenca nao proporciona recursos para 0 equacionamento €. solugio dos problemas emergentes. ‘As grandes navegagées — exigidas pela busca de matérias- primas, em vista do consumo crescente — agugam a curiosidade e anecessidade de um dominio racional do mundo. A atitude se modifica: da busca do conhecimento, da esséncia, da natureza ¢ das coisas, encaminha-se no sentido de um conhecimento que viabilize a manipulacao da natureza para fins utilitérios. Surge a preméncia de modificar os valores. Tomas de Aquino sustentara s limitava 10 das coisas, pois sua concepcao do cosmo objetivo da so- que a aplicagio do trabalho humano sobre os materi a“vi ciedade, quando considera a articulagéo estamental ¢ profissio- nal dos homens, o situa como obra da Divina Providéncia. Entao, das normas de Sto. Tomas de Aquino, relativas & relagio entre 0 trabalho e a ‘visao’ (da esséncia) das coisas, passa-se & implicagao que tem o trabalho para a manipulacao dos materiais’.' Os humanistas Marsilio Ficino, Alberti, Cellini, Leonardo da Vinci e mesmo Giordano Bruno expressam um pensamento que vai contra os interesses econdmicos e sociais da época me- dieval: 0 mundo existia para ser transformado, a grandeza do L. WEBER, Max. La ética protestante y el esptritu del capitalism, Barce- Iona: Peninsula, 1969. p.90. 54 Lazer eo Universo de Possves homem se encerraria na sua habilidade de manipular a natureza ede submeté-la a prépria vontade. Apesar das novas concepcoes desses pioneiros — que defen- diam uma postura inédita em relagio ao universo — na totalidade do mundo, a consciéncia religiosa, de raiz medieval, impunha-se sobre a conduta humana. E a situacdo sé vird a modificar-se a partir de uma nova interpretagao da Biblia e de um movimento cultural burgués que aglutinow ¢ articulou todas.as manifestacdes artisticas, filos6ficas e cientificas, visando a justificar os valores e padrdes sociais burgueses, num todo coerente, em confronto com a sobrevivéncia dos valores medievais. Essa nova interpretacao biblica é feita a partir de Lutero, mediante a Reforma. Embora seja controvertida a prioridade das ‘causas que atuaram para a alteracio do significado do trabalho, © certo é que — em face da cousciéncia religiosa ainda imperante ~ fazia-se indispensével uma nova interpretagao do trabalho, que oentendesse como misao de Deus, ea Biblia protestante se ajus- tow aisso perfeitamente. O fato é que da Reforma surge uma nova atitude em relagao ao significado do trabalho. Hé uma valoriza- sa0 do tempo necessério ~ das atividades produtivas — e foi 0 luteranismo que instaurou a religiosidade pela qual os homens se realizavam na sua profissio. ‘Mas nao somente o sentido literal, também a idéia é nova: € produto da Reforma. Nem na Idade Média, nem na Antigitida- de (no helenismo da tltima época) se deram pressupostos para ssa estimagao do trabalho cotidiano no mundo que implica essa ideia de profissao... Segundo Lutero, é evidente que a vida mo- nastica carece por completo de valor para justificar-se ante Deus... © cumprimento no mundo dos préprios deveres é 0 tinico modo ‘Avaloizacto do vabaho 55 de agradar a Deus... esta idéia determina a consideragao do tra- balho profissional como miss4io, como a misao imposta por Deus a0 home? Asta concep¢ao com que o luteranismo encara a profissao, acrescenta-se a dimensdo ascética advinda do calvinismo. Para Calvino, a vocagdo se constitu‘a em tarefa estipulada ao homem por Deus, que exigia esforcos positivos no sentido de se assenhorear do mundo, nao se limitando a adogao da pratica tra- dicional; essa pratica de vocacio tradicionalista foi combatida por Lutero, que estimula o individuo a manter-se em sua posi- ‘80. Calvino, apesar de nao exigir do bom cristo que se afastasse da vida social, ordenava que a reordenasse segundo diretrizes cris- 14s ascéticas. A trangiiilidade era uma resultante da observancia da vida religiosa e de normas de comportamento da ética protes- tante: diligencia, temperanga, parciménia, reserva, afastamento de prazeres carnais € poupanca... Segundo Weber, esses so os principio responsaveis pelo surgimento do capitalismo moder- no, e que também influiram na alteracio do significado valorativo do trabalho. “Teélogos reformistas dedicam-se agora a formular uma ideologia enobrecedora do enriquecimento ~ conceituado como sinal de benesse divina -, dignificadora do trabalho e condenatéria de antigas atitudes senhoriais de dcio e fruigao, bem como da sua contraparte,a mendicancia. Por todas essas formas de agio, a Igre- ja da Reforma ajuda a burguesia nascente a adotar o perfil ético 2. WEBER, Max. La ética protestante el espiritu del capitalismo. Barce- Jona: Peninsula, 1969. pp. 87, 89, 101.