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A Construção da Enunciação 
e Outros Ensaios 
 
 
 
 
 
 
 
 
Valentin Nikolaevich Volochínov 
Do Círculo de Bakhtin 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A Construção da Enunciação 
e Outros Ensaios 
 
 
 
Organização, Tradução e Notas: 
João Wanderley Geraldi 
 
Edição e Supervisão da Tradução: 
Valdemir Miotello 
 
 
 
 
 
 

 
Copyright © Autor e Organizador 
 
Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida ou 
arquivada, levados em conta os direitos do autor e do organizador. 
 
 
 Valentin Nikolaievich Volochínov 
 
A construção da Enunciação e Outros ensaios. São Carlos: Pedro & João Editores, 
2013. 273p. 
 
ISBN 978‐85‐7993‐169‐7 
 
1. Enunciação. 2. Estudos de Linguagem. 3. Filosofia da Linguagem. 4. Autor. I. 
Título.  
CDD – 410 
 
Capa: Marcos Antonio Bessa‐Oliveira 
Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito  
Revisão do Texto: Camila Caracelli Scherma; Marina Haber de Figueiredo 
 
 
 
Conselho Científico da Pedro & João Editores: 
Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Nair F. Gurgel 
do Amaral (UNIR/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade 
Resende da Costa (UFSCar/Brasil); Rogério Drago (UFES/Brasil). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pedro & João Editores 
www.pedroejoaoeditores.com.br 
13568‐878 ‐ São Carlos – SP 
2013 
SUMÁRIO 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO – O mundo não nos é dado, mas construído 7 
  João Wanderley Geraldi   
 
1. Para além do social. Um ensaio sobre a teoria freudiana (1925) 29 
 
2. Palavra na vida e a palavra na poesia. Introdução ao problema da  71 
  poética sociológica (1926)  
 
3. As mais recentes tendências do pensamento  101 
linguístico ocidental (1928)  
 
  4. Que é a linguagem (1930) 131 
 
  5. A construção da enunciação (1930) 157 
 
  6. A palavra e suas funções sociais (1930) 189 
 
7. Sobre as fronteiras entre a poética e a linguística (1930) 213 
 
8. Algumas ideias‐guia para a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem 251 
 
APÊNDICES  
 
1. Índice de “O problema da transmissão do discurso alheio: um   269 
ensaio em pesquisa sociolinguística”(1925‐1926)  
    
2.  Índice de “Marxismo e filosofia da linguagem” (1927‐1928) 271 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
O mundo não nos é dado, mas construído1 
 
João Wanderley Geraldi  
 
 
Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites 
para  o  contexto  dialógico  (este  se  estende  ao  passado  sem 
limites  e  ao  futuro  sem  limites).  Nem  os  sentidos  do 
passado,  isto  é,  nascidos  no  diálogo  dos  séculos  passados, 
podem  jamais  ser  estáveis  (concluídos,  acabados  de  uma 
vez  por  todas):  eles  sempre  irão  mudar  (renovando‐se)  no 
processo  de  desenvolvimento  subsequente,  futuro  do 
diálogo.  Em  qualquer  momento  do  desenvolvimento  do 
diálogo  existem  massas  imensas  e  ilimitadas  de  sentidos 
esquecidos,  mas  em  determinados  momentos  do  sucessivo 
desenvolvimento  do  diálogo,  em  seu  curso,  tais  sentidos 
serão  relembrados  e  reviverão  em  forma  renovada  (em 
novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada 
sentido  terá  sua  festa  de  renovação.  Questão  do  grande 
tempo. (Bakhtin. Metodologia das ciências humanas) 
 

 
Para construir o mundo, ninguém parte de nada! Sobre uma natureza 
encontrada,  dada,  operamos  todos  nós  e  jamais  sozinhos:  é  preciso 
pensar que sobre ela atuam outros seres com que compartilhamos a vida. 
Mas  entre  estes,  somente  nós  “elaboramos”  o  mundo,  pois  lhe  damos 
sentidos,  jamais  dados,  jamais  acabados,  jamais  prontos,  jamais 
definidos.  Das  nossas  elaborações,  embora  em  muitos  momentos 
históricos a humanidade tenha sido obrigada a conviver com definições 

1   O título desta introdução obviamente dialoga com o lema do grupo que se reúne em 
Nevel, e de que participavam Kagan, Bakhtin e Volochínov entre outros: Mir ne dan, a 
zadan (O mundo não está dado, mas a fazer ou O mundo não está dado, mas está por elaborar), 
que  por  sua  vez  dialoga  com  Hermann  Cohen  “die  Welt  ist  neich  gegeben,  sondern 
aufgegeben” (Cf. Sériot, 2010, p.28). 


ao  estilo  “Roma  dixit”,  conhecemos  o  caráter  provisório.  É  para  esta 
provisoriedade  que  Bakhtin  nos  chama  a  atenção.  E  mais  além:  diz‐nos 
que os sentidos elaborados jamais se constituíram fora das relações com 
os  outros,  fora  do  diálogo,  que  existiu,  que  existe  e  que  permanecerá 
quando nos formos e nem mais lembrança houver. 
Isto  significa  que  também  este  mundo  cheio  de  sentidos  que 
herdamos,  o  peso  do  passado  que  carregamos,  é  passado  sempre 
revisitado,  sempre  ressignificado.  Os  fatos  (como  os  elementos  da 
natureza)  não  se  modificam  por  si:  são  modificados  pelo  presente  que 
lhes dá novas interpretações e novos sentidos (e novos usos).  
Assim é também com a vida dos textos. Aqueles que compõem esta 
recolha,  publicados  por  Valentin  N.  Volochínov  entre  1925  e  1930, 
acrescido  de  um  texto  não  publicado  mas  anexado  a  um  relatório  de 
doutoramento em 1928, têm uma longa história de leituras distintas, em 
que até mesmo a paternidade de alguns foi posta em dúvida. Voltaremos 
às questões das leituras e da paternidade posteriormente. 
 
II 
 
Valentin Nikolaevitch Volochínov nasceu em 30 de junho de 1895 em 
São  Petersburgo2.  De  1904  a  1913  fez  seus  estudos  secundários;  aos  18 
anos entra na Faculdade de Direito. Em 1917, tendo o pai abandonado à 
família, nosso autor suspende seus estudos universitários para trabalhar 
como  instrutor  e  em  1918  assume  o  lugar  de  “Presidente  do  comitê 
executivo  dos  colaboradores  do  tribunal  popular  do  distrito  de 
Petrogrado” e de secretário do bureau dos assuntos criminais. No início 
de 1919, a convite do amigo Boris Zubakin, vai para Nevel, onde começa 
a  surgir  o  grupo  de  amigos  reunidos  não  institucionalmente,  mas 
informalmente  para  estudos  e  discussões,  incluídas  entre  seus  temas  a 
questão  religiosa  e  a  filosofia  de  Kant.  Este  grupo,  bem  mais  tarde, 
passou a ser denominado entre nós como “Círculo de Bakhtin”. Em 1920 
o  grupo  constituído  em  Nevel  se  dispersa.  Em  1922  Zubakin  é  preso  e 
posto  em  liberdade,  e  mais  tarde  preso  e  exilado.  Volochínov  vive  em 
Vitebsk  para  onde  também  foi  Bakhtin.  Em  1922  ele  retorna  para 
Petersburgo,  no  mesmo  ano  em  que  Medvedev  volta  para  a  cidade. 

2   Os dados biográficos foram extraídos de Sériot, P. (2010).


Bakhtin chegará mais tarde, e sempre a convite dos amigos. Volochínov 
retoma seus estudos na Universidade: no departamento de literatura e de 
artes da Faculdade de Ciências Sociais, conforme seu pedido de 29.08.22.  
Em 1924 pede matrícula no doutorado no ILJaZV (Instituto de Línguas e 
Literaturas do Oriente e do Ocidente), sucessor do Institut A. Veselovskij 
criado em 1921. Este instituto recebeu o nome de ILJaZV em 1923, depois 
foi denominado como IRK – Institut rec^evoj kil’tury ‐ e em 1932 passa a 
Instituto  de  Linguística  (cf.  Sériot,  2010).  Volochínov  tinha  como 
pretensão  a  construção  de  uma  sociologia  da  arte.  Seu  tema  para  o 
doutorado era a transmissão da palavra do outro em obras literárias. Em 
1925  faz  curso  no  ILJaZV;  em  novembro  de  1926  torna‐se  doutorando 
sem  bolsa;  em  1927  receberá  bolsa  a  partir  de  novembro.  Faz 
rapidamente carreira: em 09.12.1927 assume a presidência (Presidium) da 
seção  de  literatura;  em  15.06.1928  é  nomeado  secretário  da  subseção  de 
metodologia da literatura e em 1930 obtém o posto de mestre‐assistente 
do  Instituto  Pedagógico  Herzen  na  cidade  já  agora  denominada 
Leningrado.  A  partir  de  1934,  passa  mais  tempo  em  hospitais  e 
sanatórios por causa da tuberculose. Morre aos 41 anos, em 13 de junho 
de  1936,  deixando  uma  tese  inacabada  e  uma  tradução  igualmente 
inacabada de Philosophie des formes symboliques de E. Cassirer. 
É bastante significativo que os dois livros que publicou em vida ‐ O 
Freudismo (1926) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929) – tenham sido 
precedidos de ao menos um artigo publicado, respectivamente em 1925 
sobre Freud (ver aqui o texto Para além do social – Um ensaio sobre a teoria 
freudiana) e em 1928 sobre a linguística (ver aqui o texto As mais recentes 
tendências  do  pensamento  linguístico  ocidental).  Note‐se  que  os  três 
primeiros  textos  de  1930,  cujos  temas  e  forma  de  tratamento  têm  a  ver 
com capítulos do segundo livro, foram publicados depois deste. 
A  controvérsia  sobre  a  autoria,  relativamente  aos  dois  livros  e  ao 
ensaio A palavra na vida, a palavra na poesia (ver neste volume) se iniciou 
com a conferência proferida em 1970 pelo Prof. Ivanov na Universidade 
de  Moscou,  na  comemoração  dos  75  anos  de  Bakhtin,  e  com  seu  texto 
publicado  em  1973.  Neste,  Ivanov  atribui  a  Bakhtin  a  autoria  de  alguns 
ensaios  e  dos  livros  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem,  publicado  por 
Volochínov e O método formal nos estudos literários, publicado por Pavel N. 
Medvedev. 


Depois  disso,  muita  água  rolou  e  muito  se  discutiu  sobre  a  autoria 
destes  textos.  Não  vou  retomar  esta  discussão  em  sua  profundidade. 
Apenas vou trazer alguns elementos para a defesa de um ponto de vista 
não só meu, mas compartilhado com outros pesquisadores e estudiosos 
das obras do chamado Círculo de Bakhtin. 
Iniciemos  por  este  batismo  de  “Círculo  de  Bakhtin”.  Obviamente  o 
círculo  jamais  existiu  como  algo  institucionalizado,  vinculado  a  alguma 
academia  específica,  em  cujos  arquivos  se  poderiam  encontrar  seus 
rastros.  Mas  seus  componentes,  nem  sempre  os  mesmos  em  todas  as 
cidades, se reuniam como comprovam tanto as repercussões na imprensa 
(desde  Nevel)  quanto  as  fotografias  que  ainda  circulam  entre  nós. 
Obviamente,  o  batizado  é  posterior,  como  acontece  nestes  casos. 
Interessa aqui salientar que o próprio Bakhtin, nas conversas com Viktor 
Duvakin  em  1973,  se  reconhece  como  pouco  conhecido  à  época  e  como 
participante  de  grupos  de  intelectuais  numericamente  restritos.  Como 
diz Ponzio (2011, p. 46), 
 
O “círculo de Bakhtin” não era uma “escola” no sentido acadêmico do 
termo, nem Bakhtin era “líder”, “diretor de escola”, nem, neste sentido, 
um  “mestre”;  dessa  forma,  não  apenas  a  expressão  “círculo”  é  um 
equívoco  se  for  atribuído  a  ele  um  significado  de  escola,  mas  é  ainda 
mais a expressão “de Bakhtin”, se entendida em termos de derivação, de 
pertencimento, de genealogia. 
Trata‐se  muito  mais  de  um  grupo,  de  uma  intensa  e  afinada 
colaboração,  em  clima  de  amizade,  em  pesquisas  comuns,  a  partir  de 
interesses e competências diferentes. 
 
Nestas  mesmas  conversas  com  Duvakin,  Bakhtin  explicitamente  diz 
que não é o autor de Marxismo e filosofia da linguagem:  
 
B:  Poetas?  Poetas...  conhecia  poetas.  Não  estava  particularmente 
próximo  a  nenhum  dos  grandes  poetas,  mas  conhecia  muitos;  os 
conhecia  quase  todos.  Bem,  antes  de  tudo  conhecia,  mesmo  não  sendo 
íntimo,  ainda  que  fosse  o  meu  poeta  preferido  e  como  pessoa  eu 
gostasse  muito,  Viatcheslav  Ivánov...  Mas  não  tinha  particular 
intimidade com ele. 
D: Mas onde se encontraram? 

10 
B: Encontrávamos em Leningrado, à noite; me apresentaram a ele ali... o 
caso  é  que  eu  tinha  um  amigo  íntimo,  Volochínov...  é  autor  do  livro 
Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem,  livro que,  digamos,  atribuem  a mim. 
Bem,  indico  o  próprio  Valentin  Nikolaevich  Volochínov.  Seu  pai  era 
amigo  de  Viatcheslav  Ivánov,  tanto  que  tratava  até  mesmo  de  “tu”  a 
Viatcheslav  Ivánov...  e  assim  me  apresentaram  para  ele  em  uma  noite 
literária, ainda quando eu estava em Leningrado. (Duvakin, 2008, p.80) 
 
Nas  contínuas  mudanças  de  cidades  –  até  a  fixação  mais  definitiva 
em  Petersburgo,  donde mais  tarde  sairá  Bakhtin  novamente  a  convite  – 
sempre  Bakhtin  parece  chegar  depois,  e  sempre  a  convite  dos  amigos. 
Por que razões o convidariam? Tentativa de ajudar o amigo, certamente. 
Mas não um amigo qualquer: parece que sua presença era desejada pelos 
demais  membros  do  grupo,  e  a  cada  cidade  novos  parceiros  se 
aglutinavam. Parece indiscutível que Bakhtin tivesse alguma capacidade 
de  agregar  e  produzir  interesse  pelas  discussões.  Por  isso,  como  ensina 
Ponzio (op.cit.), o que se caracteriza como “bakhtinianos” são os temas, 
os  interesses,  as  perguntas,  o  modo  de  busca  de  respostas  em  diálogo 
constante  entre  os  membros  do  grupo.  É  neste  sentido  que  se  deve 
entender o “Círculo de Bakhtin”. 
Outro  dado  que  pode  ser  levantado  é  relativo  ao  período  de 
produção do livro Marxismo e filosofia da linguagem. Em 1928, Volochínov 
publica o artigo sobre as correntes que chamou de “objetivismo abstrato” 
e “subjetivismo idealista”, um ensaio de apenas 9‐10 páginas. O assunto 
renderá dois capítulos do livro, com 40 páginas na versão em português 
(na  versão  em  espanhol  serão  43  páginas).  Esta  síntese,  “audaciosa  e 
apressada”,  segundo  Sériot  (op.cit.,  p.62),  é  considerada  “menos  uma 
história  das  ideias  linguísticas  do  que  uma  tipologia  da  filosofia  da 
linguagem”  (p.73),  mas  passa  logo  depois  a  ser  tratada  como  uma 
distinção entre correntes linguísticas, casualmente fazendo referência aos 
mesmos autores de base em que se baseara Volochínov para sua divisão 
em “objetivismo abstrato” e “subjetivismo idealista”: 
 
Em  linguística,  duas  correntes  muito  diferentes  vão  iniciar  uma  crítica 
radical  ao  método  dos  neo‐gramáticos:  aquela  que  vem  do 
estruturalismo  na  escola  de  Genebra,  com  Ferdinand  de  Saussure,  e  o 

11
“idealismo” da escola de Munique, com Karl Vossler. (Sériot, op. cit. p. 
74) 
 
Tomando por base o relatório de doutorado de 1927‐1928, certamente 
entregue no final do período do calendário anual (possivelmente meados 
de  julho  de  1928),  que  se  faz  acompanhar  do  texto  Algumas  ideias‐guia 
para a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (ver neste volume) e de seu 
respectivo sumário (ver Apêndice neste volume), e considerando que ao 
final  do  texto  apresentado  no  relatório  em  1928  o  autor  faz  referência  a 
seu ensaio, que não chegou a ser publicado, sobre o discurso relatado:

Um  ensaio  na  aplicação  concreta  de  minha  concepção  geral 


metodológica  para  o  tratamento  de  questões  sintáticas  especializadas 
pode  ser  encontrado  no  meu  trabalho  “Problemas  de  transmissão  do 
discurso  alheio”  (um  ensaio  em  pesquisa  sociolinguística)  que  deve 
aparecer  na  coleção  Contra  o  Idealismo  em  Linguística  (ILIaZV  –  Giz, 
1928).  
 
e  que  constituirá  toda  a  terceira  parte  (capítulos  8  a  11)  da  obra 
Marxismo e filosofia da linguagem (na edição brasileira com 57 páginas), e 
considerando  ainda  que  já  em  01.05.1929  Troubetzkoy  responde  a  uma 
carta  que  lhe  enviara  Roman  Jakobson,  afirmando  “Eu  não  li  o  livro  de 
Volochínov. O que me dizes é muito interessante” (Sériot, op. cit. p. 40), o 
que  significa  que  o  livro,  depois  de  passar  pelos  trâmites  burocráticos 
então certamente existentes, foi publicado nos primeiros meses de 1929.  
Pode‐se  concluir  que  o  autor  deve  ter  escrito  o  livro  em  tempo 
escassíssimo!  Ele  contava  com  o  ensaio  publicado  em  1928  sobre  as 
tendências  linguísticas  no  Ocidente;  o  texto  do  relatório  que  dará 
provavelmente origem ao primeiro capítulo do livro (sobre os temas dos 
dois  capítulos  seguintes  ele  apenas  os  menciona  neste  texto  de  1928). 
Havia ainda o ensaio de 1926 (A palavra na vida e a palavra na poesia (neste 
volume),  que  poderia  ter  sido  a  base  dos  capítulos  6  e  7  do  livro,  mas 
apresentado  de  forma  bastante  distinta.  E  dispunha  do  ensaio  não 
publicado que dará origem à terceira parte do livro, sobre o discurso do 
outro  e  os  problemas  de  sintaxe.  Mesmo  supondo‐se  que  este  ensaio 
tenha  sido  bem  mais  longo  que  os  demais  ensaios  publicados,  para  um 

12 
livro  que  vem  à  luz  no  começo  do  ano  seguinte,  houve  muito  o  que 
trabalhar! 
Com  base  nestes  elementos,  penso  que  na  verdade  o  Círculo  de 
Bakhtin  realizava  um  trabalho  coletivo:  os  temas  eram  discutidos,  as 
primeiras  versões  lidas  e  anotadas  e,  embora  o  texto  final  ficasse  sob  a 
responsabilidade de um autor, não era a autoria em si que interessava ao 
grupo. Neste mesmo sentido, aliás, há uma afirmação de Patrick Sériot, 
surpreendente  porque  no  resto  do  mesmo  parágrafo  interessa‐lhe 
defender uma autoria individual:  
 
Le  plus  vraisemblable  est  que  tous  ces  ouvrages  son  le  fruit  de 
discussions  multiformes,  que  l’influence  peut  être  multilatérale,  et  que 
chacun des auteurs a elabore à sa façon des thèmes que étaient discutés 
dans  de  nombreuses  occasions  avec  des  interlocuteurs  variés.  Il  est 
vraisemblable  que  le  juriste  Volochinov  à  Nevel’  et  Vitebsk  a 
énormément  appris  des  philosophes  Bakhtine  et  Kagan,  mais  qu’à 
Lenigrad  le  sociologue  et  phisofophe  du  langage  Volosinov  a  plutôt 
servi  pour  Bakhtine  d’introducteur  à  la  science  nouvelle  en  train  de  se 
mettre  em  place.  À  cette  époque,  Volochinov  este  de  plus  en  plus 
autonome  par  repport  à  Bakhtine  sur  des  questions  aussi  essentielles 
que  le  marxisme,  le  freudisme,  le  marrisme.  Il  a  cesse  dès  1926  de 
participer  aux  discussions  théologiques  de  ses  amis,  ce  dont  témoigne 
indirectement la letre de Pumpjanskij à Kagan [...]. 
 
Certamente  o  autor  está  querendo  dizer  que  Volochínov  não  mais 
participava  do  grupo  desde  1926,  porque  não  está  enumerado  entre  os 
participantes  listados  por  Pumpianski  na  carta  a  Kagan.  Trata‐se  de 
encontrar  argumentos  para  uma  independência  e  autonomia  que 
justifiquem a autoria solitária de Marxismo e filosofia da linguagem. Talvez 
sua  posição  de  doutorando  no  ILJaZV  efetivamente  tenha  afastado 
Volochínov  do  grupo.  Talvez.  Isto  não  significa  que  as  influências  que 
teve  anteriormente  tenham  desaparecido,  e  mais,  as  relações  com 
Bakhtin  aparentemente  continuaram,  como  registra  o  próprio  Sériot, 
trazendo a passagem das memórias da colega de estudos de Volochínov, 
Olga  Frejdenberg,  de  manuscrito  encontrado  na  casa  da  família 
Pasternak nos anos 1970 em Oxford:  
 

13
“Desnickij, que me criticava constantemente por minha “javétidologia” 
e  meu  interesse  pelo  passado,  não  obstante  me  apreciava  e  gostava 
muito de mim. Seu braço direito era N. V. Jakovlev, o antigo secretário 
científico.  Jakovlev  por  seu  turno  tinha  seu  próprio  braço  direito.  Era 
Volochínov,  um  jovem  senhor  elegante,  esteta,  autor  de  um  livro  de 
linguística  que  tinha  sido  escrito  para  ele  por  Bloxin.  Este  Volochínov 
me  propôs  cinicamente  trabalhar  para  ele  e  em  seu  lugar,  em  troca  do 
que  ele  faria  minha  promoção  por  intermédio  de  Jakovlev  e  Desnickij. 
Eu recusei e nossas relações tornaram‐se glaciais. (apud Sériot, op. cit.p. 
39‐40) 
 
Nem  tanto  ao  céu,  nem  tanto  ao  mar!  No  mesmo  ano  em  que  um 
texto  atribui  a  Bakhtin  a  autoria  deste  livro,  Bakhtin  o  desmente  nas 
conversas  com  Duvakin.  Considere‐se  o  que  afirma  Amalia  Rodríguez 
Monroy 
 
A  Rússia  dos  anos  1920  era  uma  autêntica  encruzilhada  de  ideias  e 
fervores  políticos,  de  mudanças  profundas  que  alcançavam  também  a 
atividade  intelectual  nos  campos  mais  diversos.  Surgiam  movimentos 
renovadores  nas  artes  dispostos  a  irromper  em  todas  as  esferas  da 
cultura  e  do  pensamento.  A  necessidade  de  dar  um  giro  radical  nos 
estudos literários era não menos palpável e levava já mais de dez anos 
preparando‐se nos escritos sempre controvertidos dos formalistas. Seus 
detratores  provinham  quase  sempre  do  marxismo  de  orientação 
sociologista, mas com propostas que careciam de uma metodologia mais 
depurada o que dava prestígio e solidez ao formalismo. (Monroy, 1994, 
p.15‐16) 
 
Não seria absolutamente descartável a hipótese de um trabalho mais 
ou  menos  conjunto  dentro  do  grupo,  com  partes  da  redação  dos  textos 
alteradas, mil vezes modificadas por qualquer de seus integrantes3. Esta 

3   Para todos aqueles que no Brasil têm tido a experiência de orientação de dissertações e 
teses  acadêmicas,  o  trabalho  coletivo  apresentado  apenas  pelo  mestrando  ou 
doutorando não é nenhuma novidade! O que há do orientador e do orientando em tais 
trabalhos? Certamente em muitos deles, tudo é apenas do orientando; mas certamente 
em outros, há muito do orientador tanto em termos de ideias e temas quanto na forma 
de apresentá‐los. Afinal, como orientadores estamos formando pesquisadores e futuros 
orientadores.  Por  que  este  mesmo  tipo  de  trabalho  coletivo  não  teria  sido  praticado 
pelo Círculo de Bakhtin? 

14 
é  uma  hipótese  mais  provável  do  que  aquela  trazida  à  baila  quanto  à 
autoria  do  artigo  vitalismo,  publicado  por  Kanaiev,  que  poderia  ter 
escrito  a  carta  endereçada  a  Bocharov  dizendo  que  era  trabalho  de 
Bakhtin  porque  tendo  mudado  de  posição  em  relação  ao  vitalismo, 
queria  se  ver  livre  de  um  artigo  publicado  muitos  anos  antes!  (Sériot, 
2010, p. 44)4. 
Se aceita a hipótese de um trabalho coletivo, ainda que com um único 
redator e publicado em nome deste enquanto integrante do grupo, cabe‐
nos  hoje  respeitar  a  decisão  então  tomada!  E  nossa  escuta  das  vozes  que 
falam  nas  mesmas  palavras  de  cada  texto  deve  ter  presente  que  a 
paternidade  não  é  o  que  importa,  mas  o  que  elas  –  estas  vozes  –  nos 
dizem, mesmo que as palavras escritas tenham sido apenas daquele sob 
cujo  nome  os  textos  foram  publicados.  É  por  isso  que  os  ensaios  aqui 
reunidos estão todos atribuídos a Valentin N. Volochínov. 
Ainda  sobre  o  Círculo,  é  interessante  registrar  aqui  algumas  poucas 
palavras  de  David  Shepherd  (2004)  na  introdução  ao  livro  “The  Bakhtin 
Circle  in  the  Master’s  Absence”,  que  reúne  textos  da  Conferência 
Internacional de Estudos Bakhtinianos de 1999: 
 
Talvez  o  mais  importante  traço  constante  do  Círculo  de  Bakhtin  tenha 
sido precisamente sua inconstância, flexibilidade e informalidade (p.6). 
Dadas  tais  flutuações  nos  membros  do  Círculo,  não  parece  irrazoável 
aceitar que a fonte de sua estabilidade tenha sido na verdade o homem 
cujo nome ele carrega. (p.7)5 
  
Há ainda outras questões inevitáveis. Não se trata, mais uma vez, de 
dizer sobre elas uma última palavra, mas de acrescentar à cadeia infinita 
outras palavras. Duas destas questões precisam ser apontadas aqui. 

4  Iniciei a leitura de Sériot (2010) certo de que teria, após a leitura, todos os argumentos 
para dirimir minhas dúvidas quanto à autoria dos textos disputados. À medida que fui 
estudando seu texto, fui me convencendo cada vez mais de que houve no Círculo um 
trabalho  coletivo,  e  que  não  vale  a  pena  buscar  o  que  escreveu  um,  o  que  escreveu 
outro.  Melhor  dedicar  este  tempo  para  estudar  as  obras,  aprender  como  eles 
elaboravam seus conceitos, como trabalhavam, para poder no presente aproveitar esta 
experiência intelectual para tratar dos temas que hoje nos assaltam. 
5  Para  os  interessados  nas  discussões  sobre  o  Círculo  e  seus  membros,  obviamente 

pessoas de carne e osso, com suas ideias, interesses e escritas independentes, a leitura 
do livro organizado por Brandist, Shepherd e Tihanov é fundamental.

15
A  primeira  diz  respeito  ao  próprio  título  deste  livro:  ao  usarmos  a 
expressão  “enunciação”  nos  opomos  à  hipótese  de  que  o  grupo  tratava 
dos  enunciados,  enquanto  tais  (obviamente  não  com  frases  ou  orações 
como  trabalhou  a  linguística  por  muito  tempo).  Interessava‐lhes  a 
totalidade  do  enunciado  e  neste  sentido  se  aproximam  muito  mais  das 
análises  de  discurso  do  que  das  análises  morfo‐sintáticas  ou  mesmo  da 
linguística textual. Ainda que Sériot afirme 
 
...  il  nous  semble  três  erroné  de  parler  de  “théorie  de  l’énonciation”  à 
propôs  de  Voloshinov  (et  de  Bakhtine).  Si  l’on  traduit  sobytie 
vyskazyvanija  (littéralement:  “l’événement  de  l’énoncé”)[...]  par 
“l’énonciation”,  c’est  non  seulement  um  grave  anachronisme,  mais 
encore  une  tout  autre  orientation,  que  entraîne  dans  une  lecture  du 
“locuteur”  de  Volochínov  comme  s’il  s’agissait  d’un  “sujet  de 
l’énonciation”:  c”est  lire  Volochínov  à  travers  les  catégories  de 
Benveniste. (p. 72)  
 
Sem dúvida, preferimos aqui o “anacronismo”, sem com isso querer 
dizer  que  o  locutor  (do  Círculo)  seja  o  sujeito  da  enunciação  de 
Benveniste.  Mesmo  porque  as  teorias  de  sujeito  que  lhes  subjazem  são 
extremamente distintas.   
O sujeito da enunciação de Benveniste se “apropria” da língua, como 
se  ela  existisse  independentemente  dos  seus  falantes,  e  a  emprega 
segundo  suas  intenções.  O  locutor  do  Círculo  de  Bakhtin  é  socialmente 
constituído através da linguagem: sua consciência é sígnica, o que lhe é 
interior é o mesmo que lhe é exterior, ele não pré‐existe a não ser como 
organismo biológico sem desde sempre estar mergulhado no mundo da 
linguagem, uma atividade constitutiva das línguas e dos sujeitos que as 
falam. Em outras palavras 
 
O  falante  não  se  manifesta  no  diálogo,  como  se  fosse  já  dado  fora  dele, 
como  se  tivesse  um  caráter  já  definido  antes,  nem  o  diálogo  é  prelúdio 
para a sua realização fora dele. O falante se realiza no diálogo e apenas 
nele. (Ponzio, 2011, p. 14‐15 – grifos do autor) 
   
De  que  outra  forma  se  deve  entender  a  tradução  literal  “o 
acontecimento  do  enunciado”  senão  como  enunciação?  Ele  aconteceria 

16 
sem ter sido pronunciado, proferido em algum momento, num tempo e 
espaço específico em que o acontecimento se daria? Poderia se pensar no 
“acontecimento  do  enunciado”  ao  estilo  de  Foucault,  em  seu  período 
arqueológico:  o  enunciado  estaria  lá,  numa  camada  do  recorte 
arqueológico,  e  retornaria  enquanto  “mesmo”  em  outras  camadas  em 
que  é  retomado?  Creio  que  uma  das  razões  para  Foucault  abandonar  a 
arqueologia em benefício da genealogia seja precisamente o que chamou, 
na  Arqueologia  do  Saber,  de  “descontinuidades”  dentro  de  uma  mesma 
formação  discursiva.  Como  explicar  as  descontinuidades  a  não  ser 
fazendo  uma  genealogia  da  emergência  dos  enunciados?  Em  outras 
palavras,  era  preciso  ir  às  enunciações,  aos  seus  contextos  restritos  e 
amplos  para  explicar  os  processos  de  descontinuidades.  É  o  que  faz 
magistralmente Bakhtin em seu estudo sobre Dostoiévski. 
O segundo problema tem a ver com as leituras das obras do Círculo: 
uma ‘recepção’ francofone em tempos em que se discutem os discursos, 
em  que  se  esgotam  as  análises  estruturalistas.  Uma  ‘recepção’  que 
influencia  os  demais  países  ocidentais.  Um  texto  ressurge  em  suas 
leituras. Seria possível uma leitura contextualizada num tempo que nos é 
anterior?  Seria  possível  desvestir‐se  do  que  se  sabe  para  ler  como  um 
homem que nada leu do que se produziu depois da data do texto sobre 
que  se  debruça?  Nem  os  filólogos  mais  ferrenhos  no  estudo  do  que  já 
passou  o  conseguiram.  Aliás,  uma  tal  leitura,  se  possível,  seria 
cientificamente útil? 
Aceitando as provisoriedades com que lidamos, tomemos da própria 
teoria  exposta  em  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem  uma  indicação:  toda 
compreensão se faz com as contrapalavras com que chegamos aos textos 
–  orais  ou  escritos  –  com  que  operamos.  A  escuta  e  a  leitura  são 
produtivas  precisamente  por  isso:  não  repetem  as  palavras  do 
locutor/autor,  mas  constroem  uma  compreensão  e  a  elas  podem 
acrescentar  uma  interpretação,  tomando  esta  como  a  compreensão 
associada  a  uma  criação  (crítica  ou  não,  mas  que  leva  adiante  e  para 
frente aquilo que se compreendeu). 
Uma  compreensão  necessariamente  contém  contrapalavras.  Uma 
tradução  se  faz  com  base  numa  compreensão,  logo  contém 
contrapalavras  do  tradutor.  As  compreensões  fazem  parte  da  cadeia 
infinita  em  que  entram  todos  os  enunciados  uma  vez  proferidos  no 

17
contexto próprio de sua enunciação. Descontextualizar e recontextualizar 
é  próprio  do  funcionamento  da  linguagem.  Afinal,  “um  sentido  não  se 
realiza  impondo‐se  sobre  os  outros  mas,  ao  contrário,  através  de  uma 
relação e reenvio com esse, e como tendência, como deslocamento, nunca 
como determinado e pronto, mas sempre por determinar” (Ponzio, 2008, 
p.14).  Por  isso,  “reconstituir  o  que  perdemos  quando  fazemos  de  MFL 
[Marxismo e filosofia da linguagem] um texto sem idade, sem história, sem 
contexto,  sem  origem,  em  outras  palavras,  sem  dialogismo...”  (Sériot, 
2010, p.17) não é dar ao texto um seu sentido de origem: é também fazer 
uma  leitura  datada,  situada  inclusive  dentro  dos  interesses  de  pesquisa 
muito  mais  amplos  do  que  aqueles  explicitados.  Há  um  contexto 
contemporâneo  de  recuperação  do  estruturalismo,  e  a  ele  não  estamos 
infensos  quando  retomamos  concepções  distintas  que  apontam  para 
outros caminhos.  
Mais do que reconstruir um tempo passado, talvez interesse salientar 
a influência na construção do novo que um texto do passado foi capaz de 
exercer.  Ao  darmos  novos  sentidos  ao  que  se  enunciou,  abrimos 
porteiras  para  novos  sentidos  no  presente  que  provisoriamente  se 
produzem alavancados nos sentidos novos que se dão ao que passou. 
 
III 
 
Sem  resolver  as  questões  levantadas,  mas  delas  nos  afastando, 
podemos  agora  tratar  das  teses  defendidas  por  Volochínov  nos  textos 
que  compõem  esta  recolha.  Aqui  estão  todos  os  ensaios  do  autor, 
excluídos  seus  trabalhos  sobre  música  e  músicos  e  suas  resenhas.  A 
tradução  destes  textos  demanda  um  conhecimento  sobre  música,  e 
espera‐se que venham a circular entre nós. Aqui nos limitamos aos textos 
que  têm  a  linguagem  como  foco,  talvez  com  exceção  do  texto  primeiro 
publicado  pelo  autor  (Para  além  do  social,  ver  neste  volume).  Entre  este 
texto  primeiro  sobre  Freud  e  o  livro  posterior,  publicado  dois  anos 
depois  –  1927  –  há  uma  diferença  enorme  de  tratamento  da  questão. 
Enquanto no texto aqui publicado o autor trabalha com a oposição entre 
o  “naturalismo”  ou  “biologicismo”  de  Freud  e  a  perspectiva  histórico‐
social  do  marxismo,  no  livro  o  autor  aprofunda  a  análise  crítica  e  a 
constituição  do  inconsciente  antes  mesmo  da  consciência,  já  que  esta  se 

18 
constitui  através  da  linguagem  –  atividade  constitutiva  da  consciência, 
cuja materialidade é o signo, como defenderá mais tarde em Marxismo e 
filosofia  da  linguagem.  A  pergunta  seria  como  se  internalizam  os  valores 
sociais que implicam nos recalques desde o começo da vida. Também a 
questão  epistemológica  retorna  no  livro,  mas  é  compreensível  que  à 
época  houvesse  uma  aposta  na  cientificidade  moderna  que  agora  se 
relativiza. 
O artigo seguinte, A palavra na vida e a palavra na poesia, para além de 
uma filosofia da palavra e da análise detalhada de seu funcionamento no 
cotidiano,  há  um  ponto  de  vista  pouco  comum  nos  estudos  literários:  o 
de que a compreensão do modo de funcionamento da linguagem fora da 
arte  é  fundamental  para  compreender  seu  funcionamento  artístico. 
Segundo  Ponzio  (1980,  p.  7),  “A  crítica  de  Volochínov  1926  ao  modo 
redutor  de  entender  o  “método  sociológico”  no  estudo  da  literatura  é 
diretamente endereça ao livro de P. Sakulin de 1925, O método sociológico 
na  ciência  da  literatura,  em  que  se  distinguem  na  literatura  um  “núcleo 
artístico  imanente”  e  a  ação  causal  do  ambiente  social  extra‐artístico, 
considerando somente esta como objeto de uma análise sociológica. Tais 
considerações  críticas  podem  todavia  ser  ainda  endereçadas  a  Trostky, 
que,  como  observa  Ambrogio,  acaba  por  estabelecer  entre  o  método 
formal‐estético  e  o  método  histórico‐sociológico  uma  relação  de  mera 
coexistência,  justaposição  e  a  Bucharin  (Sobre  o  método  formalista  na 
arte,  de  1925)”.  Parece‐nos  essencial,  neste  artigo,  o  fato  de  que  a 
compreensão  da  obra  de  arte  verbal  tenha  como  “ponto  de  passagem o 
discurso cotidiano para entender o discurso artístico porque o cotidiano 
contém  a  potencialidade  que  será  desenvolvida  no  artístico”  (Ponzio, 
op.cit, p.7‐8).  
No  As  mais  recentes  tendências  do  pensamento  linguístico  ocidental,  o 
autor  elabora  a  distinção  entre  o  objetivismo  abstrato  e  o  subjetivismo 
idealista.  O  primeiro  ainda  é  apresentado  como  uma  perspectiva 
liderada  por  Bally,  aparecendo  Saussure  entre  os  linguistas  desta 
corrente, o que vai ser alterado no livro do ano seguinte. 
Os  três  artigos  sobre  estilística  retomam  em  parte  a  concepção  de 
linguagem  já  exposta  na  obra  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem  (a  partir 
daqui, MFL), acrescentam análises de textos e chegam a propor ao leitor 
exercício  de  estilística,  apresentando  textos  para  análise.  É  interessante 

19
notar  que  em  A  construção  da  enunciação,  o  esquema‐guia  de  análise  das 
enunciações é apresentado com cinco itens (em MFL eram três, cf. p. l24). 
Aqui  se  acrescentam:  a  organização  da  sociedade  e  o  intercâmbio 
comunicativo social; naquela para destacar os modos de funcionamento 
da  sociedade  em  que  ocorrem  os  processos  interativos;  e  no  segundo 
item  para  dar  conta  das  diferentes  esferas  da  comunicação  social 
existentes numa sociedade, que posteriormente serão importantes para a 
noção  de  gênero  do  discurso.  Obviamente  serão  produtivos  para  a 
análise  os  conceitos  de  avaliação  (orientação  avaliativa),  de  seleção  das 
palavras  e  da  disposição  das  palavras  na  enunciação.  Em  certos 
momentos,  as  análises  se  aproximam  do  que  muito  mais  tarde 
chamaremos  de  “atos  de  fala”,  mas  com  uma  distinção  fundamental: 
como é a relação com a alteridade que funda toda a teoria dialógica, seria 
o  que  na  pragmática  se  chamou  de  “ato  perlocucional”  o  que 
efetivamente  comandaria  a  enunciação  e  seria  a  essência  de  cada 
“pequeno  gênero”  (pergunta,  afirmação,  promessa  etc.).  Associando  o 
que  expõe  Volochínov  ao  texto  bem  posterior  de  Bakhtin,  talvez 
possamos  entender  os  “gêneros  primários”  de  que  este  fala  como  estes 
gêneros discursivos da vida cotidiana, que obviamente não se resumem a 
estes  (a  totalidade  interessa  mais  ao  Círculo  do  que  a  análise  de  cada 
“enunciado‐gênero” ao estilo da teoria dos atos de fala). Assim 
 
...a  forma  da  ordem  é  determinada  pelos  obstáculos  que  ela  pode 
encontrar,  o  grau  de  submissão  do  receptor,  etc.  A  modelagem  das 
enunciações responde aqui a particularidades fortuitas e não reiteráveis 
das situações da vida corrente. Só se pode falar de fórmulas específicas, 
de estereótipos no discurso da vida cotidiana quando existem formas de 
vida  em  comum  relativamente  regularizadas,  reforçadas  pelo  uso  e 
pelas circunstâncias. Assim, encontram‐se tipos particulares de fórmulas 
estereotipadas servindo às necessidades da conversa de salão, fútil e que 
não  cria  nenhuma  obrigação,  em  que  todos  os  participantes  são 
familiares uns aos outros e onde a diferença principal é entre homens e 
mulheres.  Encontram‐se  elaboradas  formas  particulares  de  palavras‐
alusões,  de  subentendidos,  de  reminiscências  de  pequenos  incidentes 
sem nenhuma importância, etc.  
    
Em As fronteiras entre a poética e a linguística, reaparecem as críticas às 
análises  linguísticas  que  constroem  um  objeto  abstrato,  discutem‐se  as 

20 
relações  necessárias  entre  os  estudos  linguísticos  e  a  poética, 
particularmente  no  que  diz  respeito  ao  estudo  do  estilo,  buscando 
delimitar um campo e outro sem negar suas correlações mútuas. Afinal “el 
campo de estudios no puede ser independiente de otras ciências, de otros 
saberes, como pretendia el formalismo stricto” (Monroy, 1994, p. 25). 
O último texto desta coletânea não foi publicado pelo autor. Trata‐se 
de  documento  recuperado  dos  arquivos  do  ILJaZV,  e  faz  parte  do 
“relatório”  para  o  ano  de  1927‐1928.  Neste  texto,  que  será  ampliado  e 
reformulado nos capítulos iniciais de MFL, o autor enfrenta a questão do 
estudo  das  ideologias,  vinculando‐o  necessariamente  à  filosofia  da 
linguagem. Aqui estão as origens do que mais tarde se pode resumir na 
expressão “a palavra como arena de luta de classes”: a importância dos 
estudos da linguagem para o marxismo e a necessidade de dar uma base 
material  para  os  estudos  da  ideologia.  O  texto  vale  também  como 
documento.  Cada  vez  mais  as  pesquisas  nos  estudos  bakhtinianos  vêm 
apontando  para  a  atribuição  das  autorias  dos  livros  assinados  por 
Volochínov e Medvedev, não a Bakhtin, mas àqueles que assumiram sua 
publicação,  sem  prejuízo  das  múltiplas  influências  que  entre  si  tiveram 
os membros do Círculo. Trata‐se de autoria e não de paternidade e fonte 
única do que se escreve. 
Listados  os  textos,  mais  do  que  apresentados,  porque  é  cada  leitura 
de  cada  texto  que  definirá  os  elementos  que  lhes  são  essenciais,  cabe 
apresentar aqui as teses essenciais defendidas no conjunto  destes textos 
(e compartilhadas com outras obras de outros autores do Círculo). 
Ponzio  (1980)  elenca  em  treze  itens  as  ideias  principais:  (1)  a  não 
autossuficiência  do  signo  verbal,  ou  seja,  a  exigência  da  situação  extra‐
verbal  para  produção  e  compreensão;  (2)  a  dependência  da  forma  da 
enunciação  à  forma  da  interação  social  dos  interlocutores;  (3)  o  valor 
extralinguístico  do  signo  verbal  porque  exprime  uma  avaliação,  uma 
orientação, uma tomada de posição; (4) enumeração dos componentes do 
contexto  extra‐verbal  essenciais  para  a  construção  da  compreensão  ‐  (a) 
horizonte  espaço‐temporal  comum  aos  falantes,  (b)  saberes 
compartilhados,  (c)  sistema  extralinguístico  de  valores  e  (d)  condições 
materiais  de  vida  do  falante  e  ouvinte;  (5)  a  função  organizativa  da 
enunciação  no  confronto  com  a  situação  extra‐verbal:  a  fala  intervém 
ativamente na situação, organizando‐a, dando um sentido, um valor, em 

21
certos  casos  constituindo‐a,  contribuindo  com  a  ação  prática  de  seu 
perdurar  ou  sua  modificação  e  superação;  (6)  ideologicidade  do  signo 
verbal; (7) o signo verbal tratado como um “entimema”: a fala dita está 
impregnada  de  coisas  supostas  e  não  ditas:  “O  que  é  subentendido  são 
valores  vividos,  programas  de  comportamento,  conhecimentos, 
estereótipos,  etc.,  nada  é  individual  e  limitado  à  consciência  individual, 
sendo  as  avaliações  efêmeras,  lábeis,  ligadas  unicamente  ao  horizonte 
mínimo,  da  circunstância  particular  ou  a  valores  estáveis,  permanentes, 
fortes,  que  são  essenciais  para  um  grupo  e  que  quando  as  condições 
materiais se modificam, são postos sob suspeição, explicitados, lutando‐
se  então  pela  mudança;  (8)  a  consciência  individual  se  constitui  sobre  a 
base  da  ideologia  social;  (9)  o  caráter  ideológico‐social  da  forma  da 
enunciação: quando as formas de vida conhecidas entram em crise, põe‐
se  em  discussão  o  sistema  de  valores,  explicitando‐os6;  (10)  entonação e 
consenso:  se  imagino  que  não  há  consenso,  a  enunciação  adquire  outra 
forma:  quando  alguém  está  rindo  e  percebe  que  ri  sozinho,  o  riso  cessa 
ou muda de natureza, torna‐se histérico, perde a sua segurança e clareza; 
(11)  autor,  destinatário  e  protagonistas  como  elementos  da  interação 
social da enunciação: na enunciação se expressa o falante em sua dupla 
orientação:  ao  ouvinte  e  ao  objeto  da  fala;  (12)  os  limites  da  linguística: 
tanto  o  objetivismo  abstrato  quanto  o  subjetivismo  idealista  não  dão 
conta do enunciado concreto; (13) numa sociedade dividida em classes, a 
comunidade  linguística  não  coincide  com  uma  única  classe,  e  por  isso, 
por  ser  orientada  ideologicamente  segundo  os  interesses  de  classe,  o 
signo  verbal  não  é  mais  de  um  sentido  único,  mas  tem  o  caráter  da 
multiacentualidade,  pois  nele  se  intercalam,  se  conectam  acentos 
ideologicamente e diversamente orientados.  
De  forma  um  pouco  menos  detalhada,  poderemos  dizer  que  nestes 
textos são defendidas as principais teses do Círculo de Bakhtin: 
1.  A  linguagem  como  processo  constitutivo  da  consciência,  cuja 
organização semiótica é idêntica àquela de seu exterior. A relação 
de ‘identidade’ sígnica entre interior e exterior. 

6   As recentes manifestações de rua no Brasil estão explicitando uma mudança de valores 
na nossa cultura: felizmente os tempos da “lei de Gérson” de levar vantagem em tudo, 
mesmo  que  sob  artifícios  e  ao  arrepio  da  moralidade,  parece  estar  sendo  posta, 
felizmente, na cesta do lixo. 

22 
2. O  atravessamento  ideológico  dos  signos:  marcados  pelos  seus 
empregos  sociais,  os  signos  se  deixam  penetrar  pelo  ideológico, 
de que são a materialidade. 
3. A posição epistemológica na construção do objeto de pesquisa: o 
enunciado  concreto  vinculado  à  sua  situação,  o  acontecimento 
enunciativo  que  não  pode,  quando  se  trata  de  texto  escrito,  ser 
reduzido  ao  tempo  de  sua  produção,  porque  sua  leitura  é 
também  um  acontecimento  enunciativo,  mesmo  que  muito 
distante no tempo e no espaço. 
4. A relação entre a ideologia do cotidiano e os sistemas ideológicos: 
estes se alimentam do cotidiano e por seu turno o alimentam. 
 
IV 
 
Uma  coletânea  de  textos  de  Volochínov  foi  publicada  na  Rússia  em 
1995,  sob  o  título  Filosofija  i  sociologija  gumanitarnyx  nauk  (Filosofia  e 
sociologia das ciências humanas). São Petersburgo: Acta‐Press. Infelizmente 
não obtive acesso ao sumário desta recolha de textos, para verificar quais 
coincidências  e  distâncias  há  entre  a  coletânea  aqui  apresentada  e  a 
coletânea então publicada.  
É  preciso,  ainda,  ressaltar  que  a  tradução  aqui  apresentada  é 
tradução  de  traduções.  Um  alerta  ao  leitor:  como  já  dissemos,  uma 
tradução  se  baseia  também  numa  compreensão,  não  é  neutra  e  as 
palavras  aqui  presentes  estão  sobrecarregadas  de  vozes.  Nenhuma 
pretensão de que esta tradução diga o que “realmente disse Volochínov”. 
Pretender  isso  seria  imaginar  um  sentido  fixo  para  as  enunciações  do 
passado  e  contradizer  a  teoria  que  os  textos  apresentam:  a  orientação 
dupla da palavra inclui o destinatário, entre os quais se inclui também o 
tradutor.  
Os textos aqui reunidos provêm das seguintes fontes: 
 
1.  Para  além  do  social.  Um  ensaio  sobre  a  teoria  freudiana  (1925): 
“Po tu storonu social’nogo” – Zvezda, Lengiz, n. 5, p. 186‐214. Traduzido 
com  o  título  de  Más  ala  de  lo  social.  Ensayo  sobre  la  teoria  freudiana. 
Tradução do russo ao francês de Guy Verret; tradução do francês para o 
espanhol  de  Nilda  Venticinque,  com  supervisão  científica  de  Guillermo 

23
Blanck.  Publicado  como  a  terceira  parte  do  livro  Bajtín  y  Vigotski:  la 
organización  semiótica  de  la  consciência,  de  Adriana  Silvestri  e  Guillermo 
Blanck,  Barcelona:  Editora  Anthropos,  1993.  Também  publicado  na 
coletânea  de  três  textos  de  Volochínov,  organizada  por  Guillermo 
Blanck, sob o título Que és el lenguaje? Buenos Aires: Editorial Almagesto, 
1998.  Nesta  edição,  a  tradução  é  direta  do  russo,  realizado  por  Guy 
Verret  e  G.  Blanck.  Utilizamos  as  duas  edições  em  espanhol  para  a 
tradução para o português.  
 
2. A palavra na vida e a palavra na poesia. Introdução ao problema 
da poética sociológica (1926): “Slovo v zîzni i slovo v poèzii: k voprosam 
sociologičeskoi  poètiki”,  Zvezda,  Lengiz,  n.  6,  p.  244‐267.  Traduzido  do 
russo para o italiano por Rita Bruzzese, e publicado em Il linguaggio come 
pratica  sociale,  organizado  por  Augusto  Ponzio, Bari:  Dedalo  Libri,  1980. 
Também  traduzido  do  russo  para  o  italiano  por  Luciano  Ponzio  e 
publicado no livro Linguaggio e escritura, organizado por Augusto Ponzio, 
Roma:  Meltemi,  2003.  A  tradução  do  italiano  para  o  português  foi 
realizada por Valdemir Miotello e Fabrício César de Oliveira e publicada 
em  Bakhtin,  Mikhail.  Palavra  própria  e  palavra  outra  na  sintaxe  da 
enunciação.  A  palavra  na  vida  e  na  poesia.  Introdução  ao  problema  da  poética 
sociológica, São Carlos: Pedro & João Editores, 2011, aqui republicada sob 
o  título  A  palavra  na  vida  e  a  palavra  na  poesia.  Agradeço  aos  tradutores 
pela concessão para republicação do texto. 
 
3. As mais recentes tendências do pensamento linguístico ocidental 
(1928):  “Novejsie  tečenija  linguističeskoi  mysli  na  Zapade”.  Literatura  i 
marksizm,  n.  5,  p.  115‐149.  Traduzido  do  russo  para  o  italiano  por  Rita 
Bruzzese, e publicado em Il linguaggio come pratica sociale, organizado por 
Augusto  Ponzio,  Bari:  Dedalo  Libri,  1980.  Também  traduzido  do  russo 
para  o  italiano  por  Luciano  Ponzio  e  publicado  no  livro  Linguaggio  e 
escritura,  organizado  por  Augusto  Ponzio,  Roma:  Meltemi,  2003.  Para  a 
tradução do italiano para o português utilizei as duas traduções italianas 
aqui citadas. 
 
4. Que é a linguagem? (1930): “Čto takoe jazyk?” Literaturnaja učeba  
2, p. 48‐66. Traduzido do italiano por Ariel Bignami, supervisão científica 

24 
de  Adriana  Silvestri  e  publicada  na  coletânea  de  três  textos  de 
Volochínov,  organizada  por  Guillermo  Blanck,  sob  o  título  Que  és  el 
lenguaje?  Buenos  Aires:  Editorial  Almagesto,  1998.  Publicado 
anteriormente  como  a  terceira  parte  do  livro  Bajtín  y  Vigotski:  la 
organización  semiótica  de  la  consciência,  de  Adriana  Silvestri  e  Guillermo 
Blanck,  Barcelona:  Editora  Anthropos,  1993.  Utilizei  na  tradução  para  o 
português as duas publicações em espanhol. 
 
5. A construção da enunciação (1930): “Konstrukcija vyskazyvanija”. 
Literatturnaja  učeba,  3,  p.  65‐87.  A  tradução  para  o  português  foi  feita 
com base nas duas edições em língua espanhola citadas acima. 
 
6.  A  palavra  e  suas  funções  sociais  (1930):  “Slovo  i  ego  social’naja 
funkcija”.  Literatturnaja  učeba,  5,  p.  95‐134.  Traduzido  do  russo  para  o 
italiano  por  Rita  Bruzzese,  e  publicado  em  Il  linguaggio  come  pratica 
sociale,  organizado  por  Augusto  Ponzio,  Bari:  Dedalo  Libri,  1980. 
Também  traduzido  do  russo  para  o  italiano  por  Luciano  Ponzio  e 
publicado no livro Linguaggio e escritura, organizado por Augusto Ponzio, 
Roma:  Meltemi,  2003.  Na  tradução  para  o  português  manuseei  as  duas 
versões em italiano.  
 
7. Sobre as fronteiras entre poética e linguística (1930): “O granicax 
poètiki  i  lingvistiki”  in.  V  bor’be  za  marksizm  v  literatunoj  nauke. 
Leningrado:  Priboj,  p.  203‐240.  Traduzida  para  o  italiano  por  Nicoletta 
Marcialis  e  publicado  Il  linguaggio  come  pratica  sociale,  organizado  por 
Augusto  Ponzio,  Bari:  Dedalo  Libri,  1980.  Também  traduzido  do  russo 
para  o  italiano  por  Luciano  Ponzio  e  publicado  no  livro  Linguaggio  e 
escritura,  organizado  por  Augusto  Ponzio,  Roma:  Meltemi,  2003.  Na 
tradução para o português manuseei as duas versões em italiano.  
 
8.  Algumas  ideias‐guia  para  a  obra  Marxismo  e  Filosofia  da 
Linguagem.  Publicado  como  material  de  arquivo  em  Brandist,  Craig, 
Shepherd,  David  e  Tihanov,  Galin.  The  Bakhtin  Circle.  In  the  Master’s 
Absence, como material de arquivo, p. 228‐250. Não consta o tradutor do 
russo  para  o  inglês.  Este  mesmo  texto  foi  publicado  como  apêndice  da 
recente  tradução  de  Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem,  diretamente  do 

25
russo  para  o  francês,  por  Patrick  Sériot  e  Inna  Tylkowski‐Ageeva 
(Limoges: Lambert‐Lucas, 2010, p. 487‐517, em edição bilíngue). Utilizei a 
versão em inglês para a tradução para o português.  
Apêndices:  ambos foram traduzidos do inglês para o português, da 
obra de Brandist et alii citada acima.  
 

 
Como  já  explicitado,  a  organização  deste  volume  dos  textos  de 
Volochínov  tem  como  objetivo  colocar  num  só  volume  seus  trabalhos, 
excluídos  obviamente  os  livros  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem  e  O 
Freudismo. 
Nesta  edição  dos  textos,  procurei  manter  as  notas  também  dos 
organizadores e tradutores apostas nos textos‐fonte desta edição. Assim, 
as notas de rodapé sem qualquer indicação são do próprio autor; quando 
as notas são do organizador ou do tradutor, seus respectivos nomes são 
explicitados.  Quando  as  notas  são  desta  tradução,  estão  sempre 
antecedidas por [N.T.]. 
 Para que este volume fosse possível, recebi ajuda dos colegas: 
Valdemir  Miotello:  editor  deste  volume,  que  se  responsabilizou  por 
toda  a  tramitação  e  contatos  para  que  as  traduções  fossem  possíveis. 
Além disso, fez a supervisão técnica desta experiência de tradução, tendo 
ainda cedido, junto com o colega Fabrício César de Oliveira, a tradução 
do texto A palavra na vida e a palavra na poesia; 
Augusto  Ponzio,  que  não  só  disponibilizou  os  textos  em  italiano 
como incentivou a realização deste trabalho; 
Galin  Tihanov,  que  disponibilizou  e  autorizou  a  tradução  do 
material de arquivo publicado no livro The Bakhtin Circle. In the Master’s 
Absence, de que é co‐organizador. 
A eles, minha gratidão. 
 
 
 
 
 
 

26 
Referências  
 
BAKHTIN,  Mikhail.  “Metodologia  das  ciências  humanas”  in.  _____.  Estética  da 
criação  verbal.  Tradução  de  Paulo  Bezerra.  São  Paulo:  Martins  Fontes,  2003,  p. 
393‐410. 
______.  O  Freudismo.  Um  esboço  crítico.  Tradução  de  Paulo  Bezerra.  São  Paulo: 
Perspectiva, 2001. 
______  (Volochínov).  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem.  Tradução  do  francês  de 
Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2ª. ed. 1981. 
______ (Pavel N. Medvedev). El método formal en los estudios literarios. Introducción 
crítica  a  una  poética  sociológica.  Tradução  de  Tatiana  Bubnova.  Madri:  Alianza 
Editorial, 1994. 
______.  Mikhail  Bakhtin  em  diálogo.  Conversas  de  1973  com  Viktor  Duvakin. 
Tradução do italiano de Daniela Miotello Mondardo. São Carlos: Pedro & João 
Editores, 2008. 
BRANDIST, Craig, Shepherd, David & Tihanov, Galin. The Bakhtin Circle. In the 
Master’s Absence. Manchester e New York: Manchester University Press, 2004.  
MONROY,  Amalia  Rodríguez.  “De  la  palabra  y  su  fiesta  de  resurrección: 
problemas de una poética formal”. Prólogo a Mijail Bajtin (Pavel N. Medvedev). 
El método formal en los estudios literarios. Madri: Alianza Editorial, 1994, p. 13‐35. 
PONZIO,  Augusto.  “Problemas  de  sintaxe  para  uma  linguística  da  escuta”. 
Introdução  a  Palavra  própria  e  palavra  outra  na  sintaxe  da  enunciação.  São  Carlos: 
Pedro & João Editores, 2011, p. 7‐57.  
______.  “Introduzione”  a  Il  linguaggio  come  pratica  sociale.  Bari:  Dedalo  Libri, 
1980, p. 5‐17. 
______.  “O  símbolo  e  o  encontro  com  o  outro  na  obra  de  Bakhtin”.  Prefácio  à 
Mikhail Bakhtin em diálogo, op. cit, p. 9‐20, 2008 
______. “Introduzione” a Linguaggio e escritura. Roma: Meltemi, 2003, p. 7‐31. 
SÉRIOT, Patrick. “Volochínov, La phisophie de l’enthymème et la double nature 
du  signe”.  Prefácio  a  Marxisme  et  Philosophie  du  Langage.  Les  problèmes 
fondamentaux de la méthode sociologique dans la Science du langage. Nouvelle édition 
bilíngue traduit du russe par Patrick Sériot et Inna Tylkowski‐Ageeva. Limoges : 
Lambert‐Lucas, 2010, p. 13‐109 
SHEPHERD,  David.  “Re‐introducing  the  Bakhtin  Circle”.  Introdução  a  The 
Bakhtin  Circle  in  the  Master’s  Absence.  Manchester  e  New  York:  Manchester 
University Press, 2004.  
VOLOSHÍNOV,  Valentin  N.  El  signo  ideológico  y  la  filosofia  del  lenguaje.  Buenos 
Aires: Nueva Visión, 1976.  

27
PARA ALÉM DO SOCIAL 
UM ENSAIO SOBRE A TEORIA FREUDIANA 
 
 
‐  Pessoalmente  só  tenho  uma  certeza...  ‐  disse  o 
doutor. 
‐  Qual  é?  –  perguntei‐lhe,  ávido  para  saber  a 
opinião  de  um  homem  que  até  então 
permanecera calado. 
‐  Que,  cedo  ou  tarde,  numa  bela  manhã, 
morrerei. 
‐ Pois sou mais rico que você – lhe repliquei – já 
que  além  desta  convicção,  tenho  outra:  que 
numa tarde terrível tive a desgraça de nascer. 
Lérmontov, Um herói de nosso tempo. 
 

 
Não cabe qualquer dúvida de que se numa bela – ou horrível – noite 
eu  não  houvesse  nascido,  não  teria  havido  para  mim  nem  mundo 
exterior  nem  interior,  nem  sequer  conteúdo,  nem  resultados  da  minha 
vida,  e  não  haveria  nem  perguntas,  nem  dúvidas,  nem  problemas.  O 
fato do meu nascimento é a condição sine qua non de minha vida, como 
de  minha  atividade.  E  a  importância  da  minha  morte  não  é  menos 
evidente. Mas se eu reduzo todo o universo nestes dois pontos extremos 
da minha vida pessoal como determinantes de minha visão do mundo; 
se  eles  se  convertem  no  alfa  e  ômega  de  minha  arte  de  viver  e 
pretendem  erigir‐se  em  feitos  históricos,  se  poderá  dizer  que  minha 
vida terá sido inútil e vazia. Para se contemplar o fundo de um vaso de 
flores, é preciso que ele esteja vazio. 
Quando uma classe social se encontra em estado de degeneração e 
deve deixar o cenário da história, sua ideologia começa a repetir que o 
homem é, antes de tudo, um animal e, à luz desta opinião, dedica‐se a 
rever  todos  os  valores  do  mundo,  principalmente  os  da  história,  em 
detrimento do segundo termo da fórmula aristotélica – “o homem é um 
animal  social”  –  de  que  se  esquece  absolutamente.  A  ideologia  coloca 
como  centro  de  gravidade  um  organismo  biológico  abstrato  e  os  três 

29 
fatos essenciais de toda a vida animal – nascimento, ato sexual e morte – 
são chamados para destronar a história. 
Isola‐se  abstratamente  a  parte  não  social,  a‐histórica,  do  homem 
para fazer dela a medida e o critério supremo do que é social e histórico. 
Como se as pessoas deste período desejassem abandonar a atmosfera da 
história, que se tornou demasiadamente fria e inóspita, para refugiar‐se 
na tibieza orgânica da animalidade! Mas, o que pode significar, para o 
conteúdo e os resultados de sua atividade, o nascimento e a vida de um 
homem biológico abstrato? 
Com efeito, por si mesmo, com seus próprios recursos, o indivíduo 
isolado  não  está  absolutamente  em  condições  de  incorporar‐se  à 
história. Somente como membro de um grupo social, numa classe e por 
uma classe, ele acede à realidade e à atividade históricas. Para entrar na 
história, não basta nascer fisicamente como o animal, que permanece à 
margem  da  história.  É  necessário,  por  assim  dizê‐lo,  um  segundo 
nascimento,  um  nascimento  social.  Não  se  nasce  organismo  biológico 
abstrato, mas campesino ou aristocrata, proletário ou burguês, e este é o 
ponto capital. A este se agrega o fato de nascer russo ou francês, etc., de 
nascer  em  18..  ou  em  19..  E  só  com  este  nascimento  social  começa  a 
ideologia. É por isso que não devemos ignorar este segundo nascimento 
social e reduzir tudo ao fato biológico do nascimento e da vida de um 
organismo  tomado  isoladamente,  num  empreendimento  vão  e 
destinado desde início ao fracasso. Não existe uma só ação do homem 
integral,  uma  só  de  suas  construções  ideológicas  que  possa  ser 
explicada e interpretada desta maneira. E não existem sequer problemas 
especificamente biológicos que possam ser resolvidos por inteiro sem se 
considerar com precisão a situação social do organismo individual que 
se estuda. Nem em biologia nem nas outras ciências se poderia – como 
se fez até agora – levar em conta unicamente a maturação biológica do 
indivíduo. 
É precisamente este organismo biológico abstrato que se converteu 
em  protagonista  da  filosofia  burguesa  dos  fins  do  século  XIX  e 
princípios  do  século  XX.  A  filosofia  do  “conhecimento  puro”,  do  “eu 

30
criador”, da “ideia e espírito absoluto”1 – a filosofia das épocas heroicas 
da  burguesia,  à  qual  não  faltava  energia  nem  certa  lucidez;  a  filosofia 
que tinha uma preferência marcada pela história e pela organização, ao 
modo  burguês  –  esta  filosofia  cedeu  o  lugar  a  uma  “filosofia  da  vida” 
passiva  e  senil,  pintada  com  cores  da  biologia  e  apenas  capaz  de 
conjugar em todos os tempos e em todos os modos os verbos “viver” e 
“reviver”.  
A  ideologia  foi,  em  consequência,  invadida  por  um  vocabulário 
biológico,  extraído  dos  fenômenos  orgânicos,  e  tudo  se  recobriu  por 
uma  metáfora  biológica  apropriada  para  reanimar  agradavelmente  a 
qualquer  objeto  que  se  tivesse  congelado  na  atmosfera  glacial  do 
conhecimento puro kantiano. Schopenhauer e Nietzsche foram os novos 
mestres do pensamento e deram a escala emocional do biologismo em 
seus dois polos: o pessimismo e o otimismo. Bergson, Simmel, Driesch, 
James  e  os  pragmatistas,  inclusive  Scheler  e  os  fenomenólogos,  para 
terminar  com  Spengler  –  além  dos  russos  Stepun,  Frank  e  até  certo 
ponto  Loski2  ‐  por  diferentes  que  sejam  seus  pensamentos,  estão  de 
acordo,  no  entanto,  no  essencial:  centralizam  em  seus  sistemas  a  vida 
concebida  em  seu  sentido  orgânico  –  e  fazem  disto  a  base  do  todo,  a 
realidade  última  e  todos  estão  unidos  contra  os  kantianos  e  a  filosofia 
da  consciência.  Para  a  filosofia  burguesa  atual,  o  único  que  conta,  o 
único  que  tem  valor,  é  o  que  pode  ser  vivido  e  assimilado 
organicamente: a única realidade é o fluxo da vida orgânica. 

1   Bakhtin  se  refere  aqui  a  Kant,  Fichte  e  Hegel,  respectivamente  (Nota  de  Guillermo 
Blanck). [N.T.] Nesta nota, como no prefácio da coletânea, Guillermo Blanck atribui a 
autoria  deste  texto  (e  dos  demais)  a  Bakhtin.  Manterei  estas  referências  seguindo  a 
edição argentina.
2   Nesta  passagem,  Bakhtin  se  refere  fundamentalmente  aos  seguintes  escritos: 

Bergson,  A  Evolução  Criadora  (no  Brasil,  editada  pela  Martins  Fontes);  Simmel, 
Lebensanschauung (1919); Driesch, Der Vitalismus als Geschichte und als Lehre (1905). O 
trabalho  “Vitalismo  Contemporâneo”  de  Kanáiev  (Bakhtin)  se  refere  principalmente  a 
Driesch.  James,  Pragmatism;  Schele,  Phenomenologie  und  Theorie  der  Sympathiegefühle 
(1913)  e  Vom  Ewigen  in  Menschem  (1920);  Spengler,  Untergang  des  Abendlandes.  (Loski 
foi professor de Bakhtin na Universidade de Petrogrado) (Nota de Guillermo Blanck) 
[N.T.]  Quando  possível,  faremos  referência  apenas  gerais  a  edições  brasileiras, 
mantendo, no entanto, as referências originais do autor ou do organizador.

31 
Quanto  ao  problema  da  história,  acomodam‐na  à  sua  maneira. 
Obstinam‐se  em  garantir  a  primazia  do  biológico.  Tudo  o  que  não  se 
deixe  conter  no  marco  asfixiante  da  vida  biológica,  tudo  o  que  não  se 
deixe traduzir na língua da autossatisfação subjetiva da vida, decreta‐se 
como  ficção,  abstração  ressequida,  maquinismo,  etc.  como  o  mostra 
suficientemente  o  biologismo  histórico  desenvolvido  de  forma 
sistemática por Spengler. 
Os  métodos  de  toda  esta  filosofia  biológica  são  evidentemente 
subjetivos,  dado  que  o  orgânico  se  experimenta  e  se  apreende  a  partir 
do  interior.  Assim,  já  não  há  conhecimento  nem  método  racional  – 
transcendental  –  de  análise,  mas  intuição,  identificação  interior  com  o 
objeto do conhecimento, empatia: já não existe o subjetivismo lógico do 
idealismo  clássico,  mas  algo  pior,  o  subjetivismo  da  vaga  sensação 
orgânica. 
E  o  freudismo  representa  uma  versão  original  desta  filosofia 
biológica  atual.  Nele  se  expressa  de  maneira  talvez  mais  clara  e 
consequente  esta  tendência  a  deixar  o  mundo  da  história  e  do  social, 
para substitui‐lo pela sedutora tepidez da autossuficiência orgânica e o 
vivido.   
É este o objeto de nosso estudo. 
Mas os limites deste artigo nos impõem a restrição de somente ater‐
nos às raízes da concepção freudiana – seu método e seu “inconsciente” 
–  nos  quais  trataremos  de  identificar  o  que  nos  interessa,  isto  é,  uma 
orientação  geral  da  ideologia  burguesa  contemporânea.  Precederemos 
esta crítica com uma exposição em que nos ateremos, antes de tudo, aos 
traços  profundos  e  determinantes  desta  teoria,  que  lhe  permitiram 
exercer grande atração sobre tantos setores da burguesia europeia.  
 
II 
 
Muitos  leitores  objetarão,  sem  dúvida,  que  o  freudismo  não  é  uma 
filosofia, mas a teoria empírica e ideologicamente neutra de uma ciência 
particular;  que  Freud  adere  ao  naturalismo  e  até  ao  materialismo;  que 

32
utiliza métodos objetivos, etc.3 E é verdade que o freudismo se apoia em 
alguns  pequenos  fatos,  cientificamente  sólidos,  seguidos  de  esparsas 
observações  empíricas.  Mas    neste  núcleo  empírico  e  relativamente 
neutro – que veremos não ser tão importante quanto parece ser – não há 
nada,  começando  pelo  próprio  Freud4,  que  não  esteja  envolto  por 
espessa  capa  de  ideologia,  o  que  não  tem  nada  de  neutro.  E,  se  se 
considera  o  freudismo  como  um  todo,  encontra‐se  um  oceano  de 
pretensas  filosofias  subjetivistas  que  faz  desaparecer,  pura  e 
simplesmente,  a  este  desditado  núcleo.  O  freudismo  goza  atualmente 
de  uma  prodigiosa  audiência  em  todo  mundo,  e  este  êxito  junto  a  um 
vasto público não se deve precisamente à sua neutralidade científica5.   
Com  o  que  se  sonha,  de  fato,  é  descobrir  um  novo  mundo,  um 
verdadeiro  continente  virgem  em  algum  lugar  para  além  do  social,  do 
histórico  e  –  podemos  dizê‐lo  veementemente  –  para  além  da 
materialidade. Um continente novo que se poderia prever desde o início 
–  mesmo  porque  Freud  não  se  preveniu  imediatamente  disso  –  se 
situaria fora do espaço, fora do tempo e que seria por sua vez não lógico 

3  Tanto  na  Rússia  como  na  Europa  ocidental,  se  procurou  relacionar  o  freudismo  ao 
materialismo  dialético.  Estas  tentativas  têm  sua  origem,  como  mostraremos  mais 
adiante,  num  mal‐entendido.  Eis  aqui  os  principais  artigos  russos  que  nos  últimos 
anos  foram  utilizados  para  reconciliar  Freud  com  o  marxismo:  A.B.  Zálind, 
“Freudismo  e  marxismo.  Panoramas  sobre  a  cultura  da  época  revolucionária”;  B. 
Bijoski,  “Fundamentos  metodológicos  da  teoria  psicanalítica  de  Freud”  (Sob  o 
estandarte do marxismo, 1923, n.12); B. D. Fridman, “As grandes visões psicológicas de 
Freud e a teoria do materialismo histórico” (in. Kornílov, ed. Psicologia e Marxismo); A. 
R. Luria, “A psicanálise como sistema de psicologia monista” (idem). A atitude mais 
reservada  é  a  de  A.  M.  Raisner  em  “As  opiniões  de  Freud  e  sua  escola  sobre  a 
religião”  (Imprensa  e  Revolução,  1924,  n.  2).  Conferir,  pelo  contrário,  a  posição 
completamente  justa  tomada  por  V.  Iurinets  em  seu  excelente  artigo  “Freudismo  e 
Marxismo” (Sob o estandarte do marxismo, 1924, n. 8‐9).
4   Podemos citar seus dois recentes trabalhos Além do Princípio do Prazer (1921) e O Eu e 

o Id (1923). São livros de filosofia pura que não deixam nenhuma dúvida sobre suas 
raízes ideológicas.
5   No  último  congresso  mundial  de  psicanalistas,  em  1922,  muitos  participantes 

expressaram  o  temor  de  que  o  aspecto  especulativo  da  psicanálise  fizesse  esquecer 
seu destino terapêutico original (veja‐se, a respeito deste tema, Dr. S. Fereneczi e Dr. 
O. Rank, Entwicklungsziele der Psychoanalyses (1924) (A evolução da psicanálise) [N.T.] 
No  Brasil,  há  uma  edição  das  obras  completas  de  Sandor  Ferenczi  pela  Editora 
Martins Fontes.

33 
(nele  não  há  contradições  nem  negações)  e  imutável.  Este  mundo  é  o 
“inconsciente”. 
Não que o inconsciente seja algo novo. Conhecemo‐lo bem, quer no 
contexto  da  filosofia  subjetivista  de  Hartmann,  quer  no  trabalho 
científico de Charcot e de sua escola (Janet e outros). Mas o inconsciente 
de  Freud,  embora  em  suas  origens  tivesse  algo  a  ver  com  este  último 
(Charcot),  e  tenha  se  aproximado  do  espírito  do  primeiro  (Hartmann) 
mantém  seu  princípio  básico  perfeitamente  original  e  extremamente 
representativo de nossa época. 
Desde 1889, em Nancy, Freud – então modesto médico vienense que 
tinha  ido  aperfeiçoar  sua  formação  na  França  –  estava  impressionado 
com  a  experiência  de  Bernheim6:  uma  paciente  hipnotizada  havia 
recebido  a  ordem  de  abrir,  logo  depois  de  despertar,  um  guarda‐chuva 
que  se  encontrava  em  algum  lugar  da  casa.  Ao  sair  de  seu  sonho 
hipnótico fez, com todos os detalhes, o que lhe havia sido ordenado: foi 
até o lugar onde se encontrava e abriu o guarda‐chuva. Interrogada sobre 
as  razões  de  seu  ato,  respondeu  que  só  queria  certificar‐se  de  que  era 
realmente o seu guarda‐chuva – explicação totalmente estranha às causas 
reais  de  seu  procedimento,  mas  por  não  ter  sido  inventada  no  ato, 
deixava  a  paciente  de  consciência  tranquila.  Depois  disso,  forçada  por 
perguntas  e  sugestões  insistentes,  Bernheim  conseguiu  que  a  enferma 
recordasse  a  verdadeira  causa  de  sua  conduta  e,  ainda  com  muita 
dificuldade,  conseguiu  fazê‐la  tomar  consciência  da  ordem  que  havia 
sido dada durante sua hipnose: a amnésia hipnótica estava suprimida. 
Esta experiência é adequada para nos conduzir às raízes da primeira 
concepção  de  Freud7,  que  se  define,  em  seus  começos,  por  três 
proposições de base: 
1. por  sincera  que  seja,  uma  motivação  consciente  pode  não 
corresponder às causas reais de um ato; 
2. um  ato  é  muitas  vezes  determinado  por  forças  interiores  do 
psiquismo, sem que estas se manifestem na consciência; 
3. utilizando certos meios, pode‐se levar estas forças à consciência. 

6   A  este  respeito,  veja‐se  Freud,  História  do movimento  psicanalítico  (em  Kleine  Schriften 
zur Neurosenlehre. Cuarta Série)
7   Para  o  que  se  segue,  cfe.  Dr.  Breuer  e  Dr.  Freud,  Estudos  sobre  a  histeria,  primeira 

edição: 1895, segunda edição: 1910; quarta edição: 1922.

34
Destas  três  proposições,  Freud  extraiu,  com  um  colega  e  grande 
amigo, o Dr. Breuer, seu primeiro método, chamado catártico. 
Este  método  pode  ser  resumido  da  seguinte  maneira:  as  afecções 
nervosas  psíquicas  –  quer  dizer,  resultantes  de  um  trauma  psíquico  e 
não orgânico ‐, a histeria em particular, provêm de formações psíquicas  
das quais o enfermo não tem consciência, dada a amnésia que o afeta; e 
é  por  sua  incapacidade  de  eliminá‐las  normalmente  que  elas 
determinam  os  sintomas  mórbidos  da  histeria8.  É  necessário,  então, 
extraí‐las  da  amnésia,  levá‐las  à  consciência  e  conectá‐las  ao  fio 
contínuo  desta,  de  maneira  que  possam  ser  eliminadas,  o  que  deve 
acarretar o desaparecimento do sintoma. Isto constitui a catarse – termo 
aristotélico:  a  catarse  purga  os  sentimentos  de  terror  e  de  piedade, 
produzindo o resultado estético da tragédia. 
Para  chegar  à  supressão  da  amnésia  e  a  esta  eliminação,  Freud  e 
Breuer  recorreram  à  hipnose  –  total  ou  parcial.  Nesta  etapa,  estavam 
ainda muito próximos da escola de Charcot – sobretudo a de Janet – por 
sua  definição  do  inconsciente  como  um  estado  hipnoide  –  próximo  à 
hipnose  ‐,  como  um  corpo  estranho  alojado  no  psiquismo  que,  na 
ausência  de  laços  associativos  sólidos  com  outros  elementos  da 
consciência,  rompe  a  sua  unidade.  Quase  como  faz,  no  estado  normal 
de nosso psiquismo, o sonho – sonho em estado de vigília – cuja forma 
está  menos  sujeita  aos  laços  associativos  estreitos  que  penetram  em 
nossa  consciência9.  No  entanto,  o  sexo  e  sua  importância,  no  período 
breueriano, não são enfatizados. 
Assim se apresenta o inconsciente freudiano em seu nascimento. 
Observemos  o  caráter  puramente  psíquico  do  recém‐nascido.  No 
entanto,  embora  Breuer  se  preocupasse  em  oferecer  uma  explicação 
fisiológica a seu método10, Freud desde o início dá as costas à fisiologia. 
Observemos  também  que  os  produtos  do  inconsciente  não  nos  são 
acessíveis  senão  por  intermédio  da  consciência;  em  outras  palavras,  o 
acesso ao inconsciente parte da consciência e passa pela consciência. 

8   Idem (quarta edição), p. 1‐14
9   Ibidem, p. 188 e seguintes.
10  Ibidem, p. 161 e seguintes

35 
A  etapa  seguinte  da  história  do  freudismo  é  essencialmente 
marcada pelo fato de que o aparato psíquico se dinamiza e, sobretudo, 
pela célebre teoria da repressão [Verdrängung]11. 
Que é a repressão?       
Nos primeiros estágios de desenvolvimento de nossa personalidade, 
nosso  psiquismo  ignora  a  distinção  entre  o  possível  e  o  impossível,  o 
benéfico e o danoso, o lícito e o ilícito. O único princípio que o governa 
é o princípio do prazer (Lustprinzip)12, a tal ponto que nesta fase de seu 
desenvolvimento se povoará com representações, sentimentos e desejos 
que  florescem  com  toda  liberdade.  Mas  os  estágios  posteriores  deste 
desenvolvimento  tenderiam  a  horrorizar  nossa  consciência  pelo  seu 
caráter criminoso e viciado. 
O  psiquismo  infantil  considera  que  tudo  é  permitido  e  –  no  que 
pode  soar  estranho  –  aproveita  amplamente  este  privilégio  para 
acumular  uma  enorme  reserva  de  imagens,  sentimentos  e  desejos 
depravados.  “Depravado”  tem  aqui  o  sentido  que  lhe  daremos 
posteriormente. No psiquismo infantil, segundo a hipótese de Freud, o 
império  exclusivo  do  princípio  do  prazer  se  faz  acompanhar  de  uma 
atitude  para  a  satisfação  alucinatória  dos  desejos13,  o  que  permite  à 
criança  ignorar  a  distinção  entre  real  e  irreal  –  para  ele  toda  a 
representação é já realidade – o que persistirá depois, ao longo de toda 
nossa vida no sonho. 
  Depois  disso,  o  desenvolvimento  interno  passará  por  outros 
estágios,  nos  quais  o  princípio  do  prazer  verá  seu  império  disputado 
pouco  a  pouco  por  outro  princípio  de  funcionamento  psíquico,  o  da 
realidade. A tal ponto que todos os eventos psíquicos terão de passar por 
um  duplo  exame,  com  cada  um  destes  dois  princípios.  Já  que  não  se 
exclui que à falta de satisfação possível, o desejo e a promessa de prazer 
se  convertam  em  fonte  de  sofrimento  ou  que,  satisfeitos,  acarretem 
consequências desagradáveis, no caso deverão ser reprimidos. Por isso, 
haverá  uma  seleção  psíquica,  em  virtude  da  qual  só  as  formações 
mentais que tenham passado pelo duplo exame, do ponto de vista dos 

11  A este respeito, veja‐se Freud, História do movimento psicanalítico.

12  Freud,  Os  princípios  do  desenvolvimento  psíquico  (in.  Kleine  Schriften  zur  Neurosenlehre. 

Terceira Série, p. 271) terceira edição.
13  Veja‐se Freud, A interpretação dos sonhos (Mocou, 1913, p.388‐391; p. 403‐405). 

36
dois  princípios,  obterão  o  reconhecimento  legal  que  lhes  permitirá 
aceder  ao  sistema  superior  da  psique,  a  consciência,  ou  tenderão  pelo 
menos  à  possibilidade  de  fazê‐lo,  tornando‐se  pré‐consciente.  As 
experiências que não tenham passado pelo exame serão tomadas como 
ilegítimas e serão reprimidas no sistema do inconsciente. Esta repressão 
que  nos  acompanhará  durante  toda  nossa  vida  se  opera 
automaticamente, fora de toda intervenção de nossa consciência. Disto resulta 
que  a  consciência  se  faz  responsável,  numa  forma  completamente 
acabada,  asséptica,  sem  referir‐se  de  nenhuma  maneira  a  um 
inconsciente  de  cuja  existência  e  constituição  ela  não  pode  sequer 
suspeitar.  Isto  se  deve  ao  fato  de  que  a  repressão  depende  de  uma 
instância  psíquica  particular,  denominada  metaforicamente  por  Freud 
de censura, que se situa na fronteira entre os sistemas inconsciente e pré‐
consciente, pelos  quais  passa  tudo o  que  chega  à  consciência  ou  tem  a 
possibilidade de chegar14.  
É assim que se pode, do ponto de vista da dinâmica psíquica de sua 
formação, definir o inconsciente como o reprimido. 
Qual  é,  então,  a  constituição,  o  conteúdo,  deste  inconsciente?  Para 
sabê‐lo,  observemos  primeiro  que  nossa  atividade  psíquica  está 
desconectada  dos  estímulos  sobre  o  nosso  organismo,  uns  externos  e 
outros  internos,  de  origem  somática,  nascidos  no  próprio  corpo.  São  as 
representações  psíquicas  destes  estímulos  somáticos  internos  que  Freud 
denomina  de  pulsões  (Triebe)15.  Estas,  segundo  sua  finalidade  e  origem 
somática  –  que  praticamente  não  estuda  –  estão  distribuídas  em  dois 
grupos:  o  das  pulsões  sexuais,  cujo  objetivo  é  a  perpetuação  da  espécie, 
ainda que ao preço da vida do indivíduo, e o das pulsões do Eu (Ichtriebe), 
que  tendem  à  autopreservação  do  indivíduo  –  dois  grupos  irredutíveis 
um ao outro, entre os quais os conflitos são possíveis e multiformes. 
Detenhamo‐nos essencialmente nas pulsões sexuais, já que estas são 
as  grandes  provedoras  do  sistema  do  inconsciente.  Depois  de  seus 
estudos particularmente profundos sobre este grupo de pulsões, pode‐
se  ver  nesta  abordagem  de  Freud  à  sexologia  seu  principal  mérito 

14  Idem, p. 116 e 439; veja‐se também O Eu e o Id (Leningrado, 1925), caps I‐II.

15  Para o que se segue, veja‐se Kleine Schriften zur Neurosenlehre. 

37 
científico, abstração feita do papel monstruosamente exagerado que sua 
ideologia confere à sexualidade no campo da cultura. 
Dissemos antes que nos primeiros estágios de seu desenvolvimento 
psíquico a criança acumulava uma enorme reserva de sentimentos e de 
desejos  considerados  pela  consciência  como  imorais.  Esta  afirmação, 
sem  dúvida,  deve  ter  surpreendido  e  indignado  fortemente  o  leitor 
leigo,  que  terá  se  perguntado  de  onde  pode  uma  criança  extrair  estes 
desejos imorais. 
A pulsão sexual ou libido – apetite sexual – habita a criança desde o 
princípio,  nasce  com  ela  e  nunca  a  abandona,  ainda  que  possa  até 
mesmo  perder  sua  força  de  tanto  em  tanto,  mas  nunca  se  extinguirá 
completamente, tanto em seu corpo como em seu psiquismo. De modo 
que, mesmo a puberdade marcando uma etapa deste desenvolvimento 
da libido, ela não constitui de maneira alguma seu ponto de partida16 
Nos primeiros estágios do seu desenvolvimento – estágios em que a 
debilidade  do  princípio  de  realidade  submete  ainda  mais  o  psiquismo 
ao  império  do  princípio  do  prazer  e  seu  lema  “tudo  é  permitido”  –  a 
pulsão sexual se caracteriza essencialmente pelos seguintes traços: 
1. Os  órgãos  genitais,  que  no  futuro  serão  o  núcleo  somático 
organizador  desta  pulsão  sexual,  nesta  etapa  não  são  mais  que 
uma  zona  erógena  –  parte  do  corpo  susceptível  a  excitações 
sexuais – que entra em competição com outras zonas, tais como 
a  cavidade  oral  –  no  momento  da  mamada  –  o  ânus  ou  a  zona 
anal – no ato de defecar – a pele, o polegar ou o dedo grande do 
pé que se chupa, etc.17, de sorte que se pode dizer que a libido da 
criança  se  encontra  disseminada  por  todo  o  organismo  e  que 
qualquer  ponto  de  seu  corpo  pode  transformar‐se  em  fonte 
somática. A esta primeira etapa, na qual os órgãos genitais não 
exercem primazia ‐ e que a puberdade lhes permitirá comandar 
tudo, assim como controlar tudo – Freud denominou de período 
pré‐genital do desenvolvimento da libido18 . 

16  Freud, Três ensaios sobre a teoria sexual. 

17  Idem.

18  Ibidem.

38
2. As pulsões sexuais da criança não são, entretanto, perfeitamente 
autônomas nem diferenciadas, e estão associadas estreitamente a 
outras  necessidades  do  organismo,  como  aos  processos  de 
satisfação  –  alimento  (mamada),  micção,  defecação,  etc.  – 
conferindo a todas estas funções um colorido sexual. 
3. A  pulsão  sexual  da  criança  se  satisfaz  sobre  seu  próprio  corpo 
sem nenhuma necessidade de objeto – outra pessoa – como se vê 
pelo que precedeu: a criança é autoerótica. 
4. A  diferenciação  sexual  da  libido  é,  então,  ambígua  –  não  há 
primazia  dos  órgãos  genitais  –  de  tal  modo  que,  no  primeiro 
estágio, a pulsão sexual é bissexual. 
5. A  criança  pode  ser  qualificada  como  perverso  polimorfo,  como 
resultado  destas  características:  pode  ser  levada  a 
homossexualidade  –  porque  é  bissexual  e  autoerótica  ‐,  ao 
sadismo, ao masoquismo e a outras perversões, porque a libido 
disseminada  por  cada  ponto  de  seu  corpo  pode  relacionar‐se 
com qualquer fenômeno ou sensação orgânica. Para a criança, o 
ato sexual normal é também o mais difícil de compreender19. 
Disto  resulta  a  concepção  freudiana  de  um  erotismo  infantil  que  – 
apresentados  seus  grandes  traços  –  nos  permite  compreender  a 
formidável  reserva  de  desejos  sexuais  –  geradores  de  representações  e 
sentimentos  –  produz  a  libido  infantil,  reserva  que  será  logo, 
desapiedadamente, reprimida no inconsciente. 
O  fato  capital  que  domina  esta  parte  reprimida  da  vida  sexual 
infantil é a fixação da libido na mãe, acompanhada de um ódio pelo pai, 
que se denomina complexo de Édipo, que constitui o ponto central de toda 
a  doutrina  freudiana.  Este  pode  ser  resumido  da  seguinte  maneira:  o 
primeiro  objeto  da  pulsão  erótica  –  no  sentido  de  erotismo  infantil 
definido  acima  –  é  a  mãe,  com  quem  a  criança  tem  desde  o  começo 
relações agudamente sexualizadas20, a tal ponto que Otto Rank chega a 
atribuir um caráter libidinoso à estada do feto no útero materno. Rank 

19  Ibidem.

20  Sobre este ponto, veja‐se Freud, A interpretação dos sonhos (1913), edição russa p. 201 e 

seguintes; também Três ensaios sobre a teoria sexual, assim como o trabalho de Jung (O 
significado dos pais para a vida dos indivíduos) e os de O. Rank (1. O motivo do incesto na 
poesia e na lenda; 2. O trauma do nascimento, 1923).

39 
considerará  que  o  começo  da  tragédia  edípica  se  encontra  no  próprio 
nascimento – a primeira e mais desgastante e cruel separação da mãe, já 
que  rompe  a  unidade  com  ela.  Mas  a  libido  continua  orientando‐se 
obstinadamente para a mãe, sexualizando todos os cuidados e atenções 
que  ela  manifesta  –  amamentação,  banho,  ajuda  na  defecação,  etc.  não 
sem  os  inevitáveis  contatos  com  suas  partes  genitais,  com  sensações 
agradáveis  e  que  podem  até  provocar  a  primeira  ereção21.  O  menino  é 
atraído  para  a  cama  de  sua  mãe,  para  seu  corpo  e  uma  obscura 
reminiscência de seu organismo o leva ao útero materno, incitando‐o a 
nele  reintegrar‐se.    Daí  haver  no  menino  uma  tendência  orgânica  ao 
incesto22,  necessariamente  geradora  de  representações,  sentimentos  e 
desejos  incestuosos.  No  curso  destas  atrações  do  pequeno  Édipo  para 
sua  mãe,  seu  pai  se  converte  no  rival,  guardião  do  umbral  materno  e 
possuidor  da  mãe  num  sentido  que  o  menino  pode  vagamente 
adivinhar  por  seu  corpo.  O  pai  termina  por  imiscuir‐se  ativa  e 
indiscretamente nas relações do menino com sua mãe, proibindo a esta 
de levá‐lo à sua cama, obrigando‐o a ser autônomo e privar‐se da ajuda 
materna,  etc.  A  tal  ponto  que  o  menino  chega  a  odiar  a  seu  pai, 
desejando  infantilmente  a  sua  morte,  o  que  lhe  asseguraria  a  posse 
exclusiva de sua mãe. O princípio do prazer reina quase absolutamente 
no  psiquismo  infantil  nesta  etapa,  não  há  limites  para  a  produção  de 
desejos e tendências – tanto agressivas quanto incestuosas – e favorece a 
eclosão de sentimentos e de imagens a eles associadas. 
Depois  disto,  o  princípio  da  realidade  se  faz  forte,  e  a  voz  do  pai 
com  todas  as  suas  interdições  começa  a  transformar‐se  em  vozes  da 
própria  consciência  moral  da  criança,  vozes  que  entram  em  luta  com 
estes  impulsos  incestuosos  e  os  reprimem  no  inconsciente.  Assim, 
determinarão  uma  amnésia  que  nos  fará  esquecer  por  completo  nosso 
complexo  de  Édipo  –  já  que  evita  geralmente  a  emergência  de 
recordações  do  que  nos  ocorreu  antes  da  idade  de  quatro  anos  –  e  as 

21  Freud,  Três  ensaios  sobre  a  teoria  sexual.  Nesta  nota,  Guillermo  Blanck  observa  que  o 

autor abreviou seu título para Três ensaios.
22  Rank, O trauma do nascimento (1923).

40
tendências reprimidas cederão o lugar a um temor que, no caso de um 
complexo de Édipo forte, poderá conduzir inclusive a fobias infantis23.  
Este  primeiro  fato  pré‐histórico  de  nossa  vida  se  reveste,  no 
freudismo,  de  uma  importância  enorme  e  decisiva  para  tudo  o  que  se 
seguirá,  já  que  este  primeiro  amor  e  este  primeiro  ódio  ficarão  para 
sempre  em  nossos  sentimentos,  os  mais  autenticamente  orgânicos,  os 
que em seu gênero não serão jamais apagados por nenhuma de nossas 
relações  posteriores.  Este  amor  esquecido  foi  precedido  por  uma 
completa unidade orgânica com seu objeto, a mãe, e a seu lado todas as 
novas relações parecerão superficiais, racionais, estranhas à verdadeira 
profundidade  de  nosso  organismo  e  de  nosso  psiquismo.  Rank  chega 
até mesmo ao ponto de considerar que todas nossas relações posteriores 
são  um  simples  sucedâneo  (Ersatz)  desta  primeira  relação,  e  a  nossa 
união  carnal  futura  como  uma  simples  compensação  parcial  da  perda 
de  nosso  estado  intrauterino24.  Desta  maneira,  todos  os  fatos  de  nossa 
vida  adulta  extrairão  sua  força  psíquica  deste  primeiro  fato  reprimido 
no nosso inconsciente, brilharão com uma luz emprestada; o depois não 
é mais que uma reedição indefinida – pois não temos consciência disso 
–  deste  evento  primordial  do  complexo  de  Édipo,  transferindo  para 
nossos parceiros os sentimentos reprimidos e sempre vívidos, já que do 
inconsciente  nada  desaparece,  que  nos  inspiraram  nosso  pai  e  nossa 
mãe. Não obstante, Freud, sempre mais prudente, considera que o êxito 
de  nossa  vida  amorosa  depende  amplamente  de  nossa  atitude  para 
liberar  nossa  libido  de  sua  fixação  sobre  a  mãe  –  o  primeiro  amor  do 
homem jovem se parece comumente com este25 ‐ e que esta imagem da 
mãe pode ter uma influência nefasta sobre a evolução de nossa libido. A 
partir do momento em que aparece o temor à nossa consciência moral, 
que  desaprova  as  tendências  incestuosas,  nosso  amor  por  nossa  mãe  é 
desviado  para  uma  espiritualidade  forçada,  um  amor‐respeito  alheio 
até  mesmo  à  ideia  de  sensualidade.  Isto  ao  ponto  de  proibir‐nos  às 
vezes toda relação carnal com uma mulher respeitada e amada no plano 

23  Freud,  Análise  da  fobia  de  uma  criança  de  cinco  anos  (in.  Kleine  Schriften  zur 
Neurosenlehere, terceira série, p. 1 e seguintes).
24  O. Rank, O trauma do nascimento.

25  Freud, Contribuição à psicologia da vida amorosa (in. Kleine Schriften zur Neurosenlehere, 

quarta série).

41 
espiritual – se nos evoca a imagem da mãe – causando uma impotência 
psíquica  determinada  pelo  funesto  rompimento  de  nossa  libido 
essencialmente  por  uma  das  duas  correntes:  paixão  sensual  e  apego 
espiritual, incapazes de reunirem‐se num mesmo objeto26. 
De outro lado, mesmo quando o complexo de Édipo – sol central do 
sistema  do  inconsciente  –  exerce  sua  atração  sobre  grupos  mais 
reduzidos  de  formações  psíquicas  reprimidas,  que  ao  inconsciente  se 
acrescentam depois ao largo de toda nossa vida, à medida que a cultura 
e nosso próprio progresso cultural nos impõem novas repressões, pode‐
se  dizer  em  geral  que  o  essencial,  o  fundo  de  nosso  inconsciente, 
procede de pulsões infantis e de pulsões infantis de caráter sexual. 
Quanto  às  pulsões  do  Eu,  Freud  praticamente não  as  estuda,  e  sua 
contribuição  ao  inconsciente  parece  absolutamente  ínfima.  As  únicas 
que podem ser citadas são as pulsões agressivas, às quais o psiquismo 
infantil e seu “tudo é permitido” conferem tal virulência, que a criança 
deseja  comumente  a  seus  inimigos  nada  menos  que  a  morte:  por 
motivos  egoístas  ou  sob  pretextos  fúteis,  condena  à  morte  todos  seus 
próximos, particularmente seus irmãos e irmãs menores, que rivalizam 
com  ele  pelo  amor  de  seu  pai  e  sua  mãe.  Quantos  assassinatos 
cometidos em pensamento! Ainda que a “morte”, tal como se apresenta 
à  criança,  não  tenha  nada  que  ver  com  nosso  conceito  de  morte; 
significa  simplesmente  a  partida,  a  expulsão  do  que  prejudica  –  para 
não falar do matiz favorável que lhe outorgam a criança e o selvagem, 
nas palavras de Otto Rank, a saber, de um retorno ao útero materno. 
Este é o conteúdo do sistema inconsciente e que pode ser resumido 
da  seguinte  maneira:  o  inconsciente  penetra  tudo  o  que  pôde  fazer 
nosso  organismo  a  partir  do  momento  em  que  era  regido 
exclusivamente  pelo  princípio  do  prazer,  liberto  do  princípio  da 
realidade  e  da  cultura;  penetra  tudo  o  que  o  organismo  efetivamente 
tenha  desejado  –  ainda  que  o  tenha  satisfeito  em  grau  insignificante  – 
nesta  primeira  infância,  quando  a  pressão  do  princípio  da  realidade  e 
da  cultura  era  débil,  e  quando,  mais  ainda,  estava  em  disposição  de 
manifestar sua primeira autonomia, orgânica.   
 

26  Idem.

42
 
III 
 
Mas  como  conhecemos  este  inconsciente  e  inclusive  os  mínimos 
detalhes  de  seu  conteúdo?  Em  outras  palavras,  em  que  se  baseia  esta 
teoria do inconsciente que acabamos de apresentar? Por quais métodos 
se construiu e o que nos garante sua seriedade científica?  
Ao falar da primeira concepção freudiana do inconsciente, notamos 
que  para  aceder  a  ele  metodologicamente  havia  que  passar  pela 
consciência.  Os  progressos  do  método  freudiano  não  invalidam  esta 
observação27,  já  que  ainda  hoje  se  dirige  essencialmente  a  uma  análise 
interpretativa de algumas formações particulares da consciência, redutíveis 
a suas raízes inconscientes. É conveniente deter‐nos um pouco mais em 
detalhes destas formações particulares. 
Vimos  que  o  inconsciente  não  pode  aceder  diretamente  à 
consciência  e  nem  ao  pré‐consciente,  cuja  entrada  é  comandada  pela 
censura. Vimos também que as pulsões reprimidas não morrem, que a 
repressão  era  incapaz  de  evitar  sua  atividade,  sua  energia  e  que  se 
encarniçavam para reingressar na consciência. A uma pulsão reprimida 
não  se  pode  chegar  se  não  se  encontra  um  compromisso  ou  um  modo 
de  disfarçar,  de  enganar  a  vigilância  da  censura.  Estas  formações 
psíquicas  encobertam‐se  no  inconsciente  e,  enganando  a  censura, 
podem  passar  sem  problemas  à  consciência,  na  qual  o  especialista 
terminará por descobri‐las e analisá‐las. 
Todas  estas  formações  de  compromisso  sobre  as  quais  se  apoia  o 
método  freudiano  podem  ser  divididas  em  dois  grupos:  as  formações 
patológicas  –  sintomas,  concepções  delirantes,  fatos  patológicos  da  vida 
cotidiana  tais  como  o  esquecimento  de  nomes,  lapsos  de  língua  ou  de 
escrita,  etc.  –  e  as  formações  normais  –  sonhos,  mitos,  criações  da  arte, 
ideias  filosóficas,  sociais  e  políticas;  dito  de  outra  maneira,  todo  o 
domínio  da  criatividade  ideológica  humana.  A  fronteira  entre  os  dois 
grupos não é nítida. 

27  “Tudo o que sabemos está tão constantemente relacionado com a consciência que até 

o  inconsciente deve,  para  ser  conhecido,  tomar  a  forma  do  consciente”  (O  Eu  e  o  Id, 
Leningrado, 1924, p.14).

43 
O estudo mais notável de Freud foi o que realizou sobre os sonhos, 
cujas  imagens  interpretou  com  métodos  que  se  tornaram  clássicos  – 
modelos para todos aqueles que estudam as formações de compromisso 
em outros campos. 
No  sonho,  Freud  distingue  dois  fatores:  seu  conteúdo  manifesto 
(manifester Inhalt), a saber, imagens tomadas das impressões indiferentes 
do  dia  e  facilmente  rememoradas;  e  seus  pensamentos  latentes  (latente 
Traumgedanken)  que,  temendo  a  luz  da  consciência,  se  camuflam 
habilmente  sob  as  imagens  do  conteúdo  manifesto28.  Então,  como 
aceder  a  estes  pensamentos  latentes?  Em  outras  palavras,  como 
interpretar  o  sonho?  Para  este  feito,  propõe‐se  um  método:  o  da  livre 
imaginação  (freie  Einfälle)  ou  livre  associação  (freie  Assoziation),  operando 
sobre  as  imagens  do  sonho  considerado29  e  procurando  liberar 
totalmente  nosso  psiquismo,  mediante  o  afrouxamento  de  todas  as 
instâncias  de  repressão,  de  crítica  e  de  controle.  Consiste  em  recolher 
tudo  o  que  nos  passa  pela  cabeça,  até  os  pensamentos  e  imagens mais 
vagas  e  rápidas  que  aparecem;  aquelas  que  não  têm  aparentemente 
nenhuma  relação,  nem  sequer  distante,  com  o  sonho  em  questão; 
implica  deixar‐se  invadir  por  tudo  o  que  chega  à  consciência  e 
permanecer  absolutamente  passivo.  O  essencial  é  captar  tudo  o  que 
surge involuntariamente no nosso psiquismo. 
Observemos,  de  início,  que  esta  empresa  se  choca  com  uma  forte 
resistência  de  nossa  consciência  e  que  este  projeto  de  interpretação  do 
sonho suscita em nós diversas formas de protesto, quer porque o sonho 
nos  pareça  ter  um  conteúdo  manifesto  suficientemente  claro  em  si, 
mesmo  que  não  necessite  de  explicação  alguma;  quer,  pelo  contrário, 
porque  o  consideramos  demasiado  estúpido,  demasiado  absurdo  para 
poder  implicar  qualquer  significação;  quer  porque,  criticando  os 
pensamentos e representações que nos surjam, reprimimo‐los assim que 
aparecem  como  estranhos  a  nosso  sonho  e  perfeitamente  fortuitos.  O 
que  quer  dizer  que  tendemos  a  preservar  e  manter  o  ponto  de  vista  da 
consciência  legal  sem  alhear‐nos  jamais  das  leis  que  regem  esta  zona 
superior de nosso psiquismo. Para aceder aos pensamentos latentes do 

28  Freud, A Interpretação dos sonhos (Moscou, 1913, p. 80 e seguintes).

29  Idem, p. 83‐87

44
sonho  há  que  vencer  esta  resistência,  pois  o  que  sentimos  resistir  é  a 
força  que,  na  sua  qualidade  de  censura  inconsciente,  fez  com  que  o 
verdadeiro  sentido  do  sonho  tenha  se  disfarçado,  convertido  em 
imagens  manifestas  e  agora  bloqueia  os  nossos  esforços.  Por  sua  ação 
devemos  esquecer  nossos  sonhos  fácil  e  rapidamente,  e  disfarçá‐los 
involuntariamente  em  nossa  lembrança30.  Porém,  o  fato  de  haver 
resistência  denuncia  inquestionavelmente  a  presença  de  um  impulso 
inconsciente reprimido que busca penetrar em nossa consciência; essa é 
precisamente  a  razão  pela  qual  a  força  da  resistência  é  mobilizada.  As 
formações de compromisso, neste caso as imagens manifestas do sonho, 
são  um  substituto  para  o  impulso  reprimido,  na  única  forma  que  a 
censura poderia permitir. 
Depois  disso,  uma  vez  vencidas  todas  as  formas  de  resistência,  os 
pensamentos e imagens livres, que atravessam a consciência do sujeito 
sem razão nem continuidade aparentes, se converterão nos elos de uma 
cadeia que  permitirão  remontar a pulsão reprimida, isto é, o conteúdo 
latente  do  sonho,  ele  mesmo  uma  realização  disfarçada  de  um  desejo31 
geralmente  erótico  e  de  um  erotismo  frequentemente  infantil.  As 
imagens  manifestas  do  sonho  são,  portanto,  as  representações 
substitutivas – os símbolos – dos objetos do desejo que tem, pelo menos, 
alguma  relação  com  a  pulsão  reprimida.  A  criação  destes  símbolos 
substitutivos  dos  objetos  da  pulsão  reprimida  obedece  a  leis  muito 
complexas  que  conservam,  essencialmente,  uma  relação  com  a  pulsão, 
ainda que seja distante, mas assumindo uma forma perfeitamente legal, 
correta  e  aceitável  para  a  consciência.  Isto  impõe  a  fusão  de  várias 
imagens  em  uma  composta;  impõe  recorrer  a  um  certo  número  de 
imagens  mediadoras,  uma  sorte  de  elos  interligados  à  representação 
reprimida  e  aos  dados  manifestos  do  sonho;  impõe  a  intervenção  de 
imagens  de  sentido  diametralmente  opostos;  impõe  a  transferência  de 
emoções  e  afetos  de  seus  objetos  reais  a  outros  objetos,  para  certos 
detalhes insignificantes do sonho; impõe a mudança dos afetos por seus 
contrários32. Não podemos nos dedicar aqui a analisar este trabalho do 

30  Ibidem, p. 101 e seguintes.

31  Ibidem, p. 110 e seguintes.

32  Ibidem, p. 233 e seguintes.

45 
sonho. Limitemo‐nos a fazer notar que para Freud as leis de formação 
dos sonhos são as mesmas as leis de formação dos mitos e das obras de 
arte – definido o mito como o sonho coletivo desperto. 
Daí surge, com abundante documentação reunida pela interpretação 
dos sonhos e os dados trazidos pelo folclore, a possibilidade de chegar a 
uma  tipologia  detalhada  dos  símbolos  do  sonho,  como  em  parte  fez 
Stekel33. 
Mas em que consiste a função destas imagens substitutivas que são 
os símbolos do sonho, dos mitos e da arte? Que são estes compromissos 
que a consciência realiza com o inconsciente, do lícito com o ilícito, que 
constituem sempre o desejado? 
  Servem  de  válvulas  às  pulsões  reprimidas  e  asseguram  uma 
evacuação parcial do inconsciente; alivia nosso psiquismo das pressões 
das energias acumuladas em suas profundezas. A atividade simbólica é 
uma compensação parcial à proibição que o princípio de realidade nos 
faz  opor  à  satisfação  de  todos  nossos  desejos  e  pulsões  orgânicas; 
representa um compromisso para liberar‐nos parcialmente da realidade, 
um retorno ao paraíso onde “tudo é permitido”, onde nossos desejos se 
apazíguam  com  alucinações.  O  estado  biológico  de  nosso  organismo 
reproduz  parcialmente  no  sonho  a  posição  intrauterina  do  feto. 
Fingimos  retomar  este  estado  –  obviamente  de  forma  inconsciente  – 
simulando um retorno ao seio materno: desvestidos, envoltos em nossa 
manta,  as  pernas  encolhidas  e  a  cabeça  inclinada,  voltamos  à  posição 
fetal.  Nosso  organismo  se  fecha  a  todas  solicitações,  a  todas  as 
influências  externas.  Por  fim,  os  sonhos  restituem  ao  princípio  do 
prazer uma parte de seu poder. 
Encontramos o mesmo método e o mesmo resultado quando Freud 
analisa  outros  tipos  de  formações  de  compromisso.  Ainda  que  se 
interesse,  sobretudo,  pelos  fatos  psicopatológicos,  e  possamos  prever 
que  é  neste  campo  que  o  psicanalista  obterá  seus  resultados  práticos 
mais  apreciáveis,  muitos  o  reprovam  precisamente  porque  transborde 
para  fora  da  psiquiatria;  e  o  consideram  essencial,  ou  quase 
exclusivamente,  como  um  método  psicoterapêutico  fecundo  e  como 
uma hipótese de trabalho apoiada em êxitos práticos no tratamento das 

33  Stekel, O simbolismo dos sonhos.

46
neuroses.  Mas  este  aspecto  da  psicanálise  é  o  que  aqui  menos  nos 
interessa, já que não são seus êxitos terapêuticos os que lhe valeram sua 
enorme  audiência  nem  os  que  conquistaram  um  grande  público  leigo 
em  medicina  e  incapaz  de  distinguir  uma  psicose  de  uma  neurose.  O 
que para nós conta é precisamente o marco do transborde da psiquiatria 
para a ideologia34.  
Os jogos de palavras e o chiste são os dois principais fatos estéticos 
aos quais Freud aplicou pessoalmente seu método de interpretação dos 
sonhos  e  dos  sintomas  neuróticos35.  As  leis  que  regem  a  forma  dos 
chistes  são  as  mesmas  que  dão  às  imagens  do  sonho  sua  estrutura 
formal, a saber, as leis de formação das representações substitutivas. E 
aí  se  encontra  o  mesmo  mecanismo  que  torna  legal  o  amálgama  de 
representações  e  de  palavras,  que  opera  substituições  de  imagens,  que 
pratica  uma  linguagem  equívoca,  mescla  os  planos  de  significação, 
desloca as emoções, etc. Os jogos de palavras e o chiste são feitos para 
distender  o real,  permitir  escapar  do  sério  da  vida  e  liberar  as  pulsões 
infantis  reprimidas,  sejam  estas  sexuais  ou  agressivas.  Os  chistes  que 
têm a ver com a vida sexual nascem da obscenidade e estão destinados 
a  prover‐lhe  um  substituto  estético.  Que  é  a  obscenidade  se  não  um 
Ersatz  [simples  sucedâneo]  de  um  ato  sexual  e  da  saciedade  sexual?  A 
obscenidade,  de  fato,  pressupõe  a  presença  de  uma  mulher  real  ou 
imaginária e sua intenção é induzir à excitação sexual da mulher. Dito 
de  outra  forma,  é  uma  técnica  de  sedução,  nomeando  aos  objetos 
obscenos  como  substitutos  de  sua  visão,  de  mostrá‐los  ou  de  tocá‐los. 
Disfarçada na forma de chiste, a obscenidade é capaz de mascarar sua 
verdadeira  intenção  e  é  mais  aceitável  para  a  consciência  cultural.  Um 
bom  chiste  exige  um  ouvinte,  uma  terceira  pessoa,  já  que  seu  objetivo 
não  é  apenas  burlar  uma  proibição,  mas  também  implicar  o  ouvinte 
mediante  o  riso,  fazendo  daquele  que  ri  um  cúmplice,  socializando 
assim, de alguma maneira, a transgressão.  

34 Ferenczi  e  Rank,  A  evolução  do  objetivo  da  psicanálise,  p.  54  e  seguintes.  Este  livro 
mostra  claramente  que  o  método  psicoterapêutico  da  psicanálise  busca  sair  de  seu 
isolamento: nele se reabilita a hipnose e se reconhece a necessidade de colaborar com 
outros métodos. 
35  Freud, O chiste e sua relação com o inconsciente.

47 
Quanto aos chistes agressivos, eles mascaram sob uma forma literária 
a  livre  expressão  de  uma  hostilidade  infantil  contra  toda  lei,  todo 
regulamento, todo Estado, toda instituição para os quais foi transferida a 
atitude inconsciente para com o pai e a autoridade paterna – complexo de 
Édipo  –  hostilidade  que  termina  por  estender‐se  a  qualquer  outro 
indivíduo – autossuficiência infantil. De modo que o chiste em si mesmo 
não  é  nada  mais  do  que  uma  válvula  de  segurança  manejada  com  as 
energias  reprimidas  do  inconsciente,  que  encontra  finalmente  no  chiste 
um servidor dócil, cuja forma e  conteúdo dependem de suas exigências 
para o maior benefício do organismo inteiro. 
E se poderia seguir assim em todos os campos da criação ideológica! 
Isto  porque  se  faz  proceder  a  tudo  o  que  é  ideológico  das  mesmas 
raízes  psicossomáticas.  A  constituição  da  forma  e  do  conteúdo  resulta 
integralmente redutível, e cada um de seus componentes obedece a um 
estrito  determinismo  biopsicológico.  É  o  produto  de  um  compromisso 
entre forças que se enfrentam no seio de nosso organismo. É o signo de 
que estas chegaram a um equilíbrio ou de que uma prevaleceu sobre a 
outra,  como  o  mostra  o  sintoma  neurótico  ou  a  ideia  delirante,  que 
Freud considera análogos às formações ideológicas e que revelam que o 
inconsciente  tomou  a  dianteira  ou  que  o  conflito  se  exasperou 
perigosamente.  
Freud  aplicou  o  mesmo  método  ao  estudo  de  fatos  religiosos  e 
sociológicos36,  nos  quais  não  nos  deteremos,  reservando  para  mais 
adiante  algumas  palavras  sobre  suas  conclusões  nestes  campos.  Agora 
temos que passar pelo essencial, quer dizer, por uma apreciação crítica 
dos  métodos  e  dos  fundamentos  do  freudismo  tais  como  surgem  de 
tudo o que expusemos. 
 
IV 
 
Iniciemos  com  a  questão  de  fundo  e  perguntemo‐nos  se  o  método 
de Freud pode ser considerado objetivo. 

36  Freud, Totem e tabu e Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921)

48
Freud e os freudianos afirmam ter realizado uma reforma radical na 
velha psicologia e ter estabelecido as bases de uma ciência do psiquismo 
totalmente nova. 
Infelizmente, nem Freud nem os freudianos nunca se preocuparam 
em elucidar, clara e detalhadamente, o que pensavam da psicologia do 
seu tempo e de seus métodos. Esta falta constitui uma deficiência séria 
do  freudismo.  A  escola  psicanalítica,  depois  de  ter  sido  o  alvo  de  um 
unânime rechaço de toda comunidade científica, desdobrou‐se sobre si 
mesma  e  adotou  hábitos  sectários  de  trabalho  e  de  pensamento,  um 
espírito corporativo não aceito pelos homens de ciência. Quando Freud 
e  seus  discípulos  fazem  uma  citação,  é  deles  mesmos;  quando  se 
referem a alguém, é a um deles e mesmo que mais tarde alguns tenham 
acrescentado alguma citação de Schopenhauer e de Nietzsche, isto não 
impede que para eles o resto do mundo seja quase inexistente37.  
Assim,  Freud  nunca  fez  uma  tentativa  séria  de  diferenciar  sua 
doutrina  relativamente  a  outras  correntes  e  métodos  da  psicologia, 
deixando‐nos sem saber sua posição a propósito do método introspectivo, 
do  método  experimental  de  laboratório,  da  escola  de  Würsburg  (Messer  e 
outros),  da  psicologia  funcional  (Stumpf  e  outros),  dos  novos  ensaios  de 
métodos  objetivos  empreendidos  pelo  que  se  chama  de  behaviorismo 
norte‐americano,  ou  seja,  a  psicologia  entendida  como  ciência  do 
comportamento,  etc.  Da  mesma  maneira,  ignoramos  qual  foi  sua 
posição  no  célebre  debate  sobre  o  paralelismo  psicofísico  versus  a 
causalidade psicofísica, que tanto movimentou os psicólogos e os filósofos 
de sua geração38. 
Freud e seus discípulos opõem sua concepção do psíquico àquela de 
todas as outras psicologias, sem sequer dar‐se ao trabalho, infelizmente, 
de  fazer  distinção  entre  elas.  A  única  coisa  que  lhes  reprovam  é  a 

37 Há que se reconhecer que, por sua parte, a ciência oficial não tenha reconhecido ainda 

o  freudismo  e  que  até  se  considera  de  mau  gosto  falar  dele  nos  meios  da  filosofia 
acadêmica. Veja‐se Wittels, Sigmundo Freud, der Mann, die Shale, die Lehre (1924).
38 Pessoalmente  Freud  admite  a  causalidade  psicofísica,  mas  ao  mesmo  tempo  se 

mostra, a cada passo, impregnado de concepções paralelistas. Quanto a seu método, 
baseia‐se  inteiramente  neste  postulado  subjacente  implícito:  que  sempre  se  pode 
encontrar  no  corpo  um  equivalente  psíquico  que  lhe  corresponda  –  no  psiquismo 
inconsciente  –  e  que  em  consequência  é  lícito  rechaçar  a  realidade  estritamente 
somática, para operar exclusivamente com seus equivalentes psíquicos.

49 
identificação  do  psiquismo  com  o  consciente,  enquanto  que  para  a 
psicanálise  o  consciente  não  é  mais  do  que  um  dos  sistemas  do 
psíquico39.  Resta  saber  se  esta  diferença  se  reveste,  efetivamente,  de 
importância suficiente e se abre um abismo tão profundo para que não 
tenham nada em comum, no mínimo uma linguagem comum que lhes 
tornaria  possível  ajustar  contas  e  delimitar‐se  uma  em  relação  à  outra. 
Freud  e  seus  discípulos  aparentemente  estão  convencidos  de  que  é 
assim [nada há em comum]. 
Mas, isto é exato? 
Porque, de fato, o freudismo transladou para suas construções todos 
os  vícios  da  psicologia  subjetivista  de  sua  época  –  sem  sequer  estar  à 
altura  da  “psicologia  científica”  em  questão.  Isto  pode  ser  facilmente 
comprovado,  desde  que  se  evite  ser  seduzido  por  uma  terminologia 
impactante, apesar de cheirar a sectária. 
Em  primeiro  lugar,  o  freudismo  se  apropriou  dogmaticamente  da 
antiga categorização dos fenômenos mentais – cuja origem está em J. C. 
Tetens e que foi convertida num truísmo filosófico por Kant – em que se 
distinguem vontade (desejos, tendências), sentimentos (emoções, afetos), e 
conhecimento  (sensações,  representações  e  pensamentos).  Mais  ainda,  o 
freudismo  retém  exatamente  as  mesmas  definições  destas  faculdades, 
segundo  o  uso  comum  da  psicologia  de  seu  tempo.  Uma  vez  que  em 
toda  parte  a  psicanálise  fala  de  desejos  –  por  exemplo,  quando  Freud 
afirma que o sonho é a realização de um desejo, proposição em que se 
fundamenta  sua  interpretação  dos  sonhos,  que  se  converte  por  si 
mesma  no  fundamento  de  todo  o  freudismo;  e  como  também  fala  de 
representações  e  de  sensações,  de  sentimentos  e  emoções,  tomando‐os 
como  elementos  estáveis  e  irredutíveis  uns  aos  outros,  o  dogmatismo  de 
Freud  mantém  –  e  isto  é  o  mais  grave  –  a  acepção  corrente  de  todos 
estes  elementos  psíquicos,  ao  transferi‐los  para  o  domínio  de  um 
inconsciente  que  se  mostra,  portanto,  composto  de  representações  –
lembranças‐cópias de sensações – de emoções, de afetos e de desejos, o que 
significa que se lhe dá uma estrutura análoga à da consciência e isto até mesmo 
nos mínimos detalhes. 

39  Veja‐se A Interpretação dos Sonhos, p. 440‐448 e O Eu e o Id, p. 7‐12. 

50
Resta,  evidentemente,  a  saída  de  distinguir  os  sistemas 
topograficamente,  isto  é,  em  função  de  sua  localização  em  um  espaço 
apresentado  sob  uma  forma  figurada  com  uma  consciência  que  se  aloja 
próxima  aos  centros  sensoriais  e  um  inconsciente  que  habita  outro 
extremo40.  Restam  também  as  relações  dinâmicas  que  definem  o 
inconsciente como o reprimido, o esquecido, o rechaçado. Mas tudo isso 
não pode nos impedir de sustentar que estas duas formações psíquicas, 
situadas em lugares diferentes e em guerra uma com a outra, têm, aos 
olhos  de  uma  psicologia  científica,  uma  estrutura  rigorosamente 
análoga.  Trata‐se  simplesmente  do  choque  entre  duas  forças 
constituídas  pelos  mesmos  elementos.  Então,  o  que  é  que  as  distingue 
da “dupla consciência” de Charcot? Unicamente sua dinâmica. 
Do ponto de vista de sua estrutura elementar – isto é, fazendo abstração 
do  conteúdo  de  seus  pensamentos,  sentimentos,  representações,  etc.  – 
pode‐se  definir  o  inconsciente  como  uma  segunda  consciência,  diferenciada  de 
maneira não menos complexa que a primeira. 
Mas  onde  está,  então,  o  abismo  entre  a  psicanálise  e  a  psicologia 
subjetiva41, seja a de nossa época, seja a da época anterior?  Por trás do 
“inconsciente” e da “consciência” encontramos, veladamente, um velho 
construto  chamado  de  “vida  mental”,  com  seus  sentimentos,  seus 
desejos, suas representações e o que as une – as associações, isto é, tudo 
aquilo de que nos falou e continua falando a psicologia subjetiva, posto 
que dela o extraiu Freud, sem acrescentar nada mais que a máscara de 
sua  dinâmica.  Estas  são  as  noções  que  a  psicologia  subjetiva  forjou 
quando  as  fundava  sobre  uma  identificação  do  psíquico  com  o 
consciente!  Como  saber,  então,  se  conservam  um  sentido  fora  desta 

40  Vejam‐se os gráficos de Freud em A Interpretação dos Sonhos, p. 384‐388 e em O Eu e o 

Id, p. 21.
41  É oportuno esclarecer aqui que concepção tinha o autor das correntes psicológicas de 

sua época. Dentro das psicologias subjetivas considerava que a mais subjetiva seria sua 
variante experimental, representada por Wundt, James e suas respectivas escolas, e na 
Rússia por Chelpánov. Quanto às psicologias objetivas, a que dava uma importância 
equivalente,  era  o  comportamentalismo  norte‐americano  –  que  se  chamava 
behaviorismo  ou  “Ciência  do  Comportamento”  –  representado  principalmente  por 
Watson e Dewey; e na Rússia pelas escolas de Kornílov e Blonski – que considerava 
que marchavam na mesma direção – e também as escolas reflexológicas de Pávlov e 
Békhterev. [Nota de Guillermo Blanck]. 

51 
identificação? Em outras palavras, como saber se não valem unicamente 
para a consciência? 
De  fato,  há  razões  sérias  para  crer  que  no  inconsciente  existem 
separados  representações,  desejos  e  sentimentos  perfeitamente  definidos 
em sua qualidade e em sua relação com um objeto? Não seria melhor supor 
que  para  que  estas  formas  diferenciadas  adquirissem  “algo  de 
inconsciente”  –  digamos  uma  energia  qualquer  –  se  deve  primeiro 
penetrar  na  consciência  e  que  só  há  a  consciência?  Dito  de  outra 
maneira, a introspecção é que faz delas um desejo, uma representação de 
objeto ou um sentimento preciso? De nossa parte, pensamos que sim. 
O termo inconsciente pode designar legitimamente só uma atividade 
produtora  de  efeitos  –  uma  energia,  uma  força  (talvez  psíquica,  talvez 
somática). Só com sua entrada na consciência e só aí e pela consciência 
adquire  essas  formas  e  esse  conteúdo  que,  com  desprezo  de  todo 
sentido crítico, o freudismo projeta no que chama de seu “inconsciente”. 
Pouco  importa  que,  mal  diferenciadas  pela  introspecção  do  sujeito,  se 
revelem  mais  claramente  à  interpretação  do  médico.  Freud  chega  ao 
ponto de fazer do inconsciente um mundo prodigiosamente complexo e 
multiforme, onde, já que tudo tem seu próprio objeto, não se encontram 
senão  representações  concretas,  imagens  resplandecentes,  unidas  por 
relações  de  uma  infinita  complexidade,  e  desejos  precisos  –  já  que  um 
desejo  inconsciente  sabe  o  que  quer;  o  desejo  consciente  só  é  capaz  de 
enganar‐se neste ponto! Etc. 
Cremos  que  só  uma  suposição  deste  tipo  constitui  um  modo  de 
reduzir  o  campo  das  hipóteses  ao  mínimo  exigido  para  a  explicação 
adequada de todos os fatos reais empíricos que Freud e seus discípulos 
localizaram no comportamento humano. Um mínimo de hipóteses para 
além do qual a ciência não pode admitir. 
Mas como devemos conceber esta “atividade produtora de efeitos” 
que corresponde ao inconsciente freudiano? 
Não  se  corre  o  risco  de  ir  de  Escila  a  Caríbdis  e  de  substituir  o  Id 
freudiano por uma essência metafísica ainda mais horrenda? 
O  leitor,  entretanto,  tranquilize‐se!  Longe  de  nós  a  ideia  de  supor 
aqui  uma  energia  –  sequer  psíquica  –  sob  uma  forma  indiferenciada. 
Pensamos mais que aqui estamos envolvidos com mecanismos do tipo 
daqueles  que  nos  são  familiares,  sob  o  nome  de  reflexos  (Pávlov  e  sua 

52
escola), também em parte tropismos (J. Loeb)42 e outros quimismos, isto 
é, processos puramente somáticos e materiais. Em todo caso, é só neste 
plano  que  podem  estar  as  definições  científicas  dos  fenômenos  do 
inconsciente  de  Freud.  Que  sejamos,  entretanto,  evidentemente 
incapazes  de  traduzir  estes  últimos  nos  termos  de  uma  ciência 
materialista,  nada  impede  que  saibamos,  pelo  menos  neste  momento, 
em que direção esta tradução pode ser possível. 
Não se tata, por certo, de concluir que o psiquismo não tem nenhum 
tipo de existência, que escapa à ciência ou que deve ser, como na velha 
psicologia,  identificado  com  a  consciência,  já  que  é  evidente  que  o 
psíquico existe. O marxismo não admite nenhum agnosticismo e não há 
razões para identificar o psiquismo com o consciente. Mas tampouco há 
razões para dividi‐lo em duas esferas, segundo o critério de seu grau de 
consciência,  como  o  faz  o  freudismo:  por  um  lado  o  consciente,  por 
outro  lado  o  inconsciente.  Se  formos  livres  para  dividi‐lo  como 
queremos  –  em  consciência  e  não‐consciência,  tanto  como  em 
sentimento  e  não‐sentimento,  ou  em  desejo  e  não‐desejo  (segundo  o 
princípio  da  dicotomia),  restaria  dizer  que  o  não  sentimento  não  é 
insensibilidade,  que  o  não‐desejo  não  significa  que  não  se  deseja  fazer 
algo. Afirmamos que o que a psicologia científica – isto é, a psicologia 
do  comportamento  –  considera  não  consciente  –  sobre  o  que  a 
reflexologia  constitui  até  o  presente  o  único  capítulo  científico  –  não 
tenha  nada  que  ver  com  o  inconsciente  freudiano,  pois  está  isenta 
precisamente deste matiz de valoração afetiva que condiciona oposições 
tais  como  “o  Eu  e  o  Mundo”,  “o  Eu  e  o  Id”,  “prazer  e  realidade”, 
“consciente e inconsciente”, com as quais a ciência não tem nada a ver. 
Se o inconsciente deve, por definição, ser hostil à consciência, o não‐
consciente  enquanto  tal  não  permite  supor  nada  acerca  de  como  serão 
suas relações com o consciente no psiquismo43 e não seria, de qualquer 

42 Bakhtin refere‐se aqui a J. Loeb, Znachenie tropízmov dlia psijologui, publicado em Novie 

idei  v  filosofi,  n.  8.  Cfe.  Jacques  Loeb,  Forced  Movements,  Tropisms  nd  Animal  Conduct 
(Philadelphia e Londres, 1918) [Nota de Guillermo Blanck]. [N.T.] Lembremos que o 
organizador atribuía a autoria do texto a Bakhtin.
43  Aparentemente, Freud se dá conta  de que seu inconsciente é tendencioso, que inclui 

um juízo de ordem secretamente metafísico e em seu último livro (O Eu e o Id, p. 15 e 
seguintes)  trata  de  atenuar  definindo  o  inconsciente  como  um  não‐verbal  que  se 

53 
modo, uma questão de dois mundos ou de dois sistemas, pelo simples 
fato de autorizar sem receios este tipo de hipótese. 
Mas  voltemos  ao  inconsciente  freudiano  para  nos  determos  em 
alguns  pontos  desta  hipótese,  cujo  caráter  particularmente  curioso  nos 
confirmará a ideia de que há aqui uma enorme projeção do psiquismo 
consciente  e  de  sua  interpretação  –  pelo  analista  e  analisando 
conjuntamente – num quase inconsciente que, de fato, é somático. 
  Tomemos,  por  exemplo,  o  trabalho  da  censura  que  Freud 
considera totalmente inconsciente – já que ela se situa, como se sabe, no 
limite  entre  o  inconsciente  e  o  pré‐consciente44  ‐  e  daí  se  evoca 
frequentemente  o  mecanismo.  Há  que  ver  com  que  delicadeza  este 
mecanismo inconsciente (e que pode ser mais mecânico, mais maquinal 
do  que  uma  máquina  criada  por  nossa  consciência?)  penetra  todos  os 
matizes  de  nossos  pensamentos  e  de  nossas  representações,  todos  os 
detalhes,  até  os  mais  sutis,  de  nossas  imagens,  etc.  É  claro  que,  em 
comparação,  os  censores  do  czar  Nicolau  I  eram  uns  verdadeiros 
palermas!45 
Não  é  assombroso  que  a  “censura”  freudiana  seja  mais  consciente 
que  a  consciência  do  enfermo,  reforçada  que  é  pela  consciência  do 
psicanalista?  De  maneira  que  não  é  só  o  termo  “censura”  o  que  é 
propriamente  metafórico,  mas  toda  a  significação  outorgada  a  esta 
palavra por Freud. Trata‐se, pelo menos, de uma imagem semi‐literária 
–  talvez  dotada  em  certos  casos  de  grande  utilidade  prática  –  uma 
imagem  que  designa  a  consciência  –  reforçada  por  uma  segunda 

transforma  em  pré‐consciente  –  daí  poderá,  em  todo  o  caso,  passar  à  consciência  – 
“graças à associação com as representações verbais correspondentes”, o que lembra a 
definição  behaviorista  da  consciência  como  “comportamento  verbalizado”.  Cfe. 
Vigotski, “A consciência como problema da Psicologia da Conduta”, in. Kornílov (ed) 
Psicologia e Marxismo. (Esta é uma das vezes em que Bakhtin cita Vigotski. Em troca, 
não há qualquer evidência de que Vigotski tenha conhecido a obra de Bakhtin, como 
afirmaram  alguns.  Por  certo  que  existe  a  probabilidade  de  que  pudesse  tê‐lo 
conhecido pelo fato de compartilharem o mesmo ambiente cultural, mas isto é apenas 
uma mera conjectura [Nota de Guillermo Blanck]).
44  Veja‐se O Eu e o Id, p. 13‐14.

45  Como faz notar V. Iurinets em seu artigo e o Dr. Maag em seu livro A vida sexual e as 

perturbações psíquicas. Contribuições a uma crítica da psicanálise.

54
consciência,  a  do  psicanalista  –  tal  como  se  nos mostra  ao  projetarmos 
alguma parte sua até as profundezas do psiquismo. 
Quanto aos outros mecanismos freudianos, que têm de mecânicos? 
O  mecanismo  da  repressão  não  responde  somente  a  uma  finalidade 
biológica, mas testemunha também uma capacidade e uma informação 
pouco  comuns  em  matéria  de  cultura,  evidenciando  uma  moral 
burguesa um tanto estreita – mesmo quando se projeta no psiquismo de 
um selvagem ou de um grego da antiguidade, tal como Édipo do mito, 
etc. – e não está, em geral, à altura da cultura de nossa época e de suas 
exigências.  Vemos  trabalhar,  por  todas  as  partes,  uma  consciência  que 
interpreta  o  não  consciente,  incluindo  frequentemente  fenômenos  não 
propriamente  psíquicos.  Uma  consciência  que  nos  faz  perceber  seu 
trabalho  nos  fatos  que  estuda,  da  mesma  maneira  que  sentimos  o 
contato de nossa pena com o papel. Na realidade, somente percebemos 
a pressão da caneta em nossos dedos, mas projetamos esta sensação até 
ao extremo, até a ponta da caneta. Há que se aceitar que escreveríamos 
com dificuldade se não nos sensibilizássemos desta maneira, quer dizer, 
se não sentíssemos a ponta da caneta – por isso esta sensibilização pode 
ser de uma grande utilidade prática.  
Outro  mecanismo  particularmente  revelador:  trata‐se  da 
transferência  (Übertragung),  noção  muito  importante  tanto  para  a  teoria 
psicanalítica como para a prática do psicanalista. Freud a concebe como 
o deslocamento inconsciente de uma pulsão reprimida – essencialmente 
a  libido  –  de  seu  objeto  real  para  outro,  que  se  converte  em  seu 
substituto. Um testemunho da transferência é a pulsão orientada para a 
mãe ou para ao pai, ou a hostilidade com respeito a eles – complexo de 
Édipo  –  que  no  curso  das  sessões  de  psicanálise  se  transferem  ao 
médico  e,  por  este  fato,  se  eliminam.  Mas  como  em  nossa  vida  não 
deixamos  de  transferir  nossa  libido  reprimida  para  outras  pessoas, 
inconscientemente  as  obrigamos  assim  a  representar  para  nós  o  papel 
de pai, de mãe, de irmãos ou de irmãs, resultando disso uma espécie de 
turbilhão  e  de  eterno  retorno  da  mesma  situação,  que  recorda  a 
doutrina de Nietzsche ou a insaciável “vontade” de Schopenhauer. 
Daí que não vale a pena dizer que o médico e o enfermo se limitam 
a unir seus esforços para projetar num complexo inconsciente – paternal 
ou maternal – as verdadeiras relações que o tratamento lhes impõe – e 

55 
cuja  extrema  complexidade  os  obriga  a  ater‐se  melhor  em  certos 
aspectos  destas  relações  ou  a  suas  linhas  principais.  Neste  complexo, 
convém  ter  em  conta  intuições  precisas;  o  que  o  enfermo  efetivamente 
recorda;  o  que  se  explica  por  analogia  de  situações  –  isto  não  significa 
que  a  transferência  cria  a  analogia,  mas  pelo  contrário,  que  a  analogia 
das situações leva a falar da transferência; por último – e talvez o mais 
importante – o que se explica pela compleição orgânica do enfermo, que 
devido  a  sua  importância  relativamente  estável,  colore  mais  ou  menos 
identicamente  todas  as  situações  por  ele  vividas.  De  maneira  que  o 
mecanismo  freudiano  da  transferência  foi  construído  como  uma 
metáfora  que  permite  abraçar,  numa  só  imagem  dinâmica,  todos  estes 
elementos  heteróclitos  que  determinam  o  comportamento  global  do 
enfermo;  uma  metáfora  aparentemente  útil  para  a  prática 
psicoterapêutica. 
Repitamos. Efetivamente, em muitos aspectos o freudismo toma em 
conta nossas pautas reais de comportamento, das quais sabe, por outra 
parte,  extrair  proveito  na  prática;  porém  não  encontrou  ainda  os 
verdadeiros  métodos  científicos  que  lhe  assegurariam  o  conhecimento 
teórico. 
É  assim  como  se  se  ativesse  ao  velho  método  da  psicologia 
subjetiva:  a  introspecção,  com  todos  seus  resultados  –  que  nos 
neuróticos são essencialmente de culpa – e sua interpretação. O que há 
de  novo  é  sua  enorme  concepção  metafórica  de  uma  dinâmica  mental 
sob a qual se esconde geralmente uma dinâmica material de fenômenos 
somáticos46, cujo estudo científico resta por fazer; mas para apresentar‐
nos  esta  dinâmica  –  estes  “mecanismos”  –  Freud  emprega  a  velha 
linguagem da consciência subjetiva. 
 

 
Como  considera  Freud  os  fatores  materiais  objetivos  que 
determinam a subjetividade: fatores somáticos, biológicos, sociológicos? 
Alguns  veem  nele  um  materialista  e  esta  afirmação  se  baseia  num 
total  mal‐entendido.  Isto  não  significa  que  Freud  não  tenha  invocado 

46  E aí se refletem também em parte fenômenos exteriores ao organismo.

56
jamais  o  fator  somático,  pois  fala  das  fontes  somáticas  de  nossas 
pulsões, das zonas erógenas de nosso organismo, etc. Pareceria que seu 
pansexualismo  deve  ipso  facto  aproximar  o  psiquismo  ao  corpo.  Da 
mesma  maneira,  se  poderia  ter  por  materialista  certos  aspectos  do 
freudismo como sua teoria dos caracteres – anal e uretral – já que aí era 
onde a velha psicologia idealista fazia intervir uma entidade espiritual e 
ética.  Freud  o  define  pelo  predomínio  de  uma  ou  outra  das  zonas 
erógenas – anal e uretral – pela retenção da índole sexual das fezes ou 
da urina e pelo que elas determinam como hábitos e reações mentais47. 
Porém, ao examinar mais detidamente como os psicanalistas fazem 
uso  destes  fatores  somáticos,  forçosamente  há  que  concluir  que  seu 
materialismo  é  perfeitamente  ilusório.  Freud  e  os  freudianos  jamais 
tiveram nada que ver com o somático e com o material como tais, isto é, 
enquanto determinantes do psiquismo e constituintes de uma realidade 
exterior cujo estudo pertence à fisiologia e a outras ciências da natureza. 
Freud  não  se  interessou  nunca  pelo  somático  nem  com  a  estrutura 
objetiva e material, nem com os fenômenos materiais, mas somente pela 
significação  subjetiva  de  que  o  somático  se  reveste  para  o  psiquismo. 
Para  seus  olhos,  só  conta  o  reflexo  do  somático  na  alma, 
independentemente  da  realidade  que  o  somático  possa  ter  fora  desta 
alma,  como  tem  para  os  métodos  objetivos  das  ciências  da  natureza  – 
que  são  autenticamente  materialistas.  Mostra‐o  bem  a  célebre  teoria 
freudiana  das  zonas  erógenas,  das  quais  o  autor  não  nos  proporciona 
uma  teoria  fisiológica,  já  que  não  apela  –  na  divisão  do  trabalho 
científico – nem à sua química, nem à sua relação fisiológica com outras 
partes do corpo, etc. E isto se deve ao fato de que só lhe interessam seus 
equivalentes  psíquicos  –  portanto  necessariamente  subjetivos  –  e  o  lugar 
que ocupam numa libido entendida no sentido psicanalítico do termo. 
Também  em  lugar  de  falar  da  função  dos  órgãos  genitais  na 
organização total do corpo, como os descreve a linguagem  objetiva do 
fisiólogo ou do biólogo, Freud se contenta em mostrar o papel de seus 
equivalentes  psíquicos  na  subjetividade,  partindo  desta,  quer  dizer, 
empregando a linguagem da psicologia subjetiva. 

47  Veja‐se 
Freud,  O  caráter  e  o  erotismo  anal  (in.  Kleine  Schriften  zur  Neurosenlehre, 
segunda série).

57 
Por  isso,  podemos  afirmar  resolutamente  que  para  Freud  o  material 
existe  só  na  medida  em  que  é  traduzido  no  psíquico;  digamos  entretanto 
mais: na medida em que é um fator deste psiquismo. Esta posição se parece 
muito a um espiritualismo de que, de fato, não está demasiado distante, 
desde  o  momento  em  que  para  Freud  a  realidade  se  reduz  a  um 
“princípio” psíquico de “realidade”; em outras palavras, para ele nesta 
realidade não existe mais do que o reverso psíquico. 
É  o  que  os  freudianos  (Rank,  Pfister  e  sobretudo  Groddeck) 
expressam  em  termos  um  pouco  diferentes  quando  pretendem  que  o 
mundo de Freud não é  nem psíquico nem material, mas outra coisa, e 
que seu mérito foi descobrir um campo de formações no qual o físico e 
o psíquico não são diferenciados, nem são autônomos, nem específicos: 
as pulsões freudianas teriam um caráter neutro e marginal. 
Mas no que nos respeita, vemos um grande perigo nestas formações 
marginais  e  neutras:  que  sua  neutralidade  seja  uma  pura  fachada!  De 
fato, Freud não deixa nenhuma dúvida sobre a verdadeira direção a que 
o  leva  sua  inclinação:  o  que  o  atrai  é  o  espiritualismo  sob  sua  forma 
biologista  moderna  –  corrente  de  que  temos  outro  representante  na 
pessoa de Driesch. 
Isto nos conduz à questão do biologismo de Freud, pois geralmente 
se pretende que a psicanálise seja em essência uma biologia do psíquico, 
uma biologia da alma. 
Nas  obras  de  psicanálise  são  abundantes  conceitos  e  termos 
biológicos introduzidos, porém, no contexto do freudismo, estes termos 
perdem  seu  sentido  biológico  corrente  como  se,  privados  de  seu  som 
fundamental,  transportassem  unicamente  seus  harmônicos.  De  modo 
que  o  biológico  se  encontra,  como  o  físico,  submergido  numa 
subjetividade que o penetra por todas as partes, até fazê‐lo perder sua 
consistência material, objetiva. 
Em psicanálise, o organismo, enquanto dado biológico objetivo, não é mais 
que o lugar no qual atuam as pulsões subjetivas da alma. 
Freud,  a  princípio,  parece  apresentar  a  estas  famosas  “pulsões” 
como  um  biólogo  perfeitamente  objetivo,  como  se  elas  fossem  um  dos 
fatores  da  realidade  material,  estreitamente  dependentes  do  meio 
ambiente.  Depois,  passo  a  passo,  faz  da  realidade  total  um  simples 
componente  de  certas  pulsões  –  as  pulsões  do  Eu  –  um  simples 

58
“princípio”  psíquico  de  “realidade”  posto  no  mesmo  plano  e  sobre  a 
mesma base que o “princípio do prazer”. 
Dito  de  outra  maneira,  Freud  psicologizou  o  organismo,  assim  como  a 
todos  os  fenômenos  orgânicos.  Esta  observação  vale  também  para  o 
sociológico.  Freud  o  define  de  maneira  igual:  unicamente  por  seu 
componente  psíquico  individual  e  fora  de  toda  necessidade 
socioeconômica  objetiva.  As  formas  políticas  e  econômicas  se 
desprendem  dos  mesmos  “mecanismos  psíquicos”  que  já  conhecemos: 
transferência  da  libido  ao  chefe  da  tribo;  alienação  do  “Ideal  do  Eu”; 
identificação do indivíduo com os outros membros do grupo, o que cria 
uma  coesão  e  uma  unidade  sociais  totalmente  desprovidas  de  base  material; 
redução  do  capitalismo  a  um  erotismo  anal  –  a  acumulação  das  fezes 
sublimando  a  acumulação  de  ouro;  e  tantos  exemplos  que  descreve 
amplamente a sociologia freudiana48. 
É assim que se vê por todos os lados de sua obra a mesma tendência 
ideológica de dissolver  a necessidade material exterior no  psiquismo e 
de  opor  à  história  social  um  organismo  biológico  psicologizado,  enquanto  um 
microcosmos associal que se auto‐abastece. 
 O  ser  que  determina  a  consciência  é  sempre  um  ser  interior, 
finalmente simples consciência invertida. Embora se comparado com o 
do idealismo filosófico seja este ser mais elementar, mais trágico – o que 
corresponde  perfeitamente  ao  espírito  de  um  tempo  muito  pouco 
aficionado com a lógica e com o racional – não é no entanto nem mais 
material nem mais objetivo.  
Daí,  em  última  análise,  a  possibilidade  de  definir  o  inconsciente 
freudiano como a imagem obtida quando se projeta no seio, no fundo da 
alma  –  do  psiquismo  –  a  necessidade  material  –  física,  fisiológica  e 
socioeconômica  –  traduzida  para  isso  em  termos  originais  da  consciência 
subjetiva, sob uma forma dramatizada e carregada de emoção. 
E  os  métodos  de  Freud  não  são  nada  mais  que  os  procedimentos 
desta tradução original, o que faz tomar o essencial de seu vocabulário 
da velha psicologia subjetiva. 
Freud crê poder sustentar este edifício cambaleante transferindo de 
maneira  astuta  e  quase  sub‐reptícia  os  fenômenos  materiais  – 

48  Veja‐se uma excelente crítica desta “sociologia” no artigo de Iurinets.

59 
geralmente não  estudados  –  ao  seio de  uma  alma  convertida,  segundo  a 
moda  do  momento,  em  “máquina”  –  com  seus  “mecanismos”,  sua 
“dinâmica”, etc. 
E isto é o que alguns consideram como uma dialética materialista! 
 
VI 
 
Mas  como  chegou  Freud  a  este  tipo  de  projeção?  E  como  conciliar 
nossa afirmação com os êxitos terapêuticos inegáveis de seu método? 
Na  nossa  opinião,  uma  projeção  tão  enorme  se  explica  pelo  fato 
concreto, cuja repetição cotidiana impôs a Freud todos seus hábitos de 
pensamento e mesmo sua ideologia. 
Referimo‐nos  às  complexas  relações  que  se  dão  entre  o  médico 
psiquiatra  e  seu  enfermo  neurótico,  miniuniverso  social  caracterizado 
por  seu  estilo  particular  de  luta,  no  qual  o  enfermo  se  esforça  por 
ocultar do médico alguns aspectos de sua vida, de enganá‐lo, de aferrar‐
se a seus sintomas, etc. Fato social mínimo, muito complexo, em que a 
base econômica, os fatores psicológicos e o peso – tanto estético quanto 
moral  –  da  ideologia  burguesa  concorrem  para  definir  globalmente  as 
relações  concretas.  A  esta  situação  o  médico  responde  tratando  de 
adivinhar as forças reais que a condicionam e aprendendo a dominá‐las. 
No  entanto,  não  pode  integrá‐las,  em  sua  complexidade,  a  uma  teoria 
científica – materialista ‐, o que é lógico, pois a fisiologia não foi ainda 
estudada. 
 Quanto  à  sua  sociologia,  nem  falemos!  É  sobre  esta  ignorância  da 
teoria que se filtra a metáfora como figuração dramatizada de uma orientação 
prática, que é, como toda figuração, subjetiva e relativa – o que de fato 
não lhe tira sua utilidade. 
Em sua primeira etapa, o mecanismo freudiano não faz mais do que 
traduzir sob uma forma metafórica, dramatizada e realçada com alguns termos 
científicos, a batalha do médico contra a histeria, da qual sai vitorioso. 
Não há nisto nada de assombroso, pois temos efetivamente o hábito 
de dramatizar nossas relações práticas com os objetos e até os próprios 
objetos. Para o artilheiro, seu canhão é um ser vivo; e o trabalhador, que 
tem  às  vezes  maior  conhecimento  prático  dos  “caprichos”  de  sua 
máquina do que o douto engenheiro, não tem necessidade de saber dar 

60
uma definição teórica da “vida” desta máquina para ser capaz de falar 
dela em termos vivos e metafóricos. Nós mesmos às vezes, face a forças 
adversas, começamos a responder e a dominá‐las – no ato, com nossas 
mãos  e  nossos  pés  (ou  com  palavras  e  exortações  verbais),  se  estas 
forças  estão  num  organismo  humano  e  não  temos  outros  recursos  – 
muito antes de estarmos em condições de dar uma definição teórica. E 
supondo  que  quiséssemos  descrevê‐las,  não  são  elas  de  fato  que  
definiremos,  mas  nossas  relações  com  elas,  nossos  hábitos,  nossas 
intenções e nossas ações.  
Se  há  um  campo  em  que  é  difícil  não  abusar  do  pensamento  por 
imagens, é justamente a psicologia. Talvez por causa da linguagem, que 
para a tradução de nossos estados internos não nos oferece nada melhor 
do  que  as  metáforas:  até  o  ponto  em  que  não  se  pode  dizer  duas 
palavras sobre o psiquismo sem empregar duas metáforas. Em nenhum 
outro domínio o triunfo dos métodos de conhecimento objetivo foi mais 
lento.  Podemos  afirmar  que  ainda  hoje  a  psicologia  subjetiva  é 
prisioneira  da  metáfora,  e  que  não  é  ficando  neste  terreno,  isto  é, 
limitando‐se  a  um  método  subjetivista,  que  terá  oportunidade  de 
libertar‐se. Isto nos impede de surpreendermo‐nos com o fato de que a 
psicanálise seja em essência metafórica. 
É  verdade  também  que,  com  sua  habilidade  pouco  comum,  Freud 
revestiu  este  núcleo  metafórico  profissional  com  uma  terminologia 
científica  que  o  camuflou  e  o  dissimulou.  Limitado  a  suas  aplicações 
profissionais,  este  tipo  de  método  em  imagens  é  provisoriamente 
aceitável. 
Porém, a metáfora nascida no consultório de um médico burguês de 
Viena, correspondia perfeitamente às tendências ideológicas profundas 
da uma burguesia deliquescente e era um nascimento feliz que ocorria no 
momento  e  lugar  apropriados.  Apenas  insinuando  seu  crescimento, 
tomou proporções de um sistema geral de interpretação do mundo. 
Na  penumbra  de  seu  consultório,  com  seu  desafio  e  todas  suas 
peripécias  de  drama  vivido,  a  sessão  de  psicanálise  se  converteu  no 
símbolo, na chave da dinâmica e do drama universal da humanidade. A 
arena trágica em que foram representadas as tragédias de Orestes e de 
Édipo  se  reduziu  às  dimensões  de  um  consultório  médico  de  última 
moda, onde se imitava o célebre “complexo de Édipo”. Esta expressão é 

61 
muito  característica  da  psicanálise,  devido  a  seu  estilo  em  que  se 
mistura  a  secura  científica  –  o  “complexo”  –  com  o  pathos  estético  – 
“Édipo” e seu cortejo de associações estéticas ao gosto de O Nascimento 
da Tragédia de Nietzsche. Ela põe um monóculo no olho cego de Édipo. 
A relação privada entre dois indivíduos – médico‐enfermo – provê 
para o freudismo o esquema de todas suas construções: um organismo 
cindido em dois polos fundamentalmente opostos – pulsões do “Eu” e 
pulsões  sexuais;  um  psiquismo  cindido  em  consciência  e  inconsciente; 
em “Eu” e “Id”, etc. com forças acopladas que se hipostasiam e que se 
convertem  em  atores  de  uma  luta  ideológica,  transformando  a  relação 
binária como o arquétipo de todas as relações sociais. É aí que convém 
buscar  uma  das  raízes  do  pansexualismo  freudiano,  neste  par  que 
enquanto  mínimo  social  é  particularmente  fácil  de  isolar  e  erigir  em 
microcosmos;  um  par  que  não  espera  nada  de  nada;  um  par  que, 
sexuado,  nos  diz  que  basta  o  amor  para  viver;  que,  apaixonados,  não 
precisam de mais nada e de ninguém no mundo. 
Todas  as  épocas  de  decadência  e  de  desagregação  social  se 
caracterizam,  tanto  em  sua  ideologia  quanto  em  sua  vida,  pela 
importância  exagerada  que  atribuem  ao  sexo.  Também  pela  ideia 
estreita  que  dele  fazem  invariavelmente,  privilegiando  sob  uma  forma 
abstrata  o  associal,  de  modo  que  o  sexual  tende  a  transformar‐se  num 
Ersatz [sucedâneo] do social. 
A distinção essencial e até exclusiva entre indivíduos se converte na 
distinção  entre  homens  e  mulheres,  e  todas  as  outras  referências  são 
consideradas  acessórias.  Não  se  compreendem  nem  se  estimam  as 
relações sociais senão na medida em que se as possa sexualizar. O resto 
se encontra desprovido de sentido e de importância. Esta era a situação 
às vésperas de 1789, assim como na época da decadência romana, e é o 
que  observamos  hoje  na  Europa  burguesa.  Daí  o  valor  de  sintoma  e  o 
interesse  particular  que  convém  dar  no  freudismo  à  sexualização 
integral da família e de todas as relações familiares, quaisquer que elas 
sejam  –  complexo  de  Édipo.  Esta  família  –  base  e  esteio  do  capitalismo  – 
apenas pode ser compreendida enquanto realidade econômica e social, 
mas sexualizando‐a integralmente se pode conferir, de alguma maneira, 
uma significação nova ou, como diriam nossos “formalistas”, “produzir 
um  estranhamento”.  De  fato,  o  complexo  de  Édipo  constitui  um 

62
magnífico  estranhamento  da  célula  familiar,  onde  em  lugar  de  um  pai 
empresário e um filho herdeiro, temos agora um pai que não é mais do 
que  marido  da  mãe  e  um  filho  rival!  Sabemos  que  o  próprio  mito  de 
Édipo  não  é  o  produto  de  uma  temática  sexual  –  o  sexual  não  é  aqui 
senão, como sempre, uma cobertura – mas de uma realidade econômica: 
a mãe é a proprietária – restos do matriarcado – e somente o casamento 
com ela daria direito ao trono – herança por via feminina; o filho devia 
ir‐se ou afastar seu pai. É unicamente esta situação que pode produzir o 
tema de Édipo – Hildebrand e Hadugrand na velha epopeia germânica, 
Rustem e Zorab na epopeia iraniana, o combate de Ilya Muromets e de 
seu  filho  na  epopeia  russa49,  etc.  Freud,  sexualizando  este  tema,  se 
serviu dele para tornar “estranha” a família. 
Que a interpretação freudiana do mundo e da sociedade, mediante 
uma sexualização de todos os objetos e de todas as relações, não tenha 
passado em branco prova‐o seu êxito. As relações sexualizadas de dois 
indivíduos  levaram  a  descuidar  de  todo  resto,  para  converter‐se  no 
arquétipo e na medida de todas as outras relações. A tal ponto deu certo 
que o mundo asfixiado que a filosofia burguesa de nossa época elabora 
para  além  do  social  está  voltado  necessariamente  a  encontrar  na 
sexualidade  –  entendida  abstratamente  –  sua  base  talvez  mais 
importante. 
 
*** 
 
Agora  que  apresentamos  um  juízo  sobre  os  fundamentos  do 
freudismo,  podemos  extrair  algumas  conclusões  relacionadas  aos 
aspectos mencionados em nossa exposição: a interpretação dos sonhos e 
o  chiste.  Nossa  apreciação  de  seu  método  e  nossa  definição  do 
inconsciente nos permitirão fazê‐lo em poucas palavras. 
Não  há  dúvida  de  que  para  compreender  as  formações  de 
compromisso  ou  substitutivas  –  imagens  dos  sonhos,  dos  mitos  e  da 

49  [N.T.] Esta passagem é citada por Marcos Antônio Moura‐Vieira, no artigo Bakhtin e 

Freud  em  diálogo  com  Dostoiévski  (Bakhtiniana,  São  Paulo,  vol.  1,  n.  2,  2º.  sem.  2009), 
página  77.  Citando  e  traduzindo  a  versão  francesa  deste  texto,  esta  referência  tem  a 
seguinte redação: o combate da Ilíada de Mourom e de seu filho na epopeia russa. Preferi a 
referência ao herói da epopeia de Kiev (Rússia) Ilya Muromets. 

63 
arte  –  a  interpretação  superficial  da  consciência  é  inoperante,  já  que 
inclusive  no  sujeito  mais  sincero  suas  motivações  não  constituem  uma 
explicação  objetiva  de  algumas  construções  ideológicas  –  admitamos 
que  os  sonhos  sejam  uma  forma  embrionária  destas  construções.  Mas 
do  fato  de  que  todos  os  elementos  de  uma  ideologia  estejam 
rigorosamente determinados – e mais, por forças puramente materiais – 
deduz‐se  acaso  que  todos  sejam  integramente  redutíveis  a  uma  base 
socioeconômica como a única apta para dar contas de sua necessidade? 
Evidentemente  não,  e  o  marxismo  nunca  afirmou  tal  coisa50.  As 
construções  ideológicas  implicarão  sempre  um  fator  –  importante  nos 
sonhos – que será irredutível à sua base e cuja explicação corresponderá 
à biologia, à fisiologia e, finalmente, à psicologia objetiva. De um lado, 
este  fator  jamais  deve  ser  considerado  isoladamente.  O  biológico  e  o 
psicológico  não  são  mais  do  que  abstrações  que  necessitam  de  uma 
ideologia  concreta  para  encarnar‐se  na  história  e  na  realidade 
socioeconômica – o que não é válido só para as formas da arte, do mito 
e  da  filosofia,  mas  também  para  os  sonhos.  De  outro  lado,  este  fator 
particularmente  estável  é  o  menos  criativo  da  ideologia  e,  por 
conseguinte,  o  que  participa  menos  no  conteúdo  atual  e  vivo  destas 
formas. De modo que o muito geral – comum ao conjunto dos homens 
ou ainda dos animais – e o muito individual é do que menos se fala. O 
primeiro  por  subentendido,  o  segundo  por  não  interessar  a  ninguém. 
Uma construção ideológica é antes de tudo social. 
Que faz Freud então? Ao não admitir os motivos conscientes como 
explicações  exaustivas  do  “conteúdo  manifesto”  da  imagem  –  no  que 
evidentemente  não  pode  ser  reprovado  –  busca  no  inconsciente  –  sob  a 
forma de pulsão infantil – uma determinação puramente psíquica que defina 
integralmente todos os aspectos desta imagem ideológica. 
O que nos leva à conclusão temível de que toda cultura – e não só o 
sonho  –  se  nutre  quase  exclusivamente  de  pulsões  infantis!  Uma  “base 
infantil” – é com que pensa Freud poder substituir inteiramente a base 
socioeconômica. 

50  Para 
mais  detalhes,  veja‐se  Kautsky,  O  que  quer  e  o  que  pode  dar  uma  interpretação 
marxista da história (in. Semkovski (ed) O materialismo histórico).

64
Porém, conhecendo o inconsciente freudiano, podemos dizer que o 
“conteúdo  latente”  de  Freud  –  desejos  infantis  exorcizados  no  sonho, 
pulsões  infantis  dos  mitos  e  da  arte,  etc.  –  não  é  mais  que  a  forma 
metafórica  de  um  X  construído  segundo  o  modelo  da  consciência  – 
construção  que  já  estudamos.  Este  X  é  a  necessidade  material  – 
socioeconômica, fisiológica, biológica e psicológica no sentido objetivo do 
termo.  Ainda  que  a  necessidade  material  não  seja  consciente,  isso  não 
significa que seja “inconsciente” no sentido que o entende Freud. 
O  método  da  associação  livre  tende  a  construir  a  metáfora  –  “o 
inconsciente”  –  e  a  projetá‐la  na  incógnita  X.  Como  estas  associações 
não são fortuitas, elas demandam uma explicação objetiva que, no caso de 
uma imagem de sonho, deverá naturalmente dar um lugar importante 
aos  fatores  biológicos  e  psicológicos.  No  entanto,  no  caso  das  imagens 
dos  mitos  e  da  arte  –  particularmente  quando  se  trata  de  jogo  de 
palavras  ou  da  filosofia  –  tudo  o  que  elas  implicam  de  essencial  e  de 
real – de criativo – terá que ter uma explicação socioeconômica. 
Deste ponto de vista, poderia proceder‐se a uma análise interessante 
de  todas  as  formulações  metafóricas  –  os  complexos  e  seus 
componentes  –  que  povoam  o  inconsciente  freudiano,  mas  isto 
ultrapassa os limites de nosso artigo. 
 
VII 
 
Para  provar  a  justeza  de  nossa  opinião  sobre  a  psicanálise,  seu 
núcleo metafórico profundo e suas enormes tendências ideológicas, não 
poderíamos  encontrar  nada  melhor  do  que  o  último  livro  de  O.  Rank, 
Das Trauma der Geburt [O trauma do nascimento] (1924), que faz aparecer 
o absurdo do freudismo. 
Recordemos  que  Rank  é  o  discípulo  preferido  de  Freud,  que  passa 
pelo  mais  ortodoxo  dos  freudianos  e  que,  ao  dedicar  este  livro  a  seu 
mestre  comemorando  seu  aniversário,  autoriza‐nos  a  não  ver  nele  um 
efeito  de  causalidade,  mas  a  última  palavra  em  psicanálise,  como  o 
confirmara o próprio Freud. 
Para  quem  crê  em  Rank,  toda  nossa  vida  e  toda  nossa  atividade 
cultural  tendem  exclusivamente  a  apagar  e  a  vencer,  de  distintas 

65 
maneiras  e  por  métodos  diversos,  este  traumatismo  de  nosso 
nascimento. 
É  traumatizante  vir  ao  mundo.  O  organismo  expulso  do  seio 
materno  receberá  neste  momento  um  choque,  ao  qual  somente  o  da 
morte  se  igualará  em  horror.  O  espanto  e  o  sofrimento  do  trauma 
constituem o ponto de partida de nosso psiquismo. O temor sofrido no 
nascimento  se  converte  no  primeiro  elemento  de  nossa  personalidade 
que vai ser reprimido, cuja atração se exercerá sobre todos os demais. É 
a  raiz  de  nosso  inconsciente  e  em  geral  de  todo  nosso  psiquismo,  pois 
nunca  mais  no  futuro  poderemos  nos  livrar  do  espanto  de  nosso 
nascimento.  Como  este  espanto  se  faz  acompanhar  de  uma  nostalgia 
por  nossa  estada  no  paraíso  intrauterino,  disto  resultará  em  nós  um 
sentimento  ambíguo  relativamente  ao  seio  materno,  que 
simultaneamente  nos  atrai  e  nos  rechaça.  É  este  desejo  de  voltar  atrás, 
unido a este temor, que fica em nós, para sempre, como a fonte de toda 
criatividade. 
O  estado  intrauterino  se  caracteriza  por  não  separar  a  necessidade 
de  sua  satisfação,  isto  é,  nada  separa  o  nosso  organismo  da  realidade 
exterior;  o  mundo  externo  do  feto  se  reduz  a  um  organismo  materno 
que de alguma maneira prolonga diretamente o do feto. 
Quer se trate do que as mitologias e sagas nos ensinam do paraíso e 
da  Idade  de  Ouro,  do  que  a  filosofia  nos  ensina  da  unidade  ideal  do 
mundo  e  da  harmonia  futura  ou  das  utopias  sociais,  todas  estas 
representações  mostram  inequivocamente  sua  origem  nesta  nostalgia 
pela  vida  intrauterina  que  algum  dia  conhecemos,  de  um  paraíso  que 
realmente  existiu  e  do  qual  não  conservamos  inconscientemente  não 
mais  do  que  uma  vaga  lembrança,  e  neste  sentido  não  são 
representações fictícias. 
Mas as portas do paraíso são guardadas por uma feroz sentinela – o 
espanto do nascimento, que se reergue cada vez que aparece em nós o 
desejo de voltar atrás e rechaça este desejo até o inconsciente. 
O  traumatismo  do  nascimento  reaparece  nos  sintomas  de  algumas 
enfermidades – fobias infantis, neuroses e psicoses adultas – nas quais o 
corpo do enfermo o reproduz, sem por isso curar‐se.  A cura não pode 
vir mais que de nossa atividade cultural – economia e técnica incluídas. 
O que leva  Rank a definir a cultura como a soma de todos os esforços 

66
que  tendem  a  transformar  o  mundo  no  equivalente,  no  substituto 
(Ersatzbildung) do seio materno. 
Neste  sentido,  cultura  e  técnica  são  puramente  simbólicas  e  este 
mundo  de  símbolos  em  que  vivemos  termina  sempre  por  nos  remeter 
ao  útero  materno  e  a  suas  vias  de  acesso  –  a  caverna  em  que  se 
refugiava  o  homem  primitivo,  a  habitação,  a  casa,  o  Estado,  etc.  são 
somente sucedâneos, símbolos do protetor seio materno. 
Rank  trata  de  retrotrair  as  formas  artísticas  à  mesma  origem:  daí, 
por  exemplo,  estas  estátuas  arcaicas  acocoradas  que  reproduzem,  sem 
equívoco  algum,  a  posição  do  feto.  Entretanto,  a  estatuária  grega, 
livremente projetada com seu jogo atlético ao exterior, marca sua vitória 
sobre  o  traumatismo.  Os  gregos  resolveram,  assim,  o  enigma  da 
Esfinge,  que  não  era  outro,  para  Rank,  que  o  enigma  de  nosso 
nascimento. 
Tanto  em  seu  conteúdo  quanto  em  sua  forma,  toda  criação  se 
encontra determinada pelo ato de nossa entrada no mundo, o que não 
impede  que,  para  Rank,  o  melhor  substituto  do  paraíso,  a  maior 
compensação do trauma do nascimento, resida em nossa vida sexual, na 
união  carnal  que  a  coroa,  único  retorno  parcial  ao  útero  que  nos  foi 
dado  conhecer51.  A  morte  também  é  percebida  pelo  homem  como  um 
retorno ao útero – daí que seu temor seja um eco do espanto de nosso 
nascimento – como o testemunham as mais antigas formas de sepultura: 
o  enterro  num  vão  cavado  na  terra  –  na  “Terra  Mãe”  ‐,  a  posição 
sentada do cadáver com as pernas encolhidas – alusão ao feto ‐; o corpo 
posto numa barca – o útero, o líquido amniótico ‐; a forma do féretro e 
dos  ritos  de  enterro,  em  que  vemos  sempre  a  morte  interpretada 
inconscientemente  como  um  retorno  ao  útero  materno.  Até  o  costume 
grego  de  incinerar  o  corpo  marca,  também,  a  maior  vitória  jamais 
conseguida  sobre  o  trauma  do  nascimento.  Rank  considera,  por  outra 
parte,  que  os  últimos  espasmos  da agonia  sejam  reprodução  exata  dos 
primeiros espasmos do organismo no ato do nascimento. 
É  inútil  dizer  que,  baseado  em  métodos  absolutamente  subjetivos,  a 
obra  de  Rank,  em  lugar  de  tratar  de  nos  dar  uma  análise  fisiológica 

51  Sobre  este  ponto,  veja‐se  também  Dr.  I.  Ferenczi,  Ensaios  sobre  uma  teoria  genital 
(1924).

67 
objetiva  deste  trauma  do  nascimento  e  das  consequências  que  possa  ter 
posteriormente  na  vida  de  nosso  organismo  físico,  limita‐se  a  buscar  sua 
lembrança  no  nosso  inconsciente,  tratando  de  encontrar  o  fundo  da 
experiência  subjetiva,  convencido  de  encontrar  aí  também  sua  realidade 
física. 
Relativamente  a  isso,  é  significativo  que  Rank  veja  nas  sessões  de 
psicanálise  –  a  cura  mesma  dura  normalmente  uns  nove  meses  –  uma 
simples  réplica  do  nascimento.  Nesta  réplica,  a  libido  se  fixa 
inicialmente no médico, e o consultório em penumbra – o enfermo é o 
único  que  recebe  luz,  o  médico  fica  na  penumbra  –  representa  para  o 
paciente – naturalmente para seu inconsciente – o útero materno. Até a 
reprodução do trauma do nascimento – o fim do tratamento – o obriga a 
libertar‐se  do  médico  e  a  eliminar  o  fato  traumático  que  o  separou  de 
sua mãe, operação cujo êxito lhe permitirá vencer sua tentação estéril de 
voltar atrás, ao útero, fonte última de todas as neuroses. 
Aí  se  encontra  posta  em  plena  luz  a  significação  metafórica  de  que  se 
reveste,  aos  olhos  de  todo  o  freudismo,  a  sessão  psicanalítica.  A 
tendência  ideológica  desta  teoria  é  levada  ao  extremo  de  sua  própria 
lógica,  a  ponto  tal  que  todo  comentário  crítico  se  torna,  sem  dúvida, 
supérfluo. 
Isto nos leva ao nosso ponto de partida, em outras palavras, à noite 
terrível  em  que  nascemos,  já  que  também  para  Rank  estamos 
condenados  a  passar toda  nossa  vida  esperando  a  bela manhã em  que 
morreremos  e  que  lamentavelmente  não  significará  um  progresso,  já 
que  nossa  agonia  repetirá  o  traumatismo  de  nosso  nascimento.  O  que 
nos  conduz  à  sabedoria  de  Pechorin  –  veja  nossa  epígrafe  –  que  pelo 
menos tem, relativamente a Rank, a vantagem de ser irônica, enquanto 
que Rank, em seu livro, profetiza e vaticina – dir‐se‐ia um mal Spengler. 
E tudo isso para nos revelar o quê? Que nosso organismo nasce com o 
único fim de reeditar toda sua vida... o trauma do nascimento. 
No  fundo,  a  filosofia  burguesa  não  tem  mais  que  uma  ideia,  a  de 
edificar o mundo para além do social52, reunir nele tudo o que a abstração 
pode isolar no homem integral, hipostasiar estas abstrações para depois 
coroar o todo com uma ficção qualquer. A isto se dedicam, cada uma a 

52  Cursivas de Guillermo Blanck.

68
sua maneira, as três correntes em que se divide o mundo burguês: trata‐
se  do  cosmismo  da  antropofagia  (Steiner),  o  biologismo  de  Bergson  e 
outros dii minores53da filosofia vitalista, e por último do psicobiologismo 
de Freud, que acabamos de analisar. Estas três correntes têm em comum 
a mazela da maior abstração com a arte brilhante da imagem literária – 
às  vezes  menos,  às  vezes  plenamente  –  e  deram  ao  burguês  de  nossa 
época sua figura de Kulturmensch – steineriano, bergsoniano, freudiano 
–  assim  como  os  três  altares  que  confessa  e  adora:  magia,  instinto  e 
sexualidade.  No  freudismo  os  traços  da  decomposição  se  revelam  mais 
crus, mais nítidos e mais cínicos – será isso que o faz se parecer com o 
materialismo? 
Destes traços aqui expostos, tratemos de extrair o essencial, a saber, 
a  vontade  de  recorrer  a  uma  projeção  em  imagens  para  atrair  até  o  paraíso 
asfixiante de um organismo psicologizado toda a necessidade material exterior, 
apresentando‐a  como  o  simples  jogo  de  forças  psíquicas  internas  –  pulsões 
sexuais e pulsões do “Eu”. 
E  para  chegar  a  quê?  Depois  de  ter  feito  de  toda  cultura  e  de  toda 
história  um  sucedâneo  do  ato  sexual,  chega‐se  a  fazer  do  ato  sexual 
mesmo um simples sucedâneo do estado intrauterino do feto. Daí, por 
que não ir até suas últimas consequências e reconhecer que este último 
é um sucedâneo do puro nada? 
Seria pelo menos lógico!54  
  
 
 
 

53  Em latim no original. Significa “deuses menores” (Nota de Guillermo Blanck).

54  Conclusão 
da  qual  o  próprio  Freud  não  ficou  atrás,  embora  lhe  tenha  dado  uma 
forma muito prudente e velada. Veja‐se Para além do princípio do prazer.

69 
A PALAVRA NA VIDA E A PALAVRA NA POESIA 
INTRODUÇÃO AO PROBLEMA DA POÉTICA SOCIOLÓGICA 
 
 

 
Na ciência literária, o método sociológico tem sido empregado qua‐
se  exclusivamente  para  tratar  as  questões  históricas,  enquanto  que  os 
problemas  da  chamada  poética  teórica  –  todo  o  complexo  de  problemas 
relativos à forma artística, e seus diferentes aspectos, e seu estilo, etc. – 
quase não têm sido abordados por este método. 
Existe uma opinião errônea, compartilhada, não obstante, também 
por alguns marxistas, de que a aplicação do método sociológico só é le‐
gítima quando a forma poética e artística, que a situação ideológica – de 
conteúdo – torna mais completa, começa a desenvolver‐se historicamen‐
te nas condições da realidade social externa. Por sua vez, em si mesma, 
a  forma  possui  uma  natureza  e  uma  constituição  de  leis  particulares, 
que não é sociológica, senão especificamente artística. 
Este  ponto  de  vista  contrasta  radicalmente  com  as  próprias  bases 
do método marxista: seu caráter monístico e histórico. A ruptura entre a 
forma  e  o  conteúdo,  entre  a  teoria  e  a  história  é  o  resultado  de  seme‐
lhantes pontos de vista. 
Vamos examinar estas opiniões falsas com certo detalhamento, posto 
que  são  muito  características  de  todos  os  estudos  de  arte  contemporâ‐
neos. 
É o Prof. Sakulin1 quem propõe um desenvolvimento mais preciso e 
consequente  deste  ponto  de  vista.  Distingue  ele,  na  literatura  e  em  sua 
história, duas dimensões: a imanente e a causal. O “núcleo artístico” ima‐
nente da literatura possui uma estrutura particular, que lhe é própria, e 
uma lei específica; é capaz, ademais, de sua própria evolução “natural”. 
Neste  processo  de  desenvolvimento,  porém,  a  literatura  se  submete  a 
uma ação “causal” do meio social extra‐artístico. Um sociólogo nada tem a 
fazer com o “núcleo imanente” da literatura; esta esfera apenas compete à 

                                                            
1   Cf. P. N. Sakulin. O método sociológico nos estudos literários [em russo], 1925. 

  71 
poética  teórica  e  histórica  que  são  seus  métodos  específicos.2  O  método 
sociológico, por sua vez, pode estudar com êxito apenas a interação cau‐
sal da literatura com o meio social extra‐artístico que a circunda. A análi‐
se imanente (não sociológica) da essência da literatura e de suas leis au‐
tônomas e intrínsecas deve antecipar‐se à análise sociológica3. 
Um sociólogo marxista não pode estar de acordo com uma afirmação 
semelhante. No entanto, nos vemos obrigados a reconhecer que até agora 
a sociologia vem elaborando, quase exclusivamente, as questões concre‐
tas  da  história  literária;  não  tem  produzido  nenhuma  tentativa  séria  de 
estudar, com a ajuda de seus métodos, a chamada estrutura “imanente” 
de uma obra artística. Esta última, de fato, está plenamente à disposição 
do método estético e psicológico, e de outros que nada têm a ver com o 
da sociologia.  
Para assegurar‐se disso, basta revisitar qualquer trabalho sobre a po‐
ética, ou, em geral, os estudos teóricos de arte. Não acharíamos neles nem 
rastro da aplicação das categorias sociológicas. A arte é tratada como se 
“por sua natureza” fosse tão alheia ao sociológico como é a estrutura físi‐
ca ou química de um corpo. A maioria dos estudiosos de arte russos ou 
europeus afirmam justamente isto acerca da literatura e de toda a arte, e 
com este fundamento delimitam insistentemente os estudos da arte como 
uma ciência especial, separada de qualquer enfoque sociológico. 
Motivam sua afirmação mais ou menos da seguinte maneira: cada coi‐
sa que se tem convertido em objeto de demanda e de oferta, quer dizer, em 
mercadoria, por seu valor e por seu movimento na sociedade humana, se 

                                                            
2   “Os elementos de uma forma poética (o som, a palavra, a imagem, o ritmo, a composi‐
ção, o gênero), os temas poéticos, o estilo artístico em geral se estudam previamente, de 
um  modo imanente,  mediante os  métodos que tem elaborado a poética histórica  ao  a‐
poiar‐se na psicologia, na estética, na linguística, métodos que na atualidade prática são 
chamados método formal” (Sakulin, op. cit., p. 27) 
3  “Ao reconhecer na literatura um fenômeno social, chegamos inevitavelmente ao pro‐

blema de seu condicionamento causal. Só que agora o historiador da literatura adqui‐
re o direito de assumir a postura de um sociólogo e de propor seus “porquês”, para 
incluir os fatos literários no processo geral da vida social de um período determinado, 
e  para  determinar  imediatamente  depois  seu  lugar  em  todo  o  movimento  histórico. 
Neste  momento  ganha  força  o  método  sociológico  que,  aplicado  à  história  literária, 
torna‐se histórico‐sociológico. “Em sua primeira fase imanente uma obra se concebia 
como um valor artístico em sua importância social e histórica” (op. cit., pp. 27‐8). 

72  
submete  às  leis sócio‐econômicas; suponhamos  que  conhecemos  perfeita‐
mente esta lei, porém, apesar disso, estamos distantes de entender algo da 
estrutura  física  e  química  desta  coisa convertida  em  mercadoria.  Ao  con‐
trário, o estudo mercadológico necessita antes de uma análise prévia físico‐
química da coisa. E só a um físico‐químico, com sua metodologia específi‐
ca,  compete  realizar  uma  análise  semelhante.  Segundo  a  opinião  desses 
estudiosos de arte, a situação em seu campo é análoga. Então a arte, sendo 
um  fator  social  submetido  à  influência  de  outros  fatores  também  sociais, 
está sujeita, por suposto, a uma lei sociológica geral, só que desta lei jamais 
poderíamos deduzir sua essência estética, da mesma maneira que não po‐
demos deduzir nenhuma fórmula química da lei econômica de circulação 
de mercadorias. Os estudos de arte e da poética teórica devem buscar uma 
fórmula específica equivalente na obra de arte, com plena independência 
da sociologia. 
Uma  concepção  semelhante  da  essência  da  arte,  como  temos  dito, 
contradiz radicalmente os fundamentos do marxismo. Com efeito, é im‐
possível encontrar uma fórmula química mediante o método sociológico, 
porém uma “fórmula” científica para qualquer esfera da ideologia somen‐
te se pode encontrar com os métodos sociológicos. Todos os demais mé‐
todos  “imanentes”  se  embaralham  com  o  subjetivismo.  Até  agora  não 
puderam sair de uma luta estéril de opiniões e pontos de vista, e menos 
ainda são capazes de propor algo que sequer remotamente resulte seme‐
lhante a uma fórmula química, rigorosa e precisa. Por suposto, tampouco 
o método marxista pode pretender a busca de uma fórmula: na esfera da 
ciência  da  ideologia,  pela  própria  natureza  do  objeto  de  estudo,  resulta 
impossível  o  rigor  e  a  precisão  das  ciências  humanas.  Porém,  um  grau 
máximo de aproximação de uma cientificidade efetiva no estudo da cria‐
ção ideológica chegou a ser pela primeira vez possível graças ao método 
sociológico em sua concepção marxista. Os corpos físicos e químicos exis‐
tem também fora da sociedade humana, enquanto que todos os produtos 
da  criação  ideológica  se  cultivam  somente  pela  e  para  a  sociedade.  As 
definições sociais nos chegam desde fora, como as definições dos corpos da 
natureza:  as  formações  ideológicas  são  internas  e  imanentemente  sociológicas. 
Com relação às formas políticas ou às do direito nada negaria esta reali‐
dade: qual é a essência imanente e não sociológica que se pode encontrar 
nelas. Os matizes formais mais sutis do direito ou da ordem política são 

  73 
igualmente acessíveis somente pelo método sociológico. Porém a mesma 
explicação  é  válida  para  as  outras  formas  ideológicas.  Todas  elas  são 
completamente sociológicas, ainda que sua estrutura, flutuante e comple‐
xa, se submeta a análises com grande dificuldade. 
A arte é também eminentemente social. O meio social extra‐artístico, 
a influenciar a arte desde o exterior, encontra nela uma resposta imediata 
e interna. Na arte, o que não é alheio atua sobre o alheio, e uma formação 
social influencia sobre outra. O estético, ou mesmo o jurídico, ou o cogni‐
tivo4, são tão somente uma variedade do social; portanto, a teoria da arte não 
pode  ser  senão  uma  sociologia  da  arte.5  Não  lhe  sobra  nenhum  trabalho 
“imanente”. 
 
II 
 
Para chegarmos a uma aplicação correta e produtiva da análise so‐
ciológica à teoria da arte, e em particular à poética, é preciso deixar de 
lado  dois  pontos  de  vista  falsos,  que  reduzem  excessivamente  as  fron‐
teiras da arte isolando algumas de suas situações. 
O primeiro  ponto de vista pode ser definido como a fetichização de 
uma obra de arte enquanto objeto. Esta fetichização atualmente predomina 
nos  estudos  da  arte.  O  campo  de  visão  do  investigador  está  limitado 
pela própria obra de arte, que se analisa como se esta fosse à exaustão 
toda a arte. Tanto o criador como os contempladores permanecem fora 
do campo de visão. 
O  segundo  ponto  de  vista,  pelo  contrário,  se  limita  ao  estudo  da 
psique do criador ou bem‐estar do contemplador (com maior frequência 
se põe um signo de igualdade entre ambos). As vivências do ouvinte ou 
do artista, deste ponto de vista, substituem a própria arte. 

                                                            
4   Volochínov utiliza aqui a divisão tripartite da atividade cultural do homem da mes‐
ma forma que podemos encontrar na obra de Bakhtin: o ético, o estético e o cognitivo 
(vida/arte/ciência) [N.T.]. 
5   Distinguimos entre a teoria e a história da arte tão somente para uma divisão técnica 

de trabalho. As categorias históricas se aplicam, sem dúvida, em todas as esferas das 
ciências humanas, tanto das históricas quanto das teóricas. 

74  
Assim,  para  o  primeiro  ponto  de  vista,  o  objeto  da  investigação  é 
unicamente  a  estrutura  da  obra  como  objeto;  enquanto  que  para  o  se‐
gundo, é solitariamente a psique individual do artista ou do ouvinte.  
O primeiro ponto de vista, em uma investigação estética dá priori‐
dade ao material. A forma, entendida de um modo muito restrito, como 
a forma do material, que o organiza como objeto único e acabado, chega 
a ser o objetivo principal e quase único da investigação. 
O chamado “método formal” é uma variante deste primeiro ponto 
de vista. Para este método, uma obra poética é um material verbal, or‐
ganizado pela forma de uma maneira determinada. A palavra [slovo] não 
se  analisa  como  um  fenômeno  sociológico,  a  não  ser  de  um  ponto  de 
vista  abstratamente  linguístico.  É  compreensível:  a  palavra  concebida 
mais amplamente, como um fenômeno da comunicação cultural, deixa 
de ser uma coisa centrada em si mesma e já não pode ser compreendida 
independentemente da situação social que a tem engendrado. 
O primeiro ponto de vista não pode ser desenvolvido até suas últi‐
mas consequências. Ao permanecer dentro dos limites do aspecto objetal 
da arte, resulta impossível assinalar como se delimita o material e quais 
são os aspectos que possuem um significado artístico. O material em si 
mesmo se confunde com o meio extra‐artístico que o rodeia e possui um 
número infinito de aspectos e definições: matemáticas, físicas, químicas 
e, finalmente, linguísticas. Por mais que analisemos todas as proprieda‐
des do material e todas as combinações dessas propriedades, nunca po‐
deremos  descobrir  seu  significado  artístico  sem  contrabandear  valores 
de um ponto de vista distinto, que não remodele o marco inicial da aná‐
lise do material. Da mesma maneira, por mais que analisemos a estrutu‐
ra química de algum corpo, jamais entenderemos seu valor de mercado 
sem adotar um ponto de vista econômico. 
A tentativa do segundo ponto de vista por encontrar o estético na psi‐
que individual do criador ou contemplador sofre igualmente infiltrações e 
influências [“infructuoso”]. Se continuarmos com nossa analogia econômi‐
ca, podia se dizer que uma tentativa similar havia sido a de pôr em mani‐
festação  as  relações  objetivas  de  produção  que  determinam  a  posição  do 
proletário na sociedade mediante uma análise de sua psique individual. 
Afinal de contas, os dois pontos de vista pecam em um mesmo er‐
ro: tentam encontrar uma parte na totalidade; fazem passar a estrutura de 

  75 
uma  parte  separada  do  todo  pela  estrutura  da  totalidade.  Enquanto  o 
“artístico” em sua completude não se encontra no objeto, nem na psique 
isolada do criador ou do ouvinte, a não ser que abarque os três aspectos 
por vez. O artístico representa uma forma especial da inter‐relação do cria‐
dor com os ouvintes, relação fixada em uma obra de arte. 
Esta comunicação  artística cresce sobre a base comum para todas as 
formas sociais, mas conserva, sem esforço, igual às demais formas soci‐
ais, sua singularidade: trata‐se de um tipo especial de comunicação que 
possui uma forma própria, característica somente deste tipo. A tarefa da 
poética  sociológica é  compreender  esta forma específica de comunicação  social, 
realizada e fixada no material de uma obra artística. 
Uma obra artística, tomada fora desta comunicação e independen‐
temente dela, representa somente um objeto físico ou um exercício lin‐
guístico;  se  faz  artística  somente  no  processo  de  interação  do  criador 
com  o  ouvinte  como  situação  essencial  no  acontecimento  desta  intera‐
ção. No material de uma obra de arte, tudo aquilo que não pode ser in‐
tegrado à comunicação entre o criador e o ouvinte, tudo aquilo que não 
pode  ser  o  “meio”  desta  comunicação,  nem  sequer  pode  adquirir  um 
significado artístico. 
Os métodos que subestimam a essência social da arte, tratando de en‐
contrar sua natureza e suas peculiaridades isoladamente na organização da 
obra enquanto objeto, na realidade se veem obrigados a projetar [proietsiro‐
vat] a inter‐relação social do criador e contemplador sobre os diversos as‐
pectos  do  material  e  dos  procedimentos  de  sua  composição  formal.  Da 
mesma  maneira,  a  estética  psicológica  projeta  as  mesmas  relações  até  a 
psique individual do ouvinte. Esta projeção distorce a pureza dessas inter‐
relações e oferece um conceito falso, tanto do material como da psique. 
A interação artística fixada em uma obra de arte, como dissemos, é 
absolutamente singular e não pode se reduzir a outros tipos de intera‐
ção:  ideológica,  política,  jurídica,  moral  etc.  Se  a  interação  política  cria 
as instituições e as formas de direito correspondentes, a interação estéti‐
ca  organiza somente a  obra  de  arte. Se  negar  esta  tarefa,  e  se  tratar  de 
criar, ainda que momentaneamente, uma organização política ou algu‐
ma outra forma ideológica, deixa, por isso mesmo, de ser interação esté‐
tica e perde sua singularidade. O traço característico da interação estética é 
justamente o fato de se realizar plenamente na criação da obra e nas suas cons‐

76  
tantes recriações mediante a contemplação criativa conjunta, e não necessita de 
nenhuma outra objetivação. Mas, esta forma peculiar de comunicação não 
aparece isolada: participa na corrente única da vida social, reflete em si a 
base  econômica  comum  e  entra  em  interação  e  intercâmbio  de  forças 
com outras formas de comunicação. 
O propósito de nosso trabalho é uma tentativa de compreender a for‐
ma da enunciação poética como forma desta específica comunicação esté‐
tica realizada no material da palavra. Para isto, teremos que analisar mais 
detalhadamente  alguns  aspectos  do  enunciado  artístico  fora  da  arte,  o 
discurso cotidiano comum, posto que já neste se encontram os fundamentos, 
as potencialidades de uma forma artística futura. A essência social da pa‐
lavra  aparece  aqui  mais  clara  e  nitidamente,  e  a  relação  do  enunciado 
com  o  meio  social  circundante  se  submete  com  uma  maior  facilidade  à 
análise rigorosa.    
 
III 
 
A palavra na vida, com toda evidência, não se centra em si mesma. 
Surge da situação extraverbal da vida e conserva com ela o vínculo mais 
estreito. E mais, a vida completa diretamente a palavra, que não pode ser 
separada da vida sem que perca seu sentido. 
Eis aqui as características e as valorações que costumamos atribuir a 
determinadas  enunciações  da  vida  real:  “é  mentira”,  “é  verdade”,  “está 
dito atrevidamente”, “não devia dizer isso” etc. 
Então, essas e outras valorações semelhantes, não importa que crité‐
rio as dirige – ético, cognitivo, político ou outro – abarcam mais longe e 
mais  extensamente  o  que  se  encontra  no  aspecto  propriamente  verbal, 
linguístico  da  enunciação:  junto  com  a  palavra  abordam  também  a  situação 
extraverbal da enunciação. Esses juízos e valorações se referem a uma certa 
totalidade, na qual a palavra diretamente entra em contato com o aconte‐
cimento da vida e se funde com ele em uma unidade indissolúvel. A pa‐
lavra  tomada  isoladamente,  como  fenômeno  puramente  linguístico,  não 
pode ser verdadeira, nem falsa, nem atrevida, nem tímida. 
Como se relaciona, então, a palavra da vida real com a situação ex‐
traverbal  que a tem engendrado?  Analisemos em um exemplo intencio‐
nalmente simplificado. 

  77 
Duas pessoas se encontram em uma casa. Estão caladas. Uma delas 
diz: “Bem”. O outro não responde nada. 
Para  nós  outros,  que  não  nos  encontramos  na  casa  na  situação  da 
conversação,  todo  esse  “discurso”  é  absolutamente  incompreensível.  A 
enunciação “Bem”, tomada isoladamente, é vazia e absolutamente carece 
de  sentido.  Não  obstante,  essa  singular  conversação  entre  os  dois,  que 
consta de uma só palavra expressivamente entonada, é plena de sentido, 
de importância e está perfeitamente concluída. 
Para descobrir o sentido e a significação dessa conversação, é neces‐
sário  analisá‐la.  Porém,  o  que  podemos  submeter  dela  em  análise?  Por 
mais que nos esforcemos com a parte estritamente verbal da enunciação, 
determinando da maneira mais fina o aspecto fonético, morfológico e sin‐
tático  da  palavra  “Bem”,  não  nos  aproximaríamos  um  passo  sequer  da 
compreensão do sentido global da conversação.  
Suponhamos que conhecemos a entonação com que foi pronunciada 
nossa  palavra:  por  exemplo,  de  uma  repreensão  indignada,  suavizada, 
não obstante, por certa dose de humor. Essa circunstância consegue pre‐
encher um pouco o vazio semântico do advérbio “Bem”, porém não che‐
ga a colocar às claras a significação do todo. 
Que  nos  falta?  Nos  falta,  justamente,  aquele  contexto  extraverbal  no 
qual a palavra “Bem” apresenta um sentido para aquele que a ouve. Esse 
contexto extraverbal da enunciação se compõe de três aspectos: 1) um hori‐
zonte espacial compartilhado por ambos os falantes (a unidade do visível: a 
casa,  a  janela  etc);  2)  o  conhecimento  e  a  compreensão  comum  da  situação,  i‐
gualmente compartilhados pelos dois, e, finalmente, 3) a valoração compar‐
tilhada pelos dois, desta situação. 
No  momento  da  conversação,  ambos  os  interlocutores  olharam  pela 
janela e viram que começava a nevar; os dois sabem que é mês de maio e 
que faz muito tempo que devia ter iniciado a primavera; finalmente, aos 
dois, o inverno tão prolongado é um mal; ambos esperam a primavera e a 
queda da neve tão fora de época entristece os dois. A enunciação se apoia di‐
retamente em tudo isto: no visto conjuntamente (os flocos de neve pela jane‐
la); no sabido conjuntamente (é mês de maio), e no avaliado conjuntamente (o 
inverno atrasado, o desejo de que chegue a primavera); tudo isso é abar‐
cado pelo sentido vivo, aparece absorvido por ele, e, sem dúvida, não es‐
tá expresso verbalmente, não está dito. Os flocos de neve estão atrás da 

78  
janela; a data, na folha do calendário; a valoração, na psique do falante, 
porém tudo isso aparece compreendido pela palavra “Bem”. 
Agora que nos inteiramos do subentendido, isto é, do horizonte espacial 
e semântico compartilhado dos falantes, fica totalmente claro o sentido global 
da enunciação “Bem”, como também fica compreensível sua entonação.  
Como, então, se relaciona este horizonte extraverbal com a palavra, 
como se relaciona o não‐dito com o dito? 
Acima de tudo, aqui parece evidente que a palavra está longe de re‐
fletir a situação extraverbal da mesma maneira como um espelho reflete 
um  objeto.  Em  nosso  caso,  a  palavra,  ao  contrário,  resolve  a  situação,  ao 
proporcionar  uma  espécie  de  resumo  valorativo.  Com  muito  maior  fre‐
quência, uma enunciação da vida real continua ativamente e desenvolve 
uma situação determinada, assinala um plano para uma ação futura e a 
organiza. A nós nos importa outro aspecto da enunciação da vida cotidi‐
ana:  da  forma  que  se  dá,  sempre  relaciona  entre  si  os  participantes  de 
uma  situação  enquanto  co‐partícipes,  que  igualmente  conhecem,  enten‐
dem e avaliam essa situação. Então, a enunciação se apoia em sua relação real 
e  material  a  um  mesmo  fragmento da existência,  atribuindo  a essa comunidade 
material uma expressão ideológica e um desenvolvimento ideológico posterior. 
Deste modo, a situação extraverbal não é tão somente a causa exter‐
na da enunciação, nem atua sobre esta como uma força mecânica externa. 
Não;  a situação forma parte da enunciação  como  a parte integral necessária de 
sua composição semântica. Portanto, uma enunciação da vida real, enquan‐
to um todo pleno de sentido, compõe‐se de duas partes: 1) de uma parte 
realizada verbalmente e 2) do subentendido. É por isso que se pode com‐
parar uma enunciação da vida real com um “entinema”.6  
No  entanto,  trata‐se  de  um  entinema  sui  generis.  A  própria  palavra 
“entinema” (em grego “entinema” é “o que se encontra na alma”, “o que 
se subentende”), ou mesmo a palavra “subentendido” soa de um modo 
demasiado psicologista. Poderia se pensar que a situação se dá em forma 
de um ato subjetivo psíquico (representação, pensamento, sentimento) na 
alma do falante. No entanto, isto não é assim: o individual e o subjetivo 
neste caso ficam em segundo plano frente ao socialmente objetivo. O que eu 
                                                            
6   Na lógica, um “entinema” é um juízo em que não se enuncia uma das premissas, mas 
a subentende. Por exemplo: “Sócrates é um homem, portanto é mortal”. Subentende‐
se “todos os homens são mortais”. 

  79 
sei,  vejo,  quero  e  amo,  não  pode  ser  um  subentendido.  Somente  aquilo 
que  nós,  os  falantes,  sabemos,  vemos,  amamos  e  reconhecemos,  no  que 
estamos ligados, pode chegar a ser a parte subentendida de uma enunci‐
ação. Logo, o social em sua base é plenamente objetivo: trata‐se antes de 
tudo de uma unidade material do mundo, que forma parte do horizonte dos 
falantes (a casa, a neve fora da janela em nosso exemplo), e da unidade das 
condições  reais  da  vida,  que  geram  a  comunidade  das  valorações:  o  pertenci‐
mento  dos  falantes  a  uma  mesma  família,  profissão,  ou  classe  social,  a 
algum grupo social e, finalmente, a uma mesma época, posto que todos os 
falantes  são  contemporâneos.  As  valorações  subentendidas  aparecem  en‐
tão não como emoções individuais, senão como atos socialmente necessá‐
rios e consequentes. As emoções individuais, por sua vez, somente podem 
acompanhar  o  tom  principal da valoração  social  em sua  qualidade  de  matiz: 
um “eu” somente pode realizar‐se na palavra se se apoia nos “outros”. 
Desta maneira, cada enunciação da vida cotidiana é um entinema so‐
cialmente  objetivo.  É  uma  espécie  de  palavra‐chave  que  somente  conhe‐
cem os que pertencem a um mesmo horizonte social. A peculiaridade das 
enunciações da vida cotidiana consiste em que elas, mediante milhares de 
fios, entrelaçam‐se com o contexto extraverbal da vida e, ao serem separa‐
das deste, perdem quase por completo seu sentido: quem desconhece seu 
contexto vital mais próximo não as entenderá. 
Porém  este  contexto  próximo  pode  ser  mais  ou  menos  extenso.  Em 
nosso exemplo, o contexto é demasiado reduzido: determina‐se pelo ho‐
rizonte  da  casa  mencionada  e  da  situação,  de  modo  que  a  enunciação  tem 
sentido tão somente para as duas pessoas. Porém aquele horizonte único 
no qual se apoia a enunciação pode ampliar‐se tanto no espaço como no 
tempo: existe o “subentendido” da família, da tribo, da nação, da classe social, 
dos dias, dos anos inteiros e inclusive de épocas totais. À medida que se amplia 
o horizonte geral e do grupo social que lhe corresponde, os aspectos sub‐
entendidos se tornam cada vez mais constantes.  
Quando  o  horizonte  real  subentendido  da  enunciação  é  estreito, 
quando coincide, como em nosso exemplo, com o horizonte real de duas 
pessoas que se encontram em uma casa e veem as mesmas coisas, então a 
mudança  mais  efêmera  deste  horizonte  pode‐se  contar  entre  os  suben‐
tendidos. Porém, quando existe um horizonte mais amplo, a enunciação 

80  
pode  somente  apoiar‐se  nos  aspectos  permanentes  e  estáveis  da  vida,  e 
nas valorações sociais essenciais e básicas. 
Uma importância especial têm neste caso as valorações subentendidas. 
Acontece que todas as valorações sociais principais que derivam dos traços 
particulares  da  existência  econômica  de  um  grupo  determinado  não  cos‐
tumam se enunciar, posto que formam parte da carne e do sangue de todos 
os representantes de um grupo dado; são as que organizam atos e modos 
de proceder, parecem haver se fundido com os objetos e os fenômenos cor‐
respondentes, e por isso não necessitam de fórmulas verbais. Cremos per‐
ceber  o  valor  de  um  objeto  junto  com  o  de  sua  existência,  como  uma  de 
suas  qualidades:  por  exemplo,  junto  com  o  calor  e  a  luz  do  sol  sentimos 
também  o  valor  que  tem  para  nós.  Deste  modo,  todos  os  fenômenos  da 
vida circundante se fundiram com as valorações. Se na realidade a valora‐
ção aparece condicionada pela própria existência de um coletivo dado, cos‐
tuma ser reconhecida dogmaticamente como algo subentendido e que não 
está sujeito à discussão. Pelo contrário, quando a valoração principal tem 
que se enunciar e se demonstrar, então já se tornou duvidosa, separou‐se 
de seu objeto, deixou de organizar a vida, e, por conseguinte, perdeu seu 
vínculo com as condições de vida da coletividade dada. 
Uma valoração saudável permanece na vida e já a partir dela organiza 
a própria forma da enunciação e sua entonação, apesar de estar distante de 
aspirar a uma expressão adequada no conteúdo da palavra. Tão logo a va‐
loração  migra  das  situações  formais  até  o  conteúdo,  pode‐se  dizer,  com 
toda  segurança,  que  se  está  preparando  uma  re‐valoração.  Uma  re‐
valoração  fundamentada  desta  maneira  não  se  encontra  no  conteúdo  da 
palavra  e  não  se  pode  deduzir  desta,  porém,  ao  contrário,  determina  a 
própria seleção da palavra, assim como a forma da totalidade verbal; é na 
entonação que a valoração encontra sua expressão mais pura. A entonação 
estabelece  um  vínculo  estreito entre a  palavra  e o  contexto extraverbal:  a 
entonação viva parece conduzir a palavra além das fronteiras verbais. 
Detenhamo‐nos  com  maior  detalhamento  no  vínculo  da  entonação 
com o contexto vital, no exemplo de enunciação que estamos analisando. 
Isto  nos  permitirá  realizar  uma  série  de  importantes  observações  sobre  o 
caráter social da enunciação. 
  
 

  81 
IV 
 
É importante ressaltar que a palavra “Bem”, semanticamente quase 
vazia, de nenhuma maneira pode predeterminar com seus conteúdos a 
entonação:  qualquer  entonação  pode  perfeita  e  livremente  se  apossar 
desta  palavra  –  uma  entonação  jubilosa  (alegre),  uma  lúgubre  (triste), 
uma depreciativa etc.; tudo depende do contexto em que a palavra apa‐
rece.  No  nosso  caso,  o  contexto  que  determina  a  entonação  –  cheia  de 
indignação e deboche suavizados com o humor – é a situação extraver‐
bal  que  analisamos  acima,  já  que  não  existe  um  contexto  verbal  próxi‐
mo. Pode‐se antecipar que, inclusive quando existe um contexto verbal 
imediato, autossuficiente em relação a qualquer outro ponto de vista, a 
entonação de todos os modos nos conduziria mais além dos limites: esta 
somente  pode  ser  compreendida  ao  compartilhar  as  valorações  suben‐
tendidas  de  um  grupo  social  determinado,  não  importa  quão  extenso 
seja o grupo em questão. A entonação sempre se encontra no limite entre o 
verbal e o extraverbal, entre o dito e o não dito. Mediante a entonação, a pa‐
lavra se relaciona diretamente com a vida. E antes de tudo, justamente 
na entonação o falante se relaciona com os ouvintes: a entonação é soci‐
al por excelência. É, sobretudo, sensível para com qualquer oscilação da 
atmosfera social em torno do falante. 
Em  nosso  exemplo,  a  entonação  brotou  da  ânsia  pela  chegada  da 
primavera,  compartilhada  pelos  interlocutores,  do  desgosto  comum 
com o inverno muito prolongado. A entonação, a transparência e clari‐
dade de seu tom, apoiaram‐se neste caráter compartilhado das valoriza‐
ções. Na atmosfera do sentir compartilhado, pode desvincular‐se livre‐
mente e diferenciar‐se no marco deste “tom” geral. Mas no caso em que 
não  exista  um  “coral  de  apoio”  tão  firmemente  pressuposto,  a  entona‐
ção  pode  tomar  outra  rota,  e  se  complicar  no  meio  de  outras  tonalida‐
des:  talvez,  assumir  tonalidades  de  desafio  ou  de  irritação  para  com  o 
ouvinte,  ou  finalmente,  ser  deslocada  e  reduzida  ao  mínimo.  Quando 
uma  pessoa  pressupõe  no  outro  um  desacordo,  ou  bem  quando  sim‐
plesmente  não  está  segura  e  duvida  da  aceitação,  confere  a  suas  pala‐
vras  uma  entonação  diferente,  além  de  estruturar  suas  enunciações  de 
outra maneira. Mais adiante veremos que não só a entonação, mas toda 
a estrutura formal do discurso, em uma considerável medida, depende 

82  
da relação que reduz a enunciação às supostas valorações compartilha‐
das daquele meio social para o qual está orientada a palavra. Uma en‐
tonação criativamente produtiva, segura e rica somente é possível base‐
ada  no  suposto  “coral  de  apoio”.  Onde  não  existe  este  apoio,  a  voz  se 
corta como em alguém que ri e logo se perde por ser um riso solitário: o 
riso se cala ou degenera, volta afetado, perde a segurança e definição e 
já não é capaz de gerar palavras alegres e burlescas. A comunicação das 
valorizações gerais representa o tecido sobre o qual o discurso vivo dos homens 
borda figuras entonacionais. 
Mas  a  orientação  por  uma  possível  valorização  que  a  entonação 
possui, a espera de um possível apoio coral, não esgota o sentido de sua 
natureza social. Esse não é mais que somente um dos aspectos da ento‐
nação,  aspectos  esses  dirigidos  ao  ouvinte,  porém  existe  nela  outra 
questão de extrema importância para a sociologia da palavra. 
Se  examinarmos  atentamente  a  entonação  da  enunciação  de  nosso 
exemplo, encontramos nela um traço “enigmático” que requer uma ex‐
planação especial. 
Prosseguindo,  na  entonação  da  palavra  “Bem”  não  só  se  percebia 
um  desgosto  passivo  com  o  que  acontecia  (a  nevasca),  mas  também 
uma indignação e um deboche ativo. A quem é dirigido este deboche? 
Claramente  não  se  refere  ao  ouvinte,  senão  a  qualquer  um  outro:  esta 
orientação do movimento entonacional com toda evidência alarga a si‐
tuação  para  dar  lugar  a  um  terceiro  participante.  Quem  é  este  terceiro 
participante? A quem se refere o deboche? À neve? À natureza? Talvez, 
ao destino? 
Obviamente,  na  nossa  enunciação  cotidiana  simplificada,  este  ter‐
ceiro  participante  –  herói  de  uma  obra  verbal  ‐  ainda  não  aparece  de 
todo definido: a entonação já assinala com toda claridade seu lugar, mas 
ele carece ainda de equivalente semântico e permanece não nomeado. A 
entonação estabelece aqui uma atitude viva com o objeto da enunciação 
que  quase  chega  a  apelar  como  se  fosse  um  culpado  encarnado  e  vivo, 
de modo que o segundo participante, que é o ouvinte, se toma por tes‐
temunha ou aliado. 
Quase  qualquer  entonação  vivente  de  um  discurso  apaixonado 
transcorre  na  vida  real  como  se  mais  além  dos  objetos  e  das  coisas  se 
direcionasse aos reais protagonistas da vida: lhe é própria, em alto grau, 

  83 
a tendência  à personificação. Se a entonação não aparece atenuada, como 
em  nosso  exemplo,  com  certa  dose  de  ironia,  se  aparece  espontânea  e 
direta, engendra uma imagem mítica, dá lugar a uma fórmula mágica, 
uma  liturgia,  como  acontecia  nas  fases  iniciais  da  cultura.  Entretanto, 
em nosso caso, temos que comparar com um fenômeno de extraordiná‐
ria importância na criação verbal: com a metáfora entonacional. A entona‐
ção soa como se a palavra desaprovara o inverno, causador real da úl‐
tima  neve,  como  se  fora  um  ser  animado.  Em  nosso  exemplo,  temos 
uma metáfora entonacional pura, que em nada transpassa os limites da 
entonação; não obstante nela dormita, como em um berço, uma poten‐
cial  metáfora  semântica  comum.  Se  se  realizasse  esta  potencialidade,  a 
palavra “Bem” se desvincularia, aproximadamente, na seguinte expres‐
são metafórica: ʹAh  que  inverno tão  obstinado, não quer ir  embora, ainda 
que  já  seja  “hora!”ʹ.  Contudo  esta  possibilidade  patente  na  entonação 
não  foi  realizada:  a  enunciação  se  bastou  com  o  advérbio  “Bem”,  se‐
manticamente quase nulo. 
Há que pontuar que a entonação no discurso cotidiano tem, em ge‐
ral,  uma  maior  capacidade  metafórica  que  as  palavras:  nela  parece  so‐
breviver a antiga alma mitopoética. A entonação soa de tal maneira co‐
mo  se  o  mundo  em  torno  do  falante  estivesse  ainda  repleto  de  forças 
animadas:  a  entonação  ameaça,  se  indigna,  ou  bem  ama  e  acaricia  os 
objetos e fenômenos inanimados, enquanto que as metáforas comuns da 
língua  conversacional,  em  sua  maioria,  se  extinguiram  e,  semantica‐
mente, as palavras são pobres e prosaicas. 
A metáfora entonacional tem parentesco latente com a metáfora ges‐
tual  (a  própria  palavra  era  inicialmente  um  gesto  linguístico,  um  com‐
ponente de um complexo gesto que tomava o corpo todo), entendendo 
por gesto tanto a mímica como os gestos do rosto. O gesto, igual à ento‐
nação, necessita do apoio coral dos circundantes: só em uma atmosfera 
de  simpatia  social  resulta  possível  um  gesto  livre  e  seguro.  Por  outra 
parte,  o  gesto,  o  mesmo  que  a  entonação,  alarga  a  situação  e  introduz 
um terceiro participante, o herói. Neste gesto, dormita sempre o germe 
de agressão ou de defesa, de ameaça ou de carícia, e ao que contempla e 
ouve  lhe  cabe  o  papel  de  aliado  ou  de  testemunha.  Com  frequência  o 
“protagonista” do gesto é tão somente um objeto inanimado, um fenô‐
meno ou alguma circunstância vital. Quando estamos contrariados, por 

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exemplo,  ameaçamos  alguém  com  um  punho  ou  simplesmente  com  o 
olhar de viés, mas também sabemos sorrir a tantas coisas: ao sol, às ár‐
vores, aos pensamentos! 
É  preciso  recordar  constantemente  o  seguinte  (o  que  esquece  com 
frequência a estética psicológica): a entonação e o gesto são ativos e objetivos 
por sua natureza e tendência. Não só expressam um estado passivo de â‐
nimo do falante, mas implicam sempre uma relação viva, enérgica, que 
vai até o mundo exterior e até o meio social circundante, no confronto 
com  os  inimigos,  os  amigos,  os  aliados.  Entonando  e  gesticulando,  o 
homem ocupa uma posição social ativa com respeito aos valores deter‐
minados, determinada pelas mesmas condições de sua existência social. 
Justamente este aspecto social e objetivo, e não o lado subjetivo e psico‐
lógico da entonação e do gesto, deveria interessar aos teóricos das artes 
respectivas, porque justamente aquele está cheio de cimento provindos 
das forças destes fenômenos: forças estéticas e criadoras, construtivas e 
organizadoras da forma artística. 
Assim, toda entonação aparece orientada em duas direções: com res‐
peito ao ouvinte enquanto aliado ou testemunha, e com respeito ao ob‐
jeto da enunciação como se fosse um terceiro participante vivo; a ento‐
nação o molesta, o acaricia, rebaixa ou engrandece. Esta dupla orientação 
social determina e atribui um sentido a todos os aspectos da entonação. Mas o 
mesmo é válido para os demais aspectos de uma enunciação verbal: to‐
dos eles se organizam no mesmo processo da dupla orientação do falante: 
esta  origem  social  se  manifesta  mais  facilmente  na  entonação,  que  é  o 
aspecto mais sensível, flexível e livre da palavra. 
Deste modo (atualmente já temos o direito do dizer), toda palavra real‐
mente pronunciada (ou escrita com sentido), que está aconchegada em um 
dicionário, é expressão e produto da interação social de três: do falante (autor), do 
ouvinte (leitor), e daquele de quem ou de que se fala (protagonista). A palavra é 
um  evento  social,  não  está  centrada  em  si  mesma  como  certa  magnitude 
linguística abstrata, nem pode ser psicologicamente deduzida da consciên‐
cia  do  falante  subjetiva  e  ilhada.  É  por  isso  que  o  enfoque  linguístico‐
formal  e  o psicológico  disparam  assim  mesmo  fora  do neutro:  a essência 
concreta e sociológica da palavra ‐ a única que é capaz de convertê‐la em 
verdade ou em mentira, em vil ou em nobre, em necessária ou em inútil – é 
vista segundo essas duas perspectivas como incompreensível e inacessível. 

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Naturalmente, a “alma social” da palavra também se desenvolve artistica‐
mente como significante: bela ou disforme. Ainda que ao submeter‐se ao 
enfoque principal mais concreto, que é o sociológico, os dois pontos de vis‐
ta abstratos – o linguístico‐formal e o psicológico – conservem sua impor‐
tância. Sua colaboração é inclusive necessária, porém em si mesmos, toma‐
dos isoladamente, são incapazes de explicar o todo. 
Uma  enunciação  concreta  (e  não  uma  abstração  linguística)  nasce, 
vive e morre no processo de interação social dos participantes da enun‐
ciação. Sua significação e sua forma em geral se definem pela forma e o 
caráter desta interação. Ao arrancar a enunciação deste chão real que a 
alimenta, perdemos a chave que abre o acesso de compreensão tanto de 
sua forma quanto de seu sentido; em nossas mãos ficam ou uma moldu‐
ra linguística abstrata, ou um esquema abstrato de sentido (a consagra‐
da  “ideia  da  obra”  dos  antigos  teóricos  ou  historiadores  da  literatura): 
duas  abstrações  que  são  irreconciliáveis  entre  si,  posto  que  não  existe 
uma base concreta para sua síntese viva. 
   
* * * 
 
Agora somente nos resta recapitular em torno de nossas pequenas 
análises  da  enunciação  viva  e  daquelas  potencialidades  artísticas,  germes 
de uma futura forma e de um futuro conteúdo, que encontramos nela. 
Quaisquer que sejam o sentido vital e a viva significação da enun‐
ciação  não  coincidem  com  a  estrutura  puramente  verbal.  As  palavras 
ditas  estão  impregnadas  do  suposto  e  do  não‐dito.  Aquilo  que  se  cos‐
tuma  chamar  “compreensão”  e  “avaliação”  da  enunciação  (acor‐
do/consenso  ou  desacordo/dissenso)  sempre  abarca,  junto  com  a  pala‐
vra, a situação cotidiana extraverbal. Deste modo, a vida não atua sobre 
a  enunciação  desde  o  exterior:  essa  a  impregna  desde  o  interior  da  e‐
nunciação, enquanto unidade e comunidade, seja da realidade objetiva 
que  circunda  os  falantes,  seja  das  substanciais  valorações  sociais  que 
brotam  dessa  realidade  objetiva,  fora  das  quais  é  impossível  existir 
qualquer enunciação plena de sentido. A entonação se situa na fronteira 
entre  a  vida  e  a  parte  verbal  da  enunciação;  parece  bombear  a  energia 
de uma situação vital à palavra, e atribui a tudo o que é linguisticamen‐
te estável uma dinamicidade histórica viva e uma unicidade irrepetível. 

86  
Finalmente, a enunciação reflete em si a interação social entre o falante, 
o ouvinte e o herói, e vem a ser o produto e a fixação de sua interação 
viva no material da palavra. 
A  palavra  é  uma  espécie  de  “cenário”  de  certo  acontecimento.  A 
compreensão autêntica de um sentido global deve reproduzir este acon‐
tecimento da relação recíproca dos falantes, “representar‐lhe” outra vez, 
e o que compreende adota o papel de ouvinte. Porém para cumprir com 
este papel deve compreender claramente também as posições de outros 
participantes. 
Para o ponto de vista da linguística não existe, a princípio, nem este 
acontecimento, nem seus participantes vivos, posto que está mais ligada 
à palavra abstrata e nua, com seus aspectos igualmente abstratos (o fo‐
nético, o morfológico etc.); é por isso que o sentido global da palavra e 
seu  valor  ideológico  –  cognoscitivo,  político,  estético  –  são  inacessíveis 
para este ponto de vista. Como não pode existir uma lógica linguística 
ou  uma  política  linguística,  da  mesma  maneira  não  pode  existir  uma 
poética linguística. 
 

 
Então,  em  que  se  diferencia  uma  enunciação  verbal  artística  –  uma 
obra poética acabada – de uma enunciação cotidiana? 
Desde o princípio está claro que em uma enunciação literária a pala‐
vra não se encontra, nem pode se encontrar, na mesma dependência es‐
treita  de  todas  as  situações  do  contexto  extraverbal,  do  todo  imediata‐
mente visível e conhecido como acontece na vida. Uma obra poética não 
pode se apoiar nas coisas e nos acontecimentos circundantes mais próxi‐
mos como em algo subentendido, sem introduzir uma só alusão a eles na 
parte verbal da enunciação. Deste ponto de vista, à literatura se deman‐
dam, desde logo, solicitações muito maiores: muitas coisas, que na vida 
ficaram fora do cenário da enunciação, agora devem encontrar um repre‐
sentante verbal. Deste ponto de vista prático‐objetal, em uma obra artísti‐
ca não deve haver coisas não‐ditas. 
Acaso a consequência disto seja que, na literatura, o falante, o ouvin‐
te  e  o  herói  se  encontram  pela  primeira  vez  e  não  sabem  um  do  outro, 

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carecem de um horizonte comum, e por isto não tem nada em que se a‐
poiar, não comportam subentendido algum? 
Na realidade, uma obra poética também está envolvida e entretecida 
com o contexto na enunciação da vida. Se na realidade o autor, o ouvinte 
e o herói se encontram pela primeira vez como pessoas abstratas não re‐
lacionadas mediante nenhum horizonte, ou se tomaram suas palavras de 
um  dicionário,  o  resultado  dificilmente  teria  sequer  sido  uma  obra  em 
prosa,  e  certamente  nunca  seria  uma  obra  poética.  A  ciência  até  certo 
ponto se aproxima deste limite – uma definição científica possui um mí‐
nimo de subentendidos – porém, poderia se demonstrar que tampouco a 
ciência pode prescindir dos subentendidos. 
Na literatura são importantes acima de tudo os valores subentendidos. 
Se pode dizer que uma obra artística é um potente condensador de valorações 
sociais não expressadas: cada palavra está impregnada delas. São justamen‐
te essas valorações sociais as que organizam a forma artística enquanto sua ex‐
pressão imediata. 
Acima de tudo, as valorações determinam a seleção das palavras pelo 
autor e a percepção desta seleção (co‐eleição) pelo ouvinte. Porque o poe‐
ta não escolhe suas palavras de um dicionário, mas do contexto da vida 
no qual as palavras se sedimentam e se impregnam de valorações. Deste 
modo, escolhe as valorações relacionadas com as palavras, e, além disso, 
desde o ponto de vista dos portadores encarnados destas valorações. Po‐
de‐se dizer que o poeta trabalha todo o tempo com a aprovação ou desa‐
provação, com a concordância ou a discordância do ouvinte. Ademais, a 
valoração é ativa também com relação ao objeto da enunciação, que é o 
herói (protagonista). O ouvinte e o herói são participantes permanentes do a‐
contecimento  da  criação.  Este  acontecimento  jamais  deixa  de  ser  o  da  co‐
municação viva entre todos eles. 
O problema da poética sociológica estaria resolvido se se conseguisse 
explicar cada situação da forma como uma expressão ativa da valoração 
destes dois sentidos: há o ouvinte e há o objeto da enunciação que é o he‐
rói7. Porém,  para cumprir  com tal tarefa atualmente se dispõe de muito 
poucos dados. Somente é possível uma tentativa de assinalar apenas ca‐
minhos preliminares nesta direção. 

                                                            
7
 Aqui abstraímos os problemas da técnica da forma, acerca da qual falaremos adiante. 

88  
A  estética  formal  contemporânea  determina  a  forma  artística  como 
forma  do  material.  Se  formos  consequentes  com  este  ponto  de  vista,  tere‐
mos que subestimar o conteúdo, porque para este não sobra lugar na o‐
bra  de  arte.  No  melhor  dos  casos  o  conteúdo  vem  a  ser  um  aspecto  do 
material, e desta maneira somente indiretamente é organizado pela forma 
artística, que se refere diretamente ao material.8 
A  forma,  segundo  esta  concepção,  perde  seu  caráter  ativo  e  avalia‐
dor, e se converte somente em um estimulante das sensações agradáveis 
absolutamente passivas no ouvinte. 
A forma, por isso, está realizada mediante o material, porém sua sig‐
nificação ultrapassa os limites deste. A significação, o sentido da forma não se 
refere ao material, mas ao conteúdo. Assim, se pode afirmar que a forma de 
uma estátua não é a forma do mármore, mas a do corpo humano e “hero‐
íza”  o  homem  representado;  o  “acaricia”,  ou  melhor,  possivelmente  o 
“diminui” (estilo caricaturesco na plástica), isto é, expressa uma determi‐
nada valoração do representado. 
Porém esta significação valorativa da forma se dá de modo mais evi‐
dente na poesia. O ritmo e os outros elementos formais com toda a certe‐
za  expressam  certa  atitude  para  o  representado:  a  forma  faz  cantar,  faz 
chorar ou o ridiculariza. 
A estética psicológica o considera como “situação emocional” da for‐
ma. Para nós, não importa aqui o aspecto psicológico do assunto, não nos 
importa quais são as forças psicológicas participantes da criação e da per‐
cepção criativa da forma: o que nos importa é a significação dessas vivên‐
cias, seu caráter ativo, sua orientação para o conteúdo. Mediante a forma 
artística o criador ocupa certa posição ativa com relação ao conteúdo. A forma 
em  si  não  deve  ser  forçosamente  agradável  –  sua  fundamentação  hedo‐
nista é absurda; a forma deve ser uma valoração convincente do conteúdo. 
Assim, a forma do inimigo pode ser inclusive repulsiva, como estado fi‐
nal resultante. O prazer do ouvinte vem a ser a consequência do fato de 
que se trata de uma forma digna do inimigo, e de que está realizada perfei‐
tamente desde o ponto de vista técnico pelo material.  
A valoração ideológica expressada pela forma de nenhuma maneira 
deve passar ao conteúdo por alguma sentença, por um juízo moral, polí‐

                                                            
8   É o ponto de vista de V. M. Zhirmunski. 

  89 
tico  ou  de  qualquer  outro  tipo.  A  valoração  deve  permanecer  no  ritmo, 
no próprio movimento valorativo do epíteto, da metáfora, ou por meio do 
desenvolvimento do acontecimento  representado; deve realizar‐se exclusi‐
vamente  com  recursos  formais  do  material.  Porém,  ao  mesmo  tempo, 
sem  passar  o  conteúdo,  a  forma  não  deve  perder  vínculo  com  este,  sua 
referência ao conteúdo; caso contrário se converte em experimento técni‐
co, carente de qualquer sentido artístico. 
Aquela definição geral de estilo proposta pela poética clássica e neo‐
clássica, assim como a divisão geral dos estilos em “alto” e “baixo”, põe 
certamente às claras esta natureza valorativa da forma artística. A estru‐
tura da forma é, com efeito, hierárquica, e neste sentido se aproxima das 
gradações políticas e jurídicas. Como estas, cria, em um conteúdo estru‐
turado artisticamente, um complexo sistema de  inter‐relações hierárqui‐
cas: cada elemento seu – por exemplo, um epíteto ou uma metáfora – ou 
eleva o definido ao grau máximo, ou o rebaixa e iguala. A escolha do he‐
rói ou do acontecimento determina já desde o princípio o grau geral de 
elevação da forma e a conveniência de uns ou outros procedimentos for‐
mais. Esta exigência  principal da adequação do  estilo leva em conta a ade‐
quação  hierárquica  valorativa  da  forma  e  do  conteúdo:  estes  devem  ser  igual‐
mente dignos um do outro. A escolha do conteúdo e da forma é um mesmo 
ato que estabelece a posição principal do criador. Neste ato encontra sua 
expressão uma mesma valoração social. 
 
VI 
 
Uma análise sociológica, supõe‐se, pode partir somente da composi‐
ção verbal e linguística de uma obra, e assim não deve e não pode se fe‐
char em seus limites como o faz a poética linguística. Porque inclusive a 
contemplação  artística  na  leitura  de  um  poema  parte  do  grafema  (isso 
equivale a dizer, da imagem visual de uma palavra escrita ou impressa), 
mas já no momento seguinte da percepção esta imagem visual se abre e 
quase se apaga pelos demais aspectos da palavra – pela articulação, pela 
imagem sonora, pela entonação, pela significação ‐ e esses aspectos mais 
adiante  nos  obrigarão  a  refazer  as  bases  e  limites  da  palavra  em  geral. 
Então se pode dizer que o aspecto puramente linguístico da obra está para a 
totalidade artística na mesma relação em que o grafema está para a totalidade da 

90  
palavra. Na  poesia,  a  palavra  é  o  “cenário”  do  evento,  que  uma  pessoa 
que tenha uma percepção artística profunda e válida, coloca em cena pre‐
nunciando  com  muita  sensibilidade,  nas  palavras  e  nas  formas  de  sua 
organização, as relações vivas e específicas existentes entre o autor e o 
mundo,  assim  como  o  autor  as  extrai,  e  de  tal  modo  que  entre  nessas 
relações como um terceiro participante, ou seja, como ouvinte. Ali onde 
a análise linguística vê as palavras tão solitárias e as inter‐relações entre 
seus aspectos abstratos (fonéticos, morfológicos, sintáticos e outros), para 
uma  percepção  artística  viva  e  para  uma  análise  sociológica  concreta  se 
manifestam as relações entre a gente, relações tão somente refletidas e fi‐
xas no material verbal. A palavra é o esqueleto que se enche de carne vi‐
va  somente  no  processo  da  percepção  criativa  e,  por  consequência,  so‐
mente no processo da comunicação social viva. 
Na sequência, trataremos de ressaltar, de forma sucinta e preliminar, 
aqueles  três  aspectos  essenciais  nas  inter‐relações  dos  participantes  de 
um  acontecimento  artístico  que  determinam  as  linhas  mais  básicas  e  as 
mais plenas de um estilo poético enquanto fenômeno social. Dentro dos 
limites  do  presente  artigo  é  impossível,  supomos,  uma  pormenorização 
em torno desses aspectos. 
Ao autor, ao herói e ao ouvinte nos referiremos, não como antes, si‐
tuados fora do acontecimento artístico, senão sempre na medida em que 
representam  seus  componentes  necessários.  Trata‐se  daquelas  forças  vi‐
vas que determinam a forma e o estilo, que um ouvinte competente é ca‐
paz de perceber com clareza. Por outro lado, todas aquelas definições que 
um historiador da literatura pode dar em volta do autor e de seus perso‐
nagens ‐ a biografia do autor, uma qualificação cronológica e sociológica 
mais exata dos heróis etc., são aqui, logo, excluídas: não constituem parte 
diretamente da estrutura da obra, permanecem fora dela. Assim mesmo, 
somente  tomamos  em  conta  aquele  ouvinte  que  é  também  considerado 
pelo autor, aquele a que está orientada a obra; enfim, o ouvinte que em 
virtude do dito determina internamente a forma. Mas, excluímos o públi‐
co real, aquele que representa de fato a massa leitora de um escritor de‐
terminado.  
O primeiro aspecto do conteúdo que determina a forma é a categoria axi‐
ológica  do  acontecimento  representado  e  de  seu  portador  ou  de  seu  herói 
(que tenha um nome ou não); aspecto que examina a estrita correlação entre 

  91 
a posição hierárquica do criador e do ouvinte. Aqui surge uma relação bilate‐
ral, como sucede analogamente no direito ou na política: senhor/escravo, so‐
berano/súdito, companheiro/companheiro, etc. 
O  tom  principal  do  estilo  de  uma  enunciação  se  determina,  desta 
maneira, em função da pessoa de quem se trata e em que relação se en‐
contra  com  o falante: se é superior,  inferior  ou  igual a este  na escala  da 
hierarquia social. Rei, pai, irmão, escravo, companheiro, enquanto heróis 
de uma enunciação, determinam também sua estrutura formal. Este peso 
específico da hierarquia do herói está, por sua vez, determinado por aquele 
contexto  valorativo  não  expressado,  ao  qual  aparece  também  vinculado 
estreitamente a enunciação poética. Como a “metáfora entonacional”, de 
nosso  exemplo,  estabelecia  uma  atitude  viva  com  respeito  ao  objeto  da 
enunciação, assim todos os elementos do estilo de uma obra poética estão 
impregnados pela atitude valorativa do autor até o conteúdo e expressam 
sua postura social principal. Ressaltemos mais uma vez que não nos refe‐
rimos  àquelas  valorações  ideológicas  que  em  forma  de  juízos  e  conclu‐
sões estão presentes no próprio conteúdo da obra, senão a uma valoração 
por meio da forma, que é a mais radical e funda, e se expressa na mesma 
modalidade da visão e da disposição do material artístico. 
Algumas línguas, o japonês em particular, possuem um rico e diver‐
sificado arsenal específico de formas lexicais e gramaticais que se empre‐
gam  estritamente  de  acordo  com  a  categoria  do  herói  da  enunciação  (o 
protocolo na língua).9 
Poderíamos  dizer:  aquilo  que  para  um  japonês  é  questão  gramatical, 
para nós é questão de estilo. Os componentes mais importantes do estilo de 
uma  epopeia  heróica,  uma  tragédia,  uma  ode  etc.,  determinam‐se  justa‐
mente por esta posição hierárquica da enunciação com relação ao falante. 
Não  se  deve  considerar  que  na  literatura  contemporânea  esta  de‐
terminação hierárquica recíproca entre criador e herói tenha sido elimi‐
nada: ela se tornou mais complexa, não reflete mais com a precisão pró‐
pria, por exemplo, do classicismo a hierarquia sócio‐política contempo‐
rânea a ela; mas o princípio da variação do estilo em dependência da variação 

                                                            
9   Cfr. A descrição de Kavi [antiga língua de Java] in W. Humboldt, Gesammelte Schrif‐
ten, 1904‐36, vol. II, p. 335, e o manual de língua japonesa de Hoffman, Japan. Sprach‐
lhere, p.75. 

92  
do valor social do herói da enunciação obviamente  permanece o  mesmo e  con‐
serva a mesma força de antes. O poeta, de fato, não odeia um inimigo pes‐
soal  seu,  não  ama  e  não  lisonjeia  um  amigo  pessoal  seu  com  a  forma, 
não  se  alegra  ou  se  aflige  por  causa  dos  acontecimentos  da  sua  vida 
pessoal. Mesmo se o poeta atingisse uma parte considerável do seu pa‐
thos pelas vicissitudes da sua vida pessoal, deveria generalizar e socializar 
este  pathos  e,  consequentemente,  deveria  trabalhar  sobre  o  evento  cor‐
respondente até torná‐lo socialmente significativo.  
O segundo aspecto que determina o estilo das correlações existen‐
tes  entre  o  criador  e  o  herói  é  o  grau  de  proximidade  existente  entre  os 
dois. Tal aspecto tem em todas as línguas uma expressão gramatical di‐
reta, ou seja, o emprego da primeira, da segunda e da terceira pessoa, e 
a modificação da estrutura da frase conforme o seu sujeito (o eu, o tu, o 
ele). A forma que assume um julgamento sobre a terceira pessoa, a for‐
ma empregada, no entanto, em direção a uma segunda pessoa, e, enfim, 
aquela usada para falar de si (e as variedades dessas formas) são já dife‐
rentes gramaticalmente. Portanto, na própria estrutura da língua se reflete o 
acontecimento da inter‐relação dos falantes. 
Em certas línguas, as formas puramente gramaticais são capazes de 
transmitir com maior flexibilidade os matizes da inter‐relação social dos 
falantes  e  os  diversos  graus  de  sua  proximidade.  Deste  ponto  de  vista, 
interessam as formas do plural em algumas línguas: as chamadas formas 
inclusivas e  exclusivas.  De modo  que  o falante, ao dizer “nós”, leva em 
conta o que lhe escuta, se o inclui no sujeito da enunciação, utiliza uma 
forma especial. Mas se pressupõe a si mesmo e a um outro (“nós” no sen‐
tido de “eu” e “ele”), então emprega uma forma diferente. Tal é o uso do 
número dual em algumas línguas australianas. Também para o número 
ternário existem duas formas particulares: uma delas quer dizer “eu, tu, 
ele”, e a outra significa “eu, ele, ele” (o “tu” ouvinte aparece excluído).10  
Nas  línguas  europeias,  as  relações  mencionadas  e  as  semelhantes  a 
elas  não  têm  uma  expressão  gramatical  específica.  O  caráter  dessas  lín‐
guas é mais abstrato e não é capaz de refletir, no mesmo grau, a situação da 
enunciação em sua mesma estrutura gramatical. Mas mais que isso, essas in‐

                                                            
10  Cf.  Matthews,  Aboriginal  Languages  of  Victoria.  Assim  mesmo,  W,.  Humboldt,  op. 

Cit. 

  93 
ter‐relações encontram suas expressões – e de maneira infinitamente mais 
fina e diferenciada – no estilo e na entonação da enunciação: mediante pro‐
cedimentos puramente literários a situação social da criação encontra um 
reflexo pleno em sua obra. 
Deste modo, a forma de uma obra poética em muitos aspectos se de‐
termina pela maneira como percebe o autor a seu herói, e qual vem a ser o 
herói da enunciação. A forma de uma narração objetiva, a forma apelativa (o‐
ração,  hino,  algumas  formas  líricas),  a  forma  de  autoexpressão  (confissão, 
autobiografia, forma de declaração lírica, que é a forma lírica principal) se 
determinam justamente pelo grau de intimidade entre o autor e o herói. Am‐
bos os aspectos ressaltados – o valor hierárquico do herói e o grau de sua 
intimidade com o autor – tomados autônoma e isoladamente, são insufi‐
cientes para definir a forma artística. No jogo, intervém permanentemen‐
te  um  terceiro  participante,  o  ouvinte  (receptor),  que  modifica  a  inter‐
relação dos outros dois (o criador e o herói). 
Isto  acontece  porque  a  inter‐relação  do  autor  e  herói  jamais  se  dá 
como uma inter‐relação íntima entre dois: a forma sempre leva em conta 
um terceiro – o ouvinte, que exerce uma influência importantíssima sobre 
todos os aspectos da obra. 
De que maneira o ouvinte pode determinar uma obra poética? Neste 
caso também temos de distinguir entre dois aspectos principais: primeiro, 
o grau de proximidade entre o ouvinte e o autor, e segundo, seu compor‐
tamento em relação ao herói. Para a estética, não há nada mais pernicioso 
que subestimar o papel ativo e independente do ouvinte/leitor. Existe uma 
opinião,  muito  difundida,  no  sentido  de  considerar  o  ouvinte  em  pé  de 
igualdade  com  o  autor,  posto  que  a  posição  de  um  ouvinte  competente 
deve ser uma simples reprodução da posição do autor. Na realidade, as 
coisas não são assim. Pode‐se antes propor um postulado inverso: o ou‐
vinte jamais é igual ao autor. Possui seu lugar próprio, lugar insubstituível 
no acontecimento da criação artística. Deve ocupar uma posição especial, 
bilateral, neste acontecimento: em relação ao autor e em relação ao herói, e 
esta posição determina o estilo da enunciação. 
Como  percebe  o  autor  a  seu  ouvinte?  No  exemplo  da  enunciação 
tomada da vida cotidiana, temos visto em que medida o suposto acordo 
ou  desacordo  do  ouvinte  estava  determinando  a  entonação.  O  mesmo 
serve também para todos os aspectos da forma. Figuradamente falando, o 

94  
ouvinte se encontra normalmente junto ao autor, na qualidade de seu ali‐
ado; mas este caso clássico da posição do ouvinte nem sempre ocorre. 
Às vezes o ouvinte começa a aproximar‐se do herói da enunciação. A 
expressão mais clara e típica disso é o estilo polêmico, que põe no mesmo 
plano o herói e o ouvinte. Também a sátira pode envolver o ouvinte, con‐
siderá‐lo  como  alguém  próximo  do  herói  ridicularizado,  e  não  próximo 
do autor que o ridiculariza: se trata de uma espécie inclusiva de ridiculariza‐
ção, que se diferencia drasticamente da exclusiva, na qual o ouvinte é so‐
lidário com o autor que ironiza. No romantismo, frequentemente se pode 
observar um fenômeno interessante, no qual o autor parece aliar‐se com o 
herói contra o ouvinte (F. Schlegel, Lucinda; na literatura Russa, em parte 
Um herói de nosso tempo, de Lérmontov). 
A percepção do ouvinte pelo autor nas formas da confissão e da auto‐
biografia pode ser muito singular e interessante para uma análise. Todas as 
gradações do sentimento, começando por uma piedosa humildade ante o 
ouvinte, como se fosse um juiz conhecido diante uma desconfiança desres‐
peitosa e hostil, podem determinar o estilo da confissão e da autobiografia. 
Um material extremadamente curioso para ilustrar essa situação pode ser 
encontrado na obra de Dostoiévski. O estilo confessional dos “Apontamen‐
tos” de Hipólito em O Idiota está determinado pelo grau extremo de uma 
desrespeitosa  desconfiança  e  de  hostilidade  de  todos  que  escutariam  sua 
confissão final. Os mesmos tons, só um pouco suavizados, determinam o 
estilo  das  Notas  do  Subsolo.  O  estilo da  “Confissão  de  Stavroguin”  [de  Os 
Demônios] manifesta uma confiança e um reconhecimento dos direitos mui‐
to maiores do ouvinte, ainda que também, neste caso, às vezes irrompe um 
sentimento próximo ao ódio para com o ouvinte, o qual cria violentas rup‐
turas estilísticas. A loucura santa [iurodstvo; holy foolness], modo de falar de 
Jurodivi, uma forma especial de enunciação que se encontra no limite do 
artístico, determina‐se antes de tudo por um conflito extremamente com‐
plexo e entrançado entre o falante e o ouvinte.  
A forma lírica é especialmente sensível à posição do ouvinte. A condi‐
ção fundamental da entonação lírica é a inquebrantável confiança na simpatia 
dos ouvintes. Mas se uma dúvida penetrar na situação lírica, o estilo da lírica 
muda violentamente. Este conflito com o ouvinte encontra sua expressão 
mais destacada na chamada “ironia lírica” (Heine, na poesia mais recente, 
Laforge, Annenski, etc.). Em geral, a forma da ironia está condicionada pe‐

  95 
lo  conflito  social:  trata‐se  de  um  encontro,  em  uma  mesma  voz,  de  duas 
valorações encarnadas e sua interferência mútua, uma interrupção. 
Na  estética  contemporânea  se  propôs  uma  especial  teoria  da  tragé‐
dia,  a  chamada  “teoria  jurídica”,  cuja  essência  se  reduz  à  tentativa  de 
compreender a estrutura da tragédia como a de um processo judicial.11 
A inter‐relação do herói e o coral, por uma parte, e a posição geral do 
ouvinte, por outra, em efeito se sujeitam, até certo ponto, a uma interpreta‐
ção jurídica. Entretanto, trata‐se evidentemente apenas de uma analogia. A 
afinidade  básica da tragédia,  assim  como  de  qualquer  obra  literária,  com 
um processo jurídico se reduz apenas à existência das “partes”, quer dizer, 
de vários participantes que ocupam diversas posições. As definições de poeta 
como “juiz”, “delator”, “testemunha”, “defensor” ou inclusive “carrasco”, 
tão difundidas na fraseologia poética (na fraseologia de uma “sátira fusti‐
gante” de Juvenal, Barbier, Nevrásov, etc.) em forma de analogia, manifes‐
tam a mesma base social da poesia. Em todo caso, o autor, o herói e o ou‐
vinte não se fundem nunca em uma unidade indiferente, senão que ocu‐
pam posições independentes; consequentemente são “partes”, porém não 
de  um  processo  judicial,  senão  de  um  acontecimento  artístico  com  uma 
estrutura social específica, cujo “protocolo” vem a ser a obra literária. 
Aqui não é necessário esclarecer outra vez que a todo o tempo conce‐
bemos  o  ouvinte  como  participante  imanente  do  acontecimento  artístico 
que determina a forma de uma obra desde seu interior. Este ouvinte é, da 
mesma maneira que o autor e o herói, um elemento interno necessário da 
obra, e está longe de coincidir com o chamado “público” que se encontra 
fora da obra e cujos requerimentos e gostos artísticos podem levar‐se em 
conta  deliberadamente.  Esse  tipo  de  cálculo  deliberado  não  é  capaz  de  de‐
terminar  imediata  e  profundamente  a  forma  artística  no  processo  de  sua 
criação  viva.  E  mais,  se  este  cálculo  deliberado  ocupa  um  lugar  minima‐
mente sério na criação de um poeta, esta, inevitavelmente, perderá sua pu‐
reza artística e se degradará até um plano social inferior. 
Esse cálculo exterior confirma o fato de que o poeta perdeu seu recep‐
tor imanente, separando‐se daquele todo social que desde o interior, mais além 
de  toda  consideração  abstrata,  é  capaz  de  determinar  suas  valorações  e  a 

                                                            
11  Cf. 
O  desenrolar  mais  interessante  deste  ponto  de  vista  em  Hermann  Cohen, 
Äusthetik des reinen Gefüls, vol. II. 

96  
forma artística de suas enunciações poéticas, forma que justamente vem a 
ser a expressão dessas valorações sociais essenciais. Quanto mais o poeta 
está desvinculado da unidade social de seu grupo, tanto mais se inclinará 
para levar em conta as exigências externas de um público determinado. So‐
mente um grupo social estranho ao poeta pode exercer desde o exterior um 
papel determinante sobre a obra. Seu próprio grupo não cobra semelhante 
definição externa; manifesta‐se na própria voz do poeta, em seu tom prin‐
cipal, em suas entonações, queira ou não o próprio poeta.  
O poeta obtém as palavras e aprende a entoná‐las ao longo de toda a 
sua vida, no processo da comunicação multilateral com seu ambiente soci‐
al. O poeta começa a empregar essas palavras e entonações já no discurso 
interior, com cuja ajuda ele pensa e conhece a si mesmo, inclusive quando 
não fala. É ingenuidade crer que seja possível assimilar uma fala exterior 
que seja divergente de seu próprio discurso interior, com sua maneira in‐
trinsecamente verbal de tomar consciência de si mesmo e do mundo. Se 
esta pode ser criada, a propósito de alguma circunstância da vida, sepa‐
rada de todas as fontes que a alimentam, então será incapaz de toda pro‐
dutividade  criativa.  O  estilo  de  um  poeta  se  origina  a  partir  do  estilo  de  seu 
discurso interno, não sujeito ao controle, e este discurso vem a ser o produ‐
to de toda sua vida social. “O estilo é o homem”; e nós podemos dizer: o 
estilo são pelo menos dois homens, ou mais exatamente, é o homem e seu 
grupo  social  na  pessoa  de  seu  representante  ativo  –  o  ouvinte,  que  é  o 
participante permanente do discurso interno e externo do homem. 
Qualquer ato de consciência minimamente coerente não pode se ma‐
nifestar sem o discurso interior, sem as palavras e sem a entonação, que 
são as valorações e, por conseguinte, representa já um ato social, um ato 
de  comunicação.  Inclusive  o  ato  mais  íntimo  de  uma  autoconsciência  já 
representa uma tentativa de traduzir‐se a si mesmo em uma linguagem 
comum, de levar em conta o portador das valorações daquele grupo soci‐
al ao qual pertence o portador da consciência. Nesta relação a consciência, 
por  mais  que  possamos  prescindir  de  seu  conteúdo,  já  não  é  apenas  um 
fenômeno psicológico, mas, acima de tudo, é um fenômeno ideológico, é um pro‐
duto  da  comunicação  social.  Este  co‐participante  permanente  de  todos  os 
atos de nossa consciência determina não só seu conteúdo, mas também a 
própria seleção do conteúdo (e isto é o mais importante, o principal), a sele‐
ção daquilo que é conscientizado por nós e que, por consequência, deter‐

  97 
mina aquelas valorações que vão impregnando a consciência, e que a psico‐
logia chama “o tom emocional” da consciência. O ouvinte que determina a 
forma  artística  se  origina  justamente  deste  permanente  co‐participante 
sempre presente em todos os atos de nossa consciência. 
Não existe nada mais pernicioso que representar esta sutil estrutura da 
criação verbal mediante a analogia com as especulações conscientes e cíni‐
cas de um editor burguês que “leva em conta a conjuntura do mercado 
de  livros”  e  da  aplicação  das  categorias  do  tipo  “demanda”  e  “oferta” 
ao descrever os elementos estruturais permanentes da criação artística.  
Nas condições da economia burguesa, o mercado de livros, obvia‐
mente, “regula” os “poetas”, mas este fenômeno não deve absolutamen‐
te  ser  confundido  com  o  papel  regulador  que  tem  o  ouvinte  enquanto 
elemento estrutural constante da obra artística. Para um historiador da 
literatura da época capitalista, o mercado representa um elemento mui‐
to  importante,  mas  a  poética  teórica,  que  pretende  estudar  a  estrutura 
ideológica fundamental da arte, não necessita deste fator externo. Entre‐
tanto, a história da literatura não deve confundir a história do mercado 
de livros e dos negócios editoriais com a história da poesia. 
   
VII 
 
Todas as situações que temos examinado e que determinam a forma 
da enunciação artística, a saber: 1) o valor hierárquico do herói ou do a‐
contecimento que representa o conteúdo da enunciação; 2) o grau de sua 
intimidade com o autor; 3) o ouvinte e sua inter‐relação com o autor, por 
um lado, e com o herói, por outro. Todas estas situações são pontos de apli‐
cação de forças sociais da realidade extra‐artística da poesia. Graças justamente 
a esta estrutura intrinsecamente social, a criação artística está aberta por todos 
os lados às influências sociais de outras esferas da vida. Outras esferas ideoló‐
gicas, sobretudo a estrutura sociopolítica, e  finalmente a econômica, de‐
terminam a poesia não somente desde o exterior, mas também se apoiando 
nestes elementos estruturais interiores. E vice‐versa: a interação artística 
do criador, do ouvinte e do herói pode influenciar outras esferas da co‐
municação social. 
Para  a  elucidação  plena  e  multilateral  a  respeito  da  tipicidade  dos 
heróis  literários  em  uma  época  determinada,  é  preciso  considerar  qual 

98  
seria a orientação formal típica do autor a respeito deles, e como seriam 
as inter‐relações, tanto dos heróis quanto do autor, com o ouvinte, na to‐
talidade da criação artística. Isto necessariamente pressupõe uma análise 
abrangente das condições econômicas e ideológicas da época. 
Estas questões históricas concretas, porém, ultrapassam os limites da 
poética  teórica,  a  qual  ainda  deve  encarar  outra  tarefa  importante.  Até 
agora  temos  tocado  tão  somente  aquelas  situações  que  determinaram  a 
forma em sua relação com o conteúdo, isto é, enquanto valoração social 
encarnada justamente deste conteúdo, e temo‐nos convencido de que ca‐
da  aspecto  da  forma  aparece  como  produto  da  interação  social.  Porém, 
também temos evidenciado que a forma deve ser concebida desde outro 
ponto  de  vista:  enquanto  forma  realizada  mediante  um  material  determi‐
nado. Isso inaugura uma larga série de problemas relacionados com a téc‐
nica da forma. 
Por isso, esses problemas da técnica da forma somente podem estar separa‐
dos  dos  problemas  da  sociologia  de  um  modo  abstrato:  é  impossível  separar 
realmente o sentido artístico de algum procedimento, por exemplo, de uma 
metáfora,  do  conteúdo  que  expresse  sua  valoração  formal  (a  metáfora 
rebaixa o objeto ou atribui uma importância superior), da definição estri‐
tamente linguística de tal procedimento. 
O sentido extralinguístico da metáfora, o reagrupamento dos valores 
e seu revestimento linguístico – o deslocamento semântico ‐ não são se‐
não  diferentes  pontos  de  vista  sobre  o  mesmo  fenômeno.  Porém,  o  se‐
gundo ponto de vista está subordinado ao primeiro: o poeta utiliza a me‐
táfora para reagrupar esses valores, e não para fazer um exercício linguís‐
tico. 
Todos os problemas da forma podem ser vistos na relação com o ma‐
terial, neste caso com relação a uma língua compreensível desde o ponto 
de vista linguístico; a análise técnica deste modo se reduz a uma questão 
de recursos linguísticos mediante os quais se leva ao fim a tarefa sócio‐artística 
da  forma.  Porém,  a  análise  técnica  se  torna  absurda  caso  não  se  leve  em 
conta essa tarefa e não se assimile previamente seu sentido. 
As questões da técnica da forma, por isso, estão além dos alcances do 
problema  que  temos  colocado.  Além  disso,  sua  elaboração  pressupõe 
uma  análise  infinitamente  mais  diferenciada  e  aprofundada  do  aspecto 

  99 
artístico‐social da poesia; por sua vez, aqui temos tão somente consegui‐
do indicar fugazmente as direções principais de uma análise como esta. 
Se demos conta de mostrar ao menos uma possibilidade de um enfo‐
que  sociológico  da  estrutura  artística  imanente  à  forma  poética,  conside‐
ramos cumprida nossa tarefa. 
  
 

100  
AS MAIS RECENTES TENDÊNCIAS DO PENSAMENTO 
LINGUÍSTICO OCIDENTAL 
 
 
Nos últimos tempos na Europa Ocidental os problemas da filosofia 
da  linguagem  vêm  sendo  enfrentados  com  uma  insólita  seriedade  e 
agudeza. Pode‐se dizer que a filosofia burguesa contemporânea começa 
a se desenvolver sob o  signo da palavra, pela qual essa nova tendência 
do pensamento filosófico ocidental está ainda nos inícios. Em torno da 
palavra  e  de  seu  lugar  sistemático  está‐se  desenrolando  uma  batalha 
vivaz  de  que  se  pode  encontrar  alguma  coisa  de  análogo  somente  na 
discussão medieval sobre o realismo, nominalismo e conceitualismo. 
Na própria linguística, depois da suspeitosa postura positivista para 
uma desejável colocação coerente dos problemas científicos e depois da 
hostilidade,  característica  do  positivismo  posterior,  para  tudo  o  que 
exigisse  uma  visão  de  mundo,  desperta‐se  para  uma  escuta  consciente 
da  própria  premissa  filosófica  geral  e  dos  próprios  vínculos  com  os 
outros campos do conhecimento. Em consequência, compartilha‐se uma 
sensação  de  crise,  percebendo‐se  a  linguística  como  incapaz  de 
satisfazer todas essas exigências. 
Este  artigo1  se  propõe  a  caracterizar  as  principais  tendências  da 
filosofia da linguagem ocidental a nós contemporânea. 
Não  é  absolutamente  fácil  tentar  definir  qual  é  o  efetivo  objeto  da 
filosofia  da  linguagem.  Cada  vez  que  tentamos  delimitar  o  objeto  de 
indagação  e  aproximar‐nos  para  reduzi‐lo  a  um  complexo  material 
objetivo  compacto,  definido  e  observável,  foge‐nos  a  própria  essência 
do  objeto  em  exame,  a  sua  natureza  sígnica  e  ideológica.  Se,  por 
exemplo, isolamos o som, enquanto fenômeno puramente acústico, não 
teremos a linguagem como objeto específico. O som entra inteiramente 
no  campo  de  competência  da  física.  Ainda  que  lhe  acrescentemos  o 
processo fisiológico da produção do som e o processo da sua percepção 
sonora,  não  nos  avizinhamos  de  qualquer  maneira  deste  objeto.  Se 
                                                            

1   Este artigo é um resumo feito pelo próprio autor de três capítulos do livro Marxismo e 
Filosofia  da  Linguagem  (1929)  [Nota  da  tradução  italiana,  posta  ao  final  do  parágrafo 
precedente.] 

  101 
reunirmos  a  experiência  (os  signos  interiores)  do  falante  e  do  ouvinte, 
obteremos  dois  processos  psico‐físicos  que  se  desenvolvem  em  dois 
sujeitos psico‐fisiológicos distintos e um complexo sonoro físico que se 
realiza  na  natureza  segundo  as  leis  da  física.  Não  temos  ainda  a 
linguagem como objeto específico de exame e, no entanto, já abraçamos 
três esferas da realidade objetiva – aquela da física, aquela da fisiologia 
e aquela da psicologia – e obtivemos um complexo bastante elaborado e 
compósito. Este complexo perde, porém, seu elemento unificador; suas 
partes  singulares  são  simplesmente  postas  uma  ao  lado  da  outra,  mas 
não  estão  reunidas  neste  complexo  as  regras  internas  que  o 
transformam no fenômeno da linguagem. 
 Que  outros  elementos  teremos  que  juntar  a  este  complexo  que  já 
por si é assim compósito? 
Acima  de  tudo,  devemos  inserir  esse  complexo  num  complexo 
ainda  mais  vasto,  que  o  compreende,  ou  seja,  na  esfera  unitária  da 
relação comunicativa social organizada. Para poder observar o processo 
de combustão, temos que colocar o corpo num ambiente em que haja ar. 
Para  poder  observar  o  fenômeno  da  linguagem  é  necessário  colocar 
tanto  o  produtor  quanto  o  receptor  do  som  e  o  próprio  som  numa 
atmosfera  social.    É  necessário  enfatizar  que  tanto  o  falante  quanto  o 
ouvinte  pertençam  a  mesma  comunidade  linguística,  ou  seja,  que  se 
encontrem  face  a  face  dentro  de  um  campo  específico.  A  troca 
comunicativa  verbal  é  possível  somente  num  campo  específico,  por 
mais genérico e ocasional que possa ser esse campo comum.  
  A unidade do ambiente social e a unidade do acontecimento imediato da 
troca  comunicativa  são  condições  absolutamente  necessárias  para  que  o 
complexo físico‐psico‐fisiológico que indicamos possa entrar em relação 
com  a  língua,  a  linguagem,  e  possa  tornar‐se  um  fato  de  linguagem. 
Dois organismos biológicos num ambiente exclusivamente natural não 
gerarão nenhum fato linguístico. 
Como  resultado  de  nossa  análise,  em  vez  de  conseguir  delimitar  o 
objeto  da  pesquisa,  nós  o  tornamos  excepcionalmente  complexo  e 
amplo.  
O ambiente social organizado no qual inserimos nosso complexo e a 
situação  social  imediata  da  troca  comunicativa  são,  por  si  sós, 
extremamente complexos, ricos de liames multiformes e muito diversos, 

102  
não  todos  igualmente  necessários  para  a  compreensão  dos  fatos 
linguísticos,  nem  são  todos  fenômenos  constitutivos  da  linguagem. 
Enfim,  esse  complexo  multiforme  de  fenômenos  e  de  relações,  de 
processos e de objetos, precisa ser reduzido a um denominador comum, 
fazendo  todas  suas  linhas  convergirem  para  um  único  centro:  o  ponto 
focal do processo linguístico. 
Quais  tentativas  foram  feitas  pela  filosofia  da  linguagem  e  pela 
linguística  em  geral  para  resolver  esse  problema  e  quais  pedras 
milenares,  graças  às  quais  poderemos  conseguir  as  melhores 
orientações, já estão fixadas na estrada que caminha para sua solução?2  
Na  filosofia  da  linguagem  e  nos  setores  metodologicamente 
correspondentes  da  linguística  geral,  observamos  duas  tendências 
fundamentais  na  solução  do  nosso  problema,  ou  seja,  do  problema  da 
evidenciação e delimitação da linguagem como objeto específico de estudo. Isto 
obviamente  implica  uma  divergência  radical  dessas  duas  tendências, 
talvez sobre todos os outros problemas conexos à ciência da linguagem. 
A primeira tendência da ciência da linguagem pode ser chamada de 
subjetivismo individualista, e a segunda, objetivismo abstrato3. 

                                                            

2   São  poucos  os  trabalhos  em  história  da  filosofia  da  linguagem  e,  de  costume,  ela  é 
examinada juntamente com a história da linguística em geral: Th. BENTEG, Geschichte 
der  Sprachwissenschaft,  1869;  STEINTHAL,  Geschichte  der  Sprachwissenschaft  bei  den 
Griechen und Römern, 1890. Existem ainda monografias sobre pensadores e linguistas 
singulares (Humbolt, Wundt, Marty, etc.). No momento, o leitor tem à disposição um 
trabalho  alentado  de  história  da  filosofia  da  linguagem,  o  livro  de  ERNEST 
CASSIRER, Philosophie der symbolischen Formen. Erster Teil: die Sprache, 1923, cap I “Das 
Sprachproblem  in  der  Geschichte  der  Philosophie,  p.  55‐120.  Em  língua  russa  um 
breve,  mas  fundamental,  ensaio  sobre  a  situação  contemporânea  da  linguística  e  da 
filosofia da linguagem aparece em R. Schor, no artigo “Krizis sovremennoj lingvistiki”, 
Jafetischeskoj  sbornik  [Crise  da  linguística  contemporânea.  Recolha  javética].  Uma 
resenha  geral,  longe  de  ser  completa,  dos  trabalhos  em  sociologia  da  linguística 
aparece  no  artigo  de  M.  N.  PETERSON,  “Jazyk  kak  social’noe  javlenie”,  Ulshennye 
zapiski Instituta jazyka i literatury‐RANION [A língua como fenômeno social. Relatórios 
científicos do Instituto de Linguística e Literatura RANION], 1927, p.3‐21.  
3   Ambas as denominações, como sempre nestes casos, estão bem longe de ser precisas 

e não cobrem a plenitude e a complexidade da tendência a que se dá o nome. Como 
veremos,  é particularmente inadequada a denominação da primeira tendência. 

  103 
A primeira tendência considera como base da linguagem (entendido 
como o conjunto de todos os fenômenos linguísticos sem exceção) o ato 
criativo  individual  do  discurso.  A  psique  individual  é  por  isso  a  fonte 
do  signo.  As  leis  da  criatividade  linguística  –  e  a  linguagem  é  alguma 
coisa em perene formação, criação – são as leis da psicologia individual: 
é próprio que essas leis sejam estudadas pela linguística e pela filosofia 
da  linguagem.  Explicar  um  fenômeno  linguístico  significa  reduzi‐lo  a 
um  ato  de  criação  individual  significativa  (frequentemente  deveras 
sensato).  Todo  o  resto  do  trabalho  do  linguista  não  tem  mais  do  que 
valor preparatório, de constatação, de descrição e de classificação e não 
serve  para  outra  coisa  que  não  seja  preparar  uma  interpretação  do 
fenômeno  linguístico  em  termos  de  ato  criativo  individual  ou  servir 
para fins práticos do ensino de uma língua. 
A  linguagem,  vista  sob  esta  ótica,  é  análoga  aos  outros  fenômenos 
ideológicos, em particular à arte, à criatividade estética. 
As  principais  concepções  sobre  a  linguagem  da primeira  tendência 
podem ser condensadas nos seguintes quatro princípios fundamentais: 
1) A  linguagem  é  atividade,  é  um  processo  contínuo  de  criação  
(energia) realizado por enunciações individuais. 
2) As  leis  da  criatividade  linguística  são  as  leis  da  psicologia 
individual. 
3) A  atividade  da  criatividade  da  linguagem  é  uma  atividade 
consciente, análoga àquela da criatividade artística. 
4) A língua como produto pronto (ergon), como sistema linguístico 
fixo (vocabulário, gramática, fonética) representa a camada necrosada, a 
lava  endurecida  da  criatividade  da  linguagem  e  é  abstratamente 
construída  pela  linguística  com  o  escopo  de  permitir  um  ensino  da 
língua como instrumento já constituído. 
O representante mais significativo desta primeira tendência, aquele 
que lhe deu os fundamentos é Wilhelm von Humboldt4   
O  potente  pensamento  de  Humboldt  obviamente  ultrapassa  os 
âmbitos das quatro posições basilares de nossa exposição, pois é muito 
amplo,  complexo  e  contraditório,  e  por  isso  Humboldt  pode  se  tornar 

                                                            

4   Seus predecessores nesta tendência foram Hamann e Herder. 

104  
fonte de duas tendências extremamente distantes uma da outra; todavia 
o núcleo fundamental da sua teoria representa a expressão mais forte e 
mais profunda dos aspectos fundamentais da primeira tendência como 
a caracterizamos5. 
Os  mais  importantes  representantes  da  primeira  tendência  na 
literatura linguística russa são Potebniá e seus discípulos6.  
Os  representantes  sucessores  dessa  tendência  não  alcançaram  a 
profundidade e a síntese filosófica de Humboldt. 
Essa tendência se torna ainda mais acanhada quando da passagem a 
procedimentos  positivistas  e  superficialmente  empiristas.  Já  em 
Steinthal  não  se  encontra  mais  a  abertura  humboldtiana.  Ao  invés, 
substitui‐a por uma maior precisão e sistematicidade metodológica. Os 
princípios  fundamentais  desta  primeira  tendência  tornam‐se 
excepcionalmente  pobres  e  limitados  no  psicologismo  de  Wundt  e  de 

                                                            

5   Humboldt  expressa  suas  ideias  de  filosofia  da  linguagem  no  trabalho  Uber  die 
Versheidenheiten  des  menschlichen  Sprachbaues  (Vorstudie  zu  Einleitung  zum  Kawirerk), 
Gesemm. Schriften (Academie‐Ausgale), VI. Existe uma antiquíssima tradução russa de 
P.  BILIJARSKIJ,  O  raxlischii  organizmov  shelevesheskogo  jazyka  (Sobre  a  diferença  dos 
organismos  da  linguagem  humana),  1859.  Existe  uma  literatura  vastíssima  sobre 
Humboldt.  Citaremos  o  livro  de  R.  Haym,  Wilhelm  von  Humboldt,  disponível  em 
tradução  russa.  Entre  pesquisas  mais  recentes,  pode‐se  citar  o  livro  de  ED. 
SPRANGER, Wilhelm von Humboldt, Berlim, 1909. 
  O  leitor  poderá  encontrar  notícias  sobre  Humboldt  e  sobre  seu  significado  para  o 
pensamento  linguístico  russo  no  livro  de  B.  M.  Engelhardt,  A.  N.  Vesselovski, 
Petersburgo  1923.  Recentemente  saiu  o  interessante  e  arguto  livro  de  G.  Spätt, 
Vnutrennai  forma  slóva  (etiúdi  e  variatsii  na  tiému  Gumboldta)  [A  forma  interna  da  fala 
(estudos e variações sobre o tema de Humboldt]. Ele procura reconstruir a figura autêntica e 
original  de  Humboldt,  libertando‐a  dos  estratos  em  que  a  deixaram  as  interpretações 
tradicionais  (existem  algumas  interpretações  tradicionais  de  Humboldt).  A  concepção 
de Spätt, muito sugestiva, demonstra um retorno ao que de complexo e contraditório foi 
Humboldt. Suas mudanças sobre o tema são um tanto livres.  
6   O  principal  trabalho  filosófico  de  Potebniá  é  Mysl’i  jazyk  (O  pensamento  e  a 

linguagem).  Os  discípulos  de  Potebniá,  a  considerada  escola  de  “Charkov” 


(Osvajaniko‐Kulikovskij,  Lezin,  Charciev  e  outros)  publicaram  uma  série  não 
periódica Voprosy teorii i psichologii tvorschestva (Problemas de teoria e de psicologia da 
criação)  que  incluiu  a  obra  póstuma  de  Potebniá  e  os  artigos  escritos  sobre  ele  por 
seus estudantes. No volume dos escritos fundamentais de Potebniá há uma exposição 
das ideias de Humboldt. 

  105 
seus discípulos. Nos dias atuais, todavia, o subjetivismo individualista 
readquiriu  um  grande  significado  com  a  escola  de  Vossler  (a 
considerada “Idealistsche Neuphilologie)7. 
A escola de Vossler se define antes de tudo pela sua decidida recusa 
do  positivismo  linguístico  que  não  vê  além  da  forma  linguística 
(essencialmente a fonética, porquanto a mais “positiva”) e do elementar 
ato  psico‐fisiológico  da  sua  produção8.  Em  consequência,  traz  para  o 
primeiro  plano  o  aspecto  ideológico  significativo  da  linguagem.  O 
motor principal da criatividade linguística é o “gosto linguístico”, uma 
variante  particular  do  gosto  artístico.  O  gosto  linguístico  representa  a 
verdade de quem vive a linguagem e que deve ser individualizada pelo 
linguista  em  cada  fenômeno  da  linguagem  com  o  escopo  de  captar  e 
interpretar  efetivamente  aquele  dado  fenômeno.  Somente  a 
individualização  estilística  da  linguagem  numa  enunciação  concreta  será 
histórica e criativamente produtiva. É o peculiar que dirige a formação 
da linguagem, que em seguida se sedimenta na forma gramatical: tudo o 
que se torna um fato gramatical foi antes um fato estilístico9. 
Entre  os  representantes  contemporâneos  desta  primeira  tendência 
da  filosofia  da  linguagem  é  preciso  ainda  nominar  o  filósofo  e 

                                                            

7   Karl Vossler, Leo Spitzer, E. Lerch, Lorck, etc. 
8   À  crítica  do  positivismo  linguístico  é  dedicado  o  primeiro  e  fundamental  trabalho 
filosófico de Vossler, Positivismus und Idealismus in der Sprachwissenschaft, Heidelberg, 1904. 
9   Os  principais  trabalhos  filosófico‐linguísticos  de  Vossler,  além  do  volume  citado, 

estão  recolhidos  em  Philosophie  der  Sprache,  1926,  o  último  livro  de  Vossler.  Ele 
apresenta  uma  ideia  completa  da  sua  concepção  filosófica  e  linguística.  Entre  seus 
trabalhos linguísticos, característicos do método vossleriano, citamos o seu Frankreichs 
Kultur  im  Spiegel  seiner  Sprachentwicklung,  1913.  O  leitor  encontrará  uma  bibliografia 
completa de Vossler (falecido em 1922) na recolha Festschrift für K. Vossler (1922) a ele 
dedicada.  Existem  dois  artigos  seus  traduzidos  para  o  russo:  “Grammatika  i  istoria 
jazyka”  [Gramática  e  história  da  língua],  Logos,  I,  1910  e  “Istoria  jazyka  i  istoria 
literatury” [História da língua e história da literatura]. Ambos dão uma ideia básica 
da  concepção  vossleriana.  Na  literatura  linguística  russa,  as  ideias  de  Vossler  e  de 
seus  discípulos  não  foram  submetidas  a  nenhum  juízo  crítico.  Algumas  indicações, 
entretanto,  são  dadas  no  artigo  de  V.  M.  Jirmunsky  sobre  a  ciência  literária  alemã 
contemporânea (Poetika, III, 1927, Academia). No ensaio de R. Schor por nós citado se 
faz referência à escola de Vossler somente numa nota de pé de página. 

106  
historiador da arte italiano Benedetto Croce10. Suas ideias são, em muitos 
aspectos, vizinhas àquelas de Vossler. Também para ele a linguagem é 
um fenômeno estético. O termo chave fundamental da sua concepção é 
expressão.  Qualquer  expressão  é  fundamentalmente  artística.  Disto 
deriva  que  a  linguística  enquanto  ciência  da  expressão  par 
excellence11coincide com a estética. Disto deriva que também para Croce 
a enunciação individual é o fenômeno fundamental da linguagem. 
Passemos  a  dar  a  característica  da  segunda  tendência  do 
pensamento da filosofia da linguagem: o objetivismo abstrato. 
O  centro  organizador  de  todos  os  fenômenos  linguísticos,  aquele 
que se torna objeto específico de  uma ciência particular da linguagem, 
desloca‐se  para  um  fator  absolutamente  diverso:  o  sistema  linguístico 
como sistema das formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua. 
De fato, a diferença existente entre a primeira e a segunda tendência 
é  claramente  ilustrada  no  que  segue:  a  forma  idêntica  a  si  mesma  que 
constitui  o  sistema  imóvel  da  língua  (ergon)  era,  para  a  primeira 
tendência,  somente  a  crosta  necrosada  do  real  processo  de  formação 
linguística, da verdadeira essência da linguagem, que se realiza com um 
ato criativo individual irrepetível.  
Para a segunda tendência, é este próprio sistema de formas idênticas a 
si  mesmas  que  representa  a  essência  da  linguagem;  a  interpretação  e  a 
variação criativa individual das formas linguísticas são para esta tendência 
somente  um  produto  residual  da  vida  linguística,  ou  melhor,  da 
imobilidade  estatuária  do  linguístico,  são  somente  variações 

                                                            

10  Existe  uma  tradução  russa  da  primeira  parte  da  Estética  de  Croce:  Estetica  como 
scienza  dell’espressione  e  linguística  generale,  Moscou,  1920.  Já  nesta  primeira  parte  do 
livro estão expostas as ideias gerais de Croce sobre língua e sobre linguística. [N.T.] 
Há tradução para o português do Brasil de várias obras de Benedeto Croce. 
11  Em francês no original. A tradutora aproveita a oportunidade para assinalar que todos 

os  termos  estrangeiros  presentes  no  texto  são  tais  como  estão  no  original  e  que  a 
tradutora escrupulosamente não utilizou por sua iniciativa qualquer termo estrangeiro 
nem  qualquer  barbarismo  ainda  que  comumente  aceito  na  língua  italiana.  Fizemos 
algumas  exceções  para  alguns  eslavismos,  os  quais,  caso  não  registrados  em  algum 
dicionário da língua italiana, foram anotados e explicados. Isto foi feito na esperança de 
contribuir, no limite da modesta possibilidade do tradutor, para uma maior legibilidade 
e clareza do texto. [Nota do tradutor para o italiano, Rita Bruzesse].   

  107 
imperceptíveis  e  inúteis  da  imutabilidade  tonal  fundamental  da  forma 
linguística. 
O modo de ver da segunda tendência pode ser resumido, de forma 
geral, nos seguintes princípios fundamentais: 
1) A  língua  é  um  sistema  fixo  e  imutável  de  formas  linguísticas 
normativamente  idênticas  que  a  consciência  individual  encontra  já 
pronta e que não pode contestar. 
2) As  leis  da  língua  são  leis  linguísticas  precisas  que  regulam  o 
vínculo  entre  os  signos  linguísticos  ao  interior  do  sistema  linguístico 
fechado. Essas leis são objetivas para qualquer consciência subjetiva. 
3) Os  vínculos  linguísticos  específicos  não  têm  nada  em  comum 
com  os  valores  ideológicos  (artísticos,  cognitivos,  etc.).  Nenhuma 
motivação  ideológica  está  na  base  dos  fenômenos  da  língua.  Entre  a 
palavra  e  seu  significado  não  existe  nenhum  liame  natural  e 
compreensível para a consciência, nem qualquer vínculo artístico. 
4) As  enunciações  individuais  representam  para  a  língua  somente 
refrações e variações individuais casuais ou simplesmente alterações da 
forma normativamente idêntica; é próprio destas variações explicarem a 
variação  histórica  da  forma  linguística,  que  enquanto  tal,  pelo  sistema 
da  língua,  é  irracional  e  insensata.  Entre  o  sistema  da  língua  e  sua 
história  não  existe  qualquer  vínculo  nem  qualquer  comunhão  de 
motivações. Sistema e história são estranhos um ao outro. 
O leitor notará que os quatro princípios que acabamos de formular 
da  segunda  tendência  da  filosofia  da  linguagem  são  a  antítese  dos  
quatro princípios correspondentes da primeira tendência. 
Examinar a vida histórica da segunda tendência é muito mais difícil. 
Não  há  nela,  nos  inícios  de  nossa  época,  um  representante  ou  um 
fundador  parecido  em  importância  com  W.  Humboldt.  É  preciso 
aproximar‐se das raízes desta tendência no racionalismo do século XVII 
e XVIII. Essas raízes se fundam no terreno cartesiano12. 

                                                            

12  O profundo laço interno da segunda tendência com o pensamento cartesiano e com a visão 

de mundo geral do neoclassicismo, com seu culto da forma autônoma, racional e fixa, não 
pode  ser  posto  em  dúvida.  Ainda  que  o  próprio  Descarte  não  tenha  escrito  nenhum 
trabalho  de  filosofia  da  linguagem,  em  suas  cartas  fez  declarações  significativas  a  este 
respeito. Observe‐se o primeiro capítulo do trabalho já citado de Cassirer, p. 67‐8. 

108  
A  ideia  da  segunda  tendência  encontra  sua  primeira  e  claríssima 
expressão em Leibniz na sua concepção da gramática universal13. 
Característica  de  todo  o  racionalismo  é  a  ideia  de  convenção,  da 
arbitrariedade  da  linguagem  e  não  menos  característica  é  a  comparação  do 
sistema  da  língua  com  o  sistema  de  signos  matemáticos.  Não  a  relação  do 
signo  com  a  realidade  objetiva  refletida  ou  com  o  indivíduo  que  a 
produziu, mas a relação entre signos, e do signo com o interior de um sistema 
fechado, aceito e admitido definitivamente por todos, é que interessa aos 
racionalistas,  dada  sua  inclinação  para  a  matemática.  Em  outras 
palavras,  eles  estão  interessados  somente  na  lógica  interna  do  próprio 
sistema dos signos, fechado, como em álgebra, independentemente dos 
significados  ideológicos  de  que  estão  carregados.  Os  racionalistas 
podem, no limite, ter considerado o ponto de vista do ouvinte, mas não 
consideraram  absolutamente  o  ponto  de  vista  do  falante  enquanto 
aquele que expressa sua vida interior. De fato, o signo matemático não 
pode  ser  absolutamente  considerado  como  expressão  da  psique 
individual e o signo matemático era para os racionalistas o modelo ideal 
de qualquer signo, incluído aí o signo linguístico. 
É  necessário  notar  neste  ponto  que  o  primado  do  ponto  de  vista  do 
ouvinte  relativamente  ao  falante  permanece  uma  característica  constante 
da segunda tendência. Disto deriva que nesta tendência não é possível 
colocar  os  problemas  da  expressão  e  em  consequência  o  problema  da 
formação  do  pensamento  e  da  psique  subjetiva  na  palavra  (um  dos 
problemas fundamentais da primeira tendência). 
Numa  forma  mais  simplificada,  a  ideia  da  língua  como  sistema  de 
signos  convencionais,  arbitrários,  fundamentalmente  racionais,  foi 
elaborada no século XVIII por representantes do Iluminismo. 
Nascida  em  solo  francês,  a  ideia  do  objetivismo  abstrato  é  até  hoje 
prevalecente essencialmente na França14. 

                                                            

13  As  opiniões  de  Leibniz  a  este  propósito  podem  ser  conhecidas  lendo  o  livro 
fundamental  de  Cassirer,  Leibiniz’  System  in  seinen  wissenschaftlichen  Grundlagen, 
Marburg, 1902.  
14  É interessante notar que a primeira tendência, diferentemente da segunda, difundiu‐

se principalmente na Alemanha. 

  109 
A  mais  clara  expressão  do  objetivismo  abstrato  nos  dias  atuais  é 
representada  pela  chamada  “Escola  de  Genebra”  de  Ferdinand  de 
Saussure  (hoje  já  falecido)15.  Os  representantes  desta  escola,  sobretudo 
Charles Bally, são os maiores linguistas contemporâneos. 
A  escola  de  Vossler  é  tão  impopular  na  Rússia  quanto  é  popular  e 
influente  a  escola  de  Saussure.  Pode‐se  dizer  que  a  maioria  dos 
representantes  de  nosso  pensamento  linguístico  sofreu  influência 
determinante de Saussure e de seus discípulos Bally e Séchehaye16. 
Saussure  parte  da  distinção  de  três  aspectos  da  língua:  a  linguagem 
(langage),  a  língua  como  sistema  de  formas  (langue)  e  o  ato  individual 
do  discurso‐enunciação  (parole).  A  língua  (no  sentido  de  sistema  de 
formas)  e  o  ato  de  fala  são  os  elementos  constitutivos  da  linguagem, 
compreendidos  juntos  todos  os  fenômenos  físicos,  fisiológicos  e 
psicológicos  sem  exceção  que  tomam  parte  na  realização  da  atividade 
verbal.  A  linguagem  (langage)  não  pode,  segundo  Saussure,  ser  objeto 
de  estudos  da  linguística.  Tomada  em  si  mesma,  está  privada  de  uma 
unidade  interior  e  de  uma  regularidade  autônoma  e  independente.  É 
necessário  partir  da  língua  (langue)  como  sistema  de  formas 
normativamente  idênticas  e  depois  iluminar  todos  os  fenômenos  da 
linguagem baseando‐se sobre esta forma fixa e autônoma (que tem suas 
próprias leis). 
Depois  de  ter  distinguido  a  língua  da  linguagem  –  esta  
compreendida  como  todas  as  manifestações  da  potencialidade  verbal, 

                                                            

15  O  principal  trabalho  de  Saussure  foi  publicado  depois  de  sua  morte,  a  cuidado  de 

seus  discípulos:  Cours  de  linguistique  general  [Curso  de  Linguística  Geral],  1916, 
[tradução italiana de T. de Mauro, Bari, 1967, ’68, ’69, ’70, ‘72]. As citações são da 2ª 
Edição,  de  1922.  Pode‐se  encontrar  uma  breve  exposição  da  teoria  de  Saussure  no 
artigo já citado de Schor e no artigo de Peterson, “Óbchtchaia Lingvistika” [Linguística 
geral] in. Imprensa e Revolução, 1923, VI. 
16  No  espírito  da  escola  de  Genebra  foi  construído  o  trabalho  de  R.  Schor,  Jazyk  i 

obscestvo  [Linguagem  e  Sociedade],  Moscou,  1926.  R  Schor  já  no  artigo  “Krizis 
sobremennnoj  lingvistiki”,  já  citado,  se  revela  um  ardente  apologista  das  principais 
ideias de Saussure. Segue esta escola de Genebra também V.V. Vinogradov. As duas 
escolas  linguísticas  russas,  a  escola  de  Fortunatov  e  a  considerada  escola  de  Kazan 
(Krushevski  e  Baudouin  de  Courtnay)  são  uma  clara  expressão  do  formalismo 
linguístico e pertencem ao âmbito da segunda tendência linguística por nós descrita.  

110  
sem exceção –, Saussure distingue a língua também dos atos individuais 
de fala (parole). 
 
“A língua não constitui, pois, uma função do falante: é o produto que o 
indivíduo  registra  passivamente;  não  supõe  jamais  premeditação  e  a 
reflexão  nela  intervém  somente  para  a  atividade  de  classificação,  da 
qual trataremos na p.142 ss. 
A  fala  é,  ao  contrário,  um  ato  individual  de  vontade  e  inteligência  no 
qual  convém  distinguir:  1.º,  as  combinações  pelas  quais  o  falante 
realiza  o  código  da  língua  no  propósito  de  exprimir  seu  pensamento 
pessoal; 2.º, o mecanismo psico‐físico que lhe permite exteriorizar essas 
combinações17.” 
 
O ato de fala não pode ser objeto da linguística, tal como a entende 
Saussure.  Elementos  linguísticos  no  ato  de  fala  são  somente  as  formas 
normativamente  idênticas  da  língua  aí  presentes.  Todo  o  resto  é 
“acessório e casual”. 
Sublinhemos a tese fundamental de Saussure: a língua está para o ato 
de fala assim como o social está para o individual. O ato de fala é, portanto, 
totalmente  individual.  Isto,  como  reveremos,  constitui  o  proton  pseudos 
de Saussure e de toda a tendência do objetivismo abstrato. 
O ato individual de fala, a expressão, assim decididamente excluído 
da linguística, retorna, todavia, como fato indispensável na história da 
língua.  Esta  última  vem,  em  Saussure,  decididamente  contraposta,  no 
espírito desta segunda tendência, à língua como sistema sincrônico. Na 
história,  domina  o  “ato  de  fala”  com  a  sua  individualidade  e 
casualidade,  por  isso  a  história  é  regulada  por  um  sistema  de  leis 
completamente diferente daquele que regula o sistema da língua. 
A  concepção  que  Saussure  tem  da  história  é  extremamente 
característica  do  espírito  do  racionalismo,  que  até  hoje  predomina  na 
segunda  tendência  do  pensamento  filosófico‐linguístico,  para  o  qual  a 
história  é  um  elemento  irracional  que  deturpa  a  pureza  lógica  do 
sistema  linguístico.  Saussure  e  sua  escola  não  representam  a  única 

                                                            

17  De  Saussure,  Curso  de  Linguística  Geral,  cit.  p.  30  (trad.  Italiana  p.23‐24)  [tradução 
brasileira p. 22] 

  111 
expressão do objetivismo abstrato de nossos dias. Junto a esta se perfila 
outra,  aquela  da  escola  sociológica  de  Durkheim,  representada  na 
linguística pela figura de Meillet.  
Ao tentar resolver o problema da individuação e definição do objeto 
específico  de  pesquisa,  encontramo‐nos  diante  de  duas  séries  de 
respostas diametralmente opostas: a tese do subjetivismo individualista 
e a sua antítese, objetivismo abstrato18. 
Qual  é,  na  verdade,  o  centro  da  atividade  linguística:  o  ato 
individual de discurso ‐ ou seja, a expressão ‐ ou o sistema da língua? E 
qual  é  a  forma  desta  realidade  objetiva  da  atividade  linguística:  a 
ininterrupta  formação  criativa  ou  a  imutabilidade  inerte  da  forma 
idêntica a si mesma?  
Até  aqui,  buscamos  dar  uma  representação  absolutamente  objetiva 
das duas tendências da filosofia da linguagem. A seguir, devemos fazer 
uma análise crítica aprofundada. Somente depois poderemos responder 
à pergunta que formulamos aqui. 
Comecemos  com  a  análise  crítica  da  segunda  tendência,  aquela  do 
objetivismo abstrato19. 
Antes  de  tudo,  devemos  perguntar:  em  que  medida  o  sistema  da 
norma  linguística  idêntica  a  si  mesma,  tal  como  concebido  pelos 
representantes  da  segunda  tendência,  pode  ser  considerado  real? 
Nenhum  dos  representantes  do  objetivismo  abstrato  atribui, 
obviamente,  ao  sistema  da  língua  uma  realidade  objetiva,  mas,  como 
sistema  de  formas  normativamente  idênticas,  tem  uma  realidade 
somente  como  forma  social.  Os  representantes  da  segunda  tendência 
sublinham  constantemente  –  e  isso  é  um  de  seus  princípios 
fundamentais  –  que  o  sistema  da  língua  representa  para  qualquer 
consciência  individual  um  fato  objetivo  externo,  independente  desta 
                                                            

18  No  âmbito  das  duas  tendências  por  nós  indicadas,  não  expusemos,  obviamente, 
muitas  escolas  e  tendências  do  pensamento  linguístico,  alguns  dos  quais,  como  por 
exemplo o fenômeno dos “neogramáticos” cujos pilares coincidem parcialmente com 
a primeira tendência, são muito significativos. 
19  [N.T.] Na versão em italiano, aparece aqui “primeira tendência”, o que pode ser tanto 

um problema de tradução quanto um problema de engano no original. Optamos pela 
lógica  da  exposição  do  texto,  mantendo  o  objetivismo  abstrato  como  a  segunda 
tendência.  

112  
consciência.  Mas  de  fato  representa  um  sistema  de  formas  imutáveis  e 
idênticas a si mesmas somente para a consciência individual e somente 
do ponto de vista desta consciência. 
Em  efeito,  se  se  mantém  um  ponto  de  vista  verdadeiramente 
objetivo,  buscando  ver  a  língua  independentemente  de  como  aparece 
num dado indivíduo falante num dado momento, ela se apresenta como 
um fluxo ininterrupto devido a um processo contínuo de transformações. Se se 
observa a língua de modo objetivo, não existe um momento real em que 
não se possa construir um sistema sincrônico. 
Esse  sistema  sincrônico  da  língua  existe,  no  melhor  dos  casos, 
somente  para  a  consciência  subjetiva  de  um  falante  pertencente  a  um 
determinado grupo linguístico num determinado momento do período 
histórico.  De  um  ponto  de  vista  objetivo,  tal  sistema  não  existe  em  nenhum 
momento  real  do  período  histórico.  Podemos  admitir  que,  para  César,  no 
momento  em  que  ele  escrevia  sua  obra,  o  latim  se  afigurava  a  um 
sistema imutável, incontestável de formas idênticas a si mesmas, mas a 
história da língua latina, no momento mesmo em que César trabalhava, 
estava desenvolvendo um processo de transformações linguísticas (não 
importa que o momentâneo logre ou não se fixe com precisão).  
Se disséssemos que a língua como sistema de normas incontestáveis 
e imutáveis existe objetivamente, cometeríamos um erro grosseiro; mas 
se disséssemos que a língua relativamente a uma consciência individual 
representa um sistema de normas incontestáveis e imutáveis e que tal é 
seu  modo  de  existir  para  qualquer  membro  de  uma  comunidade 
linguística,  exprimiríamos  com  isso  uma  relação  objetiva.  Um  outro 
problema  é  estabelecer,  depois,  se  efetivamente  para  a  consciência  do 
falante da língua é somente um sistema imutável e estático de normas. 
Por enquanto, deixemos esse problema em aberto. Em qualquer caso, a 
questão é fixar uma relação objetiva qualquer. 
Que  posição  têm  a  esse  respeito  os  próprios  representantes  do 
objetivismo abstrato? 
A  maioria  deles  está  inclinada  a  afirmar  a  realidade  não  mediata,  a 
objetividade  não  mediata  da  língua  como  sistema  de  formas  normativamente 
idênticas.  Nas  mãos  desses  representantes  da  segunda  tendência,  o 
objetivismo  abstrato,  assim,  é  decisivamente  transformado  num 
objetivismo  abstrato  hipostasiado.  Outros  representantes  dessa  mesma 

  113 
tendência  (por  exemplo,  Meillet)  são  mais  críticos  e  se  dão  conta  do 
caráter abstrato e convencional do sistema linguístico. Todavia, nenhum 
dos representantes do objetivismo abstrato elabora uma concepção clara 
e  distinta  do  tipo  de  realidade  que  é  inerente  à  língua  como  sistema 
objetivo. 
Além disso, porém, devemos perguntar: existe efetivamente, para a 
consciência  subjetiva  do  falante,  a  língua  como  sistema  objetivo  de 
formas  incontestáveis  e  normativamente  idênticas?  Ou,  em  outras 
palavras,  é  efetivamente  este  o  modo  de  ser  da  língua  na  consciência 
linguística subjetiva? 
A esta pergunta devemos dar uma resposta negativa. A consciência 
subjetiva  do  falante  não  usa  a  língua  mesma  como  sistema  de  formas 
normativamente  idênticas.  Este  sistema  é  somente  uma  abstração, 
obtida  com  enorme  esforço,  que  tem  um  escopo  cognitivo  prático 
preciso. O sistema abstrato da língua é o produto de uma reflexão feita 
sobre  a  linguagem,  mas  não  pela  consciência  do  falante  nativo  e  nem 
com o objetivo direto de falar. 
Na realidade, o falante centra‐se sob aquela enunciação concreta que 
ele  está  pronunciando.  O  centro  de  gravidade  para  ele  não  está  na 
identidade  da  forma,  mas  no  novo  e  concreto  significado  que  esta 
identidade adquire naquele dado contexto. De fato, para o falante, a forma 
linguística  não  é  importante  enquanto  sinal  fixo  e  igual  a  si  mesmo,  mas 
enquanto signo sempre mutável e flexível.  
O  falante  deve  considerar  o  ponto  de  vista  daquele  que  escuta  e 
compreende. Não poderia se dar que é neste ponto que entra em vigor a 
identidade normativa da forma linguística? 
Não  é  de  fato  assim.  O  trabalho  principal  da  compreensão  não 
coincide  de  fato  no  reconhecer  na  forma  linguística  usada  pelo  falante 
uma forma conhecida, “idêntica”, assim como às vezes se reconhece um 
sinal  não  muito  habitual  ou  uma  palavra  de  uma  língua  pouco 
conhecida. Fundamentalmente o trabalho da compreensão não coincide 
com o reconhecimento da forma aplicada, mas o que é próprio para sua 
compreensão  naquele  dado  contexto  concreto,  com  a  compreensão  daquela 
forma  naquela  dada  enunciação,  ou  seja,  com  a  compreensão  de  sua 
novidade e não com o reconhecimento da sua identidade. 

114  
Em  outras  palavras,  também  o  ouvinte,  pertencente  à  mesma 
comunidade  linguística,  não  considera  uma  dada  forma  linguística  um  sinal 
fixo, idêntico a si mesmo, mas um signo mutável e flexível. 
É  necessário  não  confundir,  absolutamente,  o  processo  de 
compreensão com o processo de reconhecimento. Eles são profundamente 
diversos.  Somente  o  signo  pode  ser  compreendido,  enquanto  o  sinal  é 
reconhecido. O sinal é algo isolado, internamente imóvel, que não está à 
disposição  de  nenhuma  outra  coisa,  não  reflete  nem  refrata  um  objeto 
(determinado e fixo) ou uma ação (também essa determinada e fixa)20. 
   Se uma forma verbal fosse somente um sinal e como sinal viesse a 
ser  reconhecida  pelo  ouvinte,  não  representaria  para  este  uma  forma 
linguística.  Não  existe  uma  sinalidade  pura  sequer  nos  primeiros 
estágios  de  ensino  de  uma  língua.  Também  nesse  caso  a  forma  é 
enquadrada  no  contexto  e  representa  um  signo,  ainda  que  o  objeto 
correlativo de identificação esteja presente no momento do emprego do 
signo ou que emprego e identificação se dêem ao mesmo tempo.  
 Obviamente não é necessário deduzir disto tudo que na língua não 
existam  o  momento  da  codificação  –  ou  signalização  ‐  e  o  seu 
correlativo, o da identificação. Existem, mas para a língua enquanto tal 
não  são  essenciais.  São  dialeticamente  cancelados,  absorvidos  face  à 
qualidade do signo (isto é, da linguagem enquanto tal). 
A  consciência  linguística  do  falante  e  do  ouvinte‐receptor,  no 
trabalho linguístico prático, vivo, nada tem a ver com o sistema abstrato 
das formas normativamente idênticas da língua, mas com a linguagem 
entendida  como  conjunto  de  possíveis  contextos  de  utilização  de  uma 
dada  forma  linguística.  A  palavra  para  um  falante,  na  sua  língua 
materna, não é uma  voz do dicionário, mas uma palavra  utilizada nas 
mais  variadas  enunciações  do  interlocutor  A,  do  interlocutor  B,  do 
interlocutor  C  e  assim  por  diante,  e  nas  mais  variadas  enunciações  do 
próprio  falante.  A  isto  é  necessário  acrescentar  ainda  uma  observação 
essencial. A consciência linguística dos falantes substantivamente nada 
                                                            

20  Karl  Bühler,  em  seu  artigo  “Von  Wesen  der  Syntax”,  in.  Festschrift  für  Karl  Vossler, 

distingue com inteligência e agudez os sinais e a combinação de sinais (por exemplo 
aquele  de  uso  dos  marinheiros)  e  a  forma  linguística  e  as  combinações  das  formas 
linguísticas, ligadas com o problema da sintaxe (p.61‐69) 

  115 
tem  a  ver  com  a  forma  linguística  enquanto  tal,  nem  com  a  língua 
enquanto tal. 
Na  realidade,  a  forma  linguística  emerge  para  o  falante  somente 
num  contexto  preciso  de  enunciação,  em  consequência  emerge  num 
contexto  ideológico  preciso.  Em  substância,  nós  não  escutamos  nem 
pronunciamos  uma  palavra,  mas  escutamos  uma  verdade  ou  uma 
mentira,  algo  bom  ou  cativante,  útil  ou  inútil,  agradável  ou 
desagradável  etc.  A  palavra  preenche‐se  de  um  conteúdo  ou  de  um 
significado  ideológico  ou  cotidiano.  Como  tal,  nós  a  recebemos  e 
respondemos  somente  à  palavra  que  compreendemos  no  plano  da 
ideologia ou do quotidiano. 
O  critério  de  correção  nós  o  aplicamos  a  uma  enunciação  somente 
em  casos  anormais  ou  especiais  (por  exemplo,  no  ensino  de  uma 
língua).  Normalmente  o  critério  de  correção  linguística  vem 
acompanhado  de  critério  puramente  ideológico:  a  correção  de  uma 
enunciação  vem  eclipsada  pela  sua  verdade  ou  falsidade,  pela  sua 
poeticidade ou banalidade e assim por diante21.  
Ter estabelecido uma separação entre a língua e o seu conteúdo ideológico é 
um dos erros mais graves do objetivismo abstrato. 
Em  suma,  o  modo  de  ser  efetivo  da  língua  para  a  consciência  dos 
falantes  nativos  não  é  absolutamente  aquele  de  um  sistema  de  formas 
normativamente  idênticas.  Se  se  parte  da  visão  do  falante,  da  prática 
real  da  comunicação  social,  não  existe  um  caminho  direto  que  leve  ao 
sistema da língua do objetivismo abstrato. 
O  que  representa  esse  sistema?  Desde  o  início,  fica  claro  que  esse 
sistema  foi  obtido  por  abstração  e  que  ele  se  compõe  de  elementos 
isolados abstratamente da unidade real do fluxo linguístico, ou seja, da 
enunciação.  Qualquer  abstração,  para  ser  legítima,  deve  ser  justificada 
por  um  objetivo  preciso,  seja  teórico  ou  prático.  A  abstração  pode  ser 
produtiva ou improdutiva, ou pode ser produtiva para alguns objetivos 
e improdutiva para outros. 

                                                            

21  Sob essa base, como veremos em seguida, não se pode estar de acordo com Vossler, 

que  admite  a  existência  de  um  gosto  linguístico  distinto  e  separado,  que  não 
coincidirá com um gosto ideológico específico, ou seja, artístico, cognitivo, ético etc. 

116  
Quais  escopos  estão  na  base  da  abstração  linguística  que  leva  ao 
sistema sincrônico da língua? De que ponto de vista esse sistema pode 
ser considerado produtivo e necessário? 
Na  base  desses  métodos  do  pensamento  linguístico  que  levam  à 
criação  da  língua  como  um  sistema  de  formas  normativamente 
idênticas,  está  um  interesse  prático  e  teórico  pelo  estudo  da  língua 
estrangeira, morta e conservada nos documentos literários. 
É necessário sublinhar com muita clareza que essa orientação filológica 
condicionou  fortemente  todo  pensamento  linguístico  europeu.  Este 
pensamento  se  formou  e  amadureceu  sobre  os  cadáveres  da  língua 
escrita;  quase  todas  as  categorias  fundamentais,  as  principais 
afirmações  e  atitudes  se  formaram  propriamente  na  tentativa  de  dar 
vida a esses cadáveres. 
A  questão  filológica  é  um  aspecto  inevitável  da  toda  linguística 
europeia, condicionada pelos destinos categóricos de seu nascimento e 
seu desenvolvimento. Quanto mais longe se pode remontar na noite do 
tempo,  seguindo  a  história  das  categorias  e  dos  métodos  linguísticos, 
em  qualquer  parte  encontraremos  os  filólogos.  Filólogos  não  foram 
somente  os  alexandrinos,  filólogos  foram  também  os  romanos  e  os 
gregos  (Aristóteles  é  um  típico  filólogo),  filólogos  foram  também  os 
antigos hindus. 
Podemos  dizer  claramente:  a  linguística  surge  onde  e  quando  aparece 
uma  necessidade  filológica.  A  necessidade  filológica  gerou  a  linguística, 
embalou‐a  e  legou‐lhe  seu  canto.  Esse  canto  deveria  despertar  os 
mortos.  Porém,  não  havendo  sonos  em  quantidade  suficiente,  sobrou‐
lhe tempo para dominar a linguagem viva em seu ininterrupto processo 
gerativo.  O  acadêmico  N.  J.  Marr  indica  com  grande  precisão  essa 
essência filológica do pensamento indo‐europeu: 
 
É  natural  que  a  linguística,  dispondo  de  um  objeto  de  indagação  já 
estabelecido  e  há  longo  tempo  determinado  –  pelo  estudo  indo‐
europeu  da  época  histórica  –  e  partindo  além  disso  quase 
exclusivamente  da  forma  rígida  da  língua  escrita,  sobretudo  das 

  117 
línguas  mortas,  não  poderia  esclarecer  o  processo  do  nascimento  da 
linguagem em geral e da origem de suas variedades22. 
  
Ou em outra passagem: 
 
O  maior  obstáculo  [para  o  estudo  das  línguas  aborígenes]  não  é  a 
dificuldade  da  pesquisa  em  si,  mas  do  nosso  pensamento  científico, 
paralisado por uma visão de mundo tradicional típica da filologia e da 
história  da  cultura,  não  educado  para  percepções  etnológicas‐
linguísticas da linguagem viva e da sua iridescente criatividade que é 
profundamente livre23. 
 
As  palavras  do  acadêmico  Marr  são  exatas  não  só  a  propósito  da 
linguística  indo‐europeia,  que  deu  o  tom  a  toda  linguística 
contemporânea,  mas  também  a  propósito  de  qualquer  tipo  de 
linguística  por  nós  historicamente  conhecida.  A  linguística,  como 
dissemos, é em toda parte filha da filologia. 
Guiada  pela  exigência  filológica  da  linguística,  partiu  sempre  da 
enunciação monológica completa, ou seja, do documento antigo, considerando‐a 
uma  realidade  basilar.  A  linguística  elaborou  suas  metodologias  e  suas 
categorias  trabalhando  sobre  essa  enunciação  monológica,  morta,  ou 
melhor, sobre uma série de enunciações que eram somente ligadas pela 
língua comum entre elas. 
A  enunciação,  porém,  é  já  uma  abstração,  e  para  dizer  a  verdade, 
uma abstração natural. Qualquer enunciação monológica, em qualquer 
parte,  compreendendo  também  o  documento  escrito,  representa  um 
elemento que não pode ser separado da comunicação verbal. Qualquer 
enunciação, também aquela escrita, completa, responde a alguma coisa 
e  é  orientada  para  uma  resposta.  Ela  não  é  senão  um  anel  da  cadeia 
ininterrupta constituída pelas enunciações. Qualquer documento escrito 
continua  o  trabalho  dos  precedentes,  polemiza  com  eles,  espera  uma 
compreensão  ativa,  responsiva,  antecipa‐a  etc.  Qualquer  documento  é 

                                                            

22  N.  J.  Marr,  Poe  tapam  iafeticeskoi  teori  [As  etapas  da  teoria  javética],  Leningrado  1926, 

p.279 
23  Idem, p. 94‐95.  

118  
em  realidade  uma  parte  indivisível  da  ciência,  da  literatura,  da  vida 
política.  O  documento  escrito,  como  qualquer  outra  enunciação 
monológica,  está  destinado  a  ser  compreendido  no  contexto  da  vida 
científica  ou  da  realidade  literária  do  momento,  ou  seja,  no  processo  de 
formação daquela esfera ideológica de que representa um elemento constitutivo. 
O  documento  é,  portanto,  uma  parte,  um  componente,  de  um 
campo  real  na  criação,  enquadra‐se  no  seu  processo  de  criação  e  é 
orientado para uma compreensão responsiva desde sua formulação. 
O  filólogo‐linguista  extrai  o  documento  deste  campo  real,  recebe‐o 
como se fosse uma entidade isolada, autônoma e não lhe contrapõe uma 
compreensão  ativa,  responsiva,  ideológica,  mas  uma  compreensão 
absolutamente  passiva,  na  qual  não  há  nenhum  embrião  de  resposta, 
como  há,  ao  invés,  em  qualquer  autêntica  compreensão.  Este 
documento  isolado,  enquanto  documento  de  uma  língua,  é  posto  pelo 
filólogo  em  relação  com  outros  documentos  sob  a  base  do  elemento 
comum que é a língua dada. 
Os  métodos  e  categorias  do  pensamento  linguístico  são  assim 
criados  nesse  processo  de  contraposição  das  interpretações  recíprocas, 
sob a base da língua comum, das enunciações monológicas isoladas. 
A língua morta, estudada pelo linguista, é para ele obviamente uma 
língua estrangeira. Por este motivo, o sistema das categorias linguísticas 
não é produto de uma reflexão cognitiva da consciência de um falante 
nativo.  Não  representa  a  reflexão  sobre  o  modo  de  sentir  a  própria 
língua  materna,  mas  a  reflexão  de  uma  consciência  que  abre  uma 
passagem no mundo desconhecido de uma língua estrangeira. 
Inevitavelmente  a  compreensão  passiva  do  filólogo‐linguista  se 
projeta sobre o documento escrito que está estudando do ponto de vista 
da língua, como se este tivesse nascido para tal tipo de compreensão, ou 
seja, como se tivesse sido escrito para os filólogos. 
Como  resultado,  tem‐se  uma  teoria  da  compreensão  radicalmente 
errada,  a  qual  está  na  base  não  só  dos  métodos  de  interpretação 
linguística  do  texto,  mas  também  em  toda  a  semasiologia  europeia. 
Toda teoria do significado e do tema da fala está impregnada da noção 
errada  de  compreensão  passiva,  ou  seja,  de  uma  compreensão  da  fala 
de que se exclui a priori uma resposta ativa a tal fala. 

  119 
Essa  compreensão  de  que  a  resposta  está  excluída  a  priori, 
substancialmente não representa a compreensão da linguagem. Esta se 
funde  imediatamente  com  uma  tomada  de  posição  ativa  nos  confrontos 
entre o que acaba de ser dito e compreendido. É característico de uma 
compreensão  passiva  a  percepção  clara  do  momento  de  identidade  do 
signo  linguístico,  ou  seja,  a  sua  percepção  como  objeto‐sinal  e,  em 
consequência, da predominância do momento da identificação.  
A  língua  de  que  se  ocupa  a  linguística  é  por  definição  uma  língua 
morta, estrangeira, escrita.  
A  enunciação  isolada,  completa,  monológica,  extraída  de  seu  contexto 
verbal  e  real,  contraposta  não  a  uma  potencial  resposta  ativa,  mas  à 
compreensão passiva do filólogo, é o ponto  básico, o  ponto de partida 
do pensamento linguístico.   
 Nascido  no  processo  de  aprofundamento  do  conhecimento 
científico  de  uma  língua  estrangeira  morta,  o  pensamento  linguístico 
serve  também  a  um  outro  objetivo  que  não  é  mais  da  pesquisa 
científica,  mas  do  ensino:  seu  escopo  não  é  mais  decifrar  uma  língua, 
mas  ensinar  uma  língua  já  decifrada.  Os  documentos  escritos,  os 
documentos  heurísticos,  transformam‐se  em  modelo  escolástico,  em 
clássicos da língua. 
Este segundo escopo fundamental da linguística, aquele de criar um 
aparato necessário para o ensino de uma língua já decifrada, aquele, por 
assim  dizer,  de  codificá‐la  tendo  presente  sua  transmissão  escolar, 
imprimiu  sua  marca  sobre  o  pensamento  linguístico.  A  fonética,  a 
gramática,  o  léxico:  essas  três  seções  do  sistema  da  língua,  estudadas 
com  categorias  linguísticas  que  não  organizavam  seu  centro  próprio, 
foram  organizadas  para  servir  aos  dois  escopos  da  linguística  por  nós 
indicados: o heurístico e o pedagógico. 
O que é um filólogo? 
Por  quanto  possa  se  diferenciar  muito,  cultural  e  historicamente,  a 
figura  dos  linguistas,  a  partir  dos  sacerdotes  hindus  até  o  glotólogo 
europeu  contemporâneo,  o  filólogo  sempre  e  em  toda  parte  foi  o 
decifrador do discurso e da escritura “secreta”, estrangeira, o professor‐
transmissor do que havia decifrado ou do que lhe era transmitido pela 
tradição.  

120  
Os  primeiros  filólogos  e  os  primeiros  linguistas  sempre  e  em  toda 
parte  foram  os  sacerdotes.  A  história  não  conhece  nenhum  povo  cuja 
escritura  ou  tradição  sacra  não  fosse  uma  mistura  qualquer  de 
linguagem  artificial  e  incompreensível  para  o  profano.  Competia  aos 
sacerdotes‐linguistas decifrarem o segredo da palavra sagrada. 
Sobre  essa  base  nascem  as  mais  antigas  filosofias  da  linguagem:  a 
teoria  védica  da  palavra,  a  teoria  do  Logos  dos  antigos  pensadores 
gregos e a filosofia bíblica da palavra. 
Para entender esses filosofemas é preciso não esquecer em nenhum 
instante que se trata de filosofemas de uma palavra estrangeira. Se um 
povo  tivesse  conhecido  apenas  a  própria  língua  materna,  se  a  palavra 
tivesse  coincidido  com  a  língua  materna  da  própria  vida,  se  no 
horizonte  não  houvesse  aparecido  a  misteriosa  palavra  estrangeira,  a 
palavra de uma outra língua, este povo jamais teria criado semelhantes 
filosofemas24.  
É um aspecto surpreendente: da mais longínqua antiguidade até os 
dias de hoje, a filosofia da linguagem e o pensamento linguístico estão 
fundados e se baseiam sobre a percepção específica da palavra estrangeira, 
de  uma  outra  língua  e  os  problemas  específicos  que  a  fala  estrangeira 
põe para a consciência: decifrar e assinalar o que está sendo decifrado. 
O  sacerdote  védico  e  o  filólogo‐linguista  contemporâneo  são 
fascinados  e  sugestionados,  no  seu  pensamento  linguístico,  por  um 
mesmo  fenômeno:  o  fenômeno  da  palavra  estrangeira,  de  uma  outra 
língua. 
A  palavra  da  própria  língua  é  percebida  de  outra  maneira,  ou 
melhor,  ela  não  é  percebida  como  palavra,  carregada  de  toda 
categorização  que  gera  no  pensamento  linguístico  e  que  gerou  no 
pensamento filosófico‐religioso dos antigos. A palavra de nossa língua 
materna,  “a  nossa  irmã”,  é  considerada  do  mesmo  modo  que  nossos 

                                                            

24  Segundo a religião védica, a palavra sagrada – em qualquer uso que não aquele do 

sacerdote  sábio  consagrado  –  torna‐se  soberana  de  todo  Existente,  incluindo  os 
deuses  e  os  homens.  O  sacerdote‐sábio  é  definido  aqui  como  aquele  que  controla  a 
palavra e nisso consiste todo o seu poder. A doutrina, neste sentido, é conhecida já no 
Rgveda’V.  O  antigo  filosofema  do  Logos  e  a  doutrina  alexandrina  do  Logos  são  bem 
conhecidos.  

  121 
sólidos  hábitos,  ou  melhor,  que  a  atmosfera  sólida  na  qual  vivemos  e 
respiramos.  Nela  não  há  mistérios;  ela  pode  tornar‐se  um  mistério  em 
lábios diferentes e em dias hierarquicamente diferentes, sob os lábios de 
um  chefe,  de  um  sacerdote,  mas  neste  caso  torna‐se  também  uma 
palavra  diferente,  modifica‐se  exteriormente  quando  eliminada  do  uso 
cotidiano  (tabus  para  a  vida  cotidiana  ou  arcaísmos  linguísticos),  se  já 
não  era  desde  o  início,  nos  lábios  de  um  conquistador,  uma  palavra 
estrangeira.  Somente  então  nasce  a  “Palavra”,  somente  neste  ponto 
incipit filosofia, incipit filologia. 
O  fato  de  a  linguística  e  a  filosofia  da  linguagem  serem  orientadas 
até a palavra estrangeira, a palavra artificial, não é fruto de um acaso ou 
de  um  arbítrio  da  parte  da  linguística  e  da  filosofia.  Essa  orientação  é 
expressão do enorme papel histórico que teve a palavra estrangeira no 
processo  de  criação  de  toda  cultura  histórica.  Esse  papel  foi  exercido 
pela  palavra  estrangeira  em  todas  as  esferas,  sem  exceção,  da 
criatividade  ideológica,  da  estrutura  sócio‐política,  chegando  aos 
códigos  comportamentais  da  vida  de  todos  os  dias.  De  fato,  a  palavra 
desconhecida, a palavra de uma língua estrangeira, trouxe a civilização, 
a  cultura,  a  religião,  a  organização  política  (veja‐se,  por  exemplo,  os 
sumérios  e os  semitas  babilônicos;  os  javéticos e  os  helênicos;  Roma,  o 
cristianismo e os povos bárbaros; Bizâncio, os “varjaghi”[um dos povos 
russos,  possivelmente  procedentes  dos  “wikings”  que  povoaram  o 
território  russo],  as  tribos  eslavas  meridionais  e  os  eslavos  orientais 
etc.).  Esse  grandioso  papel  organizador  da  palavra  estrangeira, 
portadora de uma força e de uma organização estrangeira ou inventada 
na  terra  conquistada  pelo  jovem  povo  vitorioso  sobre  uma  antiga  e 
potente cultura a que dava sepultura, podemos dizer, que esta submetia 
a  consciência  ideológica  do  novo  povo  recém‐chegado,  fazendo  com 
que a palavra estrangeira, na profundidade da consciência histórica dos 
povos, se fundisse com a ideia de poder. Isso fez com que o pensamento 
sobre a palavra fosse orientado essencialmente pela palavra estrangeira. 
Todavia,  nem  a  linguística  nem  a  filosofia  da  linguagem  até  hoje 
tomaram  objetivamente  consciência  do  enorme  papel  histórico  da  língua 
estrangeira.  Ainda  hoje  a  linguística  está  a  ela  subordinada,  mas  a 
linguística parece, em certo sentido, representar a última onda, junto a 
nós,  da  avalanche  da  linguagem  estrangeira  que  foi  no  passado 

122  
vivificante, e é o último reduto do papel ditatorial e criativo da cultura 
desta linguagem. 
Justamente  por  esse  motivo,  a  linguística,  sendo  ela  própria  um 
produto  da  palavra  estrangeira,  está  muito  longe  de  compreender 
corretamente  o  seu  papel  na  história  da  língua  e  da  consciência 
linguística.  Ao  contrário,  a  indo‐germanística  elaborou  as  categorias 
cognitivas  da  história  da  língua  que  excluíram  completamente  a 
avaliação correta do papel da palavra estrangeira. Enquanto esse papel 
é aparentemente enorme. 
A  ideia  do  cruzamento  linguístico,  como  fator  fundamental  da 
evolução da língua, é apontada com grande clareza pelo acadêmico N. J. 
Marr.  Ele  reconhece  que  o  fator  do  cruzamento  linguístico  foi 
fundamental para a solução do problema da origem da língua. Escreve 
Marr: 
 
O cruzamento em geral, como fator de criação de línguas diversas, de 
aspectos  até  das  diversas  variedades,  o  cruzamento  como  fonte  da 
formação de novas variedades foi observado e acompanhado em toda 
língua  javética  e  isto  representa  uma  das  maiores  aquisições  da 
linguística  javética...  De  fato  não  existe,  não  existiria  e  nem  poderia 
existir  uma  língua  fônica  primeira,  uma  língua  de  uma  só  tribo.  A 
língua  é  uma  criação  da  sociedade,  nascida  sobre  a  base  da 
comunicação recíproca entre várias tribos, provocada pela necessidade 
econômica  e  representa,  portanto,  a  sedimentação  deixada  por  essa 
comunicação, que é sempre multitribal25.  
              
Aqui acentuamos somente o significado da palavra estrangeira para 
o  problema  do  estudo  da  língua  e  da  sua  evolução.  Os  problemas 
específicos  estão  fora  dos  limites  do  nosso  trabalho.  A  palavra 
estrangeira  é,  para  nós,  importante  como  fator  que  determina  o 
pensamento filosófico‐linguístico sobre a palavra e todas as categorias e 
afirmações  deste  pensamento.  Nós  buscamos  indicar  essa 
particularidade da concepção da palavra que se conservou no curso dos 
séculos  e  que  influenciou  o  pensamento  linguístico  contemporâneo. 

                                                            

25  N. J. Marr, Po etapam jafeticeskoi teorii, p. 268.   

  123 
Justamente essa categoria encontrou sua mais clara e precisa expressão 
na teoria do objetivismo abstrato. 
Não  nos  resta  senão  concluir  nossa  análise  crítica  do  objetivismo 
abstrato. Ele não resolveu corretamente o problema que colocamos, ou 
seja,  o  problema  do  modo  de  ser  efetivo  dos  fenômenos  linguísticos 
como objeto específico e unitário de estudo. A língua como sistema de 
formas  normativamente  idênticas  é  uma  abstração  que  pode  ser 
justificada  teórica  e  praticamente  somente  quando  se  tem  em  vista  a 
decodificação e o ensino de uma língua estrangeira morta. Este sistema 
não  pode  servir  de  base  para  a  compreensão  e  explicação  dos  fatos 
linguísticos  vivos  e  em  formação.  Ao  contrário,  distancia‐se  da 
realidade viva, dinâmica da língua e de seu funcionamento social, não 
obstante  os  defensores  do  objetivismo  abstrato  reivindicarem  para  sua 
teoria  um  significado  social.  Na  base  teórica  do  objetivismo  abstrato 
estão  os  pressupostos  de  uma  visão  de  mundo  racionalista  e 
mecanicista que são incapazes de dar uma base correta à compreensão 
da  história,  enquanto,  ao  contrário  disso,  a  língua  é  um  fenômeno 
exclusivamente histórico. 
Não  se  segue,  então,  que  os  princípios  fundamentais  da  primeira 
tendência, aquela do subjetivismo idealista, sejam exatos? Não poderia 
se dar o caso de que ela tenha tido êxito em atingir a efetiva realidade 
da  linguagem?  Ou  não  poderia  se  dar  o  caso  de  que  a  verdade  se 
encontra  no  meio  e  representa  uma  solução  de  compromisso  entre  a 
primeira  e  a  segunda  tendência,  entre  a  tese  do  subjetivismo 
individualista e a antítese do objetivismo abstrato? 
Nós  mantemos  que,  como  sempre,  a  verdade  não  se  encontra  no 
meio  nem  representa  uma  solução  de  compromisso  entre  a  tese  e  a 
antítese,  mas  se  encontra  em  outro  lugar,  depois  de  deixar  de  ser  em 
tempo próprio uma negação da tese e da antítese, isto é, representa uma 
síntese dialética. Também a tese da primeira tendência, como veremos a 
seguir, não resiste à crítica. 
Dirijamos  ainda  a  atenção  ao  que  segue:  o  objetivismo  abstrato, 
mantendo que a única coisa substantiva para os fenômenos linguísticos 
é  o  sistema  da  língua,  recusa  a  enunciação,  a  expressão,  enquanto 
individual.  Nisto  está  o  proton  pseudos  do  objetivismo  abstrato.  O 
subjetivismo  individualista  sustenta  que  a  única  coisa  substancial  é  a 

124  
própria enunciação, mas a considera um fato individual e busca por isso 
explicá‐la a partir da vida psíquica individual do falante singular. Nisto 
está o seu proton pseudos. 
Na realidade, a enunciação, ou melhor, o seu produto, a expressão, 
não  pode  de  fato  ser  considerada  um  fenômeno  individual  no  sentido 
correto  do  termo  e  nem  pode  ser  explicada  tendo  presente  somente as 
condições  psicológicas  e  psico‐fisiológicas  individuais  do  falante 
singular. A enunciação é social. 
A  segunda  tendência  do  pensamento  filosófico‐linguístico,  como 
vimos,  é  ligada  ao  racionalismo  e  ao  neoclassicismo.  A  primeira 
tendência,  a  do  subjetivismo  individualista,  é  ligada  ao  romantismo.  O 
romantismo  representa,  numa  medida  considerável,  uma  reação  à 
palavra  estrangeira  e  às  categorias  de  pensamento  por  ela 
condicionadas.  O  romantismo  foi,  mais  imediatamente,  a  reação  ao 
último  recrudescimento  do  poder  cultural  da  palavra  estrangeira,  ou 
seja,  à  época  do  Renascimento  e  do  Neoclassicismo.  Os  românticos 
foram os primeiros filólogos da própria língua materna, os primeiros a 
buscar  reconstruir  radicalmente  o  pensamento  linguístico  sobre  a  base 
da  experiência  em  língua  materna  como  médium  para  a  formação  da 
consciência  e  do  pensamento.  Para  dizer  a  verdade,  os  românticos 
permaneceram  filólogos  no  sentido  estrito  do  termo.  Eles  obviamente 
não  estavam  à  altura  para  reestruturar  o  pensamento  linguístico  que 
fora  criado  e  sedimentado  no  curso  dos  séculos.  Não  obstante,  novas 
categorias  vieram  a  inserir‐se  neste  pensamento  e  isso  deu  à  primeira 
tendência sua característica específica. É sintomático que  ainda hoje os 
representantes do subjetivismo individualista sejam os especialistas em 
línguas  modernas  e  em  particular  em  línguas  românicas  (K.  Vossler, 
Leo Spitzer, Lorck etc.). 
Todavia  também  para  o  subjetivismo  individualista  a  enunciação 
monológica  era  a  realidade  básica,  o  ponto  de  partida  de  seu 
pensamento  linguístico.  Para  dizer  a  verdade,  isso  não  ajusta  com  o 
ponto de vista da compreensão passiva do filólogo, mas com o ponto de 
vista interno, com o ponto de vista do falante que expressa a si mesmo. 
O  que  é  a  enunciação  monológica  segundo  o  subjetivismo 
individualista?  Vimos  que  este  é  um  ato  puramente  individual,  a 
expressão  de  uma  consciência  individual,  com  seus  objetivos,  suas 

  125 
intenções, seus impulsos criativos, seu gosto etc. A categoria da expressão 
é a principal e mais ampla categoria sob a qual pode ser classificada a 
enunciação‐expressão. 
A  teoria  da  expressão,  que  está  na  base  da  primeira  tendência  da 
filosofia da linguagem, está radicalmente errada. 
A  experiência  exprimível  e  sua  objetivação  exterior  são  feitas  com 
um único material. De fato não existe uma experiência fora de sua encarnação 
sígnica. Em consequência não se pode falar de uma diferença qualitativa 
de  princípio  entre  o  elemento  interior  e  o  exterior.  E  mais,  o  centro 
organizador e formador não se encontra no interior (ou seja, no material 
dos  signos  interiores),  mas  no  exterior.  Não  é  a  experiência  que 
organiza  a  expressão,  mas  ao  contrário,  é  a  expressão  que  organiza  a 
experiência, lhe dá uma forma e define sua orientação. 
De  fato,  qualquer  que  seja  o  aspecto  da  expressão‐enunciação 
tomada  para  exame,  observaremos  que  ela  é  determinada  pelas 
condições  reais  daquela  dada  enunciação  e  acima  de  tudo  pela  sua 
imediata situação social. 
A  enunciação  se  constrói  entre  duas  pessoas  organizadas 
socialmente e, se não há um interlocutor real, este vem pressuposto na 
pessoa, por assim dizer, de um representante normal do grupo social a 
que  pertence  o  falante.  A  palavra  é  orientada  para  um  interlocutor,  é 
orientada para quem poderia ser o interlocutor: uma pessoa pertencente 
ou  não  ao  mesmo  grupo  social,  de  grau  superior  ou  inferior  (graus 
hierárquicos dos interlocutores), ligada ou não ao falante por um forte 
vínculo social (o pai, o irmão, o marido etc.) e por fim com toda a massa 
de relações que se criam entre os homens e que não fazem parte de uma 
categoria  bem  determinada.  Não  pode  haver  um  ouvinte  abstrato;  um 
homem, por assim dizer, em si e por si, e ainda que existisse de fato não 
poderíamos encontrar uma língua em comum com ele, nem em sentido 
próprio nem em sentido figurado. Se às vezes pretendemos viver uma 
experiência  e  expressá‐la  urbi  et  orbi,  em  realidade  nós  perceberemos 
obviamente seja a cidade, seja o mundo, através do prisma do ambiente 
social  concreto  ao  qual  pertencemos.  Ao  fazer  isso,  na  maioria  dos 
casos,  mantemos  que  existe  um  horizonte  social  típico  e  estabilizado 
para  o  qual  é  orientada  a  atividade  ideológica  do  grupo  e  do  período 
social  a  que  pertencemos,  isto  é,  orientada  por  assim  dizer  ao 

126  
contemporâneo da nossa literatura, da nossa ciência, da nossa moral e do 
nosso direito. 
O  mundo  e  o  pensamento  interior  de  qualquer  homem  tem  seu 
auditório social estabilizado, em cuja atmosfera são construídos os seus 
motivos,  as  suas  razões  interiores,  as  suas  avaliações  etc.  Quanto  mais 
culto é um homem, tanto mais este auditório se avizinhará do auditório 
normal da criatividade ideológica, mas em qualquer caso, o interlocutor 
ideal  não  pode  ultrapassar  os  limites  de  uma  classe  específica  e  de  uma  época 
específica. 
O  significado  da  orientação  da  palavra  para  o  interlocutor  é  de 
excepcional  importância.  Em  substância,  a  palavra  representa  um  ato 
bilateral. Ela vem determinada em igual medida seja de quem ela provém 
quanto a quem ela é dirigida. Esta é uma palavra própria enquanto produto 
de  uma  relação  recíproca  entre  falante  e  ouvinte.  Qualquer  fala  exprime 
“um” na relação com “o outro”. No falar eu me conformo ao ponto de 
vista  de  um  outro,  ou  seja,  em  última  instância,  ao  ponto  de  vista  da 
comunidade a que pertenço. A palavra é uma ponte lançada entre mim 
e  os  outros.  Se  uma  extremidade  desta  ponte  se  apoia  sobre  mim,  a 
outra  se  apoia  sobre  meu  interlocutor.  A  palavra  é  o  território  comum 
existente entre o falante e o interlocutor. 
Quem  é  o  falante?  Ainda  que  a  fala  não  lhe  pertença  inteiramente, 
sendo  por  assim  dizer  uma  zona  de  limite  entre  ele  e  o  interlocutor, 
todavia esta lhe pertence por uma boa metade. 
Existe um aspecto pelo qual o falante é indiscutivelmente o dono da 
fala  e  que,  por  tal  aspecto,  não  lhe  pode  ser  expropriada:  o  ato 
fisiológico  da  realização  da  fala.  Mas  a  este  ato,  tomado  em 
consideração como ato puramente fisiológico, não se aplica a categoria 
de posse. 
Se não nos prendemos no ato fisiológico da realização do som, mas 
aquele  da  realização  da  palavra  como  signo,  o  problema  da  posse  se 
complica. A parte do fato de que a palavra como signo seja tomada de 
empréstimo  pelos  falantes  da  reserva  dos  signos  existentes,  a  própria 
formulação  individual  de  tal  signo  é  inteiramente  determinada  pelas 
relações  sociais.  A  própria  individualização  estilística  da  enunciação 
daquele que fala, de que trataram os discípulos de Vossler, é um reflexo 
das  relações  sociais  em  cuja  atmosfera  se  constrói  tal  enunciação.  A 

  127 
situação  social  imediata  e  o  seu  mais  amplo  ambiente  social 
determinam  inteiramente,  e  por  assim  dizer  desde  dentro,  a  estrutura 
da enunciação. 
Portanto,  a  teoria  da  expressão  que  está  na  base  do  subjetivismo 
individualista  deve  ser  repelida.  O  centro  organizador  da  enunciação 
não está no interior, mas no exterior: no ambiente social que circunda o 
indivíduo.  Somente  o  grito  animal,  inarticulado,  é  efetivamente 
organizado  no  interior  do  aparelho  fisiológico  de  um  único  indivíduo. 
Não há nisso qualquer fator ideológico, mas diz mais respeito à reação 
fisiológica.  Mas  já  a  enunciação  humana  mais  primitiva  realizada  por 
um  único  organismo,  pelo  que  concerne  a  seu  conteúdo,  é  organizada 
de  fora,  nas  condições  orgânicas  do  ambiente  social.  A  enunciação 
enquanto  tal  é  um  produto  da  interação  social,  seja  do  tipo  mais 
imediato,  determinado  pela  circunstância  da  enunciação,  seja  do  tipo 
mais  remoto,  determinado  pelo  todo  em  si  mesmo  das  condições  em 
que  ocorre  tal  dado  coletivo  falante.  O  ato  de  fala  isolado  (parole),  não 
obstante  a  teoria  do  objetivismo  abstrato,  está  longe  de  ser  um  fato 
individual  que,  enquanto  tal,  não  pode  ser  submetido  a  uma  análise 
sociológica. De fato, se assim fosse, nem a soma desses atos individuais 
nem aquelas características abstratas comuns a todos os atos (“a forma 
normativamente idêntica”) teriam podido dar um produto social. 
O  subjetivismo  individualista  tem  razão  quando  diz  que  os  atos  de  fala 
isolados  representam  a  efetiva  realidade  concreta  da  língua  e  que  esses  têm 
um  valor  criativo  na  língua.  O  subjetivismo  individualista  está  errado 
quando ignora e não compreende a natureza social do ato de fala e busca fazê‐lo 
derivar do mundo interior do falante como expressão deste mundo interior. 
A  estrutura  do  ato  de  fala  e  da  sua  própria  experiência  que  vem  nele 
expressa é uma estrutura social. 
A formulação estilística do ato de fala é uma formulação social e o 
próprio  fluxo  verbal,  o  fluxo  dos  atos  de  fala  equivale  de  fato  à 
realidade  da  linguagem,  é  um  fluxo  social.  Cada  gota  dele  é  social, 
social é toda a dinâmica de sua formação. 
O  subjetivismo  individualista  tem  plenamente  razão  quando  afirma 
que não se pode separar a forma linguística do seu conteúdo ideológico. Toda 
palavra  é  ideológica  e  toda  aplicação  da  linguagem  estão  dotadas  de 
uma modificação ideológica. O subjetivismo individualista está errado, 

128  
porém,  quando  faz  derivar  também  o  conteúdo  ideológico  da  fala  das 
condições da psique individual. 
O  subjetivismo  individualista  está  errado  quando  considera,  tal 
como o faz o objetivismo abstrato, seu ponto de partida fundamental o 
ato de fala monológico. Para dizer a verdade, alguns seguidores de Vossler 
começaram  a  defrontar‐se  com  o  problema  do  diálogo  e  em 
consequência  começaram  a  avizinhar‐se  de  uma  compreensão  mais 
correta  da  interação  verbal.  A  este  propósito,  é  de  extremo  interesse  o 
livro  de  Leo  Spitzer  Italienische  Umgangssprache,  em  que  se  faz  a 
tentativa de analisar a forma da língua italiana corrente tendo presentes 
os  estreitos  laços  com  as  condições  em  que  se  efetua  o  ato  de  fala  e 
acima de tudo a impostação do interlocutor. Todavia, o método de Leo 
Spitzer  não  tira  de  sua  análise  as  conclusões  sociológicas 
correspondentes.  O  ato  de  fala  monológico  permanece  para  os 
discípulos de Vossler a realidade fundamental. 
Agora  estamos  preparados  para  dar  uma  resposta  à  pergunta  que 
colocamos  no  início  deste  trabalho.  A  efetiva  realidade  da  linguagem 
não é representada pelo sistema abstrato da forma linguística nem pela 
enunciação, mas pelo acontecimento social da interação verbal, realizada com 
uma ou mais enunciações. 
A interação verbal é, portanto, a realidade fundamental da língua. 
Em  conclusão,  podemos  formular  o  nosso  próprio  ponto  de  vista 
nos seguintes princípios: 
1) A língua como sistema fixo de formas normativamente idênticas 
é  só  uma  abstração  científica  que  é  produtiva  somente  para  objetivos 
teóricos  e  práticos  bem  precisos.  Essa  abstração  não  é  adequada  à 
realidade concreta da língua. 
2) A  língua  está  num  processo  ininterrupto  de  formação  que  se 
realiza através da interação verbal dos falantes. 
3) As leis que regulam o processo de formação linguística não são 
absolutamente  as  leis  psicológicas‐individuais,  mas  não  podem  ser 
separadas da atividade dos falantes. As leis que regulam o processo de 
formação linguística são leis sociológicas. 
4) A  criatividade  linguística  não  coincide  com  a  criatividade 
artística nem com qualquer outra criatividade ideológica particular. Ao 
mesmo  tempo,  porém,  a  criatividade  linguística  não  pode  ser 

  129 
compreendida se se prescinde dos significados e dos valores ideológicos 
que  a  preenchem  completamente.  O  processo  de  formação  linguística, 
como  qualquer  outro  processo  gerativo  histórico,  pode  ser  percebido 
como  uma  necessidade  cega  e  mecânica,  mas  pode  também  tornar‐se 
uma  “necessidade  livre”,  uma  vez  que  tenha  se  transformado  numa 
necessidade consciente e desejada. 
5) A estrutura da enunciação é uma estrutura puramente social. A 
enunciação  enquanto  tal  se  dá  entre  falantes.  A  enunciação  individual 
(no sentido estrito do termo individual) é uma contradictio in adjecto.26 

                                                            

26  [N.T.] 
O  leitor  notará  que  esta  passagem,  com  poucas  modificações,  equivale  à 
passagem  de  Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem  (São  Paulo:  Hucitec,  1982,  p.  127). 
Como  a  edição  brasileira  desta  obra  se  baseou  na  tradução  francesa,  fiz  aqui  a 
tradução do italiano para que possíveis diferenças possam ser observadas.  

130  
QUE É A LINGUAGEM?1 
 
 
A  linguagem  e  a  vida  do  intelecto  nascem  da 
atividade  conjunta  dirigida  por  um  objetivo 
comum,  do  trabalho  primitivo  de  nossos 
antepassados (Ludwig Noiret). 
 
1. A origem da linguagem 
 
Um autor se dispõe a escrever algo, senta‐se diante da mesa e olha 
impotente  a  folha  de  papel  em  branco  diante  dele.  Antes  de  pegar  a 
caneta  e  dispor‐se  a  escrever,  tinha  tantas  ideias  em  mente. 
Precisamente  ontem,  havia  contado  a  um  amigo,  com  riqueza  de 
detalhes,  o conteúdo  de  sua  futura  primeira  novela.  E  agora,  qualquer 
frase  com  que  pensa  começar  sua  obra  lhe  parece  estúpida,  torpe, 
estranha  e  artificial.  Além  disso,  recém  havia  começado  a  escrever 
aquela  novela  que  em  sua  mente  parecia  já  ter  tomado  uma  forma 
definitiva, e imediatamente teve que enfrentar uma série de problemas. 
Em  que  pessoa  fazer  a  narração?  Deve  ser  ele  próprio,  o  autor,  aquele 
que narra ou algum dos personagens da novela? E se o narrador é um 
dos  personagens  da  novela,  qual  deve  ser  a  linguagem?  De  fato, 
inclusive  o  próprio  autor  pode  usar  a  chamada  linguagem  “literária”, 
ou pode eleger travestir‐se de um narrador ignorante, semianalfabeto, e 
neste caso deverá falar numa linguagem absolutamente distinta.  
O jovem escritor se encontra, portanto, com um número enorme de 
problemas que deve resolver antes de escrever sua obra.  
Pode‐se notar que esses problemas se dividem, de modo amplo, em 
dois  grupos.  O  primeiro  grupo  inclui  tudo  o  que  está  ligado  à 
linguagem  mesma,  à  escolha  das  palavras.  O  outro  grupo  está  ligado  à 
enunciação dessas palavras, à redação da obra inteira, em outras palavras, 
à composição da obra. Num e noutro caso, o autor sente que a linguagem 
                                                            
1   [N.T.]  Há  uma  tradução  recente  desse  texto,  diretamente  do  russo  para  o  francês, 
realizada por Patrick Sériot e Inna Tylkowski‐Ageeva, entre os anexos de Marxisme et 
Philosphie du Langage, edição bilíngue de Lambert‐Lucas, 2010. Nessa versão, o título é 
Qu’est‐ce  que  la  langue  et  le  langage,  justificado  pelos  tradutores  pelo  fato  de  que  a 
palavra russa jazyk significa tanto língua quanto linguagem.    

  131 
habitual  que  usa  para  conversar  com  outras  pessoas,  essa  linguagem 
com  que  reflete  ou  sonha  em  momentos  de  solidão,  parece‐lhe  agora 
um  fenômeno  estranhamente  difícil  e  complexo.  Antes  de  começar  a 
refletir sobre a linguagem, tudo lhe parecia simples e linear. Mas, nem 
bem começa a escrever uma obra literária, essa linguagem se torna para 
o  autor  pesada,  informe,  com  ela  é  muito  difícil  construir  uma  frase 
bela,  elegante  e,  sobretudo,  que  transmita  aquilo  que  quer  realmente 
expressar. A linguagem parece ter‐se transformado num enorme bloco 
de  mármore,  no  qual  é  necessário  esculpir  a  figura  desejada.  A 
linguagem tornou‐se o material da criatividade artística.  
Na verdade, o mármore, a argila ou as tintas que servem de material a 
escultores e pintores se diferenciam substancialmente do material verbal. 
O  escultor  pode,  com  efeito,  dar  ao  mármore  ou  à  argila  qualquer 
forma, pode transformar as menores partículas à sua vontade, obedecendo 
somente  à  sua  fantasia  criadora  ou  a  um  projeto  elaborado  nos  mínimos 
detalhes.  A  palavra,  ao  contrário,  não  possui  essa  maleabilidade  ou 
condutividade  exterior. Não  se  pode  reduzi‐la  ou  alargá‐la, nem  se  pode 
atribuir  arbitrariamente  um  significado  absolutamente  impróprio, 
imprevisto. Quando conversamos animadamente, sequer notamos até que 
ponto as regras linguísticas são obrigatórias e severas. Sequer pensamos ao 
perguntar  “Como  está  o  tempo?”.  Nunca  nos  ocorreria  perguntar  “Hoje 
corresponde  a  qual  dos  tempos?”.  Ninguém  compreenderia  e  todos 
pensariam  que  estamos  brincando  ou  que  estamos  loucos.  Existem,  pois, 
leis  linguísticas  que  não  podem  ser  infringidas,  ou  a  compreensão 
recíproca se tornaria impossível. 
 
*** 
 
Tudo  o  que  apontamos  contempla  apenas  as  regras  gramaticais,  e 
em  particular  a  sintaxe,  isto  é,  a  disciplina  que  estuda  as  regras  de 
combinação  das  palavras  em  expressões  de  sentido  completo.  Mas 
existe  ainda  uma  diferença  mais  profunda  entre  o  caráter  do  material 
verbal e o de qualquer outro material exclusivamente físico. 
Se  confrontarmos  uma  palavra  com  um  bocado  de  argila,  por 
exemplo,  veremos  que  a  palavra,  diferentemente  da  argila,  tem  um 
significado,  denota  um  objeto  ou  uma  ação,  ou  um  acontecimento,  ou 

132  
uma  experiência  psíquica.    Argila,  ao  contrário,  tomada  isoladamente, 
não  significa  nada.  Assume  um  significado  somente  na  totalidade  da 
obra;  pode  ser,  por  exemplo,  a  mão  de  uma  estátua  ou  o  martelo 
manejado  por  esta  mão.  No  entanto,  o  escritor  não  trabalha  com  um 
material  físico  destituído  de  significado,  mas  com  partes  que  já  se 
encontram  elaboradas,  com  elementos  linguísticos  preparados,  com  os 
quais pode construir uma totalidade somente se tem presente todas as 
regras e as leis que não devem ser transgredidas quando da organização 
desse material verbal. 
No entanto, não poderia o escritor, de qualquer modo, modificar as 
regras  e  as  leis  linguísticas,  e  criar  novas?  Na  realidade,  existiram  na 
Rússia czarista, não muito antes da Revolução de Outubro, poetas que 
tentaram inventar uma nova língua, e que escreviam versos deste tipo2: 
 
“Nemotichei los enemichei 
Chama viskuiuschi suschel 
E com novo rumor de espadas 
Lhe responderá buduschel”  
 
Um exemplo ainda melhor: 
 
“Go osnieg kaid 
Mr batulba 
Sinu auksel 
Ver tum dach 
       Guiz.”     
 
Para  evitar  que  o  escritor  tenha  a  sorte  desses  poetas,  para  evitar 
que  entrem  para  a  história  como  anedota,  e  para  que  ocupe  um  lugar 
sério  e  digno,  é  necessário  que  compreenda  que  é  a  linguagem,  este 
material tão característico e particular da criatividade artística. 

                                                            
2   [N.T.] A versão em espanhol que estamos manuseando traduziu apenas as palavras 
aqui  traduzidas  para  o  português.  Examinando  a  edição  italiana  (Il  Linguaggio  come 
pratica sociale, Bari: Dedalo Libri, 1980), encontramos a mesma opção, traduzindo essas 
mesmas palavras. Sem acesso à edição russa, seguimos o modelo das traduções aqui 
utilizadas.  

  133 
Se  não  compreendermos  a  essência  da  linguagem,  se  não 
compreendermos  o  lugar  e  o  destino  que  tem  na  vida  social,  não 
podemos estudar corretamente o que chamamos estilística da arte verbal, 
ou  seja,  a  técnica  mesma  de  construção  da  obra  literária,  técnica  que 
qualquer escritor que deseja se converter em mestre de sua própria arte, 
e não um simples aficionado, deve conhecer necessariamente. 
Que é a linguagem? 
O  melhor  modo  de  esclarecer  um  fenômeno  é  observar  o  processo 
de  sua  formação  e  desenvolvimento.  Infelizmente,  no  que  diz  respeito  à 
linguagem,  esse  caminho  se  complica  pelo  fato  de  os  embriões  e  as 
primeiras etapas de seu desenvolvimento precederem nossa época por 
alguns  milhares  de  anos.  Assim  mesmo,  apesar  de  sua  antiguidade, 
tem‐se  tentado  imaginar  o  nascimento  da  linguagem.  Na  verdade,  os 
homens sempre trataram de compensar suas lacunas cognoscitivas com 
lendas “piedosas”, substituindo um exame científico com apelos a uma 
“força  divina”.  Não  obstante,  as  exigências  da  verdade  científica  se 
impuseram,  e  hoje  em  dia  podemos  levantar  a  cortina  de  milênios  e 
observar,  ainda  que  indiretamente,  os  tempos  em  que  a  linguagem 
humana estava em formação. 
O que se observa? A linguagem não aparece na sociedade humana 
por ação do sobrenatural, nem como “invenção” consciente e meditada, 
segundo se pensava no século XVIII.   
Em tempos relativamente recentes, as teorias mais difundidas sobre 
a origem da linguagem eram as seguintes: 1. a teoria da onomatopeia e 
2. a teoria das interjeições. 
O primeiro grupo de teorias afirma substancialmente que o homem 
tratou de reproduzir os sons produzidos pelos animais, ou os sons que 
acompanham  os  fenômenos  naturais  –  o  silvo  do  vento,  o  gotejar  de 
uma fonte, o ribombar de um trovão. Essas onomatopeias se tornariam, 
depois, o modo natural de designar os objetos que produziam tais sons, 
isto  é,  haviam  se  tornado  palavras.  Desta  forma,  era  possível  explicar 
um número muito limitado de palavras, razão por que se defendeu que 
o  elemento de  imitação  podia  consistir  não  no som  em  si mesmo,  mas 
no  movimento  dos  órgãos  fonadores  –  particularmente  a  língua  – 
tratando‐se, em certo sentido, de um gesto fônico.  

134  
O  segundo  grupo  de  teorias  tratou  de  demonstrar  que  os  primeiros 
sons  da  linguagem  humana  foram  as  exclamações  –  interjeições  – 
involuntárias  ou,  como  habitualmente  as  denominamos,  reflexas,  que  o 
homem  emitia  sob  a  influência  de  sensações  fortes  produzidas  nele  por 
algum  objeto.  Ao  repetirem‐se,  essas  exclamações  se  converteram  em 
signos  fixos,  significantes  desses  objetos,  e  se  transformaram  assim  em 
palavras.  
Esses dois grupos de teorias estão hoje ultrapassados, até porque se 
explicavam  convincentemente  a  origem  de  algumas  palavras  de 
algumas línguas – na verdade, muito poucas; essas teorias não podiam 
esclarecer nem a efetiva essência da linguagem como fenômeno social, 
nem outros problemas de excepcional importância.  
Em  1876,  Friedrich  Engels  elaborou  uma  saída  excepcional, 
aclarando em que direção se deveria buscar a resposta ao problema da 
origem da linguagem: 
 
Nossos  antepassados  macacos  eram  animais  sociais;  é  evidentemente 
impossível  estabelecer  a  origem  do  homem,  o  mais  social  dos  animais, 
de  antepassados  não  sociais.  O  domínio  da  natureza,  que  estava 
começando,  junto  com  o  desenvolvimento  das  mãos  e  do  trabalho, 
ampliava  a  cada  novo  passo  o  horizonte  do  homem.  Nos  objetos  da 
natureza  ele  descobria  novas  qualidades,  até  então  desconhecidas.  Por 
outra  parte,  o  desenvolvimento  do  trabalho  favorecia,  à  medida  das 
necessidades,  a  união  mais  estreita  dos  membros  da  sociedade,  já  que 
graças a isto se tornaram mais frequentes os casos de ajuda recíproca, de 
atividade em comum, e se tornou mais clara a utilidade desta atividade 
em comum para cada membro individual da sociedade. Logo esses seres 
humanos em formação chegaram ao ponto em que aparece a necessidade 
de  dizer  algo  um  ao  outro.  A  necessidade  criou  os  órgãos  da  fala:  a 
garganta  não  desenvolvida  do  macaco  se  transformou,  lenta,  mas 
inexoravelmente,  graças  a  modulações  que  se  tornaram  gradualmente 
mais  fortes,  e  os  órgãos  de  base  se  habituaram  a  pronunciar  um  som 
articulado  depois  de  outro.  (Engels.  O  papel  do  trabalho  no  processo  de 
transformação do macaco em homem. Arquivo Marx e Engels, II, p. 93)3 
 
                                                            
3   [N.T.]  Há  traduções  brasileiras  desse  texto,  que  compõe  o  livro  “Dialética  da 
natureza”, de F. Engels.  

  135 
Independentemente de Engels, um contemporâneo seu, o estudioso 
alemão Ludwig Noiret, chegava à mesma ideia de que “a linguagem e a 
vida do intelecto nascem da atividade conjunta dirigida por um objetivo 
comum,  do  trabalho  primitivo  de  nossos  antepassados.”  Essas  ideias 
tiveram  uma  confirmação  especializada,  linguística,  nos  trabalhos  de 
um estudioso russo, o acadêmico N. I. Marr. 
Suas  investigações  –  comumente  chamadas  de  “teoria  javética”  – 
afirmam sem sombra de dúvidas que 
 
...  a  linguagem  foi  criada  durante  inumeráveis  milênios,  sobre  a  base 
de  um  instinto  de  socialização  de  massa  que  se  embasava  nos 
pressupostos  das  necessidades  econômicas  e  da  organização 
econômica. (Marr, N. I. O estapam razvitia jafeticheskoi teorí, 1926, p. 28) 
 
Obviamente,  em  seus  primeiríssimos  estágios,  a  linguagem  não  se 
parecia  com  nenhuma  das  línguas  contemporâneas,  nem  com  outras 
mais antigas. Nascida no processo de luta obstinada do homem contra a 
natureza,  luta  em  que  o  homem  estava  armado  somente  com  mãos 
fortes  e  instrumentos  de  pedra  toscamente  trabalhados,  a  linguagem 
recorreu ao mesmo processo de desenvolvimento que a cultura material 
econômica e técnica. 
Segundo as suposições de N. I. Marr, ainda antes que se passasse à 
linguagem sonora, articulada, a sociedade humana – uma sociedade de 
grupos  de  caçadores  –  deve  ter  criado  um  meio  de  comunicação  mais 
simples  e  acessível,  uma  linguagem  feita  de  gestos  e  de  mímica,  a 
chamada linguagem gestual. 
Muitos  milênios  se  passaram  antes  que  a  esta  linguagem,  que  se 
usava  na  vida  cotidiana,  se  acrescentasse  a  linguagem  sonora,  a 
linguagem da magia, do culto mágico.  
Os  homens  da  idade  da  pedra,  que  conheciam  apenas  os  métodos 
mais  simples  para  procurar  alimento  –  a  colheita  de  vegetais 
comestíveis  e  a  caça  de  animais  selvagens  –,  contentaram‐se  por  largo 
tempo  com  a  linguagem  gestual,  a  que  poderíamos  chamar 
convencionalmente de linguagem das mãos, já que nela o movimento das 
mãos  desempenhava  um  papel  fundamental.  Evidentemente,  sons 
poderiam  acompanhar  essas  “enunciações”  mímicas,  gestuais,  mas 

136  
eram  ainda  inarticulados  e  consistiam  principalmente  em  gritos  de 
emoção, ou seja, expressavam um estado de ânimo de forte excitação.  
Portanto, a aparição da linguagem articulada não foi provocada pela 
necessidade de comunicação social, já que existia uma linguagem mais 
simples,  feita  de  gestos  e  de  mímica  –  a  linguagem  das  mãos.  É  preciso 
buscar  a  origem  da  linguagem  sonora  nas  condições  peculiares  do 
trabalho  na  vida  da  humanidade  primitiva.  A  essas  condições  deve 
também  sua  origem  a  arte,  que  por  longo  tempo  conformou‐se  na 
associação  indivisível  da  dança,  do  canto  e  da  música,  com  sons  de 
instrumentos rudimentares. Tanto a linguagem sonora quanto essa arte 
tríplice têm uma base comum: as ações mágicas que, aos olhos da obscura 
e atrasada consciência do homem daquele período, pareciam condições 
necessárias  ao  êxito  de  sua  atividade  produtiva,  e  por  isso 
acompanhavam  sempre  todos  seus  trabalhos  coletivos.  É  dessa 
complexa  ação  mágica,  que  compreendia  tanto  movimentos  mágicos 
das mãos e de todo o corpo quanto gritos mágicos que desenvolveram 
gradualmente os órgãos de fonação, que se origina a linguagem fônica 
articulada.  
Não esqueçamos que para o homem da primeira idade da pedra, o 
rito mágico era um ato ligado à economia, uma  forma de ação sobre a 
natureza,  graças  a  qual  esta  deveria  dar  ao  homem  seu  bem  mais 
importante e frequentemente único: o alimento4. Portanto, os primeiros 
elementos  da  linguagem  sonora  humana,  bem  como  os  da  arte,  eram 
elementos de um processo de trabalho, estavam ligados a necessidades 
econômicas  e  representavam  o  resultado  da  organização  produtiva  da 
sociedade. 
Essa  organização  extremamente  primitiva,  que  vinha  se  tornando 
complexa  gradualmente,  gerou  sucessivos  estados  da  compreensão  do 
mundo  circundante  e  da  relação  com  ele,  em  outras  palavras,  da 

                                                            
4   Para uma informação mais detalhada sobre a magia primitiva e sua base econômica, 
veja‐se o capítulo correspondente do livro de Nikolski (Ocherki o istori pervobiynoi 
culturi. Sobre a História da Cultura Primitiva) 

  137 
ideologia5 em formação do homem, experimentando reciprocamente sua 
influência. 
O estágio da cultura humana em que aparece a linguagem fônica se 
chama  mágico.  Nesse  estágio,  elaboram‐se  os  elementos  linguísticos 
fundamentais  que  em  geral  se  encontram  na  base  de  qualquer 
linguagem  fônica.  Não  se  trata  ainda  de  palavras,  no  sentido  que  hoje 
atribuímos  a  esse  termo,  nem  de  denotações  fônicas;  não  se  trata  de 
signos que denotem um fenômeno ou um grupo de fenômenos, mas de 
um  conjunto  de  sons  bem  determinados  que  acompanha  um  rito 
mágico, que por sua vez é uma forma do processo de trabalho coletivo. 
No  começo,  segundo  sabemos,  eram  gritos  mágicos  que,  com  seu 
caráter  iterativo,  desenvolveram  as  cordas  vocais  e  outros  órgãos  da 
fonação. Faltava somente um passo para que esses complexos fônicos se 
transformassem  em  palavras.  Bastaria  que  o  homem  tivesse  tido  a 
necessidade, empurrado pelas exigências econômicas, de compreender, 
de  explicar‐se.  Uma  vez  alcançada  a  possibilidade  de  referir  com  esse 
complexo fônico, ainda que somente fosse um grupo de fenômenos ou 
de  objetos,  começou  o  desenvolvimento  incontestável  da  linguagem 
sonora, isto é, a expansão do círculo de objetos e fenômenos denotados 
por cada um dos complexos, por combinações fônicas existentes. 
Então, com a gradual passagem para a atividade pecuária e agrícola, 
novos estágios de desenvolvimento linguístico são alcançados: o estado 
totêmico  –  um  dos  seus  signos  distintivos  foi  a  divinização  de  animais, 
de vegetais etc., na qualidade de fundadores de uma determinada tribo 
– e o estado cósmico – a divinização dos ciclos e dos fenômenos celestes. 
Neste  ponto,  cada  um  dos  complexos  fônicos  era  utilizado 
separadamente,  embora  não  denotassem  um  só  fenômeno,  mas  um 
grupo  inteiro  de  fenômenos  que  a  nossos  olhos  parecem  carecer  de 
qualquer  vínculo.  O  complexo  fônico  primitivo  se  faz  uma  palavra 
polissignificante,  uma  palavra  que  inicialmente  estava  ligada  a  todos  os 
significados  conhecidos  pela  humanidade.  Os  primeiros  objetos  que 
tiveram uma designação verbal foram, evidentemente, os que estavam 
mais  próximos  à  atividade  econômica  do  homem  e  que,  em 
                                                            
5   Por  ideologia  entendemos  todo  o  conjunto  de  reflexos  e  interpretações  da  realidade 
social  e  natural  que  se  sucedem  no  cérebro  do  homem,  fixados  por  meio  de  palavras, 
desenhos, esquemas ou outras formas sígnicas.  

138  
consequência,  eram  por  si  mesmos  objetos  mágicos,  de  culto,  quando 
magia  e  trabalho  se  confundiam  ainda  em  uma  única  totalidade  na 
consciência difusa do homem.  
E a primeira palavra da humanidade foi a que denotou aquilo  que 
abriu  o  caminho  da  civilização,  aquilo  a  que  devemos  o  primeiro 
instrumento  de  pedra,  a  primeira  linguagem  e  os  primeiros 
resplendores do intelecto. 
Esta palavra foi: 
“Mão”, a mão do homem trabalhador.  
Em continuidade, a palavra mão se funde com uma série completa 
de  significados  de  caráter  sagrado,  sobretudo  com  os  grupos  “céu  + 
água + fogo”. 
Esses  grupos  de  significados  se  dividem  em  novos  grupos,  por 
exemplo:  “água  +  céu”  toma  o  sentido  de  “nuvem  +  fumaça  + 
escuridão”;  “fogo  +  céu”  significará  “luz  +  resplendor  +  raio”  e  assim 
sucessivamente.  De  fato,  existiam  muito  poucas  palavras  sonoras 
enquanto  o  número  de  objetos  que  entram  no  horizonte  mental  do 
homem aumenta sempre mais, graças ao desenvolvimento da atividade 
econômica. Haverá posteriormente a transferência de significado de um 
fenômeno  complexo,  por  exemplo  “céu”,  a  suas  partes  constitutivas, 
como  o  sol,  as  estrelas  ou  até  os  pássaros  que,  se  traduzíssemos  essa 
palavra para nossa língua, se chamariam “filhos do céu”.   
No  entanto,  esses  complexos  fônicos  não  poderiam  se  transformar 
numa  linguagem,  se  com  as  novas  etapas  do  desenvolvimento  da 
atividade  econômica  não  houvesse  aparecido  um  novo  fenômeno  que 
decidiu  a  sorte  da  linguagem  humana:  o  processo  de  entrecruzamento 
linguístico6.  
É  evidente  que  se  o  homem  tivesse  levado  uma  existência  isolada, 
não  só  não  teria  tido  necessidade  de  criar  uma  linguagem,  como  não 
teria criado qualquer cultura em geral.  
Na base do desenvolvimento cultural humano – o trabalho – existe a 
necessidade  de  unir‐se  em  grupo,  em  comunidade  em  que  se  dá  um 
entrecruzamento  de  tipo  primitivo.  Junto  com  o  entrecruzamento  de 
                                                            
6   [N.T.]  O  entrecruzamento  refere‐se  a  algo  mais  forte  do  que  aquilo  que 
denominamos  como  “empréstimo  linguístico”,  já  que  supõe  um  rearranjo  entre  as 
“línguasʺ. 

  139 
grupos  humanos  completos  (externos:  tribos,  nações;  internos: 
profissionais,  de  classe)  ocorre  o  entrecruzamento  de  elementos 
linguísticos,  que  serão  distintos  para  cada  reagrupamento.  Como 
resultado,  a  bagagem  lexical  se  enriquece,  aparecem  as  palavras 
entrecruzadas,  constituídas  por  alguns  elementos  fundamentais.  No 
entanto,  os  sons  são  limitados,  os  elementos  dessas  palavras  se 
abreviam,  se  reduzem.  Esses  encadeamentos  truncados  são  sentidos 
como palavras novas e completas, que podem por sua vez servir como 
base para a formação de outras palavras. 
A  etapa  seguinte  do  desenvolvimento  da  linguagem  será 
constituída  pela  conjunção  das  palavras  em  frases,  o  que  começou 
ocorrendo de maneira muito simples – isto é, sem que se modificassem 
as formas das palavras. Logo se acrescentaram determinadas partículas 
verbais que definem a relação que a palavra tem na frase e, finalmente, 
se  transformou  a  forma  mesma  da  palavra  –  por  exemplo,  com  a 
conjugação e a declinação. 
De  tudo  o  que  dissemos,  fica  claro  o  papel  que  teve  a  organização 
social  do  trabalho  no  nascimento  e  desenvolvimento  da  linguagem. 
Podemos  perceber  essa  relação  não  só  no  campo  dos  significados  das 
palavras – a chamada semântica – mas também na área da gramática. 
Tomemos  inicialmente  um  exemplo  de  representação  semântica  – 
no  campo  do  significado  da  palavra  –  da  estrutura  econômica. 
Suponhamos  que  os  encontros  hostis  entre  tribos  tenha  levado  à 
completa  submissão  de  uma  tribo  a  outra,  que  passa  a  ocupar  seu 
território.  Nesse  reagrupamento  de  pessoas,  a  tribo  vencedora  se 
converte  na  classe  dominante,  a  que  utiliza  o  trabalho  gratuito  –  feito 
por  homens  semi‐livres  ou  escravos  –  dos  próprios  inimigos 
dominados.  Ambas  as  tribos  tinham  suas  próprias  denominações 
sagradas,  o  nome  de  seu  totem  ou  do  seu  deus  tribal.  Obviamente  o 
nome  da  tribo  vencedora  passará  a  significar  “bom”,  “válido”,  e  o  da 
tribo  vencida,  “mau”,  “péssimo”.  Essa  diferença  passará,  depois,  a 
designar  as  classes  sociais.  Dessa  maneira,  o  nome  da  tribo  dos 
pelasgos7 – poderosa em seu tempo, mas logo dominada pelos romanos 
–  se  transformou  em  Roma  em  “plebeus”,  pessoas  de  classe  inferior. 

                                                            
7   [N.T.] Habitantes pré‐históricos da Grécia e Itália, região do Peloponeso. 

140  
Assim  também  o  nome da  tribo  dos  “kolchov”,  do  Cáucaso,  celebrada 
nas  lendas  da  antiga  Grécia,  em  georgiano  tomou  o  significado  de 
“camponês”, “escravo”, depois de a tribo ser dominada.  Assim, 
 
Os termos tribais – as denominações – incluindo os totêmicos, sofrem 
uma  revisão,  são  valorizados  segundo  a  posição  social  das  diversas 
tribos  que,  ao  entrecruzarem‐se  no  processo  de  formação  de  novos 
tipos  étnicos  de  população,  se  transformaram  em  classes  sociais. 
Portanto,  os  termos  sociais,  não  só  as  denominações  de  classe, 
representam antigas denominações tribais. (Marr, N. I., ibidem, p. 10) 
 
Como  exemplo  de  representação  gramatical  das  relações  sociais, 
pode‐se  referir  à  formação  das  partes  do  discurso.  Especialmente 
indicativa,  para  nossos  propósitos,  é  a  formação  dos  pronomes,  que 
nascem  com  o  aparecimento  da  propriedade.  Enquanto  havia  a 
propriedade  tribal  e  não  privada,  no  começo  os  pronomes  indicavam 
número coletivo, o da tribo e seu totem – ou depois, seu deus protetor dos 
direitos de propriedade desse grupo social determinado.  
Somente  com  a  aparição  da  propriedade  privada,  delineia‐se  a 
primeira  pessoa  de  número  singular  –  “eu”  –  e  a  segunda  e  terceira 
pessoa, contrapostas a ela – “tu”, “ele”. 
O que expusemos basta para convencer que a linguagem não é um 
dom  divino  nem  um  presente  da  natureza.  É  o  produto  da  atividade 
humana  coletiva  e  reflete  em  todos  os  seus  elementos  tanto  a  organização 
econômica como a sociopolítica da sociedade que a gerou. 
 
2. A função da linguagem na vida social  
 
Em nossas conclusões há, no entanto, uma lacuna substancial. Não 
tocamos  no  problema,  que  se  impõe  por  si  mesmo,  da  relação  entre 
linguagem  e  pensamento  social.  A  seguir,  falaremos  disso,  mas  antes 
enfrentaremos outro problema.  
Se a linguagem, como vimos, é produto da vida social, sua criação e 
sua  representação,  então  que  papel  tem  a  linguagem  no  processo  de 
desenvolvimento  da  própria  vida  social?    Em  outras  palavras,  a 
linguagem,  que  em  certo  sentido  é  uma  superestrutura  das  relações 

  141 
sociais,  tem  por  sua  vez  influência  inversa  sobre  essas  relações  que  lhe 
deram origem? 
Esse problema é consideravelmente mais simples que o problema da 
origem da linguagem, e por isso seremos muito concisos. Qualquer um 
que  não  tenha  pré‐juízos  compreende  claramente  o  enorme  papel  que 
joga a linguagem na organização da vida social.  
Já  a  primeira  e  primitiva  linguagem  da  humanidade,  aquela  das 
mãos  ou  linear,  cujos  traços  se  conservam  até  nossos  dias  como  modo 
auxiliar,  usando  junto  com  a  linguagem,  na  gesticulação  habitual  das 
mãos  e  na  mímica  facial  durante  a  conversação,  essa  primeira 
linguagem  representa  já  uma  brusca  separação  do  mundo  natural,  e  o 
começo  da  criação  de  um  mundo  novo,  o  mundo  do  homem  social,  o 
mundo  da  história  social.  É  insuficiente  ter  como  limite  entre  esses  dois 
mundos  a  ação  de  golpear  com  o  primeiro  instrumento  criado  pelo 
homem, a lasca de pedra. Era necessário reforçar essa nova posição do 
animal “bípede que cria o instrumento” e somente se poderia reforçá‐la 
criando  uma  solidariedade  mais  estreita,  uma  intercomunicação  mais 
estreita  entre  os  distintos  reagrupamentos  humanos.  Na  terrível  luta 
pela  vida,  da  qual  não  temos  sequer  uma  representação  adequada,  os 
problemas  de  encontrar  coletivamente  o  alimento,  de  defender‐se 
coletivamente dos animais ferozes etc. eram problemas verdadeiramente 
de  sobrevivência.  E  a  atividade  coletiva  somente  era  possível  com  a 
condição  de  que  houvesse  pelo  menos  uma  coordenação  mínima  das 
ações, pelo menos uma capacidade mínima de representar‐se o objetivo 
comum. Para fazê‐lo, era necessário que os homens se compreendessem 
reciprocamente. Esse objetivo foi alcançado já com a linguagem gestual 
ou  mímica,  o  mais  antigo  meio  de  comunicação  da  humanidade.  Essa 
comunicação  não  só  facilitava  a  organização  do  trabalho  coletivo,  mas 
também  a  organização  do  pensamento  social,  da  consciência  social.  O 
psiquismo  humano  devia  cumprir  uma  tarefa,  ainda  que  elementar, 
extremamente  complexa  para  aqueles  tempos.  Em  realidade,  para  a 
realização  da  comunicação  verbal  é  necessário  que  o  significado,  oculto 
no  gesto  da  mão  de  um  homem,  seja  compreensível  para  outro  homem; 
que este homem saiba estabelecer – graças à experiência precedente – a 
relação  necessária  entre  esse  movimento  e  o  objeto  ou  acontecimento 
em  cujo  lugar  ele  é  empregado.  Em  outras  palavras,  o  homem  deve 

142  
compreender  que  esse  movimento  é  portador  de  um  significado,  que 
esse  movimento  expressa  um  signo.  Mas  isso  não  é  ainda suficiente.  O 
signo  expresso  pelo  movimento  das  mãos  não  deve  ser  casual, 
passageiro.  Somente  se  esse  signo  se  torna  constante  poderá  entrar  no 
horizonte  cognoscitivo  de  um  grupo  humano,  tornar‐se‐á  necessário  e 
se  converterá  num  valor  social.  Como  é  óbvio,  com  o  crescimento  e  a 
transformação  da  organização  econômica,  esse  signo  se  modificará 
gradualmente,  mas  numa  medida  quase  imperceptível  para  uma 
mesma geração de homens que o utilizam. 
O  que  dissemos  até  agora  é  apenas  um  aspecto  do  processo  de 
comunicação verbal entre os homens: esse processo não se cumpriria se 
o ato gestual – e depois verbal – permanecesse sendo nada mais que um 
signo  exterior.  Ele  deve  converter‐se  em  um  signo  de  uso  interior, 
tornar‐se linguagem interior, pois somente assim se realizará a segunda 
condição  necessária  para  a  comunicação  verbal  para  além  da 
transmissão do signo: a compreensão do signo e a resposta a ele. 
 
3. A linguagem e a classe social 
 
A  linguagem  se  tornou  assim  a  condição  necessária  para  a 
organização  do  trabalho  humano.  Com  o  desenvolvimento  das 
atividades  econômicas,  nessa  organização  do  trabalho  aparecem 
pessoas  determinadas  que  têm  deveres  e  direitos  diferentes.  Isso  está 
relacionado  com  o  nascimento  da  linguagem  sonora,  que  por  muito 
tempo desempenhara funções de linguagem sagrada, mágica, e que por 
isso  era  uma  linguagem  misteriosa.  Gradualmente  foram  surgindo  os 
guardiões dessa linguagem secreta, os grupos de sacerdotes ou xamãs. Eles 
são  cercados  por  deferência  e  veneração  especiais,  já  que  são 
“onipresentes”  e  “oniscientes”.  De  fato,  conheciam  aquelas  palavras‐
exorcismo de que dependiam, segundo os homens primitivos, uma boa 
colheita de ervas comestíveis, a derrota dos inimigos e, em geral, o bem‐
estar  da  tribo.  Assim,  desde  o  amanhecer  da  história  humana,  a 

  143 
linguagem coopera involuntariamente para criar os embriões da divisão 
de classes [sociais] e de patrimônios da sociedade8.   
Numa  etapa  subsequente  da  história  da  humanidade,  com  a 
aparição  da  propriedade  privada  e  a  formação  do  Estado,  surge  a 
necessidade  de  uma  fixação  jurídica  das  relações  de  propriedade, 
expressa numa língua oficial. Aparecem as fórmulas jurídicas, mas ainda 
estreitamente ligadas às fórmulas religiosas. Em certo sentido, a palavra 
sacraliza,  com  sua  antiga  autoridade  mágica,  as  leis  vantajosas  para 
uma minoria dirigente que favorecem a servidão da maioria submetida. 
Seria  totalmente  impensável  sem  a  linguagem  o  complexo  sistema 
jurídico  que  encontramos  já  entre  os  povos  mais  antigos,  como  os 
sumérios e os egípcios. 
Não  só  as  leis  jurídicas  escritas,  mas  também  as  leis  morais  não 
escritas,  criam‐se,    explicam‐se  e  se  convertem  numa  força  coercitiva 
com a aparição da linguagem humana.  
  Finalmente,  é  óbvio  que  sem  o  auxílio  da  palavra  não  teriam 
nascido  nem  a  ciência  nem  a  literatura.  Nenhuma  cultura  poderia 
realizar‐se  se  a  humanidade  estivesse  privada  da  possibilidade  de 
comunicação social, de que a nossa linguagem é sua forma materializada.  
 
4. A linguagem e a consciência 
 
Tudo  o  que  vimos  não  é  senão  o  aspecto  exterior  do  papel  que 
cumpre a linguagem na vida social, o aspecto que mais facilmente salta 
à vista e se presta à análise.  
Incomparavelmente  mais  complexo  é  o  problema  da  influência  da 
linguagem  em  fenômenos  da  vida  social  que  levam  o  nome  de 
“consciência  de  classe”,  “psicologia  social”,  “sociologia  social”,  etc.  E 
com  esse  problema  se  enfrenta  inevitavelmente  outro,  estreitamente  a 
ele  ligado:  que  significado  tem  a  linguagem  para  a  consciência 
individual, pessoal, do homem, para a formação de sua vida “interior”, 
de suas “experiências”, para a expressão dessa vida, dessas experiências?  

                                                            
8   Abordaremos  o  problema  da  criação  da  linguagem  “literária”,  que  representa  a 
linguagem da classe dominante, num artigo próximo. [O autor se refere ao texto “A 
construção da enunciação”, publicado neste volume]. 

144  
Todos esses problemas têm uma significação de primeiro plano para 
qualquer um que queira tratar com a linguagem, seja como material, seja 
como instrumento de criação. Não foi por acaso que iniciamos este artigo 
com  a  imagem  desse  estado  de  ânimo  especial  do  escritor,  a  que 
habitualmente chamamos de “tormento da palavra”. 
Costuma‐se  atribuir  esses  “tormentos  da  palavra”  tanto  ao  fato  de 
que não bastam as palavras para expressar nossas emoções quanto ao fato 
de que nossas palavras são impotentes para transmitir tudo aquilo que “a 
alma quer dizer”. 
Nossa tarefa é aclarar se essas afirmações correspondem à realidade, 
se  de  fato  os  “tormentos  da  palavra”  são  só  consequência  da 
“insuficiência” das palavras ou de sua “impotência”. 
Vimos  que  as  condições  de  luta  conjunta  contra  a  natureza,  que 
assumiam  a  forma  de  um  processo  econômico‐mágico  coletivo, 
provocaram  inicialmente  a  aparição  de  uma  linguagem  mímica 
cotidiana, e depois de uma linguagem sonoro‐sagrada. Com o passar do 
tempo,  a  linguagem  sonora  se  tornou  também  patrimônio  da  vida 
cotidiana,  da  comunicação  na  vida  de  todos  os  dias.  Desenvolveu‐se 
graças aos inumeráveis entrecruzamentos provocados pelo crescimento 
posterior  da  atividade  econômica  do  homem.  Desde  os  primeiros 
estágios de sua formação, as relações linguísticas dos homens estavam 
estreitamente ligadas com outras formas de relações sociais. As relações 
linguísticas  nascem  num  terreno  comum  a  todos  os  tipos  de  relações, 
aquele  das  relações  produtivas.  A  comunicação  verbal  sempre  esteve 
ligada,  como  veremos,  à  situação  real  da  vida,  às  ações  reais  dos 
homens: laborais, rituais, lúdicas e outras mais. Que ocorreu enquanto 
isso  na  consciência  do  homem?  Desenvolveu‐se,  talvez, 
independentemente  da  comunicação  verbal,  ou  há  um  vínculo  entre 
elas?  Nesse  caso:  que  tipo  de  vínculo?  Pode‐se  demonstrar  que  o 
crescimento  da  consciência  determina  o  crescimento  da  linguagem,  a 
quantidade  de  palavras,  de  expressões.  Acaso  uma  pessoa  de 
consciência  confusa,  apenas  despertada,  pode  servir‐se  de  uma 
linguagem  rica  e  evoluída,  com  uma  enorme  bagagem  de  palavras 
variadas,  de  frases  construídas  com  precisão  e  de  expressões  exatas? 
Obviamente, não. Graças a essa aparente obviedade, frequentemente se 
cai  em  erro,  um  erro  absolutamente  idêntico  àquele  em  que  vivia  a 

  145 
humanidade até os notáveis descobrimentos de Copérnico9.  Afinal, não 
é evidente que o sol “sai” e “se põe” todos os dias e que, portanto, gira 
ao redor da Terra? Essa evidência, no entanto, não é senão um erro de 
nossos sentidos: na realidade é a Terra que gira ao redor do Sol e não o 
contrário. A mesma “evidência” ocorre para quem observa o problema 
das relações existentes entre a linguagem e a consciência. 
Tratemos, antes de tudo, de definir o que é a nossa consciência. 
Fechemos  os  olhos  e  comecemos  a  refletir  sobre  esse  problema.  A 
primeira  coisa  que  captaremos  em  nós  mesmos  será  uma  espécie  de 
fluxo  de  palavras,  às  vezes  ligadas  a  frases  definidas,  mas  na  maior 
parte  das  vezes  soltas  numa  dança  ininterrupta  de  mudanças  de 
pensamentos, de expressões habituais, de impressões gerais provocadas 
por  objetos  e  por  fenômenos  da  vida  fundidos  num  único  conjunto. 
Essa multicolorida caleça verbal se move o tempo todo, quer afastando‐
se, quer aproximando‐se ao tema fundamental, o problema sobre o qual 
estamos refletindo. Mas tratemos de separar totalmente as palavras.  
Que poderemos observar? 
É  possível  que  apareçam  representações  visuais  ou  acústicas, 
retalhos de imagens da natureza ou fragmentos de melodias escutadas. 
Esqueçamos  também  isso.  Provavelmente  sentiremos  agora  as  batidas 
do  coração  ou  ouviremos  o  rumor  do  sangue  ou  nascerão 
representações  relacionadas  com  o  trabalho  de  nossos  músculos  –  as 
chamadas  representações  “motoras”.  Mas  se  conseguirmos,  com 
excepcional esforço, separar também essas representações motoras, que 
restará de nossa consciência? 
Nada. 
A  completa  falta  de  ser,  similar  ao  estado  de  inconsciência,  ou  ao 
sono sem sonhos. Para voltar ao estado normal “consciente” deveremos 
romper esse muro do não‐ser, regressar à confusão viva das palavras e 
das  imagens  com  que  tomam  corpo  nossos  pensamentos,  desejos  e 
sentimentos;  deveremos  pronunciar  palavras  para  nós  mesmos,  ainda 
que seja somente uma pequena palavra, “eu”. 
                                                            
9   Nicolas Copérnico (1462‐1543) foi o principal astrônomo que demonstrou que o astro 
central  é  o  Sol  em  torno  do  qual  giram  todos  os  planetas,  inclusive  a  Terra.  Essa 
teoria,  em  contraste  com  a  Bíblia,  provocou  a  oposição  do  clero,  mas  a  verdade 
científica se demonstrou mais forte que a ignorância religiosa.  

146  
Chamaremos  a  esse  fluxo  de  palavras  que  observamos  em  nós 
mesmos  de  linguagem  interior.  Se  observarmos  atentamente  nosso 
interior  veremos  que,  no  fim  das  contas,  nenhum  ato  de  consciência 
pode  ser  realizado  sem  ela.  Inclusive  quando  surge  uma  sensação 
puramente fisiológica – por exemplo, a sensação de fome ou sede – para 
“sentir”  essa  sensação,  para  tomar  consciência  dela,  devemos 
necessariamente  expressá‐la  de  algum  modo10,  incorporando‐a  ao 
material  da  linguagem  interior.  Essa  expressão  de  uma  necessidade 
puramente  fisiológica  está  condicionada,  desde  o  começo,  pela  vida 
cotidiana e social, pelo ambiente em que vivemos, como o está também 
a sensação. 
 
5. A “sensação” e a “expressão” 
 
Tomemos  uma  expressão  verbal  simplíssima  de  qualquer 
necessidade,  por  exemplo,  da  fome.  É  possível  uma  expressão  pura 
dessa  necessidade  sem  qualquer  conformação  com  nenhuma 
linguagem,  nem  interior  nem  exterior  ou,  para  dizer  melhor,  que  não 
seja  ideologicamente  refractada?  Obviamente  não  encontraremos  nunca 
semelhante expressão pura da fome – por assim dizer, a voz mesmo da 
natureza – livre de todo elemento social.  
Qualquer  necessidade  natural,  para  tornar‐se  desejo  humano 
sentido  e  expresso,  deve  passar  necessariamente  pelo  estágio  da 
refracção  ideológica  e  social,  da  mesma  maneira  como  a  luz  do  sol  ou 
das  estrelas  pode  alcançar  nossos  olhos:  somente  depois  de  ser 
refractada  inevitavelmente  na  atmosfera  terrestre.  Em  realidade,  o 
homem  não  pode  pronunciar  nem  uma  só  palavra  permanecendo 
homem  puro  e  simples,  indivíduo  natural  –  biológico  –  variedade 
bípede  do  reino  animal.  A  mais  simples  expressão  de  fome:  “quero 
comer” pode ser pronunciada – expressa – somente numa determinada 
língua  –  ainda  que  seja a  linguagem  mímica  –  e  será  pronunciada  com 
determinada  entonação11,  com  uma  gesticulação  determinada.  Assim, 
                                                            
10  Quer dizer, com qualquer signo, palavra, gesto, desenho, símbolo etc.  
11  A  entonação  é  dada  pela  elevação  ou  descenso  da  voz  e  expressa  nossa  atitude  em 

relação  ao  objeto  da  enunciação,  atitude  que  pode  ser  feliz,  aflita,  entusiasmada, 
interrogativa, etc. 

  147 
nossa expressão mínima de uma necessidade biológica, natural, recebe 
inevitavelmente  uma  coloração  sociológica  e  histórica:  da  época,  do 
ambiente  social,  da  classe  social  do  falante,  e  a  da  situação  real  e 
concreta em que a enunciação ocorreu.  
Tratemos  de  suprimir  todos  os  estratos  que  dão  forma  social  e 
histórica a nossa expressão de fome.  
Para começar, esqueçamos da língua usada, depois da entonação da 
voz, do gesto, etc. e finalmente... nos encontraremos na situação ridícula 
da criança que queria encontrar o núcleo da cebola tirando, uma depois 
da  outra,  as  camadas  que  a  compõem.  Da  expressão,  assim  como  da 
cebola,  não  resta  nada.  Como  veremos  imediatamente,  sequer  da 
sensação resta algo. 
Observemos  com  mais  atenção  o  modo  como  a  situação  social 
imediata,  na  qual  se  pronunciou  a  expressão  da  própria  fome, 
determina a forma da enunciação. Resolvendo esse problema, lançamos 
uma  ponte  temática  com  nosso  próximo  artigo12e  ao  mesmo  tempo 
conduziremos a discussão às conclusões a que deveremos chegar. 
Antes de tudo: a quem o falante evidencia seu desejo de comer? Se 
ele fala com uma pessoa que tem o dever de alimentá‐lo – um escravo, 
um  servo  etc.  –  expressará  seu  desejo  na  forma  de  uma  ordem,  com 
clara  entonação  imperativa,  ou  ainda  de  uma  maneira  gentil,  fará  um 
pedido, mas certo de sua imediata satisfação. 
Vale a pena pensar até que ponto são distintas e variadas as formas 
verbais que servem aos homens para expressar o desejo de comer, e que 
dependem do lugar em que se encontram: se são hóspedes de alguém, 
ou  se  estão  em  sua  própria  casa,  se  estão  num  restaurante  ou  à  mesa, 
num  encontro  social  etc.  Também  é  grande  a  distância  entre  as 
entonações  de  vozes  que  ressoam  na  herança,  ainda  não  acabada,  dos 
antigos cultos mágicos, na fórmula da oração “o pão nosso de cada dia 
nos  dai  hoje”  e  no  grito  desesperado  de  Hestakov:  “Tenho  uma  fome 
terrível! E não estou mentindo!”. 
Vemos, portanto, que o estado puramente fisiológico da fome por si 
mesmo não pode ter uma expressão: é necessário que o organismo esteja 

                                                            
12  Refere‐se,  mais  uma  vez,  ao  artigo  “A  construção  da  enunciação”  que  compõe  esta 

coletânea [Nota de Guillermo Blanck, organizador do volume editado em espanhol]. 

148  
numa  situação  social  e  histórica  bem  definida.  O  elemento  decisivo  é 
representado  pelas  perguntas:  quem  tem  fome?  em  companhia  de  quem? 
entre que pessoas? Em outras palavras, toda expressão tem uma orientação 
social.  Em  consequência,  ela  é  determinada  pelos  participantes  do 
acontecimento  constituído  pela  enunciação,  participantes  próximos  e 
remotos.  A  interação  entre  os  participantes  desse  acontecimento  dá 
forma  à  enunciação,  faz  com  que  soe  de  uma  determinada  maneira  e 
não de outra: como pedido peremptório ou como súplica, fazendo valer 
os próprios direitos ou suplicando um favor, com um estilo simples ou 
altissonante, com segurança ou com timidez.  
Precisamente  essa  dependência  da  enunciação  às  circunstâncias 
concretas  em  que  ocorre  tem  para  nosso  exame  um  significado  de 
extrema importância. Se não levamos em conta essas circunstâncias, se 
não  temos  em  conta  a  correlação  de  classe  existente  entre  os  falantes, 
não  poderemos  colocar  corretamente  os  problemas  que  para  nós  são 
mais  importantes:  os  problemas  da  estilística  artística.  Só  quando 
tivermos  estudado  a  relação  existente  entre  o  tipo  de  intercâmbio 
comunicativo  social  e  a  forma  da  enunciação,  quando  tivermos  visto 
que  qualquer  “expressão”  de  qualquer  “sensação”  representa  o 
testemunho  de  um  fato  social,  só  então  os  problemas  de  estilística 
poderão ser esclarecidos em profundidade. 
Ainda  temos  que  enfrentar  outra  tarefa.  Como  vimos,  a  expressão 
de qualquer sensação necessita antes de tudo da linguagem, entendida 
em seu sentido mais amplo, isto é, como linguagem exterior e interior. 
Sem a linguagem, sem uma enunciação bem definida, verbal ou gestual, 
não  existe  expressão;  assim  como  não  existe  expressão  sem  uma  real 
situação social com participantes reais. 
Mas,  e  a  sensação?  Também  ela  tem  necessidade  da  linguagem? 
Nossos  sentimentos,  o  amor,  o  ódio,  a  felicidade,  têm  também  essa 
necessidade de apoio da linguagem e sem ela não podem alcançar sua 
plenitude na consciência do homem? Responder a essa pergunta não é 
difícil.  Em  realidade,  até  a  tomada  de  consciência  simples,  difusa,  de 
qualquer  sensação,  mesmo  da  fome,  inclusive  no  caso  de  não  haver 
qualquer expressão exterior, necessita de uma forma ideológica. Assim, 
qualquer tomada de consciência tem necessidade da linguagem interior, 
de uma entonação interior e de um embrionário estilo interior: a tomada 

  149 
de  consciência  da  própria  fome  pode  ser  suplicante,  colérica,  enojada, 
indignada etc. A expressão exterior, na maioria dos casos, não faz senão 
seguir  aclarando  a  orientação  social  da  linguagem  interior  e  as 
entonações que já estão nela contidas.  
Tratemos de fazer uma experiência de introspecção. 
Provavelmente  todos  já  experimentamos  uma  sensação  de  alegria 
imprevista.  Imaginemos  estar  profundamente  alegres  por  termos  lido, 
sem  esperá‐la,  uma  bela  resenha  de  um  trabalho  nosso  que 
considerávamos  medíocre13.  Qual  é  a  mais  importante  força 
organizadora de nossa sensação? Sem dúvida, tudo o que está ligado ao 
aspecto  exterior  desse  acontecimento:  o  fato  de  que  em  uma  revista  tenha 
aparecido  um  belo  comentário  que  esperávamos.  Chamaremos  situação  à 
circunstância  de  um  acontecimento  dado.  A  partir  de  agora  usaremos 
sempre esse termo, razão por que é importante recordá‐lo14.  
Portanto,  a  situação  é  condição  necessária  para  nossa  sensação. 
Como se compõe essa sensação? Antes de tudo, ocorre uma série inteira 
de  fenômenos  ligados  ao  nosso  organismo:  a  respiração  se  acelera,  o 
coração bate com maior frequência, há movimentos musculares – desejo 
de esfregar as mãos – etc. Chamaremos de reações orgânicas a todo esse 
conjunto  de  fenômenos  que  representam  uma  espécie  de  resposta 
inconsciente de nosso organismo ao fato externo. 
Essa  reação  orgânica,  essas  modificações  corpóreas  do  organismo, 
causadas  pela  ação  da  situação  externa,  quer  dizer,  da  situação  da 
leitura  de  uma  resenha  elogiosa,  vêm  acompanhadas  inevitavelmente 
pelo  fluxo  de  linguagem  interior,  graças  ao  qual  podemos  esclarecer  a 
nós mesmos tudo o que está ocorrendo. 
No momento mesmo em que lemos, esse fluxo pode sair ao exterior, 
na  linguagem  exterior,  sob  a  forma  de  exclamações  de  alegria,  que 
                                                            
13  [N.T.]  Na  edição  em  língua  espanhola  aparece  neste  parágrafo  uma  incoerência:  o 

encontro  com  a  resenha  inesperada  passa,  na  sequência  da  exposição,  a  ser  um 
encontro  com  uma  resenha  esperada,  desejada  há  longo  tempo.  Conferimos  a 
tradução  italiana,  em  que  a  mesma  incoerência  aparece.  Como  não  afeta  a 
argumentação  do  autor,  mantivemos  a  incoerência,  pois  não  temos  acesso  à  versão 
original em russo.  
14  A situação – em francês: la situation – indica a circunstância, a condição em que algo 

ocorre.  Na  maior  parte  das  vezes,  esta  palavra  é  usada  para  indicar  cada  momento 
particular da interação das personagens de uma obra teatral. 

150  
depois  se  transformam  num  discurso  com  uma  forma  mais  precisa  e 
sistemática.  Não  existe  uma  diferença  qualitativa  entre  a  primeira 
percepção  do  coração  que  bate  ante  tão  esperada  resenha  e  os 
enunciados já claros e distintos que começamos a trocar com quem quer 
que seja, talvez depois de alguns minutos.  
Pode‐se  dizer  que  todo  campo  da  vida  interior,  todo  o  mundo  de 
nossas  sensações,  move‐se  numa  área  que  o  situa  entre  o  estado 
fisiológico  do  organismo  e  a  expressão  exterior.  Quanto  mais  se 
aproxima este mundo das sensações a seu limite mais baixo, tanto mais 
confusa e obscura é a sensação e por isso tanto mais confuso e obscuro 
será  seu  conhecimento,  sua  percepção.  Mas  quanto  mais  nos 
aproximamos  do  seu  limite  superior  –  a  expressão  acabada  –  mais 
complexa  é  a  sensação,  mas  ao  mesmo  tempo  expressará  toda  a 
complexidade  da  situação  social  com  maior  claridade,  com  maior 
riqueza e maior plenitude. A linguagem interior é a esfera, o campo em que o 
organismo  passa  do  ambiente  físico  ao  social.  Nele  se  dá  toda  a 
sociologização de todas as reações e manifestações orgânicas.  
  Obviamente nos estágios mais elementares de desenvolvimento, 
a expressão verbal pode ser substituída por outros meios: a linguagem 
das mãos, gritos inarticulados, mas entonados de modo expressivo etc. 
A relação entre sensação e expressão, mesmo nesses casos, permanece a 
mesma. Uma consciência que não se encarna no material ideológico da 
palavra interior, do gesto, do signo, do símbolo, não existe ou não pode 
existir. 
 
6. A ideologia cotidiana 
 
Estabeleçamos  o  acordo  de  chamar  de  ideologia  cotidiana  a  todo 
conjunto de sensações cotidianas – que refletem e refratam a realidade 
social objetiva – e as expressões exteriores imediatamente a elas ligadas. 
A ideologia cotidiana dá significado a cada ato nosso, a cada ação nossa 
e  a  cada  um  de  nossos  estados  “conscientes”.  Do  oceano  instável  e 
mutável  da  ideologia  afloram,  nascem  gradualmente  as  inumeráveis 
ilhas e continentes dos sistemas ideológicos: a ciência, a arte, a filosofia, 
as teorias políticas.  

  151 
Esses  sistemas  são,  no  fim  das  contas,  um  produto  do 
desenvolvimento  econômico,  um  produto  do  enriquecimento  técnico  e 
econômico  da  sociedade.  Por  sua  vez,  esses  sistemas  exercem  uma 
influência  fortíssima  sobre  a  ideologia  cotidiana  e  na  maior  parte  das 
vezes  lhe  dão  o  tom  dominante.  Ao  mesmo  tempo,  esses  produtos 
ideológicos em formação conservam sempre um vínculo vivíssimo com 
a  ideologia  cotidiana,  se  nutrem  de  seus  jogos  e,  separados  dela,  se 
deterioram e morrem. 
Não  se  creia  que  a  ideologia  do  cotidiano  seja  uma  coisa  inteira, 
monolítica, uniforme em todas as suas partes. Nela devemos distinguir 
uma série completa de estratos, desde os mais baixos que se movem e se 
modificam mais facilmente até os superiores que são limítrofes diretos 
dos sistemas ideológicos. 
Neste momento, estamos pouco interessados nos estratos inferiores, 
isto  é,  em  todas  as  sensações  e  pensamentos  confusos,  pouco 
desenvolvidos nas palavras casuais e inúteis que relampeiam em nossa 
consciência.  É  mais  importante  para  nós  conhecermos  os  estratos 
superiores da ideologia cotidiana que têm um caráter criativo. 
Nesses  estratos  superiores  acontece  o  intercâmbio  comunicativo  do 
autor  com  seus  leitores,  que  é  para  nós  substancial.  Aqui  se  elabora  sua 
língua  em  comum  e  sua  correlação  –  para  sermos  mais  precisos,  sua 
orientação  recíproca.  O  autor  e  o  leitor  se  encontram  num  plano 
extraliterário  comum,  talvez  ambos  tendo  a  mesma  profissão, 
participando  das  mesmas  reuniões  e  das  mesmas  sessões,  discutindo 
tomando  o  mesmo  chá,  escutando  as  mesmas  conversas,  lendo  os 
mesmos  jornais  e  os  mesmos  livros,  vendo  os  mesmos  filmes.  Aqui  se 
criam, se formam e se estabilizam seus “mundos interiores”. Aqui, em 
outras  palavras,  ocorre  o  “entrecruzamento”  de  suas  opiniões,  de suas 
ideias,  como  o  entrecruzamento  das  línguas  tribais  de  que  falamos 
anteriormente. 
 
7. A criação artística e a linguagem interior 
 
Do  que  dissemos,  fica  claro  que  o  fenômeno  habitualmente 
chamado  de  “individualidade  criativa”  é  na  verdade  a  expressão  de 
uma  linha  rígida  e  constante  da  orientação  social,  seja  de  opiniões  de 

152  
classe,  de  simpatias  e  antipatias  de  classe  de  uma  pessoa  dada,  que 
foram criadas e tomaram forma em sua linguagem interior. 
A  estrutura  sociológica  dos  estratos  superiores  da  linguagem 
interior  e  as  orientações  sociais  nela  contidas  determinam  em  grau 
significativo  a  criação  ideológica,  e  em  particular  a  artística,  de  uma 
pessoa dada e nessa criação encontram‐se seu desenvolvimento final e 
sua  conclusão.  É  muito  importante  ter  isso  presente.  É  necessário 
recordar  que  qualquer  obra  significativa  e  original,  para  sermos 
precisos,  se  cria  no  curso  de  toda  vida  do  escritor,  do  artista  ou  do 
compositor.  Temos  dito  que,  sobretudo,  as  principais  orientações  de 
suas  simpatias  e  antipatias  de  classe,  de  suas  ideias,  de  seus  gostos, 
determinam e impregnam o conteúdo e a forma da obra, já elaboradas e 
postas em evidência na linguagem interior. Elas não são transformadas 
ao  prazer  do  momento  e  suas  exigências  literárias.  Em  certo  sentido, 
elas foram dadas ao escritor, e o desenho artístico, o tema, o gênero etc. 
são  escolhidos  e  construídos  em  seus  âmbitos,  os  quais,  ainda  que 
amplos, são fixos e estáveis. 
A  linguagem  artística  exterior  não  pode  entrar  em  colisão  com  as 
orientações sociais fundamentais da linguagem interior. Ao tentar fazê‐
lo, perde sua produtividade e força, soa falsa como uma lição repetida 
por  um  papagaio  com  uma  entonação  casual,  descolorida  e  pouco 
convincente. O estilo da linguagem interior deve determinar o estilo da 
linguagem  exterior,  ainda  que  a  linguagem  exterior  tenha  uma 
influência reversa sobre a linguagem interior. Entre o estilo interior e o 
exterior,  entre  o  estilo  da  “alma”  e  o  estilo  da  obra,  existe  a  mesma 
interação  que  entre  a  ideologia  cotidiana  e  o  sistema  ideológico  já 
formado,  fixado:  a  linguagem  interior  reaviva,  nutre  com  seus  jogos, 
tanto a linguagem exterior comum quanto a linguagem criativa, mas, ao 
mesmo tempo, é determinada por essa linguagem exterior.  
Normalmente  não  haveria  aqui  uma  ruptura,  um  salto.  O  mesmo 
grupo social que deu a  uma pessoa a língua, que orientou  suas ideias, 
seus gostos, seus juízos, que, numa palavra, determinou o tom e o caráter 
de sua vida interior, agora se contrapõe como ambiente exterior, como 
massa  de  leitores,  como  grupo  de  apreciadores  e  críticos  de  sua  obra 
artística.  Por  isso,  se  nascem  conflitos  ou  contradições  entre  a 

  153 
linguagem  interior  e  a  linguagem  exterior  do  escritor,  existem  razões 
sociais particulares que causam esse conflito. 
Com essas palavras, queremos indicar o caminho que leva à correta 
solução  do  problema  dos  “tormentos  da  palavra”:  deveremos, 
entretanto,  falar  disso  quando  examinaremos,  em  continuidade,  a 
estrutura  da  obra  artística  e  o  papel  da  palavra  nessa  estrutura.  Por 
enquanto,  tratemos  de  nos  representar  da  maneira  mais  sistemática 
possível o caminho percorrido pela criação artística.    
 A  passagem  da  sensação,  como  expressão  interior,  à  enunciação 
realizada exteriormente, é o primeiro estágio da criação ideológica, em 
nosso caso, da literatura. Nesse estágio se reforça a orientação social que 
já  estava  presente  na  sensação,  ou  cuja  possibilidade  estava  nela 
esboçada. Aqui, em certo sentido, aparece e se leva em consideração o 
potencial  ouvinte,  o  potencial  participante  no  acontecimento  que 
provoca  a  passagem  da  expressão  interior  à  exterior.  Nesse  estágio, 
ocorre a primeira prova e a primeira verificação das formas ideológicas 
da sensação. 
No  segundo  estágio  de  realização,  a  forma  cotidiana  primitiva  se 
torna  já  um  produto  ideológico,  uma  obra  no  sentido  preciso  do  termo. 
Aqui  ocorre  uma  reestruturação  substancial  de  toda  a  estrutura  social 
da  expressão:  o  ouvinte,  que  antes  era  uma  figura  esboçada, 
pressuposta  –  o  ouvinte  “interior”  –  agora  se  torna  ouvinte  efetivo, 
realmente  existente,  e  passa  a  ser  considerado  como  representante  de 
uma massa organizada de leitores. 
O  momento  mais  fundamental  desse  segundo  estágio  é  o  domínio 
do  material,  sua  transformação  em  objeto  de  arte  –  em  uma  estátua, 
quadro,  sinfonia,  poema,  novela  etc.  No  primeiro  estágio,  a  passagem 
da  linguagem  interior  à  exterior  ainda  se  dava  nas  profundezas  da 
ideologia cotidiana. Por isso não era possível falar em maestria artística, 
em  procedimentos  artísticos  etc.  Mas  na  literatura,  o  segundo  estágio 
aqui  examinado  se  encontra  muito  próximo  do  estágio  precedente,  já 
que a linguagem é tanto material como instrumento da criação.  
Finalmente, no terceiro e último estágio de sua realização, o produto 
técnico deve adaptar‐se às condições técnicas exteriores. Acontece aqui a 
transformação técnica da forma do material. A obra deve assumir uma 

154  
orientação frente à redação, à casa editorial, à tipografia, ao mercado de 
livros etc.  
Nos  três  estágios,  o  processo  de  realização  da  obra  de  arte  ocorre 
num  único  ambiente  –  o  ambiente  social.  Esse  processo  é  contínuo:  da 
sensação confusa à impressão do livro, não corre mais que uma precisão 
e  um  alargamento  da  estrutura  social  que  já  estava  presente  nos 
primeiros  vislumbres  da  consciência  do  homem.  Não  existem,  nem 
podem  existir,  fronteiras  nítidas  entre  os  diversos  momentos  desse 
processo  –  entre  a  obra  isolada  e  o  encontro  com  o  público:  a  sensação 
interior era desde o começo uma expressão exterior – ainda em forma latente; 
o ouvinte – ainda pressuposto – era desde o começo um elemento necessário 
de sua estrutura.  
 
8. Conclusões 
 
Agora  podemos  extrair  algumas  conclusões.  Dissemos  que  a 
linguagem  nasce  da  necessidade  de  comunicação  dos  reagrupamentos 
humanos  da  primeira  idade  da  pedra.  Inicialmente  se  compõe  de 
gestos,  da  mímica,  e  depois  do  material  sonoro.  Servindo  a  estas 
necessidades  de  comunicação  dos  homens,  a  linguagem  serve  ao 
mesmo tempo como instrumento particular de um processo econômico, 
serve de conjuro mágico. Sendo produto da vida social, refletindo‐a não 
só  no  campo  semântico  mas  também  nas  formas  gramaticais,  a 
linguagem tem ao mesmo tempo uma enorme influência inversa sobre o 
desenvolvimento da vida econômica e sócio‐política.  
Com  a  ajuda  da  linguagem  se  criam  e  se  formam  os  sistemas 
ideológicos,  a  ciência,  a  arte,  a  moral,  o  direito,  e  ao  mesmo  tempo  a 
linguagem cria e forma a consciência de cada homem. 
Toda a vida interior do homem depende dos meios que lhe servem 
para  expressá‐la.  Sem  linguagem  interior  não  existe  consciência,  assim 
como não existe linguagem exterior sem linguagem interior15.  

                                                            
15  [N.T.]  Mantida  aqui  a  forma  de  tradução  tanto  do  espanhol  quanto  do  italiano.  No 

entanto,  aparentemente  o  raciocínio  do  autor  mostrando  a  dependência  da  vida 


interior  ao  que  lhe  é  exterior  seria  mais  adequado  dizer  que  assim  como  não  existe 
linguagem interior sem linguagem exterior. 

  155 
A  ideologia  social,  os  sistemas  ideológicos  já  formados  não  são 
senão  uma  ideologia  cotidiana  sistematizada  e  fixada  com  signos 
externos – “psicologia social”.  
O caminho percorrido pela criação literária é o seguinte: da sensação 
ou  da  expressão  embrionária  à  enunciação  expressa  exteriormente.  Na 
base da sensação e na base da expressão há uma única estrutura social. 
Qualquer  fenômeno  da  realidade  objetiva,  qualquer  situação,  ao 
provocar no homem uma reação orgânica, habitualmente faz emergir a 
linguagem interior que facilmente se transforma em linguagem exterior. 
Tanto  a  linguagem  interior  quanto  a  exterior  se  encontram 
orientadas  para  o  “outro”,  para  o  “ouvinte”.  Tanto  o  falante  quanto  o 
ouvinte são participantes conscientes do acontecimento da enunciação e 
ocupam nele posições interdependentes. 
A  enunciação  artística,  isto  é,  a  literária,  é  tão  sociológica  quanto  a 
enunciação cotidiana. 
Somente  com  uma  investigação  sociológica  nos  aproximaremos  do 
esclarecimento  da  essência  dos  fenômenos  ligados  aos  conflitos  da  linguagem 
interior  com  a  linguagem  exterior,  que  levam  o  nome  característico  de 
“tormentos da palavra”. Mas disso falaremos noutra oportunidade. 
 

156  
A CONSTRUÇÃO DA ENUNCIAÇÃO 
 
 
1. O intercâmbio social e a interação verbal 
 
Em  nosso  artigo  anterior1,  esclarecemos  a  natureza  social  da 
linguagem.  Indicamos  os  fatores,  as  forças  motoras  que  determinaram 
as origens e o desenvolvimento da linguagem: a organização do trabalho 
na  sociedade  e  a  luta  de  classes.  Estamos  convencidos  do  fato  de  que  a 
linguagem  humana  é  um  fenômeno  de  duas  faces:  cada  enunciação 
pressupõe,  para  realizar‐se,  a  existência  não  só  de  um  falante,  mas 
também  de um  ouvinte.  Cada  expressão  linguística  das  impressões  do 
mundo  externo,  quer  sejam  imediatas  quer  sejam  aquelas  que  se  vão 
formando  nas  entranhas  de  nossa  consciência  e  receberam  conotações 
ideológicas mais fixas e estáveis, é sempre orientada para o outro, até um 
ouvinte,  inclusive  quando  este  não  existe  como  pessoa  real.  Já  vimos 
que  até  as  mais  simples,  as  mais  primitivas  expressões  de  desejos,  de 
percepções puramente fisiológicas, têm uma clara estrutura sociológica. 
Tudo  isso  nos  dá  a  possibilidade  de  dar  uma  definição  conclusiva 
da  linguagem  e  passar  a  um  exame  mais  detalhado  da  enunciação  da 
vida cotidiana; e depois, da enunciação literária. 
Antes  de  tudo,  devemos  recordar  que  a  língua  não  é  algo  imóvel, 
dada  de  uma  vez  para  sempre  e  rigidamente  fixada  em  “regras”  e 
“exceções”  gramaticais.  A  língua  não  é  de  modo  algum  um  produto 
morto,  petrificado,  da  vida  social:  ela  se  move  continuamente  e  seu 
desenvolvimento  segue  aquele  da  vida  social.  Este  movimento 
progressivo da língua se realiza no processo de relação entre homem e 
homem,  uma  relação  não  só  produtiva,  mas  também  verbal.  Na 
comunicação verbal, que é um dos aspectos do mais amplo intercâmbio 
comunicativo  –  o  social  –,  elaboram‐se  os  mais  diversos  tipos  de 
enunciações,  correspondentes  aos  diversos  tipos  de  intercâmbio 
comunicativo social.  

                                                            
1   Refere‐se  ao  artigo  “Que  é  a  linguagem?”,  publicado  neste  volume.  (Nota  do 
organizador da edição argentina, Guillermo Blanck). 

  157 
Não compreenderemos nunca a construção de qualquer enunciação 
– por completa e independente que ela possa parecer – se não tivermos 
em  conta  o  fato  de  que  ela  é  só  um  momento,  uma  gota  no  rio  da 
comunicação  verbal,  rio  ininterrupto,  assim  como  é  ininterrupta  a 
própria vida social, a história mesma. 
Mesmo  a  comunicação  verbal  não  passa  de  uma  das  inumeráveis 
formas de desenvolvimento – “de formação” – da comunidade social na 
qual  se  realiza  a  interação  verbal  entre  pessoas  que  vivem  uma  vida 
social.  Por  isso,  seria  uma  tarefa  desesperada  tentar  compreender  a 
construção das enunciações, que formam a comunicação verbal, sem ter 
presente nenhum de seus vínculos com a efetiva situação social que as 
provoca. 
Assim,  chegamos  a  nossa  última  conclusão:  a  essência  efetiva  da 
linguagem está representada pelo fato social da interação verbal, que é realizada 
por uma ou mais enunciações.  
De  que  depende  e  em  que  ordem  ocorre  a  mudança  das  formas  da 
linguagem? 
O material do artigo precedente nos permite construir um esquema 
do processo que provoca esta mudança, esquema que dá uma resposta 
à pergunta feita: 
1. Organização agrícola da sociedade. 
2. Intercâmbio comunicativo social. 
3. Interação verbal. 
4. Enunciações. 
5. Formas gramaticais da língua. 
Esse  esquema  nos  serve  como  guia  na  investigação  dessa  unidade 
real da linguagem que chamamos enunciação. 
Não  devemos,  obviamente,  encerrar‐nos  no  exame  dos  problemas 
ligados  ao  estudo  das  formas  e  dos  tipos  de  vida  econômica  da 
sociedade.  Esses  problemas  são  objeto  de  estudo  de  outras  ciências,  as 
ciências sociais, e em particular a economia política. 
Tampouco  nos  entreteremos  muito  no  exame  dos  vários  tipos  de 
intercâmbio  comunicativo  social.  Para  nosso  objetivo,  é  suficiente  indicar 
os tipos mais essenciais e mais frequentes. Somente a um deles vamos 
dedicar,  em  nossos  sucessivos  artigos,  uma  atenção  particular, 
precisamente o intercâmbio comunicativo artístico. 

158  
Se  observarmos  de  perto  a  vida  social,  podemos  individualizar 
facilmente, além do intercâmbio comunicativo artístico já assinalado, os 
seguintes tipos: 1. o intercâmbio comunicativo  ligado à produção2 – nas 
fábricas,  nas  indústrias,  na  agricultura3,  etc.;  2.  o  intercâmbio 
comunicativo  dos  negócios  –  nos  escritórios,  nas  organizações  sociais, 
etc.;  3.  o  intercâmbio  comunicativo  da  vida  cotidiana  –  encontros  e 
conversas  pela  rua,  a  [conversação]  permanente  numa  mesa  social,  na 
própria  casa,  etc.;  4.  o  intercâmbio  comunicativo  social  no  sentido 
próprio  do  termo:  propagandístico,  escolar,  científico,  filosófico,  em  todas 
suas variações.  
O  que  havíamos  chamado  no  artigo  precedente  de  situação  não  é 
senão  a  efetiva  realização  na  vida  real  de  uma  das  formas,  de  uma  das 
variedades, do intercâmbio comunicativo social. 
Qualquer situação da vida em que se organize uma enunciação, não 
obstante,  pressupõe  inevitavelmente  protagonistas,  os  falantes. 
Chamaremos  auditório  da  enunciação  à  presença  dos  participantes  da 
situação.  
Cada  enunciação  da  vida  cotidiana  –  veremos  isso  mais  adiante  – 
compreende,  além  da  parte  verbal  expressa,  também  uma  parte  extra 
verbal não expressa, mas subentendida – situação e auditório – sem cuja 
compreensão  não  é  possível  entender  a  própria  enunciação.  Essa 
enunciação,  enquanto  unidade  da  comunicação  verbal,  enquanto 
unidade significante, elabora e assume uma forma fixa precisamente no 
processo  constituído  por  uma  interação  verbal  particular,  gerada  num 
tipo  particular  de  intercâmbio  comunicativo  social.  Cada  tipo  de 
intercâmbio  comunicativo  referido  anteriormente  organiza,  constrói  e 
completa, à sua maneira, a forma gramatical e estilística da enunciação, 
sua estrutura tipo, que chamaremos a partir daqui de gênero. 

                                                            
2   [N.T.]  Na  edição  argentina,  a  palavra  “produção”  foi  omitida,  mas  ela  aparece  na 
edição em italiano. 
3   [N.T.]  A  edição  em  língua  espanhola  mantém  aqui  o  termo  russo  “koljós”,  que 

segundo  nota  de  Guillermo  Blanck  significa  “cooperativa  agrária”.  Optei  pelo 
genérico  “agricultura”,  já  que  quando  da  publicação  deste  artigo,  esta  produção  se 
fazia  coletivamente  nas  cooperativas  de  produção  agrícola,  o  que  já  não  ocorre,  de 
modo que o termo “koljós” passa a ter aqui um sentido metonímico.  (N.T.)  

  159 
Observemos,  ainda  que  seja  brevemente,  a  relação  de  um  tipo  de 
intercâmbio  comunicativo  social  –  o  da  vida  cotidiana  –  com  seu 
correspondente tipo de interação verbal.  
Já  vimos  como  a  situação  e  o  auditório  provocam  a  passagem  da 
linguagem  interior  a  uma  expressão  externa,  a  qual  é  parte  integrante 
de  uma  situação  da  vida  que  permanece  não  expressa  –  mas 
subentendida – e se completa nela por meio de uma ação, de um ato ou 
de uma resposta verbal dos outros participantes da enunciação. 
 
...  Uma  questão  completa,  a  exclamação,  a  ordem,  o  pedido  são 
enunciações completas típicas da vida corrente. Todas (particularmente 
as  ordens,  os  pedidos)  exigem  um  complemento  extraverbal  assim 
como  um  início  não  verbal.  Esses  tipos  de  discursos  menores  da  vida 
cotidiana  são  modelados  pela  fricção  da  palavra  contra  o  meio 
extraverbal e contra a palavra do outro. 
Assim, a forma da ordem é determinada pelos obstáculos que ela pode 
encontrar,  o  grau  de  submissão  do  receptor,  etc.  A  modelagem  das 
enunciações  responde  aqui  a  particularidades  fortuitas  e  não 
reiteráveis das situações da vida corrente. Só se pode falar de fórmulas 
específicas,  de  estereótipos  no  discurso  da  vida  cotidiana  quando 
existem  formas  de  vida  em  comum  relativamente  regularizadas, 
reforçadas  pelo  uso  e  pelas  circunstâncias.  Assim,  encontram‐se  tipos 
particulares  de  fórmulas  estereotipadas  servindo  às  necessidades  da 
conversa  de  salão,  fútil  e  que  não  cria  nenhuma  obrigação,  em  que 
todos os participantes são familiares uns aos outros e onde a diferença 
principal é entre homens e mulheres. Encontram‐se elaboradas formas 
particulares  de  palavras‐alusões,  de  subentendidos,  de  reminiscências 
de pequenos incidentes sem nenhuma importância, etc. Um outro tipo 
de fórmula elabora‐se na conversa entre marido e mulher, entre irmão 
e  irmã.  Pessoas  inteiramente  estranhas umas às  outras  e  reunidas  por 
acaso  (numa  fila,  numa  entidade  qualquer)  começam,  constroem  e 
terminam suas declarações  e suas  réplicas  de  maneira  completamente 
diferente.  Encontram‐se  ainda  outros  tipos  de  serões  no  campo,  nas 
quermesses populares na cidade, na conversa dos operários à hora do 
almoço, etc. Toda situação inscrita duravelmente nos costumes possui 
um  auditório  organizado  de  uma  certa  maneira  e  consequentemente 
um  certo  repertório  de  pequenas  fórmulas  correntes.  A  fórmula 
estereotipada  adapta‐se,  em  qualquer  lugar,  ao  canal  de  interação 
social  que  lhe  é  reservado,  refletindo  ideologicamente  o  tipo,  a 

160  
estrutura, os objetivos e a composição social do grupo. As fórmulas da 
vida  corrente  fazem  parte  do  meio  social,  são  elementos  da  festa,  dos 
lazeres,  das  relações  que  se  travam  no  hotel,  nas  fábricas,  etc.  Elas 
coincidem  com  esse  meio,  são  por  ele delimitadas  e  determinadas  em 
todos os aspectos. (Marxismo e Filosofia da Linguagem, p. 125‐126)4 

                                                            
4   [N.T.]  Transcrição  direta  dessa  passagem  conforme  aparece  na  edição  brasileira  do 
livro  Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem  (Mikhail  Bakhtin  (Volochínov),  São  Paulo: 
Hucitec, 1981). Numa tradução direta da edição argentina que estamos manuseando, 
a passagem teria a seguinte formulação:  
Uma  pergunta  completa,  uma  exclamação,  uma  ordem,  um  pedido:  eis  aqui  as 
formas mais típicas da enunciação da vida cotidiana. Todas elas – sobretudo a ordem 
e  o  pedido  –  necessitam  de  um  complemento  e  de  um  começo  extraverbal.  O  tipo 
mesmo de execução desses pequenos gêneros cotidianos é determinado pelo impacto 
da palavra com o ambiente extraverbal e pelo impacto da palavra com uma palavra 
alheia – uma palavra de outras pessoas.  
Assim, a forma da ordem é determinada pelos obstáculos que pode encontrar, pelo 
grau de obediência, etc. A execução do gênero, neste caso, depende das características 
peculiares das situações da vida, que são casuais e irrepetíveis. 
Pode‐se falar de tipos específicos de realização de gêneros da linguagem cotidiana 
somente  onde  existam  formas  de  intercâmbio  comunicativo  cotidiano  que  sejam  de 
algum modo estáveis, fixadas pelo hábito e pelas circunstâncias. 
Assim,  um  tipo  particular  de  realização  de  gênero  se  encontra  na  conversa  de 
salão,  ligeira  e  casual,  onde  todos  estão  entre  conhecidos  e  onde  a  diferenciação  – 
subdivisão  –  substancial  entre  os  presentes  –  chamamos  “auditório”  –  é  a  divisão 
entre homens e mulheres. Aqui aparecem formas particulares de fala, a insinuação, as 
frases veladas, a repetição de pequenas histórias de caráter notoriamente ligeiro. 
Outro tipo de realização do gênero se encontra na conversa entre marido e mulher, 
entre irmão e irmã. Pessoas heterogêneas, ao encontrarem‐se casualmente numa fila, 
num  escritório,  etc.  se  manifestam  e  constroem  suas  réplicas  de  maneira 
absolutamente  distinta.  Têm  seus  tipos  particulares  de  enunciações  os  velórios 
campesinos,  as  festas  urbanas,  as  conversas  dos  trabalhadores  na  pausa  de  almoço, 
etc.  Cada  situação  fixa  da  vida  corresponde  a  uma  organização  particular  do 
auditório,  e  em  consequência  a  um  repertório  de  pequenos  gêneros  cotidianos.  O 
gênero da vida cotidiana se situa sempre no leito do intercâmbio comunicativo social, 
e é o reflexo ideológico de seu tipo de estrutura, seu objetivo e sua composição social. 
O gênero da vida cotidiana é uma parte do ambiente social: da festa, do tempo livre, 
da conversa de salão, da conversa no escritório, na oficina etc. Ele coincide com este 
ambiente, é delimitado por ele e todos seus aspectos interiores resultam determinados 
por ele. (V.N. Voloshínov/M. Bakhtin. Marxismo e filosofia da linguagem). 
Para  leitores  mais  exigentes  com  a  vida  dos  textos  em  suas  múltiplas  línguas, 
transcrevo a seguir a versão em francês desta mesma passagem, tal como aparece em 
Volosinov,  Valentin  Nicokaevic.  Marxisme  et  Philosophie  du  Langage.  Les 

  161 
2. O discurso monológico e o discurso dialógico 
 
Se  se  observa  o  processo  de  formação  desses  pequenos  gêneros 
cotidianos, não é difícil notar que a comunicação verbal, em cujo âmbito 
eles nascem e se organizam, compõe‐se de dois momentos: a enunciação 
feita  pelo  falante  e  sua  compreensão  por  parte  do  ouvinte.  Essa 
compreensão  contém  sempre  os  elementos  da  resposta.  Em  realidade, 
normalmente  nós  concordamos  ou  discordamos  do  que  ouvimos. 

                                                                                                                                                

fondamentaux  de  la  méthode  sociologique  dans  la  Science  du  langage.  Nouvelle 
édition  bilíngue  traduite  du  russe  par  Patrick  Sériot  et  Inna  Tylkowski‐Ageeva. 
(Limoges : Lambert‐Lucas, 2010):  
  ...  Une  question,  une  exclamation,  un  ordre,  une  demande,  voilà  des  touts  achevés 
parmi les plus typiques des énoncés de la vie courante. Tous (em particulier, l’ordre 
et  la  demande)  exigent  un  complément  ,  tout  comme  une  amorce.  Le  type  même 
d’achèvement  propre  à  ces  petits  genres  de  la  vie  quotidienne  est  déterminé  par  le 
frottement  du  Mot  contre  le  milieu    et  le  Mot  d’autrui  (le  Mot  des  autres  gens).  Par 
exemple, la forme de l’ordre est déterminé par les obstacles qu’il peut rencontrer, le 
degré  de  soumission,  etc.  L’achèvement  propre  au  genre  reencontre  ici  les 
particulatirés  accidentelles  et  irréitérables  des  situations  de  la  vie    courante.  On  ne 
peut parler de types de genres achevés dans la parole de la vie quotidienne que pour 
autant qu’il existe des formes d’échange verbal dans la vie de tous  les jours tant soit 
peu  stables,  réglées  par  l’usage  quotidien  et  les  circonstances.  Ainsi,  un  type 
particulier de genre achevé est celui que prévaut dans la conversation légére de salon, 
laquelle  ne  crée  aucune  obligation,  où  tous  les  participants  appartiennen  au  même 
cercle  et  où  la  différenciation  principale  de  l’assistance  (l’auditorie)  est  celle  des 
hommes  et  des  femmes.  Là  naissent  de  formes  particulères  du  Mot:  allusions,  sous‐
entendus, réminiscence de petits récits notoirement insignificantes, etc. Un autre type 
de forme achevée reside dans la conversation du mari avec as femme, du frère avec as 
soeur. C’est de façon intièrement diferente que des gens totalement étrangers les uns 
aux  autres,  réunis  par  hasard  quelque  part  dans  une  queue  ou  dans  un  bureau 
quelconque  commencent,  finissent  et  construisent  leurs  affirmations  et  leurs 
repliques.  On  observe  encore  d’autres  types  dans  les  veillés  de  village,  les  fêtes 
populaires  em  ville,  le  bavardage  des  ouvriers  pendant  la  pause  à  l’heure  du 
déjeuner,  etc.  Chaque  situation  quotidienne  stable  possède  une  organisation  définie 
de l’auditoire, et, par conséquent, une répertoire défini de petits genres du quotidien. 
Partout,  le  genre  du  quotidien  se  coule  dans  le  canal  de  l’échange  social  qui  lui  est 
assigne,  comme  reflet  idéologique  du  type,  de  la  structure,  de  l’objectif  et  de  la 
composition sociale de cet échange social. Le genre du quotidien fait partie du milieu 
social: la fête, les loisirs, la conversation de salon, l’atelier, etc. Il est en contact avec ce 
milieu, qui le delimite et determine tous ses éléments internes. (p.324‐5). 

162  
Habitualmente  respondemos  a  qualquer  enunciação  de  nosso 
interlocutor,  se  não  com  palavras,  pelo  menos  com  um  gesto:  um 
movimento da cabeça, um sorriso, uma pequena sacudidela da cabeça, 
etc. Pode‐se dizer que qualquer comunicação verbal, qualquer interação 
verbal, se desenvolve sob a forma de intercâmbio de enunciações, ou seja, 
sob a forma do diálogo5.    
O diálogo – o intercâmbio verbal – representa a forma mais natural 
da linguagem6. 
Mais  diretamente  se  pode  acrescentar:  as  enunciações  prolongadas 
no tempo, de um só falante – o discurso de um orador, a conferência de 
um professor, os raciocínios em voz alta de um homem solitário ‐, todas 
essas  enunciações  têm  de  monológico  apenas  sua  forma  externa.  Sua 
essência,  sua  construção  semântica  e  estilística  são  dialógicas.  É 
importantíssimo que todos os escritores que se servem do procedimento 
do discurso monológico do herói o tenham presente.  
De  fato,  em  realidade,  cada  enunciação  –  um  discurso,  uma 
conferência  etc.  –  está  dirigida  a  um  ouvinte,  quer  dizer,  a  sua 
compreensão e a sua resposta – obviamente não imediata, pois de fato não 
se  pode  interromper  um  orador  ou  um  conferencista  para  fazer‐lhe 
observações  ou  dar‐lhe  respostas  –  a  sua  concordância  ou  discordância  – 
em  outras  palavras,  à  escuta  avaliativa  do  ouvinte,  do  auditório. 
Qualquer  orador  ou  conferencista  tem  presente  esse  aspecto  dialógico 
de seu discurso. Os atentos ouvintes que estão diante dele não são uma 
massa  indistinta,  inerte,  imóvel,  de  pessoas  que  o  seguem  com 
indiferença.  Ao  contrário,  diante  do  orador  está  um  interlocutor  vivo, 
variado. Qualquer movimento de um ouvinte, sua postura, a expressão 
do rosto, as tosses, a troca de posição, representam para o orador exímio 

                                                            
5   O  diálogo  é  uma  conversação  recíproca  entre  duas  pessoas,  diferentemente  do 
monólogo, isto é, do discurso prolongado de uma só pessoa. As enunciações que trocam 
os parceiros de um diálogo se chamam intervenções – podem‐se encontrar exemplos de 
diálogo ou de monólogo em qualquer obra escrita para representação cênica.  
6   A  este  propósito,  leia‐se  o  artigo  de  L.  P.  Iakubinski  –  em  realidade,  bastante 

complexo  para  um  escritor  principiante  –  na  antologia  A  Linguagem  Russa  [Rúskaia 
riech], com o título O discurso dialógico [O dialoguicheskoi riechi]. 

  163 
uma resposta clara e expressiva, que acompanha sem interrupções a seu 
discurso7. 
Muitas  vezes  um  orador  deve  incluir  improvisadamente  uma 
divagação,  relatando  um  caso  divertido  ou  uma  anedota,  não  só  para 
reavivar o humor do auditório, mas às vezes também para sublinhar – 
“acentuar”  –  um  pensamento  que  de  outra  forma  o  ouvinte  teria 
deixado passar sem a devida atenção.   
O  orador  que  escuta  somente  sua  voz,  ou  o  professor  que  vê 
somente  seu  manuscrito,  é  um  mau  orador,  um  mau  professor.  Eles 
mesmos  paralisam  a  forma  de  suas  enunciações,  destroem  o  vínculo 
vivo,  dialógico,  com  seu  auditório  e  com  isso  tornam  sem  valor  sua 
intervenção. 
 
3. A dialogicidade da linguagem interior 
 
Poderiam objetar‐nos: 
‐  Bem,  admitamos  que  seja  assim.  Na  realidade,  nos  exemplos 
apresentados,  o  ouvinte‐interlocutor  existe  de  fato  e  não  é 
surpreendente que o falante o leve em conta. Mas, como é quando esse 
ouvinte não existe e o locutor se encontra sozinho? Acaso a construção 
dos  pensamentos  mais  íntimos,  aqueles  que  se  movem  no  fluxo  da 
linguagem  interior  ou  são  pronunciados  em  voz  alta,  acaso  também 
essas enunciações em segredo são socialmente orientadas, têm também 
em  conta  um  ouvinte?  Essas  enunciações  solitárias  não  representam, 
acaso, a fórmula mais pura do monólogo, não dirigido a nenhum outro, 
senão  ao  próprio  falante,  e  que  não  depende  de  ninguém  além  do  seu 
“estado de espírito”?  
Afirmamos,  decidida  e  categoricamente,  que  mesmo  essas 
intervenções verbais íntimas são totalmente dialógicas, estão totalmente 
impregnadas com a valoração de um ouvinte potencial, de um auditório 
potencial,  mesmo  quando  o  pensamento  nesse  ouvinte  não  tenha 
passado pela mente do falante. 
                                                            
7   É  interessante  notar  a  curiosa  sensação  de  impotência  que  experimentam 
conferencistas  habituados  e  artistas  consagrados  quando  devem  falar  pela  primeira 
vez diante de um auditório absolutamente invisível e imperceptível, como diante de 
um microfone durante uma transmissão radiofônica.  

164  
Isso ficou demonstrado no artigo precedente não só nas conclusões, 
não só pela sociologicidade apontada por nós, da consciência humana – 
das  “sensações”  e  de  suas  “expressões”.  Esse  condicionamento  social, 
diremos inclusive mais precisa e francamente, esse condicionamento de 
classe  [social]  sobre  qualquer  discurso  monológico,  cuja  manifestação 
externa  é  dada  pela  dialogicidade  de  tal  discurso.  Podemos  verificar 
isso  por  nós  mesmos,  com  nossa  experiência,  sem  nos  servirmos  de 
material literário, diários, anotações íntimas, etc.  
De fato, assim que começamos a refletir sobre um problema, assim 
que começamos a examiná‐lo com atenção, de imediato nosso discurso 
interno – às vezes pronunciado em voz alta – toma a forma de pergunta 
e  resposta,  de  afirmações  e  de  sucessivas  negações.  Para  dizê‐lo 
resumidamente:  nosso  discurso  se  fragmenta  em  intervenções 
separadas, maiores ou menores, toma forma dialógica. 
Essa  forma  dialógica  é  claríssima  quando  temos  que  tomar  uma 
decisão.  Nós  vacilamos.  Não  sabemos  qual  é  a  melhor  solução. 
Começamos a discutir conosco mesmo, começamos a convencer‐nos da 
exatidão de uma decisão. Nossa consciência parece quase dividir‐se em 
duas vozes independentes que se contrapõem uma a outra. 
E  sempre  uma  dessas  vozes,  independentemente  de  nossa  vontade  e  de 
nossa consciência, coincide com a visão, com as opiniões e com as valorações da 
classe a que pertencemos. A segunda voz é sempre a voz do representante 
típico, ideal, de nossa classe. 
“Minha  ação  será  ruim?”  “De  que  ponto  de  vista?”  “Do  meu, 
pessoal?”  Mas  de  onde  extraí  esse  ponto  de  vista  “pessoal”  se  não  dos 
pontos  de  vista  daqueles  com  os  quais  fui  educado,  junto  aos  quais 
estudei, cujas ideias tenho lido nos jornais e tenho escutado em encontros 
e conferências?  E se eu refuto as opiniões do grupo social a que até agora 
pertencia, é somente porque a ideologia de outro grupo social começou a 
dominar minha consciência, preenchendo‐a e obrigando‐a a reconhecer a 
exatidão da realidade social objetiva que a gerou. 
“Minha ação será ruim?”. Essa “voz da minha consciência”, de fato, 
deveria soar assim: “tua ação será uma má ação do ponto de vista dos 
outros, do ponto de vista dos melhores representantes de sua classe”. 
Pode‐se demonstrar que nem sempre aceitamos esse “ponto de vista 
dos  outros”  como  necessário  e  concludente.  De  fato,  às  vezes 

  165 
disputamos  com  ele,  polemizamos  com  nosso  invisível  interlocutor‐
ouvinte. Mas suponhamos inclusive que uma pessoa esteja irritada com 
a sociedade; ainda assim, quanto mais irreconciliável for sua hostilidade 
contra  ela,  quanto  mais  pretenda  afirmar  o  próprio  “eu”  individual,  o 
próprio “arbítrio” – como disse uma personagem de Dostoiévski – tanto 
mais  clara  será  a  forma  dialógica  de  seu  discurso  interno,  tanto  mais 
claramente  se  observará  o  conflito  num  único  fluxo  verbal  de  duas 
ideologias, de duas visões de classe que lutam entre si.  
Assim,  por  exemplo,  o  ódio  feroz  pela  sociedade  proletária  de  um 
contra‐  revolucionário,  assim  como  o  obtuso  fastio  de  um  “pequeno 
burguês”  não  testemunham  de  fato  a  independência  e  a  livre 
“autoafirmação”  de  suas  personalidades  individuais.  Seus  monólogos, 
pronunciados  mentalmente  ou  em  voz  alta,  embasam‐se 
inevitavelmente  na  simpatia  dos  supostos  ouvintes,  isto  é,  de  um 
auditório invisível de “fragmentos da classe desfeita em mil pedaços”. 
Todas  as  enunciações  se  construirão  precisamente  com  base  em  sua 
visão; suas possíveis opiniões e valorações determinarão a ressonância 
interna ou externa da voz – a entonação ‐ e a escolha das palavras e sua 
composição numa enunciação concreta. Uma simples exclamação mental 
–  do  tipo  do  enojado  “Chega!  Acabemos  com  isto!”  ou  do  indignado 
“Nem pense nisso!” ‐ contém já o chamamento a um ouvinte possível, 
seja companheiro, testemunha simpatizante ou juiz reconhecido. 
É  possível,  obviamente,  um  caso  muito  mais  complexo:  aquele  em 
que  ressoam  na  linguagem  interna  duas  vozes  contraditórias,  mas  de 
igual valor, e não se saiba a qual delas dar prioridade, a qual das duas 
seguir. 
Esse caso – característico de uma época determinada – testemunha a 
luta  constante  de  duas  classes,  igualmente  fortes  para  predominar  na 
luta histórica, luta que se internaliza na consciência individual.  
Finalmente,  um  último  caso:  aquele  em  que  a  pessoa  perdeu  seu 
ouvinte interno e em sua consciência se encontram desagregados todos 
os pontos de vista sólidos e fixos; por isso toda a realidade objetiva do 
indivíduo e todo seu comportamento social são conduzidos apenas por 
inclinações  e  impulsos  casuais,  absolutamente  irresponsáveis  e  sem 
fundamento. Aqui estamos em presença de um fenômeno de desprendimento 
ideológico  do  indivíduo  do  ambiente  social,  que  habitualmente  produz  a 

166  
completa alienação do homem. Em condições sociais particularmente adversas, 
essa separação do indivíduo de seu ambiente social ideológico, que o nutre, pode 
levar à completa destruição da consciência, à loucura.  
O caso que estamos examinando é riquíssimo em conflitos marcados 
entre a linguagem interior e a linguagem exterior. 
Quando  o  indivíduo  se  alheia  da  realidade  social  objetiva,  quando 
desaparece  o  sistema  habitual  de  valoração  e  de  pontos  de  vista,  na 
consciência  devastada  não  resta  nada  que  possa  se  converter  numa 
expressão  reconhecida  e  autorizada  de  um  comportamento  social 
produtivo e ideologicamente justificado. O mundo das novas palavras, 
o mundo dos significados nascidos “da luz e da chama” das revoluções, 
junto  com  a  nova  realidade  social  objetiva,  ficou  fora  do  umbral  da 
consciência, não entrou no horizonte do homem, não se tornou para ele 
“algo próprio”.  As velhas palavras perderam sua correspondência com 
a  realidade  objetiva,  deixaram  de  ser  seus  signos,  seus  símbolos;  e  o 
indivíduo  ficou  só  com  seus  confusos  estados  de  ânimo  e  essas 
sensações,  em  grande  parte  já  fora  das  possibilidades  de  sua  expressão 
linguística e social. Esses estados de ânimo e essas sensações, à medida 
que  se  alheiam  de  sua  expressão  e  formulação  ideológica  –  passagem 
dos mais baixos estratos da ideologia cotidiana, limítrofes com o estado 
fisiológico do organismo – se reagrupam cada vez mais em torno de um 
único centro. 
O  indivíduo  que  se  perdeu  de  seu  mundo  social  encontra‐se  então 
no  mundo  de  suas  inclinações  sensíveis,  puramente  naturais.  Agora  já 
não  se  constituem  como  centro  organizador  os  interesses  sociais,  os 
chamados interesses “espirituais”, mas sim os interesses da vida sexual, 
os  interesses  do  sexo.  Todas  as  épocas  de  crise  e  decadência, 
acompanhadas  de  profundas  mudanças  econômicas  e  políticas, 
conheceram esse triunfo do “homem animal” sobre o “homem social”. 
Nas  vísceras  da  classe  moribunda,  esse  motivo  ressoa  mais  forte 
sempre.  O  sexo  se  torna  o  grande  substituto  –  por  falsificação  e 
substituição  –  do  social.  O  amor,  em  sua  forma  mais  elementar, 
fisiológica,  é  declarado  o  valor  máximo  e,  pelos  lábios  de  seus  porta‐
vozes  literários,  a  consciência  em  decomposição  da  intelligentsia 

  167 
burguesa  da  Europa  ocidental  do  século  XX  tenta  anunciar  o  “novo” 
evangelho: “Em princípio era o sexo” (Przybyszewski)8. 
Ainda  antes,  a  literatura  russa  havia  dado  exemplos  esplêndidos 
dessa decomposição da personalidade social, obcecada pela devoradora 
paixão  sexual.  Encontramo‐los  –  obviamente  em  outro  terreno  social  – 
sobretudo em Dostoiévski. Posterguemos a análise para o momento em 
que nos ocuparemos da análise da estrutura do monólogo e do diálogo 
artístico.  Permitimo‐nos  aprofundar  bastante  o  problema  da 
dialogicidade de qualquer discurso cotidiano e de seu vínculo com um 
ouvinte  interior  –  pressuposto  ou  existente  –  porque  desejávamos  dar 
ao  escritor  principiante  uma  interpretação  estritamente  materialista, 
marxista,  dos  problemas  que  frequentemente  são  explicados  de  forma 
muito  psicologizante,  acrescentemos  idealista  e  por  consequência 
errônea. O escritor deve compreender os princípios e condições sociais 
que  na  vida  real  criam  as  características  e  as  situações  que  lhe 
interessam.  Na  construção  de  seu  herói,  o  escritor  não  pode  esquecer 
por  nenhum  instante  que  a  força  expressiva  artística  depende,  em 
medida considerável, da força da verdade da vida contida na obra.  
A inexorável dialética dos acontecimentos sociais e a cruel coerência 
da  lei  de  causa  e  efeito devem  ser  as  mesmas  tanto  na  vida quanto  na 
novela. 
 
4. A orientação social da enunciação 
 
Voltemos ao nosso tema principal. 
Estamos  convencidos  de  que  todo  discurso  é  dialógico,  dirigido  a 
outra  pessoa,  à  sua  compreensão  e  à  sua  efetiva  resposta  potencial.  Essa 
orientação a um outro, a um ouvinte, pressupõe inevitavelmente que se 
tenha  em  conta  a  correlação  sócio‐hierárquica  entre  ambos  os 
interlocutores. Como havíamos indicado em artigo precedente, a forma 
da enunciação – por exemplo “quero comer” – muda segundo a posição 
social do falante e do ouvinte, e segundo toda a situação social em que 
tal enunciação se realiza. Chamemos, por convenção, de orientação social 
                                                            
8   Escritor  polonês  do  movimento  “Jovem  Polônia”.  Introduziu  na  literatura  os  temas 
do  inconsciente,  da  sexualidade,  da  psicopatologia  e  do  irracional.  [Nota  de  Rita 
Bruzesse, uma das tradutoras do texto para o espanhol]. 

168  
da  enunciação  a  esta  dependência  do  peso  sócio‐hierárquico  do  auditório  – 
isto  é,  do  pertencimento  de  classe  dos  interlocutores,  de  sua  condição 
econômica,  profissão,  hierarquia  no  serviço  ou  (como  ocorria,  por 
exemplo, na Rússia antes da Reforma) pelo título, grau, quantidade de 
servos da gleba, do capital, etc. 
Essa  orientação  social  estará  sempre  presente  em  qualquer 
enunciação do homem, não só verbal, mas também gestual – através de 
gestos  ou  mímica  –  independentemente  da  forma  em  que  se  realiza: 
tanto  se  a  pessoa  fala  consigo  mesma  –  monólogo  –  quanto  na 
conversação participando duas ou mais pessoas – diálogo. A orientação 
social  é  uma  das  forças  vivas  organizadoras  que,  junto  com  a  situação 
da  enunciação,  constituem  não  só  a  forma  estilística  mas  também  a 
estrutura puramente gramatical da enunciação. 
Nessa  orientação  social,  encontra  o  seu  reflexo  o  auditório  da 
enunciação – presente ou pressuposto – já que fora deste, como vimos, 
não teria nascido, nem teria podido nascer nenhum ato de comunicação 
verbal. 
Para o escritor, que não constrói só enunciações, mas um complexo 
perfil do herói, deve‐se notar que os chamados “bons modos” – o “saber 
comportar‐se”  em  sociedade  –  são  em  essência  a  expressão  gestual  da 
orientação social da enunciação. 
A  forma  corporal  exterior  do  comportamento  social  do  homem  – 
movimentos  das  mãos,  postura,  tom  de  voz  –  que  habitualmente 
acompanha  o  discurso,  é  determinada  pelo  fato  de  ter  em  conta  o 
auditório presente e, em consequência, pela valorização que lhe é dada. 
Que são as boas maneiras de Tchítchikov – que são diferentes segundo 
se  encontre  em  frente  a  Koróbotchka,  a  Pliúchkin  ou  do  general 
Betríchtchev9  –  se  não  a  expressão  gestual  do  fato  de  ele  ter  sempre  e 
habitualmente em conta o auditório e compreender com sutileza tanto a 
situação  como  a  personalidade  social  do  próprio  interlocutor,  atitude 
que  penetrou  até  a  medula  de  Tchítchikov  e  que  é  necessária  a  todos 
seus empreendimentos? 

                                                            
9   Trata‐se aqui de personagens de Almas mortas, de Gógol. (Nota de Guillermo Blanck, 
organizador  da  edição  argentina).  Utilizei  a  grafia  dos  nomes  das  personagens  tal 
como aparece na edição brasileira de Almas Mortas (São Paulo: Abril Cultural, 1972). 

  169 
A  palavra  e  o  gesto  da  mão,  a  expressão  do  rosto  e  a  posição  do 
corpo  são  igualmente  dependentes,  são  igualmente  organizadas  pela 
orientação social. “Os maus modos” se devem ao fato de não levar em 
conta  o  próprio  interlocutor,  por  ignorar  o  vínculo  sócio‐hierárquico 
que  existe  entre  falante  e  ouvinte;  ao  hábito  –  frequentemente 
inconsciente  –  de  não  mudar  a  orientação  social  da  enunciação  –  pela 
palavra ou pelo gesto – quando muda o auditório. 
Por isso o escritor, ao dotar seu herói de “maus” ou “bons” modos, 
deve  ter  sempre  presente  que  esses  não  podem  ser  explicados  como 
resultado de supostas “peculiaridades inatas”, quaisquer que sejam, ou 
do “caráter” do herói. Poder‐se‐ia dizer que o herói recebeu seus modos 
sobretudo  pela  educação.  É  óbvio  que  isso  é  parcialmente  verdadeiro, 
mas  é  preciso  não  esquecer  que  a  educação  mesma  é  a  aspiração  de 
ensinar ao homem a ter constantemente em conta seu auditório – a que 
se  chama  “saber  comportar‐se  em  sociedade”  ‐,  de  ensinar  uma 
expressão  precisa  e  tática  –  a  “cortesia”  de  Tchítchikov!  –  por  meio  de 
gestos e de mímica, da orientação social das próprias enunciações. 
 
5. A parte  – subentendida – da enunciação 
 
Cada  enunciação,  além  dessa  orientação  social,  contém  um 
significado, um conteúdo. Privada desse conteúdo, a enunciação torna‐
se  um  encadeamento  de  sons  sem  sentido  e  perde  seu  caráter  de 
interação  verbal.  “O  outro”  –  o  ouvinte  –  nada  tem  a  fazer  com  tal 
enunciação. Ela torna‐se incompreensível e deixa de ser condição e meio 
de  comunicação  linguística.  A  essas  enunciações  privadas  de  sentido 
pertencem os “versos” de Kruchónij: “Go osnieg kaid Mr batulba [...]10. 
Essas enunciações podem ser interessantes por sua sonoridade, mas não 
têm  qualquer  relação  com  a  língua  no  sentido  próprio  do  termo,  e 
portanto não nos cabe seu exame. 

                                                            
10  Trata‐se do poeta cubo‐futurista russo Alexeí E. Kruchóni (1886‐1969?), cujas poesias 

consistiam em sequências de letras sem sentido. Em 1905, foi preso por sua militância 
bolchevique.  De  origem  camponesa,  uniu‐se,  depois  da  Revolução  de  Outubro,  ao 
grupo de esquerda em arte (o LEF), dirigido por Maiakovski. Kruchóni foi o teórico 
mais  produtivo  e  efetivo  da  “linguagem  transracional”  que  buscou  a  destruição  do 
significado na poesia. (Nota de Guillermo Blanck).  

170  
Assim,  cada  enunciação  efetiva,  real,  tem  um  significado 
determinado.  Entretanto,  se  tomarmos  uma  enunciação,  inclusive  a 
mais  comum  –  banal  –  nem  sempre  podemos  fixar‐lhe  imediatamente 
seu  significado.  Muitos  leitores,  provavelmente,  ouviram  ou 
pronunciaram as palavras “Ah, é assim!”. E a cada vez, por mais que se 
quebre a cabeça, não se compreenderá o significado dessa enunciação se 
não se conhecem todas as condições nas quais ela foi pronunciada. Em 
condições distintas, em situações distintas, essa enunciação terá também 
significados distintos. 
Propomos  a  nossos  leitores  encontrar  exemplos  nos  quais  a  mesma 
enunciação  verbal  “Ah,  é  assim!”  tenha  um  significado  completamente 
distinto:  será  um  signo  da  surpresa,  de  indignação,  de  alegria,  de 
tristeza;  em  outras  palavras,  será  nossa  resposta,  nossa  réplica,  a 
acontecimentos  e  circunstâncias  absolutamente  diversos  e 
dessemelhantes.  Quase  todas  as  palavras  de  nossa  língua  podem  ter 
significados distintos, segundo o sentido geral de toda enunciação. Esse 
sentido  geral  depende  tanto  da  situação  imediata  que  gerou 
diretamente  a  enunciação,  como  de  todas  as  causas  e  condições  gerais 
mais remotas daquele intercâmbio comunicativo verbal específico. 
Assim,  cada  enunciação  se  compõe,  em  certo  sentido,  de  duas 
partes: uma verbal e outra não verbal. 
Não esqueçamos que estamos examinando somente enunciações da 
vida  cotidiana,  que  já  se  tornaram  ou  que  estão  por  se  tornar  gêneros 
cotidianos. Somente essas simplíssimas enunciações nos dão a chave da 
compreensão da estrutura linguística da enunciação artística.  
Como podemos representar a parte não verbal da enunciação? 
Aclaremos isto, servindo‐nos do seguinte exemplo: 
Um homem de barba grisalha, sentado diante de uma mesa, depois 
de um minuto de silêncio, diz “já!”. Um jovem, que estava de pé diante 
dele, corou violentamente, deu a volta e se foi.  
Que  pode  significar  essa  breve,  mas  por  certo  extremamente 
expressiva  enunciação  “já!”?  Por  mais  que  se  estude  essa  enunciação 
sob todos os pontos de vista gramaticais, por mais que se recolham de 
todos os dicionários os significados possíveis dessa palavra, ainda assim 
não conseguiremos compreender essa “conversação”. 

  171 
Mas  essa  conversação  é  plena  de  significado,  sua  parte  verbal  tem 
um sentido preciso, e representa um diálogo completo, ainda que breve: 
a  primeira  intervenção  é  realizada  pelo  “já!”  verbal;  a  segunda 
intervenção se dá pela reação orgânica do interlocutor – ficar vermelho 
– e pelo seu gesto – seu afastamento silencioso. 
Por que não compreendemos nada? 
Justamente porque não conhecemos a segunda parte da enunciação, 
a  que  determina  o  significado  da  primeira  parte,  a  verbal.  Antes  de 
tudo,  não  sabemos  onde  nem  quando  ocorreu  essa  conversação;  em 
segundo  lugar,  desconhecemos  o  tema  da  conversação;  e,  finalmente, 
desconhecemos a relação que ambos interlocutores têm relativamente a 
esse tema, suas respectivas valorações. 
Suponhamos,  no  entanto,  que  esses  três  momentos  da  parte  da 
enunciação,  desconhecidos  por  nós,  se  tornem  conhecidos:  o 
acontecimento ocorre diante da mesa de um examinador; o examinado 
não respondeu a uma das perguntas mais simples que poderiam lhe ser 
propostas;  o  examinador  com  reprovação  e  com  um  pouco  de 
desagrado  diz  “já!”;  o  examinado  compreende  que  foi  reprovado, 
envergonha‐se e se afasta. 
Agora,  em  nosso  campo  visual,  em  nosso  horizonte,  entraram 
aqueles  aspectos  escondidos  da  enunciação,  que  estavam,  no  entanto, 
subentendidos  pelos  falantes.  A  pequena  palavra  “já!”,  que  à  primeira 
vista  era  vazia  e  insignificante,  se  adensa  de  significado,  adquire  um 
sentido  completamente  definido  e,  se  assim  se  quer,  pode  ser 
descodificada  como  uma  frase  extensa,  clara  e  completa,  por  exemplo, 
do  tipo:  “Mal!  Mal,  companheiro.  Por  mais  que  me  desagrade,  devo 
atribuir‐lhe  uma  nota  insuficiente”.  É  deste  modo  que  o  examinado 
compreende essa enunciação e concorda plenamente com ela. 
Chamemos  de  situação,  um  termo  que  já  conhecemos,  aos  três 
aspectos  subentendidos  da  parte  não  verbal:  o  espaço  e  o  tempo  em  que 
ocorre a enunciação – o “onde” e o “quando”; o objeto ou tema de que 
trata a enunciação – “aquilo de que” se fala; e a atitude dos falantes face 
ao que ocorre – “a valoração”. 
Agora se torna claro que é precisamente a diferença das situações que 
determina  a  diferença  dos  sentidos  de  uma  mesma  expressão  verbal. 
Portanto,  a  expressão  verbal,  a  enunciação,  não  reflete  passivamente  a 

172  
situação. Ela representa sua solução, torna‐se sua conclusão valorativa e, ao 
mesmo tempo, é condição necessária para seu posterior desenvolvimento 
ideológico. 
Propusemos aos leitores que fizessem uma experiência verificando a 
mudança  de  significado  das  palavras  “Ah,  é  assim!”,  quer  dizer, 
propomos encontrar situações nas quais esta expressão assume, a cada 
vez, um significado distinto. 
Para  aclarar,  mostraremos  uma  mudança  de  significado  da 
exclamação “já!”. 
Antes  de  tudo,  mudemos  a  situação.  Em  lugar  de  uma  banca  de 
exame, o portão de uma casa. O caseiro exibe um maço de bilhetes de 
loteria e diz com uma voz quase imperceptível “já!”. 
Nessa  situação,  o  sentido  geral  da  enunciação  não  corresponde  a 
uma  reprovação,  mas  sobretudo  a  uma  admiração  um  tanto  invejosa: 
“Que sorte teve esse”, “Ganhar um poço de dinheiro!”. 
Tudo  nos  mostra  de  maneira  bastante  convincente  o  papel 
importante que tem a situação na criação da enunciação. Se os falantes 
não  estivessem  unidos  por  essa  situação,  se  não  tivessem  uma 
compreensão comum do que está ocorrendo e uma clara atitude a esse 
respeito,  suas  palavras  seriam  incompreensíveis,  insensatas  e  inúteis. 
Graças  ao  fato  de  que  para  eles  existe  algo  “subentendido”,  pode 
realizar‐se sua comunicação verbal, sua interação verbal. 
Sobre  a  função  que  tem  o  subentendido  na  enunciação  artística, 
falaremos  a  seguir.  Notemos,  desde  já,  que  nenhuma  enunciação  – 
científica,  filosófica,  literária  –  pode  efetuar‐se  sem  algo  que  seja 
subentendido. 
 
6.  A  situação  e  a  forma  da  enunciação;  a  entonação,  a  seleção  e  a 
disposição das palavras.  
 
Uma vez estabelecido que o significado de qualquer enunciação da 
vida  cotidiana  depende  da  situação  e  da  orientação  social  face  ao 
ouvinte‐participante  de  tal  situação,  devemos  agora  examinar  a  forma 
da enunciação. De fato, o conteúdo e o significado de uma enunciação 
necessitam de uma forma que os realize, que os efetue, pois fora de tal 
forma eles sequer existiriam. Ainda que a enunciação esteja privada de 

  173 
palavras, bastará o som da voz – a entonação – ou somente um gesto. Fora 
de  uma  expressão  material,  não  existe  enunciação,  assim  como  também  não 
existe a sensação. 
Já  que  estamos  tratando  de  enunciações  verbais,  nossa  tarefa 
imediata consiste em esclarecer o vínculo existente entre a forma verbal 
da  enunciação,  sua  situação  e  seu  auditório.  Obviamente,  aqui  não 
trataremos do problema da forma artística. 
Consideraremos  como  elementos  fundamentais,  constitutivos  da 
forma da enunciação, sobretudo o som expressivo da palavra, quer dizer, 
a entonação, e também a seleção das palavras e finalmente sua disposição 
no interior da enunciação. 
Esses  três  elementos,  por  meio  dos  quais  se  constrói  qualquer 
enunciação  significativa,  que  tenha,  portanto,  um  conteúdo  e  uma 
orientação  social,  serão  examinados  brevemente  e  de  modo 
introdutório,  já  que  na  continuação,  quando  fizermos  a  análise  da 
construção da enunciação artística, serão os objetos principais de nossa 
investigação. 
 O  vínculo  entre  a  enunciação,  sua  situação  e  o  seu  auditório  se 
estabelece,  sobretudo,  pela  entonação.  Já  tocamos  parcialmente  no 
problema  da  entonação  no  artigo  precedente11.  Agora  sublinhemos  o 
fato  de  que  a  entonação  tem  um  papel  essencial  na  construção  da 
enunciação  tanto  da  vida  cotidiana  quanto  da  artística.  Existe  um 
provérbio  bastante  difundido:  “o  tom  faz  a  música”.  Precisamente  esse 
“tom”  (a  entonação)  faz  a  “música”  (o  sentido,  o  significado  geral)  de 
qualquer  enunciação.  Uma  mesma  palavra,  uma  mesma  expressão, 
pronunciadas  com  uma  entonação  diferente,  toma  um  significado 
diferente.  Uma  expressão  depreciativa  pode  tornar‐se  carinhosa;  uma 
expressão  carinhosa  pode  tornar‐se  depreciativa.  Uma  palavra 
afirmativa pode ser uma pergunta – “Sim!” e “Sim?” – uma fórmula de 
pedido  de  desculpas  pode  se  tornar  uma  demanda:  “Desculpe‐me, 
peguei seu abrigo” e “Desculpe‐me, este é meu abrigo”. 
A situação e o auditório correspondentes determinam precisamente 
a  entonação  e,  através  dela,  realizam  a  seleção  das  palavras  e  sua 
disposição,  dando  um  sentido  à  enunciação  toda.  A  entonação  é  o 

                                                            
11  [N.T.] Refere‐se ao artigo “Que é a linguagem”, presente neste volume.  

174  
condutor mais dúctil, mais sensível, das relações sociais existentes entre 
os  falantes de  uma  dada  situação.  Quando  dissemos  que  a  enunciação 
representa  a  solução  da  situação,  tínhamos  em  mente  sobretudo  a 
entonação  da  enunciação.  Sem  aprofundar  mais  nosso  pensamento, 
diremos  que  a  entonação  é  a  expressão  sonora  da  valoração  social. 
Convencer‐nos‐emos  em  seguida  da  excepcional  importância  dessa 
conclusão. Consideremos só um exemplo que ilustra brilhantemente os 
pensamentos que acabamos de expor12: 
 
É  preciso  dizer  que  aqui  na  Rússia,  se  ainda  não  alcançamos  os 
estrangeiros  em  alguma  coisa,  pelo  menos  no  saber  tratar  já  os 
ultrapassamos  de  muito.  Não  é  possível  enumerar  todos  os  matizes  e 
sutilezas  do  nosso  tratamento.  Um  francês  ou  um  alemão  jamais 
conseguirá  distinguir  ou  compreender  todas  as  suas  peculiaridades  e 
diferenças;  ele  falará  quase  no  mesmo  tom  tanto  com  um  milionário 
como  com  um  vendedor  de  tabaco,  embora,  no  seu  íntimo,  curve‐se 
bem  baixo  diante  do  primeiro.  Entre  nós  já  não  é  assim:  nós  temos 
sabichões  consumados,  que  conversam  com  um  proprietário  rural 
dono de duzentas almas de um modo totalmente diverso daquele com 
que  falam  com  um  possuidor  de  trezentas,  e  com  aquele  que  tem 
trezentas,  falarão  diferentemente  de  como  falam  com  aquele  que  tem 
quinhentas,  e,  por  sua  vez,  sua  fala  com  o  dono  de  quinhentas  almas 
não  será  igual  àquela  que  usarão  com  o  proprietário  de  oitocentas  – 
numa  palavra,  encontrarão  matizes  diferentes  mesmo  que  cheguemos 
a  um  milhão  de  almas.  Suponhamos,  por  exemplo,  que  exista  uma 
repartição,  não  aqui,  mas  nos  confins  do  mundo;  e  nesta  repartição, 
suponhamos,  existe  o  chefe  da  repartição.  Peço  que  reparem  nele, 
quando  está  sentado  entre  os  seus  subordinados  –  o  temor  não  os 
deixará articular uma palavra! Orgulho e nobreza, e sei lá o que mais, 
estão  expressos  no  seu  semblante.  É  só  lançar  mão  de  um  pincel  e 
pintá‐lo:  é  um  Prometeu,  nada  menos  que  um  Prometeu!  Olhar  de 
águia,  andar  sereno,  solene.  Mas  essa  mesma  águia,  assim  que  sai  da 
sua  sala  e  se  aproxima  do  escritório  de  seu  superior,  corre  apressada, 
com  passinhos  de  perdiz,  com  os  papéis  debaixo  do  sovaco,  tão 
prestimosa  que  chega  até  a  perder  o  fôlego.  Em  sociedade  e  nas 
                                                            
12  [N.T.] O  trecho  citado,  de  Almas  Mortas,  de  Nicolai  Vassílievtch  Gógol,  foi  aqui 
transcrito  diretamente  de  edição  brasileira  do  romance,  na  tradução  de  Tatiana 
Belinky (São Paulo: Abril, 1972). 

  175 
recepções,  onde  nem  todos  ocupam  cargos  muito  altos,  o  Prometeu 
permanece  o  mesmo  Prometeu,  mas,  assim  que  aparece  alguém  mais 
graduado  do  que  ele,  o  Prometeu  sofre  uma  transformação  tamanha, 
que nem o próprio Ovídio seria capaz de inventar: vira mosca, menos 
do que mosca, encolher até ficar do tamanho dum grão de areia! “Mas 
este não é o Ivan Petróvitch”, dirão, ao vê‐lo. “O Ivan Petróvitch é mais 
alto de porte, este aqui é baixote e magricela; aquele tem a fala sonora e 
a voz de baixo e nunca ri, mas este aqui é uma coisa incrível, fala em 
trinados  como  um  pássaro  e  não  para  de  rir”.  Mas,  chegando  mais 
perto, constatarão: é de fato Ivan Petróvitch! “Sim senhor, que coisa!” 
pensarão consigo... (Gógol. Almas Mortas, p. 58‐60) 
 
Neste  fragmento  extraído  de  Almas  Mortas,  Gógol  pintou  com 
enorme  agudeza  a  mudança  brusca  de  entonação  correspondente  à 
mudança de situação e de auditório da enunciação. Numa Rússia que se 
regia  pela  servidão  da  gleba,  com  a  burocracia  oficialesca  e  com  o 
sufocamento  policial  de  tudo  o  que  existia  de  honesto,  reto, 
independente,  aparecia  claríssima  a  desigualdade  social  entre  os 
homens.  Essa  desigualdade  social  encontrava  sua  expressão  nos 
diversos matizes de entonação, desde aquele rudemente arrogante, até 
o vilmente humilde. Esta entonação se expressava não só pela voz, mas 
pelo corpo inteiro da pessoa: por seus gestos, por seus movimentos, por 
sua  mímica.  É  uma  verdade  exata  que  a  águia  se  transforma  numa 
perdiz. 
A  mudança  de  auditório  –  uma  troca  de  frases  por  razões  de 
negócios ou de simples vida cotidiana, não com um subordinado, mas 
com  um  chefe  –  provocava  obviamente  uma  distinta  orientação  social 
da enunciação. Isso se refletia de imediato, como veremos, na entonação 
–  maneira  de  falar  –  e  na  gesticulação  –  maneira  de  comportar‐se13.  Se 
Gógol  tivesse  relatado,  no  fragmento,  também  o  conteúdo  verbal  das 
enunciações  de  Ivan  Petróvitch,  teríamos  percebido  de  imediato  que  a 
mudança da orientação social – consequência da mudança da situação e 
auditório – se manifestaria não só na entonação, mas também na seleção 
e na disposição das palavras na frase. Não esqueçamos que a entonação 
                                                            
13  Recordemos nossa  indicação:  os  “modos  de  comportar‐se”  de  uma  pessoa  são  a 
expressão gestual da orientação social da enunciação. No exemplo dado observamos 
precisamente isso. 

176  
é,  sobretudo,  a  expressão  da  valoração  da  situação  e  do  auditório.  Por 
este  motivo,  cada  entonação  necessita  de  palavras  que  lhe  sejam 
correspondentes – que se adaptem – e indica, assinala, a cada palavra, o 
posto  que  deve  ocupar  na  proposição,    proposição  na  frase,  a  frase  na 
enunciação completa. 
Em  outra  trama  de  Almas  Mortas,  na  cena  do  primeiro  encontro 
entre  Tchítchicov  e  Pliúchkin,  temos  uma  representação  precisa  do 
processo  de  seleção  da  palavra  mais  adequada  à  correlação  social 
existente  entre  o  falante  e  o  ouvinte,  palavra  que  leva  em  conta 
minuciosa  e  precisamente  todos  os  detalhes  da  pessoa  social  do 
interlocutor, sua posição econômica, sua classe, sua posição social etc.:  
 
Pliúchkin  já  estava  lá  parado  havia  vários  minutos  sem  pronunciar 
uma palavra, mas Tchítchicov ainda não conseguira iniciar a conversa, 
desconcertado tanto pelo aspecto do próprio dono como de tudo aquilo 
que  havia  no  seu  aposento.  Durante  muito  tempo,  não  conseguiu 
encontrar uma maneira de abordar o assunto que motivara a sua visita, 
e já ia enveredando pela explicação de que, impressionado com a fama 
das  raras  virtudes  e  qualidades  de  caráter  do  anfitrião,  sentira‐se  no 
dever de trazer‐lhe pessoalmente os protestos do seu respeito, mas caiu 
em si, sentindo que assim já era demais. Relanceando mais um olhar de 
soslaio  sobre  tudo  o  que  enchia  o  quarto,  Tchítchicov  sentiu  que  as 
palavras  “virtudes”  e  “raras  qualidades  de  caráter”  podiam  ser 
vantajosamente  substituídas  pelas  palavras  “economia”  e  “ordem”;  e 
por  isso,  modificando  neste  sentido  o  seu  discurso,  acabou  dizendo 
que,  impressionado  pela  sua  fama  de  homem  econômico  e 
extraordinário  administrador  de  suas  propriedades,  considerou  seu 
dever  fazer‐lhe  essa  visita,  para  conhecê‐lo  e  trazer‐lhe  pessoalmente 
os protestos do seu respeito. (Gógol, Almas Mortas, p. 143‐144)14  
 
Aqui, na consciência de Tchítchicov trava‐se uma luta entre algumas 
palavras,  aquelas  consideradas  mais  adequadas.  Ele  deve  sopesar  a 
relação existente entre a desordem selvagem e a impressionante sujeira 
da habitação de Pliúchkin, sua roupa incrivelmente ensebada, desfeita e 
miserável, e o fato de que Pliúchkin é um proprietário riquíssimo, que 
possui mais de mil servos de gleba. 
                                                            
14  [N.T.] Ver nota 12.  

  177 
Por fim, depois de haver‐se orientado perfeitamente nesta situação, 
de  havê‐la  compreendido  e  avaliado  corretamente,  Tchítchicov 
encontrou  também  a  entonação  adequada  e  as  palavras 
correspondentes a ela. Coordenar essas palavras numa frase completa já 
não  representa  mais  dificuldade.  A  situação  dada  e  o  ouvinte  dado  – 
situação  e  auditório  –  não  requeriam  nenhuma  elaboração  estilística 
particular  da  frase.  Podia  contentar‐se  com  uma  frase  feita  e  de  uso 
comum,  um  “estereótipo”:  “tinha  ouvido  falar  de  sua  economia,  [...] 
considerou seu dever fazer‐lhe esta visita para conhecê‐lo [...]” etc. 
 
7. Estilística da enunciação da vida cotidiana 
 
Contudo,  em  outra  situação,  Tchítchicov  não  se  encontra  somente 
diante do problema da seleção das palavras, mas principalmente diante 
do problema da disposição das palavras, ou seja, de toda a construção 
estilística  de  sua  enunciação.  O  interlocutor  já  não  é  Pliúchkin,  mas  o 
general Betríchtchev. E aqui o esmagador peso social, o grau de general 
e  mesmo  o  aspecto  físico  de  Betríchtchev,  obrigam  Tchítchicov  a 
construir  enunciações  com  afetação  excepcional.  Com  a  entonação 
particularmente  deferente  e  um  pouco  solene,  a  própria  composição 
verbal  do  discurso  de  Tchítchicov  não  se  serve  de  palavras  habituais, 
cotidianas,  mas  vem  carregada  de  palavras  arcaicas,  tomadas  da 
linguagem eclesiástica e livresca. 
O  princípio  que  guiou  a  seleção  das  palavras  de  Tchítchicov  nesta 
situação  é  muito  simples:  a  alta  posição  social  do  ouvinte  requeria 
palavras  “altas”,  não  uma  linguagem  cotidiana,  e  um  estilo  “alto”, 
elevado.  As  palavras  que  usava  habitualmente  para  conversar  com 
proprietários de linhagem média ou com funcionários de baixo escalão 
eram, neste caso, inadequadas. Não só as palavras. A própria disposição 
deveria  ser  particular,  de  modo  tal  que  desse  ao  discurso  um  fluxo 
regular,  rítmico,  uma  certa  musicalidade  e  poesia.  Não  era  suficiente 
expor  com  clareza  e  singeleza  o  próprio  pensamento:  era  necessário 
embelezá‐lo  com  comparações,  reavivá‐lo  com  torneios  de  palavras 
especiais, torná‐lo quase uma obra artística, fazê‐lo quase em verso. 
 

178  
Inclinando respeitosamente a cabeça para um lado e abrindo os braços 
e as mãos, como se fosse apresentar uma bandeja cheia de xícaras, ele 
fez  uma  reverência  de  corpo  inteiro  com  extraordinária  agilidade  e 
disse: 
‐ Considerei meu dever apresentar meus respeitos a Vossa Excelência. 
Nutrindo  respeito  para  com  as  virtudes  dos  varões  que  salvaram  a 
pátria  no  campo  de  batalha,  considerei  meu  dever  apresentar‐me 
pessoalmente a Vossa Excelência. 
Obviamente,  aquele  preâmbulo  não  desagradou  ao  general.  Com  um 
movimento de cabeça assaz benevolente, ele falou: 
‐ Muito prazer em conhecê‐lo. Queira sentar‐se. Onde foi que o senhor 
serviu? 
‐ A minha carreira no serviço público – disse Tchítchicov, sentando‐se 
não  no  meio  da  poltrona,  mas  de  viés,  e  agarrando‐se  com  a  mão  ao 
braço  da  poltrona  –  começou  num  departamento  do  Tesouro, 
Excelência.  Seu  transcurso  subsequente,  porém,  deu‐se  em  diversos 
postos: trabalhei no Tribunal de Justiça, numa comissão de construções 
e na Alfândega. Minha vida pode ser comparada a uma embarcação ao 
sabor  das  ondas,  Excelência.  A  paciência  tem  sido,  por  assim  dizer, 
minha eterna companheira, e eu mesmo sou, por assim dizer, a própria 
encarnação  da  paciência...  E  o  que  sofri  às  mãos  de  inimigos,  que 
chegaram a atentar contra a minha própria vida, não existem palavras, 
nem  tintas,  nem,  por  assim  dizer,  pincéis  de  artistas  que  possam 
descrevê‐lo, de maneira que agora, no declínio da vida, procuro apenas 
um  recanto  onde  possa  passar  meus  derradeiros  dias.15  (Gógol,  Almas 
Mortas, p. 341‐342) 
 
Qual  é  a  característica  mais  importante  da  construção  desta 
enunciação?  Deixemos  de  lado  o  conteúdo  do  discurso  de  Tchítchicov 
que  está,  obviamente,  ligado  ao  conteúdo  da  obra  toda,  e  dediquemo‐
nos  a  examinar  somente  sua  forma.  Ao  fazê‐lo,  devemos  esquecer 
convencionalmente que estamos diante de uma obra literária – já que não 
chegou  ainda  o  momento  de  examinarmos  sua  estilística  –  mas  diante 
de  um  documento  de  enunciação  real,  pronunciada  num  tempo  real  e 
numa situação real, por uma pessoa real. 
Esse  procedimento  de  interpretação  convencional  de  uma 
enunciação  artística  como  enunciação  da  vida  cotidiana  é 
                                                            
15  [N.T.] Ver nota 12.  

  179 
cientificamente  perigoso,  e  admissível  só  em  casos  excepcionais.  No 
entanto,  por  não  dispormos  de  uma  fita  magnética  gravada  que  possa 
transmitir‐nos  a  efetiva  transcrição  de  uma  conversação  entre  pessoas 
reais,  devemos  utilizar  o  material  literário  tendo  sempre  presente  sua 
particular natureza artística. 
Portanto,  consideremos  por  um  momento  como  se  fosse  da  vida 
mesmo  essa  invenção  que  reflete  a  realidade,  sem  nos  colocarmos  o 
problema do grau de semelhança existente entre a realidade artística de 
Almas  Mortas  e  a  realidade  histórica  da  visa  russa  nos  anos  20  e  30  do 
século  XIX.  Suponhamos  que  diante  de  nós  se  desenvolve  a 
conversação,  ocorrida  há  um  século,  entre  estas  duas  pessoas:  uma 
excepcionalmente  respeitável,  poderosa  e  de  aspecto  majestoso  –  o 
general  Betríchtchev  –  e  a  outra,  menos  poderosa  e  menos 
representativa,  mas  ainda  de  aspecto  decididamente  “respeitável”  –  o 
conselheiro Tchítchicov. 
Seguindo  nosso  esquema,  deveremos  antes  de  tudo  fixar  a  relação 
de dependência existente entre a vida econômica e política em geral da 
Rússia  daquele  período,  e  o  tipo  de  intercâmbio  comunicativo  social  – 
cotidiano – que estamos examinando. Obviamente, não temos o direito 
de  fazê‐lo.  Não  é  possível  passar  diretamente  da  economia  ou  da 
política  reais  ao  tipo  de  intercâmbio  comunicativo  social  representado 
em uma obra literária. Mas podemos supor, sem temor de equívoco, que 
a  relação  de  dependência  existente  entre  a  “base”  econômica  –  o 
“fundamento”  econômico  da  sociedade  –  e  o  tipo  de  intercâmbio 
comunicativo  cotidiano  tenha‐se  realizado  no  “poema”  de  Gógol  do 
mesmo modo que na vida real. Suponhamos que o mesmo ocorra também 
para  aquilo  que  concerne  à  relação  de  dependência  existente  entre  o 
tipo de intercâmbio comunicativo cotidiano e o tipo de interação verbal 
que nele acontece.  
Resta‐nos,  portanto,  mostrar  como  aquela  situação  dada  e  aquele 
auditório dado encontraram sua expressão nos âmbitos de um gênero da 
vida  cotidiana  já  definido  e  completo,  quer  dizer,  no  diálogo  entre  as 
pessoas  que  iniciam  seu  conhecimento  mútuo  e  cuja  posição  na  escala 
social e hierárquica é distinta. 
A situação e o auditório, como já dissemos, determinam sobretudo a 
orientação  social  da  enunciação  e,  finalmente,  o  próprio  tema  da 

180  
conversação. A orientação social, por sua vez, determina a entonação da 
voz  e  a  gesticulação  –  que  dependem  parcialmente  do  tema  da 
conversação  –  nas  quais  encontra  sua  expressão  exterior    a  relação 
dessemelhante do falante e do ouvinte naquela situação e sua diferente 
valoração. 
De  que  se  constitui  o  conteúdo,  a  composição  temática  das 
enunciações  de  Tchítchicov?  Este  fragmento  contém  dois  temas:  (1)  o 
tema  da  motivação  do  conhecimento  e  (2)  o  tema  da  narração  da 
própria vida. 
Esses  dois  temas  são  expressos  com  excepcional  obsequiosidade  e 
submissão.  Para  dizer  a  verdade,  só  podemos  tratar  de adivinhar  qual 
era  a  entonação  de  Tchítchicov.  Ela  não  nos  foi  dada  pelo  chamado 
“relato  do  narrador”  que  enquadra  o  discurso  das  personagens.  Se 
focalizarmos  nossa  atenção  na  expressão  gestual  da  orientação  social 
das  enunciações  de  Tchítchicov,  indicada  pelo  “relato  do  narrador” 
(Inclinando  respeitosamente  a  cabeça...  e    sentando‐se  não  no  meio  da 
poltrona,  mas  de  viés,  e  agarrando‐se  com  a  mão  ao  braço  da 
poltrona...)  não  podemos  duvidar  do  fato  de  que  também  a  entonação 
de  Tchítchicov  harmonizava‐se  com  a  transformação  da  “águia”  em 
“perdiz”. 
Com esta entonação se harmonizava também a seleção das palavras. 
Já  notamos  uma  característica:  o  predomínio  de  palavras  e  expressões 
emprestadas da linguagem livresca eclesiástica. 
Uma  segunda  característica:  a  grande  quantidade  de  palavras  e  de 
expressões “descritivas” que substituem as denominações habituais de 
alguns objetos. 
Finalmente,  a  terceira  característica:  a  completa  ausência  do 
pronome pessoal “eu” – tanto no caso reto como em outros casos16. 
O primeiro encontro entre Tchítchicov e o general Betríchtchev põe 
a  descoberto  a  efetiva  correlação  social  existente  entre  ambos  os 
falantes,  relação  que  determina  todo  o  estilo  de  seus  discursos.  Para 
dizer  a  verdade,  a  seleção  das  palavras  que  Tchítchicov  tem  a  sua 
disposição  para  suas  intervenções  é  muito  limitada  e  muito  pouco 

                                                            
16  [N.T.]  A  tradução  para  o  português  não  manteve  essa  característica  da  ausência  do 

pronome pessoal de primeira pessoa. 

  181 
original.  O  gênero  usado  neste  tipo  de  intercâmbio  comunicativo 
cotidiano,  que  já  estava  historicamente  formado  e  havia alcançado  sua 
perfeição,  não  permitia  variações  muito  livres  nem  diversas.  Não 
obstante,  inclusive  essas  fórmulas  tradicionais  de  apresentação  de  si 
mesmo  a  uma  pessoa  hierarquicamente  superior,  convertidas  em 
estereótipos linguísticos, Tchítchicov conseguiu modificar de um modo 
absolutamente  imperceptível,  não  só  na  construção  semântica,  mas 
também  parcialmente  na  construção  gramatical  da  frase:  conseguiu 
acrescentar gradações – “matizes” – tais que a distância social entre os 
interlocutores expressa verbalmente ficasse um pouco mais assinalada.  
A  principal  aspiração  estilística  de  Tchítchicov  é  construir  as 
próprias  enunciações  de  modo  que  sua  pessoa  fique  o  mais  possível 
descolorida e insignificante. O sentido direto de sua primeira frase é o 
seguinte: “Vossa Excelência! Eu considero meu  dever apresentar‐me já 
que tenho por Vossa Excelência deferência... etc”. 
Que faz Tchítchicov com esta frase? Omite o pronome pessoal [caso 
reto], passa o verbo para o passado, abrevia a frase e, para dirigir‐se ao 
general,  substitui  o  vocativo  com  um  dativo:  “considerei  meu  dever 
apresentar‐me pessoalmente a Vossa Excelência”17. 
Obtém‐se um curioso espaço semântico que sublinha a nulidade de 
Tchítchicov e a grande importância de seu interlocutor. A frase começa 
a  assumir  um  significado  ligeiramente  distinto,  que  pode  ser 
interpretado  aproximadamente  assim:  alguém  considerou  seu  dever 
apresentar‐se... etc. 
Por  que  alguém?  Porque  Tchítchicov,  enquanto  tal,  era  um 
desconhecido  para  o  general,  e  nesta  circunstância  o  fato  de  que  seja 
conhecido é inútil: “Valerá a pena conhecer o nome e sobrenome de um 

                                                            
17  [N.T.]  Mais  uma  vez  há  aqui  distinção  entre  a  tradução  brasileira  do  romance  e  o 

original em russo. Em português, “considerei meu dever apresentar‐me pessoalmente 
a  Vossa  Excelência”,  contém  várias  marcas  da  primeira  pessoa.  Tanto  em  espanhol 
quanto  em  italiano  as  traduções  utilizam  a  perífrase  verbal  “he  considerado”  e  “ho 
ritenuto” em que a marca de pessoa aparece no verbo auxiliar. No russo, pela análise 
apresentada, não há esta marca e a sequência da argumentação se seguirá com base 
no que em espanhol se diria “ha considerado”, isto é, o emprego da terceira pessoa.  

182  
homem  que  não  se  distinguiu  por  suas  virtudes?”  –  disse  noutro 
momento Tchítchicov.18 
Mas  por  que  motivo  o  emprego  de  “considerei”  [passado]  e  não 
“considero”  [presente]?    Novamente,  porque  num  primeiro  vislumbre 
de  consciência  desse  dever  exige  que  se  o  pense,  que  se  o  represente 
como  já  cumprido.  Mas  há  aqui  o  feliz  e  alegre  acontecimento  que  se 
verifica não mais no pensamento, mas na realidade: ele – um qualquer, 
um desconhecido para o general – está frente à pessoa física da elevada 
personalidade,  esperando  obsequiosamente  os  resultados  de  seu 
atrevido empreendimento. 
Assim, a fórmula linguística estereotipada com que se apresenta ao 
general  começa  a  brilhar  com  um  novo  significado,  envolve‐se  com 
novos tons estilísticos e reflete como num espelho a verdadeira relação 
sócio‐hierárquica  dos  interlocutores.  No  entanto,  pudemos  fixar, 
compreender  e  sublinhar  com  clareza  todas  essas  novas  gradações  – 
matizes  –  do  pensamento  graças  ao  conhecimento  da  parte    da 
enunciação. 
Vamos além. O fato de que Tchítchicov tenha cumprido o primeiro 
passo,  apresentando‐se,  poderia  de  qualquer  maneira  parecer  um 
atrevimento.  É  necessário  argumentar,  justificar  imediatamente  o 
próprio  atrevimento.  Esse  é  o  objetivo  da  frase  seguinte.  Nela  falta 
também um acento gramatical na primeira pessoa. Estaria fora de lugar 
sublinhar  a  própria  existência  usando  um  pronome  pessoal  e,  além 
disso,  numa  frase  grandiloquente  do  tipo:  “Eu  respeito  a  coragem  dos 
generais que defenderam a Rússia... e por isso considero meu dever ...” 
etc. De fato, por causa da posição social de Tchítchicov relativamente a 
seu interlocutor, suas enunciações também devem ser modestas, breves 
e terem um estilo elevado, que nasce inevitavelmente da consciência da 
solenidade  que  é  como  ele  estar  frente  a  frente  com  o  general 

                                                            
18  [N.T.] O autor está se referindo à cena em que o general apresenta a Tchítchicov sua 

filha: 
  ‐  Apresento‐lhe  a  minha  menina  travessa!  ‐  disse  o  general  a  Tchítchicov.  –  Mas  eu 
ainda não sei o seu nome, patronímico e sobrenome... 
  ‐ Valerá a pena conhecer o nome e sobrenome de um homem que não se distinguiu 
por  suas  virtudes?  –  disse  Tchítchicov  modestamente,  inclinando  a  cabeça  para  um 
lado. (Almas Mortas, p. 344) 

  183 
Betríchtchev  em  pessoa.  Tchítchicov,  vigarista  hábil  e  aventureiro 
inteligente  que  é,  sabe  muito  bem  os  pontos  frágeis  de  seus 
interlocutores.  A  frase,  ampla  e  desenvolvida,  se  abrevia  de  imediato, 
desaparecem  os  pronomes  pessoais,  as  denominações  precisas  dos 
objetos  são  substituídas  por  expressões  descritivas:  “Sinto  uma  grande 
estima”.  Tinha  o  quê?  Certamente  não  tinha  a  coragem,  mas  “tinha  a 
admiração”.  Por  quem?  Não  pelos  generais,  mas  pelos  homens  [virtudes 
dos  varões].  Quais?  Não  daqueles  que  defenderam  a  Rússia,  mas  “que 
salvaram  a  nossa  pátria”.  Onde?  Não  nos  combates,  mas  “no  campo  de 
batalha”.  
Há  motivos  suficientes,  além  de  que  expostos  convincente  e 
artisticamente  –  é  óbvio,  do  ponto  de  vista  só  de  Tchítchicov  e  do 
general  Betríchtchev  –  para  legitimar  o  atrevido  passo  de  Tchítchicov. 
Por isso a proposição principal, a que conclui toda a frase e que desenha 
uma  nova  luz  semântica,  graças  à  repetição,  a  primeira  frase  de 
Tchítchicov  (“considerei  meu  dever...”)  se  torna  mais  complexa  com  a 
inserção  da  palavra  “pessoalmente”.  Esta  palavra,  cuja  aparição  foi 
solidamente preparada pela exposição da soma de motivos que levaram 
a esta apresentação, anuncia a possibilidade de uma passagem, de uma 
transformação de toda a enunciação a um plano de relações distintas, de 
um  caráter  mais  pessoal,  mais  direto.  E,  com  efeito,  a  resposta  do 
general,  embora  lacônica,  fragmentária  e  estereotipada  –  resultado  da 
orientação  social  para  uma  pessoa  de  grau  inferior  –  mostra,  com  sua 
entonação afável, que a manobra verbal de Tchítchicov teve êxito. O tema 
da  “justificação  da  auto‐apresentação”  pode  transformar‐se  agora  no 
tema  “narração  da  própria  vida”,  e  isto  permite  a  Tchítchicov,  na 
enunciação seguinte, dirigir‐se ao general pondo seu título honorífico no 
vocativo, além de lhe permitir inserir no discurso uma certa quantidade 
de adjetivos possessivos – “minha carreira”, “minha vida” etc. 
Também  esse  tema  é  desenvolvido  usando  termos  eclesiásticos 
livrescos  –  a  suya  carreira  (onoi)  –  e  expressões  descritivas  a  que  se 
agregam também comparações – a vida, “uma embarcação ao sabor das 
ondas”  ou  metáforas  –  “meus  derradeiros  dias”  em  lugar  de  “minha 
velhice”.  Comparações  e  metáforas  demasiadamente  vivas  poderiam 
sublinhar  exageradamente  a  individualidade  do  estilo  discursivo  de 
Tchítchicov,  poderiam  parecer  muito  rebuscadas  e  por  isso  atrair 

184  
inoportunamente a atenção sobre a pessoa do falante. Por este motivo, 
Tchítchicov  as  acompanha  de  reservas,  quase  se  desculpando,  quase 
olhando a seu interlocutor com ar de culpa: “A paciência tem sido, por 
assim dizer, minha eterna companheira, e eu mesmo sou, por assim dizer, 
a própria encarnação da paciência...”. 
Todos os procedimentos indicados não são, obviamente, suficientes 
para construir uma frase. A entonação, que expressa a orientação social, 
não só exige palavras ou expressões de um estilo particular, não só lhes 
dá  um  significado  particular,  mas  também  indica  que  lugar  devem 
ocupar e as distribui na enunciação. 
Neste  sentido,  tem  um  papel  de  interesse  particular  o  título 
honorífico  do  general,  a  expressão  “Vossa  Excelência”.  No  uso 
semântico  direto,  representa  a  fórmula  com  a  qual  se  deve  dirigir‐se  a 
uma pessoa com o grau de general e enquanto tal deveria encontrar‐se 
no começo da frase. Ao mesmo tempo, nos gêneros de conversação da 
vida cotidiana tem‐se a tendência de colocar essas palavras no final ou 
no  meio  da  frase  –  a  maior  parte  das  vezes  depois  da  primeira 
proposição.  Tchítchicov  lhes  assinala  um  lugar  ao  final  da  frase,  razão 
por  que  elas,  dividindo  toda  a  massa  verbal  em  cada  fragmento 
semântico,  assumem  claramente  um  significado  compositivo.  Essas 
palavras  representam  ao  mesmo  tempo  um  acorde  musical  da 
entonação  que  conclui  essas  diferentes  partes  da  enunciação. 
Inicialmente  elas  concluem  uma  frase  breve  (Considerei  meu  dever 
apresentar  meus  respeitos  a  Vossa  Excelência),  depois  uma  frase  mais 
longa (Nutrindo respeito para com as virtudes dos varões que salvaram 
a  pátria...)  e  finalmente,  na  segunda  intervenção,  na  narrativa,  a 
distância entre elas vai aumentando passo a passo. 
Esse  procedimento  de  Tchítchicov  é  compreensível.  As  palavras 
“Vossa Excelência”, pelo lugar compositivo que ocupam, necessitam de 
uma interrupção no movimento do discurso, isto é, de uma pausa. 
Não  temos,  entretanto,  o  direito  de  nos  determos  nos  problemas 
vinculados à rítmica do discurso em prosa, embora possamos indicar essa 
característica  estilística  da  distribuição  das  palavras  no  discurso  de 
Tchítchicov. 
O  movimento  rítmico  crescente  de  cada  uma  das  frases  –  no  tema  da 
“justificação  da  auto‐apresentação”  –  ou  do  grupo  de  frases  ligadas  a 

  185 
um único desenvolvimento semântico – no tema do “relato da própria 
vida”  –  em  certo  sentido  se  resolve  e  se  aquieta  nas  palavras  “Vossa 
Excelência”. Essas palavras constituem o que chamaremos de repetição 
ou estribilho. 
Ao  mesmo  tempo,  esse  estribilho  sublinha  a  orientação  fixa  do 
discurso  para  um  interlocutor  que  se  situa  mais  acima  na  escala 
hierárquica.  Essa  orientação  leva  em  conta  a  situação,  e  em 
consequência tem presente também o tipo de interação verbal, isto é, o 
próprio gênero da conversação: aqui não temos que nos ocupar com um 
informe,  com  um  comunicado,  com  uma  petição  –  uma  súplica  –  ao 
general.  Aqui  Sua  Excelência  o  general  Betríchtchev  concedeu  aceitar 
uma  visita  e  uma  conversação  cotidiana  com  um  simples  mortal,  com 
um  insignificante  e  modesto  Tchítchicov.  Fora  outra  a  situação,  outro 
gênero  apareceria,  e  toda  a  frase  teria  que  ser  composta  de  outra 
maneira. As palavras “Vossa Excelência” não estariam ao final da frase, 
não  encerrariam  o  movimento  da  entonação  e  a  fuga  rítmica,  mas 
teriam servido de começo – de “partida” – e se situariam no começo da 
frase.  O  gênero  determinado  por  essa  situação  –  por  exemplo,  um 
informe  ou  um  comunicado  –  requereria  outra  entonação,  mais 
impessoal  e  oficial.  Em  consequência  mudaria  também  a  seleção  e  a 
disposição  das  palavras;  mudaria  todo  o  colorido  estilístico  da  frase.  De 
fato, o gênero de um informe ou de um comunicado é condicionado por 
outro tipo de intercâmbio comunicativo social, e dificilmente toleraria a 
rítmica  disposição  das  palavras  que  observamos  na  enunciação  de 
Tchítchicov.  A  situação  de  conhecer  um  general  em  seu  ambiente 
familiar permite muito bem essa rítmica discursiva, que é além de tudo 
um pouco intencional e artificial. Neste caso, Tchítchicov persegue seu 
objetivo  brilhantemente,  começando  sua  apresentação  com  uma 
enunciação construída de modo magistral. 
Como  exemplo  das  particularidades  estilísticas  do  discurso  de 
Tchítchicov,  assinalemos  o  começo  insolitamente  rítmico  de  sua 
segunda intervenção – tema do “relato da própria vida”. 
Se  tentarmos  sublinhar  fortemente  os  acentos  das  palavras  da 
primeira  e  da  segunda  frase,  e  tratarmos  de  aprofundar  as  pausas 
depois  das  marcas  de  pontuação,  notaremos  facilmente  o  princípio 
fundamental que guia a disposição dessas palavras. 

186  
Antes de tudo, impõe‐se a divisão, às vezes também posta em relevo 
pelo  autor,  dessas  frases  em  grupos  rítmicos  de  três  palavras.  Já  o 
primeiro  grupo  se  evidencia  com  o  “relato  do  narrador”  que  segue  ao 
começo  da  frase  de  Tchítchicov:  “A  minha  carreira  no  serviço  público 
(Poprishchie sluzhbi moei) – disse Tchítchicov, sentando‐se (...). Também o 
segundo grupo se evidencia não com o “relato do narrador”, mas com o 
estribilho  de  Tchítchicov:  “começou  num  departamento  do  Tesouro, 
Excelência” (nachalós v kazionoi palatie, vashe prievosjodítielstvo). 
A  divisão  desses  dois  grupos  verbais  indica  claramente  a 
possibilidade  uma  subdivisão  posterior  do  discurso  de  Tchítchicov. 
Com efeito, nada nos impede de fazer uma pequena pausa depois das 
seguintes  três  palavras:  “Seu  transcurso  subsequente”  (dalneisheie  ye 
techenie  onoi)19  –  Tchítchicov  poderia  ter  feito  nesse  ponto  um  gesto 
correspondente  –  “deu‐se  em  diversos  postos”  (prodolzhal  v  raznij 
miestaj).  Veremos  que  também  depois  dessa  nossa  pausa  aparece  um 
grupo de três palavras. 
Seguindo  este  esquema,  dividiremos  também  a  seguinte  frase: 
“trabalhei  no  Tribunal  de  Justiça,  numa  comissão  de  construções  e  na 
Alfândega” (bil i v nadvornom sudie i v komisi postroienia i v tamozhnie)20. 
  Tentemos agora ilustrar nossa subdivisão dispondo visualmente as 
palavras de maneira tal que representemos imediatamente a construção 
rítmica da enunciação examinada: 
 
    1          2          3 
  póprishchie            sluzhbi      moei 
  nachalós            v kazionoi      palatie 
  vashe Prievosjodítielstvo 
  dalneisheie ye             techenie      onoi 
  prodolzhal             v raznij      miestaj 
  bil i v nadvornom            sudie 
  i v komisi              postroienia    i v tamozhnie21 
                                                            
19  As  preposições,  conjunções  e  prefixos  não  são  contados,  já  que  ritmicamente  se 
fundem com as demais palavras. 
20  [N.T.] Interessante notar que também são enumerados três locais de trabalho. 

21  [N.T.].  Em  português  teríamos  aproximadamente  os  seguintes  grupos  [página 

seguinte]: 
          

  187 
O que fizemos? 
Marcando  com  ênfase  os  acentos,  a  duração  das  pausas  e  a 
disposição  dos  grupos  verbais,  dispondo‐os  em  linhas  diversas, 
transformamos o discurso de Tchítchicov numa poesia!22 
Obviamente, recorremos a esse exagero rústico e tosco – redução ao 
extremo – da rítmica, só para dar uma exemplificação pedagógica. Era 
necessário  mostrar  ao  leitor,  da  maneira  mais  clara  possível,  a 
peculiaridade estilística da enunciação cotidiana de Tchítchicov, com sua 
entonação  insinuante  e  bajuladora,  com  sua  seleção  particular  de 
palavras gradas ao interlocutor. 
Essa  particularidade  linguística  é  determinada  totalmente  pelos 
elementos sociais: a situação e o auditório da enunciação. E com isso, por 
enquanto, devemos concluir. 

                                                                                                                                                

            1            2          3 


  carreira                    serviço                  público 
  começou         departamento    tesouro 
  Vossa Excelência 
  seu       transcurso    subsequente 
  deu‐se         diversos     postos 
  trabalhei                            justiça 
  comissão                    construção    alfândega 
 que lidos em sequência constituiriam um suposto “poema”:  
  carreira serviço público 
  começou departamento tesouro 
  Vossa Excelência 
  Seu transcurso subsequente 
  deu‐se [em] diversos postos 
  trabalhei justiça 
  comissão [de] construção 
  alfândega 
22  Estes  versos  se  diferenciam  obviamente  dos  de  Puchkin  e  de  Nekrásov,  sobretudo 

por  seu  particular  sistema  de  versificação,  chamado  “acentual”.  Os  representantes 
modernos  do  “verso  acentual”  são  Maiakovski,  Tijónov  e  outros.  Falaremos 
detalhadamente dos sistemas de versificação em outro artigo. (N.T.: O autor se refere 
ao texto “A palavra e sua função social” também aqui publicado). 

188  
A PALAVRA E SUA FUNÇÃO SOCIAL 
 
 
1. A ideologia de classe e a estilística da enunciação 
   
Vimos  que  o  colorido  estilístico  da  enunciação  de  Tchítchikov1, 
como de resto de qualquer outra enunciação, não é de fato determinado 
somente pela intenção psicológica individual, pelas “sensações”. Vimos 
que o conjunto todo das condições de uma dada situação e de um dado 
auditório  (e  em  particular  a  distância  sócio‐hierárquica  existente  entre 
os  falantes)  determina  toda  a  construção  da  enunciação:  seja  o  sentido 
geral  da  intervenção  linguística  de  Tchítchikov,  o  tema  e  a  entonação,  a 
escolha das palavras e a sua disposição nessa intervenção. 
Procuremos agora imaginar como se desenrolou, na situação toda, a 
apresentação ao general Betríchtchev não mais de um representante da 
nobreza  militar  –  o  conselheiro  do  colégio  Tchítchikov  –  mas  de  um 
mercador  da  principal  corporação,  ou  seja,  uma  variante  russa  do 
“cavaleiro da ordem do trabalho”. 
Sofrerá,  porventura,  a  estilística  do  discurso  de  um  rico  mercador, 
vindo  apresentar‐se  ao  “respeitável”  general  por  razões  de  negócios, 
modificações substanciais? 
A  situação  aparentemente  é  a  mesma,  mudando  somente  a 
orientação  social  da  enunciação:  será  suficiente  isto  para  modificar 
profundamente toda a estrutura estilística? 
Responder a esta pergunta é muito simples. É suficiente recordar a 
nossa  definição  de  orientação  social:  ela  representa  a  dependência  da 
enunciação do peso sócio‐hierárquico do auditório, isto é, do pertencimento de 
classe  dos  interlocutores,  da  sua  condição  econômica,  profissional,  posição  no 
serviço  ou,  como,  por  exemplo,  sucedia  na  Rússia  antes  da  reforma,  do  seu 
título, do grau, da quantidade de servos de gleba, da categoria, do capital etc.2  
Se  acrescentarmos  a  óbvia  influência  da  cultura  dos  interlocutores, 
ou  seja,  do  seu  grau  de  desenvolvimento  intelectual  e  sócio‐moral,  a 
amplitude de seu horizonte ideológico, o problema proposto se resolve: 

                                                            
1   [N.T.] Ver neste volume o ensaio A Construção da enunciação.  
2   Cf. nosso trabalho A construção da enunciação. 

  189 
a orientação social da enunciação tem um papel decisivo para a construção da 
estrutura estilística. 
Um mercador, no lugar de Tchítchikov, teria construído sua frase de 
modo completamente diverso. Nem lhe passaria pela cabeça, a pretexto 
de  sua  apresentação,  lembrar  “a  veneração  pelo  heroísmo  dos  homens 
caídos no campo de batalha”  3. De fato, se o mercador é um milionário 
que, graças a seus milhões, conseguiu acesso aos círculos dos nobres, e é 
avesso às saletas e aos salões, se sentirá praticamente no mesmo plano 
social  do  general  Betríchtchev:  é  difícil  que  em  sua  vida  tenha  tido  a 
possibilidade  de  experimentar  o  fruto  proibido  da  árvore  da  cultura 
nobre  e,  por  isso,  tornar  própria  tal  afetação  no  falar,  tão  apreciada 
naqueles ambientes. 
Para  dizer  a  verdade,  qualquer  ex‐seminarista,  um  filho  de  um 
padre,  um  raznotchinec4,  que  tivesse  feito  carreira  não  pelo  talento  ou 
pela energia criativa, como realmente acontece na história, mas graças à 
adulação,  à  astúcia  e  a  outros  métodos  censuráveis,  poderia  construir 
uma  frase,  estilisticamente  falando,  mais  rebuscada  e  esplendorosa. 
Ainda  assim,  não  obstante  sua  semelhança  temática  exterior,  os 
discursos  feitos  na  mesma  situação  por  um  pequeno  nobre  rural,  por 
um  mercador  ou  por  um  raznotchinec  de  família  eclesiástica 
apresentariam uma diferença estilística enorme. 
Por quê? 
Por  um  único  motivo:  o  pertencimento  de  classe  do  falante  não 
organiza  de  fato  a  estrutura  estilística  da  enunciação  somente 
exteriormente, ou seja, com o tema da conversação. A ideologia de classe 
entra para o interior (por meio da entonação, da escolha e da disposição 
das palavras) de qualquer construção verbal que se realiza não só com o 
conteúdo,  mas  expressa  com  a  própria  forma  a  relação  existente  do 
falante  com  o  mundo  e  os  homens,  a  relação  com  aquela  situação 
específica e com aquele auditório específico.   
                                                            
3   [N.T.]  Na  versão  em  português  do  romance  Almas  Mortas  de  Gógol:  “Nutrindo 
respeito  para  com  as  virtudes  dos  varões  que  salvaram  a  pátria  no  campo  de 
batalha...” 
4   Intelectual  não  pertencente  à  classe  nobre.  Na  maioria  das  vezes  proveniente  de 

família eclesiástica. Termo usado no século XIX [nota da tradutora para o italiano Rita 
Bruzzese].  

190  
É  esta  relação  própria  com  o  mundo  e  com  os  homens,  com  a 
situação dada e com o auditório específico, que é sempre de classe, que 
representa  o  momento  substancial  da  nossa  pesquisa,  e  todo  nosso 
estudo procura focar esta relação. 
De  que  maneira  a  relação  de  classe  em  geral  pode  estar  na 
enunciação e nela refletir‐se? Qual é o elemento que faz com que todo o 
sistema de concepções, de opiniões, de ideias, de avaliação de classe (ou 
seja, o aspecto ideológico de qualquer situação) adquira um papel assim 
importante  tanto  na  construção  semântica  quanto  na  organização 
estilística da enunciação? 
É  possível  responder  a  esta  pergunta  somente  se  se  procura  a 
essência da palavra como signo ideológico. 
 
2. A palavra como signo ideológico 
 
Até  agora,  falando  da  linguagem  e  de  sua  base  social,  tivemos  em 
mente  essencialmente  a  enunciação  como  um  todo,  independentemente 
do  número  de  palavras  que  a  compõe.  Esta  totalidade,  ou  seja,  esta 
enunciação  tematicamente  concluída,  pode  conter  somente  uma  única 
interjeição do tipo “ah” ou “eh, eh, eh” etc. A seguir, devemos examinar 
a  unidade  verbal  singular  à  qual  damos  um  significado  semântico 
muito preciso. 
Que é a palavra? 
Se  olharmos  atentamente  a  realidade  que  nos  circunda,  notaremos 
que nessa existem dois tipos de objetos. Alguns objetos, por exemplo, os 
fenômenos  da  natureza,  os  instrumentos  de  produção,  os  objetos  da 
vida  cotidiana  etc.  não  têm  nenhum  significado  ideológico.  Nós 
podemos  usá‐los,  examiná‐los,  estudar  sua  construção,  especificar 
perfeitamente  tanto  o  processo  de  sua  preparação  quanto  sua 
destinação  produtiva,  mas,  ainda  que  o  desejássemos,  não  reteríamos 
dele  mais  que  o  próprio  objeto,  uma  botina  ou  um  malho  mecânico, 
diferentemente  dos  signos,  que  representam  um  objeto  ou 
acontecimento diverso de si. 

  191 
Tudo muda de aspecto se tomamos uma pedra e a embranquecemos 
com cal e a colocamos nos limites entre duas kolchoz5. Esta pedra assume 
um “significado” preciso. Ela, a partir disso, não denotará somente a si 
mesma, somente uma pedra, uma parte da natureza, mas receberá um 
novo  significado.  Indicará  qualquer  coisa  que  está  situada  fora  de  si. 
Tornar‐se‐á  um  indicador,  um  sinal,  ou  seja,  um  signo,  com  um 
significado fixo e imutável. Signo de quê? Signo dos limites entre duas 
partes de terra. 
Da  mesma  maneira,  se  nos  dias  das  demonstrações  do  1º.  de  Maio 
tivéssemos  visto  ou  houvesse  sido  mostrado  um  gigantesco  malho 
mecânico  esmagando  uma  botina  desenhada  sobre  um  papel,  não 
compreenderíamos  absolutamente  nada.  Mas  bastaria  desenhar  sob  o 
malho  mecânico  o  emblema  soviético  (a  foice  e  o  martelo)  e  sobre  a 
botina  uma  águia  de  duas  cabeças,  juntar  um  grupo  de  trabalhadores 
que  movimentam  este  malho  mecânico  e  a  mão  de  um  general  que 
abandona  às  pressas  e  em  pânico  a  botina,  o  significado  deste  quadro 
“alegórico”  tornar‐se‐ia  imediatamente  claro:  a  ditadura  do  proletariado 
derrotou a contrarrevolução. 
O malho representa neste caso o signo, o “símbolo” de toda potência 
e  inevitabilidade  da  ditadura  do  proletariado  e  a  botina  esmagada 
representa  o  símbolo  do  naufrágio  da  trama  da  Guarda  Branca.  Desta 
mesma maneira, a foice e o martelo não representam só os instrumentos 
de produção, mas também o estado proletário. A águia de duas cabeças 
é o símbolo da Rússia czarista. 
Que  aconteceu,  precisamente?  Aconteceu  que  um  fenômeno  da 
realidade  objetiva  tornou‐se  um  fenômeno  da  realidade  ideológica:  o 
objeto  se  transformou  em  signo  (obviamente,  igualmente  objetivo, 
material).  O  malho  mecânico  e  a  botina,  representados  no  desenho, 
refletem  os  acontecimentos  que  transcorreram  efetivamente  na  vida  e 
que se encontram fora do desenho, fora da parte do papel marcado pelo 
lápis. 
É possível avizinhar‐se ainda só parcialmente dos objetos da cultura 
material no campo semântico, no campo dos significados. Por exemplo, 
pode‐se  embelezar  ideologicamente  um  instrumento  de  produção.  Os 

                                                            
5   [N.T.] Lembremos que se trata de duas cooperativas de produção agrícola. 

192  
instrumentos de pedra dos homens primitivos às vezes foram cobertos 
de desenhos e ornamentos, isto é, recobertos por signos. Obviamente o 
objeto em si não se torna por isso um signo. 
Pode‐se, além disso, dar a um instrumento de produção uma forma 
artisticamente perfeita e por este meio fazer com que esta forma artística 
combine harmonicamente com a destinação produtiva do instrumento. 
Neste caso, chega‐se ao máximo de aproximação, quase uma fusão, do 
signo com o instrumento de produção. Todavia, ainda aqui observamos 
uma  clara  fronteira  semântica:  o  objeto  enquanto  tal  não  se  torna  um 
signo  e  o  signo  enquanto  tal  não  se  torna  instrumento  de  produção. 
Também  um  produto  de  consumo  pode  tornar‐se  um  signo  ideológico. 
Por  exemplo,  o  pão  e  o  vinho  tornaram‐se  símbolos  religiosos  no  rito 
cristão  da  comunhão.  O  produto  de  consumo  por  si,  entretanto,  não  é 
de  fato  um  signo.  Podemos  unir  os  produtos  de  consumo,  como 
também os instrumentos, com os signos ideológicos, mas ainda depois 
desta ligação não desaparece a clara fronteira semântica existente entre 
eles.  Assim,  o  pão  é  cozido  com  uma  certa  forma  e  esta  forma  não  se 
justifica  de  fato  só  com  o  uso  ao  qual  é  destinado,  mas  tem  um 
significado  semântico,  ideológico,  quase  primitivo  (por  exemplo,  a 
forma da rosca, da roseta).  
São signos objetos materiais isolados; como vimos, qualquer objeto 
da natureza, da técnica ou do consumo pode tornar‐se signo, mas com 
isso adquirem um significado que está fora do âmbito de sua existência 
isolada (do objeto da natureza) ou da sua destinação (o fato de que ele 
sirva ou não aos objetivos de produção ou consumo). 
Não acontece, quiçá, a mesma coisa com as nossas “palavras”? Não 
é também a palavra um objeto material transformado em signo? 
Obviamente  a  questão  não  pode  ser  posta  nestes  termos.  De  fato, 
não  existe  inicialmente  a  palavra  enquanto  objeto  da  natureza  ou  da 
técnica e que somente num segundo momento, em consequência de uma 
transformação, se torna um signo. A palavra, por sua própria natureza 
intrínseca,  é  desde  o  início  um  fenômeno  puramente  ideológico.  Toda 
realidade objetiva da palavra consiste exclusivamente na sua destinação 
de ser um signo. Na palavra não existe nada que seja indiferente a esta 
destinação e que não tenha sido por ela gerado. 

  193 
Todavia,  a  palavra,  sendo  um  fenômeno  ideológico,  é  ao  mesmo 
tempo  também  parte  da  realidade  material.  Para  dizer  a  verdade,  o 
material de que é composta é bastante particular e não se lhe pode tocar 
com as mãos, nem provar seu gosto, nem medir com a régua, nem pesar 
com a balança. Este material é o som que é produzido pelo movimento 
dos  nossos  órgãos  da  fala  e  que,  como  sabemos  hoje,  é  regulado  pelas 
leis da realidade material, pelas leis da natureza. 
Para  ser  uma  palavra,  no  entanto,  não  basta  esta  base  acústica6  e 
fisiológica7.  De  fato  um  som  ainda  que  articulado  não  se  torna  uma 
palavra  se  não  “denotar”  qualquer  coisa  que  reflita  e  expresse 
fenômenos da realidade objetiva – ou seja, os fenômenos da natureza ou 
da consciência social. Sem esta compreensão a palavra não será palavra. 
Isto  que  estamos  chamando  de  compreensão  não  é,  no  entanto, 
qualquer  coisa  “espiritual”,  “imaterial”,  um  fenômeno  que  jamais  se 
expressa,  um  processo  miraculoso,  sobrenatural,  que  ocorre  na “alma” 
do  homem.  Já  falamos,  em  nosso  primeiro  artigo,  do  que  é  a 
consciência.  Indicamos  que  sua  estrutura  é  ideológica  e,  por 
consequência, social e estamos convictos de que sem linguagem interior 
a  consciência  não  existiria.  A  linguagem  interior  consiste 
principalmente  de  palavras,  ou  seja,  de  signos  absolutamente  materiais, 
embora elas não sejam pronunciadas em voz alta, mas para si mesmo. 
Quando  nós  compreendemos  uma  palavra  ou  uma  sequência 
organizada  de  palavras,  em  certo  sentido  traduzimos  esta  palavra  do 
discurso  externo  (escutado  ou  lido)  de  outro  homem  para  o  nosso 
discurso  interno  e  com  isso  reproduzimos  novamente  esta  palavra, 
circundamo‐la  com  outras  palavras,  encontramos  seu  lugar  particular 
no fluxo verbal completo da nossa consciência. 
Ao  fazer  isso,  a  nossa  compreensão,  como  já  esclarecemos  no 
segundo  artigo,  contém  sempre  um  caráter  de  resposta  avaliativa,  um 
caráter de réplica. 
É claro, mesmo sem especificações posteriores, que todos os signos 
ideológicos  (verbais,  figurativos  etc.)  só  podem  formar‐se  numa 

                                                            
6   Acústica: ramo da física que estuda os fenômenos ligados ao som. 
7   Fisiologia: ciência que estuda o organismo humano. 

194  
comunidade de pessoas socialmente organizada. O mundo dos animais 
não tem signos ideológicos. 
No  mundo  dos  homens,  de  qualquer  maneira,  não  existem  signos 
ideológicos que conotem propriamente todos os fenômenos da natureza 
e os acontecimentos da história. Em cada etapa do desenvolvimento da 
sociedade existe um grupo particular e orgânico de objetos acessíveis à 
atenção  social.  Somente  este  grupo  de  objetos  recebe  uma  forma 
semântica e torna‐se tema de uma troca comunicativa ideológica e por 
consequência semântica. 
Para fazer com que um objeto, qualquer que seja o tipo de realidade 
à qual pertença, entre no horizonte social de um grupo e provoque uma 
reação  semântica,  ideológica,  é  necessário  que  este  objeto  esteja  ligado 
com  as  premissas  socioeconômicas  essenciais  da  realidade  objetiva  do 
grupo dado, é necessário que toque, mesmo marginalmente, a base da 
realização material do grupo. 
Neste  campo,  o  arbítrio  individual  não  pode,  obviamente,  ter 
qualquer  significado.  O  signo  se  cria,  de  fato,  entre  os  indivíduos,  no 
ambiente social, na sociedade. 
De fato, a humanidade conhece até hoje um único e importantíssimo 
motor da história social: a luta de classes. 
Por  isso,  qualquer  signo  ideológico,  sendo  produto  da  história 
humana, não só reflete, mas inevitavelmente refrata todos os fenômenos 
da vida social. 
O que  isto significa?  Significa somente que (fato importantíssimo e 
fundamental  para  qualquer  escritor)  num  único  signo  se  refletem  e 
acompanham‐no relações de classe diversas. Nenhuma palavra reflete com 
absoluta  precisão  (“objetivamente”)  o  seu  objeto,  o  seu  conteúdo.  A 
palavra não é, de fato, a fotografia daquilo que denota. A palavra é um 
som  significante,  pronunciado  ou  pensado  por  uma  pessoa  real  num 
momento preciso da história real e que, por conseguinte, tem o aspecto 
de uma enunciação completa ou de uma de suas partes constituintes, de 
um  de  seus  elementos.  Fora  da  enunciação,  a  palavra  só  existe  no 
dicionário, mas nesse é uma palavra morta, não é senão um conjunto de 
linhas retas ou semicirculares, de marcas de tinta tipográfica sobre uma 
folha  de  papel  em  branco.  Os  livros  e  os  manuscritos  ornamentados 
somente são lidos pelos ratos, são objetos já caducos para o uso social, 

  195 
para  a  utilização  social,  são  rejeitados  pela  sociedade  como  vasos 
quebrados  inúteis  ou  lascas  apodrecidas.  Um  navio  naufragado, 
submerso  na  lama  e  coberto  de  algas  é  um  objeto  da  natureza  numa 
medida  muito  maior  de  que  o  é  um  pedaço  de  pedra  com  o  qual,  na 
falta  de  um  martelo,  pregamos  um  prego  ou  rompemos  a  casca  de 
nozes. 
A  palavra  torna‐se  palavra  somente  no  intercâmbio  comunicativo 
social vivo, na enunciação real, que pode ser compreendida e avaliada 
não  somente  pelo  falante  mas  também  pelo  seu  auditório,  seja  este 
potencial ou realmente existente. 
 
3. O signo e as relações de classe 
 
Recordemos mais uma vez que o falante pertence a uma classe, tem 
uma  profissão,  tem  certo  grau  de  desenvolvimento  cultural.  Enfim,  ele 
pronuncia  esta  palavra  (em  voz  alta  ou  para  si  mesmo)  numa  certa 
circunstância  diante  de  um  ouvinte,  presente  ou  pressuposto.  Graças  a 
estas condições, a esta força (“fatores”) que organizam tanto o conteúdo 
quanto  a  forma  da  enunciação,  as  palavras  do  falante  estão  sempre 
embebidas de opiniões, de ideias, de avaliações que, em última análise, 
são inevitavelmente condicionadas pelas relações de classe. 
Qualquer  palavra,  dita  ou  pensada,  exprime  um  ponto  de  vista  a 
respeito  de  vários  acontecimentos  da  realidade  objetiva,  em  diferentes 
situações.  De  fato,  esta  realidade  não  é  imóvel,  não  é  uma  realidade 
estática  como  uma  escultura  de  bronze;  sem  conhecer  nem 
desenvolvimento  nem  movimento,  o  homem  estaria  imóvel.  A 
realidade  efetiva  na  qual  o  homem  real  vive  é  a  história,  este  mar 
eternamente  agitado  pela  luta  de  classe,  que  não  conhece  quietude,  não 
conhece paz. A palavra, ao refletir esta história, não pode não refletir as 
contradições, o movimento dialético, a sua “constituição”.  
Qualquer palavra dita ou pensada não é somente um ponto de vista, 
mas  um  ponto  de  vista  avaliativo.  De  fato,  quando  pronunciamos  ou 
escutamos uma palavra, não a percebemos mais como algo destacado e 
separado da realidade, que se auto‐satisfaz, que tem um valor próprio 
autônomo,  como  um  fenômeno  puramente  sonoro  (como  ocorre  na 
poesia  “transmental”).  Nós  percebemos  propriamente  aquela  realidade 

196  
objetiva (natural, histórica ou artística) que a palavra reflete enquanto dela é 
um signo. Por isso, na comunicação verbal viva, na interação verbal viva, 
nós não avaliamos a palavra enquanto som articulado, carregado de um 
significado,  nem  avaliamos  a  palavra  enquanto  objeto  de  estudo 
gramatical,  mas  avaliamos  o  significado,  o  conteúdo,  o  tema,  incluídos  na 
palavra por nós escutada ou lida. 
Quando dizíamos que as palavras são verdadeiras ou falsas, parciais 
ou imparciais, inteligentes ou estúpidas, profundas ou superficiais, não 
referimos  nosso  juízo  sobre  as  próprias  palavras,  mas  sobre  a  realidade 
objetiva que elas refletem e refratam enquanto palavras‐signos. Por este 
motivo,  uma  mesma  palavra  nos  lábios  de  pessoas  de  classes  distintas 
reflete também pontos de vista distintos, mostra relações diferentes com 
a mesma realidade, com o mesmo fragmento de realidade que constitui 
o tema daquela palavra. 
Tema da palavra [fala], porém, pode ser a própria palavra. De fato, 
são  possíveis  juízos  sobre  um  erro  gramatical  numa  frase  ou  sobre  a 
utilização inadequada de um caso ou do plural de um substantivo, do 
modo ou tempo de um verbo etc. 
Isto  não  contradiz  de  fato  as  opiniões  que  expusemos  acima.  Uma 
alteração gramatical de uma palavra não altera também o significado na 
vida  cotidiana,  nem  faz  com  que  o  signo  verbal  reflita  erroneamente  a 
realidade, nem transforma a palavra num péssimo meio técnico e num 
péssimo  meio  ideológico  do  intercâmbio  comunicativo  social.  Isto  vale 
ainda  mais  se  não  falamos  de  um  grosseiro  erro  gramatical,  mas  do 
valor estilístico de uma palavra. Neste caso nos encontramos com maior 
nitidez  com  as  relações  de  classe  que,  organizando  também  o  gosto 
estético,  impõem  a  escolha  de  dada  palavra,  de  dada  expressão,  por 
consequência  a  palavra  torna‐se  a  arena  da  luta  de  classes,  a  arena  da 
dissidência  de  opiniões  e  de  interesses  de  classe  orientados  de  modos 
distintos. 
Talvez  o  desmentido  mais  categórico  a  nossa  afirmação  de  que  na 
palavra se refletem opiniões orientadas de maneiras diferentes pode ser 
constituída  pela  pergunta:  é  verdade  que  também  palavras  como 
“mesa”,  “cavalo”,  “árvore”  etc.  refletem  e  se  fazem  acompanhar  das 
relações  de  classe?  De  fato,  nas  diversas  classes,  a  avaliação  destas 
palavras  deve  ser  idêntica  uma  vez  que  os  conceitos  da  realidade  que 

  197 
representam  permanecem  idênticos  em  todas  as  classes:  uma  mesa  é 
uma mesa e não um cavalo, o cavalo é um cavalo e não uma árvore etc. 
A  esta  observação  devemos  replicar  como  segue.  Antes  de  tudo, 
uma palavra singular, desbastada do fluxo da interação linguística, não 
pode  servir  de  exemplo.  Além  disso:  a  palavra,  refletindo  a  realidade 
objetiva,  reflete  em  si  mesma  também  uma  posição  socialmente 
determinada  sobre  esta  realidade,  todavia  não  se  pode  confundir  um 
signo  de  identidade  completa  com  seu  significado  objetivo,  objetal  da 
palavra, e o ponto de vista expresso na palavra. 
Cada  homem,  ao  conhecer  a  realidade,  a  conhece  de  um 
determinado ponto de vista. 
O  problema  consiste  em  saber  até  quanto  este  seu  ponto  de  vista 
corresponde  à  realidade  objetiva.  De  fato,  um  ponto  de  vista  não 
representa uma conquista pessoal do sujeito cognoscente, mas é o ponto 
de  vista  da  classe  à  qual  este  sujeito  pertence.  Em  consequência,  a 
objetividade  e  a  completude  de  um  ponto  de  vista  (a  medida  de 
correspondência  entre  a  palavra  e  a  realidade)  são  condicionadas  pela 
posição  de  dada  classe  na  produção  social.  Classes  diferentes  têm 
também pontos de vista diferentes; na linguagem de cada classe existe 
uma medida particular de correspondência da palavra com a realidade 
objetiva. O proletariado, cujo ponto de vista subjetivo se aproxima mais 
da  lógica  objetiva  da  realidade,  naturalmente  não  tem  necessidade  de 
alterar esta realidade com suas palavras. 
Deste modo, em cada palavra da linguagem do proletariado o ponto 
de  vista  coincide  plenamente  com  o  significado  objetal,  objetivo  da 
palavra. 
Portanto,  até  no  campo  das  palavras  que  a  primeira  vista  têm  um 
mesmo  significado  constante,  notamos  uma  contradição,  seja  nos 
significados  (dependentes  da  situação),  seja  nos  pontos  de  vista 
(dependentes  da  ideologia  de  classe  ou  do  hábito  profissional).  Por 
exemplo:  uma  árvore  como  material  de  trabalho  é  boa  ou  ruim;  uma 
árvore  como  objeto  de  observação  é  útil  ou  inútil;  uma  árvore  como 
exemplar  de  uma  variedade  é  comum  ou  rara;  uma  árvore  pode  ser 
objeto de prazer artístico, tema de um quadro, ou algo a ser regado pela 
manhã etc.   

198  
Palavras  como  “classe”,  “revolução”,  “comunismo”,  “kolchoz”, 
“período  de  reconstrução”,  “família”,  “verdade”,  “religião”  etc.  não 
serão  acompanhadas  de  avaliação  diferente  nas  enunciações  de  um 
lavrador  e  de  um  burguês,  de  um  diarista  e  de  um  “kulak”8,  de  um 
representante  da  “intelligentsia”  soviética  e  de  um  concessionário‐
parasita? Sem dúvida, os magníficos versos de Maiakovski 
 
Eu, toda minha força sonora de poeta 
te entrego, ó classe! Ao ataque!  
 
ressoariam  de  maneira  idêntica  na  consciência  de  um  homem  que 
sobrepujou a história e na consciência de um homem que gorgoleja no 
pântano de velhas ideias e de velhas maneiras de viver? 
Por isso, toda realidade objetiva, todo o ser do homem e da natureza 
não só se refletem no signo, como são por ele refratados. Esta refracção 
da  realidade  objetiva  no  signo  ideológico  é  determinada  pelo 
entrecruzamento de interesses sociais orientados de maneiras diferentes 
no âmbito de uma comunidade semântica, ou seja, pela luta de classes. 
É  necessário  notar  que  a  classe  não  coincide  com  a  comunidade 
semântica, ou seja, com a comunidade que utiliza os mesmos signos de 
comunicação  ideológica.  Assim,  classes  distintas  utilizam  a  mesma 
língua.  Em  consequência,  como  já  vimos,  em  cada  signo  ideológico 
interpenetram‐se relações de classe orientadas de maneira distinta. 
Este  aspecto  é  excepcionalmente  importante.  Para  ser  exato, 
somente  graças  a  esta  refracção  das  opiniões,  avaliações  e  pontos  de 
vista  o  signo  é  vivo  e  móvel  e  é  capaz  de  desenvolvimento.  Um  signo 
separado do acordo de classes, um signo que pareça estar para além da 
luta  das  classes,  inevitavelmente  se  debilita,  degenera  em  alegoria, 
torna‐se  objeto  de  compreensão  filológica  e  não  de  uma  compreensão 
social viva. Destes signos ideológicos mortos, incapazes de se tornarem 
arena  dos  interesses  sociais  vivos,  está  cheia  a  memória  histórica  da 
humanidade.  Mas,  não obstante  isso,  na  medida  em  que  os  filólogos  e 
os  historiadores  deles  se  recordam,  mantêm  ainda  seus  últimos 
lampejos de vida. 
                                                            
8   [N.T.] Grandes proprietários rurais, fazendeiros do Império Russo, que empregavam 
trabalhadores assalariados.  

  199 
A  classe  dominante  procura  dar  ao  signo  ideológico  um  caráter 
supraclassista,  eterno,  procura  constringir  e  apagar  do  interior  da 
palavra a luta das relações sociais, de fazê‐la expressão de um ponto de 
vista único, fixo e imutável. 
No  discurso  vivo,  qualquer  ofensa  pode  se  tornar  um  elogio, 
qualquer verdade soa para muitos, inevitavelmente, como uma enorme 
mentira.  Esta  dialeticidade  interna  do  signo  se  revela  completamente  só 
em  épocas  de  crise  social  e  de  movimentos  revolucionários.  Nas 
condições  habituais  da  vida  social,  esta  contradição,  contida  no  signo 
ideológico,  não  pode  ser  aclarada  em  profundidade,  porque  o  signo 
ideológico  da  ideologia  dominante  que  já  tomou  forma  fixa  é  sempre 
um tanto reacionário e busca em certo sentido fechar, fixar e imobilizar 
o  momento  precedente  do  fluxo  dialético  do  processo  de  formação 
social,  ou  seja,  dar  relevo  e  reforçar  a  verdade  de  ontem,  fazendo‐a 
passar pela verdade de hoje. Isto determina a característica interpretante 
e deformante do signo ideológico no âmbito da ideologia dominante. 
Portanto,  esta  é  a  resposta  para  as  duas  primeiras  questões  que 
havíamos colocado. 
A  realidade  objetiva  histórica  e  natural  torna‐se  tema  de  nossas  palavras 
enquanto  signos  ideológicos.  A  palavra,  como  qualquer  signo  ideológico,  não 
reflete simplesmente a realidade, mas a interpreta no intercâmbio comunicativo 
social  vivo,  na  interação  verbal  viva.  Isto  ocorre  porque  as  relações  de  classe, 
refratando‐se  nas  palavras,  impõem‐lhe  certo  sombreamento  do  significado, 
incluindo  nela  certo  ponto  de  vista  e  dando‐lhe  certa  avaliação.  Com  isso,  as 
relações  de  classe  entram  na  enunciação  inteira  como  um  fator,  uma  força 
objetiva com influência determinante sobre sua estrutura estilística. 
Acrescentemos  somente  que  é  próprio  do  sistema  de  relações  sociais 
criar  um  vínculo  entre  a  situação  e  a  enunciação  e  traduzir  a  sua  expressão 
acima de tudo na entonação que fixa o ponto de vista de classe, quer em relação 
à realidade objetiva tornada tema da enunciação, quer relativamente ao ouvinte 
a que se destina esta enunciação. 
Mostraremos  a  seguir,  com  um  exemplo,  como  numa  mesma 
palavra podem refletir e fazer aparecer relações de classe distintas, que 
assumem a forma de ideologias diferentes. 
Para  fazer  isso,  é  mais  cômodo  usar  enunciações  de  pessoas 
pertencentes a épocas em que os sistemas ideológicos se encontram na 

200  
forma  mais  aguda  de  contradições  recíprocas,  refletindo  com  isso  as 
enormes contradições econômicas das classes em luta. 
Consideremos  um  de  obra  da  literatura  a  nós  contemporânea,  o 
romance  Inveja  de  Jurij  Olesha.  Esta  obra  é  particularmente  apta  ao 
nosso objetivo, em função do estilo cáustico que caracteriza fortemente 
a orientação social das enunciações das personagens.  
Os exemplos que vamos reportar são duas intervenções linguísticas 
que tratam do mesmo tema; são obviamente sucedâneos de enunciações 
da vida cotidiana como eram as enunciações de Tchítchikov utilizadas 
no ensaio anterior9. 
Ainda dessa vez, depois das reservas feitas, suponhamos que estes 
dois  trechos  não  foram  retirados  de  um  romance,  mas  de  uma 
transcrição  estenográfica  das  enunciações  de  duas  personagens 
realmente existentes: Nikolai Kavalerov e Ivan Babitchev. 
Ambos falando da mesma pessoa, Andrei Babitchev, diretor de um 
consórcio  da  indústria  alimentícia,  partidário  entusiasta  de  uma 
alimentação gostosa e econômica para as massas. 
Eis o que diz Kavalerov: 
 
Isto é o que tenho aprendido sobre sua história: 
Numa manhã, ele, diretor de uma empresa, carregando uma pasta nas 
mãos  –  um  homem  de  aspecto  muito  respeitável,  um  homem 
importante evidentemente – saiu por uma escada desconhecida, entre a 
beleza da entrada de serviço, e bateu na primeira porta que encontrou. 
O  jovem  Harun‐al‐Rashid  tinha  visitado  uma  das  cozinhas  de  um 
casario  operário  da  periferia.  Tinha  visto  a  fuligem  e  a  imundície,  as 
Fúrias  raivosas  que  se  acercavam  do  fogo,  as  crianças  que  choravam. 
De  repente  começam  a  atirar  contra  ele.  Grande  e  gordo  como  é, 
perturbava todos: ele tomava muito espaço, luz e ar. Além disso, tinha 
uma  pasta,  um  pince‐nez  e  era  lindo  e  elegante.  As  Fúrias  haviam 
concluído  que  se  tratava,  naturalmente,  de  um  membro  de  alguma 
comissão. As donas de casa, com cintos nas mãos, atracaram‐se contra 
ele. Ele não andava. Por culpa sua – gritavam atrás dele – o forno havia 
apagado,  um  cálice  havia  quebrado  e  a  sopa  tinha  ficado  muito 
salgada.  Não  sairia  sem  dizer  o  que  tinha  em  mente.  Sem  mentira. 
Teria que falar assim: 
                                                            
9   [N.T.] Trata‐se de A construção da enunciação, também neste volume. 

  201 
‐ Senhoras! Nós aqui daremos as costas à fuligem, liberaremos vossas 
mãos  do  fogão  e  as  orelhas  do  fracasso,  obrigaremos  as  batatas  a  se 
descascarem  magicamente  num  átimo.  Aqui  restituiremos  o  ouro  que 
da  cozinha  daqui  foi  roubado:  recuperai  metade  da  vida!  Tu,  jovem 
esposa, estás cozinhando a sopa de teu marido. A uma pequena porção 
de  sopa  tu  dedicas  metade  de  seu  dia!  Nós  transformaremos  a  vossa 
porção  em  mar  cintilante,  serviremos  um  oceano  de  sopa  de  couve, 
ajuntaremos uma montanha de polenta! O kisel10 deslizará como água! 
Escutai,  donas  de  casa,  e  esperai!  Eis  o  que  aqui  prometemos:  um 
pavimento de sorvete inundado de sol, feixe de ramos resplandecentes, 
pratos de esplendor lilás, um leite denso como mercúrio e uma sopa de 
que  sairá  um  cheiro  que  fará  inveja  a  todos  que  não  estão  em  sua 
mesa.11        
 
Obviamente,  se  esta  enunciação,  com  este  tema  e  nesta  situação, 
tivesse  sido  pronunciada  por  Andrei  Babitchev  em  pessoa,  o  estilo  do 
discurso  seria  completamente  diferente.  Mas  a  enunciação  foi 
pronunciada pelo seu oponente Kavalerov, um típico representante da 
intelligentsia decaída e desclassificada; Kavalerov odeia vilmente aquele 
de  quem  está  falando.  Ele  odeia  tanto  Andrei  Babitchev  e  o  sonho  de 
sua  vida,  a  gigantesca  mesa  social  “Tchevertak”12  .  Ele  utiliza  este 
possível  discurso  de  outrem  para  torná‐lo  objeto  de  sua  ironia  pessoal, 
ironia habilmente mascarada, mas que, no entanto, estende‐se por toda 
a estrutura estilística desta enunciação. 
De  fato,  o  tema  do  fogão  doméstico  –  que  se  divide  em  dois 
motivos:  1)  a  superação  da  gestão  individual  da  cozinha  e  2)  a 
transformação  industrial  do  processo  de  preparação  do  alimento  –  é 
camuflado  por  uma  fraseologia  excessivamente  exuberante,  cheia  de 
epítetos rebuscados ou de comparações grandiosas. 
Todavia,  a  exorbitante  poetização  de  um  fenômeno  da  realidade 
quotidiana  quase  sempre  corre  o  risco  de  rebaixar  bruscamente  seu 

                                                            
10  Gelatina  de  fruta  misturada  com  fécula  de  batata  [Nota  da  tradutora  italiana  Rita 

Bruzzese]. 
11  Invidia ed i tre grassoni, de Jurij Olesha, tradução de Giulio Dacosta, Torino: Einaudi, 

1969, p.13. 
12  Alimentação  a  vinte  e  cinco  copeques  [informação  da  tradutora  italiana  Rita 
Bruzzese, no corpo do texto e aqui transformada em nota]. 

202  
valor  social  a  nossos  olhos.  Todos  os  procedimentos  estilísticos  de 
Kavalerov,  que  ele  vende  como  se  fosse  um  discurso  possível  de 
Babitchev,  estão  orientados  para  darem  este  tipo  de  efeito.  De  fato,  se 
durante a visita de estranhos àquela cozinha, Andrei Babitchev tivesse 
tentado pronunciar um discurso diante das donas de casa – mulheres de 
trabalhadores  –  idêntico  ao  discurso  que  pronuncia  Kavalerov,  com 
aquela  mesma  entonação,  provavelmente  teria  destruído 
definitivamente  aos  olhos  daquelas  senhoras  a  ideia  de  alimentação 
social. 
Mas  abstraiamos  a  ironia  que  colore  esta  bizarra  tradução  do 
pensamento  de  Andrei  Babitchev  na  linguagem  caricatural  da 
intelligentsia  de  Kavalerov.  Suponhamos  que  por  um  minuto  Andrei 
Babitchev em pessoa se tenha transformado em poeta e que, com uma 
linguagem  entusiástica,  com  uma  entonação  verdadeiramente 
convincente,  tenha  falado  de  seu  próprio  sonho  proibido  e  da  sua 
aspiração. 
Que orientação de classe adquirem palavras como: cozinha, fuligem, 
sopa, polenta, batata etc., ou seja, todo o complexo (grupo) de palavras 
ligadas  ao  conceito  de  cozinha  doméstica?  Como  seriam  avaliadas  na 
consciência  de  classe  do  falante?  Seriam  pronunciadas  com  uma 
entonação de solidariedade, de carinho, de doçura ou ao contrário? 
Obviamente  todas  estas  palavras  nos  lábios  de  Andrej  Babitchev 
assumiriam  uma  clara  expressão  ideológica  de  ódio  por  esta  limitação 
mental  e  pela  estreiteza  obtusa  dos  interesses  da  cozinha,  que  têm 
conquistado  e  posto  em  cadeia  as  ideias  e  os  humores  pequeno‐
burgueses  de  uma  enorme  quantidade  de  núcleos  familiares  que  não 
caminham ainda na estrada da nova maneira de viver.   
Citemos  outra  enunciação  sempre  sobre  o  tema  da  cozinha 
doméstica pronunciada pelo irmão de Andrei Babitchev, Ivan: 
 
Companheiros!  Querem  afastá‐los  de  vosso  patrimônio  pouco 
significativo,  de  vosso  fogão  doméstico.  Os  ventos  da  revolução, 
alterando ruidosamente com a distribuição das tarefas, maltratando as 
nossas  crianças,  os  nossos  gatos,  demolindo  os  fornos  e  os  ladrilhos 
que escolhemos, irromperam na vossa cozinha. Donas de casa, está em 
perigo  o  nosso  orgulho,  a  vossa  glória:  o  fogão!  Mães  e  esposas,  os 
elefantes da revolução querem esmagar vossa cozinha! 

  203 
[...]  Que  coisa  disse  este  homem?  Escarneceu  vossas  panelas  e 
frigideiras,  o  vosso  sossego,  o  vosso  direito  de  enfiar  o  peito  entre  os 
lábios de vossos filhos... Que ensina a esquecer? O que quer extirpar de 
vosso coração? A casa materna, a casa, a casa dileta! Ele quer fazer de 
vós vagabundos pelos campos selvagens da história. Esposas, ele cospe 
na vossa sopa! Mães, ele sonha em acabar com a semelhança de vossas 
criancinhas  convosco,  com  o  sagrado  e  belíssimo  ar  da  família.  Ele 
irrompe  em  vossos  espaços,  anda  pelos  móveis  como  um  rato,  se 
infiltra  sob  os  leitos,  sob  a  pele  dos  animais,  sob  os  pelos  de  vossas 
axilas.  Mandai‐o  ao  diabo!  [...]  Eis  um  travesseiro.  Eu  sou  o  rei  dos 
travesseiros.  Diga  a  ele:  queremos  dormir  cada  um  com  seu  próprio 
travesseiro.  Não  tocai  em  nossos  travesseiros.  Sobre  este  travesseiro 
repousamos  nossa  cabeça  ainda  sem  cabelos,  coberta  de  lanugem 
avermelhada  como  aquela  dos  pintainhos;  sobre  ele  caíram  os  nossos 
beijos  nas  noites  de  amor,  sobre  ele  morreremos  e  sobre  ele  morrerão 
aqueles  que  mataram.  Não  toquem  em  nossos  travesseiros!  Não 
chamem!  Não  seduzam!  Não  tentem!  Que  coisa  se  pode  oferecer  em 
troca de nossa capacidade de amar, de odiar, de esperar, de chorar, de 
compadecer‐se  e  de  perdoar?  [...]  Eis  o  travesseiro.  A  nossa  arma.  O 
nosso  estandarte.  Eis  o  travesseiro.  As  bolas  [de  bilhar]  aqui  se 
emaranharam. O travesseiro, nós te estraçalhamos...13 
 
Os  leitores  notarão  facilmente  que  não  obstante  o  tratamento 
externamente  diferente  do  mesmo  tema,  a  enunciação  de  Nikolai 
Kavalerov  e  de  Ivan  Babitchev  não  se  distinguem  minimante  na 
substância, porque refletem a ideologia do mesmo grupo social, aquele 
da  intelligentsia  pequeno‐burguês  decadente,  desclassificada,  uma 
ideologia  hostil  à  Andrei  Babitchev.  Por  isso  tudo,  o  conjunto  de 
palavras que movem em torno do centro temático, a cozinha doméstica, 
nos lábios de Andrei Babitchev será inevitavelmente permeado por uma 
entonação  que  exprime  seu  desprezo  e  sua  aversão  por  esta  ideologia 
(ainda mais uma vez, não pelas palavras como fenômenos gramaticais, 
mas pela realidade que elas refletem). 
Em  conclusão,  propomos  ao  leitor  fazer  a  seguinte  experiência, 
extremamente útil para criar uma atitude de análise estilística. 

                                                            
13  Op. cit., p. 104.  

204  
Procure  estabelecer  qual  ideologia  de  classe  está  na  base  das 
enunciações citadas a seguir e ligadas ao 9 de janeiro14. Cada uma destas 
enunciações  é  expressão  de  um  agrupamento  de  classe  específico,  cuja 
ideologia condicionou não só a diferença na maneira de ver um mesmo 
acontecimento, mas também a diferença da estrutura estilística. 
Em  um  dos  próximos  números  examinaremos  a  resposta  mais 
característica para a análise por nós proposta15.  
 
Trecho 1 
 
Majestade!  Nós,  trabalhadores  e  habitantes  da  cidade  de  São 
Petersburgo, de diversas categorias, as nossas mulheres e nossos filhos 
e os nossos velhos e débeis pais, vimos a ti, Majestade, buscar verdade 
e defesa. 
Nós  somos  pobres,  nós  colhemos  os  frutos  da  terra,  nós  nos 
sobrecarregamos  com  um  trabalho  superior  às  nossas  forças,  nós 
somos  ultrajados  e  não  somos  considerados  como  pessoas  e  somos 
tratados  como  escravos  que  devem  suportar  seu  amargo  destino  e 
calar. 
Nós  suportamos,  mas  somos  empurrados  cada  vez  mais  para  o 
sorvedouro  da  miséria,  da  falta  de  direitos  e  da  ignorância;  o 
despotismo e o arbítrio nos oprimem e nós sufocamos. Não temos mais 
força,  Majestade.  A  nossa  paciência  está  próxima  do  limite.  Chegou 
para nós aquele terrível momento em que é preferível antes a morte do 
que continuar a sofrer dores insuportáveis. 
Por isso abandonamos o nosso trabalho e avisamos a nossos patrões 
que  não  retornaremos  ao  trabalho  enquanto  eles  não  atenderem  a 
nosso  pedido.  Não  pedimos  muito,  desejamos  somente  aquele  pouco 
que quando falta faz da vida um eterno tormento, uma condenação ao 
trabalho forçado. 
                                                            
14  Em  1905,  em  Petersburgo,  ocorrem  gravíssimas  greves  operárias  provocadas  pelo 
descontentamento  geral  devido  a  numerosas  causas  concomitantes,  entre  as  quais  o 
desastroso  andamento  da  guerra  contra  o  Japão.  Em  9  de  janeiro  houve  um  dos 
episódios mais graves deste período histórico, o considerado “Domingo de Sangue”, 
durante  o  qual  o  exército  czarista  oprimiu  uma  imponente  manifestação  pacífica, 
precedida pelo padre Gapon, provocando numerosas mortes e feridos e exasperando 
a tensão social já gravíssima. [Nota da tradutora italiana Rita Bruzzese] 
15  [N.T.] Até onde sabemos, não houve um ensaio publicado posteriormente que tenha 

retomado o exercício aqui proposto.   

  205 
Tudo  isto,  segundo  os  nossos  patrões  e  a  administração  da  fábrica, 
parece ilegal, todos nossos rogos parecem um delito e nosso desejo de 
melhorar a nossa situação parece um ato de insolência, ultrajoso para 
eles. 
Majestade, nós somos muitos milhares e somos todos homens não só 
porque  dos  homens  temos  o  aspecto,  a  exterioridade,  no  entanto  na 
realidade  para  nós,  como  para  todo  o  povo  russo,  não  é  reconhecido 
qualquer  direito  humano,  nem  o  direito  de  falar,  de  pensar,  de  se 
reunir, de discutir nossas necessidades, tomar medidas para melhorar 
a nossa situação. 
Nós  fomos  reduzidos  à  escravidão  e  o  fizeram  com  a  proteção  de 
teus  funcionários,  com  a  sua  ajuda,  com  a  sua  colaboração.  Qualquer 
um de nós que tivesse ousado levantar a voz em defesa dos direitos da 
classe  trabalhadora  e  do  povo  teria  sido  atirado  nas  prisões  ou 
mandado para o exílio. Somos punidos, como por um delito, por nosso 
bom  coração,  por  termos  um  ânimo  compreensivo...  Ter  piedade  por 
um homem oprimido, privado de direitos, torturado, significa praticar 
um grave delito. 
Todo  povo,  trabalhadores  ou  camponeses,  estamos  à  mercê  da 
administração  dos  funcionários,  composta  por  prevaricadores  e 
assaltantes que só não se interessam, de fato, pelos interesses do povo, 
mas ao contrário o maltratam. A administração dos funcionários levou 
a nação à ruína completa, enredada numa guerra vergonhosa que leva 
a  Rússia  cada  vez  mais  à  ruína.  Nós,  trabalhadores  e  população,  não 
temos nenhuma voz no assunto e a nós concerne o custo das pesadas 
taxas  que  de  nós  exigem.  Não  sabemos  tampouco  onde  vai  parar  o 
dinheiro  recolhido  entre  a  população  miserável.  O  povo  não  tem 
direito  de  exprimir  seus  desejos,  as  suas  exigências,  de  participar  da 
criação  dos  impostos  e  da  decisão  de  seu  investimento.  Os 
trabalhadores  estão  proibidos  de  organizar‐se  em  associações  para  a 
defesa de seus próprios interesses.  
Majestade! Estaria isto de acordo com as leis divinas graças às quais 
tu  reinas?  É  possível  viver  com  estas  leis?  Não  é.  Talvez  seja  melhor 
morrer,  morte  para  todos  nós  trabalhadores  da  Rússia?  Deixemos, 
então,  que  vivam  e  gozem  os  capitalistas,  exploradores  da  classe 
trabalhadora e os funcionários, corruptos e assaltantes do povo russo. 
Olhe  para  nossa  súplica  sem  ira,  com  atenção;  não  dirigimos  nossa 
súplica  para  fazer  mal,  nem  a  nós,  nem  a  ti,  Majestade.  Não  é  a 
insolência  que  fala  em  nós,  mas  a  consciência  da  necessidade  de 
encontrar  uma  saída  para  uma  situação  insustentável.  A  Rússia  é 

206  
muito grande, as suas exigências muito numerosas e variadas para que 
só os funcionários possam governá‐la. É necessária uma representação 
(popular),  é  necessário  que  o  próprio  povo  se  ajude  e  se  governe.  De 
fato, somente o povo conhece suas reais necessidades. Não recuse a sua 
ajuda,  aceita‐o,  ordene  logo,  agora  mesmo,  chamar  os  representantes 
de  toda  Rússia,  de  todas  classes,  de  todas  condições,  representantes 
também  dos  trabalhadores.  Deixa  que  o  capitalista,  o  trabalhador,  o 
funcionário, o clérigo, o doutor, o professor, deixa que todos, qualquer 
que  seja  sua  condição,  escolham  seus  próprios  representantes.  Faze 
com que cada um seja igual e livre no direito ao voto: para fazer isso, 
ordena  que  as  eleições  para  a  Assembleia  Constituinte  ocorram  com 
uma votação universal, secreta e paritária. 
Este é nosso pedido mais importante; sobre ela tudo se baseia; este é 
o  curativo  essencial,  único  para  nossa  dolorosa  ferida,  sem  ela  nossa 
ferida muito sangrará e logo nos levará à morte. 
 
Trecho 2 
 
O  tranquilo  desenvolvimento  da  vida  social  de  S.  Petersburgo  foi 
rompido  nos  últimos  dias  pela  interrupção  do  trabalho  nas  fábricas  e 
oficinas. Deixando de lado suas próprias ocupações com claro prejuízo 
para si e para os próprios patrões, os trabalhadores apresentaram uma 
série de exigências que mexem com as relações correntes entre eles e os 
industrialistas. Deste movimento nascente se aproveitaram indivíduos 
mal intencionados que escolheram os trabalhadores como instrumento 
para  a  execução  de  sua  trama  e  atraíram  os  trabalhadores  para  um 
caminho  falso  com  promessas  enganosas  e  irrealizáveis.  Como 
consequência  desta  propaganda  criminosa,  praticaram  inumeráveis 
infrações da ordem na capital e a intervenção, inevitável nestes casos, 
das forças armadas. 
Estes  fenômenos  são  profundamente  lamentáveis.  Provocando  a 
revolta, estes indivíduos mal intencionados não se detiveram diante da 
dificuldade por que passa nosso país, suportando o período presente. 
Em  suas  mãos,  o  povo  trabalhador  das  fábricas  e  oficinas  de 
Petersburgo tornou‐se um forte instrumento sem se dar conta de que, 
em  nome  dos  operários,  eles  avançaram  reivindicações  que  com  a 
necessidade dos operários nada têm a ver. 
Ao  apresentarem  estas  reivindicações  e  ao  interromperem  suas 
ocupações  habituais,  os  trabalhadores  das  fábricas  e  das  oficinas  de 
Petersburgo  esqueceram  também  que  o  governo  está  sempre 

  207 
diligentemente  preocupado  com  suas  necessidades,  assim  como 
continua  agora  e  está  pronto  para  escutar  atentamente  seus  justos 
desejos e a satisfazê‐los na medida das possibilidades. Mas para isso, o 
governo  precisa  acima  de  tudo  que  se  restabeleça  a  ordem  e  que  os 
trabalhadores  retomem  suas  tarefas  habituais.  Num  momento  de 
agitação, é impensável que se possa desenvolver uma atividade serena 
e benévola do governo para o bem dos trabalhadores. A satisfação de 
seus pedidos, por mais justos que possam ser, não pode ser conseguida 
pela desordem e pela teimosia. 
Os  trabalhadores  devem  atenuar  o  fardo  que  recai  sobre  o  governo 
de  melhorar  a  sua  maneira  de  viver  e  podem  fazê‐lo  só  de  uma 
maneira:  distanciando‐se  daqueles  que  necessitam  da  confusão  para 
tirarem vantagens, daqueles a quem são estranhos os vários interesses 
da  pátria  e  que  agitam  bandeiras  e  propostas  como  pretextos  para 
provocar desordem, com os quais os trabalhadores não compartilham 
nenhum  interesse  comum.  Eles  devem  retornar  ao  seu  trabalho 
habitual, que é necessário tanto para o Estado quanto para os próprios 
trabalhadores,  porque  sem  ele  condenam  à  miséria a  si  mesmos,  suas 
próprias  mulheres  e  filhos.  E,  retornando  ao  trabalho,  sabe  o  povo 
trabalhador  que  suas  necessidades  estão  junto  ao  coração  de  Sua 
Majestade, o Imperador, assim como as necessidades de todos os seus 
fiéis  súditos;  que  Sua  Majestade  recentemente  dignou‐se  ordenar,  de 
sua  espontânea  vontade,  que  se  preparasse  o  exame  do  problema  do 
seguro  social  dos  trabalhadores,  que  tem  por  objetivo  garanti‐lo  nos 
casos  de  mutilação  ou  enfermidade;  que  as  preocupações  de  Sua 
Majestade,  o  Imperador,  com  o  bem‐estar  dos  trabalhadores  não  se 
esgotou nesta medida e que, simultaneamente a isto, por licença de Sua 
Majestade, o Imperador, o ministro das finanças está por examinar a lei 
para  posterior  redução  do  tempo  de  trabalho  e  esta  medida  dará  ao 
povo  trabalhador  meios  legais  para  discutir  e  propor  suas  próprias 
necessidades. 
Saibam, além disso, os trabalhadores das fábricas, das oficinas e dos 
outros  complexos  industriais  que,  retornando  ao  trabalho,  poderão 
contar com a defesa, por parte do governo, da inviolabilidade de cada 
um,  de  sua  família  e  do  seu  lar.  O  governo  defenderá  a  vontade  de 
trabalhar  do  atentado  delituoso  à  liberdade  de  trabalho,  obra  de 
indivíduos mal intencionados que em alta voz proclamam a liberdade 
de trabalhar, mas que pretendem esta liberdade como um direito que 
não funcione, por meio da violência contra os próprios companheiros 
que estão prontos a retomar pacificamente o seu trabalho. 

208  
Trecho 3 
 
Os  trabalhadores  das  fábricas  e  das  oficinas  de  Petersburgo 
decidiram  encaminhar  ao  czar  súplica  de  defesa  e  ajuda,  para  si 
próprios e para todo o povo. 
Os  trabalhadores  de  Petersburgo  não  são  camponeses  que  recém 
saíram  das  vilas  e  chegaram  à  cidade  em  busca  de  um  trabalho 
temporário.  Nem  por  isto,  em  sua  súplica  ao  czar,  os  trabalhadores 
esqueceram a miséria e a necessidade campesina. 
Para si próprios, os trabalhadores pediram defesa contra os próprios 
patrões e direções das fábricas, a fim de que nas fábricas e oficinas não 
se  roube,  atormente  e  humilhe  o  povo  trabalhador.  Para  todos  os 
campesinos,  os  trabalhadores  pediram  que  fossem  diminuídos  e 
distribuídos com justiça os tributos, que fosse dada terra ao povo, que 
diante  da  lei  fossem  todos  iguais,  nobres  e  camponeses,  que  se 
defendesse o povo contra os chefes dos zemstvo16 e de outros funcionários. 
Os trabalhadores acreditavam que o czar quisesse o bem do povo e 
que  os  funcionários  opunham  obstáculos.  Destes  derivava  toda  a 
calamidade  do  povo  e  todas  as  desordens  no  estado.  Os  funcionários 
formam  um  grupo  que  separa  o  czar  do  povo,  oprimem  o  povo, 
sugerem ao czar ordens injustas, leis ruins. Por isto, a principal súplica 
dos trabalhadores era: 
Que  o  czar  não  consultasse  somente  os  funcionários  sobre  a 
necessidade  do  povo  nas  questões  de  estado  e  que  chamasse 
representantes eleitos de todas os estratos sociais e que perguntasse ao 
povo que coisas desejava e quais eram suas necessidades. 
Às  seis  da  manhã  de  9  de  janeiro  de  todas  as  partes  da  cidade  se 
moveu enorme massa de trabalhadores até o palácio imperial. 
Caminhavam  em  ordem,  calmos,  em  silêncio,  com  solenidade. 
Caminhavam velhos, mulheres, crianças. 
Na fábrica Putilovski os trabalhadores, antes de partirem, entoaram 
o Te Deum em honra do czar e se moveram até o palácio imperial em 
procissão, com o clero, os estandartes, os ícones. Na frente do cortejo, 
levavam  o  retrato  do  czar.  E  o  czar  de  encontro  aos  trabalhadores 
mandou a tropa e ordenou a dispersão dos trabalhadores com armas. 
                                                            
16  O zemstvo, inicialmente órgão administrativo rural, no período crucial que precede a 

revolução de outubro, tornou‐se um órgão administrativo centralizado que se ocupa 
de  todos  os  negócios  econômicos  de  cada  distrito.  [Nota  da  tradutora  italiana  Rita 
Bruzzese] 

  209 
A infantaria e a cavalaria atacaram o povo desarmado, dispararam os 
fuzis, feriram, atropelaram com os cavalos. 
As mulheres avançavam na frente, dispararam contra elas. Os velhos 
de joelhos pediam em coro a presença do czar, atiraram também contra 
eles. 
Atiraram  contra  a  procissão,  seus  padres,  sobre  os  ícones.  As  balas 
furaram também o retrato do czar. 
Pelos longos muros do palácio, onde o povo vinha “buscar verdade e 
defesa”, as cornetas soavam os sinais de ataque, estouravam as rajadas 
dos fuzis, cintilavam as espadas.  
E  as  pessoas,  que  veneravam  seu  czar  “como  a  um  pai”,  corriam 
tropeçando nos cadáveres e atrás delas zuniam as balas. 
Assim, o czar acolhe as súplicas dos trabalhadores. 
Os  trabalhadores  não  atacaram  antes,  não  começaram  nenhuma 
revolta. Os ferozes comandantes, com injúrias e ameaças, obrigaram os 
soldados a atacarem a multidão pacífica e desarmada. 
Os  soldados  não  sabiam  de  que  se  tratava.  O  comando  havia  dito 
que  os  operários  estavam  incitando  à  revolta  os  inimigos  internos,  os 
traidores, os amigos dos japoneses. 
Mas  ao  verem  aquela  pacífica  multidão  de  trabalhadores,  os 
soldados  duvidaram,  despertaram‐se  suas  consciências.  Sobretudo  no 
início, foi evidente que os soldados agiam forçados e contra a vontade: 
alguns  se  moviam  com  lágrimas  nos  olhos.  Na  infantaria,  alguns 
disparavam para o alto ou para o chão. Até entre os cossacos alguns só 
simulavam agitar as espadas. 
No  entanto,  muitos  soldados,  enganados  pelo  comando, 
aterrorizados  pela  disciplina  militar,  derramaram  o  sangue  de  seus 
próprios irmãos... Depois dos tiros de fuzis, também os trabalhadores 
se  enfureceram.  Começaram  a  procurar  armas,  jogaram  pedras  nos 
policiais,  arranjaram  de  uma  fábrica  lâminas  de  espadas  ainda  não 
prontas, não afiadas e sem empunhadura. Era uma arma miserável... e 
com ela os trabalhadores avançaram com ostentação contra o exército. 
Ao fim da jornada, também os soldados se enfureceram. 
E  nas  ruas  da  capital  russa,  russos  se  bateram  e  se  mataram,  como 
inimigos, como feras selvagens. Quantas pessoas morreram ninguém o 
sabe.  O  governo  anunciou  130  mortes,  mas  ninguém  acredita  no 
governo. 
O  governo  quer  jogar  a  culpa  sobre  os  trabalhadores.  Foi  ordenado 
estampar  em  seus  jornais  que  os  trabalhadores,  enganados  por 
traidores  e  delinquentes,  tinham  assinado  uma  petição  ousada,  sem 

210  
saber  o  que  nela  estava  escrito  e  que  era  um  movimento  de  uma 
multidão  revoltada,  que  eram  rebeldes,  estavam  atacando  o  exército. 
Foram afixados avisos segundo os quais os trabalhadores tinham sido 
comprados pelos ingleses e pelos japoneses. Esta invenção foi repetida 
ao povo pelos padres por ordem dos metropolitanos do sínodo. 
Mas agora até o povo menor pouco crê nesta invenção. 
Em  Petersburgo,  a  coisa  parece  clara  aos  olhos  de  todos.  Não  era 
nenhum  estrangeiro  agitador,  eram  os  honrados  homens  russos  que 
não  pensavam  em  outra  coisa  que  não  as  necessidades  quotidianas 
fundamentais  do  povo  russo,  claras  para  todos.  A  petição  era  lida  e 
examinada  pelos  trabalhadores  em  reuniões:  dezenas  de  milhares  de 
pessoas  ouviram,  meditaram,  melhoraram  esta  petição  e  a 
subscreveram de plena consciência; os trabalhadores não se rebelaram, 
mesmo  quando  dispararam  sobre  eles;  os  trabalhadores  foram 
subitamente  parados  quando  uma  multidão  de  arruaceiros  e 
vagabundos começou a saquear as lojas e magazines. 
A  fábula  do  pagamento  inglês  de  fato  só  piorou  a  imagem  do 
governo.  O  governo  inglês  anunciou  que  isto  é  uma  mentira  e  o 
governo  russo  teve  que  apresentar  pedido  de  desculpas  e  retirar  os 
avisos. 
Sobre  os  cadáveres  dos  companheiros  mortos,  os  trabalhadores 
juraram  que  jamais  esqueceriam  este  dia,  que  jamais  perdoariam  o 
governo por esta matança. 
Os  trabalhadores  chamam  o  czar  de  assassino,  traidor  dos 
trabalhadores.  Não  esperam  nada  e  nada  pedem  ao  czar.  Aquilo  que 
antes pediam, agora obterão pela força. 
Ninguém  quer  mais  contar  com  o  czar  e  seus  funcionários.  Eles  só 
sabem  destruir  e  confundir  todos  os  negócios  do  estado  russo,  quer 
internos, quer externos. Nos assuntos externos, chegaram à guerra, não 
souberam  conduzir  nem  concluir  a  guerra.  Nos  assuntos  internos, 
falaram  e  prometeram  ao  povo  todo  bem  de  Deus,  mas  na  realidade 
lhe trouxeram a ruína e perseguiram os trabalhadores, os camponeses, 
os estudantes. 
Somente os eleitos pelo povo querem e podem ajudar o povo. 
Os eleitos pelo povo russo concluirão com uma paz justa, em acordo 
com  os  eleitos  pelo  povo  japonês,  uma  guerra  destrutiva  e  fatal  para 
ambos os povos. 
E  no  estado  russo  os  eleitos  pelo  povo  farão  cessar  as  desordens 
internas,  farão  leis  justas,  darão  ao  povo  uma  defesa  contra  a 
autoridade  e  os  ricos;  distribuirão  mais  equitativamente  os  tributos, 

  211 
interromperão  a  rapina  do  tesouro  estatal  do  dinheiro  banhado  de 
sangue e suor do povo russo. 
Somente se se convocar imediatamente um governo eleito pelo povo 
se  poderá  dar  à  Rússia  paz  e  tranquilidade  e  abrir  para  o  povo  o 
caminho da luz, da liberdade e da felicidade.     
    
   

212  
SOBRE AS FRONTEIRAS ENTRE POÉTICA E LINGUÍSTICA1 
 
 
Para N.V. Jakovlev 
 
Tandem desine matrem 
Tempestiva sequi viro (Horácio)2 
 
 

 
Especificar os limites que separam a poética da linguística é um dos 
principais problemas para a ciência da literatura marxista: enquanto se 
confundirem  de  modo  acrítico  e  cientificamente  não  fundamentado  as 
categorias  artísticas  com  as  linguísticas,  permitindo  assim  que  o 
psicologismo  e  o  positivismo  se  infiltrem  na  poética,  será  impossível 
fundar uma teoria da literatura científica (marxista). 
O  triste  resultado  da  confusão  dessas  categorias  é  evidente,  em 
primeiro lugar, no interior da própria linguística. 
O desejo de criar uma síntese entre gramática e estilística, o medo de 
uma  progressiva  diferenciação  entre  a  ciência,  que  levará  ao 
enfraquecimento  dos  “laços  entre  a  ciência  da  língua  e  a  ciência  da 
literatura” que já não “estavam mais tão estreitos assim”3, leva Vossler e 
seus  discípulos  a  “produzir  uma  ponte  entre  ciência  da  literatura  e 

                                                            
1   [N.T.]  Embora  esta  tradução  siga  o  texto  italiano  que  aparece  no  livro  Il  Linguagio 
como Pratica Sociale, como de resto os demais textos traduzidos do italiano, no título 
deste  ensaio  preferimos  o  novo  título  que  aparece  no  livro  Che  cos’é  il  linguagio,  por 
ser  mais  adequado  ao  título  original  em  russo  O  granitsach  poetiki  i  lingvistiki.  (Cf.  a 
introdução a este volume). Infelizmente, como anotam os editores do original russo, 
“por causas técnicas o ensaio é publicado com abreviações”. 
2   [N.T.]  Tradução  de  Valdemir  Miotello:  ʺAté  quando  vais  seguir  a  mãe./É  mais 

garantido seguir um homemʺ.  
3   Hans  Sperber,  “Motiv  und  Wort  bei  Gustav  Meyrink”  (Motiv  und  Wotstudien  zur 

Literatur  und  Sprachpsychologie,  1918,  p.7).  Ver  também  L.  Spitzer  “Slovesnoe 
iskusstvo i nauka o jazyke” in. Problemy literaturnoj formy, Academia, 1928, p. 192 [“A 
arte verbal e a ciência da linguagem” na coletânea Problemas da forma literária]. 

  213 
 
linguística”4:  mas  essa  “ponte”  destruiu  as  fronteiras  metodológicas 
correntes entre as duas disciplinas. Da luta contra a metafísica positivista, 
que  pretendia  não  só  identificar  e  estudar  os  fatos,  mas  também 
resolver  os  problemas  de  seu  conteúdo  “espiritual”,  resultou  a 
vizinhança da metafísica com o idealismo: já em Benedeto Croce a língua 
vinha  privada  da  posição  de  autonomia  que  gozava  em  Humboldt,  e 
reduzida à sua função estética geral de expressão5. A língua passa assim 
a fazer parte de um sistema filosófico geral, em que o elemento central é 
a  estética:  o  perigo  de  tal  inclusão  consiste  no  fato  de  que,  devendo 
identificar‐se com um dos elementos desse sistema, a língua passa a ser 
identificada de fato com a estética como ciência geral da expressão: “... a 
difícil  ciência  da  linguística,  Linguística  Geral,  naquilo  que  tem  de 
redutível  à  ciência,  não  é  se  não  a  Estética.  Aquilo  de  que  se  ocupa  a 
Linguística  Geral,  ou  seja,  a  linguística  científica,  são  problemas 
estéticos de que se ocupa a Estética e vice‐versa”. [...] A ciência da arte e 
a ciência da linguagem [...] são uma única ciência”. 
A  este  princípio  responde  plenamente  a  definição  fundamental  de 
Karl Vossler: “Se é legitimamente fundada a definição da língua como 
expressão  espiritual,  então  a  história  do  desenvolvimento  linguístico 
não pode ser outro que a história das formas espirituais de expressão e, 
portanto,  história  da  arte  na  acepção  ampla  da  palavra”6.  Um  discípulo 
de Vossler, L. Spitzer, parafraseando a fórmula de Locke: “Nihil est in 
intellectu, quod non fuerit in sensu”, leva ao paradoxo este ponto vista, 
afirmando “Nihil est in syntaxi, quod non fuerit in stylo”7. 
Esta  desmedida  valorização  do  momento  artístico  na  língua,  uma 
primazia  tão  dogmática  do  estilo  sobre  o  linguístico,  é  naturalmente 
inaceitável,  seja  para  a  ciência  da  literatura,  seja  pela  linguística 
marxista:  o  subjetivismo  individualista,  terminada  sua  tarefa  histórica 
(aquela  de  lutar  contra  o  positivismo  e  chamar  a  atenção  para  o  papel 
                                                            
4  L.  Spitzer.  Die  groteske  Gestaltungs  und  Sprachkunst  Christian  Morgensterns  (idem,  p. 
94). 
5   B.  Croce,  Estética  come  scienza  dell’espressione  e  linguística  generale,  Milão,  Sandron, 

1902, p. 143 e seguintes. [V. N. Voloshinov cita a tradução russa, Moscou, 1920 – nota 
da tradutora italiana Nicoletta Marcialis].  
6   K. Vossler. Positivismus und Idealismus in der Sprachwissenschaft, 1904, p. 10. 

7   Problemy Literaturnoj formy, Academia, 1928, p. 208 

214    
criativo  da  enunciação  isolada),  deve  ceder  o  passo,  na  ciência  sobre  a 
língua, às orientações sociológicas marxistas. 
Mas se a esteticização da linguística operada pela escola de Vossler  
abriu caminho para uma onda de psicologismo em todos os elementos 
estabelecidos  e  objetivamente  sociológicos  da  língua,  não  menos 
aceitável é o fenômeno oposto: a gramaticalização de todas as categorias 
teórico‐poéticas, que levou ao fetichismo positivista dos dados empíricos da 
obra literária. 
Fascinados  pelo  fato  de  que  a  poesia  consiste  de  material  verbal, 
alguns  pesquisadores  elaboraram  o  conceito  de  “linguagem  poética”  e 
adotaram em seus estudos os instrumentos que foram elaborados para a 
análise  dos  fenômenos  da  língua  positiva:  a  metodologia  linguístico‐
formal tornou‐se dominante na escola dos “formalistas”. 
Devemos  interromper,  por  um  tempo,  todos  os  problemas  de 
fronteiras  de  estudos  deixados  pelo  método  estético  na  linguística; 
também  todos  aqueles  problemas  legados  pelas  afirmações  sobre  a 
esfera de competência do método linguístico na poética, pois devemos 
nos limitar à análise crítica das posições metodológicas gerais de um só 
autor, que seja o representante mais característico do método linguístico 
formal na poética. 
Ninguém  pensa,  obviamente,  em  opor‐se  à  afirmação  segundo  a 
qual  o  estudo  da  arte  verbal  necessita  do  aporte  de  uma  ciência  da 
palavra, isto é, da linguística. 
É  evidente  que  sem  o  conhecimento  da  gramática  captaremos  bem 
pouco sobre a construção sintática de uma obra poética. Mas nenhuma 
gramática  dirá  que  função  teria  uma  determinada  construção  sintática 
na estrutura estética de qualquer obra: qual seria, por exemplo, a função 
do  discurso  indireto  livre  na  enunciação  dos  heróis  de  Pushkin  ou  de 
Dostoiévski (Mazepa, Príncipe Myshkin etc)8. 

                                                            
8   Sobre  este  ponto  de  vista,  coloquemos  ao  corrente  (ainda  que  sem  esgotar  o 
problema)  a  posição  de  G.  Vinokur:  “Decompor  corretamente  a  estrutura  poética 
significa  na  prática  resolver  o  problema  do  objeto  da  poética:  a  poética  pode 
interpretar a seu modo uma parte singular desta estrutura – não nos ocupemos com 
isso por enquanto – mas isso não pode ser feito sondando‐a e buscando‐a somente como 
linguista”.  (G.  Vinokur,  Kul’tura  jazyla  [Cultura  da  Língua],  Moscou,  1925,  p.  167  
(grifos do autor). 

  215 
 
É  esta  a  verdade  indiscutível,  o  truísmo  que  os  formalistas  se 
recusaram  obstinadamente  a  reconhecer.  Continuaram  a  querer  captar 
com métodos linguísticos o pássaro azul: o objeto estético ‐ e continuaram a 
ter  entre  suas  mãos  uma  mísera  larva:  o  cinza,  a  incolor  “soma  dos 
procedimentos”  da  produção  empírica  de  uma  coisa.  Este  misterioso 
pássaro azul não foi encontrado nem por um dos pesquisadores mais sutil 
e  prudente,  o  linguista‐cientista  da  literatura  par  excellence  V.  V. 
Vinogradov. 
A  posição  linguística  geral  de  V.  V.  Vinogradov  é  muito  próxima 
daquela  orientação  que  em  outro  trabalho  definimos  como  objetivismo 
abstrato9. 
Ele  próprio  alude  a  esta  ligação  quando  toma  emprestado  de  Albert 
Séchehaye  o  termo  “símbolo”,  e  dele  aceita  incondicionalmente  a 
definição10. Além disso, dele fala V. M. Jirmunsky, ainda que rapidamente, 
no ensaio Zadaci poetiki11; P. N. Medvedev aponta a influência da “escola de 
Genebra”  sobre  V.  V.  Vinogradov  no  seu  livro  Formal’nyj  metod  v 
literaturovendenii [O método formal nos estudos literários]12. 
Não  parece  de  todo  verdadeira  e  convincente  a  conclusão  a  que 
chega Medvedev, segundo o qual as influências dos linguistas franceses 
não  determinaram  a  base  da  poética  formalista:  certo,  se  se  quiser 
limitar  o  método  formal  a  seu  primeiro  período  (1914‐1918,  segundo  a 
subdivisão  cronológica  precisa  de  P.  N.  Medvedev);  é  evidente  que  as 
declarações  futuristas  de  V.  B.  Sklovski  nada  têm  em  comum  com  o 
pensamento linguístico sério e plenamente responsável de Saussure, de 
Bally  etc.  Este  híbrido  original,  meio  literato  e  meio  cientista,  movido 
por  interesses  estritamente  programáticos,  e  não  de  fato  por  pesquisa, 
somente  chamou  atenção  para  difíceis  problemas,  sem  ter,  no  entanto, 
                                                            
9   V. N. Volochínov, Marxismo e Filosofia da Linguagem, São Paulo: Hucitec, 1982, p. 77 e 
segs. (Volochínov cita a edição russa, Leningrado, 1929, p. 58 e segs.) 
10  Ver  o  ensaio  de  V.  V.  Vinogradov  “O  zadacach  stilistiki”  [Competências  da 

Estilística] na coletânea Russkaja rec, I, 1923, aos cuidados de L. Scerba, pp. 196‐197 e 
205. Na maior parte dos trabalhos de Vinogradov, encontramos remessas a Saussure, 
Séchehaye e outros representantes da “escola de Genebra”. 
11  Na  coletânea  Zadaci  i  metody  izucenija  iskusstv  [Competências  e  métodos  do  estudo  da 

arte], Academia, 1914, p. 146. 
12  Leningrado,  1928,  p.  75  e  seguintes.  [N.T.]  Na  edição  brasileira  do  Método  Formal 

nos Estudos Literários, 2012, p.118 e seguintes.  

216    
forças  não  só  para  resolvê‐los,  mas  também  para  colocá‐los 
corretamente.  A  irrupção  organizada  da  ciência  literária  teórica, 
proporcionada  pelos  fascinantes  e  pouco  conhecidos  confrades 
“formalistas”,  ocorrerá  mais  tarde,  graças  aos  trabalhos  de  V.  V. 
Vinogradov,  V.  M.  Jirmunski  e  outros  representantes  do  método 
formal13:  estes  se  esforçaram  para  contrapor  a  uma  aventura 
metodológica  sem  princípios  uma  direção  mais  objetiva  para  a 
pesquisa. Neste momento se realizou, como muito justamente notou P. 
N. Medvedev14, a penetração do método linguístico na poética, por obra 
principalmente de V.V. Vinogradov. 
Colocando‐nos  no  ponto  de  vista  da  ciência  da  literatura  marxista, 
retenhamos que o primado da linguística sobre a poética no estudo de 
uma obra de arte verbal soa profundamente errôneo: é óbvio que para 
os  fins  da  linguística  qualquer  que  seja  a  obra  literária  pode  e  deve 
funcionar  como  material  de  estudo,  mas  para  os  fins  da  poética  uma 
aproximação  filológica  tal  como  aquela  de  V.  V.  Vinogradov  é 
simplesmente  desastrosa.  Este  pecado  metodológico  foi  agravado  pelo 
fato de que a base linguística sobre a qual se funda V. V. Vinogradov é 
atravessada  de  cima  a  baixo  pelas  influências  do  pensamento  indo‐
europeu,  hoje  em  dia  profundamente  reacionário,  na  sua  versão  mais 
formalista (Saussure e sua escola). 
Nossa  tarefa  é  iluminar  este  duplo  erro  de  V.  V.  Vinogradov  e 
indicar,  ainda  que  de  forma  preliminar  e  incompleta,  o  caminho  para 
uma solução marxista de alguns problemas da estilística. 
 
II 
 
Todos  os  textos  de  V.  V.  Vinogradov  publicados  de  1920  até  hoje, 
com  exclusão  do  ensaio  O  zadacach  stilistiki15,  do  livro  Poezija  Anny 

                                                            
13  Devemos  sublinhar,  para  evitar  equívocos,  a  posição  asperamente  crítica  de  V. 
Vinogradov  nos  confrontos  dos  “formalistas”.  O  pathos  subjetivo  da  distância  não 
autoriza, porém, a afirmar um afastamento e uma independência objetivos.  
14  P. N. Medvedev, op. cit, p. 118 e 119 (ed. brasileira) e 93 (ed. russa)   
15
  Na recolha Russkaja rec, I, 1929, p. 195‐293; O zadacach stilistiki. Nabjudenija nad stilem 
“Zitija  protopopa  Avvakuma”  [Competências  da  estilística.  Observações  sobre  o  estilo  de 
“Vida do protopapa Avvakum”] 

  217 
 
Achmatovoj16  e  de  poucos  outros  trabalhos,  estão  reunidos  na  recolha 
Evolucija  russkogo  naturalisma  (Gogol’  i  Dostoevskij),  editada  em 
Leningrado  em  192917.  Na  apresentação  desta  coletânea,  V.  V. 
Vinogradov  dá  uma  definição  extremamente  característica  da 
orientação  da  sua  pesquisa:  “estes  [ensaios]  representam  só  uma  parte 
do  difícil  caminho  percorrido  por  um  linguista,  forçado  pelo 
desenvolvimento  interno  da  sua  ciência  a  dirigir‐se  à  história  da 
literatura  em  busca  de  novo  material  para  o  estudo  dos  problemas  da 
palavra”18.  Caminho  difícil  que,  através  dos  ensaios  Naturalisticeskii 
grotesk19 (sobre o enredo e a composição de Naso, de Gógol) de 1920 e K 
morfologii  natural’nogo  stilja20  (ensaio  de  análise  linguística  do  poema 
peterburguês O Sósia), de 1921‐1922, foi definitivamente encerrado nas 
abordagens  e  práticas  de  análise  fundamentais  em  1923  (O  zadacach 
stilistiki). 
A partir de então, somente haverá refinamentos nos detalhes desta 
tendência  metodológica  que,  implicitamente,  já  estavam  presentes  nos 
trabalhos  por  nós  indicados.  Assim,  por  exemplo,  no  livro  de  1920 
Poezija  Anny  Achmatovoj  começa  a  precisar‐se  o  problema  da 
“linguagem poética”, baseado sobre o dualismo entre a “linguagem da 
obra literária” e a “linguagem poética”. Duas direções de pesquisa serão 
fortemente  acentuadas:  1)  “o  estudo  dos  sistemas  de  correlações  e 
ligações  entre  as  formas  discursivas”  e  2)  “o  estudo  da  estrutura”.  A 
tarefa da primeira diretriz é “aclarar e fundamentar a diferença entre os 
diversos tipos, diversos sistemas de composição discursiva na estrutura 
da obra de arte”; a tarefa da segunda é [caminhar] “do sentido unitário 
da obra de arte como ‘símbolo’ à semântica de sua ‘unidade simbólica’ 
                                                            
16  Stilisticeskie maboski.  Poezija  Anny  Achmatovoj  [Esboço  estilístico.  A  poesia  de  Anna 
Achmatowa], Leningrado, 1925.  
17  O presente trabalho já estava no prelo quando surgiu o livro de V.V.Vinogradov, O 

chudozestvennnoi  proze  [A  prosa  artística],  1930.  Não  foi  necessário,  entretanto,  fazer 
modificações  substanciais:  incluindo  no  livro  material  teórico  tratado  no  trabalho 
sobre  Avvakum  (de  1923),  o  autor  de  certo  modo  canonizou  seu  ponto  de  vista 
metodológico  precedente,  o  que  não  contradiz  o  quanto  de  novo  há  no  livro. 
Permanece plenamente o antisociologismo de V.V.Vinogradov.  
18  Evoliucija russkogo naturalizma [A evolução do naturalismo russo]. Academia, 1929, p. 5. 

19 Idem, p. 7‐88 

20  Ibidem, p. 206‐290 

218    
na  forma  complexa  de  sua  associação  estrutural”21.  Na  perspectiva 
metodológica  de  V.  V.  Vinogradov  não  ocorre  nenhuma  mudança 
significativa:  continuará  a  ser  dominante  o  aspecto  linguístico‐formal 
do objetivismo abstrato, de que o citado O zadacach stilistiki é a primeira 
e mais estável versão. 
Dada  a  particular  importância  deste  credo  metodológico  de  V.  V. 
Vinogradov  para  a  compreensão  de  todo  seu  percurso,  extremamente 
interessante  e  consequente,  convém  debruçar‐se  sobre  ele  com  a 
máxima atenção. 
Como configura V. V. Vinogradov as tarefas da estilística? 
Antes  de  tudo,  para  ele  é  indiscutível  a  tese  segundo  a  qual  “todo 
monumento literário é de competência do linguista”22. Este monumento 
representa  um  tipo  linguístico,  desenvolvido  (“organicamente”)  num 
determinado  ambiente  dialetológico  e  individualizado  com  limites 
cronológicos  precisos:  sua  característica  linguística  interessa  à 
linguística  somente  enquanto  “caracteriza  a  fala  de  um  grupo  social 
[cursivas  de  V.  V.  Vinogradov]  em  um  dado  momento  de  sua 
existência;  são  resíduos  cristalizados  de  um  dialeto  vivo.  Rompida  a 
psique individual do autor, a obra atrai para seu interior uma cadeia de 
fenômenos  linguísticos  homogêneos,  e  com  isto  expõe  o 
desenvolvimento da forma linguística”. Mas o trabalho do linguista não 
deve terminar nisso, porque o monumento em questão é somente “uma 
das  manifestações  da  criação  linguística  coletiva;  é  também  reflexo  da 
escolha individual e da transfiguração criativa dos meios linguísticos da 
própria  época  com  objetivos  de  construir  a  expressão  esteticamente 
eficaz de um circuito fechado de representações e emoções. A tarefa do 
linguista  é,  então,  “encontrar  na  escolha  das  palavras  e  na  sua 
organização  sintática  o  sistema  que  o  enlaça  a  uma  comunidade 
psicológica interna, e através deste sistema entrever o que está além da 
apresentação  estética  do  material  verbal”.  Nasce  assim  o  conceito  de 
estilo  poético  individual,  como  “sistema  que  cumpre  a  seleção  estético‐
criativa, fornece o sentido e dispõe os símbolos”.  

                                                            
21  “K  postroeniju  teorii  poeticeskogo  jazyka”  [Para  a  construção  de  uma  teoria  da 
linguagem poética], Petika, III, 1927. 
22  Na sequência, em O zadacach stilistiki, p. 195‐206 

  219 
 
O  estilo  individual  (“um  ‘dialeto’  sempre  autônomo”),  entretanto, 
destruindo as formas tradicionais da língua literária e transformando‐se 
em  objeto  de  imitação,  torna‐se  um  patrimônio  de  uma  “escola 
literária”:  como  consequência,  seus  fenômenos  se  tornam  mecânicos, 
transformam‐se  em  modelos  (clichês)  linguísticos  e  penetram  nos 
dialetos  da  língua  falada.  O  que  é  o  estilo  de  uma  escola?  É  “uma 
abstração da particularidade estilística de um grupo de pessoas unidas 
pelas inclinações para uma única perspectiva artística”. 
Mas há outro conceito de que deve se ocupar um ramo particular da 
estilística:  aquele  do  estilo  de  época,  que  só  pode  ser  analisado  por 
intermédio  do  estudo  da  norma  estética  da  linguagem  quotidiana  no 
interior  deste  ou  daquele  dialeto.  Assim  como  está  fora  de  dúvida  de 
que  em  toda  construção  verbal  monológica  se  verifica  uma  avaliação 
estética e uma escolha das possibilidades de expressão do pensamento, 
e  que  existem  normas  para  tal  escolha,  válidas  para  um  determinado 
dialeto  em  uma  determinada  época,  então  “é  possível,  acompanhando 
Vossler,  falar  de  um  ramo  particular  da  estilística,  uma  espécie  de 
“história  do  gosto  linguístico”,  que  deverá  se  servir  do  conceito  de 
‘estilo  de  época’.  Delineamos  deste  modo  dois  possíveis  aspectos  da 
estilística: 1) a estilística do discurso oral e escrito, em toda variedade de 
seus fins e dos tipos de construção de que dependem; 2) a estilística do 
discurso poético, isto é, do discurso que organiza a obra literária”.  
Tendo concentrado sua atenção no segundo ramo proposto, o autor 
depara‐se,  à  medida  que  considera  a  individualidade  poética  e  o  seu 
reagrupamento, com dois problemas: 1) o estilo poético individual e 2) 
o  estilo  da  “escola  literária”  que  definem  as  seguintes  tarefas  da 
estilística  histórica:  1)  o  estudo  dos  estilos  poéticos  individuais  na  sua 
continuidade  histórica,  sob  o  fundo  da  história  geral  da  língua  e  da 
história  do  gosto  linguístico,  2)  o  agrupamento  em  “escolas”,  obtido 
através  de  uma  abstração  das  particularidades  homogêneas  e  a 
indicação  das  perspectivas  pelas  quais  são  orientados  os  estilos  da 
escola,  3)  observações  sobre  o  processo  de  desagregação  do  estilo  de 
uma  escola  e  de  sua  transformação  de  série  de  modelos  linguísticos  e 
sua reelaboração em novos estilos. Mas a individualidade poética pode 
existir  simultaneamente  em  mais  de  uma  escola,  utilizando  diversos 
procedimentos  de  construção  discursiva  (“dialetos  poéticos”).  Para 

220    
determinar o “estilo de uma escola”, necessita orientar‐se não com base 
na  homogeneidade  linguística  das  pessoas,  mas  com  base  na  afinidade 
linguística  da  obra.  Esta  afinidade,  esta  “comunidade  de  meios 
linguísticos”,  não  deve  ser  casual,  mas,  configurando  um  sistema 
unitário, pode ser fruto somente de uma contaminação estética de dados 
escritores pelas construções discursivas de um autor reconhecido como 
guia. Além disso, é indispensável “levar em conta as variações funcionais 
da  linguagem  poética”  determinante  da  forma  de  articulação 
“compositiva”  e  as  características  dos  gêneros  (língua  da  novela,  dos 
diálogos dramáticos, do verso lírico). 
Em  conclusão,  o  esquema  geral  de  repartição  da  estilística  consiste 
em duas partes: simbólica e composicional (ou sintática), em que se divide 
a descrição estilística da qualquer obra literária. 
Este  complexo  sistema  de  pesquisa,  impecavelmente  desenvolvido  a 
partir de seu ponto de pertença, é adotado na análise de uma obra literária 
do  século  XVII:  A  Vida  do  protopope  Avvakum;  no  processo  das  análises 
concretas  se  esclarecem  e  desenvolvem  as  posições  teóricas,  e  se  sente  a 
necessidade de extrair débeis conclusões, que se reduzem ao que segue. 
Preliminarmente,  a  toda  indagação  histórica  é  indispensável 
“conhecer  o  estilo  individual  do  escritor,  fora  de  toda  orientação  da 
tradição,  como  completo  e  fechado  em  si  mesmo,  como  um  sistema 
original de meios linguísticos organizados esteticamente”23; e isto graças 
a  uma  descrição  imanente  de  dada  criação  poética  e  uma  classificação 
da  forma  estilística,  de  suas  funções  e  dos  elementos  do  estilo.  Toda 
criação  do  poeta  é  um  “organismo  expressivo  de  sentido  completo” 
(B.Croce),  “um  sistema  individualmente  irrepetível  de  inter‐relações 
estilísticas”. Mas, uma vez que toda obra de um poeta são manifestações 
de  uma  única  consciência  poética,  é  possível  colocar  a  nu,  através  da 
comparação  de  uma  série  de  obras  do  mesmo  autor,  o  conteúdo 
potencial  de  todo  elemento  componente  da  obra  (por  exemplo,  de  um 
símbolo).  Assim,  é  possível  determinar  o  estilo  de  um  ciclo  de  obras 
homogêneas,  como  sistema  de  procedimentos  estilísticos  que  são 
comuns. Mas o método da descrição imanente tem em conta também a 
dinâmica do estilo individual, que não é nada além do que “o revezamento 

                                                            
23  Idem, p. 286.  

  221 
 
de um sistema a outro ou a transformação parcial de um único sistema, 
cujo núcleo funcional permanece estável”. V. V. Vinogradov chama este 
método de “imanente funcional”.  Mas a tarefa de uma estilística deste 
gênero não termina nas análises do estilo individual: “os monumentos 
congelados  do  trabalho  criativo  de  uma  consciência  linguística 
individual extinta” exigem que se determine o seu lugar entre os estilos 
artísticos que historicamente se modificam “entre as linhas da tradição 
que  se  entrelaçam”  e  sua  influência  “sobre  a  sucessão  da  vida 
linguística  do  ambiente  intelectual”.  Tudo  isso  obriga  a  recorrer  a  um 
segundo método de “projeção retrospectiva”, cuja base está no princípio 
da esquematização morfológica24. 
 
III 
 
Procuramos expor com plena objetividade, utilizando nos limites do 
possível  as  próprias  palavras  do  autor,  a  concepção  metodológica  de 
base que, com retoques insignificantes, dominou toda pesquisa de V. V. 
Vinogradov. 
O  traço  mais  distintivo  desta  concepção  é  o  primado  incondicional, 
quase  como  se  fosse  subentendido,  do  linguista  como  único  cientista  da 
literatura,  que  em  verdade  resta  bem  pouco  a  fazer:  a  gama  inteira  de 
análises  da  obra  literária,  da  definição  de  sua  particularidade 
puramente linguística (dialetológica, gramatical etc.) ao seu significado 
histórico‐literário,  tudo  isto  é  de  competência  do  linguista.  Mas  que 
coisas vê da realidade fundamental da obra de arte este linguista que atribui 
a si todas as funções do cientista da literatura? 
Em  primeiro  lugar,  são  categoricamente  postos  de  lado  todos  os 
problemas  conexos  à  definição  da  obra  literária  como  monumento 
especificamente  artístico:  não  passa  de  um  representante  de  um  tipo 
linguístico,  vale  somente  enquanto  resíduo  cristalizado  de  um  dialeto 
vivo.  É  verdade  que  é  “realizada  esteticamente”,  mas  o  segredo  desta 
realização  está  todo  na  escolha  das  palavras  e  na  sua  organização 
sintática. A análise da obra de arte pode, assim, ser reduzida à análise 
da  língua:  ao    “simbólico”  e  ao  “composicional”.  Seguindo  o  exemplo 

                                                            
24  Ibidem, p. 292‐293.  

222    
dado  por  Saussure  no  campo  da  linguística,  V.  V.  Vinogradov  se  põe, 
também  no  campo  da  poética,  sobre  o  terreno  da  língua,  e  a  acolhe 
indistintamente  como  norma  para  todos  os  fenômenos  do  evento  da 
relação  artística.  Aquilo  que  neste  evento  era  um  mero  ingrediente 
necessário,  que  era  a  parte  do  médium  da  narrativa,  tornou‐se  uma 
entidade autossuficiente, abstratamente recortada e isolada. A obra, que 
se  faz  “artística”  só  no  processo  de  interação  entre  “criador”  e 
“contempladores”,  esta  obra  em  que  todo  elemento  é  axiologicamente 
tenso  e  socialmente  determinado25,  vem  transformada  por  V. 
V.Vinogradov  em  uma  enunciação  monológica  completa,  pronunciada  de 
uma vez por  todas no vazio e presa assim num sistema imóvel e  idêntico  a si 
próprio de procedimentos estilísticos. 
Tal enunciação monológica isolada é precisamente aquela abstração 
que  criou  Saussure  ao  conceber  a  língua  como  sistema  de  formas 
normativamente idênticas. 
Mas  a  realidade  efetiva  da  obra  de  arte  enquanto  tal  se  encerra 
exclusivamente  no  momento  da  sua  concretização  no  evento  vivo,  histórico, 
da  relação  artística:  esta  realidade  estética  não  tem  absolutamente  nada 
em comum com o “sistema de procedimentos estilísticos”.  
Poder‐se‐ia  objetar  que  também  a  escolha  das  palavras  e  sua 
organização sintática são “reflexo da consciência poética individual”26, e 
que a tarefa do pesquisador é encontrar nela “o sistema que o enlaça a 
uma  comunidade  psicológica  interna”.  Que  dizer?  Tanto  pior  para  os 
seguidores do objetivismo abstrato se tentam introduzir de contrabando 
também o ponto de vista psicológico! 
Surge um estranho dualismo: de um lado se concebe a obra de arte 
como “expressão de um circuito fechado de representações e emoções” 
(p.196), isto é, como um documento de vida psíquica, relativo à unidade 
da consciência; de outro lado, “um sistema de relações estilísticas”, isto 
é,  um  documento  da  vida  linguística,  relativo  à  unidade  “dos 
                                                            
25  Devemos sublinhar para evitar equívocos que o nosso conceito de “valores” não tem 

nada  em  comum  com  aquele  do  idealismo  dos  fins  do  século  XIX,  inícios  do  século 
XX, seja em psicologia (por ex. Münsterberg), seja em filosofia (por ex. Rickert). Nós 
aqui  nos  servimos  do  conceito  de  “valor  ideológico”,  que  não  aspira  a  qualquer 
“omnisignificatividade”, mas cuja significação é social e mais precisamente de classe. 
26  O zadacach stilistiki, p. 197. 

  223 
 
fenômenos  linguísticos  homogêneos”  (p.195)  e,  em  última  análise,  à 
unidade da língua como sistema. 
Esta  original  simbiose  metodológica  de  Croce  com  Saussure  existe 
só  nas  enunciações  teóricas  de  V.  V.Vinogradov:  no  ato  de  analisar 
concretamente uma obra de arte qualquer, todo o apelo ao psicologismo 
é esquecido, e a obra se apresenta não como “organismo expressivo de 
sentido  completo”  (p.287),  mas  como  sistema  sintático  abstratamente 
recortado e de esquemas sintáticos motivados estilisticamente.  
Assim,  depois  de  ter  elaborado  uma  concepção  de  dupla  face  da 
natureza  da  obra  literária,  V.  V.  Vinogradov  se  serve  da  ponte 
psicológica  por  ele  lançada  para  passar  para  a  obra  concebida  como 
monumento  do  dialeto  de  um  coletivo,  a  obra  concebida  como 
monumento do estilo individual. Mas “o estilo individual” em poética, 
assim  como  “a  enunciação  individual”  (fala)  na  linguística,  se  revelará 
muito flutuante e instável para o representante do objetivismo abstrato, 
quando  não  exclui  tudo  isso  como  “acessório”  e  mais  ou  menos 
“acidental” (“o que é acessório e mais ou menos acidental”)27; necessita, 
então,  colocar  de  lado  este  “acessório  e  acidental”  (em  que  vem 
compreendida a atividade axiológica da forma, a composição ideológica 
do  conteúdo,  o  caráter  das  inter‐relações  sociais  e  hierárquicas  entre 
“autor”,  “herói”,  “ouvinte”  etc.)  e  seguindo  os  passos  de  Saussure, 
ocupa‐se com a “classificação sincrônica e a sistematização do material 
linguístico,  isto  é,  com  a  descrição  unilateral  da  forma  estilística  e  de 
suas funções, e da “classificação dos elementos do estilo”. 
 Aqui  nos  permitimos  duvidar  de  que  seja  possível  evidenciar, 
compreender e explicar cientificamente o estilo individual de um poeta 
por  meio  dessa  simples  “descrição”  e  “classificação”  das  formas 
estilísticas:  aqui  se  propõe  de  fato  conhecê‐lo  “fora  de  toda  orientação 
da tradição, como completo e fechado em si mesmo, como um sistema 
original de meios linguísticos organizados esteticamente”. 
Mas o estilo individual de um escritor nasce e se desenvolve não no 
sistema  da  língua,  como  fenômeno  linguístico,  mas  na  tensão  da 
definição  recíproca  e  da  delimitação  axiológica  com  todos  os  outros 
elementos  da  vida  ideológica.  Ele  é  inteiramente  permeado  pelas  leis 

                                                            
27  F. de Saussure. Cours de linguistique générale, 1922, p. 30.  

224    
sociológicas, fora das quais é uma má abstração, uma função irreal que 
nenhum método “imanente funcional” pode obrigar a crer. 
Com  este  mesmo  método  “imanente  funcional”,  V.  V.Vinogradov 
procura  resolver  também  o  que  ele  chama  “dinâmica  do  estilo 
individual”.  Aqui  mostram  aos  ingênuos  que  imaginam  que  esta 
dinâmica  seja  o  reflexo  do  futuro  dialético  do  horizonte  ideológico  do 
autor  e  de  seu  grupo  social,  a  modificação  de  seus  acentos  avaliativos, 
ligada  ao  enriquecimento,  ao  empobrecimento  ou  à  reorientação  da  sua 
consciência  de  classe;  não,  a  dinâmica  do  estilo  individual  é 
simplesmente a substituição completa dos procedimentos estilísticos por 
outros,  ou  também  só  sua  “transformação  parcial”.  Em  completa 
conformidade com o espírito da “escola de Genebra”, V. V. Vinogradov 
configura este sistema como uma formação fechada, estável e completa, 
que  pode  ser  substituída  por  outra  numa  sucessão  exclusivamente 
cronológica.  Esta  sucessão  mecânica,  verificando‐se  no  tempo,  não  cria 
porém âncoras na história: a dinâmica do estilo individual é ao contrário antes 
de tudo a modificação histórica das avaliações sociais que organizam a forma.  
Este  mesmo  ponto  de  vista  profundamente  anti‐histórico  e  anti‐
sociológico  é  conservado  por  V.  V.  Vinogradov  na  solução  dos 
problemas  conexos  com  a  história  da  literatura.  Não  obstante,  toda  a 
reserva  do  autor28,  a  história  da  literatura,  tal  como  a  concebe  V.  V. 
Vinogradov,  se  apresenta  como  uma  espécie  de  deserto,  vazio  de 
valores,  em  que  vagam  “os  monumentos  petrificados  da  vida  passada 
da língua literária”29, certos abstratos “sistemas fechados de combinação 
dos  símbolos”  (os  estilos  da  obra  singular),  que  mecanicamente 
convergem  juntos  para  um  “mesmo  sistema  de  inter‐relações  do 
material  verbal”  (os  estilos  dos  escritores)  e,  no  final,  se  reunificam  na 
enorme  constelação,  na  “abstração  das  particularidades  estilísticas 
homogêneas na criação linguística de um grupo de pessoas unidas pelas 
mesmas  inclinações  para  uma  única  perspectiva  artística”30  (os  estilos 
da  escola  literária).  Mas  existirá,  contudo,  qualquer  necessidade, 

                                                            
28  Evoljucija russkogo bnaturalisma, p. 102.  
29  Idem, p. 206.  
30  O zadacach stilistiki, p. 197  

  225 
 
qualquer  lei  inelutável  a  que  são  submetidas  estas  “substituições  de 
sistemas” cronológicas, que parecem absolutamente casuais? 
Existe:  não  é  naturalmente  “o  amor  que  move  o  Sol  e  as  demais 
estrelas” do céu dantesco; nem a tensão universal do quadro do mundo 
de Kant e Laplace: é outra, entretanto inelutável, Ananke: a saturação.     
Do  ponto  de  vista  de  V.  V.  Vinogradov,  os  estilos  poéticos  se 
desenvolvem  por  meio  da  “transformação”  e  da  “utilização”  da 
“unidade  dialetológica”31.  Disto  decorre  estudar  a  história  da  sucessão 
dos  estilos  “sob  um  fundo  da  história  geral  da  língua  e  da  história  do 
gosto  linguístico”  e  não,  digamos,  sob  o  “fundo”  do  desenvolvimento 
geral  da  ideologia,  da  mudança  da  psicologia  social,  da  ordem  sócio‐
política,  das  relações  econômicas  etc.  como  poderia  pensar  qualquer 
leitor  ingênuo,  seguidor  de  Plechanov.  No  contexto  da  concepção 
vinogradoviana da história da literatura, tal “fundo” é naturalmente um 
luxo  inútil,  qualquer  coisa  de  “acessório  e  acidental”:  de  fato,  a 
estilística histórica deve criar estes reagrupamentos por escola, só assim 
“transmite  uma  abstração  da  particularidade  homogênea”,  sem  temer 
de  fato,  nem  terminar  estas  abstrações  acusadas  de  formalismo.  Se, 
todavia,  ousarmos  igualmente  perguntar  como  então  se  explica  que 
improvisadamente  alguns  escritores  concretos  descobrem  em  si  esta 
“comunidade  de  meios  linguísticos”,  ou,  em  outras  palavras,  de  que  é 
fruto  este  “conjunto  de  procedimentos  comuns”,  receberemos  esta 
resposta,  acabada  e  categórica,  do  próprio  V.  V.  Vinogradov:  “somente 
de  uma  contaminação  estética  de  dados  escritores  por  parte  das 
construções discursivas de um autor reconhecido como ‘guia’” (cursivas 
de V. V. Vinogradov). É evidente como esta categoria da contaminação 
estética não seja nem externa nem imutável: depois de certo intervalo de 
tempo torna‐se menor, o estilo da escola se desagrega, transformando‐
se em clichês linguísticos. Acontece então um novo objeto sugestivo com 
que  se  possa  contagiar  esteticamente:  este  objeto  é  o  traço  júnior  da 
literatura,  que  “irrompe  ao  posto  daquele  sênior  e...”  (em  seguida  se 
reconhece  V.  Skolvski)32.  Deste  modo,  o  formalismo  abre  ao 
psicologismo a sua porta hospitaleira. 

                                                            
31  Idem, p. 201 e seguintes.   
32  Teorija prozy (Teoria da Prosa), 1924, p. 163  

226    
Evidentemente, e aqui temos que sublinhar isso, V. V. Vinogradov é 
um estudioso muito fino e sensível para se permitir uma concepção do 
desenvolvimento  histórico‐literário  aberto  e  grosseiro  tal  como  aquela 
presente, por exemplo, nas enunciações de V. Sklovski e, em parte, de B. 
Eichenbaum;  no  entanto,  a  força  motriz  deste  processo  de  substituição 
de  “sistemas  estilísticos  orientados  para  uma  única  perspectiva 
artística”  permanece  uma  “lei”  formal,  reduzível  no  fim  das  contas  à 
fórmula precisa: “automatização‐perceptibilidade; nova automatização‐
nova  perceptibilidade”  e  assim  ao  infinito33.  É  suficiente,  de  fato,  ler 
atentamente  as  páginas  201‐202  do  ensaio  Skola  santimental’nogo 
naturalizma  ou  o  capítulo  3  do  ensaio  Iz  biografii  odnogo  neistovogo 
proizvedenija34,  para  descobrir  o  aparato  inteiro  dos  conceitos 
formalistas,  habilmente  mascarados  pelas  felizes  anotações  estilísticas 
do autor35. 
Permanece  um  último  problema,  ligado  ao  estilo:  o  “estilo  de 
época”:  mas  o  estilo  de  época  não  se  esgota  no  estilo  da  escola 
dominante: é necessário estudar também a norma estética da linguagem 
cotidiana.  Se  chega  assim  à  conclusão,  inesperada  para  um 
representante  do  objetivismo  abstrato,  que  “é  possível,  seguindo  o 
caminho  de  Vossler,  falar  de  um  ramo  particular  da  estilística,  uma 
espécie  de  história  do  gosto  linguístico”36.  Este  gesto  imprevisto,  que 
indica uma direção posta pela escola contrária ao objetivismo abstrato, é 
plenamente  compreensível:  um  método  orientado  para  a  enunciação 
monológica  isolada,  sob  monumentos  petrificados,  “resíduos 
cristalizados”  etc.  etc.  que  se  contrapõe  não  à  compreensão  ativa  e 
valorativa do sociólogo, mas à consciência passiva do filólogo, não tem 
e  nem  pode  ter  relações  com  o  fenômeno  vivo  de  uma  enunciação 

                                                            
33  Uma  tentativa  de  fundar  mais  rigorosamente  a  concepção  formalista  do 
desenvolvimento  histórico‐literário  em  Ju.Tynianov,  “O  literaturnom  fakte”,  LEF, 
1929, p.2‐6. A crítica de tal concepção em P.N. Medvedev, op. cit., p. 220 e seguintes da 
edição russa. 
34  Evoljucija russkogo naturalizma, p. 133‐135 e 342‐348.  

35  A  propósito  das  concepções  histórico‐literárias  de  V.  V.  Vinogradov  e  de  seu 

Evoljucija russkogo naturalizma, ver a resenha de A. Ceitlin (in Russkij jazyk y sovietskoj  
skole, 4, 1929) e N. Berkovskij (in.Zvezda, 4, 1929). 
36  O zadacach stilistiki, p. 200. 

  227 
 
quotidiana elementar, fruto de uma situação histórica viva, momento de 
narrativa social. 
Esta  exigência  não  é  satisfeita  obviamente  também  pelo  método 
descritivo  psicológico  da  escola  de  Vossler,  mas  ao  menos  alguns 
representantes  desta  escola  se  esforçam  para  dar  conta  desta  situação 
concreta e do tipo de interação discursiva por ela criado. 
Podemos  perguntar:  respondem  os  métodos  elaborados  por  V.  V. 
Vinogradov à natureza efetiva dos fenômenos estudados? 
Vimos  a  concepção  anti‐histórica  e  anti‐sociológica  que  tinha  V.  V. 
Vinogradov dos fenômenos como o estilo de uma obra literária, o estilo 
de  um  escritor,  o  estilo  de  uma  escola  e  o  seu  desenvolvimento 
histórico:  é  evidente  que  métodos  desenvolvidos  na  base  desta 
concepção serão eles próprios anti‐históricos e anti‐sociológicos, e assim 
de nenhum modo se adaptam à análise de uma estrutura poética que é 
sociológica. 
Aquela  “abstração  das  particularidades  homogêneas”  do  estilo, 
procedimento  não  eliminável  para  V.  V.  Vinogradov,  aqui  recorda  de 
modo incrível a abstração dos elementos linguísticos idênticos em toda 
enunciação individual que é praticada na escola de Saussure. 
A  identidade  normativa  da  forma  linguística  (por  exemplo  o 
“discurso  indireto”)  abstraída  de  seu  concreto  preenchimento 
ideológico,  torna‐se  protótipo  de  um  procedimento  estilístico 
normativamente  idêntico  (por  exemplo,  o  “skaz”  etc.)  abstraído  de 
preenchimento  ideológico  e  da  sua  função  axiológica  na  estrutura  de 
uma  obra  concreta  (V.  V.  Vinogradov  chama  esta  abstração  de 
“esquematização morfológica”37). 
Estes  elementos,  (do  estilo  num  caso  e  da  língua  noutro) 
abstratamente  reunidos,  são  reagrupados  num  sistema  fechado,  cujo 
movimento  no  tempo  não  tem  e  não  pode  ter  nada  em  comum  com  a 
história:  na  série  isolada  de  tais  sistemas,  o  movimento  pode  ter 
exclusivamente  o  caráter  de  substituição  mecânica  do  sistema  inteiro  ou 
de  seus  elementos  (os  “procedimentos”).  Onde  não  está  a  dialética, 
também  não  está  a  história:  a  pretensão  do  método  “imanente 
funcional”  de  estudar  uma  obra  como  um  todo  fechado  em  si  mesmo, 

                                                            
37  Idem, p. 293.  

228    
atingindo  uma  “síntese  extra‐temporal  e  super‐impessoal”38  cria  uma 
ruptura  intransponível  entre  sistema  e  história,  entre  as  categorias  da 
poética teórica e aquelas da poética histórica.  
Esta  ruptura  entre  obra  singular,  como  sistema  fechado  de 
combinação  de  símbolos,  e  história  da  literatura  (como  sua  sucessão), 
que  encontramos  em  V.  V.  Vinogradov,  não  é  outra  coisa  que  a 
transposição da linguística para a poética da ruptura existente na escola 
de  Saussure  entre  a  língua  como  sistema  de  formas  normativamente 
idênticas e a língua como formação que se altera historicamente. Deste 
ponto  de  vista  também  os  métodos  de  V.  V.  Vinogradov,  “imanente 
funcional”  e  “projeção  retrospectiva”,  emparelham‐se  com  a  original 
interpretação dos métodos sincrônico e diacrônico de Saussure. 
Não  tocaremos  aqui  no  problema  da  teoria  da  língua  poética, 
enfrentado  por  V.  V.  Vinogradov  na  coletânea  Poetika,  de  1927,  e  não 
tocaremos também no problema dos resultados concretos da sua análise 
estilística  de  uma  obra  singular,  ou  os  problemas  conexos  com  esta 
análise: ultrapassariam os limites deste trabalho e deverão ser objeto de 
um  estudo  independente.  Mas  somos  obrigados  a  perguntar:  em  que 
consiste o erro fundamental de V. V. Vinogradov, o seu proton pseudos, 
graças  ao  qual  um  linguista  de  talento,  dotado  de  visão  ampla  e  de 
gosto estético, acaba, quanto a sua posição metodológica, entre os teóricos 
da  arte  de  que  já  Platão  escreveu  que  “se  julgam  conhecedores  da 
harmonia  com  base  no  fato  de  que  ajustam  uma  corda  na  tonalidade 
mais alta e mais aguda”?39 
 
IV 
 
Mantenhamos  que  o  vício  metodológico  fundamental  de  V.  V. 
Vinogradov,  graças  ao  qual  muitas  de  suas  observações  estilísticas 
extremamente  interessantes  e  preciosas  extraídas  do  contexto 
sistemático  para  permanecerem  isoladas  fecham‐se  na  gramaticalização 
das  categorias  estéticas,  consequência  inevitável  da  concepção,  comum  à 
“escola de Genebra”, que contrapõe a língua à enunciação como “o que 

                                                            
38  Evoljucija russkogo naturalisma, p. 133‐135 e 342‐348.  
39  Platão, Fedro, 268‐D‐E. (edição russa)  

  229 
 
é  social  do  que  é  individual”40.  Estudando  a  obra  literária  como 
enunciação  individual,  irrepetível,  autossuficiente,  o  pesquisador  se 
priva  de  todas  as  possibilidades  de  uma  abordagem  sociológica:  a 
exclusão  da  unidade  do  contexto  literário  da  sua  época,  extraída  dos 
vivos  liames  históricos,  considerada  não  medium  da  relação  artística, 
mas  “sistema  fechado  de  inter‐relações  estilísticas”,  a  obra  se 
transforma  inevitavelmente  num  coágulo  verbal,  abstrata  formação 
linguística,  cuja  análise  “imanente”  pode  resolver‐se  somente  na 
“descrição” e na “classificação” das formas linguísticas isoladas. 
Esta gramaticalização das categorias estéticas não é, no entanto, um 
defeito  metodológico  pessoal  de  V.  V.  Vinogradov,  é  também  de  toda 
corrente do objetivismo abstrato: é o pecado original de toda linguística 
indo‐europeia,  que  analisa  todo  monumento  literário  sob  um  único 
plano  monológico:  no  leque  de  toda  sua  história,  a  linguística  indo‐
europeia  não  reconheceu  as  coordenadas  que  abrem  e  dialogizam  este 
plano:  a  coordenada  da  relação  (troca)  social  e  da  luta  social.  Esta 
particularidade  do  pensamento  linguístico  indo‐europeu  exerceu 
também um papel nefasto nos estudos da poética. 
É  verdade  que  o  destino  histórico  desta  disciplina  se  realiza  em 
condições  extremamente  difíceis:  desde  seu  nascimento,  na  antiga 
Grécia e na Índia, a poética constantemente serviu de motivo para esta 
estranha  tarefa.  Nascida  do  interesse  filológico,  organizada  para  a 
catalogação  e  sistematização  dos  fenômenos  estilísticos  de  uma  língua 
estrangeira,  morta,  escrita,  assume  solidamente  a  função  de  norma 
estética  incontestável  também  para  as  obras  em  língua  materna  a  ela 
contemporâneas,  sem  poder  mais  ou  sem  quase  poder  seguir  sua 
tendência objetiva de pesquisa. Sua dependência de outra disciplina foi 
posteriormente aumentada pelo fato de os objetos de sua análise – a fala 
na  sua  função  estética  –  terem  servido  de  material  para  outras 
especulações, puramente filosóficas. O poder mágico da palavra antiga, 
do  totem  celeste  divino  da  tribo,  deixou  uma  marca  indelével  sobre 
todas  as  primeiras  filosofias  da  palavra.  A  força  que  inelutavelmente 
move  a  formação  da  linguagem  humana,  a  necessidade  econômica,  
emerge na consciência não só dos primeiros filólogos, mas também dos 

                                                            
40  F. de Saussure, op.cit. p. 30.  

230    
linguistas do século XX. Todavia, se podemos captar isso perfeitamente, 
como agora no Rigveda, o poder da palavra compara‐se à força do soma, 
em  que  se  afirma  que  na  base  da  linguagem  humana,  que  nasce  e 
morre, está a linguagem divina, eterna e imutável, que fornece a quem 
pode  (“a  quem  sabe”)  a  chave  de  todos  os  mistérios  do  mundo;  se 
conseguimos  compreender  perfeitamente  o  fato  de  que  Heráclito 
quisesse descobrir, através do “logos da língua”, o “logos do mundo”; 
de  que  Platão  na  sua  sétima  obra,  pela  primeira  vez  na  história  do 
pensamento,  tenha  se  esforçado  para  definir  metodicamente  o  valor 
cognoscitivo da linguagem; ou que, em fim, até Leibniz concebia ainda 
a linguagem exclusivamente como instrumento de conhecimento, cujos 
graus definem os graus do ser; é de cair os braços ver que no século XX 
reviva  uma  espécie  de  interpretação  mágica  e  metafísica  da  palavra 
artística,  e  que  a  arte  se  torne  quase  um  meio  de  “conhecimento” 
místico  em  diversas  doutrinas  simbolistas  e  “filosofias  do  nome”.  Mas 
não  é  de  se  admirar  se  se  leva  em  conta  a  inevitável  desagregação 
ideológica da classe em declínio. 
Afortunadamente,  este  resultado  do  esquecimento  da  base 
socioeconômica  da  linguagem  não  influiu  sobre  a  concepção  de  V.  V. 
Vinogradov, em que ao invés influiu outra coisa: o aspecto da concepção 
linguística  de  Leibniz,  conexo  com  a  passagem  da  carta  de  Descartes  a 
Mersenne.  Descartes,  a  propósito  do  problema  da  “língua  universal” 
(lingua universalis), disse: exatamente como com alguns poucos números 
se  constrói  o  sistema  inteiro  da  aritmética,  assim,  com  um  número 
limitado  de  signos  linguísticos,  reunidos  segundo  determinadas  regras 
de  valor  geral,  se  pode  fundamentalmente  determinar  o  corpus  inteiro 
que inclui o pensamento e a sua estrutura41. Esta analogia entre o sistema 
matemático  e  o  sistema  da  língua,  expressa  ainda  mais  claramente  na 
Charakteristik  leibniziana,  determinou  numa  medida  notável  o  modo  de 
reportar‐se  à  palavra  nos  séculos  XVII‐XVIII,  da  lógica  à  estética  (a 
notável  pesquisa  estilística  de  Diderot  em  “Lettres  sur  les  sourds  et 
                                                            
41  Cf. 
Carta  de  Descartes  a  Mersenne,  de  20  de  novembro  de  1629  (Corespond.  Ed. 
Adam‐Tannery,  I,  p.  80  e  seguintes).  A  este  propósito,  mais  detalhadamente,  E. 
Cassirer,  Leibnizsystem  in  seinen  wissenschaftlichen  Grundlagen,  1902,  e  Philosophie  der 
symbolischen  Formen,  cap.  1:  “Das  Sprachproblem  im  der  Geschichte  des 
philosophischen Idealismus (Platon, Descartes, Leibniz), p. 55‐72. 

  231 
 
muets”). A língua é considerada uma invenção consciente do homem, e 
seu lento e constante caminho, da invenção do primeiro signo linguístico 
à  frase  e  à  proposição  verbal  completa,  são  vistos  habitualmente  em 
paralelo com a construção metódica e sempre complicada da matemática. 
Condillac  vai  da  língua  da  fala  à  língua  dos  cálculos;  Maupertius,  em 
suas  Reflexões  Filosóficas  Sobre  a  Origem  das  Línguas,  celebra  o  triunfo  do 
racionalismo  abstrato:  todos  os  fenômenos  da  língua  devem  ser  reduzidos  a 
uma  fórmula  matemática.  O  ideal  de  conhecimento  a  que  pode  aspirar  o 
homem  é  aquele  de  descobrir  a  necessidade  matemática  em  todas  as 
relações existentes no mundo. 
Aqui devemos nos deter. 
Não  posso  fornecer  nos  limites  deste  ensaio  um  tratamento  ainda 
que sumário do problema que tocamos aqui: a questão dos laços entre a 
visão  de  língua  de  Descartes  e  Leibniz  e  a  concepção  linguística  da 
“escola  de  Genebra”,  que  ainda  espera  estudos.  Mas  é  fora  de  dúvida 
que em ambos ressoa um único motivo: a língua dos “símbolos” verbais e a 
língua dos símbolos matemáticos são sistemas fechados rigorosamente análogos, 
no  interior  dos  quais  agem  leis  imanentes  e  específicas,  que  não  têm  nada  em 
comum com as leis de ordem ideológica. A esta sistematicidade e a estas leis 
está submetida também a obra poética: essa é “um sistema fechado de 
inter‐relações estilísticas que encontram sua razão de ser funcional para 
servir  de  escopo  imanente  realizado  na  sua  criação”42.  Substituindo 
“estilística”  por  “matemática”,  chegamos  a  uma  definição 
absolutamente  precisa  e  correta  de  qualquer  fórmula  algébrica, 
trigonométrica etc. 
A analogia torna‐se identidade. 
E  assim  como  se  pode  analisar  uma  fórmula  matemática  somente 
pondo‐se  no  ponto  de  vista  da  matemática,  assim  também  a  obra 
artístico‐verbal  deve  ser  submetida  à  análise  com  ajuda  de  uma 
metodologia rigorosamente linguística. Assim, a obra de arte vem extraída 
da unidade da relação social, fora dos limites da interação artística, e se congela 
como  forma  de  enunciação  monológica,  objetivamente  contraposta  seja  ao 
criador  seja  ao  contemplador  como  sistema  imutável  e  idêntico  a  si  mesmo  de 
elementos fonéticos, lexicais e sintáticos. 

                                                            
42  Evoljucija russkogo naturalisma, p. 291.  

232    
O  método  do  objetivismo  abstrato  entra  direto  na  poética 
linguística43. 
Ignorando  completamente  os  problemas  da  estética  sociológica,  V. 
V. Vinogadov não pode superar este radical erro metodológico. 
Enquanto  não  se  colocar  de  modo  correto  o  próprio  objeto  de 
pesquisa, neste caso estético, nenhum método, ainda que o mais perfeito, 
poderá  chegar  a  resultados  reais:  vimos  como  V.  V.  Vinogradov  se 
esforçou para descrever e classificar diversos procedimentos estilísticos 
porque para ele permanecia incógnito o “objeto estético”. 
Deste ponto de vista, V. V. Vinogradov lembra muito um geógrafo 
que  se  esforça  para  desenhar  o  mapa  de  um  país  exótico  ainda 
inexplorado, cuja magnificência e esplendor ele pressente confusamente 
e prevê à força da intuição científica. 
Mas  o  “objeto  estético”,  se  não  é  uma  “imagem  construída  no 
sujeito”,  como  de  todo  psicologisticamente  o  configura  B. 
Christiansen44,  não  é  também  um  conjunto  de  procedimentos 
estilísticos,  isto  é,  a  obra  como  dado  verbal‐material.  Tal  reificação 
linguística  do  objeto  estético  leva  inevitavelmente  a  um  tratamento 
positivista, mascarado por uma fraseologia psicologista.  
Assim, V. V. Vinogradov se esforça de todos os modos para agregar 
à receita não muito inebriante do objetivismo abstrato qualquer gota de 
vinho  forte  de  um  descarado  idealismo:  tem‐se  por  isso  um  objeto 
estético  que  “apreende  a  intuição  intelectual  do  observador  não  nos 
limites da faculdade perceptiva individual, mas na sua essência eterna, 
supraindividual”45. 
Nós,  ao  contrário,  abstendo‐nos  modestamente  de  acolher  as 
categorias do “eterno” e do “supraindividual”, mantemos que o objeto 
                                                            
43  Em  tal  concepção  do  fenômeno  literário  não  permanece  presente,  naturalmente,  a 

“personalidade transformadora”, a “consciência criadora” etc., não obstante o fato de 
que V. V. Vinogradov sublinhe continuamente este momento. Se pode, assim, referir 
ao próprio Vinogradov a censura que move ao Prof. I. Mandelstam no livro Gogol’ i 
natural’naja  skila  (Obrazovanie,  Leningrado,  1925,  p.5):  “nem  a  evolução  da  forma 
estilística  de  Gogol,  nem  a  unidade  orgânica  de  seu  estilo  como  reflexo  de  uma 
consciência poética individual foi posto à luz”. 
44  B. Christiansen. Filosofija iskussiva [Filosofia da aarte], 1911, p.50. 

45  V.  V.  Vinogradov,  Etjudy  o  stile  Gogolja  [Estudos  sobre  o  estilo  de  Gogol],  Academia, 

1926, p.8. 

  233 
 
estético é antes de tudo um sistema dinâmico de signos axiológicos, uma 
formação  ideológica,  produzido  no  processo  de  uma  relação  social 
particular e fixado na obra como medium material desta relação. 
O  objeto  estético  não  é  mais  um  dado,  como  coisa  pronta, 
concretamente  existente:  ele  é  sempre  proposto,  posto  como  intenção, 
como  orientação  do  trabalho  artístico  criativo  e  da  fruição  artística  co‐
criativa.  
A  realidade  verbo‐material  da  obra  é,  então,  somente  o  ambiente 
material  da  relação  em  que  se  realiza  o  objeto  estético,  é  a  soma  dos 
estímulos  da  impressão  artística.  Componentes  estéticos,  sintetizados 
nesta  estrutura,  serão  de  um  lado  o  conteúdo,  como  realidade  extra‐
artística tematizada, e de outro lado a forma, correlativa a este conteúdo, 
como avaliação social desta realidade, recebida esteticamente. 
É  evidente,  portanto,  que  com  nenhum  dos  métodos  da  poética 
linguística  poderemos  chegar  ao  sentido  pleno  dos  signos  verbais 
(realizados graficamente por meio das tintas, da impressão etc.) em que 
valores  ideológicos  fazem  de  um  complexo  verbal  empírico  uma  obra 
estética.  Os  representantes  do  objetivismo  abstrato  se  revelam 
igualmente impotentes na análise da enunciação cotidiana e na análise 
da  enunciação  artística.  Eles  esqueceram  uma  verdade  absoluta,  que 
afirma, para usar as palavras do acadêmico N. Já. Marr,  que “a língua 
é,  em  tudo  e  em  todos  os  níveis,  uma  criação  do  coletivo  humano, 
imagem não só do seu pensamento, mas também do seu sistema social e 
da  sua  economia,  tantos  nos  aspectos  técnico‐linguísticos  quanto  nos 
semânticos”46.  Esquecendo  isso,  eles  substituíram  o  estudo  das  relações 
entre  os  homens  (refletidas  e  fixadas  na  realidade  verbal  da  obra)  pelas 
relações  entre  as  palavras  e  entre  os  seus  elementos  abstratos.  Numa  tal 
abordagem,  o  fenômeno  que  nós  definimos  como  “objeto  estético”,  e 
que  se  faz  intérprete  das  relações  hierárquicas  e  axiológicas  dos  três 
componentes da sua forma: “autor”, “ouvinte” e “herói”, se transforma 
num “monumento de uma consciência criativa extinta”, imóvel, fora da 
história e da sociedade. 
Devemos,  porém,  nos  opor  categoricamente  a  esta  reificação  da 
palavra: toda enunciação que tenha sido realmente pronunciada, e toda 

                                                            
46  N. Já. Marr, Jafeticeskaja teorija [Teoria Javética], Baku, 1928, p.79.  

234    
obra  artística  que  tenha  realmente  sido  percebida  (trate‐se  de  um 
poema,  de  uma  estátua,  de  um  quadro,  de  uma  sonata),  não  é  uma 
coisa,  mas  um  processo  (que  naturalmente  recebe  para  sua  objetivação 
pontos materiais de apoio relativamente estáveis). Para dizer a verdade, 
nós  não  conhecemos  de  fato  “qualquer  coisa”  imutável,  idêntica  a  si 
própria,  dada  de  uma  vez  por  todas  para  sempre  e  existente 
eternamente.  “A  grande  ideia  básica  é  que  o  mundo  não  consiste  de 
objetos belos e prontos, mas presentes como um conjunto de processos 
em que os objetos que parecem imutáveis, assim como suas cópias [seus 
significados],  isto  é,  os  conceitos,  se  encontram  em  perpétuo 
movimento,  surgem  e  desaparecem,  esta  grande  ideia  básica  entrou,  a 
partir  dos  tempos  de  Hegel,  na  consciência  geral,  e  praticamente 
ninguém  se  atreverá  a  contestá‐la  em  sua  formação  geral.  Mas  uma 
coisa  é  reconhecer  a  sua  validade,  outra  coisa  é  aplicá‐la  nos  casos 
singulares e em todos os setores da pesquisa” (Engels). 
Não  é  este  o  lugar,  naturalmente,  para  resolver  os  problemas 
centrais  da  estética  marxista  como,  por  exemplo,  aquele  da  estrutura 
social  do  objeto  estético:  a  nossa  posição,  orientada  criticamente, 
restringe‐se a indicar alguns caminhos para a solução do problema, fora 
dos quais é impossível colocar a questão das “tarefas da estilística”. 
 

 
Já  na  definição  sumária  e  um  pouco  superficial  do  objeto  estético 
que  demos  no  item  precedente  parece  evidente  que  seu  momento 
organizador fundamental é a avaliação social. 
Devemos  insistir:  enquanto  a  consciência  da  importância  deste 
problema  não  penetrar  em  todos  os  ângulos  do  pensamento 
metodológico  de  nossos  cientistas  sociais  da  literatura,  não  se  poderá 
falar absolutamente de uma poética autenticamente marxista47.  

                                                            
47  Já 
há  na  nossa  literatura  científica  uma  tendência  a  se  ocupar  deste  problema.  A 
tentativa  mais  séria  e  interessante  se  apresenta  em  algumas  passagens  do  Método 
Formal de Medvedev (pp.261‐281; 162‐174 da edição russa). Ver também Z. El’Sberg, 
“Sravnenija  i  metafory  kak  klassovaja,  obrazcobaja  ocenka  ob’ekta  opisanija” 
[Confrontos e metáforas como avaliação, modelo de classe do objeto da descrição] in. 
Okjabr’, janeiro 1927, pp. 123‐141. 

  235 
 
 Qualquer enunciação, da cotidiana à poética perfeita, contém em si, 
inevitavelmente,  como  ingrediente  necessário,  um  horizonte 
subentendido  não  verbal:  horizonte  vivo  e  concreto  que,  com  uma 
abstração,  podemos  dividir  em  três  componentes:  espaço,  sentido  e 
valores.  Na  organização  da  obra  artística  e  particularmente  em  seus 
aspectos  formais,  a  função  mais  importante  é  dada  ao  horizonte 
axiológico: fora disso não se pode realizar a relação estética. 
Recordando  como  V.  V.  Vinogradov  sublinhava  constantemente  o 
momento da “individualidade poética”, podemos perguntar: é possível 
uma avaliação individual? 
Afirmamos que tal avaliação não existe. 
A reação de um organismo individual, tal como, por exemplo, aquela 
de  um  animal  frente  ao  alimento  (que  esteja  fechado)  ou  frente  a  um 
inimigo (do qual foge) não pode ser explicada em termos dos valores do 
alimento ou do inimigo, porque não há qualquer interpretação ideológica 
do material significante. Para que a reação de auto‐conservação se torne 
complexa  pelo  momento  ideológico  é  necessário  que  ela  ocorra  num 
ambiente  social  organizado  e  se  oriente  para  os  outros  membros  deste 
ambiente:  assim,  por  exemplo,  o  grito  de  um  animal  que  adverte  deste 
modo  o  bando  de  um  perigo  iminente  se  avizinha  de  uma  avaliação:  já 
podemos  falar  neste  caso  de  certo  “significado”  do  grito  do  chefe  e  de 
uma  “compreensão”  por  parte  do  bando48.  Só  uma  reação  social  pode 
complicar‐se  pelo  momento  da  avaliação:  quanto  mais  organizada  é  a 
sociedade,  quanto  mais  complexos  são  os  liames  que  relacionam 
qualquer  ato  individual,  tanto  mais  complexa  e  diferenciada  será  a 
avaliação. Na sociedade humana o indivíduo não entra mais em contato 
com  o  mundo  e  com  as  coisas  como  unidade  biológica:  sua  orientação 
ideológica nos confrontos com os objetos está sempre conectada à sua orientação 
ideológica  nos  confrontos  da  sociedade.  Esta  dupla  orientação  encontra 
expressão ideológica na avaliação. 
Qualquer avaliação, por mais insignificante que possa ser, exprime 
uma  dada  situação  social:  considera  o  objeto,  mas  ao  mesmo  tempo 
ressoa  no  ato  um  desafio  ao  inimigo  e  um  apelo  aos  amigos.  A  mais 

                                                            
48  Karl Bühler  em  seu  Vom  Wesen  der  Syntax  vê  deveras  em  tal  fenômeno  a  raiz 
biológica da sintaxe! 

236    
simples entonação da voz humana é a expressão mais pura e imediata 
da  avaliação:  todos  os  outros  elementos  da  linguagem  articulada  são 
portadores  de  novas  funções,  não  obstante  também  estes  estão 
permeados  pela  avaliação  (um  discurso  privado  do  momento  da 
avaliação  é uma  abstração):  devemos,  porém,  ultrapassar  os  limites  da 
expressão sonora da voz humana. 
Convencionemos  chamar  toda  avaliação  encarnada  no  material  de 
“expressão  avaliativa”49.  O  material  primeiro  e  antigo  desta  expressão 
avaliativa  é  o  próprio  corpo  humano:  o  gesto  (movimento  significativo 
do  corpo)50  e  a  voz  (da  linguagem  articulada).  O  terror,  a  alegria,  a  ira 
etc.  apossam‐se  primeiro  de  nosso  corpo  e  da  nossa  voz:  frêmito 
convulsivo, sorriso, expressão dos olhos etc.  – e só depois a expressão 
avaliativa  pode  passar,  do  próprio  corpo  e  através  dele,  ao  material 
extra‐corporal que se limita ao próprio corpo e é quase sua extensão. É 
absolutamente  necessário  que  este  liame  com  o  corpo,  efetivo  ou 
possível,  seja  percebido  para  que  possa  ter  significado  expressivo. 
Assim, a expressão avaliativa está presente no material linguístico (é o 
mais  próximo  do  corpo),  no  material  acústico  dos  sons  emitidos  pelos 
corpos  físicos  (a  entonação  deixa  o  corpo  e  se  transmite  através  da 
pressão  das  mãos  sobre  a  testa,  a  vibração  das  cordas  vocais,  a  tensão 
dos  lábios  e  do  peito  que  faz  soar  a  respiração  etc.).  Um  pouco  mais 
complexa  é  a  passagem  da  expressão  avaliativa  no  espaço  nas  artes 
figurativas  e  sua  emergência  nas  artes  figurativas  (arquitetura, 
escultura, pintura). 
Todo  este  material,  acolhendo  a  expressão  avaliativa  que  vem  do 
corpo  e  da  voz  do  homem,  torna‐se  seu  condutor  inter‐corporal:  a 
capacidade da expressão avaliativa de penetrar no material não‐verbal 
tornando‐o expressivo se explica somente com a sua natureza social: se 
                                                            
49  Aqui  nos  dissociamos  categoricamente  da  concepção  do  termo  “expressão”  que 
domina a estética idealista de Croce. Infelizmente não encontramos melhor definição 
para  a  avaliação  social  que  não  nos  termos  “expressão  avaliativa”.  Do  conceito  de 
valor  já  falamos  na  nota  25.  [N.T.]  Em  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem,  na  edição 
brasileira, usa‐se a expressão “orientação avaliativa” para referir a este fenômeno.  
50  Chamado de discurso cinético (linear) que precede o discurso sonoro. A ciência deve 

a N. Marr (op. cit, p.88 e seguintes) esta aquisição. Uma exposição divulgadora desta 
concepção  pode‐se  encontrar  em  I.  Mescaninov,  Vvedenie  v  jafetidologiju  [Introdução 
aos estudos javéticos], Leningrado, 1929, pp. 186‐189.  

  237 
 
a avaliação expressa, por exemplo, pela entonação da voz humana fosse 
efetivamente individual, ela permaneceria no organismo. Só aquilo que 
tem significado inter‐orgânico pode apropriar‐se do material ideológico: 
a  própria  formação  deste  material  só  é  possível  na  relação  organizada 
entre corpos. 
Qual  a  função  estética  desenvolvida  pela  expressão  avaliativa  no 
material? 
Antes  de  tudo,  esta  expressão  cria  a  forma  articulada  do  material: 
define  o  início  e  o  fim,  o  que  é  essencial  e  o  que  é  secundário,  o  que 
enaltecer  e  o  que  rebaixar.  Cria  a  estrutura  hierárquica  do  material,  ou  o 
movimento hierárquico em seu interior. A expressão avaliativa determina 
a  localização  de  todo  elemento  material  na  escala  axiológica  da  obra. 
Nós sentimos a elevação axiológica de um elemento, isto é, percebemos 
nele o peso hierárquico, antes mesmo de conhecer seu exato significado 
objetal. O corpo material, impregnado da expressão avaliativa, entrando 
no  evento  social  da  relação  artística,  se  ideologiza,  torna‐se  objeto 
estético. 
Restituído assim vivo e provido de um sentido ligado aos valores, o 
material pode também ser privado de qualquer significado objetal; assim 
é, por exemplo, na música e em parte na coreografia e em algumas artes 
figurativas  (ornamentais  etc.);  a  obra  das  artes  figurativas  é 
profundamente expressiva e dotada de sentido, mas dotada de sentido 
exatamente  pela  avaliação  social  diferenciada  que  a  impregna.  O 
significado  do  material  na  arte  se  esclarece  particularmente  bem  na 
análise das artes não figurativas. Nada é mais funesto para a teoria da 
arte do que o modo de ver, largamente difundido, pelo qual o material 
se  encharca  de  algum  “sentido”,  “ideia”,  “noção”,  formadas  e 
amadurecidas  fora  do  material  e  malgrado  o  material;  e  que  este  sentido 
pronto  e  perfeito  só  é  transmitido  “imperfeitamente”  através  do 
material.  A  raiz  desta  concepção  funda‐se  naturalmente  na 
representação dualista da matéria e do espírito. 
É  verdade  que  às  vezes  já  o  primeiro  clarão  da  consciência,  a 
primeira e confusa avaliação, é produzido desde o início só no material 
da  expressão:  na  mímica,  no  grito  etc.  O  aumento  da  tomada  de 
consciência e a sua diferenciação só se realiza no aumento da atenção e 
diferenciação do material correspondente: fora do material da expressão 

238    
não há emoção. Assim, a expressão precede a emoção, não é seu berço51.  
Nenhuma etapa da criação artística por isso se desenvolve ou pode desenvolver‐
se fora do material. Nenhum elemento da intenção de um artista, a partir 
de  seu  primeiro  e  confuso  relampejar  na  consciência,  até  seu  produto 
final,  lhe  é  dado  de  fora  e  malgrado  o  material;  ao  contrário,  toda  a 
posterior precisão e clareza da intenção é fruto de uma diferenciação e 
especificação do material. 
Pode‐se  falar  somente  da  passagem  de  um  material  para  outro:  a 
intenção do escultor ou do pintor se realiza, num primeiríssimo estágio 
de  desenvolvimento,  ainda  privado  da  responsabilidade  artística,  no 
material do discurso interno, para depois passar para o espacial; a intenção 
do músico se concretiza, já nos primeiros estágios, somente no material 
musical,  e  a  transposição  é  por  isso  interna  ao  material  dado  (por 
exemplo, a orquestração). No que respeita ao poeta, não só sua intenção 
poética,  mas  em  geral  todos  os  movimentos  da  sua  “consciência 
criativa” se realizam dentro do material verbal. 
A  falsa  representação  da  criação  artística  como  encarnação  nas 
“ideias”,  “emoções”,  “pensamentos”  extra‐materiais  produziu  na 
estética  e  na  ciência  da  literatura  um  mau  diletantismo  que  se  esforça 
por  descobrir  nas  artes  não  figurativas  elementos  de  intenção  não 
presentes no material: investigam assim determinadas ideias, emoções, 
acontecimentos dentro da obra musical etc. 
De fato esta interpretação  objetal da  obra musical não é outra  coisa que a 
tentativa de traduzi‐la na língua de outro material, verbal ou visual. Mas esta 
tradução  não  entra  de  fato  na  intenção  do  músico:  ao  diletante  pode 

                                                            
51  Nossa  afirmação  se  sustenta  numa  conclusão  extraída  das  palavras  de  Engels:  “... 

tudo  o  que  leva  o  homem  a  agir  deve  passar  pela  sua  mente:  o  homem  prepara‐se 
para comer e beber porque se reflete em sua mente a sensação de fome e de sede, e 
para de comer e de beber porque na sua mente se reflete a sensação de saciedade. As 
impressões produzidas sobre o homem pelo mundo externo se expressam em sua testa, 
nela  se  refletem  sob  a  forma  de  sentimentos,  pensamentos,  estímulos,  movimentos 
volitivos, em resumo, sob a forma de ‘tendência ideal”...” (Engels, Ludwig Feuerbach, 
Moscou, 1923, p. 49‐50; cursivos meus). Fora da interpretação ideológica (se expressam 
em sua testa) não existe para nós tampouco um sentir biológico (por exemplo a fome e 
a sede). 

  239 
 
parecer  que  a  palavra  expresse  mais  e  melhor  do  que  o  som52,  mas  as 
emoções  artísticas  do  músico  se  realizam  imediatamente  no  material 
musical, nascem no seu interior. 
O  problema  do  material  na  arte  se  esclarece  somente  ligado  ao 
conceito  de  expressão  avaliativa:  esclarece‐se  assim  o  significado 
puramente sociológico do material. Pode tornar‐se material artístico não 
qualquer corpo físico em si, mas somente um corpo que possa se fazer 
condutor da relação social, que possa acolher a expressão avaliativa que 
emana  do  corpo  vivo  humano.  O  material  na  arte,  inteiramente 
penetrado  pela  avaliação,  é  organizado  como  meio  do  evento  social  da 
interação artística das pessoas. 
É  possível  aproximar‐se  da  obra  poética  como  um  puro  exercício 
linguístico,  definido  pelas  possibilidades  gramaticais  de  uma  dada 
língua,  mas  na  realidade  a  língua  para  o  poeta  é  completamente 
permeada  por  entonações  vivas,  avaliativas  e  por  orientações  sociais, 
com  as  quais  luta  no  processo  da  criação  e  entre  elas  escolhe  esta  ou 
aquela forma linguística, esta ou aquela expressão. 
Nenhuma  palavra  é  dada  ao  artista  de  forma  linguisticamente 
virgem:  ela  está  prenhe  de  todas  as  situações  cotidianas  e  de  todos  os 
contextos poéticos em que ela foi encontrada. 
Surge  aqui  um  problema  extremamente  importante  para  a  poética 
histórica:  o  poeta  não  introduz  a  sua  nova  expressão  avaliativa  num 
material  verbal  privado  de  entonações:  ele  já  foi  preenchido  de 
entonações e avaliado socialmente, e nele a nova entonação se encontra 
inevitavelmente  com  as  velhas,  introduzindo‐se  no  tecido  vivo 
ideológico  das  avaliações  expressas  e  remanescentes  no  material.  Por 
isto  o  poeta,  como  todo  artista,  pode  somente  produzir  algumas 
reavaliações,  deslocamentos  entonacionais  perceptíveis  como  tais  por 
ele e por seu auditório  sobre o fundo das velhas avaliações das velhas 
entonações. Eis o problema: dentro de que limites é possível esta renovação 
das  intenções  que  permeiam  o  material?  Problema  estreitamente  ligado 
àquele  da  tradição  artística,  que  devemos  aprofundar.  Expressaremos 
brevemente nossa opinião de forma dogmática: no interior de um dado 
                                                            
52  A 
inadmissibilidade  “logicizante”  e  “psicologizante”  do  fenômeno  musical  foi 
demonstrada  por  nós  em  1922  numa  recensão  do  livro  de  I.  Glebov  sobre 
Tchaikowski (em Zapiski peredviznogo teatra, 42, 1922). 

240    
grupo  social  a  liberdade  do  artista  é  extremamente  limitada:  criar 
entonações  importantes  novas  não  lhe  é  possível.  Somente  a  aparição 
em  cena  de  um  novo  grupo  social,  no  qual  estas  mesmas  palavras 
(“natureza”, “vida”, “estado”, “classe” etc.) são vividas desde o início e 
receberam um sentido nas situações quotidianas e contextos avaliativos 
completamente diversos, pode produzir uma revolução séria da forma 
artística. Todas as revoluções literárias internas a um grupo, por quanto 
radicais  possam  parecer,  serão  sempre  estritamente  estéticas, 
construídas  em  mesas  de  bar  e  são  pouco  sérias.  Naturalmente,  no 
interior  de  uma  liberdade  artística  limitada  permitida  por  um  dado 
grupo  podem  existir  enormes  diferenças  individuais  entre  os  diversos 
artistas: o próprio material ideológico que está ao alcance das mãos de 
um  artista  como  inerte  e  inexpressivo  será  socialmente  sensível  e 
flexível nas mãos de outro artista. 
 
VI 
 
A  seguir,  passemos  a  uma  análise  mais  detalhada  da  expressão 
avaliativa na atividade poética. 
Em  poesia,  a  avaliação  social  determina  o  próprio  som  da  voz  (a 
entonação)  e  a  escolha  e  a  ordem  de  disposição  do  material  verbal.  Em 
consequência, devemos distinguir duas formas de expressão avaliativa: 
1)  sonora  e  2)  tectônica,  subdivididas  em  dois  grupos:  a  eletiva  (que 
determina a escolha) e a compositiva (que determina a distribuição)53. 
As  funções  eletivas  da  avaliação  social  acompanham  a  escolha  do 
material lexical (lexicologia), a escolha dos epítetos, metáforas e outros 
tropos (semântica poética) e, por fim, a escolha do tema em seu sentido 
específico  (escolha  do  conteúdo).  Mantemos  por  isso  no  grupo  eletivo 
toda a estilística e parte da temática. 
As  funções  compositivas  da  avaliação  determinam  a  posição 
hierárquica  e  a  ordem  de  todos  os  elementos  verbais  na  totalidade  da 
obra  e  mais  a  estrutura  do  todo.  Estão  adscritos  a  este  segundo  grupo 

                                                            
53 Manteremos  nossa  terminologia  que  atende  perfeitamente  aos  nossos  objetivos, 
embora saibamos que é possível naturalmente formular de forma distinta os próprios 
fatos e fenômenos. 

  241 
 
todos os problemas da sintaxe poética, da composição, no sentido literal 
da palavra e, enfim, do gênero. 
Todos os três aspectos da avaliação social: a entonação sonora, isto é, o 
colorido  avaliativo  de  todo  o  material  sonoro,  a  escolha  do  material 
verbal  e,  por  fim,  a  sua  disposição  na  totalidade  verbal,  estão 
indissoluvelmente  ligados  entre  si  e  são  diferenciados  somente  em 
abstrato.  É  toda  uma  única  avaliação  social:  som,  escolha  e  disposição 
das  palavras  se  desenvolvem  da  mesma  forma,  como  uma  flor  se 
desenvolve do botão. 
A  avaliação  ressoa  já  na  entonação  de  um  grito  humano 
inarticulado, que, conectada a toda a situação do grito, fornece‐lhe um 
sentido.  O  grito  humano  é  social:  lamenta‐se,  invoca  ajuda,  adverte, 
ameaça,  amedronta  etc.,  mesmo  quando  sua  orientação  social  não  se 
reflete ainda na consciência (grito reflexo). O grito é uma pequena ponte 
acústica  material  lançada  entre  organismos  individuais;  o  fenômeno 
acústico do grito, grosseiro e ainda inarticulado, está já permeado pela 
entonação  social  primitiva  e  constitui‐se,  portanto,  em  fenômeno  já 
ideológico,  portador  e  intérprete  de  um  evento  social.  Já  se  pode  falar 
de  um  auditório  social  do  grito  e  de  sua  diferenciação,  já  que  isto  se 
reflete  na  entonação  do  grito.  A  entonação  mais  a  situação  que  lhe 
corresponde: é este o mais simples aparato ideológico (precede o discurso 
articulado), capaz de transmitir diversos e sutis matizes da inter‐relação 
social entre os participantes. Sem esta importante função exercida pela 
entonação  sonora,  a  linguagem  infantil  não  se  desenvolveria:  sobre  o 
material  acústico  ainda  não  articulado,  ela  exerce  funções  lexicais, 
morfológicas, sintáticas e estilísticas (na presença naturalmente de uma 
situação  que  esclareça  a  enunciação  infantil).  Estas  funções  da 
entonação  discursiva  infantil  não  foram  ainda  suficientemente 
estudadas,  inclusive  não  foram  calculadas  plenamente  a  riqueza  e  a 
complexidade social desta entonação. 
Um  esplêndido  exemplo  desta  entonação  infantil  e  do  seu 
significado  é  dada  por  Karl  Bühler  no  seu  Vom  Wessen  der  Syntax,  em 
que diz: “Me surpreendeu notar numa criança, observada longamente e 
cuidadosamente,  com  que  presteza  ela  utilizava  o  registro  e  a 
esplêndida  melodia  dos  pedidos  infantis,  de  forma  insinuante  e 
sugestiva.  Aos  dois  anos,  quando  caminhava  com  custo  e  falava  sem 

242    
declinar  nem  conjugar,  a  criança  enunciava  pequenos  pedidos  que  de 
seu ponto de vista tinham pouca possibilidade de serem escutados (por 
exemplo, “Papa Strasse gehen” etc.) com uma voz extraordinariamente 
profunda  e  absolutamente  suave,  que  se  mantinha  sempre  na  mesma 
nota, sem por isso sair ou ascender nem durante nem depois, e com um 
ritmo de dúvida levemente lento. Onde a criança tinha aprendido esta 
insinuante  melodia?    Quando  tento  imitá‐la  minha  fala  soa 
extremamente  afetada;  encontro‐o  ainda  em  outras  crianças  e  posso 
assegurar  que  é  patrimônio  comum  e  precoce  da  língua  infantil.  A 
dúvida ele tomou de empréstimo dos adultos e devolveu mais marcada 
pelo  processo  de  imitação,  como  se  observa  nas  crianças?  Não  posso 
crer:  a  língua  infantil  é  rica  de  nuances  musicais,  muito  mais  que 
qualquer  canção  comparada  com  a  da  criança,  que,  como  se  sabe,  por 
longo tempo será executada de modo extremamente tosco”54.   
Infelizmente  o  psicólogo  subjetivista  Karl  Bühler  não  tentou 
aprofundar sua análise sociológica; a situação, que ele considera bem, é 
uma  situação  social,  lugar  de  cooperação  da  criança  com  o  ouvinte 
adulto,  e  a  entonação  infantil  é  elemento  inseparável  deste  pequeno 
mundo  social  da  criança.  Só  na  unidade  material  indivisível  deste 
pequeno mundo social a entonação pode ser estudada e compreendida 
como fato objetivo. 
Do significado da entonação na linguagem cotidiana nem é preciso 
falar. O discurso cotidiano, que se efetua habitualmente na presença de 
visu  [face  a  face],  utiliza  amplamente  a  entonação  (cuja  flexibilidade 
social é enorme) para economizar outros elementos discursivos.  
Na  poesia,  a  entonação  sonora  atualizada  não  pode  ter  a  mesma 
importância  que  tem  no  discurso  cotidiano:  adivinha‐se  em  todas  as 
palavras,  em  todos  os  elementos  da  obra,  mas  não  é  de  fato 
indispensável na atualização efetiva por meio da voz, a densidade pode 
não  ser  possível  em  sua  plenitude:  a  gama  de  matizes  possíveis  para 
uma voz humana é muito pouca para transmitir toda a complexidade e 
a riqueza social do sistema entonacional de uma lírica, ainda que seja a 
mais  simples.  A  entonação  sonora  é  percebida  de  preferência  como 

                                                            
54  K. Bühler. “Vom Wesen der Syntax” (Idealistische Neuphilologie Festschrift für K.Vossler, 

1922). 

  243 
 
possibilidade  do  que  como  som  efetivo!  Só  na  música  a  avaliação  e  a 
entonação interior entram plenamente na entonação sonora: na música 
tudo  isto  é  artisticamente  significante  e  deve  ter  um  som,  a  mais  sutil 
das  nuances  da  avaliação  deve  encarnar‐se  em  som  real....  O  que  não 
tem  som  equivale  a  um  zero55.  Na  poesia,  sobretudo  na  sua  forma 
prosaica, os principais momentos artísticos são mudos. Por isto o papel 
do executor é tão importante na música (em que ele é parte constitutiva 
do  evento  artístico)  quanto  é  insignificante  na  poesia.  A  percepção  da 
obra  poética  é  o  modo  como  é  entoada  internamente,  mas  os  acentos 
fundamentais e mais sutis desta entonação interna se efetuam na escolha 
e na colocação do material verbal. É verdade que toda obra está envolta 
pela  possibilidade  de  ter  uma  entonação  sonora,  todos  seus  elementos 
estão  marcados  por  esta  possibilidade,  esta  possibilidade  deve  ser 
notada: mas um executor real não é obrigado, ele não pode em nenhum 
caso  realizar  toda  esta  possibilidade.  É  preciso  notar  a  este  propósito 
que é importante tanto a possibilidade acústica (para o ouvido, como na 
música) quanto a fonética, para a abertura do organismo e seus órgãos 
necessários  para  efetivar  a  entonação  dada,  e  por  isso  o  resultado 
sonoro não importa tanto quanto a abertura entonacional56. 
A execução de uma obra lírica “para si”, a meia voz, pode procurar 
toda a plenitude da compreensão e do prazer estético acessível a dado 
sujeito,  enquanto  a  má  execução  de  um  péssimo  conjunto  musical, 
ainda  que  “para  si”,  dificilmente  satisfaz.  A  música  não  conhece  a 
categoria  da  diversidade  das  “possibilidades  sonoras”,  enquanto  na 
poesia, sobretudo nas condições contemporâneas da sua fruição (leitura 
para si) esta categoria tem um enorme papel. 
A  entonação  tem  grande  importância  para  a  criação  do  ritmo:  é  a 
própria entonação que transforma a abstração da métrica na realidade viva do 

                                                            
55  Aqui não me refiro obviamente às pausas internas do compasso de espera ou entre os 

sons,  que  tem  um  significado  expressivo  muito  preciso  e  são  elementos  estruturais 
não suprimíveis de uma obra musical. Todos os conhecedores notam bem o efeito que 
faz uma pausa inesperada depois de um grandioso crescendo.   
56
  É notório como os gestos corporais substituem a entonação sonora e como o uso de 
um  pode  economizar  o  outro:  um  gesto  fortemente  expressivo  não  precisa  ser 
acompanhado  de  uma  entonação  expressiva  tão  forte  quanto  seria  necessário  sem  o 
gesto. 

244    
ritmo. Seria, no entanto, um grave erro pensar que o ritmo poético seja 
um fenômeno puramente sonoro ou fonético‐sonoro57: mesmo no ritmo, 
uma  parte  enorme  pertence  à  categoria  da  possibilidade  sonora  (e 
fonética).  Toda  a  plenitude  do  fenômeno  concreto  do  ritmo  é  muito 
mais  rica  e  mais  complexa  do  que  sua  efetiva  e  possível  encarnação 
sonora e fonética. 
Mas fatores do ritmo ainda estão na realização interior da escolha (a 
percepção  do  ritmo  é  sempre  acompanhada  da  percepção  da  escolha 
ativa) e na realização da colocação composicional58. 
A entonação reafirma e reforça estas funções técnicas da expressão 
avaliativa, que estabelece o lugar hierárquico da palavra: os valores no 
verso, do verso na estrofe, e da estrofe na totalidade da obra.   
Podemos assim divisar os quatro fatores básicos do ritmo: 1) métrico, 
2) entonacional, 3) eletivo e 4) compositivo. 
Demorar‐se  sobre  o  primeiro  fator,  o  métrico,  não  entra  em  nossas 
tarefas: como fator métrico entendemos todo o conjunto dos elementos 
que entram no sistema estável da versificação. 
No que diz respeito ao segundo fator, o entonacional, posso trazer a 
ideia de cindi‐lo em duas modificações autossuficientes: 1) a entonação 
sintática e 2) a entonação expressiva. Esta divisão a faz P. N. Medvedev: 
“Diferentemente da entonação sintática, que é mais estável, a entonação 
expressiva,  dando  certo  colorido  a  cada  uma  das  palavras  da 
enunciação,  nela  reflete  a  irrepetibilidade  histórica...  Obviamente  a 

                                                            
57 A  demanda,  a  que  pertence  o  primado  do  ritmo:  o  ouvido,  ou  os  órgãos  fonadores, 

não pode receber uma mesma resposta para todas as épocas de desenvolvimento da 
poesia.  Problemas  deste  gênero  somente  admitem  uma  perspectiva  histórica.  Este 
problema  é  posteriormente  complicado  pelo  enorme  papel  dos  olhos,  que  se  tornou 
um mediador entre o ouvido e os órgãos fonadores: dada a difusão geral da palavra 
artística  fixada  graficamente,  a  importância  da  imagem  sonora  é  indubitavelmente 
diminuída. O romance de aventura contemporâneo fundamental e indiscutivelmente 
não é um fenômeno nem acústico nem fonético. Num momento e noutro, as técnicas 
juntaram‐se  ao  que  era  artisticamente  insignificante,  ao  mesmo  tempo  em  que  a 
função principal, ainda técnica, foi desenvolvida pela imagem gráfica. 
58  Esta  última  em  parte  é  dada  pelo  olho,  mais  ou  menos  nas  diversas  línguas  e  nos 

diversos estilos: a estrofe e o verso são de fato um fenômeno parcialmente espacial. 

  245 
 
entonação expressiva não é de fato obrigatória, mas onde está presente 
exprime muito claramente o conceito de avaliação social59 
Parece  que  esta  afirmação  não  é  completamente  exata.  Antes  de 
tudo,  qualquer  entonação  é  expressiva,  isto  é,  é  uma  avaliação  social 
encarnada no material sonoro. 
Comete‐se  a  falha  de  pressupor  que  possa  faltar  uma  entonação  
“expressiva”,  quando  não  existe  no  mundo  um  discurso  privado  do 
momento  da  avaliação.  Por  outro  lado,  se  se  fala  de  uma  entonação 
“sintática”, por que não falar de uma entonação “gráfica” ou “lexical”? 
Também a simbolização gráfica do som, a união dos sons no complexo 
significante (semântica) e as combinações destes complexos sonoros nas 
enunciações de sentido completo são condições linguísticas materiais da 
entonação de qualquer enunciação, lida ou ouvida: privado do suporte 
material, a entonação terá poucas possibilidades de existir, a menos que 
naturalmente  nós  não  pensemos  num  discurso  “simples  como  um 
mugido”60.   
Naturalmente  compreendemos  o  pensamento  de  P.  N.  Medvedv: 
existe uma espécie de limite inferior da entonação expressiva, abaixo do 
qual  tem  início  outra  esfera,  aquela  da  gramática  e  de  suas  categorias 
formais.  Mas  colocar  no  mesmo  grupo  os  conceitos  de  entonação 
expressiva e entonação sintática é um lapsus terminologiae. 
O  ritmo  de  uma  poesia  (assim  como  o  ritmo  de  um  discurso  em 
prosa) é dado acima de tudo pela entonação expressiva, livre e sempre 
diversa.  A  mesma  palavra  terá  entonações  expressivas  distintas  em 
duas proposições distintas; mais ainda, a mesma palavra terá entonação 
expressiva  distinta  em  duas  proposições  iguais,  mas  pertencentes  a 
totalidades diversas (imaginemos um verso idêntico figurando em duas 
poesias  distintas).  Em  fim,  a  mesma  palavra  terá  uma  entonação 
expressiva  completamente  distinta  em  duas  totalidades  verbais  iguais, 
mas em situações (tipos de relações sociais) diferentes. 

                                                            
59  Op. cit. pp.165 da edição russa.  
60  Responsável  pela  tendência  dos  nossos  dias  de  atribuir  à  entonação  “sintática”  um 

significado  quase  exclusivo  é  principalmente  Ed.  Sievers,  que  encantou  não  poucos 
pesquisadores russos. 

246    
Construamos um exemplo. Suponhamos que eu fale com um amigo 
(relação prático‐cotidiana) de uma biografia de V. I. Lenin que acabei de 
ler e que lhe diga: “Quero ser igual a Lenin, a Vladimir Illich”. 
Estas  mesmas  palavras  poderão  ser  pronunciadas  por  um  orador 
num  meeting  [relação  de  propaganda]  neste  contexto:  “Companheiros, 
para  mostrar‐se  digno  da  honra  de  substituir  o  falecido  chefe  neste 
período  de  grandes  empreendimentos,  numa  época  de  construção 
intensiva, qualquer um de vós deve dizer‐se: Quero ser igual a Lenin, a 
Vladimir Illich”. 
Imaginemos, enfim, ouvir estas palavras num palco, inseridas num 
contexto poético (relação artística): 
 
A nossa vida é espumante como o oceano 
A nossa vida é ardente como um vulcão! 
Quero ser igual a Lenin 
A Vladimir Illich61 
 
É clara a diferença de entonação e por isso de peso axiológico destas 
palavras. 
A expressão avaliativa, encarnada na materialidade da voz humana, 
é  então  o  principal  fator  sonoro  (e  fonético)  do  ritmo.  É  preciso  ter 
presente,  a  este  propósito,  que  a  entonação  expressiva  não  é  mais 
realizada  pela  voz  em  toda  a  sua  plenitude:  esta  plenitude  existe  só 
como categoria de possibilidade sonora. 
Registre‐se  ainda  outra  característica  da  entonação  expressiva,  sua 
capacidade  de  tornar  concreto  o  auditório,  próximo  e  quase 
sensorialmente  perceptível.  Quanto  mais  sutilmente  diferenciada  e 
singular  é  a  entonação  expressiva,  tanto  mais  ela  se  orienta  para  um 
auditório  próximo  e  socialmente  homogêneo.  É  assim,  por  exemplo,  a 
entonação  na  lírica  íntima  de  Innokenti  Annenski,  cujo  ritmo  é 
construído  sob  muito  sutis  matizes  entonacionais,  destinados  à  “alma 
gêmea”,  isto  é,  para  um  auditório  íntimo,  “de  câmera”.  Caráter 
diferente tem a entonação expressiva na lírica do tipo canção como por 
                                                            
61  Levin, “Pesnja komsomolca” [A canção do komsomolec], in. Pervye pesni vozdju, 1926, 

p.  164,  (cursivos  nossos).  [N.T.]  Komsomolec:  ilha  do  Oceano  Ártico  pertencente  à 
Federação Russa. 

  247 
 
exemplo  em  Esenin:  esta  entonação  é  mais  simples,  mais  grosseira, 
indiferente aos matizes de sentido da palavra, destinada a um auditório 
amplo  e  um  pouco  barulhento,  com  uma  emoção  forte  mas  pouco 
diferenciada. 
Passemos  aos  últimos  dois  fatores  do  ritmo:  o  eletivo  e  o 
compositivo. 
Cada  palavra  é  para  o  poeta  um  valor  (semântico,  fonético  etc.)  e  a 
escolha  de  uma  palavra  em  lugar  de  outra  é  um  ato  de  preferência.  Esta 
escolha ativa é percebida, sobretudo, quando não é feliz, quando sentimos 
que  a  palavra  é  fraca,  pálida,  quando  deveria  ser  mais  forte  etc.  como 
ocorrem  em  particular  nos  lugares  métricos  privilegiados  (no  início  do 
verso, antes da cesura, na rima). É muito difícil neste caso distinguir o fator 
eletivo  do  compositivo,  pois  na  realidade  a  escolha  da  palavra  e  a 
sinalização de seu posto na totalidade verbal ocorrem num único ato. Quer 
a escolha, quer a disposição da palavra‐valor procedem de acordo com seu 
peso  axiológico.  Dispondo  mal  esta  palavra‐valor  de  peso  distinto  no 
verso, na estrofe e na totalidade da obra, arrisca‐se a matar o ritmo.  
Todos  os  quatro  fatores  do  ritmo  por  nós  indicados  estão 
indissoluvelmente  ligados  entre  si:  somente  em  abstrato  é  possível 
isolá‐los da unidade viva e concreta do ritmo. Ele tem uma única alma: 
a avaliação social. 
Com  isso  concluímos  nossa  análise  da  expressão  avaliativa  na  sua 
encarnação  sonora.  Não  podemos  examinar  as  funções  tectônicas 
(eletiva  e  compositiva)  que  determinam  o  gênero,  a  composição  e  o 
estilo da obra poética. Mas o pouco que registramos é de todo suficiente 
para os objetivos deste trabalho crítico que empreendemos. 
Nenhum método que queira se descuidar do problema da expressão 
avaliativa  poderá  se  aproximar  do  monumento  literário  artisticamente 
significativo.  A  tentativa  de  V.  V.  Vinogradov  de  ignorar  a  estrutura 
sociológica da forma poética o levou a introduzir na poética o método 
da  linguística  objetivista‐abstrata,  método  que  inevitavelmente  exige  a 
plena  gramaticalização  de  todas  as  categorias  estéticas.  Mais  ainda,  a 
este  caminho  metodológico  se  chega  somente  ao  isolar  a  literatura  de 
todos os laços históricos e sociais, isto é, das forças vivas organizadoras que 
a  tornam  ideologicamente  significativa  e  dotada  de  sentido  artístico, 
restando  apenas  o  fenômeno  físico  nu  do  som  e  do  movimento.  Só 

248    
depois  de  ter  afastado  da  literatura  tudo  o  que  é  avaliação  expressiva, 
depois  de  tê‐la  esmorecido  socialmente  e  transformado  numa  série  de 
monumentos  linguísticos  petrificados,  foi  possível  a  memorável 
“conclusão  das  conclusões”  com  que  V.  V.  Vinogradov  encerra  o  seu 
Etjudy o stile Gogolja (1926): “A novela natural, estudada sob um plano 
puramente  artístico,  segue  na  sua  evolução  um  processo  curioso  e 
indicativo para os contemporâneos. Nasce da exigência de uma reforma 
estilística.  Consolidada  a  revolução  linguística,  ela  adapta  aos  novos 
princípios da construção estilística a psicologia da imaginação artística. 
Elaborado  um  modelo  de  desenho  ‘típico’,  criado  um  esquema 
complexo  de  reproduções  fotográficas  dos  ‘tipos’,  a  poética  natural  se 
coloca  a  serviço  da  ideologia  e  da  sociologia.  Realiza‐se  assim  na 
realidade artística uma espécie de ‘método ao avesso’ sociológico”. 
Uma assim brilhante reductio ad absurdum do método linguístico em 
poética  pode  conduzir  a  pretender  uma  só  coisa:  a  delimitação  bem 
nítida e precisa dos fenômenos linguísticos e fenômenos poéticos. 
A poética, gerada e criada pela linguística, fá‐la finita em seu poder 
despótico  para  encontrar  finalmente  sua  plena  independência 
metodológica.  Não  um  “método  sociológico  ao  avesso”,  mas  um 
autêntico  método  dialético  marxista  deve  dar  conta  de  todos  os 
problemas  específicos.  Tem  razão  Horácio:  “abandone  a  saia  da  mãe/ 
está na hora de casar‐se”. 
 
13 de novembro de 1929.   

  249 
 
ALGUMAS IDEIAS‐GUIA PARA A OBRA 
MARXISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM1 
 
 
 
1. Problemas  de  filosofia  da  linguagem  adquiriram  excepcional 
relevância e importância para o marxismo atualmente. Pode‐se dizer que 
numa  série  completa  de  trabalhos  dos  mais  importantes  e  vitais 
domínios  da  pesquisa  acadêmica  o  método  Marxista  encontra 
precisamente  estes  problemas,  e  não  pode  ir  além,  com  avanços 
produtivos, sem tematizá‐los num exame independente e resolvê‐los.  
O primeiro e mais importante deles está verdadeiramente na base de 
uma ciência marxista das ideologias (da criação ideológica): os fundamentos 
do estudo da ciência, os estudos literários, o estudo da religião, a ciência 
da moral e assim por diante – isto é, os fundamentos de uma completa e 
extensa  gama  de  domínios  que  em  trabalhos  não  marxistas  têm  sido 
chamada  de  ‘filosofia  da  cultura’.  Os  fundamentos  das  lições  marxistas 
sobre  a  refração  ideológica  nos  processos  sócio‐econômicos  e  naturais,  sob 
as leis e formas desta refração, necessitam ser descritos em detalhe com 
precisão e, mais importante ainda, concretamente, com referência ao material 
ideológico  específico.  Somente  deste  modo  é  possível  estabelecer  o 
mecanismo  concreto  desta  reflexão  e  refração.  Sem  tal  concretização  e 
descrição  detalhada,  naturalmente  é  impossível  chegar  realmente  ao 

                                                            

1   [N.T.] A edição deste texto em língua inglesa se fez acompanhar de inúmeras notas de 
rodapé,  elaboradas  pelos  editores  (Craig  Brandist,  David  Shepherd  e  Galin  Tihanov), 
em  algumas  delas,  havendo  identificação  do  autor  e  noutras  não.  Estas  notas  foram 
escritas especificamente para a edição em inglês. Ver The Bakhtin Circle. In the master’s 
absence,  edited  by  Craig  Brandist,  David  Shephered  U&  Galin  Tihanov,  Manchester  e 
Nova  York:  Manchester  Universtity  Press,  2004.  Esta  tradução  é  apenas  do  texto  de 
Volochínov,  sem  estas  notas  de  rodapé.    Este  texto  compõe  o  relatório  acadêmico  de 
Volochínov  relativo  ao  período  de  1927  e  1928,  cuja  primeira  parte  é  um  sumário  da 
obra  Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem.  Em  outro  relatório  anterior,  referente  a  1925‐
1926, apresenta um sumário para a construção de uma poética sociológica (ver Sériot, 
Patrick,  op.  cit.,  p.  469‐475).    Em  função  do  valor  histórico  para  a  obra  Marxismo  e 
Filosofia da Linguagem, dois sumários apresentados pelo autor (um manuscrito e outro 
como parte do relatório do ano letivo de 1928) são aqui publicados como apêndices.  

  251
monismo  metodológico,  não  apenas  nas  declarações  gerais,  mas  em 
todos os detalhes do trabalho acadêmico concreto. 
É aqui que o marxismo se defronta com os problemas da linguagem, 
pois a palavra é o fenômeno ideológico par excellence. E não só porque é 
no  material  da  palavra  que  os  mais  importantes  domínios  da  ideologia 
(ciência,  literatura  e  num  grau  significativo  religião  e  moral)  alcançam 
sua realização concreta, mas também porque a palavra acompanha, como 
ingrediente necessário, toda a criação ideológica em geral. O processo de 
compreensão  de  qualquer  produto  ideológico  que  for  (uma  pintura, 
música,  um  ritual,  um  ato)  não  ocorre  sem  a  contribuição  do  discurso 
interno.  Todos  os  produtos  e  manifestações  da  criação  ideológica  são 
banhados  pelo  discurso,  passo  a  passo,  e  não  são  susceptíveis  de  uma 
separação  ou  isolamento  reais.  Cada  refração  ideológica,  qualquer  que 
seja  o  material  significante,  no  curso  de  seu  processo,  é  acompanhada 
pela refração ideológica da palavra, obtendo sua pureza e essência mais 
elevadas  precisamente  na  palavra.  A  palavra  (mesmo  que  somente  a 
palavra  interna)  é  um  comentário  para  cada  ideologema.  A  palavra  é  o 
mais  sutil,  flexível  e  ao  mesmo  tempo  o  mais  exato  meio  ideológico  de 
refração. É por esta razão que as leis da refração ideológica, suas formas e seus 
mecanismos,  devem  ser  estudados  com  referência  ao  material  da  palavra.  A 
introdução  do  método  sociológico  marxista  em  toda  a  profundidade  e 
sutileza  nas  até  agora  tidas  como  estruturas  ideológicas  “imanentes”, 
somente  é  possível  com  base  numa  filosofia  da  linguagem  também 
elaborada pelo próprio marxismo. 
2. Um  dos  problemas  fundamentais  do  marxismo  –  o  problema  da 
relação  entre  a  base  e  a  superestrutura  –  em  seus  momentos  essenciais 
enlaça‐se  com  os  problemas  da  filosofia  da  linguagem.  As  relações  de 
produção e a estrutura sócio‐política diretamente condicionadas por elas 
determinam os possíveis contatos verbais entre as pessoas: no trabalho, na 
vida  política,  no  intercâmbio  ideológico  (ciências,  religião,  artes).  As 
condições do intercâmbio discursivo também determinam a essência e a 
extensão das palavras, determinam as formas e os temas dos desempenhos 
discursivos como tais. 
O  que  é  conhecido  como  “psicologia  social”,  que,  de  acordo  com  a 
teoria  de  Plekhanov  e  da  maioria  dos  marxistas,  é  um  elo  de  transição 
entre  a  estrutura  sócio‐política  e  a  ideologia  no  seu  sentido  restrito 

252  
(ciência,  arte  etc.)  na  realidade  acontece  materialmente  como  interação 
verbal.  Tomada  fora  deste  processo  real  de  intercâmbio  e  interação 
discursivos  (ou  signo‐baseados),  a  “psicologia  social”  se  tornaria 
metafísica ou até mesmo um  conceito mítico (‘alma coletiva’ ou ‘psique 
coletiva’ e assemelhados). Ela se dá não em algum lugar interior (‘alma’ 
dos indivíduos engajados no intercâmbio), mas inteiramente no exterior – 
na  palavra,  no  gesto,  na  ação.  Nada  há  que  não  seja  expresso,  que  seja 
interno – nada está fora, tudo está no intercâmbio, tudo está no material 
e, sobretudo, no material da palavra. A psicologia social é o primeiro e o 
principal  elemento  das  diversas  performances  discursivas  que  banha 
todos  os  lados,  todas  as  formas  e  todos  os  tipos  de  criação  ideológica 
estabelecida:  discussões  não‐oficiais,  uma  troca  de  opiniões  no  teatro, 
num concerto ou em vários encontros sociais, ou simplesmente na troca 
conversacional,  nos  modos  de  reação  aos  atos  da  vida  do  dia‐a‐dia 
[zhinennye  i  zhiteiskie  postupki],  a  maneira  intra‐verbal  de  estar 
consciente de si mesmo, a posição social de alguém e assim por diante. A 
psicologia  social  aparece  primariamente  nas  várias  formas  de 
‘enunciação’,  na  forma  dos  menores  gêneros  discursivos  que  permanecem 
completamente  não  estudados.  Estes  desempenhos  discursivos  contêm, 
naturalmente, outros tipos de externalização signo‐baseados na interação – 
mímica, gesticulação, atos convencionais e semelhantes. Estas formas de 
interação  verbal  seguem  as  condições  criadas  pela  estrutura  sócio‐
política e diretamente pelas relações de produção. A interação discursiva 
reflete  de  modo  extremamente  sensível  todas  as  mudanças  que  aí 
ocorrem,  enquanto  uma  mudança  na  interação  verbal,  por  sua  vez,  se 
reflete  nas  formas  e  temas  dos  desempenhos  discursivos.  A  história  da 
linguagem deve, então, ser construída não como uma história das formas 
linguísticas  abstratas  (fonéticas,  lexicais,  morfológicas),  mas  como  uma 
história  das  formas  de  interação  discursiva.  As  formas  dos  desempenhos 
discursivos  concretos,  pertencentes  à  vida  e  à  ideologia,  são  também 
determinadas em cada interação, e é deste ponto de vista que a história 
dos significados [znacheniia] e das construções da linguagem em si como 
um  sistema  abstrato  de  normas  linguísticas  potenciais  deve  ser 
compreendida. Um estudo produtivo da história da cultura é impossível 
fora de uma história concreta da troca discursiva ideológica diretamente 
determinada pela estrutura social e pelas relações de produção.  

  253
Algumas reflexões sobre “enunciados vivos”, sua significação e suas 
formas  foram  desenvolvidas  em  meu  artigo  “A  palavra  na  vida  e  a 
palavra na poesia” (Zvezda, Lengiz, n.6, 1926, pp.244‐267). 
3. Uma  das  tarefas  fundamentais  e  mais  urgentes  do  Marxismo  é 
construir uma psicologia genuinamente objetiva – no entanto, não fisiológica 
ou  biológica,  mas  sociológica.  Neste  sentido,  o  marxismo  encara  uma 
difícil  tarefa:  encontrar  uma  objetiva,  mas  sutil  e  flexível,  abordagem  para  a 
consciência subjetiva psíquica, que normalmente cai no campo dos métodos 
de introspecção. Nem a biologia nem a fisiologia são adequadas para esta 
tarefa,  naturalmente.  É  essencial  prover  uma  interpretação  científica 
marxista  da  “experiência  interna”  para  incluir  esta  experiência  na  unidade 
objetiva  da  experiência  externa.  É  neste  ponto  que  o  problema  da 
‘enunciação’ e da externalização signo‐baseada da psique subjetiva em geral 
é  abordado  de  forma  nova.  Pela  introspecção  também  a  vida  interna  se 
dá como um processo discursivo interno em conexão com a situação externa 
específica  da  experiência  e  das  manifestações  corporais  específicas.  A 
própria  experiência  interna  é  também  uma  particular  interpretação 
ideológica de certos momentos da unidade objetiva da experiência externa. Este 
problema é extremamente complexo e exige o desenvolvimento de uma 
metodologia  distinta  e  um  método  concreto  para  estudar  a  enunciação 
como expressão – bem como traçar suas sutis conexões com a realidade 
social circundante. 
A  importância  do  problema  da  enunciação  (reação  verbal)  para  a 
psicologia  objetiva  foi  discutida  em  meu  livro  Freudismo  (Um  esboço 
crítico),  Lengiz,  1927,  Cap.  II  (Duas  tendências  da  psicologia  atual)  e  no 
Cap. III ( O conteúdo do inconsciente como ideologia)2. 
4. Em adição a estas tarefas puramente construtivas conectadas com 
a  filosofia  da  linguagem,  o  marxismo  enfrenta  algumas  outras  tarefas 
polêmicas  muito  importantes.  Deve  ser  dito  francamente  que  o  Método 
Formal,  contrariando  o  marxismo,  não  teve  também  nenhum  sucesso. 
Isto  é  evidente  precisamente  porque  falta  uma  abordagem  completa 
elaborada  pelo  marxismo  para  a  teoria  e  a  história  da  linguagem.  Isto 

                                                            

2   [N.T.]  Na  edição  brasileira,  são  os  capítulos  II,  pp.  13‐22  e  cap.  IX,  pp.  85‐92  (cf. 
Bakhtin,  Mikhail.  O  Freudismo  –  Um  esboço  crítico,  São  Paulo:  Perspectiva,  2001.  A 
edição inglesa do texto de Volochínov. 

254  
torna  impossível  para  nós  levantar  problemas  concretos  na  agenda  dos 
formalistas e em muitos casos obriga‐nos a limitarmo‐nos à repetição de 
lugares  comuns  do  marxismo.  Fundamentos  marxistas  para  os  estudos 
literários podem ser colocados somente se houver uma elaboração compreensiva e 
especializada  dos  problemas  da  linguagem.  Até  lá  nós  inevitavelmente 
teremos  uma  declaração  de  um  monismo  metodológico  em  teoria,  mas  na 
prática  um  dualismo  metodológico,  uma  combinação  de  argumentos 
sociológicos gerais com análises formalísticas concretas. 
5. No  momento  presente  na  Europa  Ocidental  (e  aqui  na  USSR 
também),  problemas  de  filosofia  da  linguagem  se  tornaram  excepcionalmente 
relevantes  e  importantes  questões  de  princípio.  A  filosofia  burguesa 
contemporânea,  pode‐se  dizer,  está  começando  a  se  desenvolver  sob  o 
signo da palavra, no entanto as novas tendências do pensamento filosófico 
ocidental  ainda  estão  em  seus  primeiros  estágios.  Nele,  a  palavra 
assumiu  uma  força  vigorosa  e  um  lugar  sistemático,  tão  forte  que  só 
pode  ser  comparado  com  as  disputas  medievais  entre  realismo, 
nominalismo  e  conceptualismo.  Na  verdade,  as  tradições  destas 
tendências  filosóficas  da  Idade  Média  estão  começando,  em  certa 
extensão, a reviver no realismo dos fenomenologistas e no conceptualismo 
dos  neokantianos.  Para  esta  última  tendência,  a  ‘palavra’  ocupa  um 
terceiro  lugar  entre  validade  transcendental  e  realidade  concreta,  um 
“terceiro  reino”,  isto  é,  de  um  lado  entre  o  sujeito  cognoscente  psico‐
físico  e  a  realidade  empírica  circundante  e  por  outro  lado  o  mundo 
transcendental, a priori, dos seres formais. Ao mesmo tempo, a forma do 
signo  e  do  significado  [znachenie]  (forma  simbólica)  é  comum  a  e  une 
todos  os  domínios  da  criação  ideológica.  Este  é  o  lugar  sistemático  da 
palavra  segundo  os  ensinamentos  dos  neokantianos  (ver  o  livro  de 
Cassirer  Filosofia  das  Formas  Simbólicas,  1925  –  o  principal  trabalho 
neokantiano  em  filosofia  da  linguagem).  É  precisamente  no  campo  da 
filosofia  da  linguagem  que  o  cientificismo  e  logicismo  da  Escola  de 
Marburg  e  o  eticismo  abstrato  da  Escola  de  Freiburg  avançam 
atualmente.  Por  meio  das  formas  internas  da  linguagem  (semi‐
transcendental, em si) o movimento e abordagens históricas estão sendo 
introduzidas no reino petrificado das categorias transcendentais‐lógicas. 
É  também  neste  campo  que  estão  sendo  feitas  tentativas  de  reabilitar  a 
dialética idealista. 

  255
Há  um  renascimento  do  realismo  medieval  ocorrendo  entre 
fenomenologistas  como  parte  de  um  renascimento  geral  da  filosofia 
medieval, especialmente de Thomas de Aquino. A filosofia da palavra e 
do nome está adquirindo excepcional importância. 
É essencial para combater estas tendências e direções no pensamento 
filosófico, que encontraram expressão também em solo russo; mas o que 
é necessário primeiro e principalmente é conhecê‐los seriamente e assimilar 
a  grande  quantidade  de  material  possivelmente  válido  que  foi 
acrescentada  por  estas  correntes  no  processo  de  suas  pesquisas  (em 
termos  de  material  acrescentado,  o  livro  citado  de  Cassirer  é 
extremamente  válido).  Do  contrário,  a  tentativa  de  se  contrapor  a  estas 
tendências será fraca (como frequentemente tem sido o caso) e nada mais 
serão do que declarações que desacreditam o marxismo. 
6. Paralelamente  a  esta  elaboração  puramente  filosófica  do 
problema  da  linguagem  tem  de  ocorrer  um  extraordinário  renascer, 
dentro  da  própria  linguística,  de  interesses  pelas  questões  de  princípio  e 
metodológicas. Depois do medo do positivismo ser superado e as questões 
principais postas em termos científicos, pela hostilidade característica do 
positivismo mais recente contra todas as contemplações do mundo, uma 
consciência aguda e ousada das próprias premissas gerais filosóficas (um 
traço  indispensável  de  qualquer  ciência  positiva)  e  das  tendências 
metodológicas  está  sendo  desenvolvida  em  linguística.  Precisa‐se 
mencionar a escola de Karl Vossler (idealista neo‐filólogo), que tem tido 
sucesso em ampliar de modo desproporcional os horizontes [krugozor] do 
pensamento linguístico e aprofundar a problemática linguística, embora 
no  campo  de  algum  modo  indeterminado  do  idealismo.  Não  menos 
significativa  é  a  escola  do  linguista  Anton  Marty,  cuja  filosofia  da 
linguagem, publicada no começo do século, está hoje exercendo enorme 
influência. Em conexão com os ensinamentos de Marty, a velha doutrina 
hulboldtiana  da  forma  interna  da  linguagem  está  encontrando  novas 
formas  de  expressão  no  trabalho  de  especialistas  em  literatura  como 
Hefele,  Walzel,  Ermatinger  e  outros.  Trabalhos  puramente  linguísticos  e 
força  para  tais  trabalhos  têm  emergido  da  escola  do  filósofo  hegeliano 
Benedetto  Croce.  A  escola  de  Sievers  também  tem  considerável 
significação  metodológica  geral  entre  os  linguistas.  Mas  à  parte  destas 
tendências  propriamente  linguísticas,  uma  disciplina  distinta  está 

256  
surgindo  agora:  a  ciência  da  expressão,  cujo  principal  representante  é 
Ottmar  Rutz  e  o  grafologista  Klages  (um  intuitivista).  Os  trabalhos  do 
linguista  genovês  Bally  são  de  interesse  metodológico  considerável.  A 
influência  do  objetivismo  abstrato  de  Bally  é  muito  grande  não  só  na 
Europa  Ocidental,  mas  também  aqui  na  Rússia.  As  premissas 
metodológicas  de  linguistas  como  Saussure,  van  Ginneken  (linguista 
psicológico)  e  outros  são  também  de  fundamental  importância.  As 
investigações  psicolinguísticas  de  Karl  Bühler  e  Erdmann  ocupam  um 
lugar especial. 
7. Este  renascimento  e  renovação  do  pensamento  filosófico  e 
linguístico  foram  precedidos  por  um  inabitual  crescimento  de  interesse 
pela palavra como tal e pela mudança em suas funções na criação artística. 
As  origens  desta  nova  percepção  da  palavra  e  da  reavaliação  de  sua 
significação  devem  ser  procuradas  no  Simbolismo.  É  nele  que  o  culto  da 
palavra  em  si  foi  proclamado  pela  primeira  vez  e  foram  feitas  tentativas 
de  revelar  nela  novos  aspectos  e  de  identificar  para  ela  um  distinto  e 
excepcional  lugar  na  vida  e  na  cultura.  É  preciso  antes  de  tudo 
mencionar Stéphane Mallarm. Suas teorias e trabalhos têm e continuam a 
ter influência decisiva sobre o desenvolvimento da poética europeia nos 
dias  presentes.  De  um  ponto  de  vista  estritamente  histórico,  a  palavra 
autossuficiente  de  nossos  futuristas  (Velimir  Khlebnikov)  é  somente  um 
epígono  tardio,  simplificação  e  vulgarização  do  ímpeto  criativo  de 
reavaliação  da  palavra  procedido  por  Mallarmé  e  seu  círculo.  Podemos 
observar  desenvolvimentos  análogos  no  simbolismo  alemão, 
especialmente no círculo de Stefan George (George‐Kreis). O órgão desta 
tendência (Blatter für die Kunst) tem considerável importância na história 
do  desenvolvimento  da  poética  alemã  e  sua  filosofia  da  palavra:  e 
atualmente o círculo de George exerce uma influência poderosa sobre o 
desenvolvimento  do  pensamento  literário‐histórico  e  teórico  literário.  É 
suficiente  dizer  que  Gundolf  pertence  ao  círculo.  No  Futurismo,  e 
subsequentemente  no  Expressionismo,  a  concepção  da  palavra  e  suas 
funções mudam, mas sua significância – sua proeminência – se mantém. 
Este culto da palavra como tal, este crescente interesse nas energias e 
momentos  puramente  verbais  eram  totalmente  alheios  ao  realismo, 
naturalismo  e  impressionismo  (tanto  naturalista  quanto  psicológico).  A 
paixão  pela  palavra  dos  clássicos  nada  tem  a  ver  com  a  excepcional 

  257
reavaliação da palavra em si, ou com as declarações de que ela seja uma 
realidade superior. No classicismo não houve possibilidade de qualquer 
radicalismo.  Na  visão  de  mundo  clássica,  no  seu  pensamento  a  respeito  do 
mundo, houve, ao contrário, outras coisas superiores à palavra, algo com que a 
palavra tinha que se conformar e que tinha de servir piedosamente. A palavra 
tem,  é  verdade,  um  papel  honroso,  mas,  contudo,  auxiliar.  Nem  o 
racionalismo  da  época neoclássica tem  qualquer  sentido  para  a  filosofia 
da  palavra  no  sentido  contemporâneo  (no  sentido  de  uma  ciência 
filosófica  independente  e  muitas  vezes  verdadeiramente  fundamental). 
São características desta época concepções como as ideias de Leibniz de 
‘gramática  universal’.  A  sábia  paixão  neoclássica  pela  palavra,  uma 
paixão  não  esquecida  mesmo  que  a  realidade  [realia]  esteja  além  da 
palavra,  é  também  um  traço  da  filologia  clássica.  É  característico  que  a 
reavaliação  contemporânea  da  palavra  tenha  nascido  não  no  solo  da 
filologia  clássica,  mas  no  da  filologia  bárbara,  isto  é,  no  solo  do 
romantismo  e  dos  estudos  germânicos,  que  estão  em  oposição  aos 
métodos “conservadores” da filologia clássica.  
8. Este  crescente  interesse  pela  palavra  como  o  herói  principal  da 
visão de mundo, este culto da palavra, se inicia na Rússia também com o 
aparecimento  do  Simbolismo.  Foi  nestas  ideias  que  as  concepções 
antropológicas  da  palavra  Belyi  tomaram  forma,  como  o  fez  o  realismo 
místico  de  Viacheslav  Ivanov  (a  doutrina  da  palavra  como  mito),  o 
magicismo  de  Bal’mont  (a  poesia  como  feitiçaria)  e  o  mais  contido  e 
menos  científico  interesse  pela  palavra  de  Briusov.  A  desintegração 
relativa  e  o  deslocamento  deste  culto  simbolista  da  palavra  foram 
provocados  pela  ‘palavra  autossificiente’  dos  futuristas,  que  passou  para  a 
teoria  dos  formalistas.  Atualmente,  o  interesse  pela  palavra  na  Rússia 
movimenta‐se  em  duas  direções.  Ambas  as  correntes  emergem  do 
Simbolismo,  mas  divergem  e  foram  tornadas  mais  complexas  pela 
influência  das  diferentes  novidades  da  Europa  Ocidental.  A  primeira 
tendência,  depois  de  passar  pelo  futurismo  e  complicada  por  influências 
positivistas  emitidas  de  certas  correntes  acadêmicas  europeias  de análise 
da arte e da linguagem, forma o que conhecemos como o Método Formal. 
Na outra corrente, que partilha a influência do pensamento neokantiano 
da  Europa  Ocidental,  nominalmente  do  pensamento  fenomenológico 
(Husserl)  –  encontra  sua  expressão  na  filosofia  da  palavra  de  Gustava 

258  
Shpet e seus alunos e seguidores. Esta corrente, ainda divorciada de toda 
tradição  filosófica,  assume  formas  extremas  na  Filosofia  do  Nome  de 
Losey. 
9. Como pode ser explicado este excepcional e completamente novo 
papel  da  palavra  na  visão  de  mundo  contemporânea?  Este  movimento 
não  é  de  modo  algum  acidental.  O  marxismo  deve  descobrir  suas  raízes 
sociológicas. 
A  mudança  da  função  da  palavra  na  criação  artística  e  a  mudança  na  sua 
percepção  avaliativa  no  pensamento  e  na  contemplação  do  mundo  são 
determinadas pela mudança nas formas do intercâmbio e interação discursivos. 
A relação entre o desempenho linguístico  e outros atos  sociais também mudou. 
Ocorreu um deslocamento, por assim dizer, da palavra na vida social. 
Nestes  campos  da  intelligentsia  burguesa  e  pequeno‐burguesa  que 
deram expressão a este novo sentido da palavra ocorreu na realidade um 
duplo  estranhamento  da  palavra.  Houve  o  que  podemos  chamar  de 
separação da palavra das coisas concretas, do real, proximidade que era 
característica de todo o período médio do desenvolvimento burguês, do 
realismo  e  do  naturalismo.  Se  nestas  correntes  foram  as  descrições  das 
funções da realidade verdadeira que estiveram na vanguarda dos estudos da 
palavra,  nos  períodos  mais  recentes  há  a  tendência  para  a  independência 
da  palavra:  a  palavra  não  descreve  uma  realidade  externa  a  ela,  ela  a 
transfigura  ativamente  através  de  suas  próprias  energias  simbólicas 
imanentes.  Esta  tendência  alcançou  seu  extremo  no  expressionismo.  Este 
processo  aumentou  o  interesse  e  sensibilidade  aos  aspectos  da  palavra 
que produzem estranhamento da realidade, servindo como uma expressão 
autossuficiente  do  falante  (isto  manifesta  a  predominância  do  lirismo  no 
simbolismo  e  expressionismo).    Concomitante  a  este  estranhamento  da 
palavra  em  relação  às  coisas  em  seu  aspecto  real,  ocorre  um 
estranhamento  da  palavra  em  relação  à  ação  [delo],  isto  é,  um  divórcio 
[otryv]  da  palavra  com  suas  reais  potencialidades  no  campo  de  um 
democratismo  verbal  extremo  e  de  uma  liberdade  verbal  política  com 
completa  ausência  do  real.  Isto  se  expressa  num  radicalismo  utópico 
extremo  em  questões  políticas  e  sociais  que  é  típica  do  simbolismo, 
futurismo e expressionismo e que claramente se refletem aqui na Rússia 
no  anarquismo  místico  de  Viacheslav  Ivanov  e  Georgiii  Chulkov,  e  no 
Ocidente,  particularmente  no  radicalismo  dos  expressionistas  alemães. 

  259
Este  radicalismo  político  em  muitos  casos  está  impregnado  de 
conotações  místicas.  Quaisquer  que  sejam  as  formas,  sua  essência  pode 
levar à reavaliação da força independente da palavra, uma excepcional fé em 
suas energias criativas. 
Estas  mudanças  são  condicionadas  por  correspondentes  mudanças 
sócio‐econômicas na pequena e grande burguesia europeia. 
De particular importância é a alteração nas formas dos desempenhos 
discursivos associados a estas mesmas mudanças sociais. O intercâmbio 
ideológico  contemporâneo  é  caracterizado  pela  predominância  de 
gêneros  “silenciosos”:  na  literatura  –  o  romance,  no  trabalho  cognitivo 
dos  maiores  pesquisadores  acadêmicos  é  conduzido  pelo  estudo  em 
gabinete. A forma fundamental de nossa percepção da palavra ideológica 
é  a  leitura  para  si  mesmo.  A  palavra  é  assim  removida  de  seu  espaço  e 
tempo  reais  e  se  faz  estranha  ao  falante  (o  autor  e  o  intérprete)  e  é 
apresentada como uma formação autossuficiente. 
Então,  mudanças  nas  condições  sociais  e  nas  formas  do  intercâmbio  verbal 
ideológico  encontram  expressão  tanto  na  mudança  nas  funções  da  palavra  na 
criação artística quanto em sua interpretação filosófica.  
Cada palavra viva contém uma avaliação social ativa. É esta avaliação 
social  que  transforma  cada  palavra‐enunciação  (isto  é,  desempenhos 
discursivos  concretos)  num  ato  social  significativo  (por  mais 
insignificante que seja, por exemplo, a significação de alguns enunciados 
cotidianos).  Em  cada  uma  de  suas  enunciações  a  pessoa  adota  uma 
posição  social  ativa.  Estes  desempenhos  discursivos  ativos  são  realizados 
em  todas  as  esferas  da  vida  social:  no  trabalho  ou  intercâmbio 
profissional, no intercâmbio político, no intercâmbio prático da vida (na 
família,  no  meio  de  camaradas  e  semelhantes),  finalmente,  no 
intercâmbio  ideológico  no  sentido  restrito  da  palavra.  De  maior 
importância  é  o  fato  de  que  a  avaliação  é  expressa  com  segurança  na 
palavra,  é  o  mais  ativo  e    socialmente  significativo  [smyslovoi]  aspecto  que 
vem  à  tona  na  enunciação.  Reciprocamente,  quando  a  garantia  e  a 
importância  da  avaliação  são  reduzidas,  como  consequência  da 
estratificação  do  grupo  social  a  que  o  falante  pertence,  ou  como 
consequência  de  estar  sendo  empurrado  para  a  periferia  da  vida  social, 
outros  momentos  da  palavra  começam  a  vir  à  tona  na  consciência 
discursiva:  suas  peculiaridades  subjetivas  e  individuais.  A  mudança  temática 

260  
da  palavra  é  reduzida,  ela  é  reificada,  torna‐se  momento  não  de  um 
evento,  mas  da  inércia  da  vida  cotidiana.  Ou  seja,  na  sociedade 
ideológica a palavra torna‐se convencional – um gesto, não um ato. Tudo 
isso  altera  radicalmente  a  percepção  da  palavra  e  seu  tratamento  na 
criação  artística  e  no  pensamento  cognitivo  filosófico.  Assim  é  que,  ao 
mesmo  tempo  em  que  a  palavra‐símbolo,  nós  encontramos  na  criação 
artística a palavra reificada (no futurismo, nas teorias formalistas). As duas 
direções dos estudos na Rússia estão fortemente conectadas, expressando 
apenas dois lados de um e mesmo processo social. 
Naturalmente, uma compreensão clara e completa destes destinos da 
palavra  na  sociedade  contemporânea  será  possível  somente  depois  de 
um  estudo  das  formas  e  dos  tipos  de  intercâmbio  discursivo,  da 
interação  verbal  e  das  mudanças  que  sofrem  sob  a  pressão  direta  da 
estrutura sócio‐econômica e das relações de produção. 
Concomitante  às  descobertas  da  gênesis  social  desta  nova  concepção 
da palavra na arte e na cognição, deve ocorrer uma crítica ‘imanente’ de 
todos  os  laços  da  filosofia  contemporânea  da  palavra  mencionados 
anteriormente.  Trazer  luz  para  as  raízes  sociais  de  qualquer  asserção 
cognitiva está ainda longe, para se dizer qualquer coisa do que há para 
ser  dito  a  este  respeito.  É  necessária  uma  crítica  esclarecida  de  alguns 
fenômenos  ideológicos  em  sua  essência,  uma  crítica  que  abra  caminho 
para  uma  solução  positiva  do  problema  posto  pelo  fenômeno.  A 
revelação da gênesis social, uma genética social, por assim dizer, de uma 
teoria,  e  a  crítica  de  sua  essência,  são  inseparavelmente  entrelaçadas  e 
são meramente dois aspectos de uma só orientação cognitiva em relação a 
uma dada teoria. 
10. A fim de construir uma sociologia marxista da linguagem deve‐se 
antes de tudo tomar consciência dos caminhos metodológicos que levam 
às  abstrações  linguísticas,  ‘as  formas  da  linguagem’.  Donde  exatamente 
procede  a  abstração  destas  formas?  Em  que  direção  continua,  quais  as 
premissas que a guiam? 
Portanto,  é  necessário  primeiro  esclarecer  o  dado  imediato  da 
linguagem.  Todos  os  elementos  linguísticos  (fonemas,  morfemas  e 
semelhantes)  estão  muito  longe  de  constituírem  dados  imediatos.  Os 
fenômenos físicos do som e o processo fisiológico de sua produção (tanto 
quanto  as  respostas  físicas  e  as  reações  fisiológicas  do  interlocutor)  não 

  261
constituem a realidade imediata e última da linguagem. A linguagem não 
pode  ser  entendida  dentro  do  sistema  da  natureza,  mas  somente  dentro  do 
sistema  da  história.  Tanto  seus  aspectos  físicos  e  fisiológicos  são  apenas 
momentos abstratos de um fenômeno social. Se permanecermos dentro dos 
limites desta abstração, nós nunca chegaremos à completude do sentido 
social  e  significativo  do  discurso.  O  físico,  o  corpo  sonoro  da  fala  e  o 
processo fisiológico de sua produção mergulham num mundo complexo 
de  relações  sociais  e  conexões  entre  falantes  dentro  dos  limites  do 
ambiente  social  a  que  pertencem.  Se  a  abstração  linguística  tivesse  sua 
origem nos dados da fala físicos e fisiológicos, a linguística seria capaz de 
construir  somente  o  domínio  da  fonética  fisiológica.  Neste  caso,  seria 
impossível  falar  do  som  semasiologisado,  isto  é,  o  fonema  no  sentido 
preciso  da  palavra  (como  entendido,  por  exemplo,  por  Baudouin  de 
Courtenay).  Nem,  naturalmente,  seria  possível  falar  do  morfema,  do 
sintagma,  do  semema  –  para  um  som  que  do  ponto  de  vista  físico  e 
fisiológico é o mesmo (se assumirmos sua absoluta identidade e todas as 
condições  necessárias  físicas  e  fisiológicas  para  esta  identidade:  os 
mesmos sons circundantes, a mesma ênfase, a mesma posição em relação 
ao acento frasal etc.), no entanto será profundamente diferente se for parte 
de  uma  raiz,  de  um  sufixo,  ou  mudada  a  inflexão,  se  dada  palavra  é  o 
sujeito  ou  o  predicado  (independentemente  da  ênfase),  o  grau  de 
significância    [smyslovoi]  da  palavra  é  alto  e  assim  por  diante.  O  destino 
histórico  de  um  dado  som  no  desenvolvimento  de  uma  linguagem 
dependerá  também  das  diferenças  não  da  posição  do  som  nem  do 
complexo  físico  e  fisiológico,  mas  da  complexa  significação  concreta  da 
linguagem como fato social. O som entra para a história da língua não como 
um  fenômeno  físico  ou  fisiológico,  mas  como  um  elemento  de  um 
fenômeno  linguístico  com  todo  seu  peso.  Além  disso,  não  é  o  bastante 
anotar  sua  situação  física  e  fisiológica.  O  som  e  sua  situação  física  e 
fisiologicamente mutante é apenas uma abstração improdutiva. Por esta 
razão,  todas  as  tentativas  de  estabelecer  leis  fonéticas  (Lautgesetze)  em 
bases  físicas  e  fisiológicas  foram  improdutivas  e  infrutíferas.  Adicionar 
qualquer  tipo  de  fator  subjetivo‐psíquico  não  mudaria  os  problemas, 
uma vez que estes fatores devem eles próprios ter realização na série de 
manifestações  externas  (antes  de  tudo,  verbais)  a  fim  de  se  tornarem  o 
assunto de avaliação e estudo objetivos.  

262  
De  fato,  o  dado  concreto  imediato  de  que  procedem  as  formas 
linguísticas  abstratas  é  o  significado  monológico  do  enunciado.  E  o  que  se 
opõe  a  este  enunciado  não  é  uma  réplica  ativa,  mas  uma  compreensão 
passiva. O enunciado compreendido (artístico, científico, prático, cotidiano): 
esta  é  a  realidade  que  serve  de  ponto  de  partida  para  os  linguistas.  
Todas  as  formas  são  encontradas  pelos  linguistas  tendo  por  base  e  nos 
limites  de  um  só  enunciado  isolado  (por  exemplo,  os  mais  importantes 
trabalhos literários). Mas a enunciação como um todo está muito longe de ser 
objeto do linguista. É no processo de abstração das formas linguísticas da 
língua do todo dos enunciados que se criou a concepção da linguística da 
língua  como  um  sistema  de  normas  linguísticas.  A  língua  como  um 
sistema  de  normas  é  constitutiva  de  cada  enunciado,  mas  só  os 
elementos  do  enunciado,  e  não  da  enunciação  como  um  todo.  É 
característico  que  todas  as  conexões  sintáticas  também  sejam  dadas 
somente  nos  limites  do  enunciado,  enquanto  as  formas  da  enunciação 
como  um  todo,  ela  própria  não  seja  suscetível  às  definições  sintáticas. 
Nenhuma caracterização puramente linguística pode dar uma explicação 
exaustiva da enunciação como um todo. 
O  que  guia,  então,  a  abstração  linguística?  Não  os  objetivos  de 
conhecimento e explicação, mas os objetivos do ensino prático da língua. 
É  por  esta  razão  que  as  formas  linguísticas  não  constituem  a  realidade 
em  que  a  história  é  possível.  Não  qualquer  realidade  histórica  neste 
mundo  de  abstrações.  E  elas  próprias  não  podem  criar  uma  série 
histórica, não podem agir uma sobre a outra, uma condicionar a outra. É 
por  esta  razão  que  a  história  da  língua  está  cheia  de  construções 
ficcionais de formas transitórias. Tais ficções tornam possível introduzir 
certa  lógica  no  desenvolvimento  da  língua,  dar  a  um  rearranjo  das 
formas  uma  semelhança  de  uma  necessária  sequencialidade,  mas  isto 
não tem nada em comum com a história real. 
11. Para  chegar  à  vida  real  da  língua,  deve‐se  alcançar  uma 
compreensão  mais  abrangente  e  mais  fundamental  de  seus  dados 
imediatos.  Estes  dados  não  são  o  ‘enunciado  compreendido’,  mas  o 
evento social da interação discursiva de pelo menos duas enunciações. Somente 
no  diálogo  a  língua  é  real.  O  enunciado  é  somente  um  elemento  da 
interação  discursiva,  é  orientado  para  uma  reação  responsiva, 
independentemente  de  esta  reação  ocorrer  ou  não.  A  orientação  do 

  263
entendedor  também  é  ativa  e  dialógica.  O  monologismo  da  linguística 
tornou  uma  série  extremamente  importante  de  fenômenos  linguísticos 
inacessíveis.  Primeiro  e  antes  de  tudo,  todas  as  diversas  formas  de 
interação entre enunciados, por exemplo, entre as réplicas num diálogo, 
ainda  não  foram  compreendidas.  A  relação  entre  os  enunciados  como 
um  todo  é  profunda  e  essencialmente  diferente  das  conexões  e  relações 
(morfológicas  e  sintáticas)  entre  os  elementos  dentro  do  enunciado.  As 
conexões entre réplicas são por princípio profundamente diferentes das conexões 
entre  elementos  sintáticos  dentro  de  um  enunciado‐réplica.  A  falta  de 
compreensão destas formas particulares de conexões entre os elementos 
da  interação  discursiva  (isto  é,  entre  o  todo  das  enunciações,  uma 
orientada para outra) tem também efeito no estudo das conexões internas 
ao enunciado: ainda não se compreendeu que cada elemento do interior 
do enunciado vai além de seus limites, cada um deles aponta para outro 
enunciado  (réplica).  Conexões  entre  alguns  elementos mais  importantes 
dentro do enunciado (por exemplo, entre parágrafos separados por uma 
mudança de linha) são análogas, no tipo, àquelas conexões entre o todo 
independente de enunciados (as réplicas num diálogo), mas não podem 
ser  comparadas  à  parataxe  e  à  hipotaxe  dentro  de  uma  sentença 
complexa. A perspectiva monológica da linguística até o presente ficou a 
meio caminho na compreensão e estudo mais profundo destas conexões 
linguísticas extremamente importantes. 
12. O  diálogo  no  sentido  estrito  do  termo  é  uma  (embora  mais 
importante)  forma  de  interação  discursiva.  Mas  o  diálogo  pode  ser 
entendido de forma ampla incluindo não só diretamente a troca em voz 
alta, face a face, entre as pessoas, mas todo o intercâmbio discursivo de 
qualquer  tipo.  O  livro,  isto  é,  um  discurso  impresso,  é  também  um 
elemento  do  intercâmbio  discursivo.  Ele  pode  ser  discutido 
imediatamente  e  viver  no  diálogo,  pois  é  orientado  a  uma  percepção 
ativa implicando estudo aprofundado e resposta interna, e a uma reação 
organizada,  também  impressa,  nas  várias  formas  que  foram 
desenvolvidas  na  respectiva  esfera  de  intercâmbio  discursivo  (resenhas, 
críticas,  sumarizações,  determinando  sua  influência  sobre  trabalhos 
subsequentes  e  assim  por  diante).  Além  disso,  este  tipo  de  realização 
discursiva  é  inescapavelmente  orientado  para  realizações  posteriores, 
tanto pelo seu próprio autor como pelos outros, na mesma esfera em que 

264  
emerge de uma posição específica  em relação ao problema científico  ou 
estilo  artístico.  Então,  um  discurso  impresso  entra  em  conversação 
ideológica  em  grande  escala:  ele  replica  algo,  refuta  algo,  confirma 
alguma  coisa,  antecipa  possíveis  réplicas  e  refutações,  busca  apoio  e 
assim  por  diante.  Qualquer  enunciado,  por  mais  significativo  e  completo 
que seja, é somente um momento da troca discursiva ininterrupta (pertencente 
ao  quotidiano  da  vida,  à  literatura,  à  cognição,  à  política).  Mas  esta 
cadeia  discursiva  ininterrupta  é  ela  própria,  por  sua  vez,  um  momento 
do ininterrupto movimento da vida social de uma dada coletividade. Isto 
levanta um importante problema: o estudo das conexões entre interações 
discursivas  concretas  e  a  situação  extra‐verbal  –  o  contexto  imediato  e 
aquele  mais  abrangente.  As  formas  das  conexões  são  diferentes,  e 
dependendo dos distintos momentos da situação adquirem  significados 
[znacheniia]  diferentes  (estas  conexões  com  os  diferentes  momentos  da 
situação  são  diferentes  na  troca  artística  e  na  troca  científica).  O 
intercâmbio  discursivo  nunca  pode  ser  entendido  e  explicado  sem 
referência a estas ligações com a situação concreta. O intercâmbio verbal 
está inseparavelmente ligado com outros tipos de intercâmbios, surge no 
terreno comum do intercâmbio das relações de produção. A palavra não 
pode,  naturalmente,  ser  divorciada  deste  perpetuamente  mutável  e 
unitário  intercâmbio.  Nesta  ligação  concreta  com  a  situação,  o 
intercâmbio  discursivo  é  sempre  acompanhado  pelos  atos  sociais  de 
caráter não verbal (atos de trabalho, atos simbólicos do ritual, cerimônias 
e semelhantes), e frequentemente é só a suplementação destes atos e tem 
meramente  um  papel  auxiliar.  É  precisamente  aqui,  no  intercâmbio 
discursivo  concreto,  que  a  linguagem  vive  e  se  modifica  historicamente,  não 
num  sistema  abstrato  de  formas  linguísticas  nem  na  psique  individual  dos 
falantes. 
A  sequência  metodologicamente  fundamentada  para  o  estudo  da 
linguagem deve ser a seguinte: 
1) As formas e tipos de interação discursiva em conexão com suas condições 
concretas; 
2) As formas dos enunciados isolados e das execuções discursivas isoladas 
em  estreita  conexão  com  a  interação  de  que  são  elementos,  isto  é,  os 
gêneros,  determinados  pela  interação  discursiva,  das  performances 
discursivas no cotidiano da vida e na criação ideológica; 

  265
3) A partir deste ponto, o reexame das formas da língua em seu tratamento 
linguístico habitual. 
Esta  é  a  ordem  em  que  as  transformações  da  linguagem  se  dão:  a 
mudança  da  interação  social  ocorre  (nos  fundamentos  da  infraestrutura),  
ocorre a mudança do intercâmbio e da interação discursivas; mais tarde ocorrem 
as mudanças das formas de performance discursiva e as mudanças, finalmente, 
se reflete na troca das formas da língua. 
13. A  linguística  contemporânea  adotou  uma  distinção  entre  as 
funções  da  linguagem:  estas  funções  geralmente  são  enumeradas  como 
cinco  funções  (alguns  identificam  mais  funções):  a  função  comunicativa, 
expressiva, denominativa, estética e cognitiva (a linguagem como recurso do 
pensamento).  Esta  ideia  de  funções  da  linguagem  necessita  ser 
completamente  retrabalhada  sob  novas  bases  metodológicas.  É 
metodologicamente  inaceitável  colocar  a  função  comunicativa  da 
linguagem  ao  lado  das  outras  funções  (expressiva,  denominativa  etc.).  A 
função comunicativa não é uma das funções da linguagem como tal, mas 
expressa sua verdadeira essência: onde há linguagem há comunicação. Todas 
as funções da linguagem se desenvolvem com base na comunicação, são 
meramente  nuanças  dela.  Não  há    expressão  de  emoções  ou  afetos  fora 
da  sua  comunicação:  expressar‐se  a  si  próprio  por  meios  verbais  é 
comunicar a si mesmo. Além disso, os nomes (denominativa) não existem 
fora  da  comunicação.  Nem  há  qualquer  pensamento  fora  da 
comunicação e interação discursiva. O pensamento torna‐se diferenciado, 
faz‐se mais preciso, enriquece‐se somente no processo de diferenciação e 
expansão  do  intercâmbio.  Cada  enunciação  concreta  (comunicativa  em 
sua  essência)  ordinariamente  preenche  várias  funções,  e  nós  podemos 
falar  somente  da  predominância  de  uma  delas.  Além  disso,  a  ideia  de 
funções  da  enunciação  deve  ser  elaborada  concretamente  e  em  detalhe 
em forte conexão com as situações sociais particulares da enunciação. 
14. Um  lugar  especial  é  ocupado  pelo  sentido  da  enunciação  e  pelos 
problemas associados de mudança dos significados [znachenniia] na história 
da linguagem. Este problema, que atualmente está sendo trabalhado com 
intensidade  pela  escola  de  Anton  Marty  e  pelos  fenomenólogos,  é  de 
particular importância para a sociologia da linguagem. O defeito básico 
de  todas  as  teorias  que  trabalham  com  este  problema  aparece  face  à 
completa  ausência  de  compreensão  do  papel  da  avaliação  social  na 

266  
linguagem.  A  avaliação  social  é  um  momento  necessário  e  fundamental  do 
significado. Não há palavra que lhe seja indiferente. A avaliação não deve 
ser  confundida  com  a  expressão  de  emoções,  que  é  meramente  uma 
entonação opcional da avaliação social. A avaliação social forma o verdadeiro 
conteúdo do significado da palavra, isto é, a definição concreta que a palavra dá 
ao  objeto.  A  notória  forma  interna  da  palavra  está  no  trabalho  da  maioria 
dos apologistas de forma distorcida e cientificamente improdutiva sem a 
avaliação  inerente  da  palavra.  A  avaliação  social  determina  todas  as 
conexões  concretas  da  palavra,  tanto  no  limite  do  enunciado  quanto  nos 
limites da interação de diversos enunciados. Enquanto a linguística não 
tratar  da  enunciação  completa  como  um  ato  social,  ou  a  interação  das 
enunciações  como  um  evento  social,  não  estará  apta  a  trabalhar  com  a 
avaliação  social.  No  estudo  das  formas  abstratas  da  língua,  o  linguista 
perde de vista as avaliações sociais, as formas do enunciado como  uma 
execução  discursiva  concreta,  pois  os  significados  são  determinados 
precisamente  pelo  sistema  de  avaliações  sociais  dominante  numa  língua. 
Estabelecer  o  significado  dentro  do  horizonte  [krugozor]  da  linguagem, 
estatuindo  nela  um  sistema  de  significação,  pressupõe  que  primeiro  se 
estabeleça  o  horizonte  social  axiológico  de  um  dado  grupo  de  falantes.  A 
teoria  da  avaliação  social  na  palavra  lança  luzes  sobre  a  história  das 
mudanças  nos  significados  [znacheniia]  das  palavras  na  linguagem, 
criando  pela  primeira  vez  uma  base  genuinamente  científica  para  o 
estudo destas mudanças. 
O exposto acima define o esboço básico das fundamentações de um 
método  sociológico  em  linguística.  Um  ensaio  na  aplicação  concreta  de 
minha  concepção  geral  metodológica  para  o  tratamento  de  questões 
sintáticas  especializadas  pode  ser  encontrado  no  meu  trabalho 
“Problemas de transmissão do discurso alheio” (um ensaio em pesquisa 
sociolinguística)  que  deve  aparecer  na  coleção  Contra  o  Idealismo  em 
Linguística (ILIaZV – Giz, 1928)3. 

                                                            

3   [N.T.] O tema é tratado na terceira parte de Marxismo e filosofia da linguagem, na edição 
brasileira,  pp.  139  e  seguintes.  Ver  também  o  livro  Palavra  própria  e  palavra    outra  na 
sintaxe da enunciação. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011. 

  267
268  
APÊNDICE I 
 
O problema da transmissão do discurso alheio 
Um ensaio em pesquisa sociolinguística4 
 
 
Introdução 
Cap. I – Exposição do problema 
1) Definição de “discurso alheio” 
2) O problema da recepção ativa do discurso alheio em conexão 
com o problema do diálogo 
3) A  dinâmica  das  relações  entre  contexto  autoral  e  discurso 
alheio 
4) O ‘estilo linear’ de transmissão do discurso alheio (a primeira 
orientação da dinâmica) 
5) O  ‘estilo  pictórico’  da  transmissão  do  discurso  alheio  (a 
segunda direção da dinâmica)  
Cap. II – Discurso indireto, discurso direto e suas modificações em russo 
1) Padrões fixos e modificações; gramática e estilística 
2) O caráter geral da transmissão do discurso alheio em russo 
3) Os padrões fixos de discurso citado 
4) As modificações objetuais‐analíticas do discurso indireto 
5) As modificações verbo‐analíticas do discurso indireto 
6) A modificação impressionística do discurso indireto 
7) Os padrões fixos do discurso direto 
8) O discurso direto preparado 
9) O discurso direto reificado 
10) O discurso direto antecipado, disperso e ocultado 
11) O fenômeno da interferência discursiva 
12) Questões retóricas e exclamações 
13) Discurso direto substituído 

                                                            

4   [N.T.]  Este  sumário  é  um  manuscrito  do  artigo  a  que  Volochínov  faz  referência  no 
último  parágrafo  do  texto  Algumas  ideias‐guia  para  a  obra  Marxismos  e  Filosofia  da 
Linguagem, aqui publicado. O artigo não chegou a ser publicado, mas deve ter servido 
de base para a terceira parte da obra citada.  

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14) Exemplo de um discurso indireto livre em russo 
Cap. III – Discurso indireto livre em francês, alemão e russo 
1) Discurso indireto livre em francês 
2) A  concepção  de  Tobler  (discurso  indireto  livre  como 
‘aigentümliche Mischung directer und indirecter Rede) 
3) A  concepção  de  Th.  Kalepky  (o  discurso  indireto  livre  como 
‘verschleierte Rede) 
4) A  concepção  de  Bally  (discurso  indireto  livre  como  ‘estilo 
indireto livre’) 
5) Crítica à hipótese do objetivismo abstrato de Bally 
6) Bally e Vossler 
7) Discurso indireto livre em alemão (exemplos) 
8) A  concepção  de  Eugene  Lerch  (discurso  indireto  livre  como 
‘Rede als’ [parêntesis não fechado, sentença incompleta] 
9) Concepção  de  Lorck  (discurso  indireto  livre  com  ‘Erlebte 
Rede’) 
10) Ideia de Lorck sobre o papel da fantasia na linguagem 
11) A  concepção  de  Gertrand  Lerch  (discurso  indireto  livre  e 
empatia) 
12) ‘Discurso alheio’ no francês antigo (como apresentado por G. 
Lerch) 
13) ‘Discurso  alheio’  no  francês  da  Idade  Média  e  do 
Renascimento (como apresentado por G. L.) 
14) Discurso indireto livre em La Fontaine e em La Bruyère (como 
apresentado por G.L.) 
15) Discurso  indireto  livre  em  Flaubert  (como  apresentado  por 
G.L.) 
16) O  aparecimento  do  discurso  indireto  livre  em  alemão  (como 
apresentado por Eug. Lerch) 
17) Críticas às hipóteses do subjetivismo de Vossler 
18) Discurso indireto livre em russo 
19) A transmissão da interferência discursiva quando lida em voz 
alta (o problema da performance) 
20) O lugar sistemático de nosso estudo na ciência das ideologias 
 

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APÊNDICE II 
 
Marxismo e Filosofia da Linguagem 
 
Parte I 
A importância do problema da filosofia da linguagem para o marxismo 
 
Capítulo I 
1. A palavra como um fenômeno ideológico par excellence. 2. A palavra 
como um esquema e como um ingrediente de toda formação ideológica. 
3. A ciência das ideologias e a ciência da linguagem. 
Capítulo II 
1. Problemas da relação da base com as superestruturas ideológicas. 2. 
A  refração  do  ser  na  palavra.  3.  A  objetificação  material  na  palavra  da 
‘psicologia social’. 4. A história da cultura e a história da linguagem. 
Capítulo III 
1. A  psicologia  objetiva  e  a  ‘reação  verbal’.  2.  A  palavra  como  meio 
objetivo da consciência. 3. A unidade da experiência externa e interna. 4. 
A  personalidade  interna  como  ideologema.  5.  A  teoria  do  enunciado 
como revelação interna e externa da consciência‐psíque 
Capítulo IV 
1. Filosofia da linguagem e problemas de poética. 2. O método formal e 
seu peso. 
Capítulo V 
1. Os  objetivos  polêmicos  do  marxismo.  2.  A  primazia  da  palavra  no 
pensamento filosófico burguês contemporâneo. 3. Um breve esquema da 
filosofia da palavra no Ocidente e na Rússia. 
 
Parte II