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autoridade competente, ainda quando re- Irrecusável, também, que se apropriou


sultante de fraude (Tratado, vol. V, pãg. êle indêbitamente da quantia de Cr$ ..
5(5). Usurpação - acentua F. Ant'Jliesl 4.300,00, que lhe fôra confiada por Rei-
- é mais do que irregular exercício ou naldo Fontolan, como ficou demonstrado
abuso do poder. Ela ocorre quando o no item IV das razões de recurso do Mi-
agente toma arbitràriamente posse do nistério Público, a fls.
ofício (Manual, voI. m, pág. 663). 1: a
opinião comum dos autores italianos, cuja Nestes têrmos, dá-se provimento em
lei é igual à nossa: O. Vannini, Manual, parte a ambos os recursos: ao do réu.
parte especial, 1954, pág. 84; S. Ranieri, para excluir a condenação pelo crime de
Manual, parte especial, vol. lI, pág. 259; usurpação de função pública e de ates-
Stefano Riccl0, Os Delitos Contra a Ad- tação falsa; ao do Ministério Público,
ministração Pública, 1955, pág. 593. para condenar o réu pelos crimes de uso
de documento públie<> falsificado (art.
Ora, na espécie, o réu foi nomeado 304 combinado com o 297, e § 2.°, do
por ato de autoridade competente, em- Código citado) e pelo de apropriação in-
bora empregando fraude para o conse- débita (art. 168, § 1.0, n.O m). Pelo pri-
guir. Sob a proteção de um prefeito mu- meiro, aplica-se-lhe a pena de dois anos
nicipal interiorano, conseguiu o réu !I. e um mês de reclusão e multa de Cr$
sua nomeação do Secretário da Agricul- 1.000,00; e pelo segundo a de um ano e
tura, após curto estágio na Casa da La- um mês de reclusão e multa de Cr$ 500,00.
voura de Lorena (apenso, fls.). Depois, Total: três anos e dois meses de reclusão
falsificou ou, pelo menos, usou o ates- e Cr$ 1.500,00 de multa.
tado de fls., com o intuito de assegurar
a situação fraudulentamente alcançada. O réu já foi condenado por apropria-
Não houve usurpação de função pública; ção indébita, mas a sentença só transitou
mas, quanto à falsidade documental, em- em julgadO em novembro de 1958, pos-
bora o laudo pericial admita apenas a teriormente aos fatos narrados na de-
possibilidade de ter sido o réu o seu núncia (fls).
autor, inegável é que usou êle o documen- Custas na forma da lei.
to, dolosamente. Assim, não escapa à
punição pelo crime do art. 304 do Código São Paulo, 5 de setembro de 1960 -
Penal. Trata-se, sem dúvida, de falsifi- Cantidiano de Almeida, Presidente com
cação de um documento público e não de voto - E. Custódio da Silveira, Relator
simples atestação falsa. - J. B. de Arruc!a Sampaio.

PREFEITO - CASSAÇAO DE MANDATO - "IMPEACHMENT" -


COMPET~NCIA DA CAMARA DE VEREADORES - CONTRÔ-
LE JURISDICIONAL
- Compete à Câmara de Vereadores a decretação do
"impeachment" do Prefeito.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SAO PAULO
Representante: Câmara Municipal de Volta Redonda
Representação n.o 6.328 - Relator: Sr. Desembargador
F'!:iw:IRA PINTo
ACÓRDÃO de Volta Redonda, representante a Câ-
mara Municipal, representado o Prefeito
Vistos, relatados e discutidos êstes autos César Cândido Lemos: Acordam, por
da representação que tomou o n.o 6.328, maioria de votos, 00 Juizes que compõem
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o Tribunal de Justiça do Estado do Rio, eial dos exames de contas da Prefeitura
em Câmaras Reunidas, em declarar o Tri- de Volta Redonda, referentes ao período
bunal incompetente para conhecer da de fevereiro a junho de 1959, apresentado
matéria, em face do que decidiu o Pre- à Comissão pelos já mencionados técni-
tório Excelso, ao proclamar a inconsti- cos do Departamento das Municipali-
tucionalidade de dispositivos similimos e, dades.
reconhecendo a inaplicabilidade do § 10
do art. 70 da Lei estadual n.a 109, de 16 Instruem o relatório o Orçamento de
de fevereiro de 1948, com a modificação 1959 .e os processos de despesa, n.a 332,
que lhe trouxe a Lei n.a 1.750, de 11 referente aos serviços com a decoração
de novembro de 1952, determinar a de- e ornamentação da cidade por ocasiã'J
volução à Câmara Municipal de Volta Re- dos festejos carnavalescos, na importân-
donda, competente para o processo do cia de Cr$ 334.000,00; ns. 318, 319, 320,
impeachment, em face do disposto na pri- 321, 322, 323 e 325, respectivamente, re-
meira parte do parágrafo único do art. ferentes a pagamentos ao Quinteto Ta-
4.a da Lei n.a 3.528, de 3 de janeiro de pajós, de Cr$ 10.000,00, à Cinematográfica
1959. São Luis S. A., de Cr$ 25.000,00, à Rádio
Sul Fluminense Ltda., de Cr$ 35.000,00,
Cinco vereadores que constituíam a a Olivinha Carvalho, de Cr$ 5.000,00, a
Comissão de Fiscalização Financeira, Siqueira (artista da Rádio Nacional), de
criada por fôrça da Resolução Legislativa Cr$ 10.000,00, a Otávio Henrique de Oli-
n.a 21, de 22 de dezembro de 1959, em veira, de Cr$ 20.000,00, a Jorge Veiga, de
21 de janeiro último, se dirigiram ao Cr$ 15.000,00, pagamentos êsses relativos
Presidente da Câmara Municipal de Volta à participação em um "show" à filma-
Redonda, denunciando o Prefeito César gem e à transmissão das solenidades de
Cândido Lemos, explicando que a refe- posse do Sr. Prefeito; processo n.a 475,
rida Comissão, pelos técnicos do Depar- referente a pagamento da importância
tamento das Municipalidades, Contadores de Cr$ 25.500,00, a José de Paiva Laffitta
Pedro da Silva Pontes e Edson Leite e outro, por serviços prestados no mês
Torreão da Cunha e Oficial Administra- de março; processo n.a 444, pagamento
tivo, Francisco Ribeiro da Silva, na veri- de Cr$ 9.900,00, por períodos de férias
ficação das contas da execução orçamen- correspondentes a 57/58, ao ex-funcio-
tária de 1959, relativa à gestão do atual nário José Carlos da Silva Martins; pro-
Prefeito, chegara à conclusão, pelo exame cesso n.a 672, referente a salário, no mês
das de fevereiro e junho, da existência de maio, na importância de Cr$ 23.600,00,
de irregularidades, desmandos e des- a José Manoel da Silva e Ormar do Sa-
respeitos flagrantes às leis que discipli- cramento.
nam a despesa pública, fatos de tanta
gravidade que levavam os seus compo- Foram tomadas declarações de Arqui-
nentes a admitir haver o Prefeito incor- medes Izaías, Geraldo Juvenil da Silva,
rido em crimes previstos no art. 1.a da João Diniz de Arruda, Antônio Francis-
Lei n.a 3.528, de 3 de janeiro de 1959. co de Oliveira e Ionice Afonso Lacerda.
Em 21 de janeiro do ano em curso, pre-
Enumeraram os cinco edis as irregu- sente a referida Comissão em plenário,
laridades encontradas e pediram Que. nos lida a denúncia, nomeou o Presidente da
têrmos do art. 70, e seus parágrafos, da Câmara. outra, composta de três verea-
Lei Orgânica das MuniciDalidades. fôsse dores. Que logo se reuniu e deliberou de-
processada a denúncia oferecida. signar o dia 25 para que fôsse ouvido o
Prefeito Municipal.
O pedido encontra-se datado de 21 de
janeiro do ano em curso e V"i" acarn- Essa Comissão de Inquérito, no dia 23
llanhado de certidões e do ret.~to llIU"- de janeiro, nomeou o Contador do De-
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partamento das Municipalidades para seu Lei federal n.O 3.528, arts. 1.0, n.o 3 (art.
assessor contabilista e três assesôres ju- 315 do Código Penal), 12, segunda parte,
rídicos. 14 e 15.
Em resposta ao convite que lhe fêz a o parecer está datado de 2 de fevereiro
Comissão de Inquérito, comprometeu-se e, convocada a Câmara, em reunião ex-
o Sr. Prefeito a comparecer e deu longa traordinária, o aprovou, por unanimidade
resposta à denúncia oferecida. de votos.
Em outro ofício, se dirigiu à Comissão Ficou consignado na ata que o procura-
Legislativa criada pela Resolução n.o 21 dor do Prefeito, presente aos trabalhos.
e arrolou testemunhas, tendo pedido fôs- havia interposto recurso para a Assem-
sem requisitadas ao Juizo de Direito da bléia Legislativa, com fundamento no art.
Comarca certidões proferidas em proces- 104 da Constituição estadual.
sos trabalhistas.
Remetido o processo, foram juntas, a
Além da resposta de fls., encontram-se requerimento da defesa, listas contendo
no processos as declarações prestadas pelo assinaturas favoráveis ao Prefeito, mas a
Prefeito César Lemos (fls.), tendo o Che- Comissão de Justiça da Assembléia Le-
fe do Executivo comparecido acompanha- gislativa, relator o Deputado A. Macedo,
do de quatro ilustres advogados. deliberou não conhecer do recurso inter-
No dia 27, foram ouvidas duas das tes- posto, em face do que resolveu o Supre-
temunhas arroladas pelo Prefeito Muni- mo Tribunal Federal, na Representação
cipal e um dos advogados por êle cons- n.o 314, decidida em 23 de setembro de
tituído desistiu das restantes. A Comis- 1957.
são não atendeu ao pedido de requisição Aprovado o parecer, devolvido o pro-
de certidões ao Juizo local, por entender cesso à Câmara Municipal de Barra Man-
tratar-se de matéria restrita à defesa, sa, foi o mesmo encaminhado a êste Tri-
sendo do interêsse do acusado as apre- bunal.
sentar, caso julgasse necessário.
Naquele mesmo dia, assinou-se ao Pre- Em seguida à distribuição, a mesma
feito prazo de cinco dias para apresen- Câmara, por intermédio de procurador
tação da defesa final, facultando-se-lhe que constituiu, pediu a juntada da Re-
exame do processo, que se encontraria à solução que, por 11 votos, em 29 de março,
sua disposição, na Sala das Comissões, afastou das suas funções o Prefeito César
entre 14 e 16 horas. Cândido Lemos e determinou as assumis-
se o Vice-Prefeito, bem como de certidão
o Prefeito apresentou razões finais em da ata da sua 7.8 sessão ordinária, em
sua defesa, trabalho subscrito pelo Dr. que foi a proposta aprovada pela unani-
Jaime de Melo Couto, afirmando tra- midade dos vereadores presentes. O Vice-
tar-se de procedimento agitado pelo fra- -Prefeito, naquele mesmo dia, prestou o
gor das paixões políticas em que lhe compromisso e assumiu o exercício.
foram recusadas provas por êle requeri-
das e violados prazos previstos em lei. Acompanhando aquêles documentos,
vieram várias outras certidões, inclusive
Encontra-se a fls. o parecer da Co- comunicação feita pelo Prefeito .em exer-
missão de Inquérito que concluí por um cício, da apuração de um alcance na im-
requerimento para que fôsse pelo Pre- portância de Cr$ 2.350.549,40, tendo sido
sidente convocada a Câmara Municipal, decretada a prisão administrativa, por
a fim de ser o mesmo votado, julgada sessenta dias, do Tesoureiro Municipal,
procedente a denúncia, reconhecido o José Maia Amaral, responsável pelo des-
Prefeito incurso nos crimes previstos na falque.
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Os autos com vista ao Exmo. Sr. Des. para conhecer da legalidade ou não do
Procurador-Geral do Estado, pediu o ilus- proced!mento dos vereadores, não lhe ca-
tre advogado constituido pelo Prefeito bendo apenas entrar na indagação da
afastado, fôsse a êles junto um protesto justiça ou injustiça do que foi praticado,
judicial contra arrombamento de cofre, restringindo-se a sua atuação à aprecia-
sem observância das formalidades legais, ção dos aspectos formais do processo, ao
sem a intimação a êle e ao tesoureiro simples exame da legalidade do seu pro-
para assistirem à conferência de valores cedimento.
e documentos.
Explicou terem sido observadas, pon-
O Des. Procurador-Geral do Estado, em tualmente, as prescrições estabelecidas no
erudito parecer, referiu-se à natureza 10 no art. 70 da Lei n.O 109, com as modifi-
impeachment, processo eminentemente cações introduzidas pela Lei n.O 1.750, de
político, em que se profere um juizo po- 11 de novembro de 1952, pois instituiu-se
litico, consistente em tirar o poder àquele comissão de 3 membros, abriu-se vista ao
que dêle faz mau uso e impedir que o Prefeito, que, além da defesa escrita, pres-
possua para o futuro. tou depoimentos perante a Comissão; ela-
Viu, por se tratar de processo politico- borou-se, a final, o parecer, à cuja vista
-administrativo, competência do Legisla- decidiu a Câmara dos Vereadores, con-
dor estadual para discipliná-lo, desde que vertida, então, em tribunal político.
o não tornasse conflitante com as nor-
mas fundamentais da Lei Magna. Passou, em seguida, a destruir possível
dúvida quanto à ausência de denúncia.
Resumindo magistrais votos proferidos escrita, apresentada por terceiros, con-
no Pretório Excelso, sustentou só se tor- forme prevê o art. 70, caput, e o seu § 1.0
nar aplicável aos Estados a lei federal, Não se podia, porém, negar à Câmara dos
quando não disponham êsses de lei dis- Vereador, como órgão fiscalizador do
ciplinadora da matéria, o que não acon- Executivo, tanto que a ela incumbe, além
tece no Estado do Rio, onde temos o de elaborar o Orçamento, regular a ar-
processo de impeachment, a que se devem recadação e a aplicação das rendas mu-
sujeitar o Governador e, com maior razão, nicipais (art. 39, ns. I e TI), bem como
os Prefeitos Municipais, subordinados, julgar as contas do Prefeito (art. 39,
respectivamente, às disposições contidas § 9.°), a instauração do processo de
na Constituição do Estado, e às do art. 70 impeachment, desde que tenha conhe-
da Lei n.o 109, de 16 de fevereiro de 1948. cimento da prática de crime de res-
Tanto mais de se acolher êsse entendi- ponsabilidade, por parte do Prefeito.
mento, quando a própria Lei federal n.o Se a qualquer cidadão ou a dire-
3.528, de 3 de janeiro de 1959, em seu tório de partido político não se recusa
art. 4.°, delimita o seu caráter supletivo, êsse poder de iniciativa, com maior razão
prescrevendo a sua aplicabilidade apenas não se poderá negá-lo ao organismo po-
aos Estados de legislação especifica ine- lítico que exerce, dentro de certos li-
xistente. mites, o contrOle dos atos do Prefeito.
Agiram, assim, os vereadores que forma-
Defendeu a atitude da Assembléia Le- ram a primeira Comissão, como delegados
gislativa, recusando-se a conhecer do re- da Câmara, apuraram a procedência d()$
curso para ela interposto, em face da de- fatos e deram dos mesmos conhecimenoo
cisão do Supremo Tribunal Federal, que ao organismo a que pertenciam. Instau-
deu pela inconstitucionalidade do art. 104
rado o processo, não participaram da Co-
da Constituição fluminense.
missão de Inquérito, designada para pro-
Prosseguindo, esforçou-se o eminente cessar o impeachment, tendo mais tarde,
Chefe do Ministério Público por demons. como vereadores, votado em ato decisório
trar ª ç()mpe~Qçja do Poder Judiciário da Câmara que integram.
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Concluiu com pedir o reconhecimento em memOr18.lS distribuídos, o !provecto
da valillade do processo, considerando-se, procurador do Prefeito afastado do exer-
conseqüentemente, cassado o mandato do cício do cargo, nos quais deu o processe
Prefeito Municipal de Volta Redonda, como visceralmente nulo, por lhe faltar
que, pelo menos, confessou a prática de prazo para a defesa, visto como o § 6.D
irregularidades. do art. 70 da Lei estadual n.o 109 declara
que, inicialmente, ao Prefeito será conce-
dido o prazo de 10 dias para defesa e
Como nem sempre existe, no crime de especificação de provas; por não ter sido
responsabilidade, completa coincidência observado, na votação final, o mínimo
entre êle e os fatos típicos catalogados dos dois-terços dos componentes da Câ-
na lei penal, não provados êsses, exaurir- mara, pois sendo constituída de 13 ve-
-se-ia o impeachment, com a simples readores a de Volta Redonda, o quorum
destituição do acusado do cargo por êle de 2/3 seria de 9 vereadores, não sendo
ocupado. Se, porém, evidenciada a exis- possível se incluir entre os onze votante'!
tência de crime, cassada a investidura, aquêles cinco que ofereceram a denúncia.
seria entregue à Justiça comum, para Por fim, com apoio em ensinamentos de
responder pelos delitos capitulados na lei Aurelino Leal, Pontes de Miranda, ro-
própria. bustecidos por magistral voto do Min.
Reconheceu que de tôdas as imputações, Hahnemann Guimarães, negou a possi-
a que avulta é a que diz respeito ao es- bilidade de se movimentar o processo do
tôrno de verbas, vedado pela Constitui· impeachment contra os Prefeitos, sendo,
ção federal (art. 75) e expressamente assim de todo inconstitucional o art. 70
classificado como crime, não só no Có- da Lei estadual n.o 109.
digo Penal (art. 315), como também na
Lei n.o 3.528 (art. 1.0, n.o 14) e, generi- Fêz também o nobre causídico consi-
camente, na Lei Orgânica das Munici- derações sôbre o mérito no sentido de
palidades (art. 69, h), quando prevê, convencer da inexistência de crime, pois
como delito, os atentados à Lei Orça- foram todos os itens da denúncia escla-
mentária. recidos pelo acusado, que demonstrou
não ter feito um único pagamento, sem
O processo em pauta, como houvesse que houvesse recorrido à verba própria,
sido junta, por linha, petição acompa- como evidenciou nada haver pago, sem
nhada de ordens de pagamento expedidas autorização legal.
pelo Prefeito ao Tesoureiro, cortou-se a
linha, por deliberação dêste Tribunal, que Não experimentamos a menor dúvida
aceitou proposta do Relator para qua em concordar com o preclaro Des. Pro-
fôssem ouvidos o digno procurador do curador-Geral do Estado, quando no seu
Prefeito acusado e o Des. Procurador-Ge- tão erudito parecer nos esclarece sôbre a
ral do Estado. Negou o primeiro qualquer natureza do impeachment, demonstrando
valor a tais documentos, visivelmente de tratar-se de um processo eminentemente
caráter particular, nada tendo a ver com politico, em que, conforme preleciona
o que se relaciona na peça tida como story, se profere um juizo político, con-
denúncia, ao passo que o ilustre Chefe sistente em retirar o poder daquele que
do Ministério Público os teve como su- do mesmo fêz mau uso e impedir que
ficientes para, com eloqüência, ilustrar dêle disponha para o futuro e, por se
a maneira por que o Prefeito adminis- tratar de um processo politico-adminis-
trava o município, manejando as verbas trativo, reconheceu competência ao legis-
através de meios inadequados. lador estadual para discipliná-Io, desde
que não se ponha em conflito com O!l
Para concluir o relatório, torna-se in- princípios fundamentais da Constituição
dispensável referência ao que &\lStentou, federal.
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Trouxe o eminente Chefe do Ministé- Por isso, se em certas legislações es-
rio Público, para os autos, ensinamentos trangeiras lavra discórdia sôbre a natu-
do doutíssimo Hely Lopes Meireles, ma- reza dêsse instituto de aspecto político,
gistrado paulista, que, desde quando em criminal e civil, entre nós não persiste
Ituverava pontificou, mimoseou as letras dúvida sôbre o seu caráter eminentemente
jurídicas pátrias com a preciosa contri- político.
buição do seu Direito Municipal Brasi-
De sua natureza política (e não crimi-
leiro, onde expôs tratar-se de instituto
nal ou civil), é que decorre a possibi-
originário da Inglaterra, de onde se
lidade de ser instituído e regulamentado
transportou para os Estados Unidos da
também pelos Estados-membros da Fe-
América, definido na Seção IV, art. 2.,
deração, sem ofensa à. restrição do art.
de sua Constituição. Difere, porém, o im- 5.°, n.o XV, a, da Constituição federal no
peachment inglês fundamentalmente do
que tange com os seus governadores e
americano, onde foi o nosso Direito Cons- prefeitos municipais.
titucional procurar o modêlo. Na Ingla-
terra, o processo tem o seu tríplice con- Prosseguindo, o mesmo culto Juiz re-
teúdo penal, civil e político, ao passo que feriu-se às lições de Temfstocles Brandão
nas nações americanas só tem alcance Cavalcânti (A Constituição Federal Co-
político, ficando relegada à. Justiça co- mentada, 1948, pâgs. 263 e segs.), de Car-
mum a apuração da responsabilidade pe- los Maximiliano <Comentários à Consti-
nal e civil em que o acusado incidir. Na tuição Brasileira, 4.& ed., voI. II/392), sem
sístemática do nosso Direito, são pala- se esquecer da suma autoridade de Rui.
vras do douto Juiz paulista, constantes
Amparou a sua douta de3isão em acór-
de decisão que mereceu reprodução no
dão do Pretório Excelso, onde no mesmo
voI. 182, às págs. 250 a 259, da Revista sentido se firmou a jurisprudência, pelos
dos Tribunais, o impeachment apenas votos vencedores de Pedro Lessa e de
despoja o indiciado das prerrogativas do Enéas Galvão (acórdãos na Revista do
cargo que ocupa, para submetê-lo a jul- Supremo Tribunal Federal, vols. 19/11 e
gamento perante a Justiça comum, como 45/13), jurisprudência mantida no julga-
simples cidadão. mento da Representação n.o 96, que deu
pela inconstitucionalidade de dispositivos
No dizer dos constitucionalistas ope- da Constituição paulista que cuidavam
ra-se a "desqualificação" do acusado, ni- do impeachment do Governador, apenas
velado ao comum dos homens, para que porque aberrantes da norma federal.
a pena que lhe fôr imposta não resvale
no Poder de que era detentor. A única Na sentença do culto Juiz de Ituverava,
restrição que tal processo acarreta, é de unânimemente mantida pela Sexta Câ-
natureza política, e consiste na inabili- mara Civil do Tribunal de Justiça, foi
tação temporária para o exercício de transcrita conclusão de voto do insigne
qualquer outra função pública. Distin- Min. Orosimbo Nonato: "não chega a
gue-se, assim, a questão política (im- concluir que, por ser da competência do
peachment) , da questão de Direito co- Poder Federal legislar sôbre Direito adje-
mum (indictment). ~ o sistema tradi- tivo e substantivo, sôbre crime, Jiôbre
cional do nosso Direito, instituido pela pena, não possa a Constituição estadual
Constituição republicana de 1891 (art. 53) dispor quanto ao impeachment. Trata-se,
e regulamentado pelo Decreto n.o 27, de sem dúvida, de imposição de pena; mas
janeiro de 1892; mantido pela Consti- de pena de caráter político. Cuida-se do
tuição federal de 1934 (art. 59, § 7.°), exercício de função punitiva, mas de con-
conservado na Carta outorgada de 1937 teúdo esencialmente político. Se não pode
(art. 86, § 1.°), vigorante na Constituição o legislador constituinte estadual lançar
atual (art. 88, parágrafo único). ao olvido as regras fundamentais que se
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delineiam na Constituição federal, cabe- pio; a probidade da administração; a lei
-lhe, todavia, o uso dêsse remédio, cujo orçamentária; a guarda e o legal em-
caráter politico é de nitido relêvo." prêgo dos dinheiros públicos; o cumpri-
mento das decisões judiciárias.
Não menos categóricos foram os votos
dos Mins. Lafayette de Andrada e Edgar Sofreu o seu capitulo VIII, que com-
Costa, merecendo destaque a seguinte preendia os referidos artigos, modifica-
parte do segundo: "Processo, como ficou ções pela Lei n.O 1.750, de 11 de feve-
dito, de origem constitucional e de natu- reito de 1952, ao incluir entre os seus
reza politica, dizendo respeito ao fun- dispositivos que na interpretação dos cri-
cionamento regular dos podêres gover- mes de responsabilidade, ter-se-iam em
namentais' licito é, sem dúvida, aos Es- conta as definições constantes da lei fe-
tados-membros adotá-lo e inscrevê-lo em deral n.O 1.079, de 10 de abril de 1950, ou
suas Constituições, observados, porém, de outra que a modifique ou substitua,
aquêles principios minimos e regras bá- e nos §§ 9.0 e 10, assim dispôs: "En-
sicas que o informam no modêlo federal, cerrada a discussão, nos têrmos do Re-
estatuídos como indispensáveis e asse- gimento Interno da Câmara, será pro-
guradores do necessário equillbrio do cessada a votação, sem encaminhamento
principiO de independência e harmonia desta e sem que se permitam quaisquer
entre aquêles podêres, instituídos pela questões de ordem. A votação será nomi-
mesma Constituição, como princIpIO nal. O Presidente efetivo da Câmara não
maior" (Arquivo Judiciário, vol. 85/130). votará, ainda que passe a presidência dos
trabalhos a outro. Aprovado por dois-ter-
o saudoso Min. Castro Nunes, votando ços da Câmara o parecer que concluir
na mesma representação, insistiu no es-
pela existência de crime de responsabi-
clarecer não ser possivel argumentar com
lidade, será o processo, com os documen-
as regras do Direito Penal e Processual
tos que o instruirem e depois de cinco
em se tratando de uma instituição emi-
dias, remetido ao Presidente do Tribunal
nentemente politica, por sua natureza e
de Justiça, para o julgamento, observado
fins, e nem se admitir negar aos Estados
o que dispõe o Regimento Interno do Tri-
o impeachment, sob pena de se lhes mu-
bunal, salvo se, naquele prazo, fôr inter-
tilar a autonomia politica e reduzir o seu
posto recurso para a Assembléia Legisla-
Poder Legislativo (Soluções de Direito
tiva com fundamento no art. 104 da Cons-
Aplicado, págs. 469 e 473).
tituição do Estado. O recurso será in-
terposto por petição dirigida ao Presi-
No Estado do Rio, a CoIllltituição de 20
de junho de 1947 dispôs no seu art. 100~ dente da Câmara, que enviará o processo
"A Lei Orgânica das Municipalidades de- à Assembléia Legislativa, dentro de 48
finirá os crimes de responsabilidade dos horas, com as informações que lhe pa-
Prefeitos e regulará o respectivo pro- recerem convenientes; se a comissão nã')
cesso." oferecer o seu parecer no prazo previsto
no § 6.0 , tanto o Prefeito como o de-
Em 16 de fevereiro de 1948 foi pu- nunciante poderão solicitar à Assembléia
blicada a Lei Orgânica das Municipali- LegiSlativa que delibere sôbre a denúncia
dades, que nos seus arts. 68 a 70 cuidou mediante parecer do Departamento das
da responsabilidade dos Prefeitos, in- Municipalidades, assinado à Câmara Mu-
cluindo entre os crimes de responsabi- nicipal prazo improrrogável de 20 dias
lidade - atentarem contra a existência para as informações ou alegações que en-
da União, do Estado ou do Municipio; /) tenda de oferecer. A Assembléia se ma-
livre exercicio dos podêres constitucionais nifestará no prazo de 60 dias, a contar
e municipais, particularmente; o eXEr- do oferecimento do parecer emitido pelo
cicio dos direitos políticos, individuais e Departamento das Municipalidades, sob
sociais; a segurança interna do Munici- a responsabilidade dos culpados, pela não
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observância do que é disposto neste pa- Judiciário. Essa noção, êsse conceito que
rágrafo; negado provimento ao recurso ressai do texto constitucional alagoano.
previsto no § lO, ou não tendo sido êle está ao arrepio não só da índole mesma
interposto, o Prefeito ficará automàtica- do instituto, senão, do modêlo fixado e
mente afastado de suas funções, com di- Il"egulado, irremovivel, pelo constituinte
reito apenas à metade do subsídio; não federal. Seria possível, sem dúvida, a um
sendo concluído pelo Tribunal de Justiça determinado país, não atender à feição
o julgamento no prazo máximo de 30 estrita do instituto e ainda desconsiderar
dias, cessará o afastamento provisório do a fonte de que houvesse provindo, se bem
Prefeito." que, geralmente, êsses velhos institutos
devem guardar, através da sua evolução,
~stes dispositivos legais são os que se os traços primordiais que assinalaram
encontram em vigor, conforme se verifi- o seu nascimento e revelaram a sua apli-
cará da publicação da Imprensa Oficial cação em outros países. Mas, se seria
que contém a Lei n.o 109, atualizada, até possível ao constituinte brasileiro criar
junho de 1955. um impeachment especial, um modêlo es-
pecial de impeachment, o mesmo não pas-
Verifica-se haver o legislador estadual sa com o constituinte estadual, que não
atribuído a decisão final do impeachment, pode se alongar, no caso, dos sulcos en-
"o julgamento ao Tribunal de Justiça, talhados pela Lei Maior do País."
observado o que dispõe o Regimento In-
terno do Tribunal", mas essa parte do O Min. Edgar Costa deu também como
dispositivo legal não pode prevalecer, em motivo do seu voto pela inconstitucio-
face do que decidiu o Pretório Excelso, nalidade, o fato de haver a mesma Cons-
ao julgar a Representação n.o 111, dando tituição, no seu art. 57, estabelecido como
pela inconstitucionalidade dos arts. 57, Tribunal de julgamento o Tribunal de
§ 2.°, e 58, parágrafo único, da Consti- Justiça, "contra, aliás, o que está de-
tuição de Alagoas, que entregou o jul- cidido por êste Supremo Tribunal, no
gamento do Governador ao Tribunal de sentido de que o Juizo de impeachment,
Justiça do Estado, depois que a Assem- é Juizo político", referindo-se o Min.
bléia Legislativa, pelo voto da maioria Hahnemann Guimarães às razões que deu
absoluta dos seus membros, declarasse o Federalist para que não se confiasse
procedente a acusação. à Côrte Suprema o julgamento dêsses cri-
mes, em que a pena se limita à destitui-
Merecem transcrição as seguintes pa- ção do cargo e à desqualificação do fun-
lavras do insigne Min. Orosimbo N<lnato: cionário.
"Entendo que o impeachment, sendo pro-
cesso eminentemente político (juizo po- O Min. Laudo de Camargo, igualmente,
lítico), pOde ser disciplinado pelo Poder frisou que, "sendo o impeachment, como
Constituinte estadual, porque não se tra- é, um instituto político-criminal, bem de
ta, aqui, de punir, criminalmente, alguém, ver que, nos julgamentos, não dispensa
o que seria função legislativa, mas de a instância política" (Revista Forense,
declarar incompatibilidades, desqualifi- vaI. 126, págs. 79 a 81).
cações, destituições, tõdas de ordem polí·
tica, admissíveis, assim, no plano federal, Declarados nulos, em grande parte, dis-
como no estadual. Apenas, impõe-se ao positivos das Constituições de alguns Es-
legislador estadual constituinte o dever tados, sôbre a responsabilidade dos seus
de não deixar de se submeter ao molde Governadores, e agitada a dúvida quanto
da lei federal. ~sse m<llde é que foi que- à poSSibilidade de aplicação do im-
brado pelo constituinte alagoano, dando peachment aos Prefeitos, apressou-se o
ao impeachment feição de processo penal, legislador federal em definir os crimes
julgado, sobretudo, pelos órgãos do Poder de responsabilidade e regular o processo
-189 -
de julgamento do Presidente da Repú- tadual n.o 1.750), que nada contém com
blica e Ministros de Estado, dos Minis- referência a tão importante matéria, cer-
tros do Supremo Tribunal Federal, d·) tamente, pela dificuldade que encontrou
Procurador-Geral da República, dos Go- o Tribunal Pleno em aceitar tão delicada
vernadores e Secretários de Estado, pela atribuição, sempre conferida a tribunais
Lei n.O 1.079, de 10 de abril de 1950 e mistos ou às próprias Assembléias Le-
pela Lei n.O 3.528, de 3 de janeiro de gislativas, impende-nos obediência ao art.
1959, dos Prefeitos Municipais, aos quais 4.° da Lei n.o 3.528, assim redigido: "Nos
seriam aplicadas no que coubessem, as Estados onde as Constituições ou as leis
disposições da Lei n.O 1.079. orgânicas não determinarem o processo
nos crimes de responsabilidade dos pre-
Incluiu a Lei n.O 3.528, entre outros cri- feitos, observar-se-ão, para os respecti-
mes de responsabilidade dos prefeitos vos atos, no que lhe fOr aplicável e en-
municipais: incidir nas infrações pre- quanto perdurar a omissão do legislador
vistas nos arts. 312 e 327 do Código Pe- competente, as normas estabelecidas na
nal; exceder ou transportar, sem auto- Lei n.O 1.079, de 19 de abril de 1950.
rização da Câmara de Vereadores, as Parágrafo único. Quando não dispuser
verbas do orçamento, bem como realizar de outra forma a legislação estadual, o
o seu estôrno ou infringir disposição da julgamento incumbirá à Câmara dos Ve-
mesma lei; ordenar despesas não auto- readores, que só poderá proferir sentença
rizadas por lei ou sem observância das condenatória pelo voto de dois-terços dos
suas prescrições, não se distanciando, seus membros; e da sentença caberá re-
assim, muito do que ficou constando da curso de ofício, com efeito suspensivo,
nossa Lei Orgânica dos Municípios, que para a Assembléia Legislativa."
declarou crimes de responsabilidade, tam-
bém, os atos que atentassem contra Il Em face do que ficou expresso, inapli-
probidade da Administração e a lei orça- cável sendo o dispositivo da lei estadual,
mentária (ns. V e VI do art. 69 da Lei que atribuiu ao Tribunal de Justiça a
n.O 109). segunda parte do processo, o julgamento
do impeachment, visto haver o Pretório
Inaplicável o dispositivo da Lei esta- Excelso, em obediência ao disposto no
dual n.O 1.750, de 11 de fevereiro de 1950, parágrafo único do art. 8.° da Constitui-
que, embora modificando dispositivos da ção federal, declarado inconstituicional
Lei nP 100, manteve a competência do dispositivo similimo, é de se reconhecer,
Tribunal de Justiça para julgamento dos enquanto o legislador estadual não dis-
crimes de responsabilidade atribuidos aos puser de modo diverso, competente a Câ-
Prefeitos, porque o Supremo Tribunal Fe- mara dos Vereadores para julgamento do
deral já declarou inconstitucional dele- Prefeito em crime de responsabilidade
garem os legislativos estaduais aos Tri- que permitiu a movimentação do im-
bunais de Justiça a decisão sObre im- peachment.
peachment, Juizo politico, que, ouvido o
grande João Barbalho, deve anteceder ao E não se argumente com o fato da
pronunciamento da Justiça comum, que inexistência nos municípios do sistema
só age, depois que alguns altos servidores bicameral, porque é, ainda, Castro Nunes
são declarados em culpa e postos fora quem nos adverte: "Se os Estados não
do cargo. estão obrigados ao sistema bicameral, é
forçoso admitir uma dessas soluções: ou
Inaplicável a nossa lei estadual, mesmo a própria Assembléia será <> juiz da sen-
porque, para o julgamento se deveri~ tença, depois de julgar procedente a
observar o que dispusesse o Regimento acusação (solução que não será inconsti-
Interno do Tribunal (§ 10 do art. 70, com tucional, ad instar do que se pratica nos
a modificação que lhe trouxe a Lei es- julgamentos origináriOS em que o recebl-
-190 -
mento da denúncia, a instrução, a pro- com violação da garantia implícita no
núncia e o julgamento final pertencem ao regime que é a preexistência do órgão
mesmo colégio processante e judicante); julgador na sua composição.
ou o será uma Côrte especial, composta
de magistrados superiores e deputados, Por isso, preferimos ficar, rigorosamen-
depois de julgada procedente a acusação te, dentro da solução estabelecida pelo
pela Assembléia, solução que também legislador federal, que, na Lei n.O 3.528,
não me parece inconstitucional, e já era atribuiu à Câmara dos Vereadores o jul-
praticada em vários Estados sob as ins- gamento dos Prefeitos nos crimes de res-
tituições de 91, (Constituições Estaduais, ponsabilidade, só podendo proferir sen-
1921, pág. 126), conforme tive ocasião de tença condenatória pelo voto de dois-ter-
examinar. O essencial é que no meca- ços dos seus membros.
nismo dos podêres os Estados adotem o
processo político de responsabilidade fun- A preferência que damos à lei federal,
cional, que é o impeachment (Soluções de que provê para caso de ausência da es-
tadual, encontra o melhor apoio no eru-
Direito Aplicado, pág. 472).
dito voto do Min. Luis GalIotti, a final
O relator muito hesitou antes de pre- predominante no julgamento do recurso
terir a solução decorrente da aplicação da de mandado de segurança n.O 4.928:
Lei n.O 3.528, visto considerar mais ga- "Cumpre notar que a lei federal, no
rantidor o julgamento final por um tri- caso, tem aplicação onde a lei estadual
bunal misto com a composição aproxi- ficou e continua omissa. Assim, sem a
mada do instituido no § 3.° do art. 78 lei federal, resultaria a irresponsabilida-
da Lei n.o 1.079 e que seria o criado pelo de do Governador. E nada é mais essen-
art. 42 da Constituição do Estado do Rio. cial no nosso regime, já o disse, do qu~
serem responsáveis as autoridades. A
Acontece, porém, que, além do consti- Constituição aSiegura a independência
tuinte nosso não haver estabelecido o dos POdêres, inclusive, é óbvio, do Legis-
mesmo número de membros do Ll::gis- lativo e do Judiciário. E inclui expres-
lativo e do Judiciário para a formação samente êsse princípio entre os que o
do Tribunal Especial, ainda determinou Estado tem de observar, sob pena de in-
que os componentes viriam, os do Le- tervenção federal (art. 7.°, n.o Vil, b), in-
gislativo, eleitos pela Assembléia, sendo tervenção que será decretada por lei fe-
apenas escolhidos, por sorteio, os desem- deral (art. 8.°). No art. 89 n.O lI, um
bargadores. dos crimes de responsabilidade do Chefe
Com êsse modo de constituição não do Poder Executivo especialmente pre-
concordou o Supremo Tribunal Federal vistos é o de atentar contra o livre exer-
no recurso de mandado de segurança n.o cício do Poder Legislativo e do Poder
4.928, terminando por, valendo-se do po- Judiciário. Logo, se as Constituições es-
der de oonstrução, sempre reconhecido taduais, como a de Alagoas, legislaram
à. Côrte Suprema, nos Estados Unidos, inconstitucionalmente sôbre essa maté-
determinar fôsse feita, por sorteio, a es- ria e foram nessa parte fulminadas por
colha. dos Deputados, conforme se esta- decisão do Supremo Tribunal Federal e
tuira na própria lei para a escolha dos se tais normas não foram devidamente
outros membros do Tribunal. substituídas, como dar pela inconstitu-
cionalidade da lei federal que supre a
A preferência pelo Tribunal que julga omlssao para evitar que num ou mais
o Cklvernador nos processos de impea- Estados da Federação, deixe de vigorar
chment para a decisão final nos dos Pre- aquela responsabilidade exigida pela
feitos, seria perfeitamente admissivel, Constituição em principio fundamental
mas contra a solução ficaria a bradar que os Estados devem obedecer, par:l
tratar-se de fixar competência, e mais, evitar que, num ou vários Estados,
-191
deixe de existir efetivamente aquela Como vimos da exposição que venho de
peça essencial ao nosso sistema de fazer, a legislação estadual, no que toca
freios e contrapesos, que é I) impeach- aos crimes de responsabilidade dos Pre-
ment? Essa lei federal, a meu ver, longe feitos, contraria frontalmente o mecanis-
de violar a Constituição federal, resguarda mo político do julgamento do impeach-
e assegura o que ela determina num dos ment, atribuindo competência para tan-
seus preceitos cardiais" (Revista de Di_ to ao Tribunal de Justiça, com a agra-
reito Administrativo, voI. 52, págs. 291 vante de haver determinado que fizesse
e 292). constar do seu Regimento Interno normas
para êsse processo de julgamento, exor-
Passamos, para ilustrar as nossas con- bitãncia manifesta, porque o direito cons-
siderações, a transcrever o que ouvimos titucional conferido aos Tribunais, de ela-
do eminente Des. Braz Felício Panza : borar seu Regimento, limita com a eco-
"Cremos haver deixado bastante clara nomia de sua organização, vida interna
a questão constitucional trazida a de- própria, legislando supletivamente sôbre
bate, em tôrno das leis locais, assim com jUlgamento em segunda instãncia, na for-
a palavra dos doutores, como do Colen- ma das leis processuais vigentes.
do Supremo Tribunal Federal, que, por
vêzes, se pronunciou sôbre a matéria, com Tal legislação é inaceitável, como se
absoluta unidade de interpretação. não existisse.

Ao mesmo resultado se chegaria, entre- Daí a inteira aplicação do disposto na


tanto, pondo de parte a questão extre- parte final do parágrafo único do art.
ma do aspecto constitucional, se atentar- 4.° da citada Lei n.o 3.528: o veredicto
mos em que, na espécie, existe tão-só con- compete à Câmara dos Vereadores. Esta
flito e incomp~ibilidade ,entre textos Lei n.o 3.528, de 1959, é lei federal, pos-
que disputam a primazia: a Lei Orgâ- terior à lei estadual, lei orgânica das mu-
nica das Municipalidades e a Lei federal nicipalidades.
n.o 3.528, de janeiro de 1959. Ora, quando lei federal posterior re-
Ora, é princípio conhecido e apregoado gula totalmente assunto tratado por lei
pelos doutos, que, quando se "verifica estadual, é de notar que o direito fede-
conflito entre duas prescrições legais, ral afasta a vigência do estadual. J!: o
uma é necessàriamente contrária ao di- que ocorre na hipótese em discussão. A
reito estabelecido na outra, resolvendo-se lei de âmbito nacional aqui esposada é,
o conflito em favor da norma hieràrqui- ademais, harmônica com os princípios po-
camente superior". líticos-jurídicos informativos do impea-
chment, que afastam, sàbiamente, o Ju-
O Tribunal de Justiça, aí, no dizer sin- diciário das questões politicas, reservando
tético de Rui, passa a ser apenas o ins- sua atividade à VigilânCia e guarda do
trumento da lei preponderante. Aplicá- respeito à observância das garantias indi-
-la, é imperativo ao Judiciário. viduais".

Aliás, vale insistir, o Poder Judiciário, Douto voto do Des. Nestor Perlingeiro
ao apreciar lei inconstitucional, não a forçou-nos a um reexame da matéria tão
revoga, nega-lhe aplicação, não lhe dá grande é o acatamento que temos por
obediência, tira-lhe a autoridade. Assim, tôdas as manifestações de opinião do dig-
o estado de colisão desaparece, pois uma no Magistrado. Um pedido de vista, fei-
lei imcompatível com a Constituição ou to por nobre colega, nos possibilitou mai:.
com o sistema político brasileiro, é sem- retardado estudo de tõda matéria e de-
pre uma lei inconstitucional e o desco- pOis de meditarmos também sôbDe a de-
nhecimento dos seus efeitos opera sem- cisão do Supremo Tribunal Federal na.
pre ex nunc. Representação n.O 350, feita pela Pro-
-192 -
curadoria-Geral da República, encam- ração será feita nos têrmos do Regimen-
pando solicitação que lhe fOra encamI- to Interno de cada corpo legislativo".
nhada. pela Câmara Muni.::ipal de Sa11-
nas, Estado de Minas, que a.rgUia a in- F1cou perfeitamente esclarecido e ci-
constitucionalidade do art. !lI §j 2.", 3.0 tou-se, nesse sentido, abundante jurispru-
e 4.", da Constit:.tl.çãlJ daquele Estado, deu dência, conservar-se a via judicial abert9.
apenas pela inconstitucionalidade do dis- àquele que tiver o seu mandato cassado
pela Câmara de Vereadores (Revista de
positivo que possib1l1tava rectic:::o, sempre
Direito Administrativo, voI. 56, 257 a.
com efeito suspensivo, para o Tribunal
260) .
de Contas, em determinadas hipóteses, e
para a AssembleIa Legislativa, em ou- Procuramos deixar bem claro que sen-
tras. recurw obriga;:6rio, quando clJncluis- do o impeachment prlJcesso de natureza
se a Câmara pela cassação do mandato política e não criminal ou civil, decorria
do Prefeito, mais forte se tornou a nossa a possibilidade de ser instituído e regula-
convicção. mentado também pelos Estados-membros
da Federação, sem ofensa à restrição do
Dispõe a Constituição mineira, no seu
art. 5.0 , n. XV, a, da Constituição fede-
art. 91: "O Prefeito perderá o cargo nos ral, no que tange oom seus governadores
seguintes casos: I - quando não apre-
e prefeitos.
sentar oontas documentadas ou não obti-
ver sua aprovação por motivo de emprê-
Observando-se, porém, dispositivo de lei
go llicito dos dinheiros públicos; II -
federal, na ausência, ou melhor, na ina-
quando se utilizar, em proveito próprio.
plicabilidade do dispOliitivo da lei estadual
ou de terceiros, dos bens públicos; m -
que atribuiu o julgamento final ao Tri-
quando atentar contra a probidade na
bunal de Justiça, em vista do que decidiu
administração, ou a lei orçamentária; IV
o Pretório Exceiso na representação n.o
- quando atentar contra o livre exercício
111, contra disposições da Constituição
dos podêres da Câmara Municipal; V -
do Estado de Alagoas, estaremos com ou-
quando atentar contra IJ gOzo e o exercí-
vidos atentos ao que ali se resolveu, quan-
cio dos direitos políticos, individuais e so-
dlJ, ao reconhecer aos Estados competên-
ciais; VI - quando vier a residir fora da
cia para adotar IJ impeachment nas suas
sede do município, ou dêle se ausentar. ,.
Constituições, impôs, porém, "fOssem ob-
O Supremo Tribunal não incluiu entre servados os princípios minimos e regras
os inválidos os atos da Câmara Municipal básicas que o informam no modêlo fe-
concernentes à cassação dos mandatos de deral, estatuídos como indispensáveis e
prefeitos e vereadores, só tendo como asseguradores do necessário equllibrio do
exorbitância insuportável se sujeitar à princípio de independência e harmonia
Assembléia Legislativa aquêles atos, mes- entre aquêles podêres, instituídos pela
mo porque o PretórilJ Excelso já vinha Constituição, como princípio maior".
decidindo que tais deliberações só podem O insigne Min. Orosimbo Nonato, ainda
ser apreciadas e desfeitas, quando ilegais, mais claro, ao concluir IJ seu voto pela
pelo Poder Judiciário. inconstitucionalidade de se atribuir o jul-
gamento ao Tribunal de Justiça, frisou
O provecto Procurador-Geral, na refe- a necessidade de não se alongar o le-
rida representação, para eliminar dúvi- gislador estadual dos sulcos entalhad03
das, referiu-se à Lei federal n.a 211, de pela Lei Maior dlJ País.
7 janeiro de 1948, que dispõe sôbre a per-
da de mandatos eletivlJs, inclusive dos Se assim é, se a recomendação do al-
municípios, firmando a competência da tíssimo Pretório tem sido para que o
Câmara interessada em decretá-la, esta- procesamento não se afaste do estabele-
belecendo, no seu art. 3.0 , que "a decla- cido o pela lei federal, foi que tivemQi
-193
como perfeitamente aplicável o que dis- De modo que, não obstante acompa-
pôs o legislador da União, na Lei n.o nharmos sem restrições a argumentação
3.528, de 3 de janeiro de 1959, no seu do nobre colega Des. Perlingeiro, em re-
art. 4.°, parágrafo único: "Quando não lação à fnconstitucionalidade de Wlla
dispuser de outra forma a legislação es- parte do § 10 do art. 70 da Lei Orgânica
tadual, o julgamento incumbirá à Câma- das Municipalidades, de outra, do pará-
ra dos Vereadores, que só poderá profe- grafo único do art. 4.° da Lei n.o 3.528,
rir sentença condenatória pelo voto de entendemos dispensável repetir o reco-
dois-terços dos seus membros". nhecimento da fnconstitucionalidade, Já
afirmada, em dois acórdãos, no Pretório
Não entendemos, apenas, necessâr1o, Excelso, ao exercitar função precípua qu..
proclamar inconstitucional a parte do § lhe foi atribuida pelo parágrafo único do
10 do art. 70 da nossa Lei Orgânica das art. 8.° da Constituição federal, limitan-
Municipalidades, com a modificação que do-nos, por isso, a dá-los como de todo
lhe trouxe a Lei n.O 1. 750, de II de fe- inaplicáveis em face das mencionadas de-
vereiro de 1952, que atribuiu o julgamento cisões.
final ao Tribunal de Justiça, visto já ha-
ver o Pretório Excelso, cumprido o dis- E nem se argumente que, em aceitan.
posto no parágrafo único do art. 8.° da do a competência da Câmara, estaríamos
Constituição federal, reconhecido invá- abandonando o que prescreve o § 4.° do
lido dispositivo similimo, de modo que art. 141 da Constituição federal, que ve-
nos limitamos a proclamar inaplicável da à lei excluir da apreciação do Poder
aquêle dispositivo legal, conforme proce- Judiciário qualquer lesão do direito fn-
deríamos, se proferido julgamento final dividual, porque não faltaria oportuni-
pela Câmara, fôsse interposto o recurso dade ao mesmo Poder, para, rigorosamen-
de que cogita a parte final do parágrafo te dentro das suas atribuições, pelos
único do citado art. 4.° da Lei n.o 3.528. meios processuais previstos, verificar se
foram observadas as formalidades proces-
O Supremo Tribunal Federal, confor- suais recomendadas em lei, e proferida
me ensina P<Jntes de Miranda, nos seus sentença, se condenatória, pelo número
admiráveis comentários, reconhece a minimo de votante previsto em lei.
inobservância de princípio constituciona'
e é evidente que, proclamada por êsse No caso em estudo, será isso muito fá-
meio, a inconstitucionalidade de deter- cil, porque já temos, ajuizado, dentro do
minado dispositivo de uma das Consti- prazo legal, mandado de segurança que o
tuições, todos os outros, se idênticos, tom- Tribunal Pleno determinou seguisse os
barão por terra, não sendo mais permiti- seus trâmites regulares, de modo que na-
do a qUalquer dos altos Tribunais do Pais quele processo sumaríssimo poderão ser
insistir em conceder-lhes aplicação. decididas várias das argüições contra
o impeachment, já suscitadas pelo pro-
Atente-se mais em que o julgamento vecto procurador do Prefeito.
do Prefeito pela Câmara Municipal, ins-
tituido na Constituição de Minas, pasoou Niterói, 29 de junho de 1960 - Luciano
pelo crivo do mais alto Tribunal do Pafs Alvares, Presidente. - Ferreira Pinto,
e dali saiu fntegro, conforme se vê da de- Relator. - Nestor PerZingeiro, vencido,
cisão na representação n.O 350, encon- de acõrdo com a seguinte declaração de
trando-se entre os votos vencedores o do voto: A preliminar de incompetência dês-
Min. Hahnemann Guimarães, que, an- te Tribunal só pode ser apreciada no
teriormente, nem mesmo admitia o pro- exame da constitucionalidade do art. 70,
cesso de impeachment em relação aos §§ 10 e 13, da Lei Orgânica das Munici-
Prefeitos, visto dêle não haver cuidado palidades e dos arts. 3.° e 4.° da Lei
a Constituição federal. federal n.o 3.523, de 3 de janeiro de 1959.
-194
Como estas questões se acham intima- Da leitura dêssse dispositivos legais ve-
mente ligadas, indiquei se submetesse à rifica-se, de imediato, que se não pode
apreciação do Tribunal Pleno a questão conhecer da constitucionalidade ou in-
prejudicial de inconstitucionalidade das constitucionalidade do art. 70 da Lei es-
disposições legais citadas. E isto porque: tadual n.O 109, Lei Orgânica das Muni-
Não há a menor dúvida de que são in- cipalidade, sem se tomar em consideraçã')
constitucionais as disposições das leis es- a Lei federal n.o 3.528. A declaração da
taduais que definiram os crimes de res- inconstitucionalidade da Lei Orgânica nu-
ponsabilidade dos prefeitos municipais e lificaria, tàcitamente, implicitamente, os
que deram normas aos respectivos pro- arts. 3.° e 4.° da Lei n.O 3.528: Estas dis-
cessos de julgamento. posições da lei perderiam a sua eficácia,
arrastadas pela inconstitucionalidade da
A doutrina em que se basearam os lei estadual.
votos no venerando acórdão do egrégio
Supremo Tribunal Federal, relativa à in- Por outro lado, se uma lei federal pre-
constitucionalidade dos arts. 57, § 2.°, e tende legitimar disposições das leis dos
58, parágrafo único, da Constituição de Estados, estas não podem ser declaradas
Alagoas, é absolutamente convincente, o inconstitucionais, senão reconhecida a da
que se verá na sintese de sua ementa: lei da União. :a:sse exame, portanto, só
pode ser feito em conjunto.
"Violam a Constituição federal os dis-
Não tendo dúvida de que o legislador
positivos de Constituição estadual que
feriu frontalmente o princípio constitu-
estabeleçam para o impeachment normas
cional da unidade do processo, resguarda-
exorbitantes das fixadas na Carta Mag- do na competência exclusiva da União
na, transfiram ao Judiciário o julgamen- para legislar sôbre o Direito Processual
to dos crimes de responsabilidade e defi- (art. 5.°, n.o XV, a). O art. 6.° da Consti-
nam os fatos que os constituam" (Revis- tuição admitiu, é verdade, a legislação es.
ta Forense, vol. 126, pág. 77). tadual supletiva ou complementar, aos
casos do n.o XV do art. 5.°, porém o fêz
Destaca-se do voto do eminente Mi-
excluindo taxativamente, além de outros.
nistro Relator o trecho conclusivo:
os do Direito Penal e Processual.
"E contrário à independência do Poder A Lei n.O 3.528, de 3 de janeiro de 1959,
Executivo !;ubmeter quem o exerce a re- pretendeu estabelecer normas verdadeira-
gime não admitido em lei federal, pois mente constitucionais, como se fôsse a
que somente à União compete legislar própria Constituição. Ao atribuir aos Es-
sôbre o Dlreito Penal e o processo (Ccm)- tados legislar sôbre processo dos cri-
tituição. art 5.°, n.o XV, a) ." mes de responsabilidade dos prefeitos
municipais, permitindo a multiplicidade
Entretanto, embora a legislação do Ea-
dessas leis nos Estados, contrariou fron-
tado do Rio de Janf'iro est!:'ja na mesma
talmente a Constituição federal, arts. 5.°,
situação da Constituição de Alagoas, no n.O XV, a, 6.° e 18 § 1.0.
tocante a esta matéria, já hoje vigora a
Lei federal n.O 3.528, de 3 de janeiro de Parece-me, data venia, que êste Tribu-
1959, em cujos arts. 3.° e 4.° se contém nal é incompetente para o julgamento
o reconhecimento das normas estabeleci- dos prefeitos, nos crimes de responsabili-
das ou que se estabelecerem nas Consti- dade, porque não inconstitucionais o art.
tuições e leis estaduais, para o proces- 70 da Lei n.O 109, de 16 de fevereiro de
so e julgamento dos prefeitos: o legis- 1952, e n.o 4.312, de 27 de maio de 1960;
lador federal delegou podêres aos consti- o art. 3.° da Lei federal n.O 3.528, de 3
tuintes e legisladores estaduais para o es- de janeiro de 1959, as expressõees "onde
tabelecimento dessas normas. as Constituições ou as leis orgânicas não
-195 -
determinarem o processo nos crimes de zer de Castro Nunes (Teoria e Prática
responsabilidade dos prefeitos" e "en- do Poder Judiciário, ed. 1943, pág. 588,
quanto perdurar a omissão do legis- in fine).
lador competente", do art. 4.°, e "quan-
do não dispuser de outra forma a legisla- Reconhecer a inconstitucionalidade de
ção estadual", do parágrafo único do ci- leis, em que se contêm princípios declara-
tado art. 4.° da referida Lei n.o 3.528, de dos inconstitucionais, sem o declarar ex-
3 de janeiro de 1959. pressamente, constitui infrigênci.a ao im-
perativo constitucional do quorum previs-
l!: claro que esta incompetência para o to no art. 200 da Constituição federal,
julgamento dos crimes de responsabilida- além de desatender, data venia, o prin-
de do prefeito não afasta a competência cípio de hermenêutica de que ao enten-
decorrente da via judicial própria e opor- dimento judicial corresponde um julga-
tuna (art. 141, § 4.°, da Constituição fe- mento: Se por fôrça de expressão se te-
deral) . ve um princípio como inconstitucional
só o exame dessa inconstitucionalidade
Entretanto, indicada esta prejudicial de em outras leis poderia demonstrar que
inconstitucionalidade, com a fundamenta- o mesmo princípio norteou essas leis.
ção acima exposta, entendeu o Tribunal
de Justiça, como se vê na ata de 28 de No caso em julgamento, ainda acresce
junho do ano corrente, de rejeitá-la, con- a circunstância de que várias leis pos-
tra o meu voto e os dos eminentes Des. teriores à manifestação do mais :alto
Ari Fontenelle e Vieira Ferreira. Para Tribunal do País não poderiam ser atin-
a maioria do Tribunal, a preliminar de gidas, sem o respectivo julgamento, pela
incompetência não estava necessària- decisão pretérita.
mente ligada à inconstitucionalidade des-
Contudo, se o Tribunal de Justiça, por
sas leis, porém à inaplicabilidade do § 10
sua maioria, houve por bem não acolher
do art. 70 da Lei Orgânica das Munici-
a indicação de inconstitucionalidade, ne-
palidades, visto que o egrégio Supremo
nhuma dúvida tenho sôbre a perfeita
Tribunal Federal, na representação n.o
aplicabilidade das disposições legais ci-
111, deu como inconstitucionais os arts.
tadas e, por conseguinte, coerentemente,
57, § 2.°, e 58 da Constituição de Alagoas
rejeito a preliminar de incompetência.
(Revista Forense, vol. 126/77).
dêste Colegiado. - José Navega Cretton,
Porém, data venia, parece-me que vencido, de acôrdo com a seguinte decla-
nenhuma lei que contraria princípios ração de voto: O processo em julgamen-
constitucionais, pode deixar de ser apli. to encerra dois aspectos de importância
cada, senão depoiS que ela mesma haja fundamental: a) sendo o impeachment
sido declarada inconstitucional. eminentemente político, pode ser disci-
plinado pelo Poder constituinte estadual,
Pouco importa que outras leis de outros porque não se trata de punir criminal-
Estados, esposando os mesmos princípios, mente alguém, o que seria função legis-
tenham sido declaradas inconstitucionais lativa.
pelo Pretório Excelso.
Vê-se, portanto, que quando se trata
Muito diferente é a questão de dever- de declarar incompatibilidades, desqua-
-se reapreciar a inconstitucionalidade da lificações, destituições, tôdas de ordem po-
mesma lei, tôda vez que surgissem novos lítica, admissíveis no plano estadual,
casos concretos. Para isso, sim, é que a como no município, falece ao Poder Judi-
declaração valeria, com eficácia em to- ciário competência para funcionar como
dos os casos subseqüentes, tendo-se comCl aplicador de pena política; mas, b) se o
suprimida virtualmente a autoridade da motivQ que levou a Câmara Municipal a
lei na aplicação a casos idênticos, no di- instaurar processo contra o Prefeito tem
-196
origem em crime funcional previsto pelo A primeira parte da disposição é 'Ii!\-
Código Penal e processado de acOrdo com velmente inconstitucional, já que a com-
o Código de Processo Penal, falece ao Po- petência para legislar a respeito de Di-
der Legislativo Municipal competência reito substantivo e adjetivo é exclusiva-
para aplicar pena, eis que esta faculdade, mente da União, na forma do disposto no
no caso, compete fxclusivamente ao Po- art. 5.°, a. n.o XV, da Constituição da
der Judiciário, e o pTC\cesso, como foi República. Quanto à última parte do que
instaurado, aberra de tOdas as regras pro- prescreve o mencionado art. 100 da Car-
cessuais admitidas. ta estadual, esta que transfere à Lei Or-
gânica a competência para definir o pro-
Ao que ouvi do relatório minucioso fei- cessamente, só seria de atender-se no que
to pelo eminente Des. Ferreira Pinto, o se refere à forma prescrita no processo
processo se originou do fato do Prefeito do impeachment. Se se não afastar dos
haver lançado mão indevidamente de di- lindes traçados pela Constituição federal,
nheiros públicos, com total desrespeito e como matéria supletiva.
às regras de contabilidade e sem atenção
Ora, o art. 70, § lO, dessa Lei OrgAnl.ca
às disponibilidades orçamentárias.
estabelece que, terminado o processo, e
Em outros têrmos: o Prefeito apro- depois de 5 dias, será êle remetido ao
priou-se criminosamente de vultosas Tribunal de Justiça, sal70 se, nesse inter-
quantias, sem que, para isso, estivess~ regno fôr interposto recurso à Assemblé-
autorizado por lei. ia Legislativa.

Não se trata, evidentemente, de crim~ Aqui se me depara outra inconstitu-


politico, mas de crime comum, ou seja, cionalidade, aliás já proclamada pelo
o peculato, que, segundo o art. 312 do egrégio Supremo Tribunal Federal. Por-
que, sendo o impeachment um processo
Código Penal consiste em apropriar-se o
funcionário público de dinheiro, valor ou eminentemente político, essa remessa (em
qualquer outro móvel, público ou parti- verdade alternativa, dependente do re-
cular, de que tem a posse, em razão do curoo à Assembléia) caracteriza verda-
deira aberração.
cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio
ou alheio. A jurisprudência do impeachme.nt é
visceralmente do Poder Legislativo, e dai
Ora, se no primeiro caso falece ao Po-
a imperiosidade de o recurso dever ser
der Judiciário competência para conhe-
interposto de ofiCiO; tal preceitua a Lei
cer do processo, por se tratar de crime n.o 3.528, tendo o processo seu epilogo
politico, no segundo caso, qualquer pro-
nessa jurisdição política.
cedimento do Poder LegislatiVO Munici-
pal, sem que se revista da forma carac- Assim porque, não sendo as Câmaras
terística de procedimento judicial por Municipais um poder político na verda-
meio de representação, é absolutamente deira acepção do vocábulo, êsse recurso
ilegal e não pode ser objeto de aprecia- à Assembléia se faz mister como um
ção dêste Tribunal. ajustamento à natureza da questão, já
que, por motivos óbvios, é impossível, por
t:stes os motivos que me levam a náo ela, o conhecimento original do impea-
conhecer do processo - Ari Fontenelle. chment contra o Prefeito.
de acôrdo com a seguinte declaração de
voto: Preceitua o art. 100 da Constitui- Nada obstante, afirmou o inclíto Des.
ção do Estado que a Lei Orgânica das Mu- Itabaiana de Oliveira, ao relatar o man-
nicipalidades definirá os crimes de res- dado de segurança, que o mesmo Prefeito,
ponsabilidade dos Prefeitos e regular' o aqui acusado, interpusera sObre o seu
respectivo processo. afastamento, decorrente do processo ora
-197
em julgamento. que o egrégio Supremo Portanto. evidentemente inconstitucio-
Tribunal Federal havia declarado incons- nal o preceito que distribui eventualmen_
titucional o art. 104 da Constituição es- te a competência entre o Legislativo e o
tadual. que estabelece que as deliberações Judiciário. segue-se que não é de tomar-
e atos da municipalidade poderão ser se conhecimento do processo. devendo.
anulados pela Assembléia Legislativa. então. surdir como prevalente o dispost:l
na citada Lei de 1939. que estabeleceu o
Mas. data venia, frente 80 caso con- recurso Obrigatório à Assembléia. ai tendo
creto. a inconstitucionalidade foi declara- o seu epflogo.
da para assegurar a autonomia adminis-
trativa do município. Meu voto foi. pois. no sentido de se de-
clarar a incompetência do Tribunal para
Certo é que. dito preceito. que visa aos conhecer do processo. que merece devol-
atos administrativos. nada tem que ver vido à Câmara Municipal de origem,
com o recurso interposto à Assembléia para. depois de julgamento. ser encami-
pelo Prefeito acusado. ali ilegitimamente nhado. mercê do recurso obrigatório. à
invocado como causa permissiva. colenda Assembléia Legislativa.

Porque. dita Constituição. no art. 100. Estou. pois. com o voto do Des. Per-
estabelece que o processamento é feito lingeiro. no que respeita à inconstitucio-
de acõrdo oom a Lei Orgânica. e não se- nalidade e como se manifestou. como se
ria admissível que. no mesmo passo bus- viu. o egrégio Tribunal Federal -- Fo-
casse disciplinar o recurso. que é ato de ram votos vencedores os dos Srs. Des.
processo. Souto Mayor. Horácio Braga. Newton
Quintella. Pache de Faria. Luis Pinaud
E tanto é verdade. que a Lei OrgA.nl.ca, e FeUcio Panzi; ausente. com motivo jus-
realmente. prescreve a forma dêsse re- tificado. o Sr. Des. César Salamond; e
curso. por enoontrar-se licenciado. o Sr. Des.
Orlando Carlos. Não participou do jul-
Agora. o que não é curial. o que. sem gamento o Sr. Des. Cumplido de SantO
dúvida fere de frente o princípio da in- Ana.
dependência dos podêres. é a parte da
lei. que. eventualmente. manda seja o
processo encaminhado ao Tribunal de PARECEa DA PROCUllAllORIA-GDAL DA .1USTIÇ.l.
Justiça. caso não se verifique o recurso
i. Assembléia. Antes de se entrar na análise do pro-
cesso. ora submetido à douta oonsidera-
O egrégio Supremo Tribunal Federal. ção do colendo Tribunal de Justiça. tor-
em decidindo um caso de Alagoas. cUja na-se mister indagar SÕbre a natureza
Constituição. tal a nossa Lei Orgânica. do impeachment, para, em conseqüên-
também ordena a remessa dos autos ao cia. apontar-se qual. dentro da Federa-
Tribunal. declarou a inconstitucionalida- ção. o organismo competente para regu-
de do preceito e sentenciou que o Juizo lamentá-lo.
do impeachment é eminentemente po-
Utico. em possibilitar o julgamento dêle Por se tratar de um processo eminente-
pelos órgãos do Poder Judiciário. que mente pol1tico. em que. conforme prele-
não pode se alongar dos sulcos entalha- ciona Story. se profere um juizo pol1tico,
dos pela Lei Maior do Pais. consistente em tirar o poder àquele que
dêle faz uso e impedir que o possua. para
Ai. nesse acórdão. se afirmou que o o futuro. entendemos que aos Estad<lS fe-
estatuto federal. há de ser o paradigma derad<lS compete prover sôbre o assunto.
para as Constituições estaduais (Revi8ta desde que se conformem com os prin-
Foreme, 'foI. 126/77). c1pios basilares da Constituição federal.
- 198
Em se tratando de um processo políti- o instituto, como nós praticamos, só
co administrativo, é da competência do tem caráter político-administrativo, vis-
legislador estadual discipliná-lo, se não to que por êle se distingue a questão po-
CQnflitante com as normas fundamentais lítica (impeachment) da questão de
da Lei Magna. Direito comum (indictment).
:t:>.~e o entendime-nto dominante, não :tsse o nosso sistema tradicional, ins-
só na doutrina, na jurispn'.dência e em tituído pela Constituição republicana de
lei (v. Lei n.o 3.528/60). 1891 (art. 53) e regulamentado pelo De-
creto n.O 27, de 7 de janeiro de 1892; man-
Eis como, a respeito, em seu precioso
tido pela Constituição de 1934 (art. 59,
Direito Municipal Brasileiro, prelecio-
§ 3.°); CQnservado na Carta outorgada de
na o eminente Hely Lopes Meireles: 1937 (art. 86, § 1.0); e vigorante na atuaI
"A cassação de mandato de Prefeito
(art. 88, parágrafo único). Se, em certas
é o que se denomina impeachment. A legislações estrangeiras, lavra a discórdia
expressão inglêsa significa "impedir de sôbre a natureza do instituto, disputando-
continuar", ou "afastar do cargo". Enten- -se preeminência política, criminal, ou
de-se, pois, por impeachment o afas- civil, entre nós é pacifico o seu caráter
tamento do cargo, a que são submetidos eminentemente político.
os chefes do E:tecutivo - federal, es-
tadual ou mUnicipal - após c reconlleci- E exatamente de sua natureza politica
mento da procedência de uma acusação é que decorre a possibilidade de ser ins-
de falta funcional, pelo órgão político in- tituído e regulamentado pelos Estados-
cumbido dêsse julgamento. -membros, para seus Governadores e Pre-
feitos, sem ofensa à restrição do art. 5.°,
Segundo Webster, impeachment é the n.O V, a, da Constituição federal.
act of impeaching isto é, a imputaçáQ de
uma falta a alguém (to bring an accusa- Por ai se ve que o Estado-membro pOde
tion against; to impute). e deve legislar sôbre a perda do .::arga
de Prefeito, por falta funcional, impe-
o instituto é originário da Inglaterra, dimentos ou incompatibilidades, deferin-
de onde se transportou aos Estados Uni- do à Câmara Municipal a atribuição de
dos da América do Norte. Mas o im- aplicar a sanção político-administrativa
peachment inglês difere fundamental- do impeachment. A Câmara, entretan1l.l,
mente do norte-americano, onde o nos- não pode legislar no tocante a êsse ins-
nosso Direito Constitucional foi buscar o tituto, mesmo na omissão da legislação
modêlo. Na Inglaterra, o processo tem o estadual, cabendo-lhe, tão-somente, esta-
tríplice conteúdo penal, civil e político, belecer, no Regimento Interno, os trâ-
ao passo que na nação norte-americana. mites da acusação, defesa do acusado,
só lhe reconhecem o caráter politico-ad- qUQrum e demais condições para a va-
ministrativo, relegando à Justiça CQmum lidade da deliberação do Plenário, a ser
a apuração da falta penal e civil em que oportunamente concretizada em Resolu-
o acusado incida concomitantemente com ção. O impeachment, sendo uma penali-
a falta funcional. Idêntico é o impea- dade de natureza político-administrativa,
chment acolhido pelo Direito Constitu- não pode ser aplicado pelo Judiciário;
cional brasileiro. Entre nós, o impeach- mas é permitido a êste Poder rever as
ment apenas despoja o acusado do man- resoluções das Câmaras, para dizer da
dato, traspassando para a Justiça comum sua legalidade, na aplicação da medida,
a aplicação de qualquer outra penalida- e nesse sentido têm sido uniformes as
de (além da perda do cargo), civil a decisões judiciais" (cf. Direito Municipal
penal. Brasileiro, vol. n, págs. 659/661).
-199
De igual forma já se pronunciou o Processo, como ficou dito, de origem
ilustre Tribunal de São Paulo, ao con- constitucional e de natureza política, di-
firmar sentença prolatada por aquêle zendo respeito ao funcionamento regular
ilustre Magistrado (cf. Revista dos Tribu- dos podêres governamentais, licito é, sem
nais, vol. 182/259), voltando a reafirmar, dúvida, aos Estados-membros adotá-lo e
em outra oportunidade, que a regula- inscrevê-lo em suas Constituições, obser-
mentação do processo de impeachment é vados, porém, aquêles princípios minimos
da competência da União e dos Estados e regras básicas que o informam no mo-
(cf. Revista Forense, vol. 146, pág. 306). dêlo federal, estatuidos como indispen-
sáveis e asseguradores do indispensável
Por sua vez, o Supremo Tribunal Fe. equilíbrio do princípio de independência
deral, em memorável julgamento, pro- e harmonia entre aquêles podêres, ins-
ferido, em face da Representação n.O 96, tituido, pela mesma Constituição, como
sôbre diversos dispositivos da Constitui- princípio maior" (Revista Forense, voL
ção paulista, argüidos de inconstitucio- 125, págs. 147/8).
nalidade, fixou que, sendo o impeachment
de natureza politico-administrativa, de De forma indiscrepante o entendimento
raizes constitucionais, legitima a compe- do eminente Orosimbo Nonato:
tência dos Estados-membros, para pres-
crevê-lo, desde que submissos àqueles "Quanto ao impeachment, que foi uma
princípios e normas fundamentais, plas- das questões mais importantes debatidas,
mados no modêlo federal. trata-se de remédio de manejo delicado
e aplicação, muitas vêzes, perigosa. O
Vale ressaltar os votos mais expressivos impeachment recebeu, ainda há pouco,
que reboaram no recinto daquela Au- do eminente Sr. Min. Hahnemann Gui-
gusta Côrte. marães, a fulminação de constituir insti-
tuto obsoleto, que tem servido, as mais
o eminente Min. Edgar Costa assim das vêzes, para a destruição do poder, ou
para a subversão da ordem política. E é
se manifestou:
exato que, ultimamente se tem verificado
"O impeachment é um processo de na- certa orientação no sentido do encurta-
tureza essencialmente política e de raizes mento do Poder Executivo, mas, é du-
constitucionais, tendo como objetivo, não vidoso que se não possa invocar a adver-
a aplicação de uma pena criminal, mas tência de Rui, o Grande, de que no mo-
a perda do mandato. Instituindo-o, pres- mento tenebroso que vivemos, os amigos
creveu a Constituição federal as normas da liberdade, por amor da liberdade mes-
que o estruturam, e por forma a ressal- ma, devemos resguardar o princípio da
var, assegurando-as, a independênCia e autoridade. Nem é por amor do Executivo
a harmonia necessárias dos podêres. Essas que sua autoridade deve ser guardada,
normas dizem respeito assim aos atos que senão para evitar que a conturbação dos
importam em crime de responsabilidade, espíritos, cada vez mais exacerbada, ain-
como às garantias imprescindíveis à es- da encontre, neste particular, um ponto
tabilidade do chefe do govêrno, mediante de expansão com enfraquecimento da
formalidades a serem observadas até o liberdade legal. As assembléias têm-se
seu afastamento, medida extrema, impos- desmedido, às vêzes, nesse descaminho, e,
ta como conveniente a um julgamento a essa luz, o poder de impeachment foi
desimpedido de óbices ou influências pre- estabelecido pelo constituinte paulista
judiciais. Com tais garantias e formali- com demasia que convém aparar. Não
dades, com que cercou êsse procedimento chego, no particular de que se trata, ao
que atribuiu ao Legislativo, visou a Cons- extremo a que veio o eminente Sr. Min.
tuição a ressalvar a independência do Hahnemann Guimarães. Mas, estou em
Executivo. que, no impeachment vivem, substancial-
- 200-
mente, principios de DireIto Penal e de reito de instituir o impeachment, desde
Direito politico. Não se pode negar ao que não viole a Constituição federal.
chefe do Poder Executivo oportunidade
de defesa. Os principios vitais do pro- Dir-se-á, entretanto, que posteriormen~
cesso, no atinente à garantia da defesa te a Sup:-ema Côrte, passando a adotar a
e outros não podem ser lançados a obU- op1n1ão do douto Min. Hahnemann Gui-
vio, mas não chego a concluir que, por marães, para quem "ao mesmo passo que
ser da competência do Poder Federal le- decai o instituto do impeachment, como
gislar sôbre Direito adjetivo e substan- instituto político, acentua-se o caráter
tivo, sôbre crime e sôbre pena, não possa jUdiciário da instituição", tornando-se,
a CQnstituição estadual dispor quanto ao por isso, evidente a competência exclu-
impeachment. Trata-se, sem dúvida, de siva da União para prover a respeito,
1mposição de pena; mas de pena de ca- inclinou-se pelo reconhecimento da in-
ráter polftico. Cuida-se do exercicio de competência do legislador estadual, para
função punitiva, mas de conteúdo essen- traçar normas sôbre o impeachment de
cialmente polftico. Se não pode o legis- seus governantes.
lador constituinte estadual lançar ao ol- Do exame atento do acórdão, proferido
vido as regras fundamentais que se de- no julgamento do mandado de segurança
lineiam na CQnstituição federal, cabe-lhe, n.o 4.928, impetrado pelo Governador de
todavia, o uso dêsse remédio cujo caráter Alagoas, Muniz Falcão, contra a Assem_
polftico é de nftido relêvo" (Revista Fo- bléia Legislativa do Estado (in Revista
rense, voI. 125, pâgs. 149/150). de Direito Administrativo, voI. 52, págs.
Dentro da mesma orientação, o pro- 259 e segs.) , não nos pareceu que o re-
nunciamento do ilustre Castro Nunes: sultado do julgamento importou em que-
bra da orientação anterior, a despeito da
"O impeachment não visa à punição; ementa, que encima a decisão, anunciar
visa ao afastamento, à destituição do entendimento contrário.
cargo por 1mputação de algum daqueles
fatos; se êsses fatos encontrarem cor- Vê-se dêsse julgado, efetivamente que,
respondência na incriminação comum, o de um lado, os Mins. Vilas-Boas, Cân-
Chefe do Executivo é entregue à Justiça, dido Mota Filho e Nélson Hungria, de
que o processará e julgará por aplicação maneira radical, sustentaram que o pro-
do Código Penal. Nisso Consiste o indict- cesso do impeachment deva ser regulado
ment." com exclusividade, pelo Estado-membro,
enquanto, do outro, os M1n1stros Hahne-
Não seria possível o jOgo dos podêres
mann Guimarães, Ari Franco e Afrânio
sem o chamado sistema dos freios e con-
Costa de forma diametralmente oposta,
trapesos, que o governa. O impeachment
reconheciam competência privativa à.
é sabidamente um dêsses expedientes des- União.
tinados a manter o equillbrio dos dois
podêres. Já os Mins. Luis Gallotti, que, na reali-
O mecanismo dos podêres politicos dI) dade, rastreou a orientação vencedora,
Estado estaria comprometido ou defor- e Ribeiro da Costa, proclamaram a com-
mado se o Legislativo não dispusesse petênCia do Estado-membro, para disci-
dessa prerrogativa, de que poderá usar plinar a matéria, devendo a legislação fe-
facciosamente, como, aliás, também o fe- deral operar, apenas, supletivamente, na
deral, e o impeachment, mas pressuposta hipótese de ser omissa a Estadual, como
como um consectário da autonomia po- ocorria, no caso, então examinado, eis
l1tica dos Estados" (ob. cit., pâg. 152). que fulminados de inconstituicionais dis-
positivos da Constituição alagoana por
De forma induvidosa, firmou-se, ai, que violarem preceitos básicos da federal, não
ao não pode recusar aoll Estados o di- cuidou o legislador estadual de dispor
- 201-
oportunamente sôbre o assunto. Então, inconstitucionalidade de diversos dispa-
a lei federal, no entendimento do ilustre sitivos da Constituição paulista, foi pe-
Min. Luis Gallotti, deve ter aplicação, remptório (Revista Forense, vol. 125, p~
onde lei estadual f:cou e continua omissa 146) :
(Revista de Direito Administrativo, vol.
52, pág. 291). "Quanto ao impeachment, não há dú-
vida de que o Estado pode legislar a
E reitera linhas adiante: respeito: tem competência para tanto."

"Logo, se Constituições estaduais, como E, finalmente, o Min. Barros Barreto,


a de Alagoas, legislaram inconstitucio- tanto num (cf. Revista Forense, vol. 125,
nalmente sôbre essa maté:-ia e foram nes_ págs. 158/9), como noutro julgamento
a parte fulminadas por decisão do Su- (Revista de Direito Administrativo, pág.
premo Tribunal Federal e se tais nor- 313), reconheceu aos Estados-membros
mas não foram devidamente sUbstituidas, competência para legislar sôbre o im-
como dar pela inconstitucionalidade da peachment de seus governantes, se plas-
lei federal que supre a omissão para mado à. imagem da Lei Federal Magna.
evitar que num ou mais Estados da Fe-
Fazendo-se, pois, o cotejo, entre um e
deração, deL"l:e de vigorar aquela respon-
outro julgamento, vê-se que o posterior, o
sabilidade erigida pela Constituição em
proferido no mandado de segurança n."
principio fundamental que os Estsdos
4.928, de Alagoas, apenas fêz um adita-
devem obedecer; para evitar que, num
mento à decisão pretérita, recolhida
ou mais Estados, deixe de existir efe-
quando do exame da Representação n."
tivamente aquela peça essencial ao nosso
96. Se êste reconheceu competência aos
sistema de freios e contrapesos, que é
Estados, para disciplinarem a matéria re-
o impeachment"? <Revista cit., pág. 292).
lativa ao impeachment, aquêle acrescen-
1: manifesto que não negou, em seu tou que, sendo omissa a legislação esta-
voto, o douto Min. Luís Gallotti, a com- dual, pode ser invocada a lei federal.
petência aos Estados, para proverem sO-
~sse entendimento leva-nos a discor-
bre o processo de impeachment. Apenas,
dar, pois. da abalizada opinião do emi-
assentou que, à falta de legislação re-
nente Vitor Nunes Leal, quando, em sua
gional, a lei federal pode ser invocada.
obra Problemas de Direito Positivo, di-
E dai não reconhecer na Lei n.o 1.079, de
vulga que:
10 de abril de 1950, a pretendida eiva de
Inconstitucionalidade, apontada pelo emi- "O Supremo Tribunal Federal, ao exa-
nente Min. Cândido Mota Filho. Afi- minar disposições constitucionais dos Es-
nou-se com aquêle pronunciamento o tados, relativas ao impeachment, já afir-
J4in. Ribeiro da Costa. ~ o que está dito mou que a definição dos crimes de res-
no seu voto, a fls. da Revista antes in- ponsabilidade e respectivo processo de
dicada, na interpelação seguinte: julgamento na esfera estadual pertencem
à competência privativa da União, que
"Onde, na Constituição federal, hã. um legisla sObre Direito substantivo e adje-
dispositivo que esteja propelindo a pos- tivo" (pâg. 434).
sibilidade de aplicação da Lei n.O 1.079,
nos casos em que é omissa a Constituição E tanto mais evidente o equivoco, em
do Estado?" que incorreu o eminente publicista, quan-
do se sabe que a sua informação resultou
Por sua vez, o Min. Lafayette de An- da leitura do acórdão, referente ao jul-
drada, apesar de não ter apreciado a gamento da Representação n.o 96, inserto
questão da inconstitucionalidade, já tem no ArquiVO Judiciária, vol. 85, pâgs. 77 e
opinião conhecida, pois no julgamento SUbseqüentes, a que fêz expressa remis-
anterior, a que já se aludiu, sObre a são, e encontrado também na RevistG
- 202-
Forense, vol. 125, pâg. 93. Inequívoca, nes- puser o Regimento Interno do Tribunal,
se julgado, a manifestação do Supremo salvo se, naquele prazo, fôr interposto re-
Tribunal Federal em sentido contrário ao curso para a Assembléia Legislativa com
entendimento que difunde o ilustre ju- fundamento no art. 104 da Constituição
rista. do Estado. O recurso será interposto por
petição dirigida ao Presidente da Câma-
Conseqüentemente, enterreirada a com- ra, que enviará o processo à Assembléia
preensão de que a lei federal só se torna Legislativa dentro de 48 horas, com a'l
aplicável aos Estados que não disponham informações que lhe parecerem conve-
de lei disciplinadora da matéria, temos nientes."
que no Estado do Rio o processo de im-
peachment, a que devam sujeitar-se o Não instituiu propriamente êsse diplo-
Governador e, com maior razão, os pre- ma legislativo recurso para a Assembléia.
feitos muniCipais, se subordina, respecti- Apenas reputou-Q obrigatorio, em face do
vamente, às disposições contidas na Cons- inciso da Constituição estadual (art. 104),
tituição do Estado, e às do art. 70 da a que fêz expressa remissão. O propósito
Lei n.o 109, de 16 fevereiro de 1948. E do legislador não foi, pois, impor a re-
tanto mais é de se acolher êsse enten- visão, pela Assembléia, de pronunciamen-
dimento, quando a própria Lei federal to da Câmara dos Vereadores. Admitiu-o
n.O 3.528, de 3 de janeiro de 1959, em como expressão da um imperativo cons-
seu art. 4.°, delimita o seu caráter su- titucional. Tanto assim que prescreveu o
pletivo, prescrevendo a sua aplicabilidade envio dos autos ao Tribunal de Justiça,
apenas aos Estados de legislação espe- na hipótese da sua não interposição.
cifica inexistente.
Assim, desavisadamente teria procedido
Sendo assim, uma indagação preliminar a veneranda Assembléia Legislativa do
pOderia ser levantada. Na conformidade Estado, quando deixara de examinar o re-
do prescrito no art. 70, § 10, da Lei Or- curso interposto pelo Prefeito, com apoio
gânica das Municipalidades, o recurso da naquele dispositivo, que não passou, em
decisão proferida pela Câmara de Verea- verdade, de mera transplantação, para a
dores devera ser interposto, e o foi, para lei ordinária, da norma constitucional.
a Assembléia Legislativa do Estado, que
dêle, assim, haveria de conhecer, ao in- Ocorre, entretanto, como se não ignora,
vés de não tomar conhecimento, como o que o Supremo Tribunal Federal, conhe-
fêz, sob o pretexto de ser inconstitucio- cendo da Representação n.O 314, relativa
nal o dispositivo legal que autoriza a sua ao art. 104 da Constituição fluminense,
manifestação. formulada pelo eminente Procurador-Ge-
ral da RepúLlica, decidiu pela inconsti-
Em assim procedendo, parece-nos, data tucionalidade daquele dispOSitivo (Ret1ista
venia, que agiu legitimamente a Augusta Trimestral de Jurisprudência, vol. 3, pág.
Assembléia estadual. 431).
Atente-se para o texto da lei (art. 70, Logo, é artigo que não mais vige, é
§ lO, da Lei n.O 109, de 16 de fevereiro
nulo, dada a impossibilidade de sua
de 1948, com a nova redação dada pela
conciliação com a Lei Maior. E a sua
Lei n.O 1.750, de 11 de novembro de 1952) :
invalidação foi decretada pelo órgão com-
"§ 10. - Aprovado por dois-terços da petente para fazê-lo, o mais alto Tribunal
Câmara o parecer que concluir pela exis- do País. A declaração de inconstitucio-
tência de crime de responsabilidade, sera nalidade vale pelo decreto de inificácia
o processo, com todos os documentos que do artigo ou da lei apontada. Anota o
o instruírem, e depois de 5 dias, remeti- Min. Vilas-Boas que, no sistema da Cons-
do ao Presidente do Tribunal de Justiça, tituição de 1891, conforme a obra clássica
para o julgamento, observado o que dis- de Pedro Lessa (Do Poder Judiciário, §
- 203-
31), que hauriu ensinamentos na juris- a Lei Maior da República, a sua decisão
prudência norte-americana, haveria de é absolutamente válida, assim na con-
entender-se que a ação da Justiça não clusão como nas premissas necessárias"
chegava ao reconhecimento de nulidade (Revista de Direito Administrativo, vol
da lei, acoimada de ofensiva à Consti- 52, pág. 270).
tuição, pois, na observação de Willoughby,
"a Suprema Côrte Federal não julga ja- E arremata:
mais nula uma lei; apenas julga o feito
"Ora, se a Constituição se situa a si
sem atender à lei inconstitucional, des-
mesma em primeiro lugar, como a Pa-
prezando-a. A Côrte Suprema, acrescenta
ramount Law, e se ela outorga a guarda
o eminente constitucionalista norte-ame-
da sua inviolabilidade ao mais Alto Tri-
ricano, não tem superintendência, supre-
bunal da terra, a insistência do legislador
macia, ou superioridade, em relação ao
na tentativa de fazer prevalecer a sua
Poder Legislativo: a lei não se aplica por-
vontade exprime dupla violação. O seu
que infringe a Constituição" (cf. Pedro
decreto, com o ser um nôvo impacto con-
Lessa, Do Poder Judiciário, § 31; e Re-
tra a Constituição, é ainda um desrespeito
vista de Direito Administrativo, voI. 52,
à regra, firmemente nela assentada, de
pág. 269, voto do Min. Vilas-Boas).
que é atribuição privativa do Tribunal
Mas, continua, esclarecendo, aquêl'! solver, irremisslvelmente, o conflito entre
ilustre Ministro, no célebre caso Marbury a lei ordinária e a Lei Maior" (ob. e loco
versus Madison, Marshall sustentou prin- citados) .
cípio diverso, que veio a predominar, se-
Fica, pois, à evidência, patenteado que
gundo o qual é nula qualquer lei incom-
se se arrogassem os deputados fluminen-
patível com a Constituição, "e que os
ses a prerrogativa de conhecer do recurso,
tribunais e os demais departamentos es-
para êles interposto, praticariam ato ma-
tão vinculados por êsse instrumento". nifestamente ilegal, já que apoiado em
E observa, ainda com propriedade, o dispositiVO da Constituição estadual ine-
eminente membro de nosso Supremo Tri- xistente, porque declarado nulo pelo Su-
bunal Federal: premo Tribunal Federal, quando acolheu
a Representação n.o 314, formulada para
"Neste Pais, particularmente no que o fim exclusivo de alcançar daquela Côrt<:!
toca à organização e funcionamento dos o reconhecimento de sua inconstitucio-
governos dos Estados, possibilitou-se a nalidade.
declaração de inconstitucionalidade, in-
dependentemente da existência de um Objetar-se-á, entretanto, que o Supre-
litígio, mediante representação do Pro- mo Tribunal Federal circunscreveu a sua
curador-Geral da República ao Supremo decisão apenas ao art. 104 da Constituição
Tribunal Federal (art. 7.°, parágrafo estadual, não apreciando, na oportuni-
único) . dade, o art. 70, § lO, da Lei n.O 109, de
16 de fevereiro de 1948, alterada pela
Que ousasse recusar eficácia de coisa Lei n.o 1.750 ,de 11 de novembro de 195~.
julgada ao seu pronunciamento em tal De pé, pois, estaria o recurso nela pre-
conjuntura ainda que por forma suma- visto, não pOdendo furtar-se a Assem-
ríssima, estaria negando a essência do bléia ao imperativo de sua apreciação.
Poder Judiciário, que não emite preceitos
normativos nem pareceres. Entendemos que, ainda desta vez, a
objeção não seria procedente. Porque o
Evidentemente, quando o Supremo Tri- recurso foi instituído, como imposição do
bunal declara que uma resolução legis- preceito constitucional, a que o legislador
lativa, ou Q ordenamento constitucional ordinário teria de conformar-se. Mas, em
do Estado-membro, é inconciliável com verdade, o seu propósito era o de subme-
- 204-
ter o processo ao pronunciamento do seu território florescem. Elaborada a
egrégio Tribunal de Justiça, tanto que Constituição federal, sob os influxos de
previu a hipótese de, à. mingua de recur- ardentes movimentos de reivindicações
:;0 veluntário da parte interessada, ser municipalistas, encontrou o município, no
o processo submetido, necessàriamente, ao Estatuto Básico, os fundamentes de sua
exame do Poder Judiciário. Ora, o re- expressão auton6mica.
curso, suprimindo, com a sua só mani-
festação, a oportunidade de apreciação Hoje, não se pode aceitar que a auto-
obrigatória do impeachment pela Justiça, nomia do município é de caráter exclu-
eqUivaleria em atribuir ao Poder Legis- sivamente administrativo. A Constituição
lativo a mesma atividade jurisdicional federal, em seu art. 28, reconheceu às co-
que é inerente ao Poder Judiciário, o munas o direito de elegerem os seus pre-
Que seria inadmissível, para não dizer in- feitos e vereadores, isto é, o de organi-
constitucional. zarem o seu poder político. Não se
lhes permitiu apenas a auto-organização
Fácil de concluir-se, portanto, que não administrativa, mas também a constitui-
fôra a regra inserta na Constituição, ja- ção de seu auto govêrno, ainda que o
mais estaria dentro do pensamento do não fôsse de forma ampla. Só não lhe
legislador ordinário a instituição de re- assegurou a possibilidade de auto-orga-
curso, para a Assembléia Legislativa. E nização. E mais. Em seu art. 23 dispôs,
se êste tinha, por fundamento exclusiYo, como a dar maior relêvo ao conceito que
o preceito cO::1stitucional, expressamente o art. 28 formulou, que a intervenção es-
invocado, e se sôbre êsse dispositivo pesou tadual, nos municípios, somente se daria,
o estigma da inconstitucionalidade, se- com o fito de lhes regularizar as fi-
gue-se, como conseqüência inde:::linável, nanças.
que se a regra da lei ordinária com aquê-
le guardava não somente relação insétil, Por isso, com Guimarães Menegale,
bastante, por si só, para torná-lo, logica- observaríamos que a autonomia política
mente, inconstitucional, como conseqüên- do município é, de fato, uma redução do
cia imediata e indeclinável, mas com êle poder do Estado. O poder do Estado con-
forIl".Rva unidade substancial, também tém-se no Município, em forma reduzida,
êle se contaminara da mesma eiva. A de- como poder independente. De onde é im-
claração de inconstituc~onalidade de um, possível negar poder politico ao municí-
pois, envolveu também a do outro. pio (cf. Direito Administrativo e Ciência
de Administração, págs. 193/194).
Mas, quand'l assim não fôsse, não po-
deria o egrégio Tribunal de Justiça, Ora, se a Constituição federal assegu-
neste ensejo, furtar-se a declarar a in- rou ao município poder politico, repre-
constitucionalidade do preceito, a nosso sentado pela eleição de seu Prefeito, como
ver despicienda, pelas razões acima in- expressão suprema da autonomia admi-
vocadas. nistrativa municipal e pela constituiçã<J,
através dos munícipes-eleitores, de sua
Realmente, a possib1l1dade de a Assem-
câmara de vereadores, é evidente que a
bléia Legislativa do Estado rever o prc-
cassação do mandato de Prefeito, pela
nunciamento da Câmara dos Vereadores
via do impeachment, ainda é ato de au-
de Volta Redonda, pela via do recurso,
tonomia política, como o fôra a sua elei-
é manüestamente inconstitucional, por
ção e, por isso, dentro da órbita munici-
ferir, sem sombra de dúvida, a autonomia
pal há de ser resolvido. E se a lei atribui
municipal.
o julgamento do processo à Câmara dos
Esta não deflui, no sistema constitu- Vereadores, é evidente que a decisão por
cional vigente, de concessão liberal dos ela proferida náo pode estar sujeita ao
Estados-membros, às comunas, que em reexame da Assembléia Legislativa esta-
- 205-
dual. Recurso pressupõe subordinação me há de se cingir sõmente ao aspecto
hierãrquica ou funcional entre dois ór- de sua legalidade Em se tratando de um
gãos, de graus diferentes. ato politico é conclusivo que o Tribunal,
se entrar no mérito dêsse pronunciamen-
E o seu exercício importaria em POl!-
to, só poderá proferir também, necessária
sibilitar a invalidação do ato pl·aticado
e inarredàvelmente, uma decisão de con-
por uma entidade autônoma, o município,
teúdo politico. E tal prática foge à. com-
através do Poder Legislativo municipal,
petência do Poder Judiciãrio.
por outro organismo também autõnomo,
o Estado. A semelhança dos atos administrativos,
em que ao Judiciãrio não cabe entrar na
Com isso, estaria violada a autonomia. indagação da justiça ou injustiça, com
que a Constituição concedeu !!ooe; muni- que teria sido praticado, parece-nos que,
cípics. aqui, também, deve o Tribunal restrin-
O contrOle, pois, da legalidade do pro- gir-se à apreciação dos aspectos formais
cedimento da Câmara dos Vereadores há do processo, ao exame da legalidade de
de estar sujeito, exclusivamente, ao Pojer seu procedimento. Não pode, a nosso ver,
Judiciário, competente, constitucional- e salvo melhor entendimento, ultrapassar
mente, para fazê-lo e não ao Poder Le- êsse limite, para pretender enxergar, além
gislativo do Estado. d!le, o acêrto ou o desacêrto dêsse ato,
que lhe é apresentado formalmente per-
Nem se diga que a Lei federal n.O 3.528, feito.
de 3 de janeiro de 1959, estabeleceu idên-
As prescrições estabelecidas pelo art. TO
tica providência para os Estados que não
da Lei n.o 109, de 16 de fevereiro de 1948,
dispõem de regulamentação própria. A
inconstitucionalidade dêsse dispositivo com as alterações introduzidas pela Lei
parece evidente, diante dos pronuncia- n.o 1.750, de 11 de novembro de 1952,
mentos já proferidOS pelo Supremo Tri- foram pontualmente cumpridas: insti-
bunal Federal, como já o observa Vitor tuiu-se comissão de 3 membros; abriu-se
Nunes Leal, em sua obra Problemas de vista ao Prefeito, que, além da defesa
Direito Público, pág. 435, nota n.O 17: escrita, prestou depoimento perante a
Comissão; elaborou-se, a final, o parecer,
"Quanto à. Lei n.o 3.528, de 1959, é a cUja vista decidiu a Câmara dos Ve-
curioso observar que ela contém disposi- readores, convertida, então, em Tribunal
tivo concedendo recurso com efeito sus- politico.
pensivo para as assembléias legislativas
A única dúvida que se poderia levantar
estaduais, no julgamento dos prefeitos
seria a de que não houve propriamente
pelas câmaras municipais, apesar de ha-
denúncia escrita, apresentada por ter-
ver o Supremo Tribunal considerado in-
ceiros, como prevê o art. 70, caput, e o
constitucional norma semelhante da le-
seu § 1.°. Entedemos que, como órgão
gislação de Minas Gerais."
fiscalizador do Executivo, tanto que 3.
E, atendendo também aos fundamentos, êle incumbe, além de elaborar o orça-
que levaram o Supremo Tribunal federal mento, regular a arrecadação e a aplica-
a decretar a inconstitucionalidade do art. ção das rendas municipais (art. 39, ns.
104 da Constituição fluminense, ter-se-ia I e TI), bem como julgar as contas do
de reconhecer à lei federal o mesmo vicio Prefeito (art. 39, § 9.°), não se pode negar
insanável (cf. Revista Trimestral de Ju- à Câmara dos Vereadores a instauração
risprudêncicl, vol. 3, pág. 431). do processo de impeachment, desde que
tenha conhecimento da prática de crime
Se manifesta, portanto, a competência de responsabilidade, por parte do Pre-
do Tribunal de Justiça, para conhecer do feito. Se a qualquer cidadão ou a diretó-
processo, pllZ"eCe-nos, iodaT1a, que o exa- rio de partido politico não se nega êsse
- 206
poder de iniciativa, com maior razão não Quando assim não fôsse, e possível a
se poderá negá-lo ao organismo polftico, análise intrínseca do julgamento, opina-
que exerce, dentro de certl.ls limites, o riamos, nesse particular, pela confirma-
contrõle dos atos do Prefeito. ção do Julgamento proferido pela Câmara
dos Vereadores.
No caso, o procedimento da Câmara
revestiu-se de prudente arbítrio. Institui Com efeito, em sua defesa, confessa 'J
primeiro uma Comissão de Investigação prefeito a prática de irregularidades, ne-
para previamente averiguar a procedência gando, entretanto, que assumam elas o
dos rumõres que até ela chegavam. Só contõrno de fatos delituosos. Nem sem-
depois que se viu de posse de elementos pre existe, no crime de responsabilidad3,
justificadores da instauração do processo, inteira coincidência entre êle e fatos ti-
é que lhe deu início, imprimindo-lhe o picos, catalogados na lei penal. Num caM,
curso estabelecido na Lei Orgânica. exaurir-se-ia o impeachment, com a sim-
ples destituição do acusado do cargo
Negar à Câmara êsse poder de inicia- ocupado. Noutro, cessada a investidura,
tiva, que a qualquer cidadão, desvestido teria de ser entregue à Justiça comum,
das responsabilidades que sôbre ela para responder pelOS crimes capitulados
pesam, se concede, seria, sem dúvida al- na lei própria.
guma, impor-lhe uma restrição, que nem
implícita, nem explicitamente, se con- De tôdas as imputações, a que maia
tém na lei. aVulta, é exatamente a que diz respeito
ao estôrno de verbas, vedado pela Cons-
Daí, não vislumbrarm()S nenhum im- tituição federal (art. 75), e expressamen-
pedimento dos vereadores, indicados para te classificado como crime, não só no Có-
constituírem a primeira Comissão, para digo Penal (art. 315), como também na
participarem do julgamento. Agiram como Lei n.O 3.528, de janeiro de 1959 (art. l.0,
delegados da Câmara. Apuraram a pro- n.o 14) e genericamente na Lei de Orga-
cedência dos fatos. Comunicaram o re- nização das Municipalidades (art. 69, h),
sultado ao organismo a que pertecem. quando prevê, como delito, os atentados
Instaurou-se o processo. Se para a co- à Lei Orçamentária.
missão, designada para processar o im-
peachment fôssem indicados alguns dos A materialidade do delito, como obser-
vereadores que participaram da primeira. va Eusébio Gomes, consiste em dar às
comissão, ainda se poderia levantar al- verbas ou a efeitos que o SUjeito admi-
guma objeção. Dela, porém, ficaram ex- nistra, uma aplicação diferente daquela
cluídos. Mas, como vereadores, não po- a que estavam destinados (cf. Tratado
deriam deixar de participar do ato de- de Derecho Penal, voI. V, pág. 525). Ai,
cisório da Câmara que integram. observa por sua vez Nélson Hungria, o
crime consuma-se com a prática de qual-
Destarte, não pesando sôbre o processo quer das ações previstas na lei, sendo
mancha alguma de ilegalidade, enten- irrelevante indagar-se se resultou, ou não,
demos, data venia, que defeso é ao Tri- efetivo prejuizo ao interêsse administra-
bunal entrar no âmago do veredictum tivo (Comentários ao Código de Processo
político, proferido pela Câmara dos Ve- Penal, voI. IX, pág. 356). A seu turno
readores. pondera Magalhães Drumond (Comen-
tários ao Código Penal, vaI. IX, pág. 280),
Somos, pois, pelo reconhecimento da que, em relação ao emprêgo irregular de
vaJ.idade do presente processo, conside- verbas, duas hipóteses podem ocorrer. Na
rando-se, conseqüentemente, cassado o primeira, há uma verba por cuja conta
mandato do Prefeito Municipal de Volta não se poderia fazer despesa não incluida
Redonda. nela legalmente. Na segunda, há aplica-
- 207-
ção de renda fora de qualquer autorização pesas imprevistas - por sua denominação
legal. mesma, revela a impossibilidade do ma-
nuseio da dotação, para aquêle fim. Nada
Vê-se, assim, que o delito se consuma
pela simples irregularidade no manuseio mais previsível que a posse do Prefeito,
que se dará, por fôrça de lei, entre os
dos dinheiros públicos, com desrespeito
dias 31 de janeiro e 3 de fevereiro. E do
às disposições orçamentárias.
dêle realizou-se a 31. A autorização para.
Ora, o pagamento de férias em dôbro, essas despesas só poderia ter sido dada
como antecipação a possível decisão ju- antes de sua posse, por seu antecessor, e
dicial, confessado pelo Exmo. Sr. Pre- não o foi, já que se destinavam a come-
feito (resposta a fls., alinea c), só poderia morações contemporâneas dela.
ser efetuado com a utilização de verba
inadequada. Nenhuma rubrica orçamen- Não existe verba, cuja utilização possa
tária poderia comportá-lo. O funcionário ser usada em proveito pessoal do próprio
é obrigado a gozar férias. Se não o fêz, administrador, como é o caso da posse
não poderia o orçamento reservar nu- festiva, que se propôs tomar.
merário, para atendê-las. Significaria a
hipótese absurda de destinar a lei or- A defesa também do Sr. Prefeito, com
çamentária meios para socorrer uma relação à justificativa do pagamento dos
ilegalidade. Mas, admitindo-se que hou- vencimentos do Tesoureiro e Fiel de Te-
vesse condenação jUdicial a respeito, soureiro (fls.), importa numa autocon-
não restaria ao Prefeito outra alter- denação. Sem dúvida que, se demitidos
nativa, senão a de pedir crédito à ilegalmente os titulares dos cargos e no-
Câmara. meados outros, para ocupá-los, o retômo
dos primeiros ocupantes não frustaria o
Irregular, também, a nosso ver, a re- direito de remuneração dos novos, pelos
muneração do Secretário do Prefeito, Sr. serviços prestados. Se a dotação própria,
José de Paiva Lafite. Inexiste êsse cargo, porém, não comportava a despesa, como
a não ser o de Secretário-Geral da Pre- é evidente, o seu atendimento jamais
feitura. E a criação de cargo ou função poderia ocorrer pela verba de Ser-
depende de deliberação da Câmara do.> viços Adjudicados Diversos. Tal dota-
Vereadores. E é de natureza eminente- ção, como dela própria se vê (verba
mente burocrática e de caráter perma- 814, sub. 13, pág. 52), se destina a
nente. A utilização da verba - 024 - atender a despesas com serviços e
Serviços e Encargos; 9 - Trabalhos Téc- obras realizados por terceiros, isto é,
nicos e Administrativos - é manifesta- por estranhos à Administração Pú-
mente imprópria. Por essa orientação, em blica. E a remuneração, no caso, era de-
verdade, poderia o Prefeito prescindir de vida a funcionário e não a estranho à.
criação de cargos e funções. Visa a verba Administração. Aqui, também, não resta-
a atender gastos não com pessoal, mas va outra alternativa ao Chefe do Exe-
com a execução de serviços de natureza cutivo, senão pedir suplementação de
técnica ou administrativa. Como quer que verba à Câmara dos Vereadores. Ademais,
seja, ainda que permitisse ela o paga- apurou esta que o pagamento vinha sen-
mento de pessoal, sê-lo-ia para execução do efetuado, ainda, pela verba imprópria.
de tarefa certa, para cujo consecução Com referência ao funcionário Francisco
faria jus à remuneração estipulada. de Paula Rodrigues, não poderia êle per-
Quanto às despesas com os festejos co- ceber dos cofres municipais pelo exercí-
memorativos da posse do Prefeito, jamais cio de outra função. O trabalho que
se ouviu dizer que uma autoridade lan- desenvolvesse fora do horário normal, ha-
çasse mão dos dinheiros pÚblicos para veria de proporcionar-lhe o percebiment()
manisfestar o seu regozijo por sua própria pelas horas extraordinárias. Mas essa
investidura no cargo. A rubrica - Des- atividade compreender-se-ia no desem-
- 208-
penho das atribuições de seu cargo ou feito de condições econômicas para arcar
função. Outros misteres, em outro setor, com o ressarcimento dos prejuízos que
importariam em acumulação vedada em a caução visa a prevenir.
lei. "Acresce", como ponderou o parecer
(fls.), "que não há modalidade legal ou Desnecessãrio respigar os demais fatos
faculdade, de se empreitar pessca para arrolados no parecer. Os acima indicados
serviço municipal regular, com salário parecem-nos suficientes para legiti.mar,
mensal, mormente já sendo o "empreita- que farte, a procedência do impeachment
do", servidor titular do Municipio". Tam- contra o Prefeito Municipal de Vlllta Re-
bém nessa hipótese, o pagamento, na donda, acarretando-lhe a perda do man-
própria confissão do Prefeito, vem sendo dato popular, devendo ser, em conse-
efetuado pela Verba 814, 13, concernente qüência, salvo melhor juízo, confirmado
a serviços adjudicados. o veredictum da Câmara de Vereadores
de Volta Redonda, sujeitando-se, ainda,
Relativamente a José Francisco da Sil- o acusado, depois, ao respectivo proces-
va, procedem também, a nosso "er. as cri- so penal, por violação manifesta do art.
ticas do parecer, como ainda a que for- 315 do Código Penal. Essa a convicçao
mulou, com relação ao numerário des- que nos ficou.
pendido com a decoração da cidade, nos
folguedos carnavalescos. Já se encontrava pràticamen~,e ultima-
do êste parecer quando foram anexados
Cumpre ressaltar, ainda, que a nomea- aos autos os documentos de fls., que
ção do Tesoureiro, sem prestação de fian- mero protesto, visam apenas a acautelar
ça, importa em atentado à guarda de possíveis direitos de notificante, SUEce-
dinheiros públicos, já que confid.dos a tíveis, a seu sentir, de serem prejudlcados
pessoa não protegida pelas cautelas im- pelos eventos que narra. Em nada ser-
postas por lei. Não nos parece válida a viram para alterar a nossJ, conv;cção,
afirmativa de que tal fato redundaria em expendida no modesto trabalho, 03upra e
responsabilidade do Prefeito, sàmente se retro, que já haviamos elaborado.
verificado algum prejuizo pelo erário
(prejuízo que a certidão de fls. anuncia, Niterói, 19 de abril de 1960. - Ant6nio
imputando ao funcionário desvio comi- Carlos Sigmaringa Seixas, Procurador-
derável). Nem sempre desfruta o Pre- -Geral do Estado.

SENTENÇAS
ISENÇÃO FISCAL - IMPOSTO ÚNICO - CIA. SIDERúRGICA
NACIONAL
- Interpretação da Lei n.O 2.975.
JUíZO DA 1.- VARA DA FAZENDA PúBLICA DA GUANABARA
Companhia Siderúrgica Nacional verSU$ Unlão Federal

AÇÃO ORDINÁRIA Juiz Dr. Amilcar Laurindo Ribas, comigo


escrivão, foram apregoadas as partes nos
Audiência de Instrução e Julgamento autos da ação ordiná:-ia movida pela
do dia 16 de junho de 1961. Aberta a Companhia Siderúrgica Nacional contra
audiência à hora designada, com as for- a União Federal. Apregoadas comparece-
malidades legais, com a presença do MM. ram a autora, representada pelo Dr. Pe-