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Filosofia da Educação UNIDADE 03 AULA 10

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Ética e Educação: o papel


do professor no processo
de escolarização

1 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

„„ Conhecer o pensamento ético e sua importância


para a formação do professor
„„ Problematizar a formação de professores no Brasil
„„ Discutir a forma como a sociedade brasileira concebe o magistério.
Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

2 Começando a história

Antes de iniciarmos nossa conversa, assista ao vídeo abaixo e compartilhe da


indignação expressa pela voz de Ana Carolina

Figura 1

àà http://www.youtube.com/watch?v=rfR9swi7R
84&feature=player_detailpage

Caro aluno,

Vamos encerrar nossos diálogos com um dos temas mais controversos da


atualidade, em especial no Brasil: a Ética.

Se você ouviu a música interpretada por Ana Carolina, deve ter prestado atenção
na frase paradoxal:

“Cada homem é sozinho a casa da humanidade.”

Como é possível que cada um de nós abrigue em si toda a humanidade?

Tom Zé, autor da canção, captou o sentido mais íntimo da palavra ética. Do
grego ETHOS, significa a morada do homem, a disposição para viver e o lugar
em que se decide como viver. Morada também enseja aquilo que nos acolhe,
que nos faz sentir bem. Nesse sentido, cada homem carrega em si o aconchego
de todos os homens: o principio da ação boa.

Se você foi atento, percebeu que na verdade já vínhamos falando de ética o


tempo todo, de ideias inspiradas pelo ideal de tornar o mundo melhor para o
homem. Por isso em vários momentos vamos nos remeter às aulas anteriores.

Antes de iniciarmos esta conversa, gostaria que você visitasse a nossa terceira
aula. Lá discutimos o papel que os valores e as instituições sociais têm para
a educação.

Conversaremos sobre como funciona isso no nosso dia a dia, como os valores
atravessam as práticas educacionais e como a prática em sala de aula pode
colaborar para a sua reprodução ou crítica.
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AULA 10

3 Tecendo conhecimento

3.1 A Moral

A axiologia é a ciência que estuda os valores e a forma como os incorporamos à


vida cotidiana (ARANHA, 2006). A produção de valores e da prática relacionada
a eles é chamada de Moral.

A moralidade consiste numa série de práticas culturais, as quais correspondem ao


cumprimento de regras comportamentais. Essas regras resultam da convivência
histórica dos grupos sociais que, a partir das vivências, atribuem valor às coisas,
às situações, às posições sociais etc. Os hábitos, castigos, premiações, aceitação
social ou rejeição estão associados à forma como os indivíduos reconhecem
esses valores e conduzem seu comportamento para que os mantenham ou os
recusem. Por isso é importante que o professor reflita sobre a moral instituída
na sociedade a que pertence, pois sua fala, seus gestos, sua forma de pensar,
transmitem e reproduz as regras sociais.

Vamos pensar juntos sobre isso. De onde surgem os valores e as regras? Por que
ficar sentado na sala de aula ou ter que organizar horários para estudar? Por que
comer de boca fechada, à mesa? Por que obedecer aos pais, aos professores,
às autoridades? Não vamos responder a todas essas perguntas, mas tentar
compreender o mecanismo de criação de valores e regras, para que você comece
a respondê-las e futuramente leve seus alunos a fazer o mesmo.

Se todas as vezes que saio de casa tropeço numa pedra que há na calçada, logo
avalio que essa pedra me faz mal. Estabeleço um apreço negativo à pedra e a
partir daí tentarei evitar meu contato com ela. Torna-se hábito desviar o caminho
de chegar à rua quando saio de casa. O novo hábito tem a finalidade de evitar um
mal, proporcionar um bem a meu corpo. Regras simples assim orientam a nossa
vida diária e são objeto de várias modalidades de educação, pois as ensinamos
a nossos filhos, amigos, membros da comunidade com a finalidade de que eles
vivam melhor. Mas esse exemplo relata uma experiência individual e devemos
ir mais longe para compreender como surgem as regras coletivas.

Os valores nascem da relação entre os indivíduos e os objetos que os cercam.


Valorar algo significa avaliar, medir sua importância, apreciar. Ao realizar essas
ações, obtemos como resultado apreciações que podem ser positivas ou negativas.
Classificada dessa maneira, nossa relação com os objetos e também com outros
indivíduos conduz nosso comportamento em relação a eles. Daí surge uma regra
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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

que tem por finalidade propiciar a continuidade de ações boas e agradáveis para
a sobrevivência e o convívio social e evitar ações que prejudicam a relação com
os outros e tornam a convivência desagradável.

Cada povo estabeleceu valores para o meio que o cercava, determinando aquilo
que era importante para a conservação da vida e aquilo que deveria ser evitado
para cumprir a mesma finalidade. Desse modo surgiram os diversos aspectos
que regulam a nossa cultura: o trabalho, a família, a religião, a arte. Todos eles
mediados por atividades educacionais com a finalidade de manter o conhecimento
adquirido. Talvez essas tenham sido as primeiras instituições sociais nas quais os
valores se desenvolveram de modo significativo para a coletividade e pelas quais
a necessidade das regras de convivência foram estabelecidas e reproduzidas ao
longo do tempo.

Vejamos o caso da religião e da arte. Se visitarmos a arte rupestre, veremos a


importância que os primitivos davam à caça, representada em quase todas as
cavernas identificadas como habitação dos homens primitivos por arqueólogos
e antropólogos. A caça era o que garantia a sobrevivência e o animal caçado o
que mantinha a vida. A arte das cavernas revela não só a forma como aqueles
homens caçavam – as condutas e provavelmente regras de caça -, como a
importância que esta prática e os animais caçados tinham para aqueles povos.
Por isso, tanto os caçadores, quanto os animais, eram reverenciados e tornaram-se
sagrados. Os primeiros cultos surgidos consagravam os elementos da natureza
e a sociedade passou a diferenciar os caçadores, os quais passaram a ser como
os melhores homens.

Assista ao vídeo sobre a arte rupestre neste link:

Figura 2

àà http://www.youtube.com/watch?v=cZ
g3Ty2xmSI&feature=player_detailpage

Ao tempo das guerras, foram os guerreiros classificados como melhores e quando


se ergueram as primeiras tribos, e em seguida cidades, os mais velhos e sábios
tornados conselheiros, por acumularem experiências úteis à manutenção e
engrandecimento do povo. Seus conhecimentos foram a fonte da lei, pois sabiam
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quais as melhores e mais úteis condutas a ser tomadas na guerra, no comércio,


no plantio, na partilha de bens etc.

Esses traços são lidos pelos estudiosos da mitologia e apontam que cada povo
representa na sua arte e consagra através da religião os elementos que importam
para a sua sobrevivência e que contam a forma como valoram as coisas. Por isso
existem as diferenças culturais, cujos valores e regras de comportamento estão
associados àquilo que é importante para o grupo.

Os valores e as regras sociais são, portanto, variáveis. No entanto, não variam de


indivíduo para indivíduo, mas de cultura para cultura e também de acordo com
as modificações históricas da forma como os homens se organizam. Desse
modo, as coisas adquirem valores ou perdem, em conformidade a importância
que elas têm para cada sociedade durante um certo tempo.

Esses valores nos fornecem o parâmetro de julgamento das ações dos indivíduos.
As noções de certo e errado, justo e injusto, bom e ruim estão inconscientemente
balizadas pelos valores que foram estabelecidos pelas gerações anteriores.
Normalmente não refletimos sobre os valores que orientam nosso comportamento
no dia a dia, apenas nos preocupamos com as regras sociais, com a forma como
os indivíduos se comportam diante das regras e com o julgamento que vamos
receber dos outros a respeito de nosso comportamento. Nossos pais, amigos e
até a escola não estão preocupados em produzir uma compreensão do motivo
pelo qual as regras devem ser cumpridas, mas apenas em repassá-las.

As regras de comportamento funcionam como uma forma de controle social


que garantem a permanência da organização escolhida ou necessária para o
grupo. Para Emile Durkheim (2002), sociólogo francês do século XIX, essas regras
produzem a coesão social, ou seja, mantêm os indivíduos presos à coletividade,
fator de extrema importância para a manutenção da existência humana. Essa
coesão só pode ser mantida através do exercício da coerção social, ou seja, é
necessário que haja forças que obriguem que os indivíduos permaneçam ligados
à sociedade, o que é feito por um sistema de punições. O instrumento maior de
coesão e coerção é a moralidade.

É importante que entendamos que as regras morais não são necessariamente


leis. Elas estão expressas pelos costumes. É através da educação informal (ver
aula 3), que estas regras são aprendidas. A sociedade é muito mais cruel que
a lei. Uma criança que tenha comportamentos considerados inadequados ou
aparência indesejada pode simplesmente ser excluída de brincadeiras, não
ser convidada para as festas de aniversário e ser proibida de frequentar certos
ambientes por pais de outras crianças ou adultos que querem preservar o silêncio
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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

num condomínio urbano ou um jardim de uma casa de campo. Nós, quando


adultos, somos julgados por nossas roupas, forma de comer, escolaridade e
padrão de consumo, valores que foram eleitos como fundamentais para manter
a sociedade capitalista. As punições para quem não se adéqua a esses padrões
são a dificuldade de conseguir emprego, amigos, o confinamento na pobreza
e a falta de acesso aos espaços burgueses.

Notem que os valores e regras culturais também são a fonte dos preconceitos, de
injustiças e conflitos sociais. Violências como a castração da mulher, a discriminação
quanto à raça ou etnia, posição social ou aparência física são originadas a partir
de padrões estéticos ou comportamentais criados a partir dos valores sociais
adotados por um grupo. Segundo Aranha (2006), a moral nasce da interação
social, a qual faz com que os indivíduos a introjetem, passando a agir conforme
as regras de modo espontâneo e consciente da importância que elas têm.
Acrescentamos, porém, que essa consciência não implica necessariamente em
exercitar a reflexão sobre sua atualidade e consequências. Quando a educação se
torna um ato intencional, na escola, cabe aos profissionais da educação analisar
constantemente os valores e as regras sociais para que a transmissão desses se
faça de modo reflexivo, com a finalidade de capacitar os indivíduos a reavaliar a
sua importância, finalidade e reformulá-los de acordo com os novos caminhos
que surgem ao longo da história para produzir o bem viver.

3.2 A Ética

Quando refletimos sobre os valores e as regras sociais, procurando saber se


são bons ou ruins, querendo resolver problemas sobre a finalidade das práticas
sociais, entramos no campo da Ética.

A Ética não é o lugar da prática, mas da reflexão, do debate, da avaliação das regras
e condutas sociais, com a finalidade de encontrar as razões que determinam o
porquê as ideias e as práticas sociais devem ser mantidas ou substituídas.

Contudo, para que façamos um exercício ético, é necessário que sejamos capazes
de questionar a sociedade em que vivemos e desafiar a ordem estabelecida, o
que nem sempre é fácil, pois incomoda às classes dominantes.

Platão, que sistematizou a reflexão ética, instaurou a tradição de buscar valores


ideais, racionais, que orientassem a conduta humana. Nascia o conceito abstrato
de Bem e de Justiça. Para esse filósofo, os costumes estão associados aos interesses
individuais ou de grupos, portanto, o relativismo dos valores ocorre porque há
mudança de interesses. Crítico do relativismo (ver aula 2), insiste que devem
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AULA 10

haver valores superiores que possam orientar a conduta com a finalidade de


proporcionar o bem a todos. O bem e a justiça não deveriam ser referenciados
pelos interesses particulares ou pela forma como percebemos as coisas. Tais
princípios deveriam ser parâmetros para orientar a nossa ação. A definição
desses termos é muito simples: basta agir de forma que não causemos um mal
à sociedade, aos outros e a si mesmo.

Para exemplificar essa situação, podemos imaginar que o Brasil esteja sofrendo
uma crise de energia e precise construir usinas para ampliar a indústria, o comércio
e a vida urbana. Mas isso implica em evacuar vilarejos inteiros, modificar o
ambiente do lugar da construção, alterar a vida de muitas famílias etc. Seria
ético realizar tal obra para atender aos interesses do desenvolvimento social?
No debate, industriários, políticos e as populações urbanas defendem que sim,
pois o crescimento econômico traria benefícios para toda a sociedade brasileira.
Essa opinião é balizada pelos interesses particulares desses grupos. Buscam
uma justificativa racional que convença da necessidade de construir as usinas:
um bem maior – o desenvolvimento do país. Nesse raciocínio, as famílias que
vivem da economia de subsistência e os indígenas que habitam as margens dos
rios são vistos como um empecilho ao progresso, e o que for decidido a respeito
deles é visto como um mal menor.

Já ambientalistas e cientistas sociais pensam no prejuízo que causará à natureza


e às populações que estão no caminho do progresso. Defendem os interesses
ligados aos seus grupos. Poderia a ética ser tratada como um cálculo entre
benefícios e malefícios, em que a menor perda determine a melhor ação.

Nesse exemplo, estão em confronto duas formas de reflexão ética: uma


tradicional, calcada na preservação de valores universais, caros a todos os
homens independentemente das diferenças culturais e interesses de grupos;
outra contemporânea e liberal que acredita que as melhores decisões devem
ser tomadas com base no cálculo de prejuízos.

Como os professores podem conduzir o debate sobre uma questão como esta,
ou como a clonagem, ou a pena de morte? É ético defender uma postura que
julgue correto matar alguns para salvar milhares? Criar um ser humano para
salvar a vida de um outro? Faça a si mesmo a pergunta feita por Platão aos
sofistas: é justo agir de modo a prejudicar a alguns, a alguém ou a si mesmo em
nome de certos interesses?

De Platão até o século XVII, buscou-se encontrar alguns valores que poderiam ser
considerados universais, que pudessem ser reconhecidos como racionais e válidos
independentemente das diferenças culturais. O Bem, a Justiça, a Felicidade, a
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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

Vida, a Liberdade e a Igualdade foram defendidos como princípios universais


ao longo da história. Essas ideias abstratas não são simplesmente apreciações
(valores), mas ideais que devem nortear a ação. Não podem ser pensadas a
partir de situações concretas, mas ao contrário, ordenar as ações para que a vida
coletiva seja mais satisfatória para todos. Entretanto, na modernidade, existem
casos polêmicos em que não é possível a realização do bem, como no caso de
uma gravidez originada de um estupro; a sentença para um criminoso que se diz
arrependido; o transplante de órgãos em relação a interdições religiosas. Para
casos dessa ordem, o mal já está instalado e precisamos decidir como amenizar
as consequências. Platão não se ocupou com casos assim, mas deixou alguns
parâmetros que orientaram outros pensadores.

As situações concretas são afetivas e as emoções interferem na importância que


damos as coisas. Os objetos ou situações não são boas ou más em si mesmos,
os quais são predicativos que lhes atribuímos de acordo com a experiência
que fazemos deles. Entretanto, é possível que encontremos um denominador
comum entre todas as coisas e situações que consideramos boas ou ruins. O
que há de comum entre todas as ações que consideramos boas? Seria a nossa
preservação enquanto indivíduos e enquanto coletividade, o suprimento de
nossas necessidades biológicas e afetivas, aquilo que nos causa bem-estar? Essas
experiências que todos os homens partilham, a partir de situações concretas
diferentes, são o que compõem o ideal de Bem, maior princípio ético. Os demais
princípios são decorrentes do esforço de estabelecer metas para as ações de
modo que elas se constituam num Bem. Promover a justiça é realizar ações que
garantam que todos os indivíduos tenham suas necessidades supridas, seu corpo,
vida, saúde e dignidade preservadas. Propiciar a felicidade significa estender
o bem-estar a todos os homens. A vida é a condição natural para que todos os
demais princípios possam existir e assim por diante. São ideais que se justificam
por si, independentemente das situações concretas que se apresentem.

Você pode defender o direito de aborto de uma mulher que foi violada, mas
não pode justificar isso alegando que é justo tirar a vida do feto. O que justifica
o direito de aborto num caso como este é o sofrimento da pessoa envolvida. É
um direito apoiado no princípio de liberdade, o que significa que o indivíduo
pode decidir como irá suportar sofrimento que lhe foi impingido, pois este não se
apagará. A gravidez e a criança é um agravante do sofrimento no caso concreto.
Porém, se a pessoa for religiosa ou incrivelmente sensível, a dor de interromper
uma vida pode ser mais sofrível que a violação da qual foi vítima. Nesse caso,
Vida e Liberdade, que são princípios fundamentais, estão em conflito e a decisão
passa pelas circunstâncias de quem vivencia o fato. Mas vale reforçar em casos

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AULA 10

como esse há uma impossibilidade de tomar uma decisão ética, já que não se
trata de promover um Bem.

Ao século XVII, com o advento do mundo liberal, o utilitarismo inglês (aula 5)


retomou algumas posições relativistas e procurou justificá-las com a ideia de
que alguns prejuízos são aceitáveis na medida em que proporcionam um bem
para uma maioria de homens ou para o futuro. Surgiram as teorias utilitaristas e,
mais tarde, o pragmatismo (ver aula 8), o qual defende que as decisões devem
ser tomadas com base nos fatos concretos. Segundo tais doutrinas, o critério
“necessidade”, que sempre determinou a importância que atribuímos aos objetos,
passou a ser sinônimo de utilidade, ou seja, coisas, ações ou decisões que atendem
a uma finalidade pré-determinada. As ações humanas devem, segundo esse
raciocínio, ser orientadas pelo critério de ser útil ou não para certo fim.

Essa ideia já havia sido enunciada por Maquiavel, no século XVI. Em “O Príncipe” o
autor descreve a saga de reis e governantes que fizeram de tudo para assegurar o
poder e a grandeza do Estado que defendiam. Ficou célebre a frase que ele nunca
disse: “os fins justificam os meios”; pela qual se convencionou a compreensão
de que qualquer ação é válida para atingir finalidades mais nobres. Em seus
textos, povos são escravizados, mortos, submetidos a situações de penúria e
intriga com a finalidade de criar o Estado Forte. A justificativa para os atos dos
governantes está assentada na ideia de construir uma grande nação, a qual,
depois de estabilizada, pode prover a felicidade para seus súditos.

Tal ideia foi difundida nas bases da formação capitalista e se arrasta até os dias de
hoje. Os processos educacionais que se desenvolveram na sociedade burguesa
tendem a reproduzir essa postura, quando hipervaloriza as ideias liberais (aula
7), conduzindo professores e educandos a se posicionarem de modo egoísta,
segundo interesses particulares, quando diante de dilemas éticos. Para Saviani (s/d)
Não se pode, pois, dizer, que a sociedade atual carece de
ética, de educação e de cidadania. O que ocorre é que ela
tem uma ética, uma educação e uma cidadania que lhe são
próprias e que estão referidas a alguns princípios gerais e
abstratos que subsumem, entretanto, valores concretos
que consubstanciam a forma de vida própria da sociedade
burguesa. Assim, os princípios da liberdade, igualdade,
democracia e solidariedade humana são subsumidos
pelos valores do individualismo, da competição, da busca
do lucro e acumulação de bens os quais configuram a
moral burguesa que tem sua justificação teórica numa
ética também burguesa, erigindo-se, sobre esses mesmos
valores, a cidadania burguesa. E a educação é chamada,
na sociedade burguesa, a realizar a mediação entre ética e
cidadania, formando os indivíduos de acordo com os valores
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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

requeridos por esse tipo de sociedade. Assim, pela mediação


da educação, se buscará instituir, em cada indivíduo singular,
o cidadão ético correspondente ao lugar a ele atribuído na
escala social.

Hoje, a reflexão sobre os valores está dividida entre o relativismo dos interesses
que se justificam na busca de um bem maior e a busca de princípios que possam
nortear as ações de todos os homens.

Desde 1945, depois do grande desastre da segunda Guerra Mundial, foram criados
Comitês e órgãos internacionais que procuram defender princípios éticos, a fim
de que se possa evitar que o conflito de interesses entre as diferentes culturas
gere consequências tão desastrosas quanto o nazismo, o trabalho escravo, a
pobreza extrema e a guerra. Em 1946 foi elaborada a Declaração dos Direitos
Humanos, na qual figuram os princípios que apresentamos acima, com a finalidade
de garantir que todos os povos sejam tratados com dignidade e para que se
possa promover um convívio menos conflituoso entre as nações e o mínimo de
condições de sobrevivência para os indivíduos, apesar das diferenças culturais.

Por outro lado, as nações preferem defender seus interesses, os quais na verdade
correspondem aos ideais de suas classes dominantes. Operam segundo as
máximas do utilitarismo e do pragmatismo.

As entidades internacionais, como a ONU (Organização das Nações Unidas), OMS


(Organização Mundial da Saúde) e OIT (Organização Internacional do Trabalho)
procuram negociar com os governantes das nações que integram ou pretendem
integrar seus comitês, a partir da ideia de que eles se comprometam com os
princípios que constam na Declaração e estabeleçam leis e ações que possam
promover maior qualidade de vida para os homens em geral.

A UNESCO (Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas),


organismo integrado a ONU, tem dedicado atenção especial à educação, por
entender que esta é o mecanismo capaz de modificar a configuração de valores
e proporcionar uma melhoria nas relações sociais.

Cabe a nós, professores, instigar crianças e jovens a refletir sobre os valores


estabelecidos e discutir os princípios éticos para que a sociedade se modifique.
Disso depende uma série de projetos dos quais você ouve falar todos os dias,
como a preservação ambiental, o combate aos preconceitos, o uso racional da
energia...

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AULA 10

3.3 O magistério no Brasil e as dificuldades


de realizar a reflexão ética.

Na disciplina HEB, percorremos os caminhos traçados pelo desenvolvimento


da educação formal no Brasil e problematizamos a falta de professores e a
formação deles.

Nos casos que você estudou na história da educação, verificamos que até o início
do século XX o papel do professor foi o de reproduzir os valores das classes
dominantes, até porque os mestres eram oriundos das elites. Por outro lado, a
nossa experiência com a educação sempre foi muito negativa, o que depreciou os
profissionais de educação. A ausência de um projeto eficaz de profissionalização
do professor incidiu na carência de pessoas especializadas na arte de ensinar e
durante muitos anos, qualquer um que soubesse ler ou escrever, que dominasse
uma profissão poderia ensinar o que sabia. A cultura brasileira não associa a
profissão de professor a um saber especializado.

Hoje devemos refletir sobre qual a identidade e a função do professor a fim de


modificar esta referência histórica. Algumas tendências pedagógicas defendem
a preparação do professor como um técnico em educação e as licenciaturas
definiriam a sua profissionalização. Mas a questão não é tão simples assim. Os
professores dos ciclos básicos têm que dominar conteúdos disciplinares essenciais
para o aprendizado do aluno e não basta uma formação que priorize os métodos de
ensino, as discussões didáticas e curriculares. Nos ciclos subsequentes, a profissão
de professor fragmenta-se no universo de diversas ciências e conhecimentos
que precisam ser aprofundados.

Outra tendência defende que o professor deve ser também um pesquisador,


capaz de acrescentar e desenvolver o conhecimento tanto na sua área de
formação específica quando na área do ensino-aprendizagem, mas isso exige
que o professor seja pago por horas de trabalho em que ele não estará em
sala de aula. Em uma sociedade que prioriza a prática e a produção, ainda não
há espaço conquistado para que isso se realize. Uma nova perspectiva é a de
professor intelectual transformador, aquele que pensa a sua sociedade e age na
prática educacional no sentido de criar condições para que seus alunos reflitam
sobre a sociedade de maneira crítica. Este último reúne as qualidades dos dois
primeiros e ainda é uma perspectiva futura.

Em quaisquer das posturas, há algo de comum: não podemos conceber a


profissão como uma prática simples, nem confundi-la com a instrução. Há uma
forte tendência em substituir o termo professor por Educador, com a finalidade
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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

de ampliar o significado e produzir uma revalorização do seu papel social. Há


críticas sobre tal mudança de nomenclatura, pois na sociedade contemporânea,
em que a família está impossibilitada de cuidar de suas crianças, a escola vem
assumindo papéis múltiplos, antes destinados aos pais, à religião e à convivência
social. Para alguns, o professor não tem condições de assumir para si todos estes
papéis. Em contrapartida, pedagogos afirmam que não é o professor que assume
esses papéis, mas a comunidade escolar. Para isso é preciso dotar a escola de
múltiplos profissionais que possam amparar as crianças e os jovens durante a
sua formação. O professor seria visto então como um agente educacional, que
integra um ambiente voltado para a formação integral do educando.

Além da dificuldade de definir o que é um professor, no Brasil, as condições de


trabalho desse profissional são inadequadas e ele vem sendo alienado de seu
trabalho (ver aula 8). De acordo com Saviani (1985), o professor também passou a
vender o seu tempo para as escolas ou para o Estado e tem perdido o direito de
participar das estratégias de organização de ensino. A centralização produzida
pelo governo federal, que edita currículos mínimos, estipula prazos, quotas,
quantidade de alunos etc, sintetizando ações que correspondem à forma de
produção liberal, retira do professor a autonomia, transformando-o num mero
fazedor de aulas (em série e quantidade).

O excesso de trabalho burocrático leva os professores a não corresponder às


expectativas e a população entende essa falta de correspondência de modo
negativo, o que reforça a desvalorização dos profissionais. Em geral, a população
tem opiniões conflituosas em relação ao papel e valor dos professores. Ora
opina-se que o professor ganha muito pouco, por isso não tem ânimo para
trabalhar; ora opinam que ganham demais pelo pouco que trabalham.

A fixação do trabalho do professor por horas trabalhadas também contribui para


o conflito. Uma hora aula dada pode corresponder a educar cinquenta crianças
de uma única vez. Não se pensa na quantidade de trabalho desempenhada
nessa fração de tempo. O trabalho intelectual também não é contabilizado.
Sintetizar um conteúdo e dar-lhe uma forma compreensível, assimilável e ainda
aplicá-lo de modo prazeroso pode custar dias de leitura e pesquisa. Em nossa
cultura, sentar e ler não é considerado trabalho. Gastar horas criando peças de
jogos, brincadeiras educativas, pode ser confundido como “enrolação”, por um
observador leigo. Não temos o conceito de “ócio laborativo”, ou seja, um espaço
de tempo em que, embora sem produzir coisas, estamos realizando o trabalho
intelectual. Parece que professor só trabalha quando está corrigindo prova!

É comum, em salas de professores, ouvir os comentários sobre quantas provas


foram corrigidas, litígios porque corrigir prova de múltipla escolha é mais fácil e
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AULA 10

rápido que discursivas. Falta a consciência de que, na média, todos trabalham


muito, independente de que sejam provas de matemática, língua portuguesa
ou história (reveja a aula 7).

O que fazer?

Dentre tantas divergências teóricas que cercam esta profissão tão essencial,
devemos frisar aqui que a prática na sala de aula é que determina a relação
professor – educação – aluno. Considerando que a escola funciona a partir de um
ato intencional, ao professor não cabe a postura ingênua de cumprir as regras
sociais e institucionais de modo inconsciente ou casual. Cabe-lhe a função de
avaliar os valores que determinam certos comportamentos e preocupar-se em
desenvolver uma reflexão ética que o permita dirimir as situações vivenciadas
na sala de aula. Ele tem um comprometimento social e político (GADOTTI, 1998).
Ciente de que existe uma diferença entre a moral e a ética, há de se fazer o esforço
de avaliar constantemente suas próprias convicções, a fim de que elas não se
tornem parâmetros inflexíveis de julgamento dos seus alunos.

Se professo uma religião, se defendo valores europeus, patriarcais, tradicionais,


devo lembrar que ao entrar em sala de aula, diversos ambientes culturais estão
em convivência e que aquilo que valorizo afirmativamente ou negativamente
pode não ser um padrão para todos que frequentam a sala de aula ou a escola.

A Constituição Brasileira, inspirada nos padrões humanísticos mais avançados


que existiam na época em que foi concebida, rege que devemos educar para a
cidadania e respeitar as diversidades, mas pertencemos a uma sociedade que
tradicionalmente educa para o trabalho, o que coloca o professor numa situação
paradoxal diante dos alunos.

Os parâmetros utilizados no ambiente escolar devem ser princípios comprometidos


com a convivência da coletividade. Interessa a integridade da criança, sua vida,
seu direito à livre expressão, livre crença, a igualdade de condições. Quando tais
princípios são feridos, então a situação de conflito pode se instalar a qualquer
momento e o respeito mútuo é perdido.

Na aula 6, vimos que Hegel aponta que é somente através do reconhecimento de


que todos somos iguais, independentemente das diferenças particulares, é que
é possível a liberdade. Hoje, no mundo globalizado de tantas diferenças, o que
mais precisamos difundir é justamente o ideal de promover o reconhecimento
de igualdade entre todos os homens. Se algumas vezes afirmamos aqui que
filósofos e poetas são sonhadores, terminamos conclamando que você seja mais
um sonhador na trajetória de construir um mundo melhor.

195
Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

Exercitando

Faça uma pesquisa sobre o pragmatismo e relacione-o com os valores burgueses


mencionados na aula 7. Poste no fórum da disciplina sua compreensão de como
esses valores foram reproduzidos através das práticas de sala de aula de realidades
escolares vivenciadas por você.

4 Aprofundando seu conhecimento

Figura 3

Neste livro, os autores organizaram textos que


tratam das questões éticas contemporâneas e
dos desafios a serem enfrentados pelos
profissionais da área.

Vale a pena conferir!

5 Trocando em miúdos

Moral e ética são conceitos e se diferem entre si. A moral está associada aos valores
e regras sociais que são praticadas e adotadas como padrão comportamental
pelos diferentes povos. Em cada cultura, a moral resulta das experiências herdadas
das gerações passadas. A ética consiste num exercício de reflexão, pelo qual
efetuamos uma avaliação das práticas morais, procurando princípios que possam
nortear a conduta humana independentemente das diferenças culturais. Na
atualidade, existem pelo menos duas grandes correntes de pensamento: a
primeira filiada aos pensadores antigos, os quais consideram que há princípios
universais que devam ser preservados independentemente da variedade de
costumes; e a segunda corrente é o pragmatismo, que prioriza a ação a partir
do cálculo de benefícios. Vimos ainda que os professores não são neutros diante
da variedade de concepções e devem estar consciente da produção histórica
196
AULA 10

de valores. Avaliar a sua conduta deve ser um exercício contínuo para que não
reduza a sua prática a uma mera reprodução de comportamentos, que reforçam
condutas que aviltam os princípios gerais que permitem a convivência humana.

6 Autoavaliando

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àà http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.
do?select_action=&co_obra=22141

Depois de assistir o vídeo produzido pela TVEscola, reflita sobre as recomendações


sobre como amenizar as questões sociais através de ações educativas e de
iniciativas individuais. Confronte essas recomendações com as ideias que
discutimos ao longo do curso.

No espaço destinado ao chat da disciplina, marque um horário com seus colegas


de polo e troque ideias sobre suas reflexões.

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Ética e Educação: o papel do professor no processo de escolarização

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AULA 10

Referências

ARANHA, Mª Lúcia. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 2006.

ARANHA, Mª Lúcia & MARTINS, Mª H.. Filosofando: introdução à filosofia. São


Paulo: Moderna, 2010.

DURKHEIM, Émile. Regras do Método Sociológico. São Paulo: Ed. Nacional, 2002.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. 2.ª ed., São Paulo: Cortez, 1998.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. In. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova


Cultural, 1999.

RUIZ, Maria José Ferreira. O papel social do professor: uma contribuição da filosofia
da educação e do pensamento freireano à formação do professor. In: Revista
Ibero Americana de Educação. n. 33, Madri:OEI, set-dez de 2003, disponível
em: http://www.rieoei.org/rie33a03.htm, acesso em : 06 de junho de 2013.

SAVIANI, Demerval. Escola e Democracia. São Paulo: Cortez, 1985.

______. Ética, educação e cidadania. Disponível em http://portalgens.com.br/


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