Vous êtes sur la page 1sur 145

Um horticultor analisa o solo do coração, os frutos

do Espírito e a maneira çerta de cultivá-los.


W Philp Keller

Santa
Ij
i
Eaitora Beíânia
Título do original em inglês:
A G ardener Looks at the Fruits of the Spirit.
Copyrigh © 1979, W . Phillip Keller.
Publicado originalmente em inglês por
W o rd Books, W aco, Texas, E.U.A.
Tradução de M yrian Talitha Lins
Prim eira edição, 1981
Todos os direitos reservados pela
Editora Betânia S/C
Caixa Postal 10
30.000 Venda Nova, MG
E proibida a reprodução total ou parcial sem permissão es­
crita dos editores.
Composto e impresso nas oficinas da
Editora Betânia S/C
Rua Padre Pedro Pinto, 2435
Belo Horizonte (Venda Nova), MG
Printed in Brazil
Para Ursula,
minha corajosa companheira,
nos ásperos caminhos da vida.
índice

PRIMEIRA PARTE — Quatro Tipos de Terreno

1. Os da beira do caminho: imprestáveis ........... 15


2. Os do terreno pedregoso: sem raízes
profundas ....................... . ............................... 26
3. Os do terreno cheio de espinhos: perdidos
entre as ervas daninhas .................................. 40
4. Os do terreno bom: frutíferos ......................... 53

SEGUNDA PARTE — As Nove Facetas do Amor de Deus

5. Amor: a vida de Deus ................. 69


6. A legria na vida do crente .................. 79
7. A paz e os pacificadores .................................. 88
8. Paciência ........... 97
9. Benignidade: amor revelando misericórdia . . 104
10. Bondade: graça e generosidade ........... 114
11. A fé e a fidelidade do cristão ......................... 123
12. Humildade: mansidão e brandura ............... 132
13. Domínio próprio: temperança, moderação . . 141
Introdução

Este livro foi escrito em atenção a um pedido espe­


cial do Sr. A l Bryant, editor chefe de W ord Books, que
aguardou pacientemente que ele fosse preparado. Dou
muitas graças a Deus porque ele usou a matéria ora
apresentada nas páginas que se seguem, quando a ex­
pus à minha igreja, levando muitos de meus ouvintes a
uma comunhão mais íntima com Cristo. Espero que o
mesmo se dê com o leitor.
Existem publicados vários livros, panfletos e arti­
gos acerca dos frutos do Espírito de Deus. Todos foram
de grande proveito para os crentes, e contribuíram pa­
ra enriquecer a vida de quantos desejavam conformar-
se à imagem de Cristo. Meu desejo sincero, e minha
oração a Deus é que o mesmo aconteça com esta obra.
A abordagem que fazemos do assunto neste volu­
me, longe de ter uma ênfase doutrinária, toma um as­
pecto mais prático, tratando diretamente da produção
de frutos na vida do crente, pela perspectiva do como e
do porquê. Como no caso de outros livros nossos, tais
como Nada me Faltará, Meditações de Um Leigo Sobre
o Pai Nosso, Meditações de Um Leigo Sobre o Bom
Pastor e Suas Ovelhas, a linguagem empregada é sim­
ples; linguagem de leigo.
O estudo que aqui fazemos baseia-se no ensino do
Novo e Velho Testamentos, onde o povo de Deus é
comparado a um jardim cultivado com muito carinho.
Trata-se de um terreno cuidado e lavrado com muito
amor. Ele é regado, cercado e trabalhado com uma de­
dicação total. O nosso Agricultor é o próprio Deus por
meio do seu Espírito, em Cristo. E ele vem ao jardim à
procura de frutos.
9
Por vezes, ele consegue uma colheita farta.
Outras vezes, o retorno que obtém pelos seus
esforços é mínimo.
E são as causas disso que analisamos com deta­
lhes, nos quatro primeiros capítulos, reunidos sob o
título geral de Quatro Tipos de Terreno. Essa parte
fundamenta-se nos ensinamentos do Senhor, apresen­
tados na Parábola do Semeador, que encontramos nos
quatro evangelhos.
Depois, na segunda parte, A s N ove Facetas do
A m o r de Deus, examinamos os frutos do Espírito, indi­
vidualmente, e a maneira como são produzidos. A
m atéria desta parte foi inspirada nos escritos de Paulo,
principalmente nas conhecidas passagens de 1 Corín-
tios 13 e Gálatas 5, onde ele nos oferece uma lista dos
frutos.
Em ambas as partes, o atributo do amor de Deus,
de sua própria vida, é analisado sob três perspectivas:
1. Sua posição no caráter de Deus, e a maneira co­
mo isso determ ina suas atitudes e ações com
relação a nós.
2. A produção deste fruto em nossa vida, e seu
efeito tanto para Deus como para os que nos
cercam.
3. A maneira como podemos incentivar seu cultivo
em ampla medida.
Pelo que dissemos acima, pode-se ver que o estudo
que fazemos da produção de frutos na vida do crente
abrange tanto a questão da qualidade como da quanti­
dade. Nosso interesse sincero é instruir o leitor quanto
aos princípios básicos da produção do fruto espiritual.
Gomo Henry Drummond já afirmou claramente,
faz muito tempo, assim como as flores e frutos não cres­
cem meramente por um capricho da natureza, assim
também os frutos do Espírito não se produzem em nós
acidentalmente, ou por simples capricho. Não há efei­
tos sem uma causa determinada, e isso se dá tanto no
reino da natureza, como no plano espiritual. E quando
começamos a aplicar esse conceito na vida cristã,
abre-se diante de nós toda uma nova e maravilhosa
perspectiva de uma vida como a de Cristo.

10
Como há milhões de pessoas (no interior ou mesmo
nos grandes centros) que são jardineiros ou hortelões,
elas entenderão perfeitam ente as idéias aqui ventila­
das. Aqu eles que, como eu, gostam de trabalhar no so­
lo, apreciam jardinagem, têm p razer em cuidar de
plantas e folhagens, roçados e árvores, lerâo essas pá­
ginas com muita facilidade e também com satisfação,
espero.
Mas, acima de tudo, que este livro possa enrique­
cer abundantemente a vida do leitor, em Cristo.

11
PRIMEIRA PARTE

Quatro
de Terreno
1

Os da Beira
do Caminho:
Imprestáveis

Naquele encantador romance do Velho Testamen­


to, “ Cantares” , a Bíblia nos fornece uma idéia de como
Deus vê o seu jardim. Ele chama o povo escolhido, a
Noiva, a Igreja, eu e você, de seu jardim.
Ali, numa linguagem poética, forte e bela, ele
traça um quadro verbal do grande prazer e da satis­
fação que ele tem com seu jardim, suas folhagens e es­
peciarias, suas flores e frutos. Ele anseia que esse jar­
dim seja uma fonte de satisfação para ele, que nos ama
e cuida de nós com eterno amor e diligência:
“ Jardim fechado és tu, minha irmã, noiva minha, ma­
nancial recluso, fonte selada.
Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos ex­
celentes: a hena e o nardo; o nardo e o açafrão, o
cálamo e o cinamomo, com toda a sorte de árvores de
incenso; a mirra e o aloés, com todas as principais es­
peciarias.
És fonte de jardins, poço das águas vivas, torrentes que
correm do Líbano!
Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no
meu jardim, para que se derramem os seus aromas.
Ah! venha o meu amado para o seu jardim, e coma os
seus frutos excelentes.” (Ct 4.12-16.)
Gomo acontece com muitas coisas nesta vida, isto
aí é o ideal supremo, que há no coração de Deus, com
respeito a nós. Esse é o anseio mais profundo de seu
15
Espírito para nós — para o qual ele dirige grande parte
de sua energia e atividade de vida. Ele busca em nós os
frutos, os perfumados atributos que resultam do seu la­
bor, no cultivo de nosso caráter.
Algumas vezes, ele fica profundamente decepcio­
nado.
Não há fruto.
Ou quando há, é escasso e enfermiço.
Apesar de ele haver empregado diligentes esfor­
ços, ocorre uma queda na produção.
Aliás, várias e várias vezes, ele lamenta o desen­
volvimento insuficiente da planta, e a floração incons­
tante, que resultam em frutos escassos, mirrados e res­
sequidos.
Em certas ocasiões, aparecem no jardim de nossa
vida, plantas bravias: uvas silvestres e ervas daninhas.
Em outras, simplesmente não há colheita. Por quê?
Basicamente, isso ocorre porque existem terrenos im­
produtivos e de beira de caminho.
Destes, o primeiro tipo que o Senhor mencionou,
foi o da beira da estrada: a faixa de terra que fica à
margem do caminho e que se torna endurecida pelo
contínuo transitar daqueles que por ele passam em
suas viagens.
Aqueles que conhecem a Á frica, Oriente Médio e
Extremo Oriente entenderão bem essa figura. Nesses
lugares, milhões e milhões de pessoas vivem lutando
para arrancar seu magro sustento de pequenas glebas
de terra. E essas pequenas roças, espalhadas pelo inte­
rior do continente num traçado irregular, são cortadas
e recortadas por uma teia de minúsculos caminhozi-
nhos.
E, ao longo desses estreitos trilhos, homens e mu­
lheres cortam o interior, de um lado a outro, carregan­
do seus fardos. Também, ao longo dessas estradinhas
primitivas de terra batida e endurecida pelo passar de
inúmeros pés, crianças correm, brincam e se divertem.
Por esses trilhos passam, de uma lado para outro, ju­
mentos, mulas e camelos, bem como tropas de merca­
dores.
E foi nesses caminhos que, quando menino, eu

16
também corri, descalço e despreocupado, criado sob o
sol da África. E mais tarde, foram esses mesmos cami­
nhos que eu percorri, atravessando o país à procura de
caça para alimentar minha família. Eram caminhos
que me conduziam a lugares novos e a grandes aventu­
ras, nas colinas que me acenavam à distância.
Aquele solo palmilhado pelos meus pés e pelos de
outros milhões e milhões de passantes, havia-se endu­
recido como tijolos, estava sólido como concreto, e im­
penetrável para as tenras raízes de qualquer planta
que ali fosse semeada.
Jesus mesmo viajara muitos quilômetros em estra-
dinhas assim, sob o sol inclemente do verão. Seus pés
haviam ficado empoeirados pelo pó fino que se levanta­
va do chão, ao contato de suas sandálias. E ele vira
muitas sementes espalhadas ao longo dos caminhos,
soltas na superfície da terra. A li ficaram, sem germi­
nar, sem vida, improdutivas.
Era um desperdício de semente; um desperdício de
energias para o lavrador que as semeava num terreno
assim. Era esperança perdida, pensar que ali ele obte­
ria uma safra. Uma terra assim era imprestável, boa
apenas para as aves, que ali avistavam facilmente os
grãos espalhados, descobertos. Não lhes era difícil
voar até o chão e arrebatá-los. O resultado final era
que a terra ficava infrutífera.
Jesus disse que a vida de algumas pessoas era co­
mo aquele terreno.
Denominou-as “ beira do caminho” . O jardim de
suas vidas, em alguns pontos, fora pisado pelo constan­
te passar de outras pessoas e outras influências, e as­
sim ficara endurecido.
Ele não deu muita explicação sobre quem seriam
esses viajantes e visitantes. Está claro que não poderia
enumerá-los todos. Esses passantes variam de um jar­
dim para outro. Mas há certas pessoas e influências
que passam na vida de todos nós, criando esses trilhos
de terra batida. Damos abaixo alguns deles. Todos po­
dem endurecer tanto nosso coração, que a atenção que
poderíamos dar à Palavra de Deus ali plantada é
mínima ou nenhuma. Os primeiros são:

17
1. Nossos amigos e conhecidos.
Podemos fazer a seguinte pergunta: “ Quais são as
pessoas que, com mais freqüência, caminham pela mi­
nha vida, formando esse trilho de terra batida?”
Qual a influência delas em minha mente?
Será que estão endurecendo meu coração contra
Deus?
Estão comprimindo e pressionando minhas convic­
ções, para que se tornem contrárias a Cristo?
Estão lentamente solidificando meus sentimentos,
para que se voltem contra o Espírito de Deus?
São questões muito legítimas e certas, que todos
devemos encarar. É bem possível que, sem que o saiba­
mos, nossa alma esteja sendo manobrada, para que se
coloque contra Aquele que cuida de nós com tanto cari­
nho e ternura.
Mas Cristo vem, em sua compaixão, para implan­
tar em nós a semente de sua Palavra. E procura culti­
var o terreno de nossa vida, pela operação interior de
seu Santo Espírito. Mas então encontra resistência de
nossa parte. O solo ficou endurecido pelo palmilhar
constante de milhares de outros passantes.
A estradinha criada em meu espírito pelos pés dos
passantes foi formada pelas ideologias e conceitos do
mundo. Eu me torno condicionado pela cultura da so­
ciedade em que vivo.
Assim, quando o pensamento de Deus acerca de
tudo é apresentado ao meu coração, quando seus ape­
los são feitos à minha alma, minha primeira reação, na
maioria das vezes, é negativa:
— Impossível! Isso é coisa para passarinho!
E por isso que, sempre que tenho a alegria de ga­
nhar alguém para Cristo, minha primeira preocupação
é fazer com que logo forme um novo círculo de amigos
crentes. Já não é possível permitir que qualquer estra­
nho venha a caminhar em sua vida, e form ar ali aquele
caminhozinho batido.
Mas, se eles o permitirem, as conseqüências serão
desastrosas, tanto para eles como para Deus. Aqueles
que não conhecem a Cristo podem condicionar sua vi­
são das coisas de uma tal forma, e forjar uma mentali­

18
dade tão contrária ao Salvador, que, quando a Palavra
de Deus lhes for apresentada, sofrerá uma forte resis­
tência por parte deles. N ão existe aquela cálida reação
de obediência aos toques do Espírito de Deus. E assim o
terreno de suas vidas perm anece infrutífero, improdu­
tivo. Em condições assim, a boa semente da Palavra de
Deus não pode germinar. Tudo que lhes é dito é logo
arrebatado pelo inimigo de nossas almas. Portanto, não
há produção de frutos.
A atitude deles é de total indiferença.
— Isso tudo não passa de um amontoado de toli­
ces. Deixe prá lá. Ê coisa de idiotas.
2. A literatura que lemos; os programas de televi­
são a que assistimos.
A segunda influência forte, que cria aquele cami­
nho em nossa vida, é aquilo que lemos ou assistimos, e
que pode afetar nossa mente e emoções. Que tipo de li­
vro lemos? Que tipo de revistas, jornais, boletins, etc.,
estamos introduzindo em nossa mente? A que tipo de
program a de rádio ou televisão estamos assistindo se­
guidamente?
Nessas questões, geralm ente, agimos por força de
hábitos. Formamos certos apetites insaciáveis e certas
preferências por determinadas publicações, por certos
programas ou artistas. Por vezes, essas coisas se tor­
nam quase uma mania. Permitimos que os veículos de
comunicação em massa nos manobrem, tornando-nos
como barro nas mãos de escritores, diretores e produ­
tores. Somos “ batidos” e comprimidos por forças in­
cansáveis, que atuam sobre nós, até que nossas convic­
ções se endureçam como concreto.
A maioria dos homens que dirigem esses meios de
comunicação, seja nas publicações ou nos programas,
não é crente. E alguns deles são violentamente
contrários a Deus. Esses se lançam num trabalho sutil,
mas firm e, com o objetivo de minar e destruir a fé tran­
qüila do povo de Deus. Por meio de sugestões malicio­
sas, de dúvidas, descrédito e desespero, eles procuram
de toda form a abalar nossa confiança em Cristo.
E o mais lam entável de tudo é que certos modos de

19
pensar do mundo, sua ideologia e filosofia, estão esta­
belecendo um caminho em nossa vida, sólida e firm e­
mente. Como escreveu Salomão, aquele grande sábio,
há muitos séculos atrás: “ Há caminho que ao homem
parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.”
(Pv 14.12.)
No jardim de nossa vida interior, essa morte é a to­
tal falta de frutos. As idéias divinas, sua economia, sua
visão da vida, seus padrões de comportamento e suas
prioridades simplesmente não conseguem penetrar no
coração endurecido. N ão há jeito de a boa semente da
sua Palavra germ inar e criar raízes num terreno tão
obstinadamente voltado contra ele.
E no fim de tudo, somos a soma total das decisões
que tomamos. Afinal, somente eu posso decidir a res­
peito daquilo que deverá influenciar minha mente, mi­
nhas emoções, minha vontade e meu espírito. Se eu se­
rei, nas mãos de Deus, m aleável ou endurecida, depen­
derá, em grande escala, das pessoas ou coisas que es­
tão estabelecendo um caminho em minha vida.

3. A s músicas que estamos constantemente


ouvindo.
Essa é outra área problemática. Talvez alguns lei­
tores se choquem quando eu lhes digo que, se ouvi­
mos o tipo de música inadequada, isso endurece nosso
coração.
Há vários tipos de música altamente reco­
mendáveis. Algumas das prim eiras músicas a serem to­
cadas em nosso planeta foram compostas sob a inspi­
ração do próprio Espírito de Deus.
Os majestosos sons das ondas sobre a areia das
praias, das cachoeiras estrepitosas ou das pequenas
cascatas. A suave melodia do vento nas copas das ár­
vores, e das brisas soprando pelas campinas. As doces
notas do gorgeio de um pássaro; os insetos zumbindo no
mato; o riso alegre de uma criança; o assobio sentido e
triste de um velhinho — todas essas coisas podem
soerguer-nos o espírito.
Mas, ao mesmo tempo, existe música mais áspera,
estridente. Produzida por indivíduos de tuna cultura

20
convulsionada, homens distantes de Deus, ela retrata e
reflete as emoções violentas e o terrível desespero de
homens em trevas. Com seu ritmo incessante, ela pro­
voca grande stress e emoções descontroladas naqueles
que a ouvem.
Além disso, esse tipo de música, quando as con­
dições lhe são favoráveis, penetra até na personalida­
de das pessoas. Utilizada por homens iníquos, ela pode
causar graves danos à mente e emoção dos jovens. Um
m artelar contínuo dessa música “ louca” pode destruir
as convicções mais nobres e os sentimentos mais eleva­
dos.
Um dos seus piores perigos é que ela afasta o inte­
resse das pessoas para longe das coisas do Espírito de
Deus. Em vez de buscarem ao Senhor, as pessoas se
tornam fascinadas pelos aspectos da velha vida natu­
ral. Suas emoções são despertadas; suas paixões, infla­
madas. E assim, toda a personalidade do indivíduo po­
de seguir uma linha de conduta contrária aos melhores
desejos de Deus para o seu povo.
Infelizmente, algumas dessas músicas estão sendo
aceitas entre os filhos de Deus. M a l sabem eles como
foram iludidos e como isso é grave. Suas emoções
estão-se tornando presas do inimigo, e sua vontade
está-se endurecendo contra Deus.

4. A busca do prazer.
Podemos afirm ar com certeza que nossa socieda­
de ocidental é, em larga escala, uma sociedade hedo­
nista, composta de pessoas totalmente dedicadas à
busca do prazer, tranqüilidade e luxo. Muitos fizeram
do prazer o interesse máximo de sua vida. Já se tornou
mania entre nós a pessoa entregar-se a algum tipo de
prazer sexual.
E como acontece com a música, o mesmo se dá com
0 prazer. Alguns aspectos dessa busca são elevados,
aceitáveis e inspiradores. Entretanto, outros podem ser
definidamente degradantes e destrutivos. O pai ou mãe
que faz carinhos a cm filho experimenta um tipo de sa-
1isfação com isso, e beneficia tanto a si próprio como à

21
família. Mas aquele que gasta o dinheiro que ganha em
jogo, prejudica toda a sua casa.
O prazer, em seus vários tipos, pode tornar-se
uma obsessão para o indivíduo. Desse modo, ele passa
a controlar nosso tempo e a dominar nossos dias. As
constantes exigências de satisfação começam a formar
aquela estradinha batida sobre a curta duração de nos­
sa existência. Esses prazeres exigem tanto de nossas
energias, pensamentos e de nossos meios, que os aspec­
tos de nossa vida que eles controlam tornam-se ter­
ritórios perdidos para Deus.
Se todos os recursos desse mundo que são carrea­
dos para o prazer fossem consagrados a Cristo, fi­
caríamos grandemente admirados. As igrejas cresce­
riam e se desenvolveriam. Os templos estariam sempre
cheios. O número de missionários se multiplicaria. Os
pobres receberiam auxílio. Os abatidos seriam soergui-
dos. O sofrimento de muitas das pessoas da terra seria
amenizado. E, como fez nosso Mestre, muitas pessoas
iriam caminhar por este velho mundo cansado, prati­
cando o bem.
Nosso Pai, o Agricultor de nossa vida, está procu­
rando solos mais friáveis, nos quais possa produzir
frutos assim. Mas, infelizmente, por vezes, nossos dias
são tão cheios de prazeres, que passam sem que se pro­
duza um único fruto bom, que perdure pela eternidade.
Estamos sempre muito concentrados em outras coisas.

5. Nossas ambições pessoais.


Essa questão de anseios pessoais, particulares,
constitui um sério problema para muitos crentes. Eles
lutam incessantemente com o objetivo de harmonizar
seus próprios desejos com a vontade de Deus. E no co­
ração deles há um conflito entre servir a Cristo e seguir
o impulso de buscar atingir suas próprias metas.
Um anseio correto — colocar Deus em primeiro lu­
gar em todas as nossas atividades e procurar, acima de
tudo, agradá-lo ao mesmo tempo em que servimos a ou­
tros — é um instrumento poderoso nas mãos dele para
a produção de muito fruto, tanto em nossa vida como
na vida de outros. Isso quebranta o coração endureci­

22
do, voltado apenas p a ra a consecução de seus fins
egoísticos. R edirecion a nossas en ergias e entusiasmo
para o rumo certo, colocando-os a serviço de esfera s
mais úteis.
Do mesmo modo, aquele que tem fortes am bições
pessoais voltadas p a ra si mesmo, logo se acha laboran ­
do em sentido con trário a Deus. Esse prin cípio é rea l­
mente in exorável: qualquer am bição estab elecid a fir ­
memente no centro de nossa vontade, torna-se a bússo­
la que orien tará todas as nossas decisões. Todas as de­
cisões que tomarmos, consciente ou inconscientem ente,
são dirigidas p a ra esse fim. Ela se torna a conside­
ração predom inante, que form a um cam inho em todas
as nossas atividades.
Tudo o m ais passa a ter im portância secundária,
até mesmo os direitos que Cristo tem sobre nós.
Foi por isso que a p a la vra do Senhor, dita por in­
term édio de Jeremias, é a seguinte: “ E procuras tu
grandezas? N ã o as p rocu res.” (Jr 45.5.)
E as seguintes p a la vra s do Senhor apresentam um
contraste m arcante com essa atitude: “ Buscai, pois, em
prim eiro lu gar o seu reino e a sua justiça, e todas estas
cousas vos serão acrescen tad as.” (M t 6.33.)

6. N ossos pensam entos p a rticu la res


A lgu ém já disse: “ Somos aquilo que pensam os
quando estamos a sós; e não o que fingim os ser em
público.” Ê uma a firm a çã o muito profunda, que nos hu­
milha bastante. Ela a rra n c a nossa m áscara, nossas fa l­
sas aparências.
E desse modo que Deus, nosso Pai, nos vê.
Ele já exam inou detidam ente e analisou e esqua­
drinhou todos os cantinhos do jardinzinho de nossa vi­
da. Tendo já p erco rrid o todo o terreno, só ele sabe que
há algum as áreas, alguns trilhos batidos, onde ele não
pode plan tar uma única sem ente de sua p reciosa vida.
E é bem possível que o solo da nossa mente, com
suas form as de raciocín io tão persistentes, seja o te rre ­
no mais duro que ele já teve que la v ra r. Alguns de nós
possuem pontos onde há m ágoas e ofensas não p erdoa­
das, e que se foram endurecendo com o passar dos

23
anos. Nem mesmo a dinamite do seu Espírito Santo con­
segue quebrar os compactos torrões do escárnio, da
censura e da cruel hostilidade que endurecem nosso
coração.
Há pessoas nas quais a animosidade, o espírito be­
licoso e o rancor forjaram uma estradinha batida, du­
rante tanto tempo, que nem uma das boas sementes ali
lançadas pelo Espírito de Deus consegue germinar.
Aqueles constantes pensamentos infelizes endurece­
ram sua alma como concreto.
Se, por acaso, alguém nos aconselha a mudar essa
atitude interior, essa animosidade, resmungamos qual­
quer coisa contrariados, e rejeitamos a idéia com um
comentário rude:
— Isso é bobagem!
Deus afirm a categoricamente: “ Como imagina em
sua alma, assim ele é.” (Pv 23.7.) Aqueles que abrigam
idéias solidificadas, possuem um terreno endurecido,
que não cederá ao arado de Deus.
Somente uma operação profunda do Espírito de
Deus sobre essa alma, um trabalho de convicção e que-
brantamento, pode começar a m odificar o estado desse
solo. E enquanto isto não se der, o terreno não produ­
zirá nenhum fruto divino.

7. As pisadas do Mestre
Existe um velho dito, entre os agricultores, que re­
za o seguinte: “ O melhor fertilizante que um jardineiro
pode utilizar em suas terras são as marcas de seus pas­
sos.”
Um bom agricultor, atento e dedicado, não faz co­
mo os estranhos e descuidados, que se limitam a andar
apenas pelos trilhos já batidos. Seus pés não passam
constantemente pelos mesmos lugares, marcando a ter­
ra. Não. Ele anda cuidadosa, mansa e ternamente por
todos os cantos do terreno. Conhece cada planta, cada
árvore, cada arbusto e flor que cresce em suas terras.
E, com seu amor, ele faz com que produzam rica e
abundantemente.
Se alguém tem que caminhar pela minha vida, que
seja aquele que cuida de mim, que me ama, que conhe­

24
ce tudo a meu respeito e deseja aperfeiçoar mais e
mais o meu jardim. E este não é outro senão o próprio
Deus. É ele o grande, o bom jardineiro, o Agricultor que
me ama.
Isso é uma figura de Jesus Cristo. Com seu bondoso
e precioso Espírito ele se move em nossa vida,
comunicando-nos sua própria vida. Derramando sobre
nós sua graça e suas bênçãos, ele opera bem no fundo
de nosso espírito, no sentido de nos quebrantar,
tornando-nos receptivos à sua boa semente. Ele nos ca­
pacita a receber bem a implantação de sua nova vida.
E quando ele próprio coloca os belíssimos frutos de sua
personalidade no solo lavrado de nossa alma, ali eles se
enraízam e se desenvolvem.
A decisão com relação à pessoa ou coisa que de­
verá predominar no jardim de nossa existência depen­
de em grande parte de nós mesmos. Não ê Deus quem
escolhe, por exemplo, nossos-amigos, as coisas que le­
mos, as músicas que ouvimos, nossos prazeres, am­
bições e pensamentos. Somos nós.
Então a pergunta a ser feita é a seguinte: “ Quero
ou não quero ser uma pessoa da ‘beira do caminho’ ?’ ’
Vou perm itir que as pisadas do M estre enriqueçam o
terreno de minha alma? Ou será que prefiro que os ca­
minhos do mundo venham endurecer meu coração, a
ponto de rejeitar sua vontade para minha vida?

25
2

Os do Terreno Pedregoso:
Sem Raízes Profundas

O segundo tipo de solo que o Senhor mencionou foi


o pedregoso ou rochoso. N a terminologia moderna, nun­
ca diríamos que este tipo de terreno é imprestável.
Trata-se de um tipo de solo que, mesmo sendo prepara­
do e cultivado com altos custos, geralm ente tem pro­
dução muito irrisória. Isso acontece porque ele é pedre­
goso.
Encontramos terrenos assim em todas as partes
da terra. Em minhas viagens pelo mundo — já fui a
quarenta países — sempre me causa pena ver os ár­
duos esforços dos camponeses para limpar e arar os
terrenos pedregosos e ali fazerem seu roçado. Presen­
ciei isso no Oriente Médio, em regiões da Á frica , ao lon­
go do litoral do M editerrâneo, nas Ilhas Britânicas, nas
províncias do leste do Canadá, no M éxico e até no ar­
quipélago havaiano, para citar apenas alguns. Peque­
nos bolsões de terreno pedregoso são cercados de ver­
dadeiras muralhas de granito, as quais são retiradas
da terra à custa de enormes esforços, muito suor e tra­
balho de seus proprietários.
Cristo conhecia muito bem cenas como estas. Mui­
tas vezes, viajando pelo interior da Palestina, ele cami­
nhara pelas estradinhas poeirentas que cortavam as
colinas rochosas, onde os lavradores lutavam para ar­
rancar da terra seca míseros punhados de cereais. Ele
deve ter visto, muitas vezes, uma área de terra crivada

26
de pedras ganhar uma cobertura ver de jante, com a
promessa de uma colheita abundante. Todavia, alguns
dias depois, ou talvez passadas algumas semanas, a
plantação secava, queimava e esturricava sob o sol in­
clemente do verão. Não possuindo raízes profundas, a
roça morria, deixando ao cansado lavrador apenas
esperanças frustradas e um produto muito insignifi­
cante.
Sem dúvida alguma, quando trabalhava ainda em
sua carpintaria de Nazaré, ele, o Artesão Mestre, mui­
tas vezes fora solicitado a consertar ou refazer arados
de madeira quebrados de encontro aos penedos das pe­
dregosas colinas.
Cercado de tantos lembretes vivos, os terrenos ro­
chosos, ele deve ter meditado nos belos textos do Velho
Testamento, nos quais, por intermédio dos profetas,
Deus comparava seu povo a terrenos pedregosos.
“ Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espíri­
to novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei
coração de carne. Porei dentro em vós o meu Espírito, e
farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus
juízos e os observeis. Habitareis na terra que eu dei a
vossos pais; vós sereis o meu povo e eu serei o vosso
Deus. Livrar-vos-ei de todas as vossas imundícias; farei
vir o trigo, e o multiplicarei, e não trarei fome sobre
vós. Multiplicarei o fruto das árvores e a novidade do
campo, para que jamais recebais o opróbrio da fòme
entre as nações. Então vos lembrareis dos vossos maus
caminhos, e dos vossos feitos, que não foram bons; te-
reis nojo de vós mesmos por causa das vossas iniqüida-
des e das vossas abominações. Não é por amor de vós,
fique bem entendido, que eu faço isto, diz o Senhor
Deus. Envergonhai-vos, e confundi-vos por causa dos
vossos caminhos, ó casa de Israel.
“ Assim diz o Senhor Deus: No dia em que eu vos
purificar de todas as vossas iniqüidades, então farei
que sejam habitadas as cidades e sejam edificados os
lugares desertos. Lavrar-se-á a terra deserta, em vez
de estar desolada aos olhos de todos os que passavam.
Dir-se-á: Esta terra desolada ficou como jardim do
Êden; as cidades desertas, desoladas e em ruínas, es­
tão fortificadas e habitadas. Então as nações que tive­
27
rem restado ao redor de vós saberão que eu, o Senhor,
reedifiquei as cidades destruídas, e plantei o que esta­
va desolado. Eu, o Senhor, o disse, e o farei.” (Ez 36.26-
36.)

Aqui, numa linguagem imponente, em tons como­


ventes, o grande profeta de Deus predisse o que o Se­
nhor fa ria por aqueles a quem se referiu como sendo
seu jardim. A terra que estivera desolada seria redimi­
da, restaurada e voltaria a ser produtiva. O solo pedre­
goso de seu coração seria trabalhado e se tornaria ten­
ro e maleável. Uma incrível transform ação teria lugar
no terreno compacto de seu coração endurecido. No fu­
turo, esse terreno estéril iria florescer como o m aravi­
lhoso jardim do Éden.
Quando o Senhor meditava nessas grandes profe­
cias, ele sentia que elas iriam se concretizar. E não po­
deria ser de outra forma, estando eles debaixo dos cui­
dados diligentes do divino Agricultor. E foi ele quem viu
a produtividade em potencial, em estado latente, na
terra desolada do coração humano. Somente Jesus po­
deria transform ar a alma mais endurecida num jardim
luxuriante. E sendo ele o grande Agricultor, achava-se
preparado para encetar essa tarefa, por causa de seu
nome. Sua reputação estava em jogo nesse projeto.
Essas eram as idéias que passavam pela mente do
Senhor, quando declarou francamente que alguns de
nós eram pessoas duras, pedregosas. E a razão por que
não há quase fruto nenhum em nossa vida é simples­
mente que a nossa alma é um terreno rochoso.
M as alguém pode indagar: “ O que ê uma alma pe­
dregosa? Quais são as características de um caráter
rochoso? Que tipo de conduta ou de comportamento re­
vela a existência de rochas abaixo da superfície da ter­
ra, numa vida improdutiva? Quais são as característi­
cas dessa terra imprestável, que indicam a probabili­
dade de uma colheita fraca?
Antes de analisarmos essas dificuldades que exis­
tem em nossa vida, precisamos abrir um breve parênte­
se para refletirm os sobre a visão divina acerca da ne­
cessidade imperiosa de seu povo produzir fruto. Em di­

28
versas ocasiões, o Senhor deixou bem claro para seus
ouvintes que o critério pelo qual seus filhos seriam re­
conhecidos seria a produtividade. “ Assim pois, pelos
seus frutos os conhecereis.”
Ele narrou várias parábolas nas quais focaliza o
cuidado, o amor e a perícia com que o divino Agricultor
lida com seu pomar, sua vinha, seus campos e plan­
tações. Deu muita ênfase ao fato de que o agricultor vai
ali à procura de frutos. Se não os encontrar, toda a
obra pode ser considerada um fracasso total. E uma co­
lheita fraca é coisa que não se tolera.
Mas a experiência cristã, a Igreja em geral, tem
ignorado essa verdade. Existe uma tendência muito
visível para se deixar de lado essa questão,
empenhando-nos em atividades que, segundo cremos,
irão encobrir nossa esterilidade.
Não somos identificados — nem por Deus nem pe­
lo mundo cético que nos rodeia — como cristãos que se
baseiam naquilo que dizem acreditar. Tampouco somos
identificados com Cristo apenas pela religião que pro­
fessamos seguir. Também não somos reconhecidos co­
mo jardim de Deus por uma experiência sobrenatural
que talvez tenhamos tido. Nem mesmo um profundo co­
nhecimento bíblico ou uma grande compreensão das
Escrituras nos tornam de alguma valia na economia di­
vina.
Somos identificados e reconhecidos somente pelo
tipo de fruto que produzimos, pela qualidade e quanti­
dade daquilo que produzimos em nosso caráter, nossa
conversa e conduta diárias. Não existe outro critério
maior para a avaliação dos crentes. Essa é a marca su­
prema do povo de Deus.
Assim sendo, o que é, então, o terreno rochoso, o
solo improdutivo? Como se dá na natureza, assim
também acontece em nossa vida. Há três tipos princi­
pais dessa terra.
O primeiro deles consiste de uma fina camada de
terra, cobrindo um vasto leito de pedras. Milênios e mi­
lênios de um contínuo trabalho climático acabaram por
cobrir aquele terreno de formações rochosas com uma
fina camada de solo pobre.

29
A semente que cair nesse tipo de solo brotará ra­
pidamente. A s pedras retêm tanto o calor como a umi­
dade. Assim, nesse terreno aparentem ente favorável,
as sem enteiras parecem brotar im ediatam ente.
Infelizm ente, esta vegetação de aparecim ento tão
rápido dura muito pouco. A s frágeis raízes da planti-
nha logo encontram a resistência das pedras. N ão
podem se desenvolver. N ão têm espaço para se expan­
dir — não há um solo rico e profundo, do qual possam
re tira r alimento. N ão há espaço para que as raízes se
expandam.
Sob o calor intenso do sol da p rim avera e os quen­
tes raios de luz, as tenras planlinhas logo morrem.
M urcham; com eçam a fic a r cinzentas, depois am arela­
das, queimam, e, afinal, esturricadas e m altratadas pe­
lo calor, elas m orrem — e a colheita fracassa.
Jesus afirm ou que alguns de nós somos assim.
A boa semente de sua P alavra é sem eada na fina
cam ada de terra de nossa alma superficial. P arece um
bom terreno. A princípio, existe uma reação positiva,
muito boa. P a rece que estamos progredindo. Nossos no­
vos amigos crentes, nossa terna comunhão de amor,
nossas experiências, até certo ponto arrebatadoras,
nossos constantes contatos resultam num repentino e
abundante desenvolvim ento que, da mesma form a
súbita como surgiu, murcha e seca-se.
De repente, percebem os que aquilo não passou de
uma experiên cia superficial, um fato apenas de apa­
rência. O processo todo foi dolorosam ente patético.
A qu ela pessoa que com eçara tão bem, tão prom issora-
mente, agora mirrou e desapareceu. Parecia possuir
um imenso potencial para a produção de fruto, mas
parou a meio caminho. Ficamos espantados, e Deus, o
bom A gricu ltor, fica decepcionado.
Qual é o problem a básico dessa questão?
Qual é a dificuldade que se encontra abaixo da su­
p e rfíc ie de nossa vida, aparentem ente espiritual?
Pode ser expresso numa única palavra: increduli­
dade.
A incredulidade é um dos assuntos mais difíceis,
para ser abordado num livro como este. Ela constitui

30
um desafio, pois, como as enormes form ações graníti-
cas que jazem no subsolo de terras marginais, acha-se
fora da vista, escondida. E, no entanto, encontra-se
presente em tantas vidas.
Vamos fa zer aqui uma tentativa de m ostrar o que
a incredulidade é, e como ela nos torna m irrados e res­
sequidos.
Existem três importantes dimensões da increduli­
dade, as quais nos perm itirão perceber como é real­
mente o nosso terreno espiritual, se as com preender­
mos.
A prim eira delas ê a seguinte: quando temos os
primeiros contatos com o cristianismo, inicialmente
nossa fé não se centraliza realm ente em Cristo, mas na
igreja. Quando digo igreja, refiro-m e a pastores, prega­
dores, evangelistas, conselheiros, congregação, litur­
gia, a comunhão com outros, as amizades, as experiên­
cias, os testemunhos, o amor por outros crentes e a
aceitação e interesse da fam ília de Deus.
Todas essas coisas são ótimas em si. Cada uma
tem o seu papel nesse processo pelo qual chegamos a
Cristo. Todas contribuem para alimentar-nos, como a
recém-nascidos. M as nenhum desses elementos é, nem
por ser, um substituto do próprio Deus. Se investirmos
nossa fé, nossa crença e nossa confiança somente na
igreja, em seu povo e seus programas, acabarem os de­
siludidos, desanimados e desesperados.
Nossa fé, nossa confiança, nossa crença têm que
ser fundamentadas em Deus. Ele é nossa única base pa­
ra salvação, libertação, esperança, paz, e até para nos­
sa existência.
Muitas pessoas estão com as raízes de sua fé fir­
madas no solo raso da vida social da igreja a que per­
tencem. Sem dúvida serão abaladas. Pregadores e pro­
fessores podem ser bastante im perfeitos. O apoio e a
am izade de outros crentes podem ser falsos. A liturgia
da igreja e atividades sociais podem dar em nada. E co­
mo nós próprios somos parte dessas coisas, logo se verá
que o solo espiritual de nossa vida também é uma ca­
mada fina.
Quando as coisas vão mal, ficamos amargos e

31
cínicos. Começamos a endurecer o coração contra tudo
que é santo. Em geral, coisas assim acontecem porque
nossa esperança, confiança e fé não estavam em Cris­
to, mas na igreja. E muitas vezes, quando o calor au­
menta, a igreja simplesmente não consegue fortalecer-
nos para suportarmos as pressões de nossa sociedade e
de nossos dias.
Mas, por outro lado, Cristo nunca faltou para com
aqueles que colocaram nele a sua confiança. Ele sem­
pre faz valer a fé e a confiança que depositamos nele.
N o entanto, muitos simplesmente não acreditam neste
fato, nem nele. E por isso, é tão difícil para ele produzir
seu fruto em nossa vida.
Cristo está constantemente nos falando pelo seu
Espírito, apelando a que confiemos nele implícita e
totalmente. M as muitas vezes nos recusamos a fa zer
isso. Relutamos em confiar nele — mesmo no que diz
respeito aos menores detalhes de nossa vida. E mais
fácil confiarmos ou procurarmos solução em outras
pessoas ou coisas — mas nele não.
Essa camada rochosa de incredulidade para com
a Pessoa do Deus vivo é que torna impossível a pro­
dução de frutos eternos e duradouros em nós.
A segunda dimensão da incredulidade é nossa re­
cusa em crer realm ente na Palavra de Deus. Na verda­
de, não cremos que a Bíblia seja uma válida e certeira
declaração da verdade e por isso questionamos sua
credibilidade. Recusamo-nos a reconhecê-la como uma
revelação sobrenatural da integridade espiritual.
Muitas pessoas comparam a Bíblia a outros escri­
tos de origem humana. Estão supondo, ingenuamente,
que têm a opção de aceitá-la ou rejeitá-la. N ão acham
que ela tem um caráter de mandamento, não sendo,
portanto, necessário receber suas declarações com
uma ação imediata e positiva.
A conseqüência básica dessa atitude é que, todas
as vezes que ela nos fala e nós não respondemos como
devemos, a incredulidade de nosso coração (ou vonta­
de) provoca um endurecimento de nossa parte. Não é
de se adm irar que as Escrituras falem tanto acerca da
dureza do coração do homem e do seu total desinteres-

32
se em cooperar com Deus e concordar com seus desejos
e vontade.
Ê simplesmente aterrorizante essa enorme resis­
tência subterrânea de nosso subconsciente e nossa
vontade para com as melhores intenções de Deus para
nós. Não admira que algumas vidas apresentem uma
colheita fracassada, apesar de todo o cuidado e preo­
cupação de Deus.
Vejamos uma ilustração. A Palavra de Deus nos
admoesta a termos paz com todos, até onde for
possível. Isso é mencionado várias e várias vezes na
Bíblia. Mas, se, numa atitude de desobediência a essa
palavra, resolvermos manter uma briga contínua com
alguém, não haverá paz.
Assim sendo, este fruto do precioso Espírito de
Deus não estará presente em nossa vida. Será um fra ­
casso total. Não porque Deus seja um agricultor incom­
petente, mas, sim, devido à resistência de nossa vonta­
de endurecida.
A terceira dimensão da incredulidade é nossa
terrível preocupação com o eu. Desde a mais tenra in­
fância aprendemos que temos de ser pessoas autocon-
fiantes, autônomas, pessoas que procuram sempre pro­
mover a si mesmas. Eu, mim e meu constituem um epi­
centro triúno, em torno do qual gira nossa existência.
Planejamos toda a nossa curta permanência na terra
sobre a premissa de que eu sou a pessoa mais impor­
tante deste planeta. A conseqüência básica disso é o
egocentrismo, um mal de proporções estarrecedoras.
Seguindo em direção diametralmente oposta,
acha-se o apelo de Cristo para que nos esqueçamos de
nós mesmos (percamos nossa vida), para que o sigamos
(isto é, para que o coloquemos no centro de nossos inte­
resses), e consagremos nossa vida alegremente ao ser­
viço de outros.
Isso é totalmente contrário à nossa natureza. Po­
demos não dizer a ninguém, mas, interiormente, esta­
mos convencidos de que seria como tomar a estrada que
leva ao esquecimento e à auto-anulação. Não acredita­
mos realmente que Deus, em Cristo, é o único que pode

33
oferecer-nos a fórm ula certa para uma vida feliz e
abundante.
A simples conseqüência disso é que, embora men­
tal e, talvez, emocionalmente afirmemos crer em Cris­
to, bem no fundo de nossa vontade, nossas dispo­
sições e espírito, não cremos. Consideramo-lo apenas
um idealista que na verdade não m erece toda a nossa
lealdade, consagração e confiança. Num coração pe­
dregoso assim, em cujo interior há uma incrível incre­
dulidade, é em vão que o Espírito de Deus luta para pro­
duzir os frutos inerentes ao seu maravilhoso caráter.
M as há três coisas muito simples que podemos fa­
zer, sob o dinâmico impulso do Espírito Santo, para
quebrar as pedras da incredulidade.
1. Peça a Deus sinceramente que se revele a você.
Peça-lhe que se revele, e você possa vê-lo como real­
mente é. Quando você compreender que ele é o bom
Agricultor, que o ama imensamente e deseja muito tor­
nar sua vida mais produtiva, isso quebrantará o seu co­
ração de pedra.
2. Peça a Cristo que, pelo seu Espírito, lhe revele
sua própria condição e a dureza de sua vontade inte­
rior. Quando você vir que realmente sua atitude é de
desobediência, e como você é obstinado, isso abran­
dará seu coração, preparando-o para uma operação
mais profunda de Deus.
3. Peça a Deus que, pelo seu Espírito, lhe conceda
uma grande fé — fé para confiar nele sem reservas;
uma fé que tem confiança total em Cristo e em seus al­
tos desígnios para nós; a fé da obediência, pela qual vo­
cê fará aquilo que ele lhe disser por intermédio do seu
Espírito ou da sua Palavra.
O segundo tipo de terreno rochoso é o que geral­
mente chamamos de solo pedregoso. Trata-se de uma
terra juncada de pedrinhas ou matacões de diversos ta­
manhos, desde os do tamanho de um ovo graúdo até
blocos que pesam centenas de quilos. Geralmente, este
tipo de solo é muito fértil, mas é preciso muito trabalho
e dinheiro para limpá-lo e prepará-lo para o cultivo.

34
A casa onde m orei na infância, no centro da Á fr i­
ca, ficava num tipo de terreno assim. M eu pai havia
comprado cento e dez acres de terra, uma terra desér-
tica, no alto de um morro. E foi com muito esforço e tra­
balho que ele conseguiu p rep arar a terra, tirando dela
milhares de pedras, utilizando juntas de bois. Eram
Lantas, que dariam para ele construir as paredes de to­
das as construções que ele ergueu na propriedade. E
onde antes tinham estado as pedras, ele plantou milha­
res de árvores de todo o tipo — fruteiras, cafezais, ár­
vores ornamentais e m adeira para lenha. Tam bém ha­
via jardins e hortas e luxuriantes pastagens para o ga­
do, naquele lugar que antes era terra desolada e aban­
donada. N a verdade, aquilo foi uma ilustração muito
prática da profecia de Ezequiel. Era um jardim do
fcden, florescendo onde antes não havia nada a não ser
pedras, espinheiros e uivos de chacais no deserto.
N a vida cristã também existem dessas regiões
áridas. Existem áreas de solo pedregoso, nos quais foi
semeada a boa semente da Palavra de Deus. Ela germi­
na, desenvolve-se por um breve espaço de tempo, mas
depois encontra resistência nas pedras e se seca, dan­
do em nada.
Qualquer aspecto de nossa vida onde preferim os
desobedecer a Deus, seguir nosso próprio caminho e fa ­
zer nossa própria vontade é um solo pedregoso. E isso
que significa ter um coração duro. Ê um tipo de terra
que dá muita tristeza e muito trabalho ao bom A gricu l­
tor, quando este quer cultivar alguma coisa ali.
Essas áreas, que obstinadamente recusamos sub­
meter a Cristo, constituem solo estéril, cheio de rochas.
Impedimos a operação de seu Espírito em nossos
negócios, estorvando a ação de sua Palavra. A li não há
desenvolvimento. N ão acontece nada. Nossa alma fica
empobrecida e nossa vida fenece. E não havendo um
desenvolvimento contínuo, não haverá fruto.
M as Deus, pelo seu poderoso Espírito, deseja lim­
par o solo pedregoso e obstinado de nossa alma. Deseja
plantar os pés de sua própria justiça exatam ente nos
pontos de onde retirou as pedras da desobediência.
Nosso divino jardineiro quer cultivar um jardim vice-

35
jan te onde antes só h avia m a ta cões secos de fra n c a re ­
sistên cia à a ç ã o d e sua P a la v ra .
M a s p a ra que isto a co n teça , é p reciso que o quei­
ram os. P ela fé em Cristo, p recisa m os c re r que ele re a l­
m en te pod e tra b a lh a r no te rre n o á rid o de nossa vid a e
tra n sfo rm á -la num ja rd im de Deus. Tem os que p e d ir a
ele que nos m ostre, que nos d ê uma visão, um vislu m bre
do que ele p o d e r e a liz a r em um c o ra ç ã o en du recido, em
uma von tad e p é tre a e uma atitu de de teim osia e deso­
b ed iên cia . T a lv e z e le nos m ostre o m ila g re de tra n s fo r­
m a çã o que op erou no c a r á te r d e ou tra pessoa.
Foi m ais ou m enos o que sucedeu com igo, quando
e ra jovem . M in h as im pressões m ais an tigas d e m eu p ai
era m a de um hom em duro e m uito exigen te. E ra ex i­
gen te consigo m esm o e com os outros, uma pessoa
d ifíc il p a ra Deus. M a s, com o p a ssa r dos anos, o Se­
nhor, em sua m a n eira p ró p ria de a gir, p ersisten te e po­
derosam en te, fo i lim pando o te rre n o p ed reg o so da al­
ma de m eu pai, da m esm a form a que ele esta va rem o­
ven d o as p e d ra s d e seu te rre n o na en costa do m orro.
O resu ltad o fo i que, d u ran te os anos d e m inha ado­
lescên cia , pude p resen cia r, gran d em en te espantado, a
tra n s fo rm a ç ã o que se op erou no c a r á te r de p ap ai. De
um a fo rm a g ra d u a l e constante, ele foi-se tra n sfo rm a n ­
do num dos hom ens m ais tern os qu e já conheci. Ele se
tornou uma p essoa gentil, am orosa, p acien te, ch eio de
co n sid era çã o p elos outros. Sua vid a d esp ren d ia a fra -
g râ n c ia do fru to m adu ro do E spírito de Deus.
Se rea lm en te quiserm os essa m u dança d e c a rá te r,
ela se d a rá . S in cera e d ecid id am en te, vam os tom ar a
d e lib e ra ç ã o d e fa z e r a von ta d e de Deus, subm etendo-
nos aos m andam entos d e Cristo. V am os sin ton izar nos­
so esp írito com o de Deus, p a ra ouvirm os bem a sua
voz, quando e le nos fa la r p o r m eio da sua P a la v ra , e
irem os m ed ita r nela. V am os le r a B íblia com s e rie d a d e
e a te n d e r ao ch am ado d e Cristo. V am os a b rir o c o r a ­
çã o, torn an do-n os a b erto s à o p e ra ç ã o de Deus em nós.
V am os fic a r ad m ira d os d e v e r com o c re s c e re m o s nas
coisas d e Deus.
“P or qu e D eus é qu em e fe tu a em vós ta n to o q u e r e r
com o o re a liz a r, segundo a sua boa vontade. (Fp 2.13.)
36
O terceiro tipo de solo rochoso é o que conhecemos
como terreno cascalhado. É o solo onde a terra está in­
tercalada de camadas de cascalho e areia. Em muitos
casos, a verdadeira condição do terreno é encoberta
por uma fina camada de terra pura.
As sementes que germinam neste tipo de solo e as
plantas que ali medram, em geral, brotam, rapida­
mente. Apresentam um desenvolvimento súbito e ad­
mirável. Mas, após alguns dias de sol escaldante e ven­
tos, elas são destruídas e se secam. Aquela subcamada
de cascalho e areia atua como uma peneira, por onde
escoam as águas e os elementos nutritivos da terra. As
raízes secam e morrem. Resta apenas desolação.
Nosso Senhor muitas vezes viu campos deste tipo.
Era muito comum na crista dos morros ou nas encostas
de terras improdutivas, cujos proprietários, muitas ve­
zes, acabavam pobres. Ele disse que alguns de nós
éramos como esse solo cascalhoso. N ele pouco ou nada
pode ser cultivado.
Qual é o paralelo disso em nossa vida?
Há dois.
Essa camada de cascalho que se acha abaixo da
superfície da alma de muitos de nós é o terreno de nos­
sa ingratidão. É essa mania de resmungar, tão profun­
damente arraigada no homem, e que muitos de nós pos­
suem. Reclamamos contra Deus, pela maneira como ele
manobra nossa vida e dispõe as circunstâncias. Imper-
tinentes, protestamos contra a sorte, achando ruim a
estrada pela qual ele nos guia e os lugares em que nos
coloca.
Naturalmente, a maioria das pessoas não exibe
essas mágoas mesquinhas em público. Pelo contrário.
Quase todas preferem mostrar uma fachada boa, e fin­
gem que, por trás dela, tudo vai bem. Mas, abaixo da
superfície, por baixo dos sorrisos de fachada, estão du­
ras e resistentes atitudes de ressentimento contra
Deus, pela forma como ele dispôs as coisas, e, por ve­
zes, essas atitudes assumem um tom de desafio.
Isso tem um efeito altamente mortal para o desen­
volvimento espiritual. Entristece o precioso Espírito de

37
Deus. Ele simplesmente não pode produzir seu fruto
num terreno assim cascalhoso, feito de queixas e
lamúrias. Deus nos adverte, em Hebreus 3.12-19, que
não endureçamos o coração pela murmuração. Foi o
que a nação de Israel fez, logo após ter sido liberta do
Egito. Eles provocaram a ira de Deus.
A camada de areia em nossa vida é aquele hábito
de apontar erros, criticar e censurar todo mundo. Se
não formos alertados quanto a isso, esse mal acaba-se
tornando crônico. Forjamos em nós mesmos uma estru­
tura mental queinvariavelm ente enxerga apenas o la­
do escuro e difícil das coisas. Depois de condicionados
e acostumados a essas duras atitudes de condenação,
que, constantemente, nos levam a ver apenas o lado
mau das pessoas, tornamo-nos exigentes, rigorosos e
rudes. E isso não é um terreno bom, no qual o divino
Agricultor possa cultivar seus belos frutos.
M as ele vem até nós e apresenta diversas medidas
que podemos tomar para resolver essa questão da mur­
muração contra Deus e da nossa crítica aos outros.
Em vez de nos revoltarmos contra Deus pela ma­
neira como ele determina nossa vida, procuremos con­
siderar, detidamente, as bênçãos que ele derram a so­
bre nós. Pegue uma folha de papel, procure um lugar
tranqüilo, sente-se ali, e escreva, uma a uma, todas as
coisas boas que ele lhe proporcionou — as alegrias e os
prazeres. Escreva tudo — o som de uma música bela, o
riso de uma criança, o nascer do sol, a fragrância de
uma rosa, o aperto de mão de um amigo, a lealdade de
um cachorro, etc. Quem for sincero, verá que essa lista
não tem fim. Ê um exercício espiritual que acabará com
nossa murmuração, deitará nosso orgulho no pó e hu­
milhará nosso coração endurecido diante de um Deus
cheio de amor.
Devemos procurar e, deliberadamente, ressaltar
os mais nobres, belos, elevados e positivos aspectos da
vida. Procuremos ver o melhor nos outros. Em Filipen-
ses 4, Deus manda claramente que façamos isto.
Em último lugar, ponhamos em prática as três
grandes palavras que indicam crescimento espiritual.

38
1. Reconhecer — “ Ó Deus, tu és nosso Deus. Tu
sabes exatamente o que estás fazendo em minha vida, e
tudo ê para o meu bem. Tudo está bem.”
2. A ceitar o domínio dele — Este é o segredo da
paz e sossego. Não vou mais resistir nem me aborrecer
pela tua operação em minha vida. Tu és o bom Agricul­
tor.
3. A ceitar a maneira como Cristo determina as
coisas em nossa vida — Teu desejo é que eu me torne
frutífero. E, sob a tua direção, isso acontecerá. Graças
te dou por tudo.
Isso transforma a lamúria em louvor; murmu-
ração em gratidão. É o segredo para que todas as ener­
gias do Espírito Santo operem plena e livremente em
nossa vida diária. Ele irá fazer inifinitamente mais do
que tudo quanto pedimos ou pensamos. (Ef 3.19-21.)

39
3

Os do T erren o Cheio de
Espinhos:
Perdidos Entre as
Ervas Daninhas

O te rc e iro tipo de terren o que o Senhor m encio­


nou como um tipo de solo im p ro d u tiv o , é aqu ele cheio
de espinhos. Essa te rra estava in festad a de erva s dani­
nhas e espinhos. Q u alqu er jard im ou horta que estiver
cob erta de plantas n ocivas é su focado por elas e sim­
plesm ente não pode produ zir nada...
D evido à v a ria d a to p o g ra fia e geologia da P a lesti­
na, p a rte dela sem i-árida, a reg iã o era conhecida pela
enorm e v a rie d a d e de espinhos, card os e urzes. M a is de
duzentas espécies de erva s in d esejáveis tom avam con­
ta das te rra s cu ltivadas, com petindo com as plan tações
obtidas com tanto esforço. O a gricu ltor tinha que lu tar
incessantem ente p a ra ter uma boa p lan tação e conser­
v a r seus cam pos livres de erva s estranhas.
N o texto h eb ra ico do V elh o Testam en to e no N ovo
Testam ento grego a p a recem m ais ou menos d ezessete
p a la v ra s que são em p regad as p a ra d e s c re v e r esse tipo
de veg eta çã o espinhenta, in d esejável. Em nossa língua
tam bém há uma gran d e v a rie d a d e de term os usados
p a ra id en tifica r o sentido delas. Tem os substantivos
tais com o: es pinhos, card os, urzes, a b ro lh o s , etc., que
a p a recem no rela to bíblico.
Q uase sem pre o quadro apresen tad o em con ecção
com a agricu ltu ra fa la do enorm e problem a que re p re ­
senta o crescim en to dessas erva s in desejáveis. Jesus
conhecia muito bem a luta d aqu elas pessoas p a ra con-
40
seguir uma safra de cereais ou frutos, sofrendo a com­
petição dos espinhos e cardos nas plantações.
Ele utilizou parábolas bem incisivas para ilustrar
o fato. No seu poderoso Sermão do Monte, ele fez a se­
guinte pergunta: “ Colhem-se, porventura, uvas dos es-
pinheiros ou figos dos abrolhos?” (M t 7.16.) Quando
uma vinha estava coberta de espinheiros, o lavrador
não poderia esperar dali uma abundante colheita ‘de
uvas. E mais do que claro que ou era um ou outro.
Essas ervas — espinhos, abrolhos, cardos e urzes
— possuíam a horrível capacidade de se multiplicar
demasiadamente, e sufocar a plantação de tal forma,
que ela ficava m irrada e abafada. E, praticamente, não
havia produção de fru to.
O Senhor disse claramente que a vida de alguns
de nós é assim. Ela se acha tão infestada de plantas no­
civas, que não há possibilidade de colheita.
A o contrário das modernas técnicas de agricultu­
ra, onde usamos toda a sorte de herbicidas para des­
truir o mato das plantações, os povos primitivos só con­
tavam com um remédio para esse mal. E isso era uma
tarefa quase impossível. À s vezes, as sementes dos es­
pinheiros eram trazidas de muito longe, pelo vento. Os
passarinhos, que se alimentavam de frutinhas e car­
dos, depositavam o esterco em qualquer plantação, e
com ele as sementes nocivas. Os animais selvagens, e
mesmo os domesticados, transportavam em sua pele to­
do tipo de carrapichos e sementes de matinhos, ao va­
garem pelos campos.
Portanto, era impossível ter uma plantação cons­
tantemente livre dessas ervas. Somente com cuidado
incessante e muito esforço é que o agricultor consegui­
ria um terreno belo e produtivo. E mesmo assim, a des­
peito de todo o seu trabalho, esses invasores ainda
apareceriam para im pedir uma frutificação plena.
Jesus comparou nossa alma a esse tipo de terreno
infestado de mato. Ele afirmou francam ente que uma
cultura assim simplesmente era infrutífera.
Portanto, a pergunta que cada um precisa dirigir
a si mesmo é muito séria e profunda: “ Que tipo
planta está crescendo no terreno da minha vida?”

41
Vam os fa ze r a mesma pergunta de outra m aneira:
“ O que está ocupando mais espaço em minha vida? O
que está tomando a m aior parte de meu tempo e inte­
resse? O que está sendo colocado em prim eiro lugar,
nas coisas a que dou prioridade? Qual é a principal cul­
tura e produto, de um modo geral, em minha vida? Qual
é o saldo líquido do meu viver — matinhos inúteis ou
bons frutos de valor etern o?”
Cristo deixou bem claro que existem três tipos de
ervas daninhas:
1. Os cuidados, ansiedades e preocupações ou in­
teresses deste mundo.
2. O engano das riquezas; o fascínio da prosperi­
dade.
3. A am bição das coisas; o magnetismo do mate-
rialismo.
Devido à forte com petição que essas influências
representam p ara as coisas espirituais, nossa vida se
revela um fracasso de produtividade por ocasião da co­
lheita. A boa semente da P alavra de Deus, que em nós é
plantada pelo seu precioso Espírito, simplesmente dá
em nada. Ela é sufocada pela trem enda e feroz compe­
tição que lhe é imposta por outros ideais. Desses ideais,
o prim eiro que Jesus mencionou p a rece ser o menos pe­
rigoso.

1. Cuidados d© mundo
Como a m orte e os impostos, os cuidados da vida
são apenas um aspecto da constituição da existência.
Estaremos nos enganando se pensarmos que os filhos
de Deus se acham isentos das pressões e problem as co­
muns à fam ília humana.
Os pregadores e m estres que parecem dar a en­
tender que a vida cristã pode ser uma vargem sem
percalços, na verd a d e estão-nos prestando um grande
desserviço. Isto simplesmente não é verdade. A Pala­
vra de Deus ensina claram ente que “ muitas são as
aflições do justo” (SI 34.19). O Senhor Jesus declarou
abertam ente: “ N o mundo passais por aflições; mas ten­
de bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16.33.)
Todos nós, sem exceção, tomamos sobre os ombros

42
a responsabilidade de lutar por uma vida boa, da me­
lhor form a que pudermos. Seja qual for nosso destino,
somos constrangidos a trabalhar com diligência e dedi­
cação. Sentimos que temos de sustentar nossa fam ília
adequadamente, e temos que pagar os impostos, a fim
de nos situarmos dentro de um padrão de pessoas or­
deiras, respeitadoras da lei. Já definimos claram ente
os princípios estabelecidos pela Palavra de Deus sobre
como deve ser nosso comportamento dentro da comuni­
dade humana à qual pertencemos.
Podemos concluir, portanto, que a vida nos impõe
certas exigências. Se quisermos ter uma vida equilibra­
da, estável e produtiva, precisamos atender às respon­
sabilidades que nos são impostas por Deus e pelo ho­
mem. E como fazemos isso? Como evitamos nos tornar
em excêntricos ascetas, que desejam retirar-se do
convívio da sociedade e dos desafios que ela nos apre­
senta? Como evitamos nos envolver tanto com o mundo,
para não sermos engolfados e sufocados pelas suas en­
ganosas ideologias e filosofias?
O Senhor Jesus abordou esta questão, no seu ma­
ravilhoso Sermão do Monte, em Mateus 6, com grande
riqueza de detalhes. Ali, ele assegura ao coração ansio­
so que o Pai celestial conhece nossas necessidades e
as exigências que a vida nos impõe. Ele sabe que preci­
samos de alimento, abrigo, bebida e vestuário. E como
ele sustenta os pássaros e os lírios do campo, assim
também ele sustenta seu povo nesse planeta.
O ponto crucial da questão é minha preocupação
com os cuidados da vida, que me pressionam. Será que
eu realm ente creio que o Pai celestial cuidará de mim,
se é que creio nele? O que vem em prim eiro lugar para
mim, neste quadro? Minha atenção está centralizada
em ganhar o sustento pelo meu suor e meus esforços —
ou na fidelidade da palavra de Deus?
Gostaria de n arrar aqui minha experiência nesse
sentido, com uma palavra de testemunho pessoal quan­
to ao fato de que o Senhor m erece toda a nossa confian­
ça. A té mais ou menos a idade de quarenta anos, eu me
preocupava constantemente com o sustento de minha
fam ília, preocupava em ganhar a vida, em obter suces-

43
so naquilo que empreendia, em providenciar uma
segurança para o futuro. E mesmo quando todas essas
coisas estavam asseguradas, minha querida esposa di­
zia:
— Phillip, se você não tiver nada com que se p reo­
cupar, você logo inventa uma coisa.
E foi com essa idade já avançada, que, com uma
experiência terrível que não vou descrever aqui, vi-me
praticam ente destituído de tudo que conseguira com
tanto esforço. Então, com uma entrega total de mim
mesmo, e com uma fé infantil, lancei-me aos cuidados e
desvelos de meu Pai celestial. Esses últimos vinte anos
têm sido uma poderosa dem onstração da sua boa-von-
tade em suprir, de m aneira notável, todas as minhas
necessidades, em todas as áreas da vida. Digo isso não
para me gloriar, mas para agradecer a Deus, de todo o
coração, pela sua fidelidade.
Tudo é, na verdade, uma questão de prioridades.
No momento em que uma pessoa resolve colocar Cristo
no centro de sua vida, e dar-lhe toda prioridade e consi­
deração, nesse momento ela já está começando a sair
dos embaraços. Já não está perdida no m atagal da
preocupação e da ansiedade. O terreno de sua vida já
está sendo limpado dos confusos emaranhados em que
se encontram seus contemporâneos. Agora, já há tem­
po e espaço para produzir fruto de valor eterno para
Deus.
O segundo aspecto que precisamos descobrir nes­
sa questão dos cuidados do mundo é o fator tempo.
Cristo deu muita ênfase ao fato de que cada dia tem
suas próprias dificuldades. “ Basta ao dia o seu próprio
m al.’ ’ (M t 6.34.)
Não vale a pena darmo-nos à fantasia de trazer
para o hoje os males de ontem ou de amanhã. Não po­
demos permitir-nos sentir as tristezas do amanhã. Não
podemos deixar que as alegrias de hoje venham a ser
prejudicadas pelas incertezas do futuro ou pelos re ­
morsos estéreis do passado.
N a verdade, só possuímos mesmo o hoje. O ontem
já passou, para sempre. E não existe nenhuma garantia
de que teremos um amanhã. Portanto, na realidade,

44
nós nos achamos encerrados dentro de um conceito de
tempo-espaço restrito a um dia. Então, nossa opção é a
seguinte: ou passamos esse dia todo preocupados, ou
nos regozijamos e nos deleitamos com este espaço de
tempo que o Pai nos proporciona.
Um dos pensamentos de que mais gosto é o seguin­
te: “ Viva intensamente cada momento.” Este é o dia
que o Senhor me deu para viver, por isso vou me regozi­
jar e me alegrar nele. (Ver SI 118.24.)
Viver nessa atitude de confiante despreocupação
nos liberta das tensões e pressões dos cuidados do
mundo. Gomo o cuidado contínuo de um jardim o con­
serva livre de matinhos e ervas daninhas, assim
também essa prática diária de nos rejubilarmos na fiel
provisão de Deus para nós, torna nossa alma cada vez
mais livre.
À medida em que vivemos dessa maneira, as sem­
pre presentes ervas da preocupação, ansiedades e in­
quietação com cuidados tolos secam-se e morrem. Elas
deixam de dominar a nossa vida diária. Passamos a
concentrar-nos mais e mais nos grandes e maravilhosos
propósitos de Deus para este planeta e para o seu povo.
O foco de nossa atenção é desviado das nossas neces­
sidades para as necessidades dos outros. E em tudo is­
so há sempre muitas oportunidades para sermos pro­
dutivos, úteis, magnânimos. Nas mãos do grande A g ri­
cultor, até mesmo o menor de nossos esforços se torna
frutífero, produzindo acima do que esperávamos, mes­
mo nas estimativas mais otimistas.
A terceira maneira de arrancarmos de nossa vida
os matinhos da preocupação, acha-se muito bem resu­
mida no seguinte versinho: “ Darei a Deus o melhor de
mim; o resto ele fa rá .”
Seja o que for que a vida coloque em nossas mãos
para fazer, façamo-lo bem. Façamos tudo da melhor
maneira que pudermos, e depois deixemos os resulta­
dos com Cristo.
Não cabe a nós resolver ou determinar qual será o
saldo líquido da nossa existência. É ele quem faz a con­
tabilidade eterna. Só ele pode definir o que é e o que
não é de valor para sua economia.

45
Entretanto, devemos regozijar-nos pelos dias que po­
demos viver para ele; de todo o coração e mui humilde­
mente, dar-lhe graças pelo seu grande cuidado, e viver
numa constante “ atitude de gratidão” . V iver desse mo­
do é viver à luz do sol da sua presença; é viver em sin­
cera dignidade e força; é viver em uma simplicidade
tranqüila; é viver acima do alarido e das confusões de
uma sociedade complexa que poderá sufocar e afastar
nossa produtividade para Deus.

2. O Engano das Riquezas


Alguns cristãos possuem uma idéia muito errada
acerca das riquezas. Em si, a riqueza não é errada.
Não é obrigatoriamente uma coisa maligna. A prosperi­
dade nem sempre ê pecado. T er muito dinheiro não é
necessariamente iniqüidade.
Se assim fosse, Deus certamente nunca teria dado
riquezas a homens como Abraão, José, Salomão, Jó e
Ezequias, sem mencionar alguns dos modernos heróis
da fé.
O grande problema jaz em nossa atitude para com
as riquezas. Como são empregadas? Para que propósi­
to são acumuladas? A que fins são consagradas?
Para a maioria das pessoas, o grande problema é
que as riquezas enganam o coração. Elas têm a capaci­
dade de torcer nosso raciocínio; elas nos cegam para os
valores eternos; e também têm a terrível propriedade
de dominarem nossos desejos.
Pela sua própria natureza, o dinheiro nos leva a
colocar nossa confiança nele, e não Naquele que nos
deu a capacidade de ganhá-lo. As riquezas insinuam,
sutilmente, que são elas que nos garantem segurança e
tranqüilidade. Mas, na verdade, elas fazem justamente
o contrário.
Já percebi que, em muitos casos, as pessoas mais
ricas se acham entre as menos seguras e tranqüilas.
Elas ficam constantemente preocupadas com a possibi­
lidade de perderem as riquezas. Isso gera preocupa­
ção, ansiedade e descontentamento intermináveis.
Muitas pessoas ricas, quando não se preocupam
com a possibilidade de perderem as riquezas, preo­

46
cupam-se em aumentá-las. Não basta termos apenas
um carro — precisamos de dois! Uma casa apenas não
é suficiente. Precisamos de uma casa de campo tam­
bém. Um milhão de dólares não chega. Ê melhor ter­
mos dois ou três milhões! Portanto, essa agitação
contínua não tem fim.
Jesus sabia de tudo isso. Ele contou parábolas pa­
ra ilustrar a inutilidade de nossos esforços na busca
constante daquele veio de ouro. É uma busca inútil,
patética, infrutífera. Lembra-se do rico fazendeiro que
resolveu construir maiores e melhores celeiros, a fim
de armazenar sua colheita? Acabou mendigo, pois nun­
ca tinha aberto um crédito com Deus. Não possuía uma
colheita de valor duradouro na economia divina. Todos
os seus esforços haviam dado em nada, no que dizia
respeito a Deus. Ele era um louco, ludibriado pelo seu
próprio desejo insaciável de riquezas. Sua vida sempre
estivera cheia de mato, perdida na selva do “ ajuntar,
ajuntar, ajuntar” .
A filosofia do mundo é a seguinte: “ O que posso ti­
rar dessa vida?” Em contraste marcante, Jesus vem e
nos dá um mandamento claro, distinto, cortante: “ Dê
tudo que puder à sua geração.”
Seguir a primeira é emaranhar-se na vegetação
rasteira de um viver egoísta e egocêntrico. Seguir a
Cristo é arrancar do terreno de nossa vida as ervas su­
focantes, que desejam enrolar-se em nós, nessa busca
das riquezas, por amor às riquezas.
É óbvio que não podemos consagrar nossos dias
apenas a ganhar dinheiro e ao mesmo tempo dedicá-los
ao serviço de Deus.
A questão toda se resume numa coisa: “ Quem
manda em mim, Cristo ou as riquezas?” Quem está no
controle?
Com respeito a isso, para o filho de Deus só existe
uma maneira correta de agir: qualquer riqueza que eu
possa ter me é confiada pelo Senhor. Não me é dada
para ser usada, investida ou esbanjada descuidada­
mente. Também não tenho o direito de afirmar que sou
uma pessoa que venci por mim mesmo. Isso é um orgu­
lho monstruoso, uma afronta a Deus. Tudo que temos:

47
a capacidade de pensar, as forças para trabalhar e os
meios para acumular riquezas nos vem de Deus. E um
dom dele. Portanto, com humildade e simplicidade, as­
sumo a condição de mordomo de tudo que ele me con­
fiou. Uso esse dinheiro com sabedoria e moderação, pa­
ra atender às minhas próprias necessidades; e, genero­
sa e liberalmente, para atender às necessidades de ou­
tros.
Administrar o dinheiro dessa forma é ser um po­
mar frutífero para Deus. Usá-lo de qualquer outro mo­
do é permitir que minhas idéias, opiniões e conduta se­
jam sufocadas pelo negro comercialismo de uma socie­
dade atéia. Em última análise, agindo assim, perderei
minha alma, e não haverá fruto para o grande Agricul­
tor.
De passagem, quero lembrar aqui, principalmente
aos jovens, que, se Deus vir que você foi fiel no pouco
que ele lhe confiou, a princípio, prontamente ele lhe
confiará maiores riquezas. São poucas as pessoas a
quem Deus pode dar grande riqueza. Na maioria dos
casos, isso sobe à cabeça delas. Não sabem controlá-
las. Mas os que sabem, podem usar o dinheiro e as ri­
quezas de forma poderosa, para produzirem muito fru­
to para o Senhor.
São elas que dão roupa ao que está nu, alimento
ao que tem fome, que curam os enfermos, educam os
analfabetos, levam as boas-novas aos perdidos, ale­
gram os que se acham desalentados, e saram os males
de um mundo doente e em sofrimento.
“ Sempre que o fizestes a um destes meus pequeni­
nos irmãos, a mim o fizestes.” (M t 25.40.)

3. O Poder de Atração do Materialismo


Jesus expôs o fato sem rodeios: “ Mas os cuidados
do mundo, a fascinação das riquezas e as demais am­
bições, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera.”
(M c 4.19.)
O que dissemos sobre a riqueza dizemos dessas
outras coisas — muitas delas, em si mesmas, não são
iníquas. Mas o desejo de obtê-las e a determinação de
consegui-las a todo custo é que desviam nosso coração

48
cias coisas mais importantes: as coisas eternas, os v a ­
lores divinos.
Geralm ente nos contentamos com os valores de se­
cunda classe.
Estamos preocupados com figurinhas de papel
prateado, em vez de procurarm os alcan çar as estrelas
de verdade.
Tendo sido criado no exterior e sendo minha fam í­
lia muito simples, vivendo numa casa humilde, acostu-
mei-me a um tipo de vid a bastante espartano. A in d a
não me adaptei perfeitam ente à prosperidade e aos lu­
xos com que se vive aqui nos Estados Unidos. Durante
os anos da minha form ação, cresci entre africanos,
pessoas que subsistem com muito pouco. Suas posses
eram mínimas, seus anseios, muito poucos, e, apesar
disso, sua alegria, b oa disposição e contentamento eram
contagiantes. Em meio àquela sim plicidade toda, com
um modo de vida que nós no Ocidente consideraríam os
excessivam ente frugal, aprendi experim entalm ente a
verdade básica contida nas palavras do Senhor com re­
lação a esta questão: “ Tende cuidado, e guardai-vos de
toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem
não consiste na abundância dos bens que ele possui.”
(Lc 12.15.)
Entretanto, em nossa cultura, tudo vai contra esse
conceito. A civilização ocidental já não está baseada
sobre as grandes verdades da P a la vra de Deus. Hoje
não se pode mais dizer: “ Confiamos em Deus.” Pelo
contrário. Toda a nossa sociedade transferiu seu apoio
e confiança para duas pilastras: a produtividade de
sua indústria e o poder aquisitivo de seu povo.
É por isso que nos encontramos diante de um de­
sastre iminente.
Em toda a história humana, nunca houve outra ci­
vilização que melhor utilizasse sua mente, energia e en-
genhosidade para inventar, m anufaturar e vender tal
m ultiplicidade de coisas. Basicamente, sou uma pessoa
de poucas necessidades e ambições. Por isso, essa
quantidade de aparelhos, de pequenas m aravilhas, e
as vitrines esplendorosas de nossas lojas me assustam
um pouco. Esse excesso de extravagân cia me deixa

49
nervoso. Essa in term in ável exib içã o de alimentos, ves­
tuário, m óveis e eletrodom ésticos, m áquinas e a p a re­
lhagem dom éstica, tecidos e outros artigos que inun­
dam o com ércio, p roven ien te de nossas fá b rica s, m e fa z
fic a r m eio inquieto. Isso tudo me dá vontade de sair lo­
go das lojas, e re s p ira r um pouco de a r puro, e v e r os
raios do sol. N ã o p reciso desses dez mil objetos p a ra
que minha vida valh a algum a coisa, ou p a ra que meu
la r seja feliz.
M a s nossa cultura não quer me d eix a r em paz,
com minha vida simples. Dia e noite, os meios de comu­
nicação, revistas, jornais, livros, outdoors e folhetos
que são colocados em minha ca ixa de correspon dên cia,
já bastante a travan cad a, b erram nos meus ouvidos pa­
ra com prar isso, p rocu ra r conseguir aquilo, ad qu irir
aquilo ali, possuir isso aqui. Incessantem ente estou
sendo pressionado, tanto por meios gritan tes e mais ou­
sados, quanto por m eios m ais sutis e cam uflados, sofis­
ticados truques de vendagem p a ra que eu com pre m ais
coisas do que preciso, todas elas bem acim a de minhas
posses.
N aturalm ente, as pessoas que n asceram e se c ria ­
ram nessa cultura acham-se condicionadas por ela.
A ceita m essa m aneira de viv e r construída em torno de
coisas, com o sendo a m elhor que pode h aver no mundo.
A lia d o a isso tudo está o sistem a de cred iário. Por
ele, qu alqu er pessoa, pondo apenas a assinatura num
p edaço de papel, pode com prar quase tudo que dese­
jar. D esde um p ar de botas até um ca rro de luxo, pode-
se com prar tudo que o co ra çã o aspirar, mesmo que isso
nos d eix e tão endividados, que levem os vin te anos p a ra
nos recu p erar.
A conseqüência fin a l de tudo isso que introduzi­
mos em nossa vida é que a m aioria das pessoas se vêem
in exoravelm en te preocu padas com o fascín io do mate-
rialism o. N ã o estam os apenas hipnotizados pela
a tra çã o das coisas, mas tam bém em aranhados e envol­
vidos pelas dificu ldades em liqu id ar nossas dívidas. E
com o se isso não bastasse, m ais ta rd e percebem os que
essas coisas não contribuem quase nada p a ra nossa fe ­
licidade, e que, na m aioria dos casos, tornam -se um

50
problem a p ara nós. N ã o as possuímos, elas é que nos
possuem. Ficamos escravizados, aprisionados no torve-
linho de uma econom ia b asead a no desperdício e no d e­
suso.
Jesus ensinou claram ente que esse tipo de aqui­
sição iria sufocar a boa P alavra no terreno de nossa vi­
da.
Com parada com as tolas exigências de nossa so­
ciedade toda voltada para o consumo, a P alavra de
Deus, às vezes, p a rece até absurda. O mundo está g ri­
tando insistentemente: “ Com pre! A d q u ira ! Possua!”
E Cristo vem depois e diz: “ Dê! Dê! D ê !” O mun­
do diz que nossa felicid ad e está nessas coisas, des­
de sexo a espaguete. Cristo diz que nossa paz é
conhecê-lo. O mundo nos diz: “ Conquiste a atenção de
todos, mostre que você tem sucesso pelas coisas que
possui — todos fica rã o impressionados com você. M as
Cristo vem a nós e diz que o m aior de todos será aquele
que estiver disposto a ser servo.
Quem está com a verdade? Onde está a resposta
certa? Será que podemos mesmo produzir muito fruto
para Deus, apesar de todas as pressões que sofrem os?
Ou será que deixarem os essa insidiosa ideologia inva­
dir nossa vida como sementes de carrapichos trazidas
pelo vento para esse terreno que foi cultivado com tan­
to carinho? Será que vamos perm itir que as falsas filo­
sofias de uma sociedade humanística sufoquem a plan­
tação de valor eterno que Deus, pelo seu Espírito, dese­
ja produzir em nossa vida?
Onde está meu coração? N as coisas ou em Cristo?
Onde estão centralizadas minhas emoções? Nas
coisas que possuo ou em Deus?
Quais são minhas prioridades? São as ambições,
ou a cooperação com a operação do Espírito de Deus
em mim?
A que apelos está atendendo minha alma? Aos cla­
mores do mundo contemporâneo, ou ao chamado de
Cristo, o bom Agricu ltor?
Só sei de duas m aneiras pelas quais podemos ser
libertos da tirania de nosso tempo, dessa m aligna e des-
truidora obsessão pelas coisas. Só elas poderão lim par

51
de nossa vid a as erva s daninhas do engano humano, e
p o d erã o fazê-lo m ais prontam ente que qu alqu er outra
coisa. São as seguintes:
1. Deus criou o hom em p a ra si, p a ra ser seu filho.
A o criar-nos deu-nos a in crível ca p a cid a d e não somen­
te de com ungar com ele, mas tam bém de conhecê-lo in­
tim am ente — de serm os com panheiros seus, con form a­
dos ao seu ca rá ter.
Todo aqu ele que d ed ica r sua vida, tem po e inte­
resse a um ob jetivo in fe rio r a esse, mesmo que seja
grandioso, nobre e atraen te, errou com pletam ente, p er­
dendo todo o sentido da vida.
Quando perm ito que minha vida fiq u e atulhada de
coisas, esc ra v iza d a a elas, o resultado é que o terren o
do meu ser fica a tra va n ca d o e su focado por va lo res
tran sitórios — enquanto que eu p od eria estar produ­
zindo frutos de d u ração e conseqüências eternas. É
uma tro ca muito in feliz.
2. Som ente depois que atendo prontam ente e de
modo positivo às reivin d ica çõ es de Cristo, ap resen ta­
das à minha vid a e ca rá ter, é que com preendo que só
ele está com a verd a d e. Só ele possui o segred o da paz
— concedendo-m e fo rç a e estab ilid ad e numa sociedade
tão instável.
E p ela p resen ça do p od er expu lsivo dessa nova
a fe iç ã o p or Cristo, que a a tra çã o e o fascín io do mate-
rialism o irã o perden do a sua fo rça . Só então meu ja r­
dim se v e rá liv re das erva s daninhas, e p od erá produ­
zir seu m aravilh oso fruto.

52
4

Os do Terreno Bom:
Frutíferos

Em acentuado e dram ático contraste com os três


tipos de solo improdutivo e estéril que Jesus mencionou,
acha-se o que ele descreve como sendo a boa terra. Ele
afirmou que, quando a boa somente é plantada nesse
solo bom, pode-se obter um jardim luxuriante, cheio de
frutos.
Em alguns casos, o retorno obtido seria da ordem
de trinta vezes o que fora semeado; em outros, seria
sessenta e em outros, cem vezes. Isso é realmente pro­
dutividade, e é esse tipo de retorno que o agricultor es­
pera conseguir como resultado de seus esforços e de
seu trabalho na terra.
Ê importante que reconheçamos o fato de que os
terrenos rochosos, ou infestados de mato e ervas dani­
nhas, bem como os que ficavam às margens dos cami­
nhos, eram considerados improdutivos. Esses tipos de
terreno simplesmente não podiam, em sua condição na­
tural, produzir uma safra. Não que fossem um pouco
produtivos ou parcialm ente produtivos. Eles não davam
nada. Eram terrenos perdidos. Não havia plantação ali.
Somente um trabalho penoso e um cuidado amoro­
so por parte do diligente agricultor poderiam alterar a
condição deles. Seria preciso um esforço tremendo com
parelhas de animais e ferram entas, p ara que ele con­
seguisse arar a terra dura, retira r as pedras, roçar e
cultivar a terra cheia de mato.

53
Os torrões de terra endurecida, que sob os pés dos
passantes adquirem uma consistência quase que de
concreto, p recisariam ser esm igalhados com arados,
grades e enxadas. O terren o cheio de pedras teria que
ser limpado, e as pedras teriam que ser rem ovidas, pa­
ra darem lugar à plantação. A s raízes secas e os tocos
de m adeira da vegetação rasteira e espinhosa teriam
que ser arran cados do solo; o matinho teria que ser
amontoado a um canto e queimado, p ara que o lugar
fosse p rep arad o adequadam ente e pudesse rec e b e r a
sem eadura. Assim , vemos que, p a ra se tran sform ar um
terren o inculto e agreste em terra boa para o plantio,
era n ecessário muito trabalho. A té m esm o o m elh or ti­
p o de te rre n o tem que ser revolvido, p a ra que se torn e
depois um lu g a r belo.
Somente ontem à tarde, ao ca lor brando de um en­
ta rd ecer do fin al de setembro, fo i que com ecei a tra b a ­
lhar na p rep a ra çã o de uma horta, num terren o inculto,
numa te rra virgem onde, até esse momento, só h avia es-
pinheiros e a detestada centáurea. Nunca antes uma
pá p en etrara nessa terra , e ao tra b a lh a r ali, eu senti o
suor esco rrer pelas minhas costas.
M as aquele trabalho foi feito com muito amor.
Gosto muito da terra. Sou homem afeito às coisas da
terra . Uma das grandes alegrias da minha vida tem si­
do p egar um terren o m arginal, seja em longas exten­
sões de campos, em grandes fazendas, ou em hortas e
jardins caseiros, e colocá-lo em condições de m áxim a
produtividade. Isso exige muito trabalho e habilidade.
M as é uma atividade altam ente gra tifica n te e em pol­
gante.
Ontem, aquele pedaço de terren o em que com ecei
a trab alh ar talvez fosse o menos prom issor de minha
p rop ried ad e que fica às m argens de um lindo lago. Fo­
ra invadido por matinhos. Imensos pedaços de granito
despontavam aqui e? ali na sua superfície. Estava cheio
de em aranhadas raízes de roseiras silvestres, e um es-
pinheiro grassava por toda a parte. Durante anos e
anos aquela terra fora pisada por cam inhantes pas­
seando pelo lugar.
M as, a despeito de todos esses problem as e d ifi­

54
culdades, com ecei a roçar. T rab alh ei ali com a legria e
esperança. Rocei aquela terra com um cântico no co­
ração, pois não via as pedras, o mato, as raízes secas e
a terra endurecida. O que eu via era uma horta verde-
jante ali, na próxim a prim avera.
E eu transpirava abundantemente ao cálido sol do
outono. Meus músculos se retesavam e se distendiam,
enquanto eu revira va a terra dura. T ive de em pregar
muita força, dar muitos puxões para arran car algumas
raízes do solo. Logo,, logo ajuntei uma boa quantidade
delas para serem queimadas. V árias vezes, minha pá
bateu em pedras abaixo da superfície. Daquele peque­
no pedaço de terreno, tirei vários carrinhos de mão
carregados de pedra. T iv e que escavar e rem over o en­
tulho acumulado durante muito tempo.
M as quando term inei o trabalho daquele dia, dei
um largo sorriso. Pois uma boa área de terra já estava
cuidadosamente preparada, arada, limpa e lisa, pronta
para ser sem eada na prim avera. Dessa terra morna,
no próxim o verão brotará uma grande abundância de
vegetação, que produzirá cestas e cestas de verduras e
frutas. H averá uma colheita mais que suficiente para
nós e nossos amigos.
É isso que Deus, o grande, o bom A gricu ltor tem
que fa zer em nossa vida. Por natureza, não somos “ boa
te rra ” . M as seu olhar va i além de nossa dureza e im­
piedade, e ele vê o potencial de nossa alma em pederni­
da. Ele opera em nós, cheio de amor e esperança.
Nenhum de nós é duro demais para ele. A p esa r de
toda a nossa iniqüidade, orgulho e poluição, ele pode
transform ar-nos, de terra árida e desértica, num ja r­
dim bem regado. E devemos querer que seja assim. Es­
sa transform ação não é um processo fácil. N ão ocorre
da noite para o dia. E pode ser que a escavação, a lim­
peza e o cultivo nos pareçam devastadores; a disciplina
a que minha alma é submetida p a rece severa demais.
Entretanto, mais tarde, esse terren o produzirá os fru ­
tos p acíficos que ele plantou. (V e r Hebreus 12.10,11.)
Existem muitos crentes que se contentam em con­
tinuar sendo terra inculta e desértica. M uitas vezes
preferim os não ser tocados pela boa mão de Deus.

55
Aliás, ficamos temerosos pela possibilidade de nossa
vidinha tranqüila ser remexida pela operação pro­
funda do seu Espírito, nos convencendo de pecado.
Não desejamos passar pelas podas, cortes e pene­
trações poderosas de sua Palavra, com a finalidade de
expor-nos à luz de sua presença. Preferimos continuar
sendo o terreno cheio de mato, o solo pedregoso — ou
então os patéticos terrenos da beira do caminho.
Enganamo-nos a nós mesmos, fazendo-nos crer
que nosso caráter natural e nossas disposições podem
produzir uma boa colheita, mesmo sem sofrer transfor­
mações. Mas não pode. Não se pode colher uva de abro­
lhos, nem figos de espinheiros. O bom agricultor nem
vai ali à procura de fruto. Numa condição assim, não
há, absolutamente, colheita, É uma perda total, tanto
para nós como para Deus.
O Senhor descreveu de maneira bem específica os
aspectos espirituais das pessoas produtivas. São os se­
guintes, nas próprias palavras dele.
1. São pessoas que ouvem a Palavra e tudo o que
há nela.
2. São pessoas que recebem e aceitam essa Pala­
vra.
3. São pessoas cuja vida produz o fruto do Espírito
de Deus, em seu caráter, conduta e conversa­
ção, por causa dessa Palavra.
Assim sendo, devemos estudar detidamente cada
um desses aspectos, para compreendermos o que foi
exatamente que Cristo quis dizer. O primeiro é ouvir a
Palavra.
Durante o tempo em que o Senhor esteve na terra
entre os homens, uma de suas grandes tristezas foi es­
sa questão de o povo “ ouvir” sua Palavra. Várias ve­
zes, ele reiterou o fato de que “ Tendes ouvidos mas não
ouvis” . Ou, expressando o mesmo sentimento com ou­
tras palavras, ele afirm ava que o “ ouvir” tem sempre
que estar associado ao “ fa zer” . Não bastava simples­
mente uma pessoa estar diante da verdade. O ouvinte
precisava dar uma resposta positiva.
Para que a Palavra de Deus se torne frutífera e

56
produtiva em nós, são necessárias três medidas bem
definidas e deliberadas. São as seguintes:

1. Tenho que recon h ecer que quem fa la ali é


Deus.
Se não ouvirmos a P alavra de Deus com grande
respeito, considerando-a divina, simplesmente estamos
nivelando-a com a p alavra de outros homens.
Somente depois que chegamos a um ponto em que
temos grande respeito pelo que ele diz, é que sua Pala­
vra pode tornar-se uma energia capaz de produzir fru­
to em nossa vida.
Somente depois que eu realm ente passo a levar
Deus a sério é que sua P alavra se tornará Espírito e vi­
da (sobrenatural) em mim.
Só depois que eu adm itir que aquilo que estou ou­
vindo é realm ente uma revelação divina dada por Deus,
objetivando o meu bem, é que eu a ouvirei como Pala­
vra que vem do alto.
Deus resolveu comunicar-se comigo de quatro ma­
neiras: por meio do universo natural, criado por ele, pe­
lo mundo que nos cerca; por meio de sua Palavra, ex­
pressa por homens inspirados por ele, e que a coloca­
ram em linguagem humana, que posso ler e com preen­
der; por meio da pessoa de Jesus Cristo, o Verbo que se
fez carne, a palavra em form a humana; e por meio de
outros homens e mulheres humildes, nos quais ele con-
descendeu em habitar, pelo seu bendito Espírito.
E ele pode falar-m e, distinta e deliberadam ente,
por qualquer um desses meios, ou por todos eles. E en­
tão fica a meu cargo reconhecer isto e dizer: “ Ó Deus,
tu estás te comunicando comigo. Eu ouvirei. Reconheço
que tua voz está falando comigo.”

2. Em segundo lugar, ouvir sua Palavra im plica


em que eu d evo respon der positivam ente a ela.
Em outras palavras, devo tomar a decisão de agir
de acordo com ela.
Tenho que pôr de lado seja o que for que ocupa mi­
nha atenção naquele momento, e voltar todo o meu inte­
resse para o Senhor.

57
De nada adianta eu dar só metade da minha aten­
ção a Deus. Ele exige toda a minha concentração na
mensagem que ele está'-me transmitindo no momento.
Ele sabe que se eu der menos que isso, o resultado será
menos consagração.
Se não agirmos assim, a semente da Palavra será
simplesmente arrebatada pelas aves. Não estaremos
realmente crendo nela. Ela caiu em solo rochoso. Ou
então, a chamo-nos muito envolvidos por outros interes­
ses, que a sufocam.

3. A terceira medida para realm ente ouvirmos o


que Deus fala implica em que pronta e rapidam ente
corram os para fa ze r aquilo que ele determina.
Uma resposta positiva resulta em ação imediata.
Sua vontade é feita. Seus desejos são executados; são
obedecidos com alegria. Suas ordens também são exe­
cutadas sem demora e sem discussões.
Em resumo, eu faço aquilo que ele me pede para
fazer.
*
Isso é fé ativa — é a fé da obediência.
E o portão de entrada para o bom terreno do jar­
dim de Deus.
Isso é ouvir a Palavra de Deus e fazê-la brotar.
E Deus implantando a boa semente de suas boas
intenções no solo quente, aberto e preparado de minha
alma.
E essa semente germinará. As plantinhas vinga­
rão e crescerão bem vigorosas. E produzirão muito fru­
to, segundo a vontade dele — uma colheita que ale­
grará o coração de Deus e será bênção para os outros.
A segunda característica m arcante da terra boa,
segundo Jesus, é que ela recebeu a Palavra.
O termo “ receb er” íeu
m dos que em
masiadamente nos círcujlos evangélicos, sem parar pa­
ra ver o que ele realmente significa. Falamos sobre “ re­
ceber” perdão. E da mesma forma falamos sobre “ acei­
ta r” Cristo, ou “ a ceitar” a salvação, sem compreender
bem todas as suas implicações e as responsabilidades
envolvidas nisso.
N a maioria das vezes, “ receb er” e “ a ceita r” tra­

58
duzem a idéia de pegar da mão de alguém algo que ele
nos oferece de presente.
M as a verdade é que receber ou aceitar, no senti­
do espiritual, ultrapassa em muito este conceito limita­
do.
Primeiro, isso significa que devo ter uma atitude
receptiva, aberta e responsiva para com Deus e sua Pa­
lavra.
Não pode haver nem relutância nem resistência
de minha parte.
Isso significa que minha mente, emoções, dispo­
sição e espírito acham-se abertos à operação divina —
significa que sou um solo friável, preparado por uma
operação interior, profunda e diligente do Espírito de
Deus, pronto para receber e aceitar a semente de sua
Palavra que ele lança em mim.
Se sou uma pessoa de mente fechada, de fortes
preconceitos, com dúvidas difíceis e profundas, com
idéias preconcebidas acerca das verdades eternas,
está claro que não me encontro preparado para rece­
ber a revelação divina. A Palavra de Deus, plantada
em mim, dará em nada. Será esperdiçada, levada pelas
aves da incredulidade, do ressentimento pedregoso ou
pelas ervas daninhas do mundanismo.
Então, receber a Palavra de Deus significa acolhê-
la no coração. Tenho que estender a mão da fé e pegá-
la, aceitá-la ansiosamente — pronto para assimilá-la,
incorporando-a ao solo de minha vida diária.
Ela não é uma filosofia peculiar, rebaixada ao pla­
no de um ritual religioso, praticado uma ou duas vezes
por semana. Não. Essa palavra vital é uma semente
que deve germinar logo no solo bom de minhas expe­
riências diárias com Cristo.
A idéia de receber a Palavra de Deus está associa­
da também com uma total disponibilidade de minha
parte para com ela. Todo o terreno da minha vida pre­
cisa estar ao alcance dela.
Numa boa horta ou jardim, não pode haver pontos
onde ainda restem pedras. Não pode haver cantinhos
diferentes do resto, ainda infestados de mato, sufocan­
do a plantação. Não pode haver trilhos de terra batida

59
onde nada cresce. O terreno todo tem que ser arado e
revolvido. Todo o solo tem que estar preparado para
produzir fruto.
Isso leva tempo, mas tem que ser feito. O Espírito
de Deus é muito persistente. O bom Agricultor tem que
ter total liberdade para controlar o local. Cristo vem e
ocupa toda área que pode ser arada.
O que revela até que ponto um bom terreno rece­
beu e reagiu positivamente à boa semeadura ê a quan­
tidade de solo que ainda se encontra à vista; quanto
menos, melhor. Toda a área semeada deve ficar cober­
ta, tomada por uma luxuriante vegetação. Quem olhar
para ela verá, não o solo, mas a abundante produção
dele,
O mesmo se aplica à nossa vida, Se verdadeira­
mente recebemos a boa Palavra, e a vida de Cristo está
crescendo em nós, o que ficará visível aos outros é o
fruto de seu caráter, o aroma de sua conduta.
É certo e adequado, num livro como este, fazermos
um parêntese aqui para explicarmos rapidamente e em
linguagem simples, o que queremos dizer quando fala­
mos em receber a Cristo. Pois ele foi e é o *‘Verbo En­
carnado” , isto é, “ o Verbo de Deus manifesto, expresso
visível e audivelmente em forma humana” .
O amado apóstolo João, já idoso, escrevendo aos
cristãos, no crepúsculo de sua existência, afirmou o se­
guinte: “ Veio para o que era seu, e os seus não o rece­
beram. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o
poder de serem feitos filhos de Deus.” (Jo 1.11,12.)
Desde aquele momento dramático da história hu­
mana, em que Adão, o cabeça de toda a raça humana,
se recusou categoricamente a realizar os melhores an­
seios de Deus para ele, toda a humanidade ficou conta­
minada por um mal, a vontade própria, que a leva a pe­
car. Mas apesar do nosso orgulho, iniqüidade e impure­
za, que resultam de nosso pecado e do nosso egoístico
egocentrismo, Deus veio a nós para salvar e reconciliar
consigo homens e mulheres desviados.
Todos os esforços e tentativas do homem para
regenerar-se e colocar-se novamente em presença de
um Deus infinitamente santo, justo, reto e amoroso fi­

60
cam aquém do objetivo, e por isso ele ê incapaz de ob­
ter sua própria redenção. O próprio Deus teve que in­
tervir em nosso favor. Ele resolveu atuar ele mesmo co­
mo o supremo substituto, o único que poderia redimir
nosso erro e expiar nossos pecados.
E ele fez isso na pessoa de seu Filho, Jesus Cris­
to, o Salvador do mundo. Ele ê a Palavra, a expressão
visível de um Deus invisível. Esse “ Deus encarnado”
veio ao mundo para viver, andar entre nós, servir e
morrer — para depois ressuscitar e voltar à sua antiga
glória.
Esse “ ato p erfeito” e a “ morte p erfeita ” de Deus
em Cristo, pois que era o ato e a morte do Infinito Deus,
bastam para todos os homens, mesmo que sejam bi­
lhões e bilhões de seres humanos.
A boa-nova de nossa salvação, perdão e aceitação
diante de Deus consiste no fato de que o próprio Deus
fez tudo o que é necessário para livrar-nos do problema
que nossos pecados e vontade própria constituíam para
nós. Pelo seu sangue derramado, seu corpo partido e
pelo sacrifício completo, realizado em nosso favor, ele
pagou o preço de nossa iniqüidade, orgulho e impureza.
Não importa qual a área de nossa vida em que peca­
mos.
No Calvário, aquele que era Deus, o verdadeiro
Deus, morreu por nós fisicamente, a fim de expiar os
pecados que praticamos na carne. M orreu moralmen­
te. Ele que não conheceu pecado, foi feito pecado por
nós, a fim de que pudéssemos nos tornar m oralm ente
justos, pela sua justiça; e morreu espiritualmente, ex­
perimentando uma separação total de seu Pai, que sig­
nificou para ele provar a hediondez do inferno, a fim de
expiar nossos erros espirituais, e solucionar o proble­
ma de nossa separação de um Deus amoroso.
E é com base nessa transação gigantesca, que se
encontra acima da capacidade de compreensão de
qualquer homem, que somos chamados a recebê-lo co­
mo o rei divino. Somos insistentemente chamados a
aceitá-lo com o único meio de nos reconciliarm os com
um Deus amoroso. E nós o recebem os como nosso Salva­
dor.

61
Esta é a obra suprema e objetiva de Deus, feita em
nosso favor, para que sejamos justificados em sua
presença. Ele atuou na História em nosso favor. Agora
ele pede que o recebamos, acolhamos e o aceitemos,
que creiamos e confiemos nesse Cristo vivo, que se deu
a si mesmo por nós, por sua morte, a fim de que pudés­
semos viver pela sua justiça. Por causa de sua genero­
sidade, a sua justiça nos é imputada (isto é, nos é credi­
tada).
Entretanto, Deus não fica só nisso. Ele vem até
nós, no presente, e nos conclama a receb ê-lo como rei.
Deus, o verdadeiro Deus em Cristo, pelo seu Espírito,
vem a nós e solicita o privilégio de entrar em nossa
vida, e nela perm anecer como o Residente real.
“ Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a
minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cea­
rei com ele e ele comigo.” (Ap 3.20.)
A pessoa que assim recebe, aceita e convida a
Cristo para que, pelo seu Espírito, entre em sua vida,
deve também reconhecê-lo como Senhor de sua vida, e
recebê-lo como seu Soberano.
_
E o soberano Espírito do Deus vivo, residindo em
nós, que realiza sua suprema obra subjetiva em nossa
vida, remodelando-nos. É ele quem nos renova e nos re­
cria. Isso constitui a base para o novo nascimento e a
nossa santificação diante de Deus. É uma alegria, uma
grande satisfação para ele conformar-nos à imagem de
Cristo. Ele, o bendito Agricultor, é quem realiza uma
obra profunda em nossa vida a fim de produzir em nós
os frutos e atributos de seu próprio caráter.
Foi a isto, a esta operação interior, que Jesus se
referiu, quando disse que o terceiro aspecto da boa ter­
ra era: “ estes fru tifica m ".
Isto significa que há reprodução. Na verdade,
Deus reproduz no caráter humano os atributos de sua
própria personalidade. Por exemplo. Sabemos que ele é
o Deus misericordioso. Segue-se, portanto, que no mo­
mento oportuno a misericórdia se tornará uma carac­
terística do homem ou mulher em quem ele habita, e no
qual opera.

62
A Bíblia nos diz, por exemplo, que a boa semente
do amor de Deus (altruísmo) é derram ada em nosso co­
ração pelo Espírito Santo que nos foi outorgado. (V er
Romanos 5.5.) Assim sendo, é certo e perfeitam ente
válido esperarm os que esse tipo de amor altruísta e ab­
negado brote na vida do crente, e nela se manifeste.
É im portante observarm os, também, que Deus es­
pera que esse amor seja parte integrante de nosso
caráter. Gomo já afirm am os anteriorm ente, neste livro,
o principal critério pelo qual Deus e os homens podem
saber se somos ou não verdadeiros cristãos são os fru­
tos que produzimos. A base pela qual podemos obter
uma evidência prática de que uma pessoa recebeu a
Cristo como seu Salvador e Senhor é a reprodução dos
frutos do caráter de Deus na vida dessa pessoa. Sim­
plesmente tem que haver algo da imagem de Cristo ne­
la, como prova de que Deus está realm ente operando
em seu coração.
É por essa razão que essa sociedade cética, mui­
tas vezes, acusa a Igreja de hipocrisia. Ela procura ver,
naqueles que se dizem cristãos, atitudes de caráter e
de comportamento semelhantes às de Deus. Se não as
vê, então conclui, naturalmente e com certa razão, que
aquele indivíduo, embora freqüente uma igreja, é
hipócrita, é um falso cristão.
Foi por isso que o Senhor teve uma atitude tão se­
vera e dura ao denunciar os escribas, fariseus e sadu-
ceus de seu tempo. Eles fingiam ser tão santos. Contu­
do, interiormente, achavam-se moralmente podres pela
corrupção, am bição e orgulho. A vida deles era total­
mente falsa. N ão eram uma boa terra. N ão havia fruto
de santidade neles. Jesus disse o seguinte a Nicodemos,
um religioso fariseu: “ V ocê precisa nascer de novo —
ser refeito, recria d o.”
N a segunda parte desta obra, iremos exam inar
detidamente cada um dos frutos do ca rá ter de Deus.
Verem os como cada um se m anifesta no modo como ele
trata conosco, e verem os os efeitos deles em nossa vida
— em nosso relacionam ento com outros e com o próprio
Deus. Estudaremos, também, os meios e métodos que o

63
Senhor em prega para reprodu zir em nós cada um de­
les.
M a s antes de verm os isso, é im portante en fa tiza r­
mos aqui que o elem ento essencial para que a boa terra
se torne produtiva sob a operação de Deus é a obediên­
cia, a submissão de nossa parte. A obediência não é um
assunto muito bem aceito em nossa sociedade perm issi­
va, d esord eira e indisciplinada. A m aioria das pessoas
p re fe re fa ze r o que tem vontade, viver sua própria vi­
da, seguir seu p róp rio caminho. Isso é o egocentrism o
em seu pior aspecto.
Essa atitude é absolutam ente fa ta l p a ra a fru tifi­
cação. É a re c e ita c e rta p a ra a esterilidade, e seu fim é
desolação e desespero.
É bom notar que o Espírito de Deus só é concedido
àqueles que lhe obedecem (A t 5.32). Ele não entra na vi­
da de quem se acha em atitude de rebeldia ou ressenti­
mento contra ele, e tam pouco habita nesse coração. Ele
é soberano e espera de nós, busca em nós, conta com
nossa total coop eração e submissão às suas ordens, em
todos os aspectos de nossa vida.
Se realm ente amamos a Cristo e a Deus, não so­
m ente nos esforçarem os para re a liza r todos os seus de­
sejos e vontade p ara nós, mas também desejarem os
profundam ente a mesma coisa. Leia-se João 14 e 15 pa­
ra com provar isso.
A verd ad e é que, cinco minutos de obediência a
Deus, em qualquer momento de nossa vida, produzirão
mais frutos p ara uma existência reta do que cinco anos
de discussões teológicas ou doutrinárias, que somente
resultam no manuseio indevido da verdade.
M inha parte nessa obra é perm itir, sem resistên­
cia nem impedimentos, que ele fa ça sua vontade em
mim, sem pre que ele revela r novos aspectos de minha
vida nos quais desejá operar. E, à m edida que ele for
obtendo mais e mais terreno, cada vez mais firm e e se­
guram ente, a colheita produzida irá aumentando gra ­
dualm ente de trinta, p ara sessenta e p ara cem por um.
Quanto m aior for a área de obediência que eu der

64
a ele para que seja cultivada, maior será a produtivida­
de. Assim poderá haver uma abundante colheita de
fruto divino, pela grande habilidade do Agricultor e
minha humilde, simples e sincera submissão à sua ope­
ração em meu interior.

65
SEGUNDA PAR TE

A s Nove Facetas
do A m or de Deus
5

Am or, a V ida de Deus

Há tanta coisa escrita sobre o amor de Deus que


quase hesito em abordar esse assunto mais uma vez.
Alguns dos m aiores santos de Deus já estudaram dili­
gentemente esta questão, e tão bem o fizeram , que me
p arece que tudo quanto poderíam os dizer, já foi dito.
Entre essas obras, talvez a mais bela e poderosa seja a
de H enry Drummond, The G reatest Thing in
(a coisa mais grandiosa do mundo).
Qualquer um que se empenhar em ler esse traba­
lho atentam ente e em oração, uma vez por semana, du­
rante três meses, verá seu caráter transform ar-se e ga­
nhar nova cor, pela operação do Espírito Santo de
Deus.

Amor, o Primeiro Fruto


A p esa r de tudo que já se disse e se escreveu sobre
o amor de Deus, precisam os examiná-lo aqui. E o pri­
meiro e mais im portante dos frutos do Espírito. Ele não
é apenas “ um dos fru tos” . É mais que isso; muito mais.
Na verdade, ele constitui a essência da vida de Cristo,
que se expressa nos nove frutos relacionados tanto em
Gálatas 5.22,23, como em 1 Coríntios 13.1-7.
O amor de Deus é a própria vida dele.
E essa vida, se tiver condições de desenvolvim ento
na boa terra do solo bem cultivado de nossa alma, irá

69
prosperar e fru tificar de várias maneiras. Nem sempre
ela se expressará exatamente da mesma forma, e com
a mesma intensidade. Cada um de nós é diferente dos
outros em sua maneira de m anifestar a vida divina. En­
tretanto, a presença dessa vida em nosso in terior ê
sempre demonstrada pela produção de fruto sobrena­
tural, em nosso exterior.
Esse fruto procede do alto, e só do alto. Não é algo
que posssamos fabricar, por nós mesmos. A vida de
Deus, que se resume no amor dele, só se origina em
Deus, e sempre nele.
Como uma boa semente plantada no solo bom de
uma horta, ele procede de uma fonte exterior à horta.
Ele não brota, nem pode brotar, espontaneamente do
solo de nossa alma e espírito.
Talvez alguns teólogos e mestres queiram dizer-
nos que existe no homem uma semente de bondade que,
se for adequadamente cultivada e cuidada, poderá
desenvolver-se aos poucos, até que, afinal, atinja o
nível do divino. Isso pode até agradar nosso orgulho hu­
mano, e satisfazer nosso egoístico interesse de autode-
senvolvimento. M as não é o que a Palavra de Deus ensi­
na. Nem é uma teoria endossada pelo Senhor.
Em toda a Bíblia, o Espírito de Deus está sempre
afirmando que nossa natureza humana não é reta e
que não somos pessoas naturalmente boas que pode­
riam, se assim o desejassem, produzir frutos bons.
O quadro de nós mesmos que ela nos apresenta
mostra, em linguagem bem clara, que a vida divina do
Deus vivo tem que ser implantada em nosso espírito. A
semente da própria vida de Cristo pode germinar em
nosso ser, desenvolver-se e dar fruto excelente, se as­
sim o permitirmos.
“ O espírito é o que vivifica; a carne para nada
aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são
espírito e são vid a .” (Jo 6.63.)
Logo que a boa semente do Espírito de Deus germi­
nar no terreno da minha vida, ela irá desenvolver-se e
amadurecer. Eventualmente, o fruto produzido amadu­
recerá. Em algumas pessoas, a produção será de trin­
ta, sessenta e até cem vezes a quantidade plantada.

70
O Amor Está na Raiz.
O admirável amor de Deus foi produzido sobre­
naturalmente no ser humano, pela operação divina.
Deus contempla o trabalho e esforço de sua alma e fica
contente. Ele obteve uma boa colheita. O homem do
mundo olha para aquilo e é obrigado a confessar consi­
go mesmo:
— Este aqui é filho de Deus! Ele é diferente — de­
finida e distintamente diferente.
Precisamos reafirm ar aqui que podemos ter o
amor de Deus em nós, na medida em que temos em nós
o próprio Deus. Ele não concede os frutos do Espírito
separadamente de si mesmo.
Em outras palavras: só possuo o amor de Deus, se
Deus estiver vivendo sua vida em mim, por meu in­
termédio. Ele não me dá seu doce fruto como se fosse
presente, envolto em papel brilhante, belamente em­
brulhado. Pode ser que alguém ore para que isso acon­
teça, pensando que acontecerá. Mas não acontece.
Está enganado quem pensa que isso se passa dessa ma­
neira. Quando pedimos a Deus que nos dê os benditos
frutos de seu Espírito, ele no-los concede sempre e ape­
nas com a presença de sua pessoa em nós, em medida
sempre crescente.
Quanto mais eu tenho de Cristo, tanto mais tenho
de seu amor.
Quanto mais tenho Deus em mim, tanto mais tenho
sua bondade.
Quanto mais tenho o Espírito Santo, mais tenho da
sua perfeição.
E toda a justiça, perfeição e bondade da vida de
Deus encontram expressão plena em mim, de uma for­
ma ou de outra, nas nove facetas de frutificação rela­
cionadas pelo apóstolo Paulo em Gálatas 5.22,23.
Permitam-me dar uma ilustração, a fim de expli­
car exatamente o que quis dizer com isso.
Uma espiga de trigo, cevada ou aveia pode con­
ter nove grãos distintos e separados. Cada grãozinho
difere dos outros em formato, tamanho e conteúdo. En­
71
tretanto, todos os nove procedem da mesma fonte. E to­
dos são trigo, cevada ou aveia, dependendo da planta
que os produziu. Um pode ser um grão redondo, sadio;
outro pode ser um pouco mirrado e seco. Mesmo assim
são grãos de aveia ou de trigo ou de cevada, pois brota­
ram todos do mesmo pé, originando-se todos da mesma
semente.
Podemos fazer uma ilustração semelhante com um
cacho de uvas. Se o cacho contêm nove bagos, todos são
a mesma fruta, mas cada um será diferente dos outros,
ainda que apenas ligeiramente, em tamanho, formato e
gosto. Uma uva pode estar totalmente madura, sucu­
lenta e doce, bonita e saborosa. Mas no mesmo cacho
pode haver várias uvas que talvez ainda não estejam
bem maduras, mas meio verdes, azedas, e talvez até
murchas ou ressequidas. Mesmo assim, são todas uvas,
que brotaram de um mesmo galho, da mesma parreira.
O mesmo se dá com a vida de Deus, com o amor de
Deus, que talvez tenha brotado no pé da vida do Espíri­
to em nós. A uva da alegria, por exemplo, pode estar
plenamente desenvolvida e madura em mim, ao passo
que a da paciência se acha mirrada, azeda e murcha.
Com esta idéia em mente, vamos analisar agora o
amor de Deus, examinando-o por uma luz prática, que o
retira do plano da teoria pura e simples, do plano da
Teologia, da torre de marfim da doutrina. Vejamos a vi­
da de Dêus retratada em realidades práticas, da vida
diária, que podem produzir frutos de um viver íntegro
(santo) e reto (justo).
Amor é Autonegação.
Para começar, é muito importante mostrarmos
aqui que o amor de Deus, tantas vezes mencionado no
Novo Testamento, é autonegação.
Ele ê autodoação.
E auto-sacrifício.
Implica em prejuízo próprio.
É desprendimento.
É dedicação a servir a outros.
Esta forma de amor teve sua mais elevada e subli­
me expressão na vida e morte do Senhor Jesus Cristo.
72
Ele foi a m anifestação visível, de um Deus invisível, pa­
ra a humanidade. Ele foi, na verdade, uma demons­
tração objetiva do amor de Deus. Sua extraordinária
vida revelou ao mundo a verd ad eira natureza de Deus.
N ão havia melhor modo de ele m anifestar seu caráter.
Ficou então demonstrado que o amor e a vida de
Deus são uma coisa só. Um não pode existir separada­
mente do outro de m aneira alguma. Ê por isso que o
apóstolo João não hesita em dizer: “ ...Deus é a m or”
(1 Jo 4.8).
Esse tipo de amor, um amor dessa qualidade, não
pode ser confundido com amor erótico. Nem pode ser
com parado ao amor filial. Esses dois tipos também têm
sua origem em Deus. Foi ele quem os criou e fez deles
aspectos da m aravilhosa inter-relação fam iliar, que
tornam a vida em fam ília uma experiência tão m aravi­
lhosa e agradável.
Mas o amor de Deus, que no grego é identificado
pela palavra agape, é essencialmente desprendimento,
e toma corpo em nove facetas distintas. Objetivando
m aior simplicidade e clareza, vamos transcrever esses
nove frutos de um mesmo cacho ou de uma mesma espi­
ga, da seguinte maneira:
G Á L A T A S 5.22,23 1 CORÍNTIOS 13.1-7
1. A m or N ão busca seus próprios inte­
resses, não é egoísta ou ego­
cêntrico.
2. A legria O amor não se alegra com a in­
justiça, mas regozija-se com a
verdade.
3. Paz O amor não se exaspera, mas é
sereno e estável.
4. Longanimidade O amor é paciente; é benigno.
5. Benignidade O amor é m isericordioso, inte­
ressado, tem consideração pe­
los outros; não inveja.
6. Bondade O amor é maravilhoso, cheio de
graça, generoso; é bondoso e
terno.
73
7. Fidelidade O am or não é m alicioso, mas
tem fé em Deus e nos outros.
8. M ansida O am or é humilde e meigo; nun­
ca se ex a lta a si mesmo.
é

9. D om ínio p ró p rio O am or é disciplinado e contro­


lado. N ã o se porta inconve­
nientem ente.

B asta um exam e su p erficia l do conteúdo do am or


de Deus p a ra que constatem os que nos acham os diante
de um im portantíssim o prin cíp io de vida. Estamos v en ­
do a dim ensão divina da vida, um modo de vid a ra d i­
cal.
Deus afirm a que poderá b rotar dentro de nós um
enorm e e irresistível desejo de nos tornarm os sem e­
lhantes a ele, que é am or... p ara que se reprodu za em
nós o fru to de sua vida.

O A m or é a P ró p ria V id a de Deus.
Se parássem os por um momento a fim de re fle tir­
mos sobre os resultados de tal am or em nosso mundo,
isso já p od eria ser a p rim eira sem ente com um em brião
espiritu al a ser la n ça d a no solo de nossa alma. T ra n s ­
crevo aqui um trech o de um outro livro meu, Rahboni.
“ Em todos os em preendim entos a que se dedica es­
te triunvirato, sente-se no seu planejam ento uma p er­
feita coorden ação de conceito e uma suprem a unidade
de propósito. A o con trário dos em preendim entos huma­
nos os seus nunca se c a ra c te riza ra m pela discórdia.
N ão existem conflitos ali, sim plesm ente porqu e não há
interesses egoístas. N o relacion am en to de Deus Pai,
Deus Filho e Deus Espírito Santo, o am or fluía in ces­
santem ente em sua form a mais sublime. A liás, esse
amor possui uma ta l pureza, que constitui a substân­
cia de seu ser. É a essência de seu ca rá ter.
“ Nós, humanos, não podem os im aginar um re la ­
cionam ento tão sublime, sem p m enor traço de auto-
afirm ação, e sem m otivos secundários ou auto-
satisfação. M as esse é o segredo da fo rça de Deus. N e le
está dem onstrada a fo rça irresistível do desprendi­

74
mento total. E é nessa total autodoação de um para os
outros, neste profundo interesse pelos outros, que se
acha o amor eterno. Isso é amor em seu mais alto nível;
amor em sua origem mais elevada. Isso é amor, a fonte
original de toda energia.
“ Assim como no interior de um átomo existe um
fabuloso volume de energia devido à interação dos nêu­
trons, prótons e elétrons, assim também havia uma
energia ilim itada na Trindade, devido à inter-relação
entre o Pai, o Filho e o Espírito. E a essência dessa ener­
gia é amor.
“ Nesse mundo exterior, na força motriz, a energia
que inspira cada ação é o amor. O amor representa as
fibras que, tecidas, form am cada aspecto da vida de
Cristo. A liás, ele foi a m atéria-prim a utilizada p a ra a
form ação e criação de todas as outras matérias.
“ Isso pode p arecer um pouco confuso para o lei­
tor, ou meio difícil de acreditar. M as se pararm os um
pouco para encontrarmos paralelos em nosso planeta
terra, logo verem os este conceito em termos práticos.
Qual é a força mais irresistível da terra? am or! O
que destrói completamente os preconceitos e edifica li­
gações eternas? O am or! O que une as pessoas numa
devoção indestrutível? O am or!
“ Em que se baseiam todas as ações generosas e
atos de bondade? N o am or! Qual é a fonte de energia
para homens e mulheres que alegrem ente vivem e m or­
rem um pelo outro? O am or! O que realm ente mobiliza
o coração e a mente do homem em seus mais nobres e
elevados intentos? O am or! E se isso pode ser dito a cer­
ca de homens mortais, egoístas, quanto mais da
própria vida de Deus, que é a vida de Cristo?”
Obviamente, esse amor não é algo insípido e senti­
mental. Ê forte como aço; resistente como tungstênio e
eterno como um diamante. Ele é a essência do eterno.
O amor de Deus é nada menos que a vida de Deus
em nós derram ada abundante e constantemente. É ele
que dá energia ao cosmos. Só poderemos sentir e saber
que nos achamos imersos na grandiosa vontade de
Deus, quando nos encontrarmos em plena harmonia
com seus objetivos. Somente então é que provarem os a

75
satisfação de estarmos nos movendo firm e e fortemente
na direção dos supremos desígnios de Deus. Aí, até os
menores detalhes da vida passam a ter um sentido, um
propósito para nós.

Minha Experiência
O leitor poderá indagar como se pode chegar a um
ponto em que se recebe esse amor — como se pode
abrir a vida para deixar que essa outra vida, essa vivi-
ficação divina em um plano mais elevado, entre no solo
de nossa alma. Talvez, se eu n arrar minha experiên­
cia, alguns possam entender um pouco melhor.
Quando já me aproxim ava dos quarenta anos de
idade, começou a penetrar em meu espírito uma forte
sensação de que faltava algo de muito importante em
mim. M as não era nada da esfera do m aterial ou moral.
Eu tinha uma linda esposa, a quem amava profunda­
mente. Tinha filhos sadios, inteligentes e muitos bons.
Os negócios em que investia minhas forças e energias
estavam indo muito bem. Já conquistara minha inde­
pendência financeira e material. Todas as metas que
eu me propusera na juventude já haviam sido alcança­
das e até ultrapassadas.
Mas, apesar de todo esse sucesso aparente, bem
no fundo de minha alma havia uma iniludível certeza
de que eu estava errando no que era essencial. O obje­
tivo principal pelo qual eu fora colocado neste planeta
estava sendo ignorado. Eu simplesmente não estava se­
guindo a corrente da vontade de Deus para mim, que
era o melhor que poderia fazer.
Foi então que se iniciou em meu interior a luta pa­
ra descobrir qual era o problema. Qual era a dificulda­
de? Talvez devido à minha forte vontade própria, meus
fortes impulsos, ou mesmo à lentidão de minha alma ro­
chosa, parecia que eu não conseguia perceber que vi­
vera, até ali, seguindo objetivos bastante egoísticos e
egocêntricos. Eles tinham controlado minha vida até
então.
M eu mal se originava na falta dèvqrnor — do amor
de Deus — na ausência de desprendimento e auto-
doação para o Senhor e para os outros. M as logo que

76
percebi em mim este grande vácuo espiritual, um vazio
interior pela ausência da vida divina — do amor de
Cristo — brotou em mim um forte e insaciável desejo de
que o Espírito Santo penetrasse em minha alma. So­
mente ele poderia satisfazer esse grande anseio de fru­
tificação e produtividade.
A crise ocorreu num cálido dia de outubro, quan­
do me encontrava no sopé das Montanhas Rochosas. Eu
fora dar um passeio a pé, sozinho, sentindo o espírito
angustiado. Pus-me a caminhar à beira de um pre­
cipício, sobre altos penhascos. Lá nas profundezas dele
corria um regato de águas límpidas e frias. Ele nascia
nas montanhas que brilhavam ao longe, para o oeste,
brotando de seus picos cobertos de neve, de suas gelei­
ras.
— Ó Deus! clam ei das profundezas do meu co­
ração. Vem inundar meu espírito, minha alma, todo o
meu corpo e meu ser. Ó Cristo, entre em mim como este
rio de neve derretida, que vem lá do alto e penetra pelo
vale a dentro. O Espírito do Deus vivo, derram a-te no
solo seco e estéril de minha alma. Derram a abundante­
mente, em mim, a vida de Deus — o amor de Cristo.
Transform a-m e em boa terra, na qual a semente de tua
Palavra possa germinar, criar raízes, desenvolver-se e
prosperar.
Aquele foi o clamor de meu coração, um grito de
total desespero. Fiquei caminhando naquele trilho es­
treito à beira do abismo durante cinco horas, numa to­
tal angústia de alma. E se alguém já teve fome e sede da
justiça — da vida justa de Deus — esse alguém fui eu,
naquele dia.
E a resposta do Senhor, terna e bendita, embora
me deixasse atônito, foi uma surpresa para mim.
— Se você concordar com meus desejos, se obede­
cer às minhas ordens, se cooperar com os meus
desígnios, então me darei a você abundantemente. Eu
darei a mim , minha vida, meu amor, meu Espíri­
o
s
e
m
to completamente àqueles que me obedecerem.
Isso significava que eu teria que m odificar minha
ordem de prioridades. N ão poderia mais viver para
mim, mas para ele e para seus interesses. A li com eçava

77
um relacionam ento totalm ente novo com Deus. E na me­
dida em que fui concordando com seus desejos em to­
dos os momentos da minha vida diária, a vida e o am or
dele inundaram-me a fim de produzir fruto eterno e du­
radouro.
Analisando agora todos esses anos que se passa­
ram de lá p a ra cá, fico m aravilhado com a generosida­
de de Deus. Ele tomou uma vida estéril e improdutiva,
e, pela sua infinita graça, tornou-a abundantem ente
produtiva.
E ele fa rá o mesmo a todos aqueles que se dispuse­
rem a ab rir o coração com seriedade e sinceridade,
possibilitando a sua presença neles.

78
6

A legria na
Vida do Crente

Na grandiosa e profundamente tocante profecia


de Isaías, foi predito que quando Cristo viesse ele daria
a seu povo “ óleode alegria” ,em vez de
A alegria sempre foi uma das mais importantes carac­
terísticas do povo de Deus. É uma qualidade de
caráter, muito peculiar, que às vezes é confundida com
felicidade.
Alegria e felicidade não são a mesma coisa.
Cada uma brota de uma fonte totalmente diversa
da outra.
Uma procede do mundo que nos cerca. A outra
origina-se diretamente do Espírito do Deus vivo.
A felicidade é contingência daquilo que nos acon­
tece, e, muitas vezes,depende das circunstâncias. Acha-
se indissoluvelmente ligada à conduta de outras pes­
soas, com a seqüência dos eventos de minha vida, ou
com as circunstâncias nas quais me encontro.
Se essas coisas estão indo bem, de uma forma ou
de outra, posso dizer que sou “ feliz” . Mas, se por outro
lado as circunstâncias me são adversas, as pessoas di­
zem que sou “ infeliz” .
N a maior parte das vezes, “ feliz” ou “ felicidade”
são palavras que estão bem de acordo com o mundo.
Raramente são usadas nas Escrituras (cerca de seis ve­
zes no Novo Testamento e umas dezesseis no Velho). E
geralmente quando são empregadas têm o sentido de
79
afortunado, bendito. Um exemplo disso é o texto do Sal­
mo 144.15: “ Bem-aventurado (feliz) é o povo cujo Deus
é o Senhor.”

A Natureza da Verdadeira Alegria


Por outro lado, a palavra alegria aparece na
Bíblia sob diversas formas, tais como “ gozo” ou “ rego­
zijo” (cerca de oito vezes mais que felicidade). Ela como
que palpita nas Escrituras, como uma profunda e ma­
ravilhosa qualidade de vida que fica acima dos eventos
e infelicidades que possam rondar a vida do povo de
Deus, que transcende essas coisas. A alegria é uma di­
mensão de vida divina, que nunca é abalada pelas cir­
cunstâncias.
Ela brota na vida de alguém devido à presença de
Deus nele. Várias vezes ela é designada pela expressão
“ a alegria do Senhor” , ou “ alegria no Espírito Santo” .
Ela não depende absolutamente das pessoas que nos
cercam, nem do curso dos acontecimentos de nossa vi­
da, nem das circunstâncias em que nos encontramos,
quer sejam felizes ou calamitosas.
A alegria é um dos grandes atributos do próprio
Deus. É parte integrante de seu caráter. Ela é como um
rio cristalino de benevolência que corre no meio de sua
natureza. Sendo ele o Deus de todo o gozo, ele se regozi­
ja em todas as suas realizações.
Quando compreendemos que Deus, nosso Pai, é
realmente assim, ele se torna ainda mais querido para
nós, de uma forma muito agradável. Ele não é aquele
juiz austero, severo, temível, que se acha tão distante e
separado de nós, na agonia de nossa angústia humana.
Mas ele é uma pessoa que se interessa por nós, anseia
por nós, que nos procura, e, quando nos encontra, ele
nos arrebanha para si, com inexprimível alegria.
Ele é o bom agricultor que trabalha em nós, e cui­
da de nós com um carinho constante. Depois ele espera
pacientemente que produzamos fruto. Ele se alegra ao
plantar, e aguarda ansiosamente a colheita. E é com
grande alegria que recolhe os frutos.
Em tudo que ele faz há profunda alegria.

80
Em tudo que ele empreende, há grande entusias­
mo.
Em todas as suas realizações, há uma doce satis­
fação.
E a sua vida, sua energia vital, seu entusiasmo e
sua força nos são diretamente transmitidos pelo
Espírito Santo que em nós habita.
E o que garante minha alegria é justamente o co­
nhecimento que ele tem de mim, é o tratamento cuida­
doso do solo do meu ser, e o seu interesse pelo meu bem-
estar, o cultivo do meu caráter pela sua mão de amor,
sua constante presença no jardim de minha vida. E pou­
co a pouco vou descobrindo que ele é digno de toda a
minha confiança. E então aprendo que, por mais impre­
visíveis que sejam as pessoas, ou mais irritantes que
sejam os acontecimentos, ou por mais esmagadoras
que as circunstâncias possam parecer, ele está sempre
ali (aqui), e é totalmente digno de confiança.
E assim, pela sua total integridade, absoluta ho­
nestidade e amor constantemente demonstrado por
mim, como filho dele, sinto-me inundado de alegria.

A Associação A legria-Am or
Ê disso que Paulo está falando ao escrever sobre o
amor, em 1 Goríntios 13:
“O amor regozija-se com
E
s
e
é o amor de Deus, a vida de Deus fundamen­
tada e alicerçada sobre seu caráter infalível. Ele não
pode trair nem a si mesmo, nem aos que se encontram
aos seus cuidados. Ele tem sempre que tirar o melhor
de cada vida que se encontra sob seu cuidado. Isso ab­
solutamente não pode ser de outra forma. E é nisso que
reside nossa alegria.
Ele faz tudo bem.
Ele pode fa zer muito mais do que aquilo que pedi­
mos ou imaginamos.
Ele pode transform ar em bem aquilo que nos pa­
rece mal.
Ele pode transform ar nossa vida árida e desértica
num glorioso jardim.
Ele sente alegria em realizar essa obra de amor.

81
E é em meio a esse processo divino de derram ar
em nós sua própria vida, que a alegria brota do solo pe­
dregoso, endurecido, e cheio de ervas daninhas: a ale­
gria de saber que ele está operando em mim e que me
acho sob seus cuidados.
Lenta, mas seguramente, a semente de sua boa Pa­
lavra começa a germinar no solo de minha vida. Assim
brota, na aridez de minha alma, uma vida nova, com
valores novos, princípios e conceitos novos, todos ba­
seados na verdade, nas realidades de Deus em Cristo.
Coisas que antes pareciam tolices e inutilidades à
minha mente formada segundo o mundo, de repente co­
meçam a fazer sentido. Verdades espirituais que me
são transmitidas e plantadas em meu espírito pelo
Espírito de Deus, criam raízes e se desenvolvem. Meu
espírito é inundado por uma enorme alegria em Deus, a
alegria de haver encontrado a verdade, de haver des­
coberto a verdadeira dimensão de vida, uma vida pro­
fundamente satisfatória, expulsando o ceticismo e o ci­
nismo de antes.
Talvez seja bom pararmos aqui para explicarmos
por que as pessoas, distanciadas de Deus, se tornam
céticas. Alguns não entendem por que a maioria dos ho­
mens e mulheres não possuem uma alegria genuína,
apesar de a humanidade sempre buscar a felicidade.
Um indivíduo pode alcançar pleno sucesso na vida e
ainda assim sentir-se frustrado interiormente. Essa
pessoa não encontrou alegria, o elemento duradouro
que transcende em muito a felicidade transitória desta
vida.

Alegria Versus Felicidade


A felicidade ê uma coisa extremamente vul­
nerável. E incerta e insegura. Na melhor das hipóteses,
ela se firm a em terreno im previsível e inseguro.
A felicidade que temos nas pessoas pode ser des­
feita como um frágil envólucro. A té mesmo os nossos
familiares, os amigos queridos e nossos colegas nos
negócios podem enganar-nos. Há casos de pessoas que
se amavam muito, mas depois passam a odiar-se e
82
desprezar-se mutuamente. A confiança passa a ser
desconfiança.
Uma felicidade que se baseia em riquezas e posses
ou propriedades é muito sujeita a riscos. Tudo nesse
mundo (com exceção de Deus) acha-se sujeito a va­
riações e flutuações dos costumes e da moda. As forças
inexoráveis da deterioração, desvalorização e depre­
ciação operam em toda parte. Muitas vezes, uma pes­
soa emprega todo o seu tempo, energias e idéias em
acumular posses, somente para vê-las se esboroarem
diante de seus olhos.
Em muitos casos, em vez de ela possuir as coisas
que tanto trabalho teve para conseguir, acaba perce­
bendo que são essas coisas que a “ possuem” . Esse tipo
de indivíduo acha-se escravizado. Ele fica cansado e es­
gotado pela preocupação de poder vir a perder aquilo
que adquiriu.
A felicidade que se baseia em uma boa saúde e vi­
talidade também é ilusória. O tempo se faz sentir mes­
mo para os homens mais simpáticos e para as mulheres
mais belas. O vigor físico decresce; a beleza se desva­
nece; os reflexos ficam mais lentos; os olhos perdem o
brilho; a audição diminui; os dentes caem; a memória
falha; e a vitalidade do corpo fica reduzida.
A felicidade que se fundamenta em sucesso profis­
sional ou em extraordinárias realizações sociais geral­
mente dura muito pouco. Logo, logo uma nova estrela
surge no céu, para empanar o brilho de nossas melho­
res realizações. Os recordes estão sendo batidos a ca­
da ano. Nomes e rostos, antes famosos, são prontamen­
te esquecidos, e desaparecem por entre as brumas do
esquecimento.
E essa lista poderia continuar interminavelmente.
A soma de todos os empreendimentos e iniciativas hu­
manas são como a névoa noturna que desaparece com
o romper do sol. Eventualmente, passam a ser uma sim­
ples sombra — uma mera recordação. E àqueles que as
possuíram resta apenas um constante ceticismo e desi­
lusão. No subconsciente, eles se sentem traídos, enga­
nados.
E é em vão que o homem do mundo se volta deses-

83
peradam ente para cisternas rotas e águas barrentas,
querendo beber delas, pensando que poderão saciar
sua sede de alegria. M as elas o desiludem. Pois é so­
mente em Deus que podemos encontrar a verdadeira
fonte de alegria.

Surpreendido Pela A legria


M as do outro lado, em marcante contraste com es­
se homem, aquele que permite que Deus, em Cristo, pe­
lo seu Espírito, penetre em seu espírito, vê-se maravi­
lhosamente surpreendido pela alegria. O generoso, do­
ce e bendito Espírito do Senhor o vitaliza. E que ele che­
gou à própria fonte da vida. A influência revivificante
da presença divina perm eia todo o seu ser. Uma dinâ­
mica dimensão de vida, totalmente nova, penetra sua
vida, de modo que sua alma (mente, emoção e vontade),
bem como seu corpo (sua constituição física) nascem
para o bendito Espírito do Cristo ressuscitado, que ago­
ra habita nele.
Isso é reconhecer que agora Deus governa sua
vida; é experim entar de fato o controle de Cristo na
sua conduta e conversação. É sentir a soberania do
Espírito de Deus colocando ordem na confusão, dando
uma direção a movimentos desordenados e desespera­
dos, e transformando a desolação em alegria.
M ilhões de homens e mulheres, através dos sécu­
los, testificam sobre uma transform ação dessa em sua
vida. E isso que Paulo quer dizer, quando afirma, em
Romanos 14.17: “ Porque o reino de Deus não é comida
nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito San­
to” . Deus está aqui! Ele está vivo! Ele se acha no co­
mando de tudo!
Foi essa a irresistível dinâmica da Igreja primiti­
va. E ainda é a experiência de quem realmente permite
que Deus entre .no jardim de sua vida. Essa pessoa
sente-se invadida pelo entusiasmo e por uma profunda
alegria. Seus esforços têm uma direção certa, por mais
seculares ou triviais que sejam. Todos os detalhes de
sua vida têm um propósito e um significado profundo.
É que um pedaço de barro como qualquer outro, huma­
no como todos nós, se colocou sob as mãos do di-

84
vino Agricultor. E o fruto da alegria brota do solo da­
quela alma.
N ão é uma alegria como a que vem de interesse
próprio, ou pelo que sou. Antes, é a alegria de final­
mente con h ecer a Deus e saber que ele me conhece.
Ela reside na a grad ável surpresa de p erceber como
sua presença é generosa e cheia de gozo.

A A le g ria do Perdão
A liadas a isso tudo, acham-se a doce consolação e
a belíssima alegria de saber que, pela sua bendita r e ­
denção, meus pecados foram perdoados, minha culpa
acabou, e fui aceito na sua fam ília.
Com uma ação profundamente purificadora, seu
Espírito perpassa todo o meu ser para assegurar-me de
que estou em paz com Deus, e ele comigo. Estou
também em paz com os outros, bem como eles comigo.
M eu espírito é dominado pela profunda certeza de que
tudo está bem até mesmo entre mim e meu ego. Isto é
ter e conhecer a alegria do Senhor. E ela se torna uma
força tremenda, incorporada à constituição de minha
existência. N a verdade, ela é uma grande luz que ilumi­
na todo o meu interior, dissipando as trevas e o deses­
pero que antes dominavam meus anseios mais profun­
dos.
Tudo isso acontece por que ele está aqui.
Cristo veio à minha vida.
Seu Espírito habita em mim.
Deus está no jardim de minha existência.

A legria Falsa
Por um senso de responsabilidade para com o lei­
tor, quero dizer aqui que existe uma alegria falsa. Uma
das tragédias da cristandade é o fato de que, muitas ve­
zes, as pessoas buscam sensações agradáveis, pensan­
do, implicitamente, que a satisfação do desejo sensual
é conhecer a alegria do Senhor. E um terrível engano,
que muitas vezes leva a vítima a um desespero e desâ­
nimo ainda mais profundos.
É perfeitam ente possível cria r a ilusão de alegria
em grupos de pessoas, utilizando-se a chamada música
85
“ soul” , ritmos sincopados, aquela “ batida” trepidante;
tudo isso pode criar no indivíduo profundas reações
emocionais que podem ser confundidas com alegria.
O mesmo acontece com o sensacionalismo na pre­
gação — pelo uso de ilustrações excessivam ente senti­
mentais, ou pela exageração dram ática da experiência
de alguém. Estamos confiando mais no p razer sensual
do que no Espírito de Deus, para convencer, iluminar e
converter as almas.
Da mesma forma, em reuniões de “ testemunho” ,
onde se dá ênfase demasiada ao contato físico entre as
pessoas, onde elas são incentivadas a se abraçarem ,
beijarem , rir ou chorar, existe também o perigo de a
pessoa ser ludibriada pela alegria falsa.
O que aquela pessoa experim enta no momento é
apenas um tipo de felicidade provocada pela música,
ou pela pregação feita com esse fim, ou acha-se conta­
giada pela disposição mental dos presentes. Estri-
bando-se nas pessoas que a cercam ou nos eventos,
ela não está gozando realm ente da alegria do terno Es­
pírito de Deus operando em seu interior.
Essa alegria falsa é uma sensação passageira, in­
tensa e im previsível, que, por alguns momentos, trans­
cende um instante de desânimo e tristeza. Procurar es­
sa alegria é beber de uma fonte de p razer que deixa o
ansioso espírito ainda mais insatisfeito, desepcionado e
desesperado.
Conhecer a verdadeira alegria do Senhor, que
sempre está presente num poder profundo, calmo, pela
presença dele em nós, é ser capaz de transcender,
triunfantemente, e com energia, os tumultuados dias
que vivemos.

A Fonte da A leg ria


M as alguém pode perguntar como se obtém essa
grande alegria. Ela só nos vem juntamente com aquele
que é o Deus de toda alegria. A quantidade de alegria
que tenho é porporcional à porção do terreno de minha
vida que ele estiver ocupando.
Se Cristo estiver no controle de minha carreira,
meus negócios, meus passatempos, meu lar, minhas

86
amizades, meu serviço cristão e meus interesses, se­
jam quais forem eles, nessas coisas eu terei alegria.
E praticamente impossível estar em desarmonia
com Deus em uma área da vida e ter alegria nessa área.
A alegria é resultante do fato de eu estar em harmonia
com ele nas minhas atividades. No instante em que me
coloco de acordo com seus desejos para mim, meu ser é
sinamizado pela sua alegria. No momento em que estou
em conflito com seus desejos, a alegria se desvanece, e
a fé vacila.
Quando Cristo entra em nossa vida e interesse,
sua vontade é que nossa atenção e interesse fiquem fo­
calizados nele. É ele quem opera em nós o querer e o
realizar segundo a sua boa vontade (Fp 2.13). Muitas
vezes nos preocupamos mais com o processo de pro­
dução de fruto, deixando de centralizar nossa atenção
na pessoa do bom Agricultor, que é o responsável pela
nossa frutificação. Muitas vezes, ficamos mais interes­
sados em buscar alegria, quando devíamos estar olhan­
do para Jesus Cristo. Nossa alegria se acha nele. Nossa
força está na capacidade que ele tem de produzir ale­
gria.
E quando ele opera em minha vida, cultivando-a,
cuidando, amando cada cantinho dela, ele irá pedindo
que eu corresponda à sua ação. E se eu o obedecer com
simplicidade, submetendo-me a ele, perdendo minha vi­
da por amor a outros, em meu espírito brotará a ale­
gria de seu Espírito.
“ Foi Deus, e não nós, qfez
em seus cora ções.” (1 Co 3.6 — N TV .)

87
7

A Paz e os
P acificadores

Em todo o mundo, para todos os homens — cris­


tãos ou não — a paz é vista como um dos valores supre­
mos, dentre os que se deve alcançar. N a tumultuada
história do século XX, nenhum outro assunto tem sido
objeto das esperanças, sonhos e aspirações dos ho­
mens, mais do que a paz. Ela está sempre no pensamen­
to e na conversa de todos. Tem sido o anseio mais p ro­
fundo de milhões e milhões de pessoas. N as profunde­
zas da alma humana, ela é o bem mais cobiçado, e, no
entanto, quase sem pre está ausente.
Por quê? Por que a paz é tão ardentem ente dese­
jada e tão poucas vezes encontrada? Por que são tão
poucos os que encontram os caminhos que levam à
paz?
Por que a Bíblia tem tanta razão quando diz que os
homens clamam: “ Paz, paz, quando não há p a z’ ’ ? (Jr
6 . 14 ; 8 . 11 .)

A N atu reza da Paz


A resposta a essa pergunta acha-se, em grande
parte, num problem a básico do ser humano: o fato de
ele não entender perfeitam ente o que seja a paz e nem
como pode obtê-la.
Quando o Senhor Jesus estava entre nós ele deu
tanta im portância à paz, que disse uma coisa ad-

88
m irâvel: “ Bem-aventurados os pacificadores, porque
serão chamados filhos de Deus.” (M t 5.9.)
Portanto, ê perfeitam ente correto procurarmos
saber o que é realm ente paz. Enquanto estivermos la­
borando numa idéia falsa com relação ao verdadeiro
caráter dela, ela nos fugirá às mãos.
Primeiramente, paz não ê mera passividade. Não
é estagnação. N ão é esterilidade, nem uma atitude ne­
gativa de não-envolvimento.
Para que haja paz, é necessário uma ação enérgi­
ca e bem definida por parte do pacificador. O caminho
da paz que, segundo a Palavra de Deus, devemos se­
guir, não se acha juncado de pétalas de rosas. Pelo
contrário, é um trilho árduo, que deve ser palmilhado
com um coração humilde e espírito submisso, apesar
das duras pedras da adversidade.
Paz é o amor de Deus, um amor altruísta, dadivo-
so, abnegado, desprendido, sacrificial e tranqüilo, a
despeito de todos os reveses da vida. E o amor que per­
manece calmo, forte e firme, apesar de todos os insul­
tos, antagonismos e ódios.
Paz é o que resulta de o espírito e alma de uma
pessoa estarem tão embebidos da presença de Deus,
que ela não se irrita com facilidade. Ela não é uma pes­
soa susceptível. Não se exaspera. N ão fica en raivecida
à toa. Seu orgulho não fica ferido por qualquer coisi-
nha. Essa pessoa não está sempre com os pelos eriça-
dos, como um porco-espinho, com suas defesas alertas
em atitude de autoproteção.
N a verdade, paz é exatam ente o contrário disso. É
uma atitude de serenidade, calma e força, uma atitude
positiva que responde a um ataque de outrem com bom
ânimo, tranqüilidade e grande quietude de espírito.
Para vermos e entendermos bem essa qualidade
de vida em seu melhor aspecto, temos simplesmente
que dar as costas aos que nos cercam e voltar nosso
olhar para Cristo... que é Deus, o verdadeiro Deus.

O Deus de Toda a Paz


O Senhor é chamado de o Deus de toda a paz. Só
ele é a fonte e o doador da paz. Só ele pode produzir em

89
nós esta qualidade de vida, atuando diretam ente em
nossas atitudes e ações.
Vemos pela história humana que Deus sempre
procura aproxim ar-se do homem em paz. Ele sempre
vem a nós com boa-vontade. Esse fato foi vivenciado na
noite do nascimento de Cristo, e expresso na m aravi­
lhosa declaração dos anjos: “ Paz na terra entre os ho­
mens, a quem ele quer bem .” (Lc 2.14.)
E essa tem sido a atitude generosa, magnânima de
Deus ao buscar contato com a humanidade, apesar do
ódio mesquinho que o homem revela para com ele e do
seu antagonismo às suas dem onstrações de boa-vonta-
de. N ão importa se o Espírito de Deus está tratando
com um homem ou com uma mulher, sua atitude é sem­
pre de paz. Não importa a hediondez do pecado, a ne-
gridão da mancha do pecado e a dureza do egoísmo de
nossa alma — Cristo sempre nos procura em atitude de
paz.
Ele sempre tem em mente a nossa redenção e a su­
prem a renovação de nossa vida. O supremo objetivo de
seus atos é nosso reingresso na fam ília divina. Ele vem
a nós de braços abertos, olhos marejados, que nos fi­
tam com anseio, e seu Espírito transbordando de boa-
vontade.

“ Eis que lhe tr a r e i a ela saúde e cura, e os sa ra rei; e


lhes r e v e la r e i abu n dância de paz e segu ran ça.
“ R es ta u ra rei a sorte de Judá e de Isra el, e os edifi-
c a re i como no prin cíp io.
“ Pu rificá-los-ei de toda a sua in iqü idade com que
p ec a ra m con tra mim; e p e rd o a re i todas as suas iniqüi-
dades, com que p ec a ra m e tra n sgred ira m con tra mim.
“ Jerusalém me s e rv irá por nome, por lou vor e
gló ria , en tre todas as n ações da te rra , que ou virem to­
do o bem que eu lhe fa ço ; espantar-se-ão e trem erã o
p o r causa de todo o bem, e por causa de toda a paz que
eu lhe dou.” (Jr 33.6-9.)

Esta é a verdadeira natureza e caráter de Deus,


revelados em seu trato com os homens, pessoas difíceis
e hostis a ele.
90
Jesus, mm Homem de Paz
Mesmo quando esteve entre nós, eie veio em paz. E
foi o impacto dessa paz que tocou e transform ou pes­
soas endurecidas como cobradores de impostos, prosti­
tutas e rudes pescadores. Foi o incrível impacto dessa
paz, esse amor em ação, que fez com que Cristo excla­
masse, em meio à sua terrível agonia: “ Pai, perdoa-
lhes, porque não sabem o que fa zem !” (Lc 23.34.}
Ele estava em paz com seus inimigos.
Eles se achavam em guerra contra ele.
E ele próprio, para explicar esse enigma, já a fir­
m ara claramente, em certa ocasião, o seguinte: “ Não
vim trazer paz, mas espada.” (M t 10.34.) Pois a sua vin­
da, em si, já provocara a polarização das pessoas.
Aquelas cujo espírito reagiu positivamente às suas de­
monstrações de amor e paz, tornaram -se ardorosos
adm iradores dele. A qu elas que olharam com repulsa
sua verdade e integridade, o odiaram com uma terrível
intensidade, resolvidos a destruí-lo.
E ainda hoje é assim. Deus não muda. Cristo não
modificou sua m aneira de buscar o homem. Seu m ara­
vilhoso Espírito sempre se aproxim a em paz, a fim de
convencer do pecado, corrigir e converter os homens. A
reação do homem a essa ação do Espírito revela se ele
realm ente aprecia a paz, ou se p refere fica r envolto em
sua hostilidade.

A Fonte da Paz
Se a nossa vida estiver aberta para receber a
presença divina do Cristo ressurreto, ele entra falando
de paz, exatam ente como o fez, quando apareceu mais
de uma vez, aos seus transtornados discípulos, após
sua ressurreição, dizendo: “ Paz seja con vosco!”
Ele entra em nossa vida para derram ar nela um
novo amor, a sua própria vida, que se manifesta em
paz. Depois que ele se incorpora à nossa vida, que pe­
netra em nossa personalidade e se torna soberano em
nosso espírito, então passamos a ser homens de paz. E
aí que começamos a saber o que significa estar em paz
com Deus, com os outros e com nós mesmos.
E à medida que vamos dando a ele o controle de

91
nossa vida, toda a estrutura de nosso caráter, conduta
e conversação vai-se modificando. Descobrimos que ele
pode mudar-nos de uma forma drástica. Paz, boa-von-
tade, bom ânimo e serenidade tomam o lugar de animo­
sidade, amargura, hostilidade, beligerância, ciúmes,
mau gênio, brigas e rivalidades.
E, a propósito, devemos mencionar que essas úl­
timas acham-se listadas em Gálatas 5.19,20, e indicam
claram ente a existência da antiga personalidade não
transformada. As pessoas que exteriorizam tais
emoções e revelam possuir tais sentimentos e atitudes
não são pacificadores — antes, são “ geradores de pro­
blemas” .
Elas provocam muito sofrimento, tanto para si
mesmas como para outros. Afastam de si amigos, fam i­
liares e colegas, erguendo tremendas barreiras de má-
vontade entre si e os outros. Elas magoam, ferem e en­
tristecem aqueles que as cercam. Muitas vezes, quem
mais sofre são seus mais queridos amigos e familiares,
por causa do desespero, das trevas e perturbação cria­
da pela sua ira.
E é justamente essa ira forte, viva, voltada contra
os outros que constitui o oposto da paz. Em vez de um
amor altruísta, o que há é um forte egocentrismo, uma
preocupação consigo mesmo, inflamada e voltada para
a autodefesa e auto-afirmação.

A Paz Produz a Cura


Por outro lado, a paz de Deus, que é auto-
sacrificial e abnegada, corrige essa situação. Ela opera
no sentido de sanar feridas, derram ar o bálsamo da
consolação, dar descanso e calma; ela tranqüiliza a al­
ma conturbada, fala de paz a espíritos atormentados.
Essa paz sò procede de Cristo e é um dos sinais ge­
nuínos e indiscutíveis da presença de Deus na vida do
indivíduo.
Da mesma forma, podemos dizer com igual certe­
za, que, se na vida de uma pessoa não há paz, está cla­
ro que Cristo ainda não entrou nela. É um engano pen­
sar ou acreditar que uma pessoa é crente, se sua vida

92
for caracterizada por constantes brigas, amarguras e
dissenções.
Paulo coloca isso de forma muito clara quando diz:
“ Não herdarão o reino de Deus, os que tais cousas pra­
ticam.” (G1 5.21 — grifo meu.)
Aquele que pensa seriamente neste assunto deve
entender isso muito bem. “ Porque o reino de Deus não é
comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no
Espírito Santo.” (Rm 14.17.)
Para que o leitor não fique confuso, é importante
esclarecermos aqui que o fato de Cristo entrar em nos­
sa vida não significa que não venhamos a ter inimigos,
nem que passamos a viver numa utopia, onde tudo é
paz e a vida se torna um lago sereno e tranqüilo. A Pa­
lavra de Deus não nos garante isso em nenhum momen­
to. Pelo contrário; ela nos adverte seriamente de que o
povo de Deus deve estar preparado para enfrentar
aflições, hostilidade da parte de outros, tribulações, e
para ser odiado por um mundo adverso.
Quando eu era jovem, durante muitos anos, abri­
guei a falsa idéia de que, se fosse bondoso e generoso,
todos iriam me amar. Em parte, esse engano deveu-se a
um ensino errôneo. A verdade nua e crua é que até
Deus, o Deus de paz, quando veio viver entre nós, sendo
um homem perfeito, foi desprezado e rejeitado pela hu­
manidade. Pouco antes de sua morte, ele declarou en­
faticamente, falando ao pequeno grupo de seguidores
seus: “ Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do
que a vós outros, me odiou a mim.” (Jo 15.18.)
Mas alguém pode indagar: como então a paz entra
aqui? É uma pergunta válida, que merece uma resposta
franca.
E a melhor resposta para ela encontra-se na de­
claração de Salomão que se acha em Provérbios 16.7:
“ Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, es­
te reconcilia com eles os seus inimigos.”

“ Quando um Nã© Quer...”


Não temos garantias de que não teremos inimigos.
Eu sei que os terei. Nossos inimigos são aqueles que se
colocam no pólo oposto, devido à presença do Espírito

93
de Deus em nossa vida, Mas, até mesmo esses, como
aquele empedernido centurião romano que chefiava os
soldados, quando da crucificação de Cristo, terão que
reconhecer: “ Verdadeiram ente este era (um pacifica­
dor) Filho de Deus.” (M t 27.54.)
O ponto que precisamos entender aqui é muito im­
portante. “ Quando um não quer, dois não brigam .” Se
um dos dois está com o coração cheio de boa-vontade,
bom ânimo e dá de si mesmo, com amor desinteressa­
do, este está em paz. Pode até acontecer de ele ser inju­
riado pelo outro, ser odiado e maltratado, mas só esse é
que terá problemas, ficará desesperado e interiormen­
te em trevas.
Sendo povo de Deus, pacíficos, não precisamos ser
envolvidos pelos nossos inimigos. Podemos fica r em paz
com eles, como Cristo fez, mesmo que % se oponham a
nós.
Deus nos conclama a ser grandes, fortes, serenos,
firmes, rijos, do calibre dele. Não devemos deixar que
nos arrastem para os becos do ódio, animosidades e di­
famações destrutivos.
Existe um provérbio inglês muito antigo, muito sin­
gelo, mas de grande efeito que diz: “ Quem atira lama
nos outros, está perdendo terreno.” E como isso é ver­
dade se o aplicarmos ao jardim de nossa vida. É certo
que teremos de enfrentar tormentas de tensões e pres­
sões, que se abatem sobre nós, mas se a boa planta da
natureza pacífica de Deus estiver grassando abundan­
temente no solo de nossa alma, ela não sofrerá erosão,
nem será levada pela tempestade de ódios ou ventos de
adversidade que podem sobrevir-nos.

Passos Para se Chegar à Paz


Talvez a melhor coisa que podemos fazer aqui,
agora, seja explicar, em termos bem simples, como a
paz de Deus pode tornar-se um fruto da minha alma, e
um dos mais importantes. Para isso precisamos dar
três passos.
1. Primeiramente, tem que haver uma disposição
de nossa parte para nos enxergarmos exatamente co­
mo somos. Se eu sou uma pessoa briguenta, sempre dis­

94
cutindo, acusando os outros, criando dificuldades tanto
para mim como para o meu próximo, tenho que reco­
nhecer isto. Preciso admitir a séria e humilhante verda­
de de que o ódio, a beligerância e a animosidade bro­
tam diretamente de minha velha natureza egoística e
egocêntrica.
Não se trata aqui de nos entregarmos a uma in-
trospecção mórbida, mas, sim, de tomarmos uma atitu­
de séria com relação ao nosso comportamento, diante
de Deus e de nós mesmos. Temos que aprender a odiar
nosso ódio.
É totalmente sem sentido tentarmos levantar uma
cortina de fumaça, dando desculpas infantis tais como:
“ Não posso fazer nada; já nasci com esse gênio ruim.”
Ou então: “ Sou uma pessoa muito franca e sempre digo
o que penso, sem me importar com as conseqüências.”
Ou então: “ A culpa é só deles; são eles que estão erra­
dos; eles me fazem ficar com raiva.” E centenas de ou­
tras desculpas semelhantes. Esse método não traz paz,
mas, sim, um terrível perigo.
O que devemos fazer, em vez disso, é clamar a
Deus, com toda sinceridade do coração e dizer-lhe: “ Ó
Deus, transforma-me, por Cristo. Vem a mim, pelo teu
Espírito Santo. Que a maravilhosa semente de tua Pala­
vra seja plantada no terreno rochoso de meu coração
endurecido pelo ódio. Que possa brotar em minha alma,
mente, emoções e vontade a capacidade de amar como
tu amas; de dar-me aos outros, em paz, como tu te dás a
mim.
2. Se essa oração for feita com absoluta sincerida­
de, vão começar a acontecer coisas maravilhosas. Deus
vai acreditar em nós. Imediatamente ele começará a to­
car em nosso terrível orgulho egocêntrico, pois ele é a
raiz do ódio, da má-vontade e da animosidade que nas­
ce da inveja.
As ervas daninhas da auto-afirmação, do auto-
engrandecimento, da auto-satisfação, da autovalori-
zação excessiva e auto-confiança devem ser extirpa­
das. Todos os antigos conceitos do mundo sobre a nossa
própria grandeza, que tão facilmente dominam nosso
pensamento, terão que ser esmagados pelo arado, nu­

95
ma operação profunda do bom Agricultor. Será um pro­
cesso doloroso. Ele irá demolir meu ego enfatuado e mi­
nha avantajada imagem própria.
Este orgulho pessoal pode expressar-se de vários
modos, a m aioria dos quais pode parecer válida. M as
sempre que nos sentimos orgulhosos com relação a al­
guma coisa, também é quando somos mais susceptíveis.
Quando estamos satisfeitos com nós mesmos, também
ficamos mais sensíveis. Então Deus terá que arrancar
essas ervas daninhas que ocupam o lugar dele. E ele
lança mão de vários métodos para humilhar-nos. Pode
permitir que a broca da adversidade toque em nossa
saúde, lar, fam ília, amigos, carreira, finanças, gran­
des realizações, derrubando tudo e reduzindo ao pó.
Pois é a pessoa humilde, a que não exalta a si mes­
ma, que finalmente encontra descanso e sossego. Ela
não se encontra mais naquele pedestal, do qual poderia
ser derrubada a qualquer momento. Agora, ela vive em
termos práticos, e tem um relacionamento com Deus,
com os outros e consigo mesma em bases mais realis­
tas.
3. Com o passar do tempo, muitas vezes, temos a
tentação de pedir a Deus para abrandar um pouco o
processo. Há momentos em que somos tentados a pedir-
lhe que pare de arar a terra, que pare de limpá-la, que
cesse com um cultivo mais profundo de nosso caráter.
N ão façamos isso. A operação divina tem por objetivo o
nosso bem e a produção de frutos.
Só temos paz, depois que o orgulho se vai.
A paz toma o lugar da arrogância.
Ela só medra onde já não existe animosidade.
A pessoa de coração humilde e espírito contrito,
nas mãos do Agricultor, é uma pessoa que tem muita
paz. Nossa vida pode ser um Jardim do Éden, bem rega­
do. Não precisa ser obrigatoriamente um campo san­
grento onde se travam as batalhas da amargura. O
mundo lá fora pode estar em pé de guerra. Mas, em
nosso interior, a presença de Deus, a sua vida e o seu
Espírito produzem paz, tornando-nos pacificadores.

96
8

Paciência

A palavra “ paciência” , com o sentido em que é


empregada no Novo Testamento, na verdade, não pos­
sui um equivalente exato em nossa língua. Ela não sig­
nifica absolutamente ter uma atitude sempre plácida e
fleumática, como muitas pessoas pensam.
A paciência é realmente a tremenda capacidade
que tem o amor altruísta de sobreviver por muito tempo
num clima adverso. É aquela elevada capacidade de fi­
car firme, sem esmorecer, diante de pessoas difíceis e
circunstâncias adversas. Isso significa que a pessoa
que a possui tem um certo grau de tolerância para com
coisas intoleráveis. É uma disposição generosa de pro­
curar entender as pessoas mais estranhas e os eventos
mais problemáticos que o Pai permite em nossa vida.
E mais que tudo isso, a paciência é aquele atributo
poderoso que capacita um homem a permanecer fir­
me, quando lhe sobrevêm uma dificuldade, não ape­
nas de pé, mas seguindo adiante. Paciência é a for­
te perseverança que produz resultados positivos na­
quele que a possui, mesmo quando este se acha em so­
frimento, e sofrendo oposição. É o amor, um amor ma­
ravilhoso, altruísta, que segue em frente, suportando
dificuldades por causa da bênção que isso trará a ou­
tros. É uma disposição tranqüila que, vigilante e alerta,
aguarda o momento certo de dar o passo certo.

97
O que Não é Paciência.
Ser paciente não é ter uma atitude sempre
fleumática e letárgica. Não é ser indolente e indiferen­
te. Tampouco é ter uma atitude fatalística diante da vi­
da, sentando-se num canto para ficar de braços cruza­
dos e dizer: “ O que tem de acontecer, acontecerá.”
A paciência não tem nada de fraco, insosso e
flácido. Ela é uma força de enorme potência, de grande
influência, um atributo divino que, quando manifestado
por ele, nos deixa pasmados e perplexos.
Na maioria das vezes, nós, seres humanos, ao
enfrentarmos uma advertência, em vez de exercitar­
mos paciência, preferimos escapar da adversidade. E
nessa tentativa de fugirmos de situações difíceis, tenta­
mos evitar as pessoas mais estranhas a nós, e nos sepa­
ramos totalmente delas. Nós nos debatemos e esper­
neamos, querendo sacudir fora os arreios e romper
qualquer coisa que possa amarrar-nos ao sofrimento.
Entretanto, a paciência de que fala o Novo Testa­
mento é exatamente o contrário disso. Na verdade, ela
dá a idéia de uma besta de carga que se acha totalmen­
te subjugada. É um boi jungido a um arado, trabalhan­
do para sulcar o campo de seu dono. Mesmo que o ara­
do vá de encontro a pedras, tocos de madeira ou tor­
rões mais duros, o paciente animal continua puxando o
arado. Não importa a inclemência do sol de verão, a im-
portunação dos insetos, os ventos gelados, aquele ani­
mal continua sulcando a terra para o seu amo.
A paciência de que falam os escritores do Novo
Testamento é a de um pequeno jumento carregando um
enorme fardo de lenha, sacos de cereais, ou qualquer
outro produto para o seu dono. Entra ano, sai ano, ele
está sempre ali transportando com segurança e firme­
za os bens de seu dono, de um lado para outro, em tran­
qüila obediência à vontade dele.
Esta paciência é a de um camelo, cavalo ou boi
amarrado a uma roda de moinho. E ali ele fica, hora
após hora, dia após dia, andando sem parar, tirando
água para regar um pequeno terreno ressequido. Pode
ser ainda que esteja moendo trigo, a fim de alimentar
98
todo um povoado. Tudo isso é parte de um trabalho so­
frido para se atingir um objetivo digno.

Cristo, a Imagem da Paciência


Essa qualidade de caráter foi muito bem ilustrada
para nós no exemplo do Senhor Jesus. Ele, o Cristo, veio
ser, entre os homens, o Servo sofredor. Veio, não para
ser servido, mas para servir. E a maravilhosa perse­
verança com que ele suportou todas as adversidades e
maus tratos dos homens, por nossa causa, para que
fôssemos salvos, faz nossa alma vibrar.
Se não fosse pela longanimidade e paciência de
Deus em seu tratamento conosco, pessoas tão difíceis,
onde estaríamos a essa hora? Há muito tempo que a
raça humana teria sido aniquilada, devido à iniqüida­
de, ao orgulho e à impureza de nosso caráter. Se não
fosse pela generosa paciência de nosso bendito Deus, o
homem não poderia subsistir, nem por um minuto, na
presença de ura Ser perfeito e totalmente justo.
Somente depois que compreendemos e apreciamos
essa verdade completamente é que nos prostramos
diante dele humildes, e suplicamos seu perdão. Só a
sua paciente disposição de Pai generoso, pronto a nos
suportar, compreender e esperar um pouco mais é que
nos dá grande esperança e bom ânimo.
Quando olho para trás e examino meu passado,
tremo só de pensar onde eu estaria, se não fosse pela
terna paciência de Deus, em seu trato comigo. Como
seu Espírito foi incansável, acompanhando-me pelos
caminhos tortuosos e emaranhados que eu próprio es­
colhera. Como ele suportou meu orgulho e iniqüidade
em minha auto-suficiência.
Só de meditar nesse incrível atributo de Cristo, em
seu amor por mim, sinto meu orgulho desfazer-se, e
meu coração se cala diante dele.
Isso é o amor de Deus em ação — essa calma, for­
te e incansável determinação divina de fazer apenas o
bem para mim. Durante muitos anos, o bendito Espírito
de Deus buscou a minha alma com grande interesse e
amor. E apesar de minha obstinação, minha ignorân-
99
cia, desvios e confusão, ele nunca desistiu. Nunca se
cansou.
Na verdade, foi sua paciência quem prevaleceu.
Ela destruiu minha resistência. Um dia, este meu
espírito embotado, marcado pelo pecado, entendeu que
ele realmente me amava, que ansiava muito por essa
carcaça de homem, desejando enchê-la com sua vida
abundante, para fazê-lo reviver.
É dessa qualidade do caráter de Deus que estou
falando aqui; um atributo do imenso amor que ele dese­
ja ansiosamente dar ao seu povo. Aliás, esse é um dos
frutos do Espírito que ele deseja ansiosamente cultivar
em nossa vida, se permitirmos que o faça. Ele vem ao
jardim dos seus filhos, esperando encontrá-lo. Muitas
vezes, esse fruto é bastante escasso.
Isso é muito estranho, considerando o quanto ele
tem sido paciente conosco. Para ilustrar essa verdade,
Jesus contou uma parábola. Está registrada em Mateus
18.21-33. Um homem devia a outro uma enorme quan­
tia, e pediu-lhe que tivesse paciência e esperasse até
que ele pudesse pagar. Entretanto, ao sair dali, exigiu
de outro, que lhe devia uma quantia insignificante, que
lhe pagasse imediatamente a dívida.
Muitos de nós somos assim. Mas esse não é o amor
de Deus.
Temos a tendência de “ retalhar” as pessoas. So­
mos exigentes e rudes. Queremos receber o que nos de­
vem; não aceitamos fracassos por parte dos outros.
Exigimos resultados imediatos, e não damos tempo aos
outros, uma segunda chance, para ver o que Deus pode
operar em suas vidas. Não perseveramos em oração
por eles.
Em caso de dificuldade, ou de circunstâncias ad­
versas, queremos logo escapar. Logo que encontramos
uma saída, passamos por ela, a fim de nos livrarmos de
uma situação desagradável. Chegamos até a orar fer­
vorosamente para que Deus nos salve de todas as expe­
riências difíceis e adversas.
Tudo isso constitui o oposto do amor. Am ar sig­
nifica avançar em frente a despeito dos obstáculos.
Am ar significa estar disppsto a sofrer e suportar com

100
paciência as pedradas da vida. E o amor é perseveran­
te, mesmo que se defronte com obstáculos terríveis, e
faz isso simplesmente continuando firme.
E quando uma centelha de sua graça se enraíza
em nós, pela operação do Espírito de Deus, coisas es­
pantosas acontecem, para nós e para aqueles que nos
cercam.

O Efeito da Paciência
Talvez o mais admirável deles seja o fato de que
nossa conduta gera esperança e otimismo nos outros.
Até mesmo uma pessoa profundamente problemática,
que esteja mergulhada em desespero, perdida em seu
egoísmo e egocentrismo, terá novas esperanças, se en­
contrar uma pessoa paciente, que persevere com ela,
que ore por ela incessantemente.
O próprio fato de saber que alguém a ama o sufi­
ciente para insistir no interesse por ela, poderá
convencê-la de que nem tudo está perdido neste mundo.
A presença da paciência no povo de Deus é um dos
sinais mais certos de que nele há algo da natureza de
Deus, o que pode ser constatado até mesmo por um não-
crente. Mais que qualquer outra virtude cristã, essa
atitude tem a possibilidade de derrubar o preconceito
do não-crente. Ele ficará convencido, persuadido de
que o cristianismo não é apenas uma bela teoria.

Os Benefícios da Paciência
O cultivo da paciência apresenta dois grandes be­
nefícios para o filho de Deus. Primeiro, ela produz em
seu próprio caráter uma imensa força e resistência.
Talvez a melhor palavra a se empregar aqui fosse “ du­
reza” — não dureza no sentido de insensibilidade e as­
pereza, mas no sentido de capacidade de suportar pes­
soas e situações problemáticas, com serenidade e fir­
meza.
Em segundo lugar, quando nos portamos com pa­
ciência diante das adversidades, conhecemos a grande
fidelidade de Deus para conosco, em cada situação.
Aos poucos, vamos aprendendo a realidade da grande
afirmação de Paulo em Filipenses 2.13: “ Deus é quem

101
efetua em vóstanto o qu erer como o realizar, segund
sua boa vontade.”

T e r Paciência é Ganhar Experiência.


Este fruto do Espírito de Deus não é algo pelo qual
oramos, esperando que Deus o faça surgir em nossa vi­
da como se fosse um presente graciosam ente embru­
lhado em papel brilhante. Se orarmos pedindo ao Se­
nhor esse dom, ele fará com que venham ao nosso en­
contro pessoas e circunstâncias que exigirão a presen­
ça e o exercício da paciência dele, para que as possa­
mos suportar. Desse modo, aprendemos a praticar a
paciência na fornalha ardente da aflição.
Logo aprendemos que não podemos seguir pela vi­
da lutando contra as pessoas e problemas que surgem
em nosso caminho — não podemos combater nem nos
queixar daquilo que a vida nos reserva. Tampouco de­
vemos tentar escapulir das situações difíceis que se
nos apresentam. N ão somos daqueles que sempre que­
rem o assento mais macio, o canto mais confortável.
Pelo contrário, enfrentamos as situações que
Deus, nosso Pai, arranja para nós, quaisquer que se­
jam elas, considerando-as como a sua provisão para
nossa vida. Aceitamo-las, sabendo que constituem a
grande e boa mó, com a qual Deus nos irá transform ar
em farinha, a fim de alimentar seu povo faminto. Reco­
nhecemos que nossas provações são a prensa divina,
pela qual nossa vida será esprem ida para que de nós
brote o vinho do alívio para o mundo cansado e sedento.
E é dessa atitude de submissão que nasce a paz,
mas, além dela, temos também paciência. N ão uma pa­
ciência cheia de lamentações, uma forma ressequida
de estoicismo, mas, sim, um grande contentamento pe­
la operação divina do grande Agricultor. N a verdade,
são as “ enxadadas” e o profundo sulcar do arado divi­
no que, eventualmente, irão produzir o abundante fru­
to de sua paciência em nosso caráter. Não existe outra
forma.
E em meio a tudo isso, enquanto conservarm os na
mente o fato de que ele, o verdadeiro Deus, usa para
conosco da paciência e perseverança, teremos o cora-

102
ção e o espírito prontos para nos regozijarmos. E des­
cansamos na firme certeza e no conhecimento de que
ele faz tudo bem, tanto por minha causa como pelo seu
nome.
E é quando a consciência plena da presença de
Cristo em nossa vida penetra em nosso espírito, que nos
silenciamos diante dele. Sentimos que seu maravilhoso
Espírito pode transmitir ao nosso caráter a paz de
Deus, em meio a adversidades, e a sua paciência, em
meio a situações difíceis.
Conhecer isso é conhecer algo do contentamento
de Cristo. Não nos sentimos mais inclinados a abrir ca­
minho por entre os espinheiros e obstáculos da vida à
força de combate e luta. Permaneceremos firmes, sere­
mos fortes, sabendo que “ todas as cousas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que
são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.28.)
É Deus quem nos capacita a enfrentar com otimis­
mo e bom ânimo a febre de viver. Pois ele está conosco
em meio às alegrias e às necessidades extremas. Então,
tudo vai bem. Podemos sentir-nos em paz e também ser
pacientes. E todos nós gostamos de saber disso.

103
9

Benignidade:
Amor Revelando
Misericórdia

De todos os frutos do Espírito, talvez seja este o


que melhor conhecemos. Esta faceta do amor nos tem
sido revelada de maneiras maravilhosas. E nós, por
nossa vez, também temos vivido ocasiões em que pude­
mos manifestar beniginidade para com outros.
A benignidade acha-se invariavelmente associada
á misericórdia. É impossível uma pessoa ser benigna
sem ser misericordiosa. Por outro lado, ser misericor­
dioso é o mesmo que ser benigno. Isso implica sempre
em ter um profundo interesse pelos outros. E um inte­
resse misto de compaixão e misericórdia. Somos leva­
dos a agir com benignidade porque nos interessamos
por outrem. O interesse pelos outros é a essência do
amor altruísta de Deus, expresso para com o nosso
próximo.
A benignidade também se acha estreitamente liga­
da à sinceridade e respeito. A idéia de benignidade
abrange por inteiro o ideal de se tratar outras pessoas
com profunda integridade. Tratamos os outros com
benignidade porque os consideramos e respeita­
mos como indivíduos, qualquer que seja sua cultura, fé
religiosa, cor ou posição social. Procuramos ser úteis e
compreensivos, porque temos por eles um interesse
verdadeiro.
Mas, surpreendentemente, os seres humanos são
extremamente sensíveis nessa questão do relaciona­
mento pessoal. Eles conseguem perceber imediatamen-
104
te se estamos agindo com uma atitude condescendente
ou paternalista. A verdadeira benignidade não contém
laivos de altivez. Ela implica num nivelamento com nos­
so semelhante, pelo amor, estendendo a mão para aju­
dá-lo naquilo que precisar.

O Preço da Benignidade
Esta faceta do amor deve custar-nos um alto p re­
ço. Expressar benignidade não é enganar pessoas de­
sesperadas, nem fingir um falso interesse por sua si­
tuação. A verdadeira benignidade vai muito além do
fingimento, dos suspiros simulados e das lágrim as de
crocodilo. Implica em nos envolvermos profundamente
com o sofrimento e dificuldade de outrem, ao ponto de
seu problema fazer-nos sofrer — sofrer mesmo — e
causar-nos alguns inconvenientes.
A pessoa realm ente benigna é aquela que não se
retrai ao ver que a m anifestação da benignidade lhe
custará alguma coisa. Ela sacrifica suas próprias p re­
ferências, a fim de oferecer auxílio e conforto a ou­
trem. Ela paga o preço do trabalho, incômodos, p riva­
ções, e, silenciosamente e sem alarde, procura propor­
cionar satisfação a outrem. Sensível à dor e sofrimento
de uma sociedade cheia de problemas, ela se propõe a
fazer o que puder para aliviar esse sofrimento. E tenta
fazer do mundo um lugar melhor e mais feliz para os
que se acham mergulhados em dor e agonia.
É essa a qualidade da benignidade que caracteriza
Deus, o Pai. Ele de fato se importa conosco; e por
nós. Nosso Pai celeste vem a nós em absoluta sincerida­
de e franqueza. Ele entrega sua vida por nós, dá-se sem
hesitação, para que fiquemos mais ricos. Identifica-se
conosco, em nossos problemas. Sendo plenamente mi­
sericordioso, compassivo e auto-sacrificial, ele tem
sempre em mente o nosso bem, o nosso proveito.
Em sua segunda carta à igreja de Corinto, o após­
tolo Paulo explicou essa verdade nos seguintes termos:
“ Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que
pela sua pobreza vos tornásseis ricos.” (2 Co 8.9.)

105
A Grande Benignidade de Deus
Por toda a Bíblia o tema da incansável benignidade
de Deus palpita como o pulsar de um grande coração.
“ Porque mui grande é a sua misericórdia para conos­
co” (SI 117.2) é o refrão constante. Isso é reiterado
várias vezes, para relembrar-nos que a misericórdia,
compaixão e benignidade de Deus jorram para nós
abundante e liberalmente, em rios de refrigério, todos
os dias.
A benignidade de Deus nos atrai para ele com la­
ços de amor, mais fortes que o aço. A misericórdia do
Senhor nos cativa com enorme gratidão e reconheci­
mento. A compaixão generosa e o cuidado terno do seu
bendito Espírito são como alimento que nos fortalece,
renovando-se a cada dia que passa.
Ê imensamente difícil expressar em papel e em lin­
guagem humana, a incrível bondade do Pai. Parece-me
que, por mais que alguém tente, fica sempre muito
aquém. Ê uma dimensão de generosidade que ultrapas­
sa nossa capacidade humana de transmitir idéias uns
para os outros. É um fato que pode ser conhecido em
experiência, mas não pode ser descrito em palavras.
É a benignidade de Deus, expressa em Cristo e re­
velada a nós pelo seu Espírito, que nos oqtorga a salva­
ção. Ê a sua benignidade que faz a provisão ao custo
de sangue para o perdão de nossos pecados e do
egoísmo. É ela também que perdoa nossas faltas e nos
acolhe em sua família, como a um filho muito querido.
É ela que nos possibilita estar em sua presença, isen­
tos de nossos erros, totalmente justificados. A benigni­
dade de Deus remove toda a nossa culpa, e assim pode­
mos ser um com ele e com os outros, em paz. Ê a benig­
nidade de Deus que torna possível essa doação dele
para nós, no santuário interior de nosso espírito, alma
e corpo. Sua benignidade possibilita nossa transforma­
ção, e assim podemos ser recriados, remodelados, con­
formados à sua imagem e semelhança. Ela confere
enorme significado e grande dignidade a esta vida, e
eterna satisfação à vida por vir.
Ê essa constante, eterna, imutável benignidade de
Deus que nos dá todos os motivos para nos regozijar­

106
I,
mos e nos deleitarmos com a vida... toda a vida... esta e
a próxima.
“ Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir
variação, ou sombra de mudanças.” (Tg 1.17.)
É a benignidade de Deus que nos enriquece e nos
fornece energias, não só espirituais, mas também mo­
rais e físicas. Estamos cercados, por todos os lados,
pela atmosfera de sua grandiosa benignidade, que jor­
ra para nós sob milhares de formas, procedendo da
fonte de seu amor. Tudo que temos e experimentamos é
expressão dessa benignidade.
E o que é mais maravilhoso, mais admirável, é que
tudo isso ocorre apesar de nossos desvios, erros, obsti­
nação e iniqüidade. Nada humilha e quebranta mais
nosso coração endurecido do que saber disso.
Mas, embora possa parecer estranho, muitas pes­
soas não desejam nem admitir nem receber essa benig­
nidade. Com toda a arrogância e uma suposta auto-
suficiência, elas ingenuamente acreditam que devem
tudo quanto são a si mesmas, e orgulhosamente procla­
mam sua independência. Temerosas de que talvez ve­
nham a ficar em débito para com ele, não desejam ser
depositárias da benignidade de Deus. Não querem que
o divino Agricultor interfira no terreno de suas vidas.
E ê assim que aquele que lhes concedeu a própria vida
é mantido à distância, ou assim pensam elas. M al sa­
bem essas pessoas o quanto estão perdendo.

Um Novo Tipo de Benignidade.


Mas, se em vez disso, o Senhor pudesse penetrar
livre e plenamente na vida delas, os resultados se­
riam espantosos. Talvez o mais palpável resultado de­
les fosse o modo como ali seria produzido um novo tipo
de benignidade.
Digo isso com certa cautela, porque benignidade
não é um fruto limitado apenas ao caráter cristão. A l­
guns dos mais tocantes gestos de benignidade de que já
fui alvo, procediam de pessoas totalmente desconheci­
das, e algumas não eram nem crentes.
Entretanto, existe uma diferença marcante, e o

107
Senhor fez menção dela em seu majestoso Sermão do
Monte, em M ateus 5.43-48.
A li ele diz que os gentios amam aqueles que os
amam; são educados com aqueles que podem retribuir
seu cumprimento, e agem com benignidade sempre que
ela puder ser recíproca.
M as seu conselho para nós é que nossa benignida­
de tenha a capacidade de amar até os inimigos, aben­
çoar aqueles que nos amaldiçoam, fa zer o bem àque­
les que nos odeiam, o ra r por aqueles que nos despre­
zam e perseguem. E ao agir assim, estaremos demons­
trando que realm ente somos o seu povo.
Assim como ele dá os seus dons tanto aos bons co­
mo aos maus e derram a suas bênçãos sobre crentes e
incrédulos, ele pede que façamos o mesmo.
M as é preciso muita coragem para viver dessa
forma. Isso significa que alguns daqueles a quem mani­
festarem os benignidade se voltarão contra nós. Signifi­
ca que muitas vezes seremos tratados com frieza ou so­
frerem os zombaria, e que nossas boas intenções às v e ­
zes, serão mal interpretadas.
Depois que a boa semente da vida de Deus germi­
na e cria raízes no solo de nossa alma, abandonamos a
idéia do “ olho por olho, dente por dente” , fá não pensa­
mos em dar amor apenas para recebê-lo de volta. Não
queremos mais ser bondosos apenas para recebermos
elogios e para que os outros pensem bem de nós. Não
procuramos dar apenas visando o que podemos lucrar
com aquilo. Isso tudo acabou — essas táticas termina­
ram. O impulso vital de nossas ações agora não é mais
aquela egoística auto-satisfação.

O Outro Lado da Benignidade


Quando Deus, pelo seu bendito Espírito, começa a
produzir o fruto da benignidade no jardim do nosso c a ­
ráter, o crescim ento dele provém da própria benigni­
dade do Senhor. Deus é benigno porque ele não poderia
ser de outra forma. Ê um elemento essencial de sua na­
tureza. Assim também a benignidade se torna um ele­
mento integrante de nossa nova natureza, concedida
por ele. Ser benigno passa a ser parte de nossa condu­

108
ta, caráter e conversa — não pelo que possamos lucrar
com isso, mas pelo que pudermos fazer pelos outros.
É muita tolice praticar a benignidade para com ou­
trem esperando que ele a retribua. Na maioria das ve­
zes, os outros não revelam nenhuma gratidão. Portan­
to, a não ser que nossa benignidade seja de origem di­
vina, acabaremos frustrados e desiludidos. O que de­
vemos fazer é deixar os resultados inteiramente nas
mãos do Senhor. Ficaremos surpresos ao descobrir que
o amor, afeição, gratidão e benignidade que dispensar­
mos a outros, nos voltarão, sim, mas, muitas vezes, de
fontes totalmente inesperadas, de pessoas estranhas,
com as quais nunca usamos de benignidade antes.
Deus está sempre atento para que o princípio da
se me adura- c olheit a nunca falhe. E com base na sua fi­
delidade para conosco, podemos estar perfeitamente
certos de que os atos de benignidade que praticarmos
para com alguém, em misericórdia e compaixão, even­
tualmente voltarão para nós, numa compensação rica
e abundante. Colhemos aquilo que plantamos. E quan­
do, em oração, semeamos a bondade no canteiro de
nossa vida, podemos ficar certos de que haverá uma
colheita farta, tanto para nós como para os outros.
Desse modo, a vida pode tornar-se pródiga em benefí­
cios para nós.

A Benignidade a Tudo Influencia.


A benignidade deve ter uma amplitude tal, que
abranja toda a nossa vida. Ela deve abranger os ani-
maizinhos domésticos que nos cercam; nosso gado, as
folhagens, árvores, relva, as flores de nosso jardim,
florestas, lagos, animais selvagens, e os recursos
da natureza confiados ao nosso cuidado. Todos devem
ser tratados com benignidade. Deus, pelo seu Espírito,
é o criador do mundo, e o maior conservacionista. Fo­
mos criados à imagem e semelhança dele, por isso de­
vemos agir como ele.
Aqueles que sempre possuem uma atitude de be­
nignidade, compaixão, misericórdia e interesse por to­
do e qualquer espécie de vida, geralmente são pessoas
de muita luz interior. Parecem refletir um grande b ri­

109
lho, uma radiação de entusiasmo e bem-estar. Delas
emanam calor humano, afeição e boa disposição. É a
manifestação da vida e do amor de Deus. Esse tipo de
benignidade dissipa a escuridão, rem ove fardos, fala
de paz e reanima os desalentados.
Talvez nenhum outro fruto do Espírito tenha maior
alcance que esse. Ele surge sem alarde e ostentação,
realiza sua obra sublime quase em segredo, e depois se
vai sem ser visto. Entretanto, seus benefícios perm ane­
cem testificando da obra divina, nesse velho e cansado
mundo.
Sempre me recordo do terno e bondoso David Li-
vingstone. Com seus fabulosos safaris, ele viajou milha­
res e milhares de quilômetros, alcançando territórios
ainda não mapeados, entre tribos selvagens e estra­
nhas. E onde quer que tenha deixado suas pegadas, ali
ficou também um legado do amor de Cristo, manifesto
pela sua humilde benignidade para com os nativos.
Muitos anos depois de ele haver morrido e de ter ido
para o “ lar celestial” , ainda era lembrado no conti­
nente negro como “ o médico bondoso” . Que elogio me­
lhor um homem poderia receber?

A Falsa Benignidade
Antes de estudarmos o modo como essa benignida­
de é produzida em nosso caráter, precisamos dar um
esclarecim ento acerca da falsa benignidade. Benigni­
dade e misericórdia não são uma indulgência balofa e
sentimental. Tampouco trata-se de uma tolerância pa­
ra com os erros e pecados de outros.
Vejamos um exemplo. Um pai que deixa o filho co­
meter erros deliberadamente, não está agindo com be­
nignidade. E a correção do erro vai custar algo ao pai e
também ao filho. Ignorar o erro de alguém, deixar aqui­
lo de lado,, fingir que não o vê, ifão é benignidade.
Quem assjm age presta um desserviço à pessoa em
questão.
Am ar sempre nos custa alguma coisa.
Implica em sofrimento.
O médico bondoso é aquele que lanceta o tumor,
110
expreme o pus, retirando o mal ali contido, limpa o fe­
rimento, e assim promove a cura de seu paciente.
Aquele que simplesmente aplica a pomada sobre a
ferida, enquanto embaixo da superfície a infecção con­
tinua sua obra mortal, esse é um charlatão.
Portanto, benignidade implica em coragem, inte­
gridade e altruísmo.
E o que é mais notável com respeito a esse tipo de
benignidade é que Deus confere um grande valor a ela,
em sua Palavra. Vemos por toda a Bíblia que ele espera
que a benignidade seja uma característica de seu povo,
e procura vê-la em nós. É um fruto que deveria estar
sempre sendo produzido abundantemente no jardim de
nossa vida.
Então, como ele é cultivado?
Como fazemos para incentivar essa cultura, para
que crie raízes, produza e cresça forte em nós?
Primeiramente, precisamos reconhecer a impor­
tância dela para Deus, para os outros e para nós. Gran­
de parte da obra de Deus nesse mundo é realizada pela
misericórdia e compaixão.

Ter Benignidade é Interessar-se.


Como povo de Deus, temos nas mãos a felicidade
de outros. Os sentimentos de valor próprio, dignidade
pessoal e auto-estima, tão necessários ao bem-estar do
ser humano, dependem, em larga escala, da benigni­
dade que recebem por parte de outros.
Está em nossas mãos enriquecer a vida de nosso
próximo, interessando-nos por ele, de uma forma toda
pessoal, significativa, como Cristo o fez.
Mas isso toma tempo, toma muito tempo. Não pode
ser feito apressadamente, de passagem, sem respeito
humano. Vai exigir muito de nosso tempo — isto é, tem­
po que poderíamos gastar com nós mesmos — fazer vi­
sitas, prestar pequenos favores, escutar os desabafos
do coração de outrem, prestar alguns servicinhos, au­
xiliar alguém em seu trabalho, ajudá-lo a carregar
suas cargas, orar por ele, partilhar de suas alegrias e
tristezas, escrever-lhe, dedicar a ele nosso tempo, ener-
111
gias e recursos, procurar descobrir formas de alegrar
e iluminar sua vida.
Somos na maioria por demais ocupados. A o que
parece, aquela velha arte de sentar-se ao lado de al­
guém, calmamente, por uma ou duas horas, para uma
conversa tranqüila, já está esquecida.
Certa noite convidamos um casal idoso, pessoas
amadurecidas pelos muitos anos de árduo trabalho pa­
ra Cristo, para passarem algumas horas em nossa casi­
nha. Após um delicioso jantar preparado com amor e
carinho pela minha esposa, sentamo-nos ali, junto a
um fogo crepitante de lenha de cipreste que eu havia
apanhado no morro, ao entardecer.
Os alegres estalidos da lenha, o brando calor do
aposento, o ambiente suave da sala enfeitada com ga­
lhos de flores vermelhas encheram de paz o coração
daqueles velhinhos. Com o rosto brilhando de satis­
fação, aquele senhor idoso recordou o passado, lem­
brando a infância na Pennsylvânia, onde ele também
costumava ir pelos morros procurar lenha de ciprestes,
em dias especiais.
E enquanto passavam as horas, ficamos a falar de
livros, quadros, arte, e demos boas gargalhadas. De­
pois, minha esposa, que está aprendendo a tocar órgão,
ofereceu-se para tocar alguma coisa. O espírito deles
cantava. Para minha surpresa, daí a pouco, aquela se­
nhora também estava sentada ao instrumento, tocando
órgão pela prim eira vez em sua vida. A gora, quando
viajamos, o órgão fica com eles, proporcionando-lhes
horas e horas de grande alegria.
Quando saíram de nossa porta para voltarem pa­
ra casa, eram duas pessoas que, pelo menos no decurso
de uma noite, haviam recuperado a alegria da juventu­
de. Seus olhos brilhavam de satisfação, e seus passos
revelavam novo vigor,
 benignidade não precisa ser nada de grandioso
ou complicado. Mas é algo que realmente exige tempo,
consideração e amor.
A segunda e grande maneira de promover sua pre­
sença em nossa vida é nos recordarmos muitas vezes
da grande benignidade de Deus para conosco.

112
Tenho a convicção inabalável de que, quando a
Palavra de Deus nos instrui claramente a termos mo­
mentos de comunhão com Cristo, meditando em seus
mandamentos, essa ordem está basicamente relaciona­
da com sua misericórdia, compaixão e benignidade pa­
ra conosco. Aquele que freqüentemente tem instantes
de reflexão sobre essas coisas se achará vivendo e
movendo-se numa atmosfera de humildade e gratidão a
Deus, com uma atitude condizente. E constantemente
brotará de seu espírito um sublime sentimento de grati­
dão e amor a Deus, por todos os benefícios a ele conce­
didos pelo terno Senhor.
Assim, impulsionados e constrangidos por esse
amor — a vida de Cristo comunicada à nossa vida —
poderemos sair por esse mundo infeliz e sofrido, dis­
pensando benignidade a outros.
Por onde quer que passemos, ali ficará um legado
de amor. Pois bondade e m isericórdia nos seguirão to­
dos os dias de nossa vida.

113
10

Bondade:
Graça e Generosidade

bondade * parece ser um dos mais óbvios frutos


do Espírito de Deus. Entretanto, é dos mais mal enten­
didos e mal interpretados.
A bondade sempre foi considerada uma qualida­
de que pertencia essencialmente a Deus. Era tão váli­
do dizer que “ Deus é bom” , como era dizer “ Deus é
amor” .
Naturalmente, daí se conclui que “ o amor é bom” ,
da mesma forma que bondade é uma faceta da mani­
festação do amor. Esse tipo de bondade procede de
Deus. Ele dá uma enorme ênfase a ela. Ele a exalta.
Quando esteve entre nós, diziam, com grande simplici­
dade: “ Ele ia a toda a parte fazendo o bem.”
O impacto dessa bondade, que se movia em ondas
de ímpeto irresistível, atravessou os séculos, e circun­
dou todo o globo, de modo que até hoje a bondade de
Cristo nos atinge com grande poder. Ela nos espanta e
nos deixa atônitos. Também faz vibrar até as profun­
dezas de nossa alma fatigada pelo pecado.

A Atitude do Mundo Para com a Bondade


Contudo, numa antítese direta para com a bondade
de Deus, o mundo muitaé vezes deprecia essa virtude.
Quando desejam menosprezar ou zombar daqueles que

* A p a la vra bondade é usada neste capítulo em seu sentido mais amplo,


abrangendo também os aspectos da retidão, g ra ça e generosidade de Deus.

114
estão buscando servir a Deus, chamam-no de “ santar-
rão” . O epíteto de “ santinho” , que as crianças às vezes
usam para insultar umas às outras, é um dos mais mali­
ciosos e contundentes que elas usam. Para o mundo, a
bondade é algo insípido, fraco, que deve ser despreza­
do e depreciado.
Aliás, quando o Senhor esteve entre nós, até mes­
mo sua bondade foi difamada pelos seus antagonistas.
Isso acontece, porque o bem e o mal se excluem mutua­
mente. A bondade de Deus e a malignidade do inimigo
acham-se em pólos totalmente opostos. O incessante
antagonismo que existe entre esses dois elementos ex­
plica o caos e as intermináveis chacinas que caracte­
rizam a história humana. M as quero relem brar ao lei­
tor que a bondade de Deus, por fim, prevalecerá sobre
o mal. O amor vencerá o desespero. A luz dissipará as
trevas. A vida suplantará a morte.
Se isso não ocorre em nossa vida diária, no pre­
sente, terá que ocorrer algum dia, segundo os propósi­
tos de um Deus terno e bom. Foi ele quem veio habitar
entre nós, e ser nosso Salvador, a fim de que isso fosse
possível.
“ Cristo, que não conhecia o pecado, foi, por assim di­
zer, levado por Deus a ser pecado por nossa causa pa­
ra que em Cristo possamos ser feitos bons com a bon­
dade de Deus.” (2 Co 5.21 — Cartas às Igrejas Novas.)
O preço que ele pagou para realizar isso foi enor­
me, e, por isso, a bondade é uma qualidade do cará­
ter de Deus a que muitos de nós não sabem dar o devi­
do valor. Com que freqüência nos deixamos ficar em
sua presença, pasmados, admirados, assombrados,
quebrantados e humilhados diante de sua bondade?
Quantas vezes pedimos ao Senhor deliberada e decidi­
damente que nos dê essa sua bondade? Quantos de nós
realmente desejam, acima de tudo, “ ser feitos bons
segundo a bondade de Deus” ?
Muitas pessoas oram pedindo a Deus amor, paz,
paciência e até benignidade, mas raram ente ouvimos
um clamor de coração quebrantado, que parte das pro­
fundezas de uma alma partida e manchada pelo pecado,

115
cansada do mal, que diz: “ Ó Deus, peço-te que me to r­
nes bom .”

A V erd a d eira N atu reza da Bondade


A bondade de Deus não é uma indulgência senti­
mental, fracote, sem vigor, em sensualidade. N ão ê
também uma disposição de humor passageira que nos
faz ‘ ‘sentir tão b em ” . Tam pouco é um clím ax de bem-
estar em ocional, em que a realid ad e se dilui num róseo
clarão de m ágica mística.
A bon d ad e é a dura realidade de Deus em confron­
to com a hediondez do pecado. A bondade é o invencí­
vel poder de Deus derrotando o mal. A bondade do Se­
nhor é a grandeza do seu amor, que dissipa nosso de­
sespero, e, de nossa morte, ergue sua própria vida. Ê a
sua generosidade e g ra ça operando em nós, pelo seu
bendito Espírito. É a enorme en ergia de sua luz e vida
extinguindo o mal que há em nós e que nos cerca.
A b on d ad e de Deus é a forte e pulsante atuação do
bem em meio a todo o erro que está a nossa volta.
A qu ele que é verdadeiram ente grande, também é
verdadeiram ente bom. E a pessoa realm ente boa é sem­
p re grande. É um indivíduo de ideais elevados, de
propósitos nobres, de caráter forte, de conduta irre­
preensível, em quem se pode confiar. É um plano bas­
tante alto. São poucas as pessoas que podem dizer que
possuem tais credenciais. Entretanto, esses foram os
atributos mais clara e obviam ente demonstrados por
Jesus Cristo.
*

E por isso que as pessoas ou o amavam demais ou


o odiavam intensamente. Era a bondade de Deus, exis­
tente em sua vida, que atraía a si todo o povo, como um
ímã irresistível, mas, por ela mesma, os falsos, super­
ficialm ente santos, eram repelidos. A bondade de Cris­
to p olarizava os indivíduos como se estes fossem lim a­
lhas de aço num cam ço eletrom agnético. Ou eram a fa ­
vor ou contra ele. )
O mesmo se dará com qualquer pessoa que real­
mente o siga. O Espírito de Deus operará poderosam en­
te em sua vida, e todos os que o cercam serão polariza-

116
dos. Eles serão ou atraídos ou repelidos pela bondade
de Deus, manifesta na vida daquele discípulo.

A Bondade de Deus e Sua Graça


A inerente bondade de Deus sempre se acha lado
a lado com a sua graça. Aliás, podemos afirmar que a
graça de Deus, aliada à sua santidade (bondade e inte­
gridade) é que faz com que sejamos atraídos para ele.
Sua bondade é temperada pela graça, tornando-o um
Deus accessível.
É o “ bom” Deus que também é cheio de graça para
conosco. Ele se aproxima de nós com infinito amor e
compaixão. Ele nos ama profundamente. Por isso, sua
bondade e retidão não nos mantêm à distância. Pelo
contrário, ele vem ao nosso encontro, ansioso para en­
volver, em seus grandes e fortes braços de amor, nossa
alma cansada, por causa de sua bondade e graça.
Ele não nos adula, nem nos cobre de elogios indevi­
dos. Não procura enganar-nos. Ele vê nosso pecado, e
reconhece que somos impuros. Mesmo assim, ele pro­
cura uma confrontação com nosso espírito maculado
pelo pecado.
Assim como aconteceu ao filho pródigo, quando
voltou diretamente do chiqueiro para casa, assim tam­
bém, para nossa mão suja de pecado, há um anel de
ouro; um manto branco para cobrir nosso corpo man­
chado de suor; sandálias novas para os pés sujos de es­
trume; e beijos para nosso rosto marcado de lágrimas.
Que bondade a de nosso Deus!
Que maravilhosa graça a do Senhor!
Que generosidade a de nosso Cristo!
Essas qualidades de vida acham-se exemplifica­
das pela bondade de Deus. Quando dizemos: “ Deus é
bom” , é a elas que estamos nos referindo.

A Bondade Tem em Preço.


Ser reto e bom custa um alto preço.
Parte desse preço é a autoprivação.
Num mundo, onde a corrente do pensamento hu­
mano flui em direção oposta à bondade, graça e genero­

117
sidade, temos que pagar um alto preço para possuir es­
tas coisas.
A generosidade, que também é uma faceta da bon­
dade, essencialmente, é uma disposição de nossa parte
para partilhar com os outros aquilo que possuímos.
M as isso se aplica a tudo que é meu, e não apenas aos
meus bens. Ser generoso não é apenas enviar um che­
que polpudo para uma organização de caridade; é mais
que isso. Na verdade, a generosidade ultrapassa o ato
de dar aos outros daquilo que me sobra.
Quando Deus, pelo seu precioso Espírito, começa a
sulcar profundamente o solo de minha alma, ele im­
planta nele um novo e divino impulso de ser realmente
generoso e dadivoso.
Essa altruística autodoação não pode ser apenas a
doação de nosso dinheiro; ela implica em mais que isso.
Deus apontará para nosso tempo talentos, interesses,
forças, energias e capacidades, pedindo que contri­
buam para o enriquecimento de outras vidas. Ele pe­
dirá que eu ponha de lado meus próprios interesses, a
fim de contribuir para outros.
Em essência, foi isso que ele fez, quando esteve
aqui entre nós. Nunca revelou o mínimo interesse em
uma retribuição para si. Tudo que ele era e possuía, ele
distribuiu generosamente para o bem daqueles com
quem entrava em contato. Ele andou entre os homens,
entre as multidões, entre as turbas, entre homens e mu­
lheres com grande energia, dignidade e autocontrole. E
sempre ajudando e abençoando a todos, quer em parti­
cular quer coletivamente, com sua bondade, graça e
generosidade.
Tudo que ele tinha era dos outros.
Tudo que possuía, achava-se à disposição deles.
Ele se doou ao povo, com genuína bondade.

A Influência da Bondade
Quando o Espírito de Deus entra em nossa vida,
para ali derram ar abündantemente o amor de Deus, do
qual a bondade é um# das facetas mais importantes,
nós nos transformamos em outra pessoa. A presença
de Cristo em nosso jardim modifica e refaz todo ele.

118
Percebemos realmente que, sob a influência de sua vi­
da e sua operação em nós, somos recriados. E essa
plantação produz um novo fruto — um fruto bom.
“ E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatu­
ra (criação): as coisas antigas já passaram; eis que se
fizeram novas.” (2 Co 5.17.)
Existem três razões para isso. A primeira é que a
culpa dos pecados cometidos é apagada. Depois de per­
doada e purificada pelo derramamento da vida divina
em Cristo, no seu coração, a pessoa se acha liberta do
passado, e pode começar uma vida nova, de retidão po­
sitiva e poderosa.
Não há sentido em se ficar preso ao lamaçal de
nossos erros. Não estamos mais embaraçados pelos
matinhos e preocupações de nossa antiga conduta des­
prezível. O terreno de nossa alma já foi roçado, e agora
está livre dos temores e tristes presentimentos de nossa
vida anterior.
Essa bondade que começa a brotar do solo de nosso
espírito não é realmente nossa, mas de Deus, Já não fin­
gimos ser santos. Não existe em nós nenhuma atitude
de fingimento e encenação. O que há agora é uma sim­
ples, sincera e genuína bondade, um produto sobrena­
tural da vida de Cristo em meu interior. Não é forçada
nem artificial, mas a pura manifestação da bondade e
graça do Espírito de Deus que em nós opera.
Quando isso acontece, percebemos que uma se­
gunda grande atitude de graça para com outros se ma­
nifesta também. Não somos mais aqueles falsos santos,
empoleirados em nossos altos pedestais, olhando com
grande condescendência para o nosso próximo, que se
acha abaixo de nós. Pelo contrário. Agora somos humil­
des peregrinos, andando pelos caminhos da vida, pron­
tos, ansiosos mesmo para estender a mão e ajudar ou­
tros que se encontrem nesse mesmo caminho, enfren­
tando lutas e dificuldades.
Todo sentimento de orgulho ou paternalismo para
com outros desaparece. Sabemos que, se não fosse pe­
la misericórdia de um Deus amoroso e sua graça infini­
ta para conosco, nós também nos encontraríamos nos
becos do desespero e da degradação.

119
E a pessoa boa, a alma cheia de graça e mise­
ricórdia, o coração generoso que auxilia os oprimidos
deste mundo. São eles que vão por esse mundo afora re­
compondo vidas partidas, libertando prisioneiros, cui­
dando dos que se acham marcados pelo pecado, levan­
tando os caídos, transmitindo o óleo da alegria àqueles
que sofrem, espalhando luz e gozo onde há trevas, ali­
mentando os famintos, e testemunhando as boas-novas
do grande amor de Deus para com os perdidos.
Tudo isso pode ser feito sem ostentação nem alar­
de. A bondade não precisa ser alardeada nem divul­
gada. Ela não precisa de um departamento de relações
públicas, pois ela própria é a sua melhor propaganda.
A pessoa que manifesta a genuína bondade de um
Deus cheio de graça nada tem a temer, nem a esconder,
nem a salvaguardar. Ela não precisa desculpar-se por
aquilo que faz. Suas ações brotam espontaneamente,
como a floração das frutas, provenientes da vida divi­
na que há no coração do indivíduo, atingindo sua per­
feição suprema na maturação do caráter que se torna
como o de Cristo.
Esse tipo de caráter dá origem, naturalmente, ao
terceiro aspecto da vida recriada, isto é, a sua genero­
sidade. E são essas pessoas — simples, francas, puras
— que possuem rostos francos, coração grande e mãos
abertas.
Com grande boa-vontade e alegria, elas comparti­
lham tudo que possuem com outros. Estão sempre dan­
do, espontaneamente e satisfeitas, e com grande con­
tentamento. Tudo que possuem ou venham a possuir se­
guram com a mão aberta, considerando aquilo uma
dádiva que lhes foi confiada pelo Pai celestial, e não
uma coisa exclusivamente sua, que devem agarrar e
amar avaramente. É algo que lhes vem diretamente de
Deus, para ser dado a outros que estiverem em necessi­
dade.
Seja o que for que possuirmos, em maior ou menor
quantidade, se o colocqi-mos alegremente nas podero­
sas mãos de Deus, pode ser abençoado e multiplicar-se
em mil, e vir a enriquecer inúmeras vidas. Mas se nos

120
agarrarmos àquilo, temerosamente, a dádiva acabará
ficando mirrada, tornando-se em nada, e se perderá.

A Verdadeira Bondade
É preciso que se diga que a verdadeira bondade de
Deus é muito diferente das chamadas “ boas obras” ,
praticadas com o objetivo de obter méritos diante dele.
A primeira origina-se diretamente da presença do
Espírito de Deus em nós; a outra nasce de um desejo
egoístico da pessoa que deseja ser elogiada pelos ou­
tros. Acham-se em pólos opostos.
Essa última, a justiça própria, foi que o Senhor de­
plorou com tanta veemência entre os orgulhosos escri-
bas, fariseus e saduceus. Suas acusações mais severas
foram justamente contra a falsa imagem de religiosida­
de daqueles “ santinhos” . Seus elogios mais gene­
rosos e belos foram dirigidos ao desprezado samarita-
no que demonstrou verdadeira bondade para com seu
próximo.
Como então podemos nos tornar bons, segundo a
bondade de Deus? Resumidamente, vamos citar aqui
algumas providências para a produção deste fruto.
1. Volte ao Calvário. Passe algum tempo em con­
templação da cruz. Leia em atitude de oração o relato
da crucificação. Medite sobre o quanto nossa salvação
custou a Deus, em Cristo. Na fornalha da aflição, ele
consumou um ato deveras gigantesco: foi feito pecado
para que eu e você pudéssemos ser tornados justos e
bons, segundo a sua justiça. Aceite o oferecimento que
ele nos faz. Agradeça-lhe por isso. Que ele torne essa
verdade real ao seu coração quebrantado. Deixe que
ele a implante no solo rochoso de sua alma.
2. Clame a ele para que virtualmente ocupe o ter­
reno de sua vida. Peça-lhe que seja o bom Agricul­
tor, que venha lavrar e cuidar de sua alma. Dê-lhe li­
berdade para amar você, dominar, cultivar sua vida, e
dar-lhe da sua grande generosidade. Com muita ale­
gria, ele se dará a você, com terno amor e cuidado, pa­
ra que você, por sua vez, possa fazer o mesmo por ou­
tros.

121
3. Vivendo ele em nós, temos que manter o terre­
no de nossa vida limpo, livre, desimpedido. Confesse
imediatamente, com genuíno arrependimento, qual­
quer pecado que possa colocar em risco sua operação
interior. Não entristeça seu Espírito. Permita-lhe reali­
zar sua vontade em você. Obedeça-lhe prontamente,
com alegria e simplicidade, para que se aplique em
sua conduta diária o que ele opera em seu interior.
Veja Filipenses 2.12-15.
4. Lembre-se sempre de que somos
ceptáculos de todos os dons, dádivas e atributos que
possuímos, e não os originadores deles. Tudo isso vem
de Cristo. Seja sempre profundamente grato a ele por
sua grande generosidade. Saia por esse mundo cansa­
do, e, com coração alegre, espalhe a bondade divina.
Que o impacto da bondade de Deus passe a outros por
nosso intermédio... alcançando almas aflitas. Ficare­
mos grandem ente surpresos

122
1 1

A Fé e a Fidelidade
do Cristão

Juntamente com o amor, a fé é a mais estudada e


discutida faceta da vida cristã. Tanta coisa já foi dita e
escrita sobre o assunto, que realmente não há nada de
novo para se acrescentar.
Mas talvez o leitor se surpreenda ao saber que a fé,
longe de ser algo à parte do amor, na verdade é parte
integrante dele. Não somente é concedida ao crente
como um dos frutos plenos do bendito Espírito de Deus,
mas também como um dom especial de Deus, para a
realização de atos poderosos, no seio da família de
Deus (1 Co 12.9).
Para entendermos bem a fé que nos vem de Cristo,
é importante lembrarmos, uma vez mais, que, como ela
faz parte do amor de Deus, é uma faceta do altruísmo.
Em outras palavras, quando uma pessoa exercita a fé,
e esta se manifesta em sua conduta, em seu viver, tal
pessoa dá também uma demonstração de autonega­
ção.

Ter fé, pela sua própria natureza, implica em ver o


bem nos outros.
Isso pode dizer respeito a Deus, e nesse caso, como
dissemos no capítulo anterior, o bem é personificado,
ou pode dizer respeito a outras pessoas.
Esse ato de ver, apreciar e reconhecer algo de
valor em outrem significa que estou saindo de mim
123
mesmo, para ver o bem no men próximo. Significa que
não sou mais tão egocêntrico, tão voltado para mim
mesmo, que enxergo o bem apenas em mim mesmo,
como se eu fosse o único possuidor dele.
A simplicidade desse conceito pode parecer até
absurda ao leitor. Pode até haver uma reação sub­
consciente nos seguintes termos: “ Mas é lógico que
Deus e os outros também possuem o bem!” É verdade.
Então, por que tantos parecem relutantes em reagir
positivamente a isso? Por que deixamos de nos entre­
gar a esse bem com alegre liberdade de espírito?
Afinal, isso é exercitar fé.

Fé é uma deliberada e positiva reação minha para


com o bem que há em outrem, ao ponto de eu agir em
favor dele efetivamente.
Essa atividade de minha parte significa que estou
plenamente disposto a investir algo de mim mesmo em
outra pessoa, e que estou pronto a empenhar minha
vida em todos os seus aspectos — tempo, energia,
atenção, talentos, meios, força, afeição e aceitação —
em outra pessoa. Significa que darei o melhor de mim
em favor de outra pessoa, ativa e dinamicamente.
Falar em fé que não seja isso é mera crença. É falar
em jargões religiosos que não produzem nenhum efei­
to. E, em verdade, essa espiritualidade superficial
constitui o grande mal do cristianismo. Centenas de
milhares de pessoas afirmam crer em Deus, declaram
ter fé em Cristo, proclamam ser crentes, e, no entanto,
a vida delas e sua conduta pessoal negam isso, pois
são uma mera caricatura da verdadeira fé.
A razão dessa minha afirmação é a clara e terrível
ausência de fé que se evidencia por toda a parte.
Quando o Senhor se encontrava entre nós, procurava
continuamente essa confiança dinâmica, essa aceita­
ção dele. Sempre que encontrava um pouco de fé,
mesmo que fosse um pequeno fragmento, ficava mara­
vilhado. Várias vezes, ele comentou, com alegria, que,
aqui e ali, a fé era exercitada por pessoas em quem
era menos de se esperar.

124
A Fonte da Fé
Esta fé do bendito Espírito de Deus só pode provir
da fonte do amor generoso de Deus, que é derramado
em nosso coração. Tendo sua origem nele, ela jorra
liberalmente para nós. Torna-se atuante em nosso
interior, e depois sai de nós, pela nossa autodoação,
para ele e para outros.
Foi isto que o escritor da carta aos hebreus quis
dizer quando declarou no capítulo 12.2: “ Olhando fir­
memente para o autor e consumador da fé, Jesus.’’
Esta fé é a faceta do amor de Deus que faz com que
eu me dê aos outros em fidelidade e confiança inces­
santes. Ela se expressa por um constante e contínuo
investimento de tudo que temos e somos, tanto para
Deus como para os homens. Acredito em Deus e nas
pessoas de tal forma, que estou pronto a entregar
minha vida a eles.
Se quisermos ver este tipo de vida exemplificado
claramente, não podemos olhar para os homens. Preci­
samos olhar para o próprio Deus. A fé divina tem sua
expressão mais plena e sublime em sua fidelidade para
com nós, os mortais.
Assim como seu amor, bondade, paciência e gene­
rosidade emanam dele numa fonte de bênção para nós,
assim também sua grande fidelidade jorra para nós,
em fluxo constante, diariamente. E não poderia ser de
outra forma, por causa da própria natureza de Deus.
A Palavra de Deus está cheia de afirmações sobre
a fidelidade de Deus. Apenas como exemplo, vejamos o
Salmo 36.5-9, onde, inspirado pelo Espírito de Deus,
Davi, o grande poeta e cantor de Israel, exclama:

“ A tua benignidade, Senhor, chega até aos céus, até às


nuvens a tua fidelidade. A tua justiça é como as monta­
nhas de Deus; os teus juízos, como um abismo profun­
do. Tu, Senhor, preservas os homens e os animais. Co­
mo é preciosa, ó Deus, a tua benignidade! por isso os
filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas.
Fartam-se da abundância da tua casa, e na torrente
das tuas delícias lhes dás de beber. Pois em ti está o
manancial da vida; na tua luz vemos a luz.” (SI 36.5-9.)

125
Ê válido perguntarmos, então, como Deus, o verda­
deiro Deus, que ê todo justiça, cujo caráter é imacula­
do, pode ter fé em nós, fracos seres humanos, com
nossas falhas e nossa insensatez? Como ele, que
transcende tanto nossa vida mortal, com a grandeza de
sua generosidade, pode ser fiel a nós? Por que ainda se
dá ao trabalho de doar-se a nós e conceder-nos todos
os benefícios que nos dá? Como pode ser tão generoso
e cheio de graça para com seres imprevisíveis, que
tantas vezes são infiéis a ele e a outros?
São perguntas que realmente nos humilham e nos
quebrantam.
Se as analisarmos seriamente e nelas meditarmos,
no recôndito de nosso espírito, elas poderão abater
nosso orgulho.
Há duas respostas bem simples.

A N atureza de Deus
A prim eira e mais importante é a própria justiça,
retidão, integridade e santidade de Deus. Nosso Deus é
tão santo, tão bom, tão sem egoísmo, que não pode
deixar de ser fiel. Ele é fiel devido à sua própria
constituição.
E se não houvesse outra razão, ele teria que ser fiel
a si próp rio. Ele é a verdade, e, portanto, não pode
agir senão de boa fé. Assim sendo, isso explica por que
ele se aproxima de nós em boa vontade e paz, ansioso
para derram ar esse atributo em nossa vida. Ele anseia
transmitir essa capacidade de autodoação a nós,
pessoas egoísticas e egocêntricas. Com um profundo
anelo, ele espera ver este fruto brotar em nós. Espera
pacientemente que ele cresça e amadureça, tornan­
do-se uma fé viva e ativa, uma obediência que atua
para ele e para os outros.
A razão de ele estar disposto a realizar tudo isso
não se acha basicamente em nós, como somos. (“ Não
há quem faça o bem, não há nem um sequer” — SI
14.3. “ Pois todos pecaram e carecem da glória (cará­
ter) de Deus” — Rm 3.23.) Mas ele age com base
naquilo que nós podemos nos tornar. Ele vê em nós a
possibilidade de sermos conform ados ao seu p róp rio

126
caráter. Ele, que nos criou, sabe que sob a orientação
do seu Espírito e a instrução de sua Palavra podemos
nos tornar filhos e filhas adotivos, incorporados à sua
família, crescendo espiritualmente, conformando-nos à
imagem de Cristo.
Isso não é mera teoria teológica. Não é apenas
doutrina divina. Isso realmente acontece no coração e
vida dos homens. Nós podemos renascer. Podemos ser
recriados, transformados em homens e mulheres cujo
caráter, conduta e conversação sejam como os de
Cristo. (Ver 2 Coríntios 5.15-17.)
E como tudo isso ê possível, Deus tem enorme
satisfação em ser fiel a nós. Ele tem confiança no que
pode realizar e conseguir quando opera no jardim de
nossa vida. Ele pode arrancar os velhos espinheiros e
abrolhos; pode limpar a terra retirando as pedras da
incredulidade; pode revolver a terra batida dos cami­
nhos; pode abrir nosso coração para recebermos a boa
semente de sua maravilhosa Palavra.
E ele o faz com inesgotável boa-vontade e infinita
fidelidade. No princípio, Deus criou o homem em amor,
para ser seu filho amado, e antes mesmo que a terra
fosse criada, ele já o elegera. E embora a humanidade
tenha sido devastada pela praga do pecado e do mal,
só ele sabia que, pela sua fidelidade à criação, a luz
poderia dissipar as trevas; a vida poderia derrotar a
morte; o amor poderia afastar o desespero, e a fé (sua
fé) poderia tomar o lugar de nossa infidelidade.
Tudo isso faz vibrar as profundezas de meu espíri­
to. Desperta minha confiança em Cristo, e aviva as
reações de minha alma aos toques de sua mão. Isso
produz no jardim de minha vida uma condição climáti­
ca favorável à germinação da fé genuína. Começo a
perceber que, como ele é fiel a mim, posso ser fiel a ele.
e aos outros. Como ele me amou primeiro, eu posso
amar (1 Jo 4.4-19).
O resultado mais imediato da manifestação desta fé
é que o próprio Deus fica feliz. A Bíblia afirma
claramente que sem fé é impossível agradar a Deus
(Hb 11.6).
Deus fica satisfeito quando damos uma resposta
positiva de todo o nosso ser, resolvendo fazer o que ele
127
pede; quando em fé calma e simples, concordamos em
fazer sua vontade e seus desejos; quando, com alegria,
nós lhe damos liberalm ente a nós mesmos e tudo quan­
to possuímos; quando de bom grado investimos tu­
do que temos em seu trabalho, sabendo que nossa
vida não poderia ser gasta de m aneira melhor. Ele se
alegra porque encontrou fé. Ele vê que uma boa safra
de confiança, lealdade e fidelidade está brotando no
campo de nossa vida, o qual ele cuidou e lavrou com
tanta diligência e fidelidade. É para ficarm os surpre­
sos de que ele se alegre tanto?

O Im pacto da Fé em Outros
A segunda grande conseqüência de a fé florescer
em nós é o impacto que ela causa naqueles que nos
cercam. A p esa r de as pessoas serem tão im previsíveis
e sua conduta tão inconstante, começamos a procurar
nelas o bem. A despeito de serem insinceras e insen­
satas, começamos a acreditar nelas. A p esa r dos fra ­
cassos e fraquezas humanas, começamos a vê-las
como Deus nosso Pai as vê. Olhamos para elas do
mesmo modo que o Pai olha, e começamos a enxergá-
las como o Espírito de Deus as enxerga. O amor de
Deus está sendo derram ado em nosso coração, e por
isso podemos p erceb er e discernir o potencial latente
em cada pessoa. Nossa fé não se concentra em suas
peculiaridades, mas em suas possibilidades. Pela fé,
cremos e conhecemos e temos a certeza de que, pelo
poder de Deus, elas podem tornar-se grandes e nobres.
A fé exercitada dessa m aneira produz milagres
naqueles que nos cercam. Esse tipo de fé consegue
enxergar a melhor faceta de cada situação, e procurar
a aura prateada, mesmo nas nuvens mais escuras. Ela
procura o menor indício de honra e dignidade. Ela crê
que, para Deus, tudo é possível. Por isso m archa em
frente, perm anece firme, continua leal, mesmo em
meio a reveses e decepções. Essa fé é estável, mesmo
em face de experiências abaladoras, pois seu olhar
está fixado naquele que é fiel, e não no caos e confusão
das circunstâncias que nos cercam .
É nessa atm osfera de confiança em Cristo que o fiel
(uma pessoa cheia de fé) vive tranqüilam ente com
128
energia, serenidade e equilíbrio. Ele não se deixa
abalar por ventos tempestuosos, nem pela instabilida­
de de conduta daqueles que o cercam. Com toda a
calma, mansidão, sem alardes, ele simplesmente se dá
continuamente a Deus e aos outros. E ele faz isso por
meio de centenas de pequenos atos, sem ostentação,
nos quais sua vida é gasta em favor dos outros, porque
crê neles e no que Deus pode fazer.
Em sua obra clássica sobre o amor de Deus, The
Greatest Thing in the W orld (A maior coisa do mundo),
Henry Drummond aborda esse conceito em linguagem
comovente: “ Se pensarmos um pouco, veremos que as
pessoas que nos influenciam são aquelas que acredi­
tam em nós. Numa atmosfera de suspeitas, as pessoas
ficam mirradas; mas, onde há confiança, elas se
expandem, encontram incentivo e têm uma relação
mais construtiva. É maravilhoso saber que, aqui e ali,
nesse nosso mundo duro e descaridoso, ainda existem
pouquíssimas pessoas que não pensam sempre o pior a
nosso respeito. Essa é a verdadeira espiritualidade. O
amor ‘é benigno’ , não vê segundas intenções nos atos;
enxerga sempre o lado positivo das coisas, e dá sempre
a melhor interpretação a tudo. Que maravilhosa atitu­
de mental para se ter continuamente! Que estímulo e
bênção será encontrá-la, mesmo que seja apenas por
um dia! Ser alvo da confiança de alguém, é ser salvo.
Se tentarmos influenciar ou soerguer outras pessoas,
veremos que o sucesso delas cresce em proporção à
confiança que depositamos nelas. O principal fator
para a restauração do respeito próprio que alguém
perdeu é justamente o respeito de outrem por ele. O
ideal que temos acerca de uma pessoa torna-se para
ela um modelo, um alvo a ser atingido.”
Essa fé remove as montanhas da inércia e da
maldade nos outros. Destrói preconceitos e impossibili-
dades. Essa fé é um fruto do bendito Espírito de Deus,
que opera no sentido de adoçar este nosso mundo
amargo. Ela remove a suspeita e a desconfiança, colo­
cando em seu lugar a amizade, esperança e alegria.
Faz com que nossos amigos, familiares e até conheci­
dos ocasionais se sintam soerguer. Leva o cínico e

129
cético a abandonar seu cinismo e caminhar para a
salvação.
Infelizmente, temos de reconhecer que não há
muito dessa fé no mundo de hoje. Aliás, esse atributo
está-se tornando bastante raro. Seja onde for que o
procuremos — em casa, em fam iliares, nos negócios,
na igreja, em nações ou indivíduos — ela é rara. A s
virtudes da lealdade profunda, da confiança mútua e
fidelidade constante, que são facetas da fé em ação,
estão desaparecendo rapidam ente de nossa socieda­
de. Não nos surpreende nem um pouco o fato de o
Senhor haver levantado essa questão: “ Quando vier o
Filho do homem, achará porventura fé na te rra ? ” (Lc
18.8.)
A fé se manifesta — ou não se manifesta — nas
mesmas proporções que a abnegação. E realm ente
essa é a verdade. Se estiverm os preocupados apenas
com nossos interesses egoísticos, o amor (o amor de
Deus), com o resultante atributo da fé, não operará.
Por outro lado, se a fé for ativa em nós, afetará
toda a nossa existência. Seremos como mordomos, a
quem foram confiados tempo, talentos, meios e interes­
se, a serem utilizados em favor de Deus e de nosso
próximo. A nós foram confiadas imensas responsabili­
dades, que poderão beneficiar e enriquecer a geração
em que vivemos. Espera-se de nós que sejamos fiéis
mordomos de tudo que foi colocado à nossa disposição,
para o soerguimento e encorajamento de nossos con­
temporâneos. Temos o alto privilégio e a satisfação de
nos dar a nós mesmos e aquilo que temos a um mundo
em desespero. Tudo isso é parte prática e integrante
da fé viva em ação.
Esse tipo de fé provém de Deus. Se não a possuí­
mos, devemos pedi-la a ele. Ele insiste em que o
busquemos ousadamente, pedindo-lhe os seus precio­
sos dons (Lc 11.9-13). E ele concede realm ente seu
Espírito àqueles que solicitam sua presença, e se
acham preparados para obedecer de todo coração à
sua vontade. (A t 5.32.) Ele não sonega nenhum bem
àqueles que buscam sua fé com toda a sinceridade. Ele
é fiel!
E à medida que vamos vendo essa fidelidade de­
130
monstrada para conosco, diariamente, pelo Pai amoro­
so, em milhares de situações, a nossa fé nele também
se fortalece e aumenta. Da mesma forma, ela nos
motiva a termos fé naqueles que peregrinam conosco
pelas estradas pedregosas da vida. E nos poremos lado
a lado com eles, ajudando-os a carregar seus fardos,
alegrando-lhes o espírito e inspirando-os.
Esse tipo de fé brota de uma consciência pura. Se
nossa visão de Deus for clara e límpida, a imagem que
fazemos dos outros não será distorcida e embaçada.
Veremos claramente nossa responsabilidade tanto pa­
ra com ele como para com os homens. E em harmonia
com essa visão, agiremos sempre em boa fé. Não
permitindo que nada se interponha entre nós e os
outros, andaremos sempre na luz, como ele está na
luz.
Em cada situação que se nos apresentar, podere­
mos contar com a presença fiel e vigilante de Deus, pa­
ra guiar-nos e capacitar-nos na tomada de decisões e
nas ações. Aquele que prometeu: “ Eis que estou
convosco todos os dias, até a consumação do século” ,
será fiel à sua palavra, a si mesmo e a nós.

131
12

Humildade: Mansidão
e Brandura

N a crueza e confusão de nosso escabroso século


XX, a humildade mal pode ser considerada uma virtu­
de. Atributos tais como mansidão e brandura não são
qualidades que as pessoas procuram, se desejam
vencer na vida. Somos um bando de gente apressada,
do min adora, permissiva, que, desde o berço (se é que
ainda existem berços) já está empurrando, berrando,
lutando para passar à frente dos outros — e fincar o
pé no topo da escada do sucesso.
Brigamos bravam ente pelos nossos direitos, acredi­
tando na estranha ideologia de que a melhor coisa
desse mundo é ser grande, corajoso e ardoroso. A d ota­
mos a idéia de que, já que ninguém vai tocar nossa
trombeta, nós mesmos a tocaremos, bem alto, e por
bastante tempo. Estamos plenamente convencidos de
que, se não deixarmos nossa m arca no mundo, sere­
mos esquecidos na multidão — apagados da lembran­
ça do mundo, pelas massas que circulam ao nosso
redor.
Desde o instante em que damos o prim eiro passo,
vacilantes, ainda bebezinhos, recebem os a ordem:
“ Fique de pé sozinho” . Somos incentivados a “ vencer
por nós mesmos” , a tomar nossas próprias decisões. E
assim nos ensinam a ser agressivos, autoconfiantes e
a nos auto-afirmarmos. E Ficamos certos de que todos
132
esses atributos nos levarão ao sucesso e à grandeza.
Assim sendo, recebemos um grande choque, quan­
do ouvimos o Senhor declarar: “ Aquele que se humi­
lhar como esta criança, esse é o maior no reino dos
céus.” (Mt 18.4.)
Parece que nossa sociedade pensa que humildade e
grandeza são duas coisas que se excluem mutuamente.
Por isso, muitos crentes se vêem diante da necessidade
de fazerem alguns ajustamentos de ordem mental,
emocional e volitiva, nessa questão. De que lado está a
verdade? Onde está o segredo do sucesso? Vamos
adotar a posição de nossa cultura, ou a difícil proposta
de Jesus Cristo que afirmou claramente: “ M as o maior
dentre vós será vosso servo” ?
O texto de 1 Coríntios 13.4,5 não usa de rodeios
para dizer que o amor “ não se ufana, não se ensober-
bece, não se conduz inconvenientemente, não procura
os seus interesses” . A natureza do amor de Deus, que
é abnegado e modesto, impede que ele fique pavonean-
do e exibindo-se pomposamente. Ele não tem nada a
ver com esse tipo de atitude. Não é orgulhoso, arrogan­
te, nem se ufana de sua própria importância.

A Essência da Humildade
Esta qualidade de vida que produz a verdadeira
humildade no espírito humano nos dá uma visão equili­
brada de nós e dos outros. Enxergamos a grandeza e a
bondade de Deus e dos que nos cercam. Da mesma
forma, ela nos capacita a nos vermos a nós mesmos
como realmente somos. Vemos nossa insignificância,
em relação à grande massa da humanidade, mas, ao
mesmo tempo, percebemos que temos grande valor
para Cristo, que nos chamou das trevas para a luz do
seu amor. Vemos a nós mesmos como pecadores, mas
ao mesmo tempo como aqueles que foram salvos do
desespero, para se tornarem filhos de Deus.
Então, é a generosidade de Deus, a bondade de
Cristo, e a paciente perseverança do seu Santo Espíri­
to que nos levam para ele, e humilham nosso coração
altivo. É a intensidade da compaixão de Cristo que
esmigalha a dura crosta de egoísmo que se forma em
torno de nosso caráter. Ê a penetração de seu terno
133
Espírito em nosso coração que remove dali a arrogân­
cia e a constante preocupação com nós mesmos. E
assim ficamos carregados de frutos de humildade e
mansidão.
Há um velho ditado entre fruticultores que diz o
seguinte: “ Os galhos mais carregados de frutos tam­
bém são aqueles que ficam mais baixos.” Na conduta
humana acontece o mesmo.

Fraqueza, Não; Mansidão


Homens mansos não são homens fracos. As pessoas
mansas são agradáveis, tratáveis e de fácil convivên­
cia. Esses indivíduos afáveis, de bom gênio, conquis­
tam amigos em toda a parte, pois se negam a forçar os
outros ou pisar neles. Não ganham batalhas pela força
bruta ou pela luta. Conquistam um lugar no coração
das pessoas e nos lares, com o passaporte de um
espírito humilde e terno.
A singularidade de seu caráter é a mansidão. Essa
qualidade de vida não se origina de uma atitude de
fraqueza e incapacidade, mas de uma enorme força e
serenidade interior. Somente um espírito forte e firme
pode condescender em ser manso. É o sublime Espírito
do Deus vivo quem nos concede a capacitação para
expressarmos um interesse e compaixão genuínos pe­
los outros. É a autodoação abnegada dele que nos per­
mite tratar os outros com cortesia e consideração. E
essa atitude ultrapassa o mero verniz da educação su­
perficial e da conduta adequada.
Mas esse tipo de humildade, mansidão e brandura
custa um alto preço. Não se trata de uma mera
conveniência de que lançamos mão, a fim de alcançar­
mos nossos objetivos egoísticos. É a essência de uma
vida dedicada, consagrada, vivida para os outros.

A Mansidão de Deus em Cristo


Se quisermos ver o melhor exemplo de humildade,
complacência e mansidão, temos que olhar para o
Senhor. Em Filipenses 2.1-11, o apóstolo resumiu esse
tipo de vida em versos curtos, diretos e admiráveis.

134
“ Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu,
senão também cada qual o que é dos outros. Tende em
vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo
Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus não
julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si
mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo,
tornando-se em semelhança de homens; e, reconheci­
do em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornan­
do-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que
também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome
que está acima de todo nome.” (Fp 2.4-9.)
Uma complacência e autodoação tão grandiosas
fazem com que o nosso espírito se cale em sua presen­
ça. Até que ponto ele foi, para identificar-se conosco,
pobres mortais que vivemos nos debatendo no lamaçal
do pecado! A té onde ele desceu, para livrar-nos do de­
sespero! Que humilhações suportou voluntariamente,
a fim de resgatar-nos e redimir-nos, tirando-nos das
garras do inimigo de nossa alma!
Ê verdade! Conhecer e experimentar a verdadeira
humildade custa um alto preço para aquele que se
propõe a isso. Para a maioria das pessoas é um preço
proibitivo. Elas simplesmente não querem pagá-lo. A li
ocorre o fenômeno da “ resistência de consumidor” , e
com isso a mansidão e brandura que deveria haver
entre nós sofre uma diminuição.
Simplesmente não desejamos perder nosso bom
nome.
Não queremos a parte do “ servo sofredor” .
Recusamo-nos a ser um “ capacho” , onde os outros
possam limpar os pés sem a menor consideração.
Não nos entusiasma a idéia de nos envolvermos
com os fracos e infelizes.
Não nos sentimos atraídos pelo “ homem de dores” .
Ele não possui nada de atraente. Como fazem tantos
outros, temos a tendência de rejeitar e desprezar essa
atitude de submissão.
Em conseqüência, no jardim de nossa vida, brota
uma mistura de frutos do mato. De um lado, há partes
de nossa conduta que são marcadas pela presença do
orgulho, auto-afirmação, arrogância, auto-satisfação
e áspera agressividade. Essas coisas, muitas vezes,

135
subjugam os frutos do Espírito de Deus, que são mais
tenros. Elas se alastram por eles, quase os sufocando
e matando.
Se não mantivermos os olhos sempre fixos na vida e
caráter de Cristo, sucumbiremos à eterna tentação de
viver como nossos contemporâneos — pagando olho
por olho e dente por dente, brigando pelos nossos
direitos, exigindo o que nos é devido, pisando em quem
nos ofender, e procurando sempre ganhar proeminên-
cia e reconhecimento. Essa é a maneira de agir do
mundo. Mas Cristo nos conclama a seguir suas pisa­
das. Ele nos diz para negarmos a nós mesmos diaria­
mente (desistirmos de nossos direitos). Pede que tome­
mos nossa cruz continuamente (e isso acha-se diame­
tralmente em oposição a meu egoístico interesse pró­
prio) e que cortemos de nossa vida o grande “ eu” ,
para que tenhamos paz.
Nada disso é agradável nem atraente.
É contrário à textura de nossa natureza.
Não é nem belo nem romântico.

Os Benefiícios da Mansidão
Entretanto, seus frutos trazem três benefícios fan­
tásticos, que a maioria das pessoas nunca vem a
conhecer. São os seguintes.
1. A humildade é a única base da qual pode brotar
a fé. A alma orgulhosa, pomposa, segura de si, não vê
necessidade de Deus ou dos outros em sua vida. Essas
pessoas “ vencem por si próprias” , ou pelo menos é o
que ingenuamente pensam. Só têm fé em si mesmas.
Acabam desiludidas, egocêntricas, solitárias e sua
própria autocompaixão zomba delas.
Mas a pessoa humilde clama pelo auxílio de Deus
em quebrantamento e contrição de espírito. Busca
em Cristo a restauração e a cura de seus males.
Exercita a fé em outros, pois reconhece que precisa
tocar alguém que é maior que ela. Da mesma forma,
procura outros a quem possa servir, e, em seu traba­
lho sofrido, encontra auto-realização e liberdade para
a alma.
2. É a essas almas que Deus se dá liberalmente e
com alegria. Ele se aproxima daqueles que se aproxi­
136
mam dele. Ele se deleita em habitar com os de espírito
quebrantado e contrito. “ Perto está o Senhor dos que
têm o coração quebrantado (humilde]; e salva os de
espírito oprimido (manso).” (SI 34.18.)
A razão disso é tão óbvia, que a maioria das
pessoas não a enxerga. Deus, que é um ser de amor
desinteressado, só pode sentir-se bem e estar em
harmonia com uma pessoa que também tem espírito al-
truístico. Assim não poderá haver conflitos. Tudo é
paz; tudo está bem.
A Bíblia nos diz que Deus resiste ao soberbo,
mostrando um vivo e marcante contraste com a situa­
ção acima exposta. Ele não apenas tolera, ou tem
complacência para com a alma arrogante, mas ele se
opõe a ela ativamente. É um fato estarrecedor, que
deve fazer estrem ecer todo indivíduo egocêntrico e
orgulhoso (ver Tiago 4.4-10).
Como é triste compreender que, pelo nosso orgulho,
estamos sofrendo uma resistência de força diam etral­
mente oposta, por parte de nosso Deus, que é tão
altruísta e abnegado. E essa situação é inevitável, pois
as duas coisas se excluem mutuamente, e sistematica­
mente se opõem uma à outra.
Como é terrível descobrir que, em vez de seguir
pela vida auxiliados por Deus, estamos aqui lutando e
sofrendo a “ oposição” dele. Não admira que não
obtenhamos sucesso.
3. Mas em forte constraste com isso, a terceira
realidade surpreendente acerca da humildade é o
impacto que ela produz sobre o nosso próximo.
A pessoa realmente humilde conquista amigos e
atrai para si um círculo de companheiros amáveis.
Essa qualidade atrai os outros, assim como o mel de
uma flor atrai as abelhas.
A pessoa mansa e de bom gênio é alvo da afeição de
todos. Os outros a abençoam. Ela é cumulada de amor,
cercada de compaixão. Onde quer que vá, portas e
corações se abrem de par em par, numa acolhida
afetuosa à sua bela presença.
M as o orgulhoso, arrogante e altivo tem poucos
amigos, se é que os tem. Ele fica ali, de pé sobre o seu
pequeno pedestal de orgulho, em triste e m iserável
137
solidão. Os outros o deixam sozinho. Ignoram-no deli­
beradam ente. Já que é tão independente, que viva sua
vida; que siga seu caminho; que sofra a agonia de seu
próprio egoísmo.

A Humildade ê Uma Prática Diária.


Tenho sempre em minha carteira, um velho e
am arelecido recorte de jornal, que me acompanha em
minhas viagens pelo mundo há trinta anos. N ele lê-se o
seguinte: “ Pode ser que a velha ordem se modifique
para dar lugar à nova, mas, alguns princípios funda­
mentais deverão perm anecer, com a passagem do
tem po.” Um leitor enviou-me um trecho de um livro
intitulado Quite a Gentleman (Um cavalheiro), escrito
há cem anos atrás.
Diz o seguinte: “ Eis aqui uma lista de pequenas
características pelas quais podemos distinguir um
cavalheiro entre a multidão de homens comuns. Ele se
preocupa com detalhes; responde imediatamente às
cartas que recebe; reconhece prontamente um ato de
bondade que lhe é dirigido; é grato por pequenos
favores; nunca se esquece de pagar suas dívidas, nem
de apresentar um pedido de desculpas, quando neces­
sário. Ê pontual, ordeiro, e tudo o que pega para fazer,
faz da melhor maneira possível e de todo o co ra çã o .”
O leitor pode indagar: “ O que pontualidade tem a
ver com o fato de ser cavalh eiro?” Ou então: “ O que
responder cartas imediatamente tem a ver com amor
e com o fruto do Espírito chamado mansidão?”
Vou explicar. Depois de tudo dito e explicado,
veremos que os frutos do bendito Espírito de Deus
devem expressar-se através dos fatos simples de nossa
conduta diária. Eles não são apenas teoria e teologia.
A pessoa que sempre chega atrasada em tudo está
revelando com isto que não se preocupa com os
inconvenientes que pode causar a outrem. Com esse
ato, ela está dizendo, não em palavras, mas com seu
comportamento: “ M eu tempo é mais importante que o
seu! Você pode esperar! Pode perder tempo. Não tem
im portância!” Vemos aqui o egoísmo, egocentrismo,
orgulho e arrogância dirigidos para outrem, numa
138
conduta leviana. É exatamente a antítese do amor de
Deus.
A pessoa irresponsável com relação à resposta de
sua correspondência é igualmente egoísta. As descul­
pas que dão normalmente são muito reveladoras: “ Não
tive tempo. Estava muito ocupado. Não consegui dar
um jeito para responder. ” Note como o eu aparece com
freqüência. Com essas palavras, essas pessoas estão
dizendo o seguinte: “ Não me importo quanto tempo
você tenha de aguardar. Não me importo se você se
preocupar com a falta de notícias minhas. Estou tão
ocupado comigo mesmo, que não tenho tempo para
você. Não me sinto responsável pela sua paz de
espírito.”
Muitos crentes têm a idéia de que os frutos do
Espírito são algo de místico, mágico, uma espécie de
clarão super-espiritual, que penetra em nossas emo­
ções e mente, tornando-nos pessoas super-espirituais.
Não é verdade.
Os frutos do Espírito de Deus são semeados no
terreno de nossa alma pelo seu Espírito. E aquilo que
ele operou em nosso interior, temos que manifestar no
exterior. Aquilo que ele nos revela como certo e
adequado, temos obrigação de pôr em prática. Não
somos santos feitos de gesso.
Como pessoas que livremente resolveram fazer a
vontade de Deus, nós concordamos em realizar seus
desejos. Deliberamos buscar sua face — servir a
outros e negar a nós mesmos. Temos que considerar o
custo disso — temos um preço a pagar. Temos que
m orrer diariamente para o nosso eu.
Se precisarmos de um incentivo e de uma inspira­
ção para vivermos essa vida consagrada, devemos
olhar apenas numa direção: para Aquele que nos
amou e se deu por nós.
“ Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua
vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.”
(IJ03.I6.)
É um caso mais que claro de causa e efeito, e não
uma fórmula ou técnica complicada. Aliás, somente
depois que todo o impacto da entrega que Cristo fez de

139
sua vida consegue atravessar a dura crosta que cerca
nosso coração egoísta, ê que a humildade poderá
tomar o lugar de nossa desprezível e constante preocu­
pação com nós mesmos. Somente então é que a força
da presença da humildade em nós remove o egoísmo,
dando-nos a capacidade de sair por esse mundo fe ri­
do, sofrido e sangrento, na função de servos sofredo­
res.
A humildade de Cristo, a mansidão de seu precioso
Espírito e a brandura de nosso Deus, só poderão ser
vistas, sentidas e experimentadas por esse mundo
endurecido através da vida do povo de Deus. Se qui­
sermos que a sociedade do século XX encontre a Deus,
terá que ser pela operação na vida de seus filhos. É
neles que seus frutos devem crescer abundantemente.
É neles que eles devem ser vistos.
Quando meditamos demoradamente na grande ge­
nerosidade de Deus em Cristo, humilhando-se por
nossa causa, nosso coração frio deve se aquecer e ser
inundado com o calor de seu amor. E com um enorme,
transbordante e espontâneo senso de gratidão, deve­
mos viver perante os outros em humildade e mansidão,
servindo-os com sinceridade e verdadeira simplicida­
de. Assim como o Pai enviou o Filho ao mundo, assim
também ele nos envia a servir uma sociedade enferma
pelo mal.
E podemos fazê-lo sem pompa e sem segundas in­
tenções. Podemos fazê-lo andando com Deus, humilde,
calma e mansamente. Talvez isso espante uma socie­
dade cética. Afinal, não é esta a atitude normal. Não
conquista aplausos nem medalhas. M as pode muito
bem ganhar algumas almas para o Salvador.
Não será uma vida suave e sem tropeços. M as é a
menos cansativa; é a vida de paz. É a melhor vida.

“ Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecar­


regados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu
jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde
de coração; e achareis descanso para as vossas al­
mas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”
(Mt 11.28-30.)

140
13

Domínio Próprio:
Temperança, Moderação

Domínio próprio, temperança, moderação, auto­


controle — todos estes termos são empregados para
definir o último dos nove frutos do Espírito, listados em
Gálatas 5.22,23. Para expressar isso na terminologia
de 1 Coríntios 13.1-7, citaríamos as frases: “ Não se
conduz inconvenientemente” , ou então: “ Não age de
maneira inadequada ou imprópria.”
Pode parecer muito simples e um tanto pomposo,
mas é muito difícil de se colocar em prática na vida
diária.
O domínio próprio pode ser a última faceta do amor
de Deus mencionada na lista, mas isso certamente não
quer dizer que seja a menos importante.
Sem dúvida, podemos dizer com toda justiça que é
um dos aspectos da conduta, caráter e conversação
cristãos que apresenta maior dificuldade para a maio­
ria das pessoas. Dos frutos que deve haver no pomar
de nossa vida, talvez este seja o mais cheio de man­
chas, de irregularidades e de produção mais incerta.
Em algumas situações, nos comportamos da manei­
ra mais exemplar e elogiável possível. Mas em outras
ocasiões, nos conduzimos de modo pior que os animais.
Há dias em que parecemos agir sempre decente e
dignamente. Em outros, parecemos mais um vulcão em
erupção, soltando veneno e violentas injúrias. Se nos
examinarmos com muita sinceridade e um espírito
141
im parcial, veremos que, muitas vezes, como explica o
apóstolo Tiago com tanta ênfase, da mesma fonte
interior procedem água doce e amarga. Ou então,
para em pregar a linguagem do Senhor Jesus, a terra
de nossa personalidade produz uvas e abrolhos, figos e
espinheiros.
Quantas vezes a coerência e credibilidade não são
tão visíveis em nós. Ou, como expressou o profeta da
antigüidade, o agricultor veio à sua vinha, desejando
encontrar uvas doces, e, em lugar disso, encontrou
apenas uvas bravas:
“ Agora cantarei ao meu amado, o cântico do meu
amado a respeito de sua vinha. O meu amado teve uma
vinha num outeiro fertilíssimo. Sachou-a, limpou-a das
pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no
meio dela uma torre, e também abriu um lagar. Ele
esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas.”
(Is 5.1,2.)

Esse tipo de fruto só serve para irritar a gente.


Colocando isso em linguagem simples, em lingua­
gem de leigo, poderíamos dizer que, em vez de sermos o
povo de Deus, povo que fala as palavras dele, e faz as
obras dele no mundo, freqüentemente nos colocamos
fora do controle dele, vivendo segundo a nossa própria
vontade, seguindo nossos próprios e errados cami­
nhos.

O Caráter do Domínio Próprio


O que as Escrituras querem dizer quando falam em
domínio próprio? O que é a verdadeira temperança?
Qual é o significado da genuína m oderação na vida do
homem? Ela pode ser produzida nele? Pode ser cultiva­
da? Ou seria tudo apenas uma dessas enganosas
fantasias que nos aparecem na vida diária, onde nos
defrontamos com milhares de tentações para deixar­
mos as auto-restrições, e vivermos à larga?
Antes de respondermos a essas perguntas, precisa­
mos esclarecer bem uma coisa. O que chamamos
“ domínio próprio” não é o mesmo conceito do que o
mundo chama de estoicismo. Não se trata de uma
severa atitude espartana. A idéia aqui não é a amarga

142
e rígida tese de cerrar os dentes, e suportar a vida com
frio cinismo, nem é aquela concepção de “ agüentar
firm e” . O autocontrole proposto ao filho de Deus não
implica em uma autodisciplina severa para que ele
possa controlar sua conduta.
Não, não, não. Não é isso, não.
O domínio próprio do cristão significa que todo o
seu “ eu” , seu ser, seu corpo, alma e espírito, encon­
tram-se sob o controle de Cristo. Significa que ele é
uma pessoa totalmente governada por Deus. Toda a
sua vida, cada aspecto dela — espiritual, moral ou
físico — acha-se sujeito à soberania do Espírito de
Deus. Significa que ele é “ um homem sob autoridade” .
O controle de seus interesses, atitudes, ações, consti­
tui um direito que ele cedeu e entregou ao Espírito de
Deus.
Para explicar isso usando a figura do jardim,
diremos que o bom Agricultor entrou pelo portão. Todo
o solo de nosso jardim pertence a ele, para fazer o que
quizer. Ele tem o direito de produzir o que quizer, da
maneira que quiser, sem quaisquer empecilhos. Ele é o
único que tem o direito de controlar a produção da
plantação. É ele quem decidirá o que irá ser plantado
em cada área do terreno.

Cristo — um Homem sob Controle


Se quisermos ver como opera esse princípio do
controle divino, seu melhor exemplo não se acha em
outros seres humanos. Até mesmo os melhores cren­
tes, por vezes, apresentam problemas nesse sentido. O
melhor dos homens tem pês de barro. O maior dos
santos, às vezes, tem atitudes mesquinhas.
Devemos olhar para o próprio Deus. E a melhor
manifestação de Deus é Cristo. Quando ele esteve aqui
entre nós, disse claramente: “ Quem me vê a mim, vê o
P ai.” (Jo 14.9.)
Foi ele quem afirmou várias vezes que se achava
completamente sob o controle do Pai. Ele veio à terra
para fazer, não a sua vontade, mas a do Pai. As
palavras que disse não eram suas, mas do Pai. As
obras que realizou eram as obras de Deus. E justa­
mente por causa desse “ controle interior” , por sua
143
vez, ele sempre se achava no controle de todas as
situações que enfrentou.
Onde quer que Cristo fosse, quem quer que encon­
trasse, em quaisquer circunstâncias, o mais notável
fato de sua vida é que ele sempre estava no controle da
situação. Nunca foi pego desprevenido; nunca foi
apanhado numa crise. Nunca foi manobrado contra
sua vontade; nunca esteve à m ercê da turba. Mesmo
durante os momentos terríveis, desesperadores e dia­
bólicos que m arcaram suas últimas horas, desde o
instante da traição até aquele em que seu corpo ferido
pendia de uma horrível cruz romana, ele agiu sempre
com uma energia calma, com enorme dignidade e com
majestosa força interior. Perante os fariseus, sadu-
ceus, escribas, mesmo perante Judas, o traidor, peran­
te os sumos sacerdotes, o sinédrio, perante o ardiloso
Rei Herodes, e o oportunista Pilatos, os cruéis soldados
romanos, as multidões sedentas de sangue nas ruas
de Jerusalém, Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus,
sempre esteve em perfeito controle da situação.
E isso aconteceu porque era controlado por Deus.
Em meu livro h
R
aobni, escrevi a respeito
assunto mais prolongadamente. Por isso não irei alon-
gar-me aqui.
Mas é preciso que se diga, com muita ênfase, que
se não sabemos por que nossa vida se acha tão em ara­
nhada, se não sabemos por que parece existir u-
ma selva em nosso interior, e se o solo de nossa alma
parece estar coberto de uvas bravas, que crescem des-
controladamente, é simplesmente porque não permiti­
mos que nossa vida seja colocada sob o controle do
bom Agricultor.
Simplesmente não queremos que ele interfira na
cultura do terreno de nossa vida. Preferim os seguir
nosso próprio caminho, forjar nossa própria carreira,
fazer o que nos agrada, cultivar nossas uvas bravas,
viver perdidos entre os espinheiros e abrolhos da
autodeterminação. Em nossa insensatez, achamos que
podemos controlar, nós mesmos, nosso destino, mas
acabamos descobrindo que nossa vida não passa de
um grande fracasso.
Entretanto, eu gostaria de fazer uma pausa aqui
144
para lem brar ao leitor que, apesar de nossos extravios
voluntários, Deus não nos risca de seu livro, como se
nos considerasse irrem ediavelm ente perdidos. Não.
Ele não nos afasta desgostoso, nem nos espera com
fortes injúrias pelos nossos pecados. Ele não retribui
nossos pecados com maus tratos e maldade. Leia o
Salmo 103.
Se ele o fizesse, onde estaríam os a essa hora?
Em vez disso, ele se aproxim a com seu m aravilhoso
e generoso autocontrole, querendo penetrar em nossa
alma confusa e assumir o controle de tudo. Ele deseja
ansiosamente uma chance de govern ar nossa vida
como Deus, e Deus verdadeiro. Está ansioso para
colocar ordem no caos de nosso caráter. Ele deseja
tornar-se nosso Senhor, M estre, Rei, o único que pode
controlar devidam ente os incultos terrenos de nossa
vida. Ele, o maravilhoso Espírito do Deus vivo, irá en­
trar de bom grado no terreno do nosso ser, para ali
exercer sua grandiosa soberania, de form a que possi­
bilite a realização de seus propósitos para nós, como
filhos dele.
Em tudo isso há uma imensa esperança.
O domínio de nosso ego não é um mero sonho. Pode
concretizar-se. Pode ir-se tornando, pouco a pouco,
nosso modo de viver.

Controlado por Cristo


Todo o nosso espírito, intuição, consciência e co­
munhão com Cristo pode ser colocado sob o controle
do bendito Espírito de Deus. Toda a nossa personalida­
de — mente, emoções e vontade — pode fica r sob o
domínio de Cristo. Todo o nosso corpo — com seus
apetites, impulsos, desejos e instintos — pode vir a ser
governado por Deus. É possível termos uma vida santa,
com m oderação e tem perança nos momentos de p rova­
ção.
M as há um preço a ser pago.
A paz interior e a energia exterior custam um alto
preço. Justiça e retidão em nosso relacionam ento com
Deus, com os outros e com nós mesmos não é algo que
ocorre naturalmente. N ão é algo que simplesmente
145
acontece a uma pessoa. O processo pelo qual uma
pessoa passa da antiga vida de comportamento desor­
denado e descontrolado, para uma vida de serenidade
e estabilidade é bastante severo.
Isso implica em desistir de nossos direitos. Não
basta apenas sonhar em se ter uma personalidade
agradável. Ê algo que afeta nossas bases, quando de­
sistimos de governar a nós mesmos e nos entregamos a
Deus, irrevogavelmente.
Num livro como este, não temos a intenção de
entrar em todos os detalhes relativos a uma entrega
desse tipo. Todos nós logo descobrimos quais as áreas
de nossa vida que ainda não entregamos totalmente a
Deus, para que ele tenha controle absoluto.
Mas vamos analisar, rapidamente, pelo menos, a
alma, isto é, nossa mente, emoções e vontade (disposi­
ção).
Nossa mente e imaginação pode se tornar um
verdadeiro monstro dominador. As vezes permitimos
que ela monopolize toda a nossa visão da vida. Forma­
mos idéias tão contrárias ao que é bom, que nem
mesmo Deus penetra em nossa mente. Ele fica impedi­
do de entrar em nosso raciocínio, e nas tolas e por
vezes ímpias imaginações a que nos entregamos. Os
dominadores de nossa mente são o orgulho e a preocu­
pação com nosso eu. Nossos dias e até mesmo alguns
de nossos sonhos são totalmente devotados a objetivos
e ambições egoísticas. O bendito Espírito de Deus não
pode dar nenhuma contribuição ao nosso pensamento.
E no entanto a Palavra de Deus deixa bem claro que
nossos pensamentos, mente e imaginação devem e
precisam ser renovados (Rm 12.1-3). Nós mesmos não
temos capacidade de nos aperfeiçoarmos nisso. Temos
realmente que entregar a Deus esse trecho do jardim
de nossa vida. Ele é quem deve entrar nele e efetuar as
mudanças. Ele pode alterar completamente a direção
de nossa mente.

Uma Oração de Submissão


É perfeitamente correto fazermos uma petição ver­
bal em voz alta, nos seguintes termos: “ Senhor, estou

146
aqui com meus pensamentos confusos e minha imagi­
nação desordenada. Eu os entrego a ti. Toma-os sob
teu controle. Ocupa esse terreno de minha vida.
Apodera-te deste pedaço de terra tão problem ático. Eu
o entrego a ti, para que tu o governes. Domina-o,
Senhor. Que eu passe a ter os teus pensamentos. Faz
com que meus interesses se concentrem em ti. Que
minha atenção se fixe naquilo que é belo, verdadeiro,
digno e elevado. Reforma-me conforme desejares!”
Não é uma oração simples e fácil, se for feita com
sinceridade.
Esse monstro que é a nossa mente pode rebelar-se
contra esse pedido.
M as se fizerm os essa entrega total, genuína e
sinceramente, as conseqüências serão maravilhosas.
Cristo tom ará o controle dela.
É preciso que se diga aqui que toda e qualquer área
de nossa vida que entregarm os a Cristo sinceramente e
de todo o coração, ele a tom ará para si. Isso não signi­
fica que sempre haverá mudanças súbitas e drásticas.
M as é certo que haverá um crescim ento em santidade,
gradual e brando. Frutos e flores não brotam e cres­
cem de um dia para outro. O processo é lento, mas
constante, havendo prim eiro a floração, depois a
form ação do fruto, e depois o amadurecimento dele.
Assim como um belo cacho de uvas roxas não é
produzido em uma semana, assim também a nossa
mente não am adurece de um momento para outro.
O controle do Espírito também é essencial na esfera
de nossas emoções; é absolutamente necessário. Se
não for pela sua preciosa presença em nós, nossos sen­
timentos podem ser verdadeiros tiranos. Devido ao
constante fluxo e refluxo dos inter-relacionam entos
humanos, as tensões causadas por pessoas mais im­
previsíveis tornam nossa vida um completo labirinto de
emoções.
N a verdade, nunca podemos saber com certeza
quais os novos e difíceis problemas que cada dia nos
trará. Sempre estamos nos relacionando com pessoas
desconhecidas e situações novas. Muitas vezes, nossas
ações e reações não são governadas por Deus, mas
pelo nosso egoístico interesse próprio. Podemos estar
147
abrigando todo tipo de atitude negativa apenas com o
objetivo de proteger nosso orgulho, nossas posições ou
propriedades. Essas atitudes talvez se exteriorizem em
hostilidade, ira, crítica, amargura, ciúmes, ódio e
inúmeros outros sentimentos e emoções mais sutis.
Esse tipo de vida não é aceitável no povo de Deus. A
Bíblia nos ensina e nos adverte, em Gálatas 5 e mais
claramente em Romanos 8, que esse tipo de compor­
tamento, na verdade, constitui o amargo fruto silvestre
da antiga vida, a vida egoística. Tais coisas são
chamadas de “ as obras da carne” (G1 5.19-21). São
exatamente o oposto dos frutos do Espírito de Deus.
Aqueles que produzem tais frutos, obviamente, não
se acham sob o controle de Cristo. Não estão sendo
governados por Deus, nem se acham sujeitos à dire­
ção, soberania e orientação de seu Espírito.
Sendo crentes, não podemos viver sob a tirania de
nosso temperamento. Vivemos pela fê no poder de
Cristo para controlar nossas emoções mais turbulen­
tas.
Assim como é com a nossa mente, deve ser com
nossos sentimentos, Temos que colocá-los nas mãos de
Deus, decisivamente. Então, é certo fazermos aqui
uma oração sincera, como a que fizemos com relação à
nossa/ mente:
“ O Deus, essa vida é por demais complexa, muito
cheia de tensões e problemas, para que eu possa
suportá-la sozinho. E facilmente perco o autodomínio.
Minhas emoções têm a tendência de sempre inclina­
rem-se para o erro. Gomo uma vegetação bravia, cujo
desenvolvimento não é detido, elas prontamente sufo­
cam aquilo que plantaste, impedindo seu crescimento.
Entra em mim, Senhor, e toma em tuas mãos o controle
de meu temperamento. Domina esse tumulto interior
que há em mim. Rega-me com tua presença e faz-me
saber que estás aí. Opera em meu coração aquilo que
não posso fazer eu mesmo. Dá-me poder para amar e
viver, e negar meu “ eu” , como fizeste quando andavas
pelas estradas poeirentas deste mundo cansado. Que
minhas emoções se tornem como um jardim, oferecen­
do refrigério a ti e a todos que me encontram.”

148
A Vontade Controlada por Cristo
Depois vem a esfera da vontade. Ela é o ponto
central de meu querer. É nela que são tomadas as
profundas e permanentes decisões de minha volição.
Em meu livro Nada me Faltará, alonguei-me basta
sobre essa questão da vontade.
Basta dizer que, se quisermos ser de alguma valia
para o reino de Deus, a área estratégica que Cristo
deve ocupar é a nossa vontade. É totalmente absurdo
pensar ou supor que a pessoa que está resolvida a
fazer a sua própria vontade, pode agradar a Deus.
Somente depois que nossa vontade se acha em perfeita
harmonia e submissão à vontade dele é que descobri­
mos o segredo do poder e da produtividade divinos.
Toda essa questão pode ser resumida numa senten­
ça curta, incisiva, que denota autonegação: “ O Deus,
não se faça a minha vontade, e, sim, a tua.” Não existe
oração mais poderosa.
Aquele que faz esta oração, e que realmente é
sincero, e já resolveu que vai fazer a vontade de Deus,
custe o que custar, verá com alegria que: “ Deus é
quem efetua em vós tanto o querer como o rea liza r.”
(Fp 2.13.) Essa pessoa move-se, vive e tem sua existên­
cia em Cristo.
Ela sabe o que é domínio próprio, e o experimenta
em sua vida. N ela o amor de Deus é manifestado em
magnífica e magnânima moderação.
Tudo que dissemos aqui, com certa riqueza de
detalhes, em relação à alma, pode ser igualmente
aplicado ao nosso espírito, bem como aos aspectos da
vida física. Isso o leitor pode fazer por si mesmo, se
desejar realmente esse tipo de relacionamento com
Deus e com os outros.
Basta fazer um exame longo e severo do jardim de
nossa vida. O que ele está produzindo? Que tipo de
colheita está sendo feita nele? O M estre está satisfei­
to? Ele está retirando o que esperava? Seus esforços
têm sido em vão, ou há ali uma colheita farta? Nossa
margem de frutificação acha-se diretamente relacio­
nada com a medida de nossa rendição. Quanto mais
nos entregarmos, tanto mais atuante ele pode tornar-
se em qualquer aspecto de nossa existência.
149
Falando sobre sua relação com Cristo, João Batista
fez uma declaração forte e pungente: “ Convém que ele
(Cristo) cresça e que eu diminua.” (Jo 3.30.) Se dese­
jamos obter um aumento na produção dos frutos do
Espírito em nossa vida, precisamos saber que isso só
pode ocorrer dessa maneira. Não existe nenhuma
outra fórmula para a frutificação. É a presença dele
em nosso coração, e só essa presença, que pode
garantir-nos boa produção em grandes proporções.
Mas, para que o leitor não fique desalentado, é
bom que se diga aqui que, assim como ocorre numa
horta ou pomar, a produção de fruto espiritual em
nossa experiência cristã não acontece em meio a
grande alarido, barulho e dramaticidade. O processo
todo — desde que se abre a primeira florzinha sob o
sol de primavera, até o amadurecimento final do fruto
já formado, ao calor do céu de outono — caminha sere­
na e firmemente. É a presença do Espírito de Deus em
nosso interior que produz o crescimento, o amadureci­
mento e a conformidade com a imagem de Cristo.
E a operação do bom Agricultor em nós processa-se
de forma tão branda e gradual, que muitas vezes nós
mesmos não estamos conscientes das mudanças que
ocorrem em nosso caráter, conversação e conduta.
Mas as pessoas que nos cercam o notam. Elas perce­
bem as transformações que estão acontecendo, e vêem
os frutos do Espírito que estão amadurecendo em nós.
E por essa evidência elas reconhecem que esse jardim
está sendo colocado sob o controle de Cristo.
Este é o teste supremo — o teste do ácido — para
aqueles que se declaram cristãos.

Nós, que antes éramos mato bravio, podemos tor­


nar-nos o jardim de Deus!
Minha vida ê um jardim,
A tua também.
Será que está estéril, destratada e agreste?
Como uma criança sem restrições, indisciplinada?
Ou é um solo bom, sob as mãos do Mestre?
Será minha alma uma terra que ele ama?
Será que está coberta de mato e espinheiros?
Ou será que nela foi semeada a boa semente?
150
Que tipo de colheita está produzindo esta vida?
Bondade e amor, ou ódio e contendas?
Ó Senhor, toma este meu terreno rochoso.
Que ele seja todo, completamente teu.
Só então ele poderá dar
os frutos bons de um campo santo. Amém e Amém.
Naquele dia dirá o Senhor: Cantai a vinha delicio­
sa. Eu, o Senhor, a vigio, e a cada momento a
para que ninguém lhe faça dano, de noite e de dia eu
cuidarei dela. (Is 27.2,3.)

151
Os frutos (1o Espírito não acontecem por mero acaso.
Eles podem e precisam ser cultivados em sua vida.
À medida em que você se desperta para esta verda­
de, sua vida cristã adquire uma perspectiva de
transformação inteiramente nova e desafiante.
Você vai experimentar a fascinante atuação de
Deus, moldando e desenvolvendo o caráter de Cristo
em sua vida.
Este livro o levará a analisar o solo de seu coração,
ensinando-o a cultivar nele os frutos do Espírito
Santo, e a consolidar um caráter cristão maduro e

é autor do conhecido livro


Nada me Faltará,

5025

Centres d'intérêt liés