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FRANCISCO LEMOS

SIMONE B. A. GERHARDT
CLÁUDIO CAETANO VIEIRA
advogados
Av. Pres. Vargas, 1968 – CEP 97.670-000 – SÃO BORJA (RS) – C. Postal, 417 – Fone/Fax (055) 431-3240 - flemos@gpsnet.com.br

ABALO DE CRÉDITO E DANO MORAL


Fernando dos Santos Wilges
assessor jurídico municipal da Fundação de Educação Social e Comunitária – FESC, Porto
Alegre (RS)
Reza o artigo 1º do CPC: "A jurisdição civil, contenciosa e voluntária, é exercida pelos juízos,
em todo o território nacional, conforme as disposições que este Código estabelece".
O objetivo primeiro da função jurisdicional, qualquer que seja, podendo ser esta trabalhista,
penal, etc., é a pacificação social. Essa pacificação social se realiza por meio da solução dos
conflitos. Conflitos, repita-se.
E é graças à figura do juiz, do Estado Juiz, pacificador social detentor da função jurisdicional,
que muitos dispositivos da própria Magna Carta são viabilizados, como é o caso do devido
processo legal (artº 5º, LIV), por exemplo, que impede a própria União Federal, por mais
soberana que seja, de desrespeitar "no desempenho de sua atividade de expropriação, por
interesse social, os princípios constitucionais que, em tema de propriedade, protegem as
pessoas contra a eventual expansão arbitrária do poder estatal" (MS 22.164-0 - SP,
STF/pleno, DJU 17/11/95, p. 39.206); da inafastabilidade do controle judicial (CF 5º, XXXV),
o qual censura, tachando como cerceamento de acesso ao Judiciário o condicionamento de
admissão de ações judiciais, que tenham por objeto discutir débito para com o INSS, ao
depósito preparatório do valor do débito, censurando assim o que vinha disposto na LEI
8807/94, Lei Federal (ADIN 1.074-3 - DF); do contraditório e ampla defesa (CF 5º, LV), que
atribui ao Judiciário o poder de revisar até mesmo a legalidade de apuração disciplinar em
foro administrativo, podendo, inclusive anulá-lo se este não oportunizou a defesa prevista
em lei ao acusado, entre muitos outros exemplos.
E é o Juiz que, investido de uma autoridade pública, segundo De Plácido e Silva, administra
a justiça em nome do Estado. E nós, cidadãos, se lesados de alguma forma em nosso direito,
devemos recorrer ao Judiciário para que sejamos ressarcidos de alguma forma (CF 5º,
XXXV).
Ocorre que o benefício constitucional da inafastabilidade do controle judicial têm gerado um
certo abuso por parte de muitos cidadãos. Nota-se um grande número de ações que
tramitam no Judiciário versando sobre ressarcimento de danos morais por "abalo de crédito".
Nota-se, também, que dificilmente a metade dessa contendas são advindas de pedidos
sérios, em que realmente tenha sofrido um avassalador dano moral o demandante. Protesto
indevidos, positivações no SPC, entre outras providências tomadas por empresas
desorganizadas, não devem dar origem a uma verdadeira "indústria" do dano moral,
indústria essa que vem arrebanhando cada vez mais adepto. É sobre esse tema o objeto do
presente explanado.

Urge que se dê um basta a essa prática que, a meu ver, é delituosa e beira ao
locupletamento tão repugnado pelo nosso direito.
Não se quer aqui, de outro lado, apor a firma ratificatória à desorganização de muitas
empresas que, muito comumente, abalam o crédito de inúmeros cidadãos inocentes, como
se "caloteiros" fossem. Quer-se, simplesmente, tentar evitar que surja um caos bivalve
composto, de um lado, por "abalados moralmente" sedentos pelo enriquecimento
instantâneo, e, de outro, por empresas quebrando e gerando ainda mais desemprego por ter
que ressarcir os danos "morais" causados ao demandante.
Mas a questão é deveras delicada. Se, de um lado, inibe-se o ajuizamento de demandas
dessa gênese, de outro, colabora-se com o aumento das empresas desorganizadas.
Não se deve olvidar, também, que a Constituição Federal assegura direito à indenização pelo
dano moral, quando violadas a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem de alguém. E
esse dano moral é configurado pelo sentimento de desconforto, de constrangimento,
aborrecimento a humilhação suportado pelo lesado. Visa, outrossim, trazer alguma forma de
alegria que neutralize a dor e o sofrimento de quem padeceu a lesão. Não obstante, a
legislação ordinária também não define exatamente o valor da indenização, até mesmo
porque o dano moral é um sentimento de pesar para o qual não se encontra estimação
perfeitamente adequada, sendo inegável que dificilmente uma sentença condenatória
importará em uma exata reparação. E, sendo assim, se o "quantum" da condenação for
pequeno demais, a reparação é insuficiente; se grande demais, ocorre enriquecimento
injusto do lesado. Por isso mesmo, e para evitar que hajam exageros, é que as condenações
procuram - pelo menos devem procurar - guardar uma íntima relação com o dano realmente
sofrido pela pessoa, segundo clara e inequívoca comprovação nos autos de que tenha havido
uma humilhação perante terceiros (não se esqueça que o tema aqui trazido à baila concerne

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FRANCISCO LEMOS
SIMONE B. A. GERHARDT
CLÁUDIO CAETANO VIEIRA
advogados
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apenas ao específico caso dos abalos indevidos do crédito - para outros casos -
considerações diversas a serem feitas). Mero lançamento do nome de uma pessoa no
cadastro dos inadimplentes como SPC, não parece, por si só, ensejar uma milionária
indenização como muitos pretendem e pensam. É preciso levar-se em conta outros fatores
que fizeram a moral do cidadão ficar abalada. Sem contar que a condenação por dano moral
causado não deve ser rígida a ponto de quebrar uma empresa, eis que deve guardar caráter
pedagógico, e não destrutivo, tomando-se em consideração, inclusive, a condição sócio
econômica de todas as partes, além do que o protesto ou cadastro positivo deve ter gerado
uma grave ruptura na vida social do lesado para que haja indenização.
Senão, parece que incabível a indenização por dano moral para esses casos, a exemplo de v.
acórdão unânime da 1ª Câm. Cível, do TJRJ (in COAD-ADV - Jurisprudência/1997 - verbete
78373), "verbis": "A reparação do dano moral, segundo pensamos, deve ser exceção, e,
não, transformado em regra, sendo concedida apenas para reparar aquele dano que a
reparação do dano material não consiga suprir, para que o conceito não se apequene. Deve
estar restrito aos casos de perda de ente querido, de ficar a pessoa mutilada, ou de ofensa
moral, não podendo estar ligado a qualquer problema, embora sério, que a pessoa possa
momentaneamente sofrer". Da mesma Câmara do mesmo Tribunal (apelação nº 1287/96):
"É necessário pôr um basta a uma interpretação facilitária do dano moral, sob pena de
abastardamento de uma poderosa conquista da legislação brasileira a partir da vontade
constituinte dos oitenta". Ou seja, o que muitas vezes ocorre, é que a pessoa, ao receber
uma intimação de protesto, por exemplo, e sabendo que vai ser protestada, deixa tal fato
ocorrer, para, então, no outro dia, entrar com uma ação de reparação de danos morais. Por
isso, é preciso a análise acurada de cada caso. Empresas desorganizadas existem. Mas
existem, também, aqueles que se aproveitam desse infelizes equívocos empresariais para
tentar uma aventura processual atrás do ouro. A solução parece mais encontrar asilo em
outro âmbito que não o do Judiciário, que, por meio de criação de multas ou outros meios,
poder-se-ia inibir a desorganização empresarial, tudo com o fim de se evitar um caos e
geração de ainda mais desemprego, sem contar com o desafogamento do Poder Judiciário,
deixando que este preste a tutela jurisdicional aos realmente necessitados.
Danos materiais comprovados, sim. Morais, muita cautela

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