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A LINGUAGEM DO DIREITO

A LINGUAGEM DO DIREITO
Doutrinas Essenciais de Direito Civil | vol. 1 | p. 235 | Out / 2010DTR\2012\1675
Eliana Goulart Leão de Faria
Procuradora do Município de São Paulo.

Área do Direito: Fundamentos do Direito

Sumário:

- I– A linguagem e sua importância em termos de comunicação em geral - II– Espécies de linguagem


- III– A linguagem como um dos objetos do estudo da semiótica - IV– A importância da linguagem
para o direito - V– Conclusões

Revista de Direito Público • RDP 61/130 • jan.-mar./1982

Sendo o direito uma forma de comunicação social, seu principal instrumento é, sem dúvida, a
linguagem.

Procuraremos enfocar o tema de maneira a possibilitar, embora superficialmente, uma compreensão


do que é a linguagem e de sua importância para o direito. Para tanto, teceremos algumas
considerações a respeito da relevância da linguagem na convivência social, das suas classificações
e espécies, bem como do seu estudo em relação aos sinais (signos) utilizados, o que constitui objeto
da semiótica.

Por derradeiro, abordaremos o valor da linguagem para o direito, utilizando-nos,


exemplificativamente, de um dispositivo legal.
I – A linguagem e sua importância em termos de comunicação em geral

Viver em sociedade constitui uma tendência natural do homem, e a convivência social significa uma
constante comunicação entre os membros de uma comunidade.

Os indivíduos pertencentes a um mesmo agrupamento social encontram-se sempre em situações de


interação, em decorrência dos vários tipos, ou formas, de conduta que adotam.

Etimologicamente, “interação” significa “ação entre”, “ação recíproca”, ou, melhor explicando, ação
que se exerce reciprocamente entre duas pessoas, ou mais.

Do ponto de vista social, podemos entender como “interação” a ação recíproca, no sentido de
comunicação, de dois, ou mais, membros de uma comunidade, diante de determinada circunstância.
E esta ação recíproca consiste, sempre, na transmissão de mensagens, intencional ou não, que são
captadas pelos demais componentes da situação interativa, os quais, diante das mensagens
recebidas, manifestam determinadas reações.

A interação é, no mais das vezes, simbólica, embora possa haver também a interação física, como,
por exemplo, a que se realiza por intermédio de gestos. Dela, portanto, sempre decorre a
comunicação (transmissão e captação de mensagens), mas isto somente é possível entre indivíduos
que tenham um mesmo código de comunicação, produto de uma mesma cultura.

Diante desta última assertiva, observe-se, por oportuno, que não há necessidade de os indivíduos
integrantes de uma situação iterativa falarem o mesmo idioma, porque existem vários outros tipos de
fenômenos de comunicação (sistemas de signos emissores de mensagens), embora todos eles, em
última análise, sejam reduzidos a dimensões lingüísticas. Ê necessário, isto sim, que os indivíduos,
no caso, pertençam a coletividades que tiveram o mesmo tipo de formação social (cultura), porque
assim sendo, existirão sempre, entre eles, convenções e hábitos comuns, compreensíveis por todos.
Referentemente a este assunto, e com muita propriedade, observa Warat: “En términos de una teoria
comunicacional, la cultura puede ser pensada como el conjunto de informaciones, hábitos y

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productos sociales padronizados de un pueblo”.1

A título de exemplo, é interessante aludir, aqui, a um costume vigente entre os indonésios, segundo
o qual, o indivíduo (varão), ao contrair matrimônio, serra parcialmente os dentes da frente, em sinal
de renúncia à vaidade, de dedicação a uma só mulher, de consciência da responsabilidade assumida
etc. Assim sendo, se, entre eles aparece um homem com os dentes serrados, há uma comunicação
no sentido de informar que é casado, que não pretende se dedicar a outras mulheres além da
esposa, que assumiu maiores responsabilidades, etc.

Se, porém, o mesmo acontecesse entre nós, que pertencemos à cultura ocidental, não haveria
comunicação nenhuma, pois o fato de um indivíduo ter os dentes serrados não nos transmite
qualquer mensagem. Por outro lado, uma série de hábitos adotados pelos povos de cultura ocidental
poderá nada significar para os indonésios, que fazem parte de um outro tipo de civilização. Assim,
por exemplo, o fato de uma pessoa trajar vestimentas pretas poderá, para eles, não significar luto, ou
pesar, como para nós.

A cultura de um povo manifesta-se em todos os níveis de formação social (religião, direito, economia,
arte, música, política, etc.) e só pode ser conhecida, estudada e analisada por intermédio da
comunicação, que, por sua vez, se pode operar de várias formas, e não apenas com o uso da
linguagem, como, aliás já afirmamos.

Convém, porém, salientar que a linguagem é a mais importante das formas de comunicação, já que,
em última análise, todas as outras são reduzidas a dimensões lingüísticas. Consiste, ela, na
utilização de sinais intersubjetivos (símbolos), de acordo com regras e critérios convencionalmente
estabelecidos, de modo a possibilitar a comunicação entre os componentes de uma mesma
comunidade lingüística, ou seja, de modo a propiciar a transmissão e a recepção de mensagens que
irão nortear a convivência social destes indivíduos.

A linguagem, como vimos, é o principal instrumento de comunicação social, mas, como muito bem
assevera Roberto José Vernengo, também é um instrumento de incomunicação entre grupos sociais
diferentes, pois o que distancia os indivíduos pertencentes a coletividades distintas é, principalmente,
o fato de não falarem o mesmo idioma e, conseqüentemente, de terem maior dificuldade de
comunicação.2

Transcreveremos, a seguir, um trecho de Ferdinando de Saussure, no qual é evidenciada a diferença


entre “língua” e “linguagem”: “A língua é um produto social da faculdade da linguagem e ao mesmo
tempo um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício
desta faculdade junto dos indivíduos. Tomada em seu conjunto, a linguagem é multiforme e
heteróclita; por cima de domínios diversos – aquele físico, aquele fisiológico, aquele psíquico – ela
pertence também ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em categoria
alguma de fatos humanos porque não se sabe como determinar a unidade”.3

Como meio de comunicação que é, a linguagem compõe-se de símbolos, que são as palavras, os
quais podem ser representados por um simples som (ex.: é, sim, por, não, etc.) ou pela combinação
de vários sons (ex.: por-que, nor-ma, di-rei-to etc.) – no caso da linguagem oral – ou, ainda, pela
representação gráfica desses sons – no caso da linguagem escrita.
II – Espécies de linguagem

A linguagem, de acordo com a forma em que é utilizada, pode ser: a) falada ou glótica – quando
expressa por meio de sons orais; b) mímica – quando expressa por intermédio de gestos
(movimentos físicos que exprimem idéias ou sentimentos, ou, então, que realçam expressões); c)
escrita ou gráfica – quando expressa com a utilização de sinais gráficos que, de acordo com regras
preestabelecidas e convencionais, representam palavras ou idéias.

Quanto aos sinais que a constituem, entendidos, aqui, os sons utilizados na linguagem oral e os
signos gráficos usados na linguagem escrita, a linguagem pode ser: natural, artificial ou técnica e
mista.

A linguagem natural é aquela formada espontaneamente numa coletividade, em virtude de sua


evolução social. É ela, o reflexo da formação e da história de um povo e pode ser entendida como a
“língua” de um todo social, no sentido de “idioma” utilizado pelo mesmo, compreensível por todos os

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seus componentes. Ex.: o português, o italiano, o espanhol, etc.

Por artificial ou técnica, entende-se a linguagem convencionalmente estabelecida para expressar


com maior precisão certos fatos, ou fenômenos, cuja definição seria passível de dificuldade pela
linguagem natural. A linguagem artificial, note-se, é compreensível apenas por um número limitado
de indivíduos, e pode ser entendida como uma espécie de “código” usado por aqueles que se
dedicam à matéria por ele referida.

A propósito, convém transcrever, aqui, a definição de linguagem artificial firmada por Roberto José
Vernengo, que se manifestou com clareza e objetividade a respeito da questão. Diz, ele: “Los
lenguages artificiales – sean lenguages técnicos o lenguages formalizados – son, pues recursos
expresivos para referirse, con mayor precisión y economía, a propiedades o relaciones cuya
definición en un lenguage natural seria muy complicada e imprecisa; o para aludir abstraciones, que
serian dificilmente identificables si atendiéramos a las referencias corrientes de las palabras en los
lenguages naturales”.4

A linguagem artificial pode ser inteiramente formalizada, como, por exemplo, a linguagem da álgebra
(a + b = x), ou, então, consistir na utilização de termos especialmente criados para exprimir
conceitos, enunciados ou princípios pertencentes à matéria de que trata, os quais, em linguagem
natural, seriam de difícil explicitação, com a possibilidade de pouca precisão, em alguns casos.

Os termos a que nos acabamos de referir constituem as chamadas “expressões técnicas”, que
aparecem em várias disciplinas do conhecimento humano. Por exemplo: o termo “endovenoclise”,
utilizado especificamente nas ciências médicas, que significa a introdução de uma agulha na veia de
uma pessoa, quer para a retirada de sangue, quer para a introdução de um medicamento; no campo
do direito, podemos citar a palavra “licitação” que, no dizer do mestre Celso Antônio Bandeira de
Mello, significa “o procedimento administrativo pelo qual uma pessoa governamental, pretendendo
alienar, adquirir ou locar bens, realizar obras ou serviços, segundo condições por ela estipuladas
previamente, convoca interessados na apresentação de propostas, a fim de selecionar a que se
revele mais conveniente em função de parâmetros antecipadamente estabelecidos e divulgados”.5

Além dos exemplos apresentados, poderíamos elencar muitos outros, relativos a outras áreas do
saber humano, mas cremos que isto seria despiciendo, em virtude de supor já estarem, aqui,
delineados, os traços específicos da linguagem artificial.

Como último tipo de linguagem, relativamente aos sinais, ou signos, que a compõem, temos a
linguagem mista, constituída, em parte, pela linguagem natural e, em parte, pela linguagem artificial.

A linguagem jurídica, entendida, aqui, tanto a linguagem do direito costumeiro, como a linguagem do
direito positivo (leis, decretos, portarias, etc.) e, também, a linguagem dos juristas, que compreende
a linguagem da ciência do direito, da filosofia do direito ou da lógica jurídica, é uma linguagem mista,
pois, nela, são empregados termos da linguagem natural, que explicam objetos e fenômenos da
realidade que têm relevância para o direito, e, também, são utilizados certos termos técnicos,
privativos dos assuntos jurídicos, que, por si só, significam fatos, princípios ou raciocínios peculiares
à matéria. Como exemplo destes últimos, além do que já foi mencionado anteriormente, podemos
citar: capacidade, sujeito de direito, imposto de renda, taxa, enfiteuse, hipoteca, além de uma série
infindável de outros, impossível de ser relacionada.

A linguagem pode ser abordada, também, do ponto de vista de sua finalidade. De acordo com Carrió,
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relativamente a esta ótica, a linguagem pode ser: descritiva, expressiva, diretiva e operativa.

A linguagem descritiva é utilizada para fornecer informação sobre certos fenômenos ou estados de
coisas. É a linguagem tipicamente científica, e apenas ela pode ser passível de indagações a
respeito de verdade ou falsidade. As proposições com ela enunciadas são denominadas, por Lourival
Vilanova,7 “proposições apofânticas”.

A linguagem expressiva é utilizada para a exteriorização de sentimentos; seu emprego freqüente é


nas expressões poéticas.

A linguagem diretiva é utilizada com a finalidade de determinar a adoção de certas condutas por
outras pessoas, de determinar que algo seja feito por alguém. Ex.: “Ao Prefeito compete representar
o Município”.

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A linguagem operativa é a que produz efeitos próprios, ou seja, é a linguagem da qual resulta a
realização de atos conformes às regras ou convenções em vigor. Por exemplo, as palavras de um
juiz de paz numa cerimônia de casamento: “Perante a lei, eu os declaro marido e mulher” – da
utilização destas palavras decorre uma série de direitos e obrigações, além da formação do vínculo
matrimonial.

Convém, ainda, por derradeiro, aludir a uma outra classificação da linguagem, de grande importância
para a lógica, segundo a qual existem: a linguagem-objeto e a meta-linguagem.

A linguagem-objeto é aquela com que se faz referência às coisas da realidade; é a linguagem com a
qual se fala. Consiste num sistema fechado de signos, que são articulados, segundo regras
específicas, para exteriorizar a relação “pensamento/realidade” subjetivamente considerada por
quem fala. É a linguagem por intermédio da qual se faz referência a todas as coisas (concretas ou
abstratas) passíveis de denominação. Por exemplo, a oração: o homem é um ser racional – é uma
expressão da linguagem-objeto.

A metalinguagem, por sua vez, é utilizada para fazer referência à linguagem-objeto. Os conceitos e
princípios jurídicos, por exemplo, são expressões da linguagem-objeto, e a linguagem usada pela
ciência do direito, neste caso, é uma metalinguagem, uma vez que se refere a esses princípios e
conceitos.
III – A linguagem como um dos objetos do estudo da semiótica

A semiótica é a teoria dos sinais (signos), ou dos sistemas de sinais utilizados na comunicação.

Como já aludimos no início deste trabalho, qualquer sistema sígnico é abordado, analiticamente, por
intermédio de uma dimensão lingüística. Assim sendo, segundo Warat: “La semiótica, por tanto, es
un metalenguage que pretende ser un discurso de conocimiento sobre todo tipo de sistema de
comunicación”. 8

Ainda de acordo com o mesmo autor, “La semiótica es, por tanto, um metalenguage que utiliza las
categorias analíticas de la lingüística para producir un lenguage apto para reflexionar sobre los
elementos del mundo, que pueden ser pensados como um sistema sígnico”.9

Do ponto de vista da semiótica, podem ser analiticamente abordados todos os fenômenos da


comunicação, que são sempre significativos, como, por exemplo, a produção de sons musicais, as
obras de arte, a gesticulação, o uso de certas vestimentas, etc., e cuja emissão e compreensão é
regulada por uma codificação semioticamente teorizável.

Todos os sistemas de signos passíveis de análise semiótica são interpretados por intermédio da
lingüística, parte da semiótica que tem por objeto o estudo dos signos verbais da linguagem natural.
Conforme o nível de relacionamento dos signos de comunicação estudados pela semiótica, esta
última é subdividida em: sintaxe, semântica e pragmática.

Sintaxe é a parte da semiótica que estuda a relação dos signos entre si, deixando de lado o seu
significado e o seu relacionamento com as pessoas que se utilizam deles. É a teoria que estuda a
construção da linguagem, tendo em vista, sempre, um conjunto de signos e um conjunto de regras
para a colocação destes no texto lingüístico.

Assim sendo, é por intermédio da interpretação sintática de um texto, uma oração, ou uma frase, que
se pode verificar se os mesmos têm, ou não, sentido.

Semântica é a parte da semiótica que estuda a relação dos signos com os objetos da realidade que
pretendem designar. É o estudo do significado das palavras, frases ou orações e, como tal, passível
de averiguação de veracidade objetiva. Segundo Warat, “El análisis semântico no es relevante para
la ciencia jurídica, ya que la condición de sentido de sus enunciados proviene de la determinación de
Ias condiciones empíricas para su validez”.10

Pragmática é a parte da semiótica que estuda a relação dos signos com os seus usuários (emissor e
receptor). Tem, ela, por objeto, o estudo do aspecto subjetivo da comunicação, já que envolve um
enfoque no sentido de “intenção/reação” por parte dos participantes do discurso.

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A pragmática estuda o discurso de acordo com a intenção (ideologia) de quem fala e,


conseqüentemente, com a maneira pela qual é recebido, ou captado, por quem ouve (reação).

A análise pragmática é irrelevante para os discursos científicos, que se apóiam exclusivamente em


bases sintáticas ou semânticas, mas é fundamentalmente importante para os discursos normativos,
nos quais deve haver coincidência significativa e ideológica.

A interpretação das normas jurídicas deve ser calcada, sobretudo, em esteios pragmáticos, sem que,
ao fazer esta assertiva, estejamos pretendendo afirmar que não devem ser considerados, também,
os aspectos sintáticos e semânticos dos textos legais que, embora em menor grau, são necessários
para um entendimento global dos discursos normativos.
IV – A importância da linguagem para o direito

Abordaremos apenas, para maior facilidade de relacionamento com os aspectos da linguagem até
agora examinados, o direito, no sentido de direito positivo, de direito sistematizado e codificado,
deixando de lado a parte científica e doutrinária.

A título de embasamento do assunto ora em exame, traremos à colação a definição de “direito


positivo” enunciada por Paulo Dourado de Gusmão. Diz, o referido autor: “O direito positivo de uma
sociedade ou Estado constitui a sua ordem jurídica, que pode ser definida como o complexo de
normas jurídicas positivas dominante, em um momento histórico, numa sociedade determinada”.11

E, mais adiante, esclarece: “Fica desde logo esclarecido que o conceito supracitado de ordem
jurídica compreende não só normas legislativas (lei, decreto-lei, regulamentos, etc.), como, também,
normas consuetudinárias, standards jurídicos e princípios gerais de direito vigentes em um momento
histórico numa sociedade determinada”.12

Ante o exposto, verifica-se que o direito positivo de uma sociedade é o conjunto de normas e
princípios que regulam as relações, juridicamente relevantes, entre os indivíduos a ela pertencentes.
Constitui, ele, um dos modelos de programação social, sem dúvida, um meio de comunicação
composto por um sistema de signos próprio.

É, justamente, em função do direito positivo, que tentaremos explicar, num enfoque prático, as
considerações até agora feitas a respeito da linguagem. Para tanto, transcreveremos, a seguir, um
dos dispositivos da Lei Orgânica dos Municípios do Estado de São Paulo (Decreto-lei complementar
9, de 31.12.69), que servirá de base exemplificativa para a análise de um texto legal do ponto de
vista da linguagem.

Dispõe, o art. 58, caput, do supradito diploma legal: “A Prefeitura e a Câmara são obrigadas a
fornecer, a qualquer interessado, no prazo máximo de quinze dias, certidões de atos, contratos e
decisões, sob pena de responsabilidade da autoridade ou servidor que negar ou retardar a sua
expedição. No mesmo prazo deverão atender às requisições judiciais, se outro não for fixado pelo
juiz”.

Inicialmente, deve-se observar que a linguagem jurídica utilizada no texto sob exame é uma forma de
linguagem escrita da lei, que se contrapõe, dentro da mesma categoria de “linguagem jurídica”,
àquela geralmente utilizada pelo direito costumeiro, quase sempre na forma oral (embora possa,
algumas vezes, ser expressada por intermédio de símbolos, sinais ou gestos).

Outro aspecto a ser notado é o de que a linguagem jurídica, de acordo com os sinais que a
constituem, é uma linguagem mista, composta pela linguagem artificial e pela linguagem natural. No
texto supratranscrito, as expressões: “contratos”, “interessado”, “certidões”, “atos”, “decisões”,
“responsabilidade”, “autoridade”, “servidor” e “requisições judiciais”, por exemplo, são expressões da
linguagem artificial específica do direito, cujo significado exato e preciso só é compreensível pelos
estudiosos da matéria, embora algumas delas sejam, também, utilizadas pela linguagem natural,
mas com significado diverso daquele que é relevante para uma apreciação jurídica.

Por outro lado, no mesmo texto, encontramos expressões da linguagem natural, compreensíveis por
todos os membros da nossa comunidade lingüística, indistintamente. Por exemplo: “fornecer”,
“negar”, “retardar”, “qualquer”, “prazo máximo de quinze dias”, etc.

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Quanto à análise semiótica do texto em questão, devem ser considerados três aspectos distintos: o
sintático, o semântico e o pragmático.

Relativamente à sintaxe, deve ser examinada a relação das expressões entre si. Assim, por
exemplo, para se saber qual é o sujeito da prescrição legal, toma-se o predicado “são obrigadas” e
indaga-se: “quem?” – imediatamente é obtida a resposta: “a Prefeitura e a Câmara”; para se saber
qual é o objeto da obrigação imposta, ainda relativamente ao predicado, pergunta-se: “são obrigadas
a quê?” – e a resposta é: “a fornecer certidões de atos, contratos e decisões a qualquer interessado”,
e, assim por diante.

Sob a ótica da semântica, o texto deve ser abordado em referência ao significado das expressões
(signos) nele contidas. Como já dissemos anteriormente, do ponto de vista jurídico (principalmente
da lógica jurídica), a abordagem semântica de um texto é de importância secundária, à vista do
caráter misto da linguagem utilizada, pois sendo, esta, embora parcialmente, composta por termos
pertencentes à linguagem natural, apenas quanto às expressões da linguagem artificial, há
necessidade de uma averiguação semântica para constatar a precisão dos termos empregados. No
caso em exemplo, seria indispensável uma análise semântica apenas de “atos”, “responsabilidade”,
“autoridade” e demais expressões próprias do vocabulário jurídico.

Quanto à pragmática, o discurso normativo (no caso, o texto transcrito) deve ser considerado de um
ângulo subjetivo, ou seja, deverá ser verificada qual a intenção do emissor da norma (legislador) e,
também, qual a reação que a prescrição normativa poderá provocar nos receptores da sua
mensagem (partes atingidas pelo mandamento legal).

Assim, o legislador, ao determinar que “a Prefeitura e a Câmara são obrigadas a fornecer, a qualquer
interessado, no prazo máximo de quinze dias, certidões de atos, contratos e decisões…”, está
empregando uma linguagem diretiva que, no dizer de Carrió, é um tipo de linguagem usado para
dirigir a ação de certas pessoas, para induzir alguém a fazer alguma coisa, ou, comportar-se de
determinada maneira”. 13

A intenção do emissor da norma (legislador), portanto, foi obter, da Prefeitura e da Câmara, a adoção
de uma determinada conduta, diante de uma determinada situação, e estas últimas, por sua vez, ao
receber a mensagem normativa, deverão manifestar uma reação específica, que é a concretização
da conduta imposta. O mesmo ocorre na parte final do texto, onde está estabelecido que: “no mesmo
prazo deverão atender às requisições judiciais, se outro não for fixado pelo juiz”.

A Prefeitura e a Câmara, portanto, partes (ouvintes) do discurso normativo em questão (e, também
sujeitos e intérpretes do mesmo), deverão obedecer as determinações legais relativas ao
comportamento a ser, por elas, adotado no caso, e isto, em virtude da relação de
metacomplementaridade (relação “autoridade/sujeito”) que se estabelece em todo discurso
normativo, fazendo com que o emissor da norma (comunicador normativo) seja “autoridade” perante
as partes (ouvintes) e, estas últimas, por sua vez, sejam “sujeitos”, perante o emissor da norma, da
ação por ele determinada.

A relação de metacomplementaridade aparece, nos discursos legais, através de “operadores


normativos”, fórmulas por intermédio das quais o emissor da norma se manifesta. Por exemplo: “é
obrigatório que”, “é proibido que”, “é permitido que” etc.

Quanto à reação dos ouvintes dos discursos normativos, ou seja, daqueles a quem a norma é
dirigida (no caso sob exame, a Prefeitura e a Câmara), pode, ela, ser externada de três maneiras:

1. pela confirmação, isto é, pelo cumprimento da ordem contida na lei (no dispositivo mandamental
examinado, a ordem é o fornecimento das certidões dentro do prazo estabelecido e o atendimento
das requisições judiciais na forma imposta);

2. pela negação, a saber, pelo descumprimento da ordem legal (pelo não fornecimento das certidões
dentro do prazo estabelecido e pelo não atendimento das requisições judiciais como determinado);

3. pela desconfirmação, que significa o fato de os endereçados (ou sujeitos) da norma


desqualificarem, ou não reconhecerem como tal, a autoridade que emitiu a ordem (legislador). No
texto versado, como a Lei Orgânica dos Municípios do Estado de São Paulo (Decreto-lei
complementar 9, de 31.12.69), foi emitida pelo Governador do Estado, haveria desconfirmação se a

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Prefeitura, ou a Câmara, considerasse, por exemplo, que a matéria referente à expedição de


certidões, ou ao atendimento das requisições judiciais, não estivesse na esfera de competência do
Governador para a expedição de decretos, e, conseqüentemente, ignorasse a imposição legal.

Do ponto de vista pragmático, uma última observação deve ser feita em referência ao texto em
exame: trata-se da sanção nele contida. De fato, o legislador estabeleceu a obrigatoriedade de
fornecimento de certidões, pela Prefeitura e pela Câmara, nos moldes delineados e “sob pena de
responsabilidade da autoridade ou servidor que negar ou retardar a sua expedição” – esta cláusula –
constitui, efetivamente, a sanção prevista pelo legislador (emissor da norma) para o caso de
descumprimento dos mandamentos impostos, isto é, para o caso de não cumprimento da norma.

Sob o prisma de uma apreciação pragmática, a sanção consta da norma apenas como um elemento
discursivo, como a descrição de um fato desagradável inserida no texto legal. É, ela, a realização
lingüística de uma ameaça que a autoridade faz relativamente a um dado comportamento do
endereçado. Além disto, a sanção é sempre condicional, pois a sua ocorrência depende da não
observância do mandamento contido na norma.

Ante; o exposto, verifica-se que a análise de um texto legal do ponto de vista da pragmática tem
prevalência sobre a apreciação calcada na sintaxe ou na semântica, pois a finalidade primeira de
uma norma jurídica é a obtenção do atendimento de seus comandos por aqueles a quem é dirigida,
e, para tanto, é necessária uma perfeita correspondência entre o que foi desejado pelo legislador ao
emitir a norma e a manifestação das partes, às quais a norma é dirigida, quando do recebimento da
mensagem impositiva nela contida.
V – Conclusões

1. A linguagem é o principal fator da comunicação e do convívio social, mas é responsável, também,


pela existência de grupos sociais distintos, com culturas distintas.

2. Quanto aos sinais (ou signos) que a constituem, a linguagem jurídica é mista, pois, sendo, o
direito, uma ciência social, a linguagem a ele referente contém termos e expressões da linguagem
natural, que traduz os objetos, fatos e fenômenos (sociais) considerados juridicamente relevantes,
mas, por outro lado, é composta, também, por termos da linguagem artificial criados especificamente
para explicar fatos e princípios peculiares ao direito.

3. Quanto à sua finalidade, a linguagem jurídica pode ser descritiva, diretiva ou operativa, sendo
pouco comum, no direito, o uso da linguagem expressiva.

4. Relativamente ao seu objeto de referência, a linguagem jurídica pode ser uma “linguagem-objeto”
ou uma “metalinguagem”,

5. Do ponto de vista da semiótica, é fundamental, para o direito, um enfoque da linguagem em seu


aspecto pragmático, não sendo dispensáveis, porém, as apreciações sintáticas e semânticas dos
textos jurídicos.

1. Abbagnano, N., Dicionário de Filosofia, Mestre Jou, São Paulo, SP.

2. Bandeira de Mello, Celso Antônio, Elementos de Direito Administrativo, Ed. Revista dos Tribunais,
São Paulo, 1980.

3. Carrió, Genaro R., Notas Sobre Derecho y Lenguage, Abeledo-Perrot, 1.ª ed., Buenos Aires, 1976.

4. Dourado de Gusmão, Paulo, Introdução à Ciência do Direito, Forense, Rio, 1960.

5. Ferraz Jr., Tercio Sampaio, Teoria da Norma Jurídica, Forense, Rio, 1978.

6. Vernengo, Roberto José, Curso de Teoria General del Derecho, Cooperadora de Derecho y
Ciencias Sociales, Buenos Aires, 1976.

7. Vilanova, Lourival, Lógica Jurídica, José Bushatsky, São Paulo, 1976.

8 Warat, Luiz Alberto, El Derecho y Su Lenguage. Cooperadora de Derecho y Ciencias Sociales.


Buenos Aires, 1976.

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A LINGUAGEM DO DIREITO

1 El Derecho y Su Lenguage, 1976, p. 22.

2 Curso de Teoria General del Derecho, 1976, p. 37.

3 Cours de Linguislique Générale, 1976, p. 15, in Abbagnano, N.. Dicionário de Filosofia, 1970. p.
587.

4 Op. cit., p. 39.

5 Elementos de Direito Administrativo, 1980, p. 100

6 Notas Sobre Derecho y Lenguage, pp. 16-17.

7 Lógica Jurídica, 1976, p. 143. 8 Ob. cit., p. 28.

8 Ob. cit., p. 28.

9 Ob. cit., p. 29, in fine, e p. 30.

10 Ob. cit., p. 50.

11 Introdução à Ciência do Direito, 1960, p. 66.

12 Idem, ob. cit., p. 66.

13 Ob. cit., p. 16.

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