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CONTRIBUIÇÕES DAS INVESTIGAÇÕES DE ANNEMARIE MOL PARA A

PSICOLOGIA SOCIAL1
2
Marcia Oliveira Moraes
Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ, Brasil.
Ronald João Jacques Arendt
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

RESUMO. O artigo apresenta as principais contribuições das investigações realizadas pela médica e filósofa Annemarie
Mol para as pesquisas em psicologia social. No campo dos estudos da ciência, tecnologia e sociedade, as investigações
realizadas pela filósofa holandesa representam uma guinada para a prática, diferenciando-se do modo como
tradicionalmente a teoria ator-rede se situa neste campo. As pesquisas de Mol se caracterizam pela afirmação do caráter
performativo das práticas, o que a leva a problematizar os modos de conhecer e intervir das ciências sociais. Por fim são
discutidos os alcances das noções de política ontológica e lógica do cuidado para as pesquisas em psicologia social.
Palavras-chave: Psicologia social; métodos de pesquisa; ciências sociais.

CONTRIBUTIONS OF ANNEMARIE MOL’S INVESTIGATIONS FOR SOCIAL


PSYCHOLOGY

ABSTRACT. The paper presents the main contributions of the research undertaken by the physician and philosopher
Annemarie Mol for research in social psychology. In the field of science, technology and society studies, the investigations
conducted by the Dutch philosopher represent a practical turn, making a difference in the way in which, traditionally, actor-
network theory lies in this field. Mol's research is characterized by the affirmation of practices performative character, which
leads her to question the ways of knowing and intervening in social sciences. Finally we discuss the scope of the notions of
ontological politics and logic of care to researches in social psychology.
Key words: Social psychology; research methodology; social sciences.

CONTRIBUICIONES DE LA INVESTIGACIÓN ANNEMARIE MOL PARA LA


PSICOLOGÍA SOCIAL

RESUMEN. El artículo presenta las principales aportaciones de la investigación realizada por el médica y filósofa,
Annemarie Mol para la investigación en psicología social. En el campo de los estudios de la ciencia, la tecnología y la
sociedad, las investigaciones efectuadas por el filósofa holandesa representan un giro a la práctica, que difieren en la
forma tradicional de la teoría del actor-red se encuentra en este campo. Las investigacións de Mol se caracterizan por la
afirmación del carácter performactivo de las prácticas, lo que a lleva a cuestionar las formas de conocer e intervenir en
las ciencias sociales. Finalmente se discute el alcance de las nociones de la política ontológica y de la logica del cuidado
a la investigación en psicología social.
Palabras-clave: Psicología social; metodología de la investigación; ciencias sociales.

Este texto tem como objetivo indicar possíveis 2002, 2008, 2010) para as pesquisas em psicologia
contribuições das investigações propostas pela social. Os trabalhos da autora se situam no vasto
médica e filósofa holandesa Annemarie Mol (1999, campo dos estudos de ciência, tecnologia e

1
Apoio e financiamento: CNPq, FAPERJ, Pro-reitoria de Extensão/UFF e Pro-reitoria de Graduação/UFF.
2
Endereço para correspondência: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia,
Departamento de Psicologia, Campus do Gragoatá, bloco O, 2º andar, Niterói/RJ, Brasil. CEP: 24210-350. E-mail:
marciamoraes@id.uff.br

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sociedade (estudos CTS). Neste campo a noção de existir realidades; c) as realidades são múltiplas,
rede é afirmada como uma ontologia de geometria heterogêneas e articulam sem cessar atores
variável. Para mais informações sobre este campo humanos e não humanos; d) como consequência,
de estudos ver Law e Hassard (1999), Latour para a autora, conhecer não é questão de
(2001, 2008a, 2008b) e Law (2008). representar o real, mas envolve engajar-se,
Voltando aos estudos CTS, trata-se de um manejar e interferir nas práticas, ali, no ponto em
campo de estudos que proliferou a partir dos anos que elas formam realidades. Se, nos trabalhos da
80 do século XX, reunindo autores de diferentes filósofa holandesa, tomamos tais proposições como
áreas e continentes. Um fio condutor que articula centrais, é porque estas nos parecem ser
os trabalhos ligados aos estudos de CTS é a contribuições importantes para repensarmos as
concepção de que os três domínios que nomeiam pesquisas em psicologia social.
tal campo de estudos, quais sejam, ciência, Torna-se necessário retomar a utilização acima
tecnologia e sociedade, não são domínios do termo “atores”, para esclarecer que Latour
separados e desarticulados, mas antes, são (2001) utilizou-se do termo ator, ou actante, para
coproduzidos e entrelaçados através de indicar que os estudos ator-rede não tomam como
associações heterogêneas que articulam humanos ponto de partida as entidades que já compõem o
e não humanos. Assim, em poucas palavras, mundo, mas antes, “enfatizam a natureza
podemos afirmar que no campo dos estudos de complexa e controvertida do que seja, para um
CTS, o social não é considerado como algo dado, ator, chegar à existência. O segredo é definir um
definido de antemão, ele não é senão o efeito de ator com base naquilo que ele faz” (p. 346), seja ele
certos arranjos ou associações que reúnem humano ou não humano. Neste artigo, usamos a
elementos bastante díspares. palavra “ator” com este sentido.
Nos trabalhos de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) O presente artigo está organizado de modo a
delimitaremos algumas noções afins ao campo dos inicialmente apresentar uma breve caracterização
estudos de CTS que nos parecem relevantes para do campo dos estudos de CTS, especialmente
o argumento que ora apresentamos, isto é, o da neles aplicando a teoria ator-rede (TAR). Optamos
pertinência de tais proposições para a psicologia por fazer este breve mapeamento do campo por
social. Assim, tomando por base os principais entendermos que as pesquisas de Mol (1999,
textos de Mol, destacamos as seguintes 2002, 2008, 2010), assim como as de Moser
proposições, que consideramos capitais para a (2000), Law (2004), Mol e Law (2003) e outros,
argumentação que faremos: a) Mol convoca as realizaram uma importante torção nas propostas da
pesquisas em ciências sociais a darem uma teoria ator-rede, marcando, por esta via, uma
guinada para a prática, isto é, a autora propõe que inflexão peculiar no campo dos estudos de CTS.
as ciências sociais se dediquem a investigar as Em seguida, são discutidas as principais teses
práticas cotidianas; nos casos em que ela se propostas por Mol em seus trabalhos. Por fim,
dedica a pesquisar as práticas cotidianas de viver tecemos algumas considerações sobre as
com diabetes, com arteriosclerose na perna, com possíveis articulações entre as proposições da
anemia, etc., sem dúvida ela não está sozinha, e se autora e as pesquisas no campo da psicologia
pode fazê-lo, é na esteira de outros autores social. Para tais considerações finais,
(Stengers, 2006; Law 2004; Latour, 2001, 2008a); consideramos relevante discutir o sentido da
b) ela tem concepção de que a realidade não é política ontológica proposta por Mol, bem como o
algo dado de antemão, mas é antes efeito das alcance de suas teses acerca da lógica do cuidado,
práticas, ou, para dizer com outras palavras, das em preferência à lógica da escolha.
3
práticas são performativas , isto é, das que fazem

3
2- BREVE CARACTERIZAÇÃO DO CAMO DOS
O termo enact foi utilizado por Mol (2002) para dizer ESTUDOS DE CTS, EM ESPECIAL DA TAR
que nenhum objeto existe sem estar articulado às
práticas que o produzem e o fazem existir. Em inglês
enact aponta para dois sentidos distintos: como encenar, Num recente texto o sociólogo inglês John Law
representar um papel; e como fazer existir, promulgar, fazer, (2007) apresentou uma história sucinta da TAR e
no sentido, por exemplo quando dizemos que “o congresso dos seus desdobramentos contemporâneos. Ele
nacional promulgou (fez existir) uma nova lei” (Ver:
http://dictionary.reference.com/browse/enact). Neste artigo
traduzimos a palavra enact pela expressão “fazer existir”. enact fazendo uso da palavra performar, bem como de suas
Em algumas passagens do texto traduzimos o sentido de variações, performatividade, performativo.

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iniciou seu relato procurando defini-la. A TAR é como os objetos chegavam a se estabilizar e a se
uma família disparatada de instrumentos material- tornar duráveis em certas redes (Latour, 2001). Tal
semióticos e métodos de análise que tratam tudo modo de investigação, sem dúvida, foi decisivo
nos mundos natural e social como efeitos para uma série de pesquisas que tiveram lugar nos
continuamente gerados por redes de relações. Ela estudos de CTS e foi crucial também para
não é propriamente uma teoria, mas um conjunto sublinhar a pertinência das conexões entre
de procedimentos sensíveis à complexidade desta humanos e não humanos na produção de
rede de relações que contam histórias realidades; porém nos últimos anos Mol (2002,
interessantes sobre elas e sobre o que nelas 2008, 2010), Moser (2000), Law (2004), Mol e Law
interfere. Ela visa estudá-las, explorá-las, descrevê- (2003) abriram um campo de investigação marcado
las e acompanhar a produção ou remodelação de por diferenças com relação àquela proposta inicial
todo o tipo de atores – o que inclui objetos, sujeitos, dos estudos de CTS, empreendida sob inspiração
seres humanos, máquinas, animais, “natureza”, da teoria ator-rede, uma vez que, para esses
ideias, organizações, desigualdades, escalas ou autores, não se trata mais de acompanhar como os
arranjos geográficos. Neste sentido, nada tem objetos se estabilizam em redes, mas sim, de lidar
realidade ou forma fora da articulação destas com um processo mais precário, contínuo, fluido,
relações. aberto, um modo nunca acabado de fazer existirem
Law (2007, 2009) procurou então mostrar realidades. Neste último caso, a “construção de
como a história da TAR pode ser contada através uma rede é apenas uma das possibilidades” entre
de uma sucessão de narrativas empiricamente outras (Moser, 2006, p. 388).
fundamentadas. Não caberia aqui entrar no detalhe Desse modo, algo que Law (2007, 2009)
das histórias contadas por Law (histórias de casos considerou “sísmico” ocorre neste campo de
da engenharia, filosofia das ciências, biologia, estudos e pesquisas: o interesse de certos
estudos científicos, que exploram vínculos pesquisadores irá se dirigir não tanto à construção
estranhos e surpreendentes entre barcos, bacilos, das redes heterogêneas, mas à maneira como
moluscos ou textos científicos), mas registrar, em através delas as realidades foram geradas, à forma
todos os casos, a atenção dada à arquitetura dos como foram colocadas em cena através das
sistemas, à materialidade heterogênea das práticas. A metáfora da construção dá então lugar à
relações, à sua precariedade no tempo e no da performatividade. O termo “diáspora”, utilizado
espaço, à indiferença dos pesquisadores quanto à por Law (2009), enfatiza esta dispersão de novas
verdade ou não do que está sendo investigado, ideias, que terminam por colocar novos problemas
mas a uma decisiva ênfase naquilo que é e prioridades metodológicas aos pesquisadores da
produzido pela prática, no interesse pela circulação TAR. Em um texto mais recente (Law, 2009) o
destas produções e pela importância dada ao autor retomou este argumento a partir de um viés
estudo exemplar de casos particulares. um pouco diferente. Se os métodos e técnicas em
É possível afirmar algo sobre as regularidades ciência e ciência social que buscavam descrever a
estabilizadoras da rede de relações ou realidade atuavam na suposição de que, de uma
permanecemos sempre com a descrição de caso maneira ou de outra, a realidade tinha uma forma
por caso? Enquanto a sociologia usualmente se definida, sendo substancial, independente e
preocupou com os porquês, a TAR, desde a sua anterior aos instrumentos utilizados para inquiri-la,
consolidação, a partir dos anos 90 do século é possível afirmar que também esta realidade foi
passado, buscou explorar como a lógica das feita desta maneira através das práticas de
configurações poderia levar a uma relativa pesquisa. Dito de outro modo, a própria suposição
estabilidade. de que há uma só e única realidade, um mundo lá
Não obstante, o campo dos estudos CTS, fora a ser conhecido e desvelado, não é senão um
ainda que fortemente marcado pelas pesquisas efeito de certas práticas de pesquisa. Supor a
empreendidas no marco da teoria ator-rede, é existência de tal realidade foi, para Law (2004), a
também definido por certa diáspora. Moser (2000) mais crucial característica do “realismo euro-
foi enfática em delimitar a importância de tal americano” que marcou e marca muitas das
diáspora na medida em que, por meio dela, há uma pesquisas em ciências sociais. A convocação de
inflexão peculiar nos estudos de CTS. Como dito, Law (2004) teve o sentido de que é necessário
em muitas das pesquisas empreendidas pela teoria subverter este realismo no campo das ciências
ator-rede, o que estava em jogo era acompanhar sociais, entendendo o autor que o social é antes

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um verbo do que um substantivo, um modo de estudos de CTS que se pode situar o trabalho
ordenar coisas heterogêneas. Tal modo de ordenar de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) e de outros
exige esforço, trabalho contínuo e cotidiano a ser autores.
feito tanto pelas práticas de pesquisa em ciências
sociais quanto pelas práticas cotidianas e
ordinárias. Assim, para esse autor, a realidade não 3- AS PESQUISAS DE ANNEMARIE MOL NO
é algo dado, mas algo que é formado nas práticas CAMPO DA SAÚDE: DA ESCOLHA AO CUIDADO
cotidianas.
Antes de prosseguir, um comentário teórico: a Em um de seus trabalhos mais recentes Mol
fase construtivista da TAR a que se refere Law (2008) dedicou-se a estudar a maneira como se
(2007, 2009) pode ser associada ao trabalho de desdobra o tratamento de doentes com diabete
Bruno Latour, cujos interesses sempre foram mais num hospital holandês. Mais precisamente, ela
epistemológicos do que os de Law. Latour (2008a; estava interessada em descrever como se
2008b) se preocupou em investigar como foi gerido articulavam pacientes, enfermeiros, médicos,
o conhecimento não moderno – na articulação de dispositivos técnicos, substâncias químicas entre
humanos com não humanos em redes de relações, outros atores no espaço físico do hospital e, para
nas alianças possíveis de estabelecer no processo além deste, no cotidiano dos pacientes envolvidos
de investigação, na forma em que caminha esta no tratamento. A ela interessou acompanhar o que
investigação. Considera-se que Latour (2001) faziam estes atores ao se articularem entre si e
quais seriam as consequências destas articulações
define como não moderno o conhecimento que se
no cotidiano dos pacientes. Seu interesse não
recusa tomar como ponto de partida a separação
recaia tanto na descrição deste fazer, mas
entre natureza e sociedade, afirmando a noção de
principalmente na maneira como a realidade era
coletivo para referir-se à associação entre humanos
“performada” pelos atores, isto é, como estes se
e não humanos que compõe o mundo em que
uniam para manipular e colocar em cena tal
vivemos. Já a fase “performativa” pode ser
realidade. Mol vem há anos publicando pesquisas
associada à “virada da prática” que se reporta ao
que se caracterizam por este mergulho nas práticas
trabalho de autores como Isabelle Stengers (2006)
médicas. Assim, apenas para nos situarmos em
ou John Law (2004). O trabalho de Annemarie Mol, relação a seu trabalho, podemos citar dois outros
que analisaremos na próxima seção, segue esta estudos nesta linha de investigação: um sobre a
segunda orientação. Nele emergem novos anemia (Mol, 1999) e um sobre a arteriosclerose
conceitos, novas preocupações: são das pernas inferiores (Mol, 2002). No primeiro texto
necessárias novas estratégias metodológicas a autora argumentou que não existe uma doença
para lidar com o passageiro, o distribuído, o que possamos chamar de anemia, e sim, diferentes
múltiplo, o não causal, o caótico, o complexo formas de “performá-la”: na consulta clínica, em
(Law, 2004). O movimento é “sísmico” porque que o médico avalia a cor das pálpebras do
abre uma perspectiva até então inusitada na paciente; nas rotinas laboratoriais, que medem os
TAR: se os pesquisadores fazem, criam as níveis de hemoglobina do sangue; no método
realidades que investigam, se são as práticas “patofisiológico”, que estabelece o nível adequado
dos atores que colocam o mundo em cena, de hemoglobina suficiente para transportar
torna-se possível interferir nesta criação e corretamente o oxigênio pelo corpo e verifica se o
encenar outros mundos. A nova orientação é, indivíduo estará acima ou abaixo deste nível.
assim, uma nova política de intervenção, uma Ocorre que cada realidade “performada” dispara
política ontológica. Juntar estes termos – política e um mundo de articulações diferentes: emerge uma
ontologia – significa dizer que a realidade é efeito, é multiplicidade de mundos que podem ou não se
“performada”. Significa também dizer que o que relacionar entre si. No trabalho sobre
conta como realidade envolve negociação e arteriosclerose (Mol, 2002) esta multiplicidade
trabalho. Assim, o que ganha força é a ganha contornos cada vez mais complicados. Tal
possibilidade de intervenção, de interferir na como no estudo sobre o diabetes, ao qual nos
composição de mundos, fazendo proliferar dedicaremos a seguir, Mol (2002) se embrenhou no
versões onde se contem mais e mais atores, labirinto das práticas de um hospital,
onde nem sempre o que se estabiliza é o que acompanhando as formas como a arteriosclerose
interessa. É justamente nesta inflexão dos de membros inferiores era abordada nos diferentes

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espaços de tratamento disponibilizados, para mesmo nome evitam choques ou


verificar como o paciente era recebido no confrontações explosivas? Poderia ser
consultório clínico, como a doença era concebida que, mesmo, havendo tensões entre eles,
várias versões de um objeto às vezes
no setor de patologia, no laboratório, no centro pudessem depender uns dos outros?
cirúrgico, no setor de nutrição e como eram (Mol, 2002, p. 6, tradução nossa).
avaliados os tratamentos preventivos, as
intervenções cirúrgicas, as análises de tecidos em É neste sentido que a autora propõe que
vida dos pacientes ou após sua morte. Sem dúvida, passemos de uma investigação epistemológica da
cabe a nós perguntar: por que afinal acompanhar realidade, cujo viés seria, em última instância,
tais práticas? Logo no início do primeiro capítulo conhecer uma realidade dada, para uma pesquisa
Mol (2002) considerou que, mesmo havendo praxiográfica, pois nas práticas os objetos são
grande quantidade de material empírico em seu feitos, o que indica que é apenas em ação – aqui e
livro, este não constitui um relato de campo, mas, ali – que alguma coisa é, que alguma coisa passa a
como dizia ela, é um “exercício de filosofia existir. O pesquisador interessado em investigar o
empírica” [itálico da autora], parte de uma “narrativa diabetes ou a arteriosclerose, como afirma Mol
filosófica”: (1999, 2002, 2008, 2010), jamais se afasta das
práticas nas quais tais doenças são feitas. Seu
Se práticas ganham o primeiro plano não trabalho consiste em analisar os modos pelos quais
há mais um simples objeto passivo no estas doenças vão sendo produzidas e ordenadas,
meio, aguardando ser visto do ponto de
em arranjos múltiplos e heterogêneos. A questão
vista de séries, aparentemente sem fim,
Ao invés disto, objetos aparecem - e que interessa ao pesquisador passa a ser a de
desaparecem nas práticas em que são investigar as conexões, sempre parciais e locais,
manipulados; e como o objeto de entre tais realidades e objetos: eles ora se
manipulação tende a diferenciar-se entre coordenam, ora se chocam, ora um se sobrepõem
uma prática e outra, a realidade multiplica. um ao outro.
O corpo, o paciente, a doença, o doutor, No texto The Logic of Care (Mol, 2008),
os técnicos, a tecnologia: todos estes são
embora a discussão sobre a coordenação entre
mais de um, mais do que singulares. Isto
levanta a questão de como eles estão objetos permaneça, a autora efetuou um
relacionados, pois, mesmo se os objetos deslocamento na análise destes possíveis choques
diferem entre uma prática e outra, há e confrontações. No relato de sua pesquisa ela não
relações entre estas práticas. Logo, longe buscava evitar, ao contrário, levar às últimas
de necessariamente cair em fragmentos, consequências o contraste entre dois objetos em
objetos múltiplos tendem a ser, de alguma estudo, entre duas formas de encaminhar o
forma, coerentes entre si. Ficar atento à
tratamento da doença do diabetes, o qual, segundo
multiplicidade da realidade abre a
possibilidade de estudar esta realização a análise da autora, fundamenta-se em duas
notável (Mol, 2002, p. 5, tradução nossa). lógicas opostas, que irão configurar dois mundos
totalmente distintos: um tratamento que se funda
O interesse não deve ser focado em questões na lógica da escolha e outro que se funda na lógica
epistemológicas. Mol (2002) não desejava utilizar a do cuidado.
filosofia para estabelecer as condições de um É importante precisar o uso que Mol (2008) fez
conhecimento verdadeiro. A pergunta não seria dos termos escolha e cuidado - isto será importante
mais “como encontrar a verdade”, mas “como os também para a apropriação que faremos dos
objetos são manejados na prática”. Com este argumentos de Mol para a psicologia. No prólogo
deslocamento “a filosofia do conhecimento adquire do seu livro, a autora apresentou três exemplos que
um interesse etnográfico [itálico da autora] em merecem ser sintetizados. No primeiro, Mol
práticas do conhecimento” (Mol, 2002, p. 5, descreveu uma discussão sobre fertilização in vitro
tradução nossa). Afirma a autora: transmitida na televisão holandesa, nos anos 80.
Como espectadora, Mol ficou perplexa com o rumo
Uma nova série de questões emerge. Os da discussão. O ginecologista entrevistado falou de
objetos manipulados na prática não são
os mesmos de um local para o outro:
sua paciente que se apresentava enfim como
assim, como deve proceder a “sofredora e orgulhosa”. Ela desejava
coordenação entre tais objetos? E como ardentemente ter um filho e isto era sua escolha.
diferentes objetos que respondem pelo No segundo exemplo, a filósofa holandesa relatou

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o caso debatido pelo staff de um hospital que a realidade em que vivemos é independente e
psiquiátrico no qual um paciente internado se anterior a nossas ações e percepções, que ela é
recusava, numa certa manhã, a ir tomar o café da constituída por relações claras, definidas e povoada
manhã. Deveria a equipe médica deixá-lo sem o por objetos singulares que permanecem os
café da manhã porque isto fora sua escolha? No mesmos, seja qual for o lugar de sua percepção.
terceiro exemplo, a autora contou que, grávida e Law (2004) advertiu que tais assunções são, elas
com mais de 35 anos, foi submeter-se a um exame também, produzidas em certas práticas
para prevenção de fetos com Síndrome de Down. “perfomativas”, podendo assumir valor de
realidade; no entanto, o que o autor salienta é que
Ela estava ciente de que num pequeno número de
esta não é a única realidade que existe, não é o
casos a reação ao exame poderia provocar um
único modo de “performar” e fazer existir (enact) a
aborto. Ao receber a injeção comentou apreensiva:
realidade. Ao avançar no desenvolvimento deste
“Espero que tudo dê certo”. A resposta que ouviu argumento, Law ( 2004) nos convidou a sermos
da enfermeira foi: “Ora, foi sua escolha”. contraintuitivos: como Mol (2008), ele considerou
Comentando estes exemplos, Mol (2008) que um mergulho nas práticas faz existirem
observou que no primeiro caso nada foi dito sobre múltiplas realidades a serem investigadas por
os hormônios injetados nas mulheres, sobre suas metodologias não convencionais. Neste sentido de
vidas ordenadas em torno da ovulação, sobre suas buscar um caminho contraintuitivo Mol (2008)
expectativas em relação a uma meta dificilmente perguntou: “Somos „nós‟, no „Ocidente‟
atingível; que no segundo caso, seguindo a efetivamente indivíduos autônomos?” (p. 4,
observação de um psicoterapeuta, membro da tradução nossa); e sua resposta veio precisa: “Não,
equipe, o comportamento do paciente poderia se „nós‟ não somos. (...) „Nós‟, no „Ocidente‟ podemos
dever ao fato de sua esposa não o ter visitado ou não ter tantas „escolhas‟ quanto pensamos.” (p. 4,
ao medo que sentia de jamais receber alta, pois tradução nossa). Contra esta versão simplificada
alguém que não deseja levantar-se da cama do Ocidente, Mol sustentou que ele nunca foi
necessita cuidados, e que, no terceiro caso, o homogêneo. “Ao lado do ideal da „escolha‟, há
resultado do pequeno diálogo com a enfermeira outros circulando: por exemplo, solidariedade,
teria sido totalmente outro se ela respondesse justiça, respeito mútuo e cuidado.” (Mol, 2008, p. 5,
“Vamos torcer para tudo dar certo” ou “A maioria tradução nossa).
das vezes não há problema” ou ainda: “Você está Tendo precisado o sentido dado por Mol (2008)
preocupada?”. A enfermeira, concluiu Mol, poderia aos termos escolha e cuidado, resta avaliar o
ter utilizado o momento para encorajá-la e dizer “Vá sentido dado ao termo lógica. Mol alertou que a
para casa, tenha uma tarde calma”. Nos três casos escolha do termo para falar de práticas poderia
relatados, duas lógicas diferentes são contrastadas: sugerir uma coerência definida de antemão, a qual
uma que traz o problema para o indivíduo, implicasse em formular regras racionais de
interiorizando sua decisão, e uma que não nega pensamento que possibilitassem gerar conclusões
que decisões existam, mas que dirige as possíveis justificadas deduzidas de premissas iniciais. Não se
soluções aos problemas para uma ação coletiva, trata disto, insiste ela: coisas inesperadas ocorrem
mais distribuída. e qualquer prática “envolve um bocado de
Mol (2008) associou o ideal da escolha criatividade” (Mol, 2008, p. 9, tradução nossa). Mol
individual no âmbito médico a um modo de ser busca algo que ela chama de estilo. Este seria
típico da sociedade ocidental desde o Iluminismo.
Enquanto Deus, a tradição e o coletivo dão sentido um convite à exploração do que é
e coerência à vida dos “outros”, “nós ocidentais, por apropriado ou lógico a ser feito em algum
contraste, somos supostos de estar livres de tais lugar ou situação e o que não o é. Este
laços restritivos” (Mol, 2008, p. 4, tradução nossa). busca uma coerência local, frágil e ainda
assim pertinente. Tal coerência não é
O que conta, para este modo simplificado de ver as
necessariamente óbvia para as pessoas
coisas “é que „nós‟ somos individualizados e envolvidas. Não necessita nem mesmo
autônomos” (Mol, 2008, p. 4, tradução nossa). A estar disponível para elas. Pode estar
menção de Mol ao Ocidente lembra a análise de implícita: incorporada em práticas,
Law (2004) quando o autor mencionou que o senso prédios, hábitos e máquinas (Mol, 2008,
comum dos ocidentais adota, sem grandes p. 10, tradução nossa).
questionamentos, o “realismo ou a metafísica euro-
americana”. Como dito, esta abordagem assume

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Quando uma filósofa deixa seus estudos e exercício local e ordenado em certas práticas
mergulha na prática, ela se “deixa surpreender” por que exigem esforço, práticas que, como
esta prática. Não se trata de colecionar exemplos sublinhou Mol (2008, 2010), são crônicas, isto
adequados, mas de aprender novas lições: é, devem ser tecidas dia após dia. É justamente
por isso que a doença não é uma exceção, mas
Bons estudos de caso inspiram a teoria, algo que é parte do viver, que se associa ao corpo
moldam ideias e alteram conceitos. Eles
não levam a conclusões que sejam
que nós fazemos dia a dia. Assim é que Mol (2008)
universalmente válidas, mas eles também provocou o leitor a ler o seu livro de modo situado,
não reivindicam isto. Ao contrário, as encarnado no corpo frágil e precário que somos
lições aprendidas são bastante todos nós. Ela se dirigiu ao leitor (a nós) de forma
específicas. Se mergulhamos incisiva:
suficientemente num caso, poderemos
obter o sentido do que seria aceitável, Vou utilizar todos os meus recursos
desejável ou solicitado num cenário retóricos para seduzir você – qualquer
particular. Isto não significa que seja que seja o teu diagnóstico, para que você
possível predizer o que ocorre em outro se aproprie da posição do paciente no
lugar ou em novas situações. Lidar com o decorrer de sua leitura. O “você” não
diferente sempre requer trabalho, e a especificado neste livro tende a ser
lógica não funciona. Eles não são atores, alguém com diabetes. Tenha ou não você
mas padrões. Logo, a lógica do cuidado esta doença, eu amavelmente o convido a
aqui articulada apenas se ajusta ao caso imaginar-se envolvido nas situações
estudado. Não se aplica em qualquer descritas: como um paciente (Mol, 2008,
lugar. Isto não é dizer que sua relevância p. 13, tradução nossa).
seja local. Um caso de estudo é de maior
interesse quando se torna parte de uma
trajetória. Ele oferece pontos de contraste,
comparação ou referência para outros
locais e situações. Ele não nos diz o que 4- A PSICOLOGIA SOCIAL ENTRE A ESCOLHA E
esperar – ou fazer – em qualquer outro O CUIDADO : CONSIDERAÇÕES FINAIS
lugar, mas sugere questões pertinentes.
Estudos de caso aumentam nossa É neste sentido que a imersão nas práticas de
sensibilidade. É a especificidade de um cuidado no tratamento do diabetes poderia
caso meticulosamente estudado que nos interessar a psicólogos. Por quê? É que Mol quer
permite desenredar o que permanece o
mesmo e o que muda de uma situação à
“explorar as maneiras de dar forma à boa vida”
outra (Mol, 2008, p. 11, tradução nossa). (Mol, 2008, p. 47, tradução nossa), e explorar como
uma boa vida pode ser vivida - observa ela - tal
Esta opção metodológica por não buscar como o diabetes, é algo crônico. Na conclusão do
conclusões universalmente válidas nos seus seu livro, Mol observou ser improvável que apenas
estudos de caso se exprime numa frase a vida com diabetes escape ao que acontece no
perturbadora: “Quero evitar normalidades não “Ocidente”. Algo semelhante poderia ser feito em
marcadas” (Mol, 2008, p. 13, tradução nossa): outros lugares e situações, numa variedade de
coletivos em transformação, como ela afirmava
Presumir que você ou eu sejamos (Mol, 2008, p. 102). Então ela deu uma sequência
saudáveis iria contra o cerne do que estou de exemplos de atividades que poderiam ser
buscando dizer. Na lógica da escolha,
“doença” é uma estranha exceção, não consideradas “crônicas”, no sentido de que nelas
tem nada a ver “conosco”, enquanto a não se pode impor um comportamento “normal”,
lógica do cuidado parte da corporeidade e não marcado:
fragilidade da vida (Mol, 2008, p. 13,
tradução nossa). O que mais poderia exceder à lógica da
escolha? Lutar. Construir. Filmar. Educar
Desse modo, qualquer prática cotidiana de crianças. Fazer programas de televisão.
viver a vida - no caso em tela, a vida com Engajar-se em pesquisa científica. Amar.
Cozinhar. Limpar. Escrever. Tudo tem seu
diabetes -, é marcada por seringas, insulina, próprio estilo - ou melhor, variados estilos.
consultas médicas, alimentação, amores, Numerosas lógicas aguardam para serem
filhos, histórias, desejos. Viver a vida é um exploradas (Mol, 2008, p. 106, tradução
nossa).

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320 Moraes & Arendt

A psicologia incluiria inúmeros modos de se radical no sentido de recusar qualquer argumento


comportar, inúmeras lógicas a serem exploradas a que viesse fora do âmbito da experiência e das
partir do ponto de vista que excederia à lógica da práticas dos indivíduos; assim, para ele, seria
escolha (por exemplo, sofrer; ser feliz, ser alegre, totalmente fora de propósito uma validade obtida
ser triste; afetar; aprender; perceber; compreender; independentemente de nosso ponto de vista. É
brincar). Entendemos que a psicologia social neste sentido que as propostas de Annemarie Mol
poderia ser pensada tendo-se como parâmetro se ajustam com precisão a esta atitude empirista, e
uma lógica do cuidado. é neste sentido que se deve interpretar sua postura
Não temos dúvida de que as proposições de incisiva em recusar qualquer “normalidade não
Mol (1999, 2002, 2008, 2010) retomaram algumas marcada”. Esta recusa nos diz duas coisas
ideias que perpassam o campo da psicologia há concomitantemente: que a normalidade estatística
bastante tempo. O modo como a autora não pode ser considerada em termos gerais e
problematiza a questão da normalidade retoma a universais (não marcada) e que cada indivíduo
noção de normatividade proposta por Canguilhem inserido em uma situação particular nunca é
(1976), para quem “vida é experiência, quer dizer, “normal” no sentido acima, mas é antes marcado
improvisação, utilização de ocorrências; é tentativa por esta situação. Mesmo quando Mol (2008)
em todo seu sentido - daí o fato ao mesmo tempo avaliou dados estatísticos, ela o fez com a maior
massivo e com frequência mal conhecido, de que a precaução. Os valores-alvo (target-values) de
vida tolera monstruosidades. Não há máquina níveis de insulina a serem respeitados pelos
monstro.” (Canguilhem, 1976, p. 138, tradução diabéticos seriam apenas referências provisórias a
nossa). serem constantemente reavaliadas e encarnadas
Daí decorre, para Canguilhem (1976), o caráter nas condições possíveis de serem vividas por cada
irredutível da vida diante de qualquer mecanicismo vida, dadas as injunções e associações que a
ou reducionismo. A vida é variação, capacidade de constituem. Tais valores jamais são tomados como
ser diferente diante das exigências do meio. Por dados externos a serem aceitos
isso, para Canguilhem, é perturbadora qualquer incondicionalmente ou impostos “de fora” a uma
concepção de vida que a afaste dessa dimensão vida que se constitui cotidianamente, cronicamente,
de experimentação, de tateio, de reinvenção das através das mais díspares e heterogêneas
suas próprias normas. Não nos parece impróprio associações. Uma vida - a autora não se cansa de
afirmar que é justamente dessa concepção de vida afirmá-lo -, que exige esforço para manter-se
que Mol (2008) se serviu para discutir o diabetes, coesa.
ou antes, o viver com diabetes. No entanto, ainda Numa disciplina moderna como a psicologia,
que seja possível estabelecer este elo entre as nascida a partir de referenciais de normalização, as
pesquisas de Mol (2002, 2008, 2010) e aquelas de posições de Mol (1999, 2002, 2008, 2010)
Canguilhem, elo que de resto a própria Mol (1998) colocaram fogo no palheiro. As teses da médica e
reconheceu, é preciso destacar que a proposta da filósofa holandesa nos levam a reexplorar a
autora está implicada de modo inequívoco com a possibilidade de pensar as intervenções em
praxiografia, com a guinada para a prática que psicologia a partir de alguns pontos: a) a recusa a
explicitamos acima; e é neste ponto que vemos a qualquer concepção de normalidade não marcada;
radicalidade e a novidade de suas pesquisas. b) a afirmação da lógica do cuidado em detrimento
Certamente, falar de prática no viés que vimos da lógica da escolha, entendendo-se - como dito
discutindo ao longo deste texto também pode nos acima - que a lógica do cuidado implica uma ação
levar a outros autores cujas ideias marcaram a local e mais distribuída, que agencia mais e mais
psicologia justamente neste domínio. Madelrieux atores. A lógica do cuidado implica considerar o
(2008) fez uma interessante apresentação das viver como algo crônico, que se faz dia a dia
teses do psicólogo e filósofo americano William através das conexões locais, situadas, encarnadas,
James e deixou claro que o projeto de James foi capazes de produzir estes coletivos, estes
precisamente elaborar uma filosofia empírica que amálgamas de coisas tão estranhas e díspares
recusasse com rigor qualquer tipo de quanto o amor de um pai cujas pernas são
transcendentalismo. Desde Platão, Descartes e tomadas pela arteriosclerose, e que, mesmo assim,
Kant instâncias transcendentais impõem critérios sobe cinco andares de um prédio para visitar as
prévios à nossa compreensão (das ideias filhas e os netos, ao passo que, de posse apenas
platônicas aos a priori kantianos, passando pela dos exames laboratoriais realizados nestas pernas
razão cartesiana). O empirismo de James era adoecidas, um médico diria: “Este homem não

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Mol e psicologia social 321

caminha mais do que 500 metros”. Que http://www.heterogeneities.net/publications/Law2


arteriosclerose se produz neste arranjo, aí, no seio 007ANTandMaterialSemiotics.pdf.
destas práticas onde se reúnem escadas, amor, Law, J. (2008) On Sociology and STS. The
Sociological Review, 56(4), 623-649.
exames clínicos, filhos, netos, estatística, dores?
Que intervenções realizar aí, neste caso, nesta Law, J. (2009) Collateral Realities. Recuperado em
15 dezembro, 2010, de
situação, neste coletivo? Se pensarmos por este http://heterogeneities.net/publications/Law2009C
viés, dizemos que o social que se associa à ollateralRealities.pdf.
expressão “psicologia social” não é algo dado de Law, J. & Hassard, J. (Orgs.). (1999) Actor Network
antemão, tampouco se caracteriza como aquilo Theory and After. London: Blackwell – The
sobre o quê a psicologia se debruça, o seu objeto. Sociological Review.
O social é verbo, é ação situada - ação que se Madelrieux, S. (2008) William James: l‟attitude
produz nas práticas cotidianas, aí incluídas, sem empiriste. Paris: PUF.
dúvida, o fazer da psicologia. Tais considerações Mol, A. (1998) Lived Reality and the Multiplicity of
nos levam inevitavelmente ao próximo item: c) a Norms: a Critical Tribute to George Canguilhem.
compreensão de que os métodos de pesquisa são Economy and Society, 27(2-3), 274–284.
performativos, produzem realidades. O que nos faz Mol, A. (1999) Ontological Politics: a word and some
questions. In J. Law & J. Hassard (Orgs.). Actor
entender que a discussão de método de pesquisa Network Theory and After (pp.74-89). London:
não é tanto uma questão epistemológica, mas Blackwell – The Sociological Review.
acima de tudo, política. O que está em jogo é Mol, A. (2002) The body multiple: ontology in
interrogar-nos: em que mundo queremos viver? medical practice. Durham, NC: Duke University.
Quem e o quê conta no mundo que engendramos Mol, A. (2008) The logic of care: health and the
com nossas investigações?; d) se a realidade é problem if patient choice. London: Routledge.
produzida, a convocação é a de intervir; ou seja, se Mol, A. (2010) Care and its values. In A. Mol, I.
o mundo é produzido, é possível fazê-lo através de Moser & J. Pols (Eds.). Care in practice: on
outras associações, com outros atores? Nos pontos tinkering in clinics, homes and farms (pp. 215-
de tomada de decisão, nos lugares onde o 234). Bielefeld, Alemanha: Transcript ;
Piscataway, NJ: Transaction.
psicólogo é convocado a agir, o quê e quem conta
Mol, A. & Law, J. (2003) Embodied action, enacted
na decisão a ser tomada? O desafio que se abre é
bodies: the example of hypoglicaemya.
o de situar a nossa prática de psicólogos, Recuperado em 4 de abril, 2006, de
profissionais e pesquisadores, no seio da política http://bod.sagepub.com/.
ontológica. Mol, A.; Moser, I. & Pols, J. (Eds.). (2010) Care:
putting practice into theory. In Care in practice:
on tinkering in clinics, homes and farms (pp. 7-
REFERÊNCIAS 26). Bielefeld, Alemanha: Transcript ;
Piscataway, NJ: Transaction.
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introduccion a la teoria del actor-red. Buenos
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322 Moraes & Arendt

Marcia Oliveira Moraes: docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFF, bolsista de produtividade
CNPq/2.
Ronald João Jacques Arendt: professor titular do Instituto de Psicologia da UERJ, docente do Programa de Pós-
Graduação em Psicologia Social da UERJ.

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