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Livro do Professor

Literatu ra
Volume 8
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)

A474 Alves, Roberta Hernandes.


Literatura : ensino médio / Roberta Hernandes Alves ; ilustrações Daniel Klein, Mariana Coan
– Curitiba : Positivo, 2016.
v. 8 : il.

Sistema Positivo de Ensino


ISBN 978-85-467-0412-5 (Livro do aluno)
ISBN 978-85-467-0413-2 (Livro do professor)

1. Literatura. 2. Ensino médio – Currículos. I. Klein, Daniel. II. Coan, Mariana. III. Título.

CDD 373.33

©Editora Positivo Ltda., 2015

Presidentedente: Ruben Formighieri


Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto
Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy
Autoria: Roberta Hernandes Alves
Supervisão Editorial: Jeferson Freitas
Edição de Conteúdo: Enilda Pacheco (Coord.) e Floresval Nunes Moreira Junior
Edição de Texto: Juliana Milani
Revisão: Alessandra Cavalli Esteche e Mariana Bordignon
Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka
Edição de Arte: Joice Cristina da Cruz
Projeto Gráfico: YAN Comunicação
Ícones: ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Lightspring, ©Shutterstock/Chalermpol, ©Shutterstock/
Macrovector, ©Shutterstock/Jojje, ©Shutterstock/Archiwiz, ©Shutterstock/PerseoMedusa e ©Shutterstock/Thomas Bethge
Imagens de abertura: LatinStock/Album/akg-images/Werner Forman e ©Shutterstock/Odua Images
Editoração: Flavia Vianna e Rafaelle Moraes
Ilustrações: Daniel Klein e Mariana Coan
Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Susan Oliveira
Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz

Produção
Editora Positivo Ltda.
Rua Major Heitor Guimarães, 174 – Seminário
80440-120 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3312-3500
Site: www.editorapositivo.com.br

Impressão e acabamento
Gráfica e Editora Posigraf Ltda.
Rua Senador Accioly Filho, 431/500 – CIC
81310-000 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3212-5451
E-mail: posigraf@positivo.com.br
2018

Contato
editora.spe@positivo.com.br

Todos os direitos reservados à Editora Positivo Ltda.


S u m ár io
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e slides deste volume.

15 Parnasianismo ............................................ 4
Últimos anos do século XIX: Belle Époque ....................................................... 7
Parnasianismo na Europa ............................................................................... 8
Parnasianismo no Brasil: contexto histórico.................................................... 11
Manifestações do Parnasianismo no Brasil ..................................................... 12
ƒ Principais autores parnasianos brasileiros .............................................................................................. 12

16 Simbolismo ................................................ 23
Simbolismo na Europa .................................................................................... 28
Aspectos do Simbolismo................................................................................. 28
Contexto português no final do século XIX ..................................................... 31
Simbolismo em Portugal ............................................................................... 32
Contexto histórico no Brasil no final do século XIX .......................................... 34
Simbolismo no Brasil e poetas simbolistas brasileiros .................................... 35
ƒ Revistas simbolistas e polêmicas entre os “novos” e os “velhos” poetas ................................................... 36
15
Parnasianismo
LatinStock//Album/Art

Vaso grego, do século V a.C.,


contendo uma cena de um
banquete no qual os convidados
repousam e bebem enquanto uma
mulher toca uma flauta dupla.
A cena representada reflete um
ideal de beleza resgatado pela
estética parnasiana no fim do
século XIX

Ponto de partida
1

1. Um dos aspectos que pode ser destacado na decoração do vaso é a atenção aos detalhes. Selecione dois
elementos presentes na imagem que confirmem essa ideia.
2. Nos extremos inferior e superior da representação, é possível verificar a presença de composições abstratas.
Qual é a função dessas composições no contexto da cultura grega?
3. Os vasos gregos geralmente eram ornamentados com gravuras ou pinturas que representavam cenas do coti-
diano, passagens mitológicas ou indicações sobre sua utilização (para que serviam os vasos), ou seja, aspectos
da cultura e do modo de vida gregos. Para você, qual dessas possibilidades melhor justifica o tema do banquete
acompanhado de música presente nesse objeto?

4
Objetivos da unidade:
ƒ compreender os aspectos que originaram o surgimento da estética parnasiana;
ƒ conhecer os acontecimentos que configuraram m a chamada Belle Époquee tanto na Europa quanto no
Brasil;
ƒ conhecer os principais elementos que configuraram a poesia parnasiana brasileira;
ƒ conhecer os mais relevantes poetas parnasianos brasileiros e suas obras.

Lendo a literatura 2 Orientações para a resolução


das atividades.
Leia um poema de Vicente de Carvalho, cuja produção poética se deu durante a transição do século XIX para o XX.

@Shutterstock/Lola Tsvetaeva
Sugestões do crepúsculo
I
Ao pôr do Sol, pela tristeza
Da meia-luz crepuscular,
Tem a toada de uma prece
A voz do mar.

Aumenta, alastra e desce pelas


Rampas dos morros, pouco a pouco,
O ermo de sombra, vago e oco,
Do céu sem sol e sem estrelas.

Tudo amortece; a tudo invade


Uma fadiga, um desconforto...
Como a infeliz serenidade
Do embaciado olhar de um morto.

Domada então por um instante


Da singular melancolia
De em torno – apenas balbucia
A voz piedosa do gigante.

Toda se abranda a vaga hirsuta,


Toda se humilha, a murmurar...
Que pede ao céu que não a escuta
A voz do mar?

CARVALHO, Vicente de. Sugestões do crepúsculo.


In: BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia
brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. p. 244.
2015. Digital.

Vicente de Carvalho nasceu em Santos,


em 1866. Foi advogado, jornalista, fa-
zendeiro, político e escritor. Republicano
Daniel Klein.

embaciado: embaçado. e abolicionista, pertenceu à Academia


hirsuta: crespa; agitada.
Brasileira de Letras. Morreu em 1924.

5
1. Releia o título do poema. Observando o conteúdo abor- 5. Na última estrofe, o eu lírico cria uma imagem segundo
dado no texto, procure em um dicionário uma palavra a qual
ou uma frase que defina o sentido do termo “suges-
a) as ondas do mar deixam de emitir seu ruído
tões”, presente no título do poema. Justifique sua
característico.
escolha.
b) a noite escura que desce do céu envolve a praia em
O termo “sugestões” tem vários sentidos se consultarmos o
um manto escuro.
dicionário: propostas, pareceres, alusões, indiretas, etc. Aquele c) os sons da natureza paralisam por um instante em
que melhor expressa o significado dessa palavra, segundo o
posição de humildade.
d) as ondas se tornam mais revoltosas.
próprio texto, é “impressões”, pois, ao longo do poema, o eu
X e) os movimentos bravios das ondas do mar se acal-
lírico tenta explorar as transformações pelas quais um ambiente mam como que murmurando pedidos ao céu.
natural passa. 6. Observe a pintura a seguir.
A reprodução da paisagem
2. Na primeira estrofe, o barulho do mar é, de certa forma, A descrição de
procura registrá-la de ma-
humanizado. Transcreva o verso em que se pode obser- paisagens realizada
neira “fotográfica”. Indique
var esse efeito de humanização. do modo mais próximo
ao menos três elementos
possível da realidade
“A voz do mar”. nela presentes que a apro-
foi uma das recorrên-
ximam do poema de Vicente
3. Qual das afirmações não pode ser associada ao poema cias da arte parnasiana.
de Carvalho.
de Vicente de Carvalho? Justifique sua escolha.
X a) Uma das principais características desse soneto é
o olhar objetivo, impessoal e impassível do eu lírico
sobre a paisagem.
b) Apesar de tratar da descrição de uma paisagem, o eu
lírico se vale de certo sentimentalismo para captar o
sentido melancólico que sugere o espaço marítimo
que observa.
c) O poema apresenta uma estrutura regular de versos,
variando, porém, a composição das rimas. Quanto ao RICHARDS, William Trost. Paisagem marítima com um farol
vocabulário, pode-se afirmar que há uma opção pelo distante, Atlantic City, New Jersey. 1873. 1 óleo sobre tela, color.,
29,9 cm × 50,8 cm. Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha.
uso de várias palavras cultas.
Diferentemente do que se afirma na alternativa a, é possível Pessoal. Elementos em comum com o poema de Vicente de

notar um sentimento de solidão, cansaço e melancolia do Carvalho: a paisagem marítima, o momento do crepúsculo, a

eu lírico ao descrever o cenário marítimo.


ausência de quaisquer referências humanas, o caráter

4. Na terceira estrofe, há uma alusão à morte. Que sentido “descritivo” da imagem.


a morte adquire nesse trecho do poema?
A morte é tomada nessa estrofe como um elemento de compa-

ração, como se a paisagem vista no poema, na passagem do

dia para a noite (crepúsculo), estivesse desfalecendo/morrendo/

/se tornando embaçada como o “olhar de um morto”.

6 Volume 8
Acontecia
Últimos anos do século XIX: Belle Époque
O Parnasianismo, movimento literário que ocorreu a partir da segunda metade do século XIX, teve como pano de
fundo os mesmos acontecimentos históricos, sociais, científicos e filosóficos que o Realismo e o Naturalismo.
3 Sobre a coexistência de movimentos de expressão artística.
Em Paris, maior centro da expressão da poesia parnasiana na segunda metade do século XIX, o contato entre inte-
lectuais e artistas se intensificou, acompanhando as transformações da mentalidade característica da vida urbana. O
mundo burguês finalmente se impunha sobre o modo de vida da antiga nobreza, cujo poder político e econômico se
desfazia com o passar do tempo. A vida boêmia, os encontros nos cafés e teatros, a leitura diária de jornais e revistas
tornavam-se hábitos frequentes para uma parcela da população ligada às artes.
O crescimento do capitalismo industrial passou a definir padrões de conduta aos quais muitos círculos aristocráticos
se opunham. A vida centrada no trabalho e na necessidade de sobrevivência, que passaria a desencadear um processo
de alienação social, começou a gerar um sentimento de ceticismo, uma descrença em relação aos rumos da sociedade.
De um lado, a ideia do progresso obtido pelo avanço da Revolução Industrial desencadeou um período de ostenta-
ção e luxo – esse período é conhecido como Belle Époque. Nesse tempo, o conforto moderno, fruto de uma produção
industrial que deixava mais acessíveis produtos antes consumidos somente por uma parcela pequena da sociedade,
tornou-se uma das molas propulsoras do desenvolvimento. 4 Sobre o contexto da Belle Époque.

Por outro lado, um período de dúvida em relação às desigualdades sociais, à pobreza e às doenças que se pro-
pagavam nas localidades periféricas dos centros urbanos e o ritmo pesado de trabalho denunciavam a absorção e a
submissão de todos aos valores da burguesia.

Essa pintura representa


a vida boêmia em Paris
na transição do sécu-
lo XIX para o XX. Henry
Toulouse-Lautrec pintou
sobretudo o bairro pe-
riférico de Montmartre,
habitado por prostitutas,
artistas e trabalhadores.

TOULOUSE-LAUTREC, Henry.
Marcelle Lender dançando bolero
na Chilperic. 1896. 1 óleo sobre
tela, color., 145 cm × 149 cm.
Coleção particular.

Literatura 7
Mundo do trabalho
Com a Revolução Industrial, uma série de novas formas de trabalho foram criadas para possibilitar um funciona-
mento mais dinâmico das empresas. Sistemas que refletiam sobre as formas de tornar mais eficazes as rotinas dos
trabalhadores passaram a ser essenciais para o desenvolvimento de empresas. Nesse contexto, surgiu a profissão do
administrador de empresas, cuja função é gerenciar recursos materiais, humanos e financeiros que possibilitem a
melhoria na dinâmica de funcionamento de uma empresa.
Essa profissão encontra lugar nas iniciativas pública e privada e em entidades sem fins lucrativos. Geralmente, o
administrador trabalha alocado em um dos departamentos da empresa (departamento de compras, de vendas, de
estoque, de pessoal, financeiro, etc.). Em indústrias que mantêm processos de avaliação da qualidade de seus pro-
dutos, esse profissional pode gerenciar diretamente partes do processo de produção com o engenheiro. Em tempos
atuais, em que questões relacionadas à sustentabilidade e à responsabilidade social estão em destaque, há forma-
ções específicas de administradores que se responsabilizam por coordenar as ações da empresa para que atinjam
resultados projetados para esses fins.
Sua formação é acadêmica (bacharelado ou tecnológico), com cursos que variam de três a cinco anos. Atualmen-
te, é comum os formandos em administração de empresas completarem sua formação com cursos de MBA (sigla em
inglês para Master in Business Administration, que, em português, significa “mestre em administração de negócios”).
Durante o estudo, o futuro administrador de empresas deve cumprir cargas horárias em disciplinas bastante amplas
e variadas, tais como Matemática Financeira, Psicologia, Cálculo, Sociologia, Gestão Estratégica, Direito e Sistemas de
Informação.

Olhar literário
Parnasianismo na Europa
Os últimos 25 anos do século XIX ainda estavam sob a intensa influência
do Positivismo que se espalhara por boa parte da Europa e do Novo Continen-
O nome Parnasianismo se remete a
te. No que dizia respeito aos padrões estéticos, o Realismo e o Naturalismo se Parnasos, o lar das musas, segundo a
manifestavam na literatura e em outras artes nesse período. Paralelamente, mitologia grega. Situado na região cen-
surgiu outro movimento literário que, assim como as manifestações realistas tral da Grécia, esse lugar era a moradia
e naturalistas na prosa, tinha como uma de suas principais marcas a objetivi- do deus Apolo, que desempenhava
dade e a recusa do sentimentalismo romântico: o Parnasianismo. muitas funções no mundo mitológico:
O Parnasianismo se baseava em um princípio que, com o passar do tem- representado pelo Sol, era o deus da
po, lhe serviu de síntese: a defesa da arte pela arte. Os parnasianos prega- verdade e da purificação; simbolica-
mente, de seu poder emanavam as
vam a criação de uma arte que resgatasse da Antiguidade Clássica o ideal da
inspirações proféticas e artísticas.
perfeição artística.
Na época em que surgiu o Parnasianismo, a produção literária em prosa
variava entre o Realismo, com suas análises psicológicas tentando decifrar os aspectos sombrios da sociedade, e o Na-
turalismo, que analisava a proximidade entre o comportamento humano e o animal. O Parnasianismo caracterizava-se
por um traço incomum: a proposta de uma arte desapegada da vida social. A poesia parnasiana se baseou no culto
à forma (a proposta de uma escrita poética “sem falhas” e sem o pouco cuidado da poesia romântica, que, para os
parnasianos, parecia simples e inacabada) e na objetividade temática (selecionando assuntos que não tivessem ne-

8 Volume 8
cessariamente relação com a realidade do mundo concreto). A antologia de poemas intitulada Le Parnasse Contem-
porain (traduzida como “O parnaso contemporâneo”), que teve três edições – 1866, 1871 e 1876 –, era composta
de textos de escritores que professavam ideais diversos sobre a poesia e a literatura e é considerada um marco do
parnasianismo. 5 Sobre as principais fórmulas do Parnasianismo.
O eu dos poemas parnasianos expressa uma postura de impessoalidade e impassibilidade, ou seja, transmite a
impressão de observar a realidade de modo que não se demonstre qualquer traço sentimental. A figura dos próprios
escritores chamava a atenção: defendiam que o poeta era um “nefelibata”, ou seja, um sujeito que vive nas nuvens, que
pouco se preocupa com as coisas mundanas. Dizia-se que os poetas habitavam “torres de marfim”: observavam do
“alto” (torre) da arte pura e preciosa (marfim) os problemas concretos dos homens, mas sem a intenção de se envolver
com eles.
A poesia voltava-se para um exercício descritivo de objetos, paisagens ou ideias, muitas vezes explorando o próprio
trabalho artístico como tema (criando um efeito de metalinguagem, isto é, a poesia apresenta como tema o fazer
poético ou o fazer artístico), outras vezes produzindo textos que se assemelham a meditações filosóficas.
Quanto à sua estrutura formal, muitos poemas eram escritos na forma de sonetos, privilegiando os versos de 12
sílabas poéticas (chamados de alexandrinos) e os decassílabos (dez sílabas poéticas), sempre buscando um equilíbrio
perfeito e privilegiando o uso de rimas ricas e raras.

Sugestão de atividades: questões 1 a 3 da seção Hora de estudo.

Atividades

1. Leia as seguintes afirmações em relação ao Parnasianismo e ao Romantismo: 6 Sobre a diferença entre poemas
românticos e parnasianos.
I. O Parnasianismo é considerado um movimento antirromântico.
II. A retomada da arte clássica como modelo ideal do fazer artístico reforça a ruptura entre o Parnasianismo e o Ro-
mantismo.
III. O culto à forma pode ser associado à compreensão, por parte dos parnasianos, de que a arte romântica apresen-
tava, muitas vezes, um desleixo formal.
IV. O Parnasianismo pode ser, ao menos em parte, considerado uma continuação do Romantismo que o precedeu.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Todas.
c) Apenas I e III.
X d) Apenas I, II e III.
e) Nenhuma.
2. Das características apontadas abaixo, qual não se relaciona à estética parnasiana?
a) Impessoalidade.
X b) Subjetividade.
c) Objetividade.
d) Artificialidade.

Literatura 9
3. Leia a imagem e responda às perguntas propostas.

RIXENS, André. Um dia de vernissage no Palácio de Champs-Élysées. 1890.

a) O termo vernissage, presente no título da imagem, quer dizer inauguração ou primeira exibição. É utilizado para
eventos sociais ligados à arte. Quem são as pessoas presentes no evento registrado acima? Como é possível
reconhecê-las?
As pessoas registradas nessa imagem fazem parte da alta burguesia. É possível reconhecê-las pelos trajes que usam: vestidos e

chapéus para as senhoras e fraque e cartola para os homens.

b) Que obras de arte estão expostas? Qual é a postura das pessoas em relação às obras que ocupam o salão?
As obras de arte expostas são esculturas. As pessoas demonstram um comportamento de interesse: algumas conversam em

pequenas rodas, mas várias se detêm em frente às esculturas para observá-las.

c) A Belle Époque foi um período marcado pelo otimismo em relação aos avanços sociais, ainda que muita miséria e
desigualdade se impusessem sobre a parte pobre da população.
Tomando essa afirmação como um ponto de partida para uma reflexão, para você, os objetos artísticos expostos
nesse vernissage apresentam uma visão crítica da realidade social desse período? Justifique sua resposta.
Pessoal. Espera-se que os alunos consigam perceber que a maioria das obras mostradas na imagem se assemelha a esculturas

clássicas gregas (exceção feita à escultura do tigre situada no lado direito da imagem). Dessa forma, não se pode dizer que a

realidade social da parcela pobre da população esteja contemplada nessa exibição.

10 Volume 8
Acontecia
Parnasianismo no Brasil: contexto histórico
7 Sugestão de abordagem do conteúdo.
Durante a segunda metade do século XIX, período em que o Parnasianismo surgiu em terras brasileiras, profundas
transformações ocorreram nos campos político, econômico e social.
Nesse período, houve a Proclamação da República e, com isso, uma nova constituição precisou ser elaborada. No-
vas e velhas forças políticas passaram a disputar o poder; também, nessa época, iniciou-se um processo de substituição
da força de trabalho escravo por outra baseada no trabalho assalariado; as antigas relações de mando, expressas no
contato entre senhor e escravizado, permeadas pela violência e pela exploração da força humana, se alteraram com a
chegada de milhares de trabalhadores livres da Europa, que se mudavam para países como o Brasil em busca de opor-
tunidades de uma vida melhor; o deslocamento de uma parcela da população, que antes vivia na zona rural, para as
cidades acabou por gerar problemas de infraestrutura urbana; começaram a surgir as primeiras indústrias.
As transformações ocasionadas pela industrialização apresentavam um ritmo inédito até então. O surto industrial,
entre os anos de 1850 e 1860, por exemplo, promoveu uma mudança no perfil econômico com a inauguração de
fábricas que passaram a produzir artigos antes importados, tais como chapéus, tecidos, cerveja, sabão. Foram abertos
bancos, companhias de seguro e de navegação a vapor, empresas de mineração, de transporte urbano, de iluminação
pública, de gás, etc.
Com a transformação das relações de trabalho, o choque de interesses entre trabalhadores e proprietários de in-
dústrias começou a se tornar mais evidente. A luta por melhores condições de trabalho, melhores salários, por jornadas
mais justas e menos extenuantes (alguns trabalhadores chegavam a trabalhar 16 horas ou mais por dia) e por condi-
ções diferenciadas nas tarefas desempenhadas por crianças e mulheres resultaram nas primeiras paralisações e greves.
De fato, o ambiente público urbano passou a atrair não
LatinStock/Corbis

apenas a massa de trabalhadores antes submetidos à escravi-


dão, que não encontrava mais lugar nas antigas fazendas, mas
também colonos que queriam melhorar sua situação. Homens
ricos, donos de grandes propriedades rurais, construíam casas
nas cidades para suas famílias, seus filhos eram matriculados
em escolas recém-abertas. 8 Sugestão de pesquisa.
Como era de se presumir, os centros urbanos espelhavam
o modelo desordenado de crescimento levado adiante nas
últimas décadas do século XIX: as cidades passaram a ser
espaços heterogêneos, em que se poderiam encontrar pa-
lacetes e também casas miseráveis. O governo de Floriano
Peixoto, que durou de 1891 a 1894, foi fundamental para que
as mudanças políticas se consolidassem em um ritmo mais
Movimento de pessoas e de carruagens circulando pela propício aos avanços liberais.
Avenida de L’Opera, em Paris: a elite brasileira projetava
seu ideal de progresso em cidades europeias como a
capital francesa

Essa realidade dinâmica, contudo, não chegava a influenciar o conteúdo da poesia parnasiana, que se tornou,
durante aproximadamente 40 anos, o modelo artístico identificado com as elites brasileiras. O ideal da arte pela arte,
que pregava uma manifestação poética pura, sem relações com os acontecimentos sociais ou com as transformações
humanas que definiam mudanças profundas na sociedade brasileira, fizeram do Parnasianismo um movimento literá-
rio alienado em relação à realidade social.

Literatura 11
Olhar literário
Manifestações do Parnasianismo no Brasil
O marco inicial do Parnasianismo no Brasil foi a publicação do livro Fanfarras, em 1882, de autoria de Teófilo Dias.
Anos antes, porém, em 1878, o jornal Diário do Rio de Janeiro abriu espaço para uma polêmica literária (a Batalha do
Parnaso), em que alguns poetas criticavam a poesia romântica, afirmando ser essa estética ultrapassada. Sua proposta
apontava para um novo paradigma de poesia que, ainda que não tenha sido uma defesa explícita do Parnasianismo,
propunha um novo modo de escrever poesia.
Desde suas primeiras publicações, o Parnasianismo se identificou com os ideais da elite brasileira no final do
século XIX ao tentar se aproximar de alguns centros da cultura europeia, especialmente a francesa. Essa mesma
elite se julgava portadora de um lugar na cultura universal ligada aos conceitos de bom gosto. Ainda que, no
campo da prosa literária, as produções realista e naturalista estivessem em voga, ambas também influenciadas
diretamente pelos romances franceses de Gustave Flaubert e Émile Zola, a elite brasileira preferia apreciar a poesia
parnasiana, pois era a expressão de uma arte que não se fixava na exploração dos problemas sociais (no caso do
Realismo) ou na visão dos comportamentos baixos e animalescos (no caso do Naturalismo). A proposta de uma
arte impessoal, que resgatava um modelo clássico e que se valia de uma escrita com padrão rebuscado da língua,
foi adotada como forma de diferenciar, pela literatura, aqueles que tinham um gosto refinado daqueles que não
eram considerados capazes de compreender a sofisticação verbal de um poema parnasiano.
Enfim, no começo do movimento, a valorização da forma e o culto à arte pura tornaram-se as marcas da Ideia Nova,
como era chamado o Parnasianismo realizado no Brasil. Com o passar do tempo, porém, os parnasianos foram remode-
lando esse estilo, integrando outros elementos ao modo de compor os poemas que não obedeciam necessariamente
aos princípios estabelecidos pelos poetas franceses, especialmente o subjetivismo em oposição à objetividade.

Principais autores parnasianos brasileiros


Vários escritores aderiram à estética parnasiana, tornando-a uma espécie de modelo de poesia a ser escrita no Brasil
na passagem do século XIX para o XX: Luís Delfino, Francisca Júlia, Augusto de Lima, Vicente de Carvalho e o próprio
Teófilo Dias foram alguns deles. No entanto, os três poetas mais importantes desse movimento foram Olavo Bilac,
Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, que formaram a Tríade Parnasiana.
Acervo Iconographia

Além de ser um dos poetas parnasianos bra-


sileiros mais estudados, Olavo Bilac também
merece destaque pela sua atividade como jor-
nalista: escreveu mais de 1 500 crônicas para
en-
diversos jornais ao longo de aproximadam
l-
te 25 anos. Seus textos circulavam principa
Rio de Janeiro. Ao
mente em São Paulo e no
contrário de seus poemas, que apresentavam
do
o descolamento da realidade social típica
icas tinh am uma vi-
Parnasianismo, suas crôn
são aguda da realidade.

Os três poetas que compunham a


Tríade Parnasiana: Alberto de Oliveira,
Raimundo Correia e Olavo Bilac

12 Volume 8
Cada um deles desenvolveu aspectos muito específicos da literatura parnasiana, mantendo, porém, uma aber-
tura para outras influências que não se adequavam necessariamente ao estilo típico do Parnasianismo, princi-
palmente no que se refere à superação de uma escrita objetiva e descritiva em favor de uma linguagem mais
subjetiva e emocional.
Nesse sentido, apesar de a poesia parnasiana brasileira ter sido uma manifestação do desejo da elite de adotar pa-
drões de gosto identificados com uma visão de mundo alienada (uma imitação de critérios estéticos europeus), outros
interesses e concepções sobre o fazer literário também fizeram parte da produção desse período. A mais importante
dessas concepções que se diferenciava do Parnasianismo, o Simbolismo, constituiu uma vertente importante da pro-
dução literária brasileira.
Considerando o estilo de cada um dos poetas da Tríade Parnasiana, pode-se compor o seguinte esquema:

9 Características do estilo dos poetas e sugestão de leitura.

Poemas que merecem


Poeta Marcas principais de sua obra
destaque

• poeta parnasiano típico


• poesia eminentemente descritiva
• gosto pela descrição poética de objetos
“O vaso grego”
decorativos
“O vaso chinês”
• rigidez formal
• grande escritor de sonetos
• cuidado extremo com o apuro formal
Alberto de Oliveira

• considerado “o príncipe dos poetas brasileiros”


• escreveu o Hino à Bandeira
“Via Láctea”
• exaltava em muitos poemas a beleza feminina
“Profissão de fé”
• entre seus temas preferidos, destacavam-se os
“Vila Rica”
fatos históricos
• tinha grande reconhecimento público
Olavo Bilac
Ilustrações: Daniel Klein. 2015. Digital.

• em alguns poemas, apresenta tom melancólico


“As pombas”
• grande sonetista
“A cavalgada”
• poemas apresentam recursos sonoros em
“Rima”
destaque, aproximando-se do Simbolismo

Raimundo Correia

Sugestão de atividades: questões 4 a 16 da seção Hora de estudo.


Literatura 13
Atividades
10 Orientações.
1. Leia o poema de autoria de Alberto de Oliveira, um dos ( F ) O fato de ser um vaso grego o objeto do soneto
mais importantes poetas parnasianos brasileiros. A se- de Alberto de Oliveira pouco importa no que diz
guir, responda às perguntas. respeito às referências da poesia parnasiana.
( V ) O ideal de beleza é representado no poema pela
Vaso grego eleição de um objeto precioso (o vaso grego)
Esta, de áureos relevos, trabalhada que se associa a um período em que a arte tinha
De divas mãos, brilhante copa, um dia, a função de expressão do belo.
Já de aos deuses servir como cansada, ( V ) O princípio básico da arte parnasiana (arte pela
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. arte) está representado nesse poema no inte-
resse do eu que se volta exclusivamente para
Era o poeta de Teos que a suspendia
apreciar o objeto estético considerado perfeito:
Então e, ora repleta ora esvazada,
o vaso grego.
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada. c) Como você descreveria o uso da linguagem nesse
poema? Qual(is) dos termos a seguir pode(m) ser
Depois... Mas o lavor da taça admira, associado(s) à linguagem empregada no poema?
Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas Justifique sua resposta.
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
• rebuscada • espontânea
Ignota voz, qual se da antiga lira
• científica • popular
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. A linguagem presente no poema é rebuscada, ou seja, é

estudada, artificial.
OLIVEIRA, Alberto de. O vaso grego. In: BANDEIRA, Manuel.
Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].
p. 229.

a) Indique os elementos presentes no soneto que d) O tratamento estético dado ao objeto central do
fazem referência a temas da Antiguidade Clássica soneto (o vaso grego) pode ser considerado um
grega. artifício metafórico que aproxima o antigo mundo
“Olimpo”, “poeta de Teos”, Anacreonte, lira, deuses. do Classicismo grego dos problemas imediatos e
concretos da vida social brasileira? Justifique sua
resposta.
b) Assinale V para verdadeiro e F para falso nas afir- Não. Pelo contrário: a preocupação do eu do poema em
mações abaixo.
descrever o objeto estético (vaso grego) utilizando um
( F ) A temática mitológica no poema acima aproxi-
ma a poesia parnasiana do Neoclassicismo do vocabulário rebuscado e detendo-se somente na admiração
século XVIII no que diz respeito à representa-
ção de uma realidade social que se volta para desse objeto reforça o posicionamento de alienação da
a predominância da vida no campo como um
poesia parnasiana em relação à vida social ao redor.
espaço ideal.

poeta de Teos: como era conhecido o poeta grego Anacreonte (ver a lavor: trabalho de esculpir.
seguir), que nasceu e morreu na cidade de Teos. canora: harmoniosa; sonora.
esvazada: esvaziada. ignota: desconhecida.
tinia: produzia sons. Anacreonte: poeta lírico grego que viveu entre 563 e 478 a.C.
colmada: coberta.

14 Volume 8
2. Leia um trecho do poema “Profissão de fé”, de Olavo Bilac, em que ele defende o Parnasianismo.

Invejo o ourives quando escrevo: Quero que a estrofe cristalina,


Imito o amor Dobrada ao jeito
Com que ele, em ouro, o alto relevo Do ourives, saia da oficina
Faz de uma flor. Sem um defeito:

Imito-o. E, pois, nem de Carrara E que o lavor do verso, acaso,


A pedra firo: Por tão subtil,
O alvo cristal, a pedra rara, Possa o lavor lembrar de um vaso
O ônix prefiro. De Becerril.

Por isso, corre, por servir-me, E horas sem conto passo, mudo,
Sobre o papel O olhar atento,
A pena, como em prata firme A trabalhar, longe de tudo
Corre o cinzel. O pensamento.

Corre; desenha, enfeita a imagem, Porque o escrever tanta perícia,


A ideia veste: Tanta requer,
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem Que oficio tal... nem há notícia
Azul-celeste. De outro qualquer.

Torce, aprimora, alteia, lima Assim procedo. Minha pena


A frase; e, enfim, Segue esta norma,
No verso de ouro engasta a rima, Por te servir, Deusa serena,
Como um rubim. Serena Forma!

BILAC, Olavo. Profissão de fé. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000179.pdf>. Acesso em: 11 jun. 2015.

a) Segundo o poema, o ideal do poeta parnasiano se identifica com o de que outro profissional?
Identifica-se com o do ourives.

b) Indique duas marcas do poema acima que são típicas do Parnasianismo.


A organização métrica e rítmica; o vocabulário requintado; o próprio fazer poético como tema.

c) Quem é a figura da “Deusa serena” citada na última estrofe lida?


É uma figura abstrata que representa a própria poesia parnasiana. Esta é tratada como uma deusa cuja característica principal é a

serenidade, almejando equilíbrio e perfeição. Pode-se referir também à “forma”, mencionada no último verso, “Serena Forma!”.

Carrara: refere-se a um tipo de mármore que existe em uma cidade cinge-lhe: abraça-lhe.
italiana chamada Carrara. alteia: exalta; destaca.
ônix: tipo de mineral muito fino. Becerril: barro; argila.
cinzel: instrumento utilizado por um escultor.

Literatura 15
Organize as ideias
11 Orientações para a atividade.
A proposta de síntese dos principais conceitos estudados nesta unidade terá como produto a elaboração de uma
tabela dirigida contendo, de um lado, uma série de questões sobre os aspectos principais da estética parnasiana e,
de outro, suas respostas. O elemento diferencial dessa tabela é a presença, em uma coluna central, de alguns termos e
conceitos que necessariamente devem fazer parte do texto que será escrito.
O propósito dessa tabela é organizar, de modo objetivo, os dados relativos ao Parnasianismo para que você possa
consultá-los de maneira rápida. Entretanto, pode-se dizer que essa tabela apresenta um desafio de escrita ao solicitar
que determinados conceitos façam parte das respostas que serão formuladas.
Veja a tabela abaixo, faça uma cópia dela e preencha consultando todo o conteúdo estudado nesta unidade.

Questão Termos e conceitos Resposta


O que foi o • Arte pela arte • Impessoalidade
Parnasianismo? • Culto à forma • Antiguidade
• Crítica ao Clássica
Romantismo
• Objetividade
Como se configurava • Mundo burguês • Positivismo
o período em que • Boêmia
se desenvolveu o
• Capitalismo
Parnasianismo, a
industrial
chamada Belle Époque?
• Cientificismo
Qual a relação entre • Alienação
o Parnasianismo e os • Descompromisso social
movimentos literários
• Impessoalidade
do Realismo e do
Naturalismo?

Quais as principais • Artificialismo • Tríade


marcas do Parnasianismo • Uso de Parnasiana
brasileiro? linguagem rica e • Elementos que
sofisticada fogem aos
• Descritivismo parâmetros do
Parnasianismo
Por que a estética • Imitação da • Ambiente
parnasiana se Europa público urbano
identificava com os • Gosto refinado
anseios das elites
• Sofisticação
brasileiras?
verbal

Finalizada a tarefa de preenchimento da cópia, compare suas respostas com as de seus colegas. Para tanto, façam
a leitura de uma questão por vez, conferindo as informações selecionadas e o modo como essas informações se arti-
culam. Enquanto seus colegas leem e explicam suas respostas, anote os elementos que você considerar interessantes
para agregar à sua resposta.
Feitas as comparações, escreva, na tabela acima, a versão definitiva de suas respostas.

16 Volume 8
Hora de estudo
A resolução das questões discursivas desta seção deve ser 12 Gabaritos.
feita no caderno.
1. O Parnasianismo dialoga com quais movimentos literá- ( ) Com a riqueza gerada pelo desenvolvimento das
rios que lhe foram contemporâneos? cidades, surgiu a Belle Époque, um período históri-
co em que a cultura popular urbana ganhou espa-
2. Leia os versos retirados do poema “Plenilúnio”, de Rai-
ço junto às manifestações tradicionais das artes.
mundo Correia.
4. (UNESP – SP)
Além dos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai! Arte suprema
Luz entre as franças, frias e silente;
Tal como Pigmalião, a minha ideia
Assim nos ares, tremulamente,
Visto na pedra: talho-a, domo-a, bato-a;
Balão aceso subindo vai...
E ante os meus olhos e a vaidade fátua
Surge, formosa e nua, Galateia.
Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo de seu fulgor! Mais um retoque, uns golpes... e remato-a;
Lua dos tristes e enamorados, Digo-lhe: “Fala!”, ao ver em cada veia
Golfão de cismas fascinador! Sangue rubro, que a cora e aformoseia...
CORREIA, Raimundo. Plenilúnio. In: BANDEIRA, Manuel.
E a estátua não falou, porque era estátua.
Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].
p. 234. Bem haja o verso, em cuja enorme escala
Falam todas as vozes do universo,
a) Essas duas estrofes fazem parte de um poema par-
E ao qual também arte nenhuma iguala:
nasiano. Indique duas características desse estilo
presentes no poema. Quer mesquinho e sem cor, quer amplo e terso,
b) As estrofes lidas podem ser consideradas exemplos Em vão não é que eu digo ao verso: “Fala!”
do ideal parnasiano do culto à forma? De que ma- E ele fala-me sempre, porque é verso.
neira a escolha do tema reforça ou não esse ideal do
Parnasianismo? (Júlio César da Silva. Arte de amar. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1961.)
3. Indique a afirmação correta em relação à Belle Époque.
O soneto Arte suprema apresenta as características
( X ) Mudanças importantes marcaram o cotidiano da comuns da poesia parnasiana. Assinale a alternati-
Belle Époque, muitas delas frutos do aparecimento va em que as características descritas se referem ao
de novas tecnologias, como o telefone, a bicicleta, o Parnasianismo.
telégrafo sem fio, o avião, o cinema, o automóvel, etc.
X a) Busca da objetividade, preocupação acentuada com
( ) A indústria do divertimento na Belle Époque só foi
o apuro formal, com a rima, o ritmo, a escolha dos
possível graças à eletricidade, que permitiu uma
vocábulos, a composição e a técnica do poema.
redução considerável das horas de trabalho. As-
sim, sem a diminuição dos salários, os trabalhado- b) Tendência para a humanização do sobrenatural,
res puderam se dedicar à diversão, passeando em com a oposição entre o homem voltado para Deus e
parques e indo aos cinemas. o homem voltado para a terra.

franças: ramos mais altos de uma árvore. golfão: tipo de planta aquática.
silente: silenciosa. cismas: devaneio.
arroubados: extasiados; fascinados.

Literatura 17
c) Poesia caracterizada pelo escapismo, ou seja, pela
fuga do mundo real para um mundo ideal carac- Na glória da alegria e da bondade,
terizado pelo sonho, pela solidão, pelas emoções Agasalhando os pássaros nos ramos,
pessoais. Dando sombra e consolo aos que padecem!”
d) Predomínio dos sentimentos sobre a razão, gosto
BILAC, Olavo. Obra reunida, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996,
pelas ruínas e pela atmosfera de mistério. p. 336.
e) Poesia impregnada de religiosidade e que faz uso
recorrente de sinestesias. Quanto à forma, destaque uma característica do
Parnasianismo presente no poema.
5. (UEPG – PR) Sobre a poesia parnasiana, assinale o que
for correto. 7. (UFPE) O Arcadismo (no século XVIII) e o Parnasianismo
(em fins do século XIX) apresentam, em sua caracteri-
(01) Acima de todas as características do Parnasia- zação, pontos em comum. São eles:
nismo ressalta o primado da emoção e a aparen-
te rejeição do racionalismo. a) bucolismo e busca da simplicidade de expressão.
(02) A poesia parnasiana é um ritual mágico, uma b) amor galante e temas pastoris.
combinação alquímica de palavras de outras di- X c) ausência de subjetividade e presença da temática e
mensões de existência, uma simbiose do som e da mitologia greco-latina.
do sentido.
d) preferência pelas formas poéticas fixas, como o so-
X (04) A ênfase formalista do estilo parnasiano levou-o
neto, e pelas rimas ricas.
a desprezar o assunto em função da supervalo-
rização da técnica e, portanto, separar o sujeito e) a arte pela arte e o retorno à natureza.
criador de seu objeto criado. 8. (FGV – RJ) Assinale a alternativa correta a respeito do
(08) A ênfase na característica formal induz a associa- Parnasianismo:
ção mais analógica do que lógica entre as pala-
a) A inspiração é mais importante que a técnica.
vras e permite a criação do poema-prosa.
X b) Culto da forma: rigor quanto às regras de versifica-
X (16) O fazer artístico fundamenta-se na “transpira-
ção, ao ritmo, às rimas ricas ou raras.
ção”, ou seja, no cuidado com a linguagem, a
forma, a lapidação e o refinamento do texto. c) O nome do movimento vem de um poema de Rai-
6. (UFRRJ) mundo Correia.
d) Sua poesia é marcada pelo sentimentalismo.
As velhas árvores e) No Brasil, o Parnasianismo conviveu com o Barroco.
“Olha estas velhas árvores, – mais belas,
Do que as árvores moças, mais amigas, 9. (PUCRS) Na esteira da busca ,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas... o Parnasianismo tende ao .

O homem, a fera e o inseto à sombra delas Dessa forma, a possibilidade de


Vivem livres de fomes e fadigas; vínculo com a realidade.
E em seus galhos abrigam-se as cantigas, a) da impessoalidade / dogmatismo / estabelece
E alegria das aves tagarelas...
X b) da perfeição formal / esteticismo / rejeita
Não choremos jamais a mocidade! c) da perfeição formal / ilogismo / estabelece
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
d) do psicologismo / ilogismo / refuta
Como as árvores fortes envelhecem,
e) da impassibilidade / descritivismo / recupera

18 Volume 8
10. (UFPE) O Parnasianismo pode ser descrito como um movimento:
( V ) essencialmente poético, que reagiu ao sentimentalismo romântico.
( V ) cuja poesia é, sobretudo, forma que se sobrepõe ao conteúdo e às ideias.
( F ) cuja arte tinha um sentido utilitário e um compromisso social.
( V ) cuja verdade residia na beleza da obra, e essa, na sua perfeição formal.
( V ) que revela preferência pela objetividade, pelos temas greco-latinos e por formas fixas, como o soneto.
11. (UNESP – SP)

A Rodolfo Leite Ribeiro


[...] Noto nas poesias tuas, que o Vassourense tem publicado, muita naturalidade e cor local, além
da nitidez do estilo e correção da forma. Sentes e conheces o que cantas, são aprazivelmente brasilei-
ros os assuntos, que escolhes. Um pedaço de nossa bela natureza esplêndida palpita sempre em cada
estrofe tua, com todo o vigor das tintas que aproveitas. No “Samba” que me dedicas, por exemplo,
nenhuma particularidade falta dessa nossa dança macabra, movimento, graça e verdade ressaltam de
cada um dos quatorze versos, que constituem o soneto. / Como eu invejo isso, eu devastado comple-
tamente pelos prejuízos dessa escola a que chamam parnasiana, cujos produtos aleijados e raquíticos
apresentam todos os sintomas da decadência e parecem condenados, de nascença, à morte e ao olvi-
do! Dessa literatura que importamos de Paris, diretamente, ou com escala por Lisboa, literatura tão
falsa, postiça e alheia da nossa índole, o que breve resultará, pressinto-o, é uma triste e lamentável
esterilidade. Eu sou talvez uma das vítimas desse mal, que vai grassando entre nós. Não me atrevo,
pois, a censurar ninguém; lastimo profundamente a todos! / É preciso erguer-se mais o sentimento de
nacionalidade artística e literária, desdenhando-se menos o que é pátrio, nativo e nosso; e os poetas e
escritores devem cooperar nessa grande obra de restauração. Não achas? Canta um poeta, entre nós,
um Partenon de Atenas, que nunca viu; outro os costumes de um Japão a que nunca foi... Nenhum,
porém, se lembrara de cantar a Praia do Flamengo, como o fizeste, e qualquer julgaria indigno de um
soneto o Samba, que ecoa melancolicamente na solidão das nossas fazendas, à noite. / Entretanto,
este e outros assuntos vivem na tradição de nossos costumes, e é por desprezá-los assim que não
temos um poeta verdadeiramente nacional. / Qualquer assunto, por mais chilro e corriqueiro que pa-
reça ser, pode deixar de sê-lo, quando um raio do gênio o doure e inflame. / Tu me soubeste dar uma
prova desse asserto. Teus formosos versos é que hão de ficar, porque eles estão alumiados pela imensa
luz da verdade. Essa rota que me apontas é que eu deveria ter seguido, e que, infelizmente, deixei
de seguir. O sol do futuro vai romper justamente da banda para onde caminhas, e não da banda por
onde nós outros temos errado até hoje. / Continua, meu Rodolfo. Mais alguns sonetos no mesmo
gênero; e terás um livro que, por si só, valerá mais que toda a biblioteca de parnasianos. Onde, nestes,
a pitoresca simplicidade, a saudável frescura, a verdadeira poesia de teus versos?!

(Raimundo Correia. Correspondência. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1961.)

Todos Cantam sua Terra...


(1929)
[...] Acha Tristão de Ataíde que a literatura brasileira moderna, apesar de tudo, enxergou qual-
quer cousa às claras. Pois que deu fé que estava em erro. Que se esquecera do Brasil, que se expres-
sava numa língua que não era a fala do povo, que enveredara por terras de Europa e lá se perdera,

Literatura 19
com o mundo do Velho Mundo. Trabalho deu a esse movimento literário atual, a que chamam de
moderno, trazer a literatura brasileira ao ritmo da nacionalidade, isto é, integrá-la com as nossas
realidades reais. Mais ou menos isso falou o grande crítico. Assim como falou do novo erro em que
caiu esta literatura atual criando um convencionalismo modernista, uma brasilidade forçada, quase
tão errada, quanto a sua imbrasilidade. Em tudo isso está certo Tristão.
Houve de fato ausência de Brasil nos antigos, hoje parece que há Brasil de propósito nos moder-
nos. Porque nós não poderíamos com sinceridade achar Brasil no índio que Alencar isolou do negro,
cedendo-lhe as qualidades lusas, batalhando por um abolicionismo literário do índio que nos dá a
impressão de que o escravo daqueles tempos não era o preto, era o autóctone. O mesmo se deu com
Gonçalves Dias em que o índio entrou com o vestuário de penas pequeno e escasso demais para
disfarçar o que havia de Herculano no escritor.
[...]
Da mesma forma que os nossos primeiros literatos cantaram a terra, os nossos poetas e escritores de
hoje querem expressar o Brasil numa campanha literária de “custe o que custar”. Surgiram no começo
verdadeiros manifestos, verdadeiras paródias ao Casimiro e ao Gonçalves Dias: “Todos dizem a sua ter-
ra, também vou dizer a minha”. E do Norte, do Sul, do sertão, do brejo, de todo o país brotaram grupos,
programas, proclamações modernistas brasileiras, umas ridículas à beça. Ninguém melhor compreen-
deu, adivinhou mesmo, previu o que se ia dar, botando o preto no branco, num estudo apenso ao meu
primeiro livro de poesia em 1927, do que o meu amigo José Lins do Rego. (...)
Dois anos depois é o mesmo protesto de Tristão de Ataíde: “esse modernismo intencional não vale
nada!” Entretanto nós precisamos achar a nossa expressão que é o mesmo que nos acharmos.
E parece que o primeiro passo para o achamento é procurar trazer o homem brasileiro à sua reali-
dade étnica, política e religiosa.
[...] No seio deste Modernismo já se opera uma reação anti-ANTISINTAXE, anti-ANTIGRAMATI-
CAL em oposição ao desleixo que surgiu em alguns escritos, no começo. Nós não temos um passado
literário comprido (como têm os italianos, para citar só um povo), que nos endosse qualquer mudança
no presente, pela volta a ele, renascimento dele, pela volta de sua expressão estilística ou substancial. A
nossa tradição estilística, de galho deu, na terra boa em que se plantando dá tudo, apenas garranchos.

(Jorge de Lima. Ensaios. In: Poesias completas - v. 4. Rio de Janeiro: José Aguilar/MEC, 1974.)

Embora de épocas diferentes, Raimundo Correia e Jorge de Lima revelam estar imbuídos do mesmo propósito com
relação aos problemas da Literatura Brasileira. A partir deste comentário, releia os dois trechos e, a seguir,
a) identifique o sentimento em relação ao Brasil que aproxima os dois escritores e serve de base para suas observa-
ções críticas sobre a Literatura Brasileira.
b) demonstre o caráter pessimista da conclusão a que chega Raimundo Correia sobre o Parnasianismo no Brasil.
12. Leia as seguintes observações sobre a estética parnasiana:
I. O poeta parnasiano pretende ser um artesão, um ourives que molda seu verso. Seu maior objetivo, portanto, não é
expressar sentimentos, mas criar formas perfeitas de objetos estéticos.
II. O sentimentalismo é uma das chaves poderosas para a criação da poesia parnasiana. A temática sentimental e a
exaltação da musa inspiradora são perceptíveis na maioria dos poemas dessa escola literária.
III. No Parnasianismo, a atitude do poeta é a de quem contempla a natureza, evocando figuras mitológicas e cenários
pastoris. Sua poesia busca a expressão simples da fala do campo.

20 Volume 8
Assinale a alternativa CORRETA: Indique a alternativa que NÃO ESTÁ de acordo com o
X a) Apenas a afirmativa I é verdadeira. poema.

b) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras. a) O poeta parnasiano privilegiou a forma, a maneira


mais perfeita que encontrou para efetivar sua arte,
c) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras. mesmo que, para isso, ele tivesse que sacrificar
d) Apenas a afirmativa II é verdadeira. suas emoções. Nesse sentido, os versos de Olavo
Bilac são uma crítica ao Parnasianismo.
e) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
13. (UFAL) As afirmações seguintes referem-se ao Parna- b) O poeta fala da luta entre ideias e palavras e entre
sianismo no Brasil: forma e conteúdo, quando estes fracassam ao tra-
duzirem nossos sentimentos. As estrofes citadas
I. Para bem definir como entendia o trabalho de um são um derramamento da alma sobre essa luta,
poeta, Olavo Bilac comparou-o ao de um joalheiro, contrariando os preceitos parnasianos de contenção
ou seja: escrever poesia assemelha-se à perfeita la- lírica.
pidação de uma matéria preciosa.
X c) O tema básico das estrofes é o amor irrealizado, que
II. Pelas convicções que lhe são próprias, esse movi- causa sofrimentos ao poeta.
mento se distancia da espontaneidade e do senti-
mentalismo que muitos românticos valorizavam. d) Os versos são alexandrinos, muito apreciados pelos
parnasianos.
III. Por se identificarem com os ideais da Antiguidade
Clássica, é comum que os poetas mais representa- e) O verso “E a Palavra pesada abafa a Ideia leve”
tivos desse estilo aludam aos mitos daquela época. contém uma antítese, que representa a contradição
entre forma e conteúdo exposta pelo poeta.
Está correto o que se afirma em
a) II, apenas. d) II e III, apenas. 15. (UNB – DF)

b) I e II, apenas. X e) I, II e III.


c) I e III, apenas. Música brasileira
14. (UFU – MG) Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
“Inania Verba
Todo o feitiço do pecado humano.
........................................................................
O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de Dos desertos, das matas e do oceano:
neve... Bárbara poracé, banzo africano,
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve, E soluços de trova portuguesa.
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Quem o molde achará para a expressão de Acordes são desejos e orfandades
tudo? De selvagens, cativos e marujos:
Ai! Quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que se E em nostalgias e paixões consistes,
levanta? Lasciva dor, beijo de três saudades,
.......................................................................” Flor amorosa de três raças tristes.

(Olavo Bilac, Poesias) Olavo Bilac. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.

Literatura 21
Com base na leitura do poema e sabendo que Olavo Bilac é um dos maiores expoentes da poesia parnasiana no Brasil,
julgue os itens que se seguem.
1) ( F ) São características do Parnasianismo, presentes no poema: a arte pela arte, a impassibilidade, a economia
vocabular, a poesia descritiva, a revalorização da mitologia.
2) ( V ) Música brasileira é um exemplo de poema de forma fixa.
3) ( V ) Em “o fogo soberano / Do amor” (v. 1-2), tem-se um exemplo de metáfora.
4) ( F ) O ritmo do verso 3 é binário, em uma alusão ao movimento dos quadris femininos.
5) ( V ) A rima entre “cujos” (v. 9) e “marujos” (v. 11) classifica-se como rica.
16. (FATEC – PR)

Soneto parnasiano e acróstico em louvor de Helena Oliveira


“Houve na Grécia antiga uma beleza rara
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.

Não a compararei porém (quem a compara?)


À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.

Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,


Versátil coração, frio como uma joia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.

Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.


Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.”

(Manuel Bandeira)

Apesar de ser modernista, Bandeira chama de parnasiano o seu poema porque


I. sua forma, o soneto metrificado com rimas ricas, caracteriza a poesia tipicamente parnasiana.
II. na sua descrição de Helena de Tróia e de Helena de Oliveira não há espaço para as apreciações subjetivas carac-
terísticas da poesia romântica que precedeu o parnasianismo.
III. em seu elogio a Helena retoma uma personagem da Antiguidade Clássica, evitando tratar da mulher comum.
Quanto a essas afirmações, deve-se concluir que apenas
a) I e II estão corretas.
b) I e III estão corretas.
c) II e III estão corretas.
d) II está correta.
X e) I está correta.

22 Volume 8
16
Simbolismo
LatinStock/Album/akg-images/Werner Forman

Desenho em madrepérola sobre um pedaço


de um móvel de madeira escura em que
podem ser vistos dois dragões, símbolos do
poder imperial, vigiando uma representação
da energia interior na forma do yin e yang.
Peça de decoração taoista, séculos XVIII e
XIX, Vietnã. Nessa peça, diversos símbolos
da cultura oriental se entrelaçam para
compor uma representação do poder do
imperador vietnamita

Ponto de partida
1

1. O que é um símbolo?
2. Na peça esculpida em madrepérola (substância dura e rica em calcário que reveste internamente as conchas),
vemos a representação de dois dragões. A que cultura os dragões geralmente estão associados?
3. Na legenda que acompanha a imagem, lê-se que se trata da representação do poder imperial. Para você, que
elementos presentes na imagem reforçam esse sentido?

23
Objetivos da unidade:
ƒ compreender os aspectos que originaram o surgimento da estética simbolista;
ƒ conhecer os acontecimentos que configuraram ram o contexto histórico e social em que se deu o
Simbolismo tanto na Europa como no Brasil;
ƒ conhecer os elementos principais que caracterizam a poesia simbolista portuguesa;
ƒ conhecer os principais poetas simbolistas portugueses e suas obras;
ƒ conhecer os elementos principais que caracterizam a poesia simbolista brasileira;
ƒ conhecer os principais poetas simbolistas brasileiros e suas obras.

Lendo a literatura
Leia o poema do poeta francês Charles Baudelaire. 2 Sugestão de leitura.

Mariana Coan. 2015. Digital.


Correspondências
A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem
home
ho memm o cruza
cruz
cruzaa em meio
mei
eioo a um bosque
bos
osqu
quee de segredos
seg
egre
redo
doss
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam


Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,


Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,


Como o almíscar, o incenso
Como nsoo e as resinas do
incens
ince do Oriente,
Orie
Ori
ient
nte
te,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

BAUDELAIRE, Charles. Correspondências. In: ______. Flores do mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 115.

insólitos: incomuns; raros. dissolutos: libertinos; devassos.


matizam: realçam; destacam. almíscar: substância de cheiro forte.
lúgubre: funesta. resinas: substâncias viscosas produzidas por determinadas
determinaddas plantas
plantas e
infantes: crianças. animais.

24 Volume 8
Charles Baudelaire nasceu em Paris, em 1821. Poeta, crítico de arte, escritor, ensaísta

ital.
Daniel Klein. 2015. Dig
e tradutor, foi um dos mais importantes literatos de todos os tempos. Sua obra literária
exerceu não apenas uma profunda influência em seu tempo, mas também pode ser con-
siderada uma das mais lidas e admiradas em tempos posteriores. Seus textos e reflexões
estão entre os fundadores da literatura contemporânea. Entre suas obras, destacam-se o
volume de poemas intitulado As flores do mal (1857), os poemas em prosa de Spleen de
Paris (publicado postumamente em 1869) e seus textos de crítica de pintura, escritos em
1845 e 1846. Morreu em 31 de agosto de 1867.

1. Qual das características a seguir NÃO está presente no poema “Correspondências”?


a) Uso de metáforas relacionadas à natureza. d) Métrica regular.
X b) Referência à mitologia grega. e) Vocabulário requintado.
c) Rimas.
2. Releia os dois primeiros versos do poema. A “natureza” é comparada a um “templo” cujas estruturas (“pilares”) filtram
“insólitos enredos”.
a) Explique as diferenças entre a ideia de natureza presente nesse soneto e o modo como a natureza é compreendida
pelo Naturalismo.
A natureza, para o Naturalismo, é um grande objeto que pode ser investigado por meio dos instrumentos das ciências pois, tal qual

uma experiência em um laboratório, um texto literário pode criar um ambiente adequado para “dissecar” o comportamento humano.

Já no soneto de Baudelaire a natureza é vista como um templo, ou seja, como um palácio, um espaço nobre, repleto de estímulos

que são “filtrados”, estabelecendo relações entre si.

b) Qual o significado de “insólitos enredos” no contexto do soneto?


Os “insólitos enredos” são as formas infinitas de associação dos estímulos da natureza que são filtrados pelos “pilares”. Vale destacar

os significados de cada um dos termos presentes no soneto separadamente: “insólito” = fora do comum, raro, em alguns casos

significa também o que é sobrenatural; “enredos” = narrativas, histórias, acontecimentos.

c) A ideia de que, no poema de Baudelaire, ocorre uma filtragem da natureza para que ela se torne perceptível se
opõe a uma perspectiva objetiva ou subjetiva da realidade?
Opõe-se à visão objetiva da realidade, pois a natureza não é percebida como algo bruto ou por meio das “lentes” das ciências nem

algo absoluto e eterno, mas tem várias “versões”, vários “enredos” possíveis para serem percebidos. O poema propõe, portanto,

que a natureza é variável, não eterna, mas, sim, em constante transformação.

Literatura 25
3. Esse poema faz referência à mistura, à combinação entre duas ou mais sensações, sentidos. A esse respeito, respon-
da às questões.
a) Destaque do soneto duas dessas misturas de sensações.
No quinto verso, “Como ecos longos que à distância se matizam”, “ecos” se refere a uma percepção sonora, ao passo que o verbo

“matizar” diz respeito a impressões visuais; no verso 10, “Doces como o oboé, verdes como a campina,”, “doces” se refere ao sentido

do paladar, enquanto o instrumento musical oboé emite sons que estimulam a sensação auditiva.

b) Como se chama a figura de linguagem que indica a mescla entre um ou mais dos cinco sentidos?
Sinestesia.

4. Veja a imagem a seguir, que é uma reprodução da tela pintada pelo artista Odilon Redon, cujo título é Aparição.

Princeton/Fotógrafo desconhecido
Museu de Arte da Universidade de

REDON, Odilon. Aparição. 1910. 1 óleo


sobre tela, color., 64,77 cm × 89,65 cm.
Museu de Arte da Universidade de
Princeton, Princeton.

Na tela de Redon, é possível notar, assim como no poema de Charles Baudelaire, a sugestão de um ambiente em que
os cinco sentidos se misturam, criando um efeito de correspondência entre as imagens.
a) Para você, o que há em comum no que diz respeito à representação da natureza no soneto e na tela?
Pessoal. Espera-se que os alunos consigam notar que tanto o poema quanto a pintura representam uma realidade imaginada pelo eu

lírico e pelo artista, ou seja, não correspondem a um cenário natural objetivo.

26 Volume 8
b) Retorne à unidade anterior, que trata do Parnasianismo. Localize a pintura de William Trost Richards intitulada
Paisagem marítima com um farol distante. Indique três diferenças existentes entre as duas telas.
Pessoal. Sugestões: na tela de Richards, o tema é uma paisagem natural, a representação é descritiva e objetiva; na pintura de

Redon, o tema remete a um plano espiritual (reforçado pelas imagens dos corpos brilhantes), a representação é fantasiosa

(lembrando um sonho) e subjetiva (não corresponde a qualquer cenário que tenha uma existência real, mas, sim, algo imaginado

pelo artista).

5. O título do poema “Correspondências” se remete a uma teoria filosófica bastante difundida no período, segundo a qual
todas as coisas que existem estabelecem inúmeras relações de correspondências entre si.
Selecione e comente uma passagem do soneto lido em que essa teoria pode ser observada.
Pessoal. Talvez os alunos selecionem o trecho “Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, / Os sons, as cores e os perfumes se

harmonizam.”, pois nele o efeito de correspondência é explicitamente mencionado. Contudo, alguns alunos podem propor outros

trechos. O que vale, nesse caso, é a coerência da argumentação dos alunos justificando suas escolhas.
Museu Gustave Moreau/Fotógrafo desconhecido

Com as inovações da literatura simbolis-


ta, surgiu na França, na década de 1880,
a pintura simbolista. Essa produção
artística pode ser entendida como uma
reação à pintura realista, que se vincu-
lava ao cientificismo e ao positivismo. A
pintura simbolista buscava o que seus
artistas chamavam de perspectiva
espiritual da existência, ou seja, a
exploração da imaginação e o dis-
tanciamento da racionalidade.

MOREAU, Gustave. Os unicórnios. [s.d.] 1 óleo sobre tela,


color., 115 cm × 90 cm. Museu Gustave Moreau, Paris.

Gustave Moreau explorava, em suas obras, um


universo místico e mitológico que desafiava a
percepção da realidade

Literatura 27
Acontecia
Simbolismo na Europa 3 Sugestão para contextualização.

Assim como aconteceu com a poesia parnasiana, a literatura do Simbolismo teve como pano de fundo histórico
e social os acontecimentos que marcaram a vida na segunda metade do século XIX. Contudo (e diferentemente do
Parnasianismo), o Simbolismo não pode ser entendido como uma estética de algum modo alinhada à visão positiva
dos acontecimentos relacionados à Belle Époque.
Para os escritores simbolistas, as correntes materialistas e racionalistas que se desenvolveram ao longo da segunda
metade do século XIX não mais respondiam às exigências de uma nova forma de entender a realidade. O processo
que tornou o modo de vida da burguesia um ideal a ser reproduzido estava situado em uma série de impasses e difi-
culdades: as grandes nações desenvolvidas disputavam os mínimos espaços em que estavam os consumidores; com
o aumento da produção de bens industrializados, empresas tentavam ampliar o consumo; a falta de matéria-prima
começava a ser sentida; o continente africano era fragmentado em zonas de domínio colonial; países europeus au-
mentavam seu controle em territórios asiáticos.
Nesse mesmo contexto, teorias espiritualistas e esotéricas se propagaram, assim como filosofias que afirmavam a
importância de investigar as dimensões não racionais da psiquê humana. Nesse período, surgiram a Psicanálise, com
Sigmund Freud, e o Espiritismo, com Alan Kardec, bem como ganhou notoriedade a crítica da ideia da Civilização Oci-
dental baseada no racionalismo de Friedrich Nietzsche.

Olhar literário
Aspectos do Simbolismo
Enquanto alguns artistas buscavam uma expressão estética baseada nos avanços dos conhecimentos científicos
para realizar uma análise das relações do ser humano com a sociedade em que vivia (no caso, os realistas e naturalis-
tas) ou resgatar modelos poéticos típicos da Antiguidade
Clássica, com base em uma visão objetiva e no culto à
forma artística (parnasianos), havia artistas que buscavam
definir caminhos bem diversos para formular sua concep- ”, que dá origem ao nome
Vários são os significados do termo “símbolo
ção estética: os simbolistas, que partiram da negação do o da Filosofia, de autoria
Simbolismo. No livro Vocabulário técnico e crític
materialismo, do positivismo e do determinismo, ou seja, idos tais como: aquilo que
de André Lalande , essa palavra apresenta sent
das atitudes científico-filosóficas que embasaram as três spondência analógica;
representa outra coisa em virtude de uma corre
tendências anteriores. oposição à realidade; uma comparação.
ntramos na estética sim-
É possível, portanto, compreender o Simbolismo De certo modo, a noção de símbolo que enco
ições, especialmente se
como uma espécie de radicalização de parte das dou- bolista pode ser relacionada com essas três defin
o de recusar uma interpre-
trinas liberais que se prolongaram do Romantismo. Na levarmos em conta a proposta do Simbolism
etivas de representar os
poesia simbolista, a subjetividade, o individualismo e tação realista do mundo e buscar maneiras subj
um certo espiritualismo se impunham como as marcas dilemas humanos.

28 Volume 8
mais importantes de um texto, seja na poesia, seja na prosa poética ou poema em prosa (gênero literário bastante
cultivado pelos simbolistas, que consistia na produção de uma poesia que não era escrita em versos ou estrofes como
os poemas). 4 Diferenciação entre espiritismo e espiritualismo.
A ideia de uma poesia pura, surgida do inconsciente e, assim, distante do racionalismo, tinha como propósito
direcionar o leitor não apenas para aquilo sobre o que ele poderia refletir ou conceituar, mas também para aquilo que
era apenas sugerido no texto, de modo a imaginar uma realidade que ultrapassasse sua experiência objetiva.
Ganhou força no Simbolismo a teoria das correspondências: ao passar pelo “filtro” dos sentidos, as experiências
sensoriais se confundem. Por exemplo, cores sugerem imagens que passam a ser captadas pelos demais sentidos, como
o tato ou o paladar, ou seja, a poesia proporciona um momento não apenas de compreensão racional, mas também de
êxtase sensorial. 5 Sobre a teoria das correspondências.

Outro aspecto que diferencia a poesia simbolista é seu apelo à musicalidade das palavras. Se a poesia parnasiana
era mais descritiva, portanto mais visual, o texto simbolista sugere a seu leitor uma sonoridade mais evidente. Figuras
de linguagem como aliterações, assonâncias e até onomatopeias atuam na criação de uma atmosfera que embala a
percepção do ouvinte, provocando, em situações mais extremas, aquilo que Arthur Rimbaud, um importante poeta
francês do período, chamava de alucinação sensorial.
O espiritualismo, o misticismo, o ocultismo e uma subjetividade intensa eram elementos presentes na escrita sim-
bolista, que propunha uma evasão do mundo, uma oposição à certeza advinda do racionalismo. Os contornos dos
objetos na pintura, a imprecisão das palavras na poesia ou a mistura de sons a princípio desconexos na música reforça-
vam no Simbolismo uma tendência para o vago e o indefinido. Nesse sentido, a arte simbolista apresentava alguns
elementos de estilo que foram retomados no Modernismo. 6 Sugestão de discussão sobre o papel social dos poetas.
Um aspecto em comum, por fim, com o Parnasianismo foi a crença na singularidade do poeta em relação aos de-
mais homens: os simbolistas também entendiam ser a arte algo que elevava o espírito, distanciando o artista da vida
comum, defendendo o culto da arte pela arte.
Alguns autores radicalizaram no emprego de elementos como a teoria das correspondências, o desprezo pelos valores
burgueses, a renúncia da vida em sociedade, o gosto por costumes exóticos, dando origem ao movimento que ficou
conhecido como Decadentismo. A linguagem dos escritores decadentistas fazia uso de um vocabulário vasto, palavras
pouco comuns, situações insólitas, figuras macabras e imagens bizarras e tétricas. Entre os escritores que produziram obras
decadentistas estão Joris-Karl Huysmans, Auguste Villiers de L’Isle-Adam e, no Brasil, Gonzaga Duque e Rocha Pombo.
Algumas das ideias que permeiam a produção literária decadentista são o pessimismo, a anarquia, a morbidez, o
individualismo, a recusa em viver uma realidade banal e o desejo de fuga do real.

Sugestão de atividades: questões 1 a 5 da seção Hora de estudo.

Atividades
Leia o poema em prosa simbolista a seguir. 7 Orientações.

Ocaso no mar
Num fulgor d’ouro velho o sol tranquilamente desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d’águas
calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num tom de bronze.
No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há uma doce suavidade astral e religiosa.

glauco: esverdeado. astral: referente a um ou mais astros.

Literatura 29
Às derradeiras cintilações doiradas do nobre Astro do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das
mastreações, na quietação das ondas, parecem estar em êxtase na tarde.
Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas altas lembrando, na distância, esguios caracteres
de música, pautam o fundo do horizonte límpido.
Os navios, assim armados, com a mastreação, as vergas dispostas por essa forma, estão como a fazer-se
de vela, prontos a arrancar do porto.
Um ritmo indefinível, como a errante etereal expressão das forças originais e virgens, inefavelmente
desce, na tarde que finda, por entre a nitidez já indecisa dos mastros…
Em pouco as sombras densas envolvem gradativamente o horizonte em torno, a vastidão das vagas.
Começa, então, no alto e profundo firmamento silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas.
Surgindo através de tufos escuros de folhagem, além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face
chara de chim, verte um óleo luminoso e dormente em toda a amplidão da paisagem.

CRUZ E SOUSA, João da. Ocaso no mar. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/


bv000076.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2015.

.
5. Digital
Cruz e Sousa nasceu em Desterro, atual Florianópolis, em 1861. Criado pela família do

lein. 201
marechal Guilherme Xavier de Sousa, de quem herdou o sobrenome, foi uma criança que

Daniel K
desde bem pequena demonstrou muita habilidade para os estudos. Seu interesse pela
poesia começou cedo. Sofreu uma série infindável de preconceitos, entre os quais o impe-
dimento de assumir um posto de promotor em Laguna no ano de 1884. Viveu com poucos
rendimentos. Morreu em 1898.

a) Qual é o tema do texto?


O texto trata de uma visão do anoitecer em uma paisagem marítima.

b) Uma das características mais marcantes do Simbolismo é a exploração, por parte do eu lírico, de correspondências
entre as sensações. Localize, transcreva e explique um exemplo de correspondência presente no texto.
Pessoal. Sugestão: “Começa, então, no alto e profundo firmamento silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas”. Nessa

passagem, há uma sinestesia que mistura impressões auditivas (“firmamento silencioso”), visuais (“brilho” e “fino”) e táteis (“frio”).

mastreações: colocações de mastros nos navios. etereal: eterna.


esmalte: brilho lustroso. inefavelmente: de uma maneira que não se pode explicar com palavras.
vergas: longas peças de madeira que se prendem aos mastros para dar cimos: topos.
apoio às velas. chara: costumeira.
pautam: colocam-se como em uma folha com pautas, utilizadas para a chim: chinês.
escrita de músicas.

30 Volume 8
c) Observando o modo como o eu lírico observa a paisagem, pode-se dizer que sua perspectiva é objetiva ou subje-
tiva? Justifique sua resposta analisando elementos presentes no texto.
Sua perspectiva é subjetiva. Alguns trechos vão além de uma simples descrição objetiva. Um exemplo claro é o fragmento em que o

eu lírico observa ao longe os mastros dos navios projetados no céu ao fundo: “Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas

altas lembrando, na distância, esguios caracteres de música, pautam o fundo do horizonte límpido”. Nesse momento, o olhar do eu

lírico não se limita a descrever os mastros e as vergas dos navios, mas os compara com uma folha pautada em que se representa

graficamente uma peça musical. Em suma, a imaginação do eu avança sobre o terreno da descrição racional acrescentando à

paisagem elementos que objetivamente não se encontram nela.

Acontecia
Contexto português no final do século XIX
No final do século XIX, Portugal encontrava-se em um estado crítico dos pontos de vista social, político e econô-
mico. Três fatos, que se interligavam, resumem essa condição.
• Crise do sistema político: a partir de 1870, ganharam espaço no cenário político português grupos que defen-
diam mudanças radicais na forma como o poder ali se instituía. Dois deles, os republicanos e os socialistas, não
consideravam a dinastia de Bragança representativa. A figura da Família Real se tornara, para muitos, a responsá-
vel pela crise econômica, política e moral que assolava o país; influenciados pelo positivismo, acreditavam que o
modelo monárquico de governo era uma expressão das forças de atraso que impediam o progresso da nação.
• Crise do sistema econômico e financeiro: a falta de confiança na capacidade de manter a economia em uma
rota de crescimento fez com que ocorresse uma depreciação da moeda portuguesa, fato que foi acompanhado
do fechamento de bancos e aumento da dívida pública.
• Crise do sistema imperialista: como visto anteriormente, as últimas dé-
e
cadas do século XIX foram marcadas pelo avanço do sistema capitalista A Conferência de Berlim ocorreu entr
e, por consequência, pela expansão territorial em busca de novos mer- 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro
a
cados consumidores e fornecedores de matéria-prima. Portugal via a de 1885. Seu maior objetivo foi organizar
expansão de seus territórios na África como uma forma de solucionar ocupação de uma grande parte do território
seus problemas financeiros. A Inglaterra e outras potências europeias africano por alguns países europeus. Foram
também passaram a desejar a ampliação de seus domínios no continen- formuladas algumas regras para essa divisão
te africano. Os portugueses cederam à pressão dos ingleses (Ultimato e desconsideradas divisões que já existiam,
Inglês) e abandonaram seus territórios, fato que gerou na população como a de comunidades inimigas, que pas-
lusitana um enorme descontentamento contra seus governantes (a mo- saram a compartilhar um mesmo espaço,
narquia). Em 1885, a Conferência de Berlim equacionou a disputa dos enquanto outras comunidades próximas
territórios africanos, com prejuízos para Portugal. foram mantidas em “países” diferentes.

Literatura 31
Olhar literário
Simbolismo em Portugal
O movimento simbolista teve início em Portugal em 1890, com a publicação do livro de Eugênio de Castro inti-
tulado Oaristos. Dois outros escritores compõem o quadro dos mais importantes dessa estética em Portugal: Antonio
Nobre e Camilo Pessanha.
Explorando dimensões distintas do Simbolismo, esses escritores vivenciaram intensamente os acontecimentos so-
ciais, políticos e econômicos que ocorreram naquele momento. É o que se pode observar nas preocupações estéticas
de Eugênio de Castro e no nacionalismo saudosista de Antonio Nobre. Contudo, do ponto de vista estético, a poesia de
Camilo Pessanha é considerada a mais importante.
A poética de Camilo Pessanha tem como temática a dificuldade do eu em se integrar ao mundo que o cerca.
Essa marca pessimista de sua poesia é trabalhada pela grande capacidade do escritor de transformar imagens em
sonoridade.
Sua única obra, intitulada Clepsidra, foi publicada em 1920, poucos anos antes de sua morte, em 1926. Seu legado
foi um dos que mais influenciaram a geração de poetas modernistas que surgiram em Portugal a partir da primeira
década do século XX.
8 Sobre a relação entre Camilo Pessanha
anha e os escritores modernistas portugueses.

Sugestão de atividades: questões 6 a 10 da seção Hora de estudo.


Sugest

Atividades
1. Leia o poema de autoria do poeta português
uês Camilo Pessanha.

Paisagens de inverno – II
Passou o outono já, já torna o frio... ©iStockphoto.com/Nikhil Gangavane/
Mariana Coan. 2015. Digital.
Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
o...
O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,


Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
o?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,


E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?


E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

PESSANHA, Camilo. Paisagem de inverno – II. Disponível


ponível em: <http://www.
dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000065.pdf>.
.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2015.

álgido: muito frio. .

32 Volume 8
. Digital.
ein. 2015
Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867. Cursou Direito e, logo que se formou,

Daniel Kl
partiu para Macau, lugar em que trabalhou em funções judiciais. Conhecia o idioma chinês,
fato que permitiu a ele traduzir um bom número de poemas escritos nessa língua. Morreu
em 1926, em Macau.

a) A primeira estrofe do poema apresenta a visão de uma paisagem de inverno. Que características simbolistas estão
presentes nessa paisagem?
Pessoal. Espera-se que os alunos sejam capazes de identificar a mistura de sensações que aflige o eu lírico (o tato com o frio; a

visão das águas límpidas).

b) A metáfora das águas, que permeia toda a segunda estrofe, conduz o olhar do eu lírico. Sobre o sentimento provo-
cado por essa percepção, pode-se afirmar que
( ) é uma sensação de felicidade por poder reencontrar a amada.
( ) diz respeito não propriamente a um sentimento, mas, sim, a uma meditação filosófica sobre a existência humana.
( ) tem pouca importância para o eu lírico, visto que sua atenção se volta para o sol de inverno que se inclina
sobre a paisagem.
( X ) gera uma dúvida sobre o lugar a que essas águas levarão seu “coração vazio”.
c) Das afirmações a seguir, qual está correta? Justifique sua escolha.
• A imagem do feminino que se forma na relação entre a observação, por parte do eu lírico, das águas que correm
e sua lembrança se materializa no poema na terceira estrofe.
• Ao longo do poema, “escondida” por várias metáforas, está a lembrança que o eu lírico tem de sua amada, que,
por algum motivo, se afastou dele.
A primeira afirmação está correta. Na terceira estrofe, o corpo feminino aparece materializado na imagem dos cabelos e dos olhos.

Nas estrofes anteriores, não há referências ao corpo feminino.

d) Para você, o que o texto sugere que aconteceu com a amada do eu lírico? Que imagem presente na última estrofe
indica o destino que ela teve?
Pessoal. Espera-se que os alunos percebam que a amada do eu lírico morreu, como é possível perceber na última estrofe do último

verso “As suas mãos translúcidas e frias...”.

e) Qual é o tema do soneto?


O soneto trata da morte da amada e da melancolia que toma conta do eu lírico em função desse acontecimento.

Literatura 33
Texto para as questões 2 e 3.

©iStockphoto.com/johnnychaos
Epígrafe*
Murmúrio de água na clepsidra** gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante***
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para que tanta lida,


Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...

(Eugênio de Castro. “Antologia pessoal da poesia portuguesa”)

(*) Epígrafe: inscrição colocada no ponto mais alto; tema.


(**) Clepsidra: relógio de água.
(***) Pedra do quadrante: parte superior de um relógio de sol.

2. (ENEM) A imagem contida em “lentas gotas de som” 3. (ENEM) Neste poema, o que leva o poeta a questionar
(verso 2) é retomada na segunda estrofe por meio da determinadas ações humanas (versos 6 e 7) é a:
expressão:
a) infantilidade do ser humano.
a) tanta ameaça.
b) destruição da natureza.
X b) som de bronze.
c) exaltação da violência.
c) punhado de areia.
d) inutilidade do trabalho.
d) sombra que passa.
X e) brevidade da vida.
e) somente a Beleza.

Acontecia
Contexto histórico no Brasil no final do século XIX
Se, nas últimas décadas do século XIX, o capitalismo industrial promovia um conjunto de mudanças considerável
na vida das pessoas, no Brasil, as transformações geradas pelas novas estruturas política, econômica e social ainda não
se faziam sentir plenamente no modo vida das populações da cidade e do campo. A Abolição da Escravatura (1888)
e a Proclamação da República (1889) não asseguraram por si sós uma mudança de mentalidade na proporção que
acreditavam seus defensores. Os direitos de igualdade e de oportunidade não estavam garantidos a todos, pois per-
maneciam alguns preconceitos.
Sem uma estratégia bem delineada de inserção social da massa de trabalhadores afrodescendentes (muitos
deles ex-escravizados), uma parcela considerável de pessoas em situação de miséria começou a ocupar os espaços
marginais das cidades em busca de condições mínimas de vida. Manifestações organizadas como a ocorrida em Ca-
nudos e as Revoltas da Armada revelavam que muito do que era esperado com as mudanças políticas e econômicas
de fato não se realizou. 9 Sugestão de atividade.

34 Volume 8
De um lado, as marcas de prosperidade e de progresso serviam a uma elite que enxergava uma nova nação, ante-
nada com os centros culturais e econômicos da Europa, que frequentava os cafés, lia os jornais e circulava pelos lugares
públicos exibindo roupas da moda, cultivava uma vida fútil e superficial, com um afinado gosto estético e totalmente
desapegada dos problemas sociais.
De outro, porém, a falta de perspectiva condenava famílias ao subemprego, às doenças que proliferavam pela falta
de condições sanitárias nas regiões que habitavam e ao preconceito.

Olhar literário
Simbolismo no Brasil e poetas simbolistas brasileiros
Nesse contexto, surgiu o Simbolismo, em 1893, com a publicação de duas obras, Missal (em prosa poética) e Bro-
quéis (poesia), de um dos mais notáveis escritores brasileiros: Cruz e Sousa. Junto a ele, outro importante autor merece
destaque: Alphonsus de Guimaraens.
A obra de Cruz e Sousa apresenta uma grande diversidade de aspectos, do ponto de vista tanto temático quanto
formal. Considerado por críticos uma espécie de renovador da linguagem poética por sua força e originalidade, Cruz
e Sousa ultrapassa os limites estreitos do poema parnasiano (nessa época, o de maior prestígio pelo público elitista e
leitor) com o qual dialogava propondo uma nova maneira de escrever poesia.
Suas referências, vindas da literatura francesa principalmente, mesclavam temas como morte, mistério, conflito
interior, amor e escravidão (era filho de escravizados alforriados e foi criado como um agregado pela família de seu ex-
-senhor) a uma preocupação com o ato da transcendência. Quanto aos usos da linguagem, trabalhou com a musicali-
dade dos versos, com os aspectos gráficos no aproveitamento de letras maiúsculas em palavras para dar valor absoluto
a determinados termos (como Astros, Visões, Sonho, Mar, etc.), com a sugestão dos sentidos misturando-se (segundo
as leis da teoria das correspondências), com a construção métrica, etc.
Sua poesia abrange a busca por uma dimensão idealizada e até certo ponto espiritual e um desejo permanente
de transformação social. Em uma sociedade em que a escravidão acabara oficialmente (mas não necessariamente
na mentalidade social) quase 15 anos antes da publicação de seus livros, Cruz e Sousa teve como público leitores
brancos e pertencentes a uma elite economicamente privilegiada (uma vez que os mais pobres eram, em geral,
analfabetos). 10 Sobre a poesia de Cruz e Sousa.
Em um país em que ser negro era sinônimo de ser marginalizado, a presença de um poeta negro de grande talento
era alvo de estranhamento. Cruz e Sousa foi pouco reconhecido em vida e passou por graves dificuldades financeiras,
publicando poucos textos.
Outro poeta simbolista importante foi Alphonsus de Guimaraens. Sua escrita aborda quase exclusivamente
o tema da morte da amada. Outros temas, tais como natureza, arte e crença religiosa, surgem relacionados a esse
tema central.
O amor, de acordo com a perspectiva simbolista de Guimaraens, é sempre envolto em uma atmosfera espiritua-
lizada. Em sua poesia, há uma espécie de misticismo amoroso e a visão da amada morta é objeto de culto. O clima
noturno, espectral e fúnebre paira sobre essa poesia da ausência.

Literatura 35
11 Orientações.
Revistas simbolistas e polêmicas entre os “novos” e os “velhos” poetas
O Simbolismo brasileiro foi um movimento que desencadeou uma série de manifestações contra e a favor de uma
renovação literária, principalmente em relação à compreensão do papel da arte. Nos 20 anos finais do século XIX e
até pelo menos ao longo da primeira década do século XX, as estéticas parnasiana, no campo da poesia, e realista,
no campo da prosa, vigoravam como modelos quase absolutos da considerada “boa literatura” nos meios artísticos e
intelectuais. Os simbolistas, então, compartilhando alguns ideais da escrita parnasiana (em relação à poesia pura e à
compreensão do papel do poeta como um ser especial descolado do compromisso com a crítica aos males da socie-
dade, por exemplo), buscavam espaços de reconhecimento junto a leitores que pertenciam à elite cultural.
Entre as estratégias de divulgação das concepções artísticas simbolistas, surgiram revistas e jornais dedicados à vei-
culação de suas ideias e de seus textos literários, ao debate e às polêmicas com os escritores contrários a essa estética
e que serviam de espaço para crítica literária, projetos e programas em favor do Simbolismo.
Nesse sentido, várias publicações ganharam importância em lugares diversos do país. Na Bahia, a revista Nova
cruzada, publicada em 1901, “convocava” os adeptos do Simbolismo a participar daquilo que chamava de “guerra” em
favor de uma estética contrária ao Parnasianismo e ao Realismo adotada como padrão por uma elite burguesa nacional.

É a Nova Cruzada que parte para a guerra, com grande pasmo da burguesia estúpida e selvagem – ado-
radora de bezerro de ouro – que aplaude insensatamente ao truão politiqueiro enquanto passa esquecida,
com o cérebro a arder ideias geniais, o mancebo pálido, desfeito pelas longas vigílias, consagrados no estu-
do, na placidez de sua alcova.
CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e Simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: LTC; Brasília: INL, 1980. p. 285.

Nesse trecho, algumas imagens chamam a atenção: em primeiro lugar, o ataque feroz à “burguesia estúpida e sel-
vagem”, que pode ser entendido como uma crítica direta aos leitores de uma elite que reage contrariamente à estética
simbolista; o “bezerro de ouro”, uma referência à passagem bíblica do Velho Testamento em que se narra a adoração
por parte do povo hebreu a um falso deus; a figura do “truão politiqueiro”, uma crítica contundente a escritores que
assumem o lugar de “bobos da corte” produzindo uma literatura para o agrado da burguesia tola; por fim, a imagem do
grande artista (simbolista) com “o cérebro a arder ideias geniais” que não se dobra ao sistema burguês, vivendo em seu
quarto e dedicando-se ao “estudo”, isto é, à escrita de uma literatura importante.
12 Proximidade entre os poetas simbolistas e os ultrarromânticos.
Outras publicações, menos agressivas, também apareceram em localidades distantes do centro cultural do país
(Rio de Janeiro). Em Minas Gerais, no mesmo ano de publicação da Nova cruzada (1901), surgiu uma revista de arte
intitulada Minas artística. Em uma carta endereçada a um dos poetas mais importantes do Simbolismo brasileiro, o
mineiro Alphonsus de Guimaraens, escritores daquele estado explicavam a necessidade de criar um canal de divul-
gação de ideias que pudesse expressar uma estética diferente da “oficial” que circulava entre os meios intelectuais
em Minas.

No organismo social de Belo Horizonte, em forma de revista, um único elemento ainda não se manifes-
tou – o elemento artístico. Sabe-se que ele existe, mas, fraco pela dispersão. Fidalgos artistas aqui pelejam
pela Arte. Não tentaram, porém, um grande trabalho de coesão intelectual. Nossa Revista não se volverá tão
somente para a Literatura, nas suas páginas vulgirão também críticas de música, pintura, etc.

CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e Simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: LTC; Brasília: INL, 1980. p. 279.

pasmo: espanto; choque. alcova: dormitório.


truão: bobo; palhaço. volverá: voltará; dedicará.
placidez: calma; serenidade. vulgirão: aparecerão frequentemente.

36 Volume 8
Dos variados lugares em que surgiram manifestações em defesa de uma estética simbolista entendida como forma
de oposição às estéticas “oficiais”, o estado do Paraná pode ser considerado um dos mais significativos. Anos antes das
publicações de revistas na Bahia e em Minas Gerais, a Revista Azul, de 1893, e a revista Cenáculo, de 1895, já divulgavam
propostas de uma produção literária mais ampla se comparada aos textos literários escritos e admirados pelo público
que ditavam o gosto estético padrão.
Em abril de 1895, em uma carta ao público que inaugura a publicação da Cenáculo, Dario Veloso define as intenções
dessa revista:

O Cenáculo não vem pugnar dogmaticamente por nenhuma escola filosófica ou literária, porquanto
não admite o exclusivismo partidário, nem reza liturgicamente as litanias salmodiadas pelo fanatismo
ortodoxo; quer o SENTIMENTO PELO SENTIMENTO e a VERDADE PELA VERDADE; [...]. Procurará,
corajosamente, a minéreos, – heterogêneos embora, – que constituirão quiçá o período primordial da
literatura paranaense [...].
CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e Simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: LTC; Brasília: INL, 1980. p. 241.

O objetivo dessa revista, como se pode perceber em uma primeira leitura, não é estabelecer um conflito entre pers-
pectivas distintas do fazer literário. Não se propõe a lutar por determinada estética, mas, sim, buscar uma verdade e um
sentimento que não se limitem a um “fanatismo ortodoxo”. Sua preocupação recai, sobretudo, na busca por criações
literárias locais, ou “minéreos” preciosos e “primordiais” da literatura paranaense.
Publicada por um nome importante do Simbolismo brasileiro, o poeta e crítico paranaense Emiliano Perneta (1866-
-1921), a revista O sapo, em seu número datado do dia 6 de março de 1898, assumia uma postura mais direta no en-
frentamento da estética oficial. 13 Sugestão de leitura de poemas de Emiliano Perneta.

A mocidade literária paranaense, à semelhança de toda mocidade brasileira de letras tem firmado em to-
dos os tempos um alto e magnífico protesto contra a indiferença absurda, que a rodeia e suga. O Brasil é um
país de surdos-mudos e cegos para tudo o que é fino, sutil e intelectual, e só entende e aplaude o histrião po-
lítico que o diverte com o acrobatismo de saltos mortais, e farsas mirabolantes; mas o moço que nasceu para
trabalhar a forma, mas o moço que sente em si a disposição artística invencível, como um impulso fisiológico,
tudo esquece, e vê-lo aí vai ser recuar um passo. Ele não chegará decerto a fazer metade da obra sonhada,
e que o seu espírito, em outras condições de meio, o levaria a realizar, a perfeição será de uma relatividade
lastimável; mas deste tumulto de ambições irregulares e incompletas nasce todavia alguma coisa que há de
gravar em bronze a passagem pela terra de um ser excepcional.
CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e Simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: LTC; Brasília: INL, 1980. p. 246.

Esse texto, trecho da apresentação do primeiro número da revista, parte de uma oposição entre duas postu-
ras diante das produções literárias local e nacional: de um lado, o “histrião político”, cuja escrita se confunde com
“acrobatismo de saltos mortais”; de outro, a poesia escrita por alguém (ainda moço) “que nasceu para trabalhar
a forma”. O interessante, porém, é o modo como qualifica a falta de capacidade de uma parcela leitora, possivel-
mente pertencente à elite, cuja sensibilidade estética é surda-muda, alheia ao que é “fino, sutil e intelectual”. Assim
como os outros trechos de revistas ligadas ao movimento simbolista no Brasil, o texto de Emiliano Perneta define

pugnar: lutar. minéreos: o mesmo que minérios.


liturgicamente: de modo ritualístico. quiçá: quem sabe.
litanias: ladainhas. histrião: artista cômico.
salmodiadas: monótonas.
ortodoxo: rigoroso; intransigente.

Literatura 37
um comportamento de leitores em nosso país que, nessa passagem do século XIX para o XX, pouco se abriam
para experiências literárias e artísticas que promovessem uma verdadeira transformação em suas concepções e
expectativas.
E será a poesia parnasiana o modelo estético considerado ideal pela elite leitora que predominará de maneira
quase absoluta até o surgimento das primeiras obras que anunciaram a entrada do Brasil no período da modernidade
artística e literária, no início da segunda década do século XX.

SSugestão
Sugestão de atividades: questões 11 a 28 da seção Hora de estudo.

Atividades
1. (PUCPR)
por entre nuvens divinais!
Seguia tranquilamente
REBELADO
como se fora a minh’Alma,
Ri tua face um riso acerbo e doente,
silente,
que fere, ao mesmo tempo que contrista...
calma,
Riso de ateu e riso de budista
gelado no Nirvana impenitente. cheia de ais.
[...] A abóboda celeste,
que se reveste
de astros tão belos,
Na estrofe do poema “Rebelado”, de Cruz e Sousa, é
possível identificar características do Simbolismo. Assi- era um país repleto de castelos.
nale a alternativa que as identifica: E a alva lua, formosa castelã,
seguia
X a) musicalidade marcada por aliterações e assonân-
cias, paradoxos, religiosidade, exotismo, uso de envolta num sudário alvíssimo de lã,
reticências. como se fosse
b) musicalidade marcada por ritmo binário, antíteses, a mais que pura Virgem Maria...
evocação de sentimentos atrozes, exotismo. Lua serena, tão suave e doce,
do meu eterno cismar,
c) musicalidade marcada por aliterações e assonân-
cias, uso de maiúsculas, vagueza dos adjetivos, anda dentro de ti a mágoa imensa
falsa religiosidade. do meu olhar!
d) musicalidade marcada por aliterações, assonâncias GUIMARAENS, Alphonsus de. “Melhores poemas”. Seleção de
e ritmo binário, uso de maiúsculas, vagueza dos ad- Alphonsus de Guimaraens Filho. São Paulo: Global, 2001, p. 161.
jetivos, falsa religiosidade.
Entre as características poéticas de Alphonsus de Gui-
e) paradoxos, religiosidade, exotismo, humor e senti-
maraens, predomina no poema apresentado
mentos de exclusão.
a) o diálogo com amada.
2. (UEG – GO)
b) o poema-profanação.
ÚLTIMOS VERSOS X c) as imagens de morte.
Na tristeza do céu, na tristeza do mar, d) o poema-oração.
eu vi a lua cintilar.
3. Leia o soneto “Siderações”, de Cruz e Sousa. Em se-
Como seguia tranquilamente
guida, analise as considerações feitas sobre o poema e
responda às questões propostas.

38 Volume 8
c) O eu lírico parece estar em uma trajetória ascen-
Para as estrelas de cristais gelados dente, ou seja, parece subir e flutuar para um plano
As ânsias e os desejos vão subindo, elevado. Como se pode caracterizar essa visão?
Galgando azuis e siderais noivados, O eu lírico apresenta uma visão idealizada de seus desejos,
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
projetando-os em um plano mais elevado, uma instância
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo, inatingível.

Passam, das vestes nos troféus prateados,


As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve


Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de visões levanta... d) No que diz respeito ao uso das imagens no poema,
E as ânsias e desejos infinitos é possível destacar a recorrência da claridade e da
Vão com os arcanjos formulando ritos cor branca ao longo do soneto. De que forma essa
escolha pode ser relacionada ao tema do poema?
Da eternidade que nos astros canta...
A claridade e o branco recorrentes dão ao tema amoroso do
CRUZ E SOUSA, João da. Siderações. Disponível em: <http://www.
dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000073.pdf>. Acesso poema um sentido de pureza.
em: 18 abr. 2015.

a) A palavra “sideração”, que dá título ao poema, sig-


nifica a influência de um astro na vida de uma pes-
soa qualquer. Como você interpretaria o significado
desse título em relação ao poema?
Pessoal. Espera-se que os alunos tentem explorar alguns 4. (UNIFESP) Leia o poema.

caminhos possíveis de interpretação utilizando, preferencial- De linho e rosas brancas vais vestido,
sonho virgem que cantas no meu peito!...
mente, informações sobre o estilo poético de Cruz e Sousa:
És do Luar o claro deus eleito,
temática amorosa, atmosfera espiritualizada e transcen- das estrelas puríssimas nascido.

dência. Por caminho aromal, enflorescido,


alvo, sereno, límpido, direito,
segues radiante, no esplendor perfeito,
b) Muitas palavras são utilizadas no poema para suge- no perfeito esplendor indefinido...
rir elevação e pureza. Cite três palavras que podem,
no contexto do soneto lido, associar-se à elevação e As aves sonorizam-te o caminho...
mais três à pureza. E as vestes frescas, do mais puro linho
Pessoal. Sugestão: elevação – “galgando”, “subindo” e
e as rosas brancas dão-te um ar nevado...

“alados”; pureza – “brancas”, “límpido” e “cristais”. No entanto, ó Sonho branco de quermesse!


Nessa alegria em que tu vais, parece
que vais infantilmente amortalhado!
(Cruz e Sousa. Sonho Branco)

siderais: astrais; relacionados aos astros. turíbulos: pequenos vasos em que se queima incenso nas missas.
etéreos: sublimes.

Literatura 39
a) Cruz e Sousa foi um dos nomes mais importantes do Simbolismo brasileiro. Indique um verso ou fragmento desse
poema que exemplifique uma característica desse movimento literário.
Nesse poema é possível observar recursos poéticos característicos do Simbolismo, tais como tema, uso da musicalidade e da

sinestesia. A fuga da realidade, descrita no poema por meio de um universo de sensações transcendentes, pode ser vista em vários

versos, tais como “E as vestes frescas, do mais puro linho/e as rosas brancas dão-te um ar nevado...”, ou “És do Luar o claro deus

eleito, / das estrelas puríssimas nascido”.

b) Pode-se perceber, nesse poema, uma atmosfera etérea, típica do Simbolismo. No entanto, há um verso que rompe
com essa atmosfera, empregando uma nota sombria. Identifique termos que caracterizam essa atmosfera etérea
e o verso que rompe com essa atmosfera.
Os substantivos “linho” e “rosas” aparecem de modo repetido ao longo do poema. Do mesmo modo, os adjetivos “brancas”, “alvo”,

“puro” e “límpido” podem ser associados ao sonho descrito no texto. O termo “amortalhado” rompe com a perspectiva onírica do

sonho idealizado por introduzir o elemento da morte. Outra ruptura pode ser vista no uso da locução adversativa “No entanto”, que

inicia o último terceto do soneto.

5. (UNIFESP) Leia os versos de Cruz e Sousa.

Ó meu Amor, que já morreste,


Ó meu Amor, que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste a) Identifique no poema dois aspectos que se remetem ao
Ó meu Amor, que já morreste, Romantismo.
Ah! nunca mais florescerás? A temática da morte e a temática do amor.
Ao teu esquálido esqueleto,
Que tinha outrora de uma flor
A graça e o encanto do amuleto
Ao teu esquálido esqueleto
Não voltará novo esplendor?

b) Exemplifique, valendo-se de elementos textuais, por que, em certa medida, os poetas simbolistas, como Cruz e
Souza, se aproximam dos parnasianos.
Os poetas simbolistas, incluindo Cruz e Sousa, eram defensores, como os parnasianos, do extremo formalismo, fato que pode ser

observado no uso da métrica regular e das rimas no poema acima.

40 Volume 8
Textos para as questões 6 e 7.
inocente. Mas levado pela sua carta, não sei,
Alma fatigada mas acho que não me desagradava não me pôr
em contacto com a morte, ver ela de perto, ter
Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
tempo pra botar os meus trabalhos do mundo
mas repousar um pouco e repousar um tanto,
em ordem que me satisfaça e diante da infalivel
os olhos enxugar das convulsões do pranto,
vencedora, regularisar pra com Deus o que em
enxugar e sentir a ideal serenidade.
mim sobrar de inutil pro mundo.
A graça do consolo e da tranquilidade (MÁRIO DE ANDRADE. Cartas de Mário de Andrade a Manuel
Bandeira. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1958, p. 269-270.)
de um céu de carinhoso e perfumado encanto,
mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto, 6. (UNESP – SP) Os dois textos apresentados focalizam,
sem o tédio senil da vã perpetuidade. sob pontos de vista distintos, a relação entre a vida e a
Um sonho lirial d'estrelas desoladas, morte ou entre a vida e a eternidade. Releia atentamen-
onde as almas febris, exaustas, fatigadas te o soneto de Cruz e Sousa e, partindo do pressuposto
possam se recordar e repousar tranquilas! de que o Simbolismo brasileiro desenvolveu e ampliou
algumas características do Romantismo, identifique no
Um descanso de Amor, de celestes miragens, desenvolvimento do conteúdo do soneto, sobretudo no
onde eu goze outra luz de místicas paisagens desejo manifestado nos últimos três versos, uma ca-
e nunca mais pressinta o remexer de argilas! racterística típica do Romantismo.
(CRUZ E SOUSA. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora José O soneto “Alma fatigada”, de autoria de Cruz e Sousa, explora
Aguilar, 1961, p. 191-192.)
a temática do desejo de morte, que também foi um dos temas
Manú,
centrais do Romantismo da segunda geração.
bom-dia. Amanhã é domingo pé-de-ca-
chimbo, e levarei sua carta (isto é vou ainda
rele-la pra ver si a posso levar tal como está,
ou não podendo contarei) pra Alcantara com
Lolita que tambem ficarão satisfeitos de saber
que você já está mais fagueirinho e o acidente
não terá consequencia nenhuma. Esse caso de 7. (UNESP – SP) Tomando por base o soneto como um
você ter medo duma possivel doença comprida todo e considerando que Cruz e Sousa foi um poeta
e chupando lentamente o que tem de percepti- simbolista, aponte a relação de sentido que há entre
vel na gente, pro lado lá da morte, é mesmo um os termos “carnal” (sétimo verso) e “argilas” (décimo
quarto verso).
caso serio. Deve ser danado a gente morrer com
lentidão, mas em todo caso sempre me parece Entre esses dois termos, observa-se uma relação de analogia:
inda, não mais danado, mas semvergonhamen-
ambos, “carnal” e “argila”, se remetem ao mundo material
te pueril, a gente morrer de repente. Eu jamais
que imagino na morte, creio que você sabe dis- e, no caso da palavra “carnal”, exaltando um estado de
so. Aboli a morte do mecanismo da minha vida
morbidez.
e embora já esteja com meus trinteoito anos,
faço projetos pra daqui a dez anos, quinze,
como si pra mim a morte não tivesse de “vim”...
como todos pronunciam. A idea da morte des-
fibra danadamente a atividade, dá logo vontade
da gente deitar na cama e morrer, irrita. Aboli
a noção de morte prá minha vida e tenho me
dado bem regularmente com êsse pragmatismo

Literatura 41
Organize as ideias
14 Orientações para a atividade.

A fim de organizar os principais conteúdos trabalhados nesta unidade, elabore três mapas conceituais. Criado na
década de 1970, o mapa conceitual era originalmente uma ferramenta de administração cuja função básica era orga-
nizar e representar de modo mais detalhado etapas de um sistema ou conjunto de conhecimentos. Sua incorporação
como instrumento pedagógico se baseia na ideia segundo a qual o conhecimento humano se desenvolve pelas rela-
ções que cada conceito estabelece com outros conceitos adquiridos ao aprender. Entre um conceito e outro, haveria
uma descrição sobre o tipo de relação que eles estabelecem entre si.
Veja o exemplo de um mapa conceitual simples, cujo tema são as relações entre o Parnasianismo e outras escolas
literárias.

Antiguidade Clássica
resgatava os valores estéticos da
grega

PARNASIANISMO se opunha ao Romantismo

Realismo

ocorreu na mesma época que o Naturalismo

Simbolismo

Para criar seus mapas conceituais, você deverá cumprir as etapas a seguir:
• selecionar, relendo a unidade referente ao Simbolismo, os conceitos que você considera mais importantes;
• transformar esses conceitos em palavras-chave;
• escolher um conceito que será o ponto de partida, o conceito central de seu mapa;
• escrever entre os conceitos uma palavra ou frase de ligação (a estrutura básica é sempre: conceito palavra/
frase de ligação conceito);
• lembre-se de que todos os conceitos devem estar ligados entre si, ou seja, um conceito não pode estar iso-
lado dos demais.
Enfim, você vai elaborar três mapas conceituais cujos temas são:
1. fatores históricos, sociais, políticos e econômicos que compõem o contexto em que surgiu o Simbolismo;
2. características gerais da estética simbolista;
3. autores e características do Simbolismo no Brasil.
Concluída a elaboração de seus mapas conceituais, peça a um colega que os leia e faça comentários. Anote aqueles
que você considerar pertinentes e refaça seus mapas.
Uma dica: desde que sejam importantes, tente trabalhar com o maior número possível de conceitos. Muitas vezes,
o esquecimento de conceitos fundamentais faz com que o mapa conceitual se apresente pobre e pouco reflexivo. Você
verá que um bom mapa o ajudará a entender com bastante profundidade a complexidade dos conceitos estudados.

42 Volume 8
Hora de estudo
A resolução das questões discursivas desta seção deve ser feita 15 Gabaritos.
no caderno.
1. (UFPE) Como escola literária, o Simbolismo: X d) Romantismo de segunda geração
( V ) apresenta-se como uma estética oposta à poe- e) Classicismo renascentista
sia objetiva, plástica e descritiva, praticada pelo
6. (UFPA)
Parnasianismo, e como uma recusa aos valores
burgueses.
Crepuscular
( V ) define-se pelo anti-intelectualismo e mergulha no
irracional, descobrindo um mundo estranho de as- Há no ambiente um murmúrio de queixume,
sociações, de ideias e sensações. De desejos de amor, dais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
( V ) propõe uma poesia pura, hermética e misteriosa, Sente-se esmorecer como um perfume.
que usa imagens, e não conceitos.
( F ) foi um movimento de grande receptividade e re- As madressilvas murcham nos silvados
percussão junto ao público brasileiro. E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
( F ) revolucionou a poesia da época, com o uso de ver-
Nervosos, femininos, delicados.
sos livres e de uma temática materialista.
2. De modo contrário ao Parnasianismo, o Simbolismo Sentem-se espasmos, agonias dave,
não se ajustou às concepções positivistas que vigora- Inapreensíveis, mínimas, serenas...
ram na Europa em boa parte do século XIX. Cite uma Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
característica do Simbolismo que se opõe frontalmente O meu olhar no teu olhar suave.
ao pensamento positivista.
As tuas mãos tão brancas danemia...
Texto para as questões 3 e 4. Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguescer da natureza,
O Parnaso legou aos simbolistas a paixão Este vago sofrer do fim do dia.
do efeito estético. Mas os novos poetas bus-
cavam mais: transcender os seus mestres para Camilo Pessanha é considerado o expoente máximo da
reconquistar o sentimento de totalidade que pa- poesia simbolista portuguesa. Os seus versos reúnem
recia perdido desde a crise do Romantismo. o que há de mais marcante nesse estilo de época por
traduzirem sugestões, imagens visuais, sonoras e es-
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: tados de alma, além de notória ausência de elemen-
Cultrix, 1985. p. 295.
tos que se detenham em descrição ou em referência
3. Segundo Alfredo Bosi, há uma conexão entre o Simbo- objetiva.
lismo e o Romantismo. Que conexão é essa? É correto afirmar que os versos do soneto “Crepuscular ”
4. A expressão “paixão do efeito estético”, mencionada transcritos nas opções, a seguir, traduzem as considera-
por Bosi, pode ser associada a qual característica ções postas nesses comentários, com exceção de:
comum entre parnasianos e simbolistas? a) “Uma ternura esparsa de balidos,”
5. O Decadentismo, expressão da poesia simbolista, reme- X b) “As madressilvas murcham nos silvados”
te-se a qual estética literária?
c) “É este enlanguescer da natureza,”
a) Arcadismo
d) “Há no ambiente um murmúrio de queixume,”
b) Romantismo de primeira geração
e) “Este vago sofrer do fim do dia.”
c) Realismo

Literatura 43
7. (MACKENZIE – SP) 10. Leia o poema de Camilo Pessanha e escolha, das afir-
mações a seguir, aquela que se refere ao poema em
Chorai, arcadas questão.
Do violoncelo!
Convulsionadas
Inscrição
Pontes aladas
De pesadelo... Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Trêmulos astros... Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
Soidões lacustres... No chão sumir-se, como faz um verme...
– Lemes e mastros...
E os alabastros PESSANHA, Camilo. Inscrição. Disponível em: <http://www.
dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000065.pdf>. Acesso
Dos balaústres! em: 18 jun. 2015.

Camilo Pessanha ( X ) A visão pessimista da realidade faz com que o eu


lírico se sinta incapaz de lutar contra as forças que
Assinale a alternativa correta sobre o texto. esmagam os indivíduos.
a) Destaca a expressão egocêntrica do sofrimento ( ) A passagem do tempo, com a consciência de que
amoroso, de nítida influência romântica. não volta (sua irreversibilidade), é um dos motivos
b) Recupera da lírica trovadoresca a redondilha maior, mais recorrentes desse poema.
a estrutura paralelística e os versos brancos. ( ) Dois temas predominam nesse escrito: a dor da
c) A influência do Futurismo italiano é comprovada existência e a aspiração da morte, o desejo revela-
pela presença de frases nominais curtas e temática do de desaparecimento sem chamar a atenção.
onírica. 11. (UDESC)
d) A linguagem grandiloquente, as metáforas cósmi-
cas e o pessimismo exacerbado comprovam o estilo
condoreiro.
Cavador do Infinito
Com a lâmpada do Sonho desce aflito
X e) A valorização de recursos estilísticos relacionados
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
ao ritmo e à sonoridade é índice do estilo simbolista.
Vai abafando as queixas implacáveis,
8. Assinale a alternativa em que todos os três escritores Da alma o profundo e soluçado grito.
portugueses mencionados são simbolistas.
Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito
a) Eça de Queirós; Camilo Pessanha; Camilo Castelo
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Branco
Cava nas fundas eras insondáveis
b) Júlio Dinis; José Saramago; Luís de Camões O cavador do trágico Infinito.
X c) Eugênio de Castro; Antonio Nobre; Camilo Pessanha
E quanto mais pelo Infinito cava
d) Júlio Dinis; Antonio Nobre; José Saramago Mais o Infinito se transforma em lava
e) Luís de Camões, Antonio Nobre; Eugênio de Castro E o cavador se perde nas distâncias...

9. Em fins do século XIX, Portugal atravessava um mo- Alto levanta a lâmpada do Sonho
mento difícil em relação a uma série de acontecimen- E com seu vulto pálido e tristonho
tos ocorridos no campo da economia, da política e da Cava os abismos das eternas ânsias!
sociedade. A poesia simbolista, de modo geral, não se
voltava para os problemas sociais como o Realismo e o SOUZA, Cruz e. Últimos Sonetos. www.dominiopublico.gov.br.
Naturalismo, estilos literários que ocupavam também o
cenário cultural, faziam. O Simbolismo português de al-
guma forma sofreu influência desses acontecimentos? lânguida: abatida; frouxa.
Justifique sua resposta. inerme: fraca; covarde.

44 Volume 8
Analise as proposições em relação ao soneto “Cavador
do Infinito”, Cruz e Souza. Ninguém te viu o sentimento inquieto,
I. A leitura do poema leva o leitor a inferir que o ca- magoado, oculto e aterrador, secreto,
vador do infinito é a representação da imagem do que o coração te apunhalou no mundo,
próprio poeta, ou seja, um autorretrato do poeta
Mas eu que sempre te segui os passos
simbolista.
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
II. Da leitura do poema infere-se que a metáfora está e o teu suspiro como foi profundo!
centrada na lâmpada do sonho, a qual se refere à
imaginação onírica do poeta e ilumina o seu incons- SOUSA, C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1961.
ciente.
Com uma obra densa e expressiva no Simbolismo bra-
III. O sinal de pontuação – reticências – no verso 11 sileiro, Cruz e Sousa transpôs para seu lirismo uma
acentua o clima de indefinível, levando o leitor a in- sensibilidade em conflito com a realidade vivenciada.
ferir sobre a situação – o drama vivido pelo eu lírico. No soneto, essa percepção traduz-se em
IV. No plano formal, o uso de letra maiúscula em X a) sofrimento tácito diante dos limites impostos pela
substantivos comuns é uma característica do Sim- discriminação.
bolismo, como ocorre em: “Sonho” (versos 1 e 12),
“Ânsias” e “Desejos” (verso 5); “Infinito” (versos 8 b) tendência latente ao vício como resposta ao isola-
e 9). Usada como alegoria, a letra maiúscula ten- mento social.
ciona dar um sentido de transcendência, de valor c) extenuação condicionada a uma rotina de tarefas
absoluto. degradantes.
V. Da leitura do poema e do contexto literário simbolis- d) frustração amorosa canalizada para as atividades
ta, infere-se que o título do poema “Cavador do Infi- intelectuais.
nito” reforça a ideia a que o soneto remete: o poeta
simbolista busca a transcendência, a transfiguração e) vocação religiosa manifesta na aproximação com a
da realidade cotidiana para uma dimensão metafísi- fé cristã.
ca, que é uma característica da estética simbolista. 13. (ESPM – SP)
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas II e III são verdadeiras.
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
b) Somente as afirmativas I, III e V são verdadeiras.
Galgando azuis e siderais noivados
c) Somente as afirmativas II, III, IV e V são verdadeiras. De nuvens brancas a amplidão vestindo...
d) Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras.
(Cruz e Sousa)
X e) Todas as afirmativas são verdadeiras.
Assinale a opção em que expresse incorretamente a
12. (ENEM) análise do poema:
a) As “nuvens brancas” mencionadas sugerem as ves-
Vida obscura
tes tradicionais de noiva.
Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
X b) A aliteração do /s/ em “As ânsias e os desejos vão
ó ser humilde entre os humildes seres,
subindo” produz cacofonia.
embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro. c) Os “cristais gelados” estão de acordo com a frialda-
de do espaço sideral.
Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres d) As “Estrelas”, com maiúscula alegorizante, podem
significar uma dimensão humana superior.
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro. e) Galgar “azuis e siderais noivados” é imagem que
remete ao anseio de atingir um mundo espiritual.

Literatura 45
14. (PUCRS) Compare o poema de Camões e o poema “En- ( V ) Quanto à forma, os dois poemas são sonetos.
carnação”, leia as afirmativas que seguem e preencha
( V ) O título “Encarnação” contém uma certa ambigui-
os parênteses com V para verdadeiro e F para falso.
dade, aliando um sentido espiritual a um erótico.
Poema 1 A sequência correta de preenchimento dos parênteses,
de cima para baixo, é:
Transforma-se o amador na cousa amada, a) F – F – V – F X d) V–V–V–V
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar, b) V – V – F – V e) F – V – F – F
pois em mim tenho a parte desejada. c) V – F – V – F

Se nela está minha alma transformada, 15. (ESPCEX – SP) Leia a estrofe que segue e assinale a
que mais deseja o corpo de alcançar? alternativa correta, quanto às suas características.
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada. “Visões, salmos e cânticos serenos
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Mas esta linda e pura semideia,
Dormências de volúpicos venenos
que, como o acidente em seu sujeito,
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...”
assim coa alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;


[e] o vivo e puro amor de que sou feito, a) valorização da forma como expressão do belo e a
como a matéria simples busca a forma. busca pela palavra mais rara – Parnasianismo.
b) linguagem rebuscada, jogos de palavras e jogos de
imagens, característica do cultismo – corrente do
Poema 2 Barroco.
X c) incidência de sons consonantais (aliterações) explo-
Carnais, sejam carnais tantos desejos, rando o caráter melódico da linguagem – Simbolismo.
carnais, sejam carnais tantos anseios,
d) pessimismo da segunda geração romântica, marca-
palpitações e frêmitos e enleios,
da por vocábulos que aludem a uma existência mais
das harpas da emoção tantos arpejos...
depressiva – Romantismo.
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, e) lírica amorosa marcada pela sensualidade explícita
à noite, ao luar, intumescer os seios que substitui as virgens inacessíveis por mulheres
láteos, de finos e azulados veios reais, lascivas e sedutoras – Naturalismo.
de virgindade, de pudor, de pejos...
16. (ITA – SP) O poema abaixo traz a seguinte característi-
Sejam carnais todos os sonhos brumos ca da escola literária em que se insere:
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas...
Violões que Choram...
Sonhos, palpitações, desejos e ânsias Cruz e Sousa
formem, com claridades e fragrâncias, Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
a encarnação das lívidas Amadas! soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
( V ) Os dois poemas falam mais sobre o sentimento do Bocas murmurejantes de lamento.
amor do que sobre o objeto amado. Noites de além, remotas, que eu recordo,
( V ) No poema de Camões, o amor figura-se no campo noites de solidão, noites remotas
das ideias.

46 Volume 8
b)
que nos azuis da Fantasia bordo, Quando Ismália enlouqueceu,
vou constelando de visões ignotas. Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Sutis palpitações à luz da lua, Viu outra lua no mar.
anseio dos momentos mais saudosos,
c)
quando lá choram na deserta rua
Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês?
as cordas vivas dos violões chorosos.
agosto,
[...] Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou
março,
Brilhasse o luar, que importa? ou fosse o sol
a) tendência à morbidez. já posto,
b) lirismo sentimental e intimista. No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

c) precisão vocabular e economia verbal. d)


Lua eterna que não tiveste fases,
d) depuração formal e destaque para a sensualidade Cintilas branca, imaculada brilhas,
feminina. E poeiras de astros nas sandálias trazes...
X e) registro da realidade através da percepção sensorial X e)
do poeta. Venham as aves agoireiras,
17. (UPF – RS) Olavo Bilac e Cruz e Sousa estão situados, De risada que esfria os ossos...
respectivamente, nos seguintes períodos literários: Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
X a) Parnasianismo e Simbolismo
19. (UESC)
b) Simbolismo e Parnasianismo
c) Parnasianismo e Pré-Modernismo Ah! lilásis de Ângelus harmoniosos,
d) Barroco e Simbolismo Neblinas vesperais, crepusculares,
Guslas gementes, bandolins saudosos,
e) Simbolismo e Pré-Modernismo
Plangências magoadíssimas dos ares...
18. (UEPA) Respirando os ares da modernidade literária,
a estética simbolista revela-se uma reação artística à Serenidades etereais d‘incensos,
referencialidade que violentamente restringe a palavra De salmos evangélicos, sagrados,
poética ao mundo das coisas e conceitos. No intuito Saltérios, harpas dos Azuis imensos,
de libertar a linguagem poética, o Simbolismo explora Névoas de céus espiritualizados.
diversos recursos sensoriais a fim de sugerir mistérios. [...]
Simbolista, Alphonsus de Guimaraens escreve muitos É nas horas dos Ângelus, nas horas
textos que apelam para o símbolo visual, a imagem, Do claro-escuro emocional aéreo,
carregado de insinuações de misticismo e morte. Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras
Ondulações e brumas do Mistério.
Marque a alternativa cujos versos se relacionam ao co- [...]
mentário acima. Apareces por sonhos neblinantes
a) Com requintes de graça e nervosismos,
Queimando a carne como brasas, fulgores flavos de festins flamantes,
Venham as tentações daninhas, como a Estrela Polar dos Simbolismos.
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
CRUZ e SOUSA, João da. Broquéis. Obra completa. Rio de Janeiro:
A alma cheia de ladainhas. Nova Aguilar, 1995. p. 90.

Literatura 47
Marque V ou F, conforme sejam as afirmativas verda- 20. (UEL – PR) Com base no poema, considere as afirmati-
deiras ou falsas. Os versos de Cruz e Sousa traduzem vas a seguir:
a estética simbolista, pois apresentam
I. A elevação do eu lírico acima da mediocridade das
( F ) descrição sintética do mundo imediato. pessoas comuns revela a harmonia com a natureza
e com a sociedade.
( V ) uso de recursos estilísticos criando imagens
sensoriais. II. O erotismo do eu lírico feminino se materializa em
um interlocutor com quem pode sentir-se plena-
( V ) enfoque de uma realidade transfigurada pelo
mente realizada.
transcendente.
III. O desejo por um “outro”, sublimado e inatingível,
( V ) apreensão de um dado da realidade sugestiva-
revela a insatisfação do eu lírico diante da ausência
mente ambígua. de um amor pleno.
( F ) imagens poéticas que tematizam o amor em sua
IV. A intensidade do conflito íntimo do eu lírico é perce-
dimensão física. bida quando ele expõe seu desejo amoroso.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima Assinale a alternativa correta.
para baixo, é a
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
X a) FVVVF
b) Somente as afirmativas I e III são corretas.
b) V F F V F
X c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
c) V F V V F
d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
d) V F V F F
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
e) V F V F V
Leia o texto a seguir e responda à questão. 21. (PUCPR) Assinale o que for INCORRETO a respeito da
estética simbolista e da poesia de Cruz e Sousa.

a) Os poetas simbolistas se opunham ao objetivismo


Ambiciosa
cientificista dos realistas/naturalistas.
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar, b) Cruz e Sousa é o maior representante da estética
simbolista no país. Porém, nas primeiras décadas
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
do século XX, observa-se uma grande expansão
O voo dum gesto para os alcançar... do Simbolismo no Sul do Brasil, sendo o Paraná
Se as minhas mãos em garra se cravaram um dos estados com maior número de manifes-
tações poéticas dessa escola, seja pelas revistas
Sobre um amor em sangue a palpitar...
que foram criadas, seja pelos poetas que foram
– Quantas panteras bárbaras mataram
revelados.
Só pelo raro gosto de matar!
c) Verifica-se na estética simbolista o culto à musicali-
Minha alma é como a pedra funerária dade do poema, em sintonia com a busca pela espi-
Erguida na montanha solitária ritualidade, um dos temas predominantes na poesia
Interrogando a vibração dos céus! de Cruz e Sousa.

O amor dum homem? – Terra tão pisada, X d) O Simbolismo brasileiro recupera de modo inequí-
voco os procedimentos e os temas do Romantismo,
Gota de chuva ao vento baloiçada ...
valorizando o sentimento nacionalista e as ideias
Um homem? – Quando eu sonho o amor de
abolicionistas.
um Deus! ...
e) Para os simbolistas, a poesia, experiência transcen-
(Adaptado de: ESPANCA, F. Sonetos. São Paulo: Martin Claret, dente, é uma forma pela qual se alcança o sentido
2007. p.78.) oculto das coisas e das vivências.

48 Volume 8
22. (ENEM) X a) A poesia é criação de belezas eternas.
Cárcere das almas b) A poesia é a linguagem que provoca a loucura do
poeta.
Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades c) O poeta se distingue dos mortais comuns porque é
Do calabouço olhando imensidades, louco.
Mares, estrelas, tardes, natureza. d) A natureza oculta a loucura do poeta.
Tudo se veste de uma igual grandeza e) O poeta á assinalado porque contribui para povoar o
Quando a alma entre grilhões as liberdades mundo.
Sonha e, sonhando, as imortalidades 24. (UFG – GO) Leia o poema de Cruz e Sousa.
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
Acrobata da dor
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas, Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo! Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
Nesses silêncios solitários, graves, De uma ironia e de uma dor violenta.
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?! Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
CRUZ E SOUSA, J. Poesia completa. Florianópolis: Fundação
Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993. Salta, “gavroche”, salta, “clown”, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...
Os elementos formais e temáticos relacionados ao
contexto cultural do Simbolismo encontrados no poe- Pedem-te bis e um bis não se despreza!
ma Cárcere das almas, de Cruz e Sousa, são Vamos! retesa os músculos, retesa
a) a opção pela abordagem, em linguagem simples e Nessas macabras piruetas d’aço...
direta, de temas filosóficos.
E embora caias sobre o chão, fremente,
b) a prevalência do lirismo amoroso e intimista em re- Afogado em teu sangue estuoso e quente,
lação à temática nacionalista.
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
X c) o refinamento estético da forma poética e o trata-
mento metafísico de temas universais. SOUSA, Cruz e. “Broquéis, Faróis e Últimos sonetos”. 2ª. ed.
reform., São Paulo: Ediouro, 2002. p. 39-40. (Coleção super
d) a evidente preocupação do eu lírico com a realidade prestígio).

social expressa em imagens poéticas inovadoras. Uma característica simbolista do poema apresentado é a
e) a liberdade formal da estrutura poética que dispen-
a) linguagem denotativa na composição poética.
sa a rima e a métrica tradicionais em favor de temas
do cotidiano. b) biografia do poeta aplicada à ótica analítica.
23. (PUCPR) Identifique nos versos finais do poema “O as- c) perspectiva fatalista da condição amorosa.
sinalado”, de Cruz e Sousa citados os elementos que X d) exploração de recursos musicais e figurativos.
caracterizam a poesia simbolista do autor. Depois assi-
nale a alternativa correta. e) presença de estrangeirismos e de barbarismos.

“Tu és o Poeta, o grande Assinalado


que povoas o mundo despovoado,
de belezas eternas, pouco a pouco.
“gavroche”: garoto de rua que brinca, faz estripulias.
Na Natureza prodigiosa e rica “clown”: palhaço.
Toda a audácia dos nervos justifica estertor: respiração rouca típica dos doentes terminais.
Os teus espasmos imortais de louco!” estuoso: que ferve, que jorra.

Literatura 49
25. (UFV – MG) Considere as alternativas abaixo: 27. (FGV – RJ) Assinale a INCORRETA a respeito do
Simbolismo:
I. No plano temático, o Simbolismo foi marcado pelo
mistério e pela inquietação mística com problemas a) Utiliza o valor sugestivo da música e da cor.
transcendentais do homem. No plano formal, carac- b) Dá ênfase à imaginação e à fantasia.
terizou-se pela musicalidade e certa quebra no ritmo
do verso, precursora do verso livre do modernismo. c) Procura a representação da realidade do subconsciente.
X d) É uma atitude objetiva, em oposição ao subjetivismo
II. O Simbolismo, surgido contemporaneamente ao
materialismo cientificista, enquanto atitude de espí- dos parnasianos.
rito, passou ao largo dos maiores problemas da vida e) No Brasil, produziu, entre outras, a poesia de Cruz e
social nacional. Já a literatura realista-naturalista Sousa e, em Portugal, de Antônio Nobre.
acompanhou fielmente os modos de pensar das ge- 28. (UEG – GO)
rações que fizeram e viveram a Primeira República.
III. O Simbolismo, com Cruz e Sousa e Alphonsus de Últimos versos
Guimaraens, nossos maiores poetas do período, le- Na tristeza do céu, na tristeza do mar
gou-nos uma produção poética que se caracterizou Eu vi a lua contilar.
pela busca da arte em arte, isto é, uma preocupação Como seguia tranquilamente
com o verso artesanal, friamente moldado. Devido Por entre nuvens divinais!
a essa tendência à objetividade na composição, o Seguia tranquilamente
movimento também se denominou “decadentista”.
Como se fora a minh’Alma,
Assinale a alternativa CORRETA. silente,
a) I é falsa; II e III verdadeiras. calma,
cheia de aia.
b) I, II e III são verdadeiras. A abóboda celeste,
c) I é verdadeira; II e III falsas. que se reveste
X d) I e II são verdadeiras; III é falsa. de astros tão belos,
em um país repleto de castelos.
e) I e III são falsas; II verdadeira. E a alva lua, formosa castelã,
26. (UFRGS – RS) Sobre o Simbolismo brasileiro é correto Seguia
afirmar que Envolta num sudário alvíssimo de lã,
Como se fosse
a) reelabora a fala popular carioca em curtos poemas
A mais que pura Virgem Maria...
de temática urbana repletos de elipses e trocadilhos
Lua serena, tão suave e doce,
bilíngues.
Do meu eterno cismar,
b) retoma a temática romântica com ânimo satírico e Anda dentro de tia a mágoa imensa
polêmico, inclusive parodiando trechos de romances Do meu olhar!
do século XIX.
c) explora a mitologia greco-latina e episódios da his- GUIMARAENS, Alphonsus de. “Melhores poemas”. Seleção de
Alphonsus Guimaraens Filho. São Paulo: Global, 2001, p. 161.
tória antiga da Europa em sonetos descritivos com
chave de ouro. Entre as características poéticas de Alphonsus de Gui-
X d) explora a sugestividade dos sons da língua em poe- maraens, predomina no poema apresentado
mas que reportam sensações indefinidas e senti- a) o diálogo com a amada.
mentos vagos.
b) o poema-profanação.
e) reelabora a musicalidade dos vocábulos com expe-
X c) as imagens de morte.
riências em que as palavras são segmentadas e a
frase parte-se em fragmentos. d) o poema-oração.

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