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Meu encontro com mestre Waldemar da Liberdade e o

Dois de Ouros

Conheci mestre Waldemar da Paixão através do canal


em que todos nós - os jovens capoeiras cariocas, nos 1960s -
navegávamos: a roda no barracão no bairro da Liberdade
(não deixe de ler O barracão de mestre Waldemar, do iluminado
Frede Abreu), e a compra de berimbau de qualidade.
Tive um médio maravilhoso, de Waldemar: o "Dois de
Ouros". Mestre Waldemar batizava, dava nome, aos
berimbaus de boa qualidade que produzia. Mas a maioria
da produção, de som regular ou fraquinho, era vendida
para turista no Mercado Modelo e locais similares.
Meu encontro e, depois, minha amizade com
Waldemar da Liberdade não podem ser separados da
minha convivência por mais de uma década com aquele
incrível berimbau.

A biriba (verga) do "Dois de Ouro", de fundo branco, era


listrada com azuis e vermelhos; a cabaça, de fundo verde-
musgo, tinha listras finas e sinuosas como cobras de todas as
cores, que iam dos furos do anel de barbante até a boca
(abertura da cabaça).
Explica-se a diferença da pintura: aquela cabaça não
tinha sido, inicialmente, destinada àquela biriba. O
"casamento" tinha sido feito depois: a verga de um bom
berimbau, com a cabaça de outro bom berimbau, para
melhorar, mais ainda, a qualidade do instrumento.
Eu não comprei aquele berimbau, na mão do mestre
Valdemar, logo que o conheci na minha primeira viagem à
Salvador, em 1969, viagem da minha dupla naturalidade
"mineiro e carioca". Eu fingia nem pensar em comprar
berimbau, e parecia estar mais interessado em pagar
cerveja e aguardente - temperadas com tira-gosto da
melhor qualidade - para os mais velhos: eu já trabalhava
como estagiário-engenheiro na Light no Rio e, em
comparação, era um cara cheio da grana.
Também não estava ali "fazendo pesquisa"; isto é, não
ficava enchendo o saco dos caras com perguntas sobre isto e
aquilo. Eu ia nas rodas e jogava, paquerava o mulherio,
curtia a noite baiana, fumava com quem era de fumar,
bebia com quem era de beber, pagava generosamente para
os mais velhos, e não deixava bicão ficar na aba do meu
chapéu (a parte mais difícil de toda minha dinâmica).

Eu estava curtindo um sonho que se tornara realidade:


viver e conviver com os mestres que eram meus ídolos.
Algo que eu nem sonharia alguns anos atrás, quando,
principiante em capoeira, e ainda firmemente entalado no
universo da classe média, olhava para aquele outro universo
com o mesmo distanciamento - seduzido e encantado - com
o qual via os westerns, em preto-e-branco: High Noon (Matar
ou Morrer), com Gary Cooper; clássicos como o Anjo Azul,
com a deslumbrante Marlene Dietricht; ou os filmes sobre
mafiosos norte-americanos, como Scarface, Dillinger ou Al
Capone.
No entanto meu sonho brasileiro, que se iniciara nos
desfiles de carnaval como capoeirista da ala-show da
Mangueira - V.C. Entende -, sob as asas protetoras de meu
mestre, Leopoldina; e proseguia agora, no contato com os
mestres Bimba, Pastinha, Waldemar, Caiçaras,
Canjiquinha, a rapaziada do Mercado Modelo, e tantos
outros; era muito mais interessante, rico e sedutor - as
cabrochas da Mangueira; as baianas de Salvador - que o
universo Hollywoodiano.
Além disso, não tinha rajada de metralhadora, nem
flechada; era só ficar de olho aberto, pisar no chão
devagarzinho, que não tinha problema.

Já na segunda viagem à Bahia, percebi que Waldemar


ficava observando - disfarçadamente - como eu manejava o
berimbau.
Eu tinha estudado os discos LP de Bimba, Pastinha,
Caiçaras, Traíra e Cobrinha Verde, a fundo. Conhecia
aqueles dobrados e viradas (improvisações) de cór e salteado e,
agora, podia observar como eram executados in loco, na
improvisação e, muitas vezes, no auge da cachaça ou da
diamba.
Foi o próprio Valdemar quem me convidou, a mim e
dois outros de São Paulo, para almoçar na casa dele.
Fomos.
Eu pedi a um moleque para buscar, e paguei, as geladas
no botequim. Almoçamos. Meus dois recem-conhecidos
compraram um montão de berimbau - iam revendê-los em
São Paulo. Eu apenas olhava, com cara de sonso.
Na semana seguinte, encontrei Valdemar na rua, fomos
à sua casa, ele começou a experimentar um monte de
cabaças na verga do "Dois de Ouro". Quando ele se deu por
satisfeito, botou-o na minha mão; eu tirei uma onda com o
instrumento - era de primeiríssima qualidade, com um som
maravilhoso.
Perguntei o preço.
"Um berimbau destes não tem preço"
Eu concordei.
"Era melhor que eu te desse ele de presente", comentou
Waldemar, "ao invés de vendê-lo por micharia".
Ele tinha razão, mas o que estava acontecendo, na
verdade, é que estávamos entrando no terreno da
barganha; no dinheiro da venda do instrumento.
"Eu compreendo o que o senhor está dizendo, mestre",
eu retruquei, "mas veja bem: o aqüé (dinheiro) tem seu lugar
estabelecido, tanto na mandinga quanto no mundo dos
homens".
Valdemar ficou me olhando, a cabeça meio de banda,
pra ver onde aquele meu 171 ia desaguar.
"Eu sei do preço que o senhor cobra pelos seus
berimbaus de primeira linha; eu proponho pagar o dobro.
Veja bem: eu não estou comprando o berimbau. O senhor
mesmo me disse que 'era melhor dar de presente'; eu aceito
o presente, agradecido e emocionado. O dinheiro é só pra
cumprir uma formalidade."
O corôa adorou a levada. Me abraçou. E dali fomos
pro botequim, onde - obviamente - eu fiz questão de pagar
a conta, já com o "Dois de Ouro" debaixo do braço.

Tratei aquele berimbau como a jóia que era.


Fiz uma capa de couro flexível, comprida e cilíndrica,
para a verga; construí para a cabaça, sob medida, uma caixa
de sola (couro duro, usado nas solas de sapato), muito
resistente, com uma engenhoso sistema de abrir-e-fechar,
toda alcochoada por dentro, e forrada de cetim vermelho.
Alguns anos antes, eu tinha visto mestre Paraná chegar,
todo elegante, para participar de numa apresentação que o
Grupo Senzala fez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
por volta de 1969 ou 1970. A Senzala, no Rio, estava em
alta; logo depois fizemos um espetáculo, Senzala Okê, na Sala
Cecília Meirelles; e o Berimbau de Ouro, no Teatro Opinião, o
teatro "da moda" em Copacabana.
Paraná chegou no Teatro Municipal com seu berimbau
dentro de uma capa de brim caqui - a cabaça num
saquinho do mesmo tecido e cor. Alguns dos meus colegas,
mais preocupados com a forma física e a técnica das
pernadas, acharam aquilo "folclórico" ou então
"cafona" (na época não se falava "brega"). Mas eu, já
envenenado por Leopoldina, pensei: "isso é que é um
malandro elegante e sofisticado".
Na sequência - sempre tive facilidade para o desenho e
os trabalhos manuais -, assim que tive em mãos um
berimbau como o "Dois de Ouro", construí aquela capa
inspirado por Paraná; mas de couro, não de pano; pois o
pano não protegeria o instrumento nas muitas viagens que,
em breve, eu iniciaria.

O "Dois-de-Ouro" me acompanhou por mais de 10 anos,


em todas as viagens - geográficas e lisérgicas -, de minhas
primeiras rodadas fora do Brasil, a partir de 1971: Londres,
Suécia, Copenhague, Amsterdam, Paris, Barcelona, Palma
de Mallorca e Ibiza.
Eu tinha comprado uma moto grandona - uma Triumph
inglesa, de 1963 -, logo que cheguei na Inglaterra, em julho
de 1971, depois de chutar pro alto meu emprego de
engenheiro da Light no Rio de Janeiro. A roupa e o saco-
de-dormir iam em dois sadle-bags de couro, pendurados
atrás da moto, um de cada lado do banco; o estojo com o
berimbau, ia colocado como se fosse o rifle na sela do
cavalo de um daqueles cowboys dos filmes westerns que eu via
quando mais jovem.
Três anos depois, em 1974, de volta ao Rio de Janeiro, o
"Dois-de-Ouro" continuou a me acompanhar por muito
tempo.
Até que um dia eu o perdi.

Na verdade, fiquei sem a verga e, de tão triste, dispensei a


cabaça, de madrugada, na Delegacia da rua Bambina - em
Botafogo (RJ) -, dentro daquela bolsa de couro duro para
ser usada à tiracolo - uma verdadeira caixinha de jóias.
Foi bem-feito, quero dizer, bem feito eu ter perdido
aquele incrível berimbau.
Foi uma época fim-de-gira, fim de um ciclo, e eu estava
marcando muita bobeira; mais perdido que cego no meio
de tiroteio; bebia demais, treinava pouco, vivia às custas das
namoradas e, me achando o máximo, não adiantava meus
outros projetos (livros, discos, etc.).

Depois do treino de uma sexta-feira, na academia do


Peixinho, em Copacabana, saí com o Dois de Ouro
pendurado no ombro dentro de sua capa de couro. Estava
acompanhado por meu colega corda-vermelha, o finado
Negão Muzenza. Muzenza, Lua "Rasta" - de Salvador,
morando no Rio por alguns anos -, e eu, saíamos bastante
juntos.
Eu já não era mais nenhum garotão, devia ter mais de
uns trinta anos bem vividos; Muzenza era mais novo, era
bom de curtição, gostava da noite, mas, infelizmente, era o
maior chave-de-cadeia. Eu já tinha ido em cana - coisa leve
-, com o Negão, duas vezes: averiguação e dispensados. Por
causa disso, Lua - que, além de tudo, nunca gostou de
bebida - já não saía mais com a gente. Mas eu, besteirão,
não me tocava.
Naquela madrugada, o Negão armou uma, num boteco
da Voluntários da Pátria. Todo mundo, uns oito caras, se
conheciam; mas o Negão só percebeu isto depois que, ele
mesmo, soltou o bicho.
A confusão estourou de repente.
Eu tentei botar panos quentes; senti um pancadão na
testa, dado por trás, meio tipo boomerang. Nem balancei,
estava doidão e alcoolizado. A pancadaria continuou até a
chegada da polícia e, só aí percebi que tinha levado uma
garrafada - o portuga do boteco disse que a garrafa estava
fechada e "estourou quando bateu na cabeça do moço
(Nestor Capoeira) que queria desapartar a briga". Eu nem
senti. Imagina só.
Eu estava pintado de sangue que jorrava sem parar da
brecha na cabeça; estava todo vermelho dos cabelos,
escorrendo pelo rosto abaixo, até a cintura. Por isso é que
eu corria pra dentro dos caras e eles recuavam. Eu,
ingenuamente, pensava que estava barbarizando. Você já
imaginou um cara doidão, mas crente que está lúcido e
abafando; a maior buceta aberta na testa; o sangue
jorrando; correndo pra cima de você?

Este botequim existe até hoje, de vez em quando eu vou


lá; mas não tem mais ninguém daquela época, nem o dono.
Ele fica numa espécie de galeria sem-saída, quase chegando
na praia de Botafogo.
Me lembro que, num determinado momento, fiquei
encurralado por uns 4 caras contra a grade da última loja
da galeria. Felizmente um corôa, fortão e meio barrigudo,
tipo para-quedista aposentado do exército, se agarrou
comigo; eu dei-lhe uma gravata; as porradas caiam de todo
lado (menos de trás, já que eu estava apoiado na grade da
vitrine da loja), mas a maioria acertava o corôa que eu
segurava pelo pescoço na minha frente, e eu ainda
aproveitei pra dar uns socos na cara dele com a mão que
estava livre.

Um outro flash, nítido como uma foto colorida: cheguei


na entrada da galeria no finalzinho da briga, e tinha uns 3
caras na calçada na minha frente. Foi um lance tipo sartori
(pequena iluminação ou revelação), uma epifania.
Aquela luz da madrugada. Uma luz meio azulada mixto
de luar com iluminação pública, e uma espécie de poeira
prateada microcósmica permeando a atmosfera.
Tudo muito delineado e colorido; espécie de cenário de
palco hiper-realista em que os objetos e pessoas são mais
reais, coloridos, com mais forma e volume, que a própria
realidade.
E eu, doidão mas com a cabeça completamente lúcida,
a adrenalina correndo enlouquecida nas veias, calmo e
inteiro naquele aqui e agora extraordinário. Mas a porrada
continuava rolando, o mundo não ia parar só porque eu
tinha entrado em alfa.
Eu ameaçava partir pra cima de um, e ele recuava; eu
fazia uma finta pra cima do outro e, este outro, também
recuava. Eu pensei: "eu estou com o bicho!". Olhei, de
relance pra minha camiseta; estava empapada de sangue.
Pensei que era o sangue do corôa que eu tinha acertado, lá
dentro da galeria. E aí, fiquei confuso por uma fração de
segundo: "porra, eu estava agarrado com o corôa, não
tinha distância pra dar um porradão legal na cara dele;
como é que ele sangrou tanto?".
O corôa não tinha sangrado porra nenhuma; a cara
dele mal ficou amassada; o sangue era meu.

Numa outra passagem, já no fim da confusão, fiquei de


frente com um cara meio gordão.
Era um mulato claro, da minha idade, parecia do tipo
percucionista de bateria de escola de samba. De repente
percebi que o gordo estava segurando a verga do "Dois de
Ouro", ameaçadoramente, como se fosse um bastão de
baseball.
Aquele berimbau tinha se tornado uma espécie de objeto
de poder para mim. Como se fosse um amuleto protetor ou
patuá.
Eu o tinha tocado nas rodas da Senzala, no saudoso
período áureo quando éramos uma irmandade de verdade,
por volta de 1970. Também tinha tocado o Dois de Ouro nas
minhas aulas - as primeiras no estrangeiro -, no London
School of Contemporary Dance. Em incontáveis noitadas, de
festa e percussão desbundada, no squat de três andares - o
casarão invadido - onde morávamos, eu mais uns 15
malucos e malucas, no final do auge da época dos hippies e
freaks, em Londres, em 1971.
Eu toquei o "Dois de Ouro", com a banda que armei com
uma rapaziada, a Capoeira Bando Banda, no Milkyway - uma
casa de espetáculos que existe até hoje -, e no Vondelpark,
ambos em Amsterdam; no Discophage, em Paris - uma
disocotheque onde imperavam os Les Étoiles, uma dupla
brasileira tipo Secos e Molhados -; em casas de espetáculos,
bares, universidades, na rua e no metrô, sozinho ou
acompanhado, em Barcelona, Palma de Mallorca e Ibiza.
De volta ao Brasil, em 1974, ele continuou me
acompanhando. Aquele berimbau tinha um significado
mágico e místico para mim - a maioria não se lembra dos
1970s, mas o misticismo, na época, estava em alta em
determinados circuitos jovens (e também, não tão jovens
assim).

Por isso, ao ver o berimbau na mão do gordo, eu esfriei.


Fiquei calmo e tentei racionalizar a situação com o
gorducho.
"Olha, meu irmão, a confusão já acabou, esse berimbau
na tua mão é meu, e é de estimação".
Eu ia falando de mansinho, me aproximando
devargazinho, sem más intenções; e o cara, recuando
nervoso (com aquela sangueira toda, descendo pela minha
cara abaixo, o gordo devia estar com medo que eu morresse
ali mesmo); "não se achega não! não se achega não!", ele
gritava.
De um momento pro outro, mudou tudo. Sem que eu
percebesse, a patrulhinha da PM chegou; o gordo - e a verga
do "Dois de Ouro" - despareceram para sempre no corre-
corre.

Moral da história: passarinho que anda com morcego,


acorda de cabeça para baixo: Pronto Socorro pra costurar a
testa, e a Delegacia da rua Bambina, com o delegado "Pato
Rouco" - um cana-dura experiente e cascudo.
Aí foi que me dei conta que, de alguma maneira, tinha
recuperado a caixinha de couro com a cabaça - ela estava
pendurada à tira-colo, no meu ombro, enquanto dávamos
nossos depoimentos na delegacia.
Mas a verga já era.
Fiquei desbundado e chateado por ter marcado bobeira
e ter sido arrastado pra dentro daquela situação.
Disfarçadamente, enfiei a caixinha - com a cabaça dentro -
embaixo de um dos bancos da delegacia, e ela ficou por lá
mesmo.
Eu podia tê-la guardado para usar com outra verga. Mas
não era a mesma coisa. E a mensagem era clara: "se você
não tem cabeça pra pensar, não merece este berimbau".

Eu fui dispensado, pelo delegado Pato Rouco, no dia


seguinte, depois das averiguações. Negão Muzenza, que já
tinha algumas passagens pelo recinto - inclusive, segundo os
homem, roubo com agressão -, amargou umas três semanas
lá dentro.
Apanhou muito; saiu de lá magro e amarelão.
E só saiu pelos constantes pedidos e intervenção do
falecido Peixinho - mestre do Negão Muzenza - e da
rapaziada da capoeira que o conhecia.
Depois dessa, parei de andar com o Muzenza. Alguns
anos depois, numa madrugada de carnaval, levou um
monte de tiro num fim-de-noite em outro botequim, e
morreu.

Talvez cause estranheza eu gastar tanto papel e tanta


tinta para contar uma porrada baixo astral num botequim
num fim-de-noite de otário quando, na verdade, teriam
mais valor outras lembranças com pessoas de valor.
Eu explico.
Na infância e adolescência eu era um CDF; um "cú-de
ferro" (por passar horas sentado, estudando, em casa), como
eram chamados os nerds na década de 1950. Eu era uma
criança e, mais tarde, um garotão magrelo com óculos
fundo-de-garrafa de 12 graus de miopia.
Além disto, nunca passei mais de 3 anos no mesmo
endereço: meu pai era militar da Aeronáutica e já havíamos
morado - pai, mãe, e sete irmãos - em Belo Horizonte,
Washington D.C. (Estados Unidos), Recife e Porto Alegre,
em média dois anos em cada lugar. Entre cada uma destas
estadias, morávamos uns dois ou três anos no Rio de
Janeiro, mas em bairros diferentes - Ipanema, Lagoa,
Copacabana, etc.
Eu era, portanto, um cara mais estranho ainda, porque
nunca cheguei a pertencer realmente a uma "turminha" no
bairro ou na escola. Muito cedo, antes dos 10 anos de
idade, minha "turma" era a dos livros e dos autores que eu
lia: Edgar Rice Burroughs e seus livros de Tarzan; Conan
Doyle e os livros com Sherlock Holmes (um detetive super
inteligente que nas horas vagas, para matar o tédio,
cheirava cocaína e tomava pico de morfina,
alternadamente, enquanto tocava obras clássicas com o
talento de um virtuose no seu violino stradivarius) (imaginem
só a loucura: isto era um livro "adequado" para
adolescentes, ainda mais depois de Conan Doyle ter sido
elevado à nobreza e condecorado como "sir" pela rainha da
Inglaterra no início dos 1900s) e o respeitável Dr. Watson;
livros sobre piratas como o Capitão Blood, e espadachins
como Scaramouche; e, é claro, os clássicos de Ruyard Kipling
e, mais tarde, Hemingway, Scott Fitzgerald, Henry Miller,
Jack Kerouac e Charles Bucowsky.
Aos 14 anos eu era um magrelo solitário, quatro-olhos,
que lia livros no original em inglês, sempre era um dos
primeiros na escola e, sem me dar conta, olhava o resto do
mundo de cima para baixo. Eu chegava numa nova cidade,
e num novo colégio; logo na primeira semana levava um
monte de porradas do valentão local; e, dois anos depois,
quando começava a me enturmar, voltávamos para o Rio
de Janeiro.
Isso só mudou quando meu pai finalmente assentou o
rabo e, já brigadeiro (o equivalente do general do Exército),
comprou um apartamento em Copacabana, no Rio de
Janeiro. Eu tinha 16 anos e fui estudar no Colégio Militar.
Era uma desgraça: a disciplina e caretice dos milicos e, o
que era muito pior, num colégio só de homens. Mas
conheci uma rapaziada que voltava pra casa no mesmo
ônibus que eu (era quase uma hora de viagem) e comecei a
frequentar, com eles, botequins como o Jangadeiros e o
Velloso, em Ipanema, bairro vizinho, que logo se tornariam
legendários por serem frequentados por doidões super
talentosos como Vinicius de Moraes, Tom Jobim, a turma
do jornal Pasquim, e muitos outos. Mas mesmo aí, eu era
aquele cara "legal" mas "cinzento" e sem o brilho de meus
colegas.
Isto só mudou quando passei no vestibular de
Engenharia da Federal do Rio de Janeiro e fui estudar na
Ilha do Fundão. Aparentemente era outra maldição
semelhante ao Colégio Miltar: uma hora e meia de ônibus,
e só duas mulheres numa turma de 200!
Mas foi lá que conheci mestre Leopoldina e, com a
capoeira, minha vida e meu corpo começaram a mudar, e
minha estrela começou a brilhar.
Então, de forma muito diferente de meus colegas de
Ipanema da época, os lances com as minas, com as festas,
com a praia e a boemia; tudo era deslumbrante, e tudo era
novidade. E, por outro lado, de forma diferente de meus
colegas de capoeira, e dos malandros que comecei a
conhecer através de Leopoldina, esse lance de porrada na
rua era também algo incrivelmente novo; minha
"especialidade", até então, era ser saco de pancadas dos
valentões das escolas onde tinha estudado.
Então estórias como essa, da briga onde perdi o Dois de
Ouros, assim como alguns lances nas viagens pela Europa
dos hippies no começo da década de 1970, são marcantes
para mim. São lembranças tão vívidas quanto a roda de
capoeira de ontem. E, em oposição, fatos e pessoas que
provavelmente os leitores achariam muito mais
interessantes são como velhas fotografias descoloridas, nas
quais quase não distingo mais o cenário.

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