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SUMÁRIO

1 METAPSICOLOGIA ........................................................................... 2

2 A METAPSICOLOGIA PARA FREUD ............................................... 2

2.1 As características e a natureza da metapsicologia para Freud ... 5

2.2 Necessidade ou provisoriedade da metapsicologia .................... 6

2.3 Porque seriamos todos machianos? ........................................... 7

3 O DETERMINISMO E O INCONSCIENTE ...................................... 10

4 A CAUSALIDADA PSÍQUICA .......................................................... 12

5 O DEBATE ENTRE DETERMINISMO E LIBERDADE .................... 22

5.1 O Sujeito Entre o Determinismo e a Escolha ............................ 25

6 Normatividade, instituições e teoria psicanalítica: a psicanálise e suas


inserções 29

7 METAPSICOLOGIA DAS PULSÕES ............................................... 32

8 SOBRE A METAPSICOLOGIA DO NARCISISMO .......................... 37

9 REITERAÇÕES E CRÍTICAS À TEORIA MATAPSICÓLOGIA ........ 40

10 A POSSIBILIDADE EFETIVA DE UMA PSICANÁLISE SEM A


METAPSICOLOGIA ......................................................................................... 45

11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................. 48

1
METAPSICOLOGIA

Metapsicologia é um termo criado por Freud em 1896, a psicanálise usada para


designar a parte da doutrina freudiana mais teórico e especulativo, que tenta explicar
o funcionamento mental, personalidade e conduta baseado em princípios gerais;
consiste no desenvolvimento de modelos teóricos, para isso Freud considera três
pontos de vista o econômico, o dinâmico e o topográfico.
Economicamente (adjetivo): descreve tudo relacionado com a hipótese de que
os processos psíquicos consistem em circulação e distribuição de uma energia
mensurável (unidade de energia), ou seja, susceptíveis de aumentar, diminuir e
equivalências (Laplanche 102)
O conceito de energia foi criado por Freud para esclarecer mudanças na
atenção, interesse e compromisso de um objeto para outro ou de uma atividade para
outra (Rycroft, 50).
Dinamicamente ponto (adjetivo): descreve uma vista que considera os
fenómenos psíquicos como resultante do conflito e a composição de forças que
exercem uma determinada pressão sendo estes, em última análise, de origem
instintiva (laplanchiano, 100).1

1 A METAPSICOLOGIA PARA FREUD

Freud utiliza o termo metapsicologia em dois sentidos distintos: por um lado,


enquanto sinônimo de uma teoria psicológica que toma o inconsciente como aquilo
que é propriamente psíquico, ou seja, como uma teoria que vai para além da
psicologia da consciência e, por isso mesmo, meta, ou seja, a metapsicologia como
uma teoria geral de uma psicologia do inconsciente; por outro, a considera como um
conjunto de conceitos que são construções teóricas auxiliares, especulativas, de valor
apenas heurístico.

1 Extraído do link: medium.com


2
Fonte:
www.ekonomiaonline.com

Já em 1894, Freud explicita seu uso de construções auxiliares. Neste momento,


Freud está à procura da compreensão da dinâmica que produz os sintomas na
histeria, na fobia e na neurose obsessiva, patologias tão diferentes em suas
manifestações que apresentavam uma dificuldade no que se refere à elaboração de
uma compreensão geral que pudesse servir às três, teoria geral única para as
neuroses. Para isto ele lança mão da ideia de quantum de afeto, como uma
construção teórica auxiliar especulativa. Os sintomas, na neurose, para ele, seriam
como que o retorno de um quantum de afeto reprimido. Esse retorno poderia realizar-
se por diversos caminhos, cada um deles constituindo um tipo de sintoma: no caso da
histeria a energia reprimida retornaria investindo o corpo; na obsessão, investiria o
pensamento; e na fobia, o mundo exterior. Diz Freud, nesse sentido, recolhendo seu
proceder epistemológico especulativo: ”exporei em poucas palavras a representação
auxiliar da qual me servi nesta exposição das neuroses de defesa. É a seguinte: nas
funções psíquicas, cabe distinguir algo (montante de afeto, soma de excitação) que
tem todas as propriedades de uma quantidade — ainda que não haja meio algum de
medi-la —; algo que é suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga,
e que se difunde pelas marcas mnêmicas das representações, como faria uma carga
elétrica pela superfície dos corpos.

3
A ideia de quantum de afeto ou de energia psíquica são construções auxiliares
a serviço da procura da relação de determinação, dinâmica, entre os fenômenos.
Freud utilizará, consistentemente e de forma sempre presente na sua obra, de outras
duas construções auxiliares fundamentais: a de aparelho psíquico e a
de força psíquica (Trieb). Em 1914, Freud escreve referindo-se ao conceito de libido,
que ocupará o lugar conceitual da noção de quantum de afeto: “É que estas ideias [as
de libido do eu e de objeto] não são o fundamento da ciência, sobre o qual tudo
repousa: esse fundamento, ao contrário, é somente a observação. Não constituindo
as fundações, mas o cume de todo edifício, elas podem, sem prejuízo, ser substituídas
e retiradas” (Freud, 1914c, p. 85).
No que se refere à noção de aparelho psíquico, no seu livro A Interpretação
dos sonhos (1900), Freud afirma, referindo-se à sua hipótese especulativa que
procura comparar, por analogia, o psiquismo a um aparelho: “eu estimo que nós temos
o direito de dar livre curso a nossas suposições, desde que, ao fazer isto,
mantenhamos a cabeça fria e não tememos o andaime pelo edifício. Como nós temos
a necessidade de representações auxiliares para fazer uma primeira aproximação das
coisas desconhecidas, nós preferimos, primeiro, aquelas hipóteses mais brutas e mais
concretas” (Freud, 1900a, pp. 536-537).
Ao caracterizar qual é a natureza e a organização da sua primeira noção de
aparelho psíquico, a chamada primeira tópica (apresentada no Cap. 7 do A
Interpretação do Sonhos), Freud explicita claramente que se trata de uma
especulação heurística reconhecível, por exemplo, na própria Física:
Ora, sei que você vai dizer que estas representações são muito grosseiras e
fantasiosas, e que elas não são de forma alguma aceitáveis numa apresentação
científica. Eu sei que elas são grosseiras: mais ainda, nós também sabemos que eles
são imprecisos e, se não nos enganamos muito, já temos disponível uma
[representação] melhor. No momento, elas são, para nós, representações auxiliares,
como aquelas do Homem de Ampère que nada numa corrente elétrica; elas não são
desprezíveis, na medida em que podem ser usadas para entender o que observamos.
Quero assegurá-los que estas hipóteses grosseiras (dois espaços [Ics – PcsCs], um
guardião na soleira entre os dois, com a Cs como um espectador alojado no canto da
segunda sala), não deixam de constituírem-se como representações próximas do
verdadeiro estado dos fatos. Quero ainda vos fazer entender que nossas designações

4
(inconsciente, pré-consciente, consciente) prejulgam pouco e são mais fáceis de
justificar do que outras que foram propostas ou utilizadas, tais como subconsciente,
paraconsciente, intraconsciente etc. (Freud, 1916x, p. 296).
Freud reitera sua posição metodológica, em 1939, no seu último texto publicado
(Esboço de Psicanálse), afirmando o valor heurístico. No início do primeiro capítulo
deste livro, de nome “O Aparelho Psíquico”, Freud diz, referindo-se a sua suposição
de considerar o psiquismo como se fosse um aparelho: “A psicanálise supõe um
postulado fundamental que pertence à filosofia discutir, mas cujos resultados
justificam o valor” (Freud, 1940a, p. 145).
A noção de força psíquica é outra especulação fundamental, bem de acordo
com sua formação com cientista da natureza, no laboratório de Fisiologia da
Universidade de Viena, dirigido por Ernst Brücke. Nesse sentido, lembremos do
juramento epistemológico de Brucke e Dubois-Reymond:
Brücke e Dubois-Reymond nos comprometeram a impor esta verdade, a saber,
que somente as forças físicas e químicas, com exclusão de qualquer outra, agem no
organismo. Nos casos que não podem ser explicados, no momento, por essas forças,
deve-se empenhar em descobrir o modo específico ou a fonte de sua ação, utilizando
o método físico-matemático, ou então postular a existência de outras forças
equivalentes em dignidade às forças físico-químicas inerentes à matéria, redutíveis à
força de atração e repulsão. (apud Shakow e Rapapport, 1964, p. 34).
Freud, certamente, postulou essas forças iguais em dignidade: “A psicanálise
propõe, no lugar de uma simples descrição, uma explicação dinâmica fundada sobre
a interação de forças psíquicas, […]” (Freud, 1913m, p. 207).
A noção de força psíquica (Trieb) corresponderá, epistemologicamente falando,
à noção de força utilizada pelos físicos. .

1.1 As características e a natureza da metapsicologia para Freud

Ao definir o que é a metapsicologia, Freud afirma: “Proponho que se fale de


uma apresentação metapsicológica quando conseguimos descrever um processo
psíquico segundo suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas” (Freud, 1915e, p.
181). Ou seja, a metapsicologia corresponde a uma apreensão da vida psíquica em

5
termos das relações pensadas com o uso, respectivamente, dos conceitos de pulsão
(dinâmica), aparelho (tópica) e libido (econômica).
Freud sabe que esses conceitos (pulsão, aparelho, libido) são construções
auxiliares especulativas. Ele até mesmo modificou o modelo que figurava como seria
a organização do aparelho psíquico e suas partes e/ou instâncias, passando de uma
primeira tópica (Ics, Pcs-Cs, Cs) para uma segunda (Id, ego, SuperEgo), em função
de torná-la heurísticamente mais eficiente (na resolução de problemas clínicos que o
primeiro modelo teve dificuldades em explicar). É assim, reconhecendo e afirmando
qual é a natureza da metapsicologia, que ele a caracterizará como sendo uma
especulação de valor apenas heurístico: Que seja suficiente marcar que pareceu
legítimo completar as teorias, que são expressão direta da experiência, por hipóteses
que são apropriadas ao controle do material e que se reportam aos fatos que podem
tornar-se objeto de observação imediata. A subdivisão do inconsciente é correlativa à
tentativa de imaginar um aparelho psíquico edificado a partir de um certo número de
instâncias ou de sistemas, cuja relação mútua é expressa em termos espaciais, sem
que seja procurado, no entanto, uma ligação com a anatomia do cérebro real (o ponto
de vista tópico). Essas representações e outras similares pertencem a uma
superestrutura especulativa (spekulativer Überbau) da psicanálise, onde cada parte
pode ser sacrificada ou trocada sem danos nem remorso, a partir do momento onde
uma insuficiência é constatada. Ainda resta, no entanto, muita coisa que está mais
próxima da observação. (Freud, 1925d, pp. 32-33).

1.2 Necessidade ou provisoriedade da metapsicologia

Para Mach, vimos que, as ficções heurísticas devem ser, ao longo do


desenvolvimento da ciência, eliminadas, substituídas por conceitos empíricos,
substituídas pela descrição das relações de determinação recíproca entre os
fenômenos. No entanto, diferenciando-se de Mach, para Freud elas são necessárias:
“Sem especular nem teorizar – por pouco eu ia dizer fantasiar –
metapsicologicamente, não se avança aqui um passo sequer” (Freud, 1937c, p. 225).
Pierre Fédida reafirma essa posição freudiana: “nós jamais poderemos anular o
conceito de pulsão ou a ficção do aparelho psíquico” (1983, p. 36); ainda que
encontremos psicanalistas que consideraram e consideram isto possível.

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Ao longo do desenvolvimento da psicanálise, encontramos diversos destinos
para a metapsicologia, relativizando a posição de Freud. A metapsicologia foi
ampliada ou modificada (com as propostas de Abraham, Ferenczi, Klein, Federn,
Fairbairn, Hartmann, Kohut, Bowlby, Green), substituída por outras de mesma
natureza ainda que redescritas, mas com outras terminologias e perspectivas (como
em Biswanger, Bion e Lacan), e até mesmo rejeitada (por Winnicott).
A própria história da psicanálise poderia ser descrita considerando a divisão
entre aqueles que mantiveram a metapsicologia (reiterando-a, redescrevendo-a ou
substituindo-a por outra de mesma natureza) e aqueles que a criticaram, se afastaram
dela ou até a rejeitaram como instrumento heurístico de pesquisa.

1.3 Porque seriamos todos machianos?

É um elo de ligação entre Freud e Einstein. Eles se encontraram uma única


vez, no final de 1926, em Berlim, um encontro rápido, mas com uma comunicação
interessante, cada um mantendo-se no alto do seu universo de preocupações e de
saber. Disse Freud, sobre esse encontro, numa carta a Ferenzi: “Ele é alegre, seguro
de si e amável, ele sabe tanto de psicologia quanto eu de física, é por isso que nós
tivemos uma discussão agradável” (Carta a Ferenczi, 2/janeiro/1927).
A ligação entre estes dois cientistas não foi, pois, via suas obras de físico e de
psicólogo e as influências conceituais que teriam exercido um sobre o outro, eles
falavam línguas diferentes, de coisas diferentes. Parece haver, entre eles, um tipo de
comunhão epistemológica, que tem nas concepções de Mach sobre a prática científica
seu elo mais objetivo. É em função dessa comunhão que, em 1933, eles foram
convidados a publicar uma discussão sobre o tema da guerra e da agressividade do
ser humano (“Por que a Guerra? ”, foi o título proposto e assim também publicado),
publicado em forma de supostas cartas trocadas por eles (o que jamais ocorreu, na
verdade). Diz Freud a Einstein: “Talvez você tenha a impressão de que nossas teorias
são um tipo de mitologia; no caso aqui presente, uma mitologia que não é nem mesmo
muito feliz. Mas, toda ciência da natureza não retoma, ela mesma, um tal tipo de
mitologia? Acontece hoje de uma maneira diferente para você na física? ” (Freud,
1933b, p. 211).

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Creio que, nessa passagem, Freud retoma a questão do uso de ficções
heurísticas para o desenvolvimento da ciência, em especial a que se refere ao ponto
de vista dinâmico e a consideração de que as forças (em Einstein, de um tipo, e em
Freud, de outro, mas iguais em dignidade às forças físico-químicas), consideradas
como a causa incondicionada, origem do movimento (seja ele físico ou psíquico). Num
e noutro, seriam um tipo de mitologia de alto valor heurístico.
Na psicologia e, mais especificamente, na psicanálise, permanecemos nesse
cenário: as forças psíquicas (as pulsões) permanecem como seres dessa natureza;
ainda que alguns psicanalistas tenham migrado a psicanálise para um outro cenário
epistemológico (existencialista, fenomenológico) que prescinde da ideia de força
psíquica para pensar o psiquismo humano.
Então, como lida hoje o físico com a noção de força, em termos da concepção
sobre a sua natureza e do seu referente?
Mas, e isto talvez seja muito pouco, pensando numa comunhão com todos os
praticantes da pesquisa científica (seja nas ciências duras, seja nas sociais), qual
cientista não tem uma relação importante com as ficções heurísticas, seja as
estruturantes do pensamento (a necessidade de uma cosmologia) seja com seus
modelos operativos (na construção de experimentos etc.), como instrumentos do seu
pensamento? É nesse sentido, do reconhecimento do uso, provisório ou não, de
especulações heurísticas na prática científica, que afirmei já no título de meu
artigo: Somos quase todos machianos!2
Freud, ao elaborar sua metapsicologia, buscando explicações para a vida
psíquica e seus fenômenos, acaba deparando-se também com uma velha questão
filosófica a respeito do determinismo e da vontade livre. É evidente que o prisma pelo
qual Freud desenvolveu sua teoria é completamente diferente dos demais campos do
saber, o que concede, ainda hoje, à psicanálise a especificidade de sua construção
teórica no que tange ao conceito do inconsciente. No entanto, o enigma é o mesmo:
o que significava para a teoria psicanalítica os fenômenos psíquicos estudados por
Freud? Eram eles produtos do acaso, da liberdade consciente, ou resultados de algum
determinismo?
Uma análise da teoria freudiana é capaz de demonstrar que, ao longo de sua
elaboração teórica, Freud sustentou-se em uma forte aposta no determinismo como

2 Extraído do link: cosmosecontexto.org.br


8
regente da vida anímica. Em alguns artigos, ele se dedicou, em particular, a comprovar
sua hipótese de uma aplicação universal do determinismo aos eventos psíquicos
(Freud 1900/1996; 1901/1996; 1905c/1996), chegando a afirmar que “não há nada no
psíquico que seja arbitrário ou indeterminado” (Freud, 1901/1996, p. 240). No entanto,
o estudo dessa posição teórica freudiana nos conduz a algumas interrogações:
podemos tratar essa noção como sendo óbvia na teoria psicanalítica ou devemos
reconhecer que estamos diante de uma questão complexa, que, na amplitude dessa
teoria, acaba por conviver com outros conceitos? Ao mesmo tempo em que Freud se
apega a um determinismo da vida anímica, ele desenvolve também alguns conceitos
que aparentemente produziriam uma controvérsia. Ao falar de escolha de objeto
(Objektwahl), escolha do sintoma (Symptomwahl) e escolha da neurose
(Neurosenwahl), Freud utiliza-se de uma noção (a de escolha) que tradicionalmente
tem sido remetida à noção de liberdade e que, portanto, choca-se com seu
determinismo (Laplanche & Pontalis, 1986). O próprio conceito de associação livre
(Freie Assoziation) traria também uma relação paradoxal entre o que seria da ordem
da livre escolha de uma ideia com aquilo que seria de uma ordem determinada. É,
justamente, nessa “encruzilhada” da teoria psicanalítica que pretendemos conduzir
nossa reflexão, partindo, então, de algumas questões iniciais: Como podemos
entender o determinismo psíquico, tal como foi apresentado por Freud? O que
teoricamente sustenta sua hipótese? Se o psiquismo é regido por um determinismo,
como entender a questão paradoxal das escolhas?

9
Fonte:
www.google.com

2 O DETERMINISMO E O INCONSCIENTE

Apesar das grandes inovações que seu pensamento trouxe para a psicologia
de sua época, Freud, como um homem que não pôde fugir completamente das
influências de seu “Zeitgeist”, foi também um grande adepto e defensor do caráter
determinista das explicações científicas. O estudo de sua metapsicologia nos revela
que a descoberta e a teorização do inconsciente foram uma empreitada possível,
porque Freud pautou sua pesquisa naquilo que constituía, para ele, uma enorme
certeza: a aplicação universal do determinismo aos eventos psíquicos. Essa
concepção se faz inicialmente presente em sua tentativa de dar explicações
neurofisiológicas dos processos psíquicos, notadamente no “Projeto de uma
Psicologia”, manuscrito de 1895 que só foi publicado em 1950 (Freud, 1950b/1996),
mas continua a ter um papel fundamental mesmo após seu abandono de tal tentativa
(Gomes, 2005).
Podemos afirmar que, se Freud não fosse um forte adepto do determinismo
psíquico, ele jamais poderia ter feito o que fez: conduzir os sintomas neuróticos e toda
uma classe de fenômenos psíquicos extremamente banais a uma categoria de
fundamental importância em sua pesquisa. A opção determinista também pode ser
vista como determinante para sua forte adesão ao conceito de pulsão. É por achar
10
que um fenômeno psíquico não pode nunca resultar puramente de uma razão
abstrata, ou de uma pura espontaneidade criativa, que Freud foi buscar no conceito
de pulsão uma fonte sempre presente da ocorrência do psíquico (Gomes, 2001).
Apostando que nada que tivesse relação com a vida mental poderia ser fruto
do acaso, Freud (1894/1996, 1895/1996) toma primeiramente os sintomas como
portadores de um sentido e como reveladores da existência de uma atividade mental
inconsciente. Daí em diante, ele não tarda a outorgar à sua teoria uma abrangência
muito maior. Através desse determinismo psíquico inconsciente, ele acaba por
estender também aos sonhos e aos mais variados tipos de lapsos da consciência, a
mesma condição dos sintomas: todos eles são provenientes da ação dos desejos
inconscientes, e, como tais, são portadores de um sentido (Freud, 1900/1996,
1901/1996). Desse modo, podemos compreender que a noção de determinismo
psíquico em Freud pode ser vista como sincrônica às construções teóricas a respeito
do aparelho psíquico e de sua psicodinâmica.
Não se trata de ver a posição determinista como uma posição presente, mas
acidental, ou pelo menos contingente, ou seja, como algo não inerente à formulação
por Freud de seu conceito de inconsciente. Ao contrário, podemos considerar tal
posição como essencial para a própria constituição do conceito psicanalítico de
inconsciente (Gomes, 2007).
No entanto, essa não é a única observação possível de ser extraída. Abordar
esse tema nos conduz à necessidade de reconhecermos o caráter diferencial da tese
freudiana a respeito da causalidade psíquica, uma vez que tal posição situa a teoria
psicanalítica numa posição bastante singular. A hipótese com a qual estamos
trabalhando é de que a tese freudiana sobre o determinismo psíquico encontra sua
significação mais adequada no conceito sobre determinação. Dessa forma, o fato de
reconhecermos múltiplos fatores causais para os fenômenos psíquicos, é algo que
necessariamente diferencia a psicanálise das ciências clássicas no que diz respeito à
compreensão e as consequências da causalidade. É justamente essa diferenciação
que nos permite pensar mais adequadamente sobre a questão da escolha na
psicanálise.

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3 A CAUSALIDADA PSÍQUICA

Apesar de o determinismo psíquico ser uma posição assumida por Freud ao


longo de toda a sua obra (referências explícitas ao tema podem ser encontradas em
Freud, 1901/1996, cap. 12; 1906/1996; 1910/1996, 3ª lição; 1916/1996, 2ª
conferência), ele não dedicou uma obra exclusiva para o tema do determinismo. No
entanto, se nos concentrarmos em alguns conceitos fundamentais de sua obra,
poderemos elaborar um esboço sobre a concepção e atuação do determinismo na
vida psíquica. Eis, portanto, os temas que nos são preciosos: os múltiplos fatores
atuantes na etiologia da neurose, a escolha da neurose, e a noção de a posteriori.
A história da psicanálise tem seu início com os estudos sobre a histeria,
principalmente com a tentativa de Freud em decifrar a sua etiologia. No “Rascunho
B”, escrito em 1893, Freud (1950a/1996) aborda a etiologia da histeria como sendo
dependente da articulação de dois fatores: (a) a precondição necessária, sem a qual
o estado não pode surgir em absoluto; e (b) os fatores desencadeantes. A precondição
necessária, quando atua de modo suficiente, torna inevitável a instauração da afecção
nervosa; porém, quando não atua de modo suficiente, ocorre uma disposição para a
afecção, que só se manifestará com o acréscimo dos fatores secundários. Assim, “o
que falta para o efeito integral na etiologia primária pode ser substituído pela etiologia
de segunda ordem; esta, contudo, é dispensável, ao passo que a de primeira ordem
é imprescindível” (Freud, 1893/1996, p. 224).
Em 1895, Freud publica um breve artigo, no qual tenta isolar da neurastenia
vários estados nervosos e estabelece-los como uma entidade independente, sob o
nome de “neurose de angústia”. A ideia central desse artigo era a de que os sintomas
da angústia possuíam uma etiologia específica e uniforme, sendo ela de natureza
sexual (Freud, 1895b/1996, p. 124). Tendo esse artigo recebido fortes críticas por
parte de Loewenfeld, um importante autor no meio médico, Freud escreve então uma
réplica, buscando combater a impressão de que sua teoria poderia ser refutada pelas
primeiras objeções que apareciam. Em “Resposta às críticas ao meu artigo sobre a
neurose da angústia”, Freud acaba por desenvolver um quadro bastante complexo da
situação etiológica, através do qual pôde demonstrar que “as neuroses são
sobredeterminadas, isto é, vários fatores operam conjuntamente em sua etiologia”
(Freud, 1895c/1996, p. 130).

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A partir da concepção de que a constituição etiológica das neuroses se dá de
maneira sobredeterminada, Freud passa a usar a expressão “equação etiológica” para
se referir aos vários fatores que precisam ser satisfeitos para que o efeito neurótico
ocorra. São eles: precondição, causa específica, causa concorrente, causa
precipitante ou causa desencadeante. A causa precipitante, ou desencadeante, pode
ser caracterizada como aquela que aparece por último na equação, de modo que
precede imediatamente a emergência do efeito, sendo esse fator cronológico a
essência de sua natureza principal. As precondições são os fatores em cuja ausência
o efeito nunca se manifestaria, mas que são incapazes de produzi-lo por si mesmos.
A causa específica é aquela que nunca está ausente quando o efeito se dá e que, em
uma certa quantidade e intensidade, é suficiente para produzir efeitos, desde que as
precondições também estejam presentes. As causas concorrentes são aquelas que
não estão necessariamente presentes todas as vezes, nem podem provocar a
manifestação dos sintomas por si mesmas, porém operam em conjunto com as
precondições e a causa específica para satisfazer a equação etiológica.
Apesar de afirmar claramente que a precondição e a causa específica são
indispensáveis para a equação etiológica, Freud ressalta que nenhuma delas pode se
bastar isoladamente como uma causa (Freud, 1895c/1996, p. 134). Retomando a
hipótese central de seu artigo, Freud conduz sua réplica afirmando que não há
nenhuma relação antitética entre a predisposição hereditária e o fator sexual
específico. Em sua opinião, os dois fatores etiológicos se apoiam e se complementam:
O fator sexual só costuma ser atuante nas pessoas que têm também uma tara
hereditária inata; a hereditariedade, por si só, usualmente não é capaz de produzir
uma neurose de angústia, tendo que aguardar a ocorrência de uma quantidade
suficiente da perturbação sexual específica. A descoberta do fator hereditário, por
conseguinte, não nos isenta da busca de um fator específico. (Freud, 1895c/1996, p.
136).
Acreditando que a hereditariedade, tomada isoladamente, não pode ajudar-nos
a compreender nem o desencadeamento episódico de uma neurose nem a cessação
dessa neurose em consequência de tratamento, Freud dá prosseguimento ao estudo
dessa questão. Em 1896, Freud publica “A Hereditariedade e a etiologia das
neuroses”, texto no qual ele vai se dirigir em particular aos seguidores de Charcot,
para redigir uma objeção à teoria de que a hereditariedade corresponde à única causa

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verdadeira e indispensável das afecções neuróticas. A objeção formulada por Freud
desenvolve-se no sentido de apresentar a necessidade de se reconhecer a existência
tanto de distúrbios nervosos adquiridos quanto de distúrbios hereditários. Vejamos
nas suas próprias palavras a forma como ele tece sua crítica, ao mesmo tempo que
introduz uma questão importante, a questão da escolha da neurose: (...) tanto na
patogênese neurótica quanto em qualquer outra área, não se pode falar em acaso,
deve-se admitir que não é a hereditariedade que rege a escolha do distúrbio nervoso
específico a ser desenvolvido no membro predisposto de uma família, mas que há
motivos para se suspeitar da existência de outras influências etiológicas de natureza
menos incompreensível, que mereceriam então ser chamadas de etiologia específica
dessa ou daquela afecção nervosa. Sem a existência desse fator etiológico especial,
a hereditariedade nada poderia ter feito. (Freud, 1896/1996a, p. 145).
Apesar de não desconsiderar a hereditariedade como um fator importante na
produção de uma neurose, Freud estava cada vez mais convencido de que a
hereditariedade nervosa, por si só, era incapaz de produzir as psiconeuroses se
faltasse sua etiologia específica, isto é, a excitação sexual precoce. Reconhecendo
os vários tipos de quadros neuróticos, Freud se pergunta sobre o que estaria em jogo
no fato de um paciente desenvolver certo tipo de neurose em detrimento de outro.
Assim, ele fecha seu artigo fazendo o seguinte comentário: No que concerne à
hereditariedade nervosa, (...). Admito que sua presença é indispensável para os casos
graves; duvido que seja necessária para os leves, mas estou convencido de que a
hereditariedade nervosa, por si só, é incapaz de produzir as psiconeuroses se faltar
sua etiologia específica, isto é, a excitação sexual precoce. Creio mesmo que a
decisão quanto ao desenvolvimento de uma das duas neuroses, histeria ou
obsessões, em determinado caso, não provém da hereditariedade, mas de uma
característica especial do evento sexual na tenra infância. (Freud, 1896/1996a, p.
155).
Em “A sexualidade na etiologia das neuroses”, Freud (1898/1996) afirma que
os resultados de suas pesquisas o conduziam à necessidade de reconhecer que as
causas mais imediatas e mais importantes de todos os casos de doença neurótica são
encontradas em fatores emergentes da vida sexual. Cabe lembrarmos que Freud está
aqui começando a trabalhar com aquela que ficou conhecida como teoria da sedução
traumática.

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Em um artigo anterior, intitulado “A etiologia da Histeria”, Freud (1896b/1996)
conduziu sua argumentação no sentido de construir uma explicação detalhada sobre
a influência de um evento sexual perturbador na eclosão dos quadros histéricos,
podendo este ser considerado, então, pelo seu valor de cena traumática. Freud faz
recair sobre a questão do trauma o fator de maior importância na eclosão dos quadros
neuróticos.
Contudo, não existe aí uma intenção de substituir pelo sexual todos os outros
fatores etiológicos, visto que a teoria do trauma, ou da sedução, não exclui a ideia de
uma combinação de fatores. A ideia freudiana é de que os fatores sexuais possuem
um papel de destaque na série etiológica (Bernardes, 2000).

Fonte:
saude.culturamix.com

É mister reconhecermos, portanto, que a teoria do trauma passa a pôr em


destaque uma descontinuidade fundamental entre a causa e o efeito. Compreender,
como Freud entende o poder causal que uma certa experiência possui na direção que
a neurose do sujeito vai tomar posteriormente é, portanto, extremamente válido, já
que o que perseguimos em sua obra é a questão do determinismo psíquico.
O trauma, como passa a ser entendido por Freud, deve ser analisado não
somente a partir da lembrança mais recente que o paciente possui sobre a experiência
traumática. O primeiro motivo que o leva a reconhecer essa necessidade é o fato de

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que, trabalhando conforme o procedimento de Breuer, o analista logo se depara com
uma dificuldade: é possível que a cena lembrada pelo paciente não tenha nenhuma
relação aparente com o sintoma analisado; ou é possível que mesmo tendo alguma
relação com o sintoma, ainda assim ela se revele “uma impressão inócua e, via de
regra, incapaz de produzir qualquer efeito” (Freud, 1896/1996b, p. 192).
Se a lembrança que é trazida de imediato pelo paciente neurótico não satisfaz
a expectativa de compreender o nexo traumático entre a experiência sexual e o
sintoma, é porque uma segunda cena estava sendo ignorada pelo método anterior. A
teoria do traumatismo psíquico concebe, portanto, a existência de dois tempos
separados na produção do trauma. O primeiro tempo é o momento da sedução
propriamente dita, ocorrido na infância. Nesse momento, a criança suporta
passivamente a investida sexual de um adulto – podendo ser o pai ou outro homem
próximo – sob a forma de palavras, gestos ou mesmo de uma agressão sexual. No
segundo momento, uma experiência ocorrida após a puberdade, sem
necessariamente conter qualquer conteúdo sexual, faz por evocar através de um traço
associativo a primeira cena. O trauma envolve, assim, a participação dessas duas
cenas, na medida em que é somente a partir dessa segunda cena que a primeira
ganha um valor traumático (Freud, 1896a/1996, 1896b/1996).
Ao propor esses dois tempos do traumatismo, Freud já está utilizando uma
noção que será de grande importância em toda a sua obra. Através da noção de a
posteriori (Nachträglichkeit), ele passa a compreender que a experiência da criança
perante a investida sexual não é traumática no momento em que ocorre, mas “só-
depois” da puberdade, por meio de algum traço associativo. Esse conceito assume
uma importância fundamental para a teoria psicanalítica, pois está na base de toda a
compreensão que Freud faz a respeito da questão da temporalidade e da causalidade
psíquica (Laplanche & Pontalis, 1986, p. 441-445).
O a posteriori permite-lhe estabelecer que existem experiências, impressões e
traços mnêmicos que podem ser remodelados posteriormente em função de novas
experiências vividas pelo sujeito. Essa remodelagem posterior implica, portanto, a
possibilidade de que além de esses traços poderem receber um novo sentido, eles
poderão apresentar uma nova eficácia psíquica.
Analisar essa questão é fundamental para o nosso estudo, pois pensar o
determinismo na psicanálise é algo que nos remete à necessidade de

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compreendermos que não se trata de um determinismo linear e estrito. Uma das
críticas mais frequentes à psicanálise consiste justamente da acusação de que ela
reduz ao passado infantil o conjunto das ações e dos desejos humanos. Contudo,
esse tipo de crítica toma por base uma visão completamente rígida e incorreta a
respeito da causalidade existente na psicanálise. Se considerarmos que, desde suas
primeiras correspondências com W. Fliess, Freud já trabalhava na hipótese de que o
mecanismo psíquico havia se estabelecido por estratificação, por meio da qual os
materiais presentes sob a forma de traços mnêmicos sofriam, de tempos em tempos,
uma reorganização (Freud, 1950c/1996), então esse tipo de acusação mostrar-se-á
como ingênua e como fruto de um desconhecimento mais aprofundado da psicanálise
(Laplanche & Pontalis, 1986, p. 442).
Fica claro, portanto, que reconhecendo o caráter a posteriori do funcionamento
psíquico, Freud toma o passado como algo flexível, ficando as representações
psíquicas do passado sujeitas a um rearranjo promovido pela inscrição de novos
traços. Certamente, Freud toma o determinismo como uma hipótese universal para o
funcionamento psíquico, mas o que fica mais claro agora é que não se trata de
qualquer forma de determinismo, pois assumiu um caminho diferente do paradigma
científico de sua época: o modelo de determinismo linear causal da física clássica.
Retornando à questão da teoria do trauma, Freud não se apegou durante muito
tempo a sua hipótese de uma sedução real vivida pela criança. De início, o relato de
suas pacientes dava a impressão de que, na raiz das neuroses, estavam presentes
situações que remetiam a uma sedução real efetuada pelos pais das pacientes.
Posteriormente, a experiência mostrou-lhe que ele havia, até então, ignorado o poder
das fantasias como criadoras de uma outra realidade, muito mais importante para o
psicanalista, a realidade psíquica. Reconhecendo que as cenas de sedução eram
fantasias de suas pacientes, ele confessa a W. Fliess, em carta de 1897: “não acredito
mais em minha neurótica” (Freud, 1950d/1996, p. 309).
Apesar do abandono da teoria da sedução, é preciso observar que a revisão
feita por Freud em suas concepções a respeito da etiologia das neuroses não implicou
o abandono da teoria do trauma. Levando à frente essa descoberta, Freud
compreende que essas fantasias se destinavam a encobrir a atividade auto erótica
dos primeiros anos da infância. Com a revelação da atividade sexual infantil por detrás
das fantasias, Freud reconhece a constituição herdada do sujeito. Para ele, a

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disposição e a experiência passam a ser vistas como ligadas em uma unidade
etiológica indissolúvel, pois: (...) a disposição exagera impressões — que de outra
forma teriam sido inteiramente comuns e não teriam nenhum efeito —, de modo a
transformá-las em traumas que dão margem a estímulos e fixações; por outro lado,
as experiências despertam fatores na disposição que, sem elas, poderiam ter ficado
adormecidos por muito tempo e talvez nunca se desenvolvessem. (Freud,
1914a/1996, p. 28).
Uma das consequências que a teoria do trauma passou a ter nas explicações
freudianas foi a exclusão da hereditariedade do primeiro plano na etiologia dos
sintomas neuróticos e o início do desenvolvimento de uma teoria da defesa.
Em “As neuropsicoses de defesa”, Freud (1894/1996) formula uma teoria da
histeria adquirida, assim como a de outros quadros psíquicos, tais como as fobias, as
obsessões e as psicoses. Contrapondo-se às concepções de Janet e de Breuer, Freud
adota o termo histeria de defesa, para se referir à sua concepção de que a histeria
pode ser considerada como um estado adquirido, uma vez que, nos casos analisados
por ele, não se tratava nem de uma grave tara hereditária nem de uma atrofia
degenerativa individual. Para ele, a histeria de defesa poderia ser explicada da
seguinte forma: as pacientes gozavam de boa saúde mental até o momento em que
houve uma ocorrência em sua vida representativa, isto é, “até que seu eu se
confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que
suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo” (Freud, 1894/1996,
p. 55).
Assim, as lembranças das experiências traumáticas remetem a situações
angustiantes que se mostram incompatíveis com o ego do sujeito, dando início a um
procedimento psíquico cuja finalidade seria defender o ego das representações
incompatíveis. No entanto, considerando a análise de suas pacientes, Freud adverte:
“sei apenas que esse tipo de ‘esquecimento’ não funcionou (...), mas levou a várias
reações patológicas que produziram ou a histeria, ou uma obsessão, uma psicose
alucinatória” (Freud, 1894/1996, p. 55).
O mecanismo de defesa passa a ser compreendido como uma tentativa de
separação entre as representações psíquicas e os afetos. A defesa torna as
representações psíquicas inconscientes, contudo, o destino que o afeto vai encontrar
em cada sujeito é o que vai definir a escolha do sintoma: assim se definirá ou uma

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histeria, ou uma obsessão, ou uma fobia. Frente a isso, podemos observar que é na
busca da causalidade, ou da determinação dos sintomas neuróticos, que Freud
chegou à questão da escolha da neurose. O fato importante a ser ressaltado aqui é a
articulação de duas condições aparentemente opostas: a explicação das patologias
neuróticas articula a causalidade com a escolha.
Em um artigo intitulado “A disposição à Neurose Obsessiva”, Freud
(1913/1996) dedica-se com grande ênfase à pesquisa dos fatores que estariam
envolvidos no problema da escolha da neurose. Considerando sua pesquisa etiológica
anterior, ele foi levado a dividir os determinantes patogênicos envolvidos nas neuroses
em dois tipos: o “constitucional” e o “acidental”. O primeiro constitui os determinantes
que a pessoa traz consigo para a sua vida, enquanto o segundo são aqueles a vida
traz para a pessoa, sendo que somente através de uma operação combinada que o
quadro patológico pode ser estabelecido (Freud, 1913/1996, p. 341).
Seguindo esse raciocínio, Freud busca responder à questão da escolha da
neurose enfatizando o poder das disposições. Porém, é preciso levar em
consideração que, quando Freud utiliza o termo disposições, ele não está se referindo
apenas a algo puramente hereditário. Como lembra o editor em nota de rodapé, no
próprio artigo “A disposição à neurose obsessiva” (Freud 1913/1996), o autor amplia
o alcance desse termo, em trabalhos posteriores, passando este a se referir também
aos efeitos da experiência na infância.
Mas onde a fonte dessas disposições se faz acessível ao conhecimento
psicanalítico? Para Freud, a fonte dessas disposições deve ser procurada naquilo que
ele chamou de pontos de fixação da libido, questão que já havia sido estudada por ele
anteriormente nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905b/1996).
Postulando que, em cada fase do desenvolvimento psicossexual, existe a
possibilidade de surgir um ponto de fixação da pulsão, Freud propõe que a
compreensão da escolha do sintoma deve levar em consideração a fixação do sujeito
em determinadas etapas de seu desenvolvimento.
Posteriormente, em uma conferência intitulada “Algumas ideias sobre
desenvolvimento e regressão – etiologia”, Freud (1917/1996) elabora mais
adequadamente essa relação entre o desenvolvimento psicossexual e a causação das
neuroses. Partindo da constatação de que a função libidinal sofre uma prolongada
evolução até que possa, por fim, ser posta a serviço da reprodução, Freud ressalta

19
que, nesse desenvolvimento, existe a possibilidade de ocorrência de dois “perigos”:
primeiro, a inibição, e, segundo, a regressão.
Durante o desenvolvimento da função libidinal, é possível que algumas partes
das tendências sexuais permaneçam estagnadas em estágios anteriores,
caracterizando a fixação da pulsão. Por outro lado, é igualmente possível que certas
tendências sexuais, que conseguiram prosseguir para os estádios posteriores,
também retornem a um desses estágios precedentes fixados, o que constitui o
fenômeno da regressão. Para Freud, as tendências sexuais tomam o caminho da
regressão quando elas encontram fortes obstáculos ao exercício de sua função, ou
seja, quando a obtenção de satisfação se torna impedida por algum obstáculo externo
(Freud, 1917/1996, p. 343).
Pela maneira que concebe a fixação e a regressão, vemos que, no
pensamento freudiano, esses dois processos não podem ser compreendidos como
sendo independentes um do outro. Assim, podemos considerar plausível que, quanto
mais intensas são as fixações da pulsão, mais prontamente ela fugirá das dificuldades
externas, adotando como saída o processo regressivo. Propondo que a compreensão
da relação existente entre a fixação e a regressão representa uma via segura e fértil
para compreensão da formação das neuroses, Freud postula a existência de dois tipos
de regressão. O primeiro tipo diz respeito a um retorno aos objetos que foram
inicialmente catexizados pela libido, os quais a psicanálise já havia identificado como
sendo de natureza incestuosa, sendo esse o caso que se faz presente na neurose
histérica. O segundo tipo, presente na neurose obsessiva, é aquele no qual há uma
regressão ao estágio preliminar da organização sádico-anal (Freud, 1917/1996, p.
345).
A fim de tornar mais clara essa relação entre a etiologia das neuroses e os
mecanismos da fixação e da regressão, Freud introduz a questão da frustração. As
pessoas adoecem de neurose quando por algum motivo foram impedidas de
satisfazer sua libido, dando origem a um sentimento de frustração.

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Fonte:
centrodepsicoterapia.cl

Dessa forma, a psicanálise passa a enxergar na fixação libidinal e na frustração


fatores causais de grande importância na etiologia das neuroses, uma vez que
respectivamente elas representam os fatores constitucionais e acidentais. A fixação
da libido constitui o fator endógeno, ou predisponente, enquanto as frustrações vão
constituir os fatores externos, ou acidentais.
Frente a esse cenário, Freud afirma que a etiologia das neuroses financiou por
um bom tempo um debate improdutivo a respeito das seguintes questões: as neuroses
são doenças exógenas ou endógenas? Elas são resultado dos fatores constitucionais
ou das experiências acidentais, traumáticas? Formular a questão desse modo é
extremamente incorreto, por isso ele afirma que ambos os fatores são igualmente
indispensáveis e, no que tange à causalidade das neuroses, quando a relação entre
os fatores não é precisamente a mesma, pelo menos é muito similar (Freud,
1917/1996, p. 350). Portanto, assim como um pai e uma mãe são responsáveis pela
concepção de um bebê, Freud postula que os fatores constitucionais e acidentais
interagem em um plano causal formando uma equação etiológica. Desse modo, não
faz sentido algum supor que um dos fatores tenha mais importância do que o outro no
que tange à causalidade das neuroses.

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Considerando, então, o percurso realizado até aqui, constatamos que a noção
de equação etiológica, apesar das diferentes explicações que passou a receber ao
longo do tempo, teve preservada, até o fim, aquela que constituía sua ideia original,
isto é, a hipótese freudiana de que múltiplos fatores atuam conjuntamente na
causalidade das neuroses. Foi, portanto, sob uma forte convicção na
sobredeterminação dos fenômenos psíquicos que Freud se debruçou sobre a questão
da causalidade, posição essa que passa a conceder ao termo escolha novos
contornos quanto ao seu significado e atuação.

4 O DEBATE ENTRE DETERMINISMO E LIBERDADE

Em “Cinco lições de Psicanálise”, analisando os obstáculos que


frequentemente ofereciam resistências à aceitação das ideias psicanalíticas, Freud
(1910/1996) reconhece que uma delas é a falta de hábito das pessoas em contar com
um rigoroso determinismo da vida mental, o qual não conhece exceção. Sendo assim,
Freud enxerga o lugar do psicanalista a partir do seguinte prisma: “notarão desde logo
que o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da vida mental. Para
ele não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas”
(Freud, 1910/1996, p. 50).
Ernest Jones, aluno e biógrafo de Freud, revela que a crença freudiana na
universalidade da lei natural e a descrença na ocorrência de milagres ou de atos
espontâneos foram profundamente influenciadas pela sua formação científica inicial.
Para ele, “Freud nunca vacilou nessa atitude e toda a sua pesquisa sobre o
funcionamento da mente é inteiramente baseada na crença em uma cadeia regular
de eventos mentais” (Jones, 1989, p. 367).
Em “A Interpretação dos sonhos”, Freud (1900/1996) já abordava a questão
do determinismo psíquico quando fala do equívoco cometido pelos autores
precedentes com relação às modificações ocorridas com os sonhos, ao acreditarem
em uma arbitrariedade desse processo. Opondo-se a estes autores, ele afirma que
eles subestimaram a extensão do determinismo nos eventos psíquicos, já que: (...)
não há neles nada de arbitrário (...). De modo bastante geral, pode-se demonstrar
que, se um elemento deixa de ser determinado por certa cadeia de pensamentos, sua
determinação é imediatamente comandada por outra. (Freud, 1900/1996, p. 546).

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Em “Fragmento da análise de um caso de histeria”, Freud (1905a/1996)
novamente entra no mérito do determinismo. Passados alguns anos desde as
primeiras formulações sobre a patogênese dos sintomas histéricos e sobre os seus
processos psíquicos, Freud propôs-se a fundamentá-las através de um relato
pormenorizado de um caso clínico e de seu tratamento, o famoso Caso Dora. Nas
notas preliminares desse relato, Freud faz uma antecipação e informa ao leitor que
seu “objetivo neste caso clínico era demonstrar a estrutura íntima da doença neurótica
e o determinismo de seus sintomas. ” (Freud, 1905a/1996, p. 19).
Em “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos”, Freud
(1906/1996) aborda a questão do determinismo quando foi convidado a colaborar,
através de suas pesquisas, na elucidação de uma técnica por via da qual os juristas
pretendiam combater a falta de fidedignidade das declarações feitas pelos réus e
testemunhas. Freud afirma que essas experiências de associação só se tornaram
significativas e proveitosas quando, em Zurique, Bleuler e Jung começaram a
trabalhar com a hipótese de que a reação à palavra-estímulo não podia ser fruto do
acaso, mas devia ser determinada pelo conteúdo ideativo presente na mente do
sujeito que reagia. A importância desses estudos, para Freud, encontrava-se no fato
de que eles eram completamente compatíveis com o estudo que ele havia realizado,
em 1901, sobre as parapraxias (Fehlleistungen ou atos falhos), por meio do qual
demonstrou serem de determinação rígida toda uma série de atos que se acreditava
serem imotivados, contribuindo, assim, em certo grau, para limitar o fator arbitrário na
psicologia.
Apesar de podermos identificar a posição que Freud assume perante a questão
do determinismo e da vontade livre ao longo dessas várias passagens, foi
particularmente em “A Psicopatologia da vida cotidiana” (1901) que ele se dedicou à
realização de um estudo mais aprofundado sobre esse tema. No prefácio do editor,
para essa obra, somos informados de que a especial simpatia com que Freud
encarava os atos falhos se devia, sem dúvida, ao fato de eles serem, juntamente com
os sonhos, o que lhe permitiu estender à vida psíquica normal as descobertas que
antes fizera em relação às neuroses. Por meio desses fenômenos simples e
facilmente explicáveis, Freud pôde demonstrar a validade de dois dos seus mais
importantes postulados. Primeiro, ele pôde demonstrar a existência de dois modos
distintos de funcionamento psíquico, por ele descrito como processos primário e

23
secundário. Segundo, o exame dos atos falhos oferecia um apoio convincente a sua
crença na aplicação universal do determinismo aos eventos psíquicos. É nessa tese
que ele insiste no último capítulo do livro: “teoricamente, seria possível descobrir os
determinantes psíquicos de cada um dos menores.
Foi no último capítulo dessa obra que Freud condensou todo o conhecimento
proveniente dos estudos dos vários tipos de parapraxias, chegando à compreensão
geral de que certas insuficiências de nosso funcionamento psíquico e certos
desempenhos aparentemente inintencionais, quando submetidos à investigação
psicanalítica, revelam ter motivos válidos e ser determinados por motivos
desconhecidos pela consciência (Freud, 1901/1996: 237).
Em seguida, Freud desenvolve uma argumentação que, a nosso ver, constitui
um dos momentos em que ele melhor definiu seu ponto de vista sobre o debate entre
livre-arbítrio e determinismo. Segundo ele, muitas pessoas contestam a suposição de
um determinismo psíquico invocando um sentimento especial de que existe um livre-
arbítrio. No entanto, até mesmo esse sentimento “normal” é passível de explicação,
pois existe algo que o justifica: Pelo que posso observar, porém, ele não se manifesta
nas grandes e importantes decisões da vontade: nessas ocasiões, tem-se antes o
sentimento de compulsão psíquica, e de bom grado se recorre a ele. (“Aqui me
posiciono, não tenho outra escolha. ”)1 Em contrapartida, é justamente nas decisões
indiferentes e insignificantes que se prefere asseverar que teria sido igualmente
possível agir de outra maneira, que se agiu por uma vontade livre e não motivada.
(Freud, 1901/1996, p.250).
De acordo com essa análise, a sensação humana de agir com base em uma
vontade livre é experimentada apenas em certos momentos da vida. Realmente, se
analisarmos nossos sentimentos cotidianos, veremos que, de fato, existe uma
diferença qualitativa, em termos de experiência subjetiva, quando estamos diante de
uma situação na qual nossa decisão terá consequências importantes para nossa vida
ou para aqueles que nos cercam e quando estamos diante de uma situação cujas
consequências são banais e comuns.
É exatamente essa condição que Freud quer abordar na citação que
destacamos anteriormente. Lembrando da célebre declaração atribuída a Martinho
Lutero “Aqui me posiciono, não tenho outra escolha”, ele justifica sua afirmativa de
que nas decisões extremamente significativas da vida, o sujeito parece não considerar

24
que agiu por uma vontade própria e livre. Em seguida, encontramos uma nova
passagem também bastante reveladora. Baseando-se nessa distinção, que
comentamos logo acima, Freud afirma que, de acordo com suas análises, não é
necessário contestarmos a legitimidade do sentimento de convicção sobre a
existência de um livre arbítrio, pois: Quando levamos em conta a distinção entre
motivação consciente e motivação inconsciente, nosso sentimento de convicção nos
informa que a motivação consciente não se estende a todas as nossas decisões
motoras (...) Mas o que é assim liberado por um lado recebe sua motivação do outro,
do inconsciente, e desse modo o determinismo no psíquico prossegue ainda sem
nenhuma lacuna. (Freud, 1901/1996, p. 250).
De acordo com essa afirmativa, estamos em condições de considerar que,
mesmo sendo o sentimento do livre-arbítrio algo que encontra sentido na vida
consciente, ele logo perde seu espaço quando passamos a dar crédito à existência
de uma vida psíquica que não se organiza de maneira caótica e misteriosa, mas sim
de maneira determinada, na qual se fazem presentes leis e princípios. Pensar no
inconsciente, tal como Freud o postulou, é pensar que, mesmo quando a consciência
deixa o sujeito livre de suas funções, ainda assim o sujeito não passa a estar
totalmente entregue a uma situação psíquica de liberdade, já que o funcionamento
inconsciente não deixou de estar atuante.

4.1 O Sujeito Entre o Determinismo e a Escolha

Com “A psicopatologia da vida cotidiana”, Freud (1901/1996) não só enxergou


uma ampla atuação do determinismo inconsciente, como estreitou a tênue linha que
separava a condição mental “normal” e “patológica”. Assim, a psicanálise fundou-se
como uma ciência do psiquismo admitindo a existência de forças inconscientes que
prevalecem sobre as conscientes, de maneira a revelar que o inconsciente vem
restringir a liberdade consciente do sujeito, seja em grau maior, nos quadros ditos
“patológicos”, seja em grau menor, nas chamadas psicopatologias da vida cotidiana.
Em geral, os defensores da existência de um livre arbítrio costumam justificar
sua crença fazendo parecer plausível que o homem apenas não é livre quando
mentalmente está sujeito a compulsões e patologias mentais. Quanto a esse aspecto,
a psicanálise parece vir introduzir um fator complicador para esse tipo de argumento.

25
Ao igualar os processos psíquicos que existem nos quadros “patológicos” e “normais”,
a psicanálise parece não deixar brechas para a suposição de que, em algum
segmento de nosso psiquismo, possamos estar absolutamente livres de influências
determinantes de outros elementos psíquicos. Nossa vida cotidiana, dita “normal”,
está impregnada de formações do inconsciente, expondo-nos ao fato de que, mesmo
não estando sujeito a grandes patologias, ainda assim não podemos considerar
nossas ações, comportamentos e intenções como sendo de uma natureza
completamente livre.
Considerando a dimensão terapêutica da psicanálise, precisamos reconhecer
que estamos falando de uma técnica, uma práxis, cuja aplicação tem
a capacidade de tornar o sujeito cada vez menos “escravizado” pela tirania de seu
inconsciente.
Isso pode ser sustentado quando Freud fala sobre a possibilidade de o sujeito
vir a fazer uma “rejeição por julgamento”, ou, pelos momentos que o sujeito atravessa
ao longo de uma análise, a saber: repetir, recordar e elaborar (Freud, 1914b/1996).
Isso, no entanto, não nos permite exagerar a ponto de podermos acreditar em um
poder completo de uma espécie de “cura libertacional” da psicanálise.

Fonte:
pt.wikihow.com

26
A psicanálise logrou êxito ao demonstrar que o sistema inconsciente, além de
maior sistema psíquico, é, também, um sistema ineliminável. Freud nos demonstrou
que nem tudo que é inconsciente foi fruto do recalque, porque existem no inconsciente
impulsos que possivelmente nunca chegarão a se tornar conscientes para o sujeito,
não podendo assim serem submetidos às forças do recalque posterior (Nachdrängen).
Sabemos que aquilo que a psicanálise pode oferecer é a criação, por parte do
sujeito, de um novo processo conciliatório entre as suas forças psíquicas,
disponibilizando, dessa forma, uma saída diferente daquela que o sintoma estava
anteriormente encarregado de representar. Assim, se tivéssemos que pensar em
algum tipo de capacidade de escolha, só poderíamos pensar em uma escolha onde a
liberdade é bastante restrita, algo do tipo de uma liberdade “relativa”.
O sujeito que se lança em uma análise, é, portanto, aquele que vai, por meio
da palavra e do deslizamento das representações – que até então estavam no centro
de suas vivências traumáticas e recalcadas –, direcionar as forças psíquicas para uma
saída que seja possível e menos angustiante para ele. Cabe destacarmos o sentido
que estamos dando a essa saída “possível”, porque, nesse ponto, somos
impossibilitados pela experiência psicanalítica de acreditarmos na reconfortante
possibilidade de encontrar uma saída “ideal” ou “perfeita” para nossas angústias, algo
que pudesse se assemelhar ao sonho humano de dar ao nosso destino o fim que
melhor nos convém.
Partindo, então, da constatação de que “possível” não é o mesmo que
“perfeito” ou “ideal”, o inconsciente deve ser enxergado como uma dimensão psíquica
inesgotável na vida humana. Nosso poder de “elaboração” é relativo e limitado, dando-
nos a constatação de que, se Freud posicionou-se como um adepto do determinismo,
isso não o remeteu a congelar o psiquismo humano em uma impossibilidade total de
transformação.
Se o sujeito freudiano é determinado por suas forças inconscientes, a
capacidade que ele tem de se libertar dessas formações patológicas não poderá ser
considerada como um poder de liberdade propriamente dita. Em “Estudos sobre
histeria” (1895a/1996), no capítulo em que falava sobre a psicoterapia da histeria,
Freud faz a seguinte observação: Quando prometo a meus pacientes ajuda ou
melhora por meio de um tratamento catártico, muitas vezes me defronto com a
seguinte objeção: “Ora, o senhor mesmo me diz que minha doença provavelmente

27
está relacionada com as circunstâncias e os acontecimentos de minha vida. O senhor,
de qualquer maneira, não pode alterá-los. Como se propõe ajudar-me, então? ” E tem-
me sido possível dar esta resposta: “Sem dúvida o destino acharia mais fácil do que
eu o aliviar de sua doença. Mas você poderá convencer-se de que haverá muito a
ganhar se conseguirmos transformar seu sofrimento histérico numa infelicidade
comum. Com uma vida mental restituída à saúde, você estará mais bem armado
contra essa infelicidade”. (Freud, 1895a/1996, p. 316).
Portanto, um dos pontos mais significativos de nossa trajetória é a de
compreender que o determinismo da psicanálise não pode ser comparado ao
determinismo da física clássica. Nosso estudo indica que, para a psicanálise, além da
causalidade, existe a escolha, embora sejamos obrigados a encarar a realidade de
que essa escolha se mostra como restrita e não totalmente livre.
Nosso estudo nos permite pensar que, segundo a forma como o psiquismo é
estruturado, com suas leis e mecanismos, ele concede ao sujeito somente algumas
possibilidades de ressignificação. Contudo, precisamos de cautela. Lembremos que
algumas não quer dizer todas. O sujeito ressignificará as impressões inconscientes,
que vinham lhe trazendo sofrimentos, porém, precisamos considerar que esse novo
campo de produção de sentido, não poderá fugir de certas dimensões que foram
adquiridas pelo sujeito naquilo que foi da ordem de uma experiência de vida.
Como Freud mostrou com o a posteriori, o sentido surgirá não somente com
as experiências passadas, nem somente com as experiências mais recentes, mas
necessariamente em um elo de associação entre as duas. A outra cena, aquela que
é inconsciente para o sujeito, e que constitui os primeiros traços de impressão no
psiquismo, estará sempre fazendo frente para o sujeito, não podendo este rejeitar
definitivamente a existência dela, seja através do recalque, seja através da rejeição
de sua crítica consciente. O que o sujeito pode é buscar novas perspectivas possíveis
para o seu olhar.
Exploramos dentro da teoria psicanalítica as implicações que o conceito de
inconsciente trouxe para o debate envolvendo a vontade livre e o determinismo. O
estudo da teoria psicanalítica nos demonstrou, portanto, que a aposta freudiana em
um determinismo psíquico inconsciente conduziu a psicanálise ao lugar de uma
“ciência” do psiquismo, na qual se admite a existência de forças inconscientes que
prevaleçam sobre as conscientes, de maneira a revelar que o inconsciente vem

28
restringir a liberdade consciente do sujeito, seja em grau maior, nos quadros ditos
“patológicos”, seja em grau menor, em eventos da chamada psicopatologia da vida
cotidiana.
A psicanálise parece vir introduzir um fator complicador para aqueles que
postulam a vontade livre justificando que o homem apenas não é livre quando está
mentalmente sujeito a compulsões e patologias mentais. Ao igualar os processos
psíquicos existentes nos quadros “patológicos” e “normais”, a psicanálise parece não
deixar brechas para a suposição de que, em algum segmento de nosso psiquismo,
possamos estar absolutamente livres de influências determinantes de outros
elementos psíquicos.
O sujeito que se lança em uma psicanálise é, portanto, aquele que vai poder,
através da palavra e do deslizamento das representações, direcionar as forças
psíquicas para uma saída que seja possível e menos angustiante para ele. Isso nos
fornece a constatação de que, se Freud posicionou-se o tempo todo como um adepto
do determinismo, por outro lado, isso não o levou a congelar o psiquismo humano em
uma impossibilidade total de transformação, mesmo sendo preciso reconhecer que é
relativo e limitado nosso poder de “elaboração”.
No entanto, se o sujeito é determinado por suas forças inconscientes, a
capacidade que ele tem de se libertar dessas formações patológicas não pode ser
considerada como um poder de liberdade propriamente dita. Nossa pesquisa
demonstrou que, para a psicanálise, além da causalidade, existe a escolha, embora
sejamos obrigados a encarar a dura realidade de que essa escolha se mostra como
restrita e não totalmente livre.3

5 NORMATIVIDADE, INSTITUIÇÕES E TEORIA PSICANALÍTICA: A


PSICANÁLISE E SUAS INSERÇÕES

Alguns trabalhos a articulam com o campo da cultura e da norma para pensar


questões contemporâneas, como a feiura e o gênero; outros dedicam-se à pesquisa
psicanalítica no contexto das instituições e um terceiro eixo volta-se mais para

3 Extraído do link: www.scielo.br


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questões da teoria e da clínica psicanalítica, o que supõe perpassar pela
metapsicologia e analisar noções conceituais, como a transferência e a pulsão.
Um primeiro eixo de discussão centra-se na articulação entre psicanálise,
cultura e normatividade, tendo como enfoque a imagem, o corpo e o gênero. No artigo
“As figuras clínicas da feiura à prova da metapsicologia”, Joel Birman e Cristina Cernat
trabalham o aspecto metapsicológico que permeia a problemática da feiura, situando
esta em relação às normas estéticas contemporâneas e ao mal-estar social. Para isso,
discutem a ambivalência estética, que é sentida por todo sujeito, à luz da tensão que
se dá entre as instâncias do eu ideal e do ideal do eu (FREUD, 1914/2009).
Em “Normatividade, gênero e teoria psicanalítica. Uma reflexão sobre a criação
de palavras novas”, Beatriz Santos destaca o problema da normatividade em
psicanálise, evidenciando como esta questão é pensada de forma multidisciplinar,
conjuntamente com a filosofia e os estudos de gênero. Para contribuir com esse
debate, a autora analisa uma outra modalidade de leitura do Caso Dora (FREUD, 1901
[1905]/2006).
A relação da psicanálise com os estudos de gênero também é abordada em
“Labirintos da sexualidade: convergências e dissonâncias entre a psicanálise e a
teoria queer na atualidade”, onde Alexandre Simões e Gesianni Gonçalves defendem
como a psicanálise – sobretudo, as formulações de Lacan (1972-1973/1985) sobre a
sexuação – pode contribuir com a teoria queer, o que implica em evidenciar alguns
encontros e desencontros entre esses dois campos de saber.
Um segundo eixo de problematização diz respeito a pesquisa em psicanálise,
sobretudo, no que concerne sua interface com as instituições. O estudo “A pesquisa
psicanalítica e suas relações com a universidade”, de Camila Santos Lima Fonteles,
Denise Maria Barreto Coutinho, Christian Hoffmann, discute a interface entre
pesquisa, psicanálise e universidade. A partir da análise de teses de doutorado
desenvolvidas no Brasil, conclui-se que a psicanálise não é só formulada, mas
também, reinventada na universidade, o que se evidencia pela diversidade de
métodos, temas, autores e articulações com outros campos do saber.
Em “Estudo longitudinal de duplas mãe-bebê: o sofrimento psíquico na
maternidade”, Ana Beatriz Lopes, Volanda Santis e Silvana Rabello realizam um
estudo longitudinal em uma instituição voltada para a saúde da gestante. A partir do
acompanhamento das duplas mãe-bebê, se discute como se dá a constituição do laço

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primordial mãe-bebê e uma modalidade de sofrimento psíquico específico na
maternidade.
No artigo “Fantasias infantis: um olhar psicanalítico no hospital geral”, Tiene
Guimarães, Jandyra Kondera, Marcos Portela, considerando que no contexto
hospitalar as questões subjetivas são eclipsadas em nome do orgânico, trabalham a
importância das fantasias infantis no trabalho psicanalítico com crianças residentes
em um hospital geral. No texto“ A noção de psicopatologia: desdobramentos em um
campo de heterogeneidades”, Fernanda Moraes e Mônica Macedo abordam a
complexidade do conceito de psicopatologia. Por meio de uma análise histórica,
evidencia-se as origens e os significados que foram designados às afecções mentais
– o que conduzia a modalidades de tratamento específicas –, e, discute-se a ruptura
epistemológica que a psicanálise efetuou em relação ao campo da psicopatologia e
da terapêutica.
Mirka Mesquita e Karla Patrícia Holanda Martin abordam, em “Escola de
Bonneuil: estudo sobre o tratamento “estourado” do autismo”, as especificidades do
funcionamento de Bonneuil – encontradas por meio de uma pesquisa de campo nessa
instituição –, pensando suas contribuições para o tratamento de autistas.
Um terceiro eixo de discussão direciona-se para aspectos teórico-conceituais
da psicanálise, enquanto campo de saber e prática clínica. Em “O trabalho do sonho
na poética surrealista”, Paula Aversa demonstra como as contribuições freudianas
para a constituição da poética surrealista estão para além das imagens oníricas
presentes nesse tipo de obra, defendendo que o próprio “trabalho do sonho” foi
utilizado pelos surrealistas como procedimento de criação artística.
Na pesquisa “O conceito de sujeito nos antecedentes lacanianos: uma leitura
em Nachträglichkeit”, Erikson Kaszubowski analisa retrospectivamente o pensamento
de Lacan até o ponto em que a função do sujeito foi formalizada, a fim de localizar os
fios discursos que o conduziram a esse conceito.
Em “A transferência e o desejo do analista no caso do Homem dos Ratos”,
Juliana Bartijotto discute o funcionamento da transferência – sobretudo, no caso do
Homem dos Ratos (FREUD, 1909/1996) – e o desejo do analista, tal como descrito
por Lacan. Desse modo, acompanhando a transição da lógica fálica à noção de objeto
a, aborda-se uma forma de análise baseada no objeto impossível de apreender.

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No estudo “A imanência analítica”, de João Schiavon, a psicanálise é discutida
como conquista da imanência e, para isso, a noção de pulsão é explorada, sobretudo,
em sua perspectiva ética. Valendo-se, sobretudo, das formulações de Lacan sobre a
ética analítica, o vetor pulsional é pensado a partir dos termos da imanência (a força,
o vivo e o ativo), apontando, assim, para o real em psicanálise.
Em “O brincar e o espaço potencial no ambiente virtual”, Gregório De Sordi
Gregório e Deise Matos do Amparo discutem como as novas formas de interação no
mundo virtual incidem nos processos de subjetivação. A partir de entrevistas,
observou-se que a interação que os adultos têm com seus personagens virtuais
favorecem o estabelecimento de um espaço potencial.4

6 METAPSICOLOGIA DAS PULSÕES

Não podemos deixar de iniciar com o que nos propõe Freud em Pulsões e
destinos das pulsões (1915c). Nesta ocasião os dois pares pulsionais básicos
estavam constituídos pelas pulsões ditas de auto conservação e pela libido (libido
sexualis). Genericamente, como propõe Freud, a posição pulsional revela-se no limite
entre o psíquico e o somático. Freud também propõe, durante o desenvolvimento de
sua obra, uma discussão sobre se a representação psíquica da pulsão de fato é a
pulsão ou refere-se apenas a alguns dos aspectos da pulsão.
A resposta já é colocada quando Freud revela, na obra acima referida, a
hipótese de que a pulsão reúne quatro fragmentos, se podemos assim falar: a fonte,
a energia e a meta e o objeto. Não podemos deixar de supor que quando o aparelho
psíquico apreende a representação pulsional ou as descargas destas mesmas
pulsões, essencialmente traduzidas na forma de emoções, esses quatro elementos
pulsionais estão presentes de uma forma inferida, especialmente no que tange às
representações.
Freud, como já se disse, discute este aspecto em inúmeras obras, mas é no
Problema Econômico do Masoquismo (1924c) que nos sugere a resposta mais
acabada. Nesta ocasião pergunta-se qual o destino da pulsão, isto é, sua energia,

4 Extraído do link: humanas.blog.scielo.org


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quando não encontra a descarga e o objeto, portanto encontra-se numa incapacidade
de se representar.

Fonte:
queconceito.com.br

Vemos assim que Freud contempla a pulsão como um fenômeno complexo.


Não é aqui o momento apropriado para discutirmos o destino da pulsão quando não
se manifesta pela descarga ou pela representação do objeto. Faremos uma tentativa
posteriormente quando discutirmos Eros e a pulsão de morte.
Bem mais pertinente ao nosso momento descritivo atual, cabe nos
perguntarmos, como Freud perguntou-se, quais as pulsões básicas. Sabemos
também que Freud, embora tenha mudado em 1920 (1920g) sua teoria pulsional,
jamais abdicou da ideia de duas pulsões básicas em cooperação ou conflito. Nesta
ocasião, 1915, as duas pulsões básicas, como dissemos acima, são as pulsões de
auto conservação, também chamadas por Freud de pulsões do eu e as pulsões
sexuais representadas pela libido. Quais seriam as suas diferenças essências? As
primeiras exigem os objetos, não podem passar sem eles. Elas impõem o mundo
externo. Estão regidas prevalentemente pelo Princípio da Realidade. Diante desta
hipótese, Freud propõe uma organização, O Eu Real Primitivo. Tais pulsões de auto
conservação são reveladas pelas “necessidades” fundamentais, como a respiração, a

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fome, a sede, o sono, etc. Certamente foram chamadas de pulsões do eu, pois
necessitam da realidade e o Eu Real Primitivo é o veículo do princípio da realidade e
seu respectivo juízo de realidade que neste momento vital adquirem uma prevalência.
Quando discutirmos mais pormenorizadamente a metapsicologia do Eu, retornaremos
a esse assunto.
Freud nos dá um belo exemplo de como a realidade se impõe ao princípio do
prazer. Vejamos um sonho (1900a p.144): quando como anchovas, azeitonas ou
algum outro alimento muito salgado no jantar, fico com sede durante a noite e ela me
acorda. Esse despertar é precedido por um sonho. Sorvo grandes goles, tão deliciosos
como só um gole de água fria pode ser quando estamos mortos de sede, e então
acordo e preciso tomar água de fato. Ora, a pulsão de auto conservação tomou a sede
como sua representante psíquica que estabelece com o objeto, a água, um vínculo
irredutível. Sem o mesmo decompõe-se a homeostase e a morte será sua
consequência. Veja-se que a água é a representante irredutível da realidade assim
como o ar é para a respiração. Não é por nada que a água e o oxigênio são elementos
permanentes nas pesquisas de vida nas descobertas extraterrestres. No sonho acima
descrito notamos que não basta a alucinação regida pelo Princípio do Prazer. Se a
mesma se mantivesse num frenesi alucinatório o Eu se desagregaria (Freud1900a).
Portanto é necessário o objeto água para que a ação específica se constitua.
Perguntamo-nos, e a libido, esta outra pulsão bem menos domesticável, mais
adicta ao princípio do prazer? Esta se desloca, condensa-se, parece desfrutar da
liberdade que outra não tem. É a mãe da metáfora, dos significantes. Aparece num
sonho descrito por Freud logo a seguir no mesmo texto, com significados diversos.
Digo algo, pois a libido intrometeu-se em maior grau. Vejamos: sonhei,
apropriadamente, que minha mulher me dava de beber de um recipiente; esse
recipiente era uma urna etrusca que eu trouxera de uma viagem à Itália e que mais
tarde dei de presente a alguém. Contudo, a água dessa urna tinha um gosto tão
salgado (das cinzas, é evidente) que precisei acordar (1900a p.145). A pulsão de auto
conservação revestiu-se e foi colorida pelo significante libidinal. Carregado de
significados significa algo recalcado, com gosto de cinza do passado. Podemos até
supor que foi esta a razão deste despertar diverso do despertar do primeiro sonho.
Algo incestuoso abrigaria a urna etrusca trazida da Itália? Água muito salgada?
Liquido vaginal na urna etrusca italiana? Qual o desejo a ser recalcado e

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representado? Estamos diante do recalcamento, do posteriori, como veremos na
abordagem da metapsicologia das defesas.
Precisamos nos centrar, entretanto, na revolução sobre a teoria das pulsões
que Freud descreve a partir de 1920. Lacan, no capítulo do Livro dois referido acima
dialoga com a perplexidade que a nominação de pulsão de morte lhe causa, como se
fosse misteriosa. Não há mistério nisto, há uma apreensão com o destino de nossas
vidas. Refere Lacan na obra citada acima que Freud teve que se haver com a energia
que aparece nas coisas inanimadas como nas animadas. Por isso que um dos
componentes da pulsão, além da fonte, meta e objeto é a energia, sujeita como as leis
da termodinâmica nos sugerem (entropia negativa e positiva), a sua preservação e
dissipação. Voltamos ao ponto de partida onde Freud se ampara ao grande
psicofísico, assim Freud o denomina, Fechner com sua estabilidade e instabilidade, já
no primeiro capítulo do Além do Princípio do Prazer.
Porém, antes de qualquer coisa temos que discutir o título da obra na qual
Freud se alicerça: Além do Princípio do Prazer. Recapitulemos o Princípio do Prazer
e seu derivado emergente, o Princípio da Realidade. Ambos nos indicam um
movimento progrediente da pulsão em busca da descarga e basicamente, do objeto.
Se não encontrar o objeto, a energia se dissipa e o Eu se desconstitui. Somos,
portanto, quer queiramos ou não, prisioneiros do contexto. Qual o princípio que Freud
vai propor nesta busca do Além. O alicerce no qual Freud se assenta, ressurge de
uma das primeiras obras, o Projeto de uma Psicologia Científica (1895a).
Na primeira seção do capítulo I Freud propõe dois princípios quantitativos, o da
Constância e o da Inércia. Assim o faz: pelas exigências da vida, o sistema de
neurônios será forçado a abandonar a originária tendência à inércia, isto é o nível zero
(1985a p.341). Note-se que as exigências da vida incluindo a autoconservação e,
certamente a libido são progredientes, dirigem-se aos objetos. Freud (1920g) deduz
desta junção o divino Eros de Platão.
A inércia procurada para restabelecer o nível zero é a meta de outra pulsão?
Freud (1920g) dirá que a vida no momento que a meta atingida, nível zero, está à
mercê da pulsão de morte regida pelo Além do Princípio do Prazer, isto é, o Princípio
de Nirvana ou Inércia cuja pulsão será operacionalizada pela função regrediente ou
desobjetalizante, para usar a expressão de André Green. Em outro sentido, desfaz-se
o gradiente da vida pela dissipação da energia que organiza o Eu. Note-se, entretanto,

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que o fenômeno vivo, seja qual for, mostrará uma fusão permanente de Eros e pulsão
de Morte. A desfusão apontará, para fenômenos psicopatológicos graves com a
prevalência da pulsão de morte.
Se Freud havia proposto uma teoria sobre o alvorecer da cultura ou civilização
da espécie humana, tendo por base o parricídio e a interdição do incesto e a instituição
do Totem, âmago do futuro Supereu (1912-13), com o advento da nova teoria das
pulsões Freud aventura-se numa hipótese sobre a origem da vida (Problema
Econômico do Masoquismo, 1924c).
Vamos então aos prelúdios que lançaram Freud nesta empreitada. Certamente
a compulsão à repetição já delineada no Estranho (1919h), baseada na circularidade
da libido narcisista contribuiu para sua concepção. Então a transferência que não
deixa de ser uma repetição obedece a mecanismos pulsionais, como a compulsão à
repetição? Freud deduz este aspecto do estudo das neuroses traumáticas e da
brincadeira das crianças cujo modelo famoso conhecido é a brincadeira do carretel
(fort-da). Porque, enfim as crianças repetiriam infindavelmente a mesma brincadeira?
Elaboração do trauma? Os sonhos traumáticos acrescentariam algo à teoria de que
os sonhos são apenas realizações de desejo? Além da realização do desejo, os
sonhos elaborariam traumas? Estamos, portanto, diante dos dilemas
metapsicológicos da dita segunda tópica.
Interessante intercalar aqui a citação do divino Platão, na qual Freud se
sustenta. Fala Erixímaco: aprendi a lição singular que consiste observar que Eros não
se limita a ser um impulso das almas humanas para a beleza humana, sendo sim a
atração de todos os seres vivos para uma multiplicidade de coisas, a qual atua nos
corpos de todos os animais e tudo que se desenvolve sobre a Terra, e praticamente
em tudo que existe, e aprendi quão grandioso, maravilhoso e universal é o governo
desse deus sobre todas as coisas, quer humanas quer divinas (Banquete p.33).
Assim o Eros de Platão agrega, constitui complexidades através da instituição
de gradientes entre o dentro e o fora.
Não nos esqueçamos que na medida em que Eros agrega as pulsões de
autoconservação e a libido, esta última, a Libido, foi promovida de guardiã da vida
psíquica para guardiã da vida em geral (Freud 1920G; 1940a). Freud resume de
maneira brilhante a sua concepção final da metapsicologia das pulsões (1940a p.146):

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Após larga vacilação e oscilação decidimos aceitar apenas duas pulsões
básicas: Eros e a pulsão de destruição (a oposição entre pulsão de conservação de si
mesmo e da conservação da espécie, assim como a outra entre amor egóico e amor
de objeto, situam-se no interior de Eros). A meta da primeira é produzir unidades cada
vez maiores e, assim, conservá-las, ou seja, ligá-las; a meta da outra é, ao contrário,
dissolver nexos e, assim, destruir as coisas do mundo. Sobre a pulsão de destruição,
podemos pensar que tem como meta derradeira transportar o vivo ao estado
inorgânico; por isso a chamamos também de pulsão de morte.
Não podemos deixar de constatar que a pulsão de destruição tem direção
oscilante e variável no sentido do Eu e do mundo externo. A complexidade do assunto
é enorme, pois percebemos que quando destruímos o mundo externo O eu é destruído
ao mesmo tempo, pelo menos em fragmentos. Ao destruirmos nosso ambiente
(Amazônia), estamos também condenando futuramente nossos pulmões. O Eu
individual é indissociável do Eu contextual.
Acrescentemos algo mais. Devido ao fato de que, segundo Freud, as pulsões
serem todas elas conservadoras, isto é, desejosas de restabelecer o estado anterior
abandonado, acrescenta: deriva-se também daí que o organismo não queira morrer
por outras causas que suas próprias leis internas. Ele quer morrer à sua maneira, e,
assim também essas pulsões que preservam a vida foram originalmente da morte
(1920g p.162). O que penso que isso, em termos simples quer dizer. A complexidade
da vida não deixa de ser um drible sobre a morte que inevitavelmente virá cobrar a
conta. O fato de que a morte esteja programada no nosso código genético, aponta
para o que Freud propôs.

7 SOBRE A METAPSICOLOGIA DO NARCISISMO

Freud declarou que o narcisismo era um estádio intermediário entre o


autoerotismo e o amor de objeto. Esta comunicação foi em novembro de 1909.
Portanto, veja-se bem, o conceito nasce como uma fase ou estádio relativamente
estável que faz parte do desenvolvimento do Eu. Origina-se de uma negociação da
libido do Eu e a libido do objeto. O investimento libidinal narcisista do eu, como estádio
originário realizado na primeira infância, que é ocultado por envios posteriores de
libido, porém conserva-se no fundo atrás dos mesmos (1905d p.199).

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Freud declarou que o narcisismo era um estágio intermediário entre o
autoerotismo e o amor de objeto. Esta comunicação foi em novembro de 1909.
Portanto, veja-se bem, o conceito nasce como uma fase ou estádio relativamente
estável que faz parte do desenvolvimento do Eu. Origina-se de uma negociação da
libido do Eu e a libido do objeto. O investimento libidinal narcisista do eu, como estádio
originário realizado na primeira infância, que é ocultado por envios posteriores de
libido, porém conserva-se no fundo atrás dos mesmos (1905d p.199).
Qual a relação desse narcisismo, do qual estamos tratando agora, com o
autoerotismo, que descrevemos como um estado inicial da libido (1914d).
E este Eu descrito como o Eu real inicial, ou originário, essa organização que
permite a diferenciação do interno e do externo por marcas distintivas objetivas (1915c
p.159), deve sua organização à libido narcisista? No Suplemento Metapsicológico à
teoria dos Sonhos (1917 [1915] p.82) Freud afirma: O desejo de dormir tenta recolher
todas as cargas de investimentos que haviam sido enviadas pelo Eu em direção aos
objetos e tenta assim produzir um narcisismo absoluto. (Freud (1917[1915] p. 82; o
negrito é meu).
Ora, estamos confusos, de qual narcisismo absoluto Freud fala?
Vejamos, entretanto, outras pontuações que nos levam a suspeitar que a
organização narcisista seja de grande amplitude. Freud em Além do Princípio do
Prazer (1920g p.171-3), partindo de analogias com a biologia nos afirma:
Quanto às células germinativas, estas adotariam uma conduta absolutamente
narcísica. Neste mesmo sentido: talvez devêssemos designar também como
narcisistas as células das formações malignas que destroem o organismo. A
dimensão do narcisismo depreende-se da afirmação de Freud de que é preciso
identificar a pulsão sexual com Eros—que tudo preserva—e concluir que a libido
narcísica do Eu nasce dos estoques de libido utilizados pelas células somáticas para
aderirem umas às outras. Assim justifica-se a hipótese de Freud (1923b p. 55-6) de
que com a cópula esvaziamo-nos de substâncias sexuais, que são por assim dizer as
portadoras saturadas de tensões sexuais.
Portanto é neste sentido que tal esvaziamento nos torna mais suscetíveis à
pulsão de morte como em certas espécies, após a cópula, o macho entrega-se à
morte. Tal também é o sentido da ação da pulsão de morte diante das sublimações
promovidas pelo Eu.

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Ficamos ainda de examinar a afirmação de que Freud, com as hipóteses de
pulsão de morte, Eros e narcisismo nos coloca diante da origem da vida (1924c). No
Problema Econômico do Masoquismo (p.110) Freud afirma: de qualquer modo se
estivermos dispostos a tolerar algum grau de imprecisão, podemos dizer que a pulsão
de morte atuante no organismo—o sadismo original—seria idêntica ao masoquismo.
Diríamos, então, que após a parcela principal do sadismo original ter sido transposta
para fora em direção aos objetos, um resíduo teria permanecido, e seria este o
masoquismo propriamente dito. Isto é, o masoquismo erógeno. Este, por um lado,
teria, então, tornado-se um componente da libido, e. por outro, tomaria como objeto o
próprio organismo. Assim esse masoquismo seria um testemunho e um resquício da
antiga fase de formação tão essencial para a vida, em que houve um amálgama entre
pulsão de morte e Eros.

Fonte:
www.areah.com.br

Vejam-se as diversas proposições contidas neste brilhante parágrafo. A


primeira dela é que o masoquismo erógeno, tal como Freud propõe, pode ser
compreendido como o primeiro enlace narcisista e a própria vida, em suas origens,
dependeria de um enlace análogo ao descrito. Em segundo lugar, como já foi proposto
no apartado anterior, qual seria o destino da pulsão quando não se descarrega ou não
encontra o objeto, quando não se estabelece esta projeção primordial. Seria um

39
masoquismo erógeno tóxico muito próximo de determinadas adições ou organizações
psicossomáticas?
Vejamos, entretanto, algumas afirmações posteriores aonde se evidencia essa
constante transformação de libido do eu em libido de objeto e vice-versa. Assim como
Eros e pulsão de morte constituem um par antitético em constante transformação, o
mesmo acontece com a libido do Eu e a libido do objeto. Na 32 conferência introdutória
(Freud 1933[1932]), Angústia e Vida Pulsional (p.95): em casos raros pode discernir-
se que o Eu se toma a si mesmo por objeto, se comporta como se estivesse
enamorado de si mesmo. Daí o narcisismo extraído da lenda grega. Porém essa não
é nada mais do que uma exageração extrema de um estado de coisas normal. Chega-
se a compreender que o Eu é sempre o reservatório principal da libido; dele partem
os investimentos libidinais aos objetos. Portanto, sem cessar transmuda-se a libido do
Eu em libido do objeto e libido do objeto em libido do Eu (negrito do autor).
Na obra derradeira de Freud, Esquema ou Esboço de Psicanálise (1940a p.
148) volta a afirmar aproximadamente o que colocou na trigésima segunda Nova
Conferência: é difícil enunciar algo sobre o comportamento da libido dentro do Id (Isso)
e dentro do Super eu. Tudo que se refere a isto se refere ao Eu no qual se armazena
toda quantidade de libido disponível. Chamamos de narcisismo primário absoluto
(negrito do autor) a este estado. Dura até que o Eu começa a investir com libido as
representações de objeto, a transpor libido narcisista em libido de objeto. Durante toda
a vida, o Eu segue sendo o grande reservatório do qual são enviados os investimentos
libidinais aos objetos, dos quais são retirados os investimentos libidinais realocados
dentro do Eu tal como um corpo protoplasmático procede com seus pseudópodes.
Certamente estamos diante das inúmeras identificações constituintes do Eu.5

8 REITERAÇÕES E CRÍTICAS À TEORIA MATAPSICÓLOGIA

O desenvolvimento da teoria metapsicológica pós-Freud, bem como a análise


das críticas de que foi alvo, exigiria uma apresentação muito mais ampla do que a que
seria possível neste artigo. Comentarei, em seguida, alguns exemplos que mostram
uma oposição entre os defensores da metapsicologia e os que a consideram um tipo

5 Extraído do link: www.clinicahorizontes.com.br


40
de teorização inadequada para a psicanálise. Meu objetivo é marcar os polos
extremos de uma discussão que ainda não chegou a seu termo. Evidentemente, esse
tipo de exposição indicativa deixa lacunas que necessitariam ser preenchidas por
análises mais detalhadas.
Pode-se afirmar que a grande maioria dos psicanalistas tem a mesma opinião
de Freud quanto à metapsicologia: ela é necessária, ainda que seu conteúdo possa
ser substituível. Os grandes representantes da psicanálise pós-Freud mantiveram-na
no centro de suas propostas, expandindo-a, reformulando-a e, mesmo, reescrevendo-
a. Ainda que o uso das teorias de tipo metapsicológico seja difundido, a análise crítica
do que a metapsicologia é, em termos epistemológicos e metodológicos, é muito
menos comum. Citarei alguns autores que a avaliam como necessária, sem, no
entanto, desenvolver a maneira específica como entendem a sua natureza e a sua
função. Fédida, por exemplo, reconhecendo o caráter especulativo da metapsicologia,
considerava ser impossível uma psicanálise sem suas ficções básicas: "nós jamais
poderemos anular o conceito de pulsão ou a ficção do aparelho psíquico" (1983, p.
36). Green, mesmo considerando as insuficiências e as inadequações da teoria
metapsicológica, considerava que, até aquele momento (1995), nada suficientemente
convincente foi proposto para substituí-la, e, por isso, acha melhor revisitá-la e
desenvolvê-la:
Talvez, feridos pelos limites que encontraram as novas ideias, alguns - vindos
de horizontes muito diferentes - acabaram por concluir que seria, talvez, mais
saudável e menos inibidor para o desenvolvimento da psicanálise abandonar até a
própria ideia de metapsicologia. E como os partidários desta revisão dilacerante
jamais provaram que esta atitude era a mais fecunda - é o menos que posso dizer -,
prefiro escolher uma outra via. (1995, p. 7).
Nessa mesma perspectiva de defesa da teoria metapsicológica, Assoun (2001),
após fazer um recenseamento da situação da metapsicologia pós-Freud, avalia esta
como uma fonte inigualável do pensamento sobre a clínica, uma bússola sem a qual
o psicanalista ficaria desorientado. Em termos mais descritivos, ele afirma que a
metapsicologia [...] é a garantia da capacidade propriamente explicativa da
psicanálise. Ela dá efetividade à busca de uma teoria da causalidade psíquica,
renovada pela consideração dos processos inconscientes - a mesma que falta às
concepções descritivas (psiquiátricas), como aquelas que buscam um modo de

41
explicação exógena (neurobiológica). A metapsicologia é, pois, de fato, uma resposta
à impotência explicativa das outras teorias psíquicas, as quais fracassam em explicar
- a não ser, como a psiquiatria, por "causas distantes" - os processos psíquicos
mantendo a especificidade desses processos, [uma resposta que se põe] em
contraste com as explicações "exógenas" (em particular, as das neurociências).
(2001, p. 121).
No outro polo encontramos críticas à teoria metapsicológica, tanto por parte de
filósofos e epistemólogos quanto de psicanalistas. Em geral, eles duvidam da
adequabilidade desse tipo de teoria para abordar os fenômenos dos quais trata a
psicanálise. Alguns até mesmo questionaram se a ciência psicanalítica, tal como
Freud a construiu, edificada no solo do sistema kantiano, seria uma proposta que se
sustentaria diante das grandes transformações teóricas - na filosofia e nas ciências -
feitas ao longo do século XX.
Dois dos maiores nomes da filosofia do século XX criticaram diretamente a
metapsicologia. Heidegger mostrou que o pensamento filosófico da modernidade,
incluindo Kant, objetifica o homem, descaracterizando sua essência. Sobre Freud,
Heidegger escreveu: "A metapsicologia de Freud é a transposição da filosofia
neokantiana [da natureza] ao ser humano. Por um lado, ele [Freud] usa as ciências
naturais e, por outro, a teoria kantiana da objetividade" (2001 [1987], p. 222). Para
Wittgenstein (1966), a perspectiva dinâmica que anima o pensamento teórico de
Freud obscurece nosso entendimento sobre o homem. Mesmo reconhecendo que
Freud é um autor que tem muito a dizer, criticou seu recurso a uma mitologia teórica
que, na sua opinião, dá a ilusão de compreensão, quando, na verdade, apenas
esconde aquilo que trata.
Diversos psicanalistas fizeram, de diferentes ângulos, críticas à teoria
metapsicologia, em especial os teóricos das relações de objeto (Fairbairn e Guntrip),
os representantes da psicologia do ego e do self (Hartmann e Kohut), os que se
aproximam de concepções fenomenológicas da teoria e da prática psicanalítica
(Georges Klein e Roy Schafer), além de outros que, tendo elaborado teorias
psicanalíticas alternativas, rejeitam o recurso ao modo de teorização metapsicológico,
como é o caso de Winnicott.
Dou alguns exemplos, a fim de tornar mais claras e objetivas algumas das
críticas feitas. Guntrip considera que a psicanálise de Freud é composta de teorias

42
diferentes, nem sempre cuidadosamente distinguidas pelos psicanalistas: uma
formulada em termos de uma teoria impessoal do funcionamento mental, cujo objetivo
é apresentar a psicanálise como uma ciência natural, e outra manifesta na forma de
uma "teoria do si mesmo ativo, perseguindo fins nos seus relacionamentos humanos
vivos" (1961, p. 118). A metapsicologia corresponde à teoria impessoal. Ao propor
esse tipo de teoria, Freud não fez uma psicologia genuína, mas uma fisiologia
disfarçada, acabando por obscurecer ou falsificar os fenômenos que tenta abordar:
"Para a psicanálise, a psicologia é o estudo da mente humana pessoal. Se a mente
humana é despersonalizada, ela cessa o ser humano, mas não é possível criar uma
ciência pela falsificação dos dados" (ibid., p. 129). Guntrip tentou substituir a
metapsicologia de Freud por um outro tipo de teoria, referida às relações de objetos,
formuladas em termos das relações humanas propriamente ditas.
Hartmann e Kohut, ao proporem uma separação dos conceitos de eu e de si
mesmo, consideram ter dado um passo decisivo para o desenvolvimento da
psicanálise, pois essa diferenciação torna possível formular as teorias psicanalíticas
de uma maneira muito mais próxima da experiência. Diz Kohut:
(...) o ego, o id e o superego são os componentes, na psicanálise, de uma
abstração específica, de alto nível, isto é, distante da experiência: o aparelho psíquico.
[...] O si mesmo, entretanto, surge na situação analítica e é conceituado na forma de
uma abstração psicanalítica de um nível relativamente baixo, isto é, relativamente
próxima à experiência, como um conteúdo do aparelho mental. (1988 [1971], p. 14)
George Klein, seguindo a distinção entre a metapsicologia e a teoria clínica tal
como Ricoeur a apresenta (cf. Klein 1976, p. 26), julga que essas teorias engendram
"dois modos incompatíveis de explicação" (ibid., p. 13), e que a metapsicologia,
expressão do "positivismo inveterado" de Freud, deveria ser abandonada a favor de
uma teoria clínica que decifraria não as causas, mas as intenções e os sentidos da
experiência e dos comportamentos:
O objetivo central da explicação psicanalítica é a leitura da intencionalidade; o
comportamento, a experiência e o testemunho são estudados por seus sentidos neste
contexto, enquanto eles exemplificam, em conjunto, as diretrizes, tensões, admitidas,
não-admitidas, reprimidas, proibidas... Aplicada à compreensão dos sintomas, por
exemplo, uma tal explicação consiste em remeter um sintoma não ao funcionamento
de um mecanismo que seria, ele mesmo, observável, real ou potencialmente, mas ao

43
contexto de uma história de vida, na qual o sintoma torna-se inteligível enquanto
exemplificação de uma solução em conformidade com certos fins. (Ibid., p. 26)
Schafer (1982), por sua vez, considerou a linguagem metapsicológica (forças,
pulsões, energias, aparelhos, etc.) inadequada para a compreensão do homem,
mostrando a necessidade de substituí-la.
As críticas à metapsicologia consistem, grosso modo, em considerá-la um tipo
de instrumento teórico que estaria em desacordo com a natureza dos fenômenos que
investiga - a vida psíquica do homem e as relações inter-humanas -, produzindo um
falseamento da compreensão dos fatos clínicos observados. Não se trata apenas de
um problema teórico, pois da teoria metapsicológica deriva uma prática clínica que,
no limite da sua aplicação, leva a um método de tratamento que toma as pessoas e
as relações inter-humanas pelo que elas não são: objetos regidos por leis naturais.
Tendo analisado qual é a natureza e a função da teoria metapsicológica em
Freud, bem como retomado algumas das críticas a ela dirigidas, é possível colocar
com maior precisão a pergunta sobre o futuro dos modos de teorização na psicanálise,
apresentando uma bifurcação radical no que se refere à metapsicologia: ou ela é
desenvolvida - enquanto uma superestrutura especulativa necessária - e, no limite
desta opção, tenta-se substituí-la por outra, mais eficiente ou, então, considera-se que
as teorias metapsicológicas devem ser abandonadas em favor de um outro tipo de
teorização sem especulações, que se mostraria, por sua vez, mais eficiente e
adequado à resolução de problemas próprios à psicanálise.
Não é o caso de iniciar, agora, uma análise dos argumentos a favor e contra a
posição dos autores acima citados, mostrando as proximidades e a maneira como
eles e eu interpretamos a metapsicologia de Freud. No entanto, considero que a
perspectiva de análise aqui apresentada pode contribuir para a compreensão mais
precisa do papel da teoria metapsicológica no desenvolvimento da psicanálise.
Algumas pesquisas recentes, dedicadas à análise da obra de Donald Winnicott
(cf. especialmente Loparic 2001c e Dias 2003), tomam esse autor como um caso
diferente entre os psicanalistas que teriam se oposto à teorização metapsicológica,
considerando que sua obra fornece uma nova perspectiva para o desenvolvimento da
psicanálise. Para eles, Winnicott reformulou o próprio paradigma18 da psicanálise,
alterando suas bases ontológicas e propondo uma teoria geral sobre o
amadurecimento pessoal que se mostra mais ampla do que a teoria da sexualidade,

44
e apresentou uma maneira de teorizar que não toma a natureza humana como um
objeto natural, afastando-se do solo da metafísica da natureza sobre o qual Freud
edificou sua ciência.

9 A POSSIBILIDADE EFETIVA DE UMA PSICANÁLISE SEM A


METAPSICOLOGIA

Winnicott formulou uma teoria que se mantém próxima da experiência imediata


- sobretudo a que lhe vem da clínica pediátrica, com os bebês e suas mães, e da
clínica psicanalítica, com psicóticos que necessitam regredir à dependência -,
evitando toda teorização abstrata de tipo metapsicológica. Ele considera que o tipo de
linguagem teórica utilizado para tratar das questões humanas deve ter certas
características que aproximam a teoria daquilo que ela tenta entender: "Um escritor
da natureza humana precisa ser constantemente levado na direção da linguagem
simples, longe do jargão do psicólogo, mesmo que tal jargão possa ser valioso em
contribuições para revistas científicas" (1957o, p. 121). De uma maneira mais ou
menos explícita, ele fez críticas aos conceitos fundamentais da teoria metapsicológica,
seja no que se refere aos fundamentos que constituem a metapsicologia - o dinâmico
e as pulsões, o econômico e a libido, o tópico e as instâncias de um aparelho psíquico
- seja julgando-a como um todo. Darei exemplos de cada uma dessas críticas.
Para Winnicott, os conceitos de pulsão de vida e de morte mais atrapalham do
que ajudam a compreensão do desenvolvimento infantil. Em 1952, numa carta a
Money-Kyrley, ele escreveu: [...] o conceito de pulsão de vida e de morte evita o campo
de investigação tão rico do desenvolvimento inicial do bebê. É uma pena que Melanie
tenha feito um esforço tão grande para conciliar sua opinião com a pulsão de vida e
de morte, que são, talvez, o único erro de Freud. (1987, p. 37).
Não só na sua correspondência, mas também nos textos publicados, ele
reafirma a sua opinião: "Eu, simplesmente, não acho válida sua ideia [de Freud] de
pulsão de morte" (1965va [1962], p. 161). Sua crítica não se restringe às forças
psíquicas básicas que Freud postulou na sua segunda tópica, mas recai no próprio
conceito de pulsão. Deve-se, aqui, apontar que a tradução de Trieb por Instinct borrou
as diferenças entre as concepções de Freud e as de Winnicott, pois, neste último,
Instinct tem um sentido que não corresponde ao Trieb de Freud. Para Winnicott, o

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instinto não é um representante psíquico de uma tensão corporal, mas a própria
tensão que exige uma ação: "Instinto é um termo pelo qual se denominam poderosas
forças biológicas que vêm e voltam na vida do bebê ou da criança, e que exigem ação"
(1988, p. 57). As poderosas forças biológicas não correspondem às ideias abstratas
ou convenções. O instinto, para Winnicott, não é um conceito-limite entre o somático
e o psíquico, mas uma fonte biológica que terá de ser elaborada psiquicamente (cf.
Loparic 2000b). Tratar-se-ia aqui, portanto, do abandono do conceito fundamental da
metapsicologia freudiana, apontando para a construção de uma psicanálise sem a
mitologia das pulsões.
Winnicott também se opõe à ideia de que a natureza humana possa ser
adequadamente compreendida por meio da suposição de uma energia que circula no
seu interior, ou seja, critica a proposta de se tratar a natureza humana em termos
econômicos:
Freud aí lida com a natureza humana em termos de economia, simplificando o
problema deliberadamente com o propósito de estabelecer uma formulação teórica.
Existe um determinismo implícito em todo esse trabalho, a premissa de que a natureza
humana pode ser examinada objetivamente e que podem ser aplicadas a ela as leis
que são conhecidas em Física. (1958o, p. 20)
Em seguida a essa afirmação, Winnicott faz uma análise do sentimento de
culpa nos aspectos empiricamente observáveis das relações inter-humanas, tais
como a aquisição da capacidade para sentir culpa, os sentimentos associados com a
vida instintiva e com as relações edípicas, triangulares, e a capacidade de tolerar a
ambivalência dos sentimentos de amor e ódio. Não há nessa análise nenhum recurso
à noção de libido, enquanto uma energia, ou qualquer outro fator quantitativo que
fosse suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga. Isso parece
indicar o abandono do ponto de vista econômico, tal como Freud havia proposto, sem
que isso signifique abandono de descobertas tais como o complexo de Édipo, a
vivência de ambivalência, etc.
Quanto ao ponto de vista tópico, o terceiro eixo da teoria metapsicológica,
Winnicott também não o utiliza, pois não toma as instâncias psíquicas - tais como id,
ego e superego - como ficções teóricas, figurações espaciais de um aparelho fictício,
mas as usa num sentido mais descritivo. Veja, por exemplo, como ele interpreta o que
significam esses termos:

46
Nas suas formulações teóricas iniciais ele estava interessado no id, nome pelo
qual ele se referia aos impulsos instintivos, e no ego, nome pelo qual ele chamava
aquela parte do eu total que se relaciona com o ambiente. O ego modifica o ambiente
para conseguir satisfações para o id, e freia impulsos do id para que o ambiente possa
oferecer o máximo de vantagens, do mesmo modo para a satisfação do id. Mais tarde
(1923) Freud usou o termo superego para denominar o que é aceito pelo ego para
uso no controle do id. (1958o, p. 20)
Não se trata, para Winnicott, de discordar apenas deste ou daquele conceito,
mas, sim, da própria teoria metapsicológica, considerando que ela obscurece a
compreensão dos fatos clínicos, o que fica explícito na sua carta a Anna Freud, de 18
de março de 1954:
Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão profunda com
esses termos [metapsicológicos]. Será que é por que eles podem fornecer uma
aparência de compreensão onde tal compreensão não existe? Ou será que é por
causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro, que sejam as duas coisas. (1987, p.
51)
Para ser levada a sério, a concepção de uma psicanálise sem metapsicologia
precisaria mostrar que problemas antes tratados por meio dela poderiam ser melhor
resolvidos por outro tipo de teorização. Um exemplo possível é o do fenômeno da
agressividade no ser humano. Para Freud e Melanie Klein, que pensam no interior do
quadro da metapsicologia, a agressividade tem sua fonte na frustração e, em última
instância, na pulsão de morte; para Winnicott, no entanto, ela não advém, de modo
algum, da pulsão de morte, tendo sua origem na motilidade, nos estados excitados
decorrentes de tensões instintuais e na quebra da continuidade de ser, que deriva de
intrusões ambientais.
O que resulta desta análise, como tema a ser aprofundado por pesquisas
futuras, é a avaliação da natureza e da função da teoria metapsicológica em Freud,
bem como a hipótese de que é possível uma psicanálise sem esse tipo de teorização,
o que relança a discussão sobre os modos de teorização na história e
desenvolvimento da psicanálise.6

6 Extraído do link: pepsic.bvsalud.org


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10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Birman, Joel, Cunha, Eduardo Leal, Kupermann, Daniel, & Fulgencio, Leopoldo.
(Eds.). (2014). A Fabricação do Humano. Psicanálise, Subjetividade e Cultura. São
Paulo: Zagodoni.

Birman, Jole, Fulgencio, Leopoldo, Kupermann, Daniel, & Cunha, Eduardo L. (Eds.).
(2016). Amar a si mesmo e ama o outro. Narcisismo e sexualidade na psicanálise
contemporânea. São Paulo: Zagodoni.

Borch-Jacobsen, Mikkel, & Shamdasani, Sonu (Eds.). (2012). Os arquivos Freud. Uma
investigação acerca da história da psicanálise. São Paulo: Editora Unesp.

Caropreso, F. (2009). Inconsciente, cérebro e consciência: reflexão sobre os


fundamentos da metapsicologia freudiana. Sci. stud. 7(2), 271-282.

Damasceno, M. H. (2008). Origem filosófica e significado metapsicológico do conceito


de pulsão de morte em Freud (Dissertação de mestrado, Universidade Federal de
Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil).

GARCIA-ROZA, Luiz A. Introdução à metapsicologia freudiana, v. 1: sobre as afasias


(1891): O projeto de 1895. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008a.

GARCIA-ROZA, Luiz A. Introdução à metapsicologia freudiana, v. 2: A interpretação


do sonho, 1900. 8. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008b.

GARCIA-ROZA, Luiz A. Introdução à metapsicologia freudiana, v. 3: Artigos de


metapsicologia, 1914- 1917: narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. 7. ed. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008c
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Mach, Ernst. (1872). História e Raízes do Princípio de Conservação de Energia. Rio
de Janeiro: EDUERJ, 2014.

_______ . L.A. Introdução à metapsicologia freudiana, vol III. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 2002. (Trabalha os conceitos de pulsão e narcisismo, entre outros, com
orientação predominantemente lacaniana).

_______ Introdução à metapsicologia freudiana, vol. 2, Rio de Janeiro, Jorge Zahar,


1993.

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