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Amílcar Cabral e a cultura africana como


resistência
27 de Janeiro, 2018 - 10:59h
Na história do continente africano surgiram diversas vozes que se levantaram contra o
colonialismo e variadas formas de opressão presentes nos países que o compõem. Amílcar
Lopes Cabral é uma dessas vozes. Texto de Ricardo Corrêa.

Na história do continente africano surgiram diversas vozes que se levantaram contra o


colonialismo e variadas formas de opressão presentes nos países que o compõe. Thomas
Sankara, Patrice Lumumba, Léopold Sédar Senghor, Steve Biko e tantos outros deixaram
ensinamentos que não envelhecem, mesmo havendo sido elaborados num outro contexto.

Amílcar Lopes Cabral é uma dessas vozes, nasceu em 1924, na cidade de Bafatá, Guiné-
Bissau. E foi brutalmente assassinado por alguns dos seus companheiros no dia 20 de
janeiro de 1973, em Guiné - Conacri, apoiados pela PIDE - Polícia Internacional e de Defesa
do Estado. Este recorte biográfico situa-se no reconhecimento da contribuição de Cabral aos
movimentos de libertação africanos, especialmente, em Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Cabral era filho de cabo-verdianos e passou a infância em São Vicente, Cabo Verde. Por
causa do elevado desempenho escolar, aos 21 anos, foi contemplado com uma bolsa de
estudos para cursar Engenharia Agrónoma no Instituto Superior de Agronomia - ISA, em
Lisboa. Nesse período, frequentou a Casa dos Estudantes do Império e a Casa da África,
ambientes onde desenvolveu atividades artísticas focalizando a identidade negra, designadas
por ele como "reafricanização dos espíritos". Concorrente a essas atividades, conheceu
alguns estudantes que expressavam a preocupação com a colonização europeia em África e
a urgência da manutenção dos valores africanos, desse ponto, diversos encontros
envolvendo debates políticos tornaram-se uma constante; Cabral, Agostinho Neto, Mário de
Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro fundaram clandestinamente o
Centro de Estudos Africanos, contudo a PIDE o fechou em 1951. Naquela época, a situação
dos países de colonização portuguesa era demasiadamente complexa, pois Portugal estava
sob a truculência de Salazar - considerado o ditador mais violento da história do país e
totalmente contrário à descolonização. Em 1952, Cabral, concluiu o curso de agronomia e
retornou para Guiné-Bissau, passando a assumir o cargo de diretor do Posto Agrícola
Experimental de Pessubé, ocasião em que ficou responsável pela realização do primeiro
recenseamento agrícola do país. Essa oportunidade lhe permitiu conhecer de perto a
realidade da população guineense.

A criação do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde - PAIGC,


em 1956, deu início ao período substancial na vitoriosa luta pela independência conquistada
em 1974 (Guiné-Bissau) e 1975 (Cabo Verde). O PAIGC foi uma organização revolucionária
que chegou a lançar mão das armas como instrumentos de combate. Cabral, além de co-
fundador, consagrou-se como a principal liderança. Era a favor do diálogo, não instigava o
ódio e acusava os colonizadores de serem os culpados pelo uso das armas. O Massacre de
Pidjiguiti, ocorrido em 1959, reforça essa proposição de Cabral. Os trabalhadores do porto de
Bissau ao protestarem por melhorias nas condições de trabalho foram repreendidos
violentamente, resultando em inúmeras mortes e feridos. Ou seja, os colonialistas não deram
ao PAIGC uma outra alternativa que não fosse pela luta armada.

Um dos eixos centrais dos questionamentos quanto à colonização portuguesa era decorrente
do esvaziamento da cultura africana, sem perder de vista a usurpação das riquezas e a
opressão racial. Nesse sentido, a reflexão de Cabral (1978) pode nos levar a compreender o
que estava ocorrendo nas colónias:

"Toda a educação portuguesa deprecia a cultura e a civilização do africano. As línguas


africanas estão proibidas nas escolas. O homem branco é sempre apresentado como um ser
superior e o africano como um ser inferior. Os conquistadores coloniais são descritos como
santos e heróis. As crianças adquirem um complexo de inferioridade ao entrarem na escola
primária. Aprendem a temer o homem branco e a ter vergonha de serem africanos [?]"

Esse obstáculo demonstrava para Cabral que a cultura inserida em toda a complexidade do
binómio - colonizado e colonizador - seria o arrimo do povo e que a sua destruição
endossaria o argumento para a espoliação dos colonizados. Assim, para suplantar a
colonização seria necessário o fortalecimento, a conscientização, e a defesa da cultura
africana. Sendo - até - muito mais importante, no primeiro momento, do que a independência
política. Sob essa ótica, não adiantaria expulsar os colonizadores se o imaginário da
população continuasse com os referenciais alheios.

Cabral era um intelectual marxista, e sempre esteve comprometido com o pensamento


crítico, assegurando que a organização da luta não era fruto da própria cabeça, mas situava-
se em concordância com a realidade concreta da terra. Advogava pela educação como
aporte para a emancipação do povo, nas reuniões da organização explanava com uma
linguagem simples e didática, oferecia exemplos místicos, da física, agronomia e tudo que
facilitasse a compreensão das ideias e dialogassem com a vivência dos militantes. Outro
fator de destaque foi o nível de conscientização política e humana defendida por Cabral a se
incorporar no PAIGC. Ele desconstruiu, por exemplo, o papel secundário relegado as
mulheres na maioria das nações e mostrou aos militantes a importância delas no processo
revolucionário. Muitas foram comandantes, comissárias e combatentes na frente da guerra. A
lucidez e o brilhantismo de Cabral despertaram, inclusive, a admiração do educador Paulo
Freire que o chamou de "Pedagogo da Revolução".

Em Amílcar Cabral ainda há muito a ser explorado. No entanto, o recorte biográfico


intencionou sublinhar um intelectual por vezes não tão evidenciado, mas que deixou um
importante arcabouço teórico. Aos negros que lutam pela igualdade em direitos e
emancipação económica, contra a estigmatização e os estereótipos, o legado de Cabral
poderá subsidiá-los com lições em que a defesa da cultura do negro, no Brasil, deverá ser a
premissa. Dessa maneira, facilitando o combate ao racismo herdado do mesmo colonialismo
que o "Pedagogo da Revolução" e o PAIGC, outrora, enfrentaram.

Referências
CABRAL, Amílcar. Unidade e Luta I. A Arma da Teoria. Textos coordenados por Mário Pinto
de Andrade, Lisboa: Seara Nova, 1978.

CABRAL, Amílcar . Guiné-Bissau ? nação africana forjada na luta. Lisboa. Nova Aurora, 1974.

ROMÃO, José Eustáquio; GADOTTI, Moacir. Paulo Freire e Amílcar Cabral: a


descolonização das mentes. São Paulo: Editora e livraria Instituto Paulo Freire, 2012.

Texto de Ricardo Corrêa. Publicado em geledes.org.br [1] e cartacampinas.com.br [2]

Sobre o/a autor(a):

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Revista Vírus
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Ficha Técnica

URL de origem: https://www.esquerda.net/artigo/amilcar-cabral-e-cultura-africana-como-


resistencia/52980

Ligações:
[1] https://www.geledes.org.br/amilcar-cabral-e-cultura-africana-como-resistencia/
[2] http://cartacampinas.com.br/2018/01/amilcar-cabral-e-a-cultura-africana-como-resistencia/

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