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apresentação

RAIMUND ABRAHAM . NEGAÇÃO E RECONCILIAÇÃO


Os dois autores reunidos neste capítulo, entre outros como Vittorio Gregotti e William
McDonough (caps. 7, 8), abordam a questão das relações da arquitetura com a
natureza. É interessante contrastar a visão fenomenológica de Raimund Abraham com
a de Tadao Ando, já que ambos desenvolvem uma metodologia de projeto que se baseia
em uma avaliação da arquitetura moderna.
O sítio tem grande importância tanto para Abraham como para Ando, mas as
suas abordagens são opostas. Enquanto Ando procura levar a natureza a uma união ou
associação com a humanidade, confrontando-as de modo cuidadosamente estruturado,
Abraham fala de uma conquista e negação do sítio e de sua topografia. Fica evidente
que Abraham opera com um esquema de pensamento ocidental e antropocêntrico, que
não põe em questão os direitos da espécie humana de manipular livremente o meio
ambiente. A atitude de Abraham apoia-se nos argumentos de Martin Heidegger sobre a
capacidade do sítio de "reunir e preservar [ou instalar]" a quaternidade formada pelo
homem, as divindades, o céu e a terra. Mas a agressiva "intervenção e colisão" do
arquiteto parece contradizer a noção heideggeriana de reserva (liberação de alguma
coisa para que ela se torne a sua própria essência). Christian Norberg-Schulz e outros
interpretaram a noção de reserva como uma recomendação para se cultivar e cuidar da
terra. Abraham admite que o processo projetual, em seu caso, é secundário, e só pode
pretender "reconciliar as consequências" do seu ato destrutivo primeiro.
Outros aspectos da busca de Abraham pelo sentido da arquitetura são mais
instigantes. Rejeitando a "especulação formal" como uma origem, ele prefere investigar
"o evento arquitetônico primordial": a interação com o sítio. Essa origem está além da
história, da estética e do estilo, e envolve questões metafísicas. Como Juhani Pallasmaa
(cap. 9), Abraham identifica um valor na arquitetura, que, por meio da justaposição entre
o ideal e o material, é capaz de celebrar tanto a presença como a ausência do homem,
tanto o eterno como o temporal. Seus projetos a lápis ilustram obsessivamente a força
das associações evocadas por escavações grotescas na terra e confinamentos
espaciais. O corpo habita e dá forma a esses espaços bem como às representações do
arquiteto.
RAIMUND ABRAHAM

Negação e
reconciliação
O sensual e o espiritual que se enfrentam como opostos no
senso comum aparecem reconciliados na verdade expressa
pela arte.
G. W. F HEGEL, On the Arts

Um lugar em que todas as coisas se congregam é concentrado,


e o sitio se reúne a si mesmo, de modo supremo e radical. Seu
poder de reunião congrega e conserva tudo o que havia
agrupado, não como uma concha encapsulada em si mesma,
mas penetrando com sua luz em tudo o que foi coligido, para só
assim o libertar em sua própria natureza.
MARTIN HEIDEGGER, “On the Way to Language”

Se imaginarmos o tempo como um processo que se transforma por meio de uma


negação constante, então a base do tempo é a autocrítica e seus produtos são a
incessante divisão e separação. A forma em que o tempo se manifesta é a reiterada
interpretação de uma verdade eterna ou um arquétipo.
A era moderna começou como uma crítica de todas as mitologias e, por
conseguinte, a arquitetura moderna é a primeira da história a se afirmar não apenas
pela crítica dos antecedentes culturais, mas também pela crítica da arte per se. A
arquitetura moderna não nos proporcionou nem um novo tratado nem um novo estilo,
mas, ao contrário, produziu uma ruptura radical na continuidade histórica. Essa forma
radical de crítica indicou a possibilidade de um fim irreversível do estilo:

Tudo varia conforme o tempo e o lugar, e não podemos nos ater, em parte alguma,
a uma qualidade invariante como a que a ideia de estilo pressupõe, nem mesmo
quando separamos as coisas em função de suas circunstâncias. Mas, quando
temos em vista a duração e as circunstâncias, o que vemos são relações
movediças, momentos passageiros e lugares mutáveis na existência histórica.
Quaisquer continuidades ou dimensões imaginárias, como o estilo, somem de
vista quando as procuramos. O estilo é como o arco-íris: somente podemos vê-lo
brevemente, na pausa entre o sol e a chuva, e ele se esvai quando chegamos ao
lugar em que pensamos tê-lo avistado.
GEORGE KUBLER, The Shape of the Time

O fim do estilo tornou-se o sinónimo do repúdio à especulação formal como uma


possível força propulsora de um novo começo na arquitetura.
Na verdade, meu próprio trabalho pessoal originou-se do princípio da
intervenção e da decomposição como a quintessência do evento arquitetônico
primordial, um princípio totalmente antitético a qualquer forma de manipulação histórica
ou estética A palavra Ort (site, “sitio”) significava originalmente em alemão a ponta
afiada de uma lança e sugere uma reunião ou junção.
É a conquista do próprio sítio, a transformação de sua natureza topográfica que
evidencia as raízes ontológicas da arquitetura. O processo projetual é apenas um ato
secundário e subsequente, cujo propósito é reconciliar e harmonizar as consequências
da negação, do conflito e da intervenção inicial.
Entendo o processo de criação arquitetônica como algo que oscila entre a
negação e a conciliação: é um embate contínuo entre o ideal e a matéria, a ideia e a
imagem, o intelectual e o fisiológico, o tecnológico e o espiritual. Mais precisamente, o
espaço arquitetônico só pode ser definido como a colisão entre o espaço geométrico e
o espaço fisiológico, ou entre o ideal e a matéria, e, se o ideal representa a noção de
infinitude ou eternidade, a matéria pode ser concebida como a representação simbólica
do corpo - a sua presença e a sua ausência. Enquanto as faculdades conceituais do
homem aspiram ao infinito, o seu corpo é essencialmente frágil, temporal, um corpo que
será devastado, à semelhança da própria matéria, pela ação crítica e inexorável do
tempo.

Toda civilização é uma metáfora do tempo, uma versão da mudança. A


preeminência do agora talvez pudesse reconciliar-nos com a realidade que a
religião do progresso, com o mesmo zelo das antigas religiões, tentou ocultar ou
disfarçar: a realidade da morte.
OCTAVIO PAZ, "The New Anthology”

A arquitetura sempre foi e sempre será um monumento ao eterno, uma celebração à


ausência e à presença do homem. Se ainda resta alguma esperança de reinvenção do
icônico no mundo moderno, ela somente poderá originar-se de uma reinterpretação da
existência arquetípica do homem. Isto é, não há possibilidade de se estabelecerem
novos ícones a partir dos signos e objetos retirados ou transpostos de épocas históricas
perdidas. Em arquitetura, ou bem os novos ícones nascerão do reconhecimento de
nossos limites ontológicos intrínsecos ou bem eles jamais virão a surgir.

[“Negation and Reconciliation” foi extraído de Perspecta: The Yale Architectural


Journal, n. 19,1982, pp. 5-6. Cortesia do autor e da editora. ]