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Passagens

secretas,
notas de refúgio.

Trabalho de conclusão
da disciplina: Modos
de Produção do Espaço
na Arte Contemporânea.
Professor: Agnaldo Farias
Aluna: Lia Damasceno
Doutorado, USP 2018.
!
A partir do momento que o indivíduo deseja pertencer a uma comunidade ele
precisa fazer uso da sua linguagem, precisa se adaptar às regras, tradições, costumes, e
de alguma forma atuar como membro dentro deste sistema, desta organização entrópica.

Nos dias de hoje com o avanço das tecnologias e a alta velocidade da


comunicação e das trocas de informação, o ritmo desse processo de adequação se tornou
quase esquizofrênico. Precisamos conhecer e aprender, a lidar e a resistir a essa
esquizofrenia 1. Apesar desta lógica estar clara como condição, vemos os reflexos dessa
velocidade supra-humana no corpo. O corpo ao buscar responder a todos os devires
impostos e desejados nos tempos atuais se esgota e sucumbe. Ele precisa, neste caso, se
retirar, se proteger, refugiar-se. Por isso, o refúgio carrega em sua ontologia a condição
de necessidade, mesmo que seja autônomo e espontâneo, o refúgio se apresenta como
uma situação, um momento transitório, um lugar de retiro do sistema, para um dia
talvez retornar a ele.

Geralmente a situação de refúgio vai provar que o individuo não está capaz de
pertencer a uma organização que foi pré-estabelecida a sua revelia, isto de algum modo
implica em uma desterritorialização, não só do corpo, mas também da mente. Essa
confusão traz à tona uma série de questões entre o amor e morte - medo de morrer,
medo de enlouquecer, medo de fracassar, medo de ficar só... - sensações que se
assemelham ao vazio, que trazem um sentimento de falta e incompletude em sua
estrutura. O primeiro momento do refúgio é avassalador. É a cidade após o furacão.

Trazendo este pensamento para o espaço, nos é dado uma maior afeição e
aceitação a essa condição devastada e as inscrições espaciais que espelhem essa
experiencia de desordem nos organiza: acontece uma revolução entrópica. O sistema
abalado procura retomar certa organização, nesse momento se abrem outras
possibilidades de arranjos entrópicos, dessa forma o sistema pode fazer-se novo.

Para o artista Yves Klein o vazio era potência, ponto de partida da criação. De
algum modo para ele se impor ao vazio era um exercício de deixar o para trás e

1 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. 1995-1997. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de
Janeiro: Editora 34.
construir um novo futuro: o vazio sempre foi minha preocupação constante, e eu
considero que, no coração do vazio, assim como no coração do homem, as chamas
ardem”2

2KLEIN, Yves. Manifesto do Hotel Chelsea. In: FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecilia (orgs)
Escritos de artistas anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.
Fazer-se novo

Nesse belo poema de Fernando Pessoa podemos sentir algo semelhante ao


despir-se do passado como busca de uma nova movimentação entrópica.

Deste Modo ou daquele Modo

Deste modo ou daquele modo. 



Conforme calha ou não calha. 

Podendo às vezes dizer o que penso, 

E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, 

Vou escrevendo os meus versos sem querer, 

Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos, 

Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse 

Como dar-me o sol de fora. 

Procuro dizer o que sinto 

Sem pensar em que o sinto. 

Procuro encostar as palavras à ideia 

E não precisar dum corredor 

Do pensamento para as palavras 

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. 

O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a 

nado 

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. 

Procuro despir-me do que aprendi, 

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me 

ensinaram, 

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, 

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, 

Mas um animal humano que a Natureza produziu. 

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer 

como um homem, 

Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. 

E assim escrevo, ora bem ora mal, 

Ora acertando com o que quero dizer ora errando, 

Caindo aqui, levantando-me acolá, 

Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso. 

Ainda assim, sou alguém. 

Sou o Descobridor da Natureza. 

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. 

Trago ao Universo um novo Universo 

Porque trago ao Universo ele-próprio. 

Isto sinto e isto escrevo 

Perfeitamente sabedor e sem que não veja 

Que são cinco horas do amanhecer 

E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça 

Por cima do muro do horizonte, 

Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos 

Agarrando o cimo do muro 

Do horizonte cheio de montes baixos. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLVI" 

Heterónimo de Fernando Pessoa 
As passagens secretas.

Durante o doloroso exercício do vazio, vão se apresentar na mente algumas


passagens secretas. Quando dormimos, ativamos uma passagem secreta que já vem
instalada no nosso “hardware”, atravessamos para o inconsciente e sonhamos. Já
acordados, podemos fazer uso da imaginação para criar estas passagens.

“o manancial das zonas pictóricas imateriais, extraídas das


profundezas do vazio que eu possuía naquele tempo era de uma
natureza extremamente material [...] A imaginação é o veículo da
sensibilidade
Transportados pela imaginação (efetiva) nós obtemos vida, aquela
mesma vida que é a própria arte absoluta. [...]
A arte absoluta, o que os homens mortais chamam com uma
sensação de vertigem o summm da arte, materializa-se
instantaneamente. Faz sua aparição no mundo tangível, enquanto
eu permaneço em um ponto geométrico fixo, no rastro de tais
deslocamentos volumétricos com uma velocidade estática e
vertiginosa.” 3

Entrevistando um rapaz em situação de rua, perguntei sobre suas passagens


secretas. Perguntei se a droga seria uma passagem secreta? Ele respondeu que o
pensamento é uma passagem secreta. Que a oração que ele fazia todo dia de manhã era
outra passagem secreta. Aprendemos com o tempo a ativar (ainda preciso me
aprofundar na teoria psíquica para falar melhor) as passagens secretas a qualquer
momento.

O caminho pelo vazio parece uma espécie de limbo. Talvez o refugio se


aproxime dessa ideia de limbo. Uma zona transitória imaterial. “A sensibilidade do
homem é onipotente na realidade imaterial! “ 4

3KLEIN, Yves. Manifesto do Hotel Chelsea. In: FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecilia (orgs)
Escritos de artistas anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012. (p.64)

4 Idem. (p.65)
Arte, vida

(voltando ao conceito de entropia)

A necessidade da linguagem provoca no espaço uma tendência à materialidade,


também chamada de representação. Por isso, a relação entre o material e o imaterial que
serve de campo para criação artística teve um importante momento na época moderna,
segunda metade do século XX: “os modernos nos apresentam um saber e uma arte
difíceis, cheios de reservas e restrições, uma representação do mundo que não exclui
fissuras nem lacunas, uma ação que duvida de si mesma “. 5

O individuo diante do nada, refugiado, precisa entender que sua existência, ainda
que devastada, tem importância na construção dos espaços e da linguagem. O recursar-
se a ordem, acaba por colaborar e por fortalecer o sistema mais amplo da linguagem.

Francis Alys em sua obra/livro Numa dada situação investiga algumas ocasiões
onde sistemas entrópicos se desorganizam. Na verdade, o que ele nos faz por em
questão são os parâmetros que regem os estatutos da ordem e da desordem, por
exemplo: ironicamente um sistema “desornado” se mostra mais estável às intempéries
da natureza, já os sistemas mais “ordenados” se mostram mais vulneráveis a se
desequilibrarem.

“O grau de desordem num sistema fechado e sua tendência para a


desordem crescente são irreversíveis. A ação de uma praga de
tomates pode transformar uma horta extremamente ordenada em
um espaço de desordem. Mas, quando a horta tem uma grande

5 MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas. São Paulo: Martins Fontes, 2009.


variedade de plantas, a estabilidade é maior. Menos ordem implica
maior estabilidade; mais ordem implica maior instabilidade.” 6

Podemos ver também em Smithson:

“Colapsos, deslizamentos de escombros, avalanches, tudo isso


acontece dentro dos limites fissurados do cérebro. O corpo todo é
sugado para o sedimento cerebral onde partículas e fragmentos se
fazem conhecer como consciência sólida. Um mundo frágil e
fraturado cerca o artista. Organizar essa confusão de corrosões em
padrões, gradações e subdivisões é um processo estético que mal
foi tocado.
[...]
Palavras e rochas contêm uma linguagem que segue a sintaxe de
fendas e rupturas. Olhe para qualquer palavra por bastante tempo e
você vai vê-la se abrir em uma série de falhas, em um terreno de
partículas, cada uma contendo seu próprio vazio. Essa linguagem
desconfortável da fragmentação não oferece nenhuma solução
Gestalt fácil; as certezas do discurso didático são arrastadas na
erosão do princípio poético. Perdida para sempre, a poesia precisa
se submeter à sua própria vacuidade; é de algum modo produto da
exaustão, mais do que da criação. A poesia é sempre uma
linguagem agonizante, mas nunca uma linguagem morta.
Uma consciência de deserto opera entre o anseio e a saciedade”7

As passagens secretas são construídas nessa fissura entre o mundo material e


imaterial. Esse movimento moderno da arte ressignifica a dor da desterritorialização,

6 ALÿS, Francis. Entropia (www.holexandria.org). In: Numa dada situação. São Paulo:
Cosac&Naify, 2010.

7 In: FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecilia (orgs) Escritos de artistas anos 60/70. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.
convida o indivíduo a se lançar nesse espaço desordenado, a arrancar as máscaras, a
rever seus parâmetros de representação do que faz e do que não faz sentido, e até a
entender que às vezes precisamos aceitar o mistério e o vazio e se emocionar com eles.

Acordo de assalto

buraco

apneia horror

Envio p a d r e n o s s o
can
Anjos
ção

Adormece

Vulcão

sono leve
(...)

referências

ALYS, Francis. Entropia (www.holexandria.org) In: Numa dada situação. São Paulo:
Cosac&Naify, 2010.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix.. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio
de Janeiro: Editora 34.

KLEIN, Yves. Manifesto do Hotel Chelsea. In: FERREIRA, Glória e COTRIM,


Cecilia (orgs) Escritos de artistas anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.
MERLEAU-PONTY, M. Conversas. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix,
2012.
RIVERA, Tania. Ensaio sobre o espaço e o sujeito. Lygia Clark e a psicanálise. In:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982008000200004.
14/07/2018.

imagens

página 1: O vazio. Yves Klein, 1958.

pagina 3: O salto no vazio. Yves Klein, 1960.

página 9: Buraco. Lia Damasceno, 2018.