Vous êtes sur la page 1sur 15

Paul Davidson, “Is economics a science? Should economics be rigorous?

”, real-world
economics review, issue n.59, 12 March 2012, p.58-66.
http://www.paecon.net/PAEReview/issue59/Davidson59.pdf
Tradução: Everton Sotto Tibiriçá Rosa

A economia é uma ciência? A economia deveria ser rigorosa?


Muitos economistas do mainstream (ex. Lucas, Cochrane) advertem que as

características de uma "ciência" exigem rigor, consistência e matemática. Assim, se a

economia prentende ser uma ciência ela deve apresentar estas características. Paul

Samuelson adicionou a advertência de que os economistas devem aceitar o axioma da

ergodicidade nos seus modelos para que a economia seja uma ciência ao lado da física,

da astronomia e da química. A teoria dos mercados eficientes possui todas estas

características. Assim, como é possível que os teóricos do mercado eficiente não tenham

previsto a crise financeira que começou em 2008?

Independentemente se eles se declaram monetaristas, teóricos das expectativas

racionais, [velhos] keynesianos da síntese neoclássica ou novos-keynesianos, o ponto

central das teorias do mainstream é a análise da eficiência dos mercados onde o futuro

pode ser conhecido. Para um "velho" e um "novo" keynesiano a única coisa que impede

a operação dos mercados eficientes no curto prazo é a suposição da rígidez de salários

nominais e preços. [Assim, esses "keynesianos" defendem a ação governamental

apenas, como John Willianson está sempre me dizendo, porque eles são muito

impacientes para aguardar pelo longo prazo].

Para estimular a discussão, eu desejo apresentar dois aspectos das crenças

universais dos economistas do mainstream. O primeiro envolve a discussão da diferença

entre um processo estocástico não-ergódigo e um processo estocástico ergódigo para

"conhecer" o futuro. O segundo aspecto referido envolve o uso da análise lógica-

axiomática-dedutiva e a matemática pelos economistas do mainstream para glorificar a


teoria dos mercados eficientes e o equilíbrio geral de Arrow-Debreu-Walras ou

equilíbrio geral dinâmico como a única forma de fazer economia do mundo real.

Por exemplo, para "provar" que os mercados são eficientes e o uso do teorema

da equivalência ricardiana para mostrar que as políticas de estímulo fiscal são inúteis -

pelo menos no longo prazo - requer a suposição de que o sistema econômico é

"ergódico".

A teoria dos mercados eficientes, os modelos de Arrow-Debreu, a equivalência

ricardiana, etc, exigem que as famílias, empresários e políticos possuam um

conhecimento correto, significante e acurado das coisas que irão acontecer no futuro se

eles estão para tomar decisões eficientes (ótimas) no dia de hoje.

Por que? Porque o tempo é um mecanismo que impede que tudo ocorra de uma

vez. Assim, as decisões tomadas hoje, normalmente, requerem um tempo significativo

para transcorrerem antes que o resultado das decisões apareça. Isso é verdade não

apenas para as decisões que envolvem projetos de investimento dos empresários, mas

também para a maioria das decisões dos consumidores, como a compra de um

automóvel ou um ipad, ou mesmo a decisão de em qual restaurante ir para ter um bom

jantar. [Quantos de nós ficamos algumas vezes desapontados com a comida que

pedimos em um restaurante?]. A mensagem dos mercados eficientes, Arrow-Debreu,

equivalência ricardiana, etc, não é aplicável ao mundo da experiência porque no mundo

real, as famílias não tem qualquer informação significativa e confiável sobre o futuro,

nem os policy makers do orçamento, nem os empresários. A mensagem errônea que está

baseada na suposição de que as pessoas tem conhecimento confiável e significante sobre

o futuro é resultado da aceitação de axiomas ruins como os que lastreiam a teoria do

mainstream. Isso ocorre não pela falta do uso do método dedutivo, do rigor, e da

matemática per se. Assim, não culpe o mensageiro pela mensagem!


O axioma da ergodicidade

Primeiramente, vamos considerar a distinção entre os processos estocásticos

ergódico e não-ergódico. Paul Samuelson (1969) escreveu que se os economistas

esperam levar a economia do "domínio da história" para o "domínio da ciência" eles

devem impor a "hipótese da ergodicidade" em suas teorias 1 . Em outras palavras, o

ganhador do prêmio Nobel, Paul Samuelson, tornou o axioma da ergodicidade a

condição sine qua non para o método científico em economia. Lucas e Sargent (1981)

também defenderam que o princípio por detrás do axioma da ergodicidade como sendo

o único método científico para se fazer economia.

Seguindo a indicação de Samuelson, a maioria dos economistas (ex. Cochrane,

Stiglitz, Mankin, M. Friedman, Scholes, etc) e escritores de manuais de economia

implicitamente ou explicitamente assumiram que os eventos econômicos observáveis

são gerados por um processo estocástico ergódico.

Mas não Keynes! Keynes (1936, p.16) sugeriu que a forma para entender porque

a teoria econômica clássica (ex. teoria dos mercados eficientes) não é relevante para o

mundo da experiência, quando ele percebeu que os velhos pensadores econômicos eram

"como geômetras euclidianos em um mundo não-euclidiano que descobrem que as

linhas aparentemente paralelas colidem, e censuram as linhas por não se manterem

paralelas. Assim, na verdade não existe remédio a não ser abandonar o axioma das

paralelas e construir uma geometria não-euclidiana. Algo similar é exigido na economia

nos dias de hoje". Keynes desenvolveu uma teoria que é mais geral do que a teoria

econômica clássica e do mainstream porque ela é baseada em menos axiomas restritivos

1
P. A. Samuelson (1969) "Classical and Neoclassical Theory" in Monetary Theory, edited by R. W. Clower
(Penguin Books, London) p.12.
fundamentais2. Quanto menor o número de axiomas, mais geral é a teoria. O axioma

clássico mais importante que foi eliminado por Keynes em sua teoria geral3 é o axioma

da ergodicidade.

O axioma da ergodicidade assume que o futuro econômico já está

predeterminado4. A economia é governada pela existência de um processo estocástico

ergódico. Só se precisa calcular as distribuições de probabilidade relacionadas aos

preços futuros e ao produto para se montar inferências [informações] estatísticas

confiáveis sobre o futuro. Uma vez que o tomador de decisão individual tem informação

confiável sobre o futuro, suas ações sobre os mercados livres serão ótimas na alocação

de recursos nas atividades que irão apresentar os maiores retornos possíveis no futuro,

garantindo assim a prosperidade global.

Para elaborar qualquer inferência estatística (risco probabilístico) referente a

qualquer universo, entretanto, seria necessário uma amostra do universo. Desde que

obter uma amostra do universo econômico futuro é impossível, o axioma da

ergodicidade assume que o futuro econômico é governado por um processo estocástico

ergódico não mutável e já existente. Conseqüentemente, a obtenção de uma amostra do

passado seria equivalente a uma amostra do futuro. Em outras palavras, o cálculo da

distribuição de probabilidade dos dados estatísticos do passado é assumido como sendo

2
Keynes (1936, p.3) disse que os axiomas fundamentais da economia clássica são aplicáveis a um " caso
especial..[que] acaba não sendo aquele da sociedade econômica em que nós vivemos, com o resultado
de que esses ensinamentos são desorientadores e desastrosos se nós tentarmos aplicar aos fatos da
experiência". Essa afirmação sobre o "caso especial" é ainda mais válida nos dias de hoje, dadas as
discussões econômicas de austeridade em Washington, no Reino Unido, Eurolândia, etc, e ao modelos
guiado pelas exportações, i.e. mercantilismo, políticas perseguidas em nações como a China que ainda
estão experimentando o "milagre econômico" em uma economia global deprimida.
3
Os outros dois axiomas que Keynes rejeita são: o da moeda neutra (pelo menos no longo prazo) de
modo que mudanças na quantidade de moeda não afetam variáveis reais; e 2. que a substituição bruta
é onipresente e, portanto, os ativos líquidos são bons substitutos para os ativos de capital (Ver
Davidson, 2009).
4
Conseqüentemente, a ação do governo pode apenas atrasar, mas não muda a solução ótima de longo
prazo já predeterminada pelos mercados livres.
a mesma coisa que calcular os riscos de uma amostra obtida do futuro 5. O axioma da

ergodicidade é uma fundação essencial para todos os modelos de administração

complexa de riscos desenvolvidos pelos "quants" de Wall Street6. Se a economia é não-

ergódica, contudo, esses modelos de computador são armas de destruição matemática

[Para modelos deterministas, o "axioma da ordenação" assume o mesmo papel do

axioma da ergodicidade nos modelos estocásticos].

Para as explicações técnicas das diferenças entre processos estocásticos

ergódicos e não-ergódicos deve ser lido o meu livro, The Keynes Solution: The Path To

Global Economic Prosperity (Davidson, 2009). Para a nossa discussão atual é preciso

notar, em essência, que o axioma da ergodicidade impõe a condição de que o futuro já é

predeterminado pelos parâmetros existentes (fundamentos de mercado).

Conseqüentemente o futuro pode ser passível de previsão confiável pela análise dos

dados passados e correntes do mercado para se obter a distribuição de probabilidade que

governa os eventos futuros. Em outras palavras, se os eventos futuros são assumidos

como gerados por um processo ergódico (para usar a linguagem dos estatísticos

matemáticos), então o futuro é predeterminado e pode ser descoberto hoje por meio da

análise de probabilidade estatística apropriada dos dados passados e de hoje referentes

aos "fundamentos" do mercado. Se o sistema é não-ergódico, o cálculo da distribuição

de probabilidade do passado e o corrente não oferecem nenhuma estimativa

estatisticamente confiável com relação à probabilidade de eventos futuros.

Novos-keynesianos como Stiglitz aceitam o axioma da ergodicidade como sendo

a base do sistema econômico, mas eles adicionam suposições ad hoc para tentar

amenizar o fato de que a sua abordagem presume o futuro como conhecido na tentativa

de refletir melhor o que eles acreditam que seja a realidade. Stiglitz, por exemplo, na
5
Isso equivale a pensar que a tomada de uma amostra de altura de um tribo de Pigmeus na África é
equivalente à retirada de uma amostra de altura dos cidadãos da Suíça.
6
NT. analístas quantitativos, ie. "rocket scientists"de Wall Street.
sua teoria da informação assimétrica assume que alguns dos participantes de mercado

não podem fazer cálculos estatísticos adequados porque eles não percebem a

informação correta sobre o futuro. Em outras palavras, Stiglitz impõe a condição de

informação assimétrica de que há tomadores de decisão que atuam com a falta de

informação correta (a qual é presumida de existir no dia de hoje) sobre a distribuição de

probabilidade dos eventos futuros. Conseqüentemente estes tomadores de decisão (tolos

especuladores?) interpretam de forma errada o futuro e atrapalham a beleza do sistema

de mercados eficientes.

O ganhador do prêmio Nobel Robert Lucas (1987, p.287) anunciou que os

axiomas da teoria do mainstream são "artificiais, abstratos, e patentemente irreais".

Assim como Samuelson, Lucas insiste que tais suposições irreais são o único método

científico de se fazer economia. Lucas insiste que o "progresso no pensamento

econômico significa gerar modelos analíticos melhores e mais abstratos, e não

observações verbais melhores sobre o mundo real" [Lucas, 1981, p.276]. A

racionalidade por detrás deste argumento é de que estas suposições irrealistas tornam o

problema mais tratável e, com a ajuda do computador, o analista pode então predizer o

futuro. Não importa que a previsão possa ser desastrosamente errada.

Na introdução de seu livro Against The Gods, um tratado que lida com as

questões relevantes de técnicas de administração de riscos em Wall Street, Peter L.

Bernstein (1996, p.6) escreve:

"A história que eu tenho para contar é marcada por todo o caminho pela
tensão persistente entre aqueles que afirmam que as melhores decisões
estão baseadas na quantificação e nos números, determinados por
padrões [estatísticos] do passado, e aqueles que baseiam suas decisões
em níveis mais subjetivos de crença sobre um futuro incerto. Esta é a
controvérsia que nunca foi resolvida... em que grau nós devemos confiar
nos padrões do passado para nos dizer como o futuro será?"
Poderia se esperar que a evidência empírica do colapso destes "mestres do
universo econômico" que têm dominado as maquinações de Wall Street por pelo menos
três décadas tivessem, no mínimo, despertado alguma dúvida em relação à
aplicabilidade do axioma da ergodicidade ao nosso mundo econômico. Até mesmo Alan
Greenspan no seu testemunho no Congresso, em outubro de 2008, parece ter tido outros
pensamentos, no entanto, ele ainda não mudou completamente suas ideias. As ideias de
Keynes e do conceito de reflexividade de Soros suportam o último grupo de Bernstein.
Samuelson, Lucas e outros adotaram o axioma da ergodicidade porque eles
queriam que a economia ficasse na mesma classe das "hard sciences" como a física ou a
astronomia. Por exemplo, a ciência astronômica está baseada na suposição de que um
processo estocástico ergódico governa o movimento de todos os corpos pesados desde o
momento do "Big Bang" até o dia do fim do universo. Desta forma, a análise de
probabilidade usando medidas dos movimentos dos corpos pesados no passado permite
aos astrônomos a previsão dos eclipses solares futuros com poucos segundos antes que
eles aconteçam de fato. Nem o Congresso, o presidente dos EUA, as Nações Unidas, ou
os ambientalistas podem alterar as datas predeterminadas e o momento dos eclipses
futuros. Por exemplo, o Congresso não pode passar uma lei banindo os eclipses solares
para prover mais luz solar e elevar a produção agrícola. Em um mundo ergódico, todos
os eventos futuros já estão predeterminados e estão livres de mudança pela ação humana
de hoje. O movimento futuro dos corpos pesados pode ser conhecido por qualquer um
que tenha medido os movimentos passados e projetado estes movimentos no futuro.
Não existem especuladores tolos, que sofrem de informação assimétrica, pensado que
Marte vai colidir com a Terra.
George Soros explicou porque a teoria dos mercados eficientes não é aplicável
ao mundo real dos mercados financeiros com uma terminologia ligeiramente diferente
da de Keynes, mas que conceitualmente vai no mesmo sentido. Soros (2008) escreveu:
"nós devemos abandonar a teoria [dos mercados eficientes] do comportamento de
mercado prevalescente". Soros afirma que existe uma conexão direta "entre os preços de
mercado e a realidade subjacente [que] eu [Soros] chamo de reflexibilidade".
O que é essa reflexibilidade? Em uma carta ao Editor publicada em março de
1997 na edição 15-21 do The Economist Soros se contrapõe à insistência de Paul
Samuelson em exigir o axioma da ergodicidade para fazer da economia uma ciência.
Soros argumenta que a hipótese da ergodicidade não permite "a interação reflexiva entre
o pensamento dos participantes e estado real nos negócios" que caracteriza o mundo real
dos mercados financeiros. Em outras palavras, a maneira como as pessoas pensam sobre
o mercado hoje pode afetar e alterar a trajetória futura dos mercados; o futuro não está
predeterminado. O conceito de reflexibilidade de Soros, portanto, é o equivalente à
rejeição de Keynes ao axioma da ergodicidade7. Reflexidade significa que o pensamento
das pessoas e as suas ações criam o futuro, enquanto os economistas do mainstream
pressupõem que o futuro já está predeterminado e pode ser descoberto pela análise dos
fundamentos de mercado de hoje.

A teoria econômica não-euclidiana

Ao criar uma teoria econômica "não-euclidiana" para explicar porque estas


"colisões" do desemprego ocorrem no mundo da experiência, Keynes utilizou o método
lógico dedutivo mas ele teve que negar ("abandonar") a relevância de diversos axiomas
clássicos para o entendimento do mundo real. O axioma clássico da ergodicidade que
assume que o futuro é conhecido e pode ser calculado como uma sombra estatística do
passado foi uma das afirmativas mais importantes que Keynes rejeitou.
A teoria geral de Keynes é um método dedutivo de análise. O conceito de
Keynes de incerteza sobre o futuro requer que o sistema econômico seja gerado por um
processo estocástico não-ergódico. No momento de elaboração da Teoria Geral, Keynes
não conhecia a teoria estocástica ergódica que estava sendo desenvolvida na Moscow
School of Probability nos anos da década de 1930. No entanto, na sua crítica ao método
[econométrico] de Tinbergen, Keynes [1939] escreveu8 que o método de Tibergen não é
válido para qualquer previsão porque os dados econômicos "não são homogêneos" ao
longo do tempo. Não-homogeneidade é uma condição suficiente para não-ergodicidade.
O conceito de Black Swan de Taleb busca explicar as crises de mercado como
um evento baseado longe da cauda de uma distribuição de probabilidade ergódica. Deve
ser notado que a visão de Knight sobre incerteza e o conceito de Black Swan de Taleb
7
Para rejeitar o axioma da ergodicidade, Keynes argumentou que quando as decisões econômicas
cruciais têm que ser tomadas, os tomadores de decisão não podem meramente assumir que o futuro
pode ser reduzido ao cálculo de riscos quantificáveis a partir de dados de mercado já existentes. Ao
invés disto, eles dependem do "animal spirits" já que a maioria dos animais não sabe como calcular os
eventos ao redor da média! Para decisões que envolvem gastos potenciais elevados ou possíveis
rendimentos de elevado valor e que levam um significativo tempo, as pessoas "sabem" que elas não
sabem qual será o futuro. Eles sabem que nestas importantes decisões, cometer um erro sobre o futuro
pode ser muito caro e, portanto, algumas vezes abdicam de um compromisso para manter a liquidez no
dia de hoje, como sendo a decisão mais prudente possível.
8
J. M. Keynes [1939], "Professor Tibergen's Method:" Economic Journal, 49, reprinted in The Collected
Writings of John Maynard Keynes vol. 14, edited by D. Moggridge [Macmillan, London, 1973].
são ambos baseados na pressuposição ergódica para a economia. O Black Swan de
Taleb já é um resultado predeterminado, mas o evento Black Swan está tão fora da
cauda da distribuição de probabilidade ergódica que sua ocorrência é tão rara que é
improvável de ser observado - exceto no longo prazo quando todos nós estaremos
mortos. Similarmente Knight aplicou seu conceito de incerteza a um evento que é "em
grande medida único9" e assim, muito distante na distribuição como pode ser observado
talvez uma vez em diversas vidas.
Para Keynes, bem como para Soros, a crença de que as pessoas inteligentes
"sabem" que elas não podem conhecer o futuro é um elemento essencial no
entendimento da operação de nosso mundo econômico. Para decisões que envolvem
potencialmente gastos elevados ou possivelmente rendimentos elevados que levam uma
duração de tempo significante, as pessoas "sabem" que elas não sabem como será o
futuro. Elas realmente sabem, entretanto, que para estas decisões importantes, cometer
um engano sobre o futuro pode ser muito custoso e, portanto, adiar um compromisso
hoje em ordem de manter a liquidez pode ser a decisão mais prudente possível.
Nossa sociedade capitalista moderna tem tentado criar um arranjo que irá prover
as pessoas de algum controle sobre os destinos econômicos incertos. Nas economias
capitalistas o uso do dinheiro e dos contratos monetários para organizar a produção,
vendas e compras de bens e serviços permitem que os indivíduos tenham algum
controle sobre os seus recebimentos futuros e compromissos e, portanto, algum controle
sobre seu futuro econômico monetário. Isso também permite as contrapartes (as
empresas) a se engajarem em contratos monetários de vendas com a promessa legal de
rendimentos correntes e futuros suficientes para honrar os custos de produção das
empresas e gerar lucro.
Famílias e empresários são propensos a estabelecer contratos monetários porque
cada parte pensa que esta forma é o que está em melhor acordo com os seus próprios
interesses para cumprir os termos de um acordo contratual. Se, por conta de algum
evento imprevisto, cada parte encontre-se incapaz ou não-propensa a honrar os
compromissos contratuais, então um departamento jurídico do governo irá garantir o
contrato e irá requerer que a parte devedora cumpra suas obrigações contratuais ou
pague uma soma de dinheiro suficiente para reembolsar a contraparte contra os danos e
perdas incorridas. Assim, como o biógrafo de Keynes, Lord Robert Skidelsky notou,

9
F. Knight, (1921), Risk, Uncertainty and Profit (Houghton Mlfflin, New York) p.233.
para Keynes "injustiça é uma matéria de incerteza, justiça uma matéria de
previsibilidade contratual". Em outras palavras, por entrar em um acordo contratual, as
pessoas asseguram a si mesmas uma medida de previsibilidade em termos de seus
rendimentos contratuais ou pagamentos, mesmo em um mundo de incerteza.

Incerteza, Contratos Monetários e Liquidez

Em seu livro, Arrow e Hahn (1971, p.256-7, ênfase adicionada) escreveram:


"Os termos pelos quais os contratos são feitos importam.
Em particular, se o dinheiro é o bem em termos do que os
contratos são feitos, então o preço dos bens em termos de
dinheiro são de especial importância. Esse não é o caso se
você considera a economia sem passado ou futuro... Se
uma teoria monetária séria vier a ser escrita, o fato dos
contratos serem estabelecidos em termos de dinheiro será
de importância considerável".

Ainda assim, todos os modelos do mainstream, incluindo o modelo Arrow-


Debreu, assume que as pessoas fazem "contratos reais", i.e, eles "conhecem" o resultado
futuro real com a certeza atuarial de qualquer contrato que eles assinem no dia de hoje.
Assim, economistas inteligentes do mainstream como Arrow e Hahn mesmo
enfatizando a importância dos contratos monetários não podem ajudar, mas deixam seu
senso comum intervir na sua visão de economia - para o detrimento da consistência
lógica do seu modelo de equilíbrio geral (Arrow-Debreu-Walras).
A teoria da liquidez de Keynes fornece o que Arrow e Hanh denominaram de
"uma teoria monetária séria" para transações domésticas e internacionais como um meio
para lidar com a incerteza sobre o futuro.
Moeda é que o governo decide que irá liquidar todas as obrigações contratuais
monetárias legais. É dito que um indivíduo está líquido se ele/ela pode honrar todas as
obrigações contratuais no momento em que elas surgem. Para empresas e famílias a
manutenção do status de liquidez é de importância primária para evitar a insolvência.
No nosso mundo, insolvência é o equivalente econômico de ir para a forca. A
manutenção de liquidez permite uma pessoa ou empresa evitar a forca da insolvência.
[Ainda sim, meu bom amigo monetarista Alan Meltzer sempre me diz "falências são
boas para a saúde do sistema capitalista".]
Assim, a liquidez está no centro das operações da nossa economia monetária e,
portanto, os mercados financeiros que são bem organizados e permitem ordenadamente
que os tomadores de decisão mantenham a liquidez em caso de algum evento futuro
imprevisto deveriam fazer isso que de outro modo seria impossível para a liquidação de
obrigações futuras de contratos monetários a não ser que se possa vender imediatamente
um ativo líquido por dinheiro em um sistema de mercado ordenado.
Keynes forneceu uma NOVA maneira de pensar a economia para explicar as
operações de uma economia monetária onde o empresário estabelece contratos nominais
para organizar a produção e realizar atividades. A santidade dos contratos monetários é
a essência do sistema capitalista e da análise de liquidez de Keynes10.
Na análise de Keynes, a liquidez, i.e., a capacidade de liquidar compromissos
contratuais domésticos e internacionais, torna-se uma fundação essencial para o
entendimento da operação de nossa economia empresarial. A função primária dos
mercados financeiros bem organizados e ordenados é prover liquidez para que os
detentores de ativos financeiros negociados nestes mercados "saibam" que eles podem
sair rapidamente e liquidar seus portfólios a um preço próximo ao preço de mercado a
qualquer momento em que eles temam que algo ruim possa acontecer em um futuro
incerto. Com liquidez suficiente, é sempre possível liquidar os compromissos
monetários contratuais independentemente de qualquer coisa. A manutenção da posição
líquida é de importância primária para se evitar o calote e a insolvência.
Uma vez que seja reconhecido que em uma economia empresarial que utiliza
moeda os tomadores de decisão "sabem" que o futuro é incerto (em um sentido não-
ergódico) e que ela pode ser criada de maneira que nem todos os tomadores de decisão
possam entender, então a demanda por liquidez como uma manta de segurança para
saldar fluxos monetários possíveis e imprevistos se torna fundamental para os planos
dos tomadores de decisão.
Em nosso mundo econômico incerto, ao entrar em contratos monetários futuros,
os tomadores de decisão ganham algum controle sobre os seus fluxos monetários
futuros de entrada e de saída. Se os participantes de mercado pensam que o futuro é
mais incerto do que foi ontem, então eles irão tentar no dia de hoje reduzir a saída de

10
A primeira questão para os teóricos, entretanto, é: por que toda a produção e os acordos de troca -
independente se entre entidades da mesma área monetária ou entre entidades de nações que utilizam
diferentes moedas, são denominados em uma moeda específica? Por que as pessoas do mundo da
experiência não gostam de pessoas da teoria econômica do mainstream, onde estão os contratos que
são denominados em termos reais?
recursos monetários com bens e serviços (poupar mais) para aumentar a posição de
liquidez. Frente a esta redução da demanda de mercado, os empresários irão reduzir a
contratação de trabalhadores.

Culpando o mensageiro pela mensagem do mainstream

Se o futuro é não-ergódico, então a teoria econômica do mainstream está criando


um mundo completamente artificial distante da realidade uma vez que a teoria exige o
axioma da ergodicidade. Keynes [1936, p.192] percebeu que os teóricos clássicos "nos
oferecem a realização intelectual suprema, inatingível por espíritos menos privilegiados,
de adotar um mundo hipotético distante da experiência, como se fosse o próprio mundo
da experiência, e, em seguida, de nele viver consistentemente".
Economistas do mainstream não estão errados na necessidade de rigor para
teorizar a economia. Não é o rigor e o uso da matemática per se que criam modelos
econômicos inúteis que fazem os economistas do mainstream parecem tão mal. O rigor
significa que as únicas afirmações válidas são as de dedução lógica que partem de
suposições específicas [i.e., axiomas]. Consistência e rigor são características de
qualquer abordagem dedutiva, que deriva conclusões a partir de um grupo de axiomas -
e cuja relevância empírica depende inteiramente da validade dos axiomas.
Keynes aplicou rigor em sua teoria geral - mas apenas depois que ele abandonou
três axiomas clássicos que ele julgava não ter justificação empírica. Assim Keynes
demandou indução no desenvolvimento de sua teoria para verificar a validade dos
axiomas. Desta forma, Keynes não desenvolveu um mundo completamente artificial.
Infelizmente, Paul Samuelson, que agarrou o manto de Keynes imediatamente após a
Segunda Guerra Mundial, ignorou a teoria geral de Keynes. Como eu destaco em meu
livro The Keynes Solution: The Path to Global Economic Prosperity, Samuelson
admitiu que ele via a Teoria Geral como "impalatável" e incompreensível. Samuelson
disse que ele basicamente assumiu que a análise de Keynes era um simples sistema
walrasiano com salários e preços fixos. Ao fazer isso, Samuelson abortou a revolução
de Keynes.
Desde os tempos biblícos os homens têm tentado entender sobre si próprios e
sobre o que causa os eventos que eles observam acontecer. Em geral, a mente do
homem acredita que deve existir uma causa para qualquer evento que se observa.
Na maior parte da história da humanidade, acreditou-se que o projeto de Deus ou
dos deuses era a causa de qualquer coisa que acontecia no mundo da experiência. No
começo do século 17, no entanto, os filósofos acreditavam que as explicações para os
eventos que eles observavam poderiam ser desenvolvidas sobre a reflexão da mente ao
invés da crença religiosa. Esse foi o começo do movimento intelectual que os
historiadores denominam de Iluminismo ou Era da Razão, onde ordem e regularidade
vieram a partir da análise humana dos fenômenos observados. O poder da razão não
estava em possuir a verdade, mas em adquirir a verdade.
Qualquer entendimento do mundo, como os homens entendem isso, sempre será
uma criação da mente humana. A reflexão envolve a criação mental de uma teoria
dedutiva para explicar o que as pessoas observam acontecer com elas (utilizando visões
indutivas). Por exemplo, Sir Isaac Newton viu uma maçã cair do galho de uma árvore
no chão. Newton explicou porque as maçãs sempre irão cair no chão através da teoria da
gravidade.
Uma teoria é a maneira como os homens descrevem as observações do mundo
real a partir de um modelo que começa com poucos axiomas (esperançosamente
baseados na reflexão indutiva do mundo da experiência). Um axioma é uma suposição
aceita como verdade universal e que não precisa ser provada. A partir dessa fundação
axiomática, os teóricos utilizão as leis da lógica para deduzir conclusões que explicam o
que nós observamos no mundo da experiência. Todas as teorias são geralmente aceitas
da mesma forma tentativa. As teorias nem sempre são estabelecidas conclusivamente e
podem ser substituídas quando são observados eventos que são desvios da teoria
atualmente existente. Assim, a crise financeira de 2007-2009 deve ser uma evidência
empírica suficiente para indicar que a base axiomática da teoria do mainstream precisa
ser substituída.
A teoria econômica é um mecanismo analítico no qual o teórico econômico
constrói um modelo que se inicia com alguns axiomas que ele/ela aceitam como
verdade autoevidente. As ferramentas da dedução lógica são então utilizadas para se
chegar a uma ou mais conclusões. Essas conclusões são então apresentadas para o
público como uma explicação dos eventos econômicos que estão ocorrendo no mundo
da experiência. A teoria pode então ser utilizada para sugerir a cura para qualquer
problema do mundo real da experiência.
Dessa forma, é perfeitamente aceitável ter rigor e mesmo matemática nos
modelos econômicos - como ambos Marshall e Keynes apresentavam. Mas os axiomas
pressupostos no modelo devem ser examinados completamente para ver se eles são
aplicados ao mundo real. O que Samuelson, Lucas e outros têm feito é impor axiomas,
tal como o axioma da ergodicidade, que não tem relação com o mundo em que vivemos.
A teoria geral de Keynes é rigorosa e consistente - e uma vez que se reconheça
que o futuro é incerto em termos de um processo estocástico não-ergódico, então será
possível entender que o interesse próprio dos indivíduos é de se proteger de um futuro
incerto onde a insolvência [falência] pode ocorrer se não se conseguir saldar as
obrigações contratuais monetárias no sistema capitalista.
Assim, os contratos monetários (direitos e deveres) são usados por indivíduos
como proteção contra saldos monetários adversos e inadministráveis O propósito de
ativos líquidos11 negociados em mercados financeiros organizados e ordenados é prover
um manto de segurança contra a incapacidade de saldar um pagamento de uma
obrigação contratual.
Assim, quando o mercado de derivativos relacionados a hipotecas, anunciados
como "bons como dinheiro", i.e, perfeitamente líquidos (classificados com AAA),
colapsou, a perda de tanta liquidez causou o pânico (a resposta reflexiva de Soros) nos
outros mercados de ativos que haviam sido previamente muito líquidos. Os detentores
de ativos em qualquer mercado tentarem fazer "saídas rápidas" e o resultado foi o
colapso financeiro e a crise.
Concluindo, a teoria da líquidez de Keynes de operação dos mercados
financeiros é um sistema dedutivo rigoroso e lógico que parece ser aplicável ao mundo
real no qual nós vivemos e deveria substituir o modelo de mundo artificial de Lucas e
de outros economistas do mainstream.

Referências

Arrow, K J. and Hahn, F. H., General Competitive Equilibrium, San Francisco, Holden
Day, 1971.

Bernstein, P. L., Against the Gods, New York, John Wiley, 1996.

11
Keynes apresenta um capítulo inteiro na Teoria Geral com o título "As Propriedades Essenciais dos
Juros e da Moeda" no qual ele indica especificamente que todos os ativos líquidos apresentam certas
propriedades matemáticas essenciais, claramente (1) a elasticidade de produção igual a zero e (2) a
elasticidade de substituição entre ativos líquidos e bens duráveis reprodutíveis igual a zero. Keynes
especificou estas propriedades das elasticidades por indução através do seu conhecimento dos
mercados financeiros.
Davidson, P., The Keynes Solution: The Path To Global Economic Prosperity,
Palgrave/Macmillan, 2009.

A. Greenspan, October 23, 2008 testimony before the House Oversight Committee.

Keynes, J. M., The General Theory of Employment, Interest, and Money, Macmillan,
1936.

Lucas, R. E. “Tobin and Monetarism: A Review Article”, Journal of Economic


Literature, 19, 1981.

Lucas, R. E., and Sargent, T. J., Rational Expectations of Econometric Practices, 1981

G. Soros, “Letters to the Editor”. The Economist, March 15-21, 1997 issue

G. Soros (2008) “The Crisis and What To Do About It” New York Review of Books,
December 4 issue.