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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

FACULDADE DE LETRAS
PROF.: Glaucia Vieira Cândido
ALUNO: Luiz Alexandre de O. Freitas

RESENHA DO CAPÍTULO “Flexão e derivação: o grau”, de Carlos Alexandre Gonçal-


ves, do livro “Ensino de gramática: descrição e uso”

Uma posição frequente advinda dos primeiros trabalhos acerca dos fenômenos flexio-
nais e derivacionais, de concepção estrutural, é a separação bem demarcada dessas duas natu-
rezas de fenômenos; segundo tal posição, um determinado fato da língua, como um processo
específico de afixação, por exemplo, ou é flexional, ou é derivacional. A divisão binária se
mostrou muito útil para a descrição e catalogação de tais fenômenos, sim, mas recentemente
se vem considerando a possibilidade de uma divisão menos abrupta, e mais fluida.
Com Carlos Alexandre Gonçalves, no capítulo “Flexão e derivação: o grau”, e em ou-
tros trabalhos do autor como o livro “Iniciação dos Estudos Morfológicos: a flexão e deriva-
ção no português”, temos um contato bem elaborado desse novo direcionamento de análise. O
autor propõe o seguinte: a flexão e derivação não são dois processos absolutamente distintos e
bem demarcados em seus fatos, ao contrário, se dispõem num único continuum de manifesta-
ção de formas da língua. Um fenômeno específico, portanto, é mais ou menos flexional ou de-
rivacional, em vez de absolutamente flexional ou derivacional. Derivação e flexão, são, se-
gundo esse paradigma, operações distintas somente no que diz respeito à posição nesse conti-
nuum, indo do extremo flexional ao extremo derivacional.
O raciocínio do autor é bastante lógico e parte da proposição de contraexemplos, ilus-
trando que processos em que a gramática tradicional costuma chamar de flexionais ou deriva-
cionais por vezes se apresentam fatos que contrapõem tal classificação, destacando-se o grau
no referido trabalho. Como, de qualquer maneira, classificar o grau dentro da divisão binária
tradicional?
Caímos em problemas de ordem morfológica e semântica: morfologicamente, o grau é
quase prototipicamente flexional, de acordo com gramáticas tradicionais; semanticamente, é
claramente derivacional.
Pela morfologia, o processo de gradação apresenta uma distribuição praticamente total a
todos os nomes da língua portuguesa; a cada palavra nova, pode-se sugerir uma forma obtida
pela gradação, sugerindo portanto que o grau é flexional. Semanticamente, porém, a situação
se complica; é comumente tido pelas mesmas gramáticas que processos de ordem flexional
não acrescem significativamente à semântica da palavra; ou seja, não formam palavras novas,
sendo somente responsáveis por formas flexionais da mesma palavra. Mas observemos al-
guns exemplos do grau: podemos dizer que a única expressividade semântica do diminutivo é
indicar a redução material, no par essa/essazinha? Ou então, analogamente, no aumentativo a
única carga semântica expressa é o aumento material, no par orelha/orelhão? Podemos ainda
pensar em casos em que a forma reduzida ou ampliada nem sempre é produzida pela operação
morfológica, como nos pares boi/bezerro, ruim/péssimo, grande/imenso; o grau, então poderia
se manifestar tanto morfologicamente como num item lexical completamente novo?
Gonçalves, portanto, propõe a noção de continuum posta mais acima; flexão e derivação
são processos de mesma ordem que se diferem pela localização num continuum, indo do ex-
tremo flexional ao extremo derivacional, apresentando operações que são mais ou menos fle-
xionais ou derivacionais. Observando-se o propósito do grau, vê-se que a utilização da forma
graduada, em aumentativo ou diminutivo, mais depende da expressividade do discurso em
que a forma aparece do que da caracterização básica material proposta pela posição que enca-
ra o grau como fenômeno flexional. O par essa/essazinha, por exemplo, mostra claramente
que a forma diminutiva é frequentemente usada como pejorativo, transformando o afixo dimi-
nutivo num afixo que manifesta o juízo de valor de quem diz a palavra; essa nada tem a ver
com essazinha, sendo mais derivacional do que flexional.
O trabalho do autor, portanto, esclarece bem seu posicionamento apresentando uma in-
teressante discussão acerca do grau, diante das contrariedades das posições tradicionais, ao se
considerar uma posição que privilegia a relatividade natural da língua. A partir desse estudo
específico do fenômeno gradativo, podemos ir mais longe e considerar outros fenômenos da
língua portuguesa como dentro desse continuum, em vez de completamente flexionais ou
completamente derivacionais.