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Proposta Sedutora

BLACKMAILED DOWN THE AISLE

Louise Fuller

SEDE DE PRAZER

“O que vai ser, eu ou a polícia?”


A atriz desempregada Daisy Maddox faria qualquer coisa pelo irmão - até mesmo
entrar escondida no escritório do bilionário Rollo Fleming para devolver o relógio que ele
roubou. Quando é pega em flagrante, Daisy fica completamente nas mãos dele. Mas
Rollo faz uma proposta: se ela for sua esposa temporariamente, ele poderá esquecer o
incidente. Agora, vivendo no mundo de Rollo, ela tem que lidar com uma mistura de
emoções. E a cada beijo ardente, ela descobrirá que existem vantagens inesperadas
nesse jogo de chantagem...

Disponibilização: Silvia Crika


Revisão: Samuka
Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Tradução Leandro Santos


HARLEQUIN
2018

Querida leitora,
Este mês as histórias de Jessica estão de derreter os corações!
Em Tomados pela paixão, Angelina decide seguir em frente com a vida depois do
desastroso casamento com Lorenzo, que partiu seu coração. Ela só queria ser amada,
mas para o marido os negócios pareciam mais importantes. E foi isso que destruiu o
relacionamento. Prestes a entrar em um novo amor, Angie descobre que ainda está
legalmente casada com Lorenzo, e ligada à ele em mais de uma forma. Será que Angie e
Lorenzo conseguirão deixar o passado para trás e pensar em um futuro melhor?
Já em Proposta sedutora, Daisy estava tentando fazer o que era certo e salvar o
irmão gêmeo, David, de ir para a cadeia. Rollo não acredita que existam mulheres
sinceras, e a ideia só é confirmada quando encontra Daisy supostamente invadindo o seu
escritório. Mas a situação vira a seu favor quando ele faz uma proposta irrecusável: Daisy
precisa ser sua esposa por um ano, ou ela e David terão de enfrentar a polícia! Uma
escolha nada fácil, mas que poderá trazer mudanças irresistíveis para a vida deles.
Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A.


Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas
ou mortas é mera coincidência.

Título original: A DEBT PAID IN THE MARRIAGE BED


Copyright © 2017 by Jennifer Drogell
Originalmente publicado em 2017 por Mills & Boon Modern Romance

Título original: BLACKMAILED DOWN THE AISLE


Copyright © 2017 by Louise Fuller
Originalmente publicado em 2017 por Mills & Boon Modern Romance

Publisher: Omar Souza


Gerente editorial: Mariana Rolier
Assistente editorial: Tábata Mendes
Arte-final de capa:
Isabelle Paiva
Produção do eBook: Ranna Studio
Editora HR Ltda.
Rua da Quitanda, 86, sala 218 — Centro — 20091-005
Rio de Janeiro — RJ — Brasil
Tel.: (21) 3175-1030
Contato:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Capítulo 1

Todos estavam se divertindo na festa. Menos Daisy Maddox. Com seu cabelo loiro
iluminado pelas luzes que piscavam, ela estava afastada, olhando o salão.
Manhattan era o lugar mais animado do mundo à meia-noite. E a Fleming Tower, o
arranha-céu de Rollo Fleming, magnata bilionário dos imóveis e anfitrião da festa, além de
chefe do irmão dela, David, era o lugar mais glamoroso da cidade.
Mas ela não estava ali como convidada; estava servindo champanhe.
Seis meses atrás, ela chegara ao apartamento de David com a esperança de ter
uma carreira de sucesso na Broadway. Só que as coisas não haviam dado certo.
Ela suspirou ao rechaçar mais uma investida do jovem que não saíra de perto dela
durante toda a noite.
— Como eu já disse, Tim, estou trabalhando.
— Não é Tim, é Tom. Vamos. Tome só uma taça comigo. Prometo que não conto a
ninguém. O chefão nem está aqui para flagrar você.
Rollo Fleming. O “chefão”. Ao visualizar o frio e lindo rosto dele, Daisy sentiu seu
coração disparar. Era verdade. Apesar de a festa estar acontecendo no prédio dele, para
os funcionários dele, Rollo não fora.
Claro, diziam que ele apareceria sem avisar. Alguns afirmavam tê-lo visto no
saguão. Daisy, porém, sabia que ele não iria. Ele estava em Washington.
— Você trabalha para ele?
Surpresa, Daisy se virou e viu Joanne, a outra garçonete.
Tom assentiu.
— Sim, já faz mais ou menos um ano.
— Sério? — Joanne arregalou os olhos. — Ele é lindo demais. Como ele é?
A pergunta foi direcionada a Tom, mas Daisy precisou se conter para não
responder. Horas pesquisando na internet a haviam transformado na maior autoridade do
mundo em Rollo Fleming. Não que houvesse muito para saber. Ele raramente dava
entrevistas e, a não ser pelas fotos com lindas modelos e socialites, a vida particular dele
era bem reservada.
— Quase não lido pessoalmente com ele. Mas, nos negócios, ele tem o toque de
Midas. E só sai com as mulheres mais lindas.
O homem continuou:
— Mas é meio assustador. Ele trabalha demais e é extremamente controlador.
Sabe tudo que acontece... cada detalhe. E é obcecado por honestidade. Não é bom
contrariá-lo.
Daisy sabia que ele era viciado em trabalho e um conquistador avesso a
compromissos. Basicamente uma versão amplificada de Nick, o ex dela, o tipo de homem
que ela desprezava.
O turno dela estava quase no fim. Em qualquer outra noite, ela teria se sentido
aliviada. Mas não naquela. Com sorte, aquela seria a primeira e última vez que ela
precisaria escolher entre não cumprir uma promessa e não cumprir a lei.
Pensar no que ela estava prestes a fazer revirava seu estômago.
Joanne a puxou para um canto.
— Olhe... Você não parece bem. Por que não vai para casa? Eu me viro sozinha.
— Não posso deixar você nessa situação...
— Não tem problema.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Daisy hesitou. Ela detestava mentir para Joanne, especialmente porque sua amiga
estava sendo tão gentil. Entretanto, ela não podia dizer a verdade.
Quatro dias antes, ela entrara no apartamento de David e o encontrara chorando.
Depois da insistência dela, ele finalmente admitira ter um problema com o jogo e estar
seriamente endividado.
As dívidas de David, porém, eram o menor dos problemas dele. Quando ele fora
deixar uns papéis no escritório de Rollo Fleming naquele dia, encontrara um relógio no
chão. Não era um relógio qualquer, mas um relógio de um designer extremamente
exclusivo. E ele não apenas o encontrara, mas o pusera no bolso, imaginando que, com a
venda dele, poderia quitar suas dívidas.
Em casa, ele percebera o que fizera e entrara em colapso. Fora por isso que Daisy
prometera devolvê-lo.
— Estou me sentindo meio mal mesmo. Acho melhor ir agora. Obrigada, Jo. Você
é um amor — falou Daisy.
— Sou mesmo. Mas você precisa cobrir para mim na terça. Cam vai me levar para
jantar.
Era isto que ela queria estar fazendo, pensou Daisy, ao passar pela multidão até o
corredor deserto: indo jantar com seu namorado.
Mas, claro, para isso, ela precisaria de um namorado.
E, cinco semanas antes, Nick decidira que precisava de espaço.
Espaço!
Nenhum homem era digno de confiança. Todos eram egoístas.
Do bolso de seu avental, ela retirou um cartão e olhou a foto de seu irmão. David
sempre a apoiara, ajudando-a a ensaiar para os testes e até mesmo encontrando aquele
emprego de garçonete.
Ela passou o cartão no leitor do elevador, e uma luz verde se acendeu, as portas
se abrindo.
Agora, ela teria a oportunidade de retribuir a ajuda de David.
Ela hesitou, as mãos trêmulas, mas pensar no alívio de David quando ela lhe
contasse que tudo estava resolvido a impeliu.
Daisy entrou no elevador e, pouco depois, com o coração na boca, saiu para um
corredor escuro.
Daisy avançou até parar diante da porta de madeira que David descreva como
sendo do escritório de Rollo. Não havia placa, nada que a diferenciasse das outras portas.
Ela se sentiu entrando na cova dos leões. Porém, empinando o queixo, Daisy se
preparou. O leão não estava em casa.
Daisy passou o cartão e abriu a porta.
Tudo estava silencioso e escuro lá dentro. Sem pensar, ela avançou.
— Ai!
Seu joelho atingiu fortemente algo duro na escuridão. Com o coração em
disparada, ela sentiu que o objeto que ela atingira estava se movendo. Tateando às
cegas, ela tentou impedi-lo de cair. Contudo, era tarde demais, e fosse lá o que fosse caiu
ao chão com um estrondo.
— Boa, Daisy! — resmungou ela. — Aproveite e acenda logo uns fogos de artifícios
também.
Ela ficou congelada quando ouviu sons de passos se aproximando lá fora.
A porta se abriu, banhando o escritório com a luz.
Ela esperou, torcendo, rezando para que a pessoa não conseguisse vê-la, já que
ela também não conseguia enxergar quem era. Sua esperança, porém, foi rapidamente
destruída quando uma voz, fria e muito máscula, cortou o tenso silêncio.
— Tive um dia longo e decepcionante. Então, pelo seu bem, espero que você
tenha uma boa explicação para essa invasão...

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

As palavras fizeram uma onda de pavor descer pela espinha dela, mas isso não foi
nada comparado ao que ela sentiu ao olhar para o rosto do homem parado à porta.
Rollo Fleming devia estar em Washington.
O choque a teria feito desmaiar se ela não estivesse tão compenetrada na
realidade da beleza dele.
Numa tela, numa revista, Rollo Fleming era belo como um astro de cinema.
Pessoalmente, porém, sua beleza era multiplicada por dez.
Não que ele fizesse o tipo dela, pensou Daisy rapidamente. Ele era loiro demais,
cheio de pose, calculista demais. Certamente era o choque que a fazia olhá-lo sem parar.
De pele dourada, maxilar forte e cabelo loiro curto, ele mais parecia um gladiador
romano do que um bilionário.
Ele a olhou diretamente. Seus olhos eram extraordinários; claros, verdes e
reluzentes. Entretanto, foi a linda curva da boca dele que mais atraiu os sentidos dela.
Uma boca que Daisy conseguia imaginar se suavizando no sorriso mais sensual do
mundo...
Só que ele não estava sorrindo. Estava com uma expressão bastante hostil.
Nervosa, ela olhou à volta, procurando uma forma de escapar. Mas não havia outra saída.
Ela estremeceu. Aquilo não devia estar acontecendo. Ela não fora ali para um
confronto.
— Eu... posso explicar.
— Então, sugiro que comece... Daisy.
Ele falou o nome dela suavemente. Por isso, o cérebro dela demorou para registrar
o fato de que ele sabia quem ela era. Quando Daisy ergueu os olhos, chocada, ele
balançou a cabeça, voltando seu olhar para o crachá preso à blusa dela.
— Então, esse é mesmo seu nome. Achei que tivesse roubado isso de alguma
pobre garçonete lá embaixo.
— Não roubei. Meu nome é Daisy mesmo. E, para o seu governo, eu sou uma
daquelas pobres garçonetes. É por isso que estou aqui. Eu estava trabalhando na festa e
ia pegar mais guardanapos na cozinha. Mas apertei o botão errado no elevador.
Por um instante, Rollo apenas a olhou friamente. Então, sem se virar, fechou a
porta.
Em menos de três segundos, ele já atravessara o recinto, e Daisy ficou em pânico
quando ele parou diante dela.
— Por favor, não me insulte tentando fingir que “apertou o botão errado”.
Com seus largos ombros bloqueando a luz, Rollo Fleming dominava o espaço à
volta deles. Mas ela não poderia permitir que ele a dominasse. Se isso acontecesse, a
verdade viria à tona, e a vida de David seria arruinada.
— Você não foi o único que teve um dia longo — rebateu ela. — Passei horas em
pé e também estou cansada. Foi por isso que cometi um erro.
— Não classifico invasão como “erro”. Então, diga de uma vez por que entrou
escondida no meu escritório quase à 1 hora da manhã.
— Eu não sabia que era seu escritório. Como poderia? Nem sei quem você é.
A expressão dele foi de pura incredulidade.
— Você está trabalhando lá embaixo e não sabe quem eu sou?
Daisy o olhou com raiva. O tom de desprezo dele, juntamente com sua certeza,
irritantemente correta, de que ela sabia quem ele era, fez Daisy bufar de raiva.
— Eu trabalho para muita gente. Não lembro todos os nomes e rostos.
Ao ver a boca dele se contrair, ela sentiu satisfação por ter ferido seu orgulho.
— Sem dúvida, é por isso que você é apenas uma garçonete.
As faces dela se encheram de calor.
Apenas uma garçonete?!
— Não me menospreze...

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

— Então, não minta para mim.


Ela corou.
— Certo. Eu sei quem você é! E daí? Não faz diferença para mim...
— Sendo assim, você é excepcionalmente tola, ou perigosamente audaciosa,
porque este prédio é meu, este escritório é meu. E você não devia estar nele.

Ao vê-la empalidecer, Rollo sentiu seu estômago se revirar.


Ela estava assustada; talvez não fosse a criminosa experiente que ele imaginara.
Ainda assim, ela era culpada.
Culpada de saber o poder de sua beleza, de explorá-la para enganar e desarmar.
Ele já conhecera mulheres como ela. Uma em especial, que não tivera o menor pudor em
mentir e manipular aqueles à sua volta, ainda se fazendo de vítima.
— Eu estava curiosa. Só queria dar uma olhada.
— Entendo — falou ele de forma sarcástica. — Mesmo assim, não acendeu as
luzes? Deve ter uma visão noturna extraordinária.
— Não acendi porque achei que alguém veria — respondeu ela rapidamente.
Ele estava perto demais, o calor e o cheiro de seu corpo bagunçando a cabeça
dela.
— Sei que este andar tem acesso restrito, mas já trabalhei aqui algumas vezes e
queria ver...
Ela parou. O que ela poderia querer ver num escritório às escuras?
Ela olhou desesperadamente para os arranha-céus acesos.
— A cidade. À noite. Todo mundo diz que a vista daqui é incrível.
— Como você chegou até este andar?
Daisy engoliu em seco. Não complique, disse a si mesma.
— Não sei. Só apertei uns botões.
A cabeça dela estava começando a doer. Era hora de bater em retirada. David
entenderia. Juntos, eles poderiam pensar em outra maneira, menos humilhante, de
devolver o relógio de Rollo Fleming.
— Olhe, sr. Fleming. Sinto de verdade por ter subido até aqui, está bem? Foi uma
má ideia... um erro... e juro que não vai se repetir. Se você puder simplesmente esquecer
que estive aqui, eu ficaria muito agradecida.
Houve um tenso silêncio enquanto ele a olhava fixamente.
— Daisy. Bonito nome... Antiquado. Meigo. Decente.
Ele sorriu, e o sorriso a fez sentir um calafrio.
— Uma pena que você não faça jus a ele.
— Não sei o que está querendo dizer.
— Então, vou explicar. Tive um longo dia...
Não apenas longo, mas frustrante e fracassado. O acordo era generoso; ele
oferecera muito mais do que o valor de mercado do edifício. Mesmo assim, James
Dunmore o rejeitara mais uma vez.
Dunmore não gostava dele, de sua reputação de ser implacável e mulherengo. Por
isso, não queria fazer negócio. Porém, fazia 17 anos que Rollo queria aquele edifício e
não desistiria agora.
Se ao menos ele pudesse convencer Dunmore de que mudara...
Chame logo a segurança, disse ele a si mesmo.
Não havia motivo para que ele lidasse com aquilo.
Contudo, ao olhar para Daisy, Rollo sentiu seu corpo se retesar.
Havia, sim.
Um lindo motivo de olhos castanhos, com um corpo que fazia um uniforme
totalmente sem graça parecer elegante e sensual.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Ela tentara prender seu comprido cabelo loiro num rabo de cavalo, mas ele estava
se soltando, e, para sua própria irritação, Rollo se flagrou querendo soltá-lo ainda mais.
Quase conseguia imaginar a sensação de tê-lo em suas mãos, a maneira como ele
penderia para a frente quando eles se beijassem, as sedosas mechas tocando o rosto
dele...
Abruptamente, ele ergueu a cabeça, seus olhos brilhando.
— Como eu dizia, tive um dia longo e difícil...
— Então, acho melhor eu deixá-lo em paz. — Com o coração disparado, Daisy
recuou. — Preciso mesmo voltar ao trabalho.
— Acho que não.
Ele segurou o punho dela, seu toque escaldando a pele de Daisy.
— Você não vai a lugar algum sem me dizer a verdade.
— Ei, me solte. Eu já disse a verdade!
— Chega!
A voz dele foi ríspida, decisiva.
— Tudo que você fez foi mentir desde que abriu a boca. A maioria dos homens
pode cair nessa sua farsa de menininha inocente perdida, mas não me incluo nessa
maioria. Então, pare de fazer beicinho e diga o que está fazendo aqui.
— Não estou fazendo beicinho. — Ela libertou o braço. — E a maioria dos
homens... dos homens razoáveis e decentes... não me interrogaria por causa de um erro
honesto.
Ele riu sem humor.
— Honesto? Duvido que você conheça o significado dessa palavra.
Ela cerrou os punhos.
— O fato de você ser um magnata bambambã dos imóveis não lhe dá o direito de
me condenar. Não estou sendo julgada.
— Não. Mas será. Com acusações de invasão, tentativa de roubo...
— Eu não vim aqui roubar ninguém. Se quer saber, vim para...
— Para o quê?
Ela o olhou fixamente, muda, paralisada, horrorizada ao perceber como chegara
perto de dedurar David. Numa fração de segundo, ela passou correndo por Rollo. Mas ele
era rápido demais, e seu braço já estava envolvendo a cintura dela, puxando-a para os
rígidos músculos de seu peito.
Foi como um choque elétrico. Por um instante, Daisy se esqueceu de tudo. Tudo
menos o feroz calor que percorria seu corpo.
— Solte. — Irritada, revoltada — mais com a reação inadequada de seu corpo do
que com o fato de ele segurá-la –, ela começou a socar o braço de Rollo, mas ele
simplesmente ignorou os golpes e a puxou para perto.
— Pare com isso — disse ele friamente. — Não está melhorando as coisas para
você.
— Você está me machucando.
— Então, pare de resistir.
Ele firmou o braço em torno dela, seu abdômen pressionando as costas de Daisy.
— O que você tem na mão?
Sem o menor esforço, ele arrancou o cartão de segurança de David da mão dela,
que estava oculta dentro do avental.
Daisy sentiu seu estômago se contrair fortemente enquanto os olhos dele
percorriam o cartão.
— Onde conseguiu isto?
Ele estava furioso. Mais do que furioso.
— Encontrei no chão.
— Claro!

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

O desdém na voz dele cortou a pele dela como uma faca. Ela estava sentindo falta
de ar. A raiva dele a estava dominando.
— Eu... Deve... Alguém deve ter deixado cair.
Rollo balançou a cabeça.
Ele suportava as mentiras dela. Até mesmo entendia por que ela estava mentindo.
No entanto, não conseguia suportar as mentiras que giravam dentro de sua mente.
Mentiras do passado. Conversas entre seus pais. A mãe dele indo de uma história a
outra, mudando verdades...
Subitamente, ele simplesmente queria que tudo terminasse. Queria aquela mulher
fora de seu escritório, de sua vida.
— Sei que a impressão que isso passa é ruim — disse ela, hesitante. — Mas eu
não estava fazendo nada de errado. Você precisa acreditar...
— Acho que nós dois sabemos que é meio tarde para isso — respondeu ele,
irritado.
Ele não confiava nela, e por um bom motivo. Desde cedo, a vida lhe ensinara que
não havia nada mais engenhoso e perigoso que uma mulher encurralada.
— Estou cansado. E esta conversa terminou.
Ele pegou o celular.
— Como assim? Para quem você está ligando? Não, por favor...
Ele sentiu seu estômago se revirar com o desespero na voz dela, mesmo
dominado pela raiva. Ela continuaria mesmo com aquela farsa de que fora até ali apreciar
a vista?
— Eu lhe dei a chance de dizer a verdade. Que você veio aqui roubar...
— Mas eu não vim. — A voz dela estava rouca de emoção. — Admito que menti.
Mas juro que não sou uma ladra.
Ele a olho fixamente. Seria fácil acreditar nela. Ela soava tão convincente. Porém,
Rollo lembrou como ela lutara com ele pelo cartão. Nos olhos dela, havia tensão, pavor.
Mas por quê? O que ainda restava para ela temer?
Ele se postou diante dela lentamente, seu poderoso corpo bloqueando a saída de
Daisy.
— Prove. Esvazie os bolsos — falou ele seriamente. — A menos que queira que eu
faça isso para você.
Ela recuou, seus olhos se arregalando com uma inconfundível culpa, o rosto pálido
de choque e incerteza.
— Está me ameaçando?
— Não sei. Está se sentindo ameaçada?
Daisy engoliu em seco. Sim, estava. Mas como ela podia fazer o que ele pedia? Se
ele visse o relógio... o relógio dele... ela não sairia daquele escritório de jeito nenhum.
— Posso explicar... — As palavras dela, contudo, vacilaram, pois Daisy se deu
conta de que não podia.
Rollo a olhou em silêncio. Uma repentina e vívida lembrança de sua mãe dizendo
exatamente aquelas palavras surgiu em sua mente.
— Tenho certeza de que pode. Mas acho que já ouvi historinhas demais para uma
noite.
As palavras dele a fizeram gelar.
— Mas não se preocupe. Tenho certeza de que outra pessoa as achará muito mais
divertidas. Como a minha equipe de segurança. Podemos ir falar com eles agora mesmo.
Estão lá embaixo, com David... seu irmão. Esperando para levar vocês à delegacia.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Capítulo 2

Daisy o olhou fixamente, horrorizada.


— O que David tem a ver com isso?
Entretanto, ela sabia que não adiantaria mais fingir.
Rollo sabia de tudo.
— Você sabe que...? Que David...?
— Que seu irmão furtou meu relógio? Soube no dia em que ele o roubou. Meu
escritório tem câmeras de segurança. Seu irmão foi filmado.
Ele soubera desde o início. Mesmo antes de ela ter juntado forças para entrar no
elevador. Estivera observando, esperando...
— Por favor...
A voz dela soou totalmente errada, aguda e arfante. Mas talvez fosse porque ela já
não era mais Daisy Maddox, mas uma criminosa anônima. Pensar nisso fez o medo se
cristalizar sob a pele dela como gelo.
— Por favor, não faça isso. Sei que a impressão que passa é péssima. Mas, se
puder me dar cinco minutos...
Ele semicerrou os olhos.
— Acho que você já desperdiçou mais que o suficiente do meu tempo.
— Mas você não sabe a história toda.
— História? Uma fantasia! Guarde para seus advogados. Eles serão pagos para
ouvir mentiras. Eu não sou.
As palavras de desprezo dele venceram o pânico dela. Aquele homem era um
monstro! Não entendia o esforço que ela precisara fazer para invadir o escritório dele?
Subitamente, todo o corpo dela ficou rígido, vibrando de raiva.
— Eu devia ter imaginado que alguém como você se importaria só com o dinheiro
mesmo — disparou ela.
— Alguém como eu? Um cidadão de bem?
— Um homem sem coração.
— Não preciso de coração para reconhecer um ladrão.
— David não é ladrão.
— Quer dizer que ele não roubou meu relógio?
— Não... digo, sim. Mas foi um erro...
— Tenho certeza de que as cadeias estão cheias de pessoas que dizem a mesma
coisa.
— Não, você não está entendendo...
— E nem quero. Os motivos de seu irmão não me interessam, apenas a culpa dele.
E a sua.
— Minha culpa?!
— Olhe, posso não ter coração, mas tenho cérebro. Você não subiu até aqui por
acidente, nem para apreciar a vista. Veio ver o que mais podia roubar...
— Não. Não foi isso.
— Foi, sim. Como o que está nesses seus bolsos irá demonstrar quando
descermos.
Ela o olhou, perplexa. Finalmente algo lhe ocorrera. Uma maneira de corroborar
sua história. Desesperadamente, ela mexeu no bolso de seu avental e retirou o relógio.
— Não entrei aqui para roubar. Vim devolver isto.
Rollo mal se dignou a olhar o relógio. Seus olhos estavam fixos no rosto dela.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

— Isso não prova nada. Ou melhor, como contradiz tudo que você acabou de
afirmar, apenas confirma que você, além de ladra, é mentirosa!
As mãos dela estavam trêmulas.
— Não sou ladra.
— Ao contrário de certas pessoas, eu prefiro dizer e ouvir a verdade.
— Nesse caso, vou dizer. Desde que você entrou por aquela porta, tudo que fez foi
me ameaçar e tentar me intimidar.
— Então, ligue para a polícia — disse ele, oferecendo o telefone. — Vamos. Pode
ligar.
Avançando, ela pegou o celular.
— Certo. Vou ligar — rosnou ela. — Ao menos assim não vou mais ter que ficar
com você.
— Não seja tão infantil.
Havia uma tensão na voz dele que ela não ouvira antes.
— Não estou sendo infantil. Você vai ligar para eles de qualquer forma. Então, de
que importa?
Os olhos deles se encontraram. Os dela, furiosamente petulantes; os dele, frios e
distantes. Então, Daisy sorriu desdenhosamente.
— Ah, entendi. Você queria fazer isso. Sendo assim, quem está sendo infantil
agora?
Rollo suspirou. A teimosia dela o enfurecia. Contudo, uma parte dele não deixava
de admirá-la.
— Você não quer fazer isso, Daisy.
— Você não sabe o que eu quero. Não sabe nada sobre mim e David.
— Então, conte.
Daisy o olhou em silêncio. Por que ele estava lhe oferecendo uma chance de falar
agora?
— Por quê? Para você usar isso contra David?
— Depende do que você vai me dizer. Até agora, tudo que sei sobre seu irmão...
além do fraco que ele tem por relógios caros... é que trabalha no departamento de
Aquisição e Desenvolvimento. E que é alto e cheio de tiques nervosos...
— Ele não é cheio de tiques. Só está um pouco nervoso.
— Pessoas culpadas costumam ficar assim.
Não havia uma maneira rápida e fácil de refutar aquela afirmação.
— Ele não é nenhum mestre do crime. É tímido e tem dificuldade de fazer amigos.
— Talvez fosse mais fácil se ele não roubasse das pessoas.
— Foi um erro. — A voz dela ficou aguda de irritação.
— É o que você não para de dizer. Mas um erro é quando você se esquece de
carregar o celular. Não quando pega propositalmente algo que não é seu. Isso se chama
roubo.
— Nem sempre. — Ela olhou diretamente nos olhos dele, endireitando os ombros,
preparada para a batalha. — Às vezes, isso se chama “pagar o aluguel”.
Desta vez, Rollo soube que ela estava falando a verdade. Claramente, David
Maddox não era nenhum mestre do crime. E fora por isso que Rollo pedira que
investigassem os antecedentes dele, em vez de simplesmente demiti-lo.
Menos de meio dia depois, um arquivo chegara à mesa dele. Histórico de saúde,
acadêmico e profissional. E uma linha indicando a existência de uma irmã gêmea que, por
acaso, trabalhava na equipe de hospedagem da Fleming Organization.
Ao olhar para o rosto dela, Rollo começou a se sentir mais calmo, desequilibrado,
como se tivesse bebido. Ela fora apenas isso. Uma linha em um relatório. Um nome sem
um rosto.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Contudo, nenhuma palavra teria sido capaz de descrever a beleza e a audácia de


Daisy. Nem a maneira como seus olhos ficavam ternos quando ela falava de seu irmão.
Nem aquela minúscula dobra que surgia na testa dela quando ela estava com raiva.
Subitamente, mais do que tudo, Rollo quis tocar o rosto dela, e continuar tocando,
os dedos deslizando pela macia pele do pescoço, descendo ainda mais até as fartas
curvas dos seios e da cintura...
Ele sentiu seu corpo ganhar vida... a virilha se contraindo.
Ao assistir ao vídeo de Daisy invadindo seu escritório, ele a achara linda, embora
gananciosa, uma mulher que achava que as regras não se aplicavam a ela. E aquilo o
deixara com tanta raiva que ele deixara o protocolo de lado e convencera sua equipe de
segurança a permitir que ele lidasse pessoalmente com ela.
Agora, porém, ali estava ela, segurando o celular dele como um amuleto para
expulsar o mal, e ele não conseguia se apegar à sua raiva. Sentia-se apenas tenso,
quase irritado com a burrice inconsequente dela.
Ela pensara mesmo que fosse escapar?
Ele jamais teria acreditado nas mentiras dela.
Ou talvez sim.
Os músculos dele se contraíram quando a verdade o atingiu com tudo. Se ele não
a tivesse visto entrar ali pelo vídeo, teria acreditado em cada palavra dela, em cada olhar
hesitante. Ele estaria comendo na mão dela.
Essa ideia devia tê-lo deixado com asco. Em vez disso, fez a pulsação de Rollo
acelerar. Lenta e milagrosamente, ele se deu conta de que talvez tivesse encontrado uma
maneira de fazer James Dunmore mudar de ideia.
— Obviamente, eu adoraria ouvir suas opiniões sobre o mercado imobiliário, mas,
no momento, acho que devíamos falar de você.
Ela o olhou, desconfiada.
— Por quê?
Ele deu de ombros.
— Estou curioso. O que você faz quando não está invadindo escritórios?
— Por que quer saber? — disparou ela. — Claramente, você já decidiu que David e
eu somos uma espécie de Bonnie e Clyde. Nada que eu disser vai mudar isso.
— Tente. O que você tem a perder?
Prendendo o fôlego, Daisy observou, fascinada, enquanto ele abria o primeiro
botão da camisa, afrouxando a gravata para revelar um triângulo de pele lisa e dourada.
Irritado, Rollo Fleming era formidável, mas Daisy estava começando a perceber
que a raiva não era a arma mais eficaz do arsenal dele. Seu charme era muito mais letal.
— Você disse que não estava interessado.
— E você disse que eu não tinha coração.
O olhar dele repousou sobre o rosto de Daisy, indecifrável, e o coração dela
palpitou.
— O que está dizendo?
— Estou dando a oportunidade de você se redimir. E fazer o mesmo por David,
claro.
Ele esperou até que ela finalmente suspirasse.
— Não há muito a dizer. Tenho 25 anos. Moro com meu irmão, que é gêmeo. E
sou garçonete. — Os olhos dela faiscaram. — Apenas uma garçonete. Mas não por
opção. Na realidade, sou atriz, só que, no momento, estou desempregada. E é isso. Eu
disse que não era muito.
Rollo a observou. O rosto dela estava corado, seus olhos o desafiavam.
— Depende do que você considera “muito”.
Daisy o olhou, arisca. Algo estava acontecendo ali, silencioso, oculto.
Ela semicerrou os olhos.

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— O que você quer?


Ele sorriu.
— Podemos dizer que acho que encontrei um jeito de todos nós deixarmos esse
infeliz incidente para trás.
Um medo renovado cresceu dentro dela.
— Não vou fazer sexo com você, se é isso que está querendo. Prefiro vender meus
rins!
— Acredito que as pessoas vendam apenas um. E não se ache tanto, srta.
Maddox. Como qualquer homem, gosto de uma mulher algemada, mas não por ela ter
sido presa.
Daisy mordeu a língua.
— Então, o que você quer, afinal?
Depois de observá-la em silêncio, ele finalmente sorriu... um sorriso que tirou o
fôlego de Daisy.
— Quero que você seja minha esposa.
Houve um momento de puro e absoluto silêncio.
Ela o olhou, chocada, tentando entender. Além de um megalomaníaco de sangue-
frio, Rollo também seria louco?
— Desculpe. Devo ter entendido errado. Achei que você tivesse dito que...
— Quero que você seja minha esposa. Você ouviu corretamente.
Arfando, Daisy levou a mão à testa.
— Do que está falando?
Devia ser algum tipo de truque, uma armadilha... Ela olhou à volta, buscando uma
explicação. Entretanto, ao olhar novamente nos olhos dele, sentiu um calafrio.
Ele estava falando sério!
— Você mal me conhece. E odiamos um ao outro. Por que iria querer se casar
comigo?
— Por que não se senta para conversarmos direito sobre isso?
Daisy abriu a boca para protestar, mas ele já estava passando por ela e se
sentando atrás da imensa mesa de tampo de vidro. Ele parecia calmo, relaxado, como se
sempre pedisse em casamento a mão de mulheres que invadiam seu escritório. Seus
olhos, porém, estavam alertas, predatórios.
— Vamos. Sente-se. Eu não mordo.
Não era um convite. Nem uma ordem. Era um desafio.
Ela empinou o queixo.
— Certo. Mas não vejo que diferença isso vá fazer. Ninguém se casa com um
completo desconhecido.
— Será verdade mesmo? Muitas noivas ao redor do mundo conhecem o marido
apenas no dia do casamento.
— Sim. Se for um casamento arranjado.
— Mas o nosso será. — Ele sorriu. — E sou eu quem vai resolver tudo.
Daisy sentiu sua pele esquentar; sua cabeça estava girando.
— Não seja ridículo. Você não vai resolver nada. Olhe, você não pode se casar
comigo. Então, por que está fingindo que pode? — Ela o olhou, confusa. — Você acha
que isso é brincadeira? Um jeito de me punir por...
Ao olhar para ele, ela sentiu suas palavras desaparecerem. Durante um longo
momento, ele a observou em silêncio. Então, curvando-se à frente, ele fixou seus olhos
nela com uma intensidade que a escaldou.
— Se eu quisesse punir você, pensaria em algo muito mais... divertido.
Tudo dentro dela se contraiu, uma formigante excitação a percorrendo enquanto
ele sorria.
— Para nós dois.

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Um ardente calafrio subiu pela espinha dela. O coração dela estava acelerado
demais, um estranho latejamento correndo por baixo de sua pele. Num esforço para
quebrar o feitiço do olhar dele, Daisy cravou as unhas com força nas palmas de suas
próprias mãos.
— Você não pode simplesmente dizer a uma pessoa que vai se casar com ela. Não
é assim que funciona.
— É se você quiser que seu irmão não perca o emprego. E, acima de tudo, que
não vá para a cadeia.
Antes mesmo de Daisy se dar conta de que se mexera, ela já estava em pé,
curvada sobre a mesa dele, todo o seu corpo trêmulo de choque e raiva.
— Seu suíno desgraçado! Isso é chantagem e...
— É, sim.
Ele não estava nem envergonhado!
— Por que você está tão descontrolada com isso? — Ele a olhou calmamente.
— Por quê? Por quê?! Talvez por ser bizarro e errado.
O calor não deixava a pele dela. Ela não conseguia expulsar o tremor de sua voz.
— Você está explorando cinicamente a situação para se beneficiar.
Ele franziu o cenho.
— Você está sendo melodramática. Um casamento entre nós será mutuamente
benéfico. Quanto à moralidade de chantagear uma ladra e mentirosa, não sei se temos
tempo para discutir isso no momento. Então, por que não se acalma?
Ele esticou os braços atrás da cabeça, alongando os ombros.
— Sente-se — falou ele com autoridade. — Não expliquei direito. Preciso me casar
com você, mas, na prática, você vai apenas fingir ser minha esposa.
Ela sentiu uma onda de esperança.
— Tipo uma jogada de marketing? Para a sua empresa?
— Não. Teremos que nos casar legalmente.
— Por que não podemos só fingir?
— Isso não vai funcionar. Não pode apenas parecer que estamos casados. Precisa
ser oficial.
— Mas ninguém precisa tanto de uma esposa assim. Não às duas da manhã.
Ele deu de ombros.
— Eu preciso.
— Mas por quê?
— Isso não lhe diz respeito. — A voz dele ficara fria.
Ela o olhou fixamente, sentindo que, em algum lugar, uma porta estava se
fechando. Logo não haveria como fugir daquela confusão.
— Certo. Mas não vou me casar com ninguém... especialmente você... se não me
disser por que precisa de uma esposa.
Não era apenas curiosidade. Ela precisava se afirmar. Precisava que ele soubesse
que ela não era uma marionete.
— Não preciso de detalhes. Pode ser curto e simples.
Ele deu de ombros.
— Estou tentando fechar um acordo. De um edifício que quero comprar. O dono é
conservador... sentimental. Só vai vender para alguém em que ele confie. Alguém que ele
acredite que tenha os mesmos valores dele. Preciso que ele confie em mim e, para isso,
ele precisa ver meu lado mais terno, mais suave. O casamento é o jeito mais simples de
demonstrar isso a ele.
Ela suspirou. Havia uma certa lógica deturpada no argumento dele.
— Mas certamente eu não devo ser a única solução. E se você não tivesse me
encontrado no seu escritório? O que iria fazer?
— Mas encontrei. E você é perfeita.

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O coração dela disparou. Daisy se sentiu corar.


— Eu... sou?
Rollo sentiu sua virilha se contrair, seu corpo reagindo não apenas à hesitante
pergunta dela, mas ao rubor no rosto dela. Ela o deixava em chamas.
E fogo era algo perigoso.
Ele suspirou lentamente.
— Sim. Você é solteira. E é atriz. Mas, principalmente, acima de tudo, posso
acreditar que você vai me obedecer.
Daisy empalideceu.
— Obedecer? — As mãos dela estavam trêmulas.
— É fácil encontrar atrizes desempregadas. Mas preciso de alguém confiável. E,
como a liberdade e o futuro do seu irmão estão nas minhas mãos, acredito que possa
contar com sua total discrição.
Seria assim que as pessoas chegavam ao topo nos negócios? Aproveitando-se de
todas as situações, independentemente do dano colateral?
— Mas, claro, se preferir tentar a sorte com a polícia...
Daisy estava sentindo se sentindo arrasada.
— Quanto tempo isso duraria? — perguntou ela apaticamente.
— Um ano. Depois, cada um seguiria seu caminho.
Ele falava como se fosse tão simples. Um relacionamento descartável. Um
casamento descartável. Talvez fosse simples assim para ele, já que seu cérebro
claramente trabalhava de forma diferente do ela.
Ela sentiu um aperto no coração. Era tão diferente do casamento que ela sempre
imaginara...
Daisy endireitou o corpo, levantou a cabeça, uma faísca de petulância despertando
dentro dela.
— E você não vê problema nisso? Foi assim que sempre imaginou seu
casamento?
Por um instante, Rollo olhou pela janela, duelando em silêncio com o pânico e a
sensação de impotência despertados por aquela conversa. A resposta mais simples seria
não. Não por ser um casamento falso, sem sentimento, mas porque ele nunca se
imaginara casado.
Por que se casaria? Ele sabia que as pessoas não eram capazes de se satisfazer
com apenas um parceiro. E certamente não acreditava que o casamento representava
amor ou dedicação.
O comportamento de sua mãe lhe provara isso diversas vezes, destruindo
lentamente a família e o pai dele.
Contudo, um casamento com Daisy seria totalmente diferente. Seria
cuidadosamente controlado por ele, e não haveria risco de dor ou humilhação, pois isso
exigiria uma dependência emocional que estaria ausente no relacionamento deles. Na
realidade, as vidas deles só precisariam se misturar em público.
Mais calmo, ele se virou para ela.
— Não posso dizer que gastei muito tempo pensando no assunto. Pessoalmente,
nunca vi sentido em assumir um compromisso tão emocionalmente carregado e nada
realista.
— Que romântico! Você diz isso para todas as mulheres que namora, ou só para
as que você chantageia?
Ele a olhou, inabalado, mas seus olhos haviam escurecido, fazendo Daisy perder o
fôlego.
— Nunca prometo nada a ninguém com quem eu saio. Mas não precisa se
preocupar com elas. Elas querem o que eu quero. São mulheres independentes que

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gostam de fazer sexo. Comigo. E posso lhe garantir que elas ficam perfeitamente
satisfeitas com o acordo.
— Vou ter que acreditar na sua palavra. E, só para deixar claro, se eu virar mesmo
sua esposa, vou fazer meu papel em público, mas nosso relacionamento não vai se
estender até o quarto. Você pode se satisfazer sozinho.
Ao ver a irritação nos olhos dele, Daisy sentiu um repentino espasmo de
esperança. Claramente, ele não pensara em tudo.
Sendo assim, talvez não fosse tarde demais para fazê-lo mudar de ideia.
— Olhe, sei que você não quer ouvir isso, mas tem certeza de que vamos
conseguir manter essa farsa? Pense só. Somos completos estranhos um para o outro. E
nunca vamos fazer sexo. Então, como vamos enganar todo mundo para que pensem que
somos um casal apaixonado que não se desgruda?
Daisy sentiu uma contração dentro de si. Era uma descrição perfeita do
relacionamento dos sonhos dela. O que ela tentara tanto criar com cada um de seus
namorados... e fracassara.
— Não acredito que isso será problema.
Ele se levantou; seu corpo perturbadoramente, poderosamente musculoso e
másculo no confinamento daquele escritório.
— Então, acho que você está sendo muito ingênuo — disse ela com mais
confiança do que sentia, enquanto ele contornava lentamente a mesa na direção dela. —
Provavelmente, eu conseguiria. Ao menos em público. Mas sou uma atriz treinada. O que
você está pedindo não é tão fácil quanto parece. Pense em todos os filmes que são
fracassos de bilheteria porque os dois protagonistas não têm química...
Ela deixou de falar quando ele parou diante dela e levantou a mão.
— Precisamos ir — disse ele tranquilamente. — A equipe de segurança vai fazer a
troca de turno em breve, e acho que nós dois já respondemos a perguntas
constrangedoras suficientes demais hoje.
Daisy se levantou, mas se arrependeu imediatamente, pois, de repente, eles
estavam um de frente para o outro, a poucos centímetros de distância. Ao olhá-lo, ela
sentiu sua pele se retesar e esquentar.
— Do que estávamos falando? — perguntou ele suavemente. — Ah, sim. Nossa
química.
— Simplesmente não existe — falou ela apressadamente, tentando não inspirar o
cheiro refrescante e másculo do corpo dele. — Acredite, não dá para inventar isso para as
câmeras. Tem que ser real.
Rollo permitiu que o silêncio se estendesse entre eles. Ele se perguntou se ela
sabia que seu corpo estava contradizendo suas palavras. Que suas faces estavam
coradas, que seus lábios estavam entreabertos de forma convidativa.
— Bem, isso não vai funcionar se não convencermos as pessoas — disse ele. —
Fico me perguntando... Como testaríamos isso? Se fosse um trabalho cenográfico de
verdade.
— Provavelmente, um teste.
Aproximando-se, ele sorriu.
— Que boa ideia... — murmurou.
Lentamente, ele baixou a cabeça e a beijou nos lábios.
Por uma fração de segundo, ele a sentiu ficar tensa. Então, a boca de Daisy se
suavizou sob a dele, e ela reagiu ao beijo...
Daisy segurou a camisa dele. Sabia que devia sentir repulsa ao toque dele. Ele era
seu inimigo, um chantagista. Contudo, em vez disso, ela sentiu seu corpo entrar em
chamas quando ele aprofundou o beijo.

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Um choque a percorreu, e as mãos dela subiram para segurar os braços dele,


cravando as unhas nos músculos. Ela o sentiu reagir, ouviu a respiração dele acelerando,
sentiu seu próprio fôlego se esvaindo...
Então, subitamente, ele afastou a boca e suspirou.
— O que você tinha dito mesmo? Ah, sim. Que precisava ser real. — Ele sorriu,
afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Eu diria que isso foi bem real.
Daisy o olhou, perplexa. Seu coração martelava dentro do peito. Chocada e um
tanto envergonhada, ela se deu conta de que ainda segurava o braço dele e o soltou
lentamente.
— Então... Última chance. Eu? Ou a polícia?
A franqueza da pergunta dele foi como um soco no rosto dela. Se fosse apenas
ela, Daisy não teria hesitado. Teria recusado imediatamente. Ele era implacável, um
homem de sangue-frio. O relacionamento que ele estava sugerindo seria uma deturpação
de tudo em que ela acreditava. Sendo assim, por que ela estava pensando na
possibilidade de se casar com um homem que ela odiava, com quem ela não
compartilharia nada além de uma mentira?
Porque não era apenas por causa dela. Havia outras pessoas a serem levadas em
consideração. Não apenas David, mas os pais dela também.
Antes que Daisy pudesse mudar de ideia, ela olhou nos olhos dele e respondeu
rapidamente:
— Você.
Ele abriu um sorriso triunfante que a fez entrar em pânico. Mas ela estava
envergonhada demais para se importar. Pois sua decisão não fora tomada apenas por
amor e lealdade, mas também porque estar com Rollo significaria que, apenas por um
tempo, ela poderia esquecer Daisy Maddox e seus fúteis sonhos de amor verdadeiro.
Pois, no momento, encontrar o homem certo era muito mais assustador do que pensar em
fingir tudo com o errado.
— Ótimo. Então, é melhor irmos.
— Quero ver David...
— Outra hora. Ele precisa ir para casa. E você precisa vir comigo. Para o Upper
East Side. Seu lar pelos próximos 12 meses.

Capítulo 3

Não estou nada pronta para isso, pensou Daisy uma hora depois, enquanto seguia
Rollo para a entrada da cobertura dele em Park Avenue.
David fora levado para casa e recebeu ordens de tirar alguns dias de folga. A
ausência dela fora explicada com uma farsa improvisada de que ela fora chamada para
um papel num teatro na Filadélfia.
Talvez Daisy tivesse entrado em pânico antes, mas ela ficara tão distraída com a
sensação do beijo dele que mal registrara a jornada até ali. Ela simplesmente ficara em
silêncio no carro, relembrando o momento em que os lábios dele haviam tocado os dela.
Agora que ela estava num corredor basicamente do mesmo tamanho do
apartamento de David inteiro, Daisy sentiu um misto de choque e dúvida, como um
astronauta fazendo um pouso forçado num planeta alienígena desconhecido.
Não parecia real. Certamente não parecia mais a vida dela.

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Ao olhar para uma das paredes, ela franziu o cenho. Uma das pinturas lhe parecia
familiar...
— É de Pollock. Um dos primeiros trabalhos dele.
A pulsação dela disparou.
Rollo tem um quadro original de Jackson Pollock!
Ela sabia que ele era rico, mas aquela era uma obra de arte verdadeira, do tipo que
era vendida por milhões de dólares num leilão. E estava na entrada do apartamento dele.
— David adora as pinturas dele.
— Pessoalmente, acho que elas têm informação demais. Mas não fui quem
escolhi. Foi meu curador. Ele acha que esses quadros têm o maior potencial de
valorização.
Daisy franziu o cenho.
— E é isso que importa, não é? Eles renderem dinheiro a você? Não prazer?
Preguiçosamente, os olhos dele percorreram o rosto dela de uma maneira que fez
Daisy se contorcer por dentro.
— Para mim, os dois costumam ser a mesma coisa. Vamos entrar?
Ela inspirou e assentiu lentamente.
Momentos depois, Daisy ficou de queixo caído quando entrou na área de estar de
conceito aberto.
O recinto era enorme e opulento. Ao olhar para o lado, ela viu uma linda pintura a
óleo de uma mulher observando as ruínas de uma colunata. Parecia mítica, talvez grega
ou romana. Talvez a mulher tivesse encontrado o lugar onde os deuses viviam. Se fosse
esse o caso, Daisy sabia exatamente como ela se sentia.
— Bem-vinda ao seu novo lar. Não vou mostrar tudo agora, mas é claro que esta é
a sala de estar. A cozinha fica ali. Caso você sinta fome à noite.
Com os olhos vagando nervosamente de um lado para o outro, Daisy estava
tentando lembrar por que exatamente ela aceitara ir morar com ele.
Parecera fazer sentido antes. Ela iria morar ali, eles passariam algum tempo se
conhecendo melhor e, depois, anunciariam o noivado.
Mas o que passara pela cabeça dela? Ela não conseguia se imaginar morando
naquele apartamento, muito menos com Rollo, fingindo ser a esposa dele.
Como se estivesse lendo os pensamentos dela, ele tirou paletó e olhou nos olhos
dela.
— Você vai se acostumar.
— Vou?
Tudo era tão grande e brilhante...
— Imagino que sim... se quiser manter seu irmão fora da cadeia.
Instantaneamente, o medo dela se evaporou, sendo substituído pela raiva.
— Você é mesmo um canalha. Para que dizer isso? Já falei que estou de acordo.
Deixe David fora disso.
Ela balançou a cabeça.
— Não o entendo. Isso não o incomoda de jeito nenhum? O fato de que vamos ter
que mentir? E continuar mentindo para tanta gente? Não só contar mentiras, mas também
viver uma mentira?
Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— Você passou a noite inteira mentindo para mim, Daisy. Mais alguns meses não
farão muita diferença.
Os olhares deles duelaram. Daisy engoliu em seco, sentindo-se presa, odiando-o
pela maneira como ele distorcia tudo para fazê-la parecer a vilã.
— Você não tem nenhuma compaixão?

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— Em geral, sim. Especificamente por você, não. Você causou isso a si mesma.
Você e seu irmão. Além do mais, francamente, com ou sem mentiras, acho difícil acreditar
que morar num tríplex em Manhattan vá ser uma grande dificuldade para você.
— Se você diz...
Estava claro que ela estava perdendo seu tempo. Claramente, Rollo era imune ao
conceito da culpa. E, subitamente, ela se sentiu cansada demais para discutir.
— Você se importa se eu me sentar? — Sem esperar uma resposta, ela desabou
no sofá mais próximo, abafando um bocejo. — Algo mais? Se não, gostaria de tomar um
banho quente e ir para a cama.
Cama!
Rollo sentiu aquela palavra atingir seus sentidos. Apenas quatro letras... um lugar
onde dormir. Entretanto, pronunciada por Daisy com aquela voz rouca, a palavra parecia
indicar lençóis bagunçados e corpos se movimentando lentamente à meia-luz.
Ao olhar para ela, recostada nas almofadas, Rollo sentiu seu corpo enrijecer. Ela o
olhava com aqueles olhos cor de café, que conseguiam estar sonolentos e sedutores ao
mesmo tempo.
No escritório, ele a achara linda. Agora, porém, com uma roupa casual, ela estava
ainda mais sensual do que qualquer mulher que ele já vira na vida.
Talvez fosse a curva do traseiro dela por baixo do justo jeans, ou o vislumbre da
pele nua onde o folgado suéter dela pendia do ombro.
A pele nua que ela logo estaria ensaboando no segundo andar, no chuveiro.
Pensar nela nua, a água escorrendo por seu corpo, foi tão tentador que Rollo
perdeu o ar.
Era inegável que Daisy era desejável. Contudo, aquela era uma oportunidade única
de conseguir o que ele queria de James Dunmore. Ele precisava tomar cuidado para não
se distrair com a beleza e a atração sexual dela.
— Não. Todo o resto pode esperar... até de manhã.
Daisy adormecera. Por um instante, ele a observou em silêncio, como se a
estivesse vendo pela primeira vez; uma Daisy mais jovem, mais vulnerável. Alguém que
precisava de proteção.
Aquilo o atingiu profundamente. Por que não havia ninguém cuidando dela? A
família, o irmão, os pais? Agora, ela era responsabilidade dele.
Responsabilidade. A palavra se alojou na garganta dele como uma espinha de
peixe. Sentir-se responsável não fazia parte da equação quando ele pensara na ideia de
se casar com Daisy. Aquilo o deixava tenso, pois gerava um compromisso, um vínculo
entre eles.
No entanto, seria mesmo algo tão complicado assim? Todas as transações de
negócios precisavam de um vínculo para dar certo. E era apenas isso. Uma transação.
Suspirando, ele pendurou o paletó no ombro dela. Daisy mudou de posição,
murmurando, mas não acordou. Depois de uma última olhada, Rollo se virou e se afastou
lentamente.

Ao acordar, Daisy demorou para se dar conta de onde estava. Grogue, ela sentiu a
luz do dia, perguntando a si mesma por que se esquecera de fechar as cortinas de seu
quarto. Então, seus olhos se abriram de súbito e ela ficou paralisada, recordando-se
exatamente de onde estava. E do motivo.
Ela se sentou. Olhou pela gigantesca sala. Não havia sinal de Rollo, mas ela
conseguia sentir a presença dele.
Ao baixar o olhar, ela entendeu o porquê. Ele a cobrira com seu paletó enquanto
ela dormia. Hesitante, ela pegou o paletó e inspirou o cítrico perfume da colônia dele.

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Pensar nos frios olhos verdes dele observando-a enquanto ela dormia a fez se
sentir tensa, exposta. Ele era seu inimigo. No entanto, ele a vira em seu momento mais
vulnerável. Era perturbador. Quase tanto quanto pensar que ele tentara deixá-la
confortável.
O celular dela vibrou dentro do bolso. Era uma mensagem de texto de David,
juntamente com outras duas mensagens anteriores que ela não vira.
Ela as leu lentamente, sentindo sua garganta embargar ao perceber a confiança
que seu irmão tinha nela. Ele não apenas acreditara na explicação dela para o motivo de
ele não ter perdido o emprego, mas também estava insuportavelmente agradecido a Rollo
por ser tão “compreensivo e solidário”.
Daisy amava seu irmão. Só que, no momento, com tudo resolvido para ele, ela não
conseguia deixar de uma ouvir uma voz dentro de sua cabeça.
E eu? E a minha vida?
Ela inspirou fundo. O que estava feito estava feito. E fora escolha dela, não de
David. David não sabia nada sobre aquilo, e ela não contaria a ele. Ela conhecia seu
irmão; ele iria querer cancelar tudo ou, ainda pior, Daisy o convenceria a permitir que ela
seguisse com aquilo, e a culpa o deixaria arrasado.
Em algum momento no futuro, ela contaria a ele e aos pais deles, aos amigos... ao
mundo inteiro, na realidade... sobre seu “relacionamento” com Rollo. Pensar naquilo a fez
perder o fôlego.
David era o irmão gêmeo dela. Eles contavam tudo um ao outro. Seria difícil mentir
para ele.
O estômago dela roncou. Se não comesse algo, ela iria acabar desmaiando. Talvez
depois de comer ela desse uma olhada em seu novo “lar”.
Ela se levantou e foi até a cozinha.
Mais tarde, já alimentada, ela caminhou lentamente pelo apartamento, tentando
deixar de lado a sensação de que era uma hóspede, até mesmo uma intrusa.
À luz do dia, o apartamento era deslumbrantemente lindo. O piso de madeira clara
dava uma sensação de ternura às paredes brancas e à mobília séria. Imensas janelas
ofereciam maravilhosas vistas do Central Park e da cidade.
Contudo, foi o espaço externo que a deixou perplexa. O terraço se estendia
infinitamente, com uma piscina ao fim dele.
Estranhamente, mesmo maravilhada com a opulência do lugar, Daisy se flagrou
estranhamente inabalada com o apartamento. Parecia mais um hotel do que a casa de
alguém. Não havia nada pessoal para indicar que alguém morava ali.
Entrando em outro cômodo elegante, ela parou na porta. Havia algo diferente ali.
Era majestoso como o resto, mas tinha uma sensação de ser “usado” que faltava aos
outros cômodos.
Hesitantemente, ela foi até a mesa. Havia uma deslumbrante fruteira de prata em
cima da lisa madeira escura. Inspirando fundo, Daisy a tocou com a mão trêmula.
Era um escritório. O escritório de Rollo.
Agora, ela estava se sentindo mesmo uma enxerida! Aquele era o espaço particular
dele.
— Não demorou muito.
E a voz dele.
Ela recolheu a mão, virando-se lentamente para Rollo, que a observava recostado
no batente da porta.
O coração dela parara de bater e, por um instante, ela o olhou em silêncio.
Mesmo em um apartamento cheio de obras de arte, nada ali era capaz de competir
com a perfeita simetria do rosto dele. Contudo, não era o rosto dele que estava deixando
as pernas dela trêmulas. Era o fato de ele estar apenas com um short preto.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Claramente, ele estivera na academia; seu cabelo estava molhado, e havia uma
toalha pendurada em seu pescoço.
Qualquer pessoa seminua comum teria ficado envergonhada ou desconfortável ao
se deparar com alguém totalmente vestido. Rollo, porém, não parecia se importar. E por
que deveria? O olhar dela vagou furtivamente pelos músculos dos braços e do peito dele.
Rollo era lindamente, despudoradamente másculo e sabia disso.
Desviando o olhar da rígida definição do abdômen bronzeado dele e sua
imaginação do que havia por baixo do short, Daisy o olhou, cautelosa.
— O que não demorou?
Ele não respondeu, apenas entrou no recinto.
— Você. Roubando a prataria da família, e já no primeiro dia.
A voz dele estava tão tranquila que ela podia ter achado que ele estivesse
brincando. Entretanto, nada disfarçava o frio desprezo em seus olhos.
— Aviso que as pinturas são muito mais pesadas do que parecem, mesmo
enroladas.
Ela bufou.
— Eu não estava roubando nada...
— Claro que não. Vou adivinhar. Você só queria dar uma olhada?
— Sim. Queria. E por que não deveria querer? Agora, moro aqui. E, em algum
momento do futuro, vou ser sua esposa. Então, sim, eu estava dando uma olhada. — Ela
o olhou com raiva. — Mas, francamente, acho que vi mais do que queria.
— É mesmo?
A tensão contida na voz dele a encheu de pânico, mas Daisy empinou o queixo.
— É, sim.
Daisy queria provar que era imune a ele. Contudo, ela se arrependeu de suas
palavras quando ele começou a caminhar em sua direção.
Ela recuou às pressas.
— O que está fazendo?
Os olhos dela se arregalaram. Sua voz estava aguda, nervosa. Mas ele continuava
avançando. Freneticamente, ela levantou as mãos.
— Pare. Pare!
Felizmente, ele obedeceu. Agora, porém, eles estavam perto o suficiente para
tocarem um no outro. E ela não tinha como se esconder daquele lindo e esculpido corpo.
Nem daqueles sedutores lábios curvados. Lábios que a tinham beijado com uma feroz e
sensual paixão que ela nunca vivenciara na vida, deixando-a impotente e sedenta.
Agora, essa sede estava crescendo dentro dela, dominando-a.
— Parar o quê?
— Com essas acusações, as alfinetadas.
Inspirando fundo, ela cruzou os braços. Como alguém acreditaria que eles estavam
apaixonados se havia apenas ódio?
— Isso não vai dar certo — falou ela da forma mais firme que conseguiu. — Estou
falando de nós. Sei que, em tese, parecia que daria, mas...
As palavras dela desapareceram quando os olhos dele se fixaram nos dela.
— Permita-me lembrar a você por que seria interessante você fazer isso dar certo.
É o único jeito de você e seu irmão evitarem ter uma ficha criminal.
— Mas não posso viver assim pelos próximos 12 meses.
— Não me importo.
Ela o olhou, seu corpo trêmulo não de desejo, mas de raiva agora.
— Ah, eu sei que não! Você não se importa comigo, nem com meus sentimentos.
Deixou isso claro desde que nos conhecemos. Eu sei que estava invadindo seu escritório.
Então, não precisa dizer que fui eu mesma que causei isso.
— Estou avisando, Daisy, já tolerei o suficiente...

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— O quê? O fato de eu ser humana? De ter sentimentos? Você não pode me


xingar e...
— Xingar?! — Ele balançou a cabeça, incrédulo.
— Sim. Você faz isso o tempo todo. E não é justo...
— Justo? Fui mais do que justo. Eu podia ter simplesmente entregado você e seu
irmão à polícia.
Ela soltou uma risada perplexa.
— É isso que você considera ser justo? Usar chantagem para que eu seja sua
esposa? Você não estava sendo justo... só estava se aproveitando da situação.
— Para mim, foi uma reação estratégica a uma oportunidade de negócios.
As palavras dele não deviam tê-la surpreendido, muito menos deixado Daisy
chateada... afinal, ela aceitara aquele relacionamento, em parte, para evitar algo
emocional e significativo. Mesmo assim, saber que ela era apenas um meio para alcançar
um objetivo doía.
— É de admirar que você ainda tenha uma empresa se não se esforça tanto assim
em seus outros acordos — disse ela rigidamente. — Vou dizer uma coisa, Rollo. Você
pode não se importar comigo, nem com meus sentimentos, mas se importa com esse
acordo. Do contrário, por que eu estaria aqui? Mas sou uma atriz, não faço milagres. E
ninguém jamais vai acreditar que o nosso casamento é de verdade se você continuar se
comportando assim.
Ela suspirou.
— Sei que você acha que não importa o que eu sinto. Até mesmo que eu mereço
isso. Mas importa, sim, porque não posso simplesmente ignorar todas as coisas horríveis
que você diz em particular e, depois, agir cheia de amor em público.
— Por que não? O trabalho de uma atriz não é esse?
— Acha que, como nos negócios, basta assinar um pedaço de papel? — Ela
balançou a cabeça, seus olhos castanhos faiscando de desprezo. — Acredite quando
digo que, se você quer que o público acredite na sua atuação, não pode simplesmente
fingir. Precisa acreditar também. E não é suficiente apenas dizer que você quer que eu
seja sua esposa. Você mesmo vai ter que encenar um pouco também. E se dedicar ao
papel. Então, mesmo que você não goste de mim, pode parar de me julgar? Senão, não
vamos conseguir fazer isso.
— Você invadiu meu escritório, e seu irmão roubou meu relógio. Isso não me dá
algum direito de julgar?
— Não dá, não. Tudo que você sabe sobre David é que ele é tenso e pegou seu
relógio. Mas você não conhece o verdadeiro David. O que eu conheço. Ele nunca tinha
feito nada assim. É a pessoa mais correta do mundo. E a mais meiga.
Ao ver a expressão dela se abrandar enquanto ela defendia seu irmão, Rollo sentiu
um aperto no peito. Havia algo em Daisy e em sua dedicação a seu irmão que o tocavam.
Algo que, conscientemente, ele optara por jamais imaginar. Agora, porém, estava ali,
dentro da cabeça dele, dentro de sua casa.
E aquilo o fazia se sentir mimado e fútil.
O amor dela por David era real, puro, inabalável.
Tudo dentro dele se contraiu.
Inabalável e destrutivo.
O amor era uma imensa ameaça à saúde e à felicidade; transformava pessoas
perfeitamente racionais em idiotas, pontos fortes em fraquezas. O amor traía aqueles que
ele deveria proteger e protegia aqueles que traíam.
Ele sabia disso por experiência própria. O completo e incondicional amor do pai
dele pela mãe de Rollo fora recompensado não com lealdade, mas com abandono. Ainda
pior, ele vira sua mãe chorar, sentira a dor dela, apenas para se dar conta de que o que
ele pensara ser tristeza fora, na realidade, pena de si mesma e frustração. Mas ele só

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ficara sabendo disso quando já era tarde demais. Quando tudo que restara fora uma carta
sobre a mesa da cozinha.
Fora por isso que ele jurara jamais cometer o mesmo erro de seu pai. E era por
isso que ele se “casaria” com Daisy, uma mulher que ele não amava e jamais amaria.
— Se ele é tão correto e meigo, por que roubou meu relógio?
Subitamente, as mãos dela começaram a suar. Era uma pergunta razoável, e ela
queria contar a verdade. Mas até onde ela deveria revelar? O pouco que ela conhecia de
Rollo não a deixava com esperanças de uma reação solidária. No entanto, ao ver a
expressão séria dele, Daisy soube que precisaria correr esse risco.
— Ele precisava de dinheiro. Tem apostado muito on-line. E perdido. Muito.
Ao se recordar da respiração nervosa de David, do pânico em seus olhos,
enquanto ela tentara acalmá-lo, Daisy sentiu sua visão turvar.
— Acho que, no início, foi só uma diversão — disse ela em voz baixa. — Um
passatempo para quando ele não conseguia dormir. Então, ele acabou criando uma
dívida imensa.
— E agora? Ele não vendeu o relógio. Ainda está endividado? — Ele a olhava
fixamente, mas, pela primeira, Daisy sentiu que ele não a estava julgando.
— Quitei a maior parte da dívida com minhas economias. Fiz alguns comerciais no
verão passado. Não chega a ser um trabalho de atriz, mas paga bem.
Ele assentiu.
— E ele já falou desse problema para alguém? Além de você, claro. Amigos,
talvez? Seus pais?
Ela balançou a cabeça. Como ela poderia explicar a situação de seus pais? O
casamento, a vida deles juntos. O fato de que era aquilo que ela queria ter. Eles eram tão
amorosos e felizes! Ela e David jamais fariam nada que pusesse aquela felicidade em
risco.
— Ele... Nós não queremos que eles saibam. Isso só os deixaria preocupados.
Além do mais... eu... nós podemos resolver isso.
Rollo observou a expressão dela. Errado, pensou ele. Aquele tipo de problema
jamais seria resolvido sem ajuda profissional. Viciados raramente acreditavam que tinham
um problema, por mais dor e sofrimento que causassem às pessoas à sua volta.
— Quando ele contou a você sobre as apostas?
Ela engoliu em seco.
— No dia em que roubou seu relógio.
— Egoísmo da parte dele, não acha?
Ela ergueu a cabeça de súbito. Contudo, o que ela esperara? Acreditara mesmo
que Rollo fosse entender? Ou se importar?
Daisy o olhou com irritação.
— Ele não é egoísta...
— Ele é seu irmão gêmeo. Devia ter imaginado que você assumiria a
responsabilidade e tentaria resolver tudo para ele.
Rollo levantou a mão quando ela começou a protestar.
— Não estou julgando David, Daisy. Mas viciados não pensam como as outras
pessoas. Eles mentem, negam, inventam desculpas. Faz parte da doença.
Ela o observou atentamente. Parecia que ele sabia do que estava falando, e Daisy
quis perguntar como. Ou talvez quem. A expressão dele, porém, estava distante.
Ela assentiu.
— David está doente. Ele precisa de cuidados e apoio.
Os olhos dele continuavam frios, inabalados, mas sua expressão se transformara
em algo inesperado, estranhamente gentil... quase solidário.
— E é por isso que quero providenciar ajuda profissional para ele numa clínica.
O coração de Daisy disparou.

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— Por quê? Por que você faria isso?


De fato, por quê?
Rollo observou o tenso rosto dela. As faces e o maxilar delicados combinavam
perfeitamente com a pele clara, quase luminosa dela. Ela era muito bonita. Mas não seria
por isso que ele ajudaria o irmão dela.
Rollo não aprovava o que David fizera. Roubo continuava sendo roubo. Ele
também não concordava com o comportamento de Daisy. Contudo, já entendia melhor os
motivos deles.
Rollo deu de ombros.
— Apesar do que você pensa, Daisy, não sou um completo monstro. Ele precisa de
tratamento. Como patrão de David, sinto certa responsabilidade pelo bem-estar dele. Mas
há uma condição.
Ele olhou fixamente para ela e disse:
— Eu vou cuidar de David, mas não vou aceitar ser enganado. Você pode não
estar na minha folha de pagamento, mas, agora, trabalha para mim, e espero... exijo
honestidade dos meus funcionários.
Ela abriu um pequeno sorriso.
— Entendo. E obrigada por ajudar David. É muita bondade sua.
Ele assentiu, olhou seu celular e franziu o cenho.
— Certo. Vou me trocar. O que me faz lembrar que você precisa ir às compras.
— Preciso?
— Daqui a uma semana, haverá um desfile de moda beneficente. Acho que devia
ser nossa primeira aparição em público. Até lá, estaremos prontos.
Ele não estava pedindo, mas informando. Um homem que sempre conseguia o que
queria.
— Não será formal, nem íntimo demais. Você vai ficar visível, mas anônima. Por
isso, será o momento perfeito para apresentar você como minha namorada. Mas vai
precisar de algo para vestir. Kenny, meu motorista, conhece as lojas certas. Basta
escolher o que quiser e pôr na minha conta.
— Muita generosidade. Mas não espero que você pague pelas minhas roupas.
Além do mais, tenho várias na casa de David — disse ela, tentando fazer uma piada.
Rollo, porém, não riu. Apenas a olhou fixamente por tanto tempo que Daisy achou
que ele não a tivesse ouvido. Então, ele sorriu friamente.
— Tenho certeza de que suas roupas eram adequadas para a sua vida antes, mas
acredite quando digo que você vai se sentir mais confortável com algo mais apropriado.
Adequado! Apropriado!
Cerrando os punhos, Daisy o olhou, incrédula e irritada.
Ele era tão inenarravelmente arrogante e autoritário!
— Não devia ser eu a decidir o que é adequado?
— Normalmente, sim. Mas isso foi antes de você ter aceitado ser minha esposa.
Ele se aproximou.
— Você disse que eu precisava me dedicar ao papel. E estou me dedicando...
Ele parou, e a pele dela pareceu entrar em chamas quando ele tocou
delicadamente o rosto dela.
— Mas, em troca, você precisa parar de resistir a mim. É justo, não é? Então,
quando sugiro educadamente que você vá às compras, vá às compras — disse ele
suavemente. — Senão, da próxima vez, talvez eu não peça com tanta educação.
Deixando-a a resmungar furiosamente, ele deu meia-volta e saiu.

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Capítulo 4

— Então... Você prefere café a chá, vinho tinto ao branco, e odeia uísque. E...?
Daisy fez uma expressão de concentração.
— Você também gosta de vinho tinto. — Ela hesitou. — E prefere café adoçado.
Ele cerrou os dentes.
— Não. Puro.
Eles haviam começado cedo, aprendendo coisas um sobre o outro. Ao menos fora
esse o plano. Mas Daisy parecia uma adolescente de castigo na escola.
— Ah, sim. Lembrei agora. — Contendo um bocejo, ela olhou nos olhos dele
petulantemente. — Desculpe.
Ela não parecia estar pedindo desculpas sinceramente.
Ao ver os ombros dela desabando num gesto exagerado de cansaço, Rollo se
irritou, mas não respondeu. Apenas a observou, tentando decidir como administrar aquela
nova versão de Daisy.
Desde o dia anterior, quando ele basicamente ordenara que ela fosse às compras,
ela parara de resistir francamente a ele, optando por tratá-lo com uma educação forçada
que costumava ser reservada a professores ou conhecidos chatos.
Aquilo o estava enlouquecendo.
Contudo, havia algo nela que o afetava. Ele se sentia reagindo à petulância dela, à
teimosia... à beleza. Rollo sentiu sua pulsação acelerar. Não era apenas a beleza. Ele já
namorara muitas modelos, atrizes, socialites; todas lindas como Daisy. No entanto,
nenhuma delas jamais o fizera se sentir daquele jeito, tão abalado.
E aquela seria sua vida durante os próximos 12 meses... até que seu casamento
terminasse num rápido e fácil divórcio. Um casamento que nem mesmo acontecera ainda.
Ele inspirou fundo. Tendo jurado permanecer para sempre solteiro, era difícil
absorver o fato de que ele não apenas iria se casar, mas também se divorciar.
Entretanto, não havia outra maneira. Ele queria aquele edifício e cumpriria a
promessa a seu pai, custasse o que custasse.
Mas tudo seria tão mais simples se Daisy fosse como todas as outras mulheres
que ele já conhecera, e não determinada a desafiá-lo o tempo todo.
Mesmo quando ele a beijava.
Especialmente quando ele a beijava.
Imediatamente, ele se recordou da sensação dos lábios dela nos dele. Da maneira
como ela ganhara vida em seus braços, seu corpo se derretendo junto ao dele, as mãos
penetrando seu cabelo, a febril reação dela na intensidade do louco desejo dele...
Incapaz de dormir, ele ficara acordado na escuridão, tentando juntar os fragmentos
de nudez que, inadvertidamente, ela lhe revelara. Seu pescoço claro, a curva de seu
ombro nu quando ela adormecera no sofá...
Ele pensara nisso até pouco antes da alvorada, quando finalmente adormecera.
Sentindo o olhar dela, Rollo deixou de lado a ardência da frustração em sua virilha
e se obrigou a se concentrar em Daisy, que, felizmente, estava totalmente vestida diante
dele.
— Isso é entediante para nós dois — disse ele. — Mas, quanto mais você se
dedicar a acertar, mais rápido poderemos deixar isso para trás.
Daisy focou seus olhos castanhos no rosto de Rollo. Ele estava falando como se
ela fosse uma criança.

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— E daí se eu esqueci? Grande coisa. Ninguém vai nos testar mesmo... Sou uma
atriz. Sei o que preciso fazer para entrar na personagem.
— Então, pare de fazer cara feia e faça de uma vez. Afinal, foi você quem disse
que eu precisava me dedicar ao papel. Talvez você devesse seguir seu próprio conselho.
Ele abriu um sorriso de desprezo para ela que a fez querer sufocá-lo com as
almofadas do sofá. Em vez disso, ela inspirou e, com a voz mais calma que conseguiu
usar, falou:
— É que parece tudo tão sem alma e programado. Não podemos simplesmente
conversar? Assim, ainda poderíamos nos conhecer, mas seria mais... mais orgânico.
Era um pedido razoável. Mais do que exigir que alguém trocasse todo o seu
guarda-roupa. Mas, claramente, razoabilidade não era um conceito conhecido por Rollo.
Bufando, ela o viu balançar a cabeça.
— Testar um ao outro é a maneira mais rápida de aprendermos essas coisas.
Assim, podemos começar a pôr tudo isso em prática. Em público.
Pensar em aparecer em público como namorada dele fez o pânico se instalar
dentro dela. Daisy olhou para ele, sentado preguiçosamente na poltrona. Mesmo de
camiseta desbotada e jeans, ele irradiava superioridade e autoridade, o tipo de poder
indefinível que andava de mãos dadas com um macho alfa.
Ela perdeu o fôlego quando o olhar dele vagou casualmente pelo rosto dela,
descendo pelo vestido em estilo hippie que ela comprara com David no ano anterior.
Mas e ela? Daisy não fazia parte da elite. Ela não tinha emprego, não tinha dinheiro
e, no momento, seu futuro sequer pertencia a ela. Mudar suas roupas não mudaria nada
disso.
Mas por que ela devia mudar? Ela não tinha vergonha de quem era, de suas
origens.
— Ótimo — disse ela, com parte de sua animação de costume. — Quanto antes
avançarmos com isso, mais cedo vai terminar. Só queria que não fosse tão parecido com
a escola. — Ela suspirou. — Isso me lembra de quando eu estudava feito louca para as
provas.
— É mesmo? Interessante. Não imaginei que você fosse do tipo estudiosa.
Os olhos verdes dele estavam fixos nos dela, provocando-a. Daisy abriu a boca
para protestar, mas a fechou novamente. Seria tão gratificante dizer que ela fora uma
aluna nota dez. Que a biblioteca fora sua segunda casa. Contudo, ela achava que não o
convenceria disso.
Especialmente porque não era verdade.
— Imagino que você tenha sido o melhor da turma.
— Se quer dizer que eu dava duro, sim. Mas eu sempre me certificava de guardar
bastante energia para... atividades extracurriculares.
Ele abriu um lento e sugestivo sorriso que a fez perder o ar. O coração dela estava
em disparada.
— Por mais fascinante que seja saber da sua época de colégio, acho melhor
seguirmos em frente — disse Daisy, rígida. — Acho melhor eu beber um copo de água
antes.
Ela se levantou e foi irritada até a cozinha.
Rollo a viu sair, sua virilha se contraindo quando seu olhar se fixou nos quadris que
rebolavam por baixo do fino vestido dela.
Na cozinha, Daisy olhou fixamente para os armários. Sua mente estava confusa,
mas isso não chegava aos pés do caos dentro de seu corpo. Suas pernas estavam
trêmulas, e um latejamento se alastrava dentro dela.
Por que ele causava aquele efeito nela?
— Tem água mineral na geladeira, se preferir. Com e sem gás.
Ela ficou tensa.

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Definitivamente, ela não estava pronta para ele naquele momento.


Daisy esperara ter alguns momentos sozinha para se recompor. Mas, claro, como
todo o resto em sua vida desde que Rollo entrara nela, suas esperanças estavam sujeitas
à vontade dele.
Virando-se, ela sentiu seu corpo entrar em chamas. Ele estava diante dela, mais
perto do que ela imaginara.
Ela sorriu tensamente.
— Não. A filtrada já está de bom tamanho.
Ele a olhou fixamente, e a pulsação de Daisy disparou. Ele era absurdamente lindo,
e a proximidade dele a estava deixando burra. Por que mais ela sentiria tanta vontade de
beijá-lo? Desesperada para interromper sua reação à masculinidade escancarada dele,
ela entrou no modo garçonete.
— Desculpe, nem perguntei. Quer alguma coisa? — Ela não conseguiu resistir. —
Café adoçado? Quero dizer, puro?
Houve um curto e tenso silêncio. Então, inclinando a cabeça, ele lançou um
demorado olhar para ela.
— Não, obrigado. Estou tentando reduzir. — Ele sorriu. — Caso não tenha
percebido, eu estava improvisando.
Ela o olhou, incerta. O humor dele parecia ter melhorado. A tensão dela se aliviou,
e, por um curto momento de fraqueza, ela quis sorrir. E vê-lo sorrir em resposta.
Mas Daisy temia o que poderia acontecer se ele sorrisse.
— Não estou tentando ser irritante — falou ela lentamente. — Eu juro. Mas você
está tratando isso... nós... como se fosse algum tipo de equação. Não vamos conseguir
fazer isso simplesmente juntando os pontos. Precisamos tentar fazer nosso
relacionamento parecer o mais natural possível. E isso não vai acontecer se
simplesmente ficarmos aqui repetindo informações um para o outro.
Aquela devia ser a conversa mais esquisita que ela já tivera. Só que, de certa
forma, não era revigorante poder falar de forma tão franca sobre o que ela queria? Sobre
o que era necessário para que o relacionamento deles desse certo? Contudo, como ela
não estava apaixonada por Rollo, e jamais se apaixonaria por ele, Daisy não estava muito
interessada em falar o que pensava.
Esperando que ele a contradissesse, ela ficou surpresa quando Rollo assentiu.
— Faz sentido.
Ele soava interessado, até mesmo amistoso. E, quando algo parecido com pânico
borbulhou dentro dela, Daisy se deu conta de que estar perto dele fora muito mais fácil
quando tudo que ela sentia era hostilidade.
Contudo, quando os olhos dele percorreram suavemente a pele dela, ela percebeu
que o charme dele fora algo que ela não se permitira imaginar. Era perigoso demais!
Especialmente quando aquele meio-sorriso dele impossibilitava qualquer pensamento
racional da parte dela.
— Podemos fazer isso dar certo, Daisy.
Ela assentiu, emudecida pelo pânico.
— Tudo isso é novidade para nós. Tente pensar nisso como apenas mais um
trabalho.
Franzindo o cenho, ela encontrou sua voz.
— Mas não é nada assim. Quando estou encenando, decoro minhas falas e entro
na personagem. Mas só quando estou no palco. Não ajo como lady Macbeth em casa.
— Que alívio — disse ele suavemente.
A voz dele a deixou arrepiada. Daisy sabia que estava corada e queria desviar o
olhar, mas não conseguia se mexer.
Suspirando, ela disse rapidamente:
— É que... Em tese, nós estamos perdidamente apaixonados.

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Algo mudou no recinto; uma redução da tensão. Por um instante, eles se


entreolharam. Então, Rollo tocou o rosto dela, firme, mas ternamente.
— Em tese, sim. — Ele baixou a mão e recuou.
Daisy engoliu em seco.
— Então, precisamos de...
Romance. Paixão. Entretanto, a paixão era claramente uma complicação que ela
não devia introduzir no relacionamento deles. Especialmente levando-se em consideração
a reação intensa e perigosa de seu corpo a ele. Quanto ao romance, Daisy achava que
Rollo não entendia o significado dessa palavra.
— Precisamos nos divertir.
Os cantos da boca dele se ergueram.
— Diversão?
Seria outro conceito desconhecido para ele?
— Sim. Diversão. Vamos sair daqui e ir a algum lugar onde possamos conversar e
relaxar.
— Entendo...
A mudança nele foi quase imperceptível. Sua voz estava perfeitamente calma, mas
Daisy sentiu nele uma indecisão inédita.
— Tenho um camarote na Met Opera. — Ele pegou seu celular. — Não sei o que
está em cartaz, mas tenho certeza de que você vai gostar, e é totalmente reservado. Vou
pedir para minha assistente informar ao teatro.
Ela o olhou, perplexa. Claramente, ele não prestara atenção. Do contrário, por que
sugeriria uma noite na ópera? Não era exatamente uma maneira relaxada de passar a
noite... e eles sequer poderiam conversar. Provavelmente, era apenas o lugar aonde ele
costumava levar a mulher com quem estivesse namorando no momento.
Deixando de lado a incômoda dor que esse pensamento causou, ela o olhou com
frieza.
— Não precisa ter esse trabalho. Além do mais, não gosto de ópera.
Rollo a olhou friamente. A raiva estava bloqueando seu cérebro. Por isso, ele não
conseguiu falar por um instante. Além disso, ele precisava de tempo para conter sua fúria.
Não apenas pela falta de educação de Daisy, mas consigo mesmo, por ter tentando
chegar a um meio-termo com ela.
Por ter sido fraco.
— Nesse caso, vou deixar que você continue decorando suas falas.
— Como assim? Você vai sair?
— Vou ao escritório.
— Mas eu achei que você quisesse...
— Se achou, cometeu um erro. Assim como eu. Mas, pelo lado positivo, ao menos
estamos mesmo conhecendo um ao outro.
Ele se virou e atravessou o recinto em três longas passadas.
Daisy suspirou. Não sabia ao certo o que acabara de acontecer. Mas o vazio ali
estava fazendo algo estranho com o corpo dela... fazendo sua pulsação disparar.
Pegando o copo, ela o enxaguou e começou a secá-lo furiosamente.
Que tipo de pessoa simplesmente ia trabalhar no meio de uma discussão? De
repente, a irritação dela cessou.
Ao escritório? Mas o que diabos ele ia fazer lá? Era domingo.

Rollo olhava pela janela para a cidade que ele chamava de seu lar. À esquerda,
estava o passado: o edifício onde ele fora criado, o edifício que ele vinha tentando
comprar de James Dunmore durante toda a sua vida adulta. À direita, seu futuro: a
cobertura onde ele morava com Daisy.

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Ele não se arrependia da decisão de coagir Daisy a ser sua esposa.


Contudo, ao se recordar da expressão dela quando ele se oferecera para levá-la à
ópera, ele sentiu uma pontada de raiva. Devia ter dito a ela que seria ele quem mandaria
ali. Em vez disso, impelido por uma inexplicável necessidade de tornar o relacionamento
deles mais natural, mais espontâneo, ele baixara a guarda.
Ou melhor, permitira-se ser manipulado.
Ele cerrou os dentes. Havia muito, ele jurara jamais se deixar vulnerável daquele
jeito. Jamais se tornar seu pai, um homem que passara a vida inteira tentando, e não
conseguindo, agradar uma mulher.
Daisy podia ser linda e sedutora, mas era um pesadelo ambulante. Sorrateira.
Teimosa. Totalmente indigna de confiança. Sem falar em sua habilidade de, como atriz,
assumir diversas personalidades; num instante, uma rainha guerreira, mantendo-se firme
no escritório dele, no seguinte, adormecendo como uma criança cansada no sofá dele.
Mas ele se casaria com todas elas ou apenas uma delas?
Uma leve brisa atingiu os ombros dele, e Rollo ouviu a porta de seu escritório se
abrir suavemente. Sem nem mesmo olhar, ele soube que era Daisy.
A luz que entrava pela janela iluminava o rosto dela e, mais uma vez, ele ficou
perplexo com a luminosa beleza dela.
— O porteiro me deixou entrar — disse ela.
Sua voz estava frágil, e ela abriu um pequeno e tenso sorriso para ele.
— Ele me reconheceu daquela noite.
Ele assentiu.
Ela mordeu o lábio.
— Posso ir embora se você quiser...
Mais uma Daisy diferente; não petulante ou temerosa, mas apreensiva.
— Por que você veio? — Não havia expressão na voz dele.
— São quase três horas.
Ela engoliu em seco.
— Você não comeu direito no café. E não voltou para almoçar. Então, trouxe
comida para você.
Hesitantemente, ela levantou uma sacola de papel-pardo.
Seus olhos analisavam o rosto dele, e Rollo se deu conta de que ela estava
preocupada... com ele.
— É pizza. Quatro queijos com azeitona. E marguerita. — Ela suspirou. — Eu
lembrei.
Daisy deixou a sacola no chão. Recuando, disse rapidamente:
— Enfim, vou deixar aqui. Se ficar com fome depois...
— Eles usaram pecorino ou parmesão?
Daisy parou. Sua pulsação disparou.
— Pecorino.
— Pouco ou muito molho?
Ela engoliu em seco.
— Pouco.
— Certo.
Ele estendeu a mão.
— Quer comer aqui ou na sala de reuniões?
Eles acabaram decidindo ficar no escritório dele, comendo as pizzas no sofá.
— Nunca tinha comido quatro queijos antes — disse ela. — Mas é gostosa.
Eles conversaram sobre assuntos aleatórios. Nada pessoal. Apenas sobre comida
e Nova York. Mas toda a tensão dos últimos dois dias parecia ter desaparecido. Por fim,
Rollo pegou as caixas vazias, dobrou-as ao meio e as colocou de volta na sacola.
— Deve ter sido a melhor pizza que já comi. Onde comprou?

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Daisy sentiu um espasmo de felicidade. As coisas estavam tão mais leves e


relaxadas entre eles... quase normais.
— Ah, tem uma pizzaria ótima de uma família que fica perto do apartamento de
David.
— O apartamento do seu irmão não fica meio longe daqui?
— Acho que sim. Mas eu tinha saído para caminhar.
Ela corou.
Depois que Rollo saíra, ela ficara com raiva e frustrada demais. Sentira-se mal. E
culpada. Sem dúvida, Rollo pensara que uma noite na ópera, apenas os dois num
camarote particular, seria a maneira perfeita de eles passarem algum tempo juntos a sós.
Fora uma oferta de paz.
E ela a rejeitara.
Ainda pior, ela estivera tão ocupada ressentindo-se dele que se concentrara
totalmente nos motivos pelos quais o relacionamento deles fracassaria, quando devia
estar procurando maneiras de fazê-lo dar certo.
— Sempre saio para caminhar quando estou chateada. Quando preciso pensar. É
que isso... nós... é mais difícil do que imaginei. E acho que vai ficar mais difícil quando eu
tiver que começar a mentir para as pessoas. Meus pais e David. Mas isso é problema
meu, não seu...
— Isso faz com que seja meu também. Está preocupada, achando que eles não
vão me aprovar?
Os olhos dela se arregalaram, incrédulos.
— Não, estou preocupada por achar que eles vão aprovar. Vão ficar tão felizes por
mim... e não mereço. Isso faz com que eu me sinta cruel.
— Você não é cruel. Você está aqui por causa do seu irmão. Você é leal. E forte. É
preciso muita coragem para fazer o que você está fazendo.
Aquilo fora um elogio?!
— Ou burrice.
— Não acho que você seja burra.
Ela fez uma careta.
— Você nunca viu meus boletins da escola. “Podia ser melhor” era uma
observação quase universal.
— Isso tem mais a ver com a sua atitude do que com a sua aptidão.
— Talvez um pouco. — Ela sorriu fracamente. — Mas David é o irmão inteligente.
É tipo um gênio em Matemática e Ciências. Mas também pinta muito bem... e adora
ópera...
— Talvez eu devesse tê-lo convidado.
— Falando nisso... — Ela mudou de posição desconfortavelmente no sofá. — O
que eu falei para você sobre a ópera foi falta de educação e desnecessário. Desculpe.
— Imagino que você tenha tido uma má experiência com O ciclo do anel.
Ela o olhou, sem entender.
— Com o quê?
— Der Ring des Nibelungen, de Wagner. Dura cerca de 15 horas. Imaginei que
fosse por isso que você odiasse ópera.
Ela sentiu um calafrio.
— Era isso que íamos ver?
Balançando a cabeça, ele sorriu.
— Não. Eu não desejaria isso nem para o meu pior inimigo.
— Falando como sua pior inimiga, estou agradecida — disse ela levemente.
O sorriso dele desapareceu.
— Você não é minha pior inimiga.

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Daisy o olhou. Os olhos dele estavam concentrados no rosto dela, tão límpidos e
verdes que ela teve vontade de se afogar neles.
— Mas você me odeia... — A voz dela estava trêmula.
Curvando-se na direção de Daisy, ele tocou o rosto dela.
— Eu não odeio você — disse suavemente.
O coração dela deu piruetas dentro do peito.
A mão dele estava contornando o rosto dela, seu polegar acariciando
delicadamente a pele. Daisy ficou sentada, muda, hipnotizada pela ternura do toque dele
e por seu feroz e brilhante olhar.
Com a garganta seca, ela arfou.
— Também não o odeio.
Subitamente, ela não conseguiu ficar tão perto dele e não retribuir o toque.
Esticando a mão, ela a colocou no braço dele. A pele dele estava quente. Mas foi a boca
de Rollo, aquela linda e curva boca, que fez o corpo dela estremecer.
Ela arfou.
— Não trouxe sobremesa.
Os olhos dele se fixaram nos dela, e eles se entreolharam em silêncio.
— Está tarde. É melhor irmos para casa.
Enquanto estavam no corredor, esperando o elevador, Daisy sentiu o olhar de
Rollo.
— O que foi? Esqueceu alguma coisa?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Ele parou, e ela sentiu novamente aquela tensão, aquela indecisão.
— Obrigado pela pizza. Foi divertido. — Franzindo o cenho, ele pigarreou. — Só
quero que você saiba que não sugeri que fôssemos à ópera só porque tenho um
camarote.
Ela assentiu, entorpecida.
Claramente, havia algo mais do que o significado literal nas palavras dele, e uma
parte dela queria loucamente perguntar a ele o que era. No entanto, ela simplesmente
pegou a mão de Rollo.
— E eu quero que você saiba que não precisa se preocupar. Podemos fazer isso
dar certo.
Ela sentiu a surpresa dele e se preparou, esperando que ele recuasse. Contudo,
após um momento, os dedos dele se firmaram em torno dos dela.

Capítulo 5

— Bom dia, srta. Maddox. Meu nome é Kate e serei sua terapeuta de beleza hoje.
Ao erguer o olhar, Daisy sorriu apreensivamente para a esbelta jovem diante dela.
Ela já fora a manicures e fizera alguns tratamentos faciais no passado. Contudo, o Tahara
Sanctuary era um dos spas mais exclusivos de Nova York. Tão exclusivo que ela tinha
uma suíte de relaxamento inteira só para ela.
Uma hora e meia depois, Daisy estava começando a entender por que os riscos
sempre pareciam tão relaxados. Depois de uma esfoliação com óleo de sal e menta e um
banho de ervas, ela estava desfrutando da primeira massagem de sua vida.

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Contendo um bocejo, Daisy fechou os olhos ao ouvir uma leve batida à porta.
Houve uma ligeira mudança na atmosfera, o ar frio se misturando ao fragrante calor do
recinto. Então, o corpo dela ficou tenso.
Um calafrio elétrico atingiu a pele dela quando ela ouviu Kate falar animadamente:
— Ah, sr. Fleming. Que prazer vê-lo novamente.
Ela abriu os olhos de súbito, e, no instante seguinte, seu coração disparou quando
ela ouviu uma profunda e conhecida voz dizendo casualmente:
— Também é um prazer ver você, Kate.
Daisy prendeu a respiração, dolorosamente ciente de que estava nua, a não ser
pela calcinha e uma toalha dobrada sobre seu traseiro.
Desde que as hostilidades com Rollo haviam sido suspensas, mais de uma
semana antes, ela começara a gostar daquilo. Em parte, porque parara de achar que ser
feliz seria como trair David. E, em parte, porque era muito difícil resistir àquela nova vida
de sofisticação. Mas o principal motivo era que, estranhamente, estar com Rollo era,
disparado, o relacionamento mais fácil que ela já tivera.
Não apenas por ele ter cumprido sua palavra e parado de implicar com ela. Ou por
ele ser inteligente, sofisticado e ridiculamente lindo... embora isso ajudasse. Na verdade,
era a primeira vez que ela se sentia livre de verdade para ser ela mesma com um homem.
Com Rollo, ela não precisava se preocupar com o futuro. Podia simplesmente relaxar e
aproveitar.
Se bem que essa ideia era muito mais convincente quando ela não estava deitada
quase nua numa cama diante dele.
Algo frio deslizou pelo pescoço dela, descendo por suas costas nuas, e ela soube
que ele a estava observando.
— Eu não sabia que você iria aparecer.
Pronto. Ela fizera aquilo. Não era nada exagerado, mas, agora, eles eram
oficialmente um casal. Era estranho, mas empolgante. Claro, os funcionários da casa de
Rollo os tinham visto juntos, mas, por algum motivo, a presença de Kate ali tornava tudo
mais real.
— Ah, você me conhece, amor. Sempre ajo por impulso. Espero não ter
atrapalhado.
O tom de brincadeira na voz dele e também o jeito carinhoso de chamá-la fizeram a
pulsação dela disparar. Daisy ergueu lentamente a cabeça.
Ele estava ao lado dela, seu lindo e esculpido rosto iluminado pela diversão.
Ela balançou a cabeça e sorriu.
— Nem um pouco.
— Excelente... Você está em boas mãos.
Ela olhou para Kate e sorriu.
— Muito boas. Estou completamente relaxada.
— Ótimo. Sei que você tem andado meio estressada ultimamente.
— Um pouco. Mas aconteceram muitas coisas.
— Muitos dos nossos clientes sofrem de problemas ligados ao estresse — falou
Kate. — Dores musculares, falta de ar, dores de cabeça, insônia... Pode até mesmo
causar perda da libido.
— É mesmo? — perguntou Rollo suavemente. — Não podemos correr esse risco,
não é... amor?
O calor e o ar perfumado estavam penetrando a mente dele. Mas não era por isso
que o cérebro dele estava funcionando devagar.
O que ele estava fazendo ali?, perguntou Rollo a si mesmo, perplexo.
Contudo, ao ver as pupilas de Daisy se dilatarem, ele sentiu seu corpo latejar de
desejo e soube que a resposta estava bem diante dele.

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Ele devia estar numa teleconferência. Entretanto, no caminho de volta ao escritório,


ele olhara pela janela e vira a motocicleta de um entregador de pizza. Instantaneamente,
pensara em Daisy e, antes que se desse conta do que estava fazendo, ele dissera a seu
motorista para levá-lo ao spa.
Mas ele precisava vê-la para falar da festa na galeria, disse a si mesmo. Afinal, a
primeira aparição deles em público aconteceria naquela mesma noite.
Mais calmo, ele sorriu.
— Talvez eu precise ajudar você a relaxar mais. Talvez eu possa aprender a fazer
massagem.
Daisy ficou paralisada. Havia algo na voz dele que a deixava sem fôlego.
— Que meigo. Mas não precisa, amor. Kate está cuidando de mim.
Rollo a observou.
— Está mesmo. Mas Kate não conhece você como eu conheço. Ela não sabe seus
pontos fracos.
Os olhos dele vagaram pelas costas nuas dela.
— Aliás, quer saber? Deixe comigo, Kate. — Daisy ficou tensa quando ouviu a
porta se abrir e se fechar em seguida.
— Não acho que isso seja... — começou ela. Contudo, suas palavras de protesto
secaram na boca quando ela sentiu a quente mão dele deslizando delicadamente por
suas costas.
Subitamente, foi como se ela estivesse se desfazendo, os dedos dele fazendo tudo
relaxar, acabando com a resistência dela.
Ela o viu pegar uma jarra aberta.
— Manteiga mandarim. Parece deliciosa. Aparentemente, ela deixa o corpo em
estado de euforia. Como não gostar disso? — murmurou ele, quando seus dedos se
espalharam pelos ombros dela, o calor dominando a pele de Daisy.
O latejamento na pélvis dela acabou desligando todos os alarmes dentro de sua
cabeça. As mãos dele eram delicadas e firmes, seu calor derretia a manteiga. Contudo,
não era apenas a manteiga que estava derretendo. Daisy estava com vontade de gemer.
Não fique deitada aí. Levante. Diga para ele sair. Diga para ele parar de tocar em
você.
Entretanto, tudo que ela conseguiu fazer foi baixar a cabeça, seus olhos se
fechando.
Ele nem precisava aprender a fazer massagem. Já sabia exatamente como tocar.
Onde tocar...
Ao olhar para a curva das costas de Daisy, Rollo observou a pulsação latejante da
pele dela e sentiu seu próprio corpo ficar rígido... dolorosamente rígido.
Ele imaginara que ela fosse estar fazendo algum tipo de tratamento de beleza.
Afinal, era um sap. Mas não esperara encontrá-la numa cama, seu corpo nu quase
totalmente descoberto. Ele repousou seu olhar na protuberância do bumbum dela,
levantando a toalha, e a luxúria o atingiu como um trem desgovernado.
Ela era tão linda! E ele a desejava tanto!
Incapaz de evitar, ele começou a acariciá-la mais abaixo até que, quase sem
fôlego, ele pressionou a fenda na base da espinha dela, sua virilha se contraindo quando
sentiu o corpo dela estremecer e se arquear para cima.
— Rollo!
A voz dela, rouca, trêmula de desejo, penetrou a paixão que bloqueava o cérebro
dele.
O que diabos ele estava inventando ali?
Ele estivera prestes a puxá-la para os braços e deixar que suas mãos e sua boca
percorressem livremente aquela pele acetinada.

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O coração dele disparou. Ele parecia um adolescente cheio de hormônios. Desde o


momento em que ela o olhara em seu escritório, perplexa, embora petulante, ele a
desejara. E, como acontecera com todas as outras mulheres da vida dele, Rollo
presumira que ele estivesse no controle. Que seria capaz de conter o caos que ela
despertava dentro dele.
Contudo, quando ele entrara no spa, a tensão sexual entre eles fora como um
brutal soco em seu rosto.
Resistindo à excruciante pontada de frustração em sua virilha, ele subiu levemente
com um dos dedos pela espinha dela, indo até a nuca.
— Acho que é euforia suficiente por um dia. A menos que você queira que eu repita
o procedimento na frente também.
Ele a olhou intensamente com tanta intimidade que Daisy sentiu um provocante
calor subindo por seu corpo como uma bailarina nas pontas dos pés.
Ela o olhou em silêncio, perplexa.
Ele teria ouvido o momento em que ela gemera o nome dele? Ele sabia o efeito
que causava nela?
Claro que sim!
E era por isso que ela nunca devia ter permitido que ele a tocasse. Mas era tarde
demais para se arrepender agora.
Ciente de que ele ainda a olhava fixamente e torcendo para que ele não
percebesse como o corpo dela se deleitara com seu toque, Daisy abriu um tenso sorriso
para ele.
— Acho que vou recusar. — Ela olhou na direção da porta. — Kate vai voltar a
qualquer momento.
Ela sentiu um aperto no peito.
Dormir com Rollo seria um erro... e ela já cometera muitos. Talvez, se a situação
deles fosse diferente, ela pensasse na possibilidade de explorar a química entre eles. Mas
não havia como ignorar o fato de que ele a estava chantageando. Além do mais, ela não
faria nada que pusesse em risco a trégua entre eles.
Subitamente, ela ficou desesperada para sair dali, para escapar da desconcertante
presença de Rollo e da louca tensão do recinto. Daisy pegou a toalha e a puxou
rapidamente para cobrir seus seios nus.
— Na realidade, acho melhor eu ir procurá-la. Você se importa de me passar o
roupão?
Ele o entregou a ela, seus dedos se fechando suavemente sobre o macio tecido, e
o coração de Daisy acelerou mais uma vez quando ela se recordou da liberdade com que
aquelas mãos haviam percorrido o corpo dela recentemente.
Os olhos verdes dele se iluminaram de diversão quando ela vestiu o roupão.
— Relaxe — falou ele suavemente. — Não costumo atacar mulheres. Além do
mais, tenho uma reunião com o diretor financeiro. E, por mais que queira faltar a essa
reunião, não posso dar as costas ao trabalho. Senão... — Fazendo uma pausa, ele abriu
um lento sorriso para ela. — Talvez eu não tenha mais uma empresa quando finalmente
convencermos Dunmore a me vender o prédio.
Daisy tentou espelhar o sorriso dele.
— Certo. Então, vejo você depois.
Ele franziu o cenho.
— Na realidade, um tanto mais cedo do que isso. Houve uma mudança nos planos.
Foi por isso que vim aqui.
Daisy voltou à realidade. Era óbvio que houvera um motivo para a visita dele.
Empresários obcecados como Rollo não faziam coisas aleatórias ou impulsivas.
Ignorando a decepção dentro de seu peito, ela olhou nos olhos dele.
— Mais cedo por quê?

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— Vamos sair hoje à noite — disse ele friamente. — Vamos a uma galeria. Eu ia
dizer antes, mas me distraí.
Ela assentiu. Sua mente, porém, estava cheia de ressentimento. Ele era tão
autoritário, partindo do princípio de que ela não tinha planos.
— A limusine irá nos buscar às sete horas. Isso deve dar tempo suficiente para
você se preparar.
— Hoje à noite?
Ele assentiu.
— É uma mostra. Sou mecenas da galeria, e eles vão fazer uma festa.
Daisy o olhou, horrorizada.
— Mas e meus pais e David? Eles não sabem nada de nós.
— Isso não vai mudar. É uma galeria pequena e reserva. Paparazzi locais vão nos
fotografar, mas duvido que isso vá chegar ao noticiário nacional.
Ela empinou o queixo.
— Mas você disse que só estaríamos prontos daqui a uma semana...
— Acho que já estamos prontos. Não concorda?
Daisy olhou nos olhos de Rollo. Sua pele ainda formigava do calor do toque dele.
Ela sabia que devia estar com uma aparência desconcertada, febril. Excitada. Sendo
assim, sim, eles estavam prontos.
FALTAVAM APENAS dois minutos para a hora do show!
Daisy sentiu um familiar nervosismo; o misto de empolgação com um toque de
medo que precedia toda noite de estreia. Ela estremeceu.
— Está com frio?
Ela virou a cabeça para olhar para Rollo, sentado ao seu lado na limusine. Daisy
balançou a cabeça.
— Não. É só nervosismo. Sempre fico assim...
— Está com medo?
— Sim. — Ela suspirou. — Mas preciso estar. Sei que parece loucura.
— Não é. É biologia. — Ele pegou a mão dela. — O medo é importante. Ele nos
avisa do perigo.
Ela sentiu um aperto no coração. Se fosse verdade, por que ela não estava
repelindo a mão dele? Ou entrando no porta-malas? Ou em qualquer lugar onde Rollo
não estivesse?
De perto, a beleza dele era quase intimidadora. Ele era tão perfeito, tão glamoroso!
Seu terno escuro acentuava seus ombros largos e seu torso esbelto. E, acima de uma
camisa amarelo-clara, seus olhos estavam tão verdes e inebriantes quanto absinto.
Sorrindo falsamente, ela se virou para a janela.
Aquilo era tão confuso. Ele era o vilão. Ela não devia gostar dele. E fora fácil não
gostar dele quando ele era brutal e implacável. Contudo, isso ficava mais difícil quando
ele pegava a mão dela com tanta delicadeza. Também era difícil fingir que ela não estava
gostando de ser par daquele belo homem.
Ela suspirou. Tudo era tão mais simples quando eles brigavam. Ao menos assim os
sentimentos dela eram claros. Agora, porém, ela estava cada vez mais incerta...
especialmente quando ficava tão perto dele.
— Seu pulso está acelerado — disse ele levemente.
— É porque não estou respirando direito. Preciso de mais oxigênio.
Os olhos dele brilharam.
— Uma aula de ciências a caminho da galeria de arte? E depois? Ortografia?
Divisão?
Ela precisou se conter para não sorrir.
— É só biologia. E tenho certeza de que você não precisa que eu ensine nada
disso a você.

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— Aposto que você diz isso para todos os homens.


— Na realidade, não. Só para você.
Depois de quase perder o controle no spa, Daisy estava tentando manter distância.
Mas era difícil fazer isso com a rígida coxa dele pressionando a dela.
Rollo sorriu.
— Certo, você está nervosa. O que posso fazer para ajudar?
Ela o olhou, irritada.
— Você? Você é o motivo de eu estar nervosa.
Os dedos dele pararam de se movimentar sobre a pele dela, e houve um momento
de carregado silêncio. Daisy engoliu em seco. Ela estava com calor. Seu corpo inteiro
formigava.
— Eu deixo você nervosa?
— Você, não. Isto. Nós. — Mesmo aos seus próprios ouvidos, a negação dela não
soou convincente. — Quero dizer, nós dois aparecendo juntos em público. Com você eu
consigo lidar.
O coração dela estava em disparada. Quem ela queria enganar?
De forma petulante, ela olhou nos olhos dele e desejou imediatamente não ter feito
isso, pois ele a observava preguiçosamente, um toque de um sorriso na boca.
— É mesmo?
A cor se espalhou pelo pescoço dela, mas, felizmente, não houve tempo para
pensar numa resposta sensata, pois o carro estacionou diante de um edifício cinza-claro.
Subitamente, surgiu um grupo de fotógrafos, seus flashes piscando contra a janela da
limusine.
Dentro da galeria, tudo estava tranquilo. Um pianista tocava algumas músicas de
jazz bastante conhecidas, e homens e mulheres vestidos de forma impecável vagavam
em pares e grupos, parando para tomar champanhe e olhar as pinturas.
Agora, porém, todos pareciam estar olhando para ela e Rollo.
— Relaxe. Você está linda.
Ela olhou para seu vestido azul-escuro.
— Será que não é demais?
O olhar dele percorreu os ombros nus dela.
— Se fosse menos, acho que eu não me responsabilizaria pelos meus atos. — Ele
sorriu. — Não se preocupe com ninguém. Só estão curiosos. Eles não mordem.
— Você fala como se fossem cabras.
Ele gargalhou.
— Agora que você falou, existe certa semelhança.
Muitos dos convidados eram celebridades da televisão e dos jornais. Contudo, foi
surpreendentemente fácil se sentir confiante com o braço de Rollo em torno da cintura
dela. O difícil foi lembrar que ela estava ali como parte de uma farsa bem-elaborada.
Daisy sorriu, assentiu e conversou sobre amenidades. No entanto, ela praticamente
não conseguia dar atenção a nada que não fosse a constante pressão da mão dele e a
reação de seu próprio corpo.
Certamente o fato de o coração dela estar acelerado era algo bom. Afinal, ela
precisava agir como se estivesse perdidamente apaixonada por ele. Então, aja, disse ela
firmemente a si mesma. Curvando-se na direção dele, Daisy permitiu que seu braço
roçasse nos rígidos músculos do peito dele.
— Vamos dar uma volta? — perguntou ela delicadamente.
Apesar de nunca ter entendido de arte, ela achou as pinturas interessantes e
bonitas. Uma em especial era hipnotizante: uma onda verde, vermelha e preta feita a
óleo.
— Impressionante, não?

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Uma magra senhora de idade estava parada ao lado dela, olhando atentamente o
quadro.
Daisy assentiu.
— São todos incríveis. Mas seria este que eu compraria.
Apenas nos sonhos dela. Segundo o catálogo, a pintura custava mais do que
ganhara no ano anterior.
A mulher estendeu a mão para ela.
— Bobbie Bayard.
— Daisy Maddox.
— Maddox da agricultura ou das finanças?
Daisy a olhou, confusa.
— Nenhum dos dois.
Era Rollo. Pegando a mão de Daisy, ele deu um beijo em cada face da mulher de
cabelos grisalhos.
— Ela não é de nenhuma das famílias antigas, Bobbie. Pode parar de xeretar.
— Ótimo. — Bobbie ficou radiante. — As famílias antigas são como eu. Obsoletas,
e estão definhando.
— Ignore — disse ele a Daisy. — Ela não está nem perto de definhar. Estava na
primeira fila da New York Fashion Week há três dias. E tem um sexto sentido para
identificar futuros artistas de sucesso.
— Acho que encontrei alguém que é páreo para mim. Sua garota tem um bom
olho. — Olhando com aprovação para Daisy, Bobbie seguiu para a próxima pintura.
Sua garota. A garota de Rollo.
Uma corrente elétrica percorreu a pele de Daisy. Os olhos dele estavam fixos no
rosto dela.
— Então, por que você gostou? — perguntou ele.
Sentindo seu coração disparar, ela olhou novamente para a pintura.
— Não sei. Ela faz com que eu sinta que estou me afogando. Mas não de um jeito
ruim. É mais como uma sensação de que não preciso mais resistir.
Revelar algo tão espontaneamente para Rollo a fez se sentir estranhamente
vulnerável.
— Sendo assim, talvez você não deva fazer isso — disse ele em voz baixa. —
Resistir, quero dizer.
Ela o olhou, muda. A conversa em torno deles desapareceu, e, subitamente, Daisy
teve a mesma sensação que tivera no spa: a de que havia apenas eles dois no mundo
inteiro.
Rollo a olhou fixamente.
— Talvez você devesse simplesmente se entregar...
— Diga, Rollo, como vocês se conheceram?
Era Bobbie. Rollo se virou quando Daisy lhe deu o braço.
— Boa pergunta.
Ele a olhou inexpressivamente, tentando lembrar o que eles haviam combinado.
Mas a resposta não veio, e ele sentiu o pânico chegando.
— Eu... não lembro direito — falou ele lentamente. — Foi no trabalho?
Ele estava sentindo vários olhos voltados para ele. Não apenas os de Daisy. Rollo
sabia que as perguntas logo ficariam mais difíceis e tudo pioraria.
— Foi, sim. — A voz de Daisy foi baixa, mas firme.
Erguendo o olhar, ele a viu sorrindo tranquilamente para Bobbie, e parte da
pressão dentro da cabeça dele se aliviou.
— Rollo está tentando ser discreto porque sabe que não gosto de dizer às pessoas
que sou garçonete. Mas era isso que eu estava fazendo na noite em que nos

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conhecemos. Eu tinha feito uma burrada, e ele encontrou um jeito de resolver tudo. Mas o
engraçado é que já tínhamos nos conhecido antes.
Ele a olhou fixamente. Ela estava improvisando.
— Sim. É verdade. Em uma peça. Sabe, na realidade, Daisy é atriz.
Revirando os olhos, Daisy balançou a cabeça.
— Estudei para ser atriz. E, sim, estava numa peça. Uma peça horrível. Mas Rollo
estava na plateia.
— Não foi tão ruim assim — disse ele.
Ao olhá-lo, Daisy sentiu um aperto dentro de si. Os olhos dele estavam ferozes,
quase protetores.
— Não tem problema. Você não precisa...
— Não estou fazendo isso.
Ele olhou nos olhos dela.
— Você foi bem. Melhor do que bem. Fez as pessoas acreditarem.
Depois, enquanto ela o via falar com um dos artistas, Daisy relembrou suas
palavras, reorganizando-as. Talvez ele tivesse falado sério. Mas como podia, se ele
nunca a vira atuando?
De repente, ele ergueu o olhar, encontrando o dela. A pulsação de Daisy disparou
quando ela o observou pedir licença e atravessar o recinto em sua direção.
— Já viu o bastante?
Por um horrível momento, ela achou que ele estivesse falando de si mesmo. Então,
seu cérebro entrou em funcionamento, e Daisy se deu conta de que ele estava falando
das pinturas.
Ela deu de ombros.
— Acho que sim. Mas posso ficar se você quiser.
Delicadamente, ele ergueu o queixo dela.
— O que eu quero é ficar sozinho com você.
Ele sorriu, um sorriso que esquentou a pele dela como a luz do sol. E, puxando-a
para si, beijou-a.
À volta deles, o murmúrio das conversas ralentou, desapareceu, mas Daisy sequer
percebeu isso. De olhos fechados, um frio na barriga, tudo que ela sentia era o calor da
boca dele, seu rígido corpo pressionando a barriga dela. Segurando-o pela camisa, ela o
puxou para si, reagindo ao beijo.
É só um trabalho. Você é uma atriz profissional fazendo um papel.
Contudo, quando as mãos dela subiram para o peito dele, no fundo de sua mente,
ela soube que o que estava acontecendo não era mais apenas para manter as
aparências. Parecia real... perigosamente real...
Ele interrompeu o beijo.
Por uma fração de segundo, Daisy pensou ter visto algo lampejar no rosto dele.
Ela, porém, estava ocupada demais tentando esconder sua própria reação para saber o
que era. No instante seguinte, ele já a estava levando para a porta.

No apartamento dele, as luzes haviam sido reduzidas. Na sala, havia uma garrafa
de champanhe num balde de gelo.
— Eu não sabia como as coisas aconteceriam esta noite. Champanhe me pareceu
uma boa ideia de encerrar a noite de um jeito ou de outro. Tome.
Ele entregou uma das taças a Daisy.
— A nós.
— A nós — ecoou ela, sentindo espasmos no coração ao se recordar do beijo na
galeria. — Então, você ficou satisfeito?
— Sem dúvida. Acho que acertamos em cheio. O que me faz lembrar...

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Os olhos dele se voltaram para um ponto além dela. Virando-se, Daisy viu um
grande e fino embrulho, feito com papel-pardo.
— Tenho um presente para você.
Perplexa, sem palavras, ela olhou fixamente para o embrulho, até que, com um
toque de impaciência, Rollo perguntou:
— Não vai abrir?
— S-sim. Claro.
Deixando a taça de lado, ela rasgou o papel e perdeu o fôlego. Era o quadro da
galeria.
— Eu não...
Ele franziu o cenho.
— Não gostou?
— N-não, gostei. Adorei. Mas não posso aceitar... — Não depois de saber o valor
do quadro.
— Por que não? Você gostou, e eu quero dá-lo a você.
Ela engoliu em seco. Ele falava como se fosse tão simples. Ao erguer os olhos, ela
se perdeu no profundo verde do olhar dele.
— Sendo assim, obrigada. Sei que não parece o suficiente, mas não sei mais o que
dizer.
Rollo a olhou em silêncio.
Desde que deixara Daisy no spa, ele não fora capaz de parar de pensar nela. Mais
precisamente, em fazer sexo com ela. Agora que eles estavam finalmente a sós, parecia
a melhor ideia do mundo. Aquilo não apenas criaria uma intimidade que daria
credibilidade ao “relacionamento” deles, mas também resolveria a latejante frustração
física que o atormentava desde que ele a beijara em seu escritório, quase duas semanas
atrás.
Era verdade que Daisy tinha muitos dos defeitos da mãe dele. Havia, porém, uma
diferença crucial. O poder de Alice Fleming estivera em seu domínio emocional sobre ele.
Ela era sua mãe, e Rollo a amara. Mas ele não amava Daisy. Então, onde estava o risco?
Lentamente, ele tocou o queixo dela.
— Então, não diga nada.
Todo o corpo dela estava trêmulo. Então, os olhos de Rollo se fixaram
sedentamente em sua boca e, de repente, nada mais importou.
Ficando nas pontas dos pés, ela passou lentamente a língua pelos lábios dele.
O sabor era de champanhe e gelo.
E perigo.
Delicioso. Inebriante. O coquetel perfeito.
— Quero um beijo — disse ela, rouca. — Agora.
Rollo a olhou, um caos dentro de seu corpo. Os olhos dela estavam ardentes,
totalmente irresistíveis.
Ele não teve escolha. Inclinando-se à frente, ele a beijou ferozmente.
Instantaneamente, ele se perdeu no calor e na maciez dos lábios dela, seu corpo ficando
rígido com uma intensidade que quase o fez desmaiar.
— Daisy, espere...
Ele afastou a boca da dela, tentando desacelerar o ritmo.
— Vamos devagar, querida... Senão, não vou conseguir esperar até chegarmos lá
em cima.
Ele sentiu o corpo dela ficar tenso, um lampejo de apreensão anuviando seu
cérebro.
— Por que precisamos subir?
— Achei que seria mais reservado.

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Subitamente, ele deixou de se importar com o lugar. Ao olhar para Daisy, ele se
importou apenas com o calor e a doçura do corpo dela junto ao dele.
— Mas podemos fazer o que você quiser. Onde quiser...

Capítulo 6

Daisy sentiu seu corpo ficar paralisado, sua mente fixa numa imagem de Rollo
tirando a camisa, os rígidos contornos de seu peito...
Foi como se ela estivesse em queda livre. A onda de desejo foi tão intensa que ela
mal conseguiu aguentar.
Ela o queria.
Mas o que aconteceria se ela cedesse a esse desejo?
— Não. — Recuando, ela balançou a cabeça. — Não podemos. Não devemos.
Não é certo.
A repentina distância na voz dela atingiu os sentidos de Rollo.
A confusão dele se transformou em irritação.
— Não entendo por quê. Somos dois adultos que querem fazer sexo.
Daisy recuou novamente, mas continuou a olhá-lo. Ele tinha razão. Entretanto, por
mais que o corpo dela lhe dissesse o contrário, ela sabia que seria um desastre se eles
acabassem na cama juntos. E Rollo também sabia.
Ela empurrou o peito dele.
— Isso pode ser motivo suficiente para você. Mas, para mim, desejo e maioridade
não bastam.
— O que mais é necessário? Amor e romance?
A repentina frieza nos olhos dele a fez perder o fôlego.
— Sou um empresário... não uma menininha de 14 anos. Nós vamos nos casar.
Isso não basta?
Ela sentia a hostilidade dele, mas não se importou com isso. Tudo que importava
era arrancar daquele rosto lindo aquela expressão de desdém.
— Talvez bastasse se eu quisesse fazer sexo com você. Mas não quero.
— Quer dizer que você continua mentindo? Só que, agora, também está me
provocando!
— E você voltou a me acusar.
Ele semicerrou os olhos.
— Vou parar de acusar você quando você parar de merecer. Acho justo, não
concorda?
Ela sentiu a raiva atingi-la como um maremoto. Era verdade: no calor do momento,
ela o desejara. Ainda o desejava, a julgar pelo latejamento pulsante em seu ventre.
Contudo, o arrogante convencimento de Rollo de que ela se atiraria aos pés dele, ou
melhor, na cama dele, não agradava a ela.
— Não me importa o que você acha. Foi só um beijo. E o fato de eu beijar um
homem não significa que eu queira automaticamente fazer sexo com ele. — Ela cerrou os
punhos. — Especialmente quando o beijo é unicamente por causa do meu trabalho.
— Seu trabalho?! — O desdenhoso sorriso dele foi como um rasgo na pele dela. —
Quer dizer, então, que isso foi hora extra?
— Não. Foi um erro!

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Todo o corpo dela tremia de fúria.


— Achei que você entendesse que é tudo falso... como estamos fingindo o resto
desse relacionamento. Mas, claro, eu tinha me esquecido do seu ego.
Ela se virou e foi rapidamente na direção da cozinha.
Rollo a observou em silêncio, a raiva cobrindo sua pele como lava.
Ela estava mentindo descaradamente, por mais que afirmasse o contrário. Ele
sentira a reação dela. Soubera que o beijo fora real.
Agora, porém, ela estava tentando distorcer os fatos, fingindo que fora ele quem
interpretara equivocadamente o comportamento dela, que ele era a parte não razoável ali.
Ele contraiu os lábios. Daisy se parecia mais com a mãe dele do que ele jamais
teria imaginado. A honestidade também não fora algo natural para Alice Fleming. Ela
mudara as versões dos acontecimentos e o atacara com acusações quando encurralada.
Irritado, ele foi até a cozinha.
Olhando para onde ela estava, sentiu seu peito se inflamar.
— Você precisa se preocupar menos com o meu ego e mais com os seus lapsos
de memória — rosnou ele.
Daisy se virou para Rollo.
— Do que está falando?
— Tínhamos um acordo... temos um acordo sobre honestidade.
Honestidade?! Ao olhar nos olhos dele, ela viu a fúria ardente, a autoridade
frustrada, e sentiu seu próprio corpo começar a tremer. A questão ali não era
honestidade. Era orgulho. O orgulho masculino idiota dele.
— É você que está com problemas de memória, Rollo. Eu disse que nosso
relacionamento não incluiria sexo.
Os olhos dele faiscaram.
— Mesmo assim, você pediu para que eu a beijasse!
Ele sussurrou um palavrão, seus olhos cheios de paixão.
— Por que você está fazendo isso? Você sabe que me quer, Daisy. E eu quero
você. Como nunca quis mulher nenhuma. Não consigo dormir. Não consigo trabalhar.
Isso está me deixando louco...
Quando ele parou de falar, Daisy sentiu um traiçoeiro calor em sua pele, a atração
das palavras dele sendo forte e implacável como a maré. Então, ela estremeceu
abruptamente. Era óbvio que ele a queria. Ela o rejeitara. Homens como Rollo não
gostavam de ser frustrados.
— Você me quer porque não pode me ter. Só isso.
Ele inspirou fundo.
— Isso não explica por que você me beijou.
Ela não conseguiu falar... não quis responder. Mas Rollo esperou, e Daisy soube
que ele continuaria esperando até que ela lhe desse uma resposta.
Não uma resposta qualquer, mas a verdade.
Ela engoliu em seco.
— Eu o beijei porque, por um único momento de insensatez, uma parte de mim... a
parte burra, fraca e irracional que eu desprezo... quis fazer sexo com você.
— E o resto?
Ela franziu o cenho.
— O resto?
— A parte inteligente, forte e racional que você admira.
Chocada, ela percebeu que ele estava tentando fazer uma piada. Daisy, contudo,
não riu. Sequer conseguiu sorrir. Sentia-se exposta, vulnerável demais.
— Nosso relacionamento já é complicado o bastante, Rollo. O sexo apenas
deixaria tudo ainda mais confuso.

40
Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

— Discordo. Sexo é simples. São as pessoas que o complicam. Elas esperam


demais. Mas você e eu não precisamos nos preocupar com isso.
Ela o olhou fixamente, reconhecendo a verdade daquelas palavras. Pois ela própria
já fizera isto: confundira sexo com intimidade e amor e acabara arrasada. E ele tinha
razão: isso não aconteceria com eles. Não haveria expectativas, nem decepções, nem
dor.
— Sabe como isso é raro, Daisy? Não podemos deixar esse momento passar.
Seria apenas sexo.
Uma paixão pura e primitiva.
— Sei que você sente isso — disse ele suavemente. — Eu também sinto... porque
eu quero o que você quer.
Ela estremeceu.
— E o que você quer?
A voz dela estava rouca. Rollo tocou o pescoço dela, fazendo seu coração bater
fortemente.
— Quero isto...
Ele tocou levemente a boca de Daisy.
— E isto.
Suspirando, ele se aproximou. Com dedos tão delicados quanto firmes, ele soltou o
rabo de cavalo dela, segurando seu comprido cabelo loiro. Por uma fração de segundo,
eles se entreolharam. Então, o calor a dominou quando ele a fez curvar a cabeça para
trás.
— E isto.
Rollo tocou fortemente a boca na dela, sua mão segurando o cabelo de Daisy. Com
a pulsação em disparada, ela se curvou na direção dele, seu corpo se derretendo quando
ele aprofundou o beijo. Ela estava tonta, desesperada.
Ela passou as mãos pela camisa dele, os olhos arregalando quando Rollo afastou
os dedos dela e soltou os botões, afastando o tecido lentamente de sua pele. Em silêncio,
ela o olhou. Ele era tão bonito... tão delicioso, liso e perfeito. Delicadamente,
hesitantemente, ela tocou o abdômen dele, contornando os músculos definidos com o
dedo.
Instantaneamente, ele inspirou fundo, e Daisy viu que o rosto dele estava rígido de
concentração.
— Tem certeza?
A voz dele estava pesada, tensa.
— Quero que você tenha certeza.
Daisy o olhou, perplexa, todo o seu corpo vibrando de calor, desejo e emoção.
— Tenho. Eu quero isso. — Ela engoliu em seco. — Quero você.
— Eu também quero você.
Ele passou levemente as mãos pelos ombros dela, retirando as alças do vestido.
Rollo sentiu um aperto na virilha.
Ela estava sem sutiã.
Ele a observou, seu olhar dominado pela beleza dela.
Ele tomou os seios dela nas mãos, os polegares roçando nos mamilos.
Lentamente, ele baixou a cabeça e lambeu as pontas, sentindo-os enrijecer em sua
língua, ouvindo o leve gemido dela. Então, subindo com a boca, ele encontrou os lábios
dela, dando início a um profundo beijo, as mãos empurrando o vestido pelos quadris dela
até o chão.
Daisy estremeceu. A boca dele estava em seu rosto, seu pescoço, seus ombros,
incessante, insistente. Os dedos dele deslizavam pela pele dela, gerando ondas de calor,
fazendo-a se mexer inquietamente.
— Rollo...

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Ela queria mais...


Precisava de mais.
Envolvendo o pescoço dele com o braço, ela pressionou o corpo junto ao de Rollo,
sentindo o corpo dele se inflar, inchar-se. Quando deu por si, ela já estava puxando o
cinto dele, o botão, o zíper da calça.
Com um rouco grunhido, Rollo recuou. Seu coração martelava dentro do peito. Ele
desejava Daisy com uma intensidade que nunca sentira por mulher alguma. Contudo, ele
também queria demonstrar seu poder sobre ela.
E sobre si mesmo.
Ele precisava provar que jamais se renderia a uma mulher... nem mesmo, ou talvez
especialmente, a uma tão linda e sedutora quanto Daisy.
Sua boca buscou a dela quando ele a colocou sobre a bancada. Abrindo as pernas
dela, ele afastou delicadamente o fino tecido da calcinha, perdendo o fôlego quando ela
se derreteu nos dedos dele, as coxas apertando a mão dele.
— Não se contenha — sussurrou ele junto à boca de Daisy.
Daisy estremeceu. Seu corpo estava se dissolvendo sob o tormento dos dedos
dele. Mas não era suficiente. O corpo dela precisava expurgar aquele latejamento.
Erguendo os quadris, ela rebolou contra ele.
— Não pare — arfou Daisy. — Não pare...
Então, tudo dentro dela se contraiu, e ela arqueou para cima, libertando-se, suas
mãos apertando os braços dele, sua mente se esvaziando de tudo que não fosse o calor
da mão dele...

Ao olhar para o meigo vestido em estilo vintage que ela estava usando, Daisy
franziu o cenho. Seria irreverente demais para um almoço beneficente? Possivelmente.
Mas não havia tempo para se trocar. A limusine logo chegaria. E Rollo era um dos
oradores convidados.
Rollo.
Só de pensar no nome dele, ela ficava louca. Contudo, estava claro que Rollo não
se sentia assim, pois, apesar do que acontecera na cozinha, ele não parecia estar com
nenhuma pressa de consumar o relacionamento deles.
Ela mordeu o lábio. Na realidade, o único vestígio do apaixonado momento que
eles haviam compartilhado fora no caminho para seus respectivos quartos, quando ele
hesitara e acabara por puxá-la para si, beijando-a ferozmente.
Ela não conseguia entender o comportamento dele.
Ao acordar, ela tivera esperanças de que eles pudessem conversar. Mas os dois
tinham dormido até tarde, e não houvera tempo para uma conversa ou para desfrutar de
um café da manhã prazeroso. Ele fora educado, mas estranhamente distante.
Tudo aquilo era muito confuso e um tanto vergonhoso para ela.
— Você está bonita.
Ela perdeu o fôlego, seus olhos se arregalando de choque. Rollo estava na porta
do quarto dela, observando-a tranquilamente. Como de costume, sua expressão estava
totalmente indecifrável.
— Você me assustou.
— Desculpe. Mas bati à porta.
— Eu não ouvi. Ia trocar de sapato. Pensei em usar saltos.
— Gosto disso. Gosto de tudo. Você está linda.
Ela corou, ciente da reação de seu corpo à atenção dele.
— Ótimo. Muito bom — disse ela mecanicamente. — É melhor irmos. Senão,
vamos nos atrasar.
Mas ele não se mexeu.

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— Na verdade, não vamos. Eu cancelei.


Era a primeira vez que ele punha sua vida particular acima do trabalho. E
certamente a primeira vez que uma mulher era a maior prioridade de sua agenda.
E ele não planejara fazer aquilo. Simplesmente acontecera.
Contudo, planejado ou não, estava claro que, apesar de tentar tratar seu
relacionamento com Daisy como qualquer outro acordo de negócios, ela trouxera o caos
para a vida dele.
A noite anterior parecera a oportunidade perfeita para demonstrar a Daisy que era
ele quem mandava ali. Agora, porém, ele conseguia enxergar que podia haver falhas em
sua lógica. Não apenas o corpo dele estava latejando de frustração, mas a satisfação que
ele sentira por ter deixado claro quem mandava ali fora basicamente encoberta pela
confusão sobre o que ele provara de fato a Daisy... ou a si mesmo.
— Você não parece muito feliz — comentou ele.
— Achei que você fosse fazer um discurso.
Ele deu de ombros.
— Eu ia. Mas sempre tem oradores demais nesses almoços. Além do mais...
prefiro simplesmente conversar com você.
O coração dela disparou.
— Certo.
Uma fria sensação estava se assentando dentro dela.
— Achei que não fôssemos mais brigar.
Ao ouvir a hesitação na voz dela, ele franziu o cenho.
— Conversar não precisa significar brigar.
Mas, até então, significara.
Ele sentiu uma pontada de frustração. Por que ele a estava tentando convencer?
Ele devia simplesmente informar que ela almoçaria com ele. Contudo, subitamente...
incrivelmente... ele se flagrou querendo que fosse uma escolha dela.
— Almoce comigo. Por favor. Prometo que não vamos brigar. Só quero conversar.
Daisy o olhou. Ele parecia sério, sincero. E estava muito bonito. Relaxando um
pouco, ela assentiu.
— Seria muito bom.
Vinte minutos depois, a limusine estacionou diante de um pequeno restaurante no
East Harlem.
Ao olhar o letreiro, Daisy ficou chocada. Ela já ouvira falar do Bova’s, mas nunca se
imaginara comendo ali. Aquele era um dos restaurantes mais exclusivos de Nova York.
Ela mordeu o lábio.
— Esse é aquele restaurante onde nem as celebridades conseguem uma mesa?
— Sim. Mas conheço o dono. — Ele ofereceu a mão a ela. — Vamos comer.
O restaurante era bem pequeno. Havia apenas sete mesas. E todas estavam
ocupadas, menos uma.
— Espero que goste de comida italiana — falou Rollo, quando eles se sentaram. —
Além de pizza.
Ao olhar para ele, Daisy viu que seu olhar estava leve, brincalhão, e uma onda de
felicidade a percorreu.
Ela sorriu.
— Adoro — disse ela, falando a verdade. — Especialmente as sobremesas.
Ele pareceu satisfeito.
— Eles não têm cardápio aqui. Se você costuma vir bastante, eles sabem do que
você gosta e preparam para você.
Ele parou quando um garçom se aproximou da mesa. E Daisy sentiu uma pontada
de perplexidade e inveja quando ele começou a falar italiano fluentemente.
Virando-se para ela, ele franziu o cenho.

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— Espero que não se importe, mas tomei a liberdade de fazer o pedido para você.
Com a maioria das pessoas, eu nem saberia por onde começar, mas você é diferente.
Conheço você tão bem quanto conheço a mim mesmo.
Daisy piscou os olhos.
— Sério?
— Bem, eu devia conhecer. Foi por isso que passamos tanto tempo combinando as
nossas histórias.
Ele abriu um deslumbrante sorriso para ela, e Daisy assentiu mecanicamente. Ela
imaginara mesmo que ele a considerava especial?
— Tenho certeza de que vai ser delicioso. Na realidade, estou empolgada. Não
costumo comer fora. Nunca comi, na realidade. Acho que é porque trabalhei muito na
lanchonete dos meus pais.
— Não fale mal da Love Shack.
Ela fez uma careta.
— Não estou falando mal. É ótima, eles são ótimos. E amam o que fazem, amam
um ao outro.
Ela parou abruptamente. Sua voz estava aguda e forçada demais. O momento não
era bom para falar dos pais dela... especialmente do casamento perfeito deles. Não com
ela diante de seu futuro falso marido.
Desesperada para mudar de assunto, ela olhou à volta.
— Não é como eu esperava. É tão pequeno e...
— Comum? — sugeriu ele.
Ela assentiu.
— Parece a sala de jantar de alguém. — Ela olhou os outros clientes, arregalando
os olhos ao avistar um homem de cabelo escuro e camisa polo. — Aquele não é...?
— Sim. E a esposa, igualmente famosa. Eles moram em Tribeca. Vêm aqui duas
vezes por mês.
— Sério?
— A comida aqui é a melhor da cidade.
Ela assentiu. Acreditava nele. Contudo, nos últimos dias, sua vida fora aprender
sobre a dele, e ela sabia que havia algo mais por trás das palavras dele.
— Você também costuma vir aqui?
Ele assentiu.
— Umas duas vezes por semana.
Daisy ficou incomodada com as palavras dele. Umas duas vezes por semana!
Quantas mulheres isso dava por ano?
Ela franziu o cenho, sentindo parte de sua felicidade ir embora.
Mas por que ela estava fazendo esse cálculo? A vida particular de Rollo não era da
conta dela.
Essa era a vantagem daquela situação louca, a beleza do relacionamento deles.
Ela podia permanecer distante, sem se envolver emocionalmente.
Ao menos era o que devia acontecer.
Daisy ficou chocada ao descobrir que não era assim que ela estava se sentindo.
— Você está muito quieta.
— Só estava pensando. — Ela abriu um pequeno e tenso sorriso para ele. —
Tentando fazer um cálculo.
— Cálculo? Não vai sugerir que a conta seja dividida entre nós dois, vai?
— Não! Se bem que não vejo motivo para não fazermos isso. Não sou miserável,
sabia?
Ele a ignorou.
— Então, o que você está tentando calcular?
— Não importa. Sério, não é nada.

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Houve um curto silêncio. Os olhos dele estavam fixos nos dela, e Daisy se obrigou
a continuar olhando para ele.
— Certo — disse ele, após um momento. — Mas prometa que, se isso se tornar
um problema, mesmo que não seja problema seu, você vai me contar. Para eu poder
ajudar.
Foi a vez de Daisy ficar em silêncio. Ele achava que ela estava preocupada com a
dívida de David, e soara quase como se ele se importasse com isso. Como se quisesse
de fato ajudar.
Subitamente, o coração dela bateu rápido demais. Ela observou o rosto dele. Ele
falara sério? Ou estava apenas sendo fiel ao seu personagem?
— Certo. Eu prometo.
— Ótimo. Pedi um Chianti com nossa comida, ok?
Ela piscou os olhos, pega desprevenida pela mudança de assunto e pela repentina
percepção de que eles estavam conversando normalmente... quase como se fossem um
casal de verdade.
— Claro.
— Eles fazem um Montespertoli excelente aqui.
— Vou acreditar na sua palavra. Não conheço muito de vinho. David compra, e eu
só bebo.
Ele sorriu.
— Basicamente o que faço com meu sommelier.
— Você tem seu próprio sommelier?
— Claro — falou Rollo, fingindo estar perplexo. — Todo mundo tem, não?
Ela gargalhou.
— Claro! Na realidade, preciso falar com o meu, ver se ele aprova sua escolha.
Os olhos dele estavam brilhando.
— Acredite, eu fiz a escolha certa.
Ela sentiu tudo dentro dela se inflamar. Obviamente, ele estava falando do vinho,
da comida, talvez das duas coisas. Mas a cabeça dela estava girando e, acima de tudo,
Daisy queria que ele estivesse falando dela.
— Como você sabe que é o vinho certo?
— Vinho? É disso que estamos falando?
Os olhos dele repousaram no rosto dela, e Daisy se sentiu corar. Ela assentiu.
— É sério. Quero saber de verdade. Prometo não contar ao meu sommelier.
Rindo, ele se curvou à frente.
— Certo... Bem, se a comida tiver muito sabor, ela precisa ser combinada com algo
intenso e sensual...
Ela engoliu em seco, sentindo um intenso latejamento. Uma sede que não seria
saciada com nenhuma bebida.
— Basicamente, você precisa confiar nos seus instintos. — Parando de falar, ele
olhou por cima do ombro dela. — Ah, excelente. Estava com fome.
Ao ver os garçons colocando os pratos deles na mesa, Daisy sentiu seu apetite
retornando.
Como Rollo prometera, a comida estava deliciosa.
Pressionando o guardanapo nos lábios, Daisy pôs a faca e o garfo em seu prato
vazio.
— Estava perfeito.
— Fico feliz por você ter gostado.
Inspirando fundo, ela disse com cuidado:
— Entendo por que você traz todas as suas namoradas aqui.
Ele não respondeu. À volta deles, o ar pareceu ficar mais pesado.

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— Eu não trago todas as minhas namoradas aqui. Na realidade, você foi a


primeira.
Daisy sentiu seu coração dar um solavanco dentro do peito.
— Mas você disse que vem duas vezes por semana.
— E venho. Sozinho.
— Não entendo.
— Isto aqui é como um lar para mim. Venho aqui desde os 13 anos. Vinnie, pai do
atual dono, Joe, foi quem me deu meu primeiro emprego.
Ele exibiu um sorriso que fez algo dentro dela se abrir.
— O que você fazia? — perguntou Daisy com a voz rouca.
— No início, lavava pratos. Depois, fui garçom. Apenas um garçom. Eles não
confiavam em mim na cozinha.
Ela assentiu.
— Bastante prudente. — Ela arriscou um sorriso. — Já vi você queimar torradas.
Definitivamente, não confio em você na cozinha.
Ele sorriu novamente, e Daisy sentiu uma onda de felicidade e surpresa. Afinal,
quando fora que ela começara a querer deixá-lo feliz?
O café chegou, juntamente com uma pequena caixa verde-escura.
Daisy fez uma careta.
— É chocolate?
Ele assentiu.
— Sim, bem pequenos. Fique à vontade. — Sorrindo, ele empurrou a caixa na
direção dela.
Suspirando, ela abriu a tampa da caixa.
— Espero que sejam pequenos — resmungou ela. — Senão, não vou...
A voz de Daisy desapareceu.
Não era chocolate. Em cima do papel verde-claro havia um lindo anel de diamante
e esmeralda.
Ela o olhou, perplexa, hipnotizada.
— Espero que não se importe. Pedi a Joe para me ajudar.
Ele apontou para um grande homem de cabelo escuro, que sorria.
Daisy ergueu o olhar, buscando as palavras certas; na realidade, qualquer palavra.
Sua mente, porém, parecia ter parado de funcionar.
— Sim... Quero dizer, não... Não me importo. Ah, Rollo, é lindo. Adorei.
— Deixe comigo.
Daisy observou enquanto ele colocava o anel no dedo dela.
— Então, quer se casar comigo?
A voz dele estava suave. Por uma fração de segundo, ela esqueceu que não era
real. Esqueceu que tudo aquilo fazia parte da encenação deles.
— Sim, quero, sim. — Ela hesitou. — Mas por que aqui? Por que agora?
— Por que esperar? Quero que todos saibam que você vai ser minha esposa.
Ele só planejara dar o anel a ela mais tarde. Contudo, na noite anterior, tudo
mudara. Finalmente, ela fora honesta com ele, admitindo seu desejo francamente.
Dizendo que queria sexo, que o queria.
Subitamente, fazer o pedido de casamento parecera o próximo passo óbvio. E,
com Daisy usando o anel, o “casamento” deles estava mais próximo de ser real, um
passo a mais para o momento no qual James Dunmore finalmente venderia o edifício a
ele.

De volta à limusine, Daisy não conseguia parar de olhar para o dedo.


— Relaxe. Ele não vai fugir.

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— Eu sei. É que gosto de olhar. — Estendendo a mão, ela girou o anel de um lado
para o outro. Agora, era mesmo real. Ela era a noiva dele. — Acho que é melhor eu
contar aos meus pais e a David.
— Imagino que sim. — Ele ergueu as sobrancelhas de forma brincalhona. — Mas
vamos esperar algumas horas para nós mesmos nos acostumarmos à ideia.
No instante seguinte, uma corrente elétrica percorreu a pele dela, quando os dedos
de Rollo tocaram os dela.
— Se precisar alterar o tamanho, é só falar.
Ela assentiu.
— Pode deixar. Não quero que ele caia.
— Também não quero. Preciso devolver à joalheria daqui a um ano.
Daisy sentiu tudo dentro de si murchar.
Um instante atrás, ela se sentira como Cinderela. Agora, porém, se tornara a Bela
Adormecida... só que o príncipe não a acordara com um beijo. Ele a jogara da cama no
chão.
Mas e daí? Ela sabia que aquele não fora um pedido de casamento de verdade.
Eles não estavam apaixonados; todo o relacionamento deles era uma farsa. Eles só
estavam juntos para convencer Dunmore a vender seu edifício a Rollo.
Contudo, por algum motivo, nada disso parecia importar naquele momento. Ela
continuava se sentindo um fracasso. Como se sentira quando Nick terminara o
relacionamento com ela. E Jamie, antes dele.
Ela pensara ser amor verdadeiro. Enganara-se. E eles não haviam sido os homens
certos para ela. Mesmo assim, fora terrível aceitar isso, pois tudo que ela queria era
aquele entendimento tranquilo que seus pais tinham um com o outro.
Com Rollo, porém, tudo devia ser diferente. Com ele, ela achava que podia relaxar,
e não se preocupar em se magoar.
O coração dela se revirou.
Só que, aparentemente, também não era esse o caso.
Ela pôs a mão na testa.
— O que houve?
— Nada. Só dor de cabeça. Deve ter sido porque tomei vinho no almoço. Acho que
só preciso me deitar um pouco.
Rollo a olhou em silêncio. Dor de cabeça?
Irritado, ele olhou para o anel no dedo dela. No restaurante, tudo parecera tão real!
A comida, a conversa... Ele até mesmo contara a ela que trabalhara ali, algo que ele
nunca contara a ninguém. Agora, porém, ela estava mentindo para ele. Novamente.
— Talvez você possa simplesmente dizer a verdade. Que você está chateada por
ter que devolver o anel. Certamente você não deve ter pensado que ia ficar com ele.
Por um instante, ela ficou chocada demais para falar. Então, lentamente, um
calafrio de raiva a atingiu.
— Pensei, sim. E achei que você também fosse me dar metade do apartamento —
disse ela, de forma curta. — Não, Rollo, é claro que não pensei isso. Nem tinha pensado
em anel nenhum antes de você me dar este. Por que pensaria? Você disse que só
iríamos tornar isso público daqui a alguns meses.
Ele sorriu.
— E daí se mudei de ideia? Achei que as mulheres gostassem de espontaneidade.
Ela o olhou com irritação.
— E eu sou só uma mulher? Que romântico!
— A ideia não é ser romântico. Isso é um acordo de negócios.
— Está bem! Então, não preciso disto. Tome!
Ela tirou o anel e o ofereceu a ele.

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Rollo a ignorou. Ela era insuportável. Irracional. Ingrata. Ele poderia tê-la atirado,
junto com seu irmão, aos lobos. Em vez disso, ele lhe dera uma segunda chance, como o
pai dele fizera.
Curvando-se à frente, ele bateu na janela que ficava atrás do motorista.
— O que está fazendo? — Daisy estava olhando para ele de olhos arregalados.
— Vou sair. Preciso de ar puro.
— Mas você não pode simplesmente ir embora. Precisamos conversar.
A raiva dela estava sendo substituída por confusão e medo.
Contudo, quando o carro parou, Rollo abriu a porta com uma expressão
indecifrável.
— Não faz sentido. Realmente não acho que tenhamos algo mais a dizer um ao
outro. — Então, antes que Daisy tivesse chance de responder, ele já estava na calçada,
desaparecendo em meio à multidão enquanto o carro voltava para o tráfego.

Capítulo 7

No apartamento, Daisy olhou apaticamente pela sala de estar, as lágrimas que ela
conseguira conter na limusine ardendo em seus olhos.
Como assim ele não tinha mais nada a dizer?
Entretanto, ao se lembrar do tom dele, ela sentiu um aperto no peito e soube o que
aquilo significava.
Estava tudo terminado.
Agora, o irmão dela pagaria o preço.
Ela precisava avisar a David. Precisava ser ela a contar a ele sobre o acordo que
ela fizera e arruinara. E sobre o que aconteceria agora...
O pânico a dominou. Com o coração em disparada, ela subiu a escadaria. Faria as
malas e partiria.
No entanto, se ela fosse embora, não haveria mais volta. Ela não devia ao menos
tentar conversar com Rollo outra vez?
Ela se sentou na cama com as mãos trêmulas.
Rollo deixara claríssimo que não tinha mais nada a lhe dizer.
Sendo assim, seria ela quem precisaria falar... mesmo que fosse apenas para se
despedir.
Ela não era covarde. E, embora soubesse que cometera erros, não iria fugir e
passar a impressão de que era culpada.
Se ao menos as mãos dela parassem de tremer...
Ao olhá-las, ela viu o anel. Sentindo um aperto dentro de si, ela o tirou e o colocou
sobre a mesa de cabeceira. Não precisava mais dele.
Mas ela queria ficar ali para enfrentar Rollo. Era uma escolha dela. O que
significava que ela não era indefesa. Agora, porém, era hora de fazer as malas.
Quando Daisy finalmente terminou, sentiu uma ligeira mudança na luz do quarto.
Ao erguer o olhar, ela sentiu sua garganta se fechar.
Rollo estava na porta. A mesma porta onde ele estivera poucas horas antes,
quando ela tentara decifrar o humor dele. Só que, dessa vez, ela nem precisava tentar.
Era inconfundível. Ele estava completamente furioso.
— V-você voltou — gaguejou ela. — Eu não estava esperando isso.

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Rollo cerrou os dentes, seu olhar se desviando dela para a mala sobre a cama.
Subitamente, tudo dentro dele se contraiu, sua respiração acelerando.
Fazer as malas também fora um dos truques favoritos da mãe dele.
Mas apenas como encenação. Ele sabia disso porque, quando ela finalmente fora
embora de verdade, não levara mala alguma. Não precisara. Claro, ela levara o que
importava. Mas deixara todo o resto para trás.
Inclusive seu filho.
E o bilhete justificando seus atos.
Ele se sentiu enojado. Com desprezo, olhou nos olhos de Daisy.
— Claramente.
— Não foi isso que eu...
— Pare. Sei o que você quis dizer. E, mesmo que eu não soubesse, a mala deixa
bem claro.
— Eu... não ia fugir. Estava esperando. Você.
— Claro. Você é uma atriz. Gosta de fazer entradas e saídas dramáticas. Só que
isso só funciona diante de uma plateia.
A ira martelava dentro da cabeça dele.
Ele começara a pensar que ela pudesse ser diferente. Que talvez a tivesse julgado
de forma equivocada. Mas ele se engara. Fora um idiota. Esquecendo todas as lições
aprendidas na infância, Rollo se permitira ser enganado pela beleza, pela atração sexual
de Daisy.
Só que ele não era mais um garotinho. Era um homem, dono de uma empresa
global bilionária, que se esforçara muito para construí-la. E ainda mais para manter sua
vida livre da tensão emocional e da incerteza que ele detestava.
Fora por isso que ele apressara o noivado deles.
Fora uma decisão unilateral, um lembrete para Daisy de que era ele quem
mandava ali. E, claro, a primeira prova concreta que ele poderia dar a Dunmore de que
ele mudara; era um homem apaixonado, comprometido com uma mulher.
No fundo, contudo, o que importava de fato, o que ele precisara saber, sentir, era
que Daisy fosse capaz de ser franca e honesta. Quando ela finalmente admitira seu
desejo e reagira de forma tão febril ao toque dele, isso fora a garantia de que ele
precisava para acelerar o relacionamento deles.
Entretanto, ao vê-la abrir a caixa do anel, ele se flagrara nervoso para saber a
reação dela. Ainda pior, na limusine, ela mentira novamente, e ele sentira o mesmo
desconforto, a mesma insegurança insuportável que atormentara sua infância.
Agora, ela fizera as malas.
— Queria poder dizer que estou surpreso ou decepcionado. Mas, dado o seu
caráter, é tudo tragicamente previsível.
Daisy sentiu-se ferida com as palavras dele, mas obrigou seus olhos a encontrarem
os dele.
— Pode me ofender quanto quiser. Não ligo. Só esperei para dizer a você que vou
falar com David. Então, se você puder...
— Quanta consideração. A irmã protetora. Ele vai ficar muito satisfeito.
— Sei que você está irritado, Rollo, mas a questão não é você. Ou nós.
Ele balançou a cabeça, a fúria crescendo, seu coração disparando. O que
acontecera na noite anterior e no restaurante não valera nada para ela?
— Vou adivinhar. A questão é você. E o seu irmão.
Ela suspirou tremulamente.
— A questão sempre foi David, e você sabia disso. Olhe, não posso impedir que
você chame a polícia. Mas quero estar lá com ele quando ela aparecer.
Ele soltou uma risada sem humor.

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— Você é mesmo a rainha do drama, não? — Rollo apontou para a mala dela. — E
adora elementos cenográficos.
— Não é um elemento cenográfico — disparou ela. — De que outro jeito eu podia
juntar minhas coisas para ir embora?
— Você não precisa juntar suas coisas. Isso é só uma farsa. Como tudo que você
faz.
— Como tudo que nós fazemos, não é? Você é tão hipócrita. Nosso
relacionamento inteiro é uma novela criada por você, e você ainda tem a coragem de me
acusar de ser a rainha do drama?
— Isso não é o que considero um relacionamento saudável — rosnou ele.
— Certamente também não é o que eu considero. É como viver numa zona de
guerra.
— Sendo assim, talvez você devesse parar de transformar tudo numa briga.
— Eu?! E você? Foi você quem deu um chilique em plena Madison Avenue, indo
embora como se fosse uma criança.
Era verdade. Ele se comportara de forma infantil. Mas a culpa fora dela. Ele podia
ter a reputação de ser um frio negociador. Com Daisy, no entanto, seu temperamento
ficava volátil, vulcânico.
— Ah, mas você devolver o anel que lhe dei... isso, sim, foi um exemplo de
maturidade.
— Eu não estava tentando ser madura. Estava chateada.
— Você não estava chateada. Estava frustrada. Quando viu o anel, achou que
fosse ficar com ele.
Rollo viu a repentina mágoa nos olhos dela, mas a ignorou.
— E, quando viu que isso não ia acontecer, foi você quem deu chilique...
— Não é verdade! E nem é justo. Eu nem tinha pensado em anel nenhum.
Era verdade... ela não pensara. Ao menos não nele fazendo aquilo com tanta
sensibilidade. Daisy imaginara que haveria um anel, mas que seria apenas um objeto.
Recordando-se do esforço que ele fizera no restaurante para surpreendê-la, Daisy
sentiu seus olhos arderem.
— Como pode me acusar de tramar para ficar com ele?
Rollo ouviu o tremor na voz dela e soube que a magoara. Também soube que
estava sendo injusto, cruel. Mas ele não começaria a fazer as vontades de Daisy como o
pai dele fizera as de sua mãe.
Fora justamente por isto que ele programara aquele relacionamento com ela: para
evitar esse tipo de manipulação emocional.
— Acho difícil acreditar nisso. Você mal conseguiu tirar os olhos dele no carro.
Resistindo às lágrimas, Daisy balançou a cabeça. Ele pensava mesmo tão pouco
dela? Não lhe ocorrera que ela pudesse ter outro motivo, inocente, menos egoísta, para
admirar o anel?
— Não foi por eu ter achado que era meu...
Subitamente, ela não conseguiu mais falar. Como poderia explicar aquilo a Rollo?
Um homem indiferente, que rejeitava brutalmente tudo que era romântico?
Como ela poderia esperar que ele entendesse que ela não estivera encenando?
Que, apenas por um instante, quando ele pusera o anel no dedo dela, tudo
parecera real e perfeito. Como ela imaginara que seria em suas fantasias de amor.
O coração dela gelou. Recordando-se da maneira como ela se contorcera com os
dedos dele, seu corpo se abrindo para o de Rollo, ela se sentiu enojada.
Não era de admirar que ele tivesse sido capaz de se conter. Para ele, tudo fora
uma encenação. Uma maneira de demonstrar seu poder sobre ela.

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— Pense o que quiser. — Ela suspirou, trêmula. — Não me importo. — Ela pegou
a mala. — Como você mesmo já disse, não temos mais nada a dizer um ao outro. Então,
vou ver David. Tenho a obrigação de pelo menos...
Ela parou de falar, perdendo o fôlego. Ao ver o pálido rosto dela, Rollo sentiu um
latejamento de tristeza por trás de sua raiva.
Ele afirmara que não havia mais nada a ser dito.
O que ele quisera dizer de fato fora que, preso na limusine com sua raiva e suas
recordações, ele não soubera como dizer aquilo.
Toda vez que ele tentara dar início a uma frase, ela se transformara num campo
minado. Por isso, ele fizera o que sempre fazia quando enfrentava dúvida e discórdia. Ele
virara as costas.
Ao caminhar pela Madison Avenue na direção de seu escritório, Rollo tentara se
concentrar na agenda daquela tarde. Contudo, ele estava tenso demais, seu cérebro
tentando freneticamente entender como um almoço perfeito se transformara no fim do
mundo.
E quando, incrivelmente, ele deixara de se importar com o trabalho e começara a
se importar com seu relacionamento com Daisy.
Ele avançou um passo.
— Você não precisa encontrar David — falou ele em voz baixa.
— Preciso, sim. Eu o deixei na mão, e ele nem sabe disso.
A dor na voz dela parecia espelhar a que havia dentro do peito dele.
— Você não o deixou na mão. Você o salvou.
— Não, eu tentei salvá-lo, tentei resolver tudo, fazer isso dar certo com você. Só
que, agora, você vai chamar a polícia...
Ele levantou a mão.
— Espere. Espere. — Ele franziu o cenho. — Eu não vou chamar a polícia. Já não
ia fazer isso antes...
As vozes dentro da cabeça dele berravam para que ele não permitisse que Daisy
fosse embora.
— Sei o que eu disse. Como deve ter soado. Mas eu estava com raiva, não gosto
de escândalos...
Rollo hesitou, enervado ao perceber que suas defesas estavam sendo destruídas.
Ele nunca fazia confidências a ninguém. Mesmo assim, aquela já era a segunda vez que
ele fazia isso com Daisy num intervalo de poucas horas.
— Olhe, nada mudou. Não voltei aqui para acabar com nosso relacionamento.
Voltei para encerrar nossa discussão. Mas é só isso. Uma discussão. Casais são assim,
não são?
O coração dele disparou. Casal era uma palavra que ele evitara propositalmente
durante toda a sua vida adulta. E uma discussão sempre fora algo a ser vencido. Só que,
dessa vez, vencer significaria perder Daisy.
Ela o estava olhando fixamente, perplexa. Então, balançou a cabeça.
— Mas é exatamente isso. Não somos um casal. Não somos nada. — Ela suspirou.
— Durante metade do tempo, eu não sei nem quem eu sou, o que é real e o que não é. E
não sou só eu. Mais cedo, eu estava chateada...
Ele abriu a boca para falar, mas Daisy ergueu a mão para impedi-lo.
— Sei que isso não foi racional, nem justo. Mas eu fiquei chateada. Só que você
não percebeu. Achou que eu estivesse encenando.
Um silêncio dominou o recinto.
— E isso incomoda você?
A pergunta dele a pegou desprevenida.

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— Sim. Talvez não devesse incomodar, mas incomoda. Achei que os limites
fossem ser mais claros. Que eu me sentiria de um jeito diferente sendo eu mesma sem
você. Mas está tudo se misturando e...
Ela parou.
Agora, está tudo ainda mais complicado, concluiu ela dentro de sua cabeça.
Ao relembrar como ele a tocara, sua reação frenética, ela sentiu um calor no rosto.
Tivera outros amantes, mas nunca daquele jeito tão urgente, febril. Em poucos e
acalorados instantes, Rollo apagara o passado, destruindo todas as experiências sexuais
que ela já tivera.
Mas Daisy preferiria correr nua pela Madison Avenue a revelar como ele a afetava.
Ela pegou o anel e o ofereceu a ele.
— Tome. Isto é seu.
Rollo olhou para a mão dela e pegou lentamente a joia.
O límpido castanho dos olhos dela acentuava o rubor de suas faces. Ela nunca
estivera tão linda. Contudo, não era a beleza de Daisy que estava fazendo o coração dele
disparar.
Era a coragem dela. Rollo sabia como seria difícil para ele próprio admitir suas
fraquezas, revelar seus mais profundos medos. Ele olhou o anel. Tão pequeno. Fácil de
ser perdido e, ao sê-lo, quase impossível de ser encontrado.
Como a confiança.
Rollo sentiu os olhos dela em seu rosto e desviou o olhar. Ele fizera um acordo
com Daisy... e que tipo de acordo dava certo sem confiança?
Lentamente, ele pegou a mão dela.
— Não, é seu. Eu o escolhi para você. E não foi minha intenção deixar você
chateada. Foi por isso que voltei. Para dizer isso.
Daisy o olhou, perplexa. Era um pedido de desculpas. E ele fora atrás dela para
fazê-lo.
Ela viu a boca dele se curvar num meio-sorriso.
— Mas, se você não quiser mesmo, acho que posso transformá-lo numa presilha
de gravata.
— Eu quero, sim. — Ela ergueu o olhar e, sem dar a si mesma a chance de pensar
melhor, disse rapidamente: — E quero você.
Houve uma curta pausa. Então, devagar, ele deslizou o anel para o dedo dela.
Suspirando, puxou-a para si.
— Também quero você.
Por um momento, eles ficaram ali em silêncio. Erguendo o olhar, ela viu que Rollo
estava de cenho franzido.
— O que foi?
— Estou atrasado para uma reunião.
— Então, vá — disse ela suavemente. — Vou estar aqui quando você voltar. Não
vou a lugar nenhum.
Ela sentiu os braços dele se firmando em torno de sua cintura.
— Você não vai mesmo. Mas nós vamos.
Ela o olhou, confusa.
— Vamos?
— Vamos sair daqui. De Manhattan. Ir a um lugar onde não precisemos fingir.
A pulsação de Daisy disparou de empolgação.
— Em que lugar você está pensando?
Ele sorriu lentamente, e o coração de Daisy se apertou fortemente com pena de
qualquer pobre coitada que pudesse amar Rollo de verdade. Com uma beleza e um
charme como os dele, era fácil esquecer sua implacável determinação. Entretanto, ao

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olhar o tranquilo e lindo rosto dele, ela soube que ele estaria sempre um passo à frente
dela. E que ela estaria sempre onde ele queria.
— Tenho uma pequena cabana no norte do estado... nas montanhas Adirondack. É
meio rústica, mas o que você acha? Você e eu, juntos, na natureza?
Parecia uma pergunta, mas Daisy sabia que ele não estava esperando uma
resposta. Contudo, quando o calor despertou dentro dela, ela ergueu sua boca para a
dele e lhe deu essa resposta.

— Acho melhor eu lhe dizer que há ursos nos bosques. São pequenos e raramente
incomodam os humanos, mas é melhor você tomar cuidado mesmo assim.
Curvando-se à frente, Rollo pegou sua caneca de café. Tendo chegado ao Mohawk
Lodge vinte minutos antes, eles estavam relaxando diante de uma vista panorâmica do
lago e das montanhas Adirondack. Ao longe, a floresta parecia o pano de fundo de um
conto de fadas, mas Daisy mal estava prestando atenção na vista.
Ela ainda estava perplexa com a viagem no helicóptero particular dele. Ou melhor,
com a maneira como ele segurara a mão dela durante todo o voo, sua perna
pressionando a dela, sua boca tentadoramente próxima enquanto ele indicava pontos
turísticos da região.
— Você disse ursos?
Ele semicerrou os olhos.
— O que houve?
— Nada. Só não sabia que a sua vida era assim.
— Assim como?
— Tão... incrível.
Ele deu de ombros.
— Não costumo dar muita atenção a isso.
— Acho que você deve acabar se acostumando.
Ela, porém, não conseguia não considerar incrível ter um helicóptero e uma cabana
no lago. Mais um lembrete das diferenças entre eles.
No momento, porém, ela precisava se concentrar no que eles tinham em comum,
não nas diferenças.
— O que acha de você me mostrar o lugar, como prometeu?
A cabana era maravilhosa. Construída em 75 acres de planícies e florestas virgens,
era feita de madeira e pedra, mas tinha o mesmo luxo da cobertura. E pedir para Rollo lhe
mostrar o lugar fora a decisão certa. Ao saírem para o deck, onde havia uma cama de
balanço, tudo dentro dela explodiu de felicidade quando ela sentiu a mão de Rollo em
torno da sua.
— Então, quer nadar?
Ela franziu o cenho.
— Não sei. Como está a água?
— Provavelmente, bem agradável.
Ela revirou os olhos.
— Talvez eu precise de uma segunda opinião antes de pegar meu biquíni. Não sei
bem se confio no seu julgamento. Você disse que era uma “pequena cabana, meio
rústica”. Eu não estava esperando nem encontrar eletricidade.
E nem uma banheira de hidromassagem e um chef francês.
Ao erguer o olhar, ela ficou em silêncio. Rollo a observava intensamente. Então, ele
a puxou para si.
— Posso ser bem rústico — murmurou ele. Baixando a cabeça, ele tocou sua boca
na dela.

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A cabeça dela estava girando... Seu corpo se derretia como cera ao lado de uma
chama.
Só que não de desejo, mas de vergonha.
Imaginando a maneira como ele se afastara dela, sabendo que seria impossível ela
fazer o mesmo, ela sentiu uma ponta de dúvida e medo.
— O que foi?
Ela hesitou, desviando o olhar. Daisy o queria tanto! Mas não podia se entregar a
ele. Não agora que ela sabia que o desejo dele era motivado pelo poder, não pela paixão.
— Daisy? Daisy?
— Ontem, quando nós... Quando você...
Ela franziu o cenho. Havia um tremor em sua voz, e ela soube que seus olhos
estavam brilhando com as lágrimas.
— Eu sei que você queria fazer sexo. Mas também sei que você não me queria.
Fora um palpite, uma teoria. Contudo, quando ele baixou o olhar para ela, Daisy
sentiu uma onda de tristeza tão intensa que não suportou olhar para ele. Empurrando o
peito dele, ela se afastou.
— Está enganada.
Ela o olhou, o coração pesado.
— Então, por que você parou?
Como pôde parar?, quis perguntar ela, recordando-se da força, da violência de seu
desejo por ele. Como ele conseguira ser tão friamente distante?
Entretanto, a expressão dele não parecia nem um pouco distante agora. Ele
parecia tenso, incerto.
Rollo balançou a cabeça.
— A resposta mais curta é que sou um idiota. Queria provar a mim mesmo que
você era opcional. Que demonstrar minha força de vontade era mais gratificante do que
você seria. Mas eu estava enganado. Em relação às duas coisas. — Ele fez uma
expressão de sofrimento. — As últimas 24 horas foram as mais desconfortáveis da minha
vida. E tudo que consegui provar foi que não consigo fazer mais nada, porque quero você
demais.
Ela arfou, perplexa, mas feliz.
Contudo, ela não facilitaria as coisas para ele. Rollo a magoara. E, sim, ela sabia
que ele fizera isso por detestar perder o controle. Mas ele precisava entender que, apesar
de haver um motivo para seu comportamento, isso não o tornava certo.
— Como posso saber se isso é verdade? Que você me quer? Você pode estar
fingindo.
Os olhos dele se semicerraram, e o coração dela disparou quando ele a puxou
firmemente para si, fazendo Daisy sentir a rígida extensão da ereção dele.
— Acredite, Daisy. Isto é real. E é para você. Só para você.
Ele tocou delicadamente o rosto dela.
— Não penso em mais nada além de você. Desde aquele beijo no meu escritório.
Se não acredita no que digo, talvez eu precise mostrar.
Baixando a cabeça, ele a beijou. Um beijo diferente de todos os outros. Mais
ardente, profundo. A boca dele a possuiu com uma ferocidade que ela não conseguiu
pensar em mais nada.
Quando as mãos dele se movimentaram levemente pelas costas, ombros e
pescoço dela, Daisy estremeceu. Ele a fez recuar, e Daisy trombou com o balanço. Rollo
a ergueu para o colchão.
Urgentemente, ele tirou as botas, a camiseta e o jeans dela, deixando-a apenas
com a roupa íntima.

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Ela perdeu o fôlego quando ele se curvou sobre ela, seu rosto tenso de paixão e de
algo mais suave, menos contido. E Daisy soube que ele queria que ela visse o que ele
estava sentindo, que soubesse que era real.
Num piscar de olhos, as dúvidas dela foram esquecidas. Foi como ser consumida
pelas chamas. As chamas da paixão que ardiam entre eles.
Ela o olhou.
— Quero um beijo — sussurrou ela.
Obedecendo, ele a beijou lentamente, sua língua sondando os lábios de Daisy.
— Abra a boca — murmurou ele. — Quero provar você.
Ele mal estava respirando; tudo que ele sentia era a pulsação em sua virilha.
Com o sol do fim de tarde banhando o deck, a luz dourada se derramou sobre a
pele dela, e Rollo perdeu o que restava de seu autocontrole.
Ele lambeu e mordiscou os lábios dela. Gemendo levemente, Daisy reagiu ao beijo,
seus dedos o puxando para si pela cabeça até fazê-lo interromper o contato, arfando.
Por um momento, ele a olhou fixamente em silêncio, perplexo, quase inebriado
com a beleza dela. Então, Rollo tomou um dos seios de Daisy na mão, o polegar roçando
a ponta do mamilo.
Daisy estremeceu. O calor estava crescendo dentro dela, fazendo seu corpo se
arquear para cima, deixando suas coxas trêmulas. Ela o sentiu afastar o fino tecido do
sutiã, sentiu a boca dele se fechando sobre seu seio. Os dedos dele começaram a
deslizar pelo corpo dela, passando pelo abdômen, os quadris, entre as pernas,
envolvendo seu pulsante latejamento.
A respiração dela acelerou. Subitamente, Daisy já estava mexendo no cinto dele,
baixando o zíper da calça, seu corpo vibrando de desejo quando seus dedos encontraram
a lisa rigidez da ereção de Rollo.
Com o toque da mão dela, o corpo dele sofreu um espasmo involuntário.
Grunhindo, ele mudou de posição, levando a mão ao bolso para pegar um preservativo,
os dedos rasgando atabalhoadamente a embalagem. Ele colocou o preservativo,
sentindo-se ficar ainda mais grosso, ainda mais rígido.
Enlouquecida, ela o segurava freneticamente, suas costas se curvando para cima,
buscando mais da boca dele, de suas mãos, enquanto ele afastava a calcinha dela para o
lado. O peso do corpo de Rollo a pressionava, e ela rebolou junto a ele.
Ele movimentou os quadris, e Daisy sentiu uma aguda pontada de êxtase e tensão.
Então, a boca dele encontrou a dela, e, grunhindo o nome de Daisy, ele ergueu o corpo,
penetrando-a com força.

Com os corpos ainda entrelaçados, eles viram um sol rosado afundar atrás das
montanhas. Suspirando, Daisy passou levemente a mão pelo abdômen dele.
— Este lugar é tão distante. Como você o encontrou?
— Há alguns anos, fechei um acordo com um homem chamado Tim Buchanan. Ele
e eu gostamos do mesmo tipo de atividades. Ele me convidou para passar o fim de
semana aqui.
— Atividades? Parece intrigante! — Ela abriu um pequeno e provocante sorriso. —
Você não é daqueles fanáticos por encenações, é? Tipo aqueles que reencenam a
Guerra Civil. Não vou sair do chuveiro e o encontrar vestido de Abraham Lincoln, vou?
— Eu estava falando de caça e pesca. Mas estou sempre disposto a um pouco de
encenação.
Ele passou os dedos pela curva dos quadris dela, e um ardente tremor a percorreu.
— Bom, é só me avisar quando for para eu pegar minha crinolina — brincou ela.
Olhando o lago, ela suspirou.
— Você deu muita sorte de estar à venda.

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— Não estava. Mas gostei. Por isso, fiz uma oferta, e ele aceitou.
— Sua família deve adorar.
Mesmo antes de ouvir a tensão na voz dele, Daisy conseguiu senti-la nos ombros
dele.
— Tenho certeza de que eles teriam adorado. Mas meus pais já se foram.
Como ela não soubera daquilo? Rollo sabia tudo sobre a família dela.
— Ah, eu sinto muito.
Pensar em perder seus próprios pais a enchia de pavor.
— Mas eles devem ter tido muito orgulho de você, de tudo que conquistou.
Dessa vez, a hesitação foi inconfundível. Por um instante, Daisy achou que ele não
fosse responder. Mas, finalmente, ele abriu um sorriso superficial.
— Todos pais não têm?
Ele não se mexeu, mas ela quase conseguiu senti-lo se afastando. Hora de mudar
de assunto.
— Acha que podemos dormir aqui fora hoje?
Ela o sentiu relaxar.
— Acho que sim. Mas você não vai ficar com medo? Como eu disse, tem animais
selvagens por aí.
— Eles não me assustam — disse Daisy roucamente. — Sei domá-los. — Ela
montou nele, segurando seus punhos. — Só preciso treinar um pouco mais.
— Boa ideia. A prática leva à...
Rollo, contudo, deixou de falar quando Daisy passou a língua levemente pelos
músculos do peito dele, descendo em seguida, indo para o abdômen, e ainda mais para
baixo...

Daisy estava nos braços dele, observando enquanto Rollo dormia. Ela estava com
sono, mas não queria fechar os olhos. Não queria que aquele momento terminasse.
Ela passara a vida inteira em busca da paixão. A intimidade de conhecer alguém
por completo.
Porém, nunca se imaginara encontrando isso com Rollo. Não esperara aquela
incrível química sexual.
Podia não ser amor.
Podia não ser permanente.
Mas, no momento, ela estava vivendo apenas o presente.
E aproveitaria ao máximo.

Capítulo 8

Ignorando a ardência em seus pulmões, Rollo subiu a colina correndo. Faltavam


apenas mais alguns metros e...
Um pequeno, embora intrusivo alarme soou. Reduzindo o ritmo, ele rumou na
direção do píer de madeira que se estendia para o lago. Seus braços estavam trêmulos,
sua camiseta estava encharcada de suor, mas o calor e o caos de seu corpo não eram
nada comparados com a turbulência dentro de sua mente.

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Ele acordara cedo, como sempre. Desta vez, porém, ficara estranhamente
relutante em sair da cama. Sentira o calor, o conforto. Fora fácil ficar deitado lá, ouvindo
preguiçosamente o som das ondas batendo no deck.
Contudo, por trás de sua letargia e do reconfortante ritmo da água, houvera uma
incômoda sensação de que algo estava diferente.
Ele levara um momento para se dar conta de que a diferença era Daisy.
Ou, mais especificamente, o fato de que, em algum momento da noite, o macio
corpo dela se aninhara junto ao dele. E ele não a repelira.
Por um instante, a mente dele ficara paralisada com aquela inédita situação. Ao
longo de sua vida, ele tomara um cuidado extremo para jamais acordar ao lado de uma
mulher.
Mesmo assim, Daisy estivera ao lado dele, as pernas enroscadas nas dele, sua
mão na cintura de Rollo...
Ele olhou apaticamente a água, tentando entender seu comportamento.
Rollo levou vários minutos para admitir que talvez tudo aquilo tivesse a ver com
Daisy. Ou melhor, com o sexo com Daisy.
Tudo dentro dele se contraiu, e Rollo sentiu uma pontada de expectativa sexual
quase insuportável, como sentira durante a noite, quando fora impossível não a puxar
novamente para seus braços.
Fora selvagem, ardente, enlouquecedor, e Daisy o fizera querer mais, dar mais,
sentir mais do que qualquer outra mulher. Suas febris exigências haviam correspondido
às dele. Mesmo agora, com a fria brisa soprando sobre a água, Rollo ainda sentia a
tórrida marca do toque dela em sua pele...
Mas nada mudara de fato, garantiu ele a si mesmo. Daisy podia parecer uma
princesa adormecida, com seu cabelo loiro comprido sobre o travesseiro, mas o
relacionamento deles não teria um final de conto de fadas.
Sim, ele se casaria com ela. Mas apenas porque precisava de uma esposa para
persuadir Dunmore a vender o edifício. Contudo, depois da noite anterior, ela parecia
mais uma compulsão do que uma necessidade para ele.
Suspirando, ele franziu o cenho. A incômoda sensação que o acordara estava de
volta. A sensação de que Daisy era diferente.
De que ele era diferente quando estava com ela.
Mas por quê? Ele não vivera uma vida de celibato. Tivera muitas mulheres. Todas
lindas e sexualmente ávidas, e ele sempre as desejara... Entretanto, nunca daquele jeito.
Nunca com aquela sede implacável, excruciante. E essa sede ainda não fora saciada.
Deixar as mulheres para trás sempre fora fácil. Mas não dessa vez. Não com Daisy.
A boca dele se contorceu. Ele precisara fazer um esforço para levantar naquela
manhã. E só o fizera para provar a si mesmo que era capaz de resistir a Daisy.
Rollo franziu o cenho. O sexo com Daisy devia curar a frustração sexual dele, não
a piorar, deixando-o ainda mais viciado nela.
Provavelmente, isso estava acontecendo porque ele nunca ficara tanto tempo sem
sexo, nem precisara lidar com tanta intimidade. E daí se estivesse demorando mais do
que de costume para superá-la? Ele teria um ano inteiro para fazer isso com ela em sua
cama.
Nesse meio-tempo, porém, ele precisava tomar cuidado. Ser disciplinado.
Pragmático. Seria fácil se perder em seu desejo por Daisy, mas ele precisava manter o
foco no verdadeiro motivo de ela estar em sua cama. E no fato de que, quando Dunmore
fechasse a venda, ela sairia de sua vida para sempre.

— O que é isto?
Daisy conteve um bocejo.

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— O quê?
Ele não parecia se cansar de tocá-la. Agora, estava acariciando a perna dela, sua
mão descendo lentamente do quadril.
Depois de retornar de sua corrida, ele tomara banho e a acordara impacientemente
para que passassem o resto da manhã fazendo amor. Agora, eles estavam deitados na
cama, esgotados. Ou melhor, ela estava esgotada. Rollo parecia energizado pelas
atividades da manhã.
— Isto.
Ela sentiu os dedos dele pararem e traçarem lentamente a forma de um oito na
pele acima do joelho dela. Instantaneamente, ela esqueceu a pergunta, esqueceu a
resposta, esqueceu quem ela era. Seu corpo estava trêmulo por inteiro, os mamilos se
contraindo, um calor suave e líquido se alastrando dentro dela.
Ela o olhou quase não ousando acreditar que ele estivesse ali do seu lado, com
seus músculos quentes, sua pele dourada. Ele era tão deslumbrante, e também fazia com
que ela se sentisse assim.
Não apenas deslumbrante, mas, de alguma forma, mais livre e mais verdadeira
consigo mesma.
Com outros namorados — com todo mundo, na realidade, mesmo David –, ela se
sentia sempre fingindo ser outra pessoa. Alguém que ela não queria ser, uma Daisy
despreocupada e irresponsável que nunca conseguia ter sucesso, fosse nos
relacionamentos ou em sua carreira.
Com Rollo, porém, era diferente.
O que não era nenhuma surpresa. Mesmo não levando em consideração o fato de
ele ser um dos homens mais ricos do país, aquele não era exatamente um
relacionamento comum. Os outros namorados dela podiam ter sido preguiçosos, sem
consideração, imaturos, mas nenhum jamais a chantageara para que fizesse o papel de
sua esposa.
Entretanto, não era apenas a estrutura do relacionamento deles que a estava
fazendo se sentir tão perdida. Era o próprio Rollo; ou melhor, a maneira como ele exigia
uma veracidade, uma honestidade que outros homens não exigiam. Não apenas com os
fatos, mas com ela mesma. Com ele, não havia onde se esconder. Ninguém nunca a
afetara daquele jeito.
Nos braços dele, ela se sentia aquecida e segura.
Esse era o problema do sexo.
Ela já passara por isso antes, e sempre fora a mesma história. O sexo passava a
sensação de ser algo tão íntimo! E era... fisicamente. Mas não passava de dois corpos se
enroscando um no outro.
Ela franziu o cenho. Aquilo soava como algo mecânico, bem diferente do que ela
sentia com Rollo. Por outro lado, o sexo com ele fora além de tudo que ela imaginara. Ela
nunca reagira a nenhum homem assim, tão ferozmente, tão livremente. Era empolgante...
e aterrorizante. Às vezes, ela nem se reconhecia. Quem era aquela mulher com tanta
iniciativa, tão exigente? Mas era bom ser essa mulher. Ser ela mesma.
Estar com Rollo também lhe parecia certo em outros aspectos. Talvez fosse o fato
de eles compartilharem um segredo. No entanto, parecia que eles se conheciam bem.
Quase como se tivessem se reencontrado após uma longa separação.
Ela sentiu o olhar dele e olhou para onde estavam seus dedos.
— Ah, isso. — Era um pequeno corte acima de seu joelho. Ela corou. — É de
quando bati naquela tábua do seu escritório.
Ao lado dela, Rollo inclinou a cabeça para trás, as palavras dela agindo como um
freio de emergência sobre o desejo dele. O escritório!

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Como ele pudera ter esquecido a maneira como eles haviam se conhecido? Ou o
verdadeiro motivo de ela estar em sua cama? Ele sentiu um lampejo de irritação por ter
deixado sua libido atrapalhar os negócios.
— Isso me faz lembrar que James Dunmore ligou. Ele nos convidou para almoçar.
Parece que quer muito conhecer você.
Daisy o olhou fixamente. Havia uma expressão no rosto dele que ela não
reconheceu. Por um instante, ela achou que pudesse ser arrependimento.
Contudo, a declaração seguinte dele descartou essa ideia.
— As férias terminaram — disse ele casualmente. — Hora de voltar ao trabalho.
Para ela, não tinham sido férias. Parecera mais uma lua de mel. De qualquer
forma, estava terminado.
Obrigando-se a sorrir, ela olhou nos olhos dele.
— Ótimo. Vou me vestir. Não podemos deixá-lo esperando.

Quando o helicóptero subiu, Daisy olhou a hora. Seu coração estava acelerado.
Agora que chegara o momento, ela gostaria de ter tido mais tempo para conhecer o
homem para o qual aquela farsa estava acontecendo.
— Tem algo que eu deva saber sobre o sr. Dunmore? Quero dizer, sei o básico,
mas...
Virando-se, Rollo a olhou, sua fria expressão sendo uma clara indicação de que o
amante relaxado dos últimos dias fora substituído pelo distante magnata do mundo
imobiliário.
— O básico está de bom tamanho.
Ele olhou pela janela.
Abaixo deles, o verde da floresta estava ficando mais esparso. As estradas
começavam a cruzar a paisagem. Ele logo estaria apertando a mão de Dunmore, com
Daisy ao seu lado. Ele passara a vida inteira trabalhando para isso, o momento em que
seu objetivo passaria de sonho impossível a realidade possível.
Sendo assim, por que tudo que ele queria agora era voltar no tempo? Voltar à
cabana e ficar apenas com ela?
Nervosismo, disse Rollo a si mesmo, olhando para Daisy, que estava de saia azul-
marinho, um cinto dourado acentuando a cintura de sua justa blusa cinza. Nervosismo e
um feroz desejo pelo tentador corpo que estava por baixo daquela recatada roupa.
— Dunmore é casado com a mesma mulher desde os 19 anos. É um romântico.
Ele sorriu, mas Daisy não conseguiu fazer o mesmo. O tom de desprezo na voz
dele, sua franca incredulidade na possibilidade de um homem amar verdadeiramente uma
mulher e optar por ficar com ela durante toda a vida criou um sabor amargo em sua boca.
Isso, porém, não era problema dela. Talvez, se o relacionamento deles fosse
verdadeiro, o distanciamento emocional dele importasse. Mas, felizmente, ela jamais
precisaria suportar a dor de amar Rollo. O que ela sentia por ele era simples e fútil:
luxúria.
— Você vai ficar bem. Ele é um bom homem que só quer saber de você... de nós.
Tudo que você precisa fazer é fingir estar loucamente apaixonada por mim.
Ele se aproximou, pegando a mão dela. Subitamente, a boca de Daisy secou, seu
coração disparou, seu corpo tomando ciência dele, apenas ele.
— Só isso? — Os olhos deles se encontraram, e ela conseguiu sorrir. — Nesse
caso, sem problema. Você pode ser Romeu, e eu vou simplesmente incorporar a Julieta
que existe dentro de mim.
Ele riu, e Daisy sentiu uma onda de prazer. Havia entre eles uma intimidade natural
que teria sido impossível alguns dias atrás.
— Nós dois morrendo durante o almoço seria um tanto exagerado.

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— É aí que você se engana — disse ela levemente, olhando pela janela para os
arranha-céus lá embaixo. — Não pode ser amor verdadeiro se ninguém morrer ou
terminar sozinho de coração partido.
Virando-se, ela esperou que ele continuasse sorrindo. Em vez disso, seus olhos
estavam fixos no rosto dela, uma expressão séria e estranhamente intensa.
— Achei que você acreditasse em finais felizes.
— Eu acreditava. Acredito...
Uma pulsação de tensão estava latejando sob a pele dela. Daisy relembrou a
conversa deles, buscando uma explicação para a abrupta mudança de humor de Rollo.
A voz do piloto interrompeu o silêncio.
— Pousaremos em cinco minutos, senhor.
Momentos depois, o helicóptero tocou o terraço de uns dos muitos arranha-céus de
Manhattan, e eles saíram para o concreto.
— Por aqui, sr. Fleming... srta. Maddox.
Um segurança de terno escuro apontou para o elevador. Ao ver os números
mudarem à medida que o elevador descia, Daisy sentiu um vazio no estômago. A hora da
verdade estava chegando. O momento em que ela descobriria se toda aquela preparação
compensara, se o público acreditaria na atuação dela.
Ela suspirou.
Tudo ficaria bem. Ela conhecia o passado de Rollo como conhecia sua própria
vida, e seu corpo ainda pulsava depois do ato de amor com ele.
Contudo, havia algo errado.
Ao lado dela, Rollo estava em silêncio, inexpressivo.
— Rollo...
Ele não respondeu, e ela prendeu a respiração, sentindo-se quase como se sentira
quando invadira o escritório dele. Só que, desta vez, era claro que ela estava invadindo
algo mais profundo. Se ela se sentisse uma intrusa, como eles convenceriam Dunmore de
que o relacionamento deles era real?
— Rollo. Vai ficar tudo bem.
— Eu sei.
A distância na voz dele a pegou desprevenida. Mas, antes que Daisy pudesse
responder, as portas do elevador se abriram, e ela sentiu a mão dele em seu braço. Ele a
levou para dentro de uma grande área de estar, onde havia dois homens conversando
casualmente ao lado da janela.
Ela parou abruptamente.
— Rollo...
Ele se virou para ela, um músculo se repuxando em seu maxilar.
— Está querendo que nos atrasemos?
Era uma acusação disfarçada de pergunta. Contudo, com uma pontada de choque,
ela se deu conta de que era mais do que isso. Era uma justificativa... um motivo para ficar
com raiva. Mas por que Rollo precisava ficar com raiva?
Olhando nos olhos dele, ela sentiu um repentino aperto no peito ao se dar conta de
que não era raiva que ele estava sentindo. Era medo. Ele estava com medo de estragar o
acordo.
Instintivamente, ela pegou a mão dele.
— Sei a importância disso para você. Também é importante para mim. Juntos,
podemos fazer isso dar certo. Por favor, não me afaste de você.
Quando o silêncio entre eles se alongou, ela achou que ele fosse fazer exatamente
aquilo. Entretanto, depois de uma curta hesitação, os dedos dele apertaram os dela.
— Desculpe — disse ele em voz baixa.
Ela suspirou.
— Ótimo. De agora em diante, somos eu e você contra o mundo, certo?

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Quando ele assentiu, Daisy se curvou à frente e o beijou fortemente. Quando ela
finalmente recuou, parte da tensão abandonara o rosto dele.
— Foi para dar sorte? — perguntou ele.
— Não precisamos de sorte. Eu só queria beijar você. Agora, quero que você me
leve para almoçar.

Enquanto comia sua entrada, Daisy concluiu que James Dunmore era um dos
homens mais gentis que ela já conhecera. Alto, de cabelo ruivo já ficando grisalho, ele era
reconfortantemente despretensioso e muito menos intimidador do que ela esperara, dada
sua fortuna e seu status.
Ele os recebera ternamente, agradecera pela presença e, imediatamente, pedira
desculpas pela ausência de sua esposa.
— Emily estava tão ansiosa para vê-lo novamente, Rollo, e para conhecê-la
também, Daisy. Infelizmente, a irmã dela adoeceu durante o final de semana. Por isso, ela
foi a Vermont para ficar com ela.
Ele se virara para o homem ruivo a seu lado.
— Mas, pelo lado positivo, consegui convencer meu sobrinho, Jack, a se juntar a
nós. Ele coordena meu departamento jurídico na Costa Leste.
Jack avançara.
— Oi, Rollo, é um prazer conhecê-lo.
— Esta é Daisy.
Os olhos azuis de Dunmore cintilaram.
— Preciso admitir que tive um motivo escuso para convidar Jack. Quando fiquei
sabendo que Rollo havia ficado noivo, quis alguém para testemunhar essa transformação
comigo. E, claro, para conhecer a mulher que finalmente o domou.
Rollo sorrira.
— Acho que minha reputação foi um tanto exagerada pela mídia.
— Mas eu gostei da minha — dissera Daisy suavemente. — A mulher que domou
Rollo Fleming! Ficaria ótimo numa camiseta, não acham?
Dunmore gargalhara.
— Sem dúvida. Agora, por que não vamos comer? Espero que esteja com fome,
Daisy. Eu devia ficar de olho no meu peso, mas meu chef, Jordi, dificulta muito para mim.
A comida estava deliciosa. O mais agradável para Daisy, porém, foi a companhia
de James Dunmore. Terno e relaxado, apesar de ser o diretor executivo de um império
imobiliário, estava claro que ele se considerava, acima de tudo, marido e pai.
— Então, Jack é filho do seu irmão? — Recostando-se para permitir que o garçom
retirasse seu prato, Daisy olhou de Dunmore para o sobrinho dele. — Ele é igualzinho ao
senhor. Só que...
— Tem todos os dentes.
Ela gargalhou.
— Eu ia dizer que ele tem o queixo um pouco diferente.
Dunmore franziu o cenho.
— É verdade. Poucas pessoas reparam nisso. Veem apenas o cabelo... o pouco
que restou. Você é muito atenta, Daisy.
Sorrindo, ela deu de ombros.
— Sou atriz. Às vezes, ter o queixo certo faz você conseguir o papel.
— O cabelo ruivo é de família. Sempre me confundiam com o pai de Jack quando
éramos mais jovens.
— Mas não são gêmeos?
Ele balançou a cabeça.
— Na realidade, temos até mães diferentes. Mas puxamos ao nosso pai.

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Rollo pegou a mão dela.


— Daisy tem um irmão gêmeo, David.
— Gêmeo? — falou Dunmore, radiante. — Você deve ter um entendimento
bastante intuitivo dos homens. — Ele olhou fixamente para Rollo. — Isso deve ser útil.
Daisy sorriu.
— Quem me dera. Mas David é muito diferente de Rollo.
Ou não?
Pouco tempo atrás, pensar em semelhanças entre seu sensível e preocupado
irmão e Rollo Fleming teria sido um absurdo. Agora, porém, já não parecia tão implausível
assim. Rollo podia parecer autoritário e implacável, mas Daisy conhecera outro lado dele.
Nervoso, menos resguardado e também bondoso... especialmente com o irmão dela.
— Ele também não se parece comigo — falou Daisy.
— Mas vocês são próximos?
— Muito. Éramos inseparáveis quando pequenos. Ainda somos. Mas somos muito
diferentes. Não apenas na aparência, mas na personalidade, nos interesses. Não sei o
que eu faria sem ele. Ele é como minha consciência... está sempre dentro da minha
cabeça.
— Desculpem por interromper.
Era Jack. Ele sorriu para Daisy e se virou para seu tio.
— Era uma mensagem de Tom Krantz.
Dunmore franziu o cenho.
— Desculpe, Daisy, pode nos dar licença? Normalmente, eu não permitiria que os
negócios interrompessem, mas...
— Não precisa explicar.
Ela sorriu. Dentro dela, porém, seu coração disparou num ritmo culpado.
David.
O irmão dela.
Seu irmão gêmeo, que estava sempre dentro de sua mente.
No passado, talvez isso tivesse sido verdade. Nos últimos dias, porém, ela
praticamente não pensara nele. Sua preocupação fraternal fora abafada pela luxúria, pelo
egocentrismo.
Ela se deu conta do silêncio na mesa e encontrou o olhar de Rollo.
— Sei que você sente falta de David, que está preocupada com ele — falou Rollo
suavemente, pegando a mão dela.
Ele invejava a proximidade que Daisy compartilhava com seu irmão. A confiança
absoluta, a dependência. Aquilo era puro, poderoso, inabalável.
Ele sentiu um aperto no peito e forçou um sorriso.
— Mas ele vai ficar bem. Vou me certificar disso.
Daisy assentiu. A mão dele estava quente. Entretanto, foram a ternura e a certeza
na voz dele que aliviaram a dor no coração dela.
Depois do café, eles conversaram relaxadamente até que Rollo finalmente olhou
para seu relógio.
— É melhor irmos.
— É claro. — Ficando de pé, Dunmore deu um tapinha no ombro de Rollo. — Mas
com uma condição. Insisto para que vocês dois passem o fim de semana conosco em
Swan Creek. Vamos almoçar e talvez depois possamos dar outra olhada naquela sua
proposta, Rollo.

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Capítulo 9

De volta à cobertura, eles foram diretamente para a cama. Foi rápido e urgente,
ambos dominados pelo mesmo desespero ardente, um incentivando furiosamente o outro
com as mãos, a boca, o corpo, até que eles finalmente chegassem a um explosivo clímax
juntos.
Depois de tudo, Rollo a puxou para seu corpo molhado e, suspirando levemente,
adormeceu instantaneamente.
Ao lado dele, porém, Daisy estava totalmente desperta. Dentro de sua mente, a
oferta de Dunmore não parava de se repetir.
Talvez possamos dar outra olhada naquela sua proposta, Rollo.
Rollo se mantivera tranquilo. Não demonstrara nenhum sinal de triunfo. Daisy,
porém, sabia que as palavras de Dunmore haviam sido exatamente o que ele tivera
esperanças de ouvir — o que ela também teria ficado satisfeita em ouvir. Afinal, quanto
mais rápido Dunmore aceitasse vender o edifício para Rollo, antes ela se livraria dele.
Só que ela não estava se sentindo satisfeita. Na realidade, o fato de Rollo estar um
passo mais próximo de conquistar seu objetivo e de ela conseguir sua liberdade a estava
deixando tão nervosa que ela não conseguia ficar parada.
Ela precisava de um anestésico, uma maneira de entorpecer seu cérebro. Algumas
braçadas na piscina do terraço deviam resolver essa situação.
Erguendo delicadamente o braço de Rollo, ela deslizou para fora da cama e foi na
direção do closet.
Dez minutos depois, Daisy já estava atravessando a límpida água azul, sua mente
tão concentrada no ritmo de suas braçadas que suas angústias logo começaram a
desaparecer. Por fim, ela não conseguiu mais nada e, com o coração martelando, saiu da
piscina para o deck.
Quando ela enxugou a água de seus olhos, seu coração deu um salto mortal. Rollo
estava sentado em uma das espreguiçadeiras, de jeans, os pés e o peito nus, uma toalha
pendurada em sua mão.
Ela sorriu.
— Achei que você estivesse dormindo.
— Estava. Mas acordei e não vi você lá.
Havia uma tensão na voz dele que talvez ela não houvesse percebido se não
tivesse passado a ficar tão sintonizada aos modos dele.
— Eu estava meio tensa — falou ela animadamente. — Por isso, fui nadar.
Os olhos dele repousaram no rosto dela.
— O que houve? Ainda está preocupada com David?
Daisy estava prestes a assentir automaticamente, mas, com choque, ela se deu
conta de que não estava. Ela falara com seus pais e seu irmão no caminho de volta ao
apartamento, e eles tinham ficado surpresos com a notícia do noivado dela. No entanto,
como ela esperara, a facilidade deles superara qualquer desconfiança. Ela estava mais
tranquila em relação a tudo, menos...
Ela balançou a cabeça.
— Não é David. É James. O sr. Dunmore.
O olhar dele percorreu o rosto dela com um toque de impaciência.
— O que tem ele?
Ela deu de ombros.
— Não sei. Acho que, antes, ele não era real. Agora, é. E gostei dele — disse ela
de forma simples.

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— E isso é um problema? — Os dedos dele tamborilaram irritadamente no braço


da espreguiçadeira.
Ela perdeu o fôlego, a impaciência dele despertando sua própria irritação.
— Sim. Não gosto de mentir para alguém de quem eu gosto, para alguém que
respeito.
Os olhos dele se semicerraram.
— Tenho certeza de que você ainda vai “gostar e respeitar” dele quando ele aceitar
vender o edifício para mim.
Ela o olhou fixamente, seu coração martelando dentro do peito. Ele não estava
entendendo o que ela estava querendo dizer. Ou não queria entender.
— Eu me sinto mal por fazer isso. Ele é um bom homem. Não merece...
— Não merece o quê? — A expressão dele estava séria, a tensão em seu corpo
evidente. — A imensa quantia que vou dar a ele? Dunmore é um homem de negócios. Se
ele vender para mim, será uma decisão de negócios, não um favor ou um ato de caridade.
Daisy estremeceu. Os modos dele haviam mudado completamente, seu rosto
ficando rígido como uma máscara.
— Não foi isso que você disse antes — falou ela roucamente. — Você disse que
ele só venderia para alguém que tivesse os valores certos. É por isso que temos que nos
casar, não é? Para que ele acredite que você encontrou o amor e a felicidade com a
mulher certa?
Ele fez uma expressão de dor ao ouvir aquelas palavras... ou talvez fosse
impressão dela, pois, quando ela o olhou novamente, ele parecia impávido e frio como
antes.
— Não sou responsável pelas coisas em que Dunmore acredita ou sente.
— E pelo que você sente? — O sangue estava zumbindo dentro da cabeça dela,
uma ponta de pavor atingindo seu coração. — Achei que você gostasse dele.
Um músculo se repuxou no rosto dele.
— Não faz diferença alguma gostar ou não dele. São negócios, e sentimentos não
têm nada a ver com negócios. — Ele se levantou abruptamente. — Mas, acima de tudo,
você não tem nada a ver com isso. Caso tenha esquecido, você só está aqui para pagar
uma dívida.
Ela perdeu o fôlego. Só para pagar uma dívida. Pareciam as palavras de um
epitáfio. E, de certa forma, eram... um epitáfio para a ingenuidade dela.
Ela pensara mesmo que fazer sexo com Rollo mudaria o relacionamento deles?
Como se enganara!
Eles haviam voltado a ser estranhos.
Daisy teve vontade de dar uma bronca em si mesma por ter sido burra e inocente,
por ter se entregado aos braços dele, aberto seu corpo para o dele, sentido...
As mãos dela começaram a tremer e, cerrando os punhos, ela voltou sua fúria para
Rollo.
— Não, esse é o seu motivo, Rollo, não o meu. Estou aqui porque amo meu irmão.
Mas sabe de uma coisa? Eu ficaria agora mesmo que você não estivesse me
chantageando, porque sei como esse acordo é importante para você. Talvez você
entendesse isso, se desse importância a alguma coisa além dos negócios e daquele
edifício. Ah, e talvez não precisasse chantagear uma estranha para fazer o papel de sua
esposa. Talvez fosse de fato o homem que está fingindo ser!
O rosto dele ficou inexpressivo, mas Daisy percebeu que ele estava lutando para
manter o controle... à beira de perdê-lo.
— Você não sabe nada sobre mim. E nem o que importa para mim.
Havia um claro tom de aviso na voz dele, e ela ficou feliz, pois isso significava que
ela atingira um ponto fraco.
— Por quê? Porque sou só uma mulher quitando uma dívida?

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Contudo, ao falar aquilo, ela soube que a questão não era ela. Era ele. A raiva, a
arrogância dele, a máscara que ele punha toda vez que ele achava que ela estava se
aproximando demais.
— Você está enganado, Rollo. Sei com o que você se importa. Você se importa
com honestidade. Só que não está sendo honesto agora, quando não me diz o verdadeiro
motivo de estar chateado comigo.
Houve um longo e tenso silêncio. Finalmente, ele suspirou.
— Você falou sério? Essa história de ficar comigo?
Ela piscou os olhos. Não planejara dizer aquelas palavras; elas haviam surgido de
algum lugar bem dentro dela. Subitamente, Daisy se sentiu vulnerável ao ouvi-las sendo
repetidas para ela. Entretanto, mesmo que isso significasse fazer papel de boba e fraca,
ela não mentiria para ele.
Ela assentiu.
— Mas acho que, assim como eu, isso não importa muito para você.
— Você importa, sim...
— Eu sei. — Ela falou friamente, seus olhos fulgurando. — Sem mim, você não
conseguiria seu edifício...
— Não, não é por causa disso... — Rollo hesitou, um tremor passando por seu
rosto. — O que eu disse ontem... era verdade. Não penso em mais nada além de você e...
— Os ombros dele subiram e desceram tensamente. — Você tem razão. Estou chateado.
— Porque eu disse que não gostava de mentir para Dunmore?
— Sim... não. — A boca dele se contorceu, seus dedos apertando a toalha. — É
que pareceu que você estava preocupada com Dunmore, com David, com os sentimentos
deles, e não comigo.
— Não é verdade. — Ela arfou tremulamente. — Eu me importo com você, sim.
Mas você não quer que eu me importe.
As mãos dele pararam e, por um instante, Rollo a olhou em silêncio. Então, disse
inexpressivamente:
— Você é uma boa pessoa.
Ela o olhou fixamente, incerta.
— Na realidade, não. É fácil fazer a coisa certa por amor.
— Amor? — Ele franziu o cenho, seu olhar repentinamente intenso.
Daisy sentiu seu rosto esquentar.
— Eu estava falando de David. Amo meu irmão. — Ela mordeu o lábio. — Eu faria
qualquer coisa por ele. Por qualquer um da minha família. Isso é o que importa para mim.
Não que Rollo jamais fosse entender isso, pensou ela. A não ser por alguns
comentários avulsos, ele praticamente não falara de sua infância, e sua exploração do
relacionamento dela com David indicava que a família não significava nada para ele.
No entanto, ao olhar para o rosto dele, ela sentiu seu coração disparar. Esperara
desdém ou incompreensão, frieza ou raiva. Em vez disso, ele parecia abalado.
Subitamente, ela entendeu.
— Isso também importa para você.
Ele ergueu a cabeça, seus olhos se arregalando como os de um animal pronto para
lutar ou fugir.
— É por isso que você quer aquele edifício, não é?
Ela perdeu o fôlego quando o olhar dele se fixou além dela, num ponto oculto ao
longe. Daisy, porém, sabia para onde ele estava olhando. Ela vira a foto sobre a mesa
dele.
Ele assentiu lentamente, mas não respondeu. Por um momento, eles ficaram ali em
silêncio, como atores nas coxias, esperando a deixa.
Então, finalmente, ele assentiu outra vez.
— Eu morava lá. Há muito tempo.

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Aquilo parecia o início de um conto de fadas. Entretanto, pela tensão na voz dele,
Daisy soube que aquela história não teria um final feliz.
— Com seus pais? — perguntou ela delicadamente.
Ele assentiu.
— Meu pai não era um homem prático, mas tinha ideias. E paixão. Foi assim que
ele conheceu minha mãe. Estava trabalhando num clube de campo como zelador e a viu
com os pais dela. Bastou aquilo para ele saber que ela era a mulher da vida dele. Ele
cortou todas as rosas que encontrou e, quando as deu a ela, pediu a mão dela em
casamento.
Ele abriu um pequeno e tenso sorriso para Daisy.
— Ele perdeu o emprego. Mas não se importou, porque ela disse “sim”.
Daisy assentiu, perguntando a si mesma como um sorriso podia ser tão triste.
— Isso é tão romântico. Eles devem ter sido muito felizes.
O sorriso dele ficou mais tenso.
— Ele foi. — Rollo fez uma pausa, seus olhos soturnos. — Minha mãe, nem tanto.
Depois do casamento, eles se mudaram para a cidade. Foi difícil. Meu pai não ganhava
muito, e as “ideias” dele usaram todo o fundo que os pais dela tinham deixado para ela.
Ela detestava não ter dinheiro, detestava viver sem perspectiva. Então, quando eu tinha
uns 10 anos e minha irmã Rosamund tinha 4, ele conseguiu um emprego muito bom.
Daisy o olhou, chocada. Irmã?! Ela pensara que ele fosse filho único. Contudo,
agora que ele estava finalmente falando de forma tão franca, ela não ousava interromper.
— O dinheiro era bom, e ele alugou um apartamento para nós. Não era imenso,
nem sofisticado. Mas, pela primeira vez, minha mãe ficou feliz. Todos nós ficamos. Tinha
até um playground, com balanços e escorregadores, e eu costumava levar Rosamund lá o
tempo todo. Minha mãe cozinhava, e nós jantávamos em família. Depois, jogávamos
baralho. Era perfeito.
O coração dela se apertou com a melancolia na voz dele.
— O que aconteceu?
Ele deu de ombros.
— Não sei. Ela ficava bem por um mês ou dois. Depois, começava a voltar para
casa tarde. Não fazia as refeições conosco. Aí, fazia as malas. Ameaçava ir embora.
Ao se recordar da expressão dele quando a encontrara com a mala, Daisy sentiu
uma pontada de tristeza. Não era de admirar que ele tivesse reagido com tamanha fúria.
Aquilo devia ter feito com que ele lembrasse outros momentos... outras malas.
— E ela ia embora? — perguntou Daisy.
— Não. Meu pai sempre comprava algum presente para ela, ou a levava para
jantar, e ela ficava feliz novamente. Ele gastou tanto dinheiro tentando deixá-la feliz.
Então, um dia, eles apareceram no apartamento.
— Quem? — Ela prendeu o fôlego, esperando a resposta, mesmo já sabendo qual
seria.
— Os oficiais de justiça. — O rosto dele estava rígido. — Na realidade, meu pai
tinha perdido o emprego meses antes, só que não quis contar para ela. Precisamos nos
mudar para outro lugar. Imediatamente. Na frente de todos os vizinhos.
Ela engoliu em seco. Seus olhos ardiam, mas não de raiva.
— Eu sinto muito, Rollo.
— A primeira vez foi a pior. Mas, como tudo na vida, ficou mais fácil com o tempo.
Acabei me acostumando.
O tom casual dele, juntamente com o significado de suas palavras, fez tudo dentro
dela se contrair dolorosamente.
— Minha mãe não conseguiu suportar. Ela foi embora uma semana antes do meu
aniversário de 13 anos.

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Dessa vez, o esforço no sorriso dele foi doloroso demais de se testemunhar, e


Daisy desviou o olhar, sentindo-se ligeiramente nauseada.
— Ela deixou um bilhete, culpando meu pai por ter sido demitido, por ter
desperdiçado o dinheiro deles, por ter perdido o apartamento. Por ter destruído a vida
dela. Eu já tinha ouvido tudo isso antes. Mas ver escrito foi muito pior.
Ele franziu o cenho.
— Meu pai reagiu muito mal. Ele se sentiu completamente responsável e ficou
obcecado, querendo recuperar o apartamento. Achava que, se conseguisse, ela voltaria.
Por isso, ele trabalhou sem parar. Então, um dia, desmaiou. Passou duas semanas no
hospital. E acabou morrendo.
Ele contraiu os lábios, e, sem pensar, Daisy avançou e pegou as mãos dele.
Rollo a olhou com uma espécie de perplexidade irritada.
— Ele me fez prometer que eu recuperaria o apartamento. Ele ainda a amava,
sabe?
— E você vai recuperar. Nós vamos.
Os olhos dele analisaram o rosto dela.
— Depois de tudo que eu fiz e disse, você ainda aceita fazer isso?
Ela assentiu.
— Aceito.
Aceito.
As palavras dela dançaram dentro de sua própria mente, e Daisy olhou para além
dele. Atrás dos arranha-céus, o sol brilhava como uma esfera de ouro. Mas estava fosco e
escuro em comparação à repentina e fulgurante percepção que explodiu dentro da
cabeça dela como um cometa.
Ela o amava.
Daisy sentiu um calor, um aperto no peito. Certamente devia estar enganada.
Entretanto, por mais que ela tentasse negar, sabia que tinha razão. Ela o amava. Por que
mais ela se importaria tanto com a felicidade dele? Com seus sonhos? Com seu futuro?
Só que ela não podia pensar nisso agora... muito menos contar a Rollo.
Ela o envolveu com os braços, e, depois de um instante, ele a puxou para si. Daisy
sentiu os lábios dele tocando seu cabelo.
— Desculpe. Pelo que eu disse e pelo que eu não disse.
Ela olhou nos olhos dele.
— Não importa. Então, o que aconteceu depois? Com a sua mãe?
Ela viu a relutância nos olhos dele, sentiu a repentina rigidez em seus braços.
Depois de um momento, porém, os músculos dele relaxaram.
— Faz 17 anos que não a vejo e nem falo com ela. Ela me escreve, mas não leio
as cartas. Não faz sentido. Nada que ela possa dizer vai mudar o que fez.
Daisy assentiu. As palavras dele eram um eco do que ele dissera na limusine. Ele
mentira então, e ela sabia que ele estava mentindo agora. Entretanto, não parecia a hora
certa para ressaltar isso.
— Mas seu pai não iria querer que ela ficasse sabendo do apartamento? —
perguntou ela cuidadosamente. — Para que ela soubesse como ele a amava?
— Ela sabia — respondeu ele seriamente. — Minha mãe foi embora porque estava
tendo um caso. Não se importava com o meu pai. Não se importava comigo. E não se
importava com o apartamento. Quando ela foi embora, levou o que queria e deixou todo o
resto para trás. Inclusive eu.
Algo mudou na expressão dele, e, apenas por um instante, Daisy viu a mágoa do
menino que fora abandonado. Sem conseguir evitar, ela apertou o braço dele. Sendo
atriz, ela sabia o poder que as palavras podiam ter. Mas que palavras seriam capazes de
desfazer aquele tipo de estrago?

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— Talvez ela quisesse voltar depois, quando se estabelecesse em outro lugar.


Ninguém iria querer tirar uma criança de sua casa.
— Talvez isso dependa da criança. — Ele soava esgotado, derrotado. — Ela levou
minha irmã. Sendo assim, talvez só quisesse uma filha.
Daisy inspirou fundo. Tudo fazia sentido agora.
Ao relembrar o primeiro encontro deles no escritório, ela sentiu seu estômago se
contrair. Ele ficara irritado, e com razão, levando-se em consideração que a tinha flagrado
invadindo seu escritório, e Daisy imaginara que aquela fúria se dissiparia. Contudo, ela se
engara. A fúria permanecera constante, sombria por baixo da superfície, emergindo
rapidamente. E acompanhada de uma resistência, uma recusa a deixar de lado a
máscara que ele usava... a máscara do controle absoluto.
Agora, ela entendia o motivo.
Ele não confiava em ninguém. Não acreditava no amor, não acreditava ser digno
desse sentimento. Era por isso que ele tinha medo de se comprometer, de se importar... e
fora por isso que ele providenciara um casamento com uma desconhecida.
A dor perfurou o coração dela. Daisy o olhou em silêncio, sabendo, sentindo,
amando-o. Por completo. Especialmente sua versão revoltada da adolescência.
Desesperadamente, ela buscou algo a dizer, palavras que apagassem a dor dos
olhos dele, a latejante tristeza de sua voz. Palavras que explicassem os atos da mãe dele
e o fizessem se sentir melhor.
Entretanto, certos atos falavam mais do que palavras. E, envolvendo o pescoço
dele com os braços, ela o beijou delicadamente.

Capítulo 10

Voltando para sua cadeira, Rollo olhou para sua mesa, fixando os olhos no dossiê
diante de si. Sobre a capa estava a foto do edifício dos sonhos dele. Sempre estivera fora
de seu alcance, fosse por questões financeiras ou, mais recentemente, pela persistente e
frustrante recusa de James Dunmore a vendê-lo. Contudo, não demovido pelos
obstáculos em seu caminho, Rollo fora implacavelmente atrás desse sonho. Agora, a
derradeira barreira estava diante dele.
Curvando-se à frente, ele passou a mão pela logomarca de sua empresa e
suspirou. No dia seguinte, ele se reuniria com Dunmore na casa dele nos Hamptons para
discutir a venda. Era um milagre.
E tudo por causa de Daisy.
Sem ela, ele ainda estaria tendo dificuldades com sua imagem de mulherengo.
Agora, porém, sua lendária falta de compromisso fora deixada de lado e considerada
apenas um sintoma de um homem que buscava desesperadamente a mulher certa com a
qual compartilhar sua vida.
No que dependesse de todos, especialmente Dunmore, essa mulher era Daisy.
Mas Rollo sabia da verdade.
Sabia que aquilo era uma farsa.
Ou ao menos deveria ser.
Ultimamente, porém, a distinção entre realidade e farsa vinha parecendo cada vez
mais nebulosa, obscura.

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Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Rollo franziu o cenho. No início, ele presumira que isso fosse uma consequência de
eles morarem juntos. Agora, contudo, a ideia de que ele seria capaz de manter qualquer
tipo de limite parecia ingênua, risível. Daisy não apenas demolira todas as barreiras que
ele erigira entre si e o mundo, mas a arrasadora atração sexual que eles compartilhavam
apagara a linha entre o relacionamento que eles mostravam ter e o que eles tinham de
fato.
Agora, ele estava perdendo o controle de mais do que apenas seu corpo. Nunca
discutira sua vida particular com alguém antes, muito menos seu passado. No dia
anterior, porém, com Daisy, Rollo se transformara num tipo de convidado de talk show.
Ele contara tudo a ela; cada humilhante detalhe.
E ela ouvira cada palavra como se tudo aquilo importasse. Como se ele
importasse. E o fato de ela ter feito isso o deixara quase tão perplexo quanto sua
confissão de que ele não precisava mais chantageá-la para que ficasse. Dada a maneira
como ele a tratara, isso era muito mais do que ele merecia.
Rollo mudou de posição na cadeira, inquieto. Ele fora tão implacável, explorando
de forma insensível o amor dela por David para conseguir o que queria. Que tipo de
homem fazia isso? E como ele se sentiria se alguém tratasse Rosamund com tamanho
desprezo e falta de consideração?
Ele sentiu um aperto no peito.
Enterrara a dor do passado durante tantos anos, mas, agora, de repente, ele não
conseguia parar de pensar em sua mãe e sua irmã. Ao imaginar Rosamund, os olhos dela
se arregalando de felicidade enquanto ele a empurrava no balanço, Rollo cerrou os
dentes. Sua raiva tornara fácil se concentrar nas coisas ruins, mas era muito mais difícil
deixar de lado as recordações felizes.
No entanto, pensar no passado era inútil. Não havia nada que ele pudesse fazer
para mudá-lo. A única mudança que importava no momento era o fato de que Dunmore
estava finalmente disposto a falar da venda.
Empurrando a cadeira para trás, ele pegou o dossiê e atravessou seu escritório.
Cada passo o levava na direção de cumprir sua promessa. Ele devia estar se sentindo
empolgadíssimo.
No entanto, tudo em que ele conseguia pensar era o que aconteceria depois.
Quando os contratos fossem assinados.
E quando Daisy saísse de sua vida.

Ao sair da limusine para a pista particular na frente de Swan Creek, Daisy parou
imediatamente. O apartamento de Rollo fora uma revelação chocante de como a classe
alta vivia. A casa dos Dunmore nos Hamptons fazia esse choque ser multiplicado por dez.
Era tão imensa, tão impressionante, tão imponente que, por um momento, ela se
perguntou se não estaria sonhando.
Então, a mão de Rollo deslizou sobre a dela, e ela soube que estava acordada.
— Sei que não parece — disse ele suavemente, olhando para os degraus, onde
James Dunmore e sua esposa, Emily, estavam sorrindo. — Mas, para eles, é um lar.
Como a cobertura é nosso lar.
O calor da mão dele se misturava ao de sua voz... e ao calor dentro do coração
dela quando ele dissera “nosso lar”.
Desde que Rollo revelara seu passado a ela, Daisy achara quase impossível parar
de pensar no comportamento da mãe dele e em seu devastador impacto sobre o filho
dela.
Ela pensara que ele quisesse o edifício para fazer negócios, ou simplesmente para
satisfazer alguma louca necessidade masculina de vencer um rival nos negócios. Em vez
disso, ele o queria para cumprir uma promessa feita a seu pai.

69
Louise Fuller — Proposta Sedutora — Jessica 289.2

Ela sentiu um embargo na garganta. Estava finalmente começando a entender o


que o fazia ser daquele jeito, e tudo parecia diferente agora. A reticência dele já não era
mais um defeito, mas a reação perfeitamente compreensível de um adolescente que fora
abandonado pela mãe. E, por baixo de seu exterior implacável, havia um homem capaz
de oferecer lealdade e amor. Um homem que ela queria conhecer muito melhor.
No entanto, ela ainda não lhe dissera que seus sentimentos haviam mudado.
Por muitas vezes ao longo dos últimos dias, ela estivera prestes a dizer algo;
palavras haviam ricocheteado dentro de sua cabeça, eloquentes e atabalhoadas,
eufóricas e hesitantes, todas se misturando, tornando um suplício falar de forma normal.
E uma impossibilidade declarar seu amor.
Mas talvez fosse melhor assim.
Ela sabia como fora difícil para Rollo revelar seu passado. No momento, diante da
chance de fechar o acordo com Dunmore e cumprir sua promessa, ele precisava se
concentrar no presente.
Por isso, sorrindo para ele, Daisy apertou com mais força a mão de Rollo. Juntos,
eles subiram os degraus até seus anfitriões.
Emily Dunmore era tão agradável quanto seu marido, e Daisy esqueceu
rapidamente a opulência daquele ambiente.
— James me disse que você conheceu Rollo no escritório dele.
Eles estavam tomando café no jardim ensolarado atrás da casa.
— Conheci. — Daisy sorriu para a mulher mais velha. — Eu estava trabalhando
como garçonete numa das festas dele.
— Eu estava trabalhando como recepcionista num hotel quando conheci James.
Ele era hóspede, e o achei o homem mais lindo do mundo. — Emily olhou para seu
marido, radiante. — E o mais irritante!
Todos explodiram numa gargalhada.
— Ele não parava de estender a estada dele. Sempre mais uma noite. Só que ele
não olhava nos meus olhos quando falava comigo. E era tão intrometido. Eu já estava
ficando louca.
Balançando a cabeça, James pegou a mão de sua esposa.
— Era para eu ficar apenas uma noite, mas não consegui tirar os olhos dela. Eu
sabia que ela era a mulher da minha vida. Mas eu praticamente nunca havia falado com
uma mulher que não fosse da minha família, e essa deusa da recepção claramente me
achava repulsivo. Então, pensei em tentar impressioná-la com minha autoridade natural.
Ele grunhiu.
Daisy riu.
— O que aconteceu?
— Fiz papel de bobo durante dez dias. Depois, fui embora.
— O quê? — Daisy franziu o cenho. — Por que não a convidou para sair?
James balançou a cabeça.
— Eu tinha medo demais. Saí daquele hotel, entrei num ônibus e percorri três mil
quilômetros, atravessando o país até São Francisco.
— Tão longe... — falou Daisy lentamente.
— Não tive escolha. Meu pai tinha conseguido um emprego para mim na
construtora de um amigo. Estava tudo resolvido.
Os dedos de Emily apertaram os de seu marido.
— Eu achava que o odiava. Mas tinha me acostumado a tê-lo por perto e, toda vez
que eu levantava os olhos, achava que ele estaria ali... só que não estava mais. — Ela
olhou para Daisy com tristeza nos olhos. — Acho que passei uma semana chorando.
James olhou com afeto para sua esposa.

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— Eu não chorei. Fiz algo muito pior. Depois de cinco semanas, pedi demissão.
Entrei em outro ônibus, voltei todo o caminho pelo país, entrei naquele hotel e me
ajoelhei. Não consegui falar, estava emocionado demais...
— Mas eu sabia o que ele estava pedindo e fiquei tão feliz que chorei demais.
Havia lágrimas nos olhos de Daisy também. Porém, ao olhar para Rollo, ela sentiu
seu corpo ficar rígido. Ele era o único de olhos secos, e havia uma estranha expressão
em seu rosto, uma que ela não conseguiu interpretar.
Depois do almoço, os Dunmore se recolheram a seus aposentos, dizendo estar
cansados. Mas Daisy suspeitou de que fosse a maneira deles de dar um pouco de espaço
a seus jovens hóspedes. Ou talvez eles ainda gostassem de passar algum tempo a sós,
pensou ela melancolicamente, enquanto ela e Rollo se acomodavam na imaculada areia
branca da praia particular da mansão.
— É tão lindo, não é? — perguntou ela em voz baixa.
Uma leve brisa soprava do oceano. Atrás deles, a grama balançava nas dunas
abaixo do quente sol da tarde.
Ele deu de ombros.
— Não tanto quanto você.
Daisy lhe deu um leve soco no braço.
— Estamos sozinhos agora. Não precisa dizer isso — brincou ela.
— Eu sei. Mas é verdade. Você é linda.
Ela o olhou, incerta. Com o sol iluminando sua pele, ele era a pessoa linda ali. Mas
não era a beleza dele que ocupava os pensamentos dela. Era a ligeira distância em seu
modo de agir. Ao recordar como ele estivera antes do almoço com James Dunmore,
Daisy cutucou novamente o braço dele.
— E você é inteligente. — Ela sorriu. — É por isso que, amanhã, vai ser o novo
dono de um ótimo imóvel em Manhattan. E vai cumprir sua promessa ao seu pai.
O olhar dele estava fixo no oceano, e os olhos dela percorreram ansiosamente o
rosto de Rollo.
— Você não parece muito feliz.
Ele se virou para olhá-la, sua boca se contorcendo num sorriso.
— É claro que estou. É tudo que eu quero.
Daisy assentiu, seus lábios se curvando automaticamente num sorriso de resposta.
Dentro dela, porém, uma farpa de tristeza parecia espetá-la.
É tudo que eu quero.
As palavras dele reverberaram fracamente dentro da cabeça dela, bloqueando o
som das ondas e a repentina mudança no ritmo de seu coração.
Fora apenas um comentário qualquer. Provavelmente, ele sequer pensara ao falar.
Contudo, isso o tornava menos ou mais verdadeiro? E o que ela esperara que ele
dissesse? Que tinha tudo que queria, menos ela?
Da maneira mais casual possível, ela olhou para o mar. Na realidade, porém, ela
estava observando furtivamente o rosto dele. Desde que Rollo revelara tudo a ela, Daisy
vinha fazendo muito isso, seus olhos buscando involuntariamente alguma mudança que
refletisse o que parecia uma incrível virada no relacionamento deles.
Mas o que mudara de fato entre eles?
Suspirando, ela vasculhou suas memórias, tentando ser objetiva. Era verdade que
ele lhe contara um doloroso e pessoal fragmento de sua vida e, ao menos por um curto
tempo, ele parecera precisar dela. Não como atriz. Não para fazer sexo. Mas pela pessoa
que ela era.
E a sensação fora incrível; um minúsculo, mas significante passo rumo à confiança,
como se um tigre tivesse se permitido ser acariciado.
Pegando um liso cascalho branco, ela suspirou e o colocou delicadamente sobre a
areia.

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Claro, isso era apenas a percepção dela do que acontecera. No que dependesse
de Rollo, ele devia ter considerado aquilo uma “fraqueza momentânea que não deve se
repetir”. Certamente ele não lhe dera motivo para achar que sua visão sobre ela ou sobre
o relacionamento deles mudara. E ele também não fizera nenhuma menção à conversa
deles, nem tentara fazer novas confidências a ela.
Daisy pegou outro cascalho. Fosse lá o que ela pensara que estivesse
acontecendo, devia ter sido apenas dentro de sua cabeça.
Ela suspirou novamente.
— Chega. Acabou para você!
Assustada, ela ergueu o olhar quando os dedos dele pegaram os dela.
— Acabou o quê?
— O mistério. — Ele franziu o cenho, seus olhos percorrendo o rosto dela. — Você
está suspirando demais! Então, vamos lá, diga o que está incomodando você.
Era a oportunidade perfeita para contar a verdade a ele. Que ela sentia por ele um
amor tão profundamente arraigado que nada o faria murchar. Que ela sempre o
protegeria e lutaria qualquer batalha com ele.
Contudo, antes que ela pudesse responder, ele perguntou rapidamente:
— É o fato de termos vindo? De ter conhecido Emily?
Os olhos dele estavam assustadoramente verdes ao sol, sua voz brusca com
aquela raiva mais uma vez, e Daisy sentiu sua espinha enrijecer, as palavras secando em
sua boca. Por um momento, não houve nenhum som que não fosse o das ondas e a
distante grasnada de uma gaivota. Então, os dedos dele se firmaram sobre os dela.
— Desculpe. — Ele balançou a cabeça. — Não foi minha intenção soar tão grosso.
— A boca dele se contorceu. — Sei que é difícil para você. James e Emily são boa gente,
e sei que você gosta deles.
Pondo a mão na areia, ele pegou um cascalho e o entregou a ela.
Ela assentiu.
— Eles são tão generosos e humildes. E continuam tão apaixonados! — O coração
dela disparou quando Rollo lhe entregou outro cascalho. — Acho que eles fazem com que
eu me lembre dos meus pais.
Mudando de posição na areia, Daisy olhou por cima do ombro, para a mansão.
— Se bem que Swan Creek é um pouquinho maior que a Love Shack.
— Está mais para um Love Château? — perguntou ele suavemente.
Ela sorriu, reagindo ao tom de brincadeira na voz dele.
— Essa foi boa. Talvez fosse interessante você tentar ter sua própria empresa.
— Eu adoraria administrar minha própria empresa, mas tenho uma namorada. Ela
ocupa todo o meu tempo. — Abruptamente, a expressão dele mudou, ficando séria. —
Por que eles são parecidos com os seus pais?
A pergunta dele a pegou desprevenida. Ela franziu o cenho.
— Acho que eles têm o mesmo tipo de intimidade... como se sempre soubessem o
que o outro pensa.
Ela mordeu o lábio. Era o tipo de intimidade com que ela passara anos sonhando.
Uma intimidade gerada pela confiança, pela honestidade.
— Isso é bom, não é?
Ele soava tão incerto que Daisy explodiu numa gargalhada.
— Acho que sim.
Ele assentiu.
— Só que você falou como se pudesse não ser.
Os olhos de Rollo observaram tão intensamente o rosto dela que, subitamente,
Daisy se sentiu tímida, envergonhada.
Ela deu de ombros.

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— É o que eu sempre quis. — Ela abriu um rápido e tenso sorriso. — Mas nem
sempre podemos ter o que queremos...
— Apenas aquilo de que precisamos?
Os olhos deles se encontraram.
Eu preciso de você, pensou ela.
Daisy assentiu.
— E é por isso que você pode comprar chocolate e suprimentos de papelaria em
qualquer lugar.
Ele grunhiu.
— Chocolate, eu entendo. Mas suprimentos de papelaria?
Ela riu.
— Adoro cadernos. E canetas.
— Isso vai parar assim que nos casarmos.
— Essa é a sua versão de um acordo pré-nupcial? — Ela ergueu uma das
sobrancelhas. — Se for, você vai precisar de um advogado, porque suprimentos de
papelaria não são negociáveis.
Os olhos dele brilharam.
— Bem, talvez eu também tenha algumas estipulações não negociáveis.
Ao ver a expressão dele ficar franca, ela balançou a cabeça.
— Você só pensa nisso, Rollo Fleming.
— Só com você. E, se não fôssemos obrigados a manter esse estado de celibato...
— Só estamos assim faz algumas horas.
Ao olhar o relógio, ele sorriu.
— Cinco horas e dezessete minutos.
Era uma bobagem, mas o fato de ele estar contando os minutos fez Daisy se sentir
absurdamente feliz. A vontade de dizer isso a ele foi quase avassaladora. Em vez disso,
ela balançou a cabeça.
— Só falta mais um dia para voltarmos ao apartamento e podermos fazer o que
quisermos, onde quisermos.
Ele desceu lentamente com o dedo pelo braço dela.
— E eu achando que era eu quem tinha sangue-frio — disse ele suavemente.
Ela hesitou. Então, inspirou fundo, o medo e a esperança duelando dentro dela.
— Claro, você pode simplesmente dizer a verdade a James. O motivo de você
querer o edifício.
Rollo não respondeu; apenas olhou além dela, para as ondas, fazendo Daisy
pensar que ele não a tivesse ouvido.
Finalmente, ele se virou e abriu um pequeno e educado sorriso.
— Acho que isso não vai dar certo.
— Por que não? — Ela sentiu seu estômago se embrulhar. Mordendo o lábio, ela
tentou manter a voz estável. — Ele quer vender para alguém que tenha valores familiares.
O único motivo de você querer aquele edifício é para cumprir uma promessa que você fez
ao seu pai.
Ele continuou sorrindo, mas seus dedos pareceram rígidos junto à pele dela.
— E como vou explicar nosso relacionamento? Que “valores familiares” nosso
noivado falso representa?
Não havia resposta fácil para aquela pergunta.
Ela inspirou fundo.
— Foi só uma ideia.
— Está começando a mudar de ideia?
Os olhos dele fixos nos dela estavam escuros e atormentados. Ela balançou a
cabeça, perplexa com a repentina mudança de atitude dele.

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— É claro que não. Gosto dos Dunmore e não gosto de mentir para eles. Mas sou
leal a você, Rollo. Sempre serei.
Ele assentiu, e parte da tensão nele se aliviou.
— Sempre significa eternamente?
Ela assentiu.
— Sei como esse acordo é importante para você.
Ela o olhou fixamente, surpresa com o desejo, a esperança e o medo, querendo
falar, ir além, arriscar tudo. Em vez disso, contudo, ela apertou mais a mão dele.
— Também significa muito para mim.
Daisy engoliu em seco; sua voz estava trêmula, e as batidas de seu coração
estavam abafando o som das ondas. Mas isso não importava. Tudo que importava era
encontrar as palavras para conseguir alcançá-lo. Para fazê-lo entender. Mesmo que isso
significasse se expor.
— Eu me importo com você e quero que seja feliz.
O rosto dele estava inexpressivo, sem nenhum sorriso. Ela prendeu a respiração
enquanto ele a olhava em silêncio. Então, Rollo finalmente falou:
— Também quero que você seja feliz.
Ela ouvia o esforço na voz dele. Mas sabia do longo caminho que ele percorrera
para finalmente admitir isso. No momento, era suficiente. Olhando para o coração de
cascalho que ela desenhara na areia, Daisy suspirou. Seu amor era suficiente para eles
dois.
— Nesse caso, vamos voltar ao nosso quarto. Temos pelo menos uma hora antes
do jantar.
O olhar sedento dele se fixou no rosto dela, puxando-a como um peixe num anzol.
Subitamente, ela já estava arfante de desejo, seu corpo impossivelmente ardente e tenso.
Então, sem aviso, ele a colocou de pé, e, de mãos dadas, eles correram na direção das
dunas.

Na manhã seguinte, James Dunmore convidou Rollo para seu estúdio para
repassarem a proposta, e Daisy se juntou a Emily num passeio pelos exuberantes jardins
da mansão.
— Então, este é o riacho?
Elas estavam sobre uma pequena ponte de madeira acima de um córrego ladeado
por grama.
Emily sorriu.
— Sim. E ali estão os cisnes.
Quando Daisy se virou, viu dois imaculados cisnes deslizando pela água, seus
pescoços curvos delicados como alças de xícaras de porcelana.
— Eles já estavam aqui quando compramos o terreno. Só eles dois e uma pequena
cabana de pescador.
— Como vocês sabem que é o mesmo casal? — perguntou Daisy, curiosa.
— O centro aviário local monitora as aves. E, é claro, os cisnes escolhem seus
parceiros pelo resto da vida.
Daisy assentiu, uma pontada de culpa fazendo seu estômago se revirar. Era errado
enganar pessoas tão boas. Mas ela prometera ser leal a Rollo e cumpriria essa promessa.
Eles almoçaram atrás da casa, debaixo da copa roxa de uma linda glicínia.
— Emily e eu pensamos em tomar champanhe. — James sorriu para sua esposa.
— Para comemorar o noivado de vocês.
— Que maravilha! — conseguiu dizer Daisy. No entanto, ela não conseguiu evitar
que seu olhar se desviasse para Rollo.

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— É muita gentileza de vocês. — O sorriso dele estava deslumbrante, irresistível, e


ela forçou um sorriso também. — Será, James, que seria prematuro comemorarmos outra
união iminente? — Rollo falava tranquilamente, o mestre da situação. — Entre nossas
duas empresas?
Houve um curto silêncio. Então, James assentiu lentamente.
— Sim. Vamos fazer uma comemoração dupla.
Então, tudo estava resolvido, pensou Daisy apaticamente. Tudo que ela e Rollo
haviam trabalhado tanto para fazer acontecer finalmente acontecera. Sendo assim, por
que ela tinha a sensação de que tudo terminara antes mesmo de começar?
Subitamente, ela teve vontade de chorar. Em vez disso, porém, Daisy sorriu e
gargalhou, tomou champanhe e comeu, concentrando-se em cada garfada até esvaziar
seu prato.
Ela baixou o talher e olhou para sua anfitriã.
— Estava delicioso, Emily. Obrigada.
Emily sorriu.
— Acho melhor tomarmos café no gazebo. Está tão quente, e lá tem sempre uma
brisa leve e agradável.
Cinco minutos depois, James entregou uma xícara de café a Daisy, um sorriso
enrugando seu rosto.
— Vocês precisam passar uns dias aqui conosco depois do casamento.
Eles tinham ido para o gazebo, e, como Emily previra, estava mais fresco e mais
confortável ali, com a brisa vindo do oceano.
— Rollo já procurou imóveis para comprar aqui, e Nova York não é lugar para criar
uma família.
Uma família!
Daisy assentiu mecanicamente. Mas sua mente estava vazia. Eles nunca tinham
falado de uma família, e ela não fazia ideia da resposta correta.
Contudo, ao revirar os olhos para seu marido, Emily se curvou à frente e disse
rapidamente:
— James! Eles nem se casaram ainda! — Ela se virou para Daisy. — Tenho
certeza de que você e Rollo irão querer aproveitar um tempo juntos na cidade.
James franziu o cenho.
— Claro. — Ele olhou para Daisy como quem pedia desculpas. — Peço perdão.
Sou velho, funciono de um jeito diferente de você e Rollo.
Daisy assentiu. O esforço para sorrir estava deixando o rosto dela dolorido.
— P-por favor, não peça desculpas. É que não chegamos a falar sobre filhos. Não
pensamos que... Quero dizer, não vamos...
Ela olhou para Rollo, esperando vê-lo resolver sua confusão. Mas ele não disse
nada, apenas a observou fixamente, uma expressão indecifrável no rosto.
Houve um curto e tenso silêncio. Em seguida, Rollo pigarreou.
Os olhos de Daisy estavam suplicantes. Ela precisava da ajuda dele, precisava que
ele se apresentasse para salvar o dia. Para salvar o acordo que era a conclusão de anos
de trabalho árduo.
Aquilo era tudo que ele sempre quisera.
Agora que estava ao seu alcance, porém, ele estava percebendo que não valia o
sacrifício. Que não valia as mentiras e a farsa.
— Ainda não falamos de filhos.
— É claro que não. Hoje em dia, os casais tendem a esperar... — começou Emily.
Mas ele balançou a cabeça.
— Quem me dera fosse esse o motivo, Emily. — Ele fez uma pausa, seu rosto
parecendo ser feito de pedra. — Mas não é. Daisy e eu não falamos de filhos porque não
é você que funciona de um jeito diferente, James. Sou eu.

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Os olhos dele encontraram os de Daisy, e, subitamente, ela soube o que ele estava
prestes a fazer.
— Não, Rollo...
Ele pegou a mão dela e a apertou, seus olhos mais verdes e brilhantes do que
nunca.
— Isso jamais teria dado certo.
Abruptamente, ele soltou a mão dela e, ficando de pé, virou-se para James com
uma expressão séria no rosto.
— A culpa não é dela. Fui eu que a obriguei a fazer isso.
— Não estou entendendo, Rollo. — James também se levantou. — Como assim?
O que você obrigou Daisy a fazer?
Mas ele estava entendendo, sim, pensou Daisy tristemente. Ela via na maneira
como o rosto dele estava ficando tenso, na expressão de seus olhos.
— É uma farsa. Nós somos uma farsa.
Mesmo sabendo o que ele estivera prestes a dizer, Daisy fez uma expressão de
dor ao ouvir as palavras escolhidas por Rollo. Contudo, o que doeu não foi apenas o que
ele disse. O alívio na voz dele foi tão doloroso de ouvir que ela precisou se segurar nos
braços da cadeira para não soltar um grito de dor.
— Você faria algo assim? Mentiria sobre um casamento? Sobre estar apaixonado?
— James balançou a cabeça, a raiva duelando com a incredulidade.
Rollo deu de ombros.
— Você não venderia o edifício para mim, de outra forma. Por isso, eu me tornei
outra pessoa. E precisava de Daisy para me ajudar. Para ser minha esposa.
Ela engoliu em seco, o som ecoando dentro de sua cabeça. Os olhos dele estavam
fixos nos dela, como se eles estivessem sozinhos, e a intimidade do olhar dele era tão
conflitante com a brutalidade do que ele estava dizendo que Daisy achou que fosse
vomitar.
— Por quanto tempo você iria continuar com essa farsa? — perguntou James
friamente.
Rollo olhou além dele.
— Um ano — disse por fim. — Mas, agora, entendo que um ano seria tempo
demais. Até mesmo um mês tem sido um sacrifício grande demais.
Daisy inspirou fundo. Ela estava sentindo como se tivesse sido apunhalada.
— Você foi longe demais, Rollo.
James parecia chocado, e, por algum motivo, isso piorava tudo.
— O acordo acabou. Não acontecerá.
Rollo assentiu. Durante o que pareceu uma eternidade, ele ficou parado de pé,
olhando para ela, seu olhar límpido e tranquilo, com a mesma aceitação de um gladiador
ao entrar no Coliseu. Então, virando-se, ele foi embora, seus passos rápidos e leves.
— Por favor... — Daisy se virou para os Dunmore. — Vocês precisam impedi-lo.
Sei que fizemos algo ruim, mas ele fez pelos motivos certos.
James Dunmore a olhou fixamente, perplexo.
— Não entendo. Ele obrigou você a participar disso e, mesmo assim, você quer
ajudá-lo?
— Quero, sim. — A voz dela estava marcada pelas lágrimas.
— Mas por quê?
— Eu sei o motivo.
Avançando, Emily Dunmore pegou a mão de Daisy.
— É porque você o ama, não é?
— Sim, amo. Mas isso já não importa mais, não é?
Quando Emily a puxou para seus braços, Daisy se entregou à tristeza e à dor e
chorou.

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Capítulo 11

Quatro semanas depois, Daisy ainda não sabia ao certo como voltara a Nova York.
Depois que Rollo fora embora, os Dunmore haviam se recusado a culpá-la por seu papel
na farsa, e ela conseguira permanecer calma enquanto James conseguira convencê-la a
contar toda a história.
Contudo, diante da bondade deles, ela não conseguira evitar se debulhar mais uma
vez em lágrimas.
E fora um alívio chorar.
Ficar de luto pelo que poderia ter sido.
Entretanto, voltar para casa fora um alívio.
Durante os primeiros dias, talvez uma semana, ela chorara, assim como Emily
Dunmore fizera. Então, as lágrimas finalmente haviam cessado.
Talvez não lhe restassem mais lágrimas, pensou ela enquanto limpava as mesas
do estabelecimento de seus pais com eficiência rápida e automática. Ou, mais
provavelmente, a hora de chorar já passara.
Agora era hora de voltar a viver. Fora basicamente o que David lhe dissera. Ela o
visitara no centro de reabilitação e lhe contara a verdade. E, assim como ela fizera
quando ele admitira seu problema com o jogo, ele a puxara para seus braços e lhe
dissera que ela poderia contar com ele para tudo.
De volta à casa de seus pais, o pai dela lhe entregara um avental e sugerira que
ela fizesse alguns turnos no restaurante. Nem ele e nem a mãe dela haviam pressionado
para que ela lhes contasse detalhes. Eles simplesmente a tinham acolhido de braços
abertos, oferecendo conforto e apoio.
E, claro, um emprego.
Ao olhar pelo restaurante, Daisy quase sorriu. Inacreditavelmente, e pela primeira
vez em sua vida, ela estava gostando de trabalhar como garçonete. Havia algo
reconfortante na repetição de limpar as mesas, anotar pedidos e conversar com as
pessoas. Ainda melhor, isso era totalmente diferente de sua vida em Manhattan.
Fazia um mês desde que a limusine de James Dunmore a deixara na casa dos pais
dela. Um mês desde a última vez que ela vira ou falara com Rollo. Não que ela esperasse
ter notícias dele. No instante em que ele se virara e fora embora, ela soubera que seria
apagada da vida dele. Por isso, ela fizera a mesma coisa, deixando de lado tudo que ele
lhe dera.
O coração dela disparou. Ela dera seu anel a James, e ele prometera devolvê-lo a
Rollo. Dado o histórico deles, ela não quisera arriscar nenhuma confusão. Nem mesmo a
possibilidade de vê-lo novamente.
No entanto, não havia chance de isso acontecer. Como ele dissera, o mês que eles
haviam passado juntos não devia ter acontecido.
A dor a pegou desprevenida e, levantando os vidros de condimentos, ela passou o
pano no recipiente de ketchup e mostarda, agradecida pela distração oferecida pela
atividade física.
Não que ela fosse se render à dor. Ela estava mais forte agora. Mais triste,
também. Mas determinada a fazer sua vida ter importância. Era por isso que, quando ela
economizasse o suficiente, entraria numa universidade para estudar Inglês. Daisy sempre

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quisera frequentar uma faculdade, mas nunca se achara boa o suficiente, e ser atriz fora
uma forma de disfarçar essa dúvida em relação a si mesma.
Contudo, ela já não queria mais ser outra pessoa. Agora, ela seria ela mesma, e,
se isso significasse fracassar e encarar seus medos, ela o faria. Não havia nenhuma
vergonha em se esforçar ou considerar algo um desafio. Apenas em mentir para os outros
e para si mesma.
Os lábios dela se curvaram. Não foi exatamente um sorriso... ela ainda não
chegara a esse ponto... mas talvez, quando David voltasse para casa no dia seguinte, ela
estivesse pronta. Contudo, conhecendo seu irmão gêmeo, era provável que ele já tivesse
imaginado tudo. Afinal, ele a conhecia melhor do que ninguém. Tão bem quanto conhecia
a si mesmo.
Naquele exato momento, a cabeça dela começou a funcionar, suas palavras
despertando uma recordação de outro restaurante, um par de olhos verdes e uma voz
grave dizendo suavemente a ela: “Você é diferente. Conheço você tão bem quanto
conheço a mim mesmo.”
— Terminamos, Daisy?
Ela levantou a cabeça, o coração em disparada. O pai dela estava na porta.
Lá fora, na rua, o semáforo ficara verde, e os carros fluíam pelo cruzamento. Por
algum motivo, aquilo a tranquilizou. A vida seguia em frente; a dela, também. E era uma
vida boa. Ela tinha uma família amorosa, um emprego e, agora, um futuro.
Virando-se para seu pai, Daisy assentiu:
— Sim. Tudo terminado. Vamos para casa.

— A que horas David chega mesmo?


Daisy grunhiu.
— Eu já disse, mamãe. Ele não precisa de carona. Prefere pegar um táxi.
A mãe dela franziu o cenho.
— E você não vê problema nisso?
— Claro que não. Ele pegou um trem em Nova York. Acho que ele aguenta uma
corrida de dez minutos num táxi.
A expressão da mãe dela ficou relaxada.
— Nesse caso, vou até a casa de Sarah pegar a travessa quadrada dela. Assim,
posso fazer o bolo, e você pode fazer a cobertura.
Duas horas depois, Daisy estava sentada à mesa do quintal dos fundos de seus
pais, tentando desenhar uma mensagem com cobertura em cima do bolo favorito de seu
irmão, com três camadas de mousse de chocolate.
Faltava ao menos uma hora ainda para ele chegar. Para a sorte dela, pensou
Daisy, segundos depois de ver que fizera as letras grandes demais e percebendo que
haveria espaço apenas para um “Bem-vin” em cima do bolo.
Ela suspirou. Por que estava fazendo aquilo? Suas habilidades na cozinha
basicamente se limitavam a descascar e cortar.
Deixando a cobertura de lado, ela olhou na direção da janela da cozinha.
— Mãe! Mãe! — berrou ela. — Acho que você devia fazer isso. Senão, vou
estragar tudo!
De algum lugar de dentro da casa, ela ouviu a campainha tocar e, revirando os
olhos, sussurrou um palavrão. Ótimo! Devia ser Sarah. Agora, a mãe dela passaria horas
fofocando, e seria culpa de Daisy quando o bolo ficasse parecendo o trabalho de uma
criança hiperativa de 5 anos.
Só que não foi a voz de uma mulher que ela ouviu, mas a de um homem. O corpo
dela ficou paralisado. E, a julgar pela empolgação na voz da mãe dela, não era um
homem qualquer. Era o irmão dela. Droga, David! Era típico dele chegar cedo.

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Mas, subitamente, ela já estava sorrindo de orelha a orelha. Levantando-se de um


salto, ela subiu os degraus às pressas até a casa.
E parou.
Não era David que atravessava lentamente o deck.
Era Rollo.
O tempo amortecera a dor dela. Agora, porém, ela estava retornando de forma
mais aguda e intensa do que nunca, juntamente com um pânico que a percorreu,
deixando-a presa no mesmo lugar.
— Oi.
Com o som da voz dele, a pele dela pareceu encolher sobre os ossos. Era a voz
que ela ouvia à noite quando dormia e também durante o dia, sempre que sua mente
ficava ociosa.
Uma voz que ela aprendera a amar. Uma voz que a fazia querer sair correndo e
não parar mais.
— Como descobriu onde eu morava?
O coração dela estava dando cambalhotas dentro do peito, como um daqueles
macacos de brinquedo. Ela queria tocá-lo tanto que chegava a doer! Estender a mão e
acariciar aquele lindo rosto. Abraçá-lo e ouvir sua respiração. Só que ela não podia. Ele
não era dela para que ela pudesse tocá-lo, acariciá-lo, abraçá-lo. Nunca fora.
— Perguntei a David.
Os olhos dele estavam fixos nos dela, e a expressão em seu rosto não continha
nada da fria autoconfiança de costume. Ele parecia hesitante, incerto, como um homem
morrendo de sede que pensava estar vendo água pela primeira vez em dias.
Chocada, ela balançou a cabeça.
— Não acredito em você. — Pensar em David a traindo doeu quase tanto quanto o
repentino ressurgimento de Rollo em sua vida. — Ele não faria isso.
— Não dei escolha a ele.
A raiva a dominou, levando embora a mágoa e o medo. Ela avançou, cerrando os
punhos.
— O que você fez? Você o ameaçou?
— Não. É claro que não.
— “É claro” por quê? É isso que você faz, não é?
Ele passou a mão pelo próprio rosto, e, pela primeira vez, Daisy percebeu as
sombras escuras sob os olhos dele, a ligeira magreza de suas faces. Mas ela bloqueou
esse lampejo de preocupação, observando em silêncio enquanto ele lutava para manter o
controle.
— Simplesmente disse a ele que precisava ver você — falou ele por fim.
Ela o olhou fixamente, os olhos se arregalando de incredulidade.
— Você está brincando, não está? Ele sabe o que você fez. Sabe que me
chantageou, e me humilhou, e me abandonou. Ele não iria querer você perto de mim.
Lágrimas embargaram a voz dela, e, por um instante, Daisy não conseguiu falar,
não conseguiu nem mesmo olhar para ele. Contudo, por mais magoada que ela estivesse
por dentro, ela não se permitiria desmoronar diante de Rollo Fleming.
— Saia deste quintal e fique longe de mim. E fique longe da minha família.
— Daisy, por favor. Eu quero...
Ela recuou ao ouvir a emoção na voz dele. Mas, quando ele avançou um passo em
sua direção, Daisy recuou, a mão erguida como um escudo.
— Não importa o que você quer, Rollo. Não posso lhe dar isso. Não entende? Não
sobrou nada. Antes de eu conhecer você, eu tinha uma casa, um emprego. Era só um
quarto no apartamento do meu irmão e um emprego que eu detestava, mas era tudo meu.
Era a minha vida. E você me forçou a abrir mão de tudo isso.

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Ela estava com dificuldades de respirar e, apesar do calor do dia, estava sentindo
frio... gelada. E estava se sentindo tão sozinha! O simples fato de vê-lo novamente fez
Daisy se lembrar da dor da ausência dele. Da saudade que ela sentia.
Ela olhou para o rosto dele. Sua beleza partiu o coração dela.
Ou teria partido se ele já não tivesse feito isso.
Cruzando os braços diante do peito, tentando conter a dor e a tristeza, ela empinou
o queixo.
— Dei minha lealdade a você, e você me disse que ela não valia de nada. Disse
que estar comigo era um sacrifício que você não estava disposto a fazer.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Ele balançou a cabeça, seus olhos
repentinamente brilhantes demais, a voz tensa. — Eu não estava falando do meu
sacrifício. Estava falando do seu.
Os ombros dele subiram e desceram.
— Como assim? — perguntou ela, trêmula.
— No apartamento, quando você me disse que eu não precisava chantagear
você... que você me ajudaria a conseguir o edifício... eu soube que você estava falando
sério. Soube que poderia sempre contar com você.
— Então, por que jogou tudo no lixo? — disparou ela. — Estávamos tomando
champanhe. Comemorando nosso noivado e o seu acordo. Aí, você disse a James que
era tudo uma farsa.
Daisy mordeu o lábio. Embora a fúria ardesse como fogo sob a pele dela, ela não
conseguia evitar se importar com ele. Com a promessa que ele fizera e, agora, quebrara
irremediavelmente.
Parte da raiva dela desapareceu.
— Eu lamento por você ter perdido o edifício.
— Você lamenta? — Ele franziu o cenho, a boca se contorcendo. — Como? Por
quê?
Ela olhou para além dele, tentando desfazer o emaranhado de suas emoções.
— Sei quanto aquilo significava para você.
Ele assentiu, sua expressão distante e soturna.
— Passei minha vida inteira querendo isso. Mas não importa mais.
Com esforço, ela se obrigou a soar fria, pragmática.
— Você deu o melhor de si.
A cabeça dele se ergueu de súbito, e o ar pareceu estremecer em torno dele.
— Você não entende. Não me importo com o acordo. Não me importo com o
edifício e nem com a promessa que fiz. Eu me importo com você.
O coração dela disparou.
— Não. Você não tem o direito de dizer isso. Não aqui, não agora.
As lágrimas que ela vinha tentando conter começaram a escorrer, e, com raiva,
Daisy enxugou o rosto.
— Não estou chorando porque me importo — conseguiu dizer ela. — Então, não
pense que estou. Estou chorando porque estou com raiva. De você.
— Eu sei. E tem todo o direito de ter raiva. Eu a tratei muito mal. — A voz dele
estava falhando, e Rollo suspirou. — Quem me dera poder voltar e impedir a mim mesmo
de me comportar daquele jeito.
— Você me magoou — disse ela, enfurecida. — Você me humilhou. E me
descartou como se eu fosse um casaco velho. Não abandonou simplesmente o seu
acordo. Você me abandonou. Você me deixou...
Subitamente, ela não conseguiu mais suportar. Queria que ele fosse embora dali.
— Vá logo embora, Rollo, por favor.
Ele balançou a cabeça.
— Não posso.

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— Por que não? Aliás, por que você veio aqui?


Ele pôs a mão no bolso. Subitamente, ela piscou os olhos, um lampejo de dourado
e verde a cegando momentaneamente.
— Onde conseguiu isso?
Era o anel que ele lhe dera. O anel que ela devolvera.
— Com James. Ele foi me procurar. E me devolveu o anel. E também me deu um
belo sermão. Disse umas boas verdades para mim. — A expressão dele estava tensa. —
Eu mereci tudo. — Ele suspirou. — Ele falou que eu fui um idiota por ter deixado você ir
embora. Que você me defendeu depois que fui embora.
As faces dela coraram, e Daisy desviou o olhar.
— Defendi mesmo. Por isso, a idiota sou eu, não você.
— Daisy...
Ele falou com uma voz tranquila, mas algo nela atingiu o coração de Daisy, e ela se
virou, relutante, a pulsação disparando freneticamente.
— Ele disse que você me amava.
Houve um momento de silêncio.
— Era verdade?
A pele dele estava repuxada sobre as faces.
Um calafrio a percorreu, mas ela não conseguiria mentir para Rollo... por mais que
doesse dizer a verdade.
Daisy assentiu, sem palavras.
— E agora? Isso continua sendo verdade?
Os olhos dele a penetraram, indo bem fundo, não deixando lugar onde ela pudesse
se esconder.
Ela assentiu mais uma vez.
Rollo inspirou fundo e suspirou tremulamente.
— Então, case comigo.
A voz dele estava tão baixa que ela quase não conseguiu ouvi-la. As palavras,
porém, perfuraram a pele dela como pregos.
Daisy o olhou, entorpecida, sua mente paralisada.
— Você não quer se casar comigo, Rollo. Nunca quis. Eu era só um meio para
você alcançar um objetivo.
— No início.
Os olhos dele estavam febris, e Daisy viu que ele estava trêmulo, todo o seu corpo
agitado como o de um maratonista.
— Mas, depois, isso mudou. Eu mudei. Só que não soube como dizer isso a você.
O rosto dele estava tenso de emoção.
— Dizer o quê? — sussurrou ela.
— Que eu a amo — falou ele com a voz rouca.
E o que restava da tristeza e da dor dela foi esquecido.
— Não mereço você, Daisy. Mas eu a amo. E quero que você seja minha esposa.
De verdade, desta vez. Foi por isso que tive que ir embora. Eu sabia que você detestava
mentir para os Dunmore. Mas teria continuado fazendo isso... por mim. E eu não
conseguiria aguentar. Por isso, não tive escolha. Ou melhor, eu tive escolha. E escolhi
você.
O coração dela deu piruetas dentro do peito, e uma selvagem e estonteante
felicidade, marcada pela tristeza, inflou-se dentro dela.
— Era o seu sonho. Você abriu mão do seu sonho por mim.
Ele balançou a cabeça.
— Meu sonho está bem aqui.
Ele pegou as mãos dela.

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— E tenho uma confissão a fazer. Você estava certa. Depois que contei a James a
história do meu pai, ele aceitou vender o edifício para mim. Assinamos o contrato hoje de
manhã. Foi por isso que não vim antes. Eu não queria que houvesse nenhuma confusão
em relação ao motivo de eu querer você como minha esposa.
A expressão dele estava tão franca, tão ávida, que Daisy não sabia se ria ou se
chorava.
— Quer dizer que sou só um bônus?
Ele riu tremulamente.
— Eu poderia dizer que sim, mas essa tigela de cobertura parece perigosa!
Ela sorriu.
— Nas minhas mãos, é uma arma letal. Dê uma olhada no bolo se não acredita em
mim.
A expressão dele ficou séria.
— Você não é um bônus, Daisy. É o grande prêmio. Eu a amo demais. Sempre vou
amar.
— Sempre significa eternamente? — perguntou ela tremulamente.
Assentindo, ele ergueu delicadamente a mão dela e deslizou o anel para o dedo de
Daisy.
Por um instante, eles se entreolharam em silêncio, como sobreviventes de uma
tempestade. Então, ferozmente, ele a puxou para si, enterrando o rosto no cabelo dela.
— Tive tanto medo — sussurrou ele.
Com delicadeza, Daisy acariciou o rosto dele.
— De quê?
— De James ter entendido errado. De que você não me perdoasse.
O coração dela se inflou.
— Eu também tive medo. De que tivesse perdido você.
— Isso não vai acontecer. Não tem como. Você faz parte de mim. A parte mais
verdadeira.
Ele olhou nos olhos dela. A emoção no olhar dele era crua, nua, exposta; e Daisy o
amou mais do que nunca por ele ser capaz de demonstrar sua vulnerabilidade e seu
desejo por ela.
Ela apoiou o rosto no dele, banhando-se no amor de Rollo. Finalmente, Daisy
suspirou.
— Acho melhor contarmos aos meus pais o que está acontecendo. Eles devem
estar surtando, a essa altura. — Ela franziu o cenho. — Aliás, por que será que eles não
saíram...
Rollo fez uma expressão sofrida.
— Talvez isso seja culpa minha. Talvez eu tenha sido um tanto... passional quando
tentei me explicar. Faz muito tempo que não lido com pais.
Ela mordeu o lábio, uma pergunta se formando dentro de sua mente. Contudo,
antes que ela pudesse fazê-la, ele a puxou para si; tão perto que Daisy sentiu o coração
dele batendo.
— Passei tempo demais com raiva. Do meu passado. Da minha mãe. Você me fez
enfrentar essa raiva e os meus medos. Mas...
— Você precisa encontrar sua mãe — disse ela delicadamente. — E Rosamund.
Ele assentiu.
— Sim.
— Fico feliz por isso. — Ao ver a linda boca dele se curvar para cima, ela sorriu de
forma brincalhona. — Sempre quis uma irmã. — Ela segurou a camisa dele. — Mas não
tanto quanto quero você.
Ela o puxou para si, e eles se beijaram, perdendo-se um no outro, no desejo e no
amor.

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Epílogo

— Você está de olho na hora, não está, papai? — Dando uma última olhada em
seu reflexo no espelho, Daisy olhou ansiosamente para o rosto de seu pai. — Não quero
me atrasar.
O pai dela balançou a cabeça.
— Você não está atrasada. — Ele parou, seus olhos ficando mais brandos. — Mas,
mesmo que estivesse, valeria a espera. Você está linda, Daisy. Muito bonita mesmo.
Ela sorriu.
— Você é meu pai, papai! Tem mesmo que achar isso.
— É verdade. — Recostando-se no sofá, o pai dela sorriu. — Mas isso não faz com
que deixe de ser verdade. E, se não acredita em mim, espere só até Rollo ver você.
Imaginando a reação de seu futuro marido, Daisy sentiu um calor na pele. Ela sabia
exatamente como ele a olharia... a maneira como como seus olhos verdes escureceriam.
O coração dela se apertou. Ele passara a noite anterior em Manhattan, e ela viajara para
os Hamptons com o resto da comitiva do casamento. E, embora fizesse menos de um dia,
ela já sentia falta dele.
Como se estivesse lendo os pensamentos dela, seu pai pegou sua mão.
— Não falta muito tempo — falou ele em voz baixa.
Daisy assentiu. Seu pai tinha razão. Dali a menos de uma hora, e exatamente um
ano depois de eles terem se conhecido no escritório dele, ela se tornaria a sra. Daisy
Fleming.
Eles haviam optado por uma cerimônia pequena e íntima na praia de Swan Creek.
Daisy sempre amara a ideia de se casar descalça, com apenas os sons das ondas, em
vez de música, mas pensara que Rollo pudesse querer um imenso casamento para a alta
sociedade.
Mas ele estivera determinado. O casamento não seria uma exibição. Apenas os
mais próximos seriam convidados: os pais dela e David, a mãe dele e Rosamund e, claro,
os Dunmore. Agora, estava acontecendo de verdade.
Ela estremeceu de expectativa.
— Está com frio? — Foi a vez de seu pai parecer ansioso. — Precisa de um
casaco ou algo assim?
Baixando o olhar para seu elegante vestido de seda branca, Daisy riu.
— Francamente, Papai! Estou prestes a me casar. Não vou usar um casaco. — Ela
revirou os olhos. — Nem está frio.
Não estava. Uma leve brisa soprava do oceano, e o ar estava agradavelmente
quente.
— Deve ser o nervosismo pelo casamento, então.
Ela balançou a cabeça.
— Nunca tive tanta certeza de algo, Papai.
E com razão.
Muitas coisas haviam acontecido ao longo do último ano. Em conjunto com James
Dunmore, Rollo renovara seu antigo prédio, transformando-o num lugar moderno, mas
acessível para famílias, e Daisy concluíra seu primeiro ano na faculdade. Acima de tudo,
porém, ele se esforçara muito para perdoar sua mãe. Juntos, ele e Daisy haviam passado
algum tempo conhecendo melhor a mãe dele e Rosamund. Eles ainda não eram
exatamente uma família, mas havia amor e o início de confiança.
O pai dela pigarreou.

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— Você o ama de verdade, não é? E isso tudo é real, não?


Ela assentiu.
— Amo. E é, sim.
Como parte de sua decisão de viver a vida da forma mais honesta possível, Daisy
contara a seus pais tudo que acontecera com Rollo. David também admitira seu problema
com o jogo, e fora difícil para os pais deles ouvir a verdade. Entretanto, após o choque
inicial, o amor e o apoio deles haviam permanecido imutados.
— Sou o seu pai. Por isso, nunca acreditei que alguém pudesse merecer você. —
Ele sorriu. — Mas acho que nunca vi um homem tão apaixonado.
Ela assentiu, seu coração em disparada, dominado pela emoção.
— Tudo certo, então! — O pai dela se levantou e lhe ofereceu o simples buquê de
margaridas brancas que ela escolhera. — Está pronta?
Daisy deu o braço a ele.

Lá fora, o sol estava começando a se pôr, banhando o céu com uma luz rosada e
dourada.
Rosamund, a madrinha, estava esperando no início da praia, os olhos cheios de
lágrimas.
— Ah, Daisy, você está linda.
Mas houve tempo apenas para um rápido abraço, e eles logo estavam caminhando
pelas dunas na direção do mar.
Lá, Daisy parou, cobrindo a boca com a mão.
Diante dela, espalhadas por toda a areia, lanternas brilhavam. E, ao lado do
celebrante, no centro das lanternas, estava Rollo... tão delicioso e lindo com sua camisa
branca e sua calça de linho cor de creme que ela mal conseguiu respirar de tanto amor.
Quando ela andou na direção dele, ele avançou, e Daisy viu o amor em seus olhos.
— Você veio.
A voz dele estava rouca de emoção e, quando Rollo pegou sua mão, ela se deu
conta de que ele estava tão trêmulo quanto ela.
— Nós viemos — respondeu ela suavemente.
Mais tarde, depois de fazerem o juramento matrimonial e se socializarem com os
convidados, ele pegou a mão dela e a levou para longe dali. Ao lado do oceano, com os
olhos dele fixos nos dela, a pulsação de Daisy disparou.
— Está feliz?
A mão dele tocou o ombro nu dela, e um surto de desejo explodiu dentro de Daisy.
— Nunca estive tão feliz — respondeu ela, falando a verdade.
Ele se aproximou, a outra mão envolvendo a cintura dela.
— Eu amo você, Daisy.
— Também amo você — sussurrou ela. — Sempre vou amar.
— Sempre significa eternamente — disse ele fervorosamente. E, quando Daisy
assentiu, Rollo a envolveu com os braços e a beijou, enquanto o sol se punha lentamente
atrás deles.

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