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A intervenção humana sobre o ambiente e suas consequências.


Problemas de saúde pública
Resíduos sólidos e a
contaminação do solo
Ubiratan de Paula Santos

3.1 Introdução
3.2 O panorama da geração, serviços de coleta, tratamento, disposição
e reciclagem de resíduos sólidos
3.2.1 A coleta seletiva e reciclagem
3.2.2 Resíduos sólidos especiais
3.2.3 Resíduos industriais e áreas contaminadas
3.2.4 Resíduos de animais
3.2.5 Os impactos na saúde
3.2.6 As medidas necessárias
3.3 Conclusão
Referências Bibliográficas

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Objetivos da Aula:
• Conhecer o panorama da geração de resíduos sólidos urbanos e os serviços de
coleta, tratamento e reciclagem desses resíduos. Identificar os resíduos perigosos;
• Abordar sobre a contaminação do solo;
• Identificar as principais doenças associadas às contaminações, bem como os possíveis
impactos na saúde;
• Conhecer a situação global e a do Brasil com relação a esse panorama.

3.1 Introdução
Na aula Água e saneamento – impactos na saúde, vimos o impacto da insuficiência
ou do fornecimento de água de má qualidade e da insuficiência de políticas e de serviços de
esgotamento sanitário na saúde. Foram abordados também aspectos relacionados à intervenção
do homem na natureza, provocando desequilíbrios que concorrem para a incidência e propa-
gação de doenças.
Nesta aula, abordaremos sobre os resíduos sólidos (lixo), a contaminação do solo por esses
resíduos e os possíveis impactos na saúde.

Resíduos sólidos são todos os materiais sólidos ou semissólidos que


o possuidor não considera com valor suficiente para conservá-los.
(Saldiva, 2010)

3.2 O panorama da geração, serviços de coleta,


tratamento, disposição e reciclagem
de resíduos sólidos
Na atividade humana, para a manutenção da vida e a reprodução, consumimos alimentos,
em cujo processo ocorre a geração de resíduos. Na Antiguidade, os resíduos eram principal-
mente orgânicos, como restos de animais e vegetais, e de carvão originado da queima de

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madeira para cocção. A baixa densidade populacional, a existência de populações nômades, a


maioria da população moradora e dispersa na zona rural e as características do consumo, com
reduzidos materiais de descarte (vestimentas, embalagens), não eram suficientes para impactar o
meio ambiente e nem exigia soluções coletivas para a coleta e destinação dos resíduos.
Com o surgimento e aumento populacional das cidades, o crescente uso de utensílios e de
outros materiais que se foram incorporando à vida urbana, a produção de resíduos aumentou
e se concentrou. Durante séculos, como não havia serviços de coleta e destinação de resíduos
em grande número de cidades (com parcial exceção de cidades do Império Romano, que
chegaram a ser populosas, que coletavam e jogavam os resíduos fora dos muros das cidades), eles
eram jogados/dispostos em vias e terrenos a céu aberto, sendo fonte de criadouros de animais
e vetores, que foram responsáveis por milhões de doentes e de óbitos. Um exemplo ocorreu
com a peste negra ou bubônica, doença causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitidas por
pulgas (Xenopsylla cheopis) que infestavam ratos e outros roedores, que viviam em locais de lixo
acumulado, como ainda ocorre atualmente, embora em escala bem menor. Surgida no século
XIII (Christopher, 1996), a partir da expansão do império Mongol, a peste atingiu boa parte
da Ásia e Europa, tendo sido responsável por milhões de óbitos. Em Portugal, estima-se que
tenha dizimado entre 30% e 50% da população em meados do século XIV. Contribuiu também
para a disseminação da doença na Europa a ação da Igreja Católica, cuja política da Inquisição
incentivou o extermínio dos gatos, considerados animais demoníacos e associados a bruxarias.
Esses surtos foram tão relevantes que tiveram impacto na redução da população mundial em
meados do milênio passado. Surtos epidêmicos importantes da doença ocorreram até o século
XIX, cada vez com menor impacto pela seleção dos indivíduos mais resistentes, fruto da seleção
genética provocada pela elevada mortalidade iniciada nos séculos XIII e XIV, e, complementar-
mente, pela melhoria dos serviços de higiene e das edificações, menos propícias para o contato
humano com os roedores.
Com a Revolução Industrial e o decorrente crescimento, em escala geométrica, de muitas
cidades como Manchester, Londres, Chicago e Paris, o problema da coleta e destinação de lixo,
agora não apenas domiciliar mas também industrial, adquiriu nova dimensão e os serviços de
coleta de lixo passaram a ser progressivamente instituídos.
Em São Paulo, no início do século XVIII, têm início as primeiras preocupações com a coleta
e destinação do lixo. Na época, como prática ainda existente em muitas cidades e na zona rural,
a fogueira era a destinação de parte dos resíduos, mas progressivamente foram sendo dispostos

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em aterros não adequados (lixões) e, mesmo o uso de incineradores passou a ser empregado, já
no final do século XIX, também como fonte de energia (Miziara, 2008).
No século XX, com o acelerado avanço da industrialização, o crescimento populacional, e a
produção de novos bens e padrões de consumo, a produção de resíduos aumentou e foi mudando
de características. Diminuiu o percentual de materiais orgânicos como os restos de alimentos, e
aumentou a de embalagens plásticas descartáveis, vidros e diversos materiais ou equipamentos
descartáveis, como os telefones, pilhas/baterias e eletrodomésticos, além da maior quantidade e
grande diversidade dos resíduos industriais, com suas variadas toxicidades. Em 2008, estima-se
que globalmente foram comercializados 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297
milhões de computadores, 1,2 bilhão de celulares (Saldiva, 2010).

Você sabia?
Estima-se, no mundo todo, uma geração de 500 g/lixo/capita/por dia, o que tota-
liza cerca de 3,5 milhões de toneladas de lixo por dia, 1,2 bilhão de toneladas/ano.

Acrescentam-se a essas quantidades os resíduos gerados pela atividade da construção civil e de


toda embalagem utilizada na comercialização dos produtos e até no acondicionamento do lixo.
No passado, o lixo era disposto diretamente em latas e recolhido pelos caminhões, sendo atualmente
acondicionado em sacos plásticos, mesmo em locais onde a coleta já se encontra conteinerizada.
Sem o planejamento da demanda necessária para os serviços de coleta e de destinação, a
produção desses materiais e equipamentos, com excesso de embalagens, gerará resíduos em
poucos meses ou anos , tornando-se responsável por importante impacto no meio ambiente.
Para o Brasil, dados levantados pelo Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos
Urbanos para o ano de 2010, que envolveu 2.070 municípios – 37,2% do total do País – e
72,8% (117,2 milhões) de habitantes urbanos, apontou a existência de serviços de coleta domi-
ciliar que atende 98,5% da população, muito embora a taxa de extensão da coleta varie entre
32,6% e 100% e é preciso fazer a ressalva de que as habitações (favelas) são subestimadas nos
inquéritos levantados a partir de dados fornecidos pelos municípios. Estima-se em 98% a coleta
na área urbana e menos de 50% na área rural e com desigualdade regional e intrarregional
(Figura 3.1). Extrapolando-se os dados do diagnóstico antes referidos para o restante do país,
estima-se em 53 milhões de toneladas os resíduos coletados no ano. Pelos dados do mesmo

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diagnóstico, aproximadamente 23% dos locais que recebem os resíduos, o que corresponde a
50% dos municípios brasileiros, são lixões ou aterros não sanitários, sendo a distribuição com
marcada diferença regional e intrarregional. Cerca de 90% dos municípios do Nordeste e 15%
do Sudeste contam com lixões. Esta diferença regional também está presente no interior dos
estados das regiões Sul e Sudeste, com a maioria dos pequenos municípios fazendo uso de
lixões. O tratamento dos resíduos (compostagem, incineração, tratamento por micro-ondas e
outros procedimentos) é irrisória - cerca de 0,2% da massa coletada.
Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Domiciliares no Estado de São Paulo,
para o ano de 2011, registra significativo progresso nos 645 municípios do Estado, em relação a
1997, ano em que os dados passaram a ser disponibilizados. Entretanto, a disposição inadequada de
resíduos ainda persiste em 23,7% dos municípios (Figura 3.2), correspondendo a 15,3% da quan-
tidade de resíduos gerados, estimada em 26,25 mil toneladas/dia. Dos 39 municípios da Região
Metropolitana de São Paulo (RMSP), 29 contam com aterros adequados (CETESB, 2012).
Em 2010 foi aprovada a Lei 1.2305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos
Sólidos, regulamentada pelo Decreto 7404/2010, tornando obrigatória a elaboração de planos
nacional, estaduais, intermunicipais e municipais de resíduos, tendo entre as metas a eliminação
de lixões até 2014. A lei disciplina não apenas os resíduos domiciliares/domésticos mas também
os de saúde, industriais, agrossilvopastoris, de mineração e de serviços de transportes.
Os serviços de saúde, a indústria e a construção civil contam com legislação específica, embora
com frequência não cumprida, quanto à disposição adequada dos resíduos (Alvarez, 2012).

Figura 3.1: Taxa de cobertura de


serviços de coleta de lixo, em re-
lação à população total. / Fonte:
Adaptado de SNIS-RS/2010.

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Figura 3.2: Mapa do Índice de


Qualidade de aterros de resíduos
sólidos no Estado de são Paulo. /
Fonte: Adaptado de CETESB, 2011.

3.2.1 A coleta seletiva e reciclagem

Embora com progresso, estima-se que a coleta seletiva seja reali-


zada em cerca de 40% dos municípios do Brasil, com apenas 6% dos
resíduos gerados sendo reciclados, apresentando grande diversidade
regional. A reciclagem ocorre principalmente nos produtos de papel
e papelão (50%), de alumínio e aço (30-40%) e de plásticos e vidro
(20%), sendo os catadores os principais responsáveis (Alvarez, 2012).
Na Região Metropolitana de São Paulo, em 2010, a coleta sele-
tiva era realizada em 29 dos 39 municípios e em apenas sete deles
Figura 3.3: Lixos recicláveis. / Fonte:
atingiu toda a área urbana (Saldiva, 2010). Thinkstock

3.2.2 Resíduos sólidos especiais

Resíduos urbanos domiciliares e comerciais contêm diversos


produtos formados por substâncias ou agentes químicos e biológicos
perigosos à saúde.
O descarte de resíduos especiais, com potencial tóxico como ba-
terias, pilhas, lâmpadas, equipamentos eletrônicos que contêm metais
(cádmio, níquel, manganês, mercúrio, berílio, cobalto, arsênico),
pneus, óleos e lixo séptico, junto com o lixo comum, domiciliar e/ou
realizado com disposição inadequada (lixões, terrenos a céu aberto,
Figura 3.4: Resíduos urbanos. /
Fonte: Thinkstock

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córregos) pode levar à contaminação do solo e da água e, consequentemente, da população e


responder por intoxicações de trabalhadores envolvidos na coleta e manejo na separação e na
disposição final do lixo.
Estima-se no Brasil a geração de 2,6 kg/hab/ano de resíduos de equipamentos e materiais
eletro-eletrônicos; na RMSP estima-se em 52 mil toneladas/ano (Saldiva, 2010).
O manejo adequado desses produtos implica que haja separação e fluxo específico na sua
origem - o domicílio, devendo também ser feita a coleta e destinação específica para evitar
impacto no ambiente e nos trabalhadores.
Resíduos da construção civil (comumente denominados entulhos) e da área de saúde
também necessitam de acondicionamento e coleta separados. Os da construção civil porque
podem ser objetos de recuperação e reuso e para evitar o seu despejo em terrenos e córregos,
com as consequências já comentadas; e os da área de saúde, pelo impacto que podem ter na
contaminação do solo e águas. Estima-se que 42% dos municípios depositem os resíduos sépti-
cos (hospitalares) em aterros junto com os resíduos domiciliares comuns (IBGE, 2011). Embora
existam legislações específicas que dispõem normas sobre esses tipos de resíduos, nem sempre
elas são observadas, especialmente no tocante à construção civil.

Outro risco importante está associado aos materiais radioativos. É bastante conhecido o aci-
dente com Césio-137, que ocorreu em Goiânia em 1987, quando uma cápsula de césio foi
retirada de um equipamento de radioterapia que fora deixado abandonado em um hospital da
cidade. A circulação da cápsula acabou por contaminar milhares de indivíduos, mais de uma cen-
tena delas com contaminação radioativa grave, mais de 50 internadas e, estima-se que tenha sido
responsável por dezenas de óbitos. Foi o maior acidente com material radioativo ocorrido no
Brasil. Outro conhecido evento com contaminação radioativa de trabalhadores e de áreas ocorreu
com a Usina Santo Amaro (USAM) ou Nuclemon, localizada em São Paulo, que funcionou
durante 50 anos (até 1992), onde, a partir da monazita eram extraídos Tório e Urânio, processos
que geraram estimadas 20 mil toneladas de resíduos radioativos, que foram depositados de forma
inadequada em áreas nas cidades de São Paulo, de Itu e de Poços de Caldas (BRASIL, 2007).

3.2.3 Resíduos industriais e áreas contaminadas

Embora os resíduos industriais sejam classificados em grupos de risco, em conformidade com


suas toxicidades, e contem com normatização para sua disposição e tratamento, suas destinações,
as antigas e até as atuais ainda são merecedoras de preocupação. Antigas áreas onde funcionavam

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parques industriais ou mesmo indústrias isoladas, que também serviam de depósito de resíduos,
por ocasião de suas desativações [Rhodia, em São Vicente; Shell, Cyanamid e Basf em Paulínia
(pesticidas organoclorados, cancerígenos); Indústria Matarazzo em São Caetano (Benzeno, BHC
e outros pesticidas); áreas em Cubatão e centenas de áreas industriais de São Paulo/Capital] foram
ocupadas pelos mais diversos usos, de residencial a comercial, financeiro ou mesmo para novos
tipos de indústrias. O não tratamento e preparação do solo e a adequação quanto aos tipos de usos
possíveis para cada área, em função do tipo de contaminante ali presente, fizeram com que diver-
sos empreendimentos ou ocupações estivessem - e ainda estão! - em situações de risco (Saldiva,
2010). Em todo o Estado de São Paulo, estima-se em cerca de 3.000 as áreas contaminadas, mais
de 40% delas localizadas na RMSP (Saldiva, 2010). O risco de explosões e de contaminações
químicas por metais, pesticidas e outros produtos tóxicos são os principais problemas.
Por outro lado, a disposição inadequada de resíduos sólidos, de efluentes industriais, o va-
zamento de substâncias tóxicas decorrentes de acidentes no transporte de cargas perigosas, ou
acidentes com navios com cargas químicas como petróleo contribuem para a contaminação do
solo, da água, de alimentos, da flora e fauna, sendo um grave problema na atualidade, que pode
ocasionar riscos diretos e indiretos à saúde da população (Prüss-Üstün, 2011).
A utilização e o manejo de produtos químicos vêm merecendo atenção crescente de institui-
ções internacionais, principalmente nos últimos 10 anos, levando à implantação de diretriz global
das Nações Unidas para o manejo de produtos químicos nos países membros (WHO, 2007).

3.2.4 Resíduos de animais

Embora possa parecer mais associado ao tema do saneamento, os resíduos de animais são
aqui tratados porque sua destinação e cuidados se assemelham mais aos dos resíduos sólidos.
Os cuidados e a disposição de resíduos produzidos por animais e aves constituem um tema
pouco estudado e com impacto ainda não bem dimensionado. Embora uma grande variedade de
zoonoses patológicas acometa o homem, dois parasitas protozoários (Giardia e Cryptosporidium)
e três tipos de bactérias (E. coli, Salmonella e Campylobacter) são os mais importantes e mais
frequentes no homem, estão presentes e são eliminados nas fezes de animais, com elevada
prevalência. Aves, porcos, gado, ovelhas são responsáveis por gerar aproximadamente 85% das
fezes de animais, estimados em cerca de 2,62 × 1013 kg/ano, muito maior (5-7 vezes) do que a
produção humana (WHO, 2012).

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Essa contaminação ocorre em maior proporção em áreas rurais, mas também em áreas
urbanas como praias, nos logradouros públicos e no domicílio onde se criam animais, sendo
necessárias políticas educacionais sobre os riscos e o manejo adequado do espaço urbano e dos
cuidados a serem observados com os animais (WHO, 2012).

3.2.5 Os impactos na saúde

A falta de coleta, tratamento e/ou a disposição final inadequada do lixo podem causar
problemas envolvendo aspectos sanitários, ambientais e sociais, tais como a disseminação de
doenças infecciosas por vetores ou agentes que contaminam e proliferam nos resíduos; a con-
taminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas por agentes químicos, biológicos e
radioativos; o acúmulo de gases no solo com riscos de explosões, incêndios e de contaminação
para usuários de futuras construções no local ou no entorno e riscos de acidentes. Exemplo
recente desta última condição, com registros de vazamento de gases e risco de explosão no
interior de um grande shopping Center em São Paulo (Shopping Center Norte), construído
em área de antigo aterro, comprova um dos riscos envolvidos na deposição de lixo de forma
inadequada e a subsequente ocupação também inadequada.
Os impactos estão relacionados aos tipos e características dos resíduos. Os resíduos domi-
ciliares e de serviços de limpeza pública, se acumulados em vias e áreas públicas ou privadas,
podem servir de locais de criadouros de mosquitos e ratos, e ter impacto no assoreamento ou
oclusão das vias de drenagens, tendo como consequência as enchentes. Estima-se que sejam
gerados diariamente 1.000 toneladas de lixo nas favelas da cidade de São Paulo (0,8 kg/habi-
tante) e, como a coleta nesses aglomerados ainda é irregular, boa parte dos resíduos produzidos
diariamente (toneladas) acaba por atingir córregos ou rios adjacentes, contribuindo assim para
a ocorrência de enchentes/alagamentos no local e à distância, capaz de gerar perdas de vidas,
de residências e mobiliário, e de doenças como a leptospirose, a hepatite A e infecções de pele.
A transmissão de zoonoses pelas fezes de animais, com cinco principais agentes concen-
trando a contaminação no homem, é um importante impacto a ser considerado, embora ainda
negligenciado. Embora com menor impacto, doenças como a psitacose, e a histoplasmose
são transmitidas ao homem pela inalação de germes presentes nas fezes secas de aves, em sus-
pensão, e a equinococose ou hidatidose pela ingestão de fezes de ovelhas e cães, contaminadas
por ovos ou larvas do parasita Echinococcus, que pode acometer os intestinos (Tênia) e formar
cistos principalmente no fígado, nos pulmões e, mais raramente, no cérebro.

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A exposição a produtos químicos tem grande impacto, embora pouco dimensionado, atin-
gindo especialmente populações mais pobres.

Globalmente, estima-se que 49% das crianças e 42% dos adultos


apresentem níveis de chumbo no sangue acima de 5µg/dl, e nesse
total 16% e 13% de crianças e adultos, respectivamente, apresen-
tam níveis acima de 10µg/dl.

Estimativas sobre o impacto da contaminação ambiental por chumbo em 14 regiões geográficas,


incluindo as Américas e o Brasil, revelaram um risco de retardo mental por exposição a chumbo
2,7 vezes maior em um grupo de países da América Latina (entre eles, Paraguai, Chile, México e
Brasil), em relação aos Estados Unidos da América, Canadá e Cuba e aos países europeus, sendo que
55% e 60% das crianças e adultos, respectivamente, apresentavam níveis de chumbo sérico acima de
5 µg/dl (Fewtrell, 2004). A exposição ao chumbo acima de 5 a 10 µg/dl, além de retardo mental,
é responsável pelo aumento de doenças cárdio e cerebrovasculares e hipertensão arterial.12,13
A exposição a outros metais, como mercúrio, tem grande impacto global. A exposição a
mercúrio aumenta o risco de doenças cardiovasculares, neurológicas e renais. Estimativas da
OMS revelam que a incidência de retardo mental e de DALYs decorrente da exposição ao
mercúrio é de 17 e 202, respectivamente, por 1.000 crianças nascidas e que vivem da pesca,
na região Amazônica da América Latina. A fonte é o consumo de peixes contaminados por
atividades de garimpo e industriais (Gráfico 3.1) (Poulin, 2008).
A exposição aos diversos produtos
químicos e radiações antes referidos
está associada a doenças específicas em
conformidade com o tipo de agente,
variando desde alterações de pele às
doenças hepáticas, neuropsiquiátricas,
cardiovasculares, hematológicas, im-
pactos na gestação, endocrinológicas
e cânceres, entre outras (WHO, 2007; Gráfico 3.1: Impacto da redução do QI por metil-mercúrio na variação do
retardo mental. QI: Quociente de Inteligência; RM: Retardo mental. / Fonte:
Poulin, 2008). Adaptado de WHO, 2008.

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No Gráfico 3.1 e na Figura 3.5, é possível visualizar o impacto da contaminação de áreas


pela deposição inadequada de resíduos e liberação de efluentes, em áreas e rios do município
de Cubatão/SP.

Figura 3.5: Foto de área do parque industrial de Cubatão/


SP. O impacto de poluentes pode ser visualizado na
coloração das águas de Cubatão. / Figura 3.6: Na foto, visualiza-se a rodovia dos Imigrantes, com área onde
existia o antigo lixão dos Pilões (área com vegetação fosqueada) e o rio
Cubatão, que atravessa pelo meio da área contaminada. Em cota inferior, a
jusante, os bairros de Água Fria e de Pilões por onde passa o rio com águas
contaminadas. / Fonte: Google.

3.2.6 As medidas necessárias

A promulgação da Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos


Sólidos (PNRS), que obriga a União, estados e municípios a elaborarem Planos de Resíduos
Sólidos, abrangendo diagnóstico de situação, metas de redução, reciclagem, recuperação de
aterros, de aproveitamento energético, incentivo à gestão regionalizada, veio trazer importante
contribuição ao estabelecer diretrizes nacionais ao setor. Entretanto, necessita de um esforço
dos diversos entes federados na sua elaboração, execução e implantação dos Planos e seu moni-
toramento para correções, modernização e ajustes necessários.
Entre as principais questões a serem enfrentadas estão:
• redução de custos, mediante maior cooperação entre municípios e a redução da geração
de resíduos;
• estímulo à redução da geração de resíduos, através de políticas educacionais e de políticas
para a indústria e comércio na área de embalagens;

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• modernização dos procedimentos de coleta, com introdução de containeres domiciliares


e mecanização do processo para proteção à saúde dos trabalhadores, e reduzir os efeitos da
ação de chuvas e animais sobre os lixos depositados nos passeios ou vias públicas;
• ampliação da coleta para as áreas urbanas consideradas tradicionalmente não normais
como favelas;
• ampliação da coleta seletiva e da reciclagem, inclusive de resíduos da construção civil;
• gestão regional, intermunicipal - tema de difícil operação devido aos interesses empresa-
riais consolidados no setor, que exerce forte lobby e é muito cartelizado;
• responsabilização de produtores industriais e de comerciantes pela destinação de materiais
perigosos por eles produzidos e/ou comercializados;
• melhoria da eficiência na política de destinação de resíduos industriais e comerciais perigosos;
• recuperação de áreas contaminadas e implantação de medidas sociourbanas que garantam
a segurança de seus eventuais ocupantes, ao mesmo tempo em que sejam instituídas as
responsabilidades de empreendedores que as utilizaram/comercializaram indevidamente;
• instituição de política adequada para resíduos de animais a fim de evitar a contaminação
do solo e da água e a transmissão de doenças, nas áreas rurais e urbanas;
• restrição da frequência de animais em praias.

3.3 Conclusão
Neste texto, foram abordados aspectos relacionados ao lixo ou resíduos sólidos e também
a áreas contaminadas. Foi apresentado um quadro da situação nacional quanto aos resíduos,
discutidos exemplos e situações de contaminação do solo, possíveis efeitos na saúde pela ina-
dequação da coleta, da disposição final e tratamento dos resíduos, bem como apresentado um
elenco de temas que consideramos prioritários para caminharmos para a implantação de uma
melhor política de gestão dos resíduos, entre os quais o esforço coletivo na redução da geração
de resíduos e erradicação da pobreza, situação em que parcela da população tem no lixo sua
fonte de subsistência, submetendo-se a condições de trabalho degradantes.
O conhecimento e a informação são indispensáveis para que os cidadãos possam desempe-
nhar papel ativo na solução de problemas que afetam o país e a sua população.

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Glossário
Agrossilvopastoris:  é uma modalidade dos Sistemas Agroflorestais (SAF’s), em que se combinam ár-
vores, cultura agrícola, forrageira e/ou animais numa mesma área ao mesmo tempo ou de forma
sequencial, sendo manejados de forma integrada.
DALYs (disability-adjusted life years):  anos potenciais de vida perdidos devido à morte prematura ou
vividos com limitação ou deficiência de saúde. É uma medida comum usada para mensurar o im-
pacto de fatores de risco nos óbitos em qualquer idade e na incapacidade por doença.
OMS:  Organização Mundial da Saúde.

Psitacose:  que acomete principalmente os pulmões, causada pelo patógeno Chlamidia psitacci.

Histoplasmose:  causada por um fungo histoplasma capsulatum, acometendo principalmente os pulmões,


sistema linfático, fígado, medula óssea e trato digestivo.
WHO: World Health Organization.

A intervenção humana sobre o ambiente e suas consequências. Problemas de saúde pública