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PIO XII

E OS PROBLEM AS
DO MUNDO MODERNO
MICHAEL CHINIGO

PIO XH
E OS PROBLEMAS
DO MUNDO MODERNO

Tradução e adaptação do P.e José Marins

2 EDIÇÃO

í
KDK/OKS M K ljl I O It A M K N T O S
T ítu lo do original italiano: IL P A P A H A D E T T O
T ítu lo da edição alemã: DER P A P S T SAGT
publicada por Verlag Heinrich Sclicffler G M B H , Frankfurt am M ain

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à
Nihil obstat quotninus imprimatur
Scti Pauli, V Io Kalendas Novemb. M C M L IX
Matthaeus N. Garcez, sac. censor

Scti Pauli, 29-X-1959


Imprimatur
Mons. J. Lafaycttc
Ex delegatione
P R E F Á C IO

"E m busca de m a terial para um liv ro sôbre o V aticano, mais de uma


nez en co n tre i-m e na necessidade de consultar as E ncíclicas e os Discursos
de Sua Santidade o Papa P io X II.
“ Duas dificuldades se m e antolharam : a quase inexistência de publicações
et intendo os escritos e os discursos de certas épocas e a d ifíc il identificação
dr argum entos tratados mais vêzes no co rre r dos anos.
"Disto nasceu e re forçou -se em m im a determ inada idéia de um liv ro
i/nr contivesse quase tôdas as matérias, às quais Sua Santidade houvesse
drdirado Suas atenções, durante seu Pon tifica d o.
"E m mais de um ano de trabalho, li, mais de um a vez, todos os discur­
sos, as Encíclicas e Constituições Apostólicas para “ selecionar” tudo aquilo
t/ue deveria ser inclu íd o no volum e.
" A seleção fo i fe ita seguindo dois critérios fundam entais: no caso de
diversos discursos sôbre um mesmo argum ento, quando u m discurso r e ­
presentava o estudo mais exaustivo, e os demais constituíam uma re p e ti-
çttti, a escolha caiu sôbre o discurso p rincip al. D iga-se o mesmo a respeito
dos demais docum entos pon tifícios. Nos casos, pelo contrário, em que o
Santo Padre tra tou vários aspectos do mesmo argum ento, em tem pos d i­
versos, reu n i os diversos enunciados em um só capítulo. Nestes casos, p o ­
rem , separei o conteúdo de cada discurso ou docum ento incluídos, com três
asteriscos, de m odo que o leitor poderá com preender que o argum ento fo i
tratado mais vêzes.
" A d m irá v e l descoberta: a homogeneidade do pensamento de Sua Sa n-
tidade através dos anos.
"P a ra a apresentação a Sua Santidade, deixei no m anuscrito a língua
orif/inal em que os discursos fo ra m pronunciados e os docum entos escritos.
Isto para que Sxia Santidade possa mais expeditam ente seguir o c rité rio
de seleçãio e o conteúdo do livro.
“ Im p lo ro de Sua Santidade tôdas as m odificações que ju lg a r oportunas
em m inha obra selecionador a.
“ Penso m u ito hum ildem ente que u m va d e-m écu m com pleto e conciso
do pensam ento do Santo Padre sôbre argum entos de tão pungente atuali­
dade, com o os que Sua Santidade tra tou dxirante o Seu G lorioso P o n tifi­
cado, possa para inuitos ser interessante e útil.
" O parecer autorizado dos editores e religiosos de todo o m undo, p or
m im interpelados, a propósito, con fortou a m inha idéia a respeito da u ti­
lidade dè.ste livro.
"O índice será em ordem alfabética p or m atéria visando fa cilita r a con ­
sulta.”
• # •

(t
Êsle o teor da “ N ota E x p lica tiv a ” a qual fo i para m im um espontâneo
dever subm eter, juntam ente com o voln m e, ao Santo Padre P io X I I , que
se dignou fazer chegar até m im , p or m eio de Sua E xcelência Iievm a . Mona.
 n g elo D elV A cqua, S íib stitu to da Secretaria de Estado de Sua Santidade,
a Sua A postólica Bênção, acompanhada pela expressão de paterna bene­
volência pelo devoto pensamento que sugeriu a com pilação do volum e.
É verdadeiram ente o caso de dizer que o conteúdo dêste liv ro confirm a
a eterna vitalidade da Ig re ja de Deus, pelo que podem os re p e tir egrògia -
m ente a frase do A p óstolo P a u lo : “ P o r isto, de um só hom em saiu uma
posteridade tão num erosa com o as estréias do céu e com o a areia in u m e­
rável, que está à borda do m ar” ... (S . Paulo aos Hebreus, X I, 12).

M IC H A E L CH INIUO

P R E F Á C IO D A 2.a E D IÇ Ã O

O liv ro de M ich a el Chinigo, cuja tradução portuguêsa ora apresentamos,


havia reunido e catalogado os principais discursos do Santo Padre P io XI I ,
até o ano de 1954.
Preparando a 2.a edição portuguêsa desta valiosa obra, adicionamos em
novos capítulos, ou m esmo aos capítulos da edição anterior, o m aterial mais
im porta nte que surgiu na docum entação p o n tifícia desde 1954, até o dia 8 <lc
ou tubro de 1958, fim do p on tificado de P io X II.
Fazemos votos para que a palavra de P io X I I , segura, precisa, e de candentc
(dualidade, verdadeira “ Suma T eo lóg ica ” dos tem pos modernos, seja am pla­
m ente divulgada. Conhecida, seja pratica. Realizada em atos, transform e
indivíduos, mentalidades, estruturas e coletividades. Só assim, verem os surgir
um m undo mais cristão, um M undo M elhor.

São Paulo, 10 de fe v e re iro de 1961.

Padre José M arins.


Í N D I C E

O AM OR ................................................................................................11
O A M O R C O N JU G A I........................................................................ ....15
O AP O S T O I.A D O LE IG O ...................................................................19
A IN D A SOBRE O A P O S T O LA D O LE IG O ........................................23
AS AR M AS A T Ô M IC A S .................................................................. ... 31
A A R T E E A PAZ ........................................................................... ... 33
O A T E ÍS M O ...................................................................................... ... 35
A AÇÃO C A T Ó L IC A ........................................................................... 38
O C A P IT A L E O T R A B A L H O ....................................................... ... 43
SOBRE A C A R ID A D E ...................................................................... ... 48
A I G R E J A ............................................................................................... 50
SOBRE AS IGREJAS O R IE N T A IS .................................................. ... 62
A IGREJA E O ESTAD O .................................................................... 65
A C O L E T IV IZ A Ç Ã O A G R ÍC O L A .................................................. ... 72
SOBRE A C O N D E N A Ç ÃO À M O R T E ........................................... ... 75
SOBRE O C O N T R O L E DOS N ASC IM E N TO S ................................ 78
CONSCIP.NCIA E EDUCAÇÃO ........................................................... 81
SOBRE OS DEZ M A N D A M E N T O S ................................................ ... 85
DEUS E C R IS T O ............................................................................... ... 92
O D IR E IT O ECLESIÁSTICO ......................................................... ... 96
D IT A D U R A E D E M O C R AC IA ....................................................... ... 98
AS D IT A D U R A S A T É IA S ................................................................ ... 103
SOBRE O D IV Ó R C IO ........................................................................... 105
A M U L H E R M O D E R N A .................................................................. ... 112
OS DEVERES DO C IR U R G IÃ O ....................................................... 120
OS DEVERES DO M A R ID O E D A M U L H E R .............................. ... 122
OS DEVERES DOS MÉDICOS ....................................................... ... 129
A E D UCAÇÃO DA C R IA N Ç A ....................................................... ... 136
AS ELEIÇÕES E O V O T O .................................................................. 139
A E M IG R A Ç Ã O .................................................................................... 140
A ERA A T Ô M IC A ........................................................................... ... 141
O H ER O ÍSM O .................................................................................. ... 146
OS ERROS I)A V ID A ASCÉTICA ................................................ ...149
O E X IS TE N C lA LIS M O .................................................................... ...151
A F A M ÍL IA ...........................................................................................162
SOBRE A FECUNDAÇÃO A R T IF IC IA I ......................................... ...165
A FÉ, A ESPERANÇA F. A C A R ID A D E ..................................... ...168
A FORÇA E A DF BI I 11>AI)F. ..................................................... .......169
\ GUF.RR \ ......................................... ............... 171
A im o r \i i i > vn i .........................................177

H
O IN D IV ÍD U O E O ESTADO ........................................................ 180
SOBRE A IN IC IA Ç Ã O SE X U AI........................................................ 183
SOBRE A IN T E R N A C IO N A L IZ A Ç Ã O DO D IR E IT O P R IV A D O 1Sfi
A L U T A DE CLASSES ..................................................................... 188
O M A T R IM Ô N IO ............................................................................. 192
SOBRE A S A N T A MISSA ............................................................... 202
PO R UM M UN DO M E LH O R ........................................................ 205
SOBRE A MISSÃO DA IM PR E N S A ............................................... 210
A M ODA E A V IR T U D E ............................................................... 215
O M U N DO DE HOJE ...................................................................... 217
SOBRE O C IN E M A .......................................................................... 222
SOBRE AS NECESSIDADES DA H O R A PRESENTE .................. 229
R A D IO E TE LE V IS ÃO .................................................................... 230
A ORDEM SOCIAL .......................................................................... 240
O B S T E T R ÍC IA E M O R A LID A D E M A T R IM O N IA L ................ 250
AOS PAIS DE F A M ÍL IA ................................................................... 2f)0
SOBRE O P A P A D O .......................................................................... 202
A PERSEGUIÇÃO SO V IÉ T IC A ........................................................ 200
U M P L A N O P A R A A PAZ ............................................................. 209
A POBREZA ...................................................................................... 281
O R O SÁR IO ...................................................................................... 280
O QUE É A O R AÇ ÃO .................................................................... 288
AOS SACERDOTES .......................................................................... 291
SOBRE OS SACRAM ENTO S ........................................................... 290
SOBRE A SAGRADA E S C R IT U R A ............................................... 299
SOBRE O SAGRADO C ORAÇÃO .................................................. 309
SOBRE O SANGUE .......................................................................... 312
SOBRE OS SANTOS ........................................................................ 315
RELAÇÕES IN T E R N A C IO N A IS .................................................... 317
DISCURSO SOBRE O OÁSIS ......................................................... 319
C IÊ N C IA E R E L IG IÃ O .................................................................. 321
O ESCOTISMO .................................................................................. 335
SERVOS E PATRÕ ES ...................................................................... 337
AOS SIN D IC ATO S DOS T R A B A L H A D O R E S .............................. 348
O ESPORTE ...................................................................................... 351
O T U R IS M O ...................................................................................... 355
O H O M E M .......................................................................................... 357
SOBRE A U N IÃ O E U R O PÉIA ....................................................... 300
SOBRE OS PERIGOS 1)0 T E C N IC IS M O ..................................... 304
SOBRE O T E A T R O ........................................................................ 370
O HOM EM M A Q U IN A .................................................................... 373
SOBRE A LIBE R D AD E DE IM PRENSA ..................................... 377
O T R ÍP L IC E DEVER M ISSIO NÁRIO ........................................... 383
SOBRE O P A R T O SEM DOR ......................................................... 387
S õ liR E AS I.IÇOES DAS APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA 393
SOBRE A ANESTESIA .................................................................... 390
SOBRE A MOSICA SACRA ....................................... .............. 403
CO NC EPÇ ÃO C A T Õ I.IC A DO ENSINO .............. . ........... 1(17
PROBI EM AS MOR AIS l> \ l’S IC ()l AK M A (I O I O í. IA ............ 4(19
PROUI EMAS Dl <.T Nl I ICA DO SA N C IIE ......... 113

«I
AOS E STUD AN TES ............................................................................. 415
A VIUVK/ C R IS T Ã .............................................................................-110
AOS M O T O R IS T A S .............................................................................-123
N O RM AS TA R A OS PROI-ESSÔRES C ATÓ LIC O S .........................424
SOBRE A VOCAÇÃO S A C E R D O T A L E EO RM AÇÃO NOS
SEM INÁR IO S ............................................................................. ...425
O TAROCO BOM P A S T O R ........................................................... ...429
A P A R Ó Q U IA R E E S T R U T U R A D A ..................................................432
OS PARO Q UIAM O S COM O IRM ÃO S ........................................... ...434
AS RELIGIOSAS ............................................................................... ...435

ín d ice das Ilustrações

IW ^ flo pascoal "U rb i et O r b i" / C apela Sistina .................................... entre págs. IS c J9


Missa de re<|uiem iiíi Capela Sistina / Coroação de Pio X I I ......... entre págs. 52 e 53
Crianças m u lila d a s pela guerra / Mensagem radio fônica ................... entre págs. 68 e 69
M oiiü . C io v a n n i Batlista M o n lin i / Pio X I I cm seu gabinete / A pós um b o m b ard e io ...........
entre j>ágs. 100 e 101
Nox larilins «Io Caslel G a n d o lfo / Pio X I I e o P ríncipe Eahad / Os padres do C ológio Grego
entre págs. 116 e 117
Tio X I I e |ti.H(clino K uliilfi(lick / Presidente K ubilscbek ao deixai o V aticano ...................
entre págs. ISO e IS I
Tio \ll a t a m in h o d a Ba-dliia d< Sfto 1’cdto / Tio X II n u seu leilo de morte ........................
entre págs. 1V6 e l (>7

Kl
O AMOR
Deus é amor, escreve S. João, Am or substancial e infinito; Êle se com­
praz eternamente, sem desejos, como sem saciedade, na contemplação da
sua infinita perfeição; e porque Êle é o único Ser Absoluto, fora do qual
nada há, se quer chamar à existência outros sêres, não pode tirá-los senão
da própria riqueza. Tôda criatura, derivação mais ou menos longínqua do
Amor Infinito, é portanto fruto do amor e não se move senão por amor.
Na nebulosa caótica, a primeira fôrça de atração, o que seria a mesma
coisa dizer, um símbolo de amor, agrupou um dia em tôrno a um núcleo
os elementos cósmicos que formaram um astro; depois a atração dêste pri­
meiro chamou um segundo; e porque ainda outro êra atraído por sua voz,
o maravilhoso cortejo dos mundos começou a sua corrida em volta do fir­
mamento. Mas a obra-prima de Deus é o homem, e a esta obra-prima do
amor, Êle deu uma capacidade de amar, que as criaturas irracionais não
conhecem. O amor do homem é pessoal, isto é, consciente; livre, isto é,
submetido ao controle de sua vontade responsável.
Deus havia dado ao homem, com seu corpo e sua alma, tudo o que con­
vinha para a natureza humana; as aspirações do homem haviam tido cabal
realização; mas nem com isto a vontade de Deus ficou plenamente satis­
feita. Para ir ainda mais longe no amor, fêz à criatura humana um dom
novo e sôbre-humano: a graça. A graça, prodígio imperscrutável do amor
de Deus, maravilha cujo mistério a inteligência humana não consegue pe­
netrar, maravilha que o homem chamou “ sobrenatural” , o que eqüivale a
confessar humildemente, que sobrepassa a sua natureza.[
Se até o amor puramente sensível tem a sua terna,'com ovente beleza,
tanto que o Senhor a Si mesmo compara à águia que adestra ao vôo os
seus pequenitos e esvoaça sôbre êles, o amor humano é incomparavelmente
mais nobre, porque nêle participa o espírito sob o impulso do coração, êste
delicado testemunho e intérprete da união entre o corpo e a alma, que
concorda as impressões materiais de um com os sentimentos superiores da
outra. Tal encanto de amor humano foi por séculos o tema inspirador de
admiráveis obras do gênio, na literatura, na música, nas artes plásticas;
tema sempre antigo e sempre novo, sôbre o qual as idades recamaram,
sem jamais exauri-lo, as mais elevadas e poéticas variações.
Mas de que nova e indizível beleza se acresce êste amor de dois cora­
ções humanos, quando com o seu cântico se harmoniza o hino de duas
almas, vibrantes de vida sobrenatural! Aqui se efetua também a troca
mútua dos dons; c então, com a ternura sensível e suas alegrias sãs, com
a afeição natural e os seus ímpetos, com a união espiritual e as suas de­
lícias, os dois sêres que se amam se identificam em tudo o que têm <le
mais íntimo, desde a profundidade inabalável de suas crenças até o vér­
tice insuperável de suas aspirações.
Tal é o matrimônio cristão, modelado, segundo a célebre expressão de
São Paulo, sôbre a união de Cristo com a sua Igreja. Km urn como em
outra o dom do s i é total, exclusivo, irrevocável; em um como «mu outrn
o espôso é cabeça da espósa, que está a èle sujeita, como ao Senhor; em

11
ambos os casos o dom mútuo torna-se princípio de expansão e fonte de
vida.
Assim os esposos, na missão providencial a êles assinalada, são propria­
mente os colaboradores de Deus e do seu Cristo; mesmo as suas obras têm
<Iuíi I<|nor coisa de Divino; também aqui êles são “ divinae consortes na-
I umo” .
Seria talvez de causar espécie que êstes magníficos privilégios acarre­
tassem graves deveres? A nobreza da ação divina obriga os esposos cris­
tãos a não poucas renúncias e a muitos atos de coragem, a fim de que a maté­
ria não embarace o espírito em suas ascensões para a verdade e para a
v i rtude o com o seu pêso não os arraste para os abismos. Mas visto que
l)oiis não manda jamais o impossível e, com o preceito que impõe, dá
também a fôrça de cumpri-lo, o matrimônio, que é grande sacramento,
nos devores que podem parecer sôbre-humanos adiciona auxílios que se
revelam sobrenaturais í 1).
# # #

IJma afeição mútua, nascida unicamente da inclinação que leva um ao


oul.ro, 0 1 .1 da mera complacência para com os dons humanos que com tanta
.satisfação, um no outro descobre, tal afeição, não obstante se revele bela
e profunda e ecoe na intimidade dos leais colóquios dos recém-casados,
nunca é suficiente, nem seria capaz de efetuar plenamente a união de
vossas almas, conduzindo-vos um ao outro. Somente a caridade sobrena­
tural, vínculo da amizade entre Deus e o homem, pode estreitar laços
indestrutíveis, apesar de todos os abalos, de tôdas as vicissitudes, de tôdas
as provas inevitáveis durante uma longa vida a dois; somente a graça
d i vina tornar-vos-á superiores às pequenas misérias cotidianas, aos nas­
centes contrastes e disparidades de gostos ou de idéias, brotando, como
ervas más, da raiz desta pobre natureza humana. E estas caridade e graça,
nao são porventura fôrça e virtude, que fôstes pedir ao grande sacramento
por vós recebido? Da caridade divina, maior do que a Fé e a Esperança,
tem necessidade o mundo, a sociedade e a família!
Amor santo, sacro e divino: não é — direis vós talvez — ideal por de­
mais alevantado para nós? Um amor tão acima da natureza — perguntareis
muda — permanecerá mesmo aquêle amor verdadeiramente humano, que
foi o palpitar de nossos corações, que os nossos corações procuram e no
(|tial se tranqüilizam, do qual têm necessidade e que tão felizes estão por
o encontrarem? Tranqüilizai-vos: Deus com seu amor não destrói nem
muda a natureza, mas a aperfeiçoa; e São Francisco de Sales, que conhecia
bem o coração humano, concluía sua bela página sôbre o caráter sagrado
do amor conjugal com êste duplo conselho: “ Conservai, ó esposos, um
terno, constante e cordial amor para com vossas esposas... E vós, esposas,
amai ternamente, cordialmente, mas com amor respeitoso e pleno de defe­
rências, os maridos que Deus vos deu” .
Cordialidade e ternura, portanto, de uma e de outra parte. “ O amor
e a fidelidade, observa êle, geram sempre familiaridade e confiança; eis
porque os santos e as santas costumavam dar muitas demonstrações de
nfeto ein seus matrimônios, demonstrações verdadeiramente amorosas, mas
eastas, ternas, porém sinceras” ; e indicava o exemplo do grande Rei S. Luís,
n;io menos rigoroso para consigo mesmo que terno no amor para com sua
esposa, a ela .sabia dobrar o seu espírito marcial e corajoso “ aquêles pe­
queno:; devores necessários para a conservação do amor conjugal” , “ aquelas
pequenas atestações de pura e franca amizade” , que tanto aproximam os
(I) I ) |mi i i » i > .11 h i i | > o h i m, U ’l de milulu«t, llllll,

IV
corações e tornam doce a mútua convivência. Quem, mais ou melhor que
a verdadeira caridade cristã, devota, humilde, paciente, que vence e doma
a natureza, que de si própria se esquece e sempre, em cada momento, ó
ciosa do bem e da alegria alheia, saberá sugerir e dirigir aquelas pequenas
e solertes atenções, aquêles delicados sinais de afeto, è mantê-los ao mes­
mo tempo espontâneos, sinceros, discretos, de modo que se não tornem
importunos, mas sejam sempre recebidos com prazer e reconhecimento?
Quem melhor do que a graça, que é fonte e alma desta caridade, vos será
mestre e guia para colherdes quase por instinto o justo momento para tão
humana e divina ternura?
Todavia vós bem compreendeis que, se a cordialidade e a ternura devem
reciprocamente trocar-se entre os esposos e orná-los, são entretanto duas
flôres de diversa beleza, pois brotam de raízes diferentes quer no homem,
quer na mulher. No homem a raiz delas é uma fidelidade íntegra, invio­
lável, à qual não se permite a mínima jaca, que se não admitiria na pró-
pi'ia companheira, e dá, como convém ao que é chefe, o exemplo patente
da dignidade moral e da corajosa franqueza em não se desviar ou se afas­
tar jamais do pleno cumprimento do dever; na mulher a raiz é uma sábia,
prudente e vigilante reserva, que remove e afasta até a sombra daquilo que
poderia ofuscar o esplendor de uma reputação sem mácula, tudo que de
algum modo iria criar-lhe perigo.
Destas duas raízes, nasce também a mútua confiança que é o ramo de
oliveira de perpétua paz na vida conjugal e no florescer do amor, já que
sem confiança não é verdade que o amor escasseia, resfria, gela, se apaga,
fermenta, corrompe, dilacera e mata os corações? Portanto, observava o
santo Bispo, “ enquanto vos exorto a crescer sempre mais naquele recíproco
amor que um ao outro deveis, cuidai que não se transforme em uma es­
pécie de ciúme; porque acontece muitas vêzes que, como o verme nasce
dentro das frutas mais finas e maduras, assim o ciúme nasce no amor
mais ardente e zeloso, cuja substância estraga e corrompe, produzindo a
pouco e pouco as contendas, as discórdias e os divórcios” . Não; o ciúme,
fumaça e debilidade do coração, não nasce onde arde um amor, que ma-
tura e conserva sadio o suco da verdadeira virtude, porque “ a perfeição
da amizade pressupõe a segurança daquilo que se ama, enquanto que o
ciúme pressupõe uma incerteza” . Não é esta a razão pela qual o ciúme,
longe de ser um sinal da profundidade e da fôrça verdadeira de um amor,
revela pelo contrário os lados imperfeitos e baixos do mesmo, descendo às
suspeitas que crucificam a inocência e cavam lágrimas de sangue? Não ó
talvez o ciúme o mais das vêzes um egoísmo disfarçado que desnatura o
afeto, egoísmo, falta como é, daquele dom verdadeiro do esquecimento de
si, daquela fé que não nutre malignos pensamentos, mas é confiante e be­
névola, que a tornam, ainda aqui na terra, a mais profunda e inexaurível
fonte, e mais segura tutora e conservadora do perfeito amor conjugal? (- ).

* * *

Nem faltaram completamente, mesmo na idade imperial, exemplo de


famílias, nas quais os cônjuges viviam em feliz concórdia e reciprocamente
se davam a preferência; na qual o mérito da boa mulher era digno de
tanto maior louvor, quanto mais grave culpa havia na má. Mulheres (|ue,
embora em tempos de terror nos quais eram acusadas e mortas, só por
terem derramado lágrimas sôbre a morte dos filhos, eram para seus ma­
ridos não menor modêlo de coragem e sacr i fíc io. Mães que acompanhavam
(2) DÍKimüo ;io* cspoüos, 2!> <1<■ jimcito, l!HI.

n
seus filhos prófugos, mulheres que seguiam os maridos ao exílio. Esposas
custas, como aquela Ostória, cujo elogio “ incomparabilis castitatis femina”
está esculpido em um sarcófago recentemente descoberto na profundidade
das Grutas Vaticanas.
K no entanto, quando voltais o vosso olhar desta família pagã para aque­
las famílias plenamente, esplêndidamente cristãs, que todos vós conheceis,
sentis instintivamente que nas primeiras falta alguma coisa, algo mais
ainda do que a velha fôrça dos Quiriti, de mais intimamente forte e ao mes­
mo tempo de mais quente, de mais penetrante e bom, de mais profunda­
mente humano.
Não se consideraria talvez tal falta — irremediável miséria da sociedade
paga ou paganizante — precisamente na incapacidade de permanecerem
enérgicas e fortes, conservando ao mesmo tempo um coração verdadeira­
mente humano, capaz de verdadeira e pura afeição e piedade? Olhai aque­
las antigas famílias romanas, das quais referíamos as qualidades austeras.
O dia em que entraram em contato com as delicadezas e requintes da
civilização grega e oriental, e foram prêsas pela avidez das pérolas, das
pedras preciosas e do ouro, elas, tendo relaxado a disciplina, “ labente pau-
latim disciplina” , em grande número precipitaram-se, “ ire coeperunt prae-
cipites” , àquela corrução, da qual o Apóstolo das Gentes foi testemunho
indignado. Com o desaparecimento da rigidez, não veio a verdadeira afei­
ção — “ sine afectione, sine misericórdia” , caracterizava São Paulo o mundo
pagão de seu tempo — , mas, pelo contrário, o desenfrear-se das mais
baixas paixões, às quais o grande Imperador Augusto, justamente preo­
cupado do bem público, tentou em vão com as suas leis — entre as quais
permaneceram célebres as leis Júlias: “ de maritandis ordinibus et de adul-
toriis coercendis” e a Lei Papia Poppaea — pôr freio a fim de restituir
à família uma fôrça e uma coesão, que somente a fé em Jesus Cristo teria
frito retornar.
A afeição verdadeira, sem dureza como sem debilidade, o amor verda­
deiro, inspirado e elevado por Cristo, nós o entrevemos naquela primeira
família de convertidos romanos, como os Flávios e os A cílios no tempo das
perseguições de Domiciano, delas admiramos o esplendor refulgente ao re­
dor de uma Santa Paula, e uma Santa Melânia.
Qual o segrêdo de semelhante vida? Sempre o mesmo de tôdas as vidas
santas: Cristo vivo e radiante, com a sua graça soberana na alma, que lhe
segue docilmente as inspirações e os impulsos. Somente Nosso Senhor foi
capaz de fazer nascer em pobres corações humanos, feridos e transviados
pela culpa original, um amor que permanece puro e forte, sem enrije­
cer-se e endurecer-se, amor, tão profundamente espiritual que pode se
desvencilhar dos brutais estímulos dos sentidos e dominá-los, embora con­
servando intato o seu calor e inalterada a sua delicada ternura. Êle só,
com os exemplos e ações íntimas de seu Coração inflamado de amor, pôde
atuar a promessa feita já a Israel: “ Auferam cor lapideum de carne vestra
et dabo vobis cor carneum” : arrancarei de vossas fibras o coração de pe­
dra e dar-vos-ei um coração de carne” . Êle somente sabe suscitar e fazer
vivei1 nas almas a verdadeira afeição, terna e ao mesmo tempo forte, por­
que somente Êle pode com a sua graça livrá-las do ingênito egoísmo que,
mais ou menos inconscientemente envenena os amôres puramente huma­
nos (•'').

i l) IM hi m u i .loa r»|i(ii(H, !l() <|r Jiillm, l'H I

II
O AMOR CONJUGAL
Os “ valores da pessoa” e a necessidade de respeitá-los é um tema quo
desde dois decênios ocupa sempre mais os escritores. Em muitas de suas
elucubrações também o ato especificamente sexual tem seu lugar assina­
lado para fazê-lo servir à pessoa dos cônjuges.
O sentido próprio e mais profundo do exercício do direito conjugal de­
veria consistir nisto: que a união dos corpos fôsse expressão e atuação da
união pessoal e afetiva.
A rtigos, capítulos, livros inteiros, conferências, especialmente sôbre a
“ técnica do amor” , difundem estas idéias e as ilustram com advertên­
cia aos jovens esposos como guia no matrimônio, para que êles não dcs-
curem, por estultice ou pudor mal entendido ou por infundado escrú­
pulo, aquilo que Deus, criador também das inclinações naturais, lhes ofe­
rece. Se dêste completo dom recíproco dos cônjuges surge uma vida nova,
ela é um resultado que fica fora ou ao máximo à periferia dos “ valores da
pessoa” , resultado que não se nega, mas não se quer que esteja no centro
das relações conjugais.
Ora, se esta apreciação relativa não fizesse senão acentuar o valor da
pessoa dos esposos, mais do que o valor da prole, poder-se-ia a rigor dei­
xar de parte tal problema; mas aqui se trata pelo contrário de uma grave
inversão da ordem dos valores e dos fins colocados pelo próprio Criador.
Encontramo-nos diante da propagação de um complexo de idéias e de
afetos, diretamente opostos à clareza, à profundidade e à seriedade do
pensamento cristão.
Ora a verdade é que o matrimônio, como instituição natural, em virtude
da vontade do Criador, não tem como fim primário e íntimo o aperfeiçoa­
mento pessoal dos esposos, mas a procriação e a educação da nova vida.
Os outros fins, embora também êsses visados pela natureza, não se encon­
tram no mesmo grau do primeiro, e de modo algum lhe são superiores,
mas, pelo contrário, são essencialmente subordinados ao mesmo. Isto vale
para cada matrimônio, ainda que infecundo; como de cada ôlho podemos
dizer que foi destinado e formado para ver, ainda que em casos anormais,
por especiais condições internas e externas, não é mais apto para a per­
cepção visual.
Precisamente para acabar com tôdas as incertezas e desvios, que amea­
çavam difundir erros acêrca da escala dos fins matrimoniais o das suas
recíprocas relações, redigimos Nós mesmo, alguns anos já são passados (10
de março de 1944) uma declaração sôbre a ordem daqueles fins, indicando
aquilo que compõe a própria estrutura interna da disposição natural
que é patrimônio da tradição cristã, aquilo que os Sumos Pontífices
repetidamente ensinaram, aquilo que depois, nas devidas fórmulas foi
fixado pelo Código de Direito Canônico. Aliás pouco depois, para corrigir
as opiniões contrastantes, a Santa Sé com um Decreto público pronunciou
não se poder admitir a sentença de alguns autores recentes, os quais ne­
gam que o fim primário do matrimônio seja a procriação e a educação dn

l'.
prole, ou ensinam que os lins secundários nao sno essencialmente subor-
(Imudos no fim primário, mas (‘quiviilcn1.es e dele independentes.
Queremos talvez com i sto negar ou diminuir quanto há de bom e de
justo nos valores pessoais resultantes do matr i mônio e de sua atuação?
Nno certamente, pois que à procriação da nova v i da o Criador destinou,
uo matrimônio, sôres humanos feitos de carne e de sangue, dotados de es­
pirito c de coração e êles são chamados, enquanto homens e não como
immuiis irracionais, a serem os autores de sua descendência. Para tal fim
<1 1 icr o Senhor a união dos esposos. Realmente. De Deus a Sagrada Escri-
1iim diz que criou o homem à sua imagem, e o criou homem e mulher, e
( 111 is como muitas vêzes encontramos nos Livros Sagrados — que “ o ho­
mem abandonasse o pai e a mãe, e se unisse a sua mulher, e formasse uma
mó carne” .
Tudo isto ó portanto algo verdadeiro e querido por Deus; mas não deve
ser separado da função primária do matrimônio, isto é, do serviço pela
nova vida. Não somente a obra comum da vida externa, mas também todo
o enriquecimento pessoal, o próprio enriquecimento intelectual e espiritual,
até tudo o que há de mais espiritual e profundo no amor coniugal como
tal, foi colocado por vontade da natureza e do Criador, ao serviço da des­
cendência. Por sua natureza, a vida conjugal perfeita significa também a
dedicação total dos progenitores em benefício dos filhos, e o amor con­
jugal em sua fôrça e em sua ternura é êle próprio um postulado da mais
sincera solicitude pela prole e a garantia da sua atuação.
Itedu/.ir a coabitação dos cônjuges e o ato conjugal a uma pura função
orgânica para a transmissão dos germes, seria como converter o lar, san­
tuário da família, em um simples laboratório biológico. Por isto em nossa
nlocução do dia 29 de setembro de 1949, ao Congresso Internacional dos
Médicos Católicos, formalmente excluímos do matrimônio a fecundação ar­
tificial. O ato conjugal, na sua estrutura natural, é uma ação pessoal, uma
cooperação simultânea e imediata dos cônjuges, a qual, pela própria na­
tureza dos agentes e pelo caráter do ato, é expressão do dom recíproco
que, segundo a palavra da Escritura, efetua a união “ numa só carne” .
Isto 6 muito mais do que a união de dois germes, a qual se pode efetuar
também artificialmente, isto é, sem a ação natural dos cônjuges. O ato con­
jugal, ordenado e querido pela natureza, é uma cooperação pessoal, atual,
a que os esposos, ao contrair o matrimônio, trocam reciprocamente os
d i reitos.
Quando, portanto, esta prestação em sua forma natural é desde o início
permanentemente impossível, o objeto do contrato matrimonial encontra-
se afetado por um vício essencial. É aquilo que então dissemos: “ Não se
esqueça: só a procriação de uma nova vida segundo a vontade e o desíg­
nio do Criador traz consigo, em um grau estupendo de perfeição, a atuação
dos fins visados. Ela é ao mesmo tempo conforme à natureza corporal e
espiritual e a dignidade dos esposos, ao desenvolvimento normal e feliz
da criança” .
fistes valores pessoais, seja na esfera do corpo ou dos sentidos, seja na
espiritual, são realmente genuínos, mas na escala dos valores foram colo­
cados pelo Criador não no primeiro, mas no segundo grau.
Mis outra consideração em risco de cair no esquecimento: todos êsses valo­
res secundários da esfera e atividade generativa não entram no âmbito do
dever especifico dos cônjuges, que é o de serem autores e educadores
dn nova vida nobre e alto encargo! De fato não pertencem tais valo­
res n essência do ser humano completo e a não atuação da natural
tendência «enerativa de modo algum resultará em diminuição da pessoa
humana, A renúncia a tal atuação não é — especialmente se feita por no-

Hi
bres motivos — uma mutilação dos valores pessoais e espirituais. De tais
livres renúncias por amor do Reino de Deus o Senhor disse: “ Non canos
capiunt verbum istud, sed quibus datum est — Nem todos compreendem
esta doutrina, mas somente aquêles aos quais isto é dado.”
Exaltar além da medida, como hoje se faz não raramente, a função ge­
nerativa, também na forma justa e moral da vida conjugal, é portanto
não somente um êrro e uma aberração, mas leva também consigo o perigo
de um desvio intelectual e afetivo, apto a impedir e sufocar bons e eleva­
dos sentimentos, especialmente na juventude ainda desprovida de expe­
riência e ignara dos desenganos da vida. Que homem, pois, normal, são
de corpo e de alma, quereria pertencer ao número dos deficientes no ca­
ráter e no espírito?
Esta nossa exposição seria entretanto incompleta, se não ajuntássemos
ainda uma breve palavra em tôrno da defesa da dignidade humana no uso
da inclinação generativa.
A quêle mesmo Criador, que na sua bondade e sabedoria quis para a con­
servação e propagação do gênero humano servir-se da obra do homem o
da mulher, unindo-os no matrimônio, dispôs também que nesta função
os cônjuges provem um prazer e uma felicidade no corpo e no espírito. Os
cônjuges portanto procurando êste prazer ou dêle gozando, não fazem nada
de mal. Êles aceitam apenas aquilo que o Criador lhes destinou.
A qui, mais do que em qualquer outra situação, os cônjuges devem sabor
manter-se nos limites de uma justa moderação. Como no uso dos alimentos
e das bebidas, assim também no sexual, não devem abandonar-se sem
freios ao impulso dos sentidos. A reta normal é portanto esta: o uso da
natural disposição generativa é moralmente lícito somente no matrimônio,
no serviço e segundo a ordem dos fins mesmos do matrimônio. Disto advém
que também somente no matrimônio, e observando esta regra, o desejo e
o usufruir dêste prazer e desta satisfação são lícitos. Pois o gôzo depen­
de da lei da ação, da qual êle deriva e não vice-versa, a ação dependo*
da lei do prazer. E esta lei, tão racional, respeita não só a substância, mas
também as circunstâncias da ação, de modo que, embora permanecendo)
salva a substância do ato, pode-se pecar no modo de cumpri-lo.
A transgressão desta norma é tão antiga quanto o pecado original. Mas
cm nosso tempo corre-se o perigo de perder de vista o próprio princípio)
fundamental. No presente, de fato, costuma-se sustentar, com palavras c
com escritos (até de parte de alguns católicos), a necessária autonomia, o
fim próprio e o valor também próprio da sensualidade e de sua atuação,
independentemente do escopo da procriação de uma nova vida. Querer-se-ia
submeter a um novo exame, a uma nova norma, a ordem estabelecida po>r
Deus. Não se queria admitir outro freio no modo de satisfazer o instinto
senão observar a essência do ato instintivo. Com isto, à obrigação moral
do domínio das paixões substituir-se-ia a licença de servir cegamente o
sem freios os caprichos e os impulsos da natureza; o que não poderá, cedo
ou tarde, senão redundar em dano da moral, da consciência e da dignidade
humanas.
1 Se a natureza tivesse mirado exclusivamente, ou ao menos em primeiro
lugar, a um recíproco dom e posse dos cônjuges na alegria e na dilo*o;ào,
e se tivesse disposto êste ato sòmente para tornar feliz no mais alto) grau
possível a experiência pessoal dêles, e não para estimulá-los a servir a
vida, então o) Criador teria adotado outro plano na formação» o> eonstitui(;no
do) ato natural. Ora êste, em suma, é totalmente subordinado) e ordenado
àquela única e granole lo>i da "g<>noratio> et educatio prolis” , isto é, ao
cumprimento do» fim primário do> matrimônio co>mo ouigem <> fonte da vida.

17
Infelizmente ondas incessantes de hedoni smo invadem o mundo e amea­
çam de submergir na maré crescente dos pensamentos, dos desejos e dos
nl.os t,ôda a vida matrimonial, não sem perigos e graves prejuízos das obri­
gações primárias dos cônjuges.
fisle hedonismo anticristão muitas vêzes não se enrubesce de erigi-lo em
doutrina, inculcando o frenesi de tornar sempre mais intenso o gôzo na
preparação e na atuação da união conjugal; como se nas relações matri­
moniais tôda a lei moral se reduzisse no regular cumprimento do amor e,
como se todo o resto, de qualquer modo realizado, permanecesse justifi-
eiido pela efusão do recíproco afeto, santificado pelo sacramento do ma-
Irimònio, merecedor de louvor e de mercê diante de Deus e da consciên­
cia. Da dignidade do homem e da dignidade do cristão, que colocam um
freio aos excessos da sensualidade, não se preocupam.
Nao! A gravidade e a santidade da lei moral cristã não admitem uma desen­
freada satisfação do instinto sexual e essa tendência exclusiva ao prazer, ao
gó/.o; ela não permite ao homem racional deixar-se dominar tal ponto, nem
quanto à substância, nem quanto às circunstâncias do ato.
Quercr-se-ia por alguns aduzir que a felicidade no matrimônio está na
razão direta do recíproco gôzo das relações conjugais. Não; a felicidade
no matrimônio está pelo contrário, em razão direta do recíproco respeito
entro os cônjuges, até em suas íntimas relações; não que êles quase ju l­
guem imoral e refutem aquilo que a natureza oferece e o Criador deu,
mas porque êste respeito, e a mútua estima que êle gera, é um dos mais
válidos elementos de um amor puro e portanto mais terno.
liste nosso ensinamento nada tem que ver com o maniqueísmo ou com
o jansenismo, como alguns querem fazer crer para justificar a si mes­
mos. Êle é somente uma defesa da honra do matrimônio cristão e da digni­
dade pessoal dos cônjuges ( x).

(I) I Um lli mi .mi r*|ni*n*, ü!l ilr iillhllito, lí)M.

IH
O APOSTOLADO LEIGO (*)
Costuma-se repetir muitas vêzes que a Igreja, nos últimos quatro sé­
culos, foi exclusivamente “ clerical” , para reagir à crise que no século X V I
pretendia chegar à abolição pura e simples da hierarquia, e, sob tal pre­
missa, insinua-se que é tempo de a Igreja alargar seus horizontes.
Semelhante juízo está tão distante da realidade que, justamente desde
o Santo Concilio de Trento, o laicado começou a enquadrar-se e a progre­
dir na ação apostólica. A coisa é fàcilmente verificável; basta recordar,
entre tantos, dois evidentes fatos históricos: As Congregações Marianas
de homens que exercitavam ativamente o apostolado leigo em todos os se­
tores da vida pública, a admissão progressiva da mulher no apostolado
moderno. É oportuno recordar, a êste propósito, duas grandes figuras da
história católica: aquela de Maria Ward, a incomparável senhora que a
Inglaterra católica, nas horas mais escuras e sanguinosas, deu à Igreja;
a outra, de São Vicente de Paulo, indubitàvelmente um dos maiores funda­
dores e promotores das obras da caridade católica.
Nem seria preciso deixar passar inobservada, e sem reconhecimento a
benéfica influência, a direta união que, até a Revolução Francesa, estrei­
tava em mútuas relações, no mundo católico, as duas autoridades estáveis
de Deus: a Igreja e o Estado. A intimidade de suas relações sob o terreno
comum da vida pública criava, geralmente, quase uma atmosfera de es­
pírito cristão, que em boa parte dispensava do trabalho delicado de que
hoje devem encarregar-se os sacerdotes e os leigos para assegurar a de­
fesa e o valor prático da fé.
No fim do século X V III, entra em jôgo um novo fator. De um lado a
Constituição dos Estados Unidos da América do Norte — que tomavam
um desenvolvimento rápido e onde a Igreja devia logo crescer considerá­
vel mente em vida e vigor ■ — ; e de outro, a Revolução Francesa que, com
suas conseqüências na Europa e além oceanos, terminava por separar a
Igreja do Estado. Sem verificar-se em todo lugar, ao mesmo tempo e no
mesmo modo, por tôda parte a separação teve por lógico resultado fazer
<|iie a Igreja providenciasse com os próprios meios assegurar a sua ação,
o cumprimento do seu mandato, a defesa de seus direitos e de sua liber-
tlude. Foi a origem dos assim chamados movimentos católicos, que guiados
por sacerdotes e leigos, fortes pelo conjunto de suas próprias fileiras e peln
sinceridade das mesmas, arrastavam a grande massa dos crentes à lutn <■
.1 vitória. Não é esta, porventura, uma iniciativa c uma imisção dos leigos
no apostolado?
11A também, é verdade, uma desordenada turba de tépidos, irresolutos
c instáveis, para os quais a religião representa sim, alguma coisa, mas algo
muito vago, que não incide de modo algum sôbre a vida. Esta turba amorfa
pode, como ensina a experiência, encontrar-se de um dia para outro, im-
provisamonto, na necessidade de tomar uma decisão.

(*) H liiliiu i no ( onuirhM » M ilnr o \|><ulol.nlo I < !«<>, 11 i m i Mi I m o , Ml *I


Quanto à Igreja, no confronto de tôdas, ela tem uma tríplice missão a
cumprir: levar os crentes fervorosos à altura das exigências do tempo
presente; introduzir aquêles que retardam sob a soleira da entrada, intro­
duzi-los na sólida e salutar intimidade do lar, reconduzir os que se afas­
taram da religião, que não podem ser abandonados à sua miserável sorte.
Belo escopo para a Igreja, mas que se tornou muito difícil pelo fato que,
se no conjunto a Igreja muito se difundiu, o seu clero, porém, não au­
mentou proporcionalmente. Ora, o clero tem necessidade de dedicar-se an­
tes de tudo ao exercício do ministério propriamente sacerdotal, no qual
ninguém o pode substituir.
A contribuição dos leigos no apostolado é portanto de uma necessidade
indispensável. A experiência da fraternidade que brota espontânea sob as
armas, na prisão, ou em outra circunstância de guerra, sobretudo em ma­
téria de religião, testemunha o valor exato e o influxo profundo e eficaz
dos companheiros de profissão, de condição de vida. Êstes e muitos outros
futôres, devidos às circunstâncias ambientais e pessoais, abriram mais lar-
Hamcnte as portas à colaboração dos leigos no apostolado da Igreja.

Todos os fiéis, sem exceção, são membros do Corpo Místico de Jesus


Cristo. Disto se segue que a lei da natureza, e ainda mais fortemente a
lei de Cristo, os obriga a dar o bom exemplo de uma vida verdadeiramente
cristã: “ Christi bonus odor sumus Deo in iis qui salvi fiunt et in iis qui
pereunt” : “ Fragrância de Cristo somos nós diante de Deus, entre aquêles
que se salvam e aquêles que se perdem” . Todos estão, portanto, empenha­
dos, ainda muito mais hoje, em pensar, na oração e no sacrifício, não so­
mente nas próprias necessidades, mas também nas grandes intenções do
Ileino de Deus no mundo, segundo o espírito do “ Pai Nosso” , ensinado a
nós por Jesus Cristo em pessoa.
Pode-se afirmar que todos são igualmente chamados ao apostolado na
estrita acepção do têrmo? Deus não deu a todos a possibilidade, nem as
ntitudes. Não se pode exigir que se dediquem às obras dêste apostolado a
espôsa, a mãe que educa cristãmente os próprios filhos e ainda mais deve
cumprir um trabalho a domicílio para ajudar o marido a nutrir a família.
Nem todos, portanto, são chamados a ser apóstolos.
É certamente difícil precisar os confins do campo de ação do apostolado
leigo propriamente dito. Precisaria, por exemplo, compreender nêle a edu-
cução dada pela mãe, ou pelo educador e instrutores, plenos de santo zêlo
nu prática de suas profissões pedagógicas; ou ainda a conduta do médico
de reputação, e decidido católico, cuja consciência não transige jamais diante
du lei natural e divina? E age com tôdas as fôrças pela dignidade cristã dos
esposos, pelos sagrados direitos de sua progenitura; ou também a ação de
um homem de estado católico a favor de uma vasta política pelos alojamentos
aos desafortunados?
Muitos tenderiam a uma resposta negativa, não vendo em tudo isto
.senão o puro e simples cumprimento louvável, mas obrigatório, de um
dever de estado.
Nós sabemos, porém, o potente e insubstituível valor, para o bem das
nlinas, dêste simples cumprimento do dever de estado, por parte de m i­
lhões e milhões de fiéis conscienciosos e exemplares.
O apostolado do» leigos, cm scti verdadeiro significado, é, sem dúvida,
oiy.imi/.ndo cm nnuiilc pnrlc pclu Açíio Católica c em outras instituições de

ÜO
atividade apostólica aprovadas pela Igreja; mas, além disto, podem existir
e de fato existem apóstolos leigos, homens e mulheres, os quais vêem o
bem a ser feito, as possibilidades e os meios para fazê-lo; e fazem, unica­
mente solícitos por levar outras almas à verdade e à graça. Nós pensamos
também em tantos ótimos leigos, que nas regiões onde a Igreja é perse­
guida como nos primeiros séculos do cristianismo, substituindo como me­
lhor podem os sacerdotes aprisionados, arriscando a própria vida, ensinam
a doutrina cristã, instruem sôbre a vida religiosa e o justo modo de pen­
sar catòlicamente, induzem a freqüentar os sacramentos e a praticar as
devoções, especialmente a eucarística.' Todos êstes leigos vós os vêdes no
trabalho; não vos preocupeis por perguntar a qual organização pertencem;
admirai antes e reconhecei cordialmente o bem que fazem.
Longe de nós o pensamento de desvalorizar a organização ou desestimar
o significado dela como fator de apostolado; nós a julgamos, pelo contrá­
rio, de alevantado valor sobretudo em um mundo no qual os adversários
da Igreja premem sôbre Ela, com a massa compacta de suas organizações.
Mas a organização não deve conduzir a um exclusivismo mesquinho, aqui­
lo que o Apóstolo chamava “ explorare libertatem” .
* # *

É evidente que o apostolado dos leigos está subordinado à hierarquia


eclesiástica, a qual é de instituição divina, e em cujo confronto os leigos
não podem ser independentes. Pensar diversamente seria ferir pela base
0 fundamento sôbre o qual o próprio Cristo construiu a sua Igreja.
Tendo dito isto, seria ainda errôneo crer que, na jurisdição diocesana,
a estrutura tradicional da Igreja, ou a sua forma atual ponham essencial­
mente o apostolado dos leigos em uma linha paralela ao apostolado hie­
rárquico, de modo que o próprio bispo não possa submeter ao pároco o
apostolado paroquial dos leigos. Pode, entretanto, estabelecer como regra
que as obras do apostolado dos leigos destinadas à mesma paróquia sejam
colocadas sob a autoridade do pároco. O bispo o constituiu pastor de tôda
a paróquia e, como tal, êle é responsável pela salvação de tôda a sua grei.
Que possam existir, de outra parte, obras de apostolado dos leigos cxtra-
paroquiais e até extradiocesanas — preferiríamos dizer supraparoquiais e
supradiocesanas — segundo o bem comum da Igreja o requeira, é tam­
bém coisa certa, e não é preciso repeti-la.
Quando paragonamos o apostolado leigo, ou, mais exatamente, o m ili­
tante de Ação Católica, a um instrumento nas mãos da hierarquia, se­
gundo a expressão que se toi-nou comum, queremos dizer que os superio­
res eclesiásticos devem servir-se dêle no modo que o Criador e Senhor se
serve das criaturas racionais, com instrumentos, como causas segundas,
“ com uma doçura plena de respeito” . Valem-se dêles, portanto, conscien­
tes da própria grave responsabilidade, encorajando-os, sugerindo iniciati­
vas, acolhendo de bom grado aquelas que fôssem por êles propostas, e se­
gundo a oportunidade aprovando-as com largueza de vistas. Nas batalhas
decisivas, as mais felizes iniciativas partem por vêzes do fronte. A his­
tória da Igreja oferece disto inúmeros exemplos.
Km linha de máxima, no trabalho apostólico é desejável que o mais
cordial entendimento reine entre sacerdotes e leigos. () apostolado de uns
nao é uma concorrência para os dos demais. Na verdade;, também a e x ­
pressão “ emancipai,-ao dos leigos", ouvida aqui e ali, não nos agrada muito.
Ila um som bastante desagradável, e ò além de tudo historicamente ine­
xata. Kram porLanto crianças, eram porventura menores que tinham ne­
cessidade de serem emancipado.';, aqueles gi andes chefes aos quais aludíamos

LM
1 1'ln XII fioihlvinoi*
falando do movimento católico dos últimos cinqüenta anos? No reino da
Kraça todos são considerados adultos. E é isto o que importa.
O apêlo à colaboração dos leigos não é devido à debilidade ou falência
do cloro no cumprimento dos deveres da hora presente. Que existam dé­
bil idades individuais, é inegável miséria da natureza humana, e isto en­
contramos em ambas as partes. Mas, geralmente falando, os sacerdotes
possuem olhos tão bons como os leigos para perceberem os sinais dos tem­
pos, c não têm ouvidos menos sensíveis para auscultar o coração humano.
() leigo é chamado ao apostolado como colaborador do sacerdote, colabo­
rador muitas vêzes preciosíssimo e outro tanto necessário por causa da
penúria do clero, muito pouco numeroso, como já dissemos, para poder
cumprir, sozinho, a própria missão.

ri
A INDA SÔBRE O APOSTOLADO LEIGO

I — Alguns aspectos fundamentais do apostolado dos leigos


“ O leigo encarregado de ensinar a religião com “ missio canônica” , com
o mandato eclesiástico de ensinar, leigo para quem êsse ensino constitui
talvez mesmo a única atividade profissional, não passa, por isso mesmo,
do apostolado leigo para o “ apostolado hierárquico” ?
Para responder a esta pergunta, cumpre lembrar-se de que Cristo con­
fiou aos seus próprios apóstolos um duplo poder: primeiro, o poder sacer­
dotal de consagrar, poder concedido em plenitude a todos os apóstolos;
cm segundo lugar, o poder de ensinar e de governar, isto é, de comunicar
aos homens, em nome de Deus, a verdade infalível que os obriga, e de
fixar as normas que regulam a vida cristã.
Êstes poderes dos apóstolos passaram para o Papa e para os bispos.
Êstes, pela ordenação sacerdotal, transmitem a outros, em medida determ i ­
nada, o poder de consagrar, ao passo que o poder de ensinar e de governar
ó próprio do Papa e dos bispos.
Quando se fala de “ apostolado hierárquico” e de “ apostolado dos leigos” ,
cumpre, pois, ter em conta uma dupla distinção: primeiro, entre o Papa,
os bispos e os sacerdotes, de um lado; depois, no seio do próprio clero,
entre os que detêm em sua plenitude o poder de consagrar e de governar,
o os outros clérigos. Os primeiros (Papa, bispos e sacerdotes) pertencem
necessariamente ao clero; se um leigo fôsse eleito Papa, só poderia aceitar
a eleição com a condição de estar apto a receber a ordenação, e disposto
a fazer-se ordenar; o poder de ensinar e de governar, bem como o carisma
da infalibilidade ser-lhe-iam concedidos desde o instante da sua aceitação,
mesmo antes da ordenação.
Agora, para responder à questão formulada, importa considerar as duas
distinções propostas. Trata-se, no caso vertente, não do poder de ordem,
mas do poder de ensinar. Dêste, só os detentores da autoridade eclesiás­
tica são depositários. Os outros, sacerdotes ou leigos, colaboram com êles
na medida em que êles lhes fazem confiança para ensinar fielmente o
dirigir os fiéis. Os sacerdotes (que agem v i m uneris sacerdotalis) e os leigos
também podem receber êsse mandato que, conforme os casos, pode ser o
mesmo para ambos. Distingucm-se, entretanto, pelo fato de um ser sacer­
dote o o outro leigo, e de, por conseguinte, ser sacerdotal o poder de um,
«* o do outro leigo. Quanto ao valor e à eficácia do apostolado exercido pelo
docente do religião, dependem da capacidade de cada um e dos seus dons
m>1ironnturais. Os docentes leigos, as religiosas, os catoquistas em país do
mlssiio, todos os que pela Igreja são encarregados de ensinar as verdades dn
ré, também podem aplicar a si com tôda ra/.ão a palavra do Senhor: “ Vóx
m oIn o sal da terra” ; “ sois a luz do mundo” .

Claro é que o simples fiel podo propor-se — e é altamente desejável


que r:o p r oponha - colaborar de maneira mais organizada com as autori­
dades eclesiásticas, ajud.i Ias mais eficazmente no seu labor apostólico. l'or-


so-á ele então mais estreitamente sob a dependência da hierarquia, única
responsável perante Deus pelo govêrno da Igreja. A aceitação, pelo leigo,
de uma missão particular, de um mandato da hierarquia, se o associa mais
de perto à conquista espiritual do mundo, promovida pela Igreja sob a dire­
ção dos seus pastores, não basta para fazer dêle um membro da hierarquia,
para lhe dar os poderes de ordem e de jurisdição, que ficam estreitamente
ligados à recepção do sacramento da ordem, nos seus diversos graus.
Até aqui não consideramos as ordenações que precedem o sacerdócio e
que, na prática atual da Igreja, só são conferidas como preparação para a
ordenação sacerdotal. O ofício ligado às ordens menores há muito que é
exercido por leigos. Sabemos que atualmente se cogita de introduzir uma
ordem do diaconato concebido como função eclesiástica independente do
sacerdócio. Hoje, pelo menos, a idéia ainda não está madura. Se tal viesse
a suceder um dia, nada mudaria ao que acabamos de dizer, senão que êsse
diaconato tomaria lugar, com o sacerdócio, nas distinções que indicamos.

RESPONS A B ILID A D E DOS LEIGOS

Seria desconhecer a natureza real da Igreja e o seu caráter social o dis­


tinguir nela um elemento puramente ativo, as autoridades eclesiásticas, e,
de outra parte, um elemento puramente passivo, os leigos. Todos os mem­
bros da Igreja, como Nós mesmo o dissemos na Encíclica “ Mystici Corporis
Christi” , são chamados a colaborar na edificação, no aperfeiçoamento do
Corpo Místico de Cristo. Todos são pessoas livres, e devem, pois, ser ativos.
Às vêzes abusa-se do têrmo “ emancipação dos leigos” , quando se utiliza êsse
têrmo com um sentido que deforma o caráter verdadeiro das relações exis­
tentes entre a Igreja ensinante e a Igreja ensinada, entre sacerdotes e lei­
gos. A respeito destas últimas relações, consignemos simplesmente que as
tarefas da Igreja são hoje demasiado vastas para permitir que as pessoas
se entreguem a disputas mesquinhas. Para guardar a esfera de ação de cada
um, basta que todos tenham bastante espírito de fé, bastante desinterêsse,
estima e confiança recíprocas. O respeito da dignidade do sacerdote foi sem­
pre um dos traços mais típicos da comunidade cristã. Em compensação, o
próprio leigo tem direitos, e o sacerdote, de seu lado, deve reconhecê-los.
O leigo tem direito a receber dos sacerdotes todos os bens espirituais, a
fim de realizar a salvação de sua alma e de chegar à perfeição cristã:
quando se trata dos direitos fundamentais do cristão, pode êle fazer valer
as suas exigências: é o sentido e a própria finalidade de tôda a vida da
Igreja que aqui está em jôgo, bem como a responsabilidade, perante Deus,
tanto do sacerdote como do leigo.
Provoca-se inevitavelmente um mal-estar quando só se olha à função
social. Esta não é um fim em si, nem em geral nem na Igreja, pois em defi­
nitivo a comunidade está a serviço dos indivíduos, e não inversamente. Se
a história mostra que, desde as origens da Igreja, os leigos tinham parte
na atividade; que o sacerdote desenvolve a serviço da Igreja, verdade é que
hoje em dia mais do que nunca devem êles prestar essa colaboração com
ainda maior fervor, “ para edificação do Corpo de Cristo” , em tôdas as for­
mas de apostolado, e cm particular quando se trata de fazer penetrar o
espírito cristão em tôda a vida familiar, social, econômica e política.
Um dos motivos dôsse apêlo ao laicado é, sem dúvida, a falta atual de
sncerdoles, porém mesmo no passado o sacerdote esperava pela colaboração
dos leigos. Mencionemos apenas a contribuição considerável que os profes­
sores e professoras enfnlieos, bem como as religiosas, trouxeram ao ensino
da religião e, em geral, à educaçao crista o à formaçao da juventude —-

5M
pense-se, por exemplo, nas escolas católicas dos Estados Unidos. A Igreja
lhes é reconhecida por isso: não era êsse um complemento necessário do
trabalho sacerdotal? Mas a falta de sacerdotes ainda é hoje particularmente
sensível e ameaça vir a sê-lo ainda mais; pensamos em particular nos imen­
sos territórios da A mérica Latina, cujos povos e Estados conhecem na época
presente um desenvolvimento rápido. A li o trabalho dos leigos ainda se
torna mais necessário.
Por outro lado, mesmo independentemente do pequeno número dos sacer­
dotes, as relações entre a Igreja e o mundo exigem a intervenção dos após­
tolos leigos. A “ consecratio mundi” é, no essencial, obra dos próprios lei­
gos, de homens que estão intimamente entremeados à vida econômica e
social, que participam do govêrno e das assembléias legislativas. Do mesmo
modo, as células católicas que devem criar-se em cada fábrica e em cada
meio de trabalho, para reconduzirem à Igreja os que dela estão separados,
só pelos próprios trabalhadores podem ser constituídas.
Aplique também aqui a autoridade eclesiástica o princípio geral do auxí­
lio subsidiário e complementar; confiem~se ao leigo as tarefas que êle pode
executar tão bem ou mesmo melhor do que o sacerdote, e, nos limites da
sua função ou nos limites traçados pelo bem comum da Igreja, possa êle
agir livremente e exercer a sua responsabilidade.
Além disto, dever-nos-emos lembrar de que a palavra do Senhor: “ Digntis
est... operarius mercede sua” , aplica-se também a êle. Muitas vêzes tom-
nos impressionado o vermos lembrar, nos congressos missionários para o>
apostolado dos leigos, a obrigação de dar a êsses colaboradores o salário»
a êles devido; muitas vêzes o catequista é completamente ocupado pc'la
sua tarefa missionária, e, por conseguinte, êle próprio e sua família depen­
dem, para viver, daquilo que a Igreja lhes dá. Por outro lado, não devo
o apóstolo leigo ofender-se se lhe peçam não fazer à missão que o man­
tém exigências exageradas.
O materialismo e o ateísmo de um mundo em que milhões de crentes
olevem viver isolados obriga a formar em todos êles personalidades sólidas.
I)o contrário, como resistirão aos arrastamentos da massa que os cerca? O
o|ue é verdadeiro para todos é-o primeiramente para o apóstolo leigo, obri­
gado não somente a se defender, mas também a conquistar.
Isso não tira nada ao valor das medidas de precaução, como as leis de
proteção da juventude, a censura dos filmes, e tôdas as disposições adota­
das pela Igreja e pelo Estado para preservar da corrução o clima moral da
so«*iodade. Para educar o jovem nas suas responsabilidades de cristão, im­
poria conservar-lhe a monte e o coração num ambiente sadio. Poder-se-ia
«Ii/.om- que as instituições devem ser tão perfeitas que possam, por si sós,
ji.iso'gurar a salvaguarda do indivíduo, ao passo que o indivíduo deve som*
lormado na autonomia do católico adulto, como se só tivesse de contar con­
sigo» mesmo para triunfar de tôdas as dificuldades.

O APO STO LAD O DOS LEIGOS

( 'oiisir.to' ôlo, no soMitiolo» estrito, na tomaola por leigos, do» oncargo do laro-
riiti <|iio omimam da missão confiada por Cristo à sua Igreja. Vimos quo*
e\::o a postolaolo» poM\sisto s e mp r e apostolado» de leigos, e não se torna “ apo»s-
l ol ado l uorár í i ui co” mes mo quando se uxorco* por mandato da hi erar qui a.
I >ai ;;o i.oguo som* pi o-loi ívol designar o aposlolaolo» ola oraçiio <> olo» oxem-
pln pessoal como apostolado no soMitido mais amplo», ou impmpiio do» l.ocmo.
A iv,le respeito, nao podemos senao confirmar o»s roparos que 1.ra/íamo>s na
Nossa Carta ao III Congresso Mundial da União Mundial dos Docentes Cris-
tüos, em Viena: “ Quer a atividade profissional dos mestres e mestras cató­
licos pertença ou não ao apostolado dos leigos no sentido próprio, persua­
di-vos, caros filhos e filhas, de que o mestre cristão, que, pela sua form a­
ção e dedicação, está à altura da sua tarefa, e que, profundamente convicto
da sua fé católica, dá o exemplo dela à juventude que lhe é confiada, como
uma coisa que se compreende por si mesma e que se tornou nêle uma
segunda natureza, exerce a serviço de Cristo e da sua Igreja uma atividade
semelhante ao melhor apostolado dos leigos” . Pode-se repetir esta afirma­
ção a respeito de tôdas as profissões, e especialmente das dos médicos ou
engenheiros católicos mormente na hora atual, em que, nos países sub­
desenvolvidos e nos territórios de missão, êles são chamados ao serviço dos
governos locais ou da UNESCO e das outras organizações internacionais, e
pela sua vida e pelo exercício da sua profissão dão o exemplo de uma vida
cristã plenamente desabrochada.
A Ação Católica traz sempre o caráter de um apostolado oficial dos lei­
gos. Dois reparos aqui se impõem: o mandato, sobretudo o de ensinar, não
é dado à Ação Católica no seu conjunto, mas sim aos seus membros orga­
nizados em particular, segundo a vontade e a escolha da hierarquia. A Ação
Católica também não pode reivindicar o monopólio do apostolado dos lei­
gos, porquanto, ao lado dela, subsiste o apostolado leigo livre. Indivíduos
ou grupos podem colocar-se à disposição da hierarquia a fim de lhes serem
por ela confiadas, para duração fixa ou indeterminada, certas tarefas para
as quais êles recebem mandato. Decerto pode a gente então perguntar-se
se também não se tornam membros da Ação Católica. O ponto importante
é que a Igreja hierárquica, os bispos e os sacerdotes podem escolher para .
si colaboradores leigos, quando acham pessoas capazes e dispostas a ajudá-los.
Parece necessário fazermos aqui conhecer, ao menos nas suas linhas gerais,
uma sugestão que Nos foi comunicada bem recentemente. Assinala-se que
reina atualmente um mal-estar lamentável, assaz largamente difundido, que
acharia a sua origem sobretudo no uso do vocábulo “ Ação Católica” . Com
efeito, êste têrmo seria reservado a certos tipos determinados de aposto­
lado leigo organizado, para os quais êle cria, perante a opinião pública, uma
espécie de monopólio: tôdas as organizações que não entram no quadro da
Ação Católica assim concebida — afirma-se — inculcam-se de menor au­
tenticidade, de importância secundária, parecem menos apoiadas pela hie­
rarquia, e ficam como que à margem do esforço apostólico essencial da lai-
cidade. Daí resultaria o fato de uma forma particular de apostolado leigo,
isto é, a Ação Católica triunfar em detrimento das outras, e assistir-se à
manumissão da espécie sôbre o gênero. Ainda mais, chegar-se-ia, na prá­
tica, a fazer-se exclusivista e a fechar a diocese aos movimentos apostó­
licos que não trouxessem o rótulo da Ação Católica.
Para resolver esta dificuldade, encaram-se duas reformas práticas: uma
do terminologia, e, como corolário, outra de estrutura. Primeiramente, have­
ria que restituir ao têrmo “ Ação Católica” o seu sentido geral, e aplicá-lo
unicamente ao conjunto dos movimentos apostólicos leigos organizados e
reconhecidos como tais, nacional ou internacionalmente, quer pelos bispos
no plano nacional, quer pela Santa Sé para os movimentos que visem a ser
internacionais. Bastará, pois, que cada movimento particular seja designa­
do pelo sou nomo o caracterizado na sua forma específica, e não segundo
n gênero comum. A reforma de estrutura seguir-se-á â da fixação do sen­
tido dos termos. Todos os grupos pertenceriam i\ Ação Católica e conserva­
riam o seu nome próprio e a sua autonomia, mas formariam todos juntos,
como Açao Católica, uma unidade federativa. Cada bispo ficaria livro de
admi t i r ou de recusai tal movimento, de oricntVi Io ou niio, mas não lhe

•.'d
pertenceria recusá-lo como não sendo Ação Católica pela sua própria natu­
reza. A realização eventual de semelhante projeto requer, naturalmente,
reflexão atenta e prolongada. Pode o vosso congresso oferecer uma ocasião
favorável de discutir e examinar êste problema, ao mesmo tempo que outras
questões similares.
Resta ainda uma palavra a dizer, para rematar estas considerações de
princípio, sôbre as relações do apostolado dos leigos, com a autoridade ecle­
siástica. Basta então repetir o que, já em 1951, estabelecíamos como regra
geral: que o apostolado dos leigos nas suas formas mais variadas deve “ man­
ter-se sempre nos limites da ortodoxia, e não se opor às legítimas prescri­
ções da autoridade eclesiástica competentes” . Entrementes vimo-Nos força­
dos a refutar uma opinião errônea sôbre a “ teologia leiga” , opinião que
derivava de uma concepção inexata da responsabilidade do leigo. O têrmo
“ teologia leiga” é destituído de qualquer sentido. A norma que se aplica
em geral ao apostolado dos leigos, e que acabamos de relembrar, vige tão
naturalmente e mais ainda para o “ teólogo leigo” ; mas, se êle quiser publi­
car escritos sôbre matérias teológicas, também precisa da aprovação explí­
cita do magistério eclesiástico.

II — Formação dos Apóstolos Leigos

EXERCÍCIO DO A PO STO LAD O DOS LEIGOS

Alguns reparos bastarão a respeito da formação dos apóstolos leigos.


Nem todos os cristãos são chamados ao apostolado leigo no sentido estrito.
Já dissemos que o bispo deveria poder tomar colaboradores entre aquêlos
que achar dispostos e capazes, pois a disposição somente não basta. Os após­
tolos leigos formarão, pois, sempre um escol; não por se conservarem afas­
tados dos outros, porém, muito ao contrário, por serem capazes de atrair os
outros e de agir sôbre êles. Assim se compreende que, além do espírito apos­
tólico que os anima, devam êles possuir uma qualidade sem a qual fariam
mais mal do que bem: o tato.
Por outro lado, para adquirir a competência requerida, cumpre evidente­
mente aceitar o esforço de uma séria formação: esta, cuja necessidade para
os docentes ninguém põe em dúvida, impõe-se igualmente para todo após­
tolo leigo, e com prazer soubemos que o encontro de Kisubi insistiu forte­
mente sôbre a formação intelectual. Quanto aos leigos que se ocupam da
administração dos bens eclesiásticos, sejam êles escolhidos com prudência
o com conhecimento de causa. Quando uns incapazes ocupam êsses cargos,
não sem prejuízo para os bens eclesiásticos, a culpa disso recai menos sôbre
êles mesmos do que sôbre as autoridades que os chamaram ao seu serviço.
Na hora atual, até mesmo o apóstolo leigo que trabalha entre os operá-
riox nas fábricas e nas emprêsas tem necessidade de um saber sólido em
matéria econômica, social e política, e também deverá, pois, conhecer a dou­
trina social da Igreja. Conhece-se uma obra de apostolado para os homens,
que forma os seus membros num “ Seminário Social” que recebe 300 par­
ticipantes durante cada semestre de inverno, e dispõe dos serviços do vinte
emiferenristas: professores de universidade', juizes, economistas, juristas,
médicos, engenheiros, conhecedores de línguas e de ciências. Ao que nos
pureco, êste exemplo merece ser seguido.
A formaçao dos apóstolos leigos será tomada em mão pelas próprias obras
de apostolado leigo, que achnrrio auxilio) junto ao clero secular o* iis ordens

37
religiosas apostólicas. Os institutos seculares trar-lhes-ão tumbóm, estamos
certos, uma colaborarão apreciada. Para a formação das mulheres no apos­
tolado) leigo, as religiosas já têm no seu ativo belas realizações, em países
dv missão) e alhures.
Quiséramos chamar especialmente a vossa atenção para um aspecto da
educação dos jovens católicos: a formação do seu espírito católico. Em vez
de ceder a uma tendência um pouco egoísta, pensando só na salvação da
sua alma, tomem êles também consciência da sua responsabilidade para
com os outros e dos meios de os ajudar. Nenhuma dúvida, aliás, de que a
oração, o) sacrifício, a ação corajosa para ganhar os outros para Deus, sejam
penhores seguríssimos da salvação pessoal.
Com isto absolutamente não pretendemos censurar o que se fêz no pas­
sado, pois não faltam nêle realizações numerosas e notáveis a êste respeito.
Pensamos, entre outros, nos hebdomadários católicos, que têm alimentado
o) zêlo de muitos pelas obras caritativas e pelo apostolado. Movimentos como
a Obra da Santa Infância têm tido, neste sentido, iniciativas fecundas. Toda­
via, o espírito apostólico implanta-se no coração da criança não somente na
escola, mas também muito antes da idade escolar, pelos cuidados da própria
mãe. Aprenderá ela como rezar na missa, como oferecê-la com intenção que
abranja o mundo inteiro e sobretudo os grandes interêsses da Igreja. Exa­
minando-se sôbre os deveres para com o próximo, ela não se perguntará
somente: “ Fiz mal ao próximo?” , mas ainda: “ Mostrei-lhe o caminho que
conduz a Deus, a Cristo, à Igreja, à salvação?”
Quanto ao exercício do apostolado leigo, visto que as reflexões acima emi-
lidas já tocaram vários pontos, só trataremos aqui de certos campos de apos­
tolado de onde se levanta, por enquanto, um apêlo mais urgente.

A PA R Ó Q U IA

Não ó um sinal confortador o fato de, hoje em dia, até mesmo adultos
considerarem como uma honra o servirem no altar? E os que, pela música
e pelo canto, contribuem para o louvor de Deus e para a edificação dos
fiéis, exercem, sem dúvida alguma, um apostolado leigo digno de elogios.
O apóstolo leigo empenhado no apostolado de bairro, e que vê lhe serem
confiados grupos de casas da paróquia, deve tratar de se informar com
exatidão da situação religiosa dos habitantes. As condições de habitação são
más ou insuficientes? Quem é que teria necessidade do socorro das obras
caridosas? Há ali casamentos a regularizar? Crianças a batizar? Que valem
as bancas de jornais, as livrarias, as bibliotecas circulantes do bairro? Que
é que lêem os jovens e os adultos?
A complexidade e às vêzes o caráter delicado dos problemas a resolver
neste tipo de apostolado convidam a só aplicar nêle uma elite dotada de
tato e de verdadeira caridade.

IM PRENSA, RÁDIO, FILM E, TE LE V ISÃ O

As empresas de edições e de livraria são, para o apostolado leigo, um ter-


ro«no) de escolha. Folgamos de saber que a grande maioria dos editores e
livro'iros católicos consideram a sua profissão como um serviço da Igreja.
A biblioteca paroquial podo1 ser mantida convenientemente por leigos, que
habitualmente serão leitores o> lo>itoras exper i mentados. Nas bibliotecas cir­
culantes, bons católicos acharão também ensejo de fazer o bem.

W
C) jornalista católico, quo oxotco o seu mister com espírito) de fé, O mui
naturalmente um apóstolo leigo. O Congresso dc Manilha peoliu para a Àsia
jo>rnalistas católicos e uma imprensa católica. Aliás, é normal que os cató­
licos colabo)rem co)m a imprensa, mesmo com a de interesse local.
No que diz respei to ao rádio, ao c i nema, à televisão, dupla tarefa olo*ve
o-umprir-se: evitar todo elemento de corrução, e promover os valores cris­
tãos. Contam-se atualmente no mundo inteiro doze bilhões de pessoas o|u<>
freqüentam cada ano as salas locais dc espetáculo. Ora, sobejos espetáculos,
oMitrc os que lhes são oferecidos, não atingem o nível cultural e moral (pio
se estaria no direito de esperar. O fato mais lamentável é que, as mais das
vê/es, o film e apresenta um mundo em que os homens vivem o morrem
como se Deus não existisse. Trata-se, pois, de evitar aqui perigos mortais
para a fé e para a vida cristã. Diante de Deus jamais se poderia arcar comi
a responsabilidade de tolerar semelhante situação, e com tôdas as fôrças
oleve-se tentar modificá-la. Por isto somos gratos a todos os que, no> olomí-
11 io do rádio, do film e e da televisão, empreendem um trabalho corajoiso,
inteligente e sistemático, já recompensado por muitos resultados quo auto­
rizam sérias esperanças. Em particular recomendamos as associações e ligas
que se propõem a fazer prevalecer os princípios cristãos no uso do cinema.
Nas paróquias, ou ao menos nos decanatos, grupos de trabalho formarão)
não somente os seus membros e os seus colaboradores, mas também o>
público, nos seus deveres para com o rádio, o cinema e a televisão, e ajudá-
los-ão a cumpri-los. No que concerne à televisão, é indispensável que a
Igreja esteja representada nos comitês encarregados de elaborar os progra­
mas, e que especialistas católicos tomem assento entre os produtores. Os
.sacerdotes bem como os leigos são convidados a esta tarefa — pode o sacor-
olo)te possuir nisto competência igual à do leigo, — mas em todos os casos
a intervenção dos leigos é requerida.

O MUNDO DO TR A B A LH O

Vinte milhões de jovens entram cada ano no trabalho do mundo int.o'iro>.


Entre êles achamos católicos, mas também milhões de outros que são bem
abortos a uma formação religiosa. Por todos êles deveis sentir-vos respom-
sáveis. Quantos dêles a Igreja conserva? quantos torna a ganhar? Visto
quo o clima da emprôsa é nefasto ao jovem, a “ célula” católica devo in-
to'rvir nas oficinas, como também no>s trens, nos ônibus, nas famílias, no>s
bairros; cm tôda parte ela agirá, dará o tom, exercerá uma influência bené-
lio-a, difundirá uma vida nova. Assim, um contramestre católico será o pri~
momo a se ocupar dos recém-vindos, por exemplo, para lhes achar uma
en.sa conveniente, para lhes proporcionar boas amizades, para o)s pôr o‘in
relação com a vida eclesiástica local, e velará por que êles se ac limem fàcil-
menlo' à sua situação.
O apêlo) que o) ano passado lançávamos aos católicos alemães dirigo-so
fnmbém ao>s apóstolos leigois do> mundo intoini, omde quer quo reinem a
lécnio^a o a indústria: “ Uma tarefa importante vos incumbe, ■— dizíamos-
lhes, a do> dar a o\sse mundo da indústria, uma forma o uma estrutura
cristãs... Cristo, para quem tudo foi oTÍado>, o> So'nho>r do mundo, também
continua sendo So*nhor do mundo atual, pois ôsto' igualmente é chamado a
:;ei um mundo cristão). A vós poMlenox- oonferir-lho' a marca de Cristo” . Tal
(' realmente a mais pesada, po>róm também a maio>r taro*fa olo apostolado oloi
Imcaolo católico.

2»)
CONCIAJSAO

Sempre houve nu Igreja de Cristo um apostolado dos leigos. Santos como


o imperador Henrique II; Estêvão, o criador da Hungria católica; Luís IX
de França, eram apóstolos leigos, se bem que, no início, não se tenha sido
cônscio disto, e que o têrmo apóstolo leigo ainda não existisse naquela
época. Mulheres também, como Santa Pulquéria, irmã do Imperador Teo-
dósio II, ou Mary Ward, eram apóstolos leigos.
Se hoje em dia esta consciência é despertada, e se o têrmo apostolado
leigo é um dos mais empregados quando se fala da atividade da Igreja, é
porque a colaboração dos leigos com a hierarquia nunca foi necessária até
ôste ponto, nem praticada de maneira tão sistemática.
Essa colaboração traduz-se em mil formas diversas, desde o sacrifício si­
lencioso oferecido pela salvação das almas, até à boa palavra e ao exem ­
plo que força a estima dos próprios inimigos da Igreja, até à cooperação
nas atividades próprias da hierarquia, comunicáveis aos simples fiéis, e até
às audácias que se pagam com a vida, mas que só Deus conhece e que não
entram cm nenhuma estatística. Talvez que êste apostolado leigo oculto seja
o mais precioso e o mais fecundo de todos.
O apostolado leigo tem, aliás, como qualquer outro apostolado, duas fun­
ções: a de conservar e a de conquistar, ambas se impõem com urgência
h Igreja atual. E, para o dizermos bem claramente, a Igreja de Cristo não
cogita de abandonar sem luta o terreno ao seu inimigo declarado, o comu­
nismo ateu. Êste combate será prosseguido até o fim, mas com as armas
de Cristo!
Pode-vos embora com uma fé ainda mais forte que a de São Pedro quan­
do, ao chamado de Jesus, largou a sua barca e marchou sôbre as águas para
ir ao encontro do seu Senhor.
Durante êstes anos tãc agitados, Maria, a Rainha gloriosa e poderosa do
céu, tem feito sentir nas mais diversas regiões da terra a sua assistência
de maneira tão tangível e maravilhosa, que lhe recomendamos com con­
fiança, ilimitada tôdas as formas do apostolado leigo.
Em penhor da fôrça e do amor de Jesus Cristo, que se difundem tam­
bém no apostolado leigo, concedemos a todos os que aqui vieram, e aos que
trabalham no mundo inteiro, a Nossa paternal bênção apostólica C1).

(1) N o i i i i . i h d o S i i i i i i i 1‘o i i i l f l i r l ’ Io X II, noa l ’ ; ii [ | c l i > ; i n l r s do II ( lontficimo M un d ial pura o Apoj-


liilm lo l i o » I . H k i i i i , A i l c o i i 1 111>i <t ,

W
A S A RMA S ATÔMICAS
O engenho humano, destinado a bem outros escopos, excogitou o intro­
duziu hoje instrumentos de guerra de tal potência que suscita horror na
mente de qualquer pessoa honesta, sobretudo porque não atingem só-
mente os exércitos, mas, muitas vêzes, arrastam até os cidadãos particula-
i *‘s, as crianças, as mulheres, os velhos, os doentes e, juntamente, os ed ifí­
cios sagrados e os mais insignes monumentos de arte! Quem não se horro­
r iza com o pensamento de que novos cemitérios irão se ajuntar àqueles
já numerosos do recente conflito; e novos escombros fumegantes de rincões
e cidades acumularão outras tristíssimas ruínas? Quem não treme pensando
como a destruição de novas riquezas, conseqüência inevitável da guerra, po­
derá agravar ulteriormente esta crise econômica, pela qual são atormenlados
<|iinse todos os povos, e especialmente as classes mais humildes?
No'is, que levantamos a nossa mente acima da maré das paixões huma­
nas e que nutrimos sentimentos paternos para com povos e nações de qual -
o|uer estirpe, desejamos a incolumidade, a tranqüila segurança e o inere-
menlo cotidiano na prosperidade; Nós, cada vez que vemos o céu sereno
ofuscar-se com nuvens ameaçadoras, e estarem iminentes sôbre a huma­
nidade novos perigos de lutas, não podemos deixar de elevar a Nossa pa­
lavra para exortar todos a extinguir as discórdias, a compor as desavenças
o< a instaurar aquela verdadeira paz que assegura os direitos da religião,
do:; povos, dos cidadãos em particular, direitos reconhecidos do modo tjuo;
convém, pública e sinceramente.
Todavia bem sabemos que os meios humanos são inadequados a tão alto
e sc o p o ; é necessário, antes de tudo, renovar os ânimos, reprimir as paixões,
sedar os ódios, colocar verdadeiramente em prática as normas da justiça,
chegar a uma ainda mais justa distribuição das riquezas, fomentar a ca­
ridade mútua, estimular todos à virtude. Para chegar a tão alto fim, sem
dúvida, nada pode ser de maior auxílio do que a religião cristã. A sua
divina doutrina ensina que os homens são irmãos e compõem urna mesma
família, da ijual Deus é Pai, Cristo ó Redentor e vivificador com a sua
r.iaça (•(deste, e cuja pátria imortal é o céu. Se realmente êstes divinos
ensinamentos fôssern praticados, então, certamente nem as guerras, nem
ns discórdias, nem as desordens, nem as violações da liberdade civil e re-
lij-.iosa tornariam penosa a vida pública e privada, mas uma serenidade
tranqüila fundada sôbre a justiça, inundaria os corações e seria aberta a
via à aluaçao de uma prosperidade maior.
Isto em verdade não deixa de ser árduo, mas é absolutamente necessá-
i io. K se é necessário não pode ser retardado, mas cumpre imediatamente
eleluar-scí. K se é árduo e ímpar para as forças humanas, ocorre nos vol
I r m o s c o m oraçóes e súplicas ao Pai Celeste, como no decorrer dos séculos,
i ‘ 111 qualquer dificuldade fizeram sempre os nossos avós, com feliz e sa
lutai exilo ( 1).
• # *

(I) < . 111it Im tilliii "M li.ilillr llliiil", fi «Ir ilr/n u lim , Ml/Ml.

31
Seja punida no plano internacional qualquer guerra não requerida pela
absoluta necessidade de defender-se contra uma injustiça gravíssima que
atinja a comunidade, quando não se pode impedi-la com outros meios e
se fôr constrangido a fazê-la sob pena de dar livre curso, nas relações in­
ternacionais, à violência brutal e à falta de consciência. Não basta por­
tanto o escopo de defender-se contra uma qualquer injustiça para poder
recorrer à guerra. Quando os danos que ela comporta não são comparáveis
àqueles da “ injustiça tolerada” , pode-se ter a obrigação de “ sofrer a in­
justiça” .
Isto vale sobretudo para a guerra A. B. C. (atômica, biológica e quí­
m ica). Basta por ora apresentar-se o quesito se ela pode se tornar ne­
cessária para a defesa contra uma guerra A. B. C. A resposta brota dos mes­
mos princípios que são decisivos hoje, para permitir a guerra em geral.
Km cada caso em particular outra pergunta se apresenta antes de tudo o
mais: não é possível, mediante entendimentos internacionais, banir e ev i­
tar eficazmente a guerra A. B. C.?
Depois dos horrores dos dois conflitos mundiais Nós não temos senão
que recordar que qualquer apoteose da guerra deve ser condenada como
uma aberração do intelecto e do coração. Certamente, a coragem, a bra­
vura levadas até ao dom da vida, quando o dever o exige, são grandes
virtudes; mas querer provocar a guerra porque ela é escola de grandes
virtudes e uma ocasião de praticá-las, deveria ser considerado como delito
ou loucura.
O que temos dito indica a direção justa onde se encontrará a resposta
a esta outra pergunta: o médico pode pôr sua ciência e sua atividade a
serviço da guerra A. B. C.? A “ injustiça” jamais êle a pode sustentar, seja
embora para servir o próprio país; ora, tal tipo de guerra constitui uma
injustiça, logo, o médico não pode nela colaborar ( 2).

('/) I >la< i i i n o lio» m^itlioi mllll.iir», I!) ilr oiilulito,

V.*
A ARTE E A PAZ
Falou-se tanto dc arte, argumento inexaurível!
As agitações de um mundo sacudido nas próprias bases, as divergências
dos espíritos, os contrastes dos interêsses, as sombras de um individua­
lismo hipersensível, não obstante o multiplicar-se dos contatos e das apro­
ximações materiais, acentuaram os isolamentos, estendidos e aprofunda­
dos pelas distâncias morais. O excesso mesmo do mal, a pouco e pouco,
terminou por realçar em luz mais intensa a necessidade de unir em ação
comum tôdas as fôrças isoladas das nações e dos povos amantes da paz.
Perseverantes e atiladas tentativas para procurar o entendimento ou a
cooperação dos diversos países não são de hoje ou de ontem. Os aconteci­
mentos hodiernos sublinharam não por certo a inconsistência e a inutili­
dade, mas a insuficiência e a instabilidade de tais tentativas. Todos, por­
tanto, se aplicarão com louvável fervor em promover, não obstante d ifi­
culdades de todos os gêneros, uniões internacionais de natureza política,
jurídica, econômica, social. Mas logo se constatou que existia ainda a ne­
cessidade de qualquer coisa de mais íntimo, de mais humano; e no âmbito
da técnica, da ciência, da cultura, começaram a nascer, se não a união,
pelo menos associações parciais.
Na ordem intelectual, a união dos artistas católicos ocupa um lugar con­
siderável entre as demais. Isto é natural, porque, antes de tudo, a arte é,
por certos aspectos, a expressão mais viva, mais sintética do pensamento
e do sentimento humano, e também a mais difusamente inteligível, já que,
falando diretamente aos sentidos, a arte não conhece a diversidade das lin­
guagens, mas somente aquela extremamente sugestiva dos temperamentos
e das mentalidades. Ademais, com a sua fineza e delicadeza, a arte audi­
tiva ou visual penetra na inteligência e na sensibilidade do espectador ou
do ouvinte a uma profundidade onde a palavra quer escrita quer falada,
com a sua precisão analítica, insuficientemente colorida, jamais poderia
chegar.
Por êstes dois motivos a arte ajuda os homens, não obstante tôdas as
disparidades de caracteres, de educação, e civilização, a conhecerem-se, a
compreenderem-se, pelo menos a reciprocamente se intuírem, e, por con­
seqüência, a porem em comum os respectivos recursos com o escopo de
completarem-se uns com os outros.
Para que a arte possa produzir tais resultados, é necessário antes do
tudo que tenha um valor expressivo, sem o qual cessa de ser verdade ira
arte. Êste relevo não é supérfluo hoje, quando tantas vêzes, em algumas
escolas, a obra de arte não basta por si mesma a traduzir o pensamento,
a externar o sentimento, a revelar a alma de seu autor. Mas então quando
há necessidade de ser explicada em linguagem verbal, perde o valor peculiar
e serve somente para procurar aos sentidos um gôzo puramente físico, ou
ao espírito o de um jôgo sutil e váo. Outra condição paia que a arte cum­
pra com dignidade e fruto a sua gloriosa missão de entendimento, de con­
córdia, de paz, é que, por seu meio, os sentidos, longo* do* tomaro-m pesada
a alma o lixá-la na ferra, lhe sirvam olo* asas para (|uo* ola pequenez e ola

íll
inesoiuinho'/, passadeiras so para o> que 6 eterno, verdadeiro>, belo,
para o úuio-o voroladoim bem, o> únioo contro) no qual se opera a união e se
olol.ua a uniolade, para Deus. Não ó nisto quo se aplica à letra a esplên-
olida visão) do> Apóstoilo: “ Invisibilia enim ipsius a creatura mundi per ea
o|iiao fa d a sunt, intellecta conspiciuntur, sempiterna quoque eius virtus
<‘L divinitas?”
Tôdas as máximas que fazem decair a arte de seu sublime ofício, não
sú a profanam mas também a tornam estéril. “ A arte pela arte” : como se
a arte pudesse ser fim a si mesma, condenada a mover-se, a arrastar-se
so‘>bre o plano das coisas sensíveis e materiais; como se com a arte os sen-
1,ido)s do homem não obedecessem a uma vocação mais alta do que o sim-
PIo\s conhecimento da natureza material, a vocação de acordar-se no inte-
lo'cto> e na alma, graças à transparência desta natureza, o desejo das “ coi­
sas que o ôlho não viu, o ouvido não ouviu e que nao subiram até ao seu
coração” .
Nada diremos aqui de uma arte imoral que se propõe aviltar e subme­
ter à paixão da carne as potências espirituais da alma. De resto, “ arte” e
“ imoral” são dois têrmos em estridente contradição. Fazei portanto sorrir
sôbre a terra, sôbre a humanidade o reflexo da beleza e da luz divina:
ajudando o homem a amar “ tudo o que há de verdadeiro, de puro, de justo,
olo santo, de amável” , tereis contribuído muito para a obra da paz, “ et
Deus pacis erit vobiscum” C1).

(I) I)U< n i n o .10 I (.111 m i <■»«> l i " » AilUlii» ( l;ilúlli

,'U
O ATEÍSMO
A época atual, acrescentando novos erros aos desvios doutrinais do pas­
sado, levou-os a extremos dos quais se não podiam originar senão do>so-
rientamento e ruína. E antes de tudo, é certo que a raiz profunda e última
dos males que deploramos na sociedade moderna é a negação e repulsa do*
uma norma de moralidade universal, quer na vida social e das relações
internacionais, isto é, o desconhecimento, tão difundido nos nossos tempos,
e o esquecimento da própria lei natural, que tem o seu fundamento em
Deus, criador onipotente e Pai de todos, legislador supremo e absoluto,
onisciente e justo vingador das ações humanas. Quando se renega Deus,
abala-se tôda a base de moralidade; sufoca-se ou, pelo menos, debilita-se
de muito a voz da natureza, que ensina, até aos iletrados e às tribos alheias
ainda à civilização, o que é bem e o que é mal, o que é lícito e o que é
ilícito, e faz sentir a responsabilidade das próprias ações perante um Juiz
supremo.
Pois bem, a negação da base fundamental da moralidade teve, na Eu-
ropa, a sua raiz originária no afastamento daquela doutrina de Cristo, do'
que é depositária e mestra a Cátedra de São Pedro; doutrina que, em
tempos idos, dera certa coesão espiritual à Europa, a qual educada, eno­
brecida e civilizada pela cruz, chegara a tal grau de progresso civil quc>
a fizera mestra de outros povos e de outros continentes. Afastando-se, ao
invés, do Magistério infalível da Igreja, não poucos chegaram até a sub­
verter o dogma central do cristianismo, a divindade do Salvador, acele­
rando assim o progresso de dissolução espiritual.
Muitos talvez, ao se afastarem da doutrina de Cristo, não tiveram plena
consciência de serem enganados pela falsa miragem de frases brilhantes
que proclamavam tal afastamento como um libertar-se da escravidão a
((ue julgavam estar antes sujeitos; nem previam as amargas conseqüências
da triste permuta entre a verdade, que liberta, e o êrro que escraviza;
nem pensavam que, renunciando à infinitamente sábia e paternal lei do*
Deus e à unificadora e nobre doutrina de amor de Cristo, se entregavam
ao arbítrio de uma pobre e mutável sabedoria humana. Falavam de pro­
gresso, quando retrocediam; de elevação, quando se degradavam; de as­
censão à madureza, quando caíam na escravidão; não percebiam a vaidado*
de todo esforço humano cm substituir a lei de Cristo por alguma outra
coisa que a igualasse; tornaram-se latuos nos seus arrazoados.
Enfraquecida a fé em Deus e em Jesus Cristo, ofuscada nos ânimos a
luz dos princípios morais, fica a descoberto o único e insubstituível ali-
cerco daquela estabilidade e tranqüilidade, daquela ordem externa e in­
terna, privada e pública, única que pode gerar o salvaguardar a prospe­
ridade dos Estados ( 1).
# # •

(I) Im ltlliti "S im im l l ' o i i l l l l i l i l u » M, 20 ilr o iiliiln o , 1 05 0.

sr.
No vórtice do progresso material, nas vitórias do engenho humano sôbre
os segredos da natureza e sôbre as fôrças dos elementos da terra, dos ma­
res e do céu, na ansiosa emulação de superar as metas atingidas pelos
competidores, nas arengas das elucubraçÕes ousadas, nas conquistas e no
orgulho da ciência, da indústria, dos laboratórios e das oficinas, na avidez
ol<> lucro e do prazer, na tendência para uma fôrça eminente, mais temida
do que sopitada, mais invejada do que igualada, no tumulto de tôda a
vida moderna, onde encontra paz a alma humana, que é naturalmente
cristã? Talvez saciando-se de si mesma? Porventura vangloriando-se se­
nhora do universo, envolta na névoa da ilusão que confunde a matéria
com o espírito, o humano com o divino, o momentâneo com o eterno? Não;
nos sonhos inebriantes não se tranqüiliza a tempestade da alma e da cons­
ciência agitadas pelo ímpeto da mente que sobrepuja a matéria, e trans­
põe tudo, consciente de um destino imortal, irrecusável, em busca do in fi­
nito e em demanda de desejos imensos. Achegai-vos a estas almas, inter­
rogai-as. Responder-vos-ão com linguagem de criança, não de homens.
Não tiveram uma mãe que a êles, crianças ainda, mostrasse um Pai no
céu, cresceram entre paredes sem crucifixo, em casas mudas de religião,
em campos distantes de um altar ou de um campanário; leram páginas
com bem outros nomes, que aquêles de Deus e de Cristo; ouviram vitu-
porar contra os sacerdotes e os religiosos; passaram do campo à cidade,
do lar à oficina, ao bar, às aulas do saber, a tôda arte e trabalho, sem fr e ­
qüentar a Igreja, sem conhecer o pároco, sem um bom pensamento no co­
ração.
São almas infelizes que não tiveram nos perigos dos primeiros anos quem
as instruísse, guiasse, corrigisse, as reafirmasse na fé e na piedade; ou se
tiveram, a indiferença, o descaso, o mau exemplo dos companheiros, a efer-’
vescência da juventude, as distrações e as ocupações diárias obscureceram
a lâmpada da fé e da prática religiosa, transviando o pensamento e debi­
litando a boa raiz, em árido tronco, que germinará novamente na hora da
desventura ou ao calor de uma palavra amiga e piedosa ou no gélido ocaso
da vida ( 2).
* * *

São bem conhecidos e patentes os perigos e estímulos espirituais e mo­


rais que ameaçam, mais que nunca, nas almas, os princípios cristãos de
fé (' de vida. Uma desordenada multidão de opiniões novas e contrastan­
tes, impressões e estímulos de tendências más excitam as massas popula­
res, penetram também entre porções, dóceis em tempos mais tranqüilos
a deixar-se iluminar e reger pelas límpidas e sábias normas, e impõem à
consciência cristã uma contínua e indefesa vigilância para permanecer fiel
à sua retidão e vocação. Atraídas no vórtice e apaixonante turbilhão dos
acontecimentos, muitas vêzes as mentes correm o perigo de ter obnubi-
lada e debilitada a faculdade da prontidão em julgá-lo segundo os indes­
trutíveis e puros ditames da lei divina. E no entanto o cristão, forte em
sua fé, intrépido no próprio dever, deve encontrar-se preparado para par­
ticipar nos acontecimentos, nos deveres e sacrifícios do dia, não menos so-
lícit.o o* pronto deve estar em recusar-lhes os erros; de modo que, quanto
mais percebe adensarem-se as trevas da incredulidade e do mal, tanto
mais corajoso e logo - - ainda cm meio às provas - - convém que se de­
monstre fazendo resplandecer a fúlgida luz do* Cristo, guia aos errantes,
diretriz o' orientadora para urna volta ao patrimônio espiritual por tantos

(ü ) n U ttiin n .111» 11 i 11 u « t i <('■ 11< A i.il> l.ilo lli.i, '1 (Ir 111,1 I o , l t ) ri I
esquecido ou abandonado. Forte aos eventos alheios, caminhará o avan­
çará sem desviar-se na noite das trevas terrenas, terá porém o olhar
voltado para as estréias esplendentes no firmamento da eternidade, con-
solante término e prêmio de sua esperança. Se duros e pesados serão os
sacrifícios requeridos à humanidade, mais vigorosa e mais operosa nutrirá
e alimentará no próprio ânimo a expansiva fôrça do preceito divino do
amor e a avidez, a ânsia de fazer dêles o guia da própria intenção na
ação. Não se dobrará, nem cairá pusilânimemente, diante da rudeza dos
campos de combate; ainda quando as provas parecerem fechar tôda via
de escape, nas próprias provas sentirá crescerem-lhe as fôrças na propor­
ção das necessidades e da grandeza de sua missão. E se o espírito soberbo)
de um materialisrno ateu fizer esta pergunta: “ Ubi est spes tua?” então),
sem temor, nem do presente, nem do futuro, responderá com os justos do
tempo antigo: “ Nolite ita loqui; quoniam filii sanctorum sumus, et vitam
illam expectamus, quam Deus daturus est his, qui fidem suam nunquam
mutant ab eo” .
A fé e a fidelidade imutáveis para com Deus são o fundamento da es­
perança dos heróis cristãos, aquela esperança que não confunde. A todo;;
aquêles que viram suas felicidades aqui embaixo esfacelarem-se e destruí­
rem-se pela borrasca da guerra, aquêles que gemem prêsas de indizíveis
sofrimentos exteriores e interiores, aos irmãos viventes e sofredores, dos
primeiros crentes em Cristo, Nós mostramos as fileiras dos heróis e das
heroínas antigas e modernas; e gritamos com o Apóstolo das Gentes: “ Fru-
tres... non contristemini, sicut et ceteri, qui spem non habent” . Não é talvi:/.
consolação fortíssima a esperança a nós proposta, que temos como âncora
segura e estável da alma, que penetra até além do velame do céu, onolo*
entrou como precursor por nós Jesus? ( ó) .

(II) Alue III,:\(I .111 .Siii iii ( ü ilc junho, IIII 0.

I l'in XII 1'miI ilnimi‘.


A AÇÃO CATÓLICA
A missão divina de Cristo passava às mãos de Pedro e dos Apóstolos e
gerava ao derredor dêles, nos discípulos e nos fiéis, aquêle fermento de
sinceridade e de verdade, de graça e de virtude, que era a conversão e re­
novação das almas, e ao lado dos bispos e do clero inaugurava a aurora
ola Ação Católica.
Donde a Ação Católica é tão antiga quanto o Cristianismo; e se o seu
nome soa alto e comove na nossa idade, o perene espírito seu inflamou-se
novamente na luta, que contra a Igreja, a doutrina de Cristo, a prática da
fé, o mundo presente trama com a indiferença moral, com a ciência de
falso nome, com as paixões da concupiscência colocada no maligno C1).

* * *

“ Ação Católica” . Esta palavra “ Ação” ao mesmo tempo precisa e rica


de significado, indica o caráter próprio da vossa organização e vos distin­
gue das outras associações católicas. Não que não exerçam também elas
uma ação; mas a ação delas tende geralmente para uma finalidade espe-v
c i ai e determinada que se pretende conseguir mediante um trabalho or­
ganizado e permanente, seja no campo religioso e caritativo, ou no campo
social econômico ou ainda em outros campos da cultura. É por isso que
ordinariamente essas associações tomam o próprio nome do fim que se
propõem.
Vós, pelo contrário, vos chamais simplesmente “ Ação Católica” , porque,
possuindo um fim geral, e não particular ou específico, não sois como que
um eixo fixo, em tôrno do qual gravite o mecanismo de uma organização
qualquer; sois mais comparáveis a um lugar de reunião para onde con-
vergem e onde se organizam os católicos de ação.
Segue-se disso que não podem existir no seio da Ação Católica — como
poxlo-m existir legítima e utilmente em outras associações — ao lado dos
membros ativos, real e propriamente tais, outros membros, por assim dizer
“ hono>rário)s” , que simplesmente aderem à finalidade objetiva da associa-
o;áo), renovam regularmente sua inscrição, pagam sua contribuição finan-
tvira e talvez até recebam as publicações periódicas e por vêzes tomem
parte nas assembléias. Quanto à Ação Católica, pelo contrário, não seria
o,ono,('bivel que se recrutassem membros que não fôssem plenamente ativos.
A<Io111 ii*ir uma caderneta de inscrição, ouvir conferências ou discursos, as­
sinar o) jornal, talvez sem nem o ler depois; pode isso por acaso bastar
para o-onstituir um verdadeiro membro da Ação Católica? Não haveria aí
opo:;i<;ao) entre o nome e a realidade? Mereceria por acaso o nome ole
Açao Católica um pequeno) núcleo de membros ativos ao qual se juntas-
:;o> e fizesse côro nas grandes manifo\stao;õo\s uma massa amorfa de ado-
ro'iiles?
(I) UIhiiiim) à Juvniltiilr IInIvn nlt Al iii, V!7 ilr .ilnil, liMl.

,1H
A Ação Católica — bem o sabeis — por ura título especial está direta­
mente subordinada ao poder da hierarquia eclesiástica, de quem ó a co-
laboradora no apostolado. Na Ação Católica italiana a presidência geral o
dos vários grupos diocesanos e paroquiais compete aos leigos, que são, con­
tudo, secundados e guiados pelos assistentes eclesiásticos; ao passo que na»
Congregações Marianas, que também se pode dizer de pleno direito da
Ação Católica, o pároco é o presidente nato. Mas para que a assistência às
associações femininas seja verdadeiramente santa e frutuosa, os sacerdotes,
com fina e delicada reserva, deixam completamente às dirigentes e, em
todo o caso, aos cuidados e nas mãos de senhoras religiosas e competentes
tudo o que elas podem fazer por si ou, talvez melhor ainda, restringindo
eles próprios sua atuação ao ministério sacerdotal.
Estas considerações sôbre a organização da Ação Católica Nos levam a
acrescentar algumas advertências gerais reclamadas por algumas tendên­
cias não retas que se manifestaram ultimamente.
Antes de mais nada, uma palavra sôbre o conceito de apostolado. Não
consiste êste somente em anunciar a boa-nova, mas também em conduzir
os homens às fontes da salvação — ainda que com inteiro respeito à sua
liberdade — convertendo-os e educando com árduo esforço os batizados
para que se tornem perfeitos.
Seria, além disso, errôneo ver na Ação Católica — como foi recente­
mente afirmado por alguns — algo de essencialmente novo, uma mudança
na estrutura da Igreja, um apostolado novo dos leigos paralelo ao do sa­
cerdote e não subordinado a êle. Sempre houve na Igreja uma colabora­
ção dos leigos no apostolado hierárquico, em subordinação ao Bispo e àque-
les a, quem o Bispo confiou a responsabilidade da cura das almas sob sua
autoridade. A Ação Católica quis somente dar a essa colaboração uma nova
lorrna e organização acidental, para sua atuação melhor e mais eficaz.
Ainda que a Ação Católica seja originàriamente, como a própria Igreja,
organizada segundo dioceses e paróquias, todavia isso não impede seu d<>-
senvolvimento ulterior para além e acima dos estreitos limites da paróquia.
l)o>ve-se antes reconhecer que, não obstante tôda a importância dos valo­
res e das energias fundamentais e insubstituíveis da paróquia, a comple­
xidade técnica e espiritual da vida moderna, em rápido crescimento, podem
«•xigir urgentemente uma extensão maior da Ação Católica. Mas também
nesse caso a Ação Católica permanece sempre um apostolado dos leigos,
sob a autoridade do Bispo ou de seus delegados.
A atividade da Ação Católica se estende a todo o campo religioso e so­
cial: estende-se até aonde se estende a missão e atividade da Igreja. Ora,
sabe-se perfeitamente que o crescimento normal e fortalecimento da vida
rel i giosa supõe uma determinada medida de sãs condições econômicas o*
sociais. Quem não sente confranger-se o coração vendo quanto a miséria
econômica e os males sociais tornam mais difícil a vida cristã segundo os
mandamentos de Deus e muito freqüentemente exigem heróicos sacrifí­
c ios? Mas disso não se pode concluir que a Igreja deve pôr de lado sua
missão ivligiosa e procurar antes do mais nada o remédio para a miséria
M in a i. A Igreja, se sempre se manifestou solícita em defender e promover
a justiça, contudo, desde o tempo dos Apóstolos, mesmo diante dos mais
r.raves abusos sociais, cumpriu sempro; a sua missão e procurou iniciar
Inmbém a ivparaçao dos males o> danos sociais com a santifieaçao das
iilmiis e com a conversão dos sentimentos infernos, persuadida como está
ile que as loiras ivl igiosas e os princípiois cristãos valem mais do o|iie qual­
quer oiilro meio, pai.i conseguir essa ivparaçao.
A organização externa bem disciplinada da Ação Católica não exclui,
peIo contrário, promove a perspicácia pessoal e o espírito de previdência
o> de iniciativa dos indivíduos — cada um segundo as próprias qualidades
<> oapacidades — em contato permanente com os membros da Ação Cató­
lica do mesmo lugar, da mesma profissão, do mesmo grupo. Todos se man-
to-m cordialmente à disposição, tôdas as vêzes que se sentir a necessidade
de alguma atividade ou campanha católica. Com seu entusiasmo e sua de­
dicação, cada um levará o seu auxílio desinteressado às outras associações
o* instituições que possam desejar o seu concurso para obter mais segura
e perfeitamente o seu próprio fim.
Km outros têrmos, não seria compatível com o verdadeiro conceito de
Ação Católica a mentalidade de membros que se considerassem como as
rodas inertes de uma máquina gigantesca, incapazes de se moverem por
si mesmas, enquanto a fôrça central não as faz girar. Não seria admissível
considerar os chefes da Ação Católica como operadores de uma central
elétrica, diante do quadro de comando ocupados somente com ligar ou in­
terromper, regular ou dirigir a corrente da vasta rêde.
Os chefes, sobretudo, devem exercer um influxo pessoal e moral, que
será o reflexo normal da estima e da simpatia que saberão conquistar, sim­
patia que dará crédito às suas sugestões, aos seus conselhos, à autoridade
da sua experiência, sempre que fôr necessário pôr em movimento as fôrças
católicas prontas para a ação.
Não é necessário que vos ensinemos que a Ação Católica não foi cha­
mada a ser uma fôrça no campo da política de partido. Os cidadãos cató­
licos, enquanto tais, podem perfeitamente unir-se numa associação de ati-"
vidade política; é do seu direito, não menos de cristãos como de cidadãos.
A presença nas suas fileiras e a participação de membros da Ação Cató­
lica — no sentido e nos limites acenados — é legítima e pode até ser de
todo desejável. Não poderia, ao invés, admitir-se que a Ação Católica se
tornasse uma organização de partido político.
Não compete também à Ação Católica, por sua natureza, a missão de
dirigir outras associações e de exercer sôbre elas um ofício de quase auto­
ritário domínio. O fato de estar ela sob a imediata direção da hierarquia
eclesiástica não traz consigo essa conseqüência. De fato, a finalidade pró­
pria de cada organização é que detei-mina a maneira de ser dirigida. E
pode bem acontecer que essa finalidade não exija e mesmo torne inopor­
tuna essa direção imediata. Mas nem por isso aquelas organizações deixam
do sei’ católicas e unidas à hierarquia.
Comparado a elas, o sentido específico da Ação Católica consiste, como
dissemos, no fato de que ela é como que o ponto de encontro dos católicos
ativos, sempre prontos a colaborar com o apostolado da Igreja, apostolado
hierárquico por instituição divina, que encontra nos batizados e crismados
seus cooperadores que lhe estão sobrenaturalmente unidos.
Disso deriva uma conseqüência que é ao mesmo tempo uma advertência
paterna, não para a Ação Católica de um país determinado, mas para a
Ação Católica de todos os países e de todos os tempos. A sua estrutura
do»vo adaptar-se nas diversas regiões às circunstâncias particulares do lugar;
num ponto, contudo, devom todos os seus membros ser iguais: no “ sentire
eum Kcclesia” , na dedicação à causa da Igreja, na obediência para com
n<1 11 <**I o q u e oi Kspírito> Santo constituiu Bispos para rego;r a Igreja do
Deus, na .submissão filial paia com o Pastor suprormo, a cuja solicitude
Cristo eonlioii sua Igreja. K como po>d(*ria ser olo' maneira diferente, uma

10
vez que vós, membros da Ação Católica, formais, por assim dizer, uma
só coisa com o Bispo e com o Papa? ( 2).

* * *

Quais são hoje para os homens de Ação Católica os pontos mais impor­
tantes desta tentativa, os principais exercícios desta atividade? Nós acre­
ditamos dever brevemente assinalar sobretudo cinco:
1) Cultura religiosa. Profunda, sólido conhecimento da fé católica, de
suas verdades, de seus mistérios, de suas fôrças divinas. Consagrou-se a
expressão “ anemia da vida religiosa” . Ela soa como um grito de alarma.
Aquela anemia significa — em primeiro lugar, em tôdas as classes, tanto»
dos doutos como dos trabalhadores manuais — a quase absoluta ignorân­
cia das coisas religiosas. Esta ignorância deve ser combatida, extirpada,
vencida.
2) Santificação das festas. O domingo deve tornar a ser o Dia do Se­
nhor, dia da adoração e da glorificação de Deus, dia do santo Sacrifício»,
da oração, do repouso, do recolhimento e da reflexão, do alegre encontro
na intimidade da família. Uma dolorosa experiência ensinou que para nfio»
poucos, mesmo entre os que durante tôda a semana trabalham honesta o*
assiduamente, o domingo tornou-se dia de pecado.
Realmente o êxito desta luta entre a fé e a incredulidade dependerá
em boa parte daquilo que em um e outro fronte oposto saberão fazer do
dia de domingo: trará êle esculpido na fronte ainda, claro e fulgente, o
nome santo do Senhor, ou será êle amplamente obscurecido e negligen­
ciado?
3) Salvação da família cristã. Deve ser conservada a mãe cristã; devo
ser conservada a cristã educação da juventude, e portanto também a escola
cristã; deve ser conservado o lar cristão, fortaleza do temor de Deus, ola
inviolada fidelidade, da sobriedade, e do amor e da paz, onde domina
aquêle espírito do qual estava permeada, em Nazaré, a casa de São José.
Salvar a fam ília cristã é precisamente a missão precípua do Homo'in
católico. Não vos esqueçais: daquilo que êle quer depende, mais do que
da própria mulher, a sorte da mãe e da família.
4) Justiça social. Para os católicos a via a ser seguida na solução ola
questão social foi claramente assinalada pela doutrina da Igreja.
Uma ainda mais justa distribuição das riquezas é e permanece um ponto
programado da doutrina social católica.
Sem dúvida o natural curso das coisas traz consigo — e não é no>rn
econômica nem socialmente anormal — que os bens da terra sejam, dc>n-
tro de certos limites, desigualmente divididos. Mas a Igreja se opõe ao
acúmulo dos bens nas mãos de relativamente poucos milionários, enquanto»
vastas camadas do povo estão condenadas a um pauperismo e a uma
condição econômica indigna de sêres humanos.
.r>) No mesmo espírito deve encontrar a sua renovação outro sentimento»
moral: a lealdade e a veracidade na convivência humana, a consci<*ncia
<la responsabilidade para o bem comum. É inquietante ver até que ponto,
romio conseqüência da incrível agitação da guerra e do após guerra, a fi~
olelidade, a honestidade na vida econômica e so)cia1 foram dilapidadas. O
o|iu> í-m tal campo) se manifesta, não é mais somente um dcífeito o>xterinr
ile caráter, mas irvola uma grave do>cnça interna, uma intoxicação o\*;pi-
i ilual o|Uo> é também cm boa parte a causa daquela anemia roHigiosa.

(V ) D laiiiiiw » liou I >Í■l n r n K '11 (Ir A ^flo 0 i u l i M U ,i , .1 de in .ilo , l!).ri l ,

II
O caos econômico e financeiro, produzido por todo grande cataclismo,
estimulou e aguçou a avidez do lucro, que leva os ânimos a duvidosas es­
peculações e manobras com dano de populações inteiras. Nós sempre re­
provamos e condenamos tais atitudes, de qualquer parte elas provenham,
não menos do que qualquer ilícito comércio, qualquer falsificação, qual-
ciuer inobservância das justas leis emanadas do Estado para o bem da co­
munidade civil.
Cabe portanto aos Homens de Ação Católica colaborar para sanar êste
mal, com a palavra e com o exemplo, com o próprio exemplo antes de tudo
c> depois também com um influxo, cada vez mais eficaz, sôbre a opinião
publica ( 3).

(!l) DUiiiiiii ft Wnlflo lliiinrui ilr A(.no ( jlóllij, J ( |c «fIrniliid, 1017.


O CAPITAL E O TRABALHO
Com igual solicitude, com igual interesse vemos chegar a Nós, vez por
vez, os operários e os representantes das organizações industriais, os quais
com uma confiança que profundamente nos comove, expõem-nos as suas
recíprocas preocupações.
Referimo-nos às preocupações daqueles que participam na produção in­
dustrial. Errôneo e funesto em suas conseqüências é o preconceito, desgra ­
çadamente muito difundido, que vê nêles uma oposição irredutível do in~
terêsses contrastantes. Trata-se de uma oposição aparente. No campo eco­
nômico existem atividades e interêsses comuns entre os dirigentes do uma
emprêsa e operários. Querer desconhecer êste recíproco ligame, procurar
rompê-lo é o resultado do arbítrio de um despotismo cego e irracional.
Dirigentes de emprêsa e operários não são adversários irreconciliáveis. Sito
cooperadores em uma obra comum. Comem, por assim dizer, na mosma
mesa, pois que, afinal de contas, vivem do benefício nítido e global da
economia nacional. Cada qual tem a própria utilidade sob êste prisma, suas
recíprocas relações não implicam subserviência recíprocas.
Conseguir a própria utilidade é um apanágio da dignidade pessoal <lo
cada indivíduo que, em uma forma ou em outra, como dirigente ou ope
rário, concorre ativamente para a produção da economia nacional. No ba •
lanço da indústria privada, a cifra dos salários pode aparecer como uma
remissão para o doador de trabalho. Mas na economia de uma nação existi'
uma só espécie de despesa, a saber, os bens naturais utilizados para os fins
da produção nacional, e que portanto devem ser continuamente renovados.
Segue-se que ambas as partes devem empenhar-se para fazer de tal modo
que as despesas sejam adequadas ao rendimento da produção nacional. Se
o interêsse é portanto comum por qual razão não deveria êle ser tradu­
zido em uma fórmula comum? Por que não deveria ser lícito atribuir aos
operários uma justa parte de responsabilidade na formação e no desenvol­
vimento da economia nacional, sobretudo hoje que a penúria dos capitais,
a dificuldade dos intercâmbios internacionais paralisam o livre jôgo das
despesas da produção? As recentes experiências de socialização tornaram
mais evidente a triste realidade. A qual, como está claro, como não é im~
putável à má vontade de uns, assim também não poderá ser eliminada
da boa vontade de outros. Mas por que, quando ainda temos tempo, n a o
colocamos as coisas em ordem, na plena consciência da comum responsa­
bilidade, de modo a salvaguardar uns das injustas desconfianças, o outros
das ilusões que não tardariam a se tornarem um perigo social?
O nosso inesquecível predecessor, Pio XI, tinha proposto uma fórmula
concreta e oportuna para esta comunidade de interêsses e de responsai>ili
dadíís na obra da economia nacional, quando na Enciclica “ Quadraj;o\sim<>
Annq” recomendava “ a organização profissional” nos diversos ramos da
produção. Para triunfar sob o liberalismo econômico, nada lho paro>cia real­
mente mais indicado, paia a economia social, do que a adoçao do* um Es-
taluto <Io• I)iro*ito Público fundado sobro a responsabilidade comum de todos
nquôloN que esl.ao interessados na prooluçim. .fòsto ponto da Kuci clicn foi

Ii
objeto de um alçar de escudos: uns viam ali uma concessão às modernas,
outros, uma volta à Idade Média. Teria sido muito mais razoável abandonar
os inveterados e inconsistentes preconceitos, e preparar-se, em boa-fé e de
bom ânimo, à realização do plano em si, e em suas múltiplas aplicações
práticas.
Hoje, entretanto, esta parte da Encíclica parece apresentar um exemplo
daquelas ocasiões propícias que se deixam perder, por não se ter sabido
aproveitá-las a tempo.
Muito tarde se excogitam outras formas de organização política pública
da economia social, entre as quais presentemente está no auge a centrali­
zação estatal e a racionalização da indústria. Considerada em justos limites,
também a Igreja admite a centralização estatal e julga que se possa legiti­
mamente reservar aos poderes públicos algumas categorias de bens, aquêles
dotados de uma fôrça tal que não poderia ser transferida aos indivíduos sem
colocar em perigo o bem comum. Mas querer erigir em regra normal de
organização pública da economia esta centralização estatal, significaria sub­
verter a ordem das coisas. Função do direito público é a de servir, não de
absorver o direito privado. A economia, como qualquer outra ramificação
da atividade humana, não é por sua natureza uma instituição estatal, mas
ao contrário disto, é o produto vivente de uma livre iniciativa de indiví­
duos e grupos livremente constituídos.
Seria igualmente êrro afirmar que qualquer iniciativa individual é por
sua natureza uma sociedade, onde as relações entre os sócios são deter­
minadas pelas normas de justiça distributiva, e todos indistintamente —
proprietários ou não dos meios de produção — têm direito à parte própria
na propriedade, ou se não outra coisa, ao menos aos úteis. Uma concepção
semelhante parte da suposição de que cada emprêsa, por sua própria na­
tureza, está na esfera do direito público. É porém, uma suposição inexata;
seja ela constituída em forma de fundação ou de associação entre todos
os operários como co-proprietários, seja só propriedade privada de um
particular que estipule com todos os próprios dependentes um contrato
do trabalho, em ambos os casos a emprêsa participa da ordem jurídica
privada da vida econômica.
Quanto dissemos aplica-se à natureza jurídica da emprêsa enquanto tal,
mas aos componentes ela pode entretanto comportar ainda uma categoria
de relações individuais e de responsabilidades comuns, que é preciso con­
siderar. Quem quer que disponha de meios de produção — seja como par­
ticular ou como associações de operários ou fundação — deve permanecer
senhor de suas próprias decisões econômicas, sempre nos limites do direito
público da economia. Segue-se disto que o seu útil deve ser maior do
que o dos próprios colaboradores, mas ao mesmo tempo o bem-estar ma­
terial de todos os indivíduos, que constitui o fim da economia social, deve
mais ainda impor-lhes o dever de contribuir com a economia no aumento
do capital nacional. Nem é preciso esquecer que, como é sumamente útil
a uma sã economia social que êste aumento do capital provenha de fontes
numerosas o mais possível, assim é sumamente auspicioso que também os
operários possam contribuir com o fruto das próprias economias para se
constituir o capital nacional.
Muitos industriais, católicos e não católicos, têm explicitamente decla­
rado ern diversas circunstâncias que só a doutrina da Igreja está capaci­
tada paru oferecer os elementos essenciais à solução da questão social. A
atuaçao o a aplicação desta doutrina não podem, bem entendido, atuar-se
em um dia. A realização exi/íe da parto de todos uma conduta previdente
e elar i vidente, grande doso* de bom -senso o do* boa vontade. Kxi.iío* sobre­
tudo ro«a/;ir comi todos os meios à t.outa<;ao> do* procurar que a própria van­

11
tagem seja obtida, quer à custa dos demais — qualquer que seja a forma
e a natureza da participação alheia — quer em detrimento do bem co­
mum. Requer enfim o desinteresse, que somente uma autêntica virtude
crista, sustentada pelo auxílio da graça de Deus, é capaz de infundir ( ') .

* # *

A Encíclica “ Rerum Novarum” exprime sôbre a propriedade e sôbre a


subsistência do homem princípios que com o tempo nada perderam do
nativo vigor e hoje, depois de cinqüenta anos, conservam ainda profunda
e vivificante sua íntima fecundidade. Sôbre o seu ponto fundamental Nós
mesmo chamamos a atenção comum na Nossa Encíclica “ Sertum Laeti-
tiae” , dirigida aos Bispos dos Estados Unidos da América do Norte: ponto
fundamental, que consiste, como dissemos, na afirmação da inconcussa exi ­
gência “ que os bens, por Deus criados para todos os homens, igualrmMilo»
estejam ao alcance de todos, segundo os princípios da justiça e da cari­
dade” .
Cada homem, enquanto vivente dotado de razão, tem realmente da pró­
pria natureza o direito fundamental de usar os bens materiais da torra,
sendo embora deixado à vontade humana e às fórmulas jurídicas dos po­
vos o regular-se mais particularmente na prática atuação dêsse direito.
Tal direito individual não pode ser de modo algum suprimido, nem m(>s~
mo por outros direitos certos e pacíficos sôbre os bens materiais. Sem dú­
vida a ox'dem natural, derivando de Deus, requer também a propriedade
privada e o livre e recíproco comércio dos bens com trocas e doações,
como também a função regularizadora do poder público sôbre ambos êsl.es
institutos. Tudo isto não permanece menos subordinado ao escopo natural do:;
bens materiais, e não poderia tornar-se independente do direito primeiro
e fundamental, que a todos concede o uso dos mesmos; mas antes deve
servir para fazer possível a atuação em conformidade com o seu escopo.
Assim somente poderíamos e deveríamos obter que a propriedade e o u:;<>
dos bens materiais proporcionassem à sociedade paz fecunda e consistência
vital, e não constituíssem condições precárias, geradoras de luta e dc inve­
jas abandonadas à mercê do desapiedado jôgo da fôrça e da debilidade.
O direito originário sôbre o uso dos bens materiais, para estar em in ti­
ma conexão com a dignidade e com os demais direitos da pessoa humana,
oferece a ela com as formas supra indicadas uma base material, segura, do*
grande importância para se elevar ao cumprimento dos seus deveres mo­
rais. A tutela dêstes direitos assegurará a dignidade pessoal do homem, o*
tornar-lhe-á mais expedito esperar e satisfazer em justa liberdade aquelas
somas de obrigações estáveis, das quais é diretamente responsável dianl.e
do Criador. Cabe ao homem o dever totalmente pessoal de conservar c
reavivar até a perfeição a sua vida material e espiritual, para atingir o
escopo religioso e moral, que Deus designou a todos os homens e lhes deu
qual norma suprema, sempre e em cada caso obrigatório, antes dc todos os
demais deveres.
Tutelar o intangível campo dos direitos da pessoa humana e obviar a
ela o cumprimento de seus deveres, é função essencial de todo poder pú­
blico. Não é porventura isto, que exige o significado genuíno de bem co­
mum, que o Estado foi chamado a “ promover” ? Nasce daqui que o cui-
olado de um tal “ bem comum” não importa poder muito extenso sôbre os
membros da comunidade, que em virtude dèle não é concedido à autori­
dade pública reduzir ao mínimo o desenvolvimento da ação individual,
(I) D I i k ni*<> A Diil.lo I n u i i i i i i ic >1111 1 ( I i i h A «km In^fícH I ’ <i i r< >t m I n (iiilóllcim, 'l'l dc iiliill, IfMI.

Ci
supra descrita, decidir diretamente sôbre o início ou (excluído o caso de
legítima pena) sôbre o término da vida humana, determinar a próprio
tal ante a maneira de seu desenvolvimento físico, espiritual, religioso e
monal em contraste com os deveres pessoais e os direitos do homem, e a
tal intento abolir ou anular a eficácia do direito natural aos bens mate­
riais. Deduzir tanta extensão de poder do cuidado do bem comum que­
reria dizer transtornar o sentido próprio de bem comum e cair no êrro
oIo* afirmar que o próprio fim do homem sôbre a terra é a sociedade, que a
sociedade é fim a si mesma, que o homem não possui outra vida a esperá-lo,
além da que se extingue na terra.
Também a economia nacional, como é fruto da atividade dos homens que
trabalham unidos na comunidade estatal, assim a outro fim nao mira senão
assegurar sem interrupção as condições materiais, em que possa desenvol­
ver-se plenamente a vida individual dos cidadãos. Onde isto, em modo du­
rável, fôr conseguido, um povo será, em verdade, economicamente rico, por­
ei ue o bem-estar geral, e por conseqüência, o direito pessoal de todos ao uso
do>s bens terrenos será atuado conforme ao intento do Criador.
Do que deduzimos que a riqueza econômica de um povo não consiste pro­
priamente na abundância de bens, medidos segundo cálculos de seus valores
do> um modo pura e liquidamente material, mas sim no que tal abun­
dância representa e põe real e eficazmente como base material suficiente
para o devido desenvolvimento pessoal de seus membros. Se semelhante dis­
tribuição justa dos bens não fôsse atuada ou fôsse procurada só im perfeita­
mente, não se conseguiria o verdadeiro escopo da economia nacional; já que,
porquanto houve uma feliz abundância de bens disponíveis, o povo nao
chamado a participar dela, não seria economicamente rico, mas pobre. Fa­
zei, pelo contrário, que essa distribuição justa se efetue realmente e em-
modo) durável, e vereis então um povo, ainda que dispondo de menores
bons, tornar-se e ser economicamente são.
fistes conceitos fundamentais dizem respeito à riqueza e à pobreza dos
povos. Parece-nos particularmente oportuno pôr à consideração hoje, quan-
olo) se é propenso a medir e julgar tal riqueza e pobreza com balança e
co)m critérios simplesmente quantitativos, seja do espaço, seja da redun-
elância dos bens. Se, pelo contrário, se procura ponderar retamente o fim
ola economia nacional, então êle se tornará luz pelos esforços dos homens
ole Fstado e dos povos e os iluminará a encaminharem-se espontâneamente
j)o)r uma via, que não exigirá contínuos desperdícios em bens e em san­
gue, mas dará frutos de paz e de bem-estar geral.

O TR A B A LH O

Com o uso dos bens materiais entra em foco o trabalho.


A “ Rerum Novarum” ensina que duas são as propriedades do trabalho
humano: êle é pessoal e é necessário. É pessoal, porque se efetua com as
fôivas particulares do homem; é necessário porque sem êle não se pode
o-onseguir o que é indispensável para a vida, cuja manutenção é um dever
natural, grave, individual. Ao dever pessoal do trabalho impôsto pela na-
tuivza corresponde o direito natural de cada indivíduo a fazer do trabalho
o moMo) para prover à vida própria e dos filhos: tão bem está orientado à
co>nserva<;fu> do ho>mcm o império da natureza.
Mas ne>tai o|ut* tal olt*vo'r com o> relativo) direito ao trabalho é impôsto e
outnceolido ao indivíduo o>m primeiro lugar pela naturoí/.a, e não pela so­
ciedade, como se o homem mio losso* so‘iiáo um simples s o t v o j e funciomá-
rio da comunidade. I )o quo1 so' so'guo* cpie o deveT o* oj dircitcj a oirganizar o

4(1
trabalho do povo pertence antes de tudo aos imediatos interessados: doa­
dor de trabalho e operários. E se depois êles não cumprem os seus devo­
res ou não o podem cumprir por especiais e extraordinárias contingências,
então entra no dever do Estado intervir no campo, na divisão e na distri­
buição do trabalho, segundo a forma e a medida que requer o bem co>-
mum, retamente entendido.
De qualquer modo, qualquer legítima e benéfica intervenção estatal no
campo do trabalho é para salvar e respeitar o caráter pessoal, quor om
linha de máxima, quer nos limites do possível, naquilo que se refero à
execução. E isto se verificará se as normas estatais não abolirem, nem tor­
narem irrealizável o exercício dos demais direitos e deveres igualmente po>s-
soais, quais são o direito ao verdadeiro culto de Deus, ao matrimônio; o
direito dos cônjuges, do pai e da mãe a dirigir a própria vida conjugal e
doméstica, o direito a uma racional liberdade na escolha do estado o om
seguir uma verdadeira vocação, direito êste último pessoal, do espírito olo
homem e direito sublime, quando se lhe avizinham os direitos superio>res
e imprescindíveis de Deus e da Igreja, como na escolha e no exercício das
vocações sacerdotal e religiosa.

A F A M ÍL IA

Segundo a doutrina da “ Rerum Novarum” , a própria natureza tem iiili


mamente conjunta a propriedade privada com a existência da sooiedado
humana, e com a sua verdadeira civilização, e em grau eminente com a
existência e com o desenvolvimento da família. Tal vínculo é óbvio. Na<>
deve talvez a propriedade privada assegurar ao pai de família a sã liber­
dade, de que necessita para cumprir os deveres a êle dados pelo Criador,
no que concerne ao bem-estar físico, espiritual e religioso da família?
Na fam ília a Nação encontra a raiz natural e fecunda de sua grandeza
e potência. Se a propriedade privada deve conduzir ao bem da família,
tôdas as normas públicas, até todos os cânones do Estado que regulam a
posse, devem não somente tornar possível e conservar tal função — fun­
ção na ordem natural sob certas relações superiores a tôdas as demais - ,
mas também aperfeiçoá-las sempre mais. Seria realmente inatural um pro­
clamado progresso civil, que — ou pela superabundância dos encargos <m
pelas excessivas ingerências imediatas — tornasse sem sentido a pmprie-
dade privada, tirando praticamente à família, e ao seu chefe a liberdade
de perseguir os escopos por Deus assinalados para o aperfeiçoamento da
vida familiar.
Entre todos os bens que podem ser objetos de propriedade privada ne­
nhum é mais conforme à natureza, segundo o ensinamento da “ Rerum N o­
varum” , do que é o terreno, “ a posse” , na qual habita a família, o do cujo
fruto depende inteira ou pelo menos parcialmente a subsistência. 10 está
n<> espírito da “ Rerum Novarum” a afirmação de que, de regra, só tal es­
tabilidade, que se radica em uma própria posse, faz da família a ovlula
vital mais perfeita c fecunda da sociedade reunindo esplêndidamonto' com
a sua progressiva coesão as gerações presentes e futuras. Se hoje o con­
ceito e a criação dos espaços vitais está no centro das metas sociais o> po­
líticas, não se deveria talvez, antes de qualquer coisa, pensar no oviparo
vital da família o libertá-la dois laços de condições, que não permitem
nem mesmo a formação da idéia de uma casa própria? (- ).

(2) I ik I i IIiii "Krnim Nnvaiiuii", I t /ul l o mn i n i i K i ni l o m r n m i nl l v.i, I de J i i ul i o , l ‘HI ,


SÔBRE A CARIDADE
Car i dade. Caridade é a palavra às vêzes usada livremente para signifi­
car uma espécie qualquer de atividade benévola ou filantrópica. Mas ca­
ridade tom um significado sacro e consagrado. A caridade é diversa de
(lualquer outro amor humano porque é uma réplica do amor de Cristo
para com o homem. “ Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns
aos outros” “ que vos ameis um ao outro como Eu vos amei” . Isto é cari­
dade. São Paulo escreve aos Romanos (15, 7) “ Ajudai-vos uns aos outros
como Cristo vos ajudou para a glória de Deus” . Isto é caridade.
Am ar-vos-eis uns aos outros, disse Cristo, como Eu vos amei a vós —
“ não como amam aquêles que corrompem a inocência ou a fé ” comenta
o imortal Agostinho (In Joannis Evang. trat. 65 c 13 — Migne P L t. 35
eol. 1808-1809); “ não como os homens se amam uns aos outros, simples­
mente porque são membros da mesma raça humana, mas como amam
quantos sabem e professam que todos os homens são filhos de Deus, filhos
elo Altíssimo no qual se deve formar e aperfeiçoar à semelhança de irmão
do único Filho gerado” .
“ Am ar-vos-eis uns aos outros como Eu vos amei.” E que coisa amou>
Cristo no homem, senão Deus? Não no sentido em que Êle encontrou Deus
cm cada homem, mas no sentido que âle esperou, através do amor, res­
taurar Deus em cada homem. Diz-se que um doutor ama o doente; mas
então que é que êle ama no doente? Certamente não a doença. Não, êle
ama a saúde, que espera dar novamente ao paciente. A caridade significa
r|ue vos ameis reciprocamente de modo tal a levar Deus sempre mais na
vida de cada um, de modo que ligados pelo Espírito do Amor divino pos­
sam colaborar na formação de um corpo não indigno da Cabeça divina.
À semelhança do viajante de que fala o Evangelho, a raça humana caiu
entre ladrões que roubam os seus tesouros de fé e de amor e deixam-na
perecer na necessidade.
Leigos do mundo, avizinhai-vos dêste grande inválido: E enquanto le­
vais para êle o pão para nutrir o corpo e vos esforçais pessoalmente para
providenciar às suas variadas necessidades, juntamente com o bom sa-
maritano inclinai-vos e tentai gentilmente lenir suas feridas e verter sô­
bre elas o óleo da mensagem consoladora de Cristo. Sussurrai no ouvido,
de há muito talvez surdo ao conselho sacerdotal, palavras de encoraja­
mento, de esperança e de paz e o exemplo do vosso amor cristão apressará
o dia em que uma vítima amargurada pela dor ou pelo insucesso ou pela
injustiça retornará àqueles que Deus constituiu guardiões e médicos das
almas.
Oh, nós sabemos o imenso bem que as Conferências e as demais Cari-
dad<\s Cristãs estão fazendo em muitas paróquias e Nós as abençoamos
oIo? todo) coração. A caridade, porém, não deve jamais olhar para trás, mas
sempre' para fr<‘nte\
O número rins obras re*a1izadas ('* sempre pc‘quono enquanto que as mi-
«('•rias pre*.sent.es c futurus que ocorre* eionsolur, sàe) sem f i m.

IH
Nós desejaríamos ver todos os jovens unidos nu mente e no coração em
alguma obra de caridade cristã. Não se trata de dar dinheiro: trata-se olo*
dar a si mesmos. Tal apostolado reavivar-lhes-ia a fé, daria direção e es­
tabilidade a uma correta atitude diante das coisas frívolas da vida, acor­
daria a potência do exemplo e contribuiria potentemente para remediar
os males da desigualdade social e de raça.
Ó coração misericordioso de Jesus, verte o teu amor e conforto na vidn
dos pobres, dos sofredores, de quantos estão afligidos no corpo e na alma,
de quantos são membros caros do Teu Corpo C1).

(I) K .itlln mcliMiui in iii t nnl Innilr Amri li ,mn, 11! niiHllim, I!II7.
A IGREJA

“ A IGREJA É O CORPO M ÍSTICO DE CRISTO”

Considerando a origem desta doutrina, ocorrem-nos logo aquelas palavras


olo Apóstolo: “ Onde o delito abundou supcrabundou a graça” . Sabemos que
Deus constituiu o primeiro progenitor do gênero humano em tão excelsa
condição, que com a vida terrena transmitira aos seus descendentes a vida
sobrenatural da graça celeste. Mas depois da triste queda de Adão tôda
a humana linhagem, infeccionada pela mancha original, perdeu o consórcio
da natureza divina e todos ficamos sendo filhos da ira. Deus, porém, na sua
infinita misericórdia “ amou tanto ao mundo que lhe deu seu Filho Unigê-
nito” ; e o Verbo do Eterno Pai, com a mesma divina caridade, revestiu-se
da natureza humana da descendência de Adão, mas inocente e imaculada,
pura que do novo e celeste Adão dimanasse a graça do Espírito Santo a
todos os filhos do primeiro pai; e êstes que pelo primeiro pecado tinham
sido privados da filiação adotiva de Deus, pelo Verbo encarnado, feitos
irmãos segundo a carne do Filho Unigênito de Deus, recebessem o poder
de vir a ser filhos de Deus.
E assim Jesus Crucificado não só reparou a justiça do Eterno Pai ofen­
dida senão que nos mereceu a nós, seus consangüíneos, inefável abundância
de graças. Estas graças podia Êle distribuir diretamente por si mesmo a
todo o gênero humano. Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja
visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fôssem
om certo modo seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da
Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas
dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim de modo seme­
lhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perene­
mente a obra começada.
Ora, para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo, — que
ó a Santa Católica, Apostólica Igreja Romana, nada há mais nobre, nem
mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na deno­
minação “ Corpo Místico de Jesus Cristo” , conceito que imediatamente
resulta de quanto nas Sagradas Letras e nos escritos dos Santos Padres
freoi Cientemente se ensina.
Que a Igreja é um corpo, ensinam-nos muitos passos da Sagrada Escri­
tura. “ Cristo, diz o Apóstolo, é a Cabeça do Corpo da Igreja” . Ora, se a
Ij.;roja é um corpo), deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo
ji(|uoila sentença de Paulo: “ Nós muitos, somos um só corpo em Cristo” .
K nao só devo ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível.
Kstao», pois, lomge da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma
o|iio nao se pod<? tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa
"pneumática” que uno entro* si com vínculo invisível muitas comunidades
cristas, ('inbora separadas tia fé.
O corpo» roquoT Inmbém multiplicidade do* mo*ml>ms, o|Uc* unidos entro*
si se auxiliem mutuamente. K como no uo;;:;o corpo mortal, optando um

?»o
membro sofre, todos os outros sofrem com êle, e os sãos ajudam os doentes,
assim também na Igreja os membros não vivem cada um para si, mas
socorrem-se e auxiliam-se uns aos outros, tanto para mútua consolação,
como para o crescimento progressivo de todo o Corpo.
Mais ainda. Como na natureza não basta qualquer aglomerado de mem­
bros para formar um corpo, mas é preciso que seja dotado de órgãos ou
membros com funções distintas e que estejam unidos em determinada
ordem, assim também a Igreja deve chamar-se corpo sobretudo porque*
resulta de uma boa e apropriada proporção e conjunção de partes o é
dotada de membros diversos e unidos entre si.
Não se julgue porém que esta bem ordenada e “ orgânica” estrutura elo
Corpo da Igreja se limita unicamente aos graus da hierarquia; em, ao
contrário, como pretende outra opinião, consta unicamente de carismáticos,
isto é, dos fiéis enriquecidos de graças extraordinárias, que nunca hão) elo*
faltar na Igreja. Está fora de dúvida que todos os que neste Corpo estão»
investidos de poder sagrado, são membros primários e principais, já c j ih *
são êles que, por instituição do próprio Redentor, perpetuam os oficieis ele>
Cristo Doutor, Rei e Sacerdote. Contudo os Santos Padres, quando cele>-
bramos ministérios, graus, profissões, estados, ordens, deveres dêste Ceirpo
Místico, não consideram só os que têm ordens sacras, senão também todos
aquêles que, observando os conselhos evangélicos, se dão à vida ativa, e>u
à contemplativa, ou à mista, segundo o próprio instituto; bem como e>s
que, vivendo no século, se consagram ativamente a obras de misericórdia
espirituais ou corporais; e finalmente também os que vivem unidos po>lo
santo matrimônio. Antes é de notar que, sobretudo nas atuais circunstân­
cias, os pais e as mães de família, os padrinhos e madrinhas, e notada-
mente todos os seculares que prestam o seu auxílio à hierarquia eclesiástica
na dilatação do reino de Cristo, ocupam um pôsto honorífico, embora muitas
vêzes humilde, na sociedade cristã, e podem muito bem sob a inspirae;ao
e com o favor de Deus subir aos vértices da santidade, que por promessa
ele Jesus Cristo nunca faltará na Igreja.
E como o corpo humano nos aparece dotado de energias especiais com
c|ue provê à vida, saúde e crescimento seu e de todos os seus membreis,
assim o Salvador do gênero humano providenciou admiravelmente, ao somi
Corpo Místico, enriquecendo-o de sacramentos, que com uma série inin-
ÜTrupta de. graças amparam o homem desde o berço até ao últimei suspiro»,
o> ao mesmo tempo provêm abundantissimamente às necessidades seriais
ela Igreja. Com efeito, pelo batismo, os que nasceram a esta vida meirtal
não só renascem da morte do pecado e são feitos membros da Igreja, seMiao
e|iio', assinalados com o caráter espiritual, se tornam capazes ele roc,e,l»o,r
os outros dons sagrados. Com a crisma infunde-se nova fôrça nos fiéis
para conservarem e defenderem corajosamente a Santa Madre Igreja <* a
lé que dela receberam. Pelo sacramento da Penitência oferece-se aeis m e m ­
bros ela Igreja caídos em pecado uma medicina salutar, que serve nao só
para restituir-lhes a saúde, mas a preservar os outros membreis do Corpo
Místieo ele» perigo de contágio, e até a dar-lhes estímulo e exemplo oIo*
v i i tudo*.
K nao basta. I’e*la sagrada Kucaristia alimentam-se* e fortifie,am-::o* os
fiéis eom um nicstmi alimento o* se tmo*m e*ntre si e* a d iv i na Cabc<;a de
lodo o» Ceirpo e-om um víne-ulo inefáve'1 o* elivino. Kinalmente ao Ie>i1o dois
moribundos ao’odo* a Igre*ja, mae compassiva, o eom e» SaoMameul.o da
Kx 11 ema-une/no, se nown seMiipre* lhes dá a saúde do e*orpo, por I )o*us assim
o <ti:;por, da lhes às almas fendas a medicina sobrenatural, abre lhes o

M
céu, onde como novos cidadãos, e seus novos protetores gozarão por tôda
ti eternidade da divina bem-aventurança.
Às necessidades sociais da Igreja proveu Cristo de modo especial com
dois sacramentos que instituiu: com o Matrimônio, em que os cônjuges
são reciprocamente um ao outro ministros da graça, proveu ao aumento
externo e bem ordenado da sociedade cristã; e, o que é ainda mais impor­
tante!, à boa e religiosa educação da prole, sem a qual o Corpo Místico
correria perigo; com a Ordem dedicam-se e consagram-se ao serviço de
Deus os que hão de imolar a Hóstia eucarística, sustentar a grei dos fiéis
com o Pão dos Anjos e com o pasto da doutrina, dirigi-la com os divinos
mandamentos e conselhos e purificá-la com o batismo e a penitência, enfim
fortalecê-la com as outras graças celestes.
Não se deve, porém, julgar que já durante o tempo da peregrinação
terrestre, o Corpo da Igreja, por isso que é Corpo de Cristo, consta só de
membros com perfeita saúde, ou só dos que de fato são por Deus predes­
tinados à sempiterna felicidade. Por sua infinita misericórdia o Salvador
não recusa lugar no seu Corpo Místico àquele a que o não recusou outrora
no banquete. Nem todos os pecados, embora graves, são de sua natureza
tais que separem o homem do Corpo da Igreja como fazem os cismas, a
heresia e a apostasia. Nem perdem de todo a vida sobrenatural os que pelo
pecado perderam a caridade e a graça santificante e por isso se tornaram
incapazes de mérito sobrenatural, mas conservam a fé e a esperança cristã
e, alumiados pela luz celeste, são divinamente estimulados com íntimas
inspirações e moções do Espírito Santo ao temor salutar, à oração e ao
arrependimento das suas culpas.

CRISTO FOI O “ FU N D AD O R” DÊSTE CORPO

Devendo expor brevemente o modo como Cristo fundou o seu Corpo


social, acode-Nos antes de mais nada esta sentença de Nosso Predecessor
de feliz memória Leão X III: “ A Igreja, que já concebida nascera do lado
do segundo Adão, adormecido na cruz, manifestou-se pela primeira vez à
luz do mundo de modo insigne no celebérrimo dia de Pentecostes” .
De fato o Divino Redentor começou a edificação do templo místico da
Igreja, quando na sua pregação ensinou os seus mandamentos; concluiu-a
quando, glorificado, pendeu da Cruz; manifestou-a enfim e promulgou-a
quando mandou sôbre os discípulos, visivelmente, o Espírito Paráclito.
Durante o seu público ministério escolhia os Apóstolos, enviando-os como
ftle próprio tinha sido enviado pelo Pai, como mestres, guias operadores da
santidade na assembléia dos fiéis; designava o Chefe dêles e seu Vigário
em terra, fazia-lhes conhecer tudo o que tinha ouvido do Pai; indicava
também o Batismo como meio para os que de futuro cressem ser incorpo­
rados no Corpo da Igreja; finalmente, chegando ao anoitecer da vida,
durante a última ceia, instituía a Eucaristia, admirável sacrifício e admirável
Sacramento.
Sôbre a árvore da cruz, finalmente conquistou sua Igreja, isto é, todos os
membros de seu Corpo Místico, pois que êstes não seriam a Êle incorpo­
rados nas águas do batismo, se não fôsse pela virtude salutífera da Cruz,
onde o Senhor já adquiriu sôbre êles domínio pleníssimo.
Se nosso» Salvador por sua morto; foi feito Cabeça da Igreja no pleno
sentido ola palavra, igualmente pelo seu sangue? foi a Igreja enrioiuecida
da<|Ufln abundantíssima comunicai/ao do Kspírito que divinamente ilustra

rs
Missa dor Ré<]uiein na ('.apela Sistina, cm m em ória tio
Papa Pio \1, nn 1U.° aniversário de sua m orle, 10/11 lí).1)!.
..... ,I, l-H, XII. !'.' III -
desde que o Filho do homem foi elevado e glorificado no seu doloroso
patíbulo.
Então, rasgando o véu do templo, o orvalho dos dons do Paráclito, que
até ali descera somente sôbre o velo, isto é, sôbre o povo de Israel, começou
deixando o velo enxuto, a regar a Igreja e abundantemente tôda a terra,
quer dizer a Igreja católica, que não conhece fronteira de estirpe ou terri­
tório. Como no primeiro instante da Encarnação o Filho do Eterno Pai
ornou a natureza humana, consigo substancialmente unida, com a plenitude
do Espírito Santo para que fôsse apto instrumento da divindade na hora
cruenta da Redenção, assim na hora da sua preciosa morte enriqueceu a
sua Igreja com mais copiosos dons do Paráclito, para a tornar válido o;
perpétuo instrumento do Verbo encarnado na distribuição dos divino;;
frutos da Redenção.
De fato a missão jurídica da Igreja e o poder de ensinar, governai- r
administrar os sacramentos não têm fôrça e vigor sobrenatural para cd i ficar
o Corpo de Cristo, senão porque Cristo pendente da Cruz abriu à sua Igreja
a fonte das divinas graças com as quais pudesse ensinar aos homens
doutrina infalível, governá-los salutarmente por meio de pastores divina­
mente iluminados, e inundá-los com a chuva das graças celestes.
Se consideramos atentamente todos êstes mistérios da Cruz, já nos não»
parecerão obscuras as palavras do Apóstolo, onde ensina aos efésios que
Cristo com o sangue fêz um povo único de judeus e gentios “ destruindo na
sua carne a parede interposta” , que separava os dois povos; e que ab-rogou
a Antiga Lei “ para dos dois formar em si mesmo um só homem novo” ,
isto é, a Igreja; e a ambos, reunidos num só Corpo, reconciliar com Domis
pela Cruz.
A Igreja que com seu sangue fundara, robusteceu-a com energias especiais
descidas do céu, em dia de Pentecostes. Com efeito, depois de ter solei»>-
mente investido no seu ofício aquêle que já antes tinha designado para
seu Vigário, subiu ao céu; e, sentado à direita do Pai, quis manifestar c
promulgar a sua Espôsa com a descida visível do Espírito Santo, com o>
ruído do vento impetuoso e com as línguas de fogo. Como Êle próprio ao
princípio do seu público ministério tinha sido manifestado pelo Eterno Pai
por meio do Espírito Santo que, em figura de pomba, desceu e pouso»i
sôbre Êle, assim igualmente quando os Apóstolos estavam para começar oi
sagrado ofício de pregar, mandou Cristo Senhor Nosso do céu o seu Espírito
que, tocando-os com línguas de fogo, mostrou como com o dedo de Deus,
a missão sobrenatural e o sobrenatural múnus da Igreja.
Em segundo lugar prova-se que êste Corpo Místico, que é a Igreja, é
realmente Corpo de Cristo, porque Êle deve ser considerado de fato como
sua Cabeça. “ Êle é, diz S. Paulo, a Cabeça do Corpo da Igreja. Êle é a
Cabeça, da qual todo o corpo convenientemente organizado e coordenado
reco>be crescimento e desenvolvimento na sua edificação.
Mas nosso divino Salvador governa e dirige também por si mesmo e
diretamente a sociedade que fundou, pois que Êle reina nas inteligências
o- o^orações dos homens e dobra e compele a seu beneplácito as vontades
amola mais rebeldes. Com êste governo interno Êle, qual Pastor e liispoi das
nossas almas não só tem cuidado de cada um em particular, mas lambem
de Ioda a Igreja; tanto quando ilumina e fortalece os sagrados pastõres
para o|iie fio-l o frutuosamente se desempenhem de seus ofícios, coimo o|iumdo
em circunstâncias particularmente graves —- faz surgir no somo da If.reja
homens e mulhoMes de* santidade assinalada, c|ue sejam do> cxoMnplo aos
omtros fiéis, para incroMnoMito) olo> nomj (!o>rpo> Místico. A cmvsco* ainda opio* olo»
••«•ii vela .sempre com particular amor po*la sua o‘spôsa infemerafa, o|ii<*
lahula iie;.te toM resti «• o'Xiln>; «> c|Uand<> a vo* o>m pcTigot, ou por si i i i c mi i h ,

BS
4Illl. I*|lt XII I'|l>|lluilH1*
ou pelos seus anjos, ou por Aquela que invocamos como Auxílio dos cris­
tãos, e pelos outros celestes protetores, salva-a das ondas procelosas e,
serenado e abonançado o mar, consola-a com aquela paz que “ supera tôda
a inteligência” .
Não se julgue, porém, que o seu govêrno se limita a uma ação invisível
ou extraordinária. Ao contrário, o divino Redentor governa o seu Corpo
Místico de modo visível e ordinário, por meio do Seu Vigário na terra.
Vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, que Cristo Nosso Senhor, depois de ter,
durante a sua carreira mortal, governado pessoalmente e de modo visível
o seu “ pequeno rebanho” , quando estava para deixar êste mundo e voltar
ao Pai, confiou ao Príncipe dos Apóstolos o govêrno visível de tôda a
sociedade que fundara. E realmente, sapientíssimo como era, não podia
deixar sem cabeça visível o corpo social da Igreja que instituíra. Nem se
objete que com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o Corpo
Místico com duas cabeças. Porque Pedro, em fôrça do primado, não é senão
Vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal dêste Corpo é uma só:
Cristo; o qual, sem deixar de governar a Igreja misteriosamente por si
mesmo, rege-a também de modo visível por meio daquele que faz as suas
vêzes na terra; e assim a Igreja depois da gloriosa ascensão de Cristo ao
céu não está edificada só sôbre Êle, senão também sôbre Pedro, como
fundamento visível. Que Cristo e o seu Vigário formam uma só Cabeça
ensinou-o solenemente nosso Predecessor de imortal memória Bonifácio V III,
nas Letras Apostólicas: “ Unam Sanctam” , e seus sucessores não cessaram
nunca de o repetir.
Em êrro perigoso estão, pois, aquêles que julgam poder unir-se a Cristo,
Cabeça da Igreja, sem aderirem fielmente ao seu Vigário na terra. Supri­
mida a Cabeça visível e quebrados os vínculos visíveis da unidade, obscure-
ccm e deformam de tal maneira o Corpo Místico do Redentor, que não pode
ser visto nem encontrado de quantos demandam o pôrto da eterna salvação.
Tudo o que havemos dito da Igreja universal deve afirmar-se igualmente
das particulares comunidades cristãs, assim Orientais como Latinas, das
quais consta e se compõe uma só Igreja Católica; por isso que também
a elas governa Jesus Cristo por meio da voz e autoridade dos respectivos
Prelados.
Deseja Cristo que cada um de seus membros se lhe assemelhe; mas deseja
igualmente que se assemelhe todo o Corpo da Igreja. O que sucede quando
ela, seguindo as pistas de seu Fundador, ensina, governa, e imola o divino
sacrifício; quando abraça os conselhos evangélicos, e reproduz em si mesma
a pobreza, obediência e a virgindade do Redentor; quando nos muitos e
variados institutos que como jóias a adornam, nos faz em certo modo ver
Cristo, ora no monte contemplando, ora pregando às turbas, ora sarando
os enfermos e feridos e convertendo os pecadores, ora enfim, fazendo bem
a todos. Não é, pois, para admirar se ela, enquanto vive nesta terra, se
vê também como Cristo, exposta a perseguições, vexações e sofrimentos.
Depois Cristo é Cabeça da Igreja, porque avantajou-se na plenitude e
pe*r feição dos dons sobrenaturais, desta plenitude que haure o seu Corpo Mís­
tico. Com efeito, notam muitos Padres, assim como no corpo humano a cabeça
possui todos os cinco sentidos, ao passo que o resto do corpo possui unica­
mente* o tato, assim tôdas as virtudes, dons e carismas que há na sociedade
crista, re\splandecem de modo singularíssimo na cabeça, Cristo.
P ile q u i* in f u n d e n o s f ié is a l u z d a f é ; Ê l e q u e a o s P a s t o r e s e D o u t o r e s
e sobro* t o d o s ae> so*u V i g á r i o n a t e r r a e n r i q u e c e d i v i n a m e n t e ce n n o s e lo n s
s o b r e n a l u r a i s ele? c i ê n c i a , e*nte*nelime*nto e* s a b e d o r i a , p a r a ((lio* conse*rve*m
f i e lm e n t e o» le.se> u m ela fé , e> e le le n e la m r e ir u j o s a m e n t e , p ie d o s a o* d H ij'i* n t e -

JH
mente o expliquem e valorizem; Êle é enfim que invisível preside e dirige
os Concílios da Igreja.
Cristo é autor e operador de santidade. Já que nenhum ato salutar poolo*
haver que d’Êle não derive como fonte soberana.
Tal nobilíssima denominação, não deve entender-se como aquela incfávod
união, com que o Filho de Deus assumiu uma natureza humana deter­
minada, se estende a tôda a Igreja; mas quer dizer que o Salvador comu­
nica à sua Igreja os seus próprios bens de tal forma que esta, cm tôda a
sua vida visível e invisível, é um perfeitíssimo retrato de Cristo. Dc fato»,
cm fôrça da missão jurídica com que o divino Redentor enviou os Apóstolos
ao mundo, como o Pai o enviara a Êle, é Êle que pela sua Igreja bati/.a,
ensina, governa, ata, desata, oferece e sacrifica.
Passamos agora a expor as razões com que desejamos mostrar quo* o
Corpo de Cristo, que é a Igreja, se deve denominar místico. Esta doMionu-
nação, usada já por vários escritores antigos, comprovam-na não pomicos
documentos pontifícios. E há muitas razões para se dever adotar: pois o11 1 <•
por ela o corpo físico, nascido da Virgem Maria e que ora está sentado
à destra do Pai ou oculto sob os véus eucarísticos, pode também distinguir
se, e isto é importante por causa dos erros atuais, de qualquer riirpn
natural, quer físico, quer moral.
De fato, enquanto no corpo natural o princípio de unidade junta <le
tal maneira as partes que cada uma fica sem própria subsistência, ao
comtrário no Corpo Místico a fôrça de mútua coesão, por mais íntima ojiie
seja, une os membros de modo que conservam perfeita e própria persona­
lidade. A lém disso, se considerarmos a relação entre o todo e os divo*rso:«
membros em todo e qualquer corpo físico dotado de vida, os membros
particulares destinam-se em última análise unicamente ao bem de toxlo o
composto, ao passo que tôda a sociedade de homens, considerado o fim
último da sua unidade, é finalmente ordenada ao proveito de todos e caola
um dos membros, como pessoas que são.
Portanto, para voltarmos ao nosso ponto como o Filho do Eterno Pai
clc>sceu do céu por amor da nossa eterna salvação, assim fundou o Corpo>
ola Igreja e o enriqueceu do seu divino espírito para procurar e conseguir
a bem-aventurança das almas imortais, conforme aquela sentença olo
Apóstolo: Tôdas as coisas são vossas; vós, porém, sois de Cristo e Cr is! o>
olo* Deus. A Igreja como é ordenada ao bem dos fiéis, assim é destinaola
à glória de Deus e à dAquele que Êle mandou, Jesus Cristo.
Se compararmos o Corpo Místico com o moral, veremos que a difero*no;a
ni io) é leve, mas importantíssima e gravíssima. No corpo moral não há
outro princípio de unidade senão o fim comum e a comum conspiração sob
a uuto>ridadc social para o mesmo fim ; ao passo que no Corpo Místio-o) ole
t|iie lalamos, a esta conspiração junta-se outro princípio interno, realmo*nte
<*xistente e ativo, tanto de todo o composto, como cm cada uma das partoís,
e !.ao> exeelcMite que supera imensamente todos os vínculos de unidade opa*
unem o corpo, quer físico, quer moral. Êste princípio é, conno acima olisse-
mos, olo* oroUíiti não natural mas sobrenatural, antes em si mesmo absoluta
mente infinito) e incriado: o Espírito divino, que, como diz o) Angélio-o,
"sendo um só o* o> mesmo enche e une tôda a Igreja” .
Por o-oMiseguinU* êste têrmo bom entendido lembra-nou? quo a Ign*ja,
Noo-ioolaolí* po*rfeita noi somi gênero), não comsta só doí o‘lo*mo'nfos sociais «*
jui iolicos. Kl a é muito mais exeelo*nto* opio; ciuaiso|uer outras socic*oladen
humanas, às opiais o*xom*o1o* opianto a graça supera a naturo*za, quanto as
0‘ o i m h h imortais so* avantajam às mortais o* caolucas. As o*omimidado*s huma­
nas, sobro*tuolo a Sociedade civil, nao sao para olov.pre/ar, 110*111 paia no-i
lidas em pouca conta; mas a Igreja não está tôda em realidades desta
ordem como o homem todo não é só corpo mortal. É verdade que os ele­
mentos jurídicos, em que a Igreja se estriba e de que se compõe, nascem
da divina constituição que Cristo lhe deu, e servem para conseguir o fim
sobrenatural; contudo o que eleva a sociedade cristã a um grau absoluta­
mente superior a tôda a ordem natural, é o Espírito do Redentor, que,
como fonte de tôdas as graças, dons e carismas, enche perpétua e intima­
mente a Igreja e nela opera. O organismo do nosso corpo é por certo
obra-prima do Criador, mas fica imensamente aquém da excelsa dignidade
da alma; assim a constituição social da república cristã, embora apregoe
a sabedoria do seu divino Arquiteto, é contudo de ordem muitíssimo inferior,
quando se compara aos dons espirituais de que se adorna e viv e e à fonte
divina donde êles dimanam.
I)e quanto até aqui levamos exposto, é evidente que estão em grave
ôrro os que arbitràriamente fingem uma Igreja como que escondida e
invisível; e não menos aquêles que a consideram como simples instituição
humana, com determinadas leis e ritos externos, mas sem comunicação de
vida sobrenatural.
Por isto lamentamos também e reprovamos o êrro funesto dos que
sonham uma Igreja fantástica, uma sociedade formada e alimentada pela
caridade, à qual, com certo desprêzo, opõem outra que chamam jurídica.
Enganam-se grandemente os que introduzem tal distinção; pois que vêem
que o divino Redentor pela mesma razão por que ordenou que a sociedade
humana por Êle fundada fôsse perfeita no seu gênero e dotada de todos
os elementos jurídicos e sociais, a saber, para perdurar na terra a obra
salutífera da Redenção, por essa mesma razão e para conseguir o mesmo
fim, quis que fôsse enriquecida de dons e graças celestes pelo Espírito
Paráelito. O Eterno Pai a quer, isto é óbvio, que ela seja o reino do seu
Filho muito amado; mas um reino em que todos os fiéis prestassem home­
nagem plena de entendimento e de vontade, e com humildade e obediência
se conformassem Àquele que por nós “ se fêz obediente até à morte” .
Portanto nenhuma oposição ou contradição pode haver entre a missão
invisível do Espírito Santo e o múnus jurídico dos Pastores e Doutores
recebido de Cristo; pois que as duas coisas, como em nós o corpo e a alma,
mutuamente se completam e aperfeiçoam e provêm igualmente do único
Salvador nosso, que não só disse ao emitir o sôpro divino: “ Recebei o
Kspírito Santo” , mas em voz alta e clara acrescentou: “ Como o Pai me
enviou a mim, assim eu vos envio a vós” , e também “ Quem vos ouve a
mim ouve” . .
E se às vêzes na Igreja se vê algo em que se manifesta a fraqueza
humana, isso não deve atribuir-se à sua constituição jurídica, mas àquela
lamentável inclinação do homem para o mal, que seu divino Fundador
às vêzes permite até nos membros mais altos do seu Corpo Místico para
provar a virtude das ovelhas e dos Pastores e para que em todos cresçam
os méritos da fé cristã. Cristo, como acima dissemos, não quis excluir da
sua Igreja os pecadores; portanto se alguns de seus membros estão espiri­
tualmente enfermos, não é isso razão para diminuirmos nosso amor para
cojin ('Ia, mas antes para aumentarmos a nossa compaixão para com os seus
membros.
Sem mancha alguma, brilha a Santa Madre Igreja nos Sacramentos com
que M.cni o sustenta os filhos; na fé que sempre conservou e conserva
inconlaniinadn; nas leis sanlissimas que a todos impõe, nos conselhos
evangélicos o|uo dá; nos dons o> f. raças celestovs, pelos quais comi inexaurível
fecundidade produz, lej',ioc:; de mártires, virgens <• confessores. Ni-m é sua

Mi
culpa se alguns de seus membros sofrem de chagas ou doenças; por <*Io*h
ora a Deus todos os dias: “ Perdoai-nos as nossas dívidas” e incessanto*mo'nt<*
com fortaleza e ternura materna trabalha pela sua cura espiritual.
Quando, por conseguinte, denominamos “ místico” o Corpo do Jesus (Visto,
n fôrça mesma do têrmo é para nós uma grave lição; a lição que ressoa
nestas palavras de S. Leão: “ Reconhece, ó cristão, a tua dignidade; o f e i l o
consorte da natureza divina, vê que não recaias por um comportamento
indigno na tua antiga baixeza. Lem bra-te de que Cabeça e de que Corpo
ós membro” .
A Igreja Católica, portanto, é um grande mistério visível, por que visível
é a sua Cabeça sôbre a terra, o Vigário de Cristo, visíveis são os seu:;
ministros, visível a sua vida, visível o seu culto, visível a obra e a açao
sua para a salvação e perfeição dos homens. V isível é também a sua indo*-
fectibilidade, enquanto que é historicamente demonstrável, e o seu caminho
passado é penhor de seu futuro. De que um grande historiador não católico
do século passado, após ter reconhecido malgrado seu, que a Igreja católica
permaneceu “ plena de vida e de vigor juvenil” , observa: “ Se nós ro*fl(*l.imo>:.
nos tremendos assaltos aos quais ela sobreviveu, é impossível compro-oMioler,
de que modo afinal ela poderia perecer” . Mas se tal indefectibilidade pode :e
mostrar por via de experiência, é um mistério entretanto porque não é
explicável naturalmente, mas só com o fato por nós conhecido pela revelação
olivina, que Cristo, que a fundou, está com ela em tôdas as lutas, ato'< o> fim
dos séculos ( ’ ).
* * #

A Igreja também teve e tem sua primavera, maravilhosa, como ela. As


grandes solenidades de Páscoa, da Ascensão e de Pentecostes, na estação em
<|tie a natureza acordando para nova vida, se adorna de verde e de flôres, e
«•om íntimo borbulhar de atividade se prepara para dar o dom de suas mess«?N
o* de seus frutos, não formam talvez uma primavera espiritual, que nos
torna mais doce e, cara e bela a primavera da natureza? Elas são um sol
do* três grandes verdades, e de três grandiosos fatos históricos, do* lies
mistérios de primário fulgor na obra da Redenção. São três pilastras funda
moMitais e inconcussas no gigantesco edifício da Santa Igreja. Em suas luzes,
o*m sua sobrenatural solidez, estas verdades, em cada século da história da
lgro*ja igualmente presentes e igualmente patentes a tôdas as gerações dos
fiéis, iluminam com a realidade histórica da primavera do cristianismo, o
seu verdejar, o seu vigor e o seu florescer, embora entre ventos e proeodas,
porciue o cristianismo nasceu gigante, aureolada a fronte com os rai«>s
da<|uelas três verdades, que dão início à época designada por justo título
de hoM-óica: o>s três séculos da fundação da Igreja até a paz com o Império
Romano» no ano> de 312, ao tempo de Constantino.
fístois três fundamentais mistérios, quais fulgidíssimos esplendo)to*s oln luz
«Io mundo que é Cristo, dirigem e acompanham o caminho da jovem Igr«*.|n
Knpôsa do* Cristo, guiam-lhe os passos e a alentam através da selva esoMira
oIo paganismo», e a subir ao monte de sua predestinada grandeza. A menl«>
com tenaz constância, firmo na fé da Restauração e na da própria r<*ssur-
teiçjit), o olhar voltado co»m santa ânsia para o Glorifieado, sentado à olireila
«Io l ’ai, o* paia a Celeste Jerusalém, ('terna e feliz habitação para os opie
permanec«*i,ão fiéis até o fim, a alma dominada pela certeza ola pivsençn
auxiliadora olo Kspírito, prometido o enviado por .Jojsiis; o»s primeiros cris
Inos vós os vo*roMs alçar-so* po)i* elevação de pensamento, po>r vigor do> açno,
por o^iragem o* o,ompo*tiçao de ho*ro)ísmos moirai s, na afirmação da lé, nas

(I) liiililln i " M v * 11« I 0 .01 ( h i i I * O ln lill", VI «Ir Jmilio, 1 ‘ ) - 11 .

V/
lutas e nos sofrimentos, deixando um exemplo, cuja fôrça conquistadora se
manifesta e se propaga de século em século até os nossos dias, antes mais
do que nunca em nossos dias, quando para salvar e guardar a honra e o
nome cristão é necessário suportar não outras lutas e afrontar desiguais
embates. Diante de tais atletas, sôbre cujas cabeças com o louro vitorioso
da milícia cristã se entrelaça muitas vêzes a palma do martírio, desaparece
tôda incerteza e hesitação. A advertência, que a tão alta voz nos dá a
heróica vida dêles, não basta talvez para desanuviar as mentes, para
revigorar os corações, para levantar as frontes dos cristãos de hoje, tor­
nando-os conscientes da nobilíssima dignidade, anelando à excelsa grandeza,
compenetrados pela responsabilidade, que infunde em suas almas a pro­
fissão cristã?
Desta primeira cristandade, a cujos inícios nos reconduzem as próximas
solenidades da Ascensão e de Pentecostes, o perfil espiritual refulge de
quatro notas características e inconfundíveis:
1) inabalável certeza de vitória, apoiada sôbre uma fé profunda;
2) serena e ilimitada prontidão ao sacrifício e aos sofrimentos;
3) ardor eucarístico e interioridade, rompendo da convicção da eficácia
social de um pensamento eucarístico sôbre tôdas as formas da vida
social;
4) aspirações para uma unidade de espírito e de hierarquia sempre mais
compacta e inquebrável.
Êste quadrúplice caráter da juventude da Igreja apresenta em cada nota
dominante um apêlo e ao mesmo tempo uma esperança e uma promessa
para a Cristandade de nossos dias. Mas o verdadeiro cristianismo de hojç.
não é diverso do primitivo. A juventude da Igreja é eterna; porque a
Igreja não envelhece, mudando o passo segundo as condições do tempo, em
seu caminho para a eternidade; os séculos que conta são para ela um dia,
como são um dia os séculos que a esperam. A sua juventude dos tempos
de César é a mesma que fala a nós ( 2).

* # #

A Igreja Católica, da qual Roma é centro, por sua própria essência é


supranacional. Tem êste fato um duplo sentido: negativo e positivo. A
Igreja é mãe — sancta mater Ecclesia — uma verdadeira mãe, mãe de
tôdas as nações e de todos os povos, não menos que de todos e cada um
dos homens; e precisamente por ser mãe não pertence nem pode pertencer
exclusivamente a êste ou àquele povo, nem tampouco a um povo mais nem
a outro menos, senão a todos igualmente. É mãe, e, por conseguinte, não
pode ser estrangeira em nenhuma parte. Vive, ou, ao menos, por razão
da sua natureza, deve viver em todos os povos; e, além disso, enquanto a
mãe, com seu espôso e seus filhos forma uma família, a Igreja, em virtude
oh» urna união incomparàvelmente mais estreita, constitui o que é mais e
melhor do que uma família: o Corpo Místico de Cristo. A Igreja é, portanto,
supranacional, porque é um todo indivisível e universal.
A Igreja une tôdas as zonas e todos os tempos da Humanidade redimida,
so*rn o‘x(’('(,'ão alguma.
Kstnbelerida firmemente com tão profunda raiz, a Igreja, presente como
só* acha no meio de tôda a história do gênero humano, no campo agitado
c revolto do? e>m*rgias divergentes e de tendências opostas, embora exposta

(X) K.iilln II (I r mulo, l'M 1,

fW
a todos os assaltos dirigidos contra a sua indivisível integridade, está tão»
longe de ser por êles abalada, que da sua própria vida de integridade c
de unidade irradia e difunde sempre novas fôrças salutares e unificadoras
na humanidade lacerada e dividida, fôrças de unificante graça divina,
fôrças do espírito unificante, de que todos têm tanta fome; verdades quo
sempre e em tôdas as partes valem, ideais que ardem sempre e em tôdas
as partes.
Por isto se vê que era e é um sacrílego atentado contra o totus Christus,
Cristo em sua integridade, e ao mesmo tempo um golpe nefasto contra a
unidade do gênero humano o haver pretendido ou pretender tornar a Igreja
como prisioneira ou escrava dêste ou daquele povo particular e confiná-la
nos estreitos limites de uma nação ou também desterrá-la. Êste desmem­
bramento da integridade da Igreja diminuiu e diminui — • tanto mais quanto»
por mais tempo se prolonga ■ — nos povos que são vítimas dêle o bem da
sua efetiva e plena vida.
Porém o individualismo nacional e estatal dos últimos séculos não
pretendeu somente vulnerar a integridade da Igreja, debilitar e pôr
obstáculo às suas fôrças unitárias e unificadoras, aquelas mesmas fôrças
que exerceram outrora uma função essencial na formação da unidade olo»
Ocidente europeu. Um liberalismo antiquado quis, sem a Igreja e comtra
Ela, criar a unidade mediante uma cultura laica e um humanismo secula-
rizado. Aquém e além, como fruto da sua ação dissolvente, e ao mesmo»
tempo como inimigo seu, sucedeu-lhe o totalitarismo. Numa palavra, qual
foi, após pouco mais de um século, o resultado de todos aquêles esforçois
sem a Igreja e muitas vêzes contra ela? O túmulo da sã liberdade humana,
as organizações forçadas, um mundo que em brutalidade e barbárie, om
destruições e ruínas, mas, sobretudo, em funesta desunião e em falta do;
segurança, não havia conhecido outro igual.
Num tempo turbulento como é o nosso, a Igreja, por seu bem próprio
e da humanidade, deve procurar por todos os meios fazer valer sua indi­
visível e indivisa integridade. Ela tem de ser, hoje mais do que nunca,
supranacional. Êste espírito deve penetrar e imbuir a sua Cabeça visível, o»
Sacro Colégio, tôda a ação da Santa Sé, sôbre a qual agora gravitam
importantes deveres relacionados não só com o presente, mas mais ainda
com o futuro.
Aqui se trata principalmente de um fato do espírito, de ter o sentimento»
justo desta supranacionalidade e não de medi-la, ou de calculá-la com
proporções matemáticas ou na base de estatísticas rigorosas sôbre a nacio»-
nalidade de cada uma das pessoas. Nos largos períodos de tempo em quo»,
por disposição da Providência, a nação italiana mais que outras tom olado
á Igreja a sua Cabeça e muitos colaboradores ao govêrno central da Santa
Sé, a Igreja no seu conjunto conservou sempre intato o seu caráter .supra ­
nacional.
Supranacional porque abraça, com um mesmo amor, tôdas as naçÕo*s <*
t.oxlos os povos, tem ainda êste caráter porque, como já dissemos, cm parto
alguma é estrangeira. V ive e desenvolve-se em todos os países do» inundo,
o* por sua vez, todos o« países do mundo contribuem para a sua vida o*
desenvolvimento.
Assim hoje se cumpre cada vez mais da Igreja o quo Sto. Agostinho
louvou na sua “ Cidade de Deus” . “ A Igreja, escrevia, chama o»s so*us ciola
olaos do ('ntro tôdas as gentes, e om tôdas as línguas roúno sua. comunidade
poTogrina sôbre* a to*rra, S('m so* preocupar co»m a diversiolado* do* costumes,
olo* lois, o»u instituições; nada disso» rescindo* o»u oloí.strói; anto*s tudo conserva
«• wguo. Kmhorn vario* olo* nação» para nação, dirigo* para o> mo*:;mo) o* único

f.'»
fim de paz terrena, se não puser obstáculo à religião do único, sumo e
verdadeiro Deus” .
A Igreja na sua universal integridade, como farol potente, projeta seu
raio de luz nestes dias de obscuridade que atravessamos.
De Nossa parte, Nós ansiamos por tornar êste edifício cada vez mais
sólido, cada vez mais habitável para todos sem exceção. Por isso nada
queremos omitir de quanto possa expressar visivelmente a supranaciona-
1idade da Igreja, como sinal do seu amor a Cristo, a quem ela vê e serve
na riqueza dos seus membros espalhados pelo mundo inteiro ( 3).

* * *

A Igreja, enviada pelo divino Salvador a todos os povos para conduzi-los


à salvação eterna, não pretende intervir e tomar partido nas controvérsias
sôbre matérias puramente terrenas. Ela é Mãe, e não peçais a uma mãe
que favoreça ou se oponha a um ou a outro de seus filhos. Todos devem
encontrar e experimentar igualmente nela aquele amor perspicaz e generoso,
aquela íntima e inalterável ternura que dá fôrça aos filhos fiéis para
marchar com passo mais firm e pelo largo caminho da verdade e da luz e
inspira aos extraviados e errantes a ânsia de acolher-se de novo à sua
direção maternal ( 4).
* # #

Qualquer observador atento, capaz de considerar e apreciar as circuns­


tâncias presentes na sua realidade concreta, fica necessàriamente impres­
sionado à vista dos graves obstáculos que se opõem ao apostolado. Do
mesmo modo que a massa de lava incandescente escorre, metro a metro,
pelos flancos do vulcão, assim a onda devastadora do espírito do século
avança ameaçadora e se propaga em todos os campos da vida e em tôdas
as classes da sociedade.
A marcha e o ritmo, e de igual modo os efeitos, variam segundo os
diversos países, desde o desconhecimento, mais ou menos cônscio, do influxo
social da Igreja até à hostilidade aberta e de verdadeira perseguição ( 5).
* * *

A Igreja, porém, não pode circunscrever-se inerte no segrêdo de seus


templos, desertar de sua missão divinamente providencial de formar o
homem completo, e com isto colaborar sem descanso na constituição do
sólido fundamento da sociedade. Tal missão é nela essencial. Considerada
dêste lado, a Igreja pode-se dizer a sociedade daqueles que, sob o influxo
sobrenatural da graça, na perfeição de sua dignidade pessoal de filhos de
Deus e no desenvolvimento harmônico de tôdas as inclinações e energias
humanas, edificam a potente armadura da convivência humana.
Assim o sentido prccípuo desta sobrenaturalidade da Igreja é dar està-
vo'hnente figura e forma ao fundamento da sociedade humana, acima de
tôdas as diversidades, além dos limites do espaço e do tempo. Tal obra é
árdua, especialmente em nossos dias, nos quais a vida social parece ter-se
tornado para o homiern um enigma, um incxtricável desenvolvimento.
Circulam no mundo omtôikvis opiniões (jue declaram um homem culpável

(!í) A li>n ti,f l< i ;u> .N;i i h i 0 til/-ul<>, *.M i l r iliv c m b in , 1 *1-1 *>.
( I) A ln i .n> Y u in 0 (ilf u l i i , VI ilr ilr/rm lili> , llllli.
(^) Alix .in S.Kiii < oI^k Iu , VI <li' i !«•/«■iiiI>in, HIMI.

til)
e responsável, somente porque é membro ou parte de uma determinada
comunidade, sem preocupar-se de procurar e examinar se de sua parto*
existiu verdadeiramente uma culpa pessoal de ação ou de omissão. Isto
significa arrogar-se os direitos de Deus, Criador e Redentor, que só nos
misteriosos desígnios de sua sempre amorosa Providência é Senhor absoluto)
dos acontecimentos e como tal concatena, se assim julga em sua infinita
sabedoria, as sortes dos culpados e dos inocentes, do responsável e do não)
responsável. A isto se adiciona que sobretudo as complicações de ordem
econômica e militar têm feito da sociedade como uma máquina gigantesca,
da qual o homem não tem mais o domínio e que, pelo contrário, teme. A
continuidade no tempo sempre aparecerá como essencial para a vida social,
e parecia que esta não pudesse conceber-se isolando o homem do passado,
do presente e do futuro. Ora tal é exatamente o desconcertante fenômeno,
do qual hoje somos testemunhas. Muitas vêzes de todo o passado não) se
sabe mais quase nada, ou apenas o que basta para adivinhar os trao;o)s
confundidos no cúmulo de ruínas. O presente não é para muitos senão) a
fuga desordenada de uma torrente que precipita os homens, como rosto is
de um naufrágio, para a noite obscura de um futuro, no qual êles vão
perder-se, juntamente com a corrente que os arrasta.
Somente a Igreja pode reconduzir o homem daquelas trevas, para a luz;
ela somente pode dar-lhe a consciência de um vigoroso passaolo, a po)sso*
do presente, a segurança do futuro. Mas a sua supranacionalidade nao
opera à guisa de um Império, que lança os seus tentáculos em tôdas as
direções com a mira de uma dominação mundial. Como uma mãe de família,
ela cada dia reúne na intimidade todos os seus filhos dispersos no munolo,
recolhe-os na unidade do seu vital princípio divino ( G).

(I I) A I < m i i ^; i <i ,i i n M iM ui i.ndiM ln, !£ < l r Irir n iio , l !l l <> .

(.1
SÔBRE AS IGREJAS ORIENTAIS
Tôdas as Igrejas Orientais — como ensina a história — foram sempre
amadas com terníssimo afeto pelos Romanos Pontífices, e por isto êles sofrem
com o afastamento delas, do único redil, e “ levados, não por humanos inte­
rêsses, mas somente pela divina caridade e pelo desejo da salvação comum”
convidaram-na com repetidas instâncias a retornar o quanto antes possível
àquela unidade da qual miseràvelmente se afastaram. Pois que os mesmos
Sumos Pontífices bem sabem por experiência a abundância dos frutos que
derivam desta união, felizmente reintegrada, para tôda a sociedade cristã,
e em particular para os mesmos orientais. Realmente da plena e perfeita
união de todos os cristãos não pode deixar de derivar um grande incremento
no corpo místico de Jesus Cristo e para cada um de seus membros.
A tal propósito note-se que os orientais não têm a temer serem constran­
gidos, a retornar na unidade da fé e de govêrno, a abandonar os seus legíti­
mos ritos e usos: o que os Nossos Predecessores mais de uma vez abertamente
declararam. “ Não há razão de duvidar que por isto ou Nós, ou os Nossos
Sucessores tirarão algo que do vosso direito, dos vossos privilégios patriar­
cais e dos rituais usos de cada Igreja” .
E se bem que não seja ainda chegado aquêle faustoso dia, no qual Nos
será possível abraçar com paterno afeto todos os povos do Oriente, retornados
ao único redil, todavia vemos com alegria que não poucos filhos destas re­
giões, tendo reconhecido a Cátedra de Pedro, como a rocha da unidade cató­
lica, perseveram com suma tenacidade, defendendo e estabelecendo esta
mesma unidade ( x).
# #

As Igrejas Orientais na idade mais recente, e também em a nossa, sempre


formaram, de modo particularíssimo, o objeto de Nossa solicitude, como a
todos é óbvio; realmente, apenas fomos elevados, sem mérito algum Nosso,
pelo arcano desígnio de Deus, à Cátedra do Príncipe dos Apóstolos, voltamos
Nossa mente e Nosso coração àqueles que “ se encontram fora da Igreja Ca­
tólica” , e que Nós ardentemente desejamos retornem o quanto antes ao redil
do Pai comum, habitação de seus antepassados.
Outras provas de Nossa paterna benevolência demos durante o curso de
Nosso Pontificado.
Mas no presente, infelizmente, outros motivos reclamam as nossas solici-
tudes, os Nossos cuidados. Realmente em muitas regiões onde está vigente
particularmente o Rito Oriental, desencadeou-se uma nova tempestade, que
procura revolver, devastar e destruir, miseràvelmente, florescentes comuni-
olaol(>s cristãs. Se nos séculos passados era impugnado algum dogma particular
ola doutrina cutólio’n, hoje* age-se mais do que; temeràriamcnte; procura-se
cnnovliir olo o-onsórcio) civil, da família, das universidades, das escolas e da
(I) Oiiitln I | | | | < 11(11 "0 )i I r n u l i ' » O tim im I'i ■I r i l u t " , 1Í 5 i l r ilr/rm l> n > , l l ) l ri.
vida das populações, tudo o que é divino ou que diz relações à divindade;,
como se se tratasse de coisas fabulosas e nefastas, e são conculcados direitos,
instituições e leis sagradas. Sabemos que existem muitíssimos cristãos do
rito oriental que hoje choram amargamente vendo seus Bispos ou mortos
ou dispersos ou quase totalmente obstaculados de modo a não poderem livre1-
mente dirigir a palavra aos seus rebanhos, nem exercitar sôbre êles, como>
convém, sua autoridade, vendo não poucos de seus templos destinados a usos
profanos, ou relegados ao mais esquálido abandono; sabendo que já não
podem mais levantar dêstes templos ao céu as vozes daqueles que rczani,
admiràvelmente moduladas segundo as normas da vossa liturgia, para fazei-
descer o orvalho das celestes graças para elevação das mentes, para conso­
lação dos corações, e remédio de tão grande cúmulo de males.
Sabemos que muitos foram deixados nos cárceres ou nos campos de con­
centração, ou mesmo, se vivem em suas casas, não podem exercitar os saems-
santos direitos que lhes cabe; não só os direitos de professar a própria fé
no íntimo santuário da própria consciência, mas também de poder aberta­
mente ensiná-la, defendê-la e propagá-la, no âmbito familiar, para a con­
veniente educação da prole, e na escola, para a reta formação dos alunos.
Sabemos, entretanto, também que os filhos da Igreja Oriental, irmanan­
do-se com os fiéis do rito latino, juntamente suportam com fortaleza os lutos
desta perseguição, e juntos igualmente participam do martírio, do triunfo
e da glória, que disto deriva. Realmente, com ânimo heróico perseveram na
própria fé; resistem aos inimigos do cristianismo com a mesma invicta foir-
taleza com que resistiram um tempo os seus antepassados; elevam suas sú ­
plicas ao Céu, se não publicamente, ao menos em privado, permanecem fiel­
mente unidos com o Romano Pontífice e com os seus Pastores; assim também
veneram de modo particular a Bem-aventurada Virgem Maria, Rainha amo­
rosíssima e potentíssima do Céu e da terra, a cujo Coração Imaculado
todos nos consagramos. Tudo isto é, sem dúvida auspício de vitória ee*rfa
para o futuro, vitória, porém, que não brota do sangue dos homens e*m
luta entre si, que não é alimentada por um desenfreado desejo de poténo-ia
terrena, mas que se baseia sôbre a conveniente e legítima liberdade, sobre*
a justiça, praticada não só com palavras mas também com fatos, para com e>s
cidadãos, os povos e as nações; sôbre a paz e caridade fraterna, que une*m
todos com vínculo de amizade; sôbre a religião, sobretudo, que ordena reta­
mente os costumes, modera as aspirações privadas, colocando-as a sorvie;e>
do bem público, eleva as mentes ao Céu, e finalmente tutela o consórcio civil
e a concórdia de todos.
Isto forma o objeto de Nossas mais vivas esperanças; eis porém que as
notícias que nos chegam são tais a nos tornarem mais aguda a dor. Dia o*
noite Nós com paterna solicitude volvemos Nossa mente e o Nosso eora<;ão
àeiucles que Nos foram confiados por divino mandamento, e quo sabo*mos
são tratados em alguns lugares de maneira tão indigna; que se tornam obje*-
fos de calúnias, pelo seu firm e apêgo à fé católica, e são privaolos do* :;o*us
l<*gítimos direitos, não excluídos algumas vêzes também aquêle;s ine*re*nlo>s
á natureza humana, que se são conculcados com a violência, com o te*mor
ou com outro qualquer meio, desaparece a própria dignidade do he>im*m.
Isto tudo é para Nós motivo de dor tão acerba que não podemos n*ter as
lájírirnas, enquanto) oramos a Deus clementíssimo e Pai de tôdas as miserio-oV
elias ejueí queira benevolamente iluminar os responsáveis elo* uma situaçae>
lao triste*, e* e|ue*ira também pôr fim a tantos malo;s.
Texlavia, e>m me*io a tantas e* tão) /íran<le*s o-alamiolade:: o|ue* pun/;e*m o Nosso
c vosso) espirito, podemos tirar alguns motivos olo* ce>nlY>rLe> das noticias o|iie
nos e'he*j:nram. !)(* lato INos sabemos e|ilo* ao|Uele‘S que estao> em lao deploráveis

(.1
c críticas condições permanecem firmes na própria fé com tal intrépida cons­
tância que ganham a admiração Nossa e de todos os honestos. A todos êstes,
portanto, chegue o nosso louvor paterno, que aumente e ajude sempre mais
a sua fortaleza; fiquem firmemente certos que Nós, como Pai comum que
“ a ânsia por tôdas as Igrejas move” e a “ caridade de Cristo impele” , levan­
tamos todos os dias fervorosas súplicas, a fim de que o Reino de Jesus Cristo,
que traz paz às almas, aos povos e às nações, em tôda parte triunfe.
Diante dos tristes espetáculos de tais males, que feriram não somente os
Nossos filhos do laicado, mas sobretudo os revestidos da dignidade sacerdo­
tal, exatamente para que se verifique aquilo que na Sagrada Escri tura se
lê: “ Ferirá o Pastor, e serão dispersas as ovelhas do rebanho” , não podemos
deixar de chamar a atenção de todos que, ao longo do curso dos séculos, não
só junto dos povos civis, mas também nos bárbaros, os sacerdotes, enquanto
intermediários entre Deus e os homens, sempre foram circundados da devida
veneração. Quando, pois, o Divino Redentor, dissipadas as trevas do êrro,
nos ensinou as verdades celestes, quis por sua benevolência nos tornar par­
ticipantes do seu eterno sacerdócio, então esta veneração cresceu ainda mais,
de modo que os Bispos e Sacerdotes foram considerados como pais amorosís­
simos, desejosos unicamente do bem comum dos povos a êles confiados.
Dissera, porém, nosso divino Redentor: “ O discípulo não está acima do
Mestre” ; “ se me perseguiram, a vós também haverão de perseguir” ; “ bem-
aventurados sereis quando vos ultrajarem e perseguirem e, mentindo, disse­
rem de vós todo mal, por m i nha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande
será a vossa recompensa no céu” . —
Não há, pois, razão de nos maravilharmos se em nossos dias, e também
mais do que nos séculos passados, a Igreja de Jesus Cristo, e de modo par­
ticular os seus ministros são feridos pela perseguição, mentira, calúnias e
aflições de todos os gêneros; mas recoloquemos antes a nossa esperança
Nêle, que se já predisse as calamidades futuras, quer entretanto precaver-
nos com estas palavras: “ No mundo tereis de sofrer; mas animai-vos, eu
venci o mundo” .
Por aquelas fileiras de pessoas que em tais regiões sofrem enfermidade,
dores e angústias, ou se encontram no cárcere, se não podemos pôr em prá­
tica as palavras de Jesus “ estava enfêrmo e me visitastes; estava no cárcere,
e viestes procurar-me” , todavia alguma coisa podemos fazer a tal respeito;
com as nossas preces e obras de penitências podemos impetrar de Deus
misericordiosíssimo que queira enviar os seus anjos consoladores a êstes
irmãos e filhos Nossos sofredores, e igualmente lhes queira conceder copiosís-
simos dons celestes, que consolem e reforcem seus ânimos, e os eleve às coisas
celestes.
De modo particular, pois, desejamos que todos os sacerdotes, que cada
dia podem oferecer o Sacrifício Eucarístico, se recordem dos Bispos e dos
Sacerdotes que, longe de suas Igrejas e de seus fiéis, não têm a possibili­
dade de aproximar-se do altar para celebrar o divino sacrifício e nutrir a
si mesmos e aos seus fiéis do alimento divino, do qual as nossas almas hau-
rem uma doçura que supera todo desejo, e recebem aquela fôrça que con­
duz à vitória. Vinculados por fraterna união entre si, façam isto também
os fiéis, que participam da mesma mesa e do mesmo sacrifício: de modo
quo ('in cada parte da terra e em todos os ritos, que constituem ornamento
da Igreja, elevem-se a Deus e a sua celeste Mãe unânimes vozes dos que
oram para i inp<'trar a divina misericórdia a favor destas aflitas comuni-
o l;u l('S de cristãos ( a).

('/) I n ■I<II* .< " < >i irniiilr IicIipiIii", I ’> ili i l t vnnl i m.

(•I
A IGREJA E O ESTADO

AS DIFERENÇAS ESSENCIAIS ENTRE A


R E G U LA M E N TA Ç Ã O JU D IC IA L E C LE SIÁ S TIC A E A C IVIL,
CONSIDERADAS EM SUAS ORIGENS E EM SU A N A T U R E Z A

Um rápido olhar superficial à lei e às suas praxes judiciárias poderia fazc‘r


crer que a regulamentação processual eclesiástica e a civil apresentem dife­
renças somente secundárias, e quase que como as que se notam na admi­
nistração da justiça em dois estados civis da mesma família jurídica. Tam ­
bém no escopo imediato elas parecem coincidir: atuação ou asseguração do
direito estabelecido pela lei, mas no caso particular contestado ou ofendido,
por meio de sentença judiciária, ou seja, mediante juízo emanado da autori­
dade competente em conformidade com a lei. Os vários graus da instância
judiciária encontram-se igualmente em ambas; a regulamentação mostra o-m
ambas os mesmos principais elementos: pedido de introdução da causa, cita­
ção, exame dos testemunhos, comunicação dos documentos, interrogatório das
partes, conclusão do processo, sentença, direito de apêlo.
Não obstante, esta larga semelhança externa e interna não se pode esque­
cer as profundas diferenças que existem primeiro na origem e na natureza,
segundo no objeto, terceiro no fim C1).

* * *

O poder judiciário é parte essencial e função necessária do poder nas duas


sociedades perfeitas, a eclesiástica e a civil. Por isto a questão da origem do
poder judiciário identifica-se com a da origem do poder.
Mas exatamente por isto, além da semelhança já acenada, acreditou-se
encontrar outras também mais profundas. É coisa singular ver como alguns
sequazes das várias concepções modernas em tôrno do poder civil tenham
invocado, para confirmar e sustentar suas opiniões, as presumidas analogias
o-om o poder eclesiástico. Isto vale não só para o assim chamado “ totalita­
rismo” e “ autoritarismo” senão também para o seu oposto, a moderna de>-
mocracia. Mas em realidade aquelas semelhanças mais profundas não exis-
to'in cm nenhum dos três casos, como um breve exame demonstrará fiVil
mente.
fí incontestável que uma das exigências vitais de tôda vida humana em
comum, portanto também da Igreja e do Estado, consiste em assegurar du-
ràvo*lmente a unidade na diversidade de seus membros.
Ora o “ totalitarismo” jamais poderá satisfazei- aquela exigência, poro|uo>
êle da ao> pouler civil uma extensão indébita, determinada e fixa no con­
teúdo), e na forma, a todos o>s campos de atividade, o> em modo tal com
primo* tòola legitima vida própr ia pessoal, local e profissional em uma

(I) A l <i t Iiiiiiiuiiinv ilit iin n jin ltllm S K o m .u u K nlii, ili ih i I i i Ih i i , 1 'IIV
unidade ou coletividade mecânica, sob a forma de nação, de raça, ou de
classe.
Em nossa rádio-mensagem do Natal de 1942 mostramos particularmente
as tristes conseqüências para o poder judicial daquela concepção e costume
que suprimem a igualdade de todos diante da lei e deixam as decisões
judiciárias ao alvitre de um mutável instinto coletivo.
Ue resto, quem poderia jamais pensar que semelhantes errôneas interpre­
tações violadoras do direito tenham podido determinar a origem ou influir
sôbre a ação dos tribunais eclesiásticos? Isto não aconteceu nem poderá
jamais acontecer porque é contra a própria natureza do poder social da
Igreja, como logo veremos.
Mas aquela exigência fundamental está bem longe de satisfazer também
a outra concepção do poder civil, que pode ser designada com o nome de
“ autoritarismo” , porque exclui os cidadãos de qualquer eficaz participação
ou influxo na formação da vontade social. Rompe, conseqüentemente a
nação em duas categorias, a dos dominadores e a dos dominados, e as recí­
procas relações tornam-se puramente mecânicas, sob o império da fôrça,
ou têm um fundamento meramente biológico.
Ora, quem não vê como de tal modo a verdadeira natureza do poder
estatal permanece profundamente abalada? Êste, realmente, e por si mesmo
e mediante o exercício de suas funções, deve tender a que o Estado seja
uma verdadeira comunidade, intimamente unido no fim último, que é o
bem comum. Mas neste sistema o conceito de bem comum torna-se tão frá ­
gil e se mostra claramente com uma falaz capa de interêsse unilateral de
dominador, que um desenfreado “ dinamismo” legislativo exclui tôda segu­
rança juríciica, e portanto suprime um elemento fundamental de tôda ver­
dadeira ordem jurídica.
Jamais um tão falso dinamismo poderia submergir e remover os direitos
essenciais reconhecidos às singulares pessoas físicas e morais da Igreja. A
natureza do poder eclesiástico não tem nada de comum com tal “ autorita­
rismo” , ao qual portanto não se pode reconhecer ponto algum de coinci­
dência com a constituição hierárquica da Igreja.
Permanece para ser examinada a forma democrática do poder civil, na
qual alguns quereriam encontrar mais estreita semelhança com o poder
eclesiástico. Sem dúvida, onde há uma verdadeira democracia teórica e prá­
tica, ela deve adequar aquela exigência vital de tôda sã comunidade, que
acenamos já. Mas isto se verifica, ou pode à paridade de condições veri­
ficar-se, também em outras legítimas formas de govêrno.
Certamente a Idade Média Cristã, particularmente alentada pelo espí­
rito da Igreja, com sua abundância de florescentes comunidades democrá­
ticas, mostrou como a fé cristã sabia criar uma verdadeira e própria demo­
cracia, e, antes, é dela a única e duradoura base. Pois que uma democracia
sem a união dos espíritos, aos menos na máxima fundamental da vida, so­
bretudo relativamente aos direitos de Deus e à dignidade da pessoa humana,
ao respeito para com a honesta atividade e liberdade pessoal, também nas
coisas políticas, uma tal democracia seria defeituosa e mal alicerçada. Quan­
do portanto o povo se afasta da fé cristã ou não a coloca resolutamente
como princípio de vida civil, então também a democracia fàcilmente se altera
o se deforma c com o transcorrer do tempo está sujeita a cair em um “ tota­
litarismo” o no “ autoritarismo” de um só partido.
Sc dc outra parto*, tcm-sc presente a tese preferida pela democracia —
tc.sc o|uc in:;ij;n<*s pensmle>rcK cristãos cm todos os tempos propu^naram, isto
{', o|iic o .sujeito eiriKiimrio olo po>de*r civil olo‘rivantc elo; Deus c o povo (não

(>(»
a massa), torna-se sempre mais clara a distinção entre a Igreja e o Estado
(também o estado democrático) ( 2).

* # *

O poder eclesiástico é essencialmente diverso do poder civil e portanto)


também o poder judiciário o é na Igreja.
A origem da Igreja, ao contrário da origem do Estado, não é de direito)
natural. A mais ampla e acurada análise da pessoa humana não oferece ele­
mento algum para que se conclua que a Igreja, igual à sociedade civil, teria
naturalmente nascido e se desenvolvido. Ela provém de um ato positivo) tio*
Deus, fora e acima da índole social do homem, embora com esta em per­
feita harmonia; por isto o poder eclesiástico — e portanto também o cor­
respondente poder judiciário — nasceu da vontade e do ato com a qual
Cristo fundou a sua Igreja. Isto não implica porém que uma vez consti­
tuída a Igreja, como sociedade perfeita, por obra do Redentor, de sua ín­
tima natureza brotem não poucos elementos semelhantes à estrutura ola
sociedade civil.
Em um ponto entretanto aquela diferença fundamental aparece parti­
cularmente óbvia. A fundação da Igreja como sociedade efetuou-se, ce>n-
tràriamente à origem do Estado, não de baixo para cima, mas do alto para
baixo, isto é, Cristo, que em sua Igreja fundou sôbre a terra o R e i n o olo*
Deus por Êle anunciado e destinado para todos os homens e todos os te*m-
pos, não confiou à comunidade dos fiéis a missão de Mestre, de S a c e r d o l o *
e de Pastor recebida do Pai para a salvação do gênero humano, mas a trans­
mitiu e a comunicou a um Colégio de Apóstolos ou enviados, por ftle
eleitos, a fim de que com as suas pregações, com o seu ministério sacer­
dotal e com o poder social de seus ofícios fizessem entrar na Igreja a mul­
tidão dos fiéis, para santificá-los, iluminá-los e conduzi-los à plena matu­
ridade dos seguidores de Cristo.
Examinai as palavras com que Êle lhes comunicou os seus poderes: po­
der de oferecer o sacrifício em memória dêle, poder de tirar os pecaele>s,
prometeu e conferiu o poder supremo das chaves a Pedro e aos seus suces­
sores, pessoalmente, comunicação do poder de ligar e solver, a todos os
apóstolos. Meditai finalmente as palavras com as quais Êste, antes do Sua
ascensão, transmite a êstes mesmos apóstolos a missão universal, quo file*
tinha recebido do Pai. Há porventura em tudo isto algo que fôsse dar lugar
a dúvidas ou equívocos? Tôda a história da Igreja, de seu início até nossos
dias, não cessa de ser eco àquelas palavras e de dar o mesmo testemunho)
com uma clareza e uma precisão que nenhuma sutileza poderia perturbar
ou esconder. Ora tôdas estas palavras, todos êstes testemunhos proclamam
unissonamente que no poder eclesiástico a essência, o ponto central segundo
a expressa vontade de Cristo, portanto, por direito divino, é a missão dada
por Êle mesmo aos ministros da obra de salvação junto da comunidade»
dos fiéis e junto de todo o gênero humano.
O cânon 109 do Código de Direito Canônico colocou êste admirável edi­
fício cm luz claríssima e em relevo escultório): “ Qui in ecclosiasticam hio*rar~
e-hiam comptantur, nem cx populi vol potestatis saccularis consensu aut vo>o*a-
tiono aclleguntur; sed in gradibus potestatis ordinis cemstituuntur sacra ono I i -
natione; in supremo pontificatu ipsome»! iuro divino, aoUmple*ta eemditiom»
le*gitimao elen-tionis eiuselemeiuc acceptationis; in reliquis gradibus iuriv.-
dictionis, canônica missione*” .
(ü) A l m iiiA ii. I m i n u i u iiiRii .m i) jm lillio .S. I l o n iit ii ii U iiI. i, '£ <lr o i i I i i I m o , 11)05.

(17
“ Non ex populi vcl potestatis saecularis consensu aut vocationc.” O povo
fiel o)U o poder secular podem ter no curso dos séculos participado muitas
vêzes na designação daqueles, aos quais os ofícios eclesiásticos deveriam ser
com feridos. Para os quais, afinal, compreendido também o pontificado su­
premo, podem ser eleitos, tanto o descendente de nobre estirpe, quanto o
filho da mais humilde fam ília operária.
Na realidade, porém, os membros da hierarquia eclesiástica receberam e
recebem sempre sua autoridade do alto e não devem responder pelo exer­
cício de seus mandatos senão ou imediatamente a Deus, ao qual somente
está sujeito o Romano Pontífice, ou nos outros graus, aos seus superiores
hierárquicos, mas não têm nenhuma conta a prestar nem ao povo, nem ao
poder civil, salva naturalmente a faculdade de cada fiel de apresentar-se
cm suas devidas formas à autoridade eclesiástica competente, e também
diretamente ao supremo poder da Igreja, os seus pedidos e os seus recur­
sos, especialmente quando o que suplica ou o recorrente é movido por
motivos que tocam a sua pessoal responsabilidade para com a salvação
espiritual própria ou alheia.
De quanto expusemos derivam principalmente duas conclusões:
1) Na Igreja, diversamente do que sucede no Estado, o sujeito primor­
dial do poder, o juiz supremo, a mais elevada instância de apêlo, não é
jamais a comunidade dos fiéis. Não existe, portanto, nem pode existir na
Igreja, qual foi fundada por Cristo, um tribunal popular ou um poder judi­
ciário promanando do povo.
2) A questão da extensão da grandeza do poder eclesiástico apresenta-se
também ela de modo diferente da que diz respeito ao Estado. Para a
Igreja vale em primeiro lugar a expressa vontade de Cristo que lhe podia
dar, segundo sua sabedoria e bondade, meios e poderes maiores ou meno­
res, salvo sempre o mínimo necessàriamente requerido por sua natureza
e por seu fim. O poder da Igreja abraça todo homem, seu interior e exte­
rior, em ordem à consecução do fim sobrenatural, enquanto que êle é intei­
ramente submetido à lei de Cristo, da qual lei a Igreja foi por seu divino
Fundador constituída custódia e executora, tanto no fôro externo, como no
fôro interno ou de consciência. Poder portanto pleno e perfeito, embora
alheio ao “ totalitarismo” que não admite nem reconhece o honesto referi-
mento aos claros e imprescritíveis ditames da própria consciência e viola
as leis da vida individual e social escritas nos corações dos homens. A
Igreja com seu poder mira não escravizar a pessoa humana, mas assegu­
rar-lhe a liberdade e a perfeição, redimindo-a das debilidades, dos erros
e dos desvios do espírito e do coração, que cedo ou tarde, terminam sem­
pre na desonra e na escravidão.
O caráter sacro, que à jurisdição eclesiástica deriva de sua origem divina
e do fato de pertencer ao poder hierárquico, deve vos inspirar, diletos
filhos, uma altíssima estima de vosso ofício e vos impelir a cumprir com
viva fé, com inalterável retidão e com sempre vígil zélo os austeros deve­
res. Mas, atrás do véu desta austeridade, que esplendor se revela aos olhos
ole quem sabe ver no poder judiciário a majestade da justiça, a qual em
tôda sua n<;ão tende a fazer aparecer a Igreja, a Espôsa de Cristo, “ santa
e imaculada” dianti' de seu Espôso divino e diante dos homens ( :t).

# # V

(.1) Alua m .no 111.111Ia.1 1 1 i h . I i i .niti Im itliii) V Kiiiii.iii.i K iiI.i, <lc (iiilp lm t, l ' ) l r>.

f.H
r i u X I I i r i r li c i li a m ,i s n in lila ila s pcl.i ^ iic n .i, I I \ l I l'M H,
M cnsngctii vn d io fó n ici, p or ocasião do Congresso M arian o, 2.) X . IO.”) 1,
AS DIFERENÇAS ENTRE A R E G U LA M E N TA Ç Ã O
JU D IC IÁ R IA E C LE SIÁ S TIC A E A C IV IL,
CONSIDERADAS SEGUNDO SEUS FINS

Aquilo que ontem era para muitos um dever da Igreja e se exigia <1c*1i»
com modos até exagerados resistir às injustas imposições dos governos lo>ta
litários opressores das consciências e de denunciá-los e condená-los diante
olo mundo (o que ela jamais deixou de fazer, mas por próprio e livro*
impulso e nas devidas form as), hoje é para êstes mesmos homens, que subi-
ram ao poder, delito e ilícita intromissão no campo próprio da autoridaoIo*
civil. E os mesmos argumentos, que os governos tiranos de ontem traziam
comtra a Igreja em sua luta pela defesa dos direitos divinos e da j i isla
dignidade e liberdade humana, hoje são usados por novos dominadores para
o-ombater a perseverante ação dela em tutela da verdade e da justiça. Mas
a Igreja caminha reto por sua via, sempre tendendo ao fim para o qual
foi instituída pelo seu divino Fundador, isto é, conduzir os homens, atra­
vés dos caminhos sobrenaturais da virtude, do bem, à felicidade eelesto* o*
o*tcrna: com que ao mesmo tempo promove também a pacífica e próspera
o^onvivêneia humana.
Plsle pensamento nos leva naturalmente a falar do fim essencialmente oli
vo*rso destas duas sociedades. Esta diferença fundada sôbre o fim exclui som
dúvida aquela forçada submissão e quase inserção da Igreja no Estado, con
Irá ria à natureza mesma de ambos, que cada totalitarismo tende, ao menos o>m
princípio, a conseguir. Ela entretanto não nega certamente qualquer união
entre as duas sociedades, e ainda menos vem determinar entre êles uma
fria o* dissociante aura de agnosticismo e de indiferença. Quem quisesse com-
pro‘(*nder assim a reta doutrina que a Igreja e o Estado são duas distintas
socio'«lades perfeitas, estaria muito errado. Não poderia explicar as multí-
plio-es formas — próprias do passado e do presente, e, embora em diverso
grau, frutuosas — de união entre os dois poderes: não teria sobretudo) cm
consideração que Igreja e Estado provêm da mesma fonte, Deus, e que
ambas têm o cuidado do mesmo homem, de sua pessoal dignidade natural
o»ii sobrenatural. Tudo isto não podia nem queria clescurar o nosso glorio>so>
pivdecessor Leão X III, quando em sua Encíclica “ Immortale D ei” , do dia
1.° de novembro de 1885, claramente delineava, em base a seus fins, »>::
limites das duas sociedades e observava que ao Estado cabe pròximamente
o* principalmente cuidar dos interêsses terrenos, à Igreja prever os bo*ns
o*<*lo*:;to*s e eternos dos homens, na medida em que precisam de segurança <•
ole apoio da parte seja do Estado para as coisas terrenas, seja da Igreja
para as ((ternas.
Não vemos nós talvez, nisto, sob alguns aspectos, unia analogia com a:;
relaçíHns entre o corpo e a alma? Um e outra agem conjuntamente de modo
tal que o caráter psicológico do homem se ressente a cada instante do* scmis
temperamentos e de suas condições fisiológicas, enquanto, vice-versa, as
impro*ssões morais, as comoções, as paixões, refletem-se sob a sensibilidade
física, tão potentemente que a alma modela até os traços do rosto, sob o>s
(piais imprime suas imagens.
Kxisle portanto aquela diferença de fim, diferença que exerço* diverso
•* profundo influxo sôbre a Igreja e sôbre o Estado, principalmente sôbre o
podo*r supro*mo de ambas as sociedades, e portanto) também so>b o> podei
.indiciai, quo* delas não ó senão parle e função. Independentemente da o*ir
cunslãncin so* cada juiz o*clesiáslico está ou não disto conscionto*, lóda a sua
atividade* judiciária é e poMinaneco* incluída na plenitudo* olo* vida da Igreja
com sími alto fim; “ coeleH.ia ac somp:lo'ina bona comparare". ftsto* "Im is

O
i1)
•i Cio -II C) ■-I . l e i t t . .
oprris” do podoT judiciário) eclo\siástico lhe dá a forma objetiva e faz dele
uma instituição da Igreja como sociedade sobrenatural. E pois que esta
marca deriva do fim ultraterreno da Igreja, o poder judic i ário eclesiástico
n;io cairá jamais na rigidez e na imobilidade, a que as instituições pura-
mente terrenas, por temor das responsabilidades, ou por indolência, ou tam­
bém por um mal-entendido cuidado de tutelar o bem, sem dúvida gran­
de', da segurança do direito, estão fàcilmente sujeitas.
Isto não quer dizer entretanto, que na regulamentação judicial eclesiás­
tica haja campo livre unicamente ao arbítrio do juiz em tratar cada caso.
listes erros de uma pretendida funesta “ vitalidade” do direito são tristes
produtos dc nosso tempo em atividades estranhas à Igreja. Não tocada por
um anti-intelectualismo, hoje bastante difundido, a Igreja permanece firme
no princípio: o juiz decide em cada caso, segundo a lei; princípio que, sem
favorecer um excessivo “ formalismo jurídico” , repele porém o “ arbítrio
subjetivo” , que seria capaz de colocar o juiz não mais sob, mas sôbre a
a lei. Compreender nitidamente a norma jurídica no sentido do legislador
e retamente analisar os casos particulares em ordem à norma a ser apli­
cada, êste trabalho intelectual é uma parte essencial da concreta atividade
judiciária. Sem tal procedimento a sentença do juiz seria uma simples
ordem, e não aquilo que a palavra “ direito positivo” quereria expressar;
é o mesmo que dizer no caso particular e portanto concreto, colocar ordem
no mundo, que como um todo foi pela sabedoria de Deus criado na ordem
c para a ordem.
Não é talvez êste campo da atividade judiciária rico de vida? Ainda mais:
a lei eclesiástica é dirigida para o bem comum da sociedade eclesiástica, e
portanto inseparàvelmente ligado ao fim da Igreja. Enquanto portanto juiz,
aplica a lei ao seu caso particular, coopera para realizar a plenitude do
fim que vive na Igreja. Quando entretanto se vê colocado diante de casos
duvidosos, ou quando a legislação deixa a êle a liberdade, a ligação do
regulamento judiciário eclesiástico com o fim da Igreja ajudá-lo-á então a
encontrar e a motivar a reta decisão e a preservar o seu ofício da mancha
do puro arbítrio.
Como quer que seja, portanto, as relações do poder judiciário eclesiás­
tico, para qualquer fim que se considere, aparece como a mais segura garan­
tia da verdadeira vitalidade de suas decisões, e enquanto constitui o juiz
eclesiástico em um ofício desejado por Deus, inspira-lhe aquêle alto sentido
de responsabilidade que é também na Igreja a indispensável tutela, supe­
rior a qualquer regulamentação legal, da segurança do direito.
Com isto não entendemos de modo algum desconhecer as dificuldades prá­
ticas que, não obstante tudo, a vida moderna causa também ao poder judi­
ciário eclesiástico, sob vários aspectos e ainda mais do que no campo civil.
Pense-se somente em alguns bens espirituais, diante dos quais o poder judi­
ciário do Estado se sente menos ligado ou mesmo se mantém sàbiamente
indiferente. Típicos são em tal sentido os casos de delito contra a fé ou da
apostasia, que dizem respeito à “ liberdade de consciência” e à “ tolerância
religiosa” , como também os processos matrimoniais. Nestes casos a Igreja,
como também os juizes eclesiásticos, não podem adotar a atitude neutra dos
estados de confissão religiosa mista e ainda menos aquêle do mundo que
caiu na incredulidade e no indiferentismo religioso, mas deve deixar-se
guiar unicamente pelo fim essencial que lhe foi dado por Deus.
l)o> tal modo, encontramos sempre a profunda diferença que a diversi­
dade' ele' fim eletermina entre o poder judicial eclesiástico e e> civil. Sem
elúvida naela obsla que> um se valha dos resultados e'e>nseguide>s pele) outro,
mas moMios nos (‘onheeúmoMilei.s te'óru’e>s, elo e|uo* nas experie*ncias práticas;

7()
lodavia seria errado querer transferir meeânioam(*nte os elementos e um
tu>tmus olo* nm para o outro e, tanto) menos, querer até igualá-los. O p<>do‘r
Indiciai e>closiástico> e o juiz eclesiástico) não têm de j)ro)curar fora os seus
ideais, mas devem levá-los em si mesmo; devem ter sempre presente elinnli*
do* mm is olhos que a Igreja é um organismo sobrenatural, ao qual está ine-
M-nte um princípio vital divino, princípio vital que deve mover e dirigir tam­
bém o poder judicial e o ofício de juiz eclesiástico.
Juizes na Igreja suo em virtude de seus ofícios e por desejo divino) e>s
biwpos, dos quais diz o apóstolo que “ foram constituídos pelo pj.spírito Santo
pnm ro'ger a Igreja de Deus” . Mas o “ reger” inclui o “ julgar” como uma
necessária função. Portanto, segundo o apóstolo, o líspírito Santo chama
o,, bispos não só ao ofício de juizes, mas também para o govêrno da Igreja,
i >n espírito Santo deriva portanto o caráter sacro dêsle ofício. Os fiéis da
Igreja de Deus “ adquirida por Êle com seu próprio sangue” , são aojuéles
m>n opiais se refere a atividade judiciária. A lei de Cristo é fundamental
1 1 ieiite aojuela, segundo a qual na Igreja se pronunciam as sentenças. O prin ­

cipio vital divino da Igreja move todos e tudo o que está nela, para o m*u
Um, portanto também o poder judiciário e o juiz: “ caelestia ac sempilcnm
hona eomparare” ( -1)-

(I) Aliiniiiln, liiimuiiiiiiAo nno juilriito S. K i u i i .i i i í i Kolu, li!) ilr iniliilnn, 1')-17.

VI
A COLETIVIZAÇÃO AGRÍCOLA
Já o nosso predecessor Pio X I, de santa memória, falando na Encíclica
“ Quadragésimo Anno” das conseqüências favoráveis e desfavoráveis do regi­
me econômico do capitalismo, tinha chamado a atenção sôbre os habitantes
do campo. O problema nada perdeu de sua gravidade. Contemporânea-
mente ao influxo sôbre o progresso geral de tôda a economia (e um tal
estado de coisas dura ainda), êste sistema econômico devia necessariamente
influir também sôbre as condições espirituais, sociais, materiais, das popu­
lações rurais. Com maior razão pode-se dizer, hoje, que o destino da huma­
nidade tôda está em jôgo: se chegará ou não a adequar melhor êste in­
fluxo de modo a conservar para a vida espiritual, social, econômica do mundo
rural, a sua fisionomia e assegurar sôbre a inteira sociedade humana uma
ação, se não preponderante, ao menos igual?
Poderiam talvez verificar-se neste campo causas e conflitos insanáveis?
Realmente. Quando são salvaguardadas as condições naturais da vida hu­
mana e de seu aperfeiçoamento, a divisão dos trabalhos e das mansões não
pode produzir inevitàvelmente semelhantes conflitos. Cada espírito justo
deve reconhecer que o sistema econômico do capitalismo industrial contri­
buiu para tornar possível ou para estimular o progresso do crédito agrí­
cola; permitiu, em muitas regiões do mundo, levar a um nível superior a
vida física e espiritual das populações rurais. Não se trata, portanto, de
discutir o sistema, mas sim o perigo que poderia derivar quando sua in­
fluência chegasse a alterar o caráter específico da vida rural, fazendo-a
semelhante à vida dos centros urbanos e industriais, tornando o “ campo” ,
como aqui é entendido, uma simples expansão ou apêndice da “ cidade” .
Uma semelhante praxe, assim como a teoria que a sustém, é falsa e
nociva. Como todos sabem, é professada pelo marxismo, o qual caiu na
superstição da técnica e da industrialização ao extremo. A “ coletivização”
do trabalho agrícola como parte de uma oficina; a degradação do campo,
reduzida a uma simples reserva da mão-de-obra para produção industrial:
eis aonde conduz o marxismo. E aonde conduzem os princípios fundamen­
tais do liberalismo econômico quando a procura de lucro da parte do capi­
talismo financiário pesa com todo o seu pêso sôbre a vida econômica,
quando os desenvolvimentos da economia nacional são considerados em vista
somente do mercado, como um simples mecanismo dos preços. Para a popu­
lação rural sujeita ao capitalismo industrial, as conseqüências são idênti­
cas: ou simples reserva de mão-de-obra; ou letargia de uma existência
miserável exposta às mais perigosas tensões.
Embora não sendo a única causa do “ êxodo” rural que hoje se deplora
quase em todo lugar, a preponderância dada aos interêsses do capitalismo
industrial na produção e na distribuição das rendas tem sua responsabili­
dade'. Falar só de “ abandono” seria querer reduzir ao mínimo o doloroso
fVtiòmoMK). Deve-so*, em plena lealdade, dizoT “ êxodo” rural para fazer com­
preender íi cada um o|iie uma eve)lue;áo unilateral da economia toirmina por
de:;a;',io,),,jir a estrutura humana o- social de todo um povo. Finalmente, fal­
tando um.i populai.ao nirnl capa/, e operosa, a terra deixada inculta por
in c ú r ia , o u e x a u r id a p o r in s u fic ie n t e d e s f r u t a m e n to , p e r d e g ra d u a lm e n te -
a n a t u r a l p r o d u t iv id a d e e a p r ó p r ia e c o n o m ia s o c ia l é a r r a s t a d a a u m a
c r is e e n t r e as m a is g r a v e s . H o je n o s o f e r e c e m m u it a s o c a s iõ e s p a r a deo-i
d ir se s e c o n tin u a r á a p r o c u r a r u m a p o s s ib ilid a d e d e r e n d a u n ila t e r a l, o* a
o r ie n t á - l a p a r a o c o n ju n t o d a e c o n o m ia s o c ia l, q u e é o s e u o b je t iv o . Mis
a lg u n s e x e m p lo s : o a u x ílio p r e v is t o p a r a a s r e g iõ e s “ a t r a s a d a s ” ; a r e fo r m a
a g r á r ia , f e liz m e n t e in ic ia d a a q u i e a li; a e m ig r a ç ã o e a im ig r a ç ã o , f a v o r e ­
c id a s p o r a c o r d o s in te r n a c io n a is ; u m m e lh o r r e a g r u p a m e n t o r e g io n a l da:;
e c o n o m ia s r a c io n a is c o m p le m e n t a r e s ; u m a m e lh o r d is t r ib u iç ã o d a s fô r ç a s
p r o d u t iv a s n o t e r r it ó r io n a c io n a l. T ô d a s e s ta s p r o v id ê n c ia s d e v e m t e r p or
e sc o p o , e n t r e o u tr o s , c o n s e r v a r e m to d o l u g a r p a r a o p o v o d o s c a m p o s , o»
c a r á t e r , o p r e s t íg io , o s e u p a r t ic u l a r v a l o r n a e c o n o m ia e n a sociedado?.
Is to é p r e c is o s e r r e c o r d a d o q u a n d o se d e p lo r a m as f a lt a s e os a tr it o s
e n t r e a s r e la ç õ e s h u m a n a s , q u e d e r iv a m d a s e s t r u t u r a s d o trabalho» no
m u n d o d a in d ú s t r ia c a p it a lis t a . L a m e n t a - s e r e a lm e n t e q u e o t r a b a lh o te n h a ,
p o r a s s im d iz e r , “ p e r d id o a p r ó p r ia a lm a ” , is to é, o s ig n if ic a d o p e s s o a l e
s o c ia l d a v i d a h u m a n a ; q u e o t r a b a lh o , s u fo c a d o p o r to d o s os la d o s por
u m c o m p le x o d e o r g a n iz a ç õ e s , v e j a e s t a v id a h u m a n a m u d a d a e m g i g a n ­
te s co a u t o m a t is m o d o q u a l os h o m e n s sã o in c o n s c ie n t e s e n g r e n a g e n s ; olo:;
q u a is a t é c n ic a , p a d r o n iz a c a d a g e s to , c o n tr ib u a p a r a c o r r o e r o indivíduo»
e a p e r s o n a lid a d e d o t r a b a lh a d o r .
É d i f íc il e n c o n t r a r u m re m é d io , u n iv e r s a lm e n t e a p lic á v e l; m a s é ta m b é m
v e r d a d e q u e o t r a b a lh o d o s a g r ic u lt o r e s o p õ e a t ô d a s e s ta s d e s o r d e n s u m a
d e fe s a p o te n t e . P e n s a m o s a n te s d e t u d o n a e m p r ê s a do la v r a d o r , n a em prér:a
f a m ilia r . A c la s s e r u r a l é t a l q u e , co m o c o n ju n t o d e s e u c a r á t e r s o c ia l o-
ta m b é m co m o s e u p a p e l e c o n ô m ic o , c o n s titu i q u a s e o n ú c le o d e u m a saelia
p o r ç ã o a g r íc o la . C o m is to n ã o se n e g a a u t ilid a d e , m u it a s v ê z e s a n eo vssi
olade, d e e m p r ê s a a g r á r ia m a is v a s t a .
T o d a v ia , e m p e r m a n e n t e c o n ta to co m a n a t u r e z a q u e D e u s c r io u e g o v e r n a ,
o t r a b a lh a d o r d o c a m p o s a b e p o r e x p e r iê n c ia c o t id ia n a q u e a v id a olo» ho>-
m o ' m e s t á n a s m ã o s d o s e u A u t o r . N e n h u m a o u t r a a s s o c ia ç ã o é m a i s a o l a p -
la d a à v i d a f a m i li a r co m o a u n id a d e e s p ir it u a l e c o n ô m ic a , j u r íd ic a , e t a m ­
b é m n o q u e c o n c e r n e à p r o d u ç ã o e a o c o n su m o . P o r q u a n to d u r o p o ssa
som- ê s te t r a b a lh o , c o m ê le o h o m e m f ic a a in d a s e n h o r d o seu m u n d o , e m b o ra
t r a b a lh a n d o n o m e io d a c o m u n id a d e d a fa m ília , d o s v iz in h o s , e ta m b é m ,
omu v ia s u b s id iá r ia , d e c o o p e r a t iv a s e c o n ô m ic a s v á r ia s , e m b o r a p e r m a n e ç a m
v o M - o l a d e i r a m e n t e e n ã o s o m e n te n a f o r m a b a s e a d a s s ô b r e a re s p o n s a b i lio lado*
d e to d o s o s p a r t ic ip a n t e s . Q u a n to à t é c n ic a m o d e r n a , e m tô d a a m e d i d a
em q u e d e v e h o je m e t e r - s e a s e r v iç o d a e m p r ê s a c a m p e s t r e , e la a d a p t a r -
m*-/í n a t u r a lm e n t e a o s d a d o s c o n c r e to s d e c a d a ca s o e m p a r t ic u la r , d e m o d o
a d e i x a r in ta t o o c a r á t e r in d iv id u a l d o t r a b a lh o a g r íc o la .
L o n g e d e n ó s to d o r o m a n tic is m o ir r e a l. C o m g r a n d e p a c iê n c ia e t a t o é
p re c is o c o n d u z ir o m u n d o a g r íc o la n a v ia d a s a lv a ç ã o , c o m b a te r o s somi:;
d e fe it o s , v e n c e r o fa s c ín io d e u m m u n d o q u e n ã o é o seu .
'P a m b é m a le g is la ç ã o s o c ia l m o d e r n a d e v e o f e r e c e r a s p r ó p r ia s v a n t a g e n s
a p o p u la ç ã o r u r a l, m a s e m c o n fo r m id a d e co m os s e u s c a r a c le r e s osp<*oifi
c-on. A n t e s d e tu d o se d ê a e la u m a p o s s ib ilid a d e d e a c u r a d a e d u o a çíio ,
MiblamoMite a d e q u a d a às s u a s n e c e s s id a d e s c q u e e s t im u le o aporfeMçnam<*nli>
111 itl'i:;;;ie>nal. e v id e n t e , p o is, q u e n ã o p o d e r e m o s d e ix a r do* in s is tir m a is
•iufio*ioMito*mento o* v ig o r o s a m e n te p o r q u e se d e à s p o p u la ço V s eatólio-as u m a
m m ia fo r m a ç á o eato'»lica ( ' ) .
# f •
II) I i Ii i i i i m i iicm i nlllv.iilinc í i ll ir ln *, 'i itr julho, 1')M

•n
O temor de Deus, a confiança em Deus, uma fé viva que encontra sua
cotidiana expressão na oração em comum na família, governem e guiem a
vida dos trabalhadores do campo; a Igreja permaneça o coração da cidade,
o lugar sagrado, que, segundo as santas tradições dos pais, de domingo
(>m domingo reúne em si os habitantes para elevar os seus ânimos acima
das coisas materiais e louvar e servir a Deus, para impetrar a fôrça de
pensar e de viver cristãmente em todos os dias da semana que entra ( 2).

* * *

Sejam quais forem a retidão das intenções e a dignidade da conduta,


gloiria de muitos produtores agrícolas não deixa de ser verdade que é pre­
ciso hoje uma grande firmeza de princípio e de energia de vontade para
resistir à diabólica tentação do fácil ganho, que especula ignobilmente sôbre
as necessidades do próximo, mais do que limitar-se a ganhar a vida com
o suor da fronte.
Muitas vêzes êste defeito provém também da culpa dos pais, que muito cedo
usam os filhos para o trabalho e descuram a formação espiritual e educação
dos mesmos, outras vêzes a culpa é pela ausência da necessária instrução esco­
lar, e sobretudo profissional. Não há realmente mais errôneo preconceito
do que crer que o cultivar dos campos não tenha necessidade de uma séria
e adequada cultura para cumprir no curso do ano a sua obra indefinida­
mente variada de cada estação do ano. O pecado tem tornado penoso o tra­
balho da terra, mas não o introduziu no mundo. Antes do pecado Deus
tinha dado ao homem a terra a fim de que a cultivasse, como a ocupação
mais bela e mais honrosa, na ordem natural. Continuando a obra do pecado
de nossos primeiros progenitores, os pecados atuais de tôda a humanidade
fizeram pesar sempre mais a maldição sôbre a terra. Ferido sucessivamente
com todos os flagelos, dilúvios, cataclismos telúricos, miasmas pestilenciais,
guerras devastadoras, o solo em algumas partes deserto, estéril, malsão, e
agora escondendo bombas mortíferas que espiam insidiosamente as suas
vítimas, recusou-se a espargir espontâneamente ao homem os seus tesou­
ros. A terra é a grande ferida, a grande doente. Inclinado sôbre ela, não
como o escravo sôbre a gleba, mas como o clínico sôbre o leito do paciente,
o cultivador prodigaliza os seus cuidados com amor. Mas o amor, embora
tão necessário, não basta. Para conhecer a natureza e para assim dizer, o
temperamento do seu pedaço de terra, muitas vêzes tão diferente também
do que está vizinho, para descobrir os germes que a prejudicam, os roedo­
res que virão escavá-la, os vermes que virão devorar os seus frutos, os
joios que virão infestar as suas messes, para encontrar os elementos que
faltam, para escolher as culturas sucessivas que enriquecerão no seu pró­
prio repouso, por estas e tantas outras coisas, requerem-se vastos e varia­
dos conhecimentos ( 3).

(M l) D im in u i uoi .iii' l u i l l d i m r 11 n I t.i 111 >i <l<11 <•» m i I m U i , d< nnvritiliio, I Ml Oi

74
SÔBRE A CONDENAÇÃO À MORTE
Som dúvida o jurista não é chamado em virtude de sua profissão á espe­
culação teológica para conhecer o objeto do seu estudo; mas se êle* nao>
sabe elevar-se à visão da realidade suma e transcendente, de cuja vontade
deriva a ordem do universo visível e da sua pequena parte que 6 o gênero
humano com suas leis imanentes e moralmente necessárias, ser-lhe-á im
possível ver em tôda sua admirável unidade e em suas mais íntimas pro­
fundidades espirituais o entrelaçar-se das relações sociais, que o direito pre­
side, e as suas normas reguladoras. Se, como afirmava o grande jurista o*
orador romano, “ natura iuris... ab hominis repetenda (est) natura” , a natu­
reza e a essência dò direito não podem ser derivadas senão da própria
natureza do homem; e pois que, de outra parte, esta natureza nao pode
s o m- conhecida, nem mesmo aproximadamente, em sua perfeição, dignidade

o* ('levação e nos fins que ordenam e subordinam a si as ações, sem a


conexão ontológica, pelas quais está ligada a sua causa transcendente, o>stá
claro que ao jurista não será possível conquistar um são conceito do d i reito,
uo*m conseguir uma sua sistemática organização, se não se resolve a ver
o>s homens e as coisas humanas na luz que dimana da divindade e lhe oíscIm
ro'ce o caminho penoso e cansativo das pesquisas.
() ôrro do racionalismo moderno consistiu exatamente nesta pretoMisáo
do* querer construir o sistema dos direitos humanos e a teoria geral do
direito, considerando a natureza do homem como um ente por si só subsis­
tente, divorciado de qualquer necessária referência a um Ser superior, do»
cuja vontade criadora e ordenadora depende na essência e na ação. ( 1o~
nho»ce-se em que labirinto de dificuldades o pensamento jurídico contem­
porâneo se encontrou por causa dêste desvio inicial e como o jurista, (|iio*
mc conformou aos cânones estabelecidos pelo assim chamado positivismo,
faltou à sua obra, perdendo, com o reto conhecimento da natureza humana,
n sa concepção do direito, ao qual faltou aquela fôrça coletiva sôbre a cons­
ciência do homem, que ó o seu primeiro e principal efeito. As coisas d iv i­
nas o* humanas, que segundo a definição de Ulpiano, formam o objeto mais
rrral da jurisprudência, são tão intimamente conjuntas, que não se podem
i/’,uorar as primeiras sem perder a exata valorização das segundas.
Isto) é tanto mais verdade, quanto o objeto específico da ciência jurídica
r o justo e o injusto, “ iusti atque iniusti seientia” , ou seja, 6 a justiça, omu
■ma alta função equilibradora das exigências individuais e sociais 1 1 0 seio
da família humana. A justiça não ò somente um conceito abstrato, um ido»al
eterno, ao qual devem procurar adequar-se as instituições, quanto ó possí­
vel em um dado momento histórico, mas 6 também e sobretudo algo <U*
Imanente no homem, à sociedade, âs suas instituições fundamentais, por
causa olaquela soma de princípios práticos que ela dita e impõe», da<|uelas
normas tio* conduta mais universal, que fazem parto* ola orolern objetiva hu­
mana e civil, estabo'l(>cida pela mente» altíssima do Primeiro l'\ator. A cnci i -
cia do justo o» do» injusto supõe portanto uma sabedoria mais edevada, a
o|iial co)iisisto* n o conheo-oM' a ord(»in ol o criado) o» e * o n s e ' ( | ü e n f e » m e n t e ' o>
com i

(Yiador, Ordenador. (.) direito, couno ensi nava S. Tomás do* A < | u i n o ‘Vnt
obiectum iustitiae” , é a norma na qual se concretiza e atua a grande e
locunda idéia da justiça, e como tal, conduz a Deus, eterna e imutável jus­
tiça om sua essência, de Deus recebe luz e clareza, vigor e fôrça, sentido
o* conteúdo.
O jurista move-se portanto, no exercício de sua profissão entre o infinito
o* o finito, entre o divino e o humano, e neste movimento necessário con­
siste a nobreza da ciência que êle cultiva. Os outros títulos, em virtu.de
olos quais êle se nobilita diante do consórcio humano, podem ser conside­
rados como conseqüência daquele já acenado. Se o objeto de sua procura
são as normas jurídicas, o sujeito, ao qual estas são destinadas é o homem,
a pessom humana, a qual vem assim entrar no campo de sua competência.
K noto-se, não o homem em sua parte inferior e menos nobre, que é estu­
dada por outras ciências, também elas úteis e dignas de admiração, mas o
homem em sua propriedade específica de agente racional que, por confor­
mar-se com a lei de sua racionalidade, deve operar guiado por algumas nor­
mas de conduta, ou diretamente ditadas por sua consciência, reflexo e arauto
dc> uma lei mais alta, ou prescrita pela autoridade humana regularizadora
da vida associada. É verdade que sob o olhar do jurista o homem não se
apresenta sempre com os aspectos mais elevados de sua natureza racional,
mas muitas vêzes oferece ao seu estudo os lados menos louváveis, as suas
más inclinações, as suas malvadas perversidades, a culpa e o delito; toda­
via também sob o ofuscado esplendor de sua racionalidade, o verdadeiro
jurista deve ver sempre o fundo humano, do qual a culpa e o delito jamais
cancelarão o sêlo impresso da mão do Criador.
Se pois olha-se o sujeito do direito com o ôlho da fé cristã, qual coroa
do luz surge em tôrno de sua cabeça, aquela coroa da qual foi circundada
a redenção de Cristo, o sangue derramado pelo seu resgate, a vida sobre­
natural, que lhe foi restituída e da qual o íêz participante, e o fim último
designando-lhe como fim de seu caminho terreno. Em a nova economia o
sujeito do direito não é o homem em sua natureza pura, mas o homem ele­
vado pela graça do Salvador à ordem sobrenatural, e por isto mesmo em
contato com a divindade mediante uma nova vida, que é a mesma vida de
Deus, embora participada. Sua dignidade cresce portanto de proporções infi­
nitas, o portanto em iguais proporções aumenta a nobreza do jurista que a
faz objeto de sua ciência.
Os insolúveis contrastes entre o alto conceito do homem e do direito se­
gundo os princípios cristãos, que procuramos expor brevemente, e o posi­
tivismo jurídico, podem ser na vida profissional fontes de profundas amar­
guras. Nós bem conhecemos como não raramente no ânimo do jurista cató­
lico, que quer ter fé na concepção cristã do direito surgem, conflitos de cons­
ciência particularmente quando se encontra na situação de dever aplicar
tuna lei, que a consciência mesma condena como injusta. Em realidade, desde
o fim do século dezoito existem — especialmente nas regiões onde enfure­
cia a perseguição contra a Igreja — múltiplos casos, nos quais os magistra­
dos católicos encontravam-se diante do angustioso problema da aplicação
olo* leis injustas. Por isto colhemos a ocasião para iluminar a consciência
dos juristas católicos mediante a enunciação de algumas normas fundamen­
tais:
I) Para cada sentença vale o princípio que o juiz não pode pura e sim­
plesmente rejeitar do si a responsabilidade do sua decisão, para fazer rocaí-
In toda sobro* a lei e sôbre seus autores. Certamente são êstos os principais
responsáveis olo>s ('feitos da lei. Mas o juiz, quo com sua sentença a aplica
no caso particular, é “ eom-eausa” o portanto co-responsável olos mesmos
efeitos.

70
2) O juiz não pode jamais com sua decisão obrigar alguém a qualquer
ato intrinsecamente imoral, quer dizer, por sua natureza contrário à lei de
Deus e da Igreja.
3) Não pode, em nenhum caso expressamente reconhecer e aprovar u lei
injusta (que, de resto, não constituiria jamais o fundamento de um juízo»
válido em consciência e diante de Deus). Por isto não pode pronunciar uma
sentença penal, que eqüivalha a semelhante aprovação. Sua responsabili­
dade seria também mais grave, se sua sentença ocasionasse escândalo
público.
4) Todavia não é tôda aplicação de uma lei injusta que eqüivale ao reco­
nhecimento da mesma, ou à sua aprovação. Neste caso, o juiz pode, — pe>r
vêzes até deve, — deixar seguir seu curso a lei injusta, porque será o único
meio para impedir um mal muito maior. Êle pode infligir uma pena pela
transgressão de uma lei iníqua, se ela é de tal modo que aquêle, que é
ferido, está razoàvelmente disposto a sofrê-la para evitar o dano ou para
assegurar um bem de muito maior importância, e se o juiz sabe e jjoxIo*
prudentemente supor que tal sanção será pelo transgressor, por motivos
.superiores, voluntariamente aceita. Nos tempos dc perseguições, muitas v ê ­
zes sacerdotes e leigos deixaram-se condenar, sem opor resistência, até por
magistrados católicos, a multas ou privações da liberdade pessoal, por in­
frações das lei injustas, quando de tal modo era possível conservar para o»
povo uma magistratura honesta e era possível afastar da Igreja e dos fiéis
outras temíveis calamidades.
Naturalmente, quanto mais grave em suas conseqüências é a sentença
judiciária, tanto mais importante e geral deve também ser o bem a ser
tutelado ou o dano a ser evitado. Existem porém casos nos quais a idéia
ola compensação mediante o conseguimento de bens superiores ou o afasta­
mento de males maiores não pode ter aplicação, como na condenação à
morte. Em particular, o juiz católico não poderá pronunciar, senão por moti­
vos de máxima consideração, uma sentença de divórcio civil (onde êle
existe) por um matrimônio válido diante de Deus e de sua Igreja. Não deve
esquecer-se de que tal sentença praticamente não toca somente os efeitos
civis, mas na realidade conduz a fazer considerar erroneamente o vínculo
atual como quebrado e o novo como válido e obrigante ( x).

(I) I >l *< i n m i - I," C.OIIUI rm o Nm iouul dc |m l»tn« < liilAlloo» Ilu llim cn .

77
SÔBRE O CONTRÔLE DOS NASCIMENTOS
O Senhor fêz tôdas as coisas da terra para o homem; e o próprio homem,
o>m que concerne ao seu ser e a sua essência, foi criado por Deus, não por
onitra ciúatura, embora em seu operar, tenha obrigações para com a comu­
nidade. Ora “ homem” é já também a criança, até a que ainda não nasceu,
no mesmo grau e pelo mesmo título que a sua própria mãe.
Além disto, cada ser humano, também a criança, no seio materno, tem
o olireito à vida, direito que vem imediatamente de Deus e não dos proge-
nitores, nem de qualquer sociedade ou autoridade humana. Portanto não
há nenhum homem, nenhuma autoridade humana, nenhuma ciência, nenhuma
“ indicação” médica, eugênica, social, econômica, moral que possam eximir
ou dar um válido título jurídico para uma direta e deliberada disposição
sôbre uma vida humana inocente, quer dizer, uma disposição, que mira a
sua destruição, seja como escopo, seja como meio para outro escopo, que
talvez em si não é ilícito. Assim, por exemplo, salvar a vida da mãe é
nobilíssimo fim ; mas a morte direta da criança como rneio a tal fim, não
é lícita. A direta destruição da assim chamada “ vida sem valor” nascida ou
ainda não nascida, praticada poucos anos faz, em elevado número, não pode
ser de modo algum justificada. Por isto quando esta prática teve princípio,
a Igreja declarou formalmente ser contrária ao direito natural divino posi­
tivo, e portanto ilícita; matar, ainda que por ordem da autoridade pública,
aquôles que, embora inocentes, todavia por taras físicas e psíquicas não
oram úteis à nação, mas pelo contrário tornavam-se para ela um pêso. A
vida de um inocente é intangível, e qualquer direto atentado ou agressão
contra ela é violação de uma das leis fundamentais, sem as quais não é
poj.ssível uma segura convivência humana.
Também as dores que, depois da culpa original, a mãe deve sofrer para
dar à luz seu filho, não fazem senão apertar ainda mais o vínculo que os
une; ela o ama tanto mais quanto mais lhe custou em dores. Isto expri­
miu com comovente e profunda simplicidade Aquêle que plasmou o cora­
ção) das mães: “ A mulher, quando dá à luz, está em dores, porque chegou
a sua hora; mas quando já deu à luz o menino, não se recorda mais das
angústias, pela alegria que tem, pois nasceu um homem no mundo” . A d e­
mais o Espírito Santo, pela pena do Apóstolo S. Paulo, mostra ainda a gran-
oloza e a alegria da maternidade; Deus dá às mães as crianças, mas, mesmo
olando-lhos, as faz cooperar efetivamente no desabrochar da flor, cujo germe
om)locara em suas vísceras, e esta cooperação torna-se uma vida que é a
sua ('torna salvação: “ Salvar-se-á a mulher pela geração dos filhos” .
Nosso prodocossor Pio XI, de foliz memória, em sua Encíclica “ Casti Conu-
bii” olo dia 31 do dezembro de 1930, proclamou de novo solenemente a lei
fundamental do ato o das rol ações comjugais: que cada atentado dos con­
jugou no cumprimento do ato conjugal e no desenvolvimento de suas con-
srqiVncias naturais, atentado tendo por esco>po privá-lo) da fôrça que lhe
«'* inoM-onto* r olo» impo*(lir a prnoTÍação> oU> urna nova vida, é imoral; e quo
nenhuma “ indioaçao” o>u n<*(,o*ssi<laolc poolo mudar uma açao infrinsecamento
imoral cm um ato mo>ral o licilo.

VH
Esta prescrição está em pleno vigor hoje como ontem, e tal será tam­
bém amanhã e sempre, porque não é um simples preceito do direito humano,
mas a expressão de uma lei natural e divina.
Seria muito mais do que uma simples falta de presteza no serviço ela
vida, se o atentado do homem não atingisse apenas um ato singular, mas
o próprio organismo com o escopo de privá-lo, por meio da esterilização,
das faculdades de procriar uma nova vida.
A esterilização direta — isto é, aquela que mira, como meio e como es­
copo, tornar impossível a procriação — é uma grave violação da lei moral,
e é portanto ilícita. Também a autoridade pública nao tem direito algum,
sob pretexto de qualquer “ indicação” de permitir, e muito menos de pros­
crevê-la ou de a fazer executar com dano dos inocentes. Êste princípio cneem-
tra-se já enunciado na Encíclica supramencionada de Pio X I sôbre o m atri­
mônio. Por isto, quando, desde um decênio, a esterilização começou a -
so m

sempre mais aplicada, a Santa Sé sente-se na necessidade de declarar expies-


sa e publicamente que a esterilização direta, seja perpétua ou temporária,
seja do homem ou da mulher, é ilícita, em virtude da lei natural, a cpial
a própria Igreja, como sabeis, não tem o poder de dispensar.
Apresenta-se além disto hoje em dia o grave problema, se e quanto o>
dever de pronta disposição a serviço da maternidade é conciliável com et
cada vez mais difundido recurso aos tempos da esterilidade natural (assim
chamados agenesíacos na mulher) o que representa clara atitude dc von­
tade, contrária àquela disposição.
Ocorre antes de tudo considerar duas hipóteses. Se a atuação de tal tc*oria
não quer significar outra coisa senão que os cônjuges podem fazer uso ele
seus direitos matrimoniais também nos dias de esterilidade natural, nada
há a se opor; com isto, realmente, êles não impedem nem prejudicam ole*
modo algum a consumação do ato natural e suas ulteriores naturais conse­
qüências. Exatamente nisto a aplicação da teoria da qual falamos distin-
gue-se essencialmente do abuso já assinalado, que consiste na perversão de>
próprio ato. Se, pelo contrário, vai-se mais longe, permitindo o ato conju­
gal exclusivamente naqueles dias, então a conduta dos esposos deve ser exa­
minada mais atentamente.
E aqui de novo duas hipóteses se apresentam à nossa reflexão. Se já na
conclusão do matrimônio ao menos um dos cônjuges tivesse tido a intenção»
ele restringir ao tempo de esterilidade o próprio direito matrimonial, c não
sòmcnte o seu uso, de modo que nos outros clias o outro cônjuge não tivesse*
uem mesmo o direito de requerer o ato, isto implicaria um defeito essencial
elo consenso matrimonial, que levaria consigo a invalidade do matrimônio,
porque o direito derivante do contrato matrimonial é um direito perma-
ne*nte, ininterrupto, e não intermitente, de cada um dos cônjuges com rela-
e;ae) ao outro.
Se pelo contrário aquela limitação do ato aos dias de natural esterilidade*
lefere-se não a um direito propriamente dito, mas só ao uso do diieit.o, a
validade do matrimônio permanece fora de discussão; todavia a lie*e*ielade*
moral dc tal conduta dos cônjuges seria para se afirmar ou se negar, o-on
lorme a intenção de observar constantemente aquêles tempos é baseada, ou
mm, sôbre motivos morais suficientes e scgure>s. Só o fato de que cônjuge*»
iiíio ofendem a natureza do ato e estão até prontos a aceitar o* e^lucar o»
filho, que não obstante suas precauções, viesse à luz, não bastaria por si
«o para garantir a retidão da intenção e a me>ralidade irre*te)rejuível dos pró­
prios motivos.
A razão o’* <|iie o matrimônio obriga a um e*stadn ele* vida, que* assim o-omo
e’oinfo,re* eertos eliieitos, tanibe'*m impõo* o cumprimentei do» uma obra positiva,
a io‘spe‘ito elo próprio e\stade). Mm tal e‘aso pode-se1 aplicar o> prine*ipie> go*ral


olo que uma prestação positiva pode ser omitida, se graves motivos, inde­
pendentes da boa vontade daqueles que a ela são obrigados, mostram que
aquela prestação é inoportuna, e provam que não a pode justamente ex i­
gir do requerente, que neste caso é o gênero humano. O contrato matrimo­
nial, que confere aos esposos o direito de satisfazer as inclinações da natu-
i'0 'za, constitui os esposos em um estado de vida, o estado matrimonial. Ora
aos cônjuges, que fazem dêle uso com o ato específico do seu estado, a natu-
roza o o Criador impõem uma função de prover à conservação do gênero
humano. É esta prestação característica, que faz o valor próprio dos seus
i*staele>s, o bem da prole. O indivíduo e a sociedade, o povo e o Estado, a
própria Igreja, dependem para suas existências, na ordem por Deus esta-
be>lccida, do matrimônio fecundo. Portanto abraçar o estado matrimonial,
usai- continuamente a faculdade a êle própria e nêle somente lícita, e de
o>utra parte, subtrair-se sempre e deliberadamente sem um grave motivo,
ao> seu primário dever, seria um pecado contra o próprio sentido da vida
conjugal.
Desta prestação positiva, obrigatória, podem eximir, até por longo tempo,
antes pela inteira duração do matrimônio, sérios motivos, como aquêles que
('xistem não raramente na chamada “ indicação médica” , eugênica e social.
Disto se segue que a observância dos tempos infecundos pode ser lícita sob
0 aspecto moral; e nas condições mencionadas é realmente tal. Se porém
não existem, segundo um juízo racional e justo, semelhantes graves razões
pessoais ou derivantes das circunstâncias exteriores, a vontade de evitar
habitualmente a fecundidade de suas uniões embora continuando a satis­
fazer plenamente às suas sensualidades, não pode derivar senão de uma
falsa consideração da vida e de motivos estranhos às retas normas éticas.
Diante de casos assaz delicados, nos quais não se pode exigir que corram
01 risco da maternidade, que precisa ser absolutamente evitada, e quando
dc outra parte, a observância dos períodos agenesíacos, ou não dá suficiente
segurança, ou deve ser afastada por outros motivos, tôda manobra preven­
tiva e todo direto atentado à vida e ao desenvolvimento do germe está em
consciência proibido e excluído, e uma só via permanece aberta, aquela da
abstinência de tôda atuação completa da faculdade natural.
Mas observar-se-á que semelhante abstinência é impossível, que tal he­
roísmo é irrealizável. Esta objeção hoje ouvi-la-eis, e ireis lê-la em tôda
parte, até de quem, por dever e por competência, deveria estar capacitado
para julgar diversamente.
E costuma-se aduzir como prova o seguinte argumento: “ Ninguém está
obrigado ao impossível, e nenhum legislador racional presume-se que queira
obrigar com sua lei também ao impossível. Ora para os cônjuges a absti-
nôncia com longa duração é impossível. Portanto não estão obrigados à abs-
tinônoia; a lei divina nao pode ter êste sentido” .
Assim da premissa parcialmente verdadeira deduz-se uma conclusão falsa.
Para convencer-se disto basta inverter os têrmos do argumento: — Deus
não obriga ao impossível. Mas Deus obriga os cônjuges à abstinência se a
sua união não pode ser completa segundo as normas da natureza. Portanto
nestes casos a abstinência c possível. Temos a confirmação de tal argumento
na (lo)iitrina do Concilio do Trento, o qual, no capítulo sôbre a observância,
no-oN-ssária e possível, dos mandamentos ensina, referindo-se a um passo de
Sh). Agostinho: “ Deus não manda coisas impossíveis, mas enquanto manda,
avisa, para lazer o> quo podes, e pedir aquilo que não podes, e ajuda a fim
do cjiu* possas” ( « ).

(I) Dltium o A* 0 M n i r i t I / i pi, VI ilr nii lii li ni , IflíU

Hfl
CONSCIÊNCIA E EDUCAÇÃO
Escopo da educação na ordem natural é o desenvolvimento da criança
para se tornar um homem completo: escopo da educação cristã é a for­
mação do novo ser humano, renascido no batismo, até o perfeito cristão.
Propomo-nos agora a sublinhar um elemento, que embora estando à base
e como fulcro da educação, especialmente da cristã, parece, entretanto, a
alguns, em primeira vista, quase estranho a ela. Queremos falar daquilo
que há de mais profundo e intrínseco no homem: a sua consciência. A isto
scmos levados pelo fato de que algumas correntes do pensamento modorno
começam a alterar-lhe o conceito e a impugnar-lhe o valor. Trataremos por­
tanto da consciência enquanto objeto da educação.
A consciência é como o núcleo mais íntimo e secreto do homem. A li t*Io*
se refugia com suas faculdades espirituais em absoluta solidão; só consigo
mesmo, ou melhor, só com Deus — de cuja voz a consciência é eco — e con­
sigo mesmo. A li êle se determina para o bem ou para o mal; ali escolho'
entre a estrada da vitória e a da derrota. Ainda que quisesse, o homem
não conseguiria jamais arrancá-la de si; com ela, aprovando ou condenan­
do, percorrerá todo o caminho da vida, e igualmente com ela, testemunha
veraz e incorrutível, apresentar-se-á perante o juízo de Deus. A conscioMi-
cia é, portanto, para dizer com uma imagem tão antiga quanto digna, uin
santuário, do qual o próprio Deus quer que se guarde o segrêdo com o
sigilo do mais sagrado silêncio.
Em que sentido portanto pode-se falar da educação da consciência?
Ocorre chegar a alguns conceitos fundamentais da doutrina católica para
bom compreender que a consciência pode e deve ser educada.
O divino Salvador trouxe ao homem ignaro e débil a sua verdade o
a sua graça; a verdade, para indicar-lhe a via que conduz à sua meta; a
graça, para conferir-lhe a fôrça de poder consegui-la.
Percorrer aquêle caminho significa, na prática, aceitar o querer e os man-
<lamentos de Cristo e com êles conformar a vida, isto é, cada ato, interno)
o* externo, que a livre vontade humana escolhe e fixa. Ora que faculdade
0 'spiritual, senão a consciência, nos casos particulares mostra à vontade mes­

ma, a fim de que escolha e determine os atos que são conforme à vontade
divina?
Kla ó portanto eco fiel, nítido reflexo da norma divina das ações huma­
nas. Do modo) que as expressões, qual o “ juízo da consciência cristã” , ou
0 1 ilra “ julgar segundo a consciência cristã” , têm êste significado: a nor ma
iIn olorisão última o pessoal para uma ação moral seja tomada da palavra
«• oIn vontade de Cristo, file ó realmente caminho, verdade e vida, não sò-
inenie para todo>s o>s homens tomados om conjunto, mas para cada indiví­
duo) o‘in particular; ó tal para o> homem maduro, o para a criança o>u para
o Jovem.
Disto) p r o x v d e o|iio> f o r m a i 1 a (’onscio"no*ia o r i s t í i d o u m a c r i a n ç a o>u ole u m
loivi-m c o n s i s t o*, nnti\s olo* tuolo, o>m i l u m i n a r s u a s moMitos ao v i r a ola v o n t a o l e
i l e f r i s l o , mui lo*i, s u a v i a , o* ai uol n m a i s o-m a g i r s ô l n v so*u;: â n i m o s , o|uanl o

Hl
Isto pe>ssa sot l’o*ito) do> fora, a fim do; induzi-lo u livro c constante exe-
eu<;ãe> ola olivina vemtade. fòsto? ó o mais alto empenhe) da educação.
Onde poro'1!!) encontrarão) educador e educando, em concreto e com faci-
liolaole e certeza, a lei moral cristã? Na lei do Criador impressa no coração
elo caola um o na Revelação, no) complexo, isto é, das verdades e dos pre-
evitew, ensinados pelo divino Mestre. Ambos, seja a lei escrita no coração,
o)ii soja a lei natural, sejam as verdades e os preceitos da revelação sobre­
natural, o) Redentor Jesus deixou como tesouro moral da humanidade, nas
míie>s de sua Igreja, a fim de que ela os pregue a tôdas as criaturas, os
ilustre; e intatos, defendidos de tôda contaminação e êrro, os transmita de
uma a o)utra geração.
Cemtra esta doutrina, por longos séculos inatacada, emergem agora difi­
culdades e objeções que necessário é esclarecer.
Corno da doutrina dogmática, assim também da estrutura moral católica
o|uoror-se-ia instituir quase uma radical revisão para deduzir uma valori­
zação) nova.
() passo primário, ou, para dizer melhor, o primeiro golpe no edifício das
normas morais cristãs, deveria ser aquêle de desvencilhá-lo — como se pre­
tende — da observância angusta e oprimente da autoridade da Igreja, de
modo que, livre das sutilezas sofísticas do método casuístico, a moral seja
reconduzida à sua forma originária e recolocada simplesmente à inteligên­
cia e à determinação da consciência individual.
Cada qual vê a que funestas conseqüências conduziria tal abalo dos
próprios fundamentos da educação.
Omitindo relevar a manifesta imperícia e imaturidade de juízo de quem
sustenta semelhantes opiniões, ajudará colocar em evidência o vício central
desta “ nova moral” . Ela, colocando todo critério ético na consciência indi­
vidual, fechada ciumentamente em si e tornada árbitra absoluta de suas de­
terminações, longe de tornar expedito o caminho, afastá-lo-ia da via mes­
tra que é Cristo.
O divino Redentor consignou sua Revelação, da qual fazem parte essen­
cial as obrigações morais, não aos indivíduos em particular, mas a sua
Igreja, à qual deu a missão de conduzi-los a abraçar fielmente o sagrado
depósito.
Igualmente a divina assistência, ordenada a preservar a Revelação dos
omtos e das deformações, foi prometida à Igreja, e não aos indivíduos. Sá­
bia providência também esta, porque a Igreja, organismo vivente, pode
assim, com segurança e agilidade, quer iluminar e aprofundar as verdades,
também morais, quer aplicá-las mantendo intata a substância, às condições
variáveis dos lugares e dos tempos.
Como é portanto possível conciliar as providas disposições do Salvador,
o|iu> confiou à Igreja a tutela do patrimônio moral cristão, com uma espé­
cie1 de autonomia individualista da consciência?
Ksta, subtraída ao seu clima natural, não pode produzir senão benéficos
frutos, os quais se reconhecerão somente comparando-os com algumas ca­
racterísticas da tradicional conduta e perfeição cristãs, cuja excelência está
provada pelas obras incomparáveis dos santos.
A “ moral nova” afirma que a Igreja, antes que fomentar a lei da liber-
elado humana e do amor, e dc nisto insistir como dinâmica digna da vida
moral, faz entretanto pressão, quase exclusivamente e com excessiva rigi-
elez, sôbre a firmeza e a intransigência da lei moral cristã, recorrendo mui­
tas vêzes a ô:;te*s “ sois obrigados” , “ nao ó lícito” , que têm muito sabor de
um aviltante* pe*elantisme>.
Ora, pe‘ ln conlrário) n Igreja e|ue>r — - e' o coloca em luz expressamente
o|iiande) se* trata do feirmar as consciências que os cristãos sejam intrei-
(lu/idos nas infinitas riquezas da lé e da graça, dc* modo persuasivei, olo*
modo o|uo se sintam inclinados a penetrá-las profundamente:.
A Igreja poivm não pode deixar de avisar os liéis que estas rietue>zas
n;íe> podem ser conseguidas e conservadas senão a preço de preciosas obri­
gações morais. Uma conduta diversa terminaria fazendo) esquecer um prin­
cípio dominante, sob o qual sempre insistiu Jesus, seu Senhor e Mestre*, fòle*
de fato ensinou que para entrar no reino dos céus não basta dizer “ Senhor,
Sc>nhor” , mas deve-se fazer a vontade do Pai Celeste. Êle falou ola “ porta
estreita” e da “ angusta via ” que conduz à vida e adicionou: “ Esfeirçai-vos
por entrar pela porta estreita, porque muitos, eu vos digo, procurarão) entrar
e não conseguirão” . Colocou como comparação e sinal distintivo) de> amor
para Consigo, Cristo, a observância dos maneiamentos. Igualmente ao je>ve*m
rico, que o interroga, Êle diz: “ Se queres entrar na vida, observa o>s man­
damentos” e à nova pergunta “ Quais?” , responde: “ Nao matar! Não> come­
ter adultério! Não roubar! Não dar falso testemunho! Honrar pai e mae*! «>
ama o próximo como a ti mesmo!” Colocou como condição a quem o|iiot
imitá-lo, renunciar a si mesmo e tomar cada dia sua cruz. Exige c|iio> <>
homem esteja pronto a deixar por Êle e por sua causa quanto tem ele* mais
caro, como o pai, a mãe, os próprios filhos, e até o último bem, a própria
vida. Pois que adiciona: “ A vós digo, amigos; não temais aquêles que matam
o) e-orpo, e depois não podem nada mais fazer. Eu vos mostrarei que>m e i ­
veis temer: temei Aquêle, que depois de ter tirado a vida, pode ainda man -
elar para o inferno” .
Assim falava Jesus, o divino Pedagogo, que sabe certamente, melhor olo
o|ue os homens, penetrar nas almas e atraí-las ao seu amor com infinitas
perfeiçÕes do seu Coração, “ bonitate et amore plenum” .
Tomando portanto como estrita norma as palavras de Cristo, não devoreis
talvez dizer que a Igreja de hoje está inclinada mais à condescendência olo
epie à severidade? De modo que a acusação de dureza oprimente, da “ noiva
moral” , movida contra a Igreja em realidade vai fei’ir em primeiro Jugar
a mesma adorável Pessoa de Cristo.
Cientes portanto do direito e do dever da Sede Apostólica de intervir,
ejiiando há necessidade, autorizadamente nestas questões morais, Nós decla­
ramos aos educadores e à própria juventude: o mandamento divino) ola
pureza da alma e do corpo vale sem diminuição alguma, também para a
juventude hodierna. Também ela tem a obrigação moral, e com a ajuda ela
graça, tem a possibilidade de conservar-se pura. Repelimos portanto cemm
e>rrônea a afirmação daqueles que consideram inevitável a queda ne>s anos
da puberdade, a qual assim não mereceria que se tomasse em grande ce>n-
sidoração, quase como se não fôsse culpa grave, porque ordinariamente',
olizom ainda, as paixões tiram a liberdade necessária, a fim de que um
ato) seja moralmente imputável.
Ao contrário, é norma importante e sábia que o educador, embora não
ele-scurando apresentar aos jovens os nobres dons da pureza para impeli-los
a amá-la, e desejá-la po)r si mesma, inculque entretanto claramente o) man­
damento como tal em tôda a sua gravidade e seriedade ele manda-
moMite) divino. Assim levará e>s jovens a evitar as e>casiões próximas, eum-
fe>rt.á-le)s-á na luta, cuja dureza não lhes escemderá, induzi-le)s-á a abra<;ar
e^orajosamente os sacrifícios que a virtude exige, e exe)rtá-los-á a po'rso'vo'-
rar e1 a não cair no perigo) de depe>r as armas desde e> principio) e olo; su-
0 ‘umbir sem msislôncia aeis pe'rverse>s hábitos.

Mais do) que no) campo da coneluta privada, existem hoje» muitos opio'
e|ue*r(’riam o'xe‘ luir o eleimínio da le>i me)ral da vida pública, e^emômieia o> :;oo’ial,
ola aoI,ão> dos poolo're's públie-os, no interne) e' ne> o'xte'ruo, na paz o< na guoM ia,
e‘oimo> so* ne|iii Deus nada tive‘SS0 ‘ a elizor, ao me*iios ele' tnode> definitivo).

H1
A (*mancipaç5o tlu ati v i dade humana externa, como as ciências, a política,
ti arte da moral vem às vêzes motivada em filosofia, pela autonomia que a
rins compete, em seus campos, de se governarem exclusivamente e segundo
lo>is próprias, ainda que se admita que estas colimam de ordinário com as
morais. E trazem por exemplo a arte, para a qual se nega não somente tôda
do‘pendência, mas também qualquer relação com a moral, dizendo: a arte
o'* só arte, e não moral, nem outra coisa; deve ser regida portanto, somente
pelas leis da estética, a arte se é verdadeiramente tal, não se dobrará a
so*rvir a concupiscência. Dêste modo fala-se da política e da economia que
iuio) têm necessidade de tomar conselho com outras ciências, e nem por­
tanto) da ética, mas guiadas por suas leis verdadeiras, são por isto mesmo
boas e justas.
É, como se vê, um sutil modo de subtrair a consciência ao império das
leis morais. Em verdade, não se pode negar que tal autonomia seja justa,
enquanto exprime o método próprio de cada atividade e limites que sepa­
ram suas diversas formas em teoria; mas a separação de métodos não deve
significar que o cientista, o artista, o político estejam livres da solicitude
moral no exercício de suas atividades, especialmente se estas têm imedia-
to>s reflexos no campo moral, como a arte, a política, a economia. A separa­
ção nítida e teórica não tem sentido na vida, que é sempre uma síntese,
pois que o sujeito único de cada espécie de atividade é o mesmo homem,
cujos atos livres e conscientes não podem fugir à valorização moral. Con­
tinuando a observar o problema com o olhar amplo e prático, que por vêzes
falta a filósofos até insignes, tais distinções e autonomias são dirigidas pela
natureza humana decaída a representar como leis da arte, da política ou da
economia, o que é realmente cômodo à concupiscência, ao egoísmo e à cupi­
dez. Assim a autonomia teórica da moral torna-se em prática rebelião amo­
ral, e esfacela-se assim aquela harmonia ínsita às ciências e às artes, que-
os filósofos daquela escola perspicazmente encontram, mas dizem casual,
enquanto é essencial, se tal harmonia é considerada da parte do sujeito que
ó o homem, e da parte de seu Criador, que é Deus.
Nós não cessamos de insistir sôbre o princípio de que a ordem querida
por Deus abraça a vida inteira, não excluída a vida pública em cada uma
de suas manifestações, persuadidos de que isto não é restrição alguma da
verdadeira liberdade humana, nem intromissão na competência do Estado,
mas uma asseguração contra os erros e abusos, dos quais a moral cristã,
se retamente aplicada, pode proteger. Estas verdades devem ser ensinadas
aos jovens e inculcadas em suas consciências por quem, na família ou na
escola, tem a obrigação de olhar a educação dêles, colocando assim a semente
de um futuro melhor ( ’ ).

(I) ItA illo 1i t c i >->■ u<'11 f.ti.i .i ' I i i i i i .i i I. i i i. i I .im lli.i" , J I <I•• m , n i , i ) , H IV J .

Hl
SÔBRE OS DEZ MANDAMENTOS
Não veio, como afirmou, para ab-rogar e abolir a lei, mas sim para com­
pletá-la e conduzi-la à perfeição; e aperfeiçoada por Êle com sua doutrina
e seu ensinamento foram os dez mandamentos, que Deus proclamou sôbre
o Sinai ao povo de Israel.

1. OS DEZ M AN D AM EN TO S, EM G ER AL
Os dez mandamentos são uma lei dada por Deus mesmo, na qual se espe­
lha também o vigor da razão humana e da inteligência dos sábios; e nao)
obstante isto, a quem examina as condições religiosas e morais da hora pre­
sente que coisa se manifesta senão um penoso contraste entre o mais alto
grau de formação religiosa, que hoje em dia se oferece ao povo, de um lado,
e de outro, o menor aproveitamento que se tira e a menos eficaz fôrça dc;
impulso, que disto deriva na prática da vida? Em períodos precedentes da
história da Igreja era mais simples em geral o comum ensinamento reli­
gioso; mas supria isto o fato que todo o processo da vida humana era do­
minado com numerosos santos costumes impregnados do temor de Deus
e pelo imprescindível dever de seus mandamentos.
Da metade do século passado, não somente a ciência católica com admi­
rável desenvolvimento cada vez mais se tornou vasta, mas também o pró­
prio magistério eclesiástico de modo grandioso e amplo, expôs e clarificou
em todo aspecto a fé católica e forneceu normas morais para as mais varia­
das condições da vida, tanto dos indivíduos, como das comunidades, pro­
curando em tôdas as possíveis formas levar e difundir nas almas tantas
riquezas da luz espiritual. Quando porém se pergunta se igualmente tanto
se elevou no povo católico o grau da instrução religiosa e da conduta moral,
a resposta não pode infelizmente soar afirmativa. Em lamentável oposição
com êste alto desenvolvimento doutrinai começaram a diminuir e a elim i-
nar-se a eficácia e a fôrça do impulso religioso.
Não negaremos, aliás claramente aparece que não faltaram nem faltarão
católicos, exemplarmente fiéis aos mandamentos de Deus; aos quais não
falta heroísmo cristão e santidade. Neste campo a nossa idade não está
inferior aos tempos anteriores, e não tememos dizer, que sobrepassa tan­
tos. Mas dai um olhar às opiniões, condições e instituições públicas, e encon-
trareis desventuradamente que foram mais ou menos descristianizadas, en­
quanto que a desestima e o afastamento do modo de viver cristão difun­
diram-se largamente. Uma difusa corrente anti-religiosa, se opõe aos eren-
to‘.s, que querem conformar tôda sua vida pessoal, fam iliar e pública à lei
elo» Deus; encontram graves dificuldades e impedimentos para fazer conhe-
e-er o» estimar suas convicções; onde não poucos sucumbem ou definham na
prática da religião. Para respirar no ar corrompido das grandes cidade»*
modennas e viver nelas cristãmente sem beber o veneno, é necessário um
profundo espírito de fé, e a fôrça da resistência, própria dos mártires.

# # *
85
t> l’l«) XII 1’roMiimm
IJrn fato que sempre se repete na história da Igreja, é que quando a fé
o ;i rrmral cristã se ferem contra fortes correntes adversárias de erros ou
olo> apotites viciados, surgem tentativas de vencer as dificuldades com algum
cômodo pacto, ou procura-se esquivá-las e iludi-las.
Também no que diz respeito aos mandamentos de Deus acreditou-se ter
encontrado uma providência. Na matéria moral, diz-se, há inimizade com
Deus, perda da vida sobrenatural, grave culpa em sentido próprio, somente
quando o ato, do qual se deve responder, foi pôsto não somente com claro
('oMihecimento, que é contra o mandamento de Deus, mas também com a
expressa intenção de ofender com êle o Senhor, de romper a união com
P.Io, de negar-lhe o amor. Se esta intenção faltou, se com isto o homem de
.sua parte nao quis truncar a amizade com Deus, o ato em particular —
afirma-se — não pode prejudicá-lo. Para trazer um exemplo: os multi-
formes desvios do sexto mandamento não seriam para o crente, que de
resto quer manter-se unido a Deus e conservar-se amigo dêle, nenhuma
falta grave, nem importaria culpa mortal. Solução de deixar abismado. Quem
nao vê como, no claro conhecimento de que um determinado ato humano
é contra o mandamento de Deus, se inclui que êle não pode ser endereçado
ao fim da união com Êle, exatamente porque contém a aversão, ou seja,
o» afastamento do ânimo, de Deus e de sua vontade (aversão a Deus, fim
últim o), aversão que destrói a união e a amizade com Êle, como faz pro­
priamente a culpa grave? Não é talvez verdade que a fé e a teologia ensi­
nem que cada pecado é uma ofensa a Deus e mira a ofendê-lo porque a
intenção ínsita na culpa grave é contra a vontade de Deus expressa no
mandamento dêle que se viola? Quando o homem diz sim ao fruto proibido,
diz não a Deus proibindo; quando antepõe si mesmo e sua vontade à lei
de Deus, afasta de si Deus e o divino querer; nisto consiste a aversão de
Deus e a íntima essência da culpa grave. A malícia do ato humano vem
disto, que não é ajustado a sua regra, a qual é dúplice: uma próxima e
homogênea, isto é, a própria razão humana; a outra é a primeira regra, quer
dizer a lei eterna que é como a razão de Deus, cuja luz resplende na cons­
ciência humana, faz então ver a distinção entre o bem e o mal. O verda­
deiro crente não ignora que a intenção tendente ao objeto da culpa mor­
tal não é separável da intenção que viola a vontade e a lei divina e rompe
tôda amizade com Deus, o qual sabe muito bem reconhecer as retas e as
más intenções dos atos humanos e premiá-las ou puni-las com sua pene­
trante justiça.
* * *

Não há senão uma via para chegar ao amor de Deus e manter-se na união
(> amizade dêle: a observância dos seus preceitos. As palavras contam pouco;
o que vale são os fatos, e portanto o Redentor dizia: “ Nem todos aquêles
c|ue me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos Céus, mas aquêles
que fazem a vontade do meu Pai, que está nos céus, êstes entrarão no
reino dos Céus” . Confessar Deus com o cumprimento de sua santa vontade
eni todos seus mandamentos e conformar-se a êles, antes unificar com êles
a nossa vontade, êste, e somente êste é o caminho do Céu. S. Paulo pro­
clama tal axioma da vida moral com enérgica forma: “ Cuidado por não
errar: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efe­
minados, nem os quo pecam contra a natureza, nem os ladmes, no>m o>s
avaros, nem os quo se dedicam â embriaguez, nem os malvados, nem os
laolrõ('s rapinadores, oibtorãoi a ho>rança do Ko'ino> dois Cóus” . O Apostolo)
das ( l e n t e s tinlui certamente diante olos olho>s níio sòmoMito* as defoovõos da
le i ole Deus, po-la formal uo^açno da fé, o óolio» formal contra f tlo , mas tam-

Mft
bém tôda grave lesão das virtudes morais, e sua palavra nao visava sòmenfe
o>s hábitos de pecar, mas também todos os atos contra a moral e a justiça,
o(ue são pecados mortais e trazem portanto consigo a eterna condenação.
Dar exatamente ao homem religioso uma como que carta de imunidade de
tôda culpa, em tudo aquilo que fizesse contra os mandamentos de Deus,
não poderia certamente ser e julgar como redenção da miséria moral, cuja
destruição, hoje, a Igreja visa particularmente.

* * #

Hoje parece renascido o paganismo, e já muitos o exaltaram contra o


oTistianismo em seus volumes e em seus versos, mas a Igreja, desde seu apa­
recimento no mundo, entrincheirou-se com a doutrina do Evangelho e com
i virtude heróica de seus Apóstolos e de seus crentes, contra todo sofisma
c tôda perseguição oculta ou aberta do gentilismo. Sua luta foi sempre*
movida por um caminho frontal, contrapondo aos desvios pagãos a fôrça
iluminadora dos preceitos e das virtudes cristãs. Não somente as Epístolas
elo; S. Paulo dão um testemunho preclaro da altura das obrigações morais
portadoras da religião de Cristo e da luta que os fiéis deviam sustentar para
atuá-la; mas também no fim da Idade Apostólica, as Cartas do Apocalipse*
às sete Igrejas, são uma não menos manifesta expressão disto, naquele cem-
línuo repetir-se: “ Vincenti... Qui vicerit...” . “ Ao que vencer darei de cmner
ela árvore da vida, darei o maná escondido; confessará o seu nome diante*
elo Seu Pai, e diante de seus anjos. Quem será vencedor não será ofendido)
pe>la segunda morte” .
O fervor dos cristãos nos primeiros séculos inclinava-os a professar sua
fé talvez mais abertamente do que imaginamos; tanto que por vêzes o se*u
ri/;or moral atravessou os limites da racional medida requerida pelo espí­
rito do Evangelho. Com grande severidade os Padres da Igreja não duvi-
elaram combater, pelas desordens que ocasionavam, os espetáculos, as
lutas dos gladiadores, os teatros, as danças, as festas e os divertimentos, e|Ue*,
nao obstante, pareciam naturais à sociedade pagã. Nada de admirar-se, pe>is,
<|iie* a fé viesse radicalmente transformando os costumes de quem dela se
avizinhava.
Se* hoje, portanto, muitas vêzes se levanta o grito: Volta ao Cristianismo
primitivo! bem se começa a colocá-lo em ato com a emenda e reforma de)s
i’et::tumes; aquêle grito não seja, pois, apenas uma voz vã, mas um sério e
elo*tivo retorno, como o requerem, e como verdadeiramente é necessário para
<i no isso tempo, às exigências da ação e da vida moral.
() heroísmo, Cr i sto não o encontra em todos; a quem quer que manifes­
tava, ainda que somente um sinal de boa vontade, estendi a a mão e inspi­
rava evíragem; mas ao mesmo tempo não se resignava de formular as per­
guntas mais profundas: “ Se alguém quer me seguir, renegue a si mesmo
e lume* cada dia sua cruz e me siga” . “ Sêde perfeitos, como é perfeito Vosso»
Pai ( Vleísto” . Para conduzir os homens a tão altas metas, a Igreja a t<iele>s
•ioiomhto*, sempre com a intenção de mais e mais avizinhar da perfeição) do Pai
f'elo\*:te quantos crêem em Cristo e praticam seus ensinamentos e manda­
mentos.
Kla e*st.á s ô b r e o m o n te , v is ív e l a to d o s, “ m ã e d o s s a n to s, im a g e m ela
c id a d e e t e r n a ” , e n q u a n to p a r e c e (pio? a d e s c r is t ia n iz a ç ã o , em tô rn o d e la ,
r a u h o u e g a n h a teT ron o .
A bíieja e*stA lá, sôbre seu fundamento, inflexível às olefeo*çõc*s e* às
peiM*>.:uio;(“)o>s, poro|ue e*la te*rn a fôrça ole Deus e de Cristo. Ke>i dito» c|iw*, hoi
I >«’im nno existisse*, »eiria ne*e*essário inventá-lo: so*m Deus, (|ue> elesignou aos

H7
homens os fins oí os confins olo bom o do mal, não> esplenderia à razão uma
N>i olo: moralidade sôbre osta tona. Lá onde domina a fé em Deus pessoal,
permanece secura a ordem moral, determinada pelos dez preceitos do Decá-
logo>; ole outro modo, ou antes ou depois miseràvelmente cairá por terra.
# # *

2. OS M AN D AM EN TO S DE DEUS, EM P A R T IC U L A R

Se olhamos agora os mandamentos de Deus singularmente, pode-se bem


olizor que cada um dêles tornou-se um grito de alarma, cada qual mostra
um grave perigo moral. Os tempos passados tinham visto também êles sérias
(lo\sordens: quem poderia isto negar? Mas algumas colunas, que sustenta­
vam a ordem ética, antes de tudo, a fé em Deus, a autoridade dos pais e dos
ponlores públicos, permaneciam sempre sólidas e intatas. Hoje todo o edi-
ficioi da moral está ameaçado, insidiado e revolvido. Um sinal característico
ole tal decadência é que com o diminuir da fé em Deus, e com a simultânea
o>xageração e abuso que não raramente se dá ao poder público, não só as
lorinas concretas, mas também o próprio princípio da autoridade tornam-se
“ pedras de escândalo” e encontram refugo.
Cremos, entretanto, que para sanar e melhorar tal estado de coisas, dois
remédios particularmente ajudariam. Em primeiro lugar, restitua-se a auto­
ridade dos genitores, em todos os seus direitos, também lá onde ela foi res­
tringida e absorvida, por exemplo, no campo da escola e da educação. Pois
todos os que têm uma autoridade pública, tôdas as classes dirigentes, até
os empregadores e os educadores da juventude, procedam êles mesmos com
exemplo de uma vida escrupulosa e exercitem o poder moral inerente ao
seu ofício conforme as leis da justiça e do amor. A tal modêlo de probi-,
dade o mundo permaneceria admirado, vendo quais prodígios de pública
tranqüilidade e confiança poderiam surgir.
No terreno da recíproca lealdade e veracidade reina e se expande um ar
viciado, no qual as pessoas de boa-fé sentem faltar-lhes a respiração.
Quem teria esperado que depois de tôda a alta civilização ou a superior
cultura que foram a glória da idade precedente, o respeito para com o
direito teria encontrado perigos, competições e violações, quais somente os
porío)dos mais obscuros da história conheceram? Mas também em tal maté­
ria a chave de tôda solução foi dada pela fé em Deus pessoal que é fonte
olo» justiça e reservou a si o direito sôbre a vida e sôbre a morte. Nada senão
osta fé poderá conferir a fôrça moral para obsei'var os devidos limites diante
de tôdas as insídias e tentações para atravessá-las; tendo presente ao olhar
ojiie, excetuando-se os casos de legítima defesa privada, a guerra justa e
realizada com justos métodos, e da pena de morte aplicada pela autoridade
pública para bem determinados e provados gravíssimos delitos, a vida hu­
mana é intangível.
Sôbre os mandamentos chamados “ da primeira tábua” , que dizem res-
peito a Deus, achamos oportuno duas observações.
A primeira concerne ao sentido mesmo do culto a ser rendido a Deus, sen-
1ido que nos últimos 105 anos veio sendo obscurecido também em meio dos
fio'‘is. So do fato em todo tempo acontece que no santuário da vida religio)sa
possoml os homens procurem e tentem fazer progredir o próprio interesso,
êste so nota, além da medida, verificado e provado sob o influxo da so)-
herbn o vaiolonsa cultura materialística, que senhoreia as gerações moxlornas.
Quis-se reduzir as ro>laçõo‘s entro Deus o o homem no> auxílio divino nas
oooinvneias materiais o> torro>nas; quanto ao> rosto, o homem quo*r fazo>r po>r
hi mesmo opiaso' eo>mo so- nao mais houvosso1 necessidade do) sustento) divino).

HK
C) culto olo Deus tornou-se um conceito do útil; a religião da esfera do> espí-
rito) caiu na da matéria. A prática religiosa não usava sen ao pedir íavo>ro>N
ao céu para as necessidades da terra, fazendo quase as contas com l)o*us:
a fé vacilava, se o auxílio não correspondia ao desejo. Que religião) e fé
antes de tudo importam adoração e serviço de Deus; que existam man­
damentos de Deus, os quais obrigam sempre, em cada lugar e em todas
as circunstâncias, que para o cristão a vida futura domine e determine a
terrena, estes conceitos e estas verdades, que regem e guiam o intelecto) o>
a vontade do crente, tornaram-se estranhos ao pensamento e ao sentimento)
do) espírito humano.
A tal transviamento qual remédio convém opor? É necessário que as gran­
des verdades e os grandes conceitos da fé retornem como vida e real i dade,
em tôdas as classes do povo, nas superiores ainda mais do que nas deser­
dadas e provadas pela indigência e miséria daqui debaixo. E necessidade
mais urgente disto na educação religiosa não há talvez no presente, que
nao só o exige, mas o facilita também a que isto se providencie, po»rque
quanto agora de mal e de desventura a humanidade experimenta, pela dera
elêneia da moral e da justiça, vem a ser uma correção terrivelmente o-larn
o> dedorosa pela falsa idéia de Deus e da religião subvertida em sua prátio,a.
Foi dito que o prodígio dêstes anos são os milhões de fiéis que honram
a Deus e o servem, submetidos aos seus mandamentos, embora tenham vindo
a encontrar-se em condições de indizíveis apertos. Certamente existem tno
oto‘votos e impávidos cristãos, glória da Igreja.
O culto de Deus, que no curso da vida humana deveria iniciar e feo-1mi­
rada dia, impõe ademais deveres especiais para a santificação das festas;
lie1 11 i cabe nossa segunda observação. Não se pode, certamente reprovai1 a
Igreja de querer aplicar o preceito dominical com excessiva dureza, a ela
(|ue< o) determina e o regula com aquela “ benignitas et humanitas” , das quni.s
deu exemplo o seu divino Fundador. Mas contra a profanação e o trans-
mudamento leigo do dia sagrado de domingo, que com o ritmo crescente?
vrm sendo espoliado de seu caráter religioso, e em tal modo afastam e>s
tiomoíns de Deus, a Igreja, guarda da lei divina, deve opor-se e fazer frente?
rom santa firmeza.
l)o*ve fazer barreira a Igreja contra a absorção e a distração derivante\s
d o e»spe>rte excessivo, a tal ponto que não há mais tempo para a oração, para
o rrro)lhimento e para o repouso, os membros da família são, forçosamente,
um separado do outro, e os filhos permanecem alheios e fora da vigilância
eI«* mo*us genitores. Oponha-se, sem temor, àqueles divertimentos, que, como
o oMiu^na imoral, mudam o domingo em dia de pecados. F i n a l m e n t e *
d e v o * olar-se ao devido repouso e descanso festivo, que se muda mais do>
o|iu‘ qualquer emtra coisa em vantagem de elevação religiosa, de renova-
m e n t . o espiritual e de concorde progresso da vida de família.

# * #

Drus, o nome de Deus e o culto de Deus constituem a “ primeira tábua” ;


0 próximo, e* e>s deveres e direitos da vida humana aparecem na “ segunda
tábua” , a qual, se une com a primeira forma do decálogo, quase do inoxlo
••m <|ue* o» amo>r ele Deus e o amor do homem se unem para cemstituir um
ió amor o|iu* ele De*us reverte sôbre o próximo. Mais numemsos sao os prê­
m io s rnntiolos ne*sta “ se*gunda tábua” , que mereceriam muitas obse*rvaçõo*H;
mu:: romo |)odc*re*me>s Nós deixar de re*ce)rdar as palavras “ Ne>n moerhabe*-
1i;i"? oI ízot muito, se Nos lamo*ntame>s qtie> eumtra tal mandamento, exata­
mente o.s países (|iie* se* gloriam de' mais eMvilizados apre?soMitam um espetá ­
culo dr mais profunda de*vastaçao moral, e* se adieMone epie* e>s se*us vestí-
tfiow são visíveis na Cidade Eterna? Nós bem sabemos quanto também as
ivlormas econômicas e sociais devem eficazmente influir para salvar o ma­
t r imônio e a família; mas tal salvação, em fins de contas, permanece um
do»vor e uma obrigação religiosa, cujo processo curativo deve ter comêço
iuis raízes. A inteira concepção do campo da vida, que entra no sexto raan-
olamento está infetada daquilo que se poderia chamar “ o matrimônio no
filmo” , o qual outro não é senão uma irreverente e impudica amostra das
contaminações do matrimônio e da infidelidade conjugal, que arrasta a ver
nas núpcias desvencilhadas de tôda ligação moral, somente como a cena e
fonte de prazeres sensuais, e não como obra de Deus, como santa institui-
e;ao>, obrigação natural e pura felicidade, na qual o elemento espiritual sem­
pre domina e sobrepuja, como escola e ao mesmo tempo triunfo de um amor
fiol até o túmulo, até a porta da eternidade. Fazer reviver tal visão cristã
do matrimônio entre os fiéis, não é porventura um dever da cura das almas?
É necessário que a vida conjugal seja novamente revestida e circundada
olôste respeito, do qual a sã e incorruta natureza e a revelação desde o
princípio adornaram; respeito pela fôrça, que Deus admiràvelmente infun­
diu na natureza para suscitar novas vidas, para edificar a família, para a
conservação do gênero humano. A educação dos jovens na castidade dos pen­
samentos e dos afetos, a continência antes do matrimônio, não é a última meta,
a qual tende e mira a pedagogia cristã, mas sim a demonstração de sua eficá-
o'ia em formar o espírito contra os perigos que insidiam a vida. O jovem que
afronta e vitoriosamente sustém a luta pela pureza, observará também os
demais mandamentos de Deus e será apto para fundar uma família segundo
os desígnios do Criador. Ao invés, como se poderia esperar a castidade e
fidelidade conjugal de um jovem que não soube jamais vencer a si mesmo
e assenhorear-se de suas paixões, desprezar os maus convites e os maus
exemplos, e que se permitiu antes das núpcias tôda desordem moral?
Se o médico das almas — como tem obrigação sagrada diante de Deus
o da Igreja — quer obter vitória contra os dois cancros da família, o abuso
do matrimônio e a violação da fé conjugal, deve formar, crescer e instruir,
oom os lumens da fé, uma geração que desde os primeiros anos tenham apren­
dido a pensar santamente, a viver castamente, a dominar a si mesma.
Pensar santamente sobretudo da mulher. O “ matrimônio no cinema” tem
nesta matéria agido no modo mais funesto possível; tirou ao homem o res-
poito da mulher, e depois à mulher o respeito de si mesma. Possam a edu­
cação e o cuidaoio das almas reconduzir as mentes e os corações ao antigo
e puro ideal da mulher, mostrando a elas a Imaculada Virgem e Mãe de
Deus, Maria, à terna e confiante veneração para a qual foi, em todo tempo,
eomservação e salvação da honra feminina.
Uma última palavra devemos acrescentar sôbre o sétimo mandamento,
considerando as presentes condições econômicas, que o turbilhão da guerra
desastrosamente quase destruiu. Em tal argumento alegrar-nos-ia fazer
nossa a severa admoestação de S. Paulo: “ Ninguém roube ou faça fraude
ao> seu irmão nos negócios, porque o Senhor faz justiça de tôdas estas coi­
sas” . So tal aviso já se torna oportuno em uma normal e tranqüila dispo­
sição) da vida social, é ainda muito mais conveniente e necessário nas ho-
oliernas, confusas e agitadas circunstâncias da convivência entre os homens,
por olúplice motivo.
1’ rimeiramonte os tempos de crise e perturbações econômicas, quais os
proventos, exigem duplamente' a oxata observância do> sétimo e quinto man-
olamoMitos concernentes aos bo»ns e à vida do próximo, porque, de outro
modo), f.rando* seria o> perigo <|ue» a lealdade e fidelidade olo» agir o» de tratar
n »o »lp rn o »iim e n te olesapaiveosso-m a tal ponto o|ue tornariam imponssíve»! o> in­

<10
suportável o viver civil. Quando um dique está ameaçando ruir pelo ímpeto
da corrente, não se pode debilitá-lo, mas deve-se reforçá-lo.
Em segundo lugar, nas imensas misérias, na falta de habitações e de
alimentos, em que a atrocidade da guerra precipitou milhões de viventes
humanos, não causa maravilha que a desonestidade no manejo dos negócios,
o temerário e perverso aproveitamento das dificuldades presentes e parti­
cularmente a imposição dos preços exorbitantes e ilícitos assenhoreiam-se
das coisas necessárias à vida, tornem muito mais fácil que em idades quie­
tas e pacíficas o ultraje à comunidade do povo e violação da justiça que
gritam a Deus. Cada qual vê e compreende quanto seja necessário preve­
nir semelhantes tentações e vigiar a si mesmo, não somente com a cons­
cienciosa probidade nas relações do meu e teu, mas também com firm e c
vivo sentido e generosa mão para tudo o que inclina e leva à caridade cristã
e que a justiça social pede.
Das obras de misericórdia: dar de comer aos famintos, dar de beber aos
sedentos, vestir os nus, alojar os peregrinos, visitar os enfermos e encarce­
rados, — oh! como tôdas estas dores e afãs da realidade tocável ressoam na
hora presente em nossos ouvidos! — não dependem talvez, segundo a so­
lene promessa de Cristo, no extremo juízo, a bênção ou a maldição, a ale­
gria ou a dor para tôda a eternidade? Sim: e o mesmo acreditamos poder
afirmar por isto que diz respeito às obras feitas e omitidas pela justiça
social í 1).

(I) AIohi(,[\<>ikii (ininrnimillitin, (Ir frvrirlm, l‘)H,


III
DEUS E CRISTO
O povo e a sociedade têm necessidade de conhecer a Deus. Os tremendos
acontecimentos a que hoje assistimos, são principalmente conseqüência e
quase a “ nêmesis” da negação de Deus e da irreligiosidade, que como um
remtágio perturba e corrompe a alma dos povos e como um incêndio ameaça
invadir a Europa e continentes inteiros; em igual tempo são uma prova,
por meio da qual o Senhor com voz potente quer chamar o gênero humano
à fô e ao serviço divino. Mas quem jamais se preocupa de conhecer a Deus?
Quem o procura pelos caminhos da verdade? Quem se entrega à ciência
ola fé? Dai um olhar às assembléias dos sábios do mundo, aos palácios das
ciências, aos volumes dos filósofos modernos, ao íntimo de tantas famílias,
interrogai os doutos imersos na procura dos mistérios da natureza, dos acon­
tecimentos dos povos, do espírito humano, e perguntai-lhes: Quem é Deus?
ciue pensam ou que acreditam de Deus? Para muitos Deus é novamente o
Deus ignoto dos atenienses; e pareceria um redivivo Paulo de Tarso quem
nos areópagos do saber moderno, sempre ávidos de novidades, aos novos
alunos da Stoa e de Epicuro falasse ou desvendasse um Deus, criador do
universo e de todo o gênero humano, de um só sôbre a face da terra; um
Deus não distante de nós, no qual vivemos, nos movemos e permanecemos,
não semelhante aos artifícios do pensamento humano; um Deus que, não se
preocupando com os tempos da ignorância, intima fazer penitência a todos
os homens, que com justiça julgará no dia fixado por meio de um Homem,
estabelecido juiz por Êle com ressuscitá-lo da morte. Em outros tempos,
menos soberbos do que os nossos, também os estudiosos das diversas ciên­
cias se gloriavam de escutar nos ateneus públicos os mestres de teologia,
do\sta superior sabedoria; enquanto por ora, se nos adultos não é mais
HIoiria a ignorância de Deus, é muitas vêzes um lamento que se versa sôbre
escola e classes, as quais subtraíam ou negavam ou envenenavam não só
oi loMtc', mas também o sólido alimento da divina doutrina, a alma natural
e sacramentalmente cristãs ( x).

# # *

O divino Salvador está conosco, não já como uma sombra fugaz da fama
o» do nome que fica sôbre o túmulo e sôbre os monumentos dos grandes
homens que passam, mas como Deus presente em sua divindade e huma­
nidade. Deus escondido na sombra dos pães multiplicados, sombra que Nos
parece divisar nas trevas do Lago de Tiberíades, naquela noite em que Cristo
caminhava sôbre as ondas, e aos discípulos que estavam remando com
faoliga, pareceu um fantasma. Não, não é um fantasma o Deus dos taber-
n/iculos, que adoramos. É o mesmo que então disse aos pávidos discípulos:
To'tid(> eonNança; sou eu, níío temais, tà aquêle mesmo que disse: Eis-me
o’onvo:;eo Iodos os dias até a consumac;ão dos tempos.
(I) H In iiiim » mm iiAiihm d ilr K i i i i u i , .' ." i dc li v n t i i o , l!M I.
É o mesmo que caminha sôbre as ondas dos séculos, senhor dos vento>s
e das procelas humanas. Êle caminha sôbre ondas tempestuosas ao lado c
diante da Igreja; responde aos seus ministros que o chamam com voz sa­
grada, a êles por Êle concedida, e aos seus altares convida e reúne desdo
vinte séculos as nações e as gentes, os povos e os que reinam, os mártires
e as virgens, os pontífices e os sacerdotes, prostrados a adorá-lo presente,
a amá-lo escondido, a invocá-lo companheiro na alegria e na dor, na vida
e na morte.
O Deus dos altares está no meio de nós, invisível mas testemunho fiel,
primogênito entre os mortos, príncipe dos reis da terra, que nos amou e
nos lavou de nossos pecados, com o próprio sangue e nos fêz reino e sacer­
dotes a Deus seu Pai; o primeiro e o último, o vivente que estêve morto
e está vivo nos séculos dos séculos.
Mas é ao mesmo tempo em nosso meio, o Deus do arcano. É o mistério
da fé, centro do incruento divino sacrifício, cioso segrêdo da Espôsa de
Cristo, a qual nos primeiros séculos de sua imutável juventude amou escon­
der sob o véu do arcano também seus tenros filhos; arcano feito mistério)
de um mistério, escondido desde séculos eternos em Deus. Diante dêste mis­
tério se inclinaram no pó os apóstolos e os mártires; nas basílicas, os pon­
tífices; nos desertos e nos cenóbios, os monges e os anacoretas; nos claus­
tros, as virgens, nos campos de luta, os esquadrões; nas catedrais, os dou­
tores, nas estradas, os povos; Cristo estava em meio a êles; mas quem o viu?
quem o divisou? Bem-aventurados aquêles que não o viram e acreditaram:
“ Beati qui non viderunt et crediderunt” .
A fé passa além de todo véu, penetra todo arcano; e quanto mais vivo
prossegue, tanto mais luz adquire, reinflama-se e exalta-se em si mesma,
faz do próprio mistério o farol e o fogo de sua vida e de sua obra.
Cristo, porém, não está presente apenas em meio ao mundo, mas tam­
bém se avizinha do homem, está com êle, com seus apóstolos, com seus fiéis,
com tôdas as gentes, conquista de seu sangue. Dúplice é sua presença. Ilá
uma presença divina, com a qual sustém o universo por Êle criado, segue
os passos dos homens pelos caminhos do bem e do mal e é dêle testemunha
e juiz que inclina ao bem e pune pelo mal. Há outra presença humana e
ao mesmo tempo divina, pela qual eleva os seus estandartes nas catacum­
bas, entre as densas casas do povo, pelos campos, pelas selvas, em meio
ao gêlo perpétuo, onde quer que um sacerdote com a onipotente palavra,
eleve bem alto um pão e um cálice, repetindo o que foi feito em memória
de Cristo. Lá está Êle com seu ministro, com êle caminha, torna-se alimento),
viático dos moribundos e dos infelizes, irmão e espôso, pai, médico, conforto
e vida das almas, pão dos anjos, penhor de alegria imortal.
A té quando sôbre algum campo de nosso globo despontar uma espiga
de trigo e pender um cacho de uvas, e um sacerdote subir compenetrado
ao sacrifício do altar, o Hóspede divino estará conosco; e o crente curvará
na fé a mente e o joelho diante de uma hóstia consagrada, como na última
ceia os apóstolos no pão e no vinho consagrados que o Salvador lhes dava
dizendo: Isto é o meu corpo; Isto é o meu sangue, adoraram Cristo, o)
Mestre Divino, com aquela pura e alta fé que crê nos portentos de sua
palavra, e da qual se deduz a interna adoração, fé sem a qual é vão o sinal
ole dobrar um joelho. Daquela hora do cenáculo começaram os séculos olo
Deus da Eucaristia; o giro do sol iluminou os passos com suas auroras e os
seus oeasos; as vísceras da terra escavadas, acorreram salmodiando>; nos
ermos, nos cenóbios, nas basílicas, sob os aéreos pináculos inclinaram-se a
Êle, Pastor e povos, príncipes e exércitos. Em suas conquistas avano;ava o-om
seus arautoxs e sacerdo>tes além dos mares e do>s oK*eanos, e olo Orio>nto* ao
Ocidente, do> um a outro» póIo>; o Redentor já planta, todos o>s dias, souis tu-

'.n
bernáculos, perseverando contra a ingratidão dos homens, em encontrar as
delícias próprias, em estar com êles, só procurando difundir a salvação, os
tesouros de suas graças e de suas magnificências ( 2).
# * *

Os homens param muitas vêzes diante dos clarões transitórios do renome,


que dão ou se disputam entre si com altissonantes palavras e ações. Ser
louvado, ser célebre: eis em que consiste para êles a glória. “ Gloria est fre-
quens de aliquo fama cum laude” , escrevia Cícero. Mas os homens muitas
vêzes não cuidam da glória que só Deus pode dar, e por isto segundo a
palavra de Nosso Senhor, não têm a fé: “ Como é possível — dizia o R e­
dentor aos judeus — que acrediteis, vós que andais mendigando glória uns
dos outros, e não procurais a glória que somente Deus pode dar, e dêle so­
mente procede?” A glória do mundo fenece, como a flor do campo, excla­
mava Isaías; e pelos lábios dêste mesmo profeta o Deus de Israel anun­
ciava que haveria de humilhar os grandes da terra. Que fará então o Deus
encarnado, aquêle Jesus que se declarava “ humilde de coração” que não
tinha jamais procurado sua própria glória? ( 3).

* * *

Passarão o céu e a terra. Passará esta terra que nossos pés recalcam, e
nossa mão fende e banha de suor, nosso olhar escruta; esta terra, cujas vís­
ceras nosso ferro perfura e atormenta, escavando os sepulcros das selvas
que se consumiram, dos monstros coevos das praias ignotas, dos vapores de
extintos vulcões e dos veios dos metais e das chamas líquidas, que pertur­
bam os sonhos do homem e lhe abalam a paz. Passará êste nosso velho
globo, que parece não pode bastar aos homens e saciar o frêmito de suas
contrastantes aspirações, para as quais arde aos nossos dias uma luta de
tão gigantescas proporções, que sobrepassam e quase obscurecem os maio­
res acontecimentos e mudanças da história do mundo. Passará a terra, e
nós todos deveremos comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de que
cada qual receba a paga ou a pena, segundo houver feito o bem ou o
mal; mas não passarão as palavras de Cristo, que prediz e anuncia pre­
maturamente aos apóstolos a história de sua Igreja e do mundo e os tris­
tes fatos que encontrarão através dos séculos. E lá, naquele mesmo discurso
sôbre o monte das Oliveiras, à vista de Jerusalém, avisa-os para estarem
preparados, a fim de que ninguém os seduza. “ Porque — dizia-lhes — ouvi-
reis falar de guerras e de rumores de guerra. Procurai não vos perturbar,
já que é preciso que estas coisas sucedam; mas não é ainda o fim ” : “ Audi-
turi enim estis praelia et opiniones praeliorum. Videte ne turbemini; opor-
tet enim haec fieri, sed nondum est finis” .
Não; a consumação dos séculos não é ainda chegada. Cristo, subiu aos
céus, está sempre com todos nós, todos os dias, também no meio das guer­
ras c dos rumores de guerra. Não devemos nos perturbar, como se não
turbaram os apóstolos na pregação do Evangelho. Mas se a perturbação não
no)s abate o espírito, sentimos mais no profundo de Nosso ânimo que a hora
presente é uma fase da grave história da humanidade predita por Cristo ( 4).

« • •
C i) l ) U ( iil t o m u *;uri ilolri :uliiimliiir», ÜR <lr 193!).
(1) l ) |ni i i i m i uon f"ij>i>Mix, 10 ilr o n ln liio , 1 'IÜK.
M ) llom lllu, illu «Ir ■| '| | >1 1< :ih imlvci«uli, V I ilr iiovem lno,

III
A sorte e a felicidade dos povos estão nas mãos “ daquele Imperador que
lá do alto reina” , que é Pai das luzes, e fonte de todo perfeito bem no
universo. A o lado da felicidade e dos destinos dos povos tem em suas mãos
também os corações dos homens: em qualquer sentido que deseja, incliná-
los-á. Sabe dilatar, restringir, parar ou dirigir a vontade dêles sem mudar-
lhe a natureza. Na obra do homem tudo é débil como o homem; tímidos
são os seus pensamentos, incertas suas providências, rígidos seus meios, vaci­
lantes seus passos, escuros seus términos. Na obra de Deus tudo é forte
como Êle; seu conselho não conhece dúvidas; sua potência se dilata e quase
brincando diverte-se no govêrno do mundo; suas delícias são em meio aos
filhos dos homens, mas nada a Êle resiste; também os obstáculos em suas
mãos são meios para plasmar as coisas e os acontecimentos, para volver as
mentes e os livres desejos humanos aos altíssimos fins de sua misericórdia
e de sua justiça, as duas estréias de seu império universal.
Nêle colocamos nossa mais firm e esperança ( 5).

(5) 110 Sacro Col^ulo, JJ <lr Jintlio, I9S0.


O DIREITO ECLESIÁSTICO
A fundamental distinção, em sua origem e em sua natureza, dos dois su­
premos poderes, dos quais o poder judiciário é uma importante e necessária
função, demonstram uma diversidade essencial entre o processo judicial
eclesiástico e o civil, não obstante os múltiplos pontos de semelhanças, que
em um e em outro se encontram.
À mesma conclusão se chega, confrontando-se o objeto próprio de cada
um. Também aqui encontramos elementos e lineamentos comuns. Em ambas
sociedades perfeitas, realmente da tutela do “ bonum commune” exige que
os direitos e os bens de seus membros possam ser por via judiciária reali­
zados, garantidos, reintegrados. Ademais aquêles direitos e aquêles bens são
em parte os mesmos na Igreja e no Estado. Pois que também a Igreja é uma
.sociedade visível, cuja vida é necessariamente ligada ao modo de ser físico,
às condições de espaço e de tempo, nas quais vivem os homens. De outra
parte, porém, existem direitos e bens tão peculiares e próprios da juris­
dição eclesiástica, que por suas naturezas não são nem podem ser objeto do
poder judiciário do Estado.
Entre os bens, para a defesa dos quais os tribunais eclesiásticos, no curso v
da história, — por vêzes severamente — intervieram, deve-se assinalar a
própria fé, fundamento de tôda vida sobrenatural. O tribunal para a tutela
da fé é portanto um órgão legítimo do poder judiciário na Igreja, enquanto
ela é uma sociedade religiosa perfeita. O seu ofício é de reagir juridica­
mente contra todo ataque dirigido a ferir um de seus mais importantes e
vitais bens. Os delitos da heresia e da apostasia não podiam nem podem
deixar a Igreja indiferente ou inerte. Sem dúvida no correr dos séculos os
tribunais para a defesa da fé puderam assumir formas e métodos não reque­
ridos pela própria natureza das coisas, mas que encontram sua explicação
na luz das particulares circunstâncias históricas. Seria todavia falso que­
rer tirar disto um argumento contra a legitimidade dos próprios tribunais.
Nós nao ignoramos que o só nome dêste tribunal choca com o sentimento
de não poucos nomes de nosso tempo. São aquêles, cujo pensamento e cujo
íntimo sentimento se encontram sob o fascínio de uma doutrina, que, excluin­
do tôda idéia de sobrenatural e de revelação, atribui à razão humana a fôrça
dc» compreender a fundo o mundo, a prerrogativa de dominar tôda a vida,
o* por conseqüência exige nisto a plena independência do homem de qual-
quer vínculo de autoridade. Desta doutrina Nós conhecemos as fontes, os
fautores, os progressos, sabemos o seu influxo sôbre a vida intelectual, moral,
soeial, sôbre a economia e sôbre a política, mas também as suas peripécias
no curso da história dos últimos séculos, especialmente dos últimos cem
anos. Seus representantes apelam para o princípio da “ liberdade de cons-
eioMieia” para o princípio da “ tolerância” nas matérias concernentes à vida
espir i tual, sobretudo religiosa. Todavia muitas vêzes êles mesmos, apenas
ce>n<|iii:;tndo o poder, nada encontram de mais urgente senão violentar as
o^HiMo-ieMK-ias e impou- à pnrte eatólica do povo um jugo opressivo, cspecial-
meute naquilo que se refere ao direito dos pais na educação de seus filhos.
O tribunal eclesiástico no exercício de sua jurisdição não pode fazer pró­
pria a mesma norma seguida pelos tribunais civis. A Igreja Católica, c<>mo>
já dissemos, é uma sociedade perfeita, que tem por fundamento a voroiaolo*
da fé infalivelmente revelada por Deus. Tudo o que a esta verdade so o>pôo'
é necessàriamente um êrro e ao erro não se pode objetivamente reconho-
cer os mesmos direitos que à verdade.
De tal modo a liberdade de pensamento e a liberdade de consciência to'>m
seus limites essenciais na veracidade de Deus revelador. Digamos: seus lim i­
tes essenciais, se realmente a verdade não é igual ao êrro e se roalmonto
a sã consciência no homem é a voz de Deus. Disto segue que um membro
da Igreja não pode sem culpa grave negar ou repudiar a verdade católio’a
já conhecida e admitida; e se a Igreja, depois de ter verificado o fato> da
heresia e da apostasia, o pune, por exemplo, excluindo da comunhão) dos
fiéis, permanece estritamente em sua competência e age em tutela, p or
assim dizer, de seu direito doméstico.
Outro objeto, que faz ressaltar claramente a diferença entre o processo
judicial eclesiástico e o civil, é o matrimônio. Êste é, segundo a vontade olo>
Criador, uma “ res sacra” . Por isto quando se trata da união entre baliza­
dos, êle permanece por sua própria natureza fora da competência da aulo-
ridade civil. Mas também entre os não batizados o matrimônio legitima­
mente contraído é na ordem natural uma coisa sagrada, de modo quo» os
tribunais civis não têm o poder de dissolvê-lo, nem a Igreja em semelhante
caso tem jamais reconhecido a validade das sentenças de divórcio. Isto) n;ic>
tolhe que as simples declarações de nulidade dos matrimônios mesmos
relativamente raras em comparação com os juízos de divórcio — possam
em determinadas circunstâncias ser justamente pronunciadas pelos tribunais
civis e portanto reconhecidas pela Igreja.
Sem dúvida a respeito dos efeitos puramente civis do matrimoynio tam ­
bém entre batizados é juiz competente, como é por todos conhecido, a auto­
ridade civil. Mas bem mais ampla e profunda é a competência da Igreja nas
questões matrimoniais, pois dela, por instituição divina, depende sobretudo
aquilo concernente à tutela do vínculo conjugal e da santidade das núpcias.
Entre os objetos do poder judicial eclesiástico Nós devemos enumerar tam­
bém as matérias que (além da tutela da fé ) são próprias do tribunal da Su­
prema Sta. Congregação do Sto. Ofício. A severidade de sua atitude é desejada
pela santidade dos bens que ela tem a missão de defender, e da gravidade dos
delitos, que é chamada a julgar. Nao haveria motivo de fazer particular mon­
ção, se seu modo de proceder não se tivesse assinalado como um contrasto1
com o princípio, hoje geralmente admitido, da publicidade dos juízos, consi­
derada como uma garantia necessária contra árbitros, cm prejuízo da justiça.
A atividade daquele Supremo tribunal também nas causas criminais de­
senvolve-se em realidade com obrigação de segredo. Mas antes do tudo,
deve-se recordar que também o processo penal dos Estados civis provo''' c'in
alguns casos que o debate seja, todo, ou em parte “ a portas fechadas” , quan­
do, a saber, tal solução é requerida pelo bem comum: ora exatamente ôste
mesmo princípio a Igreja aplica nos seus processos penais do Sto. Ofício. Dou­
tra parte porém é indispensável em semelhantes casos que sejam asso/1 ;ti­
radas tôdas as garantias essenciais para um justo e igual juízo: conitesta-
ção das acusações pelo imputado, com faculdade de impugná-las om olo* in­
dicar quanto estima útil para sua desculpa; livre defesa, seja pessoal, so>ja
com o auxílio de um advogado de ofício ou mesmo escolhido polo acusado;
plena objetividade e conscienciosidade dos juizes. Ora todos êstes reo|iiisi
tos encontram sua realização no tribunal do Sto. Ofício ( ’ ).
(I) Aloi uv.lo ;u> S.um( olc^io, (>dc oulldiio, 1())(>.
•IV
DITADURA E DEMOCRACIA
Numa plêiade sempre crescente de espíritos nobres, surge um pensamento,
uma vontade cada vez mais clara e firm e: fazer desta guerra mundial, dêste
cataclismo universal, o ponto de partida para uma era nova, para a reno­
vação profunda e reconstrução total do mundo. De tal forma, enquanto os
exércitos continuam a afanar-se em lutas mortíferas, com meios de com­
bate cada vez mais cruéis, os homens do govêrno, representantes responsá­
veis das nações, se reúnem em colóquios e conferências, com o fito de deter­
minar os direitos e deveres fundamentais sôbre que se deverá reconstruir
uma comunidade dos Estados, e de traçar o caminho para um futuro melhor,
mais seguro e mais digno da humanidade.
Estranha antítese essa coincidência de uma guerra cuja aspereza tende
a chegar ao paroxismo e do notável progresso das aspirações e dos propó­
sitos de um entendimento em benefício de uma paz sólida e duradoura. Pode-
se indubitàvelmente discutir o valor, a aplicabilidade, a eficácia desta ou
daquela proposta, pode-se deixar em suspenso o juízo sôbre elas; mas é
sempre verdade que o movimento se delineia.
Ademais, — e é talvez êste o ponto mais importante — sob o fulgor .
sinistro da guerra que os envolve, no ardor escaldante da fornalha em que
se encontram, os povos como que despertaram de um longo torpor. Toma­
ram diante do Estado e dos governantes uma nova atitude, interrogativa,
crítica, desconfiada. Ensinados por uma experiência amarga, opõem-se com
maior violência aos monopólios de um poder ditatorial, indevassável e in­
tangível, e requerem um sistema de govêrno mais compatível com a digni­
dade e a liberdade dos cidadãos.
Estas multidões, irrequietas, revolvidas pela guerra até nas mais profun­
das camadas, estão hoje dominadas pela persuasão (a princípio talvez vaga
e confusa, mas já agora incoercível) de que, se não tivesse faltado a possi­
bilidade de sindicar e corrigir a atividade dos poderes públicos, o mundo
não teria sido arrastado na voragem desastrosa da guerra: e que, a fim de
o'vitar para o futuro a repetição de semelhante catástrofe, faz-se mister
proporcionar ao mesmo povo garantias eficazes.
Em tal disposição de ânimos, seria talvez para maravilhar-nos se a ten-
olência democrática domina os povos e obtém largamente o sufrágio e con­
senso daqueles que aspiram a colaborar mais eficazmente nos destinos dos
indivíduos e da sociedade?
Basta-nos recordar que, segundo os ensinamentos da Igreja, “ não é proi­
bido) preferir governos mitigados de forma popular, salva, porém, a dou­
trina católica acerca da origem e uso do poder público” , e que “ a Igreja
nao reprova nenhuma das diversas formas de govêrno, desde que sejam
aptas a proporcionar o bem-estar dos cidadãos” .
Se portanto, dirigimos a Nossa atenção ao problema da democracia, para
examinar as normas por que* deve ser regulada a fim de poder chamar-se
uma verdadeira e sã democracia, condi’/e;nte às circunstâncias da hora atual
isto indica claramente opie o cuidado e solicitude* da Tgreja se volta não
tanto para sua estrutura o* orKani/ao,*ão exterior (as quais dependem dns

UH
aspirações próprias de cada povo), quanto para o homem como tal, quo,
longe de ser objeto e elemento passivo da vida social, é pelo contrário, e
deve ser e permanecê-lo o seu sujeito, o fundamento e o fim.
Suposto que a democracia, entendida num sentido lato, admite várias fo r­
mas, e isso pode verificar-se tanto nas monarquias como nas repúblicas, duas
questões ainda se apresentam ao nosso exame:
1.°) Que caracteres devem distinguir os homens que vivem na democra­
cia e sob o regime democrático?
2.°) Que caracteres devem possuir os homens que na democracia têm o
poder público nas mãos?

1. Q U ALID AD ES PR Ó PR IA S DOS C IDAD ÃOS


QUE V IV E M EM REGIME DEM OCRÁTICO

Externar a própria opinião sôbre os deveres e sacrifícios que lhe são im ­


postos, não ser obrigado a obedecer sem ter sido ouvido; eis dois direitos
do cidadão, que na democracia, como o próprio nome o indica, encontram
sua expressão. Da solidez, da harmonia, dos bons frutos dêste contato entro
os cidadãos e o govêrno do Estado, se pode reconhecer se uma democracia ó
verdadeiramente sã e equilibrada, e qual seja sua fôrça de vida e cresci­
mento. E pelo que diz à extensão e natureza dos sacrifícios exigidos do
todos os cidadãos: em nossos dias em que a atividade do Estado é tão vasta
e decisiva, a forma democrática de govêrno parece a muitos como um pos­
tulado natural impôsto pela própria razão. Quando, porém, se reclama “ mais
democracia e melhor democracia” , tal exigência nada mais pode significar
que colocar o cidadão em condições cada vez melhores de ter a própria
opinião pessoal, e de exprim i-la e fazê-la valer de um modo adequado ae>
bem comum.

PO VO E “ M A S S A ”

Daqui deriva uma primeira conclusão necessária, com a conseqüência prá­


tica. O Estado não contém em si, e não reúne mecanicamente, em dado ter­
ritório, um aglomerado amorfo de indivíduos. Êle é e deve ser realmente a
unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo.
Povo e multidão amorfa ou, como se costuma dizer “ massa” , são dois
conceitos diversos. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é do
si inerte, e não pode mover-se senão por um agente externo. O povo vivo
na plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — no
próprio lugar e do próprio modo — é uma pessoa consciente das próprias
responsabilidades e das próprias convicções. A massa, pelo contrário, espora
uma influência externa, brinquedo fácil nas mãos de quem quer quo jogue
com seus instintos ou impressões, pronta a seguir, vez por vez, hoje esta,
amanha aquela brincadeira. Da exuberância de vida de um verdadeiro povo,
a vida se difunde abundante e rica no Estado e em todos seus órgãe>s, in­
fundindo nelas, com vigor incessantemente renovado, a consciência da pró­
pria responsabilidade e o verdadeiro sentido do bem comum. O Estado pode
servir-se da fôrça elementar da massa, habilmente manobrada e usada: nas
rnão)s ambiciosas de um só ou de diversos artificialmente agrupados por
tendências egoístas, o próprio Estado pode, com o apoio da massa, redu­
zida a não ser mais quo uma simples máquina, impor o sou arbítrio à parto
molho>r do verdadeiro povo; o intorêsse comum fica então gravomonte* o*
por longo tompo golpeado, o a ferida <• bem freqüentemente de oura olifío’11.
I)aí desponta clara outra conclusão: a massa — qual acabamos de defi­
nir - ó a principal inimiga da verdadeira democracia, e do seu ideal de
liberdade e de igualdade.
Num povo digno de tal nome, o cidadão sente em si mesmo a consciên­
cia de sua personalidade, dos seus deveres e dos seus direitos, da própria
liberdade conjugada com o respeito da dignidade e liberdade alheia. Num
po>vo digno de tal nome, tôdas as desigualdades, não arbitrárias mas deriva­
das da mesma natureza das coisas, desigualdades de cultura, posses, posi­
ção social (sem prejuízo, bem entendido, da justiça e da caridade) não são
do* modo algum obstáculo à existência e ao predomínio de um autêntico
espírito de comunidade e fraternidade. Pelo contrário, longe de lesar de
algum modo a igualdade civil, lhe conferem seu legítimo significado; isto
é, que defronte ao Estado cada qual tem o direito de viver honradamente
a própria vida pessoal no lugar e nas condições em que os desígnios e dis­
posições da Divina Providência o tiver colocado.
Em contraste com êste quadro do ideal democrático de liberdade e igual­
dade num povo governado por mãos honestas e providentes, que espetáculo
oferece um Estado democrático entregue ao capricho da massa. A liberdade,
enquanto dever moral da pessoa, se transforma numa pretensão tirânica de
dar desafogo livre aos impulsos e apetites humanos, em detrimento dos ou­
tros. A igualdade degenera em nivelamento mecânico, numa uniformidade
rnonocroma; sentimento de verdadeira honra, atividade pessoal, respeito da
tradição, dignidade, numa palavra tudo o que dá à vida o seu valor, pouco
a pouco definha e desaparece. E sobrevivem apenas: de uma parte, as v íti­
mas iludidas pelas fascinações aparentes da democracia, ingênuamente con­
fundida com o genuíno espírito democrático e com a liberdade e igualdade;
e doutra parte, os aproveitadores mais ou menos numerosos, que souberam^
por meio da fôrça do dinheiro ou da organização, assegurar para si sôbre'
os outros uma condição privilegiada e o mesmo poder.

2. Q U ALID AD ES PR Ó PR IA S DOS
GOVERNANTES N A S DEM OCRACIAS

O Estado democrático, seja monárquico ou republicano, deve, como qual­


quer outra forma de govêrno, estar investido do poder de mandar, com uma
autor i dade verdadeira e efetiva. A mesma ordem suprema dos sêres e dos
fins — que mostra o homem como pessoa autônoma, quer dizer como
sujeito de deveres e direitos invioláveis, raiz e têrmo de sua vida social —
abraça também o Estado como sociedade necessária, revestida da autori­
dade, sem a qual não poderia existir nem viver. E se os homens, prevale­
cendo-se da liberdade pessoal, negassem tôda dependência de uma autori-
olade superior dotada do direito de coação, abalariam com isso o funda­
mento da própria dignidade e liberdade, ou seja, aquela ordem suprema
( lo>s sêres e dos fins.
Estabelecidos sôbre esta mesma base, a pessoa, o Estado e o poder público
(com seus respectivos direitos) estão intimamente ligados e conexos, de
tal modo que juntamente só revivem ou perecem.
10 já que esta ordem suprema, sob a luz da sã razão e particularmente da
fo'* cristã, não pode ter outra origem que um Deus pessoal, nosso Criador,
ro*::uIta que a dignidade do homem é a dignidade da imagem de Deus, a
dignidade: do listado 6 a dignidade da comunidade moral estabelecida por
I)o*us, a dignidade da autoridade política é a dignidade de sua participação
na autoridade de Deus.

Kio
I’ iu \ l l < <>ni M n n v e,i<>\,imu r
I >. i i i s i . i M im 11 1 1 1 . \ i < <' I ii sj m i d c MiI.hi, I '\’ 11 ) ’ ,
Pio X II cm seu gabinete, em Castel Gandolfo.

' u <í i 11 •> i ' h . 1 11 1 1 ' . I* \ in I i >11 i i /• > i |i i i im i I m H n I ».1 1 1 li ii> I ’ •<m i

tlni.M lIi * 11 } ’ t M 1 1 l l (.111 n i M i h m I i .i I l't" \ l l t *1.1 t J l l l l l l K I . j «* I'* \ ' 1 1í 1 V


Nenhuma forma de Estado poderá deixar de levar em conta esta conexão»
íntima e indissolúvel; e a democracia menos que qualquer outra. Por tanto»,
se quem tem nas mãos o poder público não a vê, ou mais ou menos do*la
descuida, abala pela base a própria autoridade. Igualmente se êle não tiver
em suficiente conta esta relação, e não vir no seu cargo a missão dc rea­
lizar a ordem estabelecida por Deus, nascerá o perigo de que o egoísmo olo»
domínio ou dos interêsses prevaleça sôbre as exigências essenciais da moral
política e social, e que as aparências mentirosas de uma democracia de pura
forma sirvam não raro de máscara a quanto realmente existe de menos
democrático.
Somente a compreensão clara dos fins designados por Deus a tôda socie-
dade humana, compreensão unida ao sentimento profundo dos deveres subli­
mes da obra social, pode colocar aquêles a quem foi confiado o poder e*m
condições de cumprir as próprias obrigações de ordem legislativa, judiciá­
ria ou executiva, com aquela consciência da própria responsabilidade, com
aquela objetividade, com aquela imparcialidade, com aquela lealdade, com
aquela generosidade, com aquela incorrutibilidade, sem as quais um governo»
democrático dificilmente conseguiria conquistar o respeito, a confiança c a
adesão da melhor parte do povo.
O sentimento profundo dos princípios de uma ordem política e social sã
e conforme às normas do direito e da justiça, é de particular importância
naqueles que, em qualquer forma de regime democrático, têm como repro*-
sentantes do povo, total ou parcialmente, o poder legislativo. E pois (|uo*
o centro de gravidade de uma democracia normalmente constituída resido*
naquela representação popular donde as correntes políticas se irradiam para
todos os campos da vida pública (tanto para o bem quanto para o mal) a
questão da elevação moral, da idoneidade prática, de capacidade intelectual
dos deputados ao parlamento, é para todos os povos de regime democrá­
tico uma questão de vida ou de morte, de prosperidade ou decadência, olo*
saneamento ou perpétuo mal-estar.
Para desenvolver uma ação fecunda, para conciliar a estima e confiança,
todo e qualquer corpo legislativo deve — como o atestam experiências ine>-
gáveis — recolher em seu seio uma plêiade de homens, espiritualmente em i­
nentes e de caráter firme, que se considerem como representantes de todo»
o povo e não como mandatários de uma turba a cujos interêsses particula­
res não raro se sacrificam as verdadeiras necessidades e exigências do bem
comum. Uma plêiade de homens, que não se limite a alguma profissão o»u
condição, mas que seja a imagem da multiplicidade da vida de todo o povo».
Uma plêiade de homens de sólida convicção cristã, de juízo justo e seguro»,
de senso prático e equânime, coerente consigo mesmo em tôdas as circuns­
tâncias; homens de doutrina clara e sã, de propósitos sólidos e retilíneos,
homens sobretudo capazes (em virtude da autoridade que emana de sua
consciência pura, e largamente irradia em torno dêles) de serem guias e
chefes, especialmente nos tempos em que as necessidades prementes super-
excitam a impressionabilidade do povo e tornam fácil de ser transviade» o*
perder-se; homens que, nos períodos de transição, geralmente trabalhadois
e dilacerados pelas paixões, pelas divergências das opiniões e pelas oposi-
e;õ(\s de programas, se sintam duplamente no dever de fazer circulai- nas
lebricitantes veias do povo e do Estado o antídoto espiritual das visões
claras, da bondade solícita, da justiça igualmente favorável a todos e a in­
clinação da vontade para a união e a concórdia nacional num espirito» do*
sincera fraternidade.
Os povos cujo temperamento espiritual e moral o'stá bastante* são e> fo*~
ciinolo», acham em si mesmos e podem dar ao mundo os pregoeiros o* os
instrumo*nfos da democracia, oj 1 1 o* vivo*m naquelas disposições e sabem rcal-

101
7I>!■
» 1'ln XII I'iolilcmn-.
mo>nl.e traduzi-las em ato. Onde porém, faltam tais homens, outros vêm
neupar-lhcs o lugar para fazer da atividade política a arena de suas ambi­
ções, uma corrida aos ganhos próprios e de sua casta ou classe, ao passo
o|ii(* a caga aos interêsses particulares faz perder de vista, e lança mesmo
em perigo, o verdadeiro bem comum.

O ABSO LU TISM O E S T A T A L

Uma sa democracia, fundada sôbre os princípios imutáveis da lei natural


e das verdades reveladas, será resolutamente contrária àquela corrução que
ntribui à legislação do Estado um poder sem freios nem limites, e que faz
também do regime democrático, não obstante as aparências contrárias, po-
rém falsas, um puro e simples sistema de absolutismo.
ü absolutismo do Estado (que não se deve confundir, enquanto tal, com
monarquia absoluta, da qual aqui não se trata) consiste, com efeito, no prin­
cípio errôneo de que a autoridade do Estado é ilimitada e diante dela —
ainda quando dá livre curso às suas miras despóticas, ultrapassando os lim i­
tes do bem e do mal — não se admite apêlo algum a uma lei superior e
moralmente obrigatória.
Um homem possuído de idéias retas acêrca do Estado e da autoridade e
do poder de que se acha revestido enquanto guarda da ordem social, não
pensará jamais em ofender a majestade da lei positiva no âmbito de sua
competência natural. Mas esta majestade do direito positivo humano só será
inapelável quando se conformar — ou pelo menos não se opuser — à ordem
absoluta estabelecida pelo Criador, e posta em nova luz pela Revelação do
Evangelho. Ela não pode subsistir senão enquanto respeitar o fundamento
sôbre que se apóia a pessoa humana, não menos que o Estado e o poder
público. E êste o critério fundamental de tôda forma sadia de govêrno, in­
clusive a democracia; critério com que deve ser julgado o valor moral de
tôda lei particular.
Quisemos indicar sob quais vias uma democracia, que corresponda à digni­
dade humana, possa, em harmonia com a lei natural e com os desígnios de
Deus manifestados na Revelação, chegar a dar resultados benéficos. Com
efeito, Nós sentimos a suprema importância dêste problema para o progresso
pacífico da família humana; mas ao mesmo tempo somos conscientes das
profundas exigências que esta forma de govêrno impõe à maturidade moral
de cada cidadão; maturidade moral que em vão se poderia esperar atingir
plenamente e com segurança, se a luz da gruta de Belém não iluminasse
o caminho escuro pelos quais os povos transitam de um presente tempes­
tuoso para um futuro que almejam mais sereno ( x).
AS DITADURAS ATÉIAS
Nota característica comum aos perseguidores de todos os tempos ó do,
não contentes de abater fisicamente suas vítimas, querem também torná-
las desprezíveis e odiosas à pátria e à sociedade.
Aqui não recordamos os protomártires romanos, dos quais fala Tácito,
imolados sob Nero e representados como incendiários, abomináveis m alfei­
tores, inimigos do gênero humano.
Os perseguidores modernos mostram-se dóceis discípulos daquela inglo-
riosa escola.
Copiam, por assim dizer, seus mestres e modelos, se não chegam até a
sobrepujá-los em crueldade, hábeis como são na arte de usar os progres­
sos mais recentes da ciência e da técnica com o fim de uma dominação e>
de uma subserviência do povo, qual não se poderia conceber em tempos
pretéritos.
A Igreja de Cristo segue o caminho que lhe foi traçado pelo Divino Ito'-
dentor. Ela se sente eterna, sabe que não poderá perecer, que as mais vie>-
lentas tempestades não poderão submergi-la. Não mendiga favores: as
ameaças e as desgraças dos poderes terrenos não a intimidam. Ela nãe> ;;e*
mete em questões meramente políticas e econômicas, nem se preocupa emi
disputar sôbre a utilidade ou a nocividade de uma que outra forma do goi-
vêrno. Sempre desejosa, o quanto dela depende, de ter paz com todos, olá
a César o que lhe compete segundo o direito, mas não pode atraiçoar nem
abandonar o que é de Deus.
Ora é notório o que o estado totalitário e anti-religioso exige e espera
dela, como preço de sua tolerância ou de seu problemático reconhecimento).
Êle quereria: uma Igreja que cala, quando deveria falar; uma Igreja que
debilita a lei de Deus, adaptando-a ao gôsto dos desejos humanos, ejuando)
deveria altamente proclamá-la e defendê-la; uma Igreja que se afasta do
fundamento inconcusso sôbre o qual Cristo a edificou, para acomodar-se sô­
bre a m óvel areia das opiniões do dia ou abandonar-se às correntes ciiio*
passam!
Uma Igreja que não resiste às expressões da consciência e não tutela os
legítimos direitos e as justas liberdades do povo; uma Igreja que com inde*-
coroso servilismo permanece fechada entre as quatro paredes do templo,
esquecida do mandamento divino recebido de Cristo: Ide às encruzilhadas,
instruí a tôda gente.
O Papa tem as promessas divinas; embora cm sua humana debilidade', é
invencível e indestrutível; anunciador da verdade e da justiça, piino*ípic>
da unidade da Igreja, com sua voz denuncia os erros, as idolatrias, as supers­
tições, condena as iniqüidades, faz amar a caridade e as virtudes.
Pode portanto êle ficar calado, cpiando em uma nação arrancam e-oim
vie)lência, e>u cenn astúcia do centro da Cristandade, de» Remia, as Igrejas
eiue* estão unidas, cjuando aprisionam todos os bispos givgewatólie^s, por­

103
o|U(> recusam apostatar de sua fé, perseguem e prendem os sacerdotes e fiéis,
poroiue se negam a separar-se de sua verdadeira Igreja Mãe?
Pode* o) Papa ficar calado, quando o direito de educar os próprios filhos
é tirado de>s pais por um regime de minoria que quer afastá-los de Cristo?
1'oole o) Papa ficar calado quando um Estado, ultrapassando os limites de
sua competência, se arroga o poder de suprimir as dioceses, de depor os
Bispo>s, de arrasar a organização eclesiástica e de reduzi-la abaixo das exi­
gências mínimas para uma eficaz cura das almas?
Pode o Papa calar, quando chegam ao ponto de punir com o cárcere um
sacerdote, réu de não ter querido violar o mais sacro e inviolável dos segre­
dos, o segrêdo da confissão sacramental?
É talvez isto tudo ilegítima ingerência nos poderes políticos do Estado?
Quem poderia afirm á-lo honestamente? ( x).

d) I>íhi ii i Ho ao po\o romano, 2 <!<’ f c v r i r l i o , 1040 .

UH
SÔBRE O DIVÓRCIO

O FIM ÚNICO NO TR A T A D O DAS C AU SAS M A T R IM O N IA IS

1. Em geral deve-se pressupor que a unidade de ação humana resulta o'


provém dos seguintes elementos: um único fim, comum orientação dc toolo>s
para êste único escopo, uma obrigação jurídico-moral de tomar e conservar
tal orientação. Dêstes elementos bem compreendeis que o fim único ce>nx-
titui o princípio e o têrmo formal, tanto do lado objetivo, quanto do lado
subjetivo. Pois que, como todo movimento recebe sua determinação do fim,
para o qual tende, assim também a consciente atividade humana se e>spe!-
cifica pelo fim ao qual mira.
Ora bem, no processo matrimonial o fim único é um juízo conformo* a
verdade e ao direito, concernente no processo de nulidade, à afirmada nae>
existência do vínculo conjugal, no processo informativo de “ vinculo solven-
do” a existência ou não, dos pressupostos necessários para a dissolução olo»
vínculo. Em outros têrmos, o fim é determinar autorizadamente c pôr cm
vigor a verdade e o direito a ela correspondente, relativamente à existên­
cia ou à continuação de um vínculo matrimonial.
A orientação pessoal tem-se mediante a vontade dos indivíduos quo têm
parte na discussão da causa, enquanto dirigem e subordinam todo seu pen­
samento, querer e atuar das coisas do processo ao conseguimento dao|uo*lo*
fim. Se portanto todos os participantes seguem constantemente esta orien­
tação, por natural conseqüência advém a sua unidade de ação e de coope­
ração.
Finalmente o terceiro elemento, ou seja, a obrigação jurídico-moral elo
manter tal orientação, deriva no processo matrimonial do direito divino).
Realmente o contrato nupcial é, por sua própria natureza, e entre os bati­
zados, por sua elevação à dignidade de Sacramento, ordenado e determinado
não pela vontade humana, mas por Deus. Basta recordar a palavra de Cristo;
“ Aquilo que Deus juntou, o homem não tente separar” , e o ensinamento) ei e
S. Paulo; “ Sacramentum hoc magnum est, ego autem dico in Christo et in
Ecclesia” . A alta gravidade desta obrigação, originada como da fonte supre*-
ma e inextinguível do direito divino, a serviço da verdade no processo matri­
monial, deve ser sempre fortemente afirmada e inculcada. Mas não sucvda
que nas primeiras causas matrimoniais diante dos tribunais ecle^siástio-os
tenham a notar-se enganos, perjúrios, subornos ou fraudes de qualciuer
espécie! Portanto todos aquêles que aí têm qualquer função devem ce>nse*r-
var vígil a consciência e, segundo a necessidade, acordá-la e reavivá-la para
cemseguir que êstes processos sejam até o fundo conduzidos não diante olo
tribunal dos homens, mas diante daquele do Senhor emiscicntc; pe>r cun-
scqiiência os relativos juízos, caso alguma fraude concernente à substância
os falsifique, não têm valor1 diante de Deus e ne> campe) da cem.sciôncin.

10'.
A UNIDADE DE F IM E DE A Ç A O EM C A D A UM
DOS P A R T IC IP A N T E S DAS CAU SAS M A T R IM O N IA IS

2. A unidade e a colaboração nas causas matrimoniais efetua-se portanto


mediante a unidade do fim, orientação para o fim, obrigação de subordina-
o;íio) í i o > fim. Êste tríplice elemento impõe à ação própria dos participantes
exigências essenciais e a marca com um sinal particular.

O JUIZ

ii) Antes de tudo, naquilo que diz respeito ao juiz, que é como a justiça
animada, cuja obra chega ao auge no proferir a sentença, a qual deter­
mina, fixa juridicamente a verdade e dá valor legal, tanto naquilo que con-
cerne ao fato a ser julgado, como naquilo a que se refere o direito a se apli­
cai- no caso. Mas a tal esclarecimento e serviço da verdade está ordenado,
eomio a seu f i m, todo o processo. Por isto nesta objetiva orientação para o
fim, o juiz encontra também uma segura norma diretiva em cada pessoal
indagação, juízo, prescrição, proibição, que o desenvolvimento do processo
traz consigo. Daqui aparece a obrigação jurídico-moral, que está acima do
juiz: outra não é senão aquela já mencionada derivante do direito divino,
quer dizer, de procurar e determinar segundo a verdade se um vínculo, que
com seus sinais externos foi ligado, existe em realidade, ou se existem os
pressupostos necessários para seu desligamento, e estabelecida a verdade,
de dar a sentença em conformidade com ela. Nisto está a alta importância
e a pessoal responsabilidade do juiz na direção e na conclusão do processo.

O DEFENSOR DO V ÍN C U LO

])) Ao Defensor do vínculo cabe sustentar a existência ou a continuação


do vínculo conjugal, não porém de modo absoluto, mas subordinadamente
j i o fim do processo, que é a procura e a apuração da verdade objetiva.

O Defensor do vínculo deve colaborar ao fim comum, enquanto indaga,


o*xpóo e esclarece tudo o que pode ser aduzido em favor do vínculo. A fim
do1 ojue êle, que é para se considerar como “ Pars necessaria ad indicii vali-
olitato*m et integritatem” , possa cumprir eficazmente seu ofício, a ordem
pmcessual lhe atribuiu particulares direitos e deu-lhe determinadas incum-
InMicias. E como não seria compatível com a importância de seu cargo e com
<> cumprimento solerte e fie l de seu dever, se êle não se contentasse de uma
mirnária visão dos atos e de algumas superficiais observações, assim não
é conveniente que tal ofício seja confiado àqueles que ainda não têm expe-
ricnoMas da vida e maturidade no juízo. Desta regra não se tira o fato de que
ns observações do Defensor do vínculo sejam submetidas ao exame dos
juizes, pois que êstes devem encontrar na apurada obra dêle um auxílio e
um complemento da própria atividade, nem é de se desejar que êles refaçam
soMnpro todo o trabalho e tôdas as indagações de Defensor, para poderem se
fiar do sua exposição.
I)c outra parte não se pode nem mesmo exigir do Defensor do vínculo
<|uo> cio componha e prepare a todo custo uma defesa artificiosa, sem cuidar
olo* que suas afirmações tenham um sério fundamento ou não. Tal exigência
seria contrária à sã razão; gravaria o defensor do vínculo de uma fadiga
inútil o som valor; não traria esclarecimento algum, mas pelo contrário,
liaria uma confusão à questão; arrastaria prejudicialmente o processo, por
longo tempo. Ao interesse mesmo ola verdade e pela dignidade dc seu ofí-

IIHl •,
cio, deve-sc portanto reconhecer em linha de máxima, ao Defensor do vín­
culo, onde o caso o requer, o direito de declarar que: depois de um dili­
gente, acurado e consciencioso exame dos autos, não encontrou razoável
objeção a ser movida contra o pedido do autor ou do suplicante.
Êste fato e esta consciência de não dever incondicionadamente sustentar
uma tese que lhe foi ordenada, mas de estar ao serviço da verdade já exis­
tente preservará o Defensor do vínculo de propor interrogações unilateral-
mente sugestivas e insidiosas; de exagerar e mudar a possibilidade em pro­
babilidade ou até em fatos consumados; do afirmar ou construir contradi­
ções, onde um são juízo não vê, ou fàcilmente as resolve; de impugnar a
veracidade dos testemunhos por causa de discrepâncias ou inexatidões em
pontos não essenciais ou sem importância para o objeto do processo, dis­
crepâncias ou inexatidões das quais a psicologia dos depoimentos dos teste­
munhos ensina que permanecem no âmbito das normais causas de êrro e
não tiram o valor à substância do próprio depoimento.
A consciência do dever servir à verdade reterá finalmente o Defensor do
vínculo para não pedir novas provas, quando as já aduzidas são plena­
mente suficientes para estabelecer a verdade: isto que também em outra
ocasião designamos como coisa a não ser de modo algum aprovada.
Nem se objete que o Defensor do vínculo deve escrever suas advertências
não “ pro rei veritate” , mas “ pro validitate matrimonii” . Se com isto se quo*r
dizer que êle tem por sua parte colocar em relêvo tudo que fala em favor
e não o que é contra a existência ou a continuação do vínculo, a observa­
ção não deixa de ser justa. Se, pelo contrário, se quisesse afirmar que o
Defensor do vínculo em sua ação não está obrigado a servir também êle,
como a um último escopo, a determinação da verdade objetiva, mas deve
incondicionalmente e independentemente das provas e dos resultados do pro­
cesso sustentar a tese obrigatória da existência ou da necessária continua­
ção do vínculo, esta asserção seria para se considerar como falsa. Em tal sen­
tido aquêles que têm parte no processo devem sem exceção fazer convergir
sua ação ao único fim : “ pro rei veritate!”

O PR O M O TOR D A JU STIÇA

c) Não queremos omitir algumas breves observações também para aquilo


que se refere ao Promotor de justiça. Pode ser que o bem público reclame
a declaração de nulidade de um matrimônio e que o Promotor de justiça
faça disto regular petição ao Tribunal competente. Em nenhum outro ponto
poder-se-ia ser tão inclinado a colocar em dúvida a unicidade do fim e da
colaboração de todos no processo matrimonial, quanto aqui, onde dois o fi­
ciais públicos parecem tomar posições um contra o outro, diante do Tribu­
nal; um, o Defensor do vínculo, deve por ofício negar aquilo que o outro,
também por ofício, é chamado a promover. E precisamente aqui se mostru
de modo manifesto a unidade do fim e a única orientação de todos paru
êste fim ; pois que ambos, não obstante a aparente oposição, põem substan­
cialmente ao juiz, a mesma petição: dar um juízo segundo a verdade e u
realidade do mesmo fato objetivo. A ruptura da unidade do fim e da cola­
boração ter-se-ia, somente, quando o Defensor do vínculo e o Promotor da
justiça considerassem seus próximos e opostos fins como absolutos cr os des­
ligassem e separassem de sua conexão e subordinação ao comum escopo final.

li)/
O ADVOGADO

d) Mas a unidade do fim, a orientação para o fim e a obrigação de subordi­


nação) ao fim do processo matrimonial devem considerar-se e ponderar-se
com particular atenção a respeito do consulente legal, o advogado, do qual
o autor ou o suplicante se servem, porque ninguém está mais exposto ao
poM-igo de perdê-lo de vista.
O advogado assiste ao seu cliente no formular o libelo introdutório da
causa, em determinar nitidamente o objeto e o fundamento da controvérsia,
no colocar em relêvo os pontos decisivos do fato a ser julgado; indica-lhes
as provas a serem trazidas, os documentos a serem exibidos; sugere quais
to\stemunhas são necessárias trazer em juízo, quais pontos nos depoimentos
dos testemunhos são peremptórios; durante o processo os ajuda a avaliar jus­
tamente as exceções e os argumentos contrários e a refutá-los: em uma
palavra, recolhe e faz valer tudo o que pode ser alegado em favor dos pedi­
dos do seu patrocinado.
Nestas multíplices atividades o advogado pode muito bem desdobrar-se
om cuidados para obter a vitória para a causa de seu cliente; mas em tôda
sua ação não deve subtrair-se ao único e comum escopo final: o descobri­
mento, a determinação, a afirmação legal da verdade, do fato objetivo. Vós
aqui presentes, insignes juristas e integérrimos defensores do fôro eclesiás­
tico, bem sabeis como a sabedoria de tal subordinação deve guiar o advo­
gado em suas reflexões, em seus conselhos, em suas asserções e em suas pro­
vas, e como não somente ela o previne de construir artificiosamente e tomar
sob seu patrocínio causas privadas de qualquer fundamento sério, de valer-
se de fraudes ou de enganos, para induzir as partes e as testemunhas a de­
porem o falso, a recorrer a qualquer outra arte desonesta, mas também o
lo'va positivamente a agir em tôda a série dos atos do processo, segundo os
ditames da consciência. No escopo supremo da verdade a se fazer refulgir,
ó necessário que convirjam tanto a obra do advogado, quanto a do Defensor
do vínculo, porque ambas, embora movendo de pontos opostos para fins
próximos diversos, têm de tender ao mesmo escopo final.
Disto aparece o que se deve pensar do princípio infelizmente não raro
afirmado ou seguido realmente: “ O advogado — diz-se — tem o direito e
o dever de trazer tudo o que ajuda sua tese, não menos que o Defensor do
vínculo fará no que diz respeito à tese oposta; para nenhum dos dois vale
a norma: “ pi’o rei veritate!” A apreciação da verdade é ofício exclusivamente
cio» juiz; agravar o advogado com tal cuidado significaria impedi-lo ou até
paralisar-lhe de todo a atividade” . Tal observação se baseia sôbre um êrro
teórico e prático; ela desconhece a íntima natureza e essencial fim último
ola controvérsia jurídica. Esta nas causas matrimoniais não pode comparar-
se a uma disputa ou um torneio, onde os contendores não têm um escopo
final comum, mas cada qual procura seu escopo particular e absoluto, sem
consideração, até em oposição ao do seu antagonista, quer dizer, derrotar o
aolvoM-sário e conseguir a vitória. Em tal caso o vencedor com sua luta
coroada pelo sucesso, cria o fato objetivo, que para o juiz do combate ou
ola disputa é motivo determinante no conferimento do prêmio, porque para
e*1e* é lo'i: ao vcnco>olor, o prêmio. Totalmente o contrário acontece na luta
jurídica ele* um processo matrimonial. Aqui nao se trata de criar um fato
e*e>m a eloq i ioMicia e> a dialética, mas de* colocar e*m evidência e fazer vale*r
um fato já existente. O supramenciomado princípio acêrca do* separar a ati­
vidade olo) advo('ado> do serviço ola verdade* objetiva, e* ejue*ro»r ele* algum moele)

l()H
atribuir à hábil argumentação uma fôrça criadora do direito, como a pos­
sui o vitorioso combate em uma disputa.
A mesma consideração do incondicional dever para com a verdade valo»
também no caso do simples processo informativo, após as perguntas para
a dissolução do vínculo. A instrução da causa no fôro eclesiástico não prevê
a intervenção de um patrocinar legal do suplicante; mas é um natural di­
reito dêste último o de valer-se, por sua conta, do conselho e da assistên­
cia de um jurista na redação e na motivação da súplica, na escolha e apre­
sentação dos testemunhos, do superamento das vindouras dificuldades. ()
consulente legal ou o advogado pode também aqui colocar em ação lodo seu
saber e sua influência em favor de seu cliente; mas também nesta ativi­
dade extrajudicial êle deve recordar-se da obrigação que o liga ao serviço
da verdade de sua submissão ao fim comum e da parte que tem a cumprir
no comum trabalho para o conseguimento dêste fim.
De quanto expusemos aparece claro como, no trato das causas matrimo­
niais no fôro eclesiástico, juiz, defensor do vínculo, promotor da justiça, ad­
vogado devem fazer, por assim dizer, causa comum e ao mesmo tempo cola ­
borar, não misturando o ofício próprio de cada um, mas em consciente o*
desejada união e submissão ao mesmo fim.

A S PARTES, OS TESTEMUNHOS, OS PERITOS

e) É supérfluo adicionar que a mesma lei fundamental — indagar, tornar


manifesta e fazer valer legalmente a verdade — obriga também os outros
participantes ao processo. Para assegurar o conseguimento de tal escopo é-lhes
impôsto o juramento. Nesta subordinação ao fim êles encontram uma clara
norma para sua orientação interna e para suas ações externas, e disto con­
seguem segurança de juízo e quietude de consciência. Nem às partes, no>m
aos testemunhos, nem aos peritos é lícito construir fatos não existentes, dar
aos existentes uma infundada interpretação, negá-los, confundi-los ou
ofuscá-los. Tudo isto contrastaria com o serviço a ser prestado à verdade, à
qual obrigam a lei de Deus e o juramento dado.

O PROCESSO M A T R IM O N IA L EM SU A ORDENAÇÃO
E SU BORD INAÇÃO A O FIM U N IV E R S A L DA
IGREJA: A S A L V A Ç Ã O DAS A L M A S

3. Abraçando agora com a mente o que já foi dito, o nosso pensamento


vê claramente como o processo matrimonial representa uma unidade de fim
e de ação, na qual cada um dos participantes deve exercitar o seu parti
eular ofício cm recíproco coordenamento e cm comum orientação ao fim
mesmo; à semelhança dos membros de um corpo, que têm cada qual sua pró-
pria atividade, mas ao mesmo tempo são reciprocamente coordenados o ao
mesmo tempo ordenados ao conseguimento do mesmo escopo final, que1 é
aquele do organismo inteiro.
Todavia esta consideração em tôrno à íntima natureza do processo matri­
monial permaneceria incompleta, se não se desse um olhai’ também para as
suas redações externas.
() proeo*sso matrimonial no> fôro» eclesiástico é uma função) da viola ju rí­
dica da Igreja. Na nossa Encíclica sôbre o Corpo Místico de Cristo, expu-

li)1)
somos como a assim chamada “ Igreja jurídica” é de origem divina, mas não
('« tôda a Igreja; como ela de algum modo representa somente o corpo, que
devo ser vivificado pelo espírito, quer dizer o do Espírito Santo e de sua
graça. Na mesma Encíclica explicávamos também como tôda a Igreja em
seu corpo e em sua alma, quanto à participação dos bens e ao proveito que
disto deriva é constituída exclusivamente para a “ salvação das almas” , se­
gundo a palavra do Apóstolo: “ Omnia vestra sunt” . Com isto é indicada a
.superior unidade e o escopo superior, ao qual são destinadas e se dirigem
a vida jurídica e cada função jurídica da Igreja. Segue-se que também o
pensamento, o querer e a obra pessoal no exercício de uma tal atividade
devem tender ao fim próprio da Igreja: a salvação das almas. Em outros
tôrmos, o fim superior, o princípio superior, a unidade superior não dizem
outra coisa senão “ cura das almas” , como tôda obra de Cristo sôbre a terra foi
cura das almas, e cura das almas foi e é tôda a ação da Igreja.
Mas o jurista, que, como tal, olha o puro direito e a rígida justiça, cos­
tuma mostrar-se quase instintivamente estranho às idéias e aos intentos da
cura das almas e propugna uma clara separação entre os dois foros, o fôro
da consciência e o da convivência externa, jurídico-social. Esta tendência
para uma nítida divisão dos dois campos é até certo grau legítima, enquanto
o juiz e seus colaboradores no processo judiciário não têm por ofício pró­
prio e direto a cura pastoral. Seria porém funesto êrro, o afirmar que não
se encontram também êles em última e definitiva instância ao serviço das
almas. Êles viriam assim colocar-se no juízo eclesiástico fora do escopo e
da unidade de ação própria da Igreja, e isto, por instituição divina; seriam
como membros de um corpo, que não se inserem mais na sua totalidade e
não querem mais submeter e ordenar suas ações ao escopo do organismo
inteiro.

E F IC Á C IA DE T A L ORDEM E SU BORD INAÇÃO


SÔBRE A A T IV ID A D E JU RÍD IC A

A atividade jurídica, e particularmente a judiciária, não têm nada a temer


do tal ordem e subordinação; que até disto lhes advêm fecundidade e pro­
gresso. A necessária largueza de vistas e de decisões é assegurada, pois que,
enquanto a unilateral operosidade jurídica esconde sempre em si o perigo
de um exagerado formalismo e apêgo à letra, o cuidado das almas garante
um contrapêso, mantendo ágil na consciência a máxima: “ Leges propter
homines, et non homines propter leges” . Por isto em outra ocasião já adver­
timos que onde a letra da lei fôr obstáculo ao conseguimento da verdade e
da justiça, deve sempre ser aberto o recurso ao legislador.
O pensamento de pertencer ao serviço do fim da Igreja confere além disto
n todos aquêles que participam de sua atividade jurídica, também a neces­
sária independência e autonomia defronte do poder judiciário civil. Entre
a Igreja e o Estado, como relevamos na mencionada Encíclica sôbre o Corpo
Místico de Cristo, embora ambas sejam no pleno significado da palavra so­
ciedades perfeitas, há todavia uma profunda diferença. A Igreja tem um
caráter próprio, peculiar de origem e de sinal divino. Disto deriva também
em sua vida jurídica um traço a ela próprio, uma orientação, até nas últi­
mas conseqüências, para os pensamentos e bens superiores ultramundanos,
elernos. Poirtanto, antes que uma opinião, por vários motivos deve-se con-
.sidenir como um errôneo juízo o dizer de alguns quo o ideal da praxe jurí­

110
dica eclesiástica consiste na sua maior possível assimilação e conformidado
à ordem judicial civil; o que todavia não exclui que ela possa oportunn-
mente valer-se do verdadeiro progresso das ciências do direito também neste?
campo.
Finalmente o pensamento de pertencer à superior unidade da Igreja o da
subordinação ao seu fim universal, a “ salus animarum” comunica à a tivi­
dade jurídica a firmeza para proceder no seguro caminho da verdade e elo
direito, e a preservar não menos de uma débil condescendência paru cerni
as desordenadas ânsias das paixões, do que a preservar também de uma
dura e injustificada inflexibilidade (* ).

(I) M riungcm pr ln Iuati|(iirai'flo tio tino j u r í d i c o <la Sacra K. R o l a , 2 (Ir ou tu b ro , 1044,

III
A MULHER MODERNA
O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspi­
rados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que lhes
nl riI >11 ia como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de
por amor de Cristo preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à mar-
j'e«m das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reser­
vada, estava destinada por sua vocação a ser espôsa e mãe. Junto da mãe
aprendia os labores femininos, os cuidados e negócios da casa e tomava parte
na vifíilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as fôrças,
o» engenho, e instruindo-se na arte e no govêrno do lar. Manzoni apresenta-
nos na figura de Lúcia a mais alta e viva expressão literária desta concep-
o;ão). As formas simples e naturais em que a vida do povo se desenvolvia, a
intima e prática educação religiosa, que durante o século X IX tudo animara,
o uso de contrair muito cedo o matrimônio, ainda possível naquelas condi-
o/oVs sociais e econômicas, a preeminência que a família tinha no movimento
olo) povo, tudo isto e outras circunstâncias mais, que entretanto mudaram
radicalmente, constituíam o primeiro alimento e sustentáculo para aquêle
o^aráter e forma de cultura da mulher.
Hoje, pelo contrário a antiga figura feminina está em rápida transforma-
c;;ío. Podeis ver que a mulher, e sobretudo a jovem, saem de seu retiro e
entram em quase tôdas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e
viola do homem. Desde há bastante tempo vinham-se já manifestando sinais
a princípio tímidos e depois cada vez mais vigorosos desta transformação,
causados principalmente pelo desenvolvimento da indústria no progresso
moderno. Mas desde alguns anos a falange feminina, qual torrente que, rom­
pidos os diques, vence tôda resistência, parece ter penetrado em todo campo
ola viola do povo. E se tal torrente contudo não se difundiu igualmente em
Iodos os sentidos, não ó difícil encontrar-lhe o curso até na mais remota
nldo*ia sertaneja; enquanto no labirinto das grandes cidades, como nas o fi­
cinas e nas indústrias, o antigo costume e orientação houve que ceder o
passo incondicionalmente ao movimento moderno 0 ) .

* # #

Digamos imediatamente que para Nós o problema feminino, tanto em seu


comple>xo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste
lodo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de
Deus. Para Nós portanto não ó um problema de ordem meramente jurídica
0in econômica, pedagógica ou biológica, política ou demográfica; mas que,
e-mlxira cm sua complexidade, gravita todo em tôrno da questão: como man­
ter o« reforçar aquela dignidade da mulher, màximamente hoje, nas conjo*-
luras cm que a Providência nos colocou? Ver de outro modo o problema,
cnnside'rá-l<> unilateTalmemte sob qualquer dos aspectos mencionados, seria
o) mesmo o|iio‘ iludi-lo, sem proveito algum para quem quer que seja, menos

(I) llIm iiM o A |u v c i i l i i d r litu liiln ii ilc ( . i l A l l i ,i, ilc ü liill, M U I.

1I ' •,
ainda para a própria mulher. Separá-lo de Deus, da sábia ordem do Cria­
dor, de sua santíssima vontade, é obliterar o ponto essencial da questão»,
quer dizer a verdadeira dignidade da mulher, dignidade que ela tem so­
mente de Deus e em Deus.
Disto procede que não estão em grau de retamente considerar a ques­
tão feminina os sistemas que excluem da vida social Deus e sua lei, e aos
preceitos da religião concedem, ao máximo, um humilde lugar na vida pri­
vada do homem.
Em que consiste portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus?
Interrogai a natureza humana, qual o Senhor a formou, elevou, redimiu
no sangue de Cristo.
Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absoluta­
mente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, cjue
é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igivja
ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher olo*
uma degradante servidão contrária à natureza. Mas o homem e a mulher
não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitan­
do e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes con­
cedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das
quais não é possível mudar a ordem, sem que a própria natureza sempre,
novamente, a restabeleça. Êstes caracteres peculiares, que distinguem o»s
dois sexos, mostram-se com tanta clareza aos olhos de todos, que somente
uma obstinada cegueira ou um doutrinarismo, não menos funesto que utó­
pico, poderia nas ordens sociais desconhecer ou quase ignorar-lhes o» valor.
Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são orde­
nados, um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita
seu influxo em tôdas as múltiplas manifestações da vida humana social. Nós
iros limitaremos aqui a recordar dois, por suas especiais importâncias: o»
estado matrimonial e o celibato voluntário, segundo o conselho evangélica,
O fruto de uma verdadeira comunidade conjugal compreende não somente
os filhos, quando Deus os concede aos esposos, mas também os benefícios
materiais e espirituais que a vida de família oferece ao gênero humano. Tôda
a civilização em cada um de seus ramos, os povos e a sociedade dos povos,
a própria Igreja, em uma palavra, todos os verdadeiros bens da humani­
dade ressentem os felizes efeitos, onde esta vida conjugal floresce na ordem,
onde a juventude se habitua a contemplá-la, a honrá-la e a amá-la como
uni santo ideal.
Onde, entretanto, ambos os sexos não são, reciprocamente, senão objeto
olo* egoísmo e de cupidez; onde não cooperam de mútuo acôrdo para o ser-
vi<;<> da humanidade segundo os desígnios de Deus e da natureza: onde a
juventude, descurando suas responsabilidades, superficial e frívola em seu
«•spírito e em sua conduta, torna-se moral e fisicamente inapta para a vida
santa do matrimônio; aí os bens comuns da sociedade humana, na ordo*m
«•spiritual e temporal, se encontram gravemente comprometidos, e a pró­
pria Igreja de Deus treme, não por sua existência — ela tem a promessa
olivina! mas pelo maior fruto de sua missão entre os homens.
Mas cms que, desde vinte séculos, em cada geração, milhares c milhares
de homens o* mulheres, entre os melhores, renunciam livremente', para sc*-
j'iiir o coiiso*!!») do* Cristo, a uma própria família, aos santos deveres e sagra­
dos elircMtos cia vida matrimonial. O bein comum, dos povos e da Igre*ja,
Iicji talvez correndo pe'rigo? l ’elo contrário! ftstes espíritos ge*nerosos reco-
nheovm a associae;ao dos dois sexos no matrimônio como um elevado bem.
Mim »o* t;o* alastain ola vida ordinária, ola (\straela batida, êstes, longo* olo* do*-

II»
:.ertarem, consagram-se ao serviço da humanidade, com completo desapego
olo> si mesmos e de seus próprios interêsses, em uma ação incomparàvel-
m o * n l e mais ampla, total, universal. Olhai aquêles homens e aquelas mulhe­
res: contemplá-los-eis na oração e na penitência: dedicados na instrução e
educação da juventude e dos ignorantes; inclinados na cabeceira dos doen­
tes o dos agonizantes; de coração aberto a tôdas as misérias e a tôdas as
oIo'bil idades, para reabilitar, para confortar, para aliviar, para a todos san­
tificar.
Quando pensamos nas jovens e nas mulheres que renunciam voluntària-
mente ao matrimônio, para consagrarem-se a uma vida mais elevada de
contemplação, de sacrifícios e de caridade, logo sobe aos lábios uma lumi­
nosa palavra: a vocação! É a única palavra que exprime tão elevado sen­
ti m(>nto. Esta vocação, esta chamada de amor, faz-se ouvir nos modos mais
diversos, como infinitamente várias são as modulações da voz divina: con­
vites irresistíveis, inspirações afetuosamente solicitantes, suaves impulsos.
Mas também a jovem crista, tendo permanecido a contragosto sem núpcias,
o|uo>, porém, firmemente crê na Providência de um Pai Celeste, reconhece
nas vicissitudes da vida a voz do Mestre: “ Magister adest et vocat te” : O Mes­
tre está aqui e te chama! Ela responde; ela renuncia ao caro sonho de sua
adolescência e de sua juventude: ter um companheiro fie l na vida, cons­
tituir uma fam ília e na impossibilidade do matrimônio discerne sua vocação,
então, com o coração partido, mas submisso, ela também se dá totalmente
às mais nobres e multiformes obras boas.
Em um como em outro estado o dever da mulher aparece nitidamente
traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao
seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo
sua natural tendência. Ora o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação
inata, é a maternidade. Tôda mulher é destinada para ser mãe; mãe no
sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado,
mas não menos real.
A êste fim o Criador ordenou todo o ser próprio da mulher, seu orga­
nismo, mas também seu espírito e sobretudo sua especial sensibilidade. De
modo que a mulher, verdadeiramente tal, não pode de outro modo ver nem
compreender a fundo todos os problemas da vida humana, senão com rela­
ção) à família. Por isto o sentido agudo de sua dignidade a coloca em apreen­
são cada vez que a ordem social ou política ameaça prejudicar sua missão
materna, em favor da família.
Tais são hoje, infelizmente, as condições sociais e políticas: elas pode­
riam se tornar ainda mais incertas para a santidade do lar doméstico e por­
tanto para a dignidade da mulher. A vossa hora soou, mulheres e jovens cató­
licas: a vida pública tem necessidade de vós: a cada uma de vós, pode-se
oli/.o>r: “ Tua res agitur” .
Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvol­
vido) de modo não favorável ao bem real da família e da mulher, é um
fnto) inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para
Kimhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus
olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção)
das gestantes e das parturientes, cozinha e outros serviços comuns que as
Ij b o * r f a t ão) do pôso das obrigações domésticas, jardins públicos para a infân­
cia o: outros institutos, mantidos e administrados pelo Estado e pelos pró­
prios filhos, escolas gratuitas, assistência em caso do doenças.
Nao queremos negar as vantagens que podem ser tiradas de uma o dc*
outra destas providências socia is, so1 aplicadas nos devidos modos. Nós mes-

ll-l
mo, em outras ocasiões, observamos que à mulher é devida, polo mesmo
trabalho e à paridade de rendimento, a mesma remuneração que ao homem
6 dada. Permanece, porém, o ponto essencial da questão, a que já acenamos:
a condição da mulher, com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos
com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeMta
a mulher ao mesmo pêso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua ve r­
dadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer,
o caráter próprio de seu ser fem inil e a íntima coordenação dos dois sexo;;;
perdeu-se de vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade»
humana e sobretudo pela família. Nas concessões feitas à mulher, é fácil elo»
perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mini
de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do cpial
tudo deve inexoràvelmente ser subordinado.
De outra parte, pode talvez a mulher esperar o seu bem-estar verdadeiro
de um regime de predominante capitalismo? Nós não temos necessidade elo*
descrever-vos agora as conseqüências econômicas e sociais que dêste eleri-
vam. Vós conheceis os sinais característicos e trazeis vós mesmas e> pese»;
e»xcessivo aglomerar-se das populações nas cidades, progressivo e invasor
aumento das grandes emprêsas, difíceis e precárias condições das demais
indústrias, especialmente do artesanato e também ainda mais da agricultura,
e'xtensão inquietante da desocupação.
Recolocar o mais possível em honra a missão da mulher e da mãe, no lar:
tal é a palavra que de tantas partes se levanta, como um grito de alarma,
como se o mundo se despertasse quase aterrado pelos frutos de um progresso»
material e técnico, do qual se mostrava antes tão orgulhoso.
Observemos a realidade das coisas.
Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também
trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono,
o- esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falia
ole cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos
ciuatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram
juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia,
ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida de fam í­
lia? e quais os atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?
A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-
se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo ela
jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre»
fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será ineapaz
ele» encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gôsto pelas auste­
ras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das
me'smas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como espôsa e mãe.
Isto é real em todos os graus sociais, em tôdas as condições de vida. A
filha da mulher mundana, que vê todo govêrno da casa deixado nas mãos
olo» pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúte»is
elivertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes,
e segunde) uma bem triste expressão “ viver a sua vida” . Como poderia e»la
eoneober o desejo de se tornar um dia uma verdadeira “ domina” , isto» é,
uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna? Quanto» ás
o,ln:;so»s trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, sei be»m
1 1 ‘flo'tisse, compreenderia talvez como não poucas vêzes o suplemento elo»
cnnho, c|ue» ela e»btém trabalhando fora da rasa, ó fâcilmente elevorade» pe»lu.s
olo*spe»sas o»u também pelos desperdícios ruinosos paru a ec*e»nomia familiar.
A f i lha, o|tu» vai também ela a trabalhar e'in uma fábrica, 0*1 11 uma e*mprésa
ou cm um escritório, perturbada pelo mundo agitado em meio ao qual vive,
ecoada pelo ouropel do falso luxo, desejosa de tristes prazeres, que dis­
traem mas não saciam nem repousam, naquelas salas de “ revistas” ou de
olano;as, que pululam em todo lugar, muitas vêzes com intentos de propa-
íinuola de parte e corrompem a juventude, tornando-se “ mulher de classe” ,
elc:;prozaclora das velhas normas “ oitocentescas” de vida, como poderia ela
n;io encontrar a modesta moradia doméstica inóspita e mais tetra daquilo
c|iie na realidade é? Para torná-la agradável, para desejar estabelecer um
olia a dela própria, deveria saber compensar a impressão natural com a
se*riedade da vida intelectual e moral, com o vigor da educação religiosa e
do ideal sobrenatural. Mas qual formação religiosa recebeu ela em tais con­
di <;oc's?
K não é tudo. Quando, com o transcorrer dos anos, sua mãe, envelhecida
pelo tempo, enfraquecida e desgastada pelas fadigas superiores às suas
fôrças, pelas lágrimas, pelas angústias, a verá voltar à casa à tarde, em horas
talvez bem avançadas, longe de ter nela um auxílio, um sustentáculo, deverá
cia mesma cumprir junto da filha incapaz e não habituada às obras fem i­
ninas e domésticas, tôdas as obrigações de uma serva. Nem mais feliz será
a sorte do pai, quando a idade avançada, as doenças, os achaques, as deso­
cupações obrigarão a depender para seu mesquinho sustento da boa ou má
vontade dos filhos. A augusta, a santa autoridade do pai e da mãe, ei-las
descoroadas de sua majestade.
Diante das teorias e dos métodos que, por diferentes caminhos, arrancam
a. mulher de sua missão, e com a lisonja de uma emancipação desenfreada,
ou na realidade de uma miséria sem esperança, despojos de sua dignidade
pe\ssoal, de sua dignidade de mulher, nós ouvimos o grito de apreensão que
invoca, o mais possível, sua presença ativa no lar.
A mulher é realmente retida fora de casa, não somente por sua procla­
mada emancipação, mas muitas vêzes também pelas necessidades da vida,
olo) contínuo pêso do pão cotidiano. Em vão portanto pregar-se-á o seu
rotórno ao lar, até que durem as condições que não raramente a constrin-
f/em a permanecer dêle distante. E assim se manifesta o primeiro aspecto
ola vossa missão na vida social e política, que se abre diante de vós. A vossa
entrada nesta vida pública aconteceu repentinamente, por efeito dos acon­
tecimentos sociais nos quais, sem o esperar talvez, pouco importa, sois cha­
madas a tomar parte; deixareis a outras talvez, aquelas que se fazem pro-
moitoras ou cúmplices da ruína do lar, o monopólio da organização social,
ola qual a família é o elemento precípuo em sua unidade econômica, ju rí­
dica, espiritual e moral? A sorte da família, a sorte da convivência humana,
estao c*m jôgo; estão em vossas mãos, “ tua res agitur!” Tôda mulher portanto,
m o>111 exceção, tem o dever, o estrito dever de consciência, de não permane-
ce*r ausente, dc entrar em ação (nas formas e nos modos condizentes às con­
dições de cada qual), para conter a corrente que ameaça o lar, para com-
hatoM- as doutrinas que lhe corroem os fundamentos, para preparar, organi­
zar e cumprir sua restauração.
Por este motivo impclente para a mulher católica de entrar na vida, quo*
hoje* se abre à sua operosidade, ajunta-se outro; sua dignidade de mulher.
Kl a tem de concorrer com o homem para o bem da civilização, na qual está
o'in dignidade igual a êle. Cada um dos dois sexos tem o dever de tomar
a parti: que lhe cabe segundo sua natureza, seus caracteres, suas atitude*:;
li:;icas, intelectuais o morais. Ambos o>s sexos têm o dever e o> direito) dc
e-oopoTar para e> bem total ela sociedade, da pátria, mas está clare> eiuo*, se*
o) hoim*m é por temperamento mais le*vade> a tratar dos ne:gócie>s externos,
os negócio:; públicos, a mulher tem, ;íe*ralmo*nto> falando, maior perspicácia,
lalo mais fino para eonhccer o* rcsolv<*r os problemas delicados da vida elo-

l l (i
I ' i <> \ 1 1 | i , i s s ( ' , i i hI i i iiiis j.mlins ilc ( .islrl ( ..imliil1 11. j11111<> i l c I '>',(>
méstica e familiar, base de tôda a vida social, o que não tolhe que algu­
mas saibam realmente dar demonstração de grande perícia também no cam­
po da atividade pública.
Tudo isto é questão não tanto de atribuições distintas, quanto do modo
de julgar e de descer a aplicações concretas e práticas. Tomemos o caso
dos direitos civis: êles, no presente, são para ambos os sexos. Mas com
quanto maior discernimento e eficácia serão utilizados, se o homem e a
mulher integrarem-se mutuamente! A sensibilidade e a fineza próprias da
mulher, que poderiam arrastá-la no sentido de suas impressões e arriscar i a
assim trazer prejuízo à clareza e à amplidão de vistas, a serenidade das
apreciações, as previsões das conseqüências remotas, são pelo contrário, pre­
ciosos auxílios para colocar em luz as exigências, as aspirações, os perigos
de ordem doméstica, assistencial e religiosa.
A atividade feminina desenvolve-se em grande parte nos trabalhos e nas
ocupações da vida doméstica, que contribuem, mais e melhor daquilo que
geralmente se poderia pensar, para os verdadeiros interêsses da comunidade
social; mas êstes interêsses requerem ainda um esquadrão de mulheres, que
disponham de maior tempo para nisto se dedicarem mais direta e totalmente.
Quais poderão portanto ser estas mulheres, senão especialmente (não pre­
tendemos dizer: exclusivamente) aquelas a que aludimos pouco faz, aque­
las que imperiosas circunstâncias ditaram a misteriosa “ vocação” , aquelas
que os acontecimentos destinaram a uma solidão que não estava em seus
pensamentos e em suas aspirações, e parecia condená-las a uma vida egois-
ticamente inútil e sem escopo? E eis pelo contrário que hoje sua missão st?
manifesta múltipla, militante, empenhando tôdas suas energias e de modo
tal que poucas outras, entretidas pelos cuidados da família e da educaçao
dos'filhos, ou sujeitas ao santo jugo da regra, estariam igualmente em grau
de cumprir.
Até agora algumas daquelas mulheres dedicavam-se com zêlo, muitas
vezes admirável, às obras da paróquia; outras, de sempre maior visão, con-
•íiii',ravam-se a uma operosidade moral e social de grande alcance. Seu nú-
iiiit o , por eíeit.o da guerra, e das calamidades que se seguiram, aumentou
• ousideràvelmente; muitos homens valorosos caíram na horrível guerra, 0 1 1 -
11 1 is voltaram enfermos; tantas jovens esperaram em vão a vinda de um
e..|Hi:.o, o desabrochar de novas vidas, em sua habitação sozinhas: mas ao
mesmo tempo as novas necessidades criadas pela entrada da mulher na
vida civil e política surgiram pedindo o concurso delas. Nada é senão urna
■•■.Manha coincidência, ou é preciso ver nisto uma disposição da Divina
I 'rovidência?
Assim, vasto é o campo de ação que se oferece hoje à mulher, e pode ser,
•tT.undo a atitude e o caráter de cada uma, ou intelectual ou mais pratica­
mente ativo. Estudar e expor o pôsto e o cargo da mulher na sociedade, seus
direitos e seus deveres, tornar-se educadora e guia das próprias irmãs, en-
diieilar as idéias, dissipar os preconceitos, esclarecer as confusões, explicar
v difundir a doutrina da Igreja para destruir mais seguramente o ôito, a
llu:.ao e a mentira, para desmascarar mais eficazmente a tática do adver­
tiu 1 0 do dogma e da moral católica: trabalho imenso e de urgente neces-
nidiule, sem o qual todo o zelo de apostolado não obteria senão resultados
MiecArios. Mas também a ação direta e indispensável, se não se quer que a
mi doutrina e as sólidas convicções permaneçam, se não absolutamente pla­
tônica:;, ao menos pobres de efeitos práticos.
K:.la parte direta, esta colaboração efetiva na at i vidade social e. política,
iwio altera em nada o caráter próprio da ação normal da mulher. Associada
m olita do homem no campo da instituição civil, ('Ia se aplica principalmente

117
n |‘ i u X II C rolilcin cii.
nas matérias que exigem tato, delicadeza, instinto materno, mais do que
na rigidez administrativa. Quem melhor do que ela pode compreender o que
re*querem a dignidade da mulher, a integridade e a honra da jovem, a pro­
teção e a educação da criança? E em todos êstes argumentos quantos pro­
blemas reciama a atenção e a ação dos governantes e dos legisladores! Sò-
nu-nte a mulher saberá, por exemplo, temperar com a bondade, sem detri­
mento da eficácia, a repreensão da libertinagem; ela só poderá encontrar o
caminho para salvar da humilhação e educar na honestidade e na virtude
ro*li;*ie»sa e civil a infância moralmente abandonada; ela somente poderá tor­
nar frutuosa a obra do Oratório Festivo e da reabilitação dos livres do cár­
cere ou das jovens decaídas; ela somente fará surgir de seu coração o eco
olo grito das mães, às quais um Estado totalitário, de qualquer nome se
adorne, quereria roubar a educação dos próprios filhos.
Permanece assim traçado o programa dos deveres da mulher, cujo objeto
prático é dúplice: sua preparação e formação para a vida social e política,
o desenvolvimento e atuação desta vida social e política no campo privado
t> público.
Está claro que a obrigação da mulher, assim compreendida, não se im ­
provisa. O instinto materno nela é um instinto humano, não determinado
pela natureza até nos particulares de suas aplicações. Êle é dirigido por
uma vontade livre, e esta por sua vez é guiada pelo intelecto. Daqui seu
valor moral e sua dignidade, mas também sua imperfeição, que tem neces­
sidade de ser compensada e resgatada com a educação.
A educação feminina da jovem, e não raramente também da mulher adul­
ta, é portanto uma condição necessária de sua preparação e de sua forma-
eáo para uma vida digna dela. O ideal seria evidentemente que esta edu­
cação pudesse ir remontar até à infância, na intimidade de um lar cristão,,
sob o influxo da mãe. Não é infelizmente sempre o caso, nem sempre pos­
sível. Todavia pode-se, pelo menos em parte, suprir a esta falta, procuran-
elo a jovem, que por necessidade deve trabalhar fora de casa, uma daque­
las ocupações que são de algum modo tirocínio e adestramento para a vida
à qual é destinada. A tal escopo tendem também as escolas de economia
oloméstica, que miram fazer da criança e da jovem de hoje a mulher e a
mãe de amanhã.
Quanto dignas de elogios e de encorajamento são tais instituições! São
unia das formas nas quais podem largamente exercitar-se e difundir os vos­
sos sentimentos e o vosso zêlo maternos, e uma das mais louváveis, por-
e|iio o bem que aí se cumpre e se propaga ao infinito colocando as vossas
alunas em grau de fazer a outras, seja em família, seja fora, o bem que vós
fi/.c'stes a elas mesmas. Que dizer ainda de tantas outras obras com as quais
vós vindes em auxílio das mães de família, tanto por sua formação inte­
lectual e religiosa, como nas circunstâncias dolorosas ou difíceis de suas
violas?
Mas a ação social e política muito depende da legislação do Estado o da
administração dos Comuns. Por isto a ficha eleitoral está nas mãos da mu­
lher e-atólica como um meio importante para cumprir o seu rigoroso dever
ele* e-onsciência, máxime no tempo presente. O Estado e a política têm real­
mente* e* mais propriamente o encargo de assegurar à família ele cada classe*
social as condições necessárias a fim de que possam existir e desenvolver-
:;i* come> unidade econômica, jurídica e moral. Entãe> a família será ve?reln-
(leiramcnfe* a célula vital de* homens, que projcurarn honestamente* se*u bem
lcire*ne) o* (*t.e*rne>. Tude> isto» bom compreende? a mulher vordaele*irame:nte* tal.
Aefuilo <1 1 1 o* e>la, po*lo contrário, não e*e>mpre‘e*nde*, ne*m poele* oe>mpri*c>nelor é
o|ui* por politica se entenda a dominaçao de uma cla.iNt* s o b r e nutra, a mira

118
*
ambiciosa de sempre maior extensão de império econômico nacional, por qual-
<|iier motivo venha êle pretendido. Pois que ela sabe que tal política abre
caminho à oculta e clara guerra civil, ao pêso sempre crescente das armas,
o> ao> constante perigo de guerra; ela conhece por experiência que por todos
os modos aquela política danifica a família, que deve pagá-la a caro preço
com seus bens e com seu sangue. Por isto nenhuma mulher sábia é fa vo­
rável a uma política de luta de classes ou de guerra. Seu caminho para as
urnas eleitorais, é um caminho de paz. Portanto no interêsse e para o bem
ola família, a mulher percorrerá aquêle caminho e oporá sempre o seu voto
a tôda tendência, de qualquer parte venha, de subordinar a egoísticos dese­
jos de domínio a paz interna e externa dos povos ( 2).

(<0 l)| í(iiiin , M i i II i c i i h ilr A iíln 0 l. il /i ll i n , 21 >I<’ o i i l n l u o , ltMft,


OS DEVERES DO CIRURGIÃO
Entre os múltiplos problemas que dizem respeito à cirurgia, talvez domi­
nando tôda esta matéria, está o fato que no exercício desta profissão tem-se
<'iitro* as mãos, sob os instrumentos, pessoas humanas, o corpo vivente que
é digno dc todo respeito e tem o direito a todo cuidado. Também quando
min cv.tá em jôgo a própria vida; o cirurgião dispõe — e disto está plena­
mente consciente — de duas grandes coisas: a integridade do corpo huma­
no), a misteriosa realidade do sofrimento humano.
Km virtude desta íntima convicção o cirurgião submete-se a um estudo
mV ío e constante, a fim de estar acuradamente informado dos progressos
das ciências anatômicas e biológicas, dos métodos cirúrgicos que incessan­
temente se renovam e se aperfeiçoam com suas vantagens, mas por vêzes
também com seus riscos. A isto servem a leitura dos livros e das revistas,
as conferências, os congressos, tudo, juntamente com a assiduidade à prá­
tica cirúrgica, na qual se faz tesouro dos resultados da própria experiência,
enriquecida pelas observações trocadas com os colegas.
Mas o simples estudo teórico, por quanto possa ser intenso, não é sufi-
ciente, se a êle não se adiciona outro trabalho, também êste perseverante e
continuo, trabalho mais interior e profundo de formação e adestramento ve r­
dadeiramente pessoal, no exercício das faculdades intelectuais, das qualida­
des morais e psicológicas, das atitudes físicas, dos sentidos, dos dedos. De
tudo isto êle mesmo sente viva necessidade, antes e durante a intervenção
operatória.
a) Antes da intervenção. — Grave é a responsabilidade das determina-
ço")o>s a serem tomadas. Os recursos da medicina todos foram usados, até o
ponto cm que poderiam parecer por si só eficazes? a operação parece neces-
s/iria? quais os perigos que ela apresenta, mas de outra parte, a qual des­
ventura exporia a abstenção da mesma? E ainda: o momento é oportuno?
Conve'*in diferir, ou pelo contrário é preciso apressar e agir ràpidamente?
Corre os riscos da urgência, ou os da indulgência? Qual atitude a ter na
consulta com os médicos que curam? Cada qual, realmente, tem sua pala­
vra a dizer; sobretudo em casos de problemas complexos; os pareceres podem
ffo-r clisc-ordes; e então, cada qual, embora sustentando a própria opinião, pode
pe>reebor a probabilidade das razões do outro. Quando porém tudo conside­
rou, (compreendido o caráter moral do ato), o cirurgião não deve mais hesi­
tar. Mas também depois de ter formado conscienciosamente e devidamente
o seu juízo, permanece-lhe ainda um ofício bastante delicado a ser cum­
prido. Sem dúvida é sua obrigação fazer saber a utilidade ou a necessidade
da o)po*ração, como também de indicar as incertezas que muitas vêzes per­
manecem; mas até que ponto deve êle simplesmente sugerir, ou aconselhar,
o)ii insistir junto do doente e da família? Como iluminá-los lealmente, em­
bora usando os devidos resguardos e respeitando-lhes a liberdade?
Outros casos se apresentam, não queremos dizer mais embaraçantes, por­
cino* ao|ui o dever é claro, mas mais dolorosos, por causa das trágicas eon-
seqüencias, que por vô/.e\s derivam da observância daquele dever. São oh
casos nos quais a lei moral impõe o seu veto. Se se tratasse somente do
cirurgião não seria talvez difícil fechar os ouvidos às sugestões de uma pie­
dade mal-entendida e de dar lugar à razão contra a sensibilidade. Mas quan­
tas vêzes convirá reagir não somente contra as pretensões de um vulgar o
torpe interesse, de uma inescusável paixão, bem como contra as angústias
compreensíveis do amor conjugal ou paterno! E o princípio é inviolável. Deus
somente é Senhor da vida e da integridade do homem, de seus membros,
He seus órgãos, de suas potências, daquelas particularmente que o associam
à obra criadora. Nem os genitores, nem os cônjuges, nem o interessado mes­
mo podem dispor livremente. Se é reprovável mutilar um homem, ainda que
por seu insistente pedido, a fim de subtraí-lo do dever de combater pela
defesa da pátria, ou matar um inocente para salvar outro, não é menos
ilicito, seja até para salvar a mãe, causar diretamente a morte de um pe­
queno ser chamado, senão para a vida daqui debaixo, ao menos para a
futura, a um alto e sublime destino, ou tornar árido e estéril, mediante uma
operação que nenhum outro motivo justifica, as fontes da vida. Não é lícito
colocar em risco a vida — suprimi-la, jamais — senão na esperança de
tutelar um bem mais precioso, ou de salvar ou prolongá-la.
b) Durante a intervenção. — A sala operatória, linda, bem arrumada,
fornecida de lâmpadas em profusão, está pronta; o preventivo exame do
operando, acuradamente feito: a esterilização dos instrumentos e das mãos
<lo operador e dos assistentes, perfeita; a anestesia ou analgesia, a prepara-
<;no da pele do paciente, efetuada. Eis portanto agora inclinado sôbre a mesa
operatória, onde está o doente, o cirurgião. Êle está consciente de não ser
mais, como em outros momentos, o anatomista da sala de dissecação, o pe­
rito do escalpelo ou do trépano, mas homem perante outro homem, que lhe
foi inteiramente confiado.
físte drama íntimo, no fundo da alma, renova-se cada dia, em certas oca-
: ioes, mais vêzes por dia, com maior ou menor intensidade; drama que de­
pois de muito tempo alquebra um homem de consciência e de coração, mas
que dá à profissão o seu caráter sagrado.
K enquanto Nós oramos para que as mais abundantes graças celestes des-
(.•nm sôbre vós e vos assistam em tôdas as vossas intervenções, com efusão
de coração damo-vos a vós, e às vossas famílias, e a quantos vos são caros,
n Nossa Bênção A postólica C1).

il) D lm u ia o m >» fliiitulftr*, ct r i m .i Io , 1‘ l t N .


OS DEVERES DO MARIDO E DA MULHER
As responsabilidades do homem diante da mulher e dos filhos nasce, em
primeiro} lugar, dos deveres para com suas vidas, pelas quais empenha sua
profissão, sua arte e seu trabalho. Com o trabalho profissional deve conse-
/'iiir para os seus uma casa e o alimento cotidiano, os meios necessários para
um seguro sustento e um conveniente vestir. A família deve se sentir feliz
o' tranqüila sob a proteção que a mão do homem lhe oferece e dá, com pre­
vidência e com operosa atividade.
tá diversa a condição do homem sem família, em comparação com a da-
ciuc'le que deve cuidar de mulher e filhos. Êste tem por vêzes diante de si
empresas arriscadas, que sustentam a esperança de grandes ganhos, mas fà-
fi Imente conduzem à ruína, por veredas insuspeitadas. Os sonhos de felici­
dades, muitas vêzes iludem o pensamento mais do que satisfazem os dese­
jos: a moderação do coração e de seus sonhos c virtude que jamais preju­
dica, porque é filha da prudência. Por isto o homem casado, também quan­
do) não há outras dificuldades de ordem moral, não deve ultrapassar os legí­
timos limites; limites impostos pela obrigação que tem de não expor, sem
gravíssimos motivos, a perigos a segurança tranqüila, necessária à subsis­
tência da mulher e dos filhos, já vindos ao mundo, ou ainda esperados. Outra
opiestão séria: sem sua culpa ou cooperação, circunstâncias independentes
olo? sua vontade e de seu poder, colocaram talvez em dúvida a felicidade da
família, como pode acontecer nas épocas de grandes descontroles políticos
ou sociais, que se estendendo pelo mundo levam, em milhões de casos, os
tristes frutos da agitação, da miséria, da morte. Sempre convém, entretanto,
o|ue êle, agindo ou omitindo algo, ao empreender ou ousar uma emprêsa, per­
gunte a si mesmo: posso eu assumir esta responsabilidade diante de minha
lamília?
O homem casado, porém, está ligado por vínculos morais não somente com
hiui família, mas também com a sociedade. São vínculos para êle de fid eli­
dade* no» exercício da profissão, da arte; a fidelidade com a qual os superio­
res possam incondicionalmente contar; a retidão e a integridade na conduta
c nas ações que lhe ganham a confiança de quantos com êle tratam: tais
vino-iilos, não são porventura eminentes virtudes sociais? E não constituem
virtudes assim tão belas, a antemuralha da defesa da felicidade doméstica,
ola pari fica existência da família, cuja segurança segundo a lei de Deus, é
o) primeiro dever de um pai cristão?
I ,()do>mos adicionar, pois, que a honra e decôro da mulher é virtude pública
e glória para o marido; o marido, por respeito a ela deve se esforçar para
salientar-se entre seus iguais na própria profissão. Cada mulher, em geral,
olo\so>ja poder orgulhar-se de seu companheiro de vida. Não é portanto lou-
vávo-l o marido opa', por nobre sentimento e afeto para com a mulher, se*
o'Hforça por fazer c> o|iie podo? o>m sua atividade?, o* (pranto pode, cumprir
c obter algo de notável o de mais alto em sua vida?
Se oi elevar-.se> digna e lk>tio*st:u1 1 0 *1 1 11 * nn sociedade' pela profissão) o* traba­
lho propno ro'veite em honra e consolaçao para a espõsa e para os filhos,

l 'J.V.
já que a glória dos filhos são os próprios pais; nem por isto o homem se
esquecerá quanto contribui para a felicidade da convivência doméstica que
êle, em cada circunstância, demonstre tanto no ânimo, como no trato externo
e nas palavras, respeito e estima a sua mulher, mãe de seus filhos. A mulher
não é somente o sol, mas ainda o santuário da família, o refúgio do pranto
dos pequeninos, a guia dos passos para os maiores, conforto de seus afãs,
aquietamento de suas dúvidas, confiança para seus futuros. Dona da doçura,
ela é também a dona da casa. Não acontece jamais que, como se costuma
dizer, os casais se distinguem das pessoas não casadas, pelas maneiras indi­
ferentes, menos respeitosas, ou totalmente descorteses e deselegantes com
que o homem trata a mulher. Não; o comportamento total do marido para
com a mulher jamais poderá ser desacompanhado daquele caráter de natu­
ral, nobre e digna cordialidade e cuidado, qual convém a homens de caráter
íntegro, e de alma temente a Deus; há homens que com suas inteligências
sabem ponderar a inestimável preciosidade que têm para a educação ela
prole, a virtuosa e delicada atitude recíproca entre os cônjuges. Poderoso é
o exemplo do pai para com os filhos; é para êles um vigoroso e viventc
estímulo para olharem a mãe, e o próprio pai, com respeito, veneração e
amor.
Mas a cooperação do homem para a felicidade do lar não pode parar
nem se restringir ao respeito e à consideração para com a consorte de sua
vida: deve ir até ver, apreciar, reconhecer a obra e os esforços dela quo,
s i lenciosa e assídua, se dedica a tornar a comum moradia o mais confortá­
vel, mais agradável e mais alegre possível. Com quanto amoroso cuidado)
aquela jovem tudo dispôs para festejar, tão alegremente como à circunstân­
cia convém, o aniversário do dia, em que ela, diante do altar, se uniu a ôlo*
o)ue devia se tornar o companheiro de sua vida e de sua felicidade, e quo»
a.ííora está para voltar à casa do seu trabalho ou da sua oficina! Olhai
aquela mesa: flôres delicadas a embelezam e alegram. O jantar foi por eda
preparado com todo cuidado; escolheu o que há de melhor, aquilo que a
o‘>le agrada mais. Mas eis que o homem, pelas longas horas de trabalho, pe­
nosas talvez, mais do que de costume, nervoso por contrariedades impre­
vistas, retorna, mais tarde do que de costume, sério e preocupado por ou­
tros pensamentos: as alegres e afetuosas palavras que o acolhem, caem no
vazio e o deixam mudo: na mesa preparada com tanto amor parece quo*
êlo» nada percebe: só olha e observa aquêle prato, bem preparado para
fazer-lhe prazer, que foi porém cozido um pouco demais, e disto êle so
lamenta, sem pensar que a causa foi o seu atraso e a longa espera. Come
depressa, devendo, como êle diz, sair logo após o jantar. A pobre mulher
linha sonhado, para após o jantar, uma doce tarde, transcorrida junto a êle»,
Ioda cheia de renovadas lembranças... encontra-se ela, agora, sozinha na
o-asa deserta; precisa de tôda sua fé e de tôda sua coragem para reprimir
o fluxo das lágrimas que lhe vêm aos olhos!
Alguma de semelhantes cenas é raro que faltem no correr da vida. Um
pimoMpio proclamado pelo grande filósofo Aristóteles é que como alguém
e om si mosmo, tal lhe aparecerá o fim de seu agir; em outros têrmos: as coi-
■.r, aparecem convenientes ou não ao homem, segundo suas disposições natu-
rniií o)ii segundo) as paixões pelas quais é movido.
Assim é (jue vor(‘is como as paixões, até as mais inocentes, os negócios e
on ;ironte'eimi'ntos a par com os efeitos, fazem mudar as idéias o t(‘ndo‘ n-
ri.r., o»!:o|uecer conveniências o> ati'nçõo\s sérias, recusar e descuidar das g<n-
11le/.as e pra/oMvs. Se>m dúvida oi marido podo>rá alo‘gar e'm sua ol(>sculpa a:,
duias eanso'iias ole um elia olo> intenso traludho, tornado mais pev.ado podo
di' pi a/.er e pelo léelio. Mas o'i è em peMisa ode o|ue‘ sua mulhoM' jamais sin!a

r.‘i
nem prove cansaço, nem encontre aborrecimentos? O amor verdadeiro e
profundo, em um e em outra, deverá ser e mostrar-se mais forte do que
<» cansaço c o enfado, mais forte que as mudanças de tempo e de estação,
rnnis forte do que o variar do humor pessoal e o advir de imprevista má
.sorto. Convém dominar a si mesmo, e aos acontecimentos exteriores, sem
(•('der e som colocar-se ao sabor dos mesmos. É preciso saber tirar da fonte
do recíproco amor o sorriso, o agradecimento, a apreciação, as afeições e
cortesias: fiar alegria a quem vos dá tristeza. Quando portanto, ó homens,
vos encontrais em casa, onde a conversa e o repouso concederão renôvo às
vossas fôrças, não persistais em ver e procurar os pequenos defeitos, inevi-
láveis em tôda obra humana; procurai antes todo bem, muito ou pouco que
fôr, bom que vos é oferecido como fruto de penosos esforços, de cuidadosa
vigilância, de afetuosos cuidados femininos, para fazer de vossa moradia
familiar, ainda que modesta, um pequeno paraíso de felicidade e de alegria.
Não deixeis de considerar tanto bem e amar no fundo de vosso pensamento
e coração, não; fazei aparecer e sentir abertamente também àquela que não
poupou cuidados para vos dar tal prazer, e cuja melhor e mais doce recom­
pensa será aquêle sorriso amável, aquela palavra graciosa, aquêle olhar aten­
to e complacente, donde ela deduzirá todo vosso reconhecimento (*).

# * #

À mulher foi dada por Deus a missão sagrada e dolorosa, mas também
fonto do puríssima alegria, da maternidade, e à mãe é, sobretudo, confiada
a educação primária da criança, nos primeiros meses e anos.

* * #

rô corto e indubitável que para a felicidade de um lar, a mulher pode


mais do que o homem. A o marido cabe a primeira parte no assegurar a
subsistência, o futuro das pessoas e da casa, parte principal lhe cabe nas
determinações em que empenha o futuro, seu e dos filhos. À mulher cabem
aquelas diligências numerosas, particularizadas, aquelas imponderáveis aten­
ções o cuidados cotidianos, que são os elementos da atmosfera interna de
uma família, e, conforme agem retamente, ou, ao contrário, alteram-se, ou
mesmo faltam totalmente, tornam segundo o caso: sã, confortável, ou opres­
siva, viciada, irrespirável a convivência familiar. Entre as paredes domós-
licas a ação da esposa deve sempre ser obra da “ mulher forte” tão exal­
tada pela Divina Escritura; a mulher que tem a si confiado o coração do
esposo, e que lhe fará bem e não mal, por todos os dias de sua existência.
Não ó talvez uma verdade antiga e sempre nova — verdade radicada até
na própria condição física da vida da mulher, verdade inexorável procla­
mada não somente pela experiência dos séculos mais remotos, mas ainda
pela experiência recente de nossa época de indústrias devoradoras, de rei­
vindicações de igualdade, de lutas “ esportivas” — que a mulher faz o lar,
e dele cuida; e o homem não poderá jamais nisto substituí-la? É a missão
(Iiic* a natureza e a união com o homem lhe impuseram para o bem da pró­
pria sociedade. Arrastai-a, atirai-a fora e longe de sua família com a fasci­
nação de uma das muitas causas que se rivalizam para vencê-la o cativ/i-
la; verei;; a mulher esquecer seu lar; sem êste fogo, o ar da casa se ros-
Iria; o lar cessará praticamente de existir, mudar-so-á em um precário refú­
gio de algumas lioras; o centro da vida cotidiana do marido, dela mesma,
e dos filhos 1ransmigrarã para algum outro lugar.

(I) I >lnf i ii ■>) > . u m M dr iiliill, I ! M V!.

r.M
Ora, queiramos ou não, para quem, homem ou mulher, é casado e ao
mesmo tempo deseja permanecer fie l aos deveres de tal condição, o belo
cdifício da felicidade não se pode levantar senão sôbre o estável funda­
mento da vida de família. Mas onde encontrareis a verdadeira vida de fam í­
lia, sem um lar, sem um centro visível, real de reunião, que congregue, reco­
lha, radique, mantenha, aprofunde, desenvolva e faça florescer esta vida? Não
digais que materialmente o lar existe desde o dia em que duas mãos se aper­
taram e trocaram as alianças, e os dois novos esposos têm quarto comum,
sob o mesmo teto, em seu apartamento, em sua casa, ampla ou apertada,
rica ou pobre. Nao; não basta o lar material para o edifício espiritual da
felicidade. É preciso elevar a matéria em aura mais espiritual, e do fogo
terreno fazer surgir a flama viva e vivificadora da nova família. Não ser A
obra de um dia, especialmente se estão habitando em um solar que não foi
preparado pelas gerações precedentes, mas sim, — como hoje é o caso mais
freqüente, ao menos na cidade — em um domicílio passageiro, simplesmente
alugado. Quem criará então, a pouco e pouco, de dia a dia, o verdadeiro) lar
espiritual, senão a obra daquela que por excelência se tornou a “ senhora
da casa” ? daquela, que recebeu tôda a confiança do coração de seu espôso?
Então o marido, operário ou agricultor, quer exerça uma profissão liberal,
ou seja homem de letras, ou de ciência, ou artista, empregado ou funcioná­
rio, é inevitável que sua ação seja exercitada, na maior parte do tempo, fora
ole casa, ou que apenas em casa se confine, no longo silêncio do estudo, quo*
nada tem a ver com a vida de família. Para êle o lar tornar-se-A lugar
onde, no fim do trabalho cotidiano, restaurará suas fôrças físicas e morais,
com o repouso, na calma, na alegria íntima. Para a mulher, pelo contrArio,
regularmente êste lar permanecerá o refúgio e ninho de sua obra principal,
daquela obra, que, aos poucos, fará daquele remanso, por pobre que seja,
uma casa alegre e tranqüila pela convivência, que se embelezar A não
pela mobília e pelos objetos, como nos hotéis, sem estilo nem sinais pes­
soais, sem própria expressão, mas bela pelas recordações, que deixam sôbre
os móveis ou se prendem às paredes, pelos acontecimentos da vida vivida
junta, os gostos, os pensamentos, as alegrias e as penas comuns, traços o
: inais por vêzes visíveis, entre outros quase imperceptíveis, mas dos quais
o» lar material, no decorrer do tempo, haurirá sua vida. A alma, porém, de
ludo será a mão, será a arte feminina, porque a espôsa tornará atraente
cada ângulo da casa, ao menos com a vigilância, com a ordem e limpeza,
lendo cada coisa em seu lugar, preparada para o momento desejado; a lm ô < ;o
para restaurar das canseiras, leito para o repouso. À mulher, mais do quo
n o homem, Deus concedeu o dom, juntamente com o senso de graça e do
satisfação, de tornar lindos, agradáveis, os objetos mais simples, precisa­
m ente» porque ela, formada igual ao homem, como sua companheira para
c o in êle constituir a família, nasceu feita para difundir a gentileza o a
d o ç u r a om tôrno do lar de seu marido, e fazer de tal modo que a vida a
d o is s o componha bem e se demonstre fecunda, florescendo no desenvolvi­
mento real.
E quando à espôsa o Senhor, em sua bondade, tiver concedido a digni­
dade» de ser mãe, ao lado do um berço, o vagido do recém-nascido nãe> di­
minuirá, 11 om dostruirá a felicidade do lar; mas polo contrário acrescerá e
sublimará naquola auréola divina, onde osplondem os anjos celestes, o demole*
desce- um raio olo vida que ve*nc‘e* a natureza, o rogenorará om filhos olo* l)e*u.s,
n\ filhos eleis homens. Eis a santidade* do tálaino conjugal! Eis a altitude ela
malerniolade crista. Eis a salvae;ão da mulhe*r o*asaela! .1á opie* a mulher, pro-
<l/mia o) granele* A póstolo Paulo», salvar-se*-á e*m sua missão do* máe>, ce>n-
l •1 1 1ai (jiie* permaneça na fé, na caridade' e* na santidade* 0 * 0 1 1 1 mooléstia. <>rn

IVr.
vós compreendereis como “ a piedade é útil para tudo, tendo promessa de
vida, quer da presente, quer da futura” , e sendo, como explica Sto. Am -
brósio, o fundamento de tôdas as virtudes. Um berço consagra a mãe de
família; e mais berços a santificam e glorificam diante do marido e dos
filhos, diante da Igreja e da pátria. Estultas, ignaras de si e infelizes aquelas
mães que lamentam, se uma nova criança se aperta em seus peitos e pede
alimento à fonte de seu seio! Inimigo da felicidade do lar é o lamento por
causa da bênção de Deus, que o circunda e acresce. O heroísmo da mater­
nidade é apanágio e glória da espôsa cristã: na desolação de sua casa, se
ela está sem a alegria de um anjinho, sua solidão torna-se oração e invo­
cação aos céus; a sua lágrima se ajunta com o pranto de A na, que à porta
do Templo suplicava ao Senhor o dom do seu Samuel ( 2).

# # *

Sim; a espôsa e mãe, é o sol da família. Sol com sua generosidade e dedi­
cação, com sua constante prontidão, com sua delicadeza vigilante e previ­
dente em tudo o que serve para tornar alegre a vida ao marido e aos filhos.
Km tôrno dela difunde-se luz e calor; e costuma-se dizer então que um
matrimônio é bem-aventurado, quando cada um dos cônjuges, ao contraí-lo,
mira fazer a felicidade não própria, mas da outra parte; êste nobre senti­
mento e esta intenção, embora dizendo respeito a ambos, é porém antes
do tudo virtude da mulher, que nasce com as palpitações de mãe e com
o soio de coração; aquêle seio que, se recebe amargura, não quer dar senão
alegria; se recebe humilhações, não quer dar senão dignidade e respeito; à
.semelhança do sol que alegra a manhã nebulosa, com seus albores e doura
os nimbos com raios de seu ocaso.
A espôsa é o sol da família pela clareza de seu olhar e pela chama de sua
palavra; olhar e palavra que penetram docemente na alma, dobram-na e a
('ntcrnecem e a solevam fora do tumulto das paixões, e reclamam para o
homem a alegria do bem e da conversação familiar, depois de um longo
dia de contínuos, por vêzes penosos trabalhos profissionais ou campestres, ou
do imperiosos afazeres do comércio ou da indústria. Seu olhar, seus lábios lan­
çam um lume e têm um acento de mil fulgurações em um luzir, mil afetos
cm um som. São lampejos e sons que saem do coração de mãe, criam e viv i-
ficam o paraíso da infância, e sempre irradiam bondade e suavidade, ainda
quando avisam e reprovam, porque os ânimos juvenis, que mais forte sen-
lem, mais intimamente e profundamente acolhem os ditames do coração.
A esposa ó o sol da família com sua cândida naturalidade, com sua digna
simplicidade e com seu decôro honesto e cristão, tanto no recolhimento e
na retidão do espírito, como na sutil harmonia de seu comportamento ou
<l<* seu vestido, de seu ajustamento e atitude, ao mesmo tempo reservados
e afetuosos. Sentimentos leves, delicados acenos do rosto, ingênuos silênc i os
e .sorrisos, um condescendente movimento de cabeça, dão-lhe a graça de uma
flor eleita e simples, que abre suas corolas para receber e reHetir as coros
do sol. Oh! se vós soubésseis que profundos sentimentos de afeição e reco­
nhecimento tal imagem de espôsa e de mãe suscita e imprime no coração
do pai e dos filhos! ó anjo, que guardais a casa e escutais suas preces, es­
pargi de perfumes celestes êste lar de felicidade cristã!
Mas se suceder que a família permaneça sem êste sol, como será? Se a
espôsa continuamente e a cada circunstância, até nas mais íntimas rela ­
ções, nao titubeia em fazer sentir quantos sacrifícios lhe custa a vida con-
(") IH im iih ii íii 11
1 1km«■<» i l . i A iflo < iló lli.i, V
<\<lr iiiiIiiIh ii, MUI
jugal? Onde está sua amorosa doçura, quando com uma excessiva dureza
na educação, com uma não dominada excitabilidade e uma irritante frieza
no olhar e na palavra sufoca nos filhos o sentimento e a esperança de en­
contrar alegria e feliz paz junto da mãe? Quando ela não faz senão per­
turbar triste e amargamente, com voz áspera, com lamentos e reprovações,
a confiante convivência no círculo familiar? Onde está a generosa delica­
deza e o terno amor, quando ela, em troca de criar com natureza e medida
simplicidade uma atmosfera de agradável tranqüilidade na casa, toma ares
de irrequieta, nervosa e exigente senhora da moda? É talvez isto difundir
benévolos e vivificantes raios solares, ou é antes um esfriar, com vento gla-
cial o jardim da família? Quem não se maravilhará então se o homem, não
encontrando naquele lar o que o atraia, retenha e conforte, afaste-se o mais
que puder, provocando semelhante afastamento da mulher, da mãe, quan­
do o afastamento da mulher já não tenha preparado o afastamento do ma­
rido; um e outra indo-se assim à procura, fora — com grave perigo espi­
ritual e com dano para a união familiar — do sossêgo, do repouso, do pra­
zer, que lhes não concede a casa? Em tal estado de coisas os mais desven-
turados a sofrer são fora de qualquer dúvida os filhos!
Eis, ó esposos, onde pode chegar a vossa parte de responsabilidade para
a concórdia da felicidade doméstica. Se ao marido vosso e ao trabalho olo"lo*
cabe procurar e estabelecer a vida do lar, a vós e ao vosso cuidado cabo»
ajustar o conveniente bem-estar e providenciar a pacífica serenidade comum
de vossas duas vidas. Isto é para vós não somente uma obrigação de natu­
reza, mas também um dever religioso e uma obrigação da virtude cristã,
para o vigor de cujos atos e de cujos méritos vós crescereis no amor e na
graça de Deus.
“ Mas — dirá talvez alguma dentre vós — de tal modo se nos pede uma
vida de sacrifícios” . Sim: a vossa é vida de sacrifícios, mas não somente dc
.-■■acrifícios.
Acreditais vós, portanto, que aqui embaixo se possa gozar de uma ver­
dadeira e sólida felicidade, sem conquistá-la com alguma privação cm re­
núncia? que em algum ângulo dêste mundo se encontre a plena e perfeita
beatitude do paraíso terrestre? E pensais talvez que vosso marido não deva
também êle sacrificar-se, por vêzes gravemente, para conseguir um pão
honrado e seguro para a família? Exatamente êstes mútuos sacrifícios, su­
portados juntos e em comum vantagem, dão ao amor conjugal e à felici­
dade da família a sua cordialidade e estabilidade, sua profundidade santa
<• aquela especial nobreza que se exprime no mútuo respeito dos cônjuges
•• ois exalta no afeto e no reconhecimento dos filhos. Se o sacrifício materno
é o mais agudo e doloroso, a virtude do alto os tempera. De seu sacrifício
n mulher aprende a compaixão às dores alheias. O amor para a felicidade
di> sua casa não a fecha em si; o amor de Deus, que a exalta no seu sacri­
fício acima de si, abre-lhe o coração a tôda piedade e a santifica.
“ Mas, — objetar-se-á talvez ainda — a moderna estrutura social, opo»-
rária, industrial e profissional, leva em grande número a mulher, também
mm casadas, a sair fora do lar, da família e a penetrar no campo do tra­
balho e da vida pública” . Nós nao ignoramos, diletas filhas. Se tal condição,
para uma mulher casada constitui exatamente um ideal social é coisa duvi­
dosa. Todavia do fato convém ter em conta a objeção. A Providência porém,
■empre vír;i I em somi governo da humanidade, inseriu no espírito ola famí
lia cristã fôrças superiores que so'rvc»m para mitigar e venco»r a dure*za do>
um lal estado social <• obviar os perigos, c|ue inclubitíWe»lmente em si escon­
dem. Nao tendes vós talvez observado como o sacrifício do» uma mae, <|iie,

I '. 7
J

por especi ais motivos, deve além de seus deveres domésticos, industriais,
prover com duro trabalho cotidiano ao nutrimento da família, não somente
conserva, mas alimenta e acresce nos filhos a veneração e o amor para
com ela, e mais forte obtém seus reconhecimentos por suas angústias e fadi-
Has, quando o sentimento religioso e a confiança em Deus constituem o
fundamento da vida familiar? Se tal é o caso no vosso matrimônio, com plena
confiança em Deus, o qual ajuda sempre quem o teme e o serve, ajuntai,
nas horas e nos dias que podeis dar inteiramente aos vossos caros, com redo­
brado amor, a solerte cura, não somente para assegurar à verdadeira vida
fia família o mínimo indispensável, mas também para deixar que de vós pro­
cedam no coração do marido e dos filhos tantos luminosos raios de sol, que
confortem, fomentem e fecundem, também nas horas da separação exterior,
a espiritual união do lar ( 3).

(1) n ia im io .io« V> itr I c v c t c lio , t !M i

IVÍK
OS DEVERES DOS MÉDICOS
Diverso de seus colegas, em elegantes cabeleiras, que na famosa “ Lição
de Anatomia” , de Rembrandt, parecem estar solícitos sobretudo por trans­
mitir seus lineamentos à posteridade, um daqueles personagens atrai a aten­
ção de quem o contempla pela viveza e profundidade de sua expressão.
Hirto o vulto, retendo a respiração, êle imerge o olhar no corte aberto,
ansioso por ler o segrêdo daquelas vísceras, ávido de arrancar à morte os
mistérios da vida. Ciência admirável já em seu próprio campo, por tudo
aquilo que revela, a anatomia possui a virtude de introduzir a mente em
regiões ainda mais vastas e elevadas. Bem o sabia, bem o sentia, o grande
Morgagni, quando durante uma dissecção, deixando cair de suas mãos o
bisturi, exclamou: “ Ah, se eu pudesse amar a Deus, como o conheço!” Se
a Anatomia manifesta a potência do Criador no estudo da matéria, a Fisio-
logia penetra nas funções do maravilhoso organismo, a Biologia aí descobre
as leis da vida, suas condições, exigências e suas generosas liberalidades.
Artes providenciais, a Medicina e a Cirurgia aplicam tôdas estas ciências
para defender o corpo humano, tão frá gil quanto perfeito, para reparar suas
perdas, para curar suas enfermidades. Ademais, o médico, mais que outros,
em tôda parte intervém não menos com seu coração do que com sua inte­
ligência; não trata uma matéria inerte, se bem que preciosa: um homem
como êle, seu semelhante, um seu irmão sofre entre suas mãos. Ainda mais,
êste paciente não é uma criatura isolada; é uma pessoa que tem seu pôsto
e seu encargo na família, sua missão, seja embora humilde, na sociedade.
K ainda, o médico cristão não perde jamais de vista que o seu doente, o
sou ferido, que, graças aos seus cuidados, continuará a viver por um tempo
mais ou menos longo ou, não obstante suas dedicações sucumbirá, está a
enminho de uma vida imortal e, portanto, também dêle, médico, depende a
infelicidade ou a bem-aventurança eterna dêste enfêrmo.

* * *

Composto de matéria e de espírito, êle próprio elemento da ordem uni­


versal dos sêres, o homem é realmente orientado em sua corrida daqui de­
baixo, para uma meta acima da natureza. Desta compenetração da matéria
e tio espírito na perfeita unidade do composto humano, desta participação
no movimento de tôda a criação visível, segue-se que o médico 6 muitas
vê/os chamado para dar conselhos, para tomar determinações, para formu­
lar princípios, que, mirando embora diretamente a cura do corpo, de sons
membros o órgãos, interessam, entretanto, a alma e suas faculdades, os dos-
Imo.s sobrenaturais do homem e sua missão social.
< >rn, sem ter sempre presente no pensamento esta composição do homem,
•.eu lugar e encargo na ordem universal dos sêres, seu destino espiritual e
sobrenatural, o médico facilmente correrá o risco de implicar-se nos pre-
11 1 í/.oh mais ou menos materialistas, de seguir as conseqüências fatais do uti-
11 1iii imiio, ( i o hedonismo, de autonomia absoluta da lei moral.

m
llrn capitão pode saber muito bem dar instruções precisas sôbre como
manobrar a máquina ou dispor para a navegação a vela; se porém não
eomhece a meta, ou não sabe pedir aos seus instrumentos ou às estréias,
ojiu' brilham sôbre sua cabeça, a posição e a rota de seu navio, aonde irá
conduzi-lo a sua doida corrioia?
Mas êste conceito de ser e de fim abre o caminho às mais elevadas con­
siderações.
A complexidade daquele composto de matéria e de espírito, como igual­
mente daquela ordem universal, é tal que o homem se não pode dirigir
para o fim total e único de seu ser e de sua personalidade, senão com a
açao harmoniosa de suas múltiplas faculdades corporais e espirituais, e
nao pode manter seu lugar nem isolando-se do resto do mundo, nem tor-
nando-so anônimo, como em uma aglomeração amorfa milhares de molé­
culas idênticas se perdem. Ora esta complexidade real, esta harmonia neces­
sária oferecem suas dificuldades, ditam ao médico seu dever.
Kormando o homem, Deus regulou cada uma de suas funções; distribuiu-
as entre os diversos órgãos; determinou com isto mesmo a distinção entre
aoiuêles que são essenciais à vida e aquêles que não interessam a não ser
à integridade do corpo, conquanto preciosa sua atividade, seu bem-estar,
sua beleza; fixou ao mesmo tempo, prescreveu e limitou o uso de cada um;
nao pode portanto permitir ao homem ordenar sua vida e as funções de
seus órgãos a seu talante, de modo contrário aos escopos internos e ima-
nentes a êles assinalados. O homem realmente não é o proprietário, o senhor
absoluto de seu corpo, mas somente possui o usufruto do mesmo. Disto deriva
uma série de princípios, de normas, que regulam o uso e o direito de dispor
dos órgãos e dos membros do corpo e que se impõem igualmente ao interes­
sado e ao médico chamado a aconselhá-lo.
* * *

As mesmas regras devem, ademais, dirigir a solução dos conflitos entre


interêsses divergentes, segundo a escala dos valores, salvos sempre os man­
damentos de Deus. Portanto jamais será permitido sacrificar os interêsses
('ternos aos bens temporais, ainda entre os mais dotados, como também não
será lícito pospor êstes últimos aos vulgares caprichos e às exigências das
paixões. Em tais crises, por vêzes trágicas, o médico se encontra, muitas
v êzo'S , na urgência de ser o conselheiro e quase o árbitro qualificado.
Também circunscritos e restritos à própria pessoa, tão complexa em sua
unidade, os conflitos inevitáveis entre interêsses divergentes fazem surgir
problemas bastante delicados.
Quão árduos são ainda aquêles que a sociedade levanta, quando faz valer
os direitos sôbre o corpo, sôbre sua integridade, sôbre a própria vida do
homem! Ora, é por vêzes difícil determinar em teoria os limites; na prá­
tica, o médico, não menos do que cada indivíduo interessado diretamente,
pode encontrar-se na necessidade de examinar e analisar tais exigências e
pro‘tensf>es, dc medir e avaliar a moralidade delas, e a fôrça ética obrigante
das mesmas.
# # #

Ac|tii, razão e fé traçam os limites entre os direitos respectivos da socie­


dade e do indivíduo. Sem dúvida, o homem é, por sua própria natur.eza,
destinado a viver em sociedade; mas como também ensina sua razão, em
linha olo* máxima, a sociedade» é fo*ita para e> homem, e> não» o homem para
a KocMui aele. Nao elcMa, mas do próprio (Yiador, rlc to‘in o direito sobre o

I .Kl
p r óprio corpo e sôbre sua viola, e ao Criador responde pelo uso que disto
íi/c*r. Disto se deduz que a sociedade não pode privá-lo diretamente daquele»
direito, até que se não tenha tornado punível de uma tal privação, por um
grave e proporcionado delito.
Em que diz respeito ao corpo, à vida e à integridade corporal dos indiví­
duos, a posição jurídica da sociedade é essencialmente diversa da dos in­
divíduos. Embora limitado, o poder do homem sôbre seus membros e órgãos
o'* um poder direto, porque êstes são partes constitutivas do seu ser físico.
Está claro que não tendo suas diferenças em uma perfeita unidade, outro
escopo senão o bem do organismo físico total, cada um dêstes órgãos e des­
tes membros pode ser sacrificado, se coloca o conjunto em perigo que não
poderia ser esconjurado de outro modo. Diverso é o caso da sociedade, que
não é um ser físico, cujas partes seriam os indivíduos racionais, mas uma
simples comunhão de fins e de ações; por qual título poderá ela exigir ela-
o|ueJes que a compõem, e são chamados seus membros, todos os serviços
necessariamente requeridos pelo verdadeiro bem comum?
Tais são as bases sôbre as quais se deve fundar todo e qualquer juízo
acôrca do valor moral dos atos e das intervenções permitidas ou impostas
pelos poderes públicos, sôbre o corpo humano, a vida e a integridade ela
pessoa.
* * *

As verdades até agora expostas podem ser conhecidas apenas com a luz
da razão. Existe porém uma lei fundamental, que se apresenta ao olhar do
médico, mais do que aos dos outros, e cujo íntegro sentido e fim, sòinento*
pela luz da Revelação pode ser iluminada e manifestada; queremos aludir
à dor e à morte.
Sem dúvida a dor física tem também uma natural e salutar função; é um
sinal de alarma, que demonstra o nascimento e o desenvolver-se, por vêzo>s
insidioso, do mal oculto, e induz e leva a procurar o remédio. Mas o médico
inevitavelmente encontra a dor e a morte no curso de seus estudos cien­
tíficos, como um problema, do qual seu espírito não possui a chave, o no
i*xercício de sua profissão, como uma lei iniludível e misteriosa, diante ola
o|iial muitas vêzes sua arte permanece impotente e estéril sua compaixão».
1’ode, é verdade, estabelecer seu diagnóstico, segundo todos os elementos
olo laboratório e da clínica, formular seu prognóstico segundo tôdas as exi-
p.éncias da ciência; mas no fundo de sua consciência, de seu coração) olo*
homem e de cientista, sente que sua explicação daquele enigma se obstina
o-m fugir-lhe. Sofre; a angústia o atormenta inexoravelmente, enquanto não
I >o •( Io* à fé uma resposta, que, embora não completa, qual é no mistério dos

do>sí/;nios do Deus, que se tornará clara na eternidade, é suficiente entre­


tanto para tranqüilizar seu espírito.
I*’ is tal resposta. Deus, criando o homem, tinha-o, por dom de sua graça,
isentado daquela lei natural de todo vivente corpóreo c sensível, não c|uo'-
i rndo colocar cm seu destino a dor e a morte; o pecado os introduziu. Mas
(*;I»*, o» Pai das misericórdias, tomou-as em suas mãos, fê-las passar pelo»
corpo, pelas veias, pelo coração de seu Filho dileto, Deus como file», feito
homem para ser o Salvador do mundo. Assim a dor e a morte tornaram-se
paia cada homem, quo não renega Cristo, meios do redenção e do1 santifica
<;no. Assim o caminho do gênero humano, quo se desenvolve» e»m tôola sua
amplidão) so)b o> sinal da Cruz e sob a lei da dor e da morte», oneiuanto) matura
o- purifio-a a alma a<|ui e,mbaixo>, a conduz a fedicúelade» se»m limite»s ole* uma
vula ofu«* não t.«»ni fim.

Hl
Sofrer, morrer: é realmente, para usar a audaz expressão do Apóstolo das
Hent.es, a “ estultice de Deus” , estultice mais sábia do que tôda a sabedoria
dos homens. A o pálido clarão de sua débil fé o pobre poeta pôde cantar:
"l/homme est un apprenti, la douleur est son maítre, — Et nul ne se
ronnait tant qu’il n’a pas souffert” . À luz da revelação o pio autor da Im i-
taçao de Cristo pôde escrever o sublime capítulo décimo segundo de seu
HeKundo livro “ De regia via sanctae Crucis” , todo refulgente da mais admi­
rável compreensão e da mais alta sabedoria cristã da vida.
Diante, pois, do imperioso problema da dor, qual resposta o médico po­
derá dar a si mesmo? qual ao infeliz, que a enfermidade abate em seu
fechado torpor, ou que insurge em vã rebelião contra o sofrimento e a
morte? Somente um coração penetrado de uma viva e profunda fé saberá
encontrar acentos de íntima sinceridade e convicção capazes de fazer acei­
tar a resposta do próprio Divino Mestre: É necessário sofrer e morrer, para
entrar assim na glória. Êle lutará com todos os meios e expedientes da ciên­
cia e de sua habilidade contra a doença e a morte, não com a resignação de
um desesperado pessimismo, nem com uma exasperada decisão, que uma
moderna filosofia crê dever exaltar, mas sim com a calma serenidade de
quem vê e sabe o que a dor e a morte representam nos desígnios salvado­
res do onisciente e infinitamente bom e misericordioso Senhor.

* % *

É portanto claro que a pessoa do médico, como tôda sua atividade, se


movem constantemente no âmbito da ordem moral e sob o império de suas
leis. Em nenhuma declaração, em nenhum conselho, em nenhuma providên­
cia, em nenhuma intervenção, o médico pode encontrar-se fora do terreno
da moral, desvencilhado e independente dos princípios fundamentais da
ética e da religião; nem há ato algum ou palavra, dos quais não seja res­
ponsável diante de Deus e de sua própria consciência.
i'<) verdade que alguns repelem como absurdo e quimera, em teoria e na
prática, o conceito de uma “ ciência médica cristã” . Segundo o que pensam,
nao pode existir uma medicina cristã, do mesmo modo que não existe uma
física ou química cristãs, quer sejam teóricas, quer aplicadas: o domínio das
eiéncias exatas e experimentais — dizem — estende-se fora do terreno reli­
gioso e ético e por isto não conhecem nem reconhecem senão suas próprias
leis imanentes. Estranha e injustificada restrição no campo visual do pro­
blema! Não vêem êles que os objetos daquelas ciências não estão isolados
no vácuo, mas fazem parte do mundo universal dos sêres; têm na ordem
do.s bens e dos valores um determinado lugar e grau; estão em permanente
contato com os objetos de outras ciências, e em particular estão sob a lei
da imanente e transcendente finalidade, que os liga em um todo ordenado?
Admitamos porém que, quando se fala de orientação cristã das ciências,
tenha-se em vista não somente a ciência em si mesma, mas também em seus
representantes e cultores, nos quais vive, desenvolve-se e manifesta-se. A
Ki siea também, e a Química, que os cientistas e os professores consciencio­
sos fazem servir em vantagem e em benefício dos indivíduos e da socieda­
de, possam tornar-se, em mãos de homens perversos, agentes e instrumen­
tos de corrução e de ruína. Tanto mais que é claro que na medicina o inte­
resse supremo da verdade e do bem opõe-se a uma pretendida liberação
objetiva ou subjetiva de suas múltiplas relações e vínculos, que a mantém
na ordem ^eral.
Tivemos já ocasião de expor uma série de considerações em tôrno do
Decálogo, das quais esperamos que também os médicos católicos possam tirar
alguns úteis ensinamentos para o exercício de sua profissão.
* * #

O maior de todos os mandamentos é o amor: o amor de Deus, e, dima-


nando dêle, o amor do próximo. O verdadeiro amor, iluminado pela razão
e pela fé, não torna cegos, mas muito mais clarividentes os homens, nem
jamais o médico católico poderá encontrar melhor conselheiro do que neste
verdadeiro amor, ao ditar seus diagnósticos ou ao assumir e conduzir até
o fim a cura de um doente: “ Dilige, et quod vis fac” : esta afirmação de Sto.
Agostinho, axioma incisivo — muitas vêzes citado fora de propósito, —
encontra sua plena e legítima aplicação. Que recompensa será para o
médico consciencioso ouvir no dia da eterna retribuição o agradecimento do
Senhor: “ Estava enfêrmo e me visitaste” . Tal amor não é débil, não se
presta a qualquer diagnóstico complacente; é surdo a tôdas as vozes das
paixões que desejariam conseguir sua cumplicidade; está pleno de bondade,
sem inveja, sem egoísmo, sem ira; não goza pela injustiça; tudo crê, tudo
espera, tudo suporta; assim o Apóstolo das gentes pinta a caridade
■cristã, em seu admirável hino de amor.
# * *

O quinto mandamento — não matarás — esta síntese dos deveres que dizem
respeito à vida e à integridade do corpo humano, é fecundo de ensinamentos,
tanto para o docente sôbre a cátedra universitária, como para o médico exer­
cendo sua profissão. A té quando um homem não é culpado, sua vida é intan­
gível, e é portanto ilícito todo ato tendendo diretamente destruí-la, quer se
trate de uma vida embrional, ou de uma vida em seu pleno desenvolvi­
mento, ou tenha já chegado ao seu têrmo. Da vida de um homem, não
réu de delito punível com a pena de morte, somente Deus é senhor! O mé­
dico não tem direito de dispor nem da vida da criança, nem da vida da
mãe; e ninguém no mundo, nenhuma pessoa privada, nenhum poder hu­
mano, pode autorizá-lo à direta destruição da criança, ou da mãe. Sua obri­
gação não é a de destruir a vida, mas de salvá-la. Princípio fundamental
o imutável, que a Igreja no curso dos últimos decênios se viu na necessi­
dade de proclamar repetidas vêzes e com tôda clareza contra opiniões e
métodos opostos. Nas resoluções e nos decretos do magistério eclesiástico o
médico católico encontra a tal propósito um guia seguro para seu juízo
teórico e sua conduta prática.

* # #

Mas há na ordem moral um vasto campo, que requer no médico uma


particular clareza de princípios e segurança de ações; é aquêle no qual fer­
mentam as misteriosas energias imersas por Deus no organismo do homem
o* ola mulher, para que surjam novas vidas. É uma potência natural, cuja
estrutura e formas essenciais de atividade foram determinadas pelo próprio
Criador, com um fim preciso e com correspondentes deveres, aos quais o
homem <»stá submetido em todo e qualquer uso consciente da referida facul-
olade. O escopo primário (ao qual os fins secundários são subordinados es-
M ucialmente) olesejado pela natureza neste uso é a propagação da vida e
ola eduruçao da prole. So'miente o matrimônio), regulado por Deus mc>sino,
em sua essência o« em suas propriedades, assegura uma e outra coisa, segun­

m
l‘lo XII 1'rnliltmiM»
do o bom e a dignidade não só da prole, como também dos progenitores.
Tal a única norma que ilumina e rege tôda esta delicada matéria; a norma
n que em todos os casos concretos, em tôdas as questões especiais, convém
voltar; a norma enfim, cuja fie l observância garante neste ponto a sani­
dade moral e física dos indivíduos em particular e da sociedade.
* * *

Não se deveria tornar difícil ao médico compreender esta imanente fina­


lidade profundamente radicada na natureza, para afirmá-la e aplicá-la com
íntima convicção em sua atividade científica e prática. A êle não raramente
mais do que ao próprio teólogo prestar-se-á fé, quando admoesta e adverte
o|uo> todo o que ofende e transgride as leis da natureza, terá cedo ou tarde
quo solrer as funestas conseqüências em seu valor pessoal e em sua inte­
gridade física e psíquica.
Eis o jovem, que sob o impulso das nascentes paixões recorre ao médico;
ois os noivos, que em vista de suas próximas núpcias lhe pedem conselhos,
que não raro, infelizmente, desejam em sentido contrário à natureza e ho­
nestidade; eis os cônjuges, que procuram nêle luz e assistência ou mais
ainda cumplicidade, porque pretendem não poder encontrar outra solução
ou caminho de saída nos conflitos da vida fora da voluntária infração dos
vínculos e dos deveres inerentes ao uso das relações matrimoniais. Tentar-
se-á então fazer prevalecer todos os argumentos possíveis, todos os pre­
textos (médicos, eugênicos, sociais, morais), para induzir o médico a dar
um conselho ou a prestar um auxílio, que permita a satisfação do instinto
natural, privando-o porém da possibilidade de atingir o escopo da fôrça
gerativa de vida. Como poderá êle permanecer firme diante de todos êstes
assaltos, se a êle mesmo faltarem o claro conhecimento e a convicção pes­
soal de que o Criador, para o bem do gênero humano ligou o uso vomn-
tário daquelas energias naturais aos seus escopos imanentes com um vín ­
culo indissolúvel, que não admite nem relaxamento, nem ruptura?
# # *

O oitavo mandamento tem igualmente lugar na deontologia médica. A


mentira segundo a lei moral não tem nenhuma permissão; existem entre­
tanto casos nos quais o médico, ainda que interrogado, não pode, embora
nao deva jamais dizer coisa positivamente falsa, manifestar cruamente tôda
a verdade, especialmente quando sabe que o doente não teria a fôrça de su­
portá-la. Existem ainda outros casos nos quais tem sem dúvida o dever do
íalar claramente; dever diante do qual devem ceder tôdas as outras conside­
rações médicas ou humanitárias. Não é lícito iludir o enfêrmo ou os paren­
tes em uma segurança ilusória, com o perigo de comprometer assim a sal-
vae;áo eterna dêle ou o cumprimento das obrigações de justiça ou de cari­
dade. Estaria em êrro quem quisesse justificar ou escusar tal conduta com
o pretexto de que o médico se exprime do modo que êle julga mais opor­
tuno no interêsse pessoal do doente, e que é culpa dos demais se tomam exa-
/'eradamente à letra suas palavras.

* # *

Entro os devores derivantes do oitavo mandamento deve-se enumerar tam­


bém a observância do segrôdo profissional, quo devo servir o servo* nao so­
mente ao interêsse privado, mas muito mais ainda à comum vantagem. Tam ­
bém neste campo podem surgir conflitos ont.ro o bem privado e o público,

IHI
ou entre os diversos elementos e aspectos do próprio bem público, confli­
tos nos quais pode ser, por vêzes extremamente difícil medir e pesar jus­
tamente o pró e o contra entre as razões de falar e de calar. Em tal per­
plexidade o médico consciencioso pergunta aos princípios fundamentais da
ética crista as normas que o ajudarão a encaminhar-se pela reta estrada.
K;tas normas, em verdade, enquanto afirmam nitidamente, sobretudo no
mterêsse do bem comum, a obrigação do médico de manter o segrêdo pro­
fissional, não reconhecem porém a êle um valor absoluto; não seria real­
mente condizente ao próprio bem comum se aquêle segrêdo devesse ser
colocado a serviço do delito ou da fraude.

* # *

Não queremos, finalmente, omitir uma palavra sôbre a obrigação do mé­


dico, não somente de possuir uma sólida cultura científica, mas também de
continuar sempre a desenvolver e a integrar seus conhecimentos e suas ati­
tudes profissionais. Trata-se aqui de um dever moral em sentido estrito,
de um vínculo que liga em consciência diante de Deus, porque diz respeito
u uma atividade que toca de perto os bens essenciais do indivíduo e da co­
munidade. Importa:
— Para o estudante de medicina, no tempo de sua formação universitá­
ria, a obrigação de aplicar-se seriamente ao estudo para adquirir os conhe­
cimentos teóricos requeridos e a habilidade prática necessária na aplicaçao
ilos mesmos.
- Para o professor universitário o dever de ensinar e de comunicar aos
nhmos uma coisa e outra no melhor modo possível, e de não dar a ninguém
um certificado de idoneidade profissional, sem ter-se assegurado prèvia-
..... te disto com um consciencioso e profundo exame. A gir diversamente
•cria cometer uma grave culpa moral, porque exporia a sérios perigos e a
incalculáveis danos a saúde privada e pública.
Para o médico que exercita já sua profissão, a obrigação de manter-se
informado do desenvolvimento e dos progressos da ciência médica, median­
te a leitura de obras e de revistas científicas, a participação em congressos
e cursos acadêmicos, as conversas com colegas e as consultas' aos professô-
i c: de faculdades de medicina. Êste constante esforço por aperfeiçoar-so
í

nhriisi o médico que exerce a profissão, enquanto isto é praticamente pos-


uivel, e é pedido pelo bem dos doentes e da comunidade (* ).

( I ) liininui, IIiiMii M Iiiii H l< >I <>u I < .1 N: i u lin.n, I'.’ (Ir- iiovcinlim,

ri'.
A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA
Nosso espírito vê as inumeráveis fileiras de adolescentes, que como botões
se abrem às primeiras luzes da aurora. Prodigioso e encantador é êste pulu­
lar de juventude em uma geração que pareceu condenada a desaparecer;
juventude nova, fremente em sua pujança e em seu vigor, olhos fixos no
futuro, e com incoercível impulso para metas mais elevadas, resolvida a
melhorar o passado, a assegurar conquistas mais sólidas e de maior vulto
no> caminho do homem sôbre a terra. Desta irrefreável e perene corrente
pura a perfeição humana, dirigida e guiada pela Divina Providência, os
educadores são os orientadores e os responsáveis mais diretos, à mesma Pro­
vidência associados, para dela realizar os desígnios. Dêles depende em gran­
de parte se a corrente da civilização avança ou vai para trás, se reforça
seu ímpeto ou languesce na inércia, se vai direta para a foz, ou, pelo contrá­
rio, se deleita, ainda que momentâneamente, em vãos acessórios, ou pior
ainda, em meandros malsãos e pantanosos.
Nós mesmo, por disposição divina, Vigário, e portanto investido dos mes­
mos ofícios daquele que sôbre a terra amou ser chamado “ Mestre” , Nós
mesmo nos incluímos no número dos que representam em várias medidas
a mão da Providência no conduzir o homem ao seu têrmo prefixado.
Não é talvez esta Nossa Sé principalmente uma Cátedra? Não é nosso pri­
meiro encargo o Magistério? Não deu o divino Mestre e Fundador da Igreja
a Pedro e aos Apóstolos o fundamental preceito: ensinai, preparai discípulos?
Nós nos sentimos educadores de almas, e de fato o somos; a Igreja é su­
blime escola, e não em um grau secundário de importância, pois que boa
parte do ofício sacerdotal consiste em ensinar e educar. Nem podia ser di­
versamente em a nova ordem instaurada por Cristo, que se fundamenta total­
mente sôbre as relações de paternidade de Deus, da qual deriva tôda outra
paternidade no céu, e sôbre a terra, e da qual, em Cristo e por Cristo pro-
mana a Nossa paternidade para com tôdas as almas. Ora quem é pai, é por
isto mesmo educador, porque, como luminosamente explica o Doutor Angé­
lico), o primordial direito pedagógico, não se apóia sôbre outro título senão
0 da paternidade.
Imensa é a responsabilidade da qual participam, ao mesmo tempo, embora
em grau diverso, mas não em campo totalmente separado: a responsabili­
dade das almas, da civilização, do aperfeiçoamento e da felicidade do ho­
mem sôbre a terra e nos céus.
Se, neste momento, trouxemos o discurso sôbre um terreno mais vasto,
qual o da educação, fizem o-lo pensando que já se pode dizer superada, ao
menos em linha de máxima, a errônea doutrina que separava a formação
da inteligência da do coração. Devemos antes deplorar que nos últimos
anos fôssein ultrapassados os limites do justo cm interpretar as normas cpio‘
identificam o que ensina o educador, escola e vida. Reconhecido à escola o»
potente valor formativo das consciências, alguns estados, regime» e movi
moMitos políticos aí descobriríim um olos meios mais eficazes de ganhar para
suas causas aojuelas multidões de adeptos, do quo* têm necessidade para
ía/rr triunlar determinadas eoncepçoes olo* viola. Com uma tática taoi astuta

1.nu
quanto insincera, e por escopos em contraste com os próprios fins naturais
ola educação, alguns dêstes movimentos do passado e do presente sóculo pre­
tenderam subtrair a escola à égide das instituições que tinham, além olo
estado, um primordial direito — a família e a Igreja — e tentaram ou ten­
tam apossar-se delas exclusivamente, impondo um monopólio, que é grave­
mente lesivo a uma das fundamentais liberdades humanas.
Mas esta Sé de Pedro, escolta víg il do bem das almas e do verdadeiro) pro­
gresso, como não abdicou jamais no passado êste essencial direito, admi­
ravelmente e em todos os tempos exercitado mediante suas instituições, quo*
foram as únicas a se dedicarem a isto, assim não abdicará no futuro, nem
por esperanças de vantagens terrenas, nem por temor de perseguições. Ela niío
consentirá jamais que sejam destituídas do efetivo exercício de seus nativos
direitos nem a Igreja, que o tem por mandamento divino, nem a família que
o) reivindica por natural justiça. Os fiéis de todo o mundo são testemunhos
ola firmeza desta Sé Apostólica em propugnar a liberdade da escola em mui­
tos países, em diversas circunstâncias e para muitos homens. Pela escola,
bem como pelo culto e pela santidade do matrimônio, Ela não hesitou o*m
enfrentar as dificuldades e perigos, com a tranqüila consciência de quc‘in
serve uma causa justa, santa, querida por Deus, e com a certeza de prestar
um serviço inestimável à própria sociedade civil.
Nos países, pois, nos quais a liberdade da escola é garantida por justas
le*is, cabe aos mestres saber valer-se efetivamente disto, exigindo a concreta
aplicação das mesmas.
Se é ótima regra entesourar sistemas e métodos corroborados pela expe­
riência, ocorre avaliar com todo cuidado, antes de aceitá-las, as teorias e os
usos das modernas escolas pedagógicas. Nem sempre, realmente, os bons su­
cessos, talvez obtidos em países por índole de população e grau de cultura
diversos do nosso, dão suficiente garantia para que aquelas doutrinas pos­
sam ser aplicadas sem distinção em tôda parte.
A escola não pode ser comparada a um laboratório químico, onde o risco
olo* olesperdiçar substâncias mais ou menos custosas é compensado pela pro­
babilidade de uma descoberta; na escola para cada alma entra em jÔLío a
salvação ou a ruína. As inovações, portanto, que se julgarão oportunas, elirao
i espeito à escolha de meios e orientações pedagógicas secundárias, permane­
cendo inabaláveis o fim e os meios substanciais, que serão sempre os mes­
mos, como sempre idêntico é o fim último da educação, o seu sujeito, o scmi
principal autor e inspirador, que é Deus Nosso Senhor.
O educador que se inspira na paternidade, cujo escopo é gerar sê-
i es se>melhantes a si, o que ensina, não somente com os preceitos, mas tam­
bém com o exemplo, formará os alunos para a vida. Em caso contrário), sua
obra sc*rá, para dizer com Sto. Agostinho, “ bazar de palavras” e não moele
l.ulora de almas. Os próprios ensinamentos morais não atingem, senão su­
perficialmente, os espíritos, se não são corroborados pelos atos. Nem mesmo
n exposição das disciplinas meramente escolares é plenamente assimilada
pelos jovens, se não brota dos lábios do professor como viva expressão) po*s-
■oalr no'm o Latim, nem o Grego, nem a História, ainda menos a Filosofia
•ei ao recebidos pelos alunos com proveito, quando apresentados sem entu-
-m ino, romo coisas estranhas à vida o ao interêsse de quem ensina.
Kolucadores de hoje, que do passado tiraram normas seguras, que ido*ais
para os home>ns deveis preparar, visando o futuro?
Knront.rá-los-ois fundamentalmente delineados no cristão pc*rf(*ito. E oIi-
.•emlo pe>rfe*ito cristão, entendemos aludir ao cristão de hoje, homem do* seu
(empo, conhc*ce‘dor o cultor do todo»:: os progressos trazidos pela ciência e
pela loVnicn, cidadão não o*st.ranho â vida o)uo' se desenvolvo* hoje, o*m sua
teu a. C) mundo não se arro*po*nolo*rA, se um número sempre maior olo* tais

117
cristãos entrar em todos os graus da vida pública e privada. Cabe, em grande
escala aos que ensinam predispor a esta benéfica imissão, orientando os es­
píritos dos discípulos a descobrirem as inexauríveis energias do cristianismo
na obra de melhoramento e de renovação dos povos.
C) nosso tempo quer que a mente dos alunos seja endereçada para um
sentido de justiça mais efetiva, sacudindo suas inatas tendências de se con­
siderarem êles uma casta privilegiada e de temerem o trabalho e dêle se
esquivarem. Sintam-se e sejam de fato trabalhadores já hoje, no cumpri­
mento perfeito dos deveres escolares, como deverão ser amanhã nos cargos
dirigentes da sociedade. É verdade que nos povos atormentados pelo flagelo
da desocupação as dificuldades surgem não tanto pela falta de bons valores,
mas pela falta de trabalho; continua, entretanto, sempre indispensável que
os que ensinam inculquem a laboriosidade a seus discípulos. Habituem-se
portanto êstes ao severo trabalho de disciplinar o intelecto, e do trabalho
aprenderão a suportar a dureza e a necessidade, para que somente assim
possam gozar os direitos da vida associada, com o mesmo título que os tra­
balhadores braçais. É já tempo de se alargarem as vistas sôbre um mundo
monos obstaculado por facções reciprocamente invejosas, por nacionalismos
exagerados sequiosos de hegemonia, pelo que tanto sofreram as gerações pre­
sentes. Abra-se à nova juventude a respiração da catolicidade, e sinta-se o
fascínio daquela caridade universal que abraça todos os povos no único Se­
nhor; a consciência da própria personalidade, e portanto do maior tesouro
da liberdade, a sã crítica; e ao mesmo tempo o sentido da humildade cristã,
da justa sujeição, à lei e aos deveres de solidariedade. Religiosos, honestos,
cultos, abertos e operosos — queríamos que assim os jovens saíssem das
escolas C1).

(I) M I iui im i, AiAn Cu lóllr n, 4 ilr «r trm liH i, HMD.

I.1H
AS ELEIÇÕES E O VOTO
É direito e dever atrair a atenção dos fiéis sôbre a extraordinária impor­
tância das eleições e sôbre a responsabilidade moral que disto deriva a todos
aquêles que têm o direito do voto. Sem dúvida a Igreja pretende permaneço*!-
fora e acima dos partidos políticos; como, porém, poderia permanecer indi­
ferente à composição de um Parlamento, ao qual a Constituição dá o poder
ole legislar em matérias que dizem respeito diretamente aos mais elevados
interêsses religiosos e às condições de vida da própria Igreja? Existem, tam­
bém, outras difíceis questões, sobretudo os problemas e as lutas econômicas
que pròximamente tocam o bem-estar do povo. Enquanto são de ordem t<*in-
poral (embora digam respeito também à ordem m oral), os homens da Igro>j;i
oleixam a outros o cuidado de examinar e tècnicamente tratar tais problo*-
mas, para a comum utilidade das nações. Disto tudo se segue:
1) Que é estrita obrigação de todos que têm direito, homens e mulheres,
tomar parte nas eleições.
I'] quem disto se abstém, máxime se por indolência ou vileza, comete de
per si um pecado grave, uma culpa mortal.
2) Cada qual, então, deve votar segundo os ditames da própria consciên­
cia. Ora, é evidente que a voz da consciência impõe a todo católico sincc*rn
dar o próprio voto aos candidatos ou às listas de candidatos, que oferc»cc'in
garantias verdadeiramente suficientes da tutela dos direitos de Deus o olas
almas, para o verdadeiro bem dos indivíduos, das famílias e da sociedade,
.■oriundo a lei de Deus, e a doutrina moral cristã ( x).

il) I >l*< 111 no m m i lr lr | iiiiln « il.i 0 o n l r i /*iu in I i i t n u . u In t in l > A I> ir u lin lu i 17 il<’ im iiiln n , 11)51
I >(i . m i in l u lt i. il ll. iliu iu i) .

n i>


A EMIGRA ÇÃO

Não é preciso dizer que a Igreja Católica sente o dever de interessar-se


dedicadamente pela obra das emigrações. Trata-se de providenciar a uma
imensa necessidade: a falta de espaço e de meios de existência, porque a
Mãe Pátria não mais pode nutrir todos seus filhos, que a superpopulação
constrange a emigrar; a miséria de milhões de refugiados e de prófugos,
constrangidos a renunciar à terra onde nasceram, agora para êles perdida, e
a dirigir-se para muito longe, esperando encontrar ou criar-se outra terra.
A Igreja tanto mais sente estas penas, quanto mais elas atingem considerá­
vel parte de seus filhos.

A questão da imigração apresenta hoje problemas inteiramente novos.


Como sempre, o bem-estar do país deve ser considerado à paridade com o
interesse do indivíduo que nêle procura entrar, e está na natureza das coi­
sas que as circunstâncias, por vêzes, determinem uma lei de restrição.
Mas, pelas mesmas razões, as circunstâncias, por vêzes, quase que exigem
imperiosamente atenuações na aplicação daquela lei.
Uma legislação sábia procurará tomar consciência da humanidade e das -
calamidades, das dores e das angústias das quais nasceu O ).

Nosso planêta, com extensos oceanos, mares e lagos, com montes, planí­
cies cobertas de neve, e gelos eternos, com grandes desertos e terras inóspi­
tas, estéreis, não é, entretanto, falto de regiões e lugares vitais, abandona­
dos ao capricho vegetativo da natureza e ajustados ao cultivo da mão do
homem, às suas necessidades e às suas operações civis; mais de uma vez 6
inevitável que algumas famílias daqui e dali, emigrando, procurem para si
uma nova pátria. Então, segundo o ensinamento da “ Rerum Novarum” , seja
respeitado o direito da família a um espaço vital. Onde isto acontecer, a
emigração atingirá o seu escopo natural, que muitas vêzes corrobora a expe­
riência, queremos dizer, a distribuição mais favorável dos homens sobre a
superfície terrestre, acomodada para colônias de agricultores; superfícies que
Deus criou e preparou para uso de todos. Se ambas as partes, a que concede
deixar o lugar nativo, e a que admite os recém-chegados, permanecerem
sempre seriamente empenhadas em eliminar quanto poderia servir de im­
pedimento ao nascer e desenvolver-se de uma verdadeira confiança onl.re o
país de emigração e o país de imigração, todos os participantes de tal mu­
dança de lugar e de pessoas serão beneficiados; e as famílias receberão um
terreno que será para elas terra pátria no verdadeiro sentido da palavra; as
terras com populações por demais densas serão aliviadas, e seus povos en­
contrarão novos amigos cm territórios estrangeiros; os Estados que acolhem
os emigrantes ganharão cidadãos operosos. Assim, as nações que dão e ou
estados que recebem contribuirão igualmente para o incremento do bem-
estar humano e para o progresso da cultura humana ( 2).

(1) D U iu r n o , K iu p o (Ir « r n m lo t r » (|o« K. I I , A ., .11 (Ir o u f u li t o , l!M 7 .


(V) D U i u im i u m 11 d e u«A »lo , U M I (tlc , n o o iík Iiiu I lln lU n o ) .

I 10 ' *
A ERA ATÔMICA

Em nosso globo, aos nossos olhos, surge senhor e potente dominador oh*
todos os viventes naturais o homem, ao qual Deus mandava multiplicar-se
e povoar a terra, e com o próprio trabalho conseguir o pão para viver; dc
modo que não causa maravilha que o filósofo Aristóteles comparasse a alma
do homem à mão, órgão dos órgãos. Deve-se tudo às mãos; as cidades o* as
fortalezas, os monumentos, os códigos de sabedoria, de ciência, de arte* <>
poesia, a herança e o patrimônio das bibliotecas e a civilização humana. Do*
modo semelhante a alma é dada ao homem, por assim dizer, em lugar ola
natureza das coisas, para de certo modo fazer tôdas as coisas, visto o|iu*
nossa alma, com seu sentido e com seu intelecto, recebe tôdas as formas o>u
imagens das coisas mesmas.
A genuína lei da natureza, que o cientista formula com paciente obser­
vação e diligência em seu laboratório, é mais que descrição ou cálculo in­
telectual que olha somente os fenômenos e não as substâncias reais com suas
propriedades. Nao pára, não se satisfaz só com a aparência das imagens olois
sentidos, mas penetra nas profundezas da realidade, procura e descobre as
íntimas e ocultas fôrças dos fenômenos, manifestando as atividades e as rota­
ções dos mesmos. É portanto fácil compreender que o conhecimento das le*is
ola natureza torna possível ao homem o domínio das fôrças naturais o* c>
desfrutamento das mesmas, com as técnicas modernas que tanto progredi­
ram. Somente dêste modo o pensamento humano pode elevar-se até com­
preender como a ordem regular das linhas espectrais, que o físico observa
e distingue hoje em seu laboratório, abrirá talvez amanhã para o astrofísico)
mais profunda visão e conhecimento mais exato dos mistérios referentes íi
constituição e desenvolvimento dos corpos celestes.
Assim, do fundamento da lei da natureza, do subsídio operoso da técnicn
moderna, do positivo e verdadeiro conhecimento das tendências internas dos
o*lo*mcntos e de seus efeitos nos fenômenos naturais, o cientista procedo*, con-
Ira tôdas as dificuldades e obstáculos, a ulteriores descobertas, insistindo
o,o i m constância e perseverança em suas indagações.
O mais estupendo exemplo dos resultados de tão intensa atividade parece
do*vo*r encontrar-se no fato de que aos indefessos esforços do homem final-
mo*nte conseguiu-se chegar a um conhecimento mais profundo das leis opio*
di/em respeito à formação e à desintegração do átomo, e de tal modo domi-
n;ir ('xperimentalmente, até certo grau, o libertar-se da potente energia, opie
emana em muitos dc tais processos, c tudo isto não mais em quantidade*
"iibmicroscópica, mas em medida verdadeiramente gigantesca. O uso» olo*
ciando* parto* da energia interna do núcleo de urânio tornou-se realidade e
l e v e * sua aplicação na construção da “ bomba atômica” ou “ bomba do* (*no*r-
Jíla nuclear” , a mais terrível arma que a mente humana até agora ideou.
No*sta conjuntura não nos podemos abster de exprimir um pensamento
o|iu« constantemente pe*sa sobro nosso ânimo, corno sôbre o ole toolos os opie
li-m um vordadonro sentido do* humanidade, o a tal propósito vêm-nos as

Ml
palavras de Sto. Agostinho em sua obra “ De civitate D ei” , onde discorre
sobro os horrores da guerra, embora justa: “ A respeito dos males por ela
c;iii:;aclos, se eu quisesse falar devidamente, as múltiplas devastações, as
duras o cruéis angústias, ser-m e-ia impossível fa zê-lo como requer o argu­
mento; quando chegaria eu, ao fim da narração?... Todo aquêle que consi­
dera com dor êstes males tão horríveis e funestos, deve confessar a miséria
tio:: mesmos; mas quem os suporta e os pensa sem angústia de alma, bem
mais m iseravelm ente se crê feliz, porque perdeu também o sentimento hu­
mano” . Se as guerras de então justificavam já uma assim severa sentença
«Io grande Doutor, com quais vozes deverem os nós, no presente momento,
jir.lifica r as que feriram nossas gerações e dobraram ao serviço de suas obras
<le destruição e de exterm ínio uma técnica incom paràvelm ente mais pro­
c e d id a ? Que desgraças a humanidade deveria esperar de um futuro con-
llito, se fôsse demonstrado im possível parar ou frear o emprêgo das inven­
ções científicas, sempre novas e cada vez mais surpreendentes?
I'rescindindo porém, no momento, do uso bélico da energia atômica, e com
confiante esperança de que ela seja endereçada unicamente para obras de
l>az, deve-se considerá-la como uma investigação e aplicação verdadeira­
mente' genial das leis da natureza, que regulam a íntim a essência e a tiv i­
dade da matéria inorgânica.
Km verdade, propriam ente falando, trata-se aqui apenas de uma única
e grande lei da natureza, que se manifesta sobretudo no assim chamado
“ Sistema Periódico dos Elementos” .
A té há pouco tempo a ciência, a técnica química haviam -se ocupado qua­
se <|ue só e exclusivam ente dos problemas que diziam respeito à síntese e
à análise das moléculas e dos compostos químicos; agora porém o interesse
se concentra na análise e na síntese do átomo e de seu núcleo. Sobretudo
o trabalho dos cientistas será indefesso até encontrar um fácil e seguro modo
de governar o processo de divisão do núcleo atômico, de modo a fazer ser­
vir suas tão ricas fontes de energia em proveito da civilização.
Adm iráveis conquistas do intelecto humano, que perseruta e investiga as
leis da natureza, arrastando consigo a humanidade para novos caminhos!
1'oder-se-ia encontrar concepção mais nobre?
Lei, porém, quer dizer ordem! E lei universal diz ordem nas coisas gran­
des bom como também nas pequenas. É uma ordem que deriva im ediata­
mente da íntima tendência ínsita nas coisas naturais; ordem que nenhuma
coisa pode criar-se ou dar de si para si, como não pode dar a si o ser;
ordem que diz Razão Ordenadora em um Espírito, que criou o universo,
e do qual “ dependem o céu e a natureza inteira” , ordem que com o ser
recebeu aquelas energias e tendências e com umas e outras colaboram para
um mundo bem ordenado. Esta maravilhosa organização das leis naturais,
<|iie O espírito humano com infatigável observação e agudo estudo desco­
briu somando vitórias a vitórias sôbre ocultas resistências das forças da
natureza, que é senão uma imagem, embora pálida e im perfeita, da grande
idéia e do grande desenho divino, que na mente de Deus Criador foi con­
cebido qual lei dêste universo desde os dias de sua eternidade? Então no
inexaurívol pensamento de sua sabedoria preparava os céus e a terra, o d e­
pois, criando a luz sôbre os abismos do caos, berço do universo, também
por fílo criado, dava início ao movimento e ao vôo do tempo e dos séculos,
e chamava ao ser, ao v iv e r e operar tôdas as coisas segundo suas espécies
e s eus gêneros, até ao mais imponderável átomo. Com quanta propriedade,
cada intelecto que contempla e penetra os céus e pesa os astros e a terra,
deve exclamar, volt.ando-se para Deus: “ Onmia in mensura el numero el
pondero disposilisti!”

\r/
O cientista percebe quase a palpitação desta sabedoria eterna, quando as
suas pesquisas lhe revelam que o universo foi formado como de um jacto
só na interminável forja do tempo e do espaço. Não somente dos mesmos
elementos resplandecem compostos, resplandecem os céus estelares, mas tam­
bém às mesmas grandes e fundamentais leis cósmicas obedecem, sempre e
em tôda parte aparecem em sua interna e externa ação. As mesmas leis ola
gravitação e da pressão de irradiações determinam a quantidade da massa
pela formação dos corpos solares na imensidade do universo até as mais dis­
tantes nebulosas espirais; as próprias misteriosas leis do núcleo atômico
regulam, por meio da composição e da desintegração atômica, a economia
da energia de tôdas as estrelas fixas.
Tal absoluta unidade de desenho e de ordem, que se manifesta no mu tido
inorgânico, vós a encontrais não menos grandiosa nos organismos viven-
tes. Que é que vos demonstra um simples olhar à organização universal
o comum dos organismos e às mais recentes descobertas e conclusões ola
anatomia e fisiologia comparada? Eis a construção do esqueleto dos vivo*n-
tes superiores com órgãos análogos, e especialmente a disposição e a fun-
o;ão dos órgãos sensitivos, por exemplo do ôlho das formas mais simplevs,
até o órgão visual perfeitíssimo do homem; eis, em todo o império) olos
viventes, as leis fundamentais da assimilação, da restauração e da gerao;ao>.
Tudo isto demonstra talvez um geral e magnífico conceito unitário, reali­
zado e resplendente em múltiplas formas e variadíssimas maneiras? Náo
o'1 talvez esta a unidade fechada e absolutamente fixa das leis naturais?
Sim; é a unidade fechada com a chave daquela ordem universal elas
e'oisas, contra a qual, enquanto depende da Causa Primeira, Deus Criador,
Deus mesmo não pode agir; porque, se assim fizesse, operaria contra sua
presciência ou sua vontade ou sua bondade; ora Nêle “ não há muclano;a,
no'in sombra de variação” . Mas se considerarmos esta ordem enquanto) ele--
pende das causas segundas, Deus delas possui a chave e pode deixar tuolo
Toriiado ou aberto e operar além dos mesmos. Talvez Deus, criando e> uni­
verso, tornou-se sujeito à ordem das causas segundas inferiores?
Esta ordem não está talvez sujeita a Êle, porque dêle procede não pnr
ne>cossidade de natureza, mas por arbítrio de vontade? Onde pode agir além
ola ordem instituída, quanto quiser, por exemplo, operando efeitos das cau­
sas segundas, sem elas, ou produzindo outros efeitos, aos quais elas não se
ovslcndem. Que obras são estas? São obras das quais somente Deus possui
ns chaves em seu segredo e que se reservou no correr dos tempos no) itkmo
ola ordem particular das causas inferiores. Diante de tais obras, insólitas ou
p<‘ la própria substância do fato, ou pelo sujeito em que se realizam, ou po>lo
mixlo e ordem de atuação, o povo e o cientista param estupefatos, poro|ue'
n maravilha nasce quando os efeitos estão manifestos e a causa oculta. Mas
n ignorância das causas ocultas, que deixa estupefato o incrédulo, aguo;a o»
olhar do fiel e do sábio, que, dentro de certos limites, sabe e medo até
onde' chega a obra da natureza com suas leis e fôrças, e além dé^les, clc*s-
o-ohre' uma fonte superior oculta e onipotente, mão que criou a ordem uni­
v e r s a l das coisas, e no processo das ordens particulares das causas e elos
e l e i t o s assinalou o momento e a circunstância da sua admirável inte>rveMio;;io>.
fiste* governo divino do universo certamente não pode deixar do susci-
lar um sentimento de admiração e de entusiasmo ne> cientista, quo em suas
I>«'Só1 1 1 isas dev.cobre e reconhece os sinais da sabedoria do Criador e> olo) su­
p rem o Le-gislador do o’éu o da te>rra, o qual com mão invisível pilota e guia
I<mIn:; as naturcv.as “ a dive'rsos portos - pe'lo e'xtenso mar olo se*r c. a onmcIm
nniii ce>m instinto) a e'la ennferiele) para euk* a conoluza” . K as gigantesewis
l«'i,*t (In nature»za oiue* não sae> senão» uma sombra e uma pálida idéia ola pro-

In
fundi dadc e da imensidade do desenho divino no grandioso templo do
universo? Muitas vêzes, — convém confessar a humana debilidade — diante
<la visão das coisas e das imagens dos nossos sentidos, aquêle pensamento
se ofusca e retrocede; mas se o pensamento de Deus entra no trabalho do
cientista, êle não o confunde com os movimentos e com as imagens que vê
ou dentro ou fora de si; e aquela disposição de alma a descobrir e reconhe­
cei- Deus, vem dar-lhe em seu laborioso estudo o reto ímpeto e a farta
recompensa de tôdas suas fadigas sustentadas na procura e descoberta, e,
longe de toi'ná-lo orgulhoso e soberbo, ensina-lhe humildade e modéstia.
Corto, quanto mais profundamente o cultor do saber e da ciência leva sua
pesquisa nas maravilhas da natureza, tanto mais experimenta a própria in-
suficiência em penetrar e exaurir a riqueza do conceito da construção divina
e das leis e normas que a governam.
Km verdade os nossos conhecimentos da natureza são modestos em exten­
são e muitas vêzes imperfeitos no conteúdo. Quantas vêzes, hoje, podem
propor somente regras em vez de leis exatas, ou unicamente soluções par­
ciais em vez de soluções gerais! Onde aparece um comportamento regular
para a cooperação, em primeira vista sem regra, de inumeráveis fenôme­
nos particulares, o cientista deve contentar-se em assinalar o caráter e a
forma do conteúdo das massas segundo considerações de probabilidade, e,
ignaro como é, em particular da base dinâmica dos mesmos, formular leis
estatísticas.
Incessante é o progresso da ciência. É realmente verdade que os suces­
sivos estádios do seu progresso nem sempre seguiu o caminho que das pri­
meiras observações e descobertas conduzia diretamente à hipótese, da hipó­
tese à teoria, e finalmente à posse segura e indubitável da verdade. Existem
porém casos nos quais as investigações descrevem antes uma curva; casos,
isto é, em que a teoria, ou as teorias, — que pareciam ter já conquistado
o mundo e conseguido o alto vértice de doutrina indiscutível, e aderir às
mesmas conquistava estima nos meios científicos, — recaem em grau de
hipótese, para depois, talvez, permanecerem totalmente abandonadas.
Não obstante, porém, as inevitáveis incertezas e desvios que todo esfôrço
humano traz consigo, o progresso das ciências não conhece paradas nem
saltos.
Por novos e mais vastos caminhos a humanidade avança, mas sempre
peregrina, para mais profundos conhecimentos das leis do universo explo­
rado e inexplorado, como a impele a sêde natural da verdade; porém, ain­
da depois de milênios de conhecimentos humanos das normas internas e
das fôrças motoras de tornar-se e proceder do mundo, e mais ainda do
desígnio c do impulso divino que tudo penetra, move e dirige, serão e per­
manecerão uma imperfeita imagem pálida das idéias divinas. Diante dos
prodígios da sabedoria eterna, que no mar do ser com ordem indeclinável
tudo governa e endereça tôda coisa a portos escondidos, são cegos e mudos
os pensamentos indagadores do cientista, e introduz-se aquela humilde e
admirável adoração, que sente diante de si o portento da criação, à qual
não estêve presente, que não pode imitar a mão do homem, mas na qual o
olho pode perceber um improviso lampejo da potência de Deus. Diante do.s
muitos e imperserutáveis enigmas da ordem e do concatennmento das leis
do cosmos imensamente grande e imensamente pequeno, é preciso que o
engenho humano repita a exclamação: “ O altitudo clivitiarum sapienüae
et seientiae Dei: quam incomprehensibilia sunt iudicia eius et investigabi-
le.s viae ciu.s!” . Keliy, o cientista se, em percorrer os vastos campos eele.st.eM

M4
e terrestres, sabe ler no grande livro da natureza e escutar o grito de sua
palavra, manifestando aos homens o sinal deixado do passo divino na cria­
ção e na história do universo! Os sinais dos pés e as sílabas traçadas pelo
dedo de Deus são indeléveis: nenhuma mão de homem pode cancelá-los;
sinais e sílabas são os fatos, de onde brotam o divino para tôdas as men­
tes; e justamente para os sábios intelectos investigadores parecem escritas
as palavras do Doutor das gentes: “ Quod notum est Dei, manifestum est
in illis; Deus enim illis manifestavit. Invisibilia enim ipsius a creatura
mundi, per ea quae facta sunt, intellecta conspiciuntur, sempiterna quoquc
eius virtus et divinitas” ( x).

(I) M i 11'iikmii, 111.111 u 111 .(<. n< i XII iiiki I N i n l II li i.i ,\< . i t l i m i n il.it OlIrniMK, H ilr livculm , I Í I I M,
O HEROÍSMO
Quantas vêzes ouvistes repetir que “ a vida do homem sôbre a terra e uma
lula” ! Se a vida do homem sôbre a terra é uma luta, porque o homem é
composto de espírito e de corpo, existem dois campos de luta e de com­
bate: um de combate corpóreo sôbre o terreno material; outro de combate
espiritual no íntimo de seu espírito. Todo combate e todo campo têm seus
perigos, as suas disputas, as suas virtudes, os seus heróis e atos heróicos,
:;eus heróicos triunfos e coroas.
As lutas corpóreas são abertas e claras; batalhas, vitórias e coroas ocul­
tas, .só de Deus conhecidas e por Êle premiadas. A Êle somente são plena­
mente óbvios os méritos e as disputas que exaltam e elevam sôbre os alta­
res os heróis da virtude.
Sôbre os campos de batalha, no céu e nos mares, quantos heroísmos res­
plandecem aquela fortaleza de ânimo que afronta os perigos de morte! H e­
roísmos manifestos de jovens militares e de intrépidos capitães, de coortes
o de legiões, de sacerdotes que 1 1 0 meio do furor das lutas confortam fe ri­
dos c moribundos, de enfermeiros e de enfermeiras que curam as doenças
e as chagas. Pois, se tôda guerra, que se alastra entre os povos, faz sofrer
(> causa horror a todo coração nobre, no qual a caridade de Cristo, que
abraça amigos e adversários vive e tudo urge e inflama, não se pode porém
negar que tão ferozes e cruéis turbilhões, com as austeras obrigações que
impõem aos combatentes e aos não combatentes, suscitem horas e momen­
tos de provas luminosas, nas quais se revelam as grandezas, muitas vêzes
insuspeitadas e inesperadas, de almas heróicas, sacrificando tudo, até a pró­
pria vida, para o cumprimento daqueles deveres, que lhes dita a consciên­
cia cristã.
Mas estaria bastante errado quem acreditasse que a grandeza de alma e
heroísmos sejam virtudes reservadas, quase como flôres extraordinárias, só
para os campos cruentos, para os tempos de guerra, de catástrofes, de cruéis
perseguições, de bruscas mudanças sociais e políticas. Ao lado dêstes hc-
roí:;mos mais visíveis, desta magnanimidade e dêstes arrojos fúlgidos, sur­
gem e crescem nos recessos dos vales e dos campos, nas estradas e nas som­
bras das cidades, velados pelo melancólico fluir da vida cotidiana, muitos
atos uno menos heróicos, brotando secretos competidores dos mais belos
ratos propostos à admiração comum.
Nao é porventura heróico o homem de negócios, o patrão de uma grande
indústria, o qual, vendo-se reduzido aos extremos e quase à ruína, por acon­
tecimentos adversos, imprevistos, enquanto a via fácil de salvação seria para
ele recorrer a um dos expedientes que o mundo leviano escusa e absolve,
quando leva ao sucesso, mas que a moral cristã não admite, — entra em
üi mesmo (' interrogada a própria consciência, não desobedece à resposta
que ela lhe fornece, mas como fiel cristão, rejeita um meio que leso a jus­
tiça, e prefere ruína e miséria a uma ofensa de Deus o do próximo?
Nao é heróica a jovem pobre, que mal podo dar um pedaço de pao à
velha mae e aos irmãos órlaos com o escasso salário que recebe, mas ala.ita

I •tr»
tôda fácil condescendência e guarda enèrgicamente a sua honra e o seu
coração, intrépida em rejeitar o favor de um imoral doador de trabalho,
desprezando abundantes e mal adquiridos ganhos, que poderiam retirá-la
de sua penúria?
Não é heróica a menina, mártir de seu candor, que oferece a Deus, im-
purpurado pelo próprio sangue, o lírio de sua virginal virtude?
São êstes heroísmos de justiça, heroísmo de cristã dignidade feminina,
heroísmo digno dos anjos: heroísmos secretos, que sobressaem juntamente
com os heroísmos da fé, da confiança em Deus, da paciência, da caridade nos
hospitais civis e de guerra, ao longo dos caminhos dos arautos de Cristo nas
terras dos infiéis, onde quer que a fortaleza de alma se ajunte ao amor
de Deus e do próximo.
Não há de que se surpreender que também na sombra das paredes domés­
ticas se esconda o heroísmo da família, e que a vida dos esposos cristãos
tenha, ela também, seus heroísmos escondidos; heroísmos extraordinários em
situações duramente trágicas e muitas vêzes ignoradas pelo mundo; heroís­
mos cotidianos na farta sucessão de sacrifícios a cada hora renovada; he­
roísmos do pai, heroísmos da mãe, heroísmos de ambos juntamente. ( J).

i‘í * =X

Como nos primeiros séculos do cristianismo, assim nos tempos modernos,


nos países do mundo, onde a perseguição religiosa aqui e ali se enfureço,
abortas e sutis, mas não menos duras, os mais humildes fiéis podem de uni
momento para outro encontrar-se diante da dramática necessidade de esco­
lher entre a própria fé, que tem o dever de conservar intata, e a liberdade,
os meios para sustentar a vida, a própria vida. Mas também nas épocas nor­
mais, nas vicissitudes e nas condições ordinárias da família cristã, sucedo
olo* vez em quando que as almas se encontrem bruscamente colocadas na
all.ornativa de violar um imprescindível dever ou de expor-se a sacrifí­
cios e riscos dolorosos e duros, na saúde, nos bens, na posição familiar
<• social, colocadas portanto na necessidade de ser e demonstrar-se herói­
ca:;, se querem permanecer fiéis às suas obrigações e permanecer na graça
olo' Deus.
Quando os Nossos predecessores de veneranda memória e particularmente
•» Sumo Pontífice Pio X I na Carta Encíclica “ Casti connubii” , chamaram a
alrução e recordaram as santas e inamovíveis leis da vida matrimonial, pon­
deravam e tinham perfeitamente consciência de que em não poucos casos,
ao:; esposos cristãos pede-se um verdadeiro heroísmo para observar invio-
l.ivodmente as suas leis. Trata-se de respeitar os fins do matrimônio deso­
lados por Deus; ou de resistir aos incentivos ardentes e lisonjeiros das pai-
MM-s o> de solicitações, que a um coração inquieto insinuam que vá procurar
loi a o c|ue, na legítima união não encontram ou crêem não ter encontrado
iuo plenamente como haviam esperado; ou que, para não quebrar ou dimi­
nuir o» vínculo das almas, e do mútuo amor, sobrevenha a hora de sabor
perdoar, de esquecer um litígio, uma ofensa, um aborrecimento, talvez gravo;
o|iianl.os dramas íntimos nascem, desenvolvem suas amarguras e peripécias
(ilrás olo) véu da vida cotidiana! Quantos heróicos sacrifícios escondidos!
«1 1 uuilas angústias do espírito para conviver e manter-se cristãmente cons-
lanle no própr i o) dever e no próprio cargo!
K ov.la ino\sina vida cotidiana, qual fôrça do alma não pode muitas vôze\s:
<|iiando tôda manhã so* devo voltai1 aos mesmos trabalhos, talvo*/, nulos o*
lir.l idio:;os e*m sua monotonia; quando é melhor suportar com sorriso nos
il) n U in m ii . um i n| ><>n< m, I ,’t dc uyAiilo, l(H I

I IV
lábios, amàvelmente, alegremente os defeitos recíprocos, os jama i s vencidos
contrastes, as pequenas divergências de gôsto, de hábitos, de idéias, que a
vida em comum traz, quando, em meio de mínimas dificuldades e inciden­
tes, muitas vêzes inevitáveis, não deve perturbar-se e diminuir a calma e
o liom-humor; quando, em um encontro frio, é urgente saber calar, parar
u tempo o lamento, mudar e adoçar a palavra que, lançada fora, daria
desalojo aos nervos irritados, mas difundiria uma nuvem opaca na atmos­
fera das paredes domésticas! M il particulares ínfimos, mil fugazes momen­
tos da vida cotidiana, cada qual dêles é bem pouca coisa, é quase um nada,
mas que a continuidade e o adicionar-se terminam tornando tão pesados, e
pelos quais, entretanto, por uma tão considerável parte é entrelaçada e con-
eatenada, no mútuo sofrimento, a paz e a alegria de um lar.
Não procureis em outros lugares a fonte de tais heroísmos. Nas dificulda­
des da vida familiar, como em tôdas as circunstâncias da vida humana, o
heroísmo tem sua raiz essencial no sentimento profundo e dominador do
dever, daquele dever, com o qual não é possível transigir ou pactuar, que
deve prevalecer em tudo e sôbre todos; sentimento do dever, que para o
cristão é consciência e reconhecimento do domínio soberano de Deus sôbre
nós, de sua soberana autoridade, de sua soberana bondade; sentimento que
quando se apresenta como a vontade de Deus claramente manifestada não
é passível de discussão, e a todos impõe inclinar-se; sentimento que além
de tudo nos faz compreender que a vontade divina é a voz de um infinito
amor para conosco; sentimento, em uma palavra, não de um dever abstrato
ou de uma lei prepotente e inexorável, hostil e esmagadora da liberdade
humana, do dever e do agir, mas que corresponde e se inclina às exigên­
cias de um amor, de uma amizade infinitamente generosa, transcendente e
que rege as multiformes vicissitudes do nosso viver aqui embaixo ( 2).

(V) M Um iiv o nm V il<’ uuAílo, M U I.

UH
OS ERROS DA VIDA ASCÉTICA

F ALS O “ M ISTIC ISM O ”

Com efeito, não faltam alguns que, por não considerarem bastantemente
que S. Paulo falava nesta matéria só por metáforas, sem distinguirem, como
é absolutamente necessário, os sentidos particulares e próprios dos têrmos
corpo físico, moral, místico, introduzem uma falsa noção de unidade, a fir­
mando que o Redentor e os membros da Igreja formam uma pessoa física,
e ao passo que atribuem aos homens propriedades divinas, fazem Cristo
Senhor Nosso sujeito a erros e à humana inclinação para o mal. A tais fa l­
sidades opõem-se a fé católica e os sentimentos dos Santos Padres; mas
opõem-se igualmente o pensamento e a letra do Apóstolo das Gentes, que
se bem une Cristo e o seu Corpo Místico com uma união admirável, con­
tudo contrapõe-nos um ao outro como Espôso e Espôsa.

FALS O “ QUIETISM O”
Não menos contrário à verdade e perigoso é o êrro daqueles que da mis­
teriosa união de todos nós com Cristo pretendem deduzir um mal enten­
dido “ quietismo” , que atribui tôda a vida espiritual dos fiéis e todo o pro­
gresso na virtude unicamente à ação do Espírito Santo, excluindo ou me­
nosprezando a correspondência e colaboração que devemos prestar-lhe. Nin-
j;uóm pode negar que o divino Espírito de Cristo é a única fonte donde
deriva tôda a energia sobrenatural na Igreja e nos membros, pois que, como
diz o salmista, “ a graça e a glória são dadas pelo Senhor” . Contudo o per-
so*verar constantemente nas obras de santidade, o progredir fervorosamente
ua graça e na virtude, o esforçar-se generosamente por atingir o vértice da
po>r feição cristã, enfim o excitar, na medida do possível, os próximos a con­
segui-la, tudo isto não quer o celeste Espírito realizá-lo, se o homem não
faz, dia a dia, com energia e diligência, o que está na sua mão. “ Os bene­
fícios divinos, diz Sto. Ambrósio, não se fazem aos que dormem, mas aos
<|uo velam ” . Se neste nosso corpo mortal os membros se desenvolvem e
robustecem com o exercício cotidiano, muito mais sem dúvida sucede o mes­
mo no Corpo social de Cristo, cujos membros gozam de liberdade, consciên­
cia o modo próprio de agir. Por isso o que disse: “ Vivo, não já eu; mas
('ri.sto vive em mim” , êsse mesmo não duvidou afirmar: “ A sua graça (de
Deus) não foi em mim estéril, mas trabalhei mais que todos êles; se bem
ojiio' nao eu, mas a graça de Deus comigo” . É pois evidente que, com estas
fnl:;ns doutrinas, o mistério de que tratamos não se utiliza para o proveito
espiritual dos fiéis, mas converte-se em triste causa de sua ruína.

ERROS R E LA TIV O S A CONFISSÃO


S A C R A M E N T A L E A ORAÇAO
O mesmo sucedo com a falsa opinião dos quo pretendem quo* não se devo
ter e m conta a freqüente confissão) das faltas veniais; pois quo importante

lo I•k » XI I PiuMoinuti
(' a confissão geral, que a Espôsa de Cristo, com seus filhos a ela unidos no
Senhor, faz todos os dias, por meio dos sacerdotes antes de subirem ao altar.
l'<: verdade, e vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, que há muitos modos e todos
muito louváveis, de obter o perdão destas faltas; mas para progredir mais
rapidamente no caminho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso,
introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão fre­
qüente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã,
desarraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, puri­
fica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual, e por
virtude do mesmo sacramento aumenta a graça. Portanto os que menospre­
zam e fazem perder a estima da confissão freqüente à juventude eclesiás­
tica, saibam que fazem uma coisa contrária ao Espírito de Cristo e funestís-
;;ima ao Corpo Místico do Salvador.
Ilá ainda alguns que afirmam não terem as nossas orações verdadeira
eficácia impetrativa e trabalham por espalhar a opinião de que a oração
feita em particular pouco vale e que é a oração pública, feita em nome da
Igreja, que tem verdadeiro valor, por partir do Corpo Místico de Jesus
Cristo. Não é exato, o divino Redentor não só uniu estreitamente a si a
Igreja como Espôsa queridíssima, senão também nela as almas de todos e
cada um dos fiéis, com quem deseja ardentemente conversar na intimida­
de, sobretudo depois da Comunhão. E embora a oração pública, feita por
tôda a Igreja, seja mais excelente que qualquer outra, graças à dignidade
da Espôsa de Cristo, contudo tôdas as orações ainda as mais particulares,
têm o seu valor e eficácia, e aproveitam também grandemente a todo o
Corpo Místico; no qual não pode nenhum membro fazer nada de bom e
justo, que em razão da Comunhão dos Santos não contribua também para
a salvação de todos. Nem aos indivíduos por serem membros dêsse Corpo
se lhes veda que peçam para si graças particulares, mesmo temporais, com
a devida sujeição à divina vontade; pois que continuam sendo pessoas in­
dependentes com suas indigências próprias. Quanto à meditação das coisas
(•(‘lestes, os documentos eclesiásticos, a prática e exemplos de todos os san­
tos provam bem em quão grande estima deve ser tida por todos.
Por último não falta quem diga que as nossas súplicas não devem dirigir-
se à Pessoa de Jesus Cristo, mas a Deus ou ao Eterno Pai por Cristo; pois
que o Salvador, como Cabeça do seu Corpo Místico, deve considerar-se ape­
nas qual “ medianeiro entre Deus e os homens” . Também isto é contra o
modo de pensar da Igreja, contra o uso dos fiéis e é falso. Cristo, para falar
com propriedade e precisão, é Cabeça de tôda a Igreja segundo ambas as
naturezas conjuntamente; e Êle próprio afirmou aliás solenemente: “ Se me
pedires alguma coisa em meu nome, fá -la -ei” . E bem que no sacrifício euca-
ristico principalmente, — onde Cristo é ao mesmo tempo sacerdote e vítima
e por isso de modo especial exerce as funções de conciliador, — as orações
:;e dirijam ordinariamente ao Eterno Pai pelo seu Unigênito, contudo nao
raro, e até no próprio Cânone (antes da Comunhão), dirigem-se também
ao divino Redentor; pois que todos os cristãos devem saber claramente que
Jesus Cristo homem é também Filho de Deus. Por isso quando a Igreja m ili­
tante adora e invoca o Cordeiro imaculado e Hóstia Sagrada, parece res­
ponder à voz da Igreja triunfante, que perpetuamente canta: “ Ao que est.A
sentado no trono e ao Cordeiro, bênção e honra c glória e poder nos séculos
dos séculos” (• ).

( I) Inclillc.i " Mynt l i l ( ;<>i jkii In ( I n l u i l " , 2'.) «Ir Jiinlio, 1! H 1.


I MI
O EXISTENCIALISMO
Desde os primeiros albores da especulação racional, desde que o homem
comutou a refletir sôbre o universo externo e sôbre o seu mundo interior,
n filósofo jamais permaneceu satisfeito em observar a superfície visível das
«•oisas, que caem imediatamente sob a experiência, mas sempre se esforçou
por romper o invólucro exterior, e penetrar na alma dessas coisas, colhêr a
iwséncia, adivinhar a natureza e sua íntima constituição, até formar para
m um conceito abstrato das particularidades contingentes, e dar a elas assim

uma existência espiritual em seu pensamento. De tal modo a Filosofia, en­


quanto espiritualiza e nobilita o real, descobre também quanto de mais
i acionai no próprio real se esconde como escondido e inacessível à apreen­
são olos sentidos para parar sôbre o objeto mais próprio à mente, tendendo
tt abraçá-lo em sua visão larga e compreensiva.
E não somente ela despoja, por assim dizer, de sua parte concreta mato*-
i inl tôdas as coisas, mas também as inunda com a luz de sua universalidade.
( ‘onio) a mente humana não se satisfaz com as aparências, nao pára nos
rcnòmenos, assim não se aquieta na contemplação parcial e fragmentária
das partes do universo, até que não descubra os nexos, não descubra as
causas e os efeitos, não desvende os princípios que a governam, unem, subor­
dinam e coordenam em um quadro completo de harmônica unidade. Nin-
/:ucin pensa em desconhecer ou em colocar em dúvida o valor da análise,
n <|ual tanto deve o progresso moderno. Mas não é talvez verdade que a ne-
ci• .Melado da hora presente é a síntese? Não se percebe já o perigo oiue* a
e ie-ncia moderna, enquanto é e deve ser geradora e tutora da civilização),
ele-caia e se perca no esmiuçamento, na restrição, no predomínio absoluto)
•In e-Npecialização?
A inciuietação, a angústia do homem, pode ser, por um momento oblite*-
i nela pe-la visão e pelo estudo de construções eruditas e engenhosas, dis-
11 ne;oe's de um instante, como um sonho no sono agitado, se a construção),
embora hábil e aparentemente equilibrada, não repousa sôbre rocha. Até
e|uc nao se encontre uma resposta definitiva e satisfatória para as queste-xís:
i|iml é o sentido da vida, o sentido da dor, o sentido da morte, conservará
0 impro*sao), embora muito real, de que o terreno falta sob os pés. Mas qual
1e*'.po)sta pode dar a Filosofia, se não se fundamenta ela mesma sôbre e>
iib:;olul.o), sôbre um Deus pessoal, princípio e fim de tôdas as coisas?
Uma o>xplicação meramente determinista e materialista do ser e ola llis-
lóiia, incomciliável com as mais elementares verdades psicológicas, morais e
lii .lói io-as, não poderia satisfazer o homem nem dar-lhe a felicidade o? a
pn/ (•).
• * •

I As disso'nsõe's e os erros deis homens, em matéria religiosa e meiral, para


loilos os he>ne\ste>s, sobretudo) paru os sinceros e fiéis filhos da Igreja, foram
(I) < niiKiruM) (l( ri loaofiu , ÜD (Ir n ov ri n li r o, llMrt.

Ifil
sempre origem e causa de viva dor, mas especialmente hoje, quando vemos
o'o>]iio) ole ioda parle sao ofendidos os próprios princípios da cultura cristã.
2. Verdadeiramente não há de que se maravilhar se fora do ovil de Cristo
so>mpre existiram estas dissensões e erros. Realmente, embora a razão hu­
mana, absolutamente falando, com suas fôrças e com sua luz natural, possa
efetivamente chegar à consciência, verdadeira e certa, de Deus único e pes-
nmd, ojue com sua Providência sustém e governa o mundo, e também a
consciência da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas, todavia
nno poucos são os obstáculos que impedem à nossa razão servir-se com e fi­
cácia e com fruto dêste seu poder natural. Pois que as verdades que se
rclerem a Deus e às relações entre os homens e Deus transcendem total­
mente a ordem das coisas sensíveis; quando, pois, entram na prática da
viola e a informam, então exigem sacrifício e abnegação.
'A. Ao atingir tal verdade, o intelecto humano encontra obstáculos, seja
por causa dos sentidos e da fantasia, seja por causa das más paixões prove-
nioMites do pecado original. Do que advém que os homens nestas coisas, fàcil-
mo>nte se persuadem que seja falso, ou ao menos duvidoso, o que êles não
querem que seja verdade! Por êstes motivos deve-se dizer que a Revela­
ção» divina é moralmente necessária a fim de que aquelas verdades, que em
matéria religiosa e moral não são por si mesmas inatingíveis, na presente
condição do gênero humano, possam ser conhecidas por todos, com facili­
dade, com firm e certeza e sem êrro algum.
4. Também a mente humana às vêzes pode encontrar dificuldade no for­
mar-se um juízo certo de credibilidade acêrca da fé católica, embora da
parte de Deus tenham sido dados tantos e admiráveis sinais externos, de
modo que até com a única luz natural da razão se pode provar com certeza
a origem divina da religião cristã. O homem, realmente, seja porque guiado
por prejuízos, seja porque instigado pelas paixões e pela má vontade, nao
somente pode negar a evidência clara dos sinais externos, mas também resis­
tir às inspirações que Deus infunde em nossas almas.
í>. Todo aquêle que observa o mundo hodierno, que está fora do ovil ole
Cristo, làcilmente poderá ver os principais caminhos pelos quais os doutos
so> encaminharam. Alguns, sem prudência e discernimento, admitem e colo­
cam como origem de tôdas as coisas, o sistema evolucionista, embora nno
•;endo> êle indiscutivelmente provado no campo mesmo das ciências natu­
rais o co>m temeridade seguem a hipótese monística e panteística do uni-
versoi sujeito à contínua evolução. Desta hipótese de boa vontade se servem
os fautores do comunismo porque se torna defensora e propagandista de seus
matoTialismos dialéticos e arranca da mente tôda noção de Deus.
(i. As falsas afirmações de tal evolucionismo, pelo qual é repudiado tudo
c|iie é absoduto, firme e imutável, preparou o caminho às aberrações de uniu
nova filojsofia que, fazendo concorrência ao idealismo, ao imanentismo e> no
pragmatismo, tomou o nome de “ existencialismo” , porque, repudiadas as
essénoMas imutáveis das coisas, preocupa-se somente com a “ existência” de
cada indivíduo.
7. Adicioma-sc a isto um falso “ historicismo” que pára sòmente nos acon-
lenmentos da no)va vida humana e arruina os fundamentos dt' qualo|iier
voMolaole e lo'i absoluta, seja no campo da Filosofia, seja no dos do^miiN
cristãos.
11. K m mo>io a t a n t a c o n f u s ã o d c o p in i õ e s , d á - n o s u m p o u c o d e co iim A Io
v o t n o|iie'le\s q u e , o u t r o r a e d u c a d o s n o s p r i n c i p i o s d o r a c ie n ia lis m o ), v n l t n m
h o je , n a o rn r a m o w it e , à f o n le d a v e ro la d o 1 re v o * la d a , o* r e m n h e e v m o* p ro ife s
i;a m a 1’a l a v r a olo' U e u s , c e n is e r v a d a n a S . K s c r i t u r a , co m m f u n o la m e n t o ola

l V.?
Teologia. Ao mesmo tempo porém causa desprazer o fato de que não pou­
cos dêles, quanto mais firmemente aderem à palavra de Deus, tanto mais
diminuem o valor da razão humana e quanto mais de boa vontade elevam
a autoridade de Deus Revelador, tanto mais àsperamente desprezam o Ma­
gistério da Igreja, instituído por Cristo Senhor para guardar e interpretai-
as verdades reveladas por Deus. Êste desprezo não somente está em aberta
contradição com a S. Escritura, mas se manifesta falso também contra a nró-
pria experiência. Freqüentemente os próprios “ dissidentes” se lamentam
em público das discórdias que reinam entre êles no campo dogmático, o
assim, embora sem querer, reconhecem a necessidade de um magistério vivo.
9. Ora estas tendências, que mais ou menos se afastam da reta estrada,
não podem ser ignoradas ou descuradas pelos filósofos e pelos teólogos
católicos que têm o grave mister de defender as verdades divinas e huma­
nas e fazê-las penetrar nas mentes dos homens. Antes, devem êles conhe­
cer bem estas opiniões, seja porque os males não podem ser curados, se
primeiro não são bem conhecidos, seja porque alguma vez nas mesmas fa l­
sas afirmações se esconde um pouco de verdade, seja, finalmente, porque
os próprios erros impelem a mente nossa a investigar e escrutar com mais
diligência algumas verdades, quer filosóficas, quer teológicas.
10. Se os nossos cultores de Filosofia e de Teologia, destas doutrinas, exa­
minadas com cautela, procurassem só colhêr os frutos indicados, não have­
ria motivo para que o Magistério da Igreja interviesse. Mas embora nós
saibamos muito bem que os mestres e doutos católicos geralmente evitam
lais erros, é porém notório que não faltam hoje, como nos tempos apostóli­
cos, aquêles que, amando mais do que é conveniente as novidades, c temen­
do serem tachados de ignorantes das descobertas feitas pela ciência nesta
época de progresso, procuram subtrair-se à direção do sacro Magistério o
por isto estão em perigo de se afastarem insensivelmente das verdades reve­
ladas e de arrastar para os erros também os demais.
11. Nota-se, pois, outro perigo, e ainda mais grave, porque se cobre mais
ainda com a aparência da virtude. Muitos, deplorando a discórdia e a con­
fusão que reinam nas mentes humanas, são movidos por um zêlo impru­
dente e levados a um ímpeto e por um grande desejo de romper as bar­
reiras com que estão divididos entre si os bons e honestos; êsses, portanto,
abraçam uma espécie de “ irenismo” , que esquecidas as questões que d ivi­
dem os homens, não procuram somente rechaçar, com unidade de forças, o
ateísmo que invade, mas também procuram conciliar as posições opostas no
próprio campo dogmático. E como em um determinado tempo existiram
nquéles que a si mesmos perguntavam se a apologética tradicional da Igreja
constituía antes um obstáculo do que um auxílio para ganhar almas para
Cristo, assim hoje não faltam os que ousam chegar até ao ponto de propor
seriamente a questão, se a Teoloeria e o seu método, como estão em uso ms
c.colas com aprovações da autoridade eclesiástica, não somente devem ser
npcrTeiçoados, mas até completamente reformados, a fim de que possam pro-
piicar com mais eficácia o Reino de Cristo em todo o mundo, entre os ho­
mens de qualquer cultura ou de qualquer opinião religiosa.
\\\. Sc não tivessem outro intento senão o de tornar, com algumas ino­
vações, a ciência eclesiástica e o seu método mais adaptado às condições e
necessidades hodiernas, não haveria quase motivo de temer; mas pelo con-
li irio, alguns, fascinados por um imprudente “ irenismo” , parecem achar
um ohstáculo ao restabelecimento da unidade fraterna, quanto se funda s o ­
bre leis e sôbre princípios mesmos dados por Cristo e sôbre instituições por
Cie fundadas, ou quanto constitui a defesa e o sustentáculo da integridade

r.i
(In fé, destruídas as quais tudo será, 6 verdade, unificado, mas sòmente na
ruína comum.
n . ftstas opiniões, provenientes do deplorável desejo de novidades ou
também de louváveis motivos, nem sempre são propostas com a mesma gra-
olne;ao>, com a mesma clareza ou com os mesmos têrmos, nem sempre os sus-
tonlneleires delas estão plenamente de acôrdo entre êles mesmos; realmente o)
o|iu‘ beije* vem sendo ensinado por alguém mais encobertamente com algumas
cíiutelas e distinções, amanhã, por outros, mais audazes, será proposto pü-
lilio’juno>nte sem limites, com escândalo para muitos, especialmente para o
jo>vo‘in clero, e com detrimento da autoridade eclesiástica. Geralmente se
usa mais cautela nas publicações; entretanto, nos folhetos distribuídos pri-
vaolnmont<\ nas lições, dactilografadas e nas reuniões, trata-se dêstes argu-
mento>s com maior liberdade. Estas opiniões não estão sendo divulgadas sò-
mo*nte entre os membros do clero secular e regular, nos seminários e nos
institutos religiosos, mas também entre os leigos, especialmente entre aquê-
le*s que se dedicam à educação e à instrução da juventude.
14. Em que diz respeito à Teologia, alguns pretendem reduzir ao máximo
o significado dos dogmas; libertar o próprio dogma do modo de se exprimir
já por muito tempo usado na Igreja, e dos conceitos filosóficos em vigor
no>s doutores católicos, para retornar, ao expor a doutrina católica, às expres-
sõevs usadas pela S. Escritura e pelos SS. Padres. Esperam assim que o
eleigma, despojado dos elementos extrínsecos, como afirmam, à divina R eve­
lação, possa ser com fruto comparado às opiniões dogmáticas daqueles que
estão separados da Igreja e dêste modo se possa a pouco e pouco chegar à
assimilação do dogma católico com as opiniões dos dissidentes. Além disto,
reduzida a tais condições a doutrina católica, pensam assim abrir a via pela
qual se chegará, satisfazendo às hodiernas necessidades, a exprimir os dog­
mas com as categorias das filosofias hodiernas, sejam do imanentismo, se­
jam do idealismo, sejam do existencialismo ou de qualquer outro sistema.
K por isto alguns, mais audaciosos, sustentam que isto possa, antes deva
som- feito, porque os mistérios da fé, afirmam êles, não podem jamais expri­
mi r-se com conceitos adequadamente verdadeiros, mas sòmente com con­
ceitos aproximativos e sempre mutáveis, com os quais a verdade é, de algum
modo>, manifestada, mas necessàriamente também deformada. Por isto êle>s
retêm não ser absurdo, mas totalmente necessário, que a Teologia em con­
formidade com os verdadeiros sistemas filosóficos, dos quais, ela no decor­
rer dos tempos se serve como instrumentos, substitua novos conceitos ae>s
antigos; assim de modos diversos, e sob certos aspectos também opostos,
mas como êles afirmam — equivalentes, exponha de modo humano> as
mesmas verdades divinas. Ainda ajuntam que a história dos dogmas con­
siste cm expor as várias formas das quais se revestiu sucessivamente a vor-
olaolo* revelada, segundo as diversas doutrinas e as diversas opiniões quo sur­
gem no) decorrer dos séculos.
15. Dc quanto dissemos, está claro que estas tendências não somente* con-
elu/.em ao relativismo dogmático, mas de fato já o contêm; êste rolat.ivismo,
pe>is, é peir demais desprezador da doutrina tradicional e dos têrmos co>m
o>s quais ola se exprime. Todos sabem que as expressões de tais coik-omIom,
usadas seja na escola, seja no Magistério da Igreja, podem ser methoraelas
e aperfeiçoadas; além disto é conhecido que a Igreja nãei foi sempre* cenis
tante ne> uso daquelas mesmas palavras. Kstá claro também quo a Igtvjn nao
|)ool(‘ estar ligada a um quale|iicr efêmero sistc*ma fileisófieo; mas aepietas
neiçôe*s e* ae|iie'te*s têrnieis, que? cimi eonsiMitiiruMitei ge*ral feiram o^eimpoistos
através elo> eli ve*rse>H séculos petos oleiutAro‘S e’at.ólicos para otie^gar a algum
e‘e>nlie«e,imentei c* alguma compreensão) dei oleigma, se*m dúvida nao se* npóiimi

IM
em um fundamento tão instável. Apóiam-se entretanto em princípios e no­
ções deduzidas de um verdadeiro conhecimento do criado; e em deduzir
êstes conhecimentos a verdade revelada, como uma estrêla, iluminou, por
meio da Igreja, a mente humana. Por isto nao há de que se maravilhar
se alguma destas noções não somente são usadas nos Concílios Ecumênicos,
mas tenham recebido tal sanção em virtude da qual delas não é lícito
afastar-se.
1G. Por tais razões, é máxima imprudência descurar, ou renegar, ou pri­
var de seus valores os conceitos e as expressões que por pessoas de engenho
não comum e santidade, sob a vigilância do Magistério Sagrado e não somu
iluminação e guia do Espírito Santo, foram uma e mais vêzes com trabalho
secular encontradas e aperfeiçoadas para exprimir sempre mais exatamente*
as verdades da fé e substituir noções hipotéticas e expressões flutuantes e*
vagas da nova filosofia, noções semelhantes à erva dos campos: hoje exis­
tem e amanhã secam; dêste modo torna-se o próprio dogma semelhante a
urna cana agitada pelo vento. O desprêzo das palavras e das noções usada::
pelos teólogos escolásticos, de per si, conduz ao enfraquecimento da Teologia
especulativa, que acreditam destituída de verdadeira certeza enquanto se*
fundamenta sôbre razões teológicas.
17. Infelizmente êstes amadores de novidades fàcilmente passam do <le*s-
prêzo da Teologia escolástica ao descaso e ao desprêzo para com o Magis­
tério da Igreja, que deu, com sua autoridade, uma tão notável aprovação» a
tal Teologia. Êste Magistério é por êles apresentado como um impcdime*nto
ao progresso e um obstáculo para a ciência; por alguns católicos ainda, êle
o-> considerado como um freio, já injustificado, com o qual alguns teólogos
mais cultos são impedidos de renovar sua ciência. E ainda que êste sagrado
Magistério deva ser para qualquer teólogo, em matéria de fé e de costu-
me>s, a norma próxima e universal de verdade (enquanto a êle Cristo N,
SoMihor confiou o depósito da fé — isto é, a S. Escritura e a Tradição) divina
para ser guardado, defendido e interpretado), todavia é por vêzes igno­
rado, como se não existisse, o dever que têm os fiéis de refugir daciue>les
erros que, em maior ou menor medida, se aproximam da heresia, e por­
tanto “ de observar também as constituições e os decretos, com os o|iiãis
estas falsas opiniões são pela Santa Sé proscritas e proibidas’’. Quanto» foi
exposto nas Encíclicas dos Sumos-Pontífices sôbre o caráter e a constitui­
ção ola Igreja, é por alguns de propósito e habitualmente descurado com o»
escopo de fazerem prevalecer um conceito vago que, dizem, tomaram dos
nnfigos padres, especialmente gregos. Os pontífices, realmente — dizem tais
fautores — não pretendem dar um juízo sôbre questões que sejam objeto
do« disputa entre os teólogos; é portanto necessário retornar às fe>nte*s pri­
mitivas, e com os escritos dos antigos devem-se explicar as constituiçõc\s e*
om olo‘0 ’ro>to)s do) Magistério.
tlt. Estas afirmações são feitas talvez com elegância de estilo; não são» po-
iem destituídas de falsidade. Realmente é verdade que em geral os pontífi­
ce :: deixam livres os teólogos, naquelas discussões que, em sentidos diversos,
mo sujeitas a discussões entre doutos de melhor fama; porém a história e>n -
uma o|iio* muitas vêzo;s questões que antes eram objetos de livre disputa,
d e p o is não podiam mais ser discutidas.
I!). Nomu st' deve reter quo os ensinamentos das Encíclicas não e*xige*m,
de per si, o nosso consentimento, com o pretexto de quo* os pontífices ai
1 1 ;io o«xero’itam o poder do seu Magistério Supivmo.

LM). ItealmoMito' éste*s c-nsinamewitos sao do Magistério Ordinário, a re>speito


do <11 1 iiI valem também as palavras: “ Quem vos e*se,uta, a mim escuta” ; o*,
p e lo mo‘no.s, quanto é proposto e* inculcado nas Encíclicas, é já, por outras

W,
r a z o e s , patrimônio fia doutrina
católica. E se os Sumos-Pontífices cm seus
a t o s emanam de propósito umasentença em matéria até então controversa,
é evidente para todos que tal questão, segundo a intenção e a vontade dos
mesmos pontífices, não pode mais constituir objeto de livre discussão entre
o s t e ó lo g o s .
2 I. verdade também que os teólogos devem sempre voltar às fontes
da Kevelação divina: é dever dêles indicar como os ensinamentos do Magis­
t é r i o vivo “ se encontram seja explicitamente seja implicitamente” na S. Es­
critura e na divina Tradição. Além disto adiciona-se que ambas as fontes
da Revelação contêm tais e tantos tesouros de verdade que se não pode
jamais, de fato, exaurir. Pelo que as ciências sagradas com o estudo das
fontes sagradas rejuvenescem sempre; enquanto que, pelo contrário, tor­
nam-se estéreis, como sabemos pela experiência, as especulações que des-
eurain a procura do Depósito Sagrado. Mas, por êste motivo, a Teologia,
também a positiva, não pode ser equiparada a uma ciência somente histó­
rica. Pois que Deus, juntamente com estas fontes sagradas, deu à Igreja o
Magistério vivo, também para ilustrar e desenvolver aquelas verdades que
e st.a o contidas no depósito da fé apenas obscuramente, como que implícitas.
I'! o Divino Redentor não confiou êste depósito, para autêntica interpretação,
nem aos indivíduos em particular, nem aos próprios teólogos, mas somente
ao Magistério da Igreja. Se, pois, a Igreja exercita êste seu ofício (como
no curso dos séculos muitas vêzes aconteceu) com o exercício seja ordi­
nário, seja extraordinário dêste mesmo ofício, é evidente que é totalmente
falso o método com o qual se queria explicar as coisas claras com as obs­
curas; que antes é necessário que todos sigam a ordem contrária. Por isto
nosso Predecessor, de imperecível memória, Pio IX , enquanto ensinava que
é função nobilíssima da Teologia mostrar como uma doutrina definida pela
Igreja está contida nas fontes, não sem grave motivo, adicionava as seguin­
tes palavras: “ no mesmo sentido, em que foi definida pela Igreja” .
22. Voltemos agora às teorias novas, das quais falamos antes: por alguns
:;.!() propostas ou instiladas na mente diversas opiniões que diminuem a auto­
ridade divina da Sagrada Escritura. Com audácia alguns pervertem o sen­
tido das palavras do Concilio Vaticano, com as quais se define que Deus
é autor da S. Escritura; e renovam a sentença, já várias vêzes condenada,
segundo a qual a ingerência da S. Escritura se estenderia somente naquilo
que diz respeito ao próprio Deus, à religião e à moral. Falsamente falam
de um sentido humano da Bíblia, sob o qual estaria escondido o sentido
divino, que é, como êles declaram, o único infalível. Na interpretação da
S. Kscritura êles não querem ter em conta as analogias da fé e da tradição
da Igreja; de modo que a doutrina dos Santos Padres e do Sagrado Magis­
tério deveria ser medida com a da Sagrada Escritura, explicada, porém,
pelos exegetas de modo puramente humano e não antes a S. Escritura ex­
posta segundo a mente da Igreja, que por Cristo Nosso Senhor foi consti­
tuída custódia e intérprete de todo o depósito das verdades reveladas.
2II. Além disto o sentido literal da Sagrada Escritura e a sua explicação
elaborada, sob a vigilância da Igreja, por tais exegetas, deveria segundo
sua:; falsas opiniões, ceder lugar a uma nova exegese, chamada simbólica e
espiritual; o segundo esta exegese os livros do Velho Testamento, que hoje
na Igreja são uma fonte fechada e escondida, seriam finalmente abertos a
todo.;. Deste modo afirmam - desvanecer-se-iam todas as dificuldades
que estão encontrando, somente os que se aferram ao sentido literal das
Ivicrit uras.
2-1. Não deve causar maravilha que tais novidades em quase tôdas iih
parles da Teologia tenham produzido os seus venenosos frutos. Coloca- ao

nn
om dúvida que a razão humana, sem auxílio da divina Revelação e a graça,
possa demonstrar com argumentos deduzidos das coisas criadas, a existên-
o'ia de um Deus pessoal; afirma-se que o mundo não teve início e quo a
criação do mundo é necessária, porque procede da necessária liberalidade
do) divino amor; assim também afirmam que Deus não tem presciôncia
eterna e infalível das livres ações do homem; tôdas opiniões contrárias às
declarações do Concilio Vaticano.
25. Por alguns ainda se põe em dúvida que os anjos sejam pessoas; o
se há uma diferença essencial entre a matéria e o espírito. Outros ainda
dosnaturam o conceito da gratuidade da ordem sobrenatural, quando sus­
tentam que Deus não pode criar sêres inteligentes sem ordená-los e cha­
má-los à visão beatífica. Nem basta; pois que, colocadas de parte as defi­
nições do Concilio de Trento, e destruído o verdadeiro conceito de pecaele»
eiriginal e ao mesmo tempo o do pecado em geral, enquanto ofensa do Deus,
como também o de satisfação em nosso nome, por Cristo. Nem faltam
aquêles que sustentam que a doutrina da transubstanciação, enquanto fun-
elada sôbre um conceito antiquado de substância, deve ser corrigiela ele*
modo a reduzir a presença real de Cristo na Eucaristia a um simbolismo),
so'gundo o qual as espécies consagradas não seriam senão sinais eficazes ela
presença espiritual de Cristo e de sua íntima união no Corpo Místico com
e>s membros fiéis.
26. Alguns não se acreditam ligados à doutrina que Nós expusemos em
uma Nossa Encíclica e que é fundada sôbre as fontes da Revelação, segunolo)
a qual o Corpo Místico de Cristo e a Igreja Católica Romana são uma só
o idêntica coisa. Alguns reduzem a uma fórmula vã a necessidade de per­
tencer à verdadeira Igreja para obter a salvação eterna. Outros finalmente;
não admitem o caráter racional dos sinais de credibilidade da fé cristã.
27. É óbvio que êstes erros, e outros de igual quilate serpeiam om me>ie>
n alguns de nossos filhos, todos enganados por um zêlo imprudente ou pe>r
uma ciência de falso quilate e a êstes filhos somos constrangidos a repetir,
co)m ânimo dolorido, verdades conhecidíssimas e erros manifestos, indicando
a êles, com ansiedade, os perigos dos erros.
28. Todos sabem quanto a Igreja aprecia o valor da razão humana, à
e|ual cabe a função de demonstrar com certeza a existência de um só Deus
pe\ssoal, de demonstrar invisivelmente por meio dos sinais divinos os fun-
olamentos da própria fé cristã; de colocar retamente em luz a lei que e)
Criador imprimiu nas almas dos homens; e finalmente a função de conse-
C.uir um conhecimento limitado, mas utilíssimo dos mistérios.
29. Mas esta função poderá ser desempenhada convenientemente o ce)in
■segurança, se a razão fôr devidamente cultivada; se fôr nutrida da sã filo­
sofia, que é como um patrimônio herdado da precedente idade cristã e* que*
possui uma mais alta autoridade, porque o próprio Magistério da Igreja
roloceni em confronto com a própria verdade revelada os seus princípios o
íts suas principais asserções, colocados cm luz e fixados lentamente através
elos tempos por homens de grande engenho. Esta mesma Filosofia, confir­
mada e> eo)mumonte admitida pela Igreja, defende o genuíno valor do conhe*-
e*lmente) humano, os inabaláveis princípios da Metafísica — isto) é, de razão
'nilie-ieMite*, do causalidade o de finalidade — ; e finalmente sustérn ejue* pe>-
clemeiH atingir a verdade certa e imutável.
!M), N e s t a I«’ ile is e ifia e x i s t e m c e r t a m e n t e m u i t a s c o i s a s eiue* n a d a t ê m a
v e r e-om a fé e* o s e n .s t u m e s , iie>m elire*ta n e m in e li iv t a m o n t o , e* cjue!, p e ir iste>,
a l / : r e j a ole*ixa à l i v r e e li.s c u s s ã o dois ce>mpe*le*nte\s n a m a t é r i a ; m a s náei h á
ij ; u n l hl)e*relaelo* n o e|uo* e liz r e s p e it e i a elivc*rse>s o u t r o s pem teis, evspoHÚnlm enle*

1*7
o|iKinelo dizem respeito aos princípios e às mais conspícuas asserções, das
opiais já falamos. Também nestas questões essenciais pode-se dar à Filoso-
fi;i uma veste mais conveniente e mais rica; pode-se reforçar a própria
Filosofia com expressões mais eficazes, despojá-la de certos meios escolás-
lico).s menos adaptados, enriquecê-la também — naturalmente com prudên­
cia - com certos elementos que são fruto do progressivo trabalho da mente
humana; não se deve porém jamais subvertê-la ou contaminá-la com fa l­
sos princípios, nem estimá-la só como um grande monumento sim, mas
jiroiueológico. Pois que a verdade e tôdas suas manifestações filosóficas não
podem ser sujeitas a cotidianas mudanças, especialmente tratando-se de
princípios, por si mesmos conhecidos pela razão humana ou asserções que
se* apóiam tanto sôbre a sabedoria dos séculos, quanto sôbre o consenso e
:;òl>re o fundamento também da Revelação Divina. Tôda verdade que a
moMite humana com sincera pesquisa pôde descobrir, não pode estar em con­
traste com a verdade já adquirida; porque Deus, suma Verdade, criou e
re*ge o intelecto humano não para que à Verdade retamente adquirida cada
0li a êle contraponha novas, mas para que removidos os erros que eventual-
moMite se houvessem aí insinuados, adicione verdade à verdade na mesma
ordem e com a mesma organicidade com a qual vemos constituída a natu-
re*/a mesma das coisas, da qual a verdade é haurida. Por tais razões o
cristão, seja êle filósofo ou teólogo, não abraça com precipitação e levian­
dade tôdas as novidades que cada dia são excogitadas, mas as deve exami­
nar com a máxima prudência e deve colocá-las sôbre uma justa balança
para não perder a verdade já conquistada ou corrompê-la, certamente
rom perigo e dano da própria fé.
31. Se se considera bem quanto acima expusemos, fàcilmente aparecerá
claro o motivo pelo qual a Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam ins­
truídos nas ciências filosóficas “ segundo o método, a doutrina e os princí-
pios do Doutor Angélico” , já que, como bem sabemos pela experiência de
muitos séculos, o método de S. Tomás se distingue por singular superiori­
dade tanto para ensinar os alunos, quanto nas pequisas das verdades; sua
eloutrina, pois, está em harmonia com a Revelação Divina e é muito eficaz
pura colocar a salvo os fundamentos da fé como também para colhêr com
util idade e segurança os frutos de um são progresso.
:i2. Por isto é tanto de se deplorar que hoje a Filosofia, confirmada e ad­
mitida pela Igreja, seja objeto de desprêzo por parte de alguns de modo
o|uo', ee>m imprudência, êles a declaram antiquada pela forma e racionalís-
tica po'lo processo de pensamento. Vão dizendo que esta nossa Filosofia de­
fende' erroneamente a opinião que se possa dar uma metafísica verdadeira
em mode) absoluto; enquanto que pelo contrário êles sustentam que a ver-
elade, especialmente as transcendentes, não podem ser expressas mais con-
voMiioMitemcnte senão por meio de doutrinas desbaratadas que se comple­
tam eMitro si, embora estejam de certo modo uma oposta à outra. Por isto»
a Filosofia escolásti ca, com sua lúcida exposição e soluções de questões,
com sua aguda determinação dos conceitos e suas claras distinções, pode som*
útil êles cemcedem — como preparativo ou propedêutica para o estudo
ela Te>ologia escolástica muito bem adaptada à mentalidade dos tmmens rm*-
elie*vais; mas não pode nos dar — adicionam — um método o uma onúenta-
o;íio filorsófie*» que correspondam às necessidades de nossa cultura me>ele*rna.
OpoMMn, além diste), que a Filosofia perene nãe) é senão a Filosofia das e*s-
Ne-ucia.*; imutfive*is, enepianto o|iie' a me*ntalielado me)derna eleve inteMvssar ;;e*
pela ‘VxisteMwia” ele>s inelivídims o m t i particular e* ola vida soMnpre* em “ oleve-
nir". Mas, e‘ne|uant.e> desprezam e*sta Filosofia, exaltam as outras, sejam an
fii;a:i, ;;o'jam n*e*e*nte\s, sejam <Io* povots orioMit.ais, ou dos neMelcMitais, ele* modo

1
que parecem querer insinuar que tôdas as filosofias ou opiniões, com a
adição, se necessário, de algumas correções ou de algum complemento, po­
dem conciliar-se com o dogma católico. Mas nenhum católico pode colocar
em dúvida quanto tudo isto seja falso, especialmente quando se trata de
sistemas como o imanentismo, o idealismo, o materialismo, seja histórico,
seja dialético, ou também como o existencialismo, quando professa o ateísmo
ou quando nega o valor do raciocínio no campo da Metafísica.
33. Finalmente à Filosofia de nossas escolas êles fazem esta reprovação:
que ela no processo do pensamento olha somente para o intelecto e descura
a função da vontade e do sentimento. Isto não corresponde à verdade. Real­
mente a Filosofia cristã não negou jamais a utilidade e a eficácia que têm
sempre as boas disposições da alma tôda para conhecer e abraçar as ve r­
dades religiosas e morais; antes, sempre ensinou que falta de tais disposi­
ções, pode ser a causa pela qual o intelecto, sob o influxo das paixões o
de má vontade, seja obscurecido a tal ponto, até não mais poder ver reta­
mente. Além disto, o Doutor Comum retém que o intelecto possa de algum
modo perceber os bens de grau superior na ordem seja moral, seja natu­
ral, seja sobrenatural, enquanto experimenta no íntimo uma certa “ conatu-
ralidade” , seja ela natural, ou fruto da graça, com idênticos bens; com­
preende-se como êste conhecimento, por pouco claro que seja, pode ser ótimo
auxílio para a razão em suas pesquisas. Mas uma coisa é reconhecer o poder
que têm a vontade e as disposições da alma em auxiliar a razão a atin­
gir um conhecimento mais certo e mais seguro das verdades morais, outra,
é quanto estão sustentando os referidos inovadores; isto é, que a vontade
e o sentimento têm um certo poder intuitivo e que o homem, não podendo
com o raciocínio discernir com certeza o que deveria abraçar como ver­
dade, dirige-se à vontade pela qual êle pode cumprir uma livre resolução
e eleição entre opostas opiniões, misturando assim pèssimamente o conhe­
cimento e o ato da vontade.
34. Não há de que se maravilhar se com estas novas opiniões tenham
sido colocadas em perigo as duas ciências filosóficas que, por sua própria
natureza, são e estão estremamente ligadas com os ensinamentos da fé, a
saber: a teórica e a prática; êles teimam em sustentar que a função destas
não é a de demonstrar com certeza alguma verdade que diz respeito a Deus
ou outro ente transcendente, mas antes a de mostrar como sejam perfeita­
mente coerentes com a necessidade da vida e das verdades que a fé ensina,
a respeito de Deus, Ser pessoal, e aos seus preceitos, e que por isto devem
ser aceitos por todos para evitar o desespêro e para obter a eterna salva­
ção. Tôdas estas afirmações e opiniões estão abertamente contrárias aos do­
cumentos de Nossos Predecessores Leão X III e Pio X, e são inconciliáveis
com os decretos do Concilio Vaticano. Seria verdadeiramente inútil deplo­
rar estas aberrações, se todos, mesmo no campo filosófico, fôssem obsequian-
tes, com a devida veneração para com o Magistério da Igreja, que por institui­
ção divina, tem a missão não somente de guardar e interpretar o depósito
da Revelação, mas que também tem a de vigiar sôbre as próprias ciências
filosóficas a fim de que os dogmas católicos nao tenham a receber dano
nljíum das opiniões não retas.
3Í). Permanece ainda para se falar sôbre as questões que, embora per­
tencendo às ciências positivas, são mais ou menos conexas com as verdades
da fé cristã. Não poucos, em verdade, pedem instantemente que a religião
católica tenha em máxima conta aquelas ciências. () que é sem dúvida coisa
louvável, quando se trata de fatos realmente domou:.! rados; mas é preciso
ir com cautela quando :;e trata antes de hipótese, embora em aljíum modo
fundamentadas cientificamente, nas quais sc foca na doutrina contida nas

IV»
S. Kscrituras ou na Tradição. Se tais hipóteses vão direta ou indiretamente
contra a doutrina revelada, então não se podem admitir de modo algum as
referidas hipóteses.
:í (1. Por estas razões o Magistério da Igreja nao proíbe que, em confor­
midade com o atual estado das ciências e da Teologia, seja objeto de pes­
quisa c do discussões, da parte dos competentes na matéria, em ambos os
campos, a doutrina do evolucionismo, enquanto ela faz pesquisas sôbre a
oi igom do corpo humano, que proviria de matéria orgânica preexistente (a
fé c a t ó l i c a nos obriga a crer que a alma é criada imediatamente por Deus).
Porem isto deve ser feito de tal modo que as razões de ambas as opiniões,
a .saber, da que é favorável e da que é contrária à evolução, sejam ponde­
radas e julgadas com a necessária seriedade, moderação e medida, e con­
tanto que todos estejam prontos a submeterem-se ao juízo da Igreja, à qual
( V i s t o confiou o encargo de interpretar autenticamente a Sagrada Escritura
e de defender os dogmas da Fé. Alguns, porém, ultrapassam esta liberdade
<le discussões, agindo de modo como se já houvessem sido demonstradas, com
I.Ada certeza, a própria origem do corpo humano da matéria orgânica pre­
existente, valendo-se de dados iniciais até agora recolhidos e de raciocínios
baseados sôbre os mesmos indícios; e isso como se nas fontes da Divina R e­
velação não existisse nada que exigisse nesta matéria a maior moderação
e cautela.
'M. Quando se trata porém da outra hipótese, isto é, do poligenismo,
então os filhos da Igreja não gozam de modo algum da mesma liberdade.
Pois que os fiéis não podem abraçar a opinião na qual os assertores ensi­
nam que, depois de Adão, existiram sôbre a terra verdadeiros homens que
nao tiveram origem, por geração natural, do mesmo Adão, como progenitor
de todos os homens, ou que Adão representa o conjunto de muitos progeni-
tores; ora não aparece, de modo algum, como estas afirmações possam con­
cordar com quanto as fontes da Revelação e os Atos do Magistério da Igreja
nos ensinam acerca do pecado original, que provém de um pecado verda­
deiramente cometido (pecado original) por Adão, individualmente e pes­
soalmente, e que, transmitido a todos por geração, é inerente a cada ho­
mem, como próprio pecado seu.
:w. Como nas ciências biológicas e antropológicas, assim também nas
históricas existem os que audazmente ultrapassam os limites e as cautelas
estabelecidas pela Igreja. De modo particular deve-se deplorar um certo
sistema de interpretações muito livre dos livros históricos do Velho Testa­
mento; e os fautores dêste sistema, para defender suas idéias, erradamente
se referem à carta que não faz muito tempo foi enviada ao Arcebispo de
Paris, pela Pontifícia Comissão para os Estudos Bíblicos. Esta carta real­
mente faz notar que os onze primeiros capítulos do Gênesis, embora pró-
priamente falando não concordem com o método histórico usado pelos me­
lhores autores gregos e latinos ou pelos competentes de nosso tempo, embora
pertençam êles ao gênero histórico em verdadeiro .sentido, devem porém ser
mais estudados e determinados pelos exegetas; os mesmos capítulos — faz
ainda notar a referida carta — falando simples e metaforicamente, do modo
adaptado a mentalidade de um povo pouco civilizado, referem sejam as prin­
cipais verdades necessárias à nossa salvação, seja também uma narração
popular da origem do gênero humano o do povo eleito.
:»». Se alguma coisa os antigos hagiógrafos tomaram das narrações popu­
lares (o que pode ser concedido), não é preciso que se esqueça jamais que
eles i sto li/.eram com o auxílio da inspiração divina, que na escolha e na
valorização daqueles documentos premuniu-os de qualquer êrro. Portanto
a;i narrações populares inserida:; na Sagrada Kscritura nao podem de no-

100
nhum modo ser colocadas sôbre o mesmo plano das mitologias ou seme­
lhantes coisas que são fruto mais de um fantasia ardente, do que do amor
da verdade e da simplicidade que resulta esplêndidamente dos Livros Sa­
grados, também no Velho Testamento, de modo que se deve afirmar que os
nossos hagiógrafos são claramente superiores aos antigos escritores pagãos e
profanos.
40. Verdadeiramente Nós sabemos que a maior parte dos doutores cató­
licos, de cujos estudos recolhem frutos os Ateneus, Seminários e Colégios
dos religiosos estão longe de tais erros que abertamente ou à socapa sãc
hoje divulgados, seja pela mania de novidades, seja ainda por uma imode-
rada intenção de apostolado. Mas sabemos também que estas novas opiniões
podem fazer vítimas entre as pessoas imprudentes; portanto preferimos dar
remédio no início, do que subministrar medicamentos, quando a doença já
houver envelhecido. Por êste motivo depois de madura reflexão e conside­
rações feitas diante de Deus, para não faltarmos ao Nosso Sagrado dever,
ordenamos aos bispos e aos superiores gerais das ordens e congregações reli­
giosas, para que cuidem com tôda diligência que opiniões de tal gênero, não
sejam sustentadas nas escolas ou nas reuniões e conferências, nem com escri­
tos de qualquer gênero e nem ainda ensinadas, de qualquer maneira que se
imagine, aos clérigos ou aos fiéis.
41. Os que ensinam nos institutos eclesiásticos saibam que não podem
exercitar, com tranqüila consciência, o cargo de instrutores que lhes foi
confiado, se não aceitam religiosamente as normas que estabelecemos e não
observam exatamente no ensino de suas matérias o que expusemos. Esta
obrigatória veneração e obediência que em seus assíduos trabalhos devem
professar para com o Magistério da Igreja, infundam também na mente e
nas almas de seus escolares.
42. Procurem com todo esforço e com paixão concorrer para o progresso
das ciências que ensinam; mas guardem-se também de ultrapassar os lim i­
tes por Nós estabelecidos para a defesa da fé e da doutrina católica. As novas
questões, que a cultura moderna e o progresso atualizaram, dêem a contri­
buição de suas cuidadosas pesquisas, mas com a conveniente prudência c
cautela; enfim, não creiam, por um falso “ irenismo” , que se possa obter uma
feliz volta ao seio da Igreja dos dissidentes e dos errantes, se não se ensina
a todos, sinceramente, tôda a verdade em vigor na Igreja, sem corrução al-
fíuma e sem a mínima diminuição ( 2).

(X) I i .. I i l l i . l , .!<■ I r v c t r h o , l(IM


A FAMÍLIA
Na endem cia natureza, entre as instituições sociais não há alguma que
o'i!lo>ja tae> no) coração da Igreja, como a família. Cristo elevou à dignidade
oIo; sacramento o matrimônio, que é como que a raiz da família. E por isto
o*lii se-mpre encontrou e encontrará na Igreja defesa, proteção, apoio, em
luolo que diz respeito aos seus invioláveis direitos, sua liberdade, e ao exer-
oMcio) olo sua alta função.
Muitas vêzes e em ocasiões diversas falamos em favor da família cristã,
o* na maior parte dos casos para ajudá-la ou chamar em seu auxílio outras
forças pura salvá-la das mais graves angústias. Antes de tudo para socorrê-
la nas calamidades da guerra. Os danos causados pelo primeiro conflito mun-
olial estavam bem longe de ser plenamente reparados, quando a segunda e
também mais terrível conflagração, veio fazer esta situação chegar ao cúmulo.
S i t A necessário ainda muito tempo e muita fadiga da parte dos homens, e
também maior assistência divina, antes que comecem a cicatrizar-se con­
venientemente as profundas feridas, que aquelas duas guerras infligiram à
família. Outro mal, devido em parte, também êle, às guerras devastadoras,
mus conseqüência ainda da superpopulação e de algumas tendências iná-
be‘is e interessadas, é a crise das habitações; todos, legisladores, homens de
Kstaelo, membros de obras sociais, que estudam por trazer para êste pro­
blema um remédio, cumprem, seja embora indiretamente, um apostolado
olo? eminente valor. O mesmo vale quanto à luta contra o flagelo da deso­
cupação, para a regularização de um suficiente salário familiar, a fim de
<|ue‘ a mãe não seja constrangida, como muitas vêzes é, a procurar trabalho)
lorn ela casa, mas possa dedicar-se ainda mais ao marido e aos filhos. Tra­
balhar em íavor da escola e da educação religiosa: eis uma preciosa con­
tribuição) ao bem da família, como também favorecer nela uma sã natura-
lielaele* i> simplicidade de costumes, reforçar as convicções religiosas, desen-
ve>lve*r om tôrno dela uma aura de pureza cristã, apta para libertá-la do)s
ele‘le‘térios influxos exteriores e de tôdas aquelas morbosas excitações que
causam desordenadas paixões no ânimo do adolescente.
Ilá porém uma miséria ainda mais profunda, da qual ocorre preservar a
fíimiha, a saber: a aviltante escravidão em que a reduz uma mentalidade*
le*n(le*nolo a fazer dela puro organismo a serviço da comunidade social, para
foru<>e*e*r-lhe massa suficiente de “ material humano” .
O u lr e ) perifio ainda ameaça a família, não de ontem, mas desde muito
te>mpe), o‘ que porém no presente, crescendo à vista d’olhos, pode tornar-sc
fu n e s t o ) à família, porque a ataca desde seu germe; queremos aludir à anar-
e|iiia ela moral conjugal em tôda sua extensão.
No oMirso ilo)s últimos anos, colhemos tôdas as ocasiões para expor um
e* e>utre> ponto essencial desta moral, e mais recentemente para indicá-la e«m
fie*11 lodo, não) sòmente refutamos o)S erros que a corrompem, mas também
mo).sl i imolo positivamente e) sentielo da mesma, e) papel, a importância, e>
vale>r paia a fe*lii’idaele* elo>s espe)se)s, olos filhos e de tôda a família, para a
iv.tahilulade e> maio)r bean se>cial olo lar doméstico) até eie> Estado) e ela pró­
pr i a Itfre-ja.

loü
No centro desta doutrina o matrimônio apareceu como uma instituição a
serviço da vida. Em estreita ligação com êste princípio, Nós, segundo o ensi­
namento constante da Igreja, ilustramos uma tese que é um dos fundamentos
essenciais não sòmente da moral conjugal, mas também da moral social em
geral: que o direto atentado contra a vida humana inocente, como meio ao
fim, — no caso presente para o fim de salvar outra vida, — é ilícito.
A vida humana inocente, de qualquer modo que se encontre, é subtraída,
olesde o primeiro instante de sua existência, a qualquer direto ataque volun­
tário. É êste um direito fundamental da pessoa humana, de valor geral no
conceito cristão da vida; válido tanto para a vida ainda escondida no seio
da mãe, como para a vida já desabrochada fora dela; tanto contra o abôrto
direto como contra a direta morte da criança antes, durante e depois do
parto. Porquanto fundada possa ser a distinção entre os diversos momentos
doi desenvolvimento de vida nascida ou ainda não nascida para o direito
proífano e eclesiástico e para algumas conseqüências civis e penais, segundo
u lei moral, trata-se em todos êstes casos de um grave e ilícito atentado à
inviolabilidade da vida humana.
Êste princípio vale para a vida da criança, como para a da mãe. Jamais
0 om nenhum caso a Igreja ensinou que a vida da criança deve ser prefe­
rida à da mãe. É errôneo colocar a questão com esta alternativa: ou a vida
da criança ou a da mãe. Não; nem a vida da mãe, nem a da criança, podem
ser submetidas a um ato de direta supressão. Para uma outra parte, a
oxigência não pode ser senão uma; fazer todo esforço possível para sal­
var a vida de ambas, da mãe e da criança.
ti uma das mais belas e nobres aspirações da medicina o procurar sem­
pre' novas vias para assegurar a vida de ambos. Que se, não obstante todos
o.-; progressos da ciência, permanecem ainda, e permanecerão no futuro, ca­
sos nos quais se deve contar com a morte da mãe, quando esta quer con-
eluz ir até o nascimento a vida que traz consigo, e não a quer destruir, vio­
lando) o mandamento de Deus: “ não matar” , outra via não há para o ho­
mem, senão até o último momento esforçar-se por ajudar a salvar-lhe a
vida, e inclinar-se depois com respeito diante das leis da natureza, e das
di:;posições da divina Providência.
Mas — objeta-se — a vida da mãe, principalmente de uma mãe de nu-
inorosu prole, é de um valor incomparàvelmente superior à de uma criança
(|ii(‘ ainda não nasceu. A aplicação da teoria da balança dos valores no caso
o|ii(> agora nos ocupa já encontrou acolhimento nas discussões jurídicas. A
1o:, posta a esta tormentosa objeção não é difícil. A inviolabilidade da vida
«Io um inocente não depende de seu maior ou menor valor. Desde mais de
olo/. aners a Igreja formalmente condenou a morte de um inocente, da vida
chamada “ sem valor” ; e quem conhece os tristes antecedentes que provo­
caram tal condenação, quem sabe ponderar as funestas conseqüências a quo
.'.(* che*garia, se se quisesse medir a intangibilidade da vida inocente segundo
o noii valor, bem sabe apreciar os motivos que conduziram a tal disposição.
I >e* rosto, quem pode julgar com certeza qual das duas vidas em realidade
■’ mais preciosa? Quem pode saber qual caminho seguirá aquêle menino o a
( 1 1 u* altura do obras e de perfeição poderá êle chegar? Avaliam -se aqui duas
Hiando/as, uma das quais é completamente desconhecida.
Qiioromos a êste propósito citar um exemplo, que talvez já é conhecido,
mu:; o|iio' não) perde ainda por isto seu sugestivo valor. É de 1905. Vivia então
iiiiin je>vo*ni, de* nobre família o de ainda mais nobres sentimentos, mas Trá-
Cil o' ololie-aola ele* saúde. Adolescente, fôra vítima do uma pleurito apical,
o1 1 1 1 * pjire>cin finalmente curada; eis que, depois de ter ceintraido um fo*liz
mui i miònio, ola sontiu uma nova vida desabrochar om sou seio», pe*rcol>ou
lo|:<> uin oNpooMal mal-estar fisico), que* consternou os dois ótimos médicos,

inn
que velavam com amorosa soli citude sôbre ela. A antiga moléstia, aquêle
loco já cicatrizado havia-se reavivado; segundo seus juízos, não havia tempo
a perder; se se queria salvar a jovem senhora, era preciso provocar, sem a
menor indulgência, o abôrto terapêutico. O espôso também compreendeu a
r.ravidade do caso e declarou consentir no doloroso ato. Mas quando o obs-
lelrico anunciou-lhe, com tôda a cautela a deliberação dos médicos exor­
tando-a a ceder aos seus pareceres, ela, com acento firme, respondeu: “ A gra­
deço seus piedosos conselhos; mas não posso truncar a vida desta minha
crmtura! Não posso, não posso! Sinto já que ela palpita em meu seio, tem
direito de viver. Ela vem de Deus e deve “ conhecer a Deus para amá-lo e
Kozú-lo” . Também o marido pediu, suplicou, implorou; ela permaneceu in-
Ílexível e esperou serenamente o acontecimento. Uma menina nasceu regu­
larmente; mas logo depois a saúde da mãe foi piorando. O foco pulmonar
estendeu; o enfraquecimento tornou-se progressivo. Dois meses depois
ela estava nas últimas, reviu a pequenita, que crescia sã, junto de uma
robusta nutriz; seus lábios tentaram um doce sorriso e plàcidamente expi­
rou. Transcorreram vários anos. Em um instituto religioso podia-se notar
particularmente uma jovem irmã, tôda dedicada ao cuidado e à educação da
infância abandonada, que com olhos inspirando amor materno se inclinava
.sôbre pequenos enfermos, quase para dar-lhes a vida. Era ela a filha do
sacrifício que agora, com coração generoso, difundia o bem entre as crianças
abandonadas. O heroísmo da intrépida mãe não tinha sido em vão. Mas nós
perguntamos: é talvez o sentido cristão, até puramente humano, que se
entorpeceu tanto que não pôde mais saber compreender o sublime holo­
causto da mãe e a visível ação da Providência divina, que do holocausto fêz
nascer tão esplêndido fruto?
A propósito usamos sempre a expressão “ atentado direto contra a vida
inocente” , “ assassínio direto” . Pois que, por exemplo, se a salvação da vida
da futura mãe, independentemente de seu estado de gravidez, requer urgen­
temente um ato cirúrgico, ou outra aplicação terapêutica, que teria como
conseqüência acessória, de modo algum em si entendida, mas inevitável, a
morte do feto, tal ato não poderia dizer-se direto atentado à vida do ino­
cente. Nestas condições a operação pode ser lícita, como outras semelhan­
tes intervenções médicas, sempre que se trata de um bem de alto valor,
qual é a vida, e não seja possível adiá-la para até depois do nascimento da
criança, nem recorrer a outro remédio eficaz, uma vez que a função pri­
mária do matrimônio é a de estar em função da vida. Nossa principal .sa­
tisfação e Nossa paterna gratidão vai aos esposos generosos, que por amor
de Deus, e confiando nêle, formam corajosamente uma família numerosa.
De outra parte, a Igreja sabe considerar com simpatia e com compreen­
são a:; reais dificuldades da vida matrimonial em nossos dias. Por isto a fir­
mamos a legitimidade e ao mesmo tempo os limites — em verdade bem lar •
j;o.s de uma regularização da prole, a qual, contrariamente ao assim cha
mudo “ controle dos nascimentos” é compatível com a lei de Deus. Pode .se
a mda esperar (mas em tal matéria a Igreja deixa naturalmente o juízo n
ciência médica) que esta chegue a dar a tal método lícito uma base sufi­
cientemente segura, e as mais recentes informações parecem confirmar tul
esperança.
De resto, para vencer as múltiplas provas da vida conjugal valem sobre­
tudo a fé viva e a freqüência dos sacramentos, 'donde brotam torrentes de
força, de cuja eficácia os que vivem fora da Igreja, dificilmente podem for
nuir uma idéia clara. E com êste apêlo aos superiores auxílios, desejumo:.
concluir Nosso discurso ( ' ) .
il) nlxitino .10 ( u n n i i Mi " I m i t i r <1.1 l . i m l l l n " , 27 <l c n n v c i n l u o , IT,I

UH •
SÔBRE A FECUNDAÇÃO ARTIFICIAL
Desde muitos séculos — e especialmente em nossa época — manifesta-se
o contínuo progresso da medicina. Progresso, em verdade, bastante com­
plexo; cujo objeto atinge os ramos mais variados da teoria e da prática.
Progresso no estudo do corpo e do organismo, em tôdas as ciências físicas,
oiuímicas, naturais, no conhecimento dos remédios, de suas propriedades e
dos modos de utilizá-los; progressos na aplicação à terapêutica, não somente
da Fisiologia, mas também da Psicologia, das ações e reações recíprocas do
físico e do moral.
Solícito por nada descurar das vantagens de tal progresso, o médico está
sempre em busca de todos os meios capazes de curar ou, pelo menos, aliviar
os males e os sofrimentos humanos. Cirurgião, procura tornar menos dolo­
rosas as operações necessárias, ginecologista, procura atenuar as dores do
parto, sem entretanto colocar em perigo a saúde da mãe ou da criança, sem
correr o risco de ofender os ternos sentimentos maternos pelo recém-
nascido.
Se o espírito de elementar humanidade, inato amor pelos próprios seme­
lhantes, estimula e guia todo médico consciencioso nas pesquisas, que não
fará o médico cristão, levado pela divina caridade a prodigalizar sem reser­
vas os cuidados e a dar-se a si mesmo, pelo bem daqueles que, com justa
razão e à luz da fé, considera como irmãos? Indubitàvelmente êle goza dos
imensos progressos conseguidos, resultados obtidos por seus predecesso-
res e continuidade de magnífica tradição, e legitimamente orgulhoso em
pouler dar sua contribuição. Todavia jamais se considera satisfeito: vê sem-
pro' diante de si novas etapas a serem percorridas, novas conquistas a serem
efetuadas. Eis por que nisto se aplica com paixão, como médico inteira­
mente dedicado em procurar o alívio para a humanidade e para cada indi-
víeluo; como cientista ao qual as descobertas que se sucedem fazem-no sa­
borear extasiado “ a alegria de conhecer” ; como crente e cristão que, nas
maravilhas que descobre, nos novos horizontes que se lhe abrem a perder de
vista, sabe ver a grandeza e a potência do Criador, a bondade inexaurível
olo Pai que, depois de ter dado ao organismo vivente tantos meios para se
0le*senvolver, defender-se e curar-se espontaneamente na maior parte dos
easos, faz que encontrem na natureza inerte ou vivente, mineral, vegetal,
animal, os remédios aos males do corpo.
O módico não corresponderia plenamente ao ideal de sua vocação se,
aproveitando-se dos mais recentes progressos da ciência e da arte médica,
no exercício da profissão se baseasse somente na própria inteligência e habi­
lidade, se não trouxesse também — estamos para dizer, sobretudo — o seu
coração de homem, sua solicitude de cristão. Êle não age, “ in anima v ili” ;
rvm tiú vicia opera diretamente sôbre corpos, mas sôbre corpos vivificados
po>r uma alma imortal, espiritual, c cm virtude do vínculo misterioso mas
1 1 kIisso)Iúvo] entre e
> físico e o moral, não opera com eficácia urn corpo se,
e’o>nl.e>mporânoainento, não age sôbre o espírito.
Seja o|uo* se o>cupe olo> corpo> ou do composto) humano em sua unidade, o
mé<lico> cristão devo'rá sempre oJeleneloM^se; do fascínio da técnica, da te*n-

Ifiü
1I l ’ lo XII Prolilrmti*
taçno do* tisaf a própria ciência e perícia om escopo diverso dos cuidados do>s
paciente*:; (|iu> lhe sãoi confiados. Graças a Deus não deverá jamais se de­
fender oU» emtra tentação, — criminal, esta — de usar os dons por Deus
oviconolielos no» seio» da natureza para interêsses ignóbeis, a paixões inconfes-
f;ávo'i:; o1 alentados desumanos. Infelizmente não é necessário ir muito longe,
voltar muito para trás, para encontrar concretos testemunhos dêstes deplo­
ráveis abusos. Uma coisa é, por exemplo, a desintegração do átomo e a pro­
dução ola ene*rgia atômica; outra o seu uso destruidor, que foge a qualquer
o'onlrôle. Diferente é o magnífico progresso técnico da moderna aviação, c
ol o e*mprêge» cm massa das esquadrilhas de bombardeiros, sem que haja a
possi b i lidade de Jimitar a ação dos mesmos a objetivos militares e estra­
tégicos. IJma coisa é a pesquisa respeitosa que revela a beleza de Deus no
espe-lho elo* suas obras, sua potência nas fôrças da natureza; outra a deifi-
eaçao desta natureza e das fôrças materiais na negação de seu Autor.
Que; faz o médico digno de sua vocação? Assenhoreia-se destas mesmas
fôrças, destas propriedades da natureza, para com elas conseguir a cura, a
saúde*, o) vigor e muitas vêzes, coisa ainda mais preciosa, para preservar
da dooMiça, do> contágio ou da epidemia. Em suas mãos a fôrça tremenda da
radiemtividade está prisioneira, endereçada à cura de males rebeldes e a
tôda outra cura; as propriedades dos mais virulentos venenos servem para
pivparar remédios eficazes; melhor ainda, os germes das infecções mais peri­
go>sas são usados variadamente na soroterapia, na vacinação.
A me>ral natural e cristã, enfim, conserva em tôda parte os próprios direi­
tos impcn-scrutáveis, e dêles, não de considerações de sensibilidade, de filan­
tropia materialística, naturalística, derivam os princípios essenciais da deon-
tologia médica: dignidade do corpo humano, preeminência da alma sôbre
0 o'o)rpo, irmandade entre todos os homens, soberano domínio de Deus sôbre
a vida e sôbre o destino. Um importante problema que requer, não menos
urgentemente que os outros, a luz da doutrina moral católica é o da fecun-
dação artificial. Não podemos deixar passar esta ocasião sem indicar breve­
mente*, c'in grandes linhas, o juízo moral que se impõe em tal matéria:
1) A prática desta fecundação artificial, quando se trata do homem, não»
pode ser considerada quer exclusivamente, quer principalmente só sob o
ponto de vista biológico e médico, rejeitando o que dizem a moral e e>
direito.
2) A fecundação artificial, fora do matrimônio, deve ser considerada como»
essencial e totalmente imoral. A lei natural e a lei divina positiva esta-
be^lee^m de fato que a procriação de uma nova vida não pode ser fruto se*nãe»
ol o matrimônio. Só o matrimônio salvaguarda a dignidade dos esposos (prin-
oMpalmtMite da mulher no caso presente), e os seus bens pessoais, file* so­
m e n t e * pro)vê ao> bem e à educação das crianças.
Disto) se deduz que, sôbre a condenação de uma fecundação artificial fe>ra
ola união conjugal, não é admitida divergência alguma de opinião entre
cat.oilicos. As crianças concebidas em tais condições seriam “ ipso-facto” iIe*/•i
limas.
li) A fecundação artificial produzida no matrimônio pelo elemento) ativo»
de* um terceiro é igualmente imoral, e, por isto, deve ser condenada sem
apelação».
Sòmente os esposos têm direito recíproco sôbre seus corpos, para gerar
uma nova vida; direito» exclusivo, não cedível, inalienável. E assim ele*v<*
ser, também em consideração para co»m a criança. A tuelo» quo olá a viela a
um ser, se>ja embora pequeno», a nature*za impõe*, pela própria fôrça elo* tal
vínculo, ei ele*ver ele* conservá-lo e* e*dueá-lo. Mas e*ntre o» esposo legítimo
(• a criança, fruto» do elemento ativo ele* um te*rceire> (ainda e|ue o» e*::pAse»

1M>
houvesse consentido) não existe vínculo algum de origem, vínculo algum
moral e jurídico de procriação conjugal.
4) Quanto à liceidade da fecundação artificial no matrimônio, basta-nos,
no momento, recordar êstes princípios de direito natural: o simples fato de
que o resultado a que se mira é atingido com êste meio não justifica o uso
do meio em si mesmo; nem o desejo dos esposos, em si plenamente legí­
timo, de ter uma criança, basta para provar a legitimidade de recorrer à
fecundação artificial que satisfaria tal desejo.
Seria portanto errôneo pensar que a possibilidade de recorrer a êste meio
pudesse tornar válido o matrimônio entre pessoas incapazes de contraí-lo por
enusa do “ impedimentum impotentiae” .
De outra parte é supérfluo observar que o elemento ativo não pode ser
jamais procurado licitamente mediante atos contra a natureza.
Ainda que não se possa excluir “ a priori” , métodos novos pela só razão
de sua novidade, todavia, porquanto concerne à fecundação artificial, não
sõmente é preciso estar extremamente reservado, mas é ainda absoluta­
mente necessário excluí-la. Dizendo isto, não se proscreve necessàriamente
o uso de alguns meios artificiais destinados somente a facilitar o ato natu­
ral, ou para conseguir o fim do ato natural, regularmente realizado.
Não se esqueça jamais que somente a procriação de uma nova vida se­
cundo a vontade e o desígnio do Criador traz consigo, em um grau admi­
rável de perfeição, a consecução dos fins propostos. Ela está ao mesmo
tempo em conformidade com a natureza corporal e espiritual e com a digni­
dade dos esposos, ao desenvolvimento são e normal da criança (* ).

(I) I) |« < i n m i ikih in ^cliio», i.’ 1) <lr K ctrn iliiu , 1ÍM1).

10/
A FÉ, A ESPERANÇA E A CARIDADE
S<* três notas são necessárias e suficientes para fixar com seu acôrdo a
tonalidade de uma composição musical, a canção da primavera poderia con­
di «nsar-.se, para o cristão, em três notas, cuja harmonia coloca sua alma
cm ucôrdo com o próprio Deus: a fé, a esperança, a caridade.
A fó é uma virtude teologal, e por meio dela cremos em Deus, que não
se vê com os olhos do corpo; sua Bondade infinita, que sua Justiça, por
vê/.es, v('la à curta visão humana; sua Onipotência, que parece, ao prema­
tu r o raciocínio dos homens, contradizer sua longanimidade misteriosa.
Deus, embora por vêzes pareça mutável, em realidade é imutável, por­
que eterno; cada uma de suas disposições chega por sua vez exata; cada um
de seus desígnios se cumpre à hora fixada por sua providência.
Na ordem sobrenatural a esperança é, como a fé, uma virtude teologal,
quer dizer que liga pessoalmente o homem a Deus. Não levanta ainda, po­
rém, o véu da fé, para mostrar aos nossos olhos o eterno e divino objeto
das contemplações celestes. Mas traz a alma que corresponde à graça a segu­
rança de sua futura posse, na infalível promessa do Redentor; dá-lhe o
penhor e como que o exemplo antecipado, na ressurreição de Deus feito
homem, executada em uma aurora primaveril.
A caridade é sobretudo um hino de amor. O verdadeiro e puro amor é
dom de si mesmo; é desejo de difusão e de doação total, que é essencial
à Mondado, e pelo qual Deus, Bondade Infinita, Caridade substancial, mo­
veu-se a efundir-se na criação. Esta fôrça expansiva do amor é tão grande
que não admite limites. Como o Criador ama da eternidade as criaturas
que file quer, por uma aspiração onipotente de sua misericórdia, chamar no
tempo, trazendo-as do nada, ao ser, “ In caritate perpetua dilexi te; ideo at-
traxi te, miserans” , assim o Verbo Encarnado, veio entre os homens, "Cum
ddexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos” , tendo amado os
seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (* ).

(I) IH xiIC tti III» I i | ( i ‘. i n , 1 ilc iilm l, 1010.

IÍIH
A FÔRÇA E A DEBILIDADE

A palavra enfêrmo — do latim in -firm u s , não firme, nao estável — indica


um ser sem fôrça, sem firmeza. Ora, em tôda família geralmente existem
antes de tudo duas categorias de sêres débeis, e que portanto têm rnaieir
necessidade de cuidados e de afeto: as crianças e os velhos.
O instinto dá até aos animais irracionais a ternura para com os pequeni­
nos. Como poderia, portanto, ser necessário inculcá-la a vós, ó jovens espe)-
sos e futuros progenitores cristãos? Pode, entretanto, suceder que um excesso)
ole rigor, uma falta de compreensão levante quase que uma barreira entre
o coração dos filhos e dos progenitores. São Paulo dizia: “ Tornei-me débil
com os débeis...; fiz-m e de tudo para com todos, para todos salvar” . É uniu
grande qualidade a de saber fazer-se pequenino com os pequenos, criança
co)m as crianças, sem comprometer com isto a autoridade paterna ou ma­
terna. Convirá sempre no círculo da família assegurar aos velhos o res­
pe i to à tranqüilidade, queremos dizer, aquelas delicadas atenções, das c]uai:-i
tém necessidade. Os velhos! Por vêzes, talvez até inconscientemente, somos
duros diante de suas pequenas exigências, de suas inocentes manias, rugas
o|iie o tempo encavou em suas almas, como aquelas que sulcam os seus
vultos, mas deveriam torná-los mais venerandos aos olhares dos outros.
Fácil mente nos inclinamos a reprová-los por aquilo que não mais fazem, o'm
vo‘/. de dar novamente a êles, como mereceriam, aquilo que fizeram. iti-.se>
talvez pela perda da memória que sofrem, e não se reconhece sçmpre a sa­
bedoria de seus juízos. Em seus olhos ofuscados pelas lágrimas procura-se
em vão a flama do entusiasmo, mas sabe-se ver a luz da resignação, na qual
já se acende o desejo dos esplendores eternos. Por boa sorte, êstes velhos,
cujo) passo vacilante hesita pelas escadas ou cuja branca cabeleira, tremen­
do, sc move lentamente em um ângulo da sala, são muitas vêzes o avô, ou
u avó, ou ainda o pai e a mãe.
Quando se fala, porém, de compaixão para com os enfermos, pode-se*
l>e>nsar, eirdinàriamentc, em pessoas de tôda e qualquer idade, aflitas por
um mal físico, passageiro ou crônico.
Ne> jardim da humanidade, desde que êle se não chama mais Paraíso Te>r-
rextre*, rnadurou-se, c sempre estará se madurando um dos frutos arnarge>s
do) pecado o>riginal: a dor. Instintivamente o homem a aborrece, e> de>la m >
••Mo|uiva; queria perder até a lembrança e a vista da mesma. Mas, de'pois
cjiio' na Encarnação Cristo se “ aniquilou” , tomando a forma de sc*rve>; de>-
pnix (|iie> aprouve ‘Vleger as coisas débeis do mundo, para confunelir as
feirle*»” , elo'pois quo “ .Je\sus, proposta como lhe fôra a ale;gria, pre'fo‘riu a cruz,
iiji) fa/enelei e‘uso ola ignomínia” ; ole'pois (juc file' i,(>ve'lou aos homens o sen­
tido da elor e» a ínfima ale'gria do> elom ele si me;sme> aos o|uo‘ se>fre>m, o e*o>ra-
C»e» humano ele\sce>bre‘ o>m si insuspoMtados abismos de te rnura u de piedade,

n.u
A fflrça, 6 verdade, permanece dom i nadora incontestável da natureza irra­
cional nas almas pagãs de hoje, semelhantes àqueles que no seu tempo o
Apóstolo São Paulo chamava “ sine afectione” , sem coração, e “ sine mise­
ricórdia” , sem piedade para com os pobres e para com os débeis. Mas para
oh verdadeiros cristãos a debilidade tornou-se um título de respeito e a
enfermidade um direito ao amor. Já que a caridade, ao contrário do inte­
resso e do egoísmo, não procura a si mesma, mas dá-se a si mesma com
maior intensidade; e quanto mais um ser é débil, miserável, necessitado e
desejoso de receber, tanto mais aparece ao benigno olhar dêle como um
objeto de predileção (* ).

(I) O Ikiiim ) u i» rapoM ii, H <tr Jullio, l(Hl).

IVO
A GUERRA
Os povos tiveram de assistir com terror a um novo e imenso aperfeiçoa­
mento de meios e modos de destruição, e de serem ao mesmo tempo especta-
elen-es de uma decadência interior que, desde o resfriamento e o desvio da
sensibilidade moral, se vai precipitando cada vez mais para o abismo da
sufocação de todo o sentimento de humanidade e do ofuscamento da razão
o do espírito, que tornam realidade as palavras da Sabedoria: “ todos fica­
vam presos por uma mesma cadeia de trevas” .
Ünicamente Cristo pode afastar os funestos espíritos do êrro e do pecado,
o|ue submeteram a humanidade a uma escravidão tirânica e degradante,
lornando-se serva de um pensamento e de uma vontade dominados e mo­
vidos pela ânsia insaciável de bens sem limite.
Ünicamente Cristo que nos libertou da triste escravidão da culpa, podo
indicar, aplanar o caminho para uma liberdade nobre e disciplinada, apona-
ola c mantida numa verdadeira retidão e consciência moral.
ünicamente Cristo, sôbre cujos ombros repousa o principado, com a sua
omipotência e o seu auxílio, pode levantar e arrancar o gênero humano das
angústias sem nome, que o atormentam no curso da vida presente, e enca­
minhá-lo para a felicidade.
Um cristão, que se alimenta e vive da fé em Cristo, na certeza de que
sé ftle é o caminho, a verdade e a vida, leva a sua parte de sofrimentos
e o-omtrariedades no mundo ao presépio do Filho de Deus, e encontra diante
do Menino recém-nascido um conforto e um apoio que o mundo não conhece,
o|uo» lhe dá ânimo e fôrça para resistir e se manter impertérrito, sem desa­
nimar nem desfalecer, no meio das provações mais graves e âtormenta-
doras ( ’ ).
* * *

i') triste e doloroso pensar que inúmeros homens, embora tendo sentido
n amargura de ilusões falazes e penosas desilusões, enquanto buscavam uma
felicielnde que os satisfizesse nesta vida, tenham barrado o caminho a tôda
n esperança, e, vivendo como vivem longe da fé cristã, não atinem com o
umiinho para o presépio do Menino-Deus, e para aquela consolação que faz
Mipi>ral>undar dc gôzo os heróis da fé em tôdas suas tribulações. Contem­
plam, reduzido a escombros, o edifício de crenças, cm que humanamente
linham confiado e pôsto seus ideais; mas não foi nunca verdade que encon-
lra :.o>m aquela fé, única verdadeira, que teria podido dar-lhes alento e novo
imimn. Nesta hesitação intelectual c moral, são prêsa de uma deprimente
incerteza olo* espírito), e vivem num estado de inércia que lhes oprime a alma,
e <|iie só po)do> entenoler pmfundamente e compadecer fraternalmente qu('in
lem o fortuna ole vive*r no fagueiro) ambiente familiar ole uma fé sobromatu-
h i I. o|uo< salta sobro» e>s toirvelinhos de tôdas as contingências tempowais para
................. firmo» no> eterno).

ill 10 A d i o iiiciiaiiK<'iii no iiiuiiild, dr 'Irscmlil ii,

171
Kntre as filas dêstes amargurados o desenganados não 6 difícil indicar
aqueles que puseram sua inteira confiança na expansão mundial da vida
econômica, julgando só ela fôsse capaz de reunir grandiosa organização,
cada dia mais aperfeiçoada e requintada, progressos inauditos e inesperadas
de bem-estar para a sociedade humana.
Com quanta complacência e orgulho contemplaram o aumento mundial
do comércio, o intercâmbio, através dos continentes, de todos os bens e de
Iodos os inventos e produções, o caminho triunfal da difundida técnica mo­
derna, que transpunha todos os limites do espaço e do tempo! Hoje, ao
contrário, na realidade, que é o que experimentam? Vêem já que essa eco­
nomia, com as suas gigantescas relações e vínculos mundiais, e com a sua
superabundante divisão e multiplicação do trabalho, cooperava de mil ma­
neiras para tornar geral e mais grave a crise da humanidade, ao passo que,
se não a corrigisse nenhum freio moral, e se nenhum olhar para além da
terra a iluminasse, não podia deixar de terminar numa indigna e humilhante
exploração da pessoa humana e da natureza, numa triste e pavorosa indi-
/•.éncia por um lado, e por outro lado numa discórdia atormentadora e im­
placável entre privilegiados e destituídos.
Os que esperavam obter do mecanismo do mercado econômico mundial
a salvação da sociedade ficaram tão desenganados porque tinham chegado a
ser, não senhores e donos, mas escravos das riquezas materiais a que tinham
servido, desligando-as do fim supremo do homem e tornando-as fim em si
mesmas.
Nem procederam e pensaram diversamente outros desenganados do pas­
sado, que colocavam a felicidade e o bem-estar unicamente num gênero de
ciência e de cultura que não reconheciam o Criador do Universo; êsses pro­
motores e êsses sequazes não da verdadeira ciência, admirável reflexo da
luz de Deus, mas de uma ciência soberba que, não dando lugar algum à
obra de um Deus pessoal, independente de qualquer limitação e superior
a tudo o que é terreno, se jactava de poder explicar os acontecimentos do
mundo só com o encadeamento rígido e determinístico de férreas leis
naturais.
Mas semelhante ciência não pode dar nem a felicidade nem o bem-estar.
O ter apostatado do Verbo Divino, por meio do qual foram feitas tôdas
as coisas, levou o homem à apostasia do espírito, tornando-lhe árdua a con­
secução de ideais e de fins intelectuais e morais em alto grau. Dêste modo,
a ciência apóstata da vida espiritual, que vivia na ilusão de ter conseguido
plena liberdade e autonomia, renegando a Deus, vê-se hoje condenada à
servidão mais humilhante, tendo-se convertido em escrava e quase executor»
anlomática de orientações e ordens que não têm consideração nenhuma pelos
direitos da verdade e da pessoa humana. O que àquela ciência pareceu li­
berdade foi cadeia de humilhação e envilecimento; e, destronada como está,
nunca adquirirá a primitiva dignidade, senão regressando de novo ao Verbo
Kterno, fonte de sabedoria tão loucamente abandonado e esquecido ( 2).

# # *

.Junto aos que vivem profundamente desatinados pela falência de orien-


Iações sociais ou intelectuais que largamente seguiram políticos e homens
de ciência, está a plêiade não menos numerosa dos que se vêem em grande
mal eslnr e pena ante o descalabro do seu ideal de vida própria e par­
ticular.

(2) KAillo mrniniirmao mimilo, 24itr drírtnlno, IIMÍ,


I71Í
É grande o número daqueles para quem a finalidade da vida era o tra­
balho, e a meta das suas fadigas uma cômoda existência material, mas que
na luta para conseguir êsse fim tinham arremessado para longe as consi­
derações religiosas, não pensando em dar à sua existência uma orientação
sã e moral. A guerra arrancou-os a esta habitual e amada atividade, que
era o penhor e o amparo da sua vida, desarraigou-os da sua profissão e
da sua arte de tal maneira que sentem em si um vácuo pavoroso. E se alguns
podem ainda ocupar-se no seu trabalho, a guerra impõe condições de traba­
lho e de vida em que desaparece tôda a característica pessoal, falta e torna-
se impossível uma vida fam iliar ordenada, e já se não encontra aquela satis­
fação da alma que é fruto unicamente do trabalho tal como Deus o enobre­
ceu e quis ( :í).
# # #

Desventurados são também os que vêem falida a sua esperança de Toxi­


cidade, sonhada e colocada unicamente no gôzo da vida terrena transitória,
imaginada exclusivamente ou como plenitude de energias corporais e beleza
de forma e de pessoas, ou como opulência e superabundância de comodida­
des, ou como posse de fôrça e poder.
Se parte da juventude masculina já não tem fôrça para a fadiga do tra­
balho, as futuras mães da próxima geração, forçadas como estão a um tra­
balho excessivo para além de tôda a medida e todo o limite de tempo), vão
perdendo o poder de subministrar ao povo sangrado aquêle incremento são)
de corpo e de espírito que favorece a vida e a educação dos filhos, e sem
o qual o porvir da pátria está ameaçado de triste ocaso.
A penosa irregularidade de trabalho e de vida, longe de Deus e da sua
graça, lisonjeada e extraviada pelo mau exemplo, insinua e prepara urn por-
nidoso relaxamento das relações conjugais e familiares, de modo quo o>
tóxico da luxúria trata de envenenar agora, muito mais que antes, o ma­
nancial sagrado da vida. Dêstes dolorosos fatos e perigos se deduz com dura
experiência como, quando por um lado o robustecimento da família e olo
povo costumava considerar-se, em muitas nações, como um dos fins mais
nobres, difundem-se, em vez disto, e crescem espantosamente, um atreifia-
mento físico e uma perversão espiritual, que, só mediante ação sanadora o*
onlucativa de várias gerações, poderão, lentamente, e pelo menos em parto*,
olesaparecer. Se o conflito bélico causou, em tantos, ruínas tão vastas de co>rpo
v de espírito, não perdoou aos ávidos da opulência e do mero prazer da vida,
o|ue estão agora mudos e perplexos perante as destruições que caíram tam­
bém sôbre os seus bens como furacão devastador; riquezas e lares exterm i­
nados a ferro e fogo, vida cômoda e de prazeres desaparecida, trágico o pre­
sente, e o porvir com poucas esperanças e muitos temores.
Mais triste é a visão que perturba e espanta os que aspiram a possuir
fôrça e predomínio: agora contemplam com terror o oceano de sangue* e?
lágrimas que banha o mundo, as sepulturas e fossas de cadáveres multi-
plio*adas e espalhadas por tôdas as regiões da terra e ilhas deis mares, o
l(*nto extinguir-se da civilização, o progressivo desaparecer do bem-e*star,
mesmo material, a destruição de insignes monumentos e nobilíssimos e*difi-
o*ios de* arle* soberana, que podiam chamar-se patrimônio comum do mundo
civilizado; e>s ódios que se ae*irram e aprofundam e inflamam os povos uns
e-onLra e>s emtros, e não permitem esperar nenhum bem para o porvir ( ') .

# # #

(!l -I) Kíulln nu iiiuyriii 110 m u n d o , !M <lr (Ir /rmhio, MlIS,

17 5
Knlro' as filns dêstes amargurados (' desenganados não é difícil indicar
no1 1 u•Io•*-; (|tio> puseram sua inteira confiança na expansão» mundial da vida
econômica, julgando só ela fôsse capaz de reunir grandiosa organização,
cada dia mais aperfeiçoada e requintada, progressos inauditos e inesperados
ole bem-estar para a sociedade humana.
Coxo o|iianta co>mplacência e orgulho contemplaram o aumento mundial
olo comércio, o> intercâmbio, através dos continentes, de todos os bens o> de
Iodos os inventos e produções, o caminho triunfal da difundida técnica mo­
derna, o|ue transpunha todos os limites do espaço e do tempo! Hoje, ao
contrário), na realidade, que é o que experimentam? Vêem já que essa eco-
nomia, com as suas gigantescas relações e vínculos mundiais, e com a sua
suprrabundante divisão e multiplicação do trabalho, cooperava de mil ma­
neiras para tornar geral e mais grave a crise da humanidade, ao passo que,
;:e nao a corrigisse nenhum freio moral, e se nenhum olhar para além da
lerra a iluminasse, não podia deixar de terminar numa indigna e humilhante
e-xploração da pessoa humana e da natureza, numa triste e pavorosa ineli-
géneni por um lado, e por outro lado numa discórdia atormentadora e im
placável entre privilegiados e destituídos.
Os que esperavam obter do mecanismo do mercado econômico mundial
a salvação da sociedade ficaram tão desenganados porque tinham chegado a
s o m -, não senhores e donos, mas escravos das riquezas materiais a que tinham

servido, desligando-as do fim supremo do homem e tornando-as fim em si


mesmas.
Nem procederam e pensaram diversamente outros desenganados do pas­
sado, que colocavam a felicidade e o bem-estar unicamente num gênero de
ciência e de cultura que não reconheciam o Criador do Universo; êsses pre>
motores e êsses sequazes não da verdadeira ciência, admirável reflexo da
luz olo* Deus, mas de uma ciência soberba que, não dando lugar algum á
obra de um Deus pessoal, independente de qualquer limitação e supe>rinr
a tudo o que é teri’eno, se jactava de poder explicar os acontecimentos do
mundo) só com o encadeamento rígido e determinístico de férreas leis
naturais.
Mas semelhante ciência não pode dar nem a felicidade nem o bem-evilar.
o lo'r apostatado do Verbo Divino, por meio do qual foram feitas tó<la:i
as o-oisas, levou o homem à apostasia do espírito, tomando-lhe árdua a con
mMiçíio» ole ideais e de fins intelectuais e morais em alto grau. Dêste modo,
a ciência apóstata da vida espiritual, que vivia na ilusão) de ter ce>ir <'",uido
plena liberdade e autonomia, renegando a Deus, vê-se hoje condenada à
serv idão mais humilhante, tendo-se convertido cm escrava e quase ('xeculora
automática de orientações e ordens que não têm consideração nenhuma peloíi
direitos ela verdade e da pessoa humana. O que àquela ciência pareceu ll
berdado' loi cadeia de humilhação e envilecimento; e, destronada como e-.lá,
nimra adquirirá a primitiva dignidade, senão regressando de novo ao Veibo
Klerno, fonte de sabedoria tão loucamente abandonado e esquecido (~).
# # #

Junto aos que vivem profundamente desatinados pela faléne-ia ole m len
laçoes se)ciais em intelectuais que largamente seguiram polítie-os e honiom
ele enneMa, está a plêiade nae> menos numeinsa de>s que se1 vêem <'tn r.ramle
mal estar e^ pena ante; e> descalabro do seu ideal dei vida própria e pni
ticu lar.

(ü ) U fui Io m n ia iiu n ii no m u n d o , SM dc ilr / n u liio , 1SMB,

m
]<’, grande o número daqueles para quem a finalidade da vida era o tra­
balho, e a meta das suas fadigas uma cômoda existência material, mas que
na luta para conseguir êsse fim tinham arremessado para longe as consi­
derações religiosas, não pensando em dar à sua existência uma orientarão
sa e moral. A guerra arrancou-os a esta habitual e amada atividade, que
era o penhor e o amparo da sua vida, desarraigou-os da sua profissão e
da sua arte de tal maneira que sentem em si um vácuo pavoroso. E se alguns
podem ainda ocupar-se no seu trabalho, a guerra impõe condições de traba­
lho e de vida em que desaparece tôda a característica pessoal, falta e torna-
se impossível uma vida familiar ordenada, e já se não encontra aquela satis­
fação da alma que é fruto unicamente do trabalho tal como Deus o enobre­
ceu e quis ( :i).
# # *

Desventurados são também os que vêem falida a sua esperança de feli­


cidade, sonhada e colocada unicamente no gôzo da vida terrena transitória,
imaginada exclusivamente ou como plenitude de energias corporais e beleza
de forma e de pessoas, ou como opulência e superabundância de comodida­
des, ou como posse de fôrça e poder.
Se parte da juventude masculina já não tem fôrça para a fadiga do tra­
balho, as futuras mães da próxima geração, forçadas como estão a um tra­
balho excessivo para além de tôda a medida e todo o lim ite de tempo, vão
perdendo o poder de subministrar ao povo sangrado aquêle incremento são
de corpo e de espírito que favorece a vida e a educação dos filhos, e sem
o qual o porvir da pátria está ameaçado de triste ocaso.
A penosa irregularidade de trabalho e de vida, longe de Deus e da sua
graça, lisonjeada e extraviada pelo mau exemplo, insinua e prepara um per­
nicioso relaxamento das relações conjugais e familiares, de modo q u e o
tóxico da luxúria trata de envenenar agora, muito mais que antes, o ma
nancial sagrado da vida. Dêstes dolorosos fatos e perigos se deduz com dura
experiência como, quando por um lado o robustecimento da família e do
povo costumava considerar-se, em muitas nações, como um dos fins mais
nobres, difundem-se, em vez disto, e crescem espantosamente, um atrofia-
mento físico e uma perversão espiritual, que, só mediante ação sanadora e
educativa de várias gerações, poderão, lentamente, e pelo menos em parte,
desaparecer. Se o conflito bélico causou, em tantos, ruínas tão vastas de corpo
o de espírito, não perdoou aos ávidos da opulência e do mero prazer da vida,
que estão agora mudos e perplexos perante as destruições que caíram tam­
bém sôbre os seus bens como furacão devastador; riquezas e lares exterm i­
nados a ferro e fogo, vida cômoda e de prazeres desaparecida, trágico o pre­
sente, e o porvir com poucas esperanças e muitos temores.
Mais triste c a visão que perturba e espanta os que aspiram a possuir
fôrça e predomínio: agora contemplam com terror o oceano de sangue e
lágrimas que banha o mundo, as sepulturas e fossas de cadáveres multi­
plicadas e espalhadas por tôdas as regiões da terra e ilhas dos mares, o
lento extinguir-se da civilização, o progressivo desaparecer do bem-estar,
mesmo material, a destruição de insignes monumentos e nobilíssimos ed ifí­
cios do arte soberana, que podiam chamar-se patrimônio comum do mundo
civilizado; os ódios que se acirram e aprofundam e inflamam os povos uns
contra os outros, e não permitem esperar nenhum bem para o porvir ( ‘ ).

# # #

(!l I) R / u l l o n u i m n u ‘ 111 mo n m iu lo , «I ilr « Ir/n iiln o , H II S ,

17.1
Quanto mais o monstro da guerra procura absorver e chamar a si os bens
materiais, ({ue inexoravelmente vêm sendo todos postos ao serviço das neco\s-
siolades da guerra, cada vez maiores, tanto mais direta ou indiretamente as
nuçoos feridas pelo conflito correm o perigo, diríamos, de uma anemia per-
iiuMosa; e vem-Nos então a pergunta torturante: — Como poderá uma eco­
nomia exausta e extenuada achar, depois da guerra, os meios necessários
para a reconstrução econômica e social, no meio das dificuldades que au-
menlarão enormemente por tôda parte, e das quais as fôrças e a arte dos
inimigos da ordem, sempre alerta, tentarão aproveitar-se, na esperança de
podoM- dar à Europa cristã o golpe decisivo?
Üe*molhantes considerações do presente e do futuro devem prender a aten-
e;;io, a1 .6 na febre da luta, dos governantes e da parte sã de todos os povos,
o> movê-los a examinar os efeitos e a refletir sôbre os fins e as finalidades
justificáveis da guerra ( 5).
* * *■

NoMihum povo está livre do perigo de ver alguns de seus filhos deixarem-
:;e> transportar pelas paixões e sacrificar ao demônio do ódio. O que im­
porta 6 o juízo que a autoridade pública dá de tal desvio e degeneração do
espirito) de luta, e a prontidão com que os faz cessar.
Donde cabe ao digno nome da própria autoridade que, com o ampliar-se
dos campos de guerra, além dos próprios limites, não cesse a imperturbada
oligniolade da razão, que dita os máximos princípios de promover o bem o*
do ro'po‘lir o mal, que reforçam e honram a linha de quem comanda, e con-
o'iliam e tornam mais benévolos e prontos os que a êle são sujeitos, a dobrar
a vontade e a obra para o comum interêsse. E por isto quanto mais se esten-
doMii os territórios que o conflito submete à dominação estrangeira, tanlo
mais urgente se torna a obrigação de estabelecer uma ordem jurídica, que*
nélo\s se procure aplicar, em harmonia com as disposições do direito das gen-
te*s o sobretudo com as exigências da humanidade e da eqüidade ( (!).

* # *

As ])o)tôncias que ocupam países durante a guerra, sem faltar-lhes ao do>-


vieloi re*speito, dizemos: A vossa consciência e a vossa honra vos guiem no
Irid.ameMilo da população das terras ocupadas de modo justo, humano e pru­
dente*. Não) imponhais a êles pesos que vós, em casos semelhantes sentisto*s
ou so*n1irío*is injustos. A humanidade prudente e socorrcdora é glória e honra
dos sábios capitães; e o tratamento dos prisioneiros e das populaçõo\s dos
lui,,nro's o)o*upados, o mais seguro índice e prova da civilização das almas t>
dns uat;óo*s. Porém, acima disso, pensai que a bênção ou a maldição do* I)<*iim
pura a própria pátria poderão depender do modo que usais para com aqwe*-
li'N <|tu* a soirtc da guerra colocou em vossas mãos ( 7).

# * *

A ro*sp(*ilo do uso de instrumentos de luta ainda mais mortíferos Nós ;;u


plirnmos ao.s beligerantes de se absterem até o fim: tôda novidade o*ni I iiim
meios to*m pe>r réplica inevitável, da parte do adversário, o uso ola ine*snm
nova arma, porventura mais áspera e feroz ( K).
# *
( fi ( i ) Aloi mi S i i k i i h Iii 0 V I d r d c/m iluo . I!PHI.
(7 M) U.kIIh minmiHiiu m> mundo, 1.1 de iilull, lüll

IV'I -
Ademais um dever a todos obriga, um dever que não tolera delonga,
nenhum deferimento, nenhuma hesitação, nenhuma tergiversação; fazer tudo
quanto fôr possível para proscrever e banir de uma vez para sempre a
guerra de agressão como solução legítima das controvérsias internacionais
e como instrumento de aspirações nacionais. Viram-se no passado muitas ten­
tativas nesse sentido. Tôdas faliram. E falirão tôdas sempre, enquanto a
parte mais sã do gênero humano não tiver uma vontade firme, santa­
mente obstinada, como uma obrigação de consciência, de cumprir a missão
que os tempos passados haviam iniciado com não suficiente seriedade e reso­
lução.
Se uma geração sentiu no fundo da consciência o grito: “ Guerra à
guerra!” essa é, certamente, a geração presente. Tendo passado, como pas­
sou, através de um oceano de sangue e lágrimas, como talvez os tempos pas­
sados jamais conheceram, ela viveu as indizíveis atrocidades tão intensa­
mente, que a recordação de tantos horrores deverá permanecer-lhe impres­
sa na memória até no mais profundo da alma, como a imagem de um in­
ferno, no qual todos aquêles que nutrem no coração sentimentos de huma­
nidade nunca poderão ter mais ardente desejo senão o de fechar para sem­
pre as portas do mesmo.
Sem dúvida o progresso das invenções humanas, que devia assinalar a
realidade de um maior bem-estar para tôda a humanidade, foi, pelo con­
trário, dirigido para destruir aquilo que os séculos tinham edificado. Mas
com isto mesmo tornou-se sempre mais evidente a imoralidade daquela
guerra de agressão. E se agora o reconhecimento desta imoralidade se adi­
ciona à ameaça de uma intervenção jurídica das nações e de um castigo
infligido ao agressor pela sociedade dos Estados, assim a guerra se sento
sempre sob o golpe da proscrição, sempre vigiada por uma ação preven­
tiva; então a humanidade, saindo da noite escura na qual estêve por tanto
tempo submersa, poderá saudar a aurora de uma nova e melhor época do
sua história ( 9).
* * *

É com a fôrça da razão, não com a das armas, que a Justiça caminha.
E os impérios não fundamentados sôbre a Justiça não são abençoados por
Deus. A política emancipada da moral atraiçoa os que assim a querem.
Nada se perde com a paz. Tudo pode ser perdido com a guerra. Voltorn
os homens a se compreenderem. Tratando com boa vontade e com respeito
os recíprocos direitos, perceberão que às sinceras e laboriosas negociações
não é interdito um honrado sucesso.
E sentir-se-ão, grandes — da verdadeira grandeza — se, impondo silên­
cio às vozes das paixões, sejam elas coletivas ou privadas, e deixando à
razão o seu império, tenham poupado o sangue dos irmãos, e à pátria tenham
poupado ruínas.
Kaça o Onipotente que a voz dêste Pai da família cristã, dêste Sorvo dos
servos, que do Jesus Cristo traz, indignamente sim, mas realmente ('ii 1.ro
os homens, a pessoa, a palavra, a autoridade, encontre nas mentes o nos
corações pronta e voluntária acolhida.
Kscutom-nos os fortes, para não se tornarem débeis na injustiça. Esrutoni-
nos os potentes, se querem que a sua potência não seja destruição, mas sus-
Ientáoulo paia os povos o tutela na ordem o no trabalho.
Nós lhes suplicamos, polo sangue do Cristo, cuja fôrça vencedora do
mundo foi a mansidao na vida e na morte. K suplicando-lhos sabemos e
(!>) U A ill o ini M i n n c m mi m inuto, 1M <lr i l c / r i n l n <>,

IV .
sentimos ter conosco» todos o)s retos de coração; todos que têm fome o> sedo-
oh* justiça; to>dos que sofrem já, pelos males da vida, tôdas as dores. To­
mos o'o)nosco o» coração das mães, que batem com o Nosso; os pais, o)iu‘ ole-
veriam abandonar as suas famílias; os humildes, que trabalham e não» sa-
bo-in; o)s inocentes, sôbre os quais pesa a tremenda ameaça; os jovens, cava­
leiros /;o'neroso)s dos mais puros e nobres ideais. Está conosco a humaniolaole
inteira, quo espera justiça, pão, liberdade, e nao ferro que mata e destrói.
Está conosco aquêle Cristo, que do amor fraterno fêz o seu mandamonlo,
fundamoMital, solene; a substância de sua religião, a promessa da salvação
para os indivíduos e para as nações ( 10).

( 10) U í u l l o i n i i i K. i l i r t n 110 i m i m l o , VI tlr i i h^ h I u , KM U.

17»
A IMORALIDADE
Não diversamente dos demais cristãos, também as pessoas dotadas sim­
plesmente de honestidade e de bom-senso natural se admiram e aterram
à vista da crescente maré de imoralidade que, embora êstes últimos tem­
pois já sejam extraordinàriamente graves, ainda ameaça submergir a seu-ie*-
elade. Ninguém hesita em reconhecer como causa particular as publicaçõo-s
lirenciosas e os espetáculos desonestos, que se apresentam aos olhos o aos
oinvidos dos adolescentes e dos homens maduros, dos jovens e dos velho;:,
das mães e das crianças. Que dizer então da arte, da moda, dos costumes
públicos e privados, masculinos e femininos? D ifícil crer a que grau do ror-
rução moral não titubearam em descer determinados autores, editores, artis­
tas, empreendedores e divulgadores de semelhantes obras literárias o dra­
máticas, artísticas e cênicas, convertendo o uso da pena e da arte, do pro­
gresso industrial e das admiráveis invenções modernas em meios, armas e*
lisonjas para a imoralidade. Escritos e obras, indignos da honra das letras
o- das artes, encontram leitores e espectadores aos milhares. E vós vôdos
aololescentes atirarem-se a tal alimento, para a mente e para os olhos,
eom tôda a fúria das paixões que se acordam, vêdes progenitores levaivm
<* conduzirem consigo, a tão tristes cenas, meninos e meninas, em cujos ten­
ros corações e em cujas pupilas se imprimem assim, em troca de inoevn-
tes e santas visões, fatais imagens e ânsias, que muitas vêzes não mais se
desvanecerão.
Que se deve portanto pensar que a natureza humana seja universal e>
projfundamente depravada e que sua avidez de escândalos seja irrem ed iá­
vel? Não, no coração humano Deus colocou por fundamento a bondade;, à
o|tial porém Satanás e a não refreada concupiscência armam ciladas. Salvo
uma pequena minoria, o povo não procuraria espontâneamente, menos ain-
ela pediria, divertimentos malsãos, se não fôssem oferecidos, apresontadeis
o\ por vêzes, quase impostos de surprêsa. Por isto, se “ contro miglior voler,
volcr mal pugna” , é de extraordinária importância entrar na liça para a
olodosa da moral pública c social. Não é um combate de armas materiais e
do* sangue derramado mas um Conflito de pensamentos e de sentimentos,
entro o) bem c o mal. Convém que todos aquêles que são bons (e já são mui-
tois), enderecem seus esforços e coloquem todo seu talento para criar, pro­
mover uma literatura, um teatro, um cinema, que sejam educativos, sãos
de conceitos e de costumes, e ao mesmo tempo interessantes e atraento's,
ve»reladoiras eibras artíst i cas. Não podemos suficientemente louvar e animar
os beneméritos intelectos que a esta emprêsa se dedicam; são quais após-
lolos olo) bom. 1-: porém evidente que tal carga de apostolado não é para toe leis
os ennbreis.
Nao have*ria para os outros algei cjuo lhes conviesse? Podem êles ae*ale*n-
liue-m a e>sperança do e|ue a atração das boas o be*las e»bras será unive*r:;al -
uioMile* capaz ele* fa/.or nasee*r e* difundir invo*n(,íve*l de*sgc')stei e* repúdio» por
Iodas as teirpe/as? Sôbre isto ninguém é tão ingênuo) que* se* iluda. I'l, e*nlno,
niconl ram se* porvoMitura ele-sarmadas as pe*sseias elo* be*m, eliante* dos maus
de*:;írufadeire-N da impro-nsa, da feda e> elo hume>risnio? Isto seria injusto afir-

177
1, c
i i i i i i tal injustiça inanifestar-se-ia logo a quem quer que conhece e con­
sidera atentamente a louvável legislação que honra o País. Aos cidadãos
i•<\s|H“it.áveis, aos pais de família, aos educadores, está aberto o caminho para
assegurar a aplicação e eficaz sanção daquelas leis providenciais, levando
ú autoridade civil, de modo devido, as denúncias baseadas sôbre o fato,
exata nas referências e quanto às pessoas, coisas e palavras, a fim de que
tudo o que de reprovável fôsse apresentado ao público seja reprimido ou
impedido.
O trabalho, não o dissimulamos, é imenso e variado; porque imenso, ofe­
reço» vasto campo para todos os de boa vontade; porque variado, ó pas-
:iívo‘l de tôdas as atitudes. Sua amplidão, porém, se de uma parte possui
algo <iue causa mêdo e desencoraja os pusilânimes, de outra parte, no entre­
tanto, serve para inflamar sempre mais o ardor das almas generosas ( x).

Examinemos agora mais de perto nosso argumento, porque muito ainda


permanece por ser feito, e a Igreja, de sua parte, muito espera de nós.
Sempre mais altas e penetrantes ressoam, do solo europeu e de além-
maros, os gritos, as vozes de socorro pela infeliz condição das famílias e
das gerações jovens. Que a guerra seja a principal culpada, parece não pa­
decer dúvidas. É responsável sobretudo pela violenta e funesta separaçao
de milhões de cônjuges e de famílias, e pela destruição de inumeráveis
habitações.
Mas ó igualmente certo que a verdadeira e própria razão de tão grando'
mal ó ainda mais profunda. Deve ser procurada naquilo que com um tôrmo
/'oral se chama materialismo, na negação ou ao menos no descaso e no des­
prezo de tudo o que é religião, cristianismo, submissão a Deus e a sua lei,
vida futura e eternidade. Como um hálito pestífero, o materialismo invade
sempre mais todo o ser e produz maléficos frutos no matrimônio, na fam í­
lia e nos jovens.
É, pode-se afirmar, unânime o juízo de que a moralidade dos jovens está
em contínua decadência. E não somente isto acontece com a juventudo' oIa
cidade. Também na do campo, onde outrora floriam sãos e robustos cos
tumos, a degradação moral não se torna inferior, porque muito daquilo ojiio
na cidade leva ao luxo e ao prazer, obteve igualmente entrada franca nas
v i las.
k supérfluo recordar quanto o rádio e o cinema foram usados e abusa
dos para a difusão daquele materialismo, e do mesmo modo: o mau livro,
a lieenoMosa revista ilustrada, o espetáculo impudico, o baile imoral, a ium
désl.ia das praias contribuíram para aumentar a superficialidade, o munda
nisino, a sensualidade da juventude.
Os relatórios que provêm de diversas regiões, assinalam tais fatores c o m o
causa do abandono moral e religioso dos jovens. É porém responsável, em
primeiro lugar, a desagregação do matrimônio, euja funesta conseqiieneia
<• cujo) índice é o abaixamento moral da juventude (~).

# # #

Pergunta-no, por vêzes, se os dirigentes das indústrias cinematográfica:,


avaliam exatamente o vasto poder que possuem de influenciar na vida social,
quer no recvsso da família, quer orn mais amplos grupos civis.

(1) D ln im io , im illin m < n l ó l l i ;i n , ü l) <lr l e v c i c l i i i , l!M<!.


2
( ) D M uiim i, m u U icim <l,i A ^ í l o C . i l ó l l i a, ile j u l h o , HMD.

r/n
Os olhos e os ouvidos são como amplas vias, que levam diretamente à
alma do homem e estão abertas, o mais das vêzes sem obstáculos, pelos
espectadores dos vossos filmes. Que é que passa da tela para os recôndi-
to)s da mente onde se desenvolve o fundo dos conhecimentos e se plasmam
e afinam as normas e os motivos da conduta, que formarão o caráter defi­
nitivo dos jovens?
É algo que contribuirá para nos dar um cidadão melhor, trabalhador,
observante da lei, temente a Deus o que o faz encontrar suas alegrias e
recreio nas telas e nos divertimentos?
São Paulo citou Menandro, antigo poeta grego, quando escreveu aos fiéis
de sua Igreja em Corinto que “ a péssima conversa corrompe os bons co>h-
tumes” . Isso, que então foi verdade, não deixa de hoje também ser ve r­
dade, porque a natureza humana muda pouco com os séculos. E se é vom--
dade, como o é realmente, que a má conversa corrompe a moral, quanto
mais eficazmente não será esta corrompida pela má conversa acompanhada
pela conduta, vivamente projetada, que contradiz as leis de Deus e da decên­
cia civil? Oh, imenso é o bem que o cinema pode fazer! Eis porque os es­
píritos maléficos, sempre ativos neste mundo, desejam perverter êste ins­
trumento para seus ímpios escopos; é encorajante saber que o vosso Comitê
está consciente do perigo e torna-se sempre mais consciente de suas graves
responsabilidades diante da sociedade e de Deus.
Cabe à opinião pública sustentar de todo o coração e efetivar todo esfôrço)
legítimo executado por homens de integridade e honra para purificar os fil­
mes e mantê-los limpos, para melhorá-los e aumentar-lhes as utilidades ( :i).

Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque


ambos os vocábulos têm a mesma etimologia; do latim “ modus” , quer dizer,
a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo. JVIas
a modéstia não é mais moda! Semelhantes àqueles pobres alienados que,
lendo perdido o instinto da conservação e a noção do perigo, se atiram 1 1 0
logo ou nos rios, não poucas almas femininas, esquecidas por ambiciosa vai-
olade, da modéstia cristã, vão miseràvelmente ao encontro de perigos onde
sua pureza pode encontrar a morte. Sofrem a tirania da moda, até a
da moda imodesta, de sorte que parecem não suspeitar mais, nem mesmo
ola desconveniência; perderam o próprio conceito do perigo, o instinto da
nmdéstia ( -1).

(1) Ii| k iiiii> ;iiih ( inr.inliis I II, A ., I I ilr ) 11 1


11 <>, I (H V
(I) I> Im i i i n i i , Itivcn lllilc (l . i At .. Io < . . i l ó l i i ,t, lt ile m ilu In n , l!M (l

IV!)
O INDIVÍDUO E O ESTADO
Onde so nega a dependência do direito humano ao direito divino, onele
nao se apela senão para uma idéia mal segura de autoridade meramenlo>
l.oMTCMia, emde se reivindica uma autonomia fundada apenas numa me>ral
utilitária, ali o próprio direito humano perde justamente, nas suas aplica­
ções mais gravosas, a sua fôrça moral, que é a condição essencial para ser
re*e-e>nheeido e para exigir sacrifícios, se forem precisos.
ÍJ preciso reconhecer: é verdade também que o poder assim alicerçado
e*m base tão frágil e oscilante, mercê de circunstâncias contingentes, pod<*
às vê/es conseguir sucessos materiais que assombram observadores não muito
profundos; mas há de chegar a hora em que triunfará a lei inelutável (|ue
fere tudo o que tenha sido construído sôbre uma latente ou clara ol<*s-
pmporção entre a grandeza do êxito material e exterior e a fraqueza olo
valor interior e da sua base moral. De proporção que subsiste sempre quan­
do a autoridade pública desconhece ou renega o domínio do Sumo Legis­
lador que, se dá o poder aos governantes, não deixa de assinalar-lhes e de>-
terminar-lhes os limites.
Quer o Criador que exista a soberania civil, para que regule a vida social
ole acordo com as prescrições de uma ordem imutável nos seus princípios
universais, para que torne mais fácil à pessoa humana, na ordem temporal,
o conseguimento da perfeição física, intelectual e moral, e para que a ajudo*
a conseguir o fim sobrenatural.
No)brc prerrogativa e missão dos estados é, pois, o fiscalizar, auxiliar e«
eirdenar as atividades particulares e individuais da vida nacional, fazemlo-
as convergir harmônicamente para o bem comum, que não pode ser dol.er-
minado por concepções arbitrárias, nem pode receber a sua norma prima­
riamente da prosperidade material da sociedade, mas sim do desenvolvi­
mento harmônico e da perfeição natural do homem, a quem, como nu-io,
é pelo Criador destinada a sociedade.
Considerar o Estado como fim a que tudo deve ser endereçado e subordi­
nado), seria o mesmo que prejudicar a verdadeira e duradoura prosperidade*
elas nações. E dá-se isto quando tal domínio ilimitado seja atribuído ao
Kstaelo, como mandatário da' nação, do povo ou mesmo de uma classe, ou
(|tiande) o Estado o pretende, como senhor absoluto, independentemente* ele
(|uale|uer mandato.
Com <*feito, se o Estado se arroga o uso e dispõe das iniciativas priva-
elas, o*sl.as, cujo govêrno tem suas bases em normas internas delio-ada". e
e'oniplo*xas, que garantem e asseguram o conseguimento do escopo c|iie* lliert
é próprio, vêem-se danificadas com desvantagem do bem público), pe>r ;;e*ivm
<loslae*adas do seu ambiente natural, ou seja, da responsabilidade ativa par-
t.ioMilar.
Também a primeira o* essencial célula da so)cieelade, a família, 0 * 0 1 1 1 e» seu
bem estar e* desenvolvimento, e*e>rroria então o risco de so*r e-onsidermla per
le*nt;a exclusiva do pode*r nacional, o,se|ue>o,o*ndo-so* assim oiue- o homem <* a
família sao, por natureza, ante*riores ao Kstado o* e|Uo* a ambos de*u o Cria

IMII
(I I'i imi l i u Ir 111'1 < 11n <> k n l i l l M l i ei , ( I r <) |i \r i l . l c m .111<I1<11< 1.1 t n n i <1 1 111.1 l l l i s <11■ I'I'|
(> ( l i c l c do « o v n i m l)i;isiU'iro, ;i<> (Icín;u' o V ; il i< ;m n .
olor forças e direitos, confiando-lhes também uma missão correspondente* às
i no-omtestáveis exigências naturais de cada um.
A educação das novas gerações não visaria um desenvolvimento equilibra­
d o e harmônico das fôrças físicas e de tôdas as qualidades intelectuais <>
morais, mas sim uma formação unilateral daquelas virtudes cívicas julga­
d a s necessárias para o conseguimento de sucessos políticos; ao contrário) de*i-
xariam de ser inculcadas aquelas virtudes que dão à sociedade o perfume'
ele* nobreza, de humanidade e de respeito, como se elas diminuíssem o l>rie>
olo cidadão.
Diante de Nossos olhos aparecem em tôda sua dolorosa clareza os pe*ri-
/•o>:; e|ue tememos possam advir a esta geração e às gerações futuras do olos
conhecimento, da diminuição e da progressiva abolição oios direitos próprios
da família. Por isto é que Nos erguemos em defensores de tais direitos, <•<»in
pleMia consciência do dever que Nos impõe o Nosso ministério ape>st«)Ií o m ».
A.s angústias dos nossos tempos, tanto interiores como exteriores, l.anlo
matoM-iais como espirituais, os múltiplos erros com suas inúmeras re*pe*r--
o-ur.sões, se há alguém que os experimenta amarissimamente é a minúse-ula
e* nobre célula familiar. É preciso, às vêzes, uma grande coragem e, na sua
Minplicidade, um heroísmo digno de grande admiração e respeito, para su­
portar as durezas da vida, o pêso cotidiano das misérias, as indige'ne*ias o*
e*stro>ilezas que crescem em medida jamais experimentada, e por ví*/.e*s som
ra/ao) nem necessidade. Quem se ocupa das almas e recebe as confidõne-ias
olos corações, bem conhece as furtivas lágrimas de muitas mães, a dor re­
signada de inúmeros pais, e as muitas amarguras, que nenhuma estai ístie*a
e-ila ne'm poderá citar, vê com verdadeira preocupação crescerem se*mpre*
mais o\sses sofrimentos, bem sabendo que as potências da subversão e> des­
truição estão vigilantes e prontas a servir-se disso para os seus te*ne*bre>sos
di'signios. Quem tenha um pouco de boa vontade e olhos abertos nãe> pode>rá
por e*e*rte> recusar ao Estado, nas circunstâncias extraordinárias cm e|tie* se*
acha o» inundo, um direito, mais amplo e excepcional, para ocorrer às ne-evs
Milaolo-s do povo. Mas a ordem moral, por Deus estabelecida, exige* Iam
bnn e>tn tais contingências que se indague com maior sutileza e seirio*elaol<*
<• lais pre>vidências são realmente necessárias, segundo as normas do bo-m
c m m im .
Km todo caso, quanto mais onerosos são os sacrifícios materiais pc'lo> Ks-
Ia<Io e*xigidos dos indivíduos e das famílias, tanto mais sagrados e invieilá
vns olovorn ser os direitos da consciência. Poderá pretender bons e sangue*,
nunca pe)rém a alma por Deus redimida. A missão que Deus confiem aos
pais olo* se* interessarem pelo bem material e espiritual da sua prole* o* ele*
dar a mesma uma formação harmônica e repassada de verdadeiro o*spirile>
irbrieiso, não lhes poderá ser arrebatada sem grave lesão do dire*ito. Ksl.a
lenmaçao) ele*vc certamente ter por escopo também preparar a juve-nfuel»*
paia cumprir ce>m inteligência, consciência e galhardia aquêles deve*ro*s ele*
palrmlismo (}ue dá à pátria terrestre a devida medida de amor, de' de*<lica
i no c e'*olabe>raçãe). Mas, por' emtra parte, uma formação que se cseiue*ça, ou
u <|ur e* pieir ainda, propositadamente elescure de dirigir e>s olheis o* o cora
e;iiei ela juventude* ]>ara a pátria sobrenatural, seria uma injustiça e*e>nfra a
|nve uluole*, uma injustiça cemtra os inalienáve'is deveres e dire*itos ela fami ■
lln cristii, um exe'0 'sse) a ()UCí se elevo remediar, mesmo e*m faveir ele» be*m
piililicei e> dei Kslaelo. Se*nie'lhante odue*açãe) pe>ele'ria pare*e,e*r àe|Ht*le>s <|ue* p»»r
« - 1 ii sao rrspenis/ive*is fonte* ele* maior feA >rça o* vigoir; na re*alieiaele* so*ria ei con
Ii/iiio e- as triste*s e,e)n::e*(|üe‘*ucia.1: e*ne*nrrogar-se?-iam oie* prová lo. O elclite»
dr le’MJt niaje<sl.aele* e,onlra ei Ite*i dos re*is e* e> Se,nheir oleis dnmiiiaeleire>s perpe
lindo por uma e,due,aç:io inelife*re*nte* e>u oMinfrárie) ao e*spirif.o eaisl.iio, a i n
vi imiii elo “ e!i>ixai <1 1 1 e> as e^riauças ve*nham a mim” , ae^arrclaria amaríssimoít

IH I
I 1 |.I , rin - II CloMniiul’.
frutos. Ao contrário, o Estado que tira aos dilacerados corações dos pais e
<las mães as suas preocupações e restabelece os seus direitos, mais não faz
o|iio< pmmovcr a própria paz interna e lançar as bases de um futuro mais
I V li/, para a pátria. As almas dos filhos que Deus deu aos pais, assinaladas
i mi batismo com o sêlo real de Cristo, são um depósito sagrado por Deus
viciado com cioso amor. O mesmo Cristo que disse “ deixai que as crianças
venham a mim” ameaçou também, nao obstante sua bondade e misericór­
dia, terríveis males àqueles que escandalizam os prediletos do seu coração.
K o|uo> escândalo mais nocivo e duradouro às gerações do que uma forma-
<;ao da juventude dirigida para uma meta que afasta de Cristo, caminho,
vo>rdado e vida, levando-a a uma simulada ou manifesta apostasia? Êste
CrisU) do qual querem alienar as gerações juvenis presentes e futuras, é o
mesmo que recebeu do seu eterno Pai o poder no céu e na terra. Em sua
m ao onipotente tem êle o destino dos Estados, dos povos e das nações. A êle
compete diminuir-lhes ou prolongar-lhes a vida, o desenvolvimento, a pros­
p e r i d a d e e a grandeza. De tudo o que existe sôbre a terra, somente a alma
!o>m vida imortal. Um sistema de educação que não respeitasse o recinto
•sagrado da família, protegido pela santa lei de Deus, que procurasse minar-
lhe oís alicerces, que fechasse à juventude o caminho que conduz a Deus, às
fontes de vida e de alegria do Salvador, que considerasse o apostatar de
Cristo e da Igreja como símbolo de fidelidade ao povo ou a uma determi­
nada classe, pronunciaria contra si mesmo a sentença de condenação, e expe­
rimentaria, a seu tempo, a inelutável verdade das palavras do profeta:
“ Aqueles que se afastam de vós serão escritos na terra” í 1).

(I) liiilillin "N iiin m l I ’<n 111f jt u n i u " , VMt l r n uliiliro , MIM) .

IH1
.!
SÔBRE A INICIAÇÃO SEXUAL
Repetidas vêzes, e a propósito de diversos problemas, insistimos sôbre a
santidade da família, sôbre seus direitos, finalidades, como célula funda­
mental da sociedade humana. Por isto sua vida, sua saúde, seu vigor, sua
atividade, asseguram, na ordem, a vida, a saúde, o vigor, a atividade olo*
tôda a sociedade. Da existência, da dignidade, da função social que lhe;
advém de Deus, a família deve responder ao próprio Deus. Seus direitos,
Meus privilégios são inalienáveis, intangíveis; ela tem o dever, antes de*
tudo, diante de Deus, e em segundo lugar diante da sociedade, de defcndo*r,
reivindicar, promover, efetivamente êstes direitos e privilégios, nao somente
e*m própria vantagem, mas para a glória de Deus, para o bem da coleti­
vidade.
Quantas vêzes cantaram-se louvores à mãe, considerada como o coração,
0 se)l da família! Mas se a mãe é o coração, o pai é a cabeça; a saúde o*
eficiência da fam ília dependem por isto em primeiro lugar da capacidade,
das virtudes, da atividade do pai.
I*ara o cristão está vigente uma regra que lhe consente fixar com certeza
:■ extensão dos direitos e dos deveres da família na comunidade do Estado.
Kla é assim concebida: a fam ília não é para a sociedade; mas a sociedaele*
é o|ue é para a família. A fam ília é a célula fundamental, o elemento que*
e'omstitui a comunidade estatal, já que, para usar a expressão mesma ele;
Nosso predecessor Pio X I, de feliz memória, “ a cidade é tal qual a faze*m
iim fmnílias e os homens de que é formada, como o corpo é formado) pelos
membros” . Em virtude, por assim dizer, do instinto de conservação, o Estaeloi
eleveria portanto cumprir o que, essencialmente e segundo o desígnio) olo*
1íomis Criador e Salvador, é seu primeiro dever: garantir, de modo absoluto
ou valores que asseguram à fam ília ordem, dignidade humana, saúde, feli-
c i elade. Êstes valores que são os elementos mesmo do bem comum, não pe>-
elerao jamais ser sacrificados àquilo que aparentemente poderia ser o be*m
<omurn. Indicamos, a título de exemplo, alguns que ameaçam muito hoje>:
;i inolissedubilidade do matrimônio; a proteção da vida antes do nascimento;
alojamento suficiente para as famílias compostas não de um ou dois filhos
ou lambem sem'filhos, mas para a família normal, mais numerosa; a possi­
bilidade de trabalhar, porque a desocupação do pai é a mais amarga misé-
i ia para a família; o direito dos progenitores sôbre os filhos, no que diz
respeite) ao Estado; a plena liberdade para os progenitores de educar os
IIIhos na verdadeira fé, e portanto, o direito dos progenitores católicos à
rne-oln católica; condições de vida pública tal que a família e sobretuelo a
|uvenfude* te*nham a certeza moral dc nao provir delas a corrução.
Sôbre* este* o emtms ponte>s ainda, que tocam mais pròximamente* a viela
r.innliiir, níio) existo e*ntre as famílias diferença alguma; sôbre outras ojiie*r: -
loe.s econômicas e* pe)lítio,as, pt*le> cemtrárie), pexlenn enevmtrar-se o*m e*ondi-
i.oi-í, bastante diversas, elisparatadas, o* por vêzes cm ee>neorrône’ia ou até
em contraste. Kxalameul.e aepii é pre*cis<> e*sfeirçar-se e os católioMis |.e*r;io
ile* dur o exemplo para promover oi equ i líbrio, ainda <|iie> sacrificando
miei t\'.:;e*M pari iculares visando a paz interna e> uma sã economia.

IM'»
Mas ( 1 1 1 ;u1 1<) aos direitos essenciais da família, os verdadeiros fiéis da
Ir.iv.in o*mpciihar-sc-ão até o fim para sustentá-los. Poderá acontecer que,
ik 1111 iMi ali, sôbre algum ponto sejam constrangidos a ceder diante da su-
pei imidado* de forças políticas, mas neste caso nao se capitula, suporta-se.
Alrm do mais, em casos semelhantes, é preciso que a doutrina seja salva,
que Iodos os meios eficazes sejam colocados em prática para chegar gra­
dua In u*nte ao> fim a que se nao renunciou.
Kntre i-stos meios eficazes, se não também imediatos, um dos mais poten-
I<*s •'* a união dos pais de família, firmes nas próprias convicções e unidos
na mesma vontade.
O u l . r o m e i o que não ficará jamais estéril ainda antes de obter o resul­
tado desejado e que, em falta ou na espera do sucesso que se continua a
p e r : ; e j ; u i r , traz sempre os frutos, é o cuidado, nesta coalizão de pais de
rimiilia, d e empenhar-se em iluminar a opinião pública, de persuadi-la a
po uco» o; pouco, de favorecer o triunfo da verdade e da justiça. Nenhum
es f ò r r o para agir sôbre ela deve ser descurado ou negligenciado.
Ila um campo no qual esta educação, esta sã orientação da opinião pú-
Micii s<> impõe com trágica urgência. Em tal setor ela foi pervertida por
uma propaganda que não se hesitaria chamar funesta, porque embora visan­
do atingir os católicos, os que a exercitam não percebem que inconsciente­
mente ostão» sendo enganados pelo espírito do mal.
(Queremos referir-nos a escritos, livros e artigos concernentes à iniciação
íiexual, que hoje obtêm muitas vêzes enormes sucessos de venda e inun­
dam todo o mundo, invadindo a infância, submergindo a nova geração, per­
turbando os noivos e os jovens esposos.
Com tôda a gravidade, atenção e dignidade que o argumento comporta,
n Igreja tratou o problema de uma instrução em tal matéria, qual aconse­
lham o»u exigem seja o desenvolvimento físico e psíquico normal do ado-
le.-.evnte, sejam os casos específicos nas diversas condições individuais. A
I gr ej a ciiin justo direito pode declarar que, no mais profundo respeito para
a santidade do matrimônio, em teoria e na prática, deixou livre os esposos
naquilo oiuc o impulso de uma natureza sã e honesta, sem causar ofensa
no Criador, consente.
Kio-a-se aterrorizado diante do intolerável descaramento de tal literatura:
ao passo que, diante do segrêdo da intimidade conjugal, até o paganismo
pareo-ia parar com respeito, hoje se assiste à violação do mistério e êle é
olerecido como espetáculo sensual e vivido ao grande público e até à ju-
venludo'. í: de se perguntar se permanece ainda suficientemente nítido o
limito entro esta iniciação — assim chamada católica — e a imprensa ou
iliist raçao eroUica e obscena, que deliberadamente se propõe a corrompo*r
ou npmvoMtar vergonhosamente, por vis interêsses, os mais baixos instin­
tos da natureza decaída.
Nao basta. Tal propaganda ameaça também o povo católico com dúplice
tia/1 ,elo, para nao usar uma expressão mais forte. Antes de tudo, exagera
a l e m da medida a importância e o significado, na vida, do elemento sexual.
Kmbora admitindo que tais autores, sob o aspecto puramente teórieo, so*
ma n t e m nos limites da moral católica, entretanto nem sempre é verdade
q u e sua maneira ole expor a vida sexual seja tal que nao formo, no inle
led o e no juízo prático do ‘ leitor, o significado e o valor de uma coisa,
como somkIo fim a si mesma. Faz perder de vista o verdadeiro fim primor­
dial do» matrimônio, (jue ó a procriação e educação da prolo1, o> o gravo* dever
dos esposos diante desta finalidade, que os escritos de que falamos deixam
muito na ohscMiridado*.
Km .segundo lugar o*sta, assim chamada, literatura nao paro*ce fo*r omii o*o>n
.•iidernçíio alguma a o*xpo*riêno*ia geral do* ontem, de ho»jo* e do* sempre, uma

IHI
vo>/. que, fundamentada sôbre a própria natureza, que atesta que na edu-
caçao moral nem a iniciação, nem a instrução, de per si, trazem alguma van­
tagem; que ela é gravemente danosa e prejudicial quando não está sòlida-
moMvte sustentada por uma constante disciplina, por um vigoroso domínio
olo* si, pelo recurso sobretudo às fôrças sobrenaturais da oração e dos sacra­
mentos. Todos os educadores católicos dignos dêste nome e da própria mis­
são) bem conhecem o concurso preponderante das energias sobrenaturais na
santificação do homem, as quais ajudam o adulto, solteiro ou casado. Sôbre
tudo> isto, em semelhantes escritos, diz-se apenas uma palavra, quando não
;;o‘ deixa tudo no silêncio. Os próprios princípios que em sua encíclica “ Di-
vini illius Magistri” o Nosso predecessor Pio X I tão sabiamente iluminou,
a propósito da educação sexual e dos problemas com ela conexos, são —
triste sinal dos tempos — colocados à parte com um simples gesto de mão,
o>11 com um sorriso. Pio X I, diz-se, escrevia estas coisas vinte anos atrás,
para a sua época. Desde então o mundo girou muito!
Pais de família, uni-vos — bem entendido, sob a orientação de vossos bis­
po>s — ; chamai em vosso auxílio tôdas as mulheres e mães católicas, para
«•oimbaterem unidos, sem incertezas e respeito humano, para fazer dique e
olestruir êstes movimentos, qualquer que sejam o nome ou a autoridade de
que se cobrem ou da qual tenham sido revestidos í 1).

(I) lihimio, |>11 In ilr I:in111 l.i 11 .im(»<■».


SÔBRE A INTERNACIONALIZAÇÃO
DO DIREITO PRIVADO
Quem, por pouco que tenha desfolhado a História da civilização e refle­
tido sôbre a natureza do Direito, não se maravilha pelo interêsse que a
Igreja jamais deixou de ter pelo Direito?
Em uma fórmula, cuja vigorosa concisão traz o sinal de seu gênio, Platão
fixou nos seguintes têrmos o pensamento latente no espírito de tôda a A n ti­
guidade: “ Deus é para nós, em primeiro lugar, a justa medida de tôdas as
coisas, muito além de quanto qualquer homem possa sê-lo” . Êste mesmo
pensamento ensina também a Igreja, mas em tôda a plenitude e profundi­
dade da verdade, declarando com São Paulo que tôda paternidade procede
de Deus; com isto afirma conseqüentemente que, para regular as recípro­
cas relações no seio da grande fam ília humana, todo Direito tem suas raí­
zes em Deus.
Eis porque a Igreja, refutando o positivismo jurídico extremista que atri­
bui ao Direito uma “ santidade” própria e quase autônoma, o auréola com
uma santidade mais verdadeira e sublime, e obriga, em última análise, todo
homem convicto de sua existência e da soberania de um Deus pessoal, à
fidelidade para com a lei.
A Igreja, pois, sendo um grande organismo social, uma comunidade su­
pranacional solidamente fundada, poderia talvez subsistir sem um Direito
determinado e preciso? Além destas considerações de uma lógica incontes­
tável, mas de ordem puramente natural, ela sabe estar sempre constituí­
da, pelo Divino Fundador, como uma sociedade visível provida de uma or­
dem jurídica e a base desta ordem, dêste estatuto jurídico, outra nao é
senão o direito divino positivo. Enfim, tôda a vida da Igreja, sua missão
de conduzir os homens a Deus, de promover a união dêles com Deus, encon­
tra-se, sem dúvida, na esfera ultraterrena, na esfera do sobrenatural;
ela é, em suma, algo que se desenvolve, imediatamente, diretamente entre
Deus e os homens. Sim, mas ao longo da estrada na qual esta função é exer­
cida, estrada que tende ao fim, Deus, todo fiel caminha como membro da
comunidade eclesiástica, sob a guia da Igreja, entre as condições particula­
res e concretas da existência. Ora, quem diz comunidade e guia de uma au­
toridade, diz potência do Direito e da lei.
Um simples olhar ao objeto do Direito internacional privado e à sua his­
tória, basta para deixar entrever a dificuldade de coordenação entre os di­
versos direitos.
Teriam podido, as gerações passadas, imaginar realizável, teriam podido
apenas conceber o progresso técnico das comunicações, que em tão breve
tempo aproximou todos os homens a ponto de tom ar literalmente exata a
expressão “ o mundo tornou-se muito pequeno?” . Em verdade, o mundo tor-
na-se pequeno e assim o será cada vez mais.
A lém do mais, a idéia pan-européia, o Conselho da Europa e outros m ovi­
mentos são uma manifestação da necessidade na qual nos encontramos de
romper, ou pelo menos suavizar, em política, em economia, a rigidez de>s

]8G
velhos esquemas dos limites geográficos, de formar entre os países grandes
grupos de vida e de ação comum. Bem ou mal poder-se-á também prescin­
dir de tôdas estas considerações práticas; mas pelas conseqüências inevitá­
veis da guerra e sob a pressão dos acontecimentos, a superpopulação de tais
regiões e a desocupação que disto resulta comportam, mediante a em igra­
ção e a imigração uma verdadeira mistura demográfica que, na próxima
metade do século, sobrepassará provàvelmente, e de muito, por sua impor­
tância, os êxodos para as duas Américas no curso dos últimos cento e cin­
qüenta anos. Como será útil então a coordenação dos direitos privados!
Será todavia sempre possível estendê-los ao seu inteiro âmbito, até mes­
mo por determinados grupos de Estados? Uma purificação radical seria em
tôda parte verdadeiramente vantajosa? Não é fácil afirm á-lo hoje. Não obs­
tante tudo, as condições econômicas, sociais ou de cultura geral poderiam
permanecer tão diversas em tais países que uma uniformidade atingindo
tôdas as nações e o complexo dos direitos privados não poderia talvez cor­
responder inteiramente às exigências do bem comum.
Como quer que seja, Nós recomendamos os três pontos seguintes: antes
de tudo, a proteção sempre mais cuidada às crianças abandonadas e às mu­
lheres que permaneceram sozinhas; sobretudo para estas os legisladores de­
veriam regular sua conduta, como os pais e mães de família. Em segundo
lugar, simplificação do regime jurídico de quantos, por motivos familiares,
:;ão constrangidos a afastar-se freqüente e periodicamente de uma cidade
para outra. Finalmente, reconhecimento e atuação direta e indireta dos
direitos inatos do homem, que, embora inerentes à natureza humana, foram
Nt>rnpre conformes ao interêsse comum, aquêles que devem ser tomados como
o'lomentos essenciais do próprio bem comum; pelo que o Estado tem o dever
dcí protegê-los, promovê-los, e de fazer de modo que em nenhum sentido
possam ser sacrificados a uma pretendida razão de Estado ( x).

(I) D im in uo (IO l.“ < <>11U11-1ti > lu t e i i i . ii In n u l lie D iir lto 1‘ i I v i h I o , I Ti <lc- j i i l l i o , l!)!>0.

IM7
A LUTA DE CLASSES
As duras condições presentes não pesam só sôbre a multidão dos operá-
rio>s, mais que os outros, oprimida e aflita; tôdas as classes compartilham
êsl.o* pôso>, umas mais penosa e molestamente que outras; e nem só o estado
soicial dos trabalhadores e trabalhadoras está pedindo alterações e reformas:
tôda a complexa estrutura da sociedade tem necessidade de ser restaurada
c melhorada, abalada profundamente como está na sua contextura. Quem
nao vê, porém, que a questão operária, pela dificuldade e variedade dos
problemas que implica, e pelo vasto número de membros que afeta, é tal
o> olo> tão grande necessidade e importância, que merece mais atento, v ig i­
lante e previdente cuidado? Questão delicada como nenhuma outra; ponto
no>vrálgico, por assim dizer, do corpo social, mas por vêzes também terreno
movediço e insidioso, exposto diante dos olhos da inteligência e do impulso
oIo coração, em face da doutrina de justiça, de eqüidade, de amor, de recí­
proca consideração e convívio, que a lei de Deus e a voz da Igreja reco­
mendam.
Vós certamente não ignorais que a Igreja vos ama enternecidamente, com
ardor e afeto maternal que não são de hoje, e que com vivo sentido da rea­
lidade das coisas examinou as questões que vos tocam mais de perto, os
Nossos predecessores e Nós mesmo, com repetidas doutrinações, não per­
dendo ocasião alguma para fazer compreender a todos as vossas necessida-
do'S e exigências pessoais e familiares, proclamando como postulados funda-
mo>nt.ais de concórdia social aquelas aspirações que vos estão tanto a peito:
um salário que assegure a existência da família e seja tal que torne possí-
vo>l aos pais o cumprimento do dever natural de cxúar prole sãmente alimen-
Inda o1 vestida; habitação digna de pessoa humana; possibilidade de dar
no:; filhos suficiente instrução e educação conveniente, de prever e adotar
providências para os tempos de escassez, doença e velhice. Há que levar
ao fim estas condições de previdência social, se se quer que a sociedade não
seja abalada de tempos a tempos por turvos fermentos e convulsões perigo­
sas, mas se pacifique e progrida na harmonia, na paz e no mútuo amo>r.
1 ’oi:; bem, por mais louváveis que sejam as diversas providências e con-

ovssoes olois poderes públicos e o sentimento humano e generoso quo' anima


na<> poucos patrões, quem poderá assegurar e defender que tais propósitos
so* reali/aram por tôda parte? Em todo caso os trabalhadores e trabalhaolo»-
rȟ, o*onscientes da sua grande responsabilidade no bem comum, sentem e
penderam o dever de não agravar o pêso das extraordinárias difiouldado>s
o|iio‘ oprimem o>s povos, apresentando clamorosamente e com movimentos
impruolentes as suas reivindicações nesta hora de universais e impo>rio>san
nooo>ssiolado‘s; mas persistam no trabalho e perseverem nêlo' com diso'iplina
e calma, pivstando apoio inestimável à tranqüilidade e proveito do> todos
na vida social. Nós damos o Nosso elogio a essa pacifica concórdia olo« ani
mii;i (« vos conv idamos o» exortamos pato'rnahnento* a perso‘verar nela o m h u
lii nie-za o digniolaolo1, o o|iie conl.udo nao do>vo‘ induzir alguém a pensar, rmiiii
já o notamos, ojue se hajam cotmo resolvidas tôdas as o(uo‘stoes.

IMH •
A Igreja, guarda e mestra da verdade, ao asseverar e propugnar cora­
josamente os direitos do povo trabalhador, combatendo o êrro em várias
ocasiões, teve de prevenir-nos contra o perigo de nos deixarmos iludir pela
miragem de especiosas e vãs teorias e visões de bem-estar futuro e pelas
ardilosas seduções e incitamentos de falsos mestres de prosperidade social,
que chamam ao mal bem e bem ao mal, e que, vangloriando-se de ser ami­
gos do povo, não consentem, entre o capital e o trabalho, entre patrões e
operários, os mútuos acordos, que mantêm e promovem a concórdia social
para o progresso e a utilidade comuns.
Êstes amigos do povo, vós os ouvistes já nas praças, nos círculos, nos
congressos; lêstes suas promessas em fôlhas avulsas; ouviste-os nos seus
cantos e nos seus hinos; mas quando é que às suas palavras correspetnde-
r am os fatos ou às suas esperanças as realidades? Enganos e desilusões é
o que experimentaram e experimentam os indivíduos e povos que lhe*s
deram fé e os seguiram por caminhos que, longe de melhorar, pioraram o>
agravaram as condições de vida e de progresso material e moral. Êsses Fal­
sos pastores fazem crer que a salvação deve vir de uma revolução, que;
transforme a consistência social ou se revista de caráter nacional.
A revolução social orgulha-se de levar ao poder a classe operária: vã
palavra e mera aparência de realidade impossível! De fato vêdes que et povo
trabalhador permanece ligado, subjugado e vinculado à fôrça do capita­
lismo de Estado, que oprime e sujeita a todos, tanto as famílias como as cons­
ciências, e transforma os operários numa gigantesca máquina de trabalho.
Não diferentemente de outros sistemas e organizações sociais, que pretendo*
combater, êle tudo agrupa, ordena e constringe a formar um espantoso ins­
trumento de guerra, que exige não só o sangue e a saúde, mas também eis
bens e a prosperidade do povo. E ainda que os dirigentes se vangloriem
elesta ou daquela vantagem ou melhoria conseguida no campo do trabalhe»,
ponderando-a e difundindo-a com clamorosa jactância, êsse proveito mate­
rial nunca chega a compensar dignamente as renúncias impostas a tetelos o*
que lesam os direitos da pessoa, a liberdade na direção da família, no exer­
cício da profissão, na condição de cidadão, e sobretudo na prática da redi­
gi ão e até na vida da consciência.
Não, não está na revolução a vossa salvação; e é contrário à genuína e*
sincera profissão cristã o tender — pensando só no proveito próprio, exclu­
sivo e material, sempre incerto — para uma revolução que proco-da da
injustiça e da insubordinação civil, e o tornar-se tristemente culpáve-l elo
sangue dos compatriotas e da destruição dos bens comuns. A i de quem e*s-
e|uece que uma verdadeira sociedade nacional inclui a justiça social o* e*xige*
uma eqüitativa e conveniente participação de todos os bens do> país! j ’<tr­
eine, dc outro modo, já vêdes que a nação acabaria por ser uma ficção se*n-
timental, um pretexto fátuo, paliativo de grupos particulares para subtrair
se* aos sacrifícios indispensáveis ao equilíbrio e à tranqüilidade públie-a. K
<lo'scobrireis então como, menosprezando no conceito da sociedade1 nae-ional
a nobreza que Deus lhe outorgou, as rivalidades e lutas intestinas se* con
veTteriam numa temível ameaça para todos.
Naot é na revolução, mas na evolução harmoniosa que está a salvaçao e*
a justiça. A viotlência nunca fôz mais quo destruir em vo*z de o-onstruir:
re\-ice'nder as paixões cm vez de as apaziguar; acumular óoliots o* minas «*m
vez elo* irmanai1 os contendotres; c pree-ipitnu ets homens e os partidos na dura
no<e-(*ssielade de* reeetnsl ru ir lentamente, de*pois do* provas eletloretsas, sôbre* as
minas da disce'trdia. Só uma ('voluçáo progressiva o* pmole-iite*, e-eirajosa e
conso*nl.ân('a o-om a natureza iluminada o* guiaela pe*las santas normas cris
Ias ole justiça o* do* (*o|iiidado>, poelo* lo*var à salisfaçao dos ele*sejos e* das ue*ces-
M i l a d e - s lutneslas ele» operái io.

Iit‘ l
Nada, pois, de destiuir, mas de cdificar e consolidar; nada de abolir a
pmpriedade particular, fundamento da estabilidade da família, mas promo-
vo*r a sua difusão como fruto do trabalho consciencioso de todo trabalhador
ou trabalhadora, de modo que vá diminuindo gradualmente essa massa de
povo irrequieto e audaz que, umas vêzes por tétrico desespêro, outras por
o-o'^o> instinto, se deixa arrastar por todo vento de falsas doutrinas ou por
artes astuciosas de agitadores sem consciência. Não dispersar o capital par-
I io-u Inr, mas fomentar a sua organização, prudentemente vigiado, como meio
o» apoio para obter e ampliar o verdadeiro bem material de todo o povo.
Nao) coarctar nem preferir exclusivamente a indústria, mas procurar a sua
harmônica coordenação com o artesanato e a agricultura, que fazem fruti­
ficar a multiíorme e necessária produção do solo nacional. Não ter em
mira, no uso dos progressos técnicos, unicamente o maior lucro possível,
mas dos frutos que dêles se colhem melhorar também as condições pessoais
do operário, para tornar menos árdua e dura a sua fadiga e fortalecer os
vínculos da família, na terra em que habita, no trabalho de que vive. Não
pretender que a vida do indivíduo dependa totalmente do arbítrio do Es­
tado, mas antes procurar que o Estado, cujo dever é promover o bem
roímum por meio de instituições sociais, como são as sociedades de seguros
o* de previdência social, supra, secunde e complete o que ajuda a fortalecer
na sua ação as associações operárias, e especialmente os pais e as mães de
família, que com o trabalho asseguram a própria vida e a dos seus.
Direis talvez que esta é uma formosa visão da realidade; mas como se
poderá levar à prática e dar-lhe vida no meio do povo? É mister antes de
tudo grande probidade na vontade e perfeita lealdade de propósitos e do;
açáo na marcha e no govêrno da vida pública, tanto por parte dos cida-
oláo)s como das autoridades. É mister antes de tudo que o espírito de con-
córolia e fraternidade anime a todos, superiores e inferiores, diretores e ope­
rários, grandes e pequenos, numa palavra, tôdas as categorias do povo í 1)-
* * *

O homem é imagem de Deus uno e trino, e portanto também êle pessoa,


irmao) do Homem-Deus Jesus Cristo e com êle e por êle herdeiro de uma
vida eterna: eis qual é a sua verdadeira dignidade.
Se algum homem no mundo deve convencer-se e impregnar-se sempre
mais desta verdade, êsse homem é o trabalhador. Afirm ou-se já, desde mui­
to ü'mpo e se continua a afirmar que a religião torna o trabalhador frao-o
o» relaxado na vida cotidiana, na defesa dos seus interêsses privados e pú­
blicos, que ela, como o ópio, o adormenta, aquietando-o inteiramente com
a esperança de uma vida eterna. Manifesto êrro! Se a Igreja em sua dou
trina social insiste sempre sôbre o resguardo devido à íntima dignidade do
ho>nio'Tn, se ela requer para o operário no contrato de trabalho o justo salá­
rio, se exige para êle uma eficaz assistência em suas necessidades mentais
o> espirituais, qual é o motivo disto, senão que o trabalhador é uma pessoa
humana, oiue sua capacidade de trabalho não deve ser considerada o tra ­
tada como uma “ mercadoria” , que sua obra representa sempre uma contri­
buição) pessoal?
IVoTisamentc aquêles r.enovadores do mundo, que reivindicam para si oui
oMiidados dos interêsses dos operários quase como um seu monopólio o> olo>-
odaram quo seu sistema é o único verdadeiramente “ social” , não tutelam a
dignidade pessoml do» trabalhador, mas fazem da capacidade produtiva olde
um simples o)bjeto>, do qual a “ sociedade” dispõe a plena vontade o> a mlciioi
arbitrio.

(I) Itlm IIIHO liou U rp irsn iC m lr» tio» T i .iliitllim linn i lln ü .m i» , I !t ilc |ii nlin, MHM.

IMO
A Igreja diz que a liberdade humana tem os seus limites na lei divina
(' nos múltiplos deveres que a vida traz consigo; mas ao mesmo tempo» cia
.se dispõe, e dispor-se-á até ao último, a fim de que todos, na felicidade' olo»
lar e em uma tranqüila e honesta condição, possam viver os seus dias em
paz com Deus e com os homens. A Igreja não promete essa absoluta igual­
dade que outros proclamam, porque sabe que a convivência humana produz
sempre e necessàriamente tôda uma escala de gradações e de diferenças tias
(jualidades físicas e intelectuais, nas disposições internas e tendências, nas
ocupações e nas responsabilidades. Mas em igual tempo ela assegura a ple*na
igualdade na dignidade humana, como também no Coração dAquêle; e|iio
chama a si todos os que estão fatigados e oprimidos, e os convida a teimar
sôbre si o seu jugo, para encontrar paz e repouso para suas almas, pe»re|ue
o seu jugo é suave e o seu pêso é leve.
Dêste modo, para tutelar a liberdade e a dignidade humana, e não para
favorecer os interêsses particulares dêste ou daquele grupo, a Igreja ivpele
Iodos os totalitarismos de Estado, bem como não debilita, com as prem is­
sas do além, a justa defesa dos direitos dos trabalhadores sôbre a torra.
Antes, são aquêles reformadores do mundo, aos quais já mencionamos, (|tto',
o-nquanto fazem brilhar aos olhos do povo a miragem de um futuro do o|tti-
tnéricas prosperidades e de inatingíveis riquezas com a superstição da téeniewi
e* da organização, sacrificam a dignidade da pessoa humana e a felicidade*
doméstica aos ídolos de um mal entendido progresso terreno.
A Igreja, experimentada educadora da humana família e fie l à missíío *
ojiio

lhe foi confiada pelo seu divino Fundador, proclama a verdade da únie*a
perfeita beatitude que nos está preparada no céu. Mas exatamente por isto»
põe os fiéis sólida e potentemente sôbre o terreno da realidade presente*.
I\>is que o Juiz supremo, que nos espera no têrmo desta vida terrestre sôbre*
o limiar da eternidade, exorta a todos, no alto e embaixo, a usar cotiscie*n-
oiosamente os dons recebidos de Deus, evitar tôdas as injustiças e tirar pm-
vo*ito de tôda ocasião para obras de amor e de bem. Tal é a única rm*dida
olo todo verdadeiro progresso, porque então somente êste é genuíno o* não»
fictício, se é também progresso para Deus e na semelhança com Êle. Tôda:;
as medidas puramente terrenas do progresso são uma ilusão, estaremos para
eli/cr uma irrisão do homem no meio do mundo, que está sob a lei do pe*
oado original e de suas conseqüências, e que por isto, embora também com
as luzes e a graça divina, é imperfeito, sem elas, sem esta luz e sem e*st.a
r.raça, cairia em um abismo de miséria, de injustiça e de egoísmo.
Somente esta idéia religiosa do homem pode conduzir a uma única com-
e^pção de suas condições de vida. Onde Deus não é princípio e fim, o n d e *
a ordem de sua criação nao é para todos guia e medida da liberdade* o* ela
ao;áo), a unidade entre os homens é irrealizável. As condições materiais da
vida e do trabalho, tomadas em si mesmas, não podem constituir o funda­
mento da unidade das classes trabalhadoras sôbre base de uma afirmaeln
uniformidade de interêsses. Não significaria talvez isto um violentar a 1 1 a -
luro*/.a e nao criaria somente novas opressões e divisões na família humana,
o‘tn um momento no qual todo trabalhador honesto aspira a uma o»rde*m
justa o* pacífica, na economia privada e pública e em tôda vida soo*ial?
Todo legitime» poder sôbre os homens não pode ter origem e oxist.éne*ia
nonae> do poder (VAqiado, que pc»r sua natureza possui tal onipotência no
eén o* na terra, so*m limites do tempo e ele espaço»; Jesus Cristei, ojtie* olomina
itbre* os grandes de» mundo, o» qual nos ama e* nos re*dimiu do pe*cade> com
i» nomi sangue»; aei qual se*ja olada glória o império» pelos séendos ( “ ).

ItUiiiimi .mi I i.11>.111i.i11< m II.ii, íll (Ir nnl iiIho, MlIH

rn
O MATRIMÔNIO
.1 1 1 / 4 0 do graça é o sacramento do matrimônio, que diante do sacerdote c
olo altar ole Cristo une em uma só vida duas pessoas, por meio de um vín ­
culo indissolúvel (* ).
# # *

() vinculo) conjugal é uno. Olhai no paraíso terrestre, primeira imagem


olo paraíso familiar, o primeiro vínculo estreitado pelo Criador entre o ho­
mem e a mulher, do qual o Filho de Deus encarnado dirá um dia: “ Quool
l)o>us eemiuxit, homo non separet: Aquilo que Deus uniu, o homem não
lento separar” ; porque “ iam non sunt duo, sed una caro: não são mais dois,
mas uma só carne” . Naquela união dos nossos progenitores no jardim das
olo‘licias, é todo o gênero humano, todo o curso venturoso das gerações, as
o|iiais encherão a terra e lutarão por conquistá-la, e com o suor da fronte
elominá-la-ão para lhes dar um pão banhado na amargura da primeira
culpa nascida no fruto violado do Éden. Por que Deus reuniu no paraíso
o homem e a mulher? Não sòmente para que guardassem aquêle jardim
olo felicidades, mas também para que, diremos com as palavras do grande
Doutor de Aquino, pelo matrimônio estavam ordenados ao fim da geração
o* ola educação da prole, e além disto a uma comum vida de família.
Na unidade do vínculo vê-se impresso o sigilo da indissolubilidade.
sim, um vínculo ao qual a natureza inclina, porém não causado necessária-
nio*nto* pelos princípios da natureza, pois se executa mediante o livre arbí­
trio): mas a simples vontade dos contraentes, se o pode contrair, não o poele>
dissolver. Isto vale não sòmente para as núpcias cristãs, mas em geral para
todo matrimônio válido que tenha sido contraído sôbre a terra pelo con­
senso mútuo dos cônjuges.
Mas se a vontade dos esposos não pode mais dissolver o vínculo de> m a­
trimônio), poderá talvez fazê-lo a autoridade superior aos cônjuges, estabe-•
lee'ida pe>r Cristo para a vida religiosa dos homens? O vínculo do matrimô­
nio oM-istão é tão forte que, se já atingiu a sua plena estabilidade com r> u;;<>
deis diivifos conjugais, nenhum poder no mundo, nem mesmo o Nosse>, o ele*
Vigário) do Cristo, pode rescindi-lo. É verdade qüe nós podemo>s reconhecer
e1 declarar que um matrimônio, contraído como válido, em realidade é nulo»,
por e-ausa olo» algum impedimento dirimente ou por víciò essencial olo e-e>u
:;on,se> ou dofeito de fe>rma substancial. Podemos também em doteM-minados
caso is, por graves mo)tivos, dissolver matrimônios privados do earáte>r sae*ra
mental. 1 ‘odomos até, se há uma justa e proporcionada causa, dissolver o
vino'ulo olo ospeisos eristão)s, e> sim por êles pronunciados diante; ele> aliai,
(|tiando e-emste* quo não teniha chegado ao seu cumprimento com a re>alizne:ao
ela o’onvivência matrimemial. Mas, uma vez quo isto acontrevu, aoiuele1 viu
eu Io permanece subtraído a quale|iior ingerência humana. Náe> reconelu/.iu
peirventura Criste> a comunhão» matrimonial ào|iie'la fundamental elignioliulo'

(I) D U oiiim i .Ktn < ’i |himiii, IM il e 1111110,11, M IC.!


que o Criador na manhã paradisíaca do gênero humano lhe havida dado,
a dignidade inviolável do matrimônio uno e indissolúvel?
Jesus Cristo, Redentor da humanidade decaída, não tinha vindo para tirar,
mas para cumprir e restaurar a lei divina; para certificar, como legislador,
mais do que Moisés, como sábio, mais do que Salomão, como profeta, mais
do que os profetas, quanto fôra predito dêle, preanunciado semelhante a
Moisés, suscitado entre a gente de Israel, sôbre cujos lábios o Senhor teria
colocado sua palavra, enquanto quem não o houvesse escutado seria oxtor-
minado, fora do povo de Deus. Por isto Cristo, com a sua impreterívol pa
lavra, elevou no matrimônio o homem e reelevou a mulher, que segunolo
os antigos tinham abaixado a serva e o mais austero censor de Roma tinha
equiparado a “ natureza desenfreada e indômito animal” ; como o Redeutoir
mesmo tinha reerguido em si não somente o homem, mas também a mulher,
tomando de uma mulher a natureza humana e sublimando sua mãe, ben
dita entre tôdas as mulheres, a espelho imaculado de virtude e do graça
para tôda família cristã através dos séculos, coroada no céu Rainha olos
anjos e dos santos.
Jesus e Maria com a sua presença santificaram as núpcias de Caná; lá
o) divino Filho da Virgem fêz o primeiro milagre, quase para demomstrar,
antes do tempo, o início de sua missão no mundo e o Reino de Dous ola
santificação da fam ília e da união conjugal, origem da vida. Lá começotu
a elevação do matrimônio, o qual deveria erigir-se no mundo sobrenatu­
ral dos sinais, que produzem a graça santificante, a símbolo da união> olo*
Cristo com a Igreja; união indissolúvel e inseparável, nutrida daquele amor
absoluto e sem fim, que brota do Coração de Cristo. Como poderia o amor
o-onjugal ser e dizer-se símbolo de tal união, quando fôsse delibcradamo>nl.<*
limitado, condicionado, solúvel, quando fôsse uma flama de amor sònu-nto*
no tempo? Não: elevado à excelsa e santa dignidade de sacramento, amol
olado e colocado em tão íntima conexão com o amor do Redentor- e com a
obra da redenção, não pode ser e afirmar-se senão indissolúvel c perpétuo».
Diante de tal lei de indissolubilidade, em todos os tempos as paixões hu ­
manas, por ela freadas e reprimidas na livre satisfação de seus dcsordo*na
dois apetites, procurou de todo modo sacudir o jugo, não querendo nola vo*r
senão uma dura tirania agravando arbitrariamente a consciência com um
pêso insuportável, com uma escravidão repugnante aos sagrados direitos ola
pessoa. É verdade, um vínculo pode então constituir um pêso, uma so>rvi-
olão, como as cadeias que apertam um prisioneiro. Mas podo ser também
um potente socorro e uma segura garantia, como a corda que prende o alpi­
nista aos seus companheiros de ascensão, ou como os ligames que unem as
partes do corpo humano e o tornam expedito e franco nos seus moivimen
tos; portanto é bem o caso do vínculo indissolúvel do matrimônio.
Esta lei de indissolubilidade aparecerá e será entendida como maniles-
tação de vigilante amor materno, especialmente se olhada naquela luz so-
broMurtural em que Cristo a colocou. Em meio das dificuldades, olois aborre-
eimontos, da cupidez que a vida talvez semeará, as duas almas, t;io> insopa-
ràvolmentc unidas, não se encontrarão só nem desarmadas: a o>nipo>to*nt«•
graça de Deus, fruto do Sacramento, estará com êles constanternoMite, para
.sustentá-los em tôdas as dificuldades, sustentando sua debilidade, suavi -
zandoi oi sacrifício, confortando-os e consolando-os no proiloingar-so das pro>-
vas, ainda nas mais duras dificuldado's. So; poir oboolocor à lei diviiri :;erá
pivriso afastar as lisonjas das alegrias torroMias entiw istas na hora da I.o m i
tação, renunciar a “ tvfazoT-se na vida” , a /traça so*rá ainda mais lorto* para
chamar o»m toioloi :;o*u ro*It'*v<) oi ensinamento da fé: quo1 so'> a vorolaolo*ira vida,
o|iie« jamai.s olo've .ser posta ole lado, é a do céu, a o|iio> pro'ci:;amoiilo> lar,
roMiúncias, por penosas opie sejam, asseguram, renúncias opio' sao, o-omo Iodou,

Pil
ois aeointccimentos da vida presente, algo de provisório, destinado simples-
íuoMite a preparar o estado definitivo da vida futura, a qual será tanto mais
leliz cí radiosa, quanto mais corajosa e generosamente foram aceitas as ine­
vitáveis aflições do caminho daqui debaixo ( 2).

* * *

Como contrato indissolúvel, o matrimônio tem a fôrça de constituir e vin-


o-ular os esposos em um estado social e religioso, de caráter legítimo e per-
ptHuo, com esta superioridade sôbre todos os outros contratos: que nenhum
poder no mundo — no sentido e no âmbito por nós outras vêzes exposto
é capaz de rescindi-lo. Em vão uma das partes pretenderia desvincular-
se: o) pacto violado, renegado, lacerado, não afrouxa a sua ligação; conti­
nua a obrigar com o mesmo vigor, como no dia em que o consenso dos con-
traentes o firmou diante de Deus: nem mesmo a vítim a pode ser desvin­
culada da ligação sagrada que a une àquele ou àquela que a atraiçoa. Tal
vínculo não se desata, ou melhor, não se rompe, a não ser com a morte.
A fidelidade diz algo de mais potente, de mais profundo, mas algo de
mais delicado e de infinitamente mais doce. Já que, unindo o contrato matri­
monial os esposos em uma comunhão de vida social e religiosa, ocorre que
êste determine com exatidão os limites entre os quais obriga, que recorde
a possibilidade de uma coalizão exterior à qual uma das partes possa recor-
rer para constranger a outra no cumprimento dos deveres livremente assu­
midos. Mas enquanto estas determinações jurídicas, que estão como o corpo
material do contrato, lhe dão necessàriamente quase um frio aspecto fo r­
mal, a fidelidade é como que a alma e o coração, a prova aberta, o teste­
munho claro.
Embora mais exigente, a fidelidade muda em doçura aquilo que a pre­
cisão jurídica parecia imprimir de rigoroso e austero ao contrato. Sim, é mais
<>xi gente; porque ela julga infiel e per juro não só quem tenta com o divór­
cio, inutilmente e sem resultado, quebrar a indissolubilidade do matrimônio,
mas também quem, embora sem destruir materialmente o lar por êle fun­
dado, embora continuando a comunhão do viver conjugal, se permite contrair
o* manter paralelamente outro criminoso vínculo; infiel e perjuro que, em-
bora so?m contrair relação alguma ilícita durável, dispõe ainda que por uma
mó vez, para prazer de outros ou por própria egoística e pecaminosa satis­
fação), de um corpo — para usar a expressão de S. Paulo — sôbre o qual
to'in só direito o espôso ou a espôsa legítima. Mais exigente ainda e mais
oh>licada do que esta estrita fidelidade natural, a verdadeira fidelidade cristã
olomina e se projeta mais além; ela reina e impera, amorosamente sobe-
rana, sôbre tôda a amplidão do domínio real do amor.
Realmente, que é a fidelidade senão respeito do dom, que cada espôso
lez ao outro, dom de si, do seu corpo, de sua mente, de seu coração, para
o curso ola vida inteira, sem outra reserva que os direitos sagrados de Deus?
I. O frescor da juventude em flor, a honesta elegância, a espontano-iolaolo'
e a <lelio*ado‘za dos modos, a bondade interior da alma, todos ôstes bom::
o* belos atrativos, que plaSmam o fascínio indescritível da infância cánoliola
c> pura, têm comquistado o coração do jovem e o fazem tão inclinado a o-la
o’om o) ardor de um amor ardente e casto, e procura-se em vão c>m tôda a
nalnn*za uma imagem que possa exprimir aproximadamente um omcanlo
Iao» indo>:;cril.ívo,l. Po>r sua vez a jovem amou a belo>za viril, o o>lhar ole.;a:i
Nombraolo e ro'toi, o passo firmoí o> resoluto doi homem, so)b cu jo braço vij',o> ■
(V!) I i Ih i i i i i o sins c u p o i o * . 1*1 i l r .ilu ll, I'M1*.

I«)| . '
roso apoiará, ao lado dêle, sua mão delicada ao longo do caminho áspero da
vida.
Nesta primavera radiosa o amor sabia exercitar sôbre os olhos o sou
poder fascinante, dar aos atos mais insignificantes um extraordinário es­
plendor, velar ou transfigurar as óbvias imperfeições. Quando a promessa,
ao mudar-se em fato, foi trocada diante de Deus, os esposos deram-se um
a outro, na alegria natural, mas santificada, de suas uniões, com a nobre?
ambição de uma plena fecundidade. É esta talvez a fidelidade em todo o
seu fulgor? Não: ela ainda nao deu as suas provas.
Mas os anos, passando sôbre a beleza e os sonhos da juventude, rouba­
ram-lhe um pouco do esplendor, para dar em lugar disto uma dignidaele;
mais austera e séria. A família, crescendo, tornou mais penoso o pêso e|iu*
cai sôbre os ombros do pai. A maternidade, com os seus sofrimentos, seus
sacrifícios e riscos, pede e exige coragem; a espôsa sôbre o campo de ho>nra
do dever conjugal nao deve ser ou demonstrar-se menos heróica quo* e>
espôso sôbre o campo da honra e do dever civil, onde oferece à pátria o
dom de sua vida. Que se sobrevêm o afastamento, a ausência, as separaçõev;
forçadas, da qual igualmente falamos há pouco, e outras delicadas circuns­
tâncias, que obrigam a viver na continência, então, lembrados que o corpo»
de um é bem do outro, os esposos cumprem sem hesitar o dever com sua:;
exigências e suas conseqüências, sustentam com coração generoso, sem de*~
bilidade, a disciplina austera que a virtude impõe.
Quando finalmente com a velhice se multiplicam as doenças, a enfer­
midade, as quedas humilhantes e penosas, todo o cortejo de moléstias quo»,
sem a fôrça e o sustentáculo do amor, tornariam repugnante aquêle corpo»,
outrora sedutor, prodigalizam-se, com sorriso nos lábios, os cuidados da ter­
nura mais delicada. Eis fidelidade no dom recíproco dos corpos.
2. Nos primeiros encontros, no tempo de namôro, muitas vêzes tudo» o*ra
encantador: um prestava ao outro, com não menor sinceridade do quo» in ­
gênua ilusão, um tributo de admiração, do qual aquêles que eram testemu­
nhas sorriam com complacência e indulgência. Não olheis muito aquelas
pequenas querelas que, segundo o profeta latino, são mais sinal de amor:
“ non bene, si tollas proelia, datur amor” . Era a plena, absoluta comunhão»
de idéias e de sentimentos, na ordem material e espiritual, natural e sobre >-
natural, a harmonia perfeita dos caracteres. A expansão da alegria o do»
amor dava aos seus colóquios uma franqueza, uma vivacidade, um tom que
fazia cintilar o espírito, brilhar agradavelmente o tesouro de conhecimento»
que podia possuir, tesouro por vêzes bem exíguo, mas que tudo contribuía
para valorizar. É atrativo, é entusiasmo; não se trata ainda da f i de l i daol oí .
Passa tal estação; as faltas não tardam a aparecer, a disparidade de cará
ter a se notar, a aumentar, talvez também a pobreza intelectual a tornar-
se mais clara. Os fogos de artifício se apagaram, o amor cego abre os olhos,
permanece desiludido. Então para o amor verdadeiro e fiel tem início» e>
perigo, e ao mesmo tempo o seu encanto. Não cego, bem percebe cada uma
destas faltas, mas as toma com afetuosa paciência, consciente como está do;
seus próprios defeitos: mais clarividente ainda, procura descobrir e apre*-
ciar, sob as aparências vulgares, as qualidades de juízo, de botn-senso. ole
solícita piedade, ricos tesouros obscuramente escondidos, mas de boa li/fa.
Solícito por colocar em plena luz e em valor êstes dons (' estas virt.i 1 0 1 < d o
ovipírito, não ó menos hábil e vigilante em dissimular aos o)lhos dos outros
as lacunas o as sombras da inteligência ou do saber, as bizarrias e>u aspe*-
ivzas do caráter. Às expressões errôneas ou iuopeirtunas procura-se* uma
iute*rpretaç;i<> benigna o* fave>ráve*l, sempre* cnnt(*nle qunnele» eneemtra nlj'.u -
ma. Eis o1 uo* so* olo*ve* se*r premte» o*ru vo*r tuolo o|i io* une o* ro‘úne e* 1 1 , 1 0 n<|iiilo
o|ue• divide*; preinlo» e*m re*lil'ie*ar e|uaie|Ue*r e-rro e»u dissipar o|uale|ue*r ilusão,

l')'.
oMtm tanta boa graça, que não aborreça, nem jamais ofenda. Longe de fazer
tlo‘ino>nstração de sua superioridade, sua delicadeza interroga e pede o con-
::o'lh<> da outra parte, deixando aparecer que se alguma vez deve dar, goza
lambém em receber. De tal modo não vêdes vós como se estabelece entre
os orsposos uma união de espíritos, uma colaboração intelectual e prática
quo* <>:; faz subir um e outro para as verdades nas quais reside a unidade,
paia a verdade suprema, para Deus? Que é isto senão a fidelidade no dom
mútuo) de suas mentes?
:í . O s corações doaram-se para sempre. Para o coração, para o coração
Noíbreludo, era potente o ímpeto que uniu os jovens esposos; para êle tam-
bo-m, o sobretudo para êle, a desilusão quando vem, é amarga, porque o cora­
ção > ó o elemento mais sensível, mais cego do amor. E também quando o
amoir sobrevive intato às primeiras provas da vida conjugal, a sensibilidade
podo enfraquecer e perder, às vêzes até perde necessariamente alguma
chama do seu ardor e do seu predomínio excessivo e fàcilmente ilusório. Ora
a constância e a perseverança do amor, na atuação cotidiana do dom recí­
proco, e a necessidade na prontidão e na plenitude do perdão, quer ser a
po-dra de toque da fidelidade.
Se desde o princípio existiu verdadeiro amor e não somente procura
o>go)ísta de satisfação sensual, êste amor imutável do coração vive sempre
jo>vem, não mais vencido pelos anos que passam. Nada é tão edificante e
encantador, nada comove tanto como o espetáculo daqueles venerandos côn­
juges, cujas bodas de ouro têm em sua festa algo de mais calmo, mas tam­
bém de mais profundo, queríamos dizer de mais terno, do que daquela ju-
voMitude. Cinqüenta anos transcorreram sôbre o amor dêles: trabalhando,
amando, sofrendo, rezando, juntos aprenderam a melhor conhecer-se, a des­
cobrir um no outro a verdadeira bondade, a verdadeira beleza, a verda­
deira pulsação de um coração devoto, a adivinhar ainda mais aquilo que
pode dar prazer ao outro; donde aquêles desvelos, aquelas pequenas impro­
visações, aquêles inumeráveis pequenos nadas, onde poderia apenas ver uma
criancice, somente quem não soubesse descobrir a grandiosa e bela digni-
dado de um imenso amor. E esta é a fidelidade no mútuo dom dos cora-
ço>es ( ;l).
# * *

I'assou o tempo no qual as meninas muitas vêzes iam para o matrimônio)


:;o>m quase conhecê-lo; mas perdura infelizmente ainda o tempo em que cer-
fo»s jovens esposos crêem poder permitir-se desde o princípio um período
olo- liberdade moral e gozar de seus direitos sem cuidar de seus deveres. Gravo*
culpa, que provoca a cólera divina; fonte de infelicidade mesmo temporal,
oMijns comseqüências deveriam a todos incutir temor. O dever que se começa
n oloíseomhecer ou a despreciar, descura-se sempre e mais longamente, assim
por tanto tempo que se termina por esquecê-lo, a êle e às alegrias que sua
corajosa observância traz. E quando aparece a recoi'dação e nasce o arre­
pendimento, compreende-se então, com inúteis lágrimas, que ó muito tarde:
à cópia infeliz para a sua missão, não permanece nada mais senão que um
dis:;ecar-se sem esperança, no deserto de seu estéril egoísmo ( ' ) .

* # #

(Jranolo* é o> coração) do homem e da mulher, quando se unem na - o o m i i u

nhno ola vida para fundar uma família. Do coração nascem os prinwi-ro;;
fl) IH n m im o i i i i i r n p o i o N , '.!! d e i m i i i i I i i i ), M Ml í .
(I) I >!»< i n Kl» l i o » 1'NiionOH, '.M il<- j u l h o , MMO.

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l’ io X II cm seu Icilo ilc- morte, cm Castel (iandollo, 9/X ’ lünS.
ardores, os primeiros olhares, as primeiras palavras que se extravasam pelo»s
lábios e vão encontrar-se e trocar-se com outros que saem de outro coraçao,
enquanto ambos se abrem reciprocamente nos sonhos de uma felicidade do­
méstica. IVtas que é o coração? O coração é fonte da vida, porque nêle se inicia,
procede, vigora, amadurece, se expande, envelhece e termina o movimento
da vida: mas da vida êle ressente também tôdas as vicissitudes, tôdas as
alternativas e variações, segundo os movimentos das paixões que causam
o>s saltos, as palpitações, sacudindo as fibras em contrários afetos, de amo»r
oju de ódio, de desejo ou de fuga, de alegria ou de tristeza, de esperança <xt
de desconforto, de humildade ou de orgulho, de temor ou de audácia, de
bomdade ou de ira.
O coração aberto é fonte de felicidade na vida comum de ambos os espo­
sos, ao passo que um coração fechado debilita a alegria e a paz. Não vo»s
enganais em falar do coração: êle é símbolo e imagem da vontade. Sendo
o» coração físico o princípio de todos os movimentos espirituais, assim como»
aquela, que move o intelecto, êste move as faculdades inferiores e as pai­
xões, move as fôrças exteriores a executar a obra entendida pelo intelecto
o< pelos sentidos internos e externos. Pobre coração humano, imperserutá-
vel muitas vêzes até para quem o traz no peito! Quem o conhecerá? E muito»
se estuda para penetrar até nos corações alheios e conhecê-los, em seus ale-
lo)s e movimentos.
Mais de uma vez renomados escritores representaram em seus contos, o>m
suas novelas, em seus dramas, o estado moral paradoxal, por vêzes trágico,
ole dois excelentes esposos, nascidos, feitos para se compreenderem perl ei -
lamente, mas que, por não saberem abrir-se um ao outro, permaneceram
na vida comum quase estranhos entre si, deixando surgir e crescer em si
mesmos incompreensÕes e mal-entendidos, que a pouco e pouco perturbam
v. diminuem a sua união e os encaminham, não raramente, para tristes ca
Lástroies. Tais condições espirituais de dois cônjuges entretanto não exis-
Lein somente nas invenções dos romances: ela se verifica em graus tiiver­
sos na vida real, até entre bons cristãos. Qual será a causa? Por vêzes será
a natural timidez, que faz com que alguns homens e algumas mulheres sin­
tam uma repugnância instintiva em manifestar seus íntimos sentimentos,
comunicá-los a quem quer que seja; outra vez será uma falta de simplici­
dade nascendo de uma vaidade, de um orgulho escondido, talvez incons­
ciente; cm outros casos, uma educação defeituosa, dura e muito exterior,
lerá habituado a alma a dobrar-se sôbre si mesma, a não se abrir e a nao>
se conceder confidências, por temer de ser ferida naquilo que tem de mais
profundo e delicado.
K ainda, esta mútua confiança, esta recíproca abertura de coração», esta
simplicidade mútua coloca em comum os pensamentos, aspirações, preocupa -
çoes, alegrias e tristezas, e é condição necessária, elemento, digamos, ali­
mento essencial da felicidade.
Nós não diremos que esta mútua abertura de corações deva ser sem limi-
to\s. Existem segredos invioláveis, que a natureza — uma projmessa, uma ron-
lidéneia ■— torna fechados e mudos sôbre os lábios. Um marido médico,
advoigado, oficial, funcionário de Estado, empregado cm uma administraçao,
ísnbo>rá ou virá a saber muitas coisas que o segrêdo profissional nao lho« po*r-
mito! eoimunicar a quem quer que seja, nem mesmo à sua mulher, a qual,
n o* e sábia o1 prudente, demonstrar-lhe-á a própria o-onliança, respeitando)
o-NOTUpulosamenlo' o‘ admirando o seu silêncio, sem nada fazo‘r o»u tentar para
pcneli.i Io.

iuy
II I'in -II I'm liln iin m
Kora, porém, dêstes segredos pessoais e sagrados, de vida interna e exter­
na, devem-se colocar em comum as almas, como para formar, de duas almas,
uma única ( 5).
* * *

Na santidade, por meio da graça, os cônjuges são igual e imediatamente


unulojs com Cristo. As condições de vida tendem a gerar e introduzir prà-
licamente uma vasta identidade das atividades da mulher com as do ho­
mem, de maneira que os esposos, não raramente, encontram-se em uma
.situação) oiue quase se reduz na igualdade. Isto, não obstante o conceito cris­
tão) do) matrimônio, que São Paulo ensinava aos seus discípulos de Éfeso,
uno diversamente do que aos de Corinto, não poderia ser mais aberto e mais
ciam: “ As mulheres estejam sujeitas aos seus maridos, como ao Senhor;
porque o homem é a cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja...
Como> a Igreja está sujeita a Cristo, assim também esteja a mulher ao seu
marido em tudo. E vós, homens, amai as vossas mulheres, como Cristo amou
11 Igreja e deu-se a si mesmo por ela... Cada um de vós ame a própria mu-

llic>r como a si mesmo e a mulher respeite o marido” .


Esta doutrina e êste ensinamento de Paulo que é senão um ensinamento
e a doutrina de Cristo? Por tal modo o divino Redentor vinha restaurar o
o|iie o) paganismo tinha destruído. Nem Atenas, nem Roma, faróis de civili­
zação), que embora tanta claridade de natureza espargiram sôbre vínculos
lannliares, conseguiram, nem com as altas especulações da Filosofia, nem
com a sabedoria da legislação, nem com a severidade das censuras, colocar
n mulher no seu verdadeiro lugar da família.
Restabelecer na família a hierarquia indispensável à sua unidade, como â
sua felicidade, e ao mesmo tempo restituir o amor conjugal à primitiva o*
voraz grandeza, foi uma das maiores obras do cristianismo, do dia que Cristo)
afirmou em face dos fariseus e do mundo: “ Quod ergo Deus coniunxit, honio
non separei. Aquilo que Deus uniu, o homem não tente separar!” t
ri esta a hierarquia essencial da natureza, ínsita na unidade do matrimô­
nio), que a divina Providência criadora assinalou com as distintas qualida-
olo\s, mLegrando-se reciprocamente, da qual quer dotados homens e mulhe­
res: “ Nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, segundo»
o Senhor” , exclamava São Paulo. Ao homem a prioridade na união, o vigor
olo co»rpo, os dons necessários para o trabalho, com que deve prover e asse­
gurar o» sustento da família; a êle realmente foi dito: “ Com o suor da tua
Ironte comerás o teu pão” ( (l).
* # *

Ora — vêde que coisa estranha — enquanto não viria à mente de nin­
guém fazer-se imediatamente, sem tirocínio, nem preparação, um o p e -
l á r i o mecânico ou engenheiro, médico ou advogado, todo dia, não poucos
jovens --- homens e mulheres — se casam e unem-se, síem ter pensado) um
iniitanto' sequer em preparar-se para os árduos deveres que os esperam im
educação do»s filhos ( 7).
# *■ *

Nao ó necessário possuir largo conhecimento e experiência da História


e dos acontecimentos familiares para saber quanto freqüentes 'sa<> as c|iie
cia.s lamcMitáveis que precipitaram e mataram amôres puros, bem nuseido»

(M HU( m i n non mpoMM, 12 t \r novrm liro, l!MI.


( II ) D ln im ito iida n|)in n«, 111 i l e w lc m liio , l!)ll.
Cl) I U m iii « o Ah M iilhcicn <l u Ai.lo 0 .iIoIIij, ilr imiIiiIimi, 1041.

I'IH
o* sinceros, e, mais ainda, para compreender aquelas dcbiliolad(\s, volúveis
como a paixão, mas cuja ferida deixa mesmo depois do perdão, mesmo ile-
po)is da reparação, uma pungente cicatriz no íntimo dos dois co»raçóes.
1 . A leviandade é o escolho particularmente dos primeiros meses, anto*s
<|iie os sorrisos e os vagidos das crianças tenham vindo abrir e madurar oi
espírito dos progenitores; mas muitas vêzes se prolonga bem além, optando»,
mais do que o ardor, próprio da juventude, a falta de caráter a favo»reco* o>
sustenta. Nas ilusões, complacentemente cultivadas e seguidas, que o matri­
mônio torna tudo lícito, os esposos se permitem por vêzes as mais impru­
dentes liberdades. Eis o marido a conduzir, sem escrúpulos, a sua jc»vo*m
mulher a divertimentos escabrosos, para não dizer condenáveis, cro-nolo
rovreá-la sem malícia, pensando talvez de iniciá-la por tal via nas o>xpo*-
i ièncias da vida. A mulher, quando não possui aquela seriedade fervorosa-
mo>nte cristã que dá franqueza de caráter, deixar-se-á o mais das vov/,es
arrastar-se a êsses lugares, sem resistência alguma, ou quando opuser um
so-mblante de reação, não lhe desagradará no íntimo ao coração, o que nao
torna muito eficaz a vitória. Se até o matrimônio a sua inocência foi guar
olada e preservada, mais que verdadeiramente nela formada e esculpida a
fundo pela vigilância e solicitude dos progenitores cristãos, vós a veivis ao-o>i-
lar de bom grado, mesmo corando um pouquinho, satisfazer uma co-ila
o-uriosidade, da qual não lhe está claramente patente a conveniência o* o
per igo. Se, em vez disto, a sua vida de môça foi mundana, dissipada, o*I.i
ostimar-se-á e sentir-se-á feliz por poder libertar-se — honestamoMito*, as­
sim pensa ela, já que está com o marido — daqueles poucos cuidados o* ola-
o|uo'le resguardo que antes a juvenil idade lhe impunha.
Dos espetáculos e dos divertimentos de costumes ousados, da levianolado'
passa rapidamente ao relaxamento de vistas e de consciência quanto às lo-i-
l.uras. Em tal matéria, além dos atrativos de que já falamos, entra em cena
uma atração ainda mais sutil: o amor descrito nos romances, o qual paro>ov
expressar tão bem os sentimentos, sem dúvida legítimos, que os esposos
p r o v a m um para com o outro. O romancista e seus heróis e heroínas oIízomu
o'om tal vivacidade, com frases tão quentes e refinadas, o que, embora no
se/írêdo dos íntimos colóquios, não se saberia ou não se ousaria exprimir
lao) eficazmente e com a mesma flama! Segue-se que, sob a aparência do
avivar o amor, tais leituras excitam ainda mais a imaginação e o>s sentidois
o’ tornam os ânimos mais débeis e desarmados contra as infalíveis tentações.
Nao|iu>las aventuras narradas, aventuras de infidelidade, de culpa, olo* paixao»
i l o r . í f i m a ou violenta, não raro o afeto de dois esposos perde um pouco <lo‘
sua pureza, de sua nobreza e santidade, e permanece falsificado) em sua
ci ista estima e idéia, e se transforma cm amor puramente sensual e pro>-
i . m o , esoiuecido dos altos fins das núpcias benditas.
Mesmo) se não são imorais ou escandalosos, o alimentar-se habitualnwnt.o*
do- leituras e de espetáculos romanescos envolve muitas vêzes o sentimento»,
os o'o»rações e a fantasia na atmosfera de uma vida imaginária, afastando»-
se do rosd. Episódiois românticos, aventuras sentimentais, vida galanto', fácil,
comoila, caprichosa, brilhante que são realmente senão invenções fantásticas,
criadas po>lois autores a seus talantes desenfreados, não devendo fazo*r o-om-
I;ir com as dificuldades econômicas, com as inumeráveis oposie;o»es da (va li­
dade prática o- concreta? O abuso do tais leituras e do< tais <'Spo>tàculo»s, mesmo»
•.e n.io sao, tomados singularmente, repmváveis, terminam por olisfarçnr
;i estima, das coisas e tiram o gôsto da vida real, subtraindo a ela o sal do-
,il)i'(loii;i olo vo‘i'dadeiro, o>m <|uc> se envolve a viola dei io-iosamo-nto' aiisto‘ia
de trabalho o* olo1 s.icrilicio e do> vir.d aloMiçao» no mo*io» dos cuidados olo< uma
I;1 1 1 1 1 1 1 ;i sa o> numo'i'osa. ( 'onsiderai, olo> um lado, o marido o|iio‘, com o suor
o!u fronte*, mio podo ser suficiente pura tôdas as despesas de uma vida de
luxo; do* outra, a mulher que, carregada de iiJhos e de preocupações, e com
meios limitados, não consegue, com um golpe de varinha mágica, mudar
o) mo)ol(*sto Jar em um castelo das histórias de fadas; e depois dizei-me se
n estes esposos os seus dias sempre iguais, sem acontecimentos extraordi­
nários, nao parecerão bem mesquinhos, comparados com aquelas fantasias
mmanticas. Muito amargo é o acordar-se para quem vive continuamente em
um sonho dourado; muito viva é a tentação de prolongá-lo ou de continuá-
lo na realidade. Quantos dramas de infidelidade não tiveram tal origem! E
se* um dos esposos, permanecendo fiel, chora, sem nada compreender sôbre
o» transviamento do culpado, sempre ainda caro e amado, está bem longe
olo* suspeitar a sua parte de responsabilidade naquele deslize até à queda.
Ignora que o amor conjugal, do momento em que perde a sua sã seriedade,
a sua forte ternura, a sua santa fecundidade, para semelhar-se aos amôres
o*goísfic'os e profanos, é fàcilmente tentado a conseguir em outros lugares o
s o m i pleno gôzo.

Nao> menos imprudentes são os maridos que, para dar prazer às suas mu­
lheres, ou para satisfazer a própria vaidade, encorajam-na a abandonar-se
a todos os caprichos, a tôdas as mais audazes extravagâncias da moda no
vestido e no costume de vida. Jovens senhoras, assim lançadas à aventura,
lalvez nem mesmo imaginem a que perigos expõem a si mesmas e aos
outros. Não procureis em outro lugar a origem de não poucos escândalos
do* que muitos se maravilham depois; muitos, não porém aquêles que refle-
to*m sôbre os caminhos do mal, não aquêles amigos sábios, que tinham opor­
tunamente advertido sôbre o caminho perigoso e não foram escutados!
2. A virtude está no meio; contra o excesso da condescendência pode-se
cair também no excesso oposto, o do rigor. O caso é sem dúvida raro, mas
não) sem exemplos. O exagerado rigor, que transformaria o lar doméstico)
o*m uma triste habitação sem luz nem alegria, sem sãs e santas recreações,
.sc*m largos horizontes de ação, poderia chegar aos mesmos desastres da Je- '
viandade. Quem não prevê que quanto mais rigorosa fôr a constrição, mais
rigorosa e violenta arrisca tornar-se a reação? A vítim a desta tirania •
homem o>u mulher, talvez, o próprio opressor — uma vez ou outra, será
to*ntado) de acabar com a vida conjugal. Mas se as ruínas e os efeitos da
leviandade muitas vêzes não tardam a fazer abrir os olhos e a reconduzir
a melhor comselho e a maior seriedade, os transviamentos ocasionados por
uma austeridade exasperante, costuma-se por vêzes atribuir à falta de sufi-
o'io*nte rigor; e então exacerbar-se-á ainda mais a forma e crescerá ao mes­
mo to*mpo o mal que causou e a reação que provoca.
Longe dêstes dois extremos — a excessiva condescendência e a excessiva
j;evo*ridade - reine entre vós a moderação, que não é senão o virtuoso so*n-
tiolo da medida e do que convém. O marido deseje e goze em ver sua mu ­
lher vestir-se e mover-se com decente elegância, conforme os seus moio>s o*
a sua condição social, encorajando-a e alegrando-a segundo a ocasião, com
algum presente gentil, com algum amável galanteio e louvor de sua apre-
so-nlaçao), ole sua graça. A mulher por sua vez procure banir de .sua o-nsn
toda do*sco)iiveniência ofensiva aos olhares do cristão ou do sentimo*nto> olo
belo), o^omo tôda severidade que amargaria o coração. Ambos amem ler, mes­
mo juntos, o).s belos e úteis livros, que os instruam, alarguem seus conhe*
o’imeiifos das coisas e das obras e as vistas de suas artes ou olo* seus tia
balbos, iníormoMii se>bre o curso dos acontecimentos, conservem no>s firmes.o*
miiii:: doutrinados na fé e nas virtudes. Conceda-se de boa vontade*, com diN
eriçao», os síios o* he>no*stos divertimemtos que dão ívpouso e niaulem na ale-
í'.rin; leituras <í (I ívom I imomtos o|iie seTao fontes olo* pe*rene o* bo*m recebido

VI >0
alimento de suas íntimas conversas e discussões. Cada cônjuge deve alc-
jrrar-se por ver o outro sobressair na própria atividade social ou profis­
sional, por tornar-se amado, com sua sorridente bondade, entre os amigos
comuns; nem iamais um queira obscurecer o outro.
3. Finalmente um grande escolho a que se deve esquivar é o ciúme, que
pode surgir da leviandade ou pode ser suscitado pelo rigor: perigosíssimo
c\scolho para a fidelidade. O incomparável psicólogo, que foi São João Cri­
sóstomo, a descreveu com magistral eloqüência: “ Tudo aquilo que se pode
olizer dêste mal, não exprimirá jamais suficientemente sua gravidade. Uma
vez que um homem começa a ter suspeitas da que ama sôbre tôdas as coii-
sas, sôbre a face da terra, e para a qual de boa vontade daria até a vida,
o'in que coisa poderia encontrar então algum conforto?... Mas se o homem
so; agita angustiosamente em meio a êstes males, ainda quando sem funola-
mentos nem razões, a pobre e infeliz mulher é ainda mais gravemente ator­
mentada. Aquêle que deveria ser o consolador de tôdas as suas penas e o
.seu apoio mostra-se cruel para com ela e não lhe demonstra senão hosti­
lidade... Um espírito assim prevenido e ferido por esta doença, está dispo).sl.<>
a crer em tudo, a acolher tôdas as denúncias, sem discernir o verdadeiro olo>
falso, mais inclinado a escutar as coisas que confirmam as suas suspeitas,
oio> que as que desejariam dissipá-las... As saídas, as entradas, as palavras,
ots olhares, os mínimos suspiros tudo é espiado; a pobre mulher deve supor­
tar tudo em silêncio, acorrentada, por assim dizer, ao leito conjugal, ela não
pode permitir-se um passo, uma palavra, um suspiro, sem dever dar ovmtn
ao»s próprios servos” . Uma tal vida não pode talvez tornar-se quase intole­
rável? E é então de se maravilhar se quando falta a luz e o sustcntáculo
ole uma verdadeira virtude crista, procure-se evadir e fugir, com o nau­
frágio da fidelidade? ( 8).

(M) Il h iii iM i .ma rn|io«i)n, 11) ilr imvrínlmi, IÍ M 2.

201
SÔBRE A SANTA MISSA
Ao contro da preparação dos fiéis muitos párocos colocaram a santa missa
pura o>s homens. Nesta missa, que reúne ao domingo os homens da paróquia,
o-lo\s mostram para êles a substância e o sentido da santa liturgia. O pri­
mo'iro> fruto de tal prática é de fazer tomar parte de maneira consciente e
poíssoal no divino sacrifício do altar.
Nós louvamos tal costume no seu espírito e no seu método. Êle coloca o
sacrifício da missa no seu verdadeiro lugar, no coração da vida e de tôda
atividade de vossos homens. É já muito confortável ver seguir devotamente
n liturgia da missa, sobretudo quando se pensa na indecorosa ignorância
olo tantos sôbre um mistério tão sublime.
Todavia é de suma importância considerar os efeitos que dela se irra­
diam para os homens, até no campo eclesiástico e civil.
Ilealmente:
1. Instruídos e habituados a venerar e amar o santo sacrifício da missa,
os vossos homens tornar-se-ão facilmente homens de oração e farão de suas
famílias como um santuário de oração. E isto é estritamente necessário.
Quem poderia negar que o espírito de oração vai diminuindo, enquanto que
o o*spírit<> do mundo ganha terreno até no seio da família, que pretende per­
manecer católica e fie l a Cristo? Se a cruzada para a oração em família é •
acodhida com fervor em outros países; se até conhecidos atôres dos maiores
<vntms cinematográficos do mundo colocaram-se ao serviço de uma causa
fao santa: como poderiam os católicos da Cidade Eterna permanecerem
nisto» a êles inferiores?
2. Os homens que se aplicam seriamente em penetrar o sentido e o alcance
do sacrifício da missa, não podem deixar de avivar nêles mesmos o espírito
olo- domínio de si, de mortificação, de subordinação das coisas terrenas às
o*i>l(\stos, dc absoluta obediência à vontade e à lei de Deus, especialmente
so vós tiverdes o cuidado de inculcar nêles tais sentimentos. É esta uma
ncovssidade da hora presente, não menos do que o renovado zêlo pela ora-
çno, pois que hoje muitos — entre os quais é doloroso ver também não pou-
o*os o-atólicojs — vivem como se o fim de tudo fôsse formar-se um paraíso
sôl)ro- a torra, sem pensamento algum para o além, para a eternidade.
A toMidôncia natural do homem caído para as coisas terrenas, a sua inca-
pnoMolado do compreender as coisas do Espírito de Deus é infelizmente favo-
ivoiola omh nossos dias pela cumplicidade de tudo quanto o circunda. Mui­
tas vo*'zo's Dons não c negado, nem injuriado, nem blasfemado; ílle ó o'o»mo)
o|iio* um grande ausente. A propaganda para uma vida terrestre so'm Domis
r aborta, sedutora, contínua. Com razão observou-se que geralmente, rno\s-
niii no»s filmc\s indicados como moralmente irrepreensíveis, os .lio>mons vi-
v*'m o* morrem comio se não existisse Deus, nem a Redenção, nem a lgro>ja.
Nós nao o|uo'remos aojui colo>car em discussão as intençoVs; não> ó poróm vo>r
olnole o1 1 io' as o'(>nsc((iiôneias destas rc'pro'so'ntações cinoMiiatográfioNis noMitras,
já so' o'sti,iido,ram o* aprofundaram? Aolio*iona-se ainda a isto a nefasta p ro ­
paganda deliberadamento' olirigida para a formaçao da família, da sociedado',
do próprio Estado, sem Deus. É uma torrente cujas águas lodacentas ten­
tam penetrar até no campo católico. Quantos já foram contaminados! Com
a própria bôca, êles se professam ainda católicos, mas não percebem que
suas condutas desmentem com os fatos aquela profissão de fé.
Não há portanto mais tempo para se perder, para fazer parar com tôdas
as fôrças êste deslize de nossas próprias fileiras na irreligiosidade e para
acordar o espírito de oração e de penitência. A pregação das primeiras o
principais verdades da fé e dos fins últimos, não somente nada perderam
ole sua oportunidade em nosso tempo, mas, antes, tornam-se mais que nuno-a
necessárias e urgentes. Também a pregação sôbre o inferno é atual. Po>r
s<'m dúvida, semelhante argumento deve ser tratado com dignidade e sab<>-
oloria. Mas quanto à substância mesma desta verdade a Igreja tem, dianto>
de Deus e dos homens, o sagrado dever de anunciar, de ensinar sem qual­
quer atenuante, como Cristo a revelou, e não há nenhuma condição de tempo»
c|ue possa fazer diminuir o rigor desta obrigação. Ela atinge e liga ern cons
oMÔncia todo sacerdote a cujo ministério ordinário e extraordinário fo»i eo>n
fiada a cura de doutrinar, admoestar e guiar os fiéis. É verdade que <>
d('sejo do céu é um motivo em si mesmo mais perfeito do que o temor oIas
po*nas eternas; mas disto não se deduz que êle seja para todos os homens
lambem o motivo mais eficaz para mantê-los distantes do pecado e con-
vortc-los a Deus.
Meditai as palavras que o Senhor, na vigília de sua Paixão, dirigiu ao
Apóstolo Pedro. “ Eis que Satanás procura joeirar-te como o grão de trigo” ;
palavras de um impressionante significado no momento em que vívomuos.
Valo<m não somente para os pastores, mas também para tôda a gro*i. N um
formidáveis controvérsias religiosas, das quais somos testemunhas, nao se
poole contar senão com fiéis que oram e se esforçam, mesmo a pr<*ço olo*
grandes renúncias, por conformar suas vidas à lei de Deus. Todos o>s ole
mais, na ordem espiritual — e disto se trata — oferecem-se indefcsamonlo*
nos golpes do inimigo.
Um efeito da missa para os homens, efeito salutar não só para o'les
pessoalmente, mas também para as famílias, será que fecharão os olhos o> o>
••oração a tudo o que na imprensa, nos filmes, nos espetáculos, ofendo* o>
puolor e viola a lei moral. Onde, realmente, senão aqui, deverá verdado*ira-
menlo* operar o espírito de penitência e de abnegação em união com Cristo?
Ouando se pensa, de uma parte, nas nauseantes cruezas e coisas impuras,
colocadas cm amostra nos jornais, nas revistas, nas telas, nas cenas, o* de
<»i11 ta parto, as inconcebíveis aberrações dos progenitores que vão com somis
filhos' deloitarcm-sc com semelhantes horrores, o rubor sobe à face, rubor
de vergonha e de desprêzo. A luta contra aquela peste, especiahnonto* assi­
nalando-lho as manifestações às autoridades públicas, conseguiu já confor-
lanfe rovsultado, e Nós nutrimos esperanças que ola será sempre mais o*fica/.
•* hoMiéfica.
(Jraças ao céu, em algumas nações, particularmente naquelas do maior
produção cinematográfica, os católicos trabalham metodicamente e coim Mi/.
;.uco’sso para a moralização e dignidade nos filmes.
•I. Nós o“;po>ramos da o-omurn assistência dos homens â santa missa tam-
ln in oul.ro fruto» do* capital importância: o|uo*rc*mos aludir ao> espírito do* doei-
Iiolado* c. olo* plo*na ado*são ao> Romano Pontífice, e do* fraterna o* o>:;fro*it:«
união oMilre ois I V , tôda voz quo se trata olo* do»fondo*r a o\ausa ola Igivja.
m s

A oviiisa da Igro*ja! Seus in i migos <lo*so*nead«*aram contra Kla uma violo-nla


<ampaiilut do* palavras o* do* o*scrilns. I'ara oio*s t.odo>s os argumentos, tnm
ho''in os mais absurdos, são bons, se servem para o fim a que tendem, e
o"‘sU* l im é o de desagregar a unidade e a cooperação dos católicos, de aba-
l;ir a confiança para com o Vigário de Cristo, para com os bispos e o clero.
A iirma preferida por êles é a calúnia, porque sabem muito bem que nunca
ela ó totalmente inofensiva, mas inocula nos espíritos a dúvida, a suspeita,
a crítica, e nos corações um desafeto, que por vêzes chega até ao ódio. Assim
:i obediência e a concórdia são expostas ao perigo de se tornarem a pouco
o* pouco corrutas e de serem destruídas. Relede a palavra de Cristo sôbre o
**1 >;ii da mentira” : o mesmo vale para esta campanha de calúnias.

Hom outros frutos podem ainda recolher-se da missa para os homens. Nós
tiao mencionamos senão alguns entre os que pareciam mais corresponder
à necessidade da hora e melhor servir à preparação interna dos fiéis C1).

(I) llh i m u ) iion 1* ,‘i • <i < • i n r l ’i rn.itlin ( t Qiiíiiim ihíiIIkIiiii, ‘» !1 <l< iii.ni.o, I *) I • I
POR UM MUNDO MELHOR
Do nosso coração, diletos filhos e filhas de Roma, chega-vos esta pat;e*r-
nal exortação; do nosso coração inquieto, de um lado, pelo prolongamento),
sem claros estáveis, da perigosa condição externa, e, de outro lado, por
um difundidíssimo torpor que impede muitos de empreender êsse retorno a
Jesus Cristo, à Igreja, à vida cristã, que muitas vêzes temos indicado como
o remédio resolutivo da crise total que agita o mundo. Mas a confiança de
achar em vós o conforto da compreensão e a firm e presteza para a ação mn-
veu-nos a abrir-vos nossa alma. Um brado de despertar escutais hoje dos
lábios de vosso Pai e Pastor, de Nós que não podemos ficar mudo o inerte
ante um mundo que prossegue inconscientemente pelos caminhos que le*vam
ao báratro almas e corpos, bons e maus, civilizações e povos.
O sentimento da nossa responsabilidade perante Deus reclama de Nós tudo
tentar, tudo empreender, a fim de que ao gênero humano seja poupada tíio
imensa desgraça.
Para vos confiarmos estas nossas ansiedades, escolhemos a festividade', »
ocorrer amanhã, da Virgem de Lourdes, porque comemora as prodigiosas
aparições que, há cêrca de cem anos, foram, naquele século de debanelaela
racionalista e não religiosa, a resposta misericordiosa de Deus e do' sua
Mão celeste à rebelião dos homens, o irresistível chamado ao sobrenatural,
o» primeiro passo para um progressivo reatamento religioso. E que ce>raçfie>
de cristão, ainda quando tíbio e esquecediço, poderia resistir à voz de Ma­
ria? Não serão, por certo, os corações dos romanos, de vós que, transmitido)
por séculos, juntamente com a fé dos mártires, herdastes o filial nleto a
Maria, invocada nas suas venerandas imagens com os amorosos títulos do'
lapidar eloqüência Salus Populi Romani, Portus Romanae Securitatis, o com
e\sso mais recente de “ Mãe do Divino Am or” , os quais todos são monurnoMi-
Ie>s da constante piedade mariana, e, mais verdadeiramente, ecos suaves olo*
uma história de provadas intervenções da Virgem nas calamidades públi­
ca:: que fizeram trepidar êstes velhos muros de Roma, sempre salva por vem-
lado' dela.
Ora, não ignorais que bem mais extensos e mais graves, quais nãe> foram
nem as postes, nem os cataclismos telúricos, são os perigos que posam ainda
ar.ora sôbre a presente geração, mesmo se a sua duradoura ameaça c,e)mo,çou
a te>rnar os povos mais ou menos insensíveis e apáticos. Seria ôste\ pe>r
ventura, e) mais infausto sintoma da interminável, mas não onrrae|iiecida,
crise* o|iie faz tremer as mentes fechadas à realidade? Reneivado), pois, o» rií—
curse) i\ benignidade ele Deus e à misericórdia de Maria, mister, se faz o|uo'
caela fiel, cada horm*m de* boa ve)ntadc, reexamine, com rese)luçãe> digna <lo:i
r.rande*s momoMitos ela TTistória humana, tudo e|uanto pe'ssoalme*nte‘ possa e*
deva fa/.e*r, cenne) se*u tributo oibra salvadora do* Deus, para vir o*m socorre»
ele um mundo e*ncaminhado, como e> está bojo*, para a mina.
SACUDIR A FUNESTA LETARGIA

A persistência do uma condição geral, que não duvidamos chamar explo­


siva a texlo instante, e cuja origem deve buscar-se na tibieza religiosa de
I:inl.os, no baixo teor moral da vida pública e privada, na sistemática obra
oli' intoxicação das almas simples, às quais o veneno é propinado depois de
jio* Ilu*s haver, por assim dizer, narcotizado o senso da genuína liberdade,
n.io pôolc deixar os bons imóveis no mesmo sulco, contempladores inertes
ole um transtornador futuro.
() próprio ano santo, que acarretou uma prodigiosa floração de vida cristã,
elesabroe-hada primeiro no meio de vós e depois por tôda parte na Terra,
n.io olo>ve considerar-se como um meteoro resplandecente mas fugidio, nem
conno) um connpromisso momentâneo já agora saldado, mas sim como um
primo'iro o promissor passo para a completa restauração do espírito evan-
gélio’e) c|ue, além de arrancar milhões de almas à eterna ruína, é o único
»1 1 io* pode assegurar a pacífica convivência e a fecunda colaboração dos povos.
10 agora ó tempo, diletos filhos! É tempo de dar os outros passos defini-

t ivos; ó tempo de sacudir a funesta letargia; é tempo de que todos os bons,


toolos o)s solícitos pelos destinos do mundo, se conheçam e cerrem as suas
filo‘iras; ó tempo de repetir com o Apóstolo: “ Hora est jam nos de somno
surgere” . rô hora de despertarmos do sono, pois que próxima está agora a
nossa salvação!

UM MUNDO A REFAZER

ft todo um mundo que é preciso refazer desde os fundamentos, que é pre-


o’iso transformar de selvagem em humano, de humano em divino, quer dizer
se>gimdo o coração de Deus. De milhões de homens se invoca uma mudança
ole rota, olha-se para a Igreja de Cristo como para a timoneira eficaz e única
c|ur>, no respeito da liberdade humana, pode estar à testa de tão grande em-
pivsa, e implora-se a guia dela com palavras abertas, e ainda mais com as
lágrimas já vertidas, com as feridas ainda doloridas, apontando-se para os
intórminos cemitérios que o ódio organizado e armado estendeu sôbre os
contino-ntes.
Como poderíamos nós, que, embora indigno, fomos postos por Deus como
fno-ho» nas trevas, como sal da terra, como pastor da grei cristã, rejeitar
evita missão salutífera? Assim como, em dia já agora longínquo, aceitamos,
porojue a Deus assim aprouve, a pesada cruz do pontificado, assim também
agora nos submetemos ao árduo ofício de ser, na medida em que o permitem
as nossas fracas fôrças, arauto de um mundo melhor querido por Deús, e>
eMijo vo'xilo desejamos em primeiro lugar entregar a vós, diletos filhos do»
Komn, mais próximos de Nós, e mais particularmente confiados aos nossos
enidiidos, o' por isto mesmo também postos quais fachos no candelabro, qual
fiM iuoMilo) entre os irmãos, qual cidade sôbre o monte; a vós, de que, com
I<i:;I;i razão, outros esperam maior coragem e mais generosa presteza. Aco-
lln-i com nobre ímpeto de dedicação, reconhecendo-a como chamado <le>
I >e*iis o» digna razão de vida, a santa ordem que o vosso pastor e pai hoje*
vos o-onfia: dardos início a\im poderoso despertar de pensamento e do' eibras.
Despertar o|ue a todos, s('tn evasões de qualquer sorte, ao clero e ao> povo,
ás imtorielaoles, às famílias, aos grupos, a cada alma em particular empenho*
no “ fmnt” da renovação) total da vida cristã, na linha de defesa elos valore.’:;
morais, na r<'alizaçíio da justiça se>cial, na reconstrução ola orele>m e’rista, ele*
modo e|iio' mesmo a lao’e o'xteTna ola IJrbe, desde o>s tempos apost/dicos cen-
I Ie» ela I g i v j a , npart><;a omii b i v v e 1 t e mpo i f ú l g i d a elo* s a n t i d a d e o* olo* hode/n.
A Urbe, sôbre a qual cada idade tem impresso o vestígio de gloriosas
realizações, tornadas depois herança das gentes, receba dêste século, dois
homens que hoje a povoam, a auréola de promotora de salvação comum
num tempo em que forças contrastantes disputam entre si o mundo. Isso
esperam dela os povos cristãos, e esperam sobretudo ação!

AÇÃO, N Ã O M A IS DISCUSSÃO

Não é êste o momento de discutir, de procurar novos princípios, de desig­


nar novos escopos e metas. Uns e outros, já conhecidos e verificados na sim
substância, porque ensinados pelo próprio Cristo, esclarecidos pela - tIar
s o m i

elaboração da Igreja, adaptados às circunstâncias imediatas pelos últimos


Pontífices, esperam uma coisa só: a realização concreta.
Que adiantaria perserutar os caminhos de Deus e do espírito, se na p r á
t:ica se escolhessem os caminhos da perdição e se dobrasse dócil o dorso ao
flagelo da carne? De que serviria conhecer e dizer que Deus é Pai o> os
homens são irmãos, quando se temesse tôda intervenção dêle na viola pri­
vada e pública? De que valeria discutir sôbre a justiça, sôbre a cario lado*,
sôbre a paz, se a vontade já estivesse resolvida a fugir da imolação, o cora •
ção determinado a fechar-se em glacial solidão, se ninguém ousasse so>r o
primeiro a quebrar as barreiras do ódio separador, para correr a otlci-ovo-r
um sincero abraço? Tudo isto não faria senão tornar mais culpados os f i l h o s
da luz, aos quais menos será perdoado se menos tiverem amado. Não foi
com esta incoerência e inércia que a Igreja mudou, nos seus inícios, a fao-o>
do mundo, e rapidamente se estendeu, e perdurou benéfica nos séculos, o-
despertou a admiração e a confiança dos povos.
Fique bem claro, diletos filhos, que na raiz dos males hodiernos e das
suas funestas conseqüências não está, como nos tempos pré-cristãos ou nas
regiões ainda pagãs, a invencível ignorância sôbre os destinos eternojs do
homem e sôbre as vias mestras para consegui-los; mas sim a letargia do
espírito, a anemia da vontade, a frieza dos corações. Os homens adoecidos
ole tal peste tentam, como justificação, circundar-se das antigas trevas <•
buscam um alibi em novos e velhos erros. Mister se faz, pois, agir, sôbre
a vontade dêles.

COMO PROCEDER

Que a ação a que hoje convocamos pastores e fiéis reflita a ação do>
Deus: seja ilurrlinadora e unificadora, generosa e amorosa. Para êste fim,
pondo-vos ante o estado concreto da vossa e nossa cidade, esforçai-vos por
<|iio? sejam bem verificadas as necessidades, bem claras as metas, bom cal •
o-uladas as fôrças disponíveis, de forma que os presentes recursos iniciais
nao sejam descurados porque ignorados, nem desordenadamente empivga-
lo)s, nem desperdiçados em atividades secundárias. Convidem-se as almas
do> boa vo)ntade; elas mesmas se ofereçam espontaneamente. Que a sua lo*i
seja a fidelidade ineomdicional à pessoa de .Jesus Cristo o aos seus o'usina-
moMitos. Seja a sua oblação) humilde o> obediente; quo a sua obra so> insira
como o' Io,'Ulei 1 1 o> ativo na grandiosa eoirrento
ojiio * Deus moverá o; couoluzirá
poir moMo) dois seus ministros.

W>7
PR IM EIR O RO M A E DEPOIS
A H U M A N ID A D E IN T E IR A

Para tnl fim convidamos nosso venerável irmão, o senhor Cardeal Vigá-
rio», a assumir a alta direção, para a diocese de Roma, desta ação regenera-
olora o salvadora. Estamos certos de que nao faltarão, nem em número nem
o'in (jualidade, os corações generosos que acudirão ao nosso chamado e que
porão em ato êste nosso voto. Há almas ardentes que aguardam ansiosa-
mo>nte ser convocadas; ao seu frêmito impaciente aponte-se o vasto campo
a desbravar. Outras há sonolentas, e será preciso despertá-las; tímidas, e
haverá que encorajá-las; desorientadas, e dever-se-á guiá-las. De tôdas se
pc»oU; um judicioso enquadramento, um sensato emprêgo, um ritmo de tra­
balho correspondente à urgente necessidade de defesa, de conquista, de
construção positiva. Dessa forma Roma reviverá a sua secular missão de
mestra espiritual das gentes não somente como o foi e é, pela cátedra que
Deus lhe estabeleceu no centro, mas também pelo exemplo do seu povo,
tornado fervoroso na fé, exemplar nos costumes, concorde no cumprimento
dos deveres religiosos e civis, e, se assim aprouve ao Senhor, próspero e
feliz. De boa mente auguramos que o poderoso despertar a que hoje vos
exortamos, promovido sem tardança e tenazmente prosseguido segundo o
plano traçado, e que outros poderão ilustrar mais particularmente, em breve
soja imitado pelas dioceses próximas e distantes, a fim de que aos nossos
olhos seja concedido ver voltarem a Cristo não somente as cidades, mas
as nações, os continentes, a humanidade inteira.

MÃOS A O ARA D O

Portanto, mãos ao arado: mova-vos Deus que isso quer, atraia-vos a no­
breza do empreendimento, estimule-vos a urgência dêle; o justificado te­
mor do tremendo porvir que derivaria de uma inércia culpada, vença tôda
hesitação e fixe tôdas as vontades.
Sustentar-vos-ão as preces dos humildes e dos pequenos, aos quais vão os
vossos ternos cuidados, sustentar-vos-ão as dores, aceitas e oferecidas, dos
sofredores. Fecundarão os vossos esforços os exemplos e a intercessao dos
mártires e dos santos que tornaram sagrado êste solo. Abençoará e multi­
plicará o feliz êxito, pelo qual ardentemente oramos, a Virgem Santíssima,
que, se em todos os tempos estêve pronta a estender a sua mão tutelar sôbre
os seus romanos, não duvidamos de que quererá fazer sentir também no
presente a sua maternal proteção a êstes filhos que tanta piedade afetuosa
demonstraram na recente glorificação dela, e da qual ainda ressoa neste céu
o potente grito de hosana.
Sc'jn-vos, finalmente, de conforto e de amparo a paternal bênção apos­
tólica que com efusão de ânimo concedemos a todos vós que nos escutais, às
voissas famílias, às vossas obras e a esta Cidade eterna, cuja fé, já desde os
lernpos do Apóstolo, é anunciada no mundo e cuja grandeza cristã, fnrol
do> verdade, de amor e de paz, se projeta nos séculos. Assim seja! ( ') .
# # #

l'l agora, desejamos confiar-vos uma incumbência. Certamente vo>s lo*m~


brais que o>m .levereiro do corrente ano dirigimos aos fiéis de> Itoma tuna
ardorosa oxoriação, para que o próprio) aspi'o’to externo da Cidade aparo<-
(I) I nn ilitiA u ii i m tm iiiinox, |l) ilc Irv rirlio , l !)V. V

21 m
cesse refulgente de santidade e beleza. Devemos dizer que o clero e o povo
estão trabalhando zelosamente para que as Nossas esperanças não fiquem
vãs, nem frustrada a Nossa confiança. Mas ao mesmo tempo exprimimos
o voto de que o despertar enérgico, a que exortamos Roma, seja “ em brevo
imitado pelas dioceses próximas e afastadas, a fim de que aos nossos seja
concedido ver regressar a Cristo não somente as cidades, mas as naçõe\s,
os continentes, a humanidade inteira” . Para êste que poderíamos chamar
de “ segundo tempo” , Nós contamos com os homens da Ação Católica, com
tôda a Ação Católica.
Enquanto, pois, os ímpios continuam a difundir os germes do ódio>, en-
quanto estão gritando: “ Não queremos que Jesus reine sôbre nós! — nolu -
inus hunc regnare super nos” , outro canto se levantará: canto de amor o*
de libertação, inspirando fôrça e coragem. Erguer-se-á nos campos o> nas
oficinas, nas casas e nas ruas, nos parlamentos e nos tribunais, nas famílias
e nas escolas.
Amados filhos, Homens de Ação Católica! Dentro de poucos instanto\s reio>-
mareis vossos caminhos, voltareis às vossas casas, continuareis os vossojs Ira
balhos. Levai por tôda parte a vossa ação iluminadora e vivificadora. K o>
vosso canto seja um canto de convicção e vitória: Christus vincit! Christus
regnat! Christus im perat!(2).
* * #

A Virgem Mãe espera que se dêem novos passos no caminho daquele*


renascimento cristão integral, ao qual chamamos em primeiro lugar profu­
samente a vós, diletos párocos de Roma, e que hoje está prestes u alaj;ar
tôda a Itália devido ao zêlo dos sagrados Pastores.
Não há dúvida, diletos filhos, que a palavra e a ação da Igreja <|iie*
é o mesmo que dizer a palavra e a ação de Jesus Cristo — deve peneirar
realmente por tôda parte, para vivificar a tudo e a todos. Já que Deus,
Senhor absoluto do mundo, o quer, é necessário reconhecer ao Evangellm
ole Jesus o ofício de formar integralmente o pensamento do homem e tôda
sua atividade prática e teórica. Não se encontra salvação para a humanidade*
senão na reconstrução do mundo no espírito de Jesus Cristo. Só ele é real­
mente o Salvador do indivíduo, da família, da sociedade inteira. Os home*ns
responsáveis convençam-se dessa necessidade absoluta; pois, prescindindo olo*
Deus e negando-o, farão surgir novas estruturas ainda mais frágeis que as
presentes ( :i).

(ü) DUliilho |>;■1 11 ii Md," .(11ivi'1 i.nIo iloi tli>iiic11H<1.1 A. I., I'.! <lr onliiliio, MIM},
(’l) I'Mil I,n..'lo .um |ijiioinit r |Mi(1 .I(Ioiik 111111■I'Mni.1 in 11< Uoin.i, -íH ilc Icvrnlio, lüíil.
SÔBRE A MISSÃO DA IMPRENSA
() verão, ordinariamente, é a estação das férias, cujo nome soa como um
sino alegre aos ouvidos de muitos, porque anuncia, depois de longos meses
do> trabalho, um período de repouso. Para algumas famílias as férias ofe-
i'0 ‘0 '('in a ocasião de uma permanência bucólica em qualquer aldeia hospi­
taleira, ou sôbre os belos montes e praias: para outros menos felizes, que
nao podem abandonar a sua habitação, as férias constituem ao menos o
to*mpo no qual pais e filhos se encontram mais longamente, unidos na paz
olo santuário doméstico.
Ilepousar-se, porém, para o homem não é somente um distender-se mole-
inoMite os membros cansados e abandonar-se a um sono restaurador. O
repouso humano importa em sãs distrações e ordinariamente também lei­
turas. E pois que atualmente não há quase família onde não entre o livro,
o o>púsculo, o jornal e durante os ócios das férias, as ocasiões de leitura se
multiplicam, Nós queremos dirigir-vos algumas breves exortações sôbre tal
argumento.
O primeiro homem que, desejoso de comunicar o seu pensamento a outros
homiens em uma forma mais durável que o som fugaz das palavras, gravou,
talvez com um rude sílex, sôbre a parede de uma caverna, sinais conven--
oMonais, dos quais determinou e explicou a interpretação, inventou ao mes­
mo tempo a escritura e a arte da leitura. Ler é entrar, através de sinais
gráficos mais ou menos complicados, é entrar no pensamento de outro. Ora,
uma vez que “ os pensamentos dos justos são justiça, e os conselhos dos
ímpios são fraudulentos” , segue-se que alguns livros, como algumas pala­
vras, são fontes de luz, de fôrça, de liberdade intelectual e moral, enquanto
outros trazem insídias e ocasiões de pecados; tal o ensinamento da Sagrada
Kseritura: “ Cogitationes iustorum iudicia, et consilia impiorum fraudulenta.
W rba impiorum insidantur sanguini; os iustorum liberabit eos” . Existem
portanto) boas e más leituras, como existem boas e más palavras.
A palavra porém não é muitas vêzes senão um relâmpago; na noite e
na tempestade êle pode bastar ao viandante para encontrar novamente o>
vo»roladeiro caminho, como, de outra parte, também sôbre caminho mais se­
guro, um lampejo pode ser suficiente para fulminar um passageiro incauto;
tal é o) efeito da boa ou da má palavra. O livro, pelo contrário, age menos
ràpidamente, mas a sua ação se prolonga no tempo; é uma ílama que podo*
ovsconder-Ko sob as cinzas e depois reacender-se, benéfica ou devastadora;
soM-á a lâmpaola do santuário sempre solícita em assinalar, ao fiel que so*
avizinha, o> tabernáculo santo e o seu Hóspede Divino; ou será o> vulc;io,
cujos I o m t í v o m s movimentos subterrâneos atiram na desolação e na morto* o-i-
daolej; into*iras. Vós desejais as conversações agradáveis, ás palavras sábias o*
oMmlortantes, o> olc*testais com razão as blasfêmias e os discursos <|tio* o^or-
roírnpctn. IVoicurai portanto) também os livros bons o* odia i os maus.
N a o é n o s s a i n t e n ç ã o d e s c r o ' v < * r - v o s o>s m a l e s c a u s a d o s po*la m á im p r o * n :;a ,
m a s a n t e s m o s t r a r o b e m <(uo* p o d e m f a z e r a s b o a s lo * itu ras , a f i m olo* o - x o r -
tar a amá-las e a favorecer-lhes a difusão. O grande Santo Inácio de Loiola
oferece a tal respeito em sua vida um exemplo luminoso.
Capitão desejoso de renome e de glória, defensor intrépido de Pamploma
contra os soldados do Rei da França, Inácio fora ferido por uma bala ole
bombarda, que lhe havia quebrado a perna direita e ferido a esquerda. Os
franceses, tendo penetrado na cidadela, e dignamente estimado o heróio-o
valor que êle havia demonstrado, trataram-no com modos cavalheiresco>s e*
fizeram-no transportar em uma padiola para o castelo de Loiola. Lá, depois
de dolorosíssimas operações, tendo entrado em convalescença, para afastar
o tédio, de bom grado ter-se-ia dado a ler livros de cavalaria, romaiwos
de amor e de proezas, em voga naquele tempo, como o Amadis de (..Jaula;
mas naquele austero castelo não se encontrou nenhum, antes, pelo cem I rá
rio, foram -lhe oferecidos a Vida de Cristo, de Ludolfo <ie Saxônia, o as Le­
gendas dos Santos, de Frei Jacopone de Voragine. Em falta de outra coisa,
Inácio resignou-se a ler êstes livros; mas logo, insensivelmente em sua alma
leal, primeiro surprêsa, depois subjugada, infiltrou-se uma luz mais pura,
mais doce, mais fúlgida, que todo o vão clarão das côrtes de amor, dos tor ­
neios de cavalaria, das bravuras de batalhas. Diante dos seus olhos aimla
queimando pela febre, a visão até ali tão admirada dos grandes gentis--ho­
mens de armaduras damascadas empalidecia; em seus lugares, oulro>s he*~
róis se levantavam, antes apenas entrevistos em alguns instantes de o>raç;io>;
a pouco e pouco, nas longas noites insones, as sombras dos mártires ensan­
güentados, monges com suas cógulas em burel, virgens com vestes liriais,
desenhadas por Jacopo de Voragine, tomavam corpo, as suas figuras frias
animavam-se, seus gestos assumiam expressão e relêvo; depois, acima do'>lo*s,
das páginas de Ludolfo, surgia a imagem de um Rei generoso, que cha­
mava para segui-lo, para conquistar tôda a terra dos infiéis, legiões do sol­
dados obedientes e um pequeno esquadrão de cavaleiros entusiasmados, de>-
sejosos de assinalar-se em maneira especial no serviço dêle. Mas êste; rei
soberano e Senhor eterno não falava mais de epopéias heróicas e de lutas
sanguinolentas, onde se feria de ponta e de lado: Êle dizia: “ Quem quer vir
após mim, deve atribular-se comigo, a fim de que, seguindo-me nas fadi­
gas, siga-me igualmente afastando-se de seus falazes sonhos terrenos” . A s­
sim se iniciava a sua total oblação ao Senhor de tôdas as coisas.
Ilecolhei-vos um instante em vós mesmos e procurai com ânimo sincero»
donde vem isto que há de melhor em vós. Por que acreditais em Deus, j i o
seu Filho encarnado para a redenção do mundo, em sua Mãe Mana, ola
qual fêz vossa própria Mãe? Por que obedeceis aos seus mandamentos, amai
os vossos progenitores, a vossa pátria, o vosso próximo? Por que sois re;so-
11 1 tos em fundar uma casa, da qual Jesus seja o Rei, e da qual possais trans­
mitir aos vossos filhos o tesouro familiar das virtudes cristãs? Certamente'
po>rque a fé vo s'fo i infundida no santo batismo; porque os vossos pre>ge*ni-
te>res, os vossos párocos, os vossos mestres e mestras de escola vos esisina-
rara de viva voz e com os seus exemplos a fazer o bem e fugir ao mal. Mas
ewutai ainda melhor as vossas recordações; entre as melhores c mais deci­
sivas vós encontrareis provavelmente a de algum livro benéfico): o Cate­
cismo, a História Sagrada, o Santo Evangelho, o Missal Remiano, o> Holetim
paro)quial, a Imitação de Cristo, a vida daquele santo ou dac|uola santa. Vós
podc'rois rever, com o) olhar da monto, sobretudo um daqueles livros opie* f;d
ve*z nao) é o mais belo, nem o mais rico), nem e> mais douto, mas sóbre - o i i j s s

folhas, uma tarde*, a vossa le*itura parou um pouco), oi vosso coraçao bateu
mais forte*, ve>sse>s o>1ho»s so* banharam olo* lágrimas; o e*ntae> so* infundiu na
vossa alma, sob o invisível impulso olo Kspírito Santo, um sulo-o profundo
o|iie, i i . í o obstante* os anos franseorrideis e* os mais <>i i menos diutuinos des­
vios, poole se-rvii -vos ainda ole j',uia no caminho para I )e*us. Se* vos, e*spe<wd

V11
á

me*nfe* o>s mais jovens, não f i zestes ainda semelhante experiência, senti-la-
e*is provavelmente um dia, com sua penetrante doçura, quando, reencon­
trando em uma estante superlotada, ou em um velho armário um pequeno
livro dos vossos primeiros anos, descobrireis com emoção em suas páginas
amarelecidas, como uma flor dissecada do jardim de vossa infância, aquela
história edificante, aquela máxima moral, aquela devota oração, que havíeis
deixado sepultar sob o pó das ocupações e preocupações da vida cotidiana,
mas que retomará imediatamente o perfume, o sabor, a vivacidade das
côres com as quais tinha a um tempo encantado e fortificado a vossa alma.
Mis uma das grandes vantagens do bom livro. O amigo, cujos sábios conse­
lhos vos menosprezais, bem como suas justas repreensões, vos abandona; mas
0 livro, que vós abandonais, permanece fiel; mais de uma vez descurado ou
afastado, está sempre pronto para vos dar o auxílio dos seus ensinamentos,
a salutar amargura de suas admoestações, a clara luz dos seus conselhos.
Kscutai portanto os seus avisos, tão discretos quanto diretos. A reprovação
tanta vez merecida, que vos revolta, o dever, muita vez esquecido, que
vos recorda, êle já o disse a muitas outras pessoas, antes de dizê-lo a vós,
mas não vos denunciará o nome dos mesmos, como o vosso êle não reve­
lará a quem quer que seja, e enquanto sob a lâmpada silenciosa, através
dos vossos olhos fixos sôbre êle, vos adverte, conforta, ninguém ouvirá sua
voz, a não ser o vosso próprio coração C1).
* * *

Dcveis portanto persuadir-vos de que existem livros maus e maus para


todos, como aquêles venenos contra os quais ninguém pode proclamar-se
imune. Como em todo homem a carne está sujeita às debilidades, e o espírito
está pronto à rebelião, assim para cada homem tais leituras constituem um
perigo. Os Atos dos Apóstolos contam que, durante as pregações de São Paul o
em Éfeso, muitos daqueles que tinham ido atrás das artes vãs e supersti­
ciosas levaram os livros e os queimaram públicamente; calculado o valor
oIêstes escritos de magia assim reduzidos a cinzas, encontrou-se que subia
a quase cinqüenta mil dinheiros. Em seguida, no curso dos séculos, os Pon­
tífices Romanos tiveram o cuidado de publicar um catálogo ou índice de*
livros cuja leitura é proibida aos fiéis.
I)eve-se considerar que muitos outros, embora não expressamente nomea­
dos, caem sob a mesma condenação e proibição, porque danosos para a fé
o* para os bons costumes. Quem poderia maravilhar-se de semelhante proi­
bição) da parte daqueles que são os tutores da saúde espiritual dos fiéis?
'Também a sociedade civil não se esforça talvez com sábias normas legis­
lativas e profilácticas para impedir a ação deletéria das substâncias tóxie*as
na economia doméstica e industrial e para circundar de cautelas a venda e
o) uso olos venenos, especialmente dos mais nocivos?
Se* Nós vos recordamos êste grave dever é por causa da extensão do mal,
facilitada atualmente pela amplidão sempre crescente da produção das livra ­
rias, o’omo também da liberdade para ler tudo. Como não há uma liberdade
para eemuM- e beber tudo aquilo que se tem nas mãos, por exemplo a e*o-
eaína o* o> ácido prússico, assim também não pode haver uma libcrdaele* para
1o>i' tiulo.
Certamente não é para vós proibido degustar o encanto das histórias do*
pura e sã ternura humana; a própria Sagrada Escritura oferece* se*melhan-
tes ro*latos que teA*m conservado através dos séculos a sua plenitude* idílica;
e*omo o cMicontre) de Jacó o Raquel, o noivado do je>vem Tobias. E orxistiram
(I) I >I Hl III .111 .MIN tH|lll' ,HH, 'II llt jlllllll, l(M O.
também autores de grande engenho, que escreveram bons e honestos roman­
ces. Mas, ao lado destas puras flôres, no vasto império das obras de imagi­
nação, há um pulular de plantas venenosas! Ora, muito f r e q ü e n t e i Y i e u t . e
estas últimas, mais acessíveis e vistosas, são colhidas e mais de boa vontado*
aspiradas por causa de seus perfumes agudos e inebriantes.
“ Não sou mais uma criança — diz aquela jovem — e conheço a vida:
tenho portanto o desejo e o direito de conhecê-la ainda melhor” . Mas n a o
percebe, pobrezinha, que a sua linguagem é a de Eva diante do fruto p ro i ­
bido; e crê ela talvez que para conhecer, amar, utilizar a vida seja neevs -
sário perscrutar dela todos os abusos e deformações?
“ Não sou mais um menino — diz igualmente aquêle jovem — e à minha
idade as descrições sensuais e as cenas voluptuosas não fazem mais ne»nhum
mal.” Está êle bem seguro disto? Se fôsse verdade, isto seria o sinal do* nm;i
perversão inconsciente, fruto de más leituras já feitas. Assim, segundo a l ­
guns históricos, Mitridates, Rei do Ponto, cultivava ervas venenosas, pre-pa
rava e experimentava também sôbre si próprio os venenos aos quais o|i i o t í ; i
se habituar; donde o nome de mitridatismo.
Mas não creiais, jovens e môças que vos deixais por vêzes arrastar a ler,
talvez em segrêdo, livros suspeitos, não creiais que os seus venenos sejam
sem efeito sôbre vós; temei antes que êste efeito, por não ser imediato, :;o\j;i
mais maléfico. Existem nos países tropicais algumas “ glossinas” ou inselos
“ dípteros” , conhecidos com o nome de môscas tsé-tsé, cuja mordida não oca •
siona uma morte repentina, porém uma simples e fugaz irritação local, ma:;
inocula no sangue tripanossomos deletérios; quando os sintomas do mal se;
manifestam claramente, em geral, é tarde demais para trazcr-se um ivmedio.
Semelhantemente as imagens impuras e os pensamentos nocivos que produ ­
zem em vós um mau livro, parecem por vêzes entrar em vossa mente» .sem
vo»s fazer, como se diz, uma ferida sensível.
Vós sereis então fàcilmente recidivos, nem percebereis que, em tal modo,
pelas janelas dos olhos penetra a morte na casa da vossa alma: se não re»a~
girdes logo e fortemente, esta, como um organismo entorpecido pela “ doença
oloi .sono” , escorregará lânguidamente no pecado mortal e na inimizado; olo-
I )eus.
O perigo das más leituras é antes, sob alguns aspectos, mais funesto o|tio>
o» das más companhias, porque sabe tornar-se mais traiçoeiramente; fami­
liar. Quantas crianças ou jovens, sós, nos próprios quartos, com pohiikmio:;
livros cm voga, deixaram que tais livros lhes dissessem cruamente coisas
o|ue não permitiriam a outros murmurar sequer em suas presenças, mi do‘i-
xaram que se descrevessem cenas das quais não quereriam por noMihuma
o-oíisa do mundo ser promotores ou vítimas! E infelizmente, assim se preparam
para amanhã se tornarem iguais! Outros, cristãos e cristãs, que desde; sua
i nfância caminharam pelas vias retas, gemem depois pelo improviso aumen­
tar das tentações que as oprimem e diante das quais se sentem sempre mais
olo'1 bois.- Talvez se interrogassem sinceramente a sua consciência, do'veriam
ivconhecer que leram um romance sensual, desfolharam uma revisla im o­
ral, fixaram o olhar sôbre ilustrações inconvenientes! Po)brc\s almas, podem
lòjíicamento lamentar-se que uma avalanche de lôdo ameace submergi-las
so> abriram os diques de um oceano envenenado?
I*o>r vo"'zes a e o m t e c e q u e p a i s c r i s t ã o s , q u e u s a r a m m u i t a s c a u t e l a s p a r a
a e»elucaçãe> de» u m f i l h o oni d o u m a f i l h a , (|iic» o>s c o n s e » r v a r a n i lon/íe» d o s
pra ze re » :; p e r i g o s o s o d a s p e r v e r s a s o - o m p a n h i a s , v e j a m - n o s do» u m m o m e n t o
p a r a o u i l r o , n a idade» d o s d e z o i t o o u d o s v i n t e a n o s , t o r n a r e m - s e » v i t i m a s ele
m i s e T á v e i s e ato'» e \ s c a n d a l o s a s o | u e d a s : e> b o m f . r a o e|iio> o-lcs h a v i a m s e m e - a d o
p e r m a i l e c o - u a s s i m a r r u i n a d o po*lo> j o i o . Q homii f o i e> “ in i m io M is l i o m o ” o pie
f e z soM nelbanto » m a l ? N o m e s m o l a r , ua<|iic»le» pe-que-no p a r a i s o , o l e i i l a d o r ,

::11
. I I fl.. M l 1 11 1 111 li ' 1 1 1 1 r .
o astuto furtivamente se introduziu e encontrou ali, já preparado para ofe-
ro‘o‘t‘ 1' àquelas mãos o fruto sedutor e corrompedor: um livro descuidada­
mente esquecido sôbre a escrivaninha do pai, que minou no filho a fé do
batismo; um romance esquecido sôbre o sofá, ou sôbre a lareira, pela mãe,
o>fwscom na filha a pureza de sua primeira comunhão. Infelizmente o mal,
o1 1 ic* se descobre com consternação, é tanto mais difícil de ser curado, quanto
mais tenaz é a mancha inoculada no candor de uma alma.
# « *

Nós vivemos na época do cinema e da televisão. Sem dúvida am­


bas a si reservaram uma notável parte do tempo que antes pertencia à pa­
lavra impressa. E acontece que êles mesmos criam para o bom livro um
aumo'nto de valor, pois que, embora reconhecendo plenamente a importân­
cia da técnica e da arte no filme, todavia o influxo unilateral que êle exer-
o-ita sôbre o homem e especialmente sôbre a juventude, com a sua ação
ojuase puramente visual, traz consigo um tal perigo de decaimento inte-
lo'ctual, que já se começa a considerá-lo como um perigo para todo o povo.
Tanto maior, portanto, é o papel do bom livro de educar o povo a uma com­
preensão ainda mais pr-ofunda das coisas, educar para pensar e para
refletir ( a).

(!•') M ) 11n í i 1ti .in C l t n i K i r «mi h iii in .iilo ii.il dc l illló im , liv itm , n vlM .ii, 10 <li ili nm in n . I () ■(I
A MODA E A VIRTUDE
O movimento da moda nao tem em si nada de mau: brota espontânea -
mente da sociabilidade humana, segundo o impulso que inclina a eno-on
trar-se em harmonia com os próprios semelhantes e com a prática usada
pelas pessoas no meio em que se vive. Deus não pede que se viva lora olo
tempo, assim descurando as exigências da moda até tornar-se riolículo,
vestindo ao oposto dos gostos e dos usos comuns contemporâneos, sem se
preocupar jamais com o que lhes agrada. Eis porque mesmo o Angélico Santo»
Tomás afirma que nas coisas exteriores, que o homem usa, não há vío-io
algum, mas o vício vem da parte do homem que imoderadamente as usa,
ou em confronto do costume daqueles com os quais vive, fazendo-se esl.ra
nhamente parte discorde dos outros por si mesmo: ou usando das coisas,
segundo ao costume ou além do costume dos outros, com desordenado afo-t.o,
por superabundância de vestes soberbamente ornamentadas ou complacen
temente procuradas com cuidado, enquanto que a humildade e a simplici­
dade seriam suficientes para satisfazer o necessário decôro. E o mesmo Santo
Doutor chega até a dizer que na ornamentação feminina pode existir alo
meritório de virtude, quando fôr conforme ao mundo, à medida da pessoa
e, à boa intenção desde que as mulheres usem ornamentos decentes segundo
o estado e a dignidade delas, e sejam moderadas naquilo que fazem ole ao-nnlo
rom o costume da pátria: então também o ornar-se será um ato daopiela
virtude da modéstia, a qual põe regra no caminhar, no estar, no hábito» o1 o*in
todo)s os movimentos exteriores.
Mesmo seguindo a moda, a virtude está no meio. Aquilo que Deu:; po«ole é
recordar sempre que a moda não é, nem pode ser a regra suprema ola o-ou
oluta; que acima da moda e de suas exigências existem leis mais altas e im ­
periosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem :;o*r
sacrificados ao talante do prazer ou do capricho, e diante dos quais o» ídolo
ola moda deve saber inclinar a sua fugaz onipotência. Êstes princípios fo ­
ram proclamados por Deus, pela Igreja, pelos santos e pelas santas, pela
razão e pela moral cristãs, assinalados limites, além dos quais não flo»ro*sco'm
lírios e rosas, nem pairam nuvens de perfumes da pureza, da modéstia, do
deeóro e da honra feminina, mas aspira-se e domina um ar malsao» do>
lo>viandade, de linguagem dúbia, de vaidade audaz, de vangloria, nao» mo>nos
de 0 'spírito que de traje. São aquêles princípios que Santo Tomás mo:.Ira
para ornamento feminino e recorda, quando ensina qual deve ser a o»rdem
ilo> nossa caridade, de nossas afeições: o bem da própria alma devo pivovder
o do nosso» corpo, e à vantagem de nosso próprio co»rpo devenms pivlerir o
bem da alma de nosso pmxinu». Não se vê portanto quo há um limite o|iio*
nenhuma idoalizado>ra de modas pode fazer ultrapassar, a saber, ao|urlo> além
do opial a moda ::t* torna mãe do ruína para a alma própria o> dos oulros?
Al/’,uns jovo>ns dirão talvez ((ue uma determinada forma olo* vestido» é mais
fomotda, e também mais higiênica; mas, sc< constitui para a saúclo* ola alma
um piTip.o) jjrave e próximo, nao é certamente higiênica para o» espirito»;
li'iu o» dever de renunciar. A salvarao da alma lèz heroina:; as mártiroM
riiiiio Jnês e Cecília, em meio dos tormentos e lacerações de seus corpos
virginais.
So>, poíi- um simples prazer próprio, não se tem o direito de colocar em
poti/'() ;> saúde física dos outros, não é talvez ainda menos lícito comprome­
ter a saúde, ató a própria vida de suas almas? Se, como pretendem alguns,
unia moxla audaz não faz sôbre elas impressão alguma, que sabem da im-
prow.ao» o|ue o>s outros terão? Quem lhes assegura que outros não tenham disto
um incentivo mau? Não se conhece o fundo da fragilidade humana, nem de
o11 lo* sangue de corrução sangram as feridas deixadas na natureza humana
poda culpa dc Adão com a ignorância no intelecto, com a malícia na von­
tade;, com a ânsia do prazer e a debilidade para o bem, árduo nas paixões
dos sentidos a tal ponto que o homem, como cêra amoldável ao mal, “ vê
o) melhor e o aprova, e ao pior se apega” , por causa daquele pêso que sem­
pre, como chumbo, o arrasta para o fundo. Sôbre isso justamente se obser-
voju que, se algumas cristãs suspeitassem as tentações e quedas que cau­
sam o>m outros com vestes e familiaridades a que, em suas leviandades, dão
lao pouca importância, teriam pavor de suas responsabilidades. Ao que Nós
ikio) duvidamos de acrescentar: ó mães cristãs, se soubésseis que futuro de
po*rigo)s e íntimos desgostos, de dúvidas e irreprim ível rubor preparais para
vo>ssas filhas e filhos, com imprudência em acostumá-los a viver apenas
cobertos, fazendo dêles desaparecer o sentido ingênuo da modéstia, vós mes­
mas enrubesceríeis, e vos horrorizaríeis pela vergonha que causareis a vós
mesmas e o dano que ocasionareis aos filhos que vos foram confiados pelo
o'o'>u, para que crescessem cristãmente. E aquilo que dizemos para as mães,
ro'petimo-lo a não poucas senhoras crentes, e mesmo piedosas, que aceitam
seguir esta ou aquela moda arrojada, e com o seu exemplo, fazem cair as
últimas hesitações que retêm uma turba de suas irmãs que estão longe da-
quola moda, a qual poderá tornar-se para elas fonte de ruína espiritual.
Até certos provocadores ornamentos permanecem triste privilégio de mulhe­
res de reputação duvidosa e quase sinal que as faz reconhecer; não se
ousará, pois, usá-los para si; mas no dia em que aparecerem como orna­
mentos de pessoas superiores a qualquer suspeitas, não se duvidará mais
ole seguir tal corrente, corrente que arrastará talvez para dolorosas que-
olas (<).

(i) i >l*( i n no , i v ic u . i M .c n ,j 11vi in in !<• im i i i i i i i i i dc At,n<» r .n ó liíii, <ir n i.iin , r .M i,

1*1 (i ’ ' x
O MUNDO DE HOJE

O SISTEM A D AS LEIS N A T U R A IS

Eis, só para citar, no macrocosmo dos fenômenos puramente físico-quími-


cos, as numerosas e particulares leis da mecânica dos corpos sólidos, líquidos
e gasosos; as leis da acústica e do calor, da eletricidade, do magnetismo o*
da luz; as leis do andamento, da reação e do equilíbrio químico na química
inorgânica e orgânica; leis particulares que muitas vêzes se elevam ciiiini
normas mais alevantadas e gerais, de modo a fazer compreender e reconho*-
eer, em grande número, grupos de fenômenos naturais, que antes pareciam
desprovidos de qualquer interna relação, como conseqüência de lei superior.
Eis as leis do movimento dos planêtas a chegarem até a lei universal du gra-
vitaçao. As célebres equações de M axw ell não lançaram porventura uma
ponte entre os fenômenos da óptica e da eletricidade, e todos os fenômeno >s
naturais do mundo inorgânico, não estão submetidos à lei da constância o*
da entropia?
Se até há não muito tempo conheciam-se duas leis constantes: a da con­
se r vação da massa e a da conservação da energia, as mais recentes pesoiui-
sas'provaram com fatos e argumentos sempre mais convincentes quo* tôola
massa é equivalente a uma determinada quantidade de energia c vice-versa.
Portanto as duas antigas leis de conservação são em rigor aplicações espo>-
o*iais de uma lei superior mais geral, que diz: em um sistema fechado, não
obstante tôdas as mudanças, sempre onde se encontra uma notável transfor­
mação de massa em energia ou vice-versa, a soma de ambas permanece
constante. Esta lei superior de constância é uma das chaves, das quais h o j e
se serve o físico do átomo para penetrar nos mistérios do núcleo atômico.
Tal sistema científico, ricamente conexo e organizado, do macrocosmo,
o-ontém, fora de tôda dúvida, muitas leis de estática, as quais porém, con-
siolorada a multidão dos elementos: átomos, moléculas, eléctrons, fótons, etc.,
não são, por segurança e exatidão, notavelmente inferiores às leis estrita­
mente dinâmicas. Em todo o caso estão fundadas e quase ancoradas nas
lo*is rigidamente-dinâmicas do microcosmo, se bem que as leis microcôsmicas
nos sejam, em seus particulares, ainda quase totalmente desconhecidas, em­
bora as novas e ousadas pesquisas tenham feito esforços poolerosos para
po'no>trar na atividade misteriosa do átomo, em seu interior. A pouco e pouco,
ao o-airem ôsles véus, desaparecerá então o caráter aparentemente não cau­
dal dos fenômenos microcósmicos: um novo maravilhoso reino de oirdoMn, o*
olo» oirdem ató nas partículas mínimas, será descoberto.
i': r e a l me nt e s u r p r e e n d e n t e como se nos ap r e s e n t a m êstes íntimos p r o c e s -
; o>s de investigação» do> átomo, nã o s omente p o r q u e a b r e m dianto» do» nosso
o l h a r o» eonhec-imcMito de u m mundo> antes desconhecido, cuj a ri<|uo*za, m u l -
Iiplicidao io1 e regul aridade» p a r e c i a m de a l g u m moxlo) competi r comi as s uhl i -
moví g r a n d e z a s do f i r mamento, ma s t a m b é m p ara os efeitos impivvisívoMs,
r.i andiosos, <|U0' a loVuica poxle esperar. A tal ro!spo‘ito) não podemos abi i l rr-
iio:; do« moMicionar u m a o l mi i A v d l enómeno, olo» opial o Norton’ da Kísica l.o«ó

?I7
rio*n, Max Planck, nosso acadêmico, escreveu em um seu recente artigo
“ Sitm und Grenzen der exakten Wissenschaft” . A singular transformação do
ál,oino, ])or longos anos ocupou sòmente os que perscrutavam a ciência pura.
Por sem dúvida era surpreendente a grandeza da energia que por vêzes
aí se desenvolvia; mas, como os átomos são extremamente pequenos, não se
pensava seriamente que pudessem jamais adquirir uma importância também
na ordem prática. Hoje, pelo contrário, tal questão tomou um aspecto ines­
perado), depois dos resultados da radioatividade artificial. Estabeleceu-se de
falo que na desagregação que um átomo de urânio sofre, se fôr bombar-
oleado) por um nêutron, tornam-se livres dois ou três nêutrons, cada um dos
opiais se lança sozinho e pode encontrar e fraturar outro átomo de urânio.
I )e modo que se multiplicam os efeitos, e pode acontecer que o choque con­
tinuamente em crescimento dos nêutrons sôbre átomos de urânio, faça au­
mentar em breve tempo o número de nêutrons tornados livres, e propor­
cionalmente a soma de energia que dêles se desenvolve, até a uma medida
enorme e apenas imaginável. De um cálculo especial resultou que de tal modo
em um metro cúbico de pó de óxido de urânio, em menos de um centésimo
de segundo desenvolve-se uma energia suficiente para elevar a 27 mil me­
tros um pêso de um milhão de toneladas: uma soma de energia que poderia
substituir, por muitos anos, a ação de tôdas as grandes centrais elétricas de
toxlo o mundo. Planck termina observando que, se bem que não se possa
ainda pensar em colocar tècnicamente em proveito dos povos um tão tem­
pestuoso processo, todavia, está aberto o caminho para importantes possi­
bilidades, de maneira que o pensamento da construção de uma máquina de
urânio não pode ser estimado como mera utopia. Sobretudo seria impor­
tante que não se deixasse efetuar tal processo em modo de explosão, mas
que se freasse o curso com adaptados e especiais meios químicos. De outro,
modo poderia disto surgir não só no próprio lugar de experiência, mas tam­
bém para todo o nosso planêta, uma perigosa catástrofe.
#

Se agora, dos intermináveis campos do inorgânico nos elevamos até a esfera


da vida vegetativa e sensitiva, aí encontramos um novo mundo de leis na
propriedade, na multidão, na variedade, na beleza, na ordem, na qualidade
e na utilidade da natureza, que enchem o orbe terráqueo. Ao lado do
muitas leis do mundo inorgânico, encontramos também leis especialmente
superiores, leis próprias da vida, que não podem ser reduzidas às puramente
físico-químicas, porque não se podem considerar sêres viventes como se fôs-
sein apenas uma soma de elementos físico-químicos. É novo e maravilhoso
horizonte que a natureza nos apresenta: e basta que, como exemplo), ivcor-
(lonTio)s: as leis do desenvolvimento dos organismos, as leis das sensações
externas e internas, e sôbre tôdas as coisas a fundamental lei psicofísica.
Também a vida superior espiritual é regulada pela lei da natureza, podo
rnoMios assim qualificada, que o defini-la com precisão torna-se tanto mais
olifíeil quanto mais elevadas estão na ordem do ser.

f is t o a d m i r á v e l e o r d e n a d o s is t e m a d e l e i s q u a l i t a t i v a s o q u a n t i t a t i v a s ,
p a r t ic M ila r e s (' g c 'r a is , d o m a c r o c o s m o e d o m ic r o c o s m o , h o je 1 o*slá d i a n t e ol«»:t
o d h o s olo) o 'io 'n ti;;ta o m som c M it ro la ç a d o , j á o>m g r a n d e p a r t e d e s v e n d a d o o> d e :;
o*oborto. K p o r <|uo' o li/ e m o s d e s c o b e r t o s ? l ’ o ro |ti< ‘ n a o é n e m p r o jo la o lo , n e m
c o n s t r u í d o p o r n ó s , n a n a t u r e z a , o*:;! ip é n d i o olo» u r n a p i c t e n s a o , in a t a l'o>i m a
:;uI>.jo>tiva ola c o n s c i ê n c i a o u olo in t e le c t o h u m a n o , <»u a r t e fa t o ) o*m v a n la f .o - m

*/IH ' >


o uso da economia do pensamento e do estudo, para tornar por nós conhe­
cidas as coisas mais recônditas; nem mesmo é o fruto ou a conclusão» do»
entendimentos ou convenções de sábios investigadores da natureza. As leis
naturais existem por assim dizer, encarnadas e ocultamente operant.ovs no
íntimo da natureza, e nós com observação e experiências procuramos oIo*:;-
cobri-las.
Não se pode dizer que a matéria não é uma realidade, mas uma absfraçao
forjada pela Física, que a natureza em si é incognoscível, que o nosso» mim
do sensível é outro mundo “ a se” , onde o fenômeno, que ó aparência do
mundo exterior, nos faz sonhar a realidade das coisas ocultas. Não: a natu­
reza em si é realidade, e realidade cognoscível. Se as coisas aparcco>m o>
são mudas, têm porém uma linguagem que fala a nós, que sai do> seu ;;o>io,
como a água de uma fonte perene. A sua linguagem é a sua causaliolade
que chega aos nossos sentidos com a visão das côres e do movimoMito, o-om
o som dos metais, das turbinas e dos animais, com a doçura c a amargura
do mel e do fel, com o perfume das flôres, com a duração, o pêso v o calor
de suas matérias, imprimindo em nós uma imagem ou semelhança, o|uo- <•
meio para o nosso intelecto para reconduzir-nos à realidade das coisas. Ouole
não se fala de imagem ou semelhança do nosso intelecto, mas trata-se ola:;
próprias coisas em si; e sabe-se distinguir o fenômeno do mundo» so>n:;ív«•I,
da substância das coisas, a aparência do ouro, do próprio ouro, como a apa
rência do pão, do próprio pão, de cuja substância faz-se o alimento» paia
assimilá-lo e apropriá-lo à substância do corpo. O movimento das o*«»i r;a-.
causa em nós uma semelhança; sem semelhança não pode existir conter
midade do nosso intelecto com as coisas reais, e sem semelhança tonua :;o>
impossível o conhecimento; e nós não podemos dizer verdadeira o-o»i:;a al
guma, se não há uma adequação do intelecto a ela, e dela ao no>sso> inle-
lecto. As coisas (das quais nossa inteligência haure a ciência) mo>dem a
nossa mente e as leis que nelas encontramos e que delas recebemos; sao poi
sua vez medidas por aquêle Intelecto Eterno e Divino, no qual estào» tôda:.
as coisas criadas, como na mente do artífice está tôda obra de sua arte
Que faz a mão e o engenho do cientista? Descobre-as, desvenda-as, dislinc.ue
o> classifica, não como alguém que segue apenas um vôo de pássaros no
o-éu, mas como quem está de posse dos mesmos, e procura a natuiv/a o* a-;
propriedades intrínsecas dêles. Quando Lothar Meyer e Mendelejew o>m IJHil)
ordenaram os elementos químicos naquele simples esquema, ho>je indicado
como o sistema natural dos elementos, estavam profundamente comivomicí
dos de ter encontrado uma ordem regular, fundada sôbre suas propriovla ■
<les e tendências internas, uma classificação sugerida pela natureza, cujo
progressivo desenvolvimento prometia as mais extraordinárias descoibo>rfaM
sôbre a constituição e o próprio ser da matéria. De fato, daquclo* ponto
lomou movimento a investigação atômica moderna. No tempo da descoberta,
a assim chamada economia mental não era tomada om eonsidoraçao, pois
<H'o o primitivo esquema mostrava ainda muitas lacunas; nem sc' poxlia I ra­
lar de convenção, pois que a qualidade da matéria impunha tal ordem, fisle
é só um oxo'Tnplo, ontro muitos, donde os mais geniais cientistas do passaolo
e olo presente procederam, com a nobre persuasão de serem arautois do> uma
verdade, idêntica e a mesma para todos os povos e estirpes quo> calcam o»
:;nlo> olo globo e olham para o céu; uma verdado', apoiando-se em sua essên­
cia so^bro* uma “ Adaoquat.io> ivi o>t intellectus” , oiuo outra <•<>!:;a nao é senao
a conformidade adquirida, mais o»u menos perfeita, mais ou menois compli'la,
do nosso intelecto) à realidade objetiva das oo>isas naturais, o>m o|ik> com:.isto*
a verdado1 olo no»:;:;o» sahoT.
M a s nao mo* des l umbr o’, o'omo ao|ii('lo'S filósofo»:; (• cientista:: <111<' o<slimarnm
opie a:. 110;::.as IacuIdaoles cojmnscil i v a s nao ronihccriii senao a s p mp i m: ; mu

‘.‘ Pi
oiaii(;a:; o> sensações já que disseram que o nosso intoleeto chegari a a ter a
ciência só das semelhanças recebidas das coisas, e por isto só as imagens
da:; coisas, o; não> as coisas mesmas, seriam o objeto de nossa ciência e das
lo'is o|iie formulamos a respeito da natureza. Manifesto êrro. A ciência, que
o-,valia um Copérnico e um Galileu, um Kepler e um Newton, um Volta e
um Ma reuni, e outros famosos e beneméritos investigadores do mundo físico
o|Uo» nos circunda, mundo externo, seria um belo sonho da mente acordada;
«’ um belo fantasma do saber físico; a aparência substituiria a realidade e
a verdade das coisas; e outro tanto verdadeiro seria afirmar-se ou negar-se
uma mesma coisa, sob o mesmo aspecto. Não; a ciência não é dos sonhos,
noMu das semelhanças das coisas; mas das próprias coisas através das ima-
;*.<*!is opie delas recolhemos, porque, como depois de Aristóteles, ensinou o
Angélico Doutor, a pedra não pode estar em nossa alma, mas somente a
imagem ou a figura da pedra, que, semelhante a ela, se produz em nossos
nomitidos e depois em nosso intelecto, a fim de que por tal semelhança possa
o*star e de fato esteja em nossa alma, em nosso estudo e nos faça retornar
a o‘la, reconduzindo-nos à realidade. Também as recentes pesquisas da Psi-
o*ologia experimental atestam, ou melhor, confirmam, que esta semelhança
não é mero produto de uma atividade subjetiva autônoma, mas são reações
psíquicas a estímulos independentes do sujeito, provenientes das coisas; rea-
o;ões conforme as diversas qualidades e propriedades das coisas; e que va ­
riam, variando o estímulo.
As imagens, portanto, que as coisas naturais, ou por meio da luz e do
calor, ou por via do som, do sabor, e do odor, imprimem em nossos órgãos
dos sentidos e através dos sentidos internos chegam ao nosso intelecto, não
são senão instrumento que nos fornece a natureza, nossa primeira mestra
olo) saber, para fazer-se conhecer por nós; mas não é menos verdadeiro que
nós podemos examinar, estudar, indagar de tal instrumento e refletir sôbre
o\stas imagens e sôbre quanto elas nos apresentam da natureza e sôbre a via
pela qual se tornam nossa fonte de conhecimento no mundo que nos cerca.
Do> ato pelo qual nosso intelecto entende a pedra, nós passamos ao ato de
o*nt,ender como o nosso intelecto entende a pedra: ato que secunda o pri­
meiro, porque o homem, nascendo sem idéias inatas, sem sonhos de uma
vida anterior, entra virgem de imagens e de ciência no mundo nascido
feito como já recordamos — para “ aprender somente sentindo aquilo que
depois faz do intelecto digno” .
Admirai, ó investigadores da natureza e das leis que a governam, no cen­
tro olo universo material, a grandeza do homem, em cujo primeiro encon­
tro) com a luz, por êle saudada com gemido infantil, Deus abriu o teatro
da toM-ra e do firmamento, com tôdas as maravilhas que o encantam e atraem
:;<*us o)lhos inocentes! Êste teatro, que é senão o fundamental e primeiro objeto>
olo> todo conhecimento humano, que dali se inicia com mil e mil interroga-
o;óí\s quo a natureza mestra volve e revolve na avidez de nossos sentidos?
Vós vos maravilhais em vós mesmos; escrutai vossos atos interiores, incli­
nai-vos sôbre vós mesmos, procurando as fontes, e as encontrais naqueles
: o>ntiolos internos, naquelas potências e faculdades, feitas objeto de uma
nova ciência de vós mesmos, da vossa íntima natureza racional, do vosso
sentido, do* vosso intelecto e de vossa vontade. Eis a ciência do homem o do*
Mias lo*is corpóreas e psíquicas, eis a Anatomia, a Fisiologia, a Medicina, a
I>í;io,olo)gia, a fttica, a Política e aquela soma de ciências que, mesmo no mo*ioi
do* so*us omtois, é um hino a Deus, que, plasmando o homem, lhe inspirou um
espírito do* vida superior ao dos outros sêres vivomtes, feito à imago*m o* so*-
mo>lhnnça sua. () macroicosmo extrínseco material diz assim do* si uma gran-
do* palavra ao mici,oo,o:;mo intrínseco espiritual: um e outro, o*m sua fôrca
opo-rosa, s:io> soberanamo-nto' rejjulados pelo Autor das leis da matei ia o.* do

'.'V.O
espírito, do qual, como do supremo governo de Deus no mundo, para niio
entreter longamente a vossa atenção, Nos reservamos de discorrer, se assim
agradar ao Senhor, em outra ocasião; mas as mudanças do espírito, o|iu>
escuta a voz e as maravilhas do universo, por vêzes são terríveis, e lhe ohio>
vertigens, por vêzes o exaltam e o fazem dar passos, até no caminho) ola
ciência mais gigantesca dos movimentos regulares dos planêtas e oias cons­
telações dos céus, até a sublimá-lo, do mundo físico material do seu estudo,
ao mundo espiritual além do criado para louvar “ o Am or que move o sol
e as demais estréias” .
Êste amor, que criou, move e governa o universo, governa e rego tam­
bém a História e o progresso da humanidade inteira, e tudo dirige para um
fim, oculto ao nosso pensamento na caligem dos anos, mas fixado pelo o*t<*rim>
para aquela glória que dêle narram os céus e que Êle espera do amor dos
homens, aos quais concedeu encher a terra e sujeitá-la com o seu tra
balho. Possa êste amor comover e voltar o desejo e a boa vontade dos po>olc~
rosos e de todos os homens a se irmanarem, para operarem na paz o iwi
justiça, para se inflamarem no fogo da imensa e benéfica caridade de Domin,
o cessem de inundar de sangue e semear de ruínas e prantos esta to«rrn
onde todos, sob qualquer céu, fomos colocados para militar como filhos olo-
Deus, para uma vida eternamente feliz! C1)

(I) IHmiiiiii mu limnuiiiiivAo VI I Alio INmlIlli l;i Ai .ulrmlit 1I111 O.lfmliiv üü de le vr ir lm , l'lil
SÔBRE O CINEMA
O cinema, sessenta anos depois de ser inventado, é hoje um dos mais
importantes meios de expressão do nosso tempo.
Tivemos já no passado ocasião de falar das várias fases do seu desenvol­
vimento e das razões por que êle fascina a alma do homem moderno. Tal
pro)gresso, que se verificou particularmente no campo do film e de entrecho,
dou origem a uma indústria importante, que depende não só da colaboração
entre numerosos artistas e técnicos de competências várias, mas também de
complexos problemas econômicos e sociais, que dificilmente poderiam ser
o'nfrcntados e resolvidos por pessoas particulares.
Assim, não será possível tornar o cinema “ instrumento positivo de ele­
vação, educação e melhoramento” , sem a conscienciosa colaboração de quan­
tos têm parte de responsabilidade na produção e na difusão dos espetáculos
ei nematográficos.
Mostramos já os elementos constitutivos do “ film e ideal” a todos os que
se interessam pelo “ mundo do cinema” , convidando-os a realizar êste alto
oíbjetivo da própria vocação.

A C LAS SIFIC A Ç Ã O M O R AL

Com êste objetivo, publiquem-se com regularidade, para informação e


norma dos fiéis, os juízos morais sôbre os espetáculos cinematográficos dados
po>r uma comissão própria, composta de pessoas de doutrina segura e vasta
experiência, sob a responsabilidade do organismo nacional.
Com estudo apropriado e com o recurso a Deus, devem-se preparar os
componentes do corpo de revisão para as responsabilidades de cargo tão deli­
cado, como é julgar com competência do valor moral das obras cinemato­
g rá f icas e do influxo que elas podem exercer nos espectadores do próprio
país.
An julgar do conteúdo e da apresentação dum filme, inspirem-se os revi-
so>re\s nas normas por Nós expostas nos discursos mencionados sôbre o “ filme
id<>al” , o em particular nas que dizem respeito aos assuntos religiosos, á
jipro»sentação do mal, e ao respeito devido ao homem, à família e à santi-
<Indo? desta, à Igreja e à socieoíade civil.
Deverão recordar-se também que um dos fins principais da classificação
moral é esclarecer a opinião pública e educá-la no respeito e apreço dos
valores morais; sem êstes não se pode ter nem verdadeira cultura no>m
oMvili/.ação. Seria portanto reprovável qualquer indulgência com os filmes
<|iio', apresentando emHora valores técnicos, ofendem a ordem moral, ou,
respeil.anolo) na aparência os bons costumes, contêm elementos contrários â
le o"ifóIio*n.
In d ic a n d o c la r a m e n t e q u a is o s f ilm e s p a r a to d o s, q u a is o s r e s e r v a d o s a
a d u lt o s , oi q u a i s o s p r o - j u d ic i a is o u p o s it iv a m e n t e ' m a u s , e>s j u í z o s t n o ira is po*r-
m ilir a o » a o’a d a u m e s c o llie u - o>s e s p e tá e m lo s , do> o|uo> h á d e s a i r “ m a is a le g r e ,
m a is livro* <>, n o íu l. im o , m e lh o r d o o |iie a o e n t r a r ” . K p e r m i t i r ã o a i n d a e v i t a r

VlfÜ * *
aquêles filmes que poderiam danificar a alma, dano agravado ainda poda
responsabilidade tanto de favorecer as produções más como de dar escân­
dalo com a própria assistência.
Repetindo as recomendações do Nosso Predecessor de feliz memória nn
Encíclica “ Vigilanti cura” , recomendamos vivamente, onde fôr possível o* su-
posta a conveniente preparação, que se convidem os fiéis a renovar o oom-
promisso pessoal de observar fielmente a obrigação, que todos os católicos
têm, de se informar sôbre os juízos morais e de conformar com êstes o pró­
prio proceder. Com êste fim, onde os bispos o julgarem oportuno, poolo-rá
utilmente ser destinado um domingo do ano a promover orações o a ins­
truir os fiéis sôbre os deveres quanto aos espetáculos, e em particular o|tian
to ao cinema.

O CRÍTICO CINE M ATO G R ÁFIC O

Muito útil será nesta matéria a ação do crítico cinematográfico católico).


Não deixará de insistir nos valores morais, tendo na devida conta os juízos
que lhe permitirão com segurança evitar o perigo de cair num deplorável
relativismo moral ou de confundir a hierarquia dos valores.
Seria também lastimoso que jornais e revistas católicas, ao falam n olos
espetáculos, não informassem sôbre o valor moral dos mesmos.

OS EM PRESÁRIOS DAS S A LA S C IN E M A TO G R ÁFIC AS

Os espectadores, por meio dum ou doutro bilhete de entrada, como se» fôsso»
boletim de voto, fazem escolha entre o cinema bom e o mau. Mas granolo»
fica ainda a parte de responsabilidade para os empresários das salas cino*
matográficas e para os distribuidores dos filmes.
Conhecemos as dificuldades que os empresários têm atualmente do» ole
frontar por numerosas razões, e também por causa da expansão da to»lo»vi
são; mesmo porém no meio de circunstâncias difíceis, devem-se lembrar opie
a consciência não lhes permite apresentar filmes contrários à fé o à moral,
nem aceitar contratos que os obriguem a isso. Em numerosos países connpro
meteram-se louvàvelmente a não aceitar os filmes julgados prejudiciais ou
maus: Nós esperamos que essa oportuníssima iniciativa se possa estender a
tôda parte, e que nenhum empresário católico hesite em dar-lhe a sua adesao.
Devemos também lembrar com insistência o dever grave do excluir a pu
blicidadc comercial insidiosa ou indecente, mesmo se feita, como às vezes
acontece, em favor de filmes que não são maus. “ Quem poderá dizer o|iianlas
ruínas de almas, especialmente juvenis, provocam tais imagens, quo po»n::n
montos impuros o que sentimentos podem despertar, e quanto contribuem
para a corrução do povo, com grave prejuízo até da prosperidade da naçao>?"

S A L A S C ATÓ LICAS

f) ó b v i o q u e as s a l a s c i n e m a t o g r á f i c a s d ('p o n d o n t ,o s ola a u t o r id a d o * o 'c le -


s i á s t i c a , d e v e n d o g a r a n t i r a o s f i é i s o p a r t i c u l a r m e n t e à j u v o n t u d o ' o »sp efáculo i:t
o > d u ca tiv o )S o a m b ie n t o ' s ã o , n ã o p o d e m n p r o s o » n la r f ilm e s o|ii(» n a o s e j a m irre*
p i v e n s i v e i s so>b o p o n t o d e v i s t a m o r a l , t a m b é m m u it o olo» ro -o M u n cn d a r q u i»
a s s a l a s c a t ó lio ’a s so» u n a m o m a ss o c ia e Ó H r. c o m o lo u iv à v e lm e n t e so» le z n a l
j ' 1111s p a ís e s - p a r a podo»ro*m a s s im d o d V n d e r m a is o'ficazm o»nfo» o s inloMÔM-
{•;es c o in u iiH , s e c u n d o a s diro»l.rizo»s d o o r g a n i s m o n a c io n a l .

v:':\
A D ISTR IB U IÇ ÃO

As recomendações que demos aos empresários aplicam-se tambóm aos d i s­


tribuidores. Êstes, financiando até não raro as produções, terão maior pos­
sibilidade, e por conseguinte, mais grave dever, de apoiar o cinema moral­
mente' .são. Distribuir filmes, de fato, não pode de modo algum ser conside-
raolo mera função técnica, porque — como já recordamos repetidamente —
nau se* trata de simples mercadoria, mas de alimento intelectual e escola de
formação) espiritual e moral das massas. O que distribui e o que aluga fiI—
m<‘s participam portanto dos méritos ou das responsabilidades morais em
I uoIo o) que diz respeito ao bem ou ao mal causado pelo cinema.

ATÔRES

Não exígua parte da responsabilidade no melhoramento do cinema toca


também ao ator, o qual, se quer respeitar a sua dignidade de homem e de
artista, não pode prestar-se a interpretar cenas licenciosas, nem conceder
.sua cooperação a filmes imorais. Quando, portanto, o ator tenha conseguido
notabilizar-se pela sua arte e pelo seu talento, deve valer-se da fama mere-
eidamonte ganha para despertar no público sentimentos nobres, dando em
primeiro lugar, na sua vida privada, exemplo de virtude. “ É fàcilmente
compreensível — dizíamos Nós em discurso aos artistas — a emoção intensa
de alegria e nobre orgulho que invade o vosso ânimo perante êsse público
que vôdes diante, todo pendente de vós, ansioso, a aplaudir fremente de
entusiasmo” . Êste legítimo sentimento, porém, não pode autorizar o ator
cristão a aceitar, da parte dum público inconsciente, manifestações que, por
vêzes, se assemelham a idolatria, valendo para êles também a advertência
olo Salvador: “ De tal maneira resplandeça a vossa luz perante os homens
que êles vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai que está nos
céus” .

PRODUTORES E DIRETORES DE PRODUÇÃO

As mais graves responsabilidades — embora em planos diversos — são,


porém, as dos produtores e diretores de produção. A consciência de tais res­
ponsabilidades não deve constituir obstáculo, mas antes encorajamento aos
homens de boa vontade que disponham dos meios financeiros ou dos talen­
tos requeridos para a produção de filmes.
Nao raro as exigências da arte imporão, aos produtores e diretores de
produção responsáveis, difíceis problemas morais e religiosos, os quais, para
Iwm espiritual dos espectadores e perfeição da própria obra, requererão cri­
tério» c> orientação competentes, antes mesmo que o film e esteja realizado ou
durante a sua realização.
Nao hesitem, portanto, em pedir conselho ao respectivo Organismo Cató­
lico, que estará, de bom grado, ao seu dispor, delegando mesmo, se fôr no-
o'o*HsArio e com as devidas cautelas, um consultor religioso e perito. A con­
fiança na Tgreja não diminuirá, por certo, a autoridade e prestígio dos pro­
dutores o diretores de produção. “ A fé defenderá, até ao último extremo, a
personalidade do homem” , e mesmo no campo da criação artística, a porso-
nalidado' humana só poderá ser enriquecida e completada pela luz da dou­
trina cristã e das rotas normas morais.
N a o sc* a d m i t i r á , t o d a v i a , que; o s e c l e s i á s t i c o s s e p r e s t e m a c o l a b o r a r r u m
o s p r o d u t o r e s e i n c M n a t o g r á f i o o s , s o m e s p e c i a l o n c a r g o d o s s u p e r i o r e s , se*nde>
o b v i a m e n t e r e q u e r i d a p a r a i s so p a r t i c u l a r c o m p e t ê n c i a o a d e q u a d a pro«pa •
ração e não podendo sei’ deixado ao arbítrio dos particulares e determina
ção dessa competência.
Aos produtox'es e d i retores de produção católicos pedimos Nós não per­
mitam a realização de filmes contrários à fé e à moral cristã, mas se isl.o»
(o que Deus nao pei-mita) viesse a suceder, os bispos não deixarão de ad­
verti-los usando mesmo, se o caso o pedisse, das sanções oportunas.
Estamos porém convencidos que o remédio mais radical para orientar (*fi-
cazmente o cinema no sentido da altura do “ film e ideal” é o aprofunda­
mento da formação cristã de todos quantos tomam parte na criação de obras
cinematográficas.
Os autores dos filmes aproximem-se das fontes da graça, assimilem a dou­
trina do Evangelho, tomem consciência de tudo o que a Igreja ensina aovira
da realidade da vida, acerca da felicidade e da virtude, da dor e do pecaole»,
do corpo e da alma, acêrca dos problemas sociais e das asph-ações humanas,
e, então, hão de ver abrir-se ante os seus olhos caminhos novos e lum i nosos,
inspirações fecundas que produzirão obras fascinantes e de valor perma­
nente.
Haverá, portanto, que favorecer a multiplicação das iniciativas e das ma­
nifestações destinadas a desenvolver e intensificar a sua vida interior, lenelo
acima de tudo cuidado particular da formação cristã dos jovens que se pro>-
param para as pi-ofissões cinematográficas.
A o terminar estas considerações específicas acêrca do cinema, e x o r ­
tamos as autoridades civis a não auxiliarem, por forma alguma, a produ ­
ção ou programação de filmes moralmente inferiores, e a encorajarem com
medidas apropriadas as boas produções cinematográficas, especialmente* as
destinadas à juventude. Entre as ingentes despesas do Estado para fins elo*
educação não pode faltar o esforço e empenho na solução positiva de um
problema educativo de tanta importância.
Èm alguns países, e também por ocasião de exposições internacionais, véni
sendo utilmente atribuídos prêmios especiais aos filmes que se distinguem
pelo seu valor educativo e espiritual: ousamos esperar que as No>ssas adver­
tências hão de contribuir para juntar as fôrças do bem a fim de todos os
filmes meirecedores serem galardoados com o prêmio do apoio e reconhe­
cimento geral ( ’ ).
* * #

O FILM E ID E A L

Pode-se falar de um film e ideal?


O uso chama de ideal ao que nada falta daquilo que lhe é próprio e epu>,
pelo contrário, estas prerrogativas são por êle possuídas em grau po*i'fo»ito».
Neste sentido òxiste um film e simplesmente ideal? Por muitos, habitual­
mente é negada a existência de ideal absoluto; em outros têrmos, afirma-
so* a relatividade de um ideal.
Com estas premissas, parece-nos dever considerar o filme ideal, sob três
aspectos:
1) em relação) ao sujeito, significa em relação» aos espectado»res para o»s
o|iiais o filme ó destinado»;
2 ) em relação» ao objeto, isto é, ao conteúdo olo filme;
H) o*m relação à comunidade, sôbre a qual o filmo* exerce uma influencia
parfio‘ul'ar.
Ile\strinj;ir-no.s-emo>s a tratar he>j<* o» primeiro» aspecto».

(I) I 11< 1111 < .1 "M Ii.im iIii iiio im u ", H ilr ncIiiiiIiiii, M l íi V ,
O FILME IDEAL CONSIDERADO EM RELAÇÃO AO ESPECTADOR

a) O primeiro caráter, que sob esta consideração distingue o film e ideal,


o o respeito para com o homem. Não há motivo algum para que se subtraia
à norma geral, segundo a qual quem trata com homens deve estar pleno de
respeito para com o homem.
Embora as diferenças de idade, de condição e de sexo possam sugerir
nma atitude diversa e uma adaptação, permanece sempre homem o objeto,
co)in a dignidade e elevação que o Criador lhe deu quando o fêz à sua ima­
gem e semelhança.
IJma vez que o espetáculo cinematográfico, como já se observou, tem o
poder de dirigir o ânimo do espectador para o bem ou para o mal, chama-
rcmos ideal somente aquêle film e que, não somente não ofende quanto aca­
bamos de descrever do homem, mas o trata com respeito. A té nem só isto
basta! Devemos dizer: que reforça e eleva o homem na consciência da sua
dignidade; que lhe faz conhecer e amar ainda mais o elevado grau, em que,
(‘in sua natureza, foi colocado pelo Criador; que lhe fala da possibilidade
ole aumentar em si os dons de energia e de virtude de que dispõe; que lhe
reafirma a persuasão segundo a qual êle pode vencer os obstáculos e evitar
resoluções erradas; que pode sempre levantar-se das quedas e voltar ao bom
caminho; que, finalmente, pode progredir do bom para o melhor, mediante
o uso, de sua liberdade e de suas faculdades.
b) Tal film e teria já na realidade as funções fundamentais de um filme
ideal; mas poderá ser ainda mais, se ao respeito pelo homem adiciona-se
uma afetuosa compreensão. Recordai a comovente palavra do Senhor: “ Tenho
piedade desta gente” .
Mas não basta a compreensão do homem em geral, quando o film e se
dirige a uma determinada profissão ou condição; é preciso além disto a com­
preensão específica dos caracteres particulares nos diversos estados sociais.
O filme deve comunicar ao que o vê e escuta o sentido da realidade, mas
de uma realidade vista com os olhos de quem sabe mais do que êle, e tra­
tada com a vontade de quem fraternalmente se coloca quase ao lado do
espectador para poder, se fôr o caso, ajudá-lo e confortá-lo.
Com êste espírito a realidade reproduzida pelo film e é representada em
visão artística, pois que é do artista não reproduzir mecânicamente o real,
nem sujeitar-se unicamente às possibilidades técnicas dos instrumentos, mas
sim, servindo-se dêles, elevar e dominar o material, sem alterá-lo nem sub­
ira í-Jo à realidade.
e) Ao respeito e à compreensão deve unir-se o cumprimento das promes­
sas o a satisfação dos desejos, desde o princípio, talvez, aquelas feitas e êstes
suscitados; antes, geralmente os milhões de pessoas que afluem ao cinema
aí vão levados pela vaga esperança de encontrar a satisfação de seus secre­
tos o imprecisos desejos, de suas íntimas aspirações; na aridez de suas violas,
ro-fugiam-se no cinema como junto de um mago, que tudo pode transfor­
mar, com o toque mágico de sua varinha.
O filme ideal deve portanto saber corresponder à expectativa, e trazer,
náoi uma qualquer satisfação, mas uma satisfação plena; não digamos olo*
todos os desejos, até dos falsos e irracionais (os ilícitos ou amorais aqui
nem entram em discussão), mas daqueles que o espectador, com justo diro-ito,
podo* nutrir.
S o b u m a (' o u t r a f o r m a , a s a s p i r a ç õ e s s ã o , u n i a v e z u m p a s s a t e m p o ,
o u t r a u m a i n s t r u ç ã o , o u u m a a l e g r i a , o u u m c o m lo r t o , o u u m a c o m o ç ã o ); a l ­
g u m a s m a is p r o f u n d a s , o i i i r a s s u p e r f i c i a i s . O film o* c o ir r e s p o n d e , o r a n u m ,
ora a outro pedido, ou até dá uma resposta que pode satisfazer a muitos,
de uma só vez.
Deixando portanto ao vosso juízo de especialistas o que compete ao lado
técnico-estético, Nós preferimos considerar o elemento psíquico-pessoal, paru
disto tirar a confirmação de que, embora as relatividades existentes, perm a­
nece sempre aquêle núcleo absoluto que dita as normas para coneedo*r ou
negar as respostas aos pedidos do espectador.
Para formar-se uma idéia sôbre a questão, não é necessário voltar às e*ou
siderações de film ologia e de Psicologia, de que já falamos; basta fazer-se*
guiar, também nisto, pelo comum bom-senso. No homem normal, roalineule,
há uma, por assim dizer, não douta Psicologia, derivante da própria natu
reza que o coloca na possibilidade de se dirigir retamente nos casos onli
nários da vida cotidiana, contanto que siga a sua sã faculdade de pensar,
o seu sentido do real e os conselhos da sua experiência; mas sobretudo o*oii
tanto que o elemento afetivo seja nêle ordenado e regulado, pois que* aquilo»
que em última análise determina o homem a julgar e a operar ó a sua
atual disposição afetiva.
Baseado nesta simples Psicologia, está claro que quem vai ver um li Im«*
sério e instrutivo, tem direito ao prometido ensinamento; quem vai a uma
representação histórica, quer encontrar exibido o acontecimento, incsnm :;e
as exigências técnicas e artísticas modifiquem e elevem a forma do me*sme>;
a quem foi prometida a visão de um romance ou de uma novela não elevo*
voltar desiludido por não ter visto desenvolver o conteúdo do que esperava.
Mas há quem, pelo contrário, cansado da monotonia de sua vida, ou entra
quecido pelas lutas, procura no filme, em primeiro lugar o divertimento, o>
esquecimento, a distensão; talvez mesmo na fuga em um mundo ilusório. Sao
legítimas estas exigências? Pode o film e ideal adaptar-se a tais esporan<;as
e' procurar satisfazê-las?
O homem moderno — afirma-se — à tarde de seu turbulento) e monótono
dia, sente a necessidade de mudar as circunstâncias de pessoas e de lunar:
portanto deseja representações, que com a multiplicidade das imagens, lir.a
das entre si apenas por um leve fio condutor, acalmem o espírito, ainda opie
só parem na superfície e não desçam às profundidades: contanto) quo ivani
mem a sua desfibrante fadiga e afastem o tédio.
Pode ser que seja assim, e até não poucas vêzes. Neste caso o Filme* do*vo*
procurar corresponder, em forma ideal a tais condições, evitando) porém cair
na vulgaridade, ou em indignas sensações.
Não se nega que até uma representação superficial possa atingir olo'vada:;
lormas artísticas e ser qualificada até como ideal, pois que o homem é Iam
bém superficialidade e não somente profund i dade: é porém estulto aquo-le
opie é sòmentô superficialidade e não consegue aprofundar o)s pensamento):;
o* sentimentos.
Por .sem dúvida ó concedido ao film e ideal conduzir o e\spírito ean:;aolo
o* cheio de tédio, até ao limiar do mundo da ilusão, a fim de oiiu* gor/.<* uma
breve trégua da oprimente realidade; terá porém todo cuidado para nao n*
vo*stir a ilusão de tal forma, que pelos espíritos monos at.ilado>s o mais débeis
nao) seja tornada pela realidade. O film e que ola realidade conduz à ilusão,
oIo*vo* também reconduzir ola ilusão à realidade*, com a mesma suavidade* <|uo>
o'inpro'ga a natureza no sono. Também o*la subtrai o> homem o-ansado à ro*ali
daolo* o* o) me*rgulha, por breve tempo, no mundo ilusório dos sonhos; ma:i
depo is o) sono o) resl.itui rc*slabele*cido o* o|ua:;o* rouovaolo à pura realidade, à
o'o;;fumo*ira ro*alioladc* em o|iio* vivo* o* o|iio* elo>, embora com o> trabalho e o‘om
lida, olevo* inccssaiilc'inenfe dominar. Siga o filmo* a nafuro*/.a no*sle parliculai
lo*rá ent.ao cumprido uma uoifávcl parto* olo* sua obrigao.Mo.
ol) Mas o filmo ideal, considerado em relação ao espectador, tem, final-
mo»nte, outra positiva missão a cumprir.
Nao» bastam para sua valorização o respeito e a compreensão para com
e> espectador, como a correspondência às legítimas esperanças e aos justos
olo'st'jos do mesmo. Cumpre ainda que se adapte às exigências do dever ine-
ivnto à natureza das pessoas humanas e, em particular, às exigências do
espírito). O homem, desde o momento em que brilha a razão até ao seu extin-
/íuir-se, tem uma quantidade de obrigações a cumprir, à base das quais,
ovnno) fundamento de tôdas, está a de dispor retamente de si mesmo, a saber,
K(‘j;imdo o pensamento e o sentimento honestos, de acôrdo com a inteligên­
cia e a consciência. A necessária norma diretiva a propósito, o homem a obtém
pela comsideração de sua natureza, do ensinamento de outros, da palavra de
Deus aos homens. Arrancá-lo destas normas, seria torná-lo incapaz de levar
até ao fim a sua missão essencial, do mesmo modo que ficaria paralisado,
so fôssem cortados os tendões e as ligações que conjugam e sustentam os
membros e as partes do corpo.
Não se esconde portanto que para esta missão, requerem-se excelentes do­
tes artísticos, pois que sabem todos que não é certamente difícil produzir
filmes que se tornem cúmplices dos instintos inferiores e paixões que ar­
rastam o homem, subtraindo-o aos ditames de seu pensamento racional e de
sua vontade melhor. A tentação dos caminhos fáceis é grande, tanto mais
(luc o film e se presta otimamente a encher “ caixas” e salas, suscitar fre­
néticos aplausos e recolher, nas colunas de alguns jornais, apreciações por
olemais vulgares e benévolas, mas tudo isto nada tem a ver com o cumpri­
mento de um dever ideal. Em realidade, isto se torna decadência e degra­
dação; e, além de tudo, renúncia a excelsas alturas. O film e ideal pretende
atingir elevadas metas com esforço, não obstando a isto a oposição de m er-v
cadores sem escrúpulos.
Realizar o film e ideal é privilégio de artistas não comuns; certamente, é
o escopo a que, no fundo, tende vosso poder e vossa vocação. Faça Deus que
vos coadjuvem todos os que disto são capazes ( 2).

('.!) Ao» ir | ii('ir iil.in lc * iln "M u n do 0 ü t i c n i . i l o u i â l i i •>*’ , '•!! «Ir- (im lin, MI.V
SÔBRE AS NECESSIDADES DA HORA PRESENTE
Fala-se muito em organizar uma nova ordem. Na vigília do primeiro ad ­
vento de Cristo, quando o mundo romano parecia ser todo o orbe, já se espe­
rava uma ordem nova, e o doce V irgílio cantava a grande esperan<;a o o
regresso da virgem deusa da justiça: “ Magnus ab integro saeculorum nas-
citur ordo; iam redit et V irgo” . Ainda hoje o universo sente a necessidade
do renascimento da ordem, em que cada qual deva trabalhar como, ondo* e
quando possa. Olhai os homens de Estado: qual é e deve ser a sua nobre
missão? Não é porventura a de cuidar do bem comum na ordem temporal,
de harmonia, já se vê, com as exigências da ordem eterna e sobrenatural?
Olhai por outro lado a Igreja. Essa tem missão ainda mais alta: de restau ­
rar, de promover e dilatar, no seio da sociedade humana, o reino de J)o-us,
fora do qual jamais poderá consolidar-se, mesmo naturalmente, a ordem ve r­
dadeira e sincera, permanente e calma, que é a justa definição da paz ( ' ) .
# * #

Fazemos uso de um Nosso direito, ou melhor, cumprimos um Nosso dever,


se com a autoridade de Nosso ministério apostólico e o ardente incitamento»
de .Nosso coração chamamos a atenção e a meditação do universo inteiro
sôbre os perigos que rodeiam e ameaçam uma paz, a qual seja adequada
base de uma verdadeira nova ordem e responda às expectativas c aos voto»:!
dos povos para um mais tranqüilo futuro ( 2).
* * *

Tal ordem nova, que todos os povos anelam ver realizada depois das pro ­
vações e ruínas desta guerra, tem de ser levantada sôbre a rocha inabalável
ola lei moral, manifestada pelo próprio Criador por meio da ordem natural,
u por êle insculpida nos corações dos homens com caracteres indeléveis; le>i
moral cuja observância deve ser inculcada e promovida pela opinião pública
de tôdas as nações e de todos os Estados com tal unanimidade de voz o> de
fôrça, que ninguém se possa atrever a pô-la em dúvida ou atenuar-lhe o
vínculo obrigatório.
Como farol resplandecente, deve com a luz de seus princípios dirigir o»
curso da atividade dos homens de Estado, os quais terão de seguir as suas
aelmoestações e indicações salutares e profícuas, se não quiserem condenar
à tempestade e ao naufrágio todo o trabalho c esforços para estabelecer uma
ordem nova. Ilesumindo, pois, e completando o que em outras ox-asioes foi
po»r Nós exposto, insistimos também agora sôbre alguns pressupostos esso-n-
ciais de uma ordem internacional, que, assegurando a todos os povos uma
paz justa e duradoura, seja fecunda de bem-estar e prosperidade.
I) No» c a m p o d e u m a n o v a o r d e m f u n d a d a s ô b r e p r i n c í p i o s m o r a i s , n a o
h á l u g a r p a i a a le s a o d a lib e r e la d e , d a in t e g r i d a d e e d a s e g u r a n ç a d a s n u t r a s

(I) n in iliH ii IHI* I ||||1 I<‘ II'I ilc A (..1(1 C ;ilu li(.i, :!0 de scIcim IiIO, I i ) ‘l -í.
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I *■ I 'IO X II l' f llll|l>IIKI»


nações, qualquer que seja a sua extensão territorial ou a sua capacidade de
ole*lesa. Se 6 inevitável que os grandes estados, pelas suas maiores possibili-
oladois e poderio, tracem o caminho para a constituição de grupos econô­
micas entre si e as nações mais fracas e menores, é todavia incontestável —
o-omo) para todos, no âmbito geral do interêsse — o direito destas ao res-
po'ito> de sua liberdade no campo político, à guarda eficaz, nas contendas
entre os estados, daquela neutralidade que lhes compete segundo o direito
natural e das gentes, à tutela do seu livre desenvolvimento econômico, pois
ojiic só em tal modo poderão conseguir adequadamente o bem comum, o
bemi-estar material e espiritual do próprio povo.
2 ) No campo de uma nova ordem fundada sôbre princípios morais, não
ltá lugar para a opressão manifesta ou subdolosa das peculiaridades cultu­
rais ou lingüísticas das minorias nacionais, para o impedimento ou contra-
çao das suas possibilidades econômicas, para a limitação ou abolição da sua
natural fecundidade. Quanto mais conscienciosamente a competente auto­
ridade do estado respeitar os direitos das minorias, tanto mais segura e efi­
cazmente lhes pode exigir o leal cumprimento dos deveres civis, como aos
o>utros cidadãos.
3) No campo de uma nova ordem fundada sôbre princípios morais não
há lugar para acanhados cálculos egoísticos, tendentes a açambarcar as fon­
tes econômicas e as matérias de uso comum, de modo que as nações menos
favorecidas pela natureza fiquem delas excluídas. Ao qual propósito é-Nos
de suma consolação ver afirmada a necessidade da participação de todos aos
bens da terra, ainda naquelas nações que, ao operar êste princípio, perten­
ceriam à categoria das “ nações que dão” , e não “ das que recebem” . Mas é
conforme à eqüidade que a solução de tal questão, decisiva para a econo­
mia do mundo, se faça metódica e progressivamente com as necessárias ga-r
rantias, e aproveitando a lição das faltas e omissões do passado. Se na futura
paz não se arcasse corajosamente com êste ponto, ficaria nas relações entre
os povos uma profunda e vasta raiz a germinar amargos contrastes e exas­
peradas invejas, que acabariam por levar a novos conflitos. Note-se porém
ojue a solução satisfatória dêste problema está estreitamente ligada com ou­
tro) princípio fundamental de uma ordem nova, da qual falaremos no ponto
seguinte.
4) No campo de uma nova ordem fundada sôbre princípios morais, uma
vez eliminados os focos mais perigosos de conflitos armados, não há lugar
para uma guerra total, nem para uma corrida desenfreada aos armamentos.
Não) se deve permitir que a calamidade de uma guerra mundial com as suas
ruínas econômicas e sociais, com as suas aberrações e perturbações morais,
so> olespenhe pela terceira vez sôbre a humanidade. Para que esta seja tute­
lada contra tal flagelo é necessário que, com seriedade e lealdade, se pro-
cvela a uma limitação progressiva e adequada dos armamentos. O desequi­
líbrio) entre o exagerado armamento dos estados poderosos e o deficiente»
armamento dos fracos cria um perigo para a conservação da tranqüilidade
o» da paz dos povos e aconselha a descer a uma ampla e proporcionada lim i-
taçao na fabricação e posse de armas ofensivas.
Soígundo a medida em que se realizar o desarmamento, será preciso esta-
bo'lo'cer mciois apropriados, honrosos para todos e eficazes, a fim ele restituir
à norma: “ pacta sunt servanda — os tratados devem ser observado)s” , a
função vital e moral que lhe compete nas relações jurídicas entre os oístados.
Ksta norma, quo no passado so)freu crises preocupantes e infra<;5e\s ine'gá-
ve'i;;, tem por isso) mesmo) emeontrado cemtra si uma desconfiança o|iia:;o' in-
sanávi'1 non vários povos e> respee-f ívojs governantes. Para cpieí ivnasça a con­
fiança recíproca, oIo-vomu surgir instituiçe>(?s c(ue‘, conciliando o) r(,spo,ito> /;eral,
se dediquem ao nobilíssimo ofício de garantir o sincero cumprimento) dos
tratados, e de promover, segundo os princípios do direito e da eqüidade, opor­
tunas correções ou revisões.
Não Nos passa despercebido o cúmulo de dificuldade que será preciso
superar e a dose quase sôbre-humana de boa vontade que se requer ele1 .-ini ­
bas as partes, para que concordem em solucionar a dupla empresa aqui tra ­
çada. Mas êste trabalho comum é tão essencial para uma paz duradoura, epie
nada deve embargar aos homens de estados responsáveis de o empreo-nd..
rem e nêle cooperarem com as fôrças de uma boa vontade que, olhando no
bem futuro, vença as dolorosas recordações de tentativas frustradas no pas­
sado, e não se deixe aterrar à vista do gigantesco vigor que se requer paru
semelhante tarefa.
5) No campo de uma nova ordem fundada sôbre princípios morais, nao
há lugar para a perseguição da religião e da Igreja. Da fé viva cm um Deu,-;
pessoal transcendente deriva uma clara e constante energia moral <|ue in
forma todo o curso da vida; porque a fé não é só uma virtude, mas a porta
divina por onde entram no templo da alma tôdas as virtudes e se1 forma
aquêle caráter forte constante que não vacila nas lutas da razão o> da jus­
tiça. Isto vale em todos os tempos; mas muito mais num tempo e>m *111 «•
tanto do homem de estado como do último cidadão se exige a máxima e-ora
gem e energia moral para reconstruir uma nova Europa e um novo mundo
sôbre as ruínas que o conflito mundial com a sua violência, com o ódio o- n
elivisão dos espíritos acumulou ( 3).
* * *

Outro pressuposto indispensável para tal nova ordem é a vitória sôbre


o ódio, que hoje divide os povos; a renúncia conseqüente a siste>mas o> a
práticas de que êle recebe sempre novo alento. E em verdade, prc-sento-mc-nlo-
o‘in alguns países, uma propaganda sem freio e que não evita manifestar
alterações da verdade, mostra, dia a dia e quase hora a hora, à opinião pú
blica, as nações adversárias, a uma luz falsa e injuriosa. Mas quo'm <|iier
verdadeiramente o bem-estar do povo, quem deseja contribuir para pivser
var de incalculáveis danos as bases espirituais e morais da futura colabora
e;iio das gentes, considerará como dever sagrado e alta missão não olo*ixai‘
perderem-se, no pensamento e no sentimento dos homens os ideais naturais
da veracidade, da justiça, da cortesia e da cooperação no bem, e sobivtudo o>
sublime ideal sobrenatural do amor fraterno trazido por Cristo ao m undo(‘ ).

# * #

A concepção que atribui ao estado uma autoridade ilimitada, não é so­


mente um êrro pernicioso à vida interna das nações, à sua prosperidade1 e
ao> nraioir incremento do seu bem-estar, mas prejudica também as ivlaçoes
entre os pe)vos, rompendo a unidade da sociedade supranao-ional, tirando n
base* e> e> valor ao direito das gentes, abrindo caminho à violação) elos elireitos
alhe'ios o tornando) difíe-il o acôrdo para a convivência pacifica.
Kmbe>ra o gênero humano, por disposição de eneleun natural e-stabel<'e-ídn
por De-us, oste\ja dividido e'in grupos sociais, nações ou o>stado)S indepoMiden
les uns dos o)iitros, i m i e|ue> respeita ae> moelo de1 organizar o> elirigir sua viola
interna, acha-se contudo lir.ado por recípre>ce>.s vínculos morais o* juridie-o:;,
numa grande1 comunidade1, organi/.aela para e> be'in de; todos os povos o> rev.u-
(H) Aliiiin.no no Siiiio 0 .nlriiln, I de (Ir/rnitflo, lülll.
( ■( ) IiiiIiIIí.i "Nunimí I '< it >l il li i i l i i » " , '.,'11 t l r i mi IiiI ihi, I

V il
laela por leis especiais que tutelam a sua unidade e promovem a sua pros­
peridade.
Ora, nao há quem não perceba que a autonomia absoluta do Estado pÕe-
!;e• o‘in aberto contraste com esta lei imanente e natural, ou melhor, nega-a
radicalmente, deixando à mercê da vontade dos governantes a estabilidade
das ivlações internacionais e tirando a possibilidade de uma verdadeira
uniao e íecunda colaboração no que respeita ao interêsse geral.
Porque para a existência de contatos harmônicos duradouros e de rela­
ções frutuosas, é indispensável que os povos reconheçam e observem aquê-
los princípios de Direito natural internacional, que regulam o seu normal
funcionamento e desenvolvimento. Tais princípios exigem o respeito dos rela­
tivos direitos à independência, à vida e à possibilidade de um desenvolvi-
moMito progressivo no caminho da civilização; exigem, além disso, a fideli-
elaelo aos pactos estipulados e ratificados segundo as normas do direito das
Kontos.
Nao há dúvida que o pressuposto indispensável de tôda a convivência pa-
o'ílio'a entre os povos e a alma das relações jurídicas em vigor entre êles
é a mútua confiança, a previsão e persuasão da recíproca fidelidade à pala­
vra dada, a certeza de que tanto duma parte como doutra existe a con­
vicção de que é preferível a sabedoria às armas guerreiras, e que se está
disposto a discutir e a não recorrer à fôrça ou à ameaça da fôrça quando
surgissem tardanças, impedimentos, altercações e contendas, coisas que po-
do'in ter a sua origem não na má vontade, mas sim em circunstâncias que
se? modificaram ou interêsses que se contrastam.
Mas, por outra parte, destacar o Direito das gentes da âncora do Direito
divino, para ligá-lo à vontade autônoma do estado, é o mesmo que destro­
nar êsse Direito e tirar-lhe os títulos mais nobres e válidos, para abandoná-
lo à infausta dinâmica do interêsse privado e do egoísmo coletivo no intuito
do fazer valer os próprios direitos desconhecendo ao mesmo tempo os dos
ointros.
í<) também verdade que, com o andar do tempo e a mudança substancial
das circunstâncias, não previstas e talvez nem sequer previsíveis no ato da
ost ipulação, um tratado ou algumas das suas cláusulas podem tornar-se ou
parecer injustos, irrealizáveis, ou muito onerosos a uma das partes; é claro
c|iio, se isso acontecesse, dever-se-ia proceder oportunamente a uma dis-
omissjio) leal para modificar ou substituir o tratado. Mas considerar os pactos,
por princípio, como efêmeros e arrogar-se tàcitamente a faculdade de res­
cindi-los unilateralmente quando não convenham mais, seria o mesmo que
anular a confiança recíproca entre os Estados. Mutilar-se-ia assim a ordem
natural, cavando-se ao mesmo tempo entre as nações lamentáveis abismos
ole separação.
Ilojo todos contemplam com terror o abismo a que levaram os erros por
Nós caracterizados e as suas conseqüências práticas. Ruíram por terra as
o>rgulhe>sas ilusões de um progresso indefinido; e os que ainda cochilassem
seriam, na trágica época que atravessamos, despertados com as palavras do
profeta: “ Ouvi, ó surdos, e vêde, ó cegos” . O que exteriormente parecia
ordem, nik) era senão uma invasão perturbadora e desbarato das normas do»
vida normal, as quais, destacadas da majestade da lei divina, haviam con­
taminado todos os campos da atividade humana. Mas deixemos o passado <>
lancemos os nossos olhares para o futuro que, segundo, o quo promotom o;;
poderosos dêste mundo, apenas cessados os hodiernos o* sanguinolontos en­
contros, e-emsistirá numa nova reorganização do mundo, fundada na justiça
e na prosperidade. Será verdadeiramente diverso taT futuro? S om ó sobretudo
melhor? No fim desta /íiiorra, serão os tratados ele' paz e a nova oreloMn in­
ternacional animados de justiça o eqüidade para ce>m todos? Ser.io nnima-

W.'. ■
dos daquele espírito que liberta e pacifica, ou serão uma lamentável re>pe* •
ti(,‘ão dos erros antigos e recentes? Coisa vã e demonstrada pela expe*rién -
cia, seria esperar uma mudança radical exclusivamente do encontro bélico.
A hora da vitória é sempre uma hora de triunfo exterior da parte oU* opiem
a consegue; mas é ao mesmo tempo a hora da tentação, na qual e> anjo
da justiça luta com o demônio da violência. O coração do vencedor o*mlu
rece--se muito facilmente; a moderação e uma longividente sabedoria olepa-
ram-se-lhe como fraqueza; a exaltação das paixões populares, incitada po*lois
sacrifícios e sofrimentos suportados, vela muitas vêzes os olhos do»s ro*spon •
sáveis e faz-lhes desprezar a voz admoestadora da humanidade e da copii
dade, sobrepujada ou aniquilada pelo inumano: A i dos vencidos! R<*so>lu
ções e decisões nascidas em tais circunstâncias arriscam-se sempre a somomu
injustas se bem que cobertas com o manto da justiça.
Nao, a salvação dos povos não pode vir dos meios externos; a c*spada o | i i e
é capaz de criar condições de paz, não podia criar a paz. As energ i as o(ih■
devem renovar a face da terra devem partir do interior, do espírito. A mivn
organização do mundo, da vida nacional e internacional, quando cessarem
as amarguras e as cruéis lutas hodiernas, não deverá repousar mais na nivia
movediça das normas mutáveis e efêmeras, deixadas ao arbítrio do egoÍMim
coletivo e individual. Devem elas antes erguerem-se sôbre sólida baso*, só-
bre a rocha inabalável do Direito natural e da revelação divina. Dali olo*
verá o legislador humano atingir aquêle espírito de equilíbrio, aquele* apn
rado senso de responsabilidade moral, sem o que é fácil desconhece*r os l i mi
tos entre o legítimo uso e o abuso do poder. Tão-sòmente assim as suas
decisões poderão ter consistência interna, nobre dignidade e sanção ro-lir.m
sa, e não ficarão à mercê do egoísmo e da paixão. Porquanto, se ó vo*rdnde
que os males sofridos hoje pela humanidade procedem, em parte, olo d e s ­
equilíbrio econômico e da luta dos interêsses, no intuito de alcançar-s<> uma
distribuição mais equânime dos bens que Deus concedeu ao homem o-omo
meios do seu sustento e progresso, verdade é também que êles tem n sua
raiz muito mais profunda a tocar nas crenças religiosas e nas convicções
morais, pervertidas pelo progressivo afastamento dos povos da unidade ole
domtrina e de fé, de costumes e de moral, promovida um dia pola obra in
defessa e benéfica da Igreja. A reeducação da humanidade, para ícm- oiunle|iier
resultado positivo, deverá ser sobretudo espiritual e religiosa; de*vorá por
tanto, partir de Cristo, sua base indispensável, deverá ser operada pela jus­
tiça e coroada pela caridade.
Realizar esta obra de regeneração, adaptando os seus meios ás modifica­
das condições dos tempos e às novas necessidades do gênero humano, o-is a
tarefa essencial e materna da Igreja. A pregação do Evangelho, imposta pelo
somi divino Fundador, cm que se inculca aos homens a verdade, a justiça e a
caridade, e o dsfôrço para arraigar nas almas e nas consciências os somi» pre
evitos, cms também o trabalho mais nobre e frutuoso em favor da paz. A grau
oliosidade de tal missão quase que esmorece os corações olaquoloís (|uo* fazoMii
parto* da Igreja militante. Mas o empenhar-se para quo» sovia eli funolido o
ro*ino> de Deus, coisa que cada século procurou realizar do vários modos, com
oliversos m('ios e não poucas e duras lutas, é um dever impôsto a todo ao|iiele
opio' a /'raça divina arrancou das garras de Santanás o ((Uo* pelo batismo ele
go*u o-idadáo) daqu<‘ le reino. 10 se o pertencer a êsse ro*ino, o vívom' so*;1,imolo o
::»*u o*spírite>, o trabalhar polo seu incrcMno*nto o; o» tornar ao-o'ssiveis os seus
be*iis também àopiela porçáo da humanidade* <|u<* ainda dèle nao faz parle,
o-eiuivalo e*m nossos dias a olo*vo*r afrontar opoisiçõo s vastas o* tosiazes <* minu
cio,sarnento* organizadas, isso» a ninguém dispo*nsa da franca o* cora josa prn -
fissno olo* fé, mas ante;; dev<* incilar a ser f i rme na luta mesmo» A custa dos
miiioio*» sacrifícios. CJtuem vive olo <*spírito ole Cristo nao so* deixa abater peta:;

'.'11
o1i fioMi I(1ík Io' s que llio vêm ao encontro, mas sente-se como que impelido a cm-
pivgar tôdas as suas forças com plena confiança em Deus; não se esquiva
íik or.treitezas e necessidades da hora, mas afronta as suas asperezas, pronto
:;o'mpi-(' a concorrer com aquêle amor que não poupa sacrifícios; é mais forte
(|iio> a própria morte e não se deixa levar pelas impetuosas águas da tri-
bi ilação.
Quo» de torrentes de bens inundariam o mundo, de quanta luz, ordem e paz
gozaria a vida social, e quantas energias preciosas e insubstituíveis promo-
voM iam o) bem da humanidade se em tôda parte se concedesse à Igreja, mes­
tra olo.' justiça e de amor, aquela liberdade de ação a que tem direito sagrado
o> incontestável, por mandato divino.
Quantos males poderiam ser evitados, quanta felicidade e tranqüilidade
so> poderia criar, se os esforços sociais e internacionais se deixassem per-
mc\’ibilizar pelos profundos impulsos do Evangelho do amor na luta contra
o egonsmo individual e coletivo para se restabelecer a paz! Entre as leis
<1 1 u* regulam a vida dos fiéis cristãos e os postulados duma genuína huma­
nidade não existe nenhum contraste, mas sim comunhão de idéias e apoio
mútuo. Para vantagem da humanidade que, profundamente abalada, sofre
material e moralmente, formulamos um Nosso ardente desejo: e é que as
angústias presentes abram os olhos de muitos, a fim de que, iluminados pela
verdadeira luz, possam refletir sôbre Nosso Senhor Jesus Cristo e a missão
da sua Igreja nesta terra, e para que os que exercem o poder se resolvam
a dar à Igreja campo livre na formação das gerações, segundo os princípios
ola justiça e da paz.
Se, por uma parte, a Igreja não pode renunciar ao exercício desta sua mis­
são que tem por fim último realizar neste mundo o divino desígnio de res­
taurar tudo em Cristo, de outra, esta sua obra de restauração revela-se, hoje
mais do que nunca, necessária, visto a triste experiência vir demonstrando
(jiio os meios externos, as providências humanas e os expedientes políticos,
por si sós, são incapazes de dar um alívio eficaz à humanidade atribulada
por tantos males.
Convencidos da dolorosa falência dos expedientes humanos, e para afas­
tar as tempestades que ameaçam arrastar a civilização para tenebrosa vora-
gem, muitos são os que voltam seus olhares esperançosos para a Igreja, para
n Cátedra de Pedro, rocha de verdade e de amor, certos de que tão-sòmente
dali pode partir aquela unidade de doutrina religiosa e moral que, em tem­
pos idos, tanta consistência deu às relações pacíficas entre os povos.
Unidade para a qual dirigem também seus olhares nostálgicos tantos ho­
mens responsáveis pelos destinos das nações, os quais estão vendo hoje quão
incapazes são os meios em que um dia depositaram tanta confiança; a
unidade desejada por muitíssimos dos Nossos filhos que invocam cotidiana-
m e n t e o Deus de paz e de amor; unidade guardada por tantos espíritos no-
bro\s, se bem que afastados de Nós, o