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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.522.093 - MS (2014/0248089-8)

RELATOR : MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE


RECORRENTE : KARLOS CESAR FERNANDES
ADVOGADO : ROBERTO SOLIGO E OUTRO(S)
RECORRIDO : DEVANIR ANTONIA CORBANI DOS SANTOS PEREIRA
ADVOGADOS : ANTÔNIO FRANCO DA ROCHA E OUTRO(S)
PAULO AFONSO MAGALHÃES NOLASCO E OUTRO(S)
ANTÔNIO FRANCO DA ROCHA JUNIOR
INTERES. : BANCO DO BRASIL S/A
INTERES. : ALDAIR DOS SANTOS PEREIRA
INTERES. : BANCO BRADESCO S/A
INTERES. : BUNGE ALIMENTOS S/A
EMENTA
PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. 1.
CÔNJUGE. PRESCRIÇÃO DA DÍVIDA. LEGITIMIDADE RECONHECIDA. INTERPRETAÇÃO
ANALÓGICA DO ART. 1.046, § 3.º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. 2. DEMANDA
PROPOSTA PELO DEVEDOR. DEFESA JUDICIAL DO CRÉDITO. INÉRCIA DO CREDOR.
AFASTADA. CITAÇÃO. PRAZO PRESCRICIONAL. INTERRUPÇÃO. RECURSO PROVIDO.
1. Na esteira dos precedentes do STJ, a intimação do cônjuge enseja-lhe a utilização tanto
da via dos embargos à execução, por meio dos quais se admite a discussão da própria causa
debendi e a defesa do patrimônio como um todo, como da via dos embargos de terceiro,
para defesa de sua meação.
2. Entre os dois instrumentos processuais, desde que respeitado o prazo próprio para
oposição, aplica-se a fungibilidade, garantindo a instrumentalização do procedimento na
concretização do direito material resguardado.
3. A objeção de pré-executividade, por se tratar de criação jurisprudencial destinada a
impedir a prática de atos tipicamente executivos, em face da existência de vícios ou matérias
conhecíveis de ofício e identificáveis de plano pela autoridade judicial, é meio processual
adequado para deduzir a prescrição do título em execução.
4. Assim, reconhecida a legitimidade ampla do cônjuge para defesa do patrimônio do casal
pela via dos embargos à execução, deve-se ser estendida a ele, igualmente, a utilização da
exceção ou objeção de pré-executividade.
5. A prescrição é instituto jurídico destinado a sancionar a inércia do detentor de um direito,
reconhecendo o desinteresse no exercício de sua posição jurídica e tornando definitivo o
estado das coisas.
6. Nos termos do art. 202 do CC, o decurso do prazo prescricional interrompe-se, uma única
vez, quando presente qualquer das hipóteses definidas no art. 202 do CC.
7. A propositura de demanda em que se debate o próprio crédito – seja ela anulatória,
revisional ou cautelar de sustação de protesto – denota o conhecimento do devedor do
interesse do credor em exigir seu crédito. Ademais, a atuação judicial do credor em defesa
de seu crédito implica o inevitável afastamento da inércia.
8. Desse modo, aplica-se a interrupção do prazo prescricional, nos termos do art. 202, I, do
CC, ainda que a judicialização da relação jurídica tenha sido provocada pelo devedor.
9. Recurso especial provido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceira
Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas
a seguir, por unanimidade, dar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr.
Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Moura Ribeiro, João Otávio de Noronha (Presidente) e Paulo

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de Tarso Sanseverino votaram com o Sr. Ministro Relator.
Impedido o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro João Otávio de Noronha.
Brasília, 17 de novembro de 2015 (data do julgamento).

MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Relator

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.522.093 - MS (2014/0248089-8)

RELATÓRIO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE:

Trata-se de recurso especial interposto por Karlos Cesar Fernandes com


fulcro nas alíneas a e c do permissivo constitucional.

Depreende-se dos autos que Devanir Antonia Corbani dos Santos Pereira
opôs, na origem, exceção de pré-executividade arguindo prescrição de cheques, objeto de
execução proposta pelo recorrente contra seu cônjuge.

Em sentença, rejeitou-se liminarmente a referida exceção, ao fundamento de


que a matéria encontrava-se alcançada pela preclusão consumativa, porquanto o
executado teria arguido a mesma tese anteriormente.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul deu provimento ao agravo de


instrumento, a fim de reconhecer a ocorrência da prescrição, em acórdão assim
ementado (e-STJ, fl. 179):

EMENTA – AGRAVO DE INSTRUMENTO INTERPOSTO CONTRA


DECISÃO QUE REJEITOU LIMINARMENTE EXCEÇÃO DE
PRÉ-EXECUTIVIDADE PELO RECONHECIMENTO DA PRECLUSÃO
CONSUMATIVA – INTERESSE DO TERCEIRO INTERESSADO QUE
NÃO É ALCANÇADO PELA DECISÃO – OCORRÊNCIA DA
PRESCRIÇÃO – PROVIDO.
O terceiro interessado possui legitimidade para discutir a ocorrência
de prescrição, pois, além de estar imune ao efeito da coisa julgada, já
que não integrava a lide, a questão é de ordem púbica, sendo
admitido o seu conhecimento até mesmo de ofício, em qualquer fase
ou instância, não justificando os efeitos da preclusão temporal.
O fato de os títulos terem ficado sob a “guarda” do tabelionato aonde
foi apresentado para protesto, não é causa interruptiva da prescrição
nem impossibilitava que o credor exercitasse o direito de ação para
recuperar o seu crédito, aparelhando o feito executivo com as
respectivas fotocópias autenticadas dentro do prazo estabelecido pelo
artigo 59 da Lei n. 7.357/85.
Embargos de declaração, opostos por duas vezes pelo recorrente,
foram rejeitados (e-STJ, fls. 207-213 e 259-267).

O recorrente, então, interpôs recurso especial, o qual foi, incialmente,


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inadmitido em juízo prévio de admissibilidade, dando azo à interposição do AREsp n.
386.194-MS, provido para determinar sua reautuação em recurso especial.

Autuado sob o n. 1.424.411-MS, o recurso especial teve seu mérito


apreciado, monocraticamente, pela então relatora Min. Nancy Andrighi, que, reconhecendo
a existência de omissão qualificada, anulou o julgamento dos embargos de declaração na
origem e determinou o retorno dos autos para novo julgamento (e-STJ, fls. 391-393).

O novo julgamento, a despeito de sanar a omissão, manteve a conclusão


anterior no sentido de rejeitar os aclaratórios, nos termos da seguinte ementa (e-STJ, fls.
415-419):

EMENTA – EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. RETORNO STJ PARA


MANIFESTAÇÃO EXPRESSA. ILEGITIMIDADE E INTERESSE. VIA
INADEQUADA.
Ausente reflexos na manifestação expressa relativa às questões
devolvidas para a respectiva instância, impõe-se a rejeição dos
embargos de declaração desconstituído pelo Superior Tribunal de
Justiça.

Nas razões do presente recurso especial, sustenta a parte recorrente, em


suma, violação dos arts. 3º, 6º, 41, 267 e 1.046 do CPC e 162 e 202 do CC/02, bem como
a existência de dissídio jurisprudencial.

Sustenta a ilegitimidade do cônjuge meeiro para defender a totalidade de


bens pertencentes ao executado, quando sua meação não é alcançada. Isso porque, na
hipótese dos autos, a penhora recai apenas sobre 40% (quarenta por cento) do bem do
executado.

Partindo desse mesmo fundamento de fato, assevera o recorrente que a


prescrição somente pode ser alegada por aquele a quem aproveita, o que não seria o caso
diante da preservação da meação.

Sustenta ainda que o prazo prescricional teria sido indevidamente


considerado interrompido na data da apresentação do título a protesto. Isso porque, a
despeito de sua apresentação, em razão de ordem judicial em ação cautelar de sustação
de protesto, este somente se concluiu em 28.5.2008. Outrossim, ainda que se aplique a
interrupção da prescrição pelo despacho judicial naquela ação cautelar de sustação de
protesto, a prescrição somente retomaria seu curso em 20.5.2008 – data do último ato
processual.

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Contrarrazões apresentadas (e-STJ, fls. 441-451).

É o relatório.

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VOTO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE(RELATOR):

Cinge-se a controvérsia a definir se há interesse de agir e legitimidade para


atuação de cônjuge meeiro na defesa de bem, ainda quando não atingida sua meação,
bem como o marco interruptivo do prazo prescricional, nas hipóteses em que o título fica
retido em cartório por decisão judicial em ação cautelar de sustação de protesto.

1. Legitimidade do cônjuge.

Com efeito, a jurisprudência desta Corte Superior encontra-se pacificada no


sentido de que o cônjuge do executado é parte legítima para defender patrimônio do casal.
Assim, regularmente intimado da penhora, o cônjuge disporá “da via dos embargos à
execução, nos quais poderá discutir a própria causa debendi e defender o patrimônio
como um todo, na qualidade de litisconsorte passivo do(a) executado(a) e a via dos
embargos de terceiro, com vista à defesa da meação a que entende fazer jus” (REsp n.
252.854/RJ, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, Quarta Turma, DJ 11/9/2000, p.
258).

Esse entendimento foi reiterado pela Corte Especial, em julgamento de


embargos de divergência, nos termos da seguinte ementa:

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. PROCESSO CIVIL. INTERPRETAÇÃO


DO ART. 1.046, § 3.º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL.
EXECUÇÃO. CÔNJUGE. EMBARGOS DO DEVEDOR. EMBARGOS DE
TERCEIRO. MEAÇÃO. LEGITIMIDADE ATIVA. EMBARGOS
CONHECIDOS, MAS REJEITADOS.
1. "A intimação do cônjuge enseja-lhe a via dos embargos à execução,
nos quais poderá discutir a própria causa debendi e defender o
patrimônio como um todo, na qualidade de litisconsorte passivo do(a)
executado(a) e a via dos embargos de terceiro, com vista à defesa da
meação a que entende fazer jus" (REsp 252854/RJ, QUARTA TURMA,
Rel. Ministro SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA, DJ de 11/09/2000).
2. Não obstante, o cônjuge só será parte legítima para opor embargos
de terceiro quando não tiver assumido juntamente com seu consorte a
dívida executada, caso em que, figurando no polo passivo do
processo de execução como corresponsável pelo débito, não se lhe é
legítimo pretender eximir seu patrimônio como "terceiro".
3. Embargos de divergência conhecidos, mas rejeitados.
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(EREsp n. 306.465/ES, Rel. Min. Laurita Vaz, Corte Especial, DJe
4/6/2013)

A leitura desses precedentes evidencia uma distinção quanto à extensão do


objeto desses dois institutos, fato que encontra justificativa na doutrina e no próprio
sistema processual. Isso porque, o nosso sistema de comunhão somente distingue-se do
sistema de condomínio no âmbito do regime de comunhão total de bens. É o que se
depreende da seguinte lição de Arnoldo Wald (apud FARIAS, Cristiano Chaves de;
ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: direitos reais. 9ª ed. Salvador: Jus
Podivum, 2013, p. 687):

o direito brasileiro admitiu a concepção romana de condomínio,


baseada no conceito de cota ideal, embora houvesse em nosso direito
de família um resquício de condomínio germânico, que é a
comunhão universal de bens existente entre os cônjuges.
Efetivamente, nesta, todos os bens do casal pertencem
simultaneamente a marido e mulher, sem que, na vigência da
sociedade conjugal, se possa concretizar ou individualizar a cota ideal.
Somente com a dissolução da sociedade conjugal é que recorremos à
meação para, no inventário, calcular o que cabe a cada um dos
interessados. A meação que, até então, era fluida e essencialmente
variável, de acordo com as mutações do patrimônio do casal,
cristaliza-se no momento em que se dissolve a sociedade conjugal.
[grifou-se]

Esse raciocínio harmoniza-se com o dispositivo legal (art. 655-B do CPC,


incluído pela Lei n. 11.382, de 2006) que, incorporando antigo entendimento jurisprudencial
ao Código de Processo Civil, resguarda a meação do cônjuge por meio da reserva
incidente sobre o produto da alienação do bem penhorado.

Nesse diapasão, ressalta o prof. Araken de Assis que a opção pelo meio
processual de impugnação da execução de título executivo extrajudicial não fica ao talante
do cônjuge, mas deve ser identificada de acordo com a hipótese concreta sub judice.
Assim, caberia a oposição de embargos à execução sempre que os bens pessoais do
cônjuge, inclusive sua meação, fossem expostos à execução, ou seja, naquelas hipóteses
legais em que os bens do cônjuge respondem efetivamente pela dívida, diante da
solidariedade por dívidas contraídas a bem da família (arts. 1.643 e 1.644 do CC/02).
Trata-se das típicas hipóteses de responsabilidade secundária do cônjuge (art. 592, IV, do
CPC). Noutro viés, não sendo hipótese de responsabilidade secundária, resguardaria-se
ao cônjuge a defesa de sua meação, acaso não observada, pela via dos embargos de

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terceiros. (ASSIS, Araken de. Manual da execução. 17ªed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2015, p. 487).

A despeito dessa distinção essencial, a jurisprudência desta Corte Superior


há tempos se inclinou no sentido de aplicar a fungibilidade entre os embargos à execução
e os embargos de terceiros, desde que respeitado o prazo para oposição dos primeiros.

PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO FISCAL REDIRECIONADA AO


SÓCIO-GERENTE DE EMPRESA DISSOLVIDA. EMBARGOS DE
TERCEIRO. INTERPOSIÇÃO PELO SÓCIO-GERENTE.
INADEQUAÇÃO DA VIA PROCESSUAL ELEITA. CABIMENTO DE
EMBARGOS DO DEVEDOR (ART. 1.046 CPC). PRINCÍPIO DA
FUNGIBILIDADE. INAPLICABILIDADE, PELO DECURSO DE PRAZO
SUPERIOR AO PREVISTO NO ART. 16 DA LEF.
1. Os embargos a serem manejados pelo sócio-gerente contra quem
se redirecionou ação executiva, regularmente citado e, portanto,
integrante do pólo passivo da demanda, são os de devedor.
2. Admite-se, presentes certas circunstâncias - especialmente a da
tempestividade (não atendida no presente caso) - o recebimento de
embargos de terceiro como embargos do devedor. Todavia, essa
questão - que não foi posta no acórdão embargado - não se presta à
solução por via de embargos de divergência.
3. Embargos de divergência a que se nega provimento.
(EREsp n. 98.484/ES, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira
Seção, DJ 17/12/2004, p. 394)

PROCESSUAL - EXECUÇÃO FISCAL - SOCIEDADE LIMITADA -


EXECUÇÃO CONTRA SÓCIO SEM PODER DE GERÊNCIA -
EMBARGOS DE TERCEIRO.
- Admite-se que o sócio não gerente, citado em execução fiscal - como
litisconsorte passivo da sociedade limitada - ofereça embargos de
terceiros, para desconstituir penhora incidente sobre seus bens
particulares. Precedentes do STJ.
(REsp n. 139.199/MG, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros,
Primeira Turma, DJ 03/11/1998, p. 22)

Daí se extrai a ampla legitimidade e interesse reconhecido ao cônjuge de, no


prazo dos embargos do devedor, defender-se da execução resguardando a integralidade
do patrimônio do casal, e não se restringindo à sua meação. Por via de consequência,
impõe-se igualmente reconhecer ao cônjuge a legitimidade para oposição de objeção de
pré-executividade.

De fato, a objeção ou exceção de pré-executividade constitui criação


jurisprudencial, por meio da qual se obsta a prática de atos judiciais típicos do processo
executivo, em razão de suposta existência de vícios ou matérias conhecíveis de ofício e
identificáveis de plano pela autoridade judicial. Nesse diapasão, servem para amparar a
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prestação jurisdicional quando desnecessária a dilação probatória, a fim de se reconhecer
a não-executividade do título.

É o que se depreende da seguinte ementa:

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL -


EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL - EXCEÇÃO DE
PRÉ-EXECUTIVIDADE - CABIMENTO - REQUISITOS - DISCUSSÃO
DE QUESTÕES DE ORDEM PÚBLICA E DESNECESSIDADE DE
DILAÇÃO PROBATÓRIA - CONHECIMENTO EM QUALQUER TEMPO
E GRAU DE JURISDIÇÃO - ORIENTAÇÃO JURISPRUDENCIAL -
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA CONHECIDOS E PROVIDOS.
1. Hipótese. Ação de execução de título extrajudicial ajuizada pela
casa bancária julgada extinta pelo Tribunal de origem que, no bojo de
exceção de pré-executividade, entendeu nulo o título executivo porque
ausente assinatura de 2 (duas) testemunhas. Decisão reformada pela
eg. Terceira Turma, sob entendimento da ocorrência de preclusão
porquanto a exceção de pré-executividade foi ajuizada após a
penhora de bem imóvel.
2. Mérito. A orientação assente da jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça caminha no sentido de que a exceção de
pré-executividade é cabível em qualquer tempo e grau de
jurisdição, quando a matéria nela invocada seja suscetível de
conhecimento de ofício pelo juiz e a decisão possa ser tomada
sem necessidade de dilação probatória.
3. Embargos de Divergência conhecidos e providos.
(EREsp n. 905.416/PR, Rel. Min. Marco Buzzi, Segunda Seção, DJe
20/11/2013)

Conquanto a legitimidade para oposição não se estenda a qualquer estranho


à relação processual, ainda que sob o argumento de contribuir com a administração da
justiça, reconhece-se a legitimidade a todos os terceiros “que ostentem interesse jurídico”,
ou seja, “os titulares de relação jurídica derivada ou incompatível com o objeto da
execução” (ASSIS, Araken de. Op. cit. p. 1.250-1.251).

Esse tem sido também o entendimento albergado pelo STJ, como se pode
verificar do seguinte precedente:

TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO


RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. NÃO
OCORRÊNCIA. DISSÍDIO NÃO COMPROVADO. EXECUÇÃO FISCAL.
EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE OPOSTA POR TERCEIRA
INTERESSADA. EMENDA OU SUBSTITUIÇÃO DA CDA
POSSIBILIDADE. ATÉ A PROLAÇÃO DA SENTENÇA NOS
EMBARGOS À EXECUÇÃO.
1. Emerge dos autos que, em exceção de pré-executividade
oposta pela recorrente, o juiz singular acolheu em parte as
razões da autora tão somente para determinar que a exequente
adequasse a alíquota do IPTU posta na execução fiscal, bem
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como que excluísse a cobrança da Taxa de Limpeza e
Conservação de Vias e Logradouros Públicos (TLCVLP),
possibilitando a substituição da CDA.
................................................................................................
(AgRg no REsp n. 1.190.997/RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves,
Primeira Turma, DJe 10/3/2011) [grifado]

Nota-se que sua admissão não tem sido, em regra, questionada, uma vez
que, no âmbito do STJ, se reconhece a ampla legitimidade para integral defesa do
patrimônio pela via dos embargos do devedor ou de sua meação pela via dos embargos de
terceiros. Nesse cenário, parece irrefutável o interesse da recorrida em provocar a análise
da prescrição por meio da exceção de pré-executividade e, portanto, a sua legitimidade no
presente incidente.

2. Da prescrição.

No que tange ao mérito, o Tribunal de origem acolheu a exceção interposta


pela recorrida, reconhecendo a prescrição da pretensão do recorrente sob o fundamento
de que a propositura de ação cautelar para sustação de protesto não seria óbice à
propositura da demanda executiva pelo credor, nos termos do art. 585, § 1º, do CPC.
Logo, ainda que o título tivesse ficado retido, não se justificaria a não contagem do prazo
prescricional, diante da expressa garantia legal a assegurar o imediato exercício do direito
de ação.

Desse modo, concluiu por operada a interrupção da prescrição com a


apresentação do título a protesto, reiniciando-se naquele mesmo momento a contagem do
prazo, o qual teria transcorrido in totum quando da propositura da execução em que oposta
a presente objeção.

Por sua vez, o recorrente sustenta que o prazo não se interrompeu com a
apresentação do título a protesto, porquanto o protesto em si não se perfectibilizou diante
da concessão de liminar para sustá-lo. Outrossim, assevera que a propositura da
demanda pelo devedor deve ser tida como marco interruptivo do prazo prescricional, de
forma que, somente após a prática do último ato processual, teria voltado a ter curso a
prescrição.

No ponto, com razão o recorrente. A despeito de a retenção do título não ser


suficiente para obstar ao credor o exercício de seu direito fundamental de ação, podendo
mesmo instruir excepcionalmente o procedimento executivo com mera cópia do título, a

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propositura da ação cautelar deve ser considerada, in casu, como o ato interruptivo do
prazo prescricional.

Essa tem sido a interpretação que melhor harmoniza o art. 585, §1º, do CPC
e a teleologia do art. 202 do CC/02.

Com efeito, o instituto da prescrição tem o importantíssimo escopo de


pacificação social, agregando segurança jurídica e previsibilidade diante da inércia da parte
quanto ao exercício de seu direito. Tutela-se, assim, a legítima expectativa gerada na parte
ex adversa diante da inação por lapso temporal considerável e regulamentado legalmente.

Todavia, nas hipóteses em que não há inércia, mas uma conduta igualmente
leal por parte do credor, que aguarda o acertamento judicial acerca de sua posição
credora, a contagem do prazo prescricional vai de encontro ao próprio escopo do instituto
jurídico. Ao assim se entender, ao invés de a prescrição consolidar a pacificação social,
imbui-se no espírito dos jurisdicionados um sentimento de injusta surpresa, oposta àquele
mote de previsibilidade almejado, fazendo do processo quase que uma armadilha para as
partes.

Diante dessas linhas gerais é possível se reconhecer que o art. 202, I, do


CC/02, ao prever a interrupção do prazo prescricional por meio da citação, é aplicável
tanto às hipóteses em que o credor propõe ação objetivando a satisfação de seu direito,
quanto às ações intentadas pelo devedor. Isso porque, ainda que pela via da ação, o
devedor demonstra seu claro intento de obstar o exercício do direito de crédito, ou seja, de
defender-se de atos positivos do credor – mesmo que não judicializados.

Por outra via, é notório que o credor recorrente não se manteve inerte, nem
perdeu seu interesse ao longo do desenrolar das ações propostas pelo devedor, tanto que
se manteve ativo na defesa de seu crédito ao longo do processo, cujo resultado inclusive
lhe foi favorável. E tão logo se concluiu a demanda anulatória, o recorrente deu
prosseguimento ao protesto e à execução judicial dos títulos, conforme reconhecido pela
própria recorrida em sua petição de agravo de instrumento, interposto na origem (e-STJ, fl.
19):

A ação proposta pelo executado contra o agravado, objetivando a


declaração de nulidade dos cheques, cujo feito tramitava perante a 8ª
Vara Cível da Comarca de Campo Grande foi julgada improcedente e,
de pronto, o MM. Juiz titular daquela Vara fez expedir o ofício de f. 94
autorizando o protesto dos cheques, o que se deu em 28.05.08,
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quando a execução se tornara inviável, em decorrência da
prescrição.
Vejamos, através do cronograma abaixo, se realmente os cheques
foram, ou não, alcançados pela prescrição, tornando-se imprestáveis
para alicerçar execução.
- data de apresentação fixada para 05.05.05 (anotações nos
cheques);
- prazo para apresentação – 60 dias, por se tratar de praça
diversa – o que estendeu esse prazo para 05.07.05
- apresentação em cartório no dia 16.05.08 e liminar da sustação
em 19.05.05 (f. 16),
- propositura da execução em 28.05.08 (petição inicial).
[grifos originais]

Assim, tem-se evidente a inexistência de inércia por parte do credor, bem


como o manifesto conhecimento por parte do devedor acerca do interesse do primeiro em
receber aquilo que lhe era devido. Logo, não há qualquer inércia ou desídia do credor que
justifique a extinção de sua pretensão pelo transcurso de prazo prescricional. Ao contrário,
o aguardo de uma decisão definitiva quanto à higidez do crédito demonstra ato de boa-fé e
lealdade processuais.

Esse entendimento, inclusive, já foi albergado por esta Corte Superior,


embora por vezes partindo de fundamentação diversa. Nesse sentido:

RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. CHEQUE.


SUSTAÇÃO DE PROTESTO. AÇÃO DECLARATÓRIA. PRESCRIÇÃO.
INTERRUPÇÃO DO PRAZO. ADMISSIBILIDADE.
1. Inviável o reconhecimento de violação ao art. 535 do CPC quando
não verificada no acórdão recorrido omissão, contradição ou
obscuridade apontadas pela recorrente.
2. A ausência de decisão sobre os dispositivos legais supostamente
violados, não obstante a interposição de embargos de declaração,
impede o conhecimento do recurso especial. Incidência da Súmula
211/STJ.
3. A propositura de demanda judicial pelo devedor, seja anulatória,
seja de sustação de protesto, que importe em impugnação do débito
contratual ou de cártula representativa do direito do credor, é causa
interruptiva da prescrição.
4. A manifestação do credor, de forma defensiva, nas ações
impugnativas promovidas pelo devedor, afasta a sua inércia no
recebimento do crédito, a qual implicaria a prescrição da pretensão
executiva; além de evidenciar que o devedor tinha inequívoca ciência
do interesse do credor em receber aquilo que lhe é devido.
5. O art. 585, §1º, do CPC deve ser interpretado em consonância
com o art. 202, VI, do Código Civil. Logo, se admitida a
interrupção da prescrição, em razão das ações promovidas
pelo devedor, mesmo que se entenda que o credor não estava
impedido de ajuizar a execução do título, ele não precisava
fazê-lo antes do trânsito em julgado dessas ações, quando
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voltaria a correr o prazo prescricional.
6. Negado provimento ao recurso especial.
(REsp n. 1.321.610/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe
27/02/2013)

EMBARGOS À EXECUÇÃO. DUPLICATA SEM ACEITE. PRESCRIÇÃO.


NÃO OCORRÊNCIA. LIMINAR QUE IMPEDIU O PROTESTO DO
TÍTULO. SUSTAÇÃO DE PROTESTO. TÍTULO RETIDO EM JUÍZO.
RECURSO ESPECIAL NÃO CONHECIDO.
1. A duplicata sem aceite só se constitui em título executivo após seu
devido protesto, quando se torna exigível e possibilita ao credor
manejar as ações cambiárias. Assim, antes da formação do título, não
há que se falar em prescrição da pretensão executiva.
2. A sustação de protesto, deferida em medida proposta pelo devedor,
por ocasionar a custódia judicial do título de crédito, impede que o
credor promova a execução da dívida e, por conseguinte, interrompe
a fluência do prazo prescricional.
3. Recurso especial não conhecido.
(REsp n. 257.595/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma,
DJe 30/03/2009)

Civil. Causa. interruptiva de prescrição. Demanda judicial proposta


pelo devedor para discussão do débito e da cártula de crédito.
Reinício da contagem com o trânsito em julgado. Da ação anulatória
de débito ou cautelar de sustação de protesto
- A propositura de demanda judicial pelo devedor, seja
anulatória, seja de sustação de protesto, que importe em
impugnação do débito contratual ou de cártula representativa
do direito do credor, é causa interruptiva da prescrição, nos
termos do art. 172, V do CC.
- Quando a interrupção de prescrição se der em virtude de demanda
judicial, o novo prazo só correrá da data do último ato do processo,
que é aquele pelo qual o processo se finda.
-Recurso especial não conhecido
(REsp n. 216.382/PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJ
13/12/2004, p. 352)

Destarte, diante da ausência de inércia e da judicialização da pretensão ao


exercício do crédito, ainda que sob o enfoque da defesa do devedor, a interrupção da
prescrição se aperfeiçoará nos termos dos arts. 202 do CC e 219 do CPC, com a citação
do réu na demanda. E somente retomará seu curso normal após praticado o último ato
processual.

À vista desses fundamentos, conheço do recurso especial e dou-lhe


provimento para rejeitar a objeção e afastar o reconhecimento da prescrição, devendo a
execução prosseguir seu trâmite regular.

É como voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2014/0248089-8 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.522.093 / MS

Números Origem: 20120078550 201402480898 25436342012812000050 589267 60747920088120002

PAUTA: 17/11/2015 JULGADO: 17/11/2015

Relator
Exmo. Sr. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE

Ministro Impedido
Exmo. Sr. Ministro : RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA

Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. MÁRIO PIMENTEL ALBUQUERQUE
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : KARLOS CESAR FERNANDES
ADVOGADO : ROBERTO SOLIGO E OUTRO(S)
RECORRIDO : DEVANIR ANTONIA CORBANI DOS SANTOS PEREIRA
ADVOGADOS : ANTÔNIO FRANCO DA ROCHA E OUTRO(S)
PAULO AFONSO MAGALHÃES NOLASCO E OUTRO(S)
ANTÔNIO FRANCO DA ROCHA JUNIOR
INTERES. : BANCO DO BRASIL S/A
INTERES. : ALDAIR DOS SANTOS PEREIRA
INTERES. : BANCO BRADESCO S/A
INTERES. : BUNGE ALIMENTOS S/A

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Obrigações - Espécies de Títulos de Crédito - Cheque

SUSTENTAÇÃO ORAL
Dr(a). ROBERTO SOLIGO, pela parte RECORRENTE: KARLOS CESAR FERNANDES

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Terceira Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso especial, nos termos do
voto do Sr. Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Moura Ribeiro, João Otávio de Noronha (Presidente) e Paulo de Tarso
Sanseverino votaram com o Sr. Ministro Relator. Impedido o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas
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Cueva. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro João Otávio de Noronha.

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