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Bataille, o pensador do corpo

Wesley Peres disse:

12 de setembro de 2013

Em seu seminário Mais, ainda, Lacan faz a seguinte advertência: “o corpo, ele devia
deslumbrá-los mais”. A princípio endereçada aos frequentadores do seu seminário,
tal censura é também endereçada a cada um de nós e, de certo modo, à civilização.
Há uma exceção, porém: não estava endereçada a Georges Bataille, pois este, mais
do que ninguém, poderia ser nomeado como o pensador do corpo. É provável que
ninguém tenha levado a tal radicalidade a pergunta que coloca em questão tanto o
homem como singularidade quanto o homem como categoria universal: o que fazer
com este corpo que somos?

A parte maldita – precedido de “A noção de dispêndio” e O erotismo, relançados no


Brasil pela Autêntica Editora, constituem provas irrefutáveis do deslumbramento da
palavra batailliana com o corpo. Cada um a seu modo: o primeiro, de uma maneira
mais tergiversada que o último, circulando em torno de reflexões acerca dos modos
de organização político-econômica da sociedade, oferece recursos para pensar o
corpo como algo sempre excessivo; o segundo indaga o corpo de uma maneira mais
direta e, de tal interrogação, propõe um modo de pensar a totalidade
(paradoxalmente, afirmada como incompleta) da experiência e do espírito humanos.

Se Lacan faz a sua advertência, Bataille também faz a sua, ressaltando que o
movimento de sua obra não incorre no furor especialista da ciência. Ao contrário,
adota perspectivas cambiantes, não se negando, inclusive, a abordar seus temas pelo
lado de dentro: “Se meus leitores se interessavam pelo erotismo […] de um ponto de
vista especializado, não tinham o que fazer com este livro”. Num aparente paradoxo,
justo por recusar o ponto de vista do especialista, ele sabe que a parte não tem
menos importância do que o todo, uma vez que “só o que há é universo inacabado”.
Assim, interrogando o corpo erótico como excesso, como dispêndio improdutivo,
pretende colocar em perspectiva a “unidade do espírito humano”.

Fusão mortal

Em O erotismo, o pensamento inclui as paixões e outras potências incendiárias da


carne. Logo no princípio, o leitor compreenderá que o erotismo em questão engloba
numa só bocada a dualidade pulsional freudiana: pulsão de vida (eros) e pulsão de
morte (tânatos): “Do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na
morte”. Porém, o que Bataille quer dizer com isso?

Nos alinhaves de sua argumentação sobre o erotismo, o ser é convocado a deixar as


puras esferas do conceito e pousar nas tramas do corpo. Assim como para os anjos
de Wim Wenders, em Asas do desejo, do ser não se pode excluir a possibilidade de,
numa manhã gelada, sentir-se no calor irradiado da boca sobre as mãos, ou no corpo
de uma bela acrobata.

Do ser em queda, somos levados àquilo que, ao mesmo tempo que é ultrapassado
pelo erotismo, é também a sua chave: a reprodução. A aposta na imanência é radical,
o ser começa quando começa o corpo, entendido como instaurador do abismo que
separa um homem de outro homem, o que nos condena a uma solidão absoluta cujo
império cessa apenas com princípio de outro, o império da morte: “Cada ser é
distinto de todos os outros. Seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua
vida podem ter para os outros algum interesse, mas ele é o único interessado
diretamente. Ele só nasce. Ele só morre. Entre um ser e outro, há um abismo”. Esse
abismo receberá o nome de descontinuidade – os termos descontinuidade e
continuidade são as chaves para compreensão daquilo que o erotismo põe em jogo.

A fim de apresentar a oposição fundamental entre continuidade e descontinuidade


do ser, Bataille incursiona àquilo que, na história da vida, precedeu a reprodução
sexuada. Obviamente, trata-se da reprodução assexuada, na qual o ser simples,
unicelular, divide-se formando dois núcleos: “de um só ser, resultam dois”. Esses
dois seres são descontínuos com relação ao ser único que os originou (existem como
causa da morte do ser originário), e são também descontínuos um com relação ao
outro. Ao contrário dos seres sexuados, nos seres assexuados unicelulares, a morte
do indivíduo coincide com a reprodução. Logo, o ser unicelular não se decompõe,
mas se dissolve no nascimento de dois novos seres.

No caso dos humanos (um dentre outros seres sexuados), apenas no nível das
células reprodutivas, a morte coincide com o nascimento de um novo ser. O embrião
é o resultado da fusão mortal (oposta à divisão mortal dos seres unicelulares) entre
o óvulo e o espermatozóide, esses “dois pequenos seres descontínuos”. Desse modo,
na origem da vida está a origem do abismo, a origem da solidão do ser descontínuo
que somos: o embrião surge a partir dos cadáveres de dois outros seres
descontínuos, o óvulo e o espermatozóide.
É preciso, no entanto, passarmos do espermatozóide ao homem, do óvulo à mulher,
para entender que a radicalidade de nossa solidão coloca e é colocada em jogo pelo
que Bataille chama de erotismo. Fazendo isso, entenderemos porque o homem é um
animal-paradoxo, antônimo de si mesmo “e livre para se assemelhar a tudo que não
é ele no universo”.

Encontro no abismo

Brinquemos de ficção. Há dois corpos. Um homem e uma mulher. Eles se encontram


em um bar, eles se fotografam com os olhos, eles ainda estão vestidos. O homem é
um corpo. A mulher é outro corpo. Eles se apaixonaram, eles viverão juntos até que
a morte os separe. Corta.

Não, não é assim. A morte não irá separá-los. A morte irá colocar fim à
descontinuidade entre esses dois seres que se sorriram no bar, sem instaurar
qualquer tipo de continuidade ou de suspensão do abismo que os separa. Então…

Então que há o erotismo dos corpos, que é quando os humanos se “cansam de ser a
cabeça e a razão do universo” e, transgredindo o interdito, o impossível, fazem do
abismo uma possibilidade precária de encontro dos seres, precária porque tal
encontro não destruirá a descontinuidade, seus corpos não serão dissolvidos um no
outro. Do que Bataille está falando?

Esse homem e essa mulher são, cada um, estruturas fechadas, corpos fechados. Eles
se apaixonam e, então, querem violar o corpo um do outro, abri-lo. Tiram a roupa,
eis a primeira violação, a violência erótica se põe em jogo com a liberação das
aberturas e aperturas dos corpos. O ato decisivo é o de tirar a roupa, ele promove o
obsceno, a transgressão do impossível que promoverá o encontro – ainda que
precário.

Neste ponto, pedimos licença para um pequeno desvio. Ana Vicentini, em seu livro A
metáfora paterna na psicanálise e na literatura, nos ensina que no teatro grego
antigo havia uma divisão espacial entre a skené, lugar onde os atores trocavam de
roupa para representar outro personagem, e o proskénion (o proscênio), onde
ocorria a encenação visível à plateia no theatron (lugar de onde se vê). Entretanto,
há um terceiro lugar, ou um não-lugar, que Vicentini propõe chamar de opíso
skénion, o atrás da cena, ou o ob-sceno: espaço das coisas impossíveis ou proibidas
de serem encenadas (assassinatos, sacrifícios, suicídios, adultérios, incesto – aquilo
que poderia ser de mau gosto, ou mesmo traumático), em oposição ao proskénion,
lugar das ações não só possíveis mas que, necessariamente deveriam ser encenadas.

Retornando de nosso desvio, digamos que a roupa é o biombo móvel que se porta a
fim de interditar a encenação visível das regiões secretas do corpo, seus buracos e
aclives obscenos, impossíveis ou inaceitáveis no proskénion “das formas de vida
social regulares, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas
que somos”, isoladas umas das outras por um abismo. Suspenso o biombo das
roupas, dois corpos se invadem, primeiro por intermédio dos olhos, depois
utilizando o resto do corpo, ou melhor, o corpo inteiro: “A nudez se opõe ao estado
fechado, ou seja, ao estado da existência descontínua”. A nudez é, portanto, a
realização relativa da destruição dos contornos do ser, ou, dizendo de outro modo, a
realização parcial da impossível continuidade entre um ser e outro, pois a total
continuidade equivaleria à destruição dos seres envolvidos na cena erótica.

Assim, a nudez faz com que os corpos se abram “à continuidade através dos canais
secretos que nos dão o sentimento de obscenidade”. A obscenidade equivale ao
erotismo que perturba e desordena a “posse da individualidade duradoura e
afirmada”. O império da descontinuidade, da solidão abismal que separa um
indivíduo do outro, é abalado pelo movimento erótico. Chegamos, então, ao grande
paradoxo do espírito humano.

Tal paradoxo consiste no seguinte: sofremos a solidão abismal da descontinuidade


implicada no fato de sermos vivos, no entanto, ansiamos a imortalidade, equivalente
da prorrogação infinita dessa mesma descontinuidade que nos angustia e nos
abisma.

Neste ponto, somos obrigados a retroceder até A parte maldita – precedida de “A


noção de dispêndio”, textos que, conforme Fernando Sheibe, tradutor e
apresentador da nova edição de O erotismo, podem ser considerados como gêneses
deste. E se estes textos são, de certo modo, a gênese de O erotismo, é porque
consolidam o conceito de dispêndio improdutivo como caixa de força que move o
Universo, o universo social e, claro, o corpo — que, afinal, é aquilo que deve nos
deslumbrar mais.

Economia ao avesso
A parte maldita, escrito em 1949, é uma espécie não de continuação, mas de
desdobramento e desenvolvimento do breve ensaio de 1933, “A noção de dispêndio”.
Ou, inversamente, podemos dizer que o último é uma versão prévia e condensada do
primeiro. Ambos conformam um conjunto que, à primeira vista, pode ser tomado
como um livro de economia política. Mas não é. Expliquemos. Assim como Freud,
pretendendo com Totem e tabu escrever uma obra relevante à antropologia,
realizou um fato uma obra fundamental para a compreensão da função paterna na
constituição do psiquismo, George Bataille, ao pretender escrever um livro de
economia política, estabeleceu bases sólidas para pensar, em 1957, o conceito de
erotismo (conforme vimos anteriormente) como chave compreensiva da totalidade
(inacabada) do espírito humano.

Portanto, o leitor terá em mãos não um novo livro de economia política, mas um
consistente e provocador volume em que Bataille instaura a noção de “dispêndio
improdutivo” como fundamento do campo do humano. Tal noção de inutilidade,
engendrada pelo gasto, pela perda (de energia, de dinheiro etc.), efetuada de modo
ativo, e não por acidente, se confunde com a própria noção de erotismo
desenvolvida oito anos depois em O erotismo.

Bataille divide a atividade humana em dois campos; o gasto improdutivo, mais tarde
um equivalente do erotismo, localiza-se no segundo campo.

O primeiro, o do “uso do mínimo necessário”, destinado à “conservação da vida e ao


prosseguimento da atividade produtiva”, é o campo que se confunde com a noção de
utilidade clássica, segundo a qual a vida tem por finalidade o prazer, mas um prazer
moderado: o prazer excessivo seria patológico, devendo se submeter, por um lado, à
aquisição, produção e conservação dos bens e, por outro, à reprodução e
conservação das vidas humanas – o que para Bataille seria a redução da vida
humana à condição mais lamentável.

O segundo campo da atividade humana, oposto ao primeiro, é o dos gastos inúteis,


das finalidades sem fins, ou daquilo que encontra um fim em si. O autor francês
oferece uma lista de exemplos: “o luxo, os enterros, as guerras, os cultos, as
construções de monumentos suntuários, os jogos, os espetáculos, as artes, a
atividade sexual perversa (isto é, desviada da finalidade genital)”.

Por fim, ressaltamos que a parte maldita é constituída de uma parte teórica (que
ocupa quase metade do livro) e de quatro partes constituídas da articulação entre
teoria e “dados históricos”. Como esclarece o autor, o livro pretende abordar
questões gerais de economia de modo sumário, pois haveria um segundo volume,
que desenvolveria as questões sumariadas neste. Todavia, no lugar deste segundo
volume, Bataille escreveu, justamente, O erotismo, confirmando a impressão de sua
incursão por uma economia ao avesso, uma que aponta a produção e a acumulação
como secundárias com relação ao desperdício. Retroagindo a partir da leitura de O
erotismo, podemos afirmar que, mais do que qualquer outra coisa, Bataille visava
encontrar um campo de articulação de todas as questões fundamentais da
experiência e do espírito humanos. Esse campo é o do erotismo, o do corpo como
dispêndio improdutivo, exuberância, soberania dos excessos sobre toda forma social
de constituição de uma vida moderada, isto é, lamentável.

Definitivamente, a advertência de Lacan de que deveríamos nos deslumbrar mais


com o corpo seria descabida se endereçada a Bataille, pois o nervo de sua obra não
faz outra coisa se não nos advertir, ou melhor, senão nos deslumbrar com o corpo.

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