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Tecnologias de um Dispositivo Jurídico e seus Efeitos na Construção de uma Biografia Desviante 208

Tecnologias de um Dispositivo Jurídico e seus


Efeitos na Construção de uma Biografia
Desviante1
Technologies of a legal device and their effects on the
construction of a deviant biography
Alyne Alvarez Silva*+2 & Ricardo Pimentel Méllo**

* Universidade da Amazônia, Belém, Brasil


+ Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil
** Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

Resumo
Apresentamos neste artigo os caminhos teóricos e metodológicos utilizados e m uma pesquisa que
teve como objetivo vislumbrar os modos de subjetivação, presentes nas complexas relações de saber-
poder de um dispositivo jurídico, capazes de fabricar uma categoria específica de indivíduo: o sujeito
infrator. O trabalho utiliza fragmentos dos Relatórios Avaliativos que compunham o dossiê de um
jovem que se encontrava em cumprimento de Medida Socioeducativa de Internação. A partir da
análise deste documento, problematizamos um conjunto de técnicas disciplinares, regulamentares e
práticas de si, e alguns dos saberes que as fundamentam por serem considerados legítimos. O
governo da individualização arregimentado no dispositivo jurídico no qual o jovem é enredado
procura disciplinarizá-lo e normalizá-lo na direção do que seria um sujeito cidadão. Para tanto,
obrigatoriamente atrela ao jovem uma identidade infratora, responsabilizando-o quase que
exclusivamente por seus atos, independentemente de uma perspectiva crítica e histórica do seu
processo de não cidadania.
Palavras-chave: Dispositivo Jurídico; Subjetivação; Medida Socioeducativa; Sujeito Infrator.

Abstract
In this paper we present the theoretical and methodological paths used in a study that aimed to
discern the modes of subjectivity present in the complex relations of knowledge -power of a legal
device, capable of producing a specific category of individual: the infractor. The research uses
fragments of Evaluative Reports that made up the dossier of a young boy who was undergoing
Socio-educational Internment Measures. From the analysis of this document, we discuss a set of
disciplinary techniques, regulations and practices of same, and some of the knowledge that underlies
these techniques because they are considered legitimate. The government of individualization
enlisted in the legal instrument in which the young boy is caught, is looking to discipline him and
normalize him in the direction of what would be a subject citizen. To do so, necessarily binds the

1
Este artigo é fruto da pesquisa de mestrado da autora em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e
foi escrito em coautoria com seu orientador. A dissertação intitula-se: “Modos de Subjetivação e Estratégias de
Governamentalidade: a constituição de um ‘sujeito infrator’ nas tramas de um dispositivo jurídico”.
2 Contato: alvarezalyne@hotmail.com

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youth with the identify of an offender, blaming him almost exclusively for his a ctions, regardless of a
critical and historical perspective of his non-citizenship.
Keywords: Legal Device; Subjectivity; Socio-Educational Measure; Infringer Subject

Para discorrer sobre os modos de atos infracionais. Vislumbrando os modos


subjetivação presentes em um dispositivo de subjetivação presentes nas complexas
jurídico, usamos como ponto de partida o tramas de saber-poder de um dispositivo
conceito de “dispositivo” proposto por jurídico, podemos pensar não em como o
Foucault (1979). O autor entende “sujeito infrator” emerge historicamente
dispositivo “como um tipo de formação como questão problemática, mas, sim, como
que, em determinado momento histórico, continua sendo constituído no interior deste
teve como função principal responder a uma dispositivo.
urgência” (Foucault, 1979, p. 244). Grosso Entendendo, então, o dispositivo como
modo, “dispositivo” pode ser definido como um conjunto heterogêneo de práticas de
um conjunto híbrido de humanos e não saber, de poder e de subjetivação, partimos
humanos – leis, práticas profissionais, do “processo judicial” de um adolescente 3
arquiteturas, discursos, regulamentos, para problematizar, a partir de um estudo
medidas administrativas, proposições genealógico, a dinâmica das relações de
filosóficas, hábitos etc. – que forças que compõem o dispositivo jurídico e
inevitavelmente atravessam os seres que, racionalizadas em práticas, funcionam
humanos e estabelecem determinados como estratégias de governamentalidade que
modos de ser. O dispositivo tem, portanto, constituem o “adolescente infrator”.
uma função estratégica dominante na Considerando as práticas a que os
medida em que sua emergência, constituição adolescentes são submetidos no decorrer do
e constante reconfiguração têm como cumprimento da medida como o foco de
condição de possibilidade a problematização interesse deste trabalho, as racionalidades
de alguma experiência humana, uma das quais tratamos referem-se ao governo
experiência que se torna duvidosa em um dos outros: técnicas de poder que visam o
determinado momento histórico e para a disciplinamento, a normalização e a sujeição
qual é preciso criar racionalidades dos adolescentes internados.
estratégicas que objetivam transformar O processo judicial é, na realidade, um
indivíduos em sujeitos de determinado tipo. dossiê que, não sendo somente composto
O dispositivo jurídico ao qual nos
referimos diz respeito a todo um aparato da 3 O adolescente estava, na época, cumprindo Medida
Socioeducativa de Internação em uma Unidade
justiça penal criado e constantemente localizada no município de Ananindeua, hoje já
desativada. A unidade foi considerada o pior espaço de
rearranjado para dar conta de questões
internação do país na última inspeção da Comissão de
referentes a adolescentes envolvidos com Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e
da Ordem dos Advogados do Brasil (2006).

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por documentos referentes ao trâmite O exame e outras tecnologias do poder


jurídico, diz respeito a uma “coleção de disciplinar
documentos referente a certo processo, Numa perspectiva foucaultiana, o
assunto ou indivíduo” (Ferreira, 2000, p. indivíduo pode ser compreendido como o
245). Este conjunto de documentos foi resultado de múltiplos desenvolvimentos
tratado como um arquivo que, constituído estratégicos e complexos no campo do
no “cruzamento entre mecanismos de poder poder e das ciências humanas (Dreyfus &
e efeitos de discurso” (Foucault, 2006a, p. Rabinow, 1995). Não obstante, ao mesmo
211), também constitui a “biografia” do tempo em que mapeamos algumas das
jovem a que se refere; uma biografia escrita técnicas que constituem os adolescentes
às avessas que diz respeito a um corpo que internados como sujeitos de determinado
nunca entraria na história não fosse pela tipo, identificamos os elementos que lhes
porta dos fundos, quer dizer, pelos desvios e criam uma “identidade infratora” para a qual
transgressões (Foucault, 2006a). Arquivo se dirigem estratégias específicas de governo
que tem função de historicizar as infâmias da conduta pautadas no que Foucault (1995)
visando fazer circular saberes com efeitos de chamou de “governo de individualização”.
captura sobre aqueles que desobedecem, Analisamos parte do dossiê em questão, a
que rompem com o instituído. princípio, a partir da combinação de
Entramos no arquivo constituído para o instrumentos específicos do poder
adolescente e voltamos a análise para a disciplinar que resultam no exame: técnica
parte4 que discorre acerca do que seria a sua que compromete os indivíduos “em toda
curta vida, dando-lhe contornos biográficos uma quantidade de documentos que os
a partir de olhares atentos a sua suposta captam e os fixam” (Foucault, 1987, p. 168).
“peculiaridade” infratora. Parte esta Segundo Dreyfus e Rabinow (1995), o poder
composta por histórias acumuladas sob a no regime disciplinar não somente
perspectiva de quem passou a existir como individualiza a partir das observações
desviante e somente assim se entremeou nas constantes que dirige a cada um que busca
redes do poder. gerir, como fixa a individualidade no campo
da escrita. Para os autores:
um vasto e meticuloso aparelho documental
torna-se componente essencial para o
crescimento do poder. Os dossiês
capacitam as autoridades a fixar uma rede
4 Referimo-nos aqui aos “Relatórios Avaliativos de
objetiva de codificação. [...] O indivíduo
Medida Socioeducativa de Internação”, documentos
moderno – objetivado, analisado e fixado –
redigidos pela equipe técnica da Unidade de Internação
é uma realização histórica. O poder não
(geralmente composta por profissionais da psicologia,
aplica seu saber, suas investigações, suas
da pedagogia e do serviço social) acerca dos efeitos das
técnicas ao universal, mas ao indivíduo
atividades realizadas em determinado período com os
como objeto e efeito de um
jovens internados. De acordo com o Estatuto da
entrecruzamento do poder e do saber
Criança e do Adolescente, os Relatórios devem ser
(Dreyfus & Rabinow, 1995, p. 176).
redigidos a cada seis meses para dar subsídio à decisão
do juiz quanto à manutenção ou progressão da medida
socioeducativa.

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Para a composição dos documentos do Assim, para a constituição de sujeitos


dossiê, o jovem é tomado como objeto normalizados, instauram-se
sobre o qual se deve dizer verdades. O “micropenalidades” em relação ao tempo, às
dispositivo jurídico e seus experts devem atividades, ao modo de ser, ao corpo, em
funcionar como uma máquina de fazer ver e que pequenos desvios devem ser punidos.
fazer falar, compondo um conhecimento Esse sistema funciona como um pequeno
acerca desse objeto a partir de suas linhas de mecanismo penal que sanciona ou gratifica
visibilidade e de enunciação (Deleuze, 1996). as ações dos sujeitos com a finalidade de
Elege-se aquilo que se pode fazer ver – dos normalizar. Separam-se a partir dele os
seus atos, gestos e comportamentos – e “bons” dos “maus”, categorizando como
aquilo sobre o qual se deve falar – dentro do “anormais” aqueles que não se assujeitam e
disperso conjunto de enunciados acerca de são sancionados, já que resistem à norma,
quem ele é ou quem foi ou, ainda, quem foi mesmo privados de liberdade. Sua função
para o que se é – para que, combinados, primordial é a correção a partir de um
delineiem discursivamente o “sujeito método punitivo ou, antes, a redução dos
infrator” como objeto a ser conhecido, desvios, dos erros pela ameaça da punição.
descrito e analisado. É deste modo que “a Este mecanismo implica
disciplina fabrica indivíduos, ela é a técnica a qualificação dos comportamentos e dos
desempenhos a partir de dois valores
específica de um poder que toma os opostos do bem e do mal; em vez da
indivíduos ao mesmo tempo como objetos e simples separação do proibido, como é
feito pela justiça penal, temos uma
como instrumentos de seu exercício” distribuição entre polo positivo e polo
negativo. [...] Uma contabilidade penal,
(Foucault, 1987, p. 153). constantemente posta em dia, permite
No interior de uma Unidade de obter o balanço positivo de cada um
(Foucault, 1987, p. 161).
Internação, o disciplinamento dos corpos
desviantes se dá principalmente devido à A “sanção normalizadora” busca, dessa

vigilância constante a que são submetidos. forma, assujeitar os indivíduos na medida

Há nesses espaços um jogo de olhar que em que estes se veem quase que obrigados a

deve induzir efeitos de poder, na medida em se enquadrar em regimes de pessoalidade 5

que o menor dos detalhes da vida dos ditados pelo aparelho disciplinar. Para o

jovens se torna penalizável. Os jovens adolescente receber um Relatório Avaliativo6

internos devem se sentir vigiados a todo


instante e recear serem flagrados num ato de 5
Os “regimes de pessoalidade”, segundo Rose (2001),
são esquemas mais ou menos racionalizados bem
descumprimento das normas da instituição, inventados para ocupar o ser humano da busca
tendo em vista a punição correspondente incessante de seu lugar no mundo, sendo este lugar
enquadrado em conceitos pré-formatados acerca de si,
que lhes caberia. Como nos diz Foucault como por exemplo, os conceitos de cidadão,
masculinidade, feminilidade, mãe, pai, honra,
(1987, p. 167), “é o fato de ser visto sem generosidade etc.
6
cessar, de sempre poder ser visto, que Chamarei o adolescente ficticiamente de João,
substituindo seu verdadeiro nome como forma de
mantém sujeito o indivíduo disciplinar”. garantir que não seja identificado.

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favorável à progressão da medida Somando o exame à confissão para a


socioeducativa, isto é, para que possa sair da construção da biografia de João
internação para a semiliberdade ou Aproximando-nos das práticas descritas
prestação de serviço à comunidade, por no dossiê do adolescente, vemos claramente
exemplo, o adolescente necessariamente tem como o processo de normalização
que seguir as normas, ser obediente, se disciplinar se dá estrategicamente em etapas,
comportar como o esperado, não contestar sempre como um processo concomitante ao
o instituído, enfim, se apresentar como um de produção do “infrator”. Em primeiro
indivíduo normalizado. E, para permanecer lugar, as disciplinas decompõem os
internado, uma pequena falta serve de indivíduos, os seus gestos, atos, hábitos para
justificativa. Toda atitude de resistência do determinar aqueles que precisam ser
adolescente é avaliada como negativa e, modificados por serem considerados
portanto, justifica algum tipo de punição. As inadequados a um modo de ser “normal”.
idas e vindas pelas várias Unidades de No caso de João, alguns desses elementos
Internação do adolescente a que o dossiê se apontados nos Relatórios Avaliativos são:
refere, e que passou dois anos e oito meses “não tem limites”, “não sente culpa com
internado, se pautavam basicamente nesse relação ao ato cometido” e “não se relaciona
mecanismo de punição e recompensa. bem com sua família”. Em seguida, a
Como resultado da combinação das disciplina classifica os elementos
constantes observações e do sistema de identificados em função de determinados
micropenalidades constitui-se o “exame” objetivos: João precisa aprender a ter limites,
que extrai e constrói um saber objetivo deve se arrepender e passar a se relacionar
sobre os indivíduos aos quais se dirige e tem bem com sua família.
como consequência a construção do sujeito Identificados os problemas a serem
que “precisa” ser disciplinado: o “sujeito corrigidos, colocam-se em prática as táticas
infrator”. “Os procedimentos de exame são de intervenção capazes de saná-los. Assim,
acompanhados imediatamente de um articula-se um plano sobre o que pode ser
sistema de registro intenso e de uma feito com o jovem para que esses objetivos
acumulação documentária. Um poder de sejam alcançados. Para João a estratégia foi:
escrita é constituído como uma peça a) usar esquemas binários da sanção
essencial nas engrenagens da disciplina” normalizadora para que, punindo erros e
(Foucault, 1987, p. 168). Nesse sentido, gratificando acertos, ele passasse a obedecer
justificam-se as mais de 400 páginas, a “determinados limites”; b) fazer com que
referentes ao dossiê analisado, redigidas ao ele “refletisse” sobre suas atitudes, com o
longo do período em que João esteve intuito de classificá-las como inadequadas e
internado. como oriundas de “seu caráter”, para que,
então, aprendesse a “respeitar as pessoas”; c)
“exame de consciência” para que se

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percebesse errado com relação aos atos interno, as suas confidências aos técnicos
cometidos e, finalmente, se arrependesse; e especializados “em ouvir” complementarão
d) atendimento psicológico para ele e para a o arsenal de informações sobre seu passado
família para que pudessem “se entender” da e seu presente e servirão de fundamento às
melhor maneira e, de certa forma, corrigir a ações técnicas que irão intervir em sua vida
“raiz” do problema, uma vez que é comum para lhe delinear um futuro.
culpabilizar toda a família. Nesse sentido, No embate com as relações de poder
opera-se a produção de uma rede fina de
a disciplina estabelece os procedimentos de visibilidades destes corpos desviantes e seus
adestramento progressivo e de controle atos de contrapoder por meio dos registros
permanente e, enfim, a partir daí, estabelece de especialistas da norma, que se tornaram
a demarcação entre os que serão os ouvintes de sussurros ainda que rápidos
considerados inaptos, incapazes e os outros. e fugazes de vidas errantes que
Ou seja, é a partir daí que se faz a interrogavam com seus atos as práticas de
demarcação entre o normal e o anormal controle social (Lemos, Nascimento &
(Foucault, 2008, p. 75). Scheinvar, 2008, p. 07).
Foucault (2008) esclarece que a disciplina Dessa maneira, sua biografia resulta
estabelece um modelo que é construído em também dos momentos em que o
função de determinados resultados e quem adolescente deve falar de si àqueles que
consegue ser enquadrado ou se enquadrar ocupam um lugar privilegiado do saber
nesse modelo é considerado “normal”, através do poder a eles atribuído de
“cidadão”, “gente do bem” etc. Faz-se, interpretar e desvelar “verdades” acerca da
assim, a separação daqueles que não vida do “infrator”. À medida que se deseja ir
conseguem tal feito e que, portanto, são além dos saberes oriundos dos exames,
considerados “anormais”, “incompetentes”, saberes que se acumulam a partir de um
“antissociais”, “não humanos”, “do mal”. A mecanismo ótico que deve registrar tudo o
constituição do “sujeito infrator” se dá, que se vê e se supõe, os exames passam a
portanto, concomitantemente à produção requerer a confissão do examinado. Uma
do “sujeito disciplinar”. João é constituído vez que certas informações são inatingíveis
nas Unidades como infrator não somente aos olhos dos técnicos examinadores, os
em virtude do ato infracional cometido, mas exames passam a requerer “uma troca de
especialmente pela conduta resistente ao discursos, através de questões que são
processo de assujeitamento imposto pelo rol extorquidas das confissões e confidências
de normas que deve seguir para ser que vão além das interrogações” (Dreyfus &
considerado “normal”. Rabinow, 1995, p. 191).
Porém, a vida de João, descrita no De forma geral, as técnicas que
decorrer do cumprimento da medida de organizam vidas infames em formato de
internação, não se constitui apenas nos arquivos tomam-nas objetos a serem
exames e instrumentos disciplinares: conhecidos em cada detalhe de suas
somadas às constantes observações e existências, escrutinando, como o “pastor”,
registros acerca do cotidiano do jovem suas particularidades, segredos, interesses,

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dificuldades, desejos, sonhos, virtudes, “autoinspeção, autossuspeição, exposição do


“defeitos” e classificando tudo aquilo que eu, autodeciframento e autoformação”
pode ser “traço” de uma pessoa “anormal”. (Rose, 2001, p. 38) a partir de técnicas como
Apesar de a confissão ser uma prática a própria confissão, que funcionam como
que remonta aos hebreus do início do “técnicas de si”, isto é:
primeiro milênio cristão (Foucault, 2006b), é os procedimentos, que sem dúvida, existem
em toda civilização, pressupostos ou
no século XIX que o indivíduo é persuadido prescritos aos indivíduos para fixar sua
a pensar que deve se conhecer, por meio da identidade, mantê-la ou transformá-la em
função de determinados fins, e isso graças a
confissão, com o objetivo de obter controle relações de domínio de si sobre si ou de
conhecimento de si por si (Foucault, 1997,
sobre si próprio (Foucault, 1995). Dessa p. 109).
maneira, aquele sobre o qual se extraía
É preciso ressaltar que no decorrer do
conhecimentos sem nem sequer dar uma
tempo em que o adolescente esteve
palavra, deve falar e falar verdades sobre si
internado, o ato infracional se diluiu,
mesmo, numa relação de obediência e
desaparecendo completamente dos autos do
responsabilidade, com os que ocupam o
processo. Apenas nas duas primeiras
lugar de “pastor” e que deverão “salvá-lo”.
audiências o adolescente teve o ato
A confissão exige um “voltar-se para si”,
infracional julgado. No seu lugar, inúmeros
exige o estabelecimento de uma relação do
outros objetos surgiram e passaram a ser
jovem consigo mesmo que, ao mesmo
alvo de julgamentos correspondentes às
tempo em que o faz criar verdades sobre si,
micropenalidades mencionadas
o constitui nessas verdades, tornando-o
anteriormente.
sujeito nos dois sentidos atribuídos por
Os objetos que aparecem no seu lugar
Foucault (1995) a este termo: a) sujeito ao
são todos os seus comportamentos, gestos,
controle e ao poder daqueles que passam a
intenções, sentimentos, pensamentos, ou
reconhecer sua experiência de si, que
seja, tudo aquilo que deve ser domado, que
também se constitui nas confidências; e b)
deve ser minuciosamente observado,
preso a uma identidade em função de um
escutado e controlado para que deixe de ser
autoconhecimento.
uma ameaça à ordem social e possibilite a
Essa relação a que Foucault (1995;
“transformação” do ser humano em um
2006b) chama de pastoral, é estabelecida
sujeito dócil e útil: consciente de si,
entre uma figura de autoridade e um
responsável por seus atos, obediente às
indivíduo que “precisa” ser orientado e
normas e regras, respeitador, menos
aconselhado. No caso de João a relação
questionador e mais subserviente.
pastoral acontece na interação com os
Apesar de o ato infracional cometido
técnicos da Unidade de Internação:
pelo jovem desaparecer no decorrer do
psicólogos, pedagogos e assistentes sociais,
Processo, fazendo aparecer esses outros
principalmente. Tal relação instalaria no
objetos a serem julgados nas avaliações de
indivíduo vários procedimentos de

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João, é exatamente a infração que serve “desestruturada” e, em virtude de sua


como ponto de partida para o “desorganização”, é tida como incapaz de
encadeamento dos discursos acerca da sua educá-lo moralmente, inapta a evitar
“história de vida passada”. É a partir da situações de risco para o “desenvolvimento”
edição enviesada de sua história que se de João, responsável por sua evasão escolar,
concebe a forma como ele deve ser dentre outras coisas. Assim, os
apresentado atualmente. Os discursos acontecimentos da vida do jovem João são
utilizados para descrever sua história, e encadeados estratégica e coerentemente,
quem ele se tornou em consequência dela, fazendo aparecer o amargo presente,
delineiam toda sua existência em função do privado de liberdade como efeito de uma
cometimento do ato infracional, de modo a infância e uma adolescência “descuidadas”,
nos levar a presumir que não haveria outro como podemos ver nos trechos a seguir:
destino a João senão a delinquência. Os A dinâmica familiar é marcada pelo
abandono materno em tenra idade e o pai,
trechos abaixo nos mostram parte da apesar de morar com o adolescente, foi
história de João editada nessa direção: ausente em sua orientação e usava de
disciplina inadequada pelo emprego de
João [se encontrava] bastante envolvido punições físicas em detrimento do diálogo,
com situações de risco pessoal e social (uso [...] A avó paterna é sua referência afetiva,
de drogas lícitas e ilícitas, práticas mas não tem qualquer ingerência de
infracionais, referindo prática de uns nove autoridade para controlá-lo. (Documento
assaltos, permanência em festas, ruas, anexo ao 1º Relatório Avaliativo, escrito em
acompanhado de pessoas inidôneas, 06/04/2005).
descumprindo com as normas inerentes ao É notório que a disciplina familiar
convívio familiar) (2º Relatório Avaliativo, complacente, onde os responsáveis
escrito em 07/11/2005). controlavam de forma inadequada com
Se encontra [sic] em defasagem escolar [...]. tolerância aos erros cometidos pelo
Este intervalo de tempo em que ficou adolescente, talvez pela avó paterna que
afastado do ambiente escolar coincide com tomou para si a responsabilidade de criá-lo,
o início do uso de substâncias aliado à indiferença ou hostilidade por parte
entorpecentes e com seu envolvimento em dos pais e ainda o histórico de
atos infracionais (2º Relatório Avaliativo, desintegração por separação dos genitores
escrito em 07/11/2005). [...] tenham contribuído para o quadro de
Não tinha, quando em liberdade, uma delinquência juvenil ora apresentado pelo
forma muita sadia de se divertir, haja vista adolescente. (5º Relatório Avaliativo, escrito
que afirma que sempre saía à noite e ficava em 25/01/2007).
pelas esquinas com os amigos até às 2h da Advém de um núcleo familiar fragilizado,
madrugada (4º Relatório Avaliativo, escrito onde [sic] após a separação dos pais, os
em 11/06/2006). mesmos não forneceram condições
necessárias para um crescimento e
Passetti (1995) afirma que é por meio do desenvolvimento saudável e seguro (6º
Relatório Avaliativo, escrito em
levantamento biográfico da vida do 20/08/2007).
“infrator” que ele será caracterizado como
Sabemos que as teorias
delinquente. Nesse sentido, vemos nos
desenvolvimentistas legitimadas como
Relatórios a busca incessante por razões
científicas, a exemplo da Teoria
para explicar os porquês dos seus “desvios”,
Psicogenética, de Jean Piaget e a Teoria
deixando recair principalmente sobre a
Psicossocial do Desenvolvimento, de Erik
família a responsabilidade pelo triste destino
Erikson, categorizaram cada etapa da vida,
de João, já que esta é caracterizada como

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estabelecendo comportamentos e constantemente a criação dos meios para


sentimentos considerados adequados a cada tratá-la.
uma delas. Essas teorias criam campos de A educação seria um dos instrumentos de
atuação profissional que, munidos de regulação das famílias, responsável por
tecnologias disciplinares e aparatos de instruí-las para que formem “lares
regulação, passam a se ocupar do constituídos, estáveis e harmoniosos, onde
“desenvolvimento humano”, garantindo o as crianças cresçam num ambiente de amor
curso esperado. Assim, as crianças e e segurança” (Altenfelder conforme citado
adolescentes submetidos aos discursos por Passetti, 1995, p. 153); deve também
“verdadeiros”, aos discursos científicos, são atuar sobre crianças abandonadas que,
tomados como objetos sobre os quais se recolhidas às casas de correção, passam a ter
imprime saberes que os consideram como seu “caráter” formado distante das ruas.
iguais, como se somente houvesse uma Daí práticas educacionais, psicológicas,
Infância e uma Adolescência, um modo de profissionalizantes, religiosas, voltadas à
ser criança e adolescente. Para aqueles que saúde, ao lazer e à família serem colocadas
se desviam dos padrões considerados como centrais na chamada “Medida
normais, os “anormais”, há toda uma rede Socioeducativa de Internação”, justificando
institucional treinada para intervir sobre a manutenção do internamento de jovens. A
eles, recolocando-os “na linha”, família, considerada a única responsável pelo
normalizando-os. Tais posicionamentos são “desenvolvimento normal” dos seus filhos,
diametralmente opostos, por exemplo, ao é julgada como incapaz de promover ações
que paradigmas teóricos, como a sociologia sobre suas crianças para garantir-lhes tal
interacionista e abordagens construcionistas, condição e incompetente para evitar seus
afinadas aos estudos da Sociologia da desvios em tenra idade. Acaba, assim, tendo
Infância e Sociologia da Juventude, por vezes que assistir a seus jovens filhos
entendem acerca destas noções, já que “com má formação moral” sendo tomados
infância e juventude deixam de ser objetos pelos aparatos estatais como a única
que se constituem passivamente e possibilidade de “reversão” do quadro,
naturalmente na sua relação com o mundo e embora praticamente não entre em
passam a ser vistos como construções discussão a condição de desassistência em
sociais e históricas, que dependem do que também se encontra.
contexto onde estão inseridos e que, Dessa maneira, têm-se as medidas
portanto, jamais caberiam em categorias socioeducativas consideradas como medidas
universais. Com o estabelecimento do que de caráter preventivo (com relação a práticas
são a infância e a adolescência normais, de delitos futuros) e não retributivo
criou-se aquilo que não pode ser (aplicado como resposta ao mal que
considerado infância e adolescência, criou-se provocou) a partir das quais os
a diferença, que não admitida, determina “socioeducandos” passariam principalmente

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por processos de “formação de caráter” e em conflito com um educador por não


aceitar determinações de horário.
não por punições pelo ato cometido. Influenciava os demais internos para o
Todavia, na prática, temos juntamente tumulto (3º Relatório Avaliativo, escrito em
11/012006).
com as técnicas de disciplinamento e táticas
Os atendimentos individuais e
de correção, práticas punitivas e relações de
entrevistas, que também funcionam como
poder bastante arbitrárias. Passetti (1995)
um exame e são realizados pelos
coloca as instituições de internamento de
profissionais das Unidades de Internação,
adolescentes como constituidoras de
constituem a biografia de João com o
sujeitos criminosos ou formadoras de
cuidado de mostrar como o adolescente já
“carreiras criminosas” na medida em que
se parecia com seu ato infracional antes de
os próprios dispositivos disciplinares são,
neste caso, por excelência, meios para a tê-lo cometido. Com o auxílio dessas
criança ou adolescente cometerem
infrações internas na instituição que serão técnicas, tem-se o cuidado de estabelecer
acrescentadas nos seus prontuários, “os antecedentes infraliminares da
mostrando-nos aí o quanto de infratores se
cria numa instituição e quantos penalidade” (Foucault, 2001, p. 23). Desde
delinquentes acaba liberando (Passetti,
1995, p. 171). tenra idade, ele vai sendo descrito como
revoltado ou incontrolável e no seu entorno
Assim, os argumentos enumerados como
são elencados os elementos que, reunidos,
determinantes para a constituição dos
reafirmam seu comportamento tido como
modos de ser infrator delineiam a biografia
inadequado. Assim, vão sendo reconstituídas
de João que, desde o princípio de sua vida, é
uma série de “faltas” que existem mesmo
descrita para justificar seu inevitável
sem infração.
caminho delinquente. Como não se pode
As caracterizações de João descritas nos
evidenciar os dispositivos disciplinares como
Relatórios Avaliativos que o posicionam
promotores de rebelamentos, indisciplina e
como infrator é exatamente o que Foucault
constituidores do “anormal”, a forma como
(2001) aponta acontecer como efeito do
se conta a história de vida de João torna
exame psiquiátrico. O delito desdobrado
coerente ao que se anota nos prontuários e
nessa série de outros focos de punição
permite descrevê-lo como vemos nos
estabelece um sujeito que não é mais
trechos abaixo:
jurídico, mas sim um sujeito que deve ser
Apresenta-se destemido e com valores
completamente deturpados (1º Relatório objeto de certas tecnologias de reparação, de
Avaliativo, escrito em 06/04/2005).
O adolescente apresenta-se revoltado, correção ou readaptação. A partir dessas
intolerante, destemido e buscando na descrições que apontam automaticamente
delinquência afrontar e humilhar o pai, ou
seja, atingi-lo de alguma forma (1º Relatório causas para o ato cometido, dobra-se “o
Avaliativo, escrito em 06/04/2005).
Apresenta desde o início comportamento autor, responsável ou não, do crime, como
inadequado às normas da unidade, sendo um sujeito delinquente que será objeto de
intolerante, prepotente, agressivo, com
dificuldade de acatar as normas uma tecnologia específica” (Foucault, 2001,
preestabelecidas e algumas vezes
desrespeitando funcionários. Envolveu-se
p. 27), o que expande a ação do aparato

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Tecnologias de um Dispositivo Jurídico e seus Efeitos na Construção de uma Biografia Desviante 218

jurídico para além dos saberes do direito. de práticas específicas de correção


Segundo Foucault (2001, p. 23): correspondentes a cada uma das
Por meio de uma atribuição causal [...], caracterizações feitas.
passou-se do que poderíamos chamar de
alvo da punição – o ponto de aplicação de As práticas específicas de correção e/ou
um mecanismo de poder, que é o castigo transformação têm como via de
legal – a um domínio de objetos que
pertence a um conhecimento, a uma técnica implementação os itens do Currículo
de transformação, a todo um conjunto
racional e concertado de coerções. [...] O Mínimo Obrigatório – Saúde;
essencial é que ele permite situar a ação Documentação; Escolarização;
punitiva do poder judiciário num corpus
geral de técnicas bem pensadas de Profissionalização; Esporte, Cultura e Lazer;
transformação de indivíduos (Foucault,
2001, p. 22-23). Religiosidade e Acompanhamento à Família.
Tal currículo é previsto pelo Estatuto da
De qualquer maneira, os discursos que
Criança e do Adolescente (ECA) para a
posicionam o adolescente como “infrator”
garantia de direitos dessa população, já que é
servem como condição de possibilidade
considerado “instrumento para o exercício
para os processos de construção e aplicação
da cidadania”. Por meio de sua
de conhecimentos, técnicas e modos de
implementação, o adolescente que é
intervenção específicos no interior das
apreendido como “infrator” deve tornar-se
Unidades de Internação. Encadear “fatos”
um jovem “cidadão” na medida em que
da sua vida ou apresentá-los de uma forma
recebe atendimento médico, leia-se “engole”
que praticamente não nos permite interagir
além de ordenações morais, substâncias
com João sem lhe atrelar uma “identidade
químicas, que o controlem; obtém seus
infratora” possibilita estruturar um campo
documentos, ou seja, cadastra-se
de ações possíveis para atuar sobre ele,
formalmente nos bancos de informações do
legitimando práticas que não seriam tidas
Estado, como cidadão e não mais como
como plausíveis não fosse tal identificação.
delinquente; volta precariamente a estudar,
Nesse sentido, os discursos devem ser
considerando todas as limitações das
entendidos em seu caráter performático
Unidades de Internação; recebe cursos de
(Austin, 1998), isto é, seu caráter atributivo e
profissionalização, o que lhe permitiria sair
constitutivo de coisas ou estados de coisas
da internação “preparado” para trabalhar e,
que têm o poder de romper ou legitimar
ao mesmo tempo, mostrar que seu corpo
determinadas práticas.
está sendo docilizado a contento; reflete
Vimos ao longo do texto que posicionar
sobre sua vida e seus conflitos cotidianos
o adolescente como “destemido”, “com
com pessoas formadas para lhe orientar
valores deturpados”, “agressivo”, “com
“espiritualmente”, ou seja, exerce a
dificuldade de acatar normas”, “dificuldade
confissão; e tem sua família supostamente
de se relacionar com a família”, “em
“reestruturada” para lhe dar o suporte que
defasagem escolar” e como “ex-usuário de
preze pelo seu “desenvolvimento” para que,
droga”, coloca-o necessariamente como alvo
então, tenha uma vida “adequada” segundo

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A. A. Silva & R.P. Méllo 219

os padrões de normalidade (Cf. Silva, 2009). imbuída do dever de “tirá-los” da condição


Vale ressaltar que, quase um semestre de “desviantes”, parte-se do princípio de
antes de João conseguir progressão de que são indivíduos dotados de uma
medida socioeducativa7, foi realizada uma “identidade infratora” e que, portanto, são
perícia pelos técnicos do Juizado da os únicos responsáveis por seus atos, ainda
Infância e Juventude, os quais constataram que também se associe essa condição de
em suas investigações que, em dois anos e infrator à “desorganização da estrutura
meio de internação, tais “direitos familiar”. Em outras palavras, este governo
fundamentais” não haviam sido garantidos seria uma estratégia que toma a prática do
ao jovem, já que, ao contrário do que nos encarceramento, apresentada em tom
dizem os relatórios avaliativos, essas assistencial-corretivo, como a única maneira
atividades não estavam sendo realizadas de governar a conduta dos “ingovernáveis”.
satisfatoriamente. Vimos que não é o “mal provocado pelo
O que vemos é que, sendo realizadas ou ‘infrator’” que deverá mantê-lo privado de
não, as atividades do Currículo Mínimo sua liberdade. A partir do momento em que
Obrigatório funcionariam como uma o jovem foi enredado nas tramas do
estratégia biopolítica para a gerência dos dispositivo jurídico, o “sujeito jurídico” do
corpos desviantes, uma vez que dirigidas a direito penal desapareceu. A justificativa
todos os adolescentes internos teriam a para manter João internado após a sentença
finalidade de que, submetidos a elas, nunca mais se referiu à infração cometida
sofressem modificações no seu modo de ser por ele: no lugar do ato infracional, surgiram
para exercer sua “cidadania”, quando em outros elementos para serem julgados.
liberdade. Somando os saberes e práticas que estão
para além do saber judiciário, o “sujeito
À guisa de conclusão infrator” que surge é de outra ordem: é
O “governo da individualização”, a que aquele que não pode ser classificado como
Foucault (1995) sugere que se volte contra é, legalmente criminoso nem patologicamente
no caso de adolescentes que infringem leis, doente, pois é uma série de condutas
este que os individualiza e os torna consideradas como “defeitos sem
“sujeitos” que devem ser “transformados”, ilegalidade” e “faltas sem infração” que
nos espaços de internação, a partir de deverão ser elencadas e encadeadas de
práticas ditas “socioeducativas”, que forma coerente com o seu futuro
legitimam sua privação de liberdade. Sendo a “delinquente”, para continuar condenando-
“Medida Socioeducativa de Internação” o. O que permanece condenando-o à
internação é ser caracterizado em suas
7
Três meses antes de expirar o prazo máximo de
avaliações feitas pelos técnicos como
permanência em um centro de internação – três anos,
como descrito no ECA –, João recebeu progressão de “impulsivo”, “agressivo”, “desrespeitador”,
medida: da internação passou a cumprir prestação de
serviço à comunidade em semiliberdade. “desobediente”, “que não acata normas”.

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Tecnologias de um Dispositivo Jurídico e seus Efeitos na Construção de uma Biografia Desviante 220

Este sujeito para quem se dirigem saberes e Aparentemente, são dois processos
práticas médicas, psicológicas, pedagógicas, de subjetivação e assujeitamento imanentes.
sociais, além de jurídicas, que compõem as Um que pretende subjetivar o indivíduo
medidas socioeducativas e que acabam por como “cidadão” a partir de técnicas
constituí-lo como “delinquente”, é o sujeito empregadas com o objetivo de
“perigoso”. transformação e de instrumentos que
A partir do discurso da “recuperação” ou levariam João a “exercer sua cidadania”
“ressocialização”, a Medida de Internação, quando em liberdade; e o outro,
que tem como prerrogativa ser concomitante a este, que o identifica
“Socioeducativa”, teria a função de tornar biograficamente como um personagem
“cidadão” aquele que nunca o foi, aquele oposto ao cidadão: neste caso, com o
que já nasceu sem direitos, a quem se nega estigma de infrator. Assim, teríamos como
processos que deveriam dar conta da sua resultado do cruzamento de saberes e
vida para lhe aumentar a existência. As poderes que visam normalizá-lo, duas
práticas desenvolvidas pelo dispositivo possibilidades de experiência de si do jovem
jurídico são, assim, práticas que o incluem internado, que ao final devem compor
nas malhas do poder e o fazem existir. apenas um modo de ser, posto que se unem
Porém, o fazem existir como um não em uma racionalidade coerente em que a
cidadão, engendrando-o como o seu outro: “subjetividade infratora” seria condição para
o “infrator”. a necessidade de instalação de uma
As divisões binárias produzidas pela “subjetividade cidadã”.
tecnologia disciplinar têm como corolário a Na posição de “infrator”, como efeito
fabricação dos sujeitos “anormais”, aqueles das práticas de normalização, o jovem deve
que precisam entrar na norma, ser ser capaz de se identificar, se julgar, se
normalizados. Isto é, partindo do que seria narrar como um infrator: alguém que agiu
o “normal”, constitui-se aquele que precisa errado e que precisa se redimir, se sentir
ser transformado e junto com ele todo um culpado, e que é frequentemente avaliado e
aparato de técnicas e saberes de mal julgado em função de todos os outros
“transformação”. Então, ao mesmo tempo “erros” que constitui seu modo de ser
em que vemos surgir um dispositivo para “infrator”; e, na posição de “cidadão”, após
dar conta de algo que começa a ser a aplicação de tecnologias de transformação,
considerado problemático, temos esse readaptação ou recuperação, ele deve se
mesmo dispositivo constituindo o problema mostrar arrependido, narrando-se como
no mesmo instante em que se utilizam de capaz de se conduzir de acordo com o que
técnicas disciplinares e saberes que se espera de um “sujeito cidadão”. Este é o
nomeiam, classificam, criam categorias, regime de pessoalidade que foi apresentado
separam por tipos e compõem teorias acerca a João como possibilidade para ser liberto.
do que seria a “anormalidade”. Ambas as posições ou maneiras de ser

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A. A. Silva & R.P. Méllo 221

descritas preveem estratégias de manejo e Internação de Adolescentes em Conflito com a Lei. (2a
ed.). Retrieved November, 9, 2006, from
controle dos corpos estabelecidas no http://www.crpsp.org.br/relatorio_oab.pdf
interior de dispositivos bem arregimentados
Campos, F. S. (2005). Adolescentes infratores
em função da existência dos chamados acautelados: uma caricatura do sistema prisional.
In: M. H. Zamora (org.), Para além das grades:
delinquentes. elementos para a transformação do sistema sócio-educativo
Vemos, assim, como a política atua no (pp.113-124). Rio de Janeiro: EDPUC-Rio, São
Paulo: Loyola.
campo da subjetivação mantendo e
Deleuze, G. (1996). O que é um dispositivo? In:
alimentando todo um sistema de justiça, G. Deleuze, O mistério de Ariana (pp. 83-96).
para o qual muito recurso é destinado, que Lisboa: Veja.

funciona compondo-se da construção de Dreyfus, H. & Rabinow, P. (1995). Michel Foucault,


uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e
um modo de existência que lhes serve de
da hermenêutica. (V. P. Carrero, Trad.). Rio de
base para atuar sob o emblema da justiça, Janeiro: Forense Universitária.
embora também aí sejam constituídas Ferreira, A. B. H. (2000). Mini-Aurélio Século XXI:
realidades de violência e violação de direitos. O minidicionário da língua portuguesa. (4a ed.). Rio
de Janeiro: Nova Fronteira.
O que sabemos sobre a população juvenil
que comete infrações penais não é novo, Foucault, M. (1979). Microfísica do Poder. (24a ed.).
mas é bom lembrar. O perfil do jovem Rio de Janeiro: Graal.
infrator brasileiro remonta, com frequência,
uma trajetória vivida na pobreza, ou seja, Foucault, M. (1987). Vigiar e Punir: História da
falta de oportunidades e de acesso a Violência nas Prisões. (9a. ed). Petrópolis: Vozes.
recursos que garantam o desenvolvimento
de seus potenciais. (Rizinni, 2005, p. 10) Foucault, M. (1995). O Sujeito e o Poder. In: H.
Dreyfus & P. Rabinow, Michel Foucault, uma
Isto é, a fabricação do jovem infrator trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da
hermenêutica (pp. 231-249). (V. P. Carrero, Trad.).
começa muito antes de sua captura pelas Rio de Janeiro: Forense Universitária.
tramas de um dispositivo jurídico, mas
Foucault, M. (1997). Resumos dos Cursos do Collège
podemos dizer que é enredado nelas que ele de France. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
encontra um “ethos criminal” (Campos, Foucault, M. (2001). Os anormais. Curso no
2005, p. 117) capaz de constituí-lo como tal Collège de France. São Paulo: Martins Fontes.

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encontram ali arranjadas. Volume IV). (2a ed.). Rio de Janeiro: Forense
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