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GNOSE E BUDDH

BUDDHISMO
DHISMO EM MATRIX

Tradução: Karl Bunn


GNOSE E BUDDHISMO EM MATRIX
No começo do filme MATRIX, um “hacker” de computador, todo vestido de negro, conhecido como
NEO, está caído adormecido em frente de seu computador. Uma mensagem misteriosa aparece
na tela: "Acorde, Neo!"

Essa simples mensagem resume todo o enredo do filme e como Neo lida com o problema de estar
aprisionado num mundo "material", que é uma simulação de programa de computador, criada num
futuro distante por uma Inteligência Artificial (IA), como símbolo da escravidão da humanidade
pela perpetuação da ignorância em forma de uma percepção ilusória, chamada MATRIX.

Em parte, o filme mostra sua última visão da realidade, fazendo alusões à inúmeras tradições
religiosas que antecipam a idéia que o problema fundamental da humanidade é a ignorância, e a
solução, é o conhecimento [gnose] ou o "despertar". As duas tradições religiosas em que o filme
se baseia fortemente são o GNOSTICISMO CRISTÃO e o BUDDHISMO.

Embora essas tradições diferem entre si em relevantes aspectos, ambas concordam na defesa de
que o problema da ignorância pode ser resolvido através de uma reorientação individual da
perspectiva no que se refere ao mundo material.

O CRISTIANISMO GNÓSTICO e o BUDDHISMO são como um guia que ajuda aqueles


aprisionados no limitado mundo da ilusão. A figura do Redentor Gnóstico ou Boddhisattwa, que de
boa vontade desce ao mundo com a missão de compartilhar o conhecimento libertador [gnose],
facilita a fuga para todos aqueles capazes de compreender. No filme, essa figura é NEO, cujo
nome é um anagrama para ONE (UM).

Ainda que, como um mito moderno, o filme mostra significativamente numerosas tradições nós
acreditamos que um exame do Cristianismo Gnóstico e do Buddhismo bem ilumina o paradigma
dominante de MATRIX, isto é, o problema de estar adormecido na ignorância de um mundo de
sonhos, que pode ser desfeito pelo despertar do conhecimento (gnose) ou Iluminação. Projetando
sincreticamente essas duas antigas tradições e fundindo-as com uma visão tecnológica de futuro,
o filme constrói um novo ensinamento que desafia o expectador a questionar a "realidade".

1. ELEMENTOS CRISTÃOS EM MATRIX


A maioria dos assistentes deste filme provavelmente reconhece facilmente a presença de alguns
elementos cristãos, como o nome TRINITY ou a morte de NEO e sua ressurreição e ascensão
quase no final do filme. De fato, abundam alusões cristãs e bíblicas, particularmente no que se
referem aos nomes: APOC - (Apocalipse); o nome de NEO como Mr. ANDER+SON (do grego
ANDRAS = HOMEM + SON = FILHO, em inglês, que resultam em FILHO DO HOMEM); a nave
chamada NABUCODONOSOR (o rei da Babilônia que no Livro de Daniel teve um enigmático
sonho que precisa ser interpretado); e a última cidade humana remanescente, ZION (SIÃO),
sinônimo, no judaísmo e no cristianismo, da Jerusalém Celestial.

Neo é totalmente modelado como a figura de Jesus: Ele é O ESCOLHIDO que fora profetizado
para retornar à MATRIX; aquele que tem o poder de mudar o mundo (MATRIX) a partir dele
mesmo (ou seja, fazendo milagres); aquele que combate os representantes do demônio [os
agentes?] e que é morto mas retorna à vida novamente.

Este modelo de Neo como Jesus é reforçado de várias maneiras. Em poucos minutos, após haver
começado o filme, outro "hacker" diz a Neo: "Você é meu salvador, cara, meu Jesus Cristo
particular".

Essa identificação é sugerida também pela tripulação da nave Nabucodonosor, que ansiosamente
aguarda saber se ele é O Escolhido que foi anunciado e que repetidamente juram na presença de
Neo dizendo "Jesus" ou "Jesus Cristo".
Ainda em outro exemplo, Neo entra na Nabucodonosor pela primeira vez e a câmara dá uma
panorâmica pelo interior da nave, parando numa inscrição "MARK III NR. 11". Isso é outra
referência messiânica, a partir do Evangelho de Marcos, Capítulo 3, versículo 11: “E os espíritos
imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de Deus”.

Como o Jesus de Marcos, Neo é um exorcista que expulsa os agentes estranhos que sobrevivem
como auto-imagens residuais naqueles imersos em MATRIX. Contudo, essa tropa [de Agentes]
contrasta as diferenças entre Jesus e Neo desde o último exorcismo realizado, não pela cura mas
sim pela morte dos corpos digitais daqueles que estão possuídos pelos Agentes matando pessoas
reais no mundo de Nabucodonosor. A praga, então, finalmente, realça o problema da violência no
filme, até mesmo quando mostra os paralelos entre Jesus e Neo.

2. O GNOSTICISMO EM MATRIX
Embora a presença de elementos individuais cristãos no filme seja clara, todo o sistema cristão
apresentado no filme não é o tradicional, mas o ortodoxo. Mais ainda, os elementos cristãos do
filme fazem maior sentido quando vistos dentro do contexto GNÓSTICO-CRISTÃO.

O GNOSTICISMO foi um sistema religioso que floresceu por séculos no começo da Era Cristã e
em muitas regiões do antigo mundo mediterrâneo, onde competiu fortemente com o cristianismo
ortodoxo enquanto, em outras áreas, representava a única interpretação do cristianismo, como é
sabido.

Os GNÓSTICOS tiveram suas próprias escrituras, acessíveis a nós na forma dos Evangelhos de
Nag Hammadi, a partir dos quais se pode ter uma idéia geral das crenças gnósticas. Ainda que o
Gnosticismo Cristão compreenda muitas variedades, o Gnosticismo como um todo parece haver
abraçado o Mito Cosmogônico Oriental, que explica a natureza verdadeira do universo e do ser
humano dentro dele. Uma pequena citação desse Mito esclarece vários aspectos dentro de
MATRIX.

No Mito Gnóstico, o Deus Supremo é totalmente perfeito, e, por isso, estranho e misterioso,
"inefável", "inalcançável", "imensurável luz, pura, santa e imaculada"(Apócrifo de João). Mais
ainda: Para este Deus existem outros seres menos divinos no Pleroma (similar ao Paraíso, uma
divisão desse universo que não é a Terra), que é dotado de um sexo metafórico masculino ou
feminino.

Pares desses seres são capazes de produzir descendência, que são, eles mesmos, emanações
divinas perfeitas em si mesmas. O problema surge quando um EON ou Ser chamado SOPHIA
(Sabedoria em grego), uma mulher, decide "levar adiante sua semelhança sem o consentimento
do Espírito" - que gera uma descendência sem sua consorte (Apócrifo de João).

A antiga visão era a de que as mulheres oferecem a matéria na reprodução, e os homens, a


forma. Por isso, o ato de Sophia produz uma descendência que é imperfeita ou até mesmo mal
formada, e ela a afasta dos outros seres divinos do Pleroma, levando-a para outra região isolada
do cosmos. Essas deformadas e ignorantes deidades, as vezes denominadas JALDABAOTH,
equivocadamente acreditam ser o único Deus.

Os gnósticos identificam Jaldabaoth como o Deus Criador do Antigo Testamento, o qual decide
criar os Arcontes (Anjos), o mundo material (Terra) e os seres humanos. Embora as tradições
variem, Jaldabaoth normalmente é enganado dentro do alento divino ou espírito de sua mãe
Sophia que antigamente vivia nele, dentro do ser humano (especialmente Apócrifo de João, ecos
do Gênese 2-3).

Nas mentiras, o dilema humano. Somos pérolas no lodo, espíritos divinos (bom) aprisionados num
corpo material (mau) e num mundo material (mau). O Paraíso é nosso verdadeiro lar, mas
estamos exilados do Pleroma.

Felizmente, para o Gnóstico a salvação está disponível na forma de Gnose ou Conhecimento,


dado pelo Redentor Gnóstico, que é o Cristo, a figura enviado pelo Altíssimo para libertar a
espécie humana de Jaldabaoth.

A Gnose envolve uma compreensão de nossa verdadeira origem e natureza, a metafísica


realidade ainda desconhecida para nós, resultando na fuga gnóstica (da morte) da escravizante
prisão material do mundo e do corpo para as regiões superiores do espírito. Contudo, para fazer
esse ascenso, o Gnóstico precisa passar pelos Arcontes, que são ciumentos de sua luminosidade,
espírito ou inteligência e que por isso tratam de dificultar sua jornada ascendente.

Em significativo grau, o mito básico gnóstico compara o enredo de MATRIX, com respeito a
ambos, problemas que os humanos enfrentam e sua solução. Como Sophia, nós concebemos
uma descendência de nosso próprio orgulho, como explica Morpheus: "No começo do século 21
toda a espécie humana estava unida na celebração. Estávamos maravilhados com nossa própria
magnificência tal como geramos a IA (Inteligência Artificial).

Contudo, essa nossa descendência está como Jaldabaoth, mal formada (matéria sem espírito?).
Morpheus descreve a IA como "uma singular consciência que desenvolveu uma raça inteira de
máquinas", um exato paralelo entre o Criador Gnóstico dos Arcontes (Anjos) e o mundo material
ilusório.

A IA cria MATRIX, uma simulação de computador que é a "prisão de nossas mentes". Por isso,
Jaldabaoth / IA aprisiona a espécie humana numa jaula material que não representa a última
realidade, como Morpheus explica a Neo: "Enquanto MATRIX existir a raça humana nunca será
livre".

O filme também se vale da linguagem metafórica utilizada pelos Gnósticos. Os textos de Nag
Hammadi descrevem o problema humano fundamental em metáforas de cegueira, sono,
ignorância, sonhos e trevas/noite, enquanto a solução é apresentada com palavras como visão,
desperto, conhecimento (gnose), despertar de sonhos e luz/dia.

De forma análoga, no filme, Morpheus, cujo nome foi retirado do Deus grego dos sonhos e do
sono, revela a Neo que MATRIX é um "mundo de sonhos gerado por computador".

Quando Neo é desconectado e desperta pela primeira vez em Nabucodonosor, em meio a um


brilhante espaço branco iluminado (linguagem cinematográfica para indicar o Paraíso), seus olhos
ardem, conforme explica Morpheus, porque ele nunca os havia usado antes. Tudo que Neo havia
visto até aquele ponto o foi através do olho da mente, como num sonho, criado através de um
software de simulação. Tal como um antigo Gnóstico, Morpheus explica que a respiração conduz
Neo pelo programa de treinamento de artes marciais e que não há nada a fazer com seu corpo, a
velocidade ou sua força, os quais são todos ilusórios. Mais ainda, eles dependem unicamente de
sua mente, que é real.

Os paralelos entre Neo e Cristo, mostrado anteriormente, são mais bem entendidos no contexto
gnóstico a partir do momento que Neo é "salvo" através da gnose ou do conhecimento secreto,
que ele passa para outros.

Neo aprende a respeito da verdadeira estrutura da realidade e sobre sua real identidade, a qual
permite que ele rompa as leis do mundo material, o qual, agora, é percebido como mera ilusão.

É isso que ele aprende: a mente torna tudo (MATRIX ou o mundo material) real, mas ela não é a
realidade última. Na cena final do filme, é essa Gnose que Neo passa aos outros com o propósito
de liberá-los da prisão de suas mentes: Matrix.

Ele atua como um Redentor Gnóstico, uma figura pertencente a outro reino, que penetra no
mundo material com o objetivo de ensinar o conhecimento salvador a respeito da verdadeira
identidade da espécie humana e da verdadeira estrutura da realidade, libertando assim todo
aquele capaz de entender a mensagem.

De fato, o nome de Neo não é somente Mr. Anderson (o Filho do Homem); é Thomas (Tomé)
Anderson, consoante ao mais famoso evangelho gnóstico: O Evangelho de Tomé. Também, antes
de ser batizado como Neo (o único a poder iniciar algo Novo desde que seja de fato O Escolhido),
ele é Tomé duvidando; não acredita nesse papel de Redentor.

De fato, Tomé quer dizer "Gêmeo", e na antiga tradição cristã, ele é o irmão gêmeo de Jesus. Em
certo sentido, o papel representado por Keanu Reeves é um personagem gêmeo a partir de sua
estruturação como o descrente Tomé e a figura do Cristo Gnóstico.

Não somente a forma como Neo passa o conhecimento secreto que salva, em bom estilo
gnóstico, mas também, da mesma forma, a forma como ele aprende evocar alguns elementos do
Gnosticismo. Imbuído de imagens das tradições do Oriente o programa de treinamento ensina a
Neo o conceito de "congelamento", livrando a mente e superando o medo, cinematograficamente
captado pelo efeito "Bullet Time" (montagens digitais de "quadros" congelados / efeito de câmara
lenta obtido a partir do uso simultâneo de muitas câmaras).

Bastante interessante é este conceito de "congelamento" porque também está presente no


Gnosticismo, no qual, nos Eons Elevados, são comparados com "atividade" e "repouso", e
somente pode ser compreendido em tal meditativa e centrada maneira, como está claro nessas
instruções dadas a um certo Allogenes. "Embora seja impossível para você permanecer, nada
tema; mas se você deseja permanecer retira-te à Existência e você a encontrará estando em
repouso após à semelhança do Escolhido que está verdadeiramente em repouso... E quando você
se tornar perfeito nesse lugar, ainda será você mesmo"... (Allogenes). O Gnóstico então revela:
"Existia comigo a quietude do silêncio e eu ouvi a bem-aventurança pela qual eu conheci meu
próprio Ser"(Allogenes). Então Neo capta a completa extensão de sua "gnose salvadora": MATRIX
é somente um mundo ilusório. E um reflexivo Keanu Reeves, silenciosa e calmamente, contempla
as balas que ele fez parar no ar, filmado em "bullet time".

Ainda outro paralelo com o Gnosticismo, ocorre no figurino dos Agentes, como o Agente Smith e
seu opositor, o equivalente gnóstico de Neo e todos os demais que tentam sair de MATRIX. A IA
criou esses programas artificiais para funcionarem como "porteiros" - os Guardas das portas - que
possuem todas as chaves. "Esses Agentes são parentes dos ciumentos Arcontes criados por
Jaldabaoth para bloquearem a ascensão do Gnóstico quando tentam deixar o mundo material.
Eles defendem as portas em sucessivos níveis ao paraíso (e.g. Apocalipse de Paulo).

Contudo, como prediz Morpheus, Neo eventualmente é capaz de derrotar os Agentes, porque,
enquanto eles precisam seguir as regras de MATRIX, sua mente humana permite a ele (Neo)
dobrar ou quebrar as regras.

Entretanto, a mente não se compara, no filme, somente à inteligência racional. Caso contrário, a
IA sempre poderia vencer. Mais ainda, o conceito de "mente" aparece no filme unicamente para
indicar a capacidade humana de imaginar, por intuição ou, por assim dizer, para "pensar fora da
caixa".

Ambos, o filme e os gnósticos, afirmam que a chispa divina dentro do homem permite a percepção
da gnose como algo maior que aquilo alcançável, mesmo pelo Arconte-Chefe ou Agente de
Jaldabaoth.

O poder da mãe (Sophia, em nossa analogia, a espécie humana) saído de Jaldabaoth [IA] para
dentro dos corpos formados pela natureza [os humanos crescem nas fazendas da IA]... Em certo
momento o restante dos poderes (os Arcontes ou Agentes) se tornam ciumentos porque ele (Neo)
se tornou um Ser por intermédio de todos eles, e foram eles que deram seu poder ao homem, e
sua inteligência (mente) ficou maior que a daqueles todos que o fizeram e maior que aquele do
chefe dos arcontes (Agente Smith?). E quando eles percebem que se tornou um iluminado e que
pode pensar melhor que eles, levam-no lançando-o à mais baixa de toda a matéria [simulada por
Matrix] (Apócrifo de João 19-20).

É notável como Neo supera o Agente Smith na cena final do filme precisamente pela total
compreensão da ilusão de MATRIX, algo que, aparentemente, o Agente Smith não consegue
fazer. Portanto, subseqüentemente Neo se torna capaz de romper barreiras que o Agente não
consegue. Sua derrota final vincula a entrada (de Neo) no corpo de Smith, despedaçando-o pela
força da pura luminosidade, retratada pelos efeitos especiais de luz rebentando Smith de dentro
para fora.

Acima de tudo, então, o sistema retratado em MATRIX compara o cristianismo gnóstico em


numerosos aspectos, especialmente o delineamento do problema fundamental da humanidade
vivendo num mundo de ilusões que simula uma realidade e a solução do acordar do sonho. A
figura central do Mito de Sophia, Jaldabaoth, os Arcontes e o Redentor Gnóstico igualmente
encontram paralelo com as figuras-chave do filme, atuando de forma semelhante. A linguagem do
gnosticismo e do filme também são parecidas: sonho x despertar; cegueira x visão; luz x trevas.

Contudo, dado que o gnosticismo presume um mundo desconhecido de seres divinos, onde está
Deus no filme? Em outras palavras, quando Neo se transforma em pura luz, isso é o símbolo da
divindade ou do potencial humano?

A questão se torna ainda mais pertinente com a identificação da espécie humana com Sophia -
um Ser Divino no gnosticismo. Em certo nível parece não haver Deus no filme. Embora existam
motivos apocalípticos, Conrad Ostwalt corretamente argumenta que diferente do Apocalipse
cristão convencional, em MATRIX, ambos, a Catástrofe e sua solução, estão na atividade
humana, isto é, o divino não está aparente. Mas, em outro nível, o filme abre a possibilidade de
Deus através da figura do Oráculo, que vive dentro de MATRIX e ainda tem acesso para conhecer
o futuro, que mesmo aqueles liberados de Matrix ainda não possuem. Essa sugestão é ainda mais
forte no roteiro original, no qual o apartamento do Oráculo é o Santo dos Santos aninhado dentro
do Templo de Zion (Sião).

A divindade também pode jogar um papel na passada encarnação de Neo e sua nova vinda como
O Escolhido; se, porém, houver alguma divindade implícita no filme, isso é transcendente, como a
divindade do Inefável, o Supremo Deus Invisível do Gnosticismo, exceto onde isso está imanente
na forma de Chispa Divina ativa nos humanos.

3. BUDDHISMO EM MATRIX
Quando perguntado por um fã se as idéias buddhistas os influenciaram na produção do filme, os
irmãos Wachowski responderam com um simples "sim".

De fato, as idéias buddhistas se espalham pelo filme e aparecem bem próximas das igualmente
fortes imagens cristãs. Quase imediatamente após Neo ser identificado como "meu próprio Jesus
Cristo pessoal", esse apelo buddhista é feito de modo distinto; o mesmo “hacker” diz: "Isso nunca
acontece; você não existe".

A partir da tomada (de cena) que mostra algo parecido com um "stupa", que conecta os humanos
nos horríveis campos mecanizados, para os desejos egoístas de Cypher por sensações e
prazeres de MATRIX, os ensinamentos buddhistas formam a base para muito do enredo e
imagens do filme.

Sobre a questão do Samsara até mesmo o título do filme evoca a visão buddhista de mundo.
MATRIX é descrita por Morpheus como "uma prisão para a mente". É uma "construção"
dependente feita de projeções digitais interconectadas de bilhões de seres humanos que
desconhecem a natureza ilusória da realidade na qual vivem, e são completamente dependentes
do "hardware" implantado em seus corpos reais e dos programas (softwares) elaborados (para
fazer a máquina funcionar), criados pela IA. Essa "construção" é parecida com a idéia buddhista
do SAMSARA, a qual ensina que o mundo, no qual vivemos nossas vidas diárias, é feito
unicamente de percepções sensoriais formuladas por nossos próprios desejos.

Quando Morpheus leva Neo para dentro da "construção" para ensiná-lo a respeito de Matrix, Neo
aprende que a maneira pela qual ele percebe a si mesmo na Matrix não é mais que "uma projeção
mental de seu próprio eu digital". O mundo "real", que nós associamos com aquilo que sentimos,
cheiramos, provamos e vemos, "são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu
cérebro". O mundo, explica Morpheus, que existe agora “é somente parte de uma simulação
neural interativa, que chamamos de MATRIX".
Em termos buddhistas, poderíamos dizer que isso se dá "porque está destituído de ego ou de que
pertence ao ego; por isso, diz: "O mundo é vazio".

Mas, o que é estar destituído de ego e o quê pertence ao ego?

O olho, a forma material, a consciência visual, a impressão do olhar - tudo isso está destituído de
ego e do que pertence ao ego.

De acordo com o buddhismo, e de acordo com Matrix, a convicção da realidade baseada na


experiência sensorial, na ignorância e no desejo, mantém o homem encadeado na ilusão até ser
capaz de reconhecer a falsa natureza da realidade e renunciar a seu equivocado sentido de
identidade.

À luz da doutrina buddhista da Co-Creação Dependente, o filme mostra a realidade dentro de


MATRIX como um amontoado de ilusões de todos os seres humanos capturados em suas
armadilhas. De forma similar, o buddhismo ensina que o sofrimento dos seres humanos se deve
ao ciclo de ignorância e desejos que os prendem eternamente no círculo repetitivo de nascimento,
morte e renascimento. O princípio é dado numa pequena fórmula no Samyutta-nikaya:

“Se isso é, aquilo vem a ser;

Do surgir isso, surgirá aquilo;

Se isso não for, aquilo não virá a ser;

Do cessar isso, aquilo é cessado”.

A idéia da Dependência da Co-Creação é ilustrada no contexto do filme através da ilusão de


Matrix. A viabilidade das ilusões de Matrix depende da crença daqueles imersos “nisso” que é real
para a Matrix em si mesma.

O software da IA está dentro e fora de si mesma, definitivamente sem ilusão. Somente quando os
humanos interagem com seus programas eles podem ser imersos na ilusão corporalmente criada
- a Matrix ou o Samsara - que reforça a si mesma através da interação desses seres envolvidos
dentro dela. Portanto, a realidade da Matrix somente existe quanto o atual ser humano
experimenta subjetivamente seus programas.

O problema, então, pode ser examinado em termos buddhistas. Os humanos são aprisionados no
ciclo da ilusão, e sua ignorância acerca do ciclo os mantém atados a ele, totalmente dependentes
de suas próprias interações com o programa e com as ilusões da experiência sensorial que ele
provê, bem como das projeções sensoriais dos demais. Essas projeções são consolidadas pelos
enormes desejos humanos de acreditarem que o que eles percebem como real é real de fato
[para eles].

Este desejo é tão forte que derruba Cypher, que não pode mais tolerar o "deserto do real", e ele
procura uma maneira de ser reinserido na Matrix. Tal como combina com o Agente Smith num
restaurante fino, fumando um charuto com um copo grande de "brandy", Cypher dá seus motivos:
"Eu sei que este bife não existe; eu sei que quando eu o levo a minha boca Matrix está dizendo ao
meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Depois de 9 anos você sabe o que está mais claro
para mim? Que a ignorância é a felicidade!"

Cypher sabe que Matrix não é real e que todos os prazeres que ele experimenta são ilusórios. E
para ele, a ignorância de Samsara ainda é preferível à Iluminação. Negando a realidade, que ele
agora experimenta além da Matrix, usa de dupla negativa: "Eu não quero me lembrar de nada.
Nada. E quero ser rico - alguém importante - como um ator".

Não somente Cypher quer esquecer tudo sobre a verdadeira realidade como também quer ser um
"ator", para acrescentar um novo nível de ilusão da Matrix, na qual está buscando re-entrar.
O ambiente de Samsara é tão forte que não só faz Cypher afundar em seus desejos mas também
Mouse pode ter sido envolvido pelas armadilhas do Samsara, a partir de que sua morte poderia
ter ocorrido em parte por causa das distrações criadas pelas suas fantasias sexuais a respeito da
"mulher de vestido vermelho" que o atrai quando supostamente deveria estar em alerta.

Enquanto Cypher e Mouse representam o que acontece quando alguém se identifica com o
Samsara, o resto da tripulação resume a restrição e a compostura exaltada por Buddha. A cena
muda abruptamente do restaurante para a confusão do convés de Nabucodonosor, onde, em
lugar de estar sendo oferecido "brandy", charutos e bife, a Neo é dada uma tigela de "gororoba",
que é a comida normal servida a partir deste ponto.

Em contraste com os prazeres que a Cypher somente podem ser atendidos por Matrix, Neo e a
tripulação devem se contentar com a "simples proteína celular combinada com aminoácido,
vitaminas e minerais" que Dozer proclama como sendo "tudo que seu corpo precisa". Vestem
roupas puídas, comem “sopa de aveia” e dormem em celas nuas e a tripulação descrita segue um
meio termo dos ensinamentos de Buddha: nem o absoluto ascetismo nem a indulgência com as
distrações em seu trabalho.

A solução do Conhecimento ou Iluminação


Essa dualidade entre Matrix e a realidade por trás disso tudo representa a última meta dos
“rebeldes”: libertar suas mentes de Matrix e permitir aos humanos deixarem para trás suas reais
vidas no mundo do além. Para tanto, os produtores do filme se basearam nas idéias buddhistas
do Therevada e do Mahayana.

Aludindo ao ideal do Arhat do Therevada o filme sugere que a iluminação é alcançada através dos
esforços individuais. Como seu Guia inicial, Morpheus deixa isso claro a Neo que não pode
depender dele para sua iluminação. Diz Morpheus: "Ninguém pode dizer o que é a Matrix. VOCÊ
precisa vê-la por si mesmo".

Morpheus diz ainda a Neo que ele precisa fazer a escolha final por ele mesmo: "Estou tentando
libertar sua mente, Neo. Mas eu só posso mostrar a porta e só você pode atravessá-la".

Para os buddhistas Therevada, "a emancipação do homem depende de suas próprias realizações
da Verdade e não da graça benevolente de um Deus ou de outro poder exterior como recompensa
por seu obediente bom comportamento".

O Dhammapada impulsiona quem busca a iluminação para "libertarem-se a si mesmos do


passado, do futuro e do presente, cruzando para a mais distante orla da existência, com a mente
lançada em todos lugares, sem mais nenhuma vontade de nascimento e morte.

Como diz Morpheus a Neo, "há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho".
E como Buddha ensinou aos seus seguidores, "vocês, por vocês mesmos, devem fazer o esforço;
só os Despertos são Mestres".

Para quem já está no Caminho da Iluminação, Morpheus é somente um Guia. Em última instância,
Neo precisará reconhecer a Verdade por ele mesmo.

Matrix ainda compreende idéias encontradas no Buddhismo Mahayana, especialmente em sua


preocupação particular para a liberação de todas as pessoas através da condução desses que
permanecem no Samsara e adiam a própria iluminação final para ajudar a outros como
bodhisattvas. Os membros da tripulação de Nabucodonosor sintetizam essa compaixão.

Mais além de permanecer fora da Matrix, onde eles estão mais seguros, eles escolhem re-entrar
nela repetidamente como embaixadores do conhecimento que tem por meta final livrar as mentes
e eventualmente também os corpos desses que são apanhados dentro da rede digital da Matrix.

O filme tenta misturar o ideal Theravada do Arhat com o ideal Mahayana do Bodhisattva e
apresenta a tripulação como interessada por aqueles ainda aprisionados na Matrix dispostos a
nela re-entrar para ajudá-los, enquanto, simultaneamente, comentam que a realização final é um
processo individual.

Neo é o Buddha. Apesar de toda a tripulação encarnar os ideais do boddhisattwa, os produtores


colocaram Neo à parte, como único, sugerindo que a tripulação possa ser os arhats e os
boddhisattwas, e Neo possa ser visto como Buddha.

A identidade de Neo como Buddha é reforçada não somente através do anagrama de seu nome
mas também pelo mito que o cerca. O Oráculo predisse a volta do Escolhido que tem a habilidade
de manipular a Matrix. Como Morpheus explica, o retorno desse homem "traria a destruição de
Matrix, o fim da guerra e a liberdade para nosso povo". É por isso que existem aqueles como nós
que dedicaram a vida toda procurando Matrix, esperando por Ele".

Morpheus acredita que Neo é a reencarnação daquele homem, como Buddha, dotado de poderes
extraordinários para ajudar a iluminar toda a humanidade.

A idéia de que Neo possa ser visto como a reencarnação de Buddha é reforçada pela
predominância de imagens no filme diretamente relacionadas a ele.

Finalmente, quatro encarnações são visíveis no filme. A primeira tem lugar na pré-história do
filme, na vida e morte da “Primeira Iluminação” em que era capaz de controlar Matrix de dentro. A
segunda consiste na vida de Neo como Mr. Anderson. A terceira começa quando Neo emerge
ofegante da gelatina que está no berço do sinistro "stupa", onde havia sido encasulado e do qual
foi desconectado e depois jogado dentro um enorme tubo negro, que podemos associar,
facilmente, como a via de nascimento. Ele é retirado do “tubo” careca, nu e confuso, e com olhos,
que Morpheus comenta, de “nunca haverem sido usados anteriormente”. Tendo “morrido” para o
mundo de Matrix, Neo acaba de “nascer” no mundo além dela. A quarta vida de Neo começa após
ele morrer e voltar à vida nas cenas finais do filme, como se Neo ressuscitasse por obra do beijo
de Trinity.

Nesse momento, Neo percebe não somente as limitações de Matrix, mas também as limitações
do mundo de Nabucodonosor, desde que superou a morte em ambos os mundos. Como Buddha,
sua Iluminação garante a onisciência e ele deixa de estar sob o poder de Matrix e das leis de
nascimento, morte e renascimento dentro da IA.

Neo, como Buddha, busca estar livre da Matrix e ensina os demais o como se libertarem da
mesma, e todos seus poderes são usados para essa finalidade. Como único ser humano, desde a
primeira iluminação, capaz de manipular livremente o software de Matrix dentro de seus limites,
Neo representa a atualização da natureza de Buddha, alguém capaz não só de reconhecer a
“origem da dor no mundo dos seres vivos” mas que também pode ser “o cessamento da dor”,
representando o meio que opera seu término”. Nesse sentido, ele é mais que os companheiros
boddhisattwas, e oferece a esperança do despertar e da libertação de todos os humanos da
ignorância que os prende.

A QUESTÃO DO NIRVANA
Mas, o que ocorre quando a versão da realidade de Matrix é dissolvida? O buddhismo ensina que
quando o Samsara é transcendido, o Nirvana é ganho e a noção de ego é totalmente perdida.
Assim, aquela realidade condicionada se esfuma para longe, e o que permanece, se algo, desafia
a capacidade de descrevê-lo.

Em sua reentrada em Matrix, Neo, contudo, ainda retém a auto-imagem residual e a “projeção
mental do ego digital”. Iluminado, ele encontra a si mesmo nem no Nirvana nem em nenhum lugar;
apenas, num lugar diferente, com um intocado (se algo confuso) sentido do eu que fortemente
remonta seu “ego” dentro da Matrix. Trinity pode estar certa acerca de que Matrix “não lhe pode
dizer quem você é”, mas, “quem você é parece estar, pelo menos, em alguma sensação que faz
você pensar que está na Matrix”.
Em outras palavras, há suficiente continuidade na própria identidade entre o mundo de Matrix e o
“deserto do real” que parece provável estar implicando aos autores que a “plena iluminação” ainda
não foi alcançada e é preciso ocultar a realidade além de Nabucodonosor e do mundo em que ela
(a nave) vive. Se o paradigma buddhista é seguido em suas conclusões lógicas, então temos que
esperar pelo menos um nível a mais de “realização”, além do mundo da tripulação; mesmo libertos
de Matrix eles ainda estão sujeitos a sofrer e a morrer e ainda possuem egos individuais.

Esta idéia é reforçada pelo que pode ser a alteração mais problemática que Matrix faz aos
ensinamentos buddhistas tradicionais. A doutrina buddhista do A-Himsa ou da não-violência
contra os seres vivos é escancaradamente negada no filme. Parece que os produtores
deliberadamente escolheram unir violência com “conhecimento salvador”, uma vez que parece à
tripulação não haver saída que não pela via armada. Quando Tank pergunta a Neo e a Trinity o
que eles precisam para fazer o resgate de Morpheus, “além de um milagre”, a resposta imediata
deles é: Armas. Muitas armas.

Os roteiristas poderiam facilmente ter apresentado as "mortes" dos Agentes como nada mais que
o fim dessa parte especial do software. Ao invés disso, os irmãos Wachowski propositalmente
escolheram retratar os humanos como vítimas inocentes das mortes violentas dos Agentes. Esta
clara violação dos preceitos de A-Himsa é diretamente proporcional ao ideal buddhista de
compaixão.

Mas, como pode haver ligação tão direta entre “violência” e “conhecimento”? Os produtores
retratam a violência como redentora e absolutamente essencial ao sucesso dos rebeldes (Neo e
sua gente). Neste momento, Matrix leva, precisamente, para longe dos paradigmas
compartilhados pelo Buddhismo e pelo Cristianismo Gnóstico.

A “realidade” de Matrix que exige que alguns humanos precisem morrer vitimados pela violência
salvadora não é a realidade última dos aspectos buddhistas e gnósticos-cristãos. Nem a
“Quietude” do Pleroma nem o “Vazio Liberador” do Nirvana são caracterizados pela dependência
da tecnologia e do uso da força, os quais, assim, caracterizam ambos os mundos dos rebeldes em
Matrix.

A associação explícita do filme entre “conhecimento” e “violência” mostra claramente que Neo e
seus companheiros ainda não perceberam o último estágio da realidade. De acordo com as
concepções universais da Gnose Cristã e do Buddhismo, evocadas pelo filme, a realização da
última realidade envolve uma libertação completa da vida material e oferece paz mental.

Os próprios irmãos Wachowski reconhecem que é "irônico que Morpheus e sua tripulação sejam
completamente dependentes de tecnologia e computadores, os mesmos males contra os quais
estão lutando". De fato, o filme depende efetivamente das conquistas tecnológicas e da fome de
violência de Hollywood. Negando a si mesmo, (o filme) Matrix ensina que o Nirvana ainda está
além de nosso alcance.

OBSERVAÇÕES FINAIS
Se nós vemos o filme desde uma perspectiva Gnóstica-Cristã ou buddhista, a mensagem única
parece ser: Acorde! Isso se torna explícito na canção final do filme ACORDE!, adequadamente
expresso em “Ira Contra a Máquina”. Gnosticismo, Budismo e o filme todos concordam que essa
ignorância nos escraviza num mundo material ilusório e essa liberação passa por uma iluminação
com a ajuda de um Mestre ou pela figura de um guia. Porém, quando fazemos a pergunta "porque
devemos despertar?", o filme parece divergir nitidamente do Gnosticismo e do Buddhismo. Ambas
tradições sustentam que quando os humanos “acordam”, eles deixam para trás o mundo material.

O Gnóstico transcende a morte indo ao Pleroma, o Plano Divino Espiritual, existência não-
material, e o Iluminado, no Buddhismo, alcança o Nirvana, um estado que não pode ser descrito
em nosso idioma, mas que é totalmente não-material. Em contraste, o "deserto da realidade", é
completamente material, tecnológico, no qual robôs cultivam os humanos para gerar energia; Neo
pode aprender artes marciais em segundos através de uma tomada inserida na parte de trás de
sua cabeça; e tecnologia combate tecnologia (Nabucodonosor X IA; pulso eletromagnético X
Sentinelas). Mais ainda: a batalha contra Matrix é possível graças à mesma tecnologia: telefone
celular, computadores, softwares de treinamento. “Acordar”, no filme, é deixar para trás Matrix e
despertar para um cyber-mundo (mundo cibernético) escuro, que é o real mundo material
[destruído pela guerra no começo do III Milênio?]

Ou talvez não. Há várias pistas cinematográficas na cena de carregamento do programa na


"construção" (representado pelo espaço branco) que sugere que o "deserto do real" que
Morpheus mostra a Neo, pode não ser a última realidade. Afinal de contas, Morpheus, cujo nome
é tirado do Deus grego dos sonhos (e do sono), mostra o mundo "real" a Neo, que nunca havia
tido visões diretas da superfície do mundo por ele mesmo. Mais ainda, ele vê isso numa televisão
que traz o logotipo "Deep Image" (Imagem Profunda). Ao longo do filme, reflexos em espelhos e
nos óculos de Morpheus, como também imagens em monitores de TV, apontam múltiplos níveis
de ilusão.

Tal como os “zooms” da câmara penetram dentro da imagem dessa TV especial, o espectador
"entra" na imagem. Isso "morphs" (mostra) o modo como as câmaras de vigilância fazem
anteriormente no filme, indicando seu irrealismo. Além disso, o episódio inteiro acontece enquanto
eles estão em uma “construção” gerada por um programa de computador, no qual Neo,
previamente, é advertido para não ser enganado pelas aparências. Embora o sentido de
percepção de sensação não seja claramente uma fonte fidedigna para reconhecer a realidade, o
próprio Morpheus admite "por muito tempo não acreditei nisso, até que vi os campos [de humanos
cultivados para para gerar energia] com meus próprios olhos... E então vim a perceber a verdade
óbvia".

Mesmo que o filme não estabeleça uma rejeição completa do reino material, ainda assim, em
última instância, Matrix afirma a superioridade da capacidade humana de imaginar e realizar além
da inteligência "limitada" da tecnologia. Se declarada em termos de matéria/espírito, corpo/mente,
hardware/software ou ilusão/verdade, a última mensagem de Matrix parece ser que isso pode ter
níveis de realidade metafísica além do que nós ordinariamente podemos perceber, e o filme nos
instiga a nos abrirmos à possibilidade de despertar para os mesmos.

NOTAS
1. Todos os trechos identificados são de MATRIX (Warner Bros., 1999

2. Num chat on-line com espectadores do DVD (Matrix), os irmãos Wachowski reconheceram que
as referências buddhistas no filme são propositais. Contudo, quando perguntados se “alguma vez
tinham ouvido falar que MATRIX possuía conotações gnósticas” eles deram uma torturante
resposta ambígua: “VOCÊ considera que isso seja algo bom?” (6 de novembro de 1999 em
“Matrix Virtual Theatre, no chat Wachowski).

3. Elaine Pagels registra que as semelhanças entre o Gnosticismo e o Buddhismo têm incitado
alguns estudiosos a questionar a sua interdependência e a desejar saber se “os nomes foram
mudados, se o Buddha poderia expressar adequadamente o que o evangelho de Tomé atribui a
Jesus”. Embora intrigante, ela sustenta, justamente, que a evidência é inconclusiva, desde que
tradições paralelas podem emergir em culturas diferentes sem influência direta. (Elaine Pagels, Os
Evangelhos Gnósticos (The Gnostic Gospels) – (New York: Random House, 1979, repr. 1989), xx-
xxi)

4. James Ford explorou outros elementos buddhistas recentemente em Matrix, os quais ele chama
exatamente de um "mito moderno". No seu artigo "Buddhismo, Cristianismo e Matrix: Dialética do
Mito feito pelo cinema moderno"(Buddhism, Christianity and The Matrix: The Dialectic of Myth-
Making in Contemporary Cinema) para o “Journal of Religion and Film”, vol.4 no. 2. Ver também o
enfoque de Conrad Ostwalt sobre os elementos apocalípticos do filme "Armageddon ao
Amanhecer do Milênio", vol. 4, nr. 1.

5. Um espectador perguntou para os irmãos Wachowski: "seu filme tem muitas e variadas
conexões a mitos e filosofias Judaico-cristãs, egípcias, Arthurianas e Platônicas só para
mencionar as que vi por aí; quantas dessas foram intencionais?" Eles responderam: "Todas
elas!"(Wachowski chat)

6. Os críticos feministas podem festejar quando Trinity revela antes seu nome a Neo e de como
ele claramente se surpreende: "O Trinity?... Deus, pensei que você era um homem". Ao que ela
responde rápido: "A maioria dos homens pensa assim!"

7. Os irmãos Wachowski indicam que "os nomes foram todos cuidadosamente escolhidos e todos
têm vários significados", "e o mesmo também se aplica aos números". (Wachowski chat)

8. Em recente entrevista para a Time, os Wachowski se referem a Nabucodonosor num contexto


“Daniélico" (www.time.com/time/magazine/article/0,9171,22971,00.html , "Popular Metaphysics,"
by Richard Corliss, Time, April 19, 1999 Vol. 153, no. 15) Nabucodonosor também é o rei
babilônico que destruiu o Templo de Jerusalém em 586 a.C. e que exilou a elite da sociedade
judaica na Babilônia. Quiseram também os irmãos Wachowski referirem- se ao exílio "da
tripulação de Zion (Sião) ou do mundo da superfície?”

9. O filme também sugere que Zion (Sião) seja o céu, como quando Tank diz: "Se a guerra
estivesse para terminar amanhã, Sião seria o lugar da celebração da festa", evocando com isso o
esquema cristão tradicional de um apocalipse seguido por uma vida no céu ou no paraíso.
Ironicamente, o filme localiza Sião no mundo subterrâneo, perto do centro da terra, “onde ainda é
quente”, o que pode ser visto como um código de cinema para "inferno". Seria isso uma pista de
que Sião não é o "Paraíso" no qual somos levados a pensar que é?

10. O número do apartamento de Neo é 101 e simboliza ambos os códigos de computador (um
zero um – a linguagem binários de zeros e de uns) e seu papel como “O Escolhido” (The One).
Próximo do fim de Matrix, 303 é o número do apartamento em que ele entra para a cena de sua
morte/ressurreição, lembrando a Trindade (Trinity). Isso gera perguntas sobre o papel da relação
de Trinity com Neo em termos da construção cinemática dela como divindade.

11. O traidor Cypher que representa Judas Iscariotes, dentre outras figuras, ironicamente diz a
Neo: “Cara, me assusta esse negócio de ser Jesus”.

12. Gostaríamos de agradecer a Donna Bowman, com quem inicialmente exploramos os


elementos Gnósticos de Matrix, durante uma conferência pública no Hendrix College, em 2000.

13. O Gnosticismo pode ter tido suas origens no Judaísmo, apesar dele denegrir o Deus de Israel.
Mas, é um tema complexo e ainda debatido nos círculos acadêmicos. Contudo, está claro que o
cristianismo gnóstico floresceu a partir do fim do segundo século até o século V d.C. com suas
próprias escrituras e principalmente com seus próprios rituais, condições de admissão e sua
história da Creação. (Ver Gershom Scholem, Jewish Gnosticism, Merkabah Mysticism, and
Talmudic Tradition (New York: Jewish Theological Seminary of America, 1960), Elaine Pagels, The
Gnostic Gospels (New York: Vintage Books, 1979, repr. 1989), Bentley Layton, The Gnostic
Scriptures (New York: Doubleday, 1995), Kurt Rudolph, Gnosis: The Nature and History of
Gnosticism (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1987).

14. Essa doutrina esteve adormecida por aproximadamente 2000 anos, até ser descoberta em
1945 em Nag Hammadi, Egito. A coleção completa dos textos (escrituras) pode ser encontrada
em “Os Manuscritos de Nag Hammadi” de James M. Robinson, ed. The Nag Hammadi Library,
revised edition, (New York: HarperCollins, 1990; reprint of original Brill edition, 1978). Estes
documentos também estão disponíveis na internet em www.gnosis.org (ver The Nag Hammadi
Library Section of The Gnostic Society Library).

15. Os textos gnósticos estão codificados. Não é o texto puro e simples que explica o mito, do
começo ao fim. Sua literatura pressupõe uma familiaridade com o mito, o qual precisa ser
reconstruído pelos leitores modernos. A versão do mito apresentada aqui, baseia-se nesses
textos, como o “Evangelho da Verdade”, “O Apócrifo de João”, “A origem da Creação” e “O
Evangelho de Tomé”. Ver The Nag Hammadi Library, pp. 38-51, 104-123, 124-138, 170-189.
16. Desde que os seres divinos foram feitos unicamente de substância espiritual, e sem matéria,
não há, portanto, nenhuma diferença de sexo entre eles.

17. Dependendo do texto, foi a Pletora dos seres divinos que povoou o Pleroma, muitos com
nomes judaicos, cristãos ou nomes filosóficos, como, por exemplo, O Espírito, A Verdade, O
Profeta, O Autogerado, Adamas, A Graça. (Apócrifo de João)

18. A caracterização da humanidade também está presente no relato da Torre de Babel, Gênese
11:1-9. Em ambos admiramos o trabalho de nossas próprias mãos.

19. “Então eles (os humanos) eram ignorantes (das coisas) do Pai. Ele é o que eles não podiam
ver. Havia muitas ilusões no trabalho... como criações vazias, como se eles estivessem
mergulhados no sono e se encontrassem com eles mesmos em pesadelos. Estavam fugindo,
perseguindo outros, envolvidos em ilusões ou criando ilusões de ataques, caindo de lugares altos
ou voando mesmo sem ter asas. E novamente, como se as pessoas estivessem se matando,
matando seus vizinhos, mas não há ninguém buscando por elas... Mas, quando esses que estão
passando por todas essas coisas acordam, não vêem nada porque eram eles mesmos que
estavam em meio a esses pesadelos, porque nada é real... Tal é a sorte desses que caem no
sono porque não percebem como algo (concreto), nem percebem sua ação como algo sólido;
deixam-nas para trás como os sonhos da noite... (Gospel of Truth, 29-30)

20. Talvez isso seja mais evidente na luta de Neo com o Agente Smith no Metrô. Em certo
momento do filme, Morpheus comenta acerca de Neo: “Ele está começando a acreditar”, e o
Agente Smith, enquanto lutam, chama Neo de Mr. Anderson, ao que ele responde: “Meu nome é
Neo”. Os irmãos Wachowski confirmam essa interpretação quando dizem que “Neo é o ego
potencial de Thomas Anderson”. (Wachowski chat)

21. Esta tradição dos gêmeos era especialmente popular no cristianismo sírio. Ver também
Pagels, p. xxi, onde ela deseja saber se na tradição desse Tomé (Thomas), irmão gêmeo de
Jesus, foi à Índia, porque isso poderia estabelecer uma conexão histórica entre o Buddhismo e o
Hinduísmo com o gnosticismo.

22. Ver chat on-line dos criadores de efeitos especiais no "Matrix Virtual Theater" (Teatro Virtual
Matrix), de 23 de março de 2000.

23. Nag Hammadi Library, pp. 490-500. Comparar a idéia gnóstica de Quietude com esta citação
buddhista do Dhammapada: "O bhikku [Aprendiz] que persevera em amorosa-generosidade,
encantado com o Ensinamento do Buddha, atinge o Estado de Calma, da felicidade de acalmar as
coisas "condicionadas", de acalmar o pensamento, de acalmar a palavra e a ação daquele que
sabe justamente e é liberado completamente, perfeitamente calmo e equilibrado". Citado em
Walpola Sri Rahula, “O que o Buddha ensinou” (What the Buddha Taught)(Nova Iorque: Grove
Weidenfeld, 1974) p.128, 136.

24. Ver Nag Hammadi Library, pp. 256-59. Agradecemos a Brock Bakke por equacionar
inicialmente (a relação entre) os agentes e os arcontes.

25. No Gnosticismo, “Mente” ou no grego “Nous” é a deidade, como está no texto “Trovão, a
Mente Perfeita” (Thunder, Perfect Mind)," Nag Hammadi Library, 295-303.

26. Note que quando Morpheu e Neo entram no elevador do prédio do Oráculo, as imagens que
se vê simbolizam “profecia” e “conhecimento”: um homem cego (lembra os profetas cegos, como
Tiresias)se senta no salão de entrada embaixo de uma “pintura” (grafite) de um par de olhos. Bem
interessante também que o Oráculo – a Sibila ou vidente - usa óculos para examinar as mãos de
Neo.

27. Note o uso metonímico da cor para transmitir esse dualismo: roupa branca e negra; pisos;
mobília, etc.

28. Ostwalt, "Armageddon" in JRF Vol. 4, no. 1. O paralelo com o apocalitismo não é correto como
também com o Gnosticismo, porque, como o Gnosticismo, o filme entende a salvação como
individual (em lugar de ser coletiva e acontece tudo de uma vez), a ser atingida pelo
conhecimento, e, mais importante, para pedir (precisa) deixar para trás a terra material (isso é,
não é resultante em um reino de Deus tornado visível na Terra).

29. Em sua descrição no enredo original, o Templo de Sião lembra tanto o Oráculo de Delfos (três
tamboretes providos de pernas, sacerdotisas) e o Templo de Jerusalém (mármore polido, um
trono vazio) que é o assento de clemência ou trono do Deus invisível).

30. Um espectador perguntou aos irmãos Wachowski, "o que é o papel ou algo assim da fé no
filme? Fé em si mesmo primeiramente e mais ainda – ou em qualquer outra coisa?" Eles
responderam: "Bom, essa é uma pergunta bem difícil! Fé no ego de alguém, para que isso como
resposta?" Com isso, fecharam o tema (Wachowski chat)

31. Especificamente, estes humanos são Neo (o redentor gnóstico/Messias) e Morpheus e Trinity,
ambos nomeados por Deus. Como Trindade, eles não representam adequadamente a tradição
cristã. Contudo, torna-se bem interessante no contexto gnóstico, que retrata Deus como Pai, Mãe
e Filho – a Trindade na qual o Espírito Santo é identificado como Feminino (Exemplo, Apócrifo de
João 2:9-14). Para maiores detalhes sobre divindades femininas no Gnosticismo, ver Pagels, pp.
48-60

32. Os irmãos Wachowski explicam: “Há algo unicamente interessante sobre Buddhismo e
Matemática, particularmente sobre Física Quântica e onde eles se encontram. Isso nos tem
fascinado por causa da idéia que a matemática e a teologia são quase a mesma coisa. Elas
começam com a suposição que você pode derivar tudo de leis ou regras. E quando você as toma
de um ponto infinito, você volta ao mesmo lugar: esses mistérios sem respostas se tornam uma
percepção pessoal. A jornada de Neo é afetada por todas essas leis; todas as pessoas tentam
dizer a ele o que é a verdade. Mas, ele não aceita nada até alcançar sua meta final, seu próprio
renascimento”. A apresentação do filme Matrix como uma rede corporativa de concepções
humanas (ou Samsara) é traduzido pelos códigos do software que reforçam outras ilustrações
dessa estreita relação.

33. Stupa: objeto ou torre hemisférica ou cilíndrica que serve de relicário buddhista.

34. Claro, a referência mais evidente das idéias buddhistas ocorre na sala de espera do
apartamento do Oráculo, onde Neo é apresentado aos “Potenciais”. O roteiro descreve a sala de
espera como “algo como um templo buddhista ou sala de aula de um jardim de infância”. Uma das
crianças, vestida com o traje de monge buddhista, explica a Neo a natureza última da realidade:
“A colher não existe”. Uma pessoa não pode ajudar desejando saber se isso só é real na Matrix ou
se de fato ela (a colher) não existe de verdade nem no mundo real do além.

35. Samyutta-nikaya IV, 54. In Edward Conze, ed. Buddhist Texts Through the Ages (New York:
Philosophical Library, 1954), p. 91.

36. Samyutta-nikaya II, 64-65. Ibid. [NT: Conceito encontrado no Cânon Páli: "If this is, that comes
to be; from the arising of this, that arises; if this not, that does not come to be; from the stopping of
this, that is stopped".]

37. O processo inteiro depende da ignorância humana, de forma que quase tudo que nasce na
Matriz é sentenciado a nascer, morrer e re-entrar no ciclo novamente. Quando perguntado sobre a
representação da liquefação de humanos no filme, os Wachowski responderam que "esse
processo é o que alimenta as pessoas nos casulos; que as pessoas mortas são liquefeitas para
servir de alimento aos que vivem nos casulos". Em linguagem buddhista, os Wachowski explicam
essa re-encorporação: “Sempre reciclar. é um estado de reciclagem” (Wachowski chat). Mesmo
no mundo real, além de Matrix, a condiçào humana é descrita como um ciclo relativo e
interdependente de nascimento, morte e “retorno”.

38. (Nota do editor: este clip pode ser visto aqui [no site da Warner]. Clique o botão de backspace
para retornar a essa matéria).
39. Este diálogo também sinaliza a “realidade”(ou Matrix) em que vivemos. Em nosso mundo, e no
mundo de Joe Pantoliano, ele é um ator. Portanto, o mundo do qual tanto o ator Joe Pantoliano e
nós estamos a parte do software de nossa própria “Matrix”. O argumento, claro, é sedutoramente
circular.

40. Tome, por exemplo, este trecho do Sabbasava-sutta: “O bikkhu [aprendiz], considerando-se
sabiamente, vive com seus olhos restritos... Considerando-se sabiamente, vive com seus ouvidos
restritos... com o nariz restrito..... a língua.... o corpo.... a mente.... Um bikkhu, considerando-se
sabiamente, faz uso de sua bata somente para se proteger do frio, da umidade.... e para se cobrir
de forma decente. Considerando-se sabiamente, ele come não por prazer ou por gula – mas
unicamente para se sustentar e manter seu corpo...” (Extraído de Rahula 103).

41. James Ford tem argumentando que o filme incorpora em especial a Escola Yogacara de
Buddhismo. Em vez de sinalizar aquilo que é absolutamente diferente do mundo como o Nirvana,
os yogues olham o mundo em si mesmo, e através de processos meditativos, vem a realizar isso
“de todos os pensamentos e coisas estão unicamente na mente”. A base de todas nossas ilusões
consiste em que lembramos das materializações de nossa própria mente como um mundo
independente da mente, a qual é realmente sua origem e substância”. (Edward Conze, Buddhism.
New York: Philosophical Library, 1959), p. 167.) Matrix existe somente nas mentes dos seres
humanos que vivem nela; portanto, em Matrix, como no Yogacara, “o mundo exterior é realmente
a própria mente” (p.168). Ainda, o problema surge quando uma pessoa percebe que para a Escola
Yogacara, a mente é a última realidade, e que por isso, Samsara e Nirvana vem a ser
identificados. Em oposição, o filme insiste em distinguir Samsara (Matrix) de Nirvana (que está
além de Matrix). Porque Matrix mantém a dualidade entre Matrix e o mundo além dela, Yogacara
está limitada em ajudar a juntar os elementos buddhistas do filme, nem pode ser útil para ajudar a
entender as idéias além de Matrix e de Nabucodonosor, ainda não alcançadas pelos humanos
(ver nota 4).

42. De acordo com os ensinamentos Therevada, “Arhat” é um nome usado para aqueles que
alcançaram a Iluminação, porque, de acordo com as crenças Therevada, a Iluminação só pode
ser alcançada através do esforço pessoal; um Arhat está limitado em poder ajudar aqueles que
ainda não alcançaram a Iluminação, e, por isso, não necessariamente escolhem re-entrar no
Samsara para ajudar os que ainda ali se encontram.

43. Rahula, p. 2.

44. Citado em Rahula, 135.

45. 45.Ibidem, 133.

46. Boddhisattwa é alguém que adia sua entrada no Nirvana e de boa vontade permanece (re-
entra) no Samsara com o propósito de guiar os demais ao longo do Caminho da Iluminação. Para
o Buddhismo Mahayana, a compaixão de Buddha serve como seu primeiro modelo, a partir do
qual indicam que ele ficou no mundo (Samsara) para ajudar os outros a encontrar a iluminação
através de seus ensinamentos e exemplo.

47. O roteiro descreve Neo como “flutuando no (líquido) amniótico de um útero vermelho na “usina
de força”.

48. No roteiro, Trinity não o beija, mas, sim, "bate em seu tórax" precipitando sua ressurreição. O
roteiro diz claramente:"É um milagre". Esta quarta "vida" pode ser vista como a que o Oráculo se
refere em suas predições de que Neo estava esperando por algo "e que talvez ele poderia estar
pronto na próxima vida". Tudo leva a crer que seja assim, desde que Neo ressurge da morte e
vence os agentes.

49. Estas quatro "vidas" sugerem que Neo não seja nada diferente de "O Escolhido" predito pelo
Oráculo, a reencarnação do primeiro "Iluminado" ou Buddha que "teve a habilidade de mudar tudo
que quis, refazer Matrix como desejou". O ensinamento buddhista permite que esses que foram
iluminados sejam dotados de poderes mágicos, desde que reconheçam o mundo como ilusório,
podendo assim manipular isso à vontade. Ainda mais, poderes sobrenaturais são incidentais à
meta primária, a qual é bem explicada no primeiro sermão de Buddha: "A Nobre Verdade da
cessação de sofrimento é isto: A cessação completa dessa mesma sede, de sua desistência, de
sua renúncia, da própria emancipação disso, do próprio afastamento disso"
(Dhammacakkappavattana-sutta. Citado em Rahula, 93.)

50. Buddhacarita 1:65. E. B. Cowell, trans., Buddhist Mahayana Texts, Sacred Books of the East,
vol. 49 (Oxford: Oxford University Press, 1894).

51. Ver, por exemplo, no Dhammapada: “Todos tememos a morte. Tomando a si mesmo como
exemplo, não deveríamos nem matar nem ocasionar morte. (Verso 129) (Dhammapada, tradução
de John Ross Carter e Mahinda Palihawadana. New York: Oxford University Press, 1987), p. 35.

52. A idéia de que a violência salvadora é clara para os autores, está em que eles poderiam ter
escolhido apresentar as "mortes" dos Agentes a partir do mesmo princípio ilusório dos demais
elementos do software. Em vez disso, optaram por mostrar os humanos atuais morrendo pela
desocupação/saída dos agentes de seus corpos. Isso é totalmente desnecessário dentro do
enredo como um todo. De fato, a "violência" que acontece no hotel poderia ser retratada com a
convicção tranqüilizante de que qualquer "morte" que acontece é um simples eco de computador.
O fato que os autores insistem propositalmente nisso está em que a morte dos atuais humanos
(isto é, também as mortes dentro da usina energética), enquanto servem involuntariamente de
“vasos” para os Agentes, defende a relação direta da violência de Matrix com o conhecimento
necessário para a salvação.

53. Ver o artigo de Bryan P. Stone, "Religion and Violence in Popular Film," JRF Vol. 3, no. 1.

54. Quando perguntado se esta ironia era intencional, os irmãos Wachowski responderam abrupta
e entusiasticamente “Sim” (Wachowski chat)

55. Isso é especialmente verdade na cena da “pílula vermelha/pílula azul”, onde Neo encontra
Morpheus pela primeira vez, e Neo tem sua imagem refletida nas lentes do óculos de Morpheus
de forma diferente em cada lente. Os Wachowski explicam que uma imagem representa Thomas
Anderson e a outra, Neo (Wachowski chat).

56. Um espectador fez a pergunta pertinente dos Wachowski: Você acredita que nosso mundo
está, de algum modo, parecido com Matrix, e que há um mundo maior fora desta existência?" Eles
responderam: “Esta é uma questão mais ampla do que você possa pensar agora. Nós
acreditamos que o tipo mais importante de ficção busca responder algumas das grandes
questões. Umas das coisas que temos falado a respeito, desde que tivemos a primeira idéia de
Matrix, foi a idéia que creio de que a filosofia, religião e matemática, todas tentam responder, que
é a reconciliação entre o mundo natural e o mundo percebido por nosso intelecto”. (Wachowski
chat)

FIM