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"HATOUM, M. Cinzas do Norte.

São Paulo: Companhia das Letras, 2005"

Milton Hatoum é um premiado escritor manauara nascido em 1952, arquiteto de formação e autor de 5 romances.

O romance contemporâneo “Cinzas do Norte” é o terceiro do autor. Trata-se, segundo palestra do próprio autor na Universidade Federal do
ABC, em 3 de agosto de 2017, de um romance de passagem, um Bildungsroman. É a trajetória da perda da inocência do personagem Lavo.

“Cinzas do Norte” foi escrito em 2005, em um Brasil que já tinha atingido um distanciamento temporal suficiente para voltar o olhar ao
tempo do regime militar e suas consequências.

Característicos no livro são a desagregação em vários níveis, os engasgos e espasmos que expressam o esfacelamento de relações privadas e
remetem à história vivida no país. Contraditoriamente, é a descontinuidade, os constantes solavancos, a permanente degradação o que dá à obra uma
original coesão. Sua qualidade reside tanto na esmiuçada e delicada criação de imagens contundentes, quanto no clima de obscuridade, da incompletude
das informações, típica da repressão à qual se sujeitam os personagens em função das singulares relações entre eles. A palavra ditadura não é
mencionada, mas está entalada em todas as páginas, no sufocamento da fala, nos segredos, na imanente sensação de intimidação velada.

No enredo se entrelaçam, por cerca de duas décadas, as famílias de Olavo e seu amigo Raimundo até a morte deste que, passando por várias
cidades e países, percorre uma longa rota de perdas marcada pela conflituosa relação com o pai.

Evidenciam, também, o dilaceramento e a decomposição de que trata a obra, a pluralidade de narradores que calam intermitentemente o
narrador-personagem testemunha. Vozes diversas em cartas sem evocação do(a) destinatário(a) (e que sequer explicitam que já não é mais o narrador
inicial), impedem determinar prontamente quem está se dirigindo a quem, e portanto a quem se referem os pronomes possessivos que aparecem em
profusão, encobrindo os nomes das personagens. Este cipoal produz um emperramento, uma opressão do narrador, que vive no escuro em meio a fatos
muito próximos que lhe são ocultados. A sonegação da verdade e a falta de autonomia para obter informações espelham a ditadura, a interdição, a
censura e a consequente impossibilidade de ver o quadro maior. O livro todo é abafado por perguntas sem resposta, pela negação de uma certeza.
A realidade do país interpenetra a trama: um promissor destino malogrado, uma nação cujo rumo se desvia (a “noite, que ia durar mais de trinta anos.”).

A ação decorre entre os anos 60 e 80, entre mudanças profundas, imposição de novas dinâmicas decorrentes da implantação da Zona Franca
de Manaus. A economia e o comando político convulsionam as relações sociais, as tradições e a vida doméstica em todos os rincões do país.

Tempo e espaço revelam fragmentação e obnubilação, na narração não linear, sem ordem cronológica, entrecortada por cartas que levam
o(a) leitor(a) a diferentes épocas, e na multiplicidade de cenários, de Manaus e Parintins a Londres e Berlim passando por Barcelona e Rio de Janeiro.

Para retratar o desencanto dos personagens e a cadeia de efeitos e desdobramentos da conjuntura política da época nos poros do cotidiano da
população, o autor situa as ações primeiramente não num horizonte industrializado e portanto tendendo a ser semelhante em várias grandes cidades do
mundo, mas numa geografia que pode ser pensada como a mais peculiar do nosso território – a amazônica.

Apesar do explícito vigor da natureza, que confere concretude e veracidade à obra, e noção de sobriedade aos narradores, o denso ar da
ditadura se impõe através da ênfase em ações, diálogos, em descrições de pessoas e fatos, e comedimento na exposição da percepção visual dos
diferentes espaços, que são apenas informados à medida que os personagens os integram, predominando raios de visão restringidos, insinuando uma
indistinta ameaça de asfixia e confinamento.

O ambiente nativo apresentado é luminoso e diverso, mas, seja na política, no ensino, na pratica militar, na produção econômica, inclusive
no fazer artístico, até mesmo no ócio e no lazer, onde há a mão humana, entram as obscuridades. Na Vila da Ópera, por exemplo, o sobrado é
qualificado como ‘austero’, são 5 casinhas formando uma ‘cicatriz’.

A riqueza única e emblemática do Amazonas jaz latente, sempre por realizar, para uma população explorada, com mais de 500 anos de
sujeição à invasão dos brancos, geração após geração, com a crueldade variando tecnologia trás tecnologia. O palco do declínio que sucedeu o auge da
economia da borracha é emprestado para encenar a frustração das grandes esperanças do país e de cada uma das personagens.
Os principais personagens são: Trajano (Jano) – rico comerciante de um setor em decadência; sua esposa Alícia, que se casa atraída pela
fortuna mas acaba falida; Raimundo (Mundo), filho de Alícia – artista atormentado pelos conflitos com o pai; Algisa – irmã de Alícia; Olavo (Lavo) –
amigo de Mundo; Ranulfo, (Ran) – amante de Alícia; e Ramira – tia de Lavo (assim como Ranulfo) e Arana – artista que se torna negociante.

Jano, Naiá e Macau (empregada e chofer de Jano e Alícia) são praticamente caricaturas de suas classes sociais. Aos empregados é relegado
um papel próximo ao de Fogo – o cachorro. Aparecem e desaparecem em função da presença do dono/patrão. Surgem quando adjacentes a personagens
“superiores”, sem agência, sem outra vida (com raras exceções) que não a subalterna, sem propriamente uma voz, estritamente coadjuvantes de outrem.

Em Mundo se contradizem a prisão da sua obsessão autolimitadora e a ânsia por libertação da pressão do desamor do pai, (também
oprimido pelo desamor, pela solidão de ser incompreendido no seu raso e óbvio modo de vida). Mundo sofre na carne os conflitos do autoritarismo do
pai e do regime, num tempo em que manter a chama da arte era tanto uma impertinência quanto uma premência.

Pela boca e pelos gestos de Ranulfo encarnam no romance a consciência crítica, o espírito rebelde às normas e a ânsia pela vida.
Mas embora no micro ele se faça prevalecer sobre os constrangimentos da repressão, sua vida é um naufrágio de tamanho só superado pela sua paixão.

As personagens femininas representam o que se convencionou chamar de ‘mulher’, pode ser sedutora, ou subserviente, ou compulsiva, não
muito mais que isso. Inúmeras são as passagens da narrativa que as reduzem, a elas não cabem realizações nem aspirações, não se espera delas que
estudem, que exerçam funções relevantes. Quando falam, falam de homens, orbitam em torno dos personagens masculinos e a maior importância
possível é a derivada da aparência e da capacidade de ser percebida como valiosa por um homem. Lamentavelmente. Já nos personagens masculinos o
trabalho e o sonho se contrapõem sem trégua e sem solução, assim como o afeto e o sangue, como o apego à continuidade do legado, à herança e a arte,
a criação, a inovação, num caleidoscópio amargo de fragmentos de natureza, de arte, política, desamor, lealdade, dominação e decadência, a
desagregação se faz presente na vida privada e na vida pública.

A deterioração no nível federal, o golpe que esfacela a democracia nascente e converte a oposição em alvos de extermínio se reflete na
descontinuidade da esfera da dominação de índios, caboclos e migrantes propiciada pelos fartos lucros da juta e da castanha posteriormente avassalado
pela indústria eletrônica que vem se instalar na região. Ela está na paixão frustrada de Ranulfo; na trágica família Mattoso; na impossibilidade de
Mundo de seguir o legado do avô (pilar da existência de Jano); na ruína de Alícia; na amargura de Ramira; no conflito entre a vocação de Mundo e a
acachapante concepção de família de seu pai; no destino de Arana que termina se curvando; na degradação de autoridades locais, no desejo de ter um
filho militar associado às vendas de Jano para a prefeitura; nos laços duradouros e descontínuos entre Ranulfo, Ramira e Lavo; no dramático fim dos
pais de Lavo; no naufrágio da embarcação chamada de “Fé em Deus”; e nas doenças degenerativas de Jano e Mundo.

Em suma, a desagregação está na tropeçada sucessão de rupturas, espasmos, interrupções, suspensões, de tamanhos, durações, intensidades
e gravidades irregulares; na própria estrutura narrativa, na negação da voz narrativa, que não só não flui, como se manifesta aos borbotões, com
períodos mais fluidos seguidos de momentos enigmáticos e, além disso, é intercalada por cartas nas quais Milton Hatoum obstaculiza a identificação do
remetente e, por não serem dirigidas ao narrador, impedem entender de imediato a quem foram escritas.

“Cinzas do Norte” faz voltar aos anos de chumbo, pesar consequências, sentir os músculos rasgados e suas cicatrizes e, talvez, imaginar o
que faltou, como seríamos se a democracia não nos tivesse sido arrancada. O artista que Mundo poderia ter sido sem Jano, é uma metáfora para o que o
Brasil seria sem a sombra indelével do regime autoritário? O desencantamento de Mundo, se ao invés de ter sido a escrita de um livro, fosse só algo
falado seria o desencantamento do mundo?

“Me arrependo de não ter contado tudo para ti.” O que resta são cinzas, perde-se o norte: No clube literário, o autor define: para ele romance
é história de desilusão, romance com final feliz é autoajuda. E “Cinzas do Norte” não é. Apenas recria a difusa angústia da impotência pessoal e
coletiva, reprisa o surrado motivo da paternidade desconhecida e depois de tudo não aponta caminho algum.

Referência:
HATOUM, M. Milton Hatoum no lançamento do Grupo de Estudos Literários "Literando". 2017. (1h39m16s).
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ymkuAzOFpLo>. Acesso em: 10 nov. 2018.

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