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Contra-Discurso do Desenvolvimento Sustentável

Marcionila Fernandes
Lemuel Guerra

Organizadores
Contra-Discurso do Desenvolvimento Sustentável
Associação de Universidades Amazônicas – UNAMAZ

GIUSEPPE E. GIANNETTO PACE – Presidente


Rector de la Universidad Central de Venezuela

FABIAN RODAL COELHO – Vice-Presidente (Bolívia)


Rector de la Universidad Técnica del Beni

MANOEL MALHEIROS TOURINHO – Vice-Presidente


(Brasil)
Reitor da Universidade Federal Rural da Amazônia

VICTOR MANUEL MONCAYO CRUZ – Vice-Presidente


(Colômbia)
Rector de la Universidad Nacional de Colombia

REINALDO VALAREZO GARCIA – Vice-Presidente


(Equador)
Rector de la Universidad Nacional de Loja

JAMES ROSE – Vice-Presidente (Guiana)


Vice-Chancellor of the University of Guyana

VICTOR MANUEL CHAVEZ VASQUEZ – Vice-


Presidente (Peru)
Rector de la Universidad Nacional de Ucayali

GREGORY RUSLAND – Vice-Presidente (Suriname)


Chairman of the Board – Anton de Kom Universiteit van
Suriname

AMÉRICA PERDOMO – Vice-Presidente (Venezuela)


Directora del Centro para Investigación y Control de Enfer-
medades Tropicales “Simón Bolívar”
Contra-Discurso do Desenvolvimento Sustentável

2a edição revista

Marcionila Fernandes
Lemuel Guerra

Organizadores

Belém
2007
ASSOCIAÇÃO DE UNIVERSIDADES AMAZÔNICAS

Travessa 3 de Maio, 1573 – São Braz


CEP. 66063-390 Belém – Pará – Brasil
Tel.: (+55-91) 3229-4478
E-mail: unamaz@ufpa.br
http://www.ufpa.br/unamaz

Vice-Presidente UNAMAZ – Brasil: Prof. Dr. Manoel Ma-


lheiros Tourinho

Diretora da Sede Institucional: Profa Rosa Elizabeth Acevedo


Marin

Os trabalhos aqui apresentados são de inteira responsabilida-


de dos autores.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo


com a Lei no 1825, de 20 de dezembro de 1907.

Contra discursos do desenvolvimento sustentável /


Organizado por
Marcionila Fernandes e Lemuel Guerra. — 2. ed.
rev. — Belém: Associação de Universidades
Amazônicas, 2007.
p.

ISBN 85-86037-13-3

1. Desenvolvimento sustentável. I. Fernandes,


Marcionila.
II. Guerra, Lemuel. III. Associação de Universidades
Amazônicas.

CDD: 333.71509811
SUMÁRIO

PREFÁCIO DA 1A EDIÇÃO.......................................... 9

PREFÁCIO DA 2A EDIÇÃO.......................................... 15

APRESENTAÇÃO........................................................... 21

A Filosofia Política do Ecologismo 27


João Almino.......................................................................

Os novos Discursos da Sustentabilidade 51


Michael R. Redclift.............................................................

Quem Sustenta o Desenvolvimento de quem? O De- 77


senvolvimento Sustentável e Reinvenção da Natureza
Subhabrata Bobby Banerjee..............................................

Desenvolvimento Sustentável: Antinomias de um 129


Conceito
Marcionila Fernandes........................................................

Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável: Con- 167


siderações sobre um Discurso de Inferiorização dos
Povos da Floresta
Manuel Dutra.....................................................................

Desenvolvimento Sustentável e seus Limites Teóricos- 195


Metodológicos
David Ferreira Carvalho...................................................

O Padrão Insustentável da Demanda Material da 231


Economia do Brasil
José Alberto da Costa Machado........................................
PREFÁCIO DA 1A EDIÇÃO

Desenvolvimento sustentável: um modelo (teórico) ou


uma ideologia ecocêntrica?

Ao término de um primeiro mandato, a Vice-


Presidência da UNAMAZ –Brasil, sente-se feliz em apresen-
tar à comunidade acadêmica e político-institucional um livro
com textos que procuram apresentar – para a reflexão de to-
dos - um contraponto ao discurso do desenvolvimento susten-
tável. Tese da década que fechou o século XX, esse discurso
impregnou as grandes agências de fomento ao crescimento
econômico e desenvolvimento social como o Banco Mundial,
o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Instituto Inte-
ramericano de Cooperação para a Agricultura. Foi baseada
nestas circunstâncias que a proposta de publicação deste livro
tomou corpo nos planos da Sede Institucional da UNAMAZ –
Brasil, a partir do ano de 2001, quando apresentamos ao con-
junto dos membros da Associação, na Jornada Programa
UNAMAZ, 2000-2003, a lista de temas de publicações. A
proposta foi igualmente apresentada, na programação dos
Conselhos Deliberativos da UNAMAZ, em Boa Vista - Ro-
raima e em Loja – Equador, tendo-se solicitado contribuições
dos afiliados sob forma de artigos.

Tendo em vista a quase unanimidade que se estabele-


ceu em círculos políticos e intelectuais em relação à positivi-
dade do conceito de desenvolvimento sustentável, é uma ou-
sadia organizar um livro e intitulá-lo de Contra-Discurso do
Desenvolvimento Sustentável, buscando suscitar questiona-
mentos sobre esta noção que, infiltrada nas instituições aca-
dêmicas e de pesquisa, adquiriu foros de cientificidade e de
prática legitimada. Como e de onde surgiu o conceito de de-
senvolvimento sustentável? E em que bases se estabeleceu o
consenso e a legitimação dessa noção ambígua que, por suas
propriedades – uma delas, o mimetismo –, adquiriu livre trân-
sito na academia? Por que, na passagem do milênio, tal con-
ceito se estabelece como exigência nas proposições públicas
governamentais e não-governamentais? Por que os idealiza-
dores e defensores externos não fizeram nenhum reparo a
essa noção que passou a ter ampla vigência no Brasil, talvez
muito mais do que em outros países do Hemisfério Sul Como
se tecem os fios de Ariadne dessa política global? Quais suas
implicações teóricas e metodológicas?

Aqui mesmo, e na Universidade Federal do Pará com


maior destaque que em outras Universidades regionais, vimos
serem criados, desde o início da década de noventa, progra-
mas formados nessa matriz, tal como ocorreu no Núcleo de
Altos Estudos Amazônicos (NAEA); no Programa Pobreza e
Meio Ambiente na Amazônia (POEMA), no Centro Agroam-
biental do Tocantins (CAT), no Centro Agropecuário (CAP)
e Núcleo de Meio Ambiente (NUMA). Do mesmo modo,
tem-se feito do conceito logomarca de cursos de pós-
graduação (cursos em nível de especialização, mestrado e
doutorado em Desenvolvimento Sustentável dos Trópicos
Úmidos, em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Susten-
tável, em Sistemas Agroflorestais), e realizados seminários,
congressos e conferências sobre o tema. A noção de desen-
volvimento sustentável encontra-se ainda na memória recente
da Associação das Universidades Amazônicas, UNAMAZ, e
da Assessoria de Relações Nacionais e Internacionais da
UFPA e da UFRA, sem contar as instituições que ocupam
posição no quadro de verticalização de políticas de interven-
ção como o PPG 7. A essas memórias institucionais soma-se
a preocupação presente nas atividades de pesquisa para diag-
nosticar e realizar a mediação entre as propostas de planos de
manejo dos recursos naturais e as comunidades negras, indí-
genas e camponesas. Portanto, podemos estar sendo induzi-
dos a tratar temas apelativos da nossa época em busca da tese
da sustentabilidade, ou levados a fazer proposições que, par-
tindo de leituras do mundo social e cultural, produzem mitos
que aparecem com toda a força no discurso oficial atual.

No conjunto de conhecimentos modernos coube à


Ecologia um papel básico na definição do conteúdo da sus-
tentabilidade, muito embora filósofos contemporâneos já ti-
vessem produzido a crítica a um tipo de progresso que cami-
nhava para a catástrofe. A ecologia abraça, então, a crítica ao
mal-estar social, conseqüência dos padrões de industrializa-
ção e do crescimento urbano. Ela assume a vanguarda da ex-
plicação da crise ambiental. Daí que o desenvolvimento sus-
tentável, como uma espécie de offspring ecológico, não se
descola da crise ecológica que turbina uma espécie de medo
coletivo sobre a iminência da catástrofe e, ao mesmo tempo,
detona uma espécie de consciência da finitude da vida huma-
na no planeta e de forma insistente o homem procura saídas
dentro do mesmo parâmetro: políticas de preservação, de
controle, gestão e manejo de ecossistemas.

Segundo Jean Paul Deléage, essas predições encarni-


çadas derivam de um mal-entendido que se origina no fato de
a sociedade tratar a questão ambiental como se fosse um pên-
dulo que vai da idéia do “small is beautifull”, sobretudo se o
pequeno for verde, à noção da ecologia como uma “mercado-
ria banal”. Esse movimento pendular deve-se, segundo o au-
tor, a derivações perniciosas que aconteceram (e aconte-
cem...) em relação ao conteúdo político, técnico e ideológico
ponderado no conceito. Por isso Deléage1 explica que, embo-
ra privilegie a inclusão de conteúdos políticos e ideológicos
ao conceituar sustentabilidade, acrescentou uma derivação
científica. Por isto as ciências sociais, na tentativa de alavan-
car a construção de seu espaço nessa problemática, têm en-
contrado dificuldades para medir as relações entre trabalho
científico e engajamento político, deixando escapar recortes

1
DELEAGE, Jean-Paul. História da Ecologia: uma ciência do homem e da natureza.
Lisboa: D. Quixote, 1993; DELEAGE, Jean-Paul. Uma Ecologia-Mundo. In: CASTRO,
Edna; PINTON, Florence (Orgs.). Faces do Trópico Úmido: conceitos e questões sobre
desenvolvimento e meio ambiente. Belém: CEJUP, UFPA. NAEA, 1997. p. 23-52.
importantes das relações sociais implícitas naquele processo,
não captadas também pelas correntes biocêntricas, (ecocên-
trica do fato social) e sociobiológicas, uma vez que não situ-
am a dimensão social, política e ideológica do problema eco-
lógico, por desconhecerem, tais correntes, a teia de relações
sociais que se estruturam na modernidade, como escreve Fer-
nandes2.

Desta forma a discussão sobre o desenvolvimento sus-


tentável em voga necessita ter presentes algumas teses e fatos
que não devem ser negligenciados: primeiro, que o reconhe-
cimento tardio da crise do meio ambiente deve-se a duas di-
nâmicas: uma relacionada ao processo de artificialização da
sociedade humana em níveis inaceitáveis, e outra, vinculada a
uma característica inerente ao capitalismo que, para se esta-
belecer como sistema econômico, necessita adquirir hegemo-
nia como modelo social universal. Entre a afirmação da he-
gemonia do capitalismo mundial, a partir do fim da oposição
entre blocos geopolíticos e econômicos, e a planetarização da
crise existe uma relação direta; segundo, que as inclusões das
sociedades tradicionais no capitalismo por meio do mercanti-
lismo dos seus espaços naturais e culturais, do consumo de
produtos industrializados, da formação de áreas comuns de
mercados e dos decréscimos de grandes movimentos sociais
emancipatórios, estão dando novas feições à política mundial

2
FERNANDES, Marcionila. Implicações teóricas e praticas do desenvolvimento sustentá-
vel: um estudo com base no Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicas do
Brasil. Recife: [s.n], 2001. 350 p. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal
de Pernambuco. Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 2001.
através da convergência de produtos e processos e do consen-
so do ponto de vista econômico, fatos que determinam a fra-
gmentação social e cultural das economias tradicionais. De
nenhum modo a solução da crise ambiental deve ser buscada
em formas de produção que conduzam a modificações no
modo capitalista de produção e de consumo de mercadorias;
terceiro, que a divisão ecológica internacional (FERNAN-
DES, 2001) estabelece, de um lado, áreas ricas em florestas,
situadas principalmente em países subdesenvolvidos, às quais
é atribuída a função precípua de assegurar o equilíbrio ambi-
ental global, que, por isso, são tratadas como patrimônio da
humanidade; do outro lado, áreas industrializadas, financei-
ramente influentes, e, por isso, com capacidade para estabele-
cer um domínio político-ideológico e econômico que assegu-
ra sua permanência e continuidade dentro de padrões de pro-
dução e consumo; quarto, que a repercussão mundial da crise
ambiental dotou de legitimidade o debate público sobre a
deterioração da natureza, possibilitando a emergência de mo-
vimentos ambientalistas, ONGs de abrangência supranacio-
nal; de centros e institutos científicos dedicados à pesquisa e
à formação de recursos humanos especializados em meio
ambiente, incluindo-se aí os organismos internacionais com a
atribuição de gerenciar as políticas ambientais globais a partir
dos países centrais; quinto, que a formulação da crise ambi-
ental como problema mundial tem contribuído para a secun-
darização das diferenças entre as nações e, conseqüentemen-
te, das relações de poder entre elas. Sob a alegação de que a
Terra estaria em risco e sua salvação dependeria de uma ação
de todos, justificam-se intervenções em áreas eleitas como
nichos ecológicos capazes de definir o futuro do planeta – a
grande maioria delas localizadas nos países do Sul – suplan-
tando-se as fronteiras geopolíticas, resguardando-se, assim, as
áreas historicamente geradoras dos grandes problemas liga-
dos à exaustão dos recursos naturais e do comprometimento
da biosfera. A lógica de mundialização do problema protege
os modelos de exploração dos recursos naturais ligados à
forma de produção capitalista dos países centrais, impedindo
a reflexão sobre a indicação de responsabilidade na geração
da crise do meio ambiente. Há, então, em curso, uma propos-
ta de reterritorialização dos espaços que se contrapõem às
fronteiras políticas e sociais nacionalmente conquistadas;
sexto, que a crise ambiental desencadeou, além dos conflitos,
tentativas de implantação de políticas de partilha e de gerên-
cia desses recursos, tendo em vista a repercussão dos limites
energéticos, hídricos, minerais, genéticos para a continuação
da expansão do sistema capitalista. As florestas, incluindo as
da Pan-Amazônia, foram definidas como celeiro da biodiver-
sidade e passaram a ser consideradas como as principais res-
ponsáveis pelo equilíbrio do ecossistema terrestre. A divisão
ecológica internacional determina a confluência entre as áreas
destinadas a reproduzir modos tradicionais de produção, ma-
nutenção e formas de apropriação e processamento dos recur-
sos naturais “limpos” (FERNANDES, 2001). E é nessa jun-
ção que aparece o desenvolvimento sustentável, produzindo a
preservação ambiental com desenvolvimento econômico;
sétimo, que o pensamento hegemônico a respeito da temática
ambiental mantém os privilégios e as estruturas do projeto de
modernidade pós-capitalista cuja premissa básica é estimular,
cada vez mais, processos crescentes de consumo e manuten-
ção de estratégias de apropriação praticadas há muito e que
resultam em níveis crescentes de exclusão social e de artifici-
alização da vida humana. As formulações de uma política
ambiental global não conduzem a um novo contrato social
com base em novas relações entre sociedades e natureza, o
que significaria o questionamento das bases do sistema de
produção da vida material e das formas de apropriação dos
recursos naturais. A visão ecocêntrica tende a apagar a refle-
xão sobre a condição humana nas sociedades modernas, prin-
cipalmente aquela que se orienta para o enfrentamento das
contradições existentes nas relações sociais.

Ao finalizarmos este capítulo introdutório queremos


agradecer, de forma muito especial, à professora Marcionila
Fernandes por sua colaboração ao reunir artigos e discutir o
conteúdo dos mesmos. A esse trabalho somou-se o do pro-
fessor Lemuel Guerra, a quem a UNAMAZ – Brasil também
agradece pela dedicação. Um reconhecimento especial da
Vice-presidência vai para a Professora Rosa Elizabeth Ace-
vedo Marin, Coordenadora da Sede Institucional, que com-
partilhou todos os momentos da produção, responsabilizando-
se pelas decisões finais da publicação. Em tempos de luta
para continuar os ideais de sobrevivência da universidade
pública, sem a participação decidida da Professora Rosa, não
nos teria sido possível conduzir a elaboração desse livro que
acreditamos importante para a reflexão crítica sobre o que
significa para a Amazônia o desenvolvimento sustentável
visto num recorte das políticas mundiais. A todos que se inte-
ressarem pelo tema, desejamos uma produtiva leitura.

Manoel Malheiros Tourinho


Reitor pro-tempore da
Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
Vice-Presidente da UNAMAZ – Brasil
APRESENTAÇÃO

Lúcio Flávio Pinto

Entre as décadas de 50 e 90 a integração – forçada e


mesmo manu militari – da Amazônia às economias externas,
nacional e internacional, seguiu o velho modelo do homem
agrícola: substituição de sua floresta por campos de pasta-
gem, culturas comerciais, cultivos de subsistência e qualquer
outra forma das já conhecidas de abertura de fronteira, com
sua fauna acompanhante de estradas de rodagem, cidades,
hidrelétricas, etc.

O principal resultado desse “modelo”, apenas com va-


riações tecnológicas em relação ao modo de fazer do homo
sapiens (com seu sinônimo compulsório, o homo agrícolas)
foi o mais feroz processo de destruição de floresta da história
da humanidade. Nesse período, sob lemas como “integrar
para não entregar”, o desmatamento passou de menos de 1%
para 17% da superfície da Amazônia. Quase 600 mil quilô-
metros quadrados de vegetação nativa vieram abaixo, duas
vezes a extensão de São Paulo, “locomotiva” do Brasil, com
mais de um terço da riqueza nacional.

Essa fantástica incorporação de recursos naturais rea-


lizou os sonhos de progresso da fronteira, onde está a maior
reserva de recursos biológicos do planeta? Os resultados das
mais recentes aferições dessas quatro décadas mostram que
não: a Amazônia ficou exatamente igual ao Brasil mais anti-
go, ou pior. O Atlas do Desenvolvimento Humano, lançado
em 2003, mostra que a Amazônia cresce menos do que as
outras regiões brasileiras, de onde partem as frentes de ex-
pansão no rumo norte, e o produto da atividade produtiva é
partilhado por um número cada vez menor de pessoas.

Se a concentração econômica é a grande e estigmati-


zante marca do Brasil do século XX, em sua maior fronteira
esse sinete se tornou ainda mais forte. Deixando de ser a ilu-
são do paraíso perdido, como Euclides da Cunha a viu quan-
do o século apenas começava, ela penetrou no novo milênio
mais próxima do inferno humano e ecológico, ainda passível
de atenuação, mas já visível no horizonte da rotina.

Para que pudesse render economicamente para o país


e para o mundo, cumprindo uma agenda predeterminada a
partir de fora, a Amazônia perdeu nessas quatro décadas 17%
do seu bem mais nobre e valioso, a floresta. Os 570 mil qui-
lômetros quadrados que foram transformados pela ação dos
colonizadores, entretanto, não resultaram em desenvolvimen-
to para os nativos, seja os de nascimento como os de adoção,
cada vez mais numerosos em função de elevadas taxas de
imigração. De promessa de futuro, a Amazônia está sendo
despejada para o clube dos mais pobres Estados da federação,
o Brasil n0 3, o enjeitado.

Conforme os dados do Atlas, elaborado em conjunto


pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvol-
vimento), Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas)
e Fundação João Pinheiro, todos os Estados da Amazônia (a
Clássica como a Legal) tiveram desenvolvimento – entre
1991 e 2000 – abaixo da média nacional. O IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano) do Brasil na década cresceu de
0,696 para 0,766 (o máximo é 1). Todos os 27 Estados tam-
bém cresceram, mas o ritmo amazônico foi menor do que o
desempenho médio. O Nordeste acompanhou-o. Os Estados
nordestinos mais assolados pelas secas se fundiram com os
Estados amazônicos mais pobres nesse Brasil de terceira
classe.
O Pará, Amazonas, Acre e Tocantins estão nessa faixa
mais pobre, na companhia de (pela ordem) Pernambuco, Ser-
gipe, Ceará, Bahia, Piauí, Paraíba, Alagoas e Maranhão. No
segmento intermediário de desenvolvimento estão, também
em escala decrescente, Amapá, Roraima, Mato Grosso e
Rondônia. Se a fronteira mais visada e celebrizada é a Ama-
zônia, a que está cumprindo esse papel é o Centro-Oeste, que
agora tem mais do que o dobro da participação amazônica no
PIB (Produto Interno Bruto).

O mapa da evolução espacial do desenvolvimento ex-


plica a razão da melhoria do IDH em todo o território amazô-
nico: atividades produtivas em áreas pioneiras exerceram um
efeito exponencial que se irradiou pela vizinhança, antes des-
tituída de fontes de renda. No entanto, é cada vez menor o
número de pessoas que se beneficiam desse rendimento. Em
1991 apenas Roraima apresentava um índice de Gini (da con-
centração da renda) acima de 0,65 ou mais (o máximo de
concentração é 1). Em 2000 aconteceu exatamente o inverno
na Amazônia: Roraima, o único Estado (da região e de todo
país) que apresentou melhoria da concentração, tinha Gini
entre 0,61 e 0,62, igual ao de Rondônia, enquanto todos os
demais Estados passaram para a faixa mais grave, a mesma
da qual faziam parte apenas os Estados nordestinos assolados
pelo flagelo da seca (agravado pela incúria do homem).

O Pará, o Estado com a maior população, o maior


PIB, o segundo maior território e a mais diversificada pauta
de recursos (e de produtos) econômicos, é o caso mais grave
de concentração da renda (como da maioria dos demais sub-
indicadores do IDH). O Estado apresenta, ao mesmo tempo,
os maiores índices nos dois extremos da pirâmide: o dos mais
ricos e o dos mais pobres. Era o 10º em concentração da ri-
queza em 1991: 10% dos mais ricos detinham 51,7% da ri-
queza estadual. Tornou-se o 9º pior em 2000: esses mesmos
10% já abocanhavam 54,7% da renda do Estado. Os 20%
mais pobres, que só tinham acesso a 2,6% da renda total em
1991, no ano 2000 ficaram com tão-somente 1,5% (o Estado
passou do 8º para o 7º lugar entre os de maior pobreza).
A deterioração, porém, não é apenas de renda. O que
os técnicos chamam de vulnerabilidade, com base no IDH
(que mede a expectativa de vida, as condições de trabalho e o
nível de escolaridade), se alastrou pela região junto com as
cunhas migratórias. Excetuado o Amazonas (que tem metade
da sua população enquistada em Manaus, numa concentração
sem paralelo nacional), em todos os demais Estados amazô-
nicos cresceu o trabalho infantil, em níveis que só têm parale-
lo com os nordestinos.
A região é líder na quantidade de crianças fora da es-
cola (sendo a educação, em geral, a razão principal para o
crescimento constante do IDH, mais do que renda e expecta-
tiva de vida, embora se deva recear pela qualidade desse en-
sino). O Pará é responsável pelo quinto índice mais grave em
todo país, passando à frente de Alagoas, que havia sido o
Estado campeão do trabalho infantil em 1991.

O abandono e o isolamento são causas de desempe-


nhos sofríveis de certos municípios da Amazônia. Jordão, no
Acre, tinha o segundo pior índice de desenvolvimento huma-
no (0,475) em 2000, abaixo apenas de Manari, em Pernam-
buco (0,467), e o maior percentual de analfabetos (60,66%),
acima apenas de Itamarati, no Amazonas (59,95%). Centro
do Guilherme, no Maranhão, ficou em quinto lugar nesse
item, mas ocupava constrangedora primeira posição em maté-
ria de renda per capita (cada um de seus moradores recebia,
em média, R$ 28,38, para um salário mínimo de R$ 150).

Problema apenas do sertão? Ledo engano. Belém, a


metrópole da Amazônia, foi a que mais perdeu posições na
relação do IDH metropolitano: ocupava o 130 lugar entre as
regiões metropolitanas brasileiras em 1991; despencou para a
25a posição em 2000. É um desempenho aviltante, indepen-
dentemente de saber quem é o responsável (na eterna queda-
de-braço entre a prefeitura municipal petista e o governo es-
tadual tucano) ou se vai mudar a partir de agora. Ainda que
mude – e para bem melhor – talvez não se chegue em 2009
na posição de 1991.
Se o modelo de ocupação da Amazônia é colonial, es-
poliativo e concentrador (e é realmente), as elites o agravam
ainda mais com sua inação ou sua participação predatória,
como abutres na carcaça. O Maranhão do ex-presidente e
senador José Sarney tinha a menor IDH em 1991 (0,543) e
continuou a ter o menor IDH (0,636) em 2000, enquanto a
média nacional nesses dois anos foi de 0,696 e 0,766. Já Ala-
goas, do ex-presidente Fernando Collor de Mello, é o Estado
brasileiro mais desigual, onde os 10% mais ricos ficam com
58% da renda.

Os defensores intransigentes da Zona Franca de Ma-


naus precisam ser mais receptivos às relativizações: o Ama-
zonas perdeu três posições entre 1991 e 2000, caindo do 130
IDH para o 160. Seu índice cresceu, de qualquer maneira, mas
a uma taxa inferior ao da média regional. Foi, aliás, a perder
posição. E os péssimos indicadores no interior fazem pensar
nos estragos que resultarão de uma crise maior da Zona Fran-
ca de Manaus, ou da insuficiência de seu dinamismo como
fator de dispersão de efeitos.

Fariam bem as elites em refletir sobre o distorcido es-


pelho que colocaram diante de si e o povo, em geral, de sair
da resignação. Melhorar o perfil da Amazônia ainda está ao
alcance de todos, mas se o desafio for assumido logo. Não há
muito tempo para começar. Os autores deste livro sabem dis-
so. O que suas reflexões procuram mostrar é que se o modelo
exógeno (e colonial) está fracassando, não se pode deixar
para depois (porque o “depois” pode ser desgraçadamente
tardio) de assumir o desafio de experimentar uma nova forma
de desenvolvimento. Neste livro, checado por muitos e pro-
fundos questionamentos conceituais e empíricos, o que se
propõe é algo absolutamente novo para a humanidade: o de-
senvolvimento sustentável baseado naquilo que define, legi-
tima e oferece o máximo de ganho para a Amazônia, que é a
sua floresta nativa, um terço do que resta no planeta desse
excepcional tipo de cobertura vegetal.

Nada existe de mais rico em vida do que a floresta


tropical. Nós ainda temos a maior de todas, apesar de termos
nos tornado, na Amazônia (para consagração desse irraciona-
lismo doidivanas, entre Behemoth e Leviatã), o povo que
mais destruiu florestas. Ainda é possível, entretanto, refazer
alguns dos estragos e corrigir o avanço, ou só avançar com
conhecimento de causa, orientado pelas ferramentas que a
inventiva humana já colocou ao nosso alcance e que do nosso
âmbito afastamos, preferindo nos manter nessa corrida selva-
gem do Atlântico ao Pacífico (e, agora, vice-versa).

Substituir a cultura do desmatamento pela cultura da


floresta é, no momento, um dos maiores desafios postos dian-
te da espécie humana, com seu teatro de operações estendido
pela Amazônia sul-americana, um verdadeiro continente ain-
da majoritariamente verde. Queremos continuar a colocar
fogo nessa fantástica reserva de biodiversidade, substituindo-
a por uma savana cinza e infértil, ou daremos mais atenção à
aplicabilidade de reflexões inovadoras e encorajadoras como
as que se seguem neste livro?

Com a palavra, depois dos autores, o leitor. Com o


verbo, a nossa esperança. Apesar de tudo.
A FILOSOFIA POLÍTICA DO ECO-
LOGISMO

João Almino

Natureza e progresso na modernidade


A reflexão sobre a natureza remonta a Epicuro ou
Lucrécio e idéias que hoje chamaríamos de "ecológicas" são
encontradas em textos da antiguidade clássica, de que são
exemplo os escritos de Platão. De fato, em Platão já está pre-
sente a idéia de uma degradação e de uma corrupção (que
implicam a noção de natureza) decorrentes da desobediência
humana aos desígnios divinos. Para ele, em sua República, o
que destrói e corrompe é o mal e o bem é o que preserva e é
útil. As bases filosóficas para uma visão tanto anti-ecológica
quanto ecológica da natureza podem ser também atribuídas a
correntes da doutrina judaico-cristã. Esta doutrina teria sido
anti-ecológica ao lançar os fundamentos da linearidade histó-
rica, que reviu a noção de tempo cíclico da antiguidade clás-
sica ocidental, sem o que seria impossível a noção de pro-
gresso, e ao fincar o marco de uma relação de exterioridade
entre homem e natureza, sobre a qual se baseia a idéia antro-
pocêntrica de dominação daquele sobre esta. O progresso,
conquistado com esforço e trabalho, seria um sacrifício im-
posto ao homem como forma de recuperar a harmonia do
estado natural paradisíaco perdido com o pecado original. A
ética judaico-cristã, ao colocar o homem acima da natureza
em nome de Deus, favoreceria o desenvolvimento da tecno-
logia, o industrialismo e a vontade de explorar. Por outro
lado, a perspectiva ecológica é atribuída ao pensamento cris-
tão medieval de São Francisco de Assis, que encarava o ho-
mem como igual às demais criaturas e não como um ser su-
perior.
Seria, além disso, possível remontar a tempos ime-
moriais a história da degradação ambiental. São marcos nesta
história a utilização do fogo, o início da metalurgia, a intro-
dução dos cultivos agrícolas e do pastorialismo, o início do
aproveitamento da água e do vento como fonte de energia, a
invenção da pólvora, da máquina a vapor, da eletricidade, do
motor a explosão e da energia nuclear. Um resumo da histó-
ria da degradação ambiental teria que se concentrar em dois
momentos de aceleração da história. O primeiro deles foi a
revolução neolítica, que correspondeu ao desenvolvimento
da agricultura, da tecelagem e da cerâmica, à domesticação
de animais e à sedentarização humana.
Mas foi apenas no segundo momento, com a revo-
lução industrial, que houve densidade e generalização da
degradação ambiental, facilitada pela fusão entre ciência
(especulativa) e tecnologia (empírica), pela mentalidade do-
minante no tipo de sociedade inaugurada com o capitalismo,
e, de forma mais ampla, por determinada visão de progresso
e natureza que vinha pouco a pouco se firmando na moder-
nidade, ou seja, desde o Renascimento.
É inegável a vinculação entre as várias formas de
manifestação da preocupação ecológica e as consequências
da revolução industrial. Entretanto, esta preocupação não é
expressão mecânica de uma realidade que precisa ser urgen-
temente modificada. Se assim fosse, a ecologia não teria
aguardado até a segunda metade do século XIX para se de-
senvolver. Seria importante, por conseguinte, analisar o con-
texto geral da discussão filosófica da modernidade que for-
nece os fundamentos para a questão ecológica.
Ao longo da modernidade, a natureza, do latim "na-
tura" – nascimento – tem sido definida sobretudo de forma
negativa, pelo que não é mais do que pelo que é. Em primei-
ro lugar, ela pode ser oposta a uma sobrenatureza ou ao espí-
rito. O natural, antônimo de sobrenatural, corresponderia ao
mundo físico, à "physis" (natureza) grega, entendida como o
conjunto da matéria, a base atomística do mundo ou todos os
processos físicos, químicos e biológicos. Embora Heidegger,
em Introdução à metafísica, acredite que esta concepção de-
riva de uma leitura do cristianismo, esta tem sido a interpre-
tação mais corrente do sentido da "physis". Mas a natureza
pode também ser vista como o nascimento, o estado original,
por oposição a toda história. Ou então como a história que se
repete, ou seja, o costumeiro. Uma variante é opor natureza e
cultura, por exemplo, quando esta é contestada em nome
daquela ou vice-versa. Estas oposições derivam de outra, a
que confronta natureza com artifício, entendido como obra
do homem, ele mesmo parte da natureza. Não se concebe
aqui a extensão do dom do artifício a outras espécies, pois
sua intervenção cíclica e não acumulativa na natureza não a
altera. A natureza seria o contrário da "ars", técnica ou arte.
Seria o que se faz por si mesmo, o que não foi transformado
ou mesmo tocado pelo homem. Atribui-se em geral neste
caso sentido à natureza, o que pressupõe que ela não seja
mero acaso, mas, ao contrário, algo ordenado, regulado por
princípios ou leis.
Esta conceitualização antitética está na base tanto
do artificialismo quanto do naturalismo. Ela pode aplicar-se
também mutatis mutandi às noções de estado de natureza e
de natureza humana. De um lado, o conceito de estado de
natureza, básico para os contratualistas e os chamados jus-
naturalistas, deve ser entendido em contexto histórico-
filosófico específico, como peça da explicação do surgimen-
to das sociedades políticas, e não se confunde com o de natu-
reza. De outro, ele não é estranho ao conceito de natureza e
está baseado nos mesmos fundamentos deste último concei-
to. De fato, o estado de natureza é o estado original, o nasci-
mento, aquele que a humanidade recebeu como um dado,
opondo-se à construção política e social humana. Coerente
com esta definição, o estado de natureza é, ademais, pensa-
do, às vezes, como oposto ao de civilização. Além disso, é
possível conceber que o homem, parte da natureza (e, portan-
to, natural) tenha uma natureza, cujo conceito, da mesma
forma, envolveria a idéia de uma origem e a de ausência da
obra civilizadora. Assim, o homem natural e com natureza
criaria, por sua intervenção, a anti-natureza, superaria, por
própria vontade, o estado de natureza e se afastaria, através
de sua obra de civilização, de sua natureza.
Para o artificialismo, a natureza é ilusória, porque
inexiste ou é impossível determinar o estado original. Alter-
nativamente, é puro artifício, fruto da civilização. A nature-
za, criação humana, poderia ser por ele sempre aperfeiçoada,
como na composição da paisagem. O filósofo francês
Clément Rosset, em A anti-natureza, ele mesmo assumindo
esta perspectiva, crê que, na modernidade, Maquiavel e
Hobbes não têm como ponto de partida para suas filosofias
uma natureza. Porque inexiste uma natureza, base de uma
moral passível de ser violentada, os meios preconizados por
Maquiavel não poderiam ser considerados imorais. O ponto
de partida de Hobbes não seria, por sua vez, uma natureza,
pois o que ele assim denomina é o produto do acaso.3 Em
Hobbes, além disso, o estado de natureza universal, do qual
derivaria (como consequência lógica e não histórica) o
bellum omnium contra omnes, é uma pura hipótese da razão.
Jamais existiu nem existirá. Não existiu sequer uma vez no
tempo, no início da história da humanidade, não podendo,
portanto, ser considerado estado originário.4 Se aceitarmos a
interpretação de Rosset, nenhum sentido de bom e de mau
vincula-se ao estado de natureza em Hobbes, pois o estado
de guerra, que, em princípio, caracterizaria o mal deste esta-
do, é independente da idéia de uma agressividade natural
necessária, já que, fora da instituição, os desejos do homem
são sobretudo erráticos. Aquilo que chamaríamos de nature-
za humana é produto cultural ou social, não sendo, portanto,
uma natureza, mas sim artifício. Se Maquiavel nunca fala de
moral é porque ignora a natureza humana, instância necessá-
ria a toda moral. O ponto de partida de Hobbes, por sua vez,
não é uma natureza humana: chama de "natureza humana" o
produto da instituição social. Para ele, os homens não dis-
põem de natureza sequer para concluir o contrato social, pois
este também é obra do acaso, como esclareceu em De cive (I,
2): "se se consideram com acuidade as causas pelas quais os

3
. Clément Rosset. A anti-natureza. p. 179-186; 202-205.
4
. Norberto Bobbio. Sociedade e estado na filosofia política moderna. p. 49-50.
homens se reúnem e se comprazem numa sociedade mútua,
percebe-se logo que isto não ocorre senão por acidente, e não
por uma necessária disposição da natureza."
Para o naturalismo, ao contrário, a natureza é a ori-
gem de todos os seus opostos. É, portanto, a substância bási-
ca a partir da qual pode existir ou se pode pensar a história, a
cultura, a civilização, a arte, o sobrenatural. Como afirmou
Heidegger:
"Quaisquer que sejam a força e o alcance atribuídos
à palavra 'Natureza' nas diversas fases da história
ocidental, cada vez esta palavra contém uma inter-
pretação do ser em seu conjunto – mesmo ali onde
aparentemente ela é apenas entendida como noção
antitética. Em todas estas distinções (Natureza-
Sobrenatureza, Natureza-Arte, Natureza-História,
Natureza-Espírito), a natureza não adquire somente
significado como termo de oposição, mas é ela que
é primeira, na medida em que é sempre e em pri-
meiro lugar por oposição à natureza que as distin-
ções são feitas; por conseguinte, o que se distingue
dela recebe sua determinação a partir dela."5
Os autores que crêem na existência da natureza têm
se debatido sobre se ela é intrinsecamente boa ou má, daí
decorrendo uma moral e proposições sobre a relação ho-
mem-natureza. O deus Pan, espírito local da natureza na Ar-
cádia, e no Império Romano deus da natureza, transformado
em símbolo do universo porque seu nome era sinônimo de
"todos", causava medo irracional nos viajantes, dele origi-
nando-se a palavra "pânico". De fato, não foram naturais as
eras glaciais bem como os grandes terremotos e erupções
vulcânicas que destruíram cidades inteiras? Num naturalismo
negativo, a natureza pode, assim, aparecer como ameaçadora
ao homem, dotada de grande capacidade de destruição, base
da idéia de necessidade de controle humano sobre seus ímpe-
tos destrutivos, da crença baconiana de que o conhecimento
científico significa poder tecnológico sobre a natureza e da

5
HEIDEGGER, Martin. Ce qu'est et comment se détermine la physis. In: Questions II. p.
180.
proposta cartesiana de que o homem atinge o conhecimento e
a verdade para tornar-se mestre e possuidor da natureza. Não
sem uma dose de ironia, dizia Nietzsche no aforismo 225 de
seu livro A gaia ciência: "'O mal sempre se assegurou do
maior efeito! E a natureza é má! Sejamos portanto naturais!'
Assim concluem secretamente aqueles que na humanidade
visam aos grandes efeitos, os quais muito frequentemente
temos contado entre os grandes homens!"
O naturalismo negativo também pode aplicar-se às
concepções sobre o estado de natureza e a natureza humana.
Em Locke e Kant, apesar de ser o estado de natureza associ-
ado ao bem, este bem não é estável e permanente. Locke
defendeu que, precedendo o estado civil, o estado de nature-
za é inato ao homem, nele já existindo a posse, embora ainda
não a propriedade, sobre os bens da natureza. No “Segundo
Tratado de Governo”, o estado de natureza comporta uma
razão natural, uma justiça natural e leis naturais e está asso-
ciado ao bem. No entanto, para ele, a partir da introdução da
moeda e a possibilidade de acumulação, este estado pode
degenerar num estado de guerra. Mesmo em Kant está pre-
sente a idéia de um estado de natureza original não corrom-
pido, estado, contudo, provisório, que, embora podendo
comportar a justiça e o contrato entre os homens, estava des-
provido de qualquer garantia legal, nele não podendo o ho-
mem continuar a viver indefinidamente.6 Quanto à natureza
humana, na ética judaico-cristã, embora o homem tenha sido
criado à imagem e semelhança de Deus e sua natureza, ante-
rior ao pecado, seja vista como boa, existe também parado-
xalmente a percepção de que, para chegar a Deus, os homens
devem superar em si mesmos os ímpetos de sua natureza
primitiva. O estado de natureza humana é considerado aqui
estado de perdição, o oposto do estado de graça.
No início da modernidade, porém, era mais corrente
vincular a natureza com o bem original. De fato, entre os
autores do Renascimento é frequente a associação entre natu-
reza e Deus, e entre a produção (artificial) do homem e o

6
. BOBBIO, Norberto. Direito e estado no pensamento de Emanuel Kant. p. 88; Idem.
Sociedade e estado na filosofia política moderna. p. 55.
diabólico. Erasmo afirma, por exemplo, em Dulce bellum
inexpertis, que, quando se afasta da natureza, o homem ne-
cessariamente realiza uma obra diabólica, sobretudo através
da técnica, das tecnologias da guerra, com as quais inventa
armas cada vez mais destruidoras. Mais tarde, no século
XVIII, Rousseau talvez seja o expoente maior deste natura-
lismo positivo. Para ele, a natureza presente é apenas residu-
al, não correspondendo mais inteiramente à natureza origi-
nal, ainda não corrompida e por isso intrinsicamente boa.
Rousseau, além disso, vê o estado de natureza inequivoca-
mente de forma positiva e, de uma maneira geral, recusa o
artifício. Embora alguns de seus textos sugiram que não con-
siderou possível nem desejável a volta ao "estado de nature-
za", tanto no seu “Discurso sobre a origem das desigualda-
des” quanto no “Contrato Social” está presente a idéia de um
estado de natureza que precede um estado de civilização per-
vertido, para cuja recuperação serve como referência, o que é
ilustrado pelo mito do bom selvagem. O estado de natureza
é, para Rousseau, o estado original a partir do qual a huma-
nidade decai para entrar na "sociedade civil". Quanto à natu-
reza humana, em Erasmo, La Boétie ou em Rousseau está
presente a associação entre decadência do homem e sua des-
naturação.
Na modernidade, a definição da relação homem-
natureza não depende, porém, somente do valor atribuído à
natureza, ao estado de natureza ou à natureza humana. Ela
assenta-se também e principalmente no reforço da idéia cris-
tã do homem como centro do mundo. O homem passa a ser
pensado como ser autônomo e como sujeito de uma história
linear terrena, o que permitirá não apenas o surgimento de
uma visão de progresso ligada à imagem de um domínio
crescente sobre a natureza, mas também o aparecimento de
reações críticas a esta visão, entre as quais vieram a incluir-
se as do ecologismo.
O marco para a modernidade é o Renascimento, ba-
se tanto do subjetivismo quanto do humanismo. É com o
iluminismo, contudo, que a proposta moderna, que implica a
autonomia da razão humana, atinge sua maturidade. Para o
filósofo político Claude Lefort, o humanismo nasce em Flo-
rença, seu significado não podendo reduzir-se a um tipo de
ensino oposto à escolástica. "É a idéia de que o mundo é o
único teatro da aventura humana, de que o homem nele é
autor, ator e espectador de sua história; é a idéia de uma au-
to-inteligibilidade de princípio do discurso humano, é a
emancipação desse discurso de toda autoridade que lhe fi-
xasse de fora os critérios de legitimidade, que dão ao huma-
nismo sua plena significação..."7 Alain Renaut considera que
o humanismo é a concepção e a valorização da humanidade
como capacidade de autonomia e que o homem do huma-
nismo é aquele que não julga mais receber suas normas e
suas leis nem da natureza das coisas nem de Deus, mas as
funda ele mesmo a partir de sua razão e de sua vontade. O
humanismo contém, assim, uma promessa de liberdade para
o homem, consistindo em nele valorizar a dupla capacidade
de ser consciente de si mesmo (auto-reflexão) e de fundar
seu próprio destino (a liberdade como auto-fundação), inclu-
indo-se, entre seus valores, a consciência, o controle, a von-
tade, a auto-fundação e a autonomia.8
Há quem, como Louis Dumont, associe a sociedade
moderna ao individualismo e considere que, na ideologia
moderna, o indivíduo aparece como o ser moral independen-
te. O valor individualista, para ele, reina sem restrições nem
limitações e está na base do artificialismo moderno, que re-
monta às expressões pós-renascentistas do cristianismo, co-
mo em Calvino, para quem a extramundanidade se concentra
na vontade individual. Segundo Dumont, o holismo não é
moderno. O próprio totalitarismo não apenas não poderia
dissociar-se do individualismo, mas também teria expressões
individualistas. Ele seria "uma doença da sociedade moder-
na" resultante da tentativa, numa sociedade onde o individua-
lismo está profundamente enraizado e é predominante, so-
bretudo no campo da cultura e das criações pessoais, de o
subordinar ao primado da sociedade como totalidade. Os
traços individualistas (ou modernos) do nazismo, por exem-
plo, estariam evidenciados pela doutrina a que estava "real-

7
LEFORT, Claude. La naissance de l'idéologie et l'humanisme. In: Les formes de l'histoi-
re. p. 265.
8
RENAUT, Alain. L'ère de l'individu. p. 14, 16 e 53.
mente ligado" o pensamento de Adolf Hitler, a da luta de
todos contra todos, um darwinismo social em que os sujeitos
reais são os indivíduos biológicos.9
No entanto, um humanismo que reduzisse sua pro-
posta à completa independência humana e que implicasse a
idéia de controle total do homem sobre sua história e sobre a
natureza, assim como um progressismo disto resultante, se-
ria, na concepção de Alain Renaut e Luc Ferry, em La pen-
sée 68, "metafísico" e "ingênuo". Talvez se deva dizer que
ele não é necessário, embora tenha sido predominante a par-
tir do século XIX, quando gerou, entre outras, reações ro-
mânticas e ecológicas.
O ecologismo, em parte, desenvolve-se como uma
crítica naturalista de uma visão moderna, humanista e artifi-
cialista que culminou, sobretudo no século XIX, no indivi-
dualismo à outrance e na redução da natureza a recursos para
a exploração ávida e predatória por parte do homem. Funda-
se principalmente numa crítica a uma concepção de progres-
so derivada de uma história essencial e tornada natural. A
própria "história" que se estabelece a partir do século XVIII
é herdeira da história natural e, segundo Foucault, para que
esta existisse, foi necessário, primeiro, que a história se tor-
nasse natural, ou seja, que deixassem de existir histórias e
passasse a existir "a" história essencial (Les mots et les cho-
ses, Capítulo V, "Classer"). Essa história essencial e natura-
lizada veio a ser a expressão moderna da natureza, base de
toda evolução e da crença de que a história humana segue
um curso linear progressivo resultante de um conjunto de
ações humanas individuais e egoístas. Ou seja, a história
transforma-se em outro nome para a natureza, na medida em
que é uma e passa a desempenhar o papel, que antes era da
natureza, de servir como referencial a partir do qual o mundo
e as ações humanas ganham significado.
Esse humanismo moderno artificialista atribuiu ao
indivíduo um papel central como explorador da natureza.
Acreditando demasiado no progresso histórico, endeusando o
novo e o moderno, favorecendo uma razão puramente ins-

9
DUMONT, Louis. O individualismo. p. 67, 75, 151, 161, 165 e 167.
trumental e a crença na capacidade transformadora ilimitada
da tecnologia, levou à destruição da natureza para atingir
objetivos estreitos do presente, prejudiciais ao homem numa
perspectiva longa de história. Segundo a formulação do filó-
sofo brasileiro Gerd Bornheim:
"O espetáculo da construção da história parece to-
talmente entregue às forças transformadoras da ra-
zão instrumental. E tais forças tendem a desrespei-
tar, como é notório, qualquer limite, qualquer forma
de autocontrole. Elas são constituídas por um com-
plexo de fatores que se estende do individualismo
capitalista à suficiência por assim dizer fatalista das
inovações tecnológicas."10
A noção de progresso serviu à construção de uma
ética de apropriação, exploração e controle da natureza. Ro-
bert Nisbet, em seu livro “História da idéia de progresso”,
defende que esta idéia existe desde a antiguidade. Não há
dúvida, contudo, que ela somente poderia ter eficácia social
nas sociedades históricas, entendidas aqui não em oposição
às primitivas (ou pré-históricas), mas como aquelas empe-
nhadas na busca de sua origem e de seu fim terrenos, com as
quais se inaugura um imaginário distinto do medieval. Se a
tradição judaico-cristã implica uma linearidade histórica, esta
é concebida como passagem do terreno ao divino. Seria difí-
cil comprovar que nela já estivesse concebida a idéia de pro-
gresso terrreno conduzido pelo próprio homem. Como a or-
dem da natureza e a das sociedades humanas eram divinas,
assim como todo poder, os homens somente poderiam alme-
jar a sua plena realização após a morte, já que eram incapa-
zes de modificar esta ordem. E mesmo na modernidade, não
apenas a idéia de progresso está ausente em alguns de seus
grandes autores, como Maquiavel, para quem a história era
repetitiva, mas também alguns dos primeiros embriões da
idéia de progresso, no século XVI, apontaram em sentido
negativo, como na descrição do processo de degenerescência
da humanidade que faz Erasmo em Dulce Bellum Inexpertis
e na imagem do "mau encontro", com a qual La Boétie, em

10
BORNHEIN, Gerd. As origens antagônicas da ecologia. p. 10.
Da Servidão Voluntária, descreve a transição das sociedades
primitivas, que vivem em estado natural, para as sociedades
com Estado. Ainda no século XVIII, Rousseau, com a noção
de progresso da desigualdade, se alinha a esta corrente. So-
bretudo em Erasmo e La Boétie, o progresso criticado signi-
ficava seu distanciamento da natureza e da natureza humana.
A noção de progresso, contudo, foi se firmando
pouco a pouco na modernidade num sentido positivo e veio a
ser instrumental para a revolução industrial inglesa. Entre os
autores artificialistas, Hobbes valorizou positivamente a mu-
dança do passado para o presente. Entre os naturalistas,
Locke, apesar de associar o estado de natureza ao bem, acha-
va necessário, por considerá-lo inseguro, sua superação atra-
vés do contrato e a criação do estado civil. Foi somente na
época da revolução industrial que se estabeleceu, porém,
amplamente a idéia de que o progresso leva a humanidade
para um mundo melhor, através do domínio da natureza pelo
homem, na linha das formulações de Bacon e Descartes.
Como afirma David Pepper, num estudo sobre as raízes do
ambientalismo moderno, "para o homem racional do século
XVIII a beleza era a terra bem conformada e cultivada, e as
áreas silvestres não exerciam atração."11 O iluminismo, por
sua vez, se, de um lado, endeusou a natureza, de outro, acre-
ditando na autonomia do homem e de sua razão, favoreceu a
consolidação da idéia de progresso. Em fins do século XVIII,
esta idéia conquistou definitivamente o espaço histórico-
filosófico, sendo Idéia de uma História Universal de um Pon-
to de Vista Cosmopolita, de Kant, talvez sua expressão mais
acabada. Ali, Kant defendia que a humanidade caminha
sempre para seu aperfeiçoamento, através das oposições e
dos conflitos. Lançava, com isso, a base para as filosofias da
história de Hegel e de Marx. A idéia de progresso veio a ser
dominante no século XIX, sendo alçada quase ao nível de
uma religião.
A ecologia tem como uma de suas raízes a reação
romântica no próprio século XIX ao iluminismo e à revolu-
ção industrial. De uma forma geral, o culto da natureza é

11
PEPPER, David. The roots of modern environmentalism. p. 80.
subproduto da sociedade industrial. Na formulação de Pep-
per, "...os românticos se revoltaram contra as 'excrescências'
do capitalismo industrial," entre as quais "a pobreza, a imun-
dície, o materialismo e a poluição... Estas excrescências fo-
ram simbolizadas na cidade do século XIX, e o anti-
urbanismo é um dos principais traços do pensamento român-
tico."12 Há uma subversão da simbologia medieval, que con-
trastava o "sagrado" da cidade, como santuário a Deus e ex-
pressão das mais altas conquistas espirituais do homem, ao
"profano" dos campos virgens. A reação romântica cresceu
na medida em que a agricultura foi tomando os campos e,
mais tarde, o processo de industrialização transformou terras
e espécies em recursos e matérias-primas.
Mas se, de um lado, surgiu como reação às conquis-
tas da Revolução Industrial, a consciência ecológica, de ou-
tro, foi alimentada pelo próprio progresso tecnológico e o
desenvolvimento científico, em especial da biologia e da
economia. No final do século XVIII e início do século XIX,
a partir da História Natural e após o surgimento do conceito
de "vida", sistematizou-se a ciência da biologia, para estudá-
la. Como diz Foucault, "pretende-se fazer histórias da biolo-
gia no século XVIII, sem se dar conta de que a biologia não
existia... a própria vida não existia. Existiam somente seres
vivos, e que apareciam através de uma malha do saber cons-
tituída pela história natural."13 No bojo do processo de cres-
cente fragmentação do saber, os estudos sobre a riqueza, que
datam dos séculos XVII e XVIII, levaram também à consoli-
dação, a partir da segunda metade do século XVIII, da ciên-
cia econômica.14 Embora grandes clássicos da economia po-
lítica, como a “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, datem
da segunda metade do século XVIII, a nova ciência somente
foi ministrada pela primeira vez, em Oxford, nos anos vinte
do século XIX. Os conceitos de crescimento e desenvolvi-
mento, que, como o de ecologia, são herdados da biologia,

12
Idem, ibidem. p. 84.
13
FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. p. 139; ver para esta discussão, o capítulo
V, "Classer", p. 137 a 176.
14
Para uma análise do surgimento da ciência econômica, ver o capítulo VI, "Échanger", de
Les mots et les choses, de Michel Foucault.
foram incorporados à economia num momento em que esta
alçou-se ao primeiro plano das preocupações internas e in-
ternacionais dos Estados.
Na biologia, o marco para o pensamento ecológico é
o enfoque holístico do zoólogo e biólogo alemão Ernst Hae-
ckel, que empregou a palavra ecologia (em alemão "Oekolo-
gie") pela primeira vez em 1866, em seu livro “Morfologia
geral dos organismos”, que relaciona a teoria da evolução
das espécies por seleção natural, de Charles Darwin, à mor-
fologia animal. A nova disciplina proposta por Haeckel, cir-
cunscrita ao universo da biologia, teria como objetivo estu-
dar a relação das espécies com seus meios ambientes orgâni-
co e inorgânico. Ela contribuiu para ressaltar os vínculos do
homem com os demais animais, enfatizando, ademais, sua
interdependência, num meio ambiente em equilíbrio, com a
terra, o ar e as várias fontes de alimentação.
Na economia, Malthus sublinhou a desproporção
entre o crescimento geométrico da população e o crescimen-
to aritmético da produção de alimentos. O malthusianismo
enfocou o problema dos recursos escassos e não renováveis,
seguindo mais Ricardo do que Adam Smith, e adotando uma
concepção mais próxima da visão hobbesiana da escassez e
da impossibilidade de plena satisfação das necessidades hu-
manas, do que da perspectiva lockeana da abundância. Ainda
dentro da economia, o problema dos custos ambientais, das
economias ou deseconomias externas, começava, com Mars-
hall, em seus “Princípios de economia”, a ser analisado no
fim do século passado.
O ecologismo está, assim, no cerne da própria pro-
posta moderna. Ele se indaga sobre a relação entre o homem
e a natureza e o papel desempenhado pelo homem no mun-
do; sobre o sentido da história e a idéia de progresso. Pode
adotar, neste contexto, uma posição de reforço do humanis-
mo individualista e do progresso "metafísico", baseado na
crença cega na capacidade de aprimoramento crescente do
homem e de seu meio, através da técnica e da ciência. Pode
assumir, ao contrário, uma postura anti-humanista, descrente
na capacidade que teria o homem de controlar seu destino, de
aprimorar o mundo ou transformar positivamente a natureza,
tendo como fundamento a negação do progresso e do desen-
volvimento tecnológico. Ou pode contribuir para a revisão de
aspectos da modernidade, sem fugir de seus pressupostos
básicos, através de um neo-humanismo.

O ecocentrismo
O ecocentrismo domina setores influentes do ecolo-
gismo contemporâneo, entre os quais o chamado "ecologis-
mo profundo”. Apóia-se na negação do antropocentrismo.
Ao afirmar que o homem é nada mais que parte da natureza e
deve, diante dela, mostrar-se humilde, critica o papel central
atribuído ao homem na modernidade como sujeito da histó-
ria. Um argumento frequente é o de que, numa escala de bi-
lhões de anos em que existe vida no universo, os homens só
existem há um milhão de anos, havendo registrado sua pas-
sagem por vários milhares de anos. O homem seria uma ex-
periência de ponta, conquista evolucionária no topo de um
ecossistema global. É, portanto, apenas resultado de processo
que absolutamente não controlou. De forma mais radical, o
ecocentrismo partilha a crítica da filosofia do sujeito. Parte
de uma perspectiva holista para negar ao homem o papel de
sujeito de seu mundo e de sua história. Denuncia, sobretudo,
a subjetividade instrumental, voltada para a dominação e a
conquista da natureza.
Frisa que o esforço vão do homem para controlar a
natureza e sua tentativa de desobedecê-la, apenas levou à
vingança desta, que, ameaçada, ameaça agora a humanidade.
Superpõe, assim, à imagem de uma natureza frágil que está
sendo morta pelo homem, outra imagem, a de uma natureza
violenta e vingativa, capaz de destruir uma humanidade sem
defesas. Afirma que a natureza existe por si própria, inde-
pendentemente do homem, ao mesmo tempo em que a divi-
niza ou a antropomorfiza. Crê que a natureza sabe, se ordena,
é boa e pode até punir quem, como o homem, se ponha no
seu caminho. Gaia, por exemplo, seria um ser vivo, perfeito
e belo, que, se necessário, por instinto de conservação, pode-
rá sacrificar a espécie humana. Teria destino próprio, inde-
pendente do homem e acima dele, sendo capaz de puni-lo ou
a quaisquer outras espécies se perturbarem seu curso.
O ecocentrismo, de um lado, critica a concepção da
relação de exterioridade entre homem e natureza e afirma
que o homem é parte da natureza. Mas, de outro, implicita-
mente defende, de forma contraditória, esta relação de exte-
rioridade, já que, se o homem fosse efetivamente parte inte-
grante da natureza, não poderia ser a fonte de seu desequilí-
brio; para que sua intervenção perturbe a harmonia da natu-
reza, é necessário que homem e natureza sejam pensados
numa relação de exterioridade. Ou seja, se o homem integra
a natureza, é apenas como corpo estranho. O homem, no
fundo, não seria parte da natureza. Fora dela, é causa de de-
sequilíbrio de uma natureza que, sem sua intervenção, é
harmoniosa. Nesta relação de exterioridade, o ecocentrismo é
otimista quanto à natureza, vista como harmoniosa, e pessi-
mista quanto ao homem, considerado esbanjador e destrui-
dor. A separação do homem e da natureza é o que permite a
predominância de um determinismo naturalista, segundo o
qual os ecossistemas devem condicionar até mesmo as for-
mas de ocupação e de organização humana.
Da concepção ecocêntrica da relação homem-
natureza deriva uma ética cosmológica. A natureza, que é a
inocência, pureza primitiva, é a base a partir da qual é possí-
vel pensar a infração humana. A natureza é fundamento para
uma moral e tem caráter normativo, legisferante, ditando
regras ao homem.
Os homens teriam obrigações não apenas diante de
outros homens em relação à natureza, mas também obriga-
ções diretamente para com a própria natureza. Esta concep-
ção defende que não se pode, portanto, reduzir as obrigações
concernentes às espécies a obrigações para com pessoas em
relação às espécies. Julga insuficiente o argumento arrolado
para a preservação das espécies com base em considerações
econômicas, que, ao defender a preservação de outras espé-
cies em nome da obrigação do homem em relação à sua pró-
pria espécie, frisa que a extinção de espécies pode afetar am-
plamente a economia, as potencialidades industriais e agríco-
las, o desenvolvimento da química e da medicina, já que es-
tes setores econômicos dependem em grande medida dos
recursos genéticos encontrados em animais e plantas. Tal
argumento econômico é considerado pelo ecocentrismo ain-
da preso à tradição judaico-cristã de ver a relação homem-
natureza como relação de exterioridade em que o homem
domina as outras espécies. Para os defensores ecocêntricos
de uma ética ambiental, as espécies não devem ser conside-
radas como recursos, pois se limitássemos as obrigações para
com espécies aos interesses dos homens em "recursos", cria-
ríamos uma ética que justificaria o desaparecimento de mui-
tas espécies ameaçadas que não têm valor como recurso.
Seria, portanto, imoral e egoísta valorar as outras espécies
por interesses humanos. Seria com base num valor próprio
das outras espécies, que se estabeleceria a proibição de sua
destruição. A subordinação da espécie humana a supostos
direitos da natureza pode chegar a justificar o cerceamento
das vontades e da criatividade humana.
O ecocentrismo nem sempre defende uma natureza
ou um ecossistema estáticos, contra uma intervenção humana
que os modificaria. Freqüentemente deixa claro que a natu-
reza ou o ecossistema, embora em equilíbrio, são dinâmicos.
Mas encara os sistemas naturais, no fundo, como fechados,
porque cíclicos e com leis imutáveis. Diferencia um dina-
mismo natural, que independe do homem, de um dinamismo
espúrio da natureza, que resulta da intervenção humana. Não
reconhece, assim, aos homens, embora partes da natureza,
um direito de interferir no dinamismo considerado natural da
própria natureza. Esta tem sua ordem dinâmica própria, atra-
vés da qual alcança seu equilíbrio, essencial para a preserva-
ção das espécies, inclusive a humana. Do homem se requer
que não altere tal ordem e equilíbrio. A natureza, portanto,
envolve o homem, mas ao envolvê-lo, o apaga. Tendo de
omitir-se de ser parte ativa no seu dinamismo, o homem per-
de sua capacidade de ação própria e autônoma.
A negação da autonomia humana e da visão do ho-
mem como sujeito da história, leva à restauração de um en-
foque heteronomista que, substituída a idéia de natureza pela
de Deus ou acrescentada à natureza seu caráter divino, era
utilizado no pensamento clássico e medieval.
O enfoque heteronomista segue uma via anti-
humanista, pois o humanismo, como assinalei, pressupõe a
autonomia humana e o homem como sujeito racional de sua
história. O homem se distinguiria das demais espécies por
ser capaz de usar sua razão. O ecocentrismo vê no homem a
única espécie capaz de ser nociva à natureza, justamente
porque faz uso de uma razão e consciência, o que permitirá o
surgimento de sua arrogância, de sua vontade de domínio
sobre as demais espécies e de sua ambição de exploração,
progresso infinito e acumulação. Não sendo mero acaso e
tendo um sentido, que deve ser imitado pelo homem, a natu-
reza seria, ela também, racional. A razão humana contraria-
ria, portanto, a razão da natureza. Não se vê no efeito des-
truidor da natureza, mesmo quando mais devastador do que o
dos homens, uma maldade a ela inerente. Quando cruel com
os homens e outras espécies, a natureza apenas estaria se
renovando, seguindo seu curso e seu processo, ou então res-
pondendo às ameaças a ela lançadas pelos homens. Por outro
lado, a razão e a consciência humanas são consideradas um
agravante para a maldade praticada pelo homem contra a
natureza.

O reducionismo tecnológico
Chamo de ecologismo tecnocêntrico ou de tecno-
centrismo ecológico o reducionismo tecnológico que crê que
as mudanças tecnológicas trariam embutidas em si esta revi-
são da relação homem-natureza e do sentido do progresso
humano. Para ele, essas mudanças estão também na base da
definição de um novo modelo político e de sociedade. Em
geral, o argumento ecológico-tecnocentrista enfatiza que
tipos de tecnologia são portadores de padrões de relações
sociais ou defende que a revolução tecnológica em curso já
engendra novas formas políticas e sociais.
De fato, em primeiro lugar, sustenta que as tecnolo-
gias implicariam uma concepção da produção, da divisão do
trabalho e da distribuição espacial e econômica. As tecnolo-
gias duras seriam concentradoras de poder, enquanto as tec-
nologias suaves seriam necessariamente mais democráticas.
Assim, o tipo de energia empregado influiria na forma de
organização da produção do setor energético, com repercus-
sões sociais e políticas amplas. Usinas nucleares, por exem-
plo, requereriam determinado grau de concentração do po-
der, enquanto a utilização da energia do sol ou dos ventos
estaria necessariamente vinculada à descentralização.
Em segundo lugar, existe a idéia, defendida, sobre-
tudo, por tecnocêntricos otimistas, humanistas conservadores
na esteira da sociologia norte-americana de Daniel Bell, au-
tor de “The coming of post-industrial society”, de que, atra-
vés da nova revolução tecnológica, ingressamos numa era
pós-industrial, com a qual surgem sociedades pós-industriais,
ou de que, com esta revolução, o modo de produção capita-
lista (inclusive em sua manifestação socialista) estaria sendo
ultrapassado. O mundo pós-industrial estaria caracterizado
pela expansão dos serviços e da informática, pelo uso menos
intensivo dos recursos naturais propiciado pelo emprego de
novos materiais e pelo desenvolvimento de tecnologias em
campos novos (biotecnologia, por exemplo). As novas tecno-
logias, de uma maneira geral, seriam tecnologias "limpas",
não poluentes, ao contrário das tecnologias geradas pela re-
volução industrial.
Os tecnocêntricos otimistas são, em geral, expansi-
onistas, ou seja, acreditam no progresso continuado como
base para a solução dos problemas ambientais. Ao contrário
dos ecocêntricos, não vêm a natureza como necessariamente
finita. Sendo ilimitadas a engenhosidade técnica e a inventi-
vidade humanas e sendo igualmente ilimitada a capacidade
da natureza de absorver as mudanças às quais está submeti-
da, os desequilíbrios ecológicos poderiam ser corrigidos
através da tecnologia adequada.
Tanto um quanto outro argumento, o que defende
que as tecnologias são portadoras das relações sociais e o
que crê que isto já ocorre com a revolução tecnológica em
curso, defendem, em geral, que, porque são portadoras das
relações sociais, as tecnologias empregadas pelo capitalismo
(ou por sua variante socialista) implicariam um mesmo pa-
drão de relações sociais, que seria alterado quando se intro-
duzissem as novas tecnologias. Ou então o pós-
industrialismo, na medida em que revê os fundamentos da
revolução industrial, superaria tanto o capitalismo quanto sua
variante socialista, que têm como marco aquela revolução.

Desenvolvimento sustentável e o neo-humanismo ecológico


A partir da década de oitenta do século passado, ga-
nha terreno, contudo, uma concepção ecológica que parte
não da ética ambiental, própria do ecocentrismo, mas de uma
ética social humana. Nesta perspectiva, que defino como
neo-humanista, o desenvolvimento não é negado. Opõe-se,
contudo, um verdadeiro desenvolvimento àquele criticável
por seus efeitos ambientais. Não se abandona a crença no
progresso, mas defende-se a revisão de erros cometidos no
passado para que um novo tipo de progresso, em outra dire-
ção, possa prevalecer. Esta postura não implica tampouco o
abandono da razão, como sugeri que ocorresse com o eco-
centrismo. Ao contrário, é com base em critérios mais racio-
nais que o da razão instrumental própria do tecnocentrismo
que se propõe uma utilização mais racional dos recursos,
incorporando a dimensão do futuro nas decisões do presente.
Na realidade, na visão que foi cada vez ganhando
maior espaço político na década de oitenta, inicialmente cir-
cunscrita a países desenvolvidos, mas hoje já de ampla acei-
tação, meio ambiente e desenvolvimento econômico não
seriam mais dois campos separados, mas comporiam um
único universo conceitual, o do desenvolvimento sustentável.
A hipótese é de que não há verdadeiro desenvolvimento se
os impactos ambientais dos projetos de desenvolvimento não
são totalmente levados em conta, pois o que se ganha mo-
mentaneamente com o uso de alguns recursos pode ser per-
dido a longo prazo, quando os efeitos negativos deste uso se
fizerem sentir. A natureza apresentará a conta no futuro ao
próprio desenvolvimento econômico pela destruição do meio
ambiente no presente.
Muitas das formulações contemporâneas que têm
sido canalizadas para a discussão sobre o desenvolvimento
sustentável devem, na realidade, parte de seu arsenal teórico
aos estudos sobre ecodesenvolvimento, cujos principais ex-
poentes, desde a década de setenta, talvez sejam os professo-
res Ignacy Sachs e Johann Galtung. O ecodesenvolvimento
valeu-se de uma sociologia do desenvolvimento para mostrar
que as desigualdades sociais implicam formas diferenciadas
de exploração da natureza por parte de ricos e pobres, em
razão do tipo de tecnologia de que fazem uso, sendo cada
uma dessas classes sociais, a seu modo, destrutiva da nature-
za. Uma ecotecnologia seria viável, sobretudo em nível de
pequenas comunidades auto-suficientes. Incluir a dimensão
ecológica nas preocupações com o desenvolvimento corres-
ponde a uma ampliação do campo de visão do planejamento,
segundo Ignacy Sachs.15
A eventual revisão das formas de desenvolvimento
parte da crítica às sociedades industriais que vem sendo for-
mulada pelo ecologismo e que poderia resumir-se na imagem
da bela e ampla auto-estrada que leva a humanidade, cada
vez a uma velocidade mais alta, em direção ao abismo. Ou
seja, o que se pensou ser progresso e desenvolvimento não
podia se sustentar no tempo, por ser fonte de grandes pro-
blemas insuspeitados. O questionamento sobre os rumos do
progresso implicou uma crítica ao desenvolvimento tal como
ocorreu desde a revolução industrial. De fato, os países que
têm sido bem sucedidos do ponto de vista econômico em
geral, ou seja, os países desenvolvidos, causaram danos am-
bientais não apenas em seus territórios, mas também em suas
colônias e posteriormente em vastas áreas do chamado Ter-
ceiro Mundo que lhes forneceram os recursos naturais neces-
sários a seu processo de industrialização. Seria possível con-
cluir que os países desenvolvidos erraram e não pagaram,
alguns por já cerca de dois séculos, custos que hoje se consi-
deram fundamentais. Estes países, bem como os países em
desenvolvimento, continuam até agora esquecendo muitos
desses custos, que não são contabilizados no processo de
industrialização.
O que se quer não é, porém, apenas que os custos
atuais da poluição sejam pagos, mas também que se preser-
vem as opções de desenvolvimento para o futuro. Na fórmu-

15
. Environment and planning. In: Ecosocial systems and ecopolitics, p. 33.
la consagrada pelo Relatório Brundtland e que serviu de base
às formulações posteriores que culminaram na Conferência
do Rio de 1992, "desenvolvimento sustentável é desenvol-
vimento que atende às necessidades do presente sem com-
prometer a capacidade das gerações futuras de atender suas
próprias necessidades. Contém dois conceitos chave: o con-
ceito de 'necessidades', em particular as necessidades essen-
ciais dos pobres do mundo, aos quais deve ser dada priorida-
de absoluta; e a idéia de limitações impostas pelo estado de
tecnologia e organização social sobre a capacidade para o
meio ambiente de atender as necessidades do presente e do
futuro."16 Nesta nova perspectiva do desenvolvimento, a di-
mensão ambiental está integrada ao planejamento econômico
bem concebido. Trata-se, no fundo, de um conceito de de-
senvolvimento em que o longo prazo prevalece sobre o curto
prazo.
É necessário estar atento para a possibilidade de que
o crescimento seja apenas ilusório, podendo envolver custos
que só mais tarde serão percebidos. O ecologismo tem for-
mulado uma crítica correta à estreiteza de determinadas aná-
lises econômicas, ampliando o horizonte do economista para
que incorpore em seus cálculos custos antes não internaliza-
dos. Tem também contribuído para que as perspectivas de
mais longo prazo predominem sobre aquelas voltadas para
ganhos rápidos e orientadas por conceitos de produtividade e
rentabilidade dominados por visão de curto prazo.
Apesar das dificuldades técnicas e políticas da apli-
cação do conceito de desenvolvimento sustentável, ele tem,
entre outros, o mérito de apontar erros cometidos no passado
quanto às formas de encarar o progresso, o crescimento e o
desenvolvimento econômico.
É possível entender que as novas formas de desen-
volvimento compatíveis com a preservação ambiental estari-
am, na realidade, aperfeiçoando e implementando de maneira

16
Our common future. p. 43. Trata-se do relatório preparado pela Comissão Mundial sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento, estabelecida pelas Nações Unidas, cujos trabalhos
foram presididos por Gro Harlem Brundtland, então líder da oposição no Parlamento da
Noruega. O referido relatório foi acolhido pela 42a Sessão da Assembléia Geral das Nações
Unidas, em 1987.
mais rigorosa as formas já estabelecidas de desenvolvimento
econômico. Pois não deveriam ser estranhas às formas de
desenvolvimento adotadas desde a revolução industrial as
preocupações com o futuro e com o uso dos recursos natu-
rais. Se o que se praticou levou a uma prosperidade ilusória e
até criou pobreza; se existem custos que não se conhecia mas
são reais e devem ser pagos; se, enfim, o que havia era ape-
nas impressão, por uma visão distorcida de curto prazo, de
desenvolvimento, então o que se praticou não foi desenvol-
vimento. Celso Furtado já havia, aliás, mostrado, em “Análi-
se do Modelo Brasileiro”, ao estudar o modelo da agricultura
itinerante no Brasil e suas conseqüências, entre outras, sobre
a degradação dos solos, que "crescer sem capitalizar-se, me-
diante a destruição de recursos não reprodutíveis, dificilmen-
te poderia ser interpretado como uma forma de desenvolvi-
mento."17 Ou seja, o desenvolvimento sustentável seria a
verdadeira face do desenvolvimento, não sendo desenvolvi-
mento aquele que não fosse sustentável.
O ecologismo neo-humanista rejeita a visão de uma
relação de exterioridade entre homem e natureza, que está na
base da idéia do domínio, do controle e da exploração do
homem sobre a natureza ou, por outro lado, do determinismo
naturalista, que reduz o homem a uma consequência das for-
ças da natureza, considerando o papel do homem o de mero
seguidor da natureza.
As correntes ecologistas neo-humanistas estão aten-
tas à necessidade de reforçar os valores básicos da moderni-
dade e de buscar na revisão da organização social e política,
nas reformas sociais e do Estado, ou seja, no próprio homem,
soluções para problemas ecológicos por ele criados. Para
estas correntes, as conquistas ecológicas não ocorrerão com a
substituição da idéia de direitos do homem pela de responsa-
bilidade, obrigação e dever do homem para com a natureza,
mas, ao contrário, com a expansão do campo dos direitos.
Contrapondo-se a correntes ecológicas que desejam substitu-
ir os valores da modernidade por valores pré-modernos, pre-
tendem reforçar os valores da modernidade, através da ex-

17
FURTADO, Celso. Análise do Modelo Brasileiro. p. 111.
pansão da democracia, da maior participação dos cidadãos
nas decisões do Estado e do reforço do papel do homem na
definição de seu rumo histórico, entre outras razões, para que
seja capaz de corrigir ou evitar erros com conseqüências eco-
lógicas negativas.

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OS NOVOS DISCURSOS DE SUSTENTABILIDADE18

Michael R. Redclift

A sustentabilidade desde a ECO-92

Há muito tempo que a "sustentabilidade" tem existido


sempre entre aspas. O poder desse conceito parece estar mais
nos discursos que o cercam do que em qualquer valor heurís-
tico ou substantivo partilhado que ele possa ter. Faz sentido,
portanto, examinar esses discursos mais detalhadamente. A
tese que defendemos neste trabalho é a de que a idéia de sus-
tentabilidade ainda é útil, mas que não deve se associar uni-
camente à "natureza exterior". As mudanças nas comunica-
ções globais e na genética têm alterado tão substancialmente
nossas relações com o meio ambiente, que seria pouco produ-
tivo inscrevê-las fora da "natureza" que descrevemos como
"sustentável". No século XXI, faz sentido considerar-nos nós
mesmos como parte do discurso da sustentabilidade.

A re-emergência da economia de mercado, das políti-


cas neo-liberais nos anos 80 do século passado, com as quais
a medida da sustentabilidade é associada, claramente marca
um divisor de águas para a política ambiental. De maneira
crescentemente freqüente, a "sustentabilidade" foi se sepa-
rando do meio ambiente e a sustentabilidade ambiental foi
confundida com questões mais amplas de eqüidade, governa-
bilidade e justiça social, o que serviu para transferir a discus-
são política para diferentes lugares. A "sustentabilidade" foi
usada como um sufixo para quase qualquer coisa julgada de-
sejável.

As primeiras discussões sobre a "sustentabilidade" e


sobre o "desenvolvimento sustentável" se preocupavam, de
modo particular e não exclusivo, com as necessidades huma-
nas. Como o debate sobre a sustentabilidade tornou-se mais

18
Tradução de Lemuel Dourado Guerra.
forte a partir de 1980, muito dele foi influenciado pela eco-
nomia neoclássica, tentando-se traduzir escolhas ambientais
por preferências de mercado, seguindo a ortodoxia neoliberal.
A crescente atenção dedicada à construção de sistemas de
medições capazes de avaliar a situação das variáveis ambien-
tais foi um corolário necessário dessa tendência, emergindo
uma busca acentuada de maneiras práticas pelas quais a sus-
tentabilidade pudesse ser construída, através da inserção da
preocupação ecológica no âmbito das políticas e nos plane-
jamentos estatais. A disseminação dos sistemas de medição
acima mencionados ampliou o uso de que foi objeto o termo
“sustentabilidade”, e abriu um novo discurso sobre desenvol-
vimento, com um grande apelo aos tecnocratas e aos empre-
sários.

Talvez em resposta à incorporação da economia am-


biental às políticas mais centrais ou para compensar uma his-
tória de negligenciamento, muito da discussão sobre a susten-
tabilidade como um processo político foi feita por outras dis-
ciplinas que não a economia ambiental. Uma conseqüência
disso é que a discussão sobre a sustentabilidade moveu-se,
quase imperceptivelmente, para longe do tópico das necessi-
dades humanas, que foi a preocupação original da Comissão
Brundtland, para o tópico dos direitos. A ênfase tanto nos
direitos humanos como nos direitos não-humanos, por sua
vez, dirigiu a discussão referente à sustentabilidade para ou-
tras preocupações mais "ortodoxas" das ciências sociais: as
questões do poder, da distribuição e da eqüidade.

Argumentamos neste capítulo, que as ligações entre o


meio ambiente, a justiça social e a governabilidade têm se
tornado crescentemente vagas em alguns discursos de susten-
tabilidade, e que as relações estruturais entre o poder, a cons-
ciência e o meio ambiente têm sido gradualmente obscureci-
das. Temos também observado que, na busca de uma visão
mais inclusiva da sustentabilidade, a retórica política tem,
freqüentemente, substituído a discussão sobre as questões
ambientais.
A principal corrente do debate sobre sustentabilidade
originou-se nos grupos ambientalistas e em outros grupos
caracterizados por se distanciar das soluções neoliberais para
os problemas ambientais e sociais. Todavia, argumentamos
no sentido de que os discursos ambientais que reivindicam a
precedência dos "direitos", e que são conduzidos em altos
níveis de abstração e de agregação geográfica, estão, em seus
fundamentos, apenas frouxamente ligados com escolhas cul-
turais e decisões políticas. Ao mesmo tempo, a crítica à eco-
nomia de mercado, que tem caracterizado as Organizações
não-Governamentais internacionais (ONGs), apresenta pro-
blemas em si mesma. A oposição ao neoliberalismo é mais
efetiva quando ela vai além da crítica às instituições, incluin-
do as novas redes de comunicações globais. Isso ficou evi-
dente na oposição 'virtual', mas muito material, à Organiza-
ção Mundial do Comércio (OMC), manifestada na conferên-
cia de Seattle, em 1999, e nos protestos de rua em Washing-
ton, Praga e na Holanda, em 2000.

Esses discursos "oposicionistas" de inspiração ambi-


entalista representam a comunicabilidade de diferentes códi-
gos, mas freqüentemente dependem da mesma terminologia
formal que cerca a sustentabilidade. Eles marcam práticas de
comunicação que carregam em si mesmas significados sim-
bólicos e políticos – referências a um "poder democrático", à
"autonomização", à "justiça natural" – vistos pelos seus de-
fensores como uma alternativa à falência da democracia re-
presentativa (ESTEVA, 1999). As referências acima citadas,
centrais nos novos discursos de sustentabilidade, têm uma
ligação pouco consistente com os desdobramentos da política
ambiental. Todavia, esses novos discursos ambientais refle-
tem as mudanças da globalização, na genética e nas comuni-
cações, desde a Eco-92, e demonstram, vivamente, a impor-
tância das novas desigualdades espaciais. Nesse sentido elas
podem ser definidas como discursos da "pós-sustentabilida-
de".

Há outras fontes de inquietação no terreno as "susten-


tabilidade": a chave para entender os novos discursos elabo-
rados sobre esta temática está em seus significados simbóli-
cos, mas também nos avanços tecnológicos e, por conseguin-
te, nas comunicações. O principal exemplo, que discutimos
mais tarde neste trabalho, é o da Internet. Outro exemplo é o
da recente revolução observada tanto na genética humana
quanto na genética em geral. Ao mesmo tempo em que as
comunicações globais estão sendo revolucionadas, mudanças
radicais têm ocorrido na "natureza". As fronteiras entre espé-
cies têm sido subvertidas, e a "nova biologia", junto com a
revolução na tecnologia da informação, está alterando a defi-
nição tradicional de "indivíduo", e de sua participação nas
sociedades civis.

O desafio formal representado pela Conferência da


Terra (Rio-92), não passou de acordo envolvendo o sistema
de governo global, a respeito de novos princípios de susten-
tabilidade que pressupunha um meio ambiente global, e um
conjunto de instituições que o exploravam e administravam.
Porém, durante a última década o sistema global alargou-se e
se reconstituiu. Instituições tais como a Organização do Co-
mércio Mundial, o Projeto Genoma Humano e a WEB, foram
a ele integradas, sendo tão globais quanto a Organização das
Nações Unidas.

Nesse novo sistema global de territorialidade, a pro-


priedade do meio ambiental não é mais necessária, mas ape-
nas uma marca condicional. Não é mais apenas um território
comum que mantém as pessoas juntas, no qual reivindicações
de direitos universais são feitas para todos. As persistentes
reivindicações de que os direitos "naturais" sejam protegidos,
e de uma melhor governabilidade do meio ambiente precisam
ser localizadas em um novo contexto, no qual tanto as escalas
da justiça têm se alargado, quanto a "sustentabilidade" de-
monstra ser uma propriedade de discursos diferentes e opos-
tos. Neste trabalho argumentamos que, antes de podermos
explicar completamente muitas das questões que cercam a
sustentabilidade, devemos desvendar alguns dos discursos
que têm modificado o seu sentido. Inicialmente, vejamos os
relacionados com a "globalização".
Discursos da Globalização

De acordo com Castells (2000), a globalização está li-


gada a um novo paradigma tecnológico, cujas raízes estariam
na microeletrônica, nas novas tecnologia de informação e de
comunicação e na engenharia genética (CASTELLS, 2000).
Os dois elementos-chave desse paradigma são a "comunica-
ção interativa... e a criação e a manipulação de organismos
vivos, incluindo partes do corpo humano" (CASTELLS,
2000, p. 10). Essas mudanças estão destinadas a penetrar "...
todos os domínios do nosso sistema eco-social..." através do
desenvolvimento de "... códigos instrumentais e correntes
culturais...” embutidos na articulação global, os quais consti-
tuem o que Castells chama de sociedade de redes. A "nova
economia" é, de acordo com esse autor, informacional, glo-
balizadaa e em rede.

As transformações às quais Castells se refere colocam


o meio ambiente no centro da globalização, já que, de um
lado, a natureza material é "manipulada" e "modificada", e,
por outro lado, a "natureza" simbólica é interativa comunica-
da, local e universalmente comunicada. O estabelecimento
dos regimes ambientais, desde a Conferência da Terra, em
1992, provê exemplos de ambos os processos citados.

A Declaração do Rio/92 – Agenda 21 – refletiu uma


crescente preocupação com as questões ambientais, qual le-
vou ao estabelecimento de um conjunto de mecanismos insti-
tucionais internacionais, a fim de assegurar que os problemas
ambientais fossem tratados de maneira mais eficiente. Por
trás dessa preocupação estavam alguns pressupostos. O pri-
meiro, era o de que os problemas ambientais internacionais -
notadamente a mudança climática e a perda da biodiversidade
- eram "... anomalias das relações existentes entre política e
ciência e da capacidade destas lidarem com problemas..."
(BECKER, JAHN & STEIS, 1999, p. 284, itálico de Re-
dclift).

O segundo pressuposto que orientou a Conferência da


Terra, de 1992, foi o de que o Norte e o Sul têm um interesse
comum de assegurar que o desenvolvimento econômico futu-
ro não seja prejudicial ao meio ambiente. Num determinado
nível essa abordagem normativa foi muito atraente: ela mar-
cou a superação de divisões antigas, especialmente pós-1945,
e é um reconhecimento da vulnerabilidade do planeta. Essa
abordagem do "consenso liberal" ainda representa o discurso
dominante em torno de conceitos chaves tais como "desen-
volvimento sustentável", "segurança humana" e "mudança
ambiental global".

De acordo com Law & Barnet (2000, p. 55), a globa-


lização "constrói o presente como um momento, que é parte
de uma transformação histórica fundamental e tem se tornado
a grande narrativa que justifica o fim de qualquer outra refe-
rente à mudança social". A globalização, portanto, toma so-
bre si o manto da modernidade, referindo-se o mesmo simul-
taneamente tanto à viagem quanto ao destino por ela desen-
cadeados.

Na perspectiva do novo século, os discursos políticos


desse tipo são suportes ideológicos essenciais para uma ação
articulada por governos nacionais e organizações internacio-
nais (BAUMAN, 1998). Eles traduzem idéias tais como a de
"sustentabilidade" para o terreno discursivo, providenciando
um esquema que normalmente não se encontra na diplomacia
internacional. Eles também sugerem oportunidade para dife-
rentes atores e grupos se mobilizarem em torno de políticas e,
no processo, lhes darem legitimidade. Os diferentes atores
são também capazes de elaborar e articular esses discursos,
criando maneiras de refiná-los ou de modificá-los. Essas nar-
rativas discursivas são, de um lado, a matéria-prima da atual
política ambiental internacional, e, por outro lado, são nego-
ciadas e trocadas em distintos níveis espaciais.

Para citar um exemplo comum: dentro da conservação


internacional do meio ambiente, a palavra natureza é usada
em uma grande variedade de maneiras, para expressar os in-
teresses sociais e econômicos ambientais. Os conservacionis-
tas a usam significando um "objeto", tal como um habitat,
um campo, uma floresta, um pântano ou corais. Grupos am-
bientalistas, todavia, também têm adotado a palavra "nature-
za", para expressar identidades locais; seu próprio meio am-
biente (natural) legítimo. Finalmente, "natureza" é usada em
discursos políticos para expressar um julgamento profissional
sobre o tipo ou valor de um recurso - "capital natural crítico",
"nichos de biodiversidade", "cadeia de recursos", "bacias
naturais" e outros dessa natureza. Cada uma dessas defini-
ções de natureza provê significados diferenciados para dife-
rentes grupos de pessoas e reflete seus diferentes interesses.

De modo semelhante, no caso do gerenciamento de


florestas tropicais, podemos identificar discursos e alianças
muito contrastantes, através dos quais a natureza é caracteri-
zada e os objetivos de conservação são expressos. Proteger a
"natureza" torna-se sinônimo de proteger o meio ambiente, os
sistemas ecológicos sob riscos, bem como as "populações
indígenas e locais" que habitam esses ambientes. Também
não é totalmente claro em que esses interesses se sobrepõem
ou divergem.

Há outra faceta dos novos discursos em torno da natu-


reza, à qual pouca atenção tem sido dada. Sob a globaliza-
ção, os discursos narrativos freqüentemente obscurecem os
processos sociais espacializados, que removem e redirecio-
nam recursos biológicos de um lugar para outro. As florestas
tropicais se tornam, literalmente, um recurso global, para ser
explorado por vários agentes nos interesses da "ciência", bem
como nos do mercado. Antes da mercantilização dos benefí-
cios da biodiversidade, eles precisam ser primeiro privatiza-
dos, e sua propriedade claramente estabelecida. Este é o im-
portante, e altamente contestado, domínio dos direitos da
propriedade intelectual, o qual, de acordo com McAfee é
construído sobre areias movediças: Ao contrário da premissa
do paradigma econômico global, não pode haver uma medi-
da internacional para comparar e trocar valores reais da
natureza entre diferentes grupos de diferentes culturas, e com
amplos e diferentes graus de poder econômico e político
(McAFEE, 1999, p. 133).
As mudanças sócio-econômico-políticas atualmente
em curso acarretam claras conseqüências em termos de rela-
ções de poder em nível mundial. Os processos através dos
quais a globalização ocorre, e os acordos ambientais são fir-
mados, envolvem sistemas de informação e de capital alta-
mente desiguais, aos quais grupos de pessoas e governos, têm
um acesso altamente desigual. Vogler mostra como alguns
membros da comunidade internacional denunciam o poder
desproporcional: Na maioria... dos regimes... há uma clara
evidência da maneira pela qual as normas e regras emana-
das das práticas e legislações dos Estados Unidos são tradu-
zidas para o nível internacional (VOGLER, 2000. p. 209).

É um paradoxo da globalização o fato de que as deli-


berações que acompanham as decisões de exploração de ma-
terial biogenético, por exemplo, são raramente de caráter pú-
blico, no sentido em que eram as decisões políticas no passa-
do. Um desconforto básico com essas novas realidades tem,
por sua vez, estimulado novas formas de protestos sociais e
novas práticas de legitimação.

Regimes Ambientais Internacionais

Dentro da tradição realista das relações internacionais,


podemos distinguir outras práticas discursivas. Depois de
1992, novos regimes ambientais internacionais foram estabe-
lecidos para ajudar a implementar os princípios do desenvol-
vimento sustentável (op. cit.). Esses regimes são processos
legais, institucionais e políticos, funcionando como garantia
para a natureza ubíqua dos discursos de alianças. Atualmente
existem centenas de regimes ambientais, procurando regular,
ou controlar, virtualmente todas as facetas do ambiente natu-
ral, a fim de favorecer os objetivos e interesses de diferentes
coalizões de grupos sociais.

Todavia, a efetividade dos novos regimes ambientais


depende, criticamente, da maneira pela qual eles são percebi-
dos por uma grande variedade de grupos interessados. Vogler
argumenta, nesse sentido:
...Observando o processo de expansão dos regimes
comuns, uma hipótese apareceria para prover a me-
lhor explicação para a incidência de instituições efi-
cientes e bem desenvolvidas. Há uma clara relação
entre a vulnerabilidade mútua, a interdependência e a
efetividade dos regimes (op. cit., p. 208).

Para ajudar na aceitação e legitimação dos regimes


ambientais, um conjunto de medidas são tomadas para prover
tanto incentivos como obstáculos para a implantação dos re-
gimes. Essas medidas incluem o perdão de dívidas externas,
a transferência de tecnologia e "trocas" internacionais tais
como incentivos fiscais ou o reflorestamento. Tais medidas
constroem uma armadura de "leis suaves", adotadas para
compensar "distorções" globais e a desigualdade entre na-
ções, e dentro delas. Como sugerido antes, as medidas men-
cionadas são uma conclusão lógica da visão de que as desi-
gualdades globais são "distorções", aberrações do sistema
global, e não conseqüências deste.

A existência de "regimes" ambientais também serve


para obscurecer algumas marcas-chave da nova política am-
biental global. Por trás da fachada dos acordos ambientais,
estão as questões fundamentais da justiça e da eqüidade, que
os regimes em si mesmos não abordam. O que constitui um
nível "justo" de emissão de carbono? Deveriam os cortes nos
níveis de emissão serem iguais, em todos os lugares do plane-
ta? Deveriam eles estarem ligados à variável do desenvolvi-
mento econômico?

Há uma falha ainda maior nos regimes ambientais in-


ternacionais que surgiram durante a última década. Argumen-
ta-se que a "lei suave" instituída através deles contribui para
uma pedagogia social, engajando todos no processo. Todavia,
através deles arrisca-se enfraquecer as obrigações internacio-
nais existentes, particularmente aquelas do mundo industria-
lizado. Quanto mais a "consulta" resulta na não aceitação,
menos as sanções legalmente instituídas são aplicadas. A
ilusão da negociação e a legitimação do expediente da aceita-
ção asseguram que a distribuição de poder existente no siste-
ma global não seja nem confrontada nem desafiada.
A Segurança Humana e o Meio Ambiente

Ao lado dos discursos da globalização e dos regimes


ambientais internacionais, o interesse pela "segurança huma-
na" tem ampliado a abrangência do discurso do desenvolvi-
mento sustentável, provendo o suporte ético necessário às
políticas ambientais globais. Muitas dos símbolos desse dis-
curso são exemplificadas pelo então Vice-Presidente dos
EUA, Al Gore, defendendo o “Plano Marshall Global": ...a
tarefa de restaurar o equilíbrio natural do sistema ecológica
da Terra... pode ser vista como uma nova missão do interesse
na 'justiça social', na democracia e na liberdade de mercado
da América... (GORE, 1992, p. 270). Como vemos, nessa fala
o meio ambiente se transforma no meio para atingir outros
objetivos, de natureza social e política (democracia liberal) e
sua proteção alude a propriedades universais (que ele chama
de "equilíbrio natural"), ao invés de mencionar valores políti-
cos que lhe subjazem.

Há seis pontos principais no "Plano Marshall" de Go-


re: a estabilização da população mundial; o desenvolvimento
de tecnologias apropriadas; as técnicas da avaliação ecológi-
ca; o melhoramento de esquemas regulatórios; a reeducação
da população global sobre as necessidades ambientais e o
estabelecimento de modelos de desenvolvimento sustentável.

Os críticos da abordagem de Gore argumentam que:

... produzir discursos ecológicos, articular planos de


desenvolvimento sustentável, e propagar definições li-
terárias de meio ambiente para os indivíduos contem-
porâneos, simplesmente adiciona novos reforços ao
padrão muito específico de que a formação do estado
constitui-se... numa matriz moderna da individualiza-
ção (LUKE, 1999, p.149).

Todavia, o significado político dos discursos da glo-


balização não se confina no nível individual. O meio ambien-
te, visto como um recurso estratégico, pode ser gerenciado
em grande medida como foi o status de "não-aliado" durante
a Guerra Fria. Para aumentar a segurança humana, organiza-
ções supranacionais podem ser vistas como operando a favor
do "interesse global", já que a estabilidade ambiental é perce-
bida tanto como um problema "compartilhado" pelo mundo
desenvolvido como também pelo mundo "menos" desenvol-
vido. O discurso da segurança do planeta, ou da segurança
humana, é um dos mais qualificados suportes para interven-
ções apresentadas como necessárias para reduzir vulnerabili-
dades ambientais, na medida em que, nele, a natureza política
dessas intervenções é obnubilada.

Um princípio do novo "ambientalismo global" é, en-


tão, o papel atribuído ao estados e a instituições supranacio-
nais. O sistema ecológico e o "meio ambiente" deixam o do-
mínio moral, sob essa perspectiva, e se transformam em coi-
sas que o estado, ou os supra-estados, devem administrar,
observando um distanciamento, do que se conhecia como o
princípio da soberania nacional, defendido pelos teóricos da
tradição realista das relações internacionais.

Ao mesmo tempo, o novo paradigma advoga uma di-


visão da responsabilidade pelo meio ambiente, como vimos
acima. As ideologias da "parceria" enfatizam os benefícios de
um melhor gerenciamento tanto para "populações em risco",
como para os ecossistemas. Finalmente, embora o discurso da
segurança ambiental parta, aparentemente, da lógica do esta-
do nacional, defendida pela escola realista, ele é construído,
de uma nova maneira, a partir do consenso liberal do pós-
guerra, proporcionando um tipo de neo-keynesianismo para o
meio ambiente, baseado no planejamento e na intervenção
internacional. Termos tais como "uso racional", "gestão am-
biental", e "direitos soberanos de propriedade", fazem os
princípios da ecologia ressoarem apropriadamente para pú-
blicos específicos, particularmente aqueles da América do
Norte, mas são defendidos como aplicáveis para todo o mun-
do.
Antes de examinar algumas das maneiras pelas quais
a materialidade e a consciência estão mudando os discursos e
políticas globais, nos dedicaremos a analisar em que medida
o peso do "meio ambiente", e, em particular, o "gerenciamen-
to da natureza", é afetado quando relacionado com outros
fatores.

O Gerenciamento da Natureza e a Justiça Ambiental

Uma das propostas afirmadas nos acordos internacio-


nais pós-RIO/92 é a de que a "avaliação científica" levaria à
constituição de um melhor perfil de áreas e espécies protegi-
das. A Agenda 21 registra que: ... fortalecendo a base cientí-
fica do gerenciamento sustentável... melhorado o conheci-
mento científico... estaria se constituindo uma capacitação e
uma capacidade “científicas” (AGENDA 21, 1992).

Isso, por sua vez, tem levado a crescentes esforços pa-


ra proteger o meio ambiente através de acordos firmados no
nível internacional. Um exemplo disso é a Declaração Uni-
versal das Responsabilidades Humanas, preparada pela 53a
Assembléia Geral das Nações Unidas, em conjunção com a
comemoração dos 50 anos do aniversário da Declaração dos
Direitos Humanos das Nações Unidas. Dois dos 19 princí-
pios da Declaração Universal das Responsabilidades Huma-
nas, referem-se particularmente ao meio ambiente:

Artigo 7: Todos dos povos têm a responsabili-


dade de proteger o ar, a água e o solo da Terra para
o bem das gerações presentes e futuras... e

Artigo 9: ...todos os povos devem promover o


desenvolvimento sustentável em todo o mundo, para
assegurar dignidade, liberdade, segurança e justiça
para todos...

Westing (1999) argumenta que a Declaração Univer-


sal das Responsabilidades Humanas das Nações Unidas de-
veria ser uma convenção obrigatória em muito menos que os
18 anos levados pela Declaração dos Direitos Humanos das
Nações Unidas (1948-1966), e que o Tratado Mundial pela
Natureza (1982) deveria ser transformado numa ...convenção
obrigatória, com garantias explícitas para os direitos apro-
priados da natureza per se (op. cit., p. 157).

Na verdade, ambas as questões - a base científica do


discurso da "sustentabilidade' e o uso desse discurso a favor
dos "direitos naturais" - requerem uma maior atenção. Mal-
entendidos no que é central nessa área têm espalhado uma
significativa confusão.

A Base Científica para o Manejo do Meio Ambiente

A crença numa ciência "global", implícita na Agenda


21, é altamente contestada, não apenas por muitos cientistas.
O que tem sido proposto para dar conta dos problemas glo-
bais é uma combinação de tradições científicas variadas e
descontínuas, cujas raízes se encontram em diferentes corpos
teórico-disciplinares. Por exemplo, a química ambiental é
usada para pesquisar a poluição, o conhecimento de botânica
para identificar espécies em perigo de extinção... Essas tradi-
ções habitualmente insistem que elas estão esculpindo a natu-
reza conjuntamente, embora obedecendo a fronteiras que já
existem no mundo natural.

Muitas das diferentes disciplinas não têm nada a dizer


sobre essas questões-chave, corretamente identificadas na
Agenda 21 como ... ligações... entre o sistema ambiental hu-
mano e o natural..., não sendo nem prescritivas nem prediti-
vas. A idéia de "sustentabilidade" é evocada em discursos
políticos que aludem ao método objetivo científico, sem as
complicações do julgamento humano. Na prática, isto é roti-
neiramente usado como uma maneira de guiar as ações hu-
manas. A parte central da tradição científica, que tem impul-
sionado para frente às fronteiras heurísticas do conhecimento,
tem imposto limites, categorias e taxonomias à natureza,
usados para fazer julgamentos que refletem as preocupações
humanas e interesses políticos.
O manejo da natureza e dos recursos naturais, então, é
ligado mais às questões das necessidades e valores humanos
do que a uma compreensão científica abstrata. Às vezes é
afirmado, usualmente por estrangeiros “desinteressados”, que
a “comunidade” ou “grupo” deveria ser a unidade de manejo
nas áreas protegidas, porque esses grupos se adequam às
funções ecológicas. Por exemplo, os caboclos amazônicos
são interpretados como um ingrediente essencial para recon-
ciliar a extração e manejo florestais, porque esses grupos são
habitantes naturais da região Amazônica.

Todavia, como uma recente abordagem de Browder


(1995) afirma a respeito do desmatamento na América Lati-
na, os paradigmas globais são usados para analisar os pro-
blemas ambientais locais, como também as preocupações
especificamente globais. O desmatamento é "compreendido"
em termos das teorias genéricas do desenvolvimento e do
meio ambiente, quer sejam as neoclássicas, as neo-
malthuseanas ou as derivadas da economia política. O autor
conclui que ...é útil que as variações do 'local' sejam pensa-
das sob a ótica dos padrões globais (op. cit., p. 135). Os
discursos globais sobre o meio ambiente e sobre a sustentabi-
lidade são, desse modo, usados para obscurecer as evidências
e, pelo dificultamento do entendimento, provêm poucas dicas
para o esclarecimento dos significados da degradação ambi-
ental.

De maneira similar, muito da retórica que acompanha


a sustentabilidade falha em reconhecer que os objetivos am-
bientais e sociais são, freqüentemente, diferentes, e às vezes,
contraditórios. Essas contradições são expressas e freqüen-
temente formuladas por seções dos "lobby" dos financiado-
res, na visão de que o sobre-consumo no Norte é responsável
pela maioria dos problemas ambientais (REDCLIFT, 1996).
Tal visão não considera as políticas e tecnologias que encora-
jam o mau uso e superprodução de hidrocarbonetos, a inabi-
lidade para reciclar os lixo, e a recusa para contabilizar os
custos ambientais externos. Por outro lado, também há um
perigo real inerente em não fazer a crítica do sobre-consumo
no Norte, que é o de falhar em olhar por trás do comporta-
mento consumista, deixando de considerar o fato de que mui-
tas pessoas, no Sul como também no Norte, não levarão a
sério o que eles vêem apenas como uma prescrição moral
para se comportarem diferentemente. Culpar indivíduos pelos
comportamentos que podem ser melhor compreendidos em
seu contexto social é como culpar os jovens pela sua incapa-
cidade de dizer "não às drogas", sem considerar a conjuntura
em que os usos de drogas emergem.

Os "Direitos" da Natureza e o Meio Ambiente

A temática dos direitos da natureza permeia a crescen-


te literatura sobre "direitos" e o meio ambiente, como alguns
comentadores têm notado (DOBSON, 1998; LOW & GLEE-
SON, 1998; MILLER, 1998). Hoje, os "direitos da natureza"
são, usualmente, traduzidos como "direitos humanos". A
idéia de que a natureza nos dotou de direitos naturais e inali-
enáveis, dos quais os governos, em alguns casos, quer nos
privar, é profundamente inspirada pela consciência política,
estando já na Declaração Universal do Direitos Humanos da
ONU, como temos visto, e tem uma história que remete para
antes da Declaração Francesa dos Direitos, de 1789, e da
Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776.

O problema, porém, é que esse sentido dos "direitos",


no contexto político, é derivado da lei natural, rotineiramente
confundida, nos discursos ambientais, com as "leis da nature-
za". Essas leis – o cânone da ciência – incluem a crescente-
mente contestada idéia de homeostase, tanto na Biologia co-
mo na Cibernética, e as leis da termodinâmica, que expres-
sam o princípio de que os processos físicos são irreversíveis.
Mais uma vez as leis são encaradas como "naturais, tal como
leis tendem a ser confundidas com as implicações políticas e
sociais que se seguem a sua adoção (das leis). A sustentabili-
dade é um desses casos.

Dobson (1998, p. 241) nota que as teorias de susten-


tabilidade às vezes aparecem submetidas à justiça, mas fre-
qüentemente observa-se o contrário, e a justiça fica submissa
à sustentabilidade. Essa posição subordinada da justiça em
relação à sustentabilidade é dissimulada pela linguagem da
'funcionalidade', e somente vem à tona quando a relação entre
vencedores, comumente fundamentadas em teorias do desen-
volvimento sustentável, é substituída por uma relação vence-
dores-perdedores. Ela também vem à luz quando são exami-
nados casos, lugares e comunidades atualmente existentes.

Dobson (op. cit., p. 242) também observa que nem a


sustentabilidade nem a justiça social têm significados fixos e
claros, ... o que abre caminho para que um dos termos se
legitime em relação ao outro.... Se a sustentabilidade é vista
como sustentação de propriedades e de pessoas, então a dis-
tribuição de recursos e de direitos entre eles é central para
seus objetivos. Se, porém, a sustentabilidade é vista como
proteção e conservação do meio ambiente, então a "justiça"
consiste primariamente em assegurar que o ecossistema con-
tinue a desempenhar suas funções ecológicas vitais. Atual-
mente, não podemos saber se a justiça é uma condição neces-
sária ou suficiente para a sustentabilidade ambiental.

No que concerne aos valores, então, a discussão da sus-


tentabilidade e da justiça social raramente aborda as comple-
xidades que cercam a questão. Analisando nove livros sobre
o meio ambiente e o desenvolvimento na América Latina,
Silva (1998, p. 26) escreve que:

... esses autores ancoram a interpretação do desen-


volvimento sustentável numa concepção partilhada de
justiça social. Para esses autores, a consecução do
desenvolvimento sustentável está inextrincavelmente
ligada à superação ampla da pobreza e da notória
desigualdade.

Neste contexto o que se revela é um caso sério do que


podemos chamar de discurso da disjunção, na medida em
que se aceita a afirmação de que as pessoas de todos os luga-
res partilham a compreensão da justiça social, da mesma ma-
neira como partilham a de sustentabilidade. Talvez este não
seja o caso.

Em uma análise dos discursos sobre a floresta na


África, Fairhead & Leach (2000) comparam a visão ilumina-
da "ortodoxa" do manejo florestal com as visões dos povos
do continente africano. Na visão ortodoxa a floresta é retrata-
da como uma cobertura "original" e "natural", que vem sendo
destruída progressivamente pelo povoamento da terra e ...
pela modernidade, que transforma culturas anteriormente
favoráveis às florestas. (op. cit., p. 43)

Os autores citados contestam essa visão dominante e


sugerem que ...a persistência de tais representações, mesmo
a despeito da existência de contra-interpretações e de evi-
dências dessas, sugerem que uma certa "sistematicidade está
sendo exercida nos processos científico-políticos (idem). Eles
atribuem a dominância da abordagem cientifíco-política a
estruturas econômicas e administrativas e aos mecanismos
financeiros que operam dentro do planos de desenvolvimen-
to. O "discurso global" em torno do desmatamento é um
exemplo do que se afirma como um "modelo de representa-
ção", do qual é difícil desembaraçar os argumentos ou as evi-
dências. Em certas circunstâncias políticas esses discursos
têm "efeitos materiais" facilmente difundidos, sem que seus
pressupostos sejam submetidos a nenhuma análise rigorosa.

É essa questão da "materialidade" e da consciência


que discutimos a seguir. Dois processos podem ser identifi-
cados como transformadores da materialidade do mundo e
correspondentemente de nossa consciência. Eles estão produ-
zindo tanto ambientes materialmente diferentes, bem como
maiores mudanças na maneira pela qual os ambientes são
socialmente construídos e representados.

O Sujeito Humano Considerado como ‘Genes’

O primeiro conjunto de mudanças está na Biologia e


na Genética. Num determinado sentido, as questões de "segu-
rança" têm se transformado na direção da "natureza", forçan-
do-nos a reconsiderar o que temos significado tanto por "sus-
tentabilidade" quanto por "segurança". Por exemplo, a prote-
ção da natureza é agora usada para legitimar a ação militar e,
como temos visto, afirmações a respeito dos objetivos da
gestão racional da natureza têm se cristalizado em "leis sua-
ves", promulgadas por governos.

A sustentabilidade não é mais primariamente uma


questão de manter e aperfeiçoar os atuais recursos ambien-
tais; trata-se agora de criar outros recursos. A publicação dos
primeiros resultados do Projeto GENOMA HUMANO marca
o divisor de águas no terreno do "tomado como dado" na Bio-
logia, que dá suporte à maioria das políticas ambientais: a
responsabilização individual, a cidadania e a governabilidade.
A nova genética está alterando o que se conhece como víncu-
lo social e como participação na sociedade civil. A questão
que se impõe se refere a como fazer para "governar" um sis-
tema global que não respeita território, um sistema global que
é, na verdade, crescentemente extraterritorial!

Em seu novo e provocativo livro, Experiencing the


New Genetics, Finkler (2000, p. 199-200) escreve:

O Homem contemporâneo não é mais o político de


Aristóteles, o racional de Descartes ou o animal cul-
tural dos antropólogos: ele é apenas um animal com-
preendendo específicas seqüências de DNA que o dis-
tingue dos outros animais por um muito suave arranjo
molecular... a visão científica e biomolecular dos hu-
manos está indo na direção de uma concepção de
nosso ser como animais programados, independentes
da cultura e da moralidade: a prioridade tem sido
dada mais à herança genética do que à cultural... a
ideologia da herança genética priva a pessoa da pro-
priedade de agente: a visão genética é a de que os
genes pré-determinam as pessoas... uma pequena eli-
te pode ainda transmitir status, poder e riqueza para
seus descendentes, mas cada vez mais, na contempo-
raneidade, predomina a visão de que a família e o pa-
rentesco é mais determinado pela herança de DNA do
que por um senso de moralidade que se traduz em so-
lidariedade, responsabilidade, obrigações e afeto.

Essa passagem nos alerta para dois processos pelos


quais a "nova Biologia" está ganhando autoridade e plausibi-
lidade. O primeiro se refere ao fato de que a genética atingiu
um estágio que permite a recombinação dos indivíduos - a
partir dos componentes do corpo. Isto está mudando o que
conhecemos como ser "humano", por exemplo, pela diminui-
ção das fronteiras entre os outros animais e o homem. Con-
ceitos que vemos como inerentemente humanos, como os de
identidade e de consciência, que dão suporte à aceitação dos
direitos e das responsabilidades, aparecem, pela primeira vez
como infinitamente maleáveis. Os indivíduos humanos estão
se tornando seres geneticamente modificáveis.

O segundo processo digno de nota, também capturado


da prosa de Finkler (op. cit.) é a maneira pela qual o discurso
público está sendo modificado pela nova genética. A disse-
minação do conhecimento genético e o reconhecimento da
informação genética, adquirem legitimidade e primazia no
discurso político, antes reservada aos direitos e obrigações
sociais, no que se refere à teoria social. Num certo sentido a
Biologia se torna a teoria social. Os processos tecnológicos
implicados na nova genética têm servido para redefinir as
relações entre indivíduos e a sociedade, pela mudança no que
entendemos como indivíduo, e potencialmente alterando sua
relação com a sociedade. No lugar da sociedade civil como
terreno da negociação social, da confiança e dos direitos, po-
demos antecipar a alquimia dos indivíduos, o que seria a pro-
togênese - em termos biológicos - da sociedade mesma.

No seu Jamais Fomos Modernos, Bruno Latour desta-


ca os fenômenos que nunca foram nem fatos sociais, no sen-
tido durkheimiano, nem objetos naturais, ... mas emergem na
intercessão das práticas sociais e nos processo naturais co-
mo formas socialmente construídas de mediação entre a so-
ciedade e a natureza (LATOUR, 1993, p. 11). Latour estava
se referindo a fenômenos tais como a doença da "vaca louca",
ou o esquentamento global, que são híbridos, incorporando
elementos materiais e socialmente construídos. No futuro, a
genética humana, junto com outros processos sistêmicos,
pode ser equilibrada para mudar o terreno, mesmo que poste-
riormente, na direção da mediação entre "natureza" e "socie-
dade", para o ponto onde o híbrido não será nem mesmo per-
cebido como política pública. O processo de mediação se
completará quando isto for menos reconhecível dentro do
domínio público, ou do discurso público.

Já vivemos numa sociedade global na qual selecio-


nando um co-genitor pelas características genéticas é uma
realidade possível, sendo mães de aluguel comumente encon-
tradas. A comunidade de pesquisa tem inserido a clonagem
genética de animais na agenda política e os políticos, cautelo-
sos com algo que eles não tinham pensado, têm reagido hesi-
tantemente. Já as propostas de clonar seres humanos a partir
do DNA dos pais naturais têm atraído uma controvérsia in-
ternacional na Europa. "Patentear" a natureza in vitro tem
provocado respostas contraditórias, já que isso parece dar às
companhias transnacionais uma carta branca para invadir e
remover materiais genéticos de ambientes de "outros povos".
Muitas das reações são conseqüências do impasse criado pe-
los esforços para o "manejo" global pela Convenção da Bio-
diversidade. Em outros setores, a manipulação genética é
defendida pelos pesquisadores médicos que investigam ma-
neiras de corrigir as deficiências físicas, que trabalham, in-
clusive, sobre uma crescente pressão pública. Cartões inteli-
gentes, contendo impressões genéticas vitais, são previstos
como equivalentes biológicos das atuais carteiras de identi-
dade. Como as criaturas imaginadas por Aldous Huxley, ha-
bitaremos em breve um admirável mundo novo, sem sequer
realmente percebermos.

Onde isso tudo deixa o meio ambiente e os discursos


políticos que governam seu gerenciamento? Como o sujeito
humano mesmo está se transformando, as noções de cidada-
nia, de democracia e de responsabilidade também estariam se
modificando? No novo mundo, a materialidade e a consciên-
cia apresentam uma crescentemente complexa relação entre
si. Como as fronteiras entre as espécies estão se desfazendo e
a escolha genética vem determinando a política, o "meio am-
biente" e a "sustentabilidade" seriam mesmo ainda categorias
válidas?

O SUJEITO HUMANO INFORMATIZADO

A segunda maior transformação na maneira pela qual


o meio ambiente global é construído está associada com o
desenvolvimento da tecnologia da informação e, em particu-
lar, com as mudanças que estão sendo provocadas pela Inter-
net. Essas mudanças têm estendido a circulação da informa-
ção para o centro da natureza da materialidade, já que a "rea-
lidade virtual" começa a substituir ou a complementar a rea-
lidade material.

Quando Tim Berners-Lee inventou a Internet, ele


imaginou um mundo livre da regulação, no qual a informação
circularia livre entre os lugares, como moedas num mercado
aberto. Em certa medida isto tem dado origem ao mito que
tem seu próprio poder - o de que a Internet é "anárquica", e é
livre de forças controladoras. De muitas maneiras, isso é o
oposto da realidade, já que as forças que controlam a Internet
são as mesmas que controlam as sociedades humanas e o
mercado.

O tipo de regulação da Internet é diferente dos obser-


vados em outras instituições globais. Nela, o controle emer-
giu mais de "baixo para cima" do que de "cima para baixo".
A comparação com instituições globais como as Nações Uni-
das, ou a Organização Mundial do Mercado, é instrutiva. O
que distingue a comunicação global, via NET, é que os pro-
cessos on-line começaram como processos globais, enquanto
a maioria das instituições acabaram globalmente. Como um
resultado disso, foi mais fácil costurar acordos para a regula-
ção política na Internet, o que é desconhecido pela maioria
dos seus usuários.
O principal responsável pelo policiamento dos pa-
drões de Internet é o Consórcio World Wide Web (W3C).
Todavia, há um conjunto de outras instituições com inserções
mais limitadas. A Internet Engineering Task Force (ITEF)
desenvolve padrões técnicos acordados, tais como os proto-
colos de comunicação. A Internet Corporation for Assigned
Names and Numbers (ICANN) mantém trilhas de nomes e
números (os doze dígitos que identificam servidores conecta-
dos a endereços da Internet) e supervisiona o sistema do do-
mínio de nomes, (tais como .com e .org). Todas essas empre-
sas foram auto-criadas e são auto-governadas. Elas são “aber-
tas” em termos de membros e amplamente baseadas no con-
senso no que se refere à tomada de decisões.

O precursor da Internet foi a Agência de Projetos de


Pesquisa Avançada do Pentágono, no final da década de 60
do século passado. Essa iniciativa foi administrada de uma
maneira muito informal, o que possibilitou uma informalida-
de e "igualdade" entre participantes. Na direção do processo
estavam, efetivamente, estudantes de graduação, o que justi-
ficou a afirmação de que eles criaram ... um dos primeiros
processos legítimos de tomada de decisões (The Economist,
June 10, 2000). Para "pertencer" a um dos grupos planejado-
res das regras para a Net, era necessário apenas subscrever
uma lista de e-mails. As decisões eram tomadas por consenso
simples dentro dos Grupos de Trabalho. De modo semelhan-
te, no desenvolvimento de softwares, os grupos eram forma-
dos ("Grupos-Fontes Abertos") on-line, recebendo críticas e
sugestões via rede.

Diferentemente das organizações off-line, as organi-


zações on-line são formadas de indivíduos que pensam da
mesma maneira, que dividem uma cultura comum (computa-
cional) e interesses semelhantes. O que eles não partilham,
como os grupos off-line, é o mesmo espaço geográfico. De-
fensores da "abertura" da comunicação on-line argumentam
que o critério central do seu sucesso é militar contra o “se-
gredo” e a hierarquia. Eles dizem ainda que isto dificulta a
manipulação da tomada de decisões, já que todos podem ter
acesso a todas as propostas. No lugar das salas “cheias de
fumaça de cigarro”, a tomada de decisões sobre as comunica-
ções virtuais acontecem no ciberespaço público.

A transparência da tomada de decisões sobre a Inter-


net não significa que todos aqueles que a usam estão no nível
de "jogar o jogo". Já há evidências de que as questões técni-
cas podem estar sujeitas a pressões comerciais. Por exemplo,
os proprietários de marcas comerciais têm se oposto à criação
de domínios comerciais de alto nível, tais como o .com.
Também há evidências do prevalecimento de interesses polí-
ticos no formato da Internet - por exemplo, a União Européia
deseja criar um novo domínio .eu. Finalmente, o W3C, que
foi fundado em 1994, tendo agora 400 membros, cada um
pagando cinqüenta mil dólares por ano para influenciar seus
destinos.

Nada disso muda o fato de que, com a Internet, temos


um novo tipo de organização global que procura regular a si
mesma, ao invés de uma empresa que existe para regular ou-
tras organizações. Ela é expressamente, e conscientemente,
livre da interferência de governos nacionais. Resta saber quão
longe as práticas e as realidades do mundo virtual irão influ-
enciar aquelas do "mundo real". A Internet parece ser guiada
pelo consenso, mas suas mensagens (codificadas e não-
codificadas) são sobre o mercado e o sucesso material. Em
nenhum sentido isso pode ser politicamente, ou em termos de
meio ambiente, completamente neutro.

Os zapatistas, em Chiapas, foi um dos primeiros gru-


pos a usar a Internet para uma comunicação global, superan-
do o poder dos políticos e caciques locais. Alguns comenta-
dores têm argumentado que essa possibilidade de comunica-
ção global tem servido para enfraquecer a hegemonia do
mercado global. Vejamos um exemplo:

... um novo internacionalismo está em processo de au-


to construção. Esse novo internacionalismo não é
uma adaptação à idéia pré-concebida, a uma ideolo-
gia que serve como um fator de recomposição. Pelo
contrário, a recomposição da diversidade de sujeitos
sociais parece originar a necessidade prática de dife-
rentes movimentos em suas interações dentro do con-
texto da economia global e suas lutas... (DE ANGE-
LIS, 2000, p. 10).

Essa linha de argumentação foi usada mais persuasi-


vamente em relação aos protestos por ocasião das últimas
reuniões da Organização Mundial do Comércio. Enquanto a
OMC debatia medidas para fazer avançar a liberalização da
economia, os manifestantes articulavam protestos via Inter-
net. Muitos desses protestos foram deliberativos, consensuais
e politicamente articulados em comum mais por Organiza-
ções Não Governamentais do que por partidos políticos.
Remetendo outra vez à argumentação de Esteva (2000), pen-
samos que esses protestos foram mais indicativos do impulso
democrático do que da força da instituições democráticas,
partidos, governos e organizações internacionais, com os
quais eles estavam em conflito.

CONCLUSÃO

Esse capítulo começou afirmando que ao se reconhe-


cer que os discursos de "sustentabilidade" atingiram o centro
da política ambiental internacional, é hora de fazer uma pausa
e examinar mais detalhadamente a agenda política e intelec-
tual que eles propõem. Desde que o termo "desenvolvimento
sustentável" foi popularizado pela Comissão Brundtland, em
1987, o ambiente natural tem estado intimamente ligado com
a satisfação das "necessidades" humanas. Subseqüentemente,
a mudança na ênfase sobre as "necessidades" para a ênfase
nos "direitos", marcou um deslocamento do poderoso para-
digma keynesiano de relações econômicas internacionais, no
pós-II Guerra Mundial, para o das certezas neo-liberais do
final da década de 80 e dos anos 90.

A imposição dos mercados econômicos sobre o meio


ambiente global tem tanto resultados paradigmáticos quanto
práticos. O foco nas "escolhas" de indivíduos e de grupos
mais amplos, expressas nas preferências de mercado, levou
ao crescimento das disparidades entre as demandas políticas e
sociais, e as alocações do mercado. A economia política in-
ternacional, na ortodoxia neo-liberal, significou o "ajusta-
mento" econômico que precisou ser feito nos lugares onde
havia poucas provisões sociais.

A proteção ambiental, e os valores que as culturas


"atualmente existentes" colocam em seus ambientes, foram
formalmente expressos em termos de mercado e de preços.
Paradoxalmente, a ênfase nos interesses dos indivíduos e
grupos tem levado à concentração, principalmente das ONGs,
nos "direitos", em sua oposição à globalização.

Em seguida, examinamos os discursos através dos


quais a sustentabilidade, e os direitos a e da natureza, são
expressos. Sugerimos que a sustentabilidade, como um con-
ceito estabelecido, tem freqüentemente disfarçado, em vesti-
mentas mais novas, os conflitos entre agendas do passado.
Com Habermas afirma em Teoria e Prática (1971), a maneira
pela qual entendemos a "natureza" atualmente é determinada
pelo passado. Os "novos" discursos da sustentabilidade têm
se revestido de uma nova linguagem – a deliberação, a cida-
dania, mesmo os direitos das espécies – mas escondem, ou
marginalizam as desigualdades e as distinções culturais que
têm determinado a agenda ambiental internacional. As ques-
tões ambientais se transformaram num objeto de políticas,
sendo elaboradas por diferentes atores políticos e coalizões
de discursos.

Afirmamos ainda que a invenção da necessidade de


um manejo global do meio ambiente se fundamenta, em par-
te, no pressuposto de que ele ajudaria a corrigir as anomalias
da economia e da política comercial globais. Duas questões
específicas foram identificadas como evidência dos novos
discursos em torno da sustentabilidade, e da tentativa de in-
corporar, nas preocupações ambientais, as questões maiores
da justiça social, da governabilidade e da eqüidade.

A primeira questão está ligada ao “mantra” da globa-


lização. Muito da preocupação com o estabelecimento de
mecanismos de gerenciamento global do meio ambiente tem
tomado como seu leitmotiv o desenvolvimento de "regimes"
ambientais. Esses são convenções sociais frouxamente orga-
nizadas, incluindo a assinatura de acordos, que envolvem
consentimento de gerenciamento ambiental global, de acordo
com princípios "universais" previamente consensualizados.
Os acordos internacionais que assumem a responsabilidade
pelo "meio ambiente", porém, não podem reverter os efeitos
da economia e dos processos sociais espacializados sobre os
pobres, suas culturas e seus meio ambientes. Embora incapa-
citando individualmente os países para "administrar por si
mesmos seu meio ambiente", os acordos internacionais po-
dem ajudar a conferir maior legitimidade ao sistema, sem que
fique claro se isto é mais justo ou melhor. É também questio-
nável se os mecanismos de mercado são apropriados, na me-
dida em que o objetivo seria atacar os efeitos distorsivos do
próprio mercado.

A segunda questão se refere à maneira pela qual a "ci-


ência" vem sendo utilizada para conferir legitimidade ao nos-
so conhecimento do que está acontecendo com o meio ambi-
ente. Essa tem sido uma marca central dos novos discursos da
sustentabilidade, e tem dado origem a um conjunto de coali-
zões políticas entre partes interessadas em negociar. Muitos
desses grupos, liderados pelas ONGs (sem nem sempre con-
seguir), têm tentado se distanciar eles mesmo dos efeitos das
políticas neoliberais, promovendo visões da sustentabilidade
mais inclusivas, capazes de dar mais atenção à eqüidade,
justiça social e fortalecimento das comunidades. Em alguns
casos essas coalizões têm, elas mesmas, invocado a ciência -
argumentando que o que é bom em termos ambientais é tam-
bém mais justo e mais equânime. E elisão desses dois fatores
- o "cientificismo" e o discurso da "justiça natural" - tem
também criado confusão. Ambos podem ajudar a legitimar
políticas ambientais, mas nem "ciência", nem "justiça" repre-
sentam "verdades" objetivas.

Finalmente, argumentamos que a natureza crescente-


mente discursiva da política ambiental internacional e suas
tentativas para procurar, ou reivindicar legitimidade, apresen-
ta outros perigos. Ela esquece o fato de que o debate nature-
za/cultura está sendo materialmente re-escrito através da ge-
nética e da informática. As "escalas de justiça", com as quais
as questões ambientais são normalmente preocupadas, preci-
sam reconhecer que o indivíduo humano (como outras espé-
cies) é cada vez mais geneticamente modificável. Os sistemas
globais de informação, disponibilizados pela Internet, têm
transformado os sistemas de comunicação e a ordem simbóli-
ca, anunciando uma política nova e virtual, paralela com
aquela do "mundo real". É nesse sentido que os novos dis-
cursos em torno da informática e da genética podem ser vis-
tos como discursos da "pós-sustentabilidade".

Este capítulo começou com a afirmação de que a "sus-


tentabilidade" tem, até agora, sido uma propriedade de dife-
rentes discursos têm se enfrentado na arena dos interesses
internacionais. Par nós, somente a exposição dos pressupos-
tos e das conclusões desses discursos pode nos ajudar a clare-
ar as escolhas e compromissos que envolvem a política ambi-
ental e a abordagem das ciências sociais ambientais. Com as
mudanças na materialidade e na consciência, começamos a
entrar num mundo no qual a "sustentabilidade" significa no-
vas realidade materiais, bem como novas posições epistemo-
lógicas. O desafio das ciências sociais é, portanto, identificar
as maneiras pelas quais as mudanças materiais – no meio
ambiente físico, nas tecnologias de informação e no corpo
humano – requerem que refaçamos a idéia de sustentabilida-
de. São essas mudanças que futuras pesquisas devem focali-
zar.
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QUEM SUSTENTA O DESENVOLVIMENTO DE
QUEM? O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E A
REINVENÇÃO DA NATUREZA

Subhabrata Bobby Banerjee19

Nos primeiros tempos da colonização, a tarefa


dos homens brancos consistiu na necessidade
de “civilizar” os povos não-brancos do mundo
– isto significou acima de tudo, privá-los de
seus recursos e de seus direitos. Nas fases
posteriores da colonização, a missão dos ho-
mens brancos consistiu na necessidade de
“desenvolver” o Terceiro Mundo, e isso en-
volveu mais uma vez privar as comunidades
locais de seus recursos e direitos. Agora es-
tamos no limiar da terceira fase da coloniza-
ção, na qual a missão do homem branco é pro-
teger o meio ambiente – e isto também envolve
a tomada do controle dos direitos e recursos...
A salvação para o meio ambiente não pode ser
encontrada através da velha ordem colonial,

19
Tradução de Lemuel Dourado Guerra e Claudio Ruy Postela de Vasconcelos.
baseada nas “missões” dos homens brancos.
Essas duas coisas são ética, econômica e epis-
temologicamente incongruentes.

(MIES & SHIVA, 1993)

Introdução

Depois de mais de duzentos anos de industrialização


no mundo ocidental e mais de 50 anos do “desenvolvimen-
tismo” no Terceiro Mundo, os benefícios alcançados pelos
formidáveis planos para o progresso e pelos processos de
modernização são, no mínimo, questionáveis. A despeito do
avanço fenomenal da ciência, da tecnologia, da medicina e da
produção agrícola, a promessa de que o “desenvolvimento”
erradicaria do mundo a pobreza permanece irrealizada em
muitas partes do globo, especialmente no Terceiro Mundo. O
“progresso” chegou a um alto preço: o esquentamento global,
o buraco na camada de ozônio, a perda da biodiversidade, a
erosão dos solos, a poluição do ar e das águas são problemas
com amplos impactos sobre as populações humanas, signifi-
cativamente mais prejudiciais para os pobres do campo nos
países do Terceiro Mundo, e para os povos que retiram da
terra seu sustento, em geral.

O conceito de Desenvolvimento Sustentável (DS)


emergiu recentemente num esforço para abordar os proble-
mas ambientais causados pelo crescimento econômico. Há
muitas interpretações diferentes do DS, mas seu objetivo
principal é descrever um processo de crescimento econômico
que não cause destruição ambiental. Exatamente o que está
sendo sustentado (o crescimento econômico, o ecossistema
global ou ambos) constitui-se num ponto atualmente muito
debatido, embora muitos pesquisadores afirmem que a apa-
rente reconciliação entre o crescimento econômico e o meio
ambiente é simplesmente um lance de mágica que falha no
que se refere ao equacionamento dos genuínos problemas
ambientais (ESCOBAR, 1995; REDCLIFT, 1987).
Neste trabalho examino, criticamente, o conceito de
DS. Faço uma abordagem dos pressupostos econômicos e
desenvolvimentistas que informam a noção de DS e discuto
as conseqüências dos mesmos. Defendo também que o DS,
ao invés de representar a quebra de um paradigma teórico, é
subsumido sob o paradigma economicista dominante. Ele se
baseia também num sistema único de conhecimento e, a des-
peito de afirmar que aceita a pluralidade, há um perigo de
marginalização ou de cooptação dos conhecimentos tradicio-
nais à revelia das comunidades que dependem da terra para
sua sobrevivência. Discuto as implicações deste regime de
verdade sobre os discursos contemporâneos sobre a biodiver-
sidade, a biotecnologia e os direitos à propriedade intelectual.
Concluo discutindo formulações alternativas de DS e as im-
plicações para a teoria e a prática do gerenciamento dos re-
cursos naturais.

A invenção do Desenvolvimento e a
criação do Subdesenvolvimento

Um ponto de partida útil talvez seja localizar os dis-


cursos atuais sobre o DS dentro do discurso mais geral a res-
peito do desenvolvimento, para destacar as suas continuida-
des e descontinuidades. Enquanto o termo “desenvolvimen-
to” tem tido um uso comum por quase duzentos anos, a maio-
ria dos estudiosos concorda que a noção contemporânea de
desenvolvimento foi avalizada pelo presidente Harry Truman,
em seu discurso de posse, em 20 de janeiro de 1949, no qual
esboçou um programa global de desenvolvimento:

“Precisamos embarcar num corajoso novo programa


para tirar benefícios de nosso avanços científicos e do
progresso industrial disponível para a melhoria e
crescimento das áreas subdesenvolvidas... O velho
imperialismo – a exploração para o lucro dos estran-
geiros – não tem lugar em nossos planos”.

Claro que isto estabeleceu o palco para o novo impe-


rialismo – a criação do subdesenvolvimento e a emergência
de uma nova percepção do ocidente e do resto do mundo. O
Terceiro Mundo nasceu naquele momento – naquele dia,
mais de dois bilhões de pessoas tornaram-se subdesenvolvi-
das porque, como Esteva (1992, p. 7) argumenta, eles foram
transportados para dentro de um espelho invertido da realida-
de dos outros: “um espelho que os apequenava e os enviava
para o fim da linha, um espelho que definia sua identidade,
que é realmente aquela de um maioria heterogênea e diversa,
simplesmente em termo de uma minoria homogênea e limita-
da”.

Muitos dos países do Terceiro Mundo ainda hoje pa-


gam um desastroso preço por terem entrado nesse plano de
desenvolvimento. Como muitos estudiosos apontam, as con-
seqüências têm sido particularmente severas para as popula-
ções rurais (ADAMS, 1990; ESCOBAR, 1995; ESTEVA,
1987, 1992; MIES E SHIVA, 1993; SHIVA, 1989). A estra-
tégia de desenvolvimento no Terceiro Mundo produziu o
efeito oposto: subdesenvolvimento, endividamento e explora-
ção. Fazendeiros e camponeses no Terceiro Mundo bem co-
mo as populações indígenas de diferentes partes do mundo
sofreram o impacto do desenvolvimento. Elas foram classifi-
cadas como vivendo de economias de “subsistência”, necessi-
tando se “desenvolver” para atingir padrões de vida “aceitá-
veis”. Isso teve uma enorme influência econômica e sociocul-
tural sobre os povos indígenas e sobre agricultores ao redor
do mundo: por exemplo, todos os recursos foram direciona-
dos para produzir produtos para o mercado e não mais os
tradicionais. Os efeitos não desejados dessa forma de desen-
volvimento realmente enfraqueceram as condições de sobre-
vivência e levaram ao subdesenvolvimento (SHIVA, 1989;
HYND-MAN, 1987; MIES & SHIVA, 1993).

Numa notável análise do discurso do desenvolvimen-


to, Escobar (1995) demonstrou como primeiro foi criada a
noção de pobreza (baseada em indicadores da modernidade
capitalista, tais como a renda per capita em dólar, posse de
bens materiais, extração de recursos, ciência e tecnologia,
economia de mercado) para depois “modernizar” os pobres,
transformando-os em “assistidos”, e a partir daí foram estabe-
lecidos novos modos de relações e de mecanismos de contro-
le, sob o chamado das trombetas do “desenvolvimento”. O
desenvolvimento se estabeleceu pela construção de proble-
mas, pela aplicação de soluções e pela criação de “anormali-
dades”, tais como os “analfabetos”, os “subdesenvolvidos”,
os “camponeses sem terra”, que deveriam, posteriormente ser
“tratados” e reformados (ESCOBAR, 1995, p. 56). Esse foi
um processo científico e tecnológico que subsumiu as dife-
renças culturais, construindo povos como variáveis num
grande modelo de “progresso” e validando os imperativos
assimilativos do desenvolvimento pelo toque das trombetas
dos interesses nacionais, que foi freqüentemente o caso das
novas nações do Terceiro Mundo.

Colocado nesse contexto, o desenvolvimento torna-se


simplesmente um novo nome para o crescimento econômico.
A lógica era a de que o crescimento econômico deveria ser
maximizado, o que traria o aliviamento da pobreza pela cria-
ção da riqueza, a qual poderia ser usada para resolver pro-
blemas “sociais”. Essa separação entre a economia e o social
é característica do moderno pensamento econômico ociden-
tal, já que em muitos lugares do oriente não existiu nenhuma
separação clara entre essas duas esferas. Durante o final da
década de 60 e início da década de 70 do século passado,
estava ficando claro para os planejadores do desenvolvimento
que o crescimento econômico não necessariamente significa-
va eqüidade e que o mesmo, quando desenfreado tinha sérias
e adversas conseqüências sociais. A distância entre ricos e
pobres continuava a crescer: com base na renda per capita, a
proporção de ricos para pobres era de 2:1, em 1800; de 20:1,
em 1945 e de 40:1, em 1975. Os 20% mais ricos abocanham
82.7% da renda mundial, enquanto os 20% mais pobres do
mundo ganham 1.6 % da renda global (WATERS, 1995). Em
países recentemente industrializados, o crescimento econô-
mico foi acompanhado inevitavelmente de um crescimento na
disparidade em termos de renda. Os aspectos “sociais” que
acompanham o desenvolvimento, tais como o crescimento
das desigualdades e o desemprego, eram vistos como “obstá-
culos sociais” que deveriam ser superados para que o desen-
volvimento prosseguisse sua marcha. Não houve o reconhe-
cimento de que os programas de desenvolvimento levaram
realmente à pobreza e aos “problemas sociais” (BANERJEE,
2000).

Crescentemente o reino da economia começou a defi-


nir muitos aspectos sociais e culturais de populações do Ter-
ceiro mundo. Esse regime de desenvolvimento dependeu
somente do sistema de conhecimentos da modernidade oci-
dental, rejeitando e marginalizando formas não ocidentais de
conhecimento. O desenvolvimento se tornou numa “metáfora
que atribuía uma hegemonia global a uma genealogia históri-
ca puramente ocidental, roubando de povos de diferentes cul-
turas a oportunidade de definir as formas de sua vida social”
(ESTEVA, 1992, p. 9). O que tem sido produzido no contex-
to sociocultural e político dos países industrializados do oci-
dente, foi, agora, generalizado para o restante. Em termos
foucaultianos, o desenvolvimento derivou seu poder do

“conhecimento subjugado ...., de todo um conjunto de


conhecimentos que tem sido desqualificado como
inadequado para sua tarefa ou insuficientemente ela-
borado; ingênuo, localizado na base da hierarquia,
abaixo do nível de cognição ou de cientificidade exi-
gidos” (FOUCAULT, 1978, p. 82).

Se a história do desenvolvimento deve ser vista como


uma história do imperialismo e colonialismo, é a ligação en-
tre o poder e o conhecimento que pode ilustrar como o de-
senvolvimento chegou a ser visto como uma versão da reali-
dade e plausibilizado como a única realidade normativa
(SPIVAK, 1988). Para citar Harvey (1996, p. 131):

“(O genial da economia política do século XVIII) foi


que ela mobilizou o imaginário humano da emanci-
pação, do progresso e da auto-realização em formas
de discursos que podiam alterar a aplicação do poder
político e a construção de instituições de maneira que
elas eram consistentes com a crescente prevalência
das práticas materiais das trocas mercadológicas.
Além disto, ela o fazia enquanto mascarava as rela-
ções de dominação e de trabalho que deveriam ser
mantidas enquanto subsumiam a questão cósmica das
relações com a natureza num discurso técnico, preo-
cupado com a alocação adequada dos recursos escas-
sos (incluindo aqueles da natureza) para o proveito do
bem-estar humano.... A teoria e a prática da economia
política capitalista com relação ao meio ambiente
tem, assim, tornado-se hegemônica na história recen-
te”.

O real sucesso do desenvolvimento, como Escobar


(1995, p. 71) destaca, foi sua capacidade de sintetizar, orga-
nizar, gerir e direcionar populações inteiras e países num sis-
tema unitário, resultando na “colonização e dominação das
ecologias humana e natural”. Na era pós-colonial, esses me-
canismo de controle são ainda mais fortes, se exercidos atra-
vés de instituições internacionais tais como o Banco Mundial,
o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial
do Comércio, ou por políticas governamentais de industriali-
zação e modernização. O agravamento dos problemas ambi-
entais também levou à luta pelos recursos naturais, resultando
em inúmeras batalhas entre pequenos produtores, camponeses
de populações indígenas, de um lado e os interesses corpora-
tivos e governamentais, do outro. A noção de DS foi conce-
bida em meio a essas lutas, quando as ONGs, as organizações
ambientalistas, vários grupos de camponeses e de índios, bem
como instituições internacionais como a ONU, demandaram
um re-exame conceitual e político do desenvolvimento.
DS: o conceito e suas implicações

O conceito de DS emergiu na década de 80 do século


XX, como uma tentativa de explorar a relação entre o desen-
volvimento e o meio ambiente. Embora haja mais de 100
definições de DS (HOLBERG & SANDBROOK, 1992), a
mais comumente usada é aquela de Brundtland (WCED,
1987). De acordo com a Comissão Brundtland, o DS é “um
processo de mudança no qual a exploração de recursos, o
direcionamento de investimentos, a orientação do desenvol-
vimento tecnológico e a mudança institucional acontecem em
concordância com as necessidade presentes e futuras”
(WCED, 1987, p. 9). Essa “definição” abrangente está na raiz
de muitas controvérsias e há um considerável desacordo entre
estudiosos de diferentes disciplinas a respeito de “como” ela
pode ser operacionalizada e de que maneira a sustentabilida-
de pode ser medida. A “definição” de Brundtland não é, a
rigor, uma definição. Ela é um slogan e slogans, embora bo-
nitos, não fazem teorias. Como muitos autores têm destacado,
a definição de Brundtland não explica as noções de “necessi-
dades e desejos humanos” (KIRKBY et al., 1995; RE-
DCLIFT, 1987) e a preocupação com as gerações futuras é
tão problemática quanto sua operacionalização. Dado o cená-
rio de escassez de recursos, esse pressuposto se torna uma
contradição, como a de que os consumidores potenciais (ge-
rações futuras) são incapazes de acessar o mercado presente,
ou como Martinez-Alier (1987, p. 17) elegantemente coloca,
“os indivíduos que ainda não nasceram têm dificuldades on-
tológicas de fazer sua presença sentida no atual mercado de
recursos não-renováveis.”

Além de tentar reconciliar o crescimento econômico


com a preservação do meio ambiente, a agenda de Brun-
dtland para o DS também enfatiza a justiça social e o desen-
volvimento humano dentro do quadro de referência da eqüi-
dade social e da distribuição e utilização eqüitativas dos re-
cursos naturais. A sustentabilidade, como Redclift (1987)
destaca, significa coisas diferentes para diferentes povos.
Embora as teorias de sustentabilidade enfatizem a primazia
da justiça social, a posição é freqüentemente invertida, fican-
do a justiça subordinada à sustentabilidade. Como nem sus-
tentabilidade nem justiça têm significados claros, abre-se o
caminho para legitimar um dos termos em referência ao ou-
tro (DOBSON, 1998, p. 242). Os termos “sustentabilidade” e
“DS” são usados intercambiadamente tanto nos discursos
acadêmicos quanto nos populares e o conceito é promovido
através da contraposição com a proposta antiga de manuten-
ção de um conjunto de relações sociais pelo caminho de um
conjunto particular de projetos ecológicos (HARVEY, 1996,
p. 148). Assim, o debate sobre a escassez de recursos, sobre a
biodiversidade, os limites demográficos e ecológicos tem
sido, ultimamente, mais sobre a preservação de uma ordem
social particular do que da natureza per se (HARVEY, 1996,
p. 148).

Isto explica a popularidade da situação de competição


na retórica sobre a sustentabilidade elaborada pelos governos
e corporações. Os discursos sobre sustentabilidade estão se
tornando crescentemente corporativos. Por exemplo, a Dow
Jones recentemente lançou o “Índice do Grupo de Sustentabi-
lidade”, depois de uma pesquisa sobre a fortuna de 500 com-
panhias. Uma corporação sustentável foi definida como sen-
do aquela que tem como objetivo um crescimento ao longo
prazo capaz de integrar oportunidades de crescimento eco-
nômico, ambiental e social em suas estratégias corporativas
e de negócios (Dow Jones Sustainability Group Index, 2000).
É interessante notar como as noções de sustentabilidade são
construídas, manipuladas e representadas tanto na imprensa
leiga sobre os negócios, quanto na literatura acadêmica. Os
discursos corporativos sobre a sustentabilidade produzem
uma elisão que desloca o foco da sustentabilidade global pla-
netária para a sustentabilidade das estratégias de crescimentos
das corporações. O que acontecerá se os problemas sociais e
do meio ambiente não resultarem em “oportunidades de cres-
cimento” permanece obscuro, se é aceito o pressuposto de
que a sustentabilidade global somente pode ser alcançada
através das trocas de mercado. Essa forma pós-moderna de
responsabilidade social corporativa produz um efeito de ver-
dade que não é diferente do conceito de Milton Friedman
(1962) a respeito de responsabilidade social das corporações
que envolvia a maximização da rendas dos acionistas, a des-
peito da retórica referente aos investidores e à cidadania em-
presarial (BANERJEE, 2001). Apesar do enquadramento do
DS como uma “descontinuidade estratégica”, que transforma-
ria os “atuais fundamentos econômicos”, o discurso corpora-
tivo sobre o DS, não surpreendentemente, promove a ativida-
de empresarial na mesma linha, com exceção da produção
“verde”, não sendo possível observar nenhuma mudança ra-
dical nas visões de mundo que a orientam. Como Robert
Shapiro afirma, longe de ser uma questão fundamentada na
emoção ou na ética, o DS envolve uma lógica fria e uma
racionalidade do mundo dos negócios (MAGRETTA, 1997,
p. 81).

Numa análise do conteúdo de diferentes definições do


DS, Gladwin et al. (1995) identificaram muitos temas, inclu-
indo o desenvolvimento humano, a inclusividade (dos siste-
mas ecológico, tecnológico, político e social), a conectivida-
de (dos objetivos sócio-políticos, econômicos e ambientais), a
eqüidade (uma distribuição justa e recursos e de direitos de
propriedade), a prudência (evitando a irreversibilidade e re-
conhecendo a capacidade da Terra), e a segurança (alcançan-
do a segurança, a riqueza e a qualidade de vida). Entretanto, a
despeito de seus amplos objetivos, o que está sendo sustenta-
do não parece estar em discussão, porque, como Hart (1997,
p. 67) destaca, o desafio é desenvolver uma economia global
sustentável: uma economia que o planeta seja capaz de su-
portar indefinidamente. Assim, o desafio é encontrar novas
tecnologias e expandir o papel do mercado na alocação dos
recursos ambientais, através da adoção do pressuposto de que
colocar preços no ambiente natural é o único caminho para
protegê-lo, a menos que degradá-lo seja mais rentável (BE-
DER, 1994). Ao invés de reformar os mercados e os proces-
sos produtivos para que se adeqüem à lógica da natureza, o
DS usa a lógica de mercado e da acumulação capitalista para
determinar o futuro da natureza (SHIVA, 1991). A linguagem
do capital é mais do que aparente nos discursos do DS.

Por exemplo, Pearce et al. (1989) enfatizaram a cons-


tância do estoque de capital natural como uma condição ne-
cessária para a sustentabilidade, afirmando ainda que as mu-
danças no estoque de recursos naturais deveriam ser não-
negativas e o capital resultante da atividade humana (produ-
tos e serviços como medidos tradicional mente pela economia
e pela contabilidade) não deveria ser criado às expensas do
capital natural (incluindo tanto os recursos renováveis quanto
os não-renováveis). Assim, o gerenciamento ou a riqueza
deveria ser criada sem a depredação dos recursos naturais.
Exatamente como isso seria possível permanece um mistério.
A maior parte da literatura sobre DS é de natureza eco-
modernista (BANDY, 1996) e aborda as maneiras de opera-
cionalizar o conceito de Brundtland. Assim, conceitos tais
como os de custo de sustentabilidade, capital natural ou de
capital sustentável são desenvolvidos e disseminados como
evidência de uma mudança de paradigma (BEBBINGTON &
GRAY, 1993). Há uma consciência limitada do fato de que as
noções tradicionais de capital, renda e crescimento continuam
a informar esse “novo” paradigma.

Os discursos de DS também são determinados pela


tradição científica dominante. Por exemplo, o artigo 35.3 da
Agenda 21, elaborada na Conferência do Rio-92, declara que

O conhecimento científico deveria ser aplicado para


articular e dar suporte aos objetivos do DS...Este de-
ve ser um crescente resultado das ciências para
aprofundar a compreensão e facilitar a interação en-
tre a ciência e a sociedade...(objetivando) o fortale-
cimento da base científica do gerenciamento susten-
tável... aprofundando a compreensão científica...
construindo a capacidade e a capacitação científica.

O relatório continua dizendo que é de importância


crucial a necessidade dos cientistas dos países em desenvol-
vimento participarem ativamente de programas de pesquisa
internacionais que tratem dos problemas globais do meio
ambiente e do desenvolvimento, de forma a permitir que to-
dos os países participem, em pé de igualdade, das negocia-
ções referentes ao ambiente global e às questões de desenvol-
vimento. De que maneira todos os países podem participar
em pé de igualdade permanece inexplicado, dadas as desi-
gualdades estruturais que existem entre o Norte e o Sul. Há
também a afirmação implícita de que cientistas de países em
desenvolvimento representam os interesses das populações
pobres do meio rural, que dependem do ambiente natural para
sua sobrevivência e que valorizam e gerenciam a natureza
diferentemente. Por exemplo, em seus relatórios sobre o
meio ambiente, o gigante da mineração, a “Rio Tinto”, en-
contramos a idéia de que a ciência deveria ser a base para a
compreensão e o gerenciamento do meio ambiente (Rio Tin-
to, 1999, p. 15). É essa precisamente a questão: de qual ciên-
cia estamos falando aqui? Certamente não da ecologia indí-
gena, uma ciência usada por mais de 7000 anos de “gerenci-
amento” do meio ambiente. Essa invenção científica e eco-
nômica do meio ambiente não reconhece que os objetivos
ambientais e sociais das diversas populações são freqüente-
mente diferentes e, às vezes, incompatíveis (RED-CLIFT,
2000). A nova linguagem do DS – a compreensão científica,
a cidadania, os direitos das espécies, a eqüidade intergeraci-
onal, obscurecem as desigualdades e distinções culturais que
cercam os recursos ambientais.

O papel da ciência na validação do conhecimento in-


dígena é também problemático em relação a uma ironia du-
plamente marcada. A agricultura “científica” leva a modernas
práticas da monocultura com o uso intensivo de alta tecnolo-
gia de cultivo. Os problemas ambientais que foram criados
como um resultado dessa tecnologia também necessitam so-
luções “científicas”. Um estudo recente descobriu que plan-
tando diferentes variedades de arroz, tem-se colheitas maio-
res (YOON, 2000) e esse sucesso” da policultura foi apresen-
tado tanto como uma descoberta da ciência moderna quanto
como uma validação do conhecimento indígena a respeito da
prática da agricultura há séculos. Por que as práticas científi-
cas modernas escaparam deste teste de validação que têm
sido aplicados freqüentemente na promoção que se faz das
novas práticas agrícolas para a produção da “nova sustentabi-
lidade”. A ciência ocidental está descobrindo a importância
do conhecimento ecológico “tradicional” e seus motivos e as
conseqüências devem ser cuidadosamente examinadas. Quem
usará e controlará esse conhecimento? Quem se beneficiará
dele? Quem perderá com isso?

Um passe de mágica similar está sendo usado para


justificar a oposição às políticas de proteção ambiental. Um
recente relatório (encomendado por um lobby da indústria de
aço, nos Estados Unidos) concluiu que milhões de negros,
espanhóis e outras minorias poderiam ser jogados na pobre-
za pelas novas e duras restrições na área de uso de energia,
provocadas pelo Tratado de Kyoto (MOKHIBER & WEIS-
SMAN, 2000). O fato de que comunidades de minorias nos
Estados Unidos têm sido usadas como lugares para depósito
de lixo por décadas, bem como a possibilidade de que estas
se prejudiquem com o esquentamento global não entram no
debate.

A abordagem de Brundtland ao DS, ao objetivar o


crescimento econômico, a preservação ambiental e a eqüida-
de, simultaneamente, pretende conciliar o inconciliável. Em-
bora tais objetivos sejam dignos de louvor, há sérias preocu-
pações a respeito de sua real possibilidade (KIRKBY et al.,
1995). As principais propostas da agenda de Brundtland in-
cluem a mudança da “qualidade” do crescimento, asseguran-
do um nível populacional sustentável, conservando e fortale-
cendo a base dos recursos, pelo gerenciamento da tecnologia
dos riscos ambientais, e pela incorporação das variáveis am-
bientais no processo de tomada de decisões. Há também um
pressuposto subjacente de que as forças de mercado podem
servir de base para a consecução do DS, emboras as interven-
ções políticas, os acordos internacionais, e as legislações am-
bientais nacionais também desempenham um papel importan-
te. Entretanto, como Redclift (1987) destacou, a maioria das
iniciativas ambientalistas tomadas por governos e organiza-
ções internacionais tentam mais minimizar as “externalida-
des” do crescimento econômico do que esboçar maneiras
pelas quais o desenvolvimento deve acontecer. Eventos como
o acordo internacional do Rio-92 e o de Kyoto têm mostrado
que as considerações ambientais não ganham prioridade
quando elas se chocam contra os interesses políticos, estraté-
gicos ou nacionais. Em outras palavras, quando há um con-
fronto entre interesses econômicos e os ambientais, os pri-
meiros são preferidos. O DS tenta reconciliar esses interesses
opostos e objetiva, simultaneamente, maximizar os lucros
econômicos e o bem estar ambiental. Exatamente como isto
pode ser realizado e quem se beneficia ou sofre com esse
processo é assunto de um considerável debate ao redor do
mundo.

Quem sustenta o desenvolvimento de


quem?

O discurso do DS focaliza mais os efeitos da destrui-


ção ambiental sobre o crescimento econômico do que as con-
seqüências negativas do mesmo. O paradigma do DS não
questiona as noções de progresso e de racionalidade econô-
mica existentes, mas continua a privilegiar o consumismo
industrial. Ao invés os indicadores primários do regime de
desenvolvimento, o DS simplesmente simplifica o atual mo-
delo de crescimento econômico, adicionando conceitos como
os de prevenção da poluição, reciclabilidade, gerência de
produtos e de gerenciamento ambiental (BANERJEE, 1998;
VISVANATHAN, 1991). A lógica do capital e dos mercados
nunca está em questão, e a despeito de suas boas intenções, a
noção de DS elaborada por Brundtland objetiva criar e impor
uma lógica semelhante a todo o globo.

As definições que empregam perspectivas globais são


usualmente subsumidas sob a definição monocultural de
“global”, elaborada de acordo com a percepção do mundo
partilhada pelos que o dominam (ESCOBAR, 1995). A rede-
finição do relacionamento entre o crescimento econômico e o
meio ambiente, bem como a filosofia econcêntrica da “nave
espacial Terra” é, simplesmente, uma tentativa de socializar
os custos ambientais “globalmente” (McAFEE, 1999), o que
pode produzir uma situação em que se propõe uma responsa-
bilização igualitária pela degradação ambiental, ao mesmo
tempo em que se obscurecem as significativas diferenças e
desigualdades entre os países, no que se refere à utilização
dos recursos naturais. A sustentabilidade das culturas locais,
especialmente das camponesas, não é considerada; pelo con-
trário, a sobrevivência global é problematizada em termos do
DS, uma articulação discursiva que privilegia noções ociden-
tais de ambientalismo e de preservação. O “problema” não
reconhece que o ambientalismo ocidental tem efeitos seme-
lhantes aos provocados pelo desenvolvimento: ao invés de
fortalecer as populações rurais ao redor do mundo, as políti-
cas ambientalistas de preservação transfere o controle dos
direitos e recursos para instituições nacionais e internacio-
nais, que têm explorado essas populações por mais de 50
anos (MIES & SHIVA, 1993).

Muito da literatura sobre as estratégias de DS discute


maneiras de internalizar externalidades ambientais (JACOBS,
1994; KIRKBY et al., 1995; PEARCE et al., 1989). Esta in-
ternalização é aceita e justificada pela acumulação capitalista
possibilitada pelo gerenciamento dos recursos e pelos objeti-
vos de sustentação do capital e dos mercados globais, contri-
buindo diretamente para a ideologia dominante. De acordo
com essa ideologia, a crise ambiental somente pode ser ge-
renciada através dos modos capitalistas de produção e pela
dinâmica do mercado, elementos considerados capazes de
resolver qualquer contradição entre sustentabilidade e capita-
lismo (ESCOBAR, 1995). A apropriação da natureza e sua
transformação em uma fonte de matérias-primas tem sido
sempre parte da agenda ocidental de desenvolvimento. A
incorporação da natureza ao discurso da modernidade efetuou
uma transição desarticulada para os sistemas modernos de
produção nos quais a natureza foi objetivada e reinventada à
imagem do capital como um fator de produção (O’CONNER,
1994) ou como um produto nela mesma, para ser embalada,
vendida e consumida, como bem pode ser visto na crescente
popularidade do “ecoturismo” entre consumidores ricos.

Desposado como uma solução para as doenças ambi-


entais que ameaçam o planeta, o ambientalismo “global”
permanece firmemente fundamentado na tradição do pensa-
mento econômico ocidental, des-historicizando e marginali-
zando as tradições ambientalistas de culturas não-ocidentais.
Embora os problemas ambientais, como a poluição, não re-
conheçam as fronteiras nacionais ou regionais, as soluções
“globais” defendidas pelos países industrializados perpetuam
as relações de dependência do colonialismo. As imagens de
cidades poluídas do Terceiro Mundo são disseminadas abun-
dantemente nos meios de comunicação sem o reconhecimen-
to da correspondente responsabilidade dos países industriali-
zados, que consomem 80% do alumínio, papel, ferro e aço do
mundo, 75% da energia mundial, 75% dos recursos globais
em peixes, 70% dos CFCs – destruidores da camada de ozô-
nio e 61% da carne consumida no mundo (RENNER, 1997).
As regiões mais pobres do mundo destroem ou exportam seus
recursos naturais para satisfazer as necessidades das nações
mais ricas ou para pagar as dívidas decorrentes dos progra-
mas de “austeridade” impostos pelo Banco Mundial. É absur-
damente irônico que os países mais pobres do mundo devam
ser “austeros” em seu desenvolvimento, enquanto as nações
mais ricas continuam a aproveitar padrões de vida que de-
pendem das medidas de “austeridade” das nações pobres.
Nem os perigos da destruição ambiental nem os benefícios
das políticas de proteção ambiental são distribuídas igual-
mente: as medidas protecionistas continuam a ser ditadas
pelos países industrializados freqüentemente às expensas das
comunidades rurais locais. Essa lógica perversa perpassa as
noções de crescimento “sustentável”. As despesas de consu-
mo e a “confiabilidade” são os critérios primários para a sus-
tentabilidade do sistema sócio-econômico, enquanto as políti-
cas de bem-estar social são desmanteladas porque elas são
um “ralo pernicioso do crescimento” (HARVEY, 1996). As-
sim, os “abundantes milhões” do Terceiro Mundo são respon-
sáveis pela destruição da biosfera, enquanto o consumo cons-
pícuo no Primeiro Mundo é uma condição necessária para o
“crescimento sustentável”.

A exploração das comunidades rurais locais em nome


da proteção e conservação ambiental continua, a despeito de
50 anos de “descolonização” no Terceiro Mundo, onde os
modos coloniais de conservação ainda são mantidos pelos
novos Estados-nações. Por exemplo, na Índia, vastas áreas
de terra usadas por comunidades camponesas são designadas
como “reservas de tigres”, para o divertimento de turistas
estrangeiros e para as elites locais, enquanto populações cuja
sobrevivência depende da terra são deslocadas, como aconte-
ceu com a comunidade Chenchu, no sul da Índia. A comuni-
dade paga pela proteção dos tigres, que eles têm garantido
por milhares de anos (GUHA & MARTINEZ-ALIER, 1997).
Uma solução alternativa proposta pela tribo Chenchu não foi
levada a sério pelos oficiais do governo: a proposta era a de
transferir todos os trigres para a capital, a cidade de Hydera-
bad, depois de evacuar todos os seus residentes, e então de-
signá-la de “Reserva de Tigres”.

O DS tenta conciliar esses interesses opostos e objeti-


va, simultaneamente, maximizar os benefícios econômicos e
ambientais. Há, aí, uma contradição de termos, já que a sus-
tentabilidade e o desenvolvimento são baseados em pressu-
postos muito diferentes e muitas vezes incompatíveis. Susten-
tar significa dar suporte por baixo, suprir com alimentação,
relaciona-se com cuidar e se preocupar com algo, conceitos
que estão longe de serem extraídos do desenvolvimento, que
é o ato de controlar, de gerenciar e organizar, freqüentemente
de forma violenta, exercido por Estados-nações, instituições
internacionais e corporações empresariais, operando sob os
princípios da ciência ocidental (VISVA-NATHAN, 1991).
As preocupações ambientais articuladas no discurso do DS
são preocupações na medida em que ameacem a sustentabili-
dade do sistema econômico. Esse discurso afirma que a única
maneira de contemplar essas preocupações é colocando preço
nos recursos ambientais. As atuais políticas ambientais estão
baseadas nessa lógica e não consideram as conseqüências
funestas que têm sobre a vida de milhares de pessoas que
dependem da terra para sobreviver, para os quais o ambienta-
lismo não é uma questão de qualidade de vida, mas de sobre-
vivência (GUHA, 1989).

Esses diferentes objetivos ambientais nos países in-


dustrializados e naqueles do Terceiro Mundo, colocam uma
outra contradição para o DS. As preocupações ambientais nos
países industrializados se referem aos espaços do rural, valo-
rizando a estética da natureza, mantendo limpas as praias e
provendo oportunidades de adquirir bronzeados sem risco de
câncer. O ambientalismo no Terceiro Mundo, especialmente
em áreas rurais, é um problema de sobrevivência, o que signi-
fica manter o controle sobre os recursos naturais e sobre a
tecnologia que transforma o meio ambiente (REDCLIFT,
1987). Como a taxa de transações internacionais continua a
crescer na atual economia de mercado mundial, a degradação
ambiental nos países em desenvolvimento continua a crescer
firmemente. Como muitos pesquisadores já mostraram, o
chamado “esverdeamento” da indústria em países desenvol-
vidos tem sido atingido às custas do meio ambiente dos paí-
ses do Terceiro Mundo, através da relocação das indústrias
poluentes em países em desenvolvimento (ESCOBAR, 1995;
GOLDSMITH, 1997; REDCLIFT, 1987).

Críticas ao DS também afirmam que os processos de


“esverdeamento” também podem contribuir para colonizar
áreas da vida social do Terceiro Mundo que ainda não foram
dominadas pela lógica de mercado ou do consumo, tais como
as florestas, os direitos das águas e lugares sagrados (ESCO-
BAR, 1995; VISVANATHAN, 1991). Os pobres do meio
rural dependem diretamente do meio ambiente biofísico para
a sobrevivência e as noções de conservação e de proteção que
são aceitas em países desenvolvidos são contestáveis em paí-
ses em desenvolvimento. Enquanto a pobreza e a degradação
ambiental são freqüentemente ligadas na literatura, o papel do
“desenvolvimento” em diminuir o acesso das populações
rurais aos recursos naturais é raramente discutido. Pelo con-
trário, a tendência é acusar as vítimas: agricultores e campo-
neses que usem na sua atividade fertilizantes e pesticidas são
acusados sem que se examine o papel da indústria química ou
o mercado das empresas responsáveis pelo estímulo ao uso
daqueles. Camponeses que cortam e queimam são acusados
de destruição das florestas, enquanto grandes madeireiras,
que têm um incomparavelmente maior impacto, recebem
subsídios por adotarem práticas de sustentabilidade (BANE-
RJEE, 1998). Os incentivos “verdes” são dados a corporações
e medidas políticas adotadas para avaliar e minimizar os im-
pactos das madeireiras. Não há indicadores que possam medir
o impacto da devastação sobre as comunidades locais. Mes-
mo a construção de uma única estrada tem múltiplos efeitos:
reduz os custos de transporte das madeireiras (às custas do
Estado) enquanto aumenta o confisco de terras das comuni-
dades locais, transformando uma comunidade até então ami-
gável e solidária num monte de trabalhadores desqualificados
(GUPTA, 1997). Este processo “sustentável” é elogiado pelas
corporações e governos por criar oportunidades de emprego
para as comunidades locais sem reconhecerem o enfraqueci-
mento e a pobreza que ele origina, devido à expropriação de
terra e de recursos naturais. No discurso do DS, a pobreza é
identificada como um agente da destruição ambiental, legiti-
mando assim as noções anteriores de crescimento e de desen-
volvimento.

Os regimes de políticas ambientais globais, a despeito


da retórica de inclusão, fazem pouco para considerar as preo-
cupações dos povos indígenas. No II Fórum Internacional
Indígena sobre as Mudanças Climáticas, em Hague, em no-
vembro, 2002, foi produzida uma lista delas. Uma das preo-
cupações principais foi a exclusão dos povos indígenas do
desenvolvimento e da implementação do Protocolo de Kyoto.
O Fórum também expressou sua preocupação com o fato de
que

As medidas para mitigar as mudanças climáticas


que estavam sendo negociadas são baseadas numa
visão mundial de territórios que reduzem as florestas,
as terras, os mares e os lugares sagrados à sua capa-
cidade de absorção de carbono. Essa visão e as prá-
ticas dela resultantes violam nossos direitos e liber-
dades fundamentais, particularmente nosso direito de
recuperar, manter, e administrar nossos territórios
que são consagrados e estabelecidos como instru-
mentos das Nações Unidas (IIFC 2000).
A noção de capacidade de “seqüestro de carbono”
permite um sistema de emissões negociáveis que creditam a
alguns países o direito de não diminuir suas emissões se eles
plantarem árvores. Esse sistema pode permitir resultados per-
versos quando um país consegue um “crédito” ambiental para
não reduzir suas emissões, nivelando o crescimento de velhas
florestas, replantando árvores e criando novas florestas e as-
sim produzindo um “sugador de carbono”. Essa política é um
típico exemplo do reducionismo inerente à ciência moderna,
através do qual as florestas são valoradas somente pela sua
“capacidade de seqüestro de carbono”. Essa visão monocultu-
ral do florestamento “científico” não reconhece que as flores-
tas não são apenas “sugadores de carbono”, ou fontes de ma-
deira para as comunidades locais: elas são sua fonte de ali-
mento, de agricultura, de remédios, em resumo, de seu sus-
tento integral.

A despeito do destaque dado às questões da pobreza e


da eqüidade, os discursos contemporâneos de DS não consi-
deram ou criticam as condições estruturais que representam o
aumento da invasão do capital no domínio da natureza, que
permite uma subseqüente capitalização, expropriação, merca-
dorização e homogeneização da natureza. As relações eco-
nômicas que subjazem às estratégias contemporâneas de DS
têm evoluído das violentas históricas relações capitalistas
coloniais que informaram o desenvolvimento por mais de um
século. Se os discursos de DS articulam noções de eqüidade,
democracia e inclusão, então uma perspectiva crítica permite-
nos vê-los também como um produto de uma justificação
para a modernização, na qual os povos marginalizados são
sujeitados a uma nova dependência e um novo colonialismo
(BANDY, 1996, p. 542). O atual debate sobre a biotecnolo-
gia, os direitos de propriedade intelectual e sobre a proteção
do conhecimento dos povos indígenas ilustram as tendências
colonizadoras do discurso do DS, como mostraremos na pró-
xima seção.
Controle sustentável da biodiversi-
dade: o papel da biotecnologia e dos
direitos de propriedade intelectual

Outra palavra recorrente que complementa o DS é a


biodiversidade. Os métodos da agricultura moderna, desen-
volvidos e impostos pelos governos, corporações e ensinados
como a “Revolução Verde”, têm estado sob ataque por mais
de 20 anos. O crescimento da produção por hectare foi atin-
gido sem custos ambientais significativos, incluindo um mai-
or uso de aditivos químicos e a utilização de recursos energé-
ticos não-renováveis. A prática da monocultura, envolvendo a
transformação de séculos de velhas tradições de produção
rotativa para o auto-sustento em produção para o mercado,
tem sérias conseqüências ecológicas, biológicas e econômicas
para camponeses agricultores no Terceiro Mundo. Os méto-
dos agrícolas modernos podem ter originado saltos das co-
lheitas, entretanto eles também substituíram a diversidade
biológica pela uniformidade, fazendo as plantações mais vul-
neráveis ao ataque de pestes e levando a uma maior depen-
dência de pesticidas químicos. A ênfase nas tecnologias en-
volvidas na produção de pesticidas químicas também serviu
para marginalizar o já existente conhecimento dos povos in-
dígenas sobre plantas e variedade de sementes. A revolução
química dependeu de recursos genéticos que foram cuidados
e preservados por milhares de anos por pequenos agriculto-
res, os quais foram obtidos gratuitamente por empresas e ins-
tituições científicas para desenvolver variedades altamente
rentáveis, dependentes de fertilizantes químicos, capazes de
manter seus níveis de renda e subseqüentemente eram vendi-
dos para os agricultores como um pacote, completado com
fertilizantes e pesticidas químicos. Assim, essas técnicas de
produção determinaram que tipos de culturas poderiam ser
cultivadas, de forma a recuperar os investimentos nas moder-
nas técnicas agrícolas. Enquanto o valor econômico era colo-
cado nas culturas de mercado, destinada a comercialização
internacional, não havia nenhuma avaliação, econômica ou de
outra natureza, sobre as perdas da biodiversidade agrícola e
seus efeitos (GUHA & MARTINEZ-ALIER, 1997). Por
exemplo, havia mais de 50000 variedades de arroz sendo
produzida na Índia na passagem do século XIX para o século
XX. Atualmente, há menos de 50 (SHIVA, 1993).

Medir os resultados por hectare é uma tarefa fácil,


mas é virtualmente impossível construir indicadores que me-
çam a erosão genética. Mais significativo ainda é que é im-
possível prever as conseqüências econômicas e ecológicas de
uma perda dessa monta. Entretanto, a ciência mais uma vez
chega para salvar, trazendo uma nova revolução: a da biotec-
nologia. A característica do discurso científico que informa o
DS, as soluções propostas para solucionar a perda da diversi-
dade agrícola limitam-se a algumas ditadas pelo conhecimen-
to científico (pós)moderno. Esse conhecimento ignora a di-
versidade agrícola praticada por milhões de agricultores e
camponeses do Terceiro Mundo, os quais são experts nos
modos “tradicionais” de agricultura e que empregam pou-
quíssimos inputs externos. Esse conhecimento falha ao reco-
nhecer que a economia de mercado tem ameaçado a biodiver-
sidade pela valorização de produção agrícola que privilegia
as culturas rentáveis e desvaloriza a agricultura de subsistên-
cia, a qual tem sua importância negada no sistema econômi-
co. Esse conhecimento falha em reconhecer o aperfeiçoamen-
to contínuo pelo qual têm passado os modos “tradicionais” de
cultivo por séculos, classificando-os de “atrasados”; os povos
que os utilizam, de “ignorantes”; e apresentando seus pró-
prios avanços na biotecnologia como uma nova revolução.
Como veremos, essa nova revolução biotecnológica é sim-
plesmente a continuação lógica da “revolução química” dos
anos 50 do século passado, servindo não somente para manter
estruturas cooperativistas e científicas de poder, mas também
ameaçando colonizar as formas de vida e recolonizar espaços
no Terceiro Mundo, região que contém dois terços das espé-
cies vegetais do mundo.

Se o sucesso do desenvolvimento baseou-se na trans-


formação da natureza “selvagem” em recursos ambientais
mais gerenciáveis, não será uma surpresa que os avanços na
ciência e na tecnologia levem finalmente ao controle e apro-
priação da vida, através da transformação do material genéti-
co de plantas e animais em “conhecimento” e “propriedade
intelectual” de empresas. O fato é que esse “conhecimento”,
que existiu e tem sido usado pelas comunidades indígenas por
milhões de anos é de alguma maneira considerado irrelevan-
te: ele é subsumido como uma questão “filosófica” ou incor-
porado no discurso do DS como “conhecimento ecológico
tradicional”, que precisa ser protegido por causa de seu valor
enquanto “herança mundial”. As leis que regulamentam a
proteção da propriedade intelectual são dominadas pelas no-
ções etnocêntricas ocidentais, que têm um viés anti-
populações indígenas (BLAKENEY, 1997). Sob as leis atu-
ais, as patentes são outorgadas por invenções que devem ser
“novas” e os direitos do seu criador são, então, protegidos. A
originalidade é avaliada em referência ao uso tecnológico
anterior. Há milhões de pessoas no mundo que não cabem
nesse modelo, a exemplo dos índios portadores do conheci-
mento médico e os camponeses que cultivam sementes e ou-
tros aos quais é recusada a proteção à propriedade intelectual.

As patentes e as leis de propriedade intelectual sobre


os recursos genéticos, tais como sementes, protegem e ser-
vem aos interesses institucionais e corporativos de países
desenvolvidos, enquanto violam os direitos dos camponeses e
agricultores do Terceiro Mundo. As plantas medicinais, cui-
dadas e mantidas pelas culturas indígenas, foram apropriadas
por indústrias farmacêuticas sem qualquer pagamento e de-
pois usadas para desenvolver drogas rentáveis que foram pro-
tegidas pelas patentes e leis de comércio. O conhecimento
das culturas indígenas do uso das propriedades medicinais
dessas plantas é classificado de “tradicional” e não “original”,
podendo, desse modo, ser adquirido sem pagamento, enquan-
to o “conhecimento” das empresas farmacêuticas requer pro-
teção. O conhecimento indígena não cabe dentro do atual
quadro de referências da propriedade intelectual, não tendo
em si mesmo nenhum valor econômico, a menos que seja
comercializado de acordo com as propostas do mercado.
Somente então ele pode ser classificado como “valor” e então
ser passível de proteção, o que explica a atual vivacidade com
a qual as corporações químicas e biológicas têm se interessa-
do em pesquisar a engenharia genética e a biotecnologia. Esta
última, apresentada como uma “campeã” do DS, simplesmen-
te mantém um modo mais sofisticado de controle colonial
que continua a produzir sua violência sobre as comunidades
camponesas.

As lutas camponesas para controlar as sementes e as


plantas medicinais estão sendo travadas em muitos países e
muitos movimentos sociais no México, na América Latina e
na Ásia têm levantado essas questões em convenções interna-
cionais do Programa Econômico das Nações Unidas. A Con-
venção Internacional sobre a Biodiversidade (CIB) foi esta-
belecida na Rio-92, para chamar a atenção para as implica-
ções da conservação da biodiversidade e do seu uso. Entre-
tanto, como Shiva (1993, p. 151) argumenta, essa Convenção
foi, primeiramente, uma iniciativa do Norte para “globali-
zar” o controle, o gerenciamento e a apropriação da diversi-
dade biológica... assegurando assim um livre acesso aos re-
cursos biológicos necessários como matéria prima para a
indústria da biotecnologia. A “crise” da biodiversidade
emergiu por causa da industrialização desmedida e do cres-
cimento econômico descontrolado, que resultaram na destrui-
ção do habita e na substituição da diversidade pela homoge-
neidade na agricultura e no florestamento (SHIVA, 1993).
Essa crise é quase sempre apresentada como um fenômeno do
Terceiro Mundo e a solução desenvolvida e aplicada pelo
Norte é a conservação da biodiversidade do Sul. Assim, o DS
segue o seu caminho como o “antigo” desenvolvimento fez –
os problemas são localizados no Sul, as soluções no Norte – e
continua a obnubilar a maneira pela qual a economia política
do processo destrói a diversidade biológica (SHIVA, 1991).

Apesar de usar as frases certas – “sustentável”, “in-


clusividade”, “custódia local”, a CIB é um processo imposto
de cima para baixo sobre as comunidades locais, similar à
maneira pela qual a “Revolução Verde” foi orquestrada. As
negociações da CIB tiveram lugar depois de anos de conflito
Norte-Sul a respeito dos recursos e da emergência da preocu-
pação governamental. A posição inicial era a de que os recur-
sos genéticos eram uma “herança comum da humanidade”
(DOWNES, 1996, p. 171) e que a “informação da biodiversi-
dade não pertencia a ninguém e poderia ser trocada livremen-
te entre os países do mundo”. Os países em desenvolvimento,
justificadamente desconfiados do preço que teriam que pagar
por essa “livre troca” de informação, deram suporte à visão
corrente como expressa no Artigo 15 da CIB, que garantia a
soberania nacional sobre os recursos genéticos, “combinados
com uma obrigação de facilitar o acesso por outros países”
(BUGGE & TVEDT, 2000). Essa obrigação deveria ser ope-
racionalizada através da atribuição de permissões individuais
a partes interessadas, levantando uma interessante questão:
enquanto a soberania sobre os recursos genéticos está agora
claramente estabelecida, não há nenhuma menção na CIB aos
proprietários dos recursos, quer sejam os estados, os proprie-
tários privados ou as comunidades indígenas, através dos
direitos de propriedade comum. Os interesses conflitantes a
respeito dos recursos, existentes entre os Estados-Nações,
provavelmente resultaram em uma “ambigüidade construída”
em muitos dos artigos da CIB, que terminam por não garantir
direitos legais para nenhuma das partes em particular.

A CIB é essencialmente um acordo firmado entre os


interesses conflituosos do Norte versus os do Sul. Enquanto
172 países ratificaram a CIB, os Estados Unidos, como era de
se esperar, recusaram-se a ratificar a convenção sob a alega-
ção de que ela significava uma ameaça à indústria norte-
americana de biotecnologia. Embora a CIB tenha sido o pri-
meiro passo para a solução dos problemas de biodiversidade
e da preservação, ela fez pouco, na realidade, pelos povos
indígenas e pelas comunidades camponesas que estavam de-
nunciando a violação dos seus direitos. Noções tecnocêntri-
cas informaram fortemente as estratégias de conservação da
biodiversidade e a CIB concentrou-se pesadamente em ques-
tões de financiamento, do acesso de corporações empresariais
à diversidade genética, e à transferência de tecnologia em
relação aos direitos dos povos indígenas e das comunidades
camponesas. As críticas destacaram o fato de que a CIB colo-
cou muita fé na biotecnologia e na contribuição da tecnologia
para a prevenção e impedimento da perda da biodiversidade,
criando uma confiança na diversidade criada pela tecnolo-
gia, vista como capaz de reavivar o respeito pela diversidade
encontrado na natureza (MUNSON, 1995).

O artigo 2 da CIB outorga aos Estados o direito de


soberania para explorar seus próprios recursos, de acordo
com suas próprias políticas ambientais e de desenvolvimen-
to, desde que se responsabilizem de assegurar que as ativida-
des não causam danos ao meio ambiente que se localizam na
área de sua jurisdição (HALLMAN, 1995). Embora isto pos-
sa parecer uma vitória para os países do Terceiro Mundo so-
bre os países desenvolvidos, há sérias dúvidas se a garantia à
propriedade estatal dos recursos genéticos será benéfica às
populações indígenas e camponesas (GUHA & MARTINEZ-
ALIER, 1997). A imposição da economia de mercado sobre
as transações que estavam fora do mercado, tais como as
economias de subsistência das populações camponesas ou os
recursos genético usados por elas, confere valores e preços
baseados numa economia política externa, preços forçados a
serem baixos pelo fato de serem comunidades pobres. Como
McAfee (1999) afirma, se a distribuição de benefícios da
biodiversidade deve ser determinada pelas forças de mercado,
assim as elites econômicas do mundo serão beneficiadas des-
proporcionalmente. A compensação baseada nos mecanismos
de mercado servirá simplesmente para que, futuramente, os
pobres do meio rural se enfraqueçam e empobreçam mais
ainda. Muitas organizações de produtores agrícolas, de gru-
pos indígenas e ONGs estão travando essa batalha em níveis
diferentes e a luta para manter a posse da terra não é somente
uma luta econômica, é também uma batalha cultural para
manter sua sobrevivência. Embora seus esforços tenham con-
tribuído para construir o reconhecimento de que as popula-
ções indígenas têm usado e conservado os recursos genéticos
por milhares de anos, a CIB não assegura nem sua proprieda-
de nem o gerenciamento desses recursos. Permitir que esses
direitos sejam regulamentados pelos Estados-nações também
é problemático, dadas as ligações entre governos, corpora-
ções e instituições comerciais internacionais, nenhuma dessas
representado os interesses dos índios ou das comunidades
camponesas.
Por exemplo, muito grupos indígenas e ONGs têm co-
locado suas preocupações a respeito das aparente incompati-
bilidade entre a CIB e o Acordo sobre Aspectos Comerciais
dos Direitos de Propriedade Intelectual (em inglês, TRIP-
SA), elaborado pelo Organização Mundial do Comércio
(OMC). O artigo 8 da CIB afirma que os Estados deveriam:

Sujeitos à sua legislação nacional, respeitar, preser-


var, e manter o conhecimento, as inovações e práti-
cas dos índios e das comunidades locais, fortalecen-
do os estilos de vida tradicionais relevantes para a
conservação e uso sustentável da diversidade bioló-
gica e promover sua aplicação mais ampla com a
aprovação e envolvimento dos proprietários desse
conhecimento, de inovações e de práticas, encora-
jando-os uma partilha equânime dos benefícios ad-
vindos da utilização desse conhecimento, inovações e
práticas.

O Artigo 27.3(b) do TRIPSA estabelece que:

…(Os membros podem também excluir da patentea-


bilidade) plantas, animais ou micro-organismos e
processos biológicos essenciais para a produção de
plantas e animais, além dos processos não biológicos
e microbiológicos. Entretanto, os membros garanti-
rão, para a proteção da variedade de plantas, quer
sejam patentes ou um efetivo sistema ‘sui generis’, ou
ainda uma combinação desses dois (OMC, 2000).

Dawkins (1997, p. 27) dá uma interpretação mais cla-


ra da cláusula acima: ...isto significa que nada que pode ser
geneticamente manipulado pode ser patenteado ou monopo-
lizado como uma propriedade privada de corporações agrí-
colas ou farmacêuticas transnacionais. Enquanto a CIB ape-
la para que se respeite, preserve e mantenha o conhecimento
tradicional das comunidades indígenas, o TRIPSA legitima
os direitos de propriedade privada sobre a propriedade inte-
lectual sobre formas de vidas. Esses direitos são para indiví-
duos, Estados ou Corporações, não para os índios ou para as
comunidades locais. Com efeito, os governos são chamados a
modificar sua legislação nacional sobre os direitos de propri-
edade intelectual, para permitir o pantenteamento de micro-
organismos e de processos não biológicos e microbiológicos.
O TRIPSA resultou em protestos de massa por parte de co-
munidades camponesas e de índios, promovidos por ONGs
na Ásia, América do Sul e África, até os dias atuais (DAW-
KINS, 1997).

Há dois problemas interrelacionados que emergem da


imposição do regime de direitos à propriedade intelectual
sobre o conhecimento indígena. O primeiro, o fato de que o
conhecimento tradicional pertence mais à comunidade indí-
gena do que a indivíduos isolados. O segundo, como as co-
munidades indígenas de todos o mundo têm descoberto, os
governos nacionais estão implementando crescentemente
agendas neoliberais (alguns de boa vontade, outros por impo-
sição), que têm impactos adversos sobre suas formas de sus-
tento, graças à restrição do acesso das comunidades aos re-
cursos naturais. Uma equânime partilha dos benefícios co-
merciais através dos contratos de benefícios comuns entre
grupos indígenas e corporações transnacionais são impossí-
veis de ocorrer, dadas as disparidades em recursos e capaci-
dades de monitoramento ou garantia dos termos de qualquer
contrato.

Vejamos o exemplo do super propagandeado acordo


de bioprospecção firmado entre a MERCK e o Instituto Naci-
onal de Biodiversidade de Costa Rica (INbio), apresentado
como “modelo” de acordo ocorrido sob a CIB. Sob os ter-
mos desse acordo o INBio concordou em fornecer à
MERCK extratos químicos de plantas “selvagens”, em troca
de uma partilha aberta de royalties de todos os resultados da
comercialização de produtos deles resultantes (MOONEY,
2000). O INbio também concordou em alocar 50% de todas
as royalties que ele recebesse no Fundo do Parque Nacional
de Costa Rica. Embora festejado pelas corporações, governos
e muitas organizações ambientais como um “acordo-
modelo”, os direitos das comunidades indígenas não parece-
ram ter sido levados em conta em nenhuma parte do proces-
so. A biodiversidade estava sendo “preservada” pelos institu-
tos nacionais de acordo com os interesses das corporações
transnacionais a um preço de oferta (não é necessário menci-
onar o grande impulso em termos de relações públicas para a
companhia). Como uma organização nacional como o INbio
pode ser vista como interessada em proteger os interesses
indígenas é duvidoso, mesmo sendo sua atividade central a
geração, organização e disseminação do conhecimento sobre
a biodiversidade e o uso racional do mesmo nos níveis naci-
onais e internacionais (MATEO, 2000, p. 46). Parece haver
um curioso silêncio sobre seus papel ou impacto ao nível
local, especialmente no que se refere ao reconhecimento de
que as comunidades locais têm gerado, disseminado e orga-
nizado o conhecimento sobre a biodiversidade de maneiras
muito “racionais”, até que o mesmo foi apropriado sem qual-
quer compensação. Todavia, royalties e compensações foram
acertadas, apesar de não ter sido considerada a ausência de
controle local do conhecimento e sua transferência para insti-
tuições nacionais e internacionais. O reconhecimento da so-
berania nacional da Costa Rica sobre sua diversidade bioló-
gica seria de pouca utilidade para as comunidades indígenas
que têm desenvolvido e mantido a biodiversidade por milha-
res de anos – na verdade isto marca o enfraquecimento de
seus direitos sobre sua terra e é um exemplo de como a bio-
prospecção é na realidade biopirataria, escondida sob a retó-
rica da “cidadania empresarial” e do “DS”, que obscurece a
realidade do desenvolvimento colonizado. Em muitos outros
casos de bioprospecção na Tailândia, Malásia e África, os
resultados para os povos indígenas têm sido os mesmos, com
raras compensações ou “transferência de tecnologia”, como
especificado na CIB.

A forte pressão da OMC, das corporações transnacio-


nais e dos países desenvolvidos para o estabelecimento de um
regime “global” de direitos à propriedade intelectual têm as-
segurado que pelo menos os direitos das corporações estão
protegidos. Os direitos de soberania das comunidades locais,
para as quais a sobrevivência cultural não pode ser separada
da biodiversidade e do seu meio ambiente não são considera-
dos pela CIB. Os impactos da biotecnologia são sentidos por
essas comunidades de maneira irreversível: a biodiversidade
se transforma simplesmente em matéria-prima (informações)
para a biotecnologia. Entretanto, os produtos da biotecnolo-
gia se transformam em substitutos geneticamente uniformes
do que foi usado da biodiversidade enquanto matéria prima.
As modernas noções científicas da conservação da biodiver-
sidade mais uma vez enquadram equivocadamente o proble-
ma: ao invés de considerar a conservação da biodiversidade
como a conservação de “meios de produção” elas definem o
problema como de conservação de “matéria prima” (SHIVA,
1991). Colocado o problema dessa maneira incorreta, a solu-
ção segundo qual a biotecnologia levará à conservação da
biodiversidade é também incorreta: ela pode produzir um
amplo leque de produtos comercializáveis mas produzirá a
uniformização na vida, com efeitos destrutivos sobre as co-
munidades indígenas em todo o mundo. Como Shiva (1991)
argumenta, os discursos globais sobre a biodiversidade fa-
lham em reconhecer que a biodiversidade está intimamente
ligada com a sobrevivência dos índios e das comunidades
locais nas quais agricultores produzem tanto os produtos
quanto os meios de produção e não apenas “matéria prima. O
plasma dos germes natural é usado pelas corporações para
produzir sementes geneticamente modificadas (um produto
que pode ser patenteado) e isto leva dos processos ecológicos
de reprodução para os processos tecnológicos de produção
que implicam tanto no problema da desapropriação dos
agricultores e das tribos, quanto no problema da erosão da
biodiversidade (SHIVA, 1991, p. 52). Assim, a biotecnolo-
gia, longe de ser a salvadora da biodiversidade é uma narrati-
va inerentemente imperialista que produz a replicação da
uniformidade e coloniza espaços e lugares do Terceiro Mun-
do, os quais agora têm que ser “eficientes”, por causa da capi-
talização da natureza. A afirmativa de que a eficiência é au-
tomática e universalmente desejada, é raramente questionada
nos discursos científico e no dos economistas. Consequente-
mente, as noções de natureza como mercadoria para o merca-
do global são produzidas discursivamente como as noções de
que as comunidades e estados existem para sustentar a eco-
nomia e não o contrário.

O regime de direitos à propriedade intelectual cria um


novo significado de biodiversidade que enfatiza a comerciali-
zação dos benefícios da biodiversidade. Para que isso ocorra,
a privatização e apropriação são condições necessárias (RE-
DCLIFT, 2000), permitindo então que, mais uma vez, a bio-
diversidade seja considerada em termos de preferências de
mercado, resultando que os pobres (porém ricos em biodiver-
sidade) sustentem os ricos. A avaliação feita em termos de
preferências mercadológicas em relação à natureza baseia-se
em pressupostos equivocados, como argumenta McAfee
(1999, p. 133), dizendo-se “contrário à premissa de que o
paradigma econômico pode ser uma medida universal para
comparar e trocar os valores reais da natureza entre diferentes
grupos de pessoas, de diferentes culturas e com vários dife-
rentes graus de poder político e econômico”.

A aplicação dos direitos à propriedade intelectual à


conservação da biodiversidade sofre da mesma visão reduci-
onista da vida. A emergência da indústria das “ciências da
vida” marca a convergência de um conjunto de indústrias,
incluindo as agrícolas, as químicas, as farmacêuticas, as de
processamento de alimentos, de cosméticos, de hardwares e
de softwares, além da de energia (ENRIQUES & GOLD-
BERG, 2000). As forças tecnológicas e econômicas que diri-
gem essas mudanças também estão reinventando concepções
da natureza que refletem suas relações com o meio ambiente
natural (RIFKIN, 1999). Assim, a natureza nela mesma é
definida como “o estoque e a transmissão dentro de um sis-
tema” (WADDINGTON, 1977, p. 145) no qual tudo é visto
como informação genética que pode ser manipulada, contro-
lada e organizada, como um processo que é constituído e co-
mentado como parte da evolução “natural” da humanidade
mesma, evolução que é no final, o processo pelo qual a cria-
tura modifica sua informação e adquire novas informações
(GRASSÉ, 1977, p. 23). Tudo se transforma numa série de
sistemas de informações que incluem instituições, corpora-
ções e o mundo natural no qual o sucesso e o progresso são
avaliados pela qualidade e rapidez do processamento de in-
formações. De acordo com Robert Shapiro, da Monsanto
CEO, a biotecnologia é, na verdade, um subconjunto da tec-
nologia de informações, porque ele se refere ao DNA – in-
formação codificada (apud MAGRETTA, 1997).

Esses novos conceitos de natureza, além de não assu-


mir nenhum dos impactos ecológicos envolvidos, provê legi-
timidade à ordem e às elites dominantes. Como Harvey
(1996, p. 147) destaca, as noções de “escassez” e a dos “li-
mites” dos recursos naturais são também fundamentadas nos
sistemas sociais nos quais os recursos naturais se transfor-
mam num “conjunto de elementos e processos culturais, téc-
nicos e econômicos, que podem ser usados para realizar os
objetivos e finalidades sociais através de práticas materiais
específicas”. Por exemplo, os mecanismos de asseguramento
de um “livre e justo” fluxo de informações que são desenvol-
vidos e propostos, tais como os referentes aos direitos à pro-
priedade intelectual sobre organismos vivos modificados,
serve para proteger determinados interesses. O controverso
Acordo sobre Aspectos Comerciais de Direitos de Proprieda-
de Intelectual (em inglês, Trade Related Aspects of Intellec-
tual Property Agreement – TRAIPA) firmado na reunião do
GATT, feita no Uruguai, foi elaborado, em grande medida,
pelo Comitê sobre a Propriedade Intelectual (Intellectual
Property Committee – IPC), formado por muitas firmas
transnacionais, incluindo a Bristol Myers, a Merck, a Mon-
santo, a Du Pont e a Pfizer. O representante da Monsanto
descreveu a estratégia do TRAIPA:

...(Fomos capazes de) destilar das legislações dos


países mais avançados os princípios fundamentais da
proteção aos direitos à propriedade intelectual...
Além de vender nosso conceito “em casa”, fomos pa-
ra Geneva, onde apresentamos nosso documento pa-
ra o quadro do Secretariado do GATT... O que tenho
descrito para você não tem precedente no GATT:
uma indústria identificar um problema fundamental
para o comércio internacional, elaborar uma propos-
ta de solução e vendê-la para nós próprios e para ou-
tros governos... as indústrias e comerciantes do mun-
do desempenharam simultaneamente o papel de pa-
cientes e de médicos responsáveis pelo diagnóstico e
pela prescrição dos remédios (citado em RIFKIN,
1999, p. 52).

Assim, a natureza, antes vista como um bem e um re-


curso comun, é agora reinventada como um vasto pólo de
genes, inspirando os biólogos moleculares de “hoje” e os
empresários corporativos em sua empreitada de conquistar e
colonizar a última fronteira, o patrimônio genético comum,
que é o coração do mundo natural (RIFKIN, 1999, p. 70).

Alguns defensores da idéia de que o Regime de Propri-


edade Intelectual ajudará a preservar a biodiversidade, têm
reconhecido o “valor essencial da diversidade biológica: seus
conteúdos em termos de informação” (SWANSON, 1995, p.
169). A lógica é a de que o “capital humano” não produz toda
a informação importante e necessária, mas há uma “dimensão
biológica básica que gera informação”. Esta dimensão é o
“processo evolucionista” e a tarefa é o desenvolvimento de
um sistema justo e equânime que possa apropriar os “valores
da evolução”. Swanson (1995, p. 171) continua, afirmando
que:

...Em uma grande medida, a extensão dos regimes de


‘propriedade intelectual’ para incluir os recurso das
informações geradas simplesmente nivela o campo de
ação entre aquelas sociedades que são mais avanta-
jadas em capital humano e aquelas que são mais do-
tadas de formas de capital natural. Esta é uma abor-
dagem muito racional do problema da biodiversida-
de.

O problema dessa tese é a natureza da “abordagem ra-


cional” e do equacionamento do “problema da biodiversida-
de”. Nela a avaliação da biodiversidade é feita com base no
seu valor econômico internacional potencial, sendo ignorados
ou subestimados os valores inscritos na natureza pelas popu-
lações camponesas, que possuem um poder de barganha fa-
cilmente negligenciável no supermercado global (McAFEE,
1999). Longe de “nivelar o campo de atuação”, o regime de
direitos à propriedade intelectual gera problemas e aplica
soluções de forma que reconhece os países “pobres em di-
nheiro mas ricos em biodiversidade” somente se eles aceita-
rem a privatização de seus bens comuns, bem como de seu
conhecimento. Esse argumento também combina com outras
estratégias de preservação ditadas pelos países do Norte, tais
como a de criação de parques “nacionais” baseados na visão
de uma natureza “virgem, inexplorada e intacta”. É claro que
o problema se constitui no fato de que as populações indíge-
nas desses parques também são subsumidas na categoria da
natureza e da preservação, sendo negados às mesmas, o direi-
to à determinação de como querem direcionar seu futuro
(PERERA & PUGLIESE, 1998). Há uma importante distin-
ção entre o que Dasmann (1988) chama de “povos da biosfe-
ra” – aqueles que têm a biosfera inteira ao seu dispor – e os
“povos da ecosfera” – os povos indígenas, cujo subsistência
está intimamente ligada como os ecossistemas nos quais eles
vivem. Como Dasmann (1988, p. 303) destaca, ... O impacto
dos povos da biosfera sobre os povos do ecossistema tem
sido freqüentemente destrutivo... Os povos da biosfera cria-
ram parques nacionais. Os povos do ecossistema têm sempre
vivido no equivalente a parques nacionais.

Cientistas, líderes de governos e empresários freqüen-


temente elogiam a biotecnologia como um avanço que porá
um fim à fome mundial. A dificuldade dessa tese, é claro, é a
especificação equivocada do problema, segundo a qual essa
fome existe por causa da desproporção entre a produção de
alimentos e o tamanho da população. A realidade é que, em
1999, o mundo produziu alimento suficiente para nutrir todas
as crianças, homens e mulheres, no entanto mais de 800 mi-
lhões de pessoas passam fome. Mais eloqüente é um relatório
da FAO, que estima que 78% de crianças subnutridas no
mundo em desenvolvimento vivem em países com excedente
de produção de alimentos (Food and Agriculture Organizati-
on, 2000). O relatório também identifica a pobreza e a falta
de acesso aos alimentos e não o tamanho da população como
a principal causa da fome no mundo. A solução da fome do
mundo via biotecnologia não significa uma mudança de pa-
radigma: ela é, na verdade, a continuação do modelo
(pós)industrial de agricultura que provoca os problemas dos
pobres e apresenta soluções avançadas (sem consulta), elabo-
radas por cientistas e especialistas do Norte, sem considerar
as desigualdades em renda e em acesso aos recursos naturais.
Essa forma “sustentável” de desenvolvimento representa o
mundo da fome como uma demanda por alimentos genetica-
mente modificados, ao invés de apresentá-lo como o resulta-
do das condições impostas pela economia e sociedade glo-
bais. Não há dúvida de que a biotecnologia pode triplicar ou
quadruplicar a produção de alimentos nos próximos 50 anos,
entretanto, provavelmente isso não significará a extinção da
fome no mundo.

A reinvenção da natureza através da biotecnologia


também envolve o interesse das corporações em controlar
essa tecnologia. As mesmas corporações químicas e farma-
cêuticas que mais se beneficiaram da modernização da agri-
cultura (como também da industrialização de armas quími-
cas), agora controlam a maior parte da indústria biotecnológi-
ca, depois de terem investido mais de nove bilhões de dólares
nos últimos anos, e, através dos discursos do DS, tentam se
limpar do passado de envolvimento com atividades “insusten-
táveis”. A corporação Monsanto, uma das manufatureiras do
infame “Agente desfoliante Laranja”, está se vendendo como
uma companhia das “ciências da vida”, apresentando um lo-
gotipo de um broto de planta, em torno do qual se inscrevem
as palavras Alimento – Saúde - Esperança (STRONG, 1999).
Essa “descontinuidade” é exemplificada na estratégia execu-
tada pela Monsanto, que consiste em “substituir as coisas
pela informação”, uma referência a sua produção genetica-
mente trabalhada que se encontra atualmente no mercado. O
Roundup, o herbicida mundialmente mais vendido, produzido
pela Monsanto era um exemplo. Usando a biotecnologia, a
Monsanto desenvolveu uma nova linhagem de soja que era
geneticamente modificada para resistir ao Roundup e promo-
veu uma nova técnica de produção de soja que envolve a
aplicação do herbicida em todo a plantação, capaz de destruir
todas as ervas daninhas, sem prejudicar a soja (MONBIOT,
1997). Fundamentada no sucesso do Roundup, a Monsanto,
junto com muitas outras corporações químicas e farmacêuti-
cas transnacionais, embarcaram num ambicioso programa de
aquisição de sementes e de companhias de biotecnologia.
Essas corporações controlam atualmente mais de 70% do
mercado mundial de sementes. O desenvolvimento de “se-
mentes terminais”, geneticamente modificadas para esterili-
zar sementes produzidas por safras, também assegura aos
produtores o direito futuro de cultivar sementes que não exis-
tem: o acordo de usar esses produtos era feito junto com a
proposta de direito de inspeção das companhias sobre os
campos agrícolas, sempre que elas desejassem. Protestos de
ONGs e de agricultores de todo o mundo compeliram a Mon-
santo a retirar a introdução das sementes terminais e marcou
uma vitória (pelo menos até o presente) dos pequenos produ-
tores de todo o mundo.

Enquanto isso pode ser visto como uma descontinui-


dade estratégica das corporações químicas, marca também a
continuidade do controle colonial dos recursos naturais dos
agricultores do Terceiro Mundo e das populações campesinas
dos países industrializados. Isto também permite que o futu-
ro da natureza seja tecnologicamente determinado, a despeito
do fato de que a biotecnologia, com seus chamados produtos
“espertos”, ataquem os sintomas, sem considerar os proble-
mas do acesso aos recursos ou os modos de produção agríco-
la alternativos. O caso da New Leaf Potato, da Monsanto, é
exemplar: ela é geneticamente modificada para destruir sua
maior praga, a Colorado Potato Beetle. Esta solução científi-
ca foi desenvolvida e aplicada em consonância à maneira pela
qual o problema foi construído: a Colorado Beetle transfor-
mou-se num problema que precisava ser resolvido, ao invés
de pensar que a causa principal da pouca resistência das bata-
tas era a monocultura (KLOPPENBURG & BURROWS,
1996). Essa é uma forma reducionista de conhecimento: os
processo biotecnológicos de síntese química de plantas natu-
rais envolvem o isolamento de um uso particular de molécu-
las vegetais num complexo labirinto natural e a replicação
química dessa fração. Esse sistema de conhecimento contra-
diz a noção central de diversidade na natureza e é perversa-
mente apresentado como a salvação da biodiversidade. Esse
mesmo sistema de conhecimento classifica as técnicas agríco-
las camponesas como sendo atrasadas e insustentáveis, e, ao
mesmo tempo em que grandes sofrimentos são impostos para
proteger os interesses da propriedade intelectual das corpora-
ções através das patentes internacionais, a apropriação pelos
agricultores nunca é discutida. Não estamos aqui negando os
muitos benefícios trazidos pela ciência e tecnologia ociden-
tais, mas queremos contribuir para a compreensão de como
sistemas e povos têm sido marginalizados nesse processo e
como o controle dos recursos naturais e biológicos tem mu-
dado das populações camponesas paras a corporações trans-
nacionais.

O patenteamento das formas de vida através dos direi-


tos à propriedade intelectual perpetua essa violência. A apro-
priação do conhecimento ecológico tradicional dos povos
indígenas para o avanço da ciência e da medicina ocidentais
através do patenteamento e da imposição dos regimes de di-
reitos à propriedade intelectual é simplesmente uma violação
dos direitos dos índios. Os esforços da chamada bioprospec-
ção feitos pelas corporações transnacionais deveriam ser vis-
tos como eles são – biopirataria contra as populações campo-
nesas do mundo. A recente batalha pelo patenteamento dos
extratos da árvore Neem, conhecida e usada pelas suas pro-
priedades medicinais por milhares de anos, é um exemplo
dessa biopirataria. Afirmar os direitos à propriedade intelec-
tual dos extratos da Neem baseia-se num sistema de exclu-
sões múltiplas que nega o conhecimento indígena e as práti-
cas agrícolas tradicionais. O conhecimento a respeito das
utilidades medicinais desses extratos vegetais, que podem ser
usados como pesticida e como contraceptivo, existia antes e
era primeiramente “de domínio público”, que é o que as leis
de patenteamento procuram estabelecer. Se esse conhecimen-
to existiu antes no ocidente, a aplicação das patentes nunca
seria considerada. O fato de que esse conhecimento prévio
existia nas comunidades rurais pobres permitiu que uma “en-
tidade” não nova seja construída como nova e então patente-
ada sob a legislação atual dos direitos à propriedade intelec-
tual (SHIVA, 1993). A luta está longe de terminar: as mu-
danças legais na União Européia recentemente permitiram
que as patentes cubram as formas de vida (DOWNES, 1997).
O número de requerimentos de concessão de patentes recebi-
do nos Estado Unidos subiu de 4.000, em 1991 para 500.000,
em 1996 (ENRIQUEZ & GOLDBERG, 2000). A OMC tam-
bém está sob pressão dos USA para acabar com a exceção
atual sobre as formas de vida e para aceitar e estimular o pa-
tenteamento das mesmas.

Os ativistas e as ONGs do Terceiro Mundo levanta-


ram esses argumentos em alguns fóruns nacionais e interna-
cionais e a resposta das corporações é similar à afirmação do
representante da Monsanto discutida acima: esses dilemas
éticos e filosóficos não têm lugar na “lógica fria e racional
dos negócios”. Há também outro argumento segundo o qual o
Terceiro Mundo é pobre demais para estar se preocupando
com a bioética. Como Shiva (1993) destacou, a dicotomia
entre ética e conhecimento é uma construção ocidental que
possibilita a colonização e o controle de culturas nas quais tal
separação não existe. É esta ilusão da neutralidade desse
conhecimento a-ético que permite a negação de outros siste-
mas de conhecimento alternativos. É esse conhecimento que
transforma mais da metade da população mundial em “atra-
sada” e “ignorante” sem perceber que a ignorância, como o
conhecimento, é socialmente construída.

Há lutas acontecendo tanto no mundo industrializado


quanto no Terceiro Mundo contra a biotecnologia, e as bata-
lhas estão sendo travadas em cortes internacionais, bem como
nas comunidades rurais locais, como no recente levante de
agricultores na Índia, que resultou na demolição de uma fá-
brica de sementes da Cargill, uma corporação transnacional
de produção de sementes. Entretanto, é importante perceber
que esses contextos diferem substancialmente: nos países
industrializados há uma preocupação sanitária com o consu-
mo de alimentos transgênicos e muitas organizações ambien-
tais têm reivindicado uma classificação apropriada dos produ-
tos (o que os governos dos Estados Unidos vêem como uma
barreira factual ao comércio) (which is lobbying the World
Trade Organization to take a similar stance). No Terceiro
Mundo, a luta é para controlar os recursos e a terra, que está
sob ataque pelas práticas implicadas no prevalecimento da
produção agrícola moderna, introduzida pelas corporações
transnacionais. As políticas de ajuste estrutural e no nível
macro do Banco Mundial bem como as políticas de comercia-
lização agrícola da OMC resultam na retirada do controle da
terra das mãos dos pequenos produtores para as mãos dos
grandes produtores (MIES & SHIVA, 1993). A biotecnologia
não é “sustentável” para essas populações e não resultará em
Alimento, Saúde e Esperança, a trindade do DS da Monsanto.
Pelo contrário, ela sustentará um sistema econômico que tem
fracassado no que concerne a milhões de pessoas no mundo e
que transforma cultivadores de sementes em consumidores de
sementes, trazendo um desenvolvimento insustentável.

Visões alternativas e implicações


para a Prática e Teoria das Organi-
zações

Os movimentos contra a agricultura corporativa


transnacional e contra a biotecnologia têm emergido em dife-
rentes partes do mundo. As alianças globais entre diversos
grupos têm tido alguns sucessos, notadamente o fracasso da
Conferência de Cúpula da OMC, realizada em Seattle, em
1999. Como Shiva (2000) afirma, a solidariedade entre dife-
rentes grupos, cientistas, planejadores, ambientalistas, produ-
tores e consumidores é necessária para evitar que a resistên-
cia seja marginalizada (ou polarizada entre “cidadãos desin-
formados” contra “cientistas informados”) e para que o deba-
te continue na esfera pública. Recuperar a biodiversidade e o
bem estar comum envolve uma recusa ao reconhecimento das
formas de vidas como invenções das corporações, como pro-
priedades e ao processo de sua privatização. As lutas ambien-
tais das populações camponesas não é apenas referida à terra
e aos recursos naturais: é uma luta para defender a diversida-
de cultural.

Se as visões do DS têm um caráter emancipatório, ne-


cessita-se de uma reconceitualização das atuais noções de
progresso e de desenvolvimento. Esses conceitos não só limi-
tam como também representam o fracasso da imaginação: a
abordagem do tecnocentrismo ocidental somente serve para
fortalecer os interesses econômicos nacionais e das empresas,
impedindo as comunidades de preservarem seus direitos ao
controle dos recursos. Um desvendamento da noção de de-
senvolvimento é necessária e os conceitos de DS devem ir
além da busca de um compromisso entre a proteção ambien-
tal e o crescimento econômico (REDCLIFT, 1987). Isto re-
quer não a busca de alternativas desenvolvimentistas, mas de
alternativas de modelos de desenvolvimento (ESCOBAR,
1995). A ênfase atual no capital e no mercado como maneira
de atingir o DS é restritiva e impeditiva de outras alternativas
de pensar e entender a questão. Precisamos aplicar compre-
ensões de outras formas de conhecimento, não importa quão
“tradicionais” elas sejam definidas, e interpretar esses conhe-
cimentos em termos de economia, política, cultura e do soci-
al, de forma a desafiar as visões de mundo e da natureza exis-
tentes. O DS não se refere apenas à eficiência gerencial (em-
bora isto tenha importância), mas também ao repensar das
relações homens-natureza, reexaminando as atuais doutrinas
de progresso e de modernidade, privilegiando visões alterna-
tivas do mundo. Isto requer uma reconstituição dos passos
que levaram à junção na qual a “natureza” se transforma em
“meio ambiente”, distanciando o mundo natural e posicio-
nando-o como um recurso a ser controlado da mesma manei-
ra pela qual os sentimentos e expressões humanas são contro-
lados através da “cultura”. As noções contemporâneas de DS
estão dominadas pelo discurso desenvolvimentista que requer
a morte da natureza e a emergência do meio ambiente. Visões
alternativas só podem ser imaginadas se resgatarem o desen-
volvimento dessa dicotomia.

Que implicações então a crítica do DS tem para a prática e


teoria das organizações? É pouco provável que qualquer revi-
são do DS emerja das organizações, dado o fato de que esse
discurso tem sido construído nos altos níveis da economia
política. Para que qualquer repensar do tipo mencionado
aconteça, uma abordagem mais crítica da teoria das organiza-
ções é requerida e novas questões precisam ser levantadas
não apenas sobre a sustentabilidade ecológica e social das
corporações empresariais, mas da própria economia política.
As práticas de gerenciamento ambiental adotadas pelas cor-
porações têm sido informadas pelo amplo debate sobre o DS,
e, conseqüentemente, revisões radicais neste nível somente
podem ocorrer se houver uma mudança na forma de pensar
num nível macro. O gerenciamento ambiental, a administra-
ção de produtos, a prevenção da poluição, a otimização da
utilização de recursos e da conservação da energia são algu-
mas maneiras pelas quais algumas empresas estão começando
a enfrentar as questões ambientais. Essas práticas precisam
ser submetidas à apreciação crítica, usando parâmetros que
vão além dos indicadores de eficiência e de produtividade.
Precisa haver um crescimento no nível de responsabilização e
transparência das corporações, acompanhado por uma maior
representação dos grupos de investidores marginalizados, se
quisermos embarcar no caminho da sustentabilidade ecológi-
ca e social genuína.

Os discursos de “esverdeamento” empresarial, ao in-


vés de basear-se na “ecologia profunda”, ou no “gerencia-
mento ecocêntrico ou sustentocêntrico” precisam ser questio-
nados e seus construtos e conceitos examinados com as lentes
da crítica. A despeito do apelo à “revisão fundamental dos
conceitos e teorias dos estudos organizacionais" (SHRIVAS-
TAVA, 1994), não há explicações a respeito de como isso
ocorrerá. Não fica claro como conceitualizações alternativas
de um meio ambiente organizacional (SHRIVASTAVA,
1994) ou uma “completa transformação moral dentro da cor-
poração” (CRANE, 2000, p. 73) levará naturalmente para a
justiça social ou a uma distribuição de recursos mais equâni-
me. Mudanças fundamentais nas organizações não podem
ocorrer a menos que haja correspondentes mudanças na eco-
nomia política e nas questões fundamentais relativas ao papel
da corporação e na abordagem referente à sua licença para
atuar na sociedade. Todas as exortações dos teóricos do “es-
verdeamento organizacional” não começam com a avaliação
dos tremendos impedimentos envolvidos na reestruturação da
economia política e no abandono das noções convencionais
de competição e consumo (NEWTON & HARTE, 1997). Se
a análise organizacional envolve a compreensão dos proces-
sos pelos quais as organizações são produzidas, em especial
os contextos sociais (LEFLAIVE, 1996) e como as “pressões
externas do meio ambiente são traduzidas em imperativos
organizacionais (KNIGHTS & MORGAN, 1993, p. 212),
então uma crítica das noções contemporâneas de DS deveria
permitir-nos o exame da emergência das organizações de
base envolvidas em movimentos de resistência, bem como o
destaque das estratégias empresariais de cooptação e “geren-
ciamento” do meio ambiente. Isto também nos habilita a
examinar as estruturas e processos que produzem discursiva-
mente “as pressões ambientais externas” e como as relações
socioculturais são transformadas pelas organizações. A crítica
deveria nos permitir um amplo debate, incluindo a economia
política e as abordagens alternativas dos problemas ambien-
tais, assuntos que o atual discurso do “gerenciamento ambi-
ental” falha em abordar (LEVY, 1997). Ela também nos per-
mitirá ver como os Estados-nações, corporações nacionais e
transnacionais dão suporte às necessidades do capital interna-
cional (PITELIS, 1993), pela colocação da crítica do capital e
do capitalismo firmemente no centro do debate, ao invés da
desconfortável posição que ela ocorre atualmente na maioria
das teorias organizacionais.

Enquanto a vasta literatura sobre a responsabilidade


social das empresas, sobre a integração entre investidores e a
ética dos negócios se baseia no pressuposto de que estes são
influenciados pelas preocupações societais, o prevalecimento
dos interesses societais na modelagem radical das práticas
empresariais aparece apenas em algumas poucas questões
(MUELLER, 1994). O domínio da responsabilidade social
das empresas não pode ser avaliado primariamente pelo crité-
rio econômico e nem pode uma ética ambiental ser desenvol-
vida através de uma moralidade “gerencial eticamente prag-
mática”, que, primariamente serve aos interesses organizaci-
onais (FINEMAN, 1998; SNELL, 2000). Embora os teóricos
críticos da organização retratem as organizações como estru-
turas de dominação, de legitimação e de “sistemas sociais
reflexivos” (COURPASSON, 2000; LEFLAIVE, 1996), re-
centes debates sobre a teoria das organizações, entre os mo-
dernistas e pós-modernistas, são curiosamente omissos sobre
as dimensões coloniais que enquadram a relação organização-
meio ambiente.

Nos últimos anos, tem havido uma pequena explosão


de artigos tratando do "esverdeamento empresarial” na litera-
tura sobre gerenciamento. Muito dessa literatura tenta incor-
porar as noções correntes de DS às estratégias empresariais
(ver, por exemplo, o número especial de 1995 da Academy of
Managent Review, sobre “organizações ecologicamente sus-
tentáveis ou o número especial da Long Range Planning, de
1992, sobre “gerenciamento estratégico do meio ambiente”.
Não há dúvida de que as empresas desempenham um impor-
tante papel no caminho para a sustentabilidade. A questão é:
as atuais práticas ambientais são realmente compatíveis com
a noção de sustentabilidade? Ou elas são meros exercícios de
“limpeza verde”, planejados para assegurar as empresas de
que manterão uma boa imagem pública? Alguns pesquisado-
res advertem que o “esverdeamento” da indústria não deve
ser confundido com a noção de DS (PEARCE et al., 1989;
SCHOT et al., 1997). Embora tenha havido significativos
avanços no controle da poluição e uma redução da emissão
de gás carbônico, isto não significa que os atuais modos de
desenvolvimento são sustentáveis para o planeta como um
todo (HART, 1997). Afirmações de que práticas “ecologica-
mente sustentáveis” de alto perfil “socialmente responsável”
de companhias como a The Body Shop e Ben and Jerry foram
desmascaradas na imprensa especializada em negócios como
fraudulentas (ENTINE, 1995; ROSEN, 1995). A maioria das
companhias enfatiza as questões operacionais quando adotam
variáveis “verdes” e falta-lhes uma “visão da sustentabilida-
de” (HART, 1997). Os argumentos críticos que questionam a
sustentabilidade dos atuais sistemas econômicos são raramen-
te encontrados e muito da teorização sobre o mercado “ver-
de” é o que Newton & Hart (1997) chamam de “tecnicismo
kitsch”, associado com doses liberais de retórica evangélica.
Tão longe quanto as concepções de DS continuem dirigidas
somente pelas noções de racionalização como vantagem
competitiva, nenhuma mudança de paradigma no que se refe-
re às visões de mundo a respeito da natureza e da sustentabi-
lidade podem ter lugar. O desenvolvimento colonial capitalis-
ta tem agravado as desigualdades sociais e, a despeito de sua
reivindicação de conhecimento, tem resultado numa perda do
conhecimento ecológico. Qualquer esforço para visualizar
ecologias alternativas deve envolver visões de alternativas de
sociedades e de política também (GUHA, 1989).

No seu apelo para uma abordagem mais crítica dos es-


tudos de gerenciamento, Grice & Humphries (1997) defen-
dem uma posição não-gerencial cuja proposta seja “não a
performatividade, mas a emancipação”. Muitos dos atuais
trabalhos críticos na área do gerenciamento enfatizam as
mesmas questões e tentam produzir melhores respostas. Para
mudar a teorização sobre as organizações é necessário adotar
uma nova maneira de pensar e de construir perguntas, ao in-
vés de procurar melhores repostas para as mesmas questões.
É preciso construir questões a partir de perspectivas diferen-
tes, freqüentemente opostas, adotando uma atitude de suspei-
ta constante em relação a todas as respostas. É preciso questi-
onar por que algumas perguntas são feitas e outras não, “por
que algumas abordagens são escolhidas em detrimento de
outras e por que alguns interesses são contemplados e outros
são excluídos do processo (GRICE & HUMPHRIES, 1997,
p. 423).

Uma impressionante proporção de pesquisas em ge-


renciamento enfatiza as tradicionais empresas orientadas
pelo lucro. O conjunto de pesquisas sobre empresas sem fins
lucrativos é também enquadrado em objetivos empresariais
similares: como podemos arrecadar dinheiro para a benefi-
cência, como podemos atrair mais gente para os museus,
bibliotecas ou zoológicos? Há pouca pesquisa sobre estraté-
gias para grupos e organizações ativistas, e sobre a teórica e
prática de resistir às ações das empresas (FROOMAN,
1999). Os discursos contemporâneos das organizações e de
seus acionistas são, inevitavelmente pressionados pelas ra-
zões práticas tais como o comportamento empresarial de
buscar o lucro (TREVIÑO & WEAVER, 1999). Uma perspec-
tiva crítica nos capacitará a reconhecer que as atuais nor-
mas do DS têm emergido dentro de um contexto histórico
particular, marcado pela noção capitalista moderna de em-
presa que opera dentro de um quadro dominado pela ética
judaico-cristã. Ao tornar esse pressuposto explícito e exami-
nar criticamente suas conseqüências, poderemos procurar
maneiras alternativas de construir conhecimento e elaborar
normas. As atuais teorias de gerenciamento raramente ques-
tionam a respeito de quem origina as normas a serem usa-
das, tendendo a normalizar os critérios conflitantes em nome
do progresso e do desenvolvimento. Como Rifkin (1999) des-
taca, ao invés de enfatizar os “bons” e os “maus” aspectos
das novas tecnologias, precisamos enfrentar questões mais
difíceis. Quais as conseqüências de colocar o controle do
patenteamento da propriedade intelectual dos genes mundi-
ais nas mãos de um reduzido grupo de empresas transnacio-
nais para a economia global e para a sociedade? Quais as
estruturas e processos de poder inerentes a essas novas tec-
nologias? Quais seus impactos sobre a diversidade biológica
do planeta? Quem controla essa tecnologia? Quais são seus
impactos culturais e sociais? Embora os países em desenvol-
vimento continuem a reivindicar o acesso a essas novas tec-
nologias em vários fóruns internacionais, deve-se ser caute-
loso a respeito do monitoramento dos impactos dessas novas
tecnologias, para não repetir os erros da Revolução Verde,
que ao mesmo tempo em que aumentava a produção em pou-
cas regiões, também acentuava as desigualdades em termos
de renda (SHIVA, 1991).

As dimensões populares das organizações, que invo-


cam as noções de difusão, democracia, mercado, fortaleci-
mento, flexibilidade, confiança e coletividade, também preci-
sam ser criticamente examinadas e avaliadas pela investiga-
ção da maneira pela qual esses objetivos empresariais em
relação aos quais noções de “valores” e de “ética” crescen-
temente dominam todas as agendas “sociais”, dando origem
a um novo colonialismo empresarial (GOLDSMITH, 1997;
GRICE & HUMPHRIES, 1997). A resistência ao conheci-
mento absoluto é um item imprescindível da agenda dos es-
tudos críticos do gerenciamento, a partir dos quais uma
compreensão de “como o conhecimento a respeito do geren-
ciamento é um resultado de e contribui para um particular
regime disciplinar” (KNIGHTS, 1992, p. 519). Desenvolver
práticas de pensamento e de visão críticas da teoria da orga-
nização requer uma investigação das formas de dominação
em outros lugares além do escritório ou da fábrica, o que
será, quem sabe, mais eficiente se se quer iniciar mudanças
revolucionárias (POSTER, 1989). Revisões radicais podem
emergir quando os estudos da organização entrarem nos
lugares nos quais “os precipitados ousam entrar – o lugar
onde a filosofia e as ciências sociais se encontram (BUR-
RELL, 1994, p. 9). Uma abordagem crítica ao “conhecimen-
to tecnicista” (BURRELL, 1994) também revelará como o
poder institucional e econômico se combinam para produzir
discursivamente conceitos tais como os de “eco-eficiência” e
o de “gerenciamento ambiental para a qualidade total”, nos
“novos capitalismos emergentes” (CALAS, 1999; STERN-
BERG, 1993), ou como “capitalismo natural”, que é sempre
apresentado como a “próxima revolução industrial” (HAW-
KEN et al., 1999).

A diversidade dos movimentos sociais em diferentes


partes do mundo pode produzir um guia alternativo de leitura,
capas de transformar as noções hegemônicas de desenvolvi-
mento e modernidade (ESCOBAR, 1992). O estudo do “co-
nhecimento ecológico tradicional” está se tornando crescen-
temente em voga para os cientistas e empresas farmacêuti-
cas ocidentais. É crucial o exame dessa prática com lentes
críticas, para compreender o que está em jogo: quem está
fazendo os estudos e com que propósitos? Por exemplo, um
atual projeto de desenvolvimento das Nações Unidas, chama-
do de “Oportunidades para o DS Global – 2B2M: 2 bilhões
para o mercado até 2020”: o próprio título do projeto já dá
pistas do que está errado com as atuais noções de DS, indi-
cando na aparente descontinuidade alegada a continuidade
das antigas noções de crescimento econômico e de desenvol-
vimento. O fato de que uma significante proporção da equipe
do projeto é composta de representantes de empresas transna-
cionais, cuja atuação tem, comprovadamente, efeitos negati-
vos sobre as populações indígenas e rurais, simplesmente
fortalece a noção de que essas organizações internacionais
não podem servir aos interesses das comunidades menciona-
das. Nem um dos muitos projetos das Nações Unidas tem
sequer desafiado o globalismo econômico das soluções orien-
tadas pela idéia de crescimento, a despeito de sua retórica de
“fortalecimento” das comunidades rurais. Na atual economia
política, é simplesmente impossível fortalecer simultanea-
mente as comunidades rurais e as corporações transnacionais,
havendo uma forte tendência à vantagem do segundo grupo.
Se temos que pesquisar alternativas de desenvolvimento,
além de fazer uma crítica das noções contemporâneas de de-
senvolvimento, precisamos situar nossas teorias nos movi-
mentos sociais apropriados: por exemplo, o conhecimento
ecológico tradicional não deveria aparecer separado das lutas
políticas, culturais e econômicas dos povos indígenas e das
populações camponesas (CARRUTHERS, 1996).

Conclusão

A era do desenvolvimento consolidou a hegemonia do


capital monopolista expansionista no Terceiro Mundo, atra-
vés de programas e políticas de exportação de larga escala,
que suplantou as necessidades de sobrevivência das culturas
locais. A era do DS também ameaça com o “mapeamento dos
povos em certas coordenadas de controle” (ESCOBAR,
1995). Qualquer atividade fora da economia de mercado é
proibida, criando sérias desvantagens para qualquer “ativida-
de de subsistência” dos camponeses e comunidades indígenas
em todo o mundo. A violência que a chamada “Revolução
Verde” perpetuou sobre as populações camponesas está bem
documentada (MIES & SHIVA, 1993; SHIVA, 1989; 1991).
As mesmas agências e empresas que saudaram o desenvol-
vimento de herbicidas como uma tecnologia da Revolução
Verde (agora chamada de “insustentável”) estão louvando as
virtudes da biotecnologia. Agricultores e comunidades indí-
genas continuam a resistir ativamente a essa nova imposição
que mais uma vez ameaça sua sobrevivência, em nome do
DS.

O DS, a despeito de sua promessa de autonomia local,


não é igualitário, porque a destruição ambiental também não
é: ela é mais devastadora para os povos com menos recursos
para evitar a devastação dos seus espaços naturais (BUL-
LARD, 1993). Essas populações são mais freqüentemente
compostas de pobres, negros, mulheres e crianças do Terceiro
Mundo (BANDY, 1995). A literatura sobre DS não tem vir-
tualmente nenhuma discussão sobre o fortalecimento das co-
munidades locais. Enquanto faz uma crítica ao modelo de
desenvolvimento baseado no crescimento econômico, suas
posições marginalizaram as comunidades locais tanto como
vítimas como beneficiárias do desenvolvimento. Na era do
DS, aparentemente essas comunidades continuarão a serem
inscritas como objetos passivos da história ocidental e conti-
nuarão a sofrer, o que Mies & Shiva (1993) ironicamente
chamam de “missão do homem branco”, uma missão que
significa futuras perdas dos direitos da comunidade e dos
seus recursos naturais. As novas biotecnologias do DS têm o
potencial para transformar agricultores em trabalhadores in-
dustriais de escala global (DAWKINS, 1997).

O DS é para ser gerenciado da mesma maneira pela


qual foi gerenciado o desenvolvimento: através das noções
etnocêntricas e capitalistas de eficiência gerencial, que sim-
plesmente reproduz as articulações anteriores do capitalismo
descentralizado, agora denominado de “capitalismo sustentá-
vel”. Os critérios macroeconômicos da DS têm se tornado
empresariais: algo é sustentável se for rentável, é sustentável
se puder ser comercializado no mercado. Essa noção de DS,
que é empacotada e vendida pelas agências internacionais,
governos e empresas transnacionais precisa ser desmascarada
e desconstruída, o que tentamos fazer neste trabalho. Como
Redclift (2000) tem destacado, há um perigo de que os atuais
discursos de sustentabilidade, com sua ênfase no que é sus-
tentável e como isto pode ser medido, percam suas margens
políticas e de radicalidade. Talvez o DS seguirá o destino do
movimento ambientalista moderno, que está se tornando cada
vez menos politizado, graças ao prevalecimento de políticas
ambientais que traduzem as escolhas relativas ao meio ambi-
ente dentro do quadro das preferências de mercado.

Como Gould (2000, p. 12) destaca, se os discursos do


DS quiserem manter seus traços políticos e de radicalidade,
eles “devem estar fundamentados em última instância na re-
lação entre populações humanas específicas com específicos
ecossistemas localizados em específicos lugares”. As institui-
ções transnacionais e internacionais, operando sob regimes
econômicos neoliberais dão pouca atenção às especificidades
dos lugares e das comunidades que os habitam, não podendo,
portanto, gerar economias locais sustentáveis. Os atuais pa-
drões de desenvolvimento (apresentados como “sustentá-
veis”) quebram as relações entre os sistemas sociais e os
ecossistemas, ao invés de assegurar que o uso dos recursos
naturais pelas comunidades locais satisfaçam suas necessida-
des em um nível de conforto avaliado como satisfatório para
essas comunidades.

Enquanto continuar a violência epistêmica do desen-


volvimentismo colonialista, o DS simultaneamente reificará o
capitalismo global como a força de liberação e de proteção
que pode assegurar a sobrevivência da raça humana. O Ter-
ceiro Mundo, ainda precisando de desenvolvimento, agora
precisa aprender como desenvolver-se de modo sustentável.
O consumo é ainda o rei: a natureza não é muito entendida
enquanto consumida e o poder da dinâmica dessa nova era da
globalização e do pós-desenvolvimento permanece inalterado
(BANERJEE & LINSTEAD, 2001). Como Bandy (1995)
afirma, o discurso do DS é uma nova retórica de legitimação:
legitimação do mercado, do capital transnacional, da ciência,
da tecnologia, das noções ocidentais de progresso e de
(pós)modernidade. O desafio do DS é, em última instância,
um desafio à legitimação, aos fundamentos epistemológicos
do conhecimento e ao poder desse conhecimento em definir a
realidade. Talvez revisitando outros conhecimentos podere-
mos nos tornar capazes de definir uma outra realidade que
não privilegie a separação entre a natureza e cultura, que tem
provado ser tão negativa para milhões de pessoas do planeta.
Mas essa é outra história.

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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
Antinomias de um conceito

Marcionila Fernandes20

Uma das principais tarefas requeridas dos sociólogos


em relação à discussão da crise ambiental e do modelo de
Desenvolvimento Sustentável é, inclusive, a produção de uma
análise capaz de demonstrar como a construção de categorias
e instrumentais de pesquisa relacionados ao debate sobre a
crise ambiental funcionam com o objetivo de dar sentido às
estruturas de poder e aos interesses econômicos e políticos
envolvidos na formulação das políticas ambientais globais. A
construção de categorias abstratas, como as de humanidade,
de gerações futuras, de qualidade de vida e outras tão presen-
tes nos textos sobre os problemas ambientais, dificulta a aná-
lise em termos de diferenças entre grupos sociais e entre na-
ções, protegendo a proposta do Desenvolvimento Sustentável
do enfrentamento de eventuais contradições no campo das
relações sociais.21 A disseminação do uso dessas categorias
citadas com um sentido a-histórico, ou como que “esvazia-
das” de conteúdo social mais preciso, contribui justamente
para consolidar as perspectivas analíticas e postulados políti-
cos que abordam os problemas e as possíveis respostas, des-
considerando as referidas diferenças, as quais caracterizam
tão bem as sociedades contemporâneas.

20
Professora do Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal
de Alagoas – UFAL.
21
O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi apresentado, no ano de 1987, pela Comis-
são Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento através do Relatório denominado
Nosso Futuro Comum, sendo definido como aquele que atende às necessidades do presente
sem comprometer a possibilidades das gerações futuras de atenderem às suas próprias
necessidades”. Ainda, segundo o referido relatório, o Desenvolvimento Sustentável deve
contribuir para retomar o crescimento como condição necessária para: erradicar a pobreza;
mudar a qualidade do crescimento para torná-lo mais justo, eqüitativo e menos intensivo no
uso de matérias-primas e de energia; atender às necessidades humanas essenciais de empre-
go, alimentação, energia, água, e saneamento; manter um nível populacional sustentável;
conservar e melhorar a base de recursos; reorientar a tecnologia e administrar os riscos; e
incluir o meio ambiente e a economia no processo decisório
No conceito de Desenvolvimento Sustentável a idéia
de eqüidade se enquadra nesse conjunto de categorias “lim-
pas ou neutras”, podendo ser considerada como um conceito
vazio. Isto é, destinado a ser enunciado de uma tal forma que
não implica nenhum desdobramento conseqüente, não haven-
do nele substância como proposição possível. Como se pode
ver na maioria das experiências de implementação do modelo
de Desenvolvimento Sustentável, não há indícios da produ-
ção da eqüidade em termos concretos. Vale citar como exem-
plo as próprias experiências catalogadas pelo Ministério do
Meio Ambiente.
Segundo o Relatório da Comissão Mundial de Cultura
e Desenvolvimento (1997), o princípio da eqüidade entre
gerações não pode ser entendido sem, ao mesmo tempo, se-
rem propostas formas institucionais para sua realização. Uma
das propostas apresentada no referido relatório, parte da idéia
de que a melhor maneira de proteger os interesses das gera-
ções futuras consiste em nomear um representante, na forma
de uma agência institucionalizada como, por exemplo, um
escritório no âmbito das Nações Unidas e do direito interna-
cional (CUÉLLAR, 1997, p. 62). A questão da eqüidade é,
como se vê nesse documento, freqüentemente reduzida a um
problema burocrático, cujo enfrentamento se daria no âmbito
institucional e formal. A justiça social, neste caso, é tratada
como se fosse algo exógeno à dinâmica econômica, social e
política das sociedades contemporâneas.
Ainda em referência à forma como é apresentada a
concepção da eqüidade no modelo de Desenvolvimento Sus-
tentável, é possível identificar alguns outros problemas. No
Nosso Futuro Comum, por exemplo, é enunciada a idéia de
que a pobreza contribui para o aumento da degradação ambi-
ental. Esta forma de ver poderia conduzir a uma muito prová-
vel articulação entre justiça social e preservação ambiental, já
que atacar os fatores que causam a pobreza teria, como efeito
necessário, a atenuação ou superação da própria pobreza as-
sociada senão à solução definitiva da crise ambiental planetá-
ria. Ao menos alcançaríamos níveis menores de agressão ao
meio ambiente.
Esse novo modelo de desenvolvimento distancia-se,
em essência, de uma perspectiva crítica em relação às formas
de apropriação da natureza inauguradas pelo Capitalismo, na
direção da construção de um novo modelo societário. Não há,
nesse ecologismo supostamente inaugurador de novos tem-
pos, uma negação da ética da competição e do lucro imediato
e crescente, determinante dos modos e do ritmo de disponibi-
lização dos recursos naturais praticados desde o surgimento
da Indústria.
Os aspectos teóricos do conceito de Desenvolvimento
Sustentável se distanciam de questionamentos dessa natureza,
e o fazem não por “erro” metodológico, ou por “fraqueza”
epistemológica. Poderíamos, realmente, esperar que as insti-
tuições que dão forma ao movimento ecológico internacional,
como a ONU, o Banco Mundial, o G-7, apresentassem uma
nova proposta de organização social destinada a promover
efetivamente a eqüidade social, a eficiência econômica e a
preservação ambiental? Isso seria possível, sem questionar,
na sua base, o ordenamento sócio-político-econômico? Para
dar respostas afirmativas a essas questões, teríamos de imagi-
nar que essas instituições estariam abandonando seus pró-
prios papéis de mantenedoras da ordem econômica e social
vigente.
A realidade social de um número significativo de na-
ções, se pensarmos em termos de desenvolvimento das eco-
nomias nacionais e de amplos setores da população mundial,
demonstrada, inclusive, pelos dados do próprio Banco Mun-
dial, é marcada pela preponderância de baixas rendas, por
níveis inaceitáveis de acesso à saúde, por altos graus de sub-
nutrição e de altas taxas de mortalidade infantil, por baixos
níveis de escolaridade e por baixas quantidades de consumo
diário de proteínas.
Um agravante desse processo é que todos os encami-
nhamentos políticos e econômicos, no plano mundial, inclu-
indo-se aqui os previstos nas políticas de Desenvolvimento
Sustentável, se constróem na perspectiva de manter e/ou
agravar essas disparidades. Com o declínio do Welfare State,
por exemplo, enfraquece progressivamente a responsabilida-
de política do Estado frente ao quadro social esboçado. A
impossibilidade de participar dos mercados, neste caso, re-
percute e passa a ser compreendida como processo exógeno
ao próprio sistema social.22
O fim do Estado de bem-estar, a progressiva diminui-
ção do emprego, e o crescimento da fome, associada à morta-
lidade infantil, por um lado e, por outro, o domínio das leis de
mercado, de uma cultura de consumo que transforma o mais
supérfluo em necessidade indispensável, o que requer a
queima crescente dos recursos energéticos naturais nos ciclos
produtivos, processos que vêm se intensificando nessas duas
últimas décadas, denotam que não se encontram em curso
projetos sociais que visem corrigir as grandes diferenças, no
que se refere aos padrões de vida entre indivíduos e entre as
nações23.
Supor que a pobreza é responsável pela degradação
ambiental, como está posto no conceito de Desenvolvimento
Sustentável e que, para superar esses problemas de ordem
ambiental, seria necessário combatê-la, não garante a cons-
trução de um novo projeto societário. Na verdade, isso pode
ser visto muito mais como uma enunciação formal do discur-
so oficial do que como um questionamento real das lógicas
geradoras da exploração e miséria nos países subdesenvolvi-
dos. De maneira semelhante, a idéia de solidariedade interge-
racional, também muito forte e destacada no modelo de De-
senvolvimento Sustentável, não se traduz, necessariamente,

22
As sociedades contemporâneas, ao abordarem a violência entre indivíduos, como resultan-
te de processos individuais apenas, onde se evidencia somente o agressor e o agredido, na
verdade estão reforçando a idéia de que o que existe, efetivamente, são somente diferenças
individuais inconciliáveis, desconsiderando, portanto, todos os arranjos sociais responsáveis
pela manutenção do processo de diferenciação social entre os homens. Na história humana, é
comum a desvalorização daqueles indivíduos que o próprio sistema não absorvera por meio
da produção e repartição dos produtos do trabalho. Sempre são estes os responsáveis pela
violência, como se marginalizar o outro não fosse o maior ato de violência.
23
Müller (1996) no seu diálogo com Vittorio Hösle (1996) diz que “A grande incógnita da
nova ordem capitalista mundial, face à possibilidade de o modelo de produção capitalista se
firmar como endogenamente sustentável, é saber se as suas transformações vão no sentido
do fortalecimento a curto prazo, através da consolidação temporária da exclusão do acesso
da maioria da humanidade aos direitos humanos elementares, com a ampliação do padrão de
consumo ocidental para apenas alguns países integrados e para as respectivas classes domi-
nantes na assim chamada globalização, intensificando a violência estrutural e o estado de
guerra civil endêmica, ou se as transformações vão no sentido de alguma transmutação, que
permita superar os seus componentes selvagens e destrutivos, que mantêm o vínculo fatal
entre crise ecológica e exclusão, revertendo a barbárie que se anuncia. (MÜLLER, 1996, p.
45).
no enfrentamento conseqüente e eventual adoção de estraté-
gias para a solução dos problemas atravessados pela geração
atual.
Se nem o reconhecimento dos riscos representados pe-
la pobreza ao ecossistema, nem a idéia de solidariedade in-
tergeracional são indicativos de um novo projeto societário,
outros aspectos contidos no conceito de Desenvolvimento
Sustentável não podem ser considerados como capazes de
efetivar um novo projeto de normatividade social.
A idéia de sustentabilidade do modelo de Desenvol-
vimento Sustentável é tirada do campo das ciências biológi-
cas, onde é compreendida como a busca do prolongamento da
durabilidade dos ecossistemas no tempo. Sua utilização nas
análises dos cientistas sociais é freqüentemente carregada dos
sentidos em que é empregada na Biologia, tratando sua apli-
cabilidade em termos da definição biológica de espécie hu-
mana, que não permite a consideração dos aspectos contradi-
tórios envolvidos, quando se leva em conta o mundo social.24
Assim sendo, o próprio marco teórico da sustentabilidade não
relaciona os problemas ambientais com as relações sociais e
não leva em conta as questões das desigualdades, o que com-
promete a efetividade da proposta de eqüidade feita no âmbi-
to do modelo de Desenvolvimento Sustentável. Neste caso, a
idéia de eqüidade tem apenas sentido como discurso (FO-
LADORI, 1999, p. 29).
Tanto a idéia de eqüidade quanto o próprio conceito
de sustentabilidade são exemplos dos aspectos contraditórios
contidos nas principais formulações das políticas ambientais
globais e que devem ser visualizadas nas análises sociológi-
cas que abordam a questão ambiental.
A busca do que realmente é “novo” nessa proposta de
desenvolvimento implica conduzir o debate levando em conta
as matizes teóricas, e as variáveis políticas e ideológicas ne-
las envolvidas. Ao nosso ver, a subsunção dos principais pro-
blemas sociais da humanidade pela evidência das catástrofes
ecológicas não somente assegura aos países ricos a manuten-

24
Ver, neste sentido, Norgaard (1997) e Spangenberg (1999).
ção dos seus privilégios, como dificulta a possibilidade de
formulação de críticas ao modelo capitalista, agora global.
Nesse sentido, em vez de considerar a possibilidade
de questionamento do modelo de expropriação da natureza
implícito no Capitalismo, o que os defensores do modelo do
Desenvolvimento Sustentável freqüentemente fazem é, alu-
dindo às idéias de unidade planetária, que implicam a secun-
darização das diferenças existentes no mundo real, propor
“alianças entre todos os grupos e estratos sociais”25, como se
os problemas ambientais afetassem a todos por igual.
Os problemas ecológicos, que resultam de disfunções
estruturais do sistema de produção econômica, que geram
também uma série de problemas sociais, tomaram maiores
dimensões à medida que é decrescente, na história da ciência,
o espaço para as teses que abordam os problemas estruturais
da sociedade moderna. Não podemos desconsiderar o pessi-
mismo dos cientistas sociais que viveram o alvorecer do sé-
culo XX, marcado pelo prevalecimento da racionalidade ins-
trumental, como também não se pode esquecer o desencanto
dos filósofos franceses engajados, um fenômeno que se ex-
pressa depois da II Guerra Mundial.
É no vácuo de um projeto societário-humanista, que
emergiu a crise ecológica em nível global. “A terra está es-
quentando”, “tem aumentado o buraco na sua camada de
ozônio”, “enfrentamos chuvas ácidas como conseqüência da
poluição atmosférica”, “enfrentamos uma crescente escassez
de recursos energéticos”, “aumenta a poluição dos mares, do
ar e das águas doces”; tudo isso pode ser verdade, mas não é
menos verdadeira a gravidade dos problemas sociais e da
decadência de princípios éticos humanistas.
Nesse sentido, nossa perspectiva considera necessária
uma abordagem que contemple os dois movimentos, conside-
rando o ecológico e o social como processos interligados a
partir da modernidade, e que, ao mesmo tempo, resulte numa
análise crítica da temática do meio ambiente não comprome-

25
Conforme Guimarães (1997), que, longe de representar uma voz isolada, é emblemático
de uma vasta produção da linha “otimista” do Desenvolvimento Sustentável.
tida com a reprodução da desigualdade entre homens.26 Nossa
proposta se aproxima da visão da prática sociológica defen-
dida por autores como Lloyd e Bourdieu. Para o primeiro
deles,
As tentativas de representação do real, através das
ciências, dependendo dos princípios filosóficos e me-
todológicos, às vezes se distanciam da própria reali-
dade empírica para concebê-la como uma interpreta-
ção de acordo com um ponto de vista, e assim estabe-
lecem um discurso sobre possíveis entidades, episó-
dios ou cenários que às vezes se supõe iluminar a
verdadeira realidade, a qual jamais é definida ou es-
tudada (LLOYD, 1995, p. 45).
No caso da proposta de Desenvolvimento Sustentável,
é possível identificar uma articulação de símbolos, significa-
dos e conceitos capazes de mobilizar uma aceitação mundial,
um consenso altamente significativo, sem que haja um esfor-
ço intelectual profundo para o enfrentamento das questões
concretas envolvidas na discussão.
Pierre Bourdieu, numa mesma linha crítica da ativida-
de científica auto-referente, fornece elementos para uma crí-
tica da tendência de análise sociológica acrítica:
...abraçar a verdadeira ciência significa fazer a op-
ção, deveras ascética, de devotar mais tempo e esfor-
ço ao exercício das descobertas teóricas, aplicando-
as a novos projetos de pesquisas, em vez de prepará-
las, de certas formas, para a venda, recobrindo-as de
metadiscurso, destinado menos a verificar o pensa-
mento do que a divulgar a sua importância e valor ou
evidenciar imediatamente suas vantagens, fazendo-as
circular nos incontáveis eventos que a era dos jatos e
das conferências oferece ao pesquisador narcisista...
(BOURDIEU, 1985, p. 11-12).
26
Nossa proposta de análise sociológica das contradições existentes no modelo/conceito de
Desenvolvimento Sustentável se distancia daquela apresentada por Cernea (1993, p. 13),
assessor Senior do Banco Mundial, na área de Políticas Sociais, do Depto. de Meio Ambien-
te. Para ele, uma das contribuições que os sociólogos dão ao Desenvolvimento Sustentável é
o fornecimento de um conjunto de técnicas sociais capazes de conduzir à ação social coor-
denada, inibir atitudes nocivas, promover a associação, forjar acordos sociais e ajudar a
desenvolver o capital social.
Visto que muito dos dados científicos apresentados
para fundamentar a idéia de crise ambiental aguda e, além do
mais, para dar plausibilidade e aceitabilidade às propostas de
construção da sustentabilidade, são controversos, estando
longe a chegada a um ponto de vista pacífico sobre eles
(HERMITTE, 1992), somente é possível entender a legitimi-
dade conseguida pelo modelo do Desenvolvimento Sustentá-
vel, considerando valores externos a ele. Um dos fatores a ser
considerados é sugerido por Petras (1991). O autor afirma
que há vinte anos, na América Latina, era virtualmente im-
possível encontrar um intelectual de esquerda propenso a
aceitar financiamento de fundações do exterior. Atualmente,
segundo ele, é raro encontrar um pesquisador conectado com
qualquer instituição estabelecida que não seja financiado por
uma menor ou maior fundação americana ou européia. E a
maioria dos que não são financiados, não o são por terem
objeção aos financiamentos internacionais – e aos eventuais
constrangimentos de sua atividade e discursos produzidos –,
mas porque não estabelecerem os contatos ou conexões apro-
priadas (PETRAS, 1991, p. 161).
Ao nosso ver, o consenso obtido pela proposta de De-
senvolvimento Sustentável é um dos temas importantes a ser
enfrentados pela análise sociológica do atual estado do debate
a respeito do Meio Ambiente. Outra tarefa dos cientistas so-
ciais preocupados em analisar de maneira conseqüente a te-
mática já referida é a de discutir e avaliar os aspectos ontoló-
gicos do conceito de Desenvolvimento Sustentável, inclusive
avaliando a propriedade de considerá-lo como novo modelo
de desenvolvimento.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
UMA POLÍTICA DE GESTÃO DOS
RECURSOS NATURAIS NOS PRINCI-
PAIS NICHOS ECOLÓGICOS DO PLA-
NETA
A argumentação acima apresentada fundamenta nossa
interpretação particular a respeito do modelo de Desenvolvi-
mento Sustentável. Ao nosso ver, o que se anuncia como um
modelo de desenvolvimento, que sucederia às alternativas
ocidentais praticadas há cerca de duzentos anos, se constitui,
na verdade, numa proposta de gestão, monitoramento e con-
trole internacional dos recursos naturais – elaborada e im-
plementada a partir dos países do Norte.
A discussão da articulação de uma Divisão Ecológica
Internacional, que favorece a abertura das fronteiras e a inge-
rência internacional nas áreas de nichos ecológicos, bem co-
mo as contradições conceituais apontadas no projeto do De-
senvolvimento Sustentável – por exemplo, o oxímoro repre-
sentado pela proposta de união do par irreconciliável: cresci-
mento econômico e a sustentabilidade dos ecossistemas; e a
fragilidade da idéia de contemplar as necessidades das gera-
ções futuras, sem enfrentar os problemas sociais das gerações
atuais, e, inclusive, aqueles decorrentes das desigualdades
entre nações, e, dentro delas, entre pobres e ricos nos permi-
tem apresentar elementos que evidenciam as dificuldades
teóricas do Desenvolvimento Sustentável a partir dos seus
três princípios – o da eficiência econômica; o da eqüidade e o
da eficiência ecológica.
O questionamento do modelo de Desenvolvimento
Sustentável como alternativa efetiva àqueles historicamente
praticados inclui, pelo menos, os seguintes pontos: (1) a ar-
gumentação referente à construção de um novo projeto socie-
tário a partir da atenção dada a sustentabilidade dos ecossis-
temas, que substituiria não apenas no discurso, mas, no mun-
do real, os estilos de desenvolvimento anteriormente pratica-
dos, perde sua plausibilidade, ao serem examinadas as expe-
riências anunciadas como de produção de Desenvolvimento
Sustentável, em referência aos indicadores da eficiência eco-
nômica e da eqüidade; (2) a fragilidade do modelo de Desen-
volvimento Sustentável como uma alternativa aos modelos
anteriores de desenvolvimento, demonstrada pelo fato de que
o modelo de desenvolvimento dominante, diametralmente
oposto à idéia de sustentabilidade dos ecossistemas, continua
sendo praticado nas áreas das quais se origina a proposta de
mudança.
Assim, se a proposta de Desenvolvimento Sustentável
não implica um modelo efetivo de desenvolvimento, é preci-
so pensá-la em termos realistas. Com isso, queremos dizer
que, ao nosso ver, essa proposta é, na verdade, a de uma polí-
tica ambiental global – elaborada e implementada por insti-
tuições tradicionalmente responsáveis por assegurar os pro-
cessos de expansão do capital – de controle, gestão e monito-
ramento de recursos naturais, somente apresentada como uma
alternativa aos estilos de desenvolvimento anteriormente pra-
ticados, com referência às estratégias de construção de sua
plausibilidade.
Sobre esse aspecto da proposta de Desenvolvimento
Sustentável, vale citar Almeida (1998), que apresenta duas
modalidades de políticas ambientais: uma se baseia na políti-
ca de comando e controle e a outra na política do livre mer-
cado. No nosso entendimento, essas se intercruzam na busca
da otimização da política ambiental, a partir dos seus objeti-
vos econômicos e das relações de poder que se estabelecem
nesse campo, ocultadas pela cultura do management
(CHÂTELET, 1997).
A política de comando e controle, apresentada sob a
denominação de modelo de Desenvolvimento Sustentável, se
associa à de gerência dos recursos naturais do planeta, que
tem à frente uma tecnoburocracia27, ou a diplomacia ambien-
talista (ALMINO, 1993), possuidora de competência técnica
para formular e coordenar os principais processos de formu-
lação da política ambiental global, sendo apresentados como
gestores, que trabalhariam de forma neutra, num espaço apa-
rentemente destituído de qualquer vestígio de interesses polí-
ticos.
Entendemos que na formulação do conceito de De-
senvolvimento Sustentável, como posta no Relatório Brun-
dtand, se opera a lógica do pragmatismo, como nos processos
gerenciais quaisquer. Assim sendo, o conceito se configura
como uma proposta de um conjunto de políticas capazes de
proporcionar um processo de racionalização e de gerencia-

27
É possível fazer um paralelo entre a atuação dessa tecnoburocracia e aquela descrita por
Châtelet (1997) como característica da prática do Estado-Cientista: “Nesta, a política é
reduzida a uma função. Encontra-se avalizada a idéia de que o caráter obrigatório dos
comportamentos impostos aos cidadãos resulta de um cálculo efetuado por um organismo
habilitado para essa função uma regulamentação legítima e necessária substitui assim a
noção de poder. A classe política é doravante desideologizada e despersonalizada; ou pelo
menos, esse é o destino de sua modernidade. Reduz-se à sua função, que é de simples ges-
tão” (CHÂTELET, 1997 : 347).
mento dos ecossistemas, visando ao aumento de sua capaci-
dade de rendimento em relação ao modelo industrial de pro-
dução.
O próprio discurso da solidariedade intergeracional
presente naquele conceito de desenvolvimento pode ser en-
tendido como o resultado da preocupação com o tempo ne-
cessário para racionalizar/gerir os ecossistemas, de forma a
contribuir com a formação de estoques de recursos naturais
(estoques de capital natural). Estes recursos suprirão as de-
mandas do sistema de produção vigente, elastecendo sua ca-
pacidade de reprodução, assegurando um adiamento da exa-
ustão dos recursos naturais não renováveis. Ora, se, no pre-
sente, os recursos da natureza não são disponibilizados para
todos, a preocupação em assegurar esses mesmos recursos
para as gerações futuras não garante que as estruturas de
acesso no futuro não tenderão a reproduzir as condições de
acesso do presente. Como não há, naquela proposta, nenhuma
indicação de socialização de riquezas, a solidariedade inter-
geracional significa assegurar no futuro, também, as riquezas
naturais para os herdeiros dos setores e grupos sociais benefi-
ciários no presente.
Outras dificuldades de efetivação da solidariedade in-
tergeracional ainda podem ser observadas, se pensarmos em
termos da relação entre Norte e Sul. Embora parte dos pro-
blemas sociais do Sul possam apresentar-se nos países Norte,
o que se verifica é que, em grande parte, os grandes proble-
mas ambientais dos países desenvolvidos estão, em geral,
vinculados à abundância e aos desperdícios, aliados aos altos
níveis de consumo neles observados. Nos países do Sul, esses
problemas se derivam basicamente da escassez e da má dis-
tribuição da riqueza, que se refletem na falta de condições
mínimas de infra-estruturas sócio-ambientais básicas, tanto
nas grandes cidades, quanto nos meios rurais. Grande parte
das populações vive em habitações inadequadas à vida hu-
mana, sem saneamento, sem água potável, sem equipamen-
tos, maltratadas pelas doenças e pela falta de perspectiva so-
cial.
O modelo de Desenvolvimento Sustentável foi consi-
derado como a principal resposta à crise ambiental planetária,
a partir dos mecanismos de construção do consenso interna-
cional, o que possibilitou aos governos dos países desenvol-
vidos e suas instituições expandir suas políticas ecológicas
para o Sul, envolvendo os governos em todos os níveis e as
ONGs ambientalistas, que passavam a pensar em políticas
ambientais a partir deste conceito de desenvolvimento.
O que temos, efetivamente, embora se anuncie um
novo estilo ou modelo de desenvolvimento, é uma nova in-
flexão no que diz respeito à orientação política, econômica e
ecológica para as áreas ricas em recursos naturais, como as
florestas tropicais, detentoras de significativos patrimônios
genéticos da flora e da fauna, que as constituem em filões de
biodiversidade. É possível observar também dentro dessa
proposta a revalorização de grupos sociais tradicionais, como
camponeses, indígenas, pescadores, coletores e outros dessa
natureza, presentes naqueles ecossistemas. Estes grupos têm
sua condição valorizada a partir das suas formas de interação
com o meio ambiente, que se destacam pelo seu caráter pre-
servacionista. Essas áreas e essas populações, vale lembrar,
em sua maioria, estão situadas nos países do Sul.
Uma vez que o desenvolvimento econômico não sofre
inflexão no seu curso, nem no que diz respeito à produção
nem ao consumo, é possível concluir que a acumulação e a
reprodução do sistema capitalista em nada têm sido alteradas,
a partir da proposição e implementação do modelo de Desen-
volvimento Sustentável como necessidade de superar a crise
ecológica, e que as intervenções no sentido de responder à
crise ambiental se desenvolvem por meio de ações localiza-
das de políticas ambientais, em áreas ecológicas, como já
citamos acima, muitas delas incidindo na esfera dos conteú-
dos morais e comportamentais. Essa característica é marcante
nos discursos dos ecologistas, nos conteúdos dos programas
de educação ambiental, nos de reciclagem de lixo, todos
normalmente associados à crítica ao crescimento populacio-
nal, de inspiração Malthusiana, e na teoria da capacidade de
suporte.
Como temos visto, a preocupação central da política
ambiental global, sob a égide do conceito de Desenvolvimen-
to Sustentável, tem sido a de assegurar a gestão internacional
dos principais ecossistemas, com o objetivo de garantir a du-
rabilidade e disponibilidade de importantes estoques de re-
cursos naturais funcionais ao desenvolvimento econômico,
atendendo à continuidade da lógica do próprio capital. Assim,
uma das principais metas dos que propõem o modelo do De-
senvolvimento Sustentável, seria, diante da escassez de recur-
sos e dos altos níveis de poluição atualmente existentes, asse-
gurar àqueles povos ou grupos de indivíduos já beneficiados
pelos seus estágios de desenvolvimento social, em termos de
acesso aos recursos naturais abundantes, a manutenção dos
seus níveis de crescimento econômico e de consumo, em de-
trimento daqueles grupos e países do terceiro mundo, que
embora vivam em regiões e/ou ecossistemas ricos em recur-
sos naturais não têm assegurados o direito de usufruto dessas
riquezas.
O discurso do Desenvolvimento Sustentável tem a
vantagem de possibilitar, de certa maneira, suavemente, uma
das formas mais severas e sutis de dominação de povos e
grupos sociais, por meio da apropriação e usufruto de recur-
sos naturais renováveis e não renováveis das grandes reservas
mundiais. Em nome da humanidade, dos interesses de “to-
dos”, suplantam-se os direitos mais elementares das nações,
como o de gerência autônoma dos recursos naturais, agora a
partir de pactos científicos e sócio-políticos, que se estabele-
cem nesse tempo de “globalização” e de “crise ecológica”.
É com base nas leis econômicas e na importância dos
recursos naturais como capital natural e como força de pro-
dução econômica que as políticas ambientais são formuladas
e aplicadas. O projeto do Desenvolvimento Sustentável não é
uma exceção. A própria valorização e preservação da nature-
za se inscreve no contexto das forças de mercado, sendo, na
verdade, a outra face da mesma moeda. É preciso que muitos
valorizem e preservem as riquezas naturais para que estas
possam estar à disposição das redes econômicas e sociais que
as demandam e delas se apropriam. Bauman (1999) dá supor-
te a essa nossa compreensão. Para este, o crescimento eco-
nômico representa a fome insaciável da indústria por novas e
maiores taxas de lucros que, por sua vez, serão consumidas
na queima de novas fontes de energia, no ciclo seguinte. O
que é pressuposto nessa fala é justamente um modelo de pro-
dução marcado pela idéia de expansão contínua, sempre feita
à custa de consumo crescente de energia, de recursos da natu-
reza.
A análise da “crise ambiental”, e, em particular, do
modelo de Desenvolvimento Sustentável, até aqui apresenta-
da, indica que, na prática, esse modelo de desenvolvimento
está longe de se concretizar.
O discurso visando uma associação mundial em prol
do Desenvolvimento Sustentável, conforme o apelo com que
a Agenda 21 Global se inicia, serve, como se referiu Myrdal
(1968), apud Rist (1997), para estabelecer a diplomacia pela
terminologia. O Desenvolvimento Sustentável, nos termos
em que vem sendo posto – quer como discurso oficial, quer a
partir de suas várias interpretações – e implementado, por
meio de intervenções e de projetos de ajuda preservacionista,
como o PPG7, por exemplo, em áreas ecológicas 28, visa dire-
tamente a manter o domínio e o controle sobre os recursos
naturais, ao mesmo tempo em que minimiza a crítica ao pró-
prio modelo de desenvolvimento econômico, à medida que
reconhece e propõe a superação da crise ambiental por meio
de um novo estilo de desenvolvimento. Pelo emprego do
conceito de sustentabilidade, o meio ambiente, neste caso, é
compreendido como sendo capaz de se auto-equilibrar em
vista a contrabalançar os problemas decorrentes do desenvol-
vimento econômico (RIST, 1997, p. 194).
Nossa perspectiva de análise é reforçada pelo pensa-
mento de Rist (1997), segundo o qual o Relatório Brundtland
28
As áreas ecológicas são construídas a partir da Divisão Ecológica Internacional, como nos
referimos àquelas regiões que passaram a ser evidenciadas no contexto internacional, a partir
da hipótese de que estas desempenham significativo papel no equilíbrio planetário, como as
áreas de florestas, por exemplo. São as mesmas áreas que, há trinta anos, foram anunciadas
pelos mesmos atores como áreas prioritárias para a implementação do desenvolvimento
econômico. A Amazônia é a maior demonstração desse processo. Esta, como em outros
momentos da história econômica, se constituiu, dado o seu potencial, a partir do discurso
externo, naquilo que interessava à lógica do sistema capitalista. Se havia interesse da região
como exportadora de produtos extrativos, como produtora de produtos agropecuários, pro-
dutora de energia e minério, era assim que ela passava a ser pensada externamente. O que é
importante ser observado é que em nenhum momento as forças sociais dominantes estão em
desacordo com a representação que dela se fazia e se faz internacionalmente. Tanto no plano
econômico, quanto no plano político, inclusive no campo da política científica, se assumia,
internamente, o discurso e o papel que era atribuído à região no plano internacional. E assim
continua. A região como grande celeiro ecológico do mundo é a nova face que lhe deram.
e a Conferência do Rio de Janeiro, e, por conseguinte, o mo-
delo de Desenvolvimento Sustentável, não visam, como é
corrente no pensamento ambientalista, “negar fenômenos
antagônicos dentro de uma síntese hegeliana, mas fazer o
desenvolvimento econômico aparecer como necessário, por
meio da sua combinação com o supremo valor reconhecido
do meio ambiente”. Desse ângulo o desenvolvimento susten-
tável aparece como uma operação de encobrimento: ele
acalma os medos provocados pelos efeitos indesejáveis do
desenvolvimento econômico. Segundo a idéia de sustentabi-
lidade produzida nos dois eventos acima citados, “o que deve
ser sustentado é o desenvolvimento, e não a capacidade (de
tolerância) dos ecossistemas das sociedades humanas” (RIST,
1997, p. 194)
Assim, a formulação da crise ambiental nos termos
em que foi apresentada mundialmente e as formas de comba-
tê-la devem ser explicadas dentro dos mecanismos de ajustes
e demandas do sistema capitalista mundial, sendo que o mo-
delo do Desenvolvimento Sustentável não é um outro estilo
de desenvolvimento, mas um mecanismo proposto e adotado
pelo centro de poder do referido sistema, para conduzir e le-
gitimar as políticas ambientais globais em consonância com
seu ritmo e lógica.
A transformação dos problemas ambientais locais
com suas diversidades e complexidades em problemas glo-
bais homogeneizados foi elevada, no plano do discurso, ao
status de uma nova proposta de sociedade global, a partir da
valorização do meio ambiente global, como expresso no con-
ceito de Desenvolvimento Sustentável. Isso não significa
dizer que o referido conceito, tal como fora proposto pelas
Organizações das Nações Unidas, em suas várias instâncias,
representasse, efetivamente, um modelo social novo. As defi-
ciências teórico-metodológicas e das experiências práticas
não deixam dúvidas quanto às dificuldades desse modelo de
desenvolvimento, que tem de se constituir numa nova pers-
pectiva societária do ponto de vista da reorganização social.
Entretanto, não podemos deixar de compreender a construção
do Desenvolvimento Sustentável como um mecanismo eficaz
no processo de construção de uma ordem ecológica dentro da
ordem econômica mundial. Os dois objetivos centrais desse
projeto são, portanto: a) a legitimação da ordem ecológica
mundial, que implica uma divisão internacional ecológica e
b) o estabelecimento de políticas de gestão e controle dos
recursos naturais planetários por parte do centro do Capita-
lismo mundial.
Os embaraços teóricos e metodológicos que o concei-
to de Desenvolvimento Sustentável vem enfrentado, as varia-
ções conceituais, talvez se expliquem não porque se trate de
um conceito em construção como vem sendo dito, mas, parti-
cularmente, pela impossibilidade de inexistência concreta
desse novo modelo de desenvolvimento global. Se este não
pode efetivamente existir, existe, enquanto tal, se o que existe
é apenas um discurso que dá suporte ao desenvolvimento
econômico, no que se refere aos recursos naturais renováveis,
e não renováveis é evidente que não há como encontrar coe-
rência teórica nem metodológica numa proposta que se afir-
ma apenas enquanto uma política de gestão de recursos natu-
rais.
Vários cientistas, de diversas áreas do conhecimento,
buscaram entender e explicar, do ponto de vista teórico, o que
viria a ser o Desenvolvimento Sustentável. É possível dispor
as concepções desses autores em dois segmentos. No primei-
ro deles incluem-se os que têm por base o conceito oficial,
apresentado pelo Relatório Brundtland, e tentam, de várias
maneiras, dar-lhes plausibilidade teórica, quer seja redefinido
ou ampliando os seus significados. Noutro segmento, vão ser
encontrados àqueles que edificam suas análises sob a base de
uma concepção crítica do conceito. Na verdade, este grupo
não considera o modelo de Desenvolvimento Sustentável
como um novo modelo de desenvolvimento, como se faz
crer. Suas análises se preocupam, principalmente, em enten-
der os arranjos ideológicos e políticos e as relações de poder
que orientam o discurso do Desenvolvimento Sustentável no
contexto da nova ordem econômica mundial. O quadro abai-
xo exemplifica as duas principais concepções que orientam o
debate acadêmico sobre o conceito de Desenvolvimento Sus-
tentável.
QUADRO 1
EXEMPLO DE VARIAÇÕES EM TORNO DO CON-
CEITO ORIGINAL DE DESENVOLVIMENTO SUS-
TENTÁVEL E ALGUMAS PERSPECTIVAS CRÍTICAS

DESDOBRAMENTO 1
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DEVE SER
DEFINIDO LEVANDO EM CONTA AS SEGUINTES ME-
TAS E OBJETIVOS BÁSICOS: A TAXA DE CONSUMO
DE RECURSOS RENOVÁVEIS NÃO DEVE ULTRAPAS-
SAR A CAPACIDADE DE RENOVAÇÃO DOS MESMOS;
A QUANTIDADE DE REJEITOS PRODUZIDOS NÃO
DEVE ULTRAPASSAR A CAPACIDADE DE ABSOR-
ÇÃO DOS ECOSSISTEMAS; RECURSOS NÃO RENO-
VÁVEIS DEVEM SER UTILIZADOS SOMENTE SE PU-
DEREM SER SUBSTITUÍDOS POR UM RECURSO
EQUIVALENTE RENOVÁVEL (FENZL, 1998);
PERSPECTIVA 1
NÃO HÁ LITERALMENTE NENHUMA EXPERIÊNCIA
DE ECONOMIA INDUSTRIAL AMBIENTALMENTE
SUSTENTÁVEL, EM QUALQUER LUGAR NO MUNDO,
ONDE TAL SUSTENTABILIDADE SE ATRIBUA A UM
ESTOQUE DE CAPITAL AMBIENTAL INEXAURÍVEL.
É, PORTANTO, EVIDENTE, DE MODO IMEDIATO QUE,
COM BASE NA EXPERIÊNCIA PASSADA APENAS, O
TERMO “DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL” NÃO
PASSA DE ALGO MAIS QUE UM OXÍMORO (EKINS;
MAX-NEEF, 1992, p. 412);
DESDOBRAMENTO 2
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL É AQUI DE-
FINIDO COMO UM PADRÃO DE TRANSFORMAÇÕES
ECONÔMICAS ESTRUTURAIS E SOCIAIS (I.E., DE-
SENVOLVIMENTO) QUE OTIMIZAM OS BENEFÍCIOS
SOCIETAIS E ECONÔMICOS DISPONÍVEIS NO PRE-
SENTE, SEM DESTRUIR O POTENCIAL DE BENEFÍ-
CIOS SIMILARES NO FUTURO (GOODLAND E LEDOC,
1987, p. 38);

PERSPECTIVA 2
A INTERPRETAÇÃO DOMINANTE (....) VÊ O “DESEN-
VOLVIMENTO SUSTENTÁVEL” COMO UM CONVITE
A MANTER O “DESENVOLVIMENTO” – ISTO É, O
CRESCIMENTO ECONÔMICO. O “DESENVOLVIMEN-
TO”, JÁ UNIVERSAL E INEXORÁVEL, DEVE SE TOR-
NAR ETERNO. (....) O DESENVOLVIMENTO SUSTEN-
TÁVEL, ENTÃO, SIGNIFICA QUE O “DESENVOLVI-
MENTO” DEVE AVANÇAR NUM RITMO O MAIS
“SUSTENTÁVEL” POSSÍVEL ATÉ QUE ELE SE TORNE
IRREVERSÍVEL. (....) O “DESENVOLVIMENTO SUS-
TENTÁVEL” APARECE COMO UMA OPERAÇÃO DE
ENCOBRIMENTO: ELE ACALMA OS MEDOS PROVO-
CADOS PELOS EFEITOS DO CRESCIMENTO ECONÔ-
MICO, DE MODO QUE QUALQUER MUDANÇA RADI-
CAL PODE SER EVITADA. (...) O QUE DEVE SER RE-
ALMENTE SUSTENTADO É O “DESENVOLVIMENTO”,
NÃO A CAPACIDADE DE TOLERÂNCIA DO ECOSSIS-
TEMA DAS SOCIEDADES HUMANAS. (....) UM ÚLTI-
MO PONTO RESTA AINDA A CONSIDERAR. SE O
“DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL É SOMENTE
UM CAMINHO PARA DAR ACEITABILIDADE A AL-
GUMAS PRÁTICAS ATÉ MAIS QUESTIONÁVEIS, TU-
DO MUDARIA COMO UM RESULTADO DO ATENDI-
MENTO DE LIMITAÇÕES AMBIENTAIS? A RESPOSTA
NÃO É TÃO FÁCIL, PORQUE É IMPOSSÍVEL ELIMI-
NAR AS QUESTÕES RELATIVAS AO PODER QUE DE-
TERMINAM AS PRÁTICAS DO MUNDO REAL (RIST,
1997 : 193-194);

DESDOBRAMENTO 3
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL SIGNIFICA
ALCANÇAR SATISFAÇÃO CONSTANTE DAS NECES-
SIDADES HUMANAS E A MELHORIA DA QUALIDADE
DA VIDA HUMANA (ALLEN, R., 1980);

PERSPECTIVA 3
O PARADIGMA DO DESENVOLVIMENTO SUSTEN-
TÁVEL É BASEADO NUMA RACIONALIDADE ECO-
NÔMICA E NÃO ECOLÓGICA. AS PRINCIPAIS SUPO-
SIÇÕES DO PARADIGMA ECONÔMICO NEOCLÁSSI-
CO PERMANECEM INTOCADAS E O CRESCIMENTO
ECONÔMICO PERMANECE INQUESTIONÁVEL, SEN-
DO CONSIDERADO UM CRESCIMENTO SUSTENTA-
DO. PRIORIDADES AMBIENTAIS DIFEREM EM DIFE-
RENTES REGIÕES. AS COMUNIDADES RURAIS PO-
BRES DEPENDEM DIRETAMENTE DO MEIO AMBIEN-
TE BIOFÍSICO PARA SOBREVIVER E AS NOÇÕES DE
CONSERVAÇÃO E PROTEÇÃO QUE SÃO COMUNS EM
PAÍSES DESENVOLVIDOS SÃO CONTESTÁVEIS EM
PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO. ENQUANTO A PO-
BREZA É CITADA COMO CAUSA DA DEGRADAÇÃO
AMBIENTAL, O PAPEL DO DESENVOLVIMENTO EM
RESTRINGIR O ACESSO AOS RECURSOS NATURAIS
PARA AS POPULAÇÕES RURAIS NÃO É DISCUTIDO.
O ESVERDEAMENTO DA INDÚSTRIA EM PAÍSES DE-
SENVOLVIDOS TEM SIDO ALCANÇADO ÀS CUSTAS
DO MEIO AMBIENTE DO TERCEIRO MUNDO, ATRA-
VÉS DA REALOCAÇÃO DE INDÚSTRIAS POLUENTES
NOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO (BANERJEE,
2000);

DESDOBRAMENTO 4
O DESENVOLVIMENTO AUTÊNTICO É SUSTENTÁ-
VEL? O ÚNICO TIPO DE DESENVOLVIMENTO QUE É
SUSTENTÁVEL É O DESENVOLVIMENTO AUTÊNTI-
CO. CONTUDO, O DESENVOLVIMENTO AUTÊNTICO
É MONUMENTALMENTE DIFÍCIL: É DIFÍCIL DE DE-
SEJAR, DE IMPLEMENTAR E DE MANTER. O ENSAÍS-
TA INGLÊS G. K. CHESTERTON, COM PERVERSIDA-
DE, OBSERVOU CERTA VEZ QUE “O IDEAL CRISTÃO
NÃO FOI TENTADO, TENDO APRESENTADO DEFEI-
TO. ELE TEM SIDO CONSIDERADO DIFÍCIL; E ABAN-
DONADO SEM SE EXPERIMENTAR”. O DESENVOL-
VIMENTO AUTÊNTICO SUSTENTÁVEL PODE
IGUALMENTE PERMANECER SEM EXPERIMENTAR-
SE, POR SER CONSIDERADO MUITO DIFÍCIL.

PERSPECTIVA 4
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, APESAR DE
RELATIVAMENTE RECENTE, NUM ÁTIMO TORNOU-
SE PANACÉIA E SLOGAN INEVITÁVEL DA “SABEDO-
RIA CONVENCIONAL”. DESBANCOU, NAS DISCUS-
SÕES ACADÊMICAS E DOS FORMULADORES DA PO-
LÍTICA DESENVOLVIMENTISTA, O CHARME QUE A
CONTROVÉRSIA CRESCIMENTO ECONÔMICO EQUI-
LIBRADO VERSUS DESEQUILIBRADO EXERCIA. HÁ
QUEM O CONSIDERE O “SÍMBOLO DE UM CONSEN-
SO IDEAL”. OU, AO ARREPIO DAS IDÉIAS SEMINAIS
DE KUHN, O “NOVO PARADIGMA DO DESENVOLVI-
MENTO”. (....) HÁ PLANOS DE DESENVOLVIMENTO
REGIONAL E PROGRAMAS DE GOVERNO ESTADU-
AIS QUE O MENCIONAM VAGA, CONTRADITÓRIA E
ALEATORIAMENTE. OUTROS, DE FORMA CONFLI-
TUOSA COM VÁRIAS DAS DIRETRIZES E DOS OBJE-
TIVOS PRIORITÁRIOS CONJUNTAMENTE COLIMA-
DOS, PRÓDIGOS EM ELEGÊ-LO PARÂMETRO DE IN-
TENÇÕES, MAIS SOMÍTICOS QUANTO ÀS FORMAS
EFETIVAS DE OPERACIONALIZÁ-LO MACRORREGI-
ONALMENTE. POR CONSTITUIR CHAVÃO OBRIGA-
TÓRIO DO EM VOGA “POLITICAMENTE CORRETO”,
TEM SIDO, NO QUE TANGE À AMAZÔNIA BRASILEI-
RA, USADO À LARGA (COSTA, 1997, p. 81-82);
DESDOBRAMENTO 5
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ENVOLVE
UMA RECONSTRUÇÃO DA PRESENTE PARTE INDUS-
TRIAL DA SOCIEDADE GLOBAL, E UMA INDUSTRIA-
LIZAÇÃO (COM UMA NOVA RACIONALIDADE) DA
PARTE NÃO-INDUSTRIALIZADA DO MUNDO. ESTA
RECONSTRUÇÃO É DIFÍCIL E EXIGE O MELHOR DO
SABER. ELA DEVE BASEAR-SE NA CIÊNCIA, E TAL
CIÊNCIA DEVE SER BOA CIÊNCIA (ERIKSSON, 1997,
p. 100-101);

PERSPECTIVA 5
MESMO QUE A IDÉIA DE DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL PASSE A PREDOMINAR SOBRE A DE
DESENVOLVIMENTO, NO DISCURSO INTERNACIO-
NAL, É POUCO PROVÁVEL QUE ELA SIRVA A UM
OBJETO DE APROXIMAÇÃO DE POSIÇÕES ENTRE O
MUNDO DESENVOLVIDO E O MUNDO EM DESEN-
VOLVIMENTO. AO CONTRÁRIO, A PRÓPRIA PERS-
PECTIVA DA SUSTENTABILIDADE DO DESENVOL-
VIMENTO, EM TERMOS GLOBAIS, PROVAVELMENTE
VARIARÁ ENTRE PAÍSES DESENVOLVIDOS E EM
DESENVOLVIMENTO. OS PAÍSES DESENVOLVIDOS,
DE UMA FORMA GERAL, TENDEM A VER O DESEN-
VOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO ALGO NECES-
SÁRIO SOBRETUDO EM PAÍSES EM DESENVOLVI-
MENTO, PREOCUPADOS QUE ESTÃO COM SEU PO-
TENCIAL DE CRESCIMENTO E A CONSEQÜENTE
PRESSÃO SOBRE OS RECURSOS DO PLANETA. O DE-
SENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NÃO EXIGIRIA A
SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO, MAS
APENAS A ADOÇÃO DE COMPROMISSOS ADICIO-
NAIS PELOS PAÍSES DO TERCEIRO MUNDO QUANTO
A SUAS FORMAS DE DESENVOLVIMENTO. O DE-
SENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NÃO IMPLICARIA
QUE OS PAÍSES POBRES DEIXASSEM DE SER PO-
BRES, MAS APENAS QUE PASSASSEM A UTILIZAR
SEUS RECURSOS DE MANEIRA MAIS RESPONSÁVEL.
O PONTO DE PARTIDA PARA SUA CRÍTICA NÃO SE-
RIA, PORTANTO, O SUBDESENVOLVIMENTO, MAS O
MAU DESENVOLVIMENTO. OS PAÍSES EM DESEN-
VOLVIMENTO, AO CONTRÁRIO, PARTEM DA CONS-
TATAÇÃO DE QUE, NO PLANO INTERNACIONAL,
ENTRE OUTROS ASPECTOS, NÃO PODE SER SUS-
TENTÁVEL UM DESENVOLVIMENTO QUE IMPLIQUE
A MANUTENÇÃO DE GRANDE DESIGUALDADE NA
DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS DO PLANETA. ALÉM
DISSO, CRÊEM NÃO SER SUSTENTÁVEL HOJE SO-
BRETUDO O DESENVOLVIMENTO DOS PAÍSES DE-
SENVOLVIDOS, QUE SÃO OS QUE CONSOMEM A
MAIOR PARTE DOS RECURSOS GLOBAIS. NÃO SE-
RIA, ADEMAIS, POSSÍVEL FALAR EM DESENVOLVI-
MENTO SUSTENTÁVEL ONDE HÁ AUSÊNCIA DE DE-
SENVOLVIMENTO E A REALIDADE DOMINANTE É A
DO SUBDESENVOLVIMENTO, QUE IMPLICA MISÉ-
RIA, FOME, PROBLEMAS BÁSICOS DE NUTRIÇÃO E
DE SAÚDE, DE SANEAMENTO, DE EDUCAÇÃO, DE
MORADIA, DE MARGINALIDADE URBANA, DE EX-
CLUSÃO DE GRANDE NÚMERO DE CRIANÇAS E JO-
VENS DOS PROCESSOS SOCIAIS, CUJO IMPACTO
NEGATIVO SOBRE O FUTURO É INEGÁVEL. O DE-
SENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, EM PAÍSES EM
DESENVOLVIMENTO, TERIA QUE PRESSUPOR, POR-
TANTO, A SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO
(ALMINO, 1993, p. 89);

DESDOBRAMENTO 6
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NÃO É APE-
NAS UMA PREOCUPAÇÃO DA IMPLEMENTAÇÃO DE
MEDIDAS DE POLÍTICA AMBIENTAL ADEQUADAS.
SEU PRÉ-REQUISITO É UM SISTEMA POLÍTICO E
ECONÔMICO ESTÁVEL QUE PERMITA A PARTICIPA-
ÇÃO DE TODA A SOCIEDADE (PROOPS ET AL., 1997, p.
111);
PERSPECTIVA 6
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL RECOMPILA
A HISTÓRIA, TÃO SECTORIZADA, INDEPENDENTE E
MAL CONTADA, PARA INTEGRÁ-LA NUMA SÓ; NA
HISTÓRIA DO CONHECIMENTO HUMANO DESEN-
VOLVIDA NOS CAMPOS DA POLÍTICA, DA ECONO-
MIA, DO SOCIOCULTURAL, E DAS RELAÇÕES HU-
MANAS COM A NATUREZA (NEGRET, 1994, p. 15);

DESDOBRAMENTO 7
PARA QUALQUER FORMA DE DESENVOLVIMENTO
SER SUSTENTÁVEL, O CRESCIMENTO DA POPULA-
ÇÃO NA ÁREA ENVOLVIDA, TANTO PELA REPRO-
DUÇÃO COMO PELA MIGRAÇÃO, DEVE PERMANE-
CER DENTRO DOS LIMITES DA CAPACIDADE DE SU-
PORTE, A QUAL, CONQUANTO NÃO FIXA, TAMBÉM
NÃO É LIVRE PARA AUMENTAR AO BEL-PRAZER DE
NINGUÉM. NÃO EXISTE “DESENVOLVIMENTO SUS-
TENTÁVEL” PARA UM NÚMERO INFINITO DE PES-
SOAS (FEARNSIDE, 1997, p. 314);

PERSPECTIVA 7
É IMPORTANTE EVITAR QUE O DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL FAVOREÇA O CONGELAMENTO NÃO
APENAS DAS ATUAIS DISPARIDADES DE DESEN-
VOLVIMENTO, MAS TAMBÉM DA ATUAL DISTRI-
BUIÇÃO MUNDIAL DE POLUIÇÃO. AO IMPEDIR-SE O
ACRÉSCIMO DO NÍVEL GLOBAL DE POLUIÇÃO POR
PARTE DE PAÍSES QUE DESEMPENHAM UM PAPEL
SECUNDÁRIO NOS EFEITOS GLOBAIS, SEM QUE, AO
MESMO TEMPO, OS PRINCIPAIS POLUIDORES GLO-
BAIS, APESAR DAS MEDIDAS ECOLÓGICAS QUE
ADOTAM, REDUZAM DRASTICAMENTE SUA PRÓ-
PRIA CONTRIBUIÇÃO, ESTAR-SE-IA PARTINDO IM-
PLICITAMENTE DO PRESSUPOSTO DE QUE OS PO-
LUIDORES GLOBAIS TÊM DIREITO A MANTER SUAS
ATUAIS “QUOTAS” DE POLUIÇÃO DA TERRA (ALMI-
NO, 1993, p. 83);

DESDOBRAMENTO 8
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL QUER DIZER
UM DESENVOLVIMENTO COM EFICIÊNCIA ECONÔ-
MICA, PRUDÊNCIA ECOLÓGICA E JUSTIÇA SOCIAL.
(....) ATRÁS DO TRIPÉ DO DESENVOLVIMENTO SUS-
TENTÁVEL APARECEM AS TRÊS DIMENSÕES QUE
NENHUM PROJETO DE UM DESENVOLVIMENTO
EQUILIBRADO DA SOCIEDADE GLOBAL PODE NE-
GAR. TRATA-SE: A) DA DIMENSÃO DO CÁLCULO
ECONÔMICO; B) DA DIMENSÃO BIOFÍSICA; C) DA
DIMENSÃO SÓCIO-POLÍTICA (BRÜSEKE, 1996, p. 115);

PERSPECTIVA 8
O CONCEITO DE “DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁ-
VEL” PODE SE TORNAR OPERACIONAL NÃO APE-
NAS POR UMA MELHOR ECONOMIA, BOAS TECNO-
LOGIAS OU A INCLUSÃO DE PREOCUPAÇÕES AMBI-
ENTAIS NOS PROJETOS DE INVESTIMENTO; SEU
VERDADEIRO SIGNIFICADO SERÁ DERIVADO SO-
MENTE DOS ESFORÇOS SISTEMÁTICOS PARA CONS-
TRUIR UMA SOCIEDADE MAIS ESTÁVEL, RACIONAL
E HARMÔNICA, BASEADA EM PRINCÍPIOS DE
IGUALDADE E JUSTIÇA NOS RELACIONAMENTOS
ENTRE OS HOMENS, EM CADA SOCIEDADE EM NÍ-
VEL GLOBAL (RATTNER, 1999 : 105);

DESDOBRAMENTO 9
O DESENVOLVIMENTO BASEADO NO USO PRODU-
TIVO DE RECURSOS NATURAIS PARA O CRESCI-
MENTO ECONÔMICO E FORTALECIMENTO DOS
MEIOS DE VIDA, QUE CONSERVA SIMULTANEA-
MENTE A DIVERSIDADE BIOLÓGICA E SOCIAL QUE
CONSTITUEM PARTE INTEGRANTE DESTE PROCES-
SO (HALL, 1997 : 273);
DESDOBRAMENTO 10
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL CONSTITUI A
FACE TERRITORIAL DA NOVA FORMA DE PRODU-
ZIR, A VERSÃO CONTEMPORÂNEA DA TEORIA E
DOS MODELOS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL
(BECKER, 1994);

DESDOBRAMENTO 11
ALCANÇAR UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
NÃO É APENAS UMA PREOCUPAÇÃO DA IMPLE-
MENTAÇÃO DE MEDIDAS DE POLÍTICA AMBIENTAL
ADEQUADAS. SEU PRÉ-REQUISITO É UM SISTEMA
POLÍTICO E ECONÔMICO ESTÁVEL QUE PERMITA A
PARTICIPAÇÃO DE TODA A SOCIEDADE. UMA POLÍ-
TICA QUE “MUDA AS REGRAS DO JOGO” COM MUI-
TA FREQÜÊNCIA É UM ENTRAVE AO DESENVOLVI-
MENTO SOCIAL E ECONÔMICO (PROOPS, 1997, p.
111);

DESDOBRAMENTO 12
O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, COMO FOI
APONTADO NA AGENDA 21, REQUER TANTO UM
EQUILÍBRIO SOCIAL QUANTO AMBIENTAL. O ESPA-
ÇO AMBIENTAL PER CAPITA, PORTANTO, DEVE SER
IGUAL PARA QUALQUER PESSOA. A DISTRIBUIÇÃO
EQÜITATIVA DA QUANTIDADE FÍSICA DE RECUR-
SOS DO PLANETA DETERMINA O LIMITE SUPERIOR
OU O TETO DO ESPAÇO AMBIENTAL, QUE É MEDIDO
COM BASE NO CONSUMO DE RECURSOS PER CAPI-
TA. O LIMITE INFERIOR, OU O PISO, É DEFINIDO CO-
MO A QUANTIDADE MÍNIMA DE USO DE RECURSOS
PER CAPITA QUE SÃO NECESSÁRIOS PARA UMA VI-
DA DIGNA. O PRINCÍPIO DE EQÜIDADE DEFINE,
DESTA FORMA, UMA ESPÉCIE DE DIREITO HUMANO
AO USO DOS RECURSOS GLOBAIS QUE SÃO PATRI-
MÔNIO COMUM DA HUMANIDADE, SENDO PARTE
CONSTITUTIVA DA DEFINIÇÃO DE ESPAÇO AMBI-
ENTAL (ACSELRAD; LEROY, 1999, p. 18);

DESDOBRAMENTO 13
“...DESDE LOGO, O DESENVOLVIMENTO SUSTEN-
TÁVEL ASSUME IMPORTÂNCIA NO PRÓPRIO MO-
MENTO EM QUE OS CENTROS DE PODER MUNDIAL
DECLARAM A FALÊNCIA DO ESTADO COMO FORÇA
MOTRIZ DO DESENVOLVIMENTO E PROPÕEM SUA
SUBSTITUIÇÃO PELO MERCADO, ENQUANTO DE-
CLARAM TAMBÉM A FALÊNCIA DO PLANEJAMEN-
TO GOVERNAMENTAL. AO REVISAR-SE ATENTA-
MENTE OS COMPONENTES BÁSICOS DA SUSTENTA-
BILIDADE DO DESENVOLVIMENTO – ISTO É, A MA-
NUTENÇÃO DO ESTOQUE DOS RECURSOS E DA
QUALIDADE AMBIENTAL PARA SATISFAZER AS
NECESSIDADES BÁSICAS DAS ATUAIS E FUTURAS
GERAÇÕES – CONSTATA-SE, TAMBÉM, QUE ESSA
SUSTENTABILIDADE REQUER PRECISAMENTE UM
MERCADO REGULADO E UM HORIZONTE A LONGO
PRAZO PARA AS DECISÕES PÚBLICAS. ENTRE OU-
TROS MOTIVOS, PORQUE ATORES E VARIÁVEIS
COMO “GERAÇÕES FUTURAS” OU “LONGO PRAZO”
SÃO ESTRANHAS AO MERCADO, CUJOS SINAIS
CORRESPONDEM À ÓTIMA ATRIBUIÇÃO DE RECUR-
SOS EM CURTO PRAZO. O MESMO SE APLICA, COM
MAIOR RAZÃO, AO TIPO ESPECÍFICO DE ESCASSEZ
ATUAL. SE A ESCASSEZ DE RECURSOS NATURAIS
PODE, AINDA QUE DE MODO IMPERFEITO, SER
IDENTIFICADA NO MERCADO, ELEMENTOS COMO O
EQUILÍBRIO CLIMÁTICO, A CAMADA DE OZÔNIO, A
BIODIVERSIDADE OU A CAPACIDADE DE RECUPE-
RAÇÃO DO ECOSSISTEMA, TRANSCENDEM À AÇÃO
DO MERCADO...” (GUIMARÃES, 1997, p. 58).
É preciso entender que as abordagens sobre meio am-
biente não são moldadas pelas visões ecocêntricas, como pre-
tendem alguns cientistas e correntes ambientalistas. Nos ar-
ranjos que orientam a sociedade moderna, não há evidência
de que se adote uma preocupação legítima com a natureza
como princípio para organizar a sociedade, como o próprio
conceito de Desenvolvimento Sustentável tende a induzir. É
por meio da racionalidade econômica, que inclui o controle
do crescimento populacional e a poupança dos recursos natu-
rais, por parte de alguns grupos sociais, que são sistematiza-
das e direcionadas as políticas e as ações ambientais, sempre
do ponto de vista do valor utilitário da natureza. Neste senti-
do, Banerjee (2000) afirma:

O paradigma do desenvolvimento sustentável é base-


ado numa racionalidade econômica e não ecológica.
As principais suposições do paradigma econômico
neoclássico permanecem intocadas e o crescimento
econômico permanece inquestionável, sendo conside-
rado um crescimento sustentado. Prioridades ambien-
tais diferem em diferentes regiões. As comunidades
rurais pobres dependem diretamente do meio ambien-
te biofísico para sobreviver e as noções de conserva-
ção e proteção que são comuns em países desenvolvi-
dos são contestáveis em países em desenvolvimento.
Enquanto a pobreza é citada como causa da degrada-
ção ambiental, o papel do desenvolvimento em res-
tringir o acesso aos recursos naturais para as popu-
lações rurais não é discutido. O Esverdeamento da
indústria em países desenvolvidos tem sido alcançado
às custas do meio ambiente do terceiro mundo, atra-
vés da realocação de indústrias poluentes nos países
em desenvolvimento (BANERJEE, 2000).

Ainda em referência aos sentidos em que o conceito


de Desenvolvimento Sustentável é usado, notamos que este,
como o elemento chave de um discurso que articula símbolos
e significados diversos, tem sido aplicado de forma a substi-
tuir conceitos e visões anteriores, que tinham como preocu-
pação principal a reflexão sobre o crescimento econômico,
sendo, por isso mesmo, muito mais atacáveis do que um mo-
delo que anuncia a preocupação com a “salvação do planeta,
do ecossistema mundial.29

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
COMO GESTÃO DE RECURSOS NA-
TURAIS
O modelo de Desenvolvimento Sustentável, na práti-
ca, sempre se expressou como um projeto internacional de
gestão de recursos naturais das áreas ecológicas mais impor-
tantes do planeta. Isto tem sido possível pelo estabelecimen-
to, por meio de mecanismos diversos, de um discurso consen-
sual, que tem como conseqüência a construção da plausibili-
dade da idéia segundo a qual haveria interesses comuns entre
países propositores e receptores das políticas ambientais glo-
bais, salvo nas áreas ricas em petróleo que são comandadas
pelos mecanismos de poder e pressão internacional, incluindo
a guerra.
É através da aceitação e implementação de uma Divi-
são Ecológica Internacional – DEI, efetivada, inclusive, pela
construção da idéia de risco iminente que pairaria sobre o
ecossistema planetário e pela proposta do modelo de Desen-
volvimento Sustentável, que se torna possível a gestão inter-
nacionalizada e a apropriação dos recursos ambientais das
áreas definidas como de “interesse planetário”. É neste senti-
do que, embora sejam grandes as cobranças de modelos de

29
Costa (1997) comenta a maneira pela qual o conceito de Desenvolvimento Sustentável
se constitui numa abordagem mais “politicamente correta” do que as anteriores: “O Desen-
volvimento Sustentável, apesar de relativamente recente, num átimo tornou-se panacéia e
slogan inevitável da “sabedoria convencional”. Desbancou, nas discussões acadêmicas e
dos formuladores da política desenvolvimentista, o charme que a controvérsia crescimento
econômico equilibrado versus desequilibrado exercia. Há quem considere o símbolo de um
consenso ideal. Ou ao arrepio das idéias seminais de Kuhn, o “novo paradigma do desen-
volvimento”. (....) Há planos de desenvolvimento regional e programas de governo estadu-
ais que o mencionam vaga, contraditória e aleatoriamente. Outros, de forma conflituosa,
com várias das diretrizes e dos objetivos prioritários conjuntamente colimados, pródigos em
elegê-lo parâmetro de intenções, mais somíticos quanto às formas efetivas de operacionali-
zá-lo macrorregionalmente. Por constituir chavão obrigatório em voga, “politicamente
correto”, tem sido, no que tange à Amazônia brasileira, usado à larga” (COSTA, 1997, p.
81-82).
Desenvolvimento Sustentável para espaços urbanos, a produ-
ção nessa área não tem prosperado.30
Graças ao conjunto de metáforas da “unidade da espé-
cie” e da inclusão de todos, articuladas no conceito de De-
senvolvimento Sustentável, são superadas as fronteiras naci-
onais e as possíveis barreiras legais que porventura possam
existir para implementar os projetos ambientais que se abri-
gam no referido modelo de desenvolvimento e no mais signi-
ficativo plano de ação ecológica global, a Agenda Global
21.31
No nosso entender, construído pela análise das evi-
dências empíricas, vigora, em áreas ecológicas, uma nova
dinâmica que tem como base o controle e gestão dos recursos
naturais dos grandes nichos ecológicos. Essa dinâmica de
gestão, monitoramento e controle dos referidos recursos é
reconhecida como ação capaz de produzir um Desenvolvi-
mento Sustentável, o que facilita sua implementação sem
qualquer questionamento sobre seus objetivos e finalidades
como políticas ambientais globais.
Esse movimento, que do ponto de vista teórico apare-
ce como se se opusesse ao modelo de desenvolvimento eco-

30
Uma iniciativa da ONU, que visa implementar o Desenvolvimento Sustentável em 13
cidades do mundo, termina se voltando para o controle e gestão de recursos naturais em
áreas não urbanas. No Brasil, a cidade contemplada foi Santos, no Estado de São Paulo. A
denominada Agenda 21 local que foi implementada naquela cidade entre 1994-1996 teve
seus projetos voltados, em particular, para áreas de reservas florestais e manguesais. Isto
demonstra que esse modelo de desenvolvimento, nos países do Sul, mesmo quando procura
responder aos desafios urbanos, sempre se aproxima de processo de gestão de recursos
naturais.
31
Segundo Viola (1997), a produção da Agenda 21 resultou de um grande esforço de nego-
ciação internacional para a geração de um consenso normativo e um programa de certa
operacionalidade para a humanidade com relação ao desenvolvimento sustentável. Segundo
Barbieri (2000), a Agenda 21, transformada em Programa 21 pela ONU, é um plano de ação
para alcançar os objetivos do desenvolvimento sustentável. Ela é uma espécie de consolida-
ção de diversos relatórios, tratados, protocolos e outros documentos elaborados durante
décadas na esfera da ONU (Assembléia Geral, FAO, PNUMA, UNESCO). Princípios,
conceitos e recomendações expressos no relatório da Comissão Brundtand, nas estratégias
de conservação da UICN, WWF, PNUMA de 1980, nas estratégias do Caring for the Earth,
nos documentos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, por exemplo,
podem ser reconhecidos no texto da Agenda. A Agenda 21 inclui os temas tratados na
Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, nas convenções
sobre Biodiversidade e sobre Mudanças do Clima, bem como a Declaração de Princípios
sobre Florestas. As recomendações nas áreas da ciência contidas na Agenda 21 são resultado
da conferência internacional realizada em Viena, denominada de Agenda da Ciência para o
Meio Ambiente e o Desenvolvimento do século 21 (Agenda Global 21 e BARBIERI, 2000,
p. 58).
nômico dominante, no nosso entender, funciona como um
processo subsidiário ao projeto de desenvolvimento econô-
mico global. Não há, portanto, um desenvolvimento dando
lugar ao outro. O que existe, efetivamente, são atividades de
complementaridade entre o desenvolvimento econômico e o
que é chamado de modelo de Desenvolvimento Sustentável,
sendo as experiências de aplicação deste funcionais àquele.
No caso do Brasil, o Ministério do Meio Ambiente
funciona como a maior expressão institucional receptora des-
sas políticas. É claro que ele tem a anuência política do go-
verno brasileiro e do Congresso Nacional, fórum privilegiado
para aprovação dos acordos e convênios entre governos e
instituições internacionais. Os Institutos de Pesquisas e Insti-
tuições Universitárias também desempenham funções impor-
tantes no aval aos projetos ambientais globais implementados
no Brasil.
Diante do problema da escassez dos recursos e da ne-
cessidade de manter a ordem econômica em vigência, é ne-
cessário que se construa, tal como está previsto na Agenda
21, uma rede científica e política para fomentar o debate so-
bre a necessidade de estabelecer normas, valores e práticas
sociais com o fito de evitar, segundo aquele documento, as
previsíveis catástrofes ecológicas previstas.
No plano político, depois da própria mobilização dos
governos de todas as nações modernas, incluindo aí as pobres
e as ricas, e as principais organizações internacionais, quem
vai desempenhar papel fundamental neste contexto são as
ONGs32, na medida em que não apenas se envolvem no ge-

32
As Organizações não Governamentais – ONGs são instituições híbridas que se formam,
em geral, a partir de interesses de grupos e o de indivíduos que estão ou tiveram vinculados
a uma instituição de pesquisa ou de assessoria, principalmente as Universidades. No caso
das entidades que tratam dos problemas ambientais, aquele antigo pesquisador vinculado a
uma Universidade, que desenvolvia suas pesquisas num dado espaço e, por conseguinte,
com uma dada comunidade, funda ou assessora a criação de uma ONG e transforma-se em
seu coordenador ou assessor. Aquela área transforma-se em área de reservas e, por conse-
guinte, a comunidade passa a ser assistida pela nova entidade, o que vai assegurar a essa
ONG seu poder de interlocução. Inclusive são elas que falam e orientam os projetos a partir
das políticas ambientais globais, em nome das comunidades e das entidades tradicionais,
como sindicatos de trabalhadores, associações de produtores, caixas agrícolas, as quais
funcionam também como espaços de ressonância da primeira. Do ponto de vista dos aspec-
tos legais, essas entidades estão submetidas a poucas exigências. Embora sejam exigidos
delas estatutos e cadastramento, como elas não se vinculam ou não representam um grupo
renciamento direto dos recursos, como também são reprodu-
toras do projeto ecológico em curso, tanto no meio dos mo-
vimentos sociais, quanto entre as comunidades locais, estabe-
lecendo uma fala “competente” em defesa dos problemas
ambientais. Às vezes, a defesa do meio ambiente surge em
contraposição às relações de trabalhos desenvolvidas pelas
referidas comunidades. Nas áreas de proteção ambiental, con-
flitos nesse nível são recorrentes. Em alguns casos, em que os
gerentes dos projetos têm pouca sensibilidade social, chega-
se a situações extremadas, nas quais os conflitos terminam
nos tribunais.
As ONGs, são fundamentais na implementação das
políticas ambientais, desempenhando os papéis de mediado-
ras, fazendo parte da estrutura gerencial das referidas políti-
cas e veiculando o conjunto das idéias ecológicas, no sentido
de disseminar um discurso que, geralmente, é construído em
espaços exógenos aos contextos nos quais os projetos de De-
senvolvimento Sustentável são implementados. O esverdea-
mento da Amazônia vem se dando, principalmente, a partir da
colaboração de organizações não governamentais, que, arti-
culadas com um conjunto de instituições regionais, nacionais
e internacionais, contribuíram para tecer o discurso ecológico
ora hegemônico, visando à Gestão dos Recursos Naturais,
sob a guarda do conceito de Desenvolvimento Sustentável.
A construção do discurso ambientalista sobre Amazô-
nia talvez seja, neste momento, o projeto mais importante no
âmbito das políticas ambientais globais. Por meio da recepti-
vidade e da integração de falas das instituições internacionais
e nacionais, pode-se “transformar” a região em área ecológica
de “interesse global” (confirmando um dos pontos da propos-
ta da Divisão Ecológica Internacional). Essa fala, que estabe-
lece uma reconfiguração da região, se reproduz, com efeito
multiplicador, sobre a prática social dos vários segmentos
sociais da Amazônia, dando as condições para uma nova
Agenda (ecológica) Amazônica.

social homogêneo, não há controle da entidade por parte das comunidades assistidas. As
referidas ONGs têm obrigação, geralmente, com os órgãos financiadores dos seus projetos.
A forma privilegiada para a hegemonização do discur-
so a respeito da internacionalização da Amazônia é a consti-
tuição de uma rede de relações institucionais para a execução
de projetos de aplicação do modelo de Desenvolvimento Sus-
tentável, incluindo desde instituições internacionais, como o
BIRD, a ONU, a Comunidade Européia, o Grupo dos 7, pas-
sando por associações, sindicatos de pequenos produtores
rurais e entidades indígenas, cooperativas e associações de
pescadores, associações de coletores e extratores, reservas
extrativistas, federações, associações de classes, Universida-
des e outros tipos de ONGs.
As entidades envolvidas no projeto de Apoio ao Ma-
nejo Florestal Integrado e Sustentável de Florestas Naturais
na Amazônia, vinculado ao PPG7 por meio do Subprograma
denominado de Unidades de Conservação e Gestão de Recur-
sos Naturais, dão a dimensão das interações que se formam
em torno das políticas de Gestão Ambiental na Amazônia,
como podemos observar no quadro abaixo.
FIGURA 1 – Interações Institucionais na Amazônia

Estas entidades se entrelaçam, formando uma rede a

GRUPO
DOS
SETE
Gov. Brasi-
leiro
Órgãos
Federais1

Órgãos dos Órgãos dos


Estados da Municípios
Amazônia2 da Amazô-
nia3

PPG7

Entidades de
Assessoria/Pes- Entidades
quisa e ONGs Comunitárias,
Ambientalistas Cooperativas e
4 Outras 5

1
INPA, INCRA, MPMG, SUDAM, EMBRAPA, CEPLAC, CEPLAC, BB, FUNAI, Universidades,
Fundações e Institutos Federais, IBAMA, SIVAM, IBGE, DNPM.
2
Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria de Planejamento, Secretaria de Agricultura, Secretaria da
Saúde, Secretaria Indústria e Comércio, Institutos de Terras, EMATERs.
3
Secretarias Municipais de Agricultura, Secretarias Municipais de Educação, Núcleos e/ou Secretarias M.
do Meio Ambiente, Conselhos Municipais.
4
FASE, CPT, CNPT, Sociedade Civil Mamirauá, SOPREN, CTA, IMAZON, GTA, ARNI, POEMA,
GDA, FETAGRI, UNIPOP, CNA, UNAMAZ, CAT, CI, NUMA, IBASE, IPAM, NAEA...
5
Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, Associações Comunitárias, Caixas Agrícolas, Associações agro-
extrativistas, Grupos de Mulheres, Organizações Indígenas, Organizações dos Quilombolas

FONTE: DOCUMENTOS DO PPG7

partir de fóruns privilegiados, que envolvem as instituições


internacionais e governos dos países do Norte, os governos
dos países receptores do projeto ou programas, e a represen-
tação das organizações não governamentais. As instituições
internacionais e os governos dos países do Norte participam
da implementação da política ambiental global, que visa ao
desenvolvimento sustentável, na condição de propositores das
referidas políticas e na condição de doadores. Eles destinam,
de acordo com o seu PIB, um valor financeiro, na forma de
ajuda para atender os países do Sul, no que diz respeito às
políticas direcionadas à promoção do Desenvolvimento Sus-
tentável.
Na política de investimentos anunciados para a pre-
servação do meio ambiente, foi bastante significativa a cria-
ção do GEF – Global Environment Facility –, uma das ma-
neiras encontradas para que os países ricos pudessem contri-
buir com os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos,
visando implementar projetos ambientais globais. Este Fundo
foi criado em 1991, como resultado de acordo entre países
doadores envolvidos com a formulação das políticas ambien-
tais globais para a Terra. O GEF é um mecanismo de financi-
amento que destina recursos na forma de doações para que os
países do Sul, chamados de receptores, executem projetos e
ações voltados para a preservação do meio ambiente global
nas áreas definidas como fundamentais na determinação das
mudanças climáticas, biodiversidade, e possuidoras de esto-
ques significativos de águas potáveis. Seu gerenciamento é
feito pelo PNUD e PNUMA e o Banco Mundial.33
Dentre as várias atuações, no Brasil, na área ambien-
tal, o Banco Mundial também gerencia um outro fundo criado

33
O GEF – Global Environment Facility (Fundo para o Meio Ambiente Mundial) foi estabe-
lecido em meados de 1991, em caráter experimental, como produto de um acordo entre
países doadores voltado para a organização e coordenação dos esforços destinados à prote-
ção do ambiente global, seguindo a filosofia estabelecida durante a reunião de Londres
acima mencionada. O Fundo foi concebido como um mecanismo de financiamento que
outorga doações e concebe ajuda em condições concessionais para os países receptores de
renda média e baixa para que executem projetos e atividades voltados para a proteção do
ambiente global nas áreas de mudança climática, biodiversidade e águas internacionais. A
responsabilidade pelo funcionamento do Fundo é compartilhada pelo Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambi-
ente (PNUMA) e Banco Mundial. Do início efetivo das suas operações em 1991 até 1994,
considerada a sua fase piloto, o Fundo financiou mais de 100 projetos em diversos países em
desenvolvimento, totalizando cerca de US$ 750.00 milhões. Ao final dessa fase experimen-
tal, o Fundo passou por um processo de reestruturação, conforme havia sido recomendado
na Conferência das Nações Unidas (CNUMAD), e deu início a sua fase operacional (GEF-
I), onde pretende aportar US$ 2,0 bilhões até 1997, conforme comprometimento dos países
doadores de recursos (GEF, 1986).
em 1992, para dar suporte financeiro ao Programa Piloto para
Proteção das Florestas Tropicais – PPG7, intitulado Rain Fo-
rest Trust Found. O objetivo do Fundo é dar suporte financei-
ro para viabilizar a gestão do Programa, cujo objetivo enun-
ciado é de conservar a biodiversidade, reduzir as emissões de
carbono para a atmosfera e promover maior conhecimento
das atividades sustentáveis na Amazônia.
Ao compreender o modelo de Desenvolvimento Sus-
tentável permeado por relações de poder e envolvido pelas
condições políticas de dominação, podemos desconsiderar a
existência do bom e do mau desenvolvimento, como foi posto,
ainda na década de 70, no calor inicial do debate sobre a crise
do meio ambiente. A partir desse esquema de inspiração mo-
ralista, os países do Sul não deveriam seguir o padrão de de-
senvolvimento econômico e de consumo dos países do Norte.
A conclusão era a de que, se todas as nações se orientassem
por esse mesmo padrão de desenvolvimento, o equilíbrio pla-
netário estaria comprometido. A tese resultante foi a de que
os países do Sul deveriam implementar um estilo diferente
daqueles historicamente adotados no Norte, despontando co-
mo um modelo de “bom” desenvolvimento o de Desenvolvi-
mento Sustentável.
A implementação do modelo “bom” do Desenvolvi-
mento teria como conseqüência necessária a aceitação da
limitação do estilo de consumo e do ritmo de produção do Sul
e, por tabela, a concordância com a manutenção dos padrões
de consumo e de produção do Norte.
Almino (1993) desenvolve com rara argúcia esse pon-
to de vista, ao demonstrar que:
A Globalização da estrutura produtiva e a interde-
pendência econômica tornarão inviável a revisão das
formas de desenvolvimento estabelecidas e dos pa-
drões gerais de produção e consumo pelos países em
desenvolvimento se tal revisão não ocorrer ao mesmo
tempo no próprio centro do sistema econômico mun-
dial. Enquanto ela não ocorrer, para que os padrões
atuais de produção e consumo sejam minimamente
sustentáveis nos países desenvolvidos, é necessário
que outros países desistam de alcançar o mesmo pa-
tamar de produção e consumo, ou seja, é preciso que
renunciem ao crescimento econômico e à expansão
do uso dos recursos naturais e que contenham seu
crescimento populacional. É já lugar comum, no pen-
samento ecológico, sobretudo em países desenvolvi-
dos, a idéia de que a capacidade do Planeta não
permitiria que os países em desenvolvimento atingis-
sem os padrões de produção e consumo dos países
desenvolvidos. O desenvolvimento Sustentável do Sul
seria, portanto, fundamental para a sobrevivência da
Humanidade e para a preservação dos padrões de
produção e consumo do Norte (ALMINO, 1993, p.
83).
As experiências classificadas como de Desenvolvi-
mento Sustentável, neste caso, podem estar sendo realizadas
à margem dos processos econômicos principais. A Vale do
Rio Doce, por exemplo, atua na Amazônia como uma das
maiores extratoras e beneficiadoras de recursos naturais do
mundo, funcionando a partir da dinâmica econômica mundial
e dos fluxos de mercado, sem qualquer referência à sustenta-
bilidade do desenvolvimento.
Ou seja, o vínculo de complementaridade entre as di-
nâmicas econômicas e as ações de Desenvolvimento Susten-
tável não é automático, nem direto. As interações existentes
entre os processos econômicos e a preservação de recursos
naturais fazem parte da lógica do sistema como um todo. A
complementariedade entre Desenvolvimento Sustentável
(gestão e controle dos recursos) e a dinâmica do capitalismo
internacionalizado no nosso entender, é regulada pela Divisão
Internacional Ecológica.
Neste sentido, cria-se uma aparência de ampla mobili-
zação internacional e nacional traduzida na proliferação de
ações e iniciativas do Desenvolvimento Sustentável. Uma
análise mais profunda do que é apresentado mostra que, do
ponto de vista das ações práticas que visariam ao Desenvol-
vimento Sustentável, qualquer procedimento ligado ao ima-
ginário do ecologismo pode ser caracterizado como ações de
construção da sustentabilidade do desenvolvimento. Para
demonstrar esse princípio do “vale tudo” basta tomar como
exemplo e observar as ações catalogadas pelo Ministério do
Meio Ambiente como as cem “Principais Experiências de
Desenvolvimento Sustentável implementadas no Brasil”, as
quais foram disponibilizadas para conhecimento público por
meio da página eletrônica daquele Ministério.
Como podemos observar, é como se estivéssemos
considerando práticas do Desenvolvimento Sustentável,
ações, projetos, experiências que não deixam clara a sintonia
com seus pressupostos epistemológicos e metodológicos,
como, por exemplo, aos referentes a uma real possibilidade
de relação entre desenvolvimento econômico e Meio Ambi-
ente.
Em muito do que é apresentado como experiências de
Desenvolvimento Sustentável, os três pressupostos do mode-
lo de Desenvolvimento Sustentável, a eqüidade, a eficiência
econômica e a preservação dos recursos naturais a longo pra-
zo, não são atendidos, sendo privilegiadas, sem sombra de
dúvida, as ações preservacionistas, enquanto os dois outros
eixos são quase completamente desprezados.
Dentre os autores que discutem os problemas da apli-
cabilidade do conceito de Desenvolvimento Sustentável, Re-
dclift (1996) considera que não é possível gerenciar com su-
cesso o meio ambiente, no nível global, sem alcançar o pro-
gresso em direção à sustentabilidade ao nível local. O autor
advoga dois papéis para o Desenvolvimento Sustentável. Um
primeiro papel a ser desempenhado seria como meta norma-
tiva para as sociedades. O segundo estaria vinculado ao mo-
delo como forma de entendimento dos ecossistemas (RE-
DCLIFT, 1996, p. 3). A sustentabilidade, segundo o referido
autor, não será atingida pela invenção de técnicas de gerenci-
amento para combater as contradições do desenvolvimento.
Para Redclift, ela seria possível, se recuperássemos nosso
controle sobre o consumo, em lugar de trabalhar na direção
de novas instituições que gerenciam suas conseqüências.
De acordo com a perspectiva desse autor, dois pontos,
a saber, a efetividade do desenvolvimento local e a questão
do consumo precisam ser atacados para que seja possível a
implementação do Desenvolvimento Sustentável, analisando
algumas pretensas experiências de Desenvolvimento Susten-
tável, na Amazônia, em particular, no Estado do Pará. O lo-
cal, neste caso funciona apenas como a ambiência concreta
do gerenciamento dos recursos naturais objetivando a preser-
vação ambiental visando atender as demandas presentes e
futuras da dinâmica do crescimento econômico, principal-
mente dos países hegemônicos.
Nesse sentido, assistimos, dentro da proposição do
Desenvolvimento Sustentável, à valorização de processos
sociais tradicionais e locais. Estabelecida a nova Divisão
Ecológica Internacional, várias práticas sociais de diversos
grupos são valorizadas, relações de trabalho e modos de vida
até então vistos como processos sociais residuais na moder-
nidade tornam-se fundamentais no contexto ambiental. Os
gestores das políticas internacionais, principalmente, procu-
ram mobilizar todos os povos que de uma maneira ou de ou-
tra vivem em regiões cujos ambientes são pouco artificializa-
dos, do ponto de vista da expansão capitalista tradicional.
Desse modo, passou-se a mobilizar pequenos agricultores,
coletores, pescadores artesanais, populações indígenas que se
vinculam diretamente à preservação de recursos naturais flo-
restais pela capacidade que têm de poupar recursos em
áreas de escassez e de poupar e preservar em áreas onde há
recursos abundantes34. As práticas concretas apresentadas

34
Em toda a história da América Latina, os povos indígenas e tradicionais (caboclos, cam-
poneses, seringueiros, peões, colonos, caiçaras etc.) têm sido tratado – na melhor das hipóte-
ses – com desdém pela elite dominante. Só no século XVII, por exemplo, os “índios” foram
considerados seres humanos com alma; e os cientistas ocidentais, de forma muito abrangen-
te, ainda acreditam que o conhecimento tradicional é apenas folclore e que, de uma forma
como experiência de Desenvolvimento Sustentável, contra-
põem-se à abordagem feita por Redclift, no que se refere à
perspectiva do consumo. Para ele, deveria haver uma mudan-
ça nos comportamentos da população mundial, com relação
ao consumo. Contudo, as próprias ações que visam à susten-
tabilidade ambiental, com base naquele modelo de desenvol-
vimento, em áreas ecológicas, correspondem às demandas
dos mercados, no que tange ao uso de capitais naturais, vi-
sando em última instância atender aos padrões de consumo
dos países desenvolvidos, ou, se quisermos ser mais precisos,
de setores da população local/global com níveis de renda que
os tornam hábeis para consumir. As políticas ambientais,
neste sentido, efetivamente, não respondem aos problemas
ecológicos reais, mas, buscam manter a hegemonia do mode-
lo de organização social capitalista, a partir do controle do
meio ambiente. Aquelas são muito mais determinadas pelas
relações de poder e de um certo ordenamento pragmático do
meio ambiente, do que pelos problemas reais que as socieda-
des podem enfrentar com os limites e a escassez de recursos
naturais. O que parece estar no centro do debate sobre os
problemas ambientais e sobre as eventuais estratégias de seu
enfrentamento é, antes, a disputa pelo controle dos recursos
naturais renováveis e não renováveis do planeta.

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desenvolvimento, conhecimento e civilização. Armados dessas premissas, governo - e até
ambientalistas – acharam fácil justificar a exploração dos índios e camponeses, das suas
terras e recursos, em nome do desenvolvimento, conservação e progresso (POSEY, 1997, p.
347). Há trinta anos atrás, no boom do desenvolvimento, na Amazônia, não era rara a trans-
ferência e comunidades indígenas de suas terras para dar lugar aos chamados grandes proje-
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Biodiversidade e Desenvolvimento
Sustentável: considerações sobre um
discurso de inferiorização dos povos
da floresta

Manuel Sena
Dutra35

Introdução

Não é fácil decifrar os sentidos dos dois primeiros


termos-chaves do título deste artigo, ambos utilizados no
intenso jogo discursivo que hoje se produz tendo o meio am-
biente como objeto. Esse jogo exige ao pesquisador uma
atenção acurada no trato desse tipo de terminologia, sem o
que o trabalho científico terminará, ele também, sob o risco
de utilizar-se de termos dúbios ou mesmo vazios de signifi-
cado, comprometendo o próprio discurso da ciência. Este
artigo quer oferecer uma breve contribuição ao debate que se
avoluma em torno desses termos, componentes daquilo que
se poderia aqui denominar de um discurso da ecologia ou um
discurso do ecologismo, ou, mais comumente, discursos am-
bientais, conforme as preferências teóricas.

Por exemplo, do ponto de vista de Mires (1990, p. 35-


6), a ecologia não é um discurso tal como ocorre em referên-
cias irrefletidas sobre um discurso ecológico. Segundo esse
autor, “ou o ecológico é um objeto articulado em unidades
que se auto-reproduzem em seu próprio processo de expan-
35
Jornalista, Doutor em Ciências: Desenvolvimento Sócio-Ambiental. Pesquisa: mídia/meio
ambiente. Professor de Jornalismo na Universidade Federal do Pará.
são, ou é um discurso independente. Em todo caso, não pode
ser as duas coisas ao mesmo tempo”. A partir deste princí-
pio, afirma Mires (idem) que somente nos é possível falar de
um discurso ecológico quando, dentro de um estilo de pen-
samento, a ecologia tenha rompido as suas relações articula-
tivas e se deslocado para um lugar dominante, reduzindo
todos os objetos co-participativos ao puramente ecológico,
ou seja, quando a ecologia se transformou em ecologismo.
Nesse sentido, o ecologismo não se diferencia do economi-
cismo, ou do historicismo ou qualquer outro tipo de saber
reducionista.

Tratar de ecologia é embrenhar-se numa questão complexa,


seja do ponto de vista original da biologia, assim como da
cultura e da política (ESCOBAR, 1998, p. 53). Este autor
acredita que, embora a biodiversidade tenha referentes biofí-
sicos concretos, ela deve ser encarada como “uma invenção
discursiva de recente origem”. E essa “invenção” recente, a
nosso ver, constitui uma repetição/transformação de noções
longamente cristalizadas, reeditadas na mídia sob formas,
estas sim, efetivamente recentes.

Do nosso ponto de vista, talvez se possa recorrer a


um conceito próximo a um discurso sobre a ecologia ou, se
se queira, um discurso sobre o ecologismo, ou seja, a discur-
sos de cientistas e de outros atores sociais sobre a ecologia,
os ecologistas e/ou o meio ambiente. Ou ainda, como é o
caso de nossa pesquisa em andamento, podemos produzir o
nosso próprio discurso sobre discursos que explícita ou im-
plicitamente se auto-classificam como ecológicos, tal como o
corpus empírico que analisamos.

Nosso trabalho se desenvolve dentro do campo da


comunicação. É a partir desse lugar que nos interessam os
demais campos disciplinares fronteiriços, privilegiando con-
ceitos como ecologia, biodiversidade, desenvolvimento sus-
tentável, numa busca por encontrar seus sentidos produzidos
não propriamente no ambiente científico ou no senso comum
disseminado no imaginário coletivo, mas os sentidos que a
mídia, no processo de captura de sentidos, tanto no ambiente
científico como no imaginário, os utiliza na fabricação de
seu próprio produto. É, portanto, no produto da mídia que se
concentra o nosso esforço.

O corpus que analisamos se compõe de cinco pro-


gramas de televisão tipificados como documentários, educa-
tivos, videoclips, nos quais as questões ambientais são pau-
tadas e roteirizadas de modo destacado. Talvez não exista
outro lugar, como a mídia, em que a profusão semântica da-
queles termos se revele mais intensa, pois é da multiplicida-
de dos sentidos postos em circulação que os dispositivos
emissores, como a TV, retiram os fragmentos com os quais
empacotam os seus produtos, tendo o cuidado de não lhes
oferecer definições explícitas, o que seria particularizar um
discurso que se pretende universal, interpretável pelos mais
distintos tipos de consumidores. É dentro destes limites teó-
ricos que realizamos a nossa reflexão.

A impressionante evolução de um
conceito guarda-chuva

Algumas das noções contidas nesses termos centrais


do debate ambiental contemporâneo não são recentes, pois
podemos identificar a sua gênese a partir do momento em
que nasceu o conceito de ecologia, que aqui consideramos
como uma espécie de guarda-chuva, debaixo do qual se ani-
nha a multiplicidade de noções transportadas hoje pelos ter-
mos biodiversidade/desenvolvimento sustentável, povos da
floresta.

Como suporte de um conceito científico, o termo eco-


logia tem uma história relativamente longa. Foi empregado
pela primeira vez em 1866, em língua alemã, pelo zoólogo
Ernst Haeckel, sob a forma ökologie, havendo registros de
que nos anos 1870 foi traduzido para o inglês como ecology.
No início, tratava-se de um conceito vinculado às noções de
habitat, indicando o estudo das relações de plantas e animais
entre si e entre seu habitat. No processo social de evolu-
ção/transformação de sentido, ecologia passou a vincular-se
ao ambiente (environment) e, nos anos seguintes, ao termo
environmentalism como o estudo da influência do meio físi-
co sobre o desenvolvimento econômico. Assim, ambienta-
lismo torna-se de uso comum a partir dos anos 1950 relacio-
nado a conservação e preservação. A partir dos anos 1960
passa ao uso comum, associando conceitos como ecocrises,
ecocatástrofe (WILLIAMS, 1976, p. 110-11) e, a partir dos
anos 1970, à noção de ecocídio.

Como se vê, no nascimento do termo, ecologia trans-


portava uma proposta delimitada pelas ciências naturais. No
começo do século XX, a expansão de seu uso social levou o
termo para o ambiente acadêmico, como parte de argumenta-
ção interna de várias disciplinas, inclusive as sociais e hu-
manas. Segundo Pádua (1997, p. 42-3), a mais surpreendente
evolução da palavra ocorreu a partir dos anos 1960 “quando
a ecologia rompeu os muros da discussão científica para
transformar-se em um dos ícones centrais do imaginário con-
temporâneo”, sendo presença marcante nas relações interna-
cionais, nas práticas educativas, nas políticas públicas e em
ações coletivas das chamadas organizações não-
governamentais (ONGs). Acrescenta Pádua (idem, ibidem):
“Mais ainda, ela [a palavra ecologia] penetrou significativa-
mente nos meios de comunicação de massa, na publicidade e
nos diversos aspectos da arte e da cultura”.

Williams (1976, p. 22) lembrando a variação de sen-


tido de época para época, afirma que as palavras são elemen-
tos integrantes do processo social da linguagem, variando
segundo a época, sendo a linguagem não apenas um reflexo
do processo histórico e social, porém, importantes processos
sociais e históricos ocorrem dentro mesmo da linguagem, por
meandros que indicam “how integral the problems of mea-
nings and relationships really are”. Dessa forma, as varia-
ções de sentido de ecologia são determinadas pelas variações
dos processos sociais, recebendo destes interferência e, ao
mesmo tempo, neles interferindo.

A profusão semântica de biodiversidade


Juntamente com desenvolvimento sustentável, biodi-
versidade torna-se um enunciado-chave para a compreensão
do jogo produtor de sentidos sobre a Amazônia contemporâ-
nea, onde sobrevivem aqueles grupos que, com freqüência, a
mídia categoriza como povos da floresta. Na verdade, nesse
embate discursivo, biodiversidade e desenvolvimento susten-
tável são termos que inexistem separados, mas se comple-
mentam, são intimamente interdependentes. Essa interde-
pendência parte da conexão entre a biodiversidade, isto é, os
recursos naturais vivos, e o desenvolvimento econômico, ou
seja, a “ideologia do crescimento” (MIRES, 1990, p. 98).

A “ideologia do crescimento” prevê que o meio am-


biente não seja deteriorado em benefício da produção. É as-
sim que vemos, numa definição elementar, o conceito de
desenvolvimento sustentável associado umbilicalmente ao de
biodiversidade, como referindo-se ao “uso da terra e da água
para sustentar a produção indefinidamente, sem deterioração
ambiental e, de modo ideal, sem perda de biodiversidade
nativa” (WILSON, 1994, p. 416). Os dois termos chegam a
confundir-se como sinônimos:

A conservação da biodiversidade e o desenvolvimen-


to sustentável são, nas mentes de muitas pessoas,
quase sinônimos, e hoje quase todos os projetos de
desenvolvimento com uma orientação ambiental pre-
cisam se justificar em termos de seu papel na conser-
vação da biodiversidade (McGRATH, 1997, p. 33).

As definições do conceito são obviamente múltiplas,


porém em todas elas estão presentes noções centrais, como
aquela que dá a biodiversidade como “abrangência de todas
as espécies de plantas, animais e microrganismos, e dos
ecossistemas e processos ecológicos dos quais são parte.
Grau de variedade da natureza, incluindo número e freqüên-
cia de ecossistemas, espécies ou gens numa dada assem-
bléia” (GLOSSÁRIO, 1997, p. 23). Mais próxima da biolo-
gia, esta definição reflete a dificuldade de inclusão do con-
ceito de biodiversidade na variedade de discursos sociais que
dele se ocupam.
Christian Lévêque, autor de obras como “Les
écosystèmes aquatiques” (1996), “Environnement et diversi-
té du vivant” (1994) e “Biologie et ecologie des poissons
d’eau douce africains” (1988), em seu livro intitulado “A
biodiversidade”, afirma, obviamente a partir de seu lugar de
fala, que para alguns o termo biodiversidade “é um cesto
vazio” no qual cada um coloca o que quer. “No entanto, mais
além de um debate semântico” pelo qual o autor diz pouco se
interessar, “convém precisar aquilo que entendemos por bio-
diversidade” (LÉVÊQUE, 1999, p. 13).

Mais adiante (p. 24-5), Lévêque retoma a questão do


“debate semântico” para afirmar que a biodiversidade é “um
conceito federativo” por fazer “a mediação entre os sistemas
ecológicos e sociais a fim de abordar a valorização e a gestão
dos ambientes e dos recursos”. Para o autor (idem), os taxo-
nomistas, os geneticistas, os economistas ou os sociólogos,
“para não citar mais do que esses”, têm uma visão setorial da
biodiversidade, isso em razão de suas preocupações discipli-
nares. E resume: “Os cientistas privilegiam os inventários e a
dimensão ecológica, ao passo que os políticos preocupam-se
mais com a dimensão econômica e as organizações de con-
servação da natureza, com a dimensão ética”.

A partir de seu campo próprio, ou seja, de suas “pre-


ocupações disciplinares”, Lévêque, a despeito da crítica que
faz, não escapa da disputa semântica que envolve o termo, e
dá a sua definição, em consonância com o estabelecido na
Convenção da Biodiversidade, firmada na conferência Rio-
92: “A biodiversidade está constituída pelo conjunto dos
seres vivos, pelo seu material genético e pelos complexos
ecológicos dos quais eles fazem parte” (idem, p. 14). E apon-
ta as razões do interesse pela biodiversidade no mundo con-
temporâneo, das quais destacamos: a) a biodiversidade con-
tribui para o fornecimento de numerosos produtos alimenta-
res; b) está na base de toda produção agrícola; c) oferece
importantes perspectivas de valorização no domínio das bio-
tecnologias; e d) suscita uma atividade econômica ligada ao
turismo (idem, p. 14-15). O autor ressalta que a biodiversi-
dade representa “o conjunto de recursos biológicos essenci-
ais para a vida das sociedades humanas” (idem, p. 83).

A profusão semântica de um termo tão em voga ex-


trapola o âmbito estrito da biodiversidade e do desenvolvi-
mento sustentável para atingir áreas afins, como a chamada
educação ambiental. Pedrini (1997, p. 89) tem um capítulo
cujo título é justamente “a confusão conceitual”. E acrescen-
ta (idem, p. 89): “Há confusão conceitual no meio dos edu-
cadores ambientais oficiais ou não, nos pesquisadores ambi-
entais formadores de opinião. Há também uma dificuldade
de compreensão no meio empresarial”. E indaga: “E no seio
das ONGs? E da sociedade civil organizada?”

A estas questões, acrescentamos: e nos discursos da


mídia? Fatalmente, tais indefinições e vaguezas dos concei-
tos centrais da temática ambiental ou ecológica permeiam os
textos midiáticos e, de um certo modo, até acentuam essas
características, haja vista ser próprio dos media a pretensão a
uma linguagem universal, ou ao menos consumível pelo
maior número possível de espectadores/ouvintes/leitores.
Buscar uma definição própria seria, para a mídia, a sua in-
serção setorializada no debate semântico, o que cabe a outros
atores sociais.

Os sentidos que são produzidos, no nosso caso em es-


tudo, são de outra ordem: a partir de sentidos pré-existentes
no imaginário social, a mídia os reelabora com as marcas de
suas condições próprias de produção, acrescentando-lhes os
caracteres da sedução que busca o consenso, por meio da
espetacularização que permeia e compromete o teor informa-
tivo. Além disso, os produtos da mídia, como no caso da
televisão de circuito aberto que analisamos, são produtos de
uma indústria de informação e entretenimento, logo, não
objetivam uma causa, porém destinam-se ao mercado de
bens simbólicos. E deste mercado partem coerções determi-
nantes de suas condições de produção e circulação.

A Amazônia como produto mercadológico


Na mídia impressa, sintomático do que afirmamos
acima é o discurso estampado na capa da revista Isto É
(2002), que tem como título geral, no rodapé, o enunciado
“Meio ambiente, o capital verde”. Pouco acima, a discrimi-
nação semântica, a explicação:

Preservar dá dinheiro. Na Amazônia, o lucro já co-


meça a vir da extração dos recursos naturais, com
avanço social, desenvolvimento econômico e preser-
vação ambiental. Hoje, em plena crise, das poucas
ofertas de emprego, a maioria está ligada à ecologia.

Um pouco mais acima, a imagem da copa de uma


árvore cujas folhas são cédulas verdes de 100 reais, mistura-
das a cédulas de dólar.

Trata-se de um conjunto gráfico que caracteriza a ca-


pacidade de a mídia incluir os mais diversos tipos de discur-
sos sociais e transformá-los numa espécie de pacote, dando-
lhe um novo significado pela fusão de conceitos os mais di-
versificados e sobre os quais não existe consenso entre os
diferentes atores que deles se ocupam, seja no âmbito da
ciência, da política, dos movimentos sociais ou no âmbito
empresarial. Uma observação acurada da capa dessa revista
daria, por si, uma tese inteira, a começar da recorrência his-
tórica e contemporânea da representação da Amazônia como
objeto discursivo estreitamente associado a interesses exter-
nos, como se torna explícito nas folhas da árvore que sinteti-
za os enunciados verbais.

A vinculação contemporânea da Amazônia a uma es-


pécie de discurso planetário está explícita, verbalmente, no
início na reportagem de Isto É (p. 90): No concorrido univer-
so da globalização, três palavras valem por milhões. Coca-
Cola, Microsoft e Amazônia são as marcas mais frescas na
memória dos consumidores. Está dito aí que a Amazônia é
um produto de consumo. Logo, sua produção midiática vin-
cula-se ao mercado. “Amazônia” é uma marca mercadologi-
camente produzida. Com efeito, para o empresariado, “de-
senvolvimento e sustentabilidade são as pedras angulares de
um sistema de mercados abertos e competitivos, no qual os
preços devem refletir os custos dos recursos ambientais e
outros” (UNGARETTI, 1998, p. 23).

Citando Schmidheiny (1992, p. 25)36, Ungaretti


(idem, p. 29) mostra trecho de um estudo de dois senadores
norte-americanos sobre políticas públicas, realizado em
1991, em que ganha clareza cristalina a associação meio am-
biente-mercado. Dizem os senadores:

... Nos últimos dois anos, temos testemunhado mu-


danças drásticas no panorama político das medidas
ambientais. Legisladores, burocratas, ambientalistas,
comerciantes e cidadãos de todos os tipos passaram a
reconhecer que os instrumentos baseados no mercado
fazem parte de nossa carteira de políticas relaciona-
das com o meio ambiente e os recursos naturais.

No Brasil, existe desde 1991 uma Fundação para o


Desenvolvimento Sustentável, entidade ligada ao empresari-
ado internacional que se aglutina em torno da Business
Council for Sustainable Development. A parte brasileira reú-
ne, entre outras, a Vale do Rio Doce, Gazeta Mercantil, Va-
rig, Mannesmann e Aracruz. Além disso, “os setores empre-
sariais com melhor desempenho ambiental são aqueles que
estão submetidos, por razões de mercado, às exigências do
processo de internacionalização da economia” (UNGARET-
TI, idem, p. 34). Não se trata de espontaneísmo, porém isso é
fruto da ação de movimentos sociais os mais diversos, quase
sempre categorizados como ONGs que, em nome dos con-
sumidores pressionam importadores de empresas brasileiras,
fato que se verifica de modo crescente nas relações chama-
das de Norte-Sul.

Certezas e repetições no programa educativo

Um dos programas que analisamos tem justamente o


título de “Biodiversidade” e faz parte de uma série de dez

36
SCHMIDHEINY, Stephan. Mudando de rumo. Rio de Janeiro: FGV, 1992.
inserções sobre a Amazônia no programa de educação a dis-
tância denominado Telecurso 2000, emissão da Rede Globo
e outras emissoras, produto de um conglomerado empresarial
que tem à frente a Fundação Roberto Marinho e a Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo. Esta programação
educativa visa à formação de mão-de-obra tecnológica, es-
forço do empresariado no sentido de aumentar a escolaridade
dos trabalhadores brasileiros, e assim reduzir as desvanta-
gens na competitividade internacional. Logo na entrada do
programa, o locutor enuncia, professoralmente, em off:

Biodiversidade é o tema do programa de hoje. O que


ela significa? Por que a nossa sobrevivência depende
dela? Qual a relação entre a Amazônia e a biodiver-
sidade no Planeta?

Nestes breves enunciados podemos detectar: a) o


enunciado central, introdutório, solene. A biodiversidade
merece um programa inteiro, dessa forma equiparando-se às
demais disciplinas que compõem os dez programas da série;
b) indagações que valem por afirmações. Não há dúvida so-
bre a existência de um significado, e este significado torna-se
importante pelo enunciado precedente, solene e professoral-
mente introduzido. Se assim foi dito anteriormente, logo
trata-se de um significado importante; c) na segunda interro-
gativa, mais explicita se evidencia uma afirmação: a nossa
sobrevivência depende dela. Isto é dado por certeza. A ques-
tão se reduz em saber o porquê dessa dependência; d) igual-
mente ocorre no terceiro enunciado interrogativo: existe uma
relação entre os enunciados Amazônia, biodiversidade e Pla-
neta. A questão, então, é saber que relação é essa.

Desse modo, o discurso televisivo/educativo interro-


ga para confirmar enunciados pré-existentes, dados como
certezas, constituindo essa formulação, na verdade, afirma-
ções sob forma interrogativa. Sob a aparência de novidade, o
programa repete e reafirma questões centrais que estão nas
pautas de múltiplos atores sociais em disputa pela produção
de sentidos sobre biodiversidade, Amazônia e Planeta. Ao
não suscitar dúvidas, mas emitindo certezas, o Telecurso e
sua proposta explicitamente pedagógica tornam-se, dessa
forma, não-pedagógicos. Aos alunos do Telecurso são emiti-
das noções de um senso comum que, embora recente, integra
variados tipos de discursos sociais. Não educa, reforça pré-
noções disseminadas socialmente.

No mesmo programa, o repórter de nome ficcional


Danilo, passeando na floresta amazônica em companhia de
um homem do lugar, fala:

... a biodiversidade é tamanha, são tantas espécies


vegetais, tantos os equilíbrios, tantos os emaranha-
dos de raízes, folhas, cipós, fungos, pequenos ani-
mais, os insetos ... e até os seres microscópicos. Toda
essa riqueza que a ciência está pesquisando, e que os
povos da floresta conhecem e utilizam. Riqueza que
os livros estão começando a descrever, e que um ca-
boclo como Sidomar, um ribeirinho que viveu sempre
nas margens do Solimões, conhece por conhecer...

Assim caracterizando, o repórter vai definindo o que,


para o programa, significa a biodiversidade, detalhando os
enunciados introdutórios em forma interrogativa. Os povos
da floresta são incluídos na definição realizada verbal e ima-
geticamente, porém o representante desses povos aparece no
texto como espécie de acidente. Eles “conhecem e utilizam”
a biodiversidade, no entanto Sidomar, representando discur-
sivamente aqueles povos, somente “conhece por conhecer”.
O conhecimento está sendo elaborado pela instituição cientí-
fica e somente agora “os livros estão começando a descre-
ver”.

Para o programa, é esta a definição: Biodiversidade


ou diversidade biológica, de uma forma ampla, significa a
variedade de vida que existe na terra, incluindo todas as
espécies. São os animais, plantas e até microrganismos e
genes que a gente não consegue enxergar a olho nu. A bio-
diversidade envolve também as relações entre as espécies
que são essenciais à vida na terra.
Se, por hipótese, o “caboclo” Sidomar fosse, no texto,
tratado como sujeito de seu discurso, e não como ator de um
discurso tributário, permitido – o que significa o silencia-
mento de Sidomar –, é provável que ele dissesse realmente
desconhecer o que seja biodiversidade, porém diria (o que,
aliás, demonstra conhecer, pelas imagens e oralizações) que
conhece cipós, raízes, insetos, animais e tudo mais que torna
a floresta familiar para ele. O programa fetichiza o conceito
de biodiversidade, e este termo é realmente estranho a Sido-
mar. Fica quase explícita a noção de que os povos da floresta
não conhecem a floresta, e que o saber sobre raízes, folhas,
fungos, insetos e animais, etc. é atributo da instituição cientí-
fica. Aliás, esse processo de construção identitária permeia
todos os programas da série. O programa constrói o Outro
construindo a fronteira que dele o separa. Uma fronteira que
“começa por ser, antes do mais, a linha imaginária sobre a
qual se projeta a noção de diferença e a partir da qual se tor-
na possível a afirmação da identidade” (RIBEIRO, 2002, p.
481).

No programa, a partir da posição enunciativa do re-


pórter Danilo, em confronto com a posição que é concedida a
Sidomar, fica estabelecido que nós, ou seja, o sistema produ-
tor da série televisiva, temos o conhecimento sobre eles, os
povos da floresta, que desconhecem, ou mais ou menos co-
nhecem o mundo em que vivem. No discurso se estabelecem
posições que se encaminham estrategicamente para desdo-
bramentos extradiscursivos que nos permitem a seguinte
reflexão: se eles desconhecem a biodiversidade, verbalizada
no programa como uma “riqueza”, logo são ineptos para dar
racionalidade econômica a essa riqueza, e portanto, eles es-
tão na floresta como povos apenas incidentalmente. Têm
menos significado, no discurso, do que a “riqueza” que ape-
nas “conhecem por conhecer”. Desse modo, aos alunos e
demais espectadores do Telecurso é dito, pedagogicamente,
que somente a nós, os que conhecemos a biodiversidade,
cabe o direito de explorá-la e colocá-la a serviço do (ou de
um determinado) Planeta.
Morán (1990, p. 39) aponta a influência de determi-
nadas tradições intelectuais na cristalização de contradições
determinantes de atitudes relativas ao meio ambiente amazô-
nico: “De um lado, há tendência de considerar a Amazônia
um ‘Inferno Verde’, uma região na qual só populações com
técnicas de subsistência simples podem sobreviver devido às
limitações do ambiente quente e úmido, de solos pobres e de
chuvas torrenciais”, contrastando com as visões paradisíacas,
de abundância de recursos capazes de redimir o Brasil e be-
neficiar o mundo.

Outro aspecto levantado por Morán (idem, p. 24),


quando ele afirma o óbvio, de que “não é fácil definir a
Amazônia”, refere-se à recorrente enumeração de suas rique-
zas e potencialidades, de seu gigantismo físico-geográfico,
da maior diversidade biológica do Planeta, etc., presentes em
inumeráveis tipos de discursos contemporâneos sobre a
Amazônia, como se verifica nos textos do Telecurso 2000.
Desse modo, “esquece-se da presença de sociedades nativas
da região que têm direitos e profundo conhecimento de tais
áreas”.

O programa, em seguida, reafirma, como em canto-


chão, que a Amazônia é importante para o Planeta, tanto
quanto cronistas do passado histórico não cansaram de repri-
sar que as “drogas do sertão” estavam a serviço do “gênero
humano”, categoria na qual obviamente não cabiam os ín-
dios, num primeiro momento, nem os povos da floresta, mais
tarde.

Os muitos sentidos de desenvolvimento sustentável

Com estas observações, nos detemos sobre a noção


de desenvolvimento sustentável, conceito vulgarizado e de
presença obrigatória nos discursos que têm o meio ambiente
como objeto. Costa (1997, p. 82-3), referindo-se ao campo
científico, afirma que “a indiscriminável proliferação de
conceituações tornou trivial a coexistência e o intercambia-
mento de versões contraditórias, defasadas ou excludentes”
do conceito de desenvolvimento sustentável. Segundo Costa
(idem), “vários autores deram-se à pachorra de arrolar as
definições disponíveis”. Entre eles, um dos mais conhecidos
teóricos desse campo, Redclift (1987), inventariou mais de
100 significados para este termo. O título do livro do autor
citado já se apresenta como um sintoma da multiplicidade de
sentidos de desenvolvimento sustentável: Sustainable deve-
lopment: exploring the contradictions37.

Outros autores que se dedicaram a estudar a multipli-


cidade de sentidos desse termo foram Pearce, Markandya e
Barbier (1989)38. Baroni (1992)39 anotou, segundo Costa
(idem), para confronto crítico, 11 definições “de distintas
procedências teóricas, sugerindo melhorias à noção de de-
senvolvimento sustentável, no intuito de dar-lhe maior preci-
são, aprofundamento e objetividade”. Na opinião de Costa,
as noções de desenvolvimento sustentável, apesar de recen-
tes, tornaram-se uma “panacéia” e um “slogan” inevitável da
“sabedoria convencional”, desfocando, entre os economistas,
nas discussões acadêmicas sobre política desenvolvimentista,
“o charme que a controvérsia crescimento equilibrado versus
desequilíbrio exercia”.

Horácio Martins de Carvalho, consultor técnico do


Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD), fala de uma “diversidade de percepções do desen-
volvimento sustentável”, gerando “divergências de interpre-
tação dentro de um mesmo eixo paradigmático”, segundo o
qual existe uma “crise de humanidade” nos aspectos econô-
micos, sociais, políticos, culturais e ambientais “em ritmo e
proporções distintas nas diversas regiões do mundo” (CAR-
VALHO, 1994, p. 361-365). Esse paradigma verte do Rela-
tório da Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desen-
volvimento (CMMAD, 1998). Entre as diversas interpreta-
ções encontra-se aquela que privilegia a “gestão dos recur-

37
REDCLIFT, M. Sustainable development: exploring the contradictions. Nova York:
Methuen, 1987.
38
PEARCE, D. W.; MARKANDYA, A.; BARBIER, E. B. Blueprint for a green economy.
Londres: Earthscan Publications, 1989.
39
BARONI, M. Ambigüidades e deficiências do conceito de desenvolvimento sustentável.
Revista de Administração de Empresas, v. 32, n. 2, 1992.
sos”, que tem origem no “paradigma neoliberal”, como ex-
plica Carvalho (idem, p. 363).

A intensa disputa semântica em torno do conceito in-


troduz termos correlatos, como ecodesenvolvimento. Coelho
(1994, p. 381-382) afirma que “o ecodesenvolvimento ou
desenvolvimento sustentável surge da exigência de compati-
bilizar desenvolvimento com a não-agressão ao meio ambi-
ente, no final da década de 1960”. Para a autora, busca-se,
com essa abordagem, “acrescentar à condição de sustentabi-
lidade, entendida como auto-manutenção, estabilidade (equi-
líbrio) e durabilidade do desenvolvimento, pelo menos três
dimensões consideradas fundamentais, quais sejam, a social,
a ecológica e a econômica”.

Nem mesmo há consenso sobre o momento de nas-


cimento da terminologia: “Parece [grifo nosso] que a ex-
pressão desenvolvimento sustentável surge pela primeira vez
em 1980 no documento denominado World Conservation
Strategy, produzido pela IUCN [International Union for
Conservation of Nature] e World Wildlife Fund (hoje World
Wide Fund for Nature – WWF) por solicitação do PNUMA
[Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente]”
(BARBIERI, 1998, p. 23). De acordo com o já citado Glos-
sário de Ecologia (GLOSSÁRIO, 1997, p. 73), o conceito de
desenvolvimento sustentável originou-se em 1968 na Bios-
phere Conference, em Paris. Trata-se, segundo a mesma fon-
te, de um “modelo de desenvolvimento que leva em conside-
ração, além dos fatores econômicos, aqueles de caráter social
e ecológico, assim como as disponibilidades de recursos vi-
vos e inanimados, e as vantagens e inconvenientes, a curto e
a longo prazos, de outros tipos de ação”. Diz ainda o Glossá-
rio (idem) que este é um “conceito difícil de implementar,
dadas as complexidades econômicas e ecológicas das situa-
ções atuais”, implicando fatores sociais, legais, religiosos e
demográficos. Como se percebe nesta tentativa de definição,
as dificuldades embutidas no conceito estão presentes na
própria definição.
Uma das definições recorrentes e que, de certo modo,
baliza muitas outras, está inscrita no relatório da Comissão
Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, de 1987,
publicado sob o título “Nosso futuro comum”. Ali está dito
que “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende às
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade
de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessida-
des” (CMMAD, 1988, p. 46). Em seguida, o próprio relató-
rio destaca dois conceitos-chaves: a) “o conceito de necessi-
dades, sobretudo as necessidades dos pobres do mundo, que
devem receber a máxima prioridade”, e a noção de limita-
ções “que o estágio da tecnologia e organização social im-
põem ao meio ambiente, impedindo-o de atender às necessi-
dades presentes e futuras”.

Determinar seu significado em si é impossível, como


de resto nenhuma palavra carrega sentido imanente. O senti-
do da palavra está no seu contexto e é este que determina o
discurso dentro do qual se produzem os sentidos. É, pois, no
discurso, que se deve procurar o sentido de desenvolvimento
sustentável, biodiversidade, povos da floresta.

A palavra se movimenta e esta movimentação relaci-


ona-se aos efeitos e às causas do dinamismo social. Bakhtin
(1971, p. 195)40 é claro a esse respeito:

A palavra não é um objeto tangível, mas um meio de


comunicação social sempre em movimento, sempre
em mutação. Ela nunca fica presa a uma consciência,
a uma voz. O seu dinamismo consiste no movimento
entre um falante e outro, entre um contexto e outro,
entre uma geração e outra. ... A palavra entra no seu
contexto a partir de outro contexto, permeada das in-
tenções de outros falantes. A intenção do falante en-
contra a palavra já ocupada (ap. RIBEIRO, 2002, p.
487).

40
BAKHTIN, M. M. (1971) Discourse typology in prose. In: MATEJKA, L.; POMORSKA,
K. (Orgs.). Readings in Russian Poetics (Formalist and Structuralist Views). Cambridge,
MA.: MIT Press, 176-196. Cit. por RIBEIRO (2002). Ver bibliografia.
Isso significa que a ampliação horizontal do uso do
conceito inclui novas realidades, espraia-se no senso comum.
E mantém a noção de gestão e de desenvolvimento. É, pois,
sintomático o depoimento dado num dos programas televisi-
vos da série “Amazônia”, do Telecurso 2000, da Rede Glo-
bo, cuja temática é “Minérios”, por Arnoldo Lima, engenhei-
ro da mineradora Pitinga, no Estado do Amazonas:

A nossa responsabilidade é muito grande, mas nós


temos, através de técnicas adequadas de beneficia-
mento e lavra do minério, através de técnicas desen-
volvidas na recuperação do meio ambiente, conse-
guido fazer com que a mineração traga o mínimo de
impacto ambiental, e, com isso, consiga fazer tam-
bém por esta região tão carente de emprego e rique-
za, pra fazer o que nós chamamos desenvolvimento
sustentado, fazer uma conciliação do desenvolvimen-
to, trazer emprego pra região sem agredir, ou agre-
dir ao mínimo o meio ambiente. Nós temos que con-
viver com a floresta virgem, floresta natural, com os
igarapés e os rios que são inúmeros, temos que con-
viver com uma reserva indígena à nossa montante,
vamos chamar assim, e temos que conviver com uma
reserva biológica do Atumã, que é administrada pelo
Ibama41.

Aí estão, nas palavras de um gestor, todas ou quase


todas as noções de desenvolvimento sustentável, cujo eixo
central parece ser a noção de equilíbrio, isto é, o capital man-
tém-se intocado, porém cercado de cuidados para não agredir
a natureza. Um discurso que deriva diretamente das reco-
mendações contidas em cartas e documentos saídos de con-
ferências que se anunciam justamente voltar-se para o meio
ambiente e o desenvolvimento.

No entanto, a multiplicidade de sentidos dessas pala-


vras inclui discordâncias cabais com discursos como o do
engenheiro da mineradora e, por conseguinte, com documen-
41
IBAMA: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis,
órgão do Governo Federal.
tos definidores como o saído da Rio-92. Altvater, (1995, p.
307-8), por exemplo, é de opinião que, o que ele chama de
comunicação ecológica “não pode confiar nos códigos
econômicos”, entre outras razões porque “o desenvolvimento
é expansivo do ponto de vista quantitativo, mas os recursos
naturais de onde as estratégias de desenvolvimento se nutrem
são limitados”, e que “não podemos nos subtrair com a tese
do crescimento com preservação ambiental ou da desvincu-
lação entre crescimento econômico e consumo de recursos
naturais” (p. 311).

Altvater denuncia a hipocrisia de chefes de estado e


de representantes de nações em relação ao que declaram em
documentos oficiais, como os bons propósitos inseridos na
declaração da Rio-92. Diz ele:

A reunião de cúpula da economia mundial entre os


principais Estados industrializados, que ocorreu em
Munique decorridas apenas quatro semanas da ‘cúpu-
la’ do Rio de Janeiro, revelou um quadro de esqueci-
mento e obstrução. Os mesmos governos que se havi-
am manifestado, ao menos em discursos, a favor do
desenvolvimento e do meio ambiente, silenciaram-se
em Munique a respeito do assunto, concentrando-se
nos [assuntos] ‘existentes’ da economia mundial no
Ocidente e na transição no Leste. Tratou-se apenas do
crescimento, e não do relativo ao sustentável (1995,
p. 316).

Se o discurso daqueles dotados de autoridade para


subscrever documentos oficiais padece de tais variações,
qual, então, o sentido de termos como desenvolvimento sus-
tentável, biodiversidade, povos da floresta nos discursos de
gestores como o engenheiro da mineradora Pitinga? Vejamos
o que diz o repórter Danilo a respeito da mineradora amazo-
nense:

A primeira visão da mineradora espanta, é a tradu-


ção em imagem da palavra devastação, mesmo sa-
bendo que aqui os técnicos e operários procuram
trabalhar dentro do desenvolvimento sustentado. Ho-
je as políticas de exploração da floresta apostam em
técnicas novas para retirar as riquezas sem destruir e
esgotar o meio ambiente...

O repórter denuncia a devastação que “espanta”, traduzida


em imagens, no entanto, o programa, que não pode fugir do
próprio discurso da mídia capitalista sobre poluição de rios e
queimadas de florestas, traz as marcas de seu sistema produ-
tor, formidável indústria de bens simbólicos, produto e pro-
dutora da dinâmica mercadológica: minimiza a ação dos téc-
nicos e operários que “procuram trabalhar dentro do desen-
volvimento sustentado”. Produz-se aí um jogo-síntese das
incompatibilidades existentes entre o documento da Rio-92 e
a temática dos representantes de nações ricas reunidos em
Munique quatro semanas após a reunião do Rio de Janeiro,
como demonstrado por Altvater.

Quem são os povos da floresta?

Reiteradas vezes a televisão emprega a terminologia


“povos da floresta”, cujos significados somente podem ser
buscados na superfície mesma dos discursos. Não há defini-
ções verbais explícitas, no entanto, por meio de alguns enun-
ciados podemos inferir alguns sentidos. Estes se tornam mais
explícitos nos enunciados imagéticos, ou seja, mostrando as
imagens daqueles a quem a opacidade dos discursos catego-
riza como “povos da floresta” vai-se realizando uma forma
de definição, percebe-se que é do imaginário que a mídia
recupera e recria esse tipo de terminologia.

O que se mostra, nesses textos, é que a classificação


de “povos da floresta” refere-se à situação de grupos que
ocupam espaços considerados distantes da cultura urbana,
territórios radicalmente distintos em relação ao universo da
cultura civilizada, por isso mesmo invisibilizados, esses “po-
vos”, no processo de sua midiatização. Em todos os progra-
mas que analisamos, em alguns mais, em outros menos, o
espaço natural midiatizado parece ser inteiramente estranho
ao espaço cultural, sendo o espaço natural construído, nesses
textos, sempre como um espaço distante, uma espécie de
“alhures” (SEMPRINI, 1996, p. 194). Dessa forma, esse
“distanciamento geográfico e temporal” induz um efeito de
deslocamento conceitual e cultural, já que o objeto natureza
é percebido como radicalmente estranho, que não nos diz
respeito nem nos interpela como usufrutuários ou habitantes
em potencial desses espaços, mas somente como espectado-
res, observadores descompromissados e distantes do cenário
natural, sugerindo, assim, uma espécie de ficcionalidade do
espaço natural (idem).

Realiza-se, dessa forma, um tipo de confrontação en-


tre uma temporalidade cultural e uma temporalidade natural,
cuja estruturação tem conseqüências diretas sobre a constru-
ção do imaginário midiático da natureza (idem, p. 192). É
nesses territórios que habitam aqueles a quem a mídia chama
de “povos da floresta”, terminologia que passou a integrar o
imaginário coletivo a partir da década de 1980, quando mo-
vimentos sociais como o dos seringueiros da Amazônia, de
grupos atingidos por barragens de hidrelétricas, os quilombo-
las, etc., foram obtendo espaços na mídia, em decorrência de
suas ações reivindicatórias, como componentes de “socieda-
des não-urbanas contemporâneas da Amazônia”, social e
politicamente invisíveis, tal como se refere Barreto Filho
(2001, p. 2) à categoria “populações tradicionais”.

Embora tal invisibilidade seja perceptível nos textos


da mídia que analisamos, seria metodologicamente impru-
dente incluir os “povos da floresta” na categoria “populações
tradicionais” visto que aqueles, tal como suas falas e ima-
gens são mostradas, são midiatizados como grupos que po-
dem ser tanto não-urbanos como urbanos, pois suas falas e
imagens ocorrem também em ambientes como feiras típicas
da vida nas cidades, são entrevistados diante do Teatro Ama-
zonas, de Manaus, tanto são coletores de açaí, como são
enunciados como sendo “índios, somos nós, os brasileiros”,
produzindo este enunciado um efeito de proximidade que, na
verdade, realça a distância entre os “povos da floresta” e
“nós”. O não-urbano, nesses textos, perpassa o urbano, pois
“eles podem estar por toda parte”, como enuncia o repórter
Danilo.

Embora não se confundam com a categoria “popula-


ções tradicionais”, com ela os “povos da floresta” guardam
particular proximidade, ressalvando-se, aqui, a questão da
territorialidade que, nos textos midiáticos, se apresenta como
fluida, ou seja, uma característica não essencial aos “povos
da floresta”. Os “tradicionais”, segundo conceitua Diegues et
al. (2001, p. 31-2), são aqueles grupos possuidores de um
conhecimento que é definido como “o conjunto de saberes e
saber-fazer a respeito do mundo natural e sobrenatural,
transmitido oralmente de geração em geração”. Segundo essa
visão, a categoria extrapola os grupos indígenas para incluir
outros grupos, entre os quais “há uma interligação orgânica
entre o mundo natural, o sobrenatural e a organização soci-
al”, não existindo, entre eles, uma classificação dualista ou
uma linha divisória rígida entre natural e social, mas sim um
continuum entre ambos.

E quem seriam, então, os “povos da floresta”? Seriam


eles classificados por sua origem étnica, como indígenas,
nativos, povos tradicionais, portadores de estilos de vida
tradicionais, comunidades autóctones, agricultores de subsis-
tência ou populações locais? Nesse caso, sua categorização
não se vincula necessariamente ao território, uma vez que
são midiatizados em distintos lugares, ora pescando, ora co-
letando, ora referindo roçados, ora presentes em ambientes
urbanos.

Em certo sentido, esses “povos” aproximam-se con-


ceitualmente, mas apenas de modo parcial, das “populações
tradicionais”, na forma como Barreto Filho (idem, p. 9)
afirma deste conceito: “Trata-se de construto ideológico cuja
força reside exatamente na generalidade do seu significado e
na flutuação do seu emprego, não sendo possível o exercício
do rigor científico nessa matéria”. No trabalho de Barreto
Filho (idem) as noções de “tradicional” associam-se às no-
ções de “áreas protegidas”, ou seja, de conservação e prote-
ção dos recursos naturais. Por isso,
a diversidade de situações referidas reflete-se na vari-
edade de termos empregados. Se alguns apontam para
a ab-originalidade e outros para a etnicidade, outros
sinalizam apenas para a escala espacial – a proximi-
dade de áreas ecologicamente críticas e frágeis ou
áreas protegidas.

Talvez pudéssemos também recorrer à noção de “po-


vos sem história” apontados por Wolf (1994, p. 464), para
quem, a partir do século XV, a dispersão dos europeus, atra-
vés dos oceanos, conjuntou as “redes regionais pré-
existentes” em uma orquestração global e as submeteu a um
ritmo de alcance mundial. Dessa forma, povos com origens e
modos de ser diversos “foram arrastados por essas forças
para atividades convergentes, ... levados a participar na cons-
trução de um mundo comum”, pelo encontro de marinheiros
mercantes europeus e soldados de várias nacionalidades, mas
também “povos naturais” da América, África e Ásia:

Nesse processo, as sociedades e culturas de todos es-


ses povos experimentaram transformações profundas,
transformações que afetaram tanto os povos conside-
rados como portadores de história ‘real’ como tam-
bém as populações que os antropólogos chamaram de
‘primitivas’ e que, em geral, foram estudadas como
sobreviventes prístinos de um passado intemporal
(idem, p. 465).

Para Wolf, a história desses povos “primitivos” tam-


bém está constituída pelos processos mundiais que a expan-
são européia pôs em marcha, não sendo, pois “antecessores
contemporâneos”, nem “povos sem história, nem povos cujas
histórias, usando a expressão de Lévy-Strauss, permanecem
congeladas” (idem, p. 465). No processo de expansão euro-
péia, diz Wolf (idem, p. 469), o controle da comunicação
permite aos administradores estabelecer as categorias por
meio das quais se vai perceber a realidade. E, de modo inver-
so, esse mesmo processo carrega em si a faculdade de negar
a existência de categorias outras, de remetê-las ao reino da
desordem e do caos, de torná-las social e simbolicamente
invisíveis. Além disso, esse processo de conjuntar povos
portadores de história “real” e aqueles “sem história” esfor-
ça-se por manter em seu lugar os significados assim gerados,
isto é, de que os “primitivos” não têm mesmo história “real”.
Esses significados, assim produzidos, constituem “proposi-
ções básicas sobre a natureza da realidade inventada” (p.
469).
No corpus que analisamos, o emprego da terminologia “po-
vos da floresta” traz, na verdade, uma desfocagem dos gru-
pos que aí são midiatizados. Postos debaixo de um conceito
tão amplo, os textos não os definem explicitamente. A des-
peito da diversidade de seus modos de vida, contato com a
natureza e com o urbano, o discurso da mídia constrói a ho-
mogeneização de grupos diferenciados entre si e, no discur-
so, todos esses “povos” como distintos daqueles outros que
não são “da floresta”, portanto urbanos, civilizados, com
modos de vida modernos. Essa é a distinção produzida nesse
tipo de discurso, com a mídia sentindo-se à vontade para
incluir unidades de sentido tais como “garimpeiro de copaí-
ba”, misturando noções associadas à mineração artesanal e à
coleta de essências florestais. Afinal, em relação a “povos
sem história”, aos quais sempre foi negado o poder-fazer o
discurso, torna-se fácil e cômodo recolocá-los na posição de
invisibilidade por meio de realidades inventadas, dadas es-
tas, no discurso, como verdades sem adjetivo.

A terminologia povos da floresta poderia ser tomada


como espécie de eufemismo referente ao pejorativo termo
caboclo, também empregado na mídia quando se refere a
grupos do interior da Amazônia. Uma forma de compreensão
da inclusão desse antigo enunciado encontra-se na afirmação
de Lima (1999, p. 7): “Na região amazônica, o termo caboclo
é também empregado como categoria relacional. Nessa utili-
zação, o termo identifica uma categoria de pessoas que se
encontra numa posição [grifo nosso] social inferior em rela-
ção àquela com que o locutor ou locutora se identifica”.
Transpondo essa observação do campo da antropologia para
o campo na análise do discurso da mídia, percebe-se com
clareza o jogo das posições enunciativas que instigam a pro-
dução daquilo que aqui chamamos de um discurso tributário,
por parte de sujeitos inferiorizados em cena, um discurso de
convalidação dos enunciados de quem se acha na posição
estratégica de, ao ceder a palavra, por esta mesma cessão
silenciar o interlocutor.
Ainda segundo Lima (idem, p. 7), a utilização colo-
quial do termo caboclo transporta as noções de “não-
civilizado”, ou seja, analfabeto, rústico, em contraste com
noções indicativas de qualidades urbana, branca, civilizada.
“O termo pode ser aplicado a qualquer grupo social ou pes-
soa considerada mais rural, indígena ou rústica em relação ao
locutor ou locutora”. Nesse sentido – indaga Lima – “a utili-
zação do termo é também um meio de o locutor ou locutora
afirmar sua identidade? Não cabocla ou branca [?].”

Assim como há “muitas Amazônias” e existem mui-


tas versões para o termo “caboclo”, os sentidos focais desses
termos são objeto de disputas, porém o que há de menos con-
tencioso nessas disputas é o fato de que a “sociedade cabo-
cla” tendeu a ser historicamente tratada como grupo poster-
gado, uma presença não ignorada mas de pouca importância
(Nugent, 1993, p. xviii)42. Falando do discurso racista que
esteve em relevo na segunda metade do século XIX, quando
se proclamavam teorias como a do chamado “branqueamen-
to” da população do Brasil, “degenerada pela miscigenação”,
Nugent (idem, p. 46) relembra como chama particular aten-
ção o contraste construído entre o discurso de realce “da be-
leza e a luxúria da natureza tropical” e a “feiúra envergonha-
da” que se estampa no rosto de seus habitantes.

As matrizes desse tipo de racismo provinham de diversos


autores estrangeiros, sobre o que existem textos bastante
conhecidos. Joseph-Arthur, o conde de Gobineau, por exem-
plo, desembarcou no Brasil por ocasião do carnaval de 1869,
tendo, então, o seu senso estético ofendido diante do espetá-
culo de “uma população totalmente mulata, viciada no san-

42
There are many “Amazonias” and many versions of ‘caboclo’, and the focal meanings of
these terms are matters of dispute, but what is less contentious is the fact that caboclo
society historically has tended to be treated as an afterthought, an unignorable presence,
but a matter of no great import.
gue e no espírito, e assustadoramente feia”, em virtude da
mestiçagem (ap. SKIDMORE, 1989, p. 46). O que hoje che-
ga a impressionar é que essas formas repelentes de racismo
foram assimiladas por não poucos autores brasileiros; se, na
atualidade, os discursos de depreciação de grupos subalter-
nos já não se fazem daquela maneira por assim dizer nua-e-
crua, os elementos que os constituem não estão de todo au-
sentes, ao contrário, acham-se, como na mídia televisiva,
sedutoramente presentes.

Conclusão

Como afirmamos na introdução, percebe-se como é proble-


mática a análise de textos fabricados pelos sistemas produto-
res de sentidos postos em circulação pelos dispositivos da
mídia. Ao não oferecerem definições explícitas, no entanto,
os programas de televisão nos oferecem definições de outra
ordem, ou seja, através do jogo de palavras e, sobretudo, pela
manipulação de imagens digitalizadas, ali estão, na telinha,
produtos sedutores, re-construindo as mais velhas e arraiga-
das reiterações de enunciados que percorrem o imaginário
social há séculos.

Em trabalho no qual analisa o que chama de uma “socieda-


de cabocla da Amazônia”, Nugent (1993, p. 36) fala da exis-
tência de um “discurso da floresta tropical” (rainforest dis-
course), que é apresentado com dois diferentes objetivos,
quais sejam, “manter as florestas e manter a visibilidade
econômica da floresta amazônica”, de interesse de um busi-
ness environment. Ao mesmo tempo, a assim chamada soci-
edade cabocla é discursivamente desenhada por seus aspec-
tos caricaturais, com a captura, pela mídia, de elementos
ideológicos do velho discurso colonial postos em circulação
no imaginário por meio de variadas formas de mediação. Por
esse imaginário, o caboclo é desenhado como um ser passi-
vo, mero objeto, nas discussões contemporâneas sobre popu-
lações, habitantes (idem, p. 47.).

Assim, índios e seus descendentes, caboclos, pescadores,


extratores, pequenos agricultores das zonas ribeirinhas, en-
fim, aqueles aos quais a antropologia categoriza como da
floresta, tradicionais, ou como caboclos, são discursivamen-
te mostrados como tendo sido no passado, e sendo no presen-
te, incapazes de dar racionalidade aos recursos em meio aos
quais vivem. A mídia busca estrategicamente reproduzi-los
como exemplos de uma certa imanência de sua inaptidão,
como ineptos foram seus predecessores desenhados pela crô-
nica colonial.

Em boa parte dos programas que analisamos, aqueles


grupos são incluídos numa espécie de categoria-ônibus, ex-
pressa pelos termos povos da floresta. Individualmente seus
nomes quase nunca são enunciados nos programas de TV e,
quando o são, raramente têm sobrenomes. Na cena televisiva
aparecem como figurantes, sem nomes, despersonalizados,
todos iguais, lembrando a conhecida frase “seen one Indian,
seen ‘em all”, derivada de críticas aos filmes hollywoodianos
nos quais a presença do índio revela povos histórica e cultu-
ralmente homogêneos, são apenas índios (CHURCHILL,
1998, p. 174). No jogo das palavras em inglês, quando orali-
zadas, a duplicidade do enunciado carrega o sentido da ten-
dência homogeneizante do cinema, tendência que se trans-
porta para a televisão. Em cena, os entrevistados cedem, no
discurso da mídia, a condição de sujeitos à condição de obje-
tos.

Têm a sua historicidade apagada, ou desfocada, sua


história é sempre, no correr dos textos televisivos, derivada
da história real dos brancos. Apagada a historicidade, pouco
ou nada permanece do sujeito facilmente encarado, e midia-
tizado, como objeto. Com o recurso da sedução da tecnologia
midiática produz-se um indisfarçável discurso de inferioriza-
ção daqueles grupos. Estabelece-se um confronto discursivo
entre o moderno e o tradicional, com a mídia realçando dico-
tomias historicamente construídas, estrategicamente apelan-
do para imagens em ambiente cromaticamente propício
(grandezas e belezas naturais emoldurando a realidade in-
ventada), confronto que realça também as diferenças entre as
tecnologias da mídia televisiva, presentes nas locações, e
aquelas tecnologias de sobrevivência dos tradicionais.
Colocados, esses grupos, em posição de silenciamen-
to, pois o que vale é o discurso do sistema produtor de senti-
dos, então indagamos: a Amazônia, tal como construída na
mídia, não estaria deixando de ser um mero repositório de
recursos disponíveis para o bem do Planeta, para tornar-se
um repositório indispensável de biodiversidade, com o mes-
mo objetivo? Em outras palavras, a região não estaria pas-
sando, discursivamente, da condição de ser apenas estoque
de “drogas do sertão” disponíveis para o benefício do “gêne-
ro humano”, para tornar-se, hoje, por sua biodiversidade,
indispensável para sobrevivência do Planeta, com todas as
possíveis conseqüências extradiscursivas produzidas por
discursos socialmente estabelecidos, cujos enunciados essen-
cialmente constitutivos são transportados para a mídia: pleni-
tude de recursos e vazio humano?

E uma questão final: a Amazônia, assim discursiviza-


da, com o realce de seus recursos e os co-ocorrentes silenci-
amento/desfocagem de seus povos, faria, ela também, parte
desse tão necessitado e, com muita freqüência, dissimulado
Planeta? Nos discursos que analisamos, a Amazônia real e
sua gente, sobrevivente e resistente, parecem girar em outra
órbita...

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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
E SEUS LIMITES TEÓRICOS-
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David Ferreira Carvalho

Introdução
O esgotamento mundial do padrão de acumulação
fordista, que teve início nos anos 60, com a perda da produti-
vidade industrial dos EUA frente aos seus principais rivais, o
Japão, a Alemanha e os NIC’s asiáticos, revelou-se numa
crise de múltiplas dimensões. Dentre estas, merece destaque a
crise ambiental percebida pelos consideráveis impactos pro-
vocados pelo padrão de produção industrial e de consumo de
massa, no ambiente urbano e rural, dos países desenvolvidos
e em desenvolvimento.43
Em face do reconhecimento da complexidade e gravi-
dade dos desafios econômicos, sociais e ambientais, com que

43
Nos anos 60, a crise ambiental era mais percebida pelos danos que a “indústria de chami-
nés” causava no meio urbano poluindo o ar, com a liberação de dióxido de carbono e outros
gases, poluindo a água, com resíduos sólidos e produtos químicos, e poluindo a superfície da
terra com resíduos tóxicos.
a humanidade se depara ainda hoje, o Relatório da Comissão
Brundland, sobre meio ambiente e desenvolvimento, passou
uma mensagem otimista sobre a necessidade e a possibilidade
de se planejar e implementar estratégias ambientalmente ade-
quadas a um estilo de desenvolvimento econômico – envol-
vendo crescimento econômico, eqüidade social e conservação
ambiental – que foi batizado de desenvolvimento sustentável.
44

Neste sentido, nos propomos, aqui, somente discutir o


significado de desenvolvimento sustentável e seus limites,
numa perspectiva teórica e metodológica, para daí derivar
algum tipo de compreensão e possível aplicação desse con-
ceito para o desenvolvimento da Amazônia.
Para isso, o texto foi organizado em duas seções, além
desta introdução: na primeira seção, busca-se resgatar os efei-
tos provocados pelo chamado Relatório do Clube de Roma
sobre as comunidades das ciências sociais e das ciências da
natureza, bem como as reações advindas que acabaram le-
vando a Organização das Nações Unidas (ONU) a preparar
uma agenda ambiental – para discutir os efeitos do padrão de
produção e consumo da sociedade moderna sobre o meio
ambiente – que vai originar o ideário do desenvolvimento
sustentável; na segunda seção, composta de duas subseções,
discutimos os limites teóricos e metodológicos em torno da
possibilidade de construção de uma teoria geral do desenvol-
vimento sustentável.

A Gênese do Conceito de Desenvolvimento Sustentável


Os impactos provocados pela grande indústria e pela
agricultura sobre os recursos naturais e o meio ambiente
ameaçam modificar o clima e a vida das espécies, variedades

44
São muitas as variedades das definições do termo desenvolvimento sustentável. Ver
Baroni (1992). Entretanto, numa “nota final”, Sachs (1986, p. 177, nota 8) reconhece que a
idéia de ecodesenvolvimento foi lançada por Maurice F. Strong, Diretor Executivo do
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, no decorrer da 1 a Reunião do Conselho
Administrativo desse Programa realizada em Genebra, em 1973. Sachs (1986, p. 15) tam-
bém afirma que o conceito de ecodesenvolvimento teve como inspiração inicial a definição
de um novo estilo de desenvolvimento particularmente voltado para o meio rural do Terceiro
Mundo, embora reconhecesse que ele pudesse ser estendido também para o meio urbano.
e raças dos reinos vegetais e animais, inclusive do homem, no
planeta terra.45 Se os atuais esforços de governos e da inicia-
tiva privada, para manter o ritmo do progresso socioeconômi-
co, já não basta para atender as crescentes e, às vezes, extra-
vagantes necessidades humanas das gerações presentes, –
tanto nas nações desenvolvidas quanto nas nações em desen-
volvimento – o que legar às gerações futuras já que o capital
ambiental tomado emprestado pelas gerações presentes não
tem nenhuma garantia de ser devolvido no futuro?
A tomada de consciência desse problema intergeraci-
onal ganhou expressão mundial nos anos 70. Nesse período, o
debate em torno dos danos causados pelo crescimento eco-
nômico sobre o meio ambiente biofísico acabou relegando,
para um segundo plano, os problemas socioeconômicos dos
países em desenvolvimento da periferia. De fato, a discussão
sobre meio ambiente gravitou em torno de dois problemas
básicos: (1) o problema da escassez dos recursos naturais e
energéticos e o (2) problema da explosão demográfica
(HARDIN, 1968; EHRLICH, 1968; MEADOWS, 1972,
1992).46
Neste contexto, os defensores da “teoria do cresci-
mento zero” procuravam demonstrar a interdependência da
economia global e a insustentabilidade da “teoria do cresci-
mento sem limites” em face do risco de um possível esgota-
mento dos recursos naturais e energéticos, das dificuldades da
produção de alimentos em escala suficiente para abastecer os
centros urbanos e dos impactos irreversíveis da indústria e da
agricultura moderna sobre o meio ambiente.47

45
A cada ano, 6 milhões de hectares de terras produtivas são transformadas em desertos; são
queimadas mais de 11 milhões de florestas; as chuvas ácidas destroem florestas e lagos e
danificam o patrimônio histórico de muitas nações; a queima de combustíveis fosseis libera
dióxido de carbono (0²C) que vem provocando o “efeito estufa” que pode elevar as tempera-
turas médias da terra com efeitos perversos sobre a agricultura (o abandono de áreas tradici-
onais de produção agrícola) e o nível da água dos oceanos(inundação das cidades costeiras).
A liberação de certos gases pela indústria pode também comprometer a camada protetora de
ozônio (0³) que envolve o planeta terra e assim aumentar a incidência de vários tipos de
câncer para os seres humanos e animais e por em risco a cadeia alimentar da vida nos ocea-
nos.
46
Os “Limites do Crescimento” de Meadows et al. (1972) ficou conhecido como o Relatório
do Clube de Roma.
47
Ver The Ecologist (1972).
Uma longa trajetória histórica foi percorrida para a
tomada de consciência em escala mundial sobre os grandes
problemas do meio ambiente. O famoso Relatório de Founex,
resultante da reunião convocada pela ONU como parte da
preparação para a Conferência das Nações Unidas sobre
Meio Ambiente de 1972, foi muito importante para a consti-
tuição de uma agenda sobre meio ambiente e desenvolvimen-
to na medida que a polarização entre meio ambiente (repre-
sentado pelo ecologismo intransigente) e desenvolvimento
econômico (representado pelo economicismo neoclássico de
visão estreita) foi rejeitada.48
A polarização das questões sobre meio ambiente e de-
senvolvimento, entre os países centrais e periféricos, levou a
Organização das Nações Unidas (ONU) a realizar, em 1972,
uma conferência sobre o tema “Meio Ambiente e Desenvol-
vimento” na cidade de Estocolmo (Suécia).49 Apesar das di-
vergências entre os participantes do evento, o Relatório da
Conferência de Estocolmo conseguiu estabelecer as bases
metodológicas para se pensar os grandes problemas ambien-
tais do mundo numa perspectiva global.50 Além disso, o Rela-
tório de Estocolmo enfatizou a idéia da possibilidade da har-
monização entre desenvolvimento e meio ambiente. Mesmo
assim, apesar do reconhecimento de que vivemos numa Al-
deia Global, prevaleceu a política do “salve-se quem puder”
na medida em que os países desenvolvidos adotaram uma
postura individualista, segundo a qual cada nação deveria
levar adiante a sua própria política nacional para resolver os
seus problemas internos.
Com as crises do petróleo, em 1973/74 e 1979/80,
tem-se uma alta generalizada dos preços das commodities

48
Ver Sachs (1994, p. 29).
49
Antes disso, foi realizada uma reunião sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1971,
que contou com a presença de especialistas convidados pela ONU para discutir o tema.
50
O relatório final identificou os seguintes grandes problemas da sociedade global: (1) a
falta de uma política de proteção do meio ambiente era o principal responsável que afetava a
eficiência do desenvolvimento econômico e o bem-estar-social das populações; (2) o cres-
cimento das populações aumento dificulta a preservação do meio ambiente; e (3) que os
problemas ambientais dos países desenvolvidos eram causados principalmente pela poluição
industrial e os dos países em desenvolvimento pelo mau uso e esgotamento dos recursos
naturais. Ver Development Digest (1972).
minerais e agrícolas e dos produtos derivados do petróleo que
vai alterar a postura individualista dos países desenvolvidos
na medida em que estes passaram a levar a sério as previsões
neomalthusianas do Relatório do Clube de Roma relativas à
disponibilidade, acesso e controle dos recursos naturais bási-
cos tão necessários à dinâmica de crescimento das economias
dos países do “Primeiro Mundo”.
Neste aspecto, pode-se dizer que a discussão sobre os
problemas ambientais deste período estava polarizada: de um
lado, os países desenvolvidos, não aceitando o diagnóstico e
as propostas do Relatório do Clube de Roma de transitar para
um “Estado Estacionário”, através da redução das taxas anu-
ais de crescimento econômico dos países desenvolvidos para
zero ou próximo deste; de outro, os países em desenvolvimen-
to também discordando das propostas do Relatório do Clube
de Roma, pois elas iam contra as suas aspirações de desen-
volvimento econômico e feriam a soberania nacional desses
países quanto ao destino dos seus recursos naturais. 51
No Simpósio de Cocoyoc no México em 1974, sobre
Modelos de Utilização de Recursos, Meio Ambiente e Estra-
tégias de Desenvolvimento, nota-se uma mudança de postura
em torno da discussão das questões ambientais.52 De fato, a
partir daí passa-se a reconhecer explicitamente que os gran-
des problemas ambientais urbanos e de destruição dos recur-
sos naturais rurais são causados principalmente pelos países
industrializados do centro. No início da década de 80, num
ambiente da segunda grande alta dos preços do petróleo, de
uma recessão da economia mundial, do agravamento das dí-
vidas dos países do terceiro mundo e do recrudescimento da

51
O “Estado Estacionário” é um suposto estado da economia capitalista que os clássicos,
sobretudo Adam Smith e David Ricardo, tinham receio que a economia de uma nação
pudesse chegar antes de terem atingido um nível relativamente elevado de desenvolvimento
econômico. O “Estado Estacionário” de uma economia é alcançado quando a taxa de cres-
cimento do produto é zero, devido: a) a acumulação de capital que se anula porque a taxa de
lucro do mercado iguala-se à taxa de lucro mínima; b) os salários de mercado igualam-se aos
salários de subsistência e a taxa de crescimento da população anula-se a partir do momento
em que a economia atinge o máximo do seu bem-estar-social. Ver Souza (1999).
52
A Declaração de Cocoyoc é o resultado da reunião da UNCTAD (Conferências das Na-
ções Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e da UNEP (Programa de Meio Ambiente
das Nações Unidas), em 1974. Em 1975, O Relatório de Dag – Hammarskjold aprofunda as
posições contidas na Declaração de Cocoyoc.
guerra fria, tem-se a retomada da discussão da questão ambi-
ental numa perspectiva global.53
Neste particular, os Relatórios da Brandt Comission
(1980) e o The Global 2000 to President (1980) merecem
destaque por já enfocarem a questão ambiental numa pers-
pectiva global na qual são reveladas as grandes apreensões
com o futuro da humanidade. Contudo, diferentemente do
Relatório do Clube de Roma, as preocupações identificadas,
quanto à explosão demográfica, esgotamento dos recursos
naturais e destruição do meio ambiente, passaram a ser vistas
nesses documentos oficiais como possíveis de serem enfren-
tadas pelo avanço do progresso da ciência e da tecnologia.
Cabe observar, também, que os documentos oficiais referidos
enfatizavam que os problemas da explosão demográfica e da
destruição dos recursos naturais nos países em desenvolvi-
mento poderiam trazer graves conseqüências para a segurança
mundial.
Com isso, as propostas de política ambiental ganha-
ram um contorno internacional na medida em que os países
desenvolvidos passaram a aceitar o fato de que os problemas
ambientais tinham de ser atacados através de ações conjuntas
envolvendo todos os países da comunidade mundial. De fato,
dentre as propostas, para os países em desenvolvimento, pre-
conizava-se o combate à pobreza social, o aumento do fluxo
do comércio exterior, a renegociação da dívida externa e a
transferência de tecnologia. Porém, essas ações não tomaram
o curso desejado pelos países em desenvolvimento e essas
propostas transformaram-se em “letras mortas”. Na realidade,
aos países desenvolvidos interessava apenas retirar suas eco-
nomias da recessão e buscar uma saída para a continuação do
pagamento das dívidas externas.
Na segunda metade dos anos 80, a questão ambiental
volta a ter um tratamento especial com a publicação do Rela-
tório Final da Comissão Mundial para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento (CMMAD), encomendado pela ONU a um
grupo de especialistas. Este documento da “Comissão Brun-
dland”, que ficou conhecido como Relatório Brundland ou o
53
Ver Turner, R. K. (1987).
Nosso Futuro Comum, qualificou melhor as características da
hodierna crise ambiental e conferiu uma visão global dos
problemas do meio ambiente.54 O novo tratamento político
dado à questão ambiental recolocou como tema central a in-
sustentabilidade do padrão de desenvolvimento econômico
capitalista – em face da depredação dos recursos naturais e
da destruição e contaminação do meio ambiente por produtos
tóxicos – na medida em que esse modelo de desenvolvimento
econômico de produção e troca impunha limites às próprias
possibilidades do desenvolvimento socioeconômico no futu-
ro.
Com essa lógica, a Comissão Brundland demonstrava
que os problemas socioeconômicos, de agravamento da po-
breza, de superpopulação absoluta e relativa e do retardo do
desenvolvimento dos países da periferia, mantinham estreitas
ligações entre si e com os problemas ambientais. O Relatório
Brundtland ressalta ainda que as “crises globais” do planeta
terra não eram crises isoladas, vale dizer, a crise ambiental, a
crise econômica, a crise financeira, a crise social e a crise
energética são apenas manifestações de uma crise geral, com
amplitude global do modo capitalista de produção e de con-
sumo.
Não obstante, no Relatório Brundtland, o sentido da
lógica dos argumentos foi invertido: se, no passado, a preo-
cupação era com os impactos do crescimento econômico so-
bre o meio ambiente, no presente, a preocupação passou a ser
dos impactos da destruição do próprio meio ambiente sobre o
crescimento econômico. Assim, além da interdependência
econômica entre as nações, teríamos de nos acostumar com a
interdependência ecológica. A ecologia e a economia estari-
am assim cada vez mais entrelaçadas – em âmbito local, regi-
onal, nacional e internacional – numa ampla rede iterativa e
54
O cognome de “Relatório Brundtland” é uma justa homenagem à presidenta da “Comis-
são” na pessoa da norueguesa Gro Harlem Brundtland. A “Comissão”, composta por 22
pessoas, entre especialistas e lideranças políticas de vários países, dentre os quais figura a do
brasileiro, professor Paulo Nogueira Neto, foi criada pela Resolução n 0 38/161, adotada na
38a sessão da Assembléia Geral da ONU em outubro de 1983, e o “Relatório da Comissão”
foi submetido à apreciação da Assembléia da ONU, em sua 42a sessão, em outubro de 1987.
A “Comissão” também contou com os membros do “Secretariado”, com um grupo de “Con-
sultores Especializados” em diversas áreas de conhecimento e com um grupo de países
patrocinadores dos recursos financeiros. Ver CMMAD (1987, Anexo 2, p. 393-430).
interativa de causas e efeitos que estaria engendrando víncu-
los globais entre a economia e a ecologia .55
No Relatório Brundtland, chega-se admitir que go-
vernos, ONG’s e instituições internacionais estivessem tor-
nando – se cada vez mais conscientes da impossibilidade de
se tratar as questões do desenvolvimento econômico separa-
das das questões relativas ao meio ambiente. De fato, há que
se reconhecer que muitos estilos de desenvolvimento econô-
mico podem ser predadores de recursos ambientais, os quais
deveriam servir de base à promoção do crescimento, à medi-
da que a deterioração gradual do meio ambiente pode retardar
o próprio desenvolvimento econômico. Sendo a pobreza, em
escala mundial, uma das principais causas e efeitos dos pro-
blemas ambientais da economia global, os problemas do meio
ambiente não podem ser tratados somente na esfera das ciên-
cias da natureza sem que sejam referenciados também os
problemas que estão na órbita das ciências sociais.
Neste aspecto, o Relatório Brundtland afirma que o
inadequado uso e manejo dos recursos naturais e do meio
ambiente no mundo têm uma forte relação com as desigual-
dades sociais no que tange à distribuição dos benefícios do
desenvolvimento. Mais ainda, analisando o meio ambiente a
um nível elevado de abstração, e não o reduzindo apenas ao
meio biofísico, o Relatório Brundtland consegue incorporar
os meios econômico e social e popularizar o termo desenvol-
vimento sustentável como um conceito múltiplo dimensional,
envolvendo um processo interativo das relações homem-
homem, homem-natureza e homem-sociedade, porém com
dificuldades operacionais para que seja formulado teórica e
empiricamente.56

55
CMMAD (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1987, p. 5).
56
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUE) reporta-se ao termo meio
ambiente no sentido do habitat total do homem. Esta definição ecológica do ambiente
humano é bastante abrangente. Se aceita, hoje, que o meio ambiente compreende três sub-
conjuntos: o meio biótico (a flora e a fauna, ou seja, o reino dos seres vivos não humanos); o
meio abiótico (o reino dos seres brutos ou não vivos, o clima, o relevo e os mares, rios, lagos
e lagos); e o meio antrópico (onde estão o meio econômico e suas tecnoestruturas e o meio
social com suas relações humanas).
Daí em diante, as discussões e propostas oriundas de
Congressos e Seminários, sobre estilos alternativos de desen-
volvimento, seguiram as linhas mestras da agenda do Relató-
rio Brundtland que acabou levando à convocação, pela ONU,
da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD) ou simplesmente Eco-92, como ficou mais co-
nhecida mundialmente essa Conferência realizada no Rio de
Janeiro em 1992.57 No entanto, apesar do interesse da ONU
pelo Nosso Futuro Comum, a Declaração da Eco-92 acabou
não atendendo as expectativas de muitos países. De fato,
muitos problemas surgiram como conseqüência, por exem-
plo, dos EUA não concordarem com as metas e o cronograma
à limitação da emissão de CO² relativo ao efeito estufa. Um
outro problema foi a não assinatura, por parte da representa-
ção dos EUA, do documento que fixava os princípios da con-
venção sobre proteção da biodiversidade.
De qualquer maneira, o aumento da conscientização
dos danos causados do atual padrão de desenvolvimento eco-
nômico sobre o meio ambiente foi o que de significativo fi-
cou da Eco-92, pois a associação entre desenvolvimento e
meio ambiente passou a entrar na agenda governamental das
políticas nacionais da mai-oria dos países.
Além disso, as agências internacionais de apoio ao
desenvolvimento econômico, a exemplo do Banco Mundial e
da UNESCO, também passaram a incorporar, nas suas agen-
das de política de suporte aos países periféricos, a noção de
desenvolvimento sustentável como um novo paradigma capaz
do mix crescimento econômico (eficiência econômica) com
distribuição de renda (eqüidade) e a preservação ambiental
(prudência ecológica). Mas, se já era difícil às teorias de de-
senvolvimento econômico dar conta do crescimento com dis-
tribuição de renda, a incorporação normativa da variável
“preservação ambiental” tornou mais complexo ainda o tra-
tamento teórico e operacional do conceito de desenvolvimen-
to sustentável.

57
Em junho de 1992, reuniu-se mais 35 mil pessoas e 106 chefes de governo do mundo para
participar da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) sob a coor-
denação da ONU.
O Conceito de Desenvolvimento Sustentável e seus Limi-
tes
Apesar do reconhecimento da complexidade e da gra-
vidade dos desafios econômicos, sociais e ambientais, com
que a humanidade se depara nos dias atuais, os documentos
oficiais sobre meio ambiente e desenvolvimento – desde o
Relatório Founex, passando pela Declaração de Estocolmo,
pela Declaração de Cocoyoc, pelo Relatório Brundtland, pela
Declaração da Eco-92, até a Agenda 21 – passaram uma
mensagem bastante otimista, ao contrário do Relatório do
Clube de Roma, sobre a necessidade e a possibilidade de se
planejar e implementar estratégias ambientalmente adequadas
a um novo padrão ou estilo de desenvolvimento econômico,
com justiça social e prudência ecológica, inicialmente deno-
minado de ecodesenvolvimento por Sachs (1986) e que mais
tarde foi batizado com a expressão desenvolvimento sustentá-
vel. 58
Segundo o CMMAD (1987, p. 46), o “Desenvolvi-
mento Sustentável é aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade das gerações futu-
ras atenderem a suas próprias necessidades”. Este genérico
conceito de “Desenvolvimento Sustentável” contém dois
pressupostos básicos:
 “o conceito de ‘necessidades’, sobretudo as neces-
sidades essenciais dos pobres do mundo, os quais
devem receber a máxima prioridade; e
 “a noção de ‘limitações’ que o estágio da tecnolo-
gia e da organização social impõem ao meio am-
biente, impedindo-o de atender as necessidades
presentes e futuras”.59

58
Numa “nota final”, Sachs (1986, p. 177, nota 8) reconhece que a idéia de ecodesenvolvi-
mento foi lançada por Maurice F. Strong, Diretor Executivo do Programa das Nações Uni-
das para o Meio Ambiente, no decorrer da 1 a Reunião do Conselho Administrativo desse
Programa realizada em Genebra em 1973. Sachs (1986, p. 15) também afirma que o concei-
to de ecodesenvolvimento teve como aspiração inicial a definição de um novo estilo de
desenvolvimento particularmente voltado para o meio rural do Terceiro Mundo, embora
reconhecesse que ele pudesse ser estendido também para o meio urbano.
59
Ver CMMAD (1988, p. 46).
Neste sentido amplo, o conceito de desenvolvimento
sustentável não se resume apenas à dimensão biofísica,
mas incorpora as dimensões políticas, econômicas, tecno-
lógicas, sociais e culturais.60 Não pode haver desenvolvi-
mento sustentável, nos países desenvolvidos e/ou nos paí-
ses em desenvolvimento, enquanto as populações carentes
não tiverem suas necessidades sociais básicas – sobretudo
alimento, vestuário, habitação, emprego e lazer – atendi-
das. Além disso, as pessoas aspiram por uma melhor qua-
lidade de vida.
Talvez por isso mesmo é que nos países em desen-
volvimento, onde predominam a miséria, a pobreza e a
injustiça social, existe sempre a possibilidade de crises
ecológicas, políticas, econômicas e sociais. Por certo, é
importante que ocorram mudanças nas ações das institui-
ções governamentais e não governamentais, bem como
nas agências internacionais promotoras do desenvolvi-
mento sócio-econômico. Para tal, a democracia é uma
peça fundamental, para qualquer nação, na medida que
permite que o desenvolvimento sócio-econômico, sobretu-
do dos países em desenvolvimento, possa ocorrer tanto
pelo aumento da produção e do consumo de bens e servi-
ços, capazes de assegurar novas oportunidades de empre-
go e renda para todos, quanto pela inserção de inovações
tecnológicas capaz de harmonizar aumento de produtivi-
dade com preservação ambiental.
O desenvolvimento sustentável, portanto, pressu-
põe um processo de mudança radical no qual espera-se
que a exploração dos recursos naturais, a direção dos in-
vestimentos, a orientação tecnológica e as mudanças insti-
tucionais articulem-se de forma a atender às necessidades
sociais e aspirações humanas das gerações presentes e
futuras. Mas, para levar adiante tal intenção, não se deve
olvidar que as nações ricas estão bem mais equipadas,
com recursos financeiros e tecnológicos, do que as nações

60
O termo desenvolvimento sustentável foi empregado pela primeira vez por Robert Allen,
no artigo “How to Save the World”, 1980. Ver Pearce et al. (1989) e Pezzey (1989).
em desenvolvimento. Por isso mesmo, os países em desen-
volvimento são os que mais sofrem com a deterioração
dos seus ecossistemas, com a extinção das suas espécies
vegetais e animais e também com o esgotamento precoce
dos seus recursos minerais, já que, na hipótese do esgo-
tamento ou destruição antecipada destes, o processo de
industrialização desses países torna-se mais difícil e one-
roso.
É evidente que há uma grande distância entre a
“intenção e o gesto” para que o conceito de desenvolvi-
mento sustentável, aceito como uma nova estratégia de
desenvolvimento, venha realmente se constituir num novo
paradigma do desenvolvimento e tenha embasamento teó-
rico suficiente para sua aplicabilidade.
O próprio Relatório Brundtland reconhece que “é
preciso que o mundo crie logo estratégias que permitam
às nações substituir seus atuais processos de crescimento,
freqüentemente destrutivos, pelo desenvolvimento susten-
tável” (CMMAD, p. 52). Entretanto, são ainda muitos os
problemas e os desafios para se chegar a harmonizar uma
política de desenvolvimento sustentável que combine de-
senvolvimento econômico com preservação do meio ambi-
ente.61 Por outro lado, o conceito de desenvolvimento sus-
tentável carece de uma teoria de base e de um método
operacional que lhe proporcionem sustentação empírica.

Desenvolvimento Sustentável: um Conceito sem Teo-ria?


A “Comissão Brundtland”, que formulou o conceito
de Desenvolvimento Sustentável, supõe que a “humanidade
seja capaz de tornar o desenvolvimento sustentável” pela
ação (re)educadora do Estado junto a Sociedade.62 No entan-
to, esta possibilidade é admitida de forma a-histórica e sem
uma análise crítica de como viabilizá-la num mundo real di-
vidido e dominado pelo hegemônico modo de produção capi-
talista contemporâneo.

61
Ver CMMAD (1987, p. 81-98).
62
Ver CMMAD (1987, p. 9-12).
De qualquer maneira, o conceito de desenvolvi-
mento sustentável (DS) tem estado no cume de quase to-
das as agendas das políticas nacionais e internacionais de
desenvolvimento econômico. Não obstante, enquanto a
noção de sustentabilidade é amplamente aceita, o restante
da definição de desenvolvimento sustentável é assaz eva-
siva. A idéia básica de sustentar Gaia (o planeta com vida
ou a espaçonave que carrega todos) é apenas uma metáfo-
ra importante para desperta a conscientização pública e
evidenciar a necessidade de um melhor gerenciamento
quanto ao uso dos recursos naturais e a preservação do
meio ambiente (LUTZEMBERGER, 1990); BANCO
MUNDIAL¸1992, p. 9).
Nesta perspectiva, o desenvolvimento sustentável
realça a importância das responsabilidades intergeracio-
nais dos habitantes da terra, o que significa introduzir os
riscos e as incertezas do tempo econômico e o significado
ético de preservação do meio ambiente por parte das ge-
rações presentes em relação às gerações futuras. Por ou-
tro lado, o conceito de necessidade é um dos mais comple-
xos e subjetivos da economia, o que torna a definição ge-
nérica de sustentabilidade de difícil tratamento teórico,
dentro de uma já complexa e ampla definição de DS, no
campo da economia positiva.
No âmbito da economia normativa, quando se define
os principais objetivos de uma política de desenvolvimento
socioeconômico, é preciso se levar em conta a sustentabili-
dade em todos os países, desenvolvidos e em desenvolvimen-
to, qualquer que seja o seu regime econômico: economia de
mercado, economia planificada ou economia mista.63 O de-
senvolvimento econômico sustentável, portanto, supõe uma
transformação histórica do modo de produção e de consumo
da economia e do modo de vida da sociedade na busca da
equidade social e da conservação ambiental intragerações e
intergerações presentes e futuras.64 Neste sentido, o planeja-

63
Ver Laskorin (1983, p. 70-80).
64
Do ponto de vista da gestão ambiental, o conceito conservação é aplicado às atividades
que utilizam racionalmente os recursos naturais renováveis em bases sustentáveis. Quanto à
noção de preservação tem sentido mais de ação de proteger contra qualquer forma de des-
mento do desenvolvimento sustentável, para se tornar rigoro-
samente operacional, deve considerar a sustentabilidade am-
biental, em suas múltiplas dimensões, sujeita as seguintes
limitações:65
1. A sustentabilidade biofísica, pressupondo que as novas
políticas de desenvolvimento econômico incorporem,
além da justiça social, a possibilidade de mudanças tanto
no acesso e uso dos recursos naturais, quanto na distribui-
ção social dos custos e benefícios dos danos causados pe-
la atividade econômica sobre a natureza.
2. A sustentabilidade política, pressupondo uma democracia
moderna, que se caracterize pela ampla participação de
todos os membros da sociedade nos diversos problemas
que os afligem, em que o Estado e sociedade promovem e
viabilizam um arco de alianças e pactos sócio-políticos
para assegurar as condições necessárias de governabilida-
de e de uma boa governança em prol de desenvolvimento
auto-sustentado, com estabilidade e oportunidades de em-
prego e renda para todos os cidadãos;
3. A sustentabilidade econômica, pressupondo uma melho-
ria na eficiência alocativa e na gerência dos estoques de
recursos e dos fluxos de investimentos públicos e priva-
dos, oportunizadores de mais emprego e renda, de forma
a promover o crescimento auto-sustentado;
4. A sustentabilidade social, pressupondo uma melhor eqüi-
dade, quanto à distribuição da renda e da riqueza, de mo-
do a reduzir as assimetrias dos padrões sociais entre po-
bres e ricos e proporcionar uma melhor qualidade de vida
das pessoas;
5. A Sustentabilidade ecológica, pressupondo inovações
tecnológicas capazes tanto de evitar os danos sobre os re-
cursos naturais não renováveis e sobre o meio ambiente,
como de reduzir o volume dos resíduos e da poluição

truição ou dano o meio ambiente e seus recursos naturais. Ver Bellia (1996, p. 18) e Scott
(1995, p. 83-86).
65
Ver Sachs (1994, p. 37-38); Sachs (1986, p. 11-45); e Sachs (1986, p. 94-104).
através da conservação da energia e dos recursos naturais
e da indústria da reciclagem;
6. A Sustentabilidade cultural, pressupondo a inclusão soci-
al dos vários saberes populares naquilo que possam con-
tribuir para o encaminhamento de soluções específicas
para certos locais; e
7. A Sustentabilidade espacial, pressupondo a construção de
uma configuração rural-urbana mais equilibrada e tam-
bém um ordenamento territorial mais harmonioso dos as-
sentamentos humanos e das atividades econômicas.
A economia política do desenvolvimento sustentável,
portanto, busca conciliar crescimento econômico, política
econômica e meio ambiente. Por isso, é de bom alvitre não se
confundir desenvolvimento econômico sustentado com de-
senvolvimento econômico sustentável, já que este último não
se reduz apenas a crescimento, e sustentabilidade não quer
dizer somente manutenção do crescimento, mas a interação e
iteração entre o uso racional dos recursos naturais renováveis
do meio ambiente e a necessidade do crescimento econômico
auto-sustentado, talvez a principal questão econômica dos
dias atuais.
Neste sentido, apesar da crítica heterodoxa ao mains-
tream da economia – de que a teoria da ortodoxia é incompa-
tível com o desenvolvimento sustentável – os economistas
neoclássicos vêm desenvolvendo uma análise formal da sus-
tentabilidade dentro da microeconomia. Convém observar,
entretanto, que esta análise se resume à avaliação econômico-
financeira do tipo custo–benefício e só algumas vezes se es-
tende às externalidades ambientais. No entanto, o mesmo não
se pode dizer da macroeconomia que ainda não incorporou os
problemas da sustentabilidade. 66
Autores tais como Dasgupta & Heal (1979) e Pearce
& Turner (1990) procuraram demonstrar a importância das
políticas macroeconômicas em relação com o desenvolvi-
mento sustentável. Na verdade, os efeitos das políticas ma-
croeconômicas sobre a produção e consumo têm sido explo-
66
Ver Goldin & Winters (1995, p. 1-4).
rados mais com respeito à agricultura. Goldin & Winters
(1992), por exemplo, mostraram que as políticas macroeco-
nômicas – políticas fiscais, cambiais, monetárias e de renda –
podem ser mais importantes à sustentabilidade ambiental do
que as políticas públicas setoriais. Anderson & Blackhurst
(1992) e Low (1992), por outro lado, mostraram que o prote-
cionismo ambiental dos países desenvolvidos não só prejudi-
ca o saldo da balança comercial dos países em desenvolvi-
mento, como pode até aumentar a degradação ambiental,
principalmente se não for encontrada uma solução para a dí-
vida externa desses países.67
Os discursos panfletários de alguns ambientalistas
alarmistas, referentes aos impactos do crescimento econômi-
co sobre o meio ambiente, somente agora estão sendo contes-
tados à luz das evidências. Há trinta anos atrás, o Relatório
do Clube de Roma concluía que o crescimento continuado da
economia mundial iria trazer prejuízos irreparáveis para o
meio ambiente do planeta terra e uma redução da qualidade
vidas das gerações presentes e futuras. Este receio repousava
sobre duas noções intuitivas: a primeira, partindo da tese de
que mais produto requer mais insumos e assim as fontes de
recursos naturais fornecedoras de matérias-primas para os
países industriais iriam ser exauridas devido à expansão con-
tinuada do crescimento da produção e do consumo em escala
global; a segunda, oriunda da tese segundo a qual mais pro-
duto agregado significa mais emissões e resíduos poluentes e
assim a terra, como depósito natural, ficaria inevitavelmente
sobrecarregada pela continuidade do crescimento econômico.
Neste cenário, os ambientalistas mais alarmistas vis-
lumbravam a possibilidade de que a expansão da atividade
econômica mundial, eventualmente, exceda no curto prazo a
“carrying capacity” da biosfera, com graves conseqüências
para saúde das espécies humana, animal e vegetal. Para evitar
tal “tragédia global”, a sugestão dos ambientalistas alarmistas
é de restringir imediatamente o ritmo de expansão da econo-
mia global e de realizar a transição da sociedade para o “Es-

67
Ver Banco Mundial (1992).
tado Estacionário” da economia.68 Outros, a exemplo do
Banco Mundial (1992), notaram que o atual nível da ativida-
de econômica mundial também seria um fator determinante
para o aumento tanto da taxa de exaustão dos recursos natu-
rais, quanto da taxa de poluição do meio ambiente com resí-
duos sólidos e gasosos.
Além dos impactos provocados pelo nível e pela taxa
de expansão da atividade econômica mundial sobre o meio
ambiente, resta ainda considerar os efeitos provocados pela
composição do produto interno bruto e pelas técnicas usadas
à produção dos bens e serviços sobre o meio ambiente.
Não obstante, algumas evidências recentes demons-
tram que o crescimento econômico não necessariamente con-
tribui para a degradação dos recursos e do meio ambiente.
Por outro lado, as “ligações” e as “mudanças” econômicas
operadas na composição do produto, através de métodos de
produção mais amistosos com o meio ambiente, podem mais
do que compensar o aumento do nível da atividade econômi-
ca.69 Grossman (1994), por exemplo, identificou que os paí-
ses nos seus estágios iniciais de desenvolvimento, tendem a
apresentar uma deterioração da qualidade do meio ambiente,
mas que a medida que a renda per capita deles aumenta, tor-
na-se evidente o melhoramento na qualidade do meio ambi-
ente.
Baldwin (1994) é outro pesquisador que admite que o
crescimento econômico é necessário para reduzir a pobreza e
minimizar os impactos da poluição sobre o meio ambiente,
sobretudo nos países em desenvolvimento que têm altas taxas
de crescimento da população. Assim, para reduzir a pobreza e
o aumento da pressão do incremento da população sobre o
meio ambiente, é preciso que o crescimento econômico se
faça com distribuição de renda e mais políticas públicas de
investimentos voltadas para educação, saúde, habitação e
alimentação.

68
Ver Daly (1994, 1997).
69
Ver Goldin & Winters (1994, p. 4).
Apesar dos avanços no campo da macroeconomia do
desenvolvimento, sobretudo com as pesquisas dos modelos
ótimos de desenvolvimento sustentável e das várias tentativas
de medição do desempenho sócio-ambiental, através do con-
ceito de Produto Interno Líquido Ambientalmente Ajustado
(PIA), ainda falta muito para se integrar a contabilidade eco-
lógica à econômica de forma a se dispor uma “contabilidade
verde” do desenvolvimento sustentável (COSTANZA, 1994;
BARTELMUS, 1994; DASGUPTA, 1995; SERAFY, 1997).
Mesmo assim, o desenvolvimento sustentável tornou-se, de
repente, a panacéia do novo estilo de planejamento do desen-
volvimento e a nova palavra de ordem do neo-liberalismo
para a partilha dos problemas ambientais do mundo globali-
zado.
Por certo que o debate em torno da falsa dicotomia entre de-
senvolvimento e meio ambiente deixou de ser relevante.
Reconhece-se, hoje, que sem proteção ambiental o de-
senvolvimento econômico fica comprometido e sem de-
senvolvimento econômico não há proteção ambiental
(Banco Mundial, 1992, p. 27). Mas, apesar da aceitação
de que se pode compatibilizar desenvolvimento econô-
mico com redução da pobreza e dos danos sobre o meio
ambiente, sobretudo a partir de ações governamentais e
não governamentais, as opções reais para tais práticas, só
serão possíveis se os países desenvolvidos transferirem
aos países em desenvolvimento os recursos e as técnicas
de que dispõem.
Não bastasse, ao contrário da peremptória afirmação
do sociólogo Brüseke (1994, p. 2) de que a teoria do desen-
volvimento sustentável já dispõe de uma teoria positiva, por
propor uma “visão tri-dimensional do desenvolvimento na
qual a eficiência econômica casa com prudência ecológica e a
idéia de sociedade solidária e justa”, é preciso admitir que
essa possibilidade ainda está longe de se concretizar no plano
teórico-metodológico. No plano das intenções, esta proposta
de Brüseke para a construção de uma nova teoria do desen-
volvimento sustentável da sociedade global, apesar de consi-
derar caducas as “velhas teorias gerais”, não apresenta nada
de consistente do ponto de vista de um novo arcabouço ana-
lítico logicamente estruturado, capaz de, com coerência e
inteligibilidade, passar pelo teste da falseabilidade popperiana
ou se constituir num novo paradigma kuhniano.70
No âmbito das ciências sociais, uma teoria econômica
pode ter seu poder de explicação limitado frente a uma outra
com maior poder retórico de convencimento, pode ter sua
capacidade de persuasão reduzida devido às mutações da
realidade ou ainda uma combinação das duas situações ante-
riores.71 Nem por isso, o esforço científico, na busca da com-
preensão teórica da realidade social em que vivemos – uma
formação social real dominada por um modo de produção
capitalista – deve ser reduzido na sua intensidade. Tampouco,
deve-se abandonar as chamadas “velhas teorias” porque elas
não puderam evitar as “infinitas frustrações”. Pelo menos, se
realmente estiverem “caducas”, as “velhas teorias” devem
passar para o panteão da história do pensamento econômico,
refúgio das revisões e atualizações. No entanto, como já ocor-
reu várias vezes com a teoria marxiana, de repente pode-se
descobrir que “velha teoria” é bem mais atual do que as “no-
vas teorias” que perderam o sentido da história da civilização
burguesa.
De qualquer modo, o conceito de desenvolvimento
sustentável carece de uma base teórica e de medição de de-
sempenho para instrumentalizar decisões de políticas econô-
micas concernentes ao desenvolvimento sustentável.72 Entre-
tanto, isso não descaracteriza o conceito de DS para fins da
ação governamental em termos de formulação, implementa-
ção, controle e avaliação de planos, programas e projetos.73
Mas, do ponto vista analítico formal, o discurso do desenvol-
vimento sustentável deixa muito a desejar. Mesmo assim, as
agências internacionais de desenvolvimento, a exemplo do

70
Ver Costa (1995, p. 10).
71
Ver Mccloskey (1983).
72
O desenvolvimento sustentável não deve ser confundido com o desenvolvimento sustenta-
do (ou desenvolvimento auto-sustentado) que quer dizer desenvolvimento econômico endó-
geno acompanhado pelo aumento continuado do produto e de mudanças estruturais de
natureza sócio-econômicas realimentadoras do desenvolvimento por um longo período de
tempo.
73
Ver Costa, 1995, p. 10-12.
Banco Mundial e da UNESCO, adotaram o conceito de de-
senvolvimento sustentável para marcar a nova ideologia de-
senvolvimentista que busca harmonizar, numa sociedade ca-
pitalista dividida em classes, o crescimento econômico (efici-
ência produtiva), com equidade (justiça social) e conservação
do meio ambiente (prudência ecológica).
Chega-se mesmo a sugerir que o “conceito de desen-
volvimento sustentável sinaliza uma alternativa às teorias e
aos modelos tradicionais de desenvolvimento desgastados
numa série infinita de frustrações” (Brüseke, 1994, p. 35). Ou
seja, vislumbra-se aí a possibilidade da formulação holística
de uma teoria global do desenvolvimento sustentável.74 Não
obstante, é preciso frisar que as “teorias de desenvolvimento”
dos anos 60, que discutiram a questão do subdesenvolvimen-
to numa perspectiva histórico-analítica, tinham coerência
lógica e consistência metodológica.
Neste sentido, não é minha intenção aqui procurar re-
ver as frustradas tentativas de formulação de uma teoria ho-
lística do desenvolvimento sustentável. Mas posso observar,
seguindo Costa (1995, p. 12-22), que no modo de produção
capitalista a economia política do desenvolvimento nem pode
ser um subproduto da ecologia ou da biologia e nem a lógica
da acumulação ampliada conduz a um “Estado Estacionário”,
pelo menos enquanto no modo de produção capitalista o
avanço do progresso técnico se fizer adiante do crescimento
da população.75

Desenvolvimento Sustentável: um Conceito sem Método?


O conceito de desenvolvimento sustentável, como
formulado pela “Comissão Brundtland”, já nasceu órfão de
um método científico convincente e não congregou suficien-
temente a comunidade científica capaz de orientar a constru-
ção teórica de um novo paradigma científico, no sentido am-
plo de Kuhn (1982, p. 13). Nas ciências sociais, ao contrário

74
Brüseke, 1995, p. 112-119.
75
Ver Mill (1983).
das ciências exatas, os pesquisadores não podem realizar ex-
perimentos controlados como fazem os físicos e biólogos.
Além do mais, as ações e reações comportamentais são ima-
nentes nos agentes econômicos e atores sociais. Talvez por
isso mesmo, Kuhn (1982, p. 12-13), um físico teórico que
depois se interessou por história das ciências, ficou impressi-
onado com o número e a extensão dos desacordos entre os
cientistas das comunidades das ciências sociais, quanto à na-
tureza dos métodos e problemas, em relação às dos cientistas
das comunidades das ciências exatas e naturais.
Na sociedade capitalista o desenvolvimento das forças
produtivas, inclusive a própria ciência e a tecnologia, ocorre
com o aprofundamento da divisão técnica e social do trabalho
em todos os campos da atividade humana. Neste sentido,
além do avanço das ciências sociais ocorrer numa sociedade
de classes, o que leva a desacordos e confrontos teóricos, a
divisão social do trabalho científico ao criar o trabalhador
parcial – cuja possibilidade de ter uma visão e uma compre-
ensão do todo no plano científico e tecnológico fica limitada
– abre a oportunidade de que a perspectiva do todo possa ser
apropriada pelo trabalhador universal. Portanto, quanto à
retórica da visão holística, como a única capaz de integrar as
ciências sociais às ciências da natureza, há que se refletir me-
lhor sobre os discursos e significados do pensamento totali-
zante (BRÜSEKE, 1994).
Neste sentido, apesar da significativa produção de tra-
balhos girando em torno do tema desenvolvimento sustentá-
vel, é preciso atentar para o fato de que a maioria dos autores
produz como se já houvesse uma teoria geral e holística de
uma ciência sócio-ambiental, incorrendo em sério equívoco.
Há que se reconhecer que os problemas sócio-ambientais são
problemas complexos nos quais intervêm processos de dife-
rentes racionalidades, ordens de materialidade e escalas espa-
ço-tempo-rais. A problemática ambiental, que se constitui
num campo onde se situam as interrelações sociedade- natu-
reza, cujo conhecimento é visto como demandando uma certa
aproximação holística e um método interdisciplinar capaz de
permitir a integração das ciências da natureza e da sociedade
em seus aspectos biológicos, físicos, sociais, econômicos e
culturais, tem seu centro fulcral na economia política.
A concepção de complexidade ambiental tem predo-
minado a visão dos ecologistas sobre as relações sociedade-
natureza (MORIN, 1980, 1986). Neste caso, as preocupações
têm se concentrado nos problemas de conservação dos recur-
sos naturais renováveis e de preservação da biodiversidade
natural. Mais recentemente, entretanto, tem-se passado paula-
tinamente da noção restrita de meio ambiente – que considera
essencialmente só os aspectos físicos e biológicos da base
natural do ambiente humano – para uma noção mais ampla
de meio ambiente na qual, além dos essenciais elementos do
ambiente natural, são também incorporadas as dimensões
socioeconômicas, sócio-políticas e sócio-culturais da base
social do ambiente humano, nas quais são definidas as orien-
tações e os instrumentos conceituais e técnicos que permitem
ao homem compreender e utilizar melhor os recursos da bios-
fera para satisfação de suas necessidades (UNESCO, 1980,
1985).
Assim, admite-se que se tenha avançado da concepção
fechada de uma educação ambiental baseada na busca de uma
articulação interdisciplinar entre as ciências naturais e soci-
ais, a uma visão da complexidade ambiental, aberta a diversas
interpretações do ambiente e a um diálogo de saberes, donde
confluem as vias epistemológica e hermenêutica à construção
de uma racionalidade ambiental (LEFF, 1996; ACEVEDO
MARIN & CASTRO, 1997). Como conseqüência disso, pode
se identificar, hoje, vários programas interdisciplinares de
ensino e pesquisa sobre a problemática ambiental. Todavia,
nesses programas desdobram-se estratégias acadêmicas e
experiências dissimuladas que apenas confirmam que o pro-
cesso de construção de uma ciência ambiental avança de ma-
neira “prática”, isto é, sem ainda haver se consolidado uma
reflexão teórica que fundamente as ditas “práticas”.
Entretanto, apesar dos avanços práticos, pode-se dizer
que são raros os “programas universitários” de ensino e pes-
quisa sobre meio ambiente que trabalham realmente as pro-
blemáticas epistemológica e metodológica da interdisciplina-
ridade (FOLLARI, 1982; LEFF, 1994; VIEIRA, 1993). É
verdade que a interdisciplinaridade tem aberto alguns espaços
marginais nas universidades, porém ainda tem sido um tema
pouco tratado a nível formal para fundamentar teoricamente
os diversos programas de pesquisa e ensino. Na realidade, na
maioria das vezes, a interdisciplinaridade é incorporada nos
“programas universitários” apenas como um princípio básico
que se satisfaz com a multiplicidade de temas introduzidos
nos currículos. Neste particular, é preciso enfatizar que a in-
terdisciplinaridade tem transcendido os campos do ensino e
da pesquisa restritos as disciplinas científicas, a sua configu-
ração paradigmática e suas possíveis articulações (LEFF,
1998).
É verdade que a crise ambiental criou condições para
que emergisse o conceito de desenvolvimento sustentável.
Porém, a construção de uma teoria geral do desenvolvimento
sustentável capaz de incorporar a estrutura das ciências da
natureza e da sociedade, em suas relações homem-natureza,
homem-sociedade e sociedade-natureza, ainda está para acon-
tecer. Sachs (1986, p. 26), por exemplo, reconhece que “o
conceito de desenvolvimento sustentável tem que ser opera-
cional”, mas que “sua aplicação requer, todavia, um esforço
de pesquisa contínuo e ações de demonstração, submetidas a
uma reflexão crítica, a fim de estabelecer retroações perma-
nentes entre a prática e a ciência voltada para a ação”.
Para viabilizar tal proposta, Sachs (1986, p. 27) suge-
re a criação de uma rede internacional de intercâmbio profis-
sional entre pesquisadores dos países desenvolvidos e em
desenvolvimento, bem como o recolhimento das experiências
de desenvolvimento sustentável, a partir de estudos de casos
pontuais, com vistas a definir pontos de interesse em torno
dos quais se daria a colaboração entre biólogos, tecnológos e
planejadores – profissões que ainda têm pouco diálogo. Fica
evidente que a proposta de Sachs (1986, p. 18-26) para a
formulação de políticas nacionais e/ou regionais de desenvol-
vimento sustentável, tem um caráter mais de ação normativa
multidisciplinar, através do intercâmbio multiprofissional
entre as várias áreas do conhecimento humano, voltada à de-
finição de prioridades da pesquisa em matéria de ecotécnicas
e de formas de organização do desenvolvimento sustentável.
Igualmente, percebe-se que a própria agenda ambien-
tal da “Comissão Brundtland”, ao conceituar desenvolvimen-
to sustentável, está voltada muito mais para a formulação de
estratégias de planejamento do desenvolvimento, capazes de
incorporar explicitamente os recursos naturais e o meio am-
biente, do que para a formulação de uma teoria geral do de-
senvolvimento sustentável. Neste caso, talvez, o conceito de
desenvolvimento sustentável devesse se circunscrever às es-
feras normativas do planejamento e da gestão ambiental.
Sendo assim, o esforço de construção da praticabilidade tal-
vez ficasse melhor nas mãos dos técnicos responsáveis pela
formulação, implementação, controle a avaliação das políti-
cas públicas ambientais.
Em geral, o meio ambiente, enquanto objeto científi-
co, é visto às vezes como tendo dois componentes: um, liga-
do às ciências da natureza, que toma a natureza não-humana
no âmbito dos ecossistemas e na perspectiva da ecologia, que
estuda as relações entre os seres vivos, animais e vegetais, e
destes com o ambiente natural; e, outro, ligado às ciências
sociais que toma a natureza humana no âmbito da sociedade e
na perspectiva da economia social, que estuda as relações
entre classes sociais e destas com o ambiente social. Não obs-
tante, na sociedade capitalista, as relações sociais de produ-
ção e de troca, enquanto relações de propriedade privada,
estabelecem relações homem-sociedade e homem-natu-reza.
Neste sentido, o meio ambiente como objeto científico
tem uma dupla natureza. Como meio ambiente social, deveria
ser objeto das ciências sociais; como meio ambiente natural,
das ciências da natureza. Esta dupla natureza das questões
ambientais, envolvendo as ciências sociais e as ciências da
natureza, causa uma primeira dificuldade à definição do obje-
to meio ambiente e, portanto, à própria constituição de uma
ciência ambiental. Por tratar-se de uma definição relativa e
sujeita a mudanças no tempo – dependendo do centro de inte-
resse particular do trabalho científico – o objeto meio ambi-
ente acaba se diferenciando mais em função do campo disci-
plinar. Uma segunda dificuldade à definição do objeto meio
ambiente é dada tanto pela sua complexidade lógica (simpli-
cidade na descrição do objeto) quanto pela complexidade
metodológica (o método interdisciplinar).
Por fim, uma terceira dificuldade à definição do obje-
to meio ambiente decorre de uma certa ambigüidade para a
diferenciação e avaliação precisa – em face das tênues rela-
ções de causa e efeito – dos fenômenos bióticos e/ou abióti-
cos daqueles antrópicos induzidos pela ação do homem sobre
a natureza. Talvez, por isso mesmo, a discussão em torno da
questão da interdisciplinaridade tenha sido, pelo menos até o
momento, pouco precisa no que tange ao seu conteúdo e ob-
jeto (MAIMON, 1993). Com efeito, se pode identificar diver-
sas formas de intervenção interdisciplinar para cada situação
em que é enfocada a questão ambiental (SINACEUR, 1991;
MAIMON, 1993; LEFF, 2000).
A crítica corrente ao método interdisciplinar está vin-
culada tanto ao problema da identificação e delimitação do
objeto interdisciplinar, no que tange a sua totalidade e com-
plexidade, quanto ao problema do sujeito interdisciplinar,
entendido este como o sujeito coletivo que emerge de uma
dada equipe de trabalho. Nesse ambiente, o método interdis-
ciplinar é considerado idealista, pois estaria baseado no pres-
suposto do primado explicativo das idéias, e de sua autono-
mia frente ao real, dando suficiência absoluta ao sujeito pen-
sante do objeto.
Neste particular, a posição crítica ao significado de in-
terdisciplinaridade também diz respeito à idéia de “pan-
interdisciplinaridade”, ou seja, o fato da interdisciplinaridade
ser vista como uma resposta para tudo, um remédio a todos
os males da fragmentação do saber. A filosofia da práxis não
aceita esta idéia da potencialidade multidimensional de uma
interdisciplinaridade que, fundada na apologia da construção
dos consensos e harmonias, desconhece as determinações
históricas do modo de produção capitalista, as contradições
em processo do capital e as lutas das classes sociais no interi-
or da sociedade moderna (FAZENDA, 1994, 1998; (JAN-
TSCH & BIANCHETTI, 1995). Ademais, há ainda a crítica
ao sentido a-histórico da interdisciplinaridade, sobretudo
quando esta não reconhece que as ciências disciplinares são
frutos de racionalidade da história da emancipação do ho-
mem, portanto não sendo fragmentos de uma unidade perdida
do saber.
De qualquer maneira, a interdisciplinaridade pretende
se afirmar, enquanto método holístico e universal, como críti-
ca à especialização disciplinar da ciência normal departamen-
talizada. De fato, o termo interdisciplinaridade vem sendo
usado como sinônimo e metáfora de toda e qualquer interco-
nexão entre campos diversos do conhecimento, do saber e de
práticas que envolvem tanto as diversas disciplinas, quanto as
diferentes instituições e setores sociais. É comum hoje que
diversos centros e organismos, governamentais e não-
governa-mentais, dedicados ao ensino, à pesquisa, à assesso-
ria, à consultoria e/ou à promoção de projetos comunitários,
se autodenominem como centros interdisciplinares de estu-
dos.
Neste contexto, como observa Leff (2000, p. 3),
“la interdisciplinariedad no solamente se aplica como
la composición multidisciplinaria de sus colaborado-
res, sino como un dialogo de saberes que funciona en
sus prácticas, y que no aduce directamente a la arti-
culación de conocimientos disciplinarios; donde lo
disciplinario puede aplicarse a la conjugación de di-
versas visiones, habilidades, conocimientos y saberes
dentro de prácticas de educación, análisis y gestión
ambiental, que de algún modo, implican a diversas
“disciplinas” – formas, modalidades, tipos de trabajo
–, pero que no se agota en una relación entre disci-
plinas científicas, campo no cual originalmente se
plantea a interdisciplinariedad para enfrentar el frac-
cionamiento y superespecialización del conocimien-
to”.
De qualquer maneira, há ainda quem utilize indistin-
tamente os termos interdisciplinar (ou interdisciplinaridade) e
multidisciplinar (ou multidisciplinaridade) como se fossem
sinônimos. Neste ponto, cabe diferenciar o que é muldiscipli-
nar do que é interdisciplinar. Apesar desses termos serem
comumente usados como sinônimos, há diferenças semânti-
cas e metodológicas marcantes.76
Para Aragón (1994, p. 10), por exemplo, o trabalho
interdisciplinar é a integração do conhecimento fragmentado
possuído por especialistas de diferentes campos do saber hu-
mano, aplicado somente para problemas específicos. Não
obstante, a simples agregação do “conhecimento fragmenta-
do” não necessariamente é trabalho interdisciplinar. Além do
mais, tratar de problemas específicos pela justaposição disci-
plinar estar mais para trabalho muldisciplinar (que abrange
muitas disciplinas com objetos diferentes) do que para traba-
lho interdisciplinar (que tem um objeto comum a duas ou
mais disciplinas), sobretudo se tomarmos o significado desses
termos numa perspectiva metodológica. Embora reconhecen-
do que o saber especializado é uma condição necessária, mas
não suficiente à prática do trabalho interdisciplinar (ou multi-
disciplinar?), Aragón (1994, p. 10-12), seguindo o que já
tinha sido dito por Sachs (1986), apenas acrescenta que a
multidisciplinaridade pressupõe determinadas mudanças de
atitudes por parte dos especialistas e o trabalho cooperativo
através da networking.
No plano da ação normativa, é possível, sim, o diálo-
go entre profissionais de distintos ramos do conhecimento
humano: biólogos, ecólogos, geógrafos, economistas, antro-
pólogos, sociólogos e cientistas políticos. Neste caso, o mé-
todo de organização do trabalho multidisciplinar é um ele-
mento necessário para a pesquisa aplicada que se baseia nas
experiências alternativas de sustentabilidade, quanto ao uso
dos vários recursos naturais, através das práticas de manejo,
sobretudo nas atividades agroextrativas. Mesmo assim, o mé-
todo multidisciplinar supõe trabalho cooperativo e uma mu-
dança de atitude dos pesquisadores especialistas. Mas, ainda
que o diálogo multiprofissional seja possível, cada especialis-
ta continuará tendo, numa visão sistêmica, o seu próprio obje-
to de investigação, ou seja, a muldisciplinaridade não trans-
forma um economista num físico e nem um físico num eco-
76
No Dicionário do Aurélio, o termo Interdisciplinar significa aquilo que é comum a duas
ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento; enquanto o termo multidisciplinar diz res-
peito àquilo que abrange muitas disciplinas.
nomista. Por outro lado, a proposta de uma metalinguagem
codificada, para a integração multiprofissional, pode trazer
mais confusão à construção da “torre de babel”.
A necessidade de construção de uma teoria do desen-
volvimento sustentável – enquanto uma teoria geral alternati-
va às teorias gerais existentes – pressupõe, para além do tra-
balho cooperativo multidisciplinar, a formulação um novo
método interdisciplinar, ou seja, de uma metodologia capaz
de integrar os objetos das ciências humanas e das ciências da
natureza num objeto único de uma ciência ambiental capaz de
permitir a construção de uma teoria do desenvolvimento sus-
tentável.
No campo da economia positiva, por exemplo, devido
à ampla diversidade metodológica das várias correntes de
pensamento econômico, tem-se algumas fronteiras dentro e
entre a economia política e teoria econômica dominante.
Mesmo assim, quando os economistas conseguem superar os
seus obstáculos epistemológicos e ideológicos, é possível
erguer certas pontes entre as herméticas fronteiras como o
fizeram Keynes (tradição neoclássica) e Kalecki (tradição
marxista), em torno da construção da teoria da demanda efe-
tiva. Neste caso, o elemento comum, para que fosse estendida
uma ponte entre as duas correntes de pensamento, foi o pro-
blema da insuficiência da demanda efetiva que, embora tenha
sido percebido por Marx e Malthus, só foi se constituir em
uma teoria geral da demanda efetiva com Keynes e Kalecki.
Mas, se não é fácil conciliar determinadas teorias per-
tencente ao campo de conhecimento das ciências sociais, e
mesmo dentro do campo das ciências da natureza, o que dizer
das propostas que reivindicam uma interdisciplinaridade
ampla – ciências da sociedade com ciências da natureza – em
torno do ideário do desenvolvimento sustentável (COSTA,
1996). Muitas das vezes, o propósito de unificação dos dis-
cursos científicos, visando a busca da homogeneização de
estruturas conceituais, tem se configurado numa “prática in-
terdisciplinar” concebida a partir da teoria geral de sistemas.
Neste particular, o objetivo unificador e reducionista,
compartilhado pelo positivismo lógico, tem reaparecido nas
explicações de físicos e biólogos sobre processos históricos,
surgidos do desejo de encontrar um único principio organiza-
dor da matéria, “como si se experimentara uma singular re-
pugnancia a pensar a diferencia, a descrever las separaciones
y sus disperciones, a disociar la forma reafirmante de lo idén-
tico” (FOULCAULT, 1969, p. 21).
O desenvolvimento das idéias “verdes” dos movimen-
tos ambientalistas nasceu da revolta ou da insatisfação da
ciência normal contra si mesmo (BRAMWELL, 1989; LEIS
& D’AMATO, 1995). Não obstante, o ambientalismo é um
movimento sócio-político que pretende se assumir com base
na própria ciência. De fato, embora
“critiquem a dominação da vida pela ciência, os eco-
logistas valem-se da ciência para fazer frente a esta
em nome da vida. O princípio defendido não é a ne-
gação do conhecimento, mas sim o conhecimento su-
perior: a sabedoria de uma visão holística, capaz de
ir além das abordagens e estratégias de visão restri-
tas, direcionadas à mera satisfação de necessidades
básicas. Neste sentido, o ‘ambientalismo’ tem por ob-
jetivo reassumir o controle social sobre os produtos
da mente humana antes que a ciência e a tecnologia
adquiram vida própria, com as máquinas finalmente
impondo sua vontade sobre nós e sobre a natureza:
um temor ancestral da humanidade” (CASTELLS,
1999, p. 155).
Neste ambiente polêmico, marcado por profunda dis-
cordância, se insere a necessidade de uma estratégia episte-
mológica para abordar a interdisciplinaridade ambiental que
se põe de forma crítica às ideologias teóricas de uma ecologia
generalizada e de um pragmatismo funcionalista que não só
desconhecem o processo histórico de diferenciação, consti-
tuição e especificidade das ciências e dos saberes, como tam-
bém as estratégias de poder das ciências (conhecimento) que
se plasmam no campo da ciência ambiental (LEFF, 1981,
1986, 1994). Neste sentido, Foucault (1969) se refere à “sur-
preendente eficácia do criticismo, descontínuo, particular e
local frente ao efeito inibidor das teorias totalitárias e dos
paradigmas globalizadores”. A atual redescoberta da impor-
tância do “saber popular”, por exemplo, é um testemunho da
“insurreição dos saberes subjugados e dos conteúdos históri-
cos que têm sido enterrados e ocultados em uma lógica fun-
cionalista ou numa sistematização formal” (FOUCAULT,
1980).
Com efeito, esta estratégia teórica para o desenvolvimento de
uma interdisciplinaridade ambiental, em torno da consti-
tuição de um novo saber ambiental, combate criticamen-
te os efeitos ideológicos do reducionismo ecologista e do
funcionalismo sistêmico. Por exemplo, pensar o homem,
como indivíduo deslocado do seu contexto histórico, e as
formações sócio-econômicas, como populações biológi-
cas inseridas no processo evolutivo da natureza, podem
induzir à tentativa de explicar a conduta humana e a prá-
xis social por meio de suas determinações genéticas e/ou
de sua adaptação funcional ao ambiente (WILSON,
1975). Por certo, estas “teorias sóciobiológicas” desco-
nhecem a especificidade histórica das relações sociais de
produção, das regras da organização cultural e das for-
mas do exercício do poder político e ideológico nas quais
se inserem as formas de conhecimento, as mudanças so-
ciais e as formas de uso dos recursos naturais (LEFF,
2000).
Por outro lado, não é correto “metodologizar” a eco-
logia, como a disciplina por excelência das interrelações entre
seres vivos, para convertê-la numa “teoria geral de sistemas”,
ou seja, numa “ciência das ciências” capaz de integrar, sem
mediação teórica crítica, os distintos níveis do real e os dife-
rentes processos materiais e simbólicos, como subsistemas de
um ecossistema global. De fato, não há como admitir, sem
crítica, a ecologia generalizada de Morin (1980) que promete
a reconstrução da realidade como um todo, por meio da inte-
gração dos diversos ramos do saber, com um tipo de interdis-
ciplinaridade que acaba obstacularizando a reconstrução do
real histórico a partir da especificidade e da articulação dos
complexos processos da ordem natural e social.
De forma similar, Brookchin (1990) busca estabelecer
uma certa filosofia da ecologia social baseada num “natura-
lismo dialético” que se propõe explicar a evolução da socie-
dade no sentido da emergência de uma consciência ecológica
ordenadora de uma sociedade eco-comunitária (LEFF, 1999).
Também é arriscado uniformizar os níveis ontológicos do
real por meio de uma teoria geral de sistemas a la Bertalanffy
(1968), que estabelece os isomorfismos e as analogias estru-
turais, através da análise formal de processos de distintas
ordens de materialidade, porém deixando de fora o valor das
diferenças e o potencial do heterogêneo (LEFF, 2000).
Estas formações ideológicas, que encobrem os méto-
dos da interdisciplinaridade ambiental, tendem a naturalizar
os processos políticos de dominação e a ocultar os processos
de reapropriação mundial da natureza contidas nas estratégias
dominantes da globalização econômica. Neste sentido, a luta
pela construção de um saber ambiental abre uma perspectiva
de análises da produção e da aplicação de conhecimentos
como um processo que compreende tanto as condições epis-
temológicas às possíveis articulações entre as ciências, quan-
to os processos de internalização do saber ambiental emer-
gente nos núcleos duros da racionalidade científica e da hi-
bridação das ciências com o campo dos saberes populares e
locais (LEFF, 1998).
Mas a interdisciplinaridade teórica, entendida como a cons-
trução de um objeto científico a partir da colaboração de
diversas disciplinas, e não só como tratamento comum de
uma temática, é um processo que tem se consumado em
poucos casos da história das ciências. Além disso, estes
casos não são generalizados o suficiente para gerar daí
uma metodologia aplicável para produzir efeitos simila-
res em outros campos do conhecimento e da investigação
científica. Por isso mesmo, diante da insuficiência da in-
terdisciplinaridade ambiental, há quem pretenda uma me-
todologia transdisciplinar para o desenvolvimento cogni-
tivo sobre a complexidade ambiental (LEFF, 1986; SIL-
VA, 1999).
Mais recentemente, alguns amazonólogos elaboraram “teori-
as” que pretendem explicar a dinâmica social do subde-
senvolvimento da Amazônia a partir dos conceitos de
economia produtiva e economia extrativa (BUNKER,
1985) ou dos conceitos de entropia e sintropia (ALTVA-
TER, 1993). Ambas teorias gerais sobre a Amazônia têm
em comum o determinismo das leis físicas da termodi-
nâmica que prevê o irreversível esgotamento das fontes
de energia e de matéria prima, em decorrência do aumen-
to da entropia e da redução da sintropia, a continuar o
avanço da economia capitalista nas regiões ricas em re-
cursos naturais.77

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77
Essas ditas “teorias gerais”, apesar da consistência lógica, ainda problematizam a Amazô-
nia de forma extremamente parcial, como bem observa Costa (1996, p. 8).
Foi Georgescu-Roegen (1971) que introduziu a lei da entropia na produção econômica ao
destacar a importância do substrato material e energético dos valores de uso, já observado
pelos fisiocratas e, portanto, dos valores de troca. Neste sentido, a alta dispersão de calor de
determinados processos produtivos passou a ser considerada importante para a gestão ecoló-
gica do planeta. No entanto, apesar da importância da lei da entropia para a ecologia, a
preocupação com o esgotamento dos recursos naturais no longo prazo não deve ser exagera-
da, como o faz Georgescu-Roegen, a ponto de conceber uma entropia crescente para todo o
sistema solar que, ao cabo de alguns bilhões de anos, daria fim à vida no planeta terra.
Esta lei da física vem servindo de pano de fundo à formulação de algumas “teorias gerais”
que se propõem a explicar o desenvolvimento do subdesenvolvimento da Amazônia. Não
obstante, apesar dessas observações, o desenvolvimento deste assunto ficará para outra
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O PADRÃO INSUSTENTÁVEL DA
DEMANDA MATERIAL DA
E C O N O M I A D O B R A S I L 78

78
Texto produzido sob os auspícios do Projeto Amazônia 21, financiado pela União Euro-
péia e apresentado, em versão preliminar, na Conferência Internacional Desenvolvimento
Regional Sustentável na Amazônia: estratégias e instrumento, período de 24 a 27.10.2001,
em Manaus-AM.
José Alberto
da Costa Machado

Introdução
O debate sobre a sustentabilidade da relação entre a
Sociedade e o Ambiente, após sua fase inicial de denúncia e
diagnóstico, parece ter obtido maturidade com a legitimação
de uma matriz metodológica conhecida como Material Flow
Analsyis (MFA). Essa abordagem, testada ao longo dos anos
noventa por diversas instituições de pesquisas79 está agora
formalmente legitimada como referência pela União Europeía
(EUROSTAT, 2001) Os resultados aportados pelo uso do
MFA possibilitam a análise do sistema econômico através de
seus fluxos materiais e não somente dos fluxos monetários,
como ocorre com os instrumentos clássicos. Isso permite me-
dir a intensidade material da economia, a racionalidade da
utilização dos recursos naturais e o tamanho das mochilas
ecológicas80. Informações dessa natureza permitem conhecer
o peso ambiental dos processos econômicos e viabilizam a
construção de indica-dores de sustentabilidade, com base
empírica consistente. Neste trabalho são apresentados os flu-
xos materiais e os indicadores deles resultantes para a eco-
nomia do Brasil, referentes ao período de 1975-95.

Teoria, métodos e materiais


O MFA é um método que filia-se à Teoria de Siste-
mas81. Por esta os sistemas naturais82 podem ser classifica-
79
IFF – Institute of Interdisciplinary Research – Áustria, Centre of Environmental Science –
Holanda, Wuppertal Institute for Climate, Environment and Energy – Alemanha, Núcleo de
Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Brasil e outros.
80
Trata-se da quantidade de matéria que é mobilizada pela economia, mas que não se integra
aos produtos gerados.
81
Essa teoria tem sido tratada como forma de pensar a realidade que só ganha concretude
quando associada a um particular campo do conhecimento e que, nessas circunstâncias,
assumiria o rigor e as características do campo de conhecimento hospedeiro. Entretanto,
modernamente, a Teoria de Sistemas é um campo autônomo de conhecimento, com referen-
ciais próprios e que, em relação às demais áreas, comparece como uma meta-teoria portado-
ra de uma particular cosmovisão.
82
Embora existam sistemas feitos pelo homem, como as máquinas e os softwares, os concei-
tos a serem utilizados referir-se-ão aos sistemas naturais, isto é, aqueles que fazem parte do
funcionamento do ambiente material e do ambiente social.
dos83, conforme sugerem Prigogine & Stengers, 1984, em
função do tipo de relação desenvolvida com seu ambiente
relevante, a saber: sistemas isolados, que nada trocam com o
ambiente84, sistemas fechados – que trocam apenas energia
com o ambiente85 e sistemas abertos – que trocam energia e
matéria com seu ambiente. Estes últimos emergem, crescem,
assumem um estado estacionário, evoluem, assumem novos
estados estacionários e quando não conseguem sustentar esse
estado e nem auto-impor-se evolução, morrem. Pode-se sinte-
tizar esse ciclo da seguinte forma: (i) para garantir a reprodu-
ção do seu metabolismo energético-material o sistema impor-
ta matéria e energia do seu ambiente relevante, o campo de
interação; (ii) para que essa importação possa ocorrer, o sis-
tema atua sobre seu ambiente relevante a fim de configurá-lo
às suas necessidades; (iii) ao atuar para configurar esse ambi-
ente e para importar matéria e energia, o sistema “importa”
sinais de mudanças no ambiente, o que o obriga a reagir atra-
vés de ajustes em seus parâmetros de funcionamento ou de
mudanças estruturais; (iv) a energia necessária para esta per-
manente readaptação comportamental e estrutural é a entro-
pia do sistema, que, se excessiva, inviabiliza sua existência.
Assim, a sustentabilidade de um sistema aberto, do
ponto de vista de sua atuação86, depende da natureza do seu
metabo-lismo energético-material, isto é, se seu modo de
reprodução é ou não sustentável. A qualidade desse metabo-
lismo energético-material se revela por efeitos observáveis,
no ambiente relevante, na coerência estrutural e nos elemen-
tos internos do sistema. Esses efeitos precisam ser percebidos
pelo sistema, para que ele possa ajustar seu metabolismo.
O MFA é um método que permite acessar a relação
Sociedade-Ambiente através da mensuração de duas dinâmi-
cas principais: a primeira, o metabolismo sócio-econômico,

83
Quando não citados, os conceitos a serem apresentados baseiam-se em Fenzl, 1995, 1997;
e Machado, 1998.
84
Tais sistemas existem em função da energia que, por alguma razão, já esteja circulando
em seu interior. Na prática, com exceção do próprio universo, não existem sistemas isolados.
85
Um exemplo é a Terra. Ela recebe energia solar e exporta para o espaço a energia não
utilizada ou escapada dos seus processos internos
86
Há mutações ambientais que surgem autonomamente no ambiente e que também afetam a
sustentabilidade do sistema.
traz a noção de que sociedade, através do sistema econômico,
retira recursos do Ambiente, processa-os na intimidade de
suas engrenagens e deposita-os de volta no Ambiente na
forma de produtos e resíduos; a segunda, colonização, traz a
noção de que a sociedade, também mediada pelo sistema
econômico e visando adequar o Ambiente aos seus interesses,
intervêm nele, transfor-mando-o para o atendimento de suas
necessidades exclusivas, em prejuízo de outras espécies.
Aprofundamentos sobre esse método podem ser encontrados
em Bringezu, 2000; Bringezu & Schütz, 2001; Fischer-
Kowalski, 1998, 1999a, 1999b.
Pelo estudo do metabolismo sócioeconômico pode-se
caracterizar os principais fluxos materiais decorrentes da re-
lação entre Sociedade e Ambiente. Tais fluxos revelam a
intensidade material da economia e, por consequência, seu
padrão de sustentabilidade. Para este trabalho as principais
categorias de conceitos utilizados estão enumeradas a seguir.
Os agregados materiais associados à esses conceitos foram
calculados e, com eles, construídos indicadores e examinadas
suas tendências ao longo do período estudado. Esses agrega-
dos são:
- População: trata-se da população do país;
- Produto Interno Bruto (GDP87.): trata-se do
produto da economia retirado das contas nacio-
nais;
- Extração Doméstica (DE): trata-se do material,
utilizado pela economia, que foi retirado do ambi-
ente do próprio país;
- Matéria Diretamente Utilizada (DMI): trata-se
do total de matéria utilizada pelo sistema econô-
mico. É obtida pela soma da extração doméstica
(DE) e pela matéria importada de outros países.
- Matéria Domesticamente Consumida (DMC):
trata-se do total de matéria utilizada pelo sistema

87
A sigla de cada conceito está sendo apresentada conforme aparece nos padrões internacio-
nais. Normalmente essas siglas são formadas pelas iniciais dos conceitos em suas versões
em inglês.
econômico e destinada à economia do próprio
pais. É obtida pela subtração entre DMI e a maté-
ria exportada.
- Matéria Total Utilizada (TMI): trata-se do total
de matéria mobilizada pelo sistema econômico em
suas atividades. É obtida pela soma da DMI com a
matéria extraída domesticamente e não usada, isto
é, aquela matéria que não integra as mercadorias
negociadas pelo sistema econômico.
Detalhes sobre os dados e seu processo de obtenção
podem ser encontrados em Machado, 1999.
Resultados
Os principais resultados e indicadores podem ser con-
feridos na Tabela 1: Demanda material da economia do
Brasil nos anos 1975-95. Por essa tabela pode-se contatar
que:
a) a Extração Doméstica (EC) era, em 1975, 1.081.358 mil
toneladas e passou para 2.383.073, em 1995, o que repre-
senta um aumento de 120,37%;
b) a Matéria Diretamente Utilizada (DMI) era, em 1975,
1.136.020 mil toneladas e passou para 2.476.867, em
1995, o que representa um aumento de 118,03%;
c) a Matéria Domesticamente Consumida (DMC) era, em
1975, 1.040.907 mil toneladas e passou para 2.269.240,
em 1995, o que representa um aumento de 118,00%;
d) a Matéria Total Utilizada (TMI) era, em 1975, 1.706.777
mil toneladas e passou para 3.530.142, em 1995, o que
representa um aumento de 106,83%;
Observa-se, assim, que todos os agregados materiais tive-
ram aumento que são superiores, em ampla escala, os aumen-
tos da população (47,72%) e do PIB (67,54%). Isso significa
que a economia do Brasil tem uma intensa e crescente de-
manda por matéria sem que isso seja decorrente dos princi-
pais fatores capazes de justificar tal aumento (aumento popu-
lacional e crescimento do produto econômico).
Em relação aos indicadores pode-se observar o que
segue:
a) a DE per capita era 9,9 toneladas e passou para 14,6;
a DMI per capita era 10,4 toneladas e passou para
15,2; a DMC per capita era 9,6 toneladas e passou
para 13,9; e a TMI per capita era 15,7 toneladas e
passou para 21,6;
b) a DE por milhão de GDP era 2.856 toneladas e pas-
sou para 3.756; a DMI por milhão de GDP era 3.000
toneladas e passou para 3.904; a DMC por milhão de
GDP era 2.749 toneladas e passou para 3.577; a TMI
por milhão de GDP era 4.507 toneladas e passou pa-
ra 5.564.
Quando se considera o consumo per capita observa-se
que o crescimento absoluto da demanda por matéria foi em
torno de 46% em relação à DE, DMI e DMC e de 37% em
relação à TMI. Quando se considera o consumo por cada mi-
lhão do GDP observa-se que o crescimento absoluto foi em
torno de 31% em relação à DE, DMI e DMC e de 24% em
relação à TMI. Os resultados expressados por esses indicado-
res mostram que, em 1995, a economia do Brasil ficou muito
mais voraz por matéria do que era em 1975.
As tendências desses agregados e indicadoras podem
ser conferidas no Gráfico 1: Tendência demanda material da
economia do Brasil nos anos 1975-95. Por ele observa-se
que há uma tendência consistente no sentido de crescimento
de todos os indicadores. Além disso, constata-se uma tendên-
cia para desencaixar o crescimento da consumo de matéria do
crescimento do GDP e população. Isso sugere que o consumo
de matéria do Brasil, embora influenciado pelo aumento po-
pulacional e pelo crescimento da economia, possui uma di-
nâmica própria que o torna cada vez mais intenso e, por isso,
de padrão insustentável.

Conclusões
O uso de dados quantitativos e de indicadores de fácil
entendimento permitiram demonstrar que a economia do
Brasil segue a mesma lógica daquela dos países industrializa-
dos, isto é, caminha para padrões cada vez mais insustentá-
veis (MACHADO & FENZL, 1999). Sem medidas políticas e
sem realizações de pesquisas, como esta, que realcem a inten-
sidade material das economias nacionais, a lógica sistêmica
desses modelos continuará sendo a grande fonte de impactos
ambientais.
É nessa perspectiva que os resultados deste trabalho
se tornam importante para a Amazônia, fonte de fornecimen-
to de vários dos materiais que registraram grandes demandas
nos resultados da pesquisa, como por exemplo, o ferro, a
bauxita, a madeira, etc. Aplicando a metodologia para Ama-
zônia vai ser possível conhecer a carga ambiental que ela
suporta para beneficiar outras regiões do país e do mundo.
Talvez assim seja possível comprovar que a Amazônia não
tem sido um problema para o Brasil e para o mundo, e
sim o mundo e o Brasil que têm sido problema para a
Amazônia.
Até agora, com exceção de esforços missionários lo-
calizados, o debate sobre a sustentabilidade da relação Socie-
dade-Ambiente tem registrado um grande desfile de genero-
sas intenções e uma grande movimentação política de
militâncias organizadas e agências internacionais de desen-
vol-vimento. Embora o comprometimento de todos com o
ideário do desenvolvimento sustentável, pouco foi operacio-
nalizado, face à ausência de alternativas consistentes para tal.
O trabalho mostrou que há alternativa consistente para a su-
peração desse obstáculo. E mostrou, também, que nesses
vinte anos de debate sobre a sustentabilidade, de programas
de pesquisa, de conferências políticas, de militância organi-
zada, etc., o que se vê é que o Sistema Econômico seguiu seu
curso. Não diminuiu o seu ímpeto consumidor em relação ao
Ambiente e, ao contrário disso, o aumentou ainda mais.
Portanto, é necessário buscar uma outra forma de me-
dir a eficiência dos processos econômicos. É preciso interna-
lizar no sistema a “consciência” dos fluxos físicos movimen-
tados pelos fluxos monetários da economia. Para fazer isso é
preciso medir e, nesse particular, a metodologia utilizada
revelou-se potente em trazer à tona as particularidades e ca-
racterísticas das demandas materiais do Sistema Econômico.
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