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ARTIgO ORIgINAL

ARTIgO ORIgINAL Riscos ocupacionais de uma empresa de embalagens plásticas (*) Occupational risks in the plastic

Riscos ocupacionais de uma empresa de embalagens plásticas (*)

Occupational risks in the plastic packages industry (*)

Michelle Cristina Ichida 1 , César Augusto Patta 1 , Luiz Carlos Morrone 2

(*) Monografia apresentada ao término do curso de especialização em Medicina do Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSC-SP).

RESUMO

Contexto: A produção de plásticos no Brasil alcançou 3,4 milhões de toneladas em 1999 Este trabalho pretende avaliar os principais riscos para a saúde neste ramo de atividade com atenção maior para a indús­ tria de embalagens – PEAD (polietileno de alta densidade) Objetivos: Avaliar os principais riscos de prob­ lemas de saúde e de desconforto identificados em empresa de embalagem plástica instalada na cidade de São Paulo e eventuais impactos destes riscos para a saúde dos trabalhadores ali ocupados Métodos:

Trata­se de um estudo descritivo Foram feitos: inquérito preliminar, análises do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), aná­ lises prévias de cinco postos de trabalho e do processo produtivo, avaliação dos níveis de ruído, calor, iluminamento e riscos ergonômicos e avaliação clínica de 28 trabalhadores Resultados: O nível de ruí­ do foi excessivo em três das seis máquinas e em todos os moinhos Apenas seis trabalhadores usavam protetor auricular Os níveis de calor não superaram o permitido pela norma regulamentadora, mas de acordo com o cálculo de temperatura efetiva esta é desconfortante O iluminamento é deficiente em todas as máquinas e no setor de serigrafia As ferramentas ergonômicas não apontaram riscos impor­ tantes Destaque para os 75% de etilistas, 46% de funcionários com vacina antitetânica atrasada e 25% dos trabalhadores apresentaram níveis elevados de pressão arterial Conclusões: O processo produtivo deve ser modificado e diversas medidas devem ser tomadas, como limitar a jornada de trabalho e re­ duzir as horas extras, instituir programas de segurança, investir em medidas de proteção do maquinário, instalar ventiladores, exaustores e lâmpadas e acompanhar e exigir PPRAs e PCMSOs mais completos

Palavras-chave: Riscos ocupacionais, medicina do trabalho, indústrias, plásticos

Recebido: 10/6/2009 – Aceito: 26/6/2009

1 Médico(a) do Trabalho. 2 Professor adjunto do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSC-SP).

Endereço para correspondência: Michelle Cristina Ichida. Rua Dr. Cesário Mota Jr., 61, 5º andar – Santa Cecília – 01221-020 – São Paulo, SP. E-mail: mi_ichida@yahoo.com.br

Ichida MC, Patta CA, Morrone LC

ABSTRACT

Background: Plastic production in Brazil, had reach 3,4 million tons This work pretends to evaluate, the main health’s risks on this activity branch focusing with more attention for the packages industries which use the – PEAD (High Density Polyetilen) Objectives: Evaluate the main occupational risks and uncomfortableness conditions that are identified in one enterprise of plastic packages established at the city of Sao Paulo and the possible results of these problems for the health of the workers Methods: This is a descriptive study Firstly it was applied one formulary – the Preliminary Inquire This instrument is and enquire habitually used in Brazil, in the first visit on the enterprises, when the visit propose is to study the occupational hygiene fac­ tors that may be irregular according the legislation Also it was analyzed the structure of the Environment Risk Prevention Program (PPRA) and the Occupational Health Control Program (PCMSO) – that are two legal compulsory programs that all the enterprise must do and review every year There were studied five work places for evaluation of the levels of noise, heat, illumination, ergonomic risks The clinical evaluation of 28 workers was made Results: The level of noise were higher the LT in three of the six machines and in all the mills Only six of the workers used auricular protectors The heat levels did not exceed the LT but the Ef­ fective Temperature (TE) was higher the comfort level The illumination level was lower the recommended in all the machines and in the serigraphy sector The ergonomic study did not point for important risks At the clinical examination, 75% of the examined was alcooholists, 46% had the anti­tetanic vaccine not com­ pleted and 25% higher levels of arterial tension Conclusions: The productive process may be modified in the sense of limiting the work journey, reducing extra hours, and the application of educational programs of safety in work Even so is necessary more protection to the machines, ameliorate ventilation, and in­ creasing lighting lamps The PPRA and PCMSO programs may be more adequate to the reality of the plant

Keywords: Occupational risks, occupational medicine, industry, plastics

INTRODUÇÃO

O plástico é uma matéria sintética dotada de grande

maleabilidade e facilmente transformável mediante

o emprego de calor e pressão 1 . São materiais deriva- dos da transformação do petróleo e por isso houve grande aumento da oferta a partir da segunda guer-

ra mundial 2 . A produção de plásticos no Brasil al- cançou 3,4 milhões de toneladas em 1999, em com- paração com 26,3 milhões de toneladas na Europa

e 41,6 milhões de toneladas nos Estados Unidos,

onde o consumo de plásticos para embalagens foi equivalente a 31% 3 . O enfoque deste trabalho é a indústria de embala- gens em polietileno de alta densidade (PEAD), com moldes por sopro de ar comprimido. O PEAD é um tipo de plástico, portanto derivado do petróleo bru- to, que sofre processos de destilação, é transportado para a unidade de quebra e, então, origina o etileno, que é material direto do polietileno. Este é vendi-

do em forma de grãos, completamente formulados, pronto para o uso em máquinas. O processo de con- versão do PEAD em frascos prontos fundamenta-se

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na propriedade plástica dos materiais. O processo inicia-se com o aquecimento do material ativando

o estado plástico, seguido de constrição mecânica, gerando a forma que terá após o esfriamento. No molde por sopro de ar comprimido, quando

se atinge a plasticidade é feito um tubo plástico dentro do molde aberto, depois fecha-se o molde

e expande-se o tubo com a pressão de ar, fazendo

com que o material adquira a forma do molde; há

o resfriamento do frasco e a liberação do artigo pela

máquina 2 . Os principais riscos descritos no processo de pro- dução que envolva material plástico são as lesões em máquinas, queimaduras, disposição inadequada de máquinas e acidentes por queda por causa de óleos ou grãos no solo 2,4 . O ruído também é um risco descrito nesse tipo de empresa 5 . A empresa estudada neste estudo encontra-se no mercado há 12 anos, sendo considerada como in- dústria de pequeno porte e com produção mensal de 650 mil frascos, em média.

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Riscos ocupacionais de uma empresa de embalagens plásticas

No presente estudo objetiva-se avaliar o setor de produção da empresa, identificando, no processo, riscos para a saúde, higiene e segurança no traba- lho. Os setores administrativo e comercial não fo- ram estudados. Objetiva-se, também, sugerir me- didas para benefícios embasadas nas análises, se for necessário.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo, em que foi reali- zado o reconhecimento preliminar de riscos, para análise inicial da empresa e dos postos de trabalho; as análises do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), enfo- cando os riscos existentes e posterior comparação com o encontrado neste estudo; a avaliação dos ní- veis de ruído, utilizando-se um decibelímetro Sper Scientific 840029, classe 2, com circuito de com- pensação A, com circuito de resposta lenta 80-130 dB; a avaliação dos níveis de calor, utilizando um termômetro Wibget IST RSS-214; a avaliação dos níveis de iluminamento, realizada com um luxíme- tro com fotocélula dirigida para a sensibilidade do olho humano Sper Scientific 840020, na escala de 200-2000 lux; e a avaliação dos riscos ergonômicos por meio do check-list de Suzanne Rodgers e critério quantitativo de Moore e garg.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Informações gerais

A empresa foi fundada em 1994. Tem grau de risco 3 e conta com 40 funcionários, sendo nove do setor administrativo e, portanto, fora do objetivo deste estudo. Todos os funcionários da produção são do sexo masculino. A faixa etária variou de 18 a 60 anos, com média de 30,5 anos. A distribuição dos funcionários é dada pela tabela 1, três funcionários não entraram no estudo por estarem em férias. A empresa funciona 24 horas, sendo a jornada de trabalho um dos grandes problemas encontra- dos na empresa. A cada mês um grupo de trabalha- dores estará trabalhando no terceiro turno, o que causa grande desconforto e alterações do ritmo bio- lógico. Os trabalhos em turnos noturnos têm sido

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tabela 1. Distribuição dos funcionários.

Função

Funcionários

Funcionários

examinados

no setor

Almoxarifado

3

3

Encarregado de manutenção

1

1

Encarregado de produção

3

3

Total

28

31

apontados como uma contínua e múltipla fonte de problemas de saúde, comportamentais e de pertur- bação sociofamiliar. Sob uma rotina noturna, os trabalhadores são obrigados a modificar o período sono-vigília, os rit- mos endógenos não se ajustam à nova rotina com tamanha velocidade, produzindo sintomas como fa- diga, nervosismo, variações de humor, dificuldade para dormir, falta ou aumento de apetite, dificulda- de para realizar o trabalho habitual e perturbações de memória. É interessante notar que a demora dessa adapta- ção é proporcional ao número de jornadas de traba- lho que obrigam o trabalhador a inverter o ciclo 6 . Algumas empresas têm contado com o quarto turno

e outras com uma quarta equipe para que seja redu-

zida a jornada de trabalho, conforme sugerido na nova Constituição de 1988. Ainda em relação à jornada de trabalho, notou-se que

o terceiro turno, de sexta-feira para sábado, trabalha mais do que 8 horas seguidas, o que não é permitido de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho. Além disso, do ponto de vista da saúde ocupacional,

a exposição aos riscos por 12 horas seguidas é extre-

mamente prejudicial, não havendo sequer parâmetros para limites de tolerância, já que estes são dados fun- damentados em, no máximo, 8 horas diárias. Esse tipo de prática deve ser desencorajada mesmo com o des- contentamento dos funcionários. Outro tema a ser discutido são as frequentes horas

extras feitas pelos trabalhadores. Ressalta-se que o prolongamento da jornada de trabalho é causa de hipertensão arterial sistêmica e doenças cardiovas- culares, independente do ambiente de trabalho 7 , e que o estresse ocupacional é fator adicional para hi-

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pertensão em operários 8 . Outra consequência pode ser a chamada síndrome de burn-out ou esgotamen-

to profissional 6 , gerando estafa, fadiga e frustração.

Saúde ocupacional

A empresa não possui Serviço de Engenharia, Se-

gurança e Medicina do Trabalho (SESMT). Ocor- reram dois acidentes por prensamento de mão em

máquina, sem perda de substância, mas com discre-

ta diminuição funcional (um caso em 2006 e outro

em 2007). Não há Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) na empresa. A empresa não possui um programa ativo de segurança e os dois únicos acidentes que a empresa possuiu ocorreram recentemente, indicando a necessidade de progra- mas que instruam melhor os trabalhadores, além de mecanismos de proteção de maquinário mais efe- tivo. Não há sistema de bloqueio de acionamento

das prensas contra acidentes de trabalho em mãos, o atual constitui de grades que fecham o local onde se encontra o molde, mas se a grade é aberta não há in- terrupção de funcionamento da máquina. É impor- tante ressaltar que em agosto de 2007, o sindicato

da indústria, juntamente com os representantes dos

trabalhadores, assinou uma convenção coletiva para prevenir acidentes em máquinas sopradoras de plás- tico, que prevê a instalação de diversos dispositivos

para prevenção de acidentes. Essa preocupação com

os acidentes de trabalho é justificada, pois em estu-

do feito em 2000 no estado da Bahia 9 , a indústria

de transformação foi responsável por mais de 15% dos benefícios por acidente de trabalho. No PPRA da empresa não foram realizadas medi- das de temperatura na fábrica e as avaliações quan- titativas do ruído e do iluminamento não foram feitas em todas as máquinas. As tabelas de risco detectadas encontram-se em branco no PCMSO,

o que chama atenção para a qualidade de ambos.

Os autores de um trabalho que verificou 30 PPRAs e PCMSOs de empresas com mais de 100 funcio- nários da Bahia 10 constataram a baixa qualidade técnica desses programas e apontaram a evidente necessidade de ampliar a cobertura da fiscalização estatal, assim como de estimular a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desen- volvimento dos programas.

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Durante a observação dos postos de trabalho, verificou-se que apenas seis trabalhadores (21,4%) utilizavam todo o uniforme e o equipamento de proteção individual (EPI) fornecido, dois (7,2%) estavam sem uniforme, pois eram funcionários re- centes, um (3,6%) estava sem bota e protetor auri- cular e 19 (67,9%) estavam sem protetor auricular.

Avaliação quantitativa dos níveis de ruído

Foram realizadas avaliações nos postos de trabalho, próxima à zona auditiva do trabalhador (Tabela 2).

tabela 2. Níveis de ruído (em decibéis).

local

ruído aferido

ruído no PPrA

Almoxarifado

59

Máquina 1

75-89

87,7

Máquina 3

76-89

80-83,9

Máquina 5

79-84

Serigrafia

75

73,7-80

Moinho 1

97

80-83

Moinho 3

93

80-85

O nível de ruído nas máquinas sofre grande au- mento quando há o sopro de ar comprimido, por isso a variação de valores nas máquinas e na ferra- mentaria, por sua proximidade com elas. O PPRA da empresa acusou que apenas uma máquina gera ruídos acima do permitido pela norma regula- mentadora (85 decibéis). Nem mesmo os moinhos encontraram-se ruidosos no PPRA. É importante destacar que duas máquinas não foram avaliadas. Ressalta-se que apesar dos moinhos serem mais rui- dosos, o tempo a que os trabalhadores ficam expos- tos a eles é menor, e que os moinhos se encontram devidamente isolados do setor de produção. O ideal para esse caso seria o uso de dosímetro de ruído para melhor avaliação. A literatura especializada internacional aponta que trabalhadores expostos ao ruído ocupacional inten-

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Riscos ocupacionais de uma empresa de embalagens plásticas

so apresentam risco aumentado de se acidentarem quando comparados a trabalhadores não expostos 11 .

Avaliação quantitativa dos níveis de calor

A

exaustão é feita por meio de cinco exaustores de teto

e

a ventilação por intermédio de três ventiladores.

A

avaliação de calor foi realizada no primeiro turno

por volta das 12 horas e demonstrada na tabela 3.

tabela 3. Níveis de temperatura de bulbo úmido termômetro de globo (em graus Celsius).

local

iBUtG

iBUtG máximo

temperatura

 

permitido

efetiva

Almoxarifado

22,8

30

23

Máquina 1

25,3

30

25,8

Máquina 3

26,3

30

27,1

Máquina 5

27,5

30

28

Serigrafia

23

26,7

22,5

Moinho 1

27,3

30

27,4

Moinho 3

27,9

30

27,7

Quanto aos níveis de calor, não foi possível a comparação com o PPRA, pois esta medida não

foi feita neste. Apesar da fábrica ser aparentemente muito quente, os índices de bulbo úmido termôme- tro de globo (IBUTgs) apresentados não superaram

o permitido para o tipo de trabalho, de acordo com

a norma regulamentadora. A temperatura efetiva

foi realizada para que possa ser comparada à tem- peratura de conforto (20-23 °C). Sabe-se que essa é utilizada para atividades que exijam solicitação in-

telectual, mas o cálculo foi feito somente para título de demonstração do calor do pátio de máquinas.

A exaustão e a ventilação deficientes são facilmente

notadas em visitas ao setor de produção.

Avaliação quantitativa dos níveis de iluminamento

A medida foi realizada no terceiro turno por volta das

22 horas. O aparelho foi posicionado no local onde o

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funcionário realiza a atividade, e para os funcionários que circulam no setor, foram feitas medidas a 75 cm do chão em diversos pontos da sala e feita uma média aritmética. A tabela 4 mostra os resultados.

tabela 4. Níveis de iluminamento (em lux).

local

nível de

nível de iluminamento no PPrA

iluminamento

Almoxarifado

370

375

Máquina 1

260

300

Máquina 3

220

260

Máquina 5

270

NR

Serigrafia

205

90

Moinho 1

600

484

Moinho 3

515

411

A iluminância é deficiente em quase todos os se- tores da fábrica (mínimo exigido de acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas é de 300 lux). Isso pode estar relacionado ao número alto de queixas de diminuição de acuidade visual. Novamen- te houve discordância entre as medidas do PPRA.

Riscos químicos

Quanto aos riscos químicos, de acordo com o Berufs- genossenschaftliches Institut für Arbeitssicherheit 12 , os produtos voláteis da decomposição do polietileno seriam os hidrocarbonetos alifáticos insaturados e os aldeídos alifáticos. Porém, não há referência de con- centrações tóxicas dessas substâncias nesse tipo de processo, em que a temperatura no interior da má- quina durante o sopro é de mais ou menos 150 °C e o resfriamento se dá no interior dela. O risco de toxicidade é descrito em processos que exigem tem- peratura mais elevada, por exemplo, quando soldam- se peças metálicas em peças plásticas.

Análise ergonômica

Foram utilizadas ferramentas para a quantificação dos riscos. O check-list de Suzanne Rodgers foi o es-

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colhido para uma avaliação geral de vários segmen- tos do corpo, por ser completo, de fácil utilização

e renomado. Logo após foi aplicado o critério de

Moore e garg, por ser mais específico para mem- bros superiores. De acordo com o check-list de Suzanne Rodgers,

a pontuação dos ajudantes de produção apresentou

prioridade baixa para riscos ergonômicos (pontuação 5 em todos os seguimentos corpóreos, levando-se em conta o nível e o tempo de esforço e o número de esforços por minuto). Os ajudantes da serigrafia também apresentaram a mesma pontuação, exceto para os seguimentos de ombros e costas, em que a prioridade foi moderada (pontuação 6). O critério de Moore e garg apresentou índices baixos para ajudan- tes de produção (1,125) e duvidosos para ajudantes de serigrafia (5,0625). Isso ocorre porque os ajudan- tes de produção trabalham sentados, em cadeira er- gonomicamente adequada, e o número de movimen- tos que exigem esforço e mesmo o de movimentos repetitivos é relativamente baixo. Já os ajudantes de serigrafia apresentam maior número de movimentos antiergonômicos, principalmente para as costas e os ombros, por transportarem as pranchas com frascos que foram serigrafados para o local de secagem e en- sacarem os frascos com a tinta já seca; a maioria do trabalho é feita em pé e em movimento.

Avaliação clínica dos funcionários

São tabagistas 14,3% e ex-tabagistas 28,6% dos fun- cionários. Quanto ao etilismo, somente 25% dos funcionários não ingerem bebidas alcoólicas, visto que um deles está em programa de reabilitação. Em relação ao estado emocional dos trabalhado- res: 71,4% sentem-se calmos; 21,4%, estressados (a causa maior referida é o excesso de trabalho provo- cado pelas horas extras feitas aos finais de semana); 3,6%, ansiosos; e 3,6%, deprimidos. Quando interrogados a respeito da presença de patologias, são hipertensos 14,3%. Sobre a vacina- ção de tétano, 13 trabalhadores (46,4%) negaram estar com a vacinação devidamente regularizada. As queixas apresentadas pelos trabalhadores fo- ram: quatro lombalgias (14,3%), dor no ombro, pré-cordialgia esporádica, dor no joelho e epigas- tralgia, cada uma em um trabalhador (3,6%). Quei-

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xam-se de acuidade visual diminuída seis trabalha- dores (21,4%) e não fazem uso de correção. A pressão arterial encontrou-se em níveis normais em 21 trabalhadores (75%) e atingiu valores alte- rados (máximo de 160 × 100 mmHg) no restante dos trabalhadores. A pressão arterial alterada en-

contrada pode estar relacionada à jornada de traba- lho prolongada, conforme discutido anteriormente.

A

literatura também revela que o excesso de ruído

e

o calor podem ser responsáveis pela elevação da

pressão arterial 13 . Quanto ao aparelho osteomioarticular, cinco (17,9%) apresentaram crepitação assintomática de ombros, outros cinco, lordose de coluna lombar e dois, crepitações sintomáticas em joelho. As dores osteomusculares não foram compatíveis às ferra- mentas ergonômicas não sendo encontradas nos aju- dantes de serigrafia e distribuídas equilibradamente nos outros cargos. Os motivos podem ser o número pequeno de trabalhadores avaliados e o fato de que, em geral, a faixa etária dos ajudantes da serigrafia ser jovem. De acordo com a literatura 14 , um novo perfil patológico configura-se, o qual é caracteriza- do pela maior prevalência, na população trabalha- dora, de agravos à saúde marcados pelas doenças crônicas, cujo nexo de causalidade com o trabalho não é mais evidente como ocorria com as doenças (e acidentes) classicamente a ele relacionadas. Proli- feram, então, as doenças cardiocirculatórias, gastro- cólicas, psicossomáticas, os cânceres, a morbidade musculoesquelética expressa nas lesões por esforços repetitivos (LERs), às quais somam-se ao desgaste mental e físico patológicos e mesmo às mortes por excesso de trabalho, além das doenças psicoafetivas e neurológicas ligadas ao estresse. Por meio do le- vantamento das doenças encontradas neste estudo, foi observada essa tendência bem caracterizada. Um outro autor 15 sugere até que este novo perfil seja usado como um dos indicadores de qualidade de vida no trabalho.

Análise dos prontuários

A análise dos prontuários demonstrou que os exa-

mes médicos realizados são bastante sumários, com

poucas informações e os exames físicos extrema- mente resumidos.

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Riscos ocupacionais de uma empresa de embalagens plásticas

CONCLUSÃO

Conclui-se que o processo produtivo mostrou ser incompatível com uma melhor qualidade de vida no trabalho para os trabalhadores examinados. Ele poderia ser modificado a fim de garantir a seguran- ça de produção, diminuir os prejuízos financeiros e tornar-se cada vez menos danoso à saúde do traba- lhador, gerando assim melhora do desempenho da empresa como um todo. A empresa apresenta diver- sos riscos físicos, como ruído excessivo, luminosida- de deficiente e calor desconfortante. A seguir, são apresentadas diversas medidas que devem ser toma- das para gerar melhorias.

Recomendações

Algumas medidas se tomadas poderiam melhorar a qualidade de vida no trabalho:

1. Limitar a jornada de trabalho. Reestruturar a troca de plantão no sábado.

2. Fornecer folgas após um período de jornadas de trabalho noturno.

3. Limitar o número de horas extras de cada funcionário.

4. Criar sistema de pausas para descanso no trabalho noturno, pois reduzem os sintomas provocados pela dessincronização.

5. Instituir a Cipa.

6. Implantar um grupo de brigadistas de in- cêndio.

7. Dispor um quite de primeiros socorros pró- ximos às máquinas e treinar funcionários para seu uso.

8. Implantar um programa ativo de seguran- ça do trabalho, enfocando a prevenção de acidentes e doenças com a participação da Cipa.

9. Investir em medidas de proteção das máqui- nas, de modo que se o trabalhador estiver em posição de risco de acidente, a máqui- na seja desligada automaticamente ou seu movimento seja invertido. Nos maquinários mais modernos isso já é possível, algumas até com dispositivo de fotocélula. Outra medida mais simples seria trancar a grade de proteção da máquina e apenas o encarregado da produção portar as chaves.

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10. Instituir a ventilação de fluxo laminar.

11. Aumentar o número de lâmpadas no galpão.

12. Conscientizar os funcionários sobre os riscos a que estão sendo submetidos e a importân- cia das medidas de proteção.

13. Realizar a dosimetria de ruído.

14. Implantar um programa de conservação au- ditiva e realizar manutenção preventiva das máquinas, para que essas sejam o menos rui- dosas possível.

15. Fornecer com regularidade protetores auri- culares e outros EPIs, fiscalizando seu uso.

16. Rodiziar os funcionários que utilizam o moi- nho.

17. Dar preferência para compra de máquinas menos ruidosas e com menor produção de calor.

18. Realizar a troca do piso atual do pátio de produção por um de mais fácil limpeza e cor clara para que se possa até realizar o reapro- veitamento das farpas de PEAD que caem no chão durante o processo produtivo.

19. Realizar mudanças no processo de produção do ajudante de serigrafia a favor de um am- biente mais ergonômico. Uma sugestão é a instalação de uma bancada para a colocação das pranchas de frascos, de modo que o tra- balhador possa trabalhar sentado ensacando os frascos.

20. Instituir a ginástica laboral.

21. Acompanhar e exigir PPRAs e PCMSOs mais completos e detalhados.

22. Promover campanhas de vacinação, antieti- lismo e combate à hipertensão arterial sistê- mica.

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