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LETRAS (POR)

INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA

Profª Vera Lúcia Massoni Xavier da Silva


Prof. Djalma Rebelatto de Golveia
APRESENTAÇÃO
Prezado aluno
“É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui”.
BENVENISTE (1995)

Na afirmação que nos serve de epígrafe, resume-se a importância da Linguística


como ciência. Vale dizer ainda que é a única ciência que enfoca seu objeto: as
línguas, por meio da própria língua. Isso, evidentemente, deve nos fascinar. Imagina,
você, caro aluno, estudar a língua na própria língua.

Pode-se afirmar, ainda, que o Curso de Letras estrutura-se em dois alicerces: um,
cujo objetivo é o estudo da linguagem, considerando-se as diferentes línguas
faladas pelo ser humano; o outro estabelece como meta o estudo do fato
linguístico, empregado de maneira singular: a Literatura. Ressalte-se, ainda, que, na
atualidade, não se admite o Ensino de Língua Portuguesa, sem que levemos em
conta os preceitos básicos da Linguística.

Neste primeiro contato, gostaria de discutir o fragmento do texto de Mário de


Andrade, cujo teor configura o tema que trataremos na segunda metade da
disciplina, a Sociolinguística.

“A língua, em seu sentido, digamos, abstrato, é uma propriedade de todo


o grupo social que a emprega. Mas isto é uma mera abstração, essa
língua não existe. O tempo, os acidentes regionais, as profissões, se
encarregam de transformar essa língua abstrata numa quantidade de
linguagens concretas diversas. Cada grupinho, regional e profissional, se
utiliza de uma delas. Deus me livre de negar a existência de uma língua
‘culta’. Mas esta é exclusiva apenas de um dos grupinhos do grande
grupo social”.
MÁRIO DE ANDRADE

O primeiro ponto a assinalar diz respeito à concepção de língua como homogênea.


Que a língua é um fato social todos nós sabemos, mas é preciso que entendamos a
língua como um organismo vivo, como dinâmica, que sofre alterações decorrentes
de fatores diversos: tempo, espaço geográfico e grupos sociais que dela fazem uso
e a materializam. Se assim não o fosse estaríamos falando o latim, língua que deu
origem à Língua Portuguesa, até os dias atuais. Embora a língua se configure como
coletiva, cada grupo social, cada sujeito faz uso dela de maneira diferente. Claro que
uma das possibilidades de emprego da língua é a norma culta, no entanto, há
muitas outras variedades em uso e que não devem ser desprestigiadas, mas
compreendidas como mais uma possibilidade de expressão, eis o objeto da
Sociolinguística: estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu
contexto real de uso.

Profª Vera Lúcia Massoni Xavier da Silva


Prof. Djalma Rebelatto de Golveia
PROGRAMA DA DISCIPLINA
EMENTA: Linguística: conceito e objeto de estudo. Linguagem Humana e
Linguagem animal. As dicotomias de Saussure: Significante e significado. Paradigma
e Sintagma. Sincronia e Diacronia. Sistema e Estrutura. Forma e Substância. Língua e
Fala. Sociolinguística. Variantes. Fatores sociolinguísticos. Tipos de variantes.
Variação linguística e ensino de língua portuguesa.

OBJETIVOS: Desenvolver conhecimentos a respeito das teorias linguísticas; Conduzir


o aluno à análise e explicação dos fatos linguísticos, a partir de embasamentos
teóricos; Propiciar pressupostos teóricos a respeito da língua e da linguagem.
Propiciar conhecimentos sobre os domínios e alcance Linguística e Sociolinguísitca;
Entender a Língua como heterogênea e variável; Desenvolver conhecimentos a
respeito das variantes padrão e não-padrão; Estudar os fatores linguísticos e
extralinguísticos condicionadores de variantes; Discutir as variantes e sua relação
com o ensino de língua portuguesa.

CONTEÚDOS: Linguagem Humana e Linguagem Animal; Características da


Linguagem Humana; Línguas Naturais e Cultura; A Comunicação Humana; Funções
da Linguagem; Signo Linguístico; Alguns Conceitos Linguísticos de Bakhtin;
Arbitrariedade do Signo Linguístico; Classificação dos Signos; Língua e Fala; Noções
Básicas de Pragmática; Língua e Sociedade; Língua Oral e Língua Escrita; A
Sociolinguística: Conceito e Objeto; Variantes Sociais: Fatores Extralinguísticos; Os
Tipos de Variação Linguística; Variante Padrão e Variante Não-Padrão; Variante
Padrão e Variante Não-Padrão: Características; Variantes e o Preconceito Linguístico;
Botando a mão na massa das variantes; Com as variantes nas mãos: Variantes e o
Ensino de Língua Portuguesa.
METODOLOGIA: Adotamos para a disciplina uma metodologia que alia a teoria à
prática, propiciada por meio de atividades que permitam, a partir de exemplos, a
reflexão sobre a língua, sua relação com a sociedade.

AVALIAÇÃO: No sistema EAD, a legislação determina que haja avaliação presencial,


sem, entretanto, se caracterizar como a única forma possível e recomendada. Na
avaliação presencial, todos os alunos estão na mesma condição, em horário e
espaço pré-determinados, diferentemente, a avaliação a distância permite que o
aluno realize as atividades avaliativas no seu tempo, respeitando-se, obviamente, a
necessidade de estabelecimento de prazos.

A avaliação terá caráter processual e, portanto, contínuo, sendo os seguintes


instrumentos utilizados para a verificação da aprendizagem:
1) Trabalhos individuais e de pesquisa;
2) Provas semestrais realizadas presencialmente;

As estratégias de recuperação incluirão: retomada eventual dos conteúdos


abordados nas unidades, quando não satisfatoriamente dominados pelo aluno;

BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BAGNO, M. Preconceito linguístico. São Paulo: Loyola, 2002.
____________ A língua de Eulália. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2001.
BENVENISTE, É. Problema de Linguística Geral I. São Paulo: Ática,1995.
BORBA, Francisco das Silva. Introdução aos Estudos Lingüísticos. São Paulo:
Nacional, 1984.
GNERRE, M. Linguagem, Escrita e Poder. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
MUSSALIN, F.; BENTES, A. C. (Org.) Introdução à linguística. São Paulo: Cortez, 2001.
vol. 1: domínios e fronteiras.
SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1973.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

BAGNO, M. et al. Língua materna: letramento, variação & ensino. São Paulo:
Parábola, 2002.
BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em Língua Materna: A Sociolinguísitca na sala
de aula. São Paulo: Parábola, 2004.
CÂMARA JR, J. M. História da Linguística. Petrópolis: Vozes. 1979.
FIORIN, J. L. Introdução à Linguística (org). São Paulo: Contexto, 2002.
LOPES, E. Fundamentos da Linguística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, 1984.
YAKOBSON, R. Linguística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 2001.
MOLLICA, M. C.; BRAGA, M. L. Introdução à sociolinguística: o tratamento da
variação. São Paulo: Contexto, 2003.
MUSSALIN, F.; BENTES, F. Introdução à Linguística. São Paulo: Cortez, 2001.
POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de
Letras, 2002.
PRETI, Dino. Sociolinguística: os níveis de fala. São Paulo: EDUSP, 1994.
TARALLO, F. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Ática, 1990.
Sumário
UNIDADE 01- LINGUÍSTICA: CONSIDERAÇÕES INICIAIS 7
UNIDADE 02 - LÍNGUAS NATURAIS E CULTURA 10
UNIDADE 03 - LINGUAGEM HUMANA 13
UNIDADE 04 - A COMUNICAÇÃO HUMANA. 18
UNIDADE 05 - AS DICOTOMIAS DE SAUSSURE 30
UNIDADE 06 - ARBITRARIEDADE DO SIGNO LINGUÍSTICO 36
UNIDADE 07 - CLASSIFICAÇÃO DOS SIGNOS 39
UNIDADE 08 - SINCRONIA X DIACRONIA 41
UNIDADE 09 - LÍNGUA E FALA 46
UNIDADE 10 - PRAGMÁTICA 52
UNIDADE 11 - COMEÇANDO A CONVERSA: LÍNGUA E SOCIEDADE 63
UNIDADE 12 - CONTINUANDO A CONVERSA: LÍNGUA ORAL E LÍNGUA ESCRITA 67
UNIDADE 13 - A SOCIOLINGUÍSTICA: CONCEITO E OBJETO. 71
UNIDADE 14 - VARIANTES SOCIAIS: FATORES EXTRALINGUÍSTICOS 75
UNIDADE 15 - OS TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA 80
UNIDADE 16 - VARIANTE PADRÃO E VARIANTE NÃO-PADRÃO. 86
UNIDADE 17 - VARIANTE PADRÃO E VARIANTE NÃO-PADRÃO: CARACTERÍSTICAS 90
UNIDADE 18 - VARIANTES E O PRECONCEITO LINGUÍSTICO. 93
UNIDADE 19 - BOTANDO A MÃO NA MASSA DAS VARIANTES 101
UNIDADE 20 - COM AS VARIANTES NAS MÃOS 105
UNIDADE 01- LINGUÍSTICA: CONSIDERAÇÕES INICIAIS
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar conhecimentos sobre linguística e linguagem. Nesta unidade,
tecemos algumas considerações sobre a linguagem e sobre os caminhos
percorridos pela Linguística, até se fixar como ciência.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Mas, o que é a linguagem? Para conceituá-la, observemos,


atentamente, a imagem abaixo, denominada “Mãos Entrelaçadas”,
de Cândido Portinari, grande pintor brasileiro.

O quadro acima retrata-nos mãos entrelaçadas, cujo sentido é o de união, força,


apoio, confraternização. A linguagem aí empregada não é verbal, pois não
observamos palavras, apenas traços, desenhos. Trata-se, portanto, da linguagem
visual

Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro, expressou essa mesma ideia de


uma maneira diferente, ou seja, ao invés de desenhar, empregou palavras, signos
linguísticos. Assim, pinturas, gestos, placas de trânsito, dança, olhar são linguagens,
formas de interação entre homem e mundo e entre homem e outro homem.

Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente

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Nesse poema, observamos o poeta, colocando-se em um tempo presente, o agora,
negando o passado (poeta de um mundo caduco) e o futuro (não cantarei o mundo
futuro). Na verdade, o que realmente importa a ele é o tempo presente, os
problemas do homem, que, embora tristes, ainda têm esperança. Ressalte-se, ainda,
que o poeta nega-se a ser sentimental (Não serei cantor de uma mulher; não darei
suspiros ao anoitecer), para ater-se à vida e aos seus companheiros. Daí a
conclamação: vamos de mãos dadas.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Linguística é a ciência que estuda a linguagem verbal humana. Seu objeto de estudo
são as Línguas Naturais: Francês, Português, Inglês, etc. Vale lembrar que todas as
linguagens: verbais ou não-verbais (música, dança, pintura), elementos empregados
para a comunicação são signos. Por essa razão, Saussure, o grande mestre da
Linguística, propôs a Semiologia, ciência que estuda qualquer espécie de signos.
Diferentemente Pierce, outro linguista, denominou-a Semiótica. O que seria, então a
Linguística? Pode-se afirmar que a Linguística é uma parte dessa ciência geral,
Semiologia ou Semiótica, cujo objeto são os signos verbais. (Para saber mais sobre
Saussure acesse o site pt.wikipedia.org/wiki/Ferdinand_de_Saussure)

Convém ressaltar que a função do linguista é descrever, analisar, comparar o


funcionamento das línguas, considerando-se semelhanças e diferenças. Por
exemplo, cabe ao estudioso da língua descrever a fala de uma determinada região e
explicar por que no nordeste as vogais /e/ e /o/ são ditas abertas, como em
“méninu”, “féliz”, “córação”.

Antes de chegar ao estágio de ciência, pode-se dizer, avançada de hoje, a


Linguística passou por várias fases: Fase da Gramática, Fase da Filologia e Fase do
Comparativismo, sobre as quais abordaremos sucintamente.

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Pode-se afirmar que a fase da Gramática abordou as primeiras especulações sobre
a língua. A Grécia foi o berço dos estudos gramaticais dessa fase, cabendo aos
gregos a divisão em classes de palavras e divisão da frase em sujeito e predicado.
Dois conceitos nortearam os estudos gramaticais dos gregos: anomalia e analogia.

Anomalia é falta de correspondência entre o som e o conceito da palavra. Por


exemplo, Vítima é palavra feminina e se refere ao feminino e ao masculino.
Analogia, por sua vez, é a tendência niveladora da língua. Como exemplos, citamos
falantes que, pela semelhança existente no futuro do presente dos verbos- cantar-
cantarei; falar- falarei, tendem a empregar trazerei e fazerei. Vale dizer que o
princípio da analogia propiciou a divisão das palavras em classes. Por exemplo,
entre cantou, dançou, amou existe uma semelhança.

A Fase da Filologia constou de estudos de textos literários, principalmente nos


aspectos de compreensão e de interpretação, não se abordando estudos da língua,
quando o faziam, apenas comparavam textos de diferentes autores.

A Fase do Comparativismo decorreu do contato entre as diferentes línguas, na


época do Cristianismo. Os estudiosos, então, passaram a compará-las, com vistas a
detectar semelhanças e diferenças.

Nessa época, uns acreditavam que o Grego era a língua mãe das demais línguas;
outros achavam que era o Latim. Porém, com a descoberta do Sânscrito, chegou-se
ao consenso que essas três línguas são oriundas de um tronco comum: o Indo-
Europeu (língua pré-histórica). O Comparativismo teve seus méritos, principalmente,
a descoberta de línguas mais antigas, como o indo-europeu, porém as falhas foram
gritantes, pois comparavam muitas línguas sem, entretanto, indagar a que
conduziam tais comparações ou relações descobertas. A comparação é necessária,
mas não basta por si só.

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UNIDADE 02 - LÍNGUAS NATURAIS E CULTURA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar a relação língua e cultura. Já comentamos que o objeto da
Linguística são as Línguas Naturais, cabe-nos verificar como elas se formam. A
primeira coisa que devemos ter em mente é que as línguas não são decalque da
realidade, isto é, a palavra copo não é o objeto do mundo real. Na verdade, as
línguas incorporam traços das experiências vividas por cada povo, eis a razão pela

qual se diferenciam.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Só para exemplificação, tomemos algumas palavras: chauffeur, conductor, driver,
motorista. Essas palavras referem-se a uma atividade humana: aquele que dirige.
Veja bem, a realidade do mundo é a mesma, mas a palavra é diferente, sabem por
quê? Simplesmente pelo fato de o Francês associar a atividade ao ato de aquecer o
motor; o espanhol e o inglês à ação de dirigir; o português, ao motor do carro.
Assim, pode-se afirmar que cada língua recorta um aspecto particular da realidade.

Não é só no que diz respeito ao recorte da realidade


Pêcheux afirma que a língua
que as línguas variam, mas o som também. Por é a mesma para todos os
exemplo, o inglês para o som /i/ tem duas pronúncias, indivíduos de uma
comunidade, mas o uso que
opondo, por exemplo, “it”, pronome pessoal e “eat”, cada um faz dela é diferente

comer. Nós, falantes do português, só temos uma


realização para o /i/: igual, idem, etc.

O que queremos dizer é que, para nomear e explicar as coisas do mundo e os


estados de espírito, as línguas incorporam traços culturais. Uma vez instituída a
palavra, ela fará parte da língua, porém isso não significa que essa determinada
palavra continuará a ser usada pelos falantes por toda vida, ou que ela terá sempre
o mesmo emprego. Nesse caso, o sentido das palavras dependerá, sempre, de

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quem usa e do contexto de seu uso. Por exemplo, para uma mesma realidade terra,
se usada por um sem-terra, seu sentido é de justiça social, sobrevivência.
Diferentemente, para o proprietário, seu sentido é de propriedade, posse. Por essa
razão, as palavras, as imagens não são o objeto em si, mas uma representação do
objeto.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Vale dizer, ainda, que as palavras podem deixar de ser usadas: os arcaísmos; outras
são criadas para preencher determinadas necessidades econômicas, científicas ou
pessoais. Essas palavras novas introduzidas nas línguas são os neologismos.

Toda inovação da língua, quer pelos processos de derivação e composição, a partir


de palavras já existentes, como no caso de “protocolizar”, ao invés de protocolar;
quer pelo neologismo, tem início em um círculo pequeno de falantes e,
gradativamente, atinge o coletivo. Mas, atenção, pois só ganha “estatuto de cidade”,
ou seja, só é fixada, quando aceita pelas pessoas de nível social e intelectual
elevados. As demais formas serão abortadas.

Curiosidades:
Vocês sabiam que as mulheres usavam laquê; hoje usam “spray”.
Antigamente, os homens usavam brilhantina e gumex nos cabelos; hoje,
gel.
As mulheres usavam corpete; hoje, body.

Interessante também observar como Carlos Drummond de Andrade constrói o texto


a seguir apenas com os arcaísmos:

ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas


mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras,
em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes
pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficava longos meses debaixo do
balaio. E levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar
em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era de tirar
o pai da forca, e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde
para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O

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que não empedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em
canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava manta e azulava,
dando às de Vila-diogo. Os idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo
para tomar a fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno.
Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao
cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de
aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e
até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n'água
(Carlos Drummond de Andrade – Antigamente)

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UNIDADE 03- LINGUAGEM HUMANA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Discutir as características e peculiaridades da linguagem humana. A
proposta desta unidade é discutirmos um pouco mais sobre a linguagem, suas
características, suas peculiaridades. Pode-se dizer que não há nada mais complexo
que a linguagem humana. O homem só não a abandona, porque não encontrou,
ainda, outra forma de agir sobre os outros.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Muitas vezes, no ato de linguagem, dizemos mais do que as palavras significam;
outras, uma simples palavra implica uma ação realizada, como, por exemplo,
quando o juiz, no final do julgamento diz: “Declaro o réu culpado”, o réu é culpado;
quando em um batizado, o padre diz: “Eu te batizo em nome do pai, do filho e do
espírito santo”, a criança está batizada.

Linguagem Humana e Linguagem Animal


Já tivemos oportunidade de dizer que gestos, dança e pintura são linguagens.
Assim, há várias linguagens. Mas o que é necessariamente a linguagem?

Pode-se definir a linguagem como qualquer forma de interação humana. Assim, um


balançar de cabeça para a direita e para a esquerda, significa uma negação, tal qual
a palavra não.

Para explicitar a linguagem humana, os linguistas estabeleceram uma distinção entre


ela e a linguagem animal. É consenso que os animais possuem uma linguagem para
exteriorização do medo, do prazer, da cólera, da fome.

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Várias pesquisas foram e ainda são realizadas para desvendar as especificidades da
linguagem animal. Tomemos, como exemplo, o estudo a respeito da linguagem das
abelhas.

Estudiosos, após observação muito longa, concluíram, que a obreira, quando


encontrava uma fonte de alimento, voltava à colmeia e realizava uma dança,
consistindo de voltas e contrações do abdômen. Assim, uma dança circular, implica
alimento próximo; uma dança com contrações abdominais significa alimento está a
mais de cinquenta metros. Se o alimento se encontra a mais de cem metros, a
abelha percorre nove ou dez vezes a linha reta que faz parte da dança.

Algumas aves reproduzem palavras aprendidas com os humanos, são capazes de


entender certas ordens, porém nesse aprendizado não há operação mental, ou seja,
não consta nenhum relato em que dois papagaios conversem entre si a linguagem
humana aprendida. Assim, por mais engenhoso que seja a comunicação animal, ela
não constitui uma linguagem, pelo menos na acepção de linguagem. Humana.

A linguagem animal não é produto cultural, mas um componente biológico,


herdado, isto é, a abelha nasce pronta para transmitir às outras abelhas a mesma
informação. A linguagem animal é permeada de índices, ou seja, um dado físico, por
exemplo, o encontro do alimento, associado a outro dado físico: a dança das
abelhas.

Vários estudiosos dedicaram-se ao estudo da linguagem humana. Sapir, por


exemplo, dizia que a linguagem humana é aprendida, é herança cultural transmitida
de pai para filho. Chomsky, linguista americano, tem uma teoria diferente da de
Sapir. Para ele, a linguagem não é herança cultural, mas é inata, ou seja, o homem
nasce com a linguagem dentro de si, provavelmente, em algum compartimento
localizado do lado esquerdo do cérebro. O que não se pode negar, pois pessoas

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que sofrem acidentes vasculares cerebrais, se a parte afetada é a esquerda, elas
perdem a faculdade da fala.

Chomsky justifica sua tese de inatismo, por meio da linguagem das crianças. Em
outras palavras, para ele, só sendo inata se justifica uma criança falar frases que
nunca falou antes; entender frase que nunca ouviu.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Características da Linguagem Humana
Borba (1991) define linguagem humana como a associação de uma cadeia sonora a
um significado. Assim, ao ouvirmos a palavra “casa”, imediatamente nos vem a
mente o conceito: objeto construído pelo homem para lhe servir de moradia. Vamos
verificar quais são as características da linguagem humana.

Simbolização- A linguagem humana é simbólica porque nós tomamos as coisas do


mundo, nossos sentimos e formalizamos em símbolos, criamos nomes. Essas
palavras não são as coisas, mas representação delas. Lembram-se do cachimbo?

Articulação- Nossa fala não se concretiza em blocos, mas por sequências lineares,
que podem ser segmentadas até que nenhuma outra divisão seja possível. Estamos
falando da 1ª e da 2ª articulação.

Vamos entender bem isso. O enunciado “A casa é branca”, é possível dividirmos em


segmentos como: a- casa – é- branca. Outra divisão pode ser feita: o a (em negrito)
da palavra casa é uma vogal temática que classifica os substantivos terminados em
a; é é o verbo ser, conjugado na 3ª pessoa do singular; o outro a da palavra branca
é também uma vogal temática. Vejam bem. Nessa segmentação, ainda lidamos com
elementos mínimos portadores, de significado. Esses elementos são denominados
morfemas.

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Outros exemplos: em menina, o a é um morfema de gênero que indica as palavras
femininas, como doutora; médica, dentre outras. Na palavra patada, o segmento pat
significa parte inferior do membro animal, diferentemente, o ada, significa golpe, daí
patada ter o significado de golpe dado com uma pata e facada ter o significado de
golpe dado com uma faca.

Os exemplos acima ilustram a 1ª articulação da língua, isto é, divisão dos segmentos


das palavras em elementos mínimos com significado.

As divisões que efetuamos acima não são as únicas possíveis, pois diante da palavra
pata, podemos segmentá-la em /p/; /a/; /t/; /a/. Cada elemento resultante dessa
divisão não tem significado, isto é, o que é um p sozinho? Estamos diante dos
fonemas, elementos da língua sem significado. Entretanto, os fonemas têm uma
função: distinguem signos, palavras. Por exemplo, se trocarmos o fonema /p/ da
palavra pata pelo fonema /b/ teremos outra palavra: bata.

Essa divisão da palavra em segmentos menores, até que nenhuma outra divisão seja
possível é que denominamos 2ª articulação da linguagem.

Produtividade- Por meio de um número limitado de fonemas (vogais e consoantes),


podemos produzir mensagens teoricamente infinitas. Isso é um reaproveitamento,
que não ocorre apenas com os fonemas, mas com palavras e estruturas de frases
também. Por exemplo, a palavra casa, pode ocorrer em frase como: A casa é bonita;
A casa é de Pedro; A casa é grande. Eu comprei a casa.

Padronização- É a tendência de as estruturas da língua se repetirem. Assim, um


exemplo como “To cabando o exercício”, embora a fonética esteja meio estropiada,
podemos perceber um sujeito: eu; uma expressão verbal: estou acabando, e um
objeto direto: o exercício.

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Intencionalidade- De todas, talvez, essa seja a característica mais importante da
linguagem. Sabem por quê? Nós não falamos ao acaso, mas todo nosso ato de
linguagem tem a intenção de agir sobre o outro. Não existe nada despretensioso,
mesmo que a intenção não esteja explícita. Por exemplo: Eu vou a São Paulo, minha
intenção é informar alguém do local para onde me destino ou responder a uma
ordem, ou ainda negar alguma coisa. Tudo vai depender do contexto. Assim, Vou a
São Paulo e não a outro lugar; Não vou a outro lugar, porque vou a São Paulo.
Tudo está explícito.

Entretanto, quando falamos, podemos deixar nossa intenção implícita. Assim,


quando digo “Pedro me procurou, deve estar com problemas”, minha verdadeira
intenção é dizer que Pedro só me procura quando está em dificuldade.

Imaginemos uma outra situação: o aluno pergunta ao professor: “Minha prova está
boa?”, o professor responde: “A primeira questão está ótima.” O que se infere dessa
resposta? Qual é o implícito? Na verdade, ao mencionar só a primeira questão, o
professor afirma, sem dizer, que as outras não estão boas.

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UNIDADE 04- A COMUNICAÇÃO HUMANA.
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar os elementos da comunicação; Estudar as funções da
linguagem. Desde os tempos mais remotos, o homem serve-se da linguagem, seja
ela verbal ou não-verbal, para se comunicar. A comunicação é uma necessidade
premente do ser humano.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Vejamos algumas formas de comunicação.

Texto I
O homem das cavernas utilizava-se da pintura rupestre, para
comunicar aos demais o seu cotidiano. Nessa imagem, observamos a
atividade de caça, alguns objetos utilizados para esse fim e a relação
com outros homens, levando-nos à leitura de que essa prática era
coletiva.

Texto II

Na imagem II, a comunicação se dá por meio da fotografia. Desnecessárias são as


palavras para explicar seu significado: a miséria humana disseminada pelo mundo.

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Texto III
Façam a festa
Cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-muro
sujo
como a miséria brasileira.
Ferreira Gullar

No texto acima, o poeta opõe dois mundos: o mundo de festas e danças, do qual se
exclui, e o mundo da miséria. Trata-se, na verdade, da tomada de posicionamento,
por meio do poema duro, porque revela um problema social; muro-sujo, porque a
miséria é uma mancha da sociedade, é a sujeira social.

Vocês poderiam questionar onde está a comunicação nos textos acima, uma vez
não observarmos pessoas conversando. Ora, mesmo não se explicitando o emissor
(aquele que fala) e o receptor (aquele a quem se dirige a mensagem), em todos
esses textos ocorre comunicação, pois eu, vocês e qualquer pessoa somos os
receptores.

A partir de 1950, a Teoria da Comunicação integrou-se aos estudos linguísticos,


cabendo citar o papel de Roman Jakobson. Para ele, na comunicação, há um
remetente (emissor), responsável pelo envio da mensagem a um destinatário
(receptor). Para a eficácia dessa mensagem, é imprescindível um referente (algo
sobre o qual a mensagem se assenta). Esse referente, por sua vez, deve ser
apreendido pelo remetente e pelo destinatário e embasar-se em um código que
seja total ou parcialmente conhecido por eles. Por exemplo, se o remetente envia
uma mensagem, utilizando-se da língua alemã (código), a um destinatário que não
a conheça, certamente, não haverá comunicação. A comunicação só se efetuará,
nesse caso específico, se o emissor lançar mão de outro código, o gestual, por
exemplo. Além desses elementos, deve haver o canal físico, visual ou auditivo, que

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permite a ambos a conexão, conforme se observa no esquema comunicativo
proposto pelo linguista.

CONTEXTO
(REFERENTE)

CANAL
EMISSOR MENSAGE RECEPTOR

CÓDIGO

A utilização de códigos diferentes, na maioria das vezes, provoca ruídos, problemas,


na comunicação. Há uma piada sobre um jovem estrangeiro que passeava de trem
nos Estados Unidos. O trem entraria por um túnel muito estreito. Então, o
responsável pelo passeio gritou “look out”. Imediatamente, o garoto colocou a
cabeça para fora e a teve decepada. O que ocasionou esse fato foi o uso de
códigos diferentes, cujo significado não fora decodificado pelo estrangeiro. “look
out”, em inglês, é cuidado, entretanto fora entendido como “olhe para fora”.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Funções da Linguagem
A partir dos elementos da comunicação, Roman Jakobson propôs as funções da
linguagem. Assim, o falante, segundo a sua intenção, enfatiza um elemento da
comunicação, dando origem a uma função específica da linguagem. Vamos
observar o esquema das funções da linguagem.

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REFERENCIAL
CONTEXTO
(REFERENTE)

EMISSOR
EMOTIVA MENSAGE RECEPTOR
M CONATIVA

FÁTICA
CANAL

METALINGUÍSTICA
CÓDIGO

Leia com atenção o texto abaixo.

"Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem


negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi
sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios
inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o
segredo de seu mecanismo, e as bonecas o jogo de seu olhar. Mais tarde
foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e
seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje eu não
compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois
tempos de vida." (Cecília Meireles)

No texto acima, observamos um emissor que se explicita no texto, por meio do


emprego da primeira pessoa, cujas marcas são: minha, me, para mim, eu. Esse “eu”
exterioriza seus sentimentos, seu ponto de vista sobre dois mundos: o da infância e
o adulto. Na infância, a solidão e o silêncio, negativos para a maioria das pessoas,
para ela, foram a ponte para a reflexão e para a criação. No mundo adulto, há o
julgamento do emissor: não há separação entre essas duas fases da vida.

Então, alunos, a Função Emotiva ou Expressiva da linguagem é aquela em que o


emissor coloca a ênfase da mensagem no “eu”, para expressar seus sentimentos,
desejos e posicionamentos sobre os fatos do mundo, como se verifica na imagem

21
abaixo, em que o emissor da mensagem, Zeca Pagodinho, declara seu amor pela
cerveja.

Se o emissor da mensagem enfatizar o destinatário, a função da linguagem aí


predominante é a conativa. Essa função é muito comum nos textos publicitários,
cuja meta é convencer ou seduzir os leitores/ouvintes a comprar o produto
anunciado. A Caixa Econômica Federal tem um slogan: Vem pra caixa você também.

As marcas que evidenciam a função conativa são: uso do imperativo e da 2ª pessoa


do singular ou plural, como podemos verificar, nos exemplos abaixo, extraídos do
site http://www.portaldapropaganda.com/comunicacao/2008/05/0027.

Imagem I

Agora você vai ver um mundo mais


alegre mesmo quando estiver de
cabeça baixa

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Na imagem acima, há o emprego da Função Conativa ou Apelativa da linguagem,
como se pode verificar no uso de você. Ressalte-se que esse exemplo faz referência
às novas cores das sandálias Havaianas. Na Imagem I, a função é de transformar um
estado confuso, complicado (cabeça baixa) em mundo alegre, colorido.

No momento de sua fala, o emissor poderá colocar a ênfase da mensagem no


referente. Neste caso, há a Função Referencial ou Informativa. Os procedimentos
que evidenciam essa função são o uso da 3ª pessoa, a apresentação do objeto da
mensagem de forma objetiva, clara, atendo-se, portanto, às qualidades reais do
objeto. Nesse caso, não se devem usar adjetivos que expressam subjetividade,
como, por exemplo, lindo, maravilhoso. O uso dessa função deve ser revelador de
objetividade, ou seja, o objeto deve ser apresentado em suas potencialidades reais.
Essa função é muito empregada nos textos científicos e deveria ser predominante
nos textos jornalísticos, cuja função é apresentação de fatos, sem a interferência ou
o julgamento do sujeito que fala. Vejamos exemplos de função referencial.

Texto I
O olho ocupa um terço da cavidade orbitária. Mede 24mm de diâmetro.
Compreende porções de duas esferas: uma posterior e uma anterior. O
nervo óptico emerge do globo ocular medialmente ao seu polo posterior.
Os pontos médios das pupilas ficam separados por uma distância de
cerca de 60 mm. O diâmetro ântero-posterior do globo ocular pode ser
maior- como na miopia – ou menor –como na hipermetropia – do que o
normal. O globo ocular tem três camadas concêntricas: uma túnica fibrosa
externa, protetora, que compreende a córnea e a esclera ou esclerótica:
uma túnica pigmentada média, vascular, que compreende a íris, o corpo
ciliar e a coroide, e uma túnica interna denominada retina.
(Anatomia, Gardner et alii...)

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Texto II
RJ: Acidente deixa trânsito lento na Avenida Brasil
Caminhão bate em carro e tomba na pista central da via.
Os dois motoristas ficaram levemente feridos.
Um acidente deixa o trânsito complicado desde a tarde desta sexta-feira
(8), na Avenida Brasil, altura de Bonsucesso, no subúrbio do Rio. Segundo
a Coordenadoria de Vias Especiais (CVE), um caminhão carregado de
terra tombou na pista em direção à Zona Oeste, depois de bater em um
carro. A pista lateral ficou interditada para a limpeza e provocou
engarrafamentos nas linhas Amarela e Vermelha e até no Elevado da
Perimetral. (Jornal O Globo)

Nos dois textos acima, o que realmente importa é a transmissão de uma informação
objetiva, real. No primeiro texto, extraído de um livro de Anatomia Humana, o
objeto apresentado é o olho. Agora, imagine, você, se, em um livro desse tipo, os
órgãos do ser humano não fossem descritos como realmente são. Com certeza,
estaríamos todos mortos. No Texto II, a ênfase da mensagem é apresentar o fato, o
acidente, tal qual ocorreu e suas reais implicações.

A Função Fática caracteriza-se por centrar-se no contato entre emissor e


destinatário. Para entender bem isso, imaginemos a seguinte situação: Entramos no
elevador, onde há outras pessoas, com quem não temos intimidade. Imediatamente,
começamos a balançar a chave do carro, ou dizer: Calor, heim. O outro poderá
responder, Nossa! Nem diga. Muito bem, esse heim, esse nossa são elementos
empregados para iniciar uma comunicação, um contato. Outros marcadores dessa
função são: Bom dia, oi, olá, e aí amigo, certo, né, cujo uso sempre se dá para se ter
certeza de que a comunicação vai iniciar ou está prosseguindo de maneira
satisfatória. Há uma música de Paulinho da Viola que ilustra bem essa função.
Vamos ouvi-la? Para isso, acesse o site
http://www.youtube.com/watch?v=w9JWuQPeaW0, ou leia a letra abaixo.

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Sinal Fechado
Olá, como vai
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranqüilo, quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo... (...)
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo, talvez
Nos vejamos, quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...(...)
Pra semana...
O sinal...
Eu procuro você...
Vai abrir!!! Vai abrir!!!
Eu prometo, não esqueço, não esqueço
Por favor, não esqueça
Adeus... Adeus...

Nessa música, deixando as possíveis leituras de lado, há o emprego da função


Fática, para iniciar a conversação: Olá; para dar continuidade: tudo bem? e você?,
Pois é, O sinal..., não esqueço, Adeus... Adeus....

Outras marcas caracterizam essa função, tais como, o balbucio do bebê para sua
mãe; as interjeições (uhn, hã), expressões: tchau, até logo, bom dia, dentre outras.
Vale dizer ainda, que o aperto de mão dado, um abraço, um beijo, expressão facial,
acompanhados de fórmulas de cumprimento de início de comunicação entre
pessoas, caracterizam, também, a função fática, conforme se observa na imagem
abaixo, em que Lula e Bush se cumprimentam.

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A Função Metalinguística centra-se no código e caracteriza-se por ser uma
linguagem definidora de outra linguagem. Vamos entender bem isso. Em uma
prova, se o professor introduz a questão: “O que é Linguagem?” e o aluno
responde: “Linguagem é uma forma de comunicação, é uma forma de interação
humana”, usou-se a função metalinguística, pois traduziu uma palavra, um conceito
da língua por outras palavras, outros conceitos.

Quando em uma conversa alguém diz ao outro: “O que você quer dizer com isso?”
e o outro responde: “Bom, eu quero dizer que você não está entendendo nada”,
empregou-se a função metalinguística.

Finalmente, vamos deter nossa atenção na Função Poética da linguagem. Sabem o


que é essa função? Primeiramente, é a função cuja ênfase está na própria
mensagem. Entenderam? Acho que ainda não, não é? Vamos para outra definição,
desta vez, citando Jakobson:

A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção


sobre o eixo de combinação.
JAKOBSON, 1969, p.130.

Acredito que entenderam menos ainda, não é. Embora as definições sejam


complexas, a função poética é bem simples. Vamos a ela.

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Quando vamos falar ou escrever alguma coisa, nós buscamos as palavras, em nossa
mente, em nosso conhecimento, certo? Após escolhermos as que vamos usar, nós
as colocamos em uma sequência, em uma ordem, segundo os critérios de nossa
língua. Muito bem, suponhamos que eu escolha, no dicionário que tenho em minha
mente as palavras rosa, a, vermelha, é. Entretanto, nós não falamos assim, porém
seguimos a estruturação da frase em português. Então dizemos: A rosa é vermelha.
Até aí tudo bem, pois rosa tem o sentido de flor, é rosa mesmo, daí a função
referencial da linguagem.

Acontece que Vinícius de Moraes fez um poema denominado Rosa de Hiroxima.


Ouçam o poema no site: http://kavorka.wordpress.com/2006/11/28/secos-e-molhados-rosa-
de-hiroxima/., ou leiam-no abaixo.

Rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rosas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem roda sem nada

Lindo o poema, não? Pena que seja tão triste, tão terrível aos olhos humanos. Bom,
vamos à explicação da função poética.

Vinícius de Moraes fez escolhas, selecionou palavras, para, em seguida, combiná-las


em versos. Muito bem. Tomemos a palavra rosa, presente no texto. Essa palavra
significa flor? Ela está sendo usada no sentido do dicionário? É claro que não. Nesse
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texto, nessa mensagem, rosa é bomba atômica. Está aí a função poética, ou seja,
selecionou-se um termo e, no momento de estruturar a frase com ele projetou-se
uma equivalência: rosa é bomba. Agora, atenção! Ninguém vai sair por aí dizendo:
“Vou mandar bombas vermelhas para minha namorada”, achando que rosa e
bomba são a mesma coisa. Rosa só equivale, só deve ser lida como bomba, no
contexto desse poema, nessa mensagem.

A função poética é muito empregada na poesia, na literatura, porém, em nossa


linguagem cotidiana, nós também a usamos. Lembram-se dos jargões usados nas
feiras, vejamos alguns:

Dona Maria, traz a bacia.


Dona Manuela traz a panela.

Você poderia me dizer que esses exemplos são de função fática, pois coloca a
ênfase no destinatário da mensagem, e são mesmo. Porém, há também a função

poética, propiciada pelas rimas: Maria X Bacia; Manuela X Panela, efetuando uma
equivalência de sons.

Drummond, poeta brasileiro, fez os seguintes versos:

Mundo, mundo, vasto mundo


Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima
Não uma solução

Neles, além da função emotiva, exteriorização do “eu”, ocorre a função poética


propiciada pelas rimas: mundo X Raimundo. Na verdade, essas rimas são usadas
para mostrar o posicionamento do poeta frente coisas ruins da sociedade.

Algumas considerações importantes


Nos estudos linguísticos, há três concepções de linguagem, sobre as quais
abordaremos a seguir.

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A primeira delas afirmava ser a linguagem expressão do pensamento. Essa
concepção vigorou até meados do século XX. Cabe, entretanto, um questionamento
sobre isso. Se linguagem é expressão do pensamento, aquela pessoa que não
consegue se expressar bem não pensa? Tomemos, como exemplo, o personagem
Fabiano, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Logo no início do romance, esse
personagem aparece descrito como um ser humano desprovido de habilidades de
uso da linguagem, ele não conseguia falar. Várias passagens do livro indicam isso.
Porém, embora não conseguisse falar, ele pensava e muito.

Com os estudos da teoria da comunicação, a linguagem passou a ser entendida


como comunicação. Isso é verdadeiro, porém, há que se colocar um
questionamento. Vamos imaginar que alguém diz: “Está chovendo”. Tudo bem,
Nesse enunciado, observamos um emissor que envia uma mensagem a um
destinatário, sobre um determinado referente, utilizando-se de um código e de um
canal. A função da linguagem aí predominante é a referencial. Nós sabemos que
está chovendo é tomba água do céu, mas, dependendo da situação em que é
pronunciada, pode ter sentidos completamente diferentes, o que o esquema
proposto por Jakobson não prevê. Por exemplo, se a patroa diz para a empregada
que está chovendo e as roupas estão no varal, na verdade, ela está dando uma
ordem (recolha a roupa) e não passando uma informação. Se passamos por uma
situação de racionamento de energia elétrica e começa a chover, essa mesma frase
pode significar: vai acabar o racionamento.

Finalmente, os modernos estudos linguísticos concebem a linguagem como


interação, como estabelecimento de vínculos entre os envolvidos no ato
comunicativo. Vale dizer, ainda, que todo ato de linguagem, desde o mais simples,
até o mais complexo, tem uma intenção: agir sobre o outro. Essa concepção é que
deve nortear o ensino de Língua Portuguesa.

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UNIDADE 05 - AS DICOTOMIAS DE SAUSSURE
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar o conceito de signo linguístico, estabelecido por Saussure. O
objetivo desta unidade é conceituar signo linguístico, fundamental para os estudos
da língua. Saussure, em sua obra, que, aliás, não foi escrita por ele, mas por seus
alunos, não mencionou o termo dicotomia, mas, atualmente, é essa a denominação
atribuída aos quatro pares de conceitos, a partir dos quais se assentam os estudos

da Língua: significante e significado; paradigma e sintagma; sincronia e diacronia e


língua e fala. Nesta unidade, ater-nos-emos ao signo linguístico.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Signo Linguístico
Saussure define signo linguístico como algo duplamente constituído pela união de
um “sentido” a uma imagem acústica. O “sentido”, para ele, é o conceito, ou seja, é
a representação mental de um objeto ou da realidade. Nessa perspectiva, “sentido”
é o conceito que nós possuímos sobre o mundo, sobre a realidade, sobre os nossos
sentimentos, enfim, de tudo o que o homem nomeou.

Diz o mestre que a “imagem acústica” não é o som material, mas a realidade
perceptível, quando pensamos uma palavra, mesmo não a dizendo.

Assim, pode-se afirmar que o signo é algo duplamente constituído, cujas partes não
existem separadamente, mas uma depende da outra. Ao conceito, Saussure
denomina de significado; à imagem acústica, de significante, cuja ilustração,
encontra-se à página 99 de sua obra.

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Conforme a ilustração acima, o signo “arvore” é constituído por um significado:
conceito e um significante: imagem acústica. Isso significa dizer que ouvir, ler ou
pensar a palavra “árvore”, imediatamente vem a nossa mente um modelo, uma ideia
do que seja árvore. Em outras palavras, esse signo evoca em mim uma árvore e não
um gato, por exemplo.

Você poderia questionar se signo é apenas uma palavra. A resposta é negativa, pois
já estudamos anteriormente que a linguagem não é só verbal, mas existe a não-
verbal também. Nessa linguagem, é claro que não se pode falar em imagem
acústica. Por essa razão, há que se expandir o conceito de significante para que se
possa referir a outras espécies de signos. Nessa perspectiva, Fiorin (2002: 58)
concebe significante como um veículo do significado. Assim, a imagem das mãos
dadas introduzida no início dessa disciplina é um suporte material para a expressão
de um significado: o de união. Analogamente, uma foto é um signo material para a
expressão da miséria, da fome infantil que assola a humanidade.

O signo linguístico é convencional, ou seja, mesa refere-se a um objeto específico


do mundo real e não cabe a nós, falantes, usuários da língua, modificá-lo. Se o
signo é convencional, é social e cada língua vai categorizar as coisas e os seres de
acordo com sua cultura, sua visão de mundo, seu recorte da realidade. Assim, para
uma mesma realidade: terra, por exemplo, a língua inglesa emprega signos
diferentes: Earth- globo; ground é chão e land é terra cultivável. Em português, esse
signo se refere às três realidades: Não pise na terra/ A terra está se deslocando do
seu eixo/ Eu comprei umas terras no nordeste.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Alguns Conceitos Linguísticos de Bakhtin
Bakhtin, em sua obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (2002), afirma ser o signo
ideológico, conforme se pode depreender de suas palavras:

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Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado
fora de si mesmo, [...], tudo que é ideológico é signo. Sem signos não
existe ideologia.
BAKHTIN, 2002, p.1.

Afirma-nos Bakhtin que todo signo deve ser contextualizado, pois, isolado, não
possui valor em si mesmo. Vamos entender bem isso. Para tanto, tomemos o signo
cruz, enquanto isolado é apenas um objeto do mundo,
porém, se contextualizado no cristianismo, reveste-se de
ideologia: sofrimento de Cristo. Nesse contexto, cruz ganha
significação. Outro exemplo refere-se à foice e ao martelo,
que, isoladamente, não possuem significação, mas, a partir
do momento em que o Partido Comunista passou a usá-
los como símbolo, tornaram-se ideológicos.

Vale dizer que, quando o signo é contextualizado, o campo de domínio do signo


une-se ao campo de fator ideológico que ele representa. A estrela vermelha,
inserido no contexto do PT, adquire valor ideológico de brilho e luz.

Bakhtin afirma que o objeto das ciências humanas é o texto ou os discursos


produzidos pelo homem. Nesse sentido, o homem é conhecido pelos textos e é
pelos textos que ele se constrói.

O autor concebe o texto, manifestação de discursos, como:


• objeto de significação, isto é, o texto significa;
• produto de criação ideológica ou de uma enunciação, incluindo-se, portanto,
o contexto histórico, social, cultural . Assim, o texto não existe fora da
sociedade, só existe nela e para ela;
• dialógico, pois define-se no diálogo pelo entre os interlocutores e pelo
diálogo com os outros textos;
• único, pois os traços mencionados o fazem não reiterável ou repitível (um
falante não reproduz, fielmente, um mesmo texto duas vezes, pois a
entonação, a expressão, com certeza, será diferente).

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Outro conceito merece destaque. Trata-se do Dialogismo, sobre o qual tecemos
algumas considerações.

A linguagem, para Bakhtin, é dialógica e a alteridade, que define o ser humano e o


outro, é imprescindível para a sua concepção. É impossível pensar o homem fora de
sua relação com outro homem. A linguagem, como já dissemos, é interação social; é
um eu atuando sobre o outro.

Bakhtin estabelece duas formas de dialogismo: diálogo entre os interlocutores e


diálogo entre discursos.

Quanto ao diálogo entre interlocutores, devemos considerar os seguintes aspectos:


a- interação entre os interlocutores é o princípio fundador da linguagem;
b- o texto e a significação das palavras dependem da relação entre os
sujeitos, ou seja, constroem-se na produção e na interpretação dos textos;
c- a intersubjetividade é anterior à subjetividade, pois a relação entre os
interlocutores não apenas funda a linguagem e dá sentido ao texto, mas
também constrói os próprios sujeitos produtores do texto.

Vamos explicitar bem isso. Primeiramente, o ato de linguagem caracteriza-se por


um eu que se dirige a um tu. Mesmo num monólogo interior, o falante desempenha
os dois papéis: falante e ouvinte. Os textos e as palavras só são significados na
relação entre os sujeitos. Assim, se alguém diz: “Eu vou para o meu rancho”,
dependendo de quem fala é que o ouvinte vai atribuir significado de tapera ou
espaço de lazer.

Diálogo entre discursos


Para Bakhtin, o dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e a condição de
sentido do discurso. O discurso não é individual, porque se constrói entre, pelo
menos, dois interlocutores que, por sua vez, são seres sociais; não é individual
porque se constrói como um diálogo entre os discursos.

33
Deve-se esclarecer que as relações do discurso com a enunciação, com o contexto
histórico social ou com o outro são relações entre discursos enunciados; o
dialogismo define o texto como um tecido de muitas vozes ou de muitos discursos
que se entrecruzam, se completam, respondem umas às outras ou polemizam entre
si no interior do texto.

É preciso examinar duas outras questões: o caráter ideológico da língua em relação


ao dialogismo dos discursos e o mascaramento do dialogismo no texto.
a) Dialogismo Constitutivo da linguagem- Para Bakhtin, a linguagem é dialógica e a
língua não é ideologicamente neutra, mas complexa, pois aparecem traços dos
discursos que imprimem na língua choques e contradições
b) Dialogismo e Polifonia-
b.1.Dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e de todo discurso.
b.2. Polifonia é um determinado tipo de texto em que o dialogismo se deixa ver, é o
texto em que são percebidas muitas vozes, opondo-se aos textos que escondem os
diálogos que o constituem.

Pode-se afirmar, então, que há textos polifônicos, em que os diálogos mostram-se,


deixam-se ver e textos monofônicos em os diálogos se ocultam, sob a aparência de
um discurso único. Polifonia e monofonia são estratégias discursivas, são efeitos de
sentido.

Antes de passarmos aos estudos da polifonia, devemos entender bem o dialogismo.


O primeiro ponto a assinalar é o fato de o sujeito não ser a fonte do dizer, mas ele é
determinado de fora, é mais falado do que fala. A ideologia materializa o discurso,
que é a condição constitutiva do sujeito (formações ideológicas- visões de mundo
de um determinado grupo social; e formações discursivas – conjunto de temas e de
figuras específicas a um determinado grupo social. São as formações discursivas que
impõem o que o sujeito deve e pode dizer). O segundo aspecto do dialogismo é a

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intertextualidade interior do discurso. O texto é tecido de muitas vozes que
concordam e polemizam entre si, reproduzindo um diálogo com outros textos.
Os estudos de Bakhtin respaldaram os conceitos e estudos das heterogeneidades
enunciativas desenvolvidos por Revuz.

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UNIDADE 06 - ARBITRARIEDADE DO SIGNO LINGUÍSTICO
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Discutir o conceito de arbitrariedade do signo linguístico. Segundo
Saussure, o laço que une o significado e o significante é arbitrário, ou seja, não há
nenhuma relação necessária entre o som e o sentido, mas convencional, como já
observamos na unidade anterior.

ESTUDANDO E REFLETINDO
A discussão a respeito da arbitrariedade do signo linguístico não se iniciou com
Saussure, mas era foco entre os filósofos da Grécia. Assim, Crátilo afirmava ser o
significante unido ao significado por natureza; Hermógenes, diferentemente,
defendia a convenção, portanto a arbitrariedade.

O conceito de arbitrariedade do signo linguístico é comprovado pelas diferentes


línguas, isto é, em português, há a palavra mesa, em inglês, table. São sons
diferentes que não lembram a realidade “peça com 4 pés, com um tampão em
cima”.

Uma das críticas que se pode fazer à teoria da arbitrariedade do signo linguístico diz
respeito às onomatopeias. Sabe o que é isso? São certas palavras que reproduzem
determinados sons. Por exemplo, au...au, reproduz o latido do cachorro; miau, o
miado do gato; ai, reproduz um grito de dor. Mas sobre elas também há que se
considerar o fato de estarem sujeitas às coerções fonéticas e fonológicas das
diferentes línguas. Em outras palavras, a reprodução do latido do cachorro na língua
inglesa, por exemplo, é diferente de au...au, o que não significa que, nos Estados
Unidos, os cachorros latem diferentes.

Está nos estudos do próprio Saussure a explicitação ou relativização do conceito de


arbitrariedade, justamente nos conceito de signos motivados e não motivados.

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Vamos entender bem isso. Quando dizemos a palavra casa, o som /Kaza/ não
possui nenhuma ligação com o conteúdo, ou significado “objeto construído pelo
homem para lhe servir de moradia”. Nesse caso, o signo não é motivado,
predominando, portanto, a arbitrariedade. Diferentemente, ao ouvirmos a dezesseis,
imediatamente, nos lembra os signos dez e seis, totalmente arbitrários. Em outras
palavras, dezesseis é um signo relativamente motivado, pois existe entre o
significante e o significado uma relação.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Guimarães Rosa, grande escritor brasileiro, criou a seguinte expressão: “uma cigarra
sissibila”, em que o signo sissibila, de certa maneira, reproduz o barulho da cigarra,
graças ao emprego dos sons sissi, o que nos leva a classificar esse signo como
motivado.

Você sabia que é na poesia em que ocorre a maior motivação do signo lingüístico?
Leia o poema abaixo em voz alta
A onda
(Manuel Bandeira)
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda
a onda

Leu? O que você sentiu? Creio que você deve ter visualizado as ondas do mar, seus
movimentos até o quebrar na praia, não é? Esse poema faz-me lembrar os versos
recitados por Neruda, no filme o Carteiro e o Poeta. No final, o poeta pergunta ao
carteiro: “E então gostou?”, o carteiro responde: “Estou enjoado, mas eu me sinto
assim como um barco num mar de palavras”.

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Outra característica do signo linguístico é a linearidade. Vamos entender bem isso.
Quando falamos, emitimos um som de cada vez, jamais conseguimos falar dois sons
ao mesmo tempo. Então o significante se desenvolve no tempo. A escrita, por ser a
representação do som, é linear também, porque só escrevemos um a palavra de
cada vez, só que essa linearidade se dá no espaço.

Assim, a produção dos signos se dá, segundo o caráter linear: disposição de um


signo, depois outro, depois outro, segundo uma sucessão temporal (som) ou
espacial (escrita). Vale lembrar, entretanto, que essa linearidade é própria das
línguas naturais, a pintura, por exemplo, é caracterizada pela não-linearidade.

De acordo com o exposto até agora, você poderia ser tentado a dizer que a
arbitrariedade dos signos se aplica a todas as linguagens, mas não é bem assim,
pois há certos signos, por exemplo, a fotografia, os mapas em que a relação entre o
significante e o significado não é arbitrária. Em outras palavras, a fotografia de
Pedro representa o Pedro; o mapa do Brasil representa o Brasil. Esses aspectos
serão enfocados na unidade seguinte.

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UNIDADE 07 - CLASSIFICAÇÃO DOS SIGNOS
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar a classificação dos signos. Nesta unidade, embasando-nos nos
estudos efetuados por Fiorin (2002), vamos examinar como os signos podem ser
classificados.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Fiorin (2002), considerando o critério da intenção comunicativa, classifica os signos
em naturais e artificiais.

Signos naturais são os associados aos fenômenos da natureza, ou seja, um dado


físico é um veículo para nos fazer perceber outro fenômeno. Esses signos são
denominados índices ou sintomas.

Vamos entendê-los bem. Imagine que uma mãe aproxima-se de seu bebê e verifica
que as maçãs do rosto estão avermelhadas. Ela encosta suas mãos no rosto de bebê
e sente que a sua temperatura está quente, pois está com febre. Ora, as maçãs
avermelhadas e a temperatura quente é um dado, um fenômeno que se associa a
outro: a febre.

Agora, imagine-se olhando para o céu. Você vê nuvens escuras, muito carregadas.
Imediatamente, você conclui: vai chover. Isso é um índice: um dado físico associado
a outro dado físico.

Os signos artificiais são os produzidos com vistas à comunicação. São as palavras, as


placas de trânsito, enfim, os presentes em todas as linguagens: cinema, pintura,
escultura.

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BUSCANDO CONHECIMENTO
Os signos artificiais são divididos em signos verbais e signos com expressão
derivativa.

Os verbais decodificam todos os demais signos. Por exemplo, quando olhamos uma
pintura, nós a interpretamos por meio do signo linguístico, mas isso não se aplica a
todos os demais signos. Assim, um balé não seria capaz de traduzir todo o valor
filosófico de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Os signos com expressão derivativa podem ser classificados em sinais e signos


substitutivos.

Os sinais são signos que acarretam uma determinada ação. Assim, se eu estou
dirigindo e escuto um apito ou vejo o braço do guarda de trânsito estendido,
imediatamente, eu paro o carro. Vale dizer que os sinais só funcionam, porque os
indivíduos os reconhecem, pois são frutos de um acordo tácito entre todos os
membros da sociedade.

Os signos substitutivos são empregados para representar alguma coisa e podem ser
de duas espécies: os stricto sensu, também denominados ícones, que expressam um
significado concreto, como uma fotografia, uma maquete, um gráfico e símbolos:
algo concreto para representar uma noção abstrata. A balança, por exemplo, é algo
concreto, mas representa a noção abstrata de justiça; a cruz é concreta e representa
o cristianismo; o lenço branco representa a paz, dentre outros exemplos.

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UNIDADE 08- SINCRONIA X DIACRONIA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar os conceitos de sincronia e diacronia. Para Saussure, os estudos
da língua podem ser efetuados a partir de duas perspectivas: sincronia e diacronia.
Vamos entender o que é isso.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Sincronia é o estudo da língua em um determinado período de tempo, abstraindo-


se qualquer mudança provocada pelo tempo. Para entender bem o que é sincronia,
observe a tabela abaixo, em que verificamos, claramente, a ilustração de três fases
da vida: Fase Inicial; Fases Intermediárias e Fase Final. Para estudo, podemos enfocar
qualquer fase, sem consideramos as anteriores e/ou posteriores. Vamos supor que,
tomemos as fases intermediárias. Nosso estudo restringir-se-á nelas, sem que
levemos em consideração a inicial e a final. Assim, podemos afirmar serem as fases
intermediárias as que implicam maior custo de pessoal.

Vamos voltar aos estudos de Linguística. Para tanto, tomemos por enfoque a
formação do futuro do presente e do pretérito da forma verbal cantar, na 1ª pessoa
do plural: cantaremos e cantaríamos. Nessas formas, verificamos um morfema
lexical, ou radical, cant; uma vogal temática a, que classifica esse verbo como da 1ª
conjugação; um morfema de modo e tempo: re e ria modo indicativo, futuro do
41
presente e do pretérito, respectivamente, e um morfema de número e pessoa mos,
1ª pessoa do plural.

O exemplo acima evidencia a sincronia, pois tomamos para análise o estágio atual
das formas verbais de futuro do presente e do pretérito. Vale dizer ainda que a
gramática normativa enfoca os estudos sincrônicos.

Entretanto, a sincronia não é o único ponto de vista a nortear os estudos


linguísticos, pois outro aspecto pode direcioná-los. Retomemos o exemplo acima
sobre o futuro do verbo cantar. Se enfocarmos as alterações da língua resultantes
do fator tempo, observaremos que, no início, o futuro do presente e do pretérito
dos verbos em português era formado pela forma verbal do infinitivo: cantar + o
presente e o pretérito do verbo haver. Assim, o futuro era conjugado da seguinte
maneira:
Futuro do Presente Futuro do Pretérito
Cantar hei Cantar hia
Cantar hás Cantaria hias
Cantar há Cantar hia
Cantar hemos Cantar híamos
Cantar heis Cantar híeis
Cantar hão Cantar hiam

Atualmente, esses tempos possuem o morfema lexical, a vogal temática e o


morfema flexional de modo, número e pessoa. Então, efetuamos um estudo
diacrônico, ou seja, estudamos a língua considerando-se as mudanças pelas quais
passou no decorrer do tempo. Outros exemplos de diacronia podem ser
visualizados.

Você sabia que:

42
• a palavra embora, antigamente era em boa hora;
• a palavra farmácia era escrita com ph –pharmacia
• a palavra fiel era fidele, daí o superlativo fidelíssimo;
• a palavra conceito era concepto;
• a palavra ato era acto

BUSCANDO CONHECIMENTO
Nós já abordamos o fato de a Língua Portuguesa ser oriunda do Latim, língua
morta, lembra-se? Pois bem, no Latim existiam os casos. Vamos ver o que é isso.

Casos no Latim

Nominativo, cujas terminações são: a no singular; ae no plural. Essas terminações


indicavam a função sintática de sujeito e de predicativo do sujeito, como nos
exemplos abaixo:
"Bona discipula sum"
("Boa discípula sou", ou, "[Eu] sou [uma] boa discípula")

"Ideo servae sedulae sunt"


("Por isso, escravas aplicadas são", ou, "Por isso, [as] escravas são aplicadas")

Acusativo, com a terminação m, indica o objeto direto


Staphyla Phaedram amat.
("Estáfila ama Fedra")

Genitivo, com a terminação ae, expressa a função sintática de Adjunto Adnominal


Restritivo (indicando posse)
Amica Staphylae etiam serua est.
("A amiga de Estáfila ainda é escrava")

Dativo, com a terminação ae indica a função sintática de objeto indireto

43
Phaedra seruae rosam dat.
("Fedra dá a rosa à escrava" )

Ablativo, com a terminação a, expressa as funções sintáticas de Adjunto Adverbial e


Agente da Passiva.
Adjunto Adverbial
Cum amica ambulat.
("Anda com a amiga")

Agente da Passiva
Filius amatur a matre.
("O filho é amado pela mãe")

Vocativo é como no Português


Domine, cur laudas discipulas?
("Senhor, por que louvas as alunas?")

A quem interessa esse tipo de estudo? Ao historiador, evidentemente, mas alguns


dados podemos destacar dos exemplos acima. O primeiro diz respeito à ordem das
palavras. O Latim era uma língua de ordem totalmente livre. Isso significa que o
predicativo ou o sujeito poderia estar até no final do período, pois era a terminação
que indicava a função sintática. Isso não ocorre em português, cuja ordem não é tão
livre assim. Se dissermos, por exemplo: O menino viu o lobo, o sujeito é o menino; o
objeto direto é o lobo. Agora, inverta a ordem dos termos O lobo viu o menino.
Você não pode dizer que o sujeito continua sendo o mesmo, mas, nesse caso é o
lobo quem viu o menino. Para menino continuar o sujeito, deveríamos dizer: Ao
lobo, viu o menino, em que o objeto direto lobo, foi preposicionado para evitar
ambiguidade.

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Outra particularidade do Latim é que não havia artigo (o, a, os, as), que, pode-se
dizer, é um ganho na Língua Portuguesa, como se verifica em Filius amatur a matre,
cuja tradução é "O filho é amado pela mãe".

Observações:
Você sabia que o plural de mão é mãos e o plural de limão é limões. Sabe por quê?
Porque, no Latim, era limon, no singular, cujo plural era Limones. Entretanto, houve
um estágio da passagem do latim para o português, em que ocorreu a queda do N
intervocálico limones e a ditongação, resultando daí limões. Analogamente, “manu,
plural manus, ocorreu a queda do n intervocálico e a ditongação, daí mãos. Essas
informações caracterizam um estudo diacrônico.

45
UNIDADE 09 - LÍNGUA E FALA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Estabelecer a distinção entre língua e fala. Em nossas abordagens
anteriores, já definimos língua e fala. Nesta unidade, entretanto, vamos precisar
melhor essa dicotomia de Saussure.

ESTUDANDO E REFLETINDO
A Língua, pode-se afirmar, é uma convenção social, portanto, coletiva, resultante de
um acordo entre todos os membros de uma comunidade, que, em princípio, não
podem criá-la, nem modificá-la, porque é anterior a eles. Como código de relações
e de regras, é um mecanismo de natureza abstrata que só cumpre a sua finalidade,
quando empregada pelos indivíduos da sociedade.

O uso individual da língua depende do falante, de sua vontade e inteligência. Falar é


utilizar a língua, em situações concretas de comunicação, sempre atendendo a fins
específicos, pois cada falante escolhe, na língua, os meios de que necessita para se
comunicar. É nesse momento que a língua é materializada, é concretizada e a fala é
seu instrumento.

Para Saussure (1969), o objeto da linguística é a língua e não a fala. Por essa razão,
a língua é definida como um sistema de elementos.

Vamos entender bem isso. Sistema é um conjunto organizado, em que um


elemento se define em função de outro (Fiorin: 2002). Para haver sistema, em
qualquer esfera, é preciso ocorrer uma estrutura. Por exemplo, no sistema Solar,
existe uma estrutura, como se pode verificar na imagem abaixo, em que o Sol é o
centro em torno do qual estão dispostos, arranjados os demais integrantes desse
sistema.

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No mundo político, existe uma estrutura, por
exemplo: presidente, ministros, senadores, deputados,
governadores, prefeitos, vereadores. Todos essas
funções se definem umas em relação as outras.

Analogamente, a língua deve ser estudada como um


sistema e, nessa concepção, pode-se definir a língua
como um conjunto organizado, em que um elemento
só pode ser definido em relação a outro.

Saussure afirma que a língua é um sistema de signos, em que um signo se define


pelos demais signos integrantes do conjunto. Vamos entender isso.

Se tomarmos a palavra menina, verificamos que ela é constituída pelo morfema


lexical menin + a - morfema de gênero feminino. Opondo-se a menino, cujo
morfema é o, característico dos nomes masculinos, como lobo, cordeiro, médico,
etc.

Não é apenas no nível da morfologia que verificamos a relação entre os signos, mas
no fonético e fonológico isso também se dá. Se tomarmos, por exemplo, um som /
p /. Esse som não é nada na língua, mas se o opusermos a um / b /, podemos traçar
a oposição, ou seja, o / b / é consoante oclusiva bilabial sonora; enquanto o / p / é
oclusiva, bilabial, surda. Portanto, a diferença entre / p / e / b / está no traço surdez
e sonoridade. Analogamente, o verbo cantar se diferencia do verbo beber por ser
da 1ª conjugação, verbos terminados em a, e beber da 2ª conjugação, verbos
terminados e e. Mesa e felicidade são dois substantivos, mas a diferença entre eles é
a de que mesa é concreto e felicidade é abstrato. Então, com esses poucos
exemplos você já deve ter percebido que a língua é constituída por uma relação de
diferenças entre os elementos que a integram.

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Outros dois conceitos foram estabelecidos, a partir da definição de língua como
sistema, dada por Saussure. Trata-se dos conceitos de forma e substância.

Pode-se dizer que substância é a matéria prima que integra os elementos. Por
exemplo, farinha, açúcar, leite e ovos são substâncias para se fazer um bolo.
Diferentemente, a forma é o arranjo desses elementos, segundo uma estrutura. Em
outras palavras, se eu jogar, aleatoriamente, todas as substâncias acima,
provavelmente, não terei um bolo, mas devo arranjá-las, segundo medidas, para
que adquiram a forma de um bolo. Da mesma forma, tijolos, cimento e cal jogados
sem nenhum critério não são capazes de construir uma casa, mas devem ser
arranjados, estruturados, segundo a forma de parede e de casa a desejadas. É por
essa razão que dizemos que a forma é a responsável pelas coisas que queremos
construir.

Levemos essas considerações para a língua. A substância, na língua, existe em todos


os níveis: substância fônica- som; substância semântica (significado), as palavras.
Entretanto, o som requer uma forma, um arranjo. Daí os fonemas articulados, como,
por exemplo, junte os lábios e diga / p /. Aí sim, você deu uma forma.
Analogamente, as palavras têm que ser arranjadas na frase. Assim, não basta tomar
as palavras café gostoso o é. É preciso arranjá-las, segundo a estrutura da língua: o
artigo antecede o substantivo um número singular O café, formando o sujeito da
frase e o predicado: O café é gostoso. Então, a estrutura básica da frase em
português é: sujeito + verbo + predicado. Outro exemplo refere-se às sílabas, isto é,
não basta eu tomar todas as vogais e consoantes para formar sílabas e palavras,
mas urge que eu as ordene, conforme a estrutura da sílaba em português: não há
sílaba sem vogal. Assim, se eu tomar a palavra Araras, verifico que a primeira vogal
forma a sílaba a; a consoante r + a formam a sílaba ra, que, repetida e acrescida do
s, formam a terceira sílaba da palavra: A-ra-ras.

48
Pelo que foi dito até aqui, acho que você já percebeu que língua é forma e não
substância, porque não basta um amontoado de elementos, mas é preciso que eles
sejam arranjados, segundo a estrutura da língua.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Detivemo-nos, até agora, conceitos básicos da Língua. Vamos falar um pouco mais
da fala.

A fala é a atualização da língua; é individual e momentânea o que lhe dá um caráter


mais dinâmico e variável. Ela é resultado das necessidades de comunicação ou de
interação social, mudando de situação a situação e de indivíduo para indivíduo.

A fala altera-se em decorrência de fatores diversos: emoção, irritação, aflição, pressa


ou ainda do tipo de ouvinte a quem ela se dirige. É por essa razão que o tipo de
fala do programa Cidade Alerta é diferente da fala do Jornal Nacional, por exemplo,
cujos telespectadores, com certeza, são de um nível social mais elevado.

Esquematizando, podemos dizer que:


Língua Fala
Coletiva Individual; Momentânea
Abstrata Concreta
Resiste às transformações Altamente variável

Embora essas distinções sejam evidentes, língua e fala não existem separadamente,
mas uma pressupõe a outra, o que nos levaria a concluir que não são coisas
diferentes, mas aspectos diferentes de uma só coisa.

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Coube a Saussure a definição de língua como um sistema de signos organizados,
possuidora de natureza social, opondo-se, sob esse aspecto à natureza individual da
fala.

O linguista Coseriu (1987), de certa maneira, reformulou a distinção língua e fala


estabelecida por Saussure, principalmente no que diz respeito à fala.

Para Coseriu, existem realizações da fala que não são tão individuais e que não são
concretizadas por toda uma coletividade. A comprovação disso está na ocorrência
dos sotaques, característicos de regiões específicas; na presença ou na ausência de
concordância em certas sequências linguísticas, que não é nem individual, nem
coletiva. Estamos falando das variantes linguísticas que se manifestam em uma
mesma língua.

Assim, em lugar da dicotomia língua x fala, Coseriu propõe: sistema x norma x fala,
cabendo à norma o estudo das variantes. O conceito de sistema, de certa maneira,
coincide com o de língua dado por Saussure, ou seja, “língua não é apenas um
sistema funcional, mas realização normal”. Nessa perspectiva, para Coseriu, língua
abrange sistema, que é domínio coletivo, e as normas que, integrantes desse
sistema, são específicas a determinados grupos.

Pode-se definir norma como repetições constantes, já concretizadas e,


teoricamente, sempre concretizáveis no grupo social; norma é a tradição submetida
e obedecida por todos. Assim, é norma a abertura de todas as vogais da Língua
Portuguesa na região do nordeste. Em outras palavras: para menino, os nordestinos
dizem ménino; para feliz, dizem féliz.

Coseriu estabelece quatro tipos de variantes: diatópicas ou geográficas - variantes


regionais do uso da língua; diastráticas- referentes às variantes empregadas por

50
diferentes grupos sociais (escolarizados- não-escolarizados), de falantes; diafásicas
(sociais)- dizem respeito às variantes empregadas em situações formais e informais;
diacrônicas ou históricas- variantes características de determinada faixa etária dos
falantes (os jovens têm uma maneira específica de falar: uso de gírias, por exemplo).

Aguarde que, em breve, faremos um estudo mais aprofundado de variantes


linguísticas.

51
UNIDADE 10 - PRAGMÁTICA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Propiciar conhecimentos básicos sobre a Pragmática Linguística. Você
sabe o que é Pragmática? É o estudo da língua em situações concretas de
comunicação. É o estudo da língua em uso. Sabe por que devemos estudar a
Pragmática? É simples. Vamos ver?

ESTUDANDO E REFLETINDO
Algumas palavras só terão seu sentido decodificado, quando consideramos o
contexto situacional. Por exemplo, se alguém diz a outro: “Traga-me uma vela
nova”, dependendo da situação de comunicação vela terá significados diferentes:
vela de navio, vela de carro ou vela de parafina. Além disso, os estudos pragmáticos
são fundamentais, porque as palavras comunicam, muitas vezes, mais do que
significam. Quando em uma troca de comunicação, as pessoas sentadas à mesa do
jantar, uma diz para a outra: “Você pode me passar o sal?” ela não está
perguntando se o seu interlocutor tem capacidade física ou não, mas está, na
verdade, dando uma ordem. Tal ordem poderia ser expressa da seguinte maneira:
Por favor, passe-me o sal; Dá o sal, dentre outras possibilidades.

Há determinados fatos linguísticos que requerem estudos da dimensão pragmática:


enunciação, inferência e instrução, sobre os quais abordaremos em seguida.

Enunciação
A enunciação é o momento em que o sujeito se apodera da língua e profere um
enunciado. É, portanto, ato produtor do enunciado, para o qual há elementos
próprios. Vejamos quais são.

A) Dêiticos - são elementos que apontam para o ato de enunciação, indicando


tempo, lugar e pessoa que fala.

52
Os marcadores de pessoa são os pronomes pessoais eu/tu, considerados parceiros
da interlocução, ou participantes, segundo Benveniste (1966), do aparelho formal da
enunciação. Vamos entender isso. Quando um eu se apodera da língua para
formular um enunciado, ele o faz para um interlocutário, para um tu. Mesmo se um
eu, num monólogo interior, fala para si mesmo, ele desempenha papel de falante e
de ouvinte.

Se alguém diz, por exemplo, Eu gosto de doce, esse enunciado é dirigido a outro
alguém, seu ouvinte.

Os dêiticos que indicam o espaço são os advérbios de lugar, tais como, aqui- lugar
específico de quem fala; aí, lugar próximo da pessoa com quem se fala e lá, lugar
distante do eu/tu. Os pronomes demonstrativos são: este- empregado para apontar
coisas, objetos e pessoas que estão próximos de quem fala; esse, para apontar
objetos e pessoas próximos do interlocutor e aquele quando estão distantes do
eu/tu.

Observem os versos de Gonçalves Dias:


Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Na estrofe acima, há dêiticos pessoais: minha, cujo referente é a terra do locutor, do


eu do texto e espaciais: aqui- espaço da pessoa que fala, opondo-se ao lá, espaço
distante dela. Ora, como o título do texto é Canção do Exílio, esse eu estava em
Portugal- aqui- e o lá é o Brasil.

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Os dêiticos indicadores de tempo são: agora- momento da fala do sujeito produtor
do enunciado; ontem, momento anterior de sua fala e amanhã, momento posterior
da fala.

Se tomarmos o enunciado: Ontem chorei; hoje sorrio, amanhã, só Deus sabe,


verificamos que há um eu, num tempo presente- hoje sorrio, falando de um
acontecimento anterior ao momento de sua fala- ontem e de um posterior amanhã.

B) Enunciados performativos- Sabem o que é isso? É simples. Há certos


enunciados que, ao serem proferidos, realizam a ação enunciada. Por
exemplo, quando alguém fala para outra pessoa: “Eu prometo”, pronto, está
prometido, se vai cumprir ou não o ato é outra história. É bom lembrar que,
para a realização dos atos performativos, a pessoa que os enuncia deve ter
poder para isso, ou seja, em um júri, só o juiz pode declarar o réu culpado
ou inocente.

C) Conectores- são alguns elementos que não ligam proposições, conteúdos,


mas os atos da enunciação. Por exemplo, se alguém diz a outro: “José
ganhou na loteria, mas é um segredo”, o mas conecta-se com a informação
dada, a informação secreta e não ganhar na loteria.

D) Certas negações- Certos enunciados negativos são especiais. Vejamos um


exemplo disso. Ao dizer, Eu não gosto de doces, adoro-os, verificamos que a
negação não está na proposição negada: eu não gosto, mas na sua
possibilidade de afirmação: adoro-os.

E) E) Advérbios de enunciação- Sabemos que a função do advérbio é de


modificar o verbo, o adjetivo e o próprio advérbio, como se constata em: Ele
falou calmamente, em que o advérbio grifado modifica, indica o modo como
ele falou, portanto, modifica o verbo falar; Pedro é muito alto- o advérbio

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muito intensifica a qualidade de ser alto; Ele chegou muito cedo, o advérbio
intensifica outro advérbio- cedo. Entretanto, outros advérbios além de
modificarem esses termos, qualificam o ato de enunciação, como, por
exemplo: Felizmente, eu terminei de escrever o livro. Ora, felizmente indica
um julgamento que eu- sujeito da enunciação- fiz da minha ação de acabar
o livro. Outro exemplo seria: Sinceramente, não sei como fazer isso, em que
o advérbio emite um julgamento do sujeito sobre uma determinada ação.

Carlos Drummond de Andrade, em seu texto Debaixo da ponte, explicita claramente


essa modalização do sujeito da enunciação, como se observa em:

Moravam debaixo da ponte- oficialmente não é lugar onde se more.

Ora! Oficialmente revela um comentário do locutor do texto sobre o fato de pessoas


morarem debaixo de pontes. Trata-se, na verdade de uma oposição entre o que é
oficial, morara em casas, protegidos

Inferências
Inferências são suposições que fazemos, a partir de enunciados que implicam
outros. Assim, se eu disser: Luana é minha filha, implica que eu sou a mãe dela.
Entenderam?

Muitas vezes, a inferência não é tão simples, o que requer que recorramos ao
contexto para entendermos o que, realmente, o falante diz. Vamos criar a seguinte
situação:

A) A patroa chega em casa, a roupa está estendida no varal, mas está chovendo. Ela
olha para a empregada e diz: Está chovendo. Na verdade, ela não quer informar
sobre o acontecimento chover, mas está dando uma ordem: Recolha a roupa.

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Na pragmática há algumas distinções necessárias: significação/ sentido/ frase/
enunciado. Vamos a elas.

Frase é uma unidade linguística caracterizada por uma estrutura sintática e uma
significação a partir das palavras que a compõem.

Enunciado é uma frase, mas acrescem-se informações referentes à situação de


comunicação em que a frase é enunciada. Por exemplo, em uma situação de seca,
quando dizemos Está chovendo, estamos realmente enunciando que,
possivelmente, seca vai acabar.

A significação ou significado decorre das palavras empregadas na frase e no


enunciado. Assim está chovendo, significa cai água do céu. O sentido vai implicar o
contexto de situação, ou seja, no nosso caso, é a seca vai acabar.

Instrução- são algumas palavras do discurso: conjunções, preposições, advérbios,


cuja função varia em conformidade ao contexto situacional.

Vamos entender o que é isso. Vejamos os dois exemplos abaixo:


a) O copeiro pôs a mês e Pedro sentou.
b) Pedro sentou e o copeiro pôs a mesa.

Sabemos que o e é uma conjunção aditiva. No entanto, nos dois casos acima, esse
elemento indica sequencialidade no tempo. Assim, em a, primeiro o copeiro pôs a
mesa e, depois, Pedro sentou; diferentemente, em b, primeiro Pedro sentou e, em
seguida o copeiro pôs a mesa.

56
Vejamos outro exemplo:
c) Ela é boa cozinheira, mas é porca.
d) Ela é porca, mas é boa cozinha.

Em que situação a cozinheira seria contratada pela patroa? É claro que é o


enunciado d.

BUSCANDO CONHECIMENTO
Pressupostos e Subentendidos
A maioria dos enunciados que produzimos são implícitos, isto é, não se encontram
expressos na superfície linguística. Vamos entender bem isso.

Se tomarmos o enunciado: Fomos a um restaurante e comemos uma boa feijoada,


verificamos que certas informações não foram explicitadas, tais como: a escolha do
restaurante; a escolha da mesa para sentarmos, o garçom nos atendendo, a
solicitação do prato, o pagamento da conta, etc. Ora, se explicitássemos todas essas
informações, o enunciado seria extremamente longo. Assim, as informações
omitidas são os implícitos.

Há duas formas de implícitos: os pressupostos e os subentendidos.

Os pressupostos são informações implícitas, mas que, de alguma maneira,


encontram-se assinaladas no enunciado, por meio de elementos linguísticos. Há que
se entender, no entanto, que o conteúdo da mensagem é o posto e o implícito é o
pressuposto. Para entender bem isso, examinemos o enunciado: Minha mulher
trabalha muito- o posto, objeto da mensagem é que minha mulher trabalha,
enquanto o pressuposto é: eu sou casado. O elemento que permite, que inscreve o
pressuposto é o pronome minha e a palavra mulher.

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Os elementos linguísticos que assinalam os pressupostos são denominados
marcadores de pressuposição. Vejamos os principais.

a- adjetivos ou palavras similares


A única coisa que ela queria era receber suas férias.

O adjetivo única assinala que o sujeito ela não queria nenhuma coisa mais.

b- verbos indicadores de permanência ou mudança de estado, tais como: tornar-se,


permanecer, converter-se, ficar, vir a ser, passar a, deixar de, começar a, principiar,
ganhar, perder, continuar.
Pedro tornou-se um católico convicto.

O verbo tornar deixa pressuposto o fato de Pedro não ser católico convicto antes.

c- verbos reveladores de ponto de vista daquilo que é expresso, tais como lamentar,
pretender, supor, imaginar, presumir.
Lamento o ocorrido.

O verbo lamentar assinala o pressuposto de que o sujeito produtor do enunciado,


realmente, sente-se lamentoso com o ocorrido.

d) certos advérbios
Ele ainda mora no Rio
Ele já mora no Rio

O advérbio ainda deixa pressuposto que ele morava antes no Rio, enquanto que o
já deixa pressuposto o fato de antes não morar nesta cidade.
Ele não quer mais acreditar em políticos

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O advérbio mais deixa pressuposto o fato de antes ele acreditar nesta classe.

e- orações adjetivas
Os políticos, que são honestos, sempre se elegerão.
Os políticos que são honestos sempre se elegerão.

No primeiro caso, por se tratar de uma oração adjetiva explicativa, marcada pelo
uso de vírgulas, deixa pressuposto que todos os políticos são honestos e que todos
se elegerão. Diferentemente, no segundo exemplo, a oração é restritiva, cujo
sentido pressuposto é nem todos os políticos são honestos e só aqueles que o são é
que se elegerão.

f- certas conjunções
Ele foi atendido no PS, mas saiu de lá são e salvo.

O elemento mas, cuja função principal é articular ideias opostas, nesse enunciado
não o faz, mas deixa pressuposto que é um perigo ser atendido no pronto socorro.

Os subentendidos são implícitos que não se encontram assinalados no enunciado e


cuja interpretação depende do ouvinte. Nos enunciados:
A- Preciso de alguém que me faça faxina
B- Minha irmã está em casa.

Nos enunciados acima, a fala de B deixa subentendido o fato de a irmã fazer faxina
e no momento estar desocupada.

Os subentendidos são formas de o falante dizer, sem dizer e, dessa forma,


proteger-se do dito. Por exemplo, a professora pode dizer a um pai de aluno:
- Seu filho tem dificuldades de aprendizado.

59
Na verdade, a professora está dizendo que ele não aprende, que ele é burro.

Um senhor casado, brincava com os outros, dizendo: Minha mulher me acha lindo.
Todas as noites eu chego em casa, ela olha pra mim e diz:
- Bonito, né!

Ora esse bonito, de forma alguma diz respeito às qualidades desse senhor, mas
subentende-se que ele faz algo errado, como, por exemplo, chegar tarde em casa,
depois do trabalho.

Da mesma forma, a patroa que olha o latão do lixo cheio e diz para a empregada:
- O latão está cheio.

Na verdade, ele não está informando, está, sim, dando uma ordem para que a
empregada esvazie o latão, coloque o lixo na rua.

Atos de Fala
Os estudos de Austin revelam que há dois tipos de afirmações: as constativas, que
descrevem um estado de coisas e as que não descrevem um estado de coisas.
Vamos entender bem isso. Se alguém diz: O céu está azul, observamos tratar-se de
uma descrição, cuja comprovação pelo ouvinte pode ser verdadeira: o céu
realmente está azul ou falsa, o céu não está azul. Entretanto, há certos enunciados
na forma afirmativa, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da
voz ativa que não descrevem nada, não podendo, portanto, ser verdadeiras ou
falsas, mas, no momento em que são ditas, o fato de dizê-las implica a realização de
uma ação. São os atos performativos. Tenho certeza de que você já ouviu, já
presenciou diferentes atos performativos. Quer ver?

60
Imagine-se em uma sessão de júri. Quando o juiz diz: Declaro o réu culpado, a
enunciação dessa afirmação é a condenação do réu. Quando um padre em uma
cerimônia de casamento diz: Eu os declaro marido e mulher, o casal fica sendo
marido e mulher.

Para que a ação de um ato performativo se realize, algumas condições devem ser
preenchidas. Essas condições de sucesso de um ato performativo são:

• As pessoas e as circunstâncias em que um ato é enunciado devem ser


adequadas, isto é, em um casamento quem deve dizer sim é a noiva e não a
irmã da noiva;
• O enunciado dito para o ato performativo deve ser adequado à situação, isto
é, em um batizado o padre deve dizer: Eu te batizo e não Eu te perdôo.
• A enunciação deve ser realizada integralmente pelos envolvidos no ato
performativo. Se alguém diz: Aposto R$100,00 que ele não vem, para que o
ato da aposta se realize, o outro, o envolvido na enunciação, deve aceitar a
aposta.

Austin afirma que, quando se diz alguma coisa, na verdade, três atos são realizados:
atos locucinários, ilocucionário e perlocucionários.

Atos locucionários consistem na emissão de um conjunto de sons, organizados de


acordo com regras da língua. Constitui-se de um ato de referência e de um ato de
predicação. É o ato linguístico de se dizer uma frase.

Ato Ilocucionário diz respeito a se atribuir a esse conjunto de sons uma determinada
força (pergunta, afirmação, promessa). Pode se realizar de forma explícita (eu
pergunto se a terra é redonda) ou de forma implícita (A terra é redonda?)

61
Ato Perlocucionário é o destinado a produzir/ exercer certos efeitos sobre o
interlocutor: convencê-lo; assustá-lo, agradá-lo etc. “Se você não comer tudo, vai
ver o que te acontece” (ameaça); Duvido que você é capaz de fazer isso
(persuasão).

Vale dizer, ainda, que há atos diretos, os realizados através de formas linguísticas
especializadas para tal fim (entonação, imperativo para ordens, exclamações,
interrogações) e atos indiretos, que são realizados através do recurso a formas
típicas de outro ato. É nosso traquejo social que possibilita a percepção da força
ilocucionária. Quer fechar a janela? Você tem cigarros?

62
UNIDADE 11 - COMEÇANDO A CONVERSA: LÍNGUA E SOCIEDADE
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Desenvolver conhecimentos a respeito da relação língua e sociedade;
Explicitar os conceitos e pressupostos básicos da Sociolinguística.

Nesta unidade, discutiremos as relações língua e sociedade, a partir dos


pressupostos desenvolvidos por Gnerre. Em seguida, discutiremos os caminhos

pelos quais passou a Linguística até a constituição de um de seus ramos: a


Sociolinguística, instituída em 1964.

ESTUDANDO E REFLETINDO Sobre norma culta ou padrão,


trataremos em unidades posteriores.
Gnerre (1985), em sua obra Linguagem,
Escrita e Poder, discute a relação entre língua e sociedade, afirmando que “somente
uma parte dos integrantes das sociedades tem acesso a uma variedade “culta” ou
“padrão”.

Pode-se afirmar que Língua Padrão é a que goza do prestígio das camadas sociais
mais elevadas e está associada a um patrimônio cultural e consolidada na escrita.
Ora, não são todos os indivíduos da comunidade que têm acesso a essa
modalidade. Vale dizer, ainda, que o prestígio de uma língua em detrimento de
outra não ocorre, apenas, no interior de uma comunidade, mas se estende ao plano
internacional. O francês, por exemplo, foi durante muito tempo a língua de
prestígio, hoje, sabemos que, por razões econômicas, científicas e culturas, o inglês
é a língua de prestígio.

A prevalência de uma língua sobre a outra, normalmente, está associada à escrita e


sua relação com a transmissão de informações políticas e culturais. Historicamente,
isso pode ser perfeitamente comprovado, pois havia o Latim Clássico, usado pelo
poder e pelos escritores, e o Latim Vulgar, falado pelo povo.

63
Pode-se afirmar que o Estado e o poder apresentam-se como neutros em relação à
língua padrão, mas isso é pura ilusão, ou, como nas palavras de Bakhtin, trata-se de
“objetivismo abstrato”. A sustentação dessa posição embasa-se na concepção de
língua como sistema estável e imutável; na consideração de que as leis da língua são
apenas linguísticas e que, nas relações lingüísticas, não há fatores ideológicos
interferindo. Todas essas considerações serão desmitificadas nas unidades
subsequentes.

BUSCANDO SABERES
Saussure define a língua em oposição à fala. Na sua concepção a língua é social e
subjacente à fala. A língua para o mestre genebrino é o sistema invariante, passível
de abstração das múltiplas variações observáveis na fala.

Para o autor citado, a ideia que tem de língua como social refere-se ao fato de ser
um sistema convencional adquirido pelos indivíduos de uma sociedade. O que isso
quer dizer? É simples, para nós, falantes, não nos é permitido para sair por aí
mudando os nomes dos objetos e das coisas do mundo, pois já estão fixados, por
meio de um acordo tácito entre os indivíduos. Daí, caro aluno, você me perguntaria
se não se podem criar palavras novas na língua. Claro que podemos, mas toda nova
criação (neologismo), e Guimarães Rosa o fez com genialidade, deve se adequar à
estrutura da Língua Portuguesa. “A verdadeira substância da língua não é
constituída por um sistema abstrato de formas
Assim, uma palavra como, por lingüísticas, nem pela enunciação monológica
isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua
exemplo, ZXPTKY não se constituirá produção, mas pelo fenômeno social da interação
verbal (grifo nosso) realizada através da
em um signo de nossa língua.
enunciação ou das enunciações. A interação
Embora Saussure reconheça a verbal constitui assim a realidade fundamental da
língua” (Bakhtin, 1990, p: 123)
importância de se considerarem
fenômenos externos à estrutura da língua, tais como, natureza etnológica, histórica
e política, sua ênfase centra-se na estrutura linguística interna da língua. Com isso,

64
há uma nova oposição: Linguística Interna e Linguística Externa. Entenda-se como
elementos externos fatores como sexo, faixa etária, nível socioeconômico, nível
cultural e contexto situacional que interferem no uso da língua. Aqui, já se verifica a
relação entre Língua e Sociedade.

Nessa ideia de relação entre língua e sociedade, observamos autores de destaque


como Mikail Bakhtin, Roman Yakobson e Emile Benveniste.

Bakhtin, em sua obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, posiciona-se contrário à


concepção de Saussure no tocante a não necessidade de conhecimento de fatores
externos para se conhecer a estrutura FUNÇÕES DA LINGUAGEM
YAKOBSON
da língua. Sua tônica, portanto, centra-
Função Emotiva- ênfase no emissor
se na noção de comunicação social. Função Conativa- ênfase no receptor
Função Referencial- ênfase no referente
Função Metalinguísitca- ênfase no código
Função Fática- ênfase no canal
Yakobson privilegia os processos Função Poética- ênfase na mensagem

comunicativos e os aspectos funcionais


da linguagem. Daí, aos elementos da comunicação: emissor, receptor, mensagem,
código, canal e referente o autor introduz as funções da linguagem, conforme já
abordadas no início da disciplina.

Benveniste (1963) afirma que indivíduo e sociedade se determinam pela e na língua.


Na concepção do linguista a língua é manifestação concreta da linguagem. Assim,
língua e sociedade só podem ser concebidas mutuamente. Para esse autor, a língua
é um instrumento de comunicação comum a todos os membros da sociedade e,
como tal, se constitui no interpretante da sociedade. O que isso quer dizer? É
simples, pode-se afirmar que o vocabulário de uma língua constitui-se fonte
inesgotável para o estudo da sociedade.

Nessa perspectiva, devemos considerar as afirmações de Bourdieu (1977):

65
A linguagem não é usada somente para veicular informações, isto é, a
função referencial denotativa da linguagem não é senão uma entre
outras; entre estas ocupa uma posição central a função de comunicar ao
ouvinte a posição que o falante ocupa de fato ou acha que ocupa na
sociedade em que vive. As pessoas falam para serem "ouvidas", às vezes
para serem respeitadas e também para exercer uma influência no
ambiente em que realizam os atos linguísticos. O poder da palavra é o
poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la
num ato linguístico (Bourdieu, 1977, p. 32).

Como se pode depreender, a linguagem é usada para a comunicação. Todo ato de


linguagem é direcionado a um ouvinte e com uma intenção: agir sobre o outro.
Nesse caso, ao falar, o sujeito coloca em cena seu ponto de vista sobre o mundo, ao
mesmo tempo em que revela o lugar que ocupa na sociedade: juiz, advogado,
professor, mãe, dentre outros. Todo ato de linguagem, então, leva em conta as
relações entre falante e ouvinte.

66
UNIDADE 12 - CONTINUANDO A CONVERSA: LÍNGUA ORAL E LÍNGUA
ESCRITA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar as diferenças entre língua oral e língua escrita. A Língua
apresenta-se sob duas modalidades: oral e escrita. Nesta unidade, discutiremos as
características peculiares de cada modalidade, embora nossa ênfase centre-se na
modalidade oral.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Fala e escrita constituem aspectos e modalidades diferentes de expressão. O
primeiro ponto a assinalar diz respeito ao fato de a oralidade ser o elemento
linguístico de base do falante. Em outras palavras, logo no primeiro ano de vida, a
criança, desde que não possua problemas no aparelho fonador e que pertença a
uma comunidade de falantes, já começa o exercício da fala. Isso significa que não há
necessidade de aprendizado na escola. No que diz respeito à aquisição da escrita
esse processo só ocorre a partir de aprendizado, de sistematização, propiciado,
principalmente, pela escola. Vale dizer que a escrita é fator de unificação nacional,
pois todos os usuários da Língua Portuguesa no Brasil escrevem da mesma maneira.

Pode-se afirmar que a língua oral possui um caráter fragmentado, opondo-se à


integração existente na escrita. Sabe o que é isso? Na língua oral, observamos
palavras, orações e até períodos incompletos, além de evidenciarmos os falsos
começos e pouco uso de conectores (elementos de ligação), conforme se verifica
abaixo.
“não depois ele tem que ser::...depois de seco ele ainda tem que ser:.—
Como é que se diz?..- tem que ser descascado...pra...pra o que
tem::máquinas especiais também” (Diálogos entre documentador e
informante, Vol. III, p. 22)

Nesse trecho observamos vários falsos começos, orações incompletas, tais como:
não depois ele tem que ser; depois de seco ele ainda tem que ser.

67
Diferentemente, a escrita passa por um tempo maior de elaboração e a
consequência disso é que se conectam as unidades de idéias por meio de recursos
como: nominalizações, frases preposicionadas, adjetivos atributivos e orações
relativas que contribuem para o caráter integrado (Chafe, 1982:38), conforme se
depreende abaixo.

Depois da tragédia, os feridos foram transferidos para os hospitais, onde


foram atendidos por uma excelente equipe médica. Os acidentados que
apresentaram ferimentos leves receberam alta e foram liberados.

No texto, observamos, claramente o emprego de conectores (elementos de ligação,


tais como: onde, que, e; emprego de adjetivos: excelente, leves.

Outra distinção refere-se ao envolvimento entre falante e ouvinte, já que estão


frente a frente e dividem o mesmo espaço de comunicação. Neste caso, o falante é
capaz de visualizar no ouvinte os efeitos do que está transmitindo, por meio de um
franzir de testa, um balançar de cabeça em concordância, por exemplo.
Analogamente, o ouvinte pode demonstrar a compreensão do que está sendo
veiculado, ou mesmo solicitar esclarecimento, caso algum ponto da mensagem não
lhe está claro, no próprio momento do ato comunicativo.

Esse envolvimento, característico da língua oral, não se verifica na escrita, pois


escritor e leitor encontram-se em tempo e espaço diferentes. Por essa razão, Chafe
(1982:45/49) atribui à escrita o caráter desligado.

Outro aspecto diferencial entre as duas modalidades diz respeito à repetição,


altamente frequente na modalidade oral e ausente da escrita. Vamos a ela?
BUSCANDO SABERES
Leia o fragmento de língua oral transcrito abaixo.

68
L1 aquele corte...acertava bem com a tesoura...depois pegava um pedaço
de quando quando se mandava fazer um terno sempre...trazia-se um
retalho da casimira para casa...então pegava-se uma...uma placa daquela
casimira da mesma cor...adaptava-se perfeitamente...por baixo o desenho
com desenho...e comprava-se uma tela de borracha...que era
p/impermeabilizar para impermeabilizar a ferida...
DOC sei...
L1 então...cortava-se um pedaço dessa bo/dessa tela de borracha do
mesmo tamanho do remendo...e fazia-se um furo correspondente ao furo
da::...
L2 do rasgão
[
L1 dessa bo/dessa...BEM exatamente...e punha-se o ferro quente em
cima...então::aquilo colava...e não aparecia o remendo..
(Inq. 396, Projeto NURC/São Paulo)

Diante do trecho acima, é lícito perguntar: Por que o falante repete? A repetição
não ocorre por acaso, mas tem uma função e uma razão na comunicação oral.

Para Tannem (1985:3), a repetição exata ocorre quando se repetem as mesmas


palavras do falante ou de um outro falante. No exemplo acima, detectamos os

seguintes itens repetidos: quando...quando; casimira; p/impermeabilizar para


impermeabilizar; tela de borracha; furo da::...(L2) do rasgão; L1 (o furo do rasgão)

Para a autora citada, existe uma repetição parcial, isto é, sentidos semelhantes
expressos em padrões e palavras ligeiramente diferentes, como se constata em:

a... própria mãe da parturiente, ou seja, a avó da criança tentou matar a


recém-nascida...(DID- SP, inq.208,162/163)

A repetição ocorre, levando-se em conta os propósitos de constituir a participação


de uma pessoa no diálogo, ratificar um enunciado, contribuir para a textura da
conversação, dando-lhe coerência. Esses propósitos agrupam-se na categoria da
produção, compreensão e envolvimento interpessoal (cf. Tannem, 1987:28)

69
A repetição na produção
caracteriza-se por repetições “Se a repetição é comum na fala, na escrita,
ocorrem substituições pronominais e lexicais,
automáticas, isto é, o falante como, por exemplo: O Menino chegou, ele estava
extremamente triste.
utiliza-se de algo que já foi dito Mas, atenção, às vezes a repetição produz
diferentes efeitos de sentido, tal como se observa
por ele ou por outro falante, no poema de Drummond “No meio do caminho”.
Especial - 100 anos de Drummond, em que a
contribuindo, assim, para que a
repetição de “Tinha uma pedra” implica os
conversação se mantenha com inúmeros problemas com que nos defrontamos
em nossa vida.
menos esforço. É como se o
falante, ao repetir algo já dito anteriormente, procurasse ganhar tempo para decidir
o que dizer em seguida.

Na compreensão, o objetivo da repetição é tornar o discurso menos denso, pois as


palavras repetidas carregam em si pouca informação nova, permitindo que o
ouvinte absorva e compreenda o conteúdo informativo com a mesma velocidade
com que o falante o emite.

A repetição atua na categoria interpessoal, porque a repetição de sons, frases e


orações dá a impressão de um universo de discurso compartilhado pelos indivíduos
no ato da conversação.

70
UNIDADE 13 - A SOCIOLINGUÍSTICA: CONCEITO E OBJETO.
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Conceituar a Sociolinguística; Explicitar o objeto de estudo da
Sociolinguística.

Nesta unidade discutiremos o conceito de Sociolinguísitca e delimitaremos o seu


objeto de estudo: a fala. Procuraremos evidenciar a heterogeneidade e variação da

fala. No entanto, evidenciaremos que essa variação não é tão livre quanto se
imagina, pois há regras, há uma padronização de uso.

ESTUDANDO E REFLETINDO
A Sociolinguística é um ramo da Linguística, cuja preocupação é o uso da língua nas
comunidades. Nesse caso, os estudos voltam-se para a investigação de aspectos
linguísticos e sociais, privilegiando as realizações heterogêneas.

Tarallo (1986:6) afirma que não há comunidade linguística homogênea, pois em


cada situação comunicativa o emprego da língua é diversificado e heterogêneo. Isso
poderia levar-nos a concluir que essa heterogeneidade caracterizará um caos, no
entanto, devemos salientar que toda essa diversidade pode ser sistematizada, pois
se assim não o fosse, não haveria compreensão entre os falantes de uma
comunidade. Para isso, há a necessidade de se considerarem as variantes existentes
no meio social não como exceções ou variações de livre escolha do falante, mas
como partes do conhecimento que o falante possui de sua língua.

A Sociolinguística tem como objeto: o estudo da língua falada, observada, descrita e


analisada em seu contexto social, em situações reais de uso. Para tanto, parte da
comunicação entre pessoas que interagem por meio da linguagem, se relacionam e
cuja comunicação é regida por um conjunto de regras.

71
Vamos entender que regras são essas. Imaginem uma situação de velório, por
exemplo, ninguém se dirige ao filho de uma falecida e diz: “Meus pêsames, porque
sua velha bateu as botas”. Entendeu uma das regras a que fiz referência acima. É
bem isso, há regras que governam o uso da língua e essas regras dependem, dentre
outros fatores, da situação (formal ou informal) em que se encontram os falantes.

Dessa maneira, dependendo da situação comunicativa e dos envolvidos no ato, uma


mesma ordem pode ser dada de maneira completamente diferente, como podemos
observar abaixo.
Por favor, queira se retirar da sala.
Por obséquio, retirar-se da sala.
Queira, por gentileza, se retirar da sala.
Retire-se da sala.
Sai já da sala.
Vai embora da sala.
Suma.
Escafeda-se.

As diferentes maneiras de se falar uma mesma coisa são denominadas pela


Sociolinguística de variantes. Talvez, você entenda, agora, os diferentes modos de
falar que caracterizam o povo brasileiro.

Adoniran Barbosa nos fornece vários exemplos de variação. Leia os versos abaixo.
As Mariposa
As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá
Elas roda, roda, roda e dispois se senta
Em cima do prato da lâmpida pra descansá.

Nesses versos, observamos inúmeras variações, tais como: falta de concordãncia


nominal: as mariposa; falta de concordãncia verbal: as mariposa fica/ elas roda;
troca do fonema / l / por / r /: vorta; troca da vogal / e / pela vogal / i /: dispois;
troca da vogal / a / por / i /: lâmpida; omissão do erre final da forma verbal:
descansá por descansar.

72
Há inúmeras variações referentes ao léxico (vocabulário) da língua. Por exemplo, no
nordeste você não come abóbora, come jerimun; não come mandioca, mas
macaxera.

Na pronúncia também observamos variantes. Basta prestar atenção na pronúncia do


som / s / pelos cariocas que dizem / ʃ / e o falar nordestino que abre todas as
vogais. Assim, para menino, o nordestino diz “méniniu”; para coração diz “córação”.

BUSCANDO SABERES
Willian Labov, em 1963, realizou um estudo da língua falada na comunidade de
Marthas´s Vineyard, Massachusetts, por meio do qual evidenciou o papel
fundamental dos fatores sociais: idade, sexo, ocupação, origem étnica e atitude
comunicativa, principalmente, no que diz respeito à realização de certos fonemas do
inglês. O trabalho de Labov, conhecido como Sociolinguística Variacionista ou
Teoria da Variação, permitiu o estabelecimento de um modelo descritivo do
fenômeno linguístico no contexto social de comunidades urbanas.

A variação linguística, caracterizadora da heterogeneidade, é um fato, como


também o é a existência de regras nessa variação. Vejamos a afirmação de Gnerre
(1985):

As regras que governam a produção apropriada dos atos de


linguagem levam em conta as relações sociais entre o falante e o
ouvinte.Todo ser humano tem que agir verbalmente de acordo
com tais regras, isto é, tem que "saber":
a) quando pode falar e quando não pode;
b) que tipo de conteúdos referenciais lhe são consentidos,;
c) que tipo de variedade lingüística é oportuno que seja usada. ( ...)
nem todos os integrantes de uma sociedade têm acesso a todas as
variedades e muito menos a todos os conteúdos referenciais.
Somente uma parte dos integrantes das sociedades complexas, por
exemplo, tem acesso a uma variedade "culta" ou "padrão",
considerada geralmente "a língua", e associada tipicamente a
conteúdos de prestígio. (GNERRE, 1985, p.6)

73
No que diz respeito às regras citadas por Gnerre, devemos considerar que, a
depender da situação formal ou informal, ao ouvinte a que se destina o ato de fala
do sujeito produtor, deve-se empregar uma ou outra variante. Dessa maneira, um
professor, em sala de aula ou em uma conferência fará uso da variante culta.
Analogamente, ninguém irá a uma instituição católica e fará apologia ao aborto,
como nenhum funcionário do governo se dirigirá à presidente Dilma e a tratará por
você, já que esse pronome é indicador de tratamento familiar.

Além disso, há que se considerarem, como já dissemos anteriormente, as limitações


da própria estrutura da língua. Por exemplo, nunca se constrói sílaba sem vogal, a
monotongação, isto é, transformação de um ditongo em vogal simples, como pexe,
por exemplo, é um fenômeno da língua portuguesa; a perda do erre final do
infinitivo verbal é também característica de nossa língua, pois é comum dizermos:
amá por amar; falá por falar.

74
UNIDADE 14 - VARIANTES SOCIAIS: FATORES EXTRALINGUÍSTICOS
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Conhecer os fatores extralinguísticos que interferem no uso da língua. A
variação da língua é fato incontestável. A língua não é imutável e sofre influência de
fatores externos a sua estrutura. É sobre esses fatores externos: gênero/sexo, faixa
etária, nível de escolaridade, nível social e contexto situacional que abordaremos
nesta unidade. Vale a pena conhecê-los.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Homens e mulheres não falam da mesma maneira e não estamos falando apenas
em relação ao timbre de voz, que, no homem, é mais grave e mais baixa, enquanto
as mulheres possuem voz mais aguda e mais alta. O que interessa para os estudos
Sociolinguísiticos são variações em relação ao uso da língua.

Uma diferença bastante perceptível em relação à fala de homens e mulheres diz


respeito ao uso lexical, pois as mulheres são mais afeitas ao uso de diminutivo que
os homens, conforme verificamos no trecho abaixo, transcrito do Projeto NURC-São
Paulo.

Inf. Ah:: bem leve?...(ah) seria uma sopa né? Uma sopa creme...bem
leve...suponho que seja isso né?...uma sopinha::...de aspargos...que é a
minha preferida né...em questão de sopa porque eu também não não
aprecio muito sopa não... então uma sopa creme com::torradinhas::...é
só...porque já que é pra ser BEM LEVE...tem que ser BEM (riu)? (Diálogo
entre informante e documentador, Vol. III, 131)

Em um site da Internet, Marta Medeiros escreveu um texto de cujo conteúdo


extraímos um fragmento bastante revelador do uso de diminutivos e adjetivos,
conforme se verifica abaixo.

Fomos boazinhas por séculos. Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada,
ceguinhas. Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e

75
nenezinhos. A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas,
crucifixo em cima da cama, tudo certinho
(Adjetivos diminutivos? Nunca precisei! : : Como estou dirigindo?)

Normalmente, as mulheres são mais cuidadosas em relação às normas gramaticais


que os homens e isso pôde ser comprovado, empiricamente, em meu trabalho de
Mestrado, apresentado na UNESP, Campus de Araraquara, que versou sobre o uso
de pronomes e não-pronomes como preenchedores do complemento verbal. Sobre
esse aspecto, principalmente, em relação ao uso do pronome reto em lugar do
oblíquo (ele em lugar de o/ a), fato condenado pelas normas gramaticais, os dados
revelaram que 90% dos homens empregaram a forma ele e apenas 10% das
mulheres a usaram. Diante disso, é lícito afirmar que as mulheres tendem a
transgredir menos as prescrições estabelecidas pela gramática, demonstrando,
assim, maior policiamento de seu discurso em situação menos espontânea. È bom
lembrar que os falantes que constituíram nosso “corpus” são representantes da
norma culta.

No que diz respeito à faixa etária, pode-se afirmar que os mais jovens são menos
preocupados com o uso de normas gramaticais, empregam gírias com maior
frequência que os falantes mais velhos.

No trabalho realizado por mim e citado acima, minha pesquisa centrou-se em três
faixas-etárias: 25 a 35 anos; 36 a 45 anos e 46 em diante. Na primeira faixa etária
agrupam-se adultos mais jovens, egressos de universidade, iniciando atividades
profissionais variadas: professores, psicólogos, dentistas, advogados, vendedores. Na
segunda, estão falantes adultos, maduros, exercendo profissões também variadas e,
ao que indicou a pesquisa, estavam em pleno exercício da profissão. Finalmente, na
terceira faixa estavam os falantes já maduros, com muitos anos de atividades
profissionais ou já aposentados.

76
Examinando o emprego de formas pronominais do caso oblíquo, em função
acusativa, observamos que a 1ª faixa etária apresenta 4,89% (13/226) de ocorrências
de o/a e 2,63% (7/226) de ocorrências de ele.

A segunda faixa etária apresenta 26,20% (49/187) de ocorrências de o/a e 1,07%


(2/187) de ocorrências de ele. A terceira faixa apresenta 5,23% (8/153) de
ocorrências de o/a e 0,65% (1/153) de ocorrências de ele.

Você deve estar se perguntando: “Se há apenas essas ocorrência de o/a e ele, o que
esses falantes empregaram como complemento direto do verbo?”

Realmente, essa pergunta é bastante pertinente, pois observamos em nossa


pesquisa que para essa função específica do verbo, os falantes usam a repetição do
SN (sintagma Nominal em função de objeto direto), como se constata em: “fica mais
caro fazer metrô porque digamos que você começasse fazer metrô” (D2- SP,
inq.343) e empregam também a variante não-pronominal zero (Ǿ), como se
observa em: “ eu hesito em pôr (Ǿ) no balé. (D2-SP.inq. 360)

Considerando-se, a realização dessas duas outras variantes: repetição do SN e zero,


constatamos percentuais significativos de realizações nas três faixas etárias. No
entanto, as realizações de o/a, variante padrão, como objeto direto do verbo é mais
significativa na segunda faixa etária, que, como dissemos, encontra-se em plena
atividade profissional, o que pode justificar o emprego maior da norma culta,
quando em comparação com as outras duas faixas etárias.

BUSCANDO SABERES
Dos fatores extralinguísticos, talvez, o nível de escolaridade seja o que mais contribui
para a presença de variação. Para iniciarmos nossa conversa sobre esse fator, cito

77
um texto, disponível no endereço eletrônico administradores.com.br/informe-
se/artigos/o-incrivel-nirso-o-profissional-que-nao-pode-ser/32617. Leia-o,
atentamente

“O gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um de seus vendedores


viajantes:
- Seu Gomis, o criente de Belzonti pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor
tomá pruvidensa!
Abrasso, Nirso
Meia hora depois, outro fax.
- Seu Gomis, o relatóro de venda vai chegá atrazado prumodi tamo
fexando mais umas venda. Temo qui manda treis mil pessa pro criente de
Sete Lagoa. Amanhã ta chegano o relatóro. Abrasso, Nirso.
No dia seguinte...
- Seu Gomis, discurpa, eu num cheguei pocauza de qui segui direto pra
Beraba i vendi mais deiz mil pessa. Tô indo, indagora pra Brazilia. Abrasso,
Nirso.
No outro dia...
- Seu Gomis, Brazilia fechô vinti mil pessa e to indo indagorinha pra
Frorianópis, modi vizitá outro criente bão de mais sô, foi o criente di
Brasília que indicô e di lá pego o avinhão praí.
Abrasso, Nirso “.
E assim foi o mês inteiro... O gerente, muito preocupado com a imagem
da empresa, resolveu levar o assunto e os faxes do Nirso para o
Presidente da empresa.
O Presidente o ouviu atentamente e prometeu providências.
Redigiu, de próprio punho, um recado e mandou afixar no quadro de
avisos da empresa.
A partí di ogi, nóis tudo vamo fazê feito o Nirso.
Sí precupá menos em falá bunito e em iscrevê relatóros mirabolantes
modi nóis vendê mais.
Acinado: Prizidenti”

Deixando de lado problemas de administração de uma empresa e enfocando


apenas o aspecto de variação, vamos nos ater ao emprego da língua pelo “Nirso”.
Claro que a forma como redigiu os telegramas ao gerente revela não possuir
domínio da variante padrão em vários aspectos, destacando-se: criente por cliente;
Frorianópis por Florianópolis; relatóro por relatório; chegano por chegando, dentre
outras transcrições da fala para a escrita. Vale dizer que a troca do fonema / l / pelo
/ r / denomina-se rotacismo.

78
Outro fato hilário foi apresentado no Jornal
Nacional, em que o apresentador narrou o fato
de a polícia descobrir que um carro foi roubado,
apenas pela placa. Não poderia ser diferente,
como se observa na imagem.

Stella Maris Bortoni, em sua obra Educação em Língua Materna: Sociolinguística na


Sala de Aula (2004), introduz na página 64 bom exemplo de falante não-
escolarizado, conforme se verifica abaixo.

“ O qu´eu to comprendenu de poço tempo prá cá é negoçu de reporti.


Qu´eu cumpanho nutiça, reporti de rádio e televisão, que agora qu´eu 79d
aprendenu, nunca tinha usado nem televisão, que a gente morava na
roça, e mesmo aqui, NE, mesmo aqui, é de pcos tempo pra cá que os
menino deu conta de comprá rádio”.

Algumas palavras apresentam variação próprias de falantes não escolarizados,


como, por exemplo, comprendenu, aprendenu, em que se constata a não realização
do gerúndio compreendendo e aprendendo; nutiça, verificando-se a redução do
ditongo (ia) e troca do o por u, além de outras alterações.

79
UNIDADE 15- OS TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar os diferentes tipos de variação linguística. Já observamos que a
heterogeneidade linguística é inerente às línguas. Estudamos, também, que às
maneiras diferentes de falar denominam-se variantes. Nessa unidade, nosso foco é
conhecer os tipos de variantes. Vamos começar?

ESTUDANDO E REFLETINDO
A língua é um objeto histórico e se transforma no tempo. Assim, o português que
falamos hoje é diferente do português falado no passado e Drummond foi
consciente dessa variação temporal, quando escreveu Antigamente .

ACONTECIA o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue,


mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a
receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica,
feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os
meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas,
botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo
X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não
morriam: descansavam.
MAS TUDO ISSO era antigamente, isto é, outrora.(Drummond Poesia e
prosa (Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1983, p. 1320-132)

A leitura do fragmento acima permite visualizar uma série de termos que entraram
em desuso, que, hoje, não se empregam mais. Dentre eles, merecem destaque:
Constipação, ficar perrengue, botica, aviar receita, phtysica asthma, ceroulas, capa-
de-goma, retratistas, os cristãos não morriam: descansavam. Certamente, muitas
dessas palavras são totalmente desconhecidas por você, não são? Por exemplo,
phtysica é tuberculose; capa-de-goma é mistura de amido com água, muito usado
para roupas.

Em Drummond, observamos uma variação temporal de termos empregados no


Brasil de antigamente. Tais expressões e palavras que deixaram de ser usadas são

80
denominadas arcaísmo. Vale dizer que a
Sobre o emprego de “senhor”, como
variação histórica ocorre também do comum de dois gêneros, atente para a
Cantiga de Amor da época trovadoresca:
latim, língua mãe, ao português, como
se observa em: correspondente arcaica Como morreu quen nunca ben
ouve da ren que mais amou,
do verbo pôr é poer <poner <ponere. O e quen viu quanto receou
d’ela, e foi morto por en:
plural de alferes foi alfereses; senhor era
Ay mia senhor, assi moir’ eu!
uma espécie de substantivo “comum de
dois gêneros”, empregado, portanto, em
referência ao masculino e ao feminino..

Os exemplos acima são característicos da variação histórica ou diacrônica, pois se


relacionam com o passar do tempo. É bom lembrar que para o reconhecimento de
uma variante histórica é fundamental que se considerem, pelo menos, dois estados
sucessivos da língua, ressaltando-se que as duas variantes: a substituta e a
substituída coexistem num mesmo plano temporal. É pela escrita, cuja função é
preservar o passado que reconhecemos o processo de variação histórica.

Como se dá a adoção de uma variante pela


Conforme Bagno (1999) é um mito a
comunidade de fala? É simples, ao se unidade linguística do Brasil, pois
existem mais de duzentas línguas ainda
propagar uma variante, ela é adotada por um
faladas em pontos diversos do país
grupo socioeconomicamente expressivo, que pelos sobreviventes das nações
indígenas e por imigrantes estrangeiros
reconhece nela um fator de prestígio em que ainda matem viva a língua de seus
ancestrais: coreanos, japoneses,
contraste com a forma em desuso, confinada alemães, italianos, etc.

aos falantes mais velhos.

Os fatores que constituem a diversidade linguística não são decorrentes apenas da


influência do tempo, mas o espaço geográfico também é importante para a
configuração de variantes. Nesse caso, estamos falando das variantes geográficas ou
espaciais, também denominadas diatópicas. Vamos entender isso.

81
O Brasil se destaca pela sua grande Diferenças fonéticas: Brasil: “Eu sei”; Portugal
“eu Sâi”;
extensão espacial. Assim, constitui-se um Sintáticas: Brasil: “Estou falando com você”;
Portugal: “ Estou a falar consigo”;
mito acreditar na existência de uma unidade Lexicais: Brasil: Para habitante da zona rural se
diz: caipira, capiau, matuto; em Portugal:
linguística no país. saloio;
Semântica: cuecas em Portugal são as
calcinhas no Brasil;
Vale dizer ainda que a língua portuguesa Uso: Você se chama Sílvia e um português
quer convidá-la para jantar. Ele,
falada em Portugal é bem diferente da provavelmente dirá: “A Sílvia janta conosco?”,
o que tentará você a pensar tratar-se de uma
falada aqui no Brasil. Essas diferenças outra Sílvia, pois no Brasil se diz: “Você quer
jantar com a gente?”
ocorrem nos diferentes níveis da estrutura Os portugueses falam diretamente com a
pessoa como se fosse uma terceira pessoa.
da língua, tais como fonético, sintático,
(Bagno (1999).
lexical e de uso. Para comprovar isso, acesso o site Video Show
- Notícias - NOTÍCIAS - Ricardo Pereira dá
aulas de português de Portugal a Bruno De
Luca
O que, na verdade, verificamos é que o falar
nordestino é marcado pela abertura das vogais; os gaúchos não neutralizam o o e e
átonos finais; na região do São Francisco, dama tem o significado de meretriz; no
sertão baiano, a oclusiva alveolar surda, após semivogal anterior, palatiza-se na
africada (ts), com, por exemplo, oitcho.

Além das variações históricas e geográficas Bons exemplos de variantes sociais são
as músicas de Adoniram Barbosa, que
ocorrem variações sociais. Variação social resulta evidenciam o falar de uma pessoa não
escolarizada. Ouça suas canções e
da tendência a maior semelhança entre os atos de
verifique as variações ali presentes.
fala proferidos pelos membros de um mesmo setor
sociocultural da comunidade. Cada grupo social possui determinadas expressões,
determinadas entonações e especificidades que propiciam diferentes falares nos
distintos grupos sociais. Claro está que o grau de educação, o nível sócio-
econômico, o sexo e a faixa etária dos indivíduos também determinam setores
distintos de atividade verbal.

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Resta abordarmos a Variação estilística,
Você poderá se defrontar com as
resultante de acomodações que o falante faz seguintes nomenclaturas para as
variantes estudadas até agora
de sua fala em relação às diferentes situações Variantes diatópicas são as
variantes de uma região para outra
comunicativas em que se encontra. Nessa
(Geográficas).
perspectiva, há inúmeras variações, já que, Variantes diastráticas são as
variantes de um grupo social a
todo momento, defrontamo-nos com outro (Sociais).
Variantes diafásicas são as
situações comunicativas distintas. Por essa variantes de uma situação
comunicativa para outra
razão, pode-se afirmar que os falantes de (Estilísticas).
uma mesma classe social, de um mesmo nível
intelectual não usam a língua da mesma maneira. Assim, um médico que se
encontre em um clube com os amigos, conversando sobre banalidades, não usará
expressões próprias de sua profissão.

Em resumo, os tipos de variantes são: Histórica ou Diacrônica; Geográfica; Social e


Estilística

BUSCANDO SABERES
Falar de variação de estilística constitui um campo vasto, razão pela qual há que se
estabelecerem limites. Diante disso, há que se considerarem dois estilos: estilo
informal e o formal.

O Estilo informal caracteriza-se pela comunicação linguística realizada em nosso


cotidiano. Por essa razão, pode-se classificar o discurso daí resultante como não-
planejado, não premeditado antes de ser proferido, o que lhe imprime um caráter
espontâneo. Esse estilo é mais orientado para satisfazer as necessidades
comunicativas de nosso dia-a-dia e para satisfazer as necessidades cotidianas. Nele,
há um mínimo de consciência na seleção das formas linguísticas que sustentarão o
ato comunicativo.

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No estilo formal, o emprego das palavras, as informações contidas no ato
comunicativo na resultam da nossa expressão diária, mas se sustentam em grande
elaboração intelectual. Por essa razão, esse estilo é caracterizado por um discurso
planejado, que envolve a premeditação, e esboço organizacional. Nessa perspectiva,
ao empregar um estilo formal, o falante procura levar em conta as regras que
normatizam o bem falar e o bem escrever. Assim, como há seleção e organização
dos conteúdos a serem emitidos no ato de comunicação, o conteúdo do ato verbal
não se dirige à satisfação das necessidades mais imediatas do falante, mas à
satisfação de suas necessidades intelectuais, resultando em uma linguagem com a
máxima adequação às regras impostas pela gramática.

No estilo informal, orientado para satisfazer as necessidades comunicativas


cotidianas, há um mínimo de consciência na seleção das formas lingüísticas
empregadas. No formal, o conteúdo dos atos verbais não se dirige à satisfação das
necessidades mais imediatas do falante, mas à satisfação de suas necessidades
intelectuais, em que a atividade linguística se realiza como uma seleção consciente
das formas de expressão empregadas, resultando numa linguagem em que é
máxima a adesão às regras mais elaboradas o sistema lingüístico, aceitas como
prestigiosas pela comunidade.

O fragmento de texto Dois bons filhos, de Paulo Mendes Campos ilustra bem os
estilos formal e informal.

- Se há alguém que eu adoro neste mundo é minha mãezinha. Ela vai


fazer 73 anos, no dia 19 de maio. Está forte, graças a Deus e muito lúcida.
Há 41 anos que está viúva, papai, coitado, faleceu moço, com uma
espinha de peixe atravessada no esôfago: pois não há dia em que
mãezinha não se lembre dele com um amor tão bonito, com um respeito”

-Velha bacaninha é a minha. Quando ela está meio adernada, mais pra lá
do que prá cá, ela ainda me dá uma broncazinha. bronca de mãe não
pega, meu chapa. Eu manjo ela todinha: lá em casa só tem bronca
quando ela encheu a cara demais. A velha toma pra valer! Ou então foi
um troço em que eu não meto a cara demais. Que eu tenho com a vida

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da velha? pensa que eu me manco. Quando ela tá de bronca, o titio aqui
já sabe: taco-lhe três equanil. É batata. Daí a pouco ela fica macia e vai
soltando o tutu. (CAMPOS, 1965, p. 52)

Nos dois fragmentos, observamos a temática da mãe. Examinando o primeiro, você


deve ter percebido o emprego do estilo formal, por inúmeras razões:
a) Adequação às regras gramaticais, como, por exemplo, emprego do verbo
lembrar como pronominal;
b) Emprego de termos mais específicos, como esôfago por garganta ou guela;
c) Emprego do verbo haver impessoal, indicando tempo decorrido;
d) Não há expressões comuns da oralidade.
No segundo fragmento, observamos tratar-se de um estilo informal, pois:
i. há empregos de gírias: velha; bacaninha; bronca; ficar macia; titio; se
mancar; encher a cara; tomar pra valer; tutu; troço; meter a cara, é
batata;
ii. há transcrições de termos próprios da língua oral, tais como: prá.

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UNIDADE 16- VARIANTE PADRÃO E VARIANTE NÃO-PADRÃO.
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Conceituar Variante Padrão e Variante Não-Padrão; Explicitar a história
da Variante Padrão

A heterogeneidade é um fato em todas as línguas, como também o é a existência


de inúmeras variantes. Entretanto, há que se diferenciar aquelas que gozam de

prestígio na comunidade, justamente por pertencerem às camadas de maior


prestígio social, inclusive, ao poder e ao Estado de outras empregadas pelos pelas
pessoas mais simples da comunidade. Nesta unidade, nosso foco será o estudo das
Variantes Padrão e Não-Padrão.

ESTUDANDO E REFLETINDO
A variante padrão caracteriza-se por ser socialmente mais prestigiada e mais
valorizada na sociedade. Seu uso se dá, principalmente, em situações formais,
situações de interação determinadas, tais como, conferências, congressos, discursos.
Seu emprego relaciona-se, ainda, com o tipo de assunto tratado e da relação entre
os interlocutores, isto é, considera-se o fato de os envolvidos no ato comunicativo
pertencerem ao mesmo grupo social, à mesma profissão.

A Variante Padrão (norma culta) resulta de uma atitude social diante da língua.
Vamos entender bem isso. A língua em seu sentido mais amplo é a mesma para o
médico, para o leiteiro, para o professor, mas a forma como cada sujeito faz uso
dessa língua é diferente. Longe de nós acreditar que um pedreiro possui o mesmo
conhecimento da língua, tal qual um médico.

Dessa maneira, um falante culto vai selecionar, dentre as várias possibilidades de uso
da língua, aquela considerada “correta”. Vale dizer que o modo considerado
“correto”, normalmente, pertence aos grupos das camadas sociais mais elevadas.

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A fixação da variante padrão, usada na língua, na literatura, nos meios de
comunicação, nas leis, nos decretos do governo, na escola, onde é ensinada,
explicada pela gramática e definida nos dicionário, representa um padrão ideal de
homogeneidade em meio à existência de inúmeras possibilidades de uso da língua.

A variante não-padrão é adotada pelas camadas sociais de menor prestígio na


sociedade. Esse português não-padrão apresenta variantes em consonância com as
diferentes regiões geográficas do Brasil, classes sociais, faixas etárias e níveis de
escolarização. Em essência, pode-se afirmar que a variante não-padrão é falada
pelas pessoas mais pobres e analfabetas do Brasil.

BUSCANDO SABERES
A variante padrão é estabelecida historicamente. Nessa perspectiva, cada época
determina o que é padrão em relação aos aspectos fonéticos, gramaticais e
expressões lexicais. Assim, tomando-se, por exemplo, os versos de Camões,
considerado um dos maiores autores em Língua Portuguesa, observamos palavras
que, hoje, não fazem mais parte da variante padrão, embora o tenha sido no século
XVI, como se verifica nos versos abaixo.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,


Que outro valor mais alto se alevanta.
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
(Os Lusíadas- Camões)

O emprego de duas palavras chama-nos atenção: alevanta e apercebida. No


entanto, sabemos que, na atualidade, não são mais empregadas, tendo sido
substituídas por levantar e perceber. No aspecto fonético, a palavra “senhora” era
pronunciada “senhôra”, no século XIX

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Bagno (1999) descreve o fator histórico para a determinação da variante padrão no
Brasil. Assinala o autor que o processo de colonização do Brasil iniciou-se no
nordeste e a cultura da cana-de-açúcar fez dessa região o centro político, cultural e
administrativo do país, inferindo-se, então, que a considerada língua padrão era a
falada nessa região.

Há que se destacar a descoberta do ouro em Minas Gerais e a instalação, no Rio de


Janeiro, da capital da província por ser a região mais próxima para o escoamento do
mineral para Portugal. No século XX, o processo de industrialização levou São Paulo
a compartilhar com o Rio a importância econômica e política. Minas, um pouco mais
tarde, ascendeu social e politicamente.

Historicamente, pode-se afirmar que a língua falada pelas classes sociais mais
elevadas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais começou a ser imitado e
considerado como modelo, como norma a ser seguida. Você poderia me perguntar:
“E o falar do nordeste?”. Se você considerar que o nordeste é a região mais pobre
do país, conclui-se que as variantes aí faladas são de menor prestígio.

É bom saber que, embora o falar da região sudeste seja prestigiado, existem
variantes, denominadas caipiras, principalmente, em decorrência da pronúncia do
fonema / R /, como retroflexo.

Em termos educacionais, a variante não-padrão é considerada “errada” e,


normalmente, o aluno que dela faz uso é desprestigiado no ambiente escolar, é
considerado deficiente linguístico, se já não bastassem todas as outras formas de
exclusão social: econômica, tecnológica, etnia, religião, surge mais uma: linguística.
Vale dizer ainda que as diferenças entre as diversas variantes são estabelecidas por
critérios metodológicos, e, em certo momento, elas convivem entre si. É claro que

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será alçada a padrão a variante aceita e usada pelo poder e pelas classes sociais
mais elevadas.

É comum ocorrer a generalização de uma variante a todas as camadas sociais,


como o caso do verbo ter, usado em lugar de haver. Outro caso de generalização
é a perda da vibrante em posição final, como por exemplo, para falar, dizem falá;
para beber, bebê.

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UNIDADE 17 - VARIANTE PADRÃO E VARIANTE NÃO-PADRÃO:
CARACTERÍSTICAS
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar as características das variantes padrão e não-padrão. Nesta
unidade, estudaremos as características das variantes padrão e não-padrão e as
relações de uso dessas variantes pelas diferentes camadas da população.

ESTUDANDO E REFLETINDO
O primeiro ponto a assinalar é que a variante padrão é estabelecida, como já
dissemos, a partir da fala de pessoas de classe social elevada e também, a partir da
língua escrita. Neste caso, suas principais características são:
a) Ter prestígio na sociedade, pois quem dela faz uso são pessoas cultas, de
nível social, econômico e intelectual elevado, tais como: o poder, a escola;
b) Ser conservadora, porque resiste às transformações;
c) Ser padronizada, em decorrência da imposição de regras gramaticais;
d) Ater-se às regras estabelecidas pela gramática, pois faz uso do estilo formal,
planejado;
e) Ser adotada pela escola como o ideal de bem falar e escrever;
f) Ser frequente nos meios de comunicação

No que diz respeito à variante não-padrão, podemos estabelecer as seguintes


características:
a) Ser adotada pelas camadas menos privilegiadas da população, normalmente
pessoas pobres e analfabetas;
b) Ser inovadora, pois, a todo momento, novas expressões estão sendo criadas,
considerando-se a força viva da língua;
c) Ser estigmatizada, pois não goza de prestígio nas classes sociais mais
elevadas econômica e culturalmente, sendo rejeitada pelos falantes da
variante padrão;
d) Ser considerada errada pela escola.

90
BUSCANDO SABERES
Bagno (1999) propõe o seguinte esquema comparativo a respeito das características
das variantes padrão e não-padrão.

Variante Não- Padrão (Português Padrão) Variante Padrão (Português Padrão)

Natural artificial

Transmitida adquirida

Apreendida aprendida

Funcional redundante

Inovadora conservadora

tradição oral tradição escrita

Estigmatizada prestigiada

Marginal oficial

tendências livres tendências refreadas

Falada pelas classes dominadas falada Pelas Classes Dominantes


(BAGNO, 1999, p.34)

Nas palavras de Bagno, a variante não-padrão é natural, porque o falante, ao usá-la,


procura seguir a lógica natural da língua. Nesse caso, o usuário é levado a dizer fazi,
por exemplo, por analogia a bebi. Por que isso ocorre? É simples. Para beber, o

pretérito perfeito é bebi, em que se constata o morfema lexical beb e a adição do


morfema flexional de tempo i. Essa mesma lógica se observa em fazi, pois ele toma
o morfema lexical faz e acrescenta o morfema flexional de tempo i.

A variante padrão, diferentemente, é artificial, pois sofre a influência da


padronização de regras.

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Se a variante não-padrão é transmitida de pai para filho no ambiente familiar e
apreendida, isto é assimilada naturalmente pelo falante; a padrão é adquirida e
aprendida na escola.
Morfema lexical é o elemento que guarda a significação
básica da palavra. Assim, o significado de ingerir algum
líquido não está na palavra toda: beber, mas em parte
A variante não-padrão é funcional, dela: beb.
Morfema Flexional é o elemento que adicionamos ao
porque os falantes eliminam as morfema lexical para indicar o gênero, o número, para
substantivos e adjetivos e a pessoa, o modo e o tempo
redundâncias. Sabe o que é isso? nas formas verbais.
Morfema Classificatório, denominado vogal temática
Simples. Se tomarmos o plural na
nominal, porque classifica os nomes (substantivos e
língua portuguesa, verificamos ser ele adjetivos) em três terminações: a (mesa); e (pente); o
(carro) e vogal temática verbal, pois classifica os verbos
é um traço redundante, isto é, se em três conjugações: 1ª- verbos terminados em a (cantar,
amar, falar); 2ª- verbos terminados em e (beber, comer) e
repete no artigo, no substantivo, no 3ª-verbos terminados em i (partir, sair).
Morfema Derivacional são os prefixos e sufixos agregados
adjetivo e no verbo, como se constata ao morfema lexical para a formação de novas palavras no
léxico, como, por exemplo, a partir de fiel, formo a palavra
em: Os meninos bonitos chegaram,
infiel; a partir de casa, formo a palavra casarão.
característica da variante padrão. O
falante, ainda que, inconscientemente, sabe que a ideia de número plural,
forçosamente, deve ser assinalada no primeiro elemento e, assim, diz: Os menino
bonito chegou.

A variante não-padrão tem fortes traços da tradição oral, pois é apreendida no seio
familiar, enquanto a padrão tem suas raízes na escrita e deve ser sistematizada e
aprendida na escola.

É hora de saber se você entendeu as características das variantes padrão e não-


padrão. Vamos testar seu conhecimento?

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UNIDADE 18 - VARIANTES E O PRECONCEITO LINGUÍSTICO.
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Abordar os principais mitos do preconceito linguístico. Em tempo de
inclusão social, propiciada pelas políticas públicas, cuja função é romper a dicotomia
entre o social e o econômico; em tempo de inclusão dos portadores de
necessidades especiais na escola e no mercado de trabalho, pouco se tem dirigido o
olhar para a exclusão linguística, foco desta unidade.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Você sabe o que é preconceito lingüístico? Se não sabe chegou o momento e, para
isso, atente para as frases abaixo.
a) Nós vamos plantar arroz
b) A gente vai plantar arroz
c) A gente vamos plantá arroiz
d) Nóis vai prantá arroiz

Em a, como já abordamos anteriormente, observamos o emprego da língua padrão,


a difundida pela escola, a falada por pessoas de classe social e nível intelectual
elevados. Trata-se de uma variante de prestigio nas comunidades de fala. Em b, há
o emprego de variante estilística, pois seu emprego evidencia o uso informal e
coloquial da língua. Diferentemente, em c e d, evidencia-se o emprego da variante
não-padrão.

Como você classificaria os falantes de c e d? Ou redirecionado a pergunta: Como


professora, o que você diria sobre esses falantes? Provavelmente, sua resposta seria
que tais usuários não sabem falar, ou ainda, são “burros”, ou os brasileiros não
sabem falar a língua portuguesa. Esse julgamento é o preconceito linguístico e,
sobre isso, vamos ler o diz Bagno.

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O preconceito linguístico se baseia na crença de que só existe uma única
língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas
escolas, explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários. Qualquer
manifestação lingüística que escape desse triângulo escola-gramática-
dicionário é considerada, sob a ótica do preconceito lingüístico, “errada”,
feia, estropiada, rudimentar, deficiente, e não é raro a gente ouvir que
“isso não é português”. Bagno (1999, p.40)

Nas palavras do autor, o preconceito embasa-se na convicção de que a língua é


única, imutável, regida por regras gramaticais e que tudo o que foge dessas regras é
considerado errado.

Muitas vezes, a própria mídia se encarrega de consolidar o preconceito linguístico,


como ocorrido em uma manchete do jornal Folha de S. Paulo, de 8 de dezembro
de 1988, em que se constata: “A gente cheguemos não será uma construção
gramatical errada na gestão do PT”. Ora, esse comentário partiu da seguinte
afirmação de Paulo Freire:

O aluno terá uma escola na qual sua linguagem seja respeitada (...).Uma
escola em que o aluno aprenda a sintaxe dominante, mas sem desprezo
da sua, dizia ele; e também: Precisamos respeitar a sua sintaxe mostrando
que sua linguagem é bonita
e gostosa, às vezes é mais bonita que a minha. E, mostrando tudo isso,
dizer a ele: Mas para tua própria vida tu precisas dizer ‘a gente chegou’.
Isso é diferente, a abordagem é diferente. É assim que queremos
trabalhar, mas dizendo a verdade.

É claro que o comentário do jornalista não fez justiça à afirmação de Freire, uma vez
que nela observamos o vislumbrar de uma nova escola, desprovida de preconceito;
uma escola em que, a partir da variante empregada pelo aluno, o professor se
encarregue de apresentar-lhe a norma culta, pois, se não o fizer aumentará o fosso
social na sociedade. Nessa perspectiva, há que se entender a variante culta como
mais uma possibilidade e não a única.

94
BUSCANDO SABERES
O fato de, no Brasil, a Língua Portuguesa ser adotada por grande parte da
população não justifica afirmarmos que existe unidade linguística, pois se assim
entendermos estaremos excluindo todas as variações que ocorrem em nosso
território, conforme já abordamos nas unidades anteriores.

É fato, também, que a aceitação dessa pretensa unidade traz sérias implicações para
o ensino, já que se joga no esquecimento os diferentes falares das classes sociais
menos favorecidas e alijadas da sociedade.

Bagno (1999) critica Sérgio Nogueira Duarte no que diz respeito às afirmações de
que só em Portugal é que se fala bom português. Ora, cada região, cada camada
da população tem seu jeito específico de falar que não é nem melhor nem pior, é
diferente.

Não podemos querer que a língua falada aqui seja igual à falada em Portugal, pois
seria negar as fronteiras geográficas que nos separam. Os falares são distintos de
um país a outro, as diferenças se mostram, inclusive, na escrita, pois em Portugal o
uso de c, p e n são mudos quando antecedem consoantes, como ocorre em: acção;
baptismo, facto etc.

Nos aspectos gramaticais há grandes diferenças, pois em Portugal jamais se inicia


frase com pronome oblíquo, o que não ocorre no Brasil, pois qualquer falante culto
ou não-escolarizado o faz. Trata-se de um dado perfeitamente abordado no poema
Pronominais de Oswald de Andrade, conforme se verifica abaixo.

Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco

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Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

No texto acima, configura-se a diferença de colocação pronominal que caracteriza


os falares de Portugal e do Brasil. O poeta deixa clara a existência de uma língua
padrão “Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ do professor e do aluno/ e do mulato
sabido” e a não-padrão “Me dá um cigarro”, como expressão adotada pelos
brasileiros. Há que se destacar que “mulato sabido” pode ser uma referência à
língua empregada por Rui Barbosa.

Outra distinção corroborada em minha dissertação de mestrado diz respeito ao


franco desaparecimento das formas acusativa o/a como objeto direto do verbo. O
que se constatou, na verdade, é que, mesmo os falantes cultos, não a utilizam com
frequência, optando pela repetição do SN ou pela variante zero.

Merece destaque, também, a não ocorrência do mais-que-perfeito do indicativo na


língua oral, fato que já está se estendendo para a escrita também, cujo uso é
substituído pela forma composta: tinha conhecido por conhecera.

Em uma questão do ENADE, observamos o seguinte trecho representativo da fala


de professores de Língua Portuguesa:

Proveniente do latim vulgar, o português é uma língua doce, bela - "a


última flor do Lácio"- rica em vocábulos, complexa pelo excesso de regras
gramaticais, difícil na fala e sobretudo na escrita, inacessível à maioria dos
falantes.
· O português é muito mais difícil que os demais idiomas (sobretudo o
inglês), possuindo um vocabulário extenso e uma gramática complexa,
cheia de regras e exceções. É também menos falado que os outros.
· A maioria da população brasileira usa mal a língua: não valoriza,
maltrata-a. Isso se deve ao desinteresse ou desleixo, como é o caso, por
exemplo, das pessoas cultas que, às vezes, cometem erros absurdos.

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As afirmações dos docentes transcritas acima configuram bem um tipo de
preconceito existente no Brasil. Trata-se da ideia equivocada e errônea de se
classificar o português como difícil e complexa em relação a outras línguas. E o que
é pior, em decorrência dessa suposta dificuldade, torna-se difícil o ensino de língua
portuguesa e a apreensão da língua padrão pelos falantes.

Vale dizer que se a língua portuguesa fosse tão difícil quanto afirmou o docente em
pauta, uma criança de 3 ou 4 anos, brasileira, não conseguiria entender e formular
frases que nunca ouviu antes. Claro que essa criança, provavelmente, não dará
conta de todas as especificidades da língua, toda a polissemia caracterizadora de
nosso léxico, mas é bem provável que nenhuma criança dirá, por exemplo: menino
o. Sabe por quê? Porque o falante, desde o início de uso da língua, já tem
consciência da estrutura geral que a governa.

No fundo a ideia de que “português é


muito difícil” serve como mais um dos
Para um ensino eficaz, há que se
instrumentos de manutenção do status quo
deixar de lado as regras específicas das classes sociais privilegiadas. Essa
entidade mísitca e sobrenatural chamada
do português e se enfocar, mais “português” só se revela aos poucos
“iniciados”, aos que sabem as palavras
frequentemente, o real uso da língua mágicas, exatas para fazê-la manifestar-se.
(BAGNO, 2001,p.39)
no Brasil. Um exemplo clássico é o
caso do verbo visar, cuja norma gramatical determina que no sentido de “ter em
vista” esse verbo é transitivo indireto. Assim, reza a norma que se deve dizer: “O
Brasil, com esta medida, visa ao desenvolvimento econômico”. Ora, nem na mídia
escrita nos deparamos com esse uso, pois o que se constata é: O Brasil, com esta
medida, visa o desenvolvimento.

Falar errado e falar certo é outro preconceito que deve ser abolido de nossa
mentalidade docente por várias razões. A primeira delas diz respeito ao fato de o
conceito de certo e errado ser a base da Gramática Normativa que, como o próprio
nome diz prescreve as normas de bem falar e bem escrever. Tudo o que foge a essa

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regras é considerado errado. Assim, diz a regra: “A forma pronominal a ser usada
como objeto direto do verbo é o pronome oblíquo”. Nessa perspectiva, deve-se
dizer “Eu o vi” e não “Eu vi ele”, considerada errada por essa gramática, no entanto,
é a mais realizada.

Ora, já lemos o poema de Oswald de Andrade, Pronominais, em que se constata


“Dê-me um cigarro/ Diz a gramática”, mas deixa explícita a ideia de que o que se
concretiza no uso real da língua é “Me dá um cigarro”.

Normalmente, costuma-se atribuir a fala


Você conhece bem as letras de música de
errada às pessoas não escolarizadas e Adoniran Barbosa, marcadas por variantes não-
padrão. Antônio Cândido, o principal nome da
que são marginalizadas da sociedade. crítica literária no Brasil, assim se referiu a ele:
“Adoniran Barbosa é um grande compositor e
No entanto, há que se entender que não poeta popular, expressivo como poucos. (...) Já
tenho lido que ele usa uma língua misturada de
há erros, há maneiras diferentes de se italiano e português. Não concordo. Da
mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran
dizer uma mesma coisa. Há que se
colheu a flor e produziu uma obra radicalmente
lembrar, também, que o que é brasileira, em que as melhores cadências do
samba e da canção, alimentadas inclusive pelo
considerado erro, na atualidade, foi terreno fértil das Escolas, se aliaram com
naturalidade às deformações normais do
língua padrão culta em outras épocas, português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto,
em cuja casa nós fumo e não encontremo
como já tivemos oportunidade de ninguém, exatamente como por todo esse país.
(CÂNDIDO, 2002, p. 211)
exemplificar com os versos camonianos:
Pelas palavras de Cândido, se Adoniran falasse
“Cessa tudo que a antiga musa canta/ errado, como quer os poderosos da Língua
Portuguesa, jamais seria considerado um
que outro valor mais alto se alevanta”, grande poeta.

nas unidades anteriores.

Um problema bastante comum que caracteriza o uso da variante não-padrão


refere-se ao grupo consonantal formado com a consoante L. Os descendentes de
japonês, por exemplo, não conseguem pronunciá-lo. Então, é comum ouvir-se “nós
vamos prantá arroz”. Ocorreu-me, agora, um acontecimento interessante. Por
ocasião do falecimento de meu sogro, minha cunhada e eu fomos ao cartório

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atestar o óbito. Assinamos o papel e o cartorário nos olhava espantado. Eis que, de
repente, minha cunhada disse: “Eu não sou burra, não. Burro era o cartorário que
escreveu Virma em lugar de Vilma”. Só então, descobri que seu nome de registro
era Virma e não Vilma. Esse fato revela-nos duas coisas: a primeira refere-se ao
preconceito e, diga-se de passagem, não só da parte do cartorário, mas da minha
cunhada também; o segundo, a troca do l pelo r é comum na fala de muitas
pessoas e regiões do Brasil, dentre outras inúmeras variantes que ocorrem.

Já estudamos que Língua Oral e Língua Escrita são duas modalidades diferentes.
Quando o professor não conhece as características de cada uma, cria uma terceira
modalidade: a língua do professor, como se constata nos ditados feitos por ele, em
que diz assim: “O menino comeu o peixe e o bolo”. Ora, nenhum falante expressa-
se dessa maneira, mas, provavelmente diz: “U mininu comeu o pexe e o bolu”. Essa
é a nossa realidade e que não pode ser escondida do aluno e mais, jamais devemos
dizer: “nós falamos errado”, pois isso é desconhecer por completo as especificidades
da fala e da escrita. Para entender isso, observe a imagem abaixo.

Henri Matisse: Retrato de Madame Matisse com uma linha verde (1905),
Copenhague, Statens Museum for Kunst

Uma anedota bem conhecida na História da Arte a respeito desta pintura de Matisse
nos serve para o entendimento do que é a escrita. Numa exposição de sua obra no

99
início do século XX, o pintor foi abordado por uma senhora que, inconformada com
as cores pouco naturais dos retratos, principalmente a linha verde, perguntou-lhe
algo como “Mas o senhor já viu uma mulher verde?” E Matisse teria então
respondido, apontando para a obra: “Minha senhora, isto não é uma mulher, é um
quadro”.

É bem isso, a imagem não é uma mulher é um quadro. Analogamente, a escrita não
é a fala é uma representação da fala. Nossa escrita não é fonética, mas é alfabética,
as letras não são o som, mas simbolizam o som, tanto que um mesmo som pode vir
simbolizado, representado, por letras completamente diferentes, como, por
exemplo, o som / S / sapo, cujas letras que o representam são SS- passo; Ç- paço;
SC- piscina; ex- exceção; C- cebola; o som / z / pode vir representado pelas letras:
z- buzina; x- exato; s- casa.

Lembro-me, também, de encontros com docentes e, quando questionados sobre a


grafia de mal e de mau, diziam: “Para dizer mal ensino os alunos a colocarem a
língua bem no centro da boca; o que é diferente em mau, cuja língua não toca
nenhum órgão da boca e há um arredondamento dos lábios”. Muito bem,
excetuando-se a região do Rio Grande do Sul, todos os falantes do Brasil dizem /
maw / para mal e para mau. Então saber se /kawda/ (calda ou cauda) é a do doce
ou o rabo do cavalo é uma questão de treino, pois para as duas palavras dizemos
de uma só forma.

100
UNIDADE 19- BOTANDO A MÃO NA MASSA DAS VARIANTES
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Explicitar os fenômenos que propiciam a realização de variantes. Já
abordamos em unidades anteriores que a variação linguística não é tão livre quanto
se imagina, mas que fatores internos à língua a condicionam. Em outras palavras, há
explicações internas, mas existem também as e externas: sexo, faixa-etária, nível de
escolaridade, conforme já abordado.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Iniciamos a unidade enfocando os fatores internos, isto é, fatores da própria
estrutura da língua, especificamente, no tocante aos aspectos fonológicos. Para
tanto, recorro a um trecho de língua oral já abordado anteriormente. Vamos revê-
lo.

“ O qu´eu to comprendenu de poço tempo prá cá é negoçu de reporti.


Qu´eu cumpanho nutiça, reporti de rádio e televisão, que agora qu´eu tô
aprendenu, nunca tinha usado nem televisão, que a gente morava na
roça, e mesmo aqui, NE, mesmo aqui, é de pocos tempo pra cá que os
menino deu conta de comprá rádio”. (BORTONI, 2004, p. 64)

Existe um processo fonético na língua denominado assimilação, isto é, processo que


tende a igualar sons diferentes, mas que tenham alguma semelhança. Você poderia
perguntar: “O que é isso?” É simples os fonemas / t /, / d / e / n /, quando
pronunciados, possuem o mesmo ponto de articulação, isto é, para serem
pronunciadas, há necessidade de se colocar a ponta da língua nos dentes
superiores. Pronuncie as três consoantes e verá como isso é real.

No caso de o falante dizer falante dizer comprendenu e aprendenu ocorreu uma


assimilação de fonema / d / pelo fonema / n /, usado por muitos falantes do Brasil,
principalmente, pelas classes menos favorecidas social e culturalmente.

101
Pode ocorrer também a assimilação do fonema / b / e do fonema / m /. A
explicação é a mesma, pois / b / e / m / possuem o mesmo ponto de articulação,
isto é, para serem pronunciados há necessidade de junção dos dois lábios, razão
pela qual são chamadas bilabiais. Agora você vai entender porque alguns falantes
dizem: “Eu tamem vou”, em lugar de “Eu também vou”, ou ainda: “Tô um mucado
cansadu” em lugar de “Tô um bocado cansado”.

Outro fenômeno bastante freqüente na fala dos brasileiros é a redução dos


ditongos, ou se quiser o nome científico, monotongação.

Sobre esse aspecto, a assimilação também se faz presente. Iniciamos a


monotongação, a partir da transformação do / ow / em / o /, fenômeno comum na
variante padrão e na não-padrão. Nesse caso específico, a história da língua nos é
de muita valia. Vamos a ela?

Você sabe o que é desnasalização? Com


certeza você já se utilizou desse recurso
As palavras que, em sua origem latina, em sua fala. Basta lembra como você diz
“garagem, amaram, partiram, folhagem”
possuíam ditongo em / aw /, escrito au, Na verdade, não é só você, mas quase
todos os falantes dizem, para as palavras
gradativamente, foram transformando esse
acima: garagi, amaru, partiru, folhagi.
ditongo em ou, como, por exemplo, paucu e Pronto, você foi apresentado à
desnasalização, isto é, perda da nasal
lauro resultaram pouco e louro. Sabe onde
está a assimilação? Nós já estudamos a articulação das vogais. Já verificamos que o
fonema / a / é a vogal mais aberta e mais baixa, já que a língua fica em repouso na
boca. Diferentemente, o fonema / o / é mais alto, pois a língua quase toca o céu da
boca e bem arredondado. Assim, como o fonema / o / é pronunciado com o
arredondamento dos lábios tal qual o / u /, a tendência da língua, então foi
assimilar, aproximar sons diferentes, conforme assinala Bagno (1999).

102
A assimilação está presente também em relação ao ditongo / ay /, cuja
representação gráfica é ai, nas palavras caxa e baxo. Nesse caso, o ditongo ai deve
preceder a consoante x.

Você já ouviu alguém dizer: “Na Semana Santa, comemos muito peixe” Tenho
certeza de que não, pois tanto na variante padrão, quanto na não-padrão, o
ditongo / ey / é dito / e /. A diferença dessa monotongação para a do / ow / é que
o / ow / sofre redução em todos os contextos, mas o / ey / depende de contexto
específico, isto é, anteceder as consoantes r, x e j, como, por exemplo, bejo, chero;
quejo, quexo.

Pode-se assumir que todo fonema / e / e / o / átonos pretônicos e finais são


pronunciados, respectivamente / i / e / u /. Para tanto, há contextos fônicos. Vamos
a eles?

O /e / e o / o / átonos pretônicos se transformam em / i / e / u /, quando:


a) na sílaba tônica existe i ou u: cabiludo; custura;
b) quando em posição inicial estejam seguidos de s: istrela; iscada;
c) quando formam sílaba com b e m: buneca; mulequi.

BUSCANDO SABERES
Ampliando nosso conhecimento sobre a variação, vamos tratar de um caso bastante
comum na língua oral: a redução das palavras proparoxítonas. Imagine-se pedindo
café. Como você diz: Me dá uma xícara de café ou me dá uma xicra de café? É claro
que sua resposta é: Me dá uma xicra de café. Não é só você que diz assim, qualquer
falante o diz. Trata-se do fenômeno da redução. Esse fenômeno é comum a
qualquer falante, mas em certos caso, mais específicos a falantes não-padrão. Por
exemplo, a palavra fósforo, para os falantes não-escolarizados é dita forfi; para os

103
escolarizados, normalmente se diz fosfro; árvore é falada arvri por qualquer falante;
tábua é dita tauba por falantes não-escolarizados.

A consoante lh é pronunciada i por falantes não-escolarizados e por falantes da


variante padrão, quando em contexto informal. Assim é que se diz veiu, para velho;
mio, para milho. Trata-se da assimilação, pois o lh, para ser pronunciado temos que
elevar a língua até o céu da boca (palato), a pronúncia do som i é muito próxima do
céu da boca também. Daí a aproximação: teia por telha.

Em relação às pessoas verbais, devemos tecer algumas considerações. Em


português, observamos que você/vocês substituem os pronomes pessoais tu/ vós.
Assim dizemos: Você vai; Vocês vão, na variante padrão. O que aconteceu?
Referimo-nos a uma segunda pessoa, mas efetuamos a concordância com a forma
verbal de terceira. Você poderia afirmar que algumas regiões do Brasil empregam o
tu e o fazem mesmo, como o Rio de Janeiro, só que, mesmo usando o tu, a
concordância é feita na terceira pessoa. Assim, o carioca diz: Tu vai.

Vale lembrar, ainda, a eliminação de redundâncias. Já estudamos que a língua


portuguesa é redundante, isto é, os traços de plural e de concordância verbal e
nominal aparecem em todos os segmentos. Assim devemos dizer: As meninas
bonitas e magras chegaram cedo. No entanto, o que a maioria de falante diz é: As
minina bunita chegaru (m) / chego.

Outra variante bastante frequente na fala refere-se à repetição do pronome. Assim é


que Adoniran Barbosa, na música Iracema, disse: “Iracema, eu nunca mais eu te vi”.
Muitas vezes ouvimos também: “U minino que eu vi eli”

104
UNIDADE 20 - COM AS VARIANTES NAS MÃOS: VARIANTES E O
ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE
Objetivos: Discutir as concepções de gramática; Destacar a importância das
variações no ensino de Língua Portuguesa. Nesta unidade discutiremos as
concepções de gramática e as noções de língua que subjazem a cada uma delas. A
partir daí, procuraremos evidenciar a importância de um ensino que leva em
consideração a heterogeneidade e a variabilidade da língua.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Iniciamos a discussão, questionando a você o que são regras. De maneira, podemos
entender regras como obrigação e como regularidade, constância.

No sentido de obrigação, as regras são fixadas e impostas, cabendo a nós


seguirmos o estabelecido. Vamos imaginar as regras de etiqueta, por exemplo: Dar
gargalhadas ruidosas ou muito altas; Rir dos erros alheios; Falar enquanto alguém
está cantando ou tocando algum instrumento - é considerado um insulto ao artista.
Quem violar qualquer uma dessas regras é considerado grosseiro e inadequado.

No que diz respeito à regra como regularidade e constância, pode-se afirmar que
essa acepção aproxima-se da noção de lei no sentido das leis da natureza,
normalmente estabelecidas a partir da repetição constante de certo fenômeno,
como, por exemplo, a lei da gravidade.

Você poderia me questionar: “O que isso tem a ver com a unidade em estudo?”
Tudo, basta seguir a leitura que você mesmo entenderá.

Passemos agora às diferentes concepções de gramática:

105
1- Manual com regras de bom uso da língua oral e escrita. Esse manual
prescreve as regras a serem seguidas por aqueles que querem se expressar
adequadamente;
2- Conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de
determinada teoria e método;
3- Conjunto de regras que permite ao falante se expressar, utilizando a língua.
Equivale ao saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve, respeitando
certos limites impostos pelo sistema da língua. Não depende da escolaridade.

A partir das concepções de gramática estabeleceram-se os tipos de gramática:


a) Gramática Normativa estabelece as normas de bem falar e bem escrever. As
regras são fixadas, a partir da língua escrita e das variantes adotadas pelos
falantes que gozam de prestígio na sociedade e são possuidores de elevado
nível sócio-cultural. Essa gramática apresenta-se nos livros didáticos e é
adotada pela escola. Em síntese, a gramática normativa determina as regras
a serem seguidas pelos falantes. Nessa perspectiva, a gramática normativa
determina que o verbo concorda com o sujeito e existe uma forma única e
determinada para cada tempo. Assim devemos dizer: Os homens são
mortais; a forma verbal empregada na 3ª pessoa do plural do verbo “pôr” é
“eles puseram”.
b) Gramática Descritiva registra, descreve determinadas variedades de uma
língua em um determinado momento. Essa gramática analisa as regras que
são seguidas. Na verdade, sua preocupação é com o uso da língua nas
diferentes situações comunicativas em que se encontram o falante. Assim,
em uma situação informal o falante pode dizer “Vi ele”.
c) Gramática Reflexiva refere-se mais ao processo do que aos resultados, pois
representa atividades de reflexão, observação sobre a língua, buscando
detectar, levantar suas unidades, regras e princípios sobre o funcionamento
da língua. Trata-se, na verdade de hipótese que o falante formula, ao

106
empregar a língua. Nesse caso, quando o falante diz, por exemplo, “Eu fazi”,
na verdade formulou uma hipótese sobre o funcionamento da língua, uma
vez ter consciência de que o pretérito perfeito de beber é “Bebi”.

Agora, acredito que você já consegue fazer a ligação entre os conceitos de regras e
as gramáticas, não é? Se a gramática normativa dita as normas, então, as regras
dela advindas têm o sentido de obrigação. Ora, se somos obrigados a seguir, então,
ela é prescritiva e opera com os conceitos de certo e errado. Assim, qualquer desvio
das normas estabelecidas é considerado desqualificado.

Quando enfocamos a gramática descritiva, sua finalidade e metas, vamos entender


que o conceito de regra que subjaz a ela é conjunto de regras com que o
pesquisador se depara, a partir dos dados que analisa e descreve. Nessa
perspectiva, nenhum dado encontrado, nenhum uso comprovado é desqualificado
ou considerado um erro, mas encarado como mais uma possibilidade de uso da
língua.

Finalmente, a noção de regra que embasa a gramática reflexiva é o saber linguístico


que o falante domina e, a partir dele, formula hipótese sobre o funcionamento da
língua.

A cada tipo de gramática subjaz uma concepção de língua. Assim, adotando-se


como meta de ensino a Gramática Normativa, língua é vista como forma de
expressão observada na pessoa culta, principalmente, na escrita. A essa variedade
denomina-se norma culta ou variante padrão, caracterizando-se como
conservadora e de prestígio.

Na Gramática Descritiva, o que se observa é que nenhum dado é desqualificado


como não pertencendo à língua. Nessa perspectiva língua escrita e língua falada são

107
entendidas como extremamente variáveis, mas passíveis de regularidades que as
condicionam. A língua e fala são vistas como dinâmicas, embora os seus usuários
sejam estigmatizados e na sociedade. A noção de certo e errado, nessa concepção,
é substituída pela ideia de diferente. Na verdade, erro é produzir enunciados que
violam a estrutura da língua como, por exemplo, “Minimu vi o rua na”.

BUSCANDO SABERES
Por que introduzimos na unidade as concepções de gramática? Por uma razão
muito simples. O que mais se constata no ensino de Língua Portuguesa, nas escolas,
é uma preocupação excessiva com o ensino da gramática normativa, que alça a
variante padrão como única possibilidade de uso da língua.

A variante padrão, como já assinalado anteriormente, prevê um uso linguístico


concreto e falado pelas pessoas de classe social de prestígio. É conservadora e
repudia tudo o que foge as suas regras.

Muito bem, se considerarmos uma criança, cujos pais são detentores da língua
padrão, verificamos que a sua fala se aproxima muito da norma divulgada pela
escola. No entanto, a maioria da população brasileira não tem acesso à variante
padrão e o conhecimento que possuem da língua distancia-se dessa variante.

A criança usuária da língua não-padrão, ao chegar a escola depara-se com uma


língua totalmente diferente da que ela e sua família empregam. Diante disso sente-
se tímida e, o que é pior, a própria escola a discrimina, exercendo um papel de
detentora do saber e divulgadora da única variante: a padrão.

Se considerarmos o tempo que o aluno tem contato com a língua da escola- a


norma culta- e o tempo que passa empregando a sua língua, a sua sintaxe, no seu

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meio familiar e social, observamos que, sem dúvida, predomina o domínio da não-
padrão. Qual é a conseqüência disso? É simples a escola falha. Talvez, seja esse o
grande gargalho que nos impede de galgarmos um patamar de destaque em
termos educacionais.

Milagres não existem, mas há caminhos que podem tornar o processo de ensino e
aprendizagem de Língua Portuguesa menos árduo, menos excludente. Para isso, o
ponto de partida é a concepção de linguagem que deve nortear ensino.

Linguagem deve ser entendida como interação humana, como estabelecimento de


vínculos e compromissos que só se efetivam no próprio ato de linguagem. È assim
que, ao dizer: “Você pode me passar o sal?”, o interlocutor entende que não estou
questionado sua habilidade física, mas estou lhe transmitindo uma ordem. Essa é a
interação, esse foi o vínculo estabelecido no ato comunicativo.

A criança chega à escola com domínio da língua, já interagiu e, constantemente o


faz, por meio da linguagem. Mas, é verdade, que chega à escola trazendo na
bagagem, além de bastante esperança, sua herança lingüística, ou seja, traz consigo
o padrão lingüístico de que se utiliza para o ato de comunicação. Assim, em uma
sala de aula, poderemos nos defrontar com as seguintes situações de uso da língua:
a) “ Onde é pra ponha o livro”;
b) “Onde é pra pôr o livro”

Vamos supor que os enunciados acima tenham sido produzidos por crianças. Ora,
embora digam exatamente a mesma coisa, a forma como disseram é diferente, pois
em a, observamos tratar-se da língua não-padrão, em que se constata uma
hipótese formulada pela criança. Em outras palavras, se tomarmos o verbo cantar,
por exemplo, o uso é canto/ canta, mantendo-se o morfema lexical inalterado;
diferentemente, para o verbo pôr, a forma verbal de presente é ponho, daí a
generalização: o verbo é ponhar e não pôr.

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Em b, provavelmente, a criança pertence a uma classe de falantes de nível
escolarizado e detentora na língua padrão.

No entanto, não basta reconhecer as variantes empregadas pela criança, mas urge
que se aprimorem seus atos de linguagem, multiplicando suas experiências de uso
da língua, sem medo e sem imposições. Cabe à escola conduzir a criança ao
entendimento de que “ponha, teia, ozomi (os homens)” são tão expressivos quanto
“pôr, telha e os homens”, expressões da língua padrão que se constituem em mais
uma possibilidade de uso da língua.

Nessa perspectiva, conduzir a criança ao domínio da norma padrão é função da


escola, mas deve ser exercida com liberdade e respeito, ou, como nos dizeres de
Paulo Freire, devemos trabalhar dizendo a verdade para a criança e a verdade é que
para o seu próprio bem ela deve dominar a norma culta. Para tanto, há que se
criarem diferentes contextos que permitem o emprego da língua padrão e da língua
não-padrão.

O professor deve, por exemplo, criar situações em que uma mesma ordem se dirija
a pessoas diferentes, tais como: pedir alface ao verdureiro e solicitar um guarda-
noturno ao delgado de polícia. Ora, a criança deve entender que, desde a forma de
tratamento até o próprio ato de solicitação devem ser diferentes.

Finalmente, gostaria de dizer que aceitar as variantes não-padrão,de forma alguma


significa negar às crianças o acesso à norma culta, mas implica um tratamento
diferente, implica uma multiplicação de meios expressivos para o exercício da
interação verbal. E por falar em meios expressivos, por favor, ouça a música indicada
no site e tire suas conclusões.
YouTube - Saudosa Maloca - Adoniran Barbosa

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